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INTRODUÇÃO À BÍBLIA 
[Clique em ÍNDICE] 
 
William Barclay 
 
 
Tradutor e digitador: Carlos Biagini 
 
Título original: 
 
INTRODUCING THE BIBLE 
 
The Bible Reading Fellowship 
 
Edición Conjunta De 
Casa Unida De Publicaciones. 
S. A. Apartado Posta197-Bis 
 
06000 México, D. F. México. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 2 
WILLIAM BARCLAY (1907-1978) obteve o Mestrado em Artes e 
o Doutorado em Divindades na Universidade de Glasgow, Escócia, e na 
Universidade de Marburgo, Alemanha. Por muitos anos foi ministro da 
Trinity Church of Scotland, Igreja Trindade da Escócia. Comunicou as 
cadeiras de Divindades e Crítica Bíblica na Universidade de Glasgow. 
Como expositor da Bíblia alcançou uma grande popularidade na Grã-
Bretanha, por sua inigualável habilidade para combinar a erudição e 
exemplos que têm a virtude de esclarecer incógnitas não resolvidas por 
uma grande maioria de estudiosos. 
 
De William Barclay também apareceram em português: O Novo 
Testamento comentado, Palavras Gregas do Novo Testamento, A Carne 
e o Espírito. 
 
Em Introdução à Bíblia, o Dr. William Barclay propõe ao leitor 
submergir-se nesse mundo maravilhoso de história, literatura e 
sabedoria, que é a Bíblia. A intenção é ajudar o leitor a descobrir as 
riquezas que a Bíblia encerra para sua vida. 
O autor dá testemunho do valor da Bíblia como livro inspirado 
estabelece uma guia confiável para o estudo como os textos bíblicos 
alcançaram a posição de Escritura Sagrada, e explica a importância e a 
situação dos livros Apócrifos. Mas, acima de tudo, o Dr. William 
Barclay apresenta a Bíblia como a palavra de Deus que não perde sua 
vigência com o passar do tempo 
 
Para o Dr. Barclay o estudo bíblico constitui um das provocações 
mas desafiantes em nossos dias Por um lado, o ativismo ocidental arrasa 
com o tempo destinado à meditação, por outro, a Bíblia foi livro de 
cabeceira mas não obsoleto, de estudo sério e constante. Este escrito 
surge em resposta a essa provocação e é desejo do autor aplainar o 
caminho às pessoas que não têm estudos de teologia. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 3 
ÍNDICE 
 
 
APRESENTAÇÃO 
 
ORAÇÕES PARA O ESTUDO BÍBLICO 
 
PREFÁCIO 
 
CAP. I - UM LIVRO ANTIGO 
 
CAP. II - DESENVOLVIMENTO DO ANTIGO TESTAMENTO 
 
CAP. III - DESENVOLVIMENTO DO NOVO TESTAMENTO 
 
CAP. IV - OS APÓCRIFOS 
 
CAP. V - COMO ESTUDAR A BÍBLIA 
 
CAP. VI - O LIVRO INSPIRADO 
 
BIBLIOGRAFÍA 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 4 
APRESENTAÇÃO 
 
A Bíblia, que da Reforma do século XVI deixou de ser o livro de 
uns poucos para converter-se no Livro para todos, é paradoxalmente um 
livro relativamente desconhecido. Embora seja o livro que mais tem sido 
se traduzido e difundido, há aspectos de seu conteúdo e de seu 
transformar histórico que, até agora, foram a província dos especialistas. 
A literatura que em torno da Bíblia se gerou através dos séculos, embora 
vasta e altamente informativa, não esteve ao alcance do leitor médio. Tal 
é o caso, por exemplo, dos estudos que sobre o desenvolvimento 
histórico do texto e cânon da Bíblia existem: não se têm escrito pensando 
no leitor médio da Bíblia, nem buscaram responder às interrogantes que 
esse mesmo leitor médio se expõe como resultado de uma leitura 
cuidadosa da Bíblia. 
Portanto, bem recebido é um livro como Introdução à Bíblia, do Dr. 
William Barclay, que definitivamente deve preencher um notável vazio 
na literatura portuguesa sobre texto e cânon da Bíblia. Em suas páginas, 
o autor conduz o leitor até as mais remotas origens do texto bíblico, e o 
faz com magistral simplicidade pedagógica. Nos seis capítulos que 
integram este livro, o leitor se informa a respeito do desenvolvimento 
histórico do Antigo Testamento, a partir da Reforma do rei Josias (621 
a.C.) e até o Concílio da Jâmnia (90d.C). Igualmente o leitor pode seguir 
o rastro da história do Novo Testamento, dos primeiros escritos do 
apóstolo Paulo (49-62 d.C.) até a Epístola de Atanásio (367 d. C.). 
 
Um tema que tem ocupado os eruditos bíblicos, e preocupado aos 
crentes simples, é o da presença no cânon bíblico dos chamados Livros 
Apócrifos, ou Deuterocanônicos. O autor aborda o tema com singular 
erudição e clareza, sinalizando abertamente os problemas que esta 
questão expõe e manifestando, ao mesmo tempo, seu próprio sentir, que 
é resultado de sua própria reflexão e avaliação destes livros e da 
evidência histórica. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 5 
O Dr. William Barclay é amplamente conhecido na Grã-Bretanha e 
no mundo como expositor da Bíblia, o mesmo que como escritor e 
radiodifusor. Seu evidente interesse pela comunicação o levou a 
combinar a erudição com a simplicidade, de modo que seu estilo é ao 
mesmo tempo informativo e ameno. No presente livro, expressa sua 
convicção de que a Bíblia deve ser não só lida mas também estudada. "A 
Bíblia", diz-nos, "é um livro difícil, porque provém de diferentes 
linguagens e civilizações e aborda os temas mais acidentados... Como 
toda obra suprema, recebemos mais da Bíblia quanto mais esforço 
investimos nela". 
 
A versão em português de Introdução à Bíblia contribui 
grandemente para destacar o claro estilo do original inglês. Esperamos 
que os leitores da Bíblia em nossos países de portuguesa desfrutem 
da leitura deste livro, e que a informação que aqui está recolhida os 
conduza a um maior e mais profundo conhecimento da Bíblia e do 
Senhor da Bíblia. 
 
Tradução e adaptação para a 
 
BIBLIOTECA TEOLÓGICA, vol. 4. 
 
Carlos Biagini 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 6 
ORAÇÕES PARA O ESTUDO BÍBLICO 
 
A oração do salmista era: 
 
“Abre meus olhos, e olharei as maravilhas de sua lei” (Sl. 119:18). 
 
Ó Deus e Pai Nosso: Ao estudar Tua palavra, 
abre nossos olhos e ilumina nosso entendimento. 
Conceda que nossa mente possa conhecer Tua verdade e 
nosso coração possa sentir Teu amor. 
E logo confirma e fortalece nossa vontade para que saiamos 
para viver o que aprendemos, em nome de nosso Senhor 
Jesus Cristo. Amém. 
 
Ó Deus, 
Ajuda-nos a estudar Tua palavra. 
Não só para saber mais de nosso bendito Senhor, mas 
também para conhecê-Lo. 
Não só para aprender a respeito dEle, senão para nos 
encontrarmos com Ele. 
Que não só cresçamos em conhecimento, mas também o 
nosso amor aumente. Que não só O amemos com o coração, 
mas também Lhe obedeçamos com a vida. 
De tal modo que, ao conhecê-Lo, e amá-Lo, e obedecê-Lo, 
possamos também dizer: Para mim o viver é Cristo. Isto o 
pedimos confiados em Teu amor. Amém. 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 7 
PREFÁCIO 
 
Começo agradecendo ao Companheirismo de Leitura Bíblica e à 
Associação Internacional de Leitura Bíblica por me haver outorgado o 
privilégio e a responsabilidade de escrever este livro. Levo treze anos de 
dar classes de Bíblia numa congregação e vinte e cinco na universidade, 
e, por isso, agradeço a oportunidade de pôr por escrito as coisas, como 
creio que são, e de escrever algumas técnicas de estudo bíblico. 
Vivemos numa época particularmente favorável ao estudo bíblico. 
Nunca antes existiram tantos e tão bons materiais auxiliares de estudo. 
Durante muito tempo se escarneceu dos teólogos por causa da nebulosa 
linguagem que os caracterizava. É um fato que muitos deles escreviam 
só para impressionar seus colegas. Mas existe hoje o desejo fresco de 
comunicar a teologia ao leigo, mais que ao erudito na matéria. Existe um 
maior desejo de comunicar-se, como há tempo não o houve. 
Além disso, existe hoje, e isto é mais importante, a disposição de 
sentar-se para estudar juntos, o que é algo inusitado. 
 
Hoje vemos a católicos e protestantes estudar juntos a Bíblia. Há 
nova simpatia entre conservadores e liberais, entre fundamentalistas e 
radicais. Ninguém abandona sua posição ou convicção, mas todos estão 
dispostos a juntar-se para conversar, mesmo quando não estejam de 
acordo. E não faltaram ocasiões emque o diálogo lhes permitiu 
descobrir que não estão tão distanciados como criam estar. Eis aqui uma 
nova situação que oferece um grande potencial. 
Agostinho Birrel costumava dizer que cada estudante deveria ler 
obrigatoriamente obras com as quais estivesse em total desacordo 
Igualmente, o estudo bíblico é mais proveitoso num grupo misto, 
onde há grande variedade de pontos de vista, que numa piedosa reunião 
de mentes afins. Os desacordos podem ser o melhor estímulo para o 
pensamento e a motivação para novas descobertas, visto que mal 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 8 
poderemos estar seguros numa posição que ainda não tivemos que 
defender. 
 
Outra nova atitude no público consiste em ver a Bíblia como livro 
de estudo e não de simples leitura. Nosso venerável sistema de ler um 
capítulo diário, e só lê-lo, tem caído em desuso. E nosso clássico grito de 
guerra, de que o melhor intérprete da Bíblia é a própria Bíblia, não pode 
mais ser aceito. A Bíblia é um livro difícil, porque provém de diferentes 
linguagens e civilizações e aborda os temas mais acidentados. Por isso, 
deve aproveitar-se toda ajuda que facilite seu estudo. Como toda obra 
suprema, recebemos mais da Bíblia quanto mais esforço investimos nela. 
 
Este livro não tem o propósito de ganhar adeptos à minha maneira 
de pensar, mas sim de ajudá-los a pensar. É meu desejo e oração que 
estas páginas capacitem o povo a entender melhor a Bíblia, a amá-la 
mais, e a que por meio dela possa encontrar-se mais claramente a Jesus 
Cristo. 
 
 
William Barclay 
Universidade do Glasgow, Escócia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 9 
CAPÍTULO I 
UM LIVRO ANTIGO 
 
O título do primeiro capítulo da Confissão de Fé de Westminster é 
"Das Sagradas Escrituras". No próprio princípio deste documento básico 
para a Igreja da Escócia estabelece-se que os livros da Bíblia "foram 
dados por inspiração de Deus como nossa regra de fé e prática". Segue 
explicando a confissão que a autoridade das Escrituras "depende 
totalmente de Deus" e são, portanto, "a palavra de Deus". Acrescenta 
mais adiante que "nas Escrituras se expressa todo o conselho de Deus 
sobre tudo o que é necessário para sua própria gloria, a salvação do 
homem, a fé e sua prática, ou, pode deduzir-se delas por boa e necessária 
consequência, e às quais nada se deve acrescentar em nenhum tempo 
embora sejam novas revelações do Espírito ou simples tradições 
humanas", e que as Escrituras constituem a última corte de apelações 
em toda controvérsia religiosa. 
 
Tal é a posição que se dá à Bíblia. Desde o primeiro momento esta 
se destaca por uma posição extraordinária. A Bíblia começou a ser 
escrita faz uns três mil anos e sua parte mais recente foi escrita faz uns 
mil e oitocentos anos, não obstante isso, a Igreja a reconhece como sua 
autoridade definitiva e inapelável. 
 
Em certo sentido, tal posição da Bíblia é única. É verdade que 
existem ainda livros muito antigos, mas nenhum deles é visto como 
autoridade definitiva e inapelável. Nossos médicos já não nos aplicam 
tratamentos segundo Galeno ou Hipócrates; os arquitetos deixaram que 
lado as diretrizes do Vitrúvio; os agricultores esqueceram os ditames de 
Varrão; e os astrônomos já não se guiam pelos estudos de Ptolomeu. 
Estas obras continuam ainda sendo lidas, mas como etapas, não como a 
meta do caminho; são interessantes, e são lidas como curiosidades, mas 
não como autoridades. Entretanto, embora a Bíblia tem livros mais 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 10 
antigos que qualquer de tais obras, para o cristão continua sendo a regra 
suprema de fé e prática. 
 
Em outro sentido, existem certos paralelos. Enquanto houver quem 
leia poesia, haverá quem lê Homero; enquanto houver quem estuda 
filosofia, haverá quem estuda Platão e Aristóteles; enquanto houver 
quem se interessa na ética da "boa vida", haverá aqueles que buscam a 
Epicteto e a Marco Aurélio; enquanto houver quem ama a beleza, haverá 
quem esquadrinha os estatutos de Praxiteles. As coisas não se descartam 
simplesmente por serem antigas. Muitos produtos da antiguidade 
encontram-se entre as mais valiosas posses da humanidade. Não 
obstante, não há livro que pretenda ter a autoridade absoluta que a Bíblia 
reclama para si; nenhum outro livro declara, como a Bíblia, que não há 
nada mais que lhe acrescentar, como o afirma a Confissão de Fé de 
Westminster. O que, pois, de especial tem este livro? 
 
1. A Bíblia possui tal beleza intrínseca que, à margem de outras 
coisas, tão somente isso a transforma numa obra imortal da literatura. 
Com apenas repassar umas breves linhas a pessoa sente encolher-lhe o 
coração perante o encanto de suas palavras: 
As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo; 
ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de 
todo desprezado (Ct. 8:7). 
 
Saul e Jônatas, queridos e amáveis, tanto na vida como na morte não 
se separaram! Eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que 
os leões (2Sm 1:23). 
 
Então, o rei, profundamente comovido, subiu à sala que estava por 
cima da porta e chorou; e, andando, dizia: Meu filho Absalão, meu 
filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, 
Absalão, meu filho, meu filho! (2Sm. 18:33). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 11 
Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de 
Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua 
iniquidade está perdoada (Is. 40:1-2). 
 
Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, 
nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os 
apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes 
enxugará dos olhos toda lágrima (Ap. 7:16-17). 
 
Seria fácil encher a metade deste livro com passagens semelhantes. 
 
Cada um de nós tem suas próprias passagens e versículos com sua 
inescapável beleza, estampados indelevelmente na memória. 
 
Se fosse apenas questão de beleza, a Bíblia teria já direitos 
indisputáveis à grandeza. Coleridge opinava que o estudo constante da 
Bíblia livraria a todos de cair na vulgaridade de estilo. Não importa qual 
seja a fé que se professe ou não professe, ninguém pode pretender ter 
adquirido uma sólida educação até ter lido este monumento literário. 
 
Longino, retórico grego, escreveu uma das obras cimos de crítica 
literária, intitulada Do Sublime. Para o Longino, a suprema qualidade do 
escritor era a sublimidade. Uma moeda que cai ao solo costuma deixar 
escapar um tinido, que denuncia a qualidade de sua liga metálica; 
Longino expressou de maneira inimitável que o sublime é o retintim da 
alma. Ainda o mundo não encontrou outro livro que possua a sublime 
qualidade da Bíblia. 
 
Certamente a Bíblia é credora à grandeza por sua beleza 
indiscutível. Mas, em certo sentido ao menos, isto catalogaria a Bíblia 
como um luxo e não como uma das necessidades essenciais da vida. 
Assim que para nos explicar a singularidade que a Bíblia reclama que 
temos que ir para além da beleza. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 12 
II. A Bíblia é indispensável como texto de história. Seu fundo são 
os movimentos históricos dos grandes impérios do Oriente Médio: Egito, 
Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. Sem a Bíblia a história do 
Oriente Médio careceria de importantes dados. 
 
Certo, a história para os judeus não corresponde ao conceito que 
dela tem o historiador profissional. Na história bíblica se mede a estatura 
dos personagens pela obediência ou desobediência a Deus. Por exemplo, 
do rei Asa diz-se que aos olhos de Jeová "fez o que era reto" (1Rs 
15:11), e do rei Jeorão que "fez o que era mau" (2Rs 3:2). A Onri de 
Samaria são dedicadas apenas umas quantas linhas, para dizer que fez o 
que era mau aos olhos do Senhor (1Rs 16:25-28); entretanto, a história 
secular vê a Onri como um dos reis mais destacados, politicamente 
falando. O historiador bíblico dedica mais tempoem nos falar de Elias e 
Eliseu que ao fundo dos acontecimentos de impacto mundial. Às 
manobras do rei Acabe para apoderar-se da vinha de Nabote é dedicado 
todo um capítulo (1Rs 21). Tudo isto é certo, mas sem os historiadores e 
profetas do Antigo Testamento nosso conhecimento histórico do Oriente 
Médio ficaria incompleto. Como texto da história a Bíblia ocupa um 
lugar proeminente 
 
Mas é preciso repetir que isto não basta. A Bíblia não se ocupa só 
do tempo, mas também da eternidade. Assim que devemos ir para além a 
fim de ver no que reside sua singularidade. 
 
III. Do ponto de vista linguístico, a Bíblia tem primordial 
importância. Constitui o monumento supremo do hebraico clássico; 
ali se encontra toda sua primitiva literatura nacional, e toda a literatura 
hebraica. Ainda mais importante do ponto de vista linguístico, é que 
o Novo Testamento vem a ser o único exemplar escrito no grego popular 
que se falou durante o primeiro século. Abordaremos o tema mais 
adiante, mas brevemente adiantaremos alguns detalhes. Quando 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 13 
Alexandre Magno conquistou o mundo antigo, levou consigo a língua 
grega que, obviamente, não podia ser o grego clássico da Idade de Ouro. 
Tratava-se de um dialeto simplificado chamado Koiné, ou seja o grego 
comum, que normalmente não teria espaço na literatura helênica. O 
único caso existente do Koiné escrito é o Novo Testamento. Os 
linguistas gregos chegaram a afirmar que, se o Novo Testamento 
chegasse, por alguma razão, a perder seu valor religioso, seguiria não 
obstante sendo uma das obras mais importantes da linguística universal. 
Isto, novamente, é insuficiente. Embora haja um livro que seja o 
paraíso dos linguistas, isso não garante que sirva de entrada a um paraíso 
superior. 
 
IV. A Bíblia é indispensável como tesouro de sabedoria ética. 
A antiguidade contava com um gênero literário denominado Literatura 
Sapiencial. Tratava-se de sabedoria prática, capaz de ensinar ao homem 
a triunfar na vida honestamente. O livro de Provérbios é o exemplo 
perfeito: onde quer que a seja lido, encontra orientação prática para a 
vida, escrita em estilo vivaz e inesquecível. 
 
Filho meu, não rejeites a disciplina do SENHOR, nem te enfades da 
sua repreensão. Porque o SENHOR repreende a quem ama, assim 
como o pai, ao filho a quem quer bem. Feliz o homem que acha 
sabedoria, e o homem que adquire conhecimento; porque melhor é o 
lucro que ela dá do que o da prata, e melhor a sua renda do que o 
ouro mais fino. Mais preciosa é do que pérolas, e tudo o que podes 
desejar não é comparável a ela. O alongar-se da vida está na sua mão 
direita, na sua esquerda, riquezas e honra. Os seus caminhos são 
caminhos deliciosos, e todas as suas veredas, paz (Pv. 3:11-17). 
 
Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê 
sábio. Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, no estio, 
prepara o seu pão, na sega, ajunta o seu mantimento. Ó preguiçoso, até 
quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono? Um pouco 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 14 
para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os 
braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a 
tua necessidade, como um homem armado (Pv . 6:6-11). 
 
Dificilmente errará o caminho quem oriente sua vida com os 
provérbios. 
 
Quanto ao Novo Testamento, Paulo sempre termina suas cartas 
oferecendo conselhos extremamente práticos, e até os não cristãos 
costumam dizer que, se aceitássemos e praticássemos os ensinos do 
Sermão da montanha, teríamos o céu na terra. 
 
Não há dúvida de que a Bíblia constitui uma guia incomparável a 
uma vida melhor, e uma mina inesgotável de bons conselhos. 
Infelizmente, a vida nos ensina que os bons conselhos por si mesmos 
não melhoram ninguém. Se assim fosse, faz muito que seríamos 
perfeitos. Se quisermos descobrir o caráter único da Bíblia, não devemos 
nos conformar com a afirmação de que a Bíblia é uma fonte 
incomparável para nos ensinar a viver bem. 
 
V. Aproximamos-nos mais à questão medular quando afirmamos 
que a Bíblia é um livro excepcionalmente eficaz. A. M. Chirgwin incluiu 
em seu livro The Bible in Modern Evangelism (A Bíblia na 
evangelização atual), um capítulo ao que intitulou "Lucros", do qual 
extraímos os seguintes casos 
 
No Brasil vivia um senhor Antônio de Minas, a quem seu amigo 
vinha importunando para que comprasse uma Bíblia. Por fim a comprou, 
mas ali mesmo jurou que a queimaria tão logo chegasse a sua casa. Na 
casa o fogo estava apagado; mas em seu afã de queimar a Bíblia tornou a 
acendê-lo. Antes de lançar a Bíblia ao fogo, abriu-a para facilitar a 
combustão. Por um momento ficou aberta no Sermão da montanha. Seu 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 15 
olhar deteve-se ali. As palavras tinham algo magnético. Perdeu a noção 
do tempo, e leu e leu durante toda a noite. Amanhecia quando, posto em 
pé, declarou: "Creio". 
 
Um nova-iorquino de uma gang acabava de sair do cárcere e se 
encaminhava para reunir-se com sua antiga turma para planejar um 
ataque. Ao chegar à Quinta Avenida aproveitou a oportunidade para 
"surrupiar" um transeunte. Escapuliu-se até o Parque Central para 
examinar o despojo e, para seu desencanto, encontrou-se sendo um 
flamejante possuidor de um Novo Testamento. Como sobrava tempo 
livre, começou a lê-lo despreocupadamente: mas logo a leitura o 
absorveu. Horas depois compareceu perante seus comparsas, cantou-lhes 
o que acabava de ler, e ali mesmo rompeu com eles e com seu passado 
criminal. 
 
Um colportor atravessava à meia-noite um bosque siciliano quando 
foi assaltado por um facínora com arma na mão. O assaltante lhe 
ordenou acender uma fogueira e queimar os livros que levava. O 
vendedor de Bíblias pediu permissão para ler em alta voz fragmentos dos 
livros antes de queimá-los. Começou com o Salmo 23, seguiu com a 
história do Bom Samaritano, e logo com o Sermão da montanha. De 
outra Bíblia leu o hino do amor. Em cada caso o bandoleiro comentava: 
"Este é um bom livro: não o queimaremos. Dá-me aqui". Finalmente, 
não foi queimado um único livro, embora o salteador os levou todos. 
Anos depois, ambos voltaram a encontrar-se. O ex-salteador de 
caminhos era agora um ministro de Jesus Cristo. "Graças aos seus 
livros", ele disse ao colportor. 
Esta é uma amostra mínima do que a Bíblia pode fazer. Aqui temos 
um livro poderoso, operante, eficaz e dinâmico. Este dado nos aproxima 
mais ao seu segredo. Se um livro operar mudanças assim, então pode ser 
qualificado com toda justiça como único. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 16 
VI. Aqui chegamos ao miolo da questão; ao porquê de este livro 
antigo continuar sendo sempre pertinente e poderoso. A Bíblia é quase a 
única coisa imutável. As leis e os costumes mudam, e em certa medida 
muda também a moral. Por exemplo, nas primeiras páginas do Antigo 
Testamento não aparece objeção alguma à poligamia patriarcal. Em parte 
a religião mesma muda também. Por exemplo, a religião judia se 
baseava-nos sacrifícios sangrentos, mas isso já não faz parte de nossa 
religião. A única coisa invariável são as relações pessoais. Enquanto a 
gente siga sendo gente, as relações pessoais seguirão sendo as mesmas. 
O amor e o ódio, a lealdade e a traição, a amizade e a inimizade 
permanecem sempre. 
Sobre isto é o que trata a Bíblia: das relações entre homem e 
homem, entre homem e mulher, mas sobretudo, entre o homem e Deus, e 
entre Deus e o homem. Por isso a Bíblia é antiga e moderna ao mesmo 
tempo. Vejamos um exemplo, simples e encantador: Jacó teve que servir 
sete anos para que Labão lhe permitisse casar-se com sua filha. " Assim, 
por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como 
poucos dias, pelo muito que a amava" (Gn. 29:20). Histórias e situações 
como estas jamais passarão na moda, enquanto houver homens e 
mulheres. 
A Bíblia permanece sempre nova porque não se enfoca apenasem 
leis, regras e regulamentos, mas principalmente em homens e mulheres, 
e em suas relações mútuas e em suas relações com Deus. A Bíblia é o 
livro do amor dos uns pelos outros. e do amor por Deus o qual é eterno. 
 
VII. Isto nos leva a última e suprema razão que faz da Bíblia um 
livro único e sempre indispensável. A esta razão teremos oportunidade 
de voltar repetidamente. Só na Bíblia podemos encontrar a Jesus Cristo. 
Virtualmente, não existe outra fonte de informação sobre a vida, palavras 
e ensinos de Jesus. Sem a Bíblia só contaríamos com recursos vagos e 
opiniões abstratas, o que está intimamente relacionado com nosso ponto 
anterior. Só em Cristo e através de Cristo, as relações com nossos 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 17 
semelhantes são relacionamentos de amor. Só nEle e por meio dEle 
podemos ter relacionamento com Deus. 
Sendo tão antiga, a Bíblia é sempre aplicável porque trata das 
imutáveis relações pessoais entre os homens, entre o homem e a mulher, 
e entre os homens e Deus. É sempre indispensável porque nela 
encontramos o retrato da única pessoa no céu e na terra em quem tais 
relações alcançam sua perfeição. 
 
VIII. Concluiremos com algo expresso pela Confissão de Fé de 
Westminster, com a qual começamos. Depois que a confissão deixou 
estabelecido que a Bíblia contém tudo o que é necessário para nossa 
salvação, acrescenta: "Entretanto nossa persuasão e completa convicção 
de que sua verdade é infalível e sua autoridade divina, provêm da obra 
interior do Espírito Santo, quem dá testemunho ao nosso coração com a 
palavra divina e por meio dela". E acrescenta: "reconhecemos que é 
necessária a iluminação interna do Espírito de Deus para a compreensão 
salvífica de tudo o que se revela em Sua palavra" 
A doutrina dos judeus sobre o Espírito era muito singela mas 
abrangia tudo. Para eles o Espírito tinha duas funções: revelar a verdade 
de Deus aos seres humanos e capacitá-los a reconhecer essa verdade. 
Assim que, para entender e apropriar-se totalmente do significado da 
palavra de Dias, os homens necessitam que o Espírito habite em seu 
coração. Isto significa simplesmente que a leitura bíblica deve ir sempre 
unida à oração. Bem faremos em nos aproximar à Bíblia com a oração 
do George Adam Smith nos lábios: 
Deus todo-poderoso e misericordioso, que deste a Bíblia como 
revelação de Teu grande amor aos homens, e de Teu grande poder e 
vontade de nos salvar. Concede-nos que seu estudo não seja em vão por 
causa da dureza e despreocupação de nosso coração, mas sim por meio 
dela sejamos confirmados no arrependimento, animados na esperança, 
fortalecidos para o serviço, e saturados com o verdadeiro conhecimento 
de Teu filho Jesus Cristo. Isto o pedimos confiados em Teu amor. Amém. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 18 
CAPÍTULO II 
DESENVOLVIMENTO DO ANTIGO TESTAMENTO 
 
Começaremos a estudar o processo de integração até o ponto em 
que a Bíblia ficou completa. Dito tecnicamente, estudaremos a formação 
do cânon das Escrituras. O cânon das Escrituras é a lista de livros aceitos 
pela Igreja Cristã como sua regra escrita de fé: é a lista dos livros 
"oficiais" da Igreja, e que a Igreja considera como autoridade definitiva 
para a relação de sua própria história e para a formação de sua vida e 
doutrina. 
 
A palavra cânon em si é muito interessante. Provém da voz semítica 
kaneh, cano. Um cano reto pode servir de regra para traçar linhas retas. 
Por isso cânon veio para significar regra, embora não para traçar linhas 
retas, senão para levar uma vida reta. O cânon vem a ser a regra que 
serve para determinar o que é o correto em qualquer circunstância. 
 
A regra tem também tem marcas para medir as linhas que traça, o 
que confere outro significado à palavra cânon. Tais marcas ou gradações 
se convertem numa lista Por exemplo, o cânon da missa é a lista 
daqueles a quem se lembra na missa. 
 
O cânon das Escrituras é, pois, a lista dos livros que a Igreja 
reconhece como sua autoridade Mas uma lista, neste sentido e uso, 
contém livros aos quais algo lhes foi feito: foram incluídos na lista, mas 
estes mesmos livros afetam a tudo o mais: tornam-se a regra para julgar 
todas as coisas. 
 
De modo que, a Igreja foi a que definiu o cânon ou livros da Bíblia. 
A Igreja existiu muito antes de que existisse a Bíblia; em tal sentido, 
pode afirmar-se que não foi a Bíblia a que fez a Igreja, mas foi a Igreja 
que fez as Escrituras. A Igreja primitiva carecia de Novo Testamento, 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 19 
pois estava ocupadíssima em escrevê-lo. Por outro lado, os livros 
bíblicos não são volumes comuns que sofrem passivamente o que lhes 
possa suceder. São obras ativas, com poder para guiar e dirigir a vida e a 
obra da Igreja. 
 
Estudemos como se integrou a lista de livros que a Igreja reconhece 
como autoridade, e que logo se tornaram os documentos fundamentais da 
fé cristã. 
 
Se na atualidade pedirmos uma Bíblia numa livraria receberemos 
um só volume: um livro. Mas ao abri-lo encontraremos várias listas de 
livros do Antigo e do Novo Testamento. Normalmente se adjudicam 39 
livros ao Antigo Testamento e 27 ao Novo, para um total de 661ibros. 
Isso quer dizer que, ao comprar um exemplar da Bíblia, estamos na 
realidade adquirindo toda uma biblioteca dentro de duas capas. E se 
investigarmos com algum detalhe esta biblioteca portátil, acharemos que 
para escrevê-la foram requeridos, pelo menos, mil anos e que seus livros 
foram sendo redigidos nos dias do mundo antigo, da remota Babilônia 
até a Roma dos Césares. 
 
Se tivéssemos vivido então, jamais teríamos cometido o erro de ver 
a Bíblia como um só livro, pela simples razão de que o próprio livro, tal 
como hoje o conhecemos, ainda não existia. Na antiguidade, as obras 
literárias se escreviam em rolos. Nosso livro atual, primeiro chamado 
codex ou códice, veio aparecendo para o segundo século de nossa era. Os 
livros do Antigo Testamento foram escritos em couros; os do Novo 
Testamento começaram a ser escritos em papiros manufaturados com 
cana do rio Nilo. Este cana é uma variedade de junco que chega a crescer 
em maior altura que um homem e é mais grosso que um punho humano. 
A polpa do junco se cortava em lâminas que se acomodavam cruzadas ao 
longo sobre outras colocadas em longitude, eram umedecidas, calcadas, 
e logo se poliam com pedra pedra-pomes, até que ficava uma substância 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 20 
de cor café parecida com o papel. A palavra Bíblia procede do vocábulo 
grego biblos. No princípio chamava-se biblos ao junco para papiro. Logo 
o próprio papiro foi chamado biblos. Depois biblos chegou a significar o 
rolo de papiro já escrito, até que se fixou o nome de biblos para designar 
o livro. O papiro pode durar indefinidamente se for conservado seco, 
embora vá ficando cada vez mais quebradiço. 
 
O papiro não era barato. Cortava-se em folhas de 25 x 20 cms. As 
folhas mais comuns custariam o equivalente a US$ 0.03 dólares e as 
mais finas a US$ 0.15 dólares cada uma. Os preços poderiam parecer 
baixos, mas é preciso considerar que o salário do trabalhador equivalia a 
uns US$ 0.06 dólares diários. As folhas de papiro se uniam até formar 
uma banda longa à qual se aderia um rolo de madeira em cada extremo. 
Ao ir lendo, a tira se desenrolava com uma mão e se enrolava 
simultaneamente com a outra As colunas de escritura tinham de 6.2 a 7.5 
centímetros de largura. 
 
Durante o período intermediário que vai desde o desaparecimento 
do rolo à aparição do livro ou códice, os livros eram imprimidos em 
papiro. Mas o comum era escrever em pele de bezerro, também 
conhecida como virtulina charta. O pergaminho tinha tomado seu nome 
de Pérgamo, seu principal centro manufatureiro, e por isso também era 
chamado pergaméné carta. 
 
O papiro e o pergaminho têm a vantagem de ser muito duráveis, 
mas em conjunto representavam uma dupla desvantagem para os antigos: 
 
I. O rolo não podia ser usado sem ser desenrolado.Portanto, o rolo 
não podia ter mais de 9 metros de comprimento, onde quase não caberia, 
digamos, o evangelho de Lucas, ou o de Mateus, ou Atos dos Apóstolos. 
Por isso era impossível para os antigos conceber a qualquer dos dois 
testamentos bíblicos como um só livro. O Antigo ou o Novo Testamento 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 21 
teriam representado toda uma coleção muito custoso de rolos escritos. 
Ainda na primeira etapa do códice teriam sido necessários três ou quatro 
volumes para conter o Novo Testamento devido ao tipo de encadernação 
Para os antigos, a Bíblia era toda uma biblioteca, e eles estavam 
conscientes disso. 
 
II. A segunda desvantagem eram os altos custos do papiro e do 
copiado. A unidade de medida para o trabalho copiado era o stichos 
(stichoi no plural). Se o stichos teria sido contado como uma linha, não 
seria possível pagar, pois ficaria ao arbítrio do copista a quantidade de 
palavras que copiaria numa linha. O stichos tinha como base o 
hexâmetro típico de Homero, que constava de 16 sílabas. Portanto, o 
pagamento ao copista se calculava em stichoi. Há um manuscrito do 
Novo Testamento que data do século VI, chamado o Códice 
Claramontano, que anota o número de stichoi de cada livro. Por 
exemplo, Mateus tem 2.600, Lucas 2.900, Atos 2,600, Romanos 1.040, 
Colossenses 251, 2 João 20, e Apocalipse 1.200. O imperador 
Diocleciano fixou a tarifa por decreto. Segundo isto, copiar 100 stichoi 
custava entre 20 e 25 denários, aproximadamente uns US$ 0.06 dólares, 
ou seja US$ 1.65 dólares por cada cem linhas copiadas. Copiar um 
exemplar de São Mateus, por exemplo, custaria US$ 40.00 dólares mais 
o custo de papiro. Estes custos tão elevados se mantiveram assim até a 
aparição da imprensa. Só até então apareceu a Bíblia num só volume. O 
qual significou que antes disso só contadas pessoas podiam possuir a 
Bíblia completa. 
 
Vejamos agora como se formou a biblioteca divina do Antigo 
Testamento até tomar sua forma atual. 
Os judeus dividiam seus textos sagrados em três seções: a Lei, os 
Profetas e os Escritos. Tal classificação se remonta ao ano 180 a.C. 
Jesus Ben Siraque escreveu originalmente no hebraico um livro 
sapiencial que hoje conhecemos como Eclesiástico. Quarenta e oito anos 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 22 
depois seu neto, então vivia no Egito, traduziu-o ao grego considerando 
que era obra valiosa e digna de ampla difusão. No Prólogo que lhe 
escreveu faz referência aos ensinos da Lei, os Profetas e sucessores. 
Repete a referência à Lei e aos Profetas e "aos outros livros de nossos 
pais". 
 
A Lei é constituída pelos cinco primeiros livros do Antigo 
Testamento: Gênesis, Êxodo. Levítico, Números e Deuteronômio, 
conhecidos também como o Pentateuco, que em grego significa cinco 
rolos. 
 
Os Profetas são divididos em duas seções. Primeiro, os Profetas 
Anteriores, que abrangem os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis. 
contavam-se como quatro livros, pois 1 e 2 de Samuel e 1 e 2 de Reis 
consideravam-se um livro cada um. Nós vemos estes livros como 
históricos, mas para os judeus eram proféticos, devido em parte porque 
tratam a respeito de grandes profetas como Elias e Eliseu e, em parte, 
porque para os judeus Deus se revela na história tanto ou mais que nas 
palavras humanas. 
 
Em seguida colocava-se a seção de Profetas Posteriores: Isaías, 
Jeremias, Ezequiel e os doze chamados profetas menores: Oseias, Joel, 
Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, 
Zacarias, e Malaquias. O nome de menores não se deve a que sejam 
considerados inferiores ou menos profetas, mas ao fato de que suas 
profecias são menos extensas que as dos três primeiros. E visto que os 
doze menores sejam classificados como um só livro, os Profetas 
Posteriores eram contados também como quatro. 
Os Escritos são na realidade uma coleção miscelânea que se 
classificava de diversas maneiras. Uma delas incluía, primeiro, três 
livros poéticos: Salmos, Provérbios e Jó; segundo, os cinco megilloth 
(rolos), cada qual relacionado com um dos grandes festivais judeus, 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 23 
como segue: o Cantar dos Cantares, alegorizado até relacioná-lo com a 
libertação do Egito, associava-se com a Páscoa e era lido no oitavo dia 
da festa. Rute se relacionava com o Pentecostes (ou seja a celebração da 
colheita de frutos), por tratar-se de um idílio durante a temporada de 
colheitas; lia-se no segundo dia do Pentecostes. Lamentações era lido em 
9 de Abe, aniversário da destruição do templo de Salomão. Eclesiastes 
era lido no terceiro dia da Festa dos Tabernáculos, quando se 
comemorava a peregrinação pelo deserto: Durante esta celebração o 
povo abandonava seus lares e viviam ao ar livre, em choças de 
ramagens. A leitura do Eclesiastes tinha como objetivo enfatizar que se 
devia lembrar a Deus no meio da prosperidade material. O livro de Ester 
era lido na Festa de Purim, a que servia de razão e justificação. 
 
Estes cinco megilloth eram os únicos Escritos que se liam na 
sinagoga, e só nas celebrações mencionadas. 
 
Terceiro, havia um livro profético, o de Daniel. Finalmente vinham 
dois livros históricos, Esdras-Neemias considerados um só e Crônicas. 
 
Todos estes livros contavam como 24 para os judeus, cifra a que 
chegavam porque os classificavam assim: 
cinco livros da Lei; 
quatro livros dos Profetas Anteriores (1, 2 Samuel e 1, 2 Reis 
contavam como dois livros); 
quatro livros dos Profetas Posteriores (considerando os 12 
como um); 
onze livros dos Escritos (Esdras-Neemias e os dois de 
Crônicas vistos como um só livro) . 
 
Agora detalharemos como foi que adquiriram caráter de Escritura 
cada uma destas três seções do Antigo Testamento. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 24 
A Lei, para o judeu, era e continua sendo o mais importante do 
mundo; é o eixo do culto na sinagoga e a essência de toda verdadeira 
religião. A palavra lei não é a mais adequada em nosso idioma, porque 
tem uma conotação extremamente legalista. Mas a Lei judaica vai muito 
além das regras, regulamentações, proibições e mandamentos. Torah é 
como se chama no hebraico, e significa instrução mais que lei. A Torah 
vem sendo essa instrução que Deus comunica aos homens e que, ao 
obedecê-la estes, permite-lhes encontrar vida neste mundo e no 
vindouro. Sustentavam os judeus, que a Lei tinha sido criada antes do 
próprio mundo, e que Deus tinha consultado a Lei antes de criar o 
mundo. Afirmavam que com o advento pleno do reino de Deus os 
Profetas e os Escritos feneceriam, mas a Lei permaneceria para sempre. 
 
Sustentavam, além disso, que Deus tinha entregue literalmente e de 
própria mão toda a Lei a Moisés, e que ao principiar cada dia Deus 
apartava um tempo para estudar a Lei. Tinham o propósito de que a 
infância judaica "gravasse em sua alma" a Lei. Desde a infância eram 
instruídos nela, e foram muitos os judeus que preferiram morrer antes 
que perjurar dela, pois a consideravam nada menos que a própria palavra 
de Deus. A Lei, pois, era o centro de tudo; e embora o resto das 
Escrituras ocupava um lugar proeminente, contudo as tinham como um 
simples comentário da Lei. Esta er lida versículo por versículo, primeiro 
no hebraico, e logo era traduzido ao idioma da congregação. Como 
chegou a ocupar a Lei uma posição tão elevada? A seguir trataremos de 
reconstruir este processo. E embora seja uma reconstrução mais que 
fatos comprovados, ajusta-se aos fatos e é aceita pela maioria dos 
eruditos veterotestamentários. 
 
Existe um ponto de partida com relação à Lei, e bem dramático por 
certo. A religião judaica encontrava-se em condição bastante lastimosa. 
Depois que morreu o bom rei Ezequias, sucederam-no Manassés e 
Amom, os quais eram pouco menos que pagãos (1Rs 21) E cujos 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 25 
reinados combinados se prolongaram durante mais de meio século, 
deixando ao judaísmo em seu mais sob nível. Então, no ano 621 a.C.; 
subiu ao trono ojovem Josias e fez o reto aos olhos de Jeová". 
 
Entre outras coisas, Josias iniciou a reparação e reconstrução 
do abandonado Templo, e foi então quando o sacerdote Hilquias 
encontrou o livro da Lei na Casa do Senhor. Quando o rei e o povo 
leram a Lei, foram movidos ao arrependimento e à reforma, e foi assim 
como este livro veio a ser para eles a palavra mesma de Deus (1Rs 22-
23). Indiscutivelmente tratava-se do livro do Deuteronômio escrito por 
um profeta e sacerdote nos lôbregos dias de Emanasse e Amom, quando 
não havia liberdade de expressão, e o escondeu no Templo para que a 
seu tempo fora encontrado. 
 
Aqui se inicia o movimento inteiro. Por assim dizer, é a primeira 
vez que se canoniza um livro e se transforma em palavra de Deus para o 
povo de Deus. Além disso, foram recuperados outros fragmentos da Lei 
que se acrescentaram à coleção e foram tidos em alta estima. Entre eles 
estava a mais antiga exposição da Lei, também conhecida como o 
livrinho da Aliança, em Êxodo 34. Recuperaram, além disso, o próprio 
livro da Aliança, quer dizer, as condições que o povo havia aceito 
quando Deus o tomou como Seu povo e lhes prometeu que Ele seria o 
seu Deus. Isto se encontra em Êxodo 20:22-23:33, e em sua forma atual 
se remonta por ano de 900 a.C. 
 
Posteriormente, em meados do século VI a.C. foi acrescentada outra 
grande seção. A própria essência do judaísmo se acha na expressão; 
"Santos sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo" (Lv. 19:2). 
Assim surgiu o chamado Código de Santidade. A expressão "santo". 
neste sentido significa "diferente". Deus é o ser excelsamente diferente, o 
absolutamente diferente, como também tem sido chamado. O povo de 
Deus, do mesmo modo, deve ser diferente: não viverá como o resto das 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 26 
nações, e aceitará o fato de que é um povo destinado a ser diferente. E o 
sumário da vida diferente que deve levar, encontra-se no Código de 
Santidade em Levítico 17-26. 
 
Aqui temos, pois, as grandes seções da Lei; a voz de Deus que 
agora chega de maneira mais completa e direta ao Seu povo. Trata-se do 
antigo livrinho da Aliança. e1libro da Aliança mesmo (Deuteronômio) e 
o Código de Santidade. 
 
Gradualmente vai-se integrando a Lei. Aqui é onde convém 
destacar algo que já vai emergindo, e é que não houve ninguém que se 
assentou a escrever intencionalmente um livro das Escrituras. Os livros 
que logo se formaram nas Escrituras, durante anos e séculos tinham 
vindo fortalecendo e ajudando o povo. Através das centúrias tinham 
demonstrado ser, nem mais nem menos, a palavra de Deus; por seus 
próprios méritos tinham estabelecido seu próprio direito a ser 
reconhecidos como a palavra de Deus à humanidade. O que depois 
constituiu as Escrituras não era nada novo para então, mas sim o tempo 
lhes tinha dado sua identidade como tais. 
 
Mas no Pentateuco temos algo mais que leis e instrução. Todo o 
material da Lei contido no Pentateuco está localizado dentro do contexto 
de uma narração que parte da criação do mundo até a entrada à terra 
prometida. Dentro desta narração sucedem alguns fenômenos 
extremamente interessantes. Ao estudá-la, descobrimos que se trata de 
um verdadeiro composto procedente de diversas fontes. 
 
Tradicionalmente é considerada como obra de Moisés, mas dali a 
pouco fica claro que houve outros participantes em seu desenvolvimento. 
A lista dos reis de Edom, que aparece em Gênesis, vem prolongada pela 
seguinte expressão: "São estes os reis que reinaram na terra de Edom, 
antes que houvesse rei sobre os filhos de Israel." (Gn. 36:31). Saul foi o 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 27 
primeiro rei de Israel, e viveu séculos depois de Moisés; pelo que mal 
poderia este fazer referência a rei algum de Israel. Gênesis 14:14 conta 
que Abraão perseguiu os seus inimigos "até Dã". Mas Dã não recebeu 
este nome até o tempo dos Juízes, depois da época de Moisés. Em 
Gênesis 21:34 e 26:14-18 menciona-se os filisteus, mas estes não 
aparecem senão muito tempo depois de Moisés, ao redor do 1200 a.C. A 
maior abundância, Deuteronômio 34:1-8 narra a morte de Moisés. E é 
extremamente improvável que Moisés tenha relatado sua própria morte! 
 
Assim como é indubitável que Moisés foi o grande legislador de 
Israel, é indisputável também que nos primeiros cinco livros do 
Antigo Testamento "colocou a mão" mais alguém que o próprio Moisés. 
Encontramos neles mais de uma narrativa e de um escritor. 
 
Há outros indícios de que se trata de uma narrativa com 
acrescentados. Frequentemente se acham duas narrações do 
acontecimento. Há duas crônicas da fundação de Berseba, uma 
relacionada com Abraão e outra com Isaque (Gn. 21:31 e 26.:33). Há 
duas histórias de como Betel obteve seu nome: segundo uma, Jacó a 
nomeou a caminho de Padã-Arã; segundo a outra, quando voltava de 
Padã-Arã (Gn. 28: 19; 35:15). Relata-se de duas maneiras a expulsão de 
Agar e Ismael: numa, o fato sucede antes do nascimento da criança (Gn 
16:6-16); e na outra, depois do nascimento de Ismael (Gn 21:9-21). 
 
Há duas versões da história da criação. Numa, o homem é criado 
ao terminar todo o processo criativo, quando o mar e os continentes, 
as plantas, os animais e as aves já tinham sido criados. Segundo esta 
versão o homem e a mulher foram criados simultaneamente (Gn. 1). Na 
outra (Gn. 2), o homem é criado no princípio do processo, logo o jardim, 
os animais e as aves, e logo a mulher é feita da costela do varão. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 28 
No relato do dilúvio se entretecem duas histórias sobre a arca. 
Numa delas entram sete casais de cada animal; na outra entram um par 
de cada um (Gn. 7:2-3; 7:8-9). Ao longo do Gênesis podem perceber-se 
duas versões, duas fontes e dois relatos lado a lado. O compilador do 
último formato é tão honesto, tão respeitoso de suas fontes, que quando 
conta com duas delas inclui ambas. 
 
Agora, em algumas ocasiões nota-se algo mais nesta compilação. O 
hebraico tem duas palavras para designar a Deus: Elohim e Iahweh 
ou Yahweh. A última tem grande interesse e importância, pois é similar à 
palavra Jeová, que é sua forma mais comum. No original hebraico não 
existem letras vocais, só consoantes; não foi senão até muito depois 
quando se acrescentaram pequenos sinais vocálicos sob as consoantes 
para indicar a pronúncia adequada. O nome de Deus se representa com 
as quatro consoantes hebraicas YHWH, que os judeus jamais se atrevem 
a pronunciar, por considerar que o nome de Deus é muito sagrado para 
ser articulado. 
 
Existe também a palavra Adonai, que significa Senhor. Os judeus 
tomaram as vogais de Adonai, e as anexaram às quatro consoantes 
sagradas YHWH de onde obtiveram a forma Jeová. Assim que a palavra 
Jeová compõe-se das letras YHWH soletradas com as vogais hebraicas 
da palavra Senhor, mas a forma genuína é Iahweh (Yahweh), 
impronunciável por ser tão sacrossanta. 
 
Nas versões inglesas do Antigo Testamento, Elohim é traduzido 
simplesmente como Deus, mas YHWH é traduzido Senhor, em 
versais e versaletes. Como em Gênesis 2:4-5.6. Ao examinar 
cuidadosamente estes antigos manuscritos, encontramos que em algumas 
seções se chama Deus, Jeová ou Jeová Deus, conforme proceda no 
original do Elohim ou Iahweh. Por exemplo, no princípio da Bíblia, no 
primeiro relato da criação, provém de Elohim e se chama Deus (Gn. 1:1-
Introdução à Bíblia (William Barclay) 29 
3), conquanto no segundo relato da criação é mencionado como Jeová 
Deus (Gn. 2:4-24). No relato da arca, onde os animais entram em casais 
simples, o mandato é dado por Deus (Elohim) (Gn. 7:9), e em que 
entram sete casais (7:1-2), por Jeová. De modo que, no princípio da 
Bíblia encontramos duas fontes entretecidas, numa das quais chama-se a 
Deus Elohim e em outra em que se chama Iahweh, que se traduz 
respectivamente como Deus e Jeová. Com o tempo, ambas as fontes 
chamam a Deus Jeová, Senhor, pois na fonte quecomeça chamando 
Elohim a Deus, achamos o conhecido relato em que Moisés descobre que 
Deus Se chama Jeová ("Eu sou aquele que sou". Ex. 3:13-16), que é a 
lição que Moisés recebe no misterioso incidente da sarça incandescente 
(Êx. 3:1-6). 
 
Fica, pois, de relevo que a Lei, o Pentateuco, não surgiu por geração 
espontânea. Levou-se séculos para gerá-lo. Constitui a essência destilada 
da voz de Deus à humanidade - de palavra e fato – através dos tempos. 
Aqui se concentra a voz de Deus em seu percurso pelos séculos: 
primeiro o livrinho da Aliança, seguido do livro maior da Aliança; logo 
Deuteronômio, logo o Código de Santidade, e finalmente o relato dos 
atos de Deus pelos homens, compilado por dois escritores distintos. 
Posteriormente tomam forma e se entretecem ambos os relatos com tal 
honestidade que nada se omite nem se muda; e, finalmente, culmina 
nessa maravilhosa amálgama de lei e história que, para os judeus, 
continua sendo a palavra de Deus, sem paralelo na terra. 
 
Mas fica pendente responder: Quando deixou a Lei de ser um 
simples livro maravilhoso para converter-se nas Escrituras? 
Quando deixou de ser um livro para converter-se na Bíblia? O que 
equivale a perguntar: Quando a seção mais antiga da Bíblia começou a 
ser considerada definitivamente como a palavra de Deus? Há três 
indicações que nos ajudam a fixar tal data. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 30 
I. Uma das grandes datas foi quando se traduziu ao grego o Antigo 
Testamento, crônica que deixamos para o Capítulo IV. No momento nos 
interessa somente a data em que apareceu a Septuaginta, que é como foi 
chamada a tradução grega do Antigo Testamento. Indubitavelmente 
trata-se de uma data importante. A esfera do Antigo Testamento ficou 
limitada só aos hebreus enquanto se manteve nesse idioma, mas quando 
foi traduzido ao grego converteu-se na posse de todo o mundo. A 
tradução teve lugar durante o reinado de Ptolomeu II, chamado Filadelfo, 
que reinou no Egito do ano 285 aos 246 a.C. A princípio só se traduziu a 
Lei, a única coisa que os judeus contemporâneos consideravam Escritura 
Sagrada. Isto nos permite asseverar que para o ano 270 a.C. a Lei 
certamente era considerada Escritura. Poderíamos remontar-nos ainda 
mais atrás? 
 
II. Até o dia de hoje, os samaritanos não aceitam como Escritura 
todo o Antigo Testamento, mas unicamente a Lei, o Pentateuco. O que 
significa que se segregaram do resto da nação quando a Lei era já 
Escritura, mas ainda não o era o resto do Antigo Testamento. Tal 
separação teve lugar aproximadamente no ano 400 a.C. Portanto, já para 
esta data a Lei era considerada como a palavra de Deus. 
 
III. Lendo Neemias 8-10, achamos que o escriba Esdras lê ao povo 
"o livro da Lei", e que o povo o aceita como a Lei de Deus e como lei 
para suas vidas. O qual sucedeu à volta do exílio. Daí em diante, os 
judeus seriam para sempre o Povo do Livro, e esse livro seria o livro da 
Lei. Isto também sucedeu pelo ano 400 a.C. 
 
Tudo indica que a Lei converteu-se em Escritura e ficou 
estabelecida como a palavra de Deus aos homens quatrocentos anos 
antes que Jesus viesse ao mundo como homem. Podemos, pois, dar por 
sentado, que a Lei, o Pentateuco, ou os primeiros cinco livros do Antigo 
Testamento, foram considerados como Escritura desde ano 400 a.C. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 31 
Durante quase 2.400 anos os homens acharam a palavra de Deus nos 
livros da Lei. E deve haver algo excepcional num livro que guiou a 
humanidade durante séculos e milênios. 
 
Lembremos agora que começamos a história da formação do 
Antigo Testamento apontando que os judeus o dividiram em três seções: 
a Lei, os Profetas e os Escritos. Já vimos como a Lei foi compilada e se 
converteu em Escrituras para o ano 400 a.C., assim que agora 
concentraremos nossa atenção nos Profetas. Embora já vimos que para o 
judeu a Lei era sem comparação a parte mais importante das Escrituras, 
para a maioria dos atuais eruditos bíblicos os Profetas ficariam acima da 
Lei. Para a maioria de nós talvez constituam a coisa mais preciosa do 
Antigo Testamento, com exceção dos Salmos. Vejamos como os 
Profetas chegaram a ser também a palavra de Deus. 
 
Conforme vimos, os Profetas foram divididos em Anteriores e 
Posteriores. Os Anteriores compreendem os livros de Josué, Juízes, 
Samuel e Reis. Desconhece-se absolutamente quem escreveu estes 
livros. Nem sequer lhes foram adjudicados títulos tradicionais, tais como 
se adjudicaram a Moisés todos os livros da Lei. Mas a tradição judaica 
credita a Josué como o autor do livro deste nome, a Samuel como autor 
dos livros de Juízes e Samuel, e a Jeremias como autor dos livros dos 
Reis. Segundo o cômputo judaico, estes quatro livros foram terminados 
entre os séculos VI e V a.C. 
 
Poderia parecer estranho que se classifique como livros proféticos 
os compreendidos por nós entre os livros históricos, mas para isso 
existem duas razões. Primeira, estes livros falam dos grandes profetas 
que agiram antes de aparecerem os profetas literários; os profetas não 
literários, como Samuel, Natã, Elias e Eliseu, certamente dirigiram 
material profético. Segundo, os judeus levavam a história muito a sério. 
Consideravam que os eventos históricos revelavam nada menos que 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 32 
Deus em ação; para eles, a história era o cenário da atividade de Deus, e 
criam que Deus falava mediante os eventos históricos, os quais 
demonstravam a veracidade da mensagem profética. A história, enfim, 
para eles era a voz de Deus que, através das centúrias, proclama que o 
bem espera os justos e aos ímpios os espera o desastre. Parecia-lhes 
perfeitamente natural considerar profética à história, pois a viam como 
uma manifestação do governo de Deus. 
 
Ao considerar os Profetas Posteriores, os grandes nomes proféticos, 
é conveniente ter em mente um esquema cronológico enquanto os lemos, 
e conhecer o fundo histórico de seus escritos. 
 
Os primeiros destes profetas foram Amós e Miqueias, que 
apareceram a meados do século VIII, quando se aproximava a invasão da 
Palestina pelos assírios, e quando o reino de Samaria foi destruído para 
sempre em 722 a.C. Ambos os profetas sublinham a nota que do 
princípio ao fim constituirá a mensagem profética e o próprio coração de 
sua mensagem. Tal mensagem se sintetiza na bem conhecida expressão: 
proclamação do monoteísmo ético. O que significa isto? 
 
Comecemos pela palavra monoteísmo. O homem creu em Deus de 
três maneiras. A primeira delas se conhece como politeísmo. Polloi, em 
grego, significa muitos: theos, Deus ou um deus. Assim que politeísmo é 
a palavra que descreve a religião que tem muitos deuses. Este tipo de 
religião foi praticada pelos antigos gregos e romanos, e incluía Zeus, 
Apolo, Ateneu e Afrodite, entre outros deuses. É a fase dos muitos 
deuses. 
 
Segundo, o henoteísmo é a etapa em que se crê num só deus válido 
para um grupo, mas sem excluir os deuses dos demais. Considerava-se 
que cada país tinha um deus cuja influência se limitava ao território 
nacional, e ninguém negava que os deuses de outros países fossem 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 33 
igualmente reais e poderosos dentro de sua esfera de influência. Isso 
o compreendeu Jefté quando perguntou aos amonitas: "Não é certo que 
aquilo que Quemos, teu deus, te dá consideras como tua possessão? 
Assim, possuiremos nós o território de todos quantos o SENHOR, nosso 
Deus, expulsou de diante de nós" (Juí. 11:24). Aqui podemos notar que 
Yahweh era o único Deus para os hebreus, sem prejuízo de que Quemos 
fosse igualmente real para os amonitas. Nesta etapa cada nação tinha o 
seu próprio deus, e era o único verdadeiro para eles, mas isso não negava 
nenhum direito aos deuses de outras nações. 
 
Por último está a fé monoteísta: só há um Deus de todos os seres 
humanos; Deus deste universo e de qualquer outro universo existente ou 
por existir. 
 
Esta foi a mensagem inicialdos profetas: há um Deus e só um, e 
Israel deve ser-lhe fiel. Coisa nada fácil. Visto que cria-se que cada 
nação possuía seu próprio deus, quem chegava a um país estrangeiro 
levava. por assim dizê-lo, seu próprio deus e lhe construía ali um 
santuário. Isto foi o que sucedeu com Salomão, quando Israel se 
converteu em grande potência política: vieram as alianças estrangeiras 
que, com frequência, eram afiançadas casando o rei de um país com uma 
princesa do país aliado. Isso fez Salomão, e as princesas estrangeiras 
trouxeram os seus próprios deuses e deusas, contaminando assim a 
verdadeira religião com tantas crenças falsas (1Rs. 11:1-8). O 
monoteísmo parece algo perfeitamente natural na atualidade; mas 
naqueles dias constituía uma grande descoberta, que cabia aos profetas 
preservar. 
 
Mas estes grandes profetas não só ensinavam o monoteísmo, mas 
também o monoteísmo ético. Atualmente religião e moralidade andam de 
mãos dadas. Mas, por estranho que pareça, na antiguidade iam de mãos 
dadas religião e imoralidade. Citaremos três exemplos. Na antiguidade, 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 34 
quando alguém fundava uma cidade, levantava os primeiros alicerces e 
seus portais sobre o corpo sacrificado de seu próprio filho (1Rs. 16:34), 
No culto do deus Moloque se sacrificavam crianças (2Rs. 23:10). O culto 
de Baal era um culto à fertilidade; considerava-se que os baalins faziam 
crescer as sementes e maturavam as vinhas. Viam o sexo como a mais 
potente fonte de fertilidade. Por isso se somavam aos templos de baales 
muitas sacerdotisas que eram realmente prostitutas consagradas. O ato 
sexual, realizado com elas, constituía um ato de adoração. Estas 
"sacerdotisas" eram as prostitutas cúlticas condenadas por Oseias (4:14) . 
Os profetas tiveram que ensinar as pessoas que nem o mais elaborado 
ritual do mundo pode substituir a castidade pessoal, a justiça social e o 
amor para com o homem e para com Deus. A profecia de Amós foi 
considerada como "um clamor de justiça social", e um dos versículos 
bíblicos mais citados é o de Miqueias (6:6-8) onde se diz que Deus não 
quer sacrifícios senão que façamos justiça, amemos a misericórdia e nos 
humilhemos perante Ele. Isto constitui atualmente parte de nossa 
religião, mas foram sensacionais descobertas em tempos dos primeiros 
profetas. Foram eles os grandes monoteístas éticos, cujo tema era que há 
um só Deus, e que os verdadeiros sacrifícios são a castidade, a 
misericórdia e a fidelidade. 
 
No mesmo século VIII a.C. surgem dois dos grandes profetas 
antigos, que trazem consigo suas próprias ideias predominantes. Vimos 
que o grande clamor de Amós e Miqueias é sua insistência na justiça 
social. Mas Oseias é, acima de tudo, o profeta do amor. Ao falar de 
Deus, Oseias fala de si mesmo. Deus lhe ordenou tomar uma mulher da 
rua. fazê-la sua esposa, e tratá-la com amor. Mas ela abandonava o lar e 
voltava para sua vida passada; cada vez que ela voltava para casa, o 
profeta a recebia com um amor que jamais se deu por vencido. Oseias 
apresentava um argumento vivo: Se um homem pode amar assim, quanto 
mais pode Deus amar? 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 35 
Vimos, pois, a Miqueias e Amós com seu enfoque na justiça social 
e a Oseias com sua ênfase no amor. Mas ainda falta um dos grandes 
profetas do século VIII. O livro de Isaías conta com três seções, a 
primeira das quais, capítulos do 1 a139, pertence ao mesmo período. 
Isaías foi um aristocrata, amigo de reis, e a nota dominante de sua 
mensagem é a santidade. "Santo, santo, santo, é o SENHOR dos 
Exércitos" (Is. 6:3). Isaías sempre confronta os homens com o Deus 
santo, e sempre insiste em que nada pode substituir a justiça e o amor. 
Toda a cadeia de sacrifícios, novilúnios, sábados e preces são inúteis em 
si mesmas: 
Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; 
defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas (Is. 1:10-17). 
 
De modo que, cada um dos grandes profetas do século VIII tem seu 
tema dominante: Amós e Miqueias, a justiça social; Oseias, o amor; 
Isaías, a santidade. Ao lê-los é muito conveniente ter em mente o tema 
pessoal de cada um. 
 
Nos séculos VII e VI a.C. houve outro grupo de profetas que 
proclamaram a palavra de Deus à luz do momento que viviam, sempre 
interpretando seu momento histórico à luz do propósito de Deus. No 
ano 627 a.C., Sofonias viu na invasão cita proveniente do Este, o 
princípio do juízo que Deus tinha preparado para os assírios, moabitas, 
filisteus e também para Judá. Interpretou-a como advertência de que o 
Dia do Senhor estava perto. Simultaneamente, Naum ocupava-se em 
predizer graficamente a queda de Nínive. No momento pareceu como se 
Deus fosse intervir espetacularmente na história, mas o que sucedeu foi 
que surgiu outra grande potência: Babilônia. É então quando Habacuque 
questiona por escrito a causa da tardança de Deus, ao ver que as tiranias 
não faziam mais que suceder umas após outras. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 36 
Surgiram então dois dos maiores profetas, que descobriram o que 
teria que resgatar a religião judaica do colapso. Coube a Jeremias viver a 
queda de Jerusalém às mãos dos babilônios, no ano 586 a.C., enquanto 
que Ezequiel viveu com o povo o exílio em Babilônia, onde sonhava 
com uma nova ordem das coisas no futuro. Mas a maior contribuição que 
forneceram ambos os profetas foi estabelecer que a religião não só é de 
caráter nacional, mas também pessoal, e ainda mais que isso. 
 
Resulta-nos atualmente difícil compreender que precisaram 
transcorrer vários séculos para que o indivíduo emergisse como tal. Com 
antecedência, os seres humanos não se viam como indivíduos, mas sim 
como membros de um grupo, quer fosse a tribo, a família ou a nação a 
que pertenciam. Bom exemplo disto encontramos no Antigo Testamento 
em relação ao pecado de Acã. Apesar de que Deus tinha ordenado a 
destruição de todo o despojo na guerra com Jericó, Acã reservou algo 
para si. As consequências resultaram desastrosas para toda a nação 
Quando se descobriu que Acã era o culpado, tomaram junto com "seus 
filhos, suas filhas, seus bois, seus asnos, suas ovelhas, sua tenda e tudo 
o que tinha" e tudo isto foi destruído totalmente (Js. 7:1-26). O castigo 
recaiu sobre o grupo e não só sobre o indivíduo 
Na Austrália podemos ainda encontrar algo semelhante. Os 
aborígenes australianos são considerados entre os grupos mais primitivos 
que restam no mundo. Não faz muito ainda, se fosse perguntado a um 
deles seu nome, respondia com o nome de sua tribo: "Pertenço a tal 
tribo. ..." 
 
Quando alguém se vê como parte de um grupo, ao sobrevir um 
desastre nacional também se vem a rivalidade a fé. Mas quando se 
descobre que a relação com Deus não depende da pertinência a um 
grupo, senão de que se é uma pessoa, então a relação individual com 
Deus prevalecerá acima de todo conflito ou catástrofe coletiva Isto é 
precisamente o que descobriram Jeremias e Ezequiel: que o indivíduo 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 37 
está com relação a Deus não por ser judeu mas por ser pessoa. Foi assim 
como descobriram a religião pessoal que, como toda grande descoberta, 
foi algo simples mas como poucos, de suma importância. 
 
Surgiu por então o novo poderio persa, sobre o qual a segunda 
seção de Isaías tem algo extraordinariamente importante a dizer. Esta 
seção abrange os capítulos do 40 ao 55. Ciro, o caudilho persa, não só 
não tinha intenção de libertar os judeus do jugo babilônio, mas também é 
improvável que tivesse ouvido falar de Yahweh, ou que lhe desse 
alguma importância em caso de que assim teria sido. Mas Ciro ocupava 
um lugar no plano e propósito de Deus, e Deus Se refere a ele dizendo 
que "Ele é meu pastor e cumprirá tudo o que me apraz". Deus ungiu a 
Ciro e o toma pela "mão direita" (Is 44:28; 45:1). Ciro teria que libertar 
os judeus. Embora não o soubesse, ele era só um instrumento nas mãos 
de Deus. Eis aqui uma verdadeirafilosofia da história: toda a história 
está nas mãos de Deus, e até quem jamais tenha ouvido falar de Deus 
pode, sem o saber, ser servo e instrumento dEle. Com uma fé assim 
qualquer um pode enfrentar o mundo. 
 
Nesta porção de Isaías encontramos a figura do Servo Sofredor, que 
tanto influiria no pensamento neotestamentário e até no do próprio Jesus. 
A figura do Servo Sofredor culmina em Isaías 53, onde este é ferido por 
nossas rebeliões e moído por nossos pecados (v. 5). O perfil completo do 
Servo Sofredor encontra-se nos chamados Quatro Cânticos do Servo (Is 
42:1-4: 49:1-7; 50:4-9; 52:13–53:12). Observe-se que os verbos-chave 
de Isaías 53, até o versículo 10, estão no tempo pretérito. É porque 
descrevem a alguém que o profeta sabe que sofreu, mais que alguém que 
devia vir. É verdade que às vezes o profeta estava tão seguro de seu 
anúncio que se referia a Ele como algo já efetuado, embora Isaías 53 não 
deveria ser lido dessa maneira. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 38 
Segundo Isaías 53, quem é aquele que sofre? Esta pergunta sempre 
tem fascinado e evitado os eruditos. Parece-me que quem melhor trata o 
tema é C. R. North, em seu livro The Suffering Servant in Deutero-Isaiah 
(O Servo Sofredor em Deutero-Isaías) North relata que S. R. Driver, 
eminente estudioso do Antigo Testamento, pensava escrever um 
comentário sobre Isaías, mas desistiu de fazê-lo perante o emaranhado 
labirinto de interpretações que existem em torno do servo. 
 
Será este servo o próprio Isaías, quem segundo a tradição judaica 
sofreu o martírio e foi sepultado na tumba de um criminoso? Assim 
parece tê-lo pensado o eunuco etíope (At 8:34). Ou se referirá a 
Jeremias, quem se vê a si mesmo como "manso cordeiro, que é levado ao 
matadouro" (Jr. 11:19)? Ou será Joaquim descrito pela tradição judaica 
como aquele que se entregou a Nabucodonosor em sacrifício para salvar 
Jerusalém da destruição (2Rs. 24:8-20)? Ou, em vez disso, refere-se a 
Zorobabel, quem depois de jogar papel preponderante no exílio 
desaparece misteriosamente da narração (Ag. 1:1, 12, 14; 2:21-23; Zac. 
4:6-10)? Ou, é o Servo a própria nação de Israel, que sofre em redenção 
por seus pecados e os do mundo? Não sabemos. Mas o que sabemos, 
sem lugar a dúvida, é que a figura do Servo Sofredor se realizará 
absolutamente em Cristo. Em todo o Novo Testamento Jesus vai sendo 
identificado com o Servo Sofredor (At. 3:13; 3:26; 4:27,30: 8:26-35; Mt. 
8:14-17; 12:14-21; Lc. 22:37; 2Co. 5:21; 1Pe. 1:19; 2Pe. 22:25). 
Nenhuma figura do Antigo Testamento se acha tão incrustada no Novo, 
como esta do Servo Sofredor do Segundo Isaías. 
 
Encontramos, depois que Assíria e Babilônia passam à história, que 
uma nova potência mundial aparece no cenário. Trata-se da Pérsia, a 
quem cabe a vez de dominar os acontecimentos. Para os judeus isto se 
reveste de grande importância, pois os persas lhes permitiram retornar a 
Jerusalém depois do cativeiro em Babilônia. E a fins do século VI e 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 39 
durante o século V se apresentam Ageu e Zacarias, animando-os a 
reconstruir o Templo em ruínas e a tratar de restaurar a glória perdida. 
 
Também se encontra ali Obadias, quem recrimina a Edom porque 
permaneceu indiferente perante a escravidão dos judeus. Além disso, 
está Joel, quem anima o povo em momentos difíceis, assim como 
Malaquias os estimula a restaurar o ardor de uma fé que tinham deixado 
esfriar. Quando a devoção decaiu, o povo tratou de substituir a Deus 
com cultos inferiores e ofertando o mais barato e comum ao seu alcance 
(Ml. 1:6-14). E quando o desânimo e o desespero reinam., Malaquias 
trata de avivar em seus corações o fogo da devoção. 
 
Resta mencionar o livro do profeta Jonas. Embora pequeno, é 
um dos mais grandiosos do Antigo Testamento, porque demanda dos 
judeus o abandonar seu exclusivismo. Chama-os a levar a palavra de 
Deus aos gentios, a alegrar-se quando eles também aceitam a mensagem 
de salvação, e a crer que mesmo Nínive pode ser salva igualmente, se ela 
se arrepender. No Antigo Testamento Jonas é o livro missionário por 
excelência e, talvez, um dos últimos, pois provavelmente data do século 
IV a.C. 
 
Agora nos cabe perguntar quando foi que os livros proféticos 
deixaram de ser meras joias da literatura devocional para fazer parte das 
Escrituras. 
 
I. Cabe aqui a mesma observação que fizemos a respeito de outros 
livros do Antigo Testamento. Muito antes de que fossem parte integral 
da Escritura já eram conhecidos, utilizados e amados. Já tinham 
demonstrado o seu poder para iluminar a mente, e para consolar e 
fortalecer o coração, o que lhes valeu um lugar nas Escrituras. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 40 
Foi durante o exílio quando as obras dos profetas chegaram a 
ser conhecidas e amadas, em virtude de duas razões: anunciaram a sorte 
que aguardava o pecador, o desobediente e aquele que abandona o 
caminho de Deus para seguir seus próprios caminhos. Isto se cumpriu ao 
pé da letra e agora o povo conhecia de sobra o que esperava a uma nação 
que desatendia a voz de Deus. Cumpriu-se o anúncio dos profetas, mas 
a mensagem profética não terminou ali. Assim como tinham proclamado 
uma mensagem de condenação para o desobediente proclamavam 
também outra mensagem de esperança para o penitente. E os judeus 
estavam convencidos de que assim como se cumpriu a condenação, 
também veriam realizar a esperança. Em seu livro How to Read the Bible 
(Como ler a Bíblia), F. C. Grant assinala o processo seguido pela 
mensagem profética: 
 
a) Seus pecados estão por encontrar você: é seguro que a justiça lhe 
sobrevirá ... logo. 
b) Embora o castigo de Deus seja severo, Ele continua preocupado 
por aqueles a quem castiga, pois o Seu propósito não é aniquilar, mas 
antes, salvar. 
c) Nesta última hora, antes de que o juízo o alcance, arrependa-se! 
Se você o fizer, Deus suspenderá a ameaça de castigo e restaurará ao seu 
favor. 
d) Deus, quem certamente conhece tudo o que tem que passar, 
sabe também que há de sobreviver um pequeno remanescente de 
arrependidos, à maneira do toco de uma árvore. Destes brotos ele poderá 
levantar de novo a nação ou família da Aliança, que tenha escolhido. 
 
Ou seja, que a mensagem profética se compunha de ameaça e 
promessa em partes iguais, de catástrofe e resgate de meia-noite e 
amanhecer. Os judeus, pois, liam e estudavam os profetas e deles 
recebiam fortaleza; sabiam que se tinham razão quanto ao juízo, tinham 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 41 
também razão quanto à anunciada restauração. Nos dias de maior 
tribulação acharam esperança profética. 
 
II. Mas houve outro fator que contribuiu para outorgar lugar 
destacado a esta literatura profética. Era considerada um grande exemplo 
de uma voz que tinha sido silenciada para sempre. Já não havia quem 
dissesse: "Assim diz o Senhor". Como dizia nostalgicamente o Salmista: 
"Já não vemos os nossos símbolos; já não há profeta; nem, entre nós, 
quem saiba até quando" (Sl. 74:9). Pelo menos na época de Zacarias, já 
se considerava um enganador a quem pretendia ser profeta: "Quando 
alguém ainda profetizar, seu pai e sua mãe, que o geraram, lhe dirão: 
Não viverás, porque tens falado mentiras em nome do Senhor; seu pai e 
sua mãe, que o geraram, o traspassarão quando profetizar" (Zc. 13:3). E 
até nos Apócrifos se lê: "Foi esta uma grande tribulação em Israel, 
qual não tinha havido desde o dia em que não mais aparecera um profeta 
no meio deles" (1Mc 9:27, Bíblia de Jerusalém). E acrescenta, à eleição 
de Simão como príncipe e sumo sacerdote, que isso era "até que surgisse 
um profeta fiel" (1Mc. 14:41, BJ). Esperariam, pois, "à espera de que 
viesse algum profeta que se pronunciasse a esse respeito" (1Mac. 4:46, 
BJ). A princípios do século IV a.C. os profetas já pertenciam ao passado 
esplendoroso, cuja voz se apagou para sempre, o que lhes outorga uma 
grandeza inigualável. 
 
III. Sóé possível deduzir a partir de quando as profecias eram 
consideradas parte das Escrituras. No segundo livro dos Macabeus 2:13, 
diz-se que Neemias "tinha reunido uma biblioteca e posto nela os livros 
dos reis, dos profetas e os de Davi e as cartas dos reis sobre as ofertas". 
Sempre foi parte da tradição judaica que Esdras teve grande participação 
na formação da coleção escriturística. Embora simples tradição, bem 
poderia ser que para então, 400 a.C., os escritos proféticos estivessem já 
colecionados e organizados. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 42 
Há, entretanto, algo que nos poderia dar uma pista razoável. 
Evidentemente o livro de Daniel é profético, pois prediz o futuro. O 
estranho é que os judeus nunca o classificaram entre os livros proféticos, 
mas sim entre os Escritos. Isto indicaria que Daniel apareceu quando 
a lista dos profetas foi enclausurada, pois de outra maneira ele teria sido 
incluído nela. Visto que o livro de Daniel deve datar-se para o ano 165 
a.C, poderíamos assumir como provável que, para então, já se tinha 
fechado a lista de nomes dos profetas. De modo que, existe a 
possibilidade de que os profetas tenham sido considerados como 
Escritura ao redor do ano 200 a.C. 
 
O Antigo Testamento foi integrando-se lentamente e ganhando a 
aceitação irrefutável por causa de ser muito evidente sua inspiração. Para 
o ano 400 a.C. a Lei já era considerada Escritura Sagrada e 
provavelmente para o ano 200 a.C. os Profetas formavam par com a Lei. 
Só resta que vejamos como alcançaram a mesma posição os Escritos e 
neles focaremos agora nossa atenção. 
 
Vimos que os Escritos constavam de onze livros: Salmos, 
Provérbios, Jó, Eclesiastes, Cantar dos Cantares, Rute, Lamentações, 
Ester, Esdras-Neemias, Crônicas e Daniel. Os Escritos não constituem 
um grupo unificado e homogêneo como os da Lei e os Profetas. Mais 
parece uma coleção miscelânea que se chegou a ver como livros 
isolados. Nunca alcançaram a posição dos outros dois grupos. Alguns se 
liam em algumas ocasiões especiais na sinagoga mas não de maneira 
regular e sistemática como a Lei e os Profetas. Quando os judeus 
falavam de suas Escrituras tinham em mente a Lei e os Profetas. Cristo 
declarou que não tinha vindo para destruir a Lei e os Profetas, e sim para 
cumpri-los (Mt. 5:17), sustentou que a Lei e os Profetas residem no 
princípio de fazer aos outros como queremos que nos façam a nós (Mt 
7:12). A Lei e os Profetas antecediam a vinda do Reino (Lc. 16:16), 
foram precisamente Moisés e os Profetas os que Cristo explicou e 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 43 
interpretou a caminho de Emaús (Lc. 24:27), e são eles os que se leem na 
sinagoga (At. 13:15). Se alguma outra seção for acrescentada às 
Escrituras no Novo Testamento, essa seção é a Lei, os Profetas e os 
Salmos (Lc. 24: 44). 
 
Nos Escritos há um pouco de tudo. Em How Came the Bible? 
(Como Veio a Bíblia?), E. J Goodspeed os divide assim: 
Discussão filosófica da religião: Jó e Eclesiastes; 
Lamentos: Lamentações; 
Cantos de amor: Cantares; 
Relatos: Rute e Ester; 
História sacerdotal: Crônicas. 
 
Em How to Read the Bible (Como ler a Bíblia), F. C. Grant 
distingue neles: 
Poesia: Jó, Salmos, Cantares e Lamentações; 
Sabedoria: Eclesiastes e Provérbios; 
Narrações: Ester e Rute; 
Profecia: Daniel; 
História: Esdras- Neemias e Crônicas. 
Os Escritos constituem a literatura religiosa de toda uma nação, e 
nela foram ganhando seu lugar, não como um todo, mas sim ocupando 
seu lugar um por um. 
 
Mas antes teríamos que nos perguntar como é que alcançaram a 
categoria de Sagradas Escrituras. Vimos visto que a partir do século IV 
a.C. os judeus tinham a convicção de que a voz de Deus havia cessado. 
O que equivaleria a dizer que qualquer livro posterior a Esdras não tinha 
possibilidade de incorporar-se às Escrituras por estar fora do período 
considerado de inspiração direta. Os rabinos chegaram a uma conclusão 
bastante estranha a este respeito 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 44 
Se o autor de um livro era conhecido, mas se sabia que o que tinha 
escrito caía fora do período de inspiração, então sua obra não podia ser 
incluída na lista de Escritura Sagrada. Isto sucedeu com o livro 
Eclesiástico, que é um livro formidável e cuja omissão do cânon foi 
lamentada por muitos. Foi escrito por Jesus Ben Siraque, ao redor do ano 
180 a.C. e traduzido ao grego por seu neto em 132 a.C. Tanto o autor 
como a data eram conhecidos, e portanto foi eliminado do cânon. 
 
Por outro lado, os rabinos sustentavam que se o livro era de autor 
desconhecido e tinha suficiente validez religiosa para aspirar ao cânon, 
então podia ser-lhe lhe atribuído qualquer das figuras consagradas dentro 
do período de inspiração. Em consequência, visto que ninguém sabia 
quem tinha escrito Rute, foi atribuído a Samuel, Lamentações a 
Jeremias, Provérbios e Eclesiastes a Salomão, Jó a Moisés, Cantares 
a Salomão (ou pelo menos ao período de Ezequias). Todos os Salmos se 
adjudicaram a Davi, mesmo quando a metade do livro diz muito 
claramente: "Aqui terminam as orações de Davi, filho de Jessé" (Sl 
72:20). Esdras e Neemias foram atribuídos a Esdras, quem adquiriu uma 
posição única na tradição judaica. Os rabinos afirmavam que "A Torah 
foi esquecida por Israel até que Esdras veio de Babilônia e a 
restabeleceu". Acrescentavam que, se a Lei já não tivesse sido dada por 
Moisés, Esdras teria sido o indicado para recebê-la. Já retomaremos o 
lugar de Esdras na tradição. Realmente foi muito afortunado que os 
rabinos judeus tenham encontrado a maneira de preservar estes livros, 
pois de outra maneira poderiam ter desaparecido. 
 
Agora assomamos ao processo que conduziu a que estes Escritos 
fossem reconhecidos como Escrituras canônicas, e logo os 
consideraremos um por um. Há cinco evidências fragmentárias que se 
combinam para nos proporcionar a data. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 45 
I. Já mencionamos a citação em 2 Macabeus 2:13, que fala da 
biblioteca fundada por Neemias e de como colecionou os livros sobre os 
reis, os profetas e os escritos de Davi. Se for possível considerar esta 
data como histórica, então podemos afirmar que Neemias começou a 
colecionar os Salmos e assim pôs a base para essa seção das Escrituras 
que depois foi conhecida como os Escritos 
 
II. Também fizemos referência ao prólogo que escreveu o neto de 
Jesus Ben Siraque quando traduziu ao grego o livro escrito por seu 
avô. Em tal prólogo faz menção aos grandes e ricos tesouros de instrução 
e sabedoria transmitidos pela tradição, incluindo a Lei e os Profetas e os 
livros de seus seguidores. Fala de como seu avô tinha estudado a Lei, os 
Profetas e os livros de nossos antepassados. Fala da Lei, os Profetas, e 
outros livros. Nunca emprega o termo de Escritos para designá-los, mas 
é evidente que para ele havia uma adição à Lei e os Profetas, quer dizer, 
uma terceira seção das Sagradas Escrituras. 
 
III. Deste modo mencionamos que Lucas 24:44 fala de que Jesus, 
depois da Ressurreição, explicou aos Seus discípulos o que a Lei, os 
Profetas e os Salmos diziam dEle. 
 
IV. No livro apócrifo 4º. de Esdras, que nas edições dos livros 
apócrifos aparece como 20 de Esdras, há um relato (Capítulo 14) 
extremamente fictício da obra de Esdras. Para então já se perdeu a Lei e 
Esdras tinha sido designado por Deus para restaurá-la. Segundo este 
relato, Esdras foi levado a um campo, junto com outros cinco homens, e 
ali lhe deu de beber, numa cálice, um líquido que ardia como fogo. 
Durante quarenta dias e quarenta noites, Esdras ditou sem parar aos 
cinco escribas até completar noventa e quatro livros. Então, segue a 
lenda, o Altíssimo lhe disse: "Publica os vinte e quatro livros que 
escreveu primeiro e deixa que todos os leiam, sejam dignos ou não de lê-
los. Mas conserva os setenta que escreveu por último, para dá-los aos 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 46 
sábios de seu povo". Certamente,esta é só uma lenda; mas o importante 
é que este livro foi escrito na segunda metade do século I de nossa era, 
quando as Escrituras judaicas constavam já de 24 livros, que é a cifra 
que inclui os Escritos. Para essa data os Escritos formavam já parte das 
Escrituras. 
 
V. Ao redor do ano 100 de nossa era, Josefo, o historiador 
judeu, opinou que os livros judeus ficavam já fixados e estabelecidos, 
sem que nenhum livro pudesse ser tirado nem acrescentado. 
 
Tudo isso concorda, pois também se reconheceu que no ano 90 d.C. 
os rabinos fixaram finalmente o conteúdo das Escrituras no Concílio da 
Jâmnia, perto de Jope. Foi então quando os Escritos se consideraram 
completos 
Ao lembrar a variada miscelânea que representam os Escritos, não é 
de surpreender-se saber que nem todos eles se tornaram Escrituras com a 
mesma rapidez e unanimidade. 
Alguns deles jamais foram postos em tela de dúvida, como os 
Salmos, que constituíam o hinário e o livro de orações do templo. 
Estavam intimamente relacionados com a adoração e liturgia do 
santuário. Cada dia da semana cantava com seu salmo especial, com um 
comentário rabínico que explicava sua relação com esse dia. 
 
O Salmo 24 era lido no primeiro dia da semana. "Ao SENHOR 
pertence a terra e tudo o que nela se contém", que comemorava o 
primeiro dia da criação, "quando Deus possuía o mundo e o governava". 
O Salmo 48 correspondia ao segundo dia. "Grande é o SENHOR e mui 
digno de ser louvado", porque no segundo dia da criação "Deus dividiu 
suas obras e reinou sobre elas". O Salmo 82 era o do terceiro dia da 
semana: "Deus está na reunião dos deuses", "porque nesse dia apareceu a 
terra onde está o Juiz e os que são julgados. O Salmo 94 era para o 
quarto dia: "Ó SENHOR, Deus das vinganças ", "porque no quarto dia 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 47 
fez Deus o sol, a lua e as estrelas, e será vingado naqueles que os 
adorem". Para o quinto dia tinham o Salmo 81: "Cantai de júbilo a Deus, 
força nossa", "pela variedade de animais criados nesse dia para louvar o 
nome de Deus". O Salmo 93 era para o sexto dia: "Reina o SENHOR", 
"porque nesse dia Deus terminou Suas obras e fez o homem e o Senhor 
estabeleceu Seu domínio sobre todas as Suas obras". Para o sétimo dia, 
no sábado, lia-se o Salmo 92: "Bom é render graças ao SENHOR e 
cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo", "porque o sábado simboliza o 
dia em que, depois da dispensação de seis mil anos, Deus reinará sobre 
tudo, e Sua glória e Seu serviço encherão toda a terra com ações de 
graças". 
 
Os Salmos ocupavam lugar supremo na adoração pública e na 
devoção particular. Seu lugar nas Escrituras jamais foi disputado. 
 
Os cinco rolos ou megilloth, relacionados com os grandes festivais 
e comemorações, tinham seu lugar assegurado embora, como logo 
veremos, alguns foram recusados. Os livros de Crônicas, Jó, Esdras-
Neemias e Daniel tinham seu próprio lugar visto que deles lia o sumo 
sacerdote na véspera do Dia do Perdão, que é a principal comemoração 
no calendário religioso judaico. 
 
Os livros recusados foram principalmente três: o Cantares, pois a 
menos que seja convertido em alegoria, o que nunca foi a intenção do 
original, é um apaixonado poema de amor de carne e osso e, na 
realidade, um dos grandes poemas de amor da literatura universal. 
Eclesiastes entrou em disputa devido ao seu pesaroso pessimismo. Sua 
mensagem é: vive a vida ao máximo, porque nada há para além da 
morte que o reino das sombras (Ec 9: 10). A objeção contra Ester foi 
que, por raro que pareça, nunca é mencionado o nome de Deus nele 
embora seja a justificação do Purim, festa que comemora a vitória de 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 48 
Mardoqueu sobre Hamã, mas que não se encontra entre os festivais 
prescritos pela Lei. 
 
Mas depois do Concílio da Jâmnia todos estes questionamentos e 
dúvidas ficaram calados. 
 
Aqui temos, pois, como sob a direção e providência de Deus o 
Antigo Testamento chegou ao seu estado atual. Terminaremos com três 
apontamentos: 
 
I. O Antigo Testamento compõe-se de livros que passaram pela 
prova dos anos antes de que poderiam ingressar no âmbito sagrado das 
Escrituras. Ninguém se sentou para escrever um livro com a intenção de 
que logo resultasse Escritura Sagrada. Antes, o livro foi escrito e se 
entregou à humanidade e no tempo. No transcurso de anos e séculos os 
homens chegaram a amar e a pôr o seu coração nesse livro, que Deus 
utilizou para Seus propósitos. E assim chegou o dia em que o livro 
chegou a ser reconhecido nada menos que como mensagem de Deus. Se 
temos permissão poderíamos acrescentar que estes livros alcançaram a 
posição de Escrituras Sagradas segundo o princípio da sobrevivência dos 
mais aptos. Cada livro foi resultando tão efetivo e tão claramente usado 
por Deus que inevitavelmente foi reconhecido como parte integrante da 
Bíblia. 
 
II. Tenhamos presente que para escrever o Antigo Testamento 
foram necessários vários séculos, do século VIII a. C. ao século II a.C. 
Consideremos isto em termos da história contemporânea. Equivaleria a 
um livro que se começou a escrever no século XIV e fosse terminado no 
século XX. Este é um tema que abordaremos depois, mas fica fácil ver a 
diferença entre o mundo dos anos 1300 e o dos anos 1900. Seiscentos 
anos são muito tempo, com mais razão dez séculos. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 49 
III. Além disso, o Antigo Testamento começou a creditar-se como 
Escrituras Sagradas em 621 a.C, quando se achou o Deuteronômio, e 
terminou no Concílio da Jâmnia, no ano 90 de nossa era. Quer dizer, que 
se necessitaram mais de 700 anos para integrar o Antigo Testamento 
como cânon sagrado. As raízes do Antigo Testamento são, pois muito 
profundas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 50 
CAPITULO III 
DESENVOLVIMENTO DO NOVO TESTAMENTO 
 
Atualmente o Novo Testamento consta de 27 livros: quatro 
evangelhos, um livro de história eclesiástica, vinte e uma cartas e um 
Apocalipse. Encontramos pela primeira vez este formato do Novo 
Testamento no ano 367 de nossa era. O grande bispo Atanásio 
costumava enviar ao povo uma carta pastoral cada Domingo de 
Ressurreição. Aproveitou a ocasião em 367 para fazer saber aos cristãos 
quais eram os livros que podiam ler com a aprovação da Igreja. Com 
esse motivo fez uma lista que foi a primeira que se fez dos livros do 
Novo Testamento. Isto significaria que foram necessários mais de três 
séculos para completar o Novo Testamento. 
 
Desde o princípio a fé cristã foi a fé de um livro. O judaísmo foi o 
berço do cristianismo e o centro do judaísmo é a sinagoga. A igreja cristã 
primitiva não tinha intenção alguma de apartar-se do ancestral culto 
judaico. Encontramos a Pedro e a João caminho ao Templo para orar 
(At. 3:1). Vemos que Estêvão e Paulo iniciam sua carreira de pregadores 
debatendo na sinagoga (At 6:8-10; 9:20-21). O culto na sinagoga girava 
em torno da leitura das Escrituras. Tal era sua razão de ser. Começava 
com a recitação do credo do judaísmo e logo se ofereciam algumas 
preces. Terminava com uma homilia do rabino ou de algum visitante 
distinto. Mas no centro do culto estava a leitura bíblica que era para o 
que o povo se congregava. 
 
Quando foram fechadas as portas da sinagoga aos cristãos e não 
puderam continuar adorando ali, levaram consigo o estilo cúltico da 
sinagoga. Ainda mais, levaram-se consigo o Livro da sinagoga. Nesses 
primeiros dias da igreja primitiva ainda não se tinha escrito o Novo 
Testamento. Não foi o Novo Testamento o que produziu a Igreja, mas 
sim foi a Igreja a que produziu o Novo Testamento. Assim que, no 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 51 
princípio, nos cultos dominicais de então era lido o Antigo Testamento 
em geral na versão grega dos Setenta (Septuaginta), que se denotava com 
os números romanos LXX. O Antigo Testamento, pois, foi o livro dos 
primeiros dias da Igreja, e delese lia e se citavam passagens. 
 
Por exemplo o sermão de Pedro no dia do Pentecostes que abrange 
27 versículos de Atos 2:14-40, contém dez versículos do Antigo 
Testamento, como segue: At. 2:17-21, tira-se de Joel 2:28-32; At. 2:25-
28, do Salmo 16:8-11; At. 2:34-35, do Salmo 110:1, etc. O sermão de 
Paulo em Antioquia (At. 13:16-41) abrange 26 versículos, nove dos 
quais provêm do Antigo Testamento: do versículo 16 ao 22 apresenta-se 
um resumo histórico do Antigo Testamento até os dias de Davi; o 
versículo 33 corresponde ao Salmo 2:7; o 34 foi tomado de Isaías 55:3; o 
35 do Salmo 16:10; o 41, de Habacuque 1:5, e o 47 de Isaías 49:6. O 
Antigo Testamento constituiu o livro sagrado da igreja primitiva. 
 
Para compreender como surgiu o Novo Testamento vejamos 
primeira a ordem em que foi escrito. Talvez o mais interessante de tudo 
seja descobrir que a primeira coisa que se escreveu do Novo Testamento 
foram as cartas de Paulo. Calcula-se que estas foram escritas entre os 
anos 49 e 62 de nossa era. 
 
As cartas de Paulo foram precisamente isso: cartas, escritas em sua 
maioria com relação a alguma situação local ou temporal Algo andava 
mal em Tessalônica ou Corinto, por exemplo, e Paulo lhes escrevia para 
corrigir a situação. F. C. Grant acerta quando afirma que "Se tivesse 
havido telefone então, certamente Paulo o teria utilizado. Mas nesse caso 
jamais teríamos tido nenhuma carta escrita por ele! Quando Paulo 
escrevia para corrigir algo em Tessalônica, Galácia ou Corinto, não o 
fazia como escritor, mas sim como pastor. E é preciso levar em conta 
que ele escreveu muito antes da invenção da imprensa. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 52 
Suas cartas foram cartas manuscritas, pois a máquina de escrever 
era desconhecida: escritas como originais e sem cópia, para corrigir 
questões locais e temporais que andavam mal. Certamente, Paulo tratava 
situações locais e temporais à luz da verdade eterna, mas suas cartas não 
eram outra coisa senão cartas, e nada há tão temporal, local ou 
passageiro como uma carta. É imprescindível, pois, lembrar que nunca 
Paulo teve a intenção de publicar suas cartas, como o entendemos hoje 
editorialmente. 
 
Trataremos agora de reconstruir como o Novo Testamento chegou a 
ser parte da Sagrada Escritura. Não é algo comprovado, mas se ajusta 
aos fatos conhecidos. Comecemos por precisar que, em sua maior parte, 
as cartas do Apóstolo eram guardadas na igreja recipiente e só ali. Não 
se publicavam como livros, e sim eram enviadas como cartas. 
Como é que foram resgatadas, recuperadas e, finalmente, 
publicadas? 
 
O livro de Atos provavelmente foi pela primeira vez publicado ao 
redor do ano 90. Por estranho que pudesse parecer, se só tivéssemos 
contado com o livro de Atos, jamais nos teríamos informado de que 
Paulo tinha escrito cartas. Nos Atos não se mencionam absolutamente. 
Possivelmente o que aconteceu foi que ao se publicar os Atos dos 
Apóstolos, compreendeu-se de repente quão extraordinário personagem 
tinha sido Paulo. Subitamente Paulo cobrou vida e, então, cada igreja 
que conservava alguma de suas cartas deu-se conta do tesouro que tinha. 
Foi assim como se buscaram, juntaram-se e colecionaram suas cartas, 
para logo as compartilhar, com o que se converteram em posse de toda a 
Igreja, e não simplesmente a correspondência de algumas congregações 
locais. Podemos dar por sentado que o que revelou a grandeza de Paulo 
foi a publicação dos Atos assim como o que iniciou o movimento para 
reunir suas cartas. Para o ano 90 ainda não se consideravam as cartas 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 53 
de Paulo como parte das Escrituras, mas constituíam já um dos tesouros 
mais apreciados da Igreja 
 
Vemos, pois, que as cartas paulinas foram escritas entre os anos 
49 a 62, e que possivelmente se redescobriu toda sua grandeza ao 
publicar o livro de Atos no ano 90. Enquanto isso, o que sucedia com o 
resto do Novo Testamento e, especialmente, com os evangelhos? Em 
geral, as datas para os evangelhos atuais são as seguintes: de 65 a 70, 
para São Marcos; de 80 a 90 para Mateus e Lucas, e o ano 100 para João. 
Como é que demoraram tanto em escrever-se e em constituir-se em 
livros canônicos da Igreja? O que foi o que conduziu, em última 
instância, a que fossem postos por escrito. 
 
I. Em primeiro lugar, o cristianismo primitivo surgiu em meio de 
uma civilização não literária. Veio ao mundo séculos antes de que se 
inventasse a imprensa, quando se desconhecia a produção maciça de 
livros de hoje e, portanto, a pessoa não podia ter nem uma ideia do que 
tudo isto significava. Tal era especialmente o caso do judaísmo. Os 
rabinos se opunham categoricamente a escrever seus ensinos: "Não 
ponha nada por escrito", diziam. A memória do bom aluno e do bom 
mestre "é como uma cisterna bem emplastada que nunca perde uma só 
gota". Também é possível que resistissem a escrever porque parecesse 
que o escrito buscasse competir com a autoridade das Escrituras. 
Portanto, só as Escrituras se mantinham por escrito; qualquer outro 
ensino era transmitido verbalmente. 
 
Mishnah é o que poderíamos considerar como os comentários e 
amplificação das leis do Antigo Testamento. É a aplicação do Antigo 
Testamento a casos particulares, e não se pôs por escrito até o século III 
d.C. Um resumo moderno da Mishnah ocupa algo mais de 800 páginas. 
Os rabinos conservavam tudo isto de cor, pois no mundo antigo a palavra 
escrita não ocupava o lugar que agora tem. Papias, por exemplo, quem 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 54 
foi um dos principais recopiladores de informação na igreja primitiva, 
escreveu: "Não creio que o que provém de livros possa me ser tão 
proveitoso como o que procede da voz viva e permanente”. Jamais 
poderia considerar-se como literária a etapa inicial da Igreja, à maneira 
das etapas que sucederam a invenção da imprensa. Ao menos no Oriente, 
berço do cristianismo, era muito mais natural transmitir todo o 
conhecimento e ensino verbalmente que por escrito. 
 
II. É preciso considerar, além disso, o fato de que o primeiro 
impacto do cristianismo foi entre as classes mais pobres e incultas. 
"Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; – escreve São Paulo aos 
coríntios – "visto que não foram chamados muitos sábios segundo a 
carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento" (1Co. 
1:26). Foi entre os pobres, os marginados e os escravos, onde primeiro 
causou o evangelho maior efeito. 
A princípios do século III um filósofo pagão, chamado Celso, 
acusou o cristianismo de atrair só o pobre, o ignorante e o inculto. Dizia 
Celso que a atitude e convite cristão era: "Ninguém que seja culto se 
aproxime, nem o sábio nem o sensitivo, pois a todos eles os 
consideramos maus; mas se há alguém ignorante, insosso ou inculto, se 
alguém for tolo, aproxime-se de mim sem temor… é só ao torpe, ao 
caipira ao grosseiro e ao escravo, à criança e à mulher a quem quiser, e 
puder persuadir." A comunidade cristã primitiva nem lia livros nem os 
produzia. 
 
III Mais adiante veremos que existiam, então, métodos para 
produzir livros, que prenunciavam a produção em massa. 
Mas que mercado teria havido para as possíveis publicações cristãs? 
 
Os materiais para escrever não eram nada baratos. Escrevia-se 
numa substância proveniente da planta do papiro, que se produzia em 
folhas de 25 x 20 cms. A folha mais barata custava US$ 0.03 dólares e a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 55 
de melhor qualidade era vendida entre US$0.08 e US$0.10 cada uma. Se 
considerarmos que o salário que se pagava então era de US$ 0.06, 
compreenderemos que uma só folha de papiro era mais cara que a média 
do salário mínimo. A esse preço, pouquíssimas pessoas eram as que 
podiam dar-se ao luxo de comprar todo um livro. 
 
Vimos também no Capítulo II que copiar livros não era nada barato. 
Evidentemente o custo das Escrituras ficava fora do alcance da maioria 
dos cristãos, e inclusive das igrejasOs custos de produção bastavam 
para impedir o desenvolvimento de algo equivalente à nossa literatura 
cristã. 
 
IV. Durante a vida dos apóstolos havia pouca demanda de livros. 
Os apóstolos e seus associados imediatos eram livros vivo nos quais 
estava escrita a mensagem cristã. Por ter sido testemunhas presenciais, 
enquanto eles vivessem não haveria necessidade de ter livros. 
 
V. Possivelmente o fator que menos estimulava a produção de 
livros era a crença generalizada de que a Segunda Vinda era iminente. 
Basta ler o capítulo 7 de Primeira de Coríntios, por exemplo, em que 
Paulo desalenta casamentos num mundo que, segundo se cria, 
aproximava-se rapidamente ao seu fim. Visto que a Segunda Vinda 
estava às portas, não havia tempo nem justificação para andar 
escrevendo livros, pois o fim do mundo podia ocorrer de um momento 
para outro. 
Fatores como estes foram os que principalmente retardaram o 
desenvolvimento da literatura cristã. Mas, inevitavelmente, chegou um 
momento em que sua função se tornou algo indispensável. 
 
I. A morte dos apóstolos e das demais testemunhas presenciais pôs 
fim à época em que a mensagem era passada verbalmente. Para o ano 70, 
do grupo apostólico provavelmente só João restou vivo. Havia, pois, que 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 56 
assentar os fatos tal como tinham sucedido. Era dificilmente natural que 
a palavra escrita ocupasse agora o lugar de "a voz viva e permanente". 
Eusébio cita o relato de Irineu de como foram escritos os evangelhos. 
Segundo Irineu, depois da morte de Pedro e Paulo, "Marcos, discípulo e 
intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito aquelas coisas que Pedro 
tinha pregado; e Lucas, auxiliar de Paulo, registrou num livro o 
evangelho que Paulo tinha declarado". O escrito teria que ocupar agora 
o lugar da voz viva. A época das testemunhas presenciais era coisa do 
passado; agora começava a da página escrita. 
 
II. Quando o cristianismo transpôs as fronteiras da Palestina, e 
particularmente ao fazer contato com a cultura e civilização romana, 
penetrou numa sociedade literária, onde o livro era parte da vida. Havia 
em Roma livrarias em cujos pilares se anunciavam os livros mais 
recentes. Estas livrarias também serviam como centros de reunião da 
sociedade culta. Os editores romanos utilizavam mão de obra de 
escravos para produzir seus livros, empregando até cinquenta ou cem 
escravos para tomar ditado simultâneo. Certamente, não faltavam os 
erros, mas este ditado em massa permitia copiar e produzir livros mais 
baratos e com maior rapidez. Por exemplo, o primeiro livro de Marcial 
constava de 119 epigramas em 700 linhas de verso; copiado desta 
maneira era vendido em cinco denários, uns US$ 0.40 dólares. Logo que 
o cristianismo saiu da Palestina para inserir-se no mundo da cultura e da 
literatura, encontrou-se num ambiente afeito aos livros, onde logo o 
relato cristão também teria que ser escrito. 
 
III. O cristianismo foi desde seus inícios uma religião missionária. 
E, tendo a todo um mundo por evangelizar, obviamente os missionários 
não podiam permanecer por muito tempo no mesmo lugar. Portanto, 
precisavam deixar aos novos conversos em cada lugar uma constância 
escrita da mensagem que lhes tinham comunicado. E a tarefa do 
missionário, até o dia de hoje, continua sendo primordialmente a de 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 57 
produzir constância escrita do relato cristão mesmo quando isto implica 
a criação de um novo alfabeto. Uma religião missionária está quase 
obrigada a converter-se em religião literária. 
 
IV. À medida que a Igreja foi crescendo e se desenvolvendo 
também foram chegando pessoas com ideias estranhas e até perigosas. 
Dito de outra maneira, não demoraram para surgir as heresias. Em tal 
situação, era indispensável que a Igreja contasse com um livro "oficial" 
que uniformizasse o relato da vida e ensinos de Jesus. Isto foi provido 
pelo Novo Testamento e especialmente os evangelhos. 
 
V. Já vimos como a suposta iminência da Segunda Vinda retardou a 
aparição da literatura cristã. Mas, ao não efetuar-se tal acontecimento, a 
Igreja começou a certificar-se que se encontrava numa situação mais ou 
menos permanente na qual o escrito tinha uma razão de ser e era 
verdadeira necessidade. 
 
A produção de material escrito transformou-se em necessidade 
natural da Igreja. 
 
Chegados a este ponto na reflexão sobre os evangelhos, surge uma 
pergunta. Já vimos que houve considerável demora na aparição do 
evangelho escrito. Jesus tinha sido morto ao redor do ano 30, e o 
primeiro evangelho escrito não saiu à luz até os anos 65 ou 70 
aproximadamente. De modo que, o que sucedeu durante esses trinta e 
cinco ou quarenta anos em que não havia escritos sobre a vida e ensinos 
de Jesus? Será que durante esse tempo o relato da vida e ensinos de Jesus 
foi perdendo em exatidão e ganhando em exagero? Esta é uma pergunta 
natural, à luz de nosso século; mas no século 1 as coisas eram diferentes. 
 
Para começar, a memória dos antigos era muita mais retentiva que a 
nossa. Devia sê-lo. Poderia afirmar-se que a página impressa, 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 58 
particularmente a do livro barato ou facilmente acessível, tendeu a 
eliminar a memória mnemônica. A pessoa que na antiguidade queria 
reter alguma história ou fatos precisos, não tinha mais remédio que 
memorizá-los, pois os livros eram escassos e caros. Xenofonte conta que 
Nicerato dizia: "Meu pai ansiava ver-me crescer como homem de bem, e 
para este fim me obrigou a memorizar todo Homero de modo que ainda 
hoje sou capaz de repetir, de cor, toda a Ilíada e a Odisseia”. As obras 
citadas contêm 24 livros cada uma com médio de 500 linhas por livro. 
Tal façanha retentiva era algo que os jovens gregos cultos realizavam 
como parte de sua educação. Se na atualidade quisermos desfrutar de 
alguma passagem ou nos referir a ela, buscamo-la num livro; antes, 
quando havia poucos livros ou não existiam, tudo se armazenava na 
memória. Numa época em que a memória era prodigiosa, não havia 
perigo de que os conhecimentos se esquecessem ou se distorcessem. 
 
Mas simultaneamente operava um processo, corolário inevitável de 
toda memória retentiva: o que se memoriza tende a estereotipar-se. O 
mesmo relato tende a repetir-se de maneira idêntica, o que se observa no 
modo que têm as crianças de apreciar os contos. Quando a criança gosta 
de um conto, sempre é preciso repetir-se o conto da mesma maneira, pois 
não aceita desvios no relato que conhece e ama. 
 
Da mesma maneira, os evangelhos foram adquirindo certas formas 
estereotipadas. O que em tempos recentes originou um método de 
estudar os evangelhos que se denominou Crítica das Formas Literárias. 
Seu objetivo é descobrir em que forma circulou a tradição cristã antes 
que se escrevessem os evangelhos. Os eruditos chegaram a identificar 
cinco formas diferentes em que os relatos evangélicos refletem 
estereótipo. 
 
I. Em primeiro lugar encontramos os chamados paradigmas, 
aforismos ou histórias declarativas. Trata-se de fragmentos da tradição, 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 59 
cuja razão de ser é a de preservar alguma declaração de Jesus. Aqui a 
história é secundária, os detalhes são escassos e tudo o que importa é o 
que Jesus disse. Vejamos dois exemplos. O relato em Marcos 2:23-28 
existe somente para emoldurar a expressão de Jesus: "O sábado foi 
estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado". 
O relato em Mateus 9:10-13 existe para preservar o aforismo de Jesus: 
"Não vim a chamar justos, mas sim pecadores". Tais relatos não existem 
pelo próprio relato, mas pelo paradigma ou expressão central que 
contêm. A expressão vem a ser uma joia engastada no relato. 
 
II. Há relatos chamados contos curtos (do alemão Novellen) que 
falam de alguma cura efetuada por Jesus. Todos eles seguem o mesmo 
formato. Começam com uma declaração a respeito da doença, seguem 
com o relato da cura, e terminam referindo-seàs consequências da cura. 
Um exemplo simples é o relato da cura da sogra de Pedro (Mc 1:29-31): 
(l) Identifica-se o mal: "A sogra de Simão achava-se acamada, com 
febre"; (2) relata-se a cura: "Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e 
a febre a deixou"; (3) consequência ou resultado: "passando ela a servi-
los". 
 
Quase todos os relatos dos milagres de Jesus mostram esta ordem. 
Assim foi como o estilo da narração ficou estereotipado antes de que 
fosse escrito. 
 
III. Encontram-se tais epigramáticos e memoráveis de Jesus que 
carecem de contexto. Todas as histórias declarativas surgem de algum 
incidente: as declarações são sentenças ou frases soltas de Jesus. Quase a 
totalidade do Sermão da montanha está formado de tais declarações. 
 
IV. Chegamos a duas palavras que aplicamos em sentido técnico. A 
primeira delas é lenda que, neste sentido, não põe em tela de juízo a 
historicidade do evento a que se refere. A lenda é um relato que se refere 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 60 
a algum personagem ou lugar que se considere santo ou destacado, e que 
se conta com propósitos morais ou religiosos. Neste sentido, 
tecnicamente os relatos sobre o nascimento e infância de Jesus se 
classificam como lendas. 
 
V. A segunda palavra que aplicamos em sentido técnico é a de 
mitos. Lembremos mais uma vez que o termo técnico mito não ajuíza a 
veracidade do relato. Os gregos usaram a palavra mythos para referir-se a 
qualquer relato sobre temas celestiais ou eternos, narrado em termos de 
objetos terrenos ou temporais. Neste sentido, os relatos sobre a tentação 
e a transfiguração (Mt. 41-11; 17:2-8) classificam-se tecnicamente como 
mitos porque falam de figuras celestiais e eternas em circunstâncias de 
espaço e tempo. 
 
Clichês como estes foram os que rapidamente se adotaram para os 
relatos evangélicos no período que vai da vida de Jesus, aqui na terra, ao 
momento em que os evangelhos como hoje os conhecemos, foram 
escritos. E algo que não devemos passar por alto é que estes relatos se 
repetiram, vez após vez, na pregação e instrução dos recém-chegados à 
comunidade cristã. Isto é importante, porque tais relatos jamais foram 
propriedade particular, por assim dizer, mas de domínio público. Se a 
forma do relato sofria alguma variação, imediatamente a assembleia 
queria conhecer a causa. Os relatos repetiam-se uma e muitas vezes, e 
sua exatidão era vigiada tanto pela memória do relator como pela 
memória da Igreja. Assim como os relatos não provinham de um só 
indivíduo, tampouco dependiam da memória de uma só pessoa. No 
princípio foram possessão da comunidade: continuamente se pregavam e 
ensinavam, e continuamente o povo os escutava. Quando os relatos 
evangélicos se repetem constantemente a indivíduos e a grupos se reduz 
grandemente a possibilidade de que sejam distorcidos ou falsificados. A 
veracidade dos evangelhos não é garantida por um só indivíduo, mas 
pelo testemunho unânime da Igreja. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 61 
Todo isso nos coloca diante de um fato ainda mais importante com 
relação aos evangelhos. Primariamente não se trata de documentos 
fundamentalmente históricos, pois não eram vistos como meras 
biografias de Jesus. De fato, constituíram o material para a pregação da 
igreja primitiva. Quanto ao propósito de seu evangelho, João nos diz: 
"Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o 
Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20:31). 
Não se trata de redigir a vida de Jesus, pois não achamos nos evangelhos 
muitas características biográficas. Por exemplo, em nenhum evangelho 
se descreve a aparência física de Jesus, e mesmo com todos os 
evangelhos não é possível traçar cronologicamente sua vida neste 
mundo. 
 
Diz-se que há duas maneiras de escrever uma história. Uma, é 
seguir os acontecimentos cronologicamente, dia a dia, hora após hora, 
evento após evento, em ordem estrita, tratando de abranger tudo sem 
omitir detalhe. Outra maneira consiste em selecionar incidentes e 
episódios que sirvam como janelas para aparecer à mente e ao coração 
do personagem descrito. Este último método é o que usaram os redatores 
dos evangelhos. Não pretendem seguir a Jesus passo a passo e dia após 
dia. Escolhem entre o que disse e fez, para nos abrir escotilhas que nos 
permitam aparecer em sua mente e coração. A diferença entre ambos 
métodos é a que há entre uma foto e um retrato. A fotografia mostra uma 
reprodução detalhada da pessoa; no retrato, o artista capta e faz ressaltar 
algumas de suas características dominantes. A foto reproduz exatamente 
o aspecto externo; a pintura trata de revelar o caráter íntimo, assim como 
a mente e o coração 
 
Os evangelhos, pois, não são biografias nem fotografias, mas sim 
intentos para revelar a mente, o coração e o caráter de Jesus. E isto não 
como algo interessante ou como simples contribuição histórica, senão 
para que o leitor possa captar a mente de Deus em Jesus Cristo. Os 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 62 
evangelhos não são meras descrições de Jesus, mas sim convites para 
crer nEle como o Filho de Deus. 
 
Até aqui mencionamos os evangelhos e qual é o seu objetivo, e as 
cartas de Paulo. No Novo Testamento temos também as cartas de Tiago 
e Pedro, Judas e João. 
 
Entre os evangelhos e as cartas está o livro de Atos. Poderia dizer-
se que este é o livro mais importante do Novo Testamento, pois sem ele 
desconheceríamos a história da igreja primitiva, exceto o que 
poderíamos adivinhar ou deduzir das cartas. Até se três dos evangelhos 
se perdessem, contudo, ficaria um que nos daria algum esboço de Jesus. 
Mas sem Atos toda a história inicial da Igreja se veria envolta em densas 
trevas. 
 
De passagem, é inapropriado chamar este livro de "Os Atos dos 
Apóstolos". Os únicos apóstolos que se mencionam são Tiago, cuja 
morte é mencionada numa só frase (12:2); Pedro, João (que sempre anda 
com Pedro e nunca fala), e Paulo. Seria melhor chamá-lo "Livro de 
Homens Apostólicos". No manuscrito grego não aparelhe o artigo "os" 
nem antes de "Atos" nem antes de "Apóstolos". O livro não pretende ser 
um relato completo. O que faz é abrir-nos uma série de janelas através 
das quais possamos contemplar eventos significativos na história da 
igreja primitiva 
 
Atos nos diz três coisas: Em primeiro lugar, como se estendeu a 
Igreja e, acatando as ordens de Jesus, como sua mensagem partiu de 
Jerusalém a toda a Judeia, a Samaria, e até os confins do mundo (At 1:8). 
 
Em segundo lugar, diz-nos como este assombroso movimento se 
iniciou com apenas cento e vinte pessoas (At 1:15), e como tudo isso foi 
obra do Espírito Santo (At 1:8). O primeiro grande relato nos fala da 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 63 
vinda do Espírito Santo no Pentecostes (At 2). Daí em diante, o Espírito 
Santo é Aquele que vai ditando cada avanço da igreja cristã. Foi o 
Espírito quem aconselhou a Filipe que me aproximasse do etíope (At 
8:29); quem indicou a Pedro que recebesse a comissão da parte de 
Cornélio (At 10:19); quem auspiciou a saída de Paulo e Barnabé, de 
Antioquia rumo à primeira viagem missionária (At 13:2); quem guiou a 
Igreja para que aceitasse em seu seio os gentios (At 15:28); e quem 
guiou os passos de Paulo desde a Ásia Menor até a Europa (At 16:7). Na 
realidade, Atos é o livro dos Atos do Espírito Santo. 
 
Em terceiro lugar, Atos nos diz qual foi a mensagem da igreja 
primitiva. Aqui temos um resumo dos discursos de Pedro (At 2:14-36; 
3:12-26, 4:8-12,4:24-30); de Estêvão (At 7:2-53), e de Paulo (At 13:16-
41,14:15-17,17:22-30). Embora não se trata de reproduções taquigráficas, 
não há razão para duvidar que nos dão a substância dos sermões aos 
primeiros cristãos. Por eles nos inteiramos da essência da mensagem 
cristã: 
 
I. Raiou uma nova era mediante a vida, morte e ressurreição de 
Jesus Cristo. 
 
II. A vida inteira de Jesus, mas particularmente a Sua morte e 
ressurreição, são o cumprimento daprofecia. 
 
III. Cristo voltará para julgar os vivos e os mortos. 
 
IV. Portanto, é preciso arrepender-se e receber o perdão e o dom do 
Espírito Santo. 
 
V. Quem não se arrepende, colherá as consequências de sua 
rejeição. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 64 
Nestes discursos há algo de suma importância para nós. Os 
primeiros pregadores nunca deixavam de mencionar a Ressurreição. 
Alguém disse: a Ressurreição "foi a estrela no firmamento do 
cristianismo primitivo". E surpreendentemente, em tais sermões não se 
estabelece relação alguma entre a morte de Jesus e o perdão dos pecados 
À igreja primitiva estava totalmente embargada com a fé proveniente da 
Ressurreição e da experiência no Espírito. W. O. Davies o explica, 
dizendo que ainda não adquiria plena consciência da cruz, ou seja, o 
"fato crucial" (o fato decisivo) da cruz, como o chamou P. T. Forsyth. A 
interpretação da cruz chegaria à Igreja através da mente e do coração 
prodigiosos de Paulo. 
 
No Novo Testamento há um livro – nem evangelho nem carta – que 
é também um dos livros mais desconcertantes. Nós o conhecemos como 
Apocalipse, ou Revelação. Embora nos seja tão estranho, e no Novo 
Testamento é único em seu gênero, entretanto, era um tipo de livro muito 
comum na época em que se escreveram os livros do Novo Testamento. 
 
Os judeus dividiam o tempo em duas eras: a era presente tão má 
que não pode ser reformada, e que está destinada à destruição; em 
contraste, estava a era vindoura, a era dourada – segundo se cria – 
quando tudo será como Deus quis que fosse; quando os bons entrarão em 
sua alegria, e os maus serão destruídos. Mas surge a pergunta: 
Como haveria uma era para se transformar na outra? Como se 
transformaria o mal desta era na glória da era por vir? Nos dias do Novo 
Testamento os judeus estavam já convencidos de que a mudança jamais 
seriam realizadas por meios humanos nem através de um processo de 
reforma. Só poderá efetuar-se com a total destruição desta era e o 
nascimento da nova que seria a Era de Deus. Como, então, teria lugar a 
mudança? Pois a mudança teria lugar no dia do Senhor, quando o mundo 
atual e tudo que nele há seria desintegrado e seria destruído, e haveria 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 65 
um juízo final, e quando do caos surgiria um novo mundo, que virá a ser 
o mundo de Deus, criado de novo para o povo de Deus. 
 
Isto deu lugar a toda uma série de livros, cada um sob o título de 
Apocalipse. Esta palavra significa tirar o véu, revelar. Seu propósito era 
descrever os eventos terríveis dos últimos dias e o terror do juízo, assim 
como a idade de ouro que estava por chegar. Naturalmente que estes 
livros eram inteligíveis só para os iniciados que conheciam a "chave", 
visto que descreviam coisas nunca antes vistas nem ouvidas e nem 
sequer imaginadas. Muitos destes livros sobreviveram porque quanto 
mais escura era a história dos judeus, e mais dura sua sorte, e mais 
opressiva sua escravidão e subjugação, com maior ardor sonhavam com 
a chegada do dia em que Deus invadiria a história, e se efetuaria a 
dramática mudança e se iniciaria a nova era. 
 
A maioria destes "apocalipse" são livros judaicos, mas o nosso é um 
espécime de literatura apocalíptica cristã, razão pela qual é para nós o 
livro mais difícil de entender do Novo Testamento. Lembremos, 
entretanto, que apesar de nos ser tão estranho, este era um gênero 
literário bastante comum em tempos neotestamentários. 
 
Em seu formato atual, pois, o Novo Testamento compõe-se dos 
quatro evangelhos, Atos, cartas de Paulo, Tiago, Pedro, João, Judas e 
outros, e o Apocalipse. A maioria dos eruditos concorda que foram 
necessários uns setenta anos para que fosse escrito. Possivelmente o 
primeiro livro que se escreveu tenha sido a carta aos Gálatas, pelo ano 
49, e possivelmente a segunda carta de Pedro tenha sido a última, ao 
redor do ano 120. Já vimos que, depois de escrito, o Novo Testamento 
não assumiu sua forma atual até o ano 367. 
 
Agora observaremos alguns marcos proeminentes no caminho rumo 
à integração do Novo Testamento. Os grandes passos rumo à definição 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 66 
do conteúdo do Novo Testamento deram-se como consequência dos 
erros que alguns hereges trataram de introduzir na Igreja. 
 
O primeiro destes foi Marcião, opulento armador do Sinope, no Mar 
Negro, quem se estabeleceu em Roma pelo ano 140. Marcião era 
gnóstico, termo que deriva de uma palavra grega que significa 
"conhecimento". Os gnósticos eram dos mais perigosos hereges que a 
Igreja confrontou. Propunham-se explicar a existência do bem e do mal. 
Sua tese básica era que dos tempos mais remotos tinham existido dois 
elementos: a matéria e o espírito; a matéria e Deus. Os gnósticos criam 
que a matéria não tinha sido criada, mas sim era uma substância original 
que sempre tinha existido e que tinha servido de baseie para a formação 
do mundo. Esta matéria era essencialmente má, e o Espírito era 
essencialmente bom. 
Isto significava que, desde o princípio, o mundo tinha sido feito de 
um material defeituoso. Isso explicava a angústia, o pecado, o sofrimento 
e a dor. O material do mundo era mau. Isto significava que o Deus 
verdadeiro, que é espírito e todo bom, não podia ter tocado 
absolutamente a matéria e, portanto, não era responsável pela criação. 
Segundo os gnósticos, o que sucedeu é que Deus foi colocando uma série 
de emanações, ou éons, cada uma delas cada vez mais distante de Deus. 
À medida que se afastavam, cada emanação ia ficando mais ignorante de 
Deus, e no final da escala havia uma emanação, não só ignorante, mas 
também oposta totalmente a Deus. Precisamente esta emanação remota, 
ignorante de Deus e hostil tinha criado o mundo. Daí a crença gnóstica 
de que todas as coisas criadas, incluindo o corpo, eram essencialmente 
más. Toda matéria era má e só o espírito era bom. 
 
Mas os gnósticos foram ainda mais além. Sustentavam que o 
criador, a emanação remota, ignorante e hostil era o Deus do Antigo 
Testamento, e que o Deus verdadeiro, o Deus do Espírito, é o Deus do 
Novo Testamento. A consequência lógica foi que os gnósticos rejeitaram 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 67 
completa e totalmente o Antigo Testamento, por ser o livro do Deus 
remoto, ignorante e hostil. 
 
Além disso, isso implicava expurgar o Novo Testamento de todas 
as suas referências ao Antigo Testamento. Assim que de todos os livros 
cristãos, Marcião conservou só uma versão censurada de Lucas. Mas 
como, ao mesmo tempo, para Marcião São Paulo era um herói, 
conservou as cartas paulinas como seus livros mais sagrados. Marcião 
tinha interpretado mal o ataque de Paulo à Lei, como um ataque contra o 
Antigo Testamento. Assim como o Antigo Testamento constava da Lei, 
dos Profetas e dos Escritos, o livro "cristão" de Marcião consistia do 
livro (expurgado) de Lucas e dos escritos do apóstolo Paulo. A Igreja 
viu-se na necessidade de apresentar uma resposta. 
O ataque marcionita colocou a Igreja diante de duas obrigações. 
Primeira, definir sua atitude perante o Antigo Testamento (o qual 
Marcião descartava em sua totalidade) e, segunda, definir quais eram os 
livros do Novo Testamento. A Igreja não só não rejeitou, mas também 
confirmou, sua fé no Antigo Testamento. Existem também indícios de 
que se deu à tarefa de definir o cânon do Novo Testamento. 
 
Há uma lista de livros do Novo Testamento formulada ao redor do 
ano 170, conhecida como o Cânon Muratoriano por seu descobridor. O 
princípio encontra-se ligeiramente mutilado, mas é fácil de ver qual era 
seu conteúdo: os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), 
Atos dos Apóstolos, as cartas de Paulo na ordem peculiar de: Coríntios, 
Efésios, Filipenses, Colossenses, Gálatas, Tessalonicenses e Romanos 
aos quais acrescenta as epístolas pastorais a Timóteo, a Tito e a carta a 
Filemom. Inclui também a carta de Judas e a primeira e segunda cartas 
de João e o Apocalipse. Conta ademais com a sabedoriade Salomão e, 
não sem vacilação, com um segundo Apocalipse, o de Pedro. Uma das 
surpresas é que omite a Primeira Carta de Pedro. Outros livros omitidos: 
Tiago, Segunda de Pedro, Terceira de João e Hebreus, que foram 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 68 
também os que mais demoraram em tomar seu lugar no cânon do Novo 
Testamento de maneira firme e inquestionável. Isso nos permite 
apreciar que, pelo fim do século II, o Novo Testamento já estava a 
caminho de adotar sua forma definitiva. 
 
Deixaremos de momento a história da forma que finalmente tomou 
o Novo Testamento, para nos referir a outra pergunta: Como terminou o 
processo de redação do Novo Testamento? Por que e quando chegou a 
igreja cristã à conclusão de que não se escrevessem mais livros para o 
Novo Testamento? Ou, mais precisamente:Quando e por que decidiu a 
Igreja que a lista de livros sagrados estava já completa e que não se 
deviam acrescentar mais? 
Isto também sucedeu por influência de um herege. Para o fim do 
século II apareceu em cena um homem chamado Montano, convencido 
de que os princípios originais da Igreja tinham baixado de nível. 
Registrou que Jesus tinha anunciado que o Espírito deveria renovar em 
verdade e poder a Igreja. O quarto evangelho estabelecia que Jesus havia 
dito: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar 
agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a 
verdade; ... porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar" 
(Jo. 16:12-14). Jesus tinha prometido que viria o Espírito Santo, o 
Paracleto, o qual desenvolveria e completaria Sua mensagem, por assim 
dizer. O caso é que Montano apareceu declarando que ele era o Paracleto 
prometido, e que se propunha dar aos homens a nova revelação 
prometida por Jesus. 
 
Certamente isso foi um problema para a Igreja que resolveu 
opinando que a revelação de Deus já tinha sido dada e completada, e que 
a revelação em seu sentido mais amplo tinha terminado. Declarou a 
Igreja que já tinham sido escritos todos os livros sagrados que deviam 
escrever-se, e que as Escrituras Sagradas encontravam-se completas 
Como dissesse Tertuliano, não sem amargura, quem posteriormente se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 69 
converteu ao montanismo, que o Espírito Santo tinha sido esquecido 
dentro de um livro. De qualquer maneira, declarou-se enclausurado o 
cânon do Novo Testamento. A Igreja opinou que seria certo de nunca 
acabar se em cada oportunidade alguém ia apresentar-se trazendo uma 
nova revelação. Deveria estabelecer-se uma data para a revelação total, 
que julgaria a todas as demais revelações. Decidiu-se, pois, que tinha 
chegado o tempo de já não escrever mais revelações. Isto não significava 
que já não se cresse no poder revelador do Espírito Santo. A diferença 
estava em que, durante os primeiros tempos, o Espírito Santo tinha 
capacitado os homens para que escrevessem os livros sagrados da 
religião cristã; e, nos últimos dias, o Espírito Santo os tinha capacitado a 
entender, interpretar e aplicar o que tinha sido escrito. 
 
Que requisitos tinha que preencher um livro para ingressar na lista 
suprema de livros sagrados da Igreja? O dilema era se um livro era 
apostólico ou não (escrito por um apóstolo ou alguém do grupo). Pelo 
que tocava aos evangelhos, Mateus e João foram escritos por apóstolos; 
Marcos e Lucas preencheram os requisitos, pois considerava-se que 
Marcos era discípulo e intérprete de Pedro, embora Lucas fosse 
considerado como aquele que tinha posto por escrito o evangelho 
pregado por Paulo. Pela mesma razão terminou por adjudicar-se a Paulo 
a carta aos Hebreus. Era bem sabido que Paulo não tinha sido 
precisamente seu autor. Como Orígenes o expressou em frase 
memorável: "Quem escreveu a carta aos Hebreus, só Deus sabe". Paulo 
se destacou por suas cartas. A carta aos Hebreus era tão valiosa que a 
Igreja tinha que conservá-la como um de seus livros sagrados. Assim que 
para lhe dar a posição requerida foi acrescentada às cartas de Paulo. 
 
Existia uma boa razão para fazer da autoridade apostólica a pauta de 
aceitação de qualquer livro como sagrado e normativo para a Igreja. O 
cristianismo é uma religião histórica, pois toma sua origem e poder de 
uma pessoa histórica, Jesus de Nazaré. Assim que, tudo o que se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 70 
precisava era estabelecer uma cadeia ininterrupta de evidências que 
conduzisse até Ele. O mundo estava cheio de histórias de deuses que 
morriam e ressuscitavam. A única maneira de garantir que o evangelho 
não era um relato de tantos, era relacioná-lo com uma testemunha 
presencial capaz de dizer: "Sei que isto é verdade porque o vi com meus 
próprios olhos". 
 
A insistência na autoridade apostólica teve uma consequência 
interessante. Em termos gerais, parece estranho que a Igreja tenha 
conservado quatro diferentes evangelhos, pois isto pode dar lugar a 
situações incômodas. Por exemplo, o quarto evangelho consigna o 
incidente da purificação do Templo no começo do ministério de Jesus, 
conquanto os outros três o têm no final. O fato de que haja quatro 
evangelhos com frequência gera problemas de harmonização. Por volta 
do ano 180, alguém chamado Taciano fez um experimento para 
harmonizar os evangelhos no Diatessaron, que literalmente significa 
"Através dos quatro". Arranjou para incluir quase tudo usando tesouras 
e cola. Um fragmento do Diatessaron diz assim: 
 
Era o dia da preparação; e amanhecia para o sábado (Lc. 23:54); e 
ao chegar a noite na preparação, ou seja no dia anterior ao sábado 
(Mt.27:57; Mr.15:42) chegou um homem que era membro do concílio 
(Mt 27:57; Lc. 23:50), e era de Arimateia, uma cidade da Judeia, cujo 
nome era José (Mt. 27: 57; Lc. 23:50), bom e justo, que era discípulo de 
Jesus, só que secretamente por temor aos judeus (Mt. 27:57; Lc. 23:50; 
Jo. 19:38). E esperava o reino de Deus (Lc. 23:5I). Este homem não 
tinha consentido com o propósito deles (Lc. 23:51). 
 
Certo, o Diatessaron de Taciano não foi redigido muito 
artisticamente, mas era de esperar-se que os quatro evangelhos ficassem 
entrelaçados numa só narração. Isso foi impedido pela esmagadora 
importância do testemunho apostólico. Os evangelhos foram escritos por 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 71 
apóstolos ou homens apostólicos e, portanto, era de maior importância 
conservá-los tal como estavam que tratar de harmonizá-los. Tanto que 
Irineu chegou a escrever sobre a existência de quatro evangelhos: "Tal 
como o mundo em que vivemos tem quatro esquinas e há quatro ventos 
universais, e como a Igreja está esparramada por toda a terra, e como o 
evangelho é pilar e base da Igreja e o fôlego de vida, era de se esperar 
que tivesse quatro pilares que respirem imortalidade por cada lado e 
reavivem a vida dos homens. É, pois, evidente que o Verbo, arquiteto de 
todas as coisas, quem está entronizado sobre os querubins e mantém 
juntas todas as coisas, tendo sido manifestado aos homens, deu-nos o 
evangelho em forma quádrupla, mas mantendo-o unido por um Espírito". 
Assim foi como afinal se sustentou que era tão natural que houvesse 
quatro evangelhos como há quatro pontos cardeais. 
 
Foi assim como os evangelhos e as cartas assumiram seu lugar 
como livros da Igreja; e o confirmaram quando se começaram a ler no 
culto público da Igreja. Com o correr do tempo, ficaram estabelecidos 
definitivamente ao fazer parte de cada culto de adoração. 
 
Completaremos nosso relato acrescentando outra observação. 
Houve um período em que a posição de alguns livros não era muito 
segura. Dois grandes eruditos da igreja primitiva empreenderam 
investigações sobre o conteúdo das Escrituras cristãs. 
 
O primeiro deles foi Orígenes, que viveu de 182 a 251. Em seu 
tempo já ocupavam lugar indiscutível os quatro evangelhos, as cartas de 
Paulo, incluindo Hebreus, Primeira de Pedro e de João assim como o 
Apocalipse. Orígenes chegou a supor que Pedro tinha deixado outra 
carta, mas o dissecomo algo de natureza duvidosa. Conhecia a Segunda 
e Terceira cartas de João, mas, segundo Orígenes, nem todos as 
consideravam genuínas. E jamais menciona a Tiago nem a Judas. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 72 
O segundo erudito foi Eusébio da Cesareia, o grande historiador 
eclesiástico que viveu de 270 a 330. Eusébio agrupou em três classes os 
livros da Igreja: os aceitos universalmente, os que estavam em disputa e 
os espúrios. Universalmente aceitos eram os quatro evangelhos e os 
Atos, as cartas de Paulo, incluindo Hebreus, 1 de João e 1 de Pedro. O 
Apocalipse estava entre os aceitos e os disputados. Os livros em disputa 
eram Tiago, Judas, 2 de Pedro, e 2 e 3 de João. Acrescentava que 2 de 
Pedro carecia de aceitação geral, mas como a tantos tinha sido de 
proveito, possivelmente fosse Escritura Sagrada. Acrescentou que para 
muitos a carta de Tiago era espúria, e que são poucos os escritores 
primitivos que a mencionam. A lista de Eusébio era praticamente 
idêntica à lista de Orígenes. 
 
Chegamos à última etapa quando encontramos, pela primeira vez, 
os livros do Novo Testamento listados como os conhecemos hoje. Trata-
se da carta de Atanásio, já mencionada, emitida no Domingo de 
Ressurreição de 367. Como marca toda uma época, vamos citar a 
passagem-chave dessa carta: 
Não deve haver vacilação alguma em voltar a citar os livros do Novo 
Testamento, pois eles são: quatro evangelhos, segundo Mateus, 
segundo Marcos, segundo Lucas e segundo João. Estão, além disso, os 
Atos dos Apóstolos e as chamadas sete epístolas universais dos 
apóstolos, como segue: uma de Tiago e duas de Pedro, logo três de 
João seguidas por uma de Judas. Além do anterior, há quatorze 
epístolas do Apóstolo Paulo, postas na seguinte ordem: a primeira é 
aos Romanos, logo duas aos Coríntios e depois destas as epístolas aos 
Gálatas e logo aos Efésios. Além disso as epístolas aos Filipenses e 
aos Colossenses, e duas aos Tessalonicenses e a epístola aos Hebreus. 
E em seguida duas cartas a Timóteo e uma a Tito, e a última a 
Filemom. Além disso, também o Apocalipse de João. 
 
Aqui temos pela primeira vez o Novo Testamento tal como agora o 
conhecemos. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 73 
Assim que para o ano de 367 já se completou o Novo Testamento e 
o cânon estava fechado. Nunca mais teria que ser mudado. Entretanto, 
vale a pena ver o que Lutero tem a dizer sobre este tema. Atualmente as 
atitudes dos reformadores nos parecem incrivelmente livres e radicais. 
Assumiam liberdade absoluta com relação ao lugar que outorgavam a 
certos livros. Lutero tinha sozinho uma pedra de toque, que expressou 
com sua habitual e vívida violência: 
"Aquilo que não ensina a Cristo, não é apostólico", embora Pedro 
ou Paulo o tenham dito. E, ao contrário, aquilo que prega a Cristo é 
apostólico embora nos venha de Judas, Anás, Herodes ou Pilatos. 
 
Lutero colocava em lugar supremo certos livros e a outros em 
lugar secundário. O Novo Testamento conta de vinte e sete livros. Na 
página titular de sua própria tradução do Novo Testamento, Lutero 
imprimiu e numerou 23 deles; logo, no final e num pequeno grupo à 
parte, sangrados mas sem numeração alguma colocou a Tiago, Hebreus, 
Judas e Apocalipse. Segundo ele, Tiago era "uma epístola de palha 
porque nada se encontra ali da natureza do evangelho". Ensina a 
justificação pelas obras, em contraposição a Paulo, e nada tem a dizer 
sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus, nem sobre o Espírito Santo. 
Em três porções de Hebreus, nos capítulos 6,10,12 diz-se que não pode 
haver arrependimento depois do batismo o qual, para Lutero, está em 
flagrante contradição com os ensinamentos dos evangelhos e de Paulo. 
Judas não lhe parece mais que um extrato de 2 de Pedro; de fato está 
incluída principalmente em 2 de Pedro. Quanto a Apocalipse, Lutero 
opina: "Considero que não é nem apostólico nem profético... meu 
espírito não pode aceitá-lo". E acrescenta: "Ele me guiou pelos livros que 
apresentam a Cristo puro e claro... Afinal de contas, nele, Cristo não é 
nem ensinado nem reconhecido”. 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 74 
Os princípios de Lutero estavam completamente claros. Em seu 
Prefácio ao Novo Testamento, escreve algo que temos que copiar 
integralmente: 
 
O Evangelho de João e as epístolas de Paulo, especialmente a de 
Romanos, e a primeira epístola de Pedro são verdadeiramente o miolo 
e a medula de todos os livros... Neles não encontra a descrição de 
muitos milagres de Cristo, e sim, descrito magistralmente, acha como 
a fé em Cristo vence o pecado, a morte e o inferno, e nos comunica 
vida, justiça e salvação. Esta é a verdadeira natureza do Evangelho... 
Se tivesse que prescindir das obras de Cristo, ou de Sua pregação, 
prescindiria de Suas obras antes que de Seus ensinos, pois as obras 
não me ajudam, mas Suas palavras dão vida, como Ele mesmo o diz... 
Agora. João tem pouco a dizer sobre as obras de Cristo, mas muito 
sobre Sua pregação. Portanto, o Evangelho de João é o evangelho 
único, tenro, genuíno e principal, muito acima e a grande distância dos 
outros três quanto se refere à preferência. Da mesma maneira, as 
epístolas de Paulo e Pedro ultrapassam em muito aos outros três 
evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas. Numa palavra, o evangelho de 
João e sua primeira epístola, as epístolas de São Paulo, especialmente 
Romanos, Gálatas e Efésios, e a primeira epístola de Pedro são os 
livros que mostram a Cristo e nos ensinam tudo o que é necessário e 
bom crer, embora jamais visse nem ouvisse nenhum outro livro ou 
doutrina. 
 
Lutero não vacila em traçar distinções entre os livros do Novo 
Testamento. Deixa também claramente estabelecido que sua preferência 
é de caráter pessoal. No final de sua Introdução a Tiago, Lutero escreve: 
"Portanto não posso pô-lo entre os livros principais, embora nem por isso 
impedirei que alguém o faça e o ponha onde melhor lhe pareça e estime, 
pois nele há muito de bom". 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 75 
Para Lutero, todos os livros do Novo Testamento são santos, mas 
dentro do Novo Testamento demarca uma espécie de Lugar Santíssimo, 
de livros onde se pode achar a Cristo sobre todas as coisas. 
 
Esta é, pois, a história de como nosso Novo Testamento chegou 
a ser o que é. E, embora para Lutero e outros muitos eruditos, há entre 
eles livros mais amados e preciosos que outros, durante os últimos mil e 
seiscentos anos não lhe foi subtraído ou agregado nenhum outro livro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 76 
CAPÍTULO IV 
OS APÓCRIFOS 
 
Estudamos o desenvolvimento do Antigo Testamento e do Novo. 
Mas falta ver outro grupo de livros que constituem o que hoje se conhece 
como Livros Apócrifos. Frequentemente são publicados junto com o 
Antigo e o Novo Testamento. Não podemos dizer que sejam 
universalmente reconhecidos como parte da Bíblia, tal como o são os 
dois testamentos. Mas tampouco podemos passá-los por alto, pois para a 
Igreja Católica Romana são parte integral da Bíblia e para a Igreja 
Anglicana são, pelo menos, considerados como livros sagrados e 
proveitosos pois formam boa parte do lecionário eclesiástico. 
 
Comecemos por examinar o significado da palavra "apócrifos", 
plural que provém da palavra grega apokryphon, que se aplica às coisas 
que é preciso conservar secretas e escondidas. A palavra aplica-se a três 
tipos diferentes de livros, ou informação. 
 
I. Aplicava-se a livros extremamente difíceis, muito santos ou 
muito sagrados para o uso comum. Como já vimos, II Esdras (IV de 
Esdras) 14:19-48 relata como Esdras restaurou os livros sagrados que 
tinham sido queimados e destruídos durante o exílio. O relato é 
legendário, mas revela o lugar que ocupava Esdras na mentalidade 
popular e, além disso, arroja luz sobre o significado original da palavra 
apokryphon. 
Esdras teve a seu cargo o reescrever a Lei que se perdeu. Foi-lhe 
ordenado que tomasse cincoescribas capazes de tomar ditado 
rapidamente. Saíram a campo aberto onde Esdras recebeu um cálice 
"cheio de algo semelhante à água mas de cor de fogo". Esdras o bebeu e 
começou a ditar. E assim o fez por quarenta dias durante os quais se 
ditaram e escreveram noventa e quatro livros. Então o Altíssimo disse a 
Esdras: "Dá a conhecer os primeiros vinte e quatro livros e permite que 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 77 
os leiam tanto os dignos como os indignos. Mas conserva os setenta 
livros escritos por último para os dar aos sábios dentre seu povo, pois 
neles está o impulso do entendimento, a fonte da sabedoria e o rio do 
conhecimento". Segundo isto, os vinte e quatro livros são o Antigo 
Testamento. Não nos é dito o que eram os outros livros, mas o caso 
ilustra o fato de que por então se costumava manter em segredo alguns 
livros, os quais se escondiam do povo. O significado primário da palavra 
Apócrifos é secretos, ou seja, muito sagrados e elevados para o uso 
comum. 
II. Mas atualmente a palavra Apócrifos tem um significado 
totalmente oposto. Quando nos referimos hoje a uma história apócrifa, 
queremos dizer que é fictícia. Um relato apócrifo é o contrário de uma 
narração verídica. Aplica-se a lendas que se tecem em torno de 
personagens distinguidos. Neste sentido, a palavra Apócrifos descreve 
algo antes negativo que positivo. 
III. Mas quando os livros que agora nos ocupam são qualificados de 
Apócrifos significa que não são para a leitura pública nem para o culto 
público, embora nada impede que sejam lidos na intimidade do lar para a 
instrução e o proveito pessoais. Esta é a acepção mais generalizada entre 
os protestantes de hoje em dia. A Igreja Católica se abstém totalmente de 
qualificá-los como Apócrifos, pois os considera total e verdadeiramente 
Escritura Sagrada. Mas a generalidade das igrejas protestantes os 
aceitam com a denotação de livros de valor secundário, 
reconhecidamente úteis, mas nunca ao para dos livros que sem discussão 
são Escritura Sagrada. 
Vejamos, pois, em primeiro lugar, o que livros se consideram 
Apócrifos. 
Trata-se de quatorze ou quinze livros: 
1 Esdras 
2 Esdras (também conhecido como IV de Esdras) 
Tobias 
Judite 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 78 
Adições ao livro de Ester 
Sabedoria de Salomão 
Eclesiástico, ou Sabedoria de Jesus Ben Siraque 
Baruque 
Carta de Jeremias 
Oração de Azarias e Cântico dos Três Jovens 
Susana 
Bel e o Dragão Oração de Manassés 
1 de Macabeus 
2 de Macabeus 
 
Esta lista abrange 15 livros, mas às vezes a Carta de Jeremias se 
inclui no último capítulo de Baruque, com o que se reduzem a quatorze. 
Estes quinze livros estão compreendidos em diversos tipos e 
classificações. 
 
I. As adições a livros do Antigo Testamento. 
Temos as adições a Ester. Tal como aparece no Antigo Testamento, 
neste livro não se menciona uma só vez o nome de Deus nem se cita um 
só caso de alguém que ore. Todas as adições a Ester, menos uma, 
mencionam o nome de Deus, e numa delas é mencionado nove vezes em 
nove versículos, conquanto em outras se mostra a Ester e a Mardoqueu 
fazendo oração. Tais adições foram desenhadas com o intento de prover 
o que faltava no livro original. 
A oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens, Susana, e Bel 
e o Dragão, são adições ao livro de Daniel. Azarias é o nome hebraico de 
Abede-Nego, e tanto a Oração como o Cântico estão nos lábios dos três 
jovens quando estavam no ardente forno de fogo. A oração é considerada 
como uma das preces de louvor mais grandiosas do mundo: 
Bendigam ao Senhor, sol e lua, cantem em sua honra eternamente. 
Bendigam ao Senhor, estrelas do céu, cantem em sua honra 
eternamente. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 79 
Bendigam ao Senhor, todas as chuvas e o orvalho, cantem em sua 
honra eternamente. 
Bendigam ao Senhor, todos os ventos, cantem em sua honra 
eternamente. 
Bendigam ao Senhor, fogo e calor, cantem em sua honra eternamente. 
Bendigam ao Senhor, frio e calor, cantem em sua honra eternamente. 
Bendigam ao Senhor, orvalho e geada, cantem em sua honra 
eternamente. 
Bendigam ao Senhor, gelo e frio, cantem em sua honra eternamente. 
Bendigam ao Senhor, geladas e neve, cantem em sua honra 
eternamente. 
Bendigam ao Senhor, dias e noites, cantem em sua honra eternamente. 
Bendigam ao Senhor, luz e escuridão, cantem em sua honra 
eternamente. 
Bendigam ao Senhor, relâmpagos e nuvens, cantem em sua honra 
eternamente. 
Bendiga, terra, ao Senhor, canta em sua honra eternamente 
 (Daniel deuterocanônico 3:62-74, Dios Habla Hoy). 
 
As outras duas adições a Daniel desfrutam de prestígio próprio. Seu 
propósito é mostrar a sabedoria de Daniel, e são talvez as duas histórias 
de detetives mais antigas na literatura universal. Dorothy Sayers as 
incluiu no princípio de sua antologia Omnibus of Crime (Coleção de 
obras detetivescas), publicada em 1929. 
Susana é o relato de uma mulher bela, e virtuosa. Dois anciãos 
judeus se apaixonam carnalmente por ela. Um dia de verão, Susana 
anuncia a suas duas faxineiras que deseja banhar-se no lago do jardim. 
Os anciãos se ocultam atrás dos matagais e, enquanto Susana se banha, 
saltam sobre ela e tratam de seduzi-la. Mas como ela os rechaça, eles a 
ameaçam, se não aceder a seus desejos, acusando-a de que estava no 
jardim nos braços de seu amante. Diante da sua firmeza, eles passam a 
acusá-la, e é declarada culpada, pois os anciãos eram conhecidos e 
respeitados. Surge então Daniel, quem solicita que se efetue um novo 
juízo, coisa que lhe é concedido. Separadamente, Daniel examina os 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 80 
anciãos, fazendo-lhes a mesma pergunta: "debaixo de que tipo de árvore 
viu você a Susana nos braços de seu amante?". O primeiro responde: 
"debaixo de uma castanheira"; o outro responde: "debaixo de um 
carvalho". Com o que imediatamente se evidencia a falsidade da história 
e Susana sai vindicada. Assim que este relato é um relato exercido em 
acareação legal. 
Em Bel e o Dragão há dois relatos. Bel era o deus supremo dos 
babilônios. Mas Daniel insiste perante o rei que Bel é só um ídolo sem 
vida. "Como é então – demanda o rei – que Bel consome a vasta 
quantidade de comida que lhe é deixada todas as noites no templo?". 
Ocorre que cada noite era-lhe deixado no templo doze porções de farinha 
refinada, quarenta ovelhas e 227 litros de vinho. Mas Daniel sabia 
que os sacerdotes tinham um acesso subterrâneo ao templo. As ofertas se 
depositavam perante o altar e se arrebitavam as portas até o dia seguinte, 
ficando o templo deserto durante a noite. Daniel, pois, passa a cobrir 
secretamente todo o piso do templo com cinza fina. Dito e feito: na 
manhã seguinte a comida tinha desaparecido, e os sacerdotes demandam 
a morte de Daniel. Mas este chama a atenção do rei para os rastros 
deixados por homens, mulheres e crianças que aparecem no piso do 
templo. Desta maneira se descobre o engano dos sacerdotes e Bel fica 
desacreditado para sempre. 
Não há dúvida de que nunca houve a intenção de tomar estes 
relatos como algo histórico. Um escritor os qualificou de "novelas 
moralistas" e ainda hoje se encontram entre os melhores contos curtos da 
literatura mundial. 
 
II. Nesta lista encontram-se dois magníficos relatos. Tobias: a 
encantadora narração da viagem que empreende Tobias na companhia do 
anjo Rafael, disfarçado de homem, e de seu cachorrinho. Não falta um 
cruento drama em torno de Judite. Em dias de perigo para sua pátria, esta 
atravessa o campo inimigo, engana a seu chefe, o general assírio 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 81 
Holofernes, leva-o a crer que poderá seduzi-la, embriaga-o, corta-lhe 
a cabeça e a leva a seu acampamento colocada numa bolsa. 
Uma das cenas mais fascinantes do mundo dramático! 
Talvez Shakespeare conhecia e amava estes relatos, pois chamou 
suas filhas Susana e Judite! 
 
III. Existem duas volumosas obras didáticas pertencentes à 
chamada Literatura Sapiencial.Neste tipo de literatura a palavra 
Sabedoria não se refere à sabedoria filosófica ou intelectual, mas ao tipo 
de sabedoria prática para o bem viver perante Deus e perante os homens. 
A Sabedoria de Salomão foi escrita a fins do primeiro século a.C. ou na 
alvorada do século I da era cristã. Trata-se de um livro extenso que 
contém algumas passagens magníficas, dentre as quais escolhemos 
uma que consola aos que estão em transe de morte: 
A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os 
atingirá. Ao olhos dos insensatos parecem morrer; sua partida foi 
tirada como uma desgraça, sua viagem para longe de nós domo um 
aniquilamento, mas eles estão em paz. Aos olhos humanos pareciam 
cumprir uma pena, mas sua esperança estava cheia de imortalidade; 
por um pequeno castigo receberão grandes favores. Deus os colocou à 
prova e os achou dignos de si. (Sabedoria 3:1-5, Bíblia de Jerusalém). 
 
Este livro é atribuído a Salomão, cujo nome é supremo com relação 
à verdadeira sabedoria. 
Outro dos grandes livros apócrifos sapienciais se intitula a 
Sabedoria de Jesus Ben Siraque, melhor conhecido como o Eclesiástico. 
Foi escrito no hebraico ao redor do 180 a.C. Meio século depois o neto 
do autor o traduziu ao grego, enquanto estava no Egito. 
 
O Eclesiástico contém muitas passagens memoráveis, a mais 
famosa das quais é sua seção de louvor a personagens distinguidos 
(Capítulos 44-50). Particularmente renomada é a introdução a tal seção 
(44:1-9a, 14:15, Dios Habla Hoy): 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 82 
Vou fazer o elogio dos homens bons, nossos antepassados de épocas 
diversas. O Altíssimo lhes concedeu grandes honras e os engrandeceu 
desde há muito tempo. Reis que dominaram a terra, homens famosos 
por suas grandes ações, conselheiros cheios de sabedoria, profetas que 
podiam ver tudo, chefes de nações cheios de prudência, governantes 
de visão profunda, sábios pensadores que escreviam livros, poetas que 
dedicavam suas noites ao estudo, compositores de canções, segundo 
as normas da arte, autores que puseram por escritos seus provérbios ... 
homens ricos e de muita força, que viveram tranquilamente em seus 
lares. Todos eles receberam honras de seus contemporâneos e foram a 
glória do seu tempo. Alguns deixaram um nome famoso que será 
conservado por seus herdeiros. E há outros a quem ninguém lembra 
mais, que terminaram quando terminou sua vida, que existiram como 
se não tivessem existido ... Seus corpos foram enterrados em paz, e 
sua fama durará por todas as idades. A assembleia celebrará sua 
sabedoria, e o povo proclamará o seu louvor. 
 
É precisamente no Eclesiástico onde se encontra o famoso tributo 
aos médicos (38:1-4, 7, 8,13-14, Dios Habla Hoy): 
Respeita ao médico por seus serviços, pois também a ele o instituiu 
Deus. O médico recebe de Deus sua ciência, e do rei recebe seu 
sustento. Graças aos seus conhecimentos, o médico desfruta de 
prestígio e pode apresentar-se perante os nobres. Deus faz com que a 
terra produza substâncias medicinais, e o homem inteligente não deve 
desprezá-las ... Com estas substâncias, o médico acalma as dores e o 
farmacêutico prepara os seus remédios. Assim não desaparecem os 
seres criados por Deus, nem falta aos homens a saúde ... Há momentos 
em que o êxito depende dele, e ele também se encomenda a Deus, para 
poder acertar no diagnóstico e aplicar os remédios eficazes. 
 
Ali mesmo se encontra outra famosa passagem em que Deus 
sustenta que só o parado pode chegar a ser um grande erudito e mestre, e 
que a sabedoria não está ao alcance dos trabalhadores do mundo. Mas 
tendo dito isso, oferece um alto elogio dos trabalhadores (38:31-34, Dios 
Habla Hoy): 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 83 
Todos eles são operários que trabalham com suas mãos, e cada um em 
seu ofício é um perito. Sem eles não seria possível a vida em 
sociedade, ninguém viveria nem ninguém viajaria. Entretanto, 
ninguém os convidará a governar o povo, nem sobressairão na 
assembleia. Não formam parte de nenhum tribunal, nem entendem de 
assuntos de justiça. Não demonstram instrução nem capacidade para 
julgar, nem entendem de provérbios. Mas eles contribuem para a 
estabilidade do mundo, ocupando-se em seus trabalhos de artesãos. 
 
A Sabedoria de Salomão e o Eclesiástico são dois grandes livros na 
verdade. A Igreja os conheceu e valorizou desde seus inícios, e animou o 
povo de Deus a que os lesse. Não são poucos os que prazerosamente os 
incluiriam no cânon das Escrituras. 
 
IV. Entre os Apócrifos há vários livros que narram acontecimentos 
históricos. Um deles é I Esdras, que vem sendo um repasse de 2 
Crônicas, Esdras e Neemias. Sua única passagem adicional deu origem 
ao conhecido provérbio: "Grande é a verdade e suprema sobre todas as 
coisas”. 
Os outros dois livros históricos são I e II de Macabeus. Sua 
importância estriba em que relatam de ângulos distintos, a famosa luta 
libertária em que se distinguiu Judas Macabeu. Lutero opinava que I 
Macabeus "não é digno de ser incluído entre os livros das Escrituras”. 
 
V. Há um destes livros que poderíamos classificar como livro de 
orações: a Oração de Manassés. Segundo os historiadores hebreus, 
Manassés foi um dos piores monarcas (2Rs. 21:1-18; 2Cr. 33:1-20). 
Reinou durante 55 anos e foi achado culpado de empregar "as práticas 
abomináveis" dos nativos pagãos. Levantou altares a Baal, rendeu culto a 
"todo o exército dos céus", ofereceu o seu filho em sacrifício, e se 
rodeou de magos e adivinhos. Também levantou uma imagem de Asera 
em pleno Templo e derramou sangue inocente. Por sua causa, os 
babilônios seriam desatados contra Judeia, o templo seria destruído e o 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 84 
povo levado em cativeiro (2Rs. 24:3). O cronista relata que o próprio rei 
esteve exilado temporariamente e que os assírios "aprisionaram com 
correntes a Manassés, e preso com cadeias o levaram a Babilônia". 
Estando no cativeiro, Manassés se arrependeu de todos os seus maus 
caminhos, clamou a Deus, e Deus o trouxe de novo a Jerusalém. Deus 
ouviu sua prece e recebeu sua petição (2Cr. 33:10-19). Esta Oração de 
Manassés supõe-se que foi a que o rei elevou a Deus na amargura do 
desterro. O propósito desta obra de uma página é mostrar que até para 
um Manassés pode haver perdão, se ele se arrepender diante de Deus. 
Eis aqui umas linhas dessa prece: 
Pequei, ó Senhor, eu pequei e conheço minhas transgressões. 
Ardentemente te rogo: perdoa-me, ó Senhor, perdoa-me! Não me 
destruas em minhas transgressões! Não te ires para sempre comigo 
nem me causes nenhum mal: não me condenes aos abismos da terra. 
Porque tu, ó Senhor, és o Deus dos que se arrependem E em mim 
manifestas tuas bondades pois, sendo eu tão indigno, tu me salvarás 
por tua grande misericórdia, e eu te louvarei continuamente todos os 
dias de minha vida. Porque todas as hostes celestiais cantam o teu 
louvor e tua é a glória para sempre. Amém. 
 
Aqui se expressa a confiança de que até o pior dos pecadores pode 
salvar-se sob condição de arrepender-se. 
 
VI. Dois destes livros estão dentro da sucessão profética. O 
primeiro deles é Baruque, escrito provavelmente no primeiro século de 
nossa era, cuja redação se adjudica a Baruque, secretário de Jeremias (Jr 
36:4). Às vezes se acrescenta a Carta de Jeremias como um sexto 
capítulo de Baruque. Esta carta é uma áspera denúncia contra a idolatria. 
Deve provir da época em que os judeus foram tentados e convidados a 
compartilhar a idolatria com seus vizinhos. Aponta os artífices 
fabricantes de ídolos: "Povo que toma o ouro e faz coroas para as 
cabeças de seus deuses, como o fariam para uma garota amante de andar-
se adornando". Às vezes os sacerdotes furtam o ouro que pode gastar-se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 85 
até em lupanares. O pó do templo se acumula sobre os ídolos e é preciso 
sacudi-los e limpá-los. Sobre eles posam os morcegos, as andorinhas, as 
aves e os gatos. Para mobilizar é preciso carregá-los, pois carecemde 
pés próprios. Se os baixar, inclinam-se e caem e é preciso tornar a 
levantá-los. "A ninguém podem salvar da morte, nem livrar o fraco do 
forte. Não podem dar vista ao cego, nem ajudar a quem estiver em 
apuros". Aqueles que os fabricam são mortais; como podem manufaturar 
deuses? Se o templo se incendiar, os sacerdotes podem fugir mas os 
deuses só podem ser queimados irremediavelmente. Não valem mais que 
o espantalho no jardim. 
Neste panfletinho bombardeia-se a idolatria com um ridículo que 
continua sendo efetivo. 
 
VII. Resta-nos finalmente um livro apocalíptico: II Esdras, também 
conhecido como IV Esdras. Já vimos que a literatura apocalíptica refere-
se aos espantosos últimos dias, quando esta era e toda sua maldade serão 
destruídas, quando o Dia do Senhor virá e nascerá a nova era do reino de 
Deus. Será uma era de destruição e desintegração total. Como vimos, tais 
livros apocalípticos "descrevem o indescritível" e falam de coisas nunca 
antes vistas, ouvidas ou concebidas por seres humanos. Só são 
inteligíveis para os iniciados e, nisso, IV Esdras não é uma exceção. A 
Lutero lhe pareceu tão grotesco que nem sequer se tomou o trabalho de 
traduzi-lo e, em sua linguagem característica, comentou que o tinha 
arrojado ao Rio Elba! 
 
II Esdras demorou bastante tempo para ser escrito. O miolo do livro 
encontra-se nos capítulos 3 a 14, que se supõe serem sete revelações que 
Esdras recebeu em Babilônia. Esta parte foi escrita em aramaico, em 
torno do ano 100 de nossa era, e logo traduzida ao grego. De ambas as 
versões subsistem só dois ou três versículos, pois as duas se perderam. 
Só contamos com a versão latina. Para o ano 150 de nossa era, um 
cristão anônimo e desconhecido acrescentou os capítulos 1 e 2 em grego. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 86 
E no ano 250, outro cristão desconhecido acrescentou os capítulos 15 e 
16. Sempre se soube que algo faltava entre II Esdras 7:35 e 7:36. Em 
1874 apareceu o texto latino destes versículos, e se inseriu no texto. 
 
A seguir incluímos um breve exemplo do Capítulo 5, das visões 
neste estranho livro: 
Surge o sol de repente à meia-noite e a lua durante o dia. Da madeira 
emanará sangue e a pedra deixará ouvir a sua voz: as nações serão 
afligidas e teremos chuva de estrelas. 
Este é um livro que hoje em dia tem pouco ou nada que nos dizer. 
 
Repassamos os livros Apócrifos, e agora deveríamos nos perguntar 
de onde procedem e o por quê de sua posição duvidosa. Em resposta à 
primeira pergunta, diremos que os livros Apócrifos aparecem na versão 
grega do Antigo Testamento, conhecida como a Septuaginta, mas não no 
original hebraico. O Antigo Testamento foi traduzido ao grego no Egito 
durante o reinado de Ptolomeu, Filadelfo II, que abrangeu desde o 285 
a 246 a.C. O Egito era o lugar adequado para esta tradução porque então 
contava com mais de um milhão de judeus, muitos dos quais jamais 
tinham estado em Palestina. Em sua maioria tinham esquecido ou 
desconheciam totalmente o hebraico, pois só conheciam o grego. 
Usualmente se designa a Septuaginta com o número romano LXX, 
que foi o número de seus tradutores. A Septuaginta é um dos livros mais 
importantes do mundo porque pôs o Antigo Testamento ao alcance de 
todos quando o grego era o idioma universal e só uns quantos sabiam 
hebraico. Com o tempo, a Septuaginta serviu de base para verter o 
Antigo Testamento ao latim, pelo que o primeiro Antigo Testamento em 
latim teve o mesmo formato da versão grega. Vejamos o que sucede ao 
alinhar os livros do Antigo Testamento na ordem de aparição nas 
distintas versões no hebraico, grego, latim, inglês. 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 87 
 
Hebraico Septuaginta Latim Inglês Almeida Revista e 
Atualizada 
A Lei As Leis Livros 
Históric s o 
Gênes is Gênes is Gênes is Gênes is Gênes is
Êxodo Êxodo Êxodo Êxodo Êxodo 
Levítico Levítico Levítico Levítico Levítico 
Números Números Números Números Números 
Deuteronômio Deuteronômio Deuteronômio  Deuteronômio Deuteronômio 
Os Pr fetas o As His orias t
Josué Josué 
Juízes Juíze s
1 e 2 Sam el u Rute 
I e II R is e 1 e 2 Reis 
Isaías (=1 e 2 Samuel 
Jeremia s
Ezequi l e
Oseias 
Joel 
Amós 
Obadias 
Jonas 
Miqueias 
Naum 
Habacuque 
Sofonias 
Ageu 
Zacarias 
Malaquias 
Os Escritos 
Salmos 
Provérbios 
Jó 
Cantares    de
Salomão 
Rute 
Lamentações 
Eclesiastes 
Ester 
Daniel 
Esdras 
Neemias 
1 e 2 Crônicas 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 88 
De imediato se pode apreciar a grande diferença nas listas que 
provêm do hebraico, grego, latim, inglês (e português) com relação aos 
livros que contêm ou não contêm, assim como quanto à ordem em que se 
apresentam. 
Estas listas deixam também claro que a mais inclusiva é a da 
Septuaginta, ou Antigo Testamento em grego. Inclui livros que nem 
sequer se encontram nos Apócrifos oficiais, por exemplo III e IV 
Macabeus, as Odes, e os Salmos de Salomão. 
Por que é isto assim? Vimos visto que para os judeus palestinos os 
livros sagrados são vinte e quatro livros e nada mais; seu cânon está 
fechado. "Se alguém – declaravam os rabinos – recebe mais de vinte e 
quatro livros, introduz confusão em sua casa". Segundo a lei judaica, era 
ilegal carregar qualquer coisa no sábado, e estabelecia que se uma casa 
fosse incendiava, somente podiam tirar-se dela os vinte e quatro livros e 
nada mais. Por outro lado, os judeus alexandrinos aplicavam um critério 
mais amplo, visto que consideravam que todo livro inspirador era 
inspirado. Assim que, no princípio, houve duas versões do Antigo 
Testamento: a versão limitada dos judeus palestinos e a versão inclusiva 
dos judeus de fala helênica; e os livros adicionais na versão grega são 
precisamente os Apócrifos. E considerando que então havia mais pessoas 
que utilizavam o Antigo Testamento em grego que no hebraico, chegou um 
momento em que estes livros adicionais foram amplamente recebidos. 
Acaso teremos chegado a uma etapa na qual houve dois antigos 
testamentos, um curto, no hebraico, e outro mais amplo, em grego? Na 
realidade os livros Apócrifos contêm material muito abundante. Bruce 
Metzger o expressa estatisticamente: 
 
Seções Livros Capít Versículos 
Antigo Testamento 39 929 23.214 
Novo Testamento  27 260 7,959 
Apócrifos 14‐15 1 6,081 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 89 
Acaso contamos com uma forma oficial do Antigo Testamento que 
contém entre um quinto e um quarto mais material que o do Antigo 
Testamento no hebraico? 
A resposta é sim e não. A princípio podemos ver que os Apócrifos 
encontram-se numa posição curiosamente ambígua: nem são 
completamente Escritura Sagrada, nem tampouco não o são. Várias 
coisas devem destacar-se: 
 
I. Não existe uma só menção de que o cânon tenha sido ampliado. 
Embora os escritores gregos conheceram, amaram e utilizaram os 
Apócrifos, nunca em momento algum puseram em tela de dúvida o 
cânon hebraico das Escrituras nem, por indício, listaram-lhe jamais 
acrescentado algum. 
 
II. Os livros que se incluem na Septuaginta e os que não se incluem 
variam até certo ponto. Por exemplo, IV Esdras não aparece na 
Septuaginta pois, como vimos, não existe na versão grega. Em algumas 
versões aparece a Oração de Manassés e em outras não. Alguns 
manuscritos da Septuaginta incluem III e IV Macabeus, e às vezes até 
um Salmo 151. Nem sequer se fixou quantos são os livros adicionais. 
 
III. Filo, alto erudito dos judeus alexandrinos, tratou de enlaçar o 
pensamento judaico com o grego. Filo provinha da área onde nasceu a 
Septuaginta, embora sua obra ele a realizou muito depois, precisamente 
quando o Novo Testamento começava a tomar forma. Sua produção 
consistiu em comentários e exposição das Escrituras. E, embora Filo 
conhecesse os Apócrifos e os valorizasse, nunca os citou como Escritura 
Sagrada. 
 
IV. Como todos os escritores neotestamentários falavam o grego, 
tinham como Bíblia a Septuaginta Grega e não o Antigo Testamento no 
hebraico. Era a queconheciam e citavam; apesar disso, nunca citam os 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 90 
livros Apócrifos, e menos como se tivessem caráter de Escritura 
Sagrada. 
 
Todo o anterior demonstra a peculiar situação intermediária que 
ocupam os Apócrifos, os quais eram utilizados e estimados, mas sem que 
chegassem a ser plenamente considerados como Escritura. Também se 
nota uma grande ambivalência no emprego destes livros. Nos primeiros 
pais da Igreja nota-se atitudes encontradas, como era de esperar-se. Os 
eruditos que sabiam hebraico – bem poucos e dispersos por então – 
geralmente rejeitavam os Apócrifos como Escrituras, embora os que só 
entendiam grego ou latim tinham a tendência a aceitá-los por havê-los 
recebido com seu Antigo Testamento. 
 
Por isso achamos que para Jerônimo – quem se estabeleceu por um 
tempo na Palestina para familiarizar-se com o hebraico – e para 
Orígenes, ambos reputados como os intelectuais supremos do mundo 
antigo, estava bem claro que os Apócrifos não eram parte das Escrituras, 
embora os pais Tertuliano e Agostinho, desconhecedores do hebraico, 
aceitavam-nos como escriturísticos. 
 
Esta situação, entretanto, estava menos clara do que parece à 
primeira vista. Depois de listar os livros do Antigo Testamento, 
Jerônimo pôde dizer e disse: "Tudo o que não estiver incluído nesta lista 
deve ser considerado apócrifo. Portanto, a Sabedoria, também conhecida 
como de Salomão, o livro de Jesus Ben Siraque, assim como Judite e 
Tobias... não estão no cânon". Entretanto, quando chegou o momento, a 
pedido dos bispos ele os traduziu e incluiu na Vulgata, versão da qual foi 
tradutor, e que chegou a ser e continua sendo a Bíblia da Igreja Católica 
Romana. Como erudito, Jerônimo tinha rejeitado os livros Apócrifos, 
mas como eclesiástico, aceitou-os. Quanto a Agostinho, em sua obra Da 
Doutrina Cristã incluiu no Antigo Testamento a Judite, Tobias, I e II 
Macabeus, Eclesiástico e a Sabedoria. Entendeu Jerônimo em que não 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 91 
estavam nas Escrituras hebraicas e que logicamente não deveriam ser 
incluídos -se, mas lhe preocupava o efeito que podia ter sua exclusão na 
mente do povo comum, que por tanto tempo os tinha empregado e 
amado. Para ele significava mais a tradição eclesiástica que o critério do 
erudito. 
 
Orígenes procedeu de maneira semelhante. Em torno do ano 240, 
Júlio o Africano, bispo de Emaús em Palestina, discutia com ele que 
visto que Susana não aparece na Bíblia hebraica, não se devia considerá-
la Escritura Sagrada. Ninguém melhor que Orígenes podia saber e aceitar 
isto como erudito bíblico que era, mas o refutou aduzindo que a Igreja 
Cristã sempre havia aceito estes três livros para edificação. Acrescentou 
também que a Igreja não ia podar suas leituras para acomodar-se aos 
judeus, e que a tradição imemorial constituía autoridade suficiente para 
poder ler os Apócrifos. Orígenes lembrou a Júlio que a própria Bíblia 
(Dt. 19:14) ordenava não tirar os limites fixados em tempos passados. 
Sempre existiu uma tensão entre a erudição crítica e a tradição 
eclesiástica, em que a tradição sempre saiu triunfante. 
 
Rufino estabeleceu uma distinção entre livros canônicos e 
eclesiásticos, e entre estes últimos incluiu os livros de Sabedoria, 
Eclesiástico, Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus. Não eram, pois, livros 
canônicos mas da Igreja. Jerônimo chegou a introduzir outra distinção 
mais que permaneceu por longo tempo e que segue ainda vigente em 
alguns lugares. Explicou Jerônimo que Eclesiástico e Sabedoria eram 
livros que a Igreja lia "para edificação do povo, mas não para provar as 
doutrinas da Igreja". 
 
Achamos, pois, que durante os primeiros séculos os judeus não 
tiveram dúvida alguma: só os vinte e quatro livros no hebraico deviam 
ser considerados se Escritura. No Antigo Testamento grego havia muitos 
livros mais, porém os livros adicionais jamais foram levados em conta 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 92 
no mesmo nível dos livros hebreus. A Igreja os conhecia, utilizava-os, e 
estimava e não os abandonaria, mas nem por isso lhes daria a mesma 
posição outorgada aos livros hebraicos do Antigo Testamento. 
 
Desta maneira chegamos ao lugar dos Apócrifos na Bíblia inglesa. 
Na versão de Wycliffe, que é a mais antiga nessa língua, os Apócrifos 
encontram-se esparramados por todo o Antigo Testamento. Deve-se a 
que Wycliffe não traduziu do hebraico mas da Vulgata Latina, cuja 
distribuição adota. Mas entre os tradutores ingleses houve outra 
influência que pesou muito mais em seu ânimo, e que levou a assinalar 
os Apócrifos o mesmo lugar que ocupam regularmente nas edições 
protestantes da Bíblia. Em 1534 Lutero completou a tradução da Bíblia 
ao alemão, e ele não se baseou na versão latina, antes na original grega e 
hebraica. Por isso na tradução luterana alemã os Apócrifos aparecem 
numa seção, segregados entre ambos testamentos, sob o título de 
Apócrifos, ou seja, livros que não estão no mesmo nível das Escrituras 
Sagradas, "mas que são úteis e bons para ser lidos". Lutero não traduziu 
1 e 2 Esdras (IV Esdras) e explicou que os tinha jogado no Rio Elba, e 
ao referir-se a eles no prefácio a Baruque acrescentou que "não contêm 
absolutamente nada que a pessoa não possa encontrar mais facilmente 
em Esopo e até em livros mais corriqueiros". A posição que Lutero 
outorgou aos Apócrifos dentro da Bíblia veio a ser a que logo foi adotada 
pelas igrejas protestantes. Quando aparecem na Bíblia inglesa, sempre 
vêm em seção à parte, entre o Antigo e o Novo Testamento. 
 
A primeira Bíblia inglesa completa foi a de Coverdale em 1535, 
quem seguiu o exemplo de Lutero com diferenças mínimas. Caverdale 
imprimiu uma tradução de 1 e 2 Esdras mas sem incluir a Oração de 
Manassés; e em sua primeira edição colocou Baruque depois de 
Jeremias. Na de 1537 trasladou Baruque junto a outros Apócrifos, e 
assim permaneceu dali em diante. Vale a pena reproduzir, por ser 
interessante, a introdução de Coverdale aos livros Apócrifos. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 93 
Estes livros, bom leitor, chamados Apócrifos, não têm entre os doutos 
a mesma reputação que as demais Escritura... e o principal motivo é 
este: neles encontram-se muitos lugares que parecem repugnantes à 
verdade aberta e manifesta dos outros livros da Bíblia. Entretanto, não 
os coloquei juntos com a intenção de desprezá-los, ou porque os tenha 
em menos ou os considere falsos, pois não sou capaz de comprová-
lo. Entretanto, eu não duvidaria de que, se lhes cotejasse com o resto 
da Escritura aberta (tendo em conta o tempo, lugar e circunstância em 
cada caso) não pareceriam contraditórios nem ter sido concebidos em 
falsidade ou perversidade. Certamente, a cara de um homem não pode 
ver-se tão bem na água como num espelho limpo; nem pode apreciar-
se tão claramente em água revolta ou em movimento, como na água 
tranquila. Estas e muitas outras passagens escuras da Bíblia foram 
imperfeitamente agitadas e misturadas com tantas opiniões humanas, 
cegas e ambiciosas, ao grau que nublaram a vista dos simples de 
maneira tal que, enquanto não sejam consideradas nos outros lugares 
da Escritura, só poderá se vista à luz que a cobiça queira vê-los. Mas 
quem quer que sejas, que lês as Escrituras, deixa que o Espírito Santo 
te ensine, e permite que um texto venha e te explique outro texto. No 
que se relaciona aos sonhos, visões e sentenças escuras e 
incompreensíveis para ti, entrega-os a Deus e não os convertas em 
artigos de fé: quer dizer, não baseies neles doutrina alguma. 
Simplesmente te deixa guiar pelo texto claro, e o Espírito de Deus 
(que é seu autor) guiará a toda a verdade. 
 
De fato Coverdale admite o caráter secundário dos Apócrifos, mas 
ao mesmo tempo insiste em que têm um lugar e valor se forem 
empregados adequadamente. 
 
A versão do Thomas Matthew, que apareceu em 1537, marca a 
seguinte data de interesse histórico nos Apócrifos ingleses. Matthew 
continuou o costumede colocar os Apócrifos entre ambos testamentos, e 
distingue-se por ser a primeira Bíblia inglesa que inclui a Oração de 
Manassés, traduzida da Bíblia francesa do Olivetano. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 94 
Depois vem a declaração sobre os Apócrifos que aparece na Bíblia 
de Genebra, produzida na capital suíça por reformadores britânicos que 
deixaram seu país perseguidos pela rainha Maria. Estavam dirigidos por 
William Whittingham, casado com uma irmã de João Calvino. Trata-se 
de uma das mais famosas bíblias inglesas, e nem sequer a aparição da 
Authorized Version (Versão Autorizada) conseguiu deslocá-la na época. 
Desde sua aparição em 1560, até 1630, imprimiram-se não menos de 
200 edições da Bíblia de Genebra, em sua totalidade ou só do Novo 
Testamento. Esta foi a Bíblia de Shakespeare e de John Bunyan, do 
exército de Cromwell e dos Pais Peregrinos. A Bíblia de Genebra veio a 
ser uma das mais destacadas bíblias em inglês. Como sempre, inclui os 
Apócrifos entre os dois testamentos, embora com uma exceção bem rara. 
Coloca a Oração de Manassés entre 2 Crônicas e Esdras, e no Índice se 
lê: "A Oração de Manassés. Apócrifo". À margem da mesma Oração há 
uma nota que explica: "Esta Oração não está no hebraico, mas sim se 
traduziu do grego". Não se sabe o motivo pelo qual a Oração de 
Manassés recebeu um trato diferente ao dos demais Apócrifos. A Bíblia 
de Genebra apresenta sua própria declaração a respeito: 
Estes livros que vêm em ordem depois dos Profetas e antes do 
Novo Testamento, chamam-se Apócrifos: isto é, livros que não se 
receberam por consentimento unânime para ser lidos e explicados 
publicamente na Igreja, nem tampouco serviram para demonstrar 
nenhum ponto da religião cristã, salvo na medida que tinham o 
consenso das demais Escrituras chamadas canônicas para confirmar o 
mesmo ou antes, sobre as que estavam fundadas. Mas foram recebidos 
como procedentes de homens piedosos, para ser lidos em bem do 
avanço e promoção do conhecimento da história, e para instrução nos 
costumes piedosos. Tais livros declaram que em todo tempo Deus teve 
especial cuidado por sua Igreja e não a deixou inteiramente desprovida 
de mestres e meios para confirmá-la na esperança do prometido 
Messias; e também para testificar que essas calamidades que Deus 
enviou à sua Igreja, foram de acordo com sua providência, que tinha 
sido ameaçada tanto por seus profetas como pela destruição de seus 
inimigos e para prova de seus filhos. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 95 
Bem como seus predecessores, os tradutores da Bíblia de Genebra 
consideraram valiosos os livros Apócrifos, mas valiosos dentro de seus 
próprios limites. 
 
Na Versão Autorizada, os Apócrifos encontram-se sem nota nem 
comentário, entre ambos testamentos. Assume-se que tal é o seu lugar e 
não fazem falta explicações. Mas Bruce Metzger assinala algo digno de 
menção sobre a Versão Autorizada com relação aos Apócrifos. As 
referências marginais da Versão Autorizada são relativamente poucas, e 
no Antigo Testamento há 102 referências aos Apócrifos e 11 no Novo 
Testamento. Na Versão Autorizada os Apócrifos são ainda parte integral 
totalmente. 
 
Pareceria como se os Apócrifos se estabeleceram à maneira de 
apêndice do Antigo Testamento, e como livros honoráveis embora não 
totalmente inspirados. Mas a situação teria que mudar. A atitude para 
com os Apócrifos sempre foi berço de emoções encontradas. 
 
Os protestantes se opunham a eles sobre a base de que a Igreja 
Católica era sua verdadeira proprietária. Mediante eles, era possível 
justificar coisas abomináveis à fé protestante. Os reformadores se 
negaram a aceitá-los, embora pudessem ser citados em apoio de 
doutrinas que lhes pareciam anátema. E em termos gerais, os Puritanos 
sempre desconfiaram de documentos que, pretendendo ser sagrados e 
inspirados, eram adições às Escrituras. 
 
Valeria a pena, entretanto, trazer para colação uma experiência que 
relata João Bunyan em sua autobiografia Graça abundante para o 
primeiro dos pecadores. Pelo ano de 1652, Bunyan atravessou por um 
período de profundo abatimento espiritual. "Certo dia – contava ele – 
depois de passar muitas semanas oprimido e decaído, estando quase 
prestes a entregar o espírito e todas as minhas esperanças de voltar a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 96 
recuperar a vida, esta sentença caiu pesadamente sobre meu espírito: 
Note nas gerações passadas e olhe: Terá havido alguém que, havendo 
confiado no Senhor, tenha ficado decepcionado? Isso aliviou e alentou 
grandemente minha alma, pois imediatamente me veio a explicação: 
Começa desde o princípio do Gênesis e lê até terminar o Apocalipse, e 
olhe se pode achar alguém que tenha ficado decepcionado depois de ter 
confiança no Senhor. Assim que ao voltar para casa tomei a Bíblia para 
ver se podia encontrar essa declaração, sem duvidar que a acharia, pois a 
tinha tão fresca e com tal força e consolo em meu espírito que até parecia 
que me falava". Continua dizendo: "Bem, busquei-o sem poder achá-
la (eram os dias quando não havia concordâncias). Só que permanecia 
em mim... Continuei assim por mais de um ano sem poder localizá-la 
mas, finalmente, ao aparecer nos livros Apócrifos, encontrei-a em 
Eclesiástico 2:10". 
 
Parece como se Bunyan quase se desculpasse por encontrar algo útil 
nos Apócrifos! E segue narrando: "Isto, em certo modo, afligiu-me a 
princípio, mas como para então eu tinha adquirido uma maior 
experiência do amor e a bondade de Deus, já não chegou a me preocupar 
tanto. Especialmente quando considerei que, embora não estava nesses 
textos que chamamos Santos e Canônicos, entretanto, como esta 
sentença era a soma e substância de muitas das Promessas, era meu 
dever tomar seu consolo. E abençoo a Deus por essa palavra porque foi 
de Deus para mim". "Essa palavra – acrescenta – "ainda às vezes refulge 
perante meu rosto" É uma história significativa, a história de um homem 
quase temeroso de receber ajuda dos livros Apócrifos. 
 
Assim que, ao menos em certos lugares, avançava o fluxo contra os 
Apócrifos, e os editores começaram a imprimir a Bíblia sem eles. Damo-
nos conta de que isto começou por conta dos editores, pois 
frequentemente encontramos os livros Apócrifos anunciados no Índice 
mas sem as páginas correspondentes aos Apócrifos, e tendo saltado a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 97 
numeração respectiva entre ambos testamentos. Fez-se, pois, difícil 
achar uma Bíblia com os Apócrifos. 
 
A tendência atual é diferente. Na Introdução aos Apócrifos da 
Revised Standard Version (Versão Padrão Revida), na sentença final há 
uma citação do Frank C. Porter: "O interesse histórico do homem 
moderno... é pôr em seu verdadeiro lugar os Apócrifos como 
documentos significativos de uma era muito importante na história 
religiosa". E a New English Bible (Nova Bíblia Inglesa) inclui uma 
tradução moderna destes livros. (Em espanhol, Dios Habla Hoy faz outro 
tanto). 
 
Por último, devemos nos perguntar: o que é, então, que como 
leitores podemos dizer sobre os Apócrifos? Em seu livro What Books 
Belong in the Bible? (Que livros devem estar na Bíblia?) , F. V. Filson o 
expressa de maneira contundente e convincente, ao sustentar que os 
livros Apócrifos não formam parte das Escrituras. Apresenta uma série 
de argumentos em apoio de sua opinião. 
 
1. Está absolutamente convencido de que jamais houve a intenção 
de considerá-los como Escritura Sagrada. Nunca existiu um cânon da 
Septuaginta, o Antigo Testamento grego, como o houve para o Antigo 
Testamento hebraico. Nunca se fixou o número de livros acrescentados à 
a Septuaginta, e variou com muita frequência. Os livros acrescentados 
nunca, em nenhum tempo, receberam um lugar oficial como se fez com 
os livros do Antigo Testamento hebraico. Nunca, em nenhum tempo, 
foram citados por Jesus. Nunca são citados nos sermões da igreja 
primitiva, por exemplo nos quais se mencionam nos Atos. Ninguémos 
citou como parte das Escrituras durante a era apostólica. O fato é, 
simplesmente, que onde quer que se empregava o hebraico, o que se 
considerava como Escritura era o Antigo Testamento no hebraico. Na 
igreja primitiva ninguém afirmou jamais, nem sequer sugeriu, que se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 98 
tivessem acrescentado livros extras ao Antigo Testamento. O lugar que 
esses livros ocuparam na Igreja se deveu unicamente ao uso e a prática. 
Eram utilizados, mas nunca sob o conceito de autoridade em que se tinha 
os livros hebraicos. 
 
II. Não existe um período na história da Igreja, nem sequer no 
período posterior, em que foram aceitos unânime e indiscutivelmente, 
tal como o vimos na Igreja Católica Romana. Sempre houve dúvida para 
com eles e uma interrogação contra eles. E não podem fazer parte das 
Escrituras da Igreja livros cujo lugar foi sempre controvertido. 
 
III. Os Apócrifos nada têm para acrescentar ao pensamento 
religioso nem à crença da Igreja. Neles não se encontra nada que não 
esteja contido, e contido melhor, no Antigo Testamento. Nada têm para 
acrescentar aos livros que foram e são aceitos universalmente. 
 
IV. No caso dos livros do Antigo Testamento, sua inspiração é 
evidente por si mesma, mas no caso dos Apócrifos, isto não é assim. 
Como dissesse Filson, já citado: "aceitamos como Escritura o Antigo 
Testamento por confissão pessoal e coletiva de que estes escritos, 
quando o Espírito Santo os "faz presentes, falam-nos a palavra 
indispensável de Deus com poder efetivo". E isto é precisamente o que 
os Apócrifos não fazem. A maneira mais segura de descobrir o caráter 
secundário dos Apócrifos é, simplesmente, lendo-os. Isso permite 
experimentar a diferença entre eles e os livros que, sem lugar a dúvida, 
são Escritura. 
 
O Dr. Filson nem sequer permite uma posição intermediária: "Não 
são a Escritura" – afirma ele – "e não têm direito inerente a uma posição 
de transigência que na prática os trate como às Escrituras, enquanto se 
mantém a ficção de que carecem de influência ou categoria doutrinal". 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 99 
Mas mesmo sustentando que os Apócrifos carecem de direito a ser 
considerados Escritura Sagrada, dista muito de dizermos que devemos 
ou podemos descartá-los totalmente. Eles possuem sua própria 
importância e lugar. 
 
I. Para começar, ocupam um lugar na literatura. Contêm alguns 
dos grandes relatos deem o mundo e formam parte da literatura 
universal com a qual toda pessoa culta deve estar familiarizada. Os 
Apócrifos exerceram influência sobre a literatura, a arte e a música. 
 
Bruce Metzger, no capítulo que intitula “The Pervasive Influence 
of the Apocrypha” (“A penetrante influência dos Apócrifos”), de seu 
livro Introduction to the Apocrypha (Introdução aos Apócrifos), esboça 
a influência que estes exercem em muitas esferas e cita um 
surpreendente exemplo disso. Foram certas expressões dos Apócrifos 
que impulsionou Colombo à descoberta da América”! Um famoso 
escritor do século XV chamado Pierre d´Ailly, reconhecido erudito e 
arcebispo de Cambrai, escreveu o livro Ymago Mundi (A imagem do 
mundo), que inclui um capítulo “De quantitae terrae habitabilis” 
(“Sobre a quantidade de terra habitável”). Baseado em 2 Esdras (4 
Esdras) 6:42, 47, 50, 52, o autor sustenta que seis sétimas partes do 
globo são terra firme e só uma sétima parte é mar. A primeira página 
desta obra diz assim: “No terceiro seu dia ordenou às águas que se 
reunissem na sétima parte da terra; secou seis partes de e as conservou 
assim como algumas delas fossem plantadas e cultivadas e foram de 
serviço para ti”. Isto permitiu a d´Ailly argumentar que, visto que a 
terra é uma esfera, e visto que só um sétimo dela é mar, o oceano entre 
a costa ocidental da Europa e a costa oriental da Ásia “Não pode ser de 
grande largura” e com vento favorável poderia navegar-se em poucos 
dias. Isto é exatamente o que Cristóvão Colombo se propôs 
demonstrar. Na biblioteca do Colombo havia um exemplar da obra 
d´Ailly, anotado de própria mão pelo marinho genovês. E isto foi o 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 100 
que impulsionou Colombo a empreender a viagem e o que finalmente 
persuadiu os vacilantes soberanos a lhe financiar sua expedição, visto 
que havia um livro sagrado que assegurava que o mar não cobria mais 
de uma sétima parte do planeta e podia ser navegado facilmente! 
 
II. Os Apócrifos ocupam um lugar na literatura moral do mundo. 
Nunca perderá atualidade o conselho moral que nos brindam Sabedoria 
e Eclesiástico. 
 
III. Os Apócrifos contêm um material histórico indispensável, por 
exemplo, a história da luta dos Macabeus pela libertação dos judeus. 
 
IV. Mas a suprema utilidade dos Apócrifos é que tendem uma 
ponte entre o Antigo e o Novo testamentos. Nessa ponte cabem 
trezentos anos, dos quais saberíamos bem pouco de outra maneira. Ir do 
Antigo ao Novo Testamento equivale a saltar do século XVI ao XIX. A 
grande aplicação dos Apócrifos é que nos proporcionam o ambiente 
político, cultural, ético e religioso dos contemporâneos de Jesus Cristo 
e, portanto, ajudam-nos a entender melhor o Novo Testamento. 
 
Não se pode pôr em tela de duvida a importância que têm os livros 
apócrifos e nenhum estudante da Bíblia pode dar-se ao luxo de 
desconhecê-los. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 101 
CAPÍTULO V 
COMO ESTUDAR A BÍBLIA 
 
Em todo este capítulo darei como fato que quem deseja envolver-se 
no estudo bíblico é cristão ou, pelo menos, gostaria de ser. Teremos 
presente a pessoa que deseja ampliar seus conhecimentos e aprofundar e 
enriquecer sua vida e experiência cristãs com o estudo bíblico. 
Partiremos da afirmação de Armínio quando disse que "A Igreja é aquela 
comunidade que reconhece nas Escrituras a palavra de Deus" 
 
Certamente que é preciso estudar a Bíblia como se faz com 
qualquer outro livro. Para isso devemos apelar a todo o rigor e o arranjo 
acadêmico. Devemos nos aproximar da Bíblia com a mesma disposição 
de trabalho com que um estudante aproxima-se a qualquer dos grandes 
livros do mundo. 
 
Mas aqui há também outro aspecto não menos importante. 
Certamente é preciso estudar a Bíblia com os métodos com que se estuda 
qualquer livro elevado, mas é igualmente certo que a Bíblia não se 
estuda com o propósito com que se estuda qualquer outro livro. O livro 
comum se estuda para buscar informação ou instrução, por interesse ou 
prazer, como livro de texto ou como tarefa; mas a Bíblia foi escrita para 
que o leitor possa achar a vida e encontrar a Deus. Aelfrico, um dos 
primeiros tradutores da Bíblia, escreveu ao redor do ano 1000 de nossa 
era, uma nobre passagem sobre o que para ele significa a Bíblia. 
 
Quem quer que deseje ser um com Deus deve ler as Sagradas 
Escrituras vez após vez, pois quando oramos falamos a Deus e quando 
lemos a Bíblia é Deus quem nos fala. A leitura da Bíblia produz um 
nobre benefício ao leitor: ela o faz mais sábio ao informar sua mente e 
o conduz da vaidade do mundo ao amor de Deus. A leitura das 
Escrituras é, na verdade, uma ocupação honorável e contribui 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 102 
grandemente para purificar a alma. Pois assim como o corpo se nutre 
com o alimento natural, assim também o mais sublime do homem, isto 
é, sua alma, alimenta-se com as palavras divinas, segundo o Salmista: 
“Quão doces são ao meu paladar as tuas palavras! Mais que o mel à 
minha boca”. Ditoso, pois, aquele que lê as Escrituras e converte as 
palavras em ações. Todas as Escrituras foram escritas para nossa 
salvação, e por meio delas obtemos o conhecimento da verdade. O 
cego tropeça mais que aquele que tem vista; da mesma maneira, 
aquele que ignora os preceitos das Escrituras ofende mais 
frequentemente que quem os conhece. 
 
I. Portanto, o primeiro é que o leitor acuda reverentemente à Bíblia. 
Seu dever é começar a leitura com oração. Lutero dizia, a respeito de 
quemestuda as Escrituras, que “seu primeiro dever” é começar com uma 
oração de tal natureza que Deus, em Sua grande misericórdia, possa lhe 
conceder “a verdadeira compreensão de suas palavras”. O Salmista orava 
“Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua 
lei” (Sl 119:18), e bem poderíamos empregar a oração que muitos de nós 
aprendemos e amamos: 
 
Bendito Senhor, Tu que fizeste possível que todas as Escrituras 
fossem escritas para nosso ensino, concede que as ouçamos, leiamo-
las e as marquemos, e as aprendamos, e as digiramos de tal maneira 
que, pela paciência e consolo da palavra santa, possamos abraçar e 
conservar a bendita esperança de vida eterna que nos deste em Jesus 
Cristo nosso Senhor. 
 
Não estaria mal que por um momento considerássemos o conceito 
que os judeus tinham do Espírito. Segundo os judeus, o Espírito exerce 
uma dupla ação: traz a verdade de Deus aos homens, e igualmente 
importante os capacita para que a reconheçam ao vê-la. Isto significa que 
o Espírito que moveu os escritores sagrados a escrever seus livros, é o 
mesmo Espírito que nos capacita a estudar e interpretá-los. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 103 
Vejamos agora como o Espírito abriu as páginas da Bíblia a um dos 
maiores cristãos de todos os tempos. Em 1545 Lutero relata como 
quando jovem odiava até a própria palavra justiça. Para ele, esta palavra 
significava que Deus, em justiça, sempre está preparado para castigar o 
injusto e o pecador. A palavra o aterrava. Nunca antes pôde compreender 
a relação que há entre as duas metades de Romanos 1:17: “porque no 
evangelho a justiça de Deus se revela pela fé e para fé, como esta escrito: 
‘Mas o justo pela fé viverá’.” Passava dias e noites meditando em torno 
deste texto; e então começou a compreender que a palavra justiça 
significava que Deus, em Sua misericórdia, justifica o homem por meio 
da fé. Dito simplesmente, começou a entender que a justiça de Deus não 
é a justiça com a que Ele nos ameaça mas sim a justiça que nos oferece e 
nos outorga. Lutero escreve a seguir: 
A esta altura me senti totalmente renascido e como se tivesse 
transpassado o portal aberto do paraíso. Num instante o significado 
total das Escrituras parecia ter mudado. Logo repassei de cor as 
escrituras e reuni analógicos de outras palavras; tais como a obra de 
Deus, que significa que a obra que Deus realiza em nós; a virtude de 
Deus, que significa a virtude mediante a qual nos faz poderosos; a 
sabedoria de Deus, a salvação de Deus, a glória de Deus. Dali em 
diante, meu amor pela muito doce expressão justiça de Deus chegou a 
ser tão grande como o ódio que antes lhe tinha professado. É assim 
como esta passagem de Paulo se tornou realmente a porta do Paraíso. 
 
Num deslumbrante brilho de luz reveladora, o significado da 
passagem brilhou sobre Lutero, e o significado o conduziu, não ao 
conhecimento mas sim ao paraíso, ao compreender que tudo o que é de 
Deus é para quem tem fé. Estudar as Escrituras com reverência conduz à 
iluminação mediante a ação contínua do Espírito de Deus. 
 
Vejamos outro exemplo. Lutero e Erasmo foram duas grandes 
figuras da Reforma, mas tinham grandes diferenças entre si. Erasmo era 
o gramático, o filólogo. Podia identificar o significado de uma palavra e 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 104 
desentranhar a gramática de uma passagem, no que era inigualável; mas 
até aí chegava. Negava-se a enredar-se com a definição teológica. Mas 
Lutero começava onde Erasmo terminava. Não apenas perguntava: O 
que significa isto?, mas sim acrescentava a pergunta: O que significa 
para mim? Erasmo definiu o significado de penitência: "uma mudança 
de mentalidade e o reconhecimento do próprio pecado, depois de ter 
sofrido um dano e de ter identificado o erro". Até ali chegou, e dali 
prosseguiu Lutero, quem disse, e disse bem, que tal mudança e 
reconhecimento não podem efetuar-se "sem mudança nos sentimentos e 
no amor". Para poder ver os erros passados é necessário reorientar antes 
os próprios afetos. Dali partiu Lutero para afirmar certeiramente que tal 
mudança de sentimentos e amor só pode efetuar-se pela graça de Deus. 
Ninguém pode mudar-se a si mesmo; a graça tem que fazê-lo. Logo 
empreendeu Lutero o terceiro passo e declarou que a penitência é "uma 
transformação de mérito e sentimentos efetuada pela graça" o que, 
acrescentou, constitui a tradução de metanoia, penitência. 
Aqui temos, pois, a diferença: Erasmo tomou a palavra penitência 
na atitude de quem busca defini-la para adornar um dicionário; Lutero 
tomou no espírito de quem quer achar a salvação de sua própria alma e a 
de seus semelhantes. Ambos são necessários: o gramático e o teólogo, o 
filólogo e o evangelista. Mas para verdadeiramente estudar as Escrituras 
como cristão, é preciso achegar-se a elas nessa atitude reverente que, 
acima da precisão gramatical, busca e encontra a graça de Deus. 
 
II. A segunda regra para estudar a Escritura é que resulta melhor 
fazê-lo em comunhão com a Igreja. Isto não significa eliminar o estudo 
bíblico pessoal. Mas a Segunda Carta de Pedro o deixa bem claro: 
"conhecendo primeiro isto, que nenhuma profecia da Escritura é de 
particular interpretação" (2Pe. 1:20, Tradução Brasileira). Para estudar 
sabiamente a Escritura, devemos fazê-lo dentro da tradição da Igreja. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 105 
Simplesmente, isto é também o mais razoável. Ninguém começa a 
estudar medicina como se ninguém a tivesse estudado antes dele. 
Começa por entrar na sabedoria, as descobertas e logros de todos os seus 
antecessores. Se alguém embarcar no estudo de qualquer ramo científico, 
começa por aprender o que até esse momento se obteve nesse ramo. 
Seria néscio e arrogantemente néscio por certo, se ao estudar uma 
passagem da Escritura deixássemos de lado tudo o que a erudição e a 
piedade do passado nos legaram a respeito. É evidente que toda 
aprendizagem começa numa comunidade de aprendizagem, e que a 
aprendizagem cristã deve começar na igreja cristã. Lutero asseverou que 
o estudo da Escritura é possível somente para o cristão. Acertadamente 
sustentou que para estudar uma obra proveitosamente, a experiência do 
leitor deve corresponder, ao menos em certo grau, com a experiência do 
escritor. Estimava que qualquer compreensão da Escritura ficava 
condicionada a que o estudante conhecesse Cristo, "o sol e a verdade na 
Escritura", do qual se fala através da Bíblia, tanto no Antigo como no 
Novo Testamento. "Quanto mais profundamente se compreenda a 
Cristo" – disse Schwartz em sua Tradução bíblica – "mais profunda será 
a compreensão da Escritura". O cristão estuda as Escrituras tanto porque 
conhece Cristo como porque quer conhecê-Lo mais. 
Lutero sempre sustentou que a Vulgata Latina, ou seja a Bíblia 
traduzida por São Jerônimo, não era uma boa tradução porque Jerônimo 
a traduziu sozinho; com o que tinha perdido a promessa de Cristo de que, 
onde quer que se reúnem dois ou três em Seu nome, Ele está no meio 
deles (Mt. 18:20). O estudo bíblico dentro do companheirismo cristão é 
muito mais rico que aquele que faz-se isolado e por si mesmo. 
 
Temos, pois, três princípios. Primeiro, que ninguém pode achar a 
verdade por si mesmo. Segundo, que nenhum esforço humano conduz a 
nada sem o Espírito e a graça de Deus. Terceiro, que nenhuma conclusão 
é válida se a esta se chega à margem da comunhão com a Igreja. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 106 
III. Quem estuda a Bíblia deve fazê-lo com toda honestidade. Isto é, 
irá à Bíblia para buscar e encontrar a verdade, e não para tratar de 
demonstrar algo sobre o qual já tem uma ideia própria. Já é comum e 
quase normal utilizar a Bíblia como arsenal de textos-pretextos para 
demonstrar a validez de ideias preconcebidas. Pode utilizar-se a Bíblia 
para encontrar nela o que se quer encontrar: para ouvir o eco da própria 
voz, em lugar de escutar a voz de Deus. Em certa ocasião, Tyndale disse 
que aqueles que estudavamcom sacerdotes e monges chegavam à Bíblia 
"armados com princípios falsos que os impedem de entender as 
Escrituras". Por sua vez, Armínio observou que "nada obstrui mais a 
investigação da verdade que o comprometer-se previamente com 
verdades parciais". Isto quer dizer que nem sequer Deus pode ensinar a 
quem se aproxima à Bíblia trazendo já suas próprias conclusões. 
 
Em seu livro How to Read the Bible (Como ler a Bíblia), F. C. 
Grant relata como um antigo rabino satirizou certa vez a seu rival 
dizendo dele: “Quando o rabino Eliézer prega, a primeira coisa que faz é 
dizer ‘Escritura, cala-te enquanto eu interpreto’.” Hugh Pope, em 
Versões inglesas da Bíblia, menciona a Gardiner quando disse que "a 
Escritura é uma flor pura e doce, de onde as aranhas recolhem veneno e 
as abelhas mel... aproxime-se a ela com doutrina sólida e você a achará 
confirmada. Vai a ela infectado de opiniões maliciosas, e então torce 
mais seu conteúdo a fim de sustentá-las". Ao estudar a Bíblia, 
asseguremo-nos de que escutamos a Deus e não o eco de nossa própria 
voz. 
 
IV. Se formos nos aproximar honestamente da Escritura, isto 
implica uma coisa: implica especialmente que nos aproximaremos de 
toda a Escritura. Fazendo-o com mentalidade seletiva, até pode chegar-
se a sustentar posições opostas. Por exemplo, Eclesiastes 9:10: "Tudo 
quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque 
no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 107 
conhecimento, nem sabedoria alguma". Isto pode ser utilizado para 
demonstrar que não há vida para além da morte. 1 Coríntios 15:19: 
"Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os 
mais infelizes de todos os homens". Este versículo pode empregar-se 
para remover a crença de uma vida depois da morte, cortando assim o 
nervo vital da fé cristã. Se citarmos a lei de olho por olho e dente por 
dente, do Antigo Testamento (Êx. 21:24; Lv. 24:20; Dt. 19:21), 
poderíamos sustentar a aplicação da pena máxima para os criminosos. 
Por outro lado, poderíamos apelar ao tal por Cristo sobre dar a outra face 
e amar os nossos inimigos (Mt. 5:39,44) para sustentar que nenhum 
castigo retributivo tem lugar numa sociedade cristã. Se citarmos a 
Mateus 25:46: "E irão estes ao castigo eterno, e os justos à vida eterna" 
poderíamos sustentar que, depois da morte, alguns vão à alegria eterna e 
outros ao eterno castigo pelo juízo de Deus. Mas, apoiados em João 
12:32: "E eu, se for levantado da terra, a todos atrairei a mim mesmo", 
da mesma maneira poderíamos sustentar que todos se salvam. 
 
O açoite, pois, de toda a discussão teológica é a atitude de 
parcialidade e discriminação para dirigir as Escrituras, a qual se assume 
só para citar e mencionar o que se ajusta ao próprio ponto de vista, ou 
coincide com a posição própria; ao mesmo tempo que deliberadamente 
se descarta todo o material do outro ponto de vista. Por isso, 
argumentando e discutindo sobre a base de citações de textos bíblicos 
jamais se poderá conseguir nada. 
 
Ao estudar a Bíblia é necessário que apliquemos a totalidade da 
Escritura ao nosso problema e pensamento. Devemos encarar o 
problema, não à luz de algum texto ou série de textos, mas sim à luz da 
mente total e o caráter de Jesus Cristo, tal como o conhecemos; assim 
como à luz da mente e coração do Deus que é o Deus e Pai de nosso 
Senhor Jesus Cristo. Aproximar-se honestamente da Bíblia é aproximar-
Introdução à Bíblia (William Barclay) 108 
se à totalidade dela e não só a uma seleção dela, segundo nossa 
conveniência. 
 
V. Ainda mais, é importante que nossa entrega ao estudo das 
Escrituras seja total. Jesus disse que devemos amar a Deus com todo o 
nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças (Lc. 
10:27) e assim é como devemos estudar a Bíblia. 
 
Sempre houve e sempre haverá pessoas que consciente ou 
inconscientemente, desconectam sua mente ao começar o estudo das 
Escrituras. F. C. Grant, em seu livro Como ler a Bíblia, narra a 
experiência de um amigo dele. Dissertava este sobre como estudar o 
Antigo Testamento, e como, às vezes, este é difícil de entender. Ao 
terminar a conferência pediu a palavra uma jovem atrativa e inteligente, 
para replicar: "Você não necessita que alguém lhe diga como ler a 
Bíblia. Abra-a onde quer que, leia três versículos, ponha em branco a 
mente, e o Espírito Santo fará o resto!” Segundo ela, não se necessita a 
inteligência; a única coisa necessário para o estudo bíblico é a mente. 
De modo que, alguns suspeitam fortemente da razão humana, ou "a 
prostituta do diabo" de que fala Lutero. Mas Lutero, como tantos outros 
grandes pregadores, era apaixonado, e cheio de entusiasmo e convicção. 
Tinha a tendência a enfatizar certo aspecto de um argumento segundo o 
momento; pelo que quase sempre é inseguro tomar alguma de suas 
afirmações como se fosse algo definitivo, a menos que se comprovou o 
oposto previamente. Lutero pode argumentar corretamente que, para 
estudar a Bíblia, é preciso ter algo mais que o simples intelecto. Sustenta 
que há uma diferença entre a sabedoria humana e a sabedoria divina, e 
que a compreensão da Palavra de Deus está fora do alcance do poder e o 
intelecto humanos. Bem pôde ele dizer: "Oferece a Deus o teu coração 
vazio e te será revelada a verdade". 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 109 
Lutero pode alegar cabalmente que o intelecto é inadequado para 
entender a Palavra de Deus, e que pode ser o maior estorvo do ser 
humano. Bastaria sopesar algumas de suas citações: "A razão é a 
prostituta do diabo e nada pode fazer além de envergonhar e degradar 
tudo o que Deus faz". A fé fere de morte esta razão humana, e com ela 
mata a besta que nem o céu, nem a terra, nem todas as coisas criadas 
podem destruir". "A razão é incapaz de reconhecer justamente a deidade 
de Deus e de atribuí-la como Sua, embora em justiça só a Ele pertence. 
A razão sabe que Deus existe. Mas o que não sabe é a quem chamar 
propriamente Deus ... Assim é como a razão fica perante Deus à maneira 
do cego que segue a sua fortificação e comete erros garrafais e sempre 
erra o alvo, chamando Deus ao que não é e sem poder chamar Deus a 
quem sim é". Ninguém se expressou com mais desprezo pela razão 
humana que Martinho Lutero. 
 
Mas há outro aspecto que, expresso por Lutero, é perfeitamente 
razoável. Certo, as Escrituras foram dadas pelo Espírito e só podem ser 
entendidas pelo Espírito. Só o Autor das Escrituras é capaz de interpretá-
las. "Mas a mensagem do Espírito se transmite por meio da linguagem". 
"As palavras são veículos do pensamento: são como o santuário onde se 
encontra a verdade de Deus". E para achar o significado das palavras, 
para extrair o sentido do tema, a razão deve aplicar o pensamento mais 
rigoroso, o estudo mais intenso, a aplicação mais extenuante. Aqui é 
onde entra a razão humana. É preciso aplicar a razão para entender o 
dado da mensagem do Espírito. Conquanto a devoção capta a mensagem 
do Espírito por meio da graça, a erudição terá que se esforçar para extrair 
o significado das palavras em que a mensagem se expressou. 
Por isso Melâncton escreve em seu Encomium Eloquentiae (O 
Elogio da Eloquência): "Não creio estar errado quando opino que o santo 
pode ser esquadrinhado mercê à destreza do talento humano. Há algo no 
santo que ninguém pode ver jamais, a menos de que o mostre Deus: e 
não se nos pode revelar a Cristo sem que o Espírito Santo nos ensine... 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 110 
Mas à parte da profecia deve conhecer o significado das palavras, pois 
nelas se escondem os mistérios divinos como num santuário. Porque de 
que serve murmurar conjuros mágicos que ninguém entende? Não 
equivaleria a tentar contar uma história a um surdo? A mente humana 
precisa esforçar-se a fim de entender e comunicar a mensagem do 
Espírito. O próprio Lutero disse que as Escrituras ensinam vida eterna e 
que, precisamentepor esta razão, não podem entender-se sem o Espírito. 
Por isso é preciso orar para receber iluminação, orientação e 
entendimento. “Mas Deus concederá entendimento só a quem persevera 
no estudo das próprias palavras e medita sobre o significado que lhes 
conferiu o Espírito Santo”. 
Assim se estabelece a interação entre o Espírito de Deus e a mente 
humana. O Espírito ajuda a todo aquele que se esforça por ajudar-se a si 
mesmo. Deus não alimenta o homem como se alimenta um bebê. Quanto 
mais se contribua à Bíblia, mais se recebe dela. Quando a graça e guia do 
Espírito encontram-se no estudo, a dedicação intensa e o esforço de uma 
mente consagrada, então as Escrituras abrem os seus tesouros. A pessoa 
precisa oferecer-se com toda sua mente e coração à totalidade das 
Escrituras. 
 
VI. Antes de entrar em detalhes assinalaremos um último ponto 
geral sobre nossa atitude perante as Escrituras. O estudo das Escrituras 
tem como propósito conduzir à ação. Frequentemente ouvimos falar de 
círculos de discussão; mas se o trabalho de um círculo termina em 
discussão, algo anda muito mal; deve terminar em ação J. A. Bengel 
tinha anotado em seu Novo Testamento um famoso dístico (poema de 2 
linhas) latino: 
Te totum applica ad textum; 
Rem totam applica ad te. 
O que se poderia parafrasear como "Aplique-se todo você ao estudo 
da Escritura e logo se aplique todo o resultado de seu estudo". 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 111 
E como assinala Lutero, afinal de contas não estamos tratando com 
os regulamentos de um livro, mas com os mandamentos de uma pessoa, 
Jesus Cristo. Como disse Lutero a João Staupits numa carta: "Porque os 
mandamentos de Deus adquirem doçura quando compreendemos que 
não só são para ler-se em livros, mas nas feridas do muito doce 
Salvador". 
 
Ao estudar em grupo a palavra de Deus, não deveríamos fazê-lo 
para desfrutar de uma prazenteira discussão, senão para achar a vontade 
de Deus para nós e, tendo-a achado, não deveríamos nos limitar a saber, 
mas também a obedecer. 
 
Referimo-nos à atitude no estudo. Passemos agora a considerar a 
técnica de nosso estudo. Devemos esclarecer primeiro que nosso 
propósito, do princípio ao fim, é o de achar o significado da Bíblia. 
Embora isto soe relativamente fácil, é neste ponto onde a tarefa de 
estudar, frequentemente se complicou e foi concebida erroneamente. 
 
Os antigos sábios judeus costumavam dizer que a Escritura tem 
quatro significados. Primeiro vem Peshat, que é o simples significado 
literal. Segundo vem Remez, o significado por alusão, que é ao que chega 
o estudante quando não toma a passagem como narração simples mas 
sim como alegoria. Terceiro vem Derash, que significa a aplicação 
homilética da passagem uma vez que foi estudada com todos os 
instrumentos ao alcance. E quarto, vem Sod, que é o significado íntimo 
ao qual só pode penetrar o erudito espiritual. Peshat, Remez, Derash, 
Sod: as iniciais juntas destas quatro palavras é PRDS. No hebraico não 
há vocais, só consoantes; as vogais devem ser inseridas especificamente. 
Como as consoantes da palavra hebraica para Paraíso são PRDS, os 
antigos eruditos sustentavam que, se um estudante penetrava totalmente 
nos quatro significados, nesse mesmo momento estaria no Paraíso! Mas 
cometeram o erro de descuidar o significado simples e literal e se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 112 
dedicaram totalmente aos significados alegóricos e profundos, e uma vez 
que começamos a alegorizar as Escrituras podemos fazê-las dizer 
qualquer coisa. 
 
Eis aqui um exemplo relativamente simples de como costumavam 
fazer algumas alegorias. Tomemos a passagem do Eclesiastes 9:14-15, 
que diz: 
Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens; veio contra 
ela um grande rei, sitiou-a e levantou contra ela grandes baluartes. 
Encontrou-se nela um homem pobre, porém sábio, que a livrou pela 
sua sabedoria; contudo, ninguém se lembrou mais daquele pobre. 
 
Isto não é mais que uma simples parábola de como as pessoas 
esquecem o que por eles se faz e incorrem em ingratidão. Agora, uma 
das crenças básicas dos judeus é que há duas naturezas no homem: uma 
boa e outra má. A natureza boa impulsiona o homem a fazer o bem, e a 
natureza má tenta seduzi-lo a pecar. Assim que os rabinos alegorizaram 
esta parábola: "Uma pequena cidade", isto é o corpo. "Poucos homens 
nela", isto são os membros do corpo. "Vem contra ela um grande rei", 
isto é a natureza má, o impulso ímpio. "Assedia-a e levanta contra ela 
grandes baluartes", estes são os pecados. "acha-se nela um homem 
pobre, sábio", esta é a natureza boa, o impulso bondoso. "O qual livra a 
cidade com sua sabedoria", isto é o arrependimento e as boas obras 
mediante as quais os homens se salvam. "Ninguém se lembrava daquele 
homem pobre", porque para então domina o impulso ímpio e o impulso 
bondoso foi esquecido. É assim como uma simples história de ingratidão 
converte-se numa complicada alegoria sobre a natureza humana. 
Durante séculos, os eruditos cristãos agiram exatamente igual. Os 
mestres de gramática latina da Idade Média encerravam em quatro linhas 
o quádruplo significado das Escrituras: 
Litera gesta docet; Quid 
credas, allegoria; Mora 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 113 
lis , quid agat; Quid 
speres, anagogia. 
 
Que poderia ser assim traduzido: 
 
O literal diz o que sucedeu; 
o alegórico, o que deves crer: 
o moral, o que deves fazer; 
o anagógico, o que deves esperar. 
 
Schwartz em sua Biblical Translation (Tradução Bíblica) 
complementa-o assim: "O sentido literal explica os conteúdos históricos; 
o alegórico esclarece assuntos de fé, revelando a alegoria que se encerra 
no texto bíblico; o sentido moral indica as regras da conduta humana, e o 
sentido anagógico trata do futuro a que deve aspirar (a vida vindoura)". 
 
O problema esteve no fato de que frequentemente os cristãos se 
aproximaram da Bíblia como a uma caçada de significados ocultos, e 
assim se atribuíram significados místicos a relatos simples. Os gregos 
fizeram o mesmo com Homero, muito antes de que os judeus 
começassem a fazê-lo com o Antigo Testamento. Consideremos, por 
exemplo, o que faziam os gregos com seu deus Hermes. Primeiro 
começaram a dizer que Hermes provinha do verbo erein, falar. Logo 
acrescentaram que não era preciso considerar o Hermes como pessoa 
mas sim como símbolo, como alegoria do poder da palavra. Sobre essa 
base passaram a explicar as várias maneiras em que Hermes pode ser 
descrito. É chamado o condutor, porque a palavra conduz os 
pensamentos do homem à alma de seu próximo. É representado com pés 
alados para figurar as palavras aladas. É chamado o guia das almas 
porque as palavras levam consolo à alma. É chamado o despertador do 
sonho porque as palavras movem o homem à ação. Leva uma vara com 
serpentes enroscadas que representam as naturezas selvagens que são 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 114 
domadas pelas palavras. Assim foi como o deus Hermes foi convertido 
em alegoria do poder da palavra. 
 
É o mesmo que os judeus costumavam fazer. Converteram Sara e 
Agar nos símbolos da verdadeira sabedoria e da filosofia pagã. A mulher 
de Ló simbolizava para eles o apego da alma às coisas mundanas, o que 
produz cegueira para com Deus e Sua verdade. 
 
É óbvio que, se as Escrituras forem tomadas assim, pode-se fazê-las 
dizer quase qualquer coisa. O exemplo mais notório disto é a 
interpretação que Santo Agostinho faz da parábola do Bom Samaritano e 
que C. H. Dodd cita em seu livro Parables of the Kingdom (Parábolas do 
Reino) 
 
Um homem descia de Jerusalém a Jericó, o qual simboliza a Adão; 
Jerusalém é a celestial cidade de paz e de cuja bem-aventurança Adão 
caiu; Jericó significa a lua e exemplifica nossa mortalidade porque 
nasce, cresce, míngua e morre. Os ladrões são o diabo e seus anjos. 
Os que o despojaram de sua imortalidade, deixando-o meio-morto, 
pois um homem vive enquanto pode entender e conhecer a Deus,e 
está morto enquanto que o pecado o consome e oprime, e portanto o 
considera meio-morto. O sacerdote e o levita que o viram e passaram 
de largo, representam o sacerdócio e ministério do Antigo 
Testamento, que em nada aproveitam para a salvação. Samaritano 
pode ter a derivação hebraica de guardião que, por sua vez, é um 
significado do próprio Senhor. Enfaixou suas feridas indica a sujeição 
do pecado. O óleo é o consolo de uma boa esperança, e o vinho é a 
exortação a trabalhar com espírito fervoroso. A cavalgadura é a carne 
em que Cristo chegou até nós. Pô-lo em sua cavalgadura é a fé na 
encarnação de Cristo. A hospedaria é a Igreja, que é onde os viajantes 
acham refrigério em sua peregrinação de volta ao lar celestial. Outro 
dia é depois da Ressurreição do Senhor. Os dois denários são os dois 
preceitos de amor ou, possivelmente, os dois sacramentos. O 
estalajadeiro é o Apóstolo Paulo. A promessa que faz de pagar tudo o 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 115 
que gaste é, ou seu conselho de celibato ou o fato de que trabalhou 
com suas próprias mãos para não se tornar em carga de seus irmãos. 
 
Se tal fosse o verdadeiro significado desta parábola não poderia 
esperar-se que uma pessoa comum o descobrisse jamais por si mesma; 
resulta deste modo evidente que praticamente não há limite à quantidade 
de interpretações que poderiam ser tiradas das Escrituras. 
 
Na Carta de Barnabé 9:7-9, acha-se outro caso dos extremos a que 
se pode chegar com a alegorização. Barnabé parte da passagem em 
Gênesis 17:23, 27. Aprendemos ali a origem da circuncisão e que 
Abraão circuncidou a todos os varões de sua casa. Cotejando-o com 
Gênesis 14:14 poderíamos inferir que se trata de trezentos e dezoito 
varões em total. Na Septuaginta, que é a versão que emprega Barnabé, a 
quantidade 318 se expressa na ordem dezoito homens e trezentos. Pois 
bem, em grego as quantidades não se expressam com números mas com 
letras do alfabeto, que é como se em português o A fosse igual a 1, o B 
igual a 2, e assim sucessivamente. Agora, em grego as letras para dezoito 
são o iota, I, que equivale a 10, et, o E longo grego, que equivale a 8. 
Quer dizer, que 18 é IE que, evidentemente, são as duas primeiras letras 
do nome IESUS, Jesus. A letra grega para 300 é tau, T, que tem a forma 
de uma cruz romana, como aquela na qual Cristo foi sacrificado. De 
modo que, Barnabé interpreta trezentos e dezoito como IE, que 
representa a Jesus, e o T como símbolo da cruz: portanto, quando Abraão 
efetuou a primeira circuncisão, fê-lo "olhando antecipadamente ao 
espírito de Jesus". 
 
Este é um método desastroso para interpretar as Escrituras, e 
deveríamos evitá-lo a todo custo. O significado que buscamos é aquele 
que teve originalmente para o escritor e não aquele que engenhos 
subsequentes puseram mais tarde no texto. Até hoje os pregadores 
apelam à alegoria, embora certamente não com a desviada ingenuidade 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 116 
dos antigos intérpretes, mas de maneira mais restringida. Até o 
renomado pregador James S. Stewart, em seu livro de sermões The Gates 
of New Life (Portais à nova vida) tem um sermão baseado em Atos 
27:29: "E, receosos de que fôssemos atirados contra lugares rochosos, 
lançaram da popa quatro âncoras e oravam para que rompesse o dia". 
Intitula o seu sermão "As âncoras da alma". Chega a dizer que cada 
alma deve ter quatro âncoras: a de esperança, a do dever, a da oração, e a 
cruz de Cristo. Vemos como uma simples manobra marinha em meio de 
um temporal, transformou-se numa alegoria dos apoios da alma na 
tempestade da vida. O emprego de tal método, mesmo quando usado por 
tão eminente pregador, parece-nos totalmente injustificado. Nosso 
propósito deve ser buscar o significado bíblico original. 
 
Se nossa tarefa fundamental for a de averiguar o significado das 
Escrituras, então devemos começar por estudar as palavras. Daremos só 
duas ilustrações sobre o inspirador que pode resultar o estudo das 
palavras. 
 
Paulo menciona três vezes o penhor do Espírito. A palavra original 
para penhor é arrabon, que faz parte do vocabulário comercial e de 
negócios. Um arrabon era parte do preço de compra ou do preço 
contratado que se pagava adiantado em garantia do pagamento restante. 
Se uma mulher vendia uma vaca, recebia um arrabon suficiente como 
garantia de que lhe seria pago o resto. Ou alguém contratava um 
exterminador de ratos. Os roedores causavam estragos nos vinhedos 
durante a colheita, assim que o dono do vinhedo adiantava ao mata-ratos 
uma quantidade como arrabon para que imediatamente se dedicasse a 
exterminar a praga. Se para a festa da aldeia se contratava a um grupo 
coral, imediatamente recebiam seu arrabon que garantia o pagamento 
total depois de sua atuação. O arrabon era a antecipação do preço total 
que garantia o pagamento completo. Neste sentido Paulo fala do Espírito 
Santo como o arrabon de Deus. Quer dizer, para o cristão o dom do 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 117 
Espírito Santo é a antecipação da vida celestial e a garantia de que algum 
dia esta vida chegará em toda sua plenitude. 
 
O Espírito Santo é com frequência chamado Consolador. Na Versão 
Autorizada (inglesa) o Evangelho de João (Jo 14:16,26; 15:26; 16:7) 
emprega o título de Consolador para descrever o Espírito Santo. 
Entretanto, poucas há que tenham limitado e truncado tanto a 
compreensão da verdadeira obra do Espírito Santo como o uso 
consistente da palavra Consolador. Em grego, a palavra é Partiklétos, 
que às vezes se translitera diretamente como Paracleto até em nossos 
hinos. Esta palavra grega Parakletos significa literalmente alguém que 
foi chamado ao lado de mais alguém. Em grego sempre se decide o 
significado da palavra segundo o propósito para o qual foi chamada a 
pessoa. Pode significar alguém que é chamado a apresentar evidência 
para a defesa, uma testemunha a favor. Pode significar alguém chamado 
para defender a causa de alguém, um advogado defensor. Pode 
significar alguém que foi chamado para proporcionar ajuda médica, 
um doutor. Emprega-se para descrever a alguém que discursa a um 
exército deprimido e sem espírito de luta quem, por suas palavras e o 
impacto de sua personalidade, injeta-lhe novo ânimo e valor. 
 
Estes exemplos nos permitem apreciar que um parakletos é alguém 
chamado em ajuda de alguém que tem dificuldades para fazer frente a 
alguma situação. Assim que, o Espírito Santo é a pessoa através da qual 
chega a nós a graça e fortaleza de Deus e que nos capacita para fazer 
frente à vida. Certamente, parte de seu trabalho é consolar, mas só uma 
parte. Chamar Consolador o Espírito Santo e limitar-se a isso é ter uma 
perspectiva limitada e sentimentaloide do Espírito, embora no original a 
palavra esteja cheia de poder e da promessa da habilidade dada por Deus 
para confrontar e dominar qualquer circunstância da vida. 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 118 
Como, pois, introduziu-se a palavra Comforter (Consolador) na 
tradução inglesa da Bíblia? Introduziu-a Wycliffe ao redor de 1586 e ali 
ficou desde então. Só que nos tempos do Wycliffe era uma tradução 
perfeita. A palavra comfort se deriva do latim fortis, valente, e 
originalmente significa alguém que injeta coragem. Tomando dois 
exemplos da aplicação desta palavra por Wycliffe encontramos Efésios 
6:10 que traduz o inglês: "Be ye comforted in the Lord" (Sede 
confortados no Senhor) e em 1 Timóteo 1:12 o verte "I dou thanks to 
him who comforted me" (Dou graças àquele que me confortou). Em 
ambos os casos a palavra grega é endunamoun, cuja raiz é dunamis, 
poder, de onde provém a palavra dinamite. No tempo de Wycliffe, 
confortar uma pessoa significava enchê-la com um poder como de 
dinamite espiritual. O Espírito Santo não deve enxugar nossas lágrimas, 
mas antes, proporciona-nos poder dinâmico para enfrentar a vida. 
Assim que, o primeiro passo na técnica de estudo bíblico consiste 
em assegurar-se do significadoda passagem em estudo: a partir da 
investigação do significado das palavras. Idealmente, isto significa que o 
grupo de estudo bíblico deve ser guiado por alguém que conheça o 
hebraico e o grego. Isso seria impossível. Em sua falta, o grupo deveria 
ter acesso a alguém com tais conhecimentos. Mas até isto resulta 
impossível. Normalmente, o pastor poderia ser esta pessoa, mas os 
métodos atuais de preparação pastoral não incluem necessariamente a 
aprendizagem das línguas originais. Assim que, provavelmente, o grupo 
tem que depender de comentários fundamentados em tais línguas. 
 
Em nossa busca por achar o significado bíblico encontramos outra 
necessidade. Para nos assegurar o significado de qualquer passagem das 
Escrituras, precisamos empregar alguma tradução contemporânea. A 
Versão Autorizada (inglesa) sempre será conhecida e amada como uma 
das realizações elevadas do idioma, mas existem quando menos três 
razões que a tornam inadequada para o estudo de hoje. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 119 
I. Há passagens que deixaram de ser inteligíveis aos ouvidos 
contemporâneos ou nos quais com o tempo se alteraram os significados 
das palavras. O assombroso numa tradução feita em 1611 não é que tais 
exemplos existam nela, mas que em sua totalidade haja tão poucos. Mas 
aqui há vários exemplos à cunha: 
They fetched a compass (Eles traçaram um compasso) de sete dias de 
caminho (2Rs. 3:9). 
Dali traçamos um compasso (we fetched a compass) chegamos a 
Régio (At. 28:13). Traçar um compasso significa percorrer um 
circuito. 
 
Na Versão Autorizada (inglesa) sobrevive uma acepção abandonada 
e frequentemente equívoca, da palavra prevent (prevenir). 
 
Ligaduras do Sheol me rodearam: preveniram-me laços de morte (Sl 
18:5). 
 
Por que me preveniram os joelhos? (Jó 3:12). E de amanhã minha 
oração te prevenirá (Sl 88:13). 
 
Os moradores da terra de Tema levaram água ao sedento e preveniram 
com pão ao que fugia (Is. 21:14). 
 
No inglês atual a palavra prevent (prevenir) significa estorvar, 
impedir, deter alguém que faz algo. Na linguagem de 1611 significa ir 
adiante, preceder e, portanto, reunir ou encontrar, mas sem traçado de 
estorvo ou prevenção no sentido atual do termo. 
 
A palavra conversation (conversação) tem uma aplicação ainda 
mais equívoca. 
 
Tendes ouvido a respeito de minha conversação em outro tempo no 
judaísmo (Gál.1:13). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 120 
Sê o exemplo dos crentes em palavra, conversação, amor (1Tm. 4:12). 
 
Quem é sábio e entendido entre vós? Mostre pela boa conversação 
suas obras em sábia mansidão (Tg. 3:13). 
 
Sede santos em toda sua maneira de conversação (1Pe. 1:15). 
 
Teniendo vuestra conversación honesta entre los gentiles (1Pe. 2:12). 
 
Atualmente, conversação é a maneira de falar de uma pessoa, sua 
linguagem, seu pensamento. Mas conversação vem do latim conversar 
que significa subir e baixar, ir e vir, e abrange não só a fala mas também 
à totalidade da conduta. Nos versículos anteriores não se trata de ter 
cuidado ao falar, e sim de nosso comportamento total, de nossa vida e 
conduta. No último versículo resulta duplamente enganoso pois honesta 
não significa ali dizer a verdade. Em 1611 honesta significava 
usualmente honorável. Assim que 1Pe. 2:12 significaria realmente: "Em 
seu contato com o mundo gentil, vede que vossa conduta seja sempre 
honorável". 
Fica, pois, claro que em nossa busca do significado bíblico 
necessitamos uma versão em linguagem atual, não do século XVII. 
 
II. A Versão Autorizada (inglesa) tem outra característica digna de 
menção, que é sua linguagem belíssima embora acompanhada de certo 
arcaísmo. A linguagem é bela mas não do século XX, e é precisamente a 
combinação de beleza e arcaísmo o que lhe confere a solenidade e 
dignidade que a muitos é tão cara. Agora, uma tradução deveria 
reproduzir não só o significado, mas também a atmosfera do original. 
 
Pelo que cabe ao Antigo Testamento, a atmosfera da Versão 
Autorizada (inglesa) é irreprochável, pois o hebraico ali é clássico, do 
melhor. Mais pelo que cabe ao Novo Testamento, a situação é muito 
distinta. O grego neotestamentário é coloquial, do tipo de linguagem que 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 121 
se fala nas ruas durante o Século I. Não se trata de grego clássico. Já 
assinalamos que, embora o Novo Testamento tenha perdido toda sua 
importância religiosa, ainda ficaria a primordial importância de ser o 
único monumento escrito que existe do grego popular do Século I. O que 
significa que quanto mais solene, elegante, bela e arcaica seja uma 
tradução do Novo Testamento, pior será a tradução. Não deve soar bela e 
elegante e solene e antiquada, e sim atual e popular, do tipo de 
linguagem que se fala em casa e na rua, ou que se lê nos periódicos. 
Seria pior uma tradução solene, clássica e arcaica do Novo Testamento, 
pois isso é precisamente o que não é a linguagem do Novo Testamento 
grego. 
 
Qualquer tradução do Novo Testamento deve falar com a pessoa na 
linguagem vernácula do país; qualquer outra tradução é uma má 
tradução. 
 
Assim que, a Versão Autorizada (inglesa) era apropriada em 1611, 
mas não hoje. Quando Lutero se referiu à sua própria tradução da Bíblia, 
afirmou que o tradutor não devia traduzir para quem falassem latim. 
"Devemos perguntar disto à mãe no lar, às crianças na rua, ao cidadão 
comum no mercado; observar como movem a boca quando falam, e 
depois fazer nossa tradução". O essencial para um estudo do significado 
do Novo Testamento é empregar uma tradução na linguagem de nossa 
própria geração". 
 
III. O terceiro fato sobre a Versão Autorizada (inglesa) é o mais 
sério de todos. É óbvio que nenhuma tradução pode ser melhor que os 
manuscritos em que se baseia. Antes da invenção da imprensa, os 
manuscritos eram copiados à mão e, com o máximo de cuidados, cada 
cópia manual causava novos erros às cópias sucessivas. Portanto, quanto 
mais antigo for um manuscrito, maiores possibilidades tem de ser mais 
correto. Quanto mais próximo estiver ao original e menos forem as 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 122 
diferenças entre a cópia e o original maior será sua precisão. Além disso, 
quanto mais manuscritos haja disponíveis, maiores serão as 
probabilidades de que em alguns deles se preservem os textos originais. 
 
A Versão Autorizada (inglesa) publicou-se em 1611. Foi tomada de 
um texto grego, ou seja de um Novo Testamento que em grande parte 
foi o de Erasmo revisado por Beza e Estéfano. Tal texto grego tinha 
como base um máximo de dez manuscritos gregos, o mais antigo dos 
quais datava dificilmente do século X. Isto significa que a Versão 
Autorizada (inglesa) é tradução de um texto grego do Novo Testamento 
que resulta bastante inadequado. Não foi culpa dos tradutores nem dos 
que recolheram o texto empregado. 
 
Eles utilizaram o melhor que havia em 1611. Mas desde então fez-
se todo tipo de descobertas e apareceram muitos manuscritos 
desconhecidos. Na atualidade contamos com manuscritos procedentes 
dos séculos terceiro e quarto, os quais podem contar-se por vintenas e até 
por centenas. Quer dizer, que no século XX conta-se com centenas de 
manuscritos que são seis ou sete séculos mais antigos que os que 
serviram de base ao texto grego de onde se traduziu a Versão Autorizada 
(inglesa). 
 
Por mais que amemos a Versão Autorizada como monumento de 
prosa inglesa; por mais que nossos corações descansem em sua 
musicalidade e em suas cadências; não podemos menos que reconhecer 
que já não é uma tradução adequada no século XX. Isso não significa 
que deixemos de lê-la para propósitos espirituais e devocionais, mas que 
já não se pode utilizar adequadamente como base para o verdadeiro 
estudo bíblico. Para estudo (em inglês) sugerimos empregar a Versão 
Revisada Padrão ou, ainda melhor, a Nova Bíblia Inglesa. Não fazê-lo 
equivale a fechar os olhos deliberadamente ao novo conhecimento da 
Introdução à Bíblia (WilliamBarclay) 123 
Palavra que Deus pôs à nossa disposição em nossa época e para nossa 
geração. 
 
Uma vez estabelecido o significado da passagem, com relação às 
próprias palavras, o seguinte passo é colocá-las dentro de um contexto e 
ambiente. É impossível entender uma pessoa sem saber algo de seu 
ambiente e antecedentes. Por exemplo, não podemos entender por que 
alguém é como é, a menos que conheçamos algo de seu lar, seus pais e 
sua formação. É importante conhecer que algo sucedeu; mas mais 
importante ainda é entender por que sucedeu. Para entender isto é 
necessário conhecer o contexto e os antecedentes do evento. Vejamos 
dois exemplos disto, um de aspecto geográfico e outro sobre a vida e os 
costumes. 
 
Uma das diferenças supremas entre a antiguidade e a atualidade é 
a aniquilação da distância. Atualmente, alguém toma o café da manhã 
em Londres e almoça em Nova Iorque, a mais de 4.800 quilômetros de 
distância. Nosso mundo atual diminuiu, e seus habitantes levamos uma 
vida extremamente móvel. Pelo contrário, segundo o que sabemos de 
Jesus, durante toda Sua vida em Palestina não viajou a mais de 160 
quilômetros desde Sua casa. 
 
Ao ler a história da criança Samuel (1Sm. 1 e 2), parece como se a 
criança e sua mãe Ana estivessem muito afastadas. Cada ano ela passa a 
visitá-lo e leva a nova capa que teceu para ele. Tal parece que Ana 
empreende toda uma expedição e, entretanto, Ramá onde vivia Ana, está 
a 27 quilômetros de distância de Siló, que é onde servia Menino 
Samuel. Ou tomemos o caso do dilúvio, que em Gênesis 6 é visto como 
evento mundial. Mas para o escritor do relato o mundo se reduz a 
Mesopotâmia e o Vale do Eufrates. O antigo escritor não tinha a menor 
ideia da existência de outros continentes como a América, África e 
Austrália. Para ele, o mundo se limitava à pequena porção que conhecia. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 124 
E é um fato histórico indubitável que nessa região teve lugar um dilúvio 
que destruiu o mundo conhecido pelo escritor de então. Mas não 
podemos pensar que a palavra mundo tivesse para ele o mesmo 
significado que o mundo onde 4.800 quilômetros se percorrem numa 
manhã de viagem. 
 
Ainda podemos considerar um exemplo mais detalhado. Na 
purificação do templo, que é uma das histórias mais impressionantes dos 
evangelhos, é ameaçadora a imagem de um Jesus lívido de ira e com o 
látego na mão. Primeiro de tudo, consideremos o Átrio dos Gentios que 
foi onde teve lugar este incidente. O templo de Jerusalém constava de 
vários átrios e o acesso a cada um deles era cada vez mais limitado. 
Qualquer um poderia entrar neste átrio, fosse ou não judeu. Em seguida 
vinha o Átrio das Mulheres, para além do qual nenhuma mulher podia 
passar. Entre ambos átrios havia uma parede baixa na qual havia uma 
placa onde se advertia os gentios que não deviam passar mais adiante, 
sob pena de morte instantânea. Depois do Átrio das Mulheres vinha o 
dos Israelitas, para além do qual nenhum leigo podia passar. Finalmente 
vinha o Átrio dos Sacerdotes, onde estava o grande altar, o candelabro 
dos sete braços, a mesa dos pães da proposição e o altar do incenso, onde 
só podiam entrar os sacerdotes. No extremo do Átrio dos Sacerdotes 
estava o Templo propriamente dito, o lugar Santo e o Santíssimo, onde 
só o Sumo sacerdote podia entrar, e isso unicamente no dia do Perdão. 
De modo que, quanto mais perto encontravam-se os átrios do Templo, 
menos gente podia entrar neles. O incidente da Purificação do Templo 
teve lugar na área onde os gentios podiam entrar, e que era o único lugar 
onde podiam adorar e orar. 
 
Logo do lugar, consideremos os personagens envolvidos. Em 
primeiro lugar, os cambistas. Cada varão judeu e prosélito devia pagar de 
imposto ao Templo meio siclo anual, que seria o equivalente do US$ 
0.12 dólares. As mulheres e as crianças estavam isentas. Mas é preciso 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 125 
levar em conta que então o trabalhador percebia diariamente o 
equivalente a US$ 006 dólares aproximadamente O imposto, pois, 
significava quase dois dias de salário, o que é muito significativo. Por 
outro lado, o imposto do Templo devia pagar-se em siclos do santuário 
ou siclos galileus. Isto se devia a que eram as únicas moedas que não 
tinham nenhuma efígie real gravada nelas, o que para os judeus 
representava uma imagem idólatra, especialmente considerando que 
então havia tantos monarcas a quem se rendia culto como a um deus. Na 
Palestina circulava ordinariamente todo tipo de moedas provenientes da 
Grécia, Roma, Fenícia, Egito, Síria, etc. O imposto era pago durante a 
Festa da Páscoa que atraía judeus de todo o mundo, os quais deviam 
celebrar a Páscoa e pagar seu imposto. Os peregrinos traziam consigo 
todo tipo de moedas. Era uma obrigação pagar este imposto, e na 
Palestina as autoridades do Templo podiam embargar os bens daqueles 
que não o fizessem. Assim que os visitantes iam aos banqueiros ou 
cambistas para converter seu dinheiro em siclos. Os cambistas cobravam 
um maah (equivalente a um centavo e meio americano) mas se a moeda 
estrangeira era por mais de meio siclo, então lhe sobrecarregavam um 
maah adicional por lhe dar câmbio. Lembre-se que o maah equivalia à 
quarta parte de um salário de então. Assim que o visitante devia investir 
quase dois dias de salário no pagamento do imposto ao Templo, e quase 
outro meio-dia de salário porque lhe cambiassem suas moedas. Era um 
despojo colossal em que abertamente se exauria os peregrinos. 
Anualmente produzia ganhos equivalentes a US$ 13.000 e US$ 15,000 
dólares, que seriam somas milionárias na atualidade. A riqueza da 
tesouraria do Templo era tal que quando Crasso, general romano, 
saqueou-o no ano 54 a.C., levou-se o equivalente a US$4.100.000 
dólares sem deixar exausta essa riqueza. Tal quantidade teria uma 
capacidade de compra atual equivalente a centenas de milhões de 
dólares. Os peregrinos, pois, eram vítimas dos cambistas. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 126 
Também havia ali os vendedores de pombas. Quase todos os 
visitantes iam com alguma oferta para o Templo que, para os mais 
pobres, significava comprar ao menos uma pomba ou um pombinho. Os 
animais para o sacrifício no Templo deviam estar sem mancha nem 
defeito, o que era verificado pelos inspetores do Templo. Fora do 
santuário havia tendas onde se podiam comprar as pombas. Mas o mais 
certo era que o inspetor lhes encontrasse algum defeito e por isso era 
menos arriscado comprar dentro do próprio Templo, onde já tinham sido 
revisadas. Nas tendas de fora se conseguia o par de pombas até pelo 
equivalente a US$0,03 dólares, porém nas do Templo custavam até 
US$ 1,12 dólares. Certamente que isto era uma fraude muita mais 
lucrativa, e por isso as tendas no Átrio dos Gentios eram melhor 
conhecidas como o Bazar de Anás. 
 
Agora podemos compreender melhor a irritação de Jesus. Os pobres 
peregrinos estavam sendo explorados, e o único lugar onde os gentios 
podiam adorar, foi convertido num mercado oriental, dominado por 
gritos, ofertas e alegações por escrito. Também podemos entender por 
que Anás e companhia odiavam a Jesus, pois os tinha atacado em seus 
interesses criados. Estes antecedentes mostram a enorme transcendência 
da Purificação do Templo. 
 
Até onde seja possível, cada incidente bíblico deveria ser lido à luz 
de seus antecedentes, o que frequentemente demanda trabalho e 
investigação para chegar a entender, mas os resultados valem a pena. 
 
Existe outro fato que com frequência joga um papel preponderante 
em nossa interpretação bíblica, particularmente com referência ao Antigo 
Testamento. Para o judeu não existiam causas secundárias, pois nos 
tempos do Antigo Testamento, tudo se atribuía à intervenção direta de 
Deus. Atualmente, por exemplo, ouvimos um trovão e o explicamos 
conforme determinadas condições atmosféricas; os judeus se limitavam a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 127 
dizer: "Deus trovejou" ou "Deus enviouo trovão". Se alguma praga 
destruir a colheita, nós o explicamos pelas condições do solo ou a ação 
das pragas. Os judeus diziam: "Deus enviou a praga". O homem 
contemporâneo explica as pragas e pestes, referindo-se às condições que 
as ocasionaram. O judeu dizia: "Deus enviou a praga, a peste". 
 
Um exemplo vívido disto encontramo-lo em 2Rs. 19:35,36, que se 
refere à invasão da Palestina por Senaqueribe, rei da Assíria, quem por 
então tinha levantado sítio contra Jerusalém. Tudo parecia perdido e a 
queda da cidade era só uma questão de tempo. Aqui intervêm estes dois 
versículos: 
 
Então, naquela mesma noite, saiu o Anjo do SENHOR e feriu, no 
arraial dos assírios, cento e oitenta e cinco mil; e, quando se 
levantaram os restantes pela manhã, eis que todos estes eram 
cadáveres. Retirou-se, pois, Senaqueribe, rei da Assíria, e se foi; 
voltou e ficou em Nínive. 
 
Sucede que há outras duas versões sobre este evento histórico. A 
primeira provém do historiador grego Heródoto, quem relata que o rei da 
Assíria se retirou porque os ratos roeram as cordas dos arcos e as 
correias dos escudos de seu exército. O anjo do Senhor, ou os ratos? A 
terceira versão provém de Beroso, historiador caldeu, quem registra que 
Senaqueribe foi obrigado a retirar-se porque uma praga dizimou o seu 
exército. O anjo do Senhor, os ratos, ou uma praga? Poderia ser que a 
resposta seja: todos eles. Foi uma praga o que ocasionou o retiro armado, 
assim que Beroso está certo. A praga, especialmente a peste bubônica, é 
transmitida por ratos e ratões; assim que Heródoto está certo. Não era a 
vontade de Deus que Senaqueribe e suas hostes conquistassem 
Jerusalém, assim que o historiador hebreu está certo. Os historiadores 
pagãos assinalaram causas secundárias da retirada de Senaqueribe; o 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 128 
historiador hebreu eliminou as causas secundárias e adjudicou o fato 
diretamente a Deus. 
 
Quando lermos o Antigo Testamento, lembremos especialmente 
que tudo se move num mundo cheio da presença de Deus. Tudo o que 
sucede é atribuído à ação direta de Deus e não à causa secundária. Como 
resultado, no Antigo Testamento eram considerados como milagrosos 
muitos eventos dos quais conhecemos sua causa secundária. Bem 
poderia dizer-se que para o judeu era Deus quem operava, embora nós 
sabemos mais como é que Deus opera. 
 
Ainda existe outro ponto importante sobre a interpretação. Há 
porções do Antigo Testamento que são poesia, e tratá-los como prosa é 
mal interpretá-los e tratá-los injustamente. Tomemos Josué 10:12, 13, 
exemplo sobressalente do que dizemos: 
 
Então, Josué falou ao SENHOR, no dia em que o SENHOR entregou 
os amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse na presença dos 
israelitas: Sol, detém-te em Gibeão, e tu, lua, no vale de Aijalom. E o 
sol se deteve, e a lua parou até que o povo se vingou de seus inimigos. 
 
Evidentemente temos aqui uma passagem que merece nosso exame 
mais cuidadoso a fim de alcançar sua correta interpretação. Primeiro, não 
se pode tomar literalmente, pela simples e suficiente razão de que, de 
fato, o sol não se move, mas sempre permanece imóvel (em relação à 
Terra). A Terra é a que se move e, se alguma vez tivesse deixado de 
mover-se, toda forma de vida teria desaparecido repentina e 
catastroficamente. Além disso, se algo como isto tivesse acontecido em 
alguma forma, se em alguma ocasião se pôde dizer que o sol ou a Terra 
ficaram imóveis, isto teria sido não só um acontecimento de história 
judaica mas também global, e teria ficado registrado na história de cada 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 129 
nação do mundo. Não é possível tomar esta passagem com acérrimo 
literalismo. 
 
Mas logo surge algo mais. Vemos em Josué 10:13 [Tradução 
Brasileira] que se trata de uma citação do livro de Jasar, que é 
mencionado em outra ocasião. Toma Jasar como fonte de grande 
lamento de Davi pela morte de Saul (2Sm. 1:18). Está, pois, claro que o 
livro do Jasar era um livro de poesia e seu material era poético. A Versão 
Revisada Padrão (inglesa) imprime corretamente como poesia o relato de 
Josué. 
 
Assim que, nesta passagem nos fala um poeta que fala do sol ao 
estilo do poeta do Salmo 19 (5,6), que fala do sol como marido que sai 
diariamente sai dos seus aposentos e faz seu percurso cotidiano de um 
extremo ao outro dos Céus. Esta é linguagem poética, que empregamos 
até na conversação comum. Dizemos, por exemplo, "foi a hora mais 
longa de minha vida", mas não há hora que passe dos sessenta minutos. 
Quando nos sentimos felizes, dizemos que "o tempo foi embora 
voando", embora o tempo em si transcorra sempre ao mesmo ritmo. 
 
Não nos preocupemos, pois, tentando encontrar explicações à 
passagem de Josué. O que significa é que, pela ajuda de Deus, esse dia 
foi o bastante longo para obter a vitória: que pela graça de Deus se 
acumularam nele os eventos que deram o triunfo ao povo de Deus. 
Usamos mal a Bíblia quando tratamos de converter em prosa a beleza de 
sua poesia. 
 
Chegamos agora ao que bem poderia ser o que mais devemos 
lembrar ao tratar de interpretar a Bíblia. Para escrevê-la, foram 
necessários mil anos, e cobre um período histórico de quase três mil 
anos, à parte dos atos pré-históricos. Tomemos mil anos em termos 
atuais; retrocedamos todo esse tempo, e estaremos aproximadamente no 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 130 
período do Alfredo o Grande. É evidente que a vida e o pensamento 
naquela sociedade e civilização eram muito diferentes. Com a Bíblia 
sucede algo muito semelhante. Se a narração bíblica se estender dezenas 
de séculos, não pode haver nela um só nível de pensamento, religião e 
ética. O que deve ter é desenvolvimento. Deus só podia dizer à 
humanidade o que ela podia e queria receber. A mensagem de Deus 
devia adaptar-se à condição da mente humana quando tal mensagem foi 
emitido. Se quer ensinar álgebra a um acanhado, não se começa pelo 
teorema binômico, mas sim se conduz gradualmente a ele. Para ensinar 
uma criança a tocar piano, não se começa pelos prelúdios e as fugas de 
Bach, pois são ápices e não elementos musicais. Para ensinar grego, não 
se começa por Píndaro ou pelos coros de Tosquio, mas se comunica ao 
aluno o material mais elementar. O mesmo ocorre com a Bíblia. Deus 
teve que guiar a mente humana de menos a mais, do nível mais baixo ao 
mais elevado, da penumbra ao deslumbramento. Isso é óbvio, pois se 
soubéssemos tudo, que necessidade teria tido que grandes profetas e, 
sobretudo, que Cristo viesse ao mundo? A revelação é sempre um 
processo contínuo. 
 
Em termos gerais, isto é o que se conhece como o princípio da 
revelação gradual. Por assim dizer, a revelação de Deus foi 
desenvolvendo-se ao desenvolver-se a capacidade humana para recebê-
la. Em lugar de uma revelação gradual, seria melhor falar de uma 
compreensão gradual da revelação. Não é que Deus tenha dosado a 
revelação como com conta-gotas, mas que Ele sempre ofereceu a 
verdade em todo o seu esplendor, mas a mente humana não estava 
capacitada nem disposta a receber mais que uma pequena porção dela. 
 
Quando na Bíblia encontramos algo subcristão, não há por que 
explicá-lo evasivamente nem defendê-lo. Esse algo representa a etapa 
que a humanidade tinha alcançado até esse momento. Sabemos porque, 
mais de uma vez, Jesus advertiu: "Ouvistes o que foi dito aos antigos... 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 131 
Eu, porém, vos digo... " (Mt. 5:21, 27, 31, 33, 38, 43). Vivemos isto na 
prática, porquanto não há possivelmente um só cristão que pratique as 
leis cerimoniais do Antigo Testamento. Sabemos que em Jesus Cristo 
todas essas coisas ficaram atrás. Não é que sejam más nem estejam 
erradas, mas encontravam-se incompletas. Depois de cada uma delas há 
uma grande lei imutável, e estas leis antigas são captações imperfeitas da 
verdade. Representam o que os humanos fizeram com essa verdade nessa 
etapa particular. Na Bíblia encontramos isto repetidamente, mas oilustraremos considerando primeiro certas práticas religiosas e, segundo, 
certos princípios religiosos que se desenvolveram posteriormente. 
 
I. Consideremos primeiro a resposta à pergunta Como mostro minha 
religião? tal como se responde nas passagens legais do Antigo 
Testamento. 
 
(a) O judeu deixava ver sua religiosidade abstendo-se de certo tipo 
de comida. Todos sabem que os judeus não comeriam, nem comem, 
carne de porco: 
Também o porco... este vos será imundo; da sua carne não comereis, 
nem tocareis no seu cadáver. Estes vos serão imundos (Lv. 11:7,8). 
 
(b) Os judeus mostravam sua religiosidade levando suas capas com 
borlas, seus filactérios ou caixinhas de orações, e colocando a mezuzah, 
pequeno cilindro de madeira com textos bíblicos, no marco das portas. 
Os filactérios eram pequenos recipientes de couro que continham partes 
de pergaminho com textos impressos, e que durante a oração se atavam 
na fronte e no pulso: 
 
Disse o SENHOR a Moisés: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que 
nos cantos das suas vestes façam borlas... E as borlas estarão ali para 
que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR 
(Nm 15:37-39). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 132 
Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração ... Também 
as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E 
as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas (Dt. 6:6-9). 
 
Ainda hoje o judeu se cobre com seu xale com borlas e seus 
filactérios ao orar; ainda ata a mezuzah à entrada de sua casa ou 
apartamento. Mas nenhum destes mandamentos são vistos como 
obrigatórios para o cristão. 
 
(c) Acima de tudo, o judeu mostrava sua religiosidade mediante a 
circuncisão. Era sinal da aliança e de penitência ao povo de Deus. Tanta 
é sua importância que está escrito: 
O incircunciso, que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa 
vida será eliminada do seu povo; quebrou a minha aliança (Gn. 
17:14), 
 
Mas não há cristão que aceite a obrigação ritual de circuncidar-se. 
O judeu deixa ver sua religiosidade abstendo-se de certas comidas, 
adornando-se com certos objetos, fixando certas coisas em sua casa, e 
circuncidando-se. Ninguém menospreze isto, pois são públicas 
demonstrações de fé do judeu, e seria bom que os cristãos mostrassem 
sua fé tão abertamente. Entretanto, os cristãos mostram sua religião da 
seguinte maneira: 
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns 
aos outros (Jn. 13:35). 
 
No Antigo Testamento há maneiras de demonstrar a religião, e 
todas elas são honoráveis. Adverte-se o fato de que a pessoa deve 
mostrar sua fé, mas não se alcançou a plena revelação de que a religião 
deve mostrar-se mediante o amor. Para entender isto era preciso esperar 
que Jesus viesse. 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 133 
II. Consideremos a seguir a pergunta: Como protejo minha religião? 
Como a mantenho a salvo de qualquer infecção que lhe roube sua 
pureza? 
Na resposta a esta pergunta encontramos algumas dessas coisas que 
nos horrorizam só lê-las. Se em tempo de guerra se rende uma cidade, 
todos os seus habitantes devem ser submetidos a trabalhos forçados. 
Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer guerra, então, a 
sitiarás. E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do 
sexo masculino que houver nela passarás a fio de espada; mas as 
mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo o que houver na cidade, 
todo o seu despojo, tomarás para ti; e desfrutarás o despojo dos 
inimigos que o SENHOR, teu Deus, te deu. ... Porém, das cidades 
destas nações que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança, não 
deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o 
SENHOR, teu Deus, destruí-las-ás totalmente (Dt. 20:12-17). 
 
Estas instruções foram aplicadas durante o sítio de Jericó, e os 
resultados foram: 
Tudo quanto na cidade havia destruíram totalmente a fio de espada, 
tanto homens como mulheres, tanto meninos como velhos, também 
bois, ovelhas e jumentos (Js. 6:21). 
 
Na guerra contra Amaleque, Samuel transmite a Saul as ordens de 
Deus: 
Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que 
tiver, e nada lhe poupes; porém matarás homem e mulher, meninos e 
crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos (1Sm. 15:3). 
 
Tudo isto parece, e é, muito sanguinário. Mas lembremos que aqui 
não havia ódio pessoal, nem sede de sangue, nem havia paixão assassina 
de matança. Depois de tudo havia algo mais: toda fé estrangeira era um 
foco de infecção, uma ameaça à pureza do culto a Jeová, e era preciso 
eliminar tudo o que com isso se relacionasse por razões de pureza e 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 134 
segurança. E assim se expressa claramente, pois as instruções em 
Deuteronômio concluem com as palavras que mostram a razão por trás 
disso: 
para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações, 
que fizeram a seus deuses, pois pecaríeis contra o SENHOR, vosso 
Deus (Dt. 20: 18). 
 
O fato é que todas estas nações eram idólatras e, portanto, inimigas 
de Deus; era preciso suprimi-las para prevenir que suas práticas pagãs 
infectassem e manchassem a pureza da religião hebraica. 
 
Mas quando Jesus vem, traz consigo um novo conceito, que não é já 
a eliminação dos inimigos de Deus arrebatando-lhes a vida: temos que 
eliminar sua inimizade mediante sua conversão. Durante a guerra civil 
norte-americana, acusou-se ao Presidente Abraão Lincoln de ser muito 
considerado e amável com os estados sulinos. "São seus inimigos – 
dizia-lhe o povo – e sua missão é destruí-los". Ao que Lincoln replicou: 
“E não destruo a meus inimigos quando os faço meus amigos?” 
 
O Antigo Testamento mostra só a metade da verdade: os inimigos 
de Deus devem ser destruídos. Mas quando Jesus vem, descobre-nos que 
a maneira de destruir aos inimigos de Deus é convertê-los em amigos de 
Deus. 
 
III. A terceira pergunta resulta natural: O que é que devo dar a 
Deus? Que oferta devo lhe apresentar para agradá-Lo? 
 
Boa parte do Antigo Testamento fala de ovelhas, cordeiros, 
bezerros, touros, bois, pombas, pombinhos, veio, farinha e azeite: tudo 
como parte dos sacrifícios cerimoniais oferecidos a Deus. A teoria 
subjacente é bem clara. Quem adora diz a si mesmo: "Devo ofertar a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 135 
Deus minha possessão mais valiosa", e numa sociedade agrícola isto 
significa, animais e colheitas que tantos suores custam. 
 
Mas até no Antigo Testamento se deixa ver o inadequado de tudo 
isto. Isaías ouve a voz de Deus, que lhe diz: 
 
De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? —diz o 
SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de 
animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de 
cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante 
mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis 
a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação ... Lavai-vos, 
purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; 
cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, 
repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa 
das viúvas (Is. 1:11-13, 16, 17). 
 
Do ponto de vista de Isaías, todo o aparelho de sacrifícios chegou a 
ser um vasto despropósito. Miqueias disse o mesmo: 
Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus 
excelso? Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? 
7 Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, de dez mil 
ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, 
o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó 
homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que 
pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com 
o teu Deus. (Mq. 6:6-8). 
 
E em Oseias achamos o que parecesse ser o texto favorito de Jesus: 
 Porque misericórdia quero e não sacrifício (Os. 6:6; Mt. 9:13; 12:7)Isto deixa claro que Deus nunca quis o sacrifício de animais. 
Os judeus pensaram justamente o contrário porque nos animais viam 
suas posses mais valiosas, e estavam dispostos a oferecê-los a Deus. Mas 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 136 
os profetas viram, e mais que ninguém Jesus, quão fora de lugar era o 
sacrifício de animais. A coisa mais preciosa de uma pessoa é o seu 
coração, seu próprio ser; coração e ser cheios de amor a Deus e pelo ser 
humano. Esse é o único dom que Deus espera de nós. 
 
Vemos, pois, como no Antigo Testamento se percebe vez após vez 
uma grande verdade, mas que se percebe de maneira imperfeita. Para sua 
compreensão total temos que esperar que venha Jesus. Não é que o 
Antigo Testamento esteja errado. Longe disso, é uma etapa essencial 
cuja meta é Jesus Cristo. 
 
Tomemos agora dois dos grandes conceitos da fé cristã e vejamos 
como se desenvolveram através da Bíblia até sua culminação em Jesus 
Cristo. 
 
Observemos primeiro o conceito do perdão de nossos inimigos e 
dos que nos ofendem. 
 
I. No princípio, longe de todo desejo de perdão, aparece um clamor 
ilimitado de vingança. Gênesis 4:23, 24 é um dos mais antigos 
fragmentos bíblicos; nele ressoa o clamor de vingança: 
 
E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres 
de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem 
porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se 
tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete 
 
Lameque alardeia de cobrar vingança por feridas. Matou a quem o 
feriu e anela cobrar uma vingança que seja setenta vezes sete mais velho 
que o dano recebido. Esta é a passagem bíblica mais primitiva, sem 
nenhum conceito de perdão; só o de vingança. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 137 
II. A seguinte etapa do Antigo Testamento foi e continua sendo mal 
interpretada. Frequentemente se diz que o Antigo Testamento crê em 
"olho por olho e dente por dente", e que esta é "uma das leis mais 
sanguinárias do Antigo Testamento". 
Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, 
dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, 
ferimento por ferimento, golpe por golpe (Êx. 21:23-25). 
 
Se alguém causar defeito em seu próximo, como ele fez, assim lhe 
será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele 
tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará. Quem matar um 
animal restituirá outro; quem matar um homem será morto (Lv. 24:19-
21). 
 
Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente por 
dente, mão por mão, pé por pé (Dt.19:21). 
 
Qualificar estas leis como sanguinárias é mal interpretá-las 
totalmente; são precisamente o contrário. 
 
Na antiguidade, a vingança ou contenda cruenta era típica da 
sociedade tribal. Em tais disputas, se alguém feria algum membro de 
outra tribo, todos os que a ela pertenciam tinham o dever de aplicar a 
máxima vingança possível contra a tribo do agressor. Desta maneira, 
uma ferida relativamente ligeira podia conduzir à guerra entre duas 
tribos, com a conseguinte perda de vidas. As leis citadas antes foram o 
primeiro intento por estabelecer limites à vingança. Se era preciso 
vingar-se, era preciso fazê-lo só na medida exata da ferida infligida; 
assim já não podia provocar uma sanguinária guerra tribal. 
 
Esta lei de retribuição precisa foi modificada posteriormente. 
Suponhamos que alguém perdia por agressão um dente, e que tal dente 
estava prejudicado: seria injusto romper um dente são do agressor. Ou se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 138 
o olho ferido estava prejudicado, seria injusto tirar um olho 
perfeitamente são como retribuição. Assim foi como se chegou a 
taxar em dinheiro cada ferida, e já não sobre a base de um intercâmbio 
de feridas. O importante é que aqui aparece um primeiro passo 
rumo ao controle das vinganças, o que constitui um grande passo na 
direção correta. 
 
III. Na terceira etapa se estimula o perdão sem revanche, mas com 
certas limitações e sob certas condições. 
 
(a) Fomenta-se o perdão, mas só dentro do povo hebreu: 
Não aborrecerás teu irmão no teu íntimo; mas repreenderás o teu 
próximo e, por causa dele, não levarás sobre ti pecado. Não te 
vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás 
o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR (Lv. 19:17-18). 
 
Isto é suficientemente claro, mas o perdão se limita a seu irmão e 
aos filhos de seu povo. Não é necessariamente aplicável aos gentios. 
 
(b) Estimula-se o perdão porque a vingança corresponde a Deus, e 
se a causa é justa, o ofendido pode deixar a vingança nas mãos de Deus. 
Não digas: Vingar-me-ei do mal; espera pelo SENHOR, e ele te 
livrará (Pr. 20:22). 
 
Observa-se a mesma atitude no livro intertestamentário O 
testamento dos Doze Patriarcas: 
Amai-vos uns aos outros de coração: e se um homem pecar contra ti, 
expulsa o veneno do ódio e fale com ele pacificamente sem manter 
malícia em sua alma. Se confessar o seu pecado e se arrepende, 
perdoa-o. Mas se for desavergonhado e persiste em seu mal operar, 
mesmo assim perdoe-o de coração e deixe a vingança para Deus (O 
Testamento de Gade 6:3, 7). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 139 
Certo, chama-se ao perdão, mas Deus será o vingador do bom. 
 
(c) No mais comum dos casos convida-se ao perdão para ganhar o 
favor de Deus. 
Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, 
dá-lhe água para beber, porque assim amontoarás brasas vivas sobre a 
sua cabeça, e o SENHOR te retribuirá (Pv. 25:21-22). 
 
Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e não se regozije o teu 
coração quando ele tropeçar; para que o SENHOR não veja isso, e lhe 
desagrade, e desvie dele a sua ira (Pv. 24:17-18). 
 
Mesmo em Lamentações 3:30 se lê: 
 Dê a face ao que o fere; 
 farte-se de afronta 
 
Isso provém do fato de que: 
 Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, 
 para a alma que o busca (Lm. 3:25), 
 
O mesmo sucede na passagem de Eclesiástico 28:2: 
 Perdoa o teu próximo o mal que te tem feito, 
 e então serão perdoados os seus pecados quando orares. 
 
E também: 
Se alguém te quer fazer mal, lhe faça o bem e ora por ele, e então o 
Senhor te redimirá de todo mal (O Testamento de José 18:2). 
 
Uma das poucas passagens do Antigo Testamento onde não há 
limite nem condição ao perdão, encontra-se em Provérbios 24:29: 
Não digas: Como ele me fez a mim, assim lhe farei a ele; 
pagarei a cada um segundo a sua obra. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 140 
De modo que, o Antigo Testamento começa com vingança 
ilimitada; passa a um intercâmbio de castigos estritamente limitados, 
e avança ainda mais à demanda de perdão, mas dentro de certos limites e 
condições. 
 
IV. Chegamos finalmente a Jesus e à essência de Seu ensino sobre o 
perdão, que se encontra no Sermão da montanha: 
 
Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos 
digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face 
direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e 
tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a 
andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as 
costas ao que deseja que lhe emprestes. Ouvistes que foi dito: Amarás 
o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os 
vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis 
filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus 
e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que 
vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também 
o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de 
mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós 
perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste. (Mt. 5:38-48). 
 
Não há limites nem condições; o perdão é absoluto. Há uma 
recompensa, mas a recompensa consiste em queaquele que perdoa chega 
a ser como Deus. Disse-o São Paulo: 
Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, 
perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos 
perdoou (Ef. 4:32), 
 
O círculo, pois, fechou-se; começa com vingança ilimitada e 
termina em Cristo com perdão ilimitado. Outra afirmação ao respeito 
deve ser inequívoca: Julgo meu dever perdoar não segundo o Antigo 
Testamento, mas segundo o Novo Testamento; não pela lei mas pelo 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 141 
evangelho; por nenhum outro que não seja Jesus Cristo. Assim que 
quando alguém nos cite o Antigo Testamento, teremos que lhe esclarecer 
com franqueza: Essa é a etapa que a humanidade tinha alcançado 
então; a porção de revelação divina que tinham sido capazes de 
captar. Mas em Jesus Cristo temos a plena revelação e só dEle tomamos 
nossas ordens e padrão de conduta. 
 
A segunda grande ideia que devemos considerar é a vida depois da 
morte. Vejamos como se desenvolve através da Bíblia. 
 
I. Inicialmente, os hebreus careciam de uma verdadeira crença 
referente a uma vida para além. Criam que as almas dos mortos iam ao 
Sheol ou Hades. O Sheol não era o inferno, mas o lugar para onde iam os 
mortos. Tratava-se de um território cinza e sombrio, de onde se extraiu 
tudo colorido, fortaleza e significado. Estava separado tanto de Deus 
como do homem, e as almas levavam ali uma existência espectral. Não 
se tratava de extinção vital, mas não era mais que a sombra da vida. Vez 
após vez surge no Antigo Testamento esta desesperança. 
 
Pois, na morte, não há recordação de ti; 
no sepulcro, quem te dará louvor? (Sl 6:5). 
 
Que proveito obterás no meu sangue, quando baixo à cova? 
Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a tua verdade? (Sl 30:9). 
 
Desvia de mim o olhar, para que eu tome alento, 
antes que eu passe e deixe de existir (Sl 39:13). 
 
Pois a minha alma está farta de males, e a minha vida já se abeira da 
morte. Sou contado com os que baixam à cova; sou como um homem 
sem força, atirado entre os mortos; como os feridos de morte que 
jazem na sepultura, dos quais já não te lembras; são desamparados de 
tuas mãos. ... Mostrarás tu prodígios aos mortos ou os finados se 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 142 
levantarão para te louvar? Será referida a tua bondade na sepultura? A 
tua fidelidade, nos abismos? Acaso, nas trevas se manifestam as tuas 
maravilhas? E a tua justiça, na terra do esquecimento? (Sl 88:3-12). 
 
Os mortos não louvam o SENHOR, 
nem os que descem à região do silêncio (Sl 115:17). 
 
Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o 
mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o 
mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os 
animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos 
procedem do pó e ao pó tornarão (Ec. 3:19-20). 
 
Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um 
cão vivo do que um leão morto. Porque os vivos sabem que hão de 
morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco 
terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. ... 
Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, 
porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem 
conhecimento, nem sabedoria alguma (Ec. 9:4-10). 
 
A sepultura não te pode louvar, nem a morte glorificar-te; não 
esperam em tua fidelidade os que descem à cova (Is. 38:18). 
 
Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se 
renovará, e não cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua 
raiz, e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará 
ramos como a planta nova. O homem, porém, morre e fica prostrado; 
expira o homem e onde está? Como as águas do lago se evaporam, e o 
rio se esgota e seca, assim o homem se deita e não se levanta; 
enquanto existirem os céus, não acordará, nem será despertado do seu 
sono (Jó 14:7-12). 
 
Claramente, no Antigo Testamento encontra-se pouca esperança 
depois da morte; uma terra de sombras e escuridão, de silêncio, de 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 143 
esquecimento: abandonada por Deus e pelos homens. J. E. McFadyen 
escreveu em The Message of Israel (A Mensagem de Israel): 
 
"Na longa história da religião, há poucos casos tão maravilhosos como 
os dos seres humanos que, durante séculos, viveram vidas de suprema 
nobreza, cumprindo os seus deveres e suportando suas aflições sem 
esperança de recompensa futura; e o fizeram assim porque em todas 
suas idas e vindas estavam firmemente fincados em Deus. McFadyen 
acrescenta: "Um erudito norte-americano disse que 'nunca foi possível 
para o homem, o homem pensante, sobre a única base desta vida, 
fazer da vida algo que não seja absurdo e carente de sentido'. O Antigo 
Testamento é uma refutação contundente de tal asserção". A religião 
hebraica primitiva não cria numa vida real para além da tumba e ao 
outro lado da morte. 
 
II. Mas no Antigo Testamento isto não para ali. Contém muitas 
passagens que, ao menos, encaminharam-se rumo à crença na vida 
depois da morte. Isaías pôde dizer: 
Os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão; 
despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho, ó 
Deus, será como o orvalho de vida, e a terra dará à luz os seus mortos 
(Is. 26:19). 
 
Encontramos a mesma convicção em Daniel: 
Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida 
eterna, e outros para vergonha e horror eterno. Os que forem sábios, 
pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos 
conduzirem à justiça, como as estrelas, sempre e eternamente (Dn. 
12:2-3). 
 
Tracemos o processo e as razões mediante as quais surgiu a 
verdadeira fé na vida depois da morte. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 144 
(a) Quanto maior foi o conceito que se tinha de Deus, maior foi a 
certeza de que não havia parte do universo fora do ser de Deus. Quando 
se pensava que Deus era só o Deus da própria nação, e mesmo quando os 
humanos estiveram dispostos a conceder que cada sua nação visse seu 
próprio deus, a percepção que se tinha do poder de Deus era muito 
reduzida. Mas quando se chegou a crer num só Deus, Deus de todos os 
homens, de todas as nações e de todos os mundos possíveis, já não se 
pôde evitar o concebê-lo também como o Deus desse mundo que está 
para além da morte: 
 
Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua 
face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais 
profundo abismo, lá estás também (Sl 139:7-8). 
 
Uma vez que os homens começaram a crer num Deus de todo o 
universo, concluíram que esta vida e qualquer outra estão diante da 
presença de Deus, e o conceito sobre o Sheol tinha que mudar. 
 
(b) Às vezes a vaga noção do homem com relação a uma vida 
vindoura era como um salto na escuridão. Para começar, não se tratava 
de uma crença estabelecida. Era, antes, como um salva-vidas num mar 
de aflições, como se aprecia no caso de Jó. Já citamos as palavras de um 
Jó desesperado; e como se podia desesperar: 
 
Tal como a nuvem se desfaz e passa, aquele que desce à sepultura 
jamais tornará a subir (Jó 7:9). 
 
Mas Jó pressentiu que tudo seria diferente se somente pudesse 
esperar algo. Como dissesse Galloway: Os enigmas da vida diminuem, 
ao menos sua frustração, quando achamos repouso ao pensar que este 
não é o último ato do drama humano. Por isso Moffat traduz assim a 
esperança de Jó: 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 145 
Morrendo o homem, porventura tornará a viver? Todos os dias da 
minha luta esperaria, até que eu fosse substituído. Chamar-me-ias, e 
eu te responderia; terias saudades da obra de tuas mãos (Jó 14:14-15). 
 
De modo que, no coração de Jó estava latente esse desejo: se 
somente houvesse algo ainda por vir! E, de repente, dá o salto na 
escuridão: 
 
Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a 
terra. Depois, revestido este meucorpo da minha pele, em minha 
carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, 
e não outros (Jó 19:25-27). 
 
Não se trata de uma doutrina estabelecida, de uma fé raciocinada, 
nem é parte de um credo. É, antes, o primeiro salto na escuridão para 
agarrar-se de Deus nesta vida para sempre. 
 
(e) A crença na vida vindoura não chega às vezes por este tipo de 
salto súbito, mas sim através de uma convicção crescente de que existe 
uma relação, uma conexão, uma amizade, um vínculo essencialmente 
indissolúvel com Deus, e isto simplesmente porque Deus é Deus. 
Quem neste mundo tinha encontrado a Deus cria que, visto que 
Deus é sempre Deus, não podia perdê-lo. Isso é exatamente o que 
significaria dizer que o amor é imortal, e por isso o Salmista 
escreve: 
 
Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita. 
Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória. Quem 
mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na 
terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a 
fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre (Sl 73:23-
26). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 146 
O SENHOR, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha 
direita, não serei abalado. Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu 
espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro. Pois não deixarás a 
minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. 
Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de 
alegria, na tua destra, delícias perpetuamente (Sl 16:8-11). 
 
Nestas duas passagens está expressa a confiança de um coração que 
estabeleceu um contato com Deus, o qual, está convencido, não 
terminará com a morte. 
 
(d) Mas talvez o que mais contribuiu para que os hebreus viessem a 
crer numa vida para além, foi simplesmente o fato de que, a menos que 
inserissem outro mundo no esquema das coisas, jamais poderiam 
cumprir-se as promessas de Deus à nação e ao indivíduo. Houve uma 
época em que o homem esperou a recompensa e o castigo de Deus no 
presente. O Salmista dizia: 
Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, 
nem a sua descendência a mendigar o pão (Sl 37:25). 
 
Mas cada vez foi sendo menos possível afirmar isso. O homem bom 
podia morrer, ou agonizar, às mãos de um cruel perseguidor. O homem 
de princípios era, e continua sendo, odiado pelo mundo. Israel era o povo 
escolhido; mas encontrava-se subjugado por assírios, babilônios, persas e 
romanos. Simplesmente, se não havia outra vida, era impossível crer na 
justiça ou no amor de Deus. Segundo renomada expressão, o novo 
mundo estava chamado a corrigir o desequilíbrio do antigo. Foi assim 
como entre ambos testamentos foi fortalecendo-se esta crença na vida 
por vir, de tal maneira que os que tinham sido fiéis a Deus pudessem ser 
premiados e assim se cumprissem as promessas de Deus. 
Os que temem ao Senhor se levantarão para a vida eterna; sua vida 
estará na luz e nunca cessará (Salmo de Salomão 3:12). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 147 
Depois disso, quando se cumprir o tempo da vinda do Messias, ele 
retornará aos céus em glória. E então ressuscitarão todos aqueles que 
dormiram com sua esperança nele (Apocalipse de Baruque 30:1). 
 
Visto que o homem de Deus jamais tinha recebido a bênção nesta 
vida tormentosa, os homens foram levados a crer na vida depois da 
morte. 
 
III. Tudo isto, no melhor dos casos, não passava de ser simples 
esperança, e não foi até a vinda de Cristo quando esta esperança se 
tornou certeza. Disse Jesus: 
 
Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo 
teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar 
lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu 
estou, estejais vós também. ... porque eu vivo, vós também vivereis 
(Jo. 14:2,3,19). 
 
Segundo Paulo, para o cristão a segurança da vida vindoura provém 
de um fato: o Salvador dos cristãos, tendo estado morto, está vivo de 
novo: 
Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos 
serão vivificados em Cristo (1Co. 15:22). 
 
Em Jesus Cristo, o que tinha sido esperança converteu-se em 
realidade: a teoria fez-se prática. Temos, pois, visto o desenvolvimento 
bíblico da crença na vida vindoura a partir do Sheol, cinza e sombrio, até 
a vida para sempre com o Senhor. E confirmando, quando se trazem para 
colação as lúgubres passagens veterotestamentários correspondentes à 
época em que não existia na realidade uma crença na vida vindoura, não 
é necessário que nos sintamos obrigados a defender ou explicar com 
evasivas tais passagens. Podemos responder mais uma vez: Sim, isso é o 
que a humanidade tinha compreendido até então. Mas os cristãos não 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 148 
creem assim. Representa passos no caminho rumo à convicção da vida 
em Cristo aqui e no para além. 
 
Há uma demanda ainda maior que o estudo da Bíblia nos impõe. 
Para entender qualquer livro, é preciso tratar de penetrar na mente, no 
coração, na vida e nas circunstâncias do autor. Devemos tratar de 
perceber como funciona sua mente e compreender qual é sua perspectiva 
general do mundo. Isto se aplica à Bíblia e a qualquer outro livro. 
Devemos tratar de entrar na mente daqueles que a escreveram. O modo 
mais seguro para interpretar mal a Bíblia é nos aproximar dela com os 
olhos, com as ideias e os conceitos preestabelecidos do homem ocidental 
do século XX. Devemos tratar de pensar como se pensava na época e 
lugar em que se escreveu cada livro. Temos, além disso, que lembrar 
constantemente o objetivo que perseguiam os escritores bíblicos: mostrar 
os caminhos de Deus com o homem. Sua meta única era mostrar a vida 
em termos da soberania de Deus. Seu propósito era exclusivamente 
religioso. Não pretendiam escrever história, pois não sabiam mais da 
história como ciência que qualquer de seus contemporâneos. Não 
escreveram tratados cientistas, pois a ciência que conheciam era tão 
primitiva como sua época. O que se propunham era mostrar a Deus em 
ação. 
 
Nada há de estranho em tudo isto. Cada qual é perito em algo. 
Minha mãe nada soube de hebraico nem de grego, nem de teologia, mas 
jamais conheci uma mulher mais santa. Eu não teria ido a ela para que 
me traduzisse alguma palavra ou me expusesse alguma doutrina, e sim 
para renovar minha aprendizagem de como viver na companhia 
constante de Deus. Assim que, para começar, não vou à Bíblia em 
busca de história ou ciência, mas em busca de Deus. E O encontro! 
Vamos, pois, considerar algo do que devemos lembrar, se tivermos que 
penetrar na mente dos escritores sagrados. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 149 
I. Tinham uma diferente concepção do mundo. Para eles a Terra era 
o centro fixo do universo e o sol saía cada manhã em sua carreira através 
dos céus (Sl 19:4, 5). Para eles a Terra era como um prato plano sobre as 
águas, coberto pelo teto sólido do firmamento, através do qual viajam os 
grandes luzeiros, o sol e a lua, e o qual se abria para deixar cair a chuva 
(Gn. 1:1-19). O importante, entretanto, não é o que eles criam a respeito 
da Terra, mas sim o que criam a respeito do homem e de Deus, estando 
certos de que, fosse como fosse a Terra, depois dela está o poder criador 
de Deus. 
 
II. Tinham um conceito muito diferente da doença. Atribuíam a 
doença aos demônios ou aos pecados do doente. A doença mental não 
era a única coisa que atribuíam aos demônios, mas pensavam que 
qualquer parte do corpo podia ser ocupada e ficar afetada por algum 
demônio. Criam que atrás de toda doença encontrava-se algum pecado. 
 
Nós deixamos de atribuir a doença aos demônios; tampouco a 
atribuímos ao pecado do próprio doente. Mas, em certo modo, estes 
pensadores da antiguidade eram peculiarmente modernos. Para dizê-lo 
em termos atuais, eles criam que a doença era psicossomática. Psyché é a 
palavra grega para alma e soma para corpo.Dizer que a doença é 
psicossomática significa que sua causa vai para além do físico; que há 
também uma causa espiritual. Pode ser que só o efeito, e não a causa, 
seja físico. O que significa que não basta ver o homem como corpo, mas 
também possui um espírito, e que o corpo jamais estará são até que o 
espírito recupere a saúde. Isto é sempre algo mais que uma questão 
física, e assim o compreenderam, a seu modo, os escritores bíblicos. 
 
III. Tinham um modo diferente de pensar, o que é o ponto mais 
importante e difícil de todos. Em tempos bíblicos, poucos ou talvez 
nenhum dos hebreus podia discorrer ou argumentar em termos abstratos. 
Pensavam pictograficamente. Agora, essas imagens mentais eram 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 150 
imagens de sua própria época, eram parte de seu panorama de todos os 
dias, pela simples razão de que essas eram as únicas imagens que a 
pessoa de então podia entender. De modo que, nós confrontamos 
inevitavelmente um fragmento de fato intemporal, mas captada dentro de 
uma imagem local e temporal. E nossa tarefa, vez após vez, é a de 
penetrar para além da casca da imagem e até a medula da verdade. 
 
Este processo tem um nome que, lamentável e injustamente, 
converteu-se numa má palavra: desmitologização. O problema com a 
palavra mito é que significa uma coisa em português e outra muito 
distinta em grego. Em português um mito é algo irreal, e equivale a dizer 
que é falso. Mas em grego um mito é um relato que tem como propósito 
esclarecer a qualquer pessoa alguma verdade difícil ou impossível de 
expressar na linguagem comum. Mito é uma verdade expressa em 
imagens. 
 
Temos, por exemplo, o famoso mito no sétimo livro da República 
de Platão. Descreve uma caverna onde há uns homens acorrentados e 
que só podem ver para dentro. A única coisa que podem ver é a parede 
diante deles. Atrás deles há um caminho ascendente, depois do qual há a 
luminosidade de um grande fogo. Sempre há transeuntes neste caminho 
entre o fogo de fora e as costas dos acorrentados na cova. As sombras 
das pessoas e das coisas se refletem continuamente na parede que eles 
têm à frente. Inevitavelmente os prisioneiros chegariam a pensar que as 
sombras são a realidade, pois estariam totalmente impossibilitados a 
contemplar os seres e objetos como realmente são. E embora fossem 
libertados, seria extremamente difícil convencê-los de que as sombras 
são irreais e que todo o real o é na verdade. Este é um mito desenhado 
para demonstrar como os homens que se apegam às sombras da vida 
chegam a ser incapazes de ver as realidades. Este é o conceito grego do 
mito. Mito é o relato encaminhado a demonstrar, ilustrar e fazer 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 151 
compreender uma verdade que, de outra maneira e expressa em 
linguagem abstrata, não causaria impacto alguém em ninguém. 
 
Cada vez que estudemos a Bíblia nossa tarefa será captar a verdade 
eterna depois da imagem temporal. Os eruditos do século XX estavam 
longe de ser os primeiros em reconhecer esta necessidade. Orígenes, o 
grande mestre, sabia isto perfeitamente e o expressou de maneira clara 
e enfática nos meados do terceiro século (De Principiis 1:16): 
Que homem razoável suporia que o primeiro, segundo e terceiro dias, 
e a tarde e a manhã, existiram sem o sol, a lua e as estrelas? Quem é 
tão néscio para crer que Deus, como um camponês, plantou no Éden 
um jardim onde pôs uma árvore da vida que podia ver-se e tocar-se de 
maneira que qualquer que provasse de seu fruto com seus lábios 
mortais obteria a vida? Ou, mais ainda, que pessoa se convertia em 
participante do bem e o mal por comer do arrancado de uma árvore? E 
se é dito que Deus passeava durante a tarde pelo jardim e que Adão se 
ocultou sob uma árvore, não suponho que haja quem duvida que estas 
coisas figuradamente assinalam alguns mistérios, e que a história seja 
aparente, mas não literalmente, certa. De modo algum. Os próprios 
evangelhos estão cheios com este tipo de narrações. Tome-se, por 
exemplo, o relato do diabo que leva a Jesus ao alto de uma montanha, 
para lhe mostrar dali os reinos do mundo e sua glória: Quem que 
raciocine não condenaria ao que ensinam que dali contemplou Jesus 
os reinos dos persas, citas, índios e partos, e o modo como se 
glorificava a seus governantes, e que o fez com a visão física, que 
requer de uma altura maior para sequer ver os terrenos imediatos? 
 
Orígenes começa assinalando que na história da criação diz-se três 
vezes que houve tarde e amanhã antes de que fossem criados o sol e a lua 
(Gn. 1:5,8,13,14). O que Orígenes está nos dizendo é que aqui temos 
uma verdade, mas expressa em imagens. A imagem é a casca; a verdade 
é o miolo. Repassemos brevemente os três relatos a que se refere 
Orígenes. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 152 
(a) Temos o relato da criação ou, melhor dizendo, os dois distintos 
relatos da criação. Se for perguntado a qualquer menino esperto o que 
dizem, em poucas palavras, Gênesis 1 e 2, responderá imediatamente : 
"Dizem que Deus criou o mundo". Essa é a resposta. Não se pergunta o 
método de que se valeu para fazê-lo. O miolo é o fato de que o poder 
criador de Deus está após o universo, e que é responsável por sua 
existência, independentemente de como se aplicou tal poder criador. 
 
(b) Temos o relato da queda do homem em Gênesis 3. De fato, este 
é o relato da queda de todo ser humano. Vale a penha fazer notar que o 
nome Adão não é de modo nenhum um nome próprio, mas sim a palavra 
hebraica que corresponde a homem. Esta é a história de todo homem. 
Quem a escreveu possivelmente nem sequer conhecia a palavra 
psicologia, mas jamais se escreveu uma história mais psicologicamente 
certa que esta. Vejamo-la passo a passo: 
 
I. Deus dá uma ordem. 
 
II. Nisso intervém a tentação de transgredi-la. O pecado sempre 
implica que sabemos mais que Deus: consiste em pôr nosso desejo acima 
da vontade de Deus. 
 
III. O mal é atrativo (v. 6). Parece bom e saboroso; arrancá-lo seria 
obter algo aparentemente proveitoso. O pecado é sempre atrativo: eu 
seria feliz se tão somente pudesse obter isto. A tentação careceria de 
poder se o proibido fosse feio e repulsivo. O poder da tentação estriba 
em que o proibido vê-se atrativo, desejável e vantajoso. 
 
IV. Cai em pecado e, então, o primeiro intento é esconder-se (v. 8). 
Logo que alguém comete pecado, deseja ocultá-lo do próximo, de Deus 
e, se for possível, até de si mesmo. E não há maior estupidez que pensar 
que algo possa esconder-se de Deus. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 153 
V. Quando se confronta ao homem com seu pecado, por instinto 
trata de culpar a mais alguém. Adão disse: "Não me culpes, culpa Eva"; 
e esta não fez senão repetir: "Não me culpes, culpa a serpente". O 
pecador culpa a todos, menos a si mesmo. 
 
Gênesis 3 é um relato que nunca teve o propósito de contar 
algo que sucedeu em certo momento. É a história do que sucede a Adão, 
quer dizer ao homem, a você e a mim. 
 
(c) Consideremos finalmente a história da tentação de Cristo (Mt. 
4:1-11; Lc. 4:1-13). Orígenes tinha razão e é algo que deveria nos fazer 
pensar: não há montanha alguma da qual se possam contemplar todos os 
reinos da Terra. Jesus tinha saído ao deserto para decidir como realizaria 
a tarefa que Deus Lhe tinha encomendado. Apelaria à força, aos meios 
materiais, ao sensacional, aos acordos, ou à cruz? Esta história não relata 
um evento externo e visível, mas algo que ocorreria na mente de Jesus. 
Estava livrando uma batalha com tudo aquilo que queria desviá-lo do 
que Deus queria que fizesse. Se o leitor o tivesse visto nesse momento, 
só teria visto um homem sozinho, embora com Deus. Tal como ocorre 
conosco, a tentação chegou a Jesus, não na carne e de maneira visível, 
mas no ataque à mente e ao coração. 
 
Quando lermos a Bíblia, lembremos sempre que foi escrita por 
homens acostumados a pensar em imagens. Não há para o que perder 
tempo discutindose isto sucedeu física e literalmente assim. 
Espiritualmente é uma verdade perene; dentro da casca do relato 
encontramos o miolo da verdade, e por meio dela vivemos. 
 
Restam três coisas por acrescentar com relação à leitura e o estudo 
da Bíblia. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 154 
I. Deveríamos estudá-la detalhadamente, mas para aproveitá-la 
melhor, e, se for possível, também lê-la em porções extensas. 
Deveríamos ler, por exemplo, todo o Evangelho de São Marcos de uma 
sentada, e ver o drama em quatro atos desenvolver-se perante nós: 
preparação, conflito, tragédia e triunfo. Pode ser que às vezes gastemos 
muito tempo nos detalhes e muito pouco na visão panorâmica e 
dramática do conjunto. 
 
II. Não importa quanto leiamos a Bíblia ou quão devotamente a 
estudemos, sempre haverá passagens difíceis e que não possamos 
entender. Diz-se que um homem aproximou-se certa vez de Spurgeon 
queixando-se de que a Bíblia tinha passagens que não entendia, e que 
portanto tinha deixado de lê-la. Spurgeon lhe respondeu: "Quando estou 
desfrutando de um bom peixe e me cabe chegar aos espinhos, não 
desprezo o peixe; ponho os espinhos de lado, ali as deixo, e sigo 
desfrutando do peixe". Assim, quando chegarmos a uma porção bíblica 
que mesmo a estudando não podemos entender, podemos deixá-la de 
lado e seguir adiante. Chegará o dia em que possamos entendê-la, mas 
desfrutemos no momento da riqueza ao nosso alcance e com o que 
podemos continuar. 
 
III. Fica muito que dizer sobre a leitura regular e sistemática da 
Bíblia. Mas direi uma última coisa. Howard Spring, em sua 
autobiografia, And Another Thing (E algo mais) fala-nos do hábito que 
adquiriu. Foi em 1940, durante a guerra, quando tudo ia de mal a pior. 
Descobriu que a ameaça que pesava sobre o país o impedia de 
concentrar-se quando se sentava ao escritório. Pouco antes alguém lhe 
tinha obsequiado um exemplar das Meditações de Marco Aurélio; 
começou a lê-lo e, de algum modo, a galharda e grave filosofia estoica 
produziu seu efeito. "Daí em diante — escreveu ele — cada manhã 
formei o hábito de não me sentar ao escritório com a mente inflamada 
pela crescente incerteza dos tempos, mas sim ficar de pé e ereto 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 155 
enquanto durante meia hora lia a Marco Aurélio. Veio a ser um costume 
saudável e vitalizador... Desta maneira li duas vezes as Meditações, e 
para então tinha descoberto que não devia começar o dia me 
submergindo nos problemas pendentes, fossem quais fossem. Uns 
quantos momentos de quietude, na companhia de uma mente suprema e 
tranquila, chegaram a produzir dividendos que invejaria o melhor 
promotor de negócios. É tão fácil querer começar o dia com uma leitura 
apressada do periódico ou da correspondência, para logo correr ao 
trabalho imediato, coisa que agora me parece tola e desnecessária. 
Equivale a querer tocar o violino sem antes afiná-lo, para logo padecer 
chiados durante todo o concerto". Mas isso não foi tudo, mas Howard 
Spring foi mais além: "Depois de ler duas vezes as Meditações — 
acrescenta — comecei cada dia lendo a Bíblia, e foi durante a leitura 
deste livro, esquecido durante um quarto de século, quando minha mente 
captou a suprema importância de um Deus de amor, assim como o amor 
dos irmãos". 
 
Howard Spring encontrou que a leitura diária da Bíblia trouxe 
serenidade e fortaleza à sua vida, e que através da leitura Deus tomou 
posses de sua mente. Nós também deveríamos lê-la regularmente. No 
caso de Howard Spring, sendo autor, ele podia, trabalhar em casa sem 
ser escravo do relógio. Talvez para quem devemos tomar o trem para 
chegar ao escritório e temos uma família com a qual conviver, a leitura 
matinal pode ser impossível ou ao menos extremamente difícil. Mas bem 
poderia transferir-se esta leitura para a última hora da noite, e assim 
entregar-se ao descanso meditando em Deus e em Seus caminhos com os 
seres humanos. 
 
Nem sempre é o melhor plano ler a Bíblia precisamente do 
princípio ao fim. Se adotarmos a leitura regular da Bíblia, seria muito 
melhor valer-nos de algum esquema de leituras diárias com comentários, 
como aquele que oferece o Companheirismo de Leitura Bíblica ou a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 156 
Associação Internacional de Leitura Bíblica. Assim nossa leitura se veria 
guiada com explicações das dificuldades da passagem e seus 
significados, além de que nos faria sentir dentro de um grande 
companheirismo de leitores ao redor do mundo. A melhor maneira de 
aproveitar a Bíblia é lê-la com sistema e com ajuda, pois assim 
receberemos fortaleza para a jornada, sabedoria para a mente e o amor de 
Deus para nosso coração. 
 
Qual versão nos conviria mais? Muitos há que estão preocupados 
com a grande quantidade de traduções existentes; mas nunca teremos 
suficientes. Não existe a tradução perfeita capaz de trasladar cabalmente 
as palavras de uma linguagem a outra. Cada tradução tem algo que 
oferecer. Por exemplo, lá por 1560, a Bíblia de Genebra era a mais 
popular (em inglês), mas enquanto isso estava planejando-se a Bíblia dos 
Bispos como tradução oficial. John Bodley, pai do fundador da famosa 
biblioteca de Oxford, tinha os direitos de impressão da Bíblia de 
Genebra, e se perguntava se acaso poderia continuar imprimindo-a 
quando aparecesse a nova versão. Mas Matthew Parker, Arcebispo do 
Canterbury, não tinha dúvida alguma. Embora se estava planejando o 
volume oficial, escreveu que "entretanto, em nada estorvaria, mas sim 
resultaria muito proveitoso o ter diversidade de traduções e leituras". Ou 
seja, entre mais versões melhor, para que cada um possa achar o que lhe 
fale diretamente, e que a luta pela perfeição possa seguir adiante. 
 
As traduções podem variar grandemente. Há ou houve uma 
biblioteca para crianças intitulada Kelly's Keys to the Classics (As 
chaves de Kelly aos clássicos), cuja tradução é absolutamente literal 
mas não tem nada de inglês, como poderia apreciar-se em Oedipus 
Coloneus de Sófocles, em que Édipo é aquele que fala: 
 
O dearest son of Aegeus, exemption from old age and death comes to 
gods alone. But all-powerful Time brings everything else to confusión. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 157 
The strength of the earth decays, the strength of the body decays, faith 
dies and faithlessness arises and the same spirit no longer exists 
between friends or between city and city. With some at once and with 
others later on, what is a source of pleasure becomes bitter, and then 
again is pleasant. 
(Ó o mais amado filho de Egeu, exceto da velhice e a morte vem aos 
deuses só. Mas o todo-poderoso Tempo traz tudo o mais a confusão. A 
fortaleza da terra decai, a fortaleza do corpo decai, a fé morre e a 
infidelidade surge e o próprio espírito deixa de existir entre amigos 
ou entre cidade e cidade. Com alguns imediatamente e com outros 
depois, o que é uma fonte de prazer torna-se amargo e logo outra vez é 
prazenteiro). 
 
Não há dúvida de que o estudante obterá com isso uma boa 
qualificação, mas a mágica beleza do Sófocles desapareceu. Aqui está a 
mesma passagem, na tradução do Gilbert Murray: 
 
Fair Aegeus' son, only to gods on high Not to grow old is given, nor 
yet to die, All else is turmoiled by our master, Time. Decay is in 
earth's bloom and manhood's prime. Faith dies and unfaith blossoms 
like a flower, And who of men shall find from hour to hour, Or in loud 
cities or the mores thereof, Or silent chambers of his own heart's love, 
One wind blows true forever? Soon or late Hate shall be love and love 
veer back to hate. 
(Ó, belo filho de Egeu, dos excelsos deuses só é o não envelhecer, e o 
não morrer. Em tudo o mais domina o tempo, nosso dono. Tudo 
morre: as flores, o vigor do homem; morre a fé, mas a infidelidade 
floresce. Quem pode achar, de um a outro instante, no tumulto de 
praças e cidades, ou no claustro silencioso do próprio coração, que o 
vento seja constante? Mais cedo ou mais tarde se tornaem amor o 
ódio, converte-se em ódio o amor). 
 
Aqui ressoa de novo a beleza do grego, o que nos permite apreciar 
quão distintas podem resultar as traduções. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 158 
Mas supondo que achássemos uma boa tradução, por que não 
teríamos que aferramos a ela? Para o que tantas? Pois existem muitas 
razões. Nada muda de modo tão rápido e imperceptível como a 
linguagem, e é preciso lembrar que o Novo Testamento foi escrito na 
linguagem coloquial do povo comum. Eu não falo como meu filho, nem 
ele como eu. E, repito, continuamente surgem novas descobertas. Por 
exemplo, faz meio século existiam mais de 600 palavras 
neotestamentárias que se catalogavam como "grego bíblico". 
 
Na atualidade restam menos de cinquenta. Houve uma contínua 
descoberta de cartas, títulos de propriedade e outros documentos dessa 
época. E as palavras que antes eram consideradas raras, resultaram ser de 
uso popular, pelo que seus significados se estabeleceram com maior 
precisão. Também se têm descoberto outros manuscritos do Novo 
Testamento. Atualmente contamos, quando muito, com setenta 
fragmentos de manuscritos neotestamentários que datam do ano 150 de 
nossa era. Possivelmente são dois séculos mais antigos que qualquer 
manuscrito que os eruditos bíblicos tinham a seu alcance faz 75 anos. 
Nem a linguagem nem a investigação permanecem estáticos. E se a 
Bíblia é, como cremos, a palavra de Deus, então só poderá ser aceitável a 
tradução mais exata. A tradução é uma tarefa interminável. Que 
empregue o estudante da Bíblia todas as traduções que possa encontrar, e 
que dê graças a Deus por elas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 159 
CAPÍTULO VI 
O LIVRO INSPIRADO 
 
O que queremos dizer exatamente quando afirmamos que a Bíblia é 
inspirada? Para dizer de outra maneira: O que temos em mente quando 
dizemos que a Bíblia é a palavra de Deus? Embora esta não seja uma 
pergunta fácil de responder, o cristão precisa enfrentá-la, pois de sua 
resposta dependerá o lugar que ele outorgue à Bíblia em sua vida e em 
sua fé. 
 
No princípio deste livro, afirmamos que não é difícil demonstrar 
que a Bíblia é um livro único; que tem um efeito singular na vida dos 
seres humanos. Só acrescentaremos dois exemplos a respeito. Quando 
Sir Walter Scott estava prestes a morrer, pediu a seu genro Lockhart que 
viesse ler algo para ele. Por um momento Lockhart pensou em todos os 
livros que Sir Walter tinha escrito e na grande biblioteca ali em 
Abbotsford, repleta de cima a abaixo com milhares de volumes; assim 
que preferiu lhe perguntar: "Do que livro lerei?". O escritor replicou: 
"Acaso precisa perguntar? Só há um livro". No crepúsculo da vida e 
perante a alvorada da eternidade, só há um livro possível. 
 
Uma das famosas ilustrações em torno da Bíblia é a de Tockichi 
Ishii. Este foi um renomado criminoso japonês que contava com uma 
longa cadeia de crimes bestiais. Em seus atos, Ishii mostrava uma 
brutalidade diabólica e a crueldade do tigre. Não tinha tido escrúpulos 
para assassinar igualmente a homens, mulheres e crianças. Por fim, foi 
capturado, condenado à morte, e estava na prisão esperando sua 
execução. Em essa situação recebeu a visita de duas damas canadenses. 
Tudo em vão, pois Ishii não queria falar nem responder, e se limitou às 
contemplar com um olhar de besta feroz. Ao sair, entretanto, as 
damas lhe deixaram uma Bíblia. 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 160 
Inexplicavelmente, o criminoso começou a lê-la, e logo já não pôde 
suspender a leitura. Quando, sem ter interrompido a leitura, chegou à 
história da Cruz e às palavras de Cristo, "Pai, perdoa-os, porque não 
sabem o que fazem", o coração dele se quebrantou. "Detive-me — 
declarou depois Ishii — e me senti ferido como se tivesse o coração 
atravessado por um prego de doze centímetros. Direi que foi o amor de 
Cristo, ou sua compaixão? Não sei como chamá-lo. A única coisa que sei 
é que eu cri, e que mudou a dureza de meu coração". 
Quando chegou a hora de partir ao patíbulo, não era já seu aspecto 
sério, endurecido, brutal e quase bestial, como antes foi, mas sim em seu 
rosto resplandecia a serenidade e um sorriso gentil pois, o assassino 
Tockichi Ishii tinha nascido de novo ao ler a palavra de Deus. 
 
Casos assim dissipam toda dúvida quanto à singularidade deste 
livro. Descrevemos tal singularidade dizendo que é um livro inspirado; 
que é a palavra de Deus. 
 
Às vezes tem-se respondido, dizendo que este livro foi escrito por 
Deus; que cada palavra, sílaba e letra, que cada página, parágrafo e 
oração, foram todos traçados pela própria mão de Deus, ou que é a 
própria palavra de Deus. Tal ponto de vista representa a chamada 
inspiração verbal. É, na realidade, uma antiga teoria de inspiração, 
segundo a qual o escritor humano não teve maior intervenção que a que 
tem a pena do autor ou a máquina de escrever que transcreve este 
capítulo. No Novo Testamento chamado do Whittingham, precursor da 
chamada Bíblia de Genebra, justamente se omite da Carta aos Hebreus o 
nome de Paulo, e se acrescenta uma elucidação: "já que o Espírito de 
Deus é o autor disto, em nada diminui sua autoridade que não saibamos 
com que pena o escreveu". Desde esta perspectiva o autor da Epístola, 
quem quer que tenha sido, não foi mais que uma pena na mão de Deus. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 161 
Atenágoras dizia em seus escritos que "Deus move as bocas dos 
profetas como se fossem instrumentos musicais". Descrevia o Espírito 
usando os escritores como um flautista que toca a flauta. Justino Mártir o 
via como o Espírito Santo que desce do céu e se vale de homens como 
um plectro que tange as cordas do harpa ou a lira. Teófilo de Antioquia 
fala dos profetas "aqueles que vieram a ser instrumentos de Deus". 
Clemente de Alexandria vê os escritores sacros como "órgãos da voz 
divina". Macário explica que assim como o alento fala com sopro através 
de uma flauta "assim também falou o Espírito através de homens santos 
e espirituais". Segundo tudo isto, aqueles que escreveram as Escrituras 
não tiveram que ver com os escritos além do que tem que ver uma pena 
em mãos de um autor ou um instrumento musical com a música do 
compositor. Significa que a Bíblia é a palavra de Deus literal e até 
fisicamente, por assim dizer. Resulta impossível manter esta posição, por 
várias razões. 
 
I. Para começar, existe um fato bem simples. Todos os manuscritos 
da antiguidade foram escritos à mão e, ao copiá-los, infiltraram-se 
mudanças e erros. Calcula-se que há 150.000 leituras variantes nos 
manuscritos gregos do Novo Testamento. É verdade que às vezes trata-se 
somente de diferenças ortográficas, da ordem das palavras ou da 
substituição de um sinônimo por outro. É verdade, além disso, que destas 
150.000 variantes, menos de 400 afetam o sentido; menos de 50 têm 
alguma importância, e não existe um só caso duvidoso em relação a 
algum artigo de fé ou a preceito moral algum. Tudo isso é certo, mas o 
leitor tem ainda que decidir, por sua conta, qual dos soletrações ou das 
variantes constituem a palavra de Deus no sentido literal do termo. 
Poderia dizer-se que a palavra de Deus foi o primeiro manuscrito, tal 
como saiu da mão do escritor original. Se isto é assim, então o 
manuscrito original perdeu-se e desapareceu para sempre. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 162 
Ponhamos por exemplo a Bíblia em inglês. Para o fim do século 
XIX, um comitê da Sociedade Bíblica Americana revisou seis edições da 
Versão Autorizada e encontraram quase 24.000 diferenças entre elas. 
Certo, as diferenças não eram de maior importância, mas se um livro é a 
palavra literal de Deus, então as palavras devem permanecer fixas, assim 
como seu significado, o que não sucedeu com a Bíblia. Teria sido 
realmente estranho que Deus tivesse ditado o original e logo não tivesse 
tido o mesmo cuidado para assegurar sua transmissão infalível. 
 
II. Adiciona-se o fato de que,quaisquer pessoas que tenham sido os 
escritores bíblicos, foram muito mais que simples penas nas mãos de 
Deus, ou instrumentos através dos quais soprou o Espírito Santo. Se 
tivesse sido assim, teríamos uma Bíblia escrita num estilo uniforme, mas 
é o caso de que cada escritor do Novo Testamento escreve com estilo 
próprio. Se a um conhecedor do grego lhe mostra qualquer página do 
Novo Testamento, e lhe pede que identifique o autor, embora não 
conheça a passagem assinalada por acaso, poderá facilmente dizer se foi 
escrito por Marcos ou Lucas, por João ou Pedro, pelo escritor da Epístola 
aos Hebreus ou por João do Apocalipse. De fato, este último escreve 
fazendo com frequência caso omisso das regras gramaticais e sintáticas, 
de modo que seu estilo é inequívoco. Seu grego é tão deficiente que 
qualquer estudante de hoje sairia reprovado se escrevesse assim. Em 
nenhum caso foi suprimida a personalidade do escritor, tal como o 
expressou G. E. Ladd tão acertadamente quando disse que a Bíblia é a 
palavra de Deus, mas definitivamente em palavras humanas. Em nenhum 
momento deixou de lado a personalidade dos escritores bíblicos. Uma 
pena ou um instrumento musical são coisas, mas sem lugar a dúvida os 
escritores bíblicos jamais deixaram de ter sua própria personalidade. 
 
A autonomia dos escritores sagrados se adverte na maneira de 
relatar o mesmo evento. No caso do endemoninhado gadareno, Mateus 
(8:28-34) conta-o em sete versículos; Marcos (5:1-20) necessita vinte 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 163 
versículos, e Lucas (8:26-39) o diz em apenas quatorze. Não se encontra 
os evangelistas escrevendo pelo ditado divino ou de qualquer outro tipo. 
No que escrevem expressam sua personalidade e fazem as coisas cada 
quem a seu modo. 
 
III. Ainda mais, existem as variantes e diferenças concretas entre 
evangelho e evangelho. Por exemplo, o incidente da purificação do 
Templo vem no final dos três primeiros evangelhos (Mt. 21:12-13; Mc. 
11:15-17; Lc. 9:45-46), porém no quarto evangelho aparece no princípio 
do ministério de Cristo (Jo. 2:13-17). Também há o caso das diferentes 
maneiras em que se registra a mesma expressão. Com frequência, é 
legítimo explicar as variantes das mesmas expressões de Jesus, aduzindo 
que Ele as repetiu de diferentes maneiras em diferentes ocasiões. Mas 
existem certas ocasiões que são exatamente as mesmas, e entretanto as 
palavras que se registram de Cristo são muito diferentes. Temos, por 
exemplo, o que Jesus diz nos três primeiros evangelhos depois de 
Cesareia de Filipe e antes da Transfiguração: 
Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encontram, que 
de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do 
Homem no seu reino (Mt. 16:28). 
 
Em verdade vos afirmo que, dos que aqui se encontram, alguns há 
que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter 
chegado com poder o reino de Deus (Mc. 9:1). 
 
Verdadeiramente, vos digo: alguns há dos que aqui se encontram que, 
de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam o reino de 
Deus (Lc. 9:27). 
 
É inquestionável que aqui temos três versões da mesma expressão 
e, se os evangelhos tivessem sido escritos por ditado divino, certamente 
não haveria três versões diferentes do mesmo. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 164 
E vamos ao que Jesus diz sobre Si mesmo no juízo, e que fez 
inescapável Sua condenação pelos judeus: 
Jesus, porém, guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te 
conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de 
Deus. Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro 
que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do 
Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu (Mt. 26:63-64). 
 
Ele, porém, guardou silêncio e nada respondeu. Tornou a interrogá-lo 
o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? 
Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à 
direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu (Mc. 14:61-
62). 
 
Se tu és o Cristo, dize-nos. Então, Jesus lhes respondeu: Se vo-lo 
disser, não o acreditareis; também, se vos perguntar, de nenhum modo 
me respondereis. Desde agora, estará sentado o Filho do Homem à 
direita do Todo-Poderoso Deus. Então, disseram todos: Logo, tu és o 
Filho de Deus? E ele lhes respondeu: Vós dizeis que eu sou (Lc. 
22:67-70). 
 
Aqui estão três versões diferentes da mesma expressão. 
 
Uma das mais surpreendentes variações dos relatos é que os 
evangelhos diferem quanto ao tempo em que Jesus foi crucificado. Não 
há duvida nos três primeiros evangelhos de que a Última Ceia foi a 
celebração da Páscoa (Mt. 26:17-20, Mc. 14:12-17, Lc. 22:7-14); e que, 
portanto, Jesus foi crucificado depois da Páscoa. No Evangelho de João 
não há dúvida que se diz que Jesus foi crucificado antes da Páscoa: 
primeiro nota-se que os judeus se negam a entrar no salão de juízos de 
Pilatos, por temor a ser declarados imundos e ficar incapacitados para 
participar da Páscoa; segundo, repetidamente se chama o dia da 
crucificação como a véspera da Páscoa (Jo. 18:28; 19:31, 42). Além 
disso, segundo Marcos, Cristo foi crucificado na hora de terceira —9 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 165 
horas — enquanto em João não se toma a decisão de crucificá-lo até a 
sexta hora — meio-dia —. É altamente improvável que num ditado 
divino tivesse havido uma discrepância de tal magnitude. 
 
IV. Numa muito raro ocasião pode haver mais erro que variação. 
Marcos, ao relatar como os discípulos arrancaram espigas das saras, 
violando assim a lei sabática, mostra a Jesus lembrando aos fariseus o 
que fez Davi nos dias do sumo sacerdote Abiatar (Mc. 2:26). Tanto 
Mateus como Lucas omitem este nome (Mt. 12:1-8; Lc. 6:1-5). O 
sacerdote em questão não foi Abiatar, e sim Aimeleque (1Sm. 21:1-6) 
filho do Abiatar (2Sm. 8:17). Um equívoco assim é perfeitamente 
explicável numa mente humana, e não tem importância alguma, mas é 
algo inconcebível num ditado divino. 
 
V. Há ocasiões em que o estudante da Bíblia precisa escolher qual 
de duas porções da Escritura deve seguir. Isto é especialmente aplicável 
ao ensino de São Paulo sobre o casamento. Em I Cor. 7 Paulo se refere 
ao casamento e, em geral, mostra-se contrário a ele. Se eles se casarem, 
não quer que se separem, mas cada qual cumpra com os deveres e 
obrigações do casamento. Mas quando Paulo escreveu este capítulo, não 
considerava que o casamento fosse a melhor opção. É melhor para o 
homem não tocar em mulher, mas se aprova o casamento como defesa 
contra a tentação sensual (v. 1,2). É melhor que a pessoa fique sem casar. 
Mas se não puderem controlar-se, então que se casem, porque é melhor 
casar-se que arder em paixões (v. 8,9). A atitude principal é que o 
casamento se justifica para salvar o homem de algo pior! A que se deve 
esta atitude? A que naquele então, Paulo espera que Jesus Cristo retorne 
de um momento a outro: poderia vir hoje, amanhã ou numa semana. 
Portanto, não quer que o homem se distraia no mínimo que seja, mas que 
se concentre no vindouro fim do mundo. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 166 
O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações. Quem 
não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; 
mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar à 
esposa, e assim está dividido. Também a mulher, tanto a viúva como a 
virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo 
como no espírito; a que se casou, porém, se preocupa com as coisas do 
mundo, de como agradar ao marido. Digo isto em favor dos vossos 
próprios interesses; não que eu pretenda enredar-vos, mas somente 
para o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, 
desimpedidamente, ao Senhor (1Co. 7:32-35). 
 
Paulo escreveu isto ao redor do ano 55 de nossa era, quando ele e 
toda a Igreja estavam obcecados com a vinda de Cristo. Em vista disso o 
casamento era uma segunda boa opção, uma das muitas distrações parao 
breve período de espera. Mas passaram uns oito anos e Paulo escreveu 
aos Efésios. Mas agora entendia que ele e os crentes viviam numa 
situação muita mais permanente e, num grandioso capítulo, compara o 
casamento com a relação entre Cristo e Sua Igreja. Um homem deixa 
pai e mãe como sua esposa. É "um grande mistério". Quer dizer, é o 
símbolo de algo esplêndido. O casamento não é outra coisa que o 
símbolo da relação entre Cristo e Sua Igreja (Ef. 5:21-33). Agora, se me 
pergunta qual é o ensino de Paulo sobre o casamento, onde buscaria eu a 
resposta, em Coríntios ou em Efésios? Certamente que em Efésios 5, 
pois o mestre tem o direito a ser julgado por seus melhores ensinos. Em 
1 Coríntios, Paulo realmente diz: "Aos mais digo eu, não o Senhor..." 
(1Co 7:12) e logo explica: "Com respeito às virgens, não tenho 
mandamento do Senhor; porém dou minha opinião, como tendo recebido 
do Senhor a misericórdia de ser fiel" (1Co 7:25). Aqui ele não está 
escrevendo um ditado divino, mas expressando sua opinião. Com os 
anos tal opinião mudou, e a doutrina cristã sobre o casamento não se 
encontra em I Coríntios 7 mas em Efésios 5. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 167 
Vimos o suficiente para compreender que o conceito de um livro 
infalível, ditado divinamente como produto da inspiração, cria mais 
problemas que os que soluciona. Devemos, pois, traçar outra rota e 
voltar a começar. 
 
I. Se a Bíblia é a palavra de Deus, isso quer dizer que, de algum 
modo, na Bíblia estabelece-se um contato especial entre Deus e o 
homem. De algum modo, Deus e o homem encontram-se na Bíblia. O 
homem que é caracteristicamente aquele que busca, junta-se neste livro 
com Deus, que é caracteristicamente Aquele que Se revela. Num sentido 
único, a Bíblia é o ponto de reunião entre o Espírito de Deus e o espírito 
humano. Esta é a primeira base essencial de qualquer doutrina de 
revelação e inspiração. 
 
II. Isto significa que é preciso encontrar o significado da inspiração 
na situação humana ou, melhor dizendo, na situação divino-humana. O 
significado da inspiração deve ser achado na relação que se estabelece 
entre o Espírito de Deus e a mente do homem. 
 
III. Portanto perguntamos, qual é a situação humana? Na situação 
humana encontram-se dois elementos. O primeiro é que o homem é 
criação de Deus; e não só isso, mas também, além disso, está feito à 
imagem de Deus (Gn. 1:27). Isso deveria significar, como registrou 
Suzanne de Dietrich, que "é a vocação do homem viver numa relação de 
confiança com Deus". Para dizer de outro modo, Deus não é somente 
Criador; também é Pai. Mas agora vem o segundo elemento nesta 
situação humana. Para isso é essencial que o homem nasça livre. A 
relação entre homem e Deus deve ser o resultado de um convite livre e 
uma resposta livre. Para citar de novo a Suzanne de Dietrich, "Em 
toda a criação, o homem é o único que pode dizer 'sim' ou 'não' a Deus". 
De fato, o homem disse "não"; utilizou sua independência para seguir 
seu próprio rumo. Esta é a essência da história da queda. O ser humano 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 168 
não alcança compreender que a única verdadeira liberdade e sua única 
realização verdadeira podem vir unicamente de sua obediência a Deus. 
Desta maneira o homem coloca-se em situação tal que encontra-se 
viajando em sentido oposto, buscando a felicidade onde não pode 
encontrá-la; buscando a liberdade onde não há liberdade, e sua realização 
onde não existe realização alguma. Isto é o pecado. A situação humana é 
aquela em que o homem se afasta de Deus para confiar em si mesmo. 
 
IV. Visto que Deus é amor ele tem que achar algum meio para 
normalizar a situação. E não pode fazê-lo intervindo diretamente e de 
fora. Isto é assim porque a relação entre Deus e o homem deve 
permanecer livre e espontânea ou não seria uma relação de amor. É 
portanto, necessário, que Deus apele a meios humanos para resolver a 
situação. Assim fê-lo, e os meios que empregou para atrair a si aos 
humanos foram os profetas. 
 
É preciso ter presentes duas coisas. O profeta não era tanto alguém 
que predizia como alguém que proclamava a vontade e o propósito de 
Deus. A grande função da profecia não é a de predizer, antes, a de 
proclamar a vontade de Deus e anunciar as consequências que causará o 
não obedecê-la. Além disso, para os judeus, a palavra profecia tinha um 
significado muito mais amplo que para nós. Tal como o vimos o estudar 
o desenvolvimento do Antigo Testamento, os livros históricos eram 
conhecidos como profecias anteriores; assim que a história é profética. 
Moisés foi considerado um profeta; portanto, a lei é profética. Toda a 
Escritura é profética, visto que o profeta é quem traz para os seus 
semelhantes a voz de Deus. É dizer que, caracteristicamente, o profeta é 
a pessoa que estabelece a relação entre Deus e o homem; profeta é quem 
fala a palavra de Deus, é a pessoa inspirada. 
 
V. Se isto é assim e se podemos entender precisamente o que é o 
profeta, teremos avançado muito na compreensão do que significa a 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 169 
inspiração e a palavra de Deus. Suzanne de Dietrich aponta duas 
características a respeito do profeta. 
 
(a) O profeta é a consciência da nação. É "a consciência viva do 
povo num momento em que todas as demais vozes permanecem 
caladas". 
 
(b) O profeta encontra-se sob o absoluto controle de Deus. 
Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não 
profetizará? (Am .3:8). 
 
O profeta é alguém que fala porque deve falar. 
 
(c) Profeta é quem de maneira especial esteve no conselho secreto 
de Deus. 
Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro 
revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas (Am 3:7). 
 
O profeta não expressa uma opinião nem faz uma sugestão. O 
profeta não se caracteriza pela expressão "eu digo" mas por dizer: 
"Assim diz o Senhor". E como afirma Wheeler Robinson, esta é a 
diferença entre o pensamento grego e o hebraico. A verdade para o grego 
é algo que a mente humana descobre em sua busca; para o hebraico a 
verdade é algo revelado pelo Espírito de Deus. A típica declaração 
hebraica é: "Ele te declarou o que é bom" (Mq. 6:8). Não "Você foste 
capaz de descrever o que é bom", mas "Deus te declarou o que é bom". 
Podemos ver muito claramente, pois, que o profeta deve escutar antes de 
falar, é alguém que presta atenção, que entende e que comunica. A única 
função do profeta é a de restaurar, estabelecer, manter e desenvolver a 
relação entre Deus e o homem. Não é nem cientista nem historiador. 
Toda sua função tem que ver com a relação entre Deus e o homem. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 170 
VI. Agora diremos o mesmo de outra maneira: claramente o profeta 
deve ser alguém que conhece a Deus. De outra maneira nem sequer pode 
começar a ser profeta. "O que esta igreja precisa é um homem que 
conheça a Deus algo mais que de segunda mão", foi o que disse o pai de 
Thomas Carlyle quando a congregação da qual era ancião buscava um 
ministro. O profeta conhece a Deus em primeira mão. 
 
VII. Mas surge imediatamente a pergunta: O que significa 
conhecer? Acima de tudo, há grande diferença entre saber a respeito de 
uma pessoa e conhecê-la (knowing about e knowing him, em inglês). No 
mundo político, social, acadêmico e esportivo abundam as grandes 
figura, a respeito das quais sabemos algo sem que as conheçamos 
pessoalmente. Além disso, a palavra conhecer é extremamente elástica. 
Conhecemos muitas pessoas: sua cara, sua voz, seu nome, seu trabalho, a 
história de sua vida. Falam oco elas quando os encontramos, e até 
passamos boa parte do dia com eles. Mas a quantas pessoas conhecemos, 
em realidade? Quantas pessoas existem em cujas mentes e corações 
podemos penetrar com simpatia e compreensão, de modo que saibamos o 
que pensam e sentem? Este tipo de conhecimento depende de algo mais: 
depende do amor. Para que haja verdadeiro conhecimento, deve haveramor. O profeta que traz a palavra de Deus, não só deve conhecer a 
Deus, mas também amá-Lo. 
 
VIII. Mas é necessário que avancemos um passo mais. Amar, 
implica necessariamente obedecer. A prova do amor é a obediência. 
 
"Vós sois meus amigos — disse Jesus — se fazeis o que eu vos 
mando" (Jo. 15:14). Portanto, profeta é alguém que obedece a Deus. Na 
inspiração existe um elemento moral; aqueles que veem a Deus são de 
limpo coração (Mt. 5:8). O homem que recebe a bênção, tem limpas as 
mãos e puro o coração (Sl 24:4,5). 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 171 
Chegamos pois a uma definição aproximada, que nos põe a meio 
caminho de nossa meta: 
Um livro inspirado, um livro que é a palavra de Deus, é aquele que 
efetua uma relação entre Deus e o homem e, portanto, serve de 
corretivo à situação humana, que se torceu. Está escrito por alguém 
que conhece a Deus, porque ama a Deus, e cujo amor redundou em 
obediência, que o capacita a ser instrumento de Deus. 
 
Mas não terminamos ainda, pois há uma linha mais que une-se a 
esta. Para o judeu a revelação de Deus não era de maneira nenhuma uma 
revelação em palavras; era uma revelação nos acontecimentos. Para o 
judeu, a grande revelação de Deus é a história de Israel e, especialmente, 
sua libertação do jugo egípcio. Deus se revela a si mesmo na história, 
nos acontecimentos e na ação divina. Qualquer que leia os Profetas, 
encontrará que grande parte do que dizem não é mais que interpretação 
dos acontecimentos históricos. O profeta vê a mão de Deus revelar-se 
no evento; vê no evento o que Deus tem feito e o que Deus quer dizer. 
 
Portanto, podemos afirmar com absoluta certeza que Deus Se revela 
na ação e no evento, e que a Bíblia são os anais e interpretação destes 
eventos, mais que a própria revelação. A Bíblia é a história de um Deus 
que age e de homens que interpretam, ou não interpretam, a ação de 
Deus. E agora chegamos ao topo deste assunto. 
 
O evento supremo é Jesus Cristo. Ele é a Palavra. Esta Palavra não 
é uma página impressa. As palavras de Deus são acontecimentos; Deus 
fala neles. E portanto, o acontecimento supremo, a revelação suprema, a 
suprema palavra é Jesus Cristo. 
 
No Antigo Testamento a Bíblia nos fala da preparação para a vinda 
de Cristo; nos evangelhos relata o evento de Sua vinda; nos Atos 
descreve o resultado desta, e nas Epístolas encontramos as interpretações 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 172 
a respeito de Sua vinda. Para ler corretamente a Bíblia é preciso começar 
na metade dela, com o acontecimento salvífico de Jesus Cristo; logo, 
retornar à preparação deste evento, e daí à história da Igreja e às 
interpretações de tal evento. 
 
A suprema importância da Bíblia radica em que nela e só nela 
encontramos a Jesus Cristo. Sem ela careceríamos de uma recontagem 
de Sua vida e ensino. Poderia argumentar-se que, embora não tivéssemos 
a Bíblia, ainda teríamos a tradição da Igreja; mas é a Bíblia a que impede 
as distorções da tradição. A Bíblia é a pedra de toque; é a garantia de que 
ninguém pode perverter os fatos ou inventar fatos novos, pois ali está 
Jesus Cristo. 
 
Creio que a Bíblia é a palavra de Deus, porque nela estamos frente a 
frente com quem, em sentido único, é a Palavra de Deus. Assim que, 
voltamos para o grande princípio da Reforma em palavras de Lutero: "A 
verdadeira pedra de toque para provar qualquer livro; é descobrir se 
enfatizar ou não a proeminência de Cristo. O que não ensina a Cristo não 
é apostólico, embora o ensinem Pedro ou Paulo. Por outro lado, o que 
prega a Cristo é apostólico, embora pudesse vir de Judas, Anás, Herodes 
ou Pilatos". 
 
Eis aqui, pois, a prova mais simples: a Bíblia é a palavra de Deus, 
porque através dela encontramos a Jesus Cristo. Podemos então resumir 
finalmente nossas conclusões: 
 
I. A Bíblia é a palavra de Deus, porque é onde se restaura a relação 
quebrada entre o homem e Deus. 
 
II. A Bíblia é a palavra de Deus, porque foi escrita por pessoas que 
conheciam a Deus, porque O amavam e obedeciam. 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 173 
III. A Bíblia é a palavra de Deus, porque fala dos fatos salvíficos 
por meio dos quais Deus Se revela a Si mesmo, e que culminam no 
evento de Jesus Cristo. 
 
IV. A Bíblia é a palavra de Deus porque nela e só nela nos 
confrontamos com a vida e os ensinos de Jesus Cristo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Introdução à Bíblia (William Barclay) 174 
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The Interpreter’s One Volume Commentary on the Bible. 
Abingdon Press (USA), Collins. (GB). 
The Moffat Commentary. Hodder and Stoughton. The New 
Century Bible. Oliphants. 
The Torch Commentary. Student Christian Movement Press. 
The Tyndale Commentary. The Tyndale Press. 
 
 
 
	INTRODUÇÃO À BÍBLIA
	Autor: William Barclay
	Tradutor
: Carlos Biagini
	ÍNDICE
	APRESENTAÇÃO
	ORAÇÕES PARA O ESTUDO BÍBLICO
	PREFÁCIO
	Cap I - UM LIVRO ANTIGO
	Cap II - 
 DESENVOLVIMENTO DO ANTIGO TESTAMENTO
	Cap III - 
DESENVOLVIMENTO DO NOVO TESTAMENTO
	CAPÍTULO IV - OS APÓCRIFOS
	CAPÍTULO V - COMO ESTUDAR A BÍBLIA
	CAPÍTULO VI - O LIVRO INSPIRADO
	BIBLIOGRAFI
A

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