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K e n n e th L. Gen t ry Jr.
Sam Hamstra j r .
C. Marv in Pate
R o b e r t L. Thom as
O R G A N I Z A D O R DO V O L U H
C. Ma r v i n Pa t e
( s /
Vida
A C oleção D ebates Teológicos, o r g a n iz a d a p o r S tan ley G uiulry ,
a h r r . c í t p a ç o p a ra » livre tlelvate. a n a l i s a n d o p e n s a m e n t o s d i f e r e n t e s , a le m
d e p r o p o n io n a r a o le i t o r a o p o r t u n i d a d e d e se a p r o f u n d a r no
c o n h e c i m e n t o e na e o n v n . a o d e te m a s r e l e v a n t e s da t e o l o g ia c r i s t a .
IS B N X S -7 3 6 7 -6 6 0 4
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Vida
E d i t o r a d o g r u p o
ZONDERVAN
H a r i-e r C o i .i .in s
E d i c o r a f i l i a d a à
C â m a r a B u a silh ir a d o L iv r o
A s s o c ia ç ã o B r a s il e ir a
d e E d i t o r j ;s C r is t ã o s
A s s o c ia ç ã o N a c io n a i
d e L iv r a r ia s
A s s o c ia ç ã o N a c io n a l d e
L iv r a r ia s E v a n g é l ic a s
A s s o c ia ç ã o B r a s il e ir a
d l M a r k e t i n g D i r e t o
D ir e ç ã o e x e c u tiv a
E u d e M a r t in s
S u p e r v is ã o de p r o d u ç ã o
S a n d r a L e i t f .
G e r ê n c ia f in a n c e ir a
S é r g i o L im a
G e r ê n c ia de c o m u n ic a ç ã o e m a rk e tin g
S f r g i o P a v a r in i
G e r ê n c ia e d i to r ia l
JFa b ia n i M e d e i r o s
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Interpretações do
A PO C A LIPSE
P r e t e r i s t a
K e n n c t h L. Gen t r y j r .
I d e a l i s t a
Sam I lamstra Jr.
D i s p e n s a c i o n a l i s t a p r o g r e s s i v o
C. Marv in Pate
D i s p e n s a c i o n a l i s t a c l á s s i c o
R o b e r t L. T h o n ia s
C. Marvin Pate
T r a d u ç ã o
V i c t o r D e a k i n s
t e /
Outros volumes da Coleção
Debates Teológicos
Cessaram os dons espirituais?
Lei e evangelho ©2001, de C. Marvin Pate, Kenneth L. Gentry Jr.,
Sam Hamstra, Roberc L Thomas
Título do original Four views on the book o f
Revelation,
edição publicada pela
ZONDERVAN PUBLISHING H ü U SE
(Grand Rapids, Michigan, eu a )
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Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
E d it o r a V id a
Rua Júlio de Castilhos, 280 * Belenzinho
c e p 03059-000 « São Paulo, sp
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P r o ib id a a r e p r o d u ç ã o p o r q u a is q u e r m e io s ,
SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.
Todas as citações bíblicas foram extraídas da
Nova Versão Internacional (n v i) ,
©2001, publicada por Editora Vida,
salvo indicação em contrário.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( c ip )
(Câmara Brasileira do Livro, S P , Brasil)
O Apocalipse : quatro pontos de visca /C. Marvin Pate , (org) ; tradução
Victor Deakins. — São Paulo : Editora Vida, 2003. — (C ok*B U e b a te s
Teológicos)
http://www.editoravida.com.br
P refácio 7
A b re v ia tu ra s 9
In tro d u çã o ao A pocalipse 11
1. 0 ponto de vista PRETERISTA 39
Kenneth L. Gentry Jr.
2. 0 ponto de vista IDEALISTA 99
Sam H am stra Jr.
3. 0 ponto de vista DISPENSACIONALISTA PROGRESSIVO 139
C. Marvin Pate
4. 0 ponto de vista DISPENSACIONALISTA CLÁSSICO 185
Robert. L. T h o m as
C o n clu sã o 2 3 9
Um sábio definiu um clássico como “um livro comentado por
todos, mas que quase ninguém lê”. Infelizmente, esta descri
ç ã o p o d e r ia s e r a p l ic a d a a o ú lt im o i iv r o d a B íb iia — O
Apocalipse. Quem ainda não foi cativado pelo poder de seu
drama e a pungência de sua mensagem? Porém, quantos re
almente leram o Apocalipse? Indubitavelmente, há uma gran
de diferença nas respostas para essas perguntas. O propósito
deste volume é ajudar a atravessar a barreira entre as respos
tas que o antecedem; isto é, conduzir as pessoas a não so
mente serem cativadas pelo Apocalipse, mas a engajarem-se
por meio da interação pessoal. Com esse intuito, acreditamos
que as contribuições presentes oferecem quatro pontos de vis
ta alternativos e bem argumentados do último livro da Bíblia.
Todos os autores neste volume são estudiosos evangélicos
em assuntos teológicos. Para cada um, a inspiração das Escri
turas é o fundam ento para o entendim ento do Apocalipse.
Além disso, embora os colaboradores apresentem seu ponto
de vista com convicção, o fazem com um espírito cristão e conci
liador. Com esse princípio, este livro é dedicado a todos aqueles
“que amam a [Cristo] por sua v in d a”, em bora as opin iões
escatológicas divirjam.
Gostaria de agradecer aos que ajudaram neste projeto. Mi
nha gratidão se estende a outros colaboradores — Ken Gentry,
Sam Hamstra e Robert Thom as — que têm ajudado a tran s
formar em realidade a visão deste trabalho. Pessoalmente, esse
empenho me deu o privilégio de fazer novos amigos e desen
volver idéias estimulantes. Espero que meus colegas sintam o
8 * Apocalipse
mesmo. Também desejo agradecer ao pessoal do editorial da
Zondervan que aprovou e concluiu o pro jeto — Ed van der
Maas, Verlyn D. Verbrugge, e Stanley N. Gundry. Suas contri
buições foram entusiásticas e inestimáveis,
C. Marvin P ate
O r g a n iz a d o r
ab A n c h o r Bible C o m m en ta ry
b a r Biblícal A rch a eo lo g y Review
b a s o r BuIIetin o f the A m erica n Society fo r O rientai R esea rch
Bsac B ibliotheca S a cra
icc In tern a tio n a l C riticai C o m m en ta ry
j e t s Jo u rn a l fo r the E va n gelíca l T heological Society
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kjv K ing Ja m e s Version
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s n ts m s Society of the New T e s ta m e n t Studies M onograph Series
nvjr Tyndale N ew T estam ent C o m m en ta ries
T rinJ Trinity Jo u rn a l
Das reações modernas ao livro de Apocalipse, três vêm rapi
damente à mente. “O bsessão” é a palavra apropriada para des
crever alguns dos oito milhões de devotos em profecia nos
dias de h o je ,1 que estudam com afinco as profecias do Apoca
lipse no estilo de Nostradamus, correlacionando eventos atuais
fora de época com suas antigas advertências secretas. Seguin
do esse ponto de vista, esses intérpretes comparam a China
vermelha com os “reis do Leste" (Ap 16.12-16), o Mercado Co
mum Europeu com os “dez chifres da b esta” (13.1-10), a mar
ca da besta (666 ) em Apocalipse 13 com tudo o que for possível,
de cartões de crédito à Internet e o anticristo com um desfile
de p e s so a s p ro e m in e n te s , in c lu in d o A dolf Hitler, Benito
Mussolini, Henry Kissinger e Mikhail Gorbatchov. Essa inten
sa fascinação com o Apocalipse por quem prevê a destruição
de modo pessimista não mostrou sinal algum de diminuição
com a aproxim ação do ano 2000 (quando escrevem os esta
obra). Porém, a leitura do último livro da Bíblia como se fosse
uma visão em uma bola de cristal, causou inegavelmente mais
dano que proveito, e hermeneutas responsáveis a evitam .2
Uma segunda réplica moderna ao Apocalipse pode ser ex
pressa pela palavra “irrelevante”. Como indica o termo, muitos
"De acordo com Paul Boyer, When time shall be no more: prophecy beliefs in
modern American culture (Cambridge: Harvard Unviersity Press, 1992), p. 2 e 3.
2Para crítica da mentalidade do dia do juízo unviersal, v. C. Marvin Pate e
Calvin B. Haines Jr., Doomsday delusions:what’s wrong with predictions aboul
the end of the world (Downers Grove: i v p , 1995).
12 ■ Apocalipse
consideram que o Apocalipse é uma antologia antiquada de
imagens bizarras, originadas da paranóia, e designadas para
moralizar as pessoas por meio de táticas de medos divinos.
Como um professor de religião discorreu quando se fala de
literatura apocalíptica, da qual o Apocalipse faz parte, “é toli
ce!”. Uma suspeita é que a primeira réplica de obsessão tenha
contribuído para a segunda réplica de irrelevante.
Porém, muitos cristãos nos dias de hoje se acham em al
gum lugar entre os dois extremos, abordando o Apocalipse com
preocupação “obediente, mas hesitante”. Por outro lado, eles
reverenciam o livro como inspirado por Deus e, portanto, como
algo pertinente às suas vidas; eles, no entanto, acham seu sig
nificado confuso e até potencialmente discordante. Em grande
parte, esperamos que este trabalho se dirija a essas pessoas —
para trazer esclarecimento a um tópico confuso, mas vital.
Ainda não podemos obter perspicuidade de determinado
assunto simplesmente por examinar isto a partir de uma só
perspectiva. Essa abordagem corre o risco de ser míope e pro
v inciana. Mais p ro p riam en te , o que é p reciso quando se
examina o Apocalipse é uma leitura interpretativa desse livro
de tal forma que o total da soma do conjunto seja maior do
que as partes. Não que um texto antigo bíblico ou qualquer
outro, tenha mais de um significado, uma a reivindicação da
pós-m odernidade. Em vez disso, há um chamado para que
percebam os nossas limitações individuais, nossa com preen
são finita, e percebamos a necessidade que temos dos outros
e de suas percepções e discernimento, revelados pelo Espíri
to Santo, para compreender o propósito da Palavra de Deus.
Aplicando a analogia das partes e do conjunto ao Apocalipse,
permite-se essa declaração: As quatro interpretações neste vo
lume representam as partes interpretativas, ao passo que o
leitor, ajudado pelo Espírito, forma o todo.
Antes de recorrer às várias perspectivas oferecidas neste
livro, porém, primeiramente precisam os examinar assuntos
introdutórios relativos ao Apocalipse — isto é, uma apresen
tação geral, seguida de um resumo das interpretações princi
pais do documento. A maior parte deste volume, no entanto,
são os quatro pontos de vista atuais: o preterista; o futurista,
que pode ser delineado em disp ensacio nalism o c láss ico e
d ispensacionalism o progressivo; e o idealista. Esperançosa
mente, o total da soma das partes individuais nos livrará da
Introdução ao Apocalipse ■ 13
crítica hermenêutica refletida na famosa sátira de Mark Twain:
“As pesquisas de muitos estudiosos já lançaram muita escuri
dão neste assunto, e é provável que, se eles continuarem, logo
não saberemos nada sobre isto!”.
INTRODUÇÃO GERAL AO APOCALIPSE
Estilo
Antes de interpretar qualquer com posição literária co rre ta
mente, incluindo a Bíblia, deve-se determinar seu gênero ou
estilo literário .3 Este princípio é muito importante para o Apo
calipse, e sua negligência resultou em um pântano de pontos
de vista contraditórios. A dificuldade aumenta pelo fato de
que o Apocalipse consiste em uma mistura de três gêneros:
apocalíptico, profético, e epistolar. Alan F. Johnson descreve
o primeiro desses gêneros sucintamente:
O Apocalipse é [...] geralmente visto como um livro que pertence ao
corpo de escritos judaicos não relativos à Bíblia, conhecidos como
literatura apocalíptica. O nome para este estilo de literatura (alguns
dezenove livros) é derivado da palavra “revelação” (apocalypsis) em
Apocalipse 1.1 [...] Os livros apocalípticos extrabíblicos foram es
critos no período de 200 a.C. a 200 d.C. Normalmente, os estudiosos
dão ênfase às semelhanças do Apocalipse de João a esses livros
não-canônicos — semelhanças como o uso de simbolismo e visão,
a menção de mediadores angelicais da revelação, as imagens bizar
ras, a expectativa de julgamento divino, a ênfase no reino de Deus,
os novos céus e terra, o dualismo desse período e o porvir.4
Embora com parações significantes realmente existam en
tre o Apocalipse e o material apocalíptico judeu e cristão, há
diferenças críticas entre eles também, apesar de o Apocalipse
ser um livro profético (1.3; 2 2 .7 ,1 0 ,1 8 ,1 9 ) , ao passo que os
outros não fazem reivindicação alguma. Assim, o Apocalipse
não é pseudônimo (1 .1; 22 .8); e tampouco é pessimista quanto
’Para a abordagem de “estilo", excelente, para a Bíblia, v. Gordon D. Fee e
Douglas Stuart, How to read the Bible fo r ali its worth: a guide to understanding
the Bible, 2 ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1993).
“•Revelation, in: The expositor’s Bible com m entary, Frank E. G a e b e l e i n (org.),
Grand Rapids: Zondervan, 1981, vol. 12 p. 400 . V. tb. a bibliografia, muito útil,
fornecida por Johnson sob o tópico apocalíptico, p. 400-1 , n 3.
14 ■ Apocalipse
à intervenção de Deus na história. Além disso, enquanto mui
tos escritores apocalípticos reconstruíram eventos passados
como se fossem profecias futurísticas (vaticin ia ex eventu),
por co n seg u in te p roporcionand o credibilidade à coragem
profética deles, João (o autor de Apocalipse) não segue esse
procedimento. Ao contrário, ele se coloca no mundo do sécu
lo i d.C. e fala da consumação escatológica por vir da mesma
maneira como fizeram os profetas do a t — uma consumação
que, para João, já começou a romper na história na morte e
ressurreição de Jesus Cristo (1.4-8; 4 e 5).
Além de ser apocalíptico e profético em natureza, o Apoca
lipse é envolvido por uma estrutura epistolar (1.4-8 e 22.10-21).
Esta estrutura por si mesma diferencia o material apocalíptico.
A prescrição (1.4-8) contém o componente epistolar típico —
remetente, destinatário, saudações, e a característica de uma
doxologia adicionada. O pós-escrito (22 .10-21 ), em boa forma
antiga, resume o corpo dos escritos, como também legitima
João como seu autor divinamente inspirado. O efeito com bi
nado do prescrito e do pós-escrito, sem mencionar as cartas
para as sete igrejas da província romana na Ásia (caps. 2 e 3),
é para consolidar o Apocalipse na história real de sua época. É
muito diferente de outros apocalipses antigos não canônicos.
Por exemplo, considere a declaração de abertura em lEnoque,
que o autor viu “não era para esta geração, mas a distante que
está por vir” (lEnoque 1.2).
Autoria
Averiguando a identidade do autor de Apocalipse, duas linhas
de evidência precisam ser avaliadas: a externa e a interna .5 A
evidência externa consiste no testemunho dos pais da igreja,
que é quase unânime a favor da opinião de que o apóstolo
João foi o autor do Apocalipse. Entre eles incluem-se Papias,
5A discussão seguinte é reconhecida pelo trabalho de Robert L. Thomas,
Revelation 1— 7: an exegetical commentary, Kenneth Barker (org.) (Chicago:
Moody, 1992), p. 2-19. A questão da autoria do Apocalipse está relacionada
estritamente à sua canonicidade, ao menos em termos da discussão dos pais
da igreja. Assim, quem aceitou a autoria joanina do Apocalipse aceitou sua
canonicidade. Porém, os que questionaram ou até mesmo negaram a autoria
joanina, questionaram ou rejeitaram sua canonicidade (principalmente Dionísio
e, em uma posição menor, Eusébio).
Introdução ao Apocalipse ■ 15
Justino Mártir, o F ragm ento m uratório , Ireneu, Clemente de
Alexandria, Tertuliano, Hipólito, Orígenes, e Metódio. As exce
ções para esse testemunho são Dionísio, bispo de Alexandria
(247-264), e Eusébio, o historiador da igreja que foi persuadi
do pelos argumentos de Dionísio contra a autoria joanina do
livro (embora Eusébio tenha expressado suas dúvidas com
menos vigor que Dionísio).
Recorrendo à evidência interna para determinar a autoria
do Apocalipse, as quatro categorias de Dionísio continuam
convencendo muitos contra a autoria jo a n in a ,6 que resum i
mos aqui: 1) a própria identificação do escritor; 2) a constru
ção do Apocalipse,quando comparado aos escritos genuínos
do apóstolo João; 3) o caráter desses escritos; e 4) o estilo
desse material.
1) O primeiro argumento interno oferecido por Dionísio é
o fato de que o Apocalipse identifica seu autor como “Jo ã o ”
(1.1,4 ,9 ; 22.8), mas nem o evangelho de João nem as cartas de
João o fazem. A suposição aqui é que se o apóstolo João tives
se escrito o Apocalipse, não teria sentido nenhuma compulsão
para se identificar como seu autor. Porém, esse raciocínio é
um argumento de silêncio e por essa razão não é convincen
te. Além disso, a natureza apocalíptica pode ter compelido o
autor a se identificar, de modo semelhante a do outros traba
lhos que se enquadram nesse estilo.
2) Quanto à construção do Apocalipse e do Evangelho de
João e de suas cartas, Dionísio argumentou que o Apocalipse
não começa com a identificação de Jesus como a “Palavra”, e
tam pouco com sua identificação com o testem u nha ocular,
apesar de tanto o evangelho como suas cartas o fazerem. (V.
Jo 1 .1 -18 com l j o 1.1-4). Mas essa observação negligencia
Apocalipse 1.2 e a conexão que faz da Palavra de Deus com
Cristo, como também perde o significado associado ao con
ceito de “tes tem u n h a ” em Apocalipse e na outra literatura
joanina (v. Ap 1.2; 22 .16 com Jo 1.19ss.; 5.32; 8 .18; 15.26; l jo
1.1-4; 5.6-11).
3) Dionísio também sustentou que o vocabulário de Apoca
lipse difere significativamente dos escritos joaninos autênticos.
“Esta influência esp. pode ser percebida no trabalho monumental de R. H.
Charles, The Revelation o f St. John (icc; Edinburgh: T. & T. Clark, 1920), 2 vols.
16 ■ Apocalipse
Não obstante, a afirmação de Dionísio não se sustenta em exa
me cuidadoso. Doze das dezenove cláusulas joaninas que não
são supostamente encontradas em Apocalipse acontecem na
realidade (e.g., “vida”, “sangue”, “ju lgam ento”, “diabo”). Além
disso, três das condições que não ocorrem em Apocalipse tam
bém estão ausentes do Evangelho de João (“perdão”, “anticristo”,
“adoção”), e um deles (“convicção”) não está presente em l joão .
Além disso, embora “verdade” não este ja no Apocalipse, seu
sinônimo, “verdadeiro”, está. Também, ao passo que “alegria”
está ausente no Apocalipse, só ocorre uma vez em cada uma
das três cartas de João. Então, nos resta apenas um termo, “es
curidão” que com freqüência aco n tece nos outros escr itos
joaninos e não em Apocalipse — sem evidência suficiente que
possa fundamentar uma distinção principal.
4) Finalmente, Dionísio afirmou que o Apocalipse está es
crito em grego pobre, em contraste com o estilo do bom gre
go, referente ao outro material joanino. Porém, isto negligencia
dois fatores: a) um estilo de escrita de um mesmo autor não é
sempre consistente; b) João, como seus contemporâneos, pode
bem ter usado um am anuense (secretário profissional), por
meio de quem compôs seu Evangelho e as cartas (v. Rm 16.22;
lPe 5.12). Porém, exilado na ilha de Patmos, (v. 1.9), presumi
velmente, ele não teve acesso a tal indivíduo.
Em equilíbrio, então, as evidências externa e as interna pa
recem apontar o apóstolo João como o autor do Apocalipse
ou, pelo menos, para um membro da Escola Joanina .7
Data
Analisaremos as teorias referentes à data do Apocalipse a se
guir, nesta introdução, com referência aos planos interpre-
tativos do livro, mas para o momento notamos que dois pe
ríodos principais qualificam-se como candidatos: o reinado
do imperador Nero (54-68 d.C.) e o reinado de Domiciano (81
96 d.C.). Como será desenvolvido mais tarde, a escola prete-
rista de interpretação discute o que precede, ao passo que a
7 A visão de que o Apocalipse e o evangelho de João foram escritos por
membros da Escola Joanina é discutida por Elisabeth S. Fiorenza, The quest for
the johannine school: the Apocalypse and the origin of both Gospel and
Revelation, n t s 23, (Apr. 1977), p. 402-27.
Introdução ao Apocalipse ■ 17
abordagem futu rista , esp ec ia lm e n te o d isp en sac io n a lism o
clássico, se alinha com o posterior. O dispensacionalismo pro
gressivo vê uma combinação das duas datas como operantes
no livro, ao passo que a perspectiva idealista não está limita
da a qualquer cronograma.
Unidade
Aproximadamente uma geração atrás, alguns intérpretes, ca
tivados pela crítica da fonte, desenvolveram a teoria de auto
ria múltipla para o Apocalipse, notadamente R. H. Charles e J.
Massyngberde Ford .8 Evidência que supostamente milita con
tra a autoria singular e se enquadra em quatro categorias: 1) a
presença de paralelos — a mesma cena ou visão descrita duas
vezes; 2) problemas seqüenciais — pessoas ou coisas in tro
duzidas aparentem ente pela primeira vez quando, na reali
dade, tinham sido mencionadas anteriormente; 3) versículos
aparentemente mal empregados e seções maiores; 4) conteú
do distinto dentro dos limites de certas seções que não se
ajustam ao restante do livro.9
Mas, como Johnson observa, em cada caso há explicações
alternativas satisfatórias. Além disso, há uma artificialidade
sobre nomear certas passagens a um “interpelador”, quando
não se ajustam com a unidade percebida do livro.10 Até Charles,
que aplica uma aproximação fragmentária ao documento, ad
mite uma unidade global do trabalho .11 Igualmente a Ford que,
embora delineando três autores diferentes para o Apocalipse,
não obstante designa a “redação final” a um único editor .12
Levando isto em conta, a conclusão de Johnson sobre a uni
dade do Apocalipse parece justificada:
Podemos afirmar que o livro em toda sua extensão exibe tanto a uni
dade literária quanto conceituai, o que se espera de um único autor.
Isto não elimina certos problemas difíceis de hermenêutica, nem
8C h a r l e s , The Revelation o f St. John, J. Massyngberd F o r d , Revelation, a b ; New
York: Doubleday,1975.
9V. J o h n s o n , Revelation, p. 403.
10Ibid.
n The Revelation o f St. John, p. 1 : l x x x v i i .
l2ReveIation, p. 46.
18 ■ Apocalipse
impede a presença de omissões ou interpolações encontradas nos
manuscritos existentes. Tampouco, a visão de única autoria impede
que João, expressando em forma escrita a revelação dada a ele por
Cristo, usou várias fontes, quer oral ou escrita [...] Ainda, sob a orien
tação do Espírito Santo que é naturalmente o autor primário, João
prodiiiziu esse material, por si próprio, em toda a extensão do livro, e
o envolveu com um conteúdo totalmente de orientação cristã.13
Estrutura
Semelhante à pergunta da data do Apocalipse, o assunto de
sua estrutura também está intimamente relacionado à inter
pretação de alguém quanto ao livro. Por conseqüência, esten
derem os o assunto mais extensivam ente na segunda parte
desta introdução, pois aqui somente oferecemos o mais baixo
denominador comum entre as várias escolas de pensamento
que consiste de dois elementos estruturais .14 1) Em termos de
conteúdo, depois de um capítulo introdutório, seguem qua
tro séries de sete: sete cartas (caps. 2 e 3); sete selos (5 .1—
8.1); sete trom betas (8 .2— 11.19); e sete taças (15.1— 16.21).
Interrompendo estas quatro séries estão vários interlúdios (7 .1
17; 10.1— 11.13; 12.1— 14.20). O livro conclui com o julgamento
da “Babilônia”, apostasia mundial, e o triunfo final do reino de
Deus (caps. 17— 21). 2) Em termos de estrutura literária, o
Apocalipse con sis te de quatro visões, cada uma das quais
envolve João que “vê” o plano de Deus desvelado (1.19; 4.1;
17.1; 21.9). Um epílogo conclui o livro (22.6-21).
Material tradicional em Apocalipse
Enquanto o Apocalipse utiliza vários materiais tradicionais
(e.g., o cerimonial do tribunal greco-romano, [caps. 4 e 5]; o
apocalíptico judaico, [caps. 4 e 5]; o Discurso do Monte das
Oliveiras, [cap. 6]; o drama do dragão, [cap. 12]; a história
neroniana, [cap. 13]), sem dúvida a fonte dominante de sua
informação é o a t . Embora o Apocalipse não contenha uma
única c itação esp ec íf ica do a t , não obstan te , de seus 4 0 4
13Revelation, p. 4 0 3 ,A análise detalhada de G. Mussies da linguagem do
Apocalipse reafirmou a unidade do livro, The morphology ofkoine greek as used
in the Apocalypse o f St. John (Leiden: E. J. Brill, 1971), p. 351.
14V. o resumo de George Eldon Ladd, A com m entary on the Revelation o f
John (Grand Rapids: Eerdmans, 1972), p. 14.
Introdução ao Apocalipse ■ 19
versículos, 278 contêm referências ao a t . Johnson resume bem
o uso desse material pelo apóstolo João:
O a t usado por João é principalmente semítico em vez de grego,
pois, concorda com freqüência, com o targum aramaico e, ocasio
nalmente, reflete o uso do midraxe para as passagens do a t ; e pode
ser demonstrado que ele usou um texto diferente do massorético
que tem afinidade íntima com o texto hebreu dos manuscritos de
Qumran. Dos profetas, João recorre, com freqüência, a Isaías,
Jeremias, Ezequiel, e Daniel. João também recorre repetidamente
aos Salmos, Êxodo, e Deuteronômio. As reinterpretações de cris-
tologia de João das passagens do a t às quais ele alude são especial
mente im portante. Ele não usa o a t simplesmente em seu sentido
pré-cristão, mas reforma as imagens e as visões do a t . Embora haja
uma relação à continuidade inconfundível em Apocalipse com rela
ção à mais antiga revelação, o novo emerge do velho como uma
entidade distinta.15
0 texto de Apocalipse
Do ponto de vista da crítica textual, há pouquíssimos manus
critos gregos existentes para reconstruir a leitura original do
Apocalipse, menor do que em qualquer outra parte do n t . Não
obstante, há uma quantidade suficiente para realizar a tarefa
com garantia (aproximadamente 230 manuscritos gregos). As
principais testemunhas do Apocalipse são: a escrita uncial — o
Códice sinaítico (séc. iv), o Códice alexandrino (séc. v), o Códice
Ephraem i (séc. v); o papiro mais importante é o p47 (séc. m); os
minúsculos (séc. vm—x); as citações dos pais da igreja (séc. n—v);
e um comentário grego ao Apocalipse por Andreas (séc. vi).16
UM EXAME DAS PRINCIPAIS INTERPRETAÇÕES DO APOCALIPSE
Tradicionalmente, quatro interpretações principais foram divul
gadas. Elas tentavam desvendar os mistérios do Apocalipse:
lsRevelation, p. 411 . Para a análise adicional da aplicação de João do a t em
Apocalipse, v. Austin Farrer, A rebirth o f im a ges : the making of St. Jo h n ’s
Apocalypse (London: Darce, 1949). Uma das mais recentes abordagens do as
sunto é feita por Steve Moyise, The Old Testament in the book of Revelation,
j s n t s s 115 (Sheffield: Academic Press, 1995).
16Para uma discu ssão adicional da evidência do m anuscrito , consulte
Thomas, Revelation 1-7, p. 42-3.
20 ■ Apocalipse
preterista, historicista, futurista, e idealista. Os nomes resumem
a essên c ia das ap ro xim ações resp ectiv as . A in terp re tação
preterista (passado) entende que os acontecimentos do Apo
calipse em grande parte foram cumpridos nos primeiros sécu
los da era cristã — quer na queda de Jerusalém em 70 d.C., quer
na queda tanto de Jerusalém no século i, quanto na de Roma no
século v. De fato, o livro foi escrito para confortar cristãos que
sofreram perseguição tanto do culto imperial quanto do judaísmo.
A escola historicista encara os eventos do Apocalipse como
um desdobramento no curso da história. Essa perspectiva era
especialm ente compatível com o pensam ento dos reform a
dores protestantes que compararam o sistema papal de sua
época com o anticristo.
A sinopse futurista discute que os eventos do Apocalipse,
em grande parte, não foram cumpridos, assegurando que os
capítulos 4—22 esperam o fim dos tempos para a sua realiza
ção. Se a interpretação preterista dominou entre os estudio
sos bíblicos, mas pode-se dizer que a composição futurista é
privilegiada entre as massas.
O ponto de vista idealista, por meios de contraste em rela
ção às três construções teológicas anteriores, é reticente em
identificar historicamente o simbolismo do Apocalipse. Para
essa escola de pensamento, o Apocalipse relata verdades infi
nitas relativas à batalha entre o bem e o mal que continuam ao
longo da era da igreja.
Este volume incorpora a interpretação corrente e prevale-
cente do Apocalipse. Assim, embora a aproximação histórica
seja difundida, atualmente, para todos os propósitos práticos,
já é uma visão ultrapassada. Suas tentativas, mal-sucedidas,
de localizar o cumprimento do Apocalipse no decurso das cir
cunstâncias da história, o sentenciaram a uma revisão inin
terrupta com o passar do tempo e, por fim, à obscuridade (uma
situação que poderia suscitar o comentário, se Jesus demora,
naquele dia do juízo final os profetas contemporâneos poderi
am se achar eventualmente nele!). Além disso, a falta de con
senso entre os intérpretes quanto à identificação de detalhes
h is tó r ic o s que s u p o s ta m e n te c u m p rem as p r o fe c ia s do
Apocalipse contribuíram para o fim dessa escola.
Em contrapartida, as outras três interpretações se aproxi
mam e merecem atenção cuidadosa. A visão preterista, sempre
a favorita no meio dos estudiosos, desfruta uma revivificação
Introdução ao Apocalipse ■ 21
de interesse a nível popular, graças ao surgimento da Recons
trução Cristã (mais sobre isto adiante). A visão futurista, espe
cialmente o dispensacionalismo clássico, seguramente desper
tará o interesse de muitos. O dispensacionalismo progressivo
“a mais nova criança no meio escatológico”, está começando a
cativar a imaginação daqueles que têm se desgastado quanto
ao tratamento da profecia sensacionalista .17 Finalmente, uma
aproximação idealista continua mantendo uma atração consi
derável da influência de aplicação para a vida diária que seu
sistem a encoraja. Aqueles que estão desgastados pela profe
cia em geral, encontram em sua sinopse uma alternativa re
frescante por se apegar ao significado presente e eterno do
Apocalipse.
Agora nos dirigimos a uma pesquisa dessas quatro formas
hermenêuticas, cobrindo cada ponto seguinte em sua distin
ção, origem, cronogram a que se presume para as profecias
do Apocalipse, a estrutura do livro, e a filosofia da eficiência
histórica na abordagem . Entender esses assun tos an tec ip a
damente preparará melhor o leitor a se apegar aos respecti
vos sistem as como um todo antes de analisar o documento
mais detalhadamente. Se o leitor permitir uma pequena liber
dade poética, propom os tratar essas abordagens de acordo
com a ordem cronológica em Apocalipse 1.19: “Escreva, en
tão, o que você viu [preterista], o que agora é [idealista], e o
que acontecerá depois [futurista]”.
A interpretação preterista
O ponto de vista preterista considera a interpretação histórica
do Apocalipse seriamente, relacionando-a com seu autor origi
nal e o público. Isto é, João destinou seu livro para as verdadei
ras igrejas que enfrentaram terríveis problemas no século i d.C.
Dois dilemas em particular providenciaram o ânimo para e s
crever o livro. Kenneth L. Gentry Jr. escreve sobre isto:
O Apocalipse tem dois propósitos fundamentais relativos aos seus
ouvintes originais. Em primeiro lugar, foi projetado para fortalecer
17Isso não quer dizer, porém, que o dispensacionalismo clássico será equi
parado à mentalidade do juízo universal. Embora um bom número dos que
prevêem o juízo universal venha dessa tradição, como veremos, eles não pre
cisam ser sinônimo dela.
22 ■ Apocalipse
a igreja do século i contra uma tem pestade de perseguições que
estavam, por conseguinte, provocando um crescente enfraqueci
mento. Uma característica nova e principal daquela perseguição foi a
entrada imperial de Roma no cenário. A primeira perseguição históri
ca da igreja pelo império de Roma foi por César Nero de 64 d.C. a 68
^.C. Em segundo lugar, foi para reforçar a igreja para uma reorienta-
ção principal e fundamental no rumo da história redentora, reorienta-
ção necessária para a destruição de Jerusalém (o foco não era somente
da aliança antiga de Israel, mas do cristianismo apostólico[v. At 1.8;
2.1 ss.; 15.2] e o templo [v. Mt 24.1-34 e Ap l l ] ) .18
Assim, a tentativa contínua de firmar o cumprimento das
profecias divinas do Apocalipse no século i d.C. constitui a abor
dagem distintiva dos preteristas.
A origem do preterismo pode ser traçada ao sistema teoló
gico conhecido como pós-milenarismo, que ensina que Cris
to voltará após o milênio, um período de felicidade na terra
trazida pela conversão das nações por causa da pregação do
evangelho. O crédito para formular a doutrina pós-m ilenar
normalmente é dado a Daniel Whitby (1638-1726) , ministro
unitarista da Inglaterra. O ponto de vista de Whitby do milê
nio foi adotado por teólogos liberais e conservadores. John F.
Walvoord comenta:
Seus pontos de vista do milênio provavelmente nunca seriam per
petuados se eles não estivessem tão afinados ao pensam ento da
quela época. Uma maré ascendente de liberdade intelectual, ciência,
e filosofia, o humanismo, como também aumentara o conceito de
progresso humano e deu uma clara visão geral do futuro. O ponto
de vista de Whitby de uma era áurea para a igreja por vir era exata
mente o que as pessoas queriam ouvir [...] Não é estranho que
teólogos que competem para os reajustamentos em um mundo de
mudanças devam achar em Whitby a chave fundamental que preci
savam. Era atraente a todos os tipos de teologia. Isto proveu para o
conservador um princípio aparentemente mais viável de interpretar
lsBefore Jerusalem fell: dating the book of Revelation, Tyler: Institute for
Christian Economics, 1989, p. 15-6. Porém, deve se lembrar que o preterismo
inclui dois campos — um que localiza o cumprimento do Apocalipse basica
mente no século i, uma referência à queda de Jerusalém, e outro que vê o
cumprimento do Apocalipse tanto no séc. i (a queda de Jerusalém) quanta no
séc. v (a queda de Roma).
Introdução ao Apocalipse ■ 23
as Escrituras. Afinal de contas, os profetas do a t sabiam sobre o que
estavam falando quando predisseram uma era de paz e retidão. O
conhecimento crescente pelo homem das melhorias mundiais e ci
entíficas que estavam vindo poderiam se ajustar nesta conjuntura.
Por outro lado, o conceito estava agradando ao liberal e ao cético. Se
eles não acreditavam nos profetas, pelo menos acreditaram que o
homem era capaz de melhorar o seu meio ambiente. Acreditaram,
também, que uma áurea era dourada estava por vir.19
Essa aceitação por parte de muitos resultou em dois tipos
de p ó s -m ile n a r is m o , c o n fo rm e as a n o ta ç õ e s de Paul N.
Benware: “pós-milenarismo liberal” e “pós-milenarismo bíbli
co”.20 O primeiro teve seu apogeu no século xix em associação
ao “evangelho social”, cuja missão era a liberação da humani
dade dos males sociais (pobreza, racismo, doença, guerra, e
injustiça). A pressuposição dessa escola de pensamento, de
que a humanidade era basicamente boa e que enfim a socie
dade melhoraria, resultava em uma era dourada na terra. Po
rém, louvável como essa tentativa, o evangelho social sofreu
duas falhas: abandonou a pregação do evangelho, e fundamen
tou sua visão da história ingenuamente no processo evolutivo.
O tempo desferiu um sopro mortal ao pós-milenarismo libe
ral — os eventos catastróficos do século xx resultaram em uma
posição insustentável (e.g., duas guerras mundiais, a grande
depressão, a ameaça de destruição nuclear).
Junto com o pós-milenarismo liberal estava o seu correlato
bíblico. Os teólogos dos séculos xvm e xix que seguem essa
abordagem mantiveram seus com prom issos para com o evan
gelho e para com o seu poder transformador. Stanley J. Grenz
relata assim:
,9The Millennial kingdom, Findlay: Dunham, 1963, p. 22-3. Em uma recente
correspondência, Ken Gentry fornece duas clarificações proveitosas da apre
sentação que fornecemos referente à conexão entre o preterismo e o pós-mile-
narismo. Primeiro é simplista restringir a visão preterista ao pós-milenarismo.
Muitos amilenaristas também se alinham com essa interpretação (e.g., Jay Adams,
Cornelis Vanderwaal). Segundo, embora se dê o crédito a Whitby como o res
ponsável por popularizar o pós-milenarismo, de fato é Thomas Brightman,
(1 5 62-1607) quem merece esse crédito. Além disso, há um pós-milenarismo/
preterismo nascente de alguns dos pais da igreja (por exemplo, Orígenes,
Eusébio, Atanásio, Agostinho).
20U nderstanding endtim es prophecy. a comprehensive approach, Chicago:
Moody, 1995, p. 120-2.
24 ■ Apocalipse
Suas perspectivas diferem fundamentalmente tanto do cristianis
mo secular quanto do cristianismo liberal utópicos. Eles eram oti
mistas e confiantes em relação ao futuro. Mas o otimismo deles
originou de uma convicção no triunfo do evangelho no mundo e a
operação do Espírito Santo que traria o reino, e não de qualquer con
cepção errônea relativa à bondade inata da humanidade ou da habili
dade da igreja para converter o mundo por seu próprio poder.21
Atualmente, o pós-milenarismo bíblico ressalta as catástro
fes da história e está experimentando um ressurgimento de
influência, especialmente o reconstrucionismo cristão. Sua con
vicção é admirável — apesar de a igreja pregar o evangelho e
executar seu papel como o sal da terra, o reino de Deus avança
rá até que o mundo inteiro um dia alegremente se curvará à
autoridade de Cristo. O meio para realizar essa meta será a lei
de Deus que impacta a igreja e, por conseguinte, o mundo .22
Os preteristas localizam a cronometragem do cumprimen
to das profecias do Apocalipse no século i d.C., esp ecif ica
mente logo antes da queda de Jerusalém em 70 d.C. (entretanto
alguns também vêem seu cumprimento nas quedas de Je ru
salém [séc. i] e de Roma [séc. v]). Apesar de a opinião de mui
tos que o Apocalipse foi escrito na década de 90, durante o
reinado de Domiciano (81-96), o preterismo mantém, em gran
de parte a data do livro como neroniano (54-68).
Três argumentos básicos são aplicados para defender aque
le período. 1) Há alusões a Nero ao longo do Apocalipse como
o imperador da época (e.g., 6.2; 13.1-18; 17.1-13).
2) A condição das igrejas na Ásia Menor para a qual João
escreve suas cartas (caps. 2 e 3), correlaciona-se melhor com o
cristianismo judeu anterior ao ano 70, tempo que testemunhou
a ruptura en tre o c r is t ia n is m o e o ju d a ís m o . De fa to , o
Apocalipse atesta a perseguição dupla do cristianismo ju d ai
co — pelos judeus e pelos romanos. A antiga perseguição aos
cristãos pelos judeus, devido à sua fé em Jesus como o Messi
as, de forma que eles foram expulsos das sinagogas, o que, por
n The millennial maze\ sorting out evangelical options, Downers Grove: ivp,
1992, p. 66.
22Autores que se identificam com a interpretação preterista do Apocalipse
incluem David Chilton, The days o f vengeance'. an exposition of the book of
Revelation (Forth Worth: Dominion, 1987) e Gary DeMar Last days madness\
obsession of the modern church (Atlanta: American Vision,1994).
Introdução ao Apocalipse ■ 25
conseguinte, os expôs à veneração a César.23 Os romanos, sub
seqüentemente, tentaram forçar os cristãos judeus a venerar
César. Para julgar os judeus do século i por perseguir os cris
tãos, João prediz que Cristo virá em poder para destruir Jeru
salém, usando o império romano para fazê-lo (e.g., 1.7,8; 22.20;
caps. 2 e 3 ; 11; 1 7 e 18) — uma advertência que se tornou ver
dadeira com a queda de Jerusalém em 70 d.C.
3) De acordo com Apocalipse 11, o templo parece ainda es
tar erguido (quer dizer, durante todo o período da escrita do
livro).
Baseado em argumentos anteriores, poderíamos esboçar o
Apocalipse assim:
Cap. 1: A visão de João de Jesus ressurreto
Caps. 2 e 3: A situação do antigo cristianism o judaico
Caps. 4 e 5: A cena divina do reinado de Cristo ■
Caps. 6— 18: Julgam entos paralelos a respeito de Jerusalém
Cap. 19: A vinda de Cristo para com pletar o julgam ento de
Jerusalém
Caps. 20— 22: O Reinado de Cristo na terra
Com respeito à filosofia da história presumida pela maio
ria dos preteristas,como m encionado anteriorm ente, ela é
positiva (con tra Jay Adams e Cornelis Vanderwaal). O mundo
melhorará por causa do triunfo do evangelho. Nesse sentido,
o pós-milenarismo alinha mais com o papel do profeta do a t ,
cuja m ensagem proclamou a intervenção de Deus na h istó
ria, do que com a destruição apocalíptica e com previsões de
trevas do futuro.
A interpretação idealista
A abordagem idealista de Apocalipse é, às vezes, chamada de
a visão “espiritualista”, visto que interpreta o livro espiritual,
ou sim bolicam ente. Do m esm o modo, o Apocalipse é visto
dessa perspectiva que representa o conflito contínuo do bem
e do mal, sem conexão histórica imediata para qualquer even
to político ou social. Raymond Calkins descreve bem essa in
terpretação:
23Roma permitiu a liberdade de crença para o judaismo. Estar separado disso
era perder a posição social privilegiada.
26 ■ Apocalipse
Se entendem os a em ergência que levou o livro a ser escrito, sua
interpretação durante seu tempo, para o nosso tempo, e durante
todo o tempo fica tão claro quanto a luz do dia. À luz dessa explica
ção, distante da verdade a interpretação que acha o significado
principal do livro nas sugestões que nos dá aproxim adam ente o
término da criação, o fim do mundo, e a natureza do último julga-
menk? [...] Usar o Apocalipse desse modo é abusá-lo, porque o
próprio livro não faz reivindicação alguma para ser a chave do
futuro.24
Por conseguinte, Calkins resume a mensagem principal do
Apocalipse em termos de cinco proposições:
1 . é uma convocação irresistível para viver heroicamente;
2 . contém apelos sem igual à resistência;
3. fala que o mal está marcado para ser derrotado no fim ;
4. apresenta um quadro novo e maravilhoso de Cristo;
5. revela-nos o fato que a história está na mente de Deus
e nas mãos de Cristo, como o autor e revisor dos desti
nos morais do hom em .25
Enquanto as quatro escolas de interpretação inspecionadas
aqui ressoam com essas afirmações, a visão idealista se dis
tingue recusando nomear as declarações que precedem a qual
quer correspondência histórica e assim nega que as profecias
no Apocalipse são proféticas, exceto no sentido mais geral da
promessa do último triunfo do bem quando Cristo retornar .26
A origem da escola idealista de pensamento pode ser remon
tada às origens da hermenêutica alegórica, ou simbólica, defen
dida pelos pais da igreja de Alexandria, especialmente Clemente
e Orígenes. R. H. Charles escreve sobre esses alexandrinos que:
sob a influência do helenismo e da escola alegórica tradicional de
interpretação que chegou ao topo em Filo, [eles] rejeitaram o senti
do literal do Apocalipse, e adicionaram apenas um significado es
piritual. Essa teoria domina muitas escolas de exegetas até os dias
24The social m essage o f Revelation, New York: Woman’s Press, 1920, p. 3.
25lbid., p. 3-9.
“ Merrill C. Tenney fornece um resumo útil da interpretação idealista do
Apocalipse, como também os outros pontos de vista, em Interpreting Revelation
(Grand Rapids: Eerdmans,1957), p. 143-4.
introdução ao Apocalipse ■ TI
de hoje. Assim, Clemente viu nos 24 anciãos um símbolo de igual
dade dos judeus e dos gentios na igreja; e nas caudas dos gafanho
tos as influências destrutivas de professores imorais. Orígenes,
como também Metódio, seu oponente, rejeita como judaica a inter
pretação literal do capítulo xx e, nas mãos dos seus seguidores, os
conteúdos históricos completos do Apocalipse foram perdidos.27
A visão amílenarísta proposta por Dionísio, Agostinho, e
Jerônimo era semelhante à interpretação de Alexandria. Assim,
a Escola de Alexandria, munida com o método amilenarista,
tornou-se a interpretação dominante do Apocalipse até a Re
forma.
Como mencionado, o idealista não restringe os conteúdos
do Apocalipse a um período histórico particular, mas certa
mente vê isto como uma dramatização apocalíptica da bata
lha contínua entre Deus e o mal. Porque os s ím bo los são
polivalentes no significado e sem referente histórico específi
co, a aplicação da mensagem do livro é ilimitada. Portanto,
cada intérprete pode achar significação para suas respectivas
situações.
Dois comentários recentes sobre Apocalipse ilustram bem
esse método. O primeiro é o trabalho feito por Paul S. Minear,28
para quem a interpretação dos símbolos do Apocalipse é esti
mulante. Para ele, o propósito do Apocalipse é advertir os cris
tãos do inimigo que está dentro — “o falso cristão”. O conjunto
do livro é visto dessa perspectiva. As sete cartas fornecem o
contexto do livro — é um desafio divino para a igreja ser fiel a
Cristo. Daí por diante, os julgamentos são projetados não para
efetuar a ruína dos de fora da cristandade, mas do infiel den
tro dela. Os que perseveram em retidão recebem a promessa
do novo céu e da nova terra. Visto desse modo, o Apocalipse
não deve ser levado como uma injúria apocalíptica contra o
não-cristão, mas, preferivelmente, como uma advertência pro
fética para o cristão.
O segundo trabalho sobre o Apocalipse que ilustra a inter
pretação idealista é o comentário desafiador feito por Elisabeth
27Studies in the Apocalypse, Edinburgh: T. & T Clark, 1913, p. 11-2.
2SI saw a new earth : an introduction to the visions of the Apocalypse,
Cleveland: Corpus, 1968.
28 ■ Apocalipse
Schüssler Fiorenza, cujo propósito é “liberar o texto de seu
cativeiro histórico e resgatar a mensagem do Apocalipse para
a atualidade”.29 Em outras palavras, o significado do Apocalipse
não será buscado no século i nem nos eventos remotos nos
finais do tempo, mas, preferivelmente, na luta contínua entre
os que estão em desvantagem sócio-politica e seus opresso
res. Assim cbjnpreendido, o A pocalipse é uma ferram enta
poderosa nas mãos de teólogos da libertação e de feministas,
por se livrar, respectivam ente do jugo do capitalismo e do
m achism o.
O melhor modo para apreciar a abordagem de Fiorenza é ver
o seu m étodo em prática. Por exem plo, ela cita, de form a
aprobativa, o poema, “Dia de Ação de Graças nos Estados Uni
dos" de Júlia Esquivei, que remodela o Apocalipse 17 e 18, apli
cando-o à experiência dos países latino-americanos:
No terceiro ano dos m assacres
por Lucas e os outros coiotes
contra os pobres da Guatemala
Eu fui conduzido ao deserto pelo Espírito
E na véspera
do Dia de Ação de Graças
Eu tive uma visão da Babilônia:
A cidade surgiu arrogante
de uma enorme plataforma
de fumaça suja causada
por automóveis, maquinaria
e contaminação de chaminés.
Era como se todo o petróleo
de uma terra violada
estivesse sendo consumido
pelos deuses da capital
e estivesse subindo lentamente,
obscurecendo a face
do sol de justiça
e do Ancião de Dias...
29Revelation: vision of a just world, Proclamation commentaries, Minneapolis:
Fortress, 1991, p. 2.
Introdução ao Apocalipse ■ 29
Todo dia falsos profetas
convidavam os habitantes
da cidade impudica
para se ajoelharem ante os idoJos
de glutonaria,
dinheiro,
e morte:
idólatras de todas as nações
estavam sendo convertidos ao modo americano de vida...
O Espírito me disse
no rio de morte
que o fluxo de sangue de muitas pessoas
sacrificadas sem clemência
e mil vezes afastadas das suas terras,
o sangue de Kekchis, de Panzos,
dos negros do Haiti, dos guaranis do Paraguai,
das pessoas sacrificadas para o “desenvolvim ento”,
na faixa da Transamazônica,
o sangue dos antepassados dos índios
que se mantiveram nestas terras, desses que
até agora são mantidos como reféns na Grande Montanha
e nas Colinas Pretas do Dakota
pelos guardiões da besta...
Minha alma foi torturada assim
durante três dias e meio
e um grande cansaço pesou em meu peito.
Eu sentia o sofrimento de meu povo muito profundamente!
Então, em lágrimas, eu me prostrei
e clamei: “Senhor, o que podem os fazer? [...]
Venha a mim, Senhor, desejo m orrer entre meu povo!”
Sem forças, esperei pela resposta:
Depois de um longo silêncio
e uma pesada obscuridade
Aquele que senta no trono
para julgar as nações
falou emum brando sussurro
nos intervalos secretos de meu coração:
Você tem de denunciar a sua idolatria
em tem pos bons e ruins.
30 * Apocalipse
Force-os a ouvir a verdade
pois o que é impossível a humanos
é possível para Deus.30
Caso alguém concorde, ou não, com a ideologia que esse
poema comunica, quanto ao assunto, com a persuasão fem i
nista radical de Fiorenza, a tentativa de capturar e aplicar o
simbolismo do Xpocalipse é impressionante.
Não parece ser uma regra dura e rápida para o idealista
delinear a estrutura do Apocalipse. Para Minear, a chave para
esboçar o livro é ficar atento aos contrastes em curso entre as
visões do céu e da terra, um simbolismo da luta dentro dos
cristãos, entre fidelidade a Cristo (céu) e deslealdade (terra).
Para Fiorenza, o Apocalipse é estruturado no quiasma, de
modo que a chave para o livro será encontrada em 10.1— 15.4,
com sua descrição da luta e da liberação das comunidades
oprimidas do mundo .31 O único aspecto estrutural notável na
agenda interpretativa idealista é sua negação de uma leitura
literal e cronológica de Apocalipse 20. Preferivelmente, no bom
modo amilenarista, aquele capítulo será visto como uma des
crição simbólica do potencial da igreja para reinar com Cristo
nessa era.
Quanto à visão mundial da escola idealista de pensam en
to, o “realismo” é sua perspectiva preferida. Stanley Grenz sin
tetiza essa idéia do idealista, uma posição amilenarista:
O resultado é uma visão mundial caracterizada por realismo. Vitó
ria e derrota, sucesso e fracasso, o bem e o mal coexistirão até o
fim, afirma o amilenarismo. O futuro não é uma continuação ele
vada do presente nem uma contradição abrupta a ele. O reino de
Deus não vem mediante à cooperação humana com o poder divino
em atividade atualmente no mundo, mas tampouco é apenas o pre
sente divino pelo qual podemos aguardar esperançosam ente.32
Por conseguinte, tanto o otimismo desenfreado quanto o
pessim ism o desesperador são impróprios, declara o am ile
narismo. Particularmente, a visão amilenarista chama a igreja
à “atividade realística” no mundo. Sob a orientação e o poder do
30Ibid,, p. 27-8.
31Ibid., p. 35-6.
32The miüennial maze, p. 187.
Introdução ao Apocalipse ■ 31
Espírito Santo, a igreja terá êxito em seu mandato; todavia, o
último sucesso somente virá pela graça de Deus. O reino de
Deus chega como a ação divina que passa repentinamente pelo
mundo; contudo a cooperação humana traz importantes resul
tados, embora não seja a última palavra. Portanto, o povo de
Deus deve esperar grandes co isas no p resente; desde que
saibam que o reino nunca chegará por completo na história e,
portanto, devem sem pre perm anecer realistas em suas ex
pectativas.
Dispensacionalismo clássico
A interpretação mais popular do Apocalipse entre o povo du
rante o século xx foi o dispensacionalismo, uma das variantes
do pré-milenarismo. O nome do movimento é derivado da pala
vra bíblica “dispensação”, um termo que recorre à administra
ção da casa terrestre de Deus (k jv , ICo 9.17; Ef 1.10; 3.2; Cl 1.25).
Os dispensacionalistas dividem a história da salvação em eras
históricas ou épocas para distinguir as administrações diferen
tes do envolvimento de Deus no mundo. Cyrus I. Scofield, de
pois de quem a Bíblia de Scofield com referências foi popularmente
chamada, definiu a dispensação como “um período de tempo
durante o qual o homem é testado em relação à obediência a
alguma revelação específica do testamento de Deus”.33 Durante
cada dispensação, a humanidade não vive em obediência ao tes
te divino, trazendo aquele período, por conseguinte sob o ju l
gamento de Deus e, assim, criando a necessidade para uma
dispensação nova. Lida desse modo, a Bíblia pode ser dividida
nas seguintes oito dispensações (entretanto o número de no
mes varia nessa escola de pensamento): inocência, consciência,
governo civil, promessa, lei mosaica, igreja e idade da graça,
tribulação, milênio.34
A autenticidade do dispensacionalismo foi seu compromisso
a uma interpretação literal da escritura profética. Isto resultou
“NewYork: Oxford, 1909 , observe em Gênesis 1 .28 . Para uma definição
atualizada que enfatiza fé como o meio de receber as revelações nas várias
dispensações, v. Charles C. Ryrie, Dispensationalism today (Chicago: Moody,
I 'l(>5), p. 74.
■'Rightly dividing the word o f truth, New York: Loizeaux Brothers, 1896.
Muitos dispensacionalistas modernos, porém, ficam cada vez mais descon-
liii laveis com essas periodicidades, preferindo falar sobre a Bíbüa em termos
de suas duas divisões — antiga e nova alianças.
32 ■ Apocalipse
em três doutrinas famosas, apreciadas por partidários do mo
vimento. 1) Uma distinção entre as profecias feitas sobre Israel
no a t e a igreja no n t deve ser mantida. Em outras palavras, a
igreja não substituiu Israel no plano de Deus. As promessas
que ele fez à nação sobre sua restauração futura acontecerão.
Então, a igreja é um parêntese no término desse plano. A dis
tinção dispensacionalista entre o Israel e a igreja foi solidificada
na mente de muitos como resultado de dois eventos princi
pais nesse século: o holocausto (que extraiu de muitos profun
da compaixão pelo povo judeu) e o renascimento do Estado de
Israel, em 1948.
2) Os dispensacionalistas são pré-milenaristas; quer dizer,
Cristo virá novamente e estabelecerá um reinado temporário,
mil anos em Jerusalém.
3) Os dispensacionalistas acreditam no arrebatamento pré-
tribulacionista, isto é, o retorno de Cristo acontecerá em duas
fases: a primeira para a sua igreja que será poupada da gran
de tribulação; a segunda em poder e glória para conquistar
seus inimigos.
O dispensacionalismo parece ter sido articulado primeira
mente pelo clérigo anglicano irlandês John Nelson Darby, líder
influente no movimento dos Irmãos de Plymouth na Inglater
ra, no século xix. O movimento foi levado para os eu a , adquirin
do notoriedade com a publicação em 1909 da Bíblia de Scofield.
Pelo menos três desenvolvimentos aconteceram dentro do mo
vimento durante esse século: 1) A fase mais antiga foi proposta
por Darby e Scofield, período que enfatizou as próprias dispen-
sações; 2) Uma segunda fase emergiu nos anos sessenta, graças
ao trabalho feito por Charles C. Ryrie, D ispensationalism today
[D ispensacionalism o hoje], Com esse segundo desenvolvimen
to aconteceram duas mudanças notáveis: a) A fé foi real-çada
como meios de salvação em quaisquer das dispensações (contra
a antiga declaração da Bíblia de Scofield sobre obras que são os
meios de salvação no a t ; v . a nota de rodapé em João 1.17); b) As
dispensações individuais não eram mais o foco; por outro lado, a
ênfase cabe agora na hermenêutica literal do dispensacionalismo;
3) Nos anos oitenta, surgiu um terceiro desenvolvimento, geral
mente chamado de dispensacionalismo progressivo, (mais sobre
isso posteriormente). A fase mediana, com freqüência rotulada
como dispensacionalism o tradicional, continua encontrando
Introdução ao Apocalipse ■ 33
apoio expressivo hoje, constitui o quarto ponto de vista oferecido
neste volume sobre o Apocalipse.
O entendimento do dispensacionalismo clássico do tempo
do Apocalipse e sua estrutura caminham juntos. Porque essa
escola de pensam ento interpreta as profecias do livro lite
ralmente, seu cumprimento, então, é percebido como ainda
futuro (esp. caps. 4—22). Além disso, a magnitude das profe
cias (e.g., um terço da terra destruído; o sol escureceu) suge
re que e les ainda não ocorreram na h istór ia . O v ers ícu lo
fundamental nessa discussão é 1.19, particularmente seus três
te m p o s que se p e n s a que f o r n e c e m um e s b o ç o p ara o
Apocalipse: “o que você viu” (o passado, a visão de João de
Jesus no cap. 1); “o que é agora” (o presente, as cartas para as
sete igrejas nos caps. 2 e 3); o que acontecerá depois” (caps.
4—22). Além disso, o dispensacionalista clássico acredita que
a falta de menção da igreja no capítulo 4 indicaque esta será
arrebatada ao céu por Cristo antes do advento da grande tri-
bulação (caps. 6— 18).
Como o d ispensacionalism o está intim am ente associado
ao pré-milenarismo, não surpreende que essa perspectiva veja
a h istória do mundo com pessim ism o. Grenz resum e essa
interpretação:
Em contraste ao otimismo do pós-milenarismo, o pré-milenarismo
exibe um pessimismo básico relativo à história e ao papel que
desempenhamos em sua culminação. Apesar de todas as nossas
tentativas de converter ou reform ar o mundo, antes do fim, o
anticristo emergirá e ganhará controle dos negócios humanos, pre
diz relutantemente o pré-milenarismo. Somente a ação catastrófi
ca da volta do Senhor provocará o reinado de Deus e a idade gloriosa
de bem-aventurança e paz.
De acordo com esse pessimismo básico, relativo à história
mundial, teologias pré-milenares enfatizam a descontinuidade, ou
até mesmo a contradição entre a ordem presente e o reino de Deus,
e eles elevam o futuro divino acim a da perversidade presente. O
reino é a coisa radicalmente nova que Deus fará. Porém, indepen
dentemente de como possa ser concebido, a “era dourada” — o
divino futuro — vem como o presente gracioso de Deus e somente
pela ação de Deus.3S
'•The millennial maze, p .185.
34 ■ Apocalipse
Dispensacionalismo progressivo
Para discutir o “dispensacionalismo progressivo”, a mais nova
das quatro interpretações inspecionadas aqui, com binam os
sua origem e descrição. Na década de oitenta, certos teólogos
d ispensacionalistas iniciaram uma reconsideração do s is te
ma e desenvolveram o que foi chamado “progressivo” ou dis
pensacionalismo “modificado”.36 Enquanto ainda seja prematu
ro chamar esta abordagem uma “escola de pensamento”, toda a
evidência indica que esse ponto de vista ganhará influência no
decorrer do tempo.
A idéia abrangente que contém essa interpretação é sua
aderência à hermenêutica do “já/ ainda não”. Primeiramente
popularizado por Oscar Cullmann, teólogo suíço de uma ge
ração passada, esse sistema vê a primeira e a segunda vinda
de Cristo pela lente de tensão da escatologia. A primeira vin
da testemunha a inauguração do Reino de Deus, ao passo que
a segunda resultará em sua realização completa. Até então, o
cristão vive na tensão entre a era por vir (que amanheceu à
primeira vinda de Cristo) e esta presente era má (que somente
será transformada na Parúsia, ou a Segunda Vinda de Cristo).
Gordon D. Fee capta a essência deste pensamento:
A estrutura absolutamente essencial ao próprio cristianism o pri
mitivo [...] é escatológica. Os cristãos passaram a acreditar que, no
evento de Cristo, a nova (vinda) era amanhecera, e que, especial
mente pela morte e ressurreição de Cristo e o subseqüente dom do
Espírito, Deus colocara o futuro em jogo, ser consumado ainda por
outra próxima (parúsia) de Cristo. Deles foi então uma existência
essencialm ente escatológica. Viveram “entre os tem pos” do com e
ço e a consumação do fim. Deus tinha assegurado a salvação deles;
eles já eram as pessoas do futuro, vivendo a vida do futuro na
presente era — desfrutando seus benefícios. Mas ainda esperaram
a consum ação gloriosa dessa salvação. Assim, viveram em uma
tensão essencial entre o “já ” e o “não-ainda”.37
360 s proponentes dessa abordagem incluem Craig Blaising e Darrell Bock,
Progressive dispensationalism (Wheaton: Victor, 1993); Robert L. Saucy, The case
for P rogressive dispensationalism-, the interface between dispensational and
non-dispensational theology (Grand Rapids: Zondervan,1993).
371 and 2 Timothy, Titus, Peabody, Mass.: Hendrickson,1988, p. 19.
Introdução ao Apocalipse ■ 35
Como resultado de interpretar a Bíblia desta maneira, os
dispensacionalistas progressivos divergem de alguns pontos
defendidos pelo dispensacionalismo clássico. 1) Os “progres
sivos” acreditam que Jesu s começou seu reino divino davídico
na ressurreição. Craig Blaising e Darrell Bock expressam isto
assim:
Pedro argumenta em Atos 2 .22 -36 que Davi predisse no salmo 16,
que esse descendente seria ressurreto, incorruptível, e desse modo
seria entronizado (At 2 .30 ,31). Ele argum enta a seguir que essa
entronização aconteceu na entrada de Jesus no céu, de acordo com
a linguagem do salmo 110.1 , que descreve a entronização do filho
de Davi à destra de Deus. Pedro declara (At 2 .36) que Jesus se
tornou Senhor sobre Israel (SI 110.1 usa o título Senhor para o rei
empossado) e Cristo (o rei ungido) em virtude do fato que ele agiu
(ou permitiram que agisse) da posição celestial em nome de seu
povo para os ab ençoar com o dom do Espírito Santo [...] A
entronização à destra de Deus, a posição prometida ao rei davídico
em Salmos 110 .1 , é designada a Jesus em muitos textos do n t .
Claro que, isto é proclam ado em Atos 2 .3 3 -3 6 .38
2) A igreja não é um parêntese no plano de Deus; antes,
como judeus crédulos no a t , que formam uma parte do povo
de Deus (e.g., Rm 2 .26-28; 11; G1 6.16; Ef 2 .11-22; lPe 2.9,10).
3) A nova aliança está começando a ser cumprida na igreja
(e.g., 2Co 3 .1—4.6; v. tb. o livro de Hebreus).
4) A promessa do a t sobre a vinda dos gentios para adorar
o verdadeiro Deus ao término da história, também está expe
rimentando realização parcial na igreja (e.g., Rm 15.7-13).
Com respeito aos princípios básicos do dispensacionalismo
clássico, porém, os progressistas estão em acordo completo
em três pontos: 1) Israel será restabelecido a Deus no futuro
(isto quer dizer, há uma distinção, entretanto, não dicotomia,
entre Israel e a igreja); 2) Cristo voltará para estabelecer seu
reinado milenar na terra (o ponto de vista pré-milenarista); 3)
a igreja não passará pela grande tribulação (a interpretação
pré-tribulacionista).
Concernente ao Apocalipse, em particular, os progressis
tas aplicam a hermenêutica do já/ ainda não à sua estrutura
,sProgressive dispensationalism , p. 177-8.
36 ■ Apocalipse
como segue: O aspecto do já aparece no livro em termos de
cumprimento histórico no século i d.C., face à adoração a César
e à perseguição aos judeus cristãos (não é distinta da aborda
gem preterista, apesar d« não poder ser equiparada a ela). O
aspecto do ainda não do Apocalipse será encontrado nessas
profecias (na m aioria do livro) que espera a realização na
parúsia (a grande tribulação, o anticristo, parúsia, o milênio).
Como o dispensacionalismo clássico, os progressistas focali
zam também Apocalipse 1.19 como a chave para a estrutura do
livro, mas em lugar de examinar o versículo delineando três es
truturas (passado, presente, futuro), este ponto de vista perce
be somente dois períodos no trabalho. João escreve o que viu
(as visões do Apocalipse como um todo), que dividem as coisas
em duas realidades: as coisas que são — a era presente; e as
coisas que virão a ser — a era por vir. Para João, a igreja de seus
dias vive na presente era (caps. 1—3), mas no céu, em virtude
da morte e ressurreição de Jesus, a era por vir já alvoreceu (caps.
4 e 5). No futuro, a idade por vir descerá à terra efetuando a
derrota do anticristo (caps. 6— 9), o estabelecimento do reino
messiânico temporário na terra (cap. 20), e por conseguinte o
estado eterno (caps. 21 e 22). Assim, há uma sobreposição o re
lato das duas eras para o cenário contínuo ininterrupto entre a
terra (nesta época) e o céu (a era por vir) no Apocalipse.
O dispensacionalista progressivo também vê o desdobramento
da história com pessimismo, porque ele é pré-milenarista em
sua perspectiva. Porém, a hermenêutica do já/ ainda não ajus
ta esse pessimismo à convicção otimista que o reino de Deus
alvorece espiritualmente, dando, assim, grande esperança ao
povo de Deus. Por conseguinte, os dispensacionalistas progres
sivos são cautelosos quanto a não necessariamente comparar
esta geração atual com a última antes do retorno de Cristo. Pode
ser, ou pode não ser. Tony Campolo define o realismo da tensão
escatológica inerente nessa mentalidade:
Qualquer teoiogia quenão vive com sentido do retorno imediato
de Cristo é uma teologia que abranda a urgência de fé. Mas qual
quer teologia que não nos faça viver como se o mundo ainda estará
aqui por milhares de anos é uma teologia que nos conduz à
irresponsabilidade social.39
“ Entrevista: The Door (Sept./ Oct. 1993, p. 14).
1
0 ponto de vista
P r e t e r is t a
■ K e n n e th L. G e n try Jr.
PRETERISTA DO APOCALIPSE
INTRODUÇÃO
Quanto mais o tempo passa, mais distante estamos dos even
tos do Apocalipse. Essa reivindicação, tão notável, resume o
p on to de v is ta p r e te r is ta e v a n g é lic o do A p o c a l ip s e . 1 O
“preterismo” assegura que grande parte das profecias de João
ocorreu no século /, logo após o livro ter sido escrito por ele.
Embora as profecias estivessem no futuro quando João escre
veu, e seu público as leu, elas agora estão em nosso passado.
O espaço do presente livro impede uma análise completa
do Apocalipse e sua complicada estrutura .2 Ainda estou fir
m em ente convencido que até m esm o uma p esquisa in tro
dutória de várias passagens fundamentais, figuras, e eventos
na p ro fecia m a je s to s a de Jo ã o pode d em on strar a plausi-
bilidade da posição preterista. Quanto à estrutura, basta isto
para dizer que seu movimento sugere um avanço espiral de
eventos, envolvendo a reforma de antigas profecias (e.g., note
as fortes semelhanças entre os selos e as trombetas, Ap. 6 e 8). A
estrutura espiral de João permite relances inversos ocasionais
'A palavra “preterista” está baseada em uma palavra latina “praeteritus”
significa “o que se passou”, i.e., passado.
2Para mais detalhes preteristas no Apocalipse organizado em um sistema
escatológico, v. meu He shall have dominion, 2 ed., Tyler, Tex.: Institute for
Christian Economics, 1996, esp. caps. 8 e 14— 17. V. tb. David Chilton, The days
o f vengeance: an exposition o fth e book o f Revelation, Forth Worth, Tex.: Dominion,
1987; Jay E. Adams, The time is at hand, Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and
Reformed, 1966.
40 ■ Apocalipse
e a reconsideração de eventos de ângulos diferentes, em lu
gar de uma progressão cronológica inexorável.
A razão para essaxestrutura é interessante: Milton S. Terry
defensor notável do método gramatical histórico de interpreta
ção, preterista de peso e autoridade em hermenêutica, citada
por Robert L. Thomas em seu capítulo (a seguir), lembra que
“todas e tais repetições apocalípticas servem tanto o propósito
de intensificar a revelação divina como o de mostrar que a coi
sa é estabelecida por Deus e que ele a fará para passar rapida
m en te”.3 Claro que, nenhum intérprete leva o progresso do
Apocalipse implacavelmente como trabalho desenvolvido — até
o d ispensacionalista c lássico Robert Thom as aceita alguns
entrosamentos passados e futuros, intercalações disjuntivas, e
assim sucessivamente (e.g., em Ap 11.15-19; 12.1ss. 19.1-4, 7-9).4
Antes de iniciar minha pesquisa, tenho de apontar o que a
maioria dos cristãos suspeita e o que praticamente todos os
estudiosos evangélicos (excluindo os dispensacionalistas clás
sicos) reconhecem com referência ao livro: o A pocalipse é um
livro a ltam en te figurativo que n ão pod em os a b o rd a r a partir
de um litera lism o d ireto e sim ples. Porém, após fazer essa
declaração, o ponto de vista preterista entende as profecias
do Apocalipse refletindo eventos históricos atuais solidamente
no futuro próximo de João, entretanto eles estão fixados no
drama apocalíptico e ornados em hipérbole poética. Como o
comentarista pré-milenarista Robert Mounce observa: “Que a
3BibIicaI Apocalyptics-, a study o f the most notable Revelatíons o f God and o f
Christ, Grand Rapids: Baker, rep. 1988 (1898), p. 22. V. Gênesis 4 1 .25 ,32 .
•'Robert L. T h o m a s , Revelation 8—22: An exegetical com mentary (Chicago: Moody,
1995, p. 43, 103-4, 106-7, 113, 355, 365-6). Por exemplo, “esta passagem faz
parte de uma intercalação que não é uma parte de rígida sucessão cronológica
do Apocalipse” (366). Uma peculiaridade notável existe no sistema dispensa
cionalista clássico literário, análises cronológicas de profecia: Intercalações apa
recem inesperadamente em qualquer lugar em que o sistema precisa deles.
Por exemplo: 1) a imagem unificada de Daniel 2 envolve quatro impérios mun
diais sucessivos que se desenvolvem progressivamente um após o outro, mas
com o quarto entre dois estágios, inclusive um “império romano reavivado”
separado de seu antecessor romano antigo por 1 500 anos — até agora (v. ibid.,
p. 153). 2) As setenta semanas de Daniel unificadas, após desenvolver progres
sivamente pelas primeiras 69 semanas, param de repente no primeiro século,
mas retomam novamente na grande tribulação milhares de anos depois (cf.
T h o m a s , Revelatíons 1— 7 [Chicago: Moody, 1992], p. 426).
0 ponto de vista preterista ■ 41
linguagem da profecia é altamente figurativa e não tem nada
a ver com a realidade dos eventos preditos. O sim bolism o
não é uma negação da historicidade, mas um assunto de gê
nero literário”.5 Verifique os seguintes impedimentos de um
literalismo preconcebido:
1) A d ec la ra ção sobre conteúdo. Em sua declaração de aber
tura, João nos informa que sua revelação foi dada “para m os
trar” (gr. deixai) a mensagem e para isso “enviou seu anjo para
torná-la co n h ecid a” [gr. esçm an en ] pelo seu a n jo ” (Ap 1.1).
Conforme Friedrich Düsterdieck comenta: “O deixai ocorre do
modo peculiar a sem ainein , isto é, a indicação do que é signi
ficado por meio de “figuras significativas”.6 Na realidade, 41
vezes, João diz que ele “vê" essas profecias (e.g., 1 .12,20; 5.6;
9.1 ; 20 .1). Além disso, algumas das visões são obviam ente
simbólicas, como o cordeiro morto (caps. 4 e 14), a besta de
sete cabeças (caps. 13 e 17), e a prostituta babilônica (cap. 17).
Em seu evangelho, João mostra o problema do literalismo
entre os primeiros ouvintes de Cristo: eles interpretam mal
seu ensino referente ao templo (Jo 2 .19-22), ao nascer de novo
(3.3-10), ao beber água (4.10-14), ao com er sua carne (6 .5 1
56), ao ser livres (8.31-36), ao ser cegos (5.39,40), ao dormir
(11.11-14), e Jesus como Rei (18.33-37). Essa abordagem errô
nea é exagerada se usada na revelação de João. A natureza
visual no conteúdo do Apocalipse — não somente o método
de sua ass im ilação — requer in terpretação sim bólica . Quer
dizer, com exceção de poucos casos (e.g., Ap 1.20; 4.5; 5.6,8;
7 .13 ,14 ; 12.9; 17.7-10), os símbolos não são interpretados para
nós. E em um desses exemplos em que aceitamos uma inter
pretação angelical (17.9-12), a besta de sete cabeças não é lite
ralmente uma besta de sete cabeças de modo algum.
2) O p r ec ed en te d os p r o fe ta s an tigos. Os profetas do a t
empregam linguagem figurativa para um dos dois propósi
tos: relacionar verdades espirituais m ajestosam ente, ou sim
bolizar eventos históricos dramaticamente. Por exemplo, Deus
está cavalgando em uma nuvem “que vai para o Egito” (Is 19.1;
' Robert H. M o u n c e , The book o f Revelation, n i c n t ; Grand Rapids: Eerdmans,
1 ')77, p. 218. Para uma discussão útil, sucinta da hermenêutica apocalíptica, v.
Vem S. Poythress, Genre and hermeneutics in Rev 20.1-6, j e t s 36, Mar. 1993, p.
I I r)4.
'Criticai and exegetical handbook to the Revelation o f John, 6 ed., tradução
I lenry Jacobs, Winona Lake, Ind.: Alpha, rep. 1 9 8 0 (1 8 8 4 ), p. 96.
42 ■ Apocalipse
v. a seguir; “O tema Apocalíptico”) e a destruição da linguagem
(Ap 13.10; v. a seguir “O sexto selo”) fala da queda de cidades
antigas. Terry oferece rhuita ajuda a este respeito ,7 diz que “uma
interpretação literal rígida da linguagem apocalíptica inclina-
se a confusão e equívocos infinitos”.8 Até o literalista Robert
Thomas admite que “a fluidez da linguagem metafórica nas
Escrituras é inegável”.9
3) A d ificu ld ad e do literalism o consisten te. Alguns exem
plos do literalismo parecem estranhos, irracionais,e desne
cessários. Por exemplo, Robert Thomas assegura que os gafa
nhotos assustadores em Apocalipse 9 e as rãs estranhas em
Apocalipse 16 são demônios que literalmente assumem essas
formas físicas; que os dois profetas em Apocalipse 11 literal
mente vomitam fogo de suas bocas; que toda montanha no
mundo será abolida durante o julgamento das sete taças; que
a destruição literal da cidade da Babilônia por fogo acontecerá
lentamente por mais de 1 000 anos; que Cristo retornará do
céu para a terra em um cavalo, literalmente; e que a Nova Jerusa
lém é um cubo de 1 500 milhas de altura .10
A EXPECTATIVA TEMPORAL (AP 1.1-3)
Volto-me agora a uma pesquisa do livro de Apocalipse. Platão,
em A república, afirma uma máxima singular: “O começo é a
parte mais importante do trabalho”. Esse princípio assegura um
significado especial para o pretensioso intérprete do Apocalipse.
Infelizmente, muitos entusiastas da profecia pulam o começo
desse livro, deixando de assegurar um fundamento adequado
para o caminho traiçoeiro adiante. Mas tirando uma linha de
Isaías, o preterista pergunta: “Será que vocês não sabem? Nunca
ouviram falar? Não lhes contaram desde a antigüidade?” (Is 40.21).
O preterista insiste que a chave para o Apocalipse seja encontra
da em abertura. Note a introdução de João:
7BibIicaI Apocalyptics, cap. 19: “The Apocalypse of John”; v. tb. Milton S.
Terry, Biblical herm eneutics: a treatise on the interpretation o f the Old and New
Testaments, 2 ed., Grand Rapids: Zondervan, rep. 1974 [n.d.], cap. 26: “The
Apocalypse of John”.
sBiblical Apocalyptics, p. 228.
9Revelation 8—22, p. 372.
l0Revelation 1— 7, p. 455 , e Revelation 8— 22, p. 30, 46, 49, 90, 264, 360, 386,
467.
0 ponto de vista preterista ■ 43
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para m ostrar aos seus
servos o que em breve há de acontecer [...] Feliz aquele que lê as
palavras desta profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o
que nela está escrito, porque o tempo está próximo. (Ap 1.1a, 3,
grifo do autor).
Agora — an tes que as visões dramáticas brilhem em cena e
a imagem altamente forjada confunda o leitor — João fornece
uma pista indispensável para interpretar o seu livro: Os even
tos do Apocalipse devem acontecer [gr. tachos] “em breve” (v.
1) porque “o tempo está próximo [gr. engys]”.n
Os léxicos gregos e as traduções modernas concordam que
essas condições indicam proximidade temporal. Ao longo do n t,
tachos significa “depressa, imediatamente, sem demora, breve
mente”.12 O termo engys (“próximo”) também fala de proximida
de temporal: do futuro (Mt 26.18), do verão (24.32) e de um
festival (Jo 2.13). O apóstolo João, inspirado, informou claramen
te há quase dois mil anos ao seu público da época que eles deve
riam esperar as profecias “acontecer” (Ap 1.1) no tempo de vida
deles. Como observa Milton Terry, os eventos do Apocalipse são
referentes “só a alguns anos no futuro após João escrevê-lo”.13
O significado dessas palavras não se encontra somente na
introdução ao Apocalipse, mas também na conclusão de sua
obra. Assim, eles são uns parênteses que qualificam o livro
todo. Note como termina:
O anjo me disse: “Estas palavras são dignas de confiança e verda
deiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou o seu
anjo para m ostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de
acontecer..."
Então me disse: “Não sele as palavras da profecia deste livro,
pois o tempo está próximo" (Ap 2 2 .6 ,1 0 , grifo do autor).
Ainda mais, os termos aparecem com freqüência em Apocalipse,
mostrando a ênfase urgente de João na expectativa temporal.
nOs teólogos notam que referências para “o tempo” indicam com freqüên
cia um “tempo de crise” especial. A próxima crise no Apocalipse, como mostra
rei, é o “Dia de Deus” julgamento em Israel em 67-70 d.C. (Atos 2 .16-20 ; lTs
2.14-16).
12V. Lucas 18.8; Atos 12.7 ; 22 .18 ; 25 .4 ; lTm 3.14, onde engys é usado em
contextos surpreendentes (Rm 13 .11 ; 16 .20 ; Fp 4.5), se abre a pergunta do
significado do evento esperado, não do significado temporal de engys.
"Biblical Apocalyptics, p. 277.
44 ■ Apocalipse
Encontramos tachos (“logo”) em 1.1; 2 .16; 3.11; 2 2 .6 ,7 ,1 2 ,2 0 e
engys (“próximo”) em 1.3; 3.10; 2 2 .1 0 .14 Assim, como Robert
Thomas que se opõe ao preterismo admite: “Um impulso prin
cipal do A p o ca lip se^ su a ênfase na brevidade de tempo antes
do cum prim ento”.15
João enfatiza esses dois term os claros com significados
semelhantes, logo, antecipando qualquer confusão entre seus
leitores quanto ao qu an do as profecias ocorreriam.
O preterista, a seguir, discute positivamente que João afir
ma que os eventos estão próximos já nos seus dias. Por conse
guinte, eles devem estar em nosso passado distante. O preterismo
é exegeticamente fundamentado, pois está arraigado em princí
pios hermeneuticamente sólidos. Porém, antes de continuar
mos, tenho de contar brevemente duas réplicas comuns a esta
análise:
O bjeção 1: João está falando do tempo de Deus, e não o
nosso. As Escrituras informam que mil anos para o Senhor
são “como um dia” (2Pe 3.8).
Essa objeção popular cede ao peso da seguinte evidência:
a) O Apocalipse é particularmente motivacional. João está aqui
escrevendo para seres humanos, mas não sobre Deus. A de
c laração de Pedro em 2Pedro 3 .8 é c laram ente teo lóg ica ;
Apocalipse 1.1,3 são diretivas humanas, que serão ouvidas e
terão influência. Pedro está lidando com o problema oposto
ao de João: ele está explicando (baseado na eternidade de Deus)
a d em ora da Segunda Vinda de Cristo (2Pe 2.4), ao passo que
João está advertindo (baseado no sofrimento humano) da p ro
xim idade de ju lgam ento temporal.
b) O Apocalipse é histórico e concreto. João está escreven
do para sete igrejas específicas, históricas (1.4,11; 2 .1— 3.22)
sobre suas terríveis circunstâncias presentes (elas estão em
“tribulação”, 1.9; 2 .9 ,10 ,13 ) , a necessidade de serem pacien
tes (1.9; 2 .2 ,3 ,1 0 ,1 3 ,2 5 ; 3 .10 ,11), e os ju lgam entos da vinda
iminente (2 .5 ,16 ,25 ; 3 .3 ,11; 22 .10 ,18 ,19) .
14Ap 1.19 também pode ser útil, entretanto é obscurecido na nvi. Provavel
mente deveria ser trad uzido com o no The in terlin ea r G reek-English New
Testament de Marshall, 2 ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1959, p. 959) : “Escrevas
as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois hão de acontecer”. V.
Kenneth L. Gentry Jr., Before Jerusalem fell: dating the book o f Revelation (Tyier,
Tex.: Institute for Christian Economics, 1996, p. 141-2).
15Revelation 1— 7, p. 55.
0 ponto de vista preterista ■ 45
Robert Thomas, citando William Lee, corretamente observa o
seguinte referente às cartas para as sete igrejas, em Apocalipse
2 e 3: “Porém, não se pode negligenciar o caráter histórico ao
longo do qual está estampado nas Epístolas [...] e que distinta
mente aponta para um estado de coisas de fato ante a mente de
S. João existindo nas várias igrejas".16 Isto é, várias alusões histó
ricas, geográficas, e políticas nas cartas mostram que João o faz,
na realidade, tendo em vista as igrejas específicas que ele ende
reça. Ele estaria insultando-as impiedosamente se estivesse dis
cutindo eventos dois mil anos, ou mais, atrás. Deus responde
ao clamor ansioso “quanto tem po?” incentivando a paciência
deles so m ente um “pouco m ais de tem po" (6 . 10 , 11 ).17 “O
Apocalipse promete que não haverá nenhuma “demora" (10.6).”
Para isso a natureza do livro exige uma “abordagem preterista”.18
c) O Apocalipse é enfático e declarativo. As expressões de
iminência são didáticas (não-simbólicas), freqüentes (na in
trodução, conclusão, e em outras partes), e variadas (v. d is
cussão anterior de tachos e engys). De que outra maneira João
poderia ter expressado proximidade no tempo se não por e s
ses term os? Todas as traduções inglesas em pregam con d i
ções que expressam proximidade temporal.
d) O Apocalipse é harmonicamente paralelo. A expectativatemporal em Apocalipse com para o n t ensinado em outros
lugares. Por exemplo, Robert Thomas compara Apocalipse 6
com Mateus 24: “Jesus em seu discurso estava se antecipando
claramente ao que ele havia de mostrar a João em muito maior
detalhe". Pate concorda .19 Eu concordo. De forma interessante,
l6Ibid., 515; cf. caps. 3— 9. V. tb. William Ramsey, The letters to the seven
churches, Grand Rapids: Baker, 1963 [1904]; Robert H. Mounce, The book o f
Revelation, caps. 3 e 4; Steven Friesen, “Ephesus: key to a Vision in Revelation”,
BAR 19.3 , 1993 Maio-Junho: 24ss.
170 futurista Robert Thomas observa a ‘ausência de significação” potencial das
orações desses santos, se seus perseguidores ainda não estiverem vivos quando a
oração é proferida (Thomas, Revelation 1— 7, p. 441). Eu aplicaria o mesmo princí
pio ao livro inteiro de Apocalipse e colocaria isto no primeiro século.
i8Claro que, isto não impede a relevância contemporânea do Apocalipse
atualmente, nisso pode fornecer ainda padrões que ilustram certos princípios
divinos para nossa instrução (e.g., Rm 15.4; ICo 10.11; 2Tm 3.16 ,17) mantendo
seu caráter para isso. V. George W. Knight III, “The Scriptures were written for
our instruction”, em j e t s 39, Mar., 1996: p. 3-14.
19Revelation 1— 7, 1 :53-54. C. Marvin Pate e Calvin B. Haines Jr., Doomsday
ilelusions: what's wrong with predictions about the end o f the world (Downers
Grove, 111.: InterVarsity, 1995, p. 44-5).
46 ■ Apocalipse
em Mateus 24.34, Jesus assegura a mesma expectativa de João:
“Eu lhes asseguro que não passará esta g era ção até que todas
estas coisas aconteçam^ (nvi, grifo do autor; v. 23.36). Ele en
coraja seus ouvintes, como João o faz, a aguardar esses ju l
gamentos durante sua própria vida.
Em Marcos 9.1, Jesus promete que alguns de seus ouvin
tes não “provarão a morte” antes de testemunhar “o Reino de
Deus vindo com poder”. Isto refere-se quase certamente à des
truição do templo sob o comando de Cristo (em lugar de sua
transfiguração que está apenas seis dias distante). Notas se
m elhantes da proximidade temporal de crises divinamente
governadas sobe jam no nt (v. Mt 2 6 .6 4 ; At 2 .1 6 -2 0 ,4 0 ; Rm
13.11 ,12 ; 16.20; ICo 7.26, 29-31; Cl 3.6; lTs 2.16; Hb 10 .25 ,37 ;
Tg 5.8,9; IPe 4 .5 ,7 ; l j o 2 .17,18). De que outra maneira o nt
poderia expressar proximidade mais claram ente? Como e s
ses versículos tão evidentem ente mostram, ju lgam entos di
vinos dram áticos são “breve”, “próxim o”, “perto”, “à porta”,
“presente”; “a hora chegou”; “o tempo é curto”; “a ira de Deus
está por vir”; “o dia está se aproximando”; “em pouco tempo
som ente”. Estes eventos acontecerão “nesta geração”, antes
que “alguns que estão vivos [...] experimentem a morte”.
O bjeção 2\ Esses eventos ocorrem no século i, mas aconte
cem novamente depois na história, ou por cumprimento em
dobro ou por meio da repetida volta até o fim como a nature
za do já/ ainda não, do desdobramento da profecia.
Três dificuldades afetam este tipo de réplica, a) Não há ga
rantia exegética alguma para isto; a declaração é pura afirma
ção teológica. E ainda, essa abordagem não somente esvazia as
declarações de significado de João (‘‘estas coisas devem acon te
cer em breve”), mas infringe uma diretiva angelical específica à
responsabilidade de João contrastante a Daniel. Um anjo orde
nou a Daniel que “selasse” sua profecia até o tempo do fim (Dn
12.4), mas ordena a João (que vive na “última hora”, l jo 2.18)
“não sele as palavras da profecia deste livro, pois o tem po está
próxim o’’ (Ap 22.10, grifo do autor). Não obstante, Marvin Pate
assegura que o Apocalipse não “insinua que Nero preencheu a
expectativa completa da vinda do anticristo, mas, como um
precursor dele, ele é certamente um bom ponto de partida”.20
20P a t e & H a i n e s , Doomsday delusions, p. 43-4.
0 ponto de vista preterista ■ 47
Como mostrarei, Nero cumpre a profecia do Apocalipse. Por
que procurar cumprimento adicional?
b) Requer acreditar que muitos eventos específicos, coisas,
e personagens do Apocalipse aparecerão repetidamente em cena
na história da terra. Na mesma ordem? Nas mesmas regiões
geográficas? Com agrupamentos ininterruptos de 144 mil sendo
selados? Com bestas constantes designadas pelo mesmo nú
mero 666? Eu poderia prosseguir continuadamente. Por exem
plo, Pate sugere que “os sinais dos tempos co m eçaram com
Jesus e a sua geração” e as testemunhas históricas “na intensi
ficação da vinda e na culminação desses sinais dos tem pos”
que começaram no século i.21 Essa posição parece estender a
credulidade até o ponto de rompimento.
O princípio teológico do já/ ainda não, entretanto, válido e
amplamente aceito pelos evangélicos, não pode governar tra
balhos completos, vastos e complexos como o Apocalipse. O
princípio do já/ ainda não se aplica ao unitário, à construção
simples: o Reino, a salvação, a nova criação, e assim sucessi
vamente. O princípio se divide quando difundimos um traba
lho tão volumoso quanto o Apocalipse. Além disso, como esse
princípio pode explicar a operação simultânea supostamente
em um livro de tais temas globais que operam como ju lg a
mento (Ap 6— 19) e bênção (Ap 20—22)? O uso desse princí
pio por Pate para explicar o Apocalipse parece mais esperançoso
que útil .22
c) Esta aproximação não somente nega o que João afirma
expressamente, mas confunde a aplicação principal com even
tos históricos. Quer dizer, se até mesmo os eventos do Apocalipse
fossem repetidos, isso não diminuiria o fato quanto ao cum
prim ento histórico do século i — com todo seu significado
prolífico naquela era singular que efetua a conclusão do sis
tema de sacrifício, o desprezar de Israel, e a universalização da
verdadeira fé. Por exemplo, Êxodo, como eventos que ocorre
ram após o êxodo mosaico não remove o significado histórico
redentor daquele episódio histórico original. Pate observa es
pecificamente que a marca da besta pode “ser entendida como
apontando um dedo de culpa para esses judeus no século i”.23
2lIbid., p. 36 (cf. p. 44, 57), 148-9; grifos do autor.
22Ibid., p. 148-55.
23Ibid., p. 53.
48 ■ Apocalipse
Por que, então, deveríamos procurar cumprimentos adicionais
além desse do século 17 mais relevante?
De acordo com João, então, os eventos proféticos são “bre
ve” (1.1) e “próximo” (1.3), de forma que seu público original
deve apegar-se “com f irm e z a ” (2.25; 3.11), e “que esperassem
um pouco m ais” apenas (6.11). “Venho em breve! Retenha o
que você tem, para que ninguém tome a sua coroa” (3.11). Os
atuais estudantes de profecia não devem deixar que um esque
ma teológico pressuposto ou que metodologia interpretativa
predeterminada o cegue para essas afirmações impetuosas.
0 TEMA APOCALÍPTICO (A P 1.7)
O que, então, João espera no futuro próximo de seu público
original? Como pode qualquer evento no século 1 se en con
trar até o drama do Apocalipse?24
O foco de atenção principal do Apocalipse (entretanto não
seu único ponto) é isto: Deus julgará os judeus do século 1
por rejeitar e crucificar seu Filho, o Messias. Quer dizer, os
ju lgam entos do Apocalipse vêm especialmente contra aque
les que clamaram: “Crucifica-o!” “... Que 0 sangue dele caia
sobre nós e sobre nossos filhos!” (Mt 27 .22 ,25 , v. Jo 19.1-16).
João afirma seu tema em sua introdução em Apocalipse 1.7,
logo após ele declara a proximidade dos eventos (1.1,3), tema
que é diretamente pertinente às circunstâncias do século 1.
Observe particularmente as seguintes traduções literais:
Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho 0 verá, até mesmo
aqueles que o traspassaram ; e todos os povos da terra se lamenta
rão por causa dele. Assim será! Amém (n v i) .
24Devido a limitações de espaço, não posso defender aqui a data de pré-70
d.C. de composição do Apocalipse que, entretanto, um ponto de vista minoritário,
é reivindicado por muitos estudiosos notáveis. Para argumentos detalhados v.
a versão publicada de minhadissertação no assunto: Gentry, Before Jerusalem
fell. V. Terry, Bíblica! Apocalyptcis, p. 237-42 . A visão da data mais recente de
pende muito da tradição de igreja, tradição profundamente arraigada na de
claração famosa de Ireneu encontrada em seu Contra as heresias (5.30.5). Mas
como observa Metzger: “A data de Irineu está aberta a questionamento” (Bruce
M. Metzger, “Revelation, the book of”, in: Bruce M. Metzger e Michael D. Coogan,
eds., The Oxford companion to the Bible [Nova York: Oxford Univ. Press, 1993], p.
653) . Os defensores da data antiga incluem: Moses Stuart, B. F. Westcott, F. J. A.
Hort, Joseph B. Lightfoot, F. W. Farrar, Alfred Edersheim, Philip Schaff, Milton
Terry, F. F. Bruce, J. A. T. Robinson, J. A. Fitzmyer, J. M. Ford, C. F. D. Moule, Albert
A. Bell, J. Christian Moberly, Cornelis Vanderwaal, e Christopher Rowland.
0 ponto de vista preterista ■ 49
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmos
que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre
ele, Sim! Amém! (r c )
Muitos supõem que o segundo advento está à vista aqui, E
à primeira vista isso parece apropriado .25 “Não obstante, em
seu contexto definido para o versículo 7 aponta para a des
truição de Jerusalém e seu templo em 70 d.C., que produz
vários resultados dramáticos: Traz a ira de Deus sobre os ju
deus por rejeitar seu Messias (Mt 21.33-44); conclui a anteci
pação da aliança antiga (Jo 4 .20-23 ; Hb 1.1; 12.18-29) que está
se tornando “antiquada” e “envelhecido” e “está a ponto de
desaparecer” (Hb 8.13); fecha finalmente e para sempre o sis
tema de sacrifício tipológico, reorientando a adoração a Deus
(Hb 9 e 10); e universaliza a fé cristã efetivamente, livrando-a
de todos os constrangimentos judaicos (Mt 28 .18-20 ; Ef 2 .1 2
22) isso tende a “perverter o evangelho de Cristo” (G1 1.7; v. At
15.1; G1 4 .10 ; Cl 2 .16). Deixe-me fornecer breves anotações
exegéticas que apóiam essa interpretação.
1) A “vinda com as nuvens”. A conversação é linguagem pro
fética comum para julgamentos divinos históricos para as na
ções. Isaías fala do julgamento de Deus por vir contra o Egito em
condições similares: “Um oráculo relativo ao Egito: Vejam! O Se
nhor cavalga numa nuvem veloz que vai para o Egito. Os ídolos
do Egito tremem diante dele, e os corações dos egípcios se der
retem no íntimo” (Is 19.1). Obviamente, Deus não desce literal e
visivelmente do céu em uma nuvem contra o Egito. Mas envia
um grande julgamento sobre os egípcios — como por uma nu
vem de tempestade terrível e destrutiva. Outras referências con
firmam esse tipo de declaração, conhecido como “m etáfora
apocalíptica” (v. SI 18.7-15; 104.3; Is 13.1, 9-13; JI 2.1,2; Mq 1.3,4).26
De forma interessante, como nota Robert Thomas, João se
gue a fusão de Zacarias 12.10 e Daniel 7.13 feita por Je su s .27
25Eu acredito que Cristo virá pessoalmente, visível e gloriosamente para termi
nar a história com a ressurreição dos mortos e o grande julgamento de toda a
humanidade. V. meu He shall have dominion, cap. 13. Thomas, erroneamente
afirma, não ver a segunda vinda no discurso do monte das Oliveiras ou em
Apocalipse; a segunda vinda se encontra em Mt 2 4 .3 6 — 2 5 .4 6 e Ap 20.7-15.
26Até o com entário do Seminário Teológico de Dallas: Bible know ledge
com m entary: Old Testament, ed. John F. Walvoord e Roy B. Zuck, Wheaton, 111.:
Victor, 1985 , reconhece esse fenômeno nesses textos do Antigo Testamento.
27ReveIation 1— 7, p, 76.
50 ■ Apocalipse
Como João, Jesus meficiona a “vinda nas nuvens” (v. Mt 24.29,
30) contra o Israel (23 .36— 24.2 ,16), imediatamente após ele
diz: “Eu lhes asseguro que não passará esta g era ção até que
todas estas coisas aconteçam ” (24.34; grifo do autor). E da m es
ma maneira que Jesus diz ao sumo sacerdote no século i em
pé perante ele que ele “verá” o Filho do homem que vem “so
bre as nuvens” (26.64), então aqui João fala para o seu público
daquela época, “Todo olho o verá”, quer dizer, seu julgamento
vindouro será um evento dramático, público, não realizado às
esco nd id as .28
2) Essa vinda especialmente será dirigida contra “aqueles
que o traspassaram ”, quer dizer, os judeus do século i que
exigiram sua crucificação. Os ensinos de Jesus põem a culpa
pela crucificação principalmente nos judeus (Mt 20 .18 ; 2 1 .3 3
43; Lc 9.22), como faz a instrução do apóstolo Pedro: “Saibam
os senhores e todo o povo de Israel que por meio do nome de
Jesu s Cristo, o Nazareno, a quem os senhores crucificaram...”
(At 4.10; v. Jo 19.5-15; At 2 .22 ,23 ,36 ; 3 .14 ,15 ; 5.30; 10.39; lTs
2 .14-16).29
O julgam ento vindouro de Cristo trará luto em “todas as
tribos da terra” (nvi). As traduções literais citadas mostram de
fato que João focaliza todas as tribos “da terra” (gr. tês gês), a
conhecida Terra Prometida na qual os judeus viveram. (Deve
ríamos traduzir a palavra grega h ê g ê provavelmente como “a
nação” em lugar de “a terra” na grande maioria dos casos onde
essa palavra ocorre no Apocalipse .)30 A referência de João a
28Em várias partes do Apocalipse "vendo” não requer a contemplação física,
mas sentindo ou percebendo, da m esm a maneira que dizem os, "eu v ejo ”,
quando um professor nos mostra uma solução de matemática. Robert Thomas
observa que da própria “contem plação” de João em Ap 4 .1 : “esta ação não
deveria ser comparada com o olho físico. Preferivelmente, é vista com o olho de
visão extática como ao longo do Apocalipse”, Thomas, Revelation, vol. 1, p. 334.
Contudo este é um tipo de “contemplação”.
290 s romanos, de fato, eram instrumentos de ira judaica contra Cristo. Os
judeus exigiram que os romanos o crucificassem (Mt 2 0 .18 ,19 ; 27 .11-25 ; Marcos
10.33; 15.1; Lucas 18.32; 23 .1 ,2 ; João 18.28-31; 19 .12,15 ; Atos 3.13; 4 .2 6 ,27 ; Ap
17); Pilatos tentou libertá-lo e pôr a responsabilidade nos judeus (Mt 27.24);
Cristo disse que os romanos “não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34). Para
mais informações, v. Terry, Biblical Apocalyptics, p. 280-2.
30Alan James B e a g l e y , “The sitz im leberí' o f the Apocalipse with particular
re feren ce to the role o f the ch u rch ’s enem ies, Nova York: Walter de Gruyter,1987.
V. tb. Gentry, Before Jerusalem fell, cap. 8.
0 ponto de vista preterista ■ 51
Cristo ser traspassado requer um foco do século i se o tema
for pertinente e verdadeiro, para aqueles que o traspassaram
e já estão mortos há tempos. Note a observação importante
relativa a Mateus 2 1 .4 0 feita pelo estudioso pré-milenarista
Henry Alford:
Podemos observar que nosso Senhor faz com que “quando o Se
nhor vier” coincida com a destruição de Jerusalém , que é incontes-
tavelm ente a d errota do agricultor p erverso. Portanto, essa
passagem forma uma chave im portante às profecias de nosso Se
nhor, e uma justificação decisiva para aqueles que, como eu, fir
m emente asseguram que a vinda do Senhor, em muitos lugares,
será identificada, principalmente, com essa derrota.31
3) Esta interpretação se a justa perfeitam ente ao discurso
de Jesus no Monte das Oliveiras, que começa com uma inves
tigação relativa ao destino do templo do século i levando em
conta a rejeição judaica de Cristo (v. Mt 2 3 .3 4 —24.2). Os ju l
gamentos focalizam particularmente sobre o templo (24.2) na
Judéia (24.16) durante aquela “geração" (24 .34) .32
Como resultado da natureza séria do julgam ento de Deus
sobre Israel e suas conseqüências universais , porém, gran
des rompimentos reverberarão além dos confins limitados de
Israel. O foco preciso está sobre Israel; a extensão completa
engloba o império romano. É por isso que João escreve às sete
igrejas da Ásia Menor. Elas não somente necessitam entender
a destruição de Jerusalém e do templo feita por Deus (evento
importante até mesmo para cristãos),33 mas devem suportar
os abalos secundários severos associados a isso. Na realida
de, Cristo encoraja as sete igrejas para o arrependimento, a
3lThe G reekN ew Testament,4 vols., Chicago: Moody, 1958 [1849-1861] , vol. 1,
p. 216, sua ênfase.
32V. Thomas D. Ice e Kenneth L. Gentry Jr., The grea t tribulation : past or
futurei, (Grand Rapids: Kregel, 1997); Gary DeMar, Last days m adness: obsession
o f the m od em church , (Atlanta: American Vision, 1994); David Chilton, The great
tribulation, (Forth Worth, Tex.: Dominion, 1987). Muita informação útil pode ser
encontrada também em Pate e Haines, Doomsday delusions.
330 s crentes primitivos continuaram a seguir para Israel: engajando-se em
observâncias e adoração judaicas (At 2.1ss.; 24 .11 ; 21.26), focalizando e irradi
ando seu ministério de Jerusalém (At 2 — 5) freqüentando o templo (At 2.46;
3.1 ss.; 4.1 ; 5.21 ss.; 21 .26; 26.21), freqüentando as sinagogas (13 .5 ,14 ; 14.1; 15 .21;
17.1 ss.; 18 .4 ,7 ,19 ,26 ; 19.8; 22 .19 ; 24 .12 ; 26.11), se designando como os verdadei
ros herdeiros do Judaísmo (GI 3.27-29; 6 .16 ; Fp 3.3), e assim sucessivamente.
52 ■ Apocalipse
reforma e a perseverançp (Ap 2 .5 ,16 ,21 ,22 ; 3.3 ,19) por causa
dos ju lgam entos iminentes que breve o irromperão (2 .5 ,16 ;
3.11; 22 .12 ,20). No caso da igreja em Filadélfia, por exemplo,
Cristo promete proteger daquele ju lgam ento: “Porque guar-
daste a palavra de minha perseverança, também eu te guar
darei da h ora da provação que há de vir [grifo do autor] sobre
o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a
terra” (Ap 3.10 r a ) .
ACE NA DO TRONO (AP 4 E 5)
Em Apocalipse 1.12-20, a primeira visão de João, mostra Cris
to na h istória (espiritualmente) caminhando entre as igrejas
como o cabeça e protetor do já-presente (v. Mt 18.20; 28 .18 ,20 ;
At 18.9,10; Hb 13.5). Os ju lgamentos focais do Apocalipse não
começam até o capítulo 6 . Nos capítulos 4 e 5, porém, Deus
leva João a contemplar essas apavorantes cenas de ju lgam en
to vindouro, transportando-o espiritualmente além d a h istó
ria para a sala do trono de Deus no céu (Ap 4.1,2).
Em Apocalipse 4, João vê Deus assentado em seu trono de
julgamento e regendo ativamente sobre toda a criação (4.2-6,11).
Os quatro “seres viventes” mais próximos ao trono parecem ser
anjos da mais alta ordem: Eles sempre vigiam (“cobertos de olhos”,
v. 6) sobre a criação (aparecendo como criaturas e cantando a
criação, v. 7, 11), prontos para cumprir a ordenança santa de
Deus (têm seis asas para voar rapidamente e cantam a santidade
de Deus, v. 8) em toda a criação (seus números representam os
quatro pontos da bússola, v. 7; v. 7.1; 21.13). Não importa o tes
temunho de João depois disso — por mais aterrorizantes que
os julgamentos sejam e por mais cruel que a oposição seja —
ele pode descansar assegurado de que não somente Cristo se
preocupa com os assuntos de seu povo na história (cap. 1), mas
Deus está controlando todas as coisas ativamente acima da his
tória (cap. 4; v. Dn 2.21; 4.35; Rm 8.28; Ef 1.11).
De forma interessante, João m enciona o “trono” de Deus
em 18 dos 22 capítulos de Apocalipse. Na realidade, dos 62
aparecimentos da palavra “trono” no n t , achamos 47 deles em
Apocalipse. Fortes tendências relativas a ju lgam ento carac
terizam o Apocalipse, não somente por causa dessa própria
visão surpreendente, mas por toda a terminologia de ju íz o
envolvida (e.g., 6.10; 11.18; 15.3; 16.5-7; 18.8; 19.2,11). O julga
mento temporal da vinda de Cristo, que dramaticamente conclui
0 ponto de vista preterista ■ 53
definitivamente a era tipológica do a t (v. 11.1 ,2 ,19 ; 21.22), é
direcionado do trono do universo.
No capítulo 5, um notável requerente ao direito de executar os
julgamentos de Deus aparece ante o trono: o Cordeiro que foi
morto, mas está vivo. A forte (e simbólica) descrição judaica do
aparecimento de Cristo aqui sublinha a preocupação temática da
vinda de Cristo em uma nuvem para o julgamento daqueles “que
o traspassaram”, isto é, os judeus (1.7). Assim, ele aparece como
um cordeiro sacrifical, “que parecia ter estado morto” (5.6 ,9 ,12);
que é “o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi” (5.5). A ênfase na
sua crucificação (como em 1.7) é inconfundível (“cordeiro”, “mor
to”). Como Milton Terry observa, há certa ironia nessa imagem: “O
grande problema com o judaísmo foi que os judeus procuravam
um leão poderoso; e ficaram escandalizados ao ver, em vez disso,
um pequeno cordeiro” (v. Lc 24.21, 25-27; Jo 6.15; 19.15).34
Mas o que representam os sete rolos selados? “Então vi na
mão direita daquele que está assentado no trono um livro em
forma de rolo, escrito de ambos os lados e selado com sete
se los” (5.1). Se formos discernir o próprio significado desse
rolo, temos de ter em mente quatro controles interpretativos:
1) O rolo deve se aplicar a eventos do século i, porque “o tem
po está próximo” (1.3; 22 .6 ,10 ,12 ; v. 6.11); 2) O rolo deve se
referir a Israel, porque o tema do Apocalipse recorre “àqueles
que o traspassaram ” (1.7; 11.8); 3) O rolo deveria ter provas
do a t , porque, como Robert Thomas bem observa: “A influên
cia do a t em Apocalipse é predominante”;35 4) O rolo deveria
ser con sisten te com a fluidez do Apocalipse, porque é um
livro in trinsecam ente estruturado com todas as suas séries
contadas e o reaparecimento de símbolos.
No a t , acreditam os, há um rolo que é descrito de prima
semelhante e em um contexto análogo. Em Ezequiel 1, o pro
feta viu quatro criaturas vivas, aladas, muito iguais a essas
que João vê (Ez 1.5-10; Ap 4.6-8). Perto das criaturas vivas de
Ezequiel, ele viu um espaço semelhante a cristal e um trono
glorioso armado como o arco-íris, muito parecido com aquele
que João relata (Ez 1.22-28; Ap 4.2-6). Em Ezequiel 2 .9 ,10 le-
mos: “Então olhei, e vi a mão de alguém estendida para mim.
Nela estava o rolo de um livro, que ele desenrolou diante de
mim. Em ambos os lados do rolo estavam escritas palavras de
i4Biblical Apocalyptics, p. 323.
ísRevelation 1— 7, p. 41.
54 ■ Apocalipse
lamento, pranto e ais”. I^to nos faz lembrar da experiência de
João: “Então vi na mão direita daquele que está assentado no
trono um livro em forma de rolo, escrito de ambos os lados e
selado com sete selos” (Ap 5.1). As semelhanças claras, segu
ramente, não são acidentais; João parece seguir intencional
mente o padrão de Ezequiel.
Qual é, então, o propósito da visão de Ezequiel? Julgamen
to sobre Israel: “Ele disse: Filho do homem, vou enviá-lo aos
israelitas, nação rebelde que se revoltou contra mim; até hoje
eles e os seus antepassados têm se revoltado contra m im ”
(Ez 2.3). Isto apóia nossa compreensão do foco principal de
Apocalipse, especialmente quando consideramos como o pe
cado de Israel no século i foi tão maior do que esse, pois
rejeitaram o próprio Messias (Mt 21 .33-45 ; 23 .32 -38 ; Jo 1.11;
Atos 2.23,36; v. Mt 13.17; lPe 1.10-12). A natureza sétupla dos
julgamentos sobre Israel (representada pelos sete selos, trom-
betas, e taças) faz lembrar da maldição da aliança que Deus
lança sobre Israel no a t : “Se depois disso tudo vocês não me
ouvirem, eu os castigarei sete vezes mais pelos seus peca
dos” (Lv 26.18; cf. v. 24,28).
Quando visto contra o pano de fundo do tema de ju lg a
mento dos judeus, os personagens (como uma meretriz e uma
noiva), e a fluidez do Apocalipse (do rolo selado para a pena de
morte por “adultério”, e daí para um “banquete de matrimônio”
e para a tomada de uma nova “noiva” como a “nova Jeru sa
lém’’), a natureza da aliança da transação sugere que os setes
rolos selados sejam o decreto de divórcio de Deus contra sua
esposa do a t devido a seu adultério espiritual. No a t , Deus “se
casa” com o povo de Israel (v. esp. Ez 16.8 ,31 ,32),36 e em vários
lugares ameaça com “carta de divórcio” (Is 50.1; Jr 3.8).
A destruição final e conclusiva do templo realiza isso no
n t . Em seu divórcio de Israel, Deus se separa: A história re
dentora não é mais a de um trabalho focalizado no judeu,
exaltando Israel, um trabalho geopolítico como no a t (Mt 8.11;
21 .43 ; v. SI 147 .19 ,20; Am 3.2). O trabalho de Deus alcança
agora “todas as nações” (Mt 28.19; At 1.8); Cristo faz de dois,
um novo homem (Ef 2 .12-22), onde não há mais “diferença
entre judeus e gentios” (Rm 10.12; G1 3.28; Cl 3.11).
36Is 54.5; 62.4; Jr 3 .14 ,20; 31 .32; Os 1.2; 2 .2 ,7 ,16 ; 5.4; 9 .1 ,10 . Israel procura
casamento com deuses estrangeiros, MI 2.11.
0 ponto de vista preterista ■ 55
A referência do “Leão da tribo de Judá" (Ap 5.5) retrocede a
Gênesis 49. Ali ouvimos falar da universalização do trabalho
de Deus além das fronteiras de Israel: Judá é um “leão novo
[...] e a ele as nações obedecerão” (Gn 49 .9 ,10). Além disso, o
aparecimento de Cristo ante o trono de Deus no céu (Ap 5.6)
nos remete à visão messiânica de Daniel: Quando o “filho do
homem [...] se aproximou do ancião”, Deus lhe concedeu um
reino e assim “todos os povos, nações e homens de todas as
línguas o adoraram" (Dn 7.13 ,14 ; v. Ap 5.9; 7.9; 14.6).
Todavia, Deus ju lga os judeus do século i e os separa de
Israel como foco geopolítico singular de seu reino. Sabemos de
outra revelação do a t que os judeus também voltarão finalmente
em sua totalidade ao reino de Deus, recebendo as bênçãos da
salvação (Rm 11). Mas Deus nunca os exaltará sobre outros
povos comprados com sangue (até mesmo o a t antecipa essa
igualdade; v. Is 19 .23-25 ; Jr 48 .47 ; 49 .6 ,3 9 ; Zc 9 .7 ).37 Judeus e
gentios se fundem em um corpo em Cristo para sempre, for
mando uma árvore (Rm 11.15,25), um novo homem (Ef 2 .1 3
18), um novo templo (2.19-22), e uma nova criação (G1 6.15).
OS SETE SELOS (A P 6)
Em Apocalipse 6 , Cristo começa a abrir os selos. Conforme
Robert Thomas, Marvin Pate, e outros estudiosos observam,
há um “paralelismo íntimo” entre o Sermão do Monte das Oli
veiras de Jesus e os selos do Apocalipse .38 E como o preterista
lembra, os contextos das duas profecias se relacionam a even
tos do século i (v. Ap 1.1,3 com Mt 24 .2 ,3 , 34 ).39 É significante
que um dos pais da igreja, Eusébio (260-340 d.C.), tenha usa
do a história de Josefo da Guerra dos Judeus (67-70 d.C.) para
ilustrar o cumprimento da profecia do discurso do monte das
Oliveiras (História eclesiástica 3:5-9).
O cavaleiro no cavalo branco “determinado a vencer” (Ap
6.2,3) representa a marcha romana vitoriosa em direção a J e
rusalém para se engajar na guerra judaica na primavera de
37David E. H o l w e r d a , Jesus and Israel, one covenant or two?, Grand Rapids:
Eerdmans, 1995.
38Revelation 1— 7 , p. 53; P a t e e H a in e s , Doomsday delusions, p. 37-44.
39Para uma exp licação detalhada de Mt 24 , v. Ice e Gentry, The grea t
tribulation.
56 ■ Apocalipse
67 d.C.40 O cavaleiro no cavalo vermelho (6.4), que leva a “paz
da terra” (6.4; v. Mt 24.6,7), fala do rompimento surpreenden
te da famosa pax R om ana, uma paz forçada que prevaleceu
por muitos anos ao longo do império romano. Por exemplo,
Epíteto (60-140 d.C.) escreve que “César obteve para nós uma
paz profunda. Não há nem guerras nem batalhas” (Discourses
3:13:9). A revolta dos judeus contra Roma interrompe tem po
rariamente essa famosa paz. O cavalo vermelho destaca espe
cialmente que a guerra civil acontece na própria Jerusalém
(onde Jesus profere sua profecia, Mt 24).
Os cavaleiros nos cavalos preto e branco representam pe
núria e morte resultante da guerra dos judeus. Esses fatores
trágicos dessa guerra são bem documentados por Josefo (Wars
o f the Jew s 4-7), o historiador judeu que participou da guer
ra ,41 e pelos historiadores romanos Tácito (Histories 1) e Sue-
tônio (Vespasiano).
O quinto selo (6.9-11) nos dá, mais uma vez, um vislumbre
do céu (v. cap. 4), onde ouvimos os mártires que clamam por
vingança. Deus promete vindicá-los, mas eles devem “esp e
rar um pouco m ais” (v. 11; v. Lc 18.6-8). A vindicação de már
tir é crucial para a compreensão do julgamento de Israel (Mt
2 3 .3 4 — 24.2).
40Aqui White representa “vitória”, não pureza: 1) Geralmente deste modo
na antiguidade (Virgil, Aeneid, vol. 3, p. 537; Plutarch, Camillus 7; Dio Cassius,
Roman history 53:14); 2) O cavaleiro segue adiante “determinado a vencer”
(6.2). 3) O arco é um símbolo de vitória (Zc 9.13 ,14) . 4) A cor relaciona a seu efeito
(conquistando) como as cores dos outros cavalos (por exemplo, vermelho=sangue;
preto=penúria; branco=morte).
41Flávio Josefo é um historiador judeu não-cristão que viveu entre 37 e 101
d.C. Ele serviu como general nas forças judaicas durante a guerra dos judeus
contra Roma em 67 -7 0 d.C. Durante a guerra, os romanos o derrotaram em
Jotapata. Josefo se entregou ao general romano Flávio Vespasiano, para quem
interpretou um oráculo profético de que um dia Vespasiano seria o imperador
de Roma. Ele trabalhou então com Vespasiano tentando persuadir os judeus a
se render à sua causa sem esperança. Após a guerra, Josefo se mudou para
Roma e mudou seu nome judeu tão comum, Joseph Ben Matthias, para Flávio
Josefo, mais romano, assumindo o nome de seu benfeitor. Vespasiano se tor
nou o imperador de Roma em 69 d.C. e patrocinou a escritura de The wars o f
jews, The antiquities o f the jews, e outras obras escritas por Josefo. Josefo com
pletou Wars em 75 d.C., somente cinco anos depois da queda de Jerusalém.
Nesse trabalho Josefo escreveu como um historiador de testemunha ocular
que por acaso estava na ação em ambos os lados do conflito. Seu trabalho é
extrem amente útil para fornecer indicações históricas nos eventos daquela
guerra, tantas das quais são preditas na profecia de João em Apocalipse.
0 ponto de vista preterista ■ 57
A linguagem da destruição da criação no sexto selo (Ap
6 .12-17) retrata o mundo de Israel desabando sob a “ira do
Cordeiro” no “grande dia da ira” (v. 16 ,17).42 Essa linguagem é
comum em uma fala profética referente ao colapso de gover
nos amaldiçoados por Deus, como a Babilônia (Is 13 .1 ,10,19),
Egito (Ez 32 .2 ,7 ,8 ,16 ,18) , Edom (Is 34.3-5), e Judá (Jr 4 .14 ,23 ,
24).43 Milton Terry escreve sobre Apocalipse 6 :
A imagem e estilo do a t apocalíptico são, adequadam ente, coloca
das em uso; sol, lua, e estrelas, e o próprio céu, são retratados
como desmoronando, e a crise dos tem pos é sinalizada por vozes
e trovões e raios e terremoto. Insistir na interpretação literal de tal
imagem é apresentar a profecia em desprezo e ridículo.44
A remoção de “todas as m ontanhas” do sexto selo (6.14)
pode aludir aos trabalhadores de construção das legiões ro
manas, que afastam obstáculos m ontanhosos para o avanço
do poderoso exército, ou então para a construção de barrei
ras até o topo das paredes protetoras que cercam cidades ju
dias. Jose fo observa: “Por conseguinte, [Vespasiano] enviou
tanto servos quanto cavaleiros para nivelar a estrada que era
m ontanhosa e rochosa , sem dificuldade de ser percorrida
pelos servos, mas absolutamente impossível para os cavalei
ros. Agora esses trabalhadores realizaram o que estavam pres
tes a fazer em quatro dias” (Wars 3 .7 .3) . Após descrever o
assentam ento montanhoso de Jotapata e sua invencibilidade
natural (Wars 3.7.7), Josefo menciona a decisão de Vespasiano
de “erguer um obstáculo contra aquela parte do muro que era
viável” (Wars 3.7.8).
Em 6 .15 ,16 , muitos “se esconderam em cavernas” e “grita
vam às montanhas e às rochas: “Caiam sobre nós”. Josefo com
42V. a antecipação disto no julgamento de 70 d.C. no Pentecostes original em
30 d.C. (Atos 2.16-20). Línguas são um sinal de julgamento para os judeus do
primeiro século (ICo 14 .21 ,22 ; cf. Dt 28 .49 ; Is 28 .11ss . ; 33 .19 ; Jr 5 .15; Ez 3.5). V.
Kenneth L. Gentry Jr., The charism atic gift o f prophecy: a refo rm ed response to
Wayne Grudem, 2 ed. (Memphis, Tenn.: Footstool, 1989); O. Palmer Robertson,
I he final word: a biblical response to the case fo r tongues and prophecy today
(l.dinburgh: Banner of Truth, 1993).
4iPara exposições de imagem do Antigo Testamento nos julgamentos histó
ricos pré-consumacionais do a t , v . o comentáriode Seminário Teológico de
Dallas, Bible knowledge com m entary: Old Testament, em Is 13 .10; Jr 4 .23-28; Ez
32.11-16; J1 2.10 ,11 .
uBib!ical Apocalyptics, p. 269.
58 ■ Apocalipse
freqüência menciona que os judeus na verdade buscaram re
fúgio subterrâneo durante a guerra entre 67 e 70 d.C.: “E nes
te dja os rom an os m ataram tod a a m u itid ão q u e ap a receu
abertamente; mas nos dias seguintes eles procuraram os es
conderijos, e lançaram-se sobre aqueles que estavam nos sub
terrâneos, e nas cavernas” (Wars 3 .7 ,36 ; v. tb. 3 .2 .3; 3 .7 .35 ;
5.3.1; 6 .7 .3 ; 6 .9 .4; 7 .2 .1).45
Jesus adverte as mulheres que o assistem levando sua cruz:
Pois chegará a hora em que vocês dirão: “Felizes as estéreis,
os ventres que nunca geraram e os seios
que nunca amamentaram!" Então
“dirão às montanhas, ‘Caiam sobre nós!'
e às colinas: ‘Cubram-nos!’” (Lc 23 .2 9 ,3 0 ; v. Mt 24 .1 ,2 ,1 9 ,3 4 ).
O destino das mulheres e das crianças em 70 d.C. foi horrível:
Então aumentou a fome, que devorou as pessoas, as casas e as
famílias; os quartos superiores estavam repletos de mulheres e
crianças agonizantes devido à fome; as vielas da cidade estavam
cheias dos corpos m ortos dos velhos; crianças e homens jovens
também vagavam pelas feiras como sombras, todos desesperados
com a fome (Wars 5 .12 .3).
A adaptação pertinente dos eventos do século i com a pro
fecia de Apocalipse 6 é tão constrangedora que Marvin Pate
admite sua conexão, embora rejeite as conclusões preteristas .46
OS 144 MIL SELADOS (AP 7)
Como a ira do Cordeiro contra os judeus registrada em Apoca
lipse, testem u nham os uma pausa surpreendente no drama
terrível. Quatro anjos estão retendo o vento “da terra”, quer
dizer, de Israel (7.1-3). Esse ato é uma imagem simbólica, que
re la ta o que R o b e rt T h o m a s ch am a (em outro lugar) de
“apocalíptico pitoresco”.47 Os anjos não estão literalmente se
gurando os ventos, mas os ventos de destruição (v. Jr 4 9 .36 ,37 ;
45Um estudo arqueológico interessante das cavernas do primeiro século de
Jerusalém aparece em Leen Ritmeyer, enquanto “Locating the original temple
mount”, b a r 18:2 (Mar.-Abril 1992), 24-45.
45Pate & H aines, Doomsday delusions, p . 4 4 - 5 5 .
47ReveIation 1— 7, p. 465 .
0 ponto de vista preterista ■ 59
51.1,2). Os primeiros seis selos representam a fase inicial da
guerra dos judeus, em que Vespasiano lutou a seu modo pela
Galiléia em direção a Jerusalém. Mas antes de ele ter uma opor
tunidade para sitiar Jerusalém, a ação é interrompida enquanto
esses anjos selam os 144 000 das doze tribos de Israel (Ap
7.3).
O número 144 0 00 , como a maioria dos estu diosos co n
corda, é certam ente simbólico. Na realidade, em Apocalipse
todos os milhares perfeitam ente arredondados parecem ser
simbólicos. Dez é o número quantitativo de perfeição, e mil o
cubo de dez. Com freqüência as Escrituras usam o número
1 000 como valor simbólico, e não expressa uma enumeração
literal (e.g., Êx 20.6 ; Dt 1.11; 7.9; 32 .30 ; Js 23 .10 ; Jó 9.3; SI
50.10; 84 .10 ; 90 .4 ; 105.8; Ec 7.28; Is 7 .23; 30 .17; 60 .22 ; 2Pe
3.8). Além disso, nesse livro altamente simbólico, deveríamos
n otar qu e ex atam en te 12 000 p e s s o a s vêm d e cada uma das
doze tribos. Mas o que simboliza o número? E quem são essas
pessoas? Qual é o significado desse episódio?
Para avaliar essas perguntas corretamente, temos de lem
brar os seguintes fatos: 1) Os acontecimentos estão ocorren
do no século i, conforme João tão claramente afirma (1.1,3 ;
2 2 .6 ,1 0 ) ; 2) Os ju lgam en tos estão caindo sobre Israel e se
direcionando para Jerusalém (v. discussão anterior em 1.7 e
caps. 5 e 6); 3) O cristianismo apostólico tendeu a se focalizar
em Jerusalém (v. At 1.4,8; 18.21; 20 .16; 2 4 . I I ) ; 48 4) João consi
dera os judeus não-cristãos como os que “se dizem judeus
mas não são”, pois são membros da “sinagoga de Satanás” (Ap
2.9; 3.9; v. Jo 8.31-47).
Por con segu in te, e s s e s “servos de D eus” das “doze tribos
de Israel” (7.4-8) são a raça de judeus que aceitam o Cordeiro
de Deus para a salvação (aparecem posteriorm ente com ele
no Monte Sião, 14 .1 -5 ) .49 Quando com param os seu número
especificam ente definido (144 000) com “a grande multidão
48V. nota 33.
49Thomas entendeu mal a apresentação em meu livro Before Jerusalem fell,
cobrando erroneamente com contradição relativo à identidade dos 144 000.
Diz que eu declaro em certo trecho que eles representam toda a igreja e em
outro lugar somente os judeus convertidos de Israel. Em meu ponto de vista, os
144 0 0 0 representam os primeiros frutos do evangelho de judeus convertidos
em Israel. Claro que, como tal são o começo da nova fase de aliança da igreja,
mas eles não simbolizam a igreja.
60 ■ Apocalipse
que ninguém podia contar” (7.9), esse n ú m er^ é relativamen
te pequeno. Mas eles representam um número perfeito, espe
c ia lm e n te am ad o por Deus e que p e r te n c e m a ele (são
verdadeiros judeus, o rem anescente, v. Rm 2 .2 8 ,2 9 ; 9 .6 ,27 ;
11.5). Assim, o Senhor coloca seu selo (espiritual) neles (Ap
7.3; v. 2Co 1.22; Ef 1.13; 4 .30 ; 2Tm 2.19). De certo modo, o
selar deles é a resposta à pergunta: “Quem poderá suportar?”
(Ap 6.17). A resposta: Somente aqueles que Deus protege —
precisamente como o pano de fundo do a t (Ez 9.4-9).
Em outras palavras, antes que a guerra dos judeus alcance
e subjugue Jerusalém , Deus, providencialm ente, proporcio
na rápida cessação de hostilidades, permitindo aos jud eus
cristãos na Judéia escapar (como Jesus deseja em Mt 2 4 .1 6
22). Isso aconteceu quando o imperador Nero se matou (68
d.C.), fazendo os generais romanos Vespasiano e Tito cessar
as operações e bater em retirada por um ano devido ao tu
multo em Roma.50 Sabemos mediante os pais da igreja Eusébio
e Epifânio que os cristãos fugiram para Pella antes da guerra
subjugar Jerusalém (Eusébio, História eclesiática 3 .5.3; Epifânio,
H eresies 29.7).
AS SETE TROMBETAS (AP 8 E 9)
Depois de uma interrupção dramática na ação do movimento
literário (8.1), o sétimo selo inicia séries novas de ju lgam en
tos sob o imaginário de sete trom betas (caps. 8 e 9). Esses
ju lgamentos em espiral continuam, relatando detalhadamente
de ângulos diferentes os ju lgam entos anteriores, mas in ten
sificando as crises. Por exemplo, a devastação cresce de um
quarto em 6.8 para um terço em 8.7-12; isto é em resposta às
orações imprecatórias contínuas dos santos (v. 8 .3 ,4 com 6.9-
50Lucas traduz a terminologia hebraica de Mateus 24 .15 de forma que en
tendem os o que acontece “Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos,
vocês saberão que a sua devastação está próxim a” (Lucas 21 .20) , e naquele
momento seus seguidores irão fugir (Lucas 21 .21 ; cf. Mt 24.16). Em 68 d.C., os
generais Vespasiano e Tito “tinham fortalecido todos os lugares ao redor de
Jerusalém [...] cercando a cidade por todos os lados” (Josefo, Wars 4.9 .1). Mas
quando Vespasiano e Tito são “informados que Nero estava morto” (4.9.2), não
“continuaram com sua expedição contra os judeus” (4.9 .2; cf. 4 .10 .2) até que
p o s te r io r m e n te Vespasiano se to rn a s se o im p e ra d o r em 6 9 . Após isso
"Vespasiano voltou sua a tenção ao que perm aneceu subjugado na Judéia”
(4.10.5).
0 ponto de vista preterista ■ 61
I l). Aqui os julgam entos de Israel começam a refletir as pra-
l',as egípcias (v. Ap 8 com Êx 9 e 10; v. tb. Ap 8 .1 0 ,1 1 com
r.x 15.23-25). Essa cena maravilhosamente tirada mostra uma
reversão da experiência do Êxodo de Israel, ao passo que ela
mesma sofre por meio dos julgam entos do êxodo semelhan-
le. Em Apocalipse, posteriormente, João chama especificamen-
le Jerusalém de “Egito” (Ap 11.8), descrevendo-a como se agisse
como o Egito, o inimigo de Deus.51
As p rim e iras qu atro trom betas
Se consultarmos o relato ocular de Josefo referente à guerra
dos judeus, descobrimos correlação notável com símbolos do
Apocalipse.Deixe-me citar algumas ilustrações. 1) Em 8.5, le-
mos “e houve trovões, vozes, relâmpagos e um terrem oto”,
jo se fo nos informa de uma
tem pestade prodigiosa à noite, com violência extrema, e ventos
fortes, com torrentes de chuvas, e raios ininterruptos, com trovo
adas terríveis, e choques surpreendentes e brados da terra que
estavam em um terrem oto. Essas coisas evidenciavam alguma des
truição que viria sobre os homens, quando o sistema do mundo foi
colocado nessa desordem; e qualquer um adivinharia que esses
mistérios prediziam enormes calam idades que estavam por vir
(Wars4.4.5).
2) A queima de um terço das árvores da “terra" (gr. hç gç,
8.7) faz lembrar das aldeias incendiadas pelos romanos com
o desnudar da terra pela aniquilação de suas árvores.
• Note o que Josefo escreve sobre a ação dos romanos:
“Ao mesmo tempo em que deu permissão aos seus sol
dados para atear fogo nos subúrbios, ordenou que ju n
tassem madeira, e erguessem barreiras contra a cidade”
(Wars 5.6.2).
• Os romanos destruíram as árvores em Israel para obter
combustível e para fabricar suas armas: “Todas as ár
vores que estavam pela cidade já haviam sido cortadas
para fazer as barreiras anteriores (Wars 5 .12 .4). “Eles
'De forma interessante, em uma das falas de Josefo a Israel em busca da
■■iibicvivência do povo pela rendição, ele alude às pragas egípcias (Wars 5.9.4).
62 ■ Apocalipse
cortaram todas as árvores que estavam no campo ju n
to à cidade, e por 18 105 metros nos arredores” (Wars
6.1.1; v. 3 .7.8; 5.6.2).
• Na marcha de Vespasiano para Gadara, Josefo escreve:
“Ele também colocou fogo, não somente na própria ci
dade, mas por todas as vilas e lugares pequenos que
estavam ao seu redor” (Wars 3.7.1; v. 4.9.1). A “Galiléia
estava coberta com fogo e sangue por toda parte” (Wars
3 .4 .1) . Vespasiano “seguiu e queimou a Galiléia e as
partes vizinhas” (Wars 6.6.2).
• Quando o templo finalmente é incendiado, Jose fo la
menta: “Alguém poderia ter pensado que a própria co
lina, na qual o tem p lo se s i tu av a , fe rv ilh a v a com
altíssima temperatura, totalmente coberta de cham as”
(Wars 6.5.1).
• E, é d a r o que, en fim a c id a d e inteira d e Jeru sa lém in-
cendeía de modo que os romanos levam os judeus ca
tivos para Roma. Eles relatam que são de “uma terra
que ainda está em chamas por todo lado” (Wars 7.5.5).
3) A destruição de navios e a transformação dos mares e
águas em sangue (8.8,9) lembram-nos lutas diversas de pes
soas nas águas e ao redor de Israel. Josefo registra uma cena
na qual os judeus “construíram grandes navios para a pirata
ria, e se tornaram piratas nos mares perto da Síria, Fenícia, e
Egito, e fizeram aqueles mares inavegáveis para todos os ho
m ens” (Wars 3.9.2). Infelizmente, para esses homens “um vento
violento [soprou] neles; é chamado por aqueles que velejam
lá de ‘os ventos zangados do norte’, e ali colidiram seus navi
os um contra o outro” com tal poder de destruição que “em
bora a maior parte deles tenha sido lfevada pelas ondas, e
pedaços tenham sido destruídos por bater nas rochas, tanto
que o mar, em um longo trecho, estava cheio de sangue, e as
partes marítimas repletas de corpos m ortos” (Wars 3.9.3).
O mesmo acontece no mar da Galiléia: “Alguém poderia ver
o lago assim todo coberto de sangue, e cheio de m ortos” (Wars
3.10.9). Em outro lugar lemos: “Não somente todo o país atra
vés do qual tinham fugido estava repleto de mortos, o rio
Jordão também não poderia ser atravessado, por causa dos
corpos mortos que estavam nele, e porque o lago Asfaltitis
[mar Morto] também estava cheio de corpos mortos que fo
ram levados rio abaixo” (Wars 4.7.6).
0 ponto de vista preterista ■ 63
4) Em relação à transformação de águas amargas e veneno
sas (8.10,11), poderíamos pensar nessas cenas como aquelas
associadas às batalhas marítimas mencionadas:
Alguém poderia ver o lago assim todo coberto de sangue, e cheio
de corpos mortos, porque nenhum deles escapou. Um cheiro terrí
vel e uma visão muito triste pairavam sobre aquele país naqueles
dias; as praias estavam repletas de destroços de navios, e de cor
pos m ortos inchados; e como os corpos m ortos estavam queima
dos pelo sol, e putrefatos, poluíam o ar (Wars 3 .10 .9).
A q u in ta trom b eta
Quando toca a quinta trombeta, o Abismo (“poço do abism o”;
r c ) aberto, expele fumaça como “fumaça de grande fornalha”
(9.2; r c ) . Da fumaça saíram gafanhotos com poder como o de
escorpiões; os quais a torm entam as p e s s o a s d u ran te c in co
meses (9.3-6). Conforme Robert Thom as observa, esses de
vem ser demônios — entretanto não concordo com sua opi
nião de que eles assumem literalmente a forma grotesca desses
sím bolos.52 Eu usaria o termo de Thomas empregado em ou
tro lugar: “apocalíptico pitoresco”.53
Temos motivos suficientes nas palavras de nosso Salvador
para observar a aplicação dessa profecia à era da guerra dos
judeus. Jesus vem para Israel pregando a proximidade do “Rei
no dos céus” (Mt 4.17). Isto, é claro, representa ameaça para o
reino de Satanás, que desencadeia uma resposta demoníaca
muito intensa. Satanás tentou Jesus até mesmo para reconhe
cer o seu governo (4.8-10). Um aspecto importante do m inis
tério de Jesus, naquela época, era confrontar Satanás e exorcizar
demônios em resposta ás legiões de Satanás contra ele (e.g.,
4 .24; 8 .16; 10.8; 12.27).
Jesus adverte Israel que seu ministério de exorcismo terá
somente um efeito temporário se as pessoas não se arrepen
derem. Na realidade, ele os adverte por meio de uma parábola
que a própria geração deles experimentará uma explosão re
novada de aflição demoníaca:
''Revelation 8—22, 30, p. 46, 49.
‘•'Revelation 1— 7, 465.
64 ■ Apocalipse
Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares
áridos procurando descanso. Como não o encontra, diz: ‘Voltarei
para a casa de onde saí'. Chegando, encontra a casa desocupada,
varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos
piores do que ele, e, entrando, passam a viver ali. E o estado final
daquele homem torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá
a esta geração perversa (Mt 12 .43-45 ; grifo do autor).
Cerca de quarenta anos após a advertência de Jesus, a guer
ra dos judeus estourou. Durante o particularmente exaustivo
cerco final de Jerusalém, uma escuridão terrível pairou sobre
a cidade. F. F. Bruce comenta: “Tito começou o cerco a Jeru sa
lém em abril, 70. Os defensores resistiram desesperadamente
durante cinco meses, mas ao final de agosto a área do templo
estava ocupada e a santa casa queimou completamente (v. Wars
5).54 Esses cinco meses da guerra representam o período mais
horrível e temível para os judeus (Wars 5 .1 .1 ,4 ,5 ; 10.5; 12.4;
13.6), e adapta-se à imagem de Apocalipse 9.5: “Não lhes foi
dado poder para matá-los, mas sim para causar-lhes torm en
to [gr. basan izô ] durante cinco meses. A agonia que eles so
freram era como a da picada do escorpião” (cf. v. 10).
Josefo não menciona o envolvimento demoníaco, embora a
brutalidade cruel da discussão interna entre os judeus parece
refletir esse aspecto. Ele escreve: “Em relação à presente sedi-
ção, não seria um equívico se a chamassemos de uma sedição
engendrada por uma outra sedição, como se fosse uma besta
selvagem que, ensadecida, por falta de comida vinda de fora,
lança-se sobre uma própria carne, para consumi-la” (Wars 5.1.1).
E agora, como a cidade estava em guerra em todos os flancos,
dessas multidões traiçoeiras de homens maus, as pessoas da cida
de, entre elas, eram como um grande corpo rasgado em pedaços.
Os homens velhos e as mulheres estavam em tal angústia pelas
suas calamidades que desejavam os rom anos e esperavam seria
mente uma guerra externa para livrá-los de sua miséria doméstica.
Os cidadãos estavam sob uma consternação e medo terrível [...] O
barulho de todos aqueles que lutavam era incessante, de dia e de
noite; mas a lamentação daqueles que sofriam excediao outro; não
havia qualquer ocasião para cessar seu lamento, porque as suas
54F. F. Bruce, New Testament history, Garden City, N.Y: Anchor, 1969, p. 382.
0 ponto de vista preterista ■ 65
calamidades vinham perpetuamente, uma após a outra, embora a
consternação profunda em que se encontravam prevenia os seus
gemidos externos; mas, constrangidos pelo medo de esconder as
paixões internas, eram atormentados intimamente [gr. ebasanizonto,
como em Apocalipse 9.5], sem ousar abrir os seus lábios em gem i
dos [...] Todos se desesperavam; os que não estavam entre os
incitadores não tinham desejos de coisa alguma, na expectativa
que seriam destruídos em breve; mas, os próprios incitadores lu
tavam entre si, enquanto pisavam sobre os corpos m ortos am onto
ados uns sobre os outros, enfurecidos com aqueles corpos sob
seus pés, se tornavam ainda mais ferozes. Além disso, inventavam
uma coisa ou outra que era perniciosa contra eles próprios; e quan
do resolviam qualquer coisa, executavam isso sem clem ência, não
pouparam método algum de tormento ou de brutalidade (Wars 5.1.5,
grifo do autor).
John de Giscala “encheu todo seu país com dez mil exem
plos de maldade, tal como um homem que já foi endurecido
suficientemente na impiedade em relação ao que Deus faria
naturalmente” (Wars 5.6.2).
Mas estes homens, e estes somente, eram incapazes de se arrepen
der da maldade [v. Ap 16.9 , 11] eles eram culpados; e separando
suas almas de seus corpos, usaram ambos como se pertencessem
a outros povos e não a eles próprios. Porque nenhum afeto poderia
tocar suas almas, nem qualquer dor poderia afetar seus corpos,
desde que ainda pudessem rasgar os corpos m ortos das pessoas
como os cachorros o fazem , assim como enchiam as prisões com
os que estavam doentes (Wars 5.12.4).
Nem qualquer outra cidade já sofreu tais misérias, nem qual
quer era já gerou uma geração mais fértil em maldade do que esta,
desde o princípio do mundo (Wars 5.10.5).
Jose fo continua: .
A loucura da revolta também aumentou com a fome, a miséria se
acentuava; porque não havia milho em lugar algum, e os ladrões
vinham apressadamente, e vasculhavam as casas das famílias; e en
tão, se achassem alguma coisa, eles os torturavam, porque tinham
negado possuir qualquer coisa; e se não achassem coisa alguma, os
atormentavam [gr. basanizô, como em Ap 9.5] mais ainda, porque
supunham que as houvessem escondido cuidadosamente (Wars 5.10.2).
66 ■ Apocalipse
Eles tam bém in ven taram m étod os terríveis de to rtu ra [gr.
basanismos, form a de substantivo de basanizô] para procurar co
mida [...] esses torturadores faziam isso mesmo quando não esta
vam fam in tos; para isso eram m enos bárbaros, salvo se a
necessidade os forçasse a isso; assim faziam para manter sua lou
cura em atividade (Wars 5 .10.3).
Isto parece ser indicativo de uma subcorrente demoníaca
perversa. Certamente cumpre a profecia da parábola de Cristo
em relação à “geração” do século i que o negou (Mt 12.44). Muitos
dos judeus desejaram morrer, mas sofreram por muito tempo
(Ap 9.6): “Aqueles que estavam aflitos pela fome ansiavam mor
rer; e os mortos deveriam estar extremamente felizes, porque
não tinham vivido para ouvir ou ver tais misérias” (Wars 6.3.4).
A sexta tro m b eta
Apocalipse 9 .14-16 introduz a sexta trombeta:
Ela [a voz] disse ao sexto anjo que tinha a trombeta: “Solte os quatro
anjos que estão amarrados junto ao grande rio Eufrates”. Os quatro
anjos, que estavam preparados para aquela hora, dia, mês e ano,
foram soltos para matar um terço da humanidade. O número dos
cavaleiros que compunham os exércitos era de duzentos milhões;
eu ouvi o seu número (grifo do autor).
Por causa do problema de espaço, posso somente o fe
recer uma breve visão. Josefo informa um fenômeno que pode
indicar as forças angelicais por trás desse julgamento terres
tre que ocorreu em 70 d.C.:
Aconteceu um certo fenômeno prodigioso e incrível; suponho que
por causa disso parecia tratar-se de uma fábula, se não fosse des
crito por aqueles que o viram, e se não fossem os eventos que o
seguiram de natureza tão notável digna de tais sinais; antes do pôr-
do-sol, carruagens e tropas de soldados em sua arm adura foram
vistos percorrendo entre as nuvens, e as cidades circunvizinhas
(Wars 6 .5.3).
E o historiador romano Tácito escreve: “No céu, apareceu
uma visão de exércitos apareceu em conflito , de armadura
brilhante” (Histories 5.13).
0 ponto de vista preterista ■ 67
Em Apocalipse 9 os “quatro an jo s” (v. 15) imediatamente se
tornam “cavaleiros” de um número incalculável (v. 16). Além
do pano de fundo sobrenatural que envolve quatro anjos, essa
imagem retrata, da forma mais apavorante, as forças opressi
vas de tropas formadas contra Israel durante a guerra dos ju
deus. Nero enviou Vespasiano “para assumir a responsabilidade
do comando dos exércitos que estavam na Síria” onde ele “reu
niu as forças romanas” (Wars 3.1.3). De forma interessante, o
rio Eufrates (Ap 9.14) atinge a Síria onde os romanos normal
mente mantêm quatro legiões (Tácito, Armais 4.5). Josefo ob
serva que quatro legiões atacaram Jerusalém: “Foram erguidos
os trabalhos que pertenceram às quatro legiões no lado oci
dental da cidade” (Wars 6 .8 .1 ; v. Tácito, Histories 5.1).
Josefo menciona intencionalmente que essas legiões bem
organizad as em pregaram guerra p sico ló g ica exib indo seu
comando militar, armamento, e cavalos ante os muros de J e
rusalém para apavorar os judeus:
Assim os soldados, de acordo com o costum e, abriram as bainhas
em que seus braços, que antes estavam cobertos, repousavam, e
marcharam com seu peitoral; como também os cavaleiros que con
duziam seus cavalos com suas finas decorações. E assim locais
que estavam antes da cidade brilhavam; não havia nada tão gratifi-
cante para os homens de Tito, ou tão terrível para o inimigo, quan
to aquela visão; todo o antigo muro do lado norte do templo estava
cheio de espectadores, e era possível ver as casas cheias à medida
que se olhava para elas; tam pouco havia qualquer parte da cidade
que não estivesse tom ada pelas pessoas; além disso, uma grande
confusão instalou-se entre os judeus mais duros, quando eles vi
ram todo o exército, no mesmo lugar, com o esplendor de suas
arm as, e a boa ordem de seus homens (Wars 5 .9 .1 ; v. 3.7.4).
Apocalipse 9 .17 apresenta uma descrição apocalíptica que
destaca esses torturadores: “Os cavalos e os cavaleiros que vi
em minha visão tinham este aspecto: as suas couraças eram
vermelhas como o fogo, azuis como o jacinto, e amarelas como
o enxofre. A cabeça dos cavalos parecia a cabeça de um leão, e
da boca lançavam fogo, fumaça e enxofre”. Aqui descobrimos
os instrumentos da destruição por fogo que Jerusalém sofre
rá com os cavaleiros romanos, as torres r p y e s t i d a s de ferro,
os b atedores com aríetes, e as catapultas, que produziram
fogo e fumaça (uma descrição do armamento romano aparece
em Wars 3 .5 .2 ,5-6 ; 6.2). Por exemplo:
68 ■ Apocalipse
Ao mesmo tempo essa catapulta, planejada para aquele propósito,
arrem essou lanças de uma só vez sobre eles com grande barulho,
e pedras de peso de um talento foram lançadas pelas máquinas
preparadas para aquela finalidade, com fogo, e enorme quantidade
de flechas que fizeram o muro tão perigoso que os judeus não se
atreveram aproxim ai (Wars 3 .7 .9 , v. 3 .7 .10).
A MEDIÇÃO DO TEMPLO (AP 11.1,2)
Posteriormente em Apocalipse, atentamos à ordem visionária
de João para medir o templo e seus adoradores (Ap 11.1,2).
Novamente vemos o foco de Apocalipse claramente em Israel:
Esta “santa cidade” com um “templo” deve ser Jerusalém (Ne
11.1; Is 48 .2 ; 52.1; 64 .10; Mt 4.5; 27 . 53).55 No versículo 8, João
desmascara essa “santa cidade” pois ela se torna: um Egito,
uma Sodoma, o assassino de Cristo: “Os seus cadáveres f ica
rão expostos na rua principal da grande cidade, que, em uma
figura de linguagem, é chamada de Sodoma e Egito, onde tam
bémfoi crucificado o seu Senhor”. Realmente, os cristãos do
século ii chamavam os judeus de “assassinos de Cristo” e “as
sassinos do Senhor".56
De forma significativa essa passagem reflete muito a pro
fecia de Jesus no Discurso do Monte das Oliveiras (compare
as palavras em grifo):
• Lucas 21 .24 : “Jeru salém será pisada pelos gentios, até
que os tem pos deles se cumpram” (grifo do autor).
• Apocalipse 11.2: “Exclua, porém, o pátio exterior; não o
meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles p isarão a cidade
santa durante quarenta e dois m eses” (grifo do autor).
Estas passagens paralelas nos informam que a “cidade san
ta/ Jerusalém" será “pisada” pelo “gentios” até que os “tempos
deles se cumpram”, isto é, após “quarenta e dois m eses”.
55Aqui temos uma linha clara da evidência que João escreve o Apocalipse
enquanto o templo ainda estava em pé. Caso contrário, ele mencionaria sua
destruição seguramente, como fazem os escritores cristãos logo após (e.g.,
Barnabas 16.1ss.; Ignatius, Magnesians, 10; Justin Martyr, First Apology 32). Para
pensar assim, isto é ‘‘um templo reconstruído” é apenas uma suposição — e uma
suposição que vai ao contrário da conclusão do sistema sacrifical (Hb 9 — 12).
S6E.g., Ignatius, Magnesians 11; Justin Martyr, First Apology 35; lreneu, Con
tra as heresias, 3.12.2 .
0 ponto de vista preterista ■ 69
Evidentemente, Apocalipse 11 .1 ,2 p ro fetiza a destruição
iminente do templo em 70 d.C., pois sua fonte em Lucas 21 .24
(v. comparação em Mt 24 e Mc 13) profetiza aquele m esm o
evento. Note o contexto: 1) Jesus fala particularmente do tem
plo do século i (Lc 21.5-7; v. Mc 2 3 .3 8 -2 4 .3 ; Mc 13.1-4); 2) ele
vincula sua profecia à sua própria geração (Lc 21 .32 ; v. Mt
24.34; Mc 13.30). E, novamente, os eventos do Apocalipse são
“breve” (Ap 1.1) e “próximo” (1.3).
E “o tempo dos gentios”? Daniel 2 profetiza que quatro im
périos pagãos su cessivos (a Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia,
Roma) dominarão o povo de Deus; e são capazes de fazê-lo
porque podem atacar o templo físico na terra especialmente
determinada. Mas após um período final de ira, não será pos
sível aos gentios pisar o reino de Deus, porque ele será uni
versal e desvinculado de um templo central (Ef 2.19-21), uma
cidade específica (G1 4 .25 ,26) , uma terra circunscrita (Mt 28.19;
At 1.8), e uma raça particular (G1 3.9, 29). Como Jesus afirma:
“está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem
neste monte, nem em Jerusalém ” (Jo 4.21).
Em outras palavras, a destruição do Templo em 70 d.C. (Dn
9 . 2 6 - 2 7 P após sua “abo m in ação ” (9 .27 ; v. Mt 2 4 .1 5 ,1 6 ; Lc
21 .2 0 ,2 1 ) determina o término da capacidade de os gentios
de reprimir a adoração a Deus. Em Daniel 9 .2 4 -2 7 , Mateus
2 3 .3 8 — 24.2, e Apocalipse 11.1,2, a “cidade santa” e seu tem
plo terminam em destruição.
Mas como o “tempo dos gentios” refere-se aos 42 meses
(Ap 11.2)? Em 66 d.C., Israel se revoltou contra o opressivo
procurador romano Géssio Florus. Em novembro, o governa
dor romano da província da Síria, Cestius Gallus, tentou por
um fim àquela insurreição, mas bateu em retirada prematura
mente por razões que não ficaram claras (Josefo, Wars 2 .1 7
22; Tácito, H istories 5.10). Alguns meses depois, Vespasiano
loi “enviado para a Judéia por Nero, em meados de 67, para
conter a revolta”.58 Em agosto de 70, os romanos violaram o
muro interno de Jerusalém, transformando o templo e a cida
de em um inferno. Por volta da primavera de 67 a agosto de 70,
"Daniel 9 .2 6 ,2 7 deve se referir a 70 d.C., porque o templo reconstruído nas
primeiras 69 semanas é destruído em 70. Presumir que seja outro templo que
M'í>ue aquele desafia a lógica do texto.
i,s B r uc e , New Testament History, p. 380 , cf. p. 381 . Tacitus, The Histories,
nadução de Kenneth Wellesley, Nova York: Penguin, 1986, 277 , n. 4.
70 ■ Apocalipse
o tempo de combate imperial formal contra Jerusalém é um
período de 42 meses.
João “mede”, para proteção, (Ez 22.26; Zc 2.1-5) o templo
interno (gr. naos), o altar, e os adoradores (Ap 11.1); o “pátio
exterior” é excluído para destruição (11.2). A imagem aqui en
volve a proteção da essência do templo, seu coração (repre
sentando a adoração a Deus pelo seu povo fiel), enquanto as
partes do templo (o invólucro, o conjunto da propriedade em
si) perecem.59 Essa mistura de físico e espiritual está arraigada
na mesma idéia do templo. Por exemplo, Hebreus 8.5 faz m en
ção a um “santuário (terreno) que é cópia e sombra daquele
que está no céu”. O templo terreno ou externo é cópia ou som
bra da realidade divina e espiritual. O “santuário artificial” é
uma “representação do verdadeiro” (9.24). Em Apocalipse 11,
Deus remove a sombra ou cópia, de forma que o essencial
permanece, o que João aqui retrata como os adoradores no
coração do templo.
Isto se assemelha à imagem de Paulo em Gálatas 4.22-26, em
que o apóstolo contrasta “Jerusalém abaixo” (literal; Jerusalém
histórica) com a “Jerusalém do alto” (a cidade divina de Deus).
Ou, como o escritor de Hebreus, que compara o histórico monte
Sinai que pode ser tocado (Hb 12.18-21), com o monte espiritual
de Sião, a casa dos “espíritos dos ju s to s” que não podem “ser
abalados” (12.22-27). Esta mistura de literal e figura de linguagem
não deveria alarmar, porque todos os intérpretes acham que de
vez em quando ela se faz necessária. Por exemplo, até mesmo o
literalista Robert Thomas, quando insiste que Apocalipse 19 ensi
na literalmente o retorno de Cristo em um cavalo, frisando que
sua espada e a vara são figuras de linguagem.60 E todos vêem uma
mistura do alimento físico e espiritual em João 6.49,50, assim
como ressurreição física e espiritual em 5.25-29.
A BESTA (AP 13)
Seguindo à frente, mais uma vez, notamos que um novo figu
rante entra em cena no Apocalipse: “Vi uma besta que saía do
39Proteger a parte interna e dar a parte externa do templo para destruição
é semelhante ao propósito aos selados/protegidos dos judeus cr istãos em
Apocalipse 7, preparando para a destruição dos judeus não-cristãos. Deus está
fazendo uma separação.
mRevelation 8— 2 2 , p. 387-9.
0 ponto de vista preterista ■ 71
mar. Tinha dez chifres e sete cabeças, com dez coroas, uma
sobre cada chifre, e em cada cabeça um nome de blasfêm ia”
(Ap 13.1). Como o restante das profecias tem porariam ente
restringidas, esse caráter mau deve ter uma relevância direta
para os cristãos do século i. Anteriormente, João focalizou
Israel; agora ele se volta para ver — Roma.61
A iden tid ad e da besta
A maioria dos estudiosos concorda com Robert Thomas, que
essa imagem da besta “permite a troca da cabeça com a besta
por inteiro — i.e., o rei com seu reino — conforme versículos
12 ,14 requerem”. Entendo que a besta retrata o império rom a
no (o reino) de modo geral e o imperador o César Nero (o rei)
especificam ente. Há várias razões para que eu com preenda
essa descrição dessa forma. 1) Os acontecimentos e os perso
nagens do Apocalipse são da época do público contem porâ
neo de João (1.1,3; 22 .6 ,10 ,12) . De forma interessante, a besta
surge do mar (13.1) o que reflete a perspectiva geográfica de
Roma quando vista ou de Patmos (de onde João escreve) ou
de Israel (sobre a qual João escreve).
2) A besta possui grande “autoridade” (13.2) e poder (13.4).
Roma era o maior e mais poderoso dos impérios do mundo
antigo e o poder da época em que João escrevia. Josefo chama
os romanos de “os senhores da terra habitável” (Wars 4 :3 :10) e
Roma de “a maior de todas as cidades” (Wars 4 .11 .5).
3) A besta tem um caráter blasfemo (13.5,6) e requer adoração
(13.8). Os romanos consideraram muitos de seus imperadores
como deuses (v. Mt 22.21). Nero pensou nele como o deus Apoio;
por exemplo, uma inscrição de Atenas refere-se a ele como o
“Todo-poderoso César Nero Sebastos, um novo Apoio”.62
4) De acordo com 13.18, o número do nome da besta iguala
seiscentos e sessenta e seis (n ão uma sériede três seis indivi
duais). No mundo antigo antes da invenção do numeral ára
be, alfabetos eram usados como sistemas de numeração. Como
61Para informação detalhada sobre o material nesta seção, v. Kenneth L.
Gentry Jr., The beast o f Revelation (Tyler, Tex.: Institute for Christian Economics,
1989) cap. 6.
62Mary E. S m a l l w o o d , D ocum ents IHustrating the Princípates Gaius Claudius
and Nero , Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1967, p. 52, registro #145.
72 ■ Apocalipse
os estudiosos notam, o soletrar do nome de César Nero (n rw n
q sr) no século i, escrito em caracteres hebraicos, alcança esse
valor exato.63
5) As sete cabeças da besta representam “sete m ontanhas”
e “sete reis" (17 .9 ,10). Apesar da surpreendente negação de
Robert Thomas da literalidade desta referência,64 o anjo intér
prete informa a João claramente que as sete cabeças repre
sentam sete m o n ta n h a s .65 As se te m o n tanh as se re ferem
obviamente às fam osas sete colinas de Roma, bem conheci
das dos contem porâneos de Apocalipse como o es tab e le c i
mento do governo imperial. Estranhamente, Thomas renuncia
seu literalismo nesse momento: Ele diz que as sete m onta
nhas representam reinos, não montanhas. Se isso é assim, a
interpretação requer uma figura de linguagem de outra figu
ra de linguagem. Quer dizer, as cabeças representam monta
nhas e as montanhas representam reinos.
De acordo com o anjo que interpreta a visão para João (17.7),
as cabeças “são também sete reis. Cinco já caíram, um ainda
existe, e o outro ainda não surgiu; mas, quando surgir, deve
rá permanecer durante pouco tem po” (17.10). Os primeiros
sete Césares de Roma são Julio, Augusto, Tibério, Caio, Cláu
dio, Nero, e Galba, de acordo com os historiadores antigos
Suetônio (Lives o f the tw elve caesars), Dio Cassius (R om an
history 5), e Josefo {Antiquities 19 .1 .11 ; v. 18.2.2; 1 8 .6 .10 ) .66
Os primeiros cinco destes “já caíram" (estão mortos); o sexto
“é” (Nero está vivo). O sétimo virá e “permanecerá pouco tem
po”: O imperador que sucedeu Nero após treze anos de reina
do era Galba, que reinou so m ente sete m eses ( junho, 68
d.C. —janeiro, 69 d.C.).
63D. R. H i l l e r s , Revelation 13.18 e a Scroll from Murabba'at, b a s o r 170, abril de
1963, p. 65. A evidência pode ser vista consultando o trabalho francês editado
por P. Benoit, J . T. Milik, e R. DeVaux, Discoveries in the jud ea n desert o fjo rd a n
11, Oxford: Oxford Univ. Press, 1961, p. 18, folha 29; Bruce M. M e t z g e r , A textual
com m entary on the greek New Testament (London: United Bible Societies, 1971),
p. 751-2.
MRevelaton 8— 22, p. 296.
65A natureza confusa da visão em Apocalipse 17 se deve ao surpreendente
duplo referente: As sete cabeças representam am bos sete montanhas e sete
reis. Apocalipse 17 .9 ,10 é uma parte da explicação do anjo da visão, não mate
rial visual adicional que causa dificuldade.
“ Esta é outra evidência de uma pré-data de composição 70 d.C.
0 ponto de vista preterista ■ 73
A perseguição pela besta
A “guerra” da besta com os santos durante “quarenta e dois
m eses” (13.5-7) refere-se à perseguição de Nero. O historiador
romano Tácito fornece um relato horrível da perseguição de
Nero em Roma, observando que ele “infligiu castigos jam ais
ouvidos naqueles que, detestados por seus crimes abom iná
veis, eram vulgarmente chamados de cristãos” (Annals 15.44).
A perseguição desencadeou em novembro, 64 d.C., reivindi
cando a vida de “um imenso núm ero” (Tácito), “uma grande
multidão dos eleitos” (lClemente 6). Esse primeiro ataque ro
mano ao cristianismo levou a vida dos apóstolos Pedro e Pau
lo, que morreram em 66 ou 67 d.C.
O renomado historiador de igreja L. von Mosheim escreve
sobre a perseguição de Nero:
A terrível perseguição que aconteceu por ordem deste tirano, ini
ciada em Roma, em meados de novembro, no ano 64 de nosso
Senhor [...] Essa perseguição terrível cessou, mas com a morte de
Nero. O império, como sabemos, não ficou livre da tirania desse
monstro até o ano 68, quando ele pôs um fim à sua própria vida.67
De modo considerável, a perseguição cessou após 42 me
ses (mas por pouco tempo: isto é, em novembro de 64 d.C. a
junho de 68 d.C.). João escreveu enquanto estava exilado em
Patmos sob a perseguição de Nero (1.9); ele informa aos seus
leitores que a perseguição durará só 42 m eses. C. Marvin Pate
admite o a juste pertinente, entretanto reje ita as implicações
preteristas do a ju ste .68
A m orte e av ivam en to da besta
Mas o que dizer agora da morte e do avivamento da besta?
“Uma das cabeças da besta parecia ter sofrido um ferimento
mortal, mas o fe i im en to mortal foi curado. Todo o mundo
ficou maravilhado n seguiu a besta” (13.3). O significado des
sa profecia está arraigada nos eventos políticos do século i.
67Historical com m entaries, vol. 1, tradução Robert S. Vidal, New York: Con
verse, 1854, p. 138-9.
“ P a t e e H a in e s , Doomsday delusions, p. 42-4.
74 ■ Apocalipse
Nero se matou em 8 de junho, em 68 d.C., quando as guer
ras civis romanas estavam estourando contra ele. O perigo
que Roma enfrentou e a revolta, que se espalhou com o se
d esp rendesse do solo geográfico através do império, eram
bem conhecidos naquela época, como observa Josefo: “Omiti
em dar um relato exato sobre eles, porque são bem conheci
dos por todos, e são descritos por um grande número de au
tores gregos e romanos” (Wars 4.9.2).
Para apresentar os m eses que seguem a morte de Nero,
Tácito escreve: “A história que estou narrando é sobre um
período repleto de desastres, batalhas terríveis, destruído por
lutas civis, terrível até na paz. Quatro imperadores foram der
rubados pela espada; havia três guerras civis, mais guerras
e s tr a n g e ir a s e, com fre q ü ê n c ia , tudo ao m esm o te m p o ”
(Histories 1.2). Esses levantes atingiram os súditos e os inimi
gos do grande império como se fossem a mesma agonia de
morte de Roma (a besta considerada de forma geral). Real
mente, na avaliação de Tácito, estava próximo a isso: “Esta era
a condição do Estado romano quando Serius Galba, cônsul
escolhido pela segunda vez, e seu colega Tito Vinio tomaram
posse no ano que deveria ser para Galba seu último e p a ra o
Estado qu ase o fim ” (Histories 1.11, grifo do autor).
Perante os olhos assustados do mundo, a besta de sete
cabeças (Roma) estava tombando para sua morte ao passo que
sua sexta cabeça (Nero) recebeu sua ferida mortal. Estes even
tos não só impactaram o público cristão de João na Ásia Me
nor, mas a guerra dos judeus, conforme Josefo observa:
[Vespasiano e Tito] estavam incertos sobre os negócios públicos, o
império romano estava naquela época em uma condição instável, e
eles não deram continuidade à sua expedição contra os judeus, pois
pensaram que seria inoportuno fazer qualquer ataque aos estran
geiros, devido à preocupação com seu próprio país (Wars4.9 .2).
Os relatórios da destruição e saque eram tão horríveis que
“o pesar de Vespasiano [era tão] violento, que ele não pôde
suportar as torturas que observava, nem se dedicar mais a
outras guerras quando seu país nativo foi destruído” (Wars
4.10 .2). Josefo concorda que Roma estava próxima da “ruína”
(Wars 4.11.5): “O Estado dos romanos estava tão enfraquecido”
(Wars 7.4.2); “toda parte da terra habitável sob seu domínio
estava em uma condição insegura e cambaleante" (Wars 7 .4.2).
0 ponto de vista preterista ■ 75
Mas o que aconteceu finalmente? O historiador romano
Suetônio escreve: “O império que por muito tempo fora inse
guro e, como tal, foi varrido pela usurpação e morte violenta
de três imperadores, foi finalm ente dominado e conquistou
certa estabilidade pela família Flaviana (Vespasiano 1). Josefo
concorda: “Assim que o governo de Vespasiano foi confirm a
do, com a solução dos negócios públicos romanos, Vespasiano
voltou sua atenção ao que permanecia subjugado na Judéia”
(Wars 4 .11.5). Em outras palavras,após um tempo penoso de
guerra civil, o império reviveu. A pseudoprofecia de 4Esdras
12 .16-19 (100 d.C.) reflete o assom bro do mundo antigo: “No
meio do tempo daquele reino surgirão grandes lutas, e estará
em perigo de cair; não obstante ele não cairá, mas recuperará
seu antigo poder”.
Levando em conta o público contemporâneo de João (1.4,11),
o seu chamado para uma consideração cuidadosa (1.3; 13.9),
e sua expectativa contemporânea (1.1,3), esses versículos têm
importância fundamental, em relação aos acontecimentos his
tóricos, que abalaram o mundo da época, nos m eados dos
anos 60 d.C. Roma pereceu, mas voltou novamente à vida.
OS RESUMOS DO JULGAMENTO DE ISRAEL (AP 14— 16)
João se volta aos ju lgam entos adicionais na terra por meio
das três aflições após mencionar os remidos/ selados de Isra
el em 14.1-5, (14.6-21) e as sete taças (caps. 15 e 16). Entretan
to, as p ro fe c ia s são fe i ta s em h ip é rb o le d ram ática , e las
recorrem a eventos históricos. Por exemplo, considere a co
lheita das uvas da ira: “Elas foram pisadas no Iagar, fora da
cidade, e correu sangue do Iagar, chegando ao nível dos frei
os dos cavalos, numa distância de cerca de trezentos quilô
m etros” (14.20).
Por razões constrangedoras “a cidade” aqui parece ser J e
rusalém: 1) João define “a cidade” anteriormente como Jeru
salém (11.8); 2) a “co lheita” está na “terra/ solo” (gr. hç gç\
14.15-19); 3), esse ju lgam ento recai no lugar onde Jesus foi
crucificado: “fora da cidade” (Jo 19.20; v. Hb 13.11-13); e 4) o
Filho do homem “na nuvem” (Ap 14 .14 ,15 ) ensaia o tema do
Apocalipse referente a Israel (1.7). A distância do fluxo de
sangue é de 1 6 0 0 estádios (300 km) que é aproximadamente
o com prim ento da terra quando era uma província romana:
76 ■ Apocalipse
O Itenerarum de Antonius de Piacenza registra o comprimen
to da Palestina como 1 664 estádios. Esta profecia se refere ao
“dilúvio" de sangue em Israel durante a guerra dos judeus.
Permita-me docum entar isto.
Em Wars Josefo escreve: “o mar era sangrento por um lon
go trecho” (3.9.3); “então era possível ver que o lago todo co
berto de sangue, e cheio de corpos m ortos” (3.10.9); “todo o
país pelo qual eles tinham fugido estava cheio de matança, e
o Jordão não pôde ser atravessado, por causa dos corpos mor
tos que estavam nele” (4.7.6); “o sangue percorreu todas as
partes baixas da cidade, e também a cidade superior” (4.1.10);
“o exterior do templo, todo, transbordava de sangue” (4.5.1);
“o sangue de todo o tipo de carcaça morta permanecia nos
lagos nos tribunais santos” (5.1.3); e “pela cidade toda corria
sangue, a tal ponto que realmente o fogo de muitas das casas
era extinto com o sangue desses ocupantes” (6.8.5).
A divisão “da grande cidade” em três partes (16.19; v. 11.8)
parece se referir à disputa interna em Jerusalém. Conforme
lutavam contra os romanos, os judeus se fragmentaram em
três acampamentos de guerra:
E agora havia três facções traiçoeiras na cidade, e se separaram .
Eleazar e seu grupo, que mantiveram as primícias sagradas, vie
ram contra João em seu sofrimento. Aqueles que estavam com
João saquearam a população, e saíram com ardor contra Simão.
Assim Simão teve seu suprimento de provisões da cidade, em opo
sição aos revoltados (Wars 5 .1 .4 ; v. 5 .1.1).
Essa situação causou sérios problem as para a defesa da
cidade, pois levou a população a destruir até seu próprio su
primento de alimento (Wars 4.1.4).
João está apresentando o processo dramático de aliança
contra Israel por seu adultério. O castigo na lei de Deus para
adultério é a m orte (Lv 2 0 .1 0 ) , que pela lei b íb lica é por
apedre jam ento . Assim, testem unham os enorm es pedras de
granizo caindo sobre Jerusalém em Apocalipse 16.21: “Caíram
sobre os homens, vindas do céu, enormes pedras de granizo,
de cerca de trinta e cinco quilos cada (gr. talantiaia, talento;
nvi); eles blasfemaram contra Deus por causa do granizo, pois a
praga fora terrível”. Josefo registra o cumprimento histórico e
o ataque dos romanos a Jerusalém por catapultas:
0 ponto de vista preterista ■ 77
As pedras que foram lançadas pesavam 34 ,272 kg [gr. talantiaia], e
atingiam até 4 0 2 ,3 4 m de distância. O impacto provocado por elas
de modo algum poderia ser suportado, não somente por aqueles
que primeiramente estavam em seu caminho, mas tam bém pelos
que estavam mais longe. Quanto aos judeus, inicialmente eles es
peravam a vinda da pedra, que era de cor branca (Wars 5 .6.3).
Mas tenho de prosseguir.
A PROSTITUTA E A BESTA (AP 17 E 18)
Nesta visão suprema, João vê uma prostituta ricamente ador
nada m ontad a em uma b e s ta v erm elh a (1 7 .1 -5 ) . Ela está
embriagada “com o sangue dos santos, o sangue das te s te
munhas de Jesu s” (v. 6). No princípio, João está perplexo, en
tretanto o anjo intérprete explica a visão (v. 7-18; v. Dn 9.20-23).
Reúne dois caracteres históricos, mostrando sua conexão irô
nica: o império romano (a besta) e Jerusalém (a “prostituta”,
chamada “ba b il ô n ia , a g r a n d e” Ap 17.5).
Muitos supõem que a prostituta babilônica rep resenta a
cidade de Roma porque ela repousa sobre sete colinas. A evi
dência, porém, sugere uma outra interpretação. Como o prof.
Iain Provon da Unviersidade de Edimburgo observa: “Consi
derar a Babilônia como Jerusalém, então, é, em meu ponto de
vista, um constrangimento”.69 1) O Apocalipse designa a pros
tituta como a “b a b il ô n ia , a g r a n d e” (17.5), quer dizer, “a grande
cidade” (17.18; v. 14.8; 16.19; 18 .10 ,16 ,21) . A primeira m en
ção à “grande cidade” é 11.8, que indiscutivelmente aponta
para Jerusalém “onde também foi crucificado o seu Senhor”
(v. Lc 18.31). Uma ironia cruel surge nessa imagem inversa:
No a t a Babilônia histórica incendeia o templo (2Cr 36.18-20);
agora Israel se torna uma “Babilônia”, causando a destruição
de seu próprio templo: Josefo registra a realidade trágica de
70 d.C.: “Os judeus tinham começado com suas próprias mãos
a queimar completamente aquele templo” (Wars 6.3.5).
69Foul Spirts, Fornication and Finance: Revelation 18 From an Old Testament
Perspective”, j s n t 64 , dezem bro de 1996, p. 96. Sua completa discussão do
Apocalipse é extremamente útil. V. tb. Cornelis Vanderwaal, Search the Scriptures :
Hebrews-Revelation, St. Catherines, Ont.: Paideia, 1979, 10 .79-111 . Terry, Biblical
Apocalyptics, p. 4 26 -39 . J. Massyngberde Ford, Revelation (AB; Garden City, N.Y.:
Doubleday, 1975, p. 54-5, 93, 259-307).
78 ■ Apocalipse
Jerusalém era uma “grande cidade” por causa de sua alian
ça (SI 48 .1 ,2 ; 87.3; Mt 5.35). Quando Jeremias refere-se à sua
destruição por vir por intermédio da Babilônia do a t , ele a
chama duas vezes de a “grande” cidade: “Como está deserta a
cidade, antes tão cheia de gente! Como se parece com a viúva,
a que antes era grandiosa entre as naçõesl A que era a prince
sa das províncias agora tornou-se uma escrava”. (Lm 1.1, gri
fo do autor; v. Jr 22 .8). A descrição de João é semelhante:
“Façam-lhe sofrer tanto tormento e tanta aflição como a glória
e o luxo a que ela se entregou. Em seu coração ela se vanglori
ava: ‘Estou sentada como rainha; não sou uma viúva e jamais
terei tristeza’” (Ap 18.7).
2) O pano de fundo aparente de João para essa prostituta
(17.1-6; 19 .1 ,2) é o texto do a t que também refere-se a Isra
e l — Jerem ias 3. Não somente há correspondências notáveis
de palavras e im agens, mas de tem as tam bém . O tema de
Jerem ias 3 é o divórcio de Deus do reino do Norte, Israel, e
sua am eaça de divórcio do reino do Sul, Judá. O tem a do
Apocalipse é o divórcio de Deus do n t Jerusalém/ Israel (Ap
5). O pouco espaço proíbe um tratamento detalhado dessas
co rre sp o n d ên cias notáveis, mas deixe-m e resum ir rap ida
mente as sem elhanças ( lxx é a abreviação para a tradução
grega do a t ).
Em Jerem ias 3 .1 ,2 , Deus cobra Judá por agir como uma
prostituta ( l x x : porneuô), como faz Joãoem Apocalipse 17.1,2
(gr. porneuô). Sua maldade “contaminou a terra” (Jr. 3 .1 ,2,9):
“a terra” ( l x x , hê gê 3.2) “contaminada" em Jeremias se torna “a
terra” (gr. h ê gê) corrompida em Apocalipse (Ap 19.2). Deus
adverte Judá no a t com base na experiência de Israel: “Dei à
infiel Israel uma certidão de divórcio e a mandei embora, por
causa de todos os seus adultérios” (Jr 3 . 8 ) — isto é, quando
ele permitiu aos assírios destruí-la (Jr 50 .17). O destino da
prostituta do Apocalipse Jerusalém/ Israel será o mesmo (Ap
17.16; 19.2). Ao justificar a derrota de Judá do a t por Babilônia,
Jeremias diz: “tu tens a testa de uma prostituta” (Jr 3.3; r c ); ao
declarar no n t o caráter rebelde de Jerusalém, João observa
que em sua testa havia esta inscrição “ba bilô n ia a g r a n d e , a mãe
d a s p r o s t it u t a s ” (Ap 17.5). Seguramente João está lidando com
as mesmas pessoas.
3) A prostituta babilônica se enche do sangue dos santos (Ap
16.6; 17.6; 18.21,24): “Nela foi encontrado sangue de profetas e
0 ponto de vista preterista ■ 79
de santos, e de todos os que foram assassinados na terra [ter
ra]” (18.24). Claro que, com a perseguição de Nero em curso
(1.9; 13.5-7), Roma estava manchada com o sangue dos san
tos. Porém Roma tinha entrado recentemente na categoria dos
perseguidores, dos inimigos de Deus; ao longo de Atos, Jeru
salém e os judeus eram os principais perseguidores.70 Além
disso, Roma não era culpada da m atança de quaisquer dos
“profetas” do a t , como o fora Jerusalém .71 Em relação às auto
ridades de Jerusalém , Stephen pergunta: “Qual dos profetas
que seus antepassados não perseguiram? Eles mataram aqueles
que prediziam a vinda do ju sto , de quem agora vocês se tor
naram traidores e assassinos” (At 7.52).
No contexto do Sermão do Monte das Oliveiras, Jesu s re
preendeu Jerusalém especificam ente com palavras notáveis
como aquelas em Apocalipse:
Por isso, eu lhes estou enviando profetas, sábios e m estres. A uns
vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de
vocês e perseguirão de cidade em cidade. E, assim , sobre vocês
recairá todo o sangue justo derramado na terra, desde o sangue do
justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem
vocês assassinaram entre o santuário e o altar (Mt 2 3 .3 4 ,3 5 , grifo
do autor).
Ou como Lucas registra:
Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue
de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo', desde o
sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar
e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada
responsável por tudo isso (Lc 11 .50 ,51 ; grifo do autor).
Jesu s m enciona tanto a perseguição dos santos de Israel
na era do Novo quanto do a t .
Lembre-se que ao longo do Apocalipse, o Cordeiro morto
atua no julgamento de seus assassinos, os judeus (5.6; v. 5.12;
70V„ Atos4.3 ; 5.18-33; 6.12; 7.54-60; 8.1ss.; 9 .1 -4 ,13 ,23; 11.19; 12.1-3; 13.45-50;
14.2-5 ,19 ; 16.23; 17 .5-13; 18 .12; 20 .3 ,19 ; 21 .11 ,27 ; 22 .30 ; 23 .1 2 ,2 0 ,2 7 ,3 0 ; 24.5-9;
25 .2 -15 ,24 ; 26 .21 . V. tb. 2Co 11.24 ; lTs 2 .14 ,15 ; Hb 10 .32-34 ; Ap 2.9; 3.9; etc.
71Jr 2 .30; Mt 5.12; 2 3 .2 9 -3 1 ,3 4 ,3 5 ,3 7 ; Lucas 6 .23 ,26 ; 11 .47-50; 13.34; Rm 11.3;
lTs 2.15; Hb 11.32-38.
80 ■ Apocalipse
13.8; este Cordeiro aparece 27 vezes em Ap).72 Por que isto
deveria nos surpreender? Jerusalém literalmente invoca o ju l
gamento sobre ela por matar o Cordeiro de Deus: Todo o povo
respondeu: “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos
filhos!” (Mt 27.25).
4) A veste da prostituta reflete as cores sacerdotais judias,
escarlate, púrpura, e ouro (Êx 28),73 indicando o estado sacer
dotal dessa prostituta e com o templo misturado com ela: “A
mulher estava vestida de azul e vermelho, e adornada de ouro,
pedras preciosas e pérolas. Segurava um cálice de ouro” (Ap
17.4). Josefo descreve a tapeçaria do templo cuidadosamente
como “tapeçaria babilônica na qual as cores azul, púrpura,
escarlate e branco foram misturadas” (Wars 5.5.4).
A taça de ouro da prostituta faz lembrar os utensílios do
templo: “A maior parte dos recipientes que foram postos nele
era de prata e de ouro” {Wars 5 .4 .4). Até mesmo o próprio
templo era “adornado” com pratos de ouro e pedra branca, os
quais nos remetem à prostituta “adornada de, pedras precio
sas e pérolas” (17.4):
Agora a face externa do templo em sua frente [...] estava por toda
parte coberta com pratos de ouro de grande peso, e, ao primeiro
nascer do sol, refletiu um esplendor ardente, e fez aqueles que se
esforçavam para olhar atentam ente se voltarem em direção opos
ta, da mesma maneira que teriam feito aos próprios raios do sol.
Mas este templo, para os que não estavam familiarizados com ele,
parecia, a uma certa distância, como uma montanha coberta com
neve; devido àquelas partes não douradas, que eram excessiva
mente brancas (Wars 5.5.6).
A inscrição blasfema da prostituta em sua testa dá uma ima
gem inversa da inscrição santa no sacerdote judeu. Na testa do
sumo sacerdote lemos: “Consagrado ao S e n h o r ” ( Ê x 2 8 . 3 6 - 3 8 ) ;
na testa da prostituta lemos: M i s t é r i o : B a b i l ô n i a a g r a n d e ; a m ãe d a s
PROSTITUTAS E DAS PRÁTICAS REPUGNANTES DA TERRA (Ap 17.5).
5) Um contraste literário óbvio existe entre a prostituta em
briagada e a noiva pura por vir. Esta justaposição sugere um
72V. Ap 5 .6 ,8 ,12 ,13 ; 6 .1 ,16 ; 7 .9 ,10 ,14 ,17 ; 12 .11; 13.8; 14 .1 ,4 ,10 ; 15.3 ; 17.14;
19.7,9; 21 .14, 22 ,23; 22 .1,3.
73Cf. Ap 17.4,5 com Êx 25.2 ,4 ; 26 .1 ,31 ,36 ; 27 .16 ; 28 .1 ,2 , 5 -12 ,15 ,17-23 ,33 .
0 ponto de vista preterista ■ 81
contraste intencional entre a indigna Jerusalém (11.8) e a nova
Jerusalém (21.2) e isso deveria ser familiar a estudantes do n t
(v. G1 4 .24-31 ; Hb 12.18-24). Apocalipse 17 e 21 fornecem im a
gens notáveis, tanto negativas como positivas. Lembre-se que
João chama especificam ente a noiva de a “Nova Je ru sa lé m ”
dos céus (21.1,2), sugerindo seu contraste com a antiga Je ru
salém (v. contrastes da nova/ antiga aliança em outras p assa
gens, Mt 9 .16 ,17 ; 13.52; 2Co 3.7-14; Hb 1.1,2; 3.1-6; 8 .1-13).
Conforme Robert Thomas nota as similaridades entre a p ro s
tituta e a noiva: “As semelhanças são muito próximas e num e
rosas para ser acidental”.74 Considere apenas três exem plos
dos vários que estão disponíveis (v. a seguir).
6) O Apocalipse descreve os nomes pagãos em outras p as
sagens “Sodoma e Egito” para referir-se a Jerusalém , nom es
bastante compatíveis com “a Babilônia” (11.8; v. Is 1.9,10). Em
outras palavras, no lugar de se portar como a esposa de Deus,
Jerusalém se tornou um de seus inimigos — como Sodoma,
Egito, e Babilônia. A nova Jerusalém obviamente substituiu a
antiga Jerusalém .
Um anjo apresenta 17.1: “Um dos sete anjos
João à prostituta e à que tinham as sete taças
aproximou-se e me disse:
“Venha, eu lhe mostrarei
o julgamento da grande
prostituta que está senta
da sobre muitas águas”.
noiva da mesma
maneira:
As duas mulheres
têm caráter
contrastante:
As duas mulheres
aparecem em
ambientes
contrastantes:
17 .1 b : “Venha, eu lhe
m ostrarei o julgam ento
da grande prostituta que
está sentada sobre mui
tas águas”.
17.3: “Então o anjo me
levou no Espírito para
um deserto. Ali vi uma
mulher montada numa
besta escarlate”.
21.9 : “Um dos sete anjos
que tinham as sete taças
cheias das últimas sete
pragas aproxim ou-se e
me disse: ‘Venha, eu lhe
m ostrarei a noiva, a es
posa do Cordeiro’”.
21.9fa: “Venha, eu lhe
m ostrarei a noiva, a es
posa do Cordeiro”.
21 .10 : “Ele me levou no
Espírito a um grande e
alto monte e mostrou-me
a Cidade Santa, Jerusa
lém, que descia dos céus,
da parte de Deus”.
74Para mais informações, V. Thomas, Revelation 8—22, p. 569-74.
82 ■ Apocalipse
A prostituta montada em uma besta (17.3) é irônico: Não
indica identidade com Roma,mas sujeição a Roma. A imagem
lembra Israel no passado subordinado a Roma, assim ela po
deria atacar Cristo e seus seguidores. Josefo escreve: “Parece-
me ser necessário relatar todas as h on ras que os rom an os e
seus im peradores retribu íram a nossa nação, e as a lian ças de
a ju d a m útua que fizeram" (Antiguities 14 .10.1 ,2 ; grifo do au
tor). Usando essa influência (“Não temos rei, senão César”, Jo
19.15), os judeus exigiram a crucificação de Cristo (Mt 2 3 .3 7
39; Jo 19.12-16) e, constantemente, promoviam agitações con
tra os cristãos, assim como para envolver os romanos em sua
perseguição (At 4 .27 ; 16.20; 17.7; 18.12; 21 .11; 24.1-9; 25.1,2).
“E começaram a acusá-lo, dizendo: ‘Encontramos este homem
subvertendo a nossa nação. Ele proíbe o pagamento de im
posto a César e se declara ele próprio o Cristo, um rei’” (Lc
23.2). Mas agora o aliado anterior de Jerusalém contra Cristo
se volta contra ela e a destrói (Ap 18.16-24).
A CEIA DAS BODAS E 0 NOIVO (AP 19)
Em Apocalipse 19, João aborda quatro fatores importantes ne
cessários para desenvolver sua conclusão gloriosa, cheia de
esperança para a qual ele caminha a passos bem largos agora.
1) Considerando que o capítulo anterior era praticamente
um canto triste para Jerusalém pelos comerciantes da terra,75
João agora ouve a interpretação divina de sua queda (19.1-5):
Aleluia!
A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus,
pois verdadeiros e justos são os seus juízos,
Ele condenou a grande prostituta
que corrompia a terra com a sua prostituição.
Ele cobrou dela o sangue dos seus servos (19 .1 ,2).
Jerusalém , a esposa infiel de Deus, sofre pena de morte
como uma adúltera espiritual por negar seu Messias (note sua
75Josefo menciona as “grandes riquezas" de Jerusalém ( Wars 6 .1 0 .1 ) e a
“grande quantidade de dinheiro do templo” ( Wars 6.5.2). V. tb. Tácito, Histories
5:5. Joachim Jeremias observa que o“comércio exterior teve importância consi
derável para a cidade santa” (Jerusaíem in the times o f Jesus: an investigation
into economic and social conditions during the New Testament period [Philadelphia:
Fortress, 1969] p. 38).
0 ponto de vista preterista ■ 83
prostituição imoral, v. 2). Sua destruição vinga “o sangue dos
seus servos” (19.1,2; v. 6 .10 ,11 ; tb. Mt 23 .34-36 ; lT s 2.14-16),
o que faz os santos regozijarem como um testemunho da co n
quista do primeiro grande inimigo de Cristo e seu povo.
2) Após o ju lg am en to da p ro stitu ta -Jeru sa lém com o e s
posa infiel, o céu anuncia as bodas do Cordeiro (1 9 .6 -1 0 ) .
A associação da celebração de vitória do rei, com um alegre
banquete nupcial, faz lembrar a canção do casamento real em
Salmo 45, que provavelmente serve como o pano de fundo
para Apocalipse 19. O castigo, público e firme, da esposa infi
el de Deus (19.1-5) estabelece o reino de Cristo (19.6), condu
zindo ao anúncio da apresentação festiva da nova noiva do
Senhor (19.7,8; v. cap. 21).
Jesus ensina o significado do julgam ento de Jerusalém para
o estabelecimento de seu reino: “Garanto-lhes que alguns dos
que aqui estão de modo nenhum experim entarão a m orte,
antes de verem o Reino de Deus vindo com poder”. (Mc 9.1).
De qualquer forma, de 30 d.C. a 70 d.C, duas eras redentoras
acontecem, o julgamento dos judeus do século i e a destrui
ção do sistem a do templo que dramaticamente assegurou o
reino (Ap 19.6) e vindicou a m ensagem da igreja universal
(19.9 ,10) em festiva celebração: “Eu lhes digo que muitos vi
rão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão,
Isaque e Jacó no Reino dos céus. Mas os súditos do Reino
serão lançados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ran
ger de dentes” (Mt 8 .11,12).
Os eventos de 70 d.C. vindicaram o cristianismo contra o
ju d a ísm o — com o m uitos antigos pais da igre ja p ro clam a
ram.76 Ao indicar 70 d.C., o Senhor advertiu o Sinédrio prestes
a julgá-lo: “Mas eu digo a todos vós: Chegará o dia em que
vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e
vindo sobre as nuvens do céu" (Mt 26.64).
O n t registra o estabelecimento gradual do reino (v. Mt 1 3 .3 1
33; Mc 4 .26-29): de seu anúncio ministerial (Mt 12.28; Mc 1.15)
a sua afirmação legítima à cruz (Mt 28 .18 ; Rm 1.3,4; Fp 2.1-11;
76V. Melito de Sardis; Tertullian’s Apology 21 e 26; On idolatry 7; An answ er to
lhe je w s 9 e 13; Against m arcion, 3.6 , 23; 5.15; HippoIytu's Treatise on Christ and
antíchrist 30 e 57; Expository treatise against the jew s 1, 2 e 7; e Against Noetus
18; Cyprian’s Treatises, 9.7; 10.5; 12.2 .14 ; 12 .2 .20 ; Lactantius’s divine institutes
4.18; Epitome o f the divine institutes 46; On the m a n n er in which the persecutors
died 2.
84 ■ Apocalipse
Cl 1.13; 2 .14 ,15) , para sua vindicação pública na subversão
de Israel (Mt 2 3 .3 2 —24.21; G1 4 .21-31 ; lT s 2.16; Ap 6— 19). A
remoção de Deus do sistema do templo — fisicamente derri-
bando “a barreira, o muro de inimizade,” legalmente destruído
em Cristo (Ef 2 .14) — decididamente, as antigas tendências
sionísticas de muitos cristãos do século i terminaram (e.g., At
11.1-3; 15.1; Rm 14.1-8; G1 1— 5; Cl 2.16; Tt 3.9) e o cristianis
mo como religião separada em seu próprio direito foi estabe
lecido (i.e., por que Jesu s com para a grande tribulação ao
“início das dores”, Mt 24.8).
3) Junto às preparações do banquete das bodas, o noivo
aparece. Na realidade, seu divórcio e a pena de morte de sua
esposa-prostituta adúltera fornecem a mesma justificação para
essa ce lebração e novo m atrim ônio (1 9 .1 1 -1 8 ) . A lição de
Apocalipse fica clara agora: Cristo que aparece gloriosamente
com o um guerreiro-noivo, castiga a Jeru sa lém incrédula e
apresenta uma nova noiva.
Cristo é o último ju iz de Israel (Mt 24 .29 ,30 ; 26.64); ele é o
que faz guerra contra ela (Ap 19.11; v. Mt 21 .40-45 ; 22.1-7).
Ele a julga tão severamente que seus cidadãos não recebem
e n te r r o a lg u m , p o is são c o n s u m id o s por p á s s a r o s (Ap
19.17,18). Robert Thomas observa, muito bem: “A pior indig
nidade perpetrada a uma pessoa naquela cultura seria deixá-
la insepulta após a morte (v. SI 79 .2 ,3 )”.77 Josefo nota que os
corpos dos mortos em Jerusalém eram “jogados dos muros
nos vales abaixo” (Wars 5.12.3) Realmente, “esses vales [esta
vam] cheios de corpos mortos, e pairava contínua putrefação
sobre e les” (Wars 5.12.4).
A visão de Cristo com “muitas coroas” (Ap 19.12) é o modo
apocalíptico de afirmar que, ele tem “toda a autoridade nos céus
e na terra” (Mt 28.18), que ele é muito acima de todo governo e
autoridade, poder e domínio” (Ef 1.21), que tem “o nome que
está acima de todo nome” (Fp 2.9), e que “a ele [estão] sujeitos
anjos, autoridades e poderes” (lPe 3.22). Em resumo, como
João francamente declara no começo do Apocalipse, já no sé
culo i Cristo é “o soberano dos reis da terra” (Ap 1.5).
Embora a imagem dessa passagem sugira a muitos a Segun
da Vinda (e certam ente há muitas correspondências), ela se
refere, mais provavelmente, a 70 d.C. que é um prenúncio
77Revelation 8—22, p. 93.
0 ponto de vista preterista ■ 85
distante da Segunda Vinda. De fato, Apocalipse 19 explica, mais
detalhadamente, o tema que João anuncia em 1.7, o qual se
origina nos ensinamentos de Cristo em Mateus 24 .29 ,30 . E lem
bre-se: Este ju lgam ento da vinda de Cristo, m encionado em
Apocalipse e Mateus 24, está próximo no tempo à audiência
contem porânea à escrita desses textos (Mt 24 .34 ; Ap 1 .1 ,3 ;
2 2 .6 , 1 0 ).
4) Por causa do interesse primário no julgam ento de Israel
no Apocalipse, João m enciona rapidamente a destruição da
besta que guerreará contra Deus (Ap 19.19-21). Nero (a p erso
nificação da besta) morreu em 68 d.C., durante os três anos e
meio do julgamento de Deus sobre Israel (67-70 d.C.). Na rea
lidade, ele morreu nas devastadoras guerras civis rom anas
(68-69 d.C.), que quase derrubaram a poderosa Roma. Após
Nero e durante obreve reinado dos três imperadores durante
as guerras civis rom an as, os dois im p e rad o res se g u in tes
(Vespasiano e Tito) não molestaram os cristãos.
0 M ILÊNIO (AP 20)
Quanto mais próximo João chega à sua conclusão, mais apa
rece o glorioso resultado. Em Apocalipse 20, ele olha o futuro
distante (o milênio começa no séc. i, mas o período necessari
amente requer sua extensão além do espaço de tempo do pró
ximo/ breve tempo da estrutura do livro). Na realidade, ele
fornece a conseqü ência do longo-duradouro, da destruição
de Israel e da proteção do reino de Cristo. Mais uma vez, a
limitação de espaço não permite uma análise completa desse
texto interessante, assim destaquei somente algumas das ca
racterísticas mais importantes para o ponto de vista preterista
que está sujeito a debate: os “mil anos”, a prisão de Satanás, o
reinado de Cristo, e as ressurreições.78
Os m il anos
Somente um lugar em toda a Escritura limita o reinado de Cris
to a mil anos: Apocalipse 20.1-10, meio capítulo no livro mais
78Para mais informações v. meu capítulo, “Postmillennialism”, em Darrell L.
liock, org., Three views o f the míUennium and beyond (Grand Rapids: Zondervan,
por vir).
86 ■ Apocalipse
figurativo na Bíblia. Como indiquei anteriormente em minha
abordagem dos 144 000, o número 1 000 seguramente é uma
soma simbólica que representa perfeição quantitativa. As Es
crituras, com freqüência, empregam esse número de um modo
não-Iiteral: Por exemplo, Deus possui o gado apenas aos mi
lhares nas colinas? (SI 50.10). O período do milênio poderia
ser de fato milhares de anos, como a autoridade em hermenêu
tica Milton Terry discute com com petência.79
A prisão de Satanás
Agora João aborda e inverte um tema anterior. Em 9.1, Sata
nás caiu do céu (gr. ouranos) e fo i d ad a a chave do p oço do
abism o. Em 20.1, Cristo desce do céu (gr. ouranos) e trazia na
m ão a ch av e do ab ism o para prender Satanás e lançá-lo no
ab ism o.
As Escrituras informam explicitamente que Cristo prendeu
Satanás durante seu ministério no século i. Em resposta às
acusações que ele estava exorcizando demônios pelo poder
de Satanás, o Senhor respondeu: “Mas se é pelo Espírito de
Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino
de Deus. Ou, como alguém pode entrar na casa do hom em
forte e levar dali seus bens, sem antes amarrá-lo? Só então
poderá roubar a casa dele” (Mt 12 .28 ,29 ; n v i). A ascensão de
Cristo ao Reino de Deus implicou exercer seu poder sobre o
reino de Satanás (v. 26): Ele arrebatou os homens e as mulhe
res do controle de Satanás. Visto que ainda estamos no milê
nio, Cristo atualmente continua despojando a casa de Satanás,
pregando o Evangelho que salva as pessoas da escuridão e as
transporta para seu Reino (Cl 1.13; v. At 26.17,18).
Cristo prendeu Satanás para um propósito bem definido:
“para assim impedi-lo de en g an ar a s n ações” (Ap 20.3 ; grifo
do autor). No a t somente Israel conheceu o verdadeiro Deus
(SI 147 .19 ,20 ; Am 3.2; Lc 4.6; At 14.16; 17.30). Mas a encarnação
de Cristo mudou isso, conforme o Evangelho começou a fluir
a todas as nações (e.g., Is. 2.2 ,3 ; 11.10; Mt 28.19; Lc 2.32; 24 .47;
At 1.8; 13.47). Na realidade, Cristo julgou os judeus e abriu
seu reino aos gentios (Mt 8 .11 ,12 ; 21 .43 ; 23.36-38). (Observe,
79Biblical Apocalyptics, p. 451 .
0 ponto de vista preterista ■ 87
porém, que o n t promete em outras passagens a entrada final
dos judeus no reino de Deus, encorajando-nos assim a evan-
gdizá-los; v. At 1.6,7; Rm 11.11-25; 15.12.)
Logo, como Cristo prendeu Satanás, o resultado é que seu
poder enganoso sobre as nações está enfraquecendo, e o Evan
gelho avança em todo o mundo. Na realidade, a Grande Comis
são necessita esse estado novo de acontecimentos. Apesar da
autoridade de Satanás antes da vinda de Cristo (Lc 4.6; Jo 12.31;
14.30; 16.11; Ef 2.1,2), Cristo agora declara: “Foi-me dada toda
a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discí
pulos de todas as nações" (Mt 28.18,19). Cristo comissionou a
Paulo essa mesma tarefa: “Eu o livrarei do seu próprio povo e
dos gentios, aos quais eu o envio para abrir-lhes os olhos e
convertê-los das trevas para a luz, e do poder de Satanás para
Deus, a fim de que recebam o perdão dos pecados e herança
entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.17,18).
Por conseguinte, o n t , com freqüência e de forma veem en
te, fala da morte de Satanás sobre esse aspecto (v. Mt 12.28,29;
Lc 10.18; Jo 12.31; 16.11; 17.15; At 26 .18 ; Rm 16.20; Cl 2.15;
Hb 2.14; l j o 3.8; 4 .3 ,4 ; 5.18). As próprias palavras de Jesus
harmonizam bem com Apocalipse 20: “Chegou a hora de ser
julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mun
do [gr. ekballÕ]" (Jo 12.31). Apocalipse 20.3 diz que Cristo “lan
çou” [gr. bailo] Satanás no abism o. Outros escr itores do nt
concordam. Paulo escreveu: “... e, tendo despojado os pode
res e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triun
fando so bre e les na c r u z ” (Cl 2 .1 5 ) . O au to r de Hebreus
observou: “Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne
e sangue, ele também participou dessa condição humana, para
que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da
morte, isto é, o Diabo” (Hb 2.14). E João expressou isto desse
modo: “Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir
as obras do Diabo” ( l jo 3.8).
A prisão de Satanás, então, começou no século i. Cristo ini
ciou-a durante seu ministério (Mt 12.24-29) e a assegurou legiti
mamente com sua morte e ressurreição (Lc 10.17; Jo 12.31,32;
Cl 2.15; Hb 2.14,15), e “provou” isto dramaticamente no colapso
do primeiro inimigo do cristianismo, o judaísmo (Mt 23 .3 6 —
24.3; lTs 2.14-16; Ap 3.9). O legado de Jerusalém é significante,
visto que a resistência satânica ao reino de Cristo vem primeira
mente com a perseguição dos judeus a Cristo e ao cristianismo.
88 ■ Apocalipse
A lei de Cristo
Os co m e n tá r io s a n te r io r e s j á in d ica ra m o en te n d im e n to
preterista da lei de Cristo. O “domínio e reinado” do Apocalipse
com Cristo demanda duas realidades espirituais importantes,
e presentes. 1) Cristo estabeleceu seu reino no século i.80 Mateus
1 2 .28 ,29 compara o pensam ento de Apocalipse 20 .1-6 clara
mente, porque nos dois lugares vemos a relação do reino de
Cristo e a prisão de Satanás (v. acima). Realmente, o reino este
ve próximo no primeiro ministério de Cristo porque “o tempo
é chegado” (Mc 1.14,15). O poder de Cristo sobre os demônios
mostra a presença do reino durante seu ministério na terra (Mt
12.28; v. 8 .29; Mc 1.24; 5.10; Lc 8.31); Seu reino não espera
alguma vinda futura, visível (Lc 17.20,21; Cl 1.13).
Por conseguinte, Cristo reivindicou ser Rei quando estava
na terra (Jo 12 .12-15 ; 18 .36 ,37) , e Deus o entronizou como
Rei após sua ressurreição e ascensão (At 2.30-36). Desde sua
ressurreição, Cristo tem “toda a autoridade nos céus e na ter
ra” (Mt 28.18), porque ele está à destra de Deus, dominando o
seu reino.81 Como resultado, os cristãos do século i o procla
maram Rei (Mt 2.2; At 17.7; Ap 1.5), e novos convertidos en
traram em seu reino (Jo 3.3; Cl 1 .12,13; lT s 2.12).
2) A outra realidade envolve nosso governo presente com
ele, em seu reino. João diz às sete igrejas do século i que Cristo
“nos constituiu reino e sacerdotes para servir a seu Deus e Pai”
(Ap 1.6). Esta realeza sacerdotal presente é exatamente o que
Apocalipse 20 relata do reino milenar: “Serão sacerdotes de Deus
e de Cristo, e reinarão com ele durante mil anos” (20.6).
Paulo m enciona nosso governo presente tam bém : “Deus
nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos
lugares celestiais em Cristo Je s u s ” (Ef 2.6; v. 1.3; Cl 3.1-4).
Q uaisquer resp ostas su rp reend entes que pudessem surgir
contra esse ponto de vista, um fato permanece: a Bíblia nos
ensina que estamos agora “assentados com ele”.
As ressurreições
Apocalipse 20 associa duasressurreições ao reino milenar de Cristo.
Uma ressurreição é espiritual e presente; a outra é física e futura.
80V. meu ensaio “Postmillennialism" em Three views o f the én d o f history.
81Mc 16.19; Lc 22.69 ; At 2.33; 5.31; 7 .55 ,56 ; Rm 8.34; 14.11; Ef 1 .20-23; Cl 1.18;
3.1; Hb 1,3,13; 8.1 ; 10.12; 12.2; lPedro 3.22; Ap 17.14; 19 .16.
0 ponto de vista preterista ■ 89
Apocalipse 2 0 .4 -6 m enciona dois grupos que governam
com Cristo e que são “felizes e santos” e que participam “da
primeira ressurreição” (v. 6).82 João vê primeiro “as almas dos
que foram decapitados por causa do testem unho de Jesus e
da palavra de Deus". Essas “alm as” são os santos que m orre
ram a serviço de Cristo. Ele também vê aqueles que “não ti
nham adorado a b e s ta nem a sua im agem , e não t inham
recebido a sua marca na testa nem nas m ãos”. Esses são os
santos vivos que atualmente vivem, para Cristo na terra.
Essa primeira ressurreição é a salvação. Observe como João,
o autor de Apocalipse, registrou anteriormente a instrução de
Cristo, na qual ele compara a ressurreição espiritual à salva
ção presente e a ressurreição física ao destino eterno:
Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me
enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da
morte para a vida. Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já
chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles
que a ouvirem, viverão [...]
Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em
que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os
que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o
mal ressuscitarão para serem condenados (Jo 5 .24 -29 ; grifo do
autor).
Na realidade, por causa da ressurreição física de Cristo, so
mos ressuscitados espiritualmente (Rm 6.4-14; Ef 2.5,6; Cl 3.1).
João não menciona a segunda ressurreição expressamente
em Apocalipse 20. Deduzimos isso de três fatores no texto: 1)
referência à “primeira ressurreição” (uma linguagem que re
quer uma “segunda” ressurreição); 2) o “restante dos mortos
[não voltam] à vida” até após os mil anos; e 3) a cena do ju lg a
mento nos versículos 12 e 13. A segunda ressurreição é m en
cionada em João 5 .28 ,29 : É a ressurreição física do “túmulo”
(v. Jó 19 .25-27 ; Jo 6 .3 8 -5 0 ,5 4 ; 1 1 .2 4 ,2 5 ; At 24 .15 ; Rm 8 .11 ;
lT s 4 .1 4 -1 7 ) . Em Apocalipse 2 0 .7 -1 5 , testem unham os a Se
gunda Vinda e o julgam ento final. Mas desde que isto é tão
distante dos dias de João, ele os menciona rapidamente.
A mistura, feita por João das realidades espirituais e literais
aqui, quando compara a ressurreição espiritual e a ressurreição
S2Neste assunto usarei a tradução da n a s b que é mais precisa.
90 ■ Apocalipse
física não é sem precedentes. Por exemplo, como observei an
teriormente, João registra as palavras de Cristo com respeito
a comer o pão (Jo 6 .49,50), onde ele compara o alimento esp i
ritual do corpo de Cristo com o com er litera l do maná no
deserto — em seguida compara a morte espiritual e a morte
física: “Os seus antepassados com eram o maná no deserto,
mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu,
para que não morra quem dele com er”. As mesmas palavras
“com er” e “morrer” ocorrem em ambas declarações, mas abran
gem conotações diferentes. O mesmo é verdade de “voltou a
viver” em Apocalipse 20.4 ,5 .
A NOIVA DO CÉU (AP 21 E 22)
João agora chega à sua conclusão — e que gloriosa conclusão!
Como o leitor pode presumir agora, o preterista entende essa
passagem de forma bem diferente do futurista e nesse ponto
está mais próximo ao do idealista. No capítulo 21, João teste
munha a noiva de Cristo, adornada gloriosamente, descendo
dos céus para uma nova criação: “Então vi novos céus e nova
terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado;
e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém,
que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma
noiva adornada para o seu marido” (21.1,2).
A no iva id en tif icad a
Entender essa passagem requer analisar a nova imagem da
nova criação/ nova Jerusalém à luz das Escrituras anteriores.
Uma vez que façamos isso, veremos que a nova criação com e
ça no século i.
1) A época de João requer um contexto do século i. A des
crição da nova criação e da nova Jerusalém, cidade-noiva, se
desdobra de Apocalipse 2 1 . 1 a 22.5. Logo a seguir, lemos: “O
anjo me disse: ‘Estas palavras são dignas de confiança e ver
dadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou
o seu an jo para m ostrar aos seus servos as coisas que em
breve h ão de a c o n t e c e r (22.6; grifo do autor). E para se ter
um bom parâmetro, quatro versículos à frente João acrescen
ta: “Então me disse: ‘Não sele as palavras da profecia deste
livro, pois o tem po está próxim o’” (22.10, grifo do autor). Um
0 ponto de vista preterista ■ 91
iciardamento de milhares de anos anularia a sadia exegese des
sas claras declarações temporais.
2) A seqüência do Apocalipse supõe um estabelecim ento
no século i. Como observa Robert Thomas, há uma “antítese
principal en tre as duas m ulh eres nos ca p ítu lo s f in a is do
Apocalipse”.83 Minha compreensão dessa antítese é que a nova
Jerusalém está substituindo a antiga Jerusalém . A vinda da
Nova Jerusalém dos céus (caps. 21 e 22) deveria, logicamente,
seguir a destruição da antiga Jerusalém na terra (Ap 6— 11,14—
19), em vez de milhares de anos de espera.
Lembrem-se, as cenas de julgamento do Apocalipse focali
zam principalm ente Israel, a esposa de Deus do a t . Deus a
está julgando por rejeitar seu Messias (Ap 1.7; 5.1ss; 11.8; v.
Mt 23 .3 7 —24.2; Jo 19.12-16; G1 4 .25-31) e por perseguir seus
seguidores (Ap 6 .10-12; 16.6; 17.6; 18.24; v. Mt 23 .34-36 ; lTs
2.14-16). Isto é, ela está sendo castigada por cometer adulté
rio espiritual. O anjo fala a João que ela embriaga os habitan
tes da terra “com o vinho da sua prostituição” (Ap 17.2) que
inclui o ser “em briagada com o sangue dos s a n to s” (17.6).
Depois que Deus anuncia o seu decreto de divórcio (cap. 5),
ele condena a prostituição de Jerusalém com pena de morte
(caps. 6— 11; 14— 18) e é o anfitrião do banquete do casam en
to real (19.7-20); logo após, a nova Jerusalém aparece “prepa
rada como uma noiva adornada para o seu marido” (21.2).
3) A linguagem da nova criação sugere um am biente do
século i. A nova criação começa o curso na história antes da
consumação final (que estabelecerá uma completa e nova or
dem física, 2Pe 3 .10-13). A passagem da nova criação exem
plar, que serve como pano de fundo de João, é Isaías 65 .17 ,20 :
Pois vejam! Criarei
novos céus e nova terra,
e as coisas passadas não serão lembradas,
Jamais virão à mente [...]
Nunca mais haverá nela
uma criança que viva poucos dias,
e um idoso que não com plete os seus anos de idade;
quem m orrer aos cem anos
ainda será jovem,
e quem não chegar aos cem será maldito.
83Revelation 8—22 p. 569.
92 ■ Apocalipse
Aqui Isaías escreve claramente que essa nova criação ainda
experimenta o pecado, o envelhecimento, e a morte. Assim,
não pode recorrer ao céu ou à nova criação, consum ada e
eterna. Paulo usa linguagem semelhante à de João (Ap 21.1)
quando descreve a nova condição do cristão em Cristo: “Por
tanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas an
tigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2Co 5.17;
v. Ef 2.10; 4 .24 ; G1 6.15).
4) A teologia do n t sustenta um panorama do século i. No
n t , a igreja aparece como a noiva de Cristo (Ef 5 .25-28; 2Co
11.2; v. Jo 3.29). Essa nova noiva (a igreja internacional) deve
substituir a antiga esposa (a igreja alicerçada em um povo,
Israel). Essa mudança é finalizada dramaticamente em 70 d.C.,
quando Deus removeu o templo físico da terra. João retrata a
finalidade do ju lgam ento de Israel até mesmo como o ban
quete do casamento (Ap 19.9).
O n t antecipa essa m udança im inente daera do templo
tipológico para a nova era final de adoração espiritual:
Jesus declarou: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em
que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém
[...] No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os
verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade.
São estes os adoradores que o Pai procura” (João 4 .21 ,23 ).
A experiência de Pentecostes em Atos 2 se antecipa ao dia da
próxima vinda do Senhor contra Jerusalém por crucificar Cris
to (At 2 .16 -23 ,36 -40 ) .84 Veja a expectativa em Mateus 2 3 .3 6 —
24.3 ,34 ; 26 .64 ; Marcos 9.1; João 4 .20-24 ; Romanos 13 .11 ,12 ;
16.20; ICoríntios 7.26,29-31; Colossenses 3.6; ITessalonicenses
2.16; Hebreus 2.5; 10.25,37; 12.18-29; Tiago 5.8,9; lPedro 4.5,7;
e l jo ã o 2.17,18.
A no iva descrita
Mas que dizer de todas as expressões majestosas em Apocalipse
21 e 22? O preterista acredita que João está expressando, por
meio de uma imagem poética elevada, a glória da salvação.
84A presença de línguas estrangeiras em Israe! evidencia o julgamento de
Deus (Dt 28.49; Is 28 .11 ; Jr 5.15; ICo 14.21 ,22). Assim, a experiência de línguas
do Novo Testamento serve como um sinal da ira de Deus sobre ela.
0 ponto de vista preterista * 93
Nisso divergimos dos intérpretes que se esforçam em favor
do literalismo. Robert Thomas, por exemplo, escreve da cida
de de 1 500 milhas cúbicas (21.16): “Um tanto incrível à mente
humana [...] uma cidade de 2 200 quilômetros de altura e 2 200
quilômetros de cada lado é tão inimaginável como uma péro
la grande o bastante para servir como o portão da cidade ou o
ouro tão transparente como o vidro”.85 (Deveríamos observar
isso na exegese literalista, essa cidade é 1 920 quilômetros mais
alta do que as órbitas do ônibus espacial!) Novamente, as restri
ções de espaço permitem somente uma pesquisa breve sobre
o assunto.
A ausência do mar (21.1) fala de harmonia e de paz nesse
contexto . Nas Escrituras, o mar sim boliza, com freqüência,
discórdia e pecado (13.1 ,2 ; v. Is 8 .7 ,8 ; 23 .10 ; 57 .20; Jr 6.23;
46 .7 ; Ez 9.10). O cristianismo oferece o oposto: paz com Deus
e entre os homens (Lc 2.14; Rm 5.1; Ef 2 .12-18; Fp 4.7,9).
A ígreja-noíva é o tem plo-tabernáculo de Deus (Ap 21.3)
porque Deus mora nela; não há necessidade de nenhum tem
plo literal (2 1 .2 2 ; v. Ef 2 .1 9 -2 2 ; ICo 3 .16 ; 6 .1 9 ; 2Co 6 .16 ;
lPe 2.5,9). A antiga Jerusalém com seu tabernáculo/ templo
“feito por hom ens” (Hb 9.24) está chegando ao seu fim, en
quanto o novo tem plo de Jeru sa lém o su bstitu i (Hb 8 .13 ;
9 .11 ,24 ; 12.18-28). Isto finalizou em 70 d.C.
Hebreus 12 é uma passagem im portante para m ostrar a
mudança de eras (que é a mensagem da carta inteira). O autor
está escrevendo aos cristãos judeus que estavam correndo o
risco de apostatar, abandonando a Cristo para retornar ao ju
daísmo. Conforme se aproxima de sua conclusão, ele com pa
ra os dois mundos: o do judaísmo (12.18-20) e do cristianismo
(12.22-28). Sua descrição do cristianismo tem pontos de con
tato com João, em Apocalipse:
Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade
do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em
alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão es
critos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos os homens,
aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de uma
nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o
sangue de Abel [...]
85Revelation 8—22, p. 467.
94 ■ Apocalipse
Portanto, já que estam os recebendo um reino inabalável, seja
mos agradecidos e, assim, adorem os a Deus de modo aceitável,
com reverência e tem or (Hb 12 .22-24 ,28).
Apocalipse 21.1-8 informa que essa nova salvação da cria
ção remove as aflições (v. 4; v. ICo 15.55-58; lTs 4.13; Tg 1 .2
4), pois introduz o indivíduo na família de Deus (Ap 21.7; v.
Jo 1 .12,13; l j o 3.1-3), e traz vida eterna (Ap 21.6).
Apocalipse 21 .9—22.5 fala da majestade da noiva, a igreja.
Ela resplandece brilhantemente como a luz (21 .10 ,11 ; v. Mt
5.14-16; At 13.47; Rm 13.12; 2Co 6 .14 ; Ef 5.8-14). Ela é precio
sa a Deus e tão cara quanto o ouro e jó ias (Ap 21 .11 ,18 -21 ; v.
ICo 3.12; lPe 1.7; 2.4-7). Ela tem um alicerce seguro e paredes
inconquistáveis (Ap 21 .12-21 ; v. Is 26 .1 ; 60 .18 ; Mt 16.18; At
4 .11 ; ICo 3.10-15; Ef 2 .19,20). Assim, ela é destinada para ter
uma poderosa influência no mundo (Ap 21.16; v. Is 2.2-5; Ez
17.22-24; 47 .1 -11 ; Dn 2.31-35; Mq 4.1 ; Mt 13 .31 ,32 ; 28 .18-20 ;
Jo 3.17; ICo 15.20-28; 2Co 5.19). Ela é cuidada pela provisão
de Deus com a água da vida (Ap 2 1 .2 2 ; 22 .1 -5 ; v. Jo 4 .1 4 ;
7 .37 ,38 ; 6 .32-35). Assim, ela traz cura às nações pela sua pre
sença (Ap 22.2 ,3 ; v. Is 53.5; Ez 47 .1-12 ; Mt 13.33; Lc 4 .18 ; Jo
4 .14 ; GI 3.10-13; Hb 5.12-14; lPe 2.2,24).
CONCLUSÃO
Apesar de séculos de discussão, debate, e confusão em rela
ção a Apocalipse, o livro é ainda um dos 66 livros do cânon de
Deus. Merece nossa atenção, apesar de, às vezes, ser confuso.
Este é o único livro no n t que tem uma bênção ligada à sua
leitura (Ap 1.3). Precisamos ler cuidadosamente e estudar essa
maravilhosa obra de arte. No processo precisamos ser caute
losos quanto à extravagância descuidada de muitos populistas
m odernos .
O entendimento dos preteristas do Apocalipse está arrai
gado na hermenêutica confiável e em princípios teológicos —
e contém uma verificação histórica surpreendente. As observa
ções temporais do Apocalipse são levadas a sério (1.1,3; 22.6,
10,12), observa cuidadosamente o contexto histórico de Apo
calipse (caps. 2 e 3), e ouve atentam ente os profetas do a t
apocalíptico (Is 13; 34; Ez 32). Explica a enorme mudança re-
dentora-histórica da antiga para a nova aliança. Nesse pro
cesso o preterismo também fornece encorajamento aos crentes
0 ponto de vista preterista ■ 95
hoje, ao m ostrar os grandes ju lg am en to s do Apocalipse já
cumpridos, possibilitando e antecipando nossa com pleta e s
perança do futuro conforme a glória da igreja se desdobra na
história.
A p os içã o id ealista d e Sam Hamstra, tam bém denominada
de o “infinito sim bólico” ou “poético-sim bólico”, nega que o
Apocalipse e s te ja descrevendo um ob jetivo , e de modo a l
gum é um retrato histórico. Todavia, João pretende fornecer
um com pêndio não-histórico, a legórico, de várias verdades
redentoras significantes ou de princípios históricos. O Apoca
lipse, então, tenta fornecer o panorama atrás do cenário. Isto
é, apresenta um aspecto filosófico de assuntos espirituais en
volvidos na história, mais do que eventos históricos propria
mente dito.
Claro que, até certo ponto, esse ponto de vista poderia ser
verdade do m esm o tempo que quaisquer dos outros pontos
de vista, pois a história é na realidade a realização de princí
pios divinamente estabelecidos. Porém, não pode ser in ter
pretado apropriadamente se for posicionado isoladamente. O
Apocalipse parece estar tão preocupado com histórias co n
cretas que negligenciar com pletamente os eventos históricos
parece desafiar os fatos. O Apocalipse é tão longo e complexo
que esse ponto de vista seria parecido com o idealismo, se
isso fosse a intenção de João, pois ele poderia ter sido apre
sentado em um espaço m enor e sem dar essa aparência de
realidade histórica. Além disso, subestima os indicadores do
período do livro.
A visão futurista dispensacionalista de Robert Thomas abor
da o Apocalipse como uma série de profecias (começando em
Ap 4.1), que lidam com o futuro remoto em relação à época de
João. Essa visão compreende o Apocalipse como um livro pre
ocupado com os últimos assuntos históricos que o mundo e/
ou a igreja somente enfrentará antes do retorno de Cristo.
As fraquezas do futurismo incluem o seguinte: Remove qua
se totalmente a relevância do Apocalipse do público contempo
râneo de João, especialmente na época de seu grande sofrimento.Ele tem de reinterpretar fenômenos na época de João para fazê-
los ajustar-se aos tempos modernos. Negligencia as reivindi
cações da proximidade dos eventos no Apocalipse. Por não
estar sujeito à verificação histórica no momento atual, e assim
é impossível de falsificação; desse modo falha no princípio de
96 ■ Apocalipse
verificação filosófica que, de acordo com alguns pensadores, torna
isto filosoficamente sem sentido.
O ponto de vista do já/ ainda não vem do dispensacionalismo
progressivo em que C. Marvin Pate procura adaptar elementos
de cada um dos pontos de vista em um sistema. Como indi
quei anteriormente em minha apresentação, porém, o princí
pio do já/ ainda não pode ser sustentado em um trabalho tão
grande quanto o Apocalipse. Além disso, o Apocalipse reivin
dica especificamente o relacionar eventos “brevemente por vir”,
visto que “o tempo está próximo”. Por que não aceitar as decla
rações de João como se tivessem um valor real — especialmen
te, desde que ele os apresenta em suas seções didáticas, as
quais introduzem e concluem o seu trabalho?
O preterismo parece fornecer a mais coerente, pertinente e
exegeticamente confiável abordagem a esse que é o mais difícil
livro da Bíblia. O princípio preterista pode ser distorcido, claro
que — alguns liberais o adotam (isento de seu supernaturalismo,
logicamente), como também o princípio futurista — algumas
seitas milenaristas o adotam (e.g., mormonismo, Testemunha
de Jeová). O mesmo pode ser dito quanto aos princípios idea
listas e progressivos. A tarefa dos cristãos dedicados é exami
nar cuidadosamente os assuntos em conformidade com toda
a Bíblia.
2
0 ponto de vista
I d e a l is t a
■ Sam Hamstra Jr.
IDEALISTA1
A P O C A L IP S E H O W 2
Neste tempo que estamos vivendo, o ser hum ano precisa de
segurança. Atualmente, é preciso ter esperança, porque as co i
sas não são como realmente deveriam ser; as dificuldades a fe
tam nossa vida em todos os aspectos.3 Entre o s muitos pro
blemas, uma doença que está matando a mulher ou o marido,
o filho que rejeitou a fé pela qual morreria, a filha que é a s s e
diada por um homem casado que tem um cargo na igreja, e
seu cargo profissional de gerência que foi despedido devido
à redução de custos. Além dessas calam idades, a luxúria, a
ganância, e o orgulho estão entrincheirados no vazio do seu
ser e afetam todo o seu pensamento e atitudes. Sua esperança
para se assemelhar a Cristo está desvanecendo.
'Este capítulo é um sumário da obra de diversos estudiosos da tradição idealista.
Como leitura adicional recomendo: Raymond Calkins, The social message of the Book o f
Revelation (New York: The Womans Press, 1920); William Hendriksen, More than Conquerors:
An Interpretation of the Book of Revelation (Grand Rapids: Baker, 1944) [Publicado em
português com o título Mais que vencedores (São Paulo: Cultura Cristã, 2001)], e Three
lectures on the Book o f Revelation (Grand Rapids: Zondervan, 1949); William Milligam, The
Revelation o f St. John (London: MacMillan, 11*6), Lectures on the Apocalypse (London:
MacMillan, 1892), e Discussions on the Apocalypse (London: MacMillan, 1893); e Ame
Unjhem, The Book of Revelation (Philadelphia: Lutheran Church Press, 1967).
20 título do filme de 1979, escrito por John Milius e Francis Ford Coppola,
serve como um bom título para esta seção, entretanto qualquer semelhança
entre os dois é mera coincidência. [Não traduzim os o su btítu lo acima por
Apocalipse Agora porque no Brasil o filme manteve o título original (N. do E.)]
3Cornelius P l a n t i n g a J r ., Não era para ser assim: um resum o da dinâmica c
natureza do pecado, São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
100 ■ Apocalipse
Politicamente, está claro que vivemos em uma sociedade
pós-cristã. As escolas públicas não têm lugar para Deus. Os
tribunais lutam entre o direito de escolher e o direito de mor
rer. Grupos distintos exercem influência junto às autorida
des em prol do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A
herança judeu-cristã de nosso país é uma lembrança. De for
ma global, a e s ca s se z , a fome, e as doenças ceifam in d is
crim inadam ente a vida de crianças e adultos, de crentes e
incrédulos. Direitos humanos básicos são violados à medida
que o rico oprime o pobre, e o poderoso o fraco. A principal
indústria no planeta é a guerra, privando o mundo de uma
nova geração de líderes talentosos, enquanto homens e mu
lheres jovens caem mortos, não em campos abertos de bata
lha com o nos sécu lo s passados, mas em ruas de cidades
flanqueadas por espectadores inocentes.
Finalmente, a igreja de Jesus Cristo, seu amor e sua vida,
cedeu em suas convicções, perdeu sua referência, e diminuiu
sua influência, a ponto de a palavra de um papa ser negligen
ciada e a palavra de um missionário resultar em sua morte.
Cada geração de fiéis se distancia cada vez mais do entusias
mo e da convicção daqueles que os precederam. A igreja local
não fica para trás também, pois sofreu sua segunda divisão —
a primeira porque o pastor foi pego na cama com a organista
da igreja, e a segunda porque alguns preferem o céu para
todos em vez do inferno para alguns. Outras congregações
oferecem pouca esperança. Sofrem de indiferença, uma con
dição pior do que a oposição direta à fé.
Você mora em uma ilha chamada Patmos. Como Davi, você
clama “Meu Deus, por que me abandonastes?” Como Jó, você
pergunta a si m esm o por que o ímpio e o mal prosperam.
Como os santos ao longo das gerações, você questiona a so
berania de um Deus que prometeu vida abundante em Jesus
Cristo. Você precisa de uma palavra do Senhor.
O Deus da graça, que estabeleceu aliança com suas crian
ças, ouve seu clamor e responde com uma série de visões,
reunidas em um livro chamado o Apocalipse de João. A m en
sagem transmitida por essas visões é simples: embora, neste
momento, os filhos de Deus sofram em um mundo onde o
mal parece ter o controle, Deus é soberano e Jesus Cristo foi
vitorioso. Sim, você sofre como morador deste mundo que carre
ga a marca do pecado de Adão. Sim, você sofre perseguição
0 ponto de vista idealista ■ 101
como propagador do evangelho, mas Deus o Pai o preservará
c o protegerá como também a cada um de seus filhos de modo
que nenhum se perca.4 Além disso, Cristo executará a última
vitória sobre Satanás e suas hostes, quando ele julgará e pu
nirá os perversos. Então, agüente firme. Não desista. Perma
neça fiel ao seu chamado como um filho de Deus. Viva pela fé,
não por você mesmo, porque seu Senhor soberano derrotou
Satanás. Você reinará com Cristo, porque o reino deste mun
do se tornou o reino de nosso Senhor, Jesus Cristo.
Esta palavra do Senhor vem como nenhuma outra. Não vem
na forma de carta, como aquela do apóstolo Paulo que, afirma
palavras de esperança — “nem qualquer outra coisa na cria
ção será capaz de nos separar do amor de Deus que está em
Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39), e “sabemos que Deus
age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos
que foram chamados de acordo com o seu propósito” (8.28).
Você não recebe uma simples declaração da verdade como a
de Efésios 6.12: “Pois a nossa luta não é contra seres huma
nos, mas contra os poderes e autoridades, contra os domina
dores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do
mal nas regiões celestiais”. Tampouco recebe uma palavra re
confortante de vitória nos relatos históricos da vida de Cristo
que proclamou vitória sobre o mundo (Jo 16.33). Mais propri
amente, pela inspiração do Espírito Santo, você recebe a m en
sagem de Deus por uma série de visões que desfilam perante
seus olhos como um filme animado, impressionando-o com
desenhos gráficos e símbolos coloridos.
Os estudiosos descrevem essa apresentação pictórica da
verdade como apocalíptica, um estilo de com unicação e e s
crita caracterizada por cores que intensificam o relato, ima
gens vividas, s ím bolos exclusivos, um enredo simples, um
herói, e um final feliz. Assim,em Apocalipse você conhece
anjos, animais e números. Vê raios e ouve trovões. Presencia
terremotos e batalhas. Observa o cintilar das jóias e uma mu
lher vestida com o sol que enfrenta um terrível dragão. Vê um
cavaleiro em um cavalo branco e ouve a letra do coro. Aleluia.
Você aborda a literatura apocalíptica de forma distinta da
que faria com uma carta ou um dos Evangelhos. No Apocalipse,
4The H eidelberg cathecism question and answer, p. 54.
102 ■ Apocalipse
as palavras substituem pigmentos e pincéis para criar uma
imagem p ro jetada para visualizar grandes princípios, não
incidentes particulares. Ao resistir à tentação de analisar a
imagem descrita em cada visão, você permite que a visão
como um todo o impressione. E certamente impressionará. O
Apocalipse de João, como parte do cânon bíblico, a Palavra
inspirada de Deus para seus filhos, iluminará de uma manei
ra nova os relevantes ensinamentos encontrados ao longo da
Bíblia.
Em tem pos como estes, você precisa de uma palavra do
Senhor. Você não precisa de uma lição de história da igreja
militante do século i, tampouco do último século. Você não
precisa de uma visão profética de um dia que você jam ais
experimentará nesta vida. Neste momento, em sua luta com
o pecado e o mal, você precisa de uma palavra cheia de e s
perança do Senhor. Você precisa do Apocalipse de João n es
te exato momento.
Alguns abordam o Apocalipse de maneira diferente. Tal
vez, ingenuamente, seguros em suas casas luxuosas, eles se
desviam do mal e do pecado que desolam seus irmãos em
Cristo por todo o mundo. Pensam que estão em paz, após ter
aprendido o hábito de uma atitude mental positiva. Não pre
cisam de palavra de conforto e esperança. Então, abordam o
Apocalipse como uma lição de história, memorizando trom
betas e taças assim como presidentes e guerras, ou abordam
o Apocalipse como um quebra-cabeça com milhares de peças
pequenas. Como lazer, tentam ajuntar os selos, as bestas, a
prostituta e as pragas. Não são abençoados pelas visões colo
ridas, porque nunca são impressionados pela visão como um
todo. Ficam apenas confusos porque não podem ajuntar as
peças.
Porém, deixe que a dificuldade bata à sua porta e o Apoca
lipse se torna tão precioso quanto era para João na ilha de
Patmos. O livro do Apocalipse é para fiéis como você e o após
tolo João, que acreditam que seguir o Senhor é um modo de
contradição que penetra seus pensamentos mais íntimos, até
mesmo à medida que são curados com paz.5 É para os crentes,
como no século i, cuja única conquista foi a firme resistência
5Wilfrid J. H a r r i n g t o n , Understanding the Apocalypse, Washington, D.C.: Corpus
Books, 1969, p. 56-8.
0 ponto de vista idealista ■ 103
sem uma real evidência de vitória. É para o crente que duvida
da soberania de Deus, duvida da influência da igreja, e teme o
poder do mal. A esses leitores, o Apocalipse oferece uma m en
sagem de promessa, esperança, e vitória.
REVISÃO DO A P O C A L IP S E6
In trodução (Ap 1.1-20)
O capitulo de abertura do Apocalipse apresenta ao leitor o
livro inteiro e guarda a chave de sua interpretação. Pode ser
dividido em três partes: a introdução, a saudação e a visão
inicial de Jesus ressurreto.
A introdução (v. 1-3) transmite cinco conceitos importantes:
1) Informa-nos que o livro não se originou de qualquer ser
humano. É revelação de Deus o Pai e Deus o Filho, enviado a
João pela ação sobrenatural de um anjo. Esse fato se provará útil
ao leitor, quando for levado a rejeitar elementos fundamentais
do Apocalipse, como a destruição total do mal, que parece in
consistente com nosso entendimento limitado da divindade.
2) O narrador ou autor do Apocalipse é João. Embora o li
vro contenha pouca informação biográfica sobre o autor, qua
se todo estudioso ao longo dos séculos acredita que João é o
apóstolo amado de Jesus, o autor do quarto Evangelho e das
três cartas. A evidência intrínseca do livro parece consistente
com essa conclusão.
3) A introdução informa que o Apocalipse contém uma mis
tura de estilos literários. É predominantemente apocalíptico (v.
1), mas também profético (v. 3) e epistolar, conforme compro
vado pelas referências tradicionais de saudação e de bênção.
Como livro apocalíptico, os símbolos empregados nas várias
visões são ferram entas para a com unicação de preceitos, e
podem não ter conexão histórica com qualquer evento especí
fico. Porém, um símbolo pode constatar o cum prim ento de
um evento histórico ou pessoal sem exaurir seu significado.
4) O livro se destina a abençoar o leitor. Para muitos, inclu
sive eu, o Apocalipse é uma fonte de frustração. Os cristãos
6Uma vez que não há consenso em relação ao esboço do livro, utilizo,
geralmente, o esboço fornecido nas notas de estudo para o livro de Apocalipse
na Bíblia de estudo n v i (São Paulo: Vida, 2003 ; no prelo).
104 ■ Apocalipse
passam horas lutando com a identidade do anticristo, o perí
odo da tribulação, e a natureza do milênio. No fim, a leitura
do texto raramente conduz a bênçãos, mas somente co n fu
são. João assegura que suas visões são registradas para nos
abençoar. Assim, ele ilustra sua tend ência literária para a
tríade: abençoados aqueles que leram, ouvem, e guardam no
coração o que está escrito.
5) A introdução relata a urgência. O Apocalipse revela “o
que em breve há de acontecer” (1.1; 22.6), porque “o tempo
está próximo” (1.3). Essas palavras confirmam várias aborda
gens ao Apocalipse, incluindo a idealista, que está convencida
de que o Apocalipse descreve a era completa entre a primeira
e a Segunda Vinda de Cristo.7
A sau d ação (v. 4-8), que segue o típico estilo epistolar in
troduz os destinatários da carta. João seleciona sete congre
gações por razões somente conhecidas por ele. Ele pode ter
visitado cada uma delas durante os anos que permaneceu em
Éfeso, porque todas as sete estão localizadas na região da Ásia
Menor, da qual Éfeso era a capital.
João endereçou a carta intencionalmente às sete congregações,
em vez de cinco, nove, ou onze. O número sete aparece com
freqüência no decorrer do livro. Seu uso não é acidental. Em gran
de parte do mundo antigo, certos números, especialmente entre
os dez primeiros, eram universalmente associados a determina
das idéias. Conforme avançamos, constataremos essa veracida
de dos números três, quatro, sete, dez e doze. Porém, o número
sete ultrapassa todos os outros, tanto na freqüência pela qual
ocorre, quanto na importância dos objetos com os quais é asso
ciado. O número sete representa totalidade, plenitude e perfei
ção. Na saudação, portanto, as sete congregações representam a
7Observe a inconsistência dos outros pontos de vista esboçados neste livro
com respeito a Apocalipse 1.1,3 . Ironicamente, Thomas propõe uma interpreta
ção literal do Apocalipse, entretanto oferece uma compreensão simbólica “do que
irá acontecer em breve”. Gentry propõe uma abordagem simbólica do Apocalipse,
mas oferece uma interpretação literal de 1.3. Para Thomas, neste caso, signifi
ca “o que deverá acontecer em breve”, ao passo que para Gentry já ocorreu. A
abordagem do j á / ainda não, de Pate, lhe permite concordar com Gentry e
T h om as, m as sua in te rp re ta çã o não p erm ite qualquer cum prim ento , do
Apocalipse entre a primeira e Segunda Vinda de Cristo. A abordagem idealista
afirma que Gentry tem razão: Em breve significa em breve! O idealista também
concorda com Pate: O período de cumprimento não deveria ser limitado à
época do relato do escritor.
0 ponto de vista idealista ■ 105
igreja de Jesus Cristo em cada país do mundo até o final dos
tempos.
A saudação também inclui uma bênção consoladora, na qual
João ora para que os leitores recebam a graça da paz, aquela
profunda promessa para o âmago de nosso ser que permane
ce tranqüilo mediante as dificuldades externas. Esta é a paz de
Cristo dada pelo Espírito Santo, os sete espíritos, à medida que
atua na igreja.
Finalmente, a saudação énotável pelo incentivo instantâ
neo de um Deus soberano, o Alfa e o Ômega, que reinam com
Jesus Cristo, o soberano dos reis da terra. O tema de um Deus
soberano é o âmago do livro e reaparecerá de várias formas.
João combina a primeira e a última letra do alfabeto grego
como expressão simbólica, que afirma o Senhor como o pri
meiro e o último, o com eço e o fim e qualquer coisa entre
esses pontos. Essa afirmação confronta a dura realidade que
pode fazer até mesmo o mais dedicado crente questionar se
este é o mundo de nosso Pai. Além disso, Deus o Filho, o ca
beça vitorioso da igreja, também está reinando com supre
macia. Agora, no meio de nosso sofrimento, ele não pode ser
visto, mas, como veremos, ele aparecerá em glória.
A visão inicial do Cristo exaltado (v. 9-20) é o foco ou centro
da primeira visão. Nossa imaginação vai além da capacidade,
conforme tentamos imaginar o Cristo descrito por João, cujo
uso freqüente da palavra “semelhante” adverte que não deve
ríamos entendê-lo literalmente. Ele usa linguagem terrena para
descrever o que está além de descrição. O resultado final é
uma imagem brilhante do Cristo exaltado que derruba João
por terra. Uma verdade fica clara: o Cristo nessa visão não é o
Jesus do Evangelho de João, quer dizer, Jesus em um estado
de hum ilhação. Em Apocalipse, Je su s é o Filho do hom em
vestido com m ajestade e armado com uma espada de dois
gumes, a Palavra, para a batalha contra aqueles que se recu
sam a se arrepender (2.16).
Há vários e lem entos fundam entais adicionais à primeira
visão de João. 1) João se une a seus leitores assegurando que
compartilha a tríade no sofrimento, no reino e na perseveran
ça (1.9). Como discípulos de Jesus, eles suportam as aflições
preditas pelo seu Mestre (Jo 15.20; 16.2).
2) João é comissionado como profeta do n t na tradição hon
rada do a t . Igual a Ezequiel, Deus comissionou João por inter
médio de uma visão para levar uma palavra profética ao povo.
106 ■ Apocalipse
A voz deu instruções para que João escrevesse o que viu — isto
é, a visão do Filho do homem, a condição das sete congregações
e o que está por vir.
3) João recebe ordem para registrar sua visão em um livro
para os crentes em sete congregações específicas. O fato de
haver somente um livro, em vez de sete, confirma que o livro
é para toda a igreja cristã. As sete mensagens que se seguem,
deveriam ser lidas juntas e não de forma isolada.
4) O Cristo exaltado anda entre os sete candelabros doura
dos (v. 12), que representam as sete congregações na Ásia Me
nor. Além disso, ele segura sete estrelas em sua mão direita,
talvez uma referência para a liderança pastoral dessas com u
nidades cristãs. A lição fica clara: a verdadeira igreja é sempre
a candeia, irradiando a luz do evangelho glorioso de Cristo para
ser disseminado em um mundo imerso nas trevas.8
As cartas às igrejas (A p 2.1— 3.22)
Visto que o Cristo exaltado tem uma espada de dois gumes
saindo de sua boca, aguardam os uma palavra do Filho do
homem. A primeira m ensagem é para as sete congregações
da Ásia Menor (1 .11) . Essas co n g reg açõ es podem ter sido
selecionadas por uma razão prática.9 Se traçarmos uma linha
no mapa das sete cidades na ordem pela qual foram designa
das, constatam os que seguimos uma rota aproximadamente
circular pelo que era, inegavelmente, as regiões mais impor
tantes da província da Ásia. Se o livro de João fosse enviado
ao longo dessa rota, alcançaria o maior número de pessoas
em um período mais curto de tempo, e este fato pode ter re
presentado um fator na seleção e designação das igrejas. No
entanto, por serem designadas sete, em vez de oito ou nove,
isso sugere que outra idéia este ja em prática agora.10 Como
observado anteriormente, o significado simbólico do sete como
perfeição sugere que o autor está falando da igreja a todo o
momento e em todos os lugares.
8H e n d r i k s e n , Three lectures on the book o f Revelation, p. 1 5 . ■
9U njhem, Book o f Revelation, p. 66.
10Edwin A. S chick , Revelation: the last book of the Bible, Philadelphia: Fortress,
1 9 7 7 , p . 2 7 .
0 ponto de vista idealista ■ 107
A descrição das sete igrejas desse tempo é uma franca ilus-
i ração do que pode acontecer na vida congregacional c o n s
tantemente e em todos os lugares. As cartas forn ecem um
olhar mais íntimo da noiva de Cristo, o que ajuda o leitor a
entender sua origem divina e a fragilidade do ser humano.
Pelas cartas, testemunhamos sua graça e defeitos, seu zelo e
indiferença, suas alegrias e tristezas, sua proteção por Cristo
e a vitória final após muitas lutas.11 Claro que as sete ilustra
ções dos problem as congregacionais não se igualam a um
catálogo completo das possibilidades de fracasso. Os perigos
para as igrejas da Ásia foram relacionados às condições da
quela parte do mundo naquele tempo. Os perigos para as igre
jas de hoje estão relacionados às con d ições de vida com o
existem aqui e agora. Mas o significado desses perigos é sem
pre o mesmo: qualquer outra coisa (não importa o quê) pode
desviar a atenção da igreja em relação a Cristo, a verdadeira
vida e significado da igreja, onde quer que ela es te ja .12
Cristo é o mensageiro apropriado, porque ele é o Senhor da
igreja (1.12,13), que sabe (2.2) o caráter e a vida de cada congre
gação, como também a posição e os problemas de cada mem
bro. Ele está atento à fragilidade da vida e é compassivo com os
que lutam, mas não tolera qualquer forma de falso cristianismo.
Em conseqüência disso, a igreja tem de se sujeitar a todo mo
mento ao exame minucioso. Introspecção, confissão, arrependi
mento, e renovação caracterizam sua vida. Esse ritual sagrado
se torna possível por intermédio de um Salvador compassivo
que conhece todo apóstata arrependido, embora condene o im-
penitente constantemente.
0 trono e o Cordeiro (Ap 4.1— 5.14)
Quando passamos para a terceira parte do livro, João fornece
uma visão que afirma a soberania de Deus, que mantém as
co isas deste mundo em suas mãos. Essa visão serve como
pós-escrito à visão anterior e como prelúdio para tudo aquilo
que se segue. A igreja que leva a luz do evangelho de Cristo
“ William M i l l i g a n , The book o f Revelation, New York: A. C. Armstrong, 1893,
p. 838.
12Abraham K u y p e r , The Revelation o f St. John, Grand Rapids: Eerdmans,19(>4,
p. 27-31.
108 ■ Apocalipse
para o mundo, como prescrito na visão anterior, experim en
tará tribulação (v. a visão dos selos). Porém, não importa o
que a igreja suporta no mundo, ela nunca deveria esquecer
que Deus é soberano. No meio da prova, a igreja deveria con
templar aquele que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Essa visão fornece várias lições adicionais. 1) No capítulo 4
entramos no corpo principal do livro. Reconhecemos, imediata
mente, a mudança no estilo literário. Agora, estam os lendo
literatura apocalíptica. Nossa primeira indicação é a referên
cia de João à sua visão. Outra é a maneira pela qual a cena
toma o lugar das palavras. Como literatura apocalíptica, bus
camos entender as impressões que a visão deixa, em lugar de
analisar cada detalhe. Olhamos para o ponto principal para não
sermos confundidos pelos detalhes. Além disso, não estabele
ceremos ensinos doutrinais exclusivos em símbolos que são
difíceis para um cristão do nosso século entender. Seguindo as
boas diretrizes de hermenêutica, reconhecemos que a doutri
na deve ser estabelecida pelo ensino claro da Bíblia. Por conse
guinte, o Apocalipse apoiará doutrinas alheias em lugar de criar
novas.
2) Esses capítulos fornecem uma função importante como
introdução aos capítulos 6—20. A visão contida neles estabe
lece a perspectiva, que deve governar o restante das visões.
Elas proporcionam uma sempre-presente visão de esperança
e vitória com Deus no trono que deveria proteger o leitor do
desânimo ou do desespero à medida que continua pelo res
tante do livro.
3) A palavra “trono” predomina nessa visão. O termoocor
re 4 6 vezes no livro, 19 vezes nessa visão e 17 vezes com
referência ao trono de Deus no céu. Note que o trono no céu é
posicionado no centro, não do céu, mas do universo. “Todas
as criaturas existentes no céu, na terra, debaixo da terra e no
mar, e tudo o que neles há” adoram o Cordeiro (5.13). O uni
verso é teocêntrico.
4) Deus o Pai se assenta no trono, mas João não pode descrevê-
lo. Assim, descreve seu aparecimento brilhante semelhante a
jaspe e sardônio (4.3). A luminosidade da jó ia retrata a m ajes
tade de Deus.
5) A adoração domina a visão. Uma grande congregação se, une
em adoração. O grupo inclui quatro criaturas vivas que repre
sentam todas as criaturas vivas. Também inclui a comunidade
0 ponto de vista idealista ■ 109
inteira dos remidos, representada por 24 anciões usando ves
timentas de santidade e coroas de vitória: os doze patriarcas
da era do a t e os doze apóstolos do período do n t (21 .12,14),
6) Jesus Cristo é o redentor triunfante que governa o uni
verso inteiro do trono (Ef 1 .22,23). Os sete chifres e os sete
olhos s im bolizam sua autoridade com pleta , onipotência , e
onipresença no mundo. Ele controla o futuro, o livro está em
suas mãos. Agora o Cordeiro entra em ação e abre os selos.
Os sete selos (Ap 6.1— 8.1)
A visão dos selos nos leva de uma perspectiva gloriosa do
universo centrada ao redor do trono de Deus a um mundo
repleto de dificuldades. É a luta terrestre, como já é esperado.
Sempre que a igreja for fiel ao seu chamado como luz no mun
do, a tribulação se segue. À parte disso, a igreja está no mundo
e sofre com as dificuldades da guerra, da doença, e da fom e.13
A igreja sofre igualmente os ataques diretos do mundo e as
aflições comuns de uma era contaminada pelo pecado.
Os selos não seguem em sucessão cronológica. Cada um
deles não pertence a um tempo específico. Lembre-se, para
João o tempo entre a primeira e Segunda Vinda é curto, e tudo
quanto acontecer deve vir brevemente. Por isto, a visão trata
da história inteira da igreja e do mundo ao longo da era cris
tã.14 A visão não fornece detalhe algum de guerras específicas,
doenças, matanças ou dificuldades. Tudo foi descrito em ter
mos gerais. Os sím bolos representam forças que estiveram
conosco todo o tempo. Todos nós as conhecemos e todas as
gerações antes de nós as conheceram também. Elas podem
ter percorrido silenciosamente todo o cenário e saído para os
bastidores, na escuridão, mas não as esqueceremos.
A visão dos selos ilustra as calamidades que recaem sobre
os filhos de Deus até mesmo quando o Deus providente se
assenta em seu trono. As calam idades requerem ilustração.
Estatísticas sobre desastres morais e naturais podem ser in
diferentes. João nos choca com símbolos que começam com
quatro cavaleiros emprestados do profeta Zacarias (Zc 6.1-8).
13H e n d r i k s e n , More than conquerors, p. 9 9 .
) 4 M h . l j g a n , The book o f Revelation, p. 8 6 0 .
110 ■ Apocalipse
A abertura do primeiro selo introduz o primeiro de quatro
magníficos cavaleiros que surgem no cenário sem uma pala
vra ou ação. O primeiro cavaleiro usa uma coroa e segura um
arco enquanto se desloca, pronto para a conquista, em um
cavalo branco. Há várias opções concernentes à sua identida
de, mas a mais atraente é Jesus Cristo.15 Essa afirmação é b a
seada no retrato de Cristo como o conquistador em 5.5 e na
cor do cavalo. O branco normalmente é uma cor associada ao
que é santo e divino, como artigos de vestuário, nuvens e um
trono. Além disso, essa opção se ajusta ao tema do Cristo Ven
cedor que, como um fio, alinhava o livro.16
A abertura dos próximos três selos apresenta três cavalei
ros adicionais em diferentes cavalos coloridos. Há um co n
senso entre intérpretes idealistas do Apocalipse a respeito de
suas identidades. Os três cavaleiros ilustram a desintegração
da civilização humana e da criação, como resultado da rejeição
do Cordeiro de Deus. O cavalo vermelho representa matança
ou guerra; o cavalo preto representa privações econômicas e
pobreza, talvez por causa da injustiça; o cavalo branco repre
senta morte, fome, e doença. Juntos esses cavaleiros desta
cam as angústias que afligem os seres humanos pecadores
que moram em um mundo dominado pelo mal. Os cavaleiros
são instrumentos do governo moral de Deus.17 Embora os pro
blemas venham devido à rejeição injusta do Cordeiro, eles po
dem afligir o justo , apesar de Deus estar assentado em seu
trono.
O quinto selo ilustra a perseguição ao crente. As almas po
dem ser daqueles perseguidos pela matança e pelo sofrimen
to, representados nos selos anteriores. O crente, com vestes
brancas, que simbolizam retidão e santidade, deve suportar
até o tempo de ju lgam ento. Esse dia não virá até que cada
pessoa eleita se ja levada à congregação de fiéis e o número de
mártires esteja completo.
Por conseqüência, o sexto selo introduz o dia de julgamento.
Descreve uma grande catástrofe ao término desta era. O ter
ror desse dia é retratado pelo símbolo de um universo em
15H e n d r i k s e n , More than conquerors, p . 1 1 4 .
16V. Ap 1 . 1 3 s s ; 2 . 2 6 , 2 7 ; 3 . 2 1 ; 5.5; 6 . 1 6 ; 7 . 9 , 1 0 ; 1 1 . 1 5 ; 1 2 . 1 1 ; 1 4 . 1 s s . , 1 4 s s . ;
1 7 . 1 4 ; 1 9 . 1 1 ; 2 0 . 4 ; 2 2 . 1 6 . '
17Albertus P i e t e r s , Studies o f Revelation, Grand Rapids; Eerdmans, 1 9 5 0 ,
p. 1 1 7 .
0 ponto de vista idealista ■ I I I
destruição e uma raça humana amedrontada. Em Apocalipse
aprendem os que o Cordeiro de Deus é vitorioso, que Deus
julgará cada adversário que perseguir a igreja, e que a ira de
Deus é tão terrível que cada oponente do Senhor se refugia
embaixo de pedras cadentes.
Agora esperamos o sétimo selo ser aberto, mas o estilo de
João é tal que, antes de qualquer manifestação crítica da ira
de Deus, ele fornece uma visão de conforto e esperança.18 João
segue o padrão de Ezequiel que logo antes da destruição de
Jerusalém , descreveu a p reservação do crente no meio do
julgamento do iníquo. A mensagem dessa visão é simples: A
igreja universal — isto é, os 144 000 selados — estão seguros
no meio do ju lg am en to do iníquo provocado pelos quatro
ventos.
A identidade dos selados, como a igreja universal, necess i
ta de evidências:191) O Apocalipse não distingue entre cristãos
ju d e u s e g entios . Jo ão não ap re sen ta nenhum a ten d ên cia
particularista em contradição com o universalismo do Evange
lho. Para João, a igreja é uma só; 2) João tende a espiritualizar
nomes judeus e imagens, como em 21.12, onde as doze tribos
claramente incluem todos os crentes; 3) O número dos remi
dos, múltiplo de mil, é simbólico de um número grande de
indivíduos que, apesar da rejeição do mundo, aceitaram o Cor
deiro e têm o selo de Deus em suas testas.20 O número, múlti
plo de doze, ta m b ém é s im b ó l ic o , r e p re s e n ta p e r fe içã o ,
indicando que nenhum membro da igreja será perdido.21
Enquanto uma multidão rejeita o Cordeiro e descobre que
seu modo de vida foi um engano terrível, há aqueles que
aceitam o Cordeiro, que têm o selo de Deus em suas testas e
a herança do futuro. Essa perspectiva transm ite significado
e propósito aos seguidores do Cordeiro na terra. Como nos
prim eiros seis selos, essa visão não aponta para qualquer
período específico na história, nem descreve qualquer série
específica de eventos no futuro próximo ou distante. Antes,
fala da situação em todos os períodos históricos. A d escri
ção de d esastres naturais não é uma pré-estréia do fim do
18M i l l i g a n , The Book o f Revelation, p . 8 6 1 .
19Ibid.
20U njhem, Book o f Revelation, p . 1 0 3 .
21M i l l i g a n , The book o f Revelation, p. 8 6 3 .
112 ■ Apocalipse
mundo, mas uma maneira vivida de dizer que até a natureza
não m anterá aqueles que re je itam a redenção de Deus em
Cristo.22
As sete trom betas (Ap 8.2— 11.19)
Agora que as duas visões de conforto e esperança estão com
pletas, João retorna aosétimo selo, cuja abertura apresenta a
próxima visão das sete trombetas. Essa visão retrata o castigo
que espera os perseguidores da igreja.23 Começa com o silên
cio no céu, que focaliza a atenção no que está quase revelado
(8.1). A presença de trom betas dá ênfase adicional à impor
tância do que irá acontecer, porque no a t o som da trombeta
simbolizou, com freqüência, a intervenção de Deus no mundo
(Is 27 .12 ,13). As orações de todos os santos (Ap 8.3-5) refle
tem que o destino do povo escolhido é a preocupação essen
cial em tudo aquilo que está para acontecer.24 Há também uma
conexão com a visão dos selos: Deus ouviu as orações dos
santos perseguidos e respondeu com o castigo dos ímpios.
Temos de resistir à tentação de associar cada trombeta com
uma data particular ou pessoa na história.25 As trombetas in
dicam uma série de acontecimentos ou calamidades que acon
tecerão novamente e, mais uma vez, ao longo da existência
terrena da igreja. Por exemplo, o granizo e o fogo misturados
com sangue que destroem um terço da terra são símbolos de
todos aqueles desastres que são usados por Deus para adver
tir o perverso para se abster de sua maldade (9.21). De modo
semelhante, a grande montanha em chamas simboliza todos
os desastres do mar por meio dos quais Deus am eaça d es
truir o ímpio. O Senhor usa a terra, o mar, os rios, o sol, a lua,
as estrelas, a profundidade do abismo, o campo de batalha e a
ameaça de julgamento vindouro para advertir os inimigos de
seus amados. Ele os aflige com advertências de ju lgam ento
em sete partes do universo, cada um descrito por uma trom
beta. Assim, as trombetas não simbolizam eventos únicos e
22U njhen , Book o f Revelation, p. 103-5.
23H e n d r i k s e n , Three lecturers on the book o f Revelation, p. 1 7 . -
24U njhem, Book o f Revelation, p. 105.
25H e n d r i k s e n , Three lecturers on the book o f Revelation, p . 1 8 .
0 ponto de vista idealista ■ 113
isolados, mas testes que podem ser encontrados a qualquer
hora e em qualquer lugar.
Várias observações importantes deveriam ser feitas sobre
,is trombetas. 1) O julgamento da trombeta não é final e com
pleto. Note o uso penetrante da fração “um terço” que ocorre
16 vezes no Apocalipse, 15 vezes nessa cena. O castigo de
cada trombeta, embora incompleto, é uma advertência sufici
ente para os ímpios.
2) As trombetas do julgamento afetam cada parte do uni
verso. Em parte alguma há segurança para os perversos.26
3) Os julgam entos são expressos em linguagem semelhan
te para as dez pragas no Egito, contudo a descrição no Apocalipse
é mais terrível. Por exemplo, o granizo e o fogo são mistura
dos com sangue; os gafanhotos atormentam, não a grama da
terra, mas os perversos. Uma semelhança entre as pragas e as
trombetas é que praga alguma fere os crentes.27
Os prim eiros quatro toques da trom beta (8 .7 -12) fazem
surgir vários tipos de desastres físicos. O universo inteiro é
usado pelo Senhor para advertir aqueles que rejeitam o Cor
deiro de Deus e perseguem os filhos de Deus. Ninguém preci
sa exp licar e s s e s fe n ô m e n o s com o e v e n to s n atu ra is que
acontecerão algum dia. Para qualquer um, a visão comum na
quele momento era de que a terra é plana, o céu está acima, e
o mundo é igual a uma tigela invertida, cujo perímetro con-
lém todos os corpos celestes. Os desastres físicos apontam
para longe de si m esm os como a ju s t iça divina. Como nos
relatos do a t sobre o Dilúvio ou as dez pragas, calamidades
naturais são a conseqüência da desobediência e rebelião. Deus
tem muita razão para usar a natureza como instrumento de
advertência e castigo. Afinal de contas, aqueles que se rebe
lam com freqüência contra Deus se voltam para o mundo para
encontrar sentido e propósito. Usada de tal modo, a natureza
é um fundamento para a rebelião contra Deus. Porém, Deus
lembra o impenitente que a natureza não oferece segurança e
esperança à humanidade.28
Há um breve intervalo depois da quarta trombeta. João vê
e ouve uma águia, que em voz alta e clara diz ao mundo que
26H endriksen, More than coquerors, p. 141.
27Ibid.
28U njhem, Book o f Revelation, p. 105-6.
114 ■ Apocalipse
os próximos três julgamentos serão piores que os primeiros
quatro. A quinta e sexta trom beta acrescentam terrores de
m oníacos, conform e João descreve: o desespero brutal e o
horror da ex istência humana separada de Deus (9 .1-21). A
quinta trombeta oferece uma visão de terror e destruição e,
ao mesmo tempo, revela o decreto permissivo de Deus que
permite ao príncipe das trevas encher o mundo com a influên
cia e a atividade de demônios, simbolizado pelo poder destrutivo
dos gafanhotos que ferem os não selados. O coração de homens
e mulheres está tão cheio de desespero que buscam a morte
mas não podem achá-la (9.6-10). A sexta trombeta descreve a
guerra que serve como castigo e advertência para os incrédu
los. Deus permite que quatro anjos caídos arrastem a huma
nidade para a guerra (9 .15-19) . Um espantoso batalhão de
guerreiros, cavaleiros m ontados em seus cavalos, traz d es
truição por todo lado, matando um terço da humanidade.
O significado geral das primeiras seis trombetas está claro.
O Senhor castigará os perseguidores da igreja infligindo a eles
desastres em toda esfera da vida, física e espiritual. O sangue
dos mártires é precioso na visão do Senhor. As orações dos
santos são ouvidas. Deus vê suas lágrimas e o sofrim ento.
Contudo, apesar das advertências, a humanidade em geral
não se arrepende (9.21). A desintegração da vida longe de Deus
não conduz automaticamente à experiência de redenção. En
corajado pelo dragão e seus aliados, o mundo perseguidor é
impenitente. Essa disposição traz o derramar das taças.29
Agora, assim como duas visões também precederam o sé
timo selo, duas visões também precedem a sétima trombeta.
A primeira visão (10.1-11), similar à imagem apocalíptica do
a t de Ezequiel (9.4), descreve um poderoso anjo que desce do
céu com um livrinho em sua mão. O simbolismo associa, mas
não identifica o anjo com Cristo (1.7; 4.3; 1.17; 1.15). O anjo
colocou o pé direito sobre o mar e o pé esquerdo sobre a terra
com uma mensagem para o universo inteiro: “Não haverá mais
demora”. O tempo para julgamento veio. O mistério da vontade
permissiva de Deus será revelado. Os ímpios serão castiga
dos e os filhos de Deus receberão sua herança final conforme
o prometido pelos profetas.30
29H endriksen, More than coquerors, p . 148.
“ M i l l i g a n , The book o f Revelation, p . 881.
0 ponto de vista idealista ■ 115
O anjo segura um rolo ou um pequeno livro. Talvez seja uma
lembrança para a igreja.31 Se ela experimentar provas amargas,
não é porque Deus esqueceu de ser benevolente ou vedou suas
misericórdias. Antes, porque a igreja pecou e deve ser ensinada
a viver em dependência direta da voz do Senhor. Muito prova
velmente o livro simboliza as boas novas da salvação.32 O evan
gelho é glorioso e benigno, mas sua proclamação traz amarga
perseguição. O profeta deve comer o livro; quer dizer, o apósto
lo deve provar igualmente a graça e o sofrimento do evangelho.
Seu sofrimento pela causa de Cristo permitirá aos crentes per-
severar na proclamação da Palavra. Por conseguinte, o profeta é
encorajado a profetizar novamente e outra vez mais.
A próxima visão, descreve as experiências amargas de quem
segue o evangelho. Descreve o efeito na igreja da proclamação
fiel do benigno evangelho de Cristo. O apóstolo mede o santuá
rio de Deus, o altar, e aqueles que nele adoram (11.1-14). O san
tuário simboliza a verdadeira igreja, isto é, todos aqueles em
cujo coração Cristo habita no Espírito (ICo 3.16,17). A tarefa de
medir implica que todos os verdadeiros filhos de Deus que o
adoram em espírito e em verdade são julgados ou protegidos
de todo o dano,33 especialmente aquele que virá durante um tem
po especial, os três anos e meio de pressão e sofrimento.34
Agora o sétimo anjo soa a trombeta.A nova visão fornece
uma visão aberta do céu; nada é escondido ou ocultado. A
arca está segura e protegida no templo divino. Toda a com u
nidade remida, representada pelos 24 anciões, está unida aos
anjos em adoração e ao Deus soberano. Embora este mundo
às vezes pareça ser de Satanás, Deus é soberano, e ele revela
rá sua supremacia no dia do julgamento, quando toda a opo
sição será abolida.
Vários personagens e eventos (Ap 12.1— 14.20)
Essa seção é a mais difícil de todo o livro. Três comentários
introdutórios são úteis.35 1) Essa seção, igual às que a precedem,
3,Ibid„ p. 873.
32H endriksen, More than conquerors, p. 151.
33Ibid., p. 154.
34S chick, Revelation'. the last book o f the Bible, p. 47 .
3SH endriksen, More than conquerors, p. 162-3.
116 ■ Apocalipse
abrange toda a trajetória da primeira e Segunda Vinda de Cris
to. Em simbolismo inconfundível, o profeta nos leva de volta
ao nascimento e à ascensão de Cristo (12.1-5) e conclui a vi
são com Cristo preparado para julgar com uma coroa de ouro
e uma foice afiada em sua mão (14.14).
2) Essa seção inaugura a segunda divisão principal do li
vro, que continua por todo o capítulo 22. Essa parte principal
do Apocalipse, que descreve o conflito entre a igreja e Sata
nás, pode ser cham ada de o “O drama da mulher e o dra
gão”.36 Apresenta ao leitor os principais personagens que se
opõem a Cristo e sua igreja: o dragão (cap. 12), a besta que
saiu do mar (13.2), a besta que saiu da terra (13.11), Babilônia
(14.8), e aqueles que têm a marca da besta (14.9). A introdução
é seguida por visões que ilustram a condenação que espera
cada uma dessas forças anticristãs: aqueles que têm a marca
da besta (caps. 15 e 16), a prostituta da Babilônia e as duas
bestas (caps. 17— 19), e o dragão (caps. 20— 22).
3) O tema predominante da segunda parte do livro (caps.
14— 22) é semelhante ao da primeira parte (caps. 1— 13): Cris
to é vitorioso sobre Satanás e suas hostes. A diferença entre
os dois segmentos é que os primeiros retratam a luta externa
entre a igreja e o mundo, ao passo que o segundo revela a
realidade mais perspicaz de uma guerra entre Cristo e Sata
nás. Após presenciar as quatro visões dessa parte, o crente
saberá que a luta externa entre o bem e o mal neste mundo no
qual sofremos como cristãos, faz parte de um conflito maior
no reino espiritual. O conflito invisível é a batalha fundamen
tal onde o inimigo já foi derrotado pelo Cristo vitorioso medi
ante seu sacrifício reconciliador na cruz. Agora, por pouco
tempo, Satanás e suas hostes se juntarão para os ataques fi
nais à igreja, mas seu fim é certo.
A primeira visão dessa seção (12.1— 14.20) introduz os per
sonagens principais na luta entre Cristo e Satanás (12.1— 13.1).
A primeira personagem é a mulher que simboliza as pessoas
aparentem ente insignificantes de Deus, ou seja, a igreja (Ef
5.32; v. Is 50.1; Os 2.1). Da perspectiva do céu, são brilhantes
e gloriosos. Essa igreja gera a criança, a semente da mulher, o
Cristo. O personagem final é o dragão, simbolizando Satanás
(20.2), que tem domínio sobre o mundo (sete coroas) e que
36P ie t e r s , Studies on Revelation, p. 151.
0 ponto de vista idealista ■ 117
tem um tremendo poder destrutivo (dez chifres). A ação des
sa visão envolve a tentativa do enorme dragão vermelho para
devorar a semente da virtuosa mulher quando ela dá à luz, e
a proteção e preservação da mulher e seu filho pelo Deus Todo-
Poderoso. Esta interpretação apocalíptica de Gênesis 3.15 re
sume a história do povo de Deus por meio da vida de Cristo
como uma única e com pleta: a última luta original entre o
bem e o mal, entre a semente da mulher e o dragão, com Cris
to que esmaga a cabeça de Satanás.37
Em 12.7-12, vemos o efeito do nascim ento de Cristo, re
denção e ascensão ao trono no céu. Há uma batalha no céu
com dois generais adversários e seus exércitos. Miguel ataca
e derrota o dragão, expulsando o m onstro do céu. O quadro
ilustra como o sacrifico de Cristo devido ao pecado tirou de
Satanás seu poder acusatório contra os cren tes (Rm 8 .33) .
Além disso, quando Satanás é derrotado, o poder de Deus é
vindicado, aqueles que estão no céu se alegram e Satanás
fica cheio de ira.
Em 12.13-17, o dragão furioso, incapaz de derrotar Cristo
e ciente de que o tempo é curto, solta sua fúria contra a mu
lher que deu à luz ao menino, quer dizer, a igreja. Mas o Se
nhor protege o povo, erguendo-os com asas de águia. O diabo
tenta subjugar a igreja em um fluxo de mentiras e de ilusões,
mas ele não a pode enganar. Assim o dragão aum enta seu
ataque ao restante da semente da mulher, isto é, os crentes.
Como resultado, a igreja experimenta tanto a perseguição de
Satanás como a proteção especial de Deus quando proclama o
evangelho abertamente (11.1-10). Esse tempo de perseguição
e proteção (entre a primeira e Segunda Vinda de Cristo) é se
guido por três dias e meio — um breve período durante o
qual o diabo intensifica seu ataque e que é perseguido pela
segunda vinda de Cristo para o julgamento (20.11).
A segunda visão nessa seção descreve a besta do mar (13.2-
I 0), um dos agentes usado pelo dragão para atacar a igreja. A
besta é um monstro de horror que sobe do mar, um emblema
da influência mundial à medida que é oposto a Deus.38 Essa
besta, uma combinação de animais que simbolizam os quatro
reinos em Daniel 7, representa o espírito do mundo (ICo 2.12)
i 7C a l k i n s , The social m essage o f the book o f Revelation, p. 117.
‘“ M il l ig a n , The book o f Revelation, p. 887.
118 ■ Apocalipse
que se opõe e persegue a igreja.39 Sua influência pode ser en
contrada em todos os lugares, inclusive na igreja, no Estado,
e no lar. Embora os santos sejam perturbados e perseguidos
por esse inimigo, eles serão preservados.
A terceira visão descreve a besta da terra (13.11-18). Esse é
um parágrafo difícil, em que os detalhes são obscuros, mas a
idéia principal é clara. A besta simboliza a falsa religião e filo
sofia em qualquer forma que possa aparecer ao longo desta
dispensação. A besta que saiu da terra é o falso profeta (16.13;
19.20), que aparentemente se assemelha ao Cordeiro, mas é
realmente agente do dragão. O falso profeta marca cada indi
víduo que pertence a ele. A marca é 666, um símbolo de fra
casso eterno, e o sete, perfeição de meios e inteireza. Uma
marca na testa simboliza a mente do indivíduo, pensamento
e filosofia de vida. Uma marca na mão direita indica ação, fa
çanhas e iniciativas. Aqueles que recebem a marca da besta,
nesse caso, pertencem ao exército daqueles que perseguem a
igreja com disposição e atitudes.
Comparando as duas bestas, concluímos que o primeiro é
um m onstro de horror, ao passo que o segundo se m ostra
inofensivo e por isso é mais perigoso que o primeiro. O pri
meiro é a mão de Satanás e o segundo sua mente. O primeiro
representa o poder perseguidor de Satanás, operando no e s
pírito deste mundo e seu governo, e por intermédio dele. O
segundo simboliza as falsas religiões e filosofias deste m un
do. A besta do mar e a besta da terra trabalham juntas. O espí
rito do mundo, conforme encontrado no governo do anticristo,
conspira com a religião do anticristo e ataca Cristo e sua igre
ja . O trabalho dessas legiões é óbvio na crucificação de Jesus
Cristo, em que o Sinédrio se associou a Pilatos para a ssass i
nar o Messias. Seu ataque continua ao longo desta dispensação.
A quarta visão final e a dessa seção é o Cordeiro e os 144 mil
(14.1-20). Essa visão ilustra o último triunfo de Deus e de sua
igreja. Encoraja o crente que pode ser subjugado pelas cenas
anteriores do dragão, a besta do mar, e a besta da terra. A
visão é dividida em três seções, cada uma com eçando com
“Então vi”: 1) João viu um Cordeiro que se levanta no monte
Sião com a igreja triunfante no céu (14.1-5). A congregação
39S chick , Revelation: the last book o f the Bible, p. 52.
0 ponto de vista idealista • 119
totaliza 144 OOO, um número completosem uma alma perdi
da. Esses 144 000 não aceitaram a mentira de Satanás; e agora
desfrutam a bem-aventurança de sua redenção; 2) João viu a
advertência benevolente de Deus do julgam ento por vir e cas
tigo dos perversos (14.6 ,8 ,9) que precederá a Segunda Vinda
de Cristo; 3) João testemunhou o julgam ento final e completo
dos perversos, simbolizado pela imagem de uma colheita que
ocorre quando Cristo retorna. O Filho do homem está assen
tado no trono de ju lgam ento. Ele ordena a seus an jos para
passar a foice e fazer a colheita, pois o tempo chegou.
As sete taças (Ap 15.1— 16.21)
Ao longo da história, você encontrará uma ordem recorrente
dos eventos.40 A igreja faz a luz de Cristo brilhar adiante na
escuridão do mundo. Essa atividade conduz à perseguição do
povo de Deus. Por trás dessa constante e presente confronta
ção entre a igreja e o mundo, há um conflito mais fundamen
tal, entre Deus e Satanás. Deus, pelo trabalho de Jesus Cristo,
obteve a vitória final sobre Satanás e suas hostes. Por conse
guinte, ele julgará e castigará aqueles que perseguem o justo.
Antes de aplicar o julgamento, porém, Deus adverte o in
justo. Quando as trombetas de advertência falharem em con
vencer os incrédulos ao arrependimento, Deus procede com
taças da ira sobre os impenitentes, que receberam a marca da
besta e adoram o dragão (9.21; 16.9). As taças desvelam a in
tegra indignação e ira de Deus contra os da besta deliberados
e determinados seguidores, que blasfem am contra Deus em
meio a seu sofrimento.41 Com Deus não se brinca.42
Vários aspectos dessa visão são dignos de atenção. 1) Antes
de João revelar os sete anjos com suas taças da ira, ele oferece
uma imagem da igreja triunfante. Utilizando o relato da des
truição das tropas do Faraó no mar Vermelho (Êx 14.15ss.), João
assegura ao leitor que até mesmo depois que as taças da ira são
derramadas, Deus preservará uma multidão vitoriosa de san
tos, tocando suas harpas e cantando a canção de Moisés e do
" ' H e n d r i k s e n , M ore than co qu ero rs, p. 189; Three lectures on the book o f
Revelation, p. 19.
" M i l l i g a n , The book o f Revelation, p. 899.
i;iSch[ck, Revelation: the last book o f the Bible, p. 56.
120 ■ Apocalipse
Cordeiro. A vitória sobre os egípcios, naquele tempo, prenun
cia a vitória do povo de Deus sobre a besta.
2) As sete taças da ira expõem uma impressionante sem e
lhança com as pragas no Egito (Êx 7— 10). É d esn ecessár io
enfatizar as particularidades das pragas, pois o efeito geral é
muito significativo: Deus usa cada área da criação para casti
gar o ímpio.
3) A visão das taças corre paralela à visão das trombetas.
Cada uma aborda a dispensação completa a partir da primei
ra até a Segunda Vinda de Cristo. Isto significa que para um
indivíduo uma calamidade esp ecíf ica pode ser uma adver
tência de trom beta de julgam ento, ao passo que para outro
indivíduo pode ser uma taça da ira. A diferença primária en
tre as trom betas e as taças é a intensidade do castigo. Por
exemplo, as trom betas destroem um terço das criaturas no
mar, ao passo que a taça da ira destrói toda criatura viva.
4) O capítulo 15 afirma novamente que o Apocalipse não é
cronológico. Começa com uma visão divina da igreja triun
fante ao término da era, antes de voltar no tempo para o ju l
gamento final de Deus contra o ímpio.
5) As sete taças são derram adas em su cessão rápida e
ininterrupta. Como os selos e as trombetas são divididos em
grupos de quatro e três, e as do primeiro grupo podem ser
consideradas sim ultaneam ente.43
6) O Armagedom aparece na narração que acom panha a
sexta taça como o local de uma grande batalha. O dragão e sua
legião, a besta da terra e a besta do mar ou o falso profeta,
confrontarão o povo de Deus em uma batalha final. Os filhos
de Deus experimentarão vitória pela intercessão súbita e dra
mática de Cristo. O Armagedom, então, é símbolo de cada ba
talha na qual Satanás junta suas tropas contra a igreja. Então,
Cristo aparece inesperada e dramaticamente para libertar seu
povo e derrotar o inimigo. As batalhas no Armagedom podem
acontecer ao longo da história do mundo, entretanto o final
coincide com o dia do julgamento de Satanás.
7) A visão termina com uma descrição vivida do ju lgam en
to final: pedras que caem do céu. A queda final da Babilônia é
o sopro esmagador para aqueles que ostentam a marca da
besta. Tudo aquilo que os deleita se desmorona enquanto a
grande cidade, a Babilônia, é destruída em três partes.
" M i i .u g a n , The book o f Revelation, p . 8 9 6 .
0 ponto de vista idealista ■ 121
B a b ilô n ia (A p 17.1— 19.21)
Vimos a ira e indignação de Deus contra o ímpio, à medida
que os sete anjos derramaram suas taças. Um dos sete intro
duz uma nova parte que, como um conjunto ligado entre si
aborda a história completa do mundo, do paraíso ao dia do
julgamento, descreve a última vitória de Jesus e a destruição
das forças espirituais que insuflam as convicções e com por
tamento do ímpio. A m ensagem dessa seção é de en co ra ja
mento: apesar de as forças do mal prevalecerem e perseguirem
os santos, seu tempo de aparente vitória é temporário. Embo
ra as forças do mal se mostrem invulneráveis, a Babilônia, a
besta da terra, e a besta que saiu do mar ou o falso profeta
serão destruídos por Cristo, o Senhor dos senhores, que é o
vencedor. Então, a igreja deverá ter coragem até esse tempo
de vitória final.
A estrutura da seção é simples. O capítulo 17 descreve a
grande meretriz, a Babilônia, e revela a destruição da besta do
mar; o capítulo 18 revela a queda completa da Babilônia; o
capítulo 19 desvela a vitória sobre a Babilônia e a celebração
celestial subseqüente e o casamento do Cordeiro com a igre
ja. Por conseguinte, o futuro dos cinco personagens é descri
to: a Babilônia, a besta que saiu do mar, a besta da terra ou o
falso profeta, a igreja e o Cordeiro.
1) A personagem predominante no drama é a Babilônia, a
grande meretriz (17.5 ,18; 19.2,3). João fez menção à Babilônia
em duas ocasiões anteriores (14.8; 16.19). Agora, ela recebe
um tratam ento mais apurado. Levado no espírito para um
deserto, João viu uma mulher montada em uma besta. Essa
não é a mulher virtuosa de 12.1, entretanto elas são vistas no
deserto. Todavia, a mulher escarlate é diferente, como com
provado pelo seu relacionamento com a besta. A besta selada
pela mulher vestida de vermelho e azul é a mesma besta que
ajuda o dragão em um ataque à mulher virtuosa.44 Ali, o ini
migo de um é o amigo e servo do outro. A mulher está vestida
de vermelho e azul como uma prostituta, atraindo todos os
que a vêem. Ela incita os indivíduos para beber de sua xícara
dourada, induzindo-os a se afastarem de Deus. Está embriagada
““P i e t e r s , Studies in Revelation, p. 2 4 6 - 7 .
122 ■ Apocalipse
com o sangue dos santos, derramado durante sua guerra con
tra o Cordeiro (17.6). Influencia o mundo inteiro sobre sua
elevada sublim id ad e e governa com pulso firm e. Ela é a
Babilônia (17.5 ,18; 19.2,3).
A identidade da Babilônia foi um assunto de debates. Duas
opções parecem viáveis, a) A Babilônia representa a cidade
mundana ou o centro de maldade que fascina, tenta, e leva as
pessoas para longe de Deus (Ez 27 e 28). A Babilônia é o mun
do louco, prazeroso e arrogante, com todo o seu luxo sedutor
e prazeres, com sua filosofia e cultura anticristã, e com suas
multidões que abandonaram a Deus e viveram de acordo com
a luxúria da carne e os desejos da mente.45 João não condena
a sociedade, mas o tipo de sociedade que se rebela contra
Deus — uma sociedade em que não há lugar algum para Deus
e para a redenção feita por Cristo.46 No século i, a Babilônia era
Roma. Duas gerações atrás era Berlim. Hoje, talvez, se ja Las
Vegas ou até m esm o um cam p u s universitário. A Babilônia
pode ser encontrada em todos os lugares ao longo da história
do mundo.47 É o centro da sedução anticristã em qualquer épo
ca da história.b) A segunda opção é que a Babilônia representa o mundo
na igreja ,48 o elem ento não espiritual ou elemento terrestre
que infiltrou no corpo de Cristo, ou até mesmo uma falsa igreja
como Jerusalém.49 Seis razões apóiam essa teoria: 1) Em 2.9,
João conhece uma comunidade que reivindica ser uma co n
gregação do Deus vivo, mas é realmente uma sinagoga de Sa
tanás; 2) Apocalipse 17 ecoa Êxodo 16 e 23, em que Israel é
marcado como uma meretriz que não guarda a aliança divina;
3) a grande cidade é mencionada em Apocalipse 11.8, em que
uma interpretação cultural política está fora de cogitação, pois
há uma sugestão de que a Babilônia não deveria ser interpre
tada como entidade política cultural nos capítulos 17 e 18; 4)
os oficiais de Jerusalém, durante o seu ministério terrestre,
se opuseram a Jesu s e encorajaram Roma a crucificá-lo (At
2.23; 3.13; 4 .10; 5.30; 7.52); 5) quando a meretriz é destruída
45H endriksen, More than coquerors, p. 200-2.
4 6 U n jh e m , Book o f Revelation, p. 117-8.
47Ibid., p. 119.
4 8 M il l ig a n , The book o f Revelation, p. 904.
49Cornelius V anderwaal, Hal Lindsey and biblical prophecy, St. Catherines,
Ont.: Paideia, 1978, p. 105. '
0 ponto de vista idealista ■ 123
(Ap 18.20), Deus ajusta contas pelo que ela fez aos profetas e
apóstolos (lR s 19.10); 6) e Apocalipse 18 .22 ,23 repete Jeremias
25.10, uma passagem que lida com Jerusalém .50
Embora a identidade da Babilônia possa ser incerta, seu
futuro não é: a Babilônia será destruída (18.21-23). O ju lg a
mento é a mensagem predominante dessa cena. Deus não es
quecerá seus pecados, e a Babilônia perecerá. Antes do castigo
final chegar, porém, os crentes são encorajados a recusar a
comunhão com seus pecados e a se desviarem de suas tenta
ções e seduções.51 Aqueles que não se desviam, mas colocam
seu coração no espírito do mundo, sofrerão com a Babilônia.
Quando a Babilônia perecer, os reis, comerciantes e marinhei
ros lamentarão, porque aquilo em que fixaram suas esperan
ças terá se desmoronado. Isto é verdade com respeito à queda
de toda Babilônia ao longo da história do mundo e, especial
mente, com respeito ao reino final do anticristo no fim dos
tem pos. Reciprocam ente, a destruição da Babilônia conduz
ao regozijo nos céus pelos santos, apóstolos e profetas (19 .1
10). O céu celebra a vitória de Deus sobre a meretriz, a Babilônia.
Os 24 anciões que simbolizam toda a igreja, louvam a Deus
com quatro querubins representativos.
2) A segunda personagem principal nessa seção é a besta
(17.3). Como já foi citado, a besta é descrita em 13.2-10. Saiu
do mar e, anteriormente, ajudara o dragão em seu ataque con
tra a mulher v irtuosa e sua sem ente. A besta representa o
espírito e os impérios do mundo que trabalham com a mu
lher sedutora. Por exemplo, trabalhando juntos, os impérios
deste mundo não precisam destruir as instalações da igreja.
Eles podem transformar algumas delas em locais de diversão
m undana.52
A besta e a mulher se associam até que a besta se volta
contra a mulher (17.16-18). Durante um tempo, o mundo co
mete adultério com a meretriz e bebe em seu cálice de ouro.
Mas no fim, as pessoas que fazem parte do mundo anticristão se
voltam contra a prostituta. O povo mundano despe a prostituta
r,0Vanderwaal recorre ao trabalho holandês de Benne Holwerda de 1949 chama
do lhe church in final judgem ent, em seu Haí Lindsey and biblícal prophecy, p. 1 0 5 .
' ‘ H endriksen, More than coquerors, p. 2 0 8 .
’2l b i d . , p. 2 0 3 .
124 ■ Apocalipse
e a queima. O ensino é que o mesmo povo (esses que consti
tuem a besta) que, anteriormente, estava enfeitiçado pela me
retriz e tudo o que ela ofereceu, percebeu sua loucura. Mas
em vez de se arrepender, se endurecem contra Deus e são,
portanto castigados pela sua própria tolice. A besta, como a
meretriz, sofre a destruição. O cavaleiro no cavalo branco cap
tura a besta e a joga no lago de fogo que arde com enxofre
(19.19,20).
3) A terceira personagem é a besta da terra ou o falso profe
ta (13.11-17), que executa milagres em nome da besta que saiu
do mar e que tinha confundido muitos que receberam a sua
marca e a adoraram. Essa besta é também capturada e castiga
da com a destruição eterna (19.20). Isto completa a destruição
das três forças que apoiaram os perseguidores impenitentes
da igreja. Agora, todos os perseguidores e as forças espiritu
ais são castigados com a destruição eterna.
4) O quarto, os personagens finais, são a noiva eterna e o
noivo: Jesus Cristo e a igreja. Com imagens misturadas, o Mes
sias é tipificado como um Cordeiro (19.7-9), comprometido a se
casar com a noiva ou a igreja. Ao longo desta dispensação toda,
a igreja se preparou para o dia de seu casamento. Agora em seu
fim, após o julgamento dos perversos, o noivo, acompanhado
por anjos, vem receber sua noiva (Mt 25.31). As bodas do Cor
deiro começam e continuam ao longo da eternidade.
Então, João recebe uma visão do céu que leva o leitor de
volta aos momentos que precedem o julgamento final. Ele vê
Jesus Cristo tipificado nessa cena por um cavaleiro montado
em um ca v a lo b r a n c o , p r e p a r a d o p ara a b a ta lh a em
Armagedom: o ataque final à igreja e a vitória de Cristo sobre
o grande exército de Satanás. Novamente, a besta e a meretriz
direcionam suas energias contra a verdadeira igreja, aqueles
que são escolhidos e fiéis. Embora obtivessem sucesso por
pouco tempo, o Cordeiro é vitorioso. O an jo, confiante em
sua vitória, convida os pássaros a se juntar para uma grande
ceia de Deus, e ali podem se alimentar dos cadáveres do povo
da Babilônia. O ensino essencial é este: Jesus Cristo é o Rei
dos reis e Senhor dos senh ores (19 .16) . Embora os santos
possam sofrer durante algum tempo, Deus está ao seu lado e
é fiel às suas promessas. Cristo, o cavaleiro montado no cava
lo branco, triunfa, embora o inimigo permaneça.
0 ponto de vista idealista ■ 125
0 ju lgam ento de Satanás e os perversos (Ap 20.1-15)
Até aqui vimos o julgamento final e o castigo dos ímpios que
perseguem a igreja-. Babilônia, a besta do mar, a besta da terra
ou o falso profeta. Agora vemos a derrota e a destruição do
derradeiro inimigo, Satanás, conforme João retrata a últim a
vitória de Cristo sobre toda força do mal.53 A visão ilustra o
julgamento de Deus sobre os mortos, de acordo com o que
fizeram durante suas vidas, e o seu castigo no lago de fogo.
Vários aspectos dessa cena merecem atenção especial.
1) A visão começa com um anjo divino que captura Satanás
e o prende durante mil anos (v. 1-3). Reconhecendo que as
Escrituras se interpretam , podemos concluir que essa cen a
descreve o efeito do ministério terreno de Cristo sobre Sata
nás (Mc 3.27; Lc 10.17,18). Isto é coerente com várias visões
no Apocalipse e que levam o leitor para o começo de nossa
dispensação atual. Essa visão destaca o domínio de Jesus so
bre a serpente mediante a crucificação e ressurreição. Pelo seu
sacrifício redentor, Cristo restringiu as forças de Satanás e abriu
o caminho para a proclamação bem sucedida do evangelho ao
redor do mundo.54 Claro que isto não significa que Satanás está
neutralizado. Ao contrário, Deus permite que Satanás incite e
influencie a sociedade nos limites de sua prisão.
2) A próxima cena dessa visão (v. 4-6) leva o espectador do
abismo ao céu. Compare o período de mil anos da prisão de
Satanás, essa cena descreve o reinado milenar de Cristo que é
ajudado por mártires que não recebem a marca da besta. A cena
encoraja os verdadeiros crentes que testem unharam a p er
seguição dos crentes e a apostasia daqueles seduzidos pela
influência, limitada, mas poderosa, de Satanás. Ensina que
aqueles que vivenciaram a primeira ressurreição de regene
ração (Cl 3.1) e recusaram a receber a marca da besta reinam
com Cristo (Ef 2.6). Esse reinado com eça para o crente na
terra, mas continua no céu, desde o momento a alma do cren-
le, em sua morte, é elevada ao céu enquantoo corpo espera
o retorno de Cristo. Finalmente, a ressurreição do corpo está
segura, pois a segunda morte — isto é, o castigo eterno —
não tem poder sobre os crentes.
” M illigan, The book o f Revelation, p . 9 1 3 .
m H e n d r i k s e n , Three lectures on the book o f Revelation, p . 2 3 .
126 ■ Apocalipse
3) João não coloca a cena de abertura em qualquer ponto
na história humana, nem relata o reinado de Cristo na Segun
da Vinda.55 João, em um esforço para encorajar o crente, leva-
o aos bastidores da perseguição terrena, para que testemunhe
um Cristo soberano e um Satanás condenado. A visão afirma
que Cristo é o vitorioso e os mártires estão vivos.
4) 0 milênio não é o tema central dessa visão, embora rece
besse atenção considerável no decorrer dos séculos. Além
disso, o número por si próprio não é difícil de entender. Ao
longo do Apocalipse, os números foram simbolicamente usa
dos. O uso do número mil nessa visão não é exceção. Como
sugerem os amilenaristas, João não está descrevendo um pe
ríodo especial de tempo entre esta era e o reinado eterno de
C risto .56 Mais propriamente, o número indica conclusão ou
perfeição em vez de um lapso de tempo específico (SI 50.10).
Os amilenaristas tipicamente apresentam três razões em de
fesa de sua convicção: Nenhuma outra passagem das Escritu
ras m enciona um período de mil anos; uma in terpretação
simbólica é consistente com a natureza apocalíptica do texto
e os credos históricos da cristandade não mencionam um pe
ríodo literal entre esta era e o reino eterno.57
5) A terceira parte dessa visão (v. 7-10) descreve a longa e
esperada destruição de Satanás que é lançado no lago de enxo
fre ardente com a besta e o falso profeta. Antes de receber o
castigo eterno, ele é libertado do cativeiro. Por pouco tempo
lhe é permitido reunir as nações para um ataque centralizado e
principal à igreja. Quando Satanás desfrutou ou desfrutará seu
curto período? William Milligan acredita que o reinado de mil
anos se refere ao ministério terreno de Cristo, culminando na
sua morte e ressurreição, enquanto o curto período se refere à
toda dispensação até a Segunda Vinda de Cristo.58
William Hendriksen oferece uma alternativa mais consistente
com o que foi descrito até aqui.59 Por refletir a dependência no
ensino de Jesus referente ao final dos tempos (Mt 24 .29 ,30),
s,Leon M o r r i s , The Revelation o f St. Jo h n , t n t c , Grand Rapids: Eerdmans,
1969, p. 234.
56Harry Buis, The book o f Revelation: a simplified commentary, Philadelphia:
P& R, 1960, p .107.
57Ibid.
S8The book o f Revelation, p. 913.
^ Three lectures on the book o f Revelation, p. 26-8.
0 ponto de vista idealista ■ 127
Hendriksen acredita que esse cenário prediz um tempo de tri-
bulação quando o mundo, ao funcionar como uma unidade,
tenta destruir a igreja logo antes da Segunda Vinda de Cristo. A
visão de João responde a esses crentes cheios de dúvidas que
estão sofrendo na tribulação e que podem concluir que Satanás,
não Deus, é soberano. Essa passagem assegura-lhes que ape
sar da proteção do mundo e de todos seus recursos e poder
contra Deus, o ataque não superará a igreja. O tempo de Satanás
é curto. Deus completará o castigo dos perversos e destruirá o
inimigo com fogo do céu, lançando o diabo no lago de enxofre
ardente.
6) A cena final nessa visão (v. 11-15) descreve a ressurreição
corporal e geral de crentes e incrédulos, com um foco no ju l
gamento final e no castigo do ímpio. Essa visão é improvável,
como a maioria delas no livro.60 Inclui algum simbolismo, mas
a maior parte significa o que ela transmite exatamente. Esses
versícu los incluem se n ten ças claras e exp licações literais ,
complementando a predição de Jesus em Mateus 25 .31-46 . O
simbolismo limitado não é difícil de entender. O grande trono
branco simboliza a majestade, a autoridade e a santidade de
Deus no julgamento. Os livros representam a onisciência de
Deus, o Juiz, a quem nada é desconhecido e por quem nada é
esquecido,61 toda alma dará conta de seu papel na luta univer
sal contra o mal.62 O livro da vida é o rolo dos remidos (Lc 10.20;
Fp 4.3; Ap 3.5). O lago de fogo existe para destruição absoluta e
para a condenação eterna.63
7) A visão como um todo (20.1-15) apóia uma descrição cro
nológica geral do período desde o primeiro advento. Comple
mentando o ensino de Jesus, como registrado em Mateus 24 e
25, que começa com a primeira vinda de Cristo durante a qual
ele prendeu Satanás (Ap 20.1-3) e ressuscitou os mortos em
Cristo para reinar com ele no céu (v. 4-6). Continua com o rela
to de descrição um período curto, mas intenso de ataque à
igreja (v. 7-9), seguido pela inferida Segunda Vinda de Cristo, o
julgamento final de cada pessoa, e o castigo eterno do ímpio e
do diabo (v. 10-15).
“ P i e t e r s , Studies in Revelation, p. 312.
61Ibid., p. 313.
62U n jh e m , Book o f Revelation, p. 110.
“ P i e t e r s , Studies in Revelation, p. 315.
128 ■ Apocalipse
A nova criação (Ap 21.1— 22.5)
Essa visão que inclui o aparecimento angelical final (21.9), dá
continuidade à sucessão cronológica de eventos principais
que com eçaram em 20 .1 , com a encarnação e redenção de
Cristo (20.1-6), e conclui com o julgamento universal (2 0 .1 1
15). Agora, João recebe uma visão do que Deus preparou para
aqueles que o amam (ICo 2.9,10). A visão destaca três realida
des permanentes e eternas: o novo céu e nova terra, a nova
Jerusalém e as bodas do Cordeiro.
1) A cena de um novo céu e nova terra (21.1-8), enriquecida
pela cidade santa e um jard im sem elhante ao Éden, ilustra
sem elhanças notáveis a seu predecessor, como descrito no
primeiro livro da Bíblia.64 Em Gênesis, Deus criou o céu e a
terra; em Apocalipse lemos sobre um novo céu e nova terra
(21.1). Em Gênesis, os luminares são chamados à existência;
em Apocalipse, a glória do Deus ilumina a cidade. Em Gênesis,
lemos a respeito do astuto poder de Satanás; em Apocalipse,
o diabo é preso e lançado no lago de fogo (20.10). Em Gênesis,
lemos sobre o paraíso perdido; em Apocalipse, o paraíso é
restabelecido. Gênesis descreve o divórcio da humanidade,
quando Adão e Eva fogem de Deus; em Apocalipse, os remi
dos desfrutam a comunhão íntima do casamento com o Cor
deiro. Em Gênesis, a natureza am eaça a segurança e fere a
humanidade; em Apocalipse, a natureza sustenta e conforta
as pessoas. Em Gênesis, a árvore da vida é protegida por um
anjo para que ninguém coma o seu fruto. O Apocalipse resta
belece o acesso da humanidade ao fruto (22.14). Essa correla
ção óbvia entre o primeiro e o último livro da Bíblia ilustra o
cumprimento da primeira profecia m essiânica (Gn 3.15) e a
fidelidade de Deus à aliança (Ap 21.3).
Há um debate significante sobre a relação do novo céu, e
nova terra com o universo atual. O termo grego para “novo”
(kain os) e 2Pedro 3 .12 ,13 sugerem que o novo céu e nova ter
ra possam ser uma versão rejuvenescida e transformada do
velho.65 Talvez este planeta seja o último e eterno lar do povo
de Deus, mas o texto não limita o leitor a esta conclusão. Em
vez disso, assegura ao crente que Deus proverá um lugar de
64Hendriksen, More than coquerors , p. 236-7.
65Ibid„ p. 239.
0 ponto de vista idealista ■ 129
habitação eterna que é bonito, seguro, e protegido.66 A sereni
dade e paz desse lugar não serão perturbadas pelo mar agita
do (Is 57.20), porque o novo céu e nova terra não terão um
mar do qual o mal saia dele (Ap 13.1).67
2) A maior parte da visão trata do desvelamento da cidade
santa, a Nova Jerusalém, a noiva do Cordeiro (21.2). A d escri
ção vivida e detalhada de João da cidade santa deixa de o b ser
var uma verdade importante: a nova Jerusalém não é um lugar,
mas um povo!68 Não é o último lar dos remidos; são os rem i
dos! A nova Jerusalém é um símbolo da noiva, a igreja. É uma
comunidade de indivíduos real e preciosa que têm comunhão
com Deus. A cidade (SI 48; Is 26 .1 ; 40 .9) retrata a condição
ideal do rebanhode Cristo, desfrutando sua vitória em Cristo
sobre o pecado e a morte.69 Claro que a nova Jerusalém não é
uma possibilidade remota no futuro distante. A cidade retra
ta um encontro real com o Cristo vivo na comunhão da igreja
aqui, embora esta seja fragmentada e dispersa.70 Essa analo
gia deveria su prim ir a co m p la cê n c ia de co n g re g a çõ e s de
Laodicéia ao longo do tem po.71
Abstendo-se de uma análise detalhada da visão, extensos
esforços do artista na interpretação da Cidade Santa salien
tam verdades suplementares:72 a) A cidade santa desce do céu,
indicando sua origem benevolente;73 b) O nome “Jeru sa lé m ”
reflete continuidade entre a velha e nova alianças, entre o
antigo santuário e seu sucessor eterno. Ao mesmo tempo, os
adjetivos “novo” e “santo” o distinguem da dispensação pre
sente;74 c) A cidade santa não requer luz natural ou artificial,
uma vez que a glória de Deus ilumina e o Cordeiro é sua lâm
pada (21 .11 ,23 ; 22.5); d) A cidade está sem santuário, porque
Deus o Senhor e o Cordeiro são seu templo (21.22). Em con se
qüência disso, os crentes têm com unhão direta e imediata
com Deus (Jr 31 .33 ; Jo 4 .2 3 ,2 4 ; Hb 8.8); e) A cidade e seus
66P i e t e r s , Studies in Revelation, p . 3 3 1 .
67M o r r i s , The Revelation o f St. John, p. 243 .
“ M i l l i g a n , The book o f Revelation, p. 918 .
g9U n jh em , Book o f Revelation, p. 110.
70Ibid., p. 111.
7IU n jh em , Book o f Revelation, p. 110.
7-V. Hendriksen, More than coquerors, p. 243-50.
71K u y p e r , The Revelation o f St. John, p. 310.
7' M o r r i s , The Revelation o f St. John, p. 243.
130 ■ Apocalipse
habitantes estão seguros e protegidos (João 10.28), porque a
cidade está protegida por uma alta muralha (Ap 21 .12 ,17 ,18);
f) A cidade com seu s doze fu n d a m e n to s ( 2 1 .1 4 ,1 9 ,2 0 ) é
edificada sobre o fundamento dos apóstolos (Ef 2.20); g) Doze
portas, cada uma escrita com os nomes das tribos de Israel
(Ap 21 .12 ,13 ,2 1 ,2 5 ,2 7 ) , suprem muitas oportunidades para a
entrada da verdadeira Israel, a igreja remida (7.14), proibindo
a entrada daqueles associados à meretriz; h) O trono de Deus
e o Cordeiro estão na cidade (22.3,4), e Deus reina com amor,
e os cidadãos obedecem com alegria; i) O tamanho da cidade é
muito grande para a imaginação porque inclui os cidadãos de
cada nação (21.24).
3) O novo céu e nova terra com sua cidade santa são a fase
pela qual o mundo vê as bodas do Cordeiro que é m enciona
do sete vezes nos dois capítulos finais de Apocalipse. Antes
da chegada da nova Jerusalém , o grupo de fiéis é descrito
como uma noiva (Ef 5.32), mas não como uma esposa. Agora,
nessa visão, ela é descrita como a esposa do Cordeiro (Ap 21.9).
A transição é aparentem ente adiada até que os santificados
sejam separados para a cidade santa.75 Agora os filhos de Deus,
a noiva, não serão mais instigados ao pecado, porque os in
crédulos acharão seu lugar no lago de fogo que arde com en
xofre (21.8).76
O casamento de Cristo com a igreja ilustra o cumprimento
da completa e perfeita promessa de aliança encontrado ao lon
go da Bíblia (Gn 17.7; Jr 31.33; Rm 4.22; 2Cr 6.16). O pronun
ciamento de casam ento divino do trono proclama, “Agora o
tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele
viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com
eles e será o seu Deus” (Ap 21.3). O casamento do Cordeiro
com a nova Jerusalém fornece comunhão íntima e permanente
com Deus.
Conclusão (Ap 22.6-21)
Chegamos ao fim do Apocalipse de João. As visões concluem
(22.5) com um quadro do triunfo final e completo da igreja
75K u y p e r , The Revelation o f St. John, p. 321.
76Ibid„ 318.
0 ponto de vista idealista ■ 131
sobre todos os seus inimigos. Jesus Cristo, o vencedor, con
quistou a morte, o Hades, o dragão, a besta, o falso profeta, e
aqueles que adoram a besta. Jesus Cristo, o Cordeiro, se casa
com a igreja, e juntos desfrutam comunhão no novo céu e na
nova terra. Embora o cumprimento dessas visões ainda este
ja por vir, Cristo reina vitorioso agora, de form a que nada
separará os cristãos do amor de Deus (Rm 8 .3 5 ,3 8 ,3 9 ) .77 O Cristo
soberano assegura aos fiéis que nada ocorrerá na vida por
destino ou acaso, mas pela mão paternal de Deus.78 Por causa
destas verdades, os filhos de Deus podem ser pacientes na
adversidade, gratos pelas bênçãos e confiantes sobre o futu
ro.79 Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem
daqueles que o amam (Rm 8.28).
A conclusão (Ap 22 .6 -21) apresenta uma declaração final
em vez de uma nova visão. Vários elementos são instrutivos.
1) João é tomado novamente com prodígio (v. 1.17) conforme
0 anjo declara que tudo o que ele ouviu e viu, culminando no
retorno de Cristo, é iminente. Essa proclamação faz João cair
aos pés do anjo (22.8). Ele percebe que o tempo está próximo
e os assuntos eternos estão estabelecidos. Jesus retornará e
trará sua recompensa com ele.
2) João não abranda o sentimento da proximidade do fim
que os primeiros cristãos haviam sentido (1.3,7; 3.11; 22 .12,
20). Seu prólogo assegura a seus leitores que o tempo está
próximo; seu epílogo ecoa essa certeza. Na frase “o tempo está
próximo”, João contrasta dois mundos: este mundo de espa
ço de tempo e o mundo divino. As realidades divinas alcança
ram a ordem temporal pela primeira vinda de Cristo e, por
conseguinte, diminuíram a importância do tem po.80 Quantita
tivamente, este mundo pode ter um longo caminho para cor
rer, mas é curto porque é de pouca importância comparado
as realidades eternas que estão agora presentes.
3) O livro fecha com um chamado ao arrependimento (v.
1 1) e um convite (v. 17). Os cristãos podem se arrepender e
podem recuperar seu entusiasm o anterior, serem en co ra ja
dos a permanecer firmes quando confrontados pelos tempos
"Harrington sugere que todo o livro de Apocalipse é um comentário sobre
ii (|iie Paulo crê. V. seu Understanding the Apocalypse, p. 59.
“O catecismo de H eidelberg, p. 27.
'Ibid., p. 28.
“ ' H a r r i n g t o n , Understanding the Apocalypse, p. 268.
132 ■ Apocalipse
de sofrimento, e serem inspirados pelas visões do livro de
vitória divina com o Cordeiro.81 “Felizes os que lavam as suas
vestes, e assim têm direito à árvore da vida e podem entrar na
cidade pelas portas” (v. 14).
4) O livro conclui com uma advertência para qualquer pes
soa que acrescentar ou apagar qualquer porção do Apocalipse
cuja autenticidade foi atestada pelo anjo. A advertência afir
ma que o livro não somente é apocalíptico, mas profético, isto
é, uma palavra do Senhor em vez do fruto do gênio humano.
5) O livro inicia com uma fórmula epistolar (1.4) e encerra
com um tipo de saudação final habitual em cartas.82 A fórmu
la é igual às cartas paulinas, mas sem analogia exata. O signi
ficado das referências epistolares é que o livro de Apocalipse
é apresentado como uma carta para as congregações cristãs e
seria lida durante os cultos semanais.
8) A conclusão confirma a visão otimista da história huma
na refletida ao longo do livro. Jesus Cristo é o “Alfa e o Ômega,
o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (v. 13). As visões de
João ilustraram que a história não é puro acaso, mas a realiza
ção do plano de Deus.83 Essa visão otimista da história mostra
um Deus de amor e de poder que triunfa soberanamente so
bre todos os seus, e nossos, inimigos. A história humana, como
a conhecemos, culminará quando Satanás sofrer a derrota eter
na e o noivo receber sua noiva. Então a igreja desfrutará ale
gria eterna e paz com Jesus. “Vem, Senhor Jesus! (v. 20)”
OBSERVAÇÕES FINAIS
O leitor atento observou que a minha abordagem idealista ao
Apocalipse inclui pouca interação com as três interpretações
incluídas neste trabalho. Embora esta omissão seja por desíg
nio, o conceito da C oleção d eb a tes teológicos, das quais este
volum e faz parte, é o de que cada trabalho inclui algum
opositor construtivo como os outros da coleção. Para esse
fim,concluo com uma defesa do ponto de vista idealista do
Apocalipse assim como relato as outras perspectivas ap re
sentadas neste trabalho.
81Pheme P e r k i n s , R ea d ing the New Testam ent, NewYork: Paulist, 1 9 7 8 ,
p. 327 .
S 2H a r r in c ,t o n , Understanding the Apocalypse, p. 272.
“ H c nd r ik se n , Three lectures on the book o f Revelation, p. 3 0 .
0 ponto de vista idealista ■ 133
Antes de concluir, porém, noto que minha interpretação não
c puramente idealista. Discorro da direção de meus com entá
rios em Apocalipse 20 e 21, convencido que esta seção com
plementa o ensino de Jesus em Mateus 24 e 25, que apresenta
uma seqüência cronológica geral de eventos que culminam
na Segunda Vinda de Cristo. Alguns idealistas criticarão essa
exceção, preferindo uma in terpretação tem ática que exclui
qualquer conclusão profética futurista.
Por que os cristãos modernos deveriam adotar uma abor
dagem idealista ao Apocalipse de João? A melhor razão é que
o ponto de vista idealista se baseia em um sólido fundamento
hermenêutico. Após ler a variedade de abordagens incluídas
neste volume, o leitor provavelmente concluirá que a inter
pretação de cada autor foi determinada pelas suas pressupo
s ições h erm en êu ticas . Em ou tras p alavras , cada uma das
leituras do Apocalipse foi determinada, não pelo texto, mas
pelas pressuposições trazidas ao texto. Isto é algo difícil de
aceitar para qualquer estudioso evangélico que prefere exegese
a eisegesis, mas as várias interpretações à disposição forçam seu
reconhecimento. Uma vez que essa é a circunstância, o assunto
essencial enfrentado pelo intérprete do Apocalipse é a valida
de de suas p ressu p osições herm enêuticas. Estou con ven ci
do, por várias razões, que a abordagem idealista se baseia em
um fundamento hermenêutico mais sólido que as outras abor
dagens representaram neste volume.
1) O id e a l is ta r e c o n h e c e a n a tu r e z a a p o c a l íp t i c a do
Apocalipse. Embora admita que o livro contém elementos pro
féticos epistolares, o idealista acredita que João emprega o
estilo de literatura apocalíptica para levar a mensagem ao lei
tor. Mediante a confirmação, há algumas discrepâncias entre o
Apocalipse e a literatura apocalíptica típica do século i, como a
pseudônima. Mas, apesar de algumas inconsistências secu n
dárias, a maioria dos estudiosos evangélicos conclui que o
livro é apocalíptico.84
Assim, Thomas está correto quando declara que o idealista
não trata o Apocalipse como um livro de profecia. O idealista
840 dispensacionalista clássico discorda dessa pressuposição, como em
I homas, que fala do “suposto gênero apocalíptico” do livro. A declaração de
I homas naturalmente lembra a pergunta do dispensacionalista não-clássico:
Se o Apocalipse de João não é apocalíptico, o que é?
134 ■ Apocalipse
reconhece que o livro contém algumas predições de eventos
específicos, como a Segunda Vinda de Cristo, assim como al
gumas instruções epistolares, como aquelas achadas em suas
cartas às igrejas. Porém, esse reconhecimento não significa que
o idealista nega a realidade da profecia bíblica específica. A Bí
blia tem várias profecias que foram cumpridas em um momento
e lugar específico, notavelmente aqueles relativos ao Messias.
Porém, o idealista não acredita que o intérprete pudesse espe
rar achar muitas profecias específicas no Apocalipse de João.
2) O idealista não somente reconhece o texto como literatu
ra apocalíptica, mas também o interpreta como esse tipo de
literatura. Gentry claramente declara a implicação desta con
vicção: “O Apocalipse é um livro altamente figurativo e não
podemos abordá-lo com um literalismo direto e simples". En
quanto quase todo e s tu d io so ev an gélico co n co rd a que o
Apocalipse é até certo ponto apocalíptico, nem todos o inter
pretam como tal. Porém, o idealista começa com a pressupo
sição que desde que o livro é apocalíptico, todo episódio ou
visão é simbólico até que se prove o contrário.
Quais são os fundamentos para uma interpretação não lite
ral do Apocalipse? A resposta é simples: boa hermenêutica. Da
mesma maneira que o estudioso da Bíblia, quando verifica o
estilo de uma passagem específica, recusa uma interpretação
literal de parábolas ou de literatura poética, de forma que o
mesmo estudioso, quando aceita o estilo único do Apocalipse,
não interpreta esse livro de uma perspectiva literal. Na realida
de, ao reconhecer o Apocalipse como apocalíptico, o intérprete
idealista prefere uma abordagem não literal para cada versículo
no livro. Para o idealista deve haver uma boa razão para se
abster de interpretação simbólica do texto.
3) O cerne e a alma da abordagem idealista são aqueles que
dizem que o Apocalipse é um livro apocalíptico que apresen
ta preceitos espirituais por meio de símbolos, em vez de um
livro de profecia cumprida em eventos específicos ou pesso
as na história humana. O Apocalipse não prevê eventos histó
ricos específicos tanto quanto demonstra verdades infinitas
relativas à batalha entre o bem e o mal que continua no decor
rer da era da igreja. Quando acham os um evento, ou uma
pessoa em que, a profecia é distintamente aplicável, podemos
considerá-la cumprida dessa maneira em um evento ou em
uma pessoa — mas não exaurida. Esta abordagem idealista não
significa que um evento acontece repetidamente ao longo da
0 ponto de vista idealista ■ 135
história, mas que a verdade espiritual é infinita, pois há vários
cum prim entos nesta dispensação.
Esta abordagem temática da profecia encontra precedente
histórico no a t . Gentry observa corretam ente que o profeta
das Escrituras empregou linguagem figurativa para um dos dois
propósitos: “relacionar verdades espirituais majestosamente ou
sim bolizar eventos h istóricos dram aticam ente”. O idealista
pressupõe que desde que a profecia de João é transmitida em
terminologia apocalíptica, o propósito do Apocalipse é relaci
onar verdades espirituais em vez de predizer eventos especí
f icos que seriam cum pridos na h istória humana. Então, os
idealistas desassociam ligação entre símbolo e evento históri
co, pois acreditam que símbolos são multivalentes no signifi
cado e não possuem referente histórico específico.
Meus colegas podem questionar esta pressuposição , e n
tretanto, tenho de perguntar: “Em que base podemos concluir
que João em pregou sím bolos e v isões para correlatar com
eventos definidos que se desdobrariam na história humana?”
Duvido que qualquer estudioso sustentaria “O que em breve
há de acontecer” (1.1) para tal conclusão restrita. Na aborda
gem id ealis ta , en tão , o in térp re te adm ite que o ep isód io
apocalíptico transmite uma verdade ou uma idéia infinita. Em
resumo, a interpretação é uma idéia em vez do evento orien
tado. Isto não significa que o idealista negue o elemento pro
fético do Apocalipse. Particularmente, o idealista afirma que o
elemento profético no Apocalipse não é um evento orientado,
como os não idealistas possivelmente afirmam.
Isto explica, em parte, por que o idealista não interage com
o preterista, o dispensacionalista progressivo e o dispensacio
nalista clássico. Cada uma dessas abordagens do Apocalipse
interpreta o texto como se seu propósito primário fosse pre
dizer o desdobramento de eventos futuros; o intérprete iden
tifica o cumprimento de cada episódio do Apocalipse com um
evento específico ou do primeiro e do último século, ou os
dois. O intérprete idealista não está interessado em perder
tempo em tal empenho. Em vez disso, ele ou ela busca enten
der a idéia, a verdade espiritual, ou o tema transmitido pela
visão. Em resumo, a pressuposição hermenêutica do idealista
é claramente distinta daquela defendida em comum pelas três
outras abordagens apresentadas neste volume.
Esta distinção se presta ao que alguns podem perceber como
uma atitude elitista ou desinteressada por parte do idealista,
136 ■ Apocalipse
ção a essas discussõesque debatem a identificação de
ura de linguagem, ao perder o significado do episódio
no qual é constatado. O idealista permite a cada pessoa
à verdade ou à idéia transmitida por um símbolo em
ase com qualquer evento ao longo da história humana,
íaneira, o idealista encontra muitos pontos favoráveis
três alternativas de abordagens representadas neste
, especialm ente com a do preterista, que permanece
i debate que limita a aplicação de um símbolo a um
imento específico ou pessoa.
aproximação idealista aplica princípios de boa herme-
Já mencionei o princípio de identificar o estilo antes
•pretar a literatura. Princípios adicionais também são
os por uma leitura idealista do Apocalipse. O idealis-
incorajado por uma história longa de interpretações
adas do Apocalipse, insiste que os sólidos ensinos das
as têm precedente no que não está claro. O idealista
iera que um ensino novo e único se torne conhecido
:alipse; preferivelmente, ele ou ela espera que as ver-
ontidas ali são ensinadas em outras partes nas Escri-
) idealista, ao afirmar o propósito fundam ental das
as, acredita que o Apocalipse não é uma obra históri-
e os primeiros ou os últim os séculos da igreja, mas
nte a palavra inspirada de Deus dada para o ensino,
ndo, corrigindo, e treinando uma igreja que b u sca
“como estrelas no universo” no meio de uma geração
Dida e depravada (v. Fp 2.15; 2Tm 3.16).
íalmente, a abordagem idealista evita as armadilhas que
[taram os intérpretes do Apocalipse durante séculos. A
da interpretação do Apocalipse deveria ensinar uma
recaver-se de tentar correlatar a imagem apocalíptica
mtos atuais na história humana. Bibliotecas religiosas
pletas de livros de autores cristãos dedicados que iden-
o anticristo e predizem a data do fim do mundo. Quanta
ítação errada tem os de suportar antes de entender-
e as pressuposições hermenêuticas que produzem es-
rpretações estão equivocados? As pressuposições que
muitas abordagens do Apocalipse são ligadas para pro-
iterpretações contraditórias. O idealista porém, ciente
longa história de discordância em cima do significado
vro, caminha intencionalmente para longe de um tem
e e perspectiva de evento-orientado que, no passado,
ou confundir e dividir os cristãos.
3
0 ponto de vista
D ispensacio nai
PROGRESSIVO
■ C. Marvin Pate
DISPENSACIONALISTA
PROGRESSIVO
INTRODUÇÃO E UMA VISÃO DO JESUS RESSURRETO (AP 1.1-20)
O capítulo de abertura de Apocalipse consiste de uma intro
dução (v. 1-8) e de uma visão do Jesus ressurreto (v. 9-20). A
introdução chama atenção ao gênero mesclado do livro: é um
apocalipse (v. 1-3) e uma carta (v. 4-8), escrita por um profeta
(v. 3). Como uma obra apocalíptica, o trabalho de João revela o
plano de Deus para o final dos tempos, especialmente à m e
dida que está relacionado à Segunda Vinda de Jesu s Cristo.
Como uma carta, o Apocalipse inicia com o formato epistolar
típico daqueles dias: autor — João (v. 4); destinatário — as sete
igrejas da Ásia (v. 4); cum prim ento — saudações e bênçãos
do Pai (aquele “que é [...] que era [...] e [...] que há de vir”), o
Espírito Santo (os “sete espíritos”), e o Filho (v. 4-8). A visão de
Jesus ressurreto (v. 9-20) combina com as descrições do Filho
do homem celestial e de Deus, o Ancião de Dias (v. Dn 7 .13 ,14
e Ap 7 .9 ,10 ,13 , respectivamente). A implicação de tal com bi
nação para João é clara: Jesus é Deus.
Para um dispensacionalista progressivo, a chave herm e
nêutica ao Apocalipse (e, quanto a esse assunto, o n t em geral)
é a tensão escatológica do “já/ ainda não” (v. a introdução deste
livro para o contexto desse conceito). Quer dizer, com a pri
meira vinda de Jesus Cristo a era por vir já alvoreceu, mas
ainda não se completou; ela espera a parúsia para sua consu
mação. Dois versículos chave em Apocalipse 1 indicam este
período: 1.1 (v. 3) e 1.19. A seguir, uma breve discussão des
sas passagens críticas:
140 ■ Apocalipse
1) Em 1.1, João afirma que Deus revelou a Jesus Cristo,1 e, a
seguir, para ele, as coisas que “em breve hão de acontecer” (ha
dei genesthai en tachei; v. 1.3; 4.1; 22.6,7; v. Dn 2.28,29,45). Há
uma pergunta sobre se as palavras en tachei significam que os
eventos do final dos tempos ocorrerão em breve (i.e., na vida
de João), ou que, quando realmente começarem, acontecerão
com rapidez. A ú ltim a destas op çõ es adm ite um período
indeterminado entre o dia do apóstolo e o cumprimento de
suas profecias. Porém, se levarmos em conta a reivindicação
subseqüente no versículo 3 quanto a esses eventos, “porque o
tempo está próximo”, a alternativa anterior será a preferida.
Contudo, até aqui, o período da necessidade do cum pri
mento não está limitado à época do escritor. Uma pista para o
significado de João pode ser achada na palavra “tem po” no
versículo 3 (gr. kairos), pois, conforme Oscar Cullmann2 m os
trou, esse termo indica que a igreja primitiva acreditou que a
m orte de Jesu s e sua ressurreição inauguraram os últim os
dias (v., e.g., ICo 10.11; Hb 1.2; l j o 2.18). Isto é o aspecto do
“j á ” de eventos escatológicos. Apesar disso, foram esperados
esses sinais dos tem pos para continuar o curso na história
(porém curto ou longo que possa ser) até a parúsia, isto é, até
a segunda vinda de Cristo (v. Mc 13.7; Mt 24.6; Lc 21.9; 2Ts
2.1-12). Isto é o aspecto do “não ainda” de eventos escatológicos.
O ponto a ser analisado cuidadosamente, nessa considera
ção, é que a igreja primitiva não parecia estar preocupada com
o momento específico da conclusão desses assuntos do final
dos tempos. Para isto, a primeira vinda de Cristo foi inspira
da com o significado escatológico que era mais do que sufici
ente para sustentar a esperança até a parúsia. Conforme veio
a ser, a Segunda Vinda de Cristo foi obviamente adiada, mas
esse adiamento não parecia desestabilizar a igreja dramatica
mente. Para os primeiros cristãos, a parúsia foi um epílogo,
embora importante, para a primeira vinda de Cristo.
2) Se interpretamos Apocalipse 1.1,3 corretamente, ele escla
rece o que muitos consideram ser o versículo fundamental do
*A frase, “a revelação de Jesus Cristo”, provavelmente é um genitivo subjetivo.
Quer dizer, a revelação em que Deus se revela a Cristo é o que o Cristo revela a João.
2Christ and time: the primitive Christian conception of time and history,
tradução para o inglês de Floyd V. Filson, Philadelphia: Westminster, 1950 [Pu
blicado em português com o título Cristo e o tempo, São Paulo: Custom, 2003].
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 141
livro — 1.19. A frase em três partes “as coisas que você viu,
tanto as presentes como as que acontecerão” são corretam en
te compreendidas como algo relevante para apreender o e s
boço cronológico do Apocalipse. Muitos entendem que recorre
ao passado (a visão de Cristo ressurreto, cap. 1), ao presente
(as sete igrejas, caps. 2 e 3), e ao futuro (a grande tribulação, a
parúsia, o reino messiânico temporário, e a nação eterna, caps.
4—22). Porém, outros percebem uma divisão no versículo 19 —
João é instruído a escrever o que viu (tanto a visão do Filho do
homem no cap. 1 ou, como preferimos, a visão do livro in tei
ro, v. 1.19 com 1.11), que consiste nas coisas que são (presen
tes) e as coisas que virão (futuro). Isto é como a r c entende o
versículo: “escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as
que depois destas hão de acontecer”.
Acrescentaríamos a seguinte observação a esta discussão:
O que João se refere no versículo 19 é sua visão apocalíptica
da realidade da natureza — esta era (o presente) e a era por
vir (o futuro). Se esta sugestão for precisa, então nós realm en
te achamos no versículo 19 a chave de interpretação para o
livro de Apocalipse. Os capítulos 2 e 3 descrevem as sete igre
ja s que existem na terra nesta era presente. Os capítulos 4 e 5,
em sua vivida descrição da morte e ressurreição de Jesu s ,
retratam a realidade que a era por vir já alvoreceu, mas so
menteno céu. Os capítulos 6— 18, em seguida, descrevem a
transição desta era para aquela por vir na terra, com a grande
tribulação (ou as aflições messiânicas) marcando o momento
decisivo. Os capítulos 19—22 apresentam a chegada total da
era por vir na terra, iniciada pela parúsia e m anifestada no
reino messiânico de Cristo revelado a todos.
Na leitura de 1.19, uma vez que a tribulação de João (1.9)
pertence às provações desta era (caps. 1— 3), não parece que
ele a entende como equivalente àquela grande tribulação que
marcará o fim desta era e o começo daquela por vir na terra
(caps. 6— 18). Essa observação está de acordo com a aborda
gem p ré -tr ibu lac íon ista ao A pocalipse. Uma visão de 1 .19
também fornece apoio importante para o entendim ento pré-
milenar do reino m essiânico — Embora a era por vir já tenha
se iniciado no céu (caps. 4 — 18), ainda não apareceu na terra
(caps. 19— 22).
142 ■ Apocalipse
CARTAS ÀS SETE IGREJAS (AP 2.1— 3.22)
Dois assuntos requerem discussão para entender as cartas
de João às sete igrejas na antiga província romana da Ásia:
seu gênero e interpretação. A segunda consideração também
menciona a natureza das provações enfrentadas pelas igrejas
em Esmirna, Pérgamo e, especialmente, Filadélfia.
1) Com referência ao gênero das sete cartas, David E. Aune
dem onstrou convincentem ente que essas correspondências
são e s s e n c ia lm e n te o rá cu lo s de ju lg a m e n to de sa lvação
rememorativos da tradição profética do a t . 3 Por conseguinte, a
estrutura das cartas de João pode ser esboçada em quatro com
ponentes; a) Cada uma começa com a fórmula de com issio
namento — a ordem para escrever para a igreja específica, com
uma descrição associada ao Filho do homem condizente às res
pectivas necessidades das congregações (2.1,8 ,12,18; 3.1,7,14);
b) O oráculo de salvação-julgamento forma o cerne de cada
uma das cartas. Como o profeta do a t , Jesus ressurreto que, de
forma distinta, exalta e/ ou critica cada uma das sete igrejas de
acordo com suas situações. Elogios e críticas são endereçados
às igrejas em Éfeso (2.2-6), Pérgamo (2.13-16), Tiatira (2.19-25)
e Sardes (3.1-4). Somente exaltação é oferecida às igrejas em
Esmirna (2.9,10) e Filadélfia (3.8-11), ao passo que a igreja em
Laodicéia recebe exclusivamente críticas (3.15-20); c) O próxi
mo elemento requer a atenção, quer dizer, o desafio para ouvir
e obedecer às palavras do Senhor pelo Espírito (2 .7 ,11 ,17 ,29 ;
3 .6 ,13,22); d) O componente final exorta as igrejas a superar
suas dificuldades para, desse modo, receberem as bênçãos
escatológicas de Deus (2 .7 ,11,17,26-28; 3.5,12, 21).
Compreender que essas cartas são oráculos proféticos au
xilia sua interpretação, particularmente com respeito ao seu
período. O ponto de vista preterista tende a considerar o cum
primento dessas profecias como algo que ocorreu no passa
do (p r in c ip a lm e n te o séc . i d.C.). De ou tro lado, v ár io s
dispensacionalistas clássicos acreditam que essas cartas cor
resp on d em ao d esd o b ram en to da h is tór ia da igre ja (com
Laodicéia representando a apostasia da igreja imediatamente
3Prophecy in early Christianity and the ancient m editerranean world, Grand
Rapids: Eerdmans, 1983, p. 274-9.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 143
antes do retorno de Cristo).4 O dispensacionalista progressi
vo, porém, segue a hermenêutica do “já/ ainda não” com pre
endendo o período desses oráculos: há um senso pelo qual o
cumprimento das profecias ocorreu no passado (particular
mente com respeito ao culto imperial romano do séc. i) e con
tinuará sendo cumprido até a parúsia, o apogeu da história.
O que George Ladd diz em termos gerais a respeito do cum
primento da profecia no Apocalipse especificamente também
se aplica às sete igrejas:
Os profetas do a t mesclaram a perspectiva do próximo e do distan
te para formar uma única tela. A profecia bíblica não é basicamente
tridimensional, mas bidimensional; tem altura e amplitude, mas
está pouco interessada sobre profundidade, isto é, a cronologia de
eventos futuros. Há uma tensão de profecia bíblica e uma tensão
entre o imediato e o futuro distante. É verdade que a igreja primiti
va viveu na expectativa do retorno do Senhor, e é a natureza da
profecia bíblica que torna possível para cada geração viver em
expectativa do fim.5
No que segue, focalizamos no aspecto do já/ ainda não dos
oráculos proféticos às sete igrejas.
Referente ao aspecto do já , a situação que forma o cen á
rio h istórico das sete cartas provavelmente é, como Colin J.
Hemer expôs cuidadosamente, o culto a César.6 Providencia
mos aqui os contornos de sua pesquisa enumerando os itens
relevantes. 1) Com o im perador D om iciano (8 1 -9 6 d.C.), o
culto a César alcançou seu pináculo no século i. A evidência
numismática proporciona ilustrações claras de sua reivindi
cação à deidade; por exemplo, as moedas ostentam seu título
de “senhor e deus” e a imagem de seu filho divinizado, sen
tado em um globo com as mãos estendidas para sete es tre
las (v. Ap. 1.20).
2) Os judeus, ironicamente, estavam isentos da adoração
imperial, um privilégio que no passado se estendeu a Júlio César.
4Embora outros dispensacionalistas clássicos situem essas cartas em rela
ção às sete igrejas no séc. i, eles, no entanto, tb. as vêem como totalmente
operantes ao longo da história da igreja até a volta de Cristo.
14 com m entary on the Revelation o f Jo h n , Grand Rapids: Eerdmans, 1972,
p. 22.
6The letters to the seven ch u rch es o f Asia in theír local setting, j s n t s s 11 ;
Sheffield: Unviversity of Sheffield Press, 1986.
144 ■ Apocalipse
3) O ressentimento resultante de judeus para com os cris
tãos em conseqüência da queda de Jerusalém em 70 d.C.7 não
foi um bom sinal para os cristãos judeus. As sinagogas plane
jaram um modo de expulsar esses judeus cristãos de seu meio,
introduzindo a maldição de “m inim ” (lit ., “hereges”, signifi
cando “os nazarenos” [os seguidores de Jesus]) nas dezoito
bênçãos,8 que foram recitadas nas sinagogas (por volta de 90
d.C.). Assim expostos e excomungados, os cristãos judeus já
não eram considerados pelo governo romano como perten
centes ao judaísmo e, a seguir, enfrentaram o dilema cruel de
ou abandonar a Cristo (se eles fossem readmitidos nas sina
gogas) ou adorar a César. O problema parece ter sido exacer
bado por esses judeus que forneceram aos oficiais romanos
locais as listas de cristãos que já não eram associados às suas
congregações (v. “A carta de Plínio para Trajano", 112 d.C.).
Este contexto político-histórico esclarece o problema teoló
gico que João focaliza nas sete cartas. De fato, esses oráculos
proféticos podem ser vistos como exaltação e/ ou advertênci
as às igrejas por resistir ou não se opor, respectivamente, à
tentação de sucumbir à adoração a César. Portanto, agora re
sumimos esse contexto como expresso em Apocalipse 2 e 3.
Os nicolaítas (2 .6 ,15) e o ensino de Balaão (2.14) — cujos no
mes significam “dominar o povo” — parecem aludir àqueles
nas igrejas que disseram que era permissível adorar a César.
Os ensinos de Jezabel (2.20-22) podem muito bem ser incluí
dos nessa categoria, especialmente contra o cenário da união
da adoração a César com a idolatria pagã, que penetraram nas
associações de comércio daquela época. É diante de tal tenta
ção que o Jesus ressurreto desafia as igrejas a serem fiéis a
ele (2 .4 -6 ,8-10 ,12-16 ,20-25 ; 3 .1-5 ,7-12 ,14-21). Por um lado, há
zOs cristãos fugiram de Jerusalém em 68 d.C. em resposta à advertência de
um oráculo profético da destruição iminente da cidade pelos romanos e, por
conseguinte, não deram seu apoio à revolta judaica (Eusébio, h e , 3.3).
“Aquela “bênção” lê: “Para os renegados não haja esperança alguma, e para
que o reino arrogante possa logo ser fundamentado fora de nossos dias, e os
nazarenos e a minim [‘hereges’] pereçam em um momento e sejam destruídos
do livroda vida e não possam ser inscritos com o justo. Louvado seja tu, O
Deus, que humilhas o arrogante” citado em C. K. Barrett, The New Testament
background: selected documents (New York: Harper & Row, 1961), p. 167. Os
nazarenos são a m inim e provavelm ente serão identificados como cristãos
judeus.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 145
a exaltação especial a esses que sofreram até a morte por obe
decer a Cristo, e não a César (2 .8 -10 ,12 ,13 ) , mas, por outro
lado, há um julgam ento sobre esses judeus que expulsaram
os cristãos judeus das suas sinagogas, o que, co nseqü ente
mente, os expôs ao culto imperial (2.9; 3.5,9).
Em nossa avaliação, a abordagem exclusivamente futurista
em referência ao Apocalipse, em geral, negligenciou o cenário
histórico precedente na interpretação dos capítulos 2 e 3, pro
vavelmente por não querer atribuir importância à adoração a
César para o entendimento de Apocalipse 6— 18. Isso, seria,
aparentem ente diminuir a futuridade dos eventos descritos
nesses capítulos, especialmente a suposição que João espera
va ansiosamente o dia de um império romano reavivado de
baixo do governo do anticristo que se oporá a Cristo e Israel.9
Reconhecer que a adoração a César seja o contexto prático
dos capítulos 2 e 3 e dos capítulos 6— 18, não é necessário,
porém, para restringir os eventos desses capítulos ao passa
do, como a abordagem preterista tende a fazer. Este é particu
la rm e n te o ca so para c o m p re e n d e r o p er íod o da grande
tribulação que, para muitos, é o vínculo temático que liga os
capítulos 2 e 3 e 6— 18. Dale C. Allison registra bem o ponto
de vista de preterista no assunto:
O Apocalipse quase foi certam ente escrito durante um período de
aflição rigorosa. O livro é endereçado àqueles “que compartilham
[...] em Jesus a tribulação e o reino e a perseverança” (1.9). “Tribula
ção” e “sofrim ento” caracterizam a experiência presente dos leito
res (2 .9 ,10 ,13 ; v. 2 .3 ; 12 .17 ; 13.7). As referências às testemunhas
que morreram pela fé são num erosas (6 .9 -11 ; 12 .11 ; 17.6; 18.24;
20.4; v. 13.7).
A suposição que o profeta, como alguns judeus e cristãos antes
dele, com preenderam que sua própria tribulação era grande, a tri
bulação messiânica é também bem fundamentada. Thlipsis caracte
riza o presente, e em Apocalipse esta palavra é um termo técnico
para a aflição final (7 .14; v. 1.9; 2 .9 ,10,22). Mais adiante, a multidão
9Esta abordagem para ver um império romano reavivado em Ap 6— 18 foi
enormemente popular na América devido aos estudos, entre outros, de Hal
Lindsey, The late g rea t planet earth (Grand Rapids: Zondervan, 1970). Para obter
uma crítica dessa perspectiva, v. C. Marvin Pate e Calvin B. Haines Jr., Doomsday
delusions'. what's wrong with predictions about the end of the world (Downers
Grove, 111.:, InterVarsity, 1995).
146 ■ Apocalipse
do Apocalipse 7 .9-17 que saiu da grande tribulação (7.14), inclui,
sem dúvida, aqueles cristãos que recentem ente derram aram seu
sangue como testemunha de Jesus. João talvez, reconhecidam en
te, descreveu uma distinção entre a tribulação presente e sua inten
sificação imediata antes do fim (3.10). Mas não há divisão alguma
entre os dois períodos. Um se coloca como o apogeu do ou tro .10
Allison reconhece 3 .10 justam ente por ser um texto fun
damental nessa discussão, especialm ente em relação ao a s
sunto sobre se a igreja irá ou não enfrentar a grande tribulação.
Sua declaração admite tacitamente uma distinção entre as pro
vações na época de João (caps. 2 e 3) e a grande tribulação
por vir (caps. 6— 19). Além disso, se pudesse ser demonstra
do que a promessa de João para a igreja em Filadélfia impli
cou poupá-la da vinda da grande tribulação, então 3 .10 pode
ser compreendido como o estabelecim ento de um preceden
te para o poupar a igreja da grande tribulação. Porém, após
tudo isto ser dito, não fica claro se a questão gramatical refe
rente à frase grega tçrçsô ek significa “pouparão [vocês] do” (o
ponto de vista da pré-tribulação) ou “manterá [você] por” (o
ponto de vista da média-tribulação ou pós-tribulação).11
Contudo, gostaríamos de dar uma sugestão não detectada
pelos intérpretes dessa passagem. Apocalipse 3 .10 é um exem
plo da “lei sacra”, um pronunciamento divino do qual o casti
go se iguala ao crime ou à recompensa, conforme o comporta
m ento .12 Assim o versículo deveria ser compreendido como,
“Visto que você guardou a minha palavra de exortação em rela
ção à perseverança, eu também o guardarei da hora da prova
ção que está para vir sobre todo o mundo, para pôr à prova os
que habitam na terra [a Grande Tribulação]”. Mas dizer que Cristo
wThe end o f the ages has come: an early interpretation of the passion and
resurrection of Jesus, Philadelphia: Fortress, 1985 , p. 70-1. Estes sentimentos
seriam também compartilhados pela escola idealista de pensamento e, por
conseguinte, pela perspectiva amilenarista.
UA despeito de controvérsias em relação a esse argumento, embora com
pontos de vista divergentes, v. Robert L. Thomas, Revelation 1— 7: an exegetical
commentary (Chicago-, Moody, 1992), p. 283-8 (bem como sua contribuição no
presente trabalho), e Douglas J. Moo, “The case for the posttribulation rapture
position ”, in: The ra p tu re : pre-, mid-, or Post-Tribulational, Grand Rapids:
Zondervan, 1984, p. 169-211 [O arrebatam ento: 3 pontos de vista, é o próximo
livro da série a ser publicado pela Editora Vida].
12Aune aplica esta forma literária de retórica em relação a Apocalipse 3.10, mas
não faz conexão alguma entre esse aspecto e a pré-tribulação v., Prophecy, p. 279.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 147
permitirá que os cristãos em Filadélfia enfrentem as aflições
m essiânicas e padeçam com a morte, mas apesar disso ter
suas almas entregue posteriormente (que é o ponto de vista
da pós-tribulação) não há uma correlação apropriada entre a
recompensa e seu comportamento obediente. Portanto, é m e
lhor com preender a prom essa com o se indicasse que, uma
vez que os crentes em Filadélfia já sofreram pela fé, logo, se
rão mais poupados no futuro (isto é, a grande tribulação; v.
2 .10,13). Se essa interpretação for precisa, então isso tende a
favorecer o ponto de vista da pré-tribulação dessa passagem,
e a distinção entre as provações da época de João e as aflições
m essiânicas por vir permanecem.
A SALA DO TRONO DE DEUS E DE CRISTO (AP 4 E 5)
No estilo próprio judaico, João é arrebatado ao céu para receber
uma visão da sala do trono de Deus (v. Ap 4.1 com Ez 1; lEnoque
14; 4Esdras 14; 3Enoque).13 Apocalipse 4 e 5 é a descrição de João
referente ao tribunal divino, em que usa a imagem de círculos
concêntricos: 1) o trono de Deus e Cristo são o círculo do centro
(4.3; 5.6); 2) os quatro seres viventes (v. Ez. 1.5-25) incluem o
círculo seguinte (Ap 4.6-9); 3) os 24 anciãos e seus tronos (pro
vavelmente uma classe especial de anjos) formam o próximo
(4.4,10,11); 4) uma hoste divina inumerável compõe o último
círculo ao redor do trono (5.11-13). As doxologias quase idênti
cas para Deus (4.7-11) e para Cristo (5.11-14) indicam que os
dois são iguais em sua condição divina.
Ironicamente, Cristo é retratado como o leão-cordeiro. A
imagem anterior o compara ao Messias davídico (v. 5.5 com
Gn 49 .9 ; Is 11.1 ,10) ao passo que o símbolo posterior o retrata
como o cordeiro pascal/ o servo sofrido (v. Ap 5.6 com Êx
12.5,6 ; Is 53.7; Jo 1.29, 36; At 8.32; lPe 1.19). Juntas, as duas
m etáforas descrevem Jesu s como o Messias sofrido. Assim,
só ele é qualificado para abrir o livro dos sete selos selados,
quer dizer, o plano divino para o futuro do mundo que é a
culminação da história da salvação. Além disso, dois conceitos
fundamentais pertinentes a Apocalipse 4 e 5 requerem uma bre
ve discussão: o conflito em contextos culturais pressupostos
13Apocalipse 4 .1 , provavelmente não alude ao arrebatamento.
148 ■ Apocalipsepela visão de João do trono divino, e o período compreendi
do pela exaltação de Cristo ao trono.
1) O contexto histórico-cultural é importante para o dispen
sacionalista progressivo quando interpreta o texto sagrado.
Esse princípio hermenêutico é relevante para a compreensão
de Apocalipse 4 e 5 porque, como os mais recentes estudio
sos reconhecem, provavelmente há nesses capítulos um con
flito histórico-cultural entre judeus-crístãos e o culto imperial
greco-romano. Notamos anteriorm ente que a visão de João
do trono divino de Deus estava arraigada no apocalipse ju
deu, que se desenvolveu a partir da tradição profética do a t .
Esse contexto, uma vez que ele se funde com o cristianismo,
traz à tona vários símbolos em Apocalipse 4 e 5: a) o tribunal
divino de Yahweh/ Cristo (v. lR s 22 .19 ; SI 89.7; Is 24 .23); b)
experiência mística como a maneira de ser transportado ao
trono divino (Ez 1; lEnoque 14; 4Esdras 14); c) a revelação no
céu das coisas que acontecerão na terra no final dos tempos
(Dn 2.29,45; 4Esdras 7 .14 ,83 ; 13.18; 2Baruque 21 .12 ; lQ s 1 1 .5
8); d) o leão-cordeiro e sua imagem respectiva do Messias
davídico/ cordeiro pascal que se torna o padrão que o povo
de Deus em Apocalipse deve seguir — primeiro o sofrimento,
a seguir a glória (v. Ap 7; 14).
Como David E. Aune expôs, Apocalipse 4 e 5 também retra
ta o tribunal cerimonial imperial.14 Os pontos de contato se
guintes com aquele am biente em ergem no sim bolism o dos
capítulos 4 e 5; a) Os reis greco-romanos eram considerados
divinos, suas salas da corte real expressavam isso, de modo
freqüente e artisticam ente, como um ser cósm ico, os quais
eram retratados em círculos concêntricos; b) Seus criados eram
com freqüência associados á astrologia (sete esferas planetá
rias [v. Ap 4.5], 24 [o dobro dos doze sinais do Zodíaco] os
devotos [v. 4 .4 ,10 ; 5.6-10]); c) Esses criados cantaram hinos
de adoração ao rei divino (v. 4.8-11; 5.9-14); d) O rei aplicou
justiça sobre seu império, simbolizado por um livro em for
ma de rolo (v. 5.1-8). Essas considerações, junto com os cla
mores rivalizados em relação às respectivas deidades ao longo
do Apocalipse entre João e o culto imperial do século i (Deus,
14A influência do tribunal cerimonial imperial romano em Apocalipse de
João, Papers o f the Chicago Society ofBiblical R esearch 28 (1983), p. 1 -26 .
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 149
Filho de Deus, o Dia do Senhor, Salvador do mundo) sugerem
que as duas culturas se conflitam na imagem empregada em
Apocalipse 4 e 5.
2) Relacionado ao primeiro assunto, o período adotado por
João para a exaltação de Cristo para o trono requer explicação.
O dispensacionalista clássico relega os eventos do Apocalipse
4 e 5 ao futuro distante. Porém, o dispensacionalista progres
sivo percebe a sobrep osição das duas épocas operantes na
visão de João em relação à exaltação de Cristo ao trono de
Deus. De um lado, com a morte, ressurreição, e ascensão de
Cristo, a era por vir alvoreceu no céu. Isto não é nada menos
que o começo do cumprimento do reinado do Messias davídico
(v. Ap 5 .5 -10a com a aplicação de SI 110.1 em At 2 .32-36; ICo
15.25; Hb 1.13). De outro lado, o reino de Cristo davídico ain
da não desceu à terra (v. Ap 5 .10b com 20.1-6). Os capítulos
6— 19 detalham o processo pelo qual esse reino messiânico
se m a n ifes ta rá na terra . Assim, na época dos even tos de
Apocalipse 4 e 5, a era por vir ainda não se concluiu.15
AS AFLIÇÕES MESSIÂNICAS (AP 6— 18)
No judaísmo primitivo, as aflições messiânicas recorreram ao
tempo da grande tribulação e tristeza que recairia sobre o povo
de Deus imediatamente antes da vinda do Messias. O concei
to é prenunciado no a t em associação ao dia do Senhor (v.,
e.g., Is 24 .17-23 ; Dn 12.1; Jo 2 .1 -11 ,28-32 ; Am 5.16-20; Sf 1 .14
-2 .3 ) , e desenvolvido no apocalipse judeu (4Esdras 7.37; Ju
bileus 2 3 .1 1 ; 2 4 .3 ; 2Apocalipse de Baruque 55 .6 ; lEnoque
80.4 ,5) e no n t (Mt 24/ Mc 13/ Lc 21; 2Ts 2; Ap 6— 18).
Porém, o termo “aflições m essiânicas” não acontece até a
escr itu ra do Talm ude (e.g ., b. S h a b b a th 1 1 8 a ; b. P esahim
118a). Vários eventos eram, com freqüência, associados a es
sas aflições: guerras, terremotos, fome, a perseguição do povo
de Deus, a apostasia dos crentes, e perturbações cósm icas.16
Até mesmo uma leitura casual de Apocalipse 6— 18 indica que
15Para se obter uma boa ilustração da aplicação do dispensacionalista pro-
r.icssivo de SI 110.1 em referência à ressurreição de Jesus, v. Bock e Blaising,
/ ’/ ogressive dispensationalism, p. 177-8.
MiO estudo clássico sobre o assunto do apocaliptismo judeu, inclusive uma
discussão das aflições messiânicas, por David S. Russell, The m eth o d a n dm essa ge
i>/ Icwish Apocalyptic 2 0 0 a.C. a 1 0 0 d.C. (Philadelphia: Westminster, 1964).
150 ■ Apocalipse
o assunto abordado são as aflições messiânicas ou os sinais
dos tempos que acontecerão imediatamente antes do apare
cimento do Messias. Dois assuntos servem como diretrizes
para resumir esses capítulos a partir de um ponto de vista
progressivo dispensacionalista: 1) o período das aflições; e 2)
a identificação dos santos da tribulação. Focalizaremos esses
dois assuntos porque eles produzem um debate vigoroso com
referência à sua interpretação. A primeira consideração rece
berá a maior parte de nossa atenção nesta seção.
0 período do Apocalipse 6— 18
Quanto ao prazo de Apocalipse 6— 18, os preteristas interpre
tam as aflições messiânicas descritas nesse sentido, como se
já tivessem acontecido na época de João. Por outro lado, os
futuristas, especialmente os dispensacionalistas tradicionais,
consideram que esses eventos não serão finalizados até o tem
po que precede imediatamente a parúsia. Em contraste com
estas duas escolas de pensamento, os idealistas discutem que
a imagem dos capítulos 6— 18 expressa a batalha contínua
entre Deus e Satanás e não deveria ser vinculada a qualquer
período cronológico. De certo modo, o ponto de vista progre
ssivo dispensacionalista representa uma abordagem eclética,
combinando com o que compreende ser o melhor nas inter
pretações já mencionadas.
Em bom estilo h erm enêutico , a abordagem progressiva
dispensacionalista com eça seu acolhim ento nos capítulos 6—
18 exam inando seu con texto h istór ico-cu ltu ra l que in eg a
velmente será localizado no século i d.C., especialm ente o
conflito entre César e Cristo. Contudo, visualiza a realidade
desse conflito com o também operante ao longo da história
do povo de Deus. No fim, porém, os dispensacionalistas pro
gressivos acreditam que o cumprimento final desses capítu
los espera o tempo do retorno de Cristo. Em outras palavras,
essa abordagem interpreta os capítulos 6— 18 pela ótica da
tensão escatológica do já/ ainda não. A seguir dividiremos
essa herm enêutica em suas duas partes constitu intes: 1) o
aspecto do já — o cumprimento das profecias do Apocalipse
6— 18 nos dias de João; 2) o aspecto do ainda não — a reali
zação final das p ro fecias no período im ediatam ente antes
da Segunda Vinda.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 151
O cumprimento parcial de Apocalipse 6— 18 nos dias de João
Para defender a tese de que os eventos descritos nos capítu
los 6— 18 experimentaram o cumprimento parcial no século i,
três exemplos de evidências podem ser registrados: a) os últi
mos dias, dos quais os capítulos 6— 18 se ocupam, iniciando
com a primeira vinda de Cristo; b) a estrutura paralela entre a
primeira metade do Discurso de Jesus no Monte das Oliveiras
(Mt 24/ Mc 13/ Lc 21) e os ju lgamentos dos selos em Apocalipse
6 que pertencem aos eventos que conduzem até a queda de
Jerusalém em 70 d.C.; c) alusões históricas ao século i entre
César e Cristo em Apocalipse 6— 18, que servem como con
texto para o cumprimento final dessas profecias em um futu
ro d is tan te da é p o ca de Jo ão . Esse cu m p rimen to parcial
hermenêutico que conduz a uma realização final não deveria
surpreender o leitor, porque é o mesmo exemplo que se en
contra com relação à profecia do a t .
a) Os últimos d ias e a p rim eira vinda de Cristo. O n t afirma
claramente estados em que a época por vir ou os últimos dias
alvoreceram com a primeira vinda de Cristo (At 2.16-21; ITm
4.1; Hb 1.2; l j o 2.18). Uma geração atrás, C. H. Dodd se funda
mentou nessa verdade, mostrando que a igreja primitiva (esp.
como descrito no livro de At) atribuiu significado escatológico
à vida, morte e a ressurreição de Jesus Cristo de várias ma
neiras: 1) Por intermédio de Jesus a era messiânica teve seu
início (At 2.16; 3 .18 ,24) pelo seu ministério, morte e ressur
reição (2.23-33); 2) Pela sua ressurreição, Jesus foi exaltado à
destra de Deus como a cabeça m essiânica do novo povo de
Deus (2.33-36; 3.13); 3) O Espírito Santo é o sinal da presença
do eschaton (a era final) como também a prova de que Jesus
reina atualm ente no céu em poder e glória (2 .23); 4) A era
m essiânica alcançará sua consum ação brevem ente no retor
no de Cristo (3.21); 5) Um convite será sempre estendido às
pessoas que receberem Cristo e a vida da era por vir (2 .38 ,39 ) .17
Gordon D. Fee descreve a tensão escatológica resultante
que caracteriza o cristão entre a primeira e Segunda Vinda de
Jesu s Cristo:
u The Apostolic p reaching and its developments, New York: Harper, 1944, p.
18-45.
152 ■ Apocalipse
Certamente, o sistema essencial para o entendimento do cristia
nismo primitivo, pela igreja primitiva, é escatológico. Os cristãos
passaram a acreditar que, no caso de Cristo, a nova época (por vir)
já se iniciara, e que, especialm ente pela morte de Cristo e sua res
surreição, assim como o dom subseqüente do Espírito, Deus colo
cara o futuro em ação, para também ser consumado ainda mais vez
(na segunda vinda de Cristo), A existência deles foi por essa razão
essencialm ente escatológica. Eles viveram “entre os períodos” do
começo e da consum ação do fim. Deus já assegurara sua [...] salva
ção; e já eram o povo do futuro, que viviam a vida do futuro na
época presente — e desfrutavam seus benefícios. Mas eles ainda
esperavam a consum ação gloriosa dessa salvação. Assim, vive
ram em uma tensão essencial entre o “já ” e o “não-ainda”.18
b) A estru tu ra p a r a le la em A pocalipse 6 e o D iscurso do
Monte d as Oliveiras. O fato de os últimos dias se iniciaram
com a primeira vinda de Cristo nos permite ver os eventos
proféticos descritos em Apocalipse 6— 18 como algo que su
cedeu, parcialmente, no século i d.C. Isto é confirmado pela
estrutura paralela que existe entre os sinais dos tempos con
forme retratado na primeira parte do Discurso do Monte das
Oliveiras e os julgam entos dos selos em Apocalipse 6 .19 Esse
exemplo serve para retratar a geração de Jesus — que se e s
tende da época de sua vida à queda de Jerusalém em 70 d.C. —
como o contexto para a Segunda Vinda. De fato, de acordo
com o Discurso do Monte das Oliveiras, a queda de Jerusalém
(embora em forma de julgamento) é uma parte do aspecto do
“já ” da era por vir, ao passo que o retorno de Cristo constitui
seu aspecto do “ainda não”. Prosseguiremos agora com uma
discussão do aspecto já , especialm ente relativo à queda de
Jerusalém, como apresentado no Discurso do Monte das Oli
veiras em Apocalipse 6.
É um lugar-comum entre os estudiosos do Evangelho hoje
em dia ver o Discurso do Monte das Oliveiras de Jesus retra
tando a Segunda Vinda contra o contexto da queda de Jeru sa
lém. Por exemplo, em seu comentário magistral sobre Lucas,
Joseph A. Fitzmyer escreve o seguinte em referência a Lucas 21:
18i and 2Timothy, Titus, Peabody, Mass.: Hendrickson, 1988, p. 19.
19A seção seguinte é extraída de Pate e Haines, Doomsday delusions, p. 3 4
57. Usado com permissão de InterVarsity Press.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 153
O discurso de Lucas rem emora a catástrofe em Jerusalém (70 d.C.)
em um ponto de vista m icrocósm ico; vê a crise que a vinda terres
tre de Jesus trouxe às vidas de sua própria geração, mas vê isto
agora como um precursor da crise que Jesus e sua mensagem, e
sobretudo sua vinda como o Filho do homem, trará a “todos os que
vivem na face de toda a terra” (21 .35). Os dois eventos são exem
plos para Lucas do julgam ento de Deus [...] Como Jerusalém en
controu seu destino, assim sucederá com todos aqueles que vivem
na face da terra.20
Duas das frases fundamentais no Discurso do Monte das
Oliveiras que destacam a conexão entre a queda de Jerusalém
e a Segunda Vinda são “o início das dores” e “ainda não é o
fim” (Mt 24.6-8/ Mc 13.7,8; v. Lc 21.9). Essas frases transm i
tem a idéia de que os sinais dos tempos com eçaram com J e
sus e sua geração, especialmente a queda de Jerusalém, mas
não estarão completos até o retorno de Cristo.
Para contrapor esse ponto de vista, alguns podem desejar
dizer que a declaração de Jesu s “Eu lhes asseguro que não
passará esta geração até que todas estas coisas aconteçam ”
(Mt 24.34/ Mc 13.30/ Lc 21.32), se adapta melhor à Segunda
Vinda do que à queda de Jerusalém em 70 d.C. Porém, A. L.
Moore refuta essa con ten ção plausível, especia lm ente com
referência a Marcos 13.30, ao recorrer a dois pontos, um gra
matical e o outro contextual.21 Gramaticalmente, as palavras
“todas estas coisas” (tauta panta) são uma referência, posterior,
a “estas coisas” mencionadas no versículo 29, uma atribuição
aos eventos que precedem o fim, não o próprio fim. De fato,
os versículos 29 e 30 falam dos sinais dos tempos que prece
derão à queda de Jerusalém em 70 d.C. (v. 14-23), não à Se
gunda Vinda.22 Esse argumento é confirm ado pela evidência
contextual, quer dizer, a estrutura do Discurso do Monte das
Oliveiras de Marcos (Mc 13). Moore esboça a passagem assim:
v. 1-4 Introdução; a pergunta levantada no v. 4 que conduz a um
discurso do fim e sua data e os sinais do fim e suas datas.
20The Gospel according to Luke x - x x i v , a b , New York: Doubleday, 1983, p. 1329.
21 The parousia in the New Testament, NovTSup 13, Leiden: E. J. Brill, 1966,
132-6.
22Ibid., p. 132-3.
154 ■ Apocalipse
v. 5-23 Os sinais do fim, traçados em quaisquer das duas extre
midades mediante advertências contra a sedução de fal
sos m essias e profetas com o clam or fictício (v. 5 e 6 e
21-23)
v. 24-27 O próprio fim
v. 28-31 Refere-se ao tempo dos sinais do fim e ao seu significado
precedendo o tempo do fim
v. 32-37 Refere-se ao tempo do evento final.23
Com base nessa estrutura podemos descobrir que um tema
paralelo emerge — os sinais dos tempos parecem estar sepa
rados da Segunda Vinda:
Sinais dos tem pos Segunda Vinda
1. v. 5-23 v. 24-27
2. v. 28-31 v. 32-37
A conclusão de Moore parece justif icada: “Considerando
que os sinais acontecerão em um futuro imediato (entretanto
não necessariamente exaurido por aquele futuro imediato), o
próprio fim não está tão delimitado.24 Devido a razões grama
ticais e contextuais, então, “estas coisas” parecem recorrer aos
eventos que conduzem à queda de Jerusalém em 70 d.C., não
à Segunda Vinda.
O exemplo m encionado — de que a queda de Jeru sa lém
serve como o contexto histórico para a Segunda Vinda — tam
bém parece se ajustar ao livro do Apocalipse.25 O reconheci
m ento d isso p erm ite a s s o c ia r os s ina is dos tem p o s que
descrevem a queda de Jerusalém no Discurso do Monte das
Oliveiras aos ju lgam entos delineados no Apocalipse, esp eci
almente os julgamentos do selo em Apocalipse 6, o protótipo
da trombeta e a taça dos julgamentos. R. H. Charles nota as
seguintes conexões:
23Ibid., p. 134.
24ibid,, p. 134-5.
25V., e.g., os trabalhos por J. Massyngberde Ford, Revelation, a b (NewYork:
Doubleday, 1975), especialmente sua exposição de Apocalipse 6 e 17; Alan
James Beagley, The “Sitz im leben" o f the Apocalipse with particular re feren ce to
the role o f the ch u rch ’s enemies (New York: Walter de Gruyter, 1987), especial
mente o cap. 2; Kenneth L. Gentry Jr., Before Jerusalem fell: dating the book of
Revelation (Tyler: Institute for Christian Economics, 1989).
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 155
Mateus Marcos Lucas Apocalipse
24.6,7, 9a, 29 13 .7-9a, 24 ,25 21.9-12a, 25 ,26 6.2-17; 7.1
1. Guerras 1. Guerras 1. Guerras Selo 1. Guerras
2. Conflito 2. Conflito 2. Conflito Selo 2. Conflito
internacional internacional internacional internacional
3. Fome 3. Terremotos 3. Terremotos Selo 3. Fome
4. Terremotos 4. Fome 4. Fome Selo 4. Pragas
(morte e inferno)
5. Perseguições 5. Perseguições 5. Pragas Selo 5. Persegui
ções
6. Eclipse do sol
e da lua; as
estrelas cairão;
os poderes
celestes serão
abalados
6. Eclipse do sol
e da lua; as estre
las cairão; os
poderes celestes
serão abalados
6. Perseguições Selo 6. (6 .12—
7.3) Terremotos,
eclipse do sol, a
lua torna-se
vermelha como
sangue26
A conclusão a ser tirada dessas comparações é que os três
Evangelhos e o Apocalipse vêem os sinais dos tempos como
já iniciados na geração de Jesus, particularmente com a que
da de Jeru salém em 70 d.C. A tarefa perante nós, então, é
arraigar brevem ente os sinais precedentes dos tem pos nos
eventos que cercam a queda de Jerusalém . Excetuaremos a
discussão da figura do anticristo (v. Ap 6.2 com Mc 1 3 .5 ,6 ,2 1
23 e paralelos) para a nossa terceira prova irrefutável, a fim de
seguir as alusões históricas em Apocalipse para o século i d.C.
i) G uerras (v. Mt 2 4 .6 ,7 / Mc 1 3 .7 ,8 / Lc 21 .9 ,10 ; v. Ap 6.3,4).
No Discurso do Monte das Oliveiras, Jesus reconheceu a cer
teza de guerra, mas acrescentou que necessariamente não era
o sinal que o fim havia chegado totalmente. Como outros si
nais dos tempos, era somente o começo do “início das dores”
ou os sinais dos tempos (v. Mc 13.7,8 e paralelos). Muitos in
térpretes acreditam que a referência de Jesus para o aumento
de guerras aqui e em Apocalipse 6 .3 ,4 (o segundo cavaleiro)
26A criticai and exegetical com m entary on the Revelation o f St. John, ict,
lidinburgh; T. & T. Clark, 1920 , vol. 1, p. 158; cf. Louis A. Vos, The synoptic
traditions in the Apocalypse (Kampen: Kok, 1965), 181-92.
156 ■ Apocalipse
é uma alusão ao século i. A paz que César Augusto (31 a.C.-14
d.C.) estabeleceu (pax Romana) ao longo do império romano foi
muito breve. As guerras começaram na Inglaterra, Alemanha,
Armênia, e Partia sob o Imperador Cláudio (entre 41 d.C. e 54). O
período seguinte, após a morte de Nero (69 d.C.), viu a rápida
ascensão e queda de três imperadores, Oto, Galba e Vitélio, em
meio aos motins civis e ao caos político. O período após a morte
de Nero era tão devastador que ameaçou reduzir o império ro
mano a nada. O perigo que Roma enfrentou naquele momento
era bem conhecido por aquela geração. Josefo escreveu sobre
as guerras civis romanas, “eu omiti uma explicação exata delas,
porque são bem conhecidas por todos, e são descritas por gran
de número de autores gregos e romanos” (Wars 4 .9 .2; v. Tácito,
Histories 1.2-3; Seutônio, Lives, “Vespasiano” 1).
Especialmente pertinente ao sinal dos fins dos tem pos de
guerras e rum ores de guerras havia a revolta judia contra
Roma, que culminou na queda de Jerusalém (66-70 d.C.). A
guerra judaica contra Roma testemunhou a morte de m ilha
res e milhares de judeus na Judéia e a escravização de outros
milhares. A estimativa de Josefo é que 1 100 000 ju deus fo
ram mortos naquela época (entretanto ele indubitavelmente
exagerou no cálculo). Tito, o general romano, destruiu to ta l
mente a cidade. Josefo relata esse acontecimento desse modo:
Agora, visto que o exército não tinha mais pessoas para m atar ou
saquear, porque lá não permaneceu ninguém para ser objeto da sua
fúria (porque não teriam poupado ninguém, mesmo se tivessem
outro trabalho a ser feito lá) César ordenou que não deveriam demo
lir a cidade inteira e o templo, mas deveriam deixar o máximo das
torres erguidas, isto é, as de maior eminência; quer dizer, Phasaelus,
Hippicus, Mariamne e o muro anexo à cidade no lado ocidental. Esse
muro foi preservado para servir de acampamento, como também
para alojar a guarnição e poupar as torres para mostrar às gerações
futuras que tipo de cidade fora e como era fortificada, mas que fora
subjugada pela bravura romana; mas todo o restante do muro foi
posto abaixo, reduzido totalmente, ao mesmo nível do solo, por
aqueles que os escavaram até a sua base, até que não sobrasse nada
para levar os que fossem para lá a acreditar que jamais fora habita
do. Este foi o final que sobreveio a Jerusalém pela loucura daqueles
que eram em prol das in o v açõ es; um a cid ad e de gran d e
magnificência e fama entre toda a humanidade (War 7.1.1).
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 157
Para Josefo, a destruição de Jerusalém estava além de qual
quer comparação. Ele observa:
Considerando que a guerra que os judeus fizeram com os rom a
nos foi a maior de todas, não som ente as ocorridas em nosso
tem po, mas, até certo ponto, daquelas que jam ais se ouviu falar;
em que cidades lutaram contra cidades, ou nações contra nações
[...] Por conseguinte, me parece que os infortúnios de todos os
homens, desde o princípio do mundo, se forem com parados a
esses dos judeus, não são tão consideráveis e tão devastadores
(War, prefácio a 1 e 4).
A profecia de Jesus sobre a cidade tornara-se realidade (Mt
24.15/ Mc 13.14/ Lc 19.41-44; 21 .20-24 ; Ap 6.3,4 ; 11.1,2 [cf. v.
8]; 17,18).
n) Fom e (Mt 2 4 .7 / Mc 1 3 .8 / Lc 2 1 .1 1 ; v. Ap 6.5,6). A c o n se
qüência inevitável da guerra é a fom e, que não foi descrita
em nenhum lugar tão perfe itam ente quanto em Apocalipse
6 .5 ,6 (v. 7,8), conforme a descrição do terceiro cavaleiro. Te
ria sido fácil para o profeta do Apocalipse p ressentir a guerra
e a fome. Durante o reinado de Cláudio, a fom e ocorreu em
Roma no ano 42 d.C., e a escassez de comida foi inform ada
na Judéia em 4 5 -4 6 , na Grécia em 49 , e em Roma novam en
te em 51. A referência para o par de balanças e a inflação no
preço dos alim entos em 6 .5 ,6 pode não ajudar, mas pode
ao menos fazer recordar a severa fome que ocorreu em J e
rusalém durante seu cerco pelo exército rom ano. Naquela
época, os habitantes da cidade tiveram de pesar sua comida
e bebida por causa da escassez d esses gêneros. Tão grave
era isto que até m esm o o amor de uma mãe pela sua cr ia n
ça cessou . Jo se fo registra a história sobre Maria, uma m u
lher da Peréia que e s ta v a e n tre os ju d e u s fa m in to s em
Jeru sa lém durante o cerco. Ela agarrou sua criança, levan
do-a ao peito, matou-a e assou-a para com er (Wars 6 .3 .4 ; v.
6 .5 .1 ; Lc 21 .2 3 ) . Observe também essa descrição de Josefo ,
referente à fome durante a guerra ju d aica contra Roma:
Mas a fome atacava a todos, e destruía aos poucos a resistência das
pessoas; o que era de outra maneira digno de reverência, estava
agora menosprezado; visto que as crianças arrancavam para fora
da boca de seus pais os pedaços que eles estavam comendo, e o que
ainda era mais constrangedor, assim fizeram as mães com seus
filhos (War 5.10.5).
158 ■ Apocalipse
A queda de Jerusalém e a fome resultante também podem
explicar a declaração irônica em Apocalipse 6.6, “e não danifi
que o azeite e o vinho”. A ordem de poupar o azeite e o vinho
é possivelmente uma alusão à ordem do general Tito de que
até mesmo durante o saque de Jerusalém, oliveiras (para azeite)
e videiras (para vinho) deviam ser poupadas. Nesse caso, a
queda de Jerusalém serve como perfeito contexto para o ter
ceiro julgamento do selo (6.5,6), como faz para a profecia do
Discurso do monte das Oliveiras sobre a inevitabilidade da
fome. Realmente, a declaração de Jesus de que tais horrores
eram, porém, o começo do fim (Mc 13.7), a iniciação das afli
ções messiânicas (13.8), aponta naquela direção (v. Ap 6.7 ,8com o quarto julgam ento do selo).
m) Perseguição (Mt 2 4 .9 ,1 0 / Mc 1 3 .9 -1 9 / Lc 21.12-19; v. Ap
6.9-11). Há três destinos ligados que foram delineados no Dis
curso do Monte das Oliveiras e no quinto julgamento do selo
de Apocalipse: a perseguição dos discípulos de Jesus, a cru
cificação de Jesus e a destruição de Jerusalém. A conexão apa
rente a ser feita entre eles é que a crucificação de Jesus por
Israel e a perseguição subseqüente de seus discípulos trouxe
ram a destruição divina sobre Jerusalém.
O Discurso do Monte das Oliveiras, de forma preocupante,
prediz que os d isc íp u lo s de Je s u s serão p ersegu id os (Mt
24.9 ,10/ Mc 13.9-19/ Lc 21.12-19). O segundo volume de Lucas,
Atos, registra o cumprimento da predição de Jesus, d escre
vendo as perseguições de Pedro e de João (At 4 .1-12; v. 1 2 .3
19), Estêvão (6 .8 — 7 .6 0 ) , T iago ( 1 2 .1 ,2 ) , Paulo (1 6 .2 2 - 3 0 ;
21 .2 7 — 23.35), e muitos outros judeus cristãos (8.1-4). Ao se
rem entregues às autoridades judias e romanas, os discípu
los estavam repetindo o destino de Jesu s (notavelmente, a
crucificação dele). Allison demonstrou cuidadosam ente que
essa aflição era compreendida pelos primeiros cristãos como
o começo das aflições messiânicas, um tempo de perseguição
incomparável do povo de Deus, que esperava-se que p rece
desse a chegada do Reino de Deus imediatamente.27
27V. The end o f the ages has come. Para um tratamento específico das corre
lações de Lucas-Atos de uma perspectiva semelhante, v. J . Bradley C h a n c e ,
Jerusalem , theTtempIe, and the new age ín Luke-Acts (Macon, Ga.: Mercer Unvi.
1988), p. 120-1.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 159
Posteriormente, a tradição da igreja entendeu que a queda
de Jerusalém em 70 d.C. ocorreu com o resultado do ju lg a
mento divino devido à perseguição dos seguidores de Jesus
pelos judeus. Por exemplo, Eusébio, o historiador da igreja
do século iv, refere-se à crença de muitos de que Deus julgou
Jerusalém porque mataram o meio-irmão de Jesu s, Tiago, o
Justo (Eccl. Hist. 2.23). Até mesmo Josefo atribuiu a queda de
Jerusalém ao ju lgam ento divino. Escrevendo sobre o in cên
dio e a destruição do templo perto do fim de agosto e no iní
cio de setembro em 70 d.C., ele diz que o fogo por fim não foi
colocado pelos romanos: “As chamas [...] tiveram sua origem
e causa no “povo de Deus” (War 6.4.5).
Os três mesmos destinos entrelaçados aparecem em Apo
calipse 6.9-11, o quinto julgamento do selo deixa claro que os
mártires descritos ali são cristãos. As descrições correspon
dentes desses santos ocorrem em 7.9-17 e 14.1-5. Seu m ode
lo no sofrimento pela retidão é Jesus, o Cordeiro que foi morto
(5.6-14). Mas quem eram os perpetradores dessa in justiça e
violência contra o povo de Deus? Apocalipse 6 .10 fornece uma
pista: Eram “os habitantes da terra” (v. 3.10; 11.10). Embora a
frase possa significar “os habitantes do m undo”, o entendi
mento mais provável desta frase é “os habitantes da terra [a
Palestina]”. Alan J. Beagley descreve esses “moradores da ter
ra” como são retratados no Apocalipse:
Ap 6 .10 deixa claro que eles foram envolvidos na perseguição e
matança daqueles que pregavam a Palavra de Deus, e de quem
permaneceu fiel em seu testemunho, e é contra esses perseguido
res e, em particular, que os mártires clamam a Deus por vingança.
Então novamente, são os “habitantes da terra” que especificamente
são designados como as vítimas das três “aflições” que são associ
adas à quinta, à sexta e à sétima trom betas (8.13). O mesmo termo
também é usado por aqueles que, de algum modo, sofreram pelo
ministério, das “duas testem unhas” e que se alegram e trocam pre
sentes pela morte das testem unhas (Ap 11.10). Também é esse
mesmo grupo de pessoas que se sujeitam à besta do mar e são
caracterizados mais adiante como “todos aqueles que não tiveram
seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto
desde a criação do mundo” (13.8). Finalmente, no capítulo 17, os
“habitantes da terra” são associados à meretriz, “Babilônia”, e com
a besta escarlate na qual ela está montada: eles se embriagaram
160 ■ Apocalipse
com o vinho da fornicação da m eretriz (v. 2) e se sujeitaram pelo
temor à besta e sua aparente permanência (v. 8).28
A interpretação de Beagley é que essa é uma descrição dos
habitantes de Jerusalém . Outros concordam . Por exem plo,
Philip Carrington vê na frase “os habitantes da terra”
uma indicação de que o profeta está pensando em um julgamento
que cairá sobre Jerusalém, desde que há no clam or dos mártires o
primeiro eco nítido das palavras de Jesus; porque ele diz que lá
sobrevirá todo o sangue do justo que está sendo derramado na
terra, do sangue de Abel ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias,
a quem vocês assassinaram entre o santuário e o altar; verdadeira
mente, digo a vocês, tudo isso sobrevirá a esta geração (Mt 23.35).
Não só o símbolo de vingança de sangue é o mesmo, mas m ostra o
que um estudo posterior confirmará; é a terra de Israel e, em parti
cular, o Templo em Jerusalém, que sofrerá. E temos de lembrar que
há uma sugestão da mesma idéia nos quatro selos; porque, confor
me os quatro julgamentos em Ezequiel para o qual eles correspon
dem, todos eram para sobrevirá Jerusalém .29
iv) P e r tu r b a ç õ e s C ósm icas (Mt 2 4 .2 9 / Mc 1 3 .2 4 ,2 5 / Lc
21.11 ,25 ,26 ; v. Ap 6.12-17). O a t associou os distúrbios cósm i
cos à vinda do julgamento divino, especialmente o dia do Se
nhor (Is 34.4; Ez 32.7; J1 3.3,4; Hc 2.6,21). Que Jesus deveria
usar essa imagem apocalíptica para descrever a queda de J e
rusalém (v. esp. Lc 21.11) não era incomum. Josefo fez o m es
mo: “Muitos desses que estavam fatigados pela fome, e suas
bocas quase fechadas, quando viram o incêndio da casa san
ta, m ostraram força extrema, e desabafaram em gemidos e
clamores novamente. Peréia também replicou o eco [...] e au
mentou a intensidade do barulho” (War 6.5.1). Em outra pas
sagem , Jo s e fo culpa os h a b ita n te s de Je ru sa lé m por não
reconhecer o julgam ento de Deus na cidade e não acreditar
26The “Sitz im Leben" o f the Apocalipse, p. 36.
29The m eaning o f the Revelation, London: s p c k , 1931, p. 131-2. Deveria ser
notado, no entanto, que o paralelismo da (lit.) “habitantes da terra” e “a toda a
terra habitada" registrado em Apocalipse 3.10, como Thomas observa a seguir
(v. a nota de rodapé 24), apresenta um problema por restringir esse julgamen
to para a terra de Israel. Essa dificuldade seria melhorada se o julgamento em
Jerusalém em 70 d.C., presumido anteriormente, servisse como o cenário para
o julgamento futuro do mundo inteiro.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 161
nos aparentes presságios que sinalizaram a vinda da desola
ção. Assim foi quando uma estrela, parecida com espada, pai
rava sobre a cidade, e um cometa permaneceu por um ano
('War 6 .5.3).
0 sexto julgamento do selo do Apocalipse (6.12-17) parece
também utilizar a linguagem apocalíptica para relatar deta-
Iha-damente os distúrbios cósm icos no século i. A abertura
do sexto selo (6.12-17) introduz vários fenômenos físicos es
petaculares que infligem terror a pessoas de todo nível social,
de forma que eles buscam esconder-se de Deus e do Cordei
ro. Beagley acredita que isso se refere a vários terremotos no
século i, três são re latados por T ác ito (A nnals 1 2 .4 3 , 58;
14.27) — em 51, 53, e 60 d.C. — e outros durante a sétima
década (mencionado por Sêneca, N atu rales Q uaestiones 6.1;
7.28). O escurecimento do sol refere-se talvez a eclipses sola
res que ocorreram entre 49 e 52 d.C., ou aos fenômenos asso
ciados à erupção de Vesúvio em 79. Beagley também sugere
que as ilhas que são movidas de seus lugares (Ap 6.14) está
ligado com “a form ação súbita de ilhas novas” (e,g„ Tera e
Terasia; v. Sêneca, N aturales Q uaestiones 6.2, 6). Beagley tam
bém chama atenção à conexão entre Apocalipse6 .16 e Lucas
23.30, os quais aludem à destruição de Jerusalém em 70 d.C.30
Assim, comparando a primeira parte do Discurso do Monte
das Oliveiras com os julgamentos do selo de Apocalipse 6, pode-
se ver facilmente que os sinais dos tempos começaram na ge
ração de Jesus, particularmente com a queda de Jerusalém.
c) As alu sões h istóricas do conflito de C ésar e Cristo. Outra
pista de que os eventos de Apocalipse 6— 18 foram cumpri
dos parcialm ente no século i são as a lu sões h istór icas do
conflito de César e Cristo que afluem nestes capítulos. Re
tratando esse conflito, o apóstolo João transmite a dupla idéia
de que o espírito do anticristo já tinha entrado no cenário
humano (v. Mt 2 4 .4 ,5 ,1 1 ,1 2 ,2 3 -2 6 / Mc 13.5,6/ Lc 21.8 ; 2Ts 2;
l j o 4 .3 ; Ap 6.2) junto com a apostasia que se esperava que
ele causasse (v. Ap 13 .15 -18 com Mt 24 .10-13/ Mc 13.20-23/
Lc 21 .34-36) . A seguir, focalizarem os nossa atenção no culto
imperial, especialmente na era de Nero (54-68 d.C.), confor
me form a o cenário h istór ico em Apocalipse 6 .2 ; 13 .1 -18 ;
17 .8 -13 .
30The “Sitz im L eben” o f the Apocalypse, p. 44-5.
162 • Apocalipse
Provavelmente, o melhor entendimento do primeiro cava
leiro do Apocalipse (6.2) é que ele se refere ao anticristo.31 Os
símbolos do cavalo branco e do arco servem como paródia de
Cristo (19.11-19). Uma interpretação popular desse julgamento
do selo é que descreve os partos primitivos, usando a lingua
gem apocalíptica. Os partos eram arqueiros e especialistas em
cavalaria, e se colocavam como ameaça constante ao império
rom ano no sécu lo i. Eles sem p re esperavam cru zar o rio
Eufrates, e em 62 d.C., seu líder militar, Vologesus, atacou algu
mas legiões romanas. Os partos montaram cavalos brancos, e
seu fundador, Selêuco, foi chamado de Nikator, “o vencedor”.32
Além disso, se, como um número de estudiosos acredita, a
besta de 13.3 (v. 17 .11), que recebeu uma ferida mortal na
cabeça, mas foi revivida, utiliza a história (revivida) do redivivus
de Nero, então o cenário partiano de 6.2 fica fortalecido. Em
bora os primeiros cinco anos de Nero como imperador foram
relativamente bons, houve um declínio após esse período ini
cial. Ele cometeu uma monstruosidade após outra, sodomia,
tirania, incluindo os assassinatos dos inimigos, amigos e fa
miliares e perseguição aos cristãos (começando em 64 d.C.).
Realmente, o título “besta” era algo que se ajustava a ele (13.1).
Nero era tão impopular que no fim de seu reinado (67-68 d.C.),
havia revoltas n o tó r ias co n tra sua au toridade na Gália e
Espanha. Finalmente, a guarda pretoriana e o senado o pro
clamaram inimigo público e aprovaram Galba como seu su
cessor.
Nero fugiu e, segundo relatos, se matou empurrando uma
espada pela garganta em 9 de junho, 68 d.C. Porém, a expan
são do rumor de que não morrera, mas escapara para Partia e
de que voltaria com o exército partiano para recuperar seu
trono — essa é a razão do aparecimento da história de Nero
redivivus. Essa expectativa aterrorizante do retorno de Nero,
um tipo do anticristo, conduzindo a cavalaria partiana m on
tada em cavalos brancos com arcos e flechas, para conquis
tar, é algo lógico quando observamos o primeiro cavaleiro do
Apocalipse. De maneira semelhante, Sibylline Oracles 4 .119-27,
escrito judaico do século i, fornece uma descrição combinada
31V. esta defesa convincente deste ponto de vista por Vos, The synoptú
traditions in the Apocalypse, p. 187-92.
32V. a discussão por Ford, Revelation, p. 106-7.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 163
entre a história de Nero redivivus e a destruição de Jerusalém
pelo general romano, Tito, em 70 d.C.:
E então da Itália, um grande rei, como um escravo fugitivo, fugirá
sem ser visto, como um desconhecido, pela passagem acima do
Eufrates; quando ousará até mesmo a contaminar suas mãos com o
horror do assassinato de uma mãe, e muitas outras coisas também,
aventurando atos impensáveis com seu jugo perverso. E muitos,
pelo trono de Roma, mancharam o solo com o seu sangue, quando
ele fugiu além da terra partiana. E um líder romano [Tito] virá para
a Síria, que queimará completamente o templo de Solima com fogo
e também matará muitos homens e destruirá completamente a gran
de terra dos judeus.
Examinar 13 .1-18 pelo pano de fundo neroniano, fornece
uma perspectiva mais clara sobre esses versículos, que de ou
tra maneira seriam bem confusos. O infame Nero merece o
título de “besta” aplicado a ele pelo profeta do Apocalipse (v. 1).
Apocalipse 13.1-6 retrata o cenário genérico da besta, que é o
império romano do século i. As sete cabeças correspondem às
sete colinas de Roma, ao passo que os dez chifres aludem ao
século i de César, porém alguém pode numerá-los (v. 1).33A
adoração blasfema, exigida pela besta, lembra o culto imperial
do século i e a guerra que a besta empreende contra os santos
não pode ajudar, mas pode fazer recordar as perseguições in
tensas que Nero, e Domiciano posteriormente, infligiram aos
cristãos porque não adoraram a César.
Além desse contexto genérico, também pode haver alusões
específicas nesse texto para o próprio Nero, o precursor do
anticristo. Já notamos seu caráter bestial (v. 1) e sua suposta
recuperação (v. 3). A perseguição de Nero aos cristãos de no
vembro de 64 d.C. a junho de 68 d.C. poderia contar, em par
te, para a m enção dos 42 m eses (ou três anos e meio) de
opressão mencionada em 13.5. A referência, no versículo 10,
para esses que matam com a espada, e são mortos pela espa
da, faz lembrar simultaneamente a perseguição de Nero aos
cristãos e sua própria morte, aparentem ente pela espada. A
referência em 13 .11-15 à besta da terra garantindo adoração
i3Ford provê uma discussão completa do debate se devíamos começar com
Julio César (47-44 a.C.) ou com César Augusto (31 a.C. a 14 d.C.), como também
assuntos relacionados à identificação dos dez reis (Revelation, p. 210-7, 289-93).
164 ■ Apocalipse
para a besta do mar (Roma estava do outro lado do mar em
relação ao local onde o Apocalipse foi escrito [a Ásia Menor])
lembra um dos sacerdotes locais do culto imperial na Ásia
Menor, cuja tarefa era compelir as pessoas para oferecer um
sacrifício a César e proclamá-lo senhor.
Megalomaníaco como era, Nero teve moedas cunhadas nas
quais foi chamado “deus todo-poderoso” e “salvador”. O retra
to de Nero também aparece em moedas, como o deus Apoio
tocando lira. Embora imperadores anteriores tenham sido pro
clamados deidades após sua morte, Nero abandonou toda de
cência e exigiu honras divinas enquanto ainda estava vivo (como
também fez Calígula antes dele, 37-41 d.C.). Aqueles que ado
raram o imperador receberam um certificado ou marca de apro
vação (gr. c h a r a g m a , a m esm a palavra usada em 1 3 .16 ) .
Relacionado a isto, no reinado do imperador Décio (249-251
d.C.), os que não possuíam o certificado de sacrifício a César,
não puderam comercializar, uma proibição que possivelmente
retorna a Nero, lembrado em 13.17. Finalmente, no número
666 (13.18) pode-se descobrir o uso da visão apocalíptica de
gem atria, um criptograma matemático que atribui valores nu
méricos a letras do alfabeto. Mais de um estudioso viu a possível
referência desse número em Neron Kaiser. A avaliação numérica
hebraica para nrw n q sr , como se segue: n = 50, r = 200, w = 6, n =
50, q = 100, s = 60, e r = 200, todos os quais somam 666 .34
O contexto neroniano também esclarece 17.8-13. As m es
mas m etá fo ras arra igadas no im pério rom ano a co n tecem
aqui — sete cabeças, sete colinas, e dez chifres, César com
nom es b lasfem os exigindo adoração. O detalhe adicionado
relaciona-se à identificação da besta que “era e não é, e está
para subir do abism o” (v. 8 ; n v i) . A informação mais específica
sobre esse personagem é fornecida nos versículos 10 e 11. De
acordo com Charles, o quinto rei “que era e virá”, refere-se a
Nero (em particular, ahistória de Nero redivivus). Além disso,
observa Charles, o rei “que é”, é Vespasiano (69-79 d.C., não
levando em conta os reinados curtos e ineficazes de Galba
[68-69], Ota [69] e Vitelo [69]). O outro rei que não veio ainda, e
quando vier, deve permanecer um pouco mais, é, de acordo
com Charles, Tito (79-81), que morreu após curto reinado.'1'
34V. o resumo conveniente de Gentry sobre o assunto, The beast o f Revelation
(Tyler: Institute for Christian Economics, 1989), cap. 3.
35C h a r l e s , The Revelation o f John 2, p. 69-70.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 165
Utilizar esse período histórico também ajuda a descobrir o
significado de 17.1-7. O apóstolo João descreve nesse ponto
uma meretriz, repleta de nomes blasfemos, montada na bes
ta. Vários estudiosos, de forma correta conforme nossa avali
ação, identificam a meretriz com o Israel, infiel, especialmente
Jerusalém .36 A descrição no versículo 6 da meretriz matando
os mártires remete claramente às acusações de Jesus contra
Jerusalém (Mt 23.29-39). A idolatria da cidade também recor
da a deslealdade passada de Israel em relação a Deus, nessa
ocasião provavelmente manifestada no século i devido à situ
ação religiosa privilegiada do judaísmo diante do governo de
Roma. Porém, os cristãos judeus primitivos não compartilha
ram essa situação. Expulsos das sinagogas, foram forçados a
confrontar a adoração a César.37 Quando João fala da besta
que ataca a meretriz e a destrói (v. 16-18), ele com toda a pro
babilidade alude ao julgam ento divino que aconteceu em J e
rusalém por ter cooperado com o culto imperial. A destruição
de Jerusalém em 70 d.C. também parece estar esboçada em
11.2, em que é mencionado que o tribunal exterior do templo
foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa (v. Lc 21.24).
Com relação a esta discussão de 17.1-13 podemos recor
dar em 13 .15-18 e em particular um detalhe adicional naque
le texto — a marca da b esta na testa/ e na mão direita do
adorador pode ser bem uma paródia do amuleto judaico nos
dias de Jesus. Baseado em Deuteronômio 6.8, os homens ju
deus adotaram o costum e de am arrar caixas de couro que
contêm porções dos Dez Mandamentos a seus braços e cabe
ças durante o período de oração. Se considerarmos esse ce
nário, a exposição da marca da besta pode ser entendida como
apontando um dedo de culpa àqueles judeus no século i, os
que relegaram o seu compromisso ao monoteísmo e coopera
ram com a Roma imperial. Isto explica claramente por que o
Apocalipse se refere a essas pessoas como esses “que se di
zem judeus mas não são, sendo antes sinagoga de Satanás”
(2.9,24; v. 1.7; 17.3). Sua rejeição de Jesus e de seus seguidores
por um lado, e sua aceitação, ou pelo menos sua condescendência,
!6E.g., Revelation, p. 285-8 ; Beagley, The “Sitz im L eben” o f the Apocalypse, p.
92-102.
37V. a discussão de Everett Ferguson sobre esse assunto, Backgrounds o f
early Christíanity (Grand Rapids; Eerdmans, 1987), p. 342-3.
166 ■ Apocalipse
em relação à adoração a César, adoração por outro lado, de
acordo com o profeta do Apocalipse, não era nada menos que
apostasia escatológica.
A culminação de Apocalipse 6— 18 à segunda vinda
Embora alusões históricas possam ser descobertas nos dias
de João nos julgamentos do selo de Apocalipse 6, como tam
bém ao longo dos capítulos 6— 18 (e.g., v. cap. 11, e também,
possivelmente os caps. 17 e 18 com a queda de Jerusalém; ou
observe como o culto imperial repercute nos caps. 13 e 18), o
dispensacionalista progressivo acredita que o último cumpri
mento dos eventos proféticos contidos nesses capítulos e s
pera o tempo da Segunda Vinda. A evidência mais significativa
que apóia essa perspectiva é a relação que existe entre as três
séries de ju lgam ento delineado em Apocalipse 6— 18: selos
(cap. 6), trombetas (caps. 8 e 9), e taças (caps. 15 e 16).
Se alguém interpretar estes ju lgam entos como paralelos,
então é possível concluir que eles foram todos realizados no
século í, particularmente nas circunstâncias da queda de J e
rusalém, ou em torno delas. Nessa leitura, estava a linguagem
cósm ica e catastrófica empregada para descrever essas de
m onstrações de ira divina, mas um modo apocalíptico para
descrever as realidades históricas para as quais correlataram.38
Porém , se os t rê s ju lg a m e n to s que in c lu e m as a f l i ç õ e s
messiânicas são seqüentes e por essa razão intensificados de
fato, então é menos provável que a totalidade desses eventos
corresponda ao século i. Ao contrário, eles apontam para uma
era futura para seu último cumprimento.
Pelo menos seis partes de evidência parecem estabelecer o
ponto de vista que os ju lgam entos de Apocalipse 6— 18 são
seqüentes, não paralelos. 1) as três séries de julgamento pa
recem ser lineares, isto é, os selos conduzem às trombetas,
que conduzem aos ju lgam entos das taças. Em outras pala
vras, o sétimo selo (8.1-5) se revela nas sete trombetas (8 .6—
38Para uma boa ilustração dessa perspectiva, v. Gentry, Before Jerusalem
fell, com sua contribuição para o trabalho atual. Também deveria ser observado
que os pós-tribulacionistas na posição pré-milenar vêem com freqüência, os
três julgamentos como paralelos, mas ainda os consideram futurísticos em
orientação e portanto basicamente não cumpridos até o momento. V., e.g., Moo,
"The case for the Posttribulation Rapture Position”, p. 203-5.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 167
11.15) e a sétima trombeta (11.15ss .) se revela nas sete taças
(caps. 16— 18), as quais, sucessivamente, culminam na Segun
da Vinda (cap. 19).
2) A intensificação da linguagem usada que descreve os ju l
gamentos dificulta o arraigar a trombeta e os presságios das
taças na história. Dois exemplos ilustram esse ponto: a) Só uma
parte da terra e da humanidade é afetada no selo e nos ju lga
mentos da trombeta, considerando que a terra inteira e a hu
m anidade são a fe tad as nos ju lg a m e n to s das taças , b) Os
ju lgam entos das taças estão rotulados com as “últimas pra
gas”, porque com elas a ira de Deus está completada (15.1;
16.17); não é assim para os julgamentos dos selos e das trom
betas. Isto parece ir contra classificar a primeira parte das afli
ções messiânicas como o período da ira divina; particularmente,
a segunda parte parece estar reservada para aquele aspecto.
3) Relacionado ao último ponto, a intensificação da lingua
gem que descreve os ju lgam entos corresponde ao conceito
apocalíptico judaico de que a grande tribulação deveria ser
comparada às “dores de parto” (v. Mt 24 .8 e paralelos). Alan F.
Jo h n so n com enta:
Os selos comparam cuidadosamente os sinais do fim que se aproxi
ma, como narrados no Discurso de Jesus no Monte das Oliveiras (Mt
24.1-35; Mc 13.1-37; Lc 21.5-33). Nessas passagens, os eventos dos
últimos dias se enquadram em três períodos: 1) o período dos fal
sos cristos, guerras, fomes, pragas, terremotos e morte, denomina
do “o começo das dores de parto” (Mt 24.8); 2) o período da grande
tribulação (Mt 24.21;) e, 3) finalmente, o período “imediatamente
após a angústia desses dias”, quando serão afetados o sol, a lua e as
estrelas e Cristo voltará (Mt 24 .29 ,30). Esse paralelo com as partes
principais do Apocalipse é muito impressionante para ser ignorado.
Assim, os selos correspondem ao “começo das dores de parto” en
contrados no Discurso do Monte das Oliveiras. Os eventos são se
m elhantes a esses que ocorrem de acordo com as trom betas
(8.2— 11.19) e taças (15 .1— 16.21), mas não deveriam ser confundi
dos com esses julgamentos posteriores e mais severos. Na literatu
ra apocalíptica judaica (v. 2Baruque 25— 30), a grande tribulação
precede a era por vir e é dividida em doze partes de várias tentativas
que duram uma ou sete semanas, possivelmente, ou 49 anos.39
“ Revelation, in: The exposítor’s Bible com m entary, Frank E. G a e b e l e in (org.)
Grand Rapids: Zondervan, 1981, p. 472.
168■ Apocalipse
4) A natureza sucessiva dos ju lgam entos em Apocalipse
6— 18 se a justa à estrutura espiral evidente em outros tre
chos da literatura joanina (e.g., l jo ) .
5) Há uma diferença em seqüência e conteúdo dos eventos
descritos em cada série dos julgamentos.
6) A referência para esses não selados em 9.4 (a quinta trom
beta) pressupõe o ato de selar em 7.1-8, e por conseguinte, o
desenvolvimento linear.
Porém, uma objeção é levantada com freqüência contra uma
leitura cronológica dos ju lgam en tos, discutindo assim sua
estrutura paralela — isto é, interconexões entre os ju lgam en
tos apontam ao seu desdobramento simultâneo. A mais notá
vel celebridade nessa consideração é a sem elhança entre o
sexto e sétimo selo, a sétima trombeta (11.15ss), e a sétima
taça (16.17ss .), dos quais tudo parece descrever eventos as
sociados à Segunda Vinda de Cristo.
É pro vável que h a ja r e c a p itu la ç ã o p arc ia l ou algum a
sobreposição nos ju lgam entos neste ponto. Mas que os três
julgamentos são paralelos e, por conseguinte, idênticos é im
provável, conforme discute Johnson, por causa de várias con
s iderações: 1) o sexto selo se desdobra no período de ira
lançada sobre os adoradores da besta, mas não favorece de
fato o evento da Segunda Vinda (6 .12-17); 2) O sétimo selo
introduz os julgamentos da trombeta que segue seu curso e a
sétima trombeta parece trazer-nos ao reino de Cristo (1 1 .1 5
18); 3) A sétima taça nos traz também ao ponto de culminação
no retorno de Cristo (caps. 16 e 17); 4) Interlúdios se colocam
entre o sexto e o sétimo selo e entre a sexta e a sétima trom be
ta, mas não entre a sexta e a sétima taça o que era de esperar
se as trombetas fossem estritamente paralelas às taças.40
Tudo isto para dizer que a natureza seqüente dos ju lg a
mentos parece reconhecer seu cumprimento na história (e.g.,
os julgamentos dos selos), mas somente ao término da histó
ria serão realizados completamente (os julgamentos da trom
beta e da taça). Mas quem os dispensacionalistas progressivos
acreditam que sofrerão a grande tribulação? Agora atentare
mos a esse assunto resumidamente.
40O leitor recorre à discussão de Johnson sobre este assunto, Revelation
(Dec. 1981), p. 491.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 169
A iden tificação dos santos da tr ib u la ção
A pergunta sobre quem experim entará a grande tribulação,
conform e detalhado em Apocalipse 6— 18, depende b a s ica
mente da identificação dos 144 0 0 0 servos de Deus que fo
ram se lados (7 .1-8). Foram p ro p ostas duas in terp re taçõ es
principais. A primeira é que o número e a identificação tribal
serão considerados literalm ente com referência à nação de
Israel. Por conseguinte, é Israel que sofre a grande tribulação,
não a igreja (o ponto de vista pré-tribulacional). O outro pon
to de vista sugere que a linguagem deva ser interpretada sim
bolicam ente, de forma que João está recorrendo à igreja, o
novo Israel. Assim, a igreja passará pela grande tribulação (o
ponto de vista pós-tribulacional). Após tratar desse assunto,
somaremos dois outros comentários para atestar a discussão:
a relação entre os 144 000 servos selados (7.1-8) e a multidão
inumerável (7.9-17), e a grande tribulação e a superposição
das duas épocas.
1) Com respeito ao assunto da identificação dos 144 000, o
segundo ponto de vista (a igreja é o novo Israel) recorre a essas
referências do n t que parecem aplicar a linguagem que uma vez
foi usada em relação a Israel para a igreja (Mt 19.28; Rm 2.29;
4.11; 9.6-8; G1 3.29; 6.16; Fp 3.3; Tg 1.1; lPe 1.1; 2.4,9; Ap 1.6;
2.9; 3.9; 18.4). Mas paralelo a esta linha de testemunho deve ser
também aplicado outro testemunho no n t que ajuda distinguir
Israel da igreja: a) não há exemplo algum bem definido da igre
ja sendo chamada “Israel” no n t ou pelos pais da igreja antes de
160 d.C;41b) O significado mais natural para o termo “Israel” no
a t e n t são os descendentes físicos dos patriarcas;42 c) Uma dis
tinção entre o Israel étnico e a igreja é atestada amplamente em
romanos 9— l l ; 43 d) Quanto aos dados exegéticos na esfera de
consideração teológica, parece que o propósito da grande tribu
lação é ganhar a nação de Israel para o seu Messias. Posicionando-
se com o primeiro ponto de vista (a interpretação literal de
Israel), Paul N. Benware expõe o assunto sucintamente:
4IV. Peter Richardson, Israel in the apostolic ch u rch ( s n t s m s ; Cambridge:
Cambridge Unvi. press, 1969), p. 74-84, 206.
42Sobre esse assunto, v. Thomas, Revelation 1— 7, p. 476-7.
43Para se obter base para esta declaração, v. C. Marvin Pate, The end o f the
age has come: the theology of Paul (Grand Rapids:-Zondervan, 1995), p. 196-8.
170 ■ Apocalipse
O propósito primário de preparar Israel para o seu Messias e o seu
reino é comprovado em várias passagens. Por exemplo, esse perí
odo é visto como o “tempo da angústia de Jacó (Jr 30 .7 n v i) . Consi
derando que isto não significa que outras nações não serão
envolvidas, sugere que Israel seja o foco desse período de tribula
ção. Outras passagens mostram que a tribulação tem um caráter
judaico definido (e.g., Dt 4 .30 ; Dn 12.1; Ez 20 .37 ; Zc 13.8 ,9 ; Mt
24 .15-20). O foco importante desse período é a vinda de salvação
para Israel e, por conseguinte, para os gentios (e.g., Dn 9 .24 ; Ez
36.25-36; 37.1-14; 39 .21-29; Jr 31 .31-34 ; MI 4.4-6; Rm 11.25-28; Ap
7 .4-14).44
Embora a evidência não admita o dogmatismo, parece que a
referência aos 144 000 escolhidos das doze tribos de Israel indi
ca que judeus raciais estão na mente de João, especificamente
os cristãos judeus convertidos durante a grande tribulação.
2) Um assunto relacionado a essa discussão é a pergunta
da relação entre os 144 000 (7.1-8) e a multidão inumerável
que resiste à grande tribulação (7.9-17). Será que eles são o
mesmo grupo de pessoas? Compreendendo a interpretação sim
bólica dos 144 000, os pós-tribulacionistas comparam os dois
grupos com a igreja. Porém, os pré-tribulacionistas vêem dife
renças significativas entre os grupos: O primeiro é numerado,
o segundo é inumerável; o primeiro é limitado a judeus, o se
gundo recorre a cada nação; o primeiro é preservado do martí
rio por um período mais longo de tempo (v. 12.13; 14.1-5) do
que o segundo. Estas diferenças pareceriam ser mais impor
tantes do que as semelhanças entre os dois grupos. Dada esta
distinção, é possível ver os 144 000 como um grupo seleto de
judeus que são convertidos a Cristo durante a grande tribula
ção que, em troca, evangeliza as nações gentílicas — a multi
dão inumerável.
O apoio para a interpretação antecedente vem dessas pas
sagens do a t que falam profeticam ente dos gentios que se
unem a Israel em adoração a Deus no templo em Jerusalém
durante o final dos tempos (e.g., Is 2.2; 49 .6 ; 56.6-8; Zc 14.16).
Essa perspectiva continua no n t com Paulo que pode ter en
tendido bem sua coleta dos gentios a favor dos pobres em
4iUnderstanding end-times prophecy. a comprehensive approach, Chicago:
Moody, 1995, p. 167.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 171
Jerusalém como o cumprimento daquelas profecias do a t (v .
Rm 15.23-33; ICo 16; 2Co 8—9). Uma noção semelhante pro
vavelmente está em Apocalipse 7.
3) O comentário final pelo que oferecemos em relação à resis
tência da grande tribulação pelos santos é que a superposição
das duas épocas deixa sua impressão em relação a esse assunto
em Apocalipse. Especificamente, João adota a noção apocalíptica
judaica prevalecente de que o sofrimento justo nessa época de
tribulação assegura a glória divina na era por vir (e.g., 4Esdras
4.27; 7.12; 2Baruque 15.8; 48 .50; The D am ascus rule 3.18-20/
4.13,17,18). A perspectiva dos judeus das duas épocas, porém,
foi sucessiva em natureza: Quando o Messias vier, esta era cede
rá à época por vir. Mas como um todo, de acordo com João e o
n t , essas duas eras se sobrepõem agora por causada morte e
ressurreição de Jesus Cristo. Por conseguinte, os cristãos, por
estarem em Jesus, atual, e simultaneamente participam no so
frimento da cruz de Cristo como também na glória de sua res
surreição (Ap 1.5-9; 12; v. Rm 8.17-25; lPe 1.4-9). Para João, o
fato de os santos da tribulação experimentam a glória de Cristo
é um sinal que vivem a superposição das duas épocas. Em ou
tras palavras, a sua experiência presente de glória é a prova de
que eles, por fim, superarão as aflições messiânicas (ainda em
vida ou na morte). Após esse período, suas aflições serão com
pletamente substituídas pela glória divina.
0 RETORNO DE CRISTO (AP 19)
Como discutim os anteriorm ente, baseado nas sem elhanças
entre a primeira parte do Discurso do Monte das Oliveiras e
os julgam entos dos selos em Apocalipse 6 (com as considera
ções referentes ao com eço dos últim os dias na geração de
Cristo e as alusões em Apocalipse 6— 18 do séc. i de adoração
a César), é que a queda de Jerusalém em 70 d.C. serve como
cenário histórico para o Apocalipse. Isto não sugere o dispen
sacionalista progressivo, porém, o que temos nesse evento é
o cumprimento final de Apocalipse 6— 18; note a seqüência,
que se intensifica; logo a natureza da trombeta e julgamento
das taças. Esses esperam a realização final na última geração,
em qualquer tempo possivelmente.
A decisão a que chega aqui tem relação direta com a inter
pretação pessoal de 19 .11-21 . O futurista entende que essa
172 ■ Apocalipse
passagem está descrevendo a parúsia, a Segunda Vinda de
Cristo ao término da história humana, ao passo que o ponto
de vista preterista é que o evento retratado lá, foi cumprido
completamente na vinda de Cristo no julgamento de Jeru sa
lém.45 Embora um tratamento completo desse crux interpretum
não seja possível agora, serão oferecidos três comentários em
defesa do ponto de vista tradicional, que 19.11-21 se refere à
Segunda Vinda de Cristo em glória na conclusão do tempo.
1) Apesar da tentativa preterista de arraigar a totalidade do
Discurso do Monte das Oliveiras na história referente à queda
de Jerusalém, o melhor entendimento dessa tradição é locali
zar seu último cum prim ento na hora do retorno de Cristo.
Em nossa opinião, o ponto de vista preterista comete um erro
fundamental pois interpreta o Discurso do Monte das Olivei
ras, mas negligencia a estrutura paralela dentro do que está
informado pela tensão do já/ ainda não. Isso fica esp ecia l
mente claro em Lucas 21, onde o autor distingue entre a que
da de Jerusalém em 70 d.C. (v. 8-24) e o retorno de Cristo ao
término da história (v. 25-36). Essa separação cronológica dos
dois eventos é planejada por Lucas e comprovada por dois
fatos: a) A queda de Jerusalém já tinha acontecido antes do
seu dia (cf. v. 20 e sua descrição específica daquele evento,
em contraste com a apresentação genérica de Mc 13.14 e Mt
24.15); b) Lucas omite a frase encontrada em Marcos 13.19 (v.
Mt 24 .21) — “Porque aqueles serão dias de tribulação como
nunca houve desde que Deus criou o mundo até agora”, em
referência à queda de Jerusalém. Em outras palavras, Lucas
não comparou as aflições que cercam aquele evento com a
grande tribulação no final dos tempos. Para Lucas (e prova
velmente tam bém para Marcos e Mateus, entretanto menos
explicitamente), os sinais dos tempos já com eçaram com a
queda de Jerusalém, mas não serão completados até o retor
no de Cristo para terminar a história mundial.
2) O ponto de vista preterista dá muita relevância ao cum
primento imediato da promessa de Jesus, em Apocalipse, de
que voltaria em breve, ao aplicar o texto à queda de Jerusalém
45Para um bom exemplo dessa interpretação, o leitor deve recorrer ao
estudo por Gary DeMar, Last days madness'. obsession of the modern church
(Atlanta: American Visions, 1991), p. 263-5 . 0 trabalho de DeMar defende a tese
de que os eventos delineados no Discurso do Monte das Oliveiras, 2Ts 2, e
Apocalipse foram todos cumpridos por volta da queda de Jerusalém em 70 d.C.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 173
(Ap 1.1,3; 2.16; 3 .11; 11.14; 2 2 .6 ,7 ,1 0 ,1 2 ,20).46De outro modo,
a vinda de Jesus Cristo conforme registrado em 19.11-21, não
recorre à Segunda Vinda de Cristo ao término da história, mas
à vinda de Cristo para ju lgar Jerusalém em 70 d.C. Porém,
dois problemas são aparentes com essa teoria: a) Apocalipse
19.11-21 combina com as descrições encontradas em outros
lugares no n t , que se referem à Segunda Vinda de Cristo em
glória ao término da história (Mt 24 .30 ,31/ Mc 13 .26 ,27/ Lc
21 .27 ,28 ; 2Ts 2.8; Tt 2 .13 ,14 ; Jd 14,15). Somente com grande
dificuldade esses textos podem ser explicados em condições
diferente da parúsia.
b) A interpretação preterista não leva em conta a diferença
da palavra “tem po” (ka iro s , e.g., Ap 1.3), como demonstrou
Oscar Cullmann, que indica a tensão escatológica do já/ ain
da não.47 Essa com preensão, de um lado, admite o cum pri
mento imediato da profecia de Jesus, em Apocalipse, de que
virá em breve, embora não a negue; outro lado, há, para eles
também, uma referência ao futuro (v. nossos comentários an
teriores em 1.1,3). Quer dizer, a posição preterista alivia des
necessariamente a tensão entre o já (a primeira vinda de Jesus)
e o não ainda (a Segunda Vinda de Jesus). Realmente, esse
ponto de vista é semelhante ao “escatologicam ente percebi
do”, o ponto de vista que diz que basicamente foram cumpri
das todas as profecias dos finais dos tempos do n t no século
i, uma interpretação que é corretamente criticada.48
3) O ponto de vista preterista de 19.11-21 está intimamen
te relacionado à hipótese da identificação da Babilônia, que é
destruída nos capítulos 17 e 18, com Jerusalém, mais parti
cularmente com o judaísmo do século i que desfrutou uma con
dição privilegiada por Roma por ser uma religião legal. Conforme
a teoria, João considera aquele benefício como um acordo idó
latra com o culto imperial. Então, a descrição de Cristo vindo
em julgamento (19.11-21) é aplicada à destruição de Jerusalém
46Em defesa dessa hipótese, v. Gentry, Before Jerusalem fell, p. 133-45; DeMar,
Last days o f madness, p. 263-5; David Chilton, The days ofvengeance'. an exposition
of the book of Revelation (Fort Worth, Tex.: Dominion, 1987), p. 5-75.
4TChrist and time.
48Geralmente associado aos trabalhos de C. H. Dodd, e.g., The apostolic
p reaching and its developm ent. Geralmente é distinguido por estudiosos pre
sentemente que Dodd exagerou em sua posição e que o melhor modo para
categorizar o n t é com a imagem escatológica do j á / ainda não.
174 ■ Apocalipse
pelos romanos. Apocalipse 17.16,17, em seu retrato da besta
(Roma), na qual a meretriz (Jerusalém) monta, mas que se volta
contra ela e a destrói, é portanto, compreendido como o m éto
do pelo qual Cristo julgou Jerusalém .49 O dispensacionalista
progressivo pode aceitar essa hipótese como plausível. Mas isto
não sugere que não haja nenhuma futuridade à vinda de Cris
to como descrito em 19.11-21, por razões que explicamos de
acordo com o nosso segundo comentário.
Além disso, uma leitura cuidadosa de Apocalipse 11 pare
ce indicar que Deus, embora tivesse permitido a destruição
de Jerusalém (v. 11.1,2), ainda não acabou com Israel/ Jerusa
lém. Sugerimos que Apocalipse 11 é informado pela tríplice
operação de paradigma em Romanos 11, um modelo que pre
vê a restauração futura da nação judaica.
Romanos 11 faz a observação básica de que Deus ainda
tem um plano para os judeus. Paulo fornece três argumentos
para esse desígnio; a) A rejeição de Israel de Jesus, o Messias,
é parcial, não total. Os cristãos judeus são um amplo teste
munho daquele fato (11.1-10); b) A rejeição de Israel do Messi
as tem um propósito misericordioso — são os meios divinos
para alcançar os gentios com o evangelho (11.11-29); c) A re
je ição de Israel do Messias é temporal, não eterna. Um dia
Cristo voltará, e “todo o Israel serásalvo” (11 .25-36).50
Alegamos que o mesmo padrão está em ação em Apocalipse
11. a) A rejeição de Israel de Jesu s o Messias é parcial, não
total. Os cristãos judeus, os remanescentes, são a prova dis
so (11.1,3-12). Nessa leitura, Elias e Moisés são os mensagei
ros de Deus que representarão a comunidade cristã judaica
ao término da história.
b) A re je ição de Je s u s por Israel cumpre um propósito
misericordioso — é o catalisador para atrair os gentios a Cris
to. Esse plano estará em vigor até o fim da história, quando a
plenitude dos gentios terá chegado. O domínio dos gentios
no plano de Deus com eçou com a destruição de Jerusalém
em 70 d.C. (v. Ap 11.2 com Lc 21 .24 ) e continuará até que
Deus tenha realizado seu propósito com eles (Rm 11.25).
49V. o breve tratamento por P a t e e H a i n e s , Doomsday delusions, p. 43.
S0V. novamente Pate, The end o f the a ge has come, p. 196-8. Também desen
volvi este tema em relação aos escritos de Lucas em meu comentário Luke
(Moody Gospel Commentary; Chicago, 1995).
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 175
c) Nesse ponto culminante, Deus restabelecerá Israel para
si. Isto parece ser a razão por trás de Apocalipse 11.13. Os
sete mil que serão mortos em Jerusalém por um terremoto
(uma minoria), deixarão o restante da cidade (a maioria) para
se arrepender e se voltar para Deus, pois constituem um a
rev ersão aos tema dos remanescente de Elias. No a t , durante
os dias de Elias, somente ele e os sete mil fiéis não dobraram
o joelho a Baal, ao passo que o restante da nação o fez. Mas no
final dos tempos, o oposto acontecerá — a testemunha de Elias
(e Moisés, 11.3-12), com o terremoto divino que afirma a sua
mensagem (v. 13), trará a maioria dos judeus à fé. Esse é o
modo apocalíptico de João dizer o que Paulo disse anterior
mente — todo o Israel será salvo. Quer dizer, a nação como
um todo se tornará a remanescente, aqueles que forem fiéis a
Deus, como um todo. De forma bastante interessante, a con
versão de Jerusalém para Cristo acontece bem antes da Se
gunda Vinda dele (11.15-19; v. 19.11-21).
0 M ILÊNIO (AP 20)
Muita tinta foi derramada sobre a interpretação em Apocalipse
20.1-6, com três pontos de vista básicos que emergem na dis
cussão: a pré-milenar, amilenar, e pós-milenar.51 A abordagem
d ispensacionalista progressiva desse texto será claram ente
identificada com a primeira destas opções. Embora os crentes
sejam espiritualmente levantados com Cristo na conversão e
atualmente reinam com ele do céu (e.g., Ef 2 .1-10; Cl 3.1-4),
mas a plenitude do reino de Cristo só se dará por ocasião do
segundo advento de Cristo. Duas objeções para esta interpre
tação podem ser respondidas aqui, em bora resumidamente:
que somente os mártires da grande tribulação são menciona
dos como os que reinarão com Cristo (Ap 20.4), e que a ressur
reição mencionada é espiritual, não física, em natureza (v. 4-6).
1) Referente à primeira objeção, às vezes se diz que aque
les que serão arrebatados para governar com Cristo na terra
durante o milênio são exclusivamente os crentes martiriza-
dos durante a grande tribulação (v. 4). Mas, como Robert L.
51Para obter um bom resumo das opiniões milenares, v. o estudo de Stanley
J. Grenz, The millenial rnaze: sorting out evangelic options (Downers, Grove III.:
InterVarsity, 1992).
176 ■ Apocalipse
Thomas observou, há dois problemas insuperáveis com essa
opinião:52 a) A ressurreição dos mártires nãc) acontece até tem
pos depois, distinguindo assim da multidão de cristãos que
tam bém reinam com Cristo (v. 4); b) Em outros trechos, João
promete que os fiéis, não somente os mártires, compartilharão
o reino futuro de Cristo (2.26-28; 3 .12,21; 5.10; v. ICo 6.2,3).
2) Relativo à segunda objeção — de que a natureza da res
surreição em 20.4-6 é espiritual, não física — dois fatores cha
ve m ilitam contra e ssa p ercep ção da p a ss a g e m :53 a) Uma
ressurreição espiritual pode, poucas vezes, explicar a compen
sação provida para os mártires mencionados no versículo 4.
Da perspectiva de João eles estão fisicamente mortos, mas es
piritualmente vivos. O que precisam é de uma ressurreição
corporal; b) O melhor entendimento do verbo ezésan (“eles vi
veram”) no versículo 4 é que recorre a uma ressurreição corpo
ral. Por quê?; i) O mesmo verbo no versículo 5 significa ressurreição
corporal; n) Zaó (“viver”) com freqüência em Apocalipse se refe
re à ressurreição corporal (1.18; 2.8; 13.14; 20.5); m) De fato,
zaò no contexto de morte sempre recorre à ressurreição física
no n t (v. Jo 11.25; At 1.3; 9.41); iv) João compara “viver” clara
mente com a ressurreição em Apocalipse 20.5 — a primeira “res
surreição” (an asta s is , uma palavra usada mais de quarenta
vezes no n t com referência à ressurreição física).
0 ESTADO ETERNO (AP 2 1 E 22)
Ao longo de nossa avaliação do Apocalipse, procuramos de
monstrar que a tensão escatológica do já/ ainda não governa
a interpretação do dispensacionalista progressivo desse livro.
Apocalipse 21 e 22 e seu retrato da condição eterna não serão
tratados diferentemente agora. Sugerimos que a chave para com
preender o significado desses dois capítulos é perceber que
prevêem a restauração futura do paraíso perdido (o aspecto do
ainda não que será atualizado na Segunda Vinda de Cristo). Se
trouxermos à discussão a literatura joanina como um todo,
porém, descobrirem os que essas bênçãos do final dos tem
pos estão no processo de serem cumpridas parcialmente agora
52Revelation 1— 7, p. 413-4 .
53Ibid., p. 417.
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 177
(o aspecto do já que começou com a primeira vinda de Cris
to). Desenvolvem os essa dupla h ipótese resum idam ente a
seguir, provendo um quadro das três estruturas envolvidas
em nossa tese, seguido por uma explicação sumária.
Gênesis 1— 3
O Princípio
Antiga criação (1.1)
Perda da presença de
Deus (3.23,24)
Acesso à morte (2.17)
Rios do paraíso
(2 .10-14)
Árvore da vida (3.24)
Filho de Deus (1 .26
28)
Apocalipse 21 e 22
Final dos tempos
(Segunda Vinda de
Cristo)
Nova criação (21.1)
A presença de Deus
entre o povo de Deus,
o novo templo
(21 .2 ,3 ,9 -27)
Derrota da morte
(21.4)
Água da vida (22.1)
Suprimento divino de
vida eterna (22.2
4,14; v. 2.17)
Filhos de Deus (21.7)
Literatura joanina
Tempo intermediário
(primeira vinda de
Cristo)
Nova criação em
Cristo (Jo 1.1-5; ljo
1.1-5)
Cristo, o templo de
Deus (Jo 2.19-21)
Vida eterna (Jo 11.24
26; ljo 5.20)
Água da vida (Jo 4.14;
7.37-42)
Suprimento divino de
vida eterna (Jo 6 .25
59).
Filhos de Deus (jo
1.12; 3.3-8; ljo
3.1,10; 5.2)
Apocalipse 21 e 22 prevê a restauração futura de pelo me
nos seis bênçãos paradisíacas, mas que estão sendo cumpri
das parcialm ente agora para os fiéis em Cristo: 1) A nova
criação da condição eterna restabelecerá a antiga criação ar
ruinada pela queda de Adão e Eva. Mas mesmo agora, quando
as pessoas colocam sua fé em Cristo, tornam-se participantes
nessa nova criação; 2) A condição eterna recuperará a presen
ça e a comunhão completa com Deus que a humanidade per
deu no Jardim do Éden. Realmente, Cristo, o templo e o lugar
da presença de Deus, estão no processo de restabelecer aque
la com unhão com os crentes; 3) A condição eterna de testa
mento testemunhará a derrota sobre a morte e o dom de vida
eterna que, com a morte e a ressurreição de Cristo, já começou;
178 ■ Apocalipse
4) A água da vida na expectativa de fluir na condição eterna,
simbólica de satisfação permanente, está agora disponível em
Cristo; 5) Semelhantemente, a árvore da vida com sua pro
m essa de cumprimento e vida eterna está sendo oferecida a
todos em Cristo; 6) O pecado arruinou a imagem de Deus na
raça humana, mas a condição eterna de Deus fará com que os
crentes se tornem seus filhos, uma bênção que é agora reali
zada em Cristo.
CONCLUSÃO
O Apocalipse é possivelmente o livro mais controvertido na
Bíblia. Minha leituradas abordagens representadas neste vo
lume (o ponto de vista dispensacionalista clássico será trata
do a seguir) me leva a acreditar que os dois assuntos essenciais
que emergem no Apocalipse requerem tratamento: hermenêu
tico e teológico. Concluo esta seção refletindo sobre essas pre
ocu pações.
1) Obviamente um emaranhamento de hermenêutica aguar
da a interpretação do Apocalipse. Levando em conta as qua
tro co n tr ib u içõ es ap re sen tad as agora, parece claro que o
problema central da discussão é: Como entenderemos a lite
ratura simbólica? Ou, mais precisamente, será que o gênero
profético/ apocalíptico requer cum prim entos únicos, duais,
ou múltiplos?
De forma bastante interessante, todos os quatro pontos de
vista aparentemente fundamentam suas respectivas aborda
gens nos apreciados princípios da Reforma, referentes à da
h e r m e n ê u t i c a h is t ó r i c a - g r a m a t ic a l , p o ré m o t r a b a lh o
hermenêutico está fora. De acordo com esse princípio, parece
a este escritor que, enfim, o critério prático para interpretar o
Apocalipse é de natureza histórica. Quer dizer, todos os pon
tos de vista inclusos neste volume partem do pressuposto de
que o entendimento do Apocalipse refere-se à questão de se a
mensagem do livro foi cumprida na história. Assim, embora
s e ja m o c o n t r á r io do f im do e s p e c t r o , a a b o rd a g e m
dispensacionalista clássica e os preteristas recorrem à história
para validar suas interpretações discrepantes. Por conseguin
te, os preteristas podem encontrar pouco no tempo e espaço
mensuráveis, onde os eventos do Apocalipse testemunharam
o cum p rim en to , con sid eran d o que os d isp en sac io n a lis tas
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 179
clássicos descobrem correspondências surpreendentes no sé
culo i d.C. para essas profecias. Ironicamente, os dois atribu
em cumprimento único ao simbolismo do Apocalipse.
O dispensacionalista progressivo vê as duas perspectivas
como viáveis: Há um cumprimento parcial (o passado) como
também a realização final (o futuro) considerando esses as
suntos na história. Assim, o simbolismo do Apocalipse atesta
o cumprimento dual.
Para o idealista, que não está in teressado em uma mera
lição de história do passado remoto ou em uma história mo
ral iniciada no horizonte distante, a preocupação é dem ons
trar que Deus é nosso contemporâneo eterno e assim tem uma
palavra para a humanidade no presente. Como resultado dis
so, o Apocalipse oferece cumprimentos múltiplos de sua m en
sagem — apesar de a abordagem idealista não ser aparente
histórica.
Será que esta consideração de que todos os quatro pontos
de vista do Apocalipse recorrem à história, mas com resulta
dos decididamente diferentes para legitimar suas posições,
leva a um impasse hermenêutico? Não necessariamente. A so
lução para esse dilema parece se encontrar em uma sugestão
mencionada no com eço deste estudo, isto é, que as quatro
abordagens ap resentadas podem ser associad as para ap re
sentar uma interpretação com pleta para a com preensão do
significado do último livro na Bíblia. Assim, o preterista pode
nos ensinar sobre os procedimentos poderosos de Deus com
a humanidade no passado, embora o dispensacionalista clás
sico nos lembre que o trabalho de Deus ainda não está con
cluído; somente o futuro revelará a extensão completa do plano
divino. Os progressistas talvez ofereçam uma declaração equi
librada em relação aos pontos de vista anteriores, discutindo
que o passado é a prova positiva de que Deus completará no
futuro o que ele começou. Enquanto isso, os idealistas forne
cem um modelo para colocar em prática a palavra profética
de Deus em nossas situações contemporâneas e variáveis.
2) Um segundo assunto chave gerado por Apocalipse é teo
lógico — a “demora” da Segunda Vinda. Esta é a última pergun
ta levantada por Apocalipse 1.1,3, com referência à proximidade
do cumprimento das profecias do Apocalipse, com as predições
do Discurso do Monte das Oliveiras (Mt 24; Mc 13; Lc 21). Aqui a
pergunta é: Como entenderemos as predições de Jesus e João
180 « Apocalipse
sobre os sinais dos tempos que culminam na Segunda Vinda?
O teólogo liberal tem uma resposta fácil para essa pergunta —
Jesus predisse que esse evento aconteceria durante a primei
ra geração de cristãos (v. Mc 13.30 e passagens paralelas), mas
ele estava errado! Sua profecia falhou e a história continuou
inquebrantável. Porém, o evangélico não está satisfeito com
essa resposta, e com razão.
Mas, além disso, não há consenso algum entre os teólogos
conservadores sobre o período do cumprimento dessas pre
visões. O preterista as considera como profecias basicamente
realizadas nos primeiros séculos cristãos, ao passo que o dis
pensacionalista clássico acredita que sua realização espera o
futuro. O dispensacionalista progressivo discute que havia
atualização parcial das declarações de Jesus que envolvem a
queda de Jerusalém em 70 d.C. e que servem como cenário
para o cumprimento final ao término da história. Para o idea
lista, os comentários de Jesus não eram tanto profecias, mas
certamente declarações simbólicas sobre a estrutura presen
te da realidade espiritual. Como, então, podem os proceder
através deste labirinto teológico?
Se meus colegas me concedessem um pouco de atenção,
por um momento, aqui é onde a tensão escatológica do “já/
ainda não" fornece uma resposta para o assunto da demora
da Segunda Vinda. Como foi cuidadosam ente, e penso que
convincentemente, debatido nos últimos cinqüenta anos por
estudiosos do n t , o melhor entendimento do Evangelho — in
clusive o Discurso do monte das Oliveiras — é que os pro
nunciamentos de Jesus sobre o reino de Deus foram cumpridos
parcialm ente na sua primeira vinda (o aspecto do já), mas
permanece vindouro até o seu retorno (o aspecto do ainda
não). Quando tudo é dito e feito, esta é a solução mais viável
tanto para a indagação do Jesus histórico quanto à aparente
demora da Segunda Vinda. Em outras palavras, ju stam en te
como Jesus prometeu, a era por vir realmente alvoreceu na
sua vinda, mas no contexto desta era presente. Embora, às
vezes, comparado a apenas uma escola de pensamento, a si
tuação parece ser mais a de que a circunstância da perspecti
va do já/ ainda não é favorável para todos os quatro pontos
de vista esboçados neste trabalho, não somente um.
Em conclusão, resumimos nossa contribuição a este volu
me relatando a hermenêutica do já/ ainda não das três marcas
0 ponto de vista dispensacionalista progressivo ■ 181
escatológicas do dispensacionalism o: 1) Referente à separa
ção entre a igreja e Israel, os progressistas acreditam que os
gentios já foram incluídos como um povo de Deus, por fé em
Cristo; mas Deus ainda não pôs fim a Israel, porque um dia
restabelecerá aquela nação para ele e Jesus, o Messias; 2) Refe
rente à posição pré-milenar do dispensacionalismo progres
sivo, de acordo com o Apocalipse, o Reino de Deus (a era por
vir) alvoreceu no céu, mas ainda não apareceu na terra pois
está no aguardo do retorno de Cristo, cuja Segunda Vinda
estabelecerá o seu reinado de mil anos em Jerusalém; 3) De
acordo com os d ispensacionalistas progressivos, embora os
sinais dos tempos (as aflições messiânicas) tiveram início du
rante a primeira geração de cristãos (com relação à queda de
Jerusalém), a grande tribulação ainda não ocorreu; ela está no
futuro, e a igreja (mas não Israel) estará isenta dela.
4
0 ponto de vista
D is p e n s a c io n a lis ta
c l á s s ic o
■ Wayne G. Strickland
DISPENSACIONALISTA CLÁSSICO
PREÂMBULO
Ao a p re se n ta r uma v isão d is p e n s a c io n a l is ta do livro do
Apocalipse, dese jo primeiramente expressar meus respeitos
pelos dois grupos. O primeiro é com posto de d isp ensacio
nalistas dos quais difiro em detalhes interpretativos aqui e
acolá, no último livro da Bíblia. A extensão da presente dis
cussão permite-m eapresentar apenas minha própria in ter
p r e t a ç ã o .1 O outro grupo é form ado por aque les que não
adotam uma visão d isp e n sa c io n a lis ta , particu larm ente os
outros três colaboradores desta obra. Eu os respeito, bem como
suas interpretações, e não quero que quaisquer das observa
ções seguintes se jam entendidas como impugnações p esso
ais ou de qualquer outro tipo.
A seguinte discussão é uma visão dispensacionalista típi
ca. Para cobrir a visão pro jetada neste capítulo, devo escla
recer o significado de “d isp en sacio nalism o”, explorar áreas
de análise representativa da visão dispensacionalista, expli
car a ênfase sobre o assunto principal, destacando a c o m
p r e e n s ã o d is p e n s a c i o n a l i s t a e f a z e r u m a a v a l ia ç ã o do
Apocalipse.
‘Minha própria interpretação é explanada em dois livros de minha autoria,
Revelation 1— 7: an exegetical commentary (Chicago: Moody, 1992), e Revelation
8— 22: an exegetical commentary (Chicago: Moody, 1995).
186 ■ Apocalipse
ESCLARECIMENTO SOBRE O DISPENSACIONALISMO
Em anos recentes, algumas discussões sobre o dispensacio
nalismo procuraram distinguir mudanças no sistema dispen
sacionalista de teologia, dividindo-o em categorias como “Pré-
milenarismo de Niagara” (1875-1909) , “Scofieldism o” (1 9 0 9
1965), “Essencialista” (1965-1985) ou “Clássico” (aproximadamente
1800-1950) e “Revisado” (cerca de 1950-1990) .2 Essas catego
rias não são justif icadas nessas diferenças de interpretação
dispensacionalista que, ao longo dos anos, resultaram de es
tritas aplicações do método gramático-histórico de exegese, e
que não resultam em mudanças no sistem a, mas são antes
seus refinamentos ou desenvolvimentos.
De outro lado, o dispensacionalismo progressivo representa
uma m udança significativa nos princípios in terpretativos ,3
de forma que o nome “dispensacionalism o” não se aplica a
esse sistema. Outro nome sugerido para o dispensacionalismo
tradicional foi “dispensacionalismo normativo”,4 mas este en
saio usará simplesmente “dispensacionalism o”, para se refe
rir ao sistema como é historicamente conhecido.
ÁREAS SELECIONADAS PARA REALCE DA VISÃO DISPENSACIONALISTA
A seletividade é necessária em um trabalho que compara pon
tos de vista sobre o Apocalipse; assim as categorias ou passa
gens seguintes tipificarão uma abordagem dispensacionalista.
Sistem a herm enêutico
A abordagem hermenêutica padrão da Bíblia, pelo menos des
de a Reforma, foi gramático-histórica, algumas vezes chama
da de interpretação literal. Aplicada ao Apocalipse, ela resulta
em uma co m p reen são d isp en sac io n a lis ta do livro. Alguns
2Craig B l a i s i n g & Darrel B o c k , Progressive dispensationalism , Wheaton: Victor,
1993, p. 2 1 3 ; idem, orgs., Dispensationalism, Israel and the church, Grand Rapids:
Zondervan, 1992, p. 13-34.
3V. Robert L. Thomas, A critique of Progressive dispensational hermeneutics,
in: When the trumpet sounds, Thomas Ice e Timothy Demy (orgs.) (Eugene Ore.:
Harvest House, 1995), p. 414-25.
“Larry C r u t c h f i e l d , The origins o f dispensationalism: the Darby factor, Lanhan,
Md.: Unvi. Press of America, 1992, p. 23-42.
0 ponto de vista dispensacionalista clássico ■ 187
recomendam diferentes princípios interpretativos, devido ao
do citado gênero apocalíptico do livro, mas por sua própria
reivindicação, o livro é uma profecia e merece interpretação
literal, assim como ocorre com outros livros proféticos.5 Ju s
tificar uma abordagem espiritualizante na base dos muitos
símbolos do livro coloca de lado distinção significativa entre
o modo que Deus deu a revelação a João, e a maneira que os
leitores deveriam interpretar essa revelação. Em 1.1, onde João
escreve “para m ostrar”6 (esêm anerí), alguns entenderam essa
expressão como justif icativa para a interpretação simbólica
ao longo do livro. Essas palavras, porém, falam do meio que
Deus usou para inspirar João a escrever; não fornecem fun
damento para a interpretação não-literal. Os intérpretes de
veriam entender a revelação a João como fazem com o restante
da Bíblia, embora Deus a tenha dado de um modo simbólico
incom um .
Uma a b o rd ag em p re te r is ta tem de ad m itir um gên ero
apocalíptico no qual a linguagem reflita apenas débil e indireta
mente os eventos reais. Essa interpretação alegórica extremada
permite achar cumprimentos no império romano do século i,
antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C. Incidentalmente, a
maioria dos preteristas data a feitura do livro nos anos 60 d.C.,
trinta anos antes da data geralmente aceita.
Uma abordagem idealista também tem de espiritualizar o
texto em razão de um suposto gênero apocalíptico. Para os
que adotam esse método de interpretação, o Apocalipse fala
de um conflito eterno entre o bem e o mal e expressa princípi
os básicos que Deus segue ao longo da história. Aplicando-os
a qualquer período, usualmente aquele do próprio intérprete,
o sistema generaliza os específicos e nega o caráter profético
do livro, enfatizando o ciclo repetitivo que marca cada gera
ção. Não há espaço para pontos da história que assinalem o
cumprimento de profecias esp ecíf icas .7
5T h o m a s , Revelation 1— 7, p. 23-9.
T o d as as traduções bíblicas neste capítulo foram feitas pelo autor.
7V., e.g., Sam Hamstra Jr., Um ponto de vista idealista do Apocalipse, neste
volume, que ilustra essa característica em seu uso freqüente de tais frases
como “sem incidentes particulares”, “a visão como um todo", “antes de analisar
cada detalhe”, “nenhum detalhe de guerras particulares [...] em term os g e
rais”, “resistir à tentação de ligar cada trombeta a uma data ou pessoa em
particular", “não simbolizar eventos simples e separados”, "desnecessário de-
ter-se em detalhes”, e “refrear-se de uma dissecação detalhada da visão".
188 ■ Apocalipse
Se seguir o caminho de seus primeiros defensores, uma
abordagem d isp en sacio nalis ta progressiva postulará tanto
uma com preensão literal quanto adicional. Referida com o
“h e r m e n ê u t i c a c o m p l e m e n t a r ” ou m é t o d o 8 “teo ló g ico
gramático-histórico-literário”, essa abordagem permite ao in
té rp re te pelo m en o s duas c o m p r e e n s õ e s do tex to : uma
gram ático-histórica e outra sim bólica ou alegórica. Embora
uma obra definitiva sobre o Apocalipse de autoria de um
dispensacionalista p rogress ivo deva ainda surgir, pode-se
esp erar que ela com b inará e lem en to s fu tu ris tas com e le
m entos de interpretação idealística e m esm o preterista. Es
ses tipos de s is tem as h erm en êu ticos com binados também
ocorrem entre os pré-milenaristas históricos, grupo que é não-
d ispensacionalista .9
Em contraste a cada um desses, uma adesão consistente
aos princípios gram ático-históricos conduz a com preensão
dispensacionalista do Apocalipse. As regras gramaticais e os
fatos históricos resultam nas seguintes interpretações de tex
tos relevantes à visão global do livro. O tratamento dos se
g u in tes tó p ico s e p a s s a g e n s i lu s tra r á os p a râ m e tro s de
interpretação gramático-histórica ou interpretação literal.
Continu idade com Daniel 2
As palavras “o que em breve há de acontecer” (ha dei genes-
thai), em 1.1, sintetizam o conteúdo da revelação a João. Re
presentam um tema de interesse há muito existente, que traça
suas raízes desde a versão grega de Daniel 2 .28 (v. tb. 2.29, 45).
Nessa passagem, Daniel interpreta o sonho de Nabucodonosor
sobre uma estátua que representa quatro impérios mundiais
sucessivos. Uma pedra, cortada de uma montanha sem auxí
lio de mão humana, destrói aquela estátua e se torna um rei
no sempiterno, que substituirá os primeiros quatro impérios.
Usando o sonho do rei, Daniel predisse o estabelecimento do
reino de Deus na terra.
“Darrel L. Bock, The Son o f David and the saints Task: the hermeneutics of
initial fulfillment, BSac 150 (Oct./ Dec. 1993), p. 447;