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a 
excitabilidade. 
 
 
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A hipocalemia eleva o potencial em repouso e hiperpolariza a célula, enquanto a 
hipercalemia diminui o potencial de ação, tornando-o menos negativo, e inicialmente torna a 
célula hiperexcitável. Se o potencial de membrana de repouso diminuir pra níveis abaixo do 
limiar de ação, ocorre despolarização, não podendo ocorrer repolarização, e a célula deixa de ser 
excitável. A translocação do potássio entre os compartimentos corporais resulta em uma maior 
alteração na proporção entre as concentrações intra e extracelular do que alterações no conteúdo 
total de potássio no organismo. 
 
Participação no equilíbrio ácido-básico 
 
O efeito de alterações agudas no pH na translocação do potássio entre os compartimentos 
intra e extracelular é complexo. Em geral, a acidose é associada ao movimento de íons potássio 
do FIC para o FEC, e a alcalose do FEC para o FIC. Alguns estudos com animais, e 
observacionais em pacientes humanos, apontam para a previsão de que a acidose metabólica 
aguda possa estar associada com um aumento de 0,6 mEq/L na concentração de potásio sérico 
para cada queda de 0,1 no pH. 
Contudo, estudos mais aprofundados demonstraram que as alterações na concentração sérica 
de potássio durante distúrbios ácido-básicos agudos eram bastante variáveis. As mudanças eram 
mais significativas durante a acidose mineral aguda. Em cães, o aumento na concentração sérica 
de potássio parece ser muito menor durante acidoses respiratórias do que após administração de 
ácidos minerais. Um aumento na calemia não parece ocorrer em acidoses metabólicas agudas 
causadas por ácidos orgânicos (ácido láctico e cetoácidos, por exemplo). A infusão aguda de 
ácido β-hidroxibutírico em cães normais causou um aumento na concentração de insulina no 
sangue portal venoso e hipocalemia, provavelmente como resultado do influxo de potássio para 
o interior das células. De modo contrário, a infusão aguda de ácido clorídrico levou a um 
aumento da concentração de glucagon e à hipercalemia. Em resumo, apenas espera-se alterações 
clinicamente relevantes na calemia quando ocorre acidose mineral. 
Muitos fatores provavelmente contribuem para as diferentes alterações que ocorrem na 
concentração sérica de potássio durante distúrbios acido-básicos agudos, incluindo pH 
sanguíneo e concentração de HCO3-, natureza do ácido aniônico (mineral ou orgânico), 
osmolalidade, atividade hormonal (catecolaminas, insulina, glucagon, e aldosterona), e as 
funções excretória e metabólica dos rins e fígado. A hiperosmolalidade e a insuficiência de 
insulina são provavelmente as responsáveis pela hipercalemia observada em pacientes com 
diabetes cetoacidótica do que a acidose em si. 
A hipercalemia associada com acidose metabólica aguda induzida por ácidos minerais é 
transitória. Em um estudo sobre acidose metabólica aguda e crônica induzidas em cães pela 
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administração de HCl ou NH4Cl, ocorreu hipercalemia imediatamente após a infusão de HCl, 
mas hipocalemia só foi observada três a cinco dias após a administração de NH4Cl. A 
hipocalemia observada foi relacionada com excreção renal inadequada de potássio e um 
aumento na concentração plasmática de aldosterona. Achados similares foram descritos em 
ratos com acidose metabólica crônica induzida por NH4Cl. Apesar de déficit no conteúdo 
corporal total de potássio, ratos com acidose metabólica crônica não mantiveram a calemia 
adequadamente. Esse efeito pode ser causado por uma diminuição na filtração de HCO3-, 
aumento na passagem distal de sódio, e aumento no fluxo tubular distal. 
 
 
O potássio nos eritrócitos 
 
A hipercalemia pode se desenvolver in vitro devido à hemólise ou armazenamento 
prolongado de amostras sanguíneas previamente à separação do soro ou plasma dos eritrócitos. 
O vazamento de potássio intraeritrocitário pode resultar em erros em algumas espécies nas quais 
sua concentração é elevada nessas células, tais como equinos, suínos e a maioria dos bovinos. 
Os eritrócitos de felinos e a maioria dos caninos apresentam alta concentração de sódio e 
relativamente pouco potássio. Hemólises discretas vão interferir muito pouco na concentração 
de potássio no soro ou plasma dessas espécies. Existem, contudo, polimorfismos no conteúdo de 
cátions intracelulares em certas raças de ovinos, bovinos e cães, que estão relacionados à 
atividade da Na+, K+-ATPase na membrana dos eritrócitos maduros. 
Como nos humanos, aquelas espécies que presentam altas concentrações intraeritrocitárias 
de potássio (fenótipo HK), tem uma Na+, K+-ATPase ativa que troca sódio intracelular por 
potássio extracelular mediante hidrólise do ATP. Outros animais apresentam fenótipo LK, com 
baixas concentrações de potássio nos eritrócitos, como algumas raças de ovinos, caprinos, 
búfalos e a maioria dos bovinos. Seus eritrócitos possuem baixa atividade da Na+, K+-ATPase e 
alta permeabilidade passiva para o potássio. 
Os eritrócitos de felinos, ferrets, e a maioria dos cães não possuem atividade da Na+, K+-
ATPase, e apresentam concentrações de sódio e potássio semelhantes ao plasma. Estudos 
relataram que o fenótipo canino HK é herdado de modo autossômico recessivo e que pode ser 
controlado pelo mecanismo que regula o desaparecimento da Na+, K+-ATPase durante a 
maturação celular. 
Em algumas raças de cães japoneses, como Akitas e Shibas, o fenótipo HK foi encontrado 
em 10 de 13 raças ou populações. A população de cães Akitas mostrou uma prevalência de 
26,3% de cães HK em um estudo. O grupo de cães HK encontrado resultou de cruzamentos 
entre pais ambos LK , ou ambos HK, ou entre LK e HK. Quando ambos os pais eram HK, todos 
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os filhotes apresentavam fenótipo HK. Os eritrócitos com alta concentração de potássio exibem 
características diferentes das células LK em vários aspectos, há um aumento do consumo de 
aminoácidos utilizando o gradiente de sódio, o que resulta em acúmulo anormal de aspartato, 
glutamato, glutamina e glutationa. 
 
 
Tabela 1. Valores de referência para concentrações de potássio sérico e intraeritrocitário 
nas diferentes espécies animais. 
Espécie Sódio (mEq/L) Potássio (mEq/L) 
Humanos 10-21 104-155 
Caninos LK 93-150 4-11 
Caninos HK 54 124 
Felinos 104-142 6-8 
Equinos 4-16 80-140 
Bovinos LK 72-102 7-37 
Bovinos HK 15 70 
Ovinos LK 74-121 8-39 
Ovinos HK 10-43 60-88 
Suínos 11-19 100-124 
(DiBartola & Morais, 2008) 
 
 
O volume das células HK é maior do que o das células LK e possuem maior tendência à 
hemólise devido ao estresse oxidativo ou osmótico, exibindo maior sensibilidade aos extratos de 
cebola e sulfetos aromáticos, mas não estão diretamente envolvidas com doenças graves. Além 
disso, as células HK podem apresentar diminuição de sua vida-média quando em comparação 
com eritrócitos LK. 
 
 
 
Homeostase 
 
O equilíbrio do potássio no organismo envolve regulação do balanço interno (distribuição 
entre os compartimentos intra e exracelular), assim como balanço externo (a relação entre 
entrada e saída de potássio do organismo). O balanço interno é influenciado pelas alterações no 
equilíbrio ácido-básico, glicemia e administração de insulina, exercício e liberação de 
catecolaminas. 
 
 
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Figura 3. Diagrama esquemático da homeostase do potássio. Os principais mecanismos para 
correção dediminuição ou elevação na calemia e suas formas de ação. 
 
 
Homeostase externa 
 
O equilíbrio externo do potássio é mantido pelo balanço entre excreção (principalmente 
através da urina) e ingestão pela dieta. Em animas normais, o potássio entra no corpo apenas 
através do trato gastrintestinal, e praticamente todo potássio