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Coleção debates teológicos - C Marvin Pate - As interpretações do apocalipse 241

Livro da coleção Debates Teológicos que reúne quatro pontos de vista sobre o Apocalipse (preterista, idealista, dispensacionalista progressivo e clássico), organizado por C. Marvin Pate, com prefácio, introdução e conclusão.

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K e n n e th L. Gen t ry Jr. 
Sam Hamstra j r .
C. Marv in Pate 
R o b e r t L. Thom as
O R G A N I Z A D O R DO V O L U H
C. Ma r v i n Pa t e
( s /
Vida
A C oleção D ebates Teológicos, o r g a n iz a d a p o r S tan ley G uiulry , 
a h r r . c í t p a ç o p a ra » livre tlelvate. a n a l i s a n d o p e n s a m e n t o s d i f e r e n t e s , a le m 
d e p r o p o n io n a r a o le i t o r a o p o r t u n i d a d e d e se a p r o f u n d a r no 
c o n h e c i m e n t o e na e o n v n . a o d e te m a s r e l e v a n t e s da t e o l o g ia c r i s t a .
IS B N X S -7 3 6 7 -6 6 0 4
J
m.__________ _ J
Vida
E d i t o r a d o g r u p o
ZONDERVAN
H a r i-e r C o i .i .in s
E d i c o r a f i l i a d a à 
C â m a r a B u a silh ir a d o L iv r o
A s s o c ia ç ã o B r a s il e ir a 
d e E d i t o r j ;s C r is t ã o s
A s s o c ia ç ã o N a c io n a i 
d e L iv r a r ia s
A s s o c ia ç ã o N a c io n a l d e 
L iv r a r ia s E v a n g é l ic a s
A s s o c ia ç ã o B r a s il e ir a 
d l M a r k e t i n g D i r e t o
D ir e ç ã o e x e c u tiv a
E u d e M a r t in s
S u p e r v is ã o de p r o d u ç ã o 
S a n d r a L e i t f .
G e r ê n c ia f in a n c e ir a 
S é r g i o L im a
G e r ê n c ia de c o m u n ic a ç ã o e m a rk e tin g
S f r g i o P a v a r in i
G e r ê n c ia e d i to r ia l 
JFa b ia n i M e d e i r o s
S u p e r v is ã o e d i t o r ia l 
A l d o M f n f z h s
Editorias
OBRAS d e in t e r e s s e g e r a l 
OBRAS PARA IGREJA E FAMÍLIA 
OBRAS TEOLÓGICAS E DE RF.FKRÊNC1A 
OBRA EM LÍNGUA PORTUGUESA 
OBRAS INFANTIS K JUVENIS 
BÍBLIAS
S t á i j ' j 1- t í . t t U y
Interpretações do
A PO C A LIPSE
P r e t e r i s t a
K e n n c t h L. Gen t r y j r .
I d e a l i s t a
Sam I lamstra Jr.
D i s p e n s a c i o n a l i s t a p r o g r e s s i v o
C. Marv in Pate
D i s p e n s a c i o n a l i s t a c l á s s i c o
R o b e r t L. T h o n ia s
C. Marvin Pate
T r a d u ç ã o 
V i c t o r D e a k i n s
t e /
Outros volumes da Coleção 
Debates Teológicos
Cessaram os dons espirituais?
Lei e evangelho ©2001, de C. Marvin Pate, Kenneth L. Gentry Jr.,
Sam Hamstra, Roberc L Thomas
Título do original Four views on the book o f
Revelation,
edição publicada pela 
ZONDERVAN PUBLISHING H ü U SE 
(Grand Rapids, Michigan, eu a )
■
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
E d it o r a V id a
Rua Júlio de Castilhos, 280 * Belenzinho 
c e p 03059-000 « São Paulo, sp 
Telefax 0 xx 11 6096 6814 
www.editoravida.com.br
P r o ib id a a r e p r o d u ç ã o p o r q u a is q u e r m e io s ,
SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.
Todas as citações bíblicas foram extraídas da 
Nova Versão Internacional (n v i) ,
©2001, publicada por Editora Vida, 
salvo indicação em contrário.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( c ip ) 
(Câmara Brasileira do Livro, S P , Brasil)
O Apocalipse : quatro pontos de visca /C. Marvin Pate , (org) ; tradução 
Victor Deakins. — São Paulo : Editora Vida, 2003. — (C ok*B U e b a te s 
Teológicos)
http://www.editoravida.com.br
P refácio 7
A b re v ia tu ra s 9
In tro d u çã o ao A pocalipse 11
1. 0 ponto de vista PRETERISTA 39
Kenneth L. Gentry Jr.
2. 0 ponto de vista IDEALISTA 99
Sam H am stra Jr.
3. 0 ponto de vista DISPENSACIONALISTA PROGRESSIVO 139
C. Marvin Pate
4. 0 ponto de vista DISPENSACIONALISTA CLÁSSICO 185
Robert. L. T h o m as
C o n clu sã o 2 3 9
Um sábio definiu um clássico como “um livro comentado por 
todos, mas que quase ninguém lê”. Infelizmente, esta descri­
ç ã o p o d e r ia s e r a p l ic a d a a o ú lt im o i iv r o d a B íb iia — O 
Apocalipse. Quem ainda não foi cativado pelo poder de seu 
drama e a pungência de sua mensagem? Porém, quantos re­
almente leram o Apocalipse? Indubitavelmente, há uma gran­
de diferença nas respostas para essas perguntas. O propósito 
deste volume é ajudar a atravessar a barreira entre as respos­
tas que o antecedem; isto é, conduzir as pessoas a não so ­
mente serem cativadas pelo Apocalipse, mas a engajarem-se 
por meio da interação pessoal. Com esse intuito, acreditamos 
que as contribuições presentes oferecem quatro pontos de vis­
ta alternativos e bem argumentados do último livro da Bíblia.
Todos os autores neste volume são estudiosos evangélicos 
em assuntos teológicos. Para cada um, a inspiração das Escri­
turas é o fundam ento para o entendim ento do Apocalipse. 
Além disso, embora os colaboradores apresentem seu ponto 
de vista com convicção, o fazem com um espírito cristão e conci­
liador. Com esse princípio, este livro é dedicado a todos aqueles 
“que amam a [Cristo] por sua v in d a”, em bora as opin iões 
escatológicas divirjam.
Gostaria de agradecer aos que ajudaram neste projeto. Mi­
nha gratidão se estende a outros colaboradores — Ken Gentry, 
Sam Hamstra e Robert Thom as — que têm ajudado a tran s­
formar em realidade a visão deste trabalho. Pessoalmente, esse 
empenho me deu o privilégio de fazer novos amigos e desen­
volver idéias estimulantes. Espero que meus colegas sintam o
8 * Apocalipse
mesmo. Também desejo agradecer ao pessoal do editorial da 
Zondervan que aprovou e concluiu o pro jeto — Ed van der 
Maas, Verlyn D. Verbrugge, e Stanley N. Gundry. Suas contri­
buições foram entusiásticas e inestimáveis,
C. Marvin P ate 
O r g a n iz a d o r
ab A n c h o r Bible C o m m en ta ry
b a r Biblícal A rch a eo lo g y Review
b a s o r BuIIetin o f the A m erica n Society fo r O rientai R esea rch
Bsac B ibliotheca S a cra
icc In tern a tio n a l C riticai C o m m en ta ry
j e t s Jo u rn a l fo r the E va n gelíca l T heological Society
j s n t s s Jo u rn a l fo r the Study o f the New T estam ent Suplem ent Series
kjv K ing Ja m e s Version
l x x S e p tu a g in ta
n a sb N ew A m erica n S ta n d a rd Bible
N/cwr N ew In tern a tio n a l C o m m en ta ry o f the N ew Testam ent
m Nova V ersão In tern a cio n a l
n k j v N ew K ing Ja m e s Version
N ovTSup S u p lem en ts to N ovum T esta m en tu m
nrsv N ew R evised S ta n d a rd Version
ms N ew T esta m en t Studies
r s v R evised S ta n d a rd Version
s n ts m s Society of the New T e s ta m e n t Studies M onograph Series
nvjr Tyndale N ew T estam ent C o m m en ta ries
T rinJ Trinity Jo u rn a l
Das reações modernas ao livro de Apocalipse, três vêm rapi­
damente à mente. “O bsessão” é a palavra apropriada para des­
crever alguns dos oito milhões de devotos em profecia nos 
dias de h o je ,1 que estudam com afinco as profecias do Apoca­
lipse no estilo de Nostradamus, correlacionando eventos atuais 
fora de época com suas antigas advertências secretas. Seguin­
do esse ponto de vista, esses intérpretes comparam a China 
vermelha com os “reis do Leste" (Ap 16.12-16), o Mercado Co­
mum Europeu com os “dez chifres da b esta” (13.1-10), a mar­
ca da besta (666 ) em Apocalipse 13 com tudo o que for possível, 
de cartões de crédito à Internet e o anticristo com um desfile 
de p e s so a s p ro e m in e n te s , in c lu in d o A dolf Hitler, Benito 
Mussolini, Henry Kissinger e Mikhail Gorbatchov. Essa inten­
sa fascinação com o Apocalipse por quem prevê a destruição 
de modo pessimista não mostrou sinal algum de diminuição 
com a aproxim ação do ano 2000 (quando escrevem os esta 
obra). Porém, a leitura do último livro da Bíblia como se fosse 
uma visão em uma bola de cristal, causou inegavelmente mais 
dano que proveito, e hermeneutas responsáveis a evitam .2
Uma segunda réplica moderna ao Apocalipse pode ser ex­
pressa pela palavra “irrelevante”. Como indica o termo, muitos
"De acordo com Paul Boyer, When time shall be no more: prophecy beliefs in 
modern American culture (Cambridge: Harvard Unviersity Press, 1992), p. 2 e 3.
2Para crítica da mentalidade do dia do juízo unviersal, v. C. Marvin Pate e 
Calvin B. Haines Jr., Doomsday delusions:what’s wrong with predictions aboul 
the end of the world (Downers Grove: i v p , 1995).
12 ■ Apocalipse
consideram que o Apocalipse é uma antologia antiquada de 
imagens bizarras, originadas da paranóia, e designadas para 
moralizar as pessoas por meio de táticas de medos divinos. 
Como um professor de religião discorreu quando se fala de 
literatura apocalíptica, da qual o Apocalipse faz parte, “é toli­
ce!”. Uma suspeita é que a primeira réplica de obsessão tenha 
contribuído para a segunda réplica de irrelevante.
Porém, muitos cristãos nos dias de hoje se acham em al­
gum lugar entre os dois extremos, abordando o Apocalipse com 
preocupação “obediente, mas hesitante”. Por outro lado, eles 
reverenciam o livro como inspirado por Deus e, portanto, como 
algo pertinente às suas vidas; eles, no entanto, acham seu sig­
nificado confuso e até potencialmente discordante. Em grande 
parte, esperamos que este trabalho se dirija a essas pessoas — 
para trazer esclarecimento a um tópico confuso, mas vital.
Ainda não podemos obter perspicuidade de determinado 
assunto simplesmente por examinar isto a partir de uma só 
perspectiva. Essa abordagem corre o risco de ser míope e pro­
v inciana. Mais p ro p riam en te , o que é p reciso quando se 
examina o Apocalipse é uma leitura interpretativa desse livro 
de tal forma que o total da soma do conjunto seja maior do 
que as partes. Não que um texto antigo bíblico ou qualquer 
outro, tenha mais de um significado, uma a reivindicação da 
pós-m odernidade. Em vez disso, há um chamado para que 
percebam os nossas limitações individuais, nossa com preen­
são finita, e percebamos a necessidade que temos dos outros 
e de suas percepções e discernimento, revelados pelo Espíri­
to Santo, para compreender o propósito da Palavra de Deus. 
Aplicando a analogia das partes e do conjunto ao Apocalipse, 
permite-se essa declaração: As quatro interpretações neste vo­
lume representam as partes interpretativas, ao passo que o 
leitor, ajudado pelo Espírito, forma o todo.
Antes de recorrer às várias perspectivas oferecidas neste 
livro, porém, primeiramente precisam os examinar assuntos 
introdutórios relativos ao Apocalipse — isto é, uma apresen­
tação geral, seguida de um resumo das interpretações princi­
pais do documento. A maior parte deste volume, no entanto, 
são os quatro pontos de vista atuais: o preterista; o futurista, 
que pode ser delineado em disp ensacio nalism o c láss ico e 
d ispensacionalism o progressivo; e o idealista. Esperançosa­
mente, o total da soma das partes individuais nos livrará da
Introdução ao Apocalipse ■ 13
crítica hermenêutica refletida na famosa sátira de Mark Twain: 
“As pesquisas de muitos estudiosos já lançaram muita escuri­
dão neste assunto, e é provável que, se eles continuarem, logo 
não saberemos nada sobre isto!”.
INTRODUÇÃO GERAL AO APOCALIPSE 
Estilo
Antes de interpretar qualquer com posição literária co rre ta ­
mente, incluindo a Bíblia, deve-se determinar seu gênero ou 
estilo literário .3 Este princípio é muito importante para o Apo­
calipse, e sua negligência resultou em um pântano de pontos 
de vista contraditórios. A dificuldade aumenta pelo fato de 
que o Apocalipse consiste em uma mistura de três gêneros: 
apocalíptico, profético, e epistolar. Alan F. Johnson descreve 
o primeiro desses gêneros sucintamente:
O Apocalipse é [...] geralmente visto como um livro que pertence ao 
corpo de escritos judaicos não relativos à Bíblia, conhecidos como 
literatura apocalíptica. O nome para este estilo de literatura (alguns 
dezenove livros) é derivado da palavra “revelação” (apocalypsis) em 
Apocalipse 1.1 [...] Os livros apocalípticos extrabíblicos foram es­
critos no período de 200 a.C. a 200 d.C. Normalmente, os estudiosos 
dão ênfase às semelhanças do Apocalipse de João a esses livros 
não-canônicos — semelhanças como o uso de simbolismo e visão, 
a menção de mediadores angelicais da revelação, as imagens bizar­
ras, a expectativa de julgamento divino, a ênfase no reino de Deus, 
os novos céus e terra, o dualismo desse período e o porvir.4
Embora com parações significantes realmente existam en ­
tre o Apocalipse e o material apocalíptico judeu e cristão, há 
diferenças críticas entre eles também, apesar de o Apocalipse 
ser um livro profético (1.3; 2 2 .7 ,1 0 ,1 8 ,1 9 ) , ao passo que os 
outros não fazem reivindicação alguma. Assim, o Apocalipse 
não é pseudônimo (1 .1; 22 .8); e tampouco é pessimista quanto
’Para a abordagem de “estilo", excelente, para a Bíblia, v. Gordon D. Fee e 
Douglas Stuart, How to read the Bible fo r ali its worth: a guide to understanding 
the Bible, 2 ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1993).
“•Revelation, in: The expositor’s Bible com m entary, Frank E. G a e b e l e i n (org.), 
Grand Rapids: Zondervan, 1981, vol. 12 p. 400 . V. tb. a bibliografia, muito útil, 
fornecida por Johnson sob o tópico apocalíptico, p. 400-1 , n 3.
14 ■ Apocalipse
à intervenção de Deus na história. Além disso, enquanto mui­
tos escritores apocalípticos reconstruíram eventos passados 
como se fossem profecias futurísticas (vaticin ia ex eventu), 
por co n seg u in te p roporcionand o credibilidade à coragem 
profética deles, João (o autor de Apocalipse) não segue esse 
procedimento. Ao contrário, ele se coloca no mundo do sécu­
lo i d.C. e fala da consumação escatológica por vir da mesma 
maneira como fizeram os profetas do a t — uma consumação 
que, para João, já começou a romper na história na morte e 
ressurreição de Jesus Cristo (1.4-8; 4 e 5).
Além de ser apocalíptico e profético em natureza, o Apoca­
lipse é envolvido por uma estrutura epistolar (1.4-8 e 22.10-21). 
Esta estrutura por si mesma diferencia o material apocalíptico. 
A prescrição (1.4-8) contém o componente epistolar típico — 
remetente, destinatário, saudações, e a característica de uma 
doxologia adicionada. O pós-escrito (22 .10-21 ), em boa forma 
antiga, resume o corpo dos escritos, como também legitima 
João como seu autor divinamente inspirado. O efeito com bi­
nado do prescrito e do pós-escrito, sem mencionar as cartas 
para as sete igrejas da província romana na Ásia (caps. 2 e 3), 
é para consolidar o Apocalipse na história real de sua época. É 
muito diferente de outros apocalipses antigos não canônicos. 
Por exemplo, considere a declaração de abertura em lEnoque, 
que o autor viu “não era para esta geração, mas a distante que 
está por vir” (lEnoque 1.2).
Autoria
Averiguando a identidade do autor de Apocalipse, duas linhas 
de evidência precisam ser avaliadas: a externa e a interna .5 A 
evidência externa consiste no testemunho dos pais da igreja, 
que é quase unânime a favor da opinião de que o apóstolo 
João foi o autor do Apocalipse. Entre eles incluem-se Papias,
5A discussão seguinte é reconhecida pelo trabalho de Robert L. Thomas, 
Revelation 1— 7: an exegetical commentary, Kenneth Barker (org.) (Chicago: 
Moody, 1992), p. 2-19. A questão da autoria do Apocalipse está relacionada 
estritamente à sua canonicidade, ao menos em termos da discussão dos pais 
da igreja. Assim, quem aceitou a autoria joanina do Apocalipse aceitou sua 
canonicidade. Porém, os que questionaram ou até mesmo negaram a autoria 
joanina, questionaram ou rejeitaram sua canonicidade (principalmente Dionísio 
e, em uma posição menor, Eusébio).
Introdução ao Apocalipse ■ 15
Justino Mártir, o F ragm ento m uratório , Ireneu, Clemente de 
Alexandria, Tertuliano, Hipólito, Orígenes, e Metódio. As exce­
ções para esse testemunho são Dionísio, bispo de Alexandria 
(247-264), e Eusébio, o historiador da igreja que foi persuadi­
do pelos argumentos de Dionísio contra a autoria joanina do 
livro (embora Eusébio tenha expressado suas dúvidas com 
menos vigor que Dionísio).
Recorrendo à evidência interna para determinar a autoria 
do Apocalipse, as quatro categorias de Dionísio continuam 
convencendo muitos contra a autoria jo a n in a ,6 que resum i­
mos aqui: 1) a própria identificação do escritor; 2) a constru­
ção do Apocalipse,quando comparado aos escritos genuínos 
do apóstolo João; 3) o caráter desses escritos; e 4) o estilo 
desse material.
1) O primeiro argumento interno oferecido por Dionísio é 
o fato de que o Apocalipse identifica seu autor como “Jo ã o ” 
(1.1,4 ,9 ; 22.8), mas nem o evangelho de João nem as cartas de 
João o fazem. A suposição aqui é que se o apóstolo João tives­
se escrito o Apocalipse, não teria sentido nenhuma compulsão 
para se identificar como seu autor. Porém, esse raciocínio é 
um argumento de silêncio e por essa razão não é convincen­
te. Além disso, a natureza apocalíptica pode ter compelido o 
autor a se identificar, de modo semelhante a do outros traba­
lhos que se enquadram nesse estilo.
2) Quanto à construção do Apocalipse e do Evangelho de 
João e de suas cartas, Dionísio argumentou que o Apocalipse 
não começa com a identificação de Jesus como a “Palavra”, e 
tam pouco com sua identificação com o testem u nha ocular, 
apesar de tanto o evangelho como suas cartas o fazerem. (V. 
Jo 1 .1 -18 com l j o 1.1-4). Mas essa observação negligencia 
Apocalipse 1.2 e a conexão que faz da Palavra de Deus com 
Cristo, como também perde o significado associado ao con­
ceito de “tes tem u n h a ” em Apocalipse e na outra literatura 
joanina (v. Ap 1.2; 22 .16 com Jo 1.19ss.; 5.32; 8 .18; 15.26; l jo 
1.1-4; 5.6-11).
3) Dionísio também sustentou que o vocabulário de Apoca­
lipse difere significativamente dos escritos joaninos autênticos.
“Esta influência esp. pode ser percebida no trabalho monumental de R. H. 
Charles, The Revelation o f St. John (icc; Edinburgh: T. & T. Clark, 1920), 2 vols.
16 ■ Apocalipse
Não obstante, a afirmação de Dionísio não se sustenta em exa­
me cuidadoso. Doze das dezenove cláusulas joaninas que não 
são supostamente encontradas em Apocalipse acontecem na 
realidade (e.g., “vida”, “sangue”, “ju lgam ento”, “diabo”). Além 
disso, três das condições que não ocorrem em Apocalipse tam­
bém estão ausentes do Evangelho de João (“perdão”, “anticristo”, 
“adoção”), e um deles (“convicção”) não está presente em l joão . 
Além disso, embora “verdade” não este ja no Apocalipse, seu 
sinônimo, “verdadeiro”, está. Também, ao passo que “alegria” 
está ausente no Apocalipse, só ocorre uma vez em cada uma 
das três cartas de João. Então, nos resta apenas um termo, “es­
curidão” que com freqüência aco n tece nos outros escr itos 
joaninos e não em Apocalipse — sem evidência suficiente que 
possa fundamentar uma distinção principal.
4) Finalmente, Dionísio afirmou que o Apocalipse está es­
crito em grego pobre, em contraste com o estilo do bom gre­
go, referente ao outro material joanino. Porém, isto negligencia 
dois fatores: a) um estilo de escrita de um mesmo autor não é 
sempre consistente; b) João, como seus contemporâneos, pode 
bem ter usado um am anuense (secretário profissional), por 
meio de quem compôs seu Evangelho e as cartas (v. Rm 16.22; 
lPe 5.12). Porém, exilado na ilha de Patmos, (v. 1.9), presumi­
velmente, ele não teve acesso a tal indivíduo.
Em equilíbrio, então, as evidências externa e as interna pa­
recem apontar o apóstolo João como o autor do Apocalipse 
ou, pelo menos, para um membro da Escola Joanina .7
Data
Analisaremos as teorias referentes à data do Apocalipse a se­
guir, nesta introdução, com referência aos planos interpre- 
tativos do livro, mas para o momento notamos que dois pe­
ríodos principais qualificam-se como candidatos: o reinado 
do imperador Nero (54-68 d.C.) e o reinado de Domiciano (81 ­
96 d.C.). Como será desenvolvido mais tarde, a escola prete- 
rista de interpretação discute o que precede, ao passo que a
7 A visão de que o Apocalipse e o evangelho de João foram escritos por 
membros da Escola Joanina é discutida por Elisabeth S. Fiorenza, The quest for 
the johannine school: the Apocalypse and the origin of both Gospel and 
Revelation, n t s 23, (Apr. 1977), p. 402-27.
Introdução ao Apocalipse ■ 17
abordagem futu rista , esp ec ia lm e n te o d isp en sac io n a lism o 
clássico, se alinha com o posterior. O dispensacionalismo pro­
gressivo vê uma combinação das duas datas como operantes 
no livro, ao passo que a perspectiva idealista não está limita­
da a qualquer cronograma.
Unidade
Aproximadamente uma geração atrás, alguns intérpretes, ca­
tivados pela crítica da fonte, desenvolveram a teoria de auto­
ria múltipla para o Apocalipse, notadamente R. H. Charles e J. 
Massyngberde Ford .8 Evidência que supostamente milita con­
tra a autoria singular e se enquadra em quatro categorias: 1) a 
presença de paralelos — a mesma cena ou visão descrita duas 
vezes; 2) problemas seqüenciais — pessoas ou coisas in tro­
duzidas aparentem ente pela primeira vez quando, na reali­
dade, tinham sido mencionadas anteriormente; 3) versículos 
aparentemente mal empregados e seções maiores; 4) conteú­
do distinto dentro dos limites de certas seções que não se 
ajustam ao restante do livro.9
Mas, como Johnson observa, em cada caso há explicações 
alternativas satisfatórias. Além disso, há uma artificialidade 
sobre nomear certas passagens a um “interpelador”, quando 
não se ajustam com a unidade percebida do livro.10 Até Charles, 
que aplica uma aproximação fragmentária ao documento, ad­
mite uma unidade global do trabalho .11 Igualmente a Ford que, 
embora delineando três autores diferentes para o Apocalipse, 
não obstante designa a “redação final” a um único editor .12 
Levando isto em conta, a conclusão de Johnson sobre a uni­
dade do Apocalipse parece justificada:
Podemos afirmar que o livro em toda sua extensão exibe tanto a uni­
dade literária quanto conceituai, o que se espera de um único autor.
Isto não elimina certos problemas difíceis de hermenêutica, nem
8C h a r l e s , The Revelation o f St. John, J. Massyngberd F o r d , Revelation, a b ; New 
York: Doubleday,1975.
9V. J o h n s o n , Revelation, p. 403.
10Ibid.
n The Revelation o f St. John, p. 1 : l x x x v i i .
l2ReveIation, p. 46.
18 ■ Apocalipse
impede a presença de omissões ou interpolações encontradas nos 
manuscritos existentes. Tampouco, a visão de única autoria impede 
que João, expressando em forma escrita a revelação dada a ele por 
Cristo, usou várias fontes, quer oral ou escrita [...] Ainda, sob a orien­
tação do Espírito Santo que é naturalmente o autor primário, João 
prodiiiziu esse material, por si próprio, em toda a extensão do livro, e 
o envolveu com um conteúdo totalmente de orientação cristã.13
Estrutura
Semelhante à pergunta da data do Apocalipse, o assunto de 
sua estrutura também está intimamente relacionado à inter­
pretação de alguém quanto ao livro. Por conseqüência, esten­
derem os o assunto mais extensivam ente na segunda parte 
desta introdução, pois aqui somente oferecemos o mais baixo 
denominador comum entre as várias escolas de pensamento 
que consiste de dois elementos estruturais .14 1) Em termos de 
conteúdo, depois de um capítulo introdutório, seguem qua­
tro séries de sete: sete cartas (caps. 2 e 3); sete selos (5 .1— 
8.1); sete trom betas (8 .2— 11.19); e sete taças (15.1— 16.21). 
Interrompendo estas quatro séries estão vários interlúdios (7 .1 ­
17; 10.1— 11.13; 12.1— 14.20). O livro conclui com o julgamento 
da “Babilônia”, apostasia mundial, e o triunfo final do reino de 
Deus (caps. 17— 21). 2) Em termos de estrutura literária, o 
Apocalipse con sis te de quatro visões, cada uma das quais 
envolve João que “vê” o plano de Deus desvelado (1.19; 4.1; 
17.1; 21.9). Um epílogo conclui o livro (22.6-21).
Material tradicional em Apocalipse
Enquanto o Apocalipse utiliza vários materiais tradicionais 
(e.g., o cerimonial do tribunal greco-romano, [caps. 4 e 5]; o 
apocalíptico judaico, [caps. 4 e 5]; o Discurso do Monte das 
Oliveiras, [cap. 6]; o drama do dragão, [cap. 12]; a história 
neroniana, [cap. 13]), sem dúvida a fonte dominante de sua 
informação é o a t . Embora o Apocalipse não contenha uma 
única c itação esp ec íf ica do a t , não obstan te , de seus 4 0 4
13Revelation, p. 4 0 3 ,A análise detalhada de G. Mussies da linguagem do 
Apocalipse reafirmou a unidade do livro, The morphology ofkoine greek as used 
in the Apocalypse o f St. John (Leiden: E. J. Brill, 1971), p. 351.
14V. o resumo de George Eldon Ladd, A com m entary on the Revelation o f 
John (Grand Rapids: Eerdmans, 1972), p. 14.
Introdução ao Apocalipse ■ 19
versículos, 278 contêm referências ao a t . Johnson resume bem 
o uso desse material pelo apóstolo João:
O a t usado por João é principalmente semítico em vez de grego, 
pois, concorda com freqüência, com o targum aramaico e, ocasio­
nalmente, reflete o uso do midraxe para as passagens do a t ; e pode 
ser demonstrado que ele usou um texto diferente do massorético 
que tem afinidade íntima com o texto hebreu dos manuscritos de 
Qumran. Dos profetas, João recorre, com freqüência, a Isaías, 
Jeremias, Ezequiel, e Daniel. João também recorre repetidamente 
aos Salmos, Êxodo, e Deuteronômio. As reinterpretações de cris- 
tologia de João das passagens do a t às quais ele alude são especial­
mente im portante. Ele não usa o a t simplesmente em seu sentido 
pré-cristão, mas reforma as imagens e as visões do a t . Embora haja 
uma relação à continuidade inconfundível em Apocalipse com rela­
ção à mais antiga revelação, o novo emerge do velho como uma 
entidade distinta.15
0 texto de Apocalipse
Do ponto de vista da crítica textual, há pouquíssimos manus­
critos gregos existentes para reconstruir a leitura original do 
Apocalipse, menor do que em qualquer outra parte do n t . Não 
obstante, há uma quantidade suficiente para realizar a tarefa 
com garantia (aproximadamente 230 manuscritos gregos). As 
principais testemunhas do Apocalipse são: a escrita uncial — o 
Códice sinaítico (séc. iv), o Códice alexandrino (séc. v), o Códice 
Ephraem i (séc. v); o papiro mais importante é o p47 (séc. m); os 
minúsculos (séc. vm—x); as citações dos pais da igreja (séc. n—v); 
e um comentário grego ao Apocalipse por Andreas (séc. vi).16
UM EXAME DAS PRINCIPAIS INTERPRETAÇÕES DO APOCALIPSE
Tradicionalmente, quatro interpretações principais foram divul­
gadas. Elas tentavam desvendar os mistérios do Apocalipse:
lsRevelation, p. 411 . Para a análise adicional da aplicação de João do a t em 
Apocalipse, v. Austin Farrer, A rebirth o f im a ges : the making of St. Jo h n ’s 
Apocalypse (London: Darce, 1949). Uma das mais recentes abordagens do as­
sunto é feita por Steve Moyise, The Old Testament in the book of Revelation, 
j s n t s s 115 (Sheffield: Academic Press, 1995).
16Para uma discu ssão adicional da evidência do m anuscrito , consulte 
Thomas, Revelation 1-7, p. 42-3.
20 ■ Apocalipse
preterista, historicista, futurista, e idealista. Os nomes resumem 
a essên c ia das ap ro xim ações resp ectiv as . A in terp re tação 
preterista (passado) entende que os acontecimentos do Apo­
calipse em grande parte foram cumpridos nos primeiros sécu­
los da era cristã — quer na queda de Jerusalém em 70 d.C., quer 
na queda tanto de Jerusalém no século i, quanto na de Roma no 
século v. De fato, o livro foi escrito para confortar cristãos que 
sofreram perseguição tanto do culto imperial quanto do judaísmo.
A escola historicista encara os eventos do Apocalipse como 
um desdobramento no curso da história. Essa perspectiva era 
especialm ente compatível com o pensam ento dos reform a­
dores protestantes que compararam o sistema papal de sua 
época com o anticristo.
A sinopse futurista discute que os eventos do Apocalipse, 
em grande parte, não foram cumpridos, assegurando que os 
capítulos 4—22 esperam o fim dos tempos para a sua realiza­
ção. Se a interpretação preterista dominou entre os estudio­
sos bíblicos, mas pode-se dizer que a composição futurista é 
privilegiada entre as massas.
O ponto de vista idealista, por meios de contraste em rela­
ção às três construções teológicas anteriores, é reticente em 
identificar historicamente o simbolismo do Apocalipse. Para 
essa escola de pensamento, o Apocalipse relata verdades infi­
nitas relativas à batalha entre o bem e o mal que continuam ao 
longo da era da igreja.
Este volume incorpora a interpretação corrente e prevale- 
cente do Apocalipse. Assim, embora a aproximação histórica 
seja difundida, atualmente, para todos os propósitos práticos, 
já é uma visão ultrapassada. Suas tentativas, mal-sucedidas, 
de localizar o cumprimento do Apocalipse no decurso das cir­
cunstâncias da história, o sentenciaram a uma revisão inin­
terrupta com o passar do tempo e, por fim, à obscuridade (uma 
situação que poderia suscitar o comentário, se Jesus demora, 
naquele dia do juízo final os profetas contemporâneos poderi­
am se achar eventualmente nele!). Além disso, a falta de con­
senso entre os intérpretes quanto à identificação de detalhes 
h is tó r ic o s que s u p o s ta m e n te c u m p rem as p r o fe c ia s do 
Apocalipse contribuíram para o fim dessa escola.
Em contrapartida, as outras três interpretações se aproxi­
mam e merecem atenção cuidadosa. A visão preterista, sempre 
a favorita no meio dos estudiosos, desfruta uma revivificação
Introdução ao Apocalipse ■ 21
de interesse a nível popular, graças ao surgimento da Recons­
trução Cristã (mais sobre isto adiante). A visão futurista, espe­
cialmente o dispensacionalismo clássico, seguramente desper­
tará o interesse de muitos. O dispensacionalismo progressivo 
“a mais nova criança no meio escatológico”, está começando a 
cativar a imaginação daqueles que têm se desgastado quanto 
ao tratamento da profecia sensacionalista .17 Finalmente, uma 
aproximação idealista continua mantendo uma atração consi­
derável da influência de aplicação para a vida diária que seu 
sistem a encoraja. Aqueles que estão desgastados pela profe­
cia em geral, encontram em sua sinopse uma alternativa re­
frescante por se apegar ao significado presente e eterno do 
Apocalipse.
Agora nos dirigimos a uma pesquisa dessas quatro formas 
hermenêuticas, cobrindo cada ponto seguinte em sua distin­
ção, origem, cronogram a que se presume para as profecias 
do Apocalipse, a estrutura do livro, e a filosofia da eficiência 
histórica na abordagem . Entender esses assun tos an tec ip a­
damente preparará melhor o leitor a se apegar aos respecti­
vos sistem as como um todo antes de analisar o documento 
mais detalhadamente. Se o leitor permitir uma pequena liber­
dade poética, propom os tratar essas abordagens de acordo 
com a ordem cronológica em Apocalipse 1.19: “Escreva, en ­
tão, o que você viu [preterista], o que agora é [idealista], e o 
que acontecerá depois [futurista]”.
A interpretação preterista
O ponto de vista preterista considera a interpretação histórica 
do Apocalipse seriamente, relacionando-a com seu autor origi­
nal e o público. Isto é, João destinou seu livro para as verdadei­
ras igrejas que enfrentaram terríveis problemas no século i d.C. 
Dois dilemas em particular providenciaram o ânimo para e s ­
crever o livro. Kenneth L. Gentry Jr. escreve sobre isto:
O Apocalipse tem dois propósitos fundamentais relativos aos seus
ouvintes originais. Em primeiro lugar, foi projetado para fortalecer
17Isso não quer dizer, porém, que o dispensacionalismo clássico será equi­
parado à mentalidade do juízo universal. Embora um bom número dos que 
prevêem o juízo universal venha dessa tradição, como veremos, eles não pre­
cisam ser sinônimo dela.
22 ■ Apocalipse
a igreja do século i contra uma tem pestade de perseguições que 
estavam, por conseguinte, provocando um crescente enfraqueci­
mento. Uma característica nova e principal daquela perseguição foi a 
entrada imperial de Roma no cenário. A primeira perseguição históri­
ca da igreja pelo império de Roma foi por César Nero de 64 d.C. a 68 
^.C. Em segundo lugar, foi para reforçar a igreja para uma reorienta- 
ção principal e fundamental no rumo da história redentora, reorienta- 
ção necessária para a destruição de Jerusalém (o foco não era somente 
da aliança antiga de Israel, mas do cristianismo apostólico[v. At 1.8; 
2.1 ss.; 15.2] e o templo [v. Mt 24.1-34 e Ap l l ] ) .18
Assim, a tentativa contínua de firmar o cumprimento das 
profecias divinas do Apocalipse no século i d.C. constitui a abor­
dagem distintiva dos preteristas.
A origem do preterismo pode ser traçada ao sistema teoló­
gico conhecido como pós-milenarismo, que ensina que Cris­
to voltará após o milênio, um período de felicidade na terra 
trazida pela conversão das nações por causa da pregação do 
evangelho. O crédito para formular a doutrina pós-m ilenar 
normalmente é dado a Daniel Whitby (1638-1726) , ministro 
unitarista da Inglaterra. O ponto de vista de Whitby do milê­
nio foi adotado por teólogos liberais e conservadores. John F. 
Walvoord comenta:
Seus pontos de vista do milênio provavelmente nunca seriam per­
petuados se eles não estivessem tão afinados ao pensam ento da­
quela época. Uma maré ascendente de liberdade intelectual, ciência, 
e filosofia, o humanismo, como também aumentara o conceito de 
progresso humano e deu uma clara visão geral do futuro. O ponto 
de vista de Whitby de uma era áurea para a igreja por vir era exata­
mente o que as pessoas queriam ouvir [...] Não é estranho que 
teólogos que competem para os reajustamentos em um mundo de 
mudanças devam achar em Whitby a chave fundamental que preci­
savam. Era atraente a todos os tipos de teologia. Isto proveu para o 
conservador um princípio aparentemente mais viável de interpretar
lsBefore Jerusalem fell: dating the book of Revelation, Tyler: Institute for 
Christian Economics, 1989, p. 15-6. Porém, deve se lembrar que o preterismo 
inclui dois campos — um que localiza o cumprimento do Apocalipse basica­
mente no século i, uma referência à queda de Jerusalém, e outro que vê o 
cumprimento do Apocalipse tanto no séc. i (a queda de Jerusalém) quanta no 
séc. v (a queda de Roma).
Introdução ao Apocalipse ■ 23
as Escrituras. Afinal de contas, os profetas do a t sabiam sobre o que 
estavam falando quando predisseram uma era de paz e retidão. O 
conhecimento crescente pelo homem das melhorias mundiais e ci­
entíficas que estavam vindo poderiam se ajustar nesta conjuntura. 
Por outro lado, o conceito estava agradando ao liberal e ao cético. Se 
eles não acreditavam nos profetas, pelo menos acreditaram que o 
homem era capaz de melhorar o seu meio ambiente. Acreditaram, 
também, que uma áurea era dourada estava por vir.19
Essa aceitação por parte de muitos resultou em dois tipos 
de p ó s -m ile n a r is m o , c o n fo rm e as a n o ta ç õ e s de Paul N. 
Benware: “pós-milenarismo liberal” e “pós-milenarismo bíbli­
co”.20 O primeiro teve seu apogeu no século xix em associação 
ao “evangelho social”, cuja missão era a liberação da humani­
dade dos males sociais (pobreza, racismo, doença, guerra, e 
injustiça). A pressuposição dessa escola de pensamento, de 
que a humanidade era basicamente boa e que enfim a socie­
dade melhoraria, resultava em uma era dourada na terra. Po­
rém, louvável como essa tentativa, o evangelho social sofreu 
duas falhas: abandonou a pregação do evangelho, e fundamen­
tou sua visão da história ingenuamente no processo evolutivo. 
O tempo desferiu um sopro mortal ao pós-milenarismo libe­
ral — os eventos catastróficos do século xx resultaram em uma 
posição insustentável (e.g., duas guerras mundiais, a grande 
depressão, a ameaça de destruição nuclear).
Junto com o pós-milenarismo liberal estava o seu correlato 
bíblico. Os teólogos dos séculos xvm e xix que seguem essa 
abordagem mantiveram seus com prom issos para com o evan­
gelho e para com o seu poder transformador. Stanley J. Grenz 
relata assim:
,9The Millennial kingdom, Findlay: Dunham, 1963, p. 22-3. Em uma recente 
correspondência, Ken Gentry fornece duas clarificações proveitosas da apre­
sentação que fornecemos referente à conexão entre o preterismo e o pós-mile- 
narismo. Primeiro é simplista restringir a visão preterista ao pós-milenarismo. 
Muitos amilenaristas também se alinham com essa interpretação (e.g., Jay Adams, 
Cornelis Vanderwaal). Segundo, embora se dê o crédito a Whitby como o res­
ponsável por popularizar o pós-milenarismo, de fato é Thomas Brightman, 
(1 5 62-1607) quem merece esse crédito. Além disso, há um pós-milenarismo/ 
preterismo nascente de alguns dos pais da igreja (por exemplo, Orígenes, 
Eusébio, Atanásio, Agostinho).
20U nderstanding endtim es prophecy. a comprehensive approach, Chicago: 
Moody, 1995, p. 120-2.
24 ■ Apocalipse
Suas perspectivas diferem fundamentalmente tanto do cristianis­
mo secular quanto do cristianismo liberal utópicos. Eles eram oti­
mistas e confiantes em relação ao futuro. Mas o otimismo deles 
originou de uma convicção no triunfo do evangelho no mundo e a 
operação do Espírito Santo que traria o reino, e não de qualquer con­
cepção errônea relativa à bondade inata da humanidade ou da habili­
dade da igreja para converter o mundo por seu próprio poder.21
Atualmente, o pós-milenarismo bíblico ressalta as catástro­
fes da história e está experimentando um ressurgimento de 
influência, especialmente o reconstrucionismo cristão. Sua con­
vicção é admirável — apesar de a igreja pregar o evangelho e 
executar seu papel como o sal da terra, o reino de Deus avança­
rá até que o mundo inteiro um dia alegremente se curvará à 
autoridade de Cristo. O meio para realizar essa meta será a lei 
de Deus que impacta a igreja e, por conseguinte, o mundo .22
Os preteristas localizam a cronometragem do cumprimen­
to das profecias do Apocalipse no século i d.C., esp ecif ica ­
mente logo antes da queda de Jerusalém em 70 d.C. (entretanto 
alguns também vêem seu cumprimento nas quedas de Je ru ­
salém [séc. i] e de Roma [séc. v]). Apesar de a opinião de mui­
tos que o Apocalipse foi escrito na década de 90, durante o 
reinado de Domiciano (81-96), o preterismo mantém, em gran­
de parte a data do livro como neroniano (54-68).
Três argumentos básicos são aplicados para defender aque­
le período. 1) Há alusões a Nero ao longo do Apocalipse como 
o imperador da época (e.g., 6.2; 13.1-18; 17.1-13).
2) A condição das igrejas na Ásia Menor para a qual João 
escreve suas cartas (caps. 2 e 3), correlaciona-se melhor com o 
cristianismo judeu anterior ao ano 70, tempo que testemunhou 
a ruptura en tre o c r is t ia n is m o e o ju d a ís m o . De fa to , o 
Apocalipse atesta a perseguição dupla do cristianismo ju d ai­
co — pelos judeus e pelos romanos. A antiga perseguição aos 
cristãos pelos judeus, devido à sua fé em Jesus como o Messi­
as, de forma que eles foram expulsos das sinagogas, o que, por
n The millennial maze\ sorting out evangelical options, Downers Grove: ivp, 
1992, p. 66.
22Autores que se identificam com a interpretação preterista do Apocalipse 
incluem David Chilton, The days o f vengeance'. an exposition of the book of 
Revelation (Forth Worth: Dominion, 1987) e Gary DeMar Last days madness\ 
obsession of the modern church (Atlanta: American Vision,1994).
Introdução ao Apocalipse ■ 25
conseguinte, os expôs à veneração a César.23 Os romanos, sub­
seqüentemente, tentaram forçar os cristãos judeus a venerar 
César. Para julgar os judeus do século i por perseguir os cris­
tãos, João prediz que Cristo virá em poder para destruir Jeru­
salém, usando o império romano para fazê-lo (e.g., 1.7,8; 22.20; 
caps. 2 e 3 ; 11; 1 7 e 18) — uma advertência que se tornou ver­
dadeira com a queda de Jerusalém em 70 d.C.
3) De acordo com Apocalipse 11, o templo parece ainda es­
tar erguido (quer dizer, durante todo o período da escrita do 
livro).
Baseado em argumentos anteriores, poderíamos esboçar o 
Apocalipse assim:
Cap. 1: A visão de João de Jesus ressurreto
Caps. 2 e 3: A situação do antigo cristianism o judaico
Caps. 4 e 5: A cena divina do reinado de Cristo ■
Caps. 6— 18: Julgam entos paralelos a respeito de Jerusalém
Cap. 19: A vinda de Cristo para com pletar o julgam ento de
Jerusalém
Caps. 20— 22: O Reinado de Cristo na terra
Com respeito à filosofia da história presumida pela maio­
ria dos preteristas,como m encionado anteriorm ente, ela é 
positiva (con tra Jay Adams e Cornelis Vanderwaal). O mundo 
melhorará por causa do triunfo do evangelho. Nesse sentido, 
o pós-milenarismo alinha mais com o papel do profeta do a t , 
cuja m ensagem proclamou a intervenção de Deus na h istó­
ria, do que com a destruição apocalíptica e com previsões de 
trevas do futuro.
A interpretação idealista
A abordagem idealista de Apocalipse é, às vezes, chamada de 
a visão “espiritualista”, visto que interpreta o livro espiritual, 
ou sim bolicam ente. Do m esm o modo, o Apocalipse é visto 
dessa perspectiva que representa o conflito contínuo do bem 
e do mal, sem conexão histórica imediata para qualquer even­
to político ou social. Raymond Calkins descreve bem essa in­
terpretação:
23Roma permitiu a liberdade de crença para o judaismo. Estar separado disso 
era perder a posição social privilegiada.
26 ■ Apocalipse
Se entendem os a em ergência que levou o livro a ser escrito, sua 
interpretação durante seu tempo, para o nosso tempo, e durante 
todo o tempo fica tão claro quanto a luz do dia. À luz dessa explica­
ção, distante da verdade a interpretação que acha o significado 
principal do livro nas sugestões que nos dá aproxim adam ente o 
término da criação, o fim do mundo, e a natureza do último julga- 
menk? [...] Usar o Apocalipse desse modo é abusá-lo, porque o 
próprio livro não faz reivindicação alguma para ser a chave do 
futuro.24
Por conseguinte, Calkins resume a mensagem principal do 
Apocalipse em termos de cinco proposições:
1 . é uma convocação irresistível para viver heroicamente;
2 . contém apelos sem igual à resistência;
3. fala que o mal está marcado para ser derrotado no fim ;
4. apresenta um quadro novo e maravilhoso de Cristo;
5. revela-nos o fato que a história está na mente de Deus 
e nas mãos de Cristo, como o autor e revisor dos desti­
nos morais do hom em .25
Enquanto as quatro escolas de interpretação inspecionadas 
aqui ressoam com essas afirmações, a visão idealista se dis­
tingue recusando nomear as declarações que precedem a qual­
quer correspondência histórica e assim nega que as profecias 
no Apocalipse são proféticas, exceto no sentido mais geral da 
promessa do último triunfo do bem quando Cristo retornar .26
A origem da escola idealista de pensamento pode ser remon­
tada às origens da hermenêutica alegórica, ou simbólica, defen­
dida pelos pais da igreja de Alexandria, especialmente Clemente 
e Orígenes. R. H. Charles escreve sobre esses alexandrinos que:
sob a influência do helenismo e da escola alegórica tradicional de 
interpretação que chegou ao topo em Filo, [eles] rejeitaram o senti­
do literal do Apocalipse, e adicionaram apenas um significado es­
piritual. Essa teoria domina muitas escolas de exegetas até os dias
24The social m essage o f Revelation, New York: Woman’s Press, 1920, p. 3.
25lbid., p. 3-9.
“ Merrill C. Tenney fornece um resumo útil da interpretação idealista do 
Apocalipse, como também os outros pontos de vista, em Interpreting Revelation 
(Grand Rapids: Eerdmans,1957), p. 143-4.
introdução ao Apocalipse ■ TI
de hoje. Assim, Clemente viu nos 24 anciãos um símbolo de igual­
dade dos judeus e dos gentios na igreja; e nas caudas dos gafanho­
tos as influências destrutivas de professores imorais. Orígenes, 
como também Metódio, seu oponente, rejeita como judaica a inter­
pretação literal do capítulo xx e, nas mãos dos seus seguidores, os 
conteúdos históricos completos do Apocalipse foram perdidos.27
A visão amílenarísta proposta por Dionísio, Agostinho, e 
Jerônimo era semelhante à interpretação de Alexandria. Assim, 
a Escola de Alexandria, munida com o método amilenarista, 
tornou-se a interpretação dominante do Apocalipse até a Re­
forma.
Como mencionado, o idealista não restringe os conteúdos 
do Apocalipse a um período histórico particular, mas certa­
mente vê isto como uma dramatização apocalíptica da bata­
lha contínua entre Deus e o mal. Porque os s ím bo los são 
polivalentes no significado e sem referente histórico específi­
co, a aplicação da mensagem do livro é ilimitada. Portanto, 
cada intérprete pode achar significação para suas respectivas 
situações.
Dois comentários recentes sobre Apocalipse ilustram bem 
esse método. O primeiro é o trabalho feito por Paul S. Minear,28 
para quem a interpretação dos símbolos do Apocalipse é esti­
mulante. Para ele, o propósito do Apocalipse é advertir os cris­
tãos do inimigo que está dentro — “o falso cristão”. O conjunto 
do livro é visto dessa perspectiva. As sete cartas fornecem o 
contexto do livro — é um desafio divino para a igreja ser fiel a 
Cristo. Daí por diante, os julgamentos são projetados não para 
efetuar a ruína dos de fora da cristandade, mas do infiel den­
tro dela. Os que perseveram em retidão recebem a promessa 
do novo céu e da nova terra. Visto desse modo, o Apocalipse 
não deve ser levado como uma injúria apocalíptica contra o 
não-cristão, mas, preferivelmente, como uma advertência pro­
fética para o cristão.
O segundo trabalho sobre o Apocalipse que ilustra a inter­
pretação idealista é o comentário desafiador feito por Elisabeth
27Studies in the Apocalypse, Edinburgh: T. & T Clark, 1913, p. 11-2.
2SI saw a new earth : an introduction to the visions of the Apocalypse, 
Cleveland: Corpus, 1968.
28 ■ Apocalipse
Schüssler Fiorenza, cujo propósito é “liberar o texto de seu 
cativeiro histórico e resgatar a mensagem do Apocalipse para 
a atualidade”.29 Em outras palavras, o significado do Apocalipse 
não será buscado no século i nem nos eventos remotos nos 
finais do tempo, mas, preferivelmente, na luta contínua entre 
os que estão em desvantagem sócio-politica e seus opresso­
res. Assim cbjnpreendido, o A pocalipse é uma ferram enta 
poderosa nas mãos de teólogos da libertação e de feministas, 
por se livrar, respectivam ente do jugo do capitalismo e do 
m achism o.
O melhor modo para apreciar a abordagem de Fiorenza é ver 
o seu m étodo em prática. Por exem plo, ela cita, de form a 
aprobativa, o poema, “Dia de Ação de Graças nos Estados Uni­
dos" de Júlia Esquivei, que remodela o Apocalipse 17 e 18, apli­
cando-o à experiência dos países latino-americanos:
No terceiro ano dos m assacres
por Lucas e os outros coiotes
contra os pobres da Guatemala
Eu fui conduzido ao deserto pelo Espírito
E na véspera
do Dia de Ação de Graças 
Eu tive uma visão da Babilônia:
A cidade surgiu arrogante 
de uma enorme plataforma 
de fumaça suja causada 
por automóveis, maquinaria 
e contaminação de chaminés.
Era como se todo o petróleo 
de uma terra violada 
estivesse sendo consumido 
pelos deuses da capital 
e estivesse subindo lentamente, 
obscurecendo a face 
do sol de justiça 
e do Ancião de Dias...
29Revelation: vision of a just world, Proclamation commentaries, Minneapolis: 
Fortress, 1991, p. 2.
Introdução ao Apocalipse ■ 29
Todo dia falsos profetas
convidavam os habitantes
da cidade impudica
para se ajoelharem ante os idoJos
de glutonaria,
dinheiro,
e morte:
idólatras de todas as nações
estavam sendo convertidos ao modo americano de vida...
O Espírito me disse 
no rio de morte
que o fluxo de sangue de muitas pessoas
sacrificadas sem clemência
e mil vezes afastadas das suas terras,
o sangue de Kekchis, de Panzos,
dos negros do Haiti, dos guaranis do Paraguai,
das pessoas sacrificadas para o “desenvolvim ento”,
na faixa da Transamazônica,
o sangue dos antepassados dos índios
que se mantiveram nestas terras, desses que
até agora são mantidos como reféns na Grande Montanha
e nas Colinas Pretas do Dakota
pelos guardiões da besta...
Minha alma foi torturada assim 
durante três dias e meio 
e um grande cansaço pesou em meu peito.
Eu sentia o sofrimento de meu povo muito profundamente!
Então, em lágrimas, eu me prostrei 
e clamei: “Senhor, o que podem os fazer? [...]
Venha a mim, Senhor, desejo m orrer entre meu povo!”
Sem forças, esperei pela resposta:
Depois de um longo silêncio
e uma pesada obscuridade
Aquele que senta no trono
para julgar as nações
falou emum brando sussurro
nos intervalos secretos de meu coração:
Você tem de denunciar a sua idolatria 
em tem pos bons e ruins.
30 * Apocalipse
Force-os a ouvir a verdade
pois o que é impossível a humanos
é possível para Deus.30
Caso alguém concorde, ou não, com a ideologia que esse 
poema comunica, quanto ao assunto, com a persuasão fem i­
nista radical de Fiorenza, a tentativa de capturar e aplicar o 
simbolismo do Xpocalipse é impressionante.
Não parece ser uma regra dura e rápida para o idealista 
delinear a estrutura do Apocalipse. Para Minear, a chave para 
esboçar o livro é ficar atento aos contrastes em curso entre as 
visões do céu e da terra, um simbolismo da luta dentro dos 
cristãos, entre fidelidade a Cristo (céu) e deslealdade (terra). 
Para Fiorenza, o Apocalipse é estruturado no quiasma, de 
modo que a chave para o livro será encontrada em 10.1— 15.4, 
com sua descrição da luta e da liberação das comunidades 
oprimidas do mundo .31 O único aspecto estrutural notável na 
agenda interpretativa idealista é sua negação de uma leitura 
literal e cronológica de Apocalipse 20. Preferivelmente, no bom 
modo amilenarista, aquele capítulo será visto como uma des­
crição simbólica do potencial da igreja para reinar com Cristo 
nessa era.
Quanto à visão mundial da escola idealista de pensam en­
to, o “realismo” é sua perspectiva preferida. Stanley Grenz sin­
tetiza essa idéia do idealista, uma posição amilenarista:
O resultado é uma visão mundial caracterizada por realismo. Vitó­
ria e derrota, sucesso e fracasso, o bem e o mal coexistirão até o 
fim, afirma o amilenarismo. O futuro não é uma continuação ele­
vada do presente nem uma contradição abrupta a ele. O reino de 
Deus não vem mediante à cooperação humana com o poder divino 
em atividade atualmente no mundo, mas tampouco é apenas o pre­
sente divino pelo qual podemos aguardar esperançosam ente.32
Por conseguinte, tanto o otimismo desenfreado quanto o 
pessim ism o desesperador são impróprios, declara o am ile­
narismo. Particularmente, a visão amilenarista chama a igreja 
à “atividade realística” no mundo. Sob a orientação e o poder do
30Ibid,, p. 27-8.
31Ibid., p. 35-6.
32The miüennial maze, p. 187.
Introdução ao Apocalipse ■ 31
Espírito Santo, a igreja terá êxito em seu mandato; todavia, o 
último sucesso somente virá pela graça de Deus. O reino de 
Deus chega como a ação divina que passa repentinamente pelo 
mundo; contudo a cooperação humana traz importantes resul­
tados, embora não seja a última palavra. Portanto, o povo de 
Deus deve esperar grandes co isas no p resente; desde que 
saibam que o reino nunca chegará por completo na história e, 
portanto, devem sem pre perm anecer realistas em suas ex­
pectativas.
Dispensacionalismo clássico
A interpretação mais popular do Apocalipse entre o povo du­
rante o século xx foi o dispensacionalismo, uma das variantes 
do pré-milenarismo. O nome do movimento é derivado da pala­
vra bíblica “dispensação”, um termo que recorre à administra­
ção da casa terrestre de Deus (k jv , ICo 9.17; Ef 1.10; 3.2; Cl 1.25). 
Os dispensacionalistas dividem a história da salvação em eras 
históricas ou épocas para distinguir as administrações diferen­
tes do envolvimento de Deus no mundo. Cyrus I. Scofield, de­
pois de quem a Bíblia de Scofield com referências foi popularmente 
chamada, definiu a dispensação como “um período de tempo 
durante o qual o homem é testado em relação à obediência a 
alguma revelação específica do testamento de Deus”.33 Durante 
cada dispensação, a humanidade não vive em obediência ao tes­
te divino, trazendo aquele período, por conseguinte sob o ju l­
gamento de Deus e, assim, criando a necessidade para uma 
dispensação nova. Lida desse modo, a Bíblia pode ser dividida 
nas seguintes oito dispensações (entretanto o número de no­
mes varia nessa escola de pensamento): inocência, consciência, 
governo civil, promessa, lei mosaica, igreja e idade da graça, 
tribulação, milênio.34
A autenticidade do dispensacionalismo foi seu compromisso 
a uma interpretação literal da escritura profética. Isto resultou
“NewYork: Oxford, 1909 , observe em Gênesis 1 .28 . Para uma definição 
atualizada que enfatiza fé como o meio de receber as revelações nas várias 
dispensações, v. Charles C. Ryrie, Dispensationalism today (Chicago: Moody, 
I 'l(>5), p. 74.
■'Rightly dividing the word o f truth, New York: Loizeaux Brothers, 1896. 
Muitos dispensacionalistas modernos, porém, ficam cada vez mais descon- 
liii laveis com essas periodicidades, preferindo falar sobre a Bíbüa em termos 
de suas duas divisões — antiga e nova alianças.
32 ■ Apocalipse
em três doutrinas famosas, apreciadas por partidários do mo­
vimento. 1) Uma distinção entre as profecias feitas sobre Israel 
no a t e a igreja no n t deve ser mantida. Em outras palavras, a 
igreja não substituiu Israel no plano de Deus. As promessas 
que ele fez à nação sobre sua restauração futura acontecerão. 
Então, a igreja é um parêntese no término desse plano. A dis­
tinção dispensacionalista entre o Israel e a igreja foi solidificada 
na mente de muitos como resultado de dois eventos princi­
pais nesse século: o holocausto (que extraiu de muitos profun­
da compaixão pelo povo judeu) e o renascimento do Estado de 
Israel, em 1948.
2) Os dispensacionalistas são pré-milenaristas; quer dizer, 
Cristo virá novamente e estabelecerá um reinado temporário, 
mil anos em Jerusalém.
3) Os dispensacionalistas acreditam no arrebatamento pré- 
tribulacionista, isto é, o retorno de Cristo acontecerá em duas 
fases: a primeira para a sua igreja que será poupada da gran­
de tribulação; a segunda em poder e glória para conquistar 
seus inimigos.
O dispensacionalismo parece ter sido articulado primeira­
mente pelo clérigo anglicano irlandês John Nelson Darby, líder 
influente no movimento dos Irmãos de Plymouth na Inglater­
ra, no século xix. O movimento foi levado para os eu a , adquirin­
do notoriedade com a publicação em 1909 da Bíblia de Scofield. 
Pelo menos três desenvolvimentos aconteceram dentro do mo­
vimento durante esse século: 1) A fase mais antiga foi proposta 
por Darby e Scofield, período que enfatizou as próprias dispen- 
sações; 2) Uma segunda fase emergiu nos anos sessenta, graças 
ao trabalho feito por Charles C. Ryrie, D ispensationalism today 
[D ispensacionalism o hoje], Com esse segundo desenvolvimen­
to aconteceram duas mudanças notáveis: a) A fé foi real-çada 
como meios de salvação em quaisquer das dispensações (contra 
a antiga declaração da Bíblia de Scofield sobre obras que são os 
meios de salvação no a t ; v . a nota de rodapé em João 1.17); b) As 
dispensações individuais não eram mais o foco; por outro lado, a 
ênfase cabe agora na hermenêutica literal do dispensacionalismo;
3) Nos anos oitenta, surgiu um terceiro desenvolvimento, geral­
mente chamado de dispensacionalismo progressivo, (mais sobre 
isso posteriormente). A fase mediana, com freqüência rotulada 
como dispensacionalism o tradicional, continua encontrando
Introdução ao Apocalipse ■ 33
apoio expressivo hoje, constitui o quarto ponto de vista oferecido 
neste volume sobre o Apocalipse.
O entendimento do dispensacionalismo clássico do tempo 
do Apocalipse e sua estrutura caminham juntos. Porque essa 
escola de pensam ento interpreta as profecias do livro lite­
ralmente, seu cumprimento, então, é percebido como ainda 
futuro (esp. caps. 4—22). Além disso, a magnitude das profe­
cias (e.g., um terço da terra destruído; o sol escureceu) suge­
re que e les ainda não ocorreram na h istór ia . O v ers ícu lo 
fundamental nessa discussão é 1.19, particularmente seus três 
te m p o s que se p e n s a que f o r n e c e m um e s b o ç o p ara o 
Apocalipse: “o que você viu” (o passado, a visão de João de 
Jesus no cap. 1); “o que é agora” (o presente, as cartas para as 
sete igrejas nos caps. 2 e 3); o que acontecerá depois” (caps. 
4—22). Além disso, o dispensacionalista clássico acredita que 
a falta de menção da igreja no capítulo 4 indicaque esta será 
arrebatada ao céu por Cristo antes do advento da grande tri- 
bulação (caps. 6— 18).
Como o d ispensacionalism o está intim am ente associado 
ao pré-milenarismo, não surpreende que essa perspectiva veja 
a h istória do mundo com pessim ism o. Grenz resum e essa 
interpretação:
Em contraste ao otimismo do pós-milenarismo, o pré-milenarismo 
exibe um pessimismo básico relativo à história e ao papel que 
desempenhamos em sua culminação. Apesar de todas as nossas 
tentativas de converter ou reform ar o mundo, antes do fim, o 
anticristo emergirá e ganhará controle dos negócios humanos, pre­
diz relutantemente o pré-milenarismo. Somente a ação catastrófi­
ca da volta do Senhor provocará o reinado de Deus e a idade gloriosa 
de bem-aventurança e paz.
De acordo com esse pessimismo básico, relativo à história 
mundial, teologias pré-milenares enfatizam a descontinuidade, ou 
até mesmo a contradição entre a ordem presente e o reino de Deus, 
e eles elevam o futuro divino acim a da perversidade presente. O 
reino é a coisa radicalmente nova que Deus fará. Porém, indepen­
dentemente de como possa ser concebido, a “era dourada” — o 
divino futuro — vem como o presente gracioso de Deus e somente 
pela ação de Deus.3S
'•The millennial maze, p .185.
34 ■ Apocalipse
Dispensacionalismo progressivo
Para discutir o “dispensacionalismo progressivo”, a mais nova 
das quatro interpretações inspecionadas aqui, com binam os 
sua origem e descrição. Na década de oitenta, certos teólogos 
d ispensacionalistas iniciaram uma reconsideração do s is te ­
ma e desenvolveram o que foi chamado “progressivo” ou dis­
pensacionalismo “modificado”.36 Enquanto ainda seja prematu­
ro chamar esta abordagem uma “escola de pensamento”, toda a 
evidência indica que esse ponto de vista ganhará influência no 
decorrer do tempo.
A idéia abrangente que contém essa interpretação é sua 
aderência à hermenêutica do “já/ ainda não”. Primeiramente 
popularizado por Oscar Cullmann, teólogo suíço de uma ge­
ração passada, esse sistema vê a primeira e a segunda vinda 
de Cristo pela lente de tensão da escatologia. A primeira vin­
da testemunha a inauguração do Reino de Deus, ao passo que 
a segunda resultará em sua realização completa. Até então, o 
cristão vive na tensão entre a era por vir (que amanheceu à 
primeira vinda de Cristo) e esta presente era má (que somente 
será transformada na Parúsia, ou a Segunda Vinda de Cristo). 
Gordon D. Fee capta a essência deste pensamento:
A estrutura absolutamente essencial ao próprio cristianism o pri­
mitivo [...] é escatológica. Os cristãos passaram a acreditar que, no 
evento de Cristo, a nova (vinda) era amanhecera, e que, especial­
mente pela morte e ressurreição de Cristo e o subseqüente dom do 
Espírito, Deus colocara o futuro em jogo, ser consumado ainda por 
outra próxima (parúsia) de Cristo. Deles foi então uma existência 
essencialm ente escatológica. Viveram “entre os tem pos” do com e­
ço e a consumação do fim. Deus tinha assegurado a salvação deles; 
eles já eram as pessoas do futuro, vivendo a vida do futuro na 
presente era — desfrutando seus benefícios. Mas ainda esperaram 
a consum ação gloriosa dessa salvação. Assim, viveram em uma 
tensão essencial entre o “já ” e o “não-ainda”.37
360 s proponentes dessa abordagem incluem Craig Blaising e Darrell Bock, 
Progressive dispensationalism (Wheaton: Victor, 1993); Robert L. Saucy, The case 
for P rogressive dispensationalism-, the interface between dispensational and 
non-dispensational theology (Grand Rapids: Zondervan,1993).
371 and 2 Timothy, Titus, Peabody, Mass.: Hendrickson,1988, p. 19.
Introdução ao Apocalipse ■ 35
Como resultado de interpretar a Bíblia desta maneira, os 
dispensacionalistas progressivos divergem de alguns pontos 
defendidos pelo dispensacionalismo clássico. 1) Os “progres­
sivos” acreditam que Jesu s começou seu reino divino davídico 
na ressurreição. Craig Blaising e Darrell Bock expressam isto 
assim:
Pedro argumenta em Atos 2 .22 -36 que Davi predisse no salmo 16, 
que esse descendente seria ressurreto, incorruptível, e desse modo 
seria entronizado (At 2 .30 ,31). Ele argum enta a seguir que essa 
entronização aconteceu na entrada de Jesus no céu, de acordo com 
a linguagem do salmo 110.1 , que descreve a entronização do filho 
de Davi à destra de Deus. Pedro declara (At 2 .36) que Jesus se 
tornou Senhor sobre Israel (SI 110.1 usa o título Senhor para o rei 
empossado) e Cristo (o rei ungido) em virtude do fato que ele agiu 
(ou permitiram que agisse) da posição celestial em nome de seu 
povo para os ab ençoar com o dom do Espírito Santo [...] A 
entronização à destra de Deus, a posição prometida ao rei davídico 
em Salmos 110 .1 , é designada a Jesus em muitos textos do n t . 
Claro que, isto é proclam ado em Atos 2 .3 3 -3 6 .38
2) A igreja não é um parêntese no plano de Deus; antes, 
como judeus crédulos no a t , que formam uma parte do povo 
de Deus (e.g., Rm 2 .26-28; 11; G1 6.16; Ef 2 .11-22; lPe 2.9,10).
3) A nova aliança está começando a ser cumprida na igreja 
(e.g., 2Co 3 .1—4.6; v. tb. o livro de Hebreus).
4) A promessa do a t sobre a vinda dos gentios para adorar 
o verdadeiro Deus ao término da história, também está expe­
rimentando realização parcial na igreja (e.g., Rm 15.7-13).
Com respeito aos princípios básicos do dispensacionalismo 
clássico, porém, os progressistas estão em acordo completo 
em três pontos: 1) Israel será restabelecido a Deus no futuro 
(isto quer dizer, há uma distinção, entretanto, não dicotomia, 
entre Israel e a igreja); 2) Cristo voltará para estabelecer seu 
reinado milenar na terra (o ponto de vista pré-milenarista); 3) 
a igreja não passará pela grande tribulação (a interpretação 
pré-tribulacionista).
Concernente ao Apocalipse, em particular, os progressis­
tas aplicam a hermenêutica do já/ ainda não à sua estrutura
,sProgressive dispensationalism , p. 177-8.
36 ■ Apocalipse
como segue: O aspecto do já aparece no livro em termos de 
cumprimento histórico no século i d.C., face à adoração a César 
e à perseguição aos judeus cristãos (não é distinta da aborda­
gem preterista, apesar d« não poder ser equiparada a ela). O 
aspecto do ainda não do Apocalipse será encontrado nessas 
profecias (na m aioria do livro) que espera a realização na 
parúsia (a grande tribulação, o anticristo, parúsia, o milênio).
Como o dispensacionalismo clássico, os progressistas focali­
zam também Apocalipse 1.19 como a chave para a estrutura do 
livro, mas em lugar de examinar o versículo delineando três es­
truturas (passado, presente, futuro), este ponto de vista perce­
be somente dois períodos no trabalho. João escreve o que viu 
(as visões do Apocalipse como um todo), que dividem as coisas 
em duas realidades: as coisas que são — a era presente; e as 
coisas que virão a ser — a era por vir. Para João, a igreja de seus 
dias vive na presente era (caps. 1—3), mas no céu, em virtude 
da morte e ressurreição de Jesus, a era por vir já alvoreceu (caps. 
4 e 5). No futuro, a idade por vir descerá à terra efetuando a 
derrota do anticristo (caps. 6— 9), o estabelecimento do reino 
messiânico temporário na terra (cap. 20), e por conseguinte o 
estado eterno (caps. 21 e 22). Assim, há uma sobreposição o re­
lato das duas eras para o cenário contínuo ininterrupto entre a 
terra (nesta época) e o céu (a era por vir) no Apocalipse.
O dispensacionalista progressivo também vê o desdobramento 
da história com pessimismo, porque ele é pré-milenarista em 
sua perspectiva. Porém, a hermenêutica do já/ ainda não ajus­
ta esse pessimismo à convicção otimista que o reino de Deus 
alvorece espiritualmente, dando, assim, grande esperança ao 
povo de Deus. Por conseguinte, os dispensacionalistas progres­
sivos são cautelosos quanto a não necessariamente comparar 
esta geração atual com a última antes do retorno de Cristo. Pode 
ser, ou pode não ser. Tony Campolo define o realismo da tensão 
escatológica inerente nessa mentalidade:
Qualquer teoiogia quenão vive com sentido do retorno imediato 
de Cristo é uma teologia que abranda a urgência de fé. Mas qual­
quer teologia que não nos faça viver como se o mundo ainda estará 
aqui por milhares de anos é uma teologia que nos conduz à 
irresponsabilidade social.39
“ Entrevista: The Door (Sept./ Oct. 1993, p. 14).
1
0 ponto de vista
P r e t e r is t a
■ K e n n e th L. G e n try Jr.
PRETERISTA DO APOCALIPSE
INTRODUÇÃO
Quanto mais o tempo passa, mais distante estamos dos even­
tos do Apocalipse. Essa reivindicação, tão notável, resume o 
p on to de v is ta p r e te r is ta e v a n g é lic o do A p o c a l ip s e . 1 O 
“preterismo” assegura que grande parte das profecias de João 
ocorreu no século /, logo após o livro ter sido escrito por ele. 
Embora as profecias estivessem no futuro quando João escre­
veu, e seu público as leu, elas agora estão em nosso passado.
O espaço do presente livro impede uma análise completa 
do Apocalipse e sua complicada estrutura .2 Ainda estou fir­
m em ente convencido que até m esm o uma p esquisa in tro ­
dutória de várias passagens fundamentais, figuras, e eventos 
na p ro fecia m a je s to s a de Jo ã o pode d em on strar a plausi- 
bilidade da posição preterista. Quanto à estrutura, basta isto 
para dizer que seu movimento sugere um avanço espiral de 
eventos, envolvendo a reforma de antigas profecias (e.g., note 
as fortes semelhanças entre os selos e as trombetas, Ap. 6 e 8). A 
estrutura espiral de João permite relances inversos ocasionais
'A palavra “preterista” está baseada em uma palavra latina “praeteritus” 
significa “o que se passou”, i.e., passado.
2Para mais detalhes preteristas no Apocalipse organizado em um sistema 
escatológico, v. meu He shall have dominion, 2 ed., Tyler, Tex.: Institute for 
Christian Economics, 1996, esp. caps. 8 e 14— 17. V. tb. David Chilton, The days 
o f vengeance: an exposition o fth e book o f Revelation, Forth Worth, Tex.: Dominion, 
1987; Jay E. Adams, The time is at hand, Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and 
Reformed, 1966.
40 ■ Apocalipse
e a reconsideração de eventos de ângulos diferentes, em lu­
gar de uma progressão cronológica inexorável.
A razão para essaxestrutura é interessante: Milton S. Terry 
defensor notável do método gramatical histórico de interpreta­
ção, preterista de peso e autoridade em hermenêutica, citada 
por Robert L. Thomas em seu capítulo (a seguir), lembra que 
“todas e tais repetições apocalípticas servem tanto o propósito 
de intensificar a revelação divina como o de mostrar que a coi­
sa é estabelecida por Deus e que ele a fará para passar rapida­
m en te”.3 Claro que, nenhum intérprete leva o progresso do 
Apocalipse implacavelmente como trabalho desenvolvido — até 
o d ispensacionalista c lássico Robert Thom as aceita alguns 
entrosamentos passados e futuros, intercalações disjuntivas, e 
assim sucessivamente (e.g., em Ap 11.15-19; 12.1ss. 19.1-4, 7-9).4
Antes de iniciar minha pesquisa, tenho de apontar o que a 
maioria dos cristãos suspeita e o que praticamente todos os 
estudiosos evangélicos (excluindo os dispensacionalistas clás­
sicos) reconhecem com referência ao livro: o A pocalipse é um 
livro a ltam en te figurativo que n ão pod em os a b o rd a r a partir 
de um litera lism o d ireto e sim ples. Porém, após fazer essa 
declaração, o ponto de vista preterista entende as profecias 
do Apocalipse refletindo eventos históricos atuais solidamente 
no futuro próximo de João, entretanto eles estão fixados no 
drama apocalíptico e ornados em hipérbole poética. Como o 
comentarista pré-milenarista Robert Mounce observa: “Que a
3BibIicaI Apocalyptics-, a study o f the most notable Revelatíons o f God and o f 
Christ, Grand Rapids: Baker, rep. 1988 (1898), p. 22. V. Gênesis 4 1 .25 ,32 .
•'Robert L. T h o m a s , Revelation 8—22: An exegetical com mentary (Chicago: Moody, 
1995, p. 43, 103-4, 106-7, 113, 355, 365-6). Por exemplo, “esta passagem faz 
parte de uma intercalação que não é uma parte de rígida sucessão cronológica 
do Apocalipse” (366). Uma peculiaridade notável existe no sistema dispensa­
cionalista clássico literário, análises cronológicas de profecia: Intercalações apa­
recem inesperadamente em qualquer lugar em que o sistema precisa deles. 
Por exemplo: 1) a imagem unificada de Daniel 2 envolve quatro impérios mun­
diais sucessivos que se desenvolvem progressivamente um após o outro, mas 
com o quarto entre dois estágios, inclusive um “império romano reavivado” 
separado de seu antecessor romano antigo por 1 500 anos — até agora (v. ibid., 
p. 153). 2) As setenta semanas de Daniel unificadas, após desenvolver progres­
sivamente pelas primeiras 69 semanas, param de repente no primeiro século, 
mas retomam novamente na grande tribulação milhares de anos depois (cf. 
T h o m a s , Revelatíons 1— 7 [Chicago: Moody, 1992], p. 426).
0 ponto de vista preterista ■ 41
linguagem da profecia é altamente figurativa e não tem nada 
a ver com a realidade dos eventos preditos. O sim bolism o 
não é uma negação da historicidade, mas um assunto de gê­
nero literário”.5 Verifique os seguintes impedimentos de um 
literalismo preconcebido:
1) A d ec la ra ção sobre conteúdo. Em sua declaração de aber­
tura, João nos informa que sua revelação foi dada “para m os­
trar” (gr. deixai) a mensagem e para isso “enviou seu anjo para 
torná-la co n h ecid a” [gr. esçm an en ] pelo seu a n jo ” (Ap 1.1). 
Conforme Friedrich Düsterdieck comenta: “O deixai ocorre do 
modo peculiar a sem ainein , isto é, a indicação do que é signi­
ficado por meio de “figuras significativas”.6 Na realidade, 41 
vezes, João diz que ele “vê" essas profecias (e.g., 1 .12,20; 5.6; 
9.1 ; 20 .1). Além disso, algumas das visões são obviam ente 
simbólicas, como o cordeiro morto (caps. 4 e 14), a besta de 
sete cabeças (caps. 13 e 17), e a prostituta babilônica (cap. 17).
Em seu evangelho, João mostra o problema do literalismo 
entre os primeiros ouvintes de Cristo: eles interpretam mal 
seu ensino referente ao templo (Jo 2 .19-22), ao nascer de novo 
(3.3-10), ao beber água (4.10-14), ao com er sua carne (6 .5 1 ­
56), ao ser livres (8.31-36), ao ser cegos (5.39,40), ao dormir 
(11.11-14), e Jesus como Rei (18.33-37). Essa abordagem errô­
nea é exagerada se usada na revelação de João. A natureza 
visual no conteúdo do Apocalipse — não somente o método 
de sua ass im ilação — requer in terpretação sim bólica . Quer 
dizer, com exceção de poucos casos (e.g., Ap 1.20; 4.5; 5.6,8; 
7 .13 ,14 ; 12.9; 17.7-10), os símbolos não são interpretados para 
nós. E em um desses exemplos em que aceitamos uma inter­
pretação angelical (17.9-12), a besta de sete cabeças não é lite­
ralmente uma besta de sete cabeças de modo algum.
2) O p r ec ed en te d os p r o fe ta s an tigos. Os profetas do a t 
empregam linguagem figurativa para um dos dois propósi­
tos: relacionar verdades espirituais m ajestosam ente, ou sim­
bolizar eventos históricos dramaticamente. Por exemplo, Deus 
está cavalgando em uma nuvem “que vai para o Egito” (Is 19.1;
' Robert H. M o u n c e , The book o f Revelation, n i c n t ; Grand Rapids: Eerdmans,
1 ')77, p. 218. Para uma discussão útil, sucinta da hermenêutica apocalíptica, v. 
Vem S. Poythress, Genre and hermeneutics in Rev 20.1-6, j e t s 36, Mar. 1993, p.
I I r)4.
'Criticai and exegetical handbook to the Revelation o f John, 6 ed., tradução 
I lenry Jacobs, Winona Lake, Ind.: Alpha, rep. 1 9 8 0 (1 8 8 4 ), p. 96.
42 ■ Apocalipse
v. a seguir; “O tema Apocalíptico”) e a destruição da linguagem 
(Ap 13.10; v. a seguir “O sexto selo”) fala da queda de cidades 
antigas. Terry oferece rhuita ajuda a este respeito ,7 diz que “uma 
interpretação literal rígida da linguagem apocalíptica inclina- 
se a confusão e equívocos infinitos”.8 Até o literalista Robert 
Thomas admite que “a fluidez da linguagem metafórica nas 
Escrituras é inegável”.9
3) A d ificu ld ad e do literalism o consisten te. Alguns exem ­
plos do literalismo parecem estranhos, irracionais,e desne­
cessários. Por exemplo, Robert Thomas assegura que os gafa­
nhotos assustadores em Apocalipse 9 e as rãs estranhas em 
Apocalipse 16 são demônios que literalmente assumem essas 
formas físicas; que os dois profetas em Apocalipse 11 literal­
mente vomitam fogo de suas bocas; que toda montanha no 
mundo será abolida durante o julgamento das sete taças; que 
a destruição literal da cidade da Babilônia por fogo acontecerá 
lentamente por mais de 1 000 anos; que Cristo retornará do 
céu para a terra em um cavalo, literalmente; e que a Nova Jerusa­
lém é um cubo de 1 500 milhas de altura .10
A EXPECTATIVA TEMPORAL (AP 1.1-3)
Volto-me agora a uma pesquisa do livro de Apocalipse. Platão, 
em A república, afirma uma máxima singular: “O começo é a 
parte mais importante do trabalho”. Esse princípio assegura um 
significado especial para o pretensioso intérprete do Apocalipse. 
Infelizmente, muitos entusiastas da profecia pulam o começo 
desse livro, deixando de assegurar um fundamento adequado 
para o caminho traiçoeiro adiante. Mas tirando uma linha de 
Isaías, o preterista pergunta: “Será que vocês não sabem? Nunca 
ouviram falar? Não lhes contaram desde a antigüidade?” (Is 40.21). 
O preterista insiste que a chave para o Apocalipse seja encontra­
da em abertura. Note a introdução de João:
7BibIicaI Apocalyptics, cap. 19: “The Apocalypse of John”; v. tb. Milton S. 
Terry, Biblical herm eneutics: a treatise on the interpretation o f the Old and New 
Testaments, 2 ed., Grand Rapids: Zondervan, rep. 1974 [n.d.], cap. 26: “The 
Apocalypse of John”.
sBiblical Apocalyptics, p. 228.
9Revelation 8—22, p. 372.
l0Revelation 1— 7, p. 455 , e Revelation 8— 22, p. 30, 46, 49, 90, 264, 360, 386, 
467.
0 ponto de vista preterista ■ 43
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para m ostrar aos seus 
servos o que em breve há de acontecer [...] Feliz aquele que lê as 
palavras desta profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o 
que nela está escrito, porque o tempo está próximo. (Ap 1.1a, 3, 
grifo do autor).
Agora — an tes que as visões dramáticas brilhem em cena e 
a imagem altamente forjada confunda o leitor — João fornece 
uma pista indispensável para interpretar o seu livro: Os even­
tos do Apocalipse devem acontecer [gr. tachos] “em breve” (v. 
1) porque “o tempo está próximo [gr. engys]”.n
Os léxicos gregos e as traduções modernas concordam que 
essas condições indicam proximidade temporal. Ao longo do n t, 
tachos significa “depressa, imediatamente, sem demora, breve­
mente”.12 O termo engys (“próximo”) também fala de proximida­
de temporal: do futuro (Mt 26.18), do verão (24.32) e de um 
festival (Jo 2.13). O apóstolo João, inspirado, informou claramen­
te há quase dois mil anos ao seu público da época que eles deve­
riam esperar as profecias “acontecer” (Ap 1.1) no tempo de vida 
deles. Como observa Milton Terry, os eventos do Apocalipse são 
referentes “só a alguns anos no futuro após João escrevê-lo”.13
O significado dessas palavras não se encontra somente na 
introdução ao Apocalipse, mas também na conclusão de sua 
obra. Assim, eles são uns parênteses que qualificam o livro 
todo. Note como termina:
O anjo me disse: “Estas palavras são dignas de confiança e verda­
deiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou o seu 
anjo para m ostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de 
acontecer..."
Então me disse: “Não sele as palavras da profecia deste livro, 
pois o tempo está próximo" (Ap 2 2 .6 ,1 0 , grifo do autor).
Ainda mais, os termos aparecem com freqüência em Apocalipse, 
mostrando a ênfase urgente de João na expectativa temporal.
nOs teólogos notam que referências para “o tempo” indicam com freqüên­
cia um “tempo de crise” especial. A próxima crise no Apocalipse, como mostra­
rei, é o “Dia de Deus” julgamento em Israel em 67-70 d.C. (Atos 2 .16-20 ; lTs 
2.14-16).
12V. Lucas 18.8; Atos 12.7 ; 22 .18 ; 25 .4 ; lTm 3.14, onde engys é usado em 
contextos surpreendentes (Rm 13 .11 ; 16 .20 ; Fp 4.5), se abre a pergunta do 
significado do evento esperado, não do significado temporal de engys.
"Biblical Apocalyptics, p. 277.
44 ■ Apocalipse
Encontramos tachos (“logo”) em 1.1; 2 .16; 3.11; 2 2 .6 ,7 ,1 2 ,2 0 e 
engys (“próximo”) em 1.3; 3.10; 2 2 .1 0 .14 Assim, como Robert 
Thomas que se opõe ao preterismo admite: “Um impulso prin­
cipal do A p o ca lip se^ su a ênfase na brevidade de tempo antes 
do cum prim ento”.15
João enfatiza esses dois term os claros com significados 
semelhantes, logo, antecipando qualquer confusão entre seus 
leitores quanto ao qu an do as profecias ocorreriam.
O preterista, a seguir, discute positivamente que João afir­
ma que os eventos estão próximos já nos seus dias. Por conse­
guinte, eles devem estar em nosso passado distante. O preterismo 
é exegeticamente fundamentado, pois está arraigado em princí­
pios hermeneuticamente sólidos. Porém, antes de continuar­
mos, tenho de contar brevemente duas réplicas comuns a esta 
análise:
O bjeção 1: João está falando do tempo de Deus, e não o 
nosso. As Escrituras informam que mil anos para o Senhor 
são “como um dia” (2Pe 3.8).
Essa objeção popular cede ao peso da seguinte evidência:
a) O Apocalipse é particularmente motivacional. João está aqui 
escrevendo para seres humanos, mas não sobre Deus. A de­
c laração de Pedro em 2Pedro 3 .8 é c laram ente teo lóg ica ; 
Apocalipse 1.1,3 são diretivas humanas, que serão ouvidas e 
terão influência. Pedro está lidando com o problema oposto 
ao de João: ele está explicando (baseado na eternidade de Deus) 
a d em ora da Segunda Vinda de Cristo (2Pe 2.4), ao passo que 
João está advertindo (baseado no sofrimento humano) da p ro ­
xim idade de ju lgam ento temporal.
b) O Apocalipse é histórico e concreto. João está escreven­
do para sete igrejas específicas, históricas (1.4,11; 2 .1— 3.22) 
sobre suas terríveis circunstâncias presentes (elas estão em 
“tribulação”, 1.9; 2 .9 ,10 ,13 ) , a necessidade de serem pacien­
tes (1.9; 2 .2 ,3 ,1 0 ,1 3 ,2 5 ; 3 .10 ,11), e os ju lgam entos da vinda 
iminente (2 .5 ,16 ,25 ; 3 .3 ,11; 22 .10 ,18 ,19) .
14Ap 1.19 também pode ser útil, entretanto é obscurecido na nvi. Provavel­
mente deveria ser trad uzido com o no The in terlin ea r G reek-English New 
Testament de Marshall, 2 ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1959, p. 959) : “Escrevas 
as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois hão de acontecer”. V. 
Kenneth L. Gentry Jr., Before Jerusalem fell: dating the book o f Revelation (Tyier, 
Tex.: Institute for Christian Economics, 1996, p. 141-2).
15Revelation 1— 7, p. 55.
0 ponto de vista preterista ■ 45
Robert Thomas, citando William Lee, corretamente observa o 
seguinte referente às cartas para as sete igrejas, em Apocalipse 
2 e 3: “Porém, não se pode negligenciar o caráter histórico ao 
longo do qual está estampado nas Epístolas [...] e que distinta­
mente aponta para um estado de coisas de fato ante a mente de
S. João existindo nas várias igrejas".16 Isto é, várias alusões histó­
ricas, geográficas, e políticas nas cartas mostram que João o faz, 
na realidade, tendo em vista as igrejas específicas que ele ende­
reça. Ele estaria insultando-as impiedosamente se estivesse dis­
cutindo eventos dois mil anos, ou mais, atrás. Deus responde 
ao clamor ansioso “quanto tem po?” incentivando a paciência 
deles so m ente um “pouco m ais de tem po" (6 . 10 , 11 ).17 “O 
Apocalipse promete que não haverá nenhuma “demora" (10.6).” 
Para isso a natureza do livro exige uma “abordagem preterista”.18
c) O Apocalipse é enfático e declarativo. As expressões de 
iminência são didáticas (não-simbólicas), freqüentes (na in­
trodução, conclusão, e em outras partes), e variadas (v. d is­
cussão anterior de tachos e engys). De que outra maneira João 
poderia ter expressado proximidade no tempo se não por e s ­
ses term os? Todas as traduções inglesas em pregam con d i­
ções que expressam proximidade temporal.
d) O Apocalipse é harmonicamente paralelo. A expectativatemporal em Apocalipse com para o n t ensinado em outros 
lugares. Por exemplo, Robert Thomas compara Apocalipse 6 
com Mateus 24: “Jesus em seu discurso estava se antecipando 
claramente ao que ele havia de mostrar a João em muito maior 
detalhe". Pate concorda .19 Eu concordo. De forma interessante,
l6Ibid., 515; cf. caps. 3— 9. V. tb. William Ramsey, The letters to the seven 
churches, Grand Rapids: Baker, 1963 [1904]; Robert H. Mounce, The book o f 
Revelation, caps. 3 e 4; Steven Friesen, “Ephesus: key to a Vision in Revelation”, 
BAR 19.3 , 1993 Maio-Junho: 24ss.
170 futurista Robert Thomas observa a ‘ausência de significação” potencial das 
orações desses santos, se seus perseguidores ainda não estiverem vivos quando a 
oração é proferida (Thomas, Revelation 1— 7, p. 441). Eu aplicaria o mesmo princí­
pio ao livro inteiro de Apocalipse e colocaria isto no primeiro século.
i8Claro que, isto não impede a relevância contemporânea do Apocalipse 
atualmente, nisso pode fornecer ainda padrões que ilustram certos princípios 
divinos para nossa instrução (e.g., Rm 15.4; ICo 10.11; 2Tm 3.16 ,17) mantendo 
seu caráter para isso. V. George W. Knight III, “The Scriptures were written for 
our instruction”, em j e t s 39, Mar., 1996: p. 3-14.
19Revelation 1— 7, 1 :53-54. C. Marvin Pate e Calvin B. Haines Jr., Doomsday 
ilelusions: what's wrong with predictions about the end o f the world (Downers 
Grove, 111.: InterVarsity, 1995, p. 44-5).
46 ■ Apocalipse
em Mateus 24.34, Jesus assegura a mesma expectativa de João: 
“Eu lhes asseguro que não passará esta g era ção até que todas 
estas coisas aconteçam^ (nvi, grifo do autor; v. 23.36). Ele en­
coraja seus ouvintes, como João o faz, a aguardar esses ju l ­
gamentos durante sua própria vida.
Em Marcos 9.1, Jesus promete que alguns de seus ouvin­
tes não “provarão a morte” antes de testemunhar “o Reino de 
Deus vindo com poder”. Isto refere-se quase certamente à des­
truição do templo sob o comando de Cristo (em lugar de sua 
transfiguração que está apenas seis dias distante). Notas se­
m elhantes da proximidade temporal de crises divinamente 
governadas sobe jam no nt (v. Mt 2 6 .6 4 ; At 2 .1 6 -2 0 ,4 0 ; Rm 
13.11 ,12 ; 16.20; ICo 7.26, 29-31; Cl 3.6; lTs 2.16; Hb 10 .25 ,37 ; 
Tg 5.8,9; IPe 4 .5 ,7 ; l j o 2 .17,18). De que outra maneira o nt 
poderia expressar proximidade mais claram ente? Como e s ­
ses versículos tão evidentem ente mostram, ju lgam entos di­
vinos dram áticos são “breve”, “próxim o”, “perto”, “à porta”, 
“presente”; “a hora chegou”; “o tempo é curto”; “a ira de Deus 
está por vir”; “o dia está se aproximando”; “em pouco tempo 
som ente”. Estes eventos acontecerão “nesta geração”, antes 
que “alguns que estão vivos [...] experimentem a morte”.
O bjeção 2\ Esses eventos ocorrem no século i, mas aconte­
cem novamente depois na história, ou por cumprimento em 
dobro ou por meio da repetida volta até o fim como a nature­
za do já/ ainda não, do desdobramento da profecia.
Três dificuldades afetam este tipo de réplica, a) Não há ga­
rantia exegética alguma para isto; a declaração é pura afirma­
ção teológica. E ainda, essa abordagem não somente esvazia as 
declarações de significado de João (‘‘estas coisas devem acon te­
cer em breve”), mas infringe uma diretiva angelical específica à 
responsabilidade de João contrastante a Daniel. Um anjo orde­
nou a Daniel que “selasse” sua profecia até o tempo do fim (Dn
12.4), mas ordena a João (que vive na “última hora”, l jo 2.18) 
“não sele as palavras da profecia deste livro, pois o tem po está 
próxim o’’ (Ap 22.10, grifo do autor). Não obstante, Marvin Pate 
assegura que o Apocalipse não “insinua que Nero preencheu a 
expectativa completa da vinda do anticristo, mas, como um 
precursor dele, ele é certamente um bom ponto de partida”.20
20P a t e & H a i n e s , Doomsday delusions, p. 43-4.
0 ponto de vista preterista ■ 47
Como mostrarei, Nero cumpre a profecia do Apocalipse. Por 
que procurar cumprimento adicional?
b) Requer acreditar que muitos eventos específicos, coisas, 
e personagens do Apocalipse aparecerão repetidamente em cena 
na história da terra. Na mesma ordem? Nas mesmas regiões 
geográficas? Com agrupamentos ininterruptos de 144 mil sendo 
selados? Com bestas constantes designadas pelo mesmo nú­
mero 666? Eu poderia prosseguir continuadamente. Por exem­
plo, Pate sugere que “os sinais dos tempos co m eçaram com 
Jesus e a sua geração” e as testemunhas históricas “na intensi­
ficação da vinda e na culminação desses sinais dos tem pos” 
que começaram no século i.21 Essa posição parece estender a 
credulidade até o ponto de rompimento.
O princípio teológico do já/ ainda não, entretanto, válido e 
amplamente aceito pelos evangélicos, não pode governar tra­
balhos completos, vastos e complexos como o Apocalipse. O 
princípio do já/ ainda não se aplica ao unitário, à construção 
simples: o Reino, a salvação, a nova criação, e assim sucessi­
vamente. O princípio se divide quando difundimos um traba­
lho tão volumoso quanto o Apocalipse. Além disso, como esse 
princípio pode explicar a operação simultânea supostamente 
em um livro de tais temas globais que operam como ju lg a ­
mento (Ap 6— 19) e bênção (Ap 20—22)? O uso desse princí­
pio por Pate para explicar o Apocalipse parece mais esperançoso 
que útil .22
c) Esta aproximação não somente nega o que João afirma 
expressamente, mas confunde a aplicação principal com even­
tos históricos. Quer dizer, se até mesmo os eventos do Apocalipse 
fossem repetidos, isso não diminuiria o fato quanto ao cum­
prim ento histórico do século i — com todo seu significado 
prolífico naquela era singular que efetua a conclusão do sis­
tema de sacrifício, o desprezar de Israel, e a universalização da 
verdadeira fé. Por exemplo, Êxodo, como eventos que ocorre­
ram após o êxodo mosaico não remove o significado histórico 
redentor daquele episódio histórico original. Pate observa es­
pecificamente que a marca da besta pode “ser entendida como 
apontando um dedo de culpa para esses judeus no século i”.23
2lIbid., p. 36 (cf. p. 44, 57), 148-9; grifos do autor.
22Ibid., p. 148-55.
23Ibid., p. 53.
48 ■ Apocalipse
Por que, então, deveríamos procurar cumprimentos adicionais 
além desse do século 17 mais relevante?
De acordo com João, então, os eventos proféticos são “bre­
ve” (1.1) e “próximo” (1.3), de forma que seu público original 
deve apegar-se “com f irm e z a ” (2.25; 3.11), e “que esperassem 
um pouco m ais” apenas (6.11). “Venho em breve! Retenha o 
que você tem, para que ninguém tome a sua coroa” (3.11). Os 
atuais estudantes de profecia não devem deixar que um esque­
ma teológico pressuposto ou que metodologia interpretativa 
predeterminada o cegue para essas afirmações impetuosas.
0 TEMA APOCALÍPTICO (A P 1.7)
O que, então, João espera no futuro próximo de seu público 
original? Como pode qualquer evento no século 1 se en con ­
trar até o drama do Apocalipse?24
O foco de atenção principal do Apocalipse (entretanto não 
seu único ponto) é isto: Deus julgará os judeus do século 1 
por rejeitar e crucificar seu Filho, o Messias. Quer dizer, os 
ju lgam entos do Apocalipse vêm especialmente contra aque­
les que clamaram: “Crucifica-o!” “... Que 0 sangue dele caia 
sobre nós e sobre nossos filhos!” (Mt 27 .22 ,25 , v. Jo 19.1-16). 
João afirma seu tema em sua introdução em Apocalipse 1.7, 
logo após ele declara a proximidade dos eventos (1.1,3), tema 
que é diretamente pertinente às circunstâncias do século 1. 
Observe particularmente as seguintes traduções literais:
Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho 0 verá, até mesmo 
aqueles que o traspassaram ; e todos os povos da terra se lamenta­
rão por causa dele. Assim será! Amém (n v i) .
24Devido a limitações de espaço, não posso defender aqui a data de pré-70 
d.C. de composição do Apocalipse que, entretanto, um ponto de vista minoritário, 
é reivindicado por muitos estudiosos notáveis. Para argumentos detalhados v. 
a versão publicada de minhadissertação no assunto: Gentry, Before Jerusalem 
fell. V. Terry, Bíblica! Apocalyptcis, p. 237-42 . A visão da data mais recente de­
pende muito da tradição de igreja, tradição profundamente arraigada na de­
claração famosa de Ireneu encontrada em seu Contra as heresias (5.30.5). Mas 
como observa Metzger: “A data de Irineu está aberta a questionamento” (Bruce 
M. Metzger, “Revelation, the book of”, in: Bruce M. Metzger e Michael D. Coogan, 
eds., The Oxford companion to the Bible [Nova York: Oxford Univ. Press, 1993], p. 
653) . Os defensores da data antiga incluem: Moses Stuart, B. F. Westcott, F. J. A. 
Hort, Joseph B. Lightfoot, F. W. Farrar, Alfred Edersheim, Philip Schaff, Milton 
Terry, F. F. Bruce, J. A. T. Robinson, J. A. Fitzmyer, J. M. Ford, C. F. D. Moule, Albert 
A. Bell, J. Christian Moberly, Cornelis Vanderwaal, e Christopher Rowland.
0 ponto de vista preterista ■ 49
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmos 
que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre 
ele, Sim! Amém! (r c )
Muitos supõem que o segundo advento está à vista aqui, E 
à primeira vista isso parece apropriado .25 “Não obstante, em 
seu contexto definido para o versículo 7 aponta para a des­
truição de Jerusalém e seu templo em 70 d.C., que produz 
vários resultados dramáticos: Traz a ira de Deus sobre os ju ­
deus por rejeitar seu Messias (Mt 21.33-44); conclui a anteci­
pação da aliança antiga (Jo 4 .20-23 ; Hb 1.1; 12.18-29) que está 
se tornando “antiquada” e “envelhecido” e “está a ponto de 
desaparecer” (Hb 8.13); fecha finalmente e para sempre o sis­
tema de sacrifício tipológico, reorientando a adoração a Deus 
(Hb 9 e 10); e universaliza a fé cristã efetivamente, livrando-a 
de todos os constrangimentos judaicos (Mt 28 .18-20 ; Ef 2 .1 2 ­
22) isso tende a “perverter o evangelho de Cristo” (G1 1.7; v. At 
15.1; G1 4 .10 ; Cl 2 .16). Deixe-me fornecer breves anotações 
exegéticas que apóiam essa interpretação.
1) A “vinda com as nuvens”. A conversação é linguagem pro­
fética comum para julgamentos divinos históricos para as na­
ções. Isaías fala do julgamento de Deus por vir contra o Egito em 
condições similares: “Um oráculo relativo ao Egito: Vejam! O Se­
nhor cavalga numa nuvem veloz que vai para o Egito. Os ídolos 
do Egito tremem diante dele, e os corações dos egípcios se der­
retem no íntimo” (Is 19.1). Obviamente, Deus não desce literal e 
visivelmente do céu em uma nuvem contra o Egito. Mas envia 
um grande julgamento sobre os egípcios — como por uma nu­
vem de tempestade terrível e destrutiva. Outras referências con­
firmam esse tipo de declaração, conhecido como “m etáfora 
apocalíptica” (v. SI 18.7-15; 104.3; Is 13.1, 9-13; JI 2.1,2; Mq 1.3,4).26
De forma interessante, como nota Robert Thomas, João se­
gue a fusão de Zacarias 12.10 e Daniel 7.13 feita por Je su s .27
25Eu acredito que Cristo virá pessoalmente, visível e gloriosamente para termi­
nar a história com a ressurreição dos mortos e o grande julgamento de toda a 
humanidade. V. meu He shall have dominion, cap. 13. Thomas, erroneamente 
afirma, não ver a segunda vinda no discurso do monte das Oliveiras ou em 
Apocalipse; a segunda vinda se encontra em Mt 2 4 .3 6 — 2 5 .4 6 e Ap 20.7-15.
26Até o com entário do Seminário Teológico de Dallas: Bible know ledge 
com m entary: Old Testament, ed. John F. Walvoord e Roy B. Zuck, Wheaton, 111.: 
Victor, 1985 , reconhece esse fenômeno nesses textos do Antigo Testamento.
27ReveIation 1— 7, p, 76.
50 ■ Apocalipse
Como João, Jesus meficiona a “vinda nas nuvens” (v. Mt 24.29, 
30) contra o Israel (23 .36— 24.2 ,16), imediatamente após ele 
diz: “Eu lhes asseguro que não passará esta g era ção até que 
todas estas coisas aconteçam ” (24.34; grifo do autor). E da m es­
ma maneira que Jesus diz ao sumo sacerdote no século i em 
pé perante ele que ele “verá” o Filho do homem que vem “so­
bre as nuvens” (26.64), então aqui João fala para o seu público 
daquela época, “Todo olho o verá”, quer dizer, seu julgamento 
vindouro será um evento dramático, público, não realizado às 
esco nd id as .28
2) Essa vinda especialmente será dirigida contra “aqueles 
que o traspassaram ”, quer dizer, os judeus do século i que 
exigiram sua crucificação. Os ensinos de Jesus põem a culpa 
pela crucificação principalmente nos judeus (Mt 20 .18 ; 2 1 .3 3 ­
43; Lc 9.22), como faz a instrução do apóstolo Pedro: “Saibam 
os senhores e todo o povo de Israel que por meio do nome de 
Jesu s Cristo, o Nazareno, a quem os senhores crucificaram...” 
(At 4.10; v. Jo 19.5-15; At 2 .22 ,23 ,36 ; 3 .14 ,15 ; 5.30; 10.39; lTs 
2 .14-16).29
O julgam ento vindouro de Cristo trará luto em “todas as 
tribos da terra” (nvi). As traduções literais citadas mostram de 
fato que João focaliza todas as tribos “da terra” (gr. tês gês), a 
conhecida Terra Prometida na qual os judeus viveram. (Deve­
ríamos traduzir a palavra grega h ê g ê provavelmente como “a 
nação” em lugar de “a terra” na grande maioria dos casos onde 
essa palavra ocorre no Apocalipse .)30 A referência de João a
28Em várias partes do Apocalipse "vendo” não requer a contemplação física, 
mas sentindo ou percebendo, da m esm a maneira que dizem os, "eu v ejo ”, 
quando um professor nos mostra uma solução de matemática. Robert Thomas 
observa que da própria “contem plação” de João em Ap 4 .1 : “esta ação não 
deveria ser comparada com o olho físico. Preferivelmente, é vista com o olho de 
visão extática como ao longo do Apocalipse”, Thomas, Revelation, vol. 1, p. 334. 
Contudo este é um tipo de “contemplação”.
290 s romanos, de fato, eram instrumentos de ira judaica contra Cristo. Os 
judeus exigiram que os romanos o crucificassem (Mt 2 0 .18 ,19 ; 27 .11-25 ; Marcos 
10.33; 15.1; Lucas 18.32; 23 .1 ,2 ; João 18.28-31; 19 .12,15 ; Atos 3.13; 4 .2 6 ,27 ; Ap 
17); Pilatos tentou libertá-lo e pôr a responsabilidade nos judeus (Mt 27.24); 
Cristo disse que os romanos “não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34). Para 
mais informações, v. Terry, Biblical Apocalyptics, p. 280-2.
30Alan James B e a g l e y , “The sitz im leberí' o f the Apocalipse with particular 
re feren ce to the role o f the ch u rch ’s enem ies, Nova York: Walter de Gruyter,1987. 
V. tb. Gentry, Before Jerusalem fell, cap. 8.
0 ponto de vista preterista ■ 51
Cristo ser traspassado requer um foco do século i se o tema 
for pertinente e verdadeiro, para aqueles que o traspassaram 
e já estão mortos há tempos. Note a observação importante 
relativa a Mateus 2 1 .4 0 feita pelo estudioso pré-milenarista 
Henry Alford:
Podemos observar que nosso Senhor faz com que “quando o Se­
nhor vier” coincida com a destruição de Jerusalém , que é incontes- 
tavelm ente a d errota do agricultor p erverso. Portanto, essa 
passagem forma uma chave im portante às profecias de nosso Se­
nhor, e uma justificação decisiva para aqueles que, como eu, fir­
m emente asseguram que a vinda do Senhor, em muitos lugares, 
será identificada, principalmente, com essa derrota.31
3) Esta interpretação se a justa perfeitam ente ao discurso 
de Jesus no Monte das Oliveiras, que começa com uma inves­
tigação relativa ao destino do templo do século i levando em 
conta a rejeição judaica de Cristo (v. Mt 2 3 .3 4 —24.2). Os ju l ­
gamentos focalizam particularmente sobre o templo (24.2) na 
Judéia (24.16) durante aquela “geração" (24 .34) .32
Como resultado da natureza séria do julgam ento de Deus 
sobre Israel e suas conseqüências universais , porém, gran­
des rompimentos reverberarão além dos confins limitados de 
Israel. O foco preciso está sobre Israel; a extensão completa 
engloba o império romano. É por isso que João escreve às sete 
igrejas da Ásia Menor. Elas não somente necessitam entender 
a destruição de Jerusalém e do templo feita por Deus (evento 
importante até mesmo para cristãos),33 mas devem suportar 
os abalos secundários severos associados a isso. Na realida­
de, Cristo encoraja as sete igrejas para o arrependimento, a
3lThe G reekN ew Testament,4 vols., Chicago: Moody, 1958 [1849-1861] , vol. 1, 
p. 216, sua ênfase.
32V. Thomas D. Ice e Kenneth L. Gentry Jr., The grea t tribulation : past or 
futurei, (Grand Rapids: Kregel, 1997); Gary DeMar, Last days m adness: obsession 
o f the m od em church , (Atlanta: American Vision, 1994); David Chilton, The great 
tribulation, (Forth Worth, Tex.: Dominion, 1987). Muita informação útil pode ser 
encontrada também em Pate e Haines, Doomsday delusions.
330 s crentes primitivos continuaram a seguir para Israel: engajando-se em 
observâncias e adoração judaicas (At 2.1ss.; 24 .11 ; 21.26), focalizando e irradi­
ando seu ministério de Jerusalém (At 2 — 5) freqüentando o templo (At 2.46;
3.1 ss.; 4.1 ; 5.21 ss.; 21 .26; 26.21), freqüentando as sinagogas (13 .5 ,14 ; 14.1; 15 .21;
17.1 ss.; 18 .4 ,7 ,19 ,26 ; 19.8; 22 .19 ; 24 .12 ; 26.11), se designando como os verdadei­
ros herdeiros do Judaísmo (GI 3.27-29; 6 .16 ; Fp 3.3), e assim sucessivamente.
52 ■ Apocalipse
reforma e a perseverançp (Ap 2 .5 ,16 ,21 ,22 ; 3.3 ,19) por causa 
dos ju lgam entos iminentes que breve o irromperão (2 .5 ,16 ; 
3.11; 22 .12 ,20). No caso da igreja em Filadélfia, por exemplo, 
Cristo promete proteger daquele ju lgam ento: “Porque guar- 
daste a palavra de minha perseverança, também eu te guar­
darei da h ora da provação que há de vir [grifo do autor] sobre 
o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a 
terra” (Ap 3.10 r a ) .
ACE NA DO TRONO (AP 4 E 5)
Em Apocalipse 1.12-20, a primeira visão de João, mostra Cris­
to na h istória (espiritualmente) caminhando entre as igrejas 
como o cabeça e protetor do já-presente (v. Mt 18.20; 28 .18 ,20 ; 
At 18.9,10; Hb 13.5). Os ju lgamentos focais do Apocalipse não 
começam até o capítulo 6 . Nos capítulos 4 e 5, porém, Deus 
leva João a contemplar essas apavorantes cenas de ju lgam en­
to vindouro, transportando-o espiritualmente além d a h istó­
ria para a sala do trono de Deus no céu (Ap 4.1,2).
Em Apocalipse 4, João vê Deus assentado em seu trono de 
julgamento e regendo ativamente sobre toda a criação (4.2-6,11). 
Os quatro “seres viventes” mais próximos ao trono parecem ser 
anjos da mais alta ordem: Eles sempre vigiam (“cobertos de olhos”, 
v. 6) sobre a criação (aparecendo como criaturas e cantando a 
criação, v. 7, 11), prontos para cumprir a ordenança santa de 
Deus (têm seis asas para voar rapidamente e cantam a santidade 
de Deus, v. 8) em toda a criação (seus números representam os 
quatro pontos da bússola, v. 7; v. 7.1; 21.13). Não importa o tes­
temunho de João depois disso — por mais aterrorizantes que 
os julgamentos sejam e por mais cruel que a oposição seja — 
ele pode descansar assegurado de que não somente Cristo se 
preocupa com os assuntos de seu povo na história (cap. 1), mas 
Deus está controlando todas as coisas ativamente acima da his­
tória (cap. 4; v. Dn 2.21; 4.35; Rm 8.28; Ef 1.11).
De forma interessante, João m enciona o “trono” de Deus 
em 18 dos 22 capítulos de Apocalipse. Na realidade, dos 62 
aparecimentos da palavra “trono” no n t , achamos 47 deles em 
Apocalipse. Fortes tendências relativas a ju lgam ento carac­
terizam o Apocalipse, não somente por causa dessa própria 
visão surpreendente, mas por toda a terminologia de ju íz o 
envolvida (e.g., 6.10; 11.18; 15.3; 16.5-7; 18.8; 19.2,11). O julga­
mento temporal da vinda de Cristo, que dramaticamente conclui
0 ponto de vista preterista ■ 53
definitivamente a era tipológica do a t (v. 11.1 ,2 ,19 ; 21.22), é 
direcionado do trono do universo.
No capítulo 5, um notável requerente ao direito de executar os 
julgamentos de Deus aparece ante o trono: o Cordeiro que foi 
morto, mas está vivo. A forte (e simbólica) descrição judaica do 
aparecimento de Cristo aqui sublinha a preocupação temática da 
vinda de Cristo em uma nuvem para o julgamento daqueles “que 
o traspassaram”, isto é, os judeus (1.7). Assim, ele aparece como 
um cordeiro sacrifical, “que parecia ter estado morto” (5.6 ,9 ,12); 
que é “o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi” (5.5). A ênfase na 
sua crucificação (como em 1.7) é inconfundível (“cordeiro”, “mor­
to”). Como Milton Terry observa, há certa ironia nessa imagem: “O 
grande problema com o judaísmo foi que os judeus procuravam 
um leão poderoso; e ficaram escandalizados ao ver, em vez disso, 
um pequeno cordeiro” (v. Lc 24.21, 25-27; Jo 6.15; 19.15).34
Mas o que representam os sete rolos selados? “Então vi na 
mão direita daquele que está assentado no trono um livro em 
forma de rolo, escrito de ambos os lados e selado com sete 
se los” (5.1). Se formos discernir o próprio significado desse 
rolo, temos de ter em mente quatro controles interpretativos:
1) O rolo deve se aplicar a eventos do século i, porque “o tem ­
po está próximo” (1.3; 22 .6 ,10 ,12 ; v. 6.11); 2) O rolo deve se 
referir a Israel, porque o tema do Apocalipse recorre “àqueles 
que o traspassaram ” (1.7; 11.8); 3) O rolo deveria ter provas 
do a t , porque, como Robert Thomas bem observa: “A influên­
cia do a t em Apocalipse é predominante”;35 4) O rolo deveria 
ser con sisten te com a fluidez do Apocalipse, porque é um 
livro in trinsecam ente estruturado com todas as suas séries 
contadas e o reaparecimento de símbolos.
No a t , acreditam os, há um rolo que é descrito de prima 
semelhante e em um contexto análogo. Em Ezequiel 1, o pro­
feta viu quatro criaturas vivas, aladas, muito iguais a essas 
que João vê (Ez 1.5-10; Ap 4.6-8). Perto das criaturas vivas de 
Ezequiel, ele viu um espaço semelhante a cristal e um trono 
glorioso armado como o arco-íris, muito parecido com aquele 
que João relata (Ez 1.22-28; Ap 4.2-6). Em Ezequiel 2 .9 ,10 le- 
mos: “Então olhei, e vi a mão de alguém estendida para mim. 
Nela estava o rolo de um livro, que ele desenrolou diante de 
mim. Em ambos os lados do rolo estavam escritas palavras de
i4Biblical Apocalyptics, p. 323. 
ísRevelation 1— 7, p. 41.
54 ■ Apocalipse
lamento, pranto e ais”. I^to nos faz lembrar da experiência de 
João: “Então vi na mão direita daquele que está assentado no 
trono um livro em forma de rolo, escrito de ambos os lados e 
selado com sete selos” (Ap 5.1). As semelhanças claras, segu­
ramente, não são acidentais; João parece seguir intencional­
mente o padrão de Ezequiel.
Qual é, então, o propósito da visão de Ezequiel? Julgamen­
to sobre Israel: “Ele disse: Filho do homem, vou enviá-lo aos 
israelitas, nação rebelde que se revoltou contra mim; até hoje 
eles e os seus antepassados têm se revoltado contra m im ” 
(Ez 2.3). Isto apóia nossa compreensão do foco principal de 
Apocalipse, especialmente quando consideramos como o pe­
cado de Israel no século i foi tão maior do que esse, pois 
rejeitaram o próprio Messias (Mt 21 .33-45 ; 23 .32 -38 ; Jo 1.11; 
Atos 2.23,36; v. Mt 13.17; lPe 1.10-12). A natureza sétupla dos 
julgamentos sobre Israel (representada pelos sete selos, trom- 
betas, e taças) faz lembrar da maldição da aliança que Deus 
lança sobre Israel no a t : “Se depois disso tudo vocês não me 
ouvirem, eu os castigarei sete vezes mais pelos seus peca­
dos” (Lv 26.18; cf. v. 24,28).
Quando visto contra o pano de fundo do tema de ju lg a ­
mento dos judeus, os personagens (como uma meretriz e uma 
noiva), e a fluidez do Apocalipse (do rolo selado para a pena de 
morte por “adultério”, e daí para um “banquete de matrimônio” 
e para a tomada de uma nova “noiva” como a “nova Jeru sa ­
lém’’), a natureza da aliança da transação sugere que os setes 
rolos selados sejam o decreto de divórcio de Deus contra sua 
esposa do a t devido a seu adultério espiritual. No a t , Deus “se 
casa” com o povo de Israel (v. esp. Ez 16.8 ,31 ,32),36 e em vários 
lugares ameaça com “carta de divórcio” (Is 50.1; Jr 3.8).
A destruição final e conclusiva do templo realiza isso no 
n t . Em seu divórcio de Israel, Deus se separa: A história re­
dentora não é mais a de um trabalho focalizado no judeu, 
exaltando Israel, um trabalho geopolítico como no a t (Mt 8.11; 
21 .43 ; v. SI 147 .19 ,20; Am 3.2). O trabalho de Deus alcança 
agora “todas as nações” (Mt 28.19; At 1.8); Cristo faz de dois, 
um novo homem (Ef 2 .12-22), onde não há mais “diferença 
entre judeus e gentios” (Rm 10.12; G1 3.28; Cl 3.11).
36Is 54.5; 62.4; Jr 3 .14 ,20; 31 .32; Os 1.2; 2 .2 ,7 ,16 ; 5.4; 9 .1 ,10 . Israel procura 
casamento com deuses estrangeiros, MI 2.11.
0 ponto de vista preterista ■ 55
A referência do “Leão da tribo de Judá" (Ap 5.5) retrocede a 
Gênesis 49. Ali ouvimos falar da universalização do trabalho 
de Deus além das fronteiras de Israel: Judá é um “leão novo 
[...] e a ele as nações obedecerão” (Gn 49 .9 ,10). Além disso, o 
aparecimento de Cristo ante o trono de Deus no céu (Ap 5.6) 
nos remete à visão messiânica de Daniel: Quando o “filho do 
homem [...] se aproximou do ancião”, Deus lhe concedeu um 
reino e assim “todos os povos, nações e homens de todas as 
línguas o adoraram" (Dn 7.13 ,14 ; v. Ap 5.9; 7.9; 14.6).
Todavia, Deus ju lga os judeus do século i e os separa de 
Israel como foco geopolítico singular de seu reino. Sabemos de 
outra revelação do a t que os judeus também voltarão finalmente 
em sua totalidade ao reino de Deus, recebendo as bênçãos da 
salvação (Rm 11). Mas Deus nunca os exaltará sobre outros 
povos comprados com sangue (até mesmo o a t antecipa essa 
igualdade; v. Is 19 .23-25 ; Jr 48 .47 ; 49 .6 ,3 9 ; Zc 9 .7 ).37 Judeus e 
gentios se fundem em um corpo em Cristo para sempre, for­
mando uma árvore (Rm 11.15,25), um novo homem (Ef 2 .1 3 ­
18), um novo templo (2.19-22), e uma nova criação (G1 6.15).
OS SETE SELOS (A P 6)
Em Apocalipse 6 , Cristo começa a abrir os selos. Conforme 
Robert Thomas, Marvin Pate, e outros estudiosos observam, 
há um “paralelismo íntimo” entre o Sermão do Monte das Oli­
veiras de Jesus e os selos do Apocalipse .38 E como o preterista 
lembra, os contextos das duas profecias se relacionam a even­
tos do século i (v. Ap 1.1,3 com Mt 24 .2 ,3 , 34 ).39 É significante 
que um dos pais da igreja, Eusébio (260-340 d.C.), tenha usa­
do a história de Josefo da Guerra dos Judeus (67-70 d.C.) para 
ilustrar o cumprimento da profecia do discurso do monte das 
Oliveiras (História eclesiástica 3:5-9).
O cavaleiro no cavalo branco “determinado a vencer” (Ap
6.2,3) representa a marcha romana vitoriosa em direção a J e ­
rusalém para se engajar na guerra judaica na primavera de
37David E. H o l w e r d a , Jesus and Israel, one covenant or two?, Grand Rapids: 
Eerdmans, 1995.
38Revelation 1— 7 , p. 53; P a t e e H a in e s , Doomsday delusions, p. 37-44.
39Para uma exp licação detalhada de Mt 24 , v. Ice e Gentry, The grea t 
tribulation.
56 ■ Apocalipse
67 d.C.40 O cavaleiro no cavalo vermelho (6.4), que leva a “paz 
da terra” (6.4; v. Mt 24.6,7), fala do rompimento surpreenden­
te da famosa pax R om ana, uma paz forçada que prevaleceu 
por muitos anos ao longo do império romano. Por exemplo, 
Epíteto (60-140 d.C.) escreve que “César obteve para nós uma 
paz profunda. Não há nem guerras nem batalhas” (Discourses 
3:13:9). A revolta dos judeus contra Roma interrompe tem po­
rariamente essa famosa paz. O cavalo vermelho destaca espe­
cialmente que a guerra civil acontece na própria Jerusalém 
(onde Jesus profere sua profecia, Mt 24).
Os cavaleiros nos cavalos preto e branco representam pe­
núria e morte resultante da guerra dos judeus. Esses fatores 
trágicos dessa guerra são bem documentados por Josefo (Wars 
o f the Jew s 4-7), o historiador judeu que participou da guer­
ra ,41 e pelos historiadores romanos Tácito (Histories 1) e Sue- 
tônio (Vespasiano).
O quinto selo (6.9-11) nos dá, mais uma vez, um vislumbre 
do céu (v. cap. 4), onde ouvimos os mártires que clamam por 
vingança. Deus promete vindicá-los, mas eles devem “esp e­
rar um pouco m ais” (v. 11; v. Lc 18.6-8). A vindicação de már­
tir é crucial para a compreensão do julgamento de Israel (Mt 
2 3 .3 4 — 24.2).
40Aqui White representa “vitória”, não pureza: 1) Geralmente deste modo 
na antiguidade (Virgil, Aeneid, vol. 3, p. 537; Plutarch, Camillus 7; Dio Cassius, 
Roman history 53:14); 2) O cavaleiro segue adiante “determinado a vencer” 
(6.2). 3) O arco é um símbolo de vitória (Zc 9.13 ,14) . 4) A cor relaciona a seu efeito 
(conquistando) como as cores dos outros cavalos (por exemplo, vermelho=sangue; 
preto=penúria; branco=morte).
41Flávio Josefo é um historiador judeu não-cristão que viveu entre 37 e 101 
d.C. Ele serviu como general nas forças judaicas durante a guerra dos judeus 
contra Roma em 67 -7 0 d.C. Durante a guerra, os romanos o derrotaram em 
Jotapata. Josefo se entregou ao general romano Flávio Vespasiano, para quem 
interpretou um oráculo profético de que um dia Vespasiano seria o imperador 
de Roma. Ele trabalhou então com Vespasiano tentando persuadir os judeus a 
se render à sua causa sem esperança. Após a guerra, Josefo se mudou para 
Roma e mudou seu nome judeu tão comum, Joseph Ben Matthias, para Flávio 
Josefo, mais romano, assumindo o nome de seu benfeitor. Vespasiano se tor­
nou o imperador de Roma em 69 d.C. e patrocinou a escritura de The wars o f 
jews, The antiquities o f the jews, e outras obras escritas por Josefo. Josefo com ­
pletou Wars em 75 d.C., somente cinco anos depois da queda de Jerusalém. 
Nesse trabalho Josefo escreveu como um historiador de testemunha ocular 
que por acaso estava na ação em ambos os lados do conflito. Seu trabalho é 
extrem amente útil para fornecer indicações históricas nos eventos daquela 
guerra, tantas das quais são preditas na profecia de João em Apocalipse.
0 ponto de vista preterista ■ 57
A linguagem da destruição da criação no sexto selo (Ap 
6 .12-17) retrata o mundo de Israel desabando sob a “ira do 
Cordeiro” no “grande dia da ira” (v. 16 ,17).42 Essa linguagem é 
comum em uma fala profética referente ao colapso de gover­
nos amaldiçoados por Deus, como a Babilônia (Is 13 .1 ,10,19), 
Egito (Ez 32 .2 ,7 ,8 ,16 ,18) , Edom (Is 34.3-5), e Judá (Jr 4 .14 ,23 , 
24).43 Milton Terry escreve sobre Apocalipse 6 :
A imagem e estilo do a t apocalíptico são, adequadam ente, coloca­
das em uso; sol, lua, e estrelas, e o próprio céu, são retratados 
como desmoronando, e a crise dos tem pos é sinalizada por vozes 
e trovões e raios e terremoto. Insistir na interpretação literal de tal 
imagem é apresentar a profecia em desprezo e ridículo.44
A remoção de “todas as m ontanhas” do sexto selo (6.14) 
pode aludir aos trabalhadores de construção das legiões ro­
manas, que afastam obstáculos m ontanhosos para o avanço 
do poderoso exército, ou então para a construção de barrei­
ras até o topo das paredes protetoras que cercam cidades ju ­
dias. Jose fo observa: “Por conseguinte, [Vespasiano] enviou 
tanto servos quanto cavaleiros para nivelar a estrada que era 
m ontanhosa e rochosa , sem dificuldade de ser percorrida 
pelos servos, mas absolutamente impossível para os cavalei­
ros. Agora esses trabalhadores realizaram o que estavam pres­
tes a fazer em quatro dias” (Wars 3 .7 .3) . Após descrever o 
assentam ento montanhoso de Jotapata e sua invencibilidade 
natural (Wars 3.7.7), Josefo menciona a decisão de Vespasiano 
de “erguer um obstáculo contra aquela parte do muro que era 
viável” (Wars 3.7.8).
Em 6 .15 ,16 , muitos “se esconderam em cavernas” e “grita­
vam às montanhas e às rochas: “Caiam sobre nós”. Josefo com
42V. a antecipação disto no julgamento de 70 d.C. no Pentecostes original em 
30 d.C. (Atos 2.16-20). Línguas são um sinal de julgamento para os judeus do 
primeiro século (ICo 14 .21 ,22 ; cf. Dt 28 .49 ; Is 28 .11ss . ; 33 .19 ; Jr 5 .15; Ez 3.5). V. 
Kenneth L. Gentry Jr., The charism atic gift o f prophecy: a refo rm ed response to 
Wayne Grudem, 2 ed. (Memphis, Tenn.: Footstool, 1989); O. Palmer Robertson,
I he final word: a biblical response to the case fo r tongues and prophecy today 
(l.dinburgh: Banner of Truth, 1993).
4iPara exposições de imagem do Antigo Testamento nos julgamentos histó­
ricos pré-consumacionais do a t , v . o comentáriode Seminário Teológico de 
Dallas, Bible knowledge com m entary: Old Testament, em Is 13 .10; Jr 4 .23-28; Ez 
32.11-16; J1 2.10 ,11 .
uBib!ical Apocalyptics, p. 269.
58 ■ Apocalipse
freqüência menciona que os judeus na verdade buscaram re­
fúgio subterrâneo durante a guerra entre 67 e 70 d.C.: “E nes­
te dja os rom an os m ataram tod a a m u itid ão q u e ap a receu 
abertamente; mas nos dias seguintes eles procuraram os es­
conderijos, e lançaram-se sobre aqueles que estavam nos sub­
terrâneos, e nas cavernas” (Wars 3 .7 ,36 ; v. tb. 3 .2 .3; 3 .7 .35 ; 
5.3.1; 6 .7 .3 ; 6 .9 .4; 7 .2 .1).45
Jesus adverte as mulheres que o assistem levando sua cruz:
Pois chegará a hora em que vocês dirão: “Felizes as estéreis,
os ventres que nunca geraram e os seios
que nunca amamentaram!" Então
“dirão às montanhas, ‘Caiam sobre nós!'
e às colinas: ‘Cubram-nos!’” (Lc 23 .2 9 ,3 0 ; v. Mt 24 .1 ,2 ,1 9 ,3 4 ).
O destino das mulheres e das crianças em 70 d.C. foi horrível:
Então aumentou a fome, que devorou as pessoas, as casas e as 
famílias; os quartos superiores estavam repletos de mulheres e 
crianças agonizantes devido à fome; as vielas da cidade estavam 
cheias dos corpos m ortos dos velhos; crianças e homens jovens 
também vagavam pelas feiras como sombras, todos desesperados 
com a fome (Wars 5 .12 .3).
A adaptação pertinente dos eventos do século i com a pro­
fecia de Apocalipse 6 é tão constrangedora que Marvin Pate 
admite sua conexão, embora rejeite as conclusões preteristas .46
OS 144 MIL SELADOS (AP 7)
Como a ira do Cordeiro contra os judeus registrada em Apoca­
lipse, testem u nham os uma pausa surpreendente no drama 
terrível. Quatro anjos estão retendo o vento “da terra”, quer 
dizer, de Israel (7.1-3). Esse ato é uma imagem simbólica, que 
re la ta o que R o b e rt T h o m a s ch am a (em outro lugar) de 
“apocalíptico pitoresco”.47 Os anjos não estão literalmente se ­
gurando os ventos, mas os ventos de destruição (v. Jr 4 9 .36 ,37 ;
45Um estudo arqueológico interessante das cavernas do primeiro século de 
Jerusalém aparece em Leen Ritmeyer, enquanto “Locating the original temple 
mount”, b a r 18:2 (Mar.-Abril 1992), 24-45.
45Pate & H aines, Doomsday delusions, p . 4 4 - 5 5 .
47ReveIation 1— 7, p. 465 .
0 ponto de vista preterista ■ 59
51.1,2). Os primeiros seis selos representam a fase inicial da 
guerra dos judeus, em que Vespasiano lutou a seu modo pela 
Galiléia em direção a Jerusalém. Mas antes de ele ter uma opor­
tunidade para sitiar Jerusalém, a ação é interrompida enquanto 
esses anjos selam os 144 000 das doze tribos de Israel (Ap
7.3).
O número 144 0 00 , como a maioria dos estu diosos co n ­
corda, é certam ente simbólico. Na realidade, em Apocalipse 
todos os milhares perfeitam ente arredondados parecem ser 
simbólicos. Dez é o número quantitativo de perfeição, e mil o 
cubo de dez. Com freqüência as Escrituras usam o número
1 000 como valor simbólico, e não expressa uma enumeração 
literal (e.g., Êx 20.6 ; Dt 1.11; 7.9; 32 .30 ; Js 23 .10 ; Jó 9.3; SI 
50.10; 84 .10 ; 90 .4 ; 105.8; Ec 7.28; Is 7 .23; 30 .17; 60 .22 ; 2Pe 
3.8). Além disso, nesse livro altamente simbólico, deveríamos 
n otar qu e ex atam en te 12 000 p e s s o a s vêm d e cada uma das 
doze tribos. Mas o que simboliza o número? E quem são essas 
pessoas? Qual é o significado desse episódio?
Para avaliar essas perguntas corretamente, temos de lem­
brar os seguintes fatos: 1) Os acontecimentos estão ocorren­
do no século i, conforme João tão claramente afirma (1.1,3 ; 
2 2 .6 ,1 0 ) ; 2) Os ju lgam en tos estão caindo sobre Israel e se 
direcionando para Jerusalém (v. discussão anterior em 1.7 e 
caps. 5 e 6); 3) O cristianismo apostólico tendeu a se focalizar 
em Jerusalém (v. At 1.4,8; 18.21; 20 .16; 2 4 . I I ) ; 48 4) João consi­
dera os judeus não-cristãos como os que “se dizem judeus 
mas não são”, pois são membros da “sinagoga de Satanás” (Ap 
2.9; 3.9; v. Jo 8.31-47).
Por con segu in te, e s s e s “servos de D eus” das “doze tribos 
de Israel” (7.4-8) são a raça de judeus que aceitam o Cordeiro 
de Deus para a salvação (aparecem posteriorm ente com ele 
no Monte Sião, 14 .1 -5 ) .49 Quando com param os seu número 
especificam ente definido (144 000) com “a grande multidão
48V. nota 33.
49Thomas entendeu mal a apresentação em meu livro Before Jerusalem fell, 
cobrando erroneamente com contradição relativo à identidade dos 144 000. 
Diz que eu declaro em certo trecho que eles representam toda a igreja e em 
outro lugar somente os judeus convertidos de Israel. Em meu ponto de vista, os 
144 0 0 0 representam os primeiros frutos do evangelho de judeus convertidos 
em Israel. Claro que, como tal são o começo da nova fase de aliança da igreja, 
mas eles não simbolizam a igreja.
60 ■ Apocalipse
que ninguém podia contar” (7.9), esse n ú m er^ é relativamen­
te pequeno. Mas eles representam um número perfeito, espe­
c ia lm e n te am ad o por Deus e que p e r te n c e m a ele (são 
verdadeiros judeus, o rem anescente, v. Rm 2 .2 8 ,2 9 ; 9 .6 ,27 ;
11.5). Assim, o Senhor coloca seu selo (espiritual) neles (Ap 
7.3; v. 2Co 1.22; Ef 1.13; 4 .30 ; 2Tm 2.19). De certo modo, o 
selar deles é a resposta à pergunta: “Quem poderá suportar?” 
(Ap 6.17). A resposta: Somente aqueles que Deus protege — 
precisamente como o pano de fundo do a t (Ez 9.4-9).
Em outras palavras, antes que a guerra dos judeus alcance 
e subjugue Jerusalém , Deus, providencialm ente, proporcio­
na rápida cessação de hostilidades, permitindo aos jud eus 
cristãos na Judéia escapar (como Jesus deseja em Mt 2 4 .1 6 ­
22). Isso aconteceu quando o imperador Nero se matou (68 
d.C.), fazendo os generais romanos Vespasiano e Tito cessar 
as operações e bater em retirada por um ano devido ao tu­
multo em Roma.50 Sabemos mediante os pais da igreja Eusébio 
e Epifânio que os cristãos fugiram para Pella antes da guerra 
subjugar Jerusalém (Eusébio, História eclesiática 3 .5.3; Epifânio, 
H eresies 29.7).
AS SETE TROMBETAS (AP 8 E 9)
Depois de uma interrupção dramática na ação do movimento 
literário (8.1), o sétimo selo inicia séries novas de ju lgam en­
tos sob o imaginário de sete trom betas (caps. 8 e 9). Esses 
ju lgamentos em espiral continuam, relatando detalhadamente 
de ângulos diferentes os ju lgam entos anteriores, mas in ten­
sificando as crises. Por exemplo, a devastação cresce de um 
quarto em 6.8 para um terço em 8.7-12; isto é em resposta às 
orações imprecatórias contínuas dos santos (v. 8 .3 ,4 com 6.9-
50Lucas traduz a terminologia hebraica de Mateus 24 .15 de forma que en­
tendem os o que acontece “Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos, 
vocês saberão que a sua devastação está próxim a” (Lucas 21 .20) , e naquele 
momento seus seguidores irão fugir (Lucas 21 .21 ; cf. Mt 24.16). Em 68 d.C., os 
generais Vespasiano e Tito “tinham fortalecido todos os lugares ao redor de 
Jerusalém [...] cercando a cidade por todos os lados” (Josefo, Wars 4.9 .1). Mas 
quando Vespasiano e Tito são “informados que Nero estava morto” (4.9.2), não 
“continuaram com sua expedição contra os judeus” (4.9 .2; cf. 4 .10 .2) até que 
p o s te r io r m e n te Vespasiano se to rn a s se o im p e ra d o r em 6 9 . Após isso 
"Vespasiano voltou sua a tenção ao que perm aneceu subjugado na Judéia” 
(4.10.5).
0 ponto de vista preterista ■ 61
I l). Aqui os julgam entos de Israel começam a refletir as pra- 
l',as egípcias (v. Ap 8 com Êx 9 e 10; v. tb. Ap 8 .1 0 ,1 1 com 
r.x 15.23-25). Essa cena maravilhosamente tirada mostra uma 
reversão da experiência do Êxodo de Israel, ao passo que ela 
mesma sofre por meio dos julgam entos do êxodo semelhan- 
le. Em Apocalipse, posteriormente, João chama especificamen- 
le Jerusalém de “Egito” (Ap 11.8), descrevendo-a como se agisse 
como o Egito, o inimigo de Deus.51
As p rim e iras qu atro trom betas
Se consultarmos o relato ocular de Josefo referente à guerra 
dos judeus, descobrimos correlação notável com símbolos do 
Apocalipse.Deixe-me citar algumas ilustrações. 1) Em 8.5, le- 
mos “e houve trovões, vozes, relâmpagos e um terrem oto”, 
jo se fo nos informa de uma
tem pestade prodigiosa à noite, com violência extrema, e ventos 
fortes, com torrentes de chuvas, e raios ininterruptos, com trovo­
adas terríveis, e choques surpreendentes e brados da terra que 
estavam em um terrem oto. Essas coisas evidenciavam alguma des­
truição que viria sobre os homens, quando o sistema do mundo foi 
colocado nessa desordem; e qualquer um adivinharia que esses 
mistérios prediziam enormes calam idades que estavam por vir 
(Wars4.4.5).
2) A queima de um terço das árvores da “terra" (gr. hç gç, 
8.7) faz lembrar das aldeias incendiadas pelos romanos com 
o desnudar da terra pela aniquilação de suas árvores.
• Note o que Josefo escreve sobre a ação dos romanos: 
“Ao mesmo tempo em que deu permissão aos seus sol­
dados para atear fogo nos subúrbios, ordenou que ju n ­
tassem madeira, e erguessem barreiras contra a cidade” 
(Wars 5.6.2).
• Os romanos destruíram as árvores em Israel para obter 
combustível e para fabricar suas armas: “Todas as ár­
vores que estavam pela cidade já haviam sido cortadas 
para fazer as barreiras anteriores (Wars 5 .12 .4). “Eles
'De forma interessante, em uma das falas de Josefo a Israel em busca da 
■■iibicvivência do povo pela rendição, ele alude às pragas egípcias (Wars 5.9.4).
62 ■ Apocalipse
cortaram todas as árvores que estavam no campo ju n ­
to à cidade, e por 18 105 metros nos arredores” (Wars 
6.1.1; v. 3 .7.8; 5.6.2).
• Na marcha de Vespasiano para Gadara, Josefo escreve: 
“Ele também colocou fogo, não somente na própria ci­
dade, mas por todas as vilas e lugares pequenos que 
estavam ao seu redor” (Wars 3.7.1; v. 4.9.1). A “Galiléia 
estava coberta com fogo e sangue por toda parte” (Wars 
3 .4 .1) . Vespasiano “seguiu e queimou a Galiléia e as 
partes vizinhas” (Wars 6.6.2).
• Quando o templo finalmente é incendiado, Jose fo la­
menta: “Alguém poderia ter pensado que a própria co ­
lina, na qual o tem p lo se s i tu av a , fe rv ilh a v a com 
altíssima temperatura, totalmente coberta de cham as” 
(Wars 6.5.1).
• E, é d a r o que, en fim a c id a d e inteira d e Jeru sa lém in- 
cendeía de modo que os romanos levam os judeus ca­
tivos para Roma. Eles relatam que são de “uma terra 
que ainda está em chamas por todo lado” (Wars 7.5.5).
3) A destruição de navios e a transformação dos mares e 
águas em sangue (8.8,9) lembram-nos lutas diversas de pes­
soas nas águas e ao redor de Israel. Josefo registra uma cena 
na qual os judeus “construíram grandes navios para a pirata­
ria, e se tornaram piratas nos mares perto da Síria, Fenícia, e 
Egito, e fizeram aqueles mares inavegáveis para todos os ho­
m ens” (Wars 3.9.2). Infelizmente, para esses homens “um vento 
violento [soprou] neles; é chamado por aqueles que velejam 
lá de ‘os ventos zangados do norte’, e ali colidiram seus navi­
os um contra o outro” com tal poder de destruição que “em ­
bora a maior parte deles tenha sido lfevada pelas ondas, e 
pedaços tenham sido destruídos por bater nas rochas, tanto 
que o mar, em um longo trecho, estava cheio de sangue, e as 
partes marítimas repletas de corpos m ortos” (Wars 3.9.3).
O mesmo acontece no mar da Galiléia: “Alguém poderia ver 
o lago assim todo coberto de sangue, e cheio de m ortos” (Wars 
3.10.9). Em outro lugar lemos: “Não somente todo o país atra­
vés do qual tinham fugido estava repleto de mortos, o rio 
Jordão também não poderia ser atravessado, por causa dos 
corpos mortos que estavam nele, e porque o lago Asfaltitis 
[mar Morto] também estava cheio de corpos mortos que fo ­
ram levados rio abaixo” (Wars 4.7.6).
0 ponto de vista preterista ■ 63
4) Em relação à transformação de águas amargas e veneno­
sas (8.10,11), poderíamos pensar nessas cenas como aquelas 
associadas às batalhas marítimas mencionadas:
Alguém poderia ver o lago assim todo coberto de sangue, e cheio 
de corpos mortos, porque nenhum deles escapou. Um cheiro terrí­
vel e uma visão muito triste pairavam sobre aquele país naqueles 
dias; as praias estavam repletas de destroços de navios, e de cor­
pos m ortos inchados; e como os corpos m ortos estavam queima­
dos pelo sol, e putrefatos, poluíam o ar (Wars 3 .10 .9).
A q u in ta trom b eta
Quando toca a quinta trombeta, o Abismo (“poço do abism o”; 
r c ) aberto, expele fumaça como “fumaça de grande fornalha” 
(9.2; r c ) . Da fumaça saíram gafanhotos com poder como o de 
escorpiões; os quais a torm entam as p e s s o a s d u ran te c in co 
meses (9.3-6). Conforme Robert Thom as observa, esses de­
vem ser demônios — entretanto não concordo com sua opi­
nião de que eles assumem literalmente a forma grotesca desses 
sím bolos.52 Eu usaria o termo de Thomas empregado em ou­
tro lugar: “apocalíptico pitoresco”.53
Temos motivos suficientes nas palavras de nosso Salvador 
para observar a aplicação dessa profecia à era da guerra dos 
judeus. Jesus vem para Israel pregando a proximidade do “Rei­
no dos céus” (Mt 4.17). Isto, é claro, representa ameaça para o 
reino de Satanás, que desencadeia uma resposta demoníaca 
muito intensa. Satanás tentou Jesus até mesmo para reconhe­
cer o seu governo (4.8-10). Um aspecto importante do m inis­
tério de Jesus, naquela época, era confrontar Satanás e exorcizar 
demônios em resposta ás legiões de Satanás contra ele (e.g., 
4 .24; 8 .16; 10.8; 12.27).
Jesus adverte Israel que seu ministério de exorcismo terá 
somente um efeito temporário se as pessoas não se arrepen­
derem. Na realidade, ele os adverte por meio de uma parábola 
que a própria geração deles experimentará uma explosão re­
novada de aflição demoníaca:
''Revelation 8—22, 30, p. 46, 49.
‘•'Revelation 1— 7, 465.
64 ■ Apocalipse
Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares 
áridos procurando descanso. Como não o encontra, diz: ‘Voltarei 
para a casa de onde saí'. Chegando, encontra a casa desocupada, 
varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos 
piores do que ele, e, entrando, passam a viver ali. E o estado final 
daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá 
a esta geração perversa (Mt 12 .43-45 ; grifo do autor).
Cerca de quarenta anos após a advertência de Jesus, a guer­
ra dos judeus estourou. Durante o particularmente exaustivo 
cerco final de Jerusalém, uma escuridão terrível pairou sobre 
a cidade. F. F. Bruce comenta: “Tito começou o cerco a Jeru sa­
lém em abril, 70. Os defensores resistiram desesperadamente 
durante cinco meses, mas ao final de agosto a área do templo 
estava ocupada e a santa casa queimou completamente (v. Wars 
5).54 Esses cinco meses da guerra representam o período mais 
horrível e temível para os judeus (Wars 5 .1 .1 ,4 ,5 ; 10.5; 12.4;
13.6), e adapta-se à imagem de Apocalipse 9.5: “Não lhes foi 
dado poder para matá-los, mas sim para causar-lhes torm en­
to [gr. basan izô ] durante cinco meses. A agonia que eles so ­
freram era como a da picada do escorpião” (cf. v. 10).
Josefo não menciona o envolvimento demoníaco, embora a 
brutalidade cruel da discussão interna entre os judeus parece 
refletir esse aspecto. Ele escreve: “Em relação à presente sedi- 
ção, não seria um equívico se a chamassemos de uma sedição 
engendrada por uma outra sedição, como se fosse uma besta 
selvagem que, ensadecida, por falta de comida vinda de fora, 
lança-se sobre uma própria carne, para consumi-la” (Wars 5.1.1).
E agora, como a cidade estava em guerra em todos os flancos, 
dessas multidões traiçoeiras de homens maus, as pessoas da cida­
de, entre elas, eram como um grande corpo rasgado em pedaços. 
Os homens velhos e as mulheres estavam em tal angústia pelas 
suas calamidades que desejavam os rom anos e esperavam seria­
mente uma guerra externa para livrá-los de sua miséria doméstica. 
Os cidadãos estavam sob uma consternação e medo terrível [...] O 
barulho de todos aqueles que lutavam era incessante, de dia e de 
noite; mas a lamentação daqueles que sofriam excediao outro; não 
havia qualquer ocasião para cessar seu lamento, porque as suas
54F. F. Bruce, New Testament history, Garden City, N.Y: Anchor, 1969, p. 382.
0 ponto de vista preterista ■ 65
calamidades vinham perpetuamente, uma após a outra, embora a 
consternação profunda em que se encontravam prevenia os seus 
gemidos externos; mas, constrangidos pelo medo de esconder as 
paixões internas, eram atormentados intimamente [gr. ebasanizonto, 
como em Apocalipse 9.5], sem ousar abrir os seus lábios em gem i­
dos [...] Todos se desesperavam; os que não estavam entre os 
incitadores não tinham desejos de coisa alguma, na expectativa 
que seriam destruídos em breve; mas, os próprios incitadores lu­
tavam entre si, enquanto pisavam sobre os corpos m ortos am onto­
ados uns sobre os outros, enfurecidos com aqueles corpos sob 
seus pés, se tornavam ainda mais ferozes. Além disso, inventavam 
uma coisa ou outra que era perniciosa contra eles próprios; e quan­
do resolviam qualquer coisa, executavam isso sem clem ência, não 
pouparam método algum de tormento ou de brutalidade (Wars 5.1.5, 
grifo do autor).
John de Giscala “encheu todo seu país com dez mil exem ­
plos de maldade, tal como um homem que já foi endurecido 
suficientemente na impiedade em relação ao que Deus faria 
naturalmente” (Wars 5.6.2).
Mas estes homens, e estes somente, eram incapazes de se arrepen­
der da maldade [v. Ap 16.9 , 11] eles eram culpados; e separando 
suas almas de seus corpos, usaram ambos como se pertencessem 
a outros povos e não a eles próprios. Porque nenhum afeto poderia 
tocar suas almas, nem qualquer dor poderia afetar seus corpos, 
desde que ainda pudessem rasgar os corpos m ortos das pessoas 
como os cachorros o fazem , assim como enchiam as prisões com 
os que estavam doentes (Wars 5.12.4).
Nem qualquer outra cidade já sofreu tais misérias, nem qual­
quer era já gerou uma geração mais fértil em maldade do que esta, 
desde o princípio do mundo (Wars 5.10.5).
Jose fo continua: .
A loucura da revolta também aumentou com a fome, a miséria se 
acentuava; porque não havia milho em lugar algum, e os ladrões 
vinham apressadamente, e vasculhavam as casas das famílias; e en­
tão, se achassem alguma coisa, eles os torturavam, porque tinham 
negado possuir qualquer coisa; e se não achassem coisa alguma, os 
atormentavam [gr. basanizô, como em Ap 9.5] mais ainda, porque 
supunham que as houvessem escondido cuidadosamente (Wars 5.10.2).
66 ■ Apocalipse
Eles tam bém in ven taram m étod os terríveis de to rtu ra [gr. 
basanismos, form a de substantivo de basanizô] para procurar co ­
mida [...] esses torturadores faziam isso mesmo quando não esta­
vam fam in tos; para isso eram m enos bárbaros, salvo se a 
necessidade os forçasse a isso; assim faziam para manter sua lou­
cura em atividade (Wars 5 .10.3).
Isto parece ser indicativo de uma subcorrente demoníaca 
perversa. Certamente cumpre a profecia da parábola de Cristo 
em relação à “geração” do século i que o negou (Mt 12.44). Muitos 
dos judeus desejaram morrer, mas sofreram por muito tempo 
(Ap 9.6): “Aqueles que estavam aflitos pela fome ansiavam mor­
rer; e os mortos deveriam estar extremamente felizes, porque 
não tinham vivido para ouvir ou ver tais misérias” (Wars 6.3.4).
A sexta tro m b eta
Apocalipse 9 .14-16 introduz a sexta trombeta:
Ela [a voz] disse ao sexto anjo que tinha a trombeta: “Solte os quatro 
anjos que estão amarrados junto ao grande rio Eufrates”. Os quatro 
anjos, que estavam preparados para aquela hora, dia, mês e ano, 
foram soltos para matar um terço da humanidade. O número dos 
cavaleiros que compunham os exércitos era de duzentos milhões; 
eu ouvi o seu número (grifo do autor).
Por causa do problema de espaço, posso somente o fe ­
recer uma breve visão. Josefo informa um fenômeno que pode 
indicar as forças angelicais por trás desse julgamento terres­
tre que ocorreu em 70 d.C.:
Aconteceu um certo fenômeno prodigioso e incrível; suponho que 
por causa disso parecia tratar-se de uma fábula, se não fosse des­
crito por aqueles que o viram, e se não fossem os eventos que o 
seguiram de natureza tão notável digna de tais sinais; antes do pôr- 
do-sol, carruagens e tropas de soldados em sua arm adura foram 
vistos percorrendo entre as nuvens, e as cidades circunvizinhas 
(Wars 6 .5.3).
E o historiador romano Tácito escreve: “No céu, apareceu 
uma visão de exércitos apareceu em conflito , de armadura 
brilhante” (Histories 5.13).
0 ponto de vista preterista ■ 67
Em Apocalipse 9 os “quatro an jo s” (v. 15) imediatamente se 
tornam “cavaleiros” de um número incalculável (v. 16). Além 
do pano de fundo sobrenatural que envolve quatro anjos, essa 
imagem retrata, da forma mais apavorante, as forças opressi­
vas de tropas formadas contra Israel durante a guerra dos ju ­
deus. Nero enviou Vespasiano “para assumir a responsabilidade 
do comando dos exércitos que estavam na Síria” onde ele “reu­
niu as forças romanas” (Wars 3.1.3). De forma interessante, o 
rio Eufrates (Ap 9.14) atinge a Síria onde os romanos normal­
mente mantêm quatro legiões (Tácito, Armais 4.5). Josefo ob­
serva que quatro legiões atacaram Jerusalém: “Foram erguidos 
os trabalhos que pertenceram às quatro legiões no lado oci­
dental da cidade” (Wars 6 .8 .1 ; v. Tácito, Histories 5.1).
Josefo menciona intencionalmente que essas legiões bem 
organizad as em pregaram guerra p sico ló g ica exib indo seu 
comando militar, armamento, e cavalos ante os muros de J e ­
rusalém para apavorar os judeus:
Assim os soldados, de acordo com o costum e, abriram as bainhas 
em que seus braços, que antes estavam cobertos, repousavam, e 
marcharam com seu peitoral; como também os cavaleiros que con­
duziam seus cavalos com suas finas decorações. E assim locais 
que estavam antes da cidade brilhavam; não havia nada tão gratifi- 
cante para os homens de Tito, ou tão terrível para o inimigo, quan­
to aquela visão; todo o antigo muro do lado norte do templo estava 
cheio de espectadores, e era possível ver as casas cheias à medida 
que se olhava para elas; tam pouco havia qualquer parte da cidade 
que não estivesse tom ada pelas pessoas; além disso, uma grande 
confusão instalou-se entre os judeus mais duros, quando eles vi­
ram todo o exército, no mesmo lugar, com o esplendor de suas 
arm as, e a boa ordem de seus homens (Wars 5 .9 .1 ; v. 3.7.4).
Apocalipse 9 .17 apresenta uma descrição apocalíptica que 
destaca esses torturadores: “Os cavalos e os cavaleiros que vi 
em minha visão tinham este aspecto: as suas couraças eram 
vermelhas como o fogo, azuis como o jacinto, e amarelas como 
o enxofre. A cabeça dos cavalos parecia a cabeça de um leão, e 
da boca lançavam fogo, fumaça e enxofre”. Aqui descobrimos 
os instrumentos da destruição por fogo que Jerusalém sofre­
rá com os cavaleiros romanos, as torres r p y e s t i d a s de ferro, 
os b atedores com aríetes, e as catapultas, que produziram 
fogo e fumaça (uma descrição do armamento romano aparece 
em Wars 3 .5 .2 ,5-6 ; 6.2). Por exemplo:
68 ■ Apocalipse
Ao mesmo tempo essa catapulta, planejada para aquele propósito, 
arrem essou lanças de uma só vez sobre eles com grande barulho, 
e pedras de peso de um talento foram lançadas pelas máquinas 
preparadas para aquela finalidade, com fogo, e enorme quantidade 
de flechas que fizeram o muro tão perigoso que os judeus não se 
atreveram aproxim ai (Wars 3 .7 .9 , v. 3 .7 .10).
A MEDIÇÃO DO TEMPLO (AP 11.1,2)
Posteriormente em Apocalipse, atentamos à ordem visionária 
de João para medir o templo e seus adoradores (Ap 11.1,2). 
Novamente vemos o foco de Apocalipse claramente em Israel: 
Esta “santa cidade” com um “templo” deve ser Jerusalém (Ne 
11.1; Is 48 .2 ; 52.1; 64 .10; Mt 4.5; 27 . 53).55 No versículo 8, João 
desmascara essa “santa cidade” pois ela se torna: um Egito, 
uma Sodoma, o assassino de Cristo: “Os seus cadáveres f ica­
rão expostos na rua principal da grande cidade, que, em uma 
figura de linguagem, é chamada de Sodoma e Egito, onde tam ­
bémfoi crucificado o seu Senhor”. Realmente, os cristãos do 
século ii chamavam os judeus de “assassinos de Cristo” e “as­
sassinos do Senhor".56
De forma significativa essa passagem reflete muito a pro­
fecia de Jesus no Discurso do Monte das Oliveiras (compare 
as palavras em grifo):
• Lucas 21 .24 : “Jeru salém será pisada pelos gentios, até 
que os tem pos deles se cumpram” (grifo do autor).
• Apocalipse 11.2: “Exclua, porém, o pátio exterior; não o 
meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles p isarão a cidade 
santa durante quarenta e dois m eses” (grifo do autor).
Estas passagens paralelas nos informam que a “cidade san­
ta/ Jerusalém" será “pisada” pelo “gentios” até que os “tempos 
deles se cumpram”, isto é, após “quarenta e dois m eses”.
55Aqui temos uma linha clara da evidência que João escreve o Apocalipse 
enquanto o templo ainda estava em pé. Caso contrário, ele mencionaria sua 
destruição seguramente, como fazem os escritores cristãos logo após (e.g., 
Barnabas 16.1ss.; Ignatius, Magnesians, 10; Justin Martyr, First Apology 32). Para 
pensar assim, isto é ‘‘um templo reconstruído” é apenas uma suposição — e uma 
suposição que vai ao contrário da conclusão do sistema sacrifical (Hb 9 — 12).
S6E.g., Ignatius, Magnesians 11; Justin Martyr, First Apology 35; lreneu, Con­
tra as heresias, 3.12.2 .
0 ponto de vista preterista ■ 69
Evidentemente, Apocalipse 11 .1 ,2 p ro fetiza a destruição 
iminente do templo em 70 d.C., pois sua fonte em Lucas 21 .24 
(v. comparação em Mt 24 e Mc 13) profetiza aquele m esm o 
evento. Note o contexto: 1) Jesus fala particularmente do tem ­
plo do século i (Lc 21.5-7; v. Mc 2 3 .3 8 -2 4 .3 ; Mc 13.1-4); 2) ele 
vincula sua profecia à sua própria geração (Lc 21 .32 ; v. Mt 
24.34; Mc 13.30). E, novamente, os eventos do Apocalipse são 
“breve” (Ap 1.1) e “próximo” (1.3).
E “o tempo dos gentios”? Daniel 2 profetiza que quatro im­
périos pagãos su cessivos (a Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia, 
Roma) dominarão o povo de Deus; e são capazes de fazê-lo 
porque podem atacar o templo físico na terra especialmente 
determinada. Mas após um período final de ira, não será pos­
sível aos gentios pisar o reino de Deus, porque ele será uni­
versal e desvinculado de um templo central (Ef 2.19-21), uma 
cidade específica (G1 4 .25 ,26) , uma terra circunscrita (Mt 28.19; 
At 1.8), e uma raça particular (G1 3.9, 29). Como Jesus afirma: 
“está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem 
neste monte, nem em Jerusalém ” (Jo 4.21).
Em outras palavras, a destruição do Templo em 70 d.C. (Dn 
9 . 2 6 - 2 7 P após sua “abo m in ação ” (9 .27 ; v. Mt 2 4 .1 5 ,1 6 ; Lc 
21 .2 0 ,2 1 ) determina o término da capacidade de os gentios 
de reprimir a adoração a Deus. Em Daniel 9 .2 4 -2 7 , Mateus 
2 3 .3 8 — 24.2, e Apocalipse 11.1,2, a “cidade santa” e seu tem ­
plo terminam em destruição.
Mas como o “tempo dos gentios” refere-se aos 42 meses 
(Ap 11.2)? Em 66 d.C., Israel se revoltou contra o opressivo 
procurador romano Géssio Florus. Em novembro, o governa­
dor romano da província da Síria, Cestius Gallus, tentou por 
um fim àquela insurreição, mas bateu em retirada prematura­
mente por razões que não ficaram claras (Josefo, Wars 2 .1 7 ­
22; Tácito, H istories 5.10). Alguns meses depois, Vespasiano 
loi “enviado para a Judéia por Nero, em meados de 67, para 
conter a revolta”.58 Em agosto de 70, os romanos violaram o 
muro interno de Jerusalém, transformando o templo e a cida­
de em um inferno. Por volta da primavera de 67 a agosto de 70,
"Daniel 9 .2 6 ,2 7 deve se referir a 70 d.C., porque o templo reconstruído nas 
primeiras 69 semanas é destruído em 70. Presumir que seja outro templo que 
M'í>ue aquele desafia a lógica do texto.
i,s B r uc e , New Testament History, p. 380 , cf. p. 381 . Tacitus, The Histories, 
nadução de Kenneth Wellesley, Nova York: Penguin, 1986, 277 , n. 4.
70 ■ Apocalipse
o tempo de combate imperial formal contra Jerusalém é um 
período de 42 meses.
João “mede”, para proteção, (Ez 22.26; Zc 2.1-5) o templo 
interno (gr. naos), o altar, e os adoradores (Ap 11.1); o “pátio 
exterior” é excluído para destruição (11.2). A imagem aqui en­
volve a proteção da essência do templo, seu coração (repre­
sentando a adoração a Deus pelo seu povo fiel), enquanto as 
partes do templo (o invólucro, o conjunto da propriedade em 
si) perecem.59 Essa mistura de físico e espiritual está arraigada 
na mesma idéia do templo. Por exemplo, Hebreus 8.5 faz m en­
ção a um “santuário (terreno) que é cópia e sombra daquele 
que está no céu”. O templo terreno ou externo é cópia ou som ­
bra da realidade divina e espiritual. O “santuário artificial” é 
uma “representação do verdadeiro” (9.24). Em Apocalipse 11, 
Deus remove a sombra ou cópia, de forma que o essencial 
permanece, o que João aqui retrata como os adoradores no 
coração do templo.
Isto se assemelha à imagem de Paulo em Gálatas 4.22-26, em 
que o apóstolo contrasta “Jerusalém abaixo” (literal; Jerusalém 
histórica) com a “Jerusalém do alto” (a cidade divina de Deus). 
Ou, como o escritor de Hebreus, que compara o histórico monte 
Sinai que pode ser tocado (Hb 12.18-21), com o monte espiritual 
de Sião, a casa dos “espíritos dos ju s to s” que não podem “ser 
abalados” (12.22-27). Esta mistura de literal e figura de linguagem 
não deveria alarmar, porque todos os intérpretes acham que de 
vez em quando ela se faz necessária. Por exemplo, até mesmo o 
literalista Robert Thomas, quando insiste que Apocalipse 19 ensi­
na literalmente o retorno de Cristo em um cavalo, frisando que 
sua espada e a vara são figuras de linguagem.60 E todos vêem uma 
mistura do alimento físico e espiritual em João 6.49,50, assim 
como ressurreição física e espiritual em 5.25-29.
A BESTA (AP 13)
Seguindo à frente, mais uma vez, notamos que um novo figu­
rante entra em cena no Apocalipse: “Vi uma besta que saía do
39Proteger a parte interna e dar a parte externa do templo para destruição 
é semelhante ao propósito aos selados/protegidos dos judeus cr istãos em 
Apocalipse 7, preparando para a destruição dos judeus não-cristãos. Deus está 
fazendo uma separação.
mRevelation 8— 2 2 , p. 387-9.
0 ponto de vista preterista ■ 71
mar. Tinha dez chifres e sete cabeças, com dez coroas, uma 
sobre cada chifre, e em cada cabeça um nome de blasfêm ia” 
(Ap 13.1). Como o restante das profecias tem porariam ente 
restringidas, esse caráter mau deve ter uma relevância direta 
para os cristãos do século i. Anteriormente, João focalizou 
Israel; agora ele se volta para ver — Roma.61
A iden tid ad e da besta
A maioria dos estudiosos concorda com Robert Thomas, que 
essa imagem da besta “permite a troca da cabeça com a besta 
por inteiro — i.e., o rei com seu reino — conforme versículos 
12 ,14 requerem”. Entendo que a besta retrata o império rom a­
no (o reino) de modo geral e o imperador o César Nero (o rei) 
especificam ente. Há várias razões para que eu com preenda 
essa descrição dessa forma. 1) Os acontecimentos e os perso­
nagens do Apocalipse são da época do público contem porâ­
neo de João (1.1,3; 22 .6 ,10 ,12) . De forma interessante, a besta 
surge do mar (13.1) o que reflete a perspectiva geográfica de 
Roma quando vista ou de Patmos (de onde João escreve) ou 
de Israel (sobre a qual João escreve).
2) A besta possui grande “autoridade” (13.2) e poder (13.4). 
Roma era o maior e mais poderoso dos impérios do mundo 
antigo e o poder da época em que João escrevia. Josefo chama 
os romanos de “os senhores da terra habitável” (Wars 4 :3 :10) e 
Roma de “a maior de todas as cidades” (Wars 4 .11 .5).
3) A besta tem um caráter blasfemo (13.5,6) e requer adoração
(13.8). Os romanos consideraram muitos de seus imperadores 
como deuses (v. Mt 22.21). Nero pensou nele como o deus Apoio; 
por exemplo, uma inscrição de Atenas refere-se a ele como o 
“Todo-poderoso César Nero Sebastos, um novo Apoio”.62
4) De acordo com 13.18, o número do nome da besta iguala 
seiscentos e sessenta e seis (n ão uma sériede três seis indivi­
duais). No mundo antigo antes da invenção do numeral ára­
be, alfabetos eram usados como sistemas de numeração. Como
61Para informação detalhada sobre o material nesta seção, v. Kenneth L. 
Gentry Jr., The beast o f Revelation (Tyler, Tex.: Institute for Christian Economics, 
1989) cap. 6.
62Mary E. S m a l l w o o d , D ocum ents IHustrating the Princípates Gaius Claudius 
and Nero , Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1967, p. 52, registro #145.
72 ■ Apocalipse
os estudiosos notam, o soletrar do nome de César Nero (n rw n 
q sr) no século i, escrito em caracteres hebraicos, alcança esse 
valor exato.63
5) As sete cabeças da besta representam “sete m ontanhas” 
e “sete reis" (17 .9 ,10). Apesar da surpreendente negação de 
Robert Thomas da literalidade desta referência,64 o anjo intér­
prete informa a João claramente que as sete cabeças repre­
sentam sete m o n ta n h a s .65 As se te m o n tanh as se re ferem 
obviamente às fam osas sete colinas de Roma, bem conheci­
das dos contem porâneos de Apocalipse como o es tab e le c i­
mento do governo imperial. Estranhamente, Thomas renuncia 
seu literalismo nesse momento: Ele diz que as sete m onta­
nhas representam reinos, não montanhas. Se isso é assim, a 
interpretação requer uma figura de linguagem de outra figu­
ra de linguagem. Quer dizer, as cabeças representam monta­
nhas e as montanhas representam reinos.
De acordo com o anjo que interpreta a visão para João (17.7), 
as cabeças “são também sete reis. Cinco já caíram, um ainda 
existe, e o outro ainda não surgiu; mas, quando surgir, deve­
rá permanecer durante pouco tem po” (17.10). Os primeiros 
sete Césares de Roma são Julio, Augusto, Tibério, Caio, Cláu­
dio, Nero, e Galba, de acordo com os historiadores antigos 
Suetônio (Lives o f the tw elve caesars), Dio Cassius (R om an 
history 5), e Josefo {Antiquities 19 .1 .11 ; v. 18.2.2; 1 8 .6 .10 ) .66 
Os primeiros cinco destes “já caíram" (estão mortos); o sexto 
“é” (Nero está vivo). O sétimo virá e “permanecerá pouco tem ­
po”: O imperador que sucedeu Nero após treze anos de reina­
do era Galba, que reinou so m ente sete m eses ( junho, 68 
d.C. —janeiro, 69 d.C.).
63D. R. H i l l e r s , Revelation 13.18 e a Scroll from Murabba'at, b a s o r 170, abril de 
1963, p. 65. A evidência pode ser vista consultando o trabalho francês editado 
por P. Benoit, J . T. Milik, e R. DeVaux, Discoveries in the jud ea n desert o fjo rd a n 
11, Oxford: Oxford Univ. Press, 1961, p. 18, folha 29; Bruce M. M e t z g e r , A textual 
com m entary on the greek New Testament (London: United Bible Societies, 1971), 
p. 751-2.
MRevelaton 8— 22, p. 296.
65A natureza confusa da visão em Apocalipse 17 se deve ao surpreendente 
duplo referente: As sete cabeças representam am bos sete montanhas e sete 
reis. Apocalipse 17 .9 ,10 é uma parte da explicação do anjo da visão, não mate­
rial visual adicional que causa dificuldade.
“ Esta é outra evidência de uma pré-data de composição 70 d.C.
0 ponto de vista preterista ■ 73
A perseguição pela besta
A “guerra” da besta com os santos durante “quarenta e dois 
m eses” (13.5-7) refere-se à perseguição de Nero. O historiador 
romano Tácito fornece um relato horrível da perseguição de 
Nero em Roma, observando que ele “infligiu castigos jam ais 
ouvidos naqueles que, detestados por seus crimes abom iná­
veis, eram vulgarmente chamados de cristãos” (Annals 15.44). 
A perseguição desencadeou em novembro, 64 d.C., reivindi­
cando a vida de “um imenso núm ero” (Tácito), “uma grande 
multidão dos eleitos” (lClemente 6). Esse primeiro ataque ro­
mano ao cristianismo levou a vida dos apóstolos Pedro e Pau­
lo, que morreram em 66 ou 67 d.C.
O renomado historiador de igreja L. von Mosheim escreve 
sobre a perseguição de Nero:
A terrível perseguição que aconteceu por ordem deste tirano, ini­
ciada em Roma, em meados de novembro, no ano 64 de nosso 
Senhor [...] Essa perseguição terrível cessou, mas com a morte de 
Nero. O império, como sabemos, não ficou livre da tirania desse 
monstro até o ano 68, quando ele pôs um fim à sua própria vida.67
De modo considerável, a perseguição cessou após 42 me­
ses (mas por pouco tempo: isto é, em novembro de 64 d.C. a 
junho de 68 d.C.). João escreveu enquanto estava exilado em 
Patmos sob a perseguição de Nero (1.9); ele informa aos seus 
leitores que a perseguição durará só 42 m eses. C. Marvin Pate 
admite o a juste pertinente, entretanto reje ita as implicações 
preteristas do a ju ste .68
A m orte e av ivam en to da besta
Mas o que dizer agora da morte e do avivamento da besta? 
“Uma das cabeças da besta parecia ter sofrido um ferimento 
mortal, mas o fe i im en to mortal foi curado. Todo o mundo 
ficou maravilhado n seguiu a besta” (13.3). O significado des­
sa profecia está arraigada nos eventos políticos do século i.
67Historical com m entaries, vol. 1, tradução Robert S. Vidal, New York: Con­
verse, 1854, p. 138-9.
“ P a t e e H a in e s , Doomsday delusions, p. 42-4.
74 ■ Apocalipse
Nero se matou em 8 de junho, em 68 d.C., quando as guer­
ras civis romanas estavam estourando contra ele. O perigo 
que Roma enfrentou e a revolta, que se espalhou com o se 
d esp rendesse do solo geográfico através do império, eram 
bem conhecidos naquela época, como observa Josefo: “Omiti 
em dar um relato exato sobre eles, porque são bem conheci­
dos por todos, e são descritos por um grande número de au­
tores gregos e romanos” (Wars 4.9.2).
Para apresentar os m eses que seguem a morte de Nero, 
Tácito escreve: “A história que estou narrando é sobre um 
período repleto de desastres, batalhas terríveis, destruído por 
lutas civis, terrível até na paz. Quatro imperadores foram der­
rubados pela espada; havia três guerras civis, mais guerras 
e s tr a n g e ir a s e, com fre q ü ê n c ia , tudo ao m esm o te m p o ” 
(Histories 1.2). Esses levantes atingiram os súditos e os inimi­
gos do grande império como se fossem a mesma agonia de 
morte de Roma (a besta considerada de forma geral). Real­
mente, na avaliação de Tácito, estava próximo a isso: “Esta era 
a condição do Estado romano quando Serius Galba, cônsul 
escolhido pela segunda vez, e seu colega Tito Vinio tomaram 
posse no ano que deveria ser para Galba seu último e p a ra o 
Estado qu ase o fim ” (Histories 1.11, grifo do autor).
Perante os olhos assustados do mundo, a besta de sete 
cabeças (Roma) estava tombando para sua morte ao passo que 
sua sexta cabeça (Nero) recebeu sua ferida mortal. Estes even­
tos não só impactaram o público cristão de João na Ásia Me­
nor, mas a guerra dos judeus, conforme Josefo observa:
[Vespasiano e Tito] estavam incertos sobre os negócios públicos, o 
império romano estava naquela época em uma condição instável, e 
eles não deram continuidade à sua expedição contra os judeus, pois 
pensaram que seria inoportuno fazer qualquer ataque aos estran­
geiros, devido à preocupação com seu próprio país (Wars4.9 .2).
Os relatórios da destruição e saque eram tão horríveis que 
“o pesar de Vespasiano [era tão] violento, que ele não pôde 
suportar as torturas que observava, nem se dedicar mais a 
outras guerras quando seu país nativo foi destruído” (Wars
4.10 .2). Josefo concorda que Roma estava próxima da “ruína” 
(Wars 4.11.5): “O Estado dos romanos estava tão enfraquecido” 
(Wars 7.4.2); “toda parte da terra habitável sob seu domínio 
estava em uma condição insegura e cambaleante" (Wars 7 .4.2).
0 ponto de vista preterista ■ 75
Mas o que aconteceu finalmente? O historiador romano 
Suetônio escreve: “O império que por muito tempo fora inse­
guro e, como tal, foi varrido pela usurpação e morte violenta 
de três imperadores, foi finalm ente dominado e conquistou 
certa estabilidade pela família Flaviana (Vespasiano 1). Josefo 
concorda: “Assim que o governo de Vespasiano foi confirm a­
do, com a solução dos negócios públicos romanos, Vespasiano 
voltou sua atenção ao que permanecia subjugado na Judéia” 
(Wars 4 .11.5). Em outras palavras,após um tempo penoso de 
guerra civil, o império reviveu. A pseudoprofecia de 4Esdras 
12 .16-19 (100 d.C.) reflete o assom bro do mundo antigo: “No 
meio do tempo daquele reino surgirão grandes lutas, e estará 
em perigo de cair; não obstante ele não cairá, mas recuperará 
seu antigo poder”.
Levando em conta o público contemporâneo de João (1.4,11), 
o seu chamado para uma consideração cuidadosa (1.3; 13.9), 
e sua expectativa contemporânea (1.1,3), esses versículos têm 
importância fundamental, em relação aos acontecimentos his­
tóricos, que abalaram o mundo da época, nos m eados dos 
anos 60 d.C. Roma pereceu, mas voltou novamente à vida.
OS RESUMOS DO JULGAMENTO DE ISRAEL (AP 14— 16)
João se volta aos ju lgam entos adicionais na terra por meio 
das três aflições após mencionar os remidos/ selados de Isra­
el em 14.1-5, (14.6-21) e as sete taças (caps. 15 e 16). Entretan­
to, as p ro fe c ia s são fe i ta s em h ip é rb o le d ram ática , e las 
recorrem a eventos históricos. Por exemplo, considere a co ­
lheita das uvas da ira: “Elas foram pisadas no Iagar, fora da 
cidade, e correu sangue do Iagar, chegando ao nível dos frei­
os dos cavalos, numa distância de cerca de trezentos quilô­
m etros” (14.20).
Por razões constrangedoras “a cidade” aqui parece ser J e ­
rusalém: 1) João define “a cidade” anteriormente como Jeru ­
salém (11.8); 2) a “co lheita” está na “terra/ solo” (gr. hç gç\ 
14.15-19); 3), esse ju lgam ento recai no lugar onde Jesus foi 
crucificado: “fora da cidade” (Jo 19.20; v. Hb 13.11-13); e 4) o 
Filho do homem “na nuvem” (Ap 14 .14 ,15 ) ensaia o tema do 
Apocalipse referente a Israel (1.7). A distância do fluxo de 
sangue é de 1 6 0 0 estádios (300 km) que é aproximadamente 
o com prim ento da terra quando era uma província romana:
76 ■ Apocalipse
O Itenerarum de Antonius de Piacenza registra o comprimen­
to da Palestina como 1 664 estádios. Esta profecia se refere ao 
“dilúvio" de sangue em Israel durante a guerra dos judeus. 
Permita-me docum entar isto.
Em Wars Josefo escreve: “o mar era sangrento por um lon­
go trecho” (3.9.3); “então era possível ver que o lago todo co ­
berto de sangue, e cheio de corpos m ortos” (3.10.9); “todo o 
país pelo qual eles tinham fugido estava cheio de matança, e 
o Jordão não pôde ser atravessado, por causa dos corpos mor­
tos que estavam nele” (4.7.6); “o sangue percorreu todas as 
partes baixas da cidade, e também a cidade superior” (4.1.10); 
“o exterior do templo, todo, transbordava de sangue” (4.5.1); 
“o sangue de todo o tipo de carcaça morta permanecia nos 
lagos nos tribunais santos” (5.1.3); e “pela cidade toda corria 
sangue, a tal ponto que realmente o fogo de muitas das casas 
era extinto com o sangue desses ocupantes” (6.8.5).
A divisão “da grande cidade” em três partes (16.19; v. 11.8) 
parece se referir à disputa interna em Jerusalém. Conforme 
lutavam contra os romanos, os judeus se fragmentaram em 
três acampamentos de guerra:
E agora havia três facções traiçoeiras na cidade, e se separaram . 
Eleazar e seu grupo, que mantiveram as primícias sagradas, vie­
ram contra João em seu sofrimento. Aqueles que estavam com 
João saquearam a população, e saíram com ardor contra Simão. 
Assim Simão teve seu suprimento de provisões da cidade, em opo­
sição aos revoltados (Wars 5 .1 .4 ; v. 5 .1.1).
Essa situação causou sérios problem as para a defesa da 
cidade, pois levou a população a destruir até seu próprio su­
primento de alimento (Wars 4.1.4).
João está apresentando o processo dramático de aliança 
contra Israel por seu adultério. O castigo na lei de Deus para 
adultério é a m orte (Lv 2 0 .1 0 ) , que pela lei b íb lica é por 
apedre jam ento . Assim, testem unham os enorm es pedras de 
granizo caindo sobre Jerusalém em Apocalipse 16.21: “Caíram 
sobre os homens, vindas do céu, enormes pedras de granizo, 
de cerca de trinta e cinco quilos cada (gr. talantiaia, talento; 
nvi); eles blasfemaram contra Deus por causa do granizo, pois a 
praga fora terrível”. Josefo registra o cumprimento histórico e 
o ataque dos romanos a Jerusalém por catapultas:
0 ponto de vista preterista ■ 77
As pedras que foram lançadas pesavam 34 ,272 kg [gr. talantiaia], e 
atingiam até 4 0 2 ,3 4 m de distância. O impacto provocado por elas 
de modo algum poderia ser suportado, não somente por aqueles 
que primeiramente estavam em seu caminho, mas tam bém pelos 
que estavam mais longe. Quanto aos judeus, inicialmente eles es­
peravam a vinda da pedra, que era de cor branca (Wars 5 .6.3).
Mas tenho de prosseguir.
A PROSTITUTA E A BESTA (AP 17 E 18)
Nesta visão suprema, João vê uma prostituta ricamente ador­
nada m ontad a em uma b e s ta v erm elh a (1 7 .1 -5 ) . Ela está 
embriagada “com o sangue dos santos, o sangue das te s te ­
munhas de Jesu s” (v. 6). No princípio, João está perplexo, en­
tretanto o anjo intérprete explica a visão (v. 7-18; v. Dn 9.20-23). 
Reúne dois caracteres históricos, mostrando sua conexão irô­
nica: o império romano (a besta) e Jerusalém (a “prostituta”, 
chamada “ba b il ô n ia , a g r a n d e” Ap 17.5).
Muitos supõem que a prostituta babilônica rep resenta a 
cidade de Roma porque ela repousa sobre sete colinas. A evi­
dência, porém, sugere uma outra interpretação. Como o prof. 
Iain Provon da Unviersidade de Edimburgo observa: “Consi­
derar a Babilônia como Jerusalém, então, é, em meu ponto de 
vista, um constrangimento”.69 1) O Apocalipse designa a pros­
tituta como a “b a b il ô n ia , a g r a n d e” (17.5), quer dizer, “a grande 
cidade” (17.18; v. 14.8; 16.19; 18 .10 ,16 ,21) . A primeira m en­
ção à “grande cidade” é 11.8, que indiscutivelmente aponta 
para Jerusalém “onde também foi crucificado o seu Senhor” 
(v. Lc 18.31). Uma ironia cruel surge nessa imagem inversa: 
No a t a Babilônia histórica incendeia o templo (2Cr 36.18-20); 
agora Israel se torna uma “Babilônia”, causando a destruição 
de seu próprio templo: Josefo registra a realidade trágica de 
70 d.C.: “Os judeus tinham começado com suas próprias mãos 
a queimar completamente aquele templo” (Wars 6.3.5).
69Foul Spirts, Fornication and Finance: Revelation 18 From an Old Testament 
Perspective”, j s n t 64 , dezem bro de 1996, p. 96. Sua completa discussão do 
Apocalipse é extremamente útil. V. tb. Cornelis Vanderwaal, Search the Scriptures : 
Hebrews-Revelation, St. Catherines, Ont.: Paideia, 1979, 10 .79-111 . Terry, Biblical 
Apocalyptics, p. 4 26 -39 . J. Massyngberde Ford, Revelation (AB; Garden City, N.Y.: 
Doubleday, 1975, p. 54-5, 93, 259-307).
78 ■ Apocalipse
Jerusalém era uma “grande cidade” por causa de sua alian­
ça (SI 48 .1 ,2 ; 87.3; Mt 5.35). Quando Jeremias refere-se à sua 
destruição por vir por intermédio da Babilônia do a t , ele a 
chama duas vezes de a “grande” cidade: “Como está deserta a 
cidade, antes tão cheia de gente! Como se parece com a viúva, 
a que antes era grandiosa entre as naçõesl A que era a prince­
sa das províncias agora tornou-se uma escrava”. (Lm 1.1, gri­
fo do autor; v. Jr 22 .8). A descrição de João é semelhante: 
“Façam-lhe sofrer tanto tormento e tanta aflição como a glória 
e o luxo a que ela se entregou. Em seu coração ela se vanglori­
ava: ‘Estou sentada como rainha; não sou uma viúva e jamais 
terei tristeza’” (Ap 18.7).
2) O pano de fundo aparente de João para essa prostituta 
(17.1-6; 19 .1 ,2) é o texto do a t que também refere-se a Isra­
e l — Jerem ias 3. Não somente há correspondências notáveis 
de palavras e im agens, mas de tem as tam bém . O tema de 
Jerem ias 3 é o divórcio de Deus do reino do Norte, Israel, e 
sua am eaça de divórcio do reino do Sul, Judá. O tem a do 
Apocalipse é o divórcio de Deus do n t Jerusalém/ Israel (Ap
5). O pouco espaço proíbe um tratamento detalhado dessas 
co rre sp o n d ên cias notáveis, mas deixe-m e resum ir rap ida­
mente as sem elhanças ( lxx é a abreviação para a tradução 
grega do a t ).
Em Jerem ias 3 .1 ,2 , Deus cobra Judá por agir como uma 
prostituta ( l x x : porneuô), como faz Joãoem Apocalipse 17.1,2 
(gr. porneuô). Sua maldade “contaminou a terra” (Jr. 3 .1 ,2,9): 
“a terra” ( l x x , hê gê 3.2) “contaminada" em Jeremias se torna “a 
terra” (gr. h ê gê) corrompida em Apocalipse (Ap 19.2). Deus 
adverte Judá no a t com base na experiência de Israel: “Dei à 
infiel Israel uma certidão de divórcio e a mandei embora, por 
causa de todos os seus adultérios” (Jr 3 . 8 ) — isto é, quando 
ele permitiu aos assírios destruí-la (Jr 50 .17). O destino da 
prostituta do Apocalipse Jerusalém/ Israel será o mesmo (Ap 
17.16; 19.2). Ao justificar a derrota de Judá do a t por Babilônia, 
Jeremias diz: “tu tens a testa de uma prostituta” (Jr 3.3; r c ); ao 
declarar no n t o caráter rebelde de Jerusalém, João observa 
que em sua testa havia esta inscrição “ba bilô n ia a g r a n d e , a mãe 
d a s p r o s t it u t a s ” (Ap 17.5). Seguramente João está lidando com 
as mesmas pessoas.
3) A prostituta babilônica se enche do sangue dos santos (Ap 
16.6; 17.6; 18.21,24): “Nela foi encontrado sangue de profetas e
0 ponto de vista preterista ■ 79
de santos, e de todos os que foram assassinados na terra [ter­
ra]” (18.24). Claro que, com a perseguição de Nero em curso 
(1.9; 13.5-7), Roma estava manchada com o sangue dos san­
tos. Porém Roma tinha entrado recentemente na categoria dos 
perseguidores, dos inimigos de Deus; ao longo de Atos, Jeru ­
salém e os judeus eram os principais perseguidores.70 Além 
disso, Roma não era culpada da m atança de quaisquer dos 
“profetas” do a t , como o fora Jerusalém .71 Em relação às auto­
ridades de Jerusalém , Stephen pergunta: “Qual dos profetas 
que seus antepassados não perseguiram? Eles mataram aqueles 
que prediziam a vinda do ju sto , de quem agora vocês se tor­
naram traidores e assassinos” (At 7.52).
No contexto do Sermão do Monte das Oliveiras, Jesu s re ­
preendeu Jerusalém especificam ente com palavras notáveis 
como aquelas em Apocalipse:
Por isso, eu lhes estou enviando profetas, sábios e m estres. A uns 
vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de 
vocês e perseguirão de cidade em cidade. E, assim , sobre vocês 
recairá todo o sangue justo derramado na terra, desde o sangue do 
justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem 
vocês assassinaram entre o santuário e o altar (Mt 2 3 .3 4 ,3 5 , grifo 
do autor).
Ou como Lucas registra:
Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue 
de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo', desde o 
sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar 
e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada 
responsável por tudo isso (Lc 11 .50 ,51 ; grifo do autor).
Jesu s m enciona tanto a perseguição dos santos de Israel 
na era do Novo quanto do a t .
Lembre-se que ao longo do Apocalipse, o Cordeiro morto 
atua no julgamento de seus assassinos, os judeus (5.6; v. 5.12;
70V„ Atos4.3 ; 5.18-33; 6.12; 7.54-60; 8.1ss.; 9 .1 -4 ,13 ,23; 11.19; 12.1-3; 13.45-50;
14.2-5 ,19 ; 16.23; 17 .5-13; 18 .12; 20 .3 ,19 ; 21 .11 ,27 ; 22 .30 ; 23 .1 2 ,2 0 ,2 7 ,3 0 ; 24.5-9;
25 .2 -15 ,24 ; 26 .21 . V. tb. 2Co 11.24 ; lTs 2 .14 ,15 ; Hb 10 .32-34 ; Ap 2.9; 3.9; etc.
71Jr 2 .30; Mt 5.12; 2 3 .2 9 -3 1 ,3 4 ,3 5 ,3 7 ; Lucas 6 .23 ,26 ; 11 .47-50; 13.34; Rm 11.3;
lTs 2.15; Hb 11.32-38.
80 ■ Apocalipse
13.8; este Cordeiro aparece 27 vezes em Ap).72 Por que isto 
deveria nos surpreender? Jerusalém literalmente invoca o ju l­
gamento sobre ela por matar o Cordeiro de Deus: Todo o povo 
respondeu: “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos 
filhos!” (Mt 27.25).
4) A veste da prostituta reflete as cores sacerdotais judias, 
escarlate, púrpura, e ouro (Êx 28),73 indicando o estado sacer­
dotal dessa prostituta e com o templo misturado com ela: “A 
mulher estava vestida de azul e vermelho, e adornada de ouro, 
pedras preciosas e pérolas. Segurava um cálice de ouro” (Ap 
17.4). Josefo descreve a tapeçaria do templo cuidadosamente 
como “tapeçaria babilônica na qual as cores azul, púrpura, 
escarlate e branco foram misturadas” (Wars 5.5.4).
A taça de ouro da prostituta faz lembrar os utensílios do 
templo: “A maior parte dos recipientes que foram postos nele 
era de prata e de ouro” {Wars 5 .4 .4). Até mesmo o próprio 
templo era “adornado” com pratos de ouro e pedra branca, os 
quais nos remetem à prostituta “adornada de, pedras precio­
sas e pérolas” (17.4):
Agora a face externa do templo em sua frente [...] estava por toda 
parte coberta com pratos de ouro de grande peso, e, ao primeiro 
nascer do sol, refletiu um esplendor ardente, e fez aqueles que se 
esforçavam para olhar atentam ente se voltarem em direção opos­
ta, da mesma maneira que teriam feito aos próprios raios do sol. 
Mas este templo, para os que não estavam familiarizados com ele, 
parecia, a uma certa distância, como uma montanha coberta com 
neve; devido àquelas partes não douradas, que eram excessiva­
mente brancas (Wars 5.5.6).
A inscrição blasfema da prostituta em sua testa dá uma ima­
gem inversa da inscrição santa no sacerdote judeu. Na testa do 
sumo sacerdote lemos: “Consagrado ao S e n h o r ” ( Ê x 2 8 . 3 6 - 3 8 ) ; 
na testa da prostituta lemos: M i s t é r i o : B a b i l ô n i a a g r a n d e ; a m ãe d a s
PROSTITUTAS E DAS PRÁTICAS REPUGNANTES DA TERRA (Ap 17.5).
5) Um contraste literário óbvio existe entre a prostituta em ­
briagada e a noiva pura por vir. Esta justaposição sugere um
72V. Ap 5 .6 ,8 ,12 ,13 ; 6 .1 ,16 ; 7 .9 ,10 ,14 ,17 ; 12 .11; 13.8; 14 .1 ,4 ,10 ; 15.3 ; 17.14; 
19.7,9; 21 .14, 22 ,23; 22 .1,3.
73Cf. Ap 17.4,5 com Êx 25.2 ,4 ; 26 .1 ,31 ,36 ; 27 .16 ; 28 .1 ,2 , 5 -12 ,15 ,17-23 ,33 .
0 ponto de vista preterista ■ 81
contraste intencional entre a indigna Jerusalém (11.8) e a nova 
Jerusalém (21.2) e isso deveria ser familiar a estudantes do n t 
(v. G1 4 .24-31 ; Hb 12.18-24). Apocalipse 17 e 21 fornecem im a­
gens notáveis, tanto negativas como positivas. Lembre-se que 
João chama especificam ente a noiva de a “Nova Je ru sa lé m ” 
dos céus (21.1,2), sugerindo seu contraste com a antiga Je ru ­
salém (v. contrastes da nova/ antiga aliança em outras p assa­
gens, Mt 9 .16 ,17 ; 13.52; 2Co 3.7-14; Hb 1.1,2; 3.1-6; 8 .1-13). 
Conforme Robert Thomas nota as similaridades entre a p ro s­
tituta e a noiva: “As semelhanças são muito próximas e num e­
rosas para ser acidental”.74 Considere apenas três exem plos 
dos vários que estão disponíveis (v. a seguir).
6) O Apocalipse descreve os nomes pagãos em outras p as­
sagens “Sodoma e Egito” para referir-se a Jerusalém , nom es 
bastante compatíveis com “a Babilônia” (11.8; v. Is 1.9,10). Em 
outras palavras, no lugar de se portar como a esposa de Deus, 
Jerusalém se tornou um de seus inimigos — como Sodoma, 
Egito, e Babilônia. A nova Jerusalém obviamente substituiu a 
antiga Jerusalém .
Um anjo apresenta 17.1: “Um dos sete anjos 
João à prostituta e à que tinham as sete taças 
aproximou-se e me disse: 
“Venha, eu lhe mostrarei 
o julgamento da grande 
prostituta que está senta­
da sobre muitas águas”.
noiva da mesma 
maneira:
As duas mulheres 
têm caráter 
contrastante:
As duas mulheres 
aparecem em 
ambientes 
contrastantes:
17 .1 b : “Venha, eu lhe 
m ostrarei o julgam ento 
da grande prostituta que 
está sentada sobre mui­
tas águas”.
17.3: “Então o anjo me 
levou no Espírito para 
um deserto. Ali vi uma 
mulher montada numa 
besta escarlate”.
21.9 : “Um dos sete anjos 
que tinham as sete taças 
cheias das últimas sete 
pragas aproxim ou-se e 
me disse: ‘Venha, eu lhe 
m ostrarei a noiva, a es­
posa do Cordeiro’”.
21.9fa: “Venha, eu lhe 
m ostrarei a noiva, a es­
posa do Cordeiro”.
21 .10 : “Ele me levou no 
Espírito a um grande e 
alto monte e mostrou-me 
a Cidade Santa, Jerusa­
lém, que descia dos céus, 
da parte de Deus”.
74Para mais informações, V. Thomas, Revelation 8—22, p. 569-74.
82 ■ Apocalipse
A prostituta montada em uma besta (17.3) é irônico: Não 
indica identidade com Roma,mas sujeição a Roma. A imagem 
lembra Israel no passado subordinado a Roma, assim ela po­
deria atacar Cristo e seus seguidores. Josefo escreve: “Parece- 
me ser necessário relatar todas as h on ras que os rom an os e 
seus im peradores retribu íram a nossa nação, e as a lian ças de 
a ju d a m útua que fizeram" (Antiguities 14 .10.1 ,2 ; grifo do au­
tor). Usando essa influência (“Não temos rei, senão César”, Jo 
19.15), os judeus exigiram a crucificação de Cristo (Mt 2 3 .3 7 ­
39; Jo 19.12-16) e, constantemente, promoviam agitações con­
tra os cristãos, assim como para envolver os romanos em sua 
perseguição (At 4 .27 ; 16.20; 17.7; 18.12; 21 .11; 24.1-9; 25.1,2). 
“E começaram a acusá-lo, dizendo: ‘Encontramos este homem 
subvertendo a nossa nação. Ele proíbe o pagamento de im ­
posto a César e se declara ele próprio o Cristo, um rei’” (Lc
23.2). Mas agora o aliado anterior de Jerusalém contra Cristo 
se volta contra ela e a destrói (Ap 18.16-24).
A CEIA DAS BODAS E 0 NOIVO (AP 19)
Em Apocalipse 19, João aborda quatro fatores importantes ne­
cessários para desenvolver sua conclusão gloriosa, cheia de 
esperança para a qual ele caminha a passos bem largos agora.
1) Considerando que o capítulo anterior era praticamente 
um canto triste para Jerusalém pelos comerciantes da terra,75 
João agora ouve a interpretação divina de sua queda (19.1-5):
Aleluia!
A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus, 
pois verdadeiros e justos são os seus juízos,
Ele condenou a grande prostituta
que corrompia a terra com a sua prostituição.
Ele cobrou dela o sangue dos seus servos (19 .1 ,2).
Jerusalém , a esposa infiel de Deus, sofre pena de morte 
como uma adúltera espiritual por negar seu Messias (note sua
75Josefo menciona as “grandes riquezas" de Jerusalém ( Wars 6 .1 0 .1 ) e a 
“grande quantidade de dinheiro do templo” ( Wars 6.5.2). V. tb. Tácito, Histories 
5:5. Joachim Jeremias observa que o“comércio exterior teve importância consi­
derável para a cidade santa” (Jerusaíem in the times o f Jesus: an investigation 
into economic and social conditions during the New Testament period [Philadelphia: 
Fortress, 1969] p. 38).
0 ponto de vista preterista ■ 83
prostituição imoral, v. 2). Sua destruição vinga “o sangue dos 
seus servos” (19.1,2; v. 6 .10 ,11 ; tb. Mt 23 .34-36 ; lT s 2.14-16), 
o que faz os santos regozijarem como um testemunho da co n ­
quista do primeiro grande inimigo de Cristo e seu povo.
2) Após o ju lg am en to da p ro stitu ta -Jeru sa lém com o e s ­
posa infiel, o céu anuncia as bodas do Cordeiro (1 9 .6 -1 0 ) . 
A associação da celebração de vitória do rei, com um alegre 
banquete nupcial, faz lembrar a canção do casamento real em 
Salmo 45, que provavelmente serve como o pano de fundo 
para Apocalipse 19. O castigo, público e firme, da esposa infi­
el de Deus (19.1-5) estabelece o reino de Cristo (19.6), condu­
zindo ao anúncio da apresentação festiva da nova noiva do 
Senhor (19.7,8; v. cap. 21).
Jesus ensina o significado do julgam ento de Jerusalém para 
o estabelecimento de seu reino: “Garanto-lhes que alguns dos 
que aqui estão de modo nenhum experim entarão a m orte, 
antes de verem o Reino de Deus vindo com poder”. (Mc 9.1). 
De qualquer forma, de 30 d.C. a 70 d.C, duas eras redentoras 
acontecem, o julgamento dos judeus do século i e a destrui­
ção do sistem a do templo que dramaticamente assegurou o 
reino (Ap 19.6) e vindicou a m ensagem da igreja universal 
(19.9 ,10) em festiva celebração: “Eu lhes digo que muitos vi­
rão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, 
Isaque e Jacó no Reino dos céus. Mas os súditos do Reino 
serão lançados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ran­
ger de dentes” (Mt 8 .11,12).
Os eventos de 70 d.C. vindicaram o cristianismo contra o 
ju d a ísm o — com o m uitos antigos pais da igre ja p ro clam a­
ram.76 Ao indicar 70 d.C., o Senhor advertiu o Sinédrio prestes 
a julgá-lo: “Mas eu digo a todos vós: Chegará o dia em que 
vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e 
vindo sobre as nuvens do céu" (Mt 26.64).
O n t registra o estabelecimento gradual do reino (v. Mt 1 3 .3 1 ­
33; Mc 4 .26-29): de seu anúncio ministerial (Mt 12.28; Mc 1.15) 
a sua afirmação legítima à cruz (Mt 28 .18 ; Rm 1.3,4; Fp 2.1-11;
76V. Melito de Sardis; Tertullian’s Apology 21 e 26; On idolatry 7; An answ er to 
lhe je w s 9 e 13; Against m arcion, 3.6 , 23; 5.15; HippoIytu's Treatise on Christ and 
antíchrist 30 e 57; Expository treatise against the jew s 1, 2 e 7; e Against Noetus 
18; Cyprian’s Treatises, 9.7; 10.5; 12.2 .14 ; 12 .2 .20 ; Lactantius’s divine institutes 
4.18; Epitome o f the divine institutes 46; On the m a n n er in which the persecutors 
died 2.
84 ■ Apocalipse
Cl 1.13; 2 .14 ,15) , para sua vindicação pública na subversão 
de Israel (Mt 2 3 .3 2 —24.21; G1 4 .21-31 ; lT s 2.16; Ap 6— 19). A 
remoção de Deus do sistema do templo — fisicamente derri- 
bando “a barreira, o muro de inimizade,” legalmente destruído 
em Cristo (Ef 2 .14) — decididamente, as antigas tendências 
sionísticas de muitos cristãos do século i terminaram (e.g., At 
11.1-3; 15.1; Rm 14.1-8; G1 1— 5; Cl 2.16; Tt 3.9) e o cristianis­
mo como religião separada em seu próprio direito foi estabe­
lecido (i.e., por que Jesu s com para a grande tribulação ao 
“início das dores”, Mt 24.8).
3) Junto às preparações do banquete das bodas, o noivo 
aparece. Na realidade, seu divórcio e a pena de morte de sua 
esposa-prostituta adúltera fornecem a mesma justificação para 
essa ce lebração e novo m atrim ônio (1 9 .1 1 -1 8 ) . A lição de 
Apocalipse fica clara agora: Cristo que aparece gloriosamente 
com o um guerreiro-noivo, castiga a Jeru sa lém incrédula e 
apresenta uma nova noiva.
Cristo é o último ju iz de Israel (Mt 24 .29 ,30 ; 26.64); ele é o 
que faz guerra contra ela (Ap 19.11; v. Mt 21 .40-45 ; 22.1-7). 
Ele a julga tão severamente que seus cidadãos não recebem 
e n te r r o a lg u m , p o is são c o n s u m id o s por p á s s a r o s (Ap 
19.17,18). Robert Thomas observa, muito bem: “A pior indig­
nidade perpetrada a uma pessoa naquela cultura seria deixá- 
la insepulta após a morte (v. SI 79 .2 ,3 )”.77 Josefo nota que os 
corpos dos mortos em Jerusalém eram “jogados dos muros 
nos vales abaixo” (Wars 5.12.3) Realmente, “esses vales [esta­
vam] cheios de corpos mortos, e pairava contínua putrefação 
sobre e les” (Wars 5.12.4).
A visão de Cristo com “muitas coroas” (Ap 19.12) é o modo 
apocalíptico de afirmar que, ele tem “toda a autoridade nos céus 
e na terra” (Mt 28.18), que ele é muito acima de todo governo e 
autoridade, poder e domínio” (Ef 1.21), que tem “o nome que 
está acima de todo nome” (Fp 2.9), e que “a ele [estão] sujeitos 
anjos, autoridades e poderes” (lPe 3.22). Em resumo, como 
João francamente declara no começo do Apocalipse, já no sé­
culo i Cristo é “o soberano dos reis da terra” (Ap 1.5).
Embora a imagem dessa passagem sugira a muitos a Segun­
da Vinda (e certam ente há muitas correspondências), ela se 
refere, mais provavelmente, a 70 d.C. que é um prenúncio
77Revelation 8—22, p. 93.
0 ponto de vista preterista ■ 85
distante da Segunda Vinda. De fato, Apocalipse 19 explica, mais 
detalhadamente, o tema que João anuncia em 1.7, o qual se 
origina nos ensinamentos de Cristo em Mateus 24 .29 ,30 . E lem ­
bre-se: Este ju lgam ento da vinda de Cristo, m encionado em 
Apocalipse e Mateus 24, está próximo no tempo à audiência 
contem porânea à escrita desses textos (Mt 24 .34 ; Ap 1 .1 ,3 ; 
2 2 .6 , 1 0 ).
4) Por causa do interesse primário no julgam ento de Israel 
no Apocalipse, João m enciona rapidamente a destruição da 
besta que guerreará contra Deus (Ap 19.19-21). Nero (a p erso ­
nificação da besta) morreu em 68 d.C., durante os três anos e 
meio do julgamento de Deus sobre Israel (67-70 d.C.). Na rea­
lidade, ele morreu nas devastadoras guerras civis rom anas 
(68-69 d.C.), que quase derrubaram a poderosa Roma. Após 
Nero e durante obreve reinado dos três imperadores durante 
as guerras civis rom an as, os dois im p e rad o res se g u in tes 
(Vespasiano e Tito) não molestaram os cristãos.
0 M ILÊNIO (AP 20)
Quanto mais próximo João chega à sua conclusão, mais apa­
rece o glorioso resultado. Em Apocalipse 20, ele olha o futuro 
distante (o milênio começa no séc. i, mas o período necessari­
amente requer sua extensão além do espaço de tempo do pró­
ximo/ breve tempo da estrutura do livro). Na realidade, ele 
fornece a conseqü ência do longo-duradouro, da destruição 
de Israel e da proteção do reino de Cristo. Mais uma vez, a 
limitação de espaço não permite uma análise completa desse 
texto interessante, assim destaquei somente algumas das ca­
racterísticas mais importantes para o ponto de vista preterista 
que está sujeito a debate: os “mil anos”, a prisão de Satanás, o 
reinado de Cristo, e as ressurreições.78
Os m il anos
Somente um lugar em toda a Escritura limita o reinado de Cris­
to a mil anos: Apocalipse 20.1-10, meio capítulo no livro mais
78Para mais informações v. meu capítulo, “Postmillennialism”, em Darrell L. 
liock, org., Three views o f the míUennium and beyond (Grand Rapids: Zondervan, 
por vir).
86 ■ Apocalipse
figurativo na Bíblia. Como indiquei anteriormente em minha 
abordagem dos 144 000, o número 1 000 seguramente é uma 
soma simbólica que representa perfeição quantitativa. As Es­
crituras, com freqüência, empregam esse número de um modo 
não-Iiteral: Por exemplo, Deus possui o gado apenas aos mi­
lhares nas colinas? (SI 50.10). O período do milênio poderia 
ser de fato milhares de anos, como a autoridade em hermenêu­
tica Milton Terry discute com com petência.79
A prisão de Satanás
Agora João aborda e inverte um tema anterior. Em 9.1, Sata­
nás caiu do céu (gr. ouranos) e fo i d ad a a chave do p oço do 
abism o. Em 20.1, Cristo desce do céu (gr. ouranos) e trazia na 
m ão a ch av e do ab ism o para prender Satanás e lançá-lo no 
ab ism o.
As Escrituras informam explicitamente que Cristo prendeu 
Satanás durante seu ministério no século i. Em resposta às 
acusações que ele estava exorcizando demônios pelo poder 
de Satanás, o Senhor respondeu: “Mas se é pelo Espírito de 
Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino 
de Deus. Ou, como alguém pode entrar na casa do hom em 
forte e levar dali seus bens, sem antes amarrá-lo? Só então 
poderá roubar a casa dele” (Mt 12 .28 ,29 ; n v i). A ascensão de 
Cristo ao Reino de Deus implicou exercer seu poder sobre o 
reino de Satanás (v. 26): Ele arrebatou os homens e as mulhe­
res do controle de Satanás. Visto que ainda estamos no milê­
nio, Cristo atualmente continua despojando a casa de Satanás, 
pregando o Evangelho que salva as pessoas da escuridão e as 
transporta para seu Reino (Cl 1.13; v. At 26.17,18).
Cristo prendeu Satanás para um propósito bem definido: 
“para assim impedi-lo de en g an ar a s n ações” (Ap 20.3 ; grifo 
do autor). No a t somente Israel conheceu o verdadeiro Deus 
(SI 147 .19 ,20 ; Am 3.2; Lc 4.6; At 14.16; 17.30). Mas a encarnação 
de Cristo mudou isso, conforme o Evangelho começou a fluir 
a todas as nações (e.g., Is. 2.2 ,3 ; 11.10; Mt 28.19; Lc 2.32; 24 .47; 
At 1.8; 13.47). Na realidade, Cristo julgou os judeus e abriu 
seu reino aos gentios (Mt 8 .11 ,12 ; 21 .43 ; 23.36-38). (Observe,
79Biblical Apocalyptics, p. 451 .
0 ponto de vista preterista ■ 87
porém, que o n t promete em outras passagens a entrada final 
dos judeus no reino de Deus, encorajando-nos assim a evan- 
gdizá-los; v. At 1.6,7; Rm 11.11-25; 15.12.)
Logo, como Cristo prendeu Satanás, o resultado é que seu 
poder enganoso sobre as nações está enfraquecendo, e o Evan­
gelho avança em todo o mundo. Na realidade, a Grande Comis­
são necessita esse estado novo de acontecimentos. Apesar da 
autoridade de Satanás antes da vinda de Cristo (Lc 4.6; Jo 12.31; 
14.30; 16.11; Ef 2.1,2), Cristo agora declara: “Foi-me dada toda 
a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discí­
pulos de todas as nações" (Mt 28.18,19). Cristo comissionou a 
Paulo essa mesma tarefa: “Eu o livrarei do seu próprio povo e 
dos gentios, aos quais eu o envio para abrir-lhes os olhos e 
convertê-los das trevas para a luz, e do poder de Satanás para 
Deus, a fim de que recebam o perdão dos pecados e herança 
entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.17,18).
Por conseguinte, o n t , com freqüência e de forma veem en­
te, fala da morte de Satanás sobre esse aspecto (v. Mt 12.28,29; 
Lc 10.18; Jo 12.31; 16.11; 17.15; At 26 .18 ; Rm 16.20; Cl 2.15; 
Hb 2.14; l j o 3.8; 4 .3 ,4 ; 5.18). As próprias palavras de Jesus 
harmonizam bem com Apocalipse 20: “Chegou a hora de ser 
julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mun­
do [gr. ekballÕ]" (Jo 12.31). Apocalipse 20.3 diz que Cristo “lan­
çou” [gr. bailo] Satanás no abism o. Outros escr itores do nt 
concordam. Paulo escreveu: “... e, tendo despojado os pode­
res e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triun­
fando so bre e les na c r u z ” (Cl 2 .1 5 ) . O au to r de Hebreus 
observou: “Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne 
e sangue, ele também participou dessa condição humana, para 
que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da 
morte, isto é, o Diabo” (Hb 2.14). E João expressou isto desse 
modo: “Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir 
as obras do Diabo” ( l jo 3.8).
A prisão de Satanás, então, começou no século i. Cristo ini­
ciou-a durante seu ministério (Mt 12.24-29) e a assegurou legiti­
mamente com sua morte e ressurreição (Lc 10.17; Jo 12.31,32; 
Cl 2.15; Hb 2.14,15), e “provou” isto dramaticamente no colapso 
do primeiro inimigo do cristianismo, o judaísmo (Mt 23 .3 6 — 
24.3; lTs 2.14-16; Ap 3.9). O legado de Jerusalém é significante, 
visto que a resistência satânica ao reino de Cristo vem primeira­
mente com a perseguição dos judeus a Cristo e ao cristianismo.
88 ■ Apocalipse
A lei de Cristo
Os co m e n tá r io s a n te r io r e s j á in d ica ra m o en te n d im e n to 
preterista da lei de Cristo. O “domínio e reinado” do Apocalipse 
com Cristo demanda duas realidades espirituais importantes, 
e presentes. 1) Cristo estabeleceu seu reino no século i.80 Mateus 
1 2 .28 ,29 compara o pensam ento de Apocalipse 20 .1-6 clara­
mente, porque nos dois lugares vemos a relação do reino de 
Cristo e a prisão de Satanás (v. acima). Realmente, o reino este­
ve próximo no primeiro ministério de Cristo porque “o tempo 
é chegado” (Mc 1.14,15). O poder de Cristo sobre os demônios 
mostra a presença do reino durante seu ministério na terra (Mt 
12.28; v. 8 .29; Mc 1.24; 5.10; Lc 8.31); Seu reino não espera 
alguma vinda futura, visível (Lc 17.20,21; Cl 1.13).
Por conseguinte, Cristo reivindicou ser Rei quando estava 
na terra (Jo 12 .12-15 ; 18 .36 ,37) , e Deus o entronizou como 
Rei após sua ressurreição e ascensão (At 2.30-36). Desde sua 
ressurreição, Cristo tem “toda a autoridade nos céus e na ter­
ra” (Mt 28.18), porque ele está à destra de Deus, dominando o 
seu reino.81 Como resultado, os cristãos do século i o procla­
maram Rei (Mt 2.2; At 17.7; Ap 1.5), e novos convertidos en­
traram em seu reino (Jo 3.3; Cl 1 .12,13; lT s 2.12).
2) A outra realidade envolve nosso governo presente com 
ele, em seu reino. João diz às sete igrejas do século i que Cristo 
“nos constituiu reino e sacerdotes para servir a seu Deus e Pai” 
(Ap 1.6). Esta realeza sacerdotal presente é exatamente o que 
Apocalipse 20 relata do reino milenar: “Serão sacerdotes de Deus 
e de Cristo, e reinarão com ele durante mil anos” (20.6).
Paulo m enciona nosso governo presente tam bém : “Deus 
nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos 
lugares celestiais em Cristo Je s u s ” (Ef 2.6; v. 1.3; Cl 3.1-4). 
Q uaisquer resp ostas su rp reend entes que pudessem surgir 
contra esse ponto de vista, um fato permanece: a Bíblia nos 
ensina que estamos agora “assentados com ele”.
As ressurreições
Apocalipse 20 associa duasressurreições ao reino milenar de Cristo. 
Uma ressurreição é espiritual e presente; a outra é física e futura.
80V. meu ensaio “Postmillennialism" em Three views o f the én d o f history.
81Mc 16.19; Lc 22.69 ; At 2.33; 5.31; 7 .55 ,56 ; Rm 8.34; 14.11; Ef 1 .20-23; Cl 1.18; 
3.1; Hb 1,3,13; 8.1 ; 10.12; 12.2; lPedro 3.22; Ap 17.14; 19 .16.
0 ponto de vista preterista ■ 89
Apocalipse 2 0 .4 -6 m enciona dois grupos que governam 
com Cristo e que são “felizes e santos” e que participam “da 
primeira ressurreição” (v. 6).82 João vê primeiro “as almas dos 
que foram decapitados por causa do testem unho de Jesus e 
da palavra de Deus". Essas “alm as” são os santos que m orre­
ram a serviço de Cristo. Ele também vê aqueles que “não ti­
nham adorado a b e s ta nem a sua im agem , e não t inham 
recebido a sua marca na testa nem nas m ãos”. Esses são os 
santos vivos que atualmente vivem, para Cristo na terra.
Essa primeira ressurreição é a salvação. Observe como João, 
o autor de Apocalipse, registrou anteriormente a instrução de 
Cristo, na qual ele compara a ressurreição espiritual à salva­
ção presente e a ressurreição física ao destino eterno:
Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me 
enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da 
morte para a vida. Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já 
chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles 
que a ouvirem, viverão [...]
Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em 
que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os 
que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o 
mal ressuscitarão para serem condenados (Jo 5 .24 -29 ; grifo do 
autor).
Na realidade, por causa da ressurreição física de Cristo, so­
mos ressuscitados espiritualmente (Rm 6.4-14; Ef 2.5,6; Cl 3.1).
João não menciona a segunda ressurreição expressamente 
em Apocalipse 20. Deduzimos isso de três fatores no texto: 1) 
referência à “primeira ressurreição” (uma linguagem que re ­
quer uma “segunda” ressurreição); 2) o “restante dos mortos 
[não voltam] à vida” até após os mil anos; e 3) a cena do ju lg a ­
mento nos versículos 12 e 13. A segunda ressurreição é m en­
cionada em João 5 .28 ,29 : É a ressurreição física do “túmulo” 
(v. Jó 19 .25-27 ; Jo 6 .3 8 -5 0 ,5 4 ; 1 1 .2 4 ,2 5 ; At 24 .15 ; Rm 8 .11 ; 
lT s 4 .1 4 -1 7 ) . Em Apocalipse 2 0 .7 -1 5 , testem unham os a Se­
gunda Vinda e o julgam ento final. Mas desde que isto é tão 
distante dos dias de João, ele os menciona rapidamente.
A mistura, feita por João das realidades espirituais e literais 
aqui, quando compara a ressurreição espiritual e a ressurreição
S2Neste assunto usarei a tradução da n a s b que é mais precisa.
90 ■ Apocalipse
física não é sem precedentes. Por exemplo, como observei an­
teriormente, João registra as palavras de Cristo com respeito 
a comer o pão (Jo 6 .49,50), onde ele compara o alimento esp i­
ritual do corpo de Cristo com o com er litera l do maná no 
deserto — em seguida compara a morte espiritual e a morte 
física: “Os seus antepassados com eram o maná no deserto, 
mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu, 
para que não morra quem dele com er”. As mesmas palavras 
“com er” e “morrer” ocorrem em ambas declarações, mas abran­
gem conotações diferentes. O mesmo é verdade de “voltou a 
viver” em Apocalipse 20.4 ,5 .
A NOIVA DO CÉU (AP 21 E 22)
João agora chega à sua conclusão — e que gloriosa conclusão! 
Como o leitor pode presumir agora, o preterista entende essa 
passagem de forma bem diferente do futurista e nesse ponto 
está mais próximo ao do idealista. No capítulo 21, João teste­
munha a noiva de Cristo, adornada gloriosamente, descendo 
dos céus para uma nova criação: “Então vi novos céus e nova 
terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; 
e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém, 
que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma 
noiva adornada para o seu marido” (21.1,2).
A no iva id en tif icad a
Entender essa passagem requer analisar a nova imagem da 
nova criação/ nova Jerusalém à luz das Escrituras anteriores. 
Uma vez que façamos isso, veremos que a nova criação com e­
ça no século i.
1) A época de João requer um contexto do século i. A des­
crição da nova criação e da nova Jerusalém, cidade-noiva, se 
desdobra de Apocalipse 2 1 . 1 a 22.5. Logo a seguir, lemos: “O 
anjo me disse: ‘Estas palavras são dignas de confiança e ver­
dadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou 
o seu an jo para m ostrar aos seus servos as coisas que em 
breve h ão de a c o n t e c e r (22.6; grifo do autor). E para se ter 
um bom parâmetro, quatro versículos à frente João acrescen­
ta: “Então me disse: ‘Não sele as palavras da profecia deste 
livro, pois o tem po está próxim o’” (22.10, grifo do autor). Um
0 ponto de vista preterista ■ 91
iciardamento de milhares de anos anularia a sadia exegese des­
sas claras declarações temporais.
2) A seqüência do Apocalipse supõe um estabelecim ento 
no século i. Como observa Robert Thomas, há uma “antítese 
principal en tre as duas m ulh eres nos ca p ítu lo s f in a is do 
Apocalipse”.83 Minha compreensão dessa antítese é que a nova 
Jerusalém está substituindo a antiga Jerusalém . A vinda da 
Nova Jerusalém dos céus (caps. 21 e 22) deveria, logicamente, 
seguir a destruição da antiga Jerusalém na terra (Ap 6— 11,14—
19), em vez de milhares de anos de espera.
Lembrem-se, as cenas de julgamento do Apocalipse focali­
zam principalm ente Israel, a esposa de Deus do a t . Deus a 
está julgando por rejeitar seu Messias (Ap 1.7; 5.1ss; 11.8; v. 
Mt 23 .3 7 —24.2; Jo 19.12-16; G1 4 .25-31) e por perseguir seus 
seguidores (Ap 6 .10-12; 16.6; 17.6; 18.24; v. Mt 23 .34-36 ; lTs
2.14-16). Isto é, ela está sendo castigada por cometer adulté­
rio espiritual. O anjo fala a João que ela embriaga os habitan­
tes da terra “com o vinho da sua prostituição” (Ap 17.2) que 
inclui o ser “em briagada com o sangue dos s a n to s” (17.6). 
Depois que Deus anuncia o seu decreto de divórcio (cap. 5), 
ele condena a prostituição de Jerusalém com pena de morte 
(caps. 6— 11; 14— 18) e é o anfitrião do banquete do casam en­
to real (19.7-20); logo após, a nova Jerusalém aparece “prepa­
rada como uma noiva adornada para o seu marido” (21.2).
3) A linguagem da nova criação sugere um am biente do 
século i. A nova criação começa o curso na história antes da 
consumação final (que estabelecerá uma completa e nova or­
dem física, 2Pe 3 .10-13). A passagem da nova criação exem ­
plar, que serve como pano de fundo de João, é Isaías 65 .17 ,20 :
Pois vejam! Criarei
novos céus e nova terra, 
e as coisas passadas não serão lembradas,
Jamais virão à mente [...]
Nunca mais haverá nela
uma criança que viva poucos dias, 
e um idoso que não com plete os seus anos de idade; 
quem m orrer aos cem anos 
ainda será jovem, 
e quem não chegar aos cem será maldito.
83Revelation 8—22 p. 569.
92 ■ Apocalipse
Aqui Isaías escreve claramente que essa nova criação ainda 
experimenta o pecado, o envelhecimento, e a morte. Assim, 
não pode recorrer ao céu ou à nova criação, consum ada e 
eterna. Paulo usa linguagem semelhante à de João (Ap 21.1) 
quando descreve a nova condição do cristão em Cristo: “Por­
tanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas an­
tigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2Co 5.17; 
v. Ef 2.10; 4 .24 ; G1 6.15).
4) A teologia do n t sustenta um panorama do século i. No 
n t , a igreja aparece como a noiva de Cristo (Ef 5 .25-28; 2Co 
11.2; v. Jo 3.29). Essa nova noiva (a igreja internacional) deve 
substituir a antiga esposa (a igreja alicerçada em um povo, 
Israel). Essa mudança é finalizada dramaticamente em 70 d.C., 
quando Deus removeu o templo físico da terra. João retrata a 
finalidade do ju lgam ento de Israel até mesmo como o ban­
quete do casamento (Ap 19.9).
O n t antecipa essa m udança im inente daera do templo 
tipológico para a nova era final de adoração espiritual:
Jesus declarou: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em 
que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém 
[...] No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os 
verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. 
São estes os adoradores que o Pai procura” (João 4 .21 ,23 ).
A experiência de Pentecostes em Atos 2 se antecipa ao dia da 
próxima vinda do Senhor contra Jerusalém por crucificar Cris­
to (At 2 .16 -23 ,36 -40 ) .84 Veja a expectativa em Mateus 2 3 .3 6 — 
24.3 ,34 ; 26 .64 ; Marcos 9.1; João 4 .20-24 ; Romanos 13 .11 ,12 ; 
16.20; ICoríntios 7.26,29-31; Colossenses 3.6; ITessalonicenses 
2.16; Hebreus 2.5; 10.25,37; 12.18-29; Tiago 5.8,9; lPedro 4.5,7; 
e l jo ã o 2.17,18.
A no iva descrita
Mas que dizer de todas as expressões majestosas em Apocalipse 
21 e 22? O preterista acredita que João está expressando, por 
meio de uma imagem poética elevada, a glória da salvação.
84A presença de línguas estrangeiras em Israe! evidencia o julgamento de 
Deus (Dt 28.49; Is 28 .11 ; Jr 5.15; ICo 14.21 ,22). Assim, a experiência de línguas 
do Novo Testamento serve como um sinal da ira de Deus sobre ela.
0 ponto de vista preterista * 93
Nisso divergimos dos intérpretes que se esforçam em favor 
do literalismo. Robert Thomas, por exemplo, escreve da cida­
de de 1 500 milhas cúbicas (21.16): “Um tanto incrível à mente 
humana [...] uma cidade de 2 200 quilômetros de altura e 2 200 
quilômetros de cada lado é tão inimaginável como uma péro­
la grande o bastante para servir como o portão da cidade ou o 
ouro tão transparente como o vidro”.85 (Deveríamos observar 
isso na exegese literalista, essa cidade é 1 920 quilômetros mais 
alta do que as órbitas do ônibus espacial!) Novamente, as restri­
ções de espaço permitem somente uma pesquisa breve sobre 
o assunto.
A ausência do mar (21.1) fala de harmonia e de paz nesse 
contexto . Nas Escrituras, o mar sim boliza, com freqüência, 
discórdia e pecado (13.1 ,2 ; v. Is 8 .7 ,8 ; 23 .10 ; 57 .20; Jr 6.23; 
46 .7 ; Ez 9.10). O cristianismo oferece o oposto: paz com Deus 
e entre os homens (Lc 2.14; Rm 5.1; Ef 2 .12-18; Fp 4.7,9).
A ígreja-noíva é o tem plo-tabernáculo de Deus (Ap 21.3) 
porque Deus mora nela; não há necessidade de nenhum tem ­
plo literal (2 1 .2 2 ; v. Ef 2 .1 9 -2 2 ; ICo 3 .16 ; 6 .1 9 ; 2Co 6 .16 ; 
lPe 2.5,9). A antiga Jerusalém com seu tabernáculo/ templo 
“feito por hom ens” (Hb 9.24) está chegando ao seu fim, en­
quanto o novo tem plo de Jeru sa lém o su bstitu i (Hb 8 .13 ; 
9 .11 ,24 ; 12.18-28). Isto finalizou em 70 d.C.
Hebreus 12 é uma passagem im portante para m ostrar a 
mudança de eras (que é a mensagem da carta inteira). O autor 
está escrevendo aos cristãos judeus que estavam correndo o 
risco de apostatar, abandonando a Cristo para retornar ao ju ­
daísmo. Conforme se aproxima de sua conclusão, ele com pa­
ra os dois mundos: o do judaísmo (12.18-20) e do cristianismo 
(12.22-28). Sua descrição do cristianismo tem pontos de con­
tato com João, em Apocalipse:
Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade 
do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em 
alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão es­
critos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos os homens, 
aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de uma 
nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o 
sangue de Abel [...]
85Revelation 8—22, p. 467.
94 ■ Apocalipse
Portanto, já que estam os recebendo um reino inabalável, seja­
mos agradecidos e, assim, adorem os a Deus de modo aceitável, 
com reverência e tem or (Hb 12 .22-24 ,28).
Apocalipse 21.1-8 informa que essa nova salvação da cria­
ção remove as aflições (v. 4; v. ICo 15.55-58; lTs 4.13; Tg 1 .2 ­
4), pois introduz o indivíduo na família de Deus (Ap 21.7; v. 
Jo 1 .12,13; l j o 3.1-3), e traz vida eterna (Ap 21.6).
Apocalipse 21 .9—22.5 fala da majestade da noiva, a igreja. 
Ela resplandece brilhantemente como a luz (21 .10 ,11 ; v. Mt
5.14-16; At 13.47; Rm 13.12; 2Co 6 .14 ; Ef 5.8-14). Ela é precio­
sa a Deus e tão cara quanto o ouro e jó ias (Ap 21 .11 ,18 -21 ; v. 
ICo 3.12; lPe 1.7; 2.4-7). Ela tem um alicerce seguro e paredes 
inconquistáveis (Ap 21 .12-21 ; v. Is 26 .1 ; 60 .18 ; Mt 16.18; At 
4 .11 ; ICo 3.10-15; Ef 2 .19,20). Assim, ela é destinada para ter 
uma poderosa influência no mundo (Ap 21.16; v. Is 2.2-5; Ez 
17.22-24; 47 .1 -11 ; Dn 2.31-35; Mq 4.1 ; Mt 13 .31 ,32 ; 28 .18-20 ; 
Jo 3.17; ICo 15.20-28; 2Co 5.19). Ela é cuidada pela provisão 
de Deus com a água da vida (Ap 2 1 .2 2 ; 22 .1 -5 ; v. Jo 4 .1 4 ; 
7 .37 ,38 ; 6 .32-35). Assim, ela traz cura às nações pela sua pre­
sença (Ap 22.2 ,3 ; v. Is 53.5; Ez 47 .1-12 ; Mt 13.33; Lc 4 .18 ; Jo 
4 .14 ; GI 3.10-13; Hb 5.12-14; lPe 2.2,24).
CONCLUSÃO
Apesar de séculos de discussão, debate, e confusão em rela­
ção a Apocalipse, o livro é ainda um dos 66 livros do cânon de 
Deus. Merece nossa atenção, apesar de, às vezes, ser confuso. 
Este é o único livro no n t que tem uma bênção ligada à sua 
leitura (Ap 1.3). Precisamos ler cuidadosamente e estudar essa 
maravilhosa obra de arte. No processo precisamos ser caute­
losos quanto à extravagância descuidada de muitos populistas 
m odernos .
O entendimento dos preteristas do Apocalipse está arrai­
gado na hermenêutica confiável e em princípios teológicos — 
e contém uma verificação histórica surpreendente. As observa­
ções temporais do Apocalipse são levadas a sério (1.1,3; 22.6, 
10,12), observa cuidadosamente o contexto histórico de Apo­
calipse (caps. 2 e 3), e ouve atentam ente os profetas do a t 
apocalíptico (Is 13; 34; Ez 32). Explica a enorme mudança re- 
dentora-histórica da antiga para a nova aliança. Nesse pro­
cesso o preterismo também fornece encorajamento aos crentes
0 ponto de vista preterista ■ 95
hoje, ao m ostrar os grandes ju lg am en to s do Apocalipse já 
cumpridos, possibilitando e antecipando nossa com pleta e s ­
perança do futuro conforme a glória da igreja se desdobra na 
história.
A p os içã o id ealista d e Sam Hamstra, tam bém denominada 
de o “infinito sim bólico” ou “poético-sim bólico”, nega que o 
Apocalipse e s te ja descrevendo um ob jetivo , e de modo a l­
gum é um retrato histórico. Todavia, João pretende fornecer 
um com pêndio não-histórico, a legórico, de várias verdades 
redentoras significantes ou de princípios históricos. O Apoca­
lipse, então, tenta fornecer o panorama atrás do cenário. Isto 
é, apresenta um aspecto filosófico de assuntos espirituais en­
volvidos na história, mais do que eventos históricos propria­
mente dito.
Claro que, até certo ponto, esse ponto de vista poderia ser 
verdade do m esm o tempo que quaisquer dos outros pontos 
de vista, pois a história é na realidade a realização de princí­
pios divinamente estabelecidos. Porém, não pode ser in ter­
pretado apropriadamente se for posicionado isoladamente. O 
Apocalipse parece estar tão preocupado com histórias co n ­
cretas que negligenciar com pletamente os eventos históricos 
parece desafiar os fatos. O Apocalipse é tão longo e complexo 
que esse ponto de vista seria parecido com o idealismo, se 
isso fosse a intenção de João, pois ele poderia ter sido apre­
sentado em um espaço m enor e sem dar essa aparência de 
realidade histórica. Além disso, subestima os indicadores do 
período do livro.
A visão futurista dispensacionalista de Robert Thomas abor­
da o Apocalipse como uma série de profecias (começando em 
Ap 4.1), que lidam com o futuro remoto em relação à época de 
João. Essa visão compreende o Apocalipse como um livro pre­
ocupado com os últimos assuntos históricos que o mundo e/ 
ou a igreja somente enfrentará antes do retorno de Cristo.
As fraquezas do futurismo incluem o seguinte: Remove qua­
se totalmente a relevância do Apocalipse do público contempo­
râneo de João, especialmente na época de seu grande sofrimento.Ele tem de reinterpretar fenômenos na época de João para fazê- 
los ajustar-se aos tempos modernos. Negligencia as reivindi­
cações da proximidade dos eventos no Apocalipse. Por não 
estar sujeito à verificação histórica no momento atual, e assim 
é impossível de falsificação; desse modo falha no princípio de
96 ■ Apocalipse
verificação filosófica que, de acordo com alguns pensadores, torna 
isto filosoficamente sem sentido.
O ponto de vista do já/ ainda não vem do dispensacionalismo 
progressivo em que C. Marvin Pate procura adaptar elementos 
de cada um dos pontos de vista em um sistema. Como indi­
quei anteriormente em minha apresentação, porém, o princí­
pio do já/ ainda não pode ser sustentado em um trabalho tão 
grande quanto o Apocalipse. Além disso, o Apocalipse reivin­
dica especificamente o relacionar eventos “brevemente por vir”, 
visto que “o tempo está próximo”. Por que não aceitar as decla­
rações de João como se tivessem um valor real — especialmen­
te, desde que ele os apresenta em suas seções didáticas, as 
quais introduzem e concluem o seu trabalho?
O preterismo parece fornecer a mais coerente, pertinente e 
exegeticamente confiável abordagem a esse que é o mais difícil 
livro da Bíblia. O princípio preterista pode ser distorcido, claro 
que — alguns liberais o adotam (isento de seu supernaturalismo, 
logicamente), como também o princípio futurista — algumas 
seitas milenaristas o adotam (e.g., mormonismo, Testemunha 
de Jeová). O mesmo pode ser dito quanto aos princípios idea­
listas e progressivos. A tarefa dos cristãos dedicados é exami­
nar cuidadosamente os assuntos em conformidade com toda 
a Bíblia.
2
0 ponto de vista
I d e a l is t a
■ Sam Hamstra Jr.
IDEALISTA1
A P O C A L IP S E H O W 2
Neste tempo que estamos vivendo, o ser hum ano precisa de 
segurança. Atualmente, é preciso ter esperança, porque as co i­
sas não são como realmente deveriam ser; as dificuldades a fe ­
tam nossa vida em todos os aspectos.3 Entre o s muitos pro­
blemas, uma doença que está matando a mulher ou o marido, 
o filho que rejeitou a fé pela qual morreria, a filha que é a s s e ­
diada por um homem casado que tem um cargo na igreja, e 
seu cargo profissional de gerência que foi despedido devido 
à redução de custos. Além dessas calam idades, a luxúria, a 
ganância, e o orgulho estão entrincheirados no vazio do seu 
ser e afetam todo o seu pensamento e atitudes. Sua esperança 
para se assemelhar a Cristo está desvanecendo.
'Este capítulo é um sumário da obra de diversos estudiosos da tradição idealista. 
Como leitura adicional recomendo: Raymond Calkins, The social message of the Book o f 
Revelation (New York: The Womans Press, 1920); William Hendriksen, More than Conquerors: 
An Interpretation of the Book of Revelation (Grand Rapids: Baker, 1944) [Publicado em 
português com o título Mais que vencedores (São Paulo: Cultura Cristã, 2001)], e Three 
lectures on the Book o f Revelation (Grand Rapids: Zondervan, 1949); William Milligam, The 
Revelation o f St. John (London: MacMillan, 11*6), Lectures on the Apocalypse (London: 
MacMillan, 1892), e Discussions on the Apocalypse (London: MacMillan, 1893); e Ame 
Unjhem, The Book of Revelation (Philadelphia: Lutheran Church Press, 1967).
20 título do filme de 1979, escrito por John Milius e Francis Ford Coppola, 
serve como um bom título para esta seção, entretanto qualquer semelhança 
entre os dois é mera coincidência. [Não traduzim os o su btítu lo acima por 
Apocalipse Agora porque no Brasil o filme manteve o título original (N. do E.)]
3Cornelius P l a n t i n g a J r ., Não era para ser assim: um resum o da dinâmica c 
natureza do pecado, São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
100 ■ Apocalipse
Politicamente, está claro que vivemos em uma sociedade 
pós-cristã. As escolas públicas não têm lugar para Deus. Os 
tribunais lutam entre o direito de escolher e o direito de mor­
rer. Grupos distintos exercem influência junto às autorida­
des em prol do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A 
herança judeu-cristã de nosso país é uma lembrança. De for­
ma global, a e s ca s se z , a fome, e as doenças ceifam in d is­
crim inadam ente a vida de crianças e adultos, de crentes e 
incrédulos. Direitos humanos básicos são violados à medida 
que o rico oprime o pobre, e o poderoso o fraco. A principal 
indústria no planeta é a guerra, privando o mundo de uma 
nova geração de líderes talentosos, enquanto homens e mu­
lheres jovens caem mortos, não em campos abertos de bata­
lha com o nos sécu lo s passados, mas em ruas de cidades 
flanqueadas por espectadores inocentes.
Finalmente, a igreja de Jesus Cristo, seu amor e sua vida, 
cedeu em suas convicções, perdeu sua referência, e diminuiu 
sua influência, a ponto de a palavra de um papa ser negligen­
ciada e a palavra de um missionário resultar em sua morte. 
Cada geração de fiéis se distancia cada vez mais do entusias­
mo e da convicção daqueles que os precederam. A igreja local 
não fica para trás também, pois sofreu sua segunda divisão — 
a primeira porque o pastor foi pego na cama com a organista 
da igreja, e a segunda porque alguns preferem o céu para 
todos em vez do inferno para alguns. Outras congregações 
oferecem pouca esperança. Sofrem de indiferença, uma con­
dição pior do que a oposição direta à fé.
Você mora em uma ilha chamada Patmos. Como Davi, você 
clama “Meu Deus, por que me abandonastes?” Como Jó, você 
pergunta a si m esm o por que o ímpio e o mal prosperam. 
Como os santos ao longo das gerações, você questiona a so ­
berania de um Deus que prometeu vida abundante em Jesus 
Cristo. Você precisa de uma palavra do Senhor.
O Deus da graça, que estabeleceu aliança com suas crian­
ças, ouve seu clamor e responde com uma série de visões, 
reunidas em um livro chamado o Apocalipse de João. A m en­
sagem transmitida por essas visões é simples: embora, neste 
momento, os filhos de Deus sofram em um mundo onde o 
mal parece ter o controle, Deus é soberano e Jesus Cristo foi 
vitorioso. Sim, você sofre como morador deste mundo que carre­
ga a marca do pecado de Adão. Sim, você sofre perseguição
0 ponto de vista idealista ■ 101
como propagador do evangelho, mas Deus o Pai o preservará 
c o protegerá como também a cada um de seus filhos de modo 
que nenhum se perca.4 Além disso, Cristo executará a última 
vitória sobre Satanás e suas hostes, quando ele julgará e pu­
nirá os perversos. Então, agüente firme. Não desista. Perma­
neça fiel ao seu chamado como um filho de Deus. Viva pela fé, 
não por você mesmo, porque seu Senhor soberano derrotou 
Satanás. Você reinará com Cristo, porque o reino deste mun­
do se tornou o reino de nosso Senhor, Jesus Cristo.
Esta palavra do Senhor vem como nenhuma outra. Não vem 
na forma de carta, como aquela do apóstolo Paulo que, afirma 
palavras de esperança — “nem qualquer outra coisa na cria­
ção será capaz de nos separar do amor de Deus que está em 
Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39), e “sabemos que Deus 
age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos 
que foram chamados de acordo com o seu propósito” (8.28). 
Você não recebe uma simples declaração da verdade como a 
de Efésios 6.12: “Pois a nossa luta não é contra seres huma­
nos, mas contra os poderes e autoridades, contra os domina­
dores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do 
mal nas regiões celestiais”. Tampouco recebe uma palavra re­
confortante de vitória nos relatos históricos da vida de Cristo 
que proclamou vitória sobre o mundo (Jo 16.33). Mais propri­
amente, pela inspiração do Espírito Santo, você recebe a m en­
sagem de Deus por uma série de visões que desfilam perante 
seus olhos como um filme animado, impressionando-o com 
desenhos gráficos e símbolos coloridos.
Os estudiosos descrevem essa apresentação pictórica da 
verdade como apocalíptica, um estilo de com unicação e e s ­
crita caracterizada por cores que intensificam o relato, ima­
gens vividas, s ím bolos exclusivos, um enredo simples, um 
herói, e um final feliz. Assim,em Apocalipse você conhece 
anjos, animais e números. Vê raios e ouve trovões. Presencia 
terremotos e batalhas. Observa o cintilar das jóias e uma mu­
lher vestida com o sol que enfrenta um terrível dragão. Vê um 
cavaleiro em um cavalo branco e ouve a letra do coro. Aleluia.
Você aborda a literatura apocalíptica de forma distinta da 
que faria com uma carta ou um dos Evangelhos. No Apocalipse,
4The H eidelberg cathecism question and answer, p. 54.
102 ■ Apocalipse
as palavras substituem pigmentos e pincéis para criar uma 
imagem p ro jetada para visualizar grandes princípios, não 
incidentes particulares. Ao resistir à tentação de analisar a 
imagem descrita em cada visão, você permite que a visão 
como um todo o impressione. E certamente impressionará. O 
Apocalipse de João, como parte do cânon bíblico, a Palavra 
inspirada de Deus para seus filhos, iluminará de uma manei­
ra nova os relevantes ensinamentos encontrados ao longo da 
Bíblia.
Em tem pos como estes, você precisa de uma palavra do 
Senhor. Você não precisa de uma lição de história da igreja 
militante do século i, tampouco do último século. Você não 
precisa de uma visão profética de um dia que você jam ais 
experimentará nesta vida. Neste momento, em sua luta com 
o pecado e o mal, você precisa de uma palavra cheia de e s ­
perança do Senhor. Você precisa do Apocalipse de João n es­
te exato momento.
Alguns abordam o Apocalipse de maneira diferente. Tal­
vez, ingenuamente, seguros em suas casas luxuosas, eles se 
desviam do mal e do pecado que desolam seus irmãos em 
Cristo por todo o mundo. Pensam que estão em paz, após ter 
aprendido o hábito de uma atitude mental positiva. Não pre­
cisam de palavra de conforto e esperança. Então, abordam o 
Apocalipse como uma lição de história, memorizando trom ­
betas e taças assim como presidentes e guerras, ou abordam 
o Apocalipse como um quebra-cabeça com milhares de peças 
pequenas. Como lazer, tentam ajuntar os selos, as bestas, a 
prostituta e as pragas. Não são abençoados pelas visões colo­
ridas, porque nunca são impressionados pela visão como um 
todo. Ficam apenas confusos porque não podem ajuntar as 
peças.
Porém, deixe que a dificuldade bata à sua porta e o Apoca­
lipse se torna tão precioso quanto era para João na ilha de 
Patmos. O livro do Apocalipse é para fiéis como você e o após­
tolo João, que acreditam que seguir o Senhor é um modo de 
contradição que penetra seus pensamentos mais íntimos, até 
mesmo à medida que são curados com paz.5 É para os crentes, 
como no século i, cuja única conquista foi a firme resistência
5Wilfrid J. H a r r i n g t o n , Understanding the Apocalypse, Washington, D.C.: Corpus 
Books, 1969, p. 56-8.
0 ponto de vista idealista ■ 103
sem uma real evidência de vitória. É para o crente que duvida 
da soberania de Deus, duvida da influência da igreja, e teme o 
poder do mal. A esses leitores, o Apocalipse oferece uma m en­
sagem de promessa, esperança, e vitória.
REVISÃO DO A P O C A L IP S E6
In trodução (Ap 1.1-20)
O capitulo de abertura do Apocalipse apresenta ao leitor o 
livro inteiro e guarda a chave de sua interpretação. Pode ser 
dividido em três partes: a introdução, a saudação e a visão 
inicial de Jesus ressurreto.
A introdução (v. 1-3) transmite cinco conceitos importantes:
1) Informa-nos que o livro não se originou de qualquer ser 
humano. É revelação de Deus o Pai e Deus o Filho, enviado a 
João pela ação sobrenatural de um anjo. Esse fato se provará útil 
ao leitor, quando for levado a rejeitar elementos fundamentais 
do Apocalipse, como a destruição total do mal, que parece in­
consistente com nosso entendimento limitado da divindade.
2) O narrador ou autor do Apocalipse é João. Embora o li­
vro contenha pouca informação biográfica sobre o autor, qua­
se todo estudioso ao longo dos séculos acredita que João é o 
apóstolo amado de Jesus, o autor do quarto Evangelho e das 
três cartas. A evidência intrínseca do livro parece consistente 
com essa conclusão.
3) A introdução informa que o Apocalipse contém uma mis­
tura de estilos literários. É predominantemente apocalíptico (v.
1), mas também profético (v. 3) e epistolar, conforme compro­
vado pelas referências tradicionais de saudação e de bênção. 
Como livro apocalíptico, os símbolos empregados nas várias 
visões são ferram entas para a com unicação de preceitos, e 
podem não ter conexão histórica com qualquer evento especí­
fico. Porém, um símbolo pode constatar o cum prim ento de 
um evento histórico ou pessoal sem exaurir seu significado.
4) O livro se destina a abençoar o leitor. Para muitos, inclu­
sive eu, o Apocalipse é uma fonte de frustração. Os cristãos
6Uma vez que não há consenso em relação ao esboço do livro, utilizo, 
geralmente, o esboço fornecido nas notas de estudo para o livro de Apocalipse 
na Bíblia de estudo n v i (São Paulo: Vida, 2003 ; no prelo).
104 ■ Apocalipse
passam horas lutando com a identidade do anticristo, o perí­
odo da tribulação, e a natureza do milênio. No fim, a leitura 
do texto raramente conduz a bênçãos, mas somente co n fu ­
são. João assegura que suas visões são registradas para nos 
abençoar. Assim, ele ilustra sua tend ência literária para a 
tríade: abençoados aqueles que leram, ouvem, e guardam no 
coração o que está escrito.
5) A introdução relata a urgência. O Apocalipse revela “o 
que em breve há de acontecer” (1.1; 22.6), porque “o tempo 
está próximo” (1.3). Essas palavras confirmam várias aborda­
gens ao Apocalipse, incluindo a idealista, que está convencida 
de que o Apocalipse descreve a era completa entre a primeira 
e a Segunda Vinda de Cristo.7
A sau d ação (v. 4-8), que segue o típico estilo epistolar in­
troduz os destinatários da carta. João seleciona sete congre­
gações por razões somente conhecidas por ele. Ele pode ter 
visitado cada uma delas durante os anos que permaneceu em 
Éfeso, porque todas as sete estão localizadas na região da Ásia 
Menor, da qual Éfeso era a capital.
João endereçou a carta intencionalmente às sete congregações, 
em vez de cinco, nove, ou onze. O número sete aparece com 
freqüência no decorrer do livro. Seu uso não é acidental. Em gran­
de parte do mundo antigo, certos números, especialmente entre 
os dez primeiros, eram universalmente associados a determina­
das idéias. Conforme avançamos, constataremos essa veracida­
de dos números três, quatro, sete, dez e doze. Porém, o número 
sete ultrapassa todos os outros, tanto na freqüência pela qual 
ocorre, quanto na importância dos objetos com os quais é asso­
ciado. O número sete representa totalidade, plenitude e perfei­
ção. Na saudação, portanto, as sete congregações representam a
7Observe a inconsistência dos outros pontos de vista esboçados neste livro 
com respeito a Apocalipse 1.1,3 . Ironicamente, Thomas propõe uma interpreta­
ção literal do Apocalipse, entretanto oferece uma compreensão simbólica “do que 
irá acontecer em breve”. Gentry propõe uma abordagem simbólica do Apocalipse, 
mas oferece uma interpretação literal de 1.3. Para Thomas, neste caso, signifi­
ca “o que deverá acontecer em breve”, ao passo que para Gentry já ocorreu. A 
abordagem do j á / ainda não, de Pate, lhe permite concordar com Gentry e 
T h om as, m as sua in te rp re ta çã o não p erm ite qualquer cum prim ento , do 
Apocalipse entre a primeira e Segunda Vinda de Cristo. A abordagem idealista 
afirma que Gentry tem razão: Em breve significa em breve! O idealista também 
concorda com Pate: O período de cumprimento não deveria ser limitado à 
época do relato do escritor.
0 ponto de vista idealista ■ 105
igreja de Jesus Cristo em cada país do mundo até o final dos 
tempos.
A saudação também inclui uma bênção consoladora, na qual 
João ora para que os leitores recebam a graça da paz, aquela 
profunda promessa para o âmago de nosso ser que permane­
ce tranqüilo mediante as dificuldades externas. Esta é a paz de 
Cristo dada pelo Espírito Santo, os sete espíritos, à medida que 
atua na igreja.
Finalmente, a saudação énotável pelo incentivo instantâ­
neo de um Deus soberano, o Alfa e o Ômega, que reinam com 
Jesus Cristo, o soberano dos reis da terra. O tema de um Deus 
soberano é o âmago do livro e reaparecerá de várias formas. 
João combina a primeira e a última letra do alfabeto grego 
como expressão simbólica, que afirma o Senhor como o pri­
meiro e o último, o com eço e o fim e qualquer coisa entre 
esses pontos. Essa afirmação confronta a dura realidade que 
pode fazer até mesmo o mais dedicado crente questionar se 
este é o mundo de nosso Pai. Além disso, Deus o Filho, o ca­
beça vitorioso da igreja, também está reinando com supre­
macia. Agora, no meio de nosso sofrimento, ele não pode ser 
visto, mas, como veremos, ele aparecerá em glória.
A visão inicial do Cristo exaltado (v. 9-20) é o foco ou centro 
da primeira visão. Nossa imaginação vai além da capacidade, 
conforme tentamos imaginar o Cristo descrito por João, cujo 
uso freqüente da palavra “semelhante” adverte que não deve­
ríamos entendê-lo literalmente. Ele usa linguagem terrena para 
descrever o que está além de descrição. O resultado final é 
uma imagem brilhante do Cristo exaltado que derruba João 
por terra. Uma verdade fica clara: o Cristo nessa visão não é o 
Jesus do Evangelho de João, quer dizer, Jesus em um estado 
de hum ilhação. Em Apocalipse, Je su s é o Filho do hom em 
vestido com m ajestade e armado com uma espada de dois 
gumes, a Palavra, para a batalha contra aqueles que se recu­
sam a se arrepender (2.16).
Há vários e lem entos fundam entais adicionais à primeira 
visão de João. 1) João se une a seus leitores assegurando que 
compartilha a tríade no sofrimento, no reino e na perseveran­
ça (1.9). Como discípulos de Jesus, eles suportam as aflições 
preditas pelo seu Mestre (Jo 15.20; 16.2).
2) João é comissionado como profeta do n t na tradição hon­
rada do a t . Igual a Ezequiel, Deus comissionou João por inter­
médio de uma visão para levar uma palavra profética ao povo.
106 ■ Apocalipse
A voz deu instruções para que João escrevesse o que viu — isto 
é, a visão do Filho do homem, a condição das sete congregações 
e o que está por vir.
3) João recebe ordem para registrar sua visão em um livro 
para os crentes em sete congregações específicas. O fato de 
haver somente um livro, em vez de sete, confirma que o livro 
é para toda a igreja cristã. As sete mensagens que se seguem, 
deveriam ser lidas juntas e não de forma isolada.
4) O Cristo exaltado anda entre os sete candelabros doura­
dos (v. 12), que representam as sete congregações na Ásia Me­
nor. Além disso, ele segura sete estrelas em sua mão direita, 
talvez uma referência para a liderança pastoral dessas com u­
nidades cristãs. A lição fica clara: a verdadeira igreja é sempre 
a candeia, irradiando a luz do evangelho glorioso de Cristo para 
ser disseminado em um mundo imerso nas trevas.8
As cartas às igrejas (A p 2.1— 3.22)
Visto que o Cristo exaltado tem uma espada de dois gumes 
saindo de sua boca, aguardam os uma palavra do Filho do 
homem. A primeira m ensagem é para as sete congregações 
da Ásia Menor (1 .11) . Essas co n g reg açõ es podem ter sido 
selecionadas por uma razão prática.9 Se traçarmos uma linha 
no mapa das sete cidades na ordem pela qual foram designa­
das, constatam os que seguimos uma rota aproximadamente 
circular pelo que era, inegavelmente, as regiões mais impor­
tantes da província da Ásia. Se o livro de João fosse enviado 
ao longo dessa rota, alcançaria o maior número de pessoas 
em um período mais curto de tempo, e este fato pode ter re­
presentado um fator na seleção e designação das igrejas. No 
entanto, por serem designadas sete, em vez de oito ou nove, 
isso sugere que outra idéia este ja em prática agora.10 Como 
observado anteriormente, o significado simbólico do sete como 
perfeição sugere que o autor está falando da igreja a todo o 
momento e em todos os lugares.
8H e n d r i k s e n , Three lectures on the book o f Revelation, p. 1 5 . ■
9U njhem, Book o f Revelation, p. 66.
10Edwin A. S chick , Revelation: the last book of the Bible, Philadelphia: Fortress, 
1 9 7 7 , p . 2 7 .
0 ponto de vista idealista ■ 107
A descrição das sete igrejas desse tempo é uma franca ilus-
i ração do que pode acontecer na vida congregacional c o n s ­
tantemente e em todos os lugares. As cartas forn ecem um 
olhar mais íntimo da noiva de Cristo, o que ajuda o leitor a 
entender sua origem divina e a fragilidade do ser humano. 
Pelas cartas, testemunhamos sua graça e defeitos, seu zelo e 
indiferença, suas alegrias e tristezas, sua proteção por Cristo 
e a vitória final após muitas lutas.11 Claro que as sete ilustra­
ções dos problem as congregacionais não se igualam a um 
catálogo completo das possibilidades de fracasso. Os perigos 
para as igrejas da Ásia foram relacionados às condições da­
quela parte do mundo naquele tempo. Os perigos para as igre­
jas de hoje estão relacionados às con d ições de vida com o 
existem aqui e agora. Mas o significado desses perigos é sem ­
pre o mesmo: qualquer outra coisa (não importa o quê) pode 
desviar a atenção da igreja em relação a Cristo, a verdadeira 
vida e significado da igreja, onde quer que ela es te ja .12
Cristo é o mensageiro apropriado, porque ele é o Senhor da 
igreja (1.12,13), que sabe (2.2) o caráter e a vida de cada congre­
gação, como também a posição e os problemas de cada mem­
bro. Ele está atento à fragilidade da vida e é compassivo com os 
que lutam, mas não tolera qualquer forma de falso cristianismo. 
Em conseqüência disso, a igreja tem de se sujeitar a todo mo­
mento ao exame minucioso. Introspecção, confissão, arrependi­
mento, e renovação caracterizam sua vida. Esse ritual sagrado 
se torna possível por intermédio de um Salvador compassivo 
que conhece todo apóstata arrependido, embora condene o im- 
penitente constantemente.
0 trono e o Cordeiro (Ap 4.1— 5.14)
Quando passamos para a terceira parte do livro, João fornece 
uma visão que afirma a soberania de Deus, que mantém as 
co isas deste mundo em suas mãos. Essa visão serve como 
pós-escrito à visão anterior e como prelúdio para tudo aquilo 
que se segue. A igreja que leva a luz do evangelho de Cristo
“ William M i l l i g a n , The book o f Revelation, New York: A. C. Armstrong, 1893, 
p. 838.
12Abraham K u y p e r , The Revelation o f St. John, Grand Rapids: Eerdmans,19(>4, 
p. 27-31.
108 ■ Apocalipse
para o mundo, como prescrito na visão anterior, experim en­
tará tribulação (v. a visão dos selos). Porém, não importa o 
que a igreja suporta no mundo, ela nunca deveria esquecer 
que Deus é soberano. No meio da prova, a igreja deveria con­
templar aquele que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Essa visão fornece várias lições adicionais. 1) No capítulo 4 
entramos no corpo principal do livro. Reconhecemos, imediata­
mente, a mudança no estilo literário. Agora, estam os lendo 
literatura apocalíptica. Nossa primeira indicação é a referên­
cia de João à sua visão. Outra é a maneira pela qual a cena 
toma o lugar das palavras. Como literatura apocalíptica, bus­
camos entender as impressões que a visão deixa, em lugar de 
analisar cada detalhe. Olhamos para o ponto principal para não 
sermos confundidos pelos detalhes. Além disso, não estabele­
ceremos ensinos doutrinais exclusivos em símbolos que são 
difíceis para um cristão do nosso século entender. Seguindo as 
boas diretrizes de hermenêutica, reconhecemos que a doutri­
na deve ser estabelecida pelo ensino claro da Bíblia. Por conse­
guinte, o Apocalipse apoiará doutrinas alheias em lugar de criar 
novas.
2) Esses capítulos fornecem uma função importante como 
introdução aos capítulos 6—20. A visão contida neles estabe­
lece a perspectiva, que deve governar o restante das visões. 
Elas proporcionam uma sempre-presente visão de esperança 
e vitória com Deus no trono que deveria proteger o leitor do 
desânimo ou do desespero à medida que continua pelo res­
tante do livro.
3) A palavra “trono” predomina nessa visão. O termoocor­
re 4 6 vezes no livro, 19 vezes nessa visão e 17 vezes com 
referência ao trono de Deus no céu. Note que o trono no céu é 
posicionado no centro, não do céu, mas do universo. “Todas 
as criaturas existentes no céu, na terra, debaixo da terra e no 
mar, e tudo o que neles há” adoram o Cordeiro (5.13). O uni­
verso é teocêntrico.
4) Deus o Pai se assenta no trono, mas João não pode descrevê- 
lo. Assim, descreve seu aparecimento brilhante semelhante a 
jaspe e sardônio (4.3). A luminosidade da jó ia retrata a m ajes­
tade de Deus.
5) A adoração domina a visão. Uma grande congregação se, une 
em adoração. O grupo inclui quatro criaturas vivas que repre­
sentam todas as criaturas vivas. Também inclui a comunidade
0 ponto de vista idealista ■ 109
inteira dos remidos, representada por 24 anciões usando ves­
timentas de santidade e coroas de vitória: os doze patriarcas 
da era do a t e os doze apóstolos do período do n t (21 .12,14),
6) Jesus Cristo é o redentor triunfante que governa o uni­
verso inteiro do trono (Ef 1 .22,23). Os sete chifres e os sete 
olhos s im bolizam sua autoridade com pleta , onipotência , e 
onipresença no mundo. Ele controla o futuro, o livro está em 
suas mãos. Agora o Cordeiro entra em ação e abre os selos.
Os sete selos (Ap 6.1— 8.1)
A visão dos selos nos leva de uma perspectiva gloriosa do 
universo centrada ao redor do trono de Deus a um mundo 
repleto de dificuldades. É a luta terrestre, como já é esperado. 
Sempre que a igreja for fiel ao seu chamado como luz no mun­
do, a tribulação se segue. À parte disso, a igreja está no mundo 
e sofre com as dificuldades da guerra, da doença, e da fom e.13 
A igreja sofre igualmente os ataques diretos do mundo e as 
aflições comuns de uma era contaminada pelo pecado.
Os selos não seguem em sucessão cronológica. Cada um 
deles não pertence a um tempo específico. Lembre-se, para 
João o tempo entre a primeira e Segunda Vinda é curto, e tudo 
quanto acontecer deve vir brevemente. Por isto, a visão trata 
da história inteira da igreja e do mundo ao longo da era cris­
tã.14 A visão não fornece detalhe algum de guerras específicas, 
doenças, matanças ou dificuldades. Tudo foi descrito em ter­
mos gerais. Os sím bolos representam forças que estiveram 
conosco todo o tempo. Todos nós as conhecemos e todas as 
gerações antes de nós as conheceram também. Elas podem 
ter percorrido silenciosamente todo o cenário e saído para os 
bastidores, na escuridão, mas não as esqueceremos.
A visão dos selos ilustra as calamidades que recaem sobre 
os filhos de Deus até mesmo quando o Deus providente se 
assenta em seu trono. As calam idades requerem ilustração. 
Estatísticas sobre desastres morais e naturais podem ser in­
diferentes. João nos choca com símbolos que começam com 
quatro cavaleiros emprestados do profeta Zacarias (Zc 6.1-8).
13H e n d r i k s e n , More than conquerors, p. 9 9 .
) 4 M h . l j g a n , The book o f Revelation, p. 8 6 0 .
110 ■ Apocalipse
A abertura do primeiro selo introduz o primeiro de quatro 
magníficos cavaleiros que surgem no cenário sem uma pala­
vra ou ação. O primeiro cavaleiro usa uma coroa e segura um 
arco enquanto se desloca, pronto para a conquista, em um 
cavalo branco. Há várias opções concernentes à sua identida­
de, mas a mais atraente é Jesus Cristo.15 Essa afirmação é b a ­
seada no retrato de Cristo como o conquistador em 5.5 e na 
cor do cavalo. O branco normalmente é uma cor associada ao 
que é santo e divino, como artigos de vestuário, nuvens e um 
trono. Além disso, essa opção se ajusta ao tema do Cristo Ven­
cedor que, como um fio, alinhava o livro.16
A abertura dos próximos três selos apresenta três cavalei­
ros adicionais em diferentes cavalos coloridos. Há um co n ­
senso entre intérpretes idealistas do Apocalipse a respeito de 
suas identidades. Os três cavaleiros ilustram a desintegração 
da civilização humana e da criação, como resultado da rejeição 
do Cordeiro de Deus. O cavalo vermelho representa matança 
ou guerra; o cavalo preto representa privações econômicas e 
pobreza, talvez por causa da injustiça; o cavalo branco repre­
senta morte, fome, e doença. Juntos esses cavaleiros desta­
cam as angústias que afligem os seres humanos pecadores 
que moram em um mundo dominado pelo mal. Os cavaleiros 
são instrumentos do governo moral de Deus.17 Embora os pro­
blemas venham devido à rejeição injusta do Cordeiro, eles po­
dem afligir o justo , apesar de Deus estar assentado em seu 
trono.
O quinto selo ilustra a perseguição ao crente. As almas po­
dem ser daqueles perseguidos pela matança e pelo sofrimen­
to, representados nos selos anteriores. O crente, com vestes 
brancas, que simbolizam retidão e santidade, deve suportar 
até o tempo de ju lgam ento. Esse dia não virá até que cada 
pessoa eleita se ja levada à congregação de fiéis e o número de 
mártires esteja completo.
Por conseqüência, o sexto selo introduz o dia de julgamento. 
Descreve uma grande catástrofe ao término desta era. O ter­
ror desse dia é retratado pelo símbolo de um universo em
15H e n d r i k s e n , More than conquerors, p . 1 1 4 .
16V. Ap 1 . 1 3 s s ; 2 . 2 6 , 2 7 ; 3 . 2 1 ; 5.5; 6 . 1 6 ; 7 . 9 , 1 0 ; 1 1 . 1 5 ; 1 2 . 1 1 ; 1 4 . 1 s s . , 1 4 s s . ; 
1 7 . 1 4 ; 1 9 . 1 1 ; 2 0 . 4 ; 2 2 . 1 6 . '
17Albertus P i e t e r s , Studies o f Revelation, Grand Rapids; Eerdmans, 1 9 5 0 , 
p. 1 1 7 .
0 ponto de vista idealista ■ I I I
destruição e uma raça humana amedrontada. Em Apocalipse 
aprendem os que o Cordeiro de Deus é vitorioso, que Deus 
julgará cada adversário que perseguir a igreja, e que a ira de 
Deus é tão terrível que cada oponente do Senhor se refugia 
embaixo de pedras cadentes.
Agora esperamos o sétimo selo ser aberto, mas o estilo de 
João é tal que, antes de qualquer manifestação crítica da ira 
de Deus, ele fornece uma visão de conforto e esperança.18 João 
segue o padrão de Ezequiel que logo antes da destruição de 
Jerusalém , descreveu a p reservação do crente no meio do 
julgamento do iníquo. A mensagem dessa visão é simples: A 
igreja universal — isto é, os 144 000 selados — estão seguros 
no meio do ju lg am en to do iníquo provocado pelos quatro 
ventos.
A identidade dos selados, como a igreja universal, necess i­
ta de evidências:191) O Apocalipse não distingue entre cristãos 
ju d e u s e g entios . Jo ão não ap re sen ta nenhum a ten d ên cia 
particularista em contradição com o universalismo do Evange­
lho. Para João, a igreja é uma só; 2) João tende a espiritualizar 
nomes judeus e imagens, como em 21.12, onde as doze tribos 
claramente incluem todos os crentes; 3) O número dos remi­
dos, múltiplo de mil, é simbólico de um número grande de 
indivíduos que, apesar da rejeição do mundo, aceitaram o Cor­
deiro e têm o selo de Deus em suas testas.20 O número, múlti­
plo de doze, ta m b ém é s im b ó l ic o , r e p re s e n ta p e r fe içã o , 
indicando que nenhum membro da igreja será perdido.21
Enquanto uma multidão rejeita o Cordeiro e descobre que 
seu modo de vida foi um engano terrível, há aqueles que 
aceitam o Cordeiro, que têm o selo de Deus em suas testas e 
a herança do futuro. Essa perspectiva transm ite significado 
e propósito aos seguidores do Cordeiro na terra. Como nos 
prim eiros seis selos, essa visão não aponta para qualquer 
período específico na história, nem descreve qualquer série 
específica de eventos no futuro próximo ou distante. Antes, 
fala da situação em todos os períodos históricos. A d escri­
ção de d esastres naturais não é uma pré-estréia do fim do
18M i l l i g a n , The Book o f Revelation, p . 8 6 1 .
19Ibid.
20U njhem, Book o f Revelation, p . 1 0 3 .
21M i l l i g a n , The book o f Revelation, p. 8 6 3 .
112 ■ Apocalipse
mundo, mas uma maneira vivida de dizer que até a natureza 
não m anterá aqueles que re je itam a redenção de Deus em 
Cristo.22
As sete trom betas (Ap 8.2— 11.19)
Agora que as duas visões de conforto e esperança estão com ­
pletas, João retorna aosétimo selo, cuja abertura apresenta a 
próxima visão das sete trombetas. Essa visão retrata o castigo 
que espera os perseguidores da igreja.23 Começa com o silên­
cio no céu, que focaliza a atenção no que está quase revelado 
(8.1). A presença de trom betas dá ênfase adicional à impor­
tância do que irá acontecer, porque no a t o som da trombeta 
simbolizou, com freqüência, a intervenção de Deus no mundo 
(Is 27 .12 ,13). As orações de todos os santos (Ap 8.3-5) refle­
tem que o destino do povo escolhido é a preocupação essen ­
cial em tudo aquilo que está para acontecer.24 Há também uma 
conexão com a visão dos selos: Deus ouviu as orações dos 
santos perseguidos e respondeu com o castigo dos ímpios.
Temos de resistir à tentação de associar cada trombeta com 
uma data particular ou pessoa na história.25 As trombetas in­
dicam uma série de acontecimentos ou calamidades que acon­
tecerão novamente e, mais uma vez, ao longo da existência 
terrena da igreja. Por exemplo, o granizo e o fogo misturados 
com sangue que destroem um terço da terra são símbolos de 
todos aqueles desastres que são usados por Deus para adver­
tir o perverso para se abster de sua maldade (9.21). De modo 
semelhante, a grande montanha em chamas simboliza todos 
os desastres do mar por meio dos quais Deus am eaça d es­
truir o ímpio. O Senhor usa a terra, o mar, os rios, o sol, a lua, 
as estrelas, a profundidade do abismo, o campo de batalha e a 
ameaça de julgamento vindouro para advertir os inimigos de 
seus amados. Ele os aflige com advertências de ju lgam ento 
em sete partes do universo, cada um descrito por uma trom ­
beta. Assim, as trombetas não simbolizam eventos únicos e
22U njhen , Book o f Revelation, p. 103-5.
23H e n d r i k s e n , Three lecturers on the book o f Revelation, p. 1 7 . -
24U njhem, Book o f Revelation, p. 105.
25H e n d r i k s e n , Three lecturers on the book o f Revelation, p . 1 8 .
0 ponto de vista idealista ■ 113
isolados, mas testes que podem ser encontrados a qualquer 
hora e em qualquer lugar.
Várias observações importantes deveriam ser feitas sobre 
,is trombetas. 1) O julgamento da trombeta não é final e com ­
pleto. Note o uso penetrante da fração “um terço” que ocorre 
16 vezes no Apocalipse, 15 vezes nessa cena. O castigo de 
cada trombeta, embora incompleto, é uma advertência sufici­
ente para os ímpios.
2) As trombetas do julgamento afetam cada parte do uni­
verso. Em parte alguma há segurança para os perversos.26
3) Os julgam entos são expressos em linguagem semelhan­
te para as dez pragas no Egito, contudo a descrição no Apocalipse 
é mais terrível. Por exemplo, o granizo e o fogo são mistura­
dos com sangue; os gafanhotos atormentam, não a grama da 
terra, mas os perversos. Uma semelhança entre as pragas e as 
trombetas é que praga alguma fere os crentes.27
Os prim eiros quatro toques da trom beta (8 .7 -12) fazem 
surgir vários tipos de desastres físicos. O universo inteiro é 
usado pelo Senhor para advertir aqueles que rejeitam o Cor­
deiro de Deus e perseguem os filhos de Deus. Ninguém preci­
sa exp licar e s s e s fe n ô m e n o s com o e v e n to s n atu ra is que 
acontecerão algum dia. Para qualquer um, a visão comum na­
quele momento era de que a terra é plana, o céu está acima, e 
o mundo é igual a uma tigela invertida, cujo perímetro con- 
lém todos os corpos celestes. Os desastres físicos apontam 
para longe de si m esm os como a ju s t iça divina. Como nos 
relatos do a t sobre o Dilúvio ou as dez pragas, calamidades 
naturais são a conseqüência da desobediência e rebelião. Deus 
tem muita razão para usar a natureza como instrumento de 
advertência e castigo. Afinal de contas, aqueles que se rebe­
lam com freqüência contra Deus se voltam para o mundo para 
encontrar sentido e propósito. Usada de tal modo, a natureza 
é um fundamento para a rebelião contra Deus. Porém, Deus 
lembra o impenitente que a natureza não oferece segurança e 
esperança à humanidade.28
Há um breve intervalo depois da quarta trombeta. João vê 
e ouve uma águia, que em voz alta e clara diz ao mundo que
26H endriksen, More than coquerors, p. 141.
27Ibid.
28U njhem, Book o f Revelation, p. 105-6.
114 ■ Apocalipse
os próximos três julgamentos serão piores que os primeiros 
quatro. A quinta e sexta trom beta acrescentam terrores de­
m oníacos, conform e João descreve: o desespero brutal e o 
horror da ex istência humana separada de Deus (9 .1-21). A 
quinta trombeta oferece uma visão de terror e destruição e, 
ao mesmo tempo, revela o decreto permissivo de Deus que 
permite ao príncipe das trevas encher o mundo com a influên­
cia e a atividade de demônios, simbolizado pelo poder destrutivo 
dos gafanhotos que ferem os não selados. O coração de homens 
e mulheres está tão cheio de desespero que buscam a morte 
mas não podem achá-la (9.6-10). A sexta trombeta descreve a 
guerra que serve como castigo e advertência para os incrédu­
los. Deus permite que quatro anjos caídos arrastem a huma­
nidade para a guerra (9 .15-19) . Um espantoso batalhão de 
guerreiros, cavaleiros m ontados em seus cavalos, traz d es­
truição por todo lado, matando um terço da humanidade.
O significado geral das primeiras seis trombetas está claro. 
O Senhor castigará os perseguidores da igreja infligindo a eles 
desastres em toda esfera da vida, física e espiritual. O sangue 
dos mártires é precioso na visão do Senhor. As orações dos 
santos são ouvidas. Deus vê suas lágrimas e o sofrim ento. 
Contudo, apesar das advertências, a humanidade em geral 
não se arrepende (9.21). A desintegração da vida longe de Deus 
não conduz automaticamente à experiência de redenção. En­
corajado pelo dragão e seus aliados, o mundo perseguidor é 
impenitente. Essa disposição traz o derramar das taças.29
Agora, assim como duas visões também precederam o sé­
timo selo, duas visões também precedem a sétima trombeta. 
A primeira visão (10.1-11), similar à imagem apocalíptica do 
a t de Ezequiel (9.4), descreve um poderoso anjo que desce do 
céu com um livrinho em sua mão. O simbolismo associa, mas 
não identifica o anjo com Cristo (1.7; 4.3; 1.17; 1.15). O anjo 
colocou o pé direito sobre o mar e o pé esquerdo sobre a terra 
com uma mensagem para o universo inteiro: “Não haverá mais 
demora”. O tempo para julgamento veio. O mistério da vontade 
permissiva de Deus será revelado. Os ímpios serão castiga­
dos e os filhos de Deus receberão sua herança final conforme 
o prometido pelos profetas.30
29H endriksen, More than coquerors, p . 148.
“ M i l l i g a n , The book o f Revelation, p . 881.
0 ponto de vista idealista ■ 115
O anjo segura um rolo ou um pequeno livro. Talvez seja uma 
lembrança para a igreja.31 Se ela experimentar provas amargas, 
não é porque Deus esqueceu de ser benevolente ou vedou suas 
misericórdias. Antes, porque a igreja pecou e deve ser ensinada 
a viver em dependência direta da voz do Senhor. Muito prova­
velmente o livro simboliza as boas novas da salvação.32 O evan­
gelho é glorioso e benigno, mas sua proclamação traz amarga 
perseguição. O profeta deve comer o livro; quer dizer, o apósto­
lo deve provar igualmente a graça e o sofrimento do evangelho. 
Seu sofrimento pela causa de Cristo permitirá aos crentes per- 
severar na proclamação da Palavra. Por conseguinte, o profeta é 
encorajado a profetizar novamente e outra vez mais.
A próxima visão, descreve as experiências amargas de quem 
segue o evangelho. Descreve o efeito na igreja da proclamação 
fiel do benigno evangelho de Cristo. O apóstolo mede o santuá­
rio de Deus, o altar, e aqueles que nele adoram (11.1-14). O san­
tuário simboliza a verdadeira igreja, isto é, todos aqueles em 
cujo coração Cristo habita no Espírito (ICo 3.16,17). A tarefa de 
medir implica que todos os verdadeiros filhos de Deus que o 
adoram em espírito e em verdade são julgados ou protegidos 
de todo o dano,33 especialmente aquele que virá durante um tem­
po especial, os três anos e meio de pressão e sofrimento.34
Agora o sétimo anjo soa a trombeta.A nova visão fornece 
uma visão aberta do céu; nada é escondido ou ocultado. A 
arca está segura e protegida no templo divino. Toda a com u­
nidade remida, representada pelos 24 anciões, está unida aos 
anjos em adoração e ao Deus soberano. Embora este mundo 
às vezes pareça ser de Satanás, Deus é soberano, e ele revela­
rá sua supremacia no dia do julgamento, quando toda a opo­
sição será abolida.
Vários personagens e eventos (Ap 12.1— 14.20)
Essa seção é a mais difícil de todo o livro. Três comentários 
introdutórios são úteis.35 1) Essa seção, igual às que a precedem,
3,Ibid„ p. 873.
32H endriksen, More than conquerors, p. 151.
33Ibid., p. 154.
34S chick, Revelation'. the last book o f the Bible, p. 47 . 
3SH endriksen, More than conquerors, p. 162-3.
116 ■ Apocalipse
abrange toda a trajetória da primeira e Segunda Vinda de Cris­
to. Em simbolismo inconfundível, o profeta nos leva de volta 
ao nascimento e à ascensão de Cristo (12.1-5) e conclui a vi­
são com Cristo preparado para julgar com uma coroa de ouro 
e uma foice afiada em sua mão (14.14).
2) Essa seção inaugura a segunda divisão principal do li­
vro, que continua por todo o capítulo 22. Essa parte principal 
do Apocalipse, que descreve o conflito entre a igreja e Sata­
nás, pode ser cham ada de o “O drama da mulher e o dra­
gão”.36 Apresenta ao leitor os principais personagens que se 
opõem a Cristo e sua igreja: o dragão (cap. 12), a besta que 
saiu do mar (13.2), a besta que saiu da terra (13.11), Babilônia
(14.8), e aqueles que têm a marca da besta (14.9). A introdução 
é seguida por visões que ilustram a condenação que espera 
cada uma dessas forças anticristãs: aqueles que têm a marca 
da besta (caps. 15 e 16), a prostituta da Babilônia e as duas 
bestas (caps. 17— 19), e o dragão (caps. 20— 22).
3) O tema predominante da segunda parte do livro (caps. 
14— 22) é semelhante ao da primeira parte (caps. 1— 13): Cris­
to é vitorioso sobre Satanás e suas hostes. A diferença entre 
os dois segmentos é que os primeiros retratam a luta externa 
entre a igreja e o mundo, ao passo que o segundo revela a 
realidade mais perspicaz de uma guerra entre Cristo e Sata­
nás. Após presenciar as quatro visões dessa parte, o crente 
saberá que a luta externa entre o bem e o mal neste mundo no 
qual sofremos como cristãos, faz parte de um conflito maior 
no reino espiritual. O conflito invisível é a batalha fundamen­
tal onde o inimigo já foi derrotado pelo Cristo vitorioso medi­
ante seu sacrifício reconciliador na cruz. Agora, por pouco 
tempo, Satanás e suas hostes se juntarão para os ataques fi­
nais à igreja, mas seu fim é certo.
A primeira visão dessa seção (12.1— 14.20) introduz os per­
sonagens principais na luta entre Cristo e Satanás (12.1— 13.1). 
A primeira personagem é a mulher que simboliza as pessoas 
aparentem ente insignificantes de Deus, ou seja, a igreja (Ef 
5.32; v. Is 50.1; Os 2.1). Da perspectiva do céu, são brilhantes 
e gloriosos. Essa igreja gera a criança, a semente da mulher, o 
Cristo. O personagem final é o dragão, simbolizando Satanás 
(20.2), que tem domínio sobre o mundo (sete coroas) e que
36P ie t e r s , Studies on Revelation, p. 151.
0 ponto de vista idealista ■ 117
tem um tremendo poder destrutivo (dez chifres). A ação des­
sa visão envolve a tentativa do enorme dragão vermelho para 
devorar a semente da virtuosa mulher quando ela dá à luz, e 
a proteção e preservação da mulher e seu filho pelo Deus Todo- 
Poderoso. Esta interpretação apocalíptica de Gênesis 3.15 re­
sume a história do povo de Deus por meio da vida de Cristo 
como uma única e com pleta: a última luta original entre o 
bem e o mal, entre a semente da mulher e o dragão, com Cris­
to que esmaga a cabeça de Satanás.37
Em 12.7-12, vemos o efeito do nascim ento de Cristo, re­
denção e ascensão ao trono no céu. Há uma batalha no céu 
com dois generais adversários e seus exércitos. Miguel ataca 
e derrota o dragão, expulsando o m onstro do céu. O quadro 
ilustra como o sacrifico de Cristo devido ao pecado tirou de 
Satanás seu poder acusatório contra os cren tes (Rm 8 .33) . 
Além disso, quando Satanás é derrotado, o poder de Deus é 
vindicado, aqueles que estão no céu se alegram e Satanás 
fica cheio de ira.
Em 12.13-17, o dragão furioso, incapaz de derrotar Cristo 
e ciente de que o tempo é curto, solta sua fúria contra a mu­
lher que deu à luz ao menino, quer dizer, a igreja. Mas o Se­
nhor protege o povo, erguendo-os com asas de águia. O diabo 
tenta subjugar a igreja em um fluxo de mentiras e de ilusões, 
mas ele não a pode enganar. Assim o dragão aum enta seu 
ataque ao restante da semente da mulher, isto é, os crentes. 
Como resultado, a igreja experimenta tanto a perseguição de 
Satanás como a proteção especial de Deus quando proclama o 
evangelho abertamente (11.1-10). Esse tempo de perseguição 
e proteção (entre a primeira e Segunda Vinda de Cristo) é se ­
guido por três dias e meio — um breve período durante o 
qual o diabo intensifica seu ataque e que é perseguido pela 
segunda vinda de Cristo para o julgamento (20.11).
A segunda visão nessa seção descreve a besta do mar (13.2-
I 0), um dos agentes usado pelo dragão para atacar a igreja. A 
besta é um monstro de horror que sobe do mar, um emblema 
da influência mundial à medida que é oposto a Deus.38 Essa 
besta, uma combinação de animais que simbolizam os quatro 
reinos em Daniel 7, representa o espírito do mundo (ICo 2.12)
i 7C a l k i n s , The social m essage o f the book o f Revelation, p. 117. 
‘“ M il l ig a n , The book o f Revelation, p. 887.
118 ■ Apocalipse
que se opõe e persegue a igreja.39 Sua influência pode ser en­
contrada em todos os lugares, inclusive na igreja, no Estado, 
e no lar. Embora os santos sejam perturbados e perseguidos 
por esse inimigo, eles serão preservados.
A terceira visão descreve a besta da terra (13.11-18). Esse é 
um parágrafo difícil, em que os detalhes são obscuros, mas a 
idéia principal é clara. A besta simboliza a falsa religião e filo­
sofia em qualquer forma que possa aparecer ao longo desta 
dispensação. A besta que saiu da terra é o falso profeta (16.13; 
19.20), que aparentemente se assemelha ao Cordeiro, mas é 
realmente agente do dragão. O falso profeta marca cada indi­
víduo que pertence a ele. A marca é 666, um símbolo de fra­
casso eterno, e o sete, perfeição de meios e inteireza. Uma 
marca na testa simboliza a mente do indivíduo, pensamento 
e filosofia de vida. Uma marca na mão direita indica ação, fa­
çanhas e iniciativas. Aqueles que recebem a marca da besta, 
nesse caso, pertencem ao exército daqueles que perseguem a 
igreja com disposição e atitudes.
Comparando as duas bestas, concluímos que o primeiro é 
um m onstro de horror, ao passo que o segundo se m ostra 
inofensivo e por isso é mais perigoso que o primeiro. O pri­
meiro é a mão de Satanás e o segundo sua mente. O primeiro 
representa o poder perseguidor de Satanás, operando no e s ­
pírito deste mundo e seu governo, e por intermédio dele. O 
segundo simboliza as falsas religiões e filosofias deste m un­
do. A besta do mar e a besta da terra trabalham juntas. O espí­
rito do mundo, conforme encontrado no governo do anticristo, 
conspira com a religião do anticristo e ataca Cristo e sua igre­
ja . O trabalho dessas legiões é óbvio na crucificação de Jesus 
Cristo, em que o Sinédrio se associou a Pilatos para a ssass i­
nar o Messias. Seu ataque continua ao longo desta dispensação.
A quarta visão final e a dessa seção é o Cordeiro e os 144 mil 
(14.1-20). Essa visão ilustra o último triunfo de Deus e de sua 
igreja. Encoraja o crente que pode ser subjugado pelas cenas 
anteriores do dragão, a besta do mar, e a besta da terra. A 
visão é dividida em três seções, cada uma com eçando com 
“Então vi”: 1) João viu um Cordeiro que se levanta no monte 
Sião com a igreja triunfante no céu (14.1-5). A congregação
39S chick , Revelation: the last book o f the Bible, p. 52.
0 ponto de vista idealista • 119
totaliza 144 OOO, um número completosem uma alma perdi­
da. Esses 144 000 não aceitaram a mentira de Satanás; e agora 
desfrutam a bem-aventurança de sua redenção; 2) João viu a 
advertência benevolente de Deus do julgam ento por vir e cas­
tigo dos perversos (14.6 ,8 ,9) que precederá a Segunda Vinda 
de Cristo; 3) João testemunhou o julgam ento final e completo 
dos perversos, simbolizado pela imagem de uma colheita que 
ocorre quando Cristo retorna. O Filho do homem está assen­
tado no trono de ju lgam ento. Ele ordena a seus an jos para 
passar a foice e fazer a colheita, pois o tempo chegou.
As sete taças (Ap 15.1— 16.21)
Ao longo da história, você encontrará uma ordem recorrente 
dos eventos.40 A igreja faz a luz de Cristo brilhar adiante na 
escuridão do mundo. Essa atividade conduz à perseguição do 
povo de Deus. Por trás dessa constante e presente confronta­
ção entre a igreja e o mundo, há um conflito mais fundamen­
tal, entre Deus e Satanás. Deus, pelo trabalho de Jesus Cristo, 
obteve a vitória final sobre Satanás e suas hostes. Por conse­
guinte, ele julgará e castigará aqueles que perseguem o justo.
Antes de aplicar o julgamento, porém, Deus adverte o in­
justo. Quando as trombetas de advertência falharem em con­
vencer os incrédulos ao arrependimento, Deus procede com 
taças da ira sobre os impenitentes, que receberam a marca da 
besta e adoram o dragão (9.21; 16.9). As taças desvelam a in­
tegra indignação e ira de Deus contra os da besta deliberados 
e determinados seguidores, que blasfem am contra Deus em 
meio a seu sofrimento.41 Com Deus não se brinca.42
Vários aspectos dessa visão são dignos de atenção. 1) Antes 
de João revelar os sete anjos com suas taças da ira, ele oferece 
uma imagem da igreja triunfante. Utilizando o relato da des­
truição das tropas do Faraó no mar Vermelho (Êx 14.15ss.), João 
assegura ao leitor que até mesmo depois que as taças da ira são 
derramadas, Deus preservará uma multidão vitoriosa de san­
tos, tocando suas harpas e cantando a canção de Moisés e do
" ' H e n d r i k s e n , M ore than co qu ero rs, p. 189; Three lectures on the book o f 
Revelation, p. 19.
" M i l l i g a n , The book o f Revelation, p. 899. 
i;iSch[ck, Revelation: the last book o f the Bible, p. 56.
120 ■ Apocalipse
Cordeiro. A vitória sobre os egípcios, naquele tempo, prenun­
cia a vitória do povo de Deus sobre a besta.
2) As sete taças da ira expõem uma impressionante sem e­
lhança com as pragas no Egito (Êx 7— 10). É d esn ecessár io 
enfatizar as particularidades das pragas, pois o efeito geral é 
muito significativo: Deus usa cada área da criação para casti­
gar o ímpio.
3) A visão das taças corre paralela à visão das trombetas. 
Cada uma aborda a dispensação completa a partir da primei­
ra até a Segunda Vinda de Cristo. Isto significa que para um 
indivíduo uma calamidade esp ecíf ica pode ser uma adver­
tência de trom beta de julgam ento, ao passo que para outro 
indivíduo pode ser uma taça da ira. A diferença primária en­
tre as trom betas e as taças é a intensidade do castigo. Por 
exemplo, as trom betas destroem um terço das criaturas no 
mar, ao passo que a taça da ira destrói toda criatura viva.
4) O capítulo 15 afirma novamente que o Apocalipse não é 
cronológico. Começa com uma visão divina da igreja triun­
fante ao término da era, antes de voltar no tempo para o ju l ­
gamento final de Deus contra o ímpio.
5) As sete taças são derram adas em su cessão rápida e 
ininterrupta. Como os selos e as trombetas são divididos em 
grupos de quatro e três, e as do primeiro grupo podem ser 
consideradas sim ultaneam ente.43
6) O Armagedom aparece na narração que acom panha a 
sexta taça como o local de uma grande batalha. O dragão e sua 
legião, a besta da terra e a besta do mar ou o falso profeta, 
confrontarão o povo de Deus em uma batalha final. Os filhos 
de Deus experimentarão vitória pela intercessão súbita e dra­
mática de Cristo. O Armagedom, então, é símbolo de cada ba­
talha na qual Satanás junta suas tropas contra a igreja. Então, 
Cristo aparece inesperada e dramaticamente para libertar seu 
povo e derrotar o inimigo. As batalhas no Armagedom podem 
acontecer ao longo da história do mundo, entretanto o final 
coincide com o dia do julgamento de Satanás.
7) A visão termina com uma descrição vivida do ju lgam en­
to final: pedras que caem do céu. A queda final da Babilônia é 
o sopro esmagador para aqueles que ostentam a marca da 
besta. Tudo aquilo que os deleita se desmorona enquanto a 
grande cidade, a Babilônia, é destruída em três partes.
" M i i .u g a n , The book o f Revelation, p . 8 9 6 .
0 ponto de vista idealista ■ 121
B a b ilô n ia (A p 17.1— 19.21)
Vimos a ira e indignação de Deus contra o ímpio, à medida 
que os sete anjos derramaram suas taças. Um dos sete intro­
duz uma nova parte que, como um conjunto ligado entre si 
aborda a história completa do mundo, do paraíso ao dia do 
julgamento, descreve a última vitória de Jesus e a destruição 
das forças espirituais que insuflam as convicções e com por­
tamento do ímpio. A m ensagem dessa seção é de en co ra ja ­
mento: apesar de as forças do mal prevalecerem e perseguirem 
os santos, seu tempo de aparente vitória é temporário. Embo­
ra as forças do mal se mostrem invulneráveis, a Babilônia, a 
besta da terra, e a besta que saiu do mar ou o falso profeta 
serão destruídos por Cristo, o Senhor dos senhores, que é o 
vencedor. Então, a igreja deverá ter coragem até esse tempo 
de vitória final.
A estrutura da seção é simples. O capítulo 17 descreve a 
grande meretriz, a Babilônia, e revela a destruição da besta do 
mar; o capítulo 18 revela a queda completa da Babilônia; o 
capítulo 19 desvela a vitória sobre a Babilônia e a celebração 
celestial subseqüente e o casamento do Cordeiro com a igre­
ja. Por conseguinte, o futuro dos cinco personagens é descri­
to: a Babilônia, a besta que saiu do mar, a besta da terra ou o 
falso profeta, a igreja e o Cordeiro.
1) A personagem predominante no drama é a Babilônia, a 
grande meretriz (17.5 ,18; 19.2,3). João fez menção à Babilônia 
em duas ocasiões anteriores (14.8; 16.19). Agora, ela recebe 
um tratam ento mais apurado. Levado no espírito para um 
deserto, João viu uma mulher montada em uma besta. Essa 
não é a mulher virtuosa de 12.1, entretanto elas são vistas no 
deserto. Todavia, a mulher escarlate é diferente, como com ­
provado pelo seu relacionamento com a besta. A besta selada 
pela mulher vestida de vermelho e azul é a mesma besta que 
ajuda o dragão em um ataque à mulher virtuosa.44 Ali, o ini­
migo de um é o amigo e servo do outro. A mulher está vestida 
de vermelho e azul como uma prostituta, atraindo todos os 
que a vêem. Ela incita os indivíduos para beber de sua xícara 
dourada, induzindo-os a se afastarem de Deus. Está embriagada
““P i e t e r s , Studies in Revelation, p. 2 4 6 - 7 .
122 ■ Apocalipse
com o sangue dos santos, derramado durante sua guerra con­
tra o Cordeiro (17.6). Influencia o mundo inteiro sobre sua 
elevada sublim id ad e e governa com pulso firm e. Ela é a 
Babilônia (17.5 ,18; 19.2,3).
A identidade da Babilônia foi um assunto de debates. Duas 
opções parecem viáveis, a) A Babilônia representa a cidade 
mundana ou o centro de maldade que fascina, tenta, e leva as 
pessoas para longe de Deus (Ez 27 e 28). A Babilônia é o mun­
do louco, prazeroso e arrogante, com todo o seu luxo sedutor 
e prazeres, com sua filosofia e cultura anticristã, e com suas 
multidões que abandonaram a Deus e viveram de acordo com 
a luxúria da carne e os desejos da mente.45 João não condena 
a sociedade, mas o tipo de sociedade que se rebela contra 
Deus — uma sociedade em que não há lugar algum para Deus 
e para a redenção feita por Cristo.46 No século i, a Babilônia era 
Roma. Duas gerações atrás era Berlim. Hoje, talvez, se ja Las 
Vegas ou até m esm o um cam p u s universitário. A Babilônia 
pode ser encontrada em todos os lugares ao longo da história 
do mundo.47 É o centro da sedução anticristã em qualquer épo­
ca da história.b) A segunda opção é que a Babilônia representa o mundo 
na igreja ,48 o elem ento não espiritual ou elemento terrestre 
que infiltrou no corpo de Cristo, ou até mesmo uma falsa igreja 
como Jerusalém.49 Seis razões apóiam essa teoria: 1) Em 2.9, 
João conhece uma comunidade que reivindica ser uma co n ­
gregação do Deus vivo, mas é realmente uma sinagoga de Sa­
tanás; 2) Apocalipse 17 ecoa Êxodo 16 e 23, em que Israel é 
marcado como uma meretriz que não guarda a aliança divina;
3) a grande cidade é mencionada em Apocalipse 11.8, em que 
uma interpretação cultural política está fora de cogitação, pois 
há uma sugestão de que a Babilônia não deveria ser interpre­
tada como entidade política cultural nos capítulos 17 e 18; 4) 
os oficiais de Jerusalém, durante o seu ministério terrestre, 
se opuseram a Jesu s e encorajaram Roma a crucificá-lo (At 
2.23; 3.13; 4 .10; 5.30; 7.52); 5) quando a meretriz é destruída
45H endriksen, More than coquerors, p. 200-2.
4 6 U n jh e m , Book o f Revelation, p. 117-8.
47Ibid., p. 119.
4 8 M il l ig a n , The book o f Revelation, p. 904.
49Cornelius V anderwaal, Hal Lindsey and biblical prophecy, St. Catherines, 
Ont.: Paideia, 1978, p. 105. '
0 ponto de vista idealista ■ 123
(Ap 18.20), Deus ajusta contas pelo que ela fez aos profetas e 
apóstolos (lR s 19.10); 6) e Apocalipse 18 .22 ,23 repete Jeremias 
25.10, uma passagem que lida com Jerusalém .50
Embora a identidade da Babilônia possa ser incerta, seu 
futuro não é: a Babilônia será destruída (18.21-23). O ju lg a ­
mento é a mensagem predominante dessa cena. Deus não es­
quecerá seus pecados, e a Babilônia perecerá. Antes do castigo 
final chegar, porém, os crentes são encorajados a recusar a 
comunhão com seus pecados e a se desviarem de suas tenta­
ções e seduções.51 Aqueles que não se desviam, mas colocam 
seu coração no espírito do mundo, sofrerão com a Babilônia. 
Quando a Babilônia perecer, os reis, comerciantes e marinhei­
ros lamentarão, porque aquilo em que fixaram suas esperan­
ças terá se desmoronado. Isto é verdade com respeito à queda 
de toda Babilônia ao longo da história do mundo e, especial­
mente, com respeito ao reino final do anticristo no fim dos 
tem pos. Reciprocam ente, a destruição da Babilônia conduz 
ao regozijo nos céus pelos santos, apóstolos e profetas (19 .1 ­
10). O céu celebra a vitória de Deus sobre a meretriz, a Babilônia. 
Os 24 anciões que simbolizam toda a igreja, louvam a Deus 
com quatro querubins representativos.
2) A segunda personagem principal nessa seção é a besta 
(17.3). Como já foi citado, a besta é descrita em 13.2-10. Saiu 
do mar e, anteriormente, ajudara o dragão em seu ataque con­
tra a mulher v irtuosa e sua sem ente. A besta representa o 
espírito e os impérios do mundo que trabalham com a mu­
lher sedutora. Por exemplo, trabalhando juntos, os impérios 
deste mundo não precisam destruir as instalações da igreja. 
Eles podem transformar algumas delas em locais de diversão 
m undana.52
A besta e a mulher se associam até que a besta se volta 
contra a mulher (17.16-18). Durante um tempo, o mundo co­
mete adultério com a meretriz e bebe em seu cálice de ouro. 
Mas no fim, as pessoas que fazem parte do mundo anticristão se 
voltam contra a prostituta. O povo mundano despe a prostituta
r,0Vanderwaal recorre ao trabalho holandês de Benne Holwerda de 1949 chama­
do lhe church in final judgem ent, em seu Haí Lindsey and biblícal prophecy, p. 1 0 5 . 
' ‘ H endriksen, More than coquerors, p. 2 0 8 .
’2l b i d . , p. 2 0 3 .
124 ■ Apocalipse
e a queima. O ensino é que o mesmo povo (esses que consti­
tuem a besta) que, anteriormente, estava enfeitiçado pela me­
retriz e tudo o que ela ofereceu, percebeu sua loucura. Mas 
em vez de se arrepender, se endurecem contra Deus e são, 
portanto castigados pela sua própria tolice. A besta, como a 
meretriz, sofre a destruição. O cavaleiro no cavalo branco cap­
tura a besta e a joga no lago de fogo que arde com enxofre 
(19.19,20).
3) A terceira personagem é a besta da terra ou o falso profe­
ta (13.11-17), que executa milagres em nome da besta que saiu 
do mar e que tinha confundido muitos que receberam a sua 
marca e a adoraram. Essa besta é também capturada e castiga­
da com a destruição eterna (19.20). Isto completa a destruição 
das três forças que apoiaram os perseguidores impenitentes 
da igreja. Agora, todos os perseguidores e as forças espiritu­
ais são castigados com a destruição eterna.
4) O quarto, os personagens finais, são a noiva eterna e o 
noivo: Jesus Cristo e a igreja. Com imagens misturadas, o Mes­
sias é tipificado como um Cordeiro (19.7-9), comprometido a se 
casar com a noiva ou a igreja. Ao longo desta dispensação toda, 
a igreja se preparou para o dia de seu casamento. Agora em seu 
fim, após o julgamento dos perversos, o noivo, acompanhado 
por anjos, vem receber sua noiva (Mt 25.31). As bodas do Cor­
deiro começam e continuam ao longo da eternidade.
Então, João recebe uma visão do céu que leva o leitor de 
volta aos momentos que precedem o julgamento final. Ele vê 
Jesus Cristo tipificado nessa cena por um cavaleiro montado 
em um ca v a lo b r a n c o , p r e p a r a d o p ara a b a ta lh a em 
Armagedom: o ataque final à igreja e a vitória de Cristo sobre 
o grande exército de Satanás. Novamente, a besta e a meretriz 
direcionam suas energias contra a verdadeira igreja, aqueles 
que são escolhidos e fiéis. Embora obtivessem sucesso por 
pouco tempo, o Cordeiro é vitorioso. O an jo, confiante em 
sua vitória, convida os pássaros a se juntar para uma grande 
ceia de Deus, e ali podem se alimentar dos cadáveres do povo 
da Babilônia. O ensino essencial é este: Jesus Cristo é o Rei 
dos reis e Senhor dos senh ores (19 .16) . Embora os santos 
possam sofrer durante algum tempo, Deus está ao seu lado e 
é fiel às suas promessas. Cristo, o cavaleiro montado no cava­
lo branco, triunfa, embora o inimigo permaneça.
0 ponto de vista idealista ■ 125
0 ju lgam ento de Satanás e os perversos (Ap 20.1-15)
Até aqui vimos o julgamento final e o castigo dos ímpios que 
perseguem a igreja-. Babilônia, a besta do mar, a besta da terra 
ou o falso profeta. Agora vemos a derrota e a destruição do 
derradeiro inimigo, Satanás, conforme João retrata a últim a 
vitória de Cristo sobre toda força do mal.53 A visão ilustra o 
julgamento de Deus sobre os mortos, de acordo com o que 
fizeram durante suas vidas, e o seu castigo no lago de fogo. 
Vários aspectos dessa cena merecem atenção especial.
1) A visão começa com um anjo divino que captura Satanás 
e o prende durante mil anos (v. 1-3). Reconhecendo que as 
Escrituras se interpretam , podemos concluir que essa cen a 
descreve o efeito do ministério terreno de Cristo sobre Sata­
nás (Mc 3.27; Lc 10.17,18). Isto é coerente com várias visões 
no Apocalipse e que levam o leitor para o começo de nossa 
dispensação atual. Essa visão destaca o domínio de Jesus so ­
bre a serpente mediante a crucificação e ressurreição. Pelo seu 
sacrifício redentor, Cristo restringiu as forças de Satanás e abriu 
o caminho para a proclamação bem sucedida do evangelho ao 
redor do mundo.54 Claro que isto não significa que Satanás está 
neutralizado. Ao contrário, Deus permite que Satanás incite e 
influencie a sociedade nos limites de sua prisão.
2) A próxima cena dessa visão (v. 4-6) leva o espectador do 
abismo ao céu. Compare o período de mil anos da prisão de 
Satanás, essa cena descreve o reinado milenar de Cristo que é 
ajudado por mártires que não recebem a marca da besta. A cena 
encoraja os verdadeiros crentes que testem unharam a p er­
seguição dos crentes e a apostasia daqueles seduzidos pela 
influência, limitada, mas poderosa, de Satanás. Ensina que 
aqueles que vivenciaram a primeira ressurreição de regene­
ração (Cl 3.1) e recusaram a receber a marca da besta reinam 
com Cristo (Ef 2.6). Esse reinado com eça para o crente na 
terra, mas continua no céu, desde o momento a alma do cren- 
le, em sua morte, é elevada ao céu enquantoo corpo espera 
o retorno de Cristo. Finalmente, a ressurreição do corpo está 
segura, pois a segunda morte — isto é, o castigo eterno — 
não tem poder sobre os crentes.
” M illigan, The book o f Revelation, p . 9 1 3 .
m H e n d r i k s e n , Three lectures on the book o f Revelation, p . 2 3 .
126 ■ Apocalipse
3) João não coloca a cena de abertura em qualquer ponto 
na história humana, nem relata o reinado de Cristo na Segun­
da Vinda.55 João, em um esforço para encorajar o crente, leva- 
o aos bastidores da perseguição terrena, para que testemunhe 
um Cristo soberano e um Satanás condenado. A visão afirma 
que Cristo é o vitorioso e os mártires estão vivos.
4) 0 milênio não é o tema central dessa visão, embora rece­
besse atenção considerável no decorrer dos séculos. Além 
disso, o número por si próprio não é difícil de entender. Ao 
longo do Apocalipse, os números foram simbolicamente usa­
dos. O uso do número mil nessa visão não é exceção. Como 
sugerem os amilenaristas, João não está descrevendo um pe­
ríodo especial de tempo entre esta era e o reinado eterno de 
C risto .56 Mais propriamente, o número indica conclusão ou 
perfeição em vez de um lapso de tempo específico (SI 50.10). 
Os amilenaristas tipicamente apresentam três razões em de­
fesa de sua convicção: Nenhuma outra passagem das Escritu­
ras m enciona um período de mil anos; uma in terpretação 
simbólica é consistente com a natureza apocalíptica do texto 
e os credos históricos da cristandade não mencionam um pe­
ríodo literal entre esta era e o reino eterno.57
5) A terceira parte dessa visão (v. 7-10) descreve a longa e 
esperada destruição de Satanás que é lançado no lago de enxo­
fre ardente com a besta e o falso profeta. Antes de receber o 
castigo eterno, ele é libertado do cativeiro. Por pouco tempo 
lhe é permitido reunir as nações para um ataque centralizado e 
principal à igreja. Quando Satanás desfrutou ou desfrutará seu 
curto período? William Milligan acredita que o reinado de mil 
anos se refere ao ministério terreno de Cristo, culminando na 
sua morte e ressurreição, enquanto o curto período se refere à 
toda dispensação até a Segunda Vinda de Cristo.58
William Hendriksen oferece uma alternativa mais consistente 
com o que foi descrito até aqui.59 Por refletir a dependência no 
ensino de Jesus referente ao final dos tempos (Mt 24 .29 ,30),
s,Leon M o r r i s , The Revelation o f St. Jo h n , t n t c , Grand Rapids: Eerdmans, 
1969, p. 234.
56Harry Buis, The book o f Revelation: a simplified commentary, Philadelphia: 
P& R, 1960, p .107.
57Ibid.
S8The book o f Revelation, p. 913.
^ Three lectures on the book o f Revelation, p. 26-8.
0 ponto de vista idealista ■ 127
Hendriksen acredita que esse cenário prediz um tempo de tri- 
bulação quando o mundo, ao funcionar como uma unidade, 
tenta destruir a igreja logo antes da Segunda Vinda de Cristo. A 
visão de João responde a esses crentes cheios de dúvidas que 
estão sofrendo na tribulação e que podem concluir que Satanás, 
não Deus, é soberano. Essa passagem assegura-lhes que ape­
sar da proteção do mundo e de todos seus recursos e poder 
contra Deus, o ataque não superará a igreja. O tempo de Satanás 
é curto. Deus completará o castigo dos perversos e destruirá o 
inimigo com fogo do céu, lançando o diabo no lago de enxofre 
ardente.
6) A cena final nessa visão (v. 11-15) descreve a ressurreição 
corporal e geral de crentes e incrédulos, com um foco no ju l ­
gamento final e no castigo do ímpio. Essa visão é improvável, 
como a maioria delas no livro.60 Inclui algum simbolismo, mas 
a maior parte significa o que ela transmite exatamente. Esses 
versícu los incluem se n ten ças claras e exp licações literais , 
complementando a predição de Jesus em Mateus 25 .31-46 . O 
simbolismo limitado não é difícil de entender. O grande trono 
branco simboliza a majestade, a autoridade e a santidade de 
Deus no julgamento. Os livros representam a onisciência de 
Deus, o Juiz, a quem nada é desconhecido e por quem nada é 
esquecido,61 toda alma dará conta de seu papel na luta univer­
sal contra o mal.62 O livro da vida é o rolo dos remidos (Lc 10.20; 
Fp 4.3; Ap 3.5). O lago de fogo existe para destruição absoluta e 
para a condenação eterna.63
7) A visão como um todo (20.1-15) apóia uma descrição cro­
nológica geral do período desde o primeiro advento. Comple­
mentando o ensino de Jesus, como registrado em Mateus 24 e 
25, que começa com a primeira vinda de Cristo durante a qual 
ele prendeu Satanás (Ap 20.1-3) e ressuscitou os mortos em 
Cristo para reinar com ele no céu (v. 4-6). Continua com o rela­
to de descrição um período curto, mas intenso de ataque à 
igreja (v. 7-9), seguido pela inferida Segunda Vinda de Cristo, o 
julgamento final de cada pessoa, e o castigo eterno do ímpio e 
do diabo (v. 10-15).
“ P i e t e r s , Studies in Revelation, p. 312. 
61Ibid., p. 313.
62U n jh e m , Book o f Revelation, p. 110. 
“ P i e t e r s , Studies in Revelation, p. 315.
128 ■ Apocalipse
A nova criação (Ap 21.1— 22.5)
Essa visão que inclui o aparecimento angelical final (21.9), dá 
continuidade à sucessão cronológica de eventos principais 
que com eçaram em 20 .1 , com a encarnação e redenção de 
Cristo (20.1-6), e conclui com o julgamento universal (2 0 .1 1 ­
15). Agora, João recebe uma visão do que Deus preparou para 
aqueles que o amam (ICo 2.9,10). A visão destaca três realida­
des permanentes e eternas: o novo céu e nova terra, a nova 
Jerusalém e as bodas do Cordeiro.
1) A cena de um novo céu e nova terra (21.1-8), enriquecida 
pela cidade santa e um jard im sem elhante ao Éden, ilustra 
sem elhanças notáveis a seu predecessor, como descrito no 
primeiro livro da Bíblia.64 Em Gênesis, Deus criou o céu e a 
terra; em Apocalipse lemos sobre um novo céu e nova terra 
(21.1). Em Gênesis, os luminares são chamados à existência; 
em Apocalipse, a glória do Deus ilumina a cidade. Em Gênesis, 
lemos a respeito do astuto poder de Satanás; em Apocalipse, 
o diabo é preso e lançado no lago de fogo (20.10). Em Gênesis, 
lemos sobre o paraíso perdido; em Apocalipse, o paraíso é 
restabelecido. Gênesis descreve o divórcio da humanidade, 
quando Adão e Eva fogem de Deus; em Apocalipse, os remi­
dos desfrutam a comunhão íntima do casamento com o Cor­
deiro. Em Gênesis, a natureza am eaça a segurança e fere a 
humanidade; em Apocalipse, a natureza sustenta e conforta 
as pessoas. Em Gênesis, a árvore da vida é protegida por um 
anjo para que ninguém coma o seu fruto. O Apocalipse resta­
belece o acesso da humanidade ao fruto (22.14). Essa correla­
ção óbvia entre o primeiro e o último livro da Bíblia ilustra o 
cumprimento da primeira profecia m essiânica (Gn 3.15) e a 
fidelidade de Deus à aliança (Ap 21.3).
Há um debate significante sobre a relação do novo céu, e 
nova terra com o universo atual. O termo grego para “novo” 
(kain os) e 2Pedro 3 .12 ,13 sugerem que o novo céu e nova ter­
ra possam ser uma versão rejuvenescida e transformada do 
velho.65 Talvez este planeta seja o último e eterno lar do povo 
de Deus, mas o texto não limita o leitor a esta conclusão. Em 
vez disso, assegura ao crente que Deus proverá um lugar de
64Hendriksen, More than coquerors , p. 236-7.
65Ibid„ p. 239.
0 ponto de vista idealista ■ 129
habitação eterna que é bonito, seguro, e protegido.66 A sereni­
dade e paz desse lugar não serão perturbadas pelo mar agita­
do (Is 57.20), porque o novo céu e nova terra não terão um 
mar do qual o mal saia dele (Ap 13.1).67
2) A maior parte da visão trata do desvelamento da cidade 
santa, a Nova Jerusalém, a noiva do Cordeiro (21.2). A d escri­
ção vivida e detalhada de João da cidade santa deixa de o b ser­
var uma verdade importante: a nova Jerusalém não é um lugar, 
mas um povo!68 Não é o último lar dos remidos; são os rem i­
dos! A nova Jerusalém é um símbolo da noiva, a igreja. É uma 
comunidade de indivíduos real e preciosa que têm comunhão 
com Deus. A cidade (SI 48; Is 26 .1 ; 40 .9) retrata a condição 
ideal do rebanhode Cristo, desfrutando sua vitória em Cristo 
sobre o pecado e a morte.69 Claro que a nova Jerusalém não é 
uma possibilidade remota no futuro distante. A cidade retra­
ta um encontro real com o Cristo vivo na comunhão da igreja 
aqui, embora esta seja fragmentada e dispersa.70 Essa analo­
gia deveria su prim ir a co m p la cê n c ia de co n g re g a çõ e s de 
Laodicéia ao longo do tem po.71
Abstendo-se de uma análise detalhada da visão, extensos 
esforços do artista na interpretação da Cidade Santa salien­
tam verdades suplementares:72 a) A cidade santa desce do céu, 
indicando sua origem benevolente;73 b) O nome “Jeru sa lé m ” 
reflete continuidade entre a velha e nova alianças, entre o 
antigo santuário e seu sucessor eterno. Ao mesmo tempo, os 
adjetivos “novo” e “santo” o distinguem da dispensação pre­
sente;74 c) A cidade santa não requer luz natural ou artificial, 
uma vez que a glória de Deus ilumina e o Cordeiro é sua lâm­
pada (21 .11 ,23 ; 22.5); d) A cidade está sem santuário, porque 
Deus o Senhor e o Cordeiro são seu templo (21.22). Em con se­
qüência disso, os crentes têm com unhão direta e imediata 
com Deus (Jr 31 .33 ; Jo 4 .2 3 ,2 4 ; Hb 8.8); e) A cidade e seus
66P i e t e r s , Studies in Revelation, p . 3 3 1 .
67M o r r i s , The Revelation o f St. John, p. 243 .
“ M i l l i g a n , The book o f Revelation, p. 918 .
g9U n jh em , Book o f Revelation, p. 110.
70Ibid., p. 111.
7IU n jh em , Book o f Revelation, p. 110.
7-V. Hendriksen, More than coquerors, p. 243-50.
71K u y p e r , The Revelation o f St. John, p. 310.
7' M o r r i s , The Revelation o f St. John, p. 243.
130 ■ Apocalipse
habitantes estão seguros e protegidos (João 10.28), porque a 
cidade está protegida por uma alta muralha (Ap 21 .12 ,17 ,18); 
f) A cidade com seu s doze fu n d a m e n to s ( 2 1 .1 4 ,1 9 ,2 0 ) é 
edificada sobre o fundamento dos apóstolos (Ef 2.20); g) Doze 
portas, cada uma escrita com os nomes das tribos de Israel 
(Ap 21 .12 ,13 ,2 1 ,2 5 ,2 7 ) , suprem muitas oportunidades para a 
entrada da verdadeira Israel, a igreja remida (7.14), proibindo 
a entrada daqueles associados à meretriz; h) O trono de Deus 
e o Cordeiro estão na cidade (22.3,4), e Deus reina com amor, 
e os cidadãos obedecem com alegria; i) O tamanho da cidade é 
muito grande para a imaginação porque inclui os cidadãos de 
cada nação (21.24).
3) O novo céu e nova terra com sua cidade santa são a fase 
pela qual o mundo vê as bodas do Cordeiro que é m enciona­
do sete vezes nos dois capítulos finais de Apocalipse. Antes 
da chegada da nova Jerusalém , o grupo de fiéis é descrito 
como uma noiva (Ef 5.32), mas não como uma esposa. Agora, 
nessa visão, ela é descrita como a esposa do Cordeiro (Ap 21.9). 
A transição é aparentem ente adiada até que os santificados 
sejam separados para a cidade santa.75 Agora os filhos de Deus, 
a noiva, não serão mais instigados ao pecado, porque os in­
crédulos acharão seu lugar no lago de fogo que arde com en­
xofre (21.8).76
O casamento de Cristo com a igreja ilustra o cumprimento 
da completa e perfeita promessa de aliança encontrado ao lon­
go da Bíblia (Gn 17.7; Jr 31.33; Rm 4.22; 2Cr 6.16). O pronun­
ciamento de casam ento divino do trono proclama, “Agora o 
tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele 
viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com 
eles e será o seu Deus” (Ap 21.3). O casamento do Cordeiro 
com a nova Jerusalém fornece comunhão íntima e permanente 
com Deus.
Conclusão (Ap 22.6-21)
Chegamos ao fim do Apocalipse de João. As visões concluem 
(22.5) com um quadro do triunfo final e completo da igreja
75K u y p e r , The Revelation o f St. John, p. 321.
76Ibid„ 318.
0 ponto de vista idealista ■ 131
sobre todos os seus inimigos. Jesus Cristo, o vencedor, con­
quistou a morte, o Hades, o dragão, a besta, o falso profeta, e 
aqueles que adoram a besta. Jesus Cristo, o Cordeiro, se casa 
com a igreja, e juntos desfrutam comunhão no novo céu e na 
nova terra. Embora o cumprimento dessas visões ainda este­
ja por vir, Cristo reina vitorioso agora, de form a que nada 
separará os cristãos do amor de Deus (Rm 8 .3 5 ,3 8 ,3 9 ) .77 O Cristo 
soberano assegura aos fiéis que nada ocorrerá na vida por 
destino ou acaso, mas pela mão paternal de Deus.78 Por causa 
destas verdades, os filhos de Deus podem ser pacientes na 
adversidade, gratos pelas bênçãos e confiantes sobre o futu­
ro.79 Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem 
daqueles que o amam (Rm 8.28).
A conclusão (Ap 22 .6 -21) apresenta uma declaração final 
em vez de uma nova visão. Vários elementos são instrutivos.
1) João é tomado novamente com prodígio (v. 1.17) conforme
0 anjo declara que tudo o que ele ouviu e viu, culminando no 
retorno de Cristo, é iminente. Essa proclamação faz João cair 
aos pés do anjo (22.8). Ele percebe que o tempo está próximo 
e os assuntos eternos estão estabelecidos. Jesus retornará e 
trará sua recompensa com ele.
2) João não abranda o sentimento da proximidade do fim 
que os primeiros cristãos haviam sentido (1.3,7; 3.11; 22 .12, 
20). Seu prólogo assegura a seus leitores que o tempo está 
próximo; seu epílogo ecoa essa certeza. Na frase “o tempo está 
próximo”, João contrasta dois mundos: este mundo de espa­
ço de tempo e o mundo divino. As realidades divinas alcança­
ram a ordem temporal pela primeira vinda de Cristo e, por 
conseguinte, diminuíram a importância do tem po.80 Quantita­
tivamente, este mundo pode ter um longo caminho para cor­
rer, mas é curto porque é de pouca importância comparado 
as realidades eternas que estão agora presentes.
3) O livro fecha com um chamado ao arrependimento (v.
1 1) e um convite (v. 17). Os cristãos podem se arrepender e 
podem recuperar seu entusiasm o anterior, serem en co ra ja ­
dos a permanecer firmes quando confrontados pelos tempos
"Harrington sugere que todo o livro de Apocalipse é um comentário sobre 
ii (|iie Paulo crê. V. seu Understanding the Apocalypse, p. 59.
“O catecismo de H eidelberg, p. 27.
'Ibid., p. 28.
“ ' H a r r i n g t o n , Understanding the Apocalypse, p. 268.
132 ■ Apocalipse
de sofrimento, e serem inspirados pelas visões do livro de 
vitória divina com o Cordeiro.81 “Felizes os que lavam as suas 
vestes, e assim têm direito à árvore da vida e podem entrar na 
cidade pelas portas” (v. 14).
4) O livro conclui com uma advertência para qualquer pes­
soa que acrescentar ou apagar qualquer porção do Apocalipse 
cuja autenticidade foi atestada pelo anjo. A advertência afir­
ma que o livro não somente é apocalíptico, mas profético, isto 
é, uma palavra do Senhor em vez do fruto do gênio humano.
5) O livro inicia com uma fórmula epistolar (1.4) e encerra 
com um tipo de saudação final habitual em cartas.82 A fórmu­
la é igual às cartas paulinas, mas sem analogia exata. O signi­
ficado das referências epistolares é que o livro de Apocalipse 
é apresentado como uma carta para as congregações cristãs e 
seria lida durante os cultos semanais.
8) A conclusão confirma a visão otimista da história huma­
na refletida ao longo do livro. Jesus Cristo é o “Alfa e o Ômega, 
o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (v. 13). As visões de 
João ilustraram que a história não é puro acaso, mas a realiza­
ção do plano de Deus.83 Essa visão otimista da história mostra 
um Deus de amor e de poder que triunfa soberanamente so­
bre todos os seus, e nossos, inimigos. A história humana, como 
a conhecemos, culminará quando Satanás sofrer a derrota eter­
na e o noivo receber sua noiva. Então a igreja desfrutará ale­
gria eterna e paz com Jesus. “Vem, Senhor Jesus! (v. 20)”
OBSERVAÇÕES FINAIS
O leitor atento observou que a minha abordagem idealista ao 
Apocalipse inclui pouca interação com as três interpretações 
incluídas neste trabalho. Embora esta omissão seja por desíg­
nio, o conceito da C oleção d eb a tes teológicos, das quais este 
volum e faz parte, é o de que cada trabalho inclui algum 
opositor construtivo como os outros da coleção. Para esse 
fim,concluo com uma defesa do ponto de vista idealista do 
Apocalipse assim como relato as outras perspectivas ap re­
sentadas neste trabalho.
81Pheme P e r k i n s , R ea d ing the New Testam ent, NewYork: Paulist, 1 9 7 8 , 
p. 327 .
S 2H a r r in c ,t o n , Understanding the Apocalypse, p. 272.
“ H c nd r ik se n , Three lectures on the book o f Revelation, p. 3 0 .
0 ponto de vista idealista ■ 133
Antes de concluir, porém, noto que minha interpretação não 
c puramente idealista. Discorro da direção de meus com entá­
rios em Apocalipse 20 e 21, convencido que esta seção com ­
plementa o ensino de Jesus em Mateus 24 e 25, que apresenta 
uma seqüência cronológica geral de eventos que culminam 
na Segunda Vinda de Cristo. Alguns idealistas criticarão essa 
exceção, preferindo uma in terpretação tem ática que exclui 
qualquer conclusão profética futurista.
Por que os cristãos modernos deveriam adotar uma abor­
dagem idealista ao Apocalipse de João? A melhor razão é que 
o ponto de vista idealista se baseia em um sólido fundamento 
hermenêutico. Após ler a variedade de abordagens incluídas 
neste volume, o leitor provavelmente concluirá que a inter­
pretação de cada autor foi determinada pelas suas pressupo­
s ições h erm en êu ticas . Em ou tras p alavras , cada uma das 
leituras do Apocalipse foi determinada, não pelo texto, mas 
pelas pressuposições trazidas ao texto. Isto é algo difícil de 
aceitar para qualquer estudioso evangélico que prefere exegese 
a eisegesis, mas as várias interpretações à disposição forçam seu 
reconhecimento. Uma vez que essa é a circunstância, o assunto 
essencial enfrentado pelo intérprete do Apocalipse é a valida­
de de suas p ressu p osições herm enêuticas. Estou con ven ci­
do, por várias razões, que a abordagem idealista se baseia em 
um fundamento hermenêutico mais sólido que as outras abor­
dagens representaram neste volume.
1) O id e a l is ta r e c o n h e c e a n a tu r e z a a p o c a l íp t i c a do 
Apocalipse. Embora admita que o livro contém elementos pro­
féticos epistolares, o idealista acredita que João emprega o 
estilo de literatura apocalíptica para levar a mensagem ao lei­
tor. Mediante a confirmação, há algumas discrepâncias entre o 
Apocalipse e a literatura apocalíptica típica do século i, como a 
pseudônima. Mas, apesar de algumas inconsistências secu n ­
dárias, a maioria dos estudiosos evangélicos conclui que o 
livro é apocalíptico.84
Assim, Thomas está correto quando declara que o idealista 
não trata o Apocalipse como um livro de profecia. O idealista
840 dispensacionalista clássico discorda dessa pressuposição, como em 
I homas, que fala do “suposto gênero apocalíptico” do livro. A declaração de 
I homas naturalmente lembra a pergunta do dispensacionalista não-clássico: 
Se o Apocalipse de João não é apocalíptico, o que é?
134 ■ Apocalipse
reconhece que o livro contém algumas predições de eventos 
específicos, como a Segunda Vinda de Cristo, assim como al­
gumas instruções epistolares, como aquelas achadas em suas 
cartas às igrejas. Porém, esse reconhecimento não significa que 
o idealista nega a realidade da profecia bíblica específica. A Bí­
blia tem várias profecias que foram cumpridas em um momento 
e lugar específico, notavelmente aqueles relativos ao Messias. 
Porém, o idealista não acredita que o intérprete pudesse espe­
rar achar muitas profecias específicas no Apocalipse de João.
2) O idealista não somente reconhece o texto como literatu­
ra apocalíptica, mas também o interpreta como esse tipo de 
literatura. Gentry claramente declara a implicação desta con­
vicção: “O Apocalipse é um livro altamente figurativo e não 
podemos abordá-lo com um literalismo direto e simples". En­
quanto quase todo e s tu d io so ev an gélico co n co rd a que o 
Apocalipse é até certo ponto apocalíptico, nem todos o inter­
pretam como tal. Porém, o idealista começa com a pressupo­
sição que desde que o livro é apocalíptico, todo episódio ou 
visão é simbólico até que se prove o contrário.
Quais são os fundamentos para uma interpretação não lite­
ral do Apocalipse? A resposta é simples: boa hermenêutica. Da 
mesma maneira que o estudioso da Bíblia, quando verifica o 
estilo de uma passagem específica, recusa uma interpretação 
literal de parábolas ou de literatura poética, de forma que o 
mesmo estudioso, quando aceita o estilo único do Apocalipse, 
não interpreta esse livro de uma perspectiva literal. Na realida­
de, ao reconhecer o Apocalipse como apocalíptico, o intérprete 
idealista prefere uma abordagem não literal para cada versículo 
no livro. Para o idealista deve haver uma boa razão para se 
abster de interpretação simbólica do texto.
3) O cerne e a alma da abordagem idealista são aqueles que 
dizem que o Apocalipse é um livro apocalíptico que apresen­
ta preceitos espirituais por meio de símbolos, em vez de um 
livro de profecia cumprida em eventos específicos ou pesso­
as na história humana. O Apocalipse não prevê eventos histó­
ricos específicos tanto quanto demonstra verdades infinitas 
relativas à batalha entre o bem e o mal que continua no decor­
rer da era da igreja. Quando acham os um evento, ou uma 
pessoa em que, a profecia é distintamente aplicável, podemos 
considerá-la cumprida dessa maneira em um evento ou em 
uma pessoa — mas não exaurida. Esta abordagem idealista não 
significa que um evento acontece repetidamente ao longo da
0 ponto de vista idealista ■ 135
história, mas que a verdade espiritual é infinita, pois há vários 
cum prim entos nesta dispensação.
Esta abordagem temática da profecia encontra precedente 
histórico no a t . Gentry observa corretam ente que o profeta 
das Escrituras empregou linguagem figurativa para um dos dois 
propósitos: “relacionar verdades espirituais majestosamente ou 
sim bolizar eventos h istóricos dram aticam ente”. O idealista 
pressupõe que desde que a profecia de João é transmitida em 
terminologia apocalíptica, o propósito do Apocalipse é relaci­
onar verdades espirituais em vez de predizer eventos especí­
f icos que seriam cum pridos na h istória humana. Então, os 
idealistas desassociam ligação entre símbolo e evento históri­
co, pois acreditam que símbolos são multivalentes no signifi­
cado e não possuem referente histórico específico.
Meus colegas podem questionar esta pressuposição , e n ­
tretanto, tenho de perguntar: “Em que base podemos concluir 
que João em pregou sím bolos e v isões para correlatar com 
eventos definidos que se desdobrariam na história humana?” 
Duvido que qualquer estudioso sustentaria “O que em breve 
há de acontecer” (1.1) para tal conclusão restrita. Na aborda­
gem id ealis ta , en tão , o in térp re te adm ite que o ep isód io 
apocalíptico transmite uma verdade ou uma idéia infinita. Em 
resumo, a interpretação é uma idéia em vez do evento orien­
tado. Isto não significa que o idealista negue o elemento pro­
fético do Apocalipse. Particularmente, o idealista afirma que o 
elemento profético no Apocalipse não é um evento orientado, 
como os não idealistas possivelmente afirmam.
Isto explica, em parte, por que o idealista não interage com
o preterista, o dispensacionalista progressivo e o dispensacio­
nalista clássico. Cada uma dessas abordagens do Apocalipse 
interpreta o texto como se seu propósito primário fosse pre­
dizer o desdobramento de eventos futuros; o intérprete iden­
tifica o cumprimento de cada episódio do Apocalipse com um 
evento específico ou do primeiro e do último século, ou os 
dois. O intérprete idealista não está interessado em perder 
tempo em tal empenho. Em vez disso, ele ou ela busca enten­
der a idéia, a verdade espiritual, ou o tema transmitido pela 
visão. Em resumo, a pressuposição hermenêutica do idealista 
é claramente distinta daquela defendida em comum pelas três 
outras abordagens apresentadas neste volume.
Esta distinção se presta ao que alguns podem perceber como 
uma atitude elitista ou desinteressada por parte do idealista,
136 ■ Apocalipse
ção a essas discussõesque debatem a identificação de 
ura de linguagem, ao perder o significado do episódio 
no qual é constatado. O idealista permite a cada pessoa 
à verdade ou à idéia transmitida por um símbolo em 
ase com qualquer evento ao longo da história humana, 
íaneira, o idealista encontra muitos pontos favoráveis 
três alternativas de abordagens representadas neste 
, especialm ente com a do preterista, que permanece
i debate que limita a aplicação de um símbolo a um 
imento específico ou pessoa.
aproximação idealista aplica princípios de boa herme- 
Já mencionei o princípio de identificar o estilo antes 
•pretar a literatura. Princípios adicionais também são 
os por uma leitura idealista do Apocalipse. O idealis- 
incorajado por uma história longa de interpretações 
adas do Apocalipse, insiste que os sólidos ensinos das 
as têm precedente no que não está claro. O idealista 
iera que um ensino novo e único se torne conhecido 
:alipse; preferivelmente, ele ou ela espera que as ver- 
ontidas ali são ensinadas em outras partes nas Escri- 
) idealista, ao afirmar o propósito fundam ental das 
as, acredita que o Apocalipse não é uma obra históri- 
e os primeiros ou os últim os séculos da igreja, mas 
nte a palavra inspirada de Deus dada para o ensino, 
ndo, corrigindo, e treinando uma igreja que b u sca 
“como estrelas no universo” no meio de uma geração 
Dida e depravada (v. Fp 2.15; 2Tm 3.16). 
íalmente, a abordagem idealista evita as armadilhas que 
[taram os intérpretes do Apocalipse durante séculos. A 
da interpretação do Apocalipse deveria ensinar uma 
recaver-se de tentar correlatar a imagem apocalíptica 
mtos atuais na história humana. Bibliotecas religiosas 
pletas de livros de autores cristãos dedicados que iden- 
o anticristo e predizem a data do fim do mundo. Quanta 
ítação errada tem os de suportar antes de entender- 
e as pressuposições hermenêuticas que produzem es- 
rpretações estão equivocados? As pressuposições que 
muitas abordagens do Apocalipse são ligadas para pro- 
iterpretações contraditórias. O idealista porém, ciente 
longa história de discordância em cima do significado 
vro, caminha intencionalmente para longe de um tem ­
e e perspectiva de evento-orientado que, no passado, 
ou confundir e dividir os cristãos.
3
0 ponto de vista
D ispensacio nai 
PROGRESSIVO
■ C. Marvin Pate
DISPENSACIONALISTA
PROGRESSIVO
INTRODUÇÃO E UMA VISÃO DO JESUS RESSURRETO (AP 1.1-20)
O capítulo de abertura de Apocalipse consiste de uma intro­
dução (v. 1-8) e de uma visão do Jesus ressurreto (v. 9-20). A 
introdução chama atenção ao gênero mesclado do livro: é um 
apocalipse (v. 1-3) e uma carta (v. 4-8), escrita por um profeta 
(v. 3). Como uma obra apocalíptica, o trabalho de João revela o 
plano de Deus para o final dos tempos, especialmente à m e­
dida que está relacionado à Segunda Vinda de Jesu s Cristo. 
Como uma carta, o Apocalipse inicia com o formato epistolar 
típico daqueles dias: autor — João (v. 4); destinatário — as sete 
igrejas da Ásia (v. 4); cum prim ento — saudações e bênçãos 
do Pai (aquele “que é [...] que era [...] e [...] que há de vir”), o 
Espírito Santo (os “sete espíritos”), e o Filho (v. 4-8). A visão de 
Jesus ressurreto (v. 9-20) combina com as descrições do Filho 
do homem celestial e de Deus, o Ancião de Dias (v. Dn 7 .13 ,14 
e Ap 7 .9 ,10 ,13 , respectivamente). A implicação de tal com bi­
nação para João é clara: Jesus é Deus.
Para um dispensacionalista progressivo, a chave herm e­
nêutica ao Apocalipse (e, quanto a esse assunto, o n t em geral) 
é a tensão escatológica do “já/ ainda não” (v. a introdução deste 
livro para o contexto desse conceito). Quer dizer, com a pri­
meira vinda de Jesus Cristo a era por vir já alvoreceu, mas 
ainda não se completou; ela espera a parúsia para sua consu­
mação. Dois versículos chave em Apocalipse 1 indicam este 
período: 1.1 (v. 3) e 1.19. A seguir, uma breve discussão des­
sas passagens críticas:
140 ■ Apocalipse
1) Em 1.1, João afirma que Deus revelou a Jesus Cristo,1 e, a 
seguir, para ele, as coisas que “em breve hão de acontecer” (ha 
dei genesthai en tachei; v. 1.3; 4.1; 22.6,7; v. Dn 2.28,29,45). Há 
uma pergunta sobre se as palavras en tachei significam que os 
eventos do final dos tempos ocorrerão em breve (i.e., na vida 
de João), ou que, quando realmente começarem, acontecerão 
com rapidez. A ú ltim a destas op çõ es adm ite um período 
indeterminado entre o dia do apóstolo e o cumprimento de 
suas profecias. Porém, se levarmos em conta a reivindicação 
subseqüente no versículo 3 quanto a esses eventos, “porque o 
tempo está próximo”, a alternativa anterior será a preferida.
Contudo, até aqui, o período da necessidade do cum pri­
mento não está limitado à época do escritor. Uma pista para o 
significado de João pode ser achada na palavra “tem po” no 
versículo 3 (gr. kairos), pois, conforme Oscar Cullmann2 m os­
trou, esse termo indica que a igreja primitiva acreditou que a 
m orte de Jesu s e sua ressurreição inauguraram os últim os 
dias (v., e.g., ICo 10.11; Hb 1.2; l j o 2.18). Isto é o aspecto do 
“j á ” de eventos escatológicos. Apesar disso, foram esperados 
esses sinais dos tem pos para continuar o curso na história 
(porém curto ou longo que possa ser) até a parúsia, isto é, até 
a segunda vinda de Cristo (v. Mc 13.7; Mt 24.6; Lc 21.9; 2Ts
2.1-12). Isto é o aspecto do “não ainda” de eventos escatológicos.
O ponto a ser analisado cuidadosamente, nessa considera­
ção, é que a igreja primitiva não parecia estar preocupada com 
o momento específico da conclusão desses assuntos do final 
dos tempos. Para isto, a primeira vinda de Cristo foi inspira­
da com o significado escatológico que era mais do que sufici­
ente para sustentar a esperança até a parúsia. Conforme veio 
a ser, a Segunda Vinda de Cristo foi obviamente adiada, mas 
esse adiamento não parecia desestabilizar a igreja dramatica­
mente. Para os primeiros cristãos, a parúsia foi um epílogo, 
embora importante, para a primeira vinda de Cristo.
2) Se interpretamos Apocalipse 1.1,3 corretamente, ele escla­
rece o que muitos consideram ser o versículo fundamental do
*A frase, “a revelação de Jesus Cristo”, provavelmente é um genitivo subjetivo. 
Quer dizer, a revelação em que Deus se revela a Cristo é o que o Cristo revela a João.
2Christ and time: the primitive Christian conception of time and history, 
tradução para o inglês de Floyd V. Filson, Philadelphia: Westminster, 1950 [Pu­
blicado em português com o título Cristo e o tempo, São Paulo: Custom, 2003].
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 141
livro — 1.19. A frase em três partes “as coisas que você viu, 
tanto as presentes como as que acontecerão” são corretam en­
te compreendidas como algo relevante para apreender o e s ­
boço cronológico do Apocalipse. Muitos entendem que recorre 
ao passado (a visão de Cristo ressurreto, cap. 1), ao presente 
(as sete igrejas, caps. 2 e 3), e ao futuro (a grande tribulação, a 
parúsia, o reino messiânico temporário, e a nação eterna, caps. 
4—22). Porém, outros percebem uma divisão no versículo 19 — 
João é instruído a escrever o que viu (tanto a visão do Filho do 
homem no cap. 1 ou, como preferimos, a visão do livro in tei­
ro, v. 1.19 com 1.11), que consiste nas coisas que são (presen­
tes) e as coisas que virão (futuro). Isto é como a r c entende o 
versículo: “escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as 
que depois destas hão de acontecer”.
Acrescentaríamos a seguinte observação a esta discussão: 
O que João se refere no versículo 19 é sua visão apocalíptica 
da realidade da natureza — esta era (o presente) e a era por 
vir (o futuro). Se esta sugestão for precisa, então nós realm en­
te achamos no versículo 19 a chave de interpretação para o 
livro de Apocalipse. Os capítulos 2 e 3 descrevem as sete igre­
ja s que existem na terra nesta era presente. Os capítulos 4 e 5, 
em sua vivida descrição da morte e ressurreição de Jesu s , 
retratam a realidade que a era por vir já alvoreceu, mas so­
menteno céu. Os capítulos 6— 18, em seguida, descrevem a 
transição desta era para aquela por vir na terra, com a grande 
tribulação (ou as aflições messiânicas) marcando o momento 
decisivo. Os capítulos 19—22 apresentam a chegada total da 
era por vir na terra, iniciada pela parúsia e m anifestada no 
reino messiânico de Cristo revelado a todos.
Na leitura de 1.19, uma vez que a tribulação de João (1.9) 
pertence às provações desta era (caps. 1— 3), não parece que 
ele a entende como equivalente àquela grande tribulação que 
marcará o fim desta era e o começo daquela por vir na terra 
(caps. 6— 18). Essa observação está de acordo com a aborda­
gem p ré -tr ibu lac íon ista ao A pocalipse. Uma visão de 1 .19 
também fornece apoio importante para o entendim ento pré- 
milenar do reino m essiânico — Embora a era por vir já tenha 
se iniciado no céu (caps. 4 — 18), ainda não apareceu na terra 
(caps. 19— 22).
142 ■ Apocalipse
CARTAS ÀS SETE IGREJAS (AP 2.1— 3.22)
Dois assuntos requerem discussão para entender as cartas 
de João às sete igrejas na antiga província romana da Ásia: 
seu gênero e interpretação. A segunda consideração também 
menciona a natureza das provações enfrentadas pelas igrejas 
em Esmirna, Pérgamo e, especialmente, Filadélfia.
1) Com referência ao gênero das sete cartas, David E. Aune 
dem onstrou convincentem ente que essas correspondências 
são e s s e n c ia lm e n te o rá cu lo s de ju lg a m e n to de sa lvação 
rememorativos da tradição profética do a t . 3 Por conseguinte, a 
estrutura das cartas de João pode ser esboçada em quatro com­
ponentes; a) Cada uma começa com a fórmula de com issio­
namento — a ordem para escrever para a igreja específica, com 
uma descrição associada ao Filho do homem condizente às res­
pectivas necessidades das congregações (2.1,8 ,12,18; 3.1,7,14); 
b) O oráculo de salvação-julgamento forma o cerne de cada 
uma das cartas. Como o profeta do a t , Jesus ressurreto que, de 
forma distinta, exalta e/ ou critica cada uma das sete igrejas de 
acordo com suas situações. Elogios e críticas são endereçados 
às igrejas em Éfeso (2.2-6), Pérgamo (2.13-16), Tiatira (2.19-25) 
e Sardes (3.1-4). Somente exaltação é oferecida às igrejas em 
Esmirna (2.9,10) e Filadélfia (3.8-11), ao passo que a igreja em 
Laodicéia recebe exclusivamente críticas (3.15-20); c) O próxi­
mo elemento requer a atenção, quer dizer, o desafio para ouvir 
e obedecer às palavras do Senhor pelo Espírito (2 .7 ,11 ,17 ,29 ; 
3 .6 ,13,22); d) O componente final exorta as igrejas a superar 
suas dificuldades para, desse modo, receberem as bênçãos 
escatológicas de Deus (2 .7 ,11,17,26-28; 3.5,12, 21).
Compreender que essas cartas são oráculos proféticos au­
xilia sua interpretação, particularmente com respeito ao seu 
período. O ponto de vista preterista tende a considerar o cum ­
primento dessas profecias como algo que ocorreu no passa­
do (p r in c ip a lm e n te o séc . i d.C.). De ou tro lado, v ár io s 
dispensacionalistas clássicos acreditam que essas cartas cor­
resp on d em ao d esd o b ram en to da h is tór ia da igre ja (com 
Laodicéia representando a apostasia da igreja imediatamente
3Prophecy in early Christianity and the ancient m editerranean world, Grand 
Rapids: Eerdmans, 1983, p. 274-9.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 143
antes do retorno de Cristo).4 O dispensacionalista progressi­
vo, porém, segue a hermenêutica do “já/ ainda não” com pre­
endendo o período desses oráculos: há um senso pelo qual o 
cumprimento das profecias ocorreu no passado (particular­
mente com respeito ao culto imperial romano do séc. i) e con­
tinuará sendo cumprido até a parúsia, o apogeu da história. 
O que George Ladd diz em termos gerais a respeito do cum ­
primento da profecia no Apocalipse especificamente também 
se aplica às sete igrejas:
Os profetas do a t mesclaram a perspectiva do próximo e do distan­
te para formar uma única tela. A profecia bíblica não é basicamente 
tridimensional, mas bidimensional; tem altura e amplitude, mas 
está pouco interessada sobre profundidade, isto é, a cronologia de 
eventos futuros. Há uma tensão de profecia bíblica e uma tensão 
entre o imediato e o futuro distante. É verdade que a igreja primiti­
va viveu na expectativa do retorno do Senhor, e é a natureza da 
profecia bíblica que torna possível para cada geração viver em 
expectativa do fim.5
No que segue, focalizamos no aspecto do já/ ainda não dos 
oráculos proféticos às sete igrejas.
Referente ao aspecto do já , a situação que forma o cen á­
rio h istórico das sete cartas provavelmente é, como Colin J. 
Hemer expôs cuidadosamente, o culto a César.6 Providencia­
mos aqui os contornos de sua pesquisa enumerando os itens 
relevantes. 1) Com o im perador D om iciano (8 1 -9 6 d.C.), o 
culto a César alcançou seu pináculo no século i. A evidência 
numismática proporciona ilustrações claras de sua reivindi­
cação à deidade; por exemplo, as moedas ostentam seu título 
de “senhor e deus” e a imagem de seu filho divinizado, sen ­
tado em um globo com as mãos estendidas para sete es tre ­
las (v. Ap. 1.20).
2) Os judeus, ironicamente, estavam isentos da adoração 
imperial, um privilégio que no passado se estendeu a Júlio César.
4Embora outros dispensacionalistas clássicos situem essas cartas em rela­
ção às sete igrejas no séc. i, eles, no entanto, tb. as vêem como totalmente 
operantes ao longo da história da igreja até a volta de Cristo.
14 com m entary on the Revelation o f Jo h n , Grand Rapids: Eerdmans, 1972, 
p. 22.
6The letters to the seven ch u rch es o f Asia in theír local setting, j s n t s s 11 ; 
Sheffield: Unviversity of Sheffield Press, 1986.
144 ■ Apocalipse
3) O ressentimento resultante de judeus para com os cris­
tãos em conseqüência da queda de Jerusalém em 70 d.C.7 não 
foi um bom sinal para os cristãos judeus. As sinagogas plane­
jaram um modo de expulsar esses judeus cristãos de seu meio, 
introduzindo a maldição de “m inim ” (lit ., “hereges”, signifi­
cando “os nazarenos” [os seguidores de Jesus]) nas dezoito 
bênçãos,8 que foram recitadas nas sinagogas (por volta de 90
d.C.). Assim expostos e excomungados, os cristãos judeus já 
não eram considerados pelo governo romano como perten­
centes ao judaísmo e, a seguir, enfrentaram o dilema cruel de 
ou abandonar a Cristo (se eles fossem readmitidos nas sina­
gogas) ou adorar a César. O problema parece ter sido exacer­
bado por esses judeus que forneceram aos oficiais romanos 
locais as listas de cristãos que já não eram associados às suas 
congregações (v. “A carta de Plínio para Trajano", 112 d.C.).
Este contexto político-histórico esclarece o problema teoló­
gico que João focaliza nas sete cartas. De fato, esses oráculos 
proféticos podem ser vistos como exaltação e/ ou advertênci­
as às igrejas por resistir ou não se opor, respectivamente, à 
tentação de sucumbir à adoração a César. Portanto, agora re­
sumimos esse contexto como expresso em Apocalipse 2 e 3. 
Os nicolaítas (2 .6 ,15) e o ensino de Balaão (2.14) — cujos no­
mes significam “dominar o povo” — parecem aludir àqueles 
nas igrejas que disseram que era permissível adorar a César. 
Os ensinos de Jezabel (2.20-22) podem muito bem ser incluí­
dos nessa categoria, especialmente contra o cenário da união 
da adoração a César com a idolatria pagã, que penetraram nas 
associações de comércio daquela época. É diante de tal tenta­
ção que o Jesus ressurreto desafia as igrejas a serem fiéis a 
ele (2 .4 -6 ,8-10 ,12-16 ,20-25 ; 3 .1-5 ,7-12 ,14-21). Por um lado, há
zOs cristãos fugiram de Jerusalém em 68 d.C. em resposta à advertência de 
um oráculo profético da destruição iminente da cidade pelos romanos e, por 
conseguinte, não deram seu apoio à revolta judaica (Eusébio, h e , 3.3).
“Aquela “bênção” lê: “Para os renegados não haja esperança alguma, e para 
que o reino arrogante possa logo ser fundamentado fora de nossos dias, e os 
nazarenos e a minim [‘hereges’] pereçam em um momento e sejam destruídos 
do livroda vida e não possam ser inscritos com o justo. Louvado seja tu, O 
Deus, que humilhas o arrogante” citado em C. K. Barrett, The New Testament 
background: selected documents (New York: Harper & Row, 1961), p. 167. Os 
nazarenos são a m inim e provavelm ente serão identificados como cristãos 
judeus.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 145
a exaltação especial a esses que sofreram até a morte por obe­
decer a Cristo, e não a César (2 .8 -10 ,12 ,13 ) , mas, por outro 
lado, há um julgam ento sobre esses judeus que expulsaram 
os cristãos judeus das suas sinagogas, o que, co nseqü ente­
mente, os expôs ao culto imperial (2.9; 3.5,9).
Em nossa avaliação, a abordagem exclusivamente futurista 
em referência ao Apocalipse, em geral, negligenciou o cenário 
histórico precedente na interpretação dos capítulos 2 e 3, pro­
vavelmente por não querer atribuir importância à adoração a 
César para o entendimento de Apocalipse 6— 18. Isso, seria, 
aparentem ente diminuir a futuridade dos eventos descritos 
nesses capítulos, especialmente a suposição que João espera­
va ansiosamente o dia de um império romano reavivado de­
baixo do governo do anticristo que se oporá a Cristo e Israel.9
Reconhecer que a adoração a César seja o contexto prático 
dos capítulos 2 e 3 e dos capítulos 6— 18, não é necessário, 
porém, para restringir os eventos desses capítulos ao passa­
do, como a abordagem preterista tende a fazer. Este é particu­
la rm e n te o ca so para c o m p re e n d e r o p er íod o da grande 
tribulação que, para muitos, é o vínculo temático que liga os 
capítulos 2 e 3 e 6— 18. Dale C. Allison registra bem o ponto 
de vista de preterista no assunto:
O Apocalipse quase foi certam ente escrito durante um período de 
aflição rigorosa. O livro é endereçado àqueles “que compartilham 
[...] em Jesus a tribulação e o reino e a perseverança” (1.9). “Tribula­
ção” e “sofrim ento” caracterizam a experiência presente dos leito­
res (2 .9 ,10 ,13 ; v. 2 .3 ; 12 .17 ; 13.7). As referências às testemunhas 
que morreram pela fé são num erosas (6 .9 -11 ; 12 .11 ; 17.6; 18.24; 
20.4; v. 13.7).
A suposição que o profeta, como alguns judeus e cristãos antes 
dele, com preenderam que sua própria tribulação era grande, a tri­
bulação messiânica é também bem fundamentada. Thlipsis caracte­
riza o presente, e em Apocalipse esta palavra é um termo técnico 
para a aflição final (7 .14; v. 1.9; 2 .9 ,10,22). Mais adiante, a multidão
9Esta abordagem para ver um império romano reavivado em Ap 6— 18 foi 
enormemente popular na América devido aos estudos, entre outros, de Hal 
Lindsey, The late g rea t planet earth (Grand Rapids: Zondervan, 1970). Para obter 
uma crítica dessa perspectiva, v. C. Marvin Pate e Calvin B. Haines Jr., Doomsday 
delusions'. what's wrong with predictions about the end of the world (Downers 
Grove, 111.:, InterVarsity, 1995).
146 ■ Apocalipse
do Apocalipse 7 .9-17 que saiu da grande tribulação (7.14), inclui, 
sem dúvida, aqueles cristãos que recentem ente derram aram seu 
sangue como testemunha de Jesus. João talvez, reconhecidam en­
te, descreveu uma distinção entre a tribulação presente e sua inten­
sificação imediata antes do fim (3.10). Mas não há divisão alguma 
entre os dois períodos. Um se coloca como o apogeu do ou tro .10
Allison reconhece 3 .10 justam ente por ser um texto fun­
damental nessa discussão, especialm ente em relação ao a s ­
sunto sobre se a igreja irá ou não enfrentar a grande tribulação. 
Sua declaração admite tacitamente uma distinção entre as pro­
vações na época de João (caps. 2 e 3) e a grande tribulação 
por vir (caps. 6— 19). Além disso, se pudesse ser demonstra­
do que a promessa de João para a igreja em Filadélfia impli­
cou poupá-la da vinda da grande tribulação, então 3 .10 pode 
ser compreendido como o estabelecim ento de um preceden­
te para o poupar a igreja da grande tribulação. Porém, após 
tudo isto ser dito, não fica claro se a questão gramatical refe­
rente à frase grega tçrçsô ek significa “pouparão [vocês] do” (o 
ponto de vista da pré-tribulação) ou “manterá [você] por” (o 
ponto de vista da média-tribulação ou pós-tribulação).11
Contudo, gostaríamos de dar uma sugestão não detectada 
pelos intérpretes dessa passagem. Apocalipse 3 .10 é um exem ­
plo da “lei sacra”, um pronunciamento divino do qual o casti­
go se iguala ao crime ou à recompensa, conforme o comporta­
m ento .12 Assim o versículo deveria ser compreendido como, 
“Visto que você guardou a minha palavra de exortação em rela­
ção à perseverança, eu também o guardarei da hora da prova­
ção que está para vir sobre todo o mundo, para pôr à prova os 
que habitam na terra [a Grande Tribulação]”. Mas dizer que Cristo
wThe end o f the ages has come: an early interpretation of the passion and 
resurrection of Jesus, Philadelphia: Fortress, 1985 , p. 70-1. Estes sentimentos 
seriam também compartilhados pela escola idealista de pensamento e, por 
conseguinte, pela perspectiva amilenarista.
UA despeito de controvérsias em relação a esse argumento, embora com 
pontos de vista divergentes, v. Robert L. Thomas, Revelation 1— 7: an exegetical 
commentary (Chicago-, Moody, 1992), p. 283-8 (bem como sua contribuição no 
presente trabalho), e Douglas J. Moo, “The case for the posttribulation rapture 
position ”, in: The ra p tu re : pre-, mid-, or Post-Tribulational, Grand Rapids: 
Zondervan, 1984, p. 169-211 [O arrebatam ento: 3 pontos de vista, é o próximo 
livro da série a ser publicado pela Editora Vida].
12Aune aplica esta forma literária de retórica em relação a Apocalipse 3.10, mas 
não faz conexão alguma entre esse aspecto e a pré-tribulação v., Prophecy, p. 279.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 147
permitirá que os cristãos em Filadélfia enfrentem as aflições 
m essiânicas e padeçam com a morte, mas apesar disso ter 
suas almas entregue posteriormente (que é o ponto de vista 
da pós-tribulação) não há uma correlação apropriada entre a 
recompensa e seu comportamento obediente. Portanto, é m e­
lhor com preender a prom essa com o se indicasse que, uma 
vez que os crentes em Filadélfia já sofreram pela fé, logo, se ­
rão mais poupados no futuro (isto é, a grande tribulação; v. 
2 .10,13). Se essa interpretação for precisa, então isso tende a 
favorecer o ponto de vista da pré-tribulação dessa passagem, 
e a distinção entre as provações da época de João e as aflições 
m essiânicas por vir permanecem.
A SALA DO TRONO DE DEUS E DE CRISTO (AP 4 E 5)
No estilo próprio judaico, João é arrebatado ao céu para receber 
uma visão da sala do trono de Deus (v. Ap 4.1 com Ez 1; lEnoque 
14; 4Esdras 14; 3Enoque).13 Apocalipse 4 e 5 é a descrição de João 
referente ao tribunal divino, em que usa a imagem de círculos 
concêntricos: 1) o trono de Deus e Cristo são o círculo do centro 
(4.3; 5.6); 2) os quatro seres viventes (v. Ez. 1.5-25) incluem o 
círculo seguinte (Ap 4.6-9); 3) os 24 anciãos e seus tronos (pro­
vavelmente uma classe especial de anjos) formam o próximo 
(4.4,10,11); 4) uma hoste divina inumerável compõe o último 
círculo ao redor do trono (5.11-13). As doxologias quase idênti­
cas para Deus (4.7-11) e para Cristo (5.11-14) indicam que os 
dois são iguais em sua condição divina.
Ironicamente, Cristo é retratado como o leão-cordeiro. A 
imagem anterior o compara ao Messias davídico (v. 5.5 com 
Gn 49 .9 ; Is 11.1 ,10) ao passo que o símbolo posterior o retrata 
como o cordeiro pascal/ o servo sofrido (v. Ap 5.6 com Êx 
12.5,6 ; Is 53.7; Jo 1.29, 36; At 8.32; lPe 1.19). Juntas, as duas 
m etáforas descrevem Jesu s como o Messias sofrido. Assim, 
só ele é qualificado para abrir o livro dos sete selos selados, 
quer dizer, o plano divino para o futuro do mundo que é a 
culminação da história da salvação. Além disso, dois conceitos 
fundamentais pertinentes a Apocalipse 4 e 5 requerem uma bre­
ve discussão: o conflito em contextos culturais pressupostos
13Apocalipse 4 .1 , provavelmente não alude ao arrebatamento.
148 ■ Apocalipsepela visão de João do trono divino, e o período compreendi­
do pela exaltação de Cristo ao trono.
1) O contexto histórico-cultural é importante para o dispen­
sacionalista progressivo quando interpreta o texto sagrado. 
Esse princípio hermenêutico é relevante para a compreensão 
de Apocalipse 4 e 5 porque, como os mais recentes estudio­
sos reconhecem, provavelmente há nesses capítulos um con­
flito histórico-cultural entre judeus-crístãos e o culto imperial 
greco-romano. Notamos anteriorm ente que a visão de João 
do trono divino de Deus estava arraigada no apocalipse ju ­
deu, que se desenvolveu a partir da tradição profética do a t . 
Esse contexto, uma vez que ele se funde com o cristianismo, 
traz à tona vários símbolos em Apocalipse 4 e 5: a) o tribunal 
divino de Yahweh/ Cristo (v. lR s 22 .19 ; SI 89.7; Is 24 .23); b) 
experiência mística como a maneira de ser transportado ao 
trono divino (Ez 1; lEnoque 14; 4Esdras 14); c) a revelação no 
céu das coisas que acontecerão na terra no final dos tempos 
(Dn 2.29,45; 4Esdras 7 .14 ,83 ; 13.18; 2Baruque 21 .12 ; lQ s 1 1 .5 ­
8); d) o leão-cordeiro e sua imagem respectiva do Messias 
davídico/ cordeiro pascal que se torna o padrão que o povo 
de Deus em Apocalipse deve seguir — primeiro o sofrimento, 
a seguir a glória (v. Ap 7; 14).
Como David E. Aune expôs, Apocalipse 4 e 5 também retra­
ta o tribunal cerimonial imperial.14 Os pontos de contato se ­
guintes com aquele am biente em ergem no sim bolism o dos 
capítulos 4 e 5; a) Os reis greco-romanos eram considerados 
divinos, suas salas da corte real expressavam isso, de modo 
freqüente e artisticam ente, como um ser cósm ico, os quais 
eram retratados em círculos concêntricos; b) Seus criados eram 
com freqüência associados á astrologia (sete esferas planetá­
rias [v. Ap 4.5], 24 [o dobro dos doze sinais do Zodíaco] os 
devotos [v. 4 .4 ,10 ; 5.6-10]); c) Esses criados cantaram hinos 
de adoração ao rei divino (v. 4.8-11; 5.9-14); d) O rei aplicou 
justiça sobre seu império, simbolizado por um livro em for­
ma de rolo (v. 5.1-8). Essas considerações, junto com os cla­
mores rivalizados em relação às respectivas deidades ao longo 
do Apocalipse entre João e o culto imperial do século i (Deus,
14A influência do tribunal cerimonial imperial romano em Apocalipse de 
João, Papers o f the Chicago Society ofBiblical R esearch 28 (1983), p. 1 -26 .
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 149
Filho de Deus, o Dia do Senhor, Salvador do mundo) sugerem 
que as duas culturas se conflitam na imagem empregada em 
Apocalipse 4 e 5.
2) Relacionado ao primeiro assunto, o período adotado por 
João para a exaltação de Cristo para o trono requer explicação. 
O dispensacionalista clássico relega os eventos do Apocalipse 
4 e 5 ao futuro distante. Porém, o dispensacionalista progres­
sivo percebe a sobrep osição das duas épocas operantes na 
visão de João em relação à exaltação de Cristo ao trono de 
Deus. De um lado, com a morte, ressurreição, e ascensão de 
Cristo, a era por vir alvoreceu no céu. Isto não é nada menos 
que o começo do cumprimento do reinado do Messias davídico 
(v. Ap 5 .5 -10a com a aplicação de SI 110.1 em At 2 .32-36; ICo 
15.25; Hb 1.13). De outro lado, o reino de Cristo davídico ain­
da não desceu à terra (v. Ap 5 .10b com 20.1-6). Os capítulos 
6— 19 detalham o processo pelo qual esse reino messiânico 
se m a n ifes ta rá na terra . Assim, na época dos even tos de 
Apocalipse 4 e 5, a era por vir ainda não se concluiu.15
AS AFLIÇÕES MESSIÂNICAS (AP 6— 18)
No judaísmo primitivo, as aflições messiânicas recorreram ao 
tempo da grande tribulação e tristeza que recairia sobre o povo 
de Deus imediatamente antes da vinda do Messias. O concei­
to é prenunciado no a t em associação ao dia do Senhor (v.,
e.g., Is 24 .17-23 ; Dn 12.1; Jo 2 .1 -11 ,28-32 ; Am 5.16-20; Sf 1 .14­
-2 .3 ) , e desenvolvido no apocalipse judeu (4Esdras 7.37; Ju ­
bileus 2 3 .1 1 ; 2 4 .3 ; 2Apocalipse de Baruque 55 .6 ; lEnoque 
80.4 ,5) e no n t (Mt 24/ Mc 13/ Lc 21; 2Ts 2; Ap 6— 18).
Porém, o termo “aflições m essiânicas” não acontece até a 
escr itu ra do Talm ude (e.g ., b. S h a b b a th 1 1 8 a ; b. P esahim 
118a). Vários eventos eram, com freqüência, associados a es­
sas aflições: guerras, terremotos, fome, a perseguição do povo 
de Deus, a apostasia dos crentes, e perturbações cósm icas.16 
Até mesmo uma leitura casual de Apocalipse 6— 18 indica que
15Para se obter uma boa ilustração da aplicação do dispensacionalista pro- 
r.icssivo de SI 110.1 em referência à ressurreição de Jesus, v. Bock e Blaising, 
/ ’/ ogressive dispensationalism, p. 177-8.
MiO estudo clássico sobre o assunto do apocaliptismo judeu, inclusive uma 
discussão das aflições messiânicas, por David S. Russell, The m eth o d a n dm essa ge 
i>/ Icwish Apocalyptic 2 0 0 a.C. a 1 0 0 d.C. (Philadelphia: Westminster, 1964).
150 ■ Apocalipse
o assunto abordado são as aflições messiânicas ou os sinais 
dos tempos que acontecerão imediatamente antes do apare­
cimento do Messias. Dois assuntos servem como diretrizes 
para resumir esses capítulos a partir de um ponto de vista 
progressivo dispensacionalista: 1) o período das aflições; e 2) 
a identificação dos santos da tribulação. Focalizaremos esses 
dois assuntos porque eles produzem um debate vigoroso com 
referência à sua interpretação. A primeira consideração rece­
berá a maior parte de nossa atenção nesta seção.
0 período do Apocalipse 6— 18
Quanto ao prazo de Apocalipse 6— 18, os preteristas interpre­
tam as aflições messiânicas descritas nesse sentido, como se 
já tivessem acontecido na época de João. Por outro lado, os 
futuristas, especialmente os dispensacionalistas tradicionais, 
consideram que esses eventos não serão finalizados até o tem ­
po que precede imediatamente a parúsia. Em contraste com 
estas duas escolas de pensamento, os idealistas discutem que 
a imagem dos capítulos 6— 18 expressa a batalha contínua 
entre Deus e Satanás e não deveria ser vinculada a qualquer 
período cronológico. De certo modo, o ponto de vista progre­
ssivo dispensacionalista representa uma abordagem eclética, 
combinando com o que compreende ser o melhor nas inter­
pretações já mencionadas.
Em bom estilo h erm enêutico , a abordagem progressiva 
dispensacionalista com eça seu acolhim ento nos capítulos 6— 
18 exam inando seu con texto h istór ico-cu ltu ra l que in eg a­
velmente será localizado no século i d.C., especialm ente o 
conflito entre César e Cristo. Contudo, visualiza a realidade 
desse conflito com o também operante ao longo da história 
do povo de Deus. No fim, porém, os dispensacionalistas pro­
gressivos acreditam que o cumprimento final desses capítu­
los espera o tempo do retorno de Cristo. Em outras palavras, 
essa abordagem interpreta os capítulos 6— 18 pela ótica da 
tensão escatológica do já/ ainda não. A seguir dividiremos 
essa herm enêutica em suas duas partes constitu intes: 1) o 
aspecto do já — o cumprimento das profecias do Apocalipse 
6— 18 nos dias de João; 2) o aspecto do ainda não — a reali­
zação final das p ro fecias no período im ediatam ente antes 
da Segunda Vinda.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 151
O cumprimento parcial de Apocalipse 6— 18 nos dias de João
Para defender a tese de que os eventos descritos nos capítu­
los 6— 18 experimentaram o cumprimento parcial no século i, 
três exemplos de evidências podem ser registrados: a) os últi­
mos dias, dos quais os capítulos 6— 18 se ocupam, iniciando 
com a primeira vinda de Cristo; b) a estrutura paralela entre a 
primeira metade do Discurso de Jesus no Monte das Oliveiras 
(Mt 24/ Mc 13/ Lc 21) e os ju lgamentos dos selos em Apocalipse 
6 que pertencem aos eventos que conduzem até a queda de 
Jerusalém em 70 d.C.; c) alusões históricas ao século i entre 
César e Cristo em Apocalipse 6— 18, que servem como con­
texto para o cumprimento final dessas profecias em um futu­
ro d is tan te da é p o ca de Jo ão . Esse cu m p rimen to parcial 
hermenêutico que conduz a uma realização final não deveria 
surpreender o leitor, porque é o mesmo exemplo que se en­
contra com relação à profecia do a t .
a) Os últimos d ias e a p rim eira vinda de Cristo. O n t afirma 
claramente estados em que a época por vir ou os últimos dias 
alvoreceram com a primeira vinda de Cristo (At 2.16-21; ITm 
4.1; Hb 1.2; l j o 2.18). Uma geração atrás, C. H. Dodd se funda­
mentou nessa verdade, mostrando que a igreja primitiva (esp. 
como descrito no livro de At) atribuiu significado escatológico 
à vida, morte e a ressurreição de Jesus Cristo de várias ma­
neiras: 1) Por intermédio de Jesus a era messiânica teve seu 
início (At 2.16; 3 .18 ,24) pelo seu ministério, morte e ressur­
reição (2.23-33); 2) Pela sua ressurreição, Jesus foi exaltado à 
destra de Deus como a cabeça m essiânica do novo povo de 
Deus (2.33-36; 3.13); 3) O Espírito Santo é o sinal da presença 
do eschaton (a era final) como também a prova de que Jesus 
reina atualm ente no céu em poder e glória (2 .23); 4) A era 
m essiânica alcançará sua consum ação brevem ente no retor­
no de Cristo (3.21); 5) Um convite será sempre estendido às 
pessoas que receberem Cristo e a vida da era por vir (2 .38 ,39 ) .17
Gordon D. Fee descreve a tensão escatológica resultante 
que caracteriza o cristão entre a primeira e Segunda Vinda de 
Jesu s Cristo:
u The Apostolic p reaching and its developments, New York: Harper, 1944, p. 
18-45.
152 ■ Apocalipse
Certamente, o sistema essencial para o entendimento do cristia­
nismo primitivo, pela igreja primitiva, é escatológico. Os cristãos 
passaram a acreditar que, no caso de Cristo, a nova época (por vir) 
já se iniciara, e que, especialm ente pela morte de Cristo e sua res­
surreição, assim como o dom subseqüente do Espírito, Deus colo­
cara o futuro em ação, para também ser consumado ainda mais vez 
(na segunda vinda de Cristo), A existência deles foi por essa razão 
essencialm ente escatológica. Eles viveram “entre os períodos” do 
começo e da consum ação do fim. Deus já assegurara sua [...] salva­
ção; e já eram o povo do futuro, que viviam a vida do futuro na 
época presente — e desfrutavam seus benefícios. Mas eles ainda 
esperavam a consum ação gloriosa dessa salvação. Assim, vive­
ram em uma tensão essencial entre o “já ” e o “não-ainda”.18
b) A estru tu ra p a r a le la em A pocalipse 6 e o D iscurso do 
Monte d as Oliveiras. O fato de os últimos dias se iniciaram 
com a primeira vinda de Cristo nos permite ver os eventos 
proféticos descritos em Apocalipse 6— 18 como algo que su­
cedeu, parcialmente, no século i d.C. Isto é confirmado pela 
estrutura paralela que existe entre os sinais dos tempos con­
forme retratado na primeira parte do Discurso do Monte das 
Oliveiras e os julgam entos dos selos em Apocalipse 6 .19 Esse 
exemplo serve para retratar a geração de Jesus — que se e s ­
tende da época de sua vida à queda de Jerusalém em 70 d.C. — 
como o contexto para a Segunda Vinda. De fato, de acordo 
com o Discurso do Monte das Oliveiras, a queda de Jerusalém 
(embora em forma de julgamento) é uma parte do aspecto do 
“já ” da era por vir, ao passo que o retorno de Cristo constitui 
seu aspecto do “ainda não”. Prosseguiremos agora com uma 
discussão do aspecto já , especialm ente relativo à queda de 
Jerusalém, como apresentado no Discurso do Monte das Oli­
veiras em Apocalipse 6.
É um lugar-comum entre os estudiosos do Evangelho hoje 
em dia ver o Discurso do Monte das Oliveiras de Jesus retra­
tando a Segunda Vinda contra o contexto da queda de Jeru sa­
lém. Por exemplo, em seu comentário magistral sobre Lucas, 
Joseph A. Fitzmyer escreve o seguinte em referência a Lucas 21:
18i and 2Timothy, Titus, Peabody, Mass.: Hendrickson, 1988, p. 19.
19A seção seguinte é extraída de Pate e Haines, Doomsday delusions, p. 3 4 ­
57. Usado com permissão de InterVarsity Press.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 153
O discurso de Lucas rem emora a catástrofe em Jerusalém (70 d.C.) 
em um ponto de vista m icrocósm ico; vê a crise que a vinda terres­
tre de Jesus trouxe às vidas de sua própria geração, mas vê isto 
agora como um precursor da crise que Jesus e sua mensagem, e 
sobretudo sua vinda como o Filho do homem, trará a “todos os que 
vivem na face de toda a terra” (21 .35). Os dois eventos são exem ­
plos para Lucas do julgam ento de Deus [...] Como Jerusalém en­
controu seu destino, assim sucederá com todos aqueles que vivem 
na face da terra.20
Duas das frases fundamentais no Discurso do Monte das 
Oliveiras que destacam a conexão entre a queda de Jerusalém 
e a Segunda Vinda são “o início das dores” e “ainda não é o 
fim” (Mt 24.6-8/ Mc 13.7,8; v. Lc 21.9). Essas frases transm i­
tem a idéia de que os sinais dos tempos com eçaram com J e ­
sus e sua geração, especialmente a queda de Jerusalém, mas 
não estarão completos até o retorno de Cristo.
Para contrapor esse ponto de vista, alguns podem desejar 
dizer que a declaração de Jesu s “Eu lhes asseguro que não 
passará esta geração até que todas estas coisas aconteçam ” 
(Mt 24.34/ Mc 13.30/ Lc 21.32), se adapta melhor à Segunda 
Vinda do que à queda de Jerusalém em 70 d.C. Porém, A. L. 
Moore refuta essa con ten ção plausível, especia lm ente com 
referência a Marcos 13.30, ao recorrer a dois pontos, um gra­
matical e o outro contextual.21 Gramaticalmente, as palavras 
“todas estas coisas” (tauta panta) são uma referência, posterior, 
a “estas coisas” mencionadas no versículo 29, uma atribuição 
aos eventos que precedem o fim, não o próprio fim. De fato, 
os versículos 29 e 30 falam dos sinais dos tempos que prece­
derão à queda de Jerusalém em 70 d.C. (v. 14-23), não à Se­
gunda Vinda.22 Esse argumento é confirm ado pela evidência 
contextual, quer dizer, a estrutura do Discurso do Monte das 
Oliveiras de Marcos (Mc 13). Moore esboça a passagem assim:
v. 1-4 Introdução; a pergunta levantada no v. 4 que conduz a um 
discurso do fim e sua data e os sinais do fim e suas datas.
20The Gospel according to Luke x - x x i v , a b , New York: Doubleday, 1983, p. 1329.
21 The parousia in the New Testament, NovTSup 13, Leiden: E. J. Brill, 1966, 
132-6.
22Ibid., p. 132-3.
154 ■ Apocalipse
v. 5-23 Os sinais do fim, traçados em quaisquer das duas extre­
midades mediante advertências contra a sedução de fal­
sos m essias e profetas com o clam or fictício (v. 5 e 6 e 
21-23) 
v. 24-27 O próprio fim
v. 28-31 Refere-se ao tempo dos sinais do fim e ao seu significado 
precedendo o tempo do fim 
v. 32-37 Refere-se ao tempo do evento final.23
Com base nessa estrutura podemos descobrir que um tema
paralelo emerge — os sinais dos tempos parecem estar sepa­
rados da Segunda Vinda:
Sinais dos tem pos Segunda Vinda
1. v. 5-23 v. 24-27
2. v. 28-31 v. 32-37
A conclusão de Moore parece justif icada: “Considerando 
que os sinais acontecerão em um futuro imediato (entretanto 
não necessariamente exaurido por aquele futuro imediato), o 
próprio fim não está tão delimitado.24 Devido a razões grama­
ticais e contextuais, então, “estas coisas” parecem recorrer aos 
eventos que conduzem à queda de Jerusalém em 70 d.C., não 
à Segunda Vinda.
O exemplo m encionado — de que a queda de Jeru sa lém 
serve como o contexto histórico para a Segunda Vinda — tam­
bém parece se ajustar ao livro do Apocalipse.25 O reconheci­
m ento d isso p erm ite a s s o c ia r os s ina is dos tem p o s que 
descrevem a queda de Jerusalém no Discurso do Monte das 
Oliveiras aos ju lgam entos delineados no Apocalipse, esp eci­
almente os julgamentos do selo em Apocalipse 6, o protótipo 
da trombeta e a taça dos julgamentos. R. H. Charles nota as 
seguintes conexões:
23Ibid., p. 134.
24ibid,, p. 134-5.
25V., e.g., os trabalhos por J. Massyngberde Ford, Revelation, a b (NewYork: 
Doubleday, 1975), especialmente sua exposição de Apocalipse 6 e 17; Alan 
James Beagley, The “Sitz im leben" o f the Apocalipse with particular re feren ce to 
the role o f the ch u rch ’s enemies (New York: Walter de Gruyter, 1987), especial­
mente o cap. 2; Kenneth L. Gentry Jr., Before Jerusalem fell: dating the book of 
Revelation (Tyler: Institute for Christian Economics, 1989).
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 155
Mateus Marcos Lucas Apocalipse
24.6,7, 9a, 29 13 .7-9a, 24 ,25 21.9-12a, 25 ,26 6.2-17; 7.1
1. Guerras 1. Guerras 1. Guerras Selo 1. Guerras
2. Conflito 2. Conflito 2. Conflito Selo 2. Conflito
internacional internacional internacional internacional
3. Fome 3. Terremotos 3. Terremotos Selo 3. Fome
4. Terremotos 4. Fome 4. Fome Selo 4. Pragas 
(morte e inferno)
5. Perseguições 5. Perseguições 5. Pragas Selo 5. Persegui­
ções
6. Eclipse do sol 
e da lua; as 
estrelas cairão; 
os poderes 
celestes serão 
abalados
6. Eclipse do sol 
e da lua; as estre­
las cairão; os 
poderes celestes 
serão abalados
6. Perseguições Selo 6. (6 .12— 
7.3) Terremotos, 
eclipse do sol, a 
lua torna-se 
vermelha como 
sangue26
A conclusão a ser tirada dessas comparações é que os três 
Evangelhos e o Apocalipse vêem os sinais dos tempos como 
já iniciados na geração de Jesus, particularmente com a que­
da de Jeru salém em 70 d.C. A tarefa perante nós, então, é 
arraigar brevem ente os sinais precedentes dos tem pos nos 
eventos que cercam a queda de Jerusalém . Excetuaremos a 
discussão da figura do anticristo (v. Ap 6.2 com Mc 1 3 .5 ,6 ,2 1 ­
23 e paralelos) para a nossa terceira prova irrefutável, a fim de 
seguir as alusões históricas em Apocalipse para o século i d.C.
i) G uerras (v. Mt 2 4 .6 ,7 / Mc 1 3 .7 ,8 / Lc 21 .9 ,10 ; v. Ap 6.3,4). 
No Discurso do Monte das Oliveiras, Jesus reconheceu a cer­
teza de guerra, mas acrescentou que necessariamente não era 
o sinal que o fim havia chegado totalmente. Como outros si­
nais dos tempos, era somente o começo do “início das dores” 
ou os sinais dos tempos (v. Mc 13.7,8 e paralelos). Muitos in­
térpretes acreditam que a referência de Jesus para o aumento 
de guerras aqui e em Apocalipse 6 .3 ,4 (o segundo cavaleiro)
26A criticai and exegetical com m entary on the Revelation o f St. John, ict, 
lidinburgh; T. & T. Clark, 1920 , vol. 1, p. 158; cf. Louis A. Vos, The synoptic 
traditions in the Apocalypse (Kampen: Kok, 1965), 181-92.
156 ■ Apocalipse
é uma alusão ao século i. A paz que César Augusto (31 a.C.-14 
d.C.) estabeleceu (pax Romana) ao longo do império romano foi 
muito breve. As guerras começaram na Inglaterra, Alemanha, 
Armênia, e Partia sob o Imperador Cláudio (entre 41 d.C. e 54). O 
período seguinte, após a morte de Nero (69 d.C.), viu a rápida 
ascensão e queda de três imperadores, Oto, Galba e Vitélio, em 
meio aos motins civis e ao caos político. O período após a morte 
de Nero era tão devastador que ameaçou reduzir o império ro­
mano a nada. O perigo que Roma enfrentou naquele momento 
era bem conhecido por aquela geração. Josefo escreveu sobre 
as guerras civis romanas, “eu omiti uma explicação exata delas, 
porque são bem conhecidas por todos, e são descritas por gran­
de número de autores gregos e romanos” (Wars 4 .9 .2; v. Tácito, 
Histories 1.2-3; Seutônio, Lives, “Vespasiano” 1).
Especialmente pertinente ao sinal dos fins dos tem pos de 
guerras e rum ores de guerras havia a revolta judia contra 
Roma, que culminou na queda de Jerusalém (66-70 d.C.). A 
guerra judaica contra Roma testemunhou a morte de m ilha­
res e milhares de judeus na Judéia e a escravização de outros 
milhares. A estimativa de Josefo é que 1 100 000 ju deus fo ­
ram mortos naquela época (entretanto ele indubitavelmente 
exagerou no cálculo). Tito, o general romano, destruiu to ta l­
mente a cidade. Josefo relata esse acontecimento desse modo:
Agora, visto que o exército não tinha mais pessoas para m atar ou 
saquear, porque lá não permaneceu ninguém para ser objeto da sua 
fúria (porque não teriam poupado ninguém, mesmo se tivessem 
outro trabalho a ser feito lá) César ordenou que não deveriam demo­
lir a cidade inteira e o templo, mas deveriam deixar o máximo das 
torres erguidas, isto é, as de maior eminência; quer dizer, Phasaelus, 
Hippicus, Mariamne e o muro anexo à cidade no lado ocidental. Esse 
muro foi preservado para servir de acampamento, como também 
para alojar a guarnição e poupar as torres para mostrar às gerações 
futuras que tipo de cidade fora e como era fortificada, mas que fora 
subjugada pela bravura romana; mas todo o restante do muro foi 
posto abaixo, reduzido totalmente, ao mesmo nível do solo, por 
aqueles que os escavaram até a sua base, até que não sobrasse nada 
para levar os que fossem para lá a acreditar que jamais fora habita­
do. Este foi o final que sobreveio a Jerusalém pela loucura daqueles 
que eram em prol das in o v açõ es; um a cid ad e de gran d e 
magnificência e fama entre toda a humanidade (War 7.1.1).
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 157
Para Josefo, a destruição de Jerusalém estava além de qual­
quer comparação. Ele observa:
Considerando que a guerra que os judeus fizeram com os rom a­
nos foi a maior de todas, não som ente as ocorridas em nosso 
tem po, mas, até certo ponto, daquelas que jam ais se ouviu falar; 
em que cidades lutaram contra cidades, ou nações contra nações 
[...] Por conseguinte, me parece que os infortúnios de todos os 
homens, desde o princípio do mundo, se forem com parados a 
esses dos judeus, não são tão consideráveis e tão devastadores 
(War, prefácio a 1 e 4).
A profecia de Jesus sobre a cidade tornara-se realidade (Mt 
24.15/ Mc 13.14/ Lc 19.41-44; 21 .20-24 ; Ap 6.3,4 ; 11.1,2 [cf. v.
8]; 17,18).
n) Fom e (Mt 2 4 .7 / Mc 1 3 .8 / Lc 2 1 .1 1 ; v. Ap 6.5,6). A c o n se ­
qüência inevitável da guerra é a fom e, que não foi descrita 
em nenhum lugar tão perfe itam ente quanto em Apocalipse 
6 .5 ,6 (v. 7,8), conforme a descrição do terceiro cavaleiro. Te­
ria sido fácil para o profeta do Apocalipse p ressentir a guerra 
e a fome. Durante o reinado de Cláudio, a fom e ocorreu em 
Roma no ano 42 d.C., e a escassez de comida foi inform ada 
na Judéia em 4 5 -4 6 , na Grécia em 49 , e em Roma novam en­
te em 51. A referência para o par de balanças e a inflação no 
preço dos alim entos em 6 .5 ,6 pode não ajudar, mas pode 
ao menos fazer recordar a severa fome que ocorreu em J e ­
rusalém durante seu cerco pelo exército rom ano. Naquela 
época, os habitantes da cidade tiveram de pesar sua comida 
e bebida por causa da escassez d esses gêneros. Tão grave 
era isto que até m esm o o amor de uma mãe pela sua cr ia n ­
ça cessou . Jo se fo registra a história sobre Maria, uma m u­
lher da Peréia que e s ta v a e n tre os ju d e u s fa m in to s em 
Jeru sa lém durante o cerco. Ela agarrou sua criança, levan­
do-a ao peito, matou-a e assou-a para com er (Wars 6 .3 .4 ; v. 
6 .5 .1 ; Lc 21 .2 3 ) . Observe também essa descrição de Josefo , 
referente à fome durante a guerra ju d aica contra Roma:
Mas a fome atacava a todos, e destruía aos poucos a resistência das 
pessoas; o que era de outra maneira digno de reverência, estava 
agora menosprezado; visto que as crianças arrancavam para fora 
da boca de seus pais os pedaços que eles estavam comendo, e o que 
ainda era mais constrangedor, assim fizeram as mães com seus 
filhos (War 5.10.5).
158 ■ Apocalipse
A queda de Jerusalém e a fome resultante também podem 
explicar a declaração irônica em Apocalipse 6.6, “e não danifi­
que o azeite e o vinho”. A ordem de poupar o azeite e o vinho 
é possivelmente uma alusão à ordem do general Tito de que 
até mesmo durante o saque de Jerusalém, oliveiras (para azeite) 
e videiras (para vinho) deviam ser poupadas. Nesse caso, a 
queda de Jerusalém serve como perfeito contexto para o ter­
ceiro julgamento do selo (6.5,6), como faz para a profecia do 
Discurso do monte das Oliveiras sobre a inevitabilidade da 
fome. Realmente, a declaração de Jesus de que tais horrores 
eram, porém, o começo do fim (Mc 13.7), a iniciação das afli­
ções messiânicas (13.8), aponta naquela direção (v. Ap 6.7 ,8com o quarto julgam ento do selo).
m) Perseguição (Mt 2 4 .9 ,1 0 / Mc 1 3 .9 -1 9 / Lc 21.12-19; v. Ap 
6.9-11). Há três destinos ligados que foram delineados no Dis­
curso do Monte das Oliveiras e no quinto julgamento do selo 
de Apocalipse: a perseguição dos discípulos de Jesus, a cru­
cificação de Jesus e a destruição de Jerusalém. A conexão apa­
rente a ser feita entre eles é que a crucificação de Jesus por 
Israel e a perseguição subseqüente de seus discípulos trouxe­
ram a destruição divina sobre Jerusalém.
O Discurso do Monte das Oliveiras, de forma preocupante, 
prediz que os d isc íp u lo s de Je s u s serão p ersegu id os (Mt 
24.9 ,10/ Mc 13.9-19/ Lc 21.12-19). O segundo volume de Lucas, 
Atos, registra o cumprimento da predição de Jesus, d escre­
vendo as perseguições de Pedro e de João (At 4 .1-12; v. 1 2 .3 ­
19), Estêvão (6 .8 — 7 .6 0 ) , T iago ( 1 2 .1 ,2 ) , Paulo (1 6 .2 2 - 3 0 ; 
21 .2 7 — 23.35), e muitos outros judeus cristãos (8.1-4). Ao se­
rem entregues às autoridades judias e romanas, os discípu­
los estavam repetindo o destino de Jesu s (notavelmente, a 
crucificação dele). Allison demonstrou cuidadosam ente que 
essa aflição era compreendida pelos primeiros cristãos como 
o começo das aflições messiânicas, um tempo de perseguição 
incomparável do povo de Deus, que esperava-se que p rece­
desse a chegada do Reino de Deus imediatamente.27
27V. The end o f the ages has come. Para um tratamento específico das corre­
lações de Lucas-Atos de uma perspectiva semelhante, v. J . Bradley C h a n c e , 
Jerusalem , theTtempIe, and the new age ín Luke-Acts (Macon, Ga.: Mercer Unvi. 
1988), p. 120-1.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 159
Posteriormente, a tradição da igreja entendeu que a queda 
de Jerusalém em 70 d.C. ocorreu com o resultado do ju lg a ­
mento divino devido à perseguição dos seguidores de Jesus 
pelos judeus. Por exemplo, Eusébio, o historiador da igreja 
do século iv, refere-se à crença de muitos de que Deus julgou 
Jerusalém porque mataram o meio-irmão de Jesu s, Tiago, o 
Justo (Eccl. Hist. 2.23). Até mesmo Josefo atribuiu a queda de 
Jerusalém ao ju lgam ento divino. Escrevendo sobre o in cên ­
dio e a destruição do templo perto do fim de agosto e no iní­
cio de setembro em 70 d.C., ele diz que o fogo por fim não foi 
colocado pelos romanos: “As chamas [...] tiveram sua origem 
e causa no “povo de Deus” (War 6.4.5).
Os três mesmos destinos entrelaçados aparecem em Apo­
calipse 6.9-11, o quinto julgamento do selo deixa claro que os 
mártires descritos ali são cristãos. As descrições correspon­
dentes desses santos ocorrem em 7.9-17 e 14.1-5. Seu m ode­
lo no sofrimento pela retidão é Jesus, o Cordeiro que foi morto 
(5.6-14). Mas quem eram os perpetradores dessa in justiça e 
violência contra o povo de Deus? Apocalipse 6 .10 fornece uma 
pista: Eram “os habitantes da terra” (v. 3.10; 11.10). Embora a 
frase possa significar “os habitantes do m undo”, o entendi­
mento mais provável desta frase é “os habitantes da terra [a 
Palestina]”. Alan J. Beagley descreve esses “moradores da ter­
ra” como são retratados no Apocalipse:
Ap 6 .10 deixa claro que eles foram envolvidos na perseguição e 
matança daqueles que pregavam a Palavra de Deus, e de quem 
permaneceu fiel em seu testemunho, e é contra esses perseguido­
res e, em particular, que os mártires clamam a Deus por vingança. 
Então novamente, são os “habitantes da terra” que especificamente 
são designados como as vítimas das três “aflições” que são associ­
adas à quinta, à sexta e à sétima trom betas (8.13). O mesmo termo 
também é usado por aqueles que, de algum modo, sofreram pelo 
ministério, das “duas testem unhas” e que se alegram e trocam pre­
sentes pela morte das testem unhas (Ap 11.10). Também é esse 
mesmo grupo de pessoas que se sujeitam à besta do mar e são 
caracterizados mais adiante como “todos aqueles que não tiveram 
seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto 
desde a criação do mundo” (13.8). Finalmente, no capítulo 17, os 
“habitantes da terra” são associados à meretriz, “Babilônia”, e com 
a besta escarlate na qual ela está montada: eles se embriagaram
160 ■ Apocalipse
com o vinho da fornicação da m eretriz (v. 2) e se sujeitaram pelo 
temor à besta e sua aparente permanência (v. 8).28
A interpretação de Beagley é que essa é uma descrição dos 
habitantes de Jerusalém . Outros concordam . Por exem plo, 
Philip Carrington vê na frase “os habitantes da terra”
uma indicação de que o profeta está pensando em um julgamento 
que cairá sobre Jerusalém, desde que há no clam or dos mártires o 
primeiro eco nítido das palavras de Jesus; porque ele diz que lá 
sobrevirá todo o sangue do justo que está sendo derramado na 
terra, do sangue de Abel ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, 
a quem vocês assassinaram entre o santuário e o altar; verdadeira­
mente, digo a vocês, tudo isso sobrevirá a esta geração (Mt 23.35). 
Não só o símbolo de vingança de sangue é o mesmo, mas m ostra o 
que um estudo posterior confirmará; é a terra de Israel e, em parti­
cular, o Templo em Jerusalém, que sofrerá. E temos de lembrar que 
há uma sugestão da mesma idéia nos quatro selos; porque, confor­
me os quatro julgamentos em Ezequiel para o qual eles correspon­
dem, todos eram para sobrevirá Jerusalém .29
iv) P e r tu r b a ç õ e s C ósm icas (Mt 2 4 .2 9 / Mc 1 3 .2 4 ,2 5 / Lc 
21.11 ,25 ,26 ; v. Ap 6.12-17). O a t associou os distúrbios cósm i­
cos à vinda do julgamento divino, especialmente o dia do Se­
nhor (Is 34.4; Ez 32.7; J1 3.3,4; Hc 2.6,21). Que Jesus deveria 
usar essa imagem apocalíptica para descrever a queda de J e ­
rusalém (v. esp. Lc 21.11) não era incomum. Josefo fez o m es­
mo: “Muitos desses que estavam fatigados pela fome, e suas 
bocas quase fechadas, quando viram o incêndio da casa san­
ta, m ostraram força extrema, e desabafaram em gemidos e 
clamores novamente. Peréia também replicou o eco [...] e au­
mentou a intensidade do barulho” (War 6.5.1). Em outra pas­
sagem , Jo s e fo culpa os h a b ita n te s de Je ru sa lé m por não 
reconhecer o julgam ento de Deus na cidade e não acreditar
26The “Sitz im Leben" o f the Apocalipse, p. 36.
29The m eaning o f the Revelation, London: s p c k , 1931, p. 131-2. Deveria ser 
notado, no entanto, que o paralelismo da (lit.) “habitantes da terra” e “a toda a 
terra habitada" registrado em Apocalipse 3.10, como Thomas observa a seguir 
(v. a nota de rodapé 24), apresenta um problema por restringir esse julgamen­
to para a terra de Israel. Essa dificuldade seria melhorada se o julgamento em 
Jerusalém em 70 d.C., presumido anteriormente, servisse como o cenário para 
o julgamento futuro do mundo inteiro.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 161
nos aparentes presságios que sinalizaram a vinda da desola­
ção. Assim foi quando uma estrela, parecida com espada, pai­
rava sobre a cidade, e um cometa permaneceu por um ano 
('War 6 .5.3).
0 sexto julgamento do selo do Apocalipse (6.12-17) parece 
também utilizar a linguagem apocalíptica para relatar deta- 
Iha-damente os distúrbios cósm icos no século i. A abertura 
do sexto selo (6.12-17) introduz vários fenômenos físicos es­
petaculares que infligem terror a pessoas de todo nível social, 
de forma que eles buscam esconder-se de Deus e do Cordei­
ro. Beagley acredita que isso se refere a vários terremotos no 
século i, três são re latados por T ác ito (A nnals 1 2 .4 3 , 58; 
14.27) — em 51, 53, e 60 d.C. — e outros durante a sétima 
década (mencionado por Sêneca, N atu rales Q uaestiones 6.1; 
7.28). O escurecimento do sol refere-se talvez a eclipses sola­
res que ocorreram entre 49 e 52 d.C., ou aos fenômenos asso­
ciados à erupção de Vesúvio em 79. Beagley também sugere 
que as ilhas que são movidas de seus lugares (Ap 6.14) está 
ligado com “a form ação súbita de ilhas novas” (e,g„ Tera e 
Terasia; v. Sêneca, N aturales Q uaestiones 6.2, 6). Beagley tam­
bém chama atenção à conexão entre Apocalipse6 .16 e Lucas 
23.30, os quais aludem à destruição de Jerusalém em 70 d.C.30
Assim, comparando a primeira parte do Discurso do Monte 
das Oliveiras com os julgamentos do selo de Apocalipse 6, pode- 
se ver facilmente que os sinais dos tempos começaram na ge­
ração de Jesus, particularmente com a queda de Jerusalém.
c) As alu sões h istóricas do conflito de C ésar e Cristo. Outra 
pista de que os eventos de Apocalipse 6— 18 foram cumpri­
dos parcialm ente no século i são as a lu sões h istór icas do 
conflito de César e Cristo que afluem nestes capítulos. Re­
tratando esse conflito, o apóstolo João transmite a dupla idéia 
de que o espírito do anticristo já tinha entrado no cenário 
humano (v. Mt 2 4 .4 ,5 ,1 1 ,1 2 ,2 3 -2 6 / Mc 13.5,6/ Lc 21.8 ; 2Ts 2; 
l j o 4 .3 ; Ap 6.2) junto com a apostasia que se esperava que 
ele causasse (v. Ap 13 .15 -18 com Mt 24 .10-13/ Mc 13.20-23/ 
Lc 21 .34-36) . A seguir, focalizarem os nossa atenção no culto 
imperial, especialmente na era de Nero (54-68 d.C.), confor­
me form a o cenário h istór ico em Apocalipse 6 .2 ; 13 .1 -18 ; 
17 .8 -13 .
30The “Sitz im L eben” o f the Apocalypse, p. 44-5.
162 • Apocalipse
Provavelmente, o melhor entendimento do primeiro cava­
leiro do Apocalipse (6.2) é que ele se refere ao anticristo.31 Os 
símbolos do cavalo branco e do arco servem como paródia de 
Cristo (19.11-19). Uma interpretação popular desse julgamento 
do selo é que descreve os partos primitivos, usando a lingua­
gem apocalíptica. Os partos eram arqueiros e especialistas em 
cavalaria, e se colocavam como ameaça constante ao império 
rom ano no sécu lo i. Eles sem p re esperavam cru zar o rio 
Eufrates, e em 62 d.C., seu líder militar, Vologesus, atacou algu­
mas legiões romanas. Os partos montaram cavalos brancos, e 
seu fundador, Selêuco, foi chamado de Nikator, “o vencedor”.32
Além disso, se, como um número de estudiosos acredita, a 
besta de 13.3 (v. 17 .11), que recebeu uma ferida mortal na 
cabeça, mas foi revivida, utiliza a história (revivida) do redivivus 
de Nero, então o cenário partiano de 6.2 fica fortalecido. Em­
bora os primeiros cinco anos de Nero como imperador foram 
relativamente bons, houve um declínio após esse período ini­
cial. Ele cometeu uma monstruosidade após outra, sodomia, 
tirania, incluindo os assassinatos dos inimigos, amigos e fa­
miliares e perseguição aos cristãos (começando em 64 d.C.). 
Realmente, o título “besta” era algo que se ajustava a ele (13.1). 
Nero era tão impopular que no fim de seu reinado (67-68 d.C.), 
havia revoltas n o tó r ias co n tra sua au toridade na Gália e 
Espanha. Finalmente, a guarda pretoriana e o senado o pro­
clamaram inimigo público e aprovaram Galba como seu su­
cessor.
Nero fugiu e, segundo relatos, se matou empurrando uma 
espada pela garganta em 9 de junho, 68 d.C. Porém, a expan­
são do rumor de que não morrera, mas escapara para Partia e 
de que voltaria com o exército partiano para recuperar seu 
trono — essa é a razão do aparecimento da história de Nero 
redivivus. Essa expectativa aterrorizante do retorno de Nero, 
um tipo do anticristo, conduzindo a cavalaria partiana m on­
tada em cavalos brancos com arcos e flechas, para conquis­
tar, é algo lógico quando observamos o primeiro cavaleiro do 
Apocalipse. De maneira semelhante, Sibylline Oracles 4 .119-27, 
escrito judaico do século i, fornece uma descrição combinada
31V. esta defesa convincente deste ponto de vista por Vos, The synoptú 
traditions in the Apocalypse, p. 187-92.
32V. a discussão por Ford, Revelation, p. 106-7.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 163
entre a história de Nero redivivus e a destruição de Jerusalém 
pelo general romano, Tito, em 70 d.C.:
E então da Itália, um grande rei, como um escravo fugitivo, fugirá 
sem ser visto, como um desconhecido, pela passagem acima do 
Eufrates; quando ousará até mesmo a contaminar suas mãos com o 
horror do assassinato de uma mãe, e muitas outras coisas também, 
aventurando atos impensáveis com seu jugo perverso. E muitos, 
pelo trono de Roma, mancharam o solo com o seu sangue, quando 
ele fugiu além da terra partiana. E um líder romano [Tito] virá para 
a Síria, que queimará completamente o templo de Solima com fogo 
e também matará muitos homens e destruirá completamente a gran­
de terra dos judeus.
Examinar 13 .1-18 pelo pano de fundo neroniano, fornece 
uma perspectiva mais clara sobre esses versículos, que de ou­
tra maneira seriam bem confusos. O infame Nero merece o 
título de “besta” aplicado a ele pelo profeta do Apocalipse (v. 1). 
Apocalipse 13.1-6 retrata o cenário genérico da besta, que é o 
império romano do século i. As sete cabeças correspondem às 
sete colinas de Roma, ao passo que os dez chifres aludem ao 
século i de César, porém alguém pode numerá-los (v. 1).33A 
adoração blasfema, exigida pela besta, lembra o culto imperial 
do século i e a guerra que a besta empreende contra os santos 
não pode ajudar, mas pode fazer recordar as perseguições in­
tensas que Nero, e Domiciano posteriormente, infligiram aos 
cristãos porque não adoraram a César.
Além desse contexto genérico, também pode haver alusões 
específicas nesse texto para o próprio Nero, o precursor do 
anticristo. Já notamos seu caráter bestial (v. 1) e sua suposta 
recuperação (v. 3). A perseguição de Nero aos cristãos de no­
vembro de 64 d.C. a junho de 68 d.C. poderia contar, em par­
te, para a m enção dos 42 m eses (ou três anos e meio) de 
opressão mencionada em 13.5. A referência, no versículo 10, 
para esses que matam com a espada, e são mortos pela espa­
da, faz lembrar simultaneamente a perseguição de Nero aos 
cristãos e sua própria morte, aparentem ente pela espada. A 
referência em 13 .11-15 à besta da terra garantindo adoração
i3Ford provê uma discussão completa do debate se devíamos começar com 
Julio César (47-44 a.C.) ou com César Augusto (31 a.C. a 14 d.C.), como também 
assuntos relacionados à identificação dos dez reis (Revelation, p. 210-7, 289-93).
164 ■ Apocalipse
para a besta do mar (Roma estava do outro lado do mar em 
relação ao local onde o Apocalipse foi escrito [a Ásia Menor]) 
lembra um dos sacerdotes locais do culto imperial na Ásia 
Menor, cuja tarefa era compelir as pessoas para oferecer um 
sacrifício a César e proclamá-lo senhor.
Megalomaníaco como era, Nero teve moedas cunhadas nas 
quais foi chamado “deus todo-poderoso” e “salvador”. O retra­
to de Nero também aparece em moedas, como o deus Apoio 
tocando lira. Embora imperadores anteriores tenham sido pro­
clamados deidades após sua morte, Nero abandonou toda de­
cência e exigiu honras divinas enquanto ainda estava vivo (como 
também fez Calígula antes dele, 37-41 d.C.). Aqueles que ado­
raram o imperador receberam um certificado ou marca de apro­
vação (gr. c h a r a g m a , a m esm a palavra usada em 1 3 .16 ) . 
Relacionado a isto, no reinado do imperador Décio (249-251 
d.C.), os que não possuíam o certificado de sacrifício a César, 
não puderam comercializar, uma proibição que possivelmente 
retorna a Nero, lembrado em 13.17. Finalmente, no número 
666 (13.18) pode-se descobrir o uso da visão apocalíptica de 
gem atria, um criptograma matemático que atribui valores nu­
méricos a letras do alfabeto. Mais de um estudioso viu a possível 
referência desse número em Neron Kaiser. A avaliação numérica 
hebraica para nrw n q sr , como se segue: n = 50, r = 200, w = 6, n = 
50, q = 100, s = 60, e r = 200, todos os quais somam 666 .34
O contexto neroniano também esclarece 17.8-13. As m es­
mas m etá fo ras arra igadas no im pério rom ano a co n tecem 
aqui — sete cabeças, sete colinas, e dez chifres, César com 
nom es b lasfem os exigindo adoração. O detalhe adicionado 
relaciona-se à identificação da besta que “era e não é, e está 
para subir do abism o” (v. 8 ; n v i) . A informação mais específica 
sobre esse personagem é fornecida nos versículos 10 e 11. De 
acordo com Charles, o quinto rei “que era e virá”, refere-se a 
Nero (em particular, ahistória de Nero redivivus). Além disso, 
observa Charles, o rei “que é”, é Vespasiano (69-79 d.C., não 
levando em conta os reinados curtos e ineficazes de Galba 
[68-69], Ota [69] e Vitelo [69]). O outro rei que não veio ainda, e 
quando vier, deve permanecer um pouco mais, é, de acordo 
com Charles, Tito (79-81), que morreu após curto reinado.'1'
34V. o resumo conveniente de Gentry sobre o assunto, The beast o f Revelation 
(Tyler: Institute for Christian Economics, 1989), cap. 3.
35C h a r l e s , The Revelation o f John 2, p. 69-70.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 165
Utilizar esse período histórico também ajuda a descobrir o 
significado de 17.1-7. O apóstolo João descreve nesse ponto 
uma meretriz, repleta de nomes blasfemos, montada na bes­
ta. Vários estudiosos, de forma correta conforme nossa avali­
ação, identificam a meretriz com o Israel, infiel, especialmente 
Jerusalém .36 A descrição no versículo 6 da meretriz matando 
os mártires remete claramente às acusações de Jesus contra 
Jerusalém (Mt 23.29-39). A idolatria da cidade também recor­
da a deslealdade passada de Israel em relação a Deus, nessa 
ocasião provavelmente manifestada no século i devido à situ­
ação religiosa privilegiada do judaísmo diante do governo de 
Roma. Porém, os cristãos judeus primitivos não compartilha­
ram essa situação. Expulsos das sinagogas, foram forçados a 
confrontar a adoração a César.37 Quando João fala da besta 
que ataca a meretriz e a destrói (v. 16-18), ele com toda a pro­
babilidade alude ao julgam ento divino que aconteceu em J e ­
rusalém por ter cooperado com o culto imperial. A destruição 
de Jerusalém em 70 d.C. também parece estar esboçada em 
11.2, em que é mencionado que o tribunal exterior do templo 
foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa (v. Lc 21.24).
Com relação a esta discussão de 17.1-13 podemos recor­
dar em 13 .15-18 e em particular um detalhe adicional naque­
le texto — a marca da b esta na testa/ e na mão direita do 
adorador pode ser bem uma paródia do amuleto judaico nos 
dias de Jesus. Baseado em Deuteronômio 6.8, os homens ju ­
deus adotaram o costum e de am arrar caixas de couro que 
contêm porções dos Dez Mandamentos a seus braços e cabe­
ças durante o período de oração. Se considerarmos esse ce ­
nário, a exposição da marca da besta pode ser entendida como 
apontando um dedo de culpa àqueles judeus no século i, os 
que relegaram o seu compromisso ao monoteísmo e coopera­
ram com a Roma imperial. Isto explica claramente por que o 
Apocalipse se refere a essas pessoas como esses “que se di­
zem judeus mas não são, sendo antes sinagoga de Satanás” 
(2.9,24; v. 1.7; 17.3). Sua rejeição de Jesus e de seus seguidores 
por um lado, e sua aceitação, ou pelo menos sua condescendência,
!6E.g., Revelation, p. 285-8 ; Beagley, The “Sitz im L eben” o f the Apocalypse, p. 
92-102.
37V. a discussão de Everett Ferguson sobre esse assunto, Backgrounds o f 
early Christíanity (Grand Rapids; Eerdmans, 1987), p. 342-3.
166 ■ Apocalipse
em relação à adoração a César, adoração por outro lado, de 
acordo com o profeta do Apocalipse, não era nada menos que 
apostasia escatológica.
A culminação de Apocalipse 6— 18 à segunda vinda
Embora alusões históricas possam ser descobertas nos dias 
de João nos julgamentos do selo de Apocalipse 6, como tam ­
bém ao longo dos capítulos 6— 18 (e.g., v. cap. 11, e também, 
possivelmente os caps. 17 e 18 com a queda de Jerusalém; ou 
observe como o culto imperial repercute nos caps. 13 e 18), o 
dispensacionalista progressivo acredita que o último cumpri­
mento dos eventos proféticos contidos nesses capítulos e s ­
pera o tempo da Segunda Vinda. A evidência mais significativa 
que apóia essa perspectiva é a relação que existe entre as três 
séries de ju lgam ento delineado em Apocalipse 6— 18: selos 
(cap. 6), trombetas (caps. 8 e 9), e taças (caps. 15 e 16).
Se alguém interpretar estes ju lgam entos como paralelos, 
então é possível concluir que eles foram todos realizados no 
século í, particularmente nas circunstâncias da queda de J e ­
rusalém, ou em torno delas. Nessa leitura, estava a linguagem 
cósm ica e catastrófica empregada para descrever essas de­
m onstrações de ira divina, mas um modo apocalíptico para 
descrever as realidades históricas para as quais correlataram.38 
Porém , se os t rê s ju lg a m e n to s que in c lu e m as a f l i ç õ e s 
messiânicas são seqüentes e por essa razão intensificados de 
fato, então é menos provável que a totalidade desses eventos 
corresponda ao século i. Ao contrário, eles apontam para uma 
era futura para seu último cumprimento.
Pelo menos seis partes de evidência parecem estabelecer o 
ponto de vista que os ju lgam entos de Apocalipse 6— 18 são 
seqüentes, não paralelos. 1) as três séries de julgamento pa­
recem ser lineares, isto é, os selos conduzem às trombetas, 
que conduzem aos ju lgam entos das taças. Em outras pala­
vras, o sétimo selo (8.1-5) se revela nas sete trombetas (8 .6—
38Para uma boa ilustração dessa perspectiva, v. Gentry, Before Jerusalem 
fell, com sua contribuição para o trabalho atual. Também deveria ser observado 
que os pós-tribulacionistas na posição pré-milenar vêem com freqüência, os 
três julgamentos como paralelos, mas ainda os consideram futurísticos em 
orientação e portanto basicamente não cumpridos até o momento. V., e.g., Moo, 
"The case for the Posttribulation Rapture Position”, p. 203-5.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 167
11.15) e a sétima trombeta (11.15ss .) se revela nas sete taças 
(caps. 16— 18), as quais, sucessivamente, culminam na Segun­
da Vinda (cap. 19).
2) A intensificação da linguagem usada que descreve os ju l ­
gamentos dificulta o arraigar a trombeta e os presságios das 
taças na história. Dois exemplos ilustram esse ponto: a) Só uma 
parte da terra e da humanidade é afetada no selo e nos ju lga­
mentos da trombeta, considerando que a terra inteira e a hu­
m anidade são a fe tad as nos ju lg a m e n to s das taças , b) Os 
ju lgam entos das taças estão rotulados com as “últimas pra­
gas”, porque com elas a ira de Deus está completada (15.1; 
16.17); não é assim para os julgamentos dos selos e das trom­
betas. Isto parece ir contra classificar a primeira parte das afli­
ções messiânicas como o período da ira divina; particularmente, 
a segunda parte parece estar reservada para aquele aspecto.
3) Relacionado ao último ponto, a intensificação da lingua­
gem que descreve os ju lgam entos corresponde ao conceito 
apocalíptico judaico de que a grande tribulação deveria ser 
comparada às “dores de parto” (v. Mt 24 .8 e paralelos). Alan F. 
Jo h n so n com enta:
Os selos comparam cuidadosamente os sinais do fim que se aproxi­
ma, como narrados no Discurso de Jesus no Monte das Oliveiras (Mt
24.1-35; Mc 13.1-37; Lc 21.5-33). Nessas passagens, os eventos dos 
últimos dias se enquadram em três períodos: 1) o período dos fal­
sos cristos, guerras, fomes, pragas, terremotos e morte, denomina­
do “o começo das dores de parto” (Mt 24.8); 2) o período da grande 
tribulação (Mt 24.21;) e, 3) finalmente, o período “imediatamente 
após a angústia desses dias”, quando serão afetados o sol, a lua e as 
estrelas e Cristo voltará (Mt 24 .29 ,30). Esse paralelo com as partes 
principais do Apocalipse é muito impressionante para ser ignorado. 
Assim, os selos correspondem ao “começo das dores de parto” en­
contrados no Discurso do Monte das Oliveiras. Os eventos são se­
m elhantes a esses que ocorrem de acordo com as trom betas 
(8.2— 11.19) e taças (15 .1— 16.21), mas não deveriam ser confundi­
dos com esses julgamentos posteriores e mais severos. Na literatu­
ra apocalíptica judaica (v. 2Baruque 25— 30), a grande tribulação 
precede a era por vir e é dividida em doze partes de várias tentativas 
que duram uma ou sete semanas, possivelmente, ou 49 anos.39
“ Revelation, in: The exposítor’s Bible com m entary, Frank E. G a e b e l e in (org.) 
Grand Rapids: Zondervan, 1981, p. 472.
168■ Apocalipse
4) A natureza sucessiva dos ju lgam entos em Apocalipse 
6— 18 se a justa à estrutura espiral evidente em outros tre ­
chos da literatura joanina (e.g., l jo ) .
5) Há uma diferença em seqüência e conteúdo dos eventos 
descritos em cada série dos julgamentos.
6) A referência para esses não selados em 9.4 (a quinta trom­
beta) pressupõe o ato de selar em 7.1-8, e por conseguinte, o 
desenvolvimento linear.
Porém, uma objeção é levantada com freqüência contra uma 
leitura cronológica dos ju lgam en tos, discutindo assim sua 
estrutura paralela — isto é, interconexões entre os ju lgam en­
tos apontam ao seu desdobramento simultâneo. A mais notá­
vel celebridade nessa consideração é a sem elhança entre o 
sexto e sétimo selo, a sétima trombeta (11.15ss), e a sétima 
taça (16.17ss .), dos quais tudo parece descrever eventos as­
sociados à Segunda Vinda de Cristo.
É pro vável que h a ja r e c a p itu la ç ã o p arc ia l ou algum a 
sobreposição nos ju lgam entos neste ponto. Mas que os três 
julgamentos são paralelos e, por conseguinte, idênticos é im­
provável, conforme discute Johnson, por causa de várias con­
s iderações: 1) o sexto selo se desdobra no período de ira 
lançada sobre os adoradores da besta, mas não favorece de 
fato o evento da Segunda Vinda (6 .12-17); 2) O sétimo selo 
introduz os julgamentos da trombeta que segue seu curso e a 
sétima trombeta parece trazer-nos ao reino de Cristo (1 1 .1 5 ­
18); 3) A sétima taça nos traz também ao ponto de culminação 
no retorno de Cristo (caps. 16 e 17); 4) Interlúdios se colocam 
entre o sexto e o sétimo selo e entre a sexta e a sétima trom be­
ta, mas não entre a sexta e a sétima taça o que era de esperar 
se as trombetas fossem estritamente paralelas às taças.40
Tudo isto para dizer que a natureza seqüente dos ju lg a­
mentos parece reconhecer seu cumprimento na história (e.g., 
os julgamentos dos selos), mas somente ao término da histó­
ria serão realizados completamente (os julgamentos da trom­
beta e da taça). Mas quem os dispensacionalistas progressivos 
acreditam que sofrerão a grande tribulação? Agora atentare­
mos a esse assunto resumidamente.
40O leitor recorre à discussão de Johnson sobre este assunto, Revelation 
(Dec. 1981), p. 491.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 169
A iden tificação dos santos da tr ib u la ção
A pergunta sobre quem experim entará a grande tribulação, 
conform e detalhado em Apocalipse 6— 18, depende b a s ica ­
mente da identificação dos 144 0 0 0 servos de Deus que fo ­
ram se lados (7 .1-8). Foram p ro p ostas duas in terp re taçõ es 
principais. A primeira é que o número e a identificação tribal 
serão considerados literalm ente com referência à nação de 
Israel. Por conseguinte, é Israel que sofre a grande tribulação, 
não a igreja (o ponto de vista pré-tribulacional). O outro pon­
to de vista sugere que a linguagem deva ser interpretada sim­
bolicam ente, de forma que João está recorrendo à igreja, o 
novo Israel. Assim, a igreja passará pela grande tribulação (o 
ponto de vista pós-tribulacional). Após tratar desse assunto, 
somaremos dois outros comentários para atestar a discussão: 
a relação entre os 144 000 servos selados (7.1-8) e a multidão 
inumerável (7.9-17), e a grande tribulação e a superposição 
das duas épocas.
1) Com respeito ao assunto da identificação dos 144 000, o 
segundo ponto de vista (a igreja é o novo Israel) recorre a essas 
referências do n t que parecem aplicar a linguagem que uma vez 
foi usada em relação a Israel para a igreja (Mt 19.28; Rm 2.29; 
4.11; 9.6-8; G1 3.29; 6.16; Fp 3.3; Tg 1.1; lPe 1.1; 2.4,9; Ap 1.6; 
2.9; 3.9; 18.4). Mas paralelo a esta linha de testemunho deve ser 
também aplicado outro testemunho no n t que ajuda distinguir 
Israel da igreja: a) não há exemplo algum bem definido da igre­
ja sendo chamada “Israel” no n t ou pelos pais da igreja antes de 
160 d.C;41b) O significado mais natural para o termo “Israel” no 
a t e n t são os descendentes físicos dos patriarcas;42 c) Uma dis­
tinção entre o Israel étnico e a igreja é atestada amplamente em 
romanos 9— l l ; 43 d) Quanto aos dados exegéticos na esfera de 
consideração teológica, parece que o propósito da grande tribu­
lação é ganhar a nação de Israel para o seu Messias. Posicionando- 
se com o primeiro ponto de vista (a interpretação literal de 
Israel), Paul N. Benware expõe o assunto sucintamente:
4IV. Peter Richardson, Israel in the apostolic ch u rch ( s n t s m s ; Cambridge: 
Cambridge Unvi. press, 1969), p. 74-84, 206.
42Sobre esse assunto, v. Thomas, Revelation 1— 7, p. 476-7.
43Para se obter base para esta declaração, v. C. Marvin Pate, The end o f the 
age has come: the theology of Paul (Grand Rapids:-Zondervan, 1995), p. 196-8.
170 ■ Apocalipse
O propósito primário de preparar Israel para o seu Messias e o seu 
reino é comprovado em várias passagens. Por exemplo, esse perí­
odo é visto como o “tempo da angústia de Jacó (Jr 30 .7 n v i) . Consi­
derando que isto não significa que outras nações não serão 
envolvidas, sugere que Israel seja o foco desse período de tribula­
ção. Outras passagens mostram que a tribulação tem um caráter 
judaico definido (e.g., Dt 4 .30 ; Dn 12.1; Ez 20 .37 ; Zc 13.8 ,9 ; Mt 
24 .15-20). O foco importante desse período é a vinda de salvação 
para Israel e, por conseguinte, para os gentios (e.g., Dn 9 .24 ; Ez 
36.25-36; 37.1-14; 39 .21-29; Jr 31 .31-34 ; MI 4.4-6; Rm 11.25-28; Ap 
7 .4-14).44
Embora a evidência não admita o dogmatismo, parece que a 
referência aos 144 000 escolhidos das doze tribos de Israel indi­
ca que judeus raciais estão na mente de João, especificamente 
os cristãos judeus convertidos durante a grande tribulação.
2) Um assunto relacionado a essa discussão é a pergunta 
da relação entre os 144 000 (7.1-8) e a multidão inumerável 
que resiste à grande tribulação (7.9-17). Será que eles são o 
mesmo grupo de pessoas? Compreendendo a interpretação sim­
bólica dos 144 000, os pós-tribulacionistas comparam os dois 
grupos com a igreja. Porém, os pré-tribulacionistas vêem dife­
renças significativas entre os grupos: O primeiro é numerado, 
o segundo é inumerável; o primeiro é limitado a judeus, o se­
gundo recorre a cada nação; o primeiro é preservado do martí­
rio por um período mais longo de tempo (v. 12.13; 14.1-5) do 
que o segundo. Estas diferenças pareceriam ser mais impor­
tantes do que as semelhanças entre os dois grupos. Dada esta 
distinção, é possível ver os 144 000 como um grupo seleto de 
judeus que são convertidos a Cristo durante a grande tribula­
ção que, em troca, evangeliza as nações gentílicas — a multi­
dão inumerável.
O apoio para a interpretação antecedente vem dessas pas­
sagens do a t que falam profeticam ente dos gentios que se 
unem a Israel em adoração a Deus no templo em Jerusalém 
durante o final dos tempos (e.g., Is 2.2; 49 .6 ; 56.6-8; Zc 14.16). 
Essa perspectiva continua no n t com Paulo que pode ter en­
tendido bem sua coleta dos gentios a favor dos pobres em
4iUnderstanding end-times prophecy. a comprehensive approach, Chicago:
Moody, 1995, p. 167.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 171
Jerusalém como o cumprimento daquelas profecias do a t (v . 
Rm 15.23-33; ICo 16; 2Co 8—9). Uma noção semelhante pro­
vavelmente está em Apocalipse 7.
3) O comentário final pelo que oferecemos em relação à resis­
tência da grande tribulação pelos santos é que a superposição 
das duas épocas deixa sua impressão em relação a esse assunto 
em Apocalipse. Especificamente, João adota a noção apocalíptica 
judaica prevalecente de que o sofrimento justo nessa época de 
tribulação assegura a glória divina na era por vir (e.g., 4Esdras 
4.27; 7.12; 2Baruque 15.8; 48 .50; The D am ascus rule 3.18-20/ 
4.13,17,18). A perspectiva dos judeus das duas épocas, porém, 
foi sucessiva em natureza: Quando o Messias vier, esta era cede­
rá à época por vir. Mas como um todo, de acordo com João e o 
n t , essas duas eras se sobrepõem agora por causada morte e 
ressurreição de Jesus Cristo. Por conseguinte, os cristãos, por 
estarem em Jesus, atual, e simultaneamente participam no so­
frimento da cruz de Cristo como também na glória de sua res­
surreição (Ap 1.5-9; 12; v. Rm 8.17-25; lPe 1.4-9). Para João, o 
fato de os santos da tribulação experimentam a glória de Cristo 
é um sinal que vivem a superposição das duas épocas. Em ou­
tras palavras, a sua experiência presente de glória é a prova de 
que eles, por fim, superarão as aflições messiânicas (ainda em 
vida ou na morte). Após esse período, suas aflições serão com­
pletamente substituídas pela glória divina.
0 RETORNO DE CRISTO (AP 19)
Como discutim os anteriorm ente, baseado nas sem elhanças 
entre a primeira parte do Discurso do Monte das Oliveiras e 
os julgam entos dos selos em Apocalipse 6 (com as considera­
ções referentes ao com eço dos últim os dias na geração de 
Cristo e as alusões em Apocalipse 6— 18 do séc. i de adoração 
a César), é que a queda de Jerusalém em 70 d.C. serve como 
cenário histórico para o Apocalipse. Isto não sugere o dispen­
sacionalista progressivo, porém, o que temos nesse evento é 
o cumprimento final de Apocalipse 6— 18; note a seqüência, 
que se intensifica; logo a natureza da trombeta e julgamento 
das taças. Esses esperam a realização final na última geração, 
em qualquer tempo possivelmente.
A decisão a que chega aqui tem relação direta com a inter 
pretação pessoal de 19 .11-21 . O futurista entende que essa
172 ■ Apocalipse
passagem está descrevendo a parúsia, a Segunda Vinda de 
Cristo ao término da história humana, ao passo que o ponto 
de vista preterista é que o evento retratado lá, foi cumprido 
completamente na vinda de Cristo no julgamento de Jeru sa­
lém.45 Embora um tratamento completo desse crux interpretum 
não seja possível agora, serão oferecidos três comentários em 
defesa do ponto de vista tradicional, que 19.11-21 se refere à 
Segunda Vinda de Cristo em glória na conclusão do tempo.
1) Apesar da tentativa preterista de arraigar a totalidade do 
Discurso do Monte das Oliveiras na história referente à queda 
de Jerusalém, o melhor entendimento dessa tradição é locali­
zar seu último cum prim ento na hora do retorno de Cristo. 
Em nossa opinião, o ponto de vista preterista comete um erro 
fundamental pois interpreta o Discurso do Monte das Olivei­
ras, mas negligencia a estrutura paralela dentro do que está 
informado pela tensão do já/ ainda não. Isso fica esp ecia l­
mente claro em Lucas 21, onde o autor distingue entre a que­
da de Jerusalém em 70 d.C. (v. 8-24) e o retorno de Cristo ao 
término da história (v. 25-36). Essa separação cronológica dos 
dois eventos é planejada por Lucas e comprovada por dois 
fatos: a) A queda de Jerusalém já tinha acontecido antes do 
seu dia (cf. v. 20 e sua descrição específica daquele evento, 
em contraste com a apresentação genérica de Mc 13.14 e Mt
24.15); b) Lucas omite a frase encontrada em Marcos 13.19 (v. 
Mt 24 .21) — “Porque aqueles serão dias de tribulação como 
nunca houve desde que Deus criou o mundo até agora”, em 
referência à queda de Jerusalém. Em outras palavras, Lucas 
não comparou as aflições que cercam aquele evento com a 
grande tribulação no final dos tempos. Para Lucas (e prova­
velmente tam bém para Marcos e Mateus, entretanto menos 
explicitamente), os sinais dos tempos já com eçaram com a 
queda de Jerusalém, mas não serão completados até o retor­
no de Cristo para terminar a história mundial.
2) O ponto de vista preterista dá muita relevância ao cum­
primento imediato da promessa de Jesus, em Apocalipse, de 
que voltaria em breve, ao aplicar o texto à queda de Jerusalém
45Para um bom exemplo dessa interpretação, o leitor deve recorrer ao 
estudo por Gary DeMar, Last days madness'. obsession of the modern church 
(Atlanta: American Visions, 1991), p. 263-5 . 0 trabalho de DeMar defende a tese 
de que os eventos delineados no Discurso do Monte das Oliveiras, 2Ts 2, e 
Apocalipse foram todos cumpridos por volta da queda de Jerusalém em 70 d.C.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 173
(Ap 1.1,3; 2.16; 3 .11; 11.14; 2 2 .6 ,7 ,1 0 ,1 2 ,20).46De outro modo, 
a vinda de Jesus Cristo conforme registrado em 19.11-21, não 
recorre à Segunda Vinda de Cristo ao término da história, mas 
à vinda de Cristo para ju lgar Jerusalém em 70 d.C. Porém, 
dois problemas são aparentes com essa teoria: a) Apocalipse 
19.11-21 combina com as descrições encontradas em outros 
lugares no n t , que se referem à Segunda Vinda de Cristo em 
glória ao término da história (Mt 24 .30 ,31/ Mc 13 .26 ,27/ Lc 
21 .27 ,28 ; 2Ts 2.8; Tt 2 .13 ,14 ; Jd 14,15). Somente com grande 
dificuldade esses textos podem ser explicados em condições 
diferente da parúsia.
b) A interpretação preterista não leva em conta a diferença 
da palavra “tem po” (ka iro s , e.g., Ap 1.3), como demonstrou 
Oscar Cullmann, que indica a tensão escatológica do já/ ain­
da não.47 Essa com preensão, de um lado, admite o cum pri­
mento imediato da profecia de Jesus, em Apocalipse, de que 
virá em breve, embora não a negue; outro lado, há, para eles 
também, uma referência ao futuro (v. nossos comentários an­
teriores em 1.1,3). Quer dizer, a posição preterista alivia des­
necessariamente a tensão entre o já (a primeira vinda de Jesus) 
e o não ainda (a Segunda Vinda de Jesus). Realmente, esse 
ponto de vista é semelhante ao “escatologicam ente percebi­
do”, o ponto de vista que diz que basicamente foram cumpri­
das todas as profecias dos finais dos tempos do n t no século 
i, uma interpretação que é corretamente criticada.48
3) O ponto de vista preterista de 19.11-21 está intimamen­
te relacionado à hipótese da identificação da Babilônia, que é 
destruída nos capítulos 17 e 18, com Jerusalém, mais parti­
cularmente com o judaísmo do século i que desfrutou uma con­
dição privilegiada por Roma por ser uma religião legal. Conforme 
a teoria, João considera aquele benefício como um acordo idó­
latra com o culto imperial. Então, a descrição de Cristo vindo 
em julgamento (19.11-21) é aplicada à destruição de Jerusalém
46Em defesa dessa hipótese, v. Gentry, Before Jerusalem fell, p. 133-45; DeMar, 
Last days o f madness, p. 263-5; David Chilton, The days ofvengeance'. an exposition 
of the book of Revelation (Fort Worth, Tex.: Dominion, 1987), p. 5-75.
4TChrist and time.
48Geralmente associado aos trabalhos de C. H. Dodd, e.g., The apostolic 
p reaching and its developm ent. Geralmente é distinguido por estudiosos pre­
sentemente que Dodd exagerou em sua posição e que o melhor modo para 
categorizar o n t é com a imagem escatológica do j á / ainda não.
174 ■ Apocalipse
pelos romanos. Apocalipse 17.16,17, em seu retrato da besta 
(Roma), na qual a meretriz (Jerusalém) monta, mas que se volta 
contra ela e a destrói, é portanto, compreendido como o m éto­
do pelo qual Cristo julgou Jerusalém .49 O dispensacionalista 
progressivo pode aceitar essa hipótese como plausível. Mas isto 
não sugere que não haja nenhuma futuridade à vinda de Cris­
to como descrito em 19.11-21, por razões que explicamos de 
acordo com o nosso segundo comentário.
Além disso, uma leitura cuidadosa de Apocalipse 11 pare­
ce indicar que Deus, embora tivesse permitido a destruição 
de Jerusalém (v. 11.1,2), ainda não acabou com Israel/ Jerusa­
lém. Sugerimos que Apocalipse 11 é informado pela tríplice 
operação de paradigma em Romanos 11, um modelo que pre­
vê a restauração futura da nação judaica.
Romanos 11 faz a observação básica de que Deus ainda 
tem um plano para os judeus. Paulo fornece três argumentos 
para esse desígnio; a) A rejeição de Israel de Jesus, o Messias, 
é parcial, não total. Os cristãos judeus são um amplo teste ­
munho daquele fato (11.1-10); b) A rejeição de Israel do Messi­
as tem um propósito misericordioso — são os meios divinos 
para alcançar os gentios com o evangelho (11.11-29); c) A re­
je ição de Israel do Messias é temporal, não eterna. Um dia 
Cristo voltará, e “todo o Israel serásalvo” (11 .25-36).50
Alegamos que o mesmo padrão está em ação em Apocalipse 
11. a) A rejeição de Israel de Jesu s o Messias é parcial, não 
total. Os cristãos judeus, os remanescentes, são a prova dis­
so (11.1,3-12). Nessa leitura, Elias e Moisés são os mensagei­
ros de Deus que representarão a comunidade cristã judaica 
ao término da história.
b) A re je ição de Je s u s por Israel cumpre um propósito 
misericordioso — é o catalisador para atrair os gentios a Cris­
to. Esse plano estará em vigor até o fim da história, quando a 
plenitude dos gentios terá chegado. O domínio dos gentios 
no plano de Deus com eçou com a destruição de Jerusalém 
em 70 d.C. (v. Ap 11.2 com Lc 21 .24 ) e continuará até que 
Deus tenha realizado seu propósito com eles (Rm 11.25).
49V. o breve tratamento por P a t e e H a i n e s , Doomsday delusions, p. 43.
S0V. novamente Pate, The end o f the a ge has come, p. 196-8. Também desen­
volvi este tema em relação aos escritos de Lucas em meu comentário Luke 
(Moody Gospel Commentary; Chicago, 1995).
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 175
c) Nesse ponto culminante, Deus restabelecerá Israel para 
si. Isto parece ser a razão por trás de Apocalipse 11.13. Os 
sete mil que serão mortos em Jerusalém por um terremoto 
(uma minoria), deixarão o restante da cidade (a maioria) para 
se arrepender e se voltar para Deus, pois constituem um a 
rev ersão aos tema dos remanescente de Elias. No a t , durante 
os dias de Elias, somente ele e os sete mil fiéis não dobraram 
o joelho a Baal, ao passo que o restante da nação o fez. Mas no 
final dos tempos, o oposto acontecerá — a testemunha de Elias 
(e Moisés, 11.3-12), com o terremoto divino que afirma a sua 
mensagem (v. 13), trará a maioria dos judeus à fé. Esse é o 
modo apocalíptico de João dizer o que Paulo disse anterior­
mente — todo o Israel será salvo. Quer dizer, a nação como 
um todo se tornará a remanescente, aqueles que forem fiéis a 
Deus, como um todo. De forma bastante interessante, a con­
versão de Jerusalém para Cristo acontece bem antes da Se­
gunda Vinda dele (11.15-19; v. 19.11-21).
0 M ILÊNIO (AP 20)
Muita tinta foi derramada sobre a interpretação em Apocalipse
20.1-6, com três pontos de vista básicos que emergem na dis­
cussão: a pré-milenar, amilenar, e pós-milenar.51 A abordagem 
d ispensacionalista progressiva desse texto será claram ente 
identificada com a primeira destas opções. Embora os crentes 
sejam espiritualmente levantados com Cristo na conversão e 
atualmente reinam com ele do céu (e.g., Ef 2 .1-10; Cl 3.1-4), 
mas a plenitude do reino de Cristo só se dará por ocasião do 
segundo advento de Cristo. Duas objeções para esta interpre­
tação podem ser respondidas aqui, em bora resumidamente: 
que somente os mártires da grande tribulação são menciona­
dos como os que reinarão com Cristo (Ap 20.4), e que a ressur­
reição mencionada é espiritual, não física, em natureza (v. 4-6).
1) Referente à primeira objeção, às vezes se diz que aque­
les que serão arrebatados para governar com Cristo na terra 
durante o milênio são exclusivamente os crentes martiriza- 
dos durante a grande tribulação (v. 4). Mas, como Robert L.
51Para obter um bom resumo das opiniões milenares, v. o estudo de Stanley 
J. Grenz, The millenial rnaze: sorting out evangelic options (Downers, Grove III.: 
InterVarsity, 1992).
176 ■ Apocalipse
Thomas observou, há dois problemas insuperáveis com essa 
opinião:52 a) A ressurreição dos mártires nãc) acontece até tem­
pos depois, distinguindo assim da multidão de cristãos que 
tam bém reinam com Cristo (v. 4); b) Em outros trechos, João 
promete que os fiéis, não somente os mártires, compartilharão 
o reino futuro de Cristo (2.26-28; 3 .12,21; 5.10; v. ICo 6.2,3).
2) Relativo à segunda objeção — de que a natureza da res­
surreição em 20.4-6 é espiritual, não física — dois fatores cha­
ve m ilitam contra e ssa p ercep ção da p a ss a g e m :53 a) Uma 
ressurreição espiritual pode, poucas vezes, explicar a compen­
sação provida para os mártires mencionados no versículo 4. 
Da perspectiva de João eles estão fisicamente mortos, mas es­
piritualmente vivos. O que precisam é de uma ressurreição 
corporal; b) O melhor entendimento do verbo ezésan (“eles vi­
veram”) no versículo 4 é que recorre a uma ressurreição corpo­
ral. Por quê?; i) O mesmo verbo no versículo 5 significa ressurreição 
corporal; n) Zaó (“viver”) com freqüência em Apocalipse se refe­
re à ressurreição corporal (1.18; 2.8; 13.14; 20.5); m) De fato, 
zaò no contexto de morte sempre recorre à ressurreição física 
no n t (v. Jo 11.25; At 1.3; 9.41); iv) João compara “viver” clara­
mente com a ressurreição em Apocalipse 20.5 — a primeira “res­
surreição” (an asta s is , uma palavra usada mais de quarenta 
vezes no n t com referência à ressurreição física).
0 ESTADO ETERNO (AP 2 1 E 22)
Ao longo de nossa avaliação do Apocalipse, procuramos de­
monstrar que a tensão escatológica do já/ ainda não governa 
a interpretação do dispensacionalista progressivo desse livro. 
Apocalipse 21 e 22 e seu retrato da condição eterna não serão 
tratados diferentemente agora. Sugerimos que a chave para com­
preender o significado desses dois capítulos é perceber que 
prevêem a restauração futura do paraíso perdido (o aspecto do 
ainda não que será atualizado na Segunda Vinda de Cristo). Se 
trouxermos à discussão a literatura joanina como um todo, 
porém, descobrirem os que essas bênçãos do final dos tem ­
pos estão no processo de serem cumpridas parcialmente agora
52Revelation 1— 7, p. 413-4 .
53Ibid., p. 417.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 177
(o aspecto do já que começou com a primeira vinda de Cris­
to). Desenvolvem os essa dupla h ipótese resum idam ente a 
seguir, provendo um quadro das três estruturas envolvidas 
em nossa tese, seguido por uma explicação sumária.
Gênesis 1— 3 
O Princípio
Antiga criação (1.1)
Perda da presença de 
Deus (3.23,24)
Acesso à morte (2.17)
Rios do paraíso 
(2 .10-14)
Árvore da vida (3.24)
Filho de Deus (1 .26­
28)
Apocalipse 21 e 22 
Final dos tempos 
(Segunda Vinda de 
Cristo)
Nova criação (21.1)
A presença de Deus 
entre o povo de Deus, 
o novo templo 
(21 .2 ,3 ,9 -27)
Derrota da morte 
(21.4)
Água da vida (22.1)
Suprimento divino de 
vida eterna (22.2­
4,14; v. 2.17)
Filhos de Deus (21.7)
Literatura joanina 
Tempo intermediário 
(primeira vinda de 
Cristo)
Nova criação em 
Cristo (Jo 1.1-5; ljo
1.1-5)
Cristo, o templo de 
Deus (Jo 2.19-21)
Vida eterna (Jo 11.24­
26; ljo 5.20)
Água da vida (Jo 4.14; 
7.37-42)
Suprimento divino de 
vida eterna (Jo 6 .25­
59).
Filhos de Deus (jo 
1.12; 3.3-8; ljo 
3.1,10; 5.2)
Apocalipse 21 e 22 prevê a restauração futura de pelo me­
nos seis bênçãos paradisíacas, mas que estão sendo cumpri­
das parcialm ente agora para os fiéis em Cristo: 1) A nova 
criação da condição eterna restabelecerá a antiga criação ar­
ruinada pela queda de Adão e Eva. Mas mesmo agora, quando 
as pessoas colocam sua fé em Cristo, tornam-se participantes 
nessa nova criação; 2) A condição eterna recuperará a presen­
ça e a comunhão completa com Deus que a humanidade per­
deu no Jardim do Éden. Realmente, Cristo, o templo e o lugar 
da presença de Deus, estão no processo de restabelecer aque­
la com unhão com os crentes; 3) A condição eterna de testa­
mento testemunhará a derrota sobre a morte e o dom de vida 
eterna que, com a morte e a ressurreição de Cristo, já começou;
178 ■ Apocalipse
4) A água da vida na expectativa de fluir na condição eterna, 
simbólica de satisfação permanente, está agora disponível em 
Cristo; 5) Semelhantemente, a árvore da vida com sua pro­
m essa de cumprimento e vida eterna está sendo oferecida a 
todos em Cristo; 6) O pecado arruinou a imagem de Deus na 
raça humana, mas a condição eterna de Deus fará com que os 
crentes se tornem seus filhos, uma bênção que é agora reali­
zada em Cristo.
CONCLUSÃO
O Apocalipse é possivelmente o livro mais controvertido na 
Bíblia. Minha leituradas abordagens representadas neste vo­
lume (o ponto de vista dispensacionalista clássico será trata­
do a seguir) me leva a acreditar que os dois assuntos essenciais 
que emergem no Apocalipse requerem tratamento: hermenêu­
tico e teológico. Concluo esta seção refletindo sobre essas pre­
ocu pações.
1) Obviamente um emaranhamento de hermenêutica aguar­
da a interpretação do Apocalipse. Levando em conta as qua­
tro co n tr ib u içõ es ap re sen tad as agora, parece claro que o 
problema central da discussão é: Como entenderemos a lite­
ratura simbólica? Ou, mais precisamente, será que o gênero 
profético/ apocalíptico requer cum prim entos únicos, duais, 
ou múltiplos?
De forma bastante interessante, todos os quatro pontos de 
vista aparentemente fundamentam suas respectivas aborda­
gens nos apreciados princípios da Reforma, referentes à da 
h e r m e n ê u t i c a h is t ó r i c a - g r a m a t ic a l , p o ré m o t r a b a lh o 
hermenêutico está fora. De acordo com esse princípio, parece 
a este escritor que, enfim, o critério prático para interpretar o 
Apocalipse é de natureza histórica. Quer dizer, todos os pon­
tos de vista inclusos neste volume partem do pressuposto de 
que o entendimento do Apocalipse refere-se à questão de se a 
mensagem do livro foi cumprida na história. Assim, embora 
s e ja m o c o n t r á r io do f im do e s p e c t r o , a a b o rd a g e m 
dispensacionalista clássica e os preteristas recorrem à história 
para validar suas interpretações discrepantes. Por conseguin­
te, os preteristas podem encontrar pouco no tempo e espaço 
mensuráveis, onde os eventos do Apocalipse testemunharam 
o cum p rim en to , con sid eran d o que os d isp en sac io n a lis tas
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 179
clássicos descobrem correspondências surpreendentes no sé­
culo i d.C. para essas profecias. Ironicamente, os dois atribu­
em cumprimento único ao simbolismo do Apocalipse.
O dispensacionalista progressivo vê as duas perspectivas 
como viáveis: Há um cumprimento parcial (o passado) como 
também a realização final (o futuro) considerando esses as­
suntos na história. Assim, o simbolismo do Apocalipse atesta 
o cumprimento dual.
Para o idealista, que não está in teressado em uma mera 
lição de história do passado remoto ou em uma história mo­
ral iniciada no horizonte distante, a preocupação é dem ons­
trar que Deus é nosso contemporâneo eterno e assim tem uma 
palavra para a humanidade no presente. Como resultado dis­
so, o Apocalipse oferece cumprimentos múltiplos de sua m en­
sagem — apesar de a abordagem idealista não ser aparente 
histórica.
Será que esta consideração de que todos os quatro pontos 
de vista do Apocalipse recorrem à história, mas com resulta­
dos decididamente diferentes para legitimar suas posições, 
leva a um impasse hermenêutico? Não necessariamente. A so­
lução para esse dilema parece se encontrar em uma sugestão 
mencionada no com eço deste estudo, isto é, que as quatro 
abordagens ap resentadas podem ser associad as para ap re­
sentar uma interpretação com pleta para a com preensão do 
significado do último livro na Bíblia. Assim, o preterista pode 
nos ensinar sobre os procedimentos poderosos de Deus com 
a humanidade no passado, embora o dispensacionalista clás­
sico nos lembre que o trabalho de Deus ainda não está con­
cluído; somente o futuro revelará a extensão completa do plano 
divino. Os progressistas talvez ofereçam uma declaração equi­
librada em relação aos pontos de vista anteriores, discutindo 
que o passado é a prova positiva de que Deus completará no 
futuro o que ele começou. Enquanto isso, os idealistas forne­
cem um modelo para colocar em prática a palavra profética 
de Deus em nossas situações contemporâneas e variáveis.
2) Um segundo assunto chave gerado por Apocalipse é teo­
lógico — a “demora” da Segunda Vinda. Esta é a última pergun­
ta levantada por Apocalipse 1.1,3, com referência à proximidade 
do cumprimento das profecias do Apocalipse, com as predições 
do Discurso do Monte das Oliveiras (Mt 24; Mc 13; Lc 21). Aqui a 
pergunta é: Como entenderemos as predições de Jesus e João
180 « Apocalipse
sobre os sinais dos tempos que culminam na Segunda Vinda? 
O teólogo liberal tem uma resposta fácil para essa pergunta — 
Jesus predisse que esse evento aconteceria durante a primei­
ra geração de cristãos (v. Mc 13.30 e passagens paralelas), mas 
ele estava errado! Sua profecia falhou e a história continuou 
inquebrantável. Porém, o evangélico não está satisfeito com 
essa resposta, e com razão.
Mas, além disso, não há consenso algum entre os teólogos 
conservadores sobre o período do cumprimento dessas pre­
visões. O preterista as considera como profecias basicamente 
realizadas nos primeiros séculos cristãos, ao passo que o dis­
pensacionalista clássico acredita que sua realização espera o 
futuro. O dispensacionalista progressivo discute que havia 
atualização parcial das declarações de Jesus que envolvem a 
queda de Jerusalém em 70 d.C. e que servem como cenário 
para o cumprimento final ao término da história. Para o idea­
lista, os comentários de Jesus não eram tanto profecias, mas 
certamente declarações simbólicas sobre a estrutura presen­
te da realidade espiritual. Como, então, podem os proceder 
através deste labirinto teológico?
Se meus colegas me concedessem um pouco de atenção, 
por um momento, aqui é onde a tensão escatológica do “já/ 
ainda não" fornece uma resposta para o assunto da demora 
da Segunda Vinda. Como foi cuidadosam ente, e penso que 
convincentemente, debatido nos últimos cinqüenta anos por 
estudiosos do n t , o melhor entendimento do Evangelho — in­
clusive o Discurso do monte das Oliveiras — é que os pro­
nunciamentos de Jesus sobre o reino de Deus foram cumpridos 
parcialm ente na sua primeira vinda (o aspecto do já), mas 
permanece vindouro até o seu retorno (o aspecto do ainda 
não). Quando tudo é dito e feito, esta é a solução mais viável 
tanto para a indagação do Jesus histórico quanto à aparente 
demora da Segunda Vinda. Em outras palavras, ju stam en te 
como Jesus prometeu, a era por vir realmente alvoreceu na 
sua vinda, mas no contexto desta era presente. Embora, às 
vezes, comparado a apenas uma escola de pensamento, a si­
tuação parece ser mais a de que a circunstância da perspecti­
va do já/ ainda não é favorável para todos os quatro pontos 
de vista esboçados neste trabalho, não somente um.
Em conclusão, resumimos nossa contribuição a este volu­
me relatando a hermenêutica do já/ ainda não das três marcas
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 181
escatológicas do dispensacionalism o: 1) Referente à separa­
ção entre a igreja e Israel, os progressistas acreditam que os 
gentios já foram incluídos como um povo de Deus, por fé em 
Cristo; mas Deus ainda não pôs fim a Israel, porque um dia 
restabelecerá aquela nação para ele e Jesus, o Messias; 2) Refe­
rente à posição pré-milenar do dispensacionalismo progres­
sivo, de acordo com o Apocalipse, o Reino de Deus (a era por 
vir) alvoreceu no céu, mas ainda não apareceu na terra pois 
está no aguardo do retorno de Cristo, cuja Segunda Vinda 
estabelecerá o seu reinado de mil anos em Jerusalém; 3) De 
acordo com os d ispensacionalistas progressivos, embora os 
sinais dos tempos (as aflições messiânicas) tiveram início du­
rante a primeira geração de cristãos (com relação à queda de 
Jerusalém), a grande tribulação ainda não ocorreu; ela está no 
futuro, e a igreja (mas não Israel) estará isenta dela.
4
0 ponto de vista
D is p e n s a c io n a lis ta
c l á s s ic o
■ Wayne G. Strickland
DISPENSACIONALISTA CLÁSSICO
PREÂMBULO
Ao a p re se n ta r uma v isão d is p e n s a c io n a l is ta do livro do 
Apocalipse, dese jo primeiramente expressar meus respeitos 
pelos dois grupos. O primeiro é com posto de d isp ensacio ­
nalistas dos quais difiro em detalhes interpretativos aqui e 
acolá, no último livro da Bíblia. A extensão da presente dis­
cussão permite-m eapresentar apenas minha própria in ter­
p r e t a ç ã o .1 O outro grupo é form ado por aque les que não 
adotam uma visão d isp e n sa c io n a lis ta , particu larm ente os 
outros três colaboradores desta obra. Eu os respeito, bem como 
suas interpretações, e não quero que quaisquer das observa­
ções seguintes se jam entendidas como impugnações p esso ­
ais ou de qualquer outro tipo.
A seguinte discussão é uma visão dispensacionalista típi­
ca. Para cobrir a visão pro jetada neste capítulo, devo escla ­
recer o significado de “d isp en sacio nalism o”, explorar áreas 
de análise representativa da visão dispensacionalista, expli­
car a ênfase sobre o assunto principal, destacando a c o m ­
p r e e n s ã o d is p e n s a c i o n a l i s t a e f a z e r u m a a v a l ia ç ã o do 
Apocalipse.
‘Minha própria interpretação é explanada em dois livros de minha autoria, 
Revelation 1— 7: an exegetical commentary (Chicago: Moody, 1992), e Revelation 
8— 22: an exegetical commentary (Chicago: Moody, 1995).
186 ■ Apocalipse
ESCLARECIMENTO SOBRE O DISPENSACIONALISMO
Em anos recentes, algumas discussões sobre o dispensacio­
nalismo procuraram distinguir mudanças no sistema dispen­
sacionalista de teologia, dividindo-o em categorias como “Pré- 
milenarismo de Niagara” (1875-1909) , “Scofieldism o” (1 9 0 9 ­
1965), “Essencialista” (1965-1985) ou “Clássico” (aproximadamente 
1800-1950) e “Revisado” (cerca de 1950-1990) .2 Essas catego­
rias não são justif icadas nessas diferenças de interpretação 
dispensacionalista que, ao longo dos anos, resultaram de es­
tritas aplicações do método gramático-histórico de exegese, e 
que não resultam em mudanças no sistem a, mas são antes 
seus refinamentos ou desenvolvimentos.
De outro lado, o dispensacionalismo progressivo representa 
uma m udança significativa nos princípios in terpretativos ,3 
de forma que o nome “dispensacionalism o” não se aplica a 
esse sistema. Outro nome sugerido para o dispensacionalismo 
tradicional foi “dispensacionalismo normativo”,4 mas este en­
saio usará simplesmente “dispensacionalism o”, para se refe­
rir ao sistema como é historicamente conhecido.
ÁREAS SELECIONADAS PARA REALCE DA VISÃO DISPENSACIONALISTA
A seletividade é necessária em um trabalho que compara pon­
tos de vista sobre o Apocalipse; assim as categorias ou passa­
gens seguintes tipificarão uma abordagem dispensacionalista.
Sistem a herm enêutico
A abordagem hermenêutica padrão da Bíblia, pelo menos des­
de a Reforma, foi gramático-histórica, algumas vezes chama­
da de interpretação literal. Aplicada ao Apocalipse, ela resulta 
em uma co m p reen são d isp en sac io n a lis ta do livro. Alguns
2Craig B l a i s i n g & Darrel B o c k , Progressive dispensationalism , Wheaton: Victor, 
1993, p. 2 1 3 ; idem, orgs., Dispensationalism, Israel and the church, Grand Rapids: 
Zondervan, 1992, p. 13-34.
3V. Robert L. Thomas, A critique of Progressive dispensational hermeneutics, 
in: When the trumpet sounds, Thomas Ice e Timothy Demy (orgs.) (Eugene Ore.: 
Harvest House, 1995), p. 414-25.
“Larry C r u t c h f i e l d , The origins o f dispensationalism: the Darby factor, Lanhan, 
Md.: Unvi. Press of America, 1992, p. 23-42.
0 ponto de vista dispensacionalista clássico ■ 187
recomendam diferentes princípios interpretativos, devido ao 
do citado gênero apocalíptico do livro, mas por sua própria 
reivindicação, o livro é uma profecia e merece interpretação 
literal, assim como ocorre com outros livros proféticos.5 Ju s ­
tificar uma abordagem espiritualizante na base dos muitos 
símbolos do livro coloca de lado distinção significativa entre 
o modo que Deus deu a revelação a João, e a maneira que os 
leitores deveriam interpretar essa revelação. Em 1.1, onde João 
escreve “para m ostrar”6 (esêm anerí), alguns entenderam essa 
expressão como justif icativa para a interpretação simbólica 
ao longo do livro. Essas palavras, porém, falam do meio que 
Deus usou para inspirar João a escrever; não fornecem fun­
damento para a interpretação não-literal. Os intérpretes de­
veriam entender a revelação a João como fazem com o restante 
da Bíblia, embora Deus a tenha dado de um modo simbólico 
incom um .
Uma a b o rd ag em p re te r is ta tem de ad m itir um gên ero 
apocalíptico no qual a linguagem reflita apenas débil e indireta­
mente os eventos reais. Essa interpretação alegórica extremada 
permite achar cumprimentos no império romano do século i, 
antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C. Incidentalmente, a 
maioria dos preteristas data a feitura do livro nos anos 60 d.C., 
trinta anos antes da data geralmente aceita.
Uma abordagem idealista também tem de espiritualizar o 
texto em razão de um suposto gênero apocalíptico. Para os 
que adotam esse método de interpretação, o Apocalipse fala 
de um conflito eterno entre o bem e o mal e expressa princípi­
os básicos que Deus segue ao longo da história. Aplicando-os 
a qualquer período, usualmente aquele do próprio intérprete, 
o sistema generaliza os específicos e nega o caráter profético 
do livro, enfatizando o ciclo repetitivo que marca cada gera­
ção. Não há espaço para pontos da história que assinalem o 
cumprimento de profecias esp ecíf icas .7
5T h o m a s , Revelation 1— 7, p. 23-9.
T o d as as traduções bíblicas neste capítulo foram feitas pelo autor.
7V., e.g., Sam Hamstra Jr., Um ponto de vista idealista do Apocalipse, neste 
volume, que ilustra essa característica em seu uso freqüente de tais frases 
como “sem incidentes particulares”, “a visão como um todo", “antes de analisar 
cada detalhe”, “nenhum detalhe de guerras particulares [...] em term os g e­
rais”, “resistir à tentação de ligar cada trombeta a uma data ou pessoa em 
particular", “não simbolizar eventos simples e separados”, "desnecessário de- 
ter-se em detalhes”, e “refrear-se de uma dissecação detalhada da visão".
188 ■ Apocalipse
Se seguir o caminho de seus primeiros defensores, uma 
abordagem d isp en sacio nalis ta progressiva postulará tanto 
uma com preensão literal quanto adicional. Referida com o 
“h e r m e n ê u t i c a c o m p l e m e n t a r ” ou m é t o d o 8 “teo ló g ico 
gramático-histórico-literário”, essa abordagem permite ao in­
té rp re te pelo m en o s duas c o m p r e e n s õ e s do tex to : uma 
gram ático-histórica e outra sim bólica ou alegórica. Embora 
uma obra definitiva sobre o Apocalipse de autoria de um 
dispensacionalista p rogress ivo deva ainda surgir, pode-se 
esp erar que ela com b inará e lem en to s fu tu ris tas com e le ­
m entos de interpretação idealística e m esm o preterista. Es­
ses tipos de s is tem as h erm en êu ticos com binados também 
ocorrem entre os pré-milenaristas históricos, grupo que é não- 
d ispensacionalista .9
Em contraste a cada um desses, uma adesão consistente 
aos princípios gram ático-históricos conduz a com preensão 
dispensacionalista do Apocalipse. As regras gramaticais e os 
fatos históricos resultam nas seguintes interpretações de tex­
tos relevantes à visão global do livro. O tratamento dos se ­
g u in tes tó p ico s e p a s s a g e n s i lu s tra r á os p a râ m e tro s de 
interpretação gramático-histórica ou interpretação literal.
Continu idade com Daniel 2
As palavras “o que em breve há de acontecer” (ha dei genes- 
thai), em 1.1, sintetizam o conteúdo da revelação a João. Re­
presentam um tema de interesse há muito existente, que traça 
suas raízes desde a versão grega de Daniel 2 .28 (v. tb. 2.29, 45). 
Nessa passagem, Daniel interpreta o sonho de Nabucodonosor 
sobre uma estátua que representa quatro impérios mundiais 
sucessivos. Uma pedra, cortada de uma montanha sem auxí­
lio de mão humana, destrói aquela estátua e se torna um rei­
no sempiterno, que substituirá os primeiros quatro impérios. 
Usando o sonho do rei, Daniel predisse o estabelecimento do 
reino de Deus na terra.
“Darrel L. Bock, The Son o f David and the saints Task: the hermeneutics of 
initial fulfillment, BSac 150 (Oct./ Dec. 1993), p. 447;

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