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Indaial – 2019 Teoria Geral da invesTiGação e Perícia Prof.a Fabiane Brião Vaz Prof.a Ivone Fernandes Morcilo Lixa 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2019 Elaboração: Prof.ª Fabiane Brião Vaz Prof.ª Ivone Fernandes Morcilo Lixa Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: V393t Vaz, Fabiane Brião Teoria geral da investigação e perícia. / Fabiane Brião Vaz; Ivone Fernandes Morcilo Lixa. – Indaial: UNIASSELVI, 2019. 126 p.; il. ISBN 978-85-515-0430-7 1. Investigação e perícia. - Brasil. I. Lixa, Ivone Fernandes Morcilo. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 340 III aPresenTação Nesta unidade você será introduzido à teoria geral da investigação e perícia, dando início ao desenvolvimento do pensamento acerca de tão importante disciplina. Isto será possível através do delineamento de questões que abordarão desde noções básicas sobre investigação e estruturação da ideia acerca dos fundamentos da investigação criminal até uma finalização construída sobre o chamado garantismo penal, onde será possível que o aluno compreenda as diferentes estruturas de investigação. Isso tudo passando por identificação e diferenciação de conceitos como “investigação científica” “investigação criminal” “meios de investigação criminal” “fins de investigação criminal”, entre outros. O tema a ser trabalhado neste livro, em que pese ser de fácil instigação ao interesse de muitos, uma vez que a prática das perícias é amplamente necessária dentro do ordenamento social atual. Por outro lado, ainda é uma área um tanto embaraçada visto as confusões que cercam a concretização do desempenho ideal de uma investigação criminal. Pode-se dizer que essa execução ideal se faz efetivada no momento em que as barreiras da investigação ultrapassam o processo penal, adquirindo significado e eficácia transdisciplinar. É de simples absorção a ideia de que a investigação criminal, na qualidade objeto científico de estudo, se faz frequentemente mal interpretada tanto por juristas como pela própria sociedade. Prof.ª Ma. Fabiane Brião Vaz IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA V VI Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE VII UNIDADE 1 – TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO .................................................................. 1 TÓPICO 1 – NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO ......................................................... 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 A INVESTIGAÇÃO .............................................................................................................................. 3 2.1 A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA ................................................................................................. 5 2.2 A INVESTIGAÇÃO CRIMINAL ................................................................................................... 9 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 17 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 18 TÓPICO 2 – FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL ............................................. 19 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 19 2 HISTÓRICO DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL ........................................................................... 19 2.1 OS FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL ......................................................... 21 2.2 OS FINS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL ................................................................................ 23 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 26 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 27 TÓPICO 3 – TEORIA DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL .............................................................. 29 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 29 2 A INVESTIGAÇÃO COMO PESQUISA ......................................................................................... 29 2.1 O GARANTISMO PENAL ............................................................................................................. 31 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 34 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 39 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 41 UNIDADE 2 – DAS PROVAS ................................................................................................................ 45 TÓPICO 1 – AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO ............................................... 47 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 47 2 A PROVA ................................................................................................................................................ 48 2.1 MEIOS DE PROVA .......................................................................................................................... 51 2.2 A PROVA CRIMINAL ..................................................................................................................... 53RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 58 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 59 TÓPICO 2 – A ORGANIZAÇÃO PERICIAL ..................................................................................... 61 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 61 2 O PAPEL DO MINISTÉRIO PÚBLICO ............................................................................................ 63 2.1 A PERÍCIA COMO FATOR DE PROMOÇÃO DA JUSTIÇA ................................................... 65 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 66 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 67 sumário VIII TÓPICO 3 – PROVA PERICIAL ............................................................................................................ 71 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 71 2 A IMPORTÂNCIA DA PROVA PERICIAL NO PROCESSO PENAL ....................................... 71 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 77 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 81 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 82 UNIDADE 3 – PROVAS E PERÍCIAS .................................................................................................. 83 TÓPICO 1 – PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS ............................................................................. 85 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 85 2 A PROVA PERICIAL ............................................................................................................................ 85 2.1 TIPOS DE PROVA PERICIAIS ....................................................................................................... 87 2.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS CARACTERÍSTICOS DAS PROVAS PERICIAIS ......... 90 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 94 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 95 TÓPICO 2 – O PERITO .......................................................................................................................... 99 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 99 2 PARTICULARIDADES DA ATIVIDADE DO PERITO .............................................................101 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................104 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................105 TÓPICO 3 – MODALIDADES DE PERÍCIA ...................................................................................107 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................107 2 EXAME DE CORPO DE DELITO ....................................................................................................107 3 EXAME NECROSCÓPICO, “AUTÓPSIA” OU NECROPSIA ...................................................110 4 EXUMAÇÃO PARA EXAME CADAVÉRICO ...............................................................................113 5 EXAME PERINECROSCÓPICO ......................................................................................................115 6 EXAME DO LOCAL DO CRIME .....................................................................................................115 7 EXAME SOBRE OS INSTRUMENTOS DO CRIME ...................................................................117 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................118 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................121 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................122 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................123 1 UNIDADE 1 TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • introduzir o acadêmico às noções básicas acerca de investigação; • identificar os fundamentos da investigação criminal; • constatar as ideias principais da Teoria da Investigação Criminal; • perceber a investigação criminal no cenário brasileiro. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO TÓPICO 2 – FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL TÓPICO 3 – TEORIA DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 1 INTRODUÇÃO No presente tópico deste livro didático, como início do fio condutor que irá nos levar até a compreensão eficaz acerca das questões mais relevantes sobre perícia investigativa para a ciência nos dias atuais, pretendemos delinear os pontos fronteiriços que se localizam entre a investigação científica e a investigação criminal. Isso será possível através da elaboração de uma apreciação filosófica e jurídica sobre essas atividades. Assim, inicialmente, o que pretendemos nesta primeira unidade é proporcionar uma análise ampla sobre os estudos da investigação, tanto científica quanto criminal. 2 A INVESTIGAÇÃO A origem da palavra “investigação” é do latim, investigatione (in + vestígios + ato), que significa, ação dirigida de ir atrás de um vestígio e que levou a tradução de ato de pesquisar, indagar, investigar. Como seguir o rastro de alguém ou perseguir marcas e vestígios. A palavra “investigação” surgiu no século XV, pouco antes da revolução científica que deu origem à ciência moderna. Investigar não é apenas procurar à toa, e sim perseguir uma hipótese, que é implicitamente aceita, e procurar saber se ela está ou não correta. Caso ela se mostre inconsistente com a chegada de uma informação nova que antes não se conhecia, então terá que ser trocada ou desconsiderada. É aqui que habita a dificuldade do trabalho investigativo: não é apenas sobre procurar de uma maneira minuciosa algo que estaria ao alcance de muita gente, mas sim de chegar a um resultado que anteriormente não era conhecido. Muitas vezes usa-se a palavra “investigar” numa definição corriqueira. Quando se estuda um determinado tema por um livro, pode-se alcançar conclusões novas para si, no entanto, essas conclusões certamente não são novas para muitos outros, por exemplo, os próprios autores do livro. O verdadeiro sentido de “investigar” consiste em alcançarconclusões que são novidades não apenas para ele, mas para muitos outros. Investigar se trata, além de perseverança, de inteligência e criatividade, pois deve-se enxergar além UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 4 do que já foi visto, e, preferencialmente, tentar transmitir isso da forma mais clara possível para as pessoas. Para isso, se faz necessário enxergar conclusões diferentes das que estão estabelecidas, examinando com atenção as evidências disponíveis. Em uma concepção teleológica de investigação criminal é possível que se faça uma aproximação dela com a ciência. Isso pode ocorrer tanto a partir da história quanto de acordo com a lógica do âmbito do direito, uma vez que ambos os campos proporcionam aspectos metodológicos que conjecturam uma racionalidade específica. Assim, é possível que se faça referência acerca da investigação “como” ciência, se este “como” estiver representado no sentido de uma semelhança, e não de uma total igualdade, por dois motivos basilares (BRITTO, 2014): • a investigação criminal é um conceito mais histórico do que científico, pois é da história, que se obtém acesso às suas questões intelectuais iniciais, sobretudo aquelas que dizem respeito à verdade acerca de fatos passados. Assim, qualquer ciência que se pretenda a partir dela não pode ignorar as questões sobre a possibilidade de uma ciência da história; • ainda que impugne às ciências empíricas, aos seus enunciados (teoria e leis) e às suas formas de pesquisa (métodos e técnicas), isso ainda não nos deixa falar de uma ciência da investigação criminal nem desconsiderar a incidência da lógica do direito na justificação do conhecimento. No conjunto, a investigação “como” ciência possui fronteiras inerentes ao conhecimento, que decorrem tanto da natureza histórica da investigação quanto da falibilidade da ciência, além de condicionantes ético-jurídicas, sejam eles comuns a qualquer área de saber que se pratica em sociedade, sejam os que se impõem por razão de direitos garantidos em face da ação de instituições estatais (BRITTO, 2014). Nesse sentido é que se diz haver uma lógica do direito, que incide, inevitavelmente, na ideia de uma investigação como ciência, nos Estados de direito, e nos permite falar de um contexto jurídico da metodologia da investigação criminal, que se particulariza por certas normas (princípios e regras) relativas ao crime e ao processo penal. A compreensão das normas jurídicas da investigação, em diálogo tanto com o discurso da história quanto com o da ciência, permite-nos, não apenas esboçar o estatuto disciplinar do domínio de saber investigativo-criminal, mas também evidenciar a perspectiva epistemológica dessas normas para além da função garantista que cumprem no âmbito do direito. Trata-se de percorrer as dimensões histórica e científica da investigação criminal para reafirmarmos com uma maior força compreensiva a sua dimensão jurídica, e em que sentido esta dimensão acaba por sobrepor-se às demais, nos Estados de direito que postulam a proeminência da dignidade da pessoa. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 5 Existem diferenças básicas entre a investigação científica e a investigação criminal. Um crime usualmente é investigado por poucas pessoas, enquanto na ciência, o “crime” é a própria natureza e muitos se questionam ao mesmo tempo sobre o tema, em várias grandes equipes, “competindo” pela mesma resposta e, normalmente, divulgando os resultados uns para os outros (BRITTO, 2014). Na investigação criminal, quem, afinal, atribui a culpabilidade não é o investigador, mas sim um juiz. Na investigação científica, quem anuncia uma determinada conclusão termina sendo a comunidade científica da área estudada, que trabalha como um tipo de conjunto de juízes, quando finalmente se entendem sobre fato a ser divulgado. Outra diferença pode ser notada quanto aos erros, que apesar de serem possíveis quando se tratam de investigações criminais, podem culminar com o crime resolvido e a investigação pode ser dada por encerrada. Na investigação científica, as conclusões obtidas só são aceitas temporariamente, até que novos estudos permitam rever as decisões feitas anteriormente e consigam que outras conclusões de alguma forma compreendam as antigas. A ciência é cumulativa ao incorporar, em cada situação de descoberta, o essencial das descobertas prévias. Outra diferença é que, tirando uma ou outra exceção, é possível descobrir a verdade nos casos de investigações criminais, enquanto nas pesquisas científicas, a verdade só é idealmente alcançável. Chegar realmente na verdade, ou melhor, tentar descobrir o erro, torna o trabalho dos investigadores científicos contínuo. 2.1 A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA Preliminarmente, para dar início à conceituação eficaz de nossos estudos, se faz importante obter um entendimento do plano filosófico acerca da investigação científica. Para isso, é inescusável que passemos a analisar um breve agrupamento das ideias de alguns pensadores que dedicaram um espaço de suas obras para este importante tema. Dois nomes, com certeza, merecem destaque quando falamos em investigação científica analisada do ponto de vista filosófico, são eles, René Descartes e Francis Bacon. Estes pensadores dispensaram parte de suas obras para a pesquisa acerca das direções da investigação dentro da Ciência. Descartes, em Regras para a direção do espírito, elaborou vinte e uma regras onde delineou seu sistema filosófico e científico, vejamos agora as que mais se fazem relevante para o estudo a ser elaborado neste caderno. O filósofo inicia suas regras explicando que a maneira mais provável de incentivar um afastamento do caminho em busca da verdade científica é orientando os estudos de acordo com fins pessoais. Isso por que é fundamental que UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 6 os atos investigativos estejam fundamentados pelo preceito da imparcialidade. Nas palavras de Descartes, “os estudos devem ter por finalidade a orientação do espírito, para que possamos formular juízos firmes e verdadeiros sobre todas as coisas que se lhe apresentam” (DECARTES, 1990, p. 4). A fim de manter o foco na imparcialidade do investigador, Descartes (1990) rejeita completamente as formas de conhecimento que se baseiam em juízos de probabilidades. Por isso, ainda, são interessantes de serem lembradas aqui as regras número dois e três, onde ele defende que se deve acreditar somente naquilo que é conhecido por completo, somente nos fatos que não abrem brechas para dúvidas. Para este pensador, a investigação científica tem como foco a busca pelo o que ele chama de verdade real, e não formal. De acordo com Descartes (1990, p. 4), “convém lidar exclusivamente com aqueles objetos cujo conhecimento certo e indubitável o nosso espírito é capaz de alcançar” e “acerca dos objetos considerados, deve-se investigar não o que os outros pensaram ou o que nós próprios suspeitamos, mas aquilo que podemos ter uma intuição clara e evidente, ou que podemos deduzir com certeza, pois de outro modo não se adquire ciência” (DESCARTES, 1990, p. 6). Descartes (1990) também dedica um tempo para observar a diferenciar a intuição intelectual da simples dedução. Na dedução ocorre o firmamento de uma ideia através da conclusão definitiva de ideias já concebidas, enquanto na intuição intelectual ocorre a criação de conceitos diferenciados de qualquer ideia anteriormente concebida, não restando dúvidas quanto à certeza dessa compreensão. Para o filósofo, as duas figuras descritas no parágrafo anterior elaboram juntas a maneira mais confiável de se fazer ciência. Uma vez que a intuição intelectual leva o cientista a concretizar os princípios primordiais para persecução de seu objetivo enquanto a dedução o auxilia a enxergar as conclusões mais distantes, aquelas que cercam o objeto de estudo e são igualmente importantes para sua percepção (DESCARTES, 1990). Devemos observar também, a quarta regra de Descartes(1990, p. 7), a qual diz: “o método é necessário para a procura da verdade”. O filósofo acredita que regras certas e fáceis constroem o método e, com ele, é possível que o cientista não incorra em erro. É através do método que se alcança o verdadeiro conhecimento. Como enunciado anteriormente, outro nome importante na filosofia para o estudo da investigação científica é o do filósofo Francis Bacon. Este pensador, também dedicou uma parte de sua obra para procurar um método que conduzisse à verdade científica, ele fez isso em sua obra intitulada Novum Organum. A ideia de Bacon (2002) está fundamentalmente ligada ao que chamamos de indução. Isto é, a técnica pela qual se obtém uma contemplação de validade dos fatos através de analogia. Ou seja, ao observar um número de reações iguais para determinado fato, se admite que todas as situações análogas terão a mesma reação, em que pese não ter sido avaliado cada um dos fatos individualmente. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 7 Com isso, percebe-se que temos duas diferentes vertentes sobre a verdade científica, para René Descartes, observamos um método investigativo em busca de uma verdade real, enquanto para Francis Bacon (2002) podemos observar a busca de uma verdade formal através do método investigativo. A investigação científica é parte fundamental e característica da ciência, pois sem método científico, não há ciência. Trata-se do conjunto de etapas e processos a serem adotados na procura da verdade sobre os fenômenos e fatos investigados. Entende-se que um método é um caminho escolhido para se alcançar um objetivo, ou seja, o conjunto de procedimentos que serão feitos até que construa o resultado. Tendo como objetivo a construção de uma verdade, a partir do esclarecimento dos fatos, a ciência utiliza métodos que imaginam os elementos como sendo interligados entre si por determinadas relações e, a partir disso, são provocadas formas de se entender essas relações como leis e princípios científicos. A busca da verdade baseia-se em pressuposições que avaliam a razão, experimentação e observação da investigação de fenômenos e fatos que nos levam a análises de raciocínio distintos. A era atual permite que haja valorização da experimentação e da observação, acompanhadas do raciocínio como portas para se fazer ciência. Tal pressuposição pondera que é possível descobrir os motivos dos fenômenos da natureza, apresentando em leis gerais o seu modo de atuação. Antes disso, o pressuposto predominante não levava em consideração a observação humana como uma forma de produzir conhecimento pois os únicos esclarecimentos possíveis eram o dos sistemas religiosos em que Deus fornecia aos homens. Ao se fazer uma análise sobre a composição do conhecimento científico, pode-se ter de um lado o homem que se apoia a conhecer (sujeito) e do outro lado a própria realidade a ser conhecida (objeto). A partir disso, notam-se caminhos para a ciência cujo foco está no sujeito, no objeto ou em ambos. Esses caminhos metódicos identificam as bases de construção do saber científico e da pesquisa científica na modernidade. Ainda que existam muitas variações conceituais e técnicas a respeito do método científico e, também, que haja um certo desacordo sobre como deve ser utilizado, as etapas básicas são fáceis de entender. A visão tradicional do método científico consiste nas seguintes etapas: • Observação. • Investigação sobre o tema. • Formulação de uma hipótese. • Experimentação. • Analise de resultados e conclusão. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 8 Na observação, aplicam-se os sentidos para analisar como os objetos, acontecimentos ou fenômenos se apresentam na natureza. A curiosidade é o primeiro passo para geração de conhecimento e perguntas derivam de observação empírica, ou seja, no que provém do senso comum, baseado em experiências vividas, ainda não interpretadas de forma racional nem com comprovação científica. A observação é a evidência inicial que pode comprovar métodos científicos. A investigação sobre o tema é essencial para se ter noção de como a questão já foi abordada por outras pessoas. É a pesquisa sobre o assunto, uma profunda revisão do conhecimento existente sobre o tema, a fim de descobrir informações que possam auxiliar nos seus questionamentos, ou, até mesmo, responde-los de imediato, pois pode ser que já exista uma solução que se aplique ao seu problema. A formulação de uma hipótese que possa tentar responder às dúvidas sobre o objeto, acontecimento ou fenômeno, que deve marcar uma posição de relação causa-efeito, que gera explicação a ser experimentada pelo método. Uma suposição, independentemente do fato de ser verdadeira ou falsa, como um princípio a partir do qual se pode deduzir um determinado conjunto de consequências. Por exemplo, o carro não liga porque está sem gasolina. É importante que essa possibilidade possa ser testada, para não comprometer a etapa seguinte da pesquisa. No caso do exemplo anterior, deve ser possível, por exemplo, colocar gasolina, para verificar se o carro ligaria. A experimentação pode ser feita a partir da elaboração de experiências controladas que testam a hipótese. O experimento deve ser imaginado para tentar isolar o fenômeno e as sugestões de causalidade. A experimentação controlada consiste em testar um fator por vez e comparar os resultados obtidos no grupo experimental com o que foi obtido no grupo controle para, assim, descobrir se houve alguma variação ou não. Ocorrendo diferenças entre os resultados do grupo experimental e do controle, elas são atribuídas ao fator que está sendo testado. Não ocorrendo diferenças, pode-se dizer que o fator analisado não interfere no processo em estudo. Seguindo o exemplo anterior, se colocaria apenas a gasolina no carro, pois, caso outra alteração fosse feita, não se teria certeza de qual das duas interferiu no resultado, ou seja, qual a verdadeira causa do fenômeno. Se mesmo após colocar a gasolina, o carro não funcionar, sabe-se, então, que esse não é o problema, ou ao menos, não é o único problema. Nesse caso não, o problema não poderia ser isolado em um único experimento e seria necessário outro carro nas mesmas condições para que outros testes fossem feitos, sucessivamente. Tendo isso em vista, é imprescindível manter registros detalhados de todos os experimentos possível de replicações. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 9 A análise de dados e a conclusão é o momento de analisar seus resultados. Nesta etapa, é preciso checar se o que foi agregado é suficiente para explicar os problemas que surgiram com os questionamentos iniciais. É nesta etapa, também, que é determinado se haverá a necessidade de inclusão de novas hipóteses, que irão provocar mais pesquisa e experimentação, ou se há resultados suficientes para determinar a conclusão. É possível também, presumir o resultado do teste como inconclusivo. Deve- se fechar com um relatório, que deve conter, além dos resultados, a metodologia, ou seja, o passo a passo e todos detalhes que forem possíveis, incluindo as hipóteses, as bases teóricas e metodológicas, bem como as conclusões. Um aspecto extraordinário da ciência é que os conhecimentos científicos se modificam sempre e com base no método científico novas teorias são formuladas, muitas vezes substituindo outras previamente aceitas. Uma teoria pode ser alterada frente a novas encontradas. 2.2 A INVESTIGAÇÃO CRIMINAL A investigação criminal é o aparelho pelo qual se completa a apuração de fatos supostamente delituosos e sua apropriada autoria a partir da ocorrência ou notícia, com o intuito de esclarecer se se harmonizam ou não com alguma norma penal tipificada. Uma apreciação mais sintética desta atividade é apresentada por Manoel Monteiro Guedes Valente (2009, p. 102), de acordo com trecho a seguir: A investigação criminal, levada a cabo pela polícia, procura descobrir, recolher, conservar, examinar, e interpretar provas reaise também procura localizar, contatar e apresentar as provas pessoais que conduzam ao esclarecimento da verdade material judicialmente admissível dos factos que consubstanciam a prática de um crime, ou seja, a investigação criminal pode ser um motor de arranque e o alicerce do processo crime que irá decidir pela condenação ou pela absolvição. Como se pode ressaltar, o objeto da investigação criminal é a isenta apuração da materialidade e autoria de um suposto crime, ou contravenção penal, mediante busca da sua verdade fática e jurídica com embasamento em um juízo de probabilidade indiciária. Cabe ainda ressaltar que a compreensão de verdade pretendida pela investigação criminal diz respeito à verdade processual (adequada à persecução penal como um todo), definida por Luigi Ferrajoli (2014), que a divide entre verdade processual de fato e de direito, as quais não podem ser afirmadas por observações diretas. A verdade processual fática, para o referido jurista, incide em um tipo particular de verdade histórica, relativa a conjecturas que discorrem de representações passadas que não estão abertamente compreensíveis como por UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 10 exemplo, a experiência. Enquanto isso, a verdade processual jurídica é uma verdade que pode se chamar de classificatória, ao referir-se à classificação ou qualificação dos acontecimentos históricos evidenciados segundo as categorias pelo léxico jurídico e elaboradas mediante a interpretação da linguagem legal. Visto isso, podemos afirmar que a investigação criminal, assim como a investigação científica, pretende buscar uma verdade formal aproximada e corrigível, passível de aperfeiçoamento, com a particularidade de que, na primeira, esta verdade é ordinariamente retrospectiva, uma vez que, via de regra, diz respeito a fatos passados. Ou seja, fatos que não estão mais acessíveis às experiências. Deste modo, enquanto veículo da busca pela verdade processual (formal), decorrem da investigação criminal três funções basilares (BRITTO, 2014): • resguardar a imparcialidade; • resguardar a economicidade; • resguardar a eficiência da Justiça Criminal, Despontando da soma destas três funções o principal bem jurídico tutelado pela investigação criminal, qual seja, a defesa da ordem jurídica. A imparcialidade da Justiça Criminal conserva-se agasalhada pela investigação criminal na avaliação em que esta aprovisiona o juiz com um algoritmo temporário derivado de um órgão não comprometido, ou vinculado, nem com a acusação nem com a defesa, assim resguardando a investigação de ponderações parciais. Tal observação restou, bem ilustrada, no item IV da Exposição de Motivos do Código de Processo Penal vigente, ao discorrer sobre o inquérito policial: É ele uma garantia contra apressados e errôneos juízos, formados quando ainda persiste a trepidação moral causada pelo crime, nas suas circunstâncias objetivas e subjetivas. Por mais perspicaz e circunspeta, a autoridade que dirige a investigação inicial, quando ainda perdura o alarma provocado pelo crime, está sujeita a equívocos ou falsos juízos a priori, ou a sugestões tendenciosas. Não raro, é preciso voltar atrás, refazer tudo, para que a investigação se oriente no rumo certo, até então desapercebido. Por que então, abolir-se o inquérito preliminar ou instrução provisória, expondo-se a justiça criminal aos azares do detetivismo, às marchas e contramarchas de uma instrução imediata e única? Pode ser mais expedito o sistema de unidade de instrução, mas nosso sistema tradicional, como inquérito preparatório, assegura uma justiça menos aleatória, mais prudente e serena (BRASIL, 1941a, p. 2). A economicidade da Justiça Criminal sustenta-se ao mesmo tempo resguardada pela investigação criminal, enquanto evita que acusações infundadas ou temerárias sejam indevidamente judicializadas. Assim, impedindo que estes tipos de acusações sejam submetidos à Juízo, além de que salvaguarda os direitos individuais ao impedir que inocentes sejam submetidos ao desgaste de um processo penal de maneira imprudente. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 11 Para Aury Lopes Jr. (2001), a função de evitar acusações infundadas é o principal fundamento da investigação criminal, porquanto, em verdade, impedir acusações sem fundamentos é asseverar a sociedade de que não haverá abusos por parte do poder persecutório estatal. Visto que a impunidade pode gerar um grave desassossego social, não menos grave é o mal causado por processar um inocente. Essa atividade de “filtro processual”, para Aury Lopes Jr. (2001), se faz inteiramente concretizada quando levarmos em consideração três fatores: • o custo do processo judicial; • o sofrimento que causa para o sujeito passivo; • a estigmatização social e jurídica geral. José Pedro Zaccariotto (2005) vai ainda mais além, ao esclarecer que parte considerável das notícias de crimes, que cotidianamente chegam às Delegacias de Polícia, dizem respeito a fatos, por vezes, até claramente ilícitos, contudo desprovidos de comprobação quanto à sua efetiva natureza, se civil ou criminal, como acontece, com grande assiduidade, em face de casos permeados por hipotéticos inadimplementos de obrigações, habitual e obstinadamente explanados, como estelionatos e apropriações indébitas, benefício da delicada fronteira que abaliza o território das mencionadas espécies. Nesses, e em tantos diferentes episódios análogos, não deve a investigação criminal objetivar o descobrimento do autor dos fatos que lhe são apresentados de forma abreviada e partidária, mas, sim, descobrir se estes fatos estão ou não de acordo com alguma hipótese delituosa. Assim, podemos concluir que, para a positiva efetividade, tanto da investigação criminal, como da investigação científica, é essencial que enigmas, fundamentados em fatos com suposição criminosa, constituam indícios de maneira concisa e objetiva, uma vez que a metodologia da investigação criminal também não é autossuficiente. Ou seja, não é possível que ela germine no vácuo de informação ou na total indeterminação, circunstância na qual se abordam as notícias de crime que não carregam indicativos ínfimos de prática delituosa. Em compensação, o que passa pelo mencionado “filtro processual”, com o devido desenvolvimento de materialidade de autoria delituosa, resulta em uma maior eficácia da Justiça Criminal, ao permitir que a parte autora da ação penal ingresse em juízo com informações mínimas que proporcionem que o mesmo possa genuinamente exercer o jus persequendi, com uma expectativa palpável de admissível condenação. Em que pese a instrução preliminar não ser indispensável ao ajuizamento da ação penal, esta, via de regra, acompanha a inicial acusatória, adquirindo maior autoridade por ser instruída com informações adquiridas por um órgão alheio e imparcial em relação ao destino da causa. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 12 Infelizmente, a estigmatização social e jurídica geral é frequentemente mencionada pela doutrina processualista penal brasileira. Este fato faz com que tenhamos, como consequência, a diminuição da investigação criminal como uma prática unidirecional e monocular, destinada tão exclusivamente para proporcionar a aspiração da parte acusadora de subsequente processo penal, cuja condenação seria seu objetivo principal. Este encaminhamento, além de em claro desacerto com devido processo legal, se analisado sob um prisma filosófico, desemboca na compreensão de verdade afamada por Michel Foucault (2003). Este pensador acredita que o encontro da verdade é consequência de inúmeras coerções, produzindo na sociedade efeitos normatizados por poder, além disso, diz ainda, que a verdade é determinada e transmitida sob autoridade dominante de um ou mais instrumentos hegemônicos. Com tudo, percebemos que a investigação criminal, além da compreensão reducionista visivelmente pacificada na doutrina jurídica do nosso país, deve ser desempenhadapretendendo a imparcialidade na busca da verdade formal. Ainda, pertinente à metodologia da investigação criminal, compete abordar as lições de André Rovegno (2005), autor que afirma que não existe no inquérito policial uma sucessão de atos que implique uma correlação na qual o antecedente acondicionaria o consequente, assim como, também não existiria legislação a recomendar uma ordem para a citada sucessão, diferentemente do que se observa nos processos e procedimentos. A lei confia uma espaçosa margem de discricionariedade para que a autoridade de polícia judiciária contemple as diversas aberturas a perseguir. Para isso, a autoridade policial necessita buscar de todas as maneiras possíveis o sucesso da investigação, ou seja, buscar pela maior aproximação possível da verdade. Quanto aos direitos fundamentais de investigados e indiciados, a legislação processual penal também são fatores que deverão ser perseguidos pela autoridade de polícia judiciária em toda a sua liberdade discricionária conferida pela lei. Ainda segundo André Rovegno (2005, p. 179) “apenas o destino está fixado: a reconstrução, pautada pelo imperativo de busca inarredável pela verdade, de um fato que se apresentou preliminarmente como criminoso”. Como na investigação científica vista no anteriormente, as normas que estruturam a metodologia da investigação criminal possuem somente uma justificativa pragmática. Isso quer dizer que não é possível que se elabore listas acerca da verdade na investigação científica e, ainda, não é possível que se antecipe conclusões independentemente do caso concreto em questão. Entretanto, é imprescindível que as normas seguidas pela autoridade de polícia judicial agreguem não exclusivamente regras compatíveis com as leis da lógica e da ciência, mas, também, que se façam em concordância com o sistema de normas fundamentado numa estrutura jurídica. E, além disso, devem também estar em consonância com os direitos fundamentais dos indiciados e investigados. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 13 Importante salientar a ideia de Eliomar da Silva Pereira (2010) que diz sobre o fato de os direitos fundamentais provocarem uma verdadeira intervenção jurídica no método da investigação criminal, uma vez que, conquanto não seja verificado por regras positivas necessárias de pesquisa, encontra-se restrito por preceitos negativos, que extraem do seu campo de probabilidade uma quantia de caminhos analisados como inadmissíveis diante do direito, ou acolhidos exclusivamente sob determinadas espécies. Entretanto, cabe lembrar que mesmo que em menor escala, as investigações científicas ainda estão sujeitas a limitações jurídicas decorrentes de direitos fundamentais. Como exemplo disso temos as questões polêmicas relacionadas ao Biodireito, onde o método da investigação científica, a depender do objeto de estudo, pode sugerir em transgressão a direitos fundamentais, especialmente aqueles relacionados à dignidade da pessoa. NOTA Biodireito é o ramo do Direito Público que se associa à bioética, estudando as relações jurídicas entre o direito e os avanços tecnológicos, normalmente obtendo foco para as questões referentes ao corpo e à dignidade da pessoa humana. O material complementar pode ser encontrado no site www.jusbrasil.com.br onde estão disponíveis inúmeros artigos sobre o tema. A investigação criminal ou ainda investigação policial, já que de acordo com a tradição, no Brasil, a investigação criminal é realizada pela polícia, é a forma de indicar a procura, ou busca dos vestígios pertinentes a um crime. No momento em que ocorre um suposto crime e essa notícia chega até a polícia, o sistema penal é empregado a fim de esclarecê-lo para que se possa ter a justa aplicação da lei penal. A partir disso são destacados investigadores para trabalhar no caso. A investigação criminal é o instrumento com o qual se realiza a apuração do ocorrido com a avaliação de acontecimentos supostamente delituosos e da correspondente autoria a partir da sua ocorrência ou notícia, com o objetivo de descobrir se há ou não alguma infração penal. Quando o crime exige uma perícia de local de crime, os peritos criminais se deslocam para realizar os exames periciais e quando se trata de um crime que não necessita de perícia no local, a investigação continua a busca por informações até que possa ser determinada uma perícia posterior. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 14 O ordenamento jurídico brasileiro se utiliza do inquérito policial (art. 4 ao 23 do Código de Processo Penal) para fornecer elementos informativos que sejam juridicamente admissíveis e que possam colaborar com o objetivo de desvendar o caso sobre o qual há um interesse jurídico-criminal para, com isso, ajudar o titular da ação penal (art. 24 ao 62 do Código de Processo Penal) a formar convicção sobre o ocorrido. É importante que ao solicitar uma perícia, seja pelo delegado, promotor ou juiz, sejam incluídos no pedido o máximo de informações possíveis sobre o inquérito, para que a avaliação seja feita da melhor forma possível e, também, dando condições para que o perito possa avaliar o que seria importante acrescentar ao laudo, dada as circunstancias. A perícia deve ser considerada como uma parte conjunta da investigação e deve ser feita de forma integrada e em comunicação com a investigação criminal. Devem ser complementares, afinal, o objetivo da investigação criminal é encontrar as provas referentes ao ato sob investigação. Como anteriormente visto neste tópico, a ciência é metodologicamente única, apesar da pluralidade de seus objetos e das técnicas adequadas. No que concerne à natureza do objeto a ser estudado, é ela quem dita os possíveis métodos especializados para a matéria ou campo de investigação apropriado. Isto não é diferente com a investigação criminal, resguardadas as particularidades do fato criminoso, que é o seu objeto. Desta forma, pode-se afirmar que é inteiramente admissível conjecturar uma interconexão metodológica entre as investigações científica e criminal, a partir das seguintes assertivas (FONTELES, 2001): • A investigação criminal, assim como a investigação científica, aponta para a busca pela verdade, contemporaneamente arquitetada de maneira formal aproximada e aperfeiçoável, com a particularidade de que na investigação criminal esta verdade é comumente retrospectiva, uma vez que esta, via de regra, diz respeito a fatos passados não mais acessíveis à experiência. • Para devida eficácia da investigação criminal, assim como na investigação científica, é fundamental que os impasses, motivados em fatos com suposição criminosas, consistam em propositura de forma concisa e prática, visto que ambas as metodologias não são autossuficientes. Logo, não podem se desenvolverem no vácuo de conhecimento ou na total indeterminação. • Assim como na investigação científica, as normas que estruturam a metodologia da investigação criminal têm somente uma justificativa pragmática, e não uma justificação teórica. Entretanto, é imprescindível que tais regras agreguem um aparelho de preceitos fundamentado numa estrutura jurídica, não apenas ajustada com as leis da lógica e as leis da ciência, mas também com os direitos fundamentais dos indiciados e investigados. • Os direitos fundamentais aludem em verdadeira intervenção jurídica na metodologia da investigação criminal, e, também, no método da investigação científica, uma vez que as duas, ainda que não sejam verificadas por regras positivas imprescindíveis de pesquisa, acham-se adstritas por regras negativas, que tiram do seu campo de probabilidade uma verba de aberturas consideradas inadmissíveis perante o direito, ou admitidos somente sob determinadas condições. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 15 A cientificidade é possível quando os elementos epistemológicos obedecem a certos critérios formais e seus enunciados obedecem a certas leis de construção de proposições. Essaetapa passa por compreender como a investigação criminal se tem apropriado do discurso da ciência, seus enunciados e suas técnicas, e o tem transportado para a busca da verdade acerca dos crimes e sua justificação. Entender em que medida ou sentido isso é possível passa pela compreensão da ciência e das diversas teorias que se têm proposto acerca dela, bem como ela se infiltra no discurso do saber investigativo-criminal. É o que abordaremos no Tópico 2 deste trabalho. Entretanto, há que se entender, preliminarmente, que a ciência se produz dentro e a partir de um saber e nele desempenha um papel, segundo o seu discurso. A ciência não precisa se identificar com o saber, mas não o excluí, apenas se localiza nele, estrutura seu objeto, sistematiza seus métodos, orienta seus conceitos e enunciados. É nesse ponto que surge o problema da ideologia na ciência. Certo é que essa ciência, contudo, pode ou não aparecer; o saber pode ou não dar lugar ao aparecimento de uma ciência. Mas não é por causa da ideologia jurídico-penal que a ciência pode não se tornar possível. Afinal, tem-se entendido que “a ideologia não exclui a cientificidade” (FOUCAULT, 2008, p. 208). A ideologia jurídico-penal até pode conduzir a contradições, lacunas, defeitos teóricos, na medida em que seus efeitos fundam a base da prática e seu discurso. E não basta retificar esses erros e contradições para desfazer a relação com a ideologia. A questão é que o papel da ideologia na ciência não diminui à medida que aumenta o rigor na aceitabilidade e coerência do conhecimento. E a ciência pode acabar até por oferecer argumentos contra a própria ideologia. Além disso, tem-se reconhecido que mesmo as ciências constituídas têm permanecido ideológicas, pois seu paradigma, ou sua matriz disciplinar, se originou em um contexto ideológico bem determinado. Gerard Fourez (1995) distingue, porém, discurso ideológico de primeiro grau e de segundo grau, conforme se encontrem, ou não, vestígios da construção das representações da realidade. No primeiro caso, temos discursos científicos com exortações normais a valores declarados, ao passo que no segundo, temos representações apresentadas como evidentes, quando ainda são discutíveis. Essa compreensão, lançada sobre o conhecimento investigativo-criminal, permite-nos vislumbrar dois caminhos para uma ciência que se possa construir nesse contexto. Uma no sentido de legitimar o saber de domínio prático, para dominação e diminuição de direitos fundamentais; outra no sentido de minimizar o recurso ao uso da força e exclusão da violência como forma de potencializar os direitos fundamentais. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 16 Esse último caminho parece ser o único condizente com uma investigação criminal, segundo princípios fundamentais do Estado de direito, que giram em torno do seu objeto e seu método, mesmo dentro e a partir de uma ideologia jurídico-penal. Trata-se da construção de uma ciência que, em complemento ao movimento constitucionalista de limitação do poder e de garantia das liberdades, vise, igualmente, à limitação do poder e ao aumento da liberdade do homem. 17 Neste tópico, você aprendeu que: • Investigar não é apenas procurar à toa, e sim perseguir uma hipótese, que é implicitamente aceita, e procurar saber se ela está ou não correta. • Não é apenas sobre procurar de uma maneira minuciosa algo que estaria ao alcance de muita gente, mas sim de chegar a um resultado que anteriormente não era conhecido. • Na investigação criminal, quem, afinal, atribui a culpabilidade não é o investigador, mas sim um juiz. • Na investigação científica, quem anuncia uma determinada conclusão termina sendo a comunidade científica da área estudada. • Na investigação científica, as conclusões obtidas só são aceitas temporariamente, até que novos estudos permitam rever as decisões feitas anteriormente. • Dois nomes, com certeza, merecem destaque quando falamos em investigação científica analisada do ponto de vista filosófico, são eles René Descartes e Francis Bacon. • Descartes, em Regras para a direção do espírito, elaborou vinte e uma regras onde delineou seu sistema filosófico e científico. • Francis Bacon também dedicou uma parte de sua obra para procurar um método que conduzisse à verdade científica, ele fez isso em sua obra intitulada Novum Organum. • A busca da verdade baseia-se em pressuposições que avaliam a razão, experimentação e observação da investigação de fenômenos e fatos que nos levam a análises de raciocínio distintos. • A compreensão de verdade pretendida pela investigação criminal diz respeito à verdade processual (adequada à persecução penal como um todo). RESUMO DO TÓPICO 1 18 1 De acordo com o que foi estudado neste tópico, discorra sobre a atuação das autoridades policiais durante o curso de uma investigação. Eles devem dar prioridade para a indicação de um autor para o crime investigado ou à busca da verdade? 2 A respeito da investigação, independentemente se científica ou criminal, como foi demonstrado neste primeiro tópico do presente Livro Didático, a primeira lição a ser aprendida é que o seu objetivo é a persecução da verdade. A partir disso, explique de que maneira essa verdade deve ser buscada e qual o obstáculo principal na busca de um investigador. 3 Ao falarmos sobre investigação científica vimos que primeiramente é necessário, assim como qualquer outra ciência, que seja analisado o método mais eficaz a ser utilizado para a concretização dos objetivos dessa ciência. Do ponto de vista filosófico, os nomes que se destacam para a análise da investigação dentro da ciência são René Descartes e Francis Bacon. Explique quais os pontos mais relevantes entre as ideias desses pensadores, indicando um ponto diferenciador entre elas. 4 Ainda sobre a investigação científica, vimos que, em que pese existirem inúmeras variações conceituais e técnicas a respeito do método científico e, também, que haja um certo desacordo sobre como deve ser utilizado, as etapas básicas são fáceis de entender. Assim, a visão tradicional do método científico consiste em cinco etapas, quais são elas e como devem ser utilizadas? 5 Sobre a investigação criminal como uma vertente da investigação científica, conceitue esse tipo de investigação, ressaltando quais são seus objetivos, e objeto principal, e discorra sobre preceitos importantes para que ela seja identificada. AUTOATIVIDADE 19 TÓPICO 2 FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, o aluno será direcionado para questões específicas acerca da investigação criminal. Uma vez que já compreendemos o conceito de investigação e diferenciamos os tipos que interessam para o conhecimento objeto de alcance com este caderno, sendo eles investigação científica e criminal. Passamos agora a delinear os fundamentos da investigação criminal, para isso, será feita uma linha lógica iniciando num breve histórico acerca desse tipo de investigação, em seguida observando os pilares que a embasam e fundamento e, finalmente, serrão analisados os fins de investigação criminal, os diferenciando dos chamados meios de investigação. Ainda neste tópico, o aluno encontrará um resumo com destaque apenas para subtópicos importantes que aqui forem vistos, além de cinco questões de autoatividade para fixação do conteúdo. 2 HISTÓRICO DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL A utilização dos conhecimentos científicos para a análise de provas de crimes iniciou-se desde o surgimento da civilização, em decorrência da necessidade de esclarecimento de um fato delituoso, através de uma sistemática norteada por padronizações e regras cientificas e jurídicas. Antigamente, os métodos utilizados eram baseados em violência e tortura em busca de autorias baseadas em confissões, que podem ter pouca credibilidade. Não se podia imaginar que um dia a sociedade poderia, tão certeiramente, descobrir o autor de um crime e ter provas para culpá-lo, com a progressãoda prova em sentido amplo, de maneira testemunhal e, também, material. No mundo todo, muitos crimes sempre passaram despercebidos por falta da prova material. Desde meados de 1870, na França, eram utilizadas fotografias nas fichas criminais. O objetivo era que elas servissem como um meio de reconhecimento, como um banco de dados para identificação. Após alguns anos de tentativa, Alphonse Bertillon (Paris, 1853-1914), famoso criminologista francês, emplaca um método científico de reconhecimento dos indivíduos e classificação de suas fichas baseado em mensurações antropológicas. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 20 Esse método foi adotado internacionalmente e utilizado até 1970. Nesse movimento, ferramentas como o retrato falado, as fotografias e, mais à frente, a datiloscopia tornam-se procedimentos complementares. É que, para Bertillon, somente com a antropometria era possível entregar à justiça provas científicas irrefutáveis no que se refere à identificação de um criminoso reincidente. O oficial da polícia francesa é considerado o criador da polícia técnica moderna e o sistema ficou conhecido como “sistema Bertillon” ou “bertillonagem”. A partir disso, surge a criminalística. No Brasil, a origem da criminalística se confunde com o surgimento da medicina legal, que recebeu forte influência da experiência francesa. Na época da administração colonial no Brasil, quase não foram feitas pesquisas científicas sobre medicina legal. Somente depois do ano de 1832, com o surgimento das faculdades de medicina, foram produzidas teses com o tema, devido ao requerimento para obtenção do título de graduação. Em torno de 1839, já eram possíveis de serem encontrados os primeiros trabalhos sobre o assunto. Para evidenciar os métodos científicos para resolução de crimes, surgem os chamados Institutos de Criminalística, conhecidos também como polícia técnico- científica, que tem como objetivo a criação dos laboratórios criminalísticos, para que seja possível suprir as necessidades de aplicação dos métodos científicos no esclarecimento dos crimes. A polícia técnica é um órgão da Administração Pública subordinado à Secretaria de Segurança Pública na maior parte dos estados nacionais e tem como objetivo coletar e analisar as provas periciais. A função dos Institutos de Criminalística é contribuir com o exercício das perícias criminais, oferecendo, aos peritos, materiais e ferramentas que possam ser importantes na descoberta do responsável e na elaboração do laudo pericial. Entre suas diversas áreas, cada uma especializada em um diferente tipo de perícia, pode-se contar, por exemplo, com áreas de acidente de trânsito, crimes contábeis, informática, áreas de exames, análise e pesquisas – instrumental, balística, biológica, bioquímica, física e química, entre inúmeras outras. A criminalística e seus métodos de utilização dos estudos de vestígios descobertos no local são essenciais para o esclarecimento de crimes. O conhecimento é útil não somente para os peritos criminais, mas também para os operadores do direito que se inclinam para compreensão da matéria e sua aplicabilidade no âmbito penal, a fim de alcançar credibilidade e autenticidade dos fatos necessários para resolução do conflito. De acordo com o Código de Processo Penal Brasileiro, é mandatório o exercício do exame de corpo de delito para os crimes que deixarem vestígios. Isso entrega ao juiz meios materiais para a resolução do apurado fato delituoso, pois se trata de uma prova importante, científica e isenta, considerando a materialidade. TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL 21 Desde a Constituição Federal de 1988, são confirmados os direitos e garantias fundamentais dos cidadãos, a fim de evitar tratamentos injustos ou degradantes que precedam a decisão do juiz. Essa é a presunção de inocência, preceituada no art. 5, inciso LVII: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] LVII- ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (BRASIL, 1988, s.p.). No mesmo Art. 5, inciso LV, também é previsto o princípio do contraditório, observando o direito à prova para assegurar às partes os recursos suficientes a defesa do acusado: “LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes” (BRASIL, 1988, s.p.). É preciso que se busque sempre a justiça nos processos penais, levando em consideração o princípio da dignidade humana e a Constituição Federal de 1988. Com a prova pericial, então, não é necessário que o magistrado se atenha apenas a fatos divulgados por pessoas ou pela confissão, que podem ser menos confiáveis. 2.1 OS FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL Como parte das funções do Estado, estão a proteção dos direitos fundamentais e a promoção da justiça. Ao surgir a notícia da prática de um ilícito penal, faz-se necessário que, por meio dos órgãos competentes, aplique-se a persecução criminal ou penal, que é a mesma coisa que perseguir, no sentido de ir atrás da apuração do fato, a fim de confirmá-la, ou não, e, consequentemente, se for o caso, iniciar uma ação penal. Isso é feito, no Brasil, pela polícia judiciária nas fases de averiguação e pelo Ministério Público, que por fim pode oferecer denúncia ao juiz, dando início à ação penal pública. A persecução criminal é, portanto, o dever do Estado de promover o processo penal acusatório, e a própria investigação que o precede, quando for cabível. Pode-se definir a investigação criminal, brevemente, como uma atividade preliminar que antecede o processo, visando à produção e obtenção de elementos de convicção (evidências) acerca da materialidade e da responsabilidade de uma ocorrência criminosa. Quando se fala em diligências, meios e técnicas de investigação, se trata da prática dos atos investigativos. Eles normalmente são provenientes do inquérito policial, em fase preliminar expressivamente independente se comparado ao processo criminal. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 22 No que se refere à esfera criminal, a atividade investigativa é mais marcante. São determinadas pela Constituição Federal, as autoridades responsáveis pela apuração das infrações penais: Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: § 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, estruturado em carreira, destina-se a: I- apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei; § 4º Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares (BRASIL, 1988, s.p.). Complementarmente, o artigo 4º do CPP revela que: Art. 4º A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e da sua autoria. (Redação dada pela Lei nº 9.043, de 9.5.1995) Parágrafo único. A competência definida neste artigo não excluirá a de autoridades administrativas, a quem por lei seja cometida a mesma função (BRASIL, 1941b, s.p.). O Código de Processo Penal regulamentou, com muito mais precisão, as normas sobre a investigação, tanto sobre o inquérito policial, quanto por leisexclusivas sobre os métodos de investigação. Sabe-se que isso ocorre, pois fazem parte do julgamento de processo criminal vários assuntos sensíveis: direitos como a liberdade, honra, intimidade, segurança individual e pública. O simples fato de se ajuizar uma demanda judicial injustamente já pode estabelecer um dano irreparável ao acusado. E, em contrapartida, a falta de preparo do processo a que foi dado início pode culminar na impunidade de um indivíduo que mereça uma sanção penal. Como foi visto no parágrafo único do artigo 4º do Código de Processo Penal, além da polícia judiciária, outros órgãos administrativos podem realizar o ato investigativo, dentro de suas atribuições legais. A investigação criminal policial ocorre quando, após notificação de um crime, o sistema policial define a polícia judiciária para coordenar a investigação preliminar da situação, com o objetivo de obter elementos que possam servir para formar a convicção do órgão acusador. TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL 23 A autoridade policial determina a orientação da investigação e decide como deve proceder ao ato investigativo: oitiva de testemunhas, corpo de delito etc. E delibera, também, quem será responsável por cada função. Se for necessária alguma restrição de direitos, como, por exemplo, uma prisão cautelar ou interceptação telefônica, deve ser apresentada uma solicitação ao órgão judicial. Nesse momento, a polícia judiciária atua de forma autônoma em sua forma de conduzir a investigação. Não se subordina, funcionalmente, nem ao ministério público e nem ao poder judiciário. O procedimento de investigação alcançado por meio desse sistema é de caráter administrativo, e, apesar do nome, a polícia judiciária não está ligada ao poder judiciário e não é dotada de poder judicial. É um órgão da administração pública, da estrutura do poder executivo. A vantagem desse sistema é que nem a polícia tem grande alcance e consegue atingir com mais agilidade um local que o poder judiciário e o ministério público. No entanto, o fato da polícia ser armada e, consequentemente, representar o componente mais perceptível do controle da criminalidade, a faz ter, por vezes, a ação mais dirigida a grupos já estigmatizados, ignorando criminosos de classe social elevada. Isso fere os princípios de igualdade jurídica. O discurso da discricionariedade (poder que é entregue para agir livremente, dentro dos limites da lei, sem restrição, ou seja, sem estar vinculado à uma conduta) pode apresentar algumas alterações na conduta policial. 2.2 OS FINS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL A investigação criminal é pesquisa orientada a estabelecer a verdade fática acerca de uma lesão penalmente relevante a um bem jurídico decorrente de conduta humana. É pesquisa que se faz a partir de uma hipótese típico-legal (direito penal) e segundo formas delimitadas juridicamente (direito processual penal). É atividade que não se limita a apenas uma fase do processo penal (inquérito), pois, paralelamente à interpretação jurídica, percorre todas as suas fases. É a parcela do processo que se destina a estabelecer a verdade fática, antes que se faça a subsunção dos fatos à norma penal (verdade jurídica), mas ao passo que se vai investigando, interpretações não definitivas são necessárias. Investigação e interpretação, portanto, não são atividades estanques que se realizam sucessivamente, mas simultaneamente, embora sem definitividade, até que se chegue a uma sentença penal condenatória. Nesse caminho, vários sujeitos processuais intervêm e pesquisas de naturezas diversas se realizam. UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO 24 A verdade, contudo, é apenas uma condição necessária (não prescindível), mas não suficiente para legitimar as ações de pesquisa e sua forma. Há uma verdade processual, validada juridicamente, não uma verdade material. Isso nos exige distinguir entre um conceito de verdade, que aspira por ser uma correspondência com os fatos, e critérios de verdade, que no direito são delimitados juridicamente. São os meios, portanto, não os fins, que justificam a investigação criminal, salvo se a ela pudermos atribuir fins, outros além da busca da verdade, o que faz desta verdade um valor dependente de outros valores concorrentes. Se ao direito se impõe a prevenção de conflitos, ou sua solução posterior sem recurso à violência, como forma de promover a paz, não pode a investigação criminal, na busca por uma verdade, produzir mais problemas além do que tem a resolver, ou mesmo agravá-los. O escopo da investigação criminal, nesse sentido, é a solução de problemas por meios menos gravosos a direitos fundamentais. Assim, se podemos conceber caminhos a uma maior eficácia da investigação: • pelo aumento do poder com uma, cada vez maior, restrição de direitos; • pelo aumento do saber com uma, cada vez menor, restrição de direitos. Apenas este último pode ser o sentido de um aperfeiçoamento da investigação como ciência, nas sociedades políticas que têm a forma de Estado de direito. O fim de uma investigação criminal, ao contrário do que muitos pensam, não é a obtenção e produção de elementos que provem a prática de um ilícito. Dizer isso seria o mesmo que dizer, também, que toda a instrução preliminar teria como objetivo a demonstração de um ilícito, não levando em consideração outros elementos que estivessem apontando justamente o oposto. Com o intuito de comprovar ou não um delito, existe a instrução processual propriamente dita, com todos os princípios essenciais a ela, especialmente o contraditório e a ampla defesa. A busca da verdade real (art. 156 do CPP) visa a reconstrução histórica da situação, sob juízo, com igualdade das partes no que diz respeito a produção das provas, que é o contraditório e a ampla defesa, a fim de que o convencimento judicial da sentença seja adequadamente motivado, como prega o princípio do livre convencimento motivado ou princípio da persuasão racional (art. 157 do CPP). Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício: (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) I– ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) II– determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL 25 Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) § 1º São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das primeiras. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 2º Considera-se fonte independente aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto da prova. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 3º Preclusa a decisão de desentranhamento da prova declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão judicial, facultado às partes acompanhar o incidente. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) (BRASIL, 1941b, s.p.). Pode-se entender, então, que a investigação preliminar não tem como função primária comprovar o delito. Se isso fosse verdade, não seria chamada de preliminar e quando o procedimento terminasse já se poderia ter a confirmação ou não confirmação, ou seja, não seria mais necessário prosseguir o processo. A investigação preliminar deve alimentar a ação penal, colhendo elementos para que não se faça necessário prosseguir com uma ação sem fundamento oufadada ao fracasso. Sabe-se que um processo penal traz consigo muitos custos a todos os envolvidos. O acusado se submete ao custo de todo o rito processual penal, com os ônus e deveres derivados dele e o fator psicológico de estresse e ansiedade causados pela espera e desconhecimento do desfecho da ocorrência jurídica. Enquanto aguarda, ainda carrega consigo a alcunha de réu. A outra parte, que o acusa, seja ela da esfera pública ou privada, mobiliza o sistema judiciário e administrativo. Isso custa recursos materiais e ocupa recursos humanos que poderiam estar sendo utilizados de outra forma. Tendo isso em vista, pode-se compreender que não se deve permitir que uma acusação informal dê início a abertura de um processo que não esteja minimamente fundamentado com indícios produzidos e alcançados no momento da investigação. Inclusive, cada vez mais, busca-se a proteção de direitos fundamentais e contenção dos poderes do Estado. É notado, como consequência, que o direcionamento dado preliminarmente, pela investigação, tem como função abrir caminho para uma possível ação penal de forma responsável, seja ela iniciada por um particular ou pelo Estado. Assim, afirma-se que a investigação criminal, seja ela qual for, tem como função oferecer elementos que alimentem a acusação e a tornem legítima. 26 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • No Brasil, a origem da criminalística se confunde com o surgimento da medicina legal, que recebeu forte influência da experiência francesa. • Para evidenciar os métodos científicos para resolução de crimes, surgem os chamados Institutos de Criminalística, conhecidos também como polícia técnico-científica. • O objetivo da criação dos laboratórios criminalísticos é suprir as necessidades de aplicação dos métodos científicos no esclarecimento dos crimes. • A polícia técnica é um órgão da Administração Pública subordinado à Secretaria de Segurança Pública na maior parte dos estados nacionais e tem como objetivo coletar e analisar as provas periciais. • A criminalística e seus métodos de utilização dos estudos de vestígios descobertos no local são essenciais para o esclarecimento de crimes. • É preciso que se busque sempre a justiça nos processos penais, levando em consideração o princípio da dignidade humana e a Constituição Federal de 1988. • A persecução criminal é o dever do Estado de promover o processo penal acusatório e a própria investigação que o precede, quando for cabível. • Pode-se definir a investigação criminal, brevemente, como uma atividade preliminar que antecede o processo, visando à produção e obtenção de elementos de convicção (evidências) acerca da materialidade e da responsabilidade de uma ocorrência criminosa. • No que se refere à esfera criminal, a atividade investigativa é mais marcante. São determinadas pela Constituição Federal, as autoridades responsáveis pela apuração das infrações penais • A investigação preliminar deve alimentar a ação penal, colhendo elementos para que não se faça necessário prosseguir com uma ação sem fundamento ou fadada ao fracasso. 27 1 Como vimos, para evidenciar os métodos científicos e solucionar crimes, foram instituídos os chamados Institutos de Criminalística ou polícia técnico-científica. Explique qual o objetivo e função desses Institutos. 2 Constatamos também que o Código de Processo Penal Brasileiro obriga que se faça o exame de corpo delito nos crimes que deixam vestígios. Explique a importância dessa norma. 3 De acordo com o que foi visto neste início do estudo sobre investigação e perícia, já é possível concluir alguns pontos importantes sobre a importância fundamental que a prova pericial tem na persecução do processo penal. Com isso, levando em consideração também as normas constitucionais, disserte sobre a importância desse tipo de prova. 4 De acordo com os conhecimentos adquiridos, elabore uma linha temporal de um processo de investigação, pontuando os momentos de autonomia da autoridade policial e sua relação com o Poder Judiciário. 5 Sabemos que não se deve permitir que uma acusação informal dê início à abertura de um processo que não esteja minimamente fundamentado com indícios produzidos e alcançados no momento da investigação. Cada vez mais, busca-se a proteção de direitos fundamentais dos acusados e indiciados em detrimento da contenção dos poderes do Estado, por que isso ocorre? AUTOATIVIDADE 28 29 TÓPICO 3 TEORIA DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Como último tópico da presente unidade deste livro didático, direcionamos o aluno para a teoria da investigação criminal per si. Aqui serão vistos dois pontos muito importante para aplicação da investigação criminal no ordenamento jurídico brasileiro. Primeiramente, o aluno entenderá a importância da investigação como pesquisa, começando a traçar a ponte de pensamento com a obtenção de provas durante um processo judicial, tema da Unidade 2 deste livro. Depois, será analisado o garantismo penal como ponto central de motivação para a teoria da investigação criminal em nosso ordenamento. Ainda nesse tópico, o aluno encontrará um resumo com destaque apenas para subtópicos importantes que aqui forem vistos, além de cinco questões de autoatividade para fixação do conteúdo. 2 A INVESTIGAÇÃO COMO PESQUISA A investigação criminal é o ponto de partida da persecução penal. É o início da atividade de verificação de um fato determinado que, por qualquer motivo, se acredita que é criminoso. Ainda que vista de maneira exterior ao processo-crime, a investigação propriamente dita, é elemento germinador da origem do saber e do conhecimento. É preceito inicial para todas as coisas que o ser humano ambiciona adquirir informação. Isso quer dizer que a totalidade das coisas que o homem possui conhecimento teve origem no saber e, além disso, os indivíduos estão sempre buscando a ampliação desse conhecimento. A investigação, então, é desde a pesquisa até o exercício do saber, e isso pode ocorrer tanto por simples curiosidade como para o desenvolvimento do intelecto. Contudo, no âmbito do direito criminal, para mais da investigação que apenas procura um conhecimento específico sobre determinado assunto com objetivo de mera satisfação pessoal, existe, também, a necessidade de que a investigação siga os moldes determinados e disciplinados pelas normas legais, de maneira que predomine a satisfação do interesse público. 30 UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO Dessa maneira, a investigação se posiciona como preceito indispensável do sistema de justiça criminal, visto que ela se propaga sobre inevitabilidade de observação da verdade real e da capacidade de poder provar essa verdade em juízo, para que assim seja possibilitado o correto aproveitamento da lei penal. A investigação criminal transpassa a totalidade de um procedimento de apuração da responsabilidade penal do sujeito praticante de um crime. Isso ocorre de maneira que, primeiramente, dá-se início à busca pelo conhecimento do fato e todas as suas circunstâncias e, em seguida, ocorre a análise dos fatos, levantados por meio da busca, pelas autoridades legitimadas pelo sistema de justiça criminal, possibilitando, assim, o experimento de uma verdade admissível, fundamentada nas informações adquiridas no procedimento de apuração. Perpetradas as considerações iniciais acima, almejamos, agora, passar a estudar a compreensão de investigação criminal sob dois aspectos relevantes, quais sejam o prático e jurídico. Inicialmente, cabe estruturarmos a concepção de investigação criminal do aspecto prático. Pode-se dizer que, nesse aspecto, a investigação é elaborada como um aglomerado de atividades previamente estabelecidas e devidamente formalizadas que, dentro das fronteiras permitidas pela lei, se propõem a aperfeiçoar a essência, materialidade, conjunturas e autoria de uma determinada infração penal, angariando provas e elementos de informações que poderão ser utilizadasna persecução penal. Já no âmbito jurídico, a investigação criminal poderá ser conceituada como uma atividade estatal proposta ao esclarecimento de fatos supostamente criminosos. Neste aspecto, a investigação criminal apresentará uma tríplice funcionalidade, ou seja, possuirá três funções, quais sejam (DOREA; STUMVOLL; QUINTELA, 2006): • evitar imputações infundadas (função garantidora); • conservar a prova e os meios de sua aquisição (função preservadora); • propiciar justa causa para a ação penal ou impedir sua inauguração (função preparatória ou inibidora do processo criminal). IMPORTANT E Importante elucidar que essa tríplice funcionalidade da investigação criminal é um ensinamento que se encontra subentendido no aparelho constitucional. Mas, na doutrina clássica, é amplamente sustentada a chamada função unidirecional da investigação criminal, que, sob o olhar desta apostila, se encontra divorciada dos ideais do Estado Democrático de Direito. TÓPICO 3 | TEORIA DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL 31 Para que o procedimento de investigação criminal se efetive adequadamente, é necessário que o Estado observe os preceitos constitucionais de direitos individuais. Isso porque as garantias fundamentais se desenvolvem na forma de dispositivos legais possuidores de caráter negativo, uma vez que explicitam as ações que não são possíveis de se efetuar no processo de investigação criminal. Diante de todos os conceitos e percepções auferidas neste tópico, conseguimos entender que a investigação criminal oficial, ou seja, aquela que contém respaldo constitucional, não poderá ser percebida única e exclusivamente como um processo preparatório para a devida persecução penal. Mas, deverá ser percebida em conformidade com a tríplice funcionalidade anteriormente aqui referida. 2.1 O GARANTISMO PENAL A teoria do garantismo penal, pensada pelo jurista italiano Luigi Frajola, em sua obra Direito e razão, é o conjunto de teorias penais e processuais que consiste basicamente em garantir ou proteger os direitos fundamentais (vida, liberdades civis e políticas, expectativas sociais de subsistência dos direitos individuais e coletivos). Esses direitos representam valores, que sustentam a existência de construções abstratas, como o Direito e o Estado Democrático de Direito. A busca pelo bem comum e o respeito aos direitos fundamentais são imprescindíveis para a manutenção do Estado. O termo garantismo ingressou no vocabulário jurídico pelos italianos dos anos de 1970, mais especificamente no campo do Direito Penal, ainda que possa ser ampliada a todo o sistema de garantias dos direitos fundamentais. Neste caso, o garantismo pode ser considerado como um sinônimo de Estado Constitucional de Direito. O garantismo permite que o magistrado tenha legitimidade constitucional para amparo dos direitos fundamentais individuais e coletivos, mesmo que opostamente ao julgamento da maioria, contrariando modelos de abuso dos direitos de pena. Ele não deve ignorar quaisquer violações ou ameaças da perda de direitos fundamentais já constitucionalmente consagrados. O sistema de garantismo penal se apoia em alguns princípios básicos (axiomas) que devem servir para limitar o abuso da punição e garantir direitos e credibilidade jurídica. De acordo com a clássica obra de Luigi Ferrajoli, Direito e razão (2014), são eles: • Nulla poena sine crimine (não há pena sem crime): princípio da retributividade ou da consequencialidade da pena em relação ao delito. • Nullum crimen sine lege (não há crime sem lei): princípio da legalidade, tanto no sentido lato quanto no sentido estrito. 32 UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO • Nulla lex (poenalis) sine necessitate (não há lei penal sem necessidade): princípio da necessidade ou da economia do direito penal. • Nulla necessitas sine injusria (não há necessidade sem ofensa ao bem jurídico): princípio da lesividade ou ofensividade do evento. • Nulla injuria sine actione (não há ofensa ao bem jurídico sem ação): princípio da materialidade ou da exterioridade da ação. • Nulla actio sine culpa (não há ação sem culpa): princípio da culpabilidade ou da responsabilidade pessoal. • Nulla culpa sine judicio (não há culpa sem juízo): princípio da jurisdicionalidade no sentido lato ou estrito. • Nulla judicium sine accustone (não há juízo sem acusação): princípio acusatório ou da separação ente o juiz e a acusação. • Nulla accusatio sine probatione (não há acusação sem prova): princípio do ônus da prova ou da verificação. • Nulla probatio sine defensione (não há prova sem defesa): princípio do contraditório ou da defesa ou da falseabilidade. Sobre estes princípios que regem o garantismo penal, alguns merecem que destinemos um tempo para observações específicas quanto sua efetividade dentro do processo de investigação criminal. Primeiramente, cabe falarmos sobre a fundamentação das decisões judiciais, que visam proporcionar para as partes envolvidas no processo pena a garantia de que existiu, por parte do magistrado, o devido cumprimento das normas e o respeito aos direitos e garantias do acusado. E, também, a demonstração da existência de provas satisfatórias para o abatimento do princípio da presunção da inocência de tal modo que se efetue uma condenação adequada. Deste modo, é possível efetuar uma avaliação sobre a investigação criminal observando se a figura do “poder” predominou sobre a “racionalidade” da decisão judicial. De acordo com Aury Lopes Junior (2001, p. 47): O mais importante é explicar o porquê da decisão, o que o levou a tal conclusão sobre a autoria e materialidade. A motivação sobre a matéria fática demonstra o saber que legitima o poder, pois a pena somente pode ser imposta a quem – racionalmente – pode ser considerado autor do fato criminoso imputado. Já, quando se fala no princípio da jurisdicionalidade estamos tratando de manter unicamente, a cargo do Poder Judiciário, a imposição da pena por meio do processo como um percurso imprescindível. Assinala, também, o direito ao juiz natural, a independência da magistratura (que implica imparcialidade) e a exclusiva submissão à lei. O princípio acusatório trata da separação das atividades de julgar e acusar com o objetivo de promover a imparcialidade do juiz e conter sua atuação à prévia provocação através de ação penal. O juiz deve ser um espectador e não um ator. TÓPICO 3 | TEORIA DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL 33 Passemos agora a avaliar o princípio da presunção de inocência. Este princípio determina que o imputado deverá ser respeitado como inocente até o momento do trânsito em julgado de sentença condenatória que o julgue culpado. Esse princípio também insinua que o ônus da comprovação de provas é incumbência da parte acusadora, e que se encontra na obrigatoriedade dentro um processo penal apropriado, com o cumprimento da totalidade dos direitos e garantias do acusado (devido processo legal, ampla defesa, contraditório etc.) além também da observância do julgamento, ao final, por sentença. Ainda, a presunção de inocência faz com que o magistrado mantenha, obrigatoriamente, uma “posição negativa” em face do acusado, não podendo avaliá-lo como culpado previamente. Mas, sobretudo, obriga também o magistrado a tomar uma “postura positiva”, tratando o acusado, verdadeiramente, como inocente até que se prove o contrário. Determinando, ao mesmo tempo, que a fundamentação da sentença apareça como um campo de “controle da racionalidade do magistrado”. Por último, despendemos um tempo para explicar o princípio do contraditório, que incide no enfrentamento entre as hipóteses levantadas pela acusação e pela defesa, constituindo assim uma uniformidade de armações (igualdade processual) entre os dois lados. Assim, fazendo valer também o princípio da equidade entre as partes, pressuposto maior de Justiça. IMPORTANT E Cabe fixar, para aqueles que não possuem proximidade com o a estrutura jurídico-administrativa de nosso país, que o Brasil éum Estado Democrático de Direito. Isto quer dizer, que o indivíduo em nosso Estado está posicionado em evidência, juntamente com a persecução do bem comum como objetivo do Estado e o respeito aos direitos e garantias individuais. 34 UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO LEITURA COMPLEMENTAR A PERÍCIA E A PROVA NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL: ASPECTOS RELEVANTES Ramatis Vozniak de Almeida A humanidade, já à época das antigas civilizações greco-romanas, visava a análises mais acuradas de fatos que impunham relevância para a sociedade e para determinados grupos. Mas foi com o pensamento renascentista que tais análises ganharam contornos metodológicos, bem como principiológicos inerentes a um trabalho de natureza científica. Assim, a curiosidade do homem em conhecer os fenômenos naturais, os fatos sociais e, sobremaneira, a própria natureza humana, impulsionou-o a desenvolver técnicas de análise que justificassem, de forma palpável, com base na razão e não mais na fé, tais fatos e os eventos naturais. Daí nasceu o que se entende por perícia. O termo perícia, originário do latim peritia, quer dizer habilidade especial. Na verdade, é a técnica especializada para se realizar uma análise detida, minuciosa, numa determinada área de conhecimento, podendo-se, para tanto, valer de conhecimentos particulares a áreas diversas a do objeto em estudo, a fim de respaldar cientificamente o trabalho investigativo. O trabalho pericial e a figura do perito têm recebido, há um bom tempo, expressão singular em razão da importância para a sociedade em geral, inclusive respaldo jurídico, principalmente por tentar recompor, na seara criminal, a verdade real, e não a formal. Ou seja, através da perícia, a comunidade jurídica tem se deparado com propostas razoáveis, ponderadas e mais propensas a, dentre outros, recompor o que provavelmente ocorreu em cada caso ou a descrever, com certo grau de certeza, o que de fato era o objeto ou a situação em análise. O perito, sem dúvida, tem papel de suma relevância no trabalho cognitivo do juiz quando da valoração das provas, em questões que o magistrado – embora douto, porém humano – não detenha a habilidade e conhecimento técnico suficiente para motivar sua decisão. É por isso que o perito precisa apresentar um perfil compatível com sua missão: a de auxiliar do juízo. Assim, além de demonstrar sua habilidade em determinada área, precisa considerar seu conhecimento adquirido, bem como as experiências de outros experts e, ainda, respaldar-se nas normas e princípios estabelecidos pelo ordenamento jurídico pátrio. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 35 No Brasil em particular, as regras da perícia foram promulgadas em 1939, no Código de Processo Civil, mas foi com o Código de 1973 que se apresentaram mais de forma mais ampla, transparente e mais tranquila no que toca à sua aplicabilidade. Na esfera penal, o Código de Processo Penal previu desde 1940 as regras que normatizam a atuação do perito nesse campo. A Criminalística, em síntese bem apertada, trata-se da disciplina que estuda os vestígios materiais relacionados ao crime e ao criminoso, a partir do reconhecimento e interpretação desses elementos, à luz de técnicas científicas de áreas diversas, como a Medicina Legal, a Física, a Informática, a Bioquímica, bem como as que lhe são próprias. A atuação investigativa de natureza técnico-científica da polícia é bem atual. De acordo com os dados históricos, até o século XIX, ela se valia, basicamente, dos conhecimentos e da atuação da Medicina Legal. Por isso, a maioria das análises limitava-se aos crimes cometidos contra a pessoa. Quando ocorria um homicídio, havia, pois, uma exigência de se identificar a causa mortis; quando eram constatadas lesões corporais, visava-se à análise da extensão do dano e do instrumento que provavelmente fora utilizado para lesar a vítima. Diversas técnicas de perícia foram unificadas na Idade Média, e com o renascimento científico e cultural dos séculos XV e XVI, começa a surgir a Criminalística, especializando-se, ramificando-se, sendo os ramos mais antigos os da Medicina Legal, da Odontologia e da Papiloscopia Forense, remontando-se à Idade Moderna. Atualmente há cerca de 32 especialidades forenses no Brasil. Como dito, ao longo do tempo, foram registradas várias técnicas vinculadas à análise da integridade física do homem. Como exemplo, tem-se o estudo e classificação da impressão digital para identificação criminal, em 1892, por Juan Vucetich, utilizado na América Latina, e o de Edward Richard Henry, em 1896, bastante difundido na Europa e na América do Norte. Vale destacar que os chineses analisavam impressões digitais para identificar documentos desde os anos 700, sem que houvesse qualquer sistema de classificação, e que Sir Willian Herschel, em 1856, iniciou a técnica de usar digital de polegares com o fito de substituir a assinatura de analfabetos. Ainda a título de exemplo, tem-se a identificação de tipos sanguíneos, em 1900, por Karl Landsteiner, e adaptada por Max Richter para análise das manchas de sangue. A Criminalística ganhou destaque com o alemão Hans Gross (ele próprio um jurista austríaco de renome), em 1891, ao publicar a primeira literatura sobre essa disciplina e, nesse trabalho, valeu-se de evidências físicas para descrever e solucionar crimes. 36 UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO Mas essa terminologia só foi originada em 1893 com o seu Tratado de Criminalística, sendo ele considerado por muitos como o principal precursor da Criminalística em seu viés científico. Pode-se destacar também a obra de Sir Francis Galton, intitulada Fingerprints, de 1892, no sentido de estudo de aplicação criminalística. Igual destaque merecem as inovadoras – à época do século XIX – técnicas de investigação desenvolvidas na França e na Inglaterra, por irem além das que envolviam os crimes contra a pessoa. Surgia, então, a análise técnico-científica em documentos falsificados, a Documentoscopia, técnica própria da Criminalística. Não se pretende aqui fazer injustiça em não destacar as contribuições da América latina em pioneirismo nos trabalhos periciais, especialmente na Argentina, no Brasil, e no Chile, desde o início do séculos XX. Entretanto, isso mereceria um denso estudo à parte, especialmente em se tratando dos relatos históricos das perícias estaduais e federais brasileiras. Além dessas, houve outras inovações relevantes para a formação do que hoje se entende por Criminalística. Talvez urja uma reunificação das perícias forenses, mas, sem dúvida, em razão da complexidade e celeridade – sobretudo no que concerne às invenções tecnológicas e às variadas estruturas sociais – inerentes às sociedades contemporâneas, bem como em face da fragilidade de provas, como a confissão e o testemunho, e da diversificação das práticas delituosas, houve uma necessidade de se desenvolver novas técnicas para a investigação e combate a crimes como a “lavagem” de dinheiro, o dano ao meio ambiente, as infrações via internet, reconhecimento de voz de locutor etc. Alguns estudiosos consideram ramos da ciência oficial como a psiquiatria, a psicologia, a psicopatologia, a antropologia, a sociologia, e a própria política, ramos afeitos à criminologia, atualmente ainda subutilizadas para fins periciais. Outros consideram até o uso da parapsicologia e de pessoas sensitivas, psicografia, psicometria etc. A perícia poderia ser reescrita, enfocando-a em seu “sacerdócio”, sua proficiência. Deve-se considerar que o modelo policial e pericial atual encontra-se em mutação, realizando sua ruptura epidérmica. Por isso que a Criminalística avançou no sentido de ir para além de uma abordagem de crimes contra pessoa, incorporando técnicas de outros ramos da ciência, criando também técnicas exclusivas, como dito alhures, pois sempre se ocupou da linha investigativa para resolução técnico-científica de crimes e, por consequência, para o combateà impunidade. Nesse sentido, destaca Rabelo sobre a Criminalística: [...] uma disciplina técnico-científica por natureza e jurídico-penal por destinação (grifou-se), a qual concorre para a elucidação e a prova das infrações penais e da identidade dos autores respectivos, por meio da pesquisa, do adequado exame e da interpretação correta dos vestígios materiais dessas infrações. TÓPICO 1 | NOÇÕES BÁSICAS SOBRE INVESTIGAÇÃO 37 Há, pois, uma necessidade de se entrar em sintonia com a modernidade da perícia, fruto do trabalho investigativo de natureza técnico-científica, está bem estruturada organizacionalmente, de ter uma autonomia para livrar-se da possível parcialidade num estudo de caso em litígio. É preciso fomentar o investimento material, bem como humano como têm feito a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Espanha, os Estados Unidos da América, dentre outros, mesmo do mundo oriental. É preciso estabelecer um léxico comum, uma retórica nacional e universal, uma compreensão dos fatores reais de poder da perícia, uma metrologia forense, um programa de certificação de qualidade para a admissibilidade das provas em juízo. Necessário se faria o estudo dos princípios para a admissibilidade das provas em juízo, aliado com a aplicação de ISOs como a 17020, para locais de crime, e da 17025 para exames laboratoriais. Isso envolveria, no mínimo, a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT e o instituto Nacional de Metrologia – INMETRO, senão outros, além do ambiente da segurança pública. Esses princípios já vem sendo discutidos nos EUA e Canadá em casos como Daubert v. Merrell Dow Pharmaceuticals, Inc., General Electric v. Joiner, Gross v. Comissioner, KW Plastics v. United States Can. Co., The Cayuga Indian Nation of New York v. George E. Pataki, Frye v. USA, Kumho Tire Company, Ltd., v. Carmichael, Berry v.CSX Transportaion, INC, R. v. Blanckard. No caso da perícia, como sendo atividade técnico-científica, pode-se ponderar a conjugação desses princípios com o princípio da incerteza ou da determinação, de Werner Heisenberg, no tocante à capacidade de medirmos ou determinarmos algo (apontado inclusive por Sigmund Freud em seus estudos sobre o psiquismo humano). É nessa sintonia que o Brasil precisa estar, afinal as polícias investigativas reclamam por melhorias, sobretudo as da esfera estadual, por se encontrarem algumas em estado de calamidade pública, acarretando vários problemas sociais como o aumento de crimes em razão da certeza da impunidade. Porém, não se pode negar que a de nível federal vem obtendo maior expressão justamente por haver uma luta incessante dos peritos para melhoria institucional como um todo e por isso tem conseguido mostrar respostas céleres e científicas à sociedade, sendo certo que ainda há muito por se conquistar. Sob outros pontos de vista um tanto quanto metafísicos ou jusfilosóficos, poder-se-ia pensar a perícia antropologicamente ou sociologicamente, percebendo que os peritos precisam ser atores da história, precisam pensar diferente do enfoque da maioria dos cidadãos comuns, precisam ver e sentir diferente (como poderia afirmar Michel Foucault), ou que atuam de forma neopositivista (referente aos estudos de Karl Popper), realizando uma reconstrução racional dos fatos a partir das evidências coletadas, tratando a técnica como procedimento, modo, e o método como estratégia de abordar o objeto. 38 UNIDADE 1 | TEORIA GERAL DA INVESTIGAÇÃO Marilena Chauí, em seus estudos dos princípios da razão, poderia afirmar que os peritos construíram uma vivência que abarca o sujeito, objeto e ação num mesmo momento. Alguns diriam que a perícia, como ciência, deve afirmar, revolucionar. Temos que pensar em como se sentem os peritos como profissionais: Angustiados, perseverantes, insatisfeitos, incompletos? Se a perícia é um paciente, do que ela precisa? A segurança pública e a perícia precisam completar seu amadurecimento no Brasil. Um cargo de auxiliar de perícias certamente que necessita, em função de acúmulos de trabalhos e de desvios de tempo e energia dos profissionais em tarefas menores, quando poderiam ser delegadas a auxiliares. FONTE: ALMEIDA, R. V. A perícia e a prova na investigação criminal: aspectos relevantes. 2009, 92f. Monografia (Bacharelado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas, Universidade federal do Acre, Rio Branco, 2009. Disponível em: <http://www.conteudojuridico. com.br/pdf/cj040423.pdf>. Acesso em: 7 maio 2019. 39 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A investigação criminal é o ponto de partida da persecução penal. É o início da atividade de verificação de um fato determinado que, por qualquer motivo, se acredita que é criminoso. • No âmbito do direito criminal existe a necessidade de que a investigação siga os moldes determinados e disciplinados pelas normas legais, de maneira que predomine a satisfação do interesse público. • A concepção de investigação criminal do aspecto prático é elaborada como um aglomerado de atividades previamente estabelecidas e devidamente formalizadas dentro das fronteiras permitidas pela lei. • Já no âmbito jurídico, a investigação criminal poderá ser conceituada como uma atividade estatal proposta ao esclarecimento de fatos supostamente criminosos. • Para que o procedimento de investigação criminal se efetive adequadamente, é necessário que o Estado observe os preceitos constitucionais de direitos individuais. • A teoria do garantismo penal, é o conjunto de teorias penais e processuais que consiste basicamente em garantir ou proteger os direitos fundamentais. • É fundamental que façamos uma reflexão acerca dos limites da investigação criminal. Para isso, inicialmente, cabe elucidar que o direito penal não possui como função essencial a condenação dos indivíduos às penas nele tipificadas. • Esse tipo de ação acabaria por representar uma espécie de coerção estatal, que se utilizaria do processo penal como utensílio viabilizador de abuso de poder por parte do Estado. Esta certamente não é a intenção do legislador, até por que, agindo desta forma, o Estado não estaria evitando a prática de crimes, que é o objetivo maior da norma penal. Assim, o direito penal se dispões, prioritariamente, a resguardar o indivíduo perante o Estado. • Ocorre que, em que pesa a lei penal, não possuir intenção de possibilitar o abuso de poder por parte do Estado, ela acaba por muitas vezes legitimando tal violência, estando vinculada diretamente a ela e a controlando. O princípio da legalidade representa, portanto, além da retomada do antropocentrismo social, também, uma conquista individual para os cidadãos. • O princípio da legalidade é preceito fundamental para evitar a legitimidade de violência estatal em face dos cidadãos, visto que ele resguarda a justiça nas alterações estruturais políticas e econômicas, além de garantir a evolução prudente da democracia, tudo isso motivado pela limitação do poder do Estado. 40 • O direito penal e processual penal apresentam como instrumentos para que obtenhamos uma concretização verdadeira da figura de um Estado Democrático de Direito, para isso deve ser utilizado com o objetivo essencial de possibilitar respeito aos direitos e garantias individuais arrolados em nossa Carta Constitucional. • A primazia do indivíduo em face do Estado e da sociedade é fundamento histórico-filosófico de todo o ordenamento jurídico brasileiro, assim sendo, como parte desse ordenamento, o Direito Penal não se encontra legitimado a exercer funções das quais não seja possível atribuir compatibilidade com os fins e o modelo do Estado determinados constitucionalmente. • Por fim, lembramos que o ordenamento jurídico brasileiro não é neutro, uma vez que se encontra entusiasmado por importâncias, princípios e concepções, que evitam o aproveitamento de normas desarmônicas como texto constitucional. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando emfacilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 41 1 (MPDFT, 2013) Assinale a alternativa que NÃO SE AJUSTA à doutrina do garantismo penal, em sua concepção clássica: FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/9b0b976c-26>. Acesso em: 7 maio 2019. a) ( ) A interpretação da lei nunca é uma atividade exclusivamente recognitiva, mas é sempre fruto de uma escolha prática a respeito de hipóteses interpretativas alternativas. b) ( ) O problema do garantismo penal é elaborar técnicas no plano teórico, torná-las vinculantes no plano normativo e assegurar sua efetividade no plano prático. c) ( ) Na aplicação da lei penal, o julgador, preocupado com a legitimação da atividade jurisdicional e com a adesão social a seus atos, deve orientar suas decisões em conformidade com o consenso da população. d) ( ) O direito penal é necessário como técnica institucional de minimização da reação violenta ao desvio socialmente não tolerado e como garantia do acusado contra os arbítrios, os excessos e os erros conexos a formas não jurídicas de controle social. e) ( ) As garantias penais não servem tanto para legitimar ou validar, senão mais para deslegitimar o abuso da potestade punitiva. 2 (FCC, 2018) O desenvolvimento teórico do garantismo é atribuído especialmente a Luigi Ferrajoli. A partir de suas ideias, FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/094dacea-27>. Acesso em: 7 maio 2019. a) ( ) o sistema penal oficial deve, ao fim e ao cabo, ser substituído por formas alternativas de resolução de conflitos. a) ( ) mais que evitar a prática de crimes, a pena se legitima por coibir reações informais violentas. a) ( ) embora tenha origem e matiz iluminista, atualmente encontra-se em direção oposta, como se pode extrair de seu decálogo teórico axiomático. a) ( ) possui aplicação direta em qualquer sistema penal e encontra respaldo na Constituição Brasileira por via interpretativa, por se tratar de um sistema democrático que tem como pressuposto a prevenção geral e especial negativa. a) ( ) foi adotado pelas linhas abolicionistas como uma possível solução à crise do sistema penal. AUTOATIVIDADE 42 3 (FUNDEP, 2011) Sobre as possíveis leituras do garantismo, na perspectiva dos direitos fundamentais, é CORRETO afirmar que FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/06c2c3e9-dd>. Acesso em: 7 maio 2019. a) ( ) a concepção de um “garantismo positivo” alia-se ao princípio da proibição de proteção deficiente, trazendo como consequência a extensão da função de tutela penal aos bens jurídicos de interesse coletivo. b) ( ) o pensamento garantista se funda, em seu modelo clássico, em princípios que se opõem à tradição jurídica do iluminismo e do liberalismo. c) ( ) o garantismo, na concepção de Ferrajoli, tem como objetivo principal edificar um conceito específico para a criminologia, a partir da discussão da legitimidade da intervenção penal, não se ocupando, por isso, do estudo da qualidade, quantidade e necessidade da pena. d) ( ) a proposta do garantismo pode ser sintetizada na tentativa de arrefecer os princípios fundamentais que devem orientar o direito penal em um sistema. 4 (MPT, 2017) Sobre o garantismo jurídico, analise as proposições a seguir: I- O garantismo jurídico surge nos anos 1970, na Itália, restrito ao Direito Penal, como movimento em oposição à redução dos direitos e garantias penais e processuais penais, em reação a uma legislação de exceção implementada sob a justificativa do combate ao terrorismo. II- Atualmente, o garantismo jurídico é entendido de maneira mais ampla, sendo um modelo de Direito que subordina os poderes à garantia dos direitos, submetendo a sua atuação, em primeiro lugar, à efetivação dos direitos humanos e direitos fundamentais. III- O garantismo jurídico pode ser entendido como sinônimo de Estado Constitucional de Direito, em oposição ao paradigma clássico de Estado Liberal, alargando-o em duas direções: de um lado, a todos os poderes públicos, não só submetendo o Judiciário, mas também o Legislativo e o Executivo; e, de outro lado, também aos poderes privados, incluindo nestes o poder econômico, impondo limites à liberdade de mercado. IV- Nos dias de hoje é necessário estender o paradigma garantista aos novos poderes e instituições supraestatais, devido ao fato de que o constitucionalismo estatal é inadequado para enfrentar a crise da capacidade regulatória do Direito em relação a emergências planetárias, tais como: crise política e econômica; crise humanitária e social; crise ambiental; questão nuclear e questão criminal e corrupção dos poderes. No âmbito dos Estados Nacionais, o garantismo jurídico não encontra mais lugar, devido à necessidade de enfrentamento do terrorismo, da corrupção espraiada no poder político e da premência de crescimento econômico. 43 Assinale a alternativa CORRETA: FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/9e20cb72-76>. Acesso em: 7 maio 2019. a) ( ) Apenas a assertiva IV está incorreta. b) ( ) Apenas a assertiva I está incorreta. c) ( ) Apenas a assertiva II está correta. d) ( ) Todas as assertivas estão corretas. e) ( ) Não respondida. 5 (UFMT, 2017) A investigação no exercício profissional, favorecida pelas atividades de pesquisa e de sistematização, colabora para o fortalecimento de sua dimensão. FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/cf9195b8-33>. Acesso em: 7 maio 2019. a) ( ) Ética. b) ( ) Política. c) ( ) Instrumental. d) ( ) Teórica. 44 45 UNIDADE 2 DAS PROVAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • definir as noções básicas acerca das provas na investigação; • identificar os fundamentos da prova no processo penal brasileiro; • analisar as principais ferramentas de investigação pericial; • perceber as diferenças entre investigação criminal, ciência e direito; • identificar a organização pericial no Brasil. Esta unidade está organizada em três tópicos. Em seu decorrer você encontrará dicas, textos complementares, observações e atividades que lhe darão maior compreensão dos temas a serem abordados. TÓPICO 1 – AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO TÓPICO 2 – A ORGANIZAÇÃO PERICIAL TÓPICO 3 – PROVA PERICIAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 46 47 TÓPICO 1 AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, como início do fio condutor que nos levará à compreensão eficaz acerca de questões com maior relevância na perícia investigativa para a ciência na atualidade, pretendemos delinear pontos relevantes sobre as provas dentro da teoria geral da perícia, com foco em provas criminais abrangidas pelo ordenamento penal brasileiro. Assim, o que pretendemos é proporcionar uma análise ampla sobre os estudos da prova na investigação científica e, posteriormente, na investigação criminal. A absorção do conteúdo deste tópico dar-se-á com a compreensão do papel das provas dentro do processo penal brasileiro, distinção e identificação dos tipos de provas periciais aceitas no devido processo legal, e analise da organização pericial em nosso país, observando o papel do Ministério Público, a extensão da autonomia do profissional do perito e, ainda, o entendimento da perícia como elemento importante na promoção da justiça. FIGURA 1 – CENA DO CRIME FONTE: www.oarquivo.com.br/variedades/ciencia-e-tecnologia/5169-medicina-legal-e- per%C3%ADcia-m%C3%A9dica.html. Acesso em: 29 nov. 2019. UNIDADE 2 | DAS PROVAS 48 2 A PROVA Pretendemos dispender nosso conteúdo para análise da prova, importante elemento nos estudos da perícia criminal. As provas exercem papel fundamentalna perícia — a busca da verdade —, e conseguem trazer para a análise do caso a comprovação ou não da existência de determinado fato. Provar, basicamente, é a ação de evidenciar a presença da verdade dentro de fatos narrados. Dentro do âmbito jurídico, a prova é caracterizada pelos instrumentos aproveitados pelas partes de determinada relação processual, ou pelo juiz, com a finalidade de determinar a veracidade de acontecimentos ou argumentações no decorrer da fase processual. Podemos afirmar, então, que a prova é um instrumento de averiguação. O objetivo da persecução de provas dentro do processo, primeiramente, é obter o convencimento do magistrado sobre o que as partes alegam. É de suma importância que o juiz conheça com profundidade o objeto dos litígios jurídicos cujas decisões estejam sob seu julgamento, para que as decisões consigam alcançar a razoabilidade esperada. Para isso, é necessário que as provas, durante o processo, sejam apontadas de maneira idônea e legítima, pois será objeto de análise por meio de provas todo acontecimento, argumentação e eventualidades passíveis para o surgimento de dúvidas no litígio. De acordo com o princípio da economia processual, fixamos que as produções de provas devem se restringir aos elementos verdadeiramente decisivos para o esclarecimento da causa em análise, conforme o artigo 77, inciso III, do Código de Processo Civil. ATENCAO Cabe, de pronto, averiguarmos a preocupação do legislador em esclarecer os elementos que não necessitam de provas. Para tanto, vejamos o artigo 374 do Código de Processo Civil: Art. 374. Não dependem de prova os fatos: I- notórios; II- afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária; III- admitidos no processo como incontroversos; IV- em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade. TÓPICO 1 | AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO 49 Os considerados fatos notórios pelo legislador são aqueles cuja relevância atingiu ramos midiáticos. Pode-se dizer que é a verdade observada por todos dentro de determinado grupo social, ou seja, para caracterizarmos um fato como notório não é suficiente apenas a publicidade na imprensa, mas também que parte da comunidade tenha conhecimento da veracidade do fato. No processo civil, um dos tipos de prova admitidos é a confissão ficta, que ocorre quando a parte, ainda que intimada, não esteja presente em juízo ou, comparecendo, se negue a prestar depoimento. Nesses casos, é permitido ao juiz que aplique pena de confissão para esta, conforme o artigo 385 do Código de Processo Civil. Já no âmbito do direito penal, ocorre que, independentemente de o acusado reafirmar as alegações feitas pela vítima, o magistrado poderá dispensar a prova seguindo o princípio da verdade real. Portanto, no ordenamento criminal é necessário que sejam comprovados os ocorridos de maneira fática, não sendo suficiente apenas a confissão do acusado. O princípio da verdade real busca a perseguição da realidade fática. O objetivo é se aproximar do que realmente ocorreu por meio de provas concretas, evitando que ocorram presunções ou sejam consideradas ficções. ATENCAO Portanto, no direito penal existe a obrigatoriedade de prova categoricamente definitiva para que se impute pena ao réu em julgamento. Inclusive, é o princípio da verdade real que justifica o exposto no artigo 156 do Código de Processo Penal brasileiro. Vejamos: Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício: I- ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; II- determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante. Desse modo, podemos afirmar que, no âmbito do processo penal, o magistrado não só poderá como deverá incentivar a produção de provas, a fim de esclarecer dúvidas que possam ter relevância na aplicação de sua sentença. Uma das maneiras de prova aceitas em nosso ordenamento é a prova pericial, que, inclusive, existindo mais de um processo entre as partes, poderá ser utilizada como prova emprestada, caso tenha sido produzida perante o mesmo juízo. Além disso, este tipo de prova também é submetido ao contraditório. UNIDADE 2 | DAS PROVAS 50 Em alguns casos, existirá o que chamamos de presunção legal, ou seja, fatos guarnecidos pela lei. Nesses casos, a prova será dispensada nos âmbitos do direito civil e criminal. ATENCAO Por fim, é de fácil absorção o fato de que o estudo sobre a prova é parte indispensável dentro da Ciência Processual, uma vez que são as provas fundamentais para todo o deslinde processual. Um processo sem a presença de provas válidas, embora contenha importantes discussões doutrinárias e até jurisprudenciais, não terá êxito em sua conclusão. Logo, para o ordenamento jurídico brasileiro, são válidas as provas que seguem as normas da legislação vigente, além de princípios doutrinários do âmbito jurídico. FIGURA 2 – MAPA CONCEITUAL: AS PROVAS NO PROCESSO PENAL A REALIZAÇÃO DAS BUSCAS DOMICILIARES DEVEM SER EXECUTADAS DURANTE O DIA, SALVO SE O MORADOR CONSENTIR QUE SE REALIZEM À NOITE, E, ANTES DE PENETRAREM NA CASA, OS EXECUTORES MOSTRARÃO E LERÃO O MANDADO AO MORADOR, OU A QUEM REPRESENTE. A BUSCA QUE ATINGIR MULHER SERÁ FEITA POR OUTRA MULHER, DESDE QUE NÃO IMPLIQUE RETARDAMENTO OU PREJUÍZO DA DILIGÊNCIA; DO CONTRÁRIO, PODERÁ SER REALIZADA POR HOMEM, NÃO CARACTERIZANDO CONSTRANGIMENTO LEGAL DOMICILIAR QUANDO A AUTORIDADE POLICIAL, EM PODER DO MANDADO EXPEDIDO, APRENDERÁ ALGUMA COISA NA CASA/DOMICÍLIO PESSOAL QUANDO HÁ FUNDADAS SUSPEITAS DE QUE ALGUÉM OCULTE CONSIGO ARMA DE FOGO, SUBSTÂNCIA ENTORPECENTE OU OUTROS OBJETOS BUSCA DILIGÊNCIA DESTINADA A ENCONTRAR PESSOAS OU COISAS APREENSÃO DILIGÊNCIA REALIZADA PARA APREENDER O BEM QUE FOI ENCONTRADO TEM O INTUITO DE PRESERVAR AS PROVAS DO CRIME, FAZENDO COM QUE AS MESMAS NÃO DESAPAREÇAM, O QUE TORNARIA DIFÍCIL SEU APROVEITAMENTO PARA A INSTRUÇÃO DO PROCESSO PESSOAS QUE EM RAZÃO DA FUNÇÃO, MINISTÉRIO, OFÍCIO OU PROFISSÃO DEVEM GUARDAR SEGREDO ESTÃO PROIBIDAS DE DEPOR, EXCETO SE FOREM DESOBRIGADAS PELA PARTE INTERESSADA E QUISEREM DAR SEU TESTEMUNHO ASCENDENTES, DESCENDENTES, PARENTES EM LINHA RETA, CÔNJUGE (MESMO DESQUITADO), IRMÃOS, PAIS, FILHOS (INCLUSIVE ADOTADOS) DO ACUSADO ESTÃO LIBERADOS DA OBRIGAÇÃO DE DEPOR, EXCETO QUANDO NÃO FOR POSSÍVEL, POR OUTRO MODO, OBTER OU INTEGRAR A PROVA DOS FATOS. ESSAS PESSOAS ESTÃO LIBERADAS DA OBRIGAÇÃO DE DIZER A VERDADE. SE A TESTEMUNHA RESIDIR FORA DA JURISDIÇÃO DO JUIZ PROCESSANTE, SERÁ INQUIRIDA PELO JUIZ DO LUGAR DE SUA RESIDÊNCIA, INTIMADA ATRAVÉS DA CARTA PRECATÓRIA (SEU CUMPRIMENTO NÃO SUSPENDE A INSTRUÇÃO CRIMINAL) A PESSOA QUE DECLARA PERANTE O JUIZ O QUE SABE OU O QUE PERCEBEU SOBRE OS FATOS IMPUTADOS AO ACUSADO TÓPICO 1 | AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO 51 FONTE: <www.passeidireto.com/arquivo/5214490/provas-no-processo-penal>. Acesso em: 29 nov. 2019. 2.1 MEIOS DE PROVA Caracteriza-se como meio de prova qualquer instrumento legal que seja cabível em um processo para verificação, direta ou indiretamente, dos fatos e argumentações incluídos no processo. Se assim for, podem ser considerados meios de prova, também, os que não estão previstos em lei, desde que não lesem o ordenamento vigente. O Código de Processo Civil especifica quais serão os meios de prova admitidos para nosso ordenamento, conforme seu artigo 369: “As partes têm o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, para provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defesa e influir eficazmente na convicção do juiz”. Como podemos observar no artigo acima, as provas no Código de Processo Civil se encontram balizadas acercade sua moralidade e legalidade, mas não acerca de seu tipo. O âmbito processual, em seu ordenamento, cita alguns tipos específicos de provas de maneira expressa, como documental, testemunhal e pericial. Porém, já é pacificado em nossa doutrina jurídica e jurisprudências a consideração desse rol como sendo apenas exemplificativo, não taxativo. DOCUMENTO É O ESCRITO QUE CONDENSA GRAFICAMENTE O PENSAMENTO DE ALGUÉM. A PROVA DOCUMENTAL SE FAZ COM A JUNTADA DE DOCUMENTOS NO PROCESSO PENAL PARA COMPROVAR UM FATO OU MESMO UMA ALEGAÇÃO A PRODUÇÃO DO DOCUMENTO PODE SER: ESPONTÂNEA QUANDO PRODUZIDA PELA PRÓPRIA PARTE PROVOCADA QUANDO PROVIDENCIADA PELO JUIZ, INDEPENDENTE DE REQUERIMENTO DAS PARTES (O JUIZ DETERMINA A JUNTADA DE DOCUMENTOS) O DOCUMENTO PODE TER 3 ASPECTOS: DISPOSITIVO NECESSÁRIO À COMPROVAÇÃO DO ATO JURÍDICO CONSTITUTIVO SERVE DE MEIO PARA CONSTITUIR E VALIDAR O ATO PROBATÓRIO É UTILIZADO COMO MEIO DE PROVA "CONSIDERA-SE INDÍCIO A CIRCUNSTÂNCIA CONHECIDA E PROVADA, QUE, TENDO RELAÇÃO COM O FATO, AUTORIZE, POR INDUÇÃO, CONCLUIR-SE A EXISTÊNCIA DE OUTRA OU OUTRAS CIRCUNSTÂNCIAS" ARTIGO 239/CPP NÃO TEM CONDÃO DE SUSTENTAR UMA SENTENÇA CONDENATÓRIA, DEVENDO SER SOMADO A OUTRAS PROVAS CARREADAS AOS AUTOS. AO LADO DOS INDÍCIOS EXISTE A PRESUNÇÃO, QUE PODE SER CONCEITUADA COMO ALGO VERDADEIRO ATÉ QUE SE PROVE EM CONTRÁRIO. PRESUNÇÕES LEGAIS OU ABSOLUTAS NÃO ADMITEM PROVAS EM CONTRÁRIO COLOCAR FRENTE A FRENTE PESSOAS QUE, EM JUÍZO, APRESENTAM VERSÕES CONFLITANTES NO TRANSCURSO DA INSTRUÇÃO PROCESSUAL A ACAREAÇÃO É POSSÍVEL ENTRE TODOS OS SUJEITOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO PENAL. OS ACAREADOS SERÇÃO NOVAMENTE QUESTIONADOS, PARA QUE EXPLIQUEM OS PONTOS DE DIVERGÊNCIA, REDUZINDO-SE A TERMO O ATO DA ACAREAÇÃO QUANDO O RECONHECIMENTO FOR DE PESSOAS, DEVER OBEDECER AS REGRAS SEGUINTES, EM SE TRATANDO DE OBJETOS, APLICAM-SE AS MESMAS REGRAS, NO QUE FOR COMPATÍVEL. QUEM FOR FAZER O RECONHECIMENTO DEVE DESCREVER A PESSOA OU OBJETO QUE DEVE SER RECONHECIDO A PESSOA A SER RECONHECIDA SERÁ COLOCADA AO LADO DE OUTRAS PESSOAS SEMELHANTES A ELA PARA QUE SEJA APONTADA EM CASO DE RECEIO, A AUTORIDADE PROVIDENCIARÁ PARA QUE A PESSOA A SER RECONHECIDA NÃO VEJA QUEM ESTÁ FAZENDO O RECONHECIMENTO NO ATO DE RECONHECIMENTO, LAVRAR-SE-Á AUTO PORMENORIZADO, QUE SERÁ SUBSCRITO PELA AUTORIDADE, PELA PESSOA QUE REALIZA O RECONHECIMENTO E POR DUAS TESTEMUNHAS PRESENCIAIS SE VÁRIAS PESSOAS FOREM CHAMADAS PARA EFETUAR O RECONHECIMENTO, CADA UM FARÁ A PROVA EM SEPARADO, EVITANDO-SE QUALQUER COMUNICAÇÃO ENTRE ELES UNIDADE 2 | DAS PROVAS 52 Parte da doutrina admite flexibilização, nos casos de grande gravidade ou quando da existência de conflito entre os valores do ordenamento e o princípio da prova ilícita, para a produção e inserção de provas ilícitas no processo. Esta posição se fundamenta nos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. ATENCAO Outra parte da doutrina defende que não exista tal flexibilização, buscando fundamento em princípios constitucionais que amparam a concretização do Estado Democrático de Direito, como os direitos fundamentais e o devido processo legal. Portanto, a questão das provas ilegítimas é realmente complexa, o que se pode afirmar é o fato de que, tratando-se da esfera criminal, não existirá sempre a possibilidade de espera para a obtenção de resolução de questões de interesse público. Ainda, tão importante quanto os meios de prova, é abordarmos os meios de investigação criminal. Estes são os meios que estabelecem a maneira pela qual as provas poderão ser adquiridas. Assim como os meios de prova, os meios de investigação ajudam na reconstrução dos acontecimentos, a fim de alcançar o esclarecimento de questões alegadas no processo. No que tange ao processo penal, é importante analisarmos o artigo 155 do Código de Processo Penal, que faz também referência às limitações dos meios de provas: Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Parágrafo único: Somente quanto ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil. Percebemos, então, que independentemente de a prova ter sido obtida com o uso de meios legais, e moralmente aceitos, versando sobre estado de pessoa, deverá ser aceita apenas caso originária de documento público comprovante, ou seja, de certidão civil. O artigo 5°, incisos LIV e LV, da Constituição Federal de 1988 resguarda o que no ordenamento jurídico chamamos de devido processo legal, sendo um princípio garantidor do desdobramento idôneo do processo. As provas adquiridas por métodos que desrespeitam as regras expressas pelo direito processual são caracterizadas como ilegítimas, uma vez que violam o devido processo legal. TÓPICO 1 | AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO 53 2.2 A PROVA CRIMINAL De origem latina, probatio, derivada do verbo probare, prova é definida pelo conceito de esclarecimento, identificação, demonstração de convicção sobre determinado acontecimento. Assim, podemos afirmar que prova incide na manifestação de veracidade sobre aquilo que se declara ao proteger um direito, ou ao contrapor alegações da outra parte. Ocorre que, conforme vimos, as afirmações sobre os fatos manifestadas dentro do processo estão sujeitas a não serem correspondentes com a verdade. Dessa forma, a prova é um instrumento de grande relevância na construção da convicção do juiz. No tocante ao assunto central deste tópico – provas criminais –, cabe conceituá-las como a demonstração da veracidade a respeito de alegações que influenciam no julgamento da responsabilidade e aplicação de penas de uma infração penal cometida. Assim, podemos afirmar que as provas criminais possuem como objetivo principal a formação da convicção do juiz no que tange à autoria e materialidade de determinada infração penal. É possível determinar três importantes diferenças entre meios de investigação e meios de prova: o âmbito jurídico, a forma de participação e a finalidade. No que diz respeito ao âmbito jurídico, os meios de prova são atividades processuais, enquanto que os meios de investigação podem ser realizados por autoridades fora da esfera processual. Por exemplo, nos meios de provas, há depoimentos testemunhais, documentos, entre outros; e nos meios de investigação são possíveis as atividades externas, como busca e apreensão. Sobre a forma de participação, é perceptível o fato de que os meios de investigação ocorrerão sem necessidade de contraditório, sendo admitido, ainda, que ocorram situações inesperadas para o investigado. Enquanto isso, os meios de prova serão necessariamente abertos, e acontecerão com o conhecimento de todas as partes do processo, possibilitando o contraditório. Por último, a diferença com maior proeminência é a finalidade buscada por esses meios. Como vimos, os meios de provas possuem como objetivo a reconstrução de situações alegadas no processo. Já os meios de investigação objetivam a busca de informações em sentido amplo, e têm como finalidade encontrar dados que poderão apontar para a situação de um crime digno de acarretar em sentença condenatória. UNIDADE 2 | DAS PROVAS 54 UNI Atentando para o fato de que, nessas épocas a dificuldade para obter meios de prova era tamanha ao ponto de que a confissão por parte do réu caracterizava elemento primordial num processo inquisitório. Por isso, era comum os procedimentos de tortura, objetivando a confissão do acusado. Importante fonte de leitura complementar, de fácil acesso e conteúdo fundamental acerca da tortura e confissão como meio central de prova criminal, é a obra “Dos Delitos e das Penas”, de Cesare Beccaria. No texto do livro, o autor demonstra a mudança do processoinquisitivo para o acusatório público, destacando a transformação dos meios de prova quando se observou a necessidade de que elas fossem claras e racionais. Além disso, é uma obra altamente recomendada para qualquer aluno que pretenda adquirir conhecimentos básicos acerca de processo penal, uma vez que o livro traz reflexões históricas importantes, desde a separação dos Poderes Em nosso país, o processo penal adotou como modelo de sistema de provas o designado como europeu-continental. Como sabemos, ao longo da história as provas foram sempre utilizadas como ferramentas para a reconstrução de fatos ocorridos no passado. Muito antes de a sociedade observar as individualidades dos cidadãos, acreditavam que as provas seriam obtidas diretamente de Deus, ou seja, caso o cidadão fosse inocente o próprio Deus proveria sustentação de sua inocência. Na Idade Média, era comum a aplicação das chamadas ordálias, uma espécie de prova jurídica usada para determinar a culpa ou a inocência do acusado por meio da participação de elementos da natureza, e seu resultado era interpretado como um juízo divino. Como exemplo deste tipo de prova, podemos citar os registros das nomeadas provas de fogo, das quais o acusado deveria carregar barras de ferro em brasa ao longo de determinada distância, ou caminhar de pés descalços sobre ferros ferventes. Ainda, outros exemplos como prova da água fervente, em que o réu deveria retirar objetos submersos em água fervente e, caso isso não acarretasse lesões, seria absolvido. Com o surgimento da Idade Moderna, foram instituídos na Europa os chamados tribunais de inquisição, quando os cidadãos que contrariavam dogmas da Igreja Católica eram tidos como hereges, recebendo punições conforme o que era considerado de acordo com a gravidade da ação julgada. TÓPICO 1 | AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO 55 UNI Seguem alguns pontos relevantes de impacto no entendimento da evolução das provas criminais advindas do texto da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789: Art. 1º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum. Art. 2º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade a segurança e a resistência à opressão. Art. 3º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhuma operação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente. do Estado, a desvinculação dos conceitos de pecado e delito até a questão de igualdade entre os cidadãos na proporcionalidade entre os delitos cometidos e penas adquiridas. É a história da equidade e justiça no processo penal. Com a evolução histórica da sociedade, os cidadãos passaram a ver a necessidade de enxergar os indivíduos como sujeitos de direitos e garantias individuais, desenvolvendo-se a ideia de proibição de tortura, de presunção de inocência de acusados até que se prove o contrário, de direito de defesa para os acusados, entre outras. A partir disso, chegando a tempos mais austeros de individualidade, o mundo ocidental teve como uma das consequências da Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. A importância desta Declaração está no fato de reconheceu o chamado direito natural. O conceito de direito natural consagra a existência de direitos inerentes aos seres humanos, ou seja, nascidos anteriormente à existência do Estado. O Estado não cria, mas reconhece os direitos naturais, e isso quer dizer que o Estado passou a respeitar os seres humanos simplesmente pelo motivo de o ser. A implicação direta disso para o presente estudo sobre as provas criminais está no fato de que, com o reconhecimento de direitos de dignidade subjetivos à simples existência do cidadão, o processo penal passou a demandar requisitos mais exigentes para a aceitação de provas criminais. Não basta mais apenas uma confissão para que o réu seja considerado culpado ou inocente, mas de provas que sigam o devido processo legal, adquiridas de maneira justa e julgadas imparcialmente. UNIDADE 2 | DAS PROVAS 56 O juiz, mesmo que livre de preconceitos legais na apuração das provas apresentadas, não possui prerrogativa de apartar-se ou se abstrair de seu conteúdo. É necessário motive sua sentença, isso quer dizer, demonstre base coerente para a decisão que está tomando de acordo com o nosso ordenamento jurídico. ATENCAO Temos, no Brasil, um sistema processual penal que possibilita todos os meios de prova aceitos constitucionalmente, ou expressamente descritos em textos infraconstitucionais. Assim, não basta que o magistrado fundamente suas decisões somente em provas apresentadas aos autos, pois deve apontar em sua sentença os elementos motivadores de sua decisão, estejam eles dentro ou fora dos autos. Com isso, nos dias atuais, conseguimos compreender que, para se obter justiça penal, é fundamental que o elemento central da prova criminal enseje não apenas um reconhecimento à defesa, como a possibilidade de que o acusado detenha poder para produzir provas contrárias às da acusação, ou seja, nos dias atuais, entendemos que as provas, dentro do processo penal, não servem para a mera obtenção de uma verdade extraída de maneira inquisitória, como historicamente era feito, mas buscam uma verdade alcançada com meios probatórios produzidos pelas partes. A prova criminal, como elemento essencial de motivação para as sentenças dentro do processo penal, é considerada uma garantia individual do acusado, pois evita liberalidade na avaliação de casos concretos. O processo penal não pode ser ferramenta de opressão e medo para os cidadãos, mas uma garantia de justiça e bom andamento social. O sistema de análise de provas na processualística penal brasileira é o da certificação lógica, também denominado de sistema da livre convicção, expresso no artigo 155 do Código Processual Penal brasileiro: Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Parágrafo único: Somente quanto ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil. Entende-se, então, que o juiz formará sua análise do caso de maneira sincera e alinhada com a sua convicção no que diz respeito às provas apresentadas durante o devido processo legal. A própria confissão do acusado não estabelecerá, inevitavelmente, prova plena de sua responsabilidade pelo ato ilícito de que é acusado. TÓPICO 1 | AS PROVAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO 57 FIGURA 3 – MAPA CONCEITUAL: PROVA CRIMINAL FONTE: <www.pinterest.com.au/pin/225320787585891530/?lp=true>. Acesso em: 2 dez. 2019. Com isso, concluímos que as provas criminais, no ordenamento brasileiro, aparecem como um direito assegurado pala Constituição Federal de 1988 para todas as partes relevantes dentro do processo penal. Desde às policiais, durante o inquérito, até a acusação da defesa, durante sua participação no devido processo legal. SÚMULA 74/STJ "PARA EFEITOS PENAIS, O RECONHECIMENTO DA MENORIDADE DO RÉU REQUER PROVA POR DOCUMENTO HÁBIL" NO PROCESSO PENAL, TODA VEZ QUE O FATO A SER DEMONSTRADO ESTIVER VINCULADO AO ESTADO DAS PESSOAS, O CÓDIGO IMPÕES A PRODUÇÃO DE PROVAS DE ACORDO COM A PRESCRIÇÃO DA LEI CIVIL NESTE CASO, O JUIZ PODE DETERMINAR A PRODUÇÃO DE PROVA DE OFÍCIO MESMO ANTES DE INICIADA A PERSECUÇÃO PENAL, DESDE QUE CONSIDERADA URGENTE E RELEVANTE A REGRA DO CPP DE QUE O ÔNUS DA PROVA INCUMBE A QUEM ALEGA INCUMBÊNCIA QUE A PARTE POSSUI DE DEMONSTRAR A VERDADE DE UM FATO OU DE UMA ALEGAÇÃO FEITA NO PROCESSO PENAL A PROVA POSSUI UMA VALOR E O JUIZ DEVE ANALISÁ-LADE ACORDO COM O VALOR ATRIBUÍDO PELA LEI. A CONFISSÃO É PROVA ABSOLUTA PARA CONDENAÇÃO A ANÁLISE DA PROVA FICA A CRITÉRIO DO JUIZ, SEM NECESSIDADE DE MOTIVAÇÃO. É O QUE ACONTECE NO TRIBUNAL DO JÚRI, QUANDO OS JURADOS NÃO FUNDAMENTAM SEU VOTO. TODAS AS PROVAS TEM VALOR RELATIVO. QUANDO O JUIZ AS ANALISA, DEVE FUNDAMENTAR SEU ENTENDIMENTO (ART. 155/CPP) COLHIDOS COM VIOLAÇÃO A DIREITO MATERIAL. SÃO VIOLADAS REGRAS ESTIPULADAS PELO CÓDIGO PENAL E PELO CÓDIGO CIVIL OBTIDAS COM VIOLAÇÃO A REGRA DO DIREITO PROCESSUAL LÍCITAS EM SI, MAS PRODUZIDAS À PARTIR DE FATO ILÍCITO. ESSAS PROVAS DEVEM SER EXPURGADAS DO PROCESSO EXEMPLO: - DOCUMENTO APREENDIDO ATRAVÉS DE BUSCA E APREENSÃO SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL; - CONFISSÃO MEDIANTE TORTURA 58 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • A prova é um instrumento de averiguação. • O objetivo da persecução de provas, dentro do processo, é obter a convencimento do magistrado acerca do que as partes alegam. • No processo civil, um dos tipos de prova admitidos são as confissões fictas. • No ordenamento criminal é necessário que se comprovem os ocorridos de maneira fática, não sendo suficiente apenas a confissão do acusado. • Uma das maneiras de prova aceitas em nosso ordenamento é a prova pericial. • A prova pericial poderá ser utilizada como prova emprestada de um processo para outro, caso tenha sido produzida perante o mesmo juiz. • Para o ordenamento jurídico, são válidas as provas que seguem as normas da legislação vigente, bem como os princípios doutrinários de seu âmbito jurídico. • Caracteriza-se meio de prova qualquer instrumento legal que seja cabível em um processo para verificação, direta ou indiretamente, dos fatos e argumentações incluídos no processo. • Pode ser considerado meio de prova, também, aqueles que não estejam previstos na legislação, desde que não lesem o ordenamento vigente. • É possível determinar três importantes diferenças entre meios de investigação e meios de prova: o âmbito jurídico, a forma de participação e a finalidade. • Provas criminais podem ser conceituadas como a demonstração da veracidade a respeito de alegações que influenciem o julgamento acerca da responsabilidade e aplicação de penas de uma infração penal cometida. • As provas criminais, no ordenamento jurídico brasileiro, aparecem como um direito assegurado pala Constituição Federal de 1988 para todas as partes relevantes dentro do processo penal. 59 AUTOATIVIDADE 1 (FCC – TJ/AP – Analista judiciário/2009). No processo penal, a prova: a) ( ) Deverá ser produzida pelas partes, vedado ao juiz determinar, de ofício, a produção de qualquer outra prova. b) ( ) Quanto ao estado das pessoas, assim como todas as provas no processo penal, observarão as restrições estabelecidas na lei civil. c) ( ) Da alegação incumbirá a quem a fizer. d) ( ) Ilícita deve ser analisada em conjunto com as lícitas, podendo servir de base para a condenação se estiver em consonância com estas. e) ( ) Pericial consistente no exame de corpo de delito e outras perícias, será realizada por perito oficial, portador de curso superior, ou, na sua falta, por três pessoas idôneas, portadoras de curso médio completo. 2 (NUCEP – PC/PI – Escrivão de polícia civil/2014). Quanto à prova no Processo Penal, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente pode ser produzida pelas partes. b) ( ) Os fatos notórios independem de prova. c) ( ) As circunstâncias objetivas e subjetivas independem de prova. d) ( ) O sistema de apreciação adotado pelo Código de Processo Penal é o da certeza moral do legislador. e) ( ) Somente pode ser produzida mediante requerimento da autoridade judiciária. 3 (UEG – PG/GO – Agente de polícia/2013). São objeto de prova no curso do processo penal: a) ( ) As verdades axiomáticas do mundo do conhecimento. b) ( ) Os eventos que não interessam à causa, sejam verdadeiros ou falsos. c) ( ) Os fatos cientificamente demonstrados e universalmente aceitos. d) ( ) Os fatos não contestados ou aqueles admitidos pelo acusado. 4 (NUCEP – PC/PI – Perito Papiloscopista/2012). Acerca da prova, no Processo Penal, assinale a alternativa correta: a) ( ) Na análise da prova, o juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida, podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação policial. b) ( ) Na análise de prova, o juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório inquisitorial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. 60 c) ( ) No julgamento do processo, o juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. d) ( ) No processo penal brasileiro, dado o princípio da fundamentação, o juiz não pode formar sua convicção pela livre apreciação da prova produzida. e) ( ) A prova da alegação incube à parte que a fizer, não cabendo ao juiz de ofício determinar a realização de prova suplementar àquelas requeridas pelas partes. 5 (MPE/SP – Promotor de justiça/2006). O Estado democrático de direito e o juiz natural: a) ( ) Não exigem necessariamente a imparcialidade do juiz para proferir decisões nos procedimentos de jurisdição voluntária. b) ( ) Não exigem necessariamente a imparcialidade do juiz para proferir decisões nos processos contenciosos. c) ( ) Exigem a imparcialidade do juiz para proferir decisões somente nos processos contenciosos (objetivos e subjetivos). d) ( ) Exigem a imparcialidade do juiz para proferir decisões tanto nos processos contenciosos como nos procedimentos de jurisdição voluntária. e) ( ) Permitem a parcialidade do juiz destinada a realizar os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil. 61 TÓPICO 2 A ORGANIZAÇÃO PERICIAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A inclusão dos peritos oficiais dentro dos órgãos de polícia é avaliada como elemento indispensável quando analisadas questões acerca da autonomia pericial, uma vez que esta inclusão possibilita intervenção de técnica pericial mais efetiva dentro do ordenamento jurídico. Em razão disso, a autonomia pericial encontra apoio de organizações e entidades nacionais e internacionais, a exemplo da Ordem dos Advogados do Brasil, da Organização das Nações Unidades, do Ministério Público, entre outros. O foco central do apoio à autonomia pericial está na ideia de dissociação entre as figuras da perícia e dos órgãos policiais, porém, é importante que seja analisado o contraponto desta ideia. Ocorre que a atuação da investigação policial poderá descobrir-se lesada quando estiver sem o suporte de uma ferramenta fundamental para a investigação criminal. É dentro dos laudos periciais que as autoridades policiais poderão localizar levantamento objetivo de dados que dizem respeito ao crime em questão. Relembrando o que vimos na unidade anterior, a perícia criminal é parte do sistema penal, sendo a ferramenta que examina o corpo de delito, a fim de localizar esclarecimentos acerca da materialidade do crime e sua autoria. Assim, os resultados da perícia encontram métodos científicos, e tornam-se pontos relevantes na elaboração da decisão judicial. ATENCAO UNIDADE 2 | DAS PROVAS 62 Contudo, em que pese essa dependência entre órgãos policiais e perícia criminal, ainda é possível defender a atuação pericial autônoma, desprovida de vínculos ou subordinação de terceiros, ou seja, de entidades passíveis de causar comprometimento na imparcialidade dos exames, e, consequentemente, na orientação cientifica dos resultados obtidos. Assim como os mais diversos métodos de investigação científica, conforme visto na Unidade1, a perícia criminal deverá ser exercida em ambiente seguro, para a garantia de imparcialidade, estimulando a competência do profissional expert em atingir o resultado mais próximo possível da realidade material fática. Os agentes responsáveis pela elaboração dos laudos periciais possuem a incumbência de agir sem amarras, uma vez que seus resultados serão diretamente responsáveis pela decisão entre reclusão ou liberdade de um indivíduo. Outro ponto que merece destaque no estudo da perícia criminal são as garantias que devem ser atribuídas aos profissionais encarregados pelo desenvolvimento do trabalho pericial. A proximidade exagerada destes profissionais com os órgãos realizadores de investigação criminal (polícia judiciária), muitas vezes possui como consequência a intromissão exacerbada deste órgão, por meio de seus agentes, no trabalho pericial, que deve ser imparcial e científico. No Brasil, desde os anos 1980, por meio das associações estaduais de criminalística e medicina legal, e da Associação Brasileira de Criminalística (ABC), os peritos oficiais (médicos legais e peritos criminais) levantam ampla discussão a respeito da autonomia concebida aos institutos de criminalística e medicina legal em nosso país. O entendimento dessas associações é de que a maior autonomia do trabalho policial acarretará em uma contribuição logística necessária dentro as instituições, a fim de que os laudos periciais se tornem cada vez mais imparciais e mantenedores do rigor científico dentro da questão das provas no ordenamento jurídico. IMPORTANT E Hoje em dia, os órgãos estaduais de perícia criminal oficiais estão divididos em dois grandes grupos. Um deles é o que está dentro da estrutura da polícia civil, e o outro grupo é o de estrutura própria. Já o órgão federal oficial de perícia criminal está inserido na estrutura do Departamento de Polícia Federal. Em 17 estados federados do Brasil, temos a chamada polícia científica como órgão independente das polícias judiciárias. Esse tipo de instituição é que permite que o perito criminal exerça sua função de maneira independente. TÓPICO 2 | A ORGANIZAÇÃO PERICIAL 63 É importante fixar que o rigor científico e imparcialidade dos laudos periciais proporcionam, no que tange aos direitos humanos, a melhor efetividade da garantia constitucional da ampla defesa e contraditório aos réus acusados criminalmente. ATENCAO Vejamos, ainda, o que afirma a legislação federal que versa sobre as perícias criminais oficiais (Lei n° 12.030/2009): Art. 2° No exercício da atividade de perícia oficial de natureza criminal, é assegurado autonomia técnica, científica e funcional, exigido concurso público, com formação acadêmica específica, para o provimento do cargo de perito oficial. Por fim, outro ponto relevante sobre a autonomia pericial, aconteceu em 2009, quando no Decreto n° 7.037 aprovou o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNHD-3), afirmando que um dos elementos para a estimulação dos direitos humanos seria a autonomia pericial. Este também inclui nas ações programáticas de democratização e modernização do sistema de segurança pública a asseveração da autonomia funcional dos profissionais peritos, assim como o incentivo à modernização dos órgãos oficiais de perícia. 2 O PAPEL DO MINISTÉRIO PÚBLICO O Ministério Público, como órgão da administração direta do ordenamento brasileiro, teve suas responsabilidades e áreas de atuação dispostas na Constituição Federal de 1988. É o que designamos de órgão independente, uma vez que está subordinado a nenhum dos três Poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário). Vejamos, então, de acordo com a Constituição Federal de 1988: Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. § 1º São princípios institucionais do Ministério Público a unidade, a indivisibilidade e a independência funcional. Ainda, o Superior Tribunal Federal (STF) também já declarou seu entendimento de que pode ser concedida a autonomia da perícia criminal tanto dentro dos órgãos de polícia, como fora deles. Esta decisão será designada ao ente federado, ao qual incube a competência de determinada investigação, uma vez que se trata se uma questão de natureza administrativa. UNIDADE 2 | DAS PROVAS 64 Assim, entende-se que a Constituição elencou apenas de maneira exemplificativa o rol de competências do Ministério Público, uma vez que somente menciona sobre funções que estejam em conformidade com a sua finalidade de criação, não sendo um rol taxativo de funções. Sabe-se que, usualmente, a investigação criminal é atribuição da Polícia Judiciária, sendo de costume apenas que o Ministério Público fiscalize este trabalho, de maneira a executar o chamado controle externo. Se pensarmos na linha da autonomia pericial, caso o promotor de justiça fosse ao mesmo tempo investigador e oferecedor de determinada denúncia, percebe-se que o Ministério Público, ao realizar investigação criminal, poderia tocar no exato ponto das amarras da parcialidade aos métodos científicos. ATENCAO Importante ressaltar que a Constituição Federal de 1988 em nenhum momento faz menção à possibilidade de o Ministério Público possuir condições de promover investigações criminais. Vejamos o que ela afirma em seu artigo 129, cujo o texto dispõe sobre as atribuições desse órgão: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: I- promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei; II- zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia; III- promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos; IV- promover a ação de inconstitucionalidade ou representação para fins de intervenção da União e dos Estados, nos casos previstos nesta Constituição; V- defender judicialmente os direitos e interesses das populações indígenas; VI- expedir notificações nos procedimentos administrativos de sua competência, requisitando informações e documentos para instruí-los, na forma da lei complementar respectiva; VII- exercer o controle externo da atividade policial, na forma da lei complementar mencionada no artigo anterior; VIII- requisitar diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial, indicados os fundamentos jurídicos de suas manifestações processuais; IX- exercer outras funções que lhe forem conferidas, desde que compatíveis com sua finalidade, sendo-lhe vedada a representação judicial e a consultoria jurídica de entidades públicas. TÓPICO 2 | A ORGANIZAÇÃO PERICIAL 65 Fixa-se que o rol constitucional sobre a atuação do Ministério Público é apenas exemplificativo, sendo assim, em que pese não demonstre explicitamente a possibilidade de atuação deste nas investigações criminais, também não descarta a eventualidade disso. Ainda, a Constituição permite para que as legislações infraconstitucionais versem sobre determinada atuação. Assim, entende-se que a atuação do Ministério Público, frente às investigações de perícia criminal, deve ser apenas de controle fiscalizatório. Porém, existe a possibilidade de que exerça a função investigativa própria, por meio de legislação infraconstitucional. 2.1 A PERÍCIA COMO FATOR DE PROMOÇÃO DA JUSTIÇA O Estado Democrático de Direito, executado em nosso país por meio da observância e prática dos princípios normativos da Constituição Federal de 1988, tem como um de seus objetivos principais conseguir harmonizar o respeito aos direitos humanos sem que se deixe de atribuir a responsabilidade devida aos autores de crimes, proporcionando a estes o julgamento mais próximo do justo possível. Seguindo essa ideia, fica de fácil entendimento aextrema importância da perícia criminal em nosso ordenamento, uma vez que é por meio dela que será determinada desde a materialidade de um crime até sua autoria. Nesse sentido, a perícia criminal é um elemento crucial para o desenvolvimento da justiça. É por meio da perícia que se adquire ou não provas materiais acerca da existência ou não de um crime, da culpabilidade ou não de cidadãos acusados de prática criminosa, e, consequentemente, é por meio dela que ocorre as decisões sobre a liberdade ou reclusão social desses cidadãos, ou seja, quando dizemos que todo o cidadão possui direito à justiça, a um julgamento independente e neutro, dizemos também que todo cidadão tem direito a uma perícia de excelência. FIGURA 4 – ANÁLISE PERICIAL FONTE: <edukavita.blogspot.com/2013/09/pericia.html>. Acesso em: 2 dez. 2019. 66 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A inclusão dos peritos oficiais dentro dos órgãos de polícia, é avaliada como um elemento indispensável quando se analisam questões acerca da autonomia pericial. • O foco central da do apoio à autonomia pericial se encontra na ideia de dissociação entre as figuras da perícia e dos órgãos policiais. • É dentro dos laudos periciais que as autoridades policiais poderão localizar um levantamento objetivo de dados que dizem respeito ao crime em questão. • A perícia criminal deverá ser exercida em ambiente seguro para a garantia de imparcialidade. • Deve ser estimulada a competência do profissional expert para atingir da melhor maneira o resultado mais próximo possível da realidade material fática. • A proximidade exagerada dos profissionais peritos com os órgãos realizadores de investigação criminal, muitas vezes possui como consequência a intromissão exacerbada desse órgão. • O rol constitucional sobre a atuação do Ministério Público se faz apenas exemplificativo. • Constituição Federal não demonstra explicitamente a possibilidade de atuação do Ministério Público nas investigações criminais, mas também não descarta a eventualidade de que isto aconteça. 67 AUTOATIVIDADE 1 (FAPEMS – PC/MS – Delegado de Polícia/2017). Acerca da investigação criminal, [...] a autoridade policial não é parte no processo penal, não tem interesse que possa deduzir em juízo e a investigação criminal não guarda autonomia, ela existe orientada ao exercício futuro da ação. A constatação de comportamentos do indiciado prejudiciais à investigação deve ser compartilhada entre a autoridade policial e o Ministério Público (ou o querelante, conforme o caso), para que o autor da ação penal ajuíze seu real interesse em ver a prisão decretada. FONTE: PRADO, Geraldo. Medidas cautelares no processo penal: prisões e suas alternativas. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 67. As funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado. (BRASIL. Lei n. 12.830. Dispõe sobre a investigação criminal conduzida pelo delegado de polícia). Isso considerado, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-á por ato discricionário, mediante análise fática da ocorrência do fato, e deverá indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias. b) ( ) O inquérito policial em curso poderá ser avocado ou redistribuído por superior hierárquico, independentemente de despacho fundamentado. c) ( ) A participação de membro do Ministério Público na fase investigatória criminal acarreta o seu impedimento ou suspeição para o oferecimento da denúncia. d) ( ) Da decisão do delegado de polícia que nega o pedido de abertura de inquérito policial formulado pelo ofendido ou seu representante legal, caberá mandado de segurança. e) ( ) Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, documentos e dados que interessem à apuração dos fatos. 2 (IBADE – PC/AC – Delegado de Polícia Civil/2017). No plano da teoria do garantismo, para Ferrajoli, em sua clássica obra Direito e Razão, na lógica do Estado de Direito, as funções de polícia judiciária deveriam ser organizadas de forma independente não apenas funcional, mas, também hierárquica e administrativamente dos diversos poderes aos quais auxiliam, ou seja, deveria ter a garantia de independência. Tal ideia deita raízes na estrutura acusatória que visa uma investigação isenta na apuração da verdade e não a serviço da acusação. À luz das premissas acima expostas, assinale a opção CORRETA: 68 a) ( ) Cabe ao delegado de polícia arquivar o inquérito policial. b) ( ) A remoção do delegado de polícia dar-se-á somente por ato fundamentado e o indiciamento, que é privativo do delegado de polícia, dar-se-á por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do fato, que deverá indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias. c) ( ) O Ministério Público pode não apenas requisitara instauração do inquérito, como também determinar autoridade policial o indiciamento de um investigado. d) ( ) O inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei em curso, conduzido por delegado de polícia, somente poderá ser avocado ou redistribuído por superior hierárquico ou pelo Ministério Público, por motivo de conveniência e oportunidade. e) ( ) Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, proceder a buscas domiciliares, buscar e apreender documentos e dados que interessem à apuração dos fatos, independentemente da autorização judicial. 3 (FCC/Câmara Legislativa do Distrito Federal – Técnico legislativo/2018). A Lei no 11.473/2007, que dispõe sobre cooperação federativa no âmbito da segurança pública, estabelece que se forem insuficientes os convênios firmados entre a União e os entes federados para suprir a previsão do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), e em face da necessidade de excepcional interesse público, as atividades de cooperação federativa no âmbito da segurança pública poderão ser desempenhadas, em caráter voluntário, entre outros, por: a) ( ) Militares e por servidores das atividades-fim dos órgãos de segurança pública e dos órgãos de perícia criminal da União, dos Estados e do Distrito Federal que tenham passado para a inatividade há menos de cinco anos. b) ( ) Servidores civis da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios aposentados há mais de 10 anos, para fins de realizar atividades-meio de apoio administrativo à Força Nacional de Segurança Pública. c) ( ) Servidores do Poder Judiciário da União, dos Estados, do Distrito Federal, para fins de atividades de apoio administrativo à Força Nacional de Segurança Pública aposentados por invalidez há mais de 5 anos. d) ( ) Servidores do Ministério Público da União, dos Estados e do Distrito Federal, para fins de realizar atividades-fim de apoio administrativo à Força Nacional de Segurança Pública, independentemente de estar ou não em inatividade. e) ( ) Servidores ou profissionais particulares das localidades onde a Força Nacional de Segurança Pública irá desempenhar suas funções, cuja escolha se dará por iniciativa e responsabilidade do General de maior patente. 69 4 (CESPE – ABIN – Oficial técnico de inteligência/2018). Com relação à defesa do Estado e das instituições democráticas, julgue o item que segue. A exclusividade atribuída pela Constituição Federal de 1988 à Polícia Federal para o exercício das funções de polícia judiciária da União impede a realização de atividade de investigação criminal pelo Ministério Público. ( ) Certo. ( ) Errado. 5 (CESPE/Câmara dos Deputados – Analista Legislativo/2014). Julgue o seguinte item, relativo ao mandado de segurança em matéria penal, à investigação criminal, ao Ministério Público, ao processo referente a ilícitos de improbidade administrativa, ao processo dos crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitose valores, à sentença e à proteção de acusados ou condenados colaboradores. Tanto o STJ quanto o STF entendem que a competência exclusiva da polícia judiciária para presidir o inquérito policial não impede que o Ministério Público promova diligências investigatórias para obter elementos de prova indispensáveis ao oferecimento de denúncia. ( ) Certo. ( ) Errado. 6 (ESAF – MF – Especialista em políticas públicas e gestão governamental/2013). Assinale a opção que corresponde a erro gramatical inserido na transcrição do texto. “Para vários constitucionalistas e processualistas, como (1) não inclui a investigação criminal no rol das prerrogativas específicas do Ministério Público, a Constituição é taxativa (2) ao dispor que cabe às (3) Polícias Federal e Civil exercer a função de polícia judiciária e, por consequência, presidir os inquéritos criminais. Como a Constituição de 88 é clara quando define as competências do Ministério Público e das Polícias Federal e Civil, atribuindo aquele (4) o papel de "zela pela ordem jurídica e pelos interesses sociais e individuais indisponíveis" e a estas a função de atua como polícia judiciária, não há necessidade de uma PEC para assegurar aos delegados prerrogativas exclusivas que já lhes (5) são concedidas no artigo 144 da Constituição Federal.” (O Estado de S. Paulo, editorial, 10/6/2013, com adaptações) a) ( ) 1. b) ( ) 2. c) ( ) 3. d) ( ) 4. e) ( ) 5. 70 71 TÓPICO 3 PROVA PERICIAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A prova, em sua origem, é aquilo que serve para estabelecer uma verdade por verificação ou demonstração, aquilo que mostra ou confirma a verdade de um fato. Torna-se, assim, de fundamental importância para a ciência processual, constituindo-se elemento essencial para a decisão em um processo penal o qual determina mecanismos para o livre convencimento do juiz e consequentemente a formação da justiça como pressuposto fundamental (CORAINI DE SOUZA; BONACCORSO, 2017). 2 A IMPORTÂNCIA DA PROVA PERICIAL NO PROCESSO PENAL Ao longo de anos, viu-se a evolução do conceito de prova e sua aplicação em três modalidades, sendo elas: testemunhal, material e confissão. No Processo Penal a prova pericial enquadra-se como prova material e, por ser advinda de bases científicas, torna-se a prova de maior importância no momento em que observamos que o Legislador, em 1941, inseriu no Código de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689 – 03/10/1941), em seu Artigo 158, a preocupação e a indispensabilidade do exame de corpo de delito em infrações que deixam vestígios. Valendo-se do Princípio de Edmond Locard que considera que “Cada contato deixa um rastro”, é imprescindível a realização da perícia no local da infração para identificação dos vestígios ali encontrados e, consequentemente, aumentando a probabilidade de identificação do autor, através do estudo e interpretação deles. Ao estudar o tema, pretende-se abordar o conceito de prova e a evolução da perícia criminal no Brasil, bem como sua cooperação no Sistema Judiciário Brasileiro, atribuindo à prova pericial a autenticidade dos fatos e dos elementos encontrados na cena do crime e, por muitas vezes, à reconstituição simulada dos fatos. Pretende-se ainda destacar a importância do estudo do tema e da Criminalística não apenas para os peritos criminais, mas também a todos aqueles envolvidos e atuantes do Direito, sejam eles juízes, promotores, delegados, advogados, e outros interessados. 72 UNIDADE 2 | DAS PROVAS Ainda, através de consultas bibliográficas, análises de teses, artigos científicos e da legislação brasileira pretende-se demonstrar a essencialidade da Prova Pericial no Processo Penal, em suas diversas modalidades, destacada com afinco pelo legislador e pelos autores estudados. A definição de Prova, de acordo com Dicionário Michaelis (2009), “é tudo aquilo que serve para estabelecer uma verdade por verificação ou demonstração. Aquilo que mostra ou confirma a verdade de um fato”. À vista disso, podemos dizer que a prova demonstra uma verdade através de algo, material ou não, por meio de um fato ocorrido fora do olhar de todos. Prova é aquilo que demonstra que uma afirmação ou fato é verídico, que evidencia ou comprova o ocorrido. A palavra prova vem do latim probatio que, no que lhe concerne, nasce do verbo probare e significa examinar, persuadir, demonstrar. Greco Filho (2010, p. 185) descreve a prova como todo elemento que pode levar o conhecimento de um fato a alguém. Ademais, Greco Filho (2010, p. 186) destaca ainda que no processo, a prova é todo meio destinado a convencer o juiz a respeito da verdade de uma situação de fato. Para Madeira Dezem (2008, p. 79), o tema prova é essencial para a ciência processual. Isto porque, dentre outros motivos, as consequências da atividade probatória projetam-se de maneira inexorável na vida das pessoas, o que torna fundamental para a busca da decisão mais justa possível. Observa-se, portanto, o interesse do tema pelos doutrinadores e a preocupação de todos em ater-se à justiça. Em nosso entendimento, a prova torna-se cada vez mais relevante visto que, no processo penal, é utilizada para a formação do direito e comprovação da autoria do crime ou da inocência do acusado. Outrossim, a análise da prova pelo juiz e, consequentemente, da formação da acusação e da defesa, baseadas nos princípios da ampla defesa e do contraditório, garantem a imparcialidade do magistrado analisando os dois lados para a elaboração do julgamento. No mesmo sentido, Norma Bonaccorso (2009, p. 2) esclarece que o contraditório garante a imparcialidade do juiz perante a causa que também deve exercê-la na preparação do julgamento. Por refletir garantia de imparcialidade do juiz na valoração daquilo que foi dialeticamente trazido ao processo, o contraditório é tido entre as garantias fundamentais do processo justo. Destarte, a prova ganha grande destaque por auxiliar o juiz na formação de sua convicção e na fundamentação da mesma, não se atendo apenas naquilo que foi colhido na investigação, conforme disposto no Artigo 155 do código de processo penal: TÓPICO 3 | PROVA PERICIAL 73 Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. À vista disso, é importante mencionar os meios de provas e fixar alguns conceitos para tal. Gomes Filho (2005, p. 305) conceitua meios de prova como “instrumentos ou atividades por intermédio dos quais os dados probatórios (elementos de prova) são introduzidos e fixados no processo (produção de prova). São, em síntese, os canais de informação de que se serve o juiz”. Da mesma forma, Comoglio (1995, p. 1.206) define meios de prova como sendo “... Sono tutti caratterizzati dall’ attitudine ad ofrire al giudice risultanze probatorie diretamente utilizzabili in sede di decisione, e quindi hanno in quel giudice eu loro naturale destinatário”. Há ainda outra definição, de Greco Filho (2010, p. 188), que diz que os meios de provas são instrumentos pessoais ou materiais aptos a trazer ao processo a convicção da existência ou inexistência de um fato. Valendo-se deste conceito, é de se observar que os meios de provas podem ser materiais ou pessoais. O código de processo penal regulamenta os seguintes tipos de prova: o exame de corpo de delito (prova pericial), o interrogatório do acusado, a confissão, as perguntas ao ofendido, as testemunhas, o reconhecimento de pessoas ou coisas, a acareação, os documentos, os indícios e a busca e apreensão. Dentre todos os meios de prova apresentados, destacaremos neste trabalho a prova pericial, que com a evolução de seus métodos, por estar alicerçada em bases científicas e por demonstrar, através do laudo pericial, maior veracidade dos fatos, dada sua imparcialidade, se tornou de suma importância parao processo penal. A perícia consiste em um meio de prova que leva ao conhecimento do julgador os fatos, através de exames realizados nos vestígios encontrados, no local do crime. Em nossa opinião, a perícia é um dos meios probatórios de maior confiabilidade, uma vez que fornece ao processo bases científicas e técnicas para análise dos vestígios deixados no local de crime, bem como traz a possibilidade de reconstituição dos fatos. Segundo Moraes Manzano (2011, p. 28), a expressão corpo de delito surgiu no direito medieval a partir da evolução da doutrina do constare de delicto. Evoluiu- se, então para o conceito de “corpo de delito” de modo a diferenciar crimes que deixam marcas visíveis dos que não deixam, e passou também a ser utilizado para vestígios encontrados no local da infração. 74 UNIDADE 2 | DAS PROVAS O Código de Processo Penal Brasileiro trouxe a obrigatoriedade do exame de corpo de delito em infrações que deixarem vestígios. Tal exigência afasta ou diminui a possibilidade de aplicação de métodos de tortura para obtenção de confissão do crime pelo acusado, bem como acusações sem fundamentos e provas. Tucci (1978, p. 204) conceitua o exame de corpo de delito como “meio de prova, prova pericial, destinada à apuração dos elementos físicos, materiais, da prática criminosa, mediante a sua constatação direta e documentação imediata”. A mestre e perita Bonaccorso (2009, p. 1) cita que a prova pericial é importante arma para a reconstrução dos fatos no processo. Ela ganha ainda contornos de maior importância no processo penal, sendo, na modalidade de exame de corpo de delito, considerada como indispensável nas infrações que deixam vestígios. Para Greco Filho (2010, p. 207), “os exames ou perícias em geral são verificações elaboradas por técnicos ou pessoas com conhecimento do objeto do exame”. Para tanto, visando a idoneidade da prova, o exame de corpo de delito é realizado por perito oficial, portador de diploma de curso superior e, em nosso entendimento, ressalta-se a importância da preparação e conhecimento do referido profissional na área de atuação, bem como na análise do vestígio encontrado para transparecer ao juiz expertise na conclusão do laudo. Verifica-se, portanto, que a Perícia traz requisito fidedigno do que se ocorreu no local do crime, bem como a relevância e destaque da prova pericial para o processo penal por ser de cunho técnico e, em muitas vezes, possibilitar a reconstituição ou demonstração real dos fatos. Equiparando-se ao direito penal brasileiro, o direito penal italiano também dá destaque à prova técnica (prova pericial): “Il ricorso sempre più frequente al metodo scientifico, specie nei casi eclatanti, rafforza la tesi della razionalità strumentale del diritto penale (anche nella fase di applicazione giudiziale delle norme penali ai casi concreti), grazie all’ utilizzazione di conoscenze empiriche ricavabili dal sapere scientifico” (PICOZZI; INTINI, 2009, p. 490). Podemos disso tudo, então, concluir que o exame de corpo de delito (prova pericial) consiste na avaliação científica dos vestígios deixados no local do crime, ou até mesmo na vítima, no caso de estupro, por exemplo, para a resolução de uma infração penal. À vista disso, é notável que o legislador brasileiro considerou de grande relevância a realização da perícia, podendo ser nulo o processo na ausência deste exame. Ao analisarmos a legislação brasileira, observamos a evolução e o cuidado do legislador ao atribuir um fato criminoso a outrem. TÓPICO 3 | PROVA PERICIAL 75 A Constituição Federal de 1988 demonstra com afinco os direitos e garantias fundamentais dos cidadãos, visando evitar tratamentos degradantes ou injustos antes mesmo da decisão do juiz, conforme dispõe o Art. 5, LVII: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. A Constituição prevê também o princípio do contraditório em seu Art. 5, inciso LV, ressaltando o direito à prova para assegurar às partes os recursos suficientes a defesa do acusado. Ainda, o Código de Processo Penal Brasileiro, como visto anteriormente, coloca como obrigatória a realização do exame de corpo de delito para os crimes que deixarem vestígios, atribuindo ao julgador meios materiais para a resolução de determinado fato delituoso. Dentre todos os meios de prova do processo penal, em nosso entendimento, a prova pericial é a mais importante, ao garantir a maior veracidade dos fatos de forma científica e isenta, tendo em vista a sua materialidade. De acordo com Dorea; Stumvoll e Quintela (2012, p.15), a prova pericial é produzida a partir de fundamentação científica dos elementos materiais deixados pela ação delituosa, enquanto a formação das chamadas provas subjetivas depende de testemunho ou interpretação de pessoas, podendo ocorrer uma série de erros, desde a simples falta de capacidade da pessoa em relatar o fato, até a situação de má-fé, onde exista intenção de distorcer os fatos para não se chegar a verdade, contribuindo para condenar um indivíduo por um crime que não tenha cometido, deixando de lado a justiça. Em nosso entendimento, a prova testemunhal torna-se cada vez mais frágil pois não se sabe o caráter da pessoa, nem tampouco, se a mesma realmente testemunhou o fato. Desta forma, o juiz poderá se basear em uma prova sem plena convicção. No mesmo sentido, a confissão como prova não detém grande força processual, pois sabemos que, muitas vezes, pode ter sido advinda de tortura, deixando, portanto, de ser tratada como o outrora a “rainha das provas”. Segundo Madeira Dezem (2008, p. 220), a experiência havida no Direito Romano, na inquisição, no regime nazista e, no Brasil, no período de exceção, demonstra que a confissão deve ser analisada com cautela e reservas. Ainda, Velho; Geiser e Espindula (2013, p. 444) afirmam que se o caráter fundamental do direito à prova reside no compromisso de assegurar às partes os meios necessários e suficientes à sua defesa, na medida em que se utiliza de recursos científicos e tecnológicos para oferecer à sociedade uma prova, sobretudo, isenta, robusta e confiável, cumpre a prova pericial seu papel de verdadeiro e efetivo remédio no esclarecimento da verdade. 76 UNIDADE 2 | DAS PROVAS Compreende-se, portanto, o interesse do legislador em colocar a obrigatoriedade da análise dos vestígios encontrados no local do crime por perito oficial, devidamente especializado para tal, buscando a maior proximidade possível do fato delituoso, bem como da materialidade do crime. Seguido pelo princípio da dignidade humana e pela Constituição Federal de 1988, busca-se sempre a justiça nos processos penais, não podendo o julgador basear-se apenas em fatos expostos por pessoas, ou pela confissão, daí a importância da prova pericial. FONTE: CORAINI DE SOUZA, Sara Cristina; BONACCORSO, Norma Sueli. A importância da prova pericial no processo penal. JusBrasil, São Paulo, 2017. Disponível em: saracoraini. jusbrasil.com.br/artigos/418314346/a-importancia-da-prova-pericial-no-processo-penal. Acesso em: 2 dez. 2019. TÓPICO 3 | PROVA PERICIAL 77 LEITURA COMPLEMENTAR Seguindo o conteúdo, temos o interessante texto de Roberto Parentoni: A PROVA NO PROCESSO PENAL Roberto Parentoni No processo penal ninguém poderá ser condenado se não houver provas que liguem um autor ao ato pelo qual se está sendo acusado, pois vigora o Princípio da Verdade Real, além do que, não se pode considerar ninguém culpado antes que tenha fim esse processo. Em regra, todos os fatos terão de ser provados, mesmo que incontroversos ou não impugnados por quem de direito. Mas, existem fatos que dispensam a força probatória, ou seja, não precisam ser provados. À acusação cabe provar sobre o fato criminoso, primeiro que ele ocorreu, demonstrando o nexo de causalidade, autoria, materialidade e resultado, além de todas as circunstâncias envolvidas; como, por exemplo, uma ação que, presente no fato, incorpora uma qualificadoraao crime. O Juiz também pode produzir quaisquer provas no processo. Pode, inclusive, ouvir uma testemunha fora do prazo legal, em busca da verdade real. Pode-se, inclusive, solicitar que uma testemunha seja ouvida como testemunha do Juízo, caso seja de importância para a defesa e o prazo para arrolar testemunhas tenha passado. No processo penal, “a prova da alegação caberá a quem a fizer […]”. PAPEL DA ACUSAÇÃO A promotoria ou o ofendido tem de provar o fato, para que se efetive o direito do Estado de punir. O Promotor-Acusação ou o ofendido alegará em sua petição inicial que o réu cometeu o ato criminoso, contendo os seguintes elementos: Autoria: identificação e qualificação da pessoa que se pretende punir; Materialidade: vestígios deixados pelo crime, na natureza, da prática criminosa (o objeto do crime); Nexo causal: é o que liga a ação do agente com o resultado; 78 UNIDADE 2 | DAS PROVAS Resultado: aquilo que foi concretizado com a última ação no crime, podendo ele ser consumado (o agente consegue realizar todas as etapas do crime, concretizando-o) ou tentado (o crime não acontece, o agente não vai até a última ação porque foi impedido por motivo alheio a sua vontade). São duas as naturezas do crime: doloso (quando se tem a intenção de cometer o crime) e culposo (comete-se o crime por negligência, imperícia ou imprudência). Se o Ministério Público denuncia o crime na sua forma dolosa, não tem de ser provada a culpa, há uma presunção legal. Se denuncia na forma culposa, além de provar o crime, deve provar a culpa. PAPEL DA DEFESA: O acusado não tem a obrigação de provar que é inocente, ou seja, quem alega é que deve provar a culpa. Deve apenas produzir sua defesa, como se fosse uma contestação, contradizendo aquilo que o promotor ou o ofendido disser em sua petição inicial (denúncia ou queixa-crime). Aqui, chamamos a atenção do leitor: o acusado deve se defender dos fatos narrados na denúncia, e não da tipificação penal. PROVAS ILÍCITAS: No caso das provas ilícitas as mudanças asseguram o direito da ampla defesa, uma vez que apenas o art. 233 do CPP tratava desse assunto, além do art. 5º, LVI, da nossa Constituição Federal. De acordo com o art. 157 do CPP, temos a afirmação da inadmissibilidade da prova ilícita, com consequente desentranhamento do processo. Temos, agora, também a definição de provas ilícitas – aquelas obtidas com violação a normas constitucionais ou legais. O art. 157 do CPP foi totalmente reformulado, passando a ser composto do caput e de quatro parágrafos. No caput, temos a inadmissibilidade das provas ilícitas e a consequente declaração de ilicitude, com o desentranhamento de tais peças dos autos do processo. Não se previu recurso contra tal decisão, mas é possível a impetração de Habeas Corpus – HC para assegurar os direitos constitucionais e processuais do acusado/réu. Há algumas situações especiais relacionadas à prova ilícita, das quais destacamos: a) provas ilícitas por derivação (frutos da árvore venenosa), que passam a ser agora também ilícitas (art. 157, § 1º, primeira parte, CPP); TÓPICO 3 | PROVA PERICIAL 79 b) quando não evidenciado o nexo de causalidade entre as provas (lícitas) derivadas das provas ilícitas, aquelas são admissíveis (art. 157, § 1º, segunda parte, a contrario sensu, CPP). A ressalva é que são admissíveis as provas (lícitas) derivadas das ilícitas quando puderem ser obtidas por uma fonte independente das provas ilícitas (art. 157, § 1º, parte final, CPP); c) o incidente de inutilização da prova declarada inadmissível, após desentranhamento dos autos por decisão judicial, podendo as partes acompanhar o referido incidente (art. 157, § 3º, CPP). A destruição da prova, no entanto, só poderá dar-se após o trânsito em julgado da decisão que determinou o seu desentranhamento. A prova pode ser ilícita na visão do juiz, mas é perfeitamente possível que o Ministério Público, o assistente ou o querelante questione a decisão perante os Tribunais, obtendo entendimento de que a prova é lícita, e poderão, assim, voltar para os autos. PROVA PERICIAL: Aqui há, na nova lei, alteração nas regras da prova pericial. Até então, exigia-se que dois peritos participassem do ato e assinassem o laudo pericial. Com a alteração na redação do art. 159, caput, basta agora que a perícia seja realizada por “perito oficial”. Assim, passa a ser a regra o que era exceção, a saber, a possibilidade de realização de exame por perito único, já prevista na Lei n. 11.343/06 – Entorpecentes, quanto ao exame preliminar em substância entorpecente. Na falta de perito oficial, o exame será realizado por duas pessoas idôneas, portadoras de curso de diploma superior preferencialmente na área específica do exame a ser realizado. Assim, se o perito não for oficial, volta a ser exigida a participação de duas pessoas para a realização da perícia, mas com curso superior. Temos agora a possibilidade, prevista no novo art. 159, § 3º, do CPP, de indicação de assistentes técnicos, para acompanhar a perícia e formular quesitos, pelas partes necessárias (Ministério Público – ou querelante – e acusado) e pela parte contingente (assistente da acusação – a nova lei fala também em ofendido, razão pela qual, ainda que sem se constituir formalmente como assistente da acusação, o ofendido terá legitimidade para tanto). A lei não menciona a legitimidade do indiciado ou do suspeito (sem indiciamento), ou seja, não trata explicitamente da possibilidade de indicação de assistente técnico na fase do inquérito policial. Não há razão que impeça tais pessoas de indicarem assistente técnico, ainda na fase investigativa da persecução criminal. Não há, no entanto, obrigatoriedade de indicação de assistente técnico por qualquer das partes, mas simples faculdade, ficando a critério das partes decidirem se o indicarão ou não. Esse assistente técnico atuará depois de ser admitido pelo Juiz e após a conclusão dos exames e da elaboração do laudo pelos “peritos oficiais”. 80 UNIDADE 2 | DAS PROVAS Admitido o assistente técnico, as partes serão intimadas da decisão (art. 159, § 4º, CPP). Até dez dias antes da audiência, as partes poderão requerer a oitiva dos peritos para prestar esclarecimentos sobre o laudo ou para responder a quesitos. No caso de resposta a quesitos, os peritos poderão apresentar as respostas em laudo complementar. Poderão, também, apresentar pareceres elaborados pelo assistente técnico, em prazo a ser fixado pelo Juiz, sendo que o assistente técnico poderá ser indicado para oitiva em audiência (art. 159, § 5º, I e II, CPP). Diante disso, podemos concluir que a indicação do assistente técnico ou peritos para inquirição em audiência poderá se dar ainda que ultrapassadas as fases da denúncia e da resposta à peça acusatória, quando, em regra, é feito o arrolamento de pessoas que serão ouvidas em Juízo. Por requerimento das partes, o material probatório que serviu de base à perícia ficará disponível no ambiente do órgão oficial/pericial, que manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame pelos assistentes, a menos que seja impossível a sua conservação (art. 159, § 6º, CPP). Por fim, estabeleceu-se que, em caso de perícia complexa envolvendo mais de uma área de conhecimento especializado, mais de um perito oficial poderá ser designado, assim como a parte poderá indicar mais de um assistente técnico (art. 159, § 7º, CPP)”. FONTE: PARENTONI, Roberto. A prova no processo penal. Disponível em: canalcienciascriminais. com.br/prova-processo-penal/. Acesso em: 2 dez. 2019. 81 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A prova, em sua origem, é aquilo que serve para estabelecer uma verdade por verificação ou demonstração. • No Processo Penal a prova pericial enquadra-se como prova material. • A palavra prova vem do latim probatio que, no que lhe concerne, nasce do verbo probare e significa examinar, persuadir, demonstrar. • No processo penal ninguém poderáser condenado se não houver provas que liguem um autor ao ato pelo qual se está sendo acusado. • A promotoria ou o ofendido tem de provar o fato, para que se efetive o direito do Estado de punir. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 82 1 Considerando as leituras realizadas responda às questões a seguir. Em matéria processual, é tudo aquilo que sirva para estabelecer uma verdade por verificação ou demonstração, sendo capaz de confirmar ou refutar um fato. Sem dúvida, a prova é essencial para o processo, particularmente no processo penal, uma vez que possibilita ao julgador a formação de juízo de absolvição ou condenação. Nesse contexto, as provas, quanto à forma, podem ser de três modalidades: testemunhal, material e confissão. Pergunta-se: a prova pericial se enquadra em qual destas modalidades? Justifique. 2 A prova pericial é, a rigor, aquela realizada por um perito oficial – o especialista e/ou técnico de saber específico designado em juízo –, o qual deverá elaborar um laudo acerca do que for determinado, a fim de fornecer ao magistrado conhecimento específico, visando permitir a decisão adequada. Pergunta-se: em caso de inexistência de perito oficial, qual deve ser o procedimento? AUTOATIVIDADE 83 UNIDADE 3 PROVAS E PERÍCIAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o conceito de prova criminal de maneira a diferenciar as diversas formas e meios de provas utilizadas no processo criminal; • identificar o perito como técnico especializado, tendo como função produzir conhecimento por meio um documento próprio – o laudo –, o qual contribui para a formação de juízo de valor, a fim de fundamentar uma decisão judicial justa; • diferenciar e conceituar importantes modalidades de provas periciais, de maneira a compreender a produção de provas periciais relevantes. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado, bem como textos de base para aprofundar seus estudos. TÓPICO 1 – PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS TÓPICO 2 – O PERITO TÓPICO 3 – MODALIDADES DE PERÍCIA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 84 85 TÓPICO 1 PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Como você já concluiu, a prova é o elemento essencial para o processo penal, particularmente a prova pericial, que, com o aprimoramento da tecnologia, traz ferramentas cada vez mais fidedignas para o livre convencimento do juiz e, consequentemente, para a aplicação da justiça. Sem dúvida, entre todos os meios de prova admitidos, a prova pericial possui grande destaque. Pensando nisso, na Unidade 3, serão abordados elementos importantes para conhecermos perícia como relevante meio de prova no processo penal. Vamos conhecer as bases científicas da perícia, saber o que é, e o que faz um perito. Por fim, estudaremos modalidades de perícias criminais. É, sem dúvida, um estudo que trará curiosidade, e lhe levará a se aprofundar no tema em outras fontes. 2 A PROVA PERICIAL Provas são todos os elementos pelos quais se procura mostrar a existência e a veracidade de um fato. Sua finalidade, no processo, é influenciar no convencimento do juiz. Seja na esfera criminal, cível ou trabalhista, a prova pericial passou a ser entendida como o mais importante meio para o esclarecimento da verdade. As áreas periciais são diversificadas, e para cada finalidade há uma classificação, como a perícia ambiental, criminal, médica, contábil, balística, em veículos, e inúmeras outras, tendo o campo de atuação extrajudicial e judicial. A prova pericial é apresentada a partir de um exame técnico supervisionado por profissional especialista da área. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 86 FIGURA 1 – ANÁLISE DA CENA FONTE: <canalcienciascriminais.com.br/cadeia-de-custodia-da-prova-pericial>. Acesso em: 5 dez. 2019. Elementos de prova são todos os fatos ou circunstâncias em que reside a convicção do juiz, como um depoimento de testemunha, resultado de perícia ou conteúdo de documento. Já meio de prova é o conjunto de instrumentos ou atividades pelos quais os elementos de prova são introduzidos no processo, como testemunhas, documentos e resultados periciais. A perícia pode ter o status de prova, sendo realizada por peritos tecnicamente qualificados para a análise de fatos juridicamente relevantes ao litígio. Os peritos podem ser nomeados por um juiz, ou constituídos por obra de concurso público. Fontes de prova são pessoas ou objetos utilizados para a obtenção de provas. Temos como exemplo a denúncia. Meios de investigação da prova são os procedimentos que possuem como objetivo conseguir provas materiais. Podemos citar a busca e apreensão e a interceptação telefônica como exemplos. Objetos de prova são os fatos principais ou secundários que reclamam uma apreciação judicial, e exigem uma comprovação. Sendo a prova legítima ou lícita, no processo penal, é essencial para que, no livre convencimento do julgador, seja alcançado um juízo de valor sobre o fato adequadamente apurado. É o elemento pelo qual se procura mostrar a existência, inexistência, veracidade ou não veracidade do fato e proferir um veredicto de condenação ou absolvição. Nesse sentido, conforme o expõe o Código de Processo Penal, em seu artigo 155: TÓPICO 1 | PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS 87 Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Parágrafo único: Somente quanto ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil. Em toda ação penal, existem dois pontos cruciais, a saber: a materialidade e a autoria do fato criminoso. Além disso, é importante que chegue ao conhecimento do juiz todas as circunstâncias objetivas (aspectos externos do crime) e subjetivas (motivos do crime e aspectos pessoais do agente) que possam determinar a certeza de sua convicção sobre a responsabilidade criminal. O juiz poderá indeferir as provas irrelevantes, impertinentes e protelatórias, de acordo com o exposto no artigo 400, parágrafo 1°, do Código de Processo Penal brasileiro. Vejamos: Art. 400. Na audiência de instrução e julgamento, a ser realizada no prazo máximo de 60 (sessenta) dias, proceder-se-á à tomada de declarações do ofendido, à inquirição das testemunhas arroladas pela acusação e pela defesa, nesta ordem, ressalvado o disposto no art. 222 deste Código, bem como os esclarecimentos dos peritos, às acareações e ao reconhecimento de pessoas e coisas, interrogando-se, em seguida, o acusado. § 1º As provas serão produzidas numa só audiência, podendo o juiz indeferir as consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias. Portanto, as circunstâncias que cercam o caso concreto devem ser provadas, em razão de sua relevância no momento de fixação da pena. Assim, a função probatória deve se limitar aos fatos relevantes do caso, isto é, àqueles pertinentes e úteis ao julgamento da ação penal. 2.1 TIPOS DE PROVA PERICIAIS O Código de Processo Penal estabelece os seguintes tipos de prova: o exame de corpo de delito, que é a prova pericial, o interrogatório do acusado, a confissão, as perguntas ao ofendido, as testemunhas, o reconhecimento de pessoas ou coisas, a acareação, os documentos, os indícios e a busca e apreensão. O laudo pericial, por fornecer maior veracidade dos fatos, tendo em vista sua imparcialidade, tornou-se de maior importância. O exame de corpo de delito possuigrande relevância para a prova forense, pois é uma perícia técnica, e visa comprovar a materialidade (existência) de um delito com vestígios. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 88 FIGURA 2 – PROVA PERICIAL FONTE: <portaleducacao.com.br/curso-online-medicina-pericias-criminais/p>. Acesso em: 5 dez. 2019. O corpo de delito pode ser separado em duas categorias, de acordo com sua durabilidade: • Permanente: quando os vestígios têm durabilidade maior, como homicídio ou falsidade material. • Transeunte: significa transitório, e ocorre quando a condição não deixa vestígios permanentes, como o crime de ameaça verbal ou contravenção de importunação ofensiva ao pudor. Ademais, pode ser classificado quanto à forma de sua verificação: • Direto: quando realizado pelo perito, diretamente sobre os vestígios deixados. Por exemplo, quando o perito possui a oportunidade de analisar diretamente o cadáver ou documento materialmente falso. • Indireto: quando o perito necessita realizar análise que não recai diretamente nos vestígios para encontrar informações. É algo que não está disponível, podendo ser utilizados depoimentos, fotografias, gravações, objetos encontrados ou até um prontuário médico. Na impossibilidade de exame de corpo de delito direto ou indireto, é admitida a prova testemunhal, conforme permite o artigo 167 do Código de Processo Penal: “Não sendo possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir-lhe a falta”. Ademais, o artigo 158 desta lei passou a contar com parágrafo único, que prevê a prioridade na realização do exame de corpo de delito quando se tratar de crime que envolva violência doméstica e familiar contra mulher ou violência contra criança, adolescente, idoso ou pessoa com deficiência. Este artigo deixa claro a importância do exame de corpo de delito, não dando ao juiz arbitrariedade para decidir sobre a realização, pois está vinculada a decisão do magistrado de que seja realizado o exame de corpo de delito quando a infração deixar vestígios. TÓPICO 1 | PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS 89 O Código de Processo Penal, em seu artigo 159, prevê a figura do perito oficial, com o seguinte texto legal: “O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior”. Já o artigo 184 desta lei determina que a autoridade não poderá indeferir a realização de exame de corpo de delito. Vejamos: “Salvo o caso de exame de corpo de delito, o juiz ou a autoridade policial negará a perícia requerida pelas partes, quando não for necessária ao esclarecimento da verdade”. IMPORTANT E Corpo de delito é o conjunto de elementos, não um meio específico de prova. O conjunto de vestígios que apontam a existência do crime não se restringe aos referentes ao corpo físico da vítima. Portanto, não confunda o corpo de delito com o corpo da vítima, pois este é um dos vestígios que podem compor o corpo de delito. Em outra alçada, no Código de Processo Civil, espécies de provas periciais estão especificadas em seu artigo 420. Temos, portanto, três categorias: o exame, a vistoria e a avaliação. O exame pericial tem como objetivo a análise e observação de pessoas ou objetos, como examinar uma pessoa, a fim de que se avalie seu real estado de saúde físico e mental; determinado material genético pode ser objeto de perícia em casos de exame de investigação de paternidade; um objeto pode ser analisado para verificar a existência de defeitos e vícios. A segunda categoria de perícia é a chamada vistoria, que consiste no exame de bens imóveis com o intuito de verificar se estão comprometidos ou danificados. Na terceira categoria, por fim, temos a avaliação de prova pericial, sendo que sua finalidade é a aferição de valor de mercado de determinado bem. Enquanto é dada uma demanda judicial, cada parte tentará, pelos meios possíveis, provar ser detentora de direito com o objetivo final de convencer o juiz, a fim de que este possa julgar a lide a seu favor. Quando aparecem casos em que a solução de um fato duvidoso não seja de conhecimento comum, ou seja, que não seja entendida pela experiência ou sabedoria do magistrado, será determinada a produção de prova pericial. O artigo 420 do Código de Processo Civil enumera três situações em que não será deferida sua produção: quando a prova do fato não depende do conhecimento especial de técnico; quando for desnecessária, em vista de outras provas que já foram produzidas; e quando for impossível realizar a verificação. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 90 2.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS CARACTERÍSTICOS DAS PROVAS PERICIAIS Determinados princípios foram criados para estruturar o Estado de Direito. Esses princípios podem ser observados nas constituições existentes no mundo, pois são responsáveis por definir a estrutura básica, fundamentos e bases para determinado sistema. Estado de Direito é o modelo em que a lei conduz a vida social e também a do Estado. Por meio da lei, todas as competências e funções dos órgãos do Estado são definidos, além disso, os cidadãos estarão protegidos por mecanismos que lhes darão o direito de pleitear, quando esse não tiver cumprindo os seus objetivos. Ao analisar os princípios, é importante, primeiro, diferenciá-los das regras. Embora sejam parecidos em alguns aspectos, cada um tem sua relevância no ordenamento jurídico e, portanto, não podem ser tratados como iguais. Assim, os princípios são as normas, compatíveis com vários graus de concretização; já as regras são normas que tem caráter de exigência, as quais podem ou não serem cumpridas, sem grau intermediário de concretização. Os princípios básicos da Constituição Federal de 1988 característicos das provas são: • Princípio da legalidade. • Princípio do contraditório e da ampla defesa. • Princípio da verdade real. • Princípio do livre convencimento do juiz. • Princípio da proporcionalidade da lei. O princípio da legalidade é a garantia primordial do devido processo legal. Está previsto na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5°, inciso LIV: “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. Isso quer dizer que é obrigatório todos os atos processuais obedecerem ao que se encontra prescrito na Constituição. Todos os outros derivam dele. O princípio do contraditório está previsto no artigo 5°, inciso LV, desta Carta Magna, estabelecendo que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. É o instrumento técnico para a efetivação da ampla defesa, e consiste praticamente em poder contrariar a acusação. As partes que estão ligadas ao processo criminal têm o direito de participar diretamente do exercício da jurisdição. TÓPICO 1 | PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS 91 De acordo com o Decreto n° 678, de 6 de novembro de 1992, que promulga a Convenção Americana sobre Direitos Humanos – o Pacto de São José da Costa Rica –, em seu artigo 8°, há a determinação de uma das garantias judiciais. Vejamos: Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza. Desse modo, o contraditório busca a igualdade de oportunidade no processo e igual tratamento entre as partes e, a partir disso, pode dar a oportunidade para que ambos possam apresentar suas razões ou provas, e que, de formas iguais, podem influir no veredicto. A ampla defesa está contida no artigo 5° da Constituição, no inciso LV. É uma garantia ligada ao princípio do contraditório, e que se estrutura no direito de as partes oferecerem argumentos que lhes favoreçam, utilizandotodos e qualquer meios de provas possíveis que sejam permitidos por lei. Isso abrange a defesa técnica, a autodefesa, a defesa efetiva e a utilização de todas as formas passíveis de demonstrar inocência do acusado. A prática da ampla defesa só é possível em decorrência do direito à informação, um dos elementos garantidos pelo contraditório. Além de ser uma garantia fundamental, inerente ao próprio Estado Democrático de Direito, seu cumprimento é indispensável para permitir um processo justo, permitindo ao réu meios de comprovar suas alegações. Tão importante, pois, que o próprio Supremo Tribunal Federal editou a Súmula 523, com a seguinte entendimento: “No processo penal, a falta da defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu”. Também é disposto no Código de Processo Penal, em seu artigo 261, que “nenhum acusado, ainda que ausente ou foragido, será processado ou julgado sem defensor”. O princípio da verdade real é a base para o procedimento do juiz, no que diz respeito à investigação de como os fatos ocorreram na realidade, não se conformando, apenas, com a verdade formal estabelecida. Deve existir o sentimento de busca do julgador, e cabe ao magistrado buscar outras fontes de prova e todos os mecanismos. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 92 A verdade real é guiada pela colheita de elementos probatórios essenciais e lícitos, para provar com segurança todos os pormenores da infração penal cometida, levando em consideração o autor, o local da infração, a vítima, as motivações, o modo como foi feita, quais os bens jurídicos que foram afetados e afins. Não apenas imprescindível para assegurar a base da Carta Magna de 1988, como para enraizar os métodos de busca da justiça. O princípio do livre convencimento do juiz, também conhecido como o princípio da livre convicção motivada, diz que o magistrado forma o seu convencimento livremente em busca da justiça efetiva e ágil. O artigo 155 do Código de Processo Penal dispõe que o juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Fica a critério do juiz a produção das provas que entende necessárias para seu convencimento, bem como para sua motivação, podendo ser excluídos fatores que considere como usados para retardar as demandas judiciais, ou seja, evitar a produção de provas que sejam usadas com a finalidade de atrasar a lide. É claro que isso ocorre apenas quando o conjunto de provas existente nos autos é suficiente para o convencimento do magistrado. Ele deve embasar suas decisões com base nas provas existentes nos autos, levando em consideração sua livre convicção pessoal motivada. A intenção é que, assim, possam ser feitos procedimentos mais ágeis e menos burocráticos, mas com a mesma segurança jurídica. O princípio da proporcionalidade da lei não é previsto expressamente na Carta Magna de 1988, no entanto, é tido como um dos principais quando se trata de provas, pois estabelece diretriz para o que pode ser considerado lícito ou ilícito. É necessário que haja uma comparação entre o interesse que se quer defender e a intimidade que se deseja preservar. O princípio pautado na razoabilidade é posto em prática diante de um conflito entre direitos fundamentais. Baseando-se em três subprincípios para buscar a solução, inicialmente busca-se a adequação do meio, em seguida, a necessidade deste meio, e, por fim, a ponderação ou proporcionalidade em sentido estrito: • Adequação: análise de que os meios usados são efetivamente capazes de atingir os objetivos pretendidos, não infringindo outro princípio. • Necessidade: o ato administrativo deve ser, dentre todos os meios possíveis, o menos restritivo aos direitos individuais, por meio de medida que atinja em menor potencial o direito fundamental em questão. TÓPICO 1 | PROVAS E PERÍCIAS CRIMINAIS 93 • Proporcionalidade em sentido estrito: após considerar a intensidade e a importância de intervir no direito fundamental, deve existir proporção adequada entre os meios utilizados e os fins pretendidos. Proíbe não só o excesso – exagerada utilização de meios em relação ao objetivo almejado –, mas também a insuficiência de proteção – ou seja, os meios utilizados estão aquém do necessário para alcançar a finalidade do ato. Serve, então, como método interpretativo para a resolução de conflitos, visando limitar possível excesso legislativo que possa vir a cercear os direitos de quem deveriam protegê-los. Dividida em duas partes, a atividade pericial pode ser exercida na fase investigativa e na fase processual. A autoridade que determinar a perícia e as partes poderão oferecer quesitos. Na fase de inquérito, o objetivo da perícia é realizar a análise antes que vestígios possam desaparecer ou se modificar. A prova pericial, em alguns casos, requer agilidade. A investigação, entretanto, não dá direito ao princípio do contraditório, a não ser quando a defesa pode acompanhar a perícia ou quando o Ministério Público possuir grande interesse e designar alguém para a função. As provas periciais nem sempre podem ser reproduzidas em juízo após serem produzidas no inquérito. Isso ocorre justamente em razão das possíveis alterações, às quais os vestígios se submetem. No entanto, segundo o artigo 159, parágrafos 3° e 5°, do Código de Processo Penal, as partes também podem apresentar quesitos. Com a perícia de inquérito finalizada, pode acontecer o denominado contraditório diferido ou postergado, exercício do direito ao contraditório após a realização da prova pericial, normalmente contradita pela defesa e raramente pelo Ministério Público. Apesar do grande valor que a prova técnica apresenta, deve ser analisado todo o conjunto probatório e, caso haja um conflito, o juiz pode desconsiderar a perícia, como consta o artigo 182 do Código de Processo Penal: “O juiz não ficará adstrito ao laudo, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo, no todo ou em parte”. Portanto, fazendo o uso do laudo pericial, o defensor tem a chance de formular quesito ou solicitar esclarecimento, mesmo que a situação não possa mais ser reproduzida. É possível, também, que um perito contratado pela defesa possa trazer argumentos que contestem a perícia anterior, como técnicas melhores e novos dados. Os chamados assistentes técnicos (peritos das partes) podem ter peso crucial no processo penal. 94 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Provas são elementos utilizados para evidenciar a existência e a veracidade de um fato. • A finalidade da prova pericial, no processo, é influenciar no convencimento do julgador. • A prova pericial é apresentada a partir de um exame técnico supervisionado por profissional especialista da área. • Elementos de prova são todos os fatos ou circunstâncias em que reside a convicção do juiz, como um depoimento de testemunha, resultado de perícia ou conteúdo de documento. • Os peritos podem ser nomeados pelo magistrado, ou podem ser oficialmente constituídos por obra de concurso público. • Em toda ação penal, existem dois pontos cruciais: a materialidade e a autoria do fato criminoso. • A função probatória deve se limitar aos fatos relevantes do caso, ou seja, dos pertinentes e úteis ao julgamento da ação penal. • O Código de Processo Penal estabelece como tipos de prova o exame de corpo de delito, o interrogatório do acusado, a confissão, as perguntas ao ofendido, as testemunhas, o reconhecimento de pessoas ou coisas, a acareação, os documentos, os indícios e a busca e apreensão. • O exame de corpo de delito tem grande relevância quando falamos em prova forense, pois se trata de perícia técnica que visa comprovar a materialidade, ou seja, a existência do delito que deixa vestígio. 95 1 (FCC/TRT – 6ª REGIÃO – Analista Judiciário/2018)A Constituição Federal autoriza o pedido de interceptação de comunicações telefônicas, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de: a) ( ) Investigação de improbidade administrativa. b) ( ) Prova em ação civil de investigação de paternidade. c) ( ) Investigação criminal ou instrução processual penal. d) ( ) Instrução de inquérito civil. e) ( ) Prova em ação civil de alimentos. 2 (FUNCA/SJUS-RO – Médico Nutrologista/2010) O Código de Processo Penal ao disciplinar a questão DA PROVA enuncia inúmeras regras e procedimentos que devem ser seguidos para que a persecução criminal tenha o seu trâmite normal. Tendo em vista o Código de Processo Penal, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) O exame de corpo de delito poderá ser feito em qualquer dia e a qualquer hora. b) ( ) Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. c) ( ) Os peritos elaborarão o laudo pericial, no qual descreverão, minuciosamente, o que examinarem, e responderão aos quesitos formulados. d) ( ) Os exames de corpo de delito e as outras perícias serão feitos por dois peritos oficiais. e) ( ) A autópsia será feita pelo menos seis horas depois do óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes daquele prazo, o que declararão no auto. 3 (FAPEMS/PC-MS – Delegado de polícia/2017) A busca e apreensão está prevista no Código de Processo Penal vigente como um meio de prova possível de ser realizada antes e durante a investigação preliminar, no curso da instrução criminal e, ainda, na fase recursal. A esse respeito, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A busca pessoal será realizada pela autoridade policial, independentemente de mandado, no caso de prisão, quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida, no decorrer da busca domiciliar nas pessoas que se encontrem no interior da casa. b) ( ) A autoridade policial, assim que tomar conhecimento da prática da infração penal, deverá colher todas as provas e determinar a imediata busca e apreensão de objetos, o que prescinde de autorização judicial, pois é, um ato administrativo autoexecutável. AUTOATIVIDADE 96 c) ( ) Autoridade policial não poderá penetrar no território de jurisdição alheia para o fim de apreensão, quando for no seguimento de pessoa ou coisa, sem antes se apresentar obrigatoriamente e sempre antes da diligência à competente autoridade local. d) ( ) Dispõe do Código de Processo Penal vigente que a busca pessoal em mulher será sempre realizada por outra mulher, o que se estende às transsexuais e às travestis, uma vez reconhecido o direito de se identificarem como do gênero feminino, devendo a autoridade policial observar de maneira fidedigna essa regra. e) ( ) Não será permitida a apreensão de documento em poder do defensor do acusado pela autoridade policial, mesmo que constituir elemento do corpo de delito, haja vista a probabilidade de servir de prova de tese defensiva. 4 (FUMARC/PC-MG – Delegado de polícia substituto/2018) Acerca da prova da materialidade através de perícia (desconsiderando-se a possibilidade de prova da materialidade por exame de corpo de delito indireto ou prova testemunhal), relativamente aos crimes de furto qualificado pela destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa (CP, art. 155, §4º, I), de furto qualificado pela escalada (CP, art. 155, §4º, II), de furto qualificado pelo emprego de explosivo ou artefato análogo que cause perigo comum (CP, art. 155, §4º-A), de incêndio (CP, art. 250), e de explosão simples e privilegiada (CP, art. 251, caput e §1º), é INCORRETO afirmar: a) ( ) A materialidade do crime de furto qualificado pela destruição de obstáculo à subtração da coisa se comprova nas hipóteses em que o laudo pericial, além de descrever os vestígios, indique com que instrumentos, por que meios e em que época presume-se ter sido o fato praticado. b) ( ) A legislação processual penal não exige a realização de perícia para a comprovação da materialidade do crime de furto qualificado pela escalada. c) ( ) Para comprovar a materialidade do crime de incêndio, os peritos verificarão a causa e o lugar em que este houver começado, o perigo que dele tiver resultado para a vida ou para o patrimônio alheio, a extensão do dano e o seu valor, bem como as demais circunstâncias que interessarem à elucidação do fato. d) ( ) Para que incida a circunstância qualificadora prevista no art. 155, §4º-A, do CP (crime de furto qualificado pelo emprego de explosivo ou artefato análogo que cause perigo comum), os peritos devem analisar a natureza e a eficiência dos instrumentos empregados para a prática da infração. 97 5 (FUNCAB – PC-RO – Médico Legista/2012) A respeito da prova pericial no âmbito do processo penal é correto afirmar: a) ( ) As partes não poderão indicar assistentes técnicos particulares para acompanhamento da perícia, sob pena de prejuízo à imparcialidade da prova. b) ( ) Os peritos, a seu critério, poderão elaborar laudo pericial ou responder oralmente aos quesitos formulados. c) ( ) A autópsia será feita pelo menos doze horas depois do óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes daquele prazo, o que declararão no auto. d) ( ) A prova testemunhal não supre a falta de exame de corpo de delito cuja realização não foi possível. e) ( ) O exame de corpo de delito poderá ser realizado a qualquer dia e a qualquer hora. 98 99 TÓPICO 2 O PERITO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Advindo do latim, peritus,a,um, perito significa “aquele que possui especialização”, ou “capacidade ou experiência” em certa atividade. É definido como o técnico que, designado pela justiça, recebe o encargo, mediante exames específicos, de prestar esclarecimentos necessários e indispensáveis à solução de uma demanda processual. É, portanto, um assessor do juiz, com função estatal, destinada a fornecer dados instrutórios de ordem técnica e a proceder a verificação e formação do corpo de delito. Assim, é a pessoa que, sob compromisso, torna-se responsável por esclarecer, por meio de laudo, uma questão de fato que pode ser apreciada por seus conhecimentos técnicos especializados (MIRABETE, 2000, p. 170). Por ter a função de fornecer elementos processuais, a atividade é regulada pelo Código de Processo Penal e pelo Código de Processo Civil. Os peritos, sejam criminais ou civis, são auxiliares da justiça, com conhecimento especializado em determinada área, sujeitos à disciplina judiciária e aos mesmos impedimentos dos juízes. FIGURA 3 – A CENA DO CRIME FONTE: <ifar.com.br/artigo/seja-perito-criminal-e-ganhe-ate-r-24mil-mês>. Acesso em: 5 dez. 2019. 100 UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS No direito processual criminal brasileiro, a perícia criminal está inserida no título das provas, que se divide em dez tipos de prova: • Pericial. • Interrogatório do acusado. • Confissão. • Perguntas à vítima. • Testemunhal. • Reconhecimento de pessoas ou coisas. • Acareação. • Documental. • Indiciária. • Busca e apreensão. Diferentemente do processo civil, no qual prevalece a verdade formal, ou seja, as produzidas no processo, conforme os argumentos e provas trazidas pelas partes, no processo penal prevalece o princípio da verdade real, em que "o juiz tem o dever de investigar como os fatos se passaram na realidade" (CAPEZ, 2003, p. 26). O trabalho do perito é a emissão de parecer técnico, que tem a função de um juízo de valor cientificamente fundamentado, e cuja área de conhecimento extrapola o senso comum ou especificamente o conhecimento jurídico. Por ser processo penal, como regra geral, as perícias são realizadas por peritos oficiais, policiais especializados. São integrantes das instituições de polícia judiciária. Porém, em alguns estados brasileiros, a perícia não integra a polícia. Nesses casos, normalmenteestão vinculados a uma superintendência de polícia técnica, a qual reúne os institutos de identificação, medicina legal e criminalística. Todo esse complexo é vinculado à secretaria de Segurança Pública ou de Defesa Social do Estado. Estabelece o artigo 159 do Código de Processo Penal que cabe aos peritos a realização dos exames de corpo de delito: Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de diploma de curso superior. § 1º Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. § 2º Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. § 3º Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos e indicação de assistente técnico. § 4º O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo juiz e após a conclusão dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta decisão. § 5º Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, quanto à perícia: TÓPICO 2 | O PERITO 101 I- requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para responderem a quesitos, desde que o mandado de intimação e os quesitos ou questões a serem esclarecidas sejam encaminhados com antecedência mínima de 10 (dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo complementar; II- indicar assistentes técnicos que poderão apresentar pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz ou ser inquiridos em audiência. § 6º Havendo requerimento das partes, o material probatório que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for impossível a sua conservação. § 7º Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de um assistente técnico. Dessa forma, o perito é aquele profissional chamado a emitir o parecer, não apenas as observações técnicas e suas impressões pessoais, mas as deduções possíveis a partir daquelas. Para tanto, é preciso que o perito seja dotado de conhecimentos e aptidões especiais, seja profundo conhecedor, ou seja, o perito deve ser especialista no assunto e dispor de equipamentos que possibilitem ter a sua capacidade de observação ampliada, de modo a ver de modo profundo como correlacionar cientificamente os dados obtidos. No Brasil, os peritos podem ser oficiais ou ad hoc (não oficiais). 2 PARTICULARIDADES DA ATIVIDADE DO PERITO Assim como qualquer outra profissão, a atividade do perito possui características próprias, e que devem ser analisadas com atenção. A seguir, apresentamos quais são as modalidades, bem como a conceituação e sua legislação determinante: • Oficiais: são os médicos legistas e peritos criminais, conforme define o artigo 159 do Código de Processo Penal. • Louvados, nomeados, designados, não oficiais, ad hoc: são os peritos definidos pelos artigos 159, parágrafos 1° e 2°, do Código de Processo Penal, 156, parágrafo 1°, do Código de Processo Civil, e 3° da Lei nº 5.584, de 26 de junho de 1970. • Assistentes técnicos: são os peritos indicados pelas partes no juízo civil ou trabalhista. Sua definição está estabelecida nos artigos 131, inciso I, 421, inciso I, e 422, do Código de Processo Civil, e artigo 3° da Lei n° 5.584, de 26 de junho de 1970. Agora, vamos analisar quais são os impedimentos legais para exercício da função de perito: 102 UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS • Por indignidade: ocorre por inidoneidade, incompetência ou interdição temporária de direitos, por interdição de direitos. • Por incompatibilidade: por ter prestado depoimento ou opinado sobre o objeto da perícia. em razão da matéria. • Por incapacidade: analfabetos e menores de 21 anos. • Por suspeição: artigos 280 e 254 do Código de Processo Penal. Quanto à profissão, podemos dizer que o perito não é clínico, pois este: • Deve acreditar no paciente. • Deve questionar a validade e a sinceridade. • Tem como objetivo o tratamento (cura). • Atua com Visum et Repetum (descrição). • Está preso ao sigilo. Ademais, cabe salientar que o médico clínico não pode ser perito em processo no qual esteja envolvido seu paciente, devendo se declarar suspeito ao juiz que o nomear perito do juízo. No que se refere às qualidades da atuação do perito, temos as classificações: Ciência; Técnica; Consciência. E quanto à intervenção, temos estas situações: Inquérito; Sumário; Julgamento; Após lavrado a sentença. Assim como qualquer outra profissão, o profissional da perícia recebe por sua atuação, por meio de honorários. A seguir, temos as seguintes possibilidades: • Peritos oficiais: são pagos pelo Estado. • Peritos não oficiais: são arbitrados pelo juiz. • Perícia civil: podem ser reivindicados judicialmente. Portanto, o valor dos honorários a ser definido pode ser baseado no costume do lugar, na reputação profissional do perito, nas possibilidades econômicas dos envolvidos, no tempo despendido, na importância e dificuldade médico-judiciária da ação. TÓPICO 2 | O PERITO 103 DICAS Veja quais são as dez regras para a atuação do perito: Decálogo dos peritos • O perito deve atuar com a ciência do médico a veracidade do testemunho e a equanimidade do juiz. • É necessário abrir os olhos e fechar os ouvidos. • A exceção pode ter tanto valor quanto a regra. • Desconfiar dos sinais patognomônicos. • Deve-se seguir o método cartesiano. • Não confiar na memória. • Uma autópsia não se pode refazer. • Pensar com claridade para escrever com precisão. • A arte das conclusões consiste na medida. • A vantagem da medicina legal está em não formar uma inteligência exclusiva e estritamente especializada. 104 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Os peritos são profissionais especializados, integrantes do quadro de profissionais da polícia científica, ou da polícia civil, dependendo do estado. • A forma de ingressar na área é por meio de concurso público. • A formação do perito criminal abrange inúmeras áreas do conhecimento, como biologia, bioquímica, farmácia, psicologia, medicina, engenharias, entre outras. • O trabalho realizado pelo perito é a perícia, e seus laudos são enviados aos órgãos responsáveis, quando requisitados mediante documentos de praxe, dentro do ordenamento jurídico. • Com a apresentação dos laudos produzidos por um perito criminal, a autoridade poderá usá-los para fornecer elementos, a fim de verificar as causas do crime, acidente ou incidente que produziu prejuízo. 105 AUTOATIVIDADE 1 Leia com atenção o texto a seguir, com trechos selecionados do artigo “Perícia criminal: uma abordagem de serviço”, de autoria de Cláudio Vilela Rodrigues, Márcia Terra da Silva e Oswaldo Mário Serra Truzzi, publicado na Revista Gestão & Produção, na edição de outubro/dezembro de 2010: “A perícia criminal desempenha um papel relevante na rede interorganizacional de segurança pública e justiça criminal. O valor essencial do serviço é fazer o link entre a ciência e a justiça. O valor para a sociedade é conciliar o interesse social de que haja uma apuração eficaz dos delitos, com o respeito aos direitos humanos. Em julgamentos criminais, os juízes entrevistados destacam a objetividade e a imparcialidade da prova pericial. A partir das análises, inferiu- se que esta imagem de objetividade e imparcialidade se deve à associação com a ciência. A Justiça tem como valor central a imparcialidade (“A Justiça é cega”), e a perícia contribui para a operacionalização deste valor. Em serviços, uma questão difícil de lidar é com a intangibilidade, porque elanão é objetiva, é ambígua. Quanto mais intangível um serviço, mais difícil de avaliar. A dualidade entre os resultados tangíveis (evidências) e intangíveis (informações contidas no laudo pericial) do serviço, quanto à tangibilidade (pessoal, artefatos tecnológicos, equipamentos) e a intangibilidade (cenário) presente no processo pericial, induz à reflexão sobre a objetividade, a imparcialidade e a legitimidade da ciência. É no cenário (cena do crime) e no laudo pericial que se encontram a tangibilidade e a intangibilidade do serviço. As evidências tangíveis só são válidas porque elas são legitimadas pela ciência. Pela mesma razão, as informações contidas no laudo pericial são utilizadas pelos juízes, para fundamentação das sentenças judiciais criminais. Os principais recursos do serviço são as competências dos profissionais oriundos de diversos campos do conhecimento, e os artefatos tecnológicos, que os auxiliam no desempenho de suas atividades. Há dois grupos de competências. No primeiro são as técnicas, que consistem em localizar e coletar vestígios na cena do crime, incorporar novas tecnologias, proceder aos exames complementares laboratoriais e/ou especializados, realizar análises científicas com base nos vestígios coletados e emitir conclusões úteis aos destinatários do serviço. No segundo, estão as relacionais, que são essenciais para se construir o valor do serviço. Ressalte- se que as análises mostraram que, para entregar valor, só as competências técnicas não são suficientes, é preciso conhecer a atividade dos destinatários do serviço. 106 A aproximação dos peritos com os destinatários do serviço, principalmente juízes e promotores públicos, para a construção de uma relação dialógica, é essencial à criação de valor nesta rede. Além disso, a falta de um conceito único e explícito de Justiça Criminal para todos os atores cria dificuldades de coordenação e integração desta rede. Finalizando, a partir da definição do valor que o serviço de perícia criminal deve entregar, sugerem-se pesquisas sobre as formas de organizar o serviço”. FONTE: scielo.br/pdf/gp/v17n4/a16v17n4.pdf. Acesso em: 5 dez. 2019. Com base nisso, disserte sobre o tema “A relevância processual do perito”. 107 TÓPICO 3 MODALIDADES DE PERÍCIA UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O Código de Processo Penal descreve várias modalidades de provas perícias aceitas no ordenamento jurídico. Dessa forma, iremos analisá-las ao longo deste tópico seis espécies de perícias encontradas no diploma legal. Sem dúvida, de todas as perícias aceitas no processo penal, o exame de corpo de delito é considerado o mais importante, tanto que o legislador, ao redigir tal diploma, ponderou sua relevância, separando-o das demais perícias. Isso está estabelecido no artigo 158 e seguintes deste Código. Para esclarecer, antes de conceituar tal perícia, deve-se conceituar o que é vestígio e compreender o que é corpo de delito, e suas diferenças. Vestígio é o rastro, a pista ou indício deixado por algo ou alguém, devendo-se compreender rastro como alterações que ocorrem no local, pessoas ou objetos assim que praticada a conduta delituosa, alterações estas capazes de elucidar o caso. Passemos, agora, a analisar o conceito de corpo de delito. 2 EXAME DE CORPO DE DELITO Pode-se afirmar que corpo de delito é o conjunto de vestígios, elementos apreensíveis por meio dos sentidos, os quais são deixados pelo crime (BONFIM, 2010, p. 46). Sem dúvida, o corpo representa a materialidade do crime, podendo ocorrer sobre a vítima, o local e sobre instrumentos e demais objetos relacionados ao crime. Por meio do corpo de delito é possível a elucidação de um crime e/ ou a determinação de sua autoria. A perícia realizada sobre o corpo de delito, é chamada de exame de corpo de delito, podendo ser de forma direta ou indireta O exame pericial está previsto no Código de Processo Penal, em seus artigos 6°, inciso VII, 158, 161, 167 e 168. Ademais, o primeiro artigo citado, em seu inciso VII, cita o exame pericial quando dispõe que a autoridade policial deverá, assim que tomar conhecimento da prática do crime, determinar, se for necessário, que se proceda o exame de corpo de delito e também as demais perícias que se julguem necessárias. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 108 Assim, este Código expõe que é indispensável a realização do exame de corpo de delito quando a infração cometida deixar vestígios, e que o este não pode ser suprido pela confissão, pois há a possibilidade de o acusado confessar crime não cometido por ele, a fim de ajudar o verdadeiro criminoso, conforme seu artigo 158. No artigo 161 do Código está expresso que tal exame não possui dia ou hora para ser realizado, ou seja, poderá ser feito em qualquer tempo. Seguidamente, seu artigo 167 determina que, caso não seja possível a realização do exame por terem desaparecidos os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir tal falta. Já seu artigo 168 traz a figura do exame de corpo de delito quando dispõe que, nos casos de lesões corporais, caso o primeiro exame pericial seja incompleto, será necessária a realização de outro exame, com cunho complementar, devendo ser determinado pela autoridade policial ou judiciária, de ofício ou mediante requerimento do parquet, do ofendido ou do próprio acusado e de seu defensor. FIGURA 4 – A PROFISSÃO FONTE: <blog.verbojuridico.com.br/perito-criminal-como-ingressar-na-profissao>. Acesso: 5 dez. 2019. Salienta-se que o exame de corpo de delito “tem a finalidade de constatar, definir, interpretar e registrar circunstâncias, pessoas envolvidas e todas as particularidades do delito” (COSTA FILHO, 2012, p. 22), devendo ser realizado de forma minuciosa a elaboração do laudo pelo perito. É uma espécie de perícia que abrange diversas outras subespécies, como o exame necroscópico, a exumação, o exame perinecroscópico, entre muitos outros. O exame necroscópico é uma das espécies do exame de corpo de delito, pois é realizado sobre um dos elementos deixados pelo crime: a própria vítima. Este exame recebe diferentes nomes, por exemplo, exame necroscópico, necropsia ou autópsia, sendo este último utilizado de maneira errônea, devido à impossibilidade da realização do exame em si. TÓPICO 3 | MODALIDADES DE PERÍCIA 109 A necropsia, como explica Costa Filho (2012), é o exame interno realizado no cadáver, com o objetivo de se constatar sua causa mortis. Já para Bonfim (2010), a necropsia consiste em primeiramente realizar o exame exterior do cadáver para, em seguida, ser realizado seu exame interno, visando estabelecer a causa da morte. FIGURA 5 – MAPA CONCEITUAL: O EXAME DE CORPO DE DELITO E PERÍCIAS FONTE: <pinterest.se/pin/855050679223061407>. Acesso em: 20 nov. 2019. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 110 3 EXAME NECROSCÓPICO, “AUTÓPSIA” OU NECROPSIA Não é apenas a causa mortis que se busca por meio da necropsia. Procura- se descobrir aspectos da trajetória do projétil, número de ferimentos existentes no cadáver, orifícios de entrada e saída do instrumento utilizado na conduta delituosa, entre outros. O exame de necropsia também é utilizado para a identificação do tempo do crime, ou seja, o momento em que ocorreu, por meio da observação dos chamados fenômenos cadavéricos, como livores hipostáticos, rigidez cadavérica, resfriamento corporal, grau de putrefação e maceração. O exame necroscópico está previsto no artigo 162 do Código de Processo Penal, estabelecendo o prazo de pelo menos seis horas para sua realização após o óbito, salvo se forem evidentes os sinais de morte, podendo os peritos dispensarem tal período, tendo este prazo o objetivo de “evitar equívoco sobre a constatação da morte, como em casos de síncopes, catalepsia e outros casos de morte aparente” (NICOLITT, 2010, p. 420). A necropsia deverá ser realizada toda vez em que ocorrer crimes de homicídio consumado ou mortes violentas, sobre as quais existam suspeitas de crime, devendo ser inicialmente fotografado na posiçãoem que for encontrada a vítima, e as imagens farão parte do laudo, de acordo com as normas estabelecidas nos artigos 164 e 165 deste Código. Cabe ponderar que isso é também considerado um exame de corpo de delito, pois sua realização é sobre a vítima. UNI Como se faz uma necropsia Um médico legista abre e analisa os órgãos de três cavidades do corpo: crânio, tórax e abdome, para descobrir as circunstâncias e as causas da morte. Só três situações exigem esse tipo de exame: morte violenta ou suspeita, quando o corpo é levado para o Instituto Médico Legal (IML); morte natural em que faltou assistência médica ou por doença sem explicação, que fica a cargo do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO); ou quando a doença é rara e precisa ser estudada, mais comum em hospitais acadêmicos. CORTE A CORTE Os procedimentos e o trabalho do legista em uma vítima de morte violenta são os seguintes: 1. Após o reconhecimento da família, o corpo é identificado com um número que remete a documentos como o RG e o boletim de ocorrência. Roupas e projéteis são enviados para o instituto de criminalística da polícia científica, que faz perícias em “cenas de crime” e objetos. O cadáver é pesado e lavado com água e sabão. TÓPICO 3 | MODALIDADES DE PERÍCIA 111 2. Na sala de necropsia, o exame começa com a análise externa do corpo. Médico e auxiliar procuram furos de bala, lesões e até sinais que identificam o morto, como uma tatuagem ou uma cicatriz. Todos os detalhes são anotados e farão parte de um documento emitido pelo IML. 3. “O próximo passo é o exame interno, pela abertura das cavidades do cadáver e pelo exame minucioso de suas vísceras”, conta Roberto Souza Camargo, diretor do IML de São Paulo. Com um corte que vai do pescoço ao púbis e que pode ter formato de Y, de T ou de I, o legista tem acesso à caixa torácica e ao abdome. 4. Os órgãos agredidos que podem ajudar na descoberta da causa da morte são retirados e examinados – como um coração esfaqueado ou o estômago, no caso de envenenamento. É feita tanto uma análise geral quanto microscópica e os resultados são combinados no relatório final. 5. Depois dos órgãos do tórax, o médico corta o couro cabeludo de uma orelha a outra para remover o cérebro. A tampa do crânio é retirada com uma serra elétrica, mas o cérebro só pode ser arrancado se todos os nervos que o conectam ao corpo são cortados – entre eles, os nervos ópticos, ligados aos olhos. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 112 6. Ao final da análise, os órgãos são reinseridos e o corpo é fechado. Os pequenos pedaços utilizados em exames são incinerados. O legista usa uma costura contínua, que tem um ponto inicial e segue do começo ao fim dos cortes. Cabelos e roupas escondem as suturas durante o enterro. 7. O processo inteiro, da chegada à liberação do corpo, dura de quatro a oito horas. A necropsia leva entre duas e três horas. Ao fim do exame, o IML emite uma Declaração de Óbito, com a identificação e o motivo da morte. Com esse documento, a família consegue retirar a Certidão de Óbito em um cartório. INDÍCIOS DE MORTE A aparência de um órgão pode indicar as causas do óbito. Pus no pulmão pode indicar pneumonia – em um paciente que ficou internado por muito tempo, a causa pode ser o próprio entubamento. Pulmões inchados, cheios de pintas vermelhas e face arroxeada indicam asfixia. No caso de afogamento, eles, claro também ficam cheios de água. TÓPICO 3 | MODALIDADES DE PERÍCIA 113 Massa encefálica espalhada é um sinal de fratura no crânio, que pode ser resultado de algum tipo de golpe na cabeça, como uma machadada. Órgãos pálidos representam grande perda de sangue devido a uma hemorragia. Pode ser a consequência de um ferimento a bala no coração, por exemplo. Apesar de o processo ser conhecido popularmente como autópsia, o termo correto é necropsia – uma vez que “auto” indica que você faria o exame em si mesmo. Ah! Vale lembrar: o IML não mexe só com mortos. Em São Paulo, boa parte dos atendimentos (92%) é feita com gente viva, como vítimas de agressões, acidentes de trânsito e de trabalho. FONTE: <super.abril.com.br/mundo-estranho/como-e-feita-uma-autopsia>. Acesso em: 5 dez. 2019. 4 EXUMAÇÃO PARA EXAME CADAVÉRICO A exumação cadavérica é uma nova perícia necroscópica, porém, deverá precedê-la a autorização para exumar o corpo inumado. Conforme entendimento de Nicolitt (2010, p. 420) o exame deverá ser realizado “desde que o exame de corpo de delito, na época apropriada, não tenha sido realizado de forma completa, ou desde que o motivo relevante, superveniente, o justifique”. Assim, pode-se perceber que esse exame tem natureza complementar, sendo requisitado geralmente quando há divergências sobre a causa da morte violenta ou sobre suas circunstâncias (BINA, 2009). Deve-se sempre tomar o devido cuidado, pois exumação importa o desenterramento do cadáver, que é retirado da sepultura para a realização de exames, seja em razão de dúvida superveniente, seja pela deficiência do exame anterior, seja por ferir sentimentos ou inconformismos das partes. Devem ser obedecidas as disposições legais e todas as formalidades para que não se caracterize o crime de violação de sepulturas e demais crimes referentes ao respeito aos mortos. Segundo o previsto no artigo 163 do Código de Processo Penal, a exumação deverá sempre ter dia e hora previamente marcados pela autoridade responsável, sendo lavrado autocircunstanciado, e devendo o responsável pelo cemitério público ou particular indicar o local da sepultura, sob pena de desobediência. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 114 Caso não exista administrador no cemitério, ou existindo, este se recuse a indicar o local da inumação, ou até mesmo caso o cadáver não esteja no local próprio, a autoridade deverá realizar as devidas pesquisas para encontrá-lo, devendo tudo ser descrito nos autos. Depois de realizada a exumação e dirimida qualquer dúvida acerca da identidade do cadáver, os peritos realizarão, de certa forma, novo exame de corpo de delito, a fim de sanar as dúvidas motivadoras da exumação. Assim como ocorre na necropsia, na exumação do cadáver também deverá ser fotografado na posição em que for encontrado, devendo tais fotografias serem juntadas ao laudo, como determinam os artigos 164 e 165 deste Código. NOTA Exumação de corpos: o que acontece durante o processo? Processos corretos para exumação de corpos: É necessária a presença de um oficial de saúde ambiental durante o processo da exumação. Este oficial irá fazer a supervisão de todo o processo, principalmente para fins de saúde pública, saúde pessoal e verificar se a pessoa falecida é tratada com respeito pelos técnicos presentes. Este oficial irá certificar-se de que: • O túmulo a ser aberto é o correto. • A exumação tem início bem cedo, pela manhã, para o máximo de privacidade. • Todos os técnicos no local estejam seguindo as regras de segurança e saúde, como, usar roupas adequadas e protegidas, equipamentos de segurança pessoal, lanternas, toucas, luvas etc. • Todos os que estão presentes mostram devido respeito ao falecido durante a exumação, e as sepulturas que ali estão. • A placa de identificação do caixão está correta. • O novo caixão foi aprovado pelo Comandante da Saúde Ambiental. • Todos os restos humanos e todas as peças contidas nele irão para o novo caixão durante a exumação. TÓPICO 3 | MODALIDADES DE PERÍCIA 115 • O novo caixão está corretamente lacrado. • Qualquer possibilidade de infecção ou contágio de doenças seja controlada. • Estão sendo tomadas as medidas corretas para a transferência dos restos durante a exumação. O oficial que irá comandar todo o processo de exumação de corpos deve também certificar-se que as condições para a licença foram cumpridas, também aspectos sociais, saúde e da parte estrutural do cemitério. Caso isso não esteja feito o processo de exumação não inicia. FONTE: <exumacaodecorpos.com.br>. Acesso em: 5 dez. 2019. 5 EXAME PERINECROSCÓPICOO vocábulo “peri” vem de periferia, logo, tal exame é realizado sobre a região periférica do cadáver. Em outras palavras, o local em volta deste (BINA, 2009). Ao contrário da necropsia, feita sobre o corpo e realizada pelo médico legista, o exame perinecroscópico é realizado no local do crime, por peritos criminais, devendo ser formalizado por meio de laudos. Só é realizado em casos de crimes que atentem contra a vida, ficando a cargo do exame do local do crime a análise do ambiente dos demais crimes onde não exista cadáver. Quando o perito estiver realizando este exame pericial, deverá observar “a posição do corpo, estado das vestes, presença de armas, manchas de sangue, ferimentos do corpo e a evolução dos fenômenos cadavéricos” (SILVEIRA, 2012, p. 1). O Código de Processo Penal prevê a figura do exame nos seus artigos 164 e 169, porém, aparece de forma implícita, logo, a norma deverá ser interpretada ao longo de sua leitura (BINA, 2009). O artigo 164 do Código de Processo Penal prevê o exame do local, em razão da necessidade de ser fotografado o cadáver na posição em que for encontrado, assim como todas as lesões externas e vestígios deixados no local, para que possa ser realizada minuciosamente a análise. Vejamos: Art. 164. Os cadáveres serão sempre fotografados na posição em que forem encontrados, bem como, na medida do possível, todas as lesões externas e vestígios deixados no local do crime. 6 EXAME DO LOCAL DO CRIME No caput do artigo 169 do Código de Processo Penal este exame está previsto, pela necessidade do isolamento do local do crime, objetivando que os elementos deixados possam permanecer intactos até a chegada dos peritos, os UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 116 quais examinarão o local. Há a possibilidade de alteração do estado das coisas, devendo ser registrado no laudo pelos peritos e, posteriormente, discutidas as consequências em relação aos fatos ocorridos. Em síntese, o exame tem como objetivo analisar os crimes de “incêndio, furto qualificado pelo arrombamento ou pela escalada e crimes que sempre deixam vestígios, sem que exista cadáver” (SILVEIRA, 2012, p. 1), deixando o exame perinecroscópico para local do crime com mortos, conforme já estudamos. Este exame é muito utilizado em crimes de trânsito, pois é elaborado por meio da observação das marcas feitas de pneu. Ainda, é utilizado em perícia de locais de ocorrência de crimes, a fim de verificar a posição em que se observa o aspecto de desordem, a situação dos móveis e utensílios, portanto, fendas e massas em paredes, assoalhos e teto devem ser atentamente observados. UNI Local do crime em casos de homicídio Observe a figura abaixo e identifique os elementos importantes para a realização da perícia em caso de crime de homicídio. Veja que o local de crime é uma diligência das mais importantes na Criminalística moderna. Preservá-lo significa garantir a sua integridade para a colheita de vestígios que esclarecerão ou auxiliarão no esclarecimento da mecânica dos fatos. É, pois, a contribuição concreta e decisória no esclarecimento da causa jurídica da morte. FONTE: <asbacsindicato.com.br/mais-noticias/local-de-crime>. Acesso em: 5 dez. 2019. TÓPICO 3 | MODALIDADES DE PERÍCIA 117 Pegadas e impressões digitais devem ser colhidas, descritas e fotografadas. Manchas, tintados e incrustações devem ser raspadas e enviadas ao laboratório (SILVEIRA, 2012, p. 1). Em acidentes de trânsito verifica-se o local dos veículos, os pontos de impacto, a fim de verificar a imprudência, imperícia ou negligência (NICOLITT, 2010). Os artigos 6°, inciso I, e 169 do Código de Processo Penal preveem esta espécie de perícia, determinando que a autoridade deve isolar o local, para que nada nem ninguém altere o estado e a conservação das coisas até a chegada dos peritos. Assim, estes poderão analisar o local, colher os indícios, e instruir seus laudos com fotos, desenhos e esquemas ilustrativos. Vejamos: Art. 169. Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos. Parágrafo único. Os peritos registrarão, no laudo, as alterações do estado das coisas e discutirão, no relatório, as consequências dessas alterações na dinâmica dos fatos. 7 EXAME SOBRE OS INSTRUMENTOS DO CRIME O artigo 171 do Código de Processo Penal demonstra os crimes que este exame abordará, e também a necessidade da descrição dos vestígios, a indicação do instrumento utilizado, os meios empregados e o tempo em que os atos foram praticados. Art. 171. Nos crimes cometidos com destruição ou rompimento de obstáculo a subtração da coisa, ou por meio de escalada, os peritos, além de descrever os vestígios, indicarão com que instrumentos, por que meios e em que época presumem ter sido o fato praticado. Já o artigo 173 deste Código se preocupa em nortear os casos de incêndio, nos quais serão necessários o exame do local do crime, devendo o perito verificar a causa e o lugar em que o mesmo começou, e informar o grau de perigo, a extensão do dano, seu valor e todos os dados importantes para sua elucidação. Vejamos o que diz o texto legal: Art. 173. No caso de incêndio, os peritos verificarão a causa e o lugar em que houver começado, o perigo que dele tiver resultado para a vida ou para o patrimônio alheio, a extensão do dano e o seu valor e as demais circunstâncias que interessarem à elucidação do fato. Para objetos utilizados para a realização do crime – revólver, faca, pedaços de madeira, estilete, por exemplo – é necessário verificar sua natureza, ou seja, é necessário estabelecer a espécie e a qualidade, como o reconhecimento do calibre de uma arma de fogo. Este exame é muito utilizado no ramo da perícia denominado balística forense. UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 118 LEITURA COMPLEMENTAR Vamos ler mais sobre o que é balística forense? Leia o texto a seguir. Balística forense: perícia em armas de fogo e munições Hoje, falaremos sobre algumas noções básicas necessárias para o exame de balística. Vamos conhecer as classificações das armas e os tipos de munições mais utilizadas. Quando falamos sobre tipos de armamento, podemos classificá-los entre leve e pesado. Dentro dos armamentos leves, podemos segmentá-los quanto ao seu tamanho e forma de transporte: • Armamento de porte: quando por seu pouco peso e dimensões reduzidas, pode ser conduzida em um coldre. Podemos citar, a título de exemplo, a pistola, o revólver e a garrucha. • Armamento portátil: pode ser transportada por um só homem, porém, geralmente dotada de bandoleira para comodidade no transporte. Por exemplo, o fuzil, a carabina e a escopeta. Quanto ao seu tipo de funcionamento, as armas podem ser: • Alimentação manual: o atirador executa as operações da arma manualmente, principalmente o carregamento. Este pode ser simples, e a arma comporta apenas uma carga para cada disparo. Para um novo disparo, o atirador deve carregá-la novamente; ou múltipla, quando a arma comporta duas ou mais cargas, sendo que o carregamento também é manual. Em regra, possui dois canos paralelos ou sobrepostos. Há ainda mecanismo de disparo para cada câmara. Podemos exemplificar com espingardas e rifles. Rifle de cano duplo - Alimentação manual Revólver - De repetição Pistola - Semiautomática Metralhadora - Automática TÓPICO 3 | MODALIDADES DE PERÍCIA 119 • De repetição: a arma comporta várias cargas (cartuchos), sendo necessário recarregá-la apenas após ter disparado todas as cargas. Seu princípio motor é a força muscular do atirador, decorrendo a necessidade de repetir a ação para cada disparo. Há ainda um mecanismo de disparo para todas as cargas. São exemplos os revólveres e mosquetões. • Semiautomáticas: realizam todas as operações de funcionamento, com exceção dos disparos, ou seja, para cada disparoo atirador deve acionar a tecla do gatilho, como pistolas e fuzis semiautomáticos. • Automáticas: realizam todas as operações de funcionamento, inclusive o disparo, após o atirador pressionar e manter pressionado a tecla do gatilho. Temos como exemplo a metralhadora MT40. Ademais, a munição, chamada de cartucho, é composta por projétil, estojo, propelente e espoleta. Vejamos: • Espoleta: pequeno recipiente metálico, em forma de cápsula, que contém a mistura iniciadora, montada no alojamento localizado no centro do culote do estojo. Quando tocada de forma brusca pelo percussor, que gera calor pelo atrito, iniciando uma reação química de alta velocidade que gera uma fagulha, queimando da pólvora contida no estojo. • Pólvora, propelente, ou carga de projeção: combustível sólido, granular, com diversos formatos de grãos, podendo inflamar com grande rapidez, com produção de grande volume de gases e elevação de temperatura, sem necessitar de oxigênio do exterior. É o elemento ativo do cartucho. Genericamente conhecida como pólvora, a carga de projeção é responsável pela produção de gases mediante sua combustão para expelir o projétil. • Estojos: podem ser classificados como de fogo central ou de fogo circular, conforme a localização da espoleta. Nos estojos de fogo circular o misto iniciador se localiza no interior do estojo, já os de fogo central a espoleta fica no centro da base do estojo. • Projéteis de chumbo: são geralmente cilíndricos compostos por base, corpo e ponta. Destas três, a que mais nos interessa é a ponta do projétil. 1 - Projétil 2- Estojo 3 - Propelente 4 - Espoleta 1 2 3 4 UNIDADE 3 | PROVAS E PERÍCIAS 120 A ponta é a porção que não fica presa ao estojo. Seu tamanho e forma variam em função do tipo do projétil, e podem ser os seguintes: • Ogival: é a mais comum, sendo usada para fins militares, policiais e de defesa. • Canto-vivo: usado especificamente para tiro ao alvo. • Semicanto-vivo: uso geral para defesa, caça e tiro ao alvo. • Cone truncado e ogival truncada: também para uso geral, tem muita aceitação entre praticantes de tiro prático esportivo. • Cônica: de uso restrito. • Ponta oca (hollow point): ajuda na expansão do projétil quando este atinge o alvo, provocando ferimentos graves e dolorosos, e aumentando o sangramento. É usado na defesa e para caça. Seu uso militar foi proibido pela convenção de Genebra. • Projéteis encamisados (jaquetados): construídos por um núcleo recoberto por capa externa denominada camisa ou jaqueta. Destinam-se à defesa pessoal, pois, ao atingir um alvo humano é capaz de se amassar e aumentar seu diâmetro, obtendo maior capacidade lesiva. FONTE: Canal da Perícia (adaptado). <bit.ly/2DTPSU2>. Acesso em: 6 dez. 2019. É importante salientar que além dos tipos de perícias abordados neste livro, existem as realizadas em laboratório, como os exames de sangue, DNA etc. Entretanto, nunca é demais lembrar que os peritos devem realizar a coleta de vestígios deixados pelo crime; logo após, devem enviar ao laboratório alguns dos materiais colhidos para as devidas análises. Para exemplificar os materiais enviados para análise laboratorial, temos amostras de sangue, sêmen, e saliva para a realização do exame de DNA. Por meio deste exame é possível comprovar, por exemplo, a identidade da vítima e também do criminoso, caso estejam sem identificação. Ademais, nos casos de amostra de sangue e do conteúdo estomacal retirado durante a necropsia e enviado ao laboratório é muito comum a realização de exames de toxicologia para a detecção de substâncias entorpecentes proibidas, para o exame de dosagem alcoólica, e de confrontos balísticos. Assim, é possível fazer a comparação microscópica do projétil arrecadado na vítima com outro, disparado pelos peritos com a suposta arma. 1 2 3 4 5 6 7 Chumbo Ponta Plana Chumbo Semi Canto Vivo Chumbo Canto Vivo Chumbo Ogival Expansivo Ponta Oca Expansivo Ponta Plana Encamisado Total Ponta Plana CHPP CSCV CHCV CHOG EXPO EXPP ETPP 121 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Por meio do exame de corpo de delito é possível detectar lesões causadas por qualquer ato ilegal ou criminoso, e pode ser utilizado em diversas situações, como prova essencial para esclarecer tentativa de suicídio, homicídio ou estupro. • No exame de corpo de delito a vítima é minuciosamente examinada, e as lesões são descritas com fidelidade no laudo feito pelo perito médico. • Temos interessantes procedimentos de necropsia e exumação de cadáver, como perícias necessárias em casos específicos e realizadas com extremo zelo profissional e ético por envolver, além do necessário conhecimento técnico, sentimento familiar e pessoal que não pode ser desprezado. • São muitas as modalidades de perícias que podem auxiliar na elucidação de um crime, e de como podem ser complexas. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 122 AUTOATIVIDADE 1 Seguramente, todos nós temos curiosidade em saber o que há na maleta de um perito. A figura a seguir é uma reprodução do que ela deve conter. A seguir, responda à questão proposta. FONTE: <www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u126662.shtml>. Acesso em: 6 dez. 2019. O que é e quando ocorre uma perícia de exumação de cadáver? Quais são os itens da maleta necessários para a exumação? MALETA DO PERITO O perito e sua maleta são inseparáveis; ela instrumentaliza o profissional na hora de analisar a cena do crime >> Papel filtro Para coleta residuográfica de vestígios de projéteis, que indicam se a pessoa efetuou ou não disparo com arma de fogo >> Tesoura Usada para cortar a roupa da vítima, na hora de verificar ferimentos. Também ajuda na coleta de materiais para o laboratório (como cabelo) >> Água oxigenada Identifica algumas substâncias. En contato com o sangue, por exemplo, a água oxigenada borbulha >> Inseticida Quando há vítimas que já estão mortas há muito tempo, geralmente há insetos em volta, que podem transmitir doenças aos peritos e policiais. O inseticida é usado para espantá-los >> Máscara com filtro Para vapores orgânicos e gases ácidos. Usada para que o perito trabalhe melhor em meio ao mau cheiro, como o de corpos em decomposição >> Luvas descartáveis Para assepsia do perito. Há bactérias em cadáveres, principalmente naqueles em decomposição, que podem causar infecções graves. >> Cartelas com números Sinalizam vítimas (no caso de chacinas) ou muitos objetos no local >> Setas Para indicar ferimentos nas fotos tiradas das vítimas >> Alicate Para cortar arames. Em alguns casos, os peritos encontram vítimas presas com arames ao invés de cordas >> Lanterna Muitas vezes o local do crime é afastado e escuro >> Esparadrapo Para coleta residuográfica de vestígios de projéteis >> Lacres numerados Para preservar e oficializar apreensão de provas 123 REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. C. Os princípios fundamentais do processo penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1973. ALMEIDA, J. C. Os princípios fundamentais do processo penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1973. ALVES, R. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. 20. ed. São Paulo: Brasiliense,1994. ALVES, R. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. 20. ed. São Paulo: Brasiliense,1994. BACON, F. Novum organum. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. Pará de Minas: Virtualbooks, 2002. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/ adobeebook/norganum.pdf. Acesso em: 7 maio 2019. BINA, R. Medicina legal. São Paulo: Saraiva, 2009. BONFIM, E. M. Curso de processual penal. 5. ed. 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