LINGUA
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A linguagem, seja verbal,
escrita ou outras,
permite ao ser humano
expressar qualquer
pensamento,
o que faz dela a base
de todo o conhecimento.
Apesar disso, a ciência
que a estuda, a lingüística,
é pouco conhecida,
embora tenha sido
a primeira disciplina
de humanidades a
ganhar status científico.
Conhecer um pouco
da história dessa ciência
\u2013 e a importância do estudo
da linguagem \u2013 é o objetivo
deste artigo.
L I N G Ü Í S T I C A
Aldo Bizzocchi
Programa de Mestrado
em Comunicação,
Fundação Cásper Líbero (São Paulo)
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GUAGEMGUAGEM
rais, como física, astronomia, biologia, e esquecem
que as disciplinas de humanidades tambØm sªo
ci\u152ncias. Hoje, porØm, a maioria das ci\u152ncias huma-
nas tem rigor metodológico comparÆvel ao das ci\u152n-
cias naturais e usa ferramentas como a lógica e a
matemÆtica para descrever seus objetos de estudo e
construir teorias complexas.
Para que as ci\u152ncias humanas adquirissem esse
rigor, foi decisiva a contribuiçªo da lingüística. Ela
foi a primeira dessas disciplinas a se constituir
como ci\u152ncia, no final do sØculo 18, com mØtodo e
objeto próprios e bem definidos, emprestando de-
pois às demais o seu mØtodo de pesquisa. Para
entender como isso ocorreu, podemos fazer uma
viagem no tempo, desde a Antigüidade, quando a
curiosidade sobre a linguagem humana começou a
inquietar os filósofos e sÆbios, atØ os dias atuais.
Na verdade, a linguagem Ø tªo importante que,
sem ela, nªo seríamos capazes de pensar, pois todo
pensamento estrutura-se na forma de alguma lin-
guagem, seja ela verbal, visual, gestual etc. O filóso-
fo grego Parm\u152nides (535-450 a.C.) jÆ dizia que “ser
e pensar sªo uma só e a mesma coisa”, idØia reafir-
mada pelo filósofo franc\u152s RenØ Descartes (1596-
1650) na famosa frase “penso, logo existo”.
Nªo Ø à toa que em vÆrias doutrinas o conceito de
exist\u152ncia estÆ intimamente ligado à palavra: o
filósofo grego HerÆclito (540-480 a.C.) chamou de
logos (‘palavra’, em grego) o princípio universal do
‘ser’, ao mesmo tempo palavra e pensamento. Na
mesma linha a Bíblia afirma, no G\u152nesis, que no
princípio era o ‘verbo’, ou seja, a palavra, ligando o
conceito de linguagem diretamente à própria idØia
da ‘criaçªo’ (ou exist\u152ncia). Se Ø impossível, como
destaca a filosofia da ci\u152ncia, conhecer a realidade
‘em si’, mas apenas construir uma imagem dela,
Quando se fala em ciência, as pessoas pensam logo nas ci\u152ncias natu-
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baseada em nossos sentidos e em nosso pensamen-
to, e se pensamento Ø linguagem, entªo a linguagem
Ø a base para todo o conhecimento humano sobre a
natureza e o próprio homem. Apesar disso, a ci\u152ncia
que a estuda, a lingüística, ainda Ø pouco conhecida.
Quando se discute a questªo da linguagem, a
primeira pergunta Ø: “Por que o homem fala?” Na
verdade, todos os animais usam alguma forma de
linguagem, mas os diversos ruídos que produzem só
expressam idØias genØricas de sentimentos, como
fome, dor ou medo. O homem Ø o \u153nico a usar uma
linguagem articulada, capaz de expressar todas as
nuances do pensamento, inclusive conceitos abs-
tratos.
VÆrias teorias tentam explicar como o homem
passou de grunhidos isolados a um sistema de
elementos articulados (as palavras) que se combi-
nam por um conjunto de regras (a gramÆtica), for-
mando conceitos complexos. A explicaçªo mais
recente Ø a ‘teoria da torre de Babel’, inspirada na
lenda bíblica segundo a qual, no princípio, todos os
homens falavam a mesma língua, que teria sido
confundida por Deus como castigo à ambiçªo huma-
na de atingir o cØu construindo uma torre.
Segundo a teoria da torre de Babel, a capacidade
humana para desenvolver uma linguagem Ø produto
da herança genØtica: todos, ao nascer, sªo capazes
de aprender qualquer linguagem. Se nós, brasilei-
ros, falamos portugu\u152s, Ø porque essa Ø a primeira
língua que nos ensinam na infância. Essa capacida-
de jÆ devia estar presente nos ancestrais da espØcie
humana, os hominídeos, hÆ alguns milh\u131es de anos.
É claro que os hominídeos mais primitivos apenas
grunhiam, mas com o tempo e a evoluçªo biológica
eles passaram a andar eretos, a fabricar instrumen-
tos e a falar.
A fala articulada resultaria, portanto, de uma
lenta evoluçªo a partir de um código primitivo de
grunhidos. Isso sugere que a primeira língua huma-
na teria surgido em apenas um grupo de hominídeos,
fragmentando-se em muitos dialetos à medida que a
populaçªo humana espalhou-se pela Terra. Essa
língua-mªe de todos os idiomas, que os lingüistas
chamam de proto-world, teria sido falada hÆ vÆrios
milhares de anos.
A ORIGEM DOS ESTUDOS LINGÜÍSTICOS
A primeira descriçªo minuciosa e sistemÆtica de um
idioma foi realizada por volta do sØculo 6 a.C. por
um indiano chamado Panini. Ele elaborou uma
gramÆtica do sânscrito, língua sagrada da \u2dd ndia. Mas
só na GrØcia antiga, a partir do sØculo 5 a.C., teve
início, de fato, a especulaçªo racional sobre a lin-
guagem. Como para os filósofos gregos linguagem e
pensamento eram a mesma coisa, compreender o
pensamento exigia estudar a linguagem. Aristóteles
(384-322 a.C.), por exemplo, ao propor suas catego-
rias do pensamento (substância, atributo, açªo etc.),
estava de fato propondo o que Ø hoje conhecido
como classes gramaticais: substantivo, adjetivo,
verbo etc.
É curioso que a preocupaçªo com o estudo da
língua de uma civilizaçªo nunca ocorre quando ela
estÆ em seu apogeu, mas só durante sua decad\u152ncia.
Tal estudo assume, assim, um carÆter de resgate do
período Æureo daquela civilizaçªo, marcado pela
influ\u152ncia de grandes autores, os chamados ‘clÆssi-
cos’. Quando o grego foi estudado de modo sistemÆ-
tico, no sØculo 4 a.C., a civilizaçªo grega nªo estava
mais no auge. Cidades que um sØculo antes eram os
centros da civilizaçªo hel\u152nica, como Atenas, jÆ
viviam sob o domínio do rei macedônio Alexandre,
o Grande. Ele tambØm dominava o Egito, onde
fundou a cidade de Alexandria, que se tornou logo
um pólo cultural famoso por sua biblioteca e pelos
sÆbios que lÆ trabalhavam.
Esses sÆbios iniciaram os estudos do grego. Eles
formularam a hipótese, hoje chamada de concepçªo
‘clÆssica’ ou ‘imperial’, de que as línguas, como os
impØrios, apresentam tr\u152s fases: a) a de formaçªo,
em que a língua, pobre e rude, Ø falada por pastores
e camponeses, e surgem os primeiros autores; b) a de
apogeu, quando surgem os grandes autores, por isso
chamados de ‘clÆssicos’; e c) a de decad\u152ncia, em
que a língua começa a se degenerar e diminui a
qualidade da produçªo literÆria.
Em resumo, toda língua de cultura passaria por
tr\u152s estÆgios: arcaico, clÆssico e tardio. Nªo por
acaso, o período clÆssico coincidiria com a fase de
apogeu político e econômico do Estado em que Ø
falada. Essa concepçªo levou os sÆbios alexandrinos
a elegerem o grego do sØculo 5 a.C., auge do poderio
político e econômico de Atenas, como o modelo de
língua a ser seguido. A gramÆtica, definida como a
‘arte de escrever com correçªo e elegância’, tinha
carÆter eminentemente normativo, ou seja, era um
conjunto de regras a ser seguido por todos os que
pretendessem escrever bem.
As regras eram definidas pelo modo como os
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com imagens de Cristo e dos santos. Para resolver a
questªo, Sªo TomÆs propôs que adorar imagens de
Deus e dos santos enquanto objetos em si Ø um
pecado, mas se estas sªo vistas como representaç\u131es
(signos) da divindade, entªo nªo Ø pecado, pois a