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RACISMO, DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO RACIAIS - definir é preciso - pressupostos epistemológicos de base para a elaboração de políticas públicas em Gênero e Raça

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1 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO 
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 
CURSO DE FORMAÇÃO GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS EM GÊNERO E 
RAÇA (GPP-GER). 
POLO HUMBERTO DE CAMPOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
ADOMAIR DA SILVA 
(ADOMAIR O. OGUNBIYI) 
 
 
 
 
RACISMO, DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO RACIAIS: definir é preciso: 
pressupostos epistemológicos de base para a elaboração de políticas 
públicas em Gênero e Raça 
 
 
 
 
 
 
 
Humberto de Campos 
2013 
 
 
 
 
2 
 
ADOMAIR DA SILVA 
(ADOMAIR O. OGUNBIYI) 
 
 
 
 
 
RACISMO, DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO RACIAIS: definir é preciso: 
pressupostos epistemológicos de base para a elaboração de Políticas 
Públicas em Gênero e Raça 
 
 
 
 
 
Trabalho de conclusão de curso apresentado à 
Coordenação do Curso de Especialização em Gestão 
de Políticas Públicas em Gênero e Raça da 
Universidade Federal do Maranhão, como requisito 
para obtenção do Grau de Especialista. 
 
Orientador: Prof. Ms. Paulo Sergio Castro Pereira 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Humberto de Campos 
2013 
3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Silva, Adomair da (Ogunbiyi, Adomair O.) 
 RACISMO, discriminação e preconceito raciais: definir é preciso: 
pressupostos epistemológicos de base para a elaboração de políticas 
públicas em gênero e raça/Adomair da Silva (Adomair O. Ogunbiyi). _ 
São Luís, 2013. 
 67 f. : Il. 
 Impresso por computador (fotocópia) 
 Orientador: Prof. Ms. Paulo Sergio Castro Pereira 
 Monografia (Especialização) – Curso de Especialização em Gestão de 
Políticas Públicas em Gênero e Raça), Universidade Federal do 
Maranhão, 2013. 
1. Racismo 2. Discriminação Racial 3. Preconceito Racial 4. 
Políticas Públicas – Gênero e raça 5. Movimento negro I. 
Título 
 CDU 323.1 : 305 
4 
 
ADOMAIR DA SILVA 
(ADOMAIR O. OGUNBIYI) 
 
RACISMO, DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO RACIAIS: definir é preciso: 
pressupostos epistemológicos de base para a elaboração de Políticas 
Públicas em Gênero e Raça 
 
 
Trabalho de conclusão de curso apresentado a 
Coordenação do Curso de Especialização em Gestão 
de Políticas Públicas em Gênero e Raça da 
Universidade Federal do Maranhão, como requisito 
para obtenção do Grau de Especialista. 
 
Orientador: Prof. Ms. Paulo Sergio Castro Pereira 
 
 
Aprovado em / / 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
___________________________________ 
Prof. Ms. Sergio Castro Pereira 
Universidade Federal do Maranhão 
 
 
_____________________________________ 
Profª. Ms. Raimunda Nonata da Silva Machado 
 
______________________________________ 
Profª. Drª. Sirlene Mota Pinheiro 
5 
 
RESUMO 
 
 
Analise de políticas públicas de gênero e etnia, relativas à população afro-brasileira e a 
formação de lideranças multiplicadoras(es) sobre o significado de: Direitos Humanos, 
Movimento Negro (histórico), Questão Étnico-Racial (conceitos e definições sobre o que 
é racismo e suas manifestações: preconceito e discriminação raciais), Questão de 
Gênero e Questão Geracional. O empoderamento de lideranças quilombolas. Exercício 
da cidadania baseado nas ações previstas no Plano Nacional de Promoção da Igualdade 
Racial (PLANAPIR) e no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. 
 
Palavras-chave: Direitos Humanos. Movimento Negro. Questão étnico-racial. Racismo. 
 Preconceito Racial. Discriminação Racial. Políticas Públicas. Gênero. 
 Raça 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
 
ABSTRACT 
 
 
Public policy analysis of gender and ethnicity, relating to Afro-Brazilian population and 
leadership training multipliers about the meaning of Human Rights, the black movement 
(history), ethnic and Racial Issue (concepts and definitions about what is racism and its 
manifestations: prejudice and racial discrimination), gender and Generational Issue. The 
leadership empowerment quilombolas. Exercise of citizenship based on the actions 
foreseen in the National Plan for the promotion of Racial Equality (PLANAPIR) and the 
National Plan of policies for women. 
 
Keywords: Human Rights. The black movement. Ethnic and Racial Issue. Racism. Racial 
 Prejudice. Racial Discrimination. Public Policies. Genus. Race 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................08 
 
2 PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS: base para a 
 elaboração de políticas públicas em Gênero e Raça..................09 
 
3 ATER QUILOMBOLA: uma experiência em 
 gênero e raça.............................................................................16 
 
3.1 Do planejado nas Ramadas......................................................17 
 
4 NEGRITUDE COMO SUPORTE TEÓRICO....................................26 
 
5 O QUE É RACISMO ? ................................................................28 
 
5.1 Estudos de Casos......................................................................33 
 
6 O QUE É DISCRIMINAÇÃO RACIAL?..........................................36 
 
6.1 Estudo de Caso.........................................................................37 
 
7 O QUE É PRECONCEITO RACIAL ...............................................39 
 
7.1 Estudos de Casos......................................................................39 
 
8 PODE O/A NEGRO/A E/OU AFRO-BRASILEIRO/A 
 SER RACISTA? ...........................................................................44 
 
8.1 Estudo de Casos........................................................................48 
 
9 O(A) NEGRO(A) PODE TER PRECONCEITO E DISCRIMINAR 
 RACIALMENTE OUTRO(A) DE SUA PRÓPRIA 
 RAÇA/ETNIA...............................................................................50 
 
9.1 Estudo de Casos.........................................................................51 
 
10 SOBRE A LEI CAÓ – LEI Nº 7716/89...........................................57 
 
11 O ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL (LEI Nº 12.188/10)........61 
 
12 CONCLUSÃO..............................................................................62 
 
 REFERÊNCIAS..............................................................................64 
 
 
8 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
 
Tendo em vista as políticas públicas, na seara Federal, específicas, através 
do Serviço de Assistência Técnica para Comunidades Quilombolas no Território da 
Cidadania Vale do Itapecuru urgem atividades que suscitem reflexões acerca dos 
direitos humanos, do movimento negro e das questões étnico-raciais. Por outro lado, as 
comunidades quilombolas carecem de conhecimentos sobre como acessar políticas 
públicas garantidas constitucionalmente para que se desenvolvam. 
Dentro dos fundamentos teóricos, orientações e procedimentos 
metodológicos contidos na construção de uma Pedagogia de ATER, a qual está 
consubstanciada na Política Nacional de ATER (Pnater), em conformidade com a Lei 
12.188, de 11 de janeiro de 2010, o projeto propõe-se como uma ferramenta para 
propiciar um modelo de desenvolvimento sustentável para o meio rural. 
Para além de propiciar o exercício de direitos e difundir os princípios do 
Serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) propõe-se, também, em 
fortalecer a cidadania, considerando diferenças de Gênero, Geração e Etnia e as 
orientações do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Lei 6.872, de 
04/06/2009) do II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. 
O presente trabalho, fruto do Plano de Ação do curso de Gestão de Política 
de Gênero e Raça, analisa as políticas públicas degênero e etnia, relativas à população 
afro-brasileira e a necessária formação de lideranças multiplicadoras(es) sobre o 
significado de: Direitos Humanos, Movimento Negro (histórico), Questão Étnico-Racial 
(conceitos e definições sobre o que é racismo e suas manifestações: preconceito e 
discriminação raciais), e Questão de Gênero. O empoderamento de lideranças 
quilombolas perpassa pelo exercício da cidadania baseado nas ações previstas no Plano 
Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PLANAPIR) e no Plano Nacional de Políticas 
para as Mulheres os quais carecem destes pressupostos epistemológicos como base na 
elaboração e implementação de políticas púbicas. 
 
 
 
9 
 
2 PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS: base para a elaboração de políticas 
 públicas em Gênero e Raça 
 
 
O Serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural para Comunidade 
Quilombolas no Território da Cidadania do Vale do Itapecuru (ATER Quilombola) 
encontra-se no bojo da Política Nacional de Ater (Pnater). Cuja base teórica tem fulcro 
na Lei Federal de 11 de janeiros de 2000 – Lei nº 12.188, e, tem expresso em seus 
princípios e diretrizes conceitos de uma pedagogia dialógica e participativa (BRASIL, 
2010, p. 07). 
Conforme o proposto pela Pnater, ou seja: 
 
um modelo de desenvolvimento sustentável para o meio rural, 
ancorado num conjunto de princípios que qualificam a ação 
extensionista e o serviço de assistência técnica e extensão rural 
prestado às(aos) agricultoras(es) familiares e suas formas de 
organização. Dentre eles, destaca-se o princípio norteador desta 
proposta: “Adoção de metodologia participativa, com enfoque 
multidisciplinar, interdisciplinar e intercultural, buscando a construção 
da cidadania e a democratização da política pública” (Lei nº 12.188 de 
11 de janeiro de 2010). 
 
Baseado em uma proposta de educação emancipadora onde o enfoque é 
deslocado do individual para o social, político e ideológico. A educação emancipadora 
é uma educação contra as outras concepções que, por adotarem a concepção liberal, 
focada no indivíduo, são promotoras das desigualdades, da dependência, da 
passividade, da impotência, da obediência (BRASIL, 2012, p. 19). 
Neste sentido, o presente trabalho, denominado Racismo, Discriminação e 
Preconceito Raciais: definir é preciso – Pressupostos epistemológicos de base para a 
elaboração de políticas públicas de Gênero e Raça fundamentou-se em um referencial 
teórico composto de um conjunto de estudos sistematizados e formulados por 
especialistas, estudiosos(as) e teóricos(as) da educação e em torno da identidade 
étnico-racial (Negritude) pois, se coaduna com a educação emancipadora uma vez que 
pretendeu, através de oficinas “não [...] convencer a(o) educanda(o), mas de vencer com 
10 
 
ela(e), construir junto uma sociedade justa e igualitária, despida de desigualdades de 
gênero e raça. 
Vasto referencial teórico, marcos legal e eventos históricos respaldam o 
presente trabalho como exemplo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, 
instituída pela ONU em de 10 de dezembro de 1948, e adotada pela Assembleia Geral 
das Nações Unidas através da Resolução, n. 217. Como Estado-Membro da Organização 
das Nações Unidas (ONU), o Brasil é signatário, desde 1948, dessa importante e histórica 
Declaração que contém 30 artigos, nos quais estão elencados o ideal comum a ser 
atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de: 
 
Que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em 
mente esta Declaração, se esforcem, através do ensino e da educação, 
em promover o respeito a esses direitos e liberdades e, pela adoção 
de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, em 
assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e 
efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-membros quanto 
entre os povos dos territórios sob sua jurisdição (INSTRUMENTOS 
INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS, 2001). 
 
Na Declaração Universal dos Direitos Humanos os Estados-Membros das 
Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, “sua fé nos direitos humanos 
fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na igualdade de direitos entre 
homens e mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições 
de vida em uma liberdade mais ampla”. 
Em seu artigo primeiro encontra-se o quanto segue: 
 
Artigo 1. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade 
e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação 
uns aos outros com espírito de fraternidade. 
 
Localiza-se explicitado o ideário de igualdade no artigo 7 da Declaração 
Universal dos Direitos Humanos que afirma: 
 
Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distinção, a 
igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra 
qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra 
qualquer incitamento a tal discriminação. 
 
11 
 
Seguindo, encontra-se no Artigo 23: 
 
1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a 
condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o 
desemprego. 
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual 
remuneração por igual trabalho. 
3. Toda pessoa que trabalha tem direito a uma remuneração justa e 
satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma 
existência compatível com a dignidade humana, e a que se 
acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social. 
 
Fazem parte, ainda, do rol dos marcos legal a: 
 
- Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, 
da qual o Brasil é signatário desde 20 de novembro de 1963 e, a Convenção 
Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação 
Racial, de 20 de dezembro de 1965 (DPI/858); 
- A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação 
contra as Mulheres – CEDAW, em 1979, O Estado brasileiro ratificou a 
Convenção da Mulher em 1984, a qual prevê nos artigos 1 e 2 , o que segue: 
 
 
Artículo 1 
A los efectos de la presente Convención, la expresión "discriminación 
contra la mujer" denotará toda distinción, exclusión a restricción 
basada en el sexo que tenga por objeto o por resultado menoscabar o 
anular el reconocimiento, goce o ejercicio por la mujer, 
independientemente de su estado civil, sobre la base de la igualdad 
del hombre y la mujer, de los derechos humanos y las libertades 
fundamentales en las esferas política, económica, social, cultural y civil 
o en cualquier otra esfera. 
 
Artículo 2 
Los Estados Partes condenan la discriminación contra la mujer en 
todas sus formas, convienen en seguir, por todos los medios 
apropiados y sin dilaciones, una política encaminada a eliminar la 
discriminación contra la mujer y, con tal objeto, se comprometen a: 
a) Consagrar, si aún no lo han hecho, en sus constituciones nacionales 
y en cualquier otra legislación apropiada el principio de la igualdad del 
hombre y de la mujer y asegurar por ley u otros medios apropiados la 
realización práctica de ese principio; 
12 
 
b) Adoptar medidas adecuadas, legislativas y de otro carácter, con las 
sanciones correspondientes, que prohíban toda discriminación contra 
la mujer; 
c) Establecer la protección jurídica de los derechos de la mujer sobre 
una base 
de igualdad con los del hombre y garantizar, por conducto de los 
tribunales nacionales o competentes y de otras instituciones públicas, 
la protección efectiva de la mujer contra todo acto de discriminación; 
d) Abstenerse de incurrir en todo acto a práctica de discriminación 
contra la mujer y velar porque las autoridades e instituciones públicas 
actúen de conformidad con esta obligación; 
e) Tomar todas las medidas apropiadas para eliminar la discriminación 
contra la mujer practicada por cualesquiera personas, organizaciones 
o empresas; 
f) Adaptar todos las medidas adecuadas, incluso de carácter 
legislativo, para modificar o derogarleyes, reglamentos, usos y 
prácticas que constituyan discriminación contra la mujer; 
g) Derogar todas las disposiciones penales nacionales que constituyan 
discriminación contra la mujer (CONVENCIÓN SOBRE LA ELIMINACIÓN 
DE TODAS LAS FORMAS DE DISCRIMINACIÓN CONTRA LA MUJER, 
1979) 
 
- A Convenção Nacional do Negro pela Constituinte, de 26 e 27 de agosto de 
1986, em Brasília, elencava inúmeras reivindicações do Movimento Negro 
relativas aos direitos das populações negras nos mais diversos campos da 
atividade humana; 
- A Constituição Federal de 1988 em seu artigo Art. 5º prevê que: 
 
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, 
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a 
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança 
e à propriedade”; e no inciso XLII prevê que a prática do racismo 
constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de 
reclusão, nos termos da lei (BRASIL, 1988) 
 
- A Lei Caó (Deputado Federal Carlos Alberto de Oliveira), Lei 7716/89, que 
pune os Crimes de Racismo, fruto das reivindicações históricas do 
Movimento Negro; 
- A Convenção 169 da OIT, de 7 de junho de 1989, que prevê: 
 
Que [...] em princípio sua abrangência é definida para os povos 
indígenas e quilombolas, ambos reconhecidos como minorias étnicas 
do Estado brasileiro na mesma Constituição Federal de 1988. Estes 
13 
 
aparentemente são os principais sujeitos de direito aos quais o Estado 
brasileiro reconhece a aplicação da Convenção OIT 169. 
Com relação ao reconhecimento de povos quilombolas como povos 
tribais, existe jurisprudência nacional reconhecendo a aplicação da 
Convenção 169 da OIT para quilombolas na sua qualidade de povos 
tribais: 
“não pode o Estado negligenciar a proteção constitucionalmente eleita 
como um dos objetivos fundamentais da Republica Federativa do 
Brasil, qual seja, “promover o bem de todos, sem preconceitos de 
origem, raça, sexo, identidade e quaisquer formas de discriminação” 
(CF/88, art.3o, IV), incluindo, assim, as comunidades remanescentes de 
quilombos (…) conforme destacado pelo ilustre Representante 
Ministerial em seu Parecer, pelo Estado Brasileiro estou confirmando 
seu entendimento em estabelecer políticas públicas voltadas ao 
combate à discriminação dos modos de vida tradicionais dos povos 
indígenas e tribais, quando da edição do Decreto Legislativo No 
143/2002, ratificando a Convenção nº 169 da OIT, que dispõe em seu 
art. 14 que “deverão ser reconhecidos os direitos de propriedade e 
posse dos povos em questão sobre as terras que tradicionalmente 
ocupam”. 
 
- A Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, 
de 20 de novembro de 1995, realizada em Brasília, na qual participaram 
organizações e/ou entidades do movimento negro, organizações não 
governamentais e congêneres ligadas às igrejas, partidos políticos, 
sindicatos, movimentos sindicais, núcleos de estudos de universidades 
públicas comprometidas com a questão étnico-racial; 
- A Lei 10.639/03 que obriga o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e 
Africana, o Parecer do Conselho Nacional de Educação/ Conselho Pleno - 
CNE/CP 03/2004 e a Resolução CNE/CP 01/2004 são instrumentos legais que 
orientam as instituições educacionais quanto as suas atribuições; e, 
- O Estatuto da Igualdade Racial, Lei 12.288, de 20 de julho de 2010 em seu 
artigo 1º, prevê que esta Lei institui o Estatuto da Igualdade Racial, 
destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de 
oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos 
e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. E, 
em seu parágrafo único, para efeito deste Estatuto, considera que: 
 
I - discriminação racial ou étnico-racial: toda distinção, exclusão, 
restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou 
14 
 
origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o 
reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de 
direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, 
econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida 
pública ou privada; 
II - desigualdade racial: toda situação injustificada de diferenciação de 
acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública 
e privada, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional 
ou étnica; 
III - desigualdade de gênero e raça: assimetria existente no âmbito da 
sociedade que acentua a distância social entre mulheres negras e os 
demais segmentos sociais; 
IV - população negra: o conjunto de pessoas que se autodeclaram 
pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam 
autodefinição análoga; 
V - políticas públicas: as ações, iniciativas e programas adotados pelo 
Estado no cumprimento de suas atribuições institucionais; 
VI - ações afirmativas: os programas e medidas especiais adotados 
pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades 
raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades (BRASIL, 
2011). 
 
Inúmeros livros, estudos e artigos têm abordado o racismo e o que 
entendemos por sequelas emanadas do mesmo, ou seja, a discriminação e o 
preconceito raciais. E, salvo alguns/algumas poucos,(as) autores(as)1 que introduzem 
essa discussão conseguem demonstrar as causas e os efeitos e por vezes enfocam, 
acanhadamente, aquelas definições e/ou conceitos de maneira a dirimir 
questionamentos existentes nos mais variáveis níveis sobre o que é: 
a) Racismo; 
b) Discriminação Racial; e 
c) Preconceito Racial. 
Em consequência da ausência de trabalhos, com enfoque didático-
pedagógico neste âmbito, temos nos deparado com interrogações e afirmações do tipo: 
“Pode o(a) negro(a) e/ou afro-brasileiro(a) ser racista” ou ainda, “o(a) negro(a) tem 
preconceito e discrimina racialmente outro(a) de sua própria raça/etnia. Numa 
tentativa de explicitar estes pontos e consequente elucidação do que compreendemos 
 
1 Adota-se a preocupação com a dimensão de gênero da linguagem verbal para, criticamente, libertar 
nosso texto do “[...] monopólio masculino da língua e produção do conhecimento” conforme posição de 
Peter McLaren (1997) e Guacira Lopes Louro (1999), entre inúmeros(as) autores(as). 
 
 
15 
 
ser um desvio e/ou uma visão equivocada quanto aos reais significados de racismo, 
discriminação e preconceito raciais, elaboramos o presente trabalho objetivando 
contribuir no processo do fortalecimento da consciência negra tão necessária para se 
reagir à violência racial, a qual ao longo dos séculos vem de forma genocida, 
massacrando negras(os), desde África até toda sua Diáspora. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
3 ATER QUILOMBOLA: UMA EXPERIÊNCIA EM GÊNERO E RAÇA 
 
A ATER QUILOMBOLA é um projeto que prevê quatro etapas, a saber: 
- Diagnóstico participativo com as comunidades quilombolas; 
- Formação em políticas públicas; 
- Elaboração dos Planos de Desenvolvimento dos Serviços de ATER; 
- Monitoramento das atividades do projeto. 
Portanto, é uma construção, logo a formulação das políticas públicas que se 
apresentam como necessárias, foram formuladas pelas comunidades. 
Neste sentido, carece-se de permear a aplicação e ações com a definição de 
Racismo, Discriminação e Preconceito Raciais em todas as fases de pré-formulação em 
qualquer política pública junto as comunidade quilombolas. 
Tal constatação advém do diagnóstico preliminar efetuado junto às 
comunidades quilombolas no Território da Cidadania Vale do Itapecuru, onde se 
verificou a ausência da aplicabilidade das políticas públicas, tais como: Lei 10.639/03 
que estabelece o ensino da História de África e da Cultura Afro-brasileira nos sistemasde ensino; do Programa Brasil Quilombola; da homologação e consequente 
implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar 
Quilombola, como modalidade da educação básica; na Assistência Técnica e Extensão 
Rural para Comunidade Quilombolas – ATER QUILOMBOLA; e, por fim, o Estatuto da 
Igualdade Racial (Lei 12.288/10). 
O enfoque propugnado entende-se, possibilitaria às comunidades uma visão 
mais ampla para a construção e formulação de propostas na elaboração um Plano de 
Inclusão das Famílias Quilombolas para o acesso as políticas públicas. As políticas 
públicas elencadas poderiam dar conta de demandas objetivas, contudo, como as 
comunidades são carentes de informações e conhecimentos para que elas 
compreendam as nuances subjetivas do racismo e suas manifestações e possam 
formular ações, cobrar políticas públicas estagnadas pela burocracia e a falta de vontade 
política estatal. Assim sendo, acredita-se que somente com um estudo crítico dos 
princípios, hipóteses e resultados das ciências já constituídas se poderiam formular 
políticas públicas de gênero e raça para atender, não somente as populações que 
17 
 
compõem as comunidades quilombolas, como também aquelas que atentem para a 
diversidade étnico-racial, no Brasil. 
 
3.1 Do planejado nas Ramadas2 
 
Conforme previsto no projeto originário, procurou-se cumprir o 
cronograma. Realizaram-se oficinas nas Comunidades Quilombolas no Território do 
Vale Cidadania com todas as comunidades quilombolas e cumprindo o roteiro, foram 
executadas as seguintes atividades: 
- Formação em políticas públicas; 
- Elaboração dos planos de desenvolvimento dos serviços de ATER; 
- Monitoramento das atividades do projeto. 
As comunidades remanescentes de quilombos atendidas, inseridas no 
Território Rural do Vale do Itapecuru no estado do Maranhão, são: 
 
Tabela 1: Comunidades Remanescentes de Quilombos atendidas 
Municípios Comunidades Quantidade 
de famílias atendidas 
Anajatuba . Queluz . 30 
Itapecuru Mirim . Ipiranga da Carmina 
. Juçaral / Santa Helena 
. Mata São Benedito 
. Pequi/ Santa Maria Pretos 
. Santa Maria dos Pinheiros 
. Santa Rosa 
. 52 
. 30 
. 35 
. 352 
. 21 
. 175 
Vargem Grande . São Francisco Malaquias . 30 
 
Tabela 1: Comunidades Remanescentes de Quilombos atendidas 
 
Depreendeu-se, nas oficinas, que as demandas em termos de políticas 
públicas para as comunidades acima apresentadas eram semelhantes, ou seja: falta de 
 
2 Casa de festa e de reuniões onde a comunidade costuma tomar decisões. 
18 
 
estradas e pontes em condições para acesso às comunidades; falta de água; falta de 
assessoria e assistência técnica e extensão rural; ausência de creches; falta de escolas3 
para atender as crianças do ensino fundamental nas próprias comunidades; falta de 
transporte para alunas(os) que estudam fora da comunidade; onde existem escolas, as 
mesmas funcionam de modo precário, instalações precárias e sem condições higiênicas, 
falta de condições e materiais de trabalho; as(os) professoras(es) não tem formação em 
educação quilombola; falta de merenda e material escolar. 
Objetivando ilustrar melhor as condições de vida da maioria das 
comunidades quilombolas apresentamos a seguir, como exemplo, a Comunidade 
Juçaral/Santa Helena, titulada em 28 de novembro de 2006. 
 
Infraestrutura Física, Social e Econômica 
 
O conjunto de serviços da comunidade Juçaral/ Santa Helena apresenta-se 
com aquelas precariedades inerentes a ausência de políticas públicas. O mal estado das 
estradas e a ausência de pontes impedem o transito/comunicação com as demais 
comunidades, principalmente em período de chuvas, quando elas tornam-se 
intransitáveis, mesmo de motocicleta. 
 
Foto 1: A melhor parte da estrada Fonte: do autor 
 
3 Somente uma comunidade, Santa Joana, no território de Santa Maria dos Pretos, contava com escola 
que oferecia condições ideias para receber condignamente alunas(os) e professoras(es). No entanto, 
nesta escola a água utilizada é salobra. 
19 
 
O abastecimento de água, na comunidade é realizado através de um único 
posto artesiano, o qual consegue dar conta das necessidades das(os) moradoras(os) e 
carece de qualidade pois é salobra. 
 
 
Foto 2: Poço artesiano e caixa d’água Fonte: do autor 
 
Através de convênio entre a Funasa e Prefeitura de Itapecuru a comunidade 
foi contemplada por “Kits Sanitários”. 
 
 
Foto 3: Kit sanitário Fonte: do autor 
20 
 
Tabela 2: Saúde e Saneamento 
Quantidade de postos de saúde Não existe posto na comunidade 
Atendimento 
 .Como, quando, onde e 
 quando. 
 .Distância 
 .Dias de Atendimento 
 .Quantidade de vezes as 
 pessoas visitam o médico 
 por ano 
 
.O atendimento é realizado na Unidade 
de Saúde da comunidade de Bacabal, 
distante 2 quilômetros de Santa Helena, 
de difícil acesso. Os atendimentos em 
Leite (9 km) têm de ser marcados. Em 
Presidente Vargas (15 km). 
.Os atendimentos são realizados duas 
vezes por semana. 
.Os idosos são atendidos de 2 em 2 
meses. As gestantes 1 vez por mês. 
Quando estão doentes quais os meios 
que utilizam para se curar e que tipo 
.Chás de: casca de laranja, Vik, Hortelã, 
Titoco, Cararuca. 
(Qualidade da água (qual a origem, 
existem caixas d’água, cacimbas, filtros). 
.Boa qualidade. Existem caixas d’água 
em todas as casas. A água é canalizada. 
Quantidade de pessoas que procuram o 
atendimento médico. Rezadeiras, 
parteiras, benzedeiras, uso de ervas). 
 
.Não existem rezadeiras e parteiras na 
comunidade, os partos são feitos 
somente em hospital. 
 
.O senhor Nemésio Silva Almeida, 60 
anos de idade, é o benzedor da 
comunidade. 
Coleta de lixo (onde são destinados, os 
orgânicos e inorgânicos). 
 
.Recolhidos e queimados. 
Tabela 2: Saúde e Saneamento 
 
A Comunidade de Juçaral/Santa Helena tem na produção da farinha a 
principal fonte de recursos. Produzem-na para o consumo e parte dela é vendida. 
 
Foto 4: Casa de Farinha Fonte: do autor 
21 
 
 
A comunidade conta com 13 pessoas com 61 anos de idade; 30 crianças de 
0 a 6 anos; 36 crianças de 7 a 14 anos, estas estão estudando o Ensino Fundamental (1º 
ao 9º ano). Os jovens estão no Ensino Médio. Adultos e idosas(os) perfazem 80% das 
pessoas que só sabem escrever o nome, poucas estudaram a “4ª Série”. Destas apenas 
8 estudaram o ensino médio e encontram-se na faixa de 21 a 30 anos de idade. Entre 
analfabetas(os) existem 10 pessoas na faixa de idade de 41 a 61 anos de idade. 
 
Foto 5: Escola da Comunidade Fonte: do autor 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22 
 
A estrutura educacional da Comunidade de Juçaral/Santa Helena apresenta 
aspectos que são demonstrados nas tabelas abaixo: 
 
Tabela 3: Estrutura educacional 
Localização da escola* Na comunidade 
Acesso A pé 
Turnos de funcionamento 1 turno (matutino) 
Modalidades 
 
 
Educação Infantil 
 
Funciona atendendo 14 alunas(os) 
Ensino Fundamental** Até 5º ano (atendidas/os na comunidade) 
Ensino Médio 10 alunas(os) atendidos, também, na 
Comunidade de Leite. 
Quantidade de salas 1 (em taipa, chão de terra) 
Sistema de ensino Multisseriado atendendo 
Com que idade inicia as matrículas 3 anos 
Transporte Utilizado para chegar à escola Não há necessidade 
Disciplinas ministradas LP,MTM,Ciências, Geo, Hist, Ed. Física, 
Educação Religiosa e Filosofia. 
Existe uma disciplina específica para a 
realidade rural? 
Textos e projetos 
Existe uma disciplina específica para a 
realidade quilombola? 
Textos e projetos 
Condições detrabalho das(os) 
professoras(es) e alunas(os) 
Péssimas 
Qual é a formação das(os) professoras(es) Letras e pós graduação em LP e Literatura 
Onde residem: no município ou fora No quilombo de Santa Helena/Juçaral 
São concursadas(os) Contratada. Fez seletivo que é válido por 
três anos 
Que tipo de livros utilizam Didáticos e paradidáticos 
Merenda escolar É para 20 dias, mas só dá para 10 dias. 
Tabela 3: Estrutura educacional da comunidade 
(*) O projeto de Escola Quilombola foi aprovado pela Fundação Palmares, contudo, o mesmo, segundo 
informação das(os) membros da comunidade, encontra-se engavetado há 4 anos, pela prefeitura que tem 
problemas na documentação. 
 
(**) Da 6º a 9º ano, do ensino fundamental as(os) 17 alunas(os) são atendidas(os) na Escola Municipal 
Coronel José Firmino Gomes, situada no Povoado de Leite, (9k distante de Santa Helena). 
Transportadas(os) por uma Kombi alugada pela prefeitura. 
 
 
 
 
 
 
 
23 
 
A distribuição das alunas e alunos, por sexo, apresentou-se de acordo com a 
Tabela 4: 
 
Tabela 4: Distribuição das(os) alunas(os) por sexo 
Série Quantidade 
Feminino Masculino 
Anos Iniciais 7 3 
Anos finais 10 7 
Educação Infantil 4 9 
Ensino Médio 6 4 
Total 27 23 
Tabela 4: Distribuição das(s) Alunas(os) por sexo . Obs.: dados relativos a 2011. 
 
Quanto a escolaridade das(os) moradoras(es) detectou-se o que consta na 
Tabela 5: 
 
Tabela 5: Escolaridade das (os) moradoras(es) 
Faixa 
Etária 
Analfabeto Escolaridade Ensino 
Médio 
Ensino 
Superior 
Total 
Ed. 
Infantil 
Ens. 
Fundamental 
Até 06 10 14 24 
7 a 10 3 11 14 
11 a 14 -- -- -- 10 10 
15 a 17 -- 1 1 
18 a 24 1 5 6 
25 a 40 1 2 2 5 
Mais de 
40 
4 4 
Total 19 14 11 18 2 64 
Tabela 5: Escolaridade das(os) moradoras(es) 
 
A demonstração apresentada é uma amostra da situação na qual se 
encontra a maioria das comunidades quilombolas, particularmente, no estado do 
Maranhão. 
A ausência de políticas públicas considerando como conceito aquele que e 
Freitas (2010) cunhou sendo Estado Social, ou seja: 
 
quando o Estado, instigado pela pressão das massas confere os 
direitos do trabalho, da previdência, da educação, de saúde, intervém 
na economia como distribuidor, dita o salário, manipula a moeda, 
regula os preços etc., em suma, estende sua influência a quase todos 
24 
 
os domínios que antes pertenciam, em grande parte, à área de 
iniciativa individual. 
 
 
Compreendendo-se, neste contexto, que o Estado Social pode representar 
“efetivamente uma transformação superestrutural do Estado liberal”, na busca de 
sobrepujar “a contradição entre a igualdade política e a desigualdade social” (FREITAS, 
2010). 
A Constituição Brasileira de 1988, também conhecida como Constituição 
Cidadã, vai expressar o resultado da mobilização da sociedade organizada e das lutas 
populares na busca da cidadania ao estabelecer direitos sociais de caráter universal. De 
acordo com Silse Lemos (2010) “a promulgação da LOAS - Lei Orgânica da Assistência 
Social, a LOS – Lei Orgânica da Saúde e a nova LDB – Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação Nacional, por exemplo, vislumbram a possibilidade de ampliar direitos antes 
negados” (DRAIBE, 1999 apud LEMOS, 2010). E, seguindo sua explanação, Silse Lemos 
(2010) revela que “para assegurar a afirmação dos direitos requer-se a participação da 
sociedade tanto na esfera reivindicatória quanto na de controle social”. Para isso, os 
instrumentos de participação popular como conferências, fóruns, conselhos devem, 
efetivamente, constituírem-se em espaços privilegiados de ações direcionadas às 
definições das políticas públicas (RAICHELIS; WANDERLEY, 2000, p.10 apud OGUNBIYI, 
2010). 
Historicamente, no Brasil, as políticas públicas são orientadas pela ótica 
economicista, com destaque privilegiado das políticas econômicas em detrimento das 
políticas sociais situadas num plano secundário e subordinado. Mantém-se o aspecto 
fragmentado, localista, compensatório, ou seja, as políticas públicas não são resolutivas, 
não atuam na erradicação dos problemas sociais e não asseguram ganhos permanentes 
para a sociedade. O seu caráter preponderante é o de constituir resultados paliativos. 
Embora contabilizados os avanços na esfera das políticas públicas como 
conquistas da sociedade tem-se a considerar os desafios que se apresentam, pela via da 
reestruturação produtiva, da financeirização da economia, da internacionalização dos 
mercados, enfim, das sucessivas crises do capital. Em nome dos efeitos desses 
elementos na sociedade capitalista o Estado foi impelido a minimizar sua esfera de 
responsabilidades. Para se fazer frente a esse quadro é imperioso que gestoras(es), 
25 
 
profissionais e população invistam no conhecimento da configuração e das 
competências das políticas públicas, como meio de instrumentalização para fazer-se 
frente aos recuos/obstáculos no campo da disputa, orientando-se o fortalecimento da 
garantia de direitos (idem). 
No caso, específico das comunidades quilombolas, que herdaram 
historicamente, as mazelas oriundas do período escravagista, para além de sua 
participação tanto na esfera reivindicatória, quanto na de controle social requer-se 
adicionar aos pressupostos epistemológicos de base para a elaboração de políticas 
públicas em gênero e raça a emergência introduzir um trabalho com a identidade étnico-
racial, a negritude, destas populações resgatando fatores históricos, sociológicos, 
antropológicos, econômicos, culturais, espirituais aliados ao desenvolvimento de 
fatores resilientes (autonomia, criatividade, autoestima e humor), da população alvo. 
Entende-se que não há como suscitar o envolvimento das populações negras 
existentes nestas comunidades quilombolas sem que estes aspectos sejam enfocados 
de maneira séria e responsável. 
Da experiência vivenciada, depreende-se que as iniciativas governamentais, 
quer sejam, federais e estaduais, quer sejam, municipais, devem prever a formação, 
capacitação e/ou nivelamento das equipes contratadas das cooperativas ou ONG’s que 
assumirem tais Chamadas Públicas. Aqueles (as) que irão trabalhar com as populações 
quilombolas necessitam ter explicito categorias, tais como: Identidade Étnico-Racial 
(Negritude), Racismo, Discriminação Racial, Preconceito Racial, Machismo, Homofobia, 
Desigualdade Étnico-Racial, Políticas Públicas, Ações Afirmativas, etc. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26 
 
4 NEGRITUDE COMO SUPORTE TEÓRICO 
 
Foram utilizadas, no presente trabalho, questões referentes à identidade 
étnico/racial, baseada na Negritude: 
 
Tabela 7: Identidade Étnico-Racial – Negritude 
Definição Indicadores 
. É a valorização plena, com orgulho 
da condição do/a negro/a e/ou afro-
brasileiro em dizer de cabeça erguida: Sou 
Negro/a. 
. É a capacidade de ser fiel numa 
ligação com a terra-mãe, África, cuja 
herança deve custe o que custar, demandar 
prioridade. 
. É a capacidade de ter um 
sentimento de solidariedade que liga 
secretamente a todos/as os/as 
irmãos/irmãs no mundo, que leva a ajudá-
los/as a preservar nossa identidade comum. 
. É a capacidade de reverter o 
sentido pejorativo da palavra negro para 
dela extrair um sentido positivo. 
Reconhece-se como negro/a; 
Valoriza/gosta de seus traços 
fisionômicos, cabelo, etc. ligados à sua 
origem; 
Identifica-se com negros/as dos 
mais diversos tipos; 
Têm prazer de brincar com 
bonecas/os negros/as; 
Busca heróis/heroínas, ídolos 
negros/as; e, 
 
Aprecia, respeita ou participa de 
manifestações culturais e religiosas de 
origens africanas. 
Tabela 7: Quadro conceitual formulado, em 1998, por Adomair O. Ogunbiyi, com base no conceito de Negritude criado por Aimée 
Césaire, Léon Dumas e Léopold Senghor, e utilizado no Projeto Auto-Estima das Crianças Negras, parceira FUNAC/Bernard van leer 
Foundation, em Alcântara (Castelo)e Viana (S. Cristóvão), de 1998 a 2000. 
 
 
A utilização de identidade étnico-racial como marco conceitual/suporte 
perpassa por levar em consideração as especificidades das populações negras e/ou afro-
brasileiras, ou seja: por sofrerem agudamente as mazelas provocadas pelo racismo e 
suas manifestações preconceituosas e discriminatórias. A negritude pressupõe a 
identidade, a fidelidade e a solidariedade, que segundo Aimée Césaire, requisitos estes 
solapados histórica e psicologicamente das populações negras. Historicamente é a 
educação formal, através da escola que, centrada em valores simbólicos e fatos étno-
eurocêntricos, omite a participação, a contribuição, a luta e a resistência negra em todos 
os campos da atividade humana, uma vez que a historiografia oficial, também não as 
contempla. Assim com a educação informal, através da família, que massacrada por um 
processo de aculturação, assimila/introjeta como boa a história do outro em detrimento 
da sua que é sempre negada, deturpada e/ou estereotipada negativamente. E, 
27 
 
psicologicamente, por meio da alienação a qual foi e é submetida, a população negra, 
que esvaziada do seu “eu sou” procura e projeta-se em valores alheios assumindo, 
assim, um complexo de inferioridade. A negritude, enquanto identidade étnico-racial 
resgata estes valores espoliados (OGUNBIYI, 2004, p.10). Porém, a aplicação da 
Metodologia, mesmo sendo específica, levará em conta a transversalidade com temas 
recorrentes, tais como: Gênero, Resiliência 4 (autoestima, autonomia, criatividade e 
humor). 
O projeto realizou-se, quanto aos fins: de forma intervencionista, 
objetivando contribuir na transformação na realidade estudada; e, quanto aos meios: 
através de um estudo de caso, portanto, se enquadra no tipo descritivo - que possibilita 
observar, registrar, analisar e correlacionar fatos ou fenômenos e apresentação de 
síntese dos resultados dela aferidos. 
 
 
 
 
 
 
4 Este vocábulo tem origem, conforme o “Dicionário Básico Latín-Español/Español-Latín”, Barcelona, 
1982, no termo resilio que significa voltar atrás, voltar de salto, ressaltar. O termo foi adaptado para as 
ciências sociais para caracterizar aquelas pessoas que, apesar de nascerem e viverem em situações de 
alto risco, se desenvolvem psicologicamente sãs e exitosas. (Rutter, 1993). Provavelmente a resiliência, 
enquanto realidade humana seja tão antiga como a própria humanidade. Afinal de contas, tem sido a 
única forma de sobrevivência para os pobres e oprimidos. Neste rol, logicamente, estão incluídas as 
populações não-brancas, às quais não foi dada outra alternativa senão dar prova de resiliência. A 
Resiliência tem como variáveis: Autoestima - É a valoração que as pessoas têm de si (sentimentos e idéias) 
a partir de seu auto conhecimento e com influência das relações pessoais/meio físico e sócio cultural. A 
auto-estima é um componente basicamente emocional e valorativo, muito importante na formação da 
personalidade e está diretamente ligada ao auto-conceito. Auto-Conceito é a imagem que a pessoa tem 
de si (como percebe suas capacidades, habilidades, qualidades e limitações) e a Auto-Estima é o valor que 
a pessoa faz desta imagem; Autonomia - É definida como a capacidade da pessoa (criança, adolescente, 
adulto/a) de decidir e realizar independentemente ações em consonância com suas intenções e 
possibilidades; Criatividade - É a capacidade para transformar/construir palavras, objetos e ações, em algo 
inovador e/ou da maneira de maneira inovadora em relação aos padrões de referência de seu grupo; e, 
Humor - É uma capacidade manifestada por palavras, expressões corporais e faciais que contém 
elementos incongruentes e hilariantes com efeito tranquilizador e prazeroso para si e os/as outras/os 
(Ogunbiyi, 2004, p. 11). 
 
28 
 
5 O QUE É RACISMO? 
 
[...] para se combater uma ideia é necessário que todos, ou larga maioria, compreendam como 
e porque a ideia é errada. 
 SAMORA MACHEL 
 
O racismo na sociedade moderna tornou-se uma prática abrangente e 
diversificada “em formas de negar a dignidade, a igualdade e o respeito à pessoa 
humana”. “E para justificá-lo várias teses foram criadas com o objetivo de provar a 
inferioridade do negro”. Um dos iniciadores do racismo, Joseph Arthur de Gobineau, já 
se fundamentava na análise comparada do cérebro para afirmar que “o huroniano5 não 
poderia conter, nem mesmo em germe, um espírito parecido com o do europeu” 
(MEMMI, 1984, p. 12). 
Outros como, Paul Pierre Broca (1824-80), neurocientista; Linneu, nascido 
Karl von Linné (1707-78), considerado o pai da taxonomia moderna; Comte Buffon, 
naturalista francês nascido George Louis Leclerc (1707-88); e Francis Galton (1882-
1911), antropologista criador da Teoria da Eugenia, não estão isentos de preconceitos 
que preparam o caminho para o racismo pretensamente científico, que se apoia 
também na autoridade do darwinismo social (OLIVEIRA, 2003, p. 55-69). 
Segundo Alberto Memmi (1984), “no final do século XIX, a Europa culta está 
convencida de que o gênero humano se divide em raças superiores e raças inferiores”. 
As ideias daqueles cientistas influenciaram sobremaneira a intelligentsia 
brasileira a ponto de surgirem formulações tais como: 
 
Uma das soluções sugeridas para ser adotada foi definida pelo Dr. 
Renato Kehl, presidente da Comissão Central Brasileira de Eugenia e 
membro do Conselho Executivo da Liga Brasileira de Higiene Mental, 
foi baseada na tese de Galton: reduzir ou eliminar [...] os subnormais 
e anormais [...] promover a união conjugal dos eugenizados. 
Dentre as aberrações encontramos um modelo nazista de Ernani 
Lopes que reivindicava: a) Tribunais de eugenia, para estabelecer 
quem tem o direito a filhos. Polícia do sexo. O Estado determina quem 
pode e deve gerar descendência. b) Reforma eugênica dos salários. Os 
 
5 Indivíduo dos huronianos, povo “indígena” que pertencia à confederação de etnias ligadas à família 
iroquesa, e que habitava a região entre os lagos Horun, Erié e Ontário. 
 
29 
 
brancos devem ganhar mais do que os negros e outras raças inferiores 
(AKCELRUD, 1984, p. 9; OLIVEIRA, 2003, p. 76-83). 
 
 Entretanto, sabemos que “as teorias racistas não podem alicerçar-se em 
bases científicas” e para tanto a UNESCO organizou em Atenas, na primavera de 1981, 
um simpósio onde representantes de várias disciplinas puderam expor os mais recentes 
progressos alcançados pela ciência neste campo. Vinte e dois cientistas debateram em 
torno dos seguintes temas: Genética e Racismo; Psicologia, Neurobiologia e Racismo; 
Sociologia e Racismo; Antropologia; Etnologia e Racismo; História, Pré-História e 
Racismo. Aprovaram um documento reprovando aquelas teses criadas para justificar 
cientificamente o racismo (JACQUARD, p. 25, 1984). Todavia, apesar de sabermos que 
estas teses são, hoje, condenadas, ainda vivemos sobre seus espectros. 
Os efeitos do racismo criam controvérsias principalmente quando os setores 
afetados tentam dar uma resposta à opressão e exploração impostas. 
Por outro lado existe, também, a dificuldade destes segmentos formularem 
sua consciência racial dada a falta de elementos básicos que vão desde o conhecimento 
de sua história até a definição exata do que vem ser racismo, discriminação e 
preconceito raciais. 
Tal desconhecimento inibe a indignação necessária para o negro forjar a 
unificação na luta contra a opressão e exploração, pois os equívocos de interpretação 
nos deixam na dúvida de estarmos assumindo a postura do opressor, refreando assim 
nossa organização para por fim ao racismo considerado como Crime de Lesa 
Humanidade. 
Segundo a Declaração sobre a Raça e Preconceitos Raciais (UNESCO, Paris, 
setembro de 1967): “O racismo tem raízeshistóricas. Não se trata de um fenômeno 
universal. Em várias sociedades e culturas contemporâneas sua presença é inexpressiva 
e houve longos períodos históricos isentos de qualquer manifestação racista”. 
Muitas formas de racismo advieram das condições criadas pela conquista, 
da tentativa de justificar a escravidão, e, também, das relações coloniais. 
A sociedade brasileira tem uma conformação multirracial e pluricultural a 
partir das contribuições dos povos autóctones - os donos da terra -, dos “colonizadores” 
portugueses e concomitantemente dos povos africanos que, raptados, foram colocados 
na condição de escravizados neste país continente. 
http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/UNESCO-Organiza%C3%A7%C3%A3o-das-Na%C3%A7%C3%B5es-Unidas-para-a-Educa%C3%A7%C3%A3o-Ci%C3%AAncia-e-Cultura/declaracao-sobre-a-raca-e-os-preconceitos-raciais.html
30 
 
Essa história todos nós conhecemos e bem. 
Hoje, porém, havemos de entender que a sociedade brasileira é controlada 
por um sistema dominador dos meios de produção social, ou seja, da educação, da 
habitação, da saúde, da indústria, do comércio, dos latifúndios, dos meios de 
comunicação etc., com formas modernas, dentro da dominação capitalista, de dominar 
e justificar a opressão e a exploração. 
Este sistema é controlado pelas classes dominantes, - as elites – as quais 
pensam a sociedade brasileira dentro do ponto de vista étno-eurocêntrico, portanto, 
como branca, européia e cristã. Neste prisma, ignorando os demais segmentos, emana 
a afirmação da superioridade racial branca sobre os não-brancos. 
Pode-se concluir, em rápida análise, que a racialização, da sociedade 
brasileira, tem seu nascedouro nesta visão de mundo que permeia as classes 
dominantes, e não na “onda negra” contemporânea temida por uma insignificante 
parcela de “iluminadas/os” que pretendem a continuidade somente de políticas 
públicas universalistas que, vem atravessando séculos, e, em pleno século XXI, não 
conseguem retirar da situação de desigualdade grande parcela da população brasileira, 
onde negras/os são a maioria. 
Rafael Guerreiro Osório, em No Brasil: um balanço das teorias enfatiza que: 
 
É fato conhecido no panorama das desigualdades brasileiras que há 
uma desigualdade racial considerável no país. [...] negros, têm menos 
que a metade da renda domiciliar per capita de brancos. Trata-se de 
uma desigualdade particularmente detestável dado que, como tem 
sido destacado em inúmeros estudos, parte significativa dela não é 
atribuível a nenhuma medida de mérito ou esforço, sendo puramente 
resultado de discriminações passadas ou presentes. A pobreza é 
predominantemente negra e a riqueza é predominantemente branca 
(OSÓRIO apud THEODORO, 2008, p.124). 
 
Quanto às políticas universalistas, recorremos às assertivas de Osório que 
revela: 
[...] a força e o mérito dessas proposições de combate ao racismo 
institucional e, mais especificamente, de ações afirmativas, não devem 
significar um deslocamento das ações universais como estratégia 
central da intervenção pública na vida social. Ao contrário, é 
necessário reconhecer seu papel como instrumento de importantes 
melhorias nas condições de vida da população brasileira, inclusive da 
31 
 
população negra. Contudo, dado os fatores históricos e os 
constrangimentos raciais que ainda hoje operam no país, as políticas 
universais têm se revelado insuficientes face ao objetivo de enfrentar 
a discriminação e desigualdade racial. A presença do racismo, do 
preconceito e da discriminação racial como práticas sociais, [...] 
representam um obstáculo à redução daquelas desigualdades, 
obstáculo este que só poderá ser vencido com a mobilização de 
esforços de cunho específico. Assim, a implementação de políticas 
públicas específicas, capazes de dar respostas mais eficientes frente 
ao grave quadro de desigualdades raciais existente em nossa 
sociedade, apresenta-se como uma exigência incontornável na 
construção de um país com maior justiça social (OSÓRIO apud 
THEODORO, 2008, p.138). 
 
Desta feita, se recorrer-se às definições sobre o significado do racismo 
constatar-se-á o que se segue: 
a) “Racismo é valorização generalizada e definitiva de diferenças reais e 
imaginárias, em proveito do acusador em detrimento de sua vítima, a fim de 
justificar uma agressão” (MEMMI, Alberto apud Encyclopedia 
Universalis/UNESCO); 
b) “Sistema que afirma a superioridade racial de um grupo sobre outros, pregando, 
em particular, o confinamento dos inferiores numa parte do país (segregação racial) 
[...]”(Dicionário Petit Larousse apud RUFINO, p. 10, 1991); 
c) “Doutrina que afirma a superioridade de certas raças” (Novo Dicionário - Aurélio 
Buarque de Holanda Ferreira, 1989, p. 1443); 
d) “Toda teoria que leve a admitir, nos grupos raciais ou étnicos, qualquer 
superioridade ou inferioridade intrínseca capaz de atribuir a alguns o direito de 
dominar ou eliminar outros, pretensamente inferiores e que leve a fundamentar 
julgamentos de valor em alguma diferença racial” (DECLARAÇÃO SOBRE RAÇA E 
PRECONCEITOS RACIAIS / 1978, adotada na 20ª sessão da Conferência Geral da 
UNESCO). 
No ano 1986, com a criação do Setor de Relações do Trabalho, do Conselho 
de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, em São Paulo, iniciou-se, 
embrionariamente, uma discussão acerca do Racismo Institucional entre as(os) 
membros do grupo juntamente com professores da PUC. Naquele período tentávamos, 
no Brasil, os primeiros passos de um esboço do conceito que hoje está consagrado 
como: 
 
http://www3.ucdb.br/mestrados/RevistaInteracoes/n6_elias_olveira.pdf
32 
 
O Racismo Institucional é o fracasso das instituições e organizações em 
prover um serviço profissional e adequado às pessoas em virtude de 
sua cor, cultura, origem racial ou étnica. Manifesta-se em normas, 
práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano de 
trabalho resultantes da ignorância, da falta de atenção, do preconceito 
ou de estereótipos racistas. Em qualquer situação, o racismo 
institucional sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos 
discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios 
gerados pelo Estado e por demais instituições organizadas 
(CASHMORE, 2000; PNUD, 2011). 
 
Outra modalidade de racismo vem sendo difundida, mais precisamente no 
século XXI, qual seja, o Racismo Ambiental: 
 
“racismo ambiental” se refere a qualquer política, prática ou diretiva 
que afete ou prejudique, de formas diferentes, voluntária ou 
involuntariamente, a pessoas, grupos ou comunidades por motivos de 
raça ou cor. Esta ideia se associa com políticas públicas e práticas 
industriais encaminhadas a favorecer as empresas impondo altos 
custos às pessoas de cor. As instituições governamentais, jurídicas, 
econômicas, políticas e militares reforçam o racismo ambiental e 
influem na utilização local da terra, na aplicação de normas ambientais 
no estabelecimento de instalações industriais e, de forma particular, 
os lugares onde moram, trabalham e têm o seu lazer as pessoas de cor 
(BULLARD, 2005; CASHMORE, 2000). 
 
Ao analisar as definições supracitadas poder-se-ia questionar, sem sombra 
de dúvidas aqueles que em delírio, quase paranoico, ousam verberar contra a reação e 
organização da população negra imbuída do intuito de combater sua opressão e 
exploração (socioeconômica e políticocultural). 
Michael W. Apple, em “Consumindo o outro: branquidade, educação e 
batatas fritas” assinala, baseando-se no que Antonio Gramsci lembrava, que “a 
dominação racial, de gênero e de classe é legitimada através da criação do senso 
comum, por meio do conhecimento” (APPLE, 2002, apud COSTA, p. 39, 2002, grifo 
nosso). 
E, ainda se levarmos em consideração que a população afro-brasileira, 
maioria populacional, contudo, não é representada nos espaços de poder, portanto, não 
é e nem controla o sistema. 
http://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15560.pdfhttp://ambientes.ambientebrasil.com.br/educacao/textos_educativos/etica_e_racismo_ambiental.html
33 
 
“A teoria dos direitos humanos assegura àqueles que são vítimas de uma 
opressão o direito de liquidar com ela”, neste sentido, nada mais legitimo que a 
organização das populações negras no combate à sua exploração e opressão. 
 
 
5.1 Estudos de Casos 
 
 
Uma das confusões geradas pelo desconhecimento do conceito de racismo 
causa os seguintes pronunciamentos de lideranças negras: 
a) “Nós não somos racistas, pois pode sair no bloco quem quiser. Existem blocos 
que não permitem que o branco participe”. João Jorge dos Santos Rodrigues, 
Presidente do Bloco Afro Olodum,6 no Programa “Clodovil Abre Jogo”, em 1993, na 
TV - Manchete - Canal 9. 
 b) “O Ilê Aiye7 é o mais antigo e mais importante bloco. Criado em 74, conta com 
400 pessoas negras na sua direção. Talvez por isso dizem que somos racistas”. 
Vovô, Antônio Carlos dos Santos, Presidente do Bloco Afro Ilê Aiye durante a 
programação do Carnaval de 1993, em entrevista ao Clodovil, na TV Manchete - 
Canal 9. 
No primeiro caso, observamos uma preocupação de defesa, pois parecer 
“racista” é prejudicial, individual e coletivamente, jogando inconsequentemente a 
pecha aos “Blocos que não permitem que o branco participe”. 
Quanto ao segundo caso, a fala, reflete uma justificativa através da 
“formação do bloco”, porém, sem rebater a insinuação do entrevistador. 
Esses dois pronunciamentos, num meio de comunicação, tão poderoso 
como a televisão, sem se explicar os fatores históricos causadores/propulsores da 
formação dos blocos afros, na Bahia, que criaram uma alternativa de lazer para a 
população negra excluída, também, no carnaval, deixam de contribuir para a 
 
6 O Bloco Afro Olodum, foi criando em 25.04.1979, na cidade Salvador, Bahia. 
7 Vovô (Antonio Carlos dos Santos) afirma “na Bahia, nós conseguimos que branco no Ilê Aiyê, só 
convidado”. Prática X Produção – Uma reflexão sobre os estudos da cultura negra no Brasil hoje. ASESP – 
Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, p. 91, 1983. 
 
 
34 
 
conscientização da sociedade brasileira quanto as mazelas do racismo. Por outro lado, 
denotam um desconhecimento sobre o que é racismo. 
Em artigo intitulado “Um Farrakhan tupiniquim8”, na seção Opinião, caderno 
1, página 2, da Folha de São Paulo, no dia 15 de novembro de 1995, o articulista Josias 
de Souza insinua que “Pelé está mais Farrakhan, o líder negro racista, do que para Luther 
King” devido manifestações, do então ministro dos esportes, sobre a questão da 
ausência do “voto negro” no negro e seu apoio à Marcha Zumbi dos Palmares contra o 
Racismo, pela Cidadania e a Vida. Para melhor entendermos o assunto, apresentamos 
algumas partes do teor do texto publicado: 
 
Yes, nós temos o nosso Louis Farrakhan. A pretexto de adular os 
organizadores de uma marcha de negros a Brasília, o ministro Pelé 
produziu ontem algumas das frases mais racistas de que se tem 
notícia. Ele comentava a ausência de negros no Congresso. Disse: “O 
negro no Brasil não vota no negro”. Em seguida, deu a entender que o 
Saara de crioulos9 no Parlamento não é de todo ruim. [...]. 
 
O articulista assumiu uma postura de “escrevinhador mequetrefe ao 
externar a subjetividade de sua ignorância sobre um assunto que domina10”. Insinuar 
que “Pelé está mais para Farrakhan, o líder negro racista do que Luther King” é ignorar 
o verdadeiro significado do conceito. Racismo é um sistema que afirma a superioridade 
de uma raça sobre outra, logo tal rótulo não cabe a Louis Farrakhan11 e muito menos a 
Pelé, uma vez que nem um nem outro compõe tal sistema. Um e outro estão sim, 
trabalhando em um princípio de isonomia, para derrubar ‘toda teoria que leve a admitir, 
nos grupos raciais ou étnicos, qualquer superioridade ou inferioridade intrínseca, capaz 
de atribuir a alguns o direito de dominar ou eliminar outros pretensamente inferiores’, 
segundo apregoa a Declaração Sobre Raça e Preconceitos Raciais, adotada na 20ª Sessão 
da Conferência Geral da UNESCO, em 1978. Quanto à realização da ‘Marcha a Brasília’, 
 
8 O direito de resposta foi concedido pelo Ombudsman da Folha de São Paulo, Marcelo Leite, e publicado 
no Painel do Leitor, Caderno 1, página 3, no dia 19 de novembro de 1995. 
9 Termo pejorativo utilizado a princípio para designar espanhóis que não pertenciam à corte, 
particularmente, nascidos nas Américas. Posteriormente, o termo foi repassado aos portugueses e, 
finalmente, foi impingido aos povos negros, no Brasil. 
10 Enunciado parcial do Direito de Resposta. Texto disponível em: 
http://quexting.di.fc.ul.pt/teste/folha95/FSP.951119.txt - 250k 
11 Louis Farrakhan é o atual líder do grupo negro estadunidense Nation of Islam. 
35 
 
tem-se o fato concreto da quebra-de-braço encetada pelo movimento negro e outras 
formas organizativas para reivindicar modificações na situação da população negra e/ou 
afro-brasileira, base da construção do país, porém alijada e marginalizada dos benefícios 
socioeconômicos e político-culturais (OGUNBIYI, 2011, p. 25-37). 
Um outro aspecto interessante neste mar de confusões surge de leituras, 
onde renomados escritores podem nos induzir a erros de análise, como o que se segue: 
 
c) Embora acredite numa unidade final, que juntaria todos os 
oprimidos no mesmo combate, Sartre pensa que ela deveria ser 
precedida por um momento de separação ou de negatividade, que 
seria o racismo anti-racista contido na negritude (MUNANGA, p. 53, 
1986). 
 
 Quando Sartre 12 dizia “racismo anti-racista” subliminarmente estava 
afirmando a criação de um racismo para se combater outro. Esta assertiva é consciente/ 
inconscientemente uma excrescência, haja vista que ignora o conceito de racismo. E, ao 
mesmo tempo, poder ser considerada uma assertiva quase criminosa, pois reproduz um 
pensamento errado e politicamente incorreto. Racismo é um “sistema que afirma 
superioridade de uma raça sobre outra”, e na negritude13 está expressa um resgate de 
identidade/consciência/dignidade suprimidos ao povo negro/africano, desde África até 
toda a sua Diáspora. 
 
 
 
 
 
12 Jean-Paul Sartre (1905-1980) filósofo francês, autor do livro Reflexões sobre o Racismo. 
13 Em 1936, Aimé Césaire define-a “como uma revolução na linguagem, na literatura que permitia reverter 
o sentido pejorativo da palavra negro para dele extrair um sentido positivo” (BERND, 1984, p. 14). 
 
 
 
 
 
 
 
36 
 
6 O QUE É DISCRIMINAÇÃO RACIAL? 
 
Compilando dados acerca do significado de discriminação racial 
encontramos na “Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de 
Discriminação Racial”, adotada pelo Brasil, em 21/12/1965, o que se segue: 
 
Discriminação Racial é qualquer distinção, exclusão, restrição ou 
preferência baseadas em raça, cor, descendência ou origem étnica, 
que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, 
gozo ou exercício num mesmo plano (em igualdade de condições) de 
direitos humanos e liberdade fundamentais no domínio político, 
econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio da vida 
pública. 
 
Consta da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas 
de Discriminação Racial, conforme a Resolução 2106 (xx) da Assembléia das Nações 
Unidas, Parte I, Artigo I, Item 4 de 21/12/1965, aprovada pelo Decreto Legislativo nº. 23, 
de 21/06/1967, o que se segue: 
 
Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais 
tomadas com o único objetivo de assegurar progresso adequado de 
certos grupos raciais ou étnicos, ou de indivíduos que necessitem da 
aprovação que possa ser necessáriapara proporcionar a tais grupos ou 
indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades 
fundamentais, contanto que, tais medidas não conduzam, em 
consequência, à manutenção de direitos separados para diferentes 
grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus 
objetivos (Convenção promulgada pelo Decreto nº 65.810, em 
08/12/69 - D.O. 10/12/69, p. 237). 
 
Quem controla os meios de produção social como a comunicação, educação, 
grandes bancos, grandes indústrias, grandes comércios, agricultura, grandes redes 
prestadoras de serviços, a indústria da habitação, entre outros, detém o poder e tem a 
possibilidade de distinguir, excluir, restringir e/ou ter preferências. No Brasil, o poder é 
controlado por uma classe dominante composta por brancos e é quem pode discriminar 
racialmente o negro. 
http://www.pge.sp.gov.br/favicon.ico
http://www.pge.sp.gov.br/favicon.ico
37 
 
6.1 Estudo de Caso14: 
 
Oscar Amaral Neto15, 17 anos, negro, bem despigmentado, adotado por uma 
família de “brancos” desde seu nascimento, constantemente, era ofendido por adultos 
e crianças (incitadas pelos pais), inconformados com sua presença num conjunto de 
prédios residenciais, no bairro Baeta Neves, em São Bernardo do Campo. O casal que o 
adotou, ainda nos primeiros dias de vida, não conseguia ter filhos, e não percebeu que 
Oscar era negro, dada sua despigmentação nos primeiros dias de vida. Contudo, o casal 
criou-o de maneira igual ao irmão e a irmã que nasceram anos após sua adoção. Os/as 
discriminadores/as, terroristamente, faziam direta e indiretamente ameaças por 
telefone e chegaram ao absurdo de enviar carta anônima com letras recortadas de 
jornais, onde havia os seguintes dizeres: 
 
 “Mulher branca continua com a fera negra: 
 Não perca tempo para retirada ou vai agora aprender! 
 ou viva tempos de terror. 
 Até”. 
 
Neste caso localizamos os elementos basilares da discriminação racial, ou 
seja: o jovem é distinguido e restringido por sua origem étnico/racial, pois é negro e vive 
em um espaço “branco”. Antonio Sérgio A. Guimarães (2008) recorrendo a Gordon 
Allport (1954) diz que a discriminação – sem dar-lhe a conotação étnico-racial – é um 
“comportamento que procura impedir os membros de um determinado grupo usufruir 
certos tipos de empregos, área residenciais, direitos políticos, oportunidades 
educacionais ou recreativas, igrejas, hospitais, ou algum tipo de privilégio social” 
(GUIMARÃES, 2008, p. 49). 
 
14 Os estudos de Caso apresentados são retratos de fatos vivenciados/presenciados/compilados pelo 
autor para demonstrar como se dão as relações étnico-raciais, no Brasil, e, tem como objetivo demonstrar 
como são extemporâneos. 
15 Caso registrado através do Boletim de Ocorrência nº. 993/93, no 1º Distrito Policial de São Bernardo do 
Campo, São Paulo, no dia 10/02/93, apresentado e acompanhado pelo MNU/SBC. Publicado no Diário do 
Grande ABC nos dias 11 e 12 de Fevereiro de 1993; noticiado na Rádio CBN, no dia 12/02/93 e no Jornal 
Record / Regional, em 13/02/93. 
 
 
38 
 
Tais restrições têm como finalidade a anulação do exercício (em igualdade 
de condições) de direitos humanos e liberdades fundamentais (de habitação e de ir e 
vir) no domínio social e público. Isto sem aprofundarmos nos direitos previstos no 
Estatuto da Criança, do Jovem e Adolescente. 
Outra análise, que cabe ao ocorrido é a ausência de preocupação da mãe e 
do pai adotivos de André em prepará-lo para “sobreviver” numa sociedade hostil a 
“negros que não sabem o seu lugar”. Acreditaram que o carinho, as mesmas 
oportunidades proporcionadas aos demais, o filho e a filha biológicos que tiveram, após 
a adoção de André, assim com o aconchego familiar bastavam. A dura e cruel lição 
mostrou que não. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
39 
 
7 O QUE É PRECONCEITO RACIAL ? 
 
Dentre as definições sobre o que é preconceito racial encontramos as 
seguintes: 
 
Uma atitude negativa adotada por um grupo ou por uma pessoa, em 
relação a um grupo ou outra pessoa, baseada num processo de 
comparação social, segundo o qual o grupo de indivíduos julgador é 
considerado como ponto positivo de referência. 
James M. Jones 
 
 
Preconceito racial é uma atitude social propagada entre o público por 
uma classe exploradora com o propósito de estigmatizar algum grupo 
como inferior, de maneira que a exploração do grupo ou mesmo seus 
recursos possa justificar. 
Oliver Cromwell Cox 
 
Com base nas conceituações acerca do que é preconceito racial acima 
visualiza-se que no Brasil o grupo de indivíduos julgador e que se considera e é 
considerado como ponto positivo de referência é não-negro. E, em outras palavras, é “o 
branco, como povo, proprietário exclusivo do lugar de referência, a partir do qual o 
negro será definido e se autodefinirá” (SANTOS, 1983, p. 26). 
Portanto, as atitudes negativas e sociais adotadas e propagadas entre o 
público provêm deste grupo ou de pessoas que têm seus interesses aliados a essa classe 
exploradora - por conseguinte – composta por brancos. 
 
7.1 Estudos de Casos 
 
 A partir de dísticos tais como: “um branco correndo é atleta, um negro 
correndo é ladrão”, detectamos o preconceito racial. Passando pelo que ainda existe 
nos conteúdos dos livros didáticos onde os personagens negros não têm nomes e sim 
apelidos, caracterizados sempre com lábios carnudos e avermelhados, cabelos crespos 
e frequentemente em funções/ocupações vistas como “subalternas”, “submissas” etc. - 
se homens. Ou, com lenços na cabeça, como babá, faxineira ou cozinheira, tendo, além 
daqueles traços reservados aos homens negros, saliências calipígias e seios 
40 
 
proeminentes, para as mulheres negras. Essas imagens são reproduzidas, também, nos 
meios de comunicação (TV, Cinema, Revistas e Jornais) que procuram mostrar o negro 
como sinônimo de: “trombadão”, bêbado, indolente e “macumbeiro”, etc. 
 A utilização desses e outros estereótipos estabelecem a “atitude negativa 
adotada por uma pessoa ou um grupo de indivíduos” que se consideram como ponto 
positivo de comparação visando inferiorizar-nos para justificar a exploração e opressão. 
Ilustrando, apresentamos alguns casos: 
1) Em 12/01/1989, O Jornal Notícias Populares, em sua página de número 7, 
registrava, através de uma matéria assinada por Sônia Abrão, o seguinte: 
 
 Foto. 6 Fonte: do autor 
 
“Xuxa chama negro de macaquinho e ameaça levar pito”. 
“A apresentadora Xuxa pisou feio na bola ao chamar um garoto negro 
de “macaquinho” e isto irritou profundamente líderes de movimentos 
contra o racismo em várias cidades do país. Em Brasília, a indignação 
chegou a tal ponto que a coordenadora do Movimento Negro 
Unificado - MNU, Jacira da Silva, ameaça processar a “Rainha dos 
Baixinhos”. 
 
2) O Diário Popular, de 13/10/1992, na página 9, registra, através da coluna 
do jornalista Mauro Santayana, intitulada “Preto e Branca”, um desagravo à 
população negra pela infeliz frase de Xuxa que ao ser homenageada por sua 
terra natal, uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, quando afirma que 
graças a ela “o mundo pode deixar de pensar que o Brasil é um país só de 
negros e “mulatos”16. Na ocasião o constrangimento foi visível entre os 
 
16 Termo extremamente pejorativo que significa “cruzamento de mula com cavalo ou jumento com égua” 
que traduzimos em cruzamento de raça superior com raça inferior, logo a origem etimológica da palavra 
é racista e ofende negras(os) menos pigmentadas(os) conscientes de sua negritude (JESUS, 1993). 
41 
 
que se encontravam a seu lado, como Renato Aragão, e mais ainda ao seu 
companheiro, Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum (1941 - 1994). 
3)O jornalista Antônio Stélio, em sua coluna na Gazeta Ilustrada, do Rio 
Branco, Acre, no dia 23/08/1991, teve, conforme têm inúmeros racistas de 
plantão, a infeliz idéia de em matéria denominada “Aperto anti-racista - O 
Preto”, reproduzir frases e dísticos que denotavam e conotavam 
preconceito racial, como: 
“Qual a diferença entre o preto e o câncer? 
- O câncer evolui". 
O Movimento Negro Unificado – MNU, de Brasília e Movimento dos Direitos 
Humanos de Rio Branco entraram com um processo contra o jornalista. 
4) Na folha de São Paulo, de 17.10.94, Folhateen, caderno 6, página 4, 
encontramos outra pérola do preconceito racial nos quadrinhos “Los 3 
Amigos”- Banco Nacional de Mulheres de Marisales, assinado por Angeli, 
Laerte, Glauco e Adão. Alguns dos chargistas citados são notórios por suas 
posições de vanguarda, no período da ditadura militar, contudo, escorregam 
quando a questão do “humor” deprecia a raça negra. Aqui localizamos a 
“indignação narcísica” termo cunhado pela doutora em psicologia social 
Maria Aparecida Silva Bento (2002, p. 29). 
Este tipo de “humor” é desqualificado, também, pela Resiliência que 
entende como indicador de humor “a capacidade manifestada por palavras, 
expressões corporais e faciais, entre outras, que contém elementos 
incongruentes e hilariantes com efeito tranquilizador e prazeroso para si e 
os/as outras/os” (OGUNBIYI, 2004, grifo nosso). 
42 
 
 
 Foto: 7 Fonte: do autor 
Na sequência: um dos “3 Amigos”, o primeiro da fila de um caixa automático, digita 
um botão e, no quadro seguinte, salta sobre suas mãos uma mulher branca e nua; 
o segundo faz sua operação e mergulha sobre seus braços uma mulher, também 
branca, também nua. O terceiro faz a mesma operação e cai-lhe sobre os braços 
um negro, maior do que ele, dizendo a seguinte frase: “Saldo Negativo, bêibe [...]”. 
No primeiro caso o preconceito racial se caracteriza pela frase 
“macaquinho” uma das muitas formas de tentar inferiorizar o negro. No segundo caso 
sobressai à preocupação preconceituosa em relação ao modo da raça negra ser, pois 
acha que o Brasil é visto lá fora como sendo um país “só de negros [...]”. Isto quando a 
mídia pensa-se branca para brancos, haja vista que as “paquitas” da tal apresentadora, 
no período, eram sempre todas brancas (louras ou alouradas). 
O caso número 3, assim como o número 4, ratificam a pobreza de espírito 
profissional que permeia o anedotário, as piadas, chiste etc., quer seja nos programas 
humorísticos de rádio e televisões brasileiras, quer seja na mídia impressa em geral, os 
quais produzem e reproduzem o discurso viciado “adotado pela grande imprensa” 
escrita, falada, televisiva etc. que não vêem mal na propagação destas “atitudes 
negativas entre o público”. Alguns setores reclamam “o direito da liberdade de 
imprensa” e/ou “direito de expressão” para continuar afetando a dignidade humana. 
43 
 
 Os estragos psicológicos causados a gerações e gerações de crianças, 
jovens, adolescentes e adultos negros pela propagação deste tipo de “humor” são 
incomensuráveis. Por outro lado, não contribui em nada para relações interpessoais 
sadias, humanizadas e respeitosas entre negras/os e não-negras/os. 
Entrementes, encontramos a organização de outros segmentos aliados 
atuando contra tais desmandos. A “Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a 
Cidadania” em conjunto com a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara 
dos Deputados, em Brasília, divulgou recentemente a 16ª Lista dos programas de TV que 
ferem a dignidade humana, nela estavam relacionadas 874 denúncias17. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17 Foram apuradas 874 denúncias dos telespectadores desde outubro do ano de 2008, seja pelo site 
www.eticanatv.org.br, ou pelo Disque Câmara (0800 619 619). 
 
http://www.eticanatv.org.br/
44 
 
8 PODE O/A NEGRO/A E/OU AFRO-BRASILEIRO/A SER RACISTA? 
 
Se ao esmurrarmos uma rocha e, em consequência disto, quebramos a mão, a agressora não 
será a rocha. 
 Baba Agba 
 
É pensamento comum a afirmação de que o negro e/ou afro-brasileiro pode 
ser racista. E na sociedade brasileira obtemos esse tipo de ideia através da absorção de 
comentários que formam a opinião da maioria de um grupo, por tradição e emitimos 
julgamentos superficiais supondo que conhecemos a verdade. Perdoável seria se tal 
pensamento permeasse uma minoria desinformada, no entanto, ele alcança áreas que 
envolvem escritores/as famosos/as, historiadores/as, sociólogos/as, antropólogos/as, 
advogados/as, juristas, jornalistas, sindicalistas etc., o que agrava a questão. 
Ellis Cashmore (2000), diz que: 
 
A reação negra ao racismo [...] assume várias formas; aceitar as 
categorias raciais e articulá-las de modo imitar [...] o branco é apenas 
uma delas. Chamar isso de racismo invertido não parece servir às 
aspirações analíticas. O termo sugere erroneamente que o racismo, 
nos dias atuais, pode ser estudado por meio da avaliação de crenças, 
sem a cuidadosa consideração das experiências históricas 
amplamente diferentes dos grupos envolvidos (CASHMORE, 2000, p. 
475). 
 
 Nas divagações científicas (filosóficas, sociológicas e antropológicas) 
existentes assim como, em entrevistas, reportagens escritas, radiofônicas e televisivas 
observamos, constantemente, aberrações quando tocam na definição sobre o racismo 
causando dúvidas e em consequência gerando interpretações, esdrúxulas, as quais se 
desviam do seu real significado. Entendemos que estas análises partem sempre do viés 
étno-eurocêntrico, portanto, por mais avançadas que aparentem carecem da 
“neutralidade científica” tão propagada. Logo, tendem a não expor tanto os opressores, 
minimizando-lhes a culpa e, por vezes, jogando-a sobre os ombros dos povos oprimidos 
quando estes reagem ao ônus de um racismo que o negro não inventou. 
 James M. Lawler, em “Inteligência, Hereditariedade e Racismo”, afirma que: 
45 
 
 
O racismo é com excessiva frequência visto como pura questão de 
psicologia e de atitudes individuais, ao mesmo tempo que se passa por 
alto a discriminação na vida real que origina essa psicologia. Quando 
os negros lutam contra este sistema de exploração especial diz-se que 
se trata de discriminação ao contrário. 
Ver as coisas a esta luz é um efeito da visão distorcida causada pelo 
racismo. 
O racismo é uma instituição socioeconômica e, ao mesmo tempo, um 
sistema de idéias que justifica esta instituição e impede as pessoas de 
ver a sua verdadeira natureza. 
A ideologia racista, [...] consiste em lançar as culpas para a vítima 
(LAWLER, p.225, 1981). 
 
Como exemplo desta visão distorcida encontramos as ilações de Pierre-
André Taguieff, filósofo e cientista político francês do Centro Nacional de Pesquisas 
Científicas (CNRS), um dos mais respeitados da atualidade, que afirma: 
 
Nos Estados Unidos, a questão negra está integrada na realidade 
americana, quer dizer, existe uma tradição organizada de autodefesa 
do afro-americano e uma ideologia de identidade chamada negritude. 
O racismo branco se afronta com organizações racistas anti-brancos, 
que pregam um apartheid (TAGUIEFF, p. 67, 1983). 
 
Ora, sabemos de quem parte tais elucubrações e têm em geral um perfil 
identificável: ou são aqueles(as) “aliados(as)” preocupados em conter a reação dos 
setores oprimidos; ou daqueles “negros(as)”, que devido a tendência ao alacroismo18 ou 
não, que tentam justificar, consciente/inconscientemente, seu “rabo preso”; e, ainda 
daqueles(as) comprometidos(as) com o sistema. 
Como exemplos mais recentes, encontramos, no Brasil, as(os) intituladas(os) 
“113 Cidadãos Anti-Racistas Contra as Leis Raciais”. Composto por um grupo de 
intelectuais, sindicalistas, empresários(as) e ativistas

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