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Catalogação na fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. D422d Del’Olmo, Florisbal de Souza, 1941 – Curso de direito internacional privado, 10.ª edição/Florisbal de Souza Del’Olmo – Rio de Janeiro : Forense, 2014. Inclui bibliografia ISBN 978-85-309-5407-9 1. Curso de direito internacional privado. I. Título 99-0355 CDU 341.9 mailto:forense@grupogen.com.br http://www.grupogen.com.br A Deus, Criador de Todos os Mundos; A Jesus Cristo, o Divino Mestre; Pela vida, pela saúde, pelas inspirações. À Minha Família, Aos Meus Alunos, Aos Meus Amigos, Por tudo o mais. O autor Ao atingir sua décima edição, o Curso de Direito Internacional Privado busca complementar e aprimorar as sucessivas revisões e atualizações das edições anteriores, sempre com o intuito de torná-lo cada vez mais apropriado e completo para o estudioso do Direito. Procedeu-se a uma releitura atenta e abrangente de todos os capítulos, atualizando-os de acordo com a legislação vigente e as doutrinas clássica e contemporânea, bem como procurou-se sanar eventuais lacunas sobre a matéria. Em alguns capítulos, como os que abordam a nacionalidade, o direito de família, a adoção internacional, a concorrência internacional e o Mercosul, o aporte oferecido nesta edição foi mais expressivo, devido a aspectos diversos e ao dinamismo vivenciado, ultimamente, por esses temas no que tange ao Direito Internacional Privado. Procuramos elaborar um manual voltado especialmente para o estudante universitário, com uma linguagem acessível e objetiva, tornando a obra mais dinâmica. Em alguns capítulos, elaboramos tabelas para sintetizar determinados assuntos, com vistas a facilitar a aprendizagem do aluno, atentos, ademais, aos principais temas cobrados em concursos públicos, sempre concorridos, nos quais o Direito Internacional Privado tem sido uma matéria cada vez mais presente. Os resumos e as questões propostas, no final de cada capítulo, permitem ao leitor revisar brevemente e avaliar seus conhecimentos sobre o que aprendeu. Buscando novas ementas sobre conflitos que envolvem leis interespaciais, houve não apenas substituição de casos apresentados na edição anterior, como o aporte de jurisprudência em mais alguns capítulos, de forma a permitir que o aluno e o jurista conheçam o posicionamento mais atual dos Tribunais do País. Exemplos clássicos da doutrina nacional e estrangeira também foram lembrados e explicados pertinentemente no decorrer dos capítulos, visualizando-se a aplicação das normas do DIPr em diversos países. No acervo das normas brasileiras pertinentes ao Direito Internacional Privado, em anexo no final da obra, a par das atualizações legislativas, incluímos outros dispositivos, como artigos e parágrafos da Constituição Federal, do Código Civil e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Registramos, a exemplo de edições anteriores, a valiosa participação, com pertinentes sugestões e comentários sempre enriquecedores e oportunos, dos professores Augusto Jaeger Junior, José Russo e Silvio Battello, que tanto contribuíram para o aprimoramento desta obra. Acresçam-se, nesta edição, pertinentes subsídios dos professores doutores Guilherme Camargo Massaú, Liliana Locatelli e Mara Darcanchy. O auxílio da Especialista em Direito e oficial de chancelaria Elisa Cerioli Del’Olmo Kämpf também se constituiu em aporte inestimável, possibilitando, com sua percuciente leitura e oportunas críticas em cada um dos capítulos, alcançar o objetivo principal da obra – torná-la um instrumento acessível e objetivo, de maneira a propiciar um aprendizado mais fácil dos temas em estudo. A sua enriquecedora experiência laboral no Ministério das Relações Exteriores contribuiu para selecionar casos envolvendo os elementos de conexão do DIPr. Reiteramos a nossa permanente disposição de mantermos e aperfeiçoarmos o Curso de Direito Internacional Privado como uma fonte válida e eficaz no aprendizado de nossa matéria, permitindo ao estudioso um adequado conhecimento e domínio desse ramo, a cada dia mais presente, no universo das disciplinas jurídicas. Janeiro de 2014 É com a disposição de ser útil aos estudiosos de Direito de todo o Brasil – professores, magistrados, procuradores, advogados e candidatos a concursos públicos na área jurídica –, que apresentamos este Curso de Direito Internacional Privado. Lançada em 1999, como Direito Internacional Privado: Abordagens Fundamentais, Legislação, Jurisprudência, a obra mereceu acolhida, com tiragens significativas. Embora sempre atualizada, sentimos que chegara o momento de uma releitura mais abrangente, demorada e atenta e de inserção de novos capítulos, abordando segmentos do DIPr, não contemplados especificamente. Colocamos nessa tarefa todo o nosso esforço e experiência acumulada. Admitido para estágio pós-doutoral no Curso de Pós-Graduação em Direito (CPGD) da Universidade Federal de Santa Catarina, sob a orientação do Professor Dr. Luiz Otávio Pimentel, centramos essa instigante fase de nossa vida acadêmica na elaboração de uma obra que, a par de se constituir em preito de gratidão aos que – professores e alunos – a haviam conduzido a aceitação tão ampla, trouxesse contribuição maior no campo do DIPr. A eleição dos temas para reflexão tem origem acadêmica diversa. Provém de troca de experiências com expoentes da disciplina e de áreas correlatas, da releitura de clássicos nacionais e estrangeiros e das aulas ministradas em cursos de graduação e pós-graduação, de modo especial nas Universidades Federais de Santa Catarina (UFSC), do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Amazonas (UFAM) e de Uberlândia, MG (UFU), bem como na instituição em que trabalhamos desde 1996, a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), campus de Santo Ângelo, RS, e da Escola Superior de Direito de Mato Grosso (ESUD), de Cuiabá, MT. Nossa visita à Polônia, durante o estágio pós-doutoral, em maio de 2007, proferindo palestras na Universidade de Varsóvia, na Escola Superior de Economia de Varsóvia e na Universidade Marie Curie, de Lublin, com o aporte trazido por essa experiência e troca de conhecimentos transnacional, conscientizou-nos da missão. Questões levantadas pelos alunos, em sua ânsia de resposta imediata ede ampliação de saberes, nesses encontros, trouxe motivação especial. Encetado e bem elaborado, esse trabalho teve a gratificação maior do conhecimento de novos vieses e peculiaridades do Direito Internacional Privado. Ao optarmos por um objeto abrangente da disciplina, incluindo conflito de leis interespacial, nacionalidade, condição jurídica do estrangeiro, direitos adquiridos, conflito de jurisdições, competência internacional e reconhecimento de sentenças estrangeiras, surgiu a necessidade de abordar cada um deles. Reside aí a fonte dos capítulos adicionados, resultando agora em número total de vinte e cinco. A nacionalidade, a condição jurídica do estrangeiro, as pessoas e a adoção internacional passam a constituir capítulos próprios. O consumidor, a concorrência, a propriedade intelectual, as relações jurídicas no trabalho e a competência, todos analisados sob o viés do Direito Internacional Privado, enriquecem a obra e permitem ao leitor economia de meios e buscas. Por óbvio, a consulta a outros autores é necessária e recomendável, pois o Curso de Direito Internacional Privado, como toda obra dessa natureza, não pode ter a pretensão de esgotar os temas abordados. Mantiveram-se, no final dos capítulos, os resumos e as questões propostas, estas agora voltadas para respostas de formulação própria, que permitam ao leitor explicitar o que aprendeu, refletir sobre o aprendido e dominar o conteúdo estudado. O destaque de termos, expressões ou conceitos agora está em itálico, por assim entendermos mais adequado. Continuam presentes legislação e jurisprudência. A primeira permeia toda a obra, com acervo mais trabalhado no capítulo XI, optando-se apenas por não inserir, como anexo, o Estatuto do Estrangeiro (facilmente acessível no site http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6815.htm) e o Código Bustamante (site ccji.pgr.mpf.gov.br.ccji/legislacao). Houve, assim, substancial espaço para os novos capítulos e o conteúdo ampliado dos demais. Quanto à jurisprudência, referem-se decisões das cortes nacionais embasando e exemplificando conteúdos ao longo da obra, entendendose, contudo, desnecessário apresentar um rol mais amplo de ementas, hoje postas à disposição de todos nos endereços eletrônicos dos respectivos tribunais. Um trabalho como este só é possível pela convergência de fatores e conjuntura, o que implica gratidão a colegas e amigos, mestres e alunos. Impõe-se, nessa tessitura, referir o aporte trazido pelos professores Cláudia Lima Marques, Luiz Otávio Pimentel, Augusto Jaeger Junior, José Russo, Adriane Cláudia Melo Lorentz, Sílvio Javier Battello, Amador Paes de Almeida, Astrid Heringer, Diego Pereira Machado, Alessandro Freitas de Faria e Marília Zanchet. Uma referência especial cabe à professora Salete Oro Boff, colega de estágio pós-doutoral na UFSC, com contribuições oportunas. A participação dos mestres Jorge Mário Fensterseifer – ao longo da história da obra – e Artur Hamerski trouxe méritos para a linguagem e a correção do vernáculo. Membros do nosso Grupo de Pesquisas CNPq – Tutela dos Direitos e sua Efetividade, como Beatrice Guimarães Nóbrega, Fernanda Savian Rodrigues, Geferson Deutner da Silva, Vinicius Batista Morais, Paulo Grzeca, Patrick Fachim e Pablo Miguel Mucha, foram profundamente valiosos. Por fim, refiro Elisa Cerioli Del´Olmo, também do Grupo de Pesquisas, filha e fonte de todas as inspirações na vida, na academia e nos sonhos. Sua vivência e estudos nos Estados Unidos e na Alemanha, seu envolvimento no Direito Ambiental e áreas jurídicas voltadas ao ser humano, não obstante sua juventude, trouxeram à obra contribuições inestimáveis, fruto de seu juízo crítico apurado e honestidade intelectual, direcionados a nos manter ativos, percucientes, insaciáveis na busca do saber e saudáveis em uma existência já longa. Nosso objetivo maior é que o Curso de Direito Internacional Privado continue a merecer acolhida e, mais do que isso, a cumprir sua missão de tornar o estudo da matéria mais acessível, agradável e eficaz e a ocupar o espaço que esse ramo merece no âmbito geral das disciplinas jurídicas. Outono de 2009 O autor http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6815.htm http://ccji.pgr.mpf.gov.br.ccji/legislacao O livro sobre o direito internacional privado do Professor Doutor Florisbal de Souza Del’Olmo chega a sua décima edição, sempre pela Editora Forense, do Rio de Janeiro, e a exemplo do que se viu ao longo dos anos, também esta edição contém atualizações importantes para o operador e para o estudante dessa matéria. O autor é um ser humano vivido e um experiente jurista. Eu já contei esta história em outro escrito, mas como me orgulho muito dessa amizade, eu me permito repeti-la neste prefácio. Conheci o professor Del’Olmo num encontro proposital na escadaria do prédio da Justiça do Trabalho, então sediada na Rua 3 de Outubro, em Santo Ângelo, cidade em que morávamos, no Rio Grande do Sul. Na época, no começo do ano de 1997, ele, após exitosa carreira profissional em outra área, desempenhava funções naquele órgão, e eu era um especializando em Direito, e nós dois pretendentes a vagas de Mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina. Mesmo ainda sem uma vaga, de forma pretensiosa, pois, pus-me à procura de futuros colegas para dividir as despesas das viagens que passaríamos a fazer após a eventual aprovação para o curso. Informado sobre outros conterrâneos inscritos no processo seletivo, o primeiro listado que eu descobri e a quem eu acorri imediatamente foi o professor Florisbal Del’Olmo. Desde aquele momento, viajamos, semanalmente, durante um ano, para frequentar as aulas do Mestrado, quando, então, ocorreram trocas de informações sobre a vida e a experiência jurídica que até hoje me são proveitosas. Ele também me acolheu por muitas vezes em sua casa, para os estudos em grupo, durante o Mestrado na UFSC. A amizade que ali se iniciou me deu segurança para passos mais arrojados na vida acadêmica. É oportuno mais uma vez reconhecer que foi através de um convite seu, que me tornei professor universitário. Em um determinado momento, em maio de 1998, o professor Del’Olmo necessitou afastar-se por curto período da atividade docente diária, e me convidou para substituí-lo como professor da disciplina de direito internacional privado, que foi lecionada na nossa Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, em Santo Ângelo. Veja-se que a nossa proximidade com o direito internacional privado vem já daquela época. Certo é que foi pelo convite do professor Del’Olmo, tendo sido conduzido pelas suas mãos até a turma, que eu dei as minhas primeiras aulas em uma universidade. É pelos motivos acima confessados, não exclusivamente, que eu aceito com grande prazer o convite para apresentar mais uma de suas consagradas obras, que chega a sua décima edição. Aquele afastamento antes referido do professor Del’Olmo das aulas não representou, de forma alguma, um descanso. Pois não é que já no começo do ano de 1999 surgia, para o mercado nacional, a primeira edição desta obra! Naquela época, ela se chamou Direito Internacional Privado: Abordagens Fundamentais, Legislação e Jurisprudência e veio a suprir uma lacuna entre os operadores do Direito, uma vez que continha, ademais dos temas clássicos da matéria, um capítulo sobre a União Europeia e outro sobre o Mercosul. Eu acompanhei, com muita proximidade, uma vez que o substituía nas aulas na universidade, o trabalho e o esforço do professor Del’Olmo na construção daquela primeira versão. Até contribuí com um capítulo, qual seja, aquele que se dedicou ao Mercosul. De forma que hoje, assim como honrado, também me sinto bem à vontade com esse convite para prefaciar esta décima edição que temos em nossas mãos. Desde o lançamento da primeira edição, em 1999, esse então primeiro livro do professor Del’Olmo alcançou grandes mestres da matéria, de renome internacional. Passados pouco mais de dois meses do lançamento, em 20 de julho de 1999, o autor recebeu uma carta em papel timbrado da já centenáriaFaculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade Nacional de Assunção. Ela vinha assinada pelo Decano da Faculdade, o Professor Doutor Ramón Silva Alonso. Eu guardei uma cópia dessa carta, porque foi expressiva também para mim, um professor em início de carreira, mestrando ainda na época. Agora com o convite para prefaciar esta décima edição, eu a recuperei em meus arquivos pessoais. Naquela época, assim escreveu o professor Ramón Silva Alonso ao seu colega, professor Del’Olmo: “Quisiera expresarle al mismo tiempo cuánto agradezco el obsequio de su valiosa obra ‘Derecho Internacional Privado’, en la que en breve volumen, reúne Ud. ló que yo llamaría lo más valioso de nuestra materia. (…) me persuadí de que estamos en presencia de un trabajo excepcional. (…) Coincido con Ud. en que Teixeira de Freitas es sin duda una de las mayores glorias del derecho de su tiempo en América. También creo que Freitas no ha sido aún suficientemente estudiado ni valorado aún en el propio Brasil, considerando el tiempo en que le tocó vivir. Salvo la Argentina y quizás el Paraguay, no es suficientemente conocido en el Continente, teniendo en cuenta la grandeza de su figura”. A carta seguia com referências à amizade comum que nutriam com outro professor paraguaio brilhante, o Dr. Roberto Ruiz Díaz Labrano, agora em 2013 festejado com um livro em sua homenagem pela ASADIP – Associação Americana de Direito Internacional Privado, lançado durante o Congresso Anual dessa entidade, realizado em novembro passado, em Assunção.1 Veja-se que a carta datava de 1999, e que o Brasil, por exemplo, apenas em 2002 passaria a ter um novo Código Civil, que reconheceu em sua organização algumas das brilhantes inovações jurídicas ofertadas por Teixeira de Freitas mais de um século e meio antes, em especial, a unificação das obrigações civis e comerciais.2 Mais tarde, movido por aquelas palavras do professor Ramón Silva Alonso, me atrevo a sugerir e o professor Del’Olmo viria a se dedicar com mais força ao estudo da obra de Augusto Teixeira de Freitas, de cujas pesquisas resultou o artigo Augusto Teixeira de Freitas: o protojurista do Mercosul,3 que, incorporado ao livro em edição seguinte, o completou e o engrandeceu. De fato, a ideia da unificação das obrigações civis e comerciais não é recente. A aspiração de condensar as normas jurídicas em um único corpo de direito esteve presente desde as mais antigas civilizações.4 No Brasil do Império, o incremento comercial experimentado fez ser necessária uma legislação comercial. Assim, em 1850 surgiu o Código Comercial brasileiro, ordenamento que recebeu forte influência do Código Francês de 1807. Esta Lei ficou em discussão na Câmara dos Deputados por 16 anos, até ser promulgada pelo imperador constitucional Dom Pedro II. Como o Código Comercial veio antes de um ordenamento civil, foi tido como natural que incluísse muitas disciplinas de matérias que não constavam da desordenada legislação civil de então. O surgimento de um Código que regulasse o direito civil não tinha a mesma sorte.5 Neste sentido, em 1854 o jurista brasileiro Augusto Teixeira de Freitas, ao propor um Código Civil para o Brasil, já insistia fortemente na unificação do direito obrigacional, cujo entendimento seria mais consentâneo para o ordenamento jurídico brasileiro. Afirmava o renomado estudioso que o direito civil e o comercial não eram distintos. A divisão era uma falsificação e uma frivolidade, pois a separação escondia o rompimento da igualdade entre as pessoas (dava só ao comerciante o direito de falir, por exemplo). Sobre a personalidade marcante de Teixeira de Freitas, é possível ser dito que ele pensava em descompasso com o seu tempo.6 Vale ainda lembrar que se tratava de um perfeccionista.7 Segundo depoimentos colhidos, em sua vida Teixeira de Freitas produziu uma obra perfeita. Também como pessoa humana foi uma referência: certa feita se recusou a acolher as normas escravistas em seu documento, pois acreditava que logo fossem cair, como a morte civil e a restrição aos direitos civis aos nacionais.8 E não somente em seu país o seu trabalho foi destacado, como lembrou o professor Ramón Silva Alonso, mas a sua obra serviu como um ponto de convergência na legislação civil entre os povos da América.9 Por tal é que o professor Del’Olmo o chamou de o protojurista do Mercosul. O ordenamento civil da Argentina, por exemplo, com o esforço de Vélez Sarsfield,10 tomou 1.200 artigos do seu Esboço. Igual influência foi reproduzida no Uruguai, com o estudo de Tristán Narvaja. Já no Paraguai, foi adotado o Código Argentino que, como visto acima, recebeu influência de Teixeira de Freitas.11 Além-mar, pensamento semelhante às suas ideias Vivante, na Itália, só foi ter cinquenta anos depois, quando também se opunha a um Código Comercial separado do Civil. Em que pese os relevantes estudos desencadeados, o governo federal não foi receptivo a essas novas ideias e o trabalho foi interrompido ainda incompleto. Para nova empreitada legislativa, concluída em 1865, fora novamente convidado Teixeira de Freitas, tendo se fixado em classificar as matérias e unificar o direito privado. O Esboço final desta compilação reuniu cinco milheiros de artigos. Então em 1916 o ordenamento jurídico brasileiro recebeu a aprovação do Código Civil, após longa e tumultuada tramitação, especialmente devido à contestação veemente de Ruy Barbosa, que costumava se referir a ele como um produto do século anterior, já que oriundo de elaboração iniciada em 1896. Uma manifestação sobre o Código Civil de 1916 que se faz necessária para o seguimento deste prefácio é que ele não consagrou essa ideia de unificação das obrigações civis e comerciais em um único documento, o que era a proposta de Teixeira de Freitas. A ideia de unificação de matérias de direito privado, neste caso em especial a de obrigações civis e comerciais, já tinha sido aplicada em outros ordenamentos pelo mundo afora. Os países que a adotaram podem ser classificados segundo os sistemas de unificação que foram utilizados. Assim, há sistemas radicais e moderados. Um exemplo do processo de unificação segundo o sistema moderado ocorreu no direito suíço, que tem um Código próprio para o direito das obrigações, fora do direito civil. E um exemplo de unificação segundo o sistema radical se deu no direito italiano, onde o Código Civil de 1942 unificou não só as obrigações, mas o direito privado, acabando com a diferença entre atos civis e comerciais e trabalhistas, mas mantendo normas especiais referentes à agricultura. Lá, diferentemente, e mais radical que a ideia original brasileira, o documento também comporta o direito do trabalho. Mas a grande diferença do documento italiano referido acima com o sistema aprovado pelo Brasil por influência de Beviláqua e agora de Reale é que aquele não tem uma Parte Geral (outra elaboração de Teixeira de Freitas) e os nossos Códigos têm, motivo pelo qual eles não se confundem com os documentos italiano e suíço. Coincidentemente, no mesmo ano de 1942, a Lei de Introdução ao Código Civil brasileiro também era alterada, em função da Segunda Guerra Mundial, estabelecendo um novo elemento de conexão, o domicílio. Este já havia sido indicado como o elemento mais apropriado por Teixeira de Freitas em sua Proposta.12 Essa modificação, talvez a principal da nova Lei de Introdução, pode ser entendida como um ajuste histórico, já que deu razão, cem anos após, ao iluminado pensador, alterando o mecanismo de Pimenta Bueno e Clóvis Beviláqua positivado em 1916, que estabelecera a nacionalidade como elemento de conexão para as questões de direito internacional privado. O surgimento de um Código Civil em 1916 que não contemplou a unificação do direito privado, nem mesmo do ramo das obrigações, não conseguiu, todavia, sepultar a ideia de unificação. Novamente a ideia da unificação das obrigações teve ressurgimento em 1940, com o Projeto do Código de Obrigações e especialmente em 1965 com outro Projeto, que chegou a ser enviado ao Congresso Nacional, sendodepois igualmente arquivado. O professor Ramón Silva Alonso, tendo escrito aquelas palavras, e com o debate estabelecido, foi durante a última década de sua vida um dos grandes impulsionadores do seguimento desta obra, hoje em décima edição. Ele veio a falecer passados pouco mais de dez anos de quando escreveu a carta aqui parcialmente reproduzida, em 8 de outubro de 2009. O seu passamento enlutou os profissionais do direito internacional privado do continente. Era o criador, o iniciador e o presidente da Academia Paraguaya de Derecho y Ciencias Sociales. Em seu enterro, as seguintes palavras de despedidas foram pronunciadas pelo Professor Doutor José A. Moreno Ruffinelli, que, assim como eu, foi iniciado em uma cátedra universitária por um grande mestre: “lo que nadie puede dudar, ni por un instante, es que sólo había una persona en nuestro país que podía hacerlo, pues nadie más tenía ese rasgo que lo diferenciaba netamente del resto de nuestros juristas: el de ser, sencillamente, indiscutible. Ese era el maestro Silva Alonso. (…) Tan pronto ingresó a la Facultad de Derecho, tuvo ese raro encantamiento con esta disciplina, que lo acompañó hasta los últimos instantes de su vida. (…) Ocupó y prestigió todos los grados de la carrera, del cursus honorarium: Juez de Primera Instancia en lo Civil, Miembro del Tribunal de Apelaciones en lo civil y comercial y miembro de la Corte Suprema de Justicia”. Da mesma forma que aquele professor em relação ao seu mestre teve a honra de prefaciar a sua clássica obra paraguaia de direito internacional privado, aqui quem me a dá hoje é o meu mestre, o professor Del’Olmo. Ainda no âmbito de questões pessoais que unem alunos e mestres, sobretudo, foi ele que me honrou desde muito jovem com uma amizade sincera e construtiva. Outro eminente professor que logo se impactou com o seu estudo foi o catedrático Luis Ivani de Amorim Araujo, do Rio de Janeiro. Em uma cartinha datilografada à máquina, de 15 de junho de 1999, que eu pela mesma importância guardei, afirma ele que “O grande mérito do Prof. Florisbal, na publicação de ‘Direito Internacional Privado’ repousa no amparo incalculável que representa o texto do Docente aos epígonos e em estimular o interesse dos mesmos ao conhecimento do Direito que norteia o conflito das leis no espaço. (…) O jurista Florisbal é um exemplo a ser imitado pelos professores de nosso Brasil, escrevendo os seus cursos para adestrar o estudo dos discentes e atalhar a invasão de compêndios forâneos, nem sempre amoldados, e que, na realidade constituem autêntica invasão do nosso território cultural”. Com o professor Ivani, Florisbal de Souza Del’Olmo também estabeleceu um debate acadêmico proveitoso, do qual resultou um livro com ele escrito,13 um livro com ele organizado,14 e um livro organizado em sua homenagem.15 O professor Luis Ivani de Amorim Araujo foi outro querido mestre que passou à imortalidade, recentemente, em 2007. Pois bem, em sua primeira edição, publicada no começo do ano de 1999, a obra surgiu com dezoito capítulos. Ali já se via a opção metodológica de fazer com que cada capítulo fosse concluído com resumo e questionário, que a acompanha até a edição de agora, por terem sempre se mostrado úteis ao aprendizado. Na atualidade, a obra é apresentada em vinte e quatro interessantes capítulos. Apenas de longe lembra aquele tratamento clássico dado na primeira edição. Nos anos de 2008 e 2009, as edições correspondentes apresentaram novos capítulos, contendo os modernos temas de direito internacional privado, como Adoção Internacional, Direito Internacional da Concorrência, para cujo capítulo eu tive a oportunidade de contribuir, Direito Internacional do Consumidor e Direito Internacional do Trabalho. O capítulo dedicado à União Europeia desta edição destaca a entrada em vigor, em 1º de dezembro de 2009, das modificações trazidas ao Direito da União pelo Tratado de Lisboa. Outro tema importante tratado na obra do professor Del’Olmo refere-se ao processo, como eu o chamo em obra assinada no ano passado e nas minhas aulas de graduação e de pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de Europeização do Direito Internacional Privado. Europeização do direito internacional privado significa que as normas de colisão autônomas dos Estados-membros da União Europeia (UE) restarão obsoletas. Isso é assim porque o processo de unificação da matéria no nível comunitário é levado a efeito através de regulamentos comunitários, os quais, segundo o artigo 288, n. 2, do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE) possuem aplicabilidade direta nos Estados-membros. A primazia de aplicação do direito comunitário atinge as normas de colisão dos direitos internos – sempre que o âmbito de aplicação de um determinado regulamento de direito internacional privado esteja envolvido – e isso tem como consequência, por causa do fundamental caráter universal das normas de colisão comunitárias, o fato de que as disposições de direito internacional privado dos Estados-membros da UE sejam afastadas da aplicação. De fato, o processo de integração comunitário abrange, desde muito tempo, a matéria de direito internacional privado, em especial o direito processual civil internacional. A criação de um espaço de liberdade, de segurança e de justiça sem fronteiras internas, que de acordo com o ex-artigo 2º, n. 2, do Tratado da União Europeia (TUE), segundo a nova redação que lhe é dada pelo Tratado de Lisboa, deve ser ofertado aos cidadãos da UE, apresenta particulares exigências ao direito internacional privado. Como um objetivo a longo prazo do processo de harmonização vislumbra-se o alcance de uma codificação de direito internacional privado com uma parte geral no nível da organização internacional. Um último ponto a ser destacado no que se refere à atualização da obra está sediado no capítulo sobre o Direito da Concorrência. Refiro-me aqui à incorporação ao mesmo das inovações trazidas pela nova lei brasileira de defesa da concorrência, a Lei número 12.529, de 30 de novembro de 2011. Essa lei reestruturou o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência e dispôs sobre a prevenção e a repressão às infrações contra a ordem econômica. Cabe também referir as atualizações que o capítulo necessitou ter com a aprovação do novo texto do Acordo de Defesa da Concorrência do Mercosul, advindo com a Decisão número 43/10, do Conselho Mercado Comum. Vale mencionar ainda o recente surgimento da Lei número 12.874, de 29 de outubro de 2013, que alterou o artigo 18 do Decreto-Lei no 4.657, de 4 de setembro de 1942, para possibilitar às autoridades consulares brasileiras celebrarem a separação e o divórcio consensuais de brasileiros no exterior. Além dessa modificação, já ocorrida na LINDB, outras alterações são previstas para um futuro breve. A principal delas vem com a iminente reforma atualizadora do Código de Defesa do Consumidor (CDC). Nos últimos dias, graças à atuação da Professora Cláudia Lima Marques, passou-se a esperar uma modificação no artigo 9º da LINDB. A mudança foi incluída dentro das modificações do CDC. O relatório foi apresentado e o projeto reuniu vários projetos, passando a tramitar conjuntamente, e hoje se encontram na Comissão Temporária de Modernização do CDC do Senado Federal. Espera-se que o projeto seja votado no Parlamento em breve e que, com isso, o País tenha de volta uma norma que permita a autonomia da vontade para a determinação do direito aplicável a certas obrigações plurilocalizadas, cassada com a reforma da LICC de 1942. A nova redação do artigo 9º, para aperfeiçoar a disciplina dos contratos internacionais comerciais e de consumo e dispor sobre as obrigações extracontratuais, começaria assim: “O contrato internacional entre profissionais, empresários e comerciantes rege-se pela lei escolhida pelas partes, sendo que o acordo das partes sobre esta escolha deve ser expresso”. Bem, como também já escrevi em outro local, não são apenas os fatos de termos sido colegas de Mestrado na UFSC, de termos realizado Doutoradona mesma instituição, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a mesma orientadora, a Professora Doutora Cláudia Lima Marques, e o fato de eu ter iniciado a minha carreira acadêmica a convite do professor Del’Olmo e de ter sido por ele conduzido até a classe, que nos unem: nós dois há muito tempo trabalhamos academicamente as mesmas áreas do Direito. Além dessas que constituem o objeto do presente livro, o professor Del’Olmo leciona com primazia e autoridade o Direito Internacional Público, o Direito da Integração e o Direito da União Europeia. Basta ver que ele, em conjunto com o colega professor Diego Pereira Machado, publicou em 2011, o livro Direito da Integração, Direito Comunitário, Mercosul e União Europeia, pela Editora JusPodivm, de Salvador. Essa comunhão de áreas nos colocou, nos quinze anos que computamos de amizade pessoal e acadêmica, em estreito e diário contato. O Professor Florisbal de Souza Del’Olmo é um homem de bem. E como tal criou com a sua esposa, Neide, a filha Elisa, sendo que, juntos com o genro Martin, passaram neste ano de 2013 a transmitir amor e valores ao netinho Arthur. Eu renovo os meus cumprimentos ao amigo e colega de profissão e à Editora Forense pelo surgimento da décima edição deste consagrado livro e pelo esforço continuado do professor Del’Olmo de ensinar aos jovens estudantes de Direito o apaixonante sistema de solução dos conflitos de leis no espaço. A todos os interessados, deseja-lhes uma boa leitura o Prof. Dr. Augusto Jaeger Junior Professor da Graduação e da Pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Doutor em Direito Comunitário pela UFRGS. ______________ 1 DERECHO internacional privado y derecho de la integración: Libro homenaje a Roberto Ruiz Díaz Labrano. Asunción: Centro de Estudios de Derecho, Economía y Política – CEDEP, 2013. 2 JAEGER JUNIOR, Augusto. O novo Código Civil Brasileiro e a reorganização de empresas. Boletín Latinoamericano de Competencia. Bruxelas, out. 2002, n. 15, p. 53-77. 3 DEL’OLMO, Florisbal de Souza. Augusto Teixeira de Freitas: o protojurista do Mercosul. In: PIMENTEL, Luiz Otávio (Coord.). Mercosul, Alca e Integração Euro-Latino-Americana. v. 1. Curitiba: Juruá, 2001. p. 239-247. Ver também em espanhol em DEL’OLMO, Florisbal de Souza. Augusto Teixeira de Freitas – El Protojurista del Mercosur. Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Direito (UFRGS). Porto Alegre: PPGDir-UFRGS, v. II, n. IV, 2004. p. 111-117. 4 KARAM, Munir. Teixeira de Freitas e o processo de codificação do Direito Civil Brasileiro. Revista de Direito Civil, Imobiliário, Agrário e Empresarial. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 29. p. 95-112, p. 95. 5 KARAM, Munir. Teixeira de Freitas e o processo de codificação do Direito Civil Brasileiro. Revista de Direito Civil, Imobiliário, Agrário e Empresarial. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 29. p. 95-112, p. 97. 6 KARAM, Munir. Teixeira de Freitas e o processo de codificação do Direito Civil Brasileiro. Idem, ibidem. 7 KARAM, Munir. Teixeira de Freitas e o processo de codificação do Direito Civil Brasileiro. Revista de Direito Civil, Imobiliário, Agrário e Empresarial. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 29. p. 95-112, p. 100. 8 KARAM, Munir. Teixeira de Freitas e o processo de codificação do Direito Civil Brasileiro. Idem, ibidem. 9 DEL’OLMO, Florisbal de Souza. Augusto Teixeira de Freitas: o protojurista do Mercosul. In: PIMENTEL, Luiz Otávio (Coord.). Mercosul, Alca e Integração Euro-Latino-Americana. v. 1. Curitiba: Juruá, 2001. p. 239-247, p. 239. 10 DEL’OLMO, Florisbal de Souza. Augusto Teixeira de Freitas: o protojurista do Mercosul. In: PIMENTEL, Luiz Otávio (Coord.). Mercosul, Alca e Integração Euro-Latino-Americana. v. 1. Curitiba: Juruá, 2001. p. 239-247, p. 240. 11 KARAM, Munir. Teixeira de Freitas e o processo de codificação do Direito Civil Brasileiro. Revista de Direito Civil, Imobiliário, Agrário e Empresarial. São Paulo: Revista dos Tribunais, n. 29. p. 95-112, p. 107. 12 DEL’OLMO, Florisbal de Souza. Augusto Teixeira de Freitas: o protojurista do Mercosul. In: PIMENTEL, Luiz Otávio (Coord.). Mercosul, Alca e Integração Euro-Latino-Americana. v. 1. Curitiba: Juruá, 2001. p. 239-247, p. 244. 13 DEL’OLMO, Florisbal de Souza; ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro Comentada. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2004. v. 1. p. 207. 14 DEL’OLMO, Florisbal de Souza; ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim (Orgs.). Direito de Família Contemporâneo e os Novos Direitos: Estudos em Homenagem ao Professor José Russo. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2006. v. 1. p. 353. 15 DEL’OLMO, Florisbal de Souza (Org.). Curso de Direito Internacional Contemporâneo: Estudos em Homenagem ao Prof. Dr. Luís Ivani de Amorim Araújo pelo seu 80º aniversário. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003. v. 1. p. 700. a.C. Antes de Cristo AC Apelação Cível ADCT Ato das Disposições Constitucionais Transitórias AgR Agravo Regimental ALADI Associação Latino-Americana de Integração ALALC Associação Latino-Americana de Livre Comércio ALCA Área de Livre Comércio das Américas APEC Associação de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico Art. Artigo c/c Combinado com CADE Conselho Administrativo de Defesa Econômica cap. Capítulo CC Código Civil/Conflito de Competência CDC Código de Defesa do Consumidor CE Comissão Europeia CEE Comunidade Econômica Europeia CEEA Comunidade Europeia de Energia Atômica CECA Comunidade Europeia do Carvão e do Aço CF Constituição Federal CIDIP Conferências Interamericanas de Direito Internacional Privado CIG Conferência Intergovernamental CLT Consolidação das Leis do Trabalho CMC Conselho do Mercado Comum CNPJ Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas CP Código Penal CPC Código de Processo Civil CPGD Curso de Pós-Graduação em Direito CPF Cadastro de Pessoas Físicas CPP Código de Processo Penal DIPr Direito Internacional Privado DJU Diário de Justiça da União DL Decreto-lei DOE Diário Oficial do Estado DPI Direito Processual Internacional ECA Estatuto da Criança e do Adolescente EE Estatuto do Estrangeiro EIDAS Encontros Internacionais de Direito da América do Sul ESUD Escola Superior de Direito de Mato Grosso EUA Estados Unidos da América GATT Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio HC Habeas Corpus inc. Inciso INCOBRASA Industrial e Comercial Brasileira S/A IPTU Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana JSTJ-CD Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça JTRFS-CD Jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais – CD LICC Lei de Introdução ao Código Civil LIN Lei de Introdução as Normas do Direito Brasileiro Mercosul Mercado Comum do Sul Min. Ministro MS Mandado de Segurança NAFTA Tratado Norte-Americano de Livre Comércio OCDE Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico OEA Organização dos Estados Americanos OIT Organização Internacional do Trabalho ONU Organização das Nações Unidas p. Página/páginas PDCM Protocolo de Defesa da Concorrência do Mercosul PESTRAF Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial PUCRJ Pontifica Universidade Católica do Rio de Janeiro RE Recurso Extraordinário ReCrim. Revisão Criminal Rel. Relator REO Recurso Ex Officio REsp Recurso Especial RESP. Recurso Especial RHC Recurso Habeas Corpus RISTF Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal RO Recurso Ordinário SAE Secretaria de Acompanhamento Econômico SBDC Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência SDE Secretaria de Direito Econômico séc. Século segs./ss. Seguintes SGT Subgrupo de Trabalho STJ Superior Tribunal de Justiça TJGB Tribunal de Justiça da Guanabara TJPE Tribunal de Justiça de Pernambuco TJSP Tribunal de Justiça de São Paulo TRF Tribunal Regional Federal TRIPs Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual TST TribunalSuperior do Trabalho TUE Tratado da União Europeia UE União Europeia UFAM Universidade Federal do Amazonas UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro UFSC Universidade Federal de Santa Catarina UFU Universidade Federal de Uberlândia UNIDROIT Estatuto Orgânico do Instituto Internacional para a Unificação do Direito Privado UNOESC Universidade do Oeste de Santa Catarina URI Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões v.g. Verbi gratia v. Volume vers. Versículo Capítulo I – Noções Fundamentais e Objeto do Direito Internacional Privado 1.1 Considerações iniciais 1.2 Conceito 1.3 Objeto 1.4 Normas de DIPr na Constituição Federal de 1988 1.5 Direitos adquiridos 1.6 Direito Internacional Privado e Direito Internacional Público 1.7 Direito Internacional Privado e Direito Comparado Resumo Questões Propostas Capítulo II – Esboço Histórico do Direito Internacional Privado 2.1 Considerações iniciais 2.2 Grécia 2.3 Roma 2.4 Feudalismo 2.5 Glosadores e escolas estatutárias 2.6 Codificação 2.7 Doutrinas modernas Resumo Questões Propostas Capítulo III – Denominação e Método de Direito Internacional Privado e a Disciplina no Brasil 3.1 Considerações iniciais 3.2 Denominação 3.3 Autonomia do DIPr 3.4 Método 3.5 Direito Internacional Privado no Brasil 3.5.1 Primeiros tempos 3.5.2 Augusto Teixeira de Freitas 3.5.3 José Antônio Pimenta Bueno 3.5.4 Notáveis tratadistas 3.5.5 Atualidade do DIPr brasileiro 3.6 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo IV – Fontes do Direito Internacional Privado 4.1 Considerações iniciais 4.2 Lei 4.3 Tratados 4.4 Doutrina 4.5 Jurisprudência 4.6 Costumes Resumo Questões Propostas Capítulo V – Teoria das Qualificações 5.1 Considerações iniciais 5.2 Teorias existentes 5.3 Qualificações no Brasil 5.4 Casos clássicos 5.5 Questões prévias Resumo Questões Propostas Capítulo VI – Elementos de Conexão 6.1 Considerações iniciais 6.2 Classes de elementos de conexão 6.3 Conexões pessoais 6.3.1 Domicílio 6.3.2 Nacionalidade 6.4 Conexões reais 6.4.1 Lex rei sitae 6.5 Conexões voluntárias 6.5.1 Autonomia da vontade Resumo Questões Propostas Capítulo VII – Aplicação do Direito Estrangeiro 7.1 Considerações iniciais 7.2 Aplicação direta da lei estrangeira 7.3 Retorno 7.3.1 Caso Forgo 7.4 Limites à aplicação da lei estrangeira 7.4.1 Ordem pública 7.4.2 Fraude à lei 7.4.3 Favor negotii 7.4.4 Prélèvement 7.4.5 Instituições desconhecidas 7.4.6 Instituições abomináveis Resumo Questões Propostas Capítulo VIII – Homologação de Sentença Estrangeira 8.1 Considerações iniciais 8.2 Fundamentos 8.3 Documentos estrangeiros: cartas rogatórias 8.4 Sentenças estrangeiras homologáveis 8.4.1 Conceituação 8.4.2 Decisões passíveis de homologação 8.4.3 Sistemas de homologação 8.4.4 Delibação 8.4.5 Órgãos homologadores, pressupostos e rito na Justiça brasileira 8.4.6 Sentença homologanda versus lide na Justiça brasileira 8.5 Convenção da ONU sobre prestação de alimentos no estrangeiro 8.6 Legislação brasileira 8.7 Jurisprudência brasileira 8.8 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo IX – Nacionalidade 9.1 Considerações iniciais 9.2 Interdisciplinaridade 9.3 Nacionalidade originária 9.3.1 Jus sanguinis 9.3.2 Jus soli 9.4 Naturalização 9.5 Conflitos de nacionalidade 9.5.1 Plurinacionalidade 9.5.2 Anacionalidade 9.6 Nacionalidade no ordenamento jurídico brasileiro 9.7 Perda da nacionalidade Resumo Questões Propostas Capítulo X – Condição Jurídica do Estrangeiro 10.1 Considerações iniciais 10.2 Ingresso e permanência 10.2.1 Passaporte 10.2.2 Visto 10.3 Afastamento compulsório 10.3.1 Institutos em desuso 10.3.2 Expulsão 10.3.3 Deportação 10.3.4 Diferenças entre expulsão e deportação 10.3.5 Extradição: conceito e classificação 10.3.6 Extradição de nacionais 10.3.7 Requisitos e limites da extradição 10.3.8 Caso Pinochet 10.3.9 Extradição na ordem jurídica brasileira 10.3.10 Tratados de extradição firmados pelo Brasil 10.3.11 Diferenças dos demais institutos 10.4 Jurisprudência brasileira 10.5 Projeto de novo Estatuto do Estrangeiro Resumo Questões Propostas Capítulo XI – Pessoas no Direito Internacional Privado 11.1 Considerações iniciais 11.2 Personalidade 11.2.1 Começo da personalidade 11.2.2 Término da personalidade 11.3 Comoriência 11.4 Ausência 11.5 Poder familiar 11.6 Tutela 11.7 Curatela 11.8 Ação de alimentos Resumo Questões Propostas Capítulo XII – Direito de Família e Direito Internacional Privado 12.1 Direito de Família 12.2 Casamento e conflito de leis no espaço 12.3 Normas brasileiras sobre casamento 12.3.1 Capacidade 12.3.2 Impedimentos e formalidades 12.3.3 Casamento por procuração 12.3.4 Casamento no consulado 12.3.5 Nulidade do casamento 12.3.6 Regime de bens 12.4 Divórcio 12.5 Casamento entre pessoas do mesmo sexo 12.6 Jurisprudência brasileira Resumo Questões Propostas Capítulo XIII – Adoção Internacional 13.1 Considerações iniciais 13.2 Conceituação 13.3 Importância e atualidade 13.4 Adoção como resgate de crianças sem assistência 13.5 Adoção internacional 13.6 Documentos sobre adoção internacional e a Convenção de 1993 13.7 Adoção no ordenamento jurídico brasileiro e a adesão à Convenção de 1993 13.8 Noções básicas sobre adoção 13.9 Brasil como país de origem do menor adotado 13.10 Organismos credenciados 13.11 Brasil como país de acolhida do menor adotado 13.12 Adoção internacional e nacionalidade 13.13 Caso João Herbert 13.14 Caso das meninas da Guiné-Bissau 13.15 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo XIV – Direito das Sucessões e Direito Internacional Privado 14.1 Considerações iniciais 14.2 Sucessão e conflito de leis no espaço 14.3 Elementos de conexão 14.4 Sucessão legítima 14.5 Sucessão testamentária Resumo Questões Propostas Capítulo XV – Direito das Obrigações e Direito Internacional Privado 15.1 Considerações iniciais 15.2 Obrigações na esfera internacional 15.3 Autonomia da vontade 15.4 Novos elementos de conexão 15.5 Normas brasileiras Resumo Questões Propostas Capítulo XVI – Direito do Consumidor e Direito Internacional Privado 16.1 Considerações iniciais 16.2 Consumidor no ordenamento jurídico brasileiro 16.3 Consumidor no DIPr 16.4 Proteção do consumidor nas Américas 16.4.1 Projeto de CIDIP de proteção do consumidor 16.5 Consumidor à luz da LINDB 16.5.1 Proposta de adequação da LINDB ao consumidor 16.6 Caso Panasonic 16.6.1 Ementa do caso 16.7 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo XVII – Direito Empresarial e Direito Internacional Privado 17.1 Considerações iniciais 17.2 Sociedade estrangeira e direito brasileiro 17.3 Sociedade binacional 17.4 Estabelecimento 17.5 Capacidade para exercer a atividade empresarial 17.6 Legislação brasileira e direito empresarial internacional 17.7 Falência e recuperação empresarial 17.8 Falência internacional Resumo Questões Propostas Capítulo XVIII – Direito da Concorrência e Direito Internacional Privado 18.1 Considerações iniciais 18.2 Concorrência e Direito da Concorrência 18.3 Defesa da concorrência no Brasil 18.4 Abuso do poder econômico em um mercado relevante 18.5 Concorrência internacional: algumas reflexões 18.6 Concorrência no Mercosul e na União Europeia 18.7 Liberdades econômicas fundamentais 18.8 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo XIX – Direito das Coisas e Direito Internacional Privado 19.1 Considerações iniciais 19.2 Qualificação dos bens móveis e imóveis 19.3 Direito das coisas no ordenamento jurídico brasileiro 19.4 Direitos reais e conflito de leis no espaço 19.5 Referências especiais sobre alguns direitos reais 19.6 Regras de DIPr em outras ordens jurídicas Resumo Questões Propostas Capítulo XX – Propriedade Intelectual e Direito Internacional Privado 20.1 Considerações iniciais 20.2 Propriedade intelectual 20.2.1 Histórico 20.2.2 Importânciana atualidade 20.3 Propriedade intelectual no Brasil 20.3.1 Medicamentos 20.3.2 Caso Efavirenz 20.4 Organização Mundial da Propriedade Intelectual 20.5 Convenções internacionais 20.5.1 TRIPs 20.6 Direito Internacional Privado e Propriedade Intelectual 20.7 DIPr brasileiro da Propriedade Intelectual 20.8 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo XXI – Direito do Trabalho e Direito Internacional Privado 21.1 Considerações iniciais 21.2 Direito Internacional Privado do Trabalho 21.3 Justiça competente 21.4 Contrato individual de trabalho e conflito interespacial 21.5 Emprego da lex loci executionis 21.6 Mercosul e harmonização das normas trabalhistas entre os países 21.7 Casos de conflitos trabalhistas interespaciais 21.8 Ementas de lides interespaciais Resumo Questões Propostas Capítulo XXII – Competência Internacional 22.1 Considerações iniciais 22.2 Conceito e objeto 22.3 Princípios e fontes do DPI 22.4 Competência internacional na legislação brasileira 22.5 Imunidade de jurisdição 22.5.1 Imunidade absoluta 22.5.2 Imunidade relativa 22.6 Jurisprudência brasileira 22.7 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo XXIII – União Europeia 23.1 Globalização da economia e formação de blocos continentais 23.2 Processo de integração dos Estados europeus 23.3 Instituições da União Europeia 23.3.1 Conselho Europeu 23.3.2 Comissão 23.3.3 Conselho da União Europeia 23.3.4 Parlamento Europeu 23.3.5 Tribunal de Contas 23.3.6 Tribunal de Justiça da União Europeia 23.3.7 Comitê Econômico e Social 23.3.8 Comitê das Regiões 23.3.9 Banco Central Europeu 23.4 Ordenamento jurídico comunitário 23.5 Supranacionalidade na União Europeia 23.6 Cidadania europeia 23.7 Livre circulação dos trabalhadores 23.8 Considerações finais Resumo Questões Propostas Capítulo XXIV – Mercosul 24.1 Antecedentes históricos 24.2 ALALC e ALADI 24.3 Conceitos básicos 24.4 Mercado Comum do Sul – Mercosul 24.5 Tratado de Assunção 24.6 Protocolo de Ouro Preto 24.7 Relacionamento com o exterior 24.8 Período do sucesso 24.9 Crise do Mercosul 24.10 Venezuela como membro pleno 24.11 Solução de controvérsias no Mercosul 24.12 Fragilidade institucional 24.13 Direito processual civil internacional do Mercosul 24.14 Harmonização das regras materiais 24.15 Parlamento do Mercosul 24.16 Considerações finais Resumo Questões Propostas ANEXO – Normas Brasileiras Pertinentes ao Direito Internacional Privado 1. Constituição da República Federativa do Brasil (1988) 2. Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Decreto-lei n. 4.657/1942) (Redação determinada pela Lei n. 12, de 30.12.2010) 3. Código Civil (Lei n. 10.406/2002) 4. Código de Processo Civil (Lei n. 5.869/1973) 5. Código Tributário Nacional (Lei n. 5.172/1966) 6. Código Penal (Decreto-lei n. 2.848/1940) (Parte Geral com redação determinada pela Lei n. 7.209, de 11.07.1984) 7. Código de Processo Penal (Decreto-lei n. 3.689/1941) 8. Lei das Contravenções Penais (Decreto-lei n. 3.688/1941) 9. Lei dos Registros Públicos (Lei n. 6.015/1973) 10. Lei Antidrogas (Lei n. 11.343/2006) 11. Letra de Câmbio e Nota Promissória (Decreto n. 2.044/1908) 12. Lei de Recuperação de Falências (Lei n. 11.101/2005) 13. Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/1990) 14. Direitos Autorais (Lei n. 9.610/1998) 15. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei n. 5.452/1943) 16. Técnicos Estrangeiros (Decreto-lei n. 691/1969) 17. Serviços no Exterior (Lei n. 7.064/1982) 18. Código Brasileiro de Aeronáutica (Lei n. 7.565/1986) 19. Lei da Arbitragem (Lei n. 9.307/1996) Bibliografia Nota da Editora: o Acordo Ortográfico foi aplicado integralmente nesta obra. NOÇÕES FUNDAMENTAIS E OBJETO DO DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO “A definição é, portanto, meio para um fim que não consiste somente em indicar a significação de um nome, mas em precisá-lo para determinação de seu conceito” (Irineu Strenger). 1.1 Considerações iniciais O ser humano sempre buscou, desde tempos imemoriais, a proximidade com seu semelhante. No começo, a família, ou o que se entendia como tal; depois a tribo: grupos maiores foram se formando, até se constituírem em povo ou nação, pessoas com identidades próprias e aspirações comuns. Só muito mais tarde aparece o Estado, como o conhecemos hoje, formado por três elementos essenciais: povo, território e governo, amalgamados em uma unidade jurídica. Convém lembrar, como observou Amílcar de Castro,1 que governo não deve ser confundido com força; território, com extensão geográfica; e povo, com aglomeração de pessoas. Governo, símbolo do poder, deve ser visto como competência; território, como limite dessa competência; e povo, como conjunto de interações humanas. Assim, o Estado é a sociedade maior e, como sociedade, deve estar intimamente ligado ao ser humano, em um conjunto harmônico. Esse Estado tem sua ordem jurídica, que regula o modus vivendi e a interação de seus habitantes, sendo essa ordem jurídica soberana nos limites de seu território. A lei não estende seu comando além-fronteiras. Não existe um poder supranacional capaz de determinar, juridicamente, o que deve ser feito por determinado Estado. Em realidade, nas relações internacionais impera um tipo de justiça privada: bloqueio econômico, retaliações, extorsão nos preços de produtos essenciais, entre outros. A humanidade busca incessantemente o convívio fraternal e proveitoso entre os povos. Tratados e convenções são acertados e firmados com a finalidade de aproximar os Estados e tornar mais agradável a vida dos cidadãos. Deve-se considerar que vivemos tempos de globalização econômica e de extraordinários avanços tecnológicos, que intensificam a dinâmica e a fluidez do intercâmbio entre os povos, em razão da necessidade econômica, da busca de conhecimentos, das atividades de lazer, do espírito de aventura e de outros fatores sociais e até religiosos. O desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte só vem aumentar as relações entre pessoas de diferentes lugares, regidas por legislações diferentes. Desse intercâmbio muitas vezes decorrem problemas, que precisam ser dirimidos pela justiça. Daí perguntar-se: que justiça? À luz de qual legislação? O conflito de leis pode ser no tempo ou no espaço. Do concurso de leis no tempo, vai preocupar-se o Direito Intertemporal, positivado na ordem jurídica brasileira nos primeiros artigos da LINDB. O conflito de leis no espaço é tema do Direito Internacional Privado, que, mais do que um direito verdadeiro, tem sido entendido como uma técnica de aplicação do Direito. 1.2 Conceito Para Clóvis Beviláqua, Direito Internacional Privado é o conjunto de preceitos que regulam as relações de ordem privada da sociedade internacional,2 enquanto Luís Ivani Araújo vê esse ramo das ciências jurídicas como o conjunto de regras de direito interno, cujo objetivo é a solução de conflitos envolvendo leis originárias de Estados diferentes, indicando, em cada caso, a lei competente a ser aplicada.3 Essas definições, das quais não se afasta o entendimento de autores nacionais e estrangeiros dos últimos cem anos, nos aproximam de uma conceituação aceitável e compreensível da disciplina. Nessa tessitura, visualizamos o Direito Internacional Privado como o conjunto de normas de direito público interno que busca, por meio dos elementos de conexão, encontrar o direito aplicável, nacional ou estrangeiro, quando a lide comporta opção entre mais de uma ordem jurídica para solucionar o caso. Cabe salientar a presença implícita de um elemento externo, que faça a conexão entre o direito interno e o estrangeiro. Não hesitamos em colocar essas regras no âmbito do direito público, embora reconhecendo que importantes estudiosos as veem integradas no direito privado. Destinadas a compor litígios em relações privadas transnacionais, essas normas estão perfeitamente inseridas na ordem jurídica interna dos Estados, mas vêm gradativamente ocupando espaço em tratados e convenções internacionais, bem como emregulamentos da União Europeia. Em verdade, ocorre a presença na relação sub judice de mais de um direito em condições de dirimir a lide. Essa peculiaridade pode ser referida como concurso de leis, simultaneidade de leis, concorrência de leis, pluralidade de leis, contato de leis e opção entre leis, qualquer delas por certo mais adequada do que a expressão consagrada: conflito de leis. O que deve ser enfatizado é que não há disputa, inexiste conflito, animosidade ou colisão, não há embate entre a legislação do foro e qualquer outra que possa dirimir o conflito – esse, sim – entre as partes. Coerente com nosso entendimento, Amorim enfatiza que aplicamos a norma jurídica estrangeira seguindo determinações de uma lei local, não se tratando de conflitos, mas do reconhecimento de um direito adquirido no exterior: “Conflitos, realmente, há quando aquela lei ferir nossa soberania ou a ordem pública local.”4 Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que o Direito Internacional Privado promove, na realidade, um diálogo entre ordenamentos jurídicos diversos. Por fim, mencionemos mais dois conceitos para a disciplina. Segundo Strenger, é “um complexo de normas e princípios de regulação que, atuando nos diversos ordenamentos legais ou convencionais, estabelece qual o direito aplicável para resolver conflitos de leis ou sistemas, envolvendo relações jurídicas de natureza privada ou pública, com referências internacionais ou locais”.5 Para Cláudia Lima Marques, em entendimento sintético e avançado, o Direito Internacional Privado é “o ramo do direito interno que regula direta ou indiretamente as relações privadas internacionais”.6 A composição direta da lide, não se limitando a indicar o direito aplicável, pretende dar resposta eficiente e justa aos numerosos processos dessa natureza submetidos ao DIPr. 1.3 Objeto O objeto central do Direito Internacional Privado é o conflito de leis no espaço, visto esse espaço como o de ordenamentos jurídicos diversos. Nessas leis se incluem temas de direito civil, comercial, trabalhista, industrial, fiscal, administrativo, penal e processual. Enfatizando ser único o objeto de estudo do DIPr, Amílcar de Castro assim o sintetiza: “organizar direito adequado à apreciação de fatos anormais, ou fatos com duas ou mais jurisdições, sejam pertinentes ao fórum, ou ocorridos no estrangeiro.”7 Essa visão se ampara nas teorias italiana e alemã, as quais nos dois últimos séculos restringiram o campo do Direito Internacional Privado ao conflito de leis, tendo sido observada por outros autores brasileiros, como Eduardo Espínola e João Grandino Rodas. As doutrinas francesa e norte-americana ampliam o objeto de nossa disciplina. Para Jean Paul Niboyet, nele se incluem o conflito de leis, a nacionalidade, a condição jurídica do estrangeiro e os direitos adquiridos.8 Henri Batiffol, de forma análoga, apenas coloca o conflito de jurisdições ao invés dos direitos adquiridos.9 Essa corrente francesa se ocupa da situação do ser humano nas relações privadas internacionais, identificando sujeitos de direitos (nacionalidade e condição jurídica do estrangeiro), exercício desses direitos (conflito de leis) e sanção dos direitos (conflito de jurisdições). Atentos aos objetivos desta obra e alicerçados na releitura dos diversos autores, sentimo-nos autorizados a enunciar o objeto de Direito Internacional Privado mais adequado ao nosso tempo, quando limites não devem ser colocados na busca do conhecimento e na harmonia e coerência de conteúdos e métodos. Esse objeto que pode parecer amplo, à primeira vista, inclui o conflito de leis interespacial, a nacionalidade, a condição jurídica do estrangeiro, os direitos adquiridos, o conflito de jurisdições, a competência internacional e o reconhecimento de sentenças estrangeiras. Não vemos, contudo, razão para restringi-lo. Poderíamos entender, para exemplificar, que os direitos adquiridos estão inseridos na condição jurídica do estrangeiro; que a nacionalidade se integra no Direito Constitucional, limitando-se – como pensam vários autores – no DIPr à condição de elemento de conexão; que a sentença estrangeira é estudada na competência internacional, a qual, por sua vez, poderia ser analisada ao lado do conflito de jurisdições. Nossa obra tem-se caracterizado pela simplicidade e objetividade. Nesse viés, cada um dos aludidos objetos do Direito Internacional Privado nela será estudado. 1.4 Normas de DIPr na Constituição Federal de 1988 A Carta Magna vigente, no caput do artigo 5º, garante aos estrangeiros residentes no país “a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” nos termos legais, equiparando-os, nesses aspectos, aos brasileiros. Exceto os direitos políticos, tais como votar e ser votado, o estrangeiro, regularmente residindo no Brasil, não sofre qualquer discriminação. Em segmento próprio desta obra, o Capítulo X, é analisada a condição jurídica do estrangeiro em nosso país. Outros parâmetros emanados pelo Estatuto Maior brasileiro (art. 12) se referem à nacionalidade e à naturalização, que estudaremos no capítulo nono. O inciso XV do artigo 22 dá competência privativa à União para legislar sobre emigração e imigração, entrada, extradição e expulsão de estrangeiros. 1.5 Direitos adquiridos O respeito aos direitos adquiridos é considerado basilar para a segurança jurídica, fazendo parte dos ordenamentos jurídicos contemporâneos – no Brasil, ele está inserido na Carta Magna (art. 5º, inc. XXXVI). Verificar a prevalência desses direitos quando invocada em outro país interessa ao Direito Internacional Privado. Muitos autores têm-se ocupado do tema, considerando-o objeto da disciplina, enquanto outros adotam posição diversa, entendendo que os direitos adquiridos alegados, nesse contexto, não se afastam dos conflitos de leis, por estarem neles integrados. Como antes referido, julgamos mais adequada a primeira posição. Seria um contrassenso imaginar que o ser humano, ao ultrapassar as fronteiras de seu país, nele deixasse os direitos adquiridos, especialmente os que constituem seu estatuto pessoal. Trata-se de direitos privados, que foram reconhecidos por ordenamento jurídico competente. Nessa esfera, são repelidos, por óbvio, os que ofendem a ordem pública, os bons costumes e a soberania nacional. Assim, não se permitirão novas núpcias de cidadão (v.g., árabe) que aqui aportar já casado e alegar o direito de poligamia existente na legislação de seu país, bem como alguém que trouxesse seus escravos seria impedido de mantê-los nessa condição. Feitas as ressalvas acima, todos os direitos, plenamente incorporados ao patrimônio jurídico do cidadão, nacional ou estrangeiro, devem acompanhá-lo extraterritorialmente. Há casos em que tais direitos, se buscados em nosso foro – pela aplicação direta da norma estrangeira que os reconhece – não seriam aceitos por contrariarem nossa ordem pública, mas serão admitidos por terem legalmente ocorrido no seu ordenamento jurídico. Assim, sentenças de cobrança de dívidas de jogos de azar, em países onde essa atividade é legalizada, têm sido reconhecidas pelo Superior Tribunal de Justiça. Eduardo Espínola acentua que os direitos adquiridos pelo estrangeiro, conforme as leis internas e as decisões proferidas pelos tribunais de seu país, são reconhecidos no exterior, assim como o reconhecimento de sua personalidade e capacidade civil.10 Cabe ao Direito Internacional Privado de cada país verificar as circunstâncias de aquisição de direitos no estrangeiro e indicar as condições para o seu reconhecimento no ordenamento jurídico interno.11 Nesse contexto, atos jurídicos referentes ao estado civil, como casamento, adoção e divórcio, quando realizados no estrangeiro são normalmente reconhecidos pelos Estados em razão da segurança jurídica. Seria, por exemplo, o caso de brasileiro solteiro ou viúvo que casa no exterior com estrangeira divorciada: o assento no registro público no Brasil não depende de homologação do divórcio pelo STJ, desde que a estrangeira não fosse casada combrasileiro. Porém, se a celebração ocorrer no Brasil, se faz necessário apresentar a Carta de Sentença do Superior Tribunal de Justiça homologando o divórcio. Por fim, observemos que mera expectativa de direito em uma ordem jurídica não deve ser tida como direito adquirido, enquanto conquistas reconhecidas na esfera do direito público, como aposentadorias e pensões, somente são invocadas perante o ordenamento que as concedeu. 1.6 Direito Internacional Privado e Direito Internacional Público O DIPr tem profunda afinidade com o Direito Internacional Público, trabalhando ambos com fontes e institutos comuns – tratados, nacionalidade, extradição – e com o mesmo objetivo – a convivência pacífica e harmônica entre os povos. Jacob Dolinger refere julgamento, de 1984, da Corte de Cassação francesa sobre causa relacionada a Acordo de Cooperação Científica entre a França e o Irã, em que se afirma: “As partes envolvidas nestes acordos estavam situadas no mais alto nível. Estavam na encruzilhada do Direito Internacional Privado com o Direito Internacional Público, havendo motivos para se questionar sob qual dos dois os acordos estavam cobertos.”12 A identificação entre esses dois ramos jurídicos fica evidenciada na Convenção sobre a Prestação de Alimentos no Estrangeiro, instituída em 1956 pela ONU, estando inserida no Direito Internacional Público, mas se destinando a concertar relações essencialmente privadas, o que a integra plenamente no Direito Internacional Privado. 1.7 Direito Internacional Privado e Direito Comparado Enfatize-se, inicialmente, que boa parte da doutrina entende que, a rigor, não existe Direito Comparado, mas estudos comparativos entre sistemas jurídicos diversos, até porque tal ramo seria uma criteriosa comparação entre institutos jurídicos presentes no ordenamento legal de diferentes países, buscando estabelecer pontos comuns e divergentes que neles existem. Para Valladão, ele é “apenas ciência, é a comparação dos direitos no espaço, é geografia jurídica, ao lado da história do direito cuja dimensão é o tempo”.13 Por sua parte, Oscar Tenório considera que o Direito Comparado não constitui um ramo do Direito, mas um campo científico para apreciar semelhanças, afinidades e diferenças entre sistemas jurídicos de mais de um país.14 De maneira diversa entende o professor de Direito Comparado português Ferreira de Almeida, para quem esse ramo das ciências jurídicas pode ser definido como “a disciplina que tem por objetivo estabelecer sistematicamente semelhanças e diferenças entre sistemas jurídicos considerados na sua globalidade (macrocomparação) e entre institutos jurídicos afins em ordens jurídicas diferentes (microcomparação)”.15 Esses estudos comparativos são sumamente importantes em Direito Internacional Privado. Quando da aplicação de Direito estrangeiro, o operador jurídico nacional deve analisar tal direito à luz do método comparativo, e não seguindo os preceitos jurídicos do foro. Assim, em caso jusprivatista internacional que deva ser resolvido por norma jurídica estrangeira (por exemplo, direito francês), a leitura desse direito não pode ser feita tendo em consideração as formas de interpretação e de aplicação do direito local: esse operador (juiz ou advogado) deverá analisar as normas do direito francês utilizando a sua hermenêutica. RESUMO 1.1 Considerações iniciais A intensificação do intercâmbio de pessoas vinculadas a Estados regidos por legislações diversas oportuniza a ocorrência, cada vez mais frequente, de conflitos, criando dificuldade para estabelecer qual ordenamento jurídico e qual legislação são competentes para a solução da lide. É desse conflito de leis no espaço que se ocupa o Direito Internacional Privado. 1.2 Conceito É o ramo do direito interno que regula direta ou indiretamente as relações privadas internacionais (Cláudia Marques). É o conjunto de regras de direito interno que objetiva solucionar os conflitos de leis originárias de Estados diversos, indicando, em cada caso que se apresente, a lei competente a ser aplicada (Araújo). É um complexo de normas e princípios de regulação que, atuando nos diversos ordenamentos legais ou convencionais, estabelece qual o direito aplicável para resolver conflitos de leis ou sistemas, envolvendo relações jurídicas de natureza privada ou pública, com referências internacionais ou locais (Strenger). O Direito Internacional Privado consiste no conjunto de normas de direito público interno que busca, por meio dos elementos de conexão, encontrar o direito aplicável, nacional ou estrangeiro, quando a lide comporta opção entre mais de uma ordem jurídica para solucionar o caso (Del’Olmo). 1.3 Objeto Organizar direito adequado à apreciação de fatos anormais ou fatos com duas ou mais jurisdições, sejam pertinentes ao fórum ou ocorridos no estrangeiro (Amílcar). Conflito de leis, nacionalidade, condição jurídica do estrangeiro e direitos adquiridos (Niboyet). Conflito de leis interespacial, nacionalidade, condição jurídica do estrangeiro, direitos adquiridos, conflito de jurisdições, competência internacional e homologação de sentenças estrangeiras (Del’Olmo). 1.4 Normas de DIPr na Constituição Federal de 1988 Reconhece ao estrangeiro os direitos fundamentais. Disciplina a nacionalidade e dá competência privativa à União para legislar sobre emigração e imigração, entrada, extradição e expulsão de estrangeiros. 1.5 Direitos adquiridos Todos os direitos, plenamente incorporados ao patrimônio jurídico do cidadão, nacional ou estrangeiro, devem acompanhá-lo extraterritorialmente. Mesmo casos em que tais direitos, se buscados em nosso foro, pela aplicação direta da norma estrangeira, não seriam aceitos por contrariarem a ordem pública, podem ser admitidos. São repelidos, no entanto, aqueles que ofendem a ordem pública local. 1.6 Direito Internacional Privado e Direito Internacional Público Possuem fontes e institutos comuns: tratados, nacionalidade, extradição. 1.7 Direito Internacional Privado e Direito Comparado Para o DIPr, o Direito Comparado é uma ferramenta indispensável na aplicação do Direito estrangeiro, assim como na criação e na adaptação de institutos. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Conceituar Direito Internacional Privado. 2. Indicar o objeto do DIPr mais adequado na atualidade. 3. Tecer considerações sobre os cinco direitos fundamentais, na CF/88, extensivos aos estrangeiros. 4. Os direitos adquiridos pelo cidadão estrangeiro que se estabelece legalmente no Brasil são reconhecidos pelo nosso Direito? Justificar sua resposta. 5. Citar institutos e fontes comuns ao DIPr e ao Direito Internacional Público. 6. Dissertar sobre a importância do Direito Comparado para o DIPr. ______________ 1 CASTRO, Amílcar de. Direito internacional privado. p. 7. 2 BAVILÁQUA, Clóvis. Princípios elementares de direito internacional privado. p. 11. 3 ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Curso de direito dos conflitos interespaciais. p. 8. 4 AMORIM, Edgar Carlos de. Direito internacional privado. p. 6. 5 STRENGER, Irineu. Direito internacional privado. p. 44. 6 MARQUES, Cláudia Lima. Ensaio para uma introdução ao direito internacional privado. p. 325. 7 CASTRO, A. Op. cit. p. 50. 8 NIBOYET, J. P. Principios de derecho internacional privado. p. 1. 9 BATIFFOL, Henri e LAGARDE, Paul. Traité de droit international privé. p. 17. 10 ESPINOLA, Eduardo; ESPINOLA FILHO, Eduardo. A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro. p. 294. 11 RECHSTEINER, Beat Walter. Direito internacional privado: teoria e prática. p. 204-209. 12 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 30. 13 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I, p. 30. 14 TENÓRIO, Oscar. Direito internacional privado. v. I, p. 47. 15 ALMEIDA, Carlos Ferreira de. Introdução ao direito comparado. p. 9. ESBOÇO HISTÓRICO DO DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO “A história é a soma dos acontecimentos passados, experiência vivida que acaba nos dando uma visão completa do pretérito com projeçõesno presente e no futuro” (Edgar Carlos de Amorim). 2.1 Considerações iniciais O Direito Internacional Privado (DIPr) pode ser definido, em linhas gerais, como o marco jurídico de um país que indica qual o direito a ser aplicado nas questões que contêm um elemento estrangeiro. A partir dessa definição pode-se entender o motivo de essa disciplina ser chamada, na língua inglesa, de “conflito de leis” (conflict of laws). Em casos que envolvem um elemento estrangeiro, torna-se necessário definir questões como a lei e a jurisdição aplicáveis. Nesse sentido, o Direito Internacional Privado promove um diálogo entre culturas legais diferentes, pois pode estipular a aplicação da lei de um país em outro. É consenso entre os estudiosos que na Antiguidade não existiram regras de Direito Internacional Privado, uma vez que o estrangeiro era considerado hostil, não inspirava confiança e não praticava a mesma religião, o que o transformava em potencial inimigo. As relações eram difíceis, como relata o exemplo bíblico – Gênesis, cap. 43, vers. 32 –, no qual um egípcio não podia comer pão com um estrangeiro. O estrangeiro, nem em Roma, nem em Atenas, tinha direito algum, não podendo ser proprietário nem casar, herdar, contratar ou praticar o comércio. Algumas legislações, como a chinesa, permitiam até o sacrifício e a destruição do estrangeiro.1 Contudo, várias circunstâncias ensejavam relações entre os povos, como as expedições militares, os embates guerreiros e, especialmente, o intercâmbio comercial. Isso impunha o surgimento de algum tipo de justiça para os estrangeiros, já que o interesse econômico assim o exigia. 2.2 Grécia O meteco, estrangeiro em Atenas, não tinha o status de cidadão, mas pagava uma taxa especial a fim de poder exercer atividades comerciais. Dispunha de uma judicatura especial, a polemarca, protegendo sua família e seus bens. Surgiu, aí, o próxeno, cidadão encarregado de orientar o estrangeiro em suas relações comerciais e zelar por seus interesses. A consequência dessas relações ensejou o surgimento de tratados entre as cidades, chamados asília, que seriam a origem dos tratados de DIPr,2 com o fim de proteger os súditos e resguardá-los contra violências. O meteco chegou a gozar de certos direitos políticos e civis, sendo então chamado isótele. 2.3 Roma Em Roma, o estrangeiro, a princípio vendido como escravo e tendo seus bens sequestrados, evoluiu para peregrino, com certos direitos, baseados no jus gentium. Em 242 a.C., surge o pretor peregrino, para solucionar as questões entre romanos e estrangeiros ou entre somente estes, desde que residentes em Roma. O pretor exercia o antigo poder jurisdicional dos reis, sendo a autoridade suprema na administração da justiça e encarnando, na esfera de suas atribuições, a soberania do povo romano, podendo “também criar, ou transformar o direito (critérios de apreciação), se tal exigissem as necessidades da prática”.3 Também no Egito, no tempo de Amenófis III (1500 a.C.), firmaram-se alguns tratados de comércio com os babilônios e com os hititas. Na Bíblia, outrossim, há passagens simpáticas ao estrangeiro, como “não afligirás o forasteiro nem o oprimirás, pois forasteiro foste na terra do Egito” (Êxodo, cap. 22, vers. 20) e “se o estrangeiro peregrinar na vossa terra não o oprimireis” (Levítico, cap. 19, vers. 33). Inobstante tais legislações e preceitos, não há que se falar em DIPr nesses tempos. Como destaca Jacob Dolinger, os estrangeiros não participavam da vida jurídica, não admitindo os direitos locais cotejo com direitos estrangeiros, o que afastava qualquer possibilidade de conflito: existia apenas um complexo de normas de direito material,4 sendo absoluta a territorialidade das leis. A invasão dos bárbaros no Império Romano, em 476 de nossa era, vai alterar essa situação. A partir de então passam a conviver, no mesmo contexto, pessoas de diferentes línguas, raças e condições econômicas e sociais. Nesse ínterim, surge a personalidade das leis, por meio da qual cada ser humano será julgado pelas leis de sua tribo, seu povo, sua nação. O romano, mais interessado no fator econômico, respeitava a lei e os costumes nativos já quando de suas conquistas, como o atesta o próprio julgamento de Cristo, conduzido pelos hebreus e seguindo as leis hebraicas. Após a invasão dos bárbaros, suas normas jurídicas vão vigorar nos lugares dominados, com o que o caráter territorial das leis cede ao direito de sangue, o jus sanguinis. Acresça-se que os bárbaros, não conseguindo absorver as leis romanas, permitiam que cada um se regesse por suas próprias leis. Apenas em caso de conflito imperava a lei dos vencedores. Assim, vigiam lado a lado no mesmo espaço leis romanas, visigóticas, lombardas e bávaras, entre outras. O julgador devia perguntar “sub qua lege vivis?” e só então aplicar a lei. É sempre referido o depoimento de Agobardo, presbítero de Lyon, ao rei francês Luís, o Pio: “Podia acontecer de cinco pessoas que se agrupassem em uma reunião estarem sujeitos a cinco ordenamentos distintos”.5 A miscigenação vai fazendo desaparecer esse regime jurídico da personalidade do direito, que se extingue na Espanha, no século VIII, quando surge o Codex Wisigothorum, o qual unifica o conjunto de leis, suprimindo todas as legislações ali existentes, inclusive a romana. A morte de Carlos Magno, no século IX, com a dissolução do Império carolíngio, vai ocasionar o restabelecimento da territorialidade das leis. 2.4 Feudalismo A pouca força dos sucessores de Carlos Magno resultou no surgimento do feudalismo. Passa-se a ter necessidade de proteção contra invasores e malfeitores, sendo que a própria realeza reforça o poder do senhor feudal, que agia como rei em seu território, construindo muralhas e fortificações, e determinando o modus vivendi de seus súditos. Dentro de seus domínios, o senhor feudal admitia apenas a sua lei. É a territorialidade da lei, o jus soli. Mas o feudalismo, dominante na Europa, não se firmou no norte da Itália, onde era grande o intercâmbio comercial e industrial entre as cidades de Florença, Veneza, Pisa, Perúgia, Milão, Bolonha e Módena, entre outras. Elas eram verdadeiras repúblicas autônomas, com direito próprio, o statuta, resumo do antigo direito costumeiro das cidades e dos comerciantes, em oposição à Lex, direito romano, que era o direito comum, geral, aplicável quando omisso o direito particular da cidade.6 O Estatuto de Gênova surgiu em 1145, o de Pisa em 1161, o de Ferrara em 1208, o de Milão em 1216, o de Módena em 1218, o de Verona em 1228 e o de Veneza em 1242.7 Os estatutos continham prescrições administrativas, penais, civis e comerciais. Esse intercâmbio entre as cidades começou a defrontar-se com fatos que requeriam soluções jurídicas, não dirimidas da mesma forma em seus estatutos. Note-se que não havia até esse momento normas de DIPr para disciplinar tais relações. 2.5 Glosadores e escolas estatutárias Em 1100, Irnerius instituiu o ensino do Direito Romano na Escola de Bolonha, por ele fundada. Estudando o Digesto, foi escrevendo breves notas marginais ou interlineares explicativas do conteúdo, as glosas, nas quais confrontava textos, desfazia contradições e buscava um entendimento harmonioso e o mais completo possível do conjunto. Esse centro de estudos jurídicos passou a ser denominado escola de glosadores, nele se destacando Accursius, Bulgarus e Iacobus, ao lado de Irnerius. Lembra Edgar Amorim que o trabalho dos glosadores “nada mais foi do que uma espécie de colheita de tudo aquilo existente no Direito Romano relacionado ao convívio de Roma com os estrangeiros”.8 Segundo diversos autores, o mais antigo vestígio de Direito Internacional Privado é o parecer encontrado por Karl Neumeyer, do qual se destaca esta passagem: “Mas, pergunta-se: se homens de diversas províncias, as quais têm diversos costumes, litigam perante um mesmo juiz, qual desses costumes deve seguir o juiz que recebeu o feito para ser julgado? Respondo: deve seguir o costume que lhe parecer mais preferível e mais útil, porque devejulgar conforme aquilo que a ele, juiz, for visto como melhor. De acordo com Aldricus”.9 Os séculos XIII e XIV vão encontrar a escola dos pós-glosadores, comentaristas ou bartolistas, em Perúgia, Pádua, Pisa e Pávia. Surge então Bartolo (1314-1357), de Saxoferrato, considerado o pai do DIPr. Os pós-glosadores não se limitavam a notas explicativas, pois redigiam, sobre as glosas, comentários próprios, buscando e criando um direito novo, comum, de possível aplicação às situações de seu tempo. Ainda se destacam Cino de Pistoia e Baldo de Ubaldis, mas Bartolo foi o maior de todos, já tendo sido considerado “o maior jurista da Idade Média”, “pai do direito” e “lampião do direito”. Ele foi o fundador da escola estatutária italiana e dividiu os estatutos em reais (lei da situação da coisa) e pessoais (ligados à pessoa). Em resumo, conforme síntese apresentada por Luís Ivani de Amorim Araújo,10 a solução dos conflitos, preconizada pelo sistema estatutário italiano que vem sendo adotada até nossos dias, era esta: a) Bens imóveis: regido pela localização da coisa; b) Sucessão: de acordo com o domicilio do falecido, sendo que a formalidade na sucessão era regida pelo lugar da elaboração do ato; c) Contratos e seus efeitos: conforme o lugar da celebração (para as obrigações) e da execução (para negligência e mora); d) Delitos: segundo a lei do lugar do ato. Além da italiana, tais escolas ou sistemas estatutários compreendem mais três: a francesa, a holandesa e a alemã. A escola estatutária francesa, no século XVI, foi criada por Bertrand D’Argentré (l519-1590) e distinguiu os estatutos reais (coisas) e os pessoais, mais tarde admitindo os mistos. O estatuto pessoal, que era exceção, devia acompanhar o ser humano, sendo que a regra era o estatuto real. Assim, a extraterritorialidade seria muito limitada. Já no século XVIII, Boulenois, Bouthier e Froland reestruturam a escola, ampliando a aplicação extraterritorial dos estatutos, o que deixou de ser exceção. Merece referência Charles Dumoulin (1500-1566), criador da teoria da autonomia da vontade, faculdade de as partes estabelecerem a lei que deve reger a validade de um contrato. Se não indicada a lei, a escolha do local para a realização do contrato indica a vontade dos contratantes. Dumoulin é referido por muitos tratadistas como integrante da escola francesa, mas Haroldo Valladão o coloca na escola italiana, como seu “último e grande continuador, mas também reformador”.11 Cabe lembrar que alguns autores estudam os dois sistemas estatutários como um só: a escola ítalo-francesa. A escola estatutária holandesa, do século XVII, tem como expoentes Bulgarus, Chistian Rodenburg – seu criador, e Ulrich Huber – o mais famoso, adotando o critério absoluto da territorialidade de todos os estatutos (reais e pessoais). Mais tarde, a escola passou a aceitar, em casos excepcionais, a aplicação de estatutos pessoais, em razão da cortesia internacional (comitas gentium). Ulrich assim sintetizou os parâmetros de sua escola: as leis só vigoram no território do Estado e obrigam todos os seus súditos, sendo estes os que se encontram nos limites do Estado de forma permanente ou não, e os governantes, por cortesia, podem admitir que o direito objetivo de cada povo conserve seus efeitos em toda parte, contanto que não prejudique o Estado estrangeiro nem seus súditos. Os autores divergem sobre consideração da comitas dos holandeses como cortesia ou necessidade de fato relativa aos interesses particulares. Para Amílcar de Castro, era necessidade de fato, nada tendo a ver com cortesia, enquanto Edgar Amorim entende que a comitas visava a ambos. Apesar de muitos tratadistas não a referirem como sistema autônomo, a escola alemã, do século XVIII, destaca Nikolas Hert e Henrich von Cocceji. Amílcar de Castro indica que “como doutrina, ou escola, a alemã só pode ser considerada atípica, eclética, não saliente por qualquer traço original, senão pela maior precisão de conceitos”,12 mas reconhece que, ao repetir as demais doutrinas, ela as melhorou. Os estatutos são os reais, pessoais e mistos. Sintetizando, deve-se lembrar que as escolas estatutárias não eram práticas, não alcançando o êxito almejado. 2.6 Codificação O século XIX vai assistir ao surgimento de normas de Direito Internacional Privado em códigos civis de vários países, como França (1804), Itália (1865) e Alemanha (1896). Em 1855, com Andrés Bello, primeiro autor de obra autônoma sobre Direito Internacional Privado na América, aparece o Código Civil do Chile, que estabelece, em seu artigo 57, que “a lei não reconhece diferença entre o chileno e o estrangeiro quanto à aquisição e gozo dos direitos civis que regra este código”. Era um princípio novo, ainda não estabelecido em nenhuma codificação civil do mundo, nem mesmo na francesa, que exigia, rigorosamente, reciprocidade diplomática e legislativa para reconhecimento desses direitos. Haroldo Valladão exalta nesse legado chileno o espírito inovador, que, tendo o territorialismo como princípio básico, quanto às pessoas, aos atos e aos bens situados no território, e a nacionalidade em casos restritos – para o chileno que no estrangeiro pratica atos que viessem produzir efeitos no Chile, e em suas relações de família com chilenos – se constituiu em combinação equilibrada e sensata de regras de DIPr.13 No que tange ao nosso país, é oportuno destacar que a Carta Magna de 1891 assegurou, no artigo 72, aos estrangeiros residentes no Brasil a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade, associando-se a esse nascente espírito de aceitação das pessoas oriundas de outros países. 2.7 Doutrinas modernas Ainda no século XIX vão despontar os grandes precursores da doutrina de Direito Internacional Privado, Story, Savigny e Mancini, cujas contribuições para nossa disciplina influenciarão as legislações, as decisões judiciais, as convenções e os tratados a partir de então. É prudente afirmar que os ensinamentos desses mestres continuam indicando caminhos, em pleno século XXI, para legisladores e estudiosos de DIPr em todo o mundo. Joseph Story, professor da Universidade de Harvard e membro da Suprema Corte americana, publicou em 1834 seu Conflict of Laws, que, segundo Valladão, se tornou “quase uma bíblia para os julgados e a doutrina não só nos Estados Unidos como na Inglaterra”. Tenório acentua que Story, cuja influência continua a exercer-se, ensinou à Europa uma concepção baseada na equidade dos conflitos de leis, sem os limites da divisão estatutária.14 Story alicerçou-se em princípios das escolas estatutárias, como D’Argentré e Huber, naquilo que considerou importante, mas versou os temas separadamente, nem mesmo aceitando a divisão em estatutos pessoais, reais e mistos. Ele substituiu a gentileza internacional, a cortesia, pelo princípio da busca da boa justiça, na aplicação do direito estrangeiro. Em resumo, sua doutrina estabelece: a) Capacidade das pessoas: lei do domicílio; b) Capacidade para contratar: lei do local do contrato; c) Bens imóveis: lei da sua situação; d) Casamento: lei do lugar da celebração; e) Divórcio e relações dos cônjuges: lei do domicílio atual. Friedrich Carl von Savigny, professor de Berlim, escreveu Sistema de Direito Romano Atual (1849). Com ele surge a ideia de um universalismo, de um direito aplicável universal, pois entende que o interesse das pessoas requer e merece igualdade de trato das questões jurídicas, em caso de conflito de leis, preconizando que a solução seja a mesma, onde quer que ocorra o julgamento. Imagina a comunidade de direitos entre os diferentes povos, o que significa buscar para cada relação jurídica surgida o direito mais de acordo com a natureza e essencialidade dessa relação. Isso se faz pela localização da sede da relação em causa, que é o domicílio das pessoas quanto ao seu estado e capacidade, e a localização da coisa para qualificá-la ou regê-la. Na verdade, o domicílio é o elemento de conexão por excelência, acentuando Cláudia Lima Marquesque Savigny procurou a harmonia das decisões, aplicando a lei nacional ou a estrangeira mais conectada com a relação jurídica, quando essa relação envolve mais de um ordenamento jurídico.15 Savigny já alerta para quatro institutos que são inaplicáveis nos foros que não os admitem, tornando-se, portanto, não abarcáveis pelas normas de DIPr: poligamia, morte civil, escravidão e proibição de aquisição de propriedade imobiliária por judeus. Pasquale Stanislao Mancini, italiano, foi fundador e presidente do Instituto de Direito Internacional. A rigor, não deixou uma obra escrita, mas suas palestras e aulas, especialmente na Universidade de Turim (1851) e de Roma, foram publicadas em 1874, sob supervisão sua, enfocando os fundamentos e os princípios do Direito Internacional Privado. Sua doutrina se embasa na nacionalidade, mas com restrições, tendo grande influência na Europa, onde a nacionalidade, contrariamente ao domicílio de Savigny, é o elemento de conexão comum na legislação dos diversos países. RESUMO 2.1 Considerações iniciais Na Antiguidade, não existiram normas de DIPr, porque o estrangeiro era considerado inimigo, não possuindo direitos e não podendo, o mais das vezes, casar, herdar, contratar ou praticar o comércio. 2.2 Grécia Chamado meteco, o estrangeiro pagava uma taxa especial e podia exercer atividades comerciais, inclusive com judicatura própria, a polemarca, para proteger sua família e seus bens. Surgem o próxeno, que orienta o estrangeiro em negócios e interesses, e a asília, tratado entre as cidades, origem dos atuais tratados de DIPr. 2.3 Roma O peregrino, com certos direitos no jus gentium, passa a contar com seu pretor peregrino. Com a invasão dos bárbaros, passam a viver no mesmo território pessoas de diferentes línguas e origens, surgindo a personalidade das leis: na solução da lide, o julgador aplica a lei de cada um (visigodo, lombardo, romano etc.). 2.4 Feudalismo Retorna a territorialidade das leis, que no feudo é absoluta, mas o feudalismo não se firma nas cidades do norte da Itália. 2.5 Glosadores e escolas estatutárias Irnerius (1100) estuda Direito Romano na Escola de Bolonha e coloca notas lineares ou marginais (glosas) no Digesto. Surge a escola dos glosadores, que busca nas leis romanas o que existia sobre estrangeiros. No século XIV, surge Bartolo, o pai do DIPr: é a escola dos pós- glosadores, com comentários próprios sobre as glosas, criando um direito novo. Solução para os conflitos: Bens imóveis: lei da localização da coisa. Sucessão: domicílio do falecido. Contratos: lugar da celebração. Delitos: lei do lugar do ato. Escolas estatutárias: Francesa: estatutos reais e pessoais – D’Argentré. Holandesa: critério absoluto de territorialidade de todos os estatutos. Alemã: pequena contribuição – estatutos reais, pessoais e mistos. 2.6 Codificação No século XIX, surgem os grandes códigos: Código Civil da França (1804) e Código Civil do Chile (1855), com regras sobre o estrangeiro. 2.7 Doutrinas modernas Joseph Story: EUA, 1834. Escreveu Conflict of Laws, defendeu a equidade dos conflitos de leis e o critério da busca da boa justiça na aplicação do direito estrangeiro. Friedrich Carl von Savigny: Alemanha, 1849. Autor de Sistema de Direito Romano Atual, aventou a mesma solução para o conflito de leis entre os diferentes povos e defendeu o domicílio como o principal elemento de conexão. Pasquale Stanislao Mancini: Itália, 1851. Fez notáveis palestras em Turim e Roma, propondo a nacionalidade como elemento de conexão. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Dissertar sobre o tratamento dispensado ao estrangeiro na Antiguidade, detendo-se nas regras em seu favor que surgiram em Roma e na Grécia. 2. Estabelecer um paralelo entre a territorialidade e a personalidade das leis, conceituando-as e acentuando sua presença na trajetória do Direito Internacional Privado e na atualidade. 3. Tecer comentários sobre a escola dos pós-glosadores, analisando o trabalho de Bartolo e sua contribuição ao DIPr moderno. 4. Fazer um estudo das escolas estatutária francesa e holandesa, enfatizando a importância de cada uma delas para o estudo atual de nossa disciplina. 5. Analisar as contribuições trazidas ao Direito Internacional Privado pelos códigos civis do século XIX, especialmente o Código de Napoleão e o de Andrés Bello. 6. Dissertar sobre os grandes mestres do século XIX (Story, Savigny e Mancini), destacando a importância de suas doutrinas ao estudioso de Direito Internacional Privado do século XXI. ______________ 1 Ver, entre outros, AMORIM, Edgar Carlos de. Direito internacional privado. p. 63. 2 TENÓRIO, Oscar. Direito internacional privado. v. I, p. 64. 3 CASTRO, Amílcar de. Direito internacional privado. p. 130. 4 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 180. 5 ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Introdução ao direito internacional privado. p. 15. 6 Ver, entre outros, FOELIX, M. Traité du droit international privé. v. I, p. 36-37. 7 CONTUZZI, Francesco Paolo. Diritto internazionale privato. p. 54. 8 AMORIM, E. C. Op. cit. p. 66. 9 Ver, entre outros, CASTRO, A. Op. cit. p. 127. 10 ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Curso de direito dos conflitos interespaciais. p. 19. 11 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I, p. 111. 12 CASTRO, A. Op. cit. p. 154. 13 VALLADÃO, H. Op. cit. p. 155. 14 TENÓRIO, O. Op. cit. p. 184. 15 MARQUES, Cláudia Lima. Ensaio para uma introdução ao direito internacional privado. p. 328-329. DENOMINAÇÃO E MÉTODO DE DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO E A DISCIPLINA NO BRASIL “O DIP atua quase exclusivamente através de regras de conflitos, e o objeto imediato destas, não se duvida, são as regras materiais dos Estados” (Rui Manuel Gens de Moura Ramos). 3.1 Considerações iniciais Os tratados sobre nossa disciplina costumam identificá-la como Direito Internacional Privado, denominação que prevalece, embora outros nomes sejam empregados. Entendemos válido referir essas formas, assim como analisar a autonomia, por vezes contestada, e o método empregado no estudo do DIPr. Este capítulo se ocupará desses aspectos da matéria, completando-se com breve histórico da disciplina no Brasil. Nesse ponto, enfatizaremos os seus primórdios no ordenamento jurídico do País, ocupando-se das primeiras normas adotadas e da figura exponencial de Teixeira de Freitas. Referiremos os estudiosos de DIPr, aludindo suas contribuições para a consolidação da disciplina em nosso meio. 3.2 Denominação A denominação Direito Internacional Privado, consagrada há mais de século para identificar nossa disciplina, teria sido usada pela primeira vez por Jean Etiene Portalis, um dos autores do Código de Napoleão, na sua dissertação de mestrado, em 1803, em Paris. Joseph Story empregou-a em sua obra Conflict of Laws, em 1834, e Jean Jacques Gaspar Foelix, advogado alemão radicado em Paris, utilizou a expressão no título de seu livro Traité de Droit International Privé, em 1843.1 Verifica-se que até se fixar essa denominação, foram empregadas muitas outras, por diversos autores, como Direito Privado Internacional, Direito dos Limites, Direito Interprivado, Direito dos Estrangeiros, Direito Intersistemático, Direito Privado Humano, Direito Extraterritorial, Direito Polarizado e Direito dos Conflitos Interespaciais. Embora ressalvando o pouco uso, lembramos outras denominações que têm sido referidas pela doutrina: Direito Interestatal Privado ou Direito Interespacial, Direito Universal dos Estrangeiros, Direito Privado Externo ou Interdireito, Direito de Delimitação, Direito Civil Internacional e Direito Interjurisdicional. Haroldo Valladão amplia a lista, citando Direito Translatício, Jus Gentium Privatum, Teoria dos Estatutos e Direito Transnacional, mas enfatiza que Direito Internacional Privado e Conflito de Leis são as mais usadas, e justifica sua opção por Direito Internacional Privado por ser essa “a mais usada na Europa continental, na América Latina e no Brasil”, ressalvando que preferiria Conflitode Leis.2 A disciplina – que nos seus primórdios, desde os estatutários holandeses e alemães, foi chamada de Conflito, Concurso ou Colisão de Estatutos ou de Leis – também já foi conhecida como Normas de Colisão e Nomantologia, denominação esta dada pelo brasileiro Raul Pederneiras, em atenção às raízes etimológicas gregas: nomos (lei), ante (confronto) e logos (estudo). De tudo depreende-se que o nome Direito Internacional Privado é admitido universalmente, e como tal é a disciplina conhecida e comumente identificada. 3.3 Autonomia do DIPr Não há unanimidade entre os estudiosos quanto a esse tema. Entre os discordantes está Oscar Tenório, que afirma ser controvertida tal autonomia, embora reconheça que as particularidades das regras de conflitos justificam o estudo particularizado do Direito Internacional Privado, pois há necessidade de “conhecimento e solução das chamadas questões prévias (conexão, qualificação etc.) e da subordinação do direito estrangeiro a ser aplicado ao princípio da ordem pública”.3 No entanto, a maioria dos tratadistas preconiza a maioridade do DIPr, como Edgar Carlos de Amorim, para quem a autonomia de uma ciência ou de um ramo do Direito ocorre quando existem objeto, método, institutos e fundamentos próprios.4 Exemplifica seu objeto (conflito de leis, reconhecimento de direitos adquiridos) e institutos (extradição, deportação, expulsão, nacionalidade). De nossa parte, consideramos plenamente justificada a autonomia da disciplina. 3.4 Método Tema de ingente atualidade é o método a ser seguido pelo estudioso de Direito Internacional Privado. Basicamente, trata-se do equacionamento das seguintes questões básicas: jurisdição e lei aplicável. Inicialmente, a solução dos casos de DIPr era encontrada pelo método territorial: aplicava-se a lei do juiz. Por exemplo, quando existiam controvérsias na execução de contrato entre pessoas de duas cidades italianas, a questão era dirimida pelo juiz da causa, sem importar onde o contrato fora celebrado ou qual o Direito que o regulamentava. Embora superada essa fase, registra Cláudia Lima Marques forte tendência de seu emprego, especialmente na doutrina norte-americana, caracterizando um novo lex forismo.5 Nadia de Araújo lembra o universalismo – o mesmo DIPr em todos os países –, que imperou no século XIX, método que daria lugar ao particularismo – a diversidade cultural dos Estados conduz a sistemas internos diferentes.6 A regulamentação do estatuto pessoal, com os critérios da nacionalidade e do domicílio, seria uma consequência desse último. Classicamente o DIPr utiliza o método conflitual, que conduz a uma das ordens jurídicas envolvidas, à qual caberá dirimir a lide. Esse método é o mais usado, inclusive no Brasil, postura que tende a prevalecer por mais tempo. Como afirmado, o método conflitual não soluciona a lide interespacial, indicando apenas a legislação, do foro ou estrangeira, que dirimirá o feito. Seguindo o exemplo anterior, perante divergências suscitadas na execução de contrato (agora entre pessoas de países diferentes) o direito aplicável deve ser indicado pelas normas de conflito. Essas normas não dão a solução material do litígio, simplesmente indicam qual é o direito que deve solucionar o caso, que poderá ser o direito local ou o estrangeiro. As regras que determinam a lei aplicável podem ser classificadas pela fonte (legislativa, doutrinária e jurisprudencial), pela natureza (indireta, indicando qual o direito interno a ser apreciado) e pela sua estrutura.7 No entanto, existem outros caminhos para a solução do caso interespacial, como o emprego do método material, pelo qual o próprio Direito Internacional Privado decidirá a relação sub judice. Por esse método não é indicado o direito aplicável, nacional ou estrangeiro, mas a própria solução da lide. Essa é a tendência do DIPr, com a ocorrência de soluções para as lides interespaciais em tratados ou convenções internacionais. Pode ocorrer, ainda, o denominado método imperativo ou de aplicação imediata: a legislação interna do Estado dirime a lide de forma unilateral, priorizando a solução pelo direito nacional, em detrimento das demais legislações (seja estrangeira ou fruto de tratado ou convenção). Desse modo, verifica-se a pluralidade de métodos e de normas indiretas e diretas, que entendemos adequada e coerente com nosso tempo. 3.5 Direito Internacional Privado no Brasil Falar em DIPr em nosso país é recordar o maior jurista brasileiro do século XIX e precursor da disciplina, Augusto Teixeira de Freitas, considerado um dos maiores expoentes do direito de seu tempo em toda a América.8 3.5.1 Primeiros tempos Antes da Independência, vigiam no Brasil as leis portuguesas em todos os campos do Direito. As Ordenações Afonsinas, Manuelinas e, por período mais longo, as Filipinas, eram a legislação que regulava a vida jurídica em nosso território. Essas normas estavam impregnadas, no que se refere ao campo do Direito Internacional Privado, da inspiração estatutária oriunda da Europa, tendo como base o princípio do locus regit actum para os contratos e a necessidade de prova do direito estrangeiro. 3.5.2 Augusto Teixeira de Freitas O Regulamento n. 737, de 25 de novembro de 1850, complementava o princípio acima, determinando a lei do lugar da execução para os contratos comerciais. O artigo 406 da Consolidação das Leis Civis, de Teixeira de Freitas, de 1857, estabelecia que “as leis e usos de países estrangeiros regem a forma dos atos neles ajustados”.9 Essa obra foi publicada no Rio de Janeiro e nela Augusto Teixeira de Freitas, após pouco mais de dois anos de trabalho, ordenou, classificou e atualizou o direito legislado, esparso, confuso e impreciso, então vigente no Brasil. Tratava-se de leis, decretos, assentos, alvarás, resoluções, regulamentos e demais preceitos jurídicos, desde as ordenações portuguesas, muitas delas já revogadas na terra lusa, até as normas jurídicas brasileiras das três primeiras décadas após a Independência. Haroldo Valladão considerou tal obra como a Carta magna da independência jurídica brasileira.10 Três anos depois, Freitas publica o Esboço do Código Civil do Império. Disciplinado, inteligente, estudioso, humanista e dotado de profundo senso de justiça, Teixeira de Freitas deixou uma obra que imortalizou seu nome, honrou o Brasil e enobreceu sua época, servindo ainda de ponto de convergência na legislação civil entre os povos irmãos que, um século após sua morte, se integrariam no Mercado Comum do Sul, o Mercosul. O insigne jurista teve notável influência na codificação do Direito Civil sul-americano, tendo o Código Civil da Argentina e o do Paraguai, que foi adaptação daquele, sido inspirados no seu Esboço. Outros países do continente, como o Uruguai e o Peru, buscaram luzes jurídicas no seu trabalho. A originalidade e completude do Esboço deram organicidade às normas de DIPr. Acentua Valladão o admirável método de Freitas na solução das questões dos conflitos de leis, no espaço ou no tempo, inspirando-se na teoria de Savigny, mas a aperfeiçoando com ideias próprias.11 Teixeira de Freitas adotou o domicílio como principal elemento de conexão. Assim: “A capacidade ou incapacidade das pessoas não domiciliadas no Império devem ser julgadas pelas leis dos países de seus respectivos domicílios”.12 O domicílio, ausente no Código Civil de 1916, que optou pela nacionalidade, seria integrado ao ordenamento jurídico brasileiro com a Lei de Introdução ao Código Civil (LICC), de 1942, sendo até hoje a conexão adotada. Acentue-se que a LICC teve sua denominação alterada para “Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro” (LINDB), pela Lei n. 12.376, de 31 de dezembro de 2010. 3.5.3 José Antônio Pimenta Bueno Outro notável estudioso lança, em 1863, a obra Direito internacional privado e aplicação de seus princípios com referência às leis particulares do Brasil. Trata-se de José Antônio Pimenta Bueno, paulista de Santos e magistrado nessa cidade e no Maranhão, que é tido por muitos autores como o primeiro tratadistabrasileiro de DIPr. Inspirado pela obra de Foelix e pelo Código Napoleônico, fez uma exposição sistematizada da matéria, tendo sido intransigente defensor da nacionalidade como principal elemento de conexão. Considerando-se a contemporaneidade dos trabalhos de Teixeira de Freitas e de Pimenta Bueno, incontestáveis precursores do DIPr no Brasil, defrontou-se o nosso Direito com duas correntes doutrinárias quanto ao elemento de conexão: uma defendendo o domicílio e outra a nacionalidade. 3.5.4 Notáveis tratadistas Segue-se, já no século XX, a prevalência da figura de Clóvis Beviláqua no estudo dos postulados de DIPr. Em 1906, publicou Princípios de direito internacional privado, no qual defendeu o princípio da nacionalidade por entender mais duradoura e de mais fácil determinação do que o domicílio. Foi o principal autor do Código Civil brasileiro de 1916, em cuja Introdução consagrou-se a nacionalidade como o motivo de ligação mais importante no conflito de leis no espaço. A LICC, agora LINDB, como afirmado, adotou o domicílio como principal elemento de conexão, dando assim razão à tese historicamente defendida por Teixeira de Freitas. Deve-se ressaltar que a mudança ocorreu em plena II Guerra Mundial, período em que o número de alemães, italianos e japoneses residentes no Brasil era expressivo, podendo, pela legislação então vigente, verem-se aplicadas em nosso país leis de nações tornadas inimigas. Embora essa situação não impeça, por si só, o emprego de lei estrangeira no direito interno – até porque o jurídico não se deve submeter ao político –, a comprovação do conteúdo e da vigência das normas desses Estados quando invocadas pelas partes ficava extremamente prejudicada pela ausência de órgãos desses países no Brasil. Lugar especial no estudo, no magistério e na doutrina de DIPr no Brasil cabe a Haroldo Teixeira Valladão, por vezes referido como o maior internacionalista do continente americano no século XX. Com dedicação à nossa disciplina, participação em eventos em diversos países, cursos e palestras proferidos, ao lado de sua obra clássica Direito Internacional Privado, em três volumes, e do anteprojeto de Código de Aplicação das Normas Jurídicas, conquistou merecido respeito e admiração no mundo jurídico. Essa iniciativa, a exemplo do Projeto de Código de Direito Internacional Privado, de Lafayette Rodrigues Pereira, apresentado várias décadas antes, infelizmente não logrou se transformar em lei. Queremos destacar dois outros nomes de tratadistas brasileiros de DIPr: Oscar Tenório e Amílcar de Castro, reconhecidos internacionalmente como expoentes da matéria, sendo a consulta aos seus trabalhos uma imposição e uma necessidade. Na história do Direito Internacional Privado, devemos referir ainda Rodrigo Otávio, Eduardo Espínola, Pontes de Miranda e Carvalho Santos, este com notável estudo sobre a Introdução ao Código Civil de 1916, em seu clássico Código Civil brasileiro interpretado. Espínola é autor, com Eduardo Espínola Filho, de magistral trabalho em três volumes, A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, publicado em 1943, sendo reeditado, a partir de 1995, constituindo-se em verdadeiro clássico no gênero. 3.5.5 Atualidade do DIPr brasileiro Nas últimas décadas, uma gama de autores esmera-se na busca de conhecimentos e de maiores contribuições ao DIPr, publicando-se a cada ano novos trabalhos ou reedições de obras que se firmam como essenciais. Agenor Pereira de Andrade e Osíris Rocha, laboriosos e acatados mestres de Minas Gerais, são exemplos de especialistas que enriquecem a matéria, constituindo, com Amílcar de Castro, o importante Grupo Mineiro da disciplina. Jacob Dolinger, Luís Ivani de Amorim Araújo, Irineu Strenger, João Grandino Rodas, Carmem Tibúrcio, Marilda Rosado de Sá Ribeiro e Edgar Carlos de Amorim têm enriquecido nossa disciplina no Brasil e contribuído para manter o alto conceito conquistado no contexto doutrinário sul-americano e mundial. Confirmando a maturidade do Direito Internacional Privado brasileiro, queremos destacar a participação dos professores Cláudia Lima Marques, Nadia de Araújo e Luiz Otávio Pimentel, nas Conferências Interamericanas de Direito Internacional Privado (CIDIPs) e nos Encontros Internacionais de Direito da América do Sul (EIDAS), que tanto contribuíram para o enriquecimento do DIPr e disciplinas afins como Direito do Comércio Internacional e Direito da Integração. Augusto Jaeger Junior e Sílvio Javier Battello, cujos doutoramentos se centraram em temas correlatos (concorrência e falência internacionais), também merecem referência. 3.6 Considerações finais O ensino de Direito Internacional Privado no Brasil teve início em 1907 com a implantação de cadeira autônoma na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (hoje Faculdade de Direito da UFRJ), primeiro curso superior do Brasil a ministrar a matéria. O professor Rodrigo Otávio, com renome na área e autor de diversos trabalhos, inclusive em revistas estrangeiras, foi encarregado de lecionar a disciplina, sendo substituído em 1929 pelo professor Haroldo Valladão. Em 1933, Rodrigo Otávio publicaria Dicionário de direito internacional privado, obra pioneira. Em 1911, com denominação Direito internacional, a cadeira foi criada na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, atual Faculdade de Direito da UFRGS. Convém lembrar que a cátedra de DIPr foi criada em Paris (França) em 1880, tendo sido Lainé o seu primeiro professor, e a matéria a ser versada correspondia ao conflito de leis. Três anos depois, foram incluídas, na grade curricular, duas grandes questões prévias: nacionalidade e condição civil dos estrangeiros.13 Nesse contexto, o primeiro país a instituir a cadeira autônoma de DIPr foi a Holanda (em 1877, em Utrecht, com o professor Hamaker). No continente americano, nossa disciplina foi implantada nos cursos jurídicos na Argentina (1878), em Buenos Aires, desdobrada da cadeira de Direito Internacional Público, e como cátedra autônoma, em 1883; no Uruguai (1887); em Cuba (1893), com Bustamante; e nos Estados Unidos, desde o século XIX, em Harvard, com Beale, cadeira de Conflict of Laws.14 O estudo de DIPr era realizado no Brasil, até o advento da disciplina, antes referido, de maneira fragmentária, compreendido no âmbito do Curso de Direito Civil. A Reforma do Ensino de 1915 criou oficialmente a cadeira de Direito Internacional Privado, como matéria obrigatória do quinto ano do curso de bacharelado. Atualmente, o Direito Internacional Privado faz parte do currículo de quase todos os cursos de Direito do Brasil, como disciplina autônoma, sendo exigido em inúmeros concursos para ingresso em profissões da área jurídica. Quanto à literatura do Direito Internacional Privado, é cada vez mais rica em todas as partes do mundo. A proximidade entre os povos e o intenso intercâmbio propiciado pela modernidade ampliam a necessidade de parâmetros jurídicos para dirimir os conflitos daí emergentes. A exemplo do Brasil, França, Itália, Alemanha, Portugal, Espanha e Estados Unidos, entre outros países, contam hoje com dedicados estudiosos de DIPr. RESUMO 3.1 Considerações iniciais Este capítulo estuda a denominação, a autonomia e o método do DIPr, bem como o desenvolvimento da disciplina no Brasil. 3.2 Denominação Diversas designações foram utilizadas para designar nossa disciplina, como Direito Privado Internacional, Direito Privado Humano, Direito Extraterritorial, Direito Interespacial, Direito Universal dos Estrangeiros, Direito Civil Internacional, Direito Translatício, Nomantologia e Conflito de Leis. No entanto, a denominação Direito Internacional Privado fixou-se e é hoje universalmente aceita. 3.3 Autonomia A autonomia do DIPr é aceita pela maioria dos doutrinadores, até porque esse ramo do direito dispõe de objeto, institutos, fundamentos e método próprios. Mesmo as vozes discordantes reconhecem que os conflitos de leis possuem características que justificam o estudo específico. 3.4 Método Entendemos que vige no Direito InternacionalPrivado a pluralidade de métodos, assim sintetizada: territorial (apenas a lei do foro), conflitual (o método clássico, ainda dominante, que opta entre o direito nacional do foro ou o estrangeiro, que dirimirá a lide), material (solução da relação jurídica interespacial pelo DIPr) e imperativo (aplicação direta de norma obrigatória). 3.5 Direito Internacional Privado no Brasil Augusto Teixeira de Freitas tem sido considerado o maior jurista brasileiro do século XIX e foi o precursor da disciplina. 3.5.1 Primeiros tempos As Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas vigoraram no Brasil, do descobrimento à Independência, e privilegiavam, em matéria de conflito de leis no espaço, o locus regit actum. 3.5.2 Augusto Teixeira de Freitas Teve notável influência na codificação do direito sul-americano (Código Civil argentino). Seguidor de Savigny, escreveu Esboço do Código Civil do império, em 1860, e defendeu o domicílio como o principal elemento de conexão. 3.5.3 José Antônio Pimenta Bueno Autor da primeira obra específica de Direito Internacional Privado publicada no Brasil, defendeu a nacionalidade como elemento de conexão. 3.5.4 Notáveis tratadistas Clóvis Beviláqua (Princípios de direito internacional privado e principal autor do Código Civil brasileiro de 1916), Lafayette Rodrigues Pereira, Haroldo Valladão, Oscar Tenório, Amílcar de Castro, Rodrigo Otávio e Eduardo Espinola. 3.5.5 Atualidade do DIPr brasileiro Agenor Pereira de Andrade, Osíris Rocha, Jacob Dolinger, Luís Ivani de Amorim Araújo, Irineu Strenger, João Grandino Rodas, Carmem Tibúrcio, Marilda Rosado de Sá Ribeiro e Edgar Carlos de Amorim. Cláudia Lima Marques (UFRGS), Nádia de Araújo (PUCRJ) e Luiz Otávio Pimentel (UFSC): eventos para o aprimoramento do DIPr, do Direito do Comércio Internacional e do Direito da Integração (CIDIPs e EIDAS). 3.6 Considerações finais O ensino de DIPr no Brasil, como cadeira autônoma, surgiu na atual Faculdade de Direito da UFRJ (1907), com Rodrigo Otávio, sucedido vinte anos depois por Haroldo Valladão. Em 1911, foi introduzido na atual Faculdade de Direito da UFRGS. O conteúdo (conflito de leis no espaço) era ministrado no curso de Direito Civil. Hoje, o DIPr está presente em quase todos os currículos jurídicos e em concursos da área jurídica. A Holanda foi o primeiro país do mundo (Utrecht, 1877) a instituir a cadeira de DIPr, sendo a Argentina (Buenos Aires, 1878) o primeiro Estado em nosso continente. A literatura de DIPr é hoje vasta e rica. França, Itália, Alemanha, Brasil, Portugal, Espanha e Estados Unidos, entre outros países, possuem notáveis trabalhos de estudiosos e pesquisadores da disciplina. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Analisar três denominações para o Direito Internacional Privado que você considera adequadas, justificando-as. 2. No contexto atual, em que as ciências jurídicas tendem à especialização, por vezes exagerada, defender ou criticar a autonomia do Direito Internacional Privado. 3. Tecer considerações sobre o método usado no estudo do DIPr, sugerindo aquele que lhe parecer mais compatível para o aprendizado da disciplina na contemporaneidade. 4. Dissertar sobre os estudos de Augusto Teixeira de Freitas e sua contribuição ao Direito brasileiro e latino-americano, detendo-se na presença desses estudos na codificação civil argentina. 5. Tecer considerações sobre os elementos de conexão defendidos por Teixeira de Freitas e por Pimenta Bueno, enfatizando a posição atual do DIPr brasileiro nesse tema. 6. Comentar a principal modificação, em relação à conexão, na Lei de Introdução ao Código Civil de 1942, contextualizando-a e a justificando. ______________ 1 Ver, entre outros, CASTRO, Amílcar de. Direito internacional privado. p. 100; SILVA ALONSO, Ramón. Derecho internacional privado. p. 37. 2 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I, p. 47. 3 TENÓRIO, Oscar. Direito internacional privado. v. I, p. 20. 4 AMORIM, Edgar Carlos de. Direito internacional privado. p. 15. 5 MARQUES, Cláudia Lima. Ensaio para uma introdução ao direito internacional privado. p. 337. 6 ARAUJO, Nadia de. Direito internacional privado: teoria e prática. p. 34-35. 7 ARAUJO, N. Idem, p. 36. 8 SILVA ALONSO, Ramón. Carta ao autor desta obra em 20 de julho de 1999. 9 TEIXEIRA DE FREITAS, Augusto. Consolidação das Leis Civis. v. I, p. 278. 10 VALLADÃO, H. Op. cit. p. 168. 11 VALLADÃO, H. Idem. p. 173. 12 TEIXEIRA DE FREITAS, A. Op. cit. p. 280. 13 VALLADÃO, H. Op. cit. p. 44. 14 VALLADÃO, H. Idem. p. 62-63. FONTES DO DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO “A complexidade dos problemas versados pelo Direito Internacional Privado conduz a uma variedade de fontes produtoras de regras que visam indicar soluções, umas mais, outras menos eficazes” (Jacob Dolinger). 4.1 Considerações iniciais Lembremos, inicialmente, que as fontes do Direito podem ser materiais – fatores sociológicos, econômicos e culturais, entre outros, que conduzem à instituição da norma jurídica – e formais – as regras jurídicas elaboradas por processo legislativo, os costumes, a analogia e os princípios gerais do Direito. As primeiras são fontes de inspiração e as segundas, de vigência do Direito. Neste estudo, interessa referir as fontes formais do Direito Internacional Privado, que não se afastam substancialmente das dos demais ramos das ciências jurídicas. Os estudiosos divergem quanto às fontes, mas em essência as classificam em fontes internas – as leis de cada país – e fontes externas – os tratados. Nos dois polos encontramos os costumes, a doutrina e a jurisprudência. Cada tratadista dispõe as fontes da maneira que lhe parece adequada, enfatizando a maior importância desta ou daquela. No entanto, existe um consenso, verificado na leitura de autores brasileiros e estrangeiros: o de que é a lei a fonte principal do DIPr. Haroldo Valladão, ao se referir aos sistemas de produção jurídica, em DIPr e nos demais ramos do Direito, observou que ela varia conforme a necessidade de emprego em cada espécie: em matérias clássicas, codificadas, predomina a lei; nas modernas e contemporâneas, os tratados; nas menos legisladas cresce a influência da jurisprudência e da doutrina; enquanto nas que acatam a autonomia da vontade os acordos e convenções são as fontes mais importantes.1 Após estudar diversas classificações de fontes, Strenger as hierarquiza desta forma: lei interna, tratados normativos, costume interno, jurisprudência e doutrina.2 De nossa parte, preferimos classificar as fontes do DIPr na seguinte ordem: lei, tratados, doutrina, jurisprudência e costumes. 4.2 Lei Como referido, a lei é a principal fonte do Direito Internacional Privado na maioria dos países, encontrada em seus Códigos Civis ou em leis especiais. No Brasil, ela detém essa primazia como fonte de DIPr, contida em várias normas jurídicas. Na Lei Magna de 1988, temos postulados referentes aos estrangeiros nos arts. 5º, 12, 14 e 22, bem como sobre extradição (art. 102, I, g) e sobre homologação de sentença estrangeira (art. 105, I, i). No Código Tributário Nacional (arts. 98 e 100), Código de Processo Civil (arts. 88 e 337), Código Civil de 1916 e Código Civil de 2002 existem dispositivos de Direito Internacional Privado. Contudo, a maioria das normas sobre o conflito de leis no espaço se encontra na Lei de Introdução ao Código Civil de 1942, em seus arts. 7º a 19. Como é sabido, essa lei teve sua denominação alterada para Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), pela Lei n. 12.376, de 31 de dezembro de 2010. O Estatuto do Estrangeiro (Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980, atualizada pela Lei n. 6.964/81) segue-se à LINDB em importância no ordenamento jurídico brasileiro, com amplo e rico conjunto de normas de DIPr. 4.3 Tratados Na impossibilidade de uma lei supranacional com poder de coerção sobre os países, os tratados assumem excepcional importância, que tende a crescer com o aumento das relações internacionais. Uma vez aprovado pelas partes signatárias e promulgado,passa o tratado a ter força de lei. A sua natureza jurídica, a partir de então, é dupla, pois obriga tanto internamente quanto no plano internacional. No Brasil, de modo geral, o tratado deve ser aprovado pelo Legislativo e promulgado pelo Presidente da República, necessitando, ainda, para sua vigência, de troca de cartas de ratificação. A forma escrita é obrigatória nos tratados, os quais ocorrem entre dois ou mais Estados soberanos e visam a um fim específico ou ao estabelecimento de normas para conduzir assuntos que implicam relações jurídicas entre seus respectivos cidadãos. Seu objeto deve ser lícito e possível e os agentes signatários são chamados de plenipotenciários. Os tratados recebem denominações diversas, nem sempre com uma razão jurídica: Convenção (institui normas gerais), Declaração (cria princípios gerais), Pacto (ato solene), Acordo (fins econômico-financeiros ou culturais), Concordata (envolve a Santa Sé), Modus vivendi (acordo temporário), Protocolo (ata de conferência ou complemento de tratado já existente) e Acordo por Troca de notas (quando encobre matéria administrativa). O tratado tem várias fases: negociação, entendimentos, assinatura, ratificação, promulgação, publicação e registro. A extinção ocorre por perda do objeto, denúncia unilateral, comum acordo, caducidade e guerra. Todo tratado deve estar ajustado aos preceitos constitucionais do país, situando-se, hierarquicamente, no caso do Brasil, no mesmo plano e no mesmo grau de eficácia em que se posicionam as nossas leis internas ordinárias.3 Assim, o Supremo Tribunal Federal já consagrou a teoria da paridade entre o tratado e a lei nacional, de modo que o tratado prevalece sobre as leis internas anteriores à sua promulgação. Com a promulgação da EC n. 45/2004, a qual inseriu o § 3º no artigo 5º, determinou-se que “os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos quando forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. No entanto, resta a dúvida sobre qual status teriam os tratados internacionais sobre direitos humanos anteriores à referida emenda e os que não foram aprovados pelo quórum especial. Nesse contexto, segundo Gilmar Mendes, há discussão doutrinária e jurisprudencial sobre o status normativo dos tratados e convenções internacionais de direitos humanos, em razão do disposto no § 2º do artigo 5º da Constituição Federal, segundo o qual “os direitos e garantias expressos nessa Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. Assim, havia quatro principais correntes: a) Natureza supraconstitucional: defendida por Celso de Albuquerque Mello, prega que normas internacionais ratificadas pelo Brasil acerca de direitos humanos não podem ser revogadas nem mesmo por emenda constitucional. No entanto, é uma teoria difícil de ser aceita em um Estado cujo sistema é regido pelo princípio da supremacia formal e material da Constituição sobre todo o ordenamento jurídico; b) Natureza constitucional: essa teoria entende que o § 2º do artigo 5º da Constituição seria uma cláusula aberta de recepção de outros direitos em tratados internacionais relativos a direitos humanos, os quais também teriam status constitucional ao serem incorporados pelo nosso ordenamento. Assim, eventuais conflitos deveriam ser resolvidos pela aplicação da norma mais favorável à vítima. O principal defensor dessa tese é Antonio Augusto Cançado Trindade. No entanto, poder-se-ia depreender do § 3º do artigo 5º que os tratados já ratificados pelo Brasil e não submetidos ao processo legislativo especial de aprovação, bem como os tratados anteriores à EC n. 45/2004 não podem ser comparados às normas constitucionais; c) Status de lei ordinária: após a EC n. 45/2004, essa tese perdeu sua força, pois prega que os tratados sobre direitos humanos são equivalentes às leis ordinárias, como os demais tratados internacionais; d) Natureza supralegal: tese defendida por Gilmar Mendes, a qual afirma que os instrumentos convencionais sobre direitos humanos seriam infraconstitucionais, mas, diante de sua natureza especial em relação aos demais atos normativos internacionais, seriam dotados de caráter de supralegalidade, ou seja, não poderiam afrontar a supremacia da Constituição, mas equipará-los à legislação ordinária seria subestimar o seu valor.4 O chamado Código de Direito Internacional Privado, mais conhecido por Código Bustamante, está internalizado em nossa ordem jurídica, constituindo-se, portanto, em fonte formal do DIPr brasileiro. Trata-se de bem elaborado projeto do diplomata e mestre internacionalista cubano Antonio Sanchez de Bustamante y Sirvén, aprovado, em 28 de fevereiro de 1928, por quinze Estados americanos,5 na Conferência Pan-Americana de Havana, e promulgado no Brasil em 13 de agosto de 1929 pelo Decreto n. 18.871. São também fontes de DIPr no Brasil, entre outros tratados, o Estatuto Orgânico do Instituto Internacional para a Unificação do Direito Privado (UNIDROIT), de 1940; a Convenção sobre a Prestação de Alimentos no Estrangeiro, de 1956; e as Convenções Interamericanas de Direito Internacional Privado (CIDIPs), da Organização dos Estados Americanos (OEA), como as que se ocupam das Cartas Rogatórias e da Arbitragem Internacional (ambas de 1975), das Normas Gerais de DIPr (1979) e da Obrigação Alimentar (1989). 4.4 Doutrina Afora a discussão sobre serem doutrina e jurisprudência fontes de direito, deve-se reconhecer a notável importância da doutrina na solução de conflitos de leis no espaço, quando há omissão da lei e inexiste tratado. Mesmo convenções assinadas, mas não ratificadas ou promulgadas, oferecem subsídios para os doutrinadores, em cuja obra o magistrado poderá encontrar a solução do conflito em julgamento. As conclusões dos especialistas, por serem fruto de estudo e reflexões elaboradas, sinalizam muitas vezes o futuro em qualquer área do conhecimento humano. Nas ciências jurídicas como um todo, e na área do DIPr em particular, a doutrina indica caminhos que conduzem a soluções adequadas e justas. Ademais, no caso do Direito Internacional Privado, a doutrina influenciou ao longo do tempo a evolução da disciplina em todas as partes do mundo. Dolinger chega a afirmar que “em nenhum campo do direito a Doutrina tem tanta desenvoltura como no DIPr, em razão da parcimônia do legislador”, complementando: “Daí o amplo campo de ação e a relevância da obra do jurisconsulto, que tem liberdade de criar onde o legislador silenciou.”6 Acentue-se que a doutrina brasileira de DIPr é rica e erudita, oferecendo valiosa contribuição ao julgador. 4.5 Jurisprudência Vem-se constituindo em verdadeira fonte de Direito Internacional Privado. Embora no sistema jurídico do Brasil caiba ao magistrado interpretar o Direito na lei existente, ele pode, por vezes, ante as lacunas dessa norma e ausência de outras fontes, socorrer-se de julgados reiterados das Cortes maiores do País. Com isso, a jurisprudência nacional de DIPr assume gradativamente importância, bastando observar as decisões de nossos tribunais, muitas delas inseridas em alguns capítulos desta obra. O intenso intercâmbio entre pessoas de diferentes países, firmando negócios, unindo-se por meio de casamentos, contratando pacotes turísticos e interagindo com pessoas das mais diversas nacionalidades, tem ocasionado o surgimento de litígios entre pessoas regidas por legislações diversas. As decisões a respeito de tais litígios, até pela natural semelhança decisória em casos análogos, já que muitos conflitos se repetem, acabam ensejando valiosos precedentes para o julgador. A jurisprudência da Corte de Cassação, mais alto tribunal recursal da França, constitui-se na fonte essencial de DIPr7 desse país, havendo também na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos primazia da jurisprudência sobre as demais fontes de DIPr. 4.6 Costumes Emboracom emprego reduzido se comparados com as fontes anteriormente estudadas, os costumes oferecem solução para lides de DIPr quando nelas persistem lacunas. Tanto costumes internos quanto internacionais podem ser usados. Recorde-se que uma regra de direito costumeiro se forma, em qualquer desses planos, pelo uso prolongado e geral de prática considerada conveniente, justa, útil e adequada ao contexto social. A reiteração desse comportamento culmina, muitas vezes, com a convicção jurídica de se tratar de uma norma de direito. O valor como fonte atribuído aos costumes varia de um país para outro. No Brasil, o direito costumeiro só se aplica na falta ou na omissão da lei, segundo reza a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. RESUMO 4.1 Considerações iniciais As fontes são internas (leis de cada Estado) e externas (tratados). Em ambas as esferas a doutrina, a jurisprudência e os costumes. 4.2 Lei A lei é a principal fonte do Direito Internacional Privado na maioria dos países e também no Brasil. A Constituição Federal de 1988, a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (a mais importante fonte), vários Códigos (Tributário, Civil, Processo Civil, Penal, Processo Penal) e o Estatuto do Estrangeiro. 4.3 Tratados Os tratados têm grande importância ante a ausência de leis supranacionais, possuindo natureza jurídica dupla: obrigam nos planos interno e internacional. Hierarquicamente, no caso do Brasil, o tratado está no mesmo plano e no mesmo grau de eficácia em que se posicionam as nossas leis internas ordinárias. O tratado é aprovado pelo Legislativo e promulgado pelo Presidente da República. A forma escrita é obrigatória. Recebem várias denominações: Convenção, Declaração, Pacto, Protocolo etc. O Código Bustamante, o UNIDROIT e as Convenções Interamericanas de Direito Internacional Privado (CIDIPs) são fontes de DIPr no Brasil. 4.4 Doutrina Apresenta notável importância, especialmente quando há omissão da lei e inexiste tratado. A doutrina brasileira de DIPr é rica e erudita, contribuindo para a solução de inúmeras contendas. 4.5 Jurisprudência Vem-se constituindo em verdadeira fonte de Direito Internacional Privado, assumindo, no Brasil, crescente relevância e possibilitando frequentes decisões de nossos tribunais. Trata-se da fonte mais importante na Grã-Bretanha, Estados Unidos e França. 4.6 Costumes Reconhecidos como fonte de DIPr, os costumes podem ser no plano interno ou internacional. No Brasil, são empregados na falta ou na omissão da lei, conforme estabelece a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Fazer um paralelo entre as fontes do DIPr e as dos demais ramos do Direito interno. 2. Tecer considerações sobre a fonte principal de Direito Internacional Privado no Brasil. 3. Apresentar a sua classificação das fontes de DIPr, justificando-a. 4. Por que os tratados são tão importantes como fonte de DIPr? 5. Defender o emprego da doutrina e da jurisprudência como fontes de DIPr. 6. Comentar sobre os costumes como fonte de Direito Internacional Privado no Brasil. ______________ 1 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I, p. 91. 2 STRENGER, Irineu. Direito internacional privado. p. 70. 3 STF. ADI n. 1.480-3DF – 04.09.1997 – rel. Min. Celso de Mello – site do STF. Ainda: MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional público. p. 305. 4 MENDES, Gilmar Ferreira et al. Curso de direito constitucional. p. 654-671. 5 Aprovaram o Código Bustamante: Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Equador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá, Peru, Salvador e Venezuela. 6 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 221. 7 BATIFFOL, Henri e LAGARDE, Paul. Traité de droit international privé. p. 32. TEORIA DAS QUALIFICAÇÕES “As atividades humanas são as mesmas em toda parte: o que varia é o modo de apreciá-las” (Amílcar de Castro). 5.1 Considerações iniciais Qualificar é atribuir existência jurídica a um ente, coisa ou fato, incluindo-o em uma categoria legal: é conceituá-lo segundo a técnica de uma legislação.1 Trata-se da operação pela qual o magistrado verifica, antes de decidir, à qual instituição jurídica pertencem os fatos trazidos a seu julgamento. A qualificação deve anteceder a escolha da lei aplicável, sendo sempre processual. Ademais, se qualificam apenas questões jurídicas, nunca simples fatos, que não têm qualificação jurídica em si mesmos. Observe-se o caso do aborto, fato que no Brasil é tipificado como crime, ao contrário do Japão, onde não há essa tipificação penal. Embora seja um ato preliminar, a qualificação não deve ser confundida com a questão prévia, que será analisada mais adiante. Mas por que qualificar? A doutrina lembra um número imenso de institutos que apresentam controvérsias. Início da personalidade: a partir da concepção ou do nascimento? Vítima de trapaceiro: ilícito civil ou penal? Roubo, furto ou extorsão? Prazo de prescrição ou decadência? Prescrição extintiva: direito material ou direito processual? Doação causa mortis: direito das obrigações ou das sucessões? Arrendamento: direito real ou pessoal? Casamento ou união estável? Herança jacente para o Estado: herança ou ocupação? Cônjuge supérstite: meeiro e/ou herdeiro? Divisão de bens no divórcio: direito das sucessões ou direito de família? Contrato de trabalho ou parceria? A qualificação, como verificado nesses questionamentos, não é exclusividade do Direito Internacional Privado, ocorrendo, rotineiramente, em todos os ramos do Direito. No entanto, em nossa disciplina ela é excepcionalmente necessária, pois estamos diante de conflitos de leis no espaço e de legislações de Estados diferentes. Impõe-se a necessidade de qualificar, ou seja, colocar o instituto ou a relação de direito na categoria jurídica que lhe corresponde. Para Jacob Dolinger, essa tarefa do julgador pode ser sintetizada em uma equação: Conceituar + Classificar = Qualificar.2 5.2 Teorias existentes Uma vez efetuada a qualificação, o julgador buscará o objeto de conexão, para então determinar a regra, elemento de conexão, que lhe permitirá encontrar o direito a ser aplicado. Essa matéria tem sido denominada Doutrina das Qualificações, Problema das Qualificações e Questão das Qualificações. Foi para solucionar esse impasse que surgiu a dita Teoria das Qualificações, desenvolvida por Franz Kahn, em 1891, e Etienne Bartin, em 1897. Para eles, a solução está em se aplicar a lei do foro, lex fori: o julgador devia preocupar-se apenas em qualificar o instituto com base em sua própria lei. Em 1898, Franz Despagnet defendia, com boas razões, a qualificação pela lei estrangeira, lex causae, argumentando que deixar de aplicá-la seria violar a norma de Direito Internacional Privado que a ordenara. Ele encontrou muitos seguidores, especialmente Martin Wolff, segundo o qual se deve buscar no direito estrangeiro, supostamente aplicável, a qualificação da relação jurídica em conflito.3 Refere-se uma terceira teoria, a da qualificação por referência a conceitos autônomos e universais, buscados no estudo comparativo dos direitos e nos princípios gerais de sua aplicação.4 Devida a Ernst Rabel, justifica-se sua pouca aceitação pela dificuldade prática de o juiz detectar elementos objetivos para essa forma de qualificação, irrealista e utópica, embora justa. Convém enfatizar a notória prevalência da lex fori como critério de qualificação. As justificativas para essa postura da legislação e da doutrina são variadas e consistentes: a) ausência de linguagem jurídica comum entre os países; b) presunção de coesão interna nos ordenamentos jurídicos; c) dificuldade de o sistema do foro compreender e empregar autenticamente as qualificações estrangeiras; d) caráter interno das normas de conflito, que torna mais adequada a qualificação por esse Direito; e e) incongruência de utilizar a lex causae para qualificar norma de conflito eventualmente aplicável quando ainda é desconhecidaa própria lei estrangeira a ser aplicada.5 Tantas razões em favor da lex fori não a eximem de limites, abrindo espaço para a lex causae. Essas dificuldades na qualificação pela lei do foro ocorrem, por exemplo, com os imóveis e com instituições desconhecidas, caso do trust, do direito inglês. Há, ainda, institutos que, embora presentes em uma ordem jurídica, possuem forma e conteúdo diverso no Direito estrangeiro – caso de adoção com características de tutela no foro do julgador. Martin Wolff, adepto da lex causae, entende que examinar a aplicação do direito estrangeiro sem referência às suas qualificações é deixar de considerá-lo como ele é. Reconhece, contudo, que a lex causae também pode conduzir a resultado inconsistente com princípios fundamentais do foro. Conclui o autor que os problemas suscitados pelas diferenças de qualificação não são insolúveis, necessitando apenas de ajuste nos sistemas jurídicos internos, de adequada interpretação dessas regras.6 Nesse contexto, Haroldo Valladão preconiza uma qualificação inicial, provisória, aproximativa, pela lei do foro; e uma definitiva, pela lei da causa, a qual prevalecerá em caso de divergência entre as duas.7 5.3 Qualificações no Brasil Na doutrina brasileira, predomina a qualificação pela lei do foro, entendimento ao qual nos alinhamos. Considerado o direito positivo brasileiro, também impera a lei do foro, com exceção dos arts. 8º (“para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em que estiverem situados”) e 9º, caput (“para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem”) da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. O Código Bustamante optou pela lex fori, estabelecendo em seu artigo 6º que “em todos os casos não previstos por este Código, cada um dos Estados contratantes aplicará a sua própria definição às instituições ou relações jurídicas que tiverem de corresponder aos grupos de leis mencionadas no art. 3º”. Assim, adota “no silêncio de suas regras, a qualificação pela lex fori, deixando, pois, toda a liberdade ao juiz nacional para resolver a questão”.8 5.4 Casos clássicos Três casos são considerados clássicos no estudo da Teoria das Qualificações: a sucessão do maltês, o testamento hológrafo do holandês e o casamento do grego ortodoxo. A sucessão do maltês refere-se a casamento ocorrido na ilha de Malta, sem pacto antenupcial, onde os noivos se estabeleceram. O casal emigrou para a Argélia, então sob legislação francesa, onde o marido faleceu, em 1889, sem descendentes, mas deixando muitos bens imóveis e outros herdeiros. A viúva maltesa nada herdaria pela lei francesa, mas seria contemplada com a quarta parte dos bens se fosse aplicada a legislação vigente em Malta. Bartin, seu advogado, defendeu perante o Tribunal de Argel a tese de que a solução se encontrava no direito de família, devendo ser buscada no regime matrimonial de bens (para o qual ao casamento de estrangeiros, celebrado no estrangeiro, se aplicava a lei do primeiro domicílio conjugal). Portanto, a lei maltesa. Se o tribunal colocasse a lide no direito sucessório, a legislação aplicável seria a francesa, pois a sucessão de bens imóveis era regulada pela lei da situação dos mesmos e estes se encontravam na Argélia. Tratava-se, pois, de um caso de qualificação: direito de família ou direito sucessório. Venceu a tese de Bartin, recebendo a viúva a sua parte.9 O testamento hológrafo do holandês, que protagonizou interessante lide envolvendo a qualificação, diz respeito a cidadão dos Países Baixos que faleceu na França, onde viveu a maior parte de sua vida, deixando testamento hológrafo (testamento particular, proibido no ordenamento jurídico holandês, mas admitido pela legislação francesa). A validade do testamento pelo tribunal francês dependia da qualificação: estatuto pessoal ou forma dos atos jurídicos. No primeiro caso, o testamento seria nulo, pois o holandês não teria capacidade para assiná-lo, mesmo fora de seu país. Na última hipótese, o documento teria plena validade, já que em matéria de forma a lei aplicável é a do local da realização do ato jurídico. A Justiça francesa entendeu que prevalecia a forma do ato, tendo o testamento produzido seus efeitos quanto ao patrimônio situado na França. Ressalte-se que eventuais bens situados na Holanda não seriam contemplados pelo testamento.10 O casamento de grego ortodoxo, realizado civilmente na França, com mulher francesa, sem a cerimônia religiosa obrigatória pela legislação grega (revogada somente em 1982), ensejou um problema de qualificação: condição de fundo ou condição de forma. Se a exigência da celebração religiosa se enquadrasse no primeiro caso, o casamento seria nulo, pois a lei francesa submete a validade das núpcias à lei nacional dos cônjuges. No último caso, condição de forma, a lei francesa seria aplicável e o casamento seria válido. Prevaleceu a forma, tendo a Justiça francesa reconhecido a validade do matrimônio, lembrando-se de que o casal tinha seu domicílio nesse país. Quanto aos tratados internacionais, ultimamente procura-se definir com precisão o objeto de conexão de suas normas, evitando-se assim a necessidade de qualificação. 5.5 Questões prévias As questões prévias ou incidentais são situações que surgem após a qualificação – embora possam aparecer anteriormente ou mesmo durante o processo de qualificação –, mas que precisam ser resolvidas antes da solução concreta do caso. Assim, ações em que o cônjuge invoca a nulidade do casamento em defesa na ação de alimentos ou que alguém postula parte de herança sem ter qualquer laço familiar com o falecido implicam a análise da questão prévia para a solução da lide principal.11 Um exemplo formulado pelo professor Silvio Battello12 elucida o tema: imagine-se um casal homoafetivo, legalmente casado na Holanda (possível na legislação desse país, mas ainda não incorporado na lei brasileira, embora já aceito pelos nossos tribunais maiores), que se estabelece na Bahia, comprando um luxuoso hotel à beira-mar. Meses depois, efetivados seus domicílios no Brasil, um deles falece, configurando-se um caso de DIPr. Pela qualificação legal, o direito aplicável é o brasileiro, último domicílio do de cujus. O foro competente também é o brasileiro, uma vez que os imóveis estão localizados no território brasileiro. O cônjuge supérstite inicia ação de inventário e surge então a questão prévia: o casamento realizado na Holanda é válido no Brasil? Deve o magistrado brasileiro reconhecer ao cônjuge sobrevivente os direitos hereditários? Quais seriam esses direitos? Os do cônjuge em sentido estrito ou os direitos do companheiro na união estável? No âmbito doutrinário, existem três alternativas possíveis: a) a solução pelo DIPr do foro; b) a solução pela aplicação da lei que rege a questão principal; c) a solução conforme os interesses do DIPr no caso concreto. No direito positivo brasileiro, não há previsão para as questões prévias, que costumam surgir após a qualificação. Contudo, o artigo 8º da Convenção Interamericana sobre Normas Gerais de Direito Internacional Privado (CIDIP II), assinada em Montevidéu, em 08 de maio de 1979, em vigor no Brasil desde 27 de dezembro de 1995 determina claramente: “As questões prévias, preliminares ou incidentes que surjam em decorrência de uma questão principal não devem necessariamente ser resolvidas de acordo com a lei que regula esta última.” Dessa forma, o juiz brasileiro deverá ponderar qual é a melhor solução e optar entre a aplicação do direito brasileiro (que ainda desconhece o matrimônio homoafetivo) ou a aplicação do direito holandês (que admite essa união). Ignorar o casamento, nesse caso, seria afastar da sucessão a pessoa diretamente envolvida na formação do acervo de bens. RESUMO 5.1 Considerações iniciais Qualificação: operação pela qual o juiz, antes de decidir, verifica a que instituição jurídica correspondem os fatos realmente provados. Diferenças de entendimento entre legislações de países distintosimpõem a necessidade de qualificar. Exemplos de institutos controversos: Início da personalidade: a partir da concepção ou do nascimento? Vítima de trapaceiro: ilícito civil ou penal? Prazo de prescrição ou decadência? Conceituar + Classificar = Qualificar (equação proposta por Jacob Dolinger). 5.2 Teorias existentes Existem dois critérios para a qualificação: Lex fori: proposta por Kahn (1891) e defendida por Bartin (1897) – a solução está em se aplicar a lei do foro, devendo o julgador qualificar o instituto com base em sua própria lei. Lex causae: proposta por Despagnet (1898) e defendida por Wolff – opção pela lei estrangeira aventada, lei material, lei da causa. 5.3 Qualificações no Brasil Na doutrina brasileira predomina a qualificação pela lex fori. A legislação também optou pela lei do foro, com exceção dos bens e das obrigações, que são qualificados pela lex causae (arts. 8º e 9º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro). 5.4 Casos clássicos São considerados clássicos no estudo da Teoria das Qualificações: a sucessão do maltês, o testamento hológrafo do holandês e o casamento do grego ortodoxo. 5.5 Questões prévias As questões prévias são situações que surgem, em tese, após a qualificação, mas que devem ser resolvidas antes da solução concreta do caso. Ocorrem em processo sucessório, quando se contesta a validade de casamento, entre outros exemplos. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Conceituar qualificação e justificar sua importância na solução de lides de Direito Internacional Privado. 2. Dissertar sobre cinco institutos jurídicos que necessitam de qualificação para um perfeito julgamento da lide. 3. Apresentar e defender a teoria de Etienne Bartin sobre as qualificações. 4. Explicar e justificar a posição da legislação e da doutrina sobre as qualificações adotadas no Brasil. 5. Tecer considerações sobre os casos clássicos de qualificação e sua importância no estudo atual do tema. ______________ 1 ARMINJON, Pierre. Précis de droit international privé. p. 309. 2 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 364. 3 Sobre ambas as teorias, ver, entre outros, TENÓRIO, Oscar. Direito internacional privado. v. I. p. 294-298. BOGGIANO, Antonio. Curso de derecho internacional privado. p. 184-185. MONROY CABRA, Marco Gerardo. Tratado de derecho internacional privado. p. 320-322. 4 BOGGIANO, A. Op. cit. p. 185. 5 FERNÁNDEZ ROZAS, José Carlos e SÁNCHEZ LORENZO, Sixto. Derecho internacional privado. p. 190. 6 WOLFF, Martin. Derecho internacional privado. p. 149-160. 7 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I. p. 258. 8 STRENGER, Irineu. Direito internacional privado. p. 341. 9 Ver, entre outros, STRENGER, Irineu. Direito internacional privado. p. 338-339. GOLDSCHMIDT, Werner. Derecho internacional privado (derecho de la tolerancia). p. 90-91. MONROY CABRA, M. G. Op. cit. p. 319. 10 Ver, entre outros, STRENGER, I. Op. cit. p. 339-340. GOLDSCHMIDT, W. Op. cit. p. 91. MONROY CABRA, M. G. Op. cit. p. 319-320. 11 RIGAUX, François. Derecho internacional privado: parte general. p. 95-96. 12 BATTELLO, Silvio Javier. Palestra proferida na 39a Semana Acadêmica de Estudos Jurídicos e Sociais da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas em Pelotas, RS, no dia 30 de setembro de 2004. ELEMENTOS DE CONEXÃO “O fato interjurisdicional não tem direito próprio que lhe seja automática e previamente aplicável” (Osíris Rocha). 6.1 Considerações iniciais Conexão significa ligação, união, ponte, encontro, vínculo, entroncamento, nexo, ponto comum. Podemos entender elemento de conexão como a parte da norma de Direito Internacional Privado que determina o direito aplicável, seja o nacional (do julgador), seja o estrangeiro. De vital importância na solução dos conflitos de leis no espaço, os elementos de conexão são estudados nos manuais de Direito Internacional Privado, sob esse título ou como circunstâncias de conexão, pontos de contato, pontos de conexão, regras de conexão ou simplesmente conexões. As obras em espanhol empregam puntos de conexión; em francês, points de rattachement; em italiano, momenti di collegamento; e em inglês usa-se points of contact ou connecting factor. Preliminarmente, cabe distinguir que a norma de DIPr contém três partes: objeto, elemento e consequência jurídica. O objeto de conexão é a matéria a que se refere uma norma indicativa ou indireta de Direito Internacional Privado, ocupando-se de questões jurídicas vinculadas a fatos ou elementos de fatores sociais com conexão internacional – como capacidade jurídica, nome de uma pessoa ou pretensões jurídicas decorrentes, por exemplo, de acidente de carro. O elemento de conexão é a parte que torna possível a determinação do direito aplicável – nacionalidade, domicílio e lex fori.1 Por fim, a consequência jurídica, que nem sempre é escrita, podendo ser subentendida, é a aplicação de um direito material. Nesse contexto, o objeto de conexão pode ser comparado ao tipo da norma penal (matar alguém), o elemento com o resultado imediato desse ato ilícito (levar seu agente a julgamento) e a consequência à aplicação de uma regra (pena: reclusão de seis a vinte anos). A busca de composição de uma lide com conexão internacional se inicia com o julgador enquadrando os fatos controversos, alegados e provados, no objeto de conexão da norma adequada ao caso concreto, ou seja, qualificando-os, conforme estudado no capítulo anterior. Conhecida essa norma, o elemento de conexão indicará o direito aplicável: o jus fori ou o direito estrangeiro. A consequência será a aplicação dessa legislação. Exemplo: “A sucessão por morte ou por ausência [objeto de conexão – requer qualificação] obedece à lei do país em que era domiciliado o defunto ou o desaparecido [elemento de conexão – domicílio], qualquer que seja a natureza e a situação dos bens” (art. 10, caput, da LINDB). Ainda: “Para qualificar e reger as obrigações [objeto de conexão – qualificação], aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem [elemento de conexão – lex loci celebrationis]” (art. 9º, caput, da LINDB). Em ambos os casos, a consequência jurídica será a aplicação do direito assim indicado. 6.2 Classes de elementos de conexão A rigor, a escolha do elemento de conexão está condicionada ao interesse do legislador, razão pela qual não há um número preciso desses fatores indicativos nem de sua natureza. De qualquer forma, analisando-se as conexões presentes nas ordens jurídicas e na doutrina dos vários países, é possível apresentar uma classificação. Optamos por agrupá-los por características comuns, entendendo ser essa a forma mais adequada ao aprendizado: a) Pessoais: nacionalidade, domicílio, residência (habitual e simples), origem e religião; b) Reais: lei da situação da coisa (lex rei sitae ou lex situs, obrigatória para os bens imóveis), lugar da aquisição e domicílio ou nacionalidade do proprietário (mobilia sequuntur personam); c) Reais de natureza especial: lei do pavilhão (navios ou aeronaves), lugar em que se encontra, lei do destino, lugar da partida, local do registro e domicílio ou nacionalidade do proprietário; d) Delituais ou penais: lugar do ilícito (lex delicti commissi), domicílio ou nacionalidade do infrator ou da vítima, natureza da infração e lei do dano (lex damni); e) Voluntários: lei do lugar da celebração (lex loci celebrationis), do lugar da execução (lex loci executionis) e autonomia da vontade (lex voluntatis); f) Normativos: lex fori, lex causae (que abarca todas as normas de conexão que não são lex fori) e lei mais favorável. Essa última compreende pelo menos cinco tipos: favor infans (lei mais favorável ao menor), favor negotii (valida ato ou contrato), favor matrimonii (manutenção do vínculo conjugal), favor laesi (pessoa que sofreu dano) e lei favorável ao consumidor; g) Processuais: forum rei sitae, forum conexitatis (juiz do principal se estende ao acessório), forum reciprocitatis, forum efectitatis e forum voluntatis (autonomiada vontade). Poder-se-ia acrescentar, ainda, outras formas de conexão, presentes em alguns sistemas jurídicos, como no Common Law, que utiliza, por exemplo, the proper law of contract – sistema jurídico com o qual o contrato tem conexão mais próxima. Também se verifica a presença de conexões alternativas, subsidiárias, cumulativas ou múltiplas, propiciando a aplicação de mais de uma ordem jurídica à determinada questão, principalmente em benefício das partes.2 – Subsidiária: é a conexão empregada quando a anterior é impraticável (aplica-se no contrato a lei do lugar em que ele deve ser cumprido, mas se esse lugar não pode ser determinado usa-se o da celebração). – Alternativa: ocorre quando os pontos possíveis são da mesma hierarquia e podem ser usados indistintamente (estrangeiro fora de sua pátria pode testar pela lei do lugar onde outorga o testamento ou pela lei da sua nacionalidade). – Cumulativa: requer coincidência entre ambas as leis indicadas (a hipoteca legal permitida aos incapazes só terá efeito quando a lei do Estado no qual se exerce o cargo de tutor ou curador coincida com a do lugar em que estão situados os bens afetados por essa hipoteca). – Múltipla: caso de um contrato que pode comportar vários pontos de ligação em uma mesma relação jurídica (autonomia da vontade, lugar da celebração, lugar da execução etc.). 6.3 Conexões pessoais As conexões centradas na pessoa geram a primazia de dois fatores, o domicílio e a nacionalidade, os quais solucionam a ampla maioria dos problemas de Direito Internacional Privado. Os ordenamentos jurídicos costumam adotar um ou outro desses elementos de conexão, substituindo o domicílio, quando não identificado, pela residência. Entre os elementos de conexão de caráter pessoal encontramos, ainda, a religião, a origem e os costumes tribais, especialmente em matéria de estatuto pessoal e direitos de casamento e de sucessões. A religião é elemento de conexão aplicável em diversos países, de modo especial nos Estados islâmicos, como o Irã; a origem é usada em determinados cantões suíços; e o costume tribal, em alguns países da África. 6.3.1 Domicílio Trata-se do elemento de conexão adotado pelo Brasil, com a vigente Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Defendido por Teixeira de Freitas, seguindo o pensamento de Savigny, é a conexão predominante na maioria dos ordenamentos jurídicos, inclusive na América Latina. Concordamos com essa opção por ser o domicílio adequado ao encontro da melhor justiça, objetivo norteador do Direito Internacional Privado. O conceito de domicílio é variável. No Brasil, considera-se domicílio o local em que a pessoa se estabelece com ânimo definitivo (elementos objetivo e subjetivo), podendo ser domicílio voluntário ou necessário (CC/2002, arts. 70 a 78). Outros ordenamentos jurídicos definem o domicílio como simples residência, como residência habitual, sede principal dos negócios e interesses, lugar do principal estabelecimento (comércio), domicílio de origem (o dos pais quando a pessoa nasceu) e home (onde se localiza o lar), no direito inglês. Quanto à pluralidade de domicílios, situação hoje bastante comum, deve-se dar preferência sucessivamente ao domicílio: a) nacional; b) legal (em detrimento do voluntário); c) que coincida com a residência. O art. 26 do Código Bustamante estabelece que o domicílio da pessoa que não o tem é o lugar de sua residência ou aquele em que ela se encontra. A esse adômide aplica-se a lex fori. 6.3.2 Nacionalidade Recordemos, preambularmente, que nacionalidade é o vínculo jurídico que une a pessoa ao Estado, cidadania, o vínculo político (gozo desse direito pelo nacional) e naturalidade é o simples vínculo territorial pelo nascimento. Não poderá, por óbvio, existir cidadania sem nacionalidade, já que esta, mais abrangente, engloba aquela. Por outro lado, a perda da cidadania não retira a nacionalidade. Neste momento do nosso estudo, interessa considerar a nacionalidade como elemento de conexão, não sendo tão relevantes os postulados do direito constitucional (direitos e obrigações), e sim tomá-la como referência, a exemplo do domicílio, da situação da coisa ou do lugar do delito. Como circunstância de conexão, a nacionalidade é definida pela lex fori, que se pode basear no direito constitucional do estrangeiro, no do foro, no do lugar do nascimento da parte interessada ou de seu pai, ou, ainda, o critério que parecer lógico, contanto que se proceda à qualificação. Daí por que mesmo o anacional ou apátrida poderá utilizar-se desse elemento de conexão, por sua última nacionalidade, seu domicílio, residência habitual ou lex fori. Já quanto ao plurinacional, cada vez mais frequente nestes tempos de intercâmbio, dá-se preferência momentânea a uma das nacionalidades: a local, a do nascimento, a última nacionalidade que ele adquiriu ou aquela em que o interessado tem relações mais estreitas. A nacionalidade é elemento de conexão de grande evidência em virtude de ser adotado pelos países da Europa e de outros continentes. Historicamente, também era imposta pelas grandes potências imperialistas às nações periféricas, por meio dos chamados “tratados desiguais”. No Brasil, a nacionalidade foi a conexão usada na Introdução ao Código Civil de 1916, sendo substituída pelo domicílio com o advento da Lei de Introdução ao Código Civil, no ano de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. Os defensores da nacionalidade, como conexão, acentuam a maior dificuldade de sua mudança do que a do domicílio, prestando-se, portanto, esse último elemento muitas vezes para alterações fraudulentas. 6.4 Conexões reais 6.4.1 Lex rei sitae O local da situação da coisa é o elemento de conexão aplicado aos imóveis, sendo aceito quase universalmente, inclusive no direito positivo interno. Assim, no artigo 8º da LINDB temos: “Para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em que estiverem situados.” Seu objeto de conexão é o regime jurídico geral dos bens (aquisição, posse, disposição, direitos reais). 6.5 Conexões voluntárias O lugar da execução do contrato é um elemento de conexão adotado em quase todas as legislações. Seu emprego é muito antigo, retroagindo a Bartolo, principalmente para os casos de negligência e mora. O lugar da constituição das obrigações está inserido em nosso direito positivo (art. 9º da LINDB). Também foi empregado desde os pós-glosadores, encontrando-se, no século XIV, nos postulados do pai do DIPr. Ademais, sua aplicação é ampla no direito das obrigações. 6.5.1 Autonomia da vontade Embora os ordenamentos jurídicos anteponham limites à vontade humana, na esfera do Direito Internacional Privado vem se acentuando o reconhecimento da autonomia da vontade, formulada por Charles Dumoulin no século XVI, como elemento de conexão. Adotada já nos primórdios da disciplina e presente em convenções internacionais e normas internas, a faculdade de opção pela lei competente é uma realidade, de modo especial no conteúdo e efeitos de obrigações contratuais e no regime de bens no casamento.3 A doutrina e a jurisprudência admitem que contratos realizados no estrangeiro, com indicação da lei brasileira a ser observada, são plenamente válidos. A Introdução ao Código Civil de 1916 permitia entender-se aceita a autonomia da vontade, pois prescrevia, no caput do artigo 13, a regulação das obrigações, quanto à substância e aos seus efeitos, pela lei do lugar em que fossem contraídas, salvo estipulação em contrário. A supressão dessa expressão pela LICC, em 1942, significa para alguns autores que os contratantes não podem dispor de sua vontade, enquanto outros afirmam que o silêncio da nova norma mantém o princípio jurídico até então admitido. Nadia de Araújo, defensora da autonomia da vontade, reconhece que a não menção do princípio pela Lei de 1942 torna-o proibido. Recomenda, então, cautela na redação dessa cláusula em contrato internacional, porque os tribunais brasileiros não tratam diretamente da questão nem aceitam o entendimentodoutrinário favorável à autonomia da vontade.4 Agenor Andrade lembra as vantagens do instituto no DIPr: existência de uma lei competente para reger o ato jurídico (a escolhida pelas partes) e aplicação ao contrato todo (disposições imperativas e supletivas) do direito escolhido pelos contratantes.5 Sentimos a tendência de aceitação da autonomia da vontade nos ordenamentos jurídicos, inclusive brasileiro, com reais proveitos para os contratos e como elemento de conexão. Reconhecemos, contudo, que persistirão limites à liberdade absoluta, especialmente em relação às normas coativas. RESUMO 6.1 Considerações iniciais Elemento de conexão pode ser entendido como a parte da norma de Direito Internacional Privado que torna possível a determinação do direito aplicável, seja o nacional (do julgador), seja o estrangeiro. É referido, ainda, como circunstância de conexão ou regra de conexão. 6.2 Classes de elementos de conexão Pessoais: nacionalidade, domicílio, residência, origem e religião. Reais: lei da situação da coisa (imóveis), lugar da aquisição, domicílio do proprietário, lei do pavilhão (navios ou aeronaves), lugar em que se encontra, lei do destino, lugar da partida, local do registro e domicílio ou nacionalidade do proprietário. Delituais ou penais: lugar do ilícito, domicílio do infrator ou da vítima. Voluntários: lugar da celebração ou da execução e autonomia da vontade. Normativos: lex fori, lex causae (que não são lex fori) e lei mais favorável. Outros: the proper law of contract (lei em que o contrato tem conexão mais próxima). 6.3 Conexões pessoais As conexões centradas na pessoa geram a primazia de dois fatores – o domicílio e a nacionalidade, que solucionam a ampla maioria dos problemas de DIPr. 6.3.1 Domicílio É o elemento de conexão predominante no Direito Internacional Privado, sendo adotado pelo Brasil e pelos países da América Latina. Foi defendido por Teixeira de Freitas no século XIX. O conceito é variável, podendo haver pluralidade de domicílios ou, mesmo, a sua ausência (adômide). 6.3.2 Nacionalidade Como conexão, a nacionalidade é definida pela lex fori. Mesmo o anacional poderá utilizar-se dela (pela última nacionalidade, domicílio ou lex fori). No DIPr, não são tão relevantes os postulados do direito constitucional. A nacionalidade é elemento de conexão de profunda importância, adotado pela maioria dos países europeus e muitos de outros continentes. 6.4 Conexões reais 6.4.1 Lex rei sitae É a conexão aplicada aos imóveis: aceita universalmente e determinada no artigo 8º da LINDB. 6.5 Conexões voluntárias Lugar da execução do contrato: conexão adotada pela maioria das legislações. Seu emprego é muito antigo, retroagindo a Bartolo (séc. XIV), especialmente para os casos de negligência e mora. 6.5.1 Autonomia da vontade Embora limites antepostos (normas imperativas), o DIPr reconhece a autonomia da vontade, formulada por Dumoulin, no século XVI, como elemento de conexão. Presente em convenções internacionais e normas internas, é especialmente usada no conteúdo e nos efeitos das obrigações contratuais, bem como no regime de bens no casamento. Essa cláusula requer cautela em contrato internacional no Brasil, uma vez que os tribunais brasileiros não tratam diretamente da questão nem aceitam o entendimento doutrinário favorável à autonomia da vontade. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Conceituar a conexão no Direito Internacional Privado, identificando seu objeto e elemento, e os analisando em um caso concreto (lei ou relação jurídica). 2. Apresentar cinco elementos de conexão, destacando sua importância e aplicabilidade no ordenamento jurídico brasileiro. 3. Analisar a nacionalidade, acentuando as conotações do instituto para o estudioso de Direito Constitucional e de DIPr, e a sua aplicação como elemento de conexão nas ordens jurídicas dos diversos países. 4. Fazer um paralelo entre o domicílio e a nacionalidade como ponto de conexão e a presença de ambos, nesse aspecto, no Direito brasileiro. 5. Tecer considerações sobre a peculiaridade dos bens imóveis e dos atos ilícitos quanto às circunstâncias de conexão. 6. Dissertar sobre o emprego da autonomia da vontade como elemento de conexão no Direito brasileiro, analisando-a na doutrina e na legislação. ______________ 1 RECHSTEINER, Beat Walter. Direito internacional privado (teoria e prática). p. 80-81. 2 Ver, entre outros, GOLDSCHMIDT, Werner. Derecho internacional privado (derecho de la tolerancia). p. 171-213. ARMINJON, Pierre. Précis de droit international privé. p. 191-200. DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 295-298. MONROY CABRA, Marco Gerardo. Tratado de derecho internacional privado. p. 65-68. SILVA ALONSO, Ramón. Derecho internacional privado. p. 127-130. 3 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I, p. 359. 4 ARAÚJO, Nadia de. Direito internacional privado (teoria e prática brasileira). p. 323. 5 ANDRADE, Agenor Pereira de. Manual de direito internacional privado. p. 111. APLICAÇÃO DO DIREITO ESTRANGEIRO “Les libertés de pensée, d’opinion et de religion ne comportent pas pour les étrangers plus de restrictions que pour les nationaux” (Henri Batiffol). 7.1 Considerações iniciais Não existindo um organismo jurídico supranacional, não poderá um juiz declarar-se incompetente para o julgamento de determinado processo e remetê-lo ao magistrado do país a cuja justiça caberia julgar a causa. Desse modo, não pode o juiz brasileiro, na sua decisão, afirmar que a competência é do juiz chileno ou argentino, até porque se o fizesse, sua decisão não produziria efeitos. Poderá, isto sim, declarar-se incompetente ou utilizar no seu julgamento a lei estrangeira quando, qualificada a questão jurídica, o elemento de conexão indicar a lei estrangeira. Em outras palavras: no uso de sua competência jurisdicional, a Justiça brasileira, dentro das condições admitidas pelo exercício pleno da soberania do país, decide aplicar o direito estrangeiro. A lei estrangeira pode regular questões jurídicas nacionais de duas formas: por meio de sua aplicação direta pelo juiz brasileiro equiparada à lei do foro, e pela aplicação indireta, por meio de sentenças prolatadas no estrangeiro e que gerem efeitos no território nacional. Veremos agora essa primeira forma de aplicação, ocupando-nos das sentenças de outros países no capítulo oitavo. 7.2 Aplicação direta da lei estrangeira Está pacificada na doutrina a questão de ser a lei estrangeira recepcionada como tal e não como fato. Isto traz consequências benéficas para os interessados (ficam livres do ônus da prova) e torna o direito estrangeiro equiparado ao nacional, sem a antipatia de considerá-lo inferior. Poderá a lei estrangeira ser aplicada, ex officio, entendimento também admitido pelo Código Bustamante (art. 408). São exemplos de casos em que se aplica a legislação de outro Estado: capacidade de pessoa física domiciliada em outro país, contrato firmado no estrangeiro ou sobre bem lá situado, e demanda sobre moeda do país considerado.1 A norma estrangeira poderá ser invocada, como direito que é, em qualquer instância, mesmo em recurso extraordinário ou em ação rescisória. Como não seria razoável esperar que os magistrados tenham ciência prévia das leis estrangeiras, o artigo 14 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro preceitua que “não conhecendo a lei estrangeira, poderá o juiz exigir de quem a invoca prova do texto e da vigência”. O Código de Processo Civil, artigo 337, dispõe que “a parte que alegar direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário provar-lhe-á o teor e a vigência, se assim o determinar o juiz” (grifo acrescido). O conhecimento da lei estrangeira pelo magistrado poderá ocorrer de várias formas: pessoal, judicial, extrajudicial, documental, pericial e até testemunhal (salvo o simples juramento). Ainda pode ser conhecida pela apresentação de cópia autêntica de publicação oficial, pela citação de obra jurídica conceituada, por parecer ou depoimento de juristasespecializados, de advogados militantes e de consulta a associações dedicadas à matéria, inclusive por meio de carta rogatória.2 Normalmente se faz prova com códigos, certidões, revistas, livros ou jornais. Toda e qualquer lei estrangeira poderá ser invocada – Constituição, leis ordinárias, decretos, regulamentos e costumes. O Código Bustamante, no artigo 409, admite a justificação do direito estrangeiro por certidão de dois advogados em exercício no país de cuja legislação se trate. Na total impossibilidade de inteirar-se do teor da lei estrangeira, busca-se outra regra de DIPr do foro, subsidiária, da conexão mais próxima, ou aplicação da própria lei do foro.3 Nesse contexto, Jacob Dolinger refere casos interessantes, relatados por autores franceses, nos quais foi impossível o conhecimento da lei estrangeira, e o tribunal parisiense aplicou a lei francesa: acidente automobilístico em Andorra; litígio entre americano e polonês na Mandchúria, território sob ocupação soviética; e tunisino contratado por empresa francesa para trabalhar na Líbia, lá morrendo em acidente de serviço.4 Trata-se de processos em que, ante a dúvida, deu-se preferência à lei interna, caso do in dubio pro lege fori.5 Esse princípio não deixa de ser paradoxal, pois seria, de certa forma, uma exceção, facultada ao magistrado, ao que estipula o art. 3.º da LINDB: Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. Quanto à interpretação da lei estrangeira, não difere das formas usadas no ordenamento jurídico brasileiro, como a sociológica, a sistemática, a lógica, a analógica, a declarativa, a restritiva e a extensiva. Lembra Dolinger a adaptação ou aproximação, interpretação do direito estrangeiro adequado às circunstâncias locais (como desquites de nipo-brasileiros no anterior direito brasileiro, já que o Japão admitia o divórcio).6 Refere-se, ainda, a chamada interpretação construtiva ou aproximação excepcional: pedidos de divórcio extrajudicial deferidos em nome do Rei da Dinamarca e dos prefeitos do Japão, em cujos países essas autoridades do executivo têm competência para concedê- lo. Salienta-se que o processo segue a lex fori, ou seja, as regras processuais do juízo, sendo que a lei estrangeira observada é apenas a lei material, substancial. Conforme o artigo 13 da LINDB, os meios de prova são os da legislação estrangeira quanto ao ônus e aos meios de produzi-los, desde que não sejam desconhecidos pela lei brasileira. 7.3 Retorno Retorno é a operação pela qual o juiz do foro volta ao seu próprio direito ou vai a um terceiro direito, seguindo a indicação feita pelo Direito Internacional Privado da jurisdição cuja legislação consultara de acordo com a norma de DIPr de seu país,7 segundo Osíris Rocha. De início, cumpre esclarecer que a expressão direito estrangeiro pode significar apenas as normas substantivas ou materiais, ou incluir as regras de Direito Internacional Privado estrangeiro. Quando adotado esse último significado, surge a possibilidade do retorno, chamado de primeiro grau, e o reenvio, de segundo grau. A regra de DIPr desse segundo país, por seu turno, poderia direcioná-lo para um terceiro ordenamento jurídico, no qual nova indicação o conduziria a um quarto e assim sucessivamente, com prejuízos para a solução da lide e para a segurança jurídica. Caso ocorrido na Justiça francesa ilustra essa teia indesejável: para determinar a capacidade de um inglês domiciliado nos Estados Unidos, que celebrara contrato na Bélgica, o juiz francês deveria aplicar a lei inglesa (nacionalidade da pessoa), mas essa o remeteu ao direito norte-americano (seu domicílio), que, por sua vez, encaminhou-o ao direito belga (lugar da celebração do ato), o qual, por fim, reenviou-o ao direito inglês (lei nacional, por indicação do Código Civil belga).8 Segundo Beat Rechsteiner, em muitos países, caso da Inglaterra e dos Estados Unidos, o direito estrangeiro abrange apenas o direito substantivo ou material; para outros, como Alemanha e Áustria, o direito estrangeiro abrange normas materiais e normas de Direito Internacional Privado estrangeiro; e alguns terceiros, como a Suíça, cuja lei aceita o reenvio em matéria de estado civil, adotam posição intermediária ou mista.9 Os termos retorno, devolução, reenvio e remissão, entre outros, têm sido usados como sinônimos pelos autores, com prevalência de retorno e reenvio. Na doutrina francesa é renvoi, e para os ingleses, remission. Entendemos mais racional o emprego de retorno para o chamado retorno de primeiro grau (devolução da lide à ordem jurídica da qual proveio) e reenvio para os demais (segundo ou terceiro graus). O direito positivo brasileiro, que era silente sobre o retorno, em 1942, com o advento da Lei de Introdução ao Código Civil, excluiu-o explicitamente, pois o artigo 16 prescreve que “quando, nos termos dos artigos precedentes, se houver de aplicar a lei estrangeira, ter-se-á em vista a disposição desta, sem considerar-se qualquer remissão por ela feita a outra lei” (grifo acrescido). É interessante registrar que Clóvis Beviláqua, Eduardo Espínola, Lafayette Pereira e, mais enfaticamente, Haroldo Valladão, são favoráveis ao retorno. Já Oscar Tenório e o Grupo Mineiro (Amílcar de Castro, Osíris Rocha e Agenor Pereira de Andrade) sempre se colocaram contra, sob alegações teóricas e práticas, estando seus posicionamentos de acordo com a vigente legislação brasileira sobre o retorno. Nosso entendimento é pela recusa ao retorno. 7.3.1 Caso Forgo Tornou-se clássico, na doutrina de Direito Internacional Privado, e foi um marco na jurisprudência sobre o retorno, o chamado caso Forgo, ocorrido na França do final do século XIX. Um cidadão nascido na Baviera, François-Xavier Forgo, filho natural, migrou com a mãe, aos cinco anos de idade, para a França, onde fez fortuna, especialmente em bens móveis, vindo a falecer aos 68 anos de idade, na cidade de Pau, sem descendentes e sem testamento. Um casal, parentes colaterais de sua mãe, reivindicou a sucessão, alegando a lei bávara, pela qual eles seriam os herdeiros. Pela lei francesa, apenas irmãos herdavam em caso de filiação natural, com o que o patrimônio de Forgo passaria ao Tesouro francês, como herança vacante. Como Forgo nunca oficializara o seu domicílio na França, pela norma de Direito Internacional Privado francês, sua sucessão seria baseada no direito da Baviera, uma vez que nesse Estado alemão era seu domicílio (elemento de conexão). Ocorre que o DIPr bávaro não distinguia domicílio de fato de domicílio de direito. Para a lei da Baviera, em matéria de estatuto pessoal dever-se-ia aplicar a lei do domicílio ou da residência habitual, e em matéria de estatuto real, a lei da situação dos bens, móveis ou imóveis. Aceitando essa norma do Direito Internacional Privado bávaro, Forgo tinha domicílio na França, e pela legislação francesa deveria ser processada a sucessão. A justiça francesa voltou-se, então, para a lei do foro, e por suas instâncias superiores confirmou finalmente a decisão, em 1878, sendo a herança atribuída ao Tesouro francês. 7.4 Limites à aplicação da lei estrangeira A lei estrangeira a ser aplicada – em tese apenas direito material ou substancial – não o será necessariamente na sua amplitude. Isso ocorre porque cada ordenamento jurídico tem o seu critério de aplicação do direito estrangeiro, preservando a ordem pública. Essa limitação foi chamada por Edgar Amorim de salvaguarda imunológica.10 Entre as limitações mais usadas, brevemente analisadas a seguir, estão a ordem púbica, a soberania nacional, os bons costumes, a fraude à lei, o favor negotii, o prélèvement, as instituições desconhecidas e as instituições abomináveis. 7.4.1 Ordem pública Nenhum país aplica a lei estrangeira quando esta viola a ordem pública interna, mesmo nos casos em que a norma estrangeira fosse a aplicável à relação jurídica. No direito positivo brasileiro, o artigo 17 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, preceitua que “as leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquerdeclarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes”. Em realidade, ordem pública é de difícil e controversa definição, variando ao sabor de interesses e ideologias no tempo e no espaço, uma vez que a lei não a define. Amorim considera-a como sendo “a soma dos valores morais e políticos de um povo”.11 Haroldo Valladão observa, com propriedade, que a noção de ordem pública “é fluida, relativíssima, que se amolda a cada sistema jurídico, em cada época, e fica entregue à jurisprudência em cada caso”.12 Para Jacob Dolinger, o princípio de ordem pública reflete a filosofia sociopolítica-jurídica de toda legislação, representando “a moral básica de uma nação e que atende às necessidades econômicas de cada Estado”.13 Muitos autores, como Irineu Strenger14 e João Baptista Machado,15 distinguem ordem pública interna (nacional, doméstica) de ordem pública externa (internacional, global), dicotomia que é rejeitada por outros estudiosos, como Oscar Tenório e Amílcar de Castro. A doutrina, o mais das vezes, engloba na ordem pública a soberania nacional e os bons costumes. Esses últimos, em oportunas palavras de Clóvis Beviláqua, são “os que estabelecem as regras de proceder, nas relações domésticas e sociais, em harmonia com os elevados fins da vida humana”16 (grifo acrescido). Conceituamos soberania como o poder que, no plano interno, está legalmente acima de todos os outros e, na esfera internacional, se encontra em condições de igualdade com os dos demais Estados, não se subordinando a nenhum deles. Em outras palavras, soberania deve ser entendida como o poder que paira sobre todos os demais, o poder supremo, não admitindo outro nem mesmo igual. Inúmeros casos na jurisprudência exemplificam o princípio de ordem pública, limitando a aplicação da lei estrangeira, como o da sentença argelina que condenou mulher ao divórcio e à perda da posse e guarda do filho por não querer acompanhar o marido para fora da França, decisão inadmitida pela Corte de Poitiers; o da lei tunisina que não admite fixação de filiação não decorrente de casamento, resultando que o filho natural não pode nem pleitear alimentos; e o da lei mexicana que veda a cidadãos americanos o controle de negócios e de terras no México.17 Albergado no preceito da ordem pública, o Supremo Tribunal Federal brasileiro negou homologação a diversas sentenças de divórcio alicerçadas no repúdio islâmico. Tribunal de Nova Iorque rejeitou, por contrariar sua ordem pública, lei de Massachusetts que arbitrava em cento e cinquenta mil dólares indenização de nova-iorquino que lá morrera em acidente, por ser essa indenização em quinze mil dólares em sua própria lei. No que tange a esse último exemplo, convém acentuar que os Estados norte-americanos dispõem de legislações próprias, com o que situação como essa aplica, excepcionalmente, postulados de Direito Internacional Privado. Recordemos, finalmente, que o princípio de ordem pública é o mais empregado para limitar a aplicação de lei estrangeira. 7.4.2 Fraude à lei A fraude à lei é a prática, pelo ser humano, de um ato legal na forma e na aparência, mas que esconde a intenção de burlar a lei aplicável in casu a qual lhe seria desfavorável. A vítima na fraude à lei é a própria coletividade. Caso frequente de fraude à lei é o do cidadão que transfere domicílio para outro país, onde exerce a sua capacidade civil, assegurando o exercício de um direito que ainda não detinha em seu domicílio nacional, em razão da lei ali vigente, retornando após. Era o caso, na vigência do Código Civil de 1916, de brasileiro de dezenove anos, relativamente incapaz em seu ordenamento jurídico, que transferia domicílio para o Uruguai, onde a capacidade plena ocorre aos dezoito anos de idade, o que lhe permitia praticar determinados atos da vida civil que no Brasil não lhe seriam possíveis. Muitas vezes os casos de fraude não são questionados ou, mesmo o sendo, consegue o fraudador vê-la reconhecida como legal. Ocorrendo a mudança intencional, em tema de estatuto pessoal, da nacionalidade ou do domicílio da pessoa, que busca colocar-se sob a influência de ordem jurídica diversa da que lhe seria originalmente aplicável, com o fim de fugir a um limite dessa lei, estará caracterizada a fraude à lei. Dessa forma, trata-se de mudança ardilosa, esquiva, artificial, evasiva, odiosa, escusa, condenável e maldosa de uma situação jurídica. Werner Goldschmidt afirma que “a fraude à lei consiste em um duplo abuso de direito: a pessoa fraudadora abusa de um direito para burlar a finalidade de outra norma jurídica”.18 Entre os exemplos de fraude à lei cabe mencionar a conversão ao islamismo para sustar a obrigação de alimentos à ex-esposa e o proprietário que leva bens móveis para país onde o prazo para aquisição por usucapião é menor do que o de seu domicílio. Comprovar a fraude à lei é difícil, pois implica analisar a intenção do pretenso fraudador e isso, para alguns autores, envolve uma intromissão indevida do Judiciário no campo da consciência humana. Por outro lado, é oportuno referir a possibilidade legal de avaliar a intenção das pessoas, como na tipificação penal do crime tentado. 7.4.3 Favor negotii Segundo De Plácido e Silva, trata-se do “princípio de prevalência do negócio em favor daqueles que intervieram de boa-fé, quando uma das partes, sendo estrangeira, não tinha capacidade para fazê-lo, segundo sua lei nacional, desde que a lei local admita sua capacidade, se pertencesse ao país em que se encontra”.19 Assim, o contrato é válido, e o incapaz se obriga pelo cumprimento do ajustado, ainda que em desacordo com seu estatuto pessoal. O favor negotii tem sua aplicação na área do Direito Comercial. 7.4.4 Prélèvement Palavra francesa que significa literalmente “tirar antes”, sendo usada para indicar a primeira parte de uma peça teatral. No campo do DIPr representa um instituto que visa, em certas situações, beneficiar o nacional em detrimento do estrangeiro. Embora visto como justo por alguns autores, consideramos inadequado em nosso tempo esse princípio de aplicar a lei mais favorável ao nacional, pois qualquer resquício de xenofobia deve ser prontamente rejeitado. O artigo 10, § 1º, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, em sua redação atualizada pela Lei n. 9.047, de 18.05.1995, indica um caso de prélèvement, pois limita a aplicação da lei estrangeira, como se vê: “A sucessão de bens de estrangeiro, situados no País, será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus” (grifo acrescido). É o que chamamos lei imperfeita, norma que privilegia uma parte em detrimento de outra, visando beneficiar o cidadão nacional, amparada no próprio texto constitucional (art. 5º, XXXI, da Carta Magna de 1988). Na verdade, a palavra francesa prélèvement e a expressão latina favor negotii significam a mesma coisa, ou seja, favorecer o nacional em detrimento do estrangeiro. Interessa-nos distinguir que o prélèvement é mais abrangente, pois tem aplicação também no Direito Civil. 7.4.5 Instituições desconhecidas A diversidade de raças, origens, costumes, tradições, idiomas e religiões, entre os povos faz surgir, em certas ocasiões, institutos jurídicos peculiares a determinados ordenamentos jurídicos. Essas instituições dividem-se entre as simplesmente desconhecidas pela lex fori e as incompatíveis com a ordem internacional. As primeiras são ignoradas por força de elementos históricos na formação do direito interno e não representam limites para o DIPr. Por outro lado, as incompatíveis com a ordem internacional (embora compatíveis com a sua ordem jurídica interna) devem ser afastadas e serão estudadas no item seguinte. Cabe referir, no primeiro caso, o noivado no direito italiano, o bem de família no Brasil, o trust do direito inglês e o desquite no antigo direito brasileiro, lembrando, ainda, institutos como o dote,os esponsais e a hipoteca de bens móveis, que fazem parte de alguns ordenamentos jurídicos, inexistindo na maioria das legislações. Sugere Dolinger que a instituição desconhecida seja contornada por meio de adaptação a outra existente no foro, cujos efeitos sejam correspondentes ou semelhantes à instituição estrangeira desconhecida. Esse autor lembra que o desquite brasileiro era aceito na Europa como separação de corpos – instituto menos radical – e no Japão, que admitia o divórcio, cujos efeitos eram mais amplos. Ainda menciona juízo de Francisco Rezek, então Ministro do Supremo Tribunal Federal: “O só fato de não conhecermos determinado instituto jurídico não impede a homologação de uma sentença estrangeira.”20 No mesmo sentido, afirma Beat Rechsteiner que as instituições jurídicas desconhecidas são frequentemente detectadas quando se trata de reconhecer, no direito interno, atos jurídicos ocorridos no estrangeiro, em especial no direito de família e das sucessões, situação em que pode haver necessidade de adaptar esses institutos ao direito do foro.21 Muitos autores, por outro lado, consideram que “admitir uma instituição desconhecida equivale a conferir aos forasteiros mais direito que aos nacionais, e por isso deve a mesma ser repelida”, como assevera Luís Ivani Araújo.22 Salienta-se que não constitui limite à aplicação da lei estrangeira a falta de reconhecimento ou não existência de relações diplomáticas entre o país do foro e o Estado de cujo ordenamento faz parte a lei aplicável ao caso. Nesse sentido, o juiz brasileiro poderia aplicar a lei taiwanesa quando invocada por cidadão de Taiwan, embora esse país não seja reconhecido pelo Brasil. Seria um contrassenso aplicar ao caso a legislação da China continental (já que o Brasil reconhece apenas uma China), pois esse cidadão não está submetido ao ordenamento jurídico chinês. Concluindo, pode-se afirmar que a instituição desconhecida merece um estudo apurado dos aplicadores do direito, buscando a efetiva intenção do autor por meio da interpretação teleológica, sistemática, sociológica e analógica do postulado, com o que se poderá encontrar motivo para adotá-la no julgamento da lide. 7.4.6 Instituições abomináveis Entre as instituições incompatíveis com o espírito do direito brasileiro, e que devem ser repelidas, as mais citadas são a poligamia, a escravidão e a morte civil. Para a maior parte da doutrina, na qual nos incluímos convictamente, a pena de morte se integra no rol das instituições abomináveis. Ainda convém referir a chamada morte religiosa, em que a pessoa que realizava votos em uma congregação renunciava aos bens mundanos. Também é repelido pelos tribunais de muitos povos o repúdio, adotado no direito corânico, pelo qual o marido obtém a separação religiosa sem que a esposa seja consultada; a discriminação racial, de que foi lamentável exemplo o “apartheid” que vigorou na África do Sul durante muitos anos; a separação das pessoas em castas e a condenação de alguém à indigência. Todas essas instituições repugnam a consciência média dos povos civilizados. A retorsão – ato pelo qual o Estado prejudicado por medida de outro utiliza em relação a ele atitude idêntica à que foi vítima –, forma egoísta e perversa da reciprocidade, não é admitida no Brasil, sendo lembrada a solicitação do Imperador D. Pedro II, que presidia a comissão que elaborava o Código Civil brasileiro, em 1889, de que “no Código se consignasse o que fosse mais justo, independentemente da reciprocidade”.23 A maioria dos países repele a retorsão. Quanto à reciprocidade propriamente dita, mesmo legislações contemporâneas a admitem para determinadas questões jurídicas, como na sucessão, emancipação, direitos de família, entre outros, conforme explicita Haroldo Valladão, para quem a reciprocidade e a retorsão são anticristãs, constituindo a forma jurídica do egoísmo.24 RESUMO 7.1 Considerações iniciais Não pode o magistrado brasileiro, julgando-se incompetente, remeter o feito ao juiz estrangeiro a quem competisse julgá-lo. Contudo, pode utilizar a lei estrangeira se indicada pelo elemento de conexão. 7.2 Aplicação direta da lei estrangeira A lei estrangeira é recepcionada como lei e não como fato, o que elimina o ônus da prova e evita a antipatia de uma pretensa superioridade da lei do foro. Pode ser invocada inclusive no recurso extraordinário e na ação rescisória. A parte que alega direito estrangeiro deverá provar a existência, o texto e a vigência da lei, se solicitada. A prova se faz com códigos, revistas, livros, certidões e se refere a qualquer lei estrangeira (constituição, lei ordinária, decreto, costumes). A norma estrangeira aplicada é apenas a lei material, substancial, e os meios de prova são também da lei estrangeira. 7.3 Retorno É a operação pela qual o juiz nacional volta ao direito do foro ou vai a um terceiro, seguindo a indicação do DIPr da jurisdição consultada, que seria aplicável ao caso. O direito positivo brasileiro não admite o retorno, conforme o artigo 16 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Muitos autores de DIPr no Brasil admitem, em tese, o retorno, como Beviláqua, Espínola e Valladão. Tenório e o Grupo Mineiro combatem-no, estando seu posicionamento conforme nossa legislação atual. 7.3.1 Caso Forgo Na doutrina de Direito Internacional Privado, é clássico o caso Forgo, ocorrido na França, no final do século XIX. Trata-se de um marco no estudo do retorno. 7.4 Limites à aplicação da lei estrangeira A lei estrangeira não é sempre e necessariamente aplicada in totum. Cada Estado tem o seu critério para aplicá-la, preservando especialmente a ordem pública. 7.4.1 Ordem pública Motivo mais empregado para limitar a aplicação da lei estrangeira. Nenhum Estado aplica lei estrangeira que ofenda a sua ordem pública. No Brasil, o artigo 17 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, preceitua que não terão eficácia leis, atos e sentenças de outro país que ofendam nossa ordem pública. 7.4.2 Fraude à lei Prática de um ato legal na forma e na aparência, mas com a intenção de burlar a lei aplicável. Mudança ardilosa e intencional de uma situação jurídica, por meio da troca, por exemplo, do domicílio ou mesmo da nacionalidade. Sua vítima é a própria coletividade. Caso frequente é a pessoa transferir domicílio para outro país, onde exerce sua capacidade, assegurando o exercício de um direito que não detinha. 7.4.3 Favor negotii Prevalência de negócio em favor daquele que interveio de boa-fé, quando uma das partes não tinha capacidade pela sua lei nacional, mas a possuía pela lei do foro. Aplica-se na área do Direito Comercial. 7.4.4 Prélèvement Instituto que visa beneficiar o nacional, em certas situações, em desfavor do estrangeiro. O artigo 10, § 1º, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, indica um caso de prélèvement: sucessão em favor do cônjuge ou de filhos brasileiros. Semelhante ao favor negotii, o prélèvement é mais abrangente, por se aplicar também ao Direito Civil. 7.4.5 Instituições desconhecidas Trata-se de institutos restritos a determinados Estados: noivado na Itália, bem de família no Brasil, trust na Inglaterra, desquite no antigo direito brasileiro. Há institutos com tais características inseridos nos ordenamentos jurídicos de alguns Estados: dote, esponsais, hipoteca de bens móveis. 7.4.6 Instituições abomináveis São institutos incompatíveis com o espírito da Justiça: poligamia, escravidão, morte civil, discriminação racial e morte religiosa. Também, embora muito aceitos em certos Estados, a pena de morte, o repúdio e a retorsão. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Analisar o procedimento do juiz brasileiro quando se evidencia ser da justiça de outro país a competência para a lide. 2. Dissertar sobre as fontes de direito estrangeiro que podem ser empregadas no foro brasileiro, detendo-se na forma como a parte deve provar a sua vigência e conteúdo. 3. Tecer considerações sobre o retorno, posicionando-se sobre ele e justificando sua opção. Fazer, por fim, um estudodo caso Forgo, à luz dos conhecimentos atuais de Direito Internacional Privado. 4. Apresentar cinco limites à aplicação da lei estrangeira no ordenamento jurídico brasileiro, justificando-os exaustivamente. 5. Conceituar o princípio da ordem pública. 6. Proceder a um estudo de instituições desconhecidas na ordem jurídica brasileira, preconizando comportamentos da justiça brasileira diante de casos concretos. ______________ 1 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 275-276. 2 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I. p. 470-471. 3 BOGGIANO, Antonio. Curso de derecho internacional privado. p. 291. 4 DOLINGER, J. Op. cit. p. 287-288. 5 ESPÍNOLA, Eduardo; ESPÍNOLA FILHO, Eduardo. A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro. p. 264. 6 DOLINGER, J. Op. cit. p. 292. 7 ROCHA, Osíris. Curso de direito internacional privado. p. 57. 8 SILVA ALONSO, Ramón. Derecho internacional privado. p. 140. 9 RECHSTEINER, Beat Walter. Direito internacional privado (teoria e prática). p. 220-221. 10 AMORIM, Edgar Carlos de. Direito internacional privado. p. 57. 11 AMORIM, E. C. Op. cit. p. 57. 12 VALLADÃO, H. Op. cit. p. 496. 13 DOLINGER, J. Op. cit. p. 386. 14 STRENGER, Irineu. Direito internacional privado. p. 373-383. 15 MACHADO, João Baptista. Lições de direito internacional privado. p. 253-272. 16 BEVILÁQUA, Clóvis. Princípios elementares de direito internacional privado. p. 84. 17 DOLINGER, J. Op. cit. p. 410-411. 18 GOLDSCHMIDT, Werner. Derecho internacional privado (derecho de la tolerancia). p. 109. 19 DE PLÁCIDO E SILVA. Vocabulário jurídico. p. 277. 20 DOLINGER, J. Op. cit. p. 455-456. 21 RECHSTEINER, B.W. Op. cit. p. 172. 22 ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Introdução ao Direito internacional privado. p. 71. 23 OTÁVIO, Rodrigo. Direito internacional privado. p. 125. 24 VALLADÃO, H. Op. cit. p. 515. HOMOLOGAÇÃO DE SENTENÇA ESTRANGEIRA “É conveniente que a sentença ditada por um Tribunal possua uma eficácia internacional” (Jean Paul Niboyet). 8.1 Considerações iniciais Como visto no capítulo anterior, a aplicação do direito estrangeiro pode apresentar-se de duas maneiras: emprego pelo juiz do foro, na composição da lide, de lei de outro país (aplicação direta) e execução de sentença proferida pela justiça estrangeira (aplicação indireta). Acentue-se, de início, que toda decisão judicial tem seus efeitos e validade restritos ao ordenamento jurídico que a prolatou. A execução de sentença em outro país ocorrerá pela aceitação da legislação desse Estado por meio de lei, convenção ou reciprocidade, sendo normalmente necessário passar por procedimento específico, no qual se analisará a existência de determinados requisitos. Nesse sentido, nenhum Estado está obrigado a reconhecer a validade e a eficácia de decisão de juiz ou tribunal estrangeiro. A relevância da execução de decisão estrangeira levou Lima Pinheiro a afirmar que o reconhecimento dos seus efeitos implica a aceitação da proposição de que o Direito do Estado de origem da sentença é aplicável na condição de caso julgado.1 Em época de intensa especialização em todos os setores da atividade humana e nas relações entre as pessoas – paradoxal contraponto à globalização – alguns autores, como o mestre português, já vislumbram um Direito de Reconhecimento, ainda integrado ao Direito Internacional Privado. Para Wolff, o reconhecimento de sentença estrangeira e sua execução em outros países é possivelmente o problema mais importante no intercâmbio entre os Estados.2 Por seu turno, Rigaux enfatiza que o não reconhecimento mútuo dos atos de estado civil oriundos de outro Estado ou a sistemática negativa de eficácia às decisões estrangeiras nessa área paralisaria toda circulação de pessoas.3 Outrossim, lembra Amílcar de Castro que nenhum país admite diretamente a execução de sentenças estrangeiras, o que permite inclusive resolver preliminarmente algumas questões delicadas, não as deixando para o processo de execução.4 8.2 Fundamentos A recepção pela ordem jurídica interna da eficácia de sentença estrangeira deu origem a uma dezena de teorias que buscam fundamentar essa prática. Merecem referência a comitas gentium, ou cortesia internacional, que retroage aos estatutários holandeses do século XVIII; a comunidade de direito, de Savigny; e a dos direitos adquiridos. Reputamos sem maior relevância, neste momento, nos estender nas justificativas, bastante teóricas, da aceitação da decisão estrangeira, acentuando que o ideal de justiça e o espírito de solidariedade e de interdependência entre os povos devem ser vistos como a razão central para o reconhecimento e a execução, cada vez mais frequente, da sentença de um país em outro. Por outro lado, enfatizamos que a eficácia extraterritorial da sentença tende a ser admitida pelas ordens jurídicas de praticamente todos os países, em contraposição à rejeição antes existente, uma vez que os próprios tribunais tendem a analisar melhor que o legislador as necessidades concretas da vida.5 8.3 Documentos estrangeiros: cartas rogatórias As decisões interlocutórias (citações, avaliações, exames de livros, vistorias, oitivas de testemunhas, interrogatórios) não são homologáveis. Tais atos, contudo, não são indiferentes ao Direito brasileiro, sendo objeto de carta rogatória. A carta rogatória poderá ser ativa – quando expedida por juiz ou tribunal brasileiro a fim de ser cumprida por autoridade judiciária estrangeira – e passiva – quando emanada por juiz estrangeiro a autoridade brasileira. O artigo 210 do nosso Código de Processo Civil estabelece que “a carta rogatória obedecerá, quanto à sua admissibilidade e modo de seu cumprimento, ao disposto na convenção internacional; à falta desta, será remetida à autoridade judiciária estrangeira, por via diplomática, depois de traduzida para a língua do país em que há de praticar-se o ato”. Trata-se, como se vê, de carta rogatória oriunda da justiça brasileira para ser cumprida em outro país. Carta rogatória a ser cumprida no Brasil – único meio admitido para citação de parte domiciliada no País nesses casos – necessita de exequatur do Superior Tribunal de Justiça (STJ), conforme estabelece a alínea i do inciso l do artigo 105 da Carta Magna, inserida pela Emenda Constitucional n. 45, de 08 de dezembro de 2004. A concessão do exequatur, bem como a sua denegação, não faz coisa julgada, podendo vir a ser solicitada em novas situações.6 O ritual seguido pela carta rogatória é o seguinte: o Ministério das Relações Exteriores a encaminha ao Ministério da Justiça, que a remete ao Presidente do STJ. Essa autoridade a envia, por sua vez, à Justiça Federal, cabendo a juiz de primeiro grau seu cumprimento. Retorna, então, pelo mesmo caminho, quando o Ministério das Relações Exteriores a devolve finalmente à autoridade judiciária estrangeira, de onde a carta proveio. A carta rogatória pode ser identificada como comissão rogatória. Em ordens jurídicas estrangeiras também é denominada exhorto, comisión rogatoria, lettre rogatoire ou letter of request, entre outros. 8.4 Sentenças estrangeiras homologáveis 8.4.1 Conceituação Entendemos homologação como o ato que torna sentença estrangeira exequível na ordem jurídica interna. Portanto, é a homologação que vai permitir a execução, em um país, de decisão proveniente de órgão judiciário de outro. Recorde-se que a palavra exequatur, expressão latina, forma verbal, que significa execute-se, cumpra-se, é empregada no Brasil para a admissão de carta rogatória. Muitos autores, especialmente de outros países, usam-na para a aceitação de sentença, o que, em princípio, não ocorre entre os doutrinadores e legisladores brasileiros, que preferem referir-se à homologação ou reconhecimento como o caminho para a exequibilidade da sentença estrangeira. Quatro termos – homologação, exequatur, reconhecimento e delibação, nessa ordem – são usados para indicar a aceitação pelo sistema jurídico brasileiro da sentença estrangeira, ressaltando-seser mais técnica e mais empregada a palavra homologação. É oportuno destacar que a homologação em si não dá eficácia no âmbito interno à sentença estrangeira, mas permite que ela produza efeitos no país. A decisão em processo de homologação é portadora de eficácia, ainda que essa eficácia se restrinja, rotineiramente, aos limites territoriais de sua ordem jurídica. Ademais, a homologação tem duplo objetivo no âmbito interno: atribuir força executiva à sentença estrangeira e assegurar-lhe a autoridade de coisa julgada. O reconhecimento de sentença estrangeira é uma prerrogativa do Estado, não havendo, em princípio, obrigatoriedade dessa aceitação. O que deve ser enfatizado é que, sem homologação, a decisão estrangeira não pode ser executada no Brasil, ao passo que, homologada, a sentença condenatória se torna exequível. Nesse sentido, nos termos do inciso VI do art. 475-N do Código de Processo Civil (de acordo com a redação dada pela Lei n. 11.232/2005), a sentença estrangeira devidamente homologada pelo STJ constitui título executivo judicial, efetuando-se sua execução por carta de sentença extraída dos autos da homologação. Competirá à Justiça Federal de primeiro grau efetuar a execução da sentença (art. 109, X, da Constituição Federal). Recorde-se, como observou Goldschmidt, que as sentenças declaratórias podem ser reconhecidas, mas jamais executadas, enquanto as constitutivas, após sua homologação, não são executadas pela simples razão de que se autoexecutam por seu mero pronunciamento.7 8.4.2 Decisões passíveis de homologação Embora no passado fossem homologadas apenas sentenças oriundas do poder judiciário, como referiu Beviláqua há quase um século,8 o entendimento majoritário da doutrina atualmente é de que a decisão estrangeira homologável o será em sentido lato, não se restringindo à sentença propriamente dita. Assim, são passíveis de homologação no ordenamento jurídico nacional acórdãos, sentenças cíveis, comerciais, penais e trabalhistas, bem como decisões de órgãos judicantes de outros poderes, a exemplo de divórcios concedidos por autoridades do Poder Executivo, como prefeitos de cidades japonesas e o rei da Dinamarca. Decisões oriundas do Poder Legislativo, como o Parlamento do Canadá, ou a Câmara dos Lordes do Reino Unido, ou de autoridades religiosas, sempre que constituam sentença no sentido material, podem ser homologadas.9 O amplo espectro de decisões estrangeiras que poderão prevalecer em território brasileiro inclui as provenientes de processos cautelares, sentenças arbitrais e, eventualmente, sentenças declaratórias. Sentenças proferidas em processos administrativos ou tributários estrangeiros podem ser consideradas, por seu conteúdo, como não passíveis de homologação. 8.4.3 Sistemas de homologação Os métodos empregados pelas ordens jurídicas para o reconhecimento da sentença estrangeira têm ocupado estudiosos de vários ramos das ciências jurídicas, especialmente de Direito Internacional Privado e de Processual Civil. Salienta-se que mestres brasileiros desses segmentos do Direito têm oferecido sua contribuição com relevantes reflexões sobre o tema. A doutrina apresenta cinco formas de solução: a revisão de mérito, a revisão parcial de mérito, a reciprocidade diplomática, a reciprocidade de fato e a delibação.10 Entendem outros autores que a homologação ocorre, nos diversos países, sob quatro sistemas: novo processo; nova ação, mas oferecendo valor de prova à decisão forasteira; reciprocidade e delibação.11 Amorim Araújo estuda as teorias sob um viés triplo: nova ação, reciprocidade e delibação.12 Outrossim, para alguns tratadistas, os sistemas de homologação podem ser sintetizados em dois métodos: a sentença estrangeira não dispõe de eficácia, admitindo-se presunção em favor do que foi por ela decidido, e homologação mediante pressupostos.13 Assim, verifica-se que a decisão judiciária prolatada pelos tribunais de um país é admitida nos ordenamentos jurídicos estrangeiros, ainda que em alguns deles apenas como prova no processo que instauram em âmbito interno. 8.4.4 Delibação O método mais usado para o reconhecimento de sentença estrangeira é a delibação. Nele, a homologação ocorre mediante pressupostos estabelecidos pela ordem jurídica na qual a sentença deve ser executada. Teceremos algumas considerações sobre esse instituto. O sistema de delibação surgiu, em 1865, no Código de Processo Civil da Itália como giudizio de delibazione e a designação tem origem em delibatio, palavra latina que significa colher um pouco, tocar de leve, examinar. Destina-se a analisar a sentença estrangeira apenas em sua forma, sem entrar no mérito. São examinados os requisitos externos, as formalidades da decisão e seus pressupostos, que devem estar coerentes com os parâmetros do Direito do país em que a decisão deverá ser cumprida. Em estudo de quase um século atrás, Gustavo Braga observou que “o giudizio de delibazione é o único que pode atender às necessidades da justiça internacional privada, sem ofender a susceptibilidade e os melindres da ordem pública e da soberania de cada país”.14 Concordamos com esse juízo e entendemos que a delibação é o sistema mais consentâneo com a diplomacia e a solidariedade entre os povos, uma vez que não analisa o mérito da decisão da justiça estrangeira. Trata-se do método adotado pelo Brasil. Por meio dele, segundo Greco Filho, a força e os efeitos da decisão estrangeira não são modificados ou acrescidos pela homologação, e a sentença é obrigatoriamente reconhecida, desde que preencha “os requisitos compatíveis com a delibação, não cabendo juízo de oportunidade ou conveniência”.15 Contudo, deve ser ressaltado que esse método tem sofrido modificações via doutrina e jurisprudência, fruto de seu amplo emprego nos diversos ordenamentos jurídicos. Nesse aspecto, é oportuno observar que o Brasil se situa entre os países que mantêm a delibação na sua essência originária. A própria Itália, berço do sistema, apresenta-o atenuado, admitindo, em determinadas situações, ser revisto o mérito da causa: o sistema brasileiro é mais fiel ao juízo de delibação, proibindo o reexame do mérito.16 Outrossim, não pode ser entendido que haja na delibação pleno alheamento do sistema jurídico no qual a sentença vai ser executada no que tange ao seu conteúdo material: sua consonância com a ordem pública local, sempre verificada, passa, por óbvio, por análise da substância da decisão estrangeira. 8.4.5 Órgãos homologadores, pressupostos e rito na Justiça brasileira Quanto aos entes homologadores, muitos Estados submetem a sentença estrangeira a mais de uma instância, ocorrendo pluralidade de órgãos. Outros países, como o Brasil, adotam apenas um órgão, no caso o Superior Tribunal de Justiça. O artigo 15 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro apresenta os requisitos que devem ser exigidos na sentença estrangeira para sua exequibilidade no Brasil, quais sejam: a) decisão proferida por juiz competente; b) partes citadas ou se verificado regularmente a revelia; c) sentença passada em julgado e revestida das formalidades necessárias para execução no lugar em que foi proferida; d) traduzida por intérprete autorizado; e e) homologada pelo Superior Tribunal de Justiça. Cada um desses itens comporta reflexões que fogem dos limites desta obra. Assim, se uma sentença estrangeira de prestação de alimentos foi proferida por juiz de vara de família, não se vai questionar, por exemplo, se esse julgador era competente apenas para determinada região. No entanto, se o juiz que prolatou a sentença tivesse apenas competência penal ou trabalhista, estar-se-ia diante de caso de incompetência, o que poderia impedir a homologação da sentença pela nossa Justiça. Para Agenor Andrade, deve ser examinada, no processo de homologação, se a competência era efetivamente do país do juízo prolator da sentença, a competência internacional}.17 Questionamentos também podem surgir quanto à tradução da sentença. O artigo 15 da LINDB fala em intérprete autorizado, enquanto o artigo216 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal exigia que ela fosse autenticada pelo cônsul brasileiro e acompanhada de tradução oficial. Trata-se de expressões diferentes, mas que, a rigor, não se contradizem, devendo-se enfatizar que esse requisito será adequadamente cumprido com a conversão ao português da sentença por tradutor público juramentado no Brasil. Isso evitará tradução que apresente termos que tenham, em nosso Direito, outro significado: menciona-se caso em que palavra dinamarquesa que indicava divórcio foi traduzida para o português por anulação, quando se referia à dissolução. Acresça-se que o rei da Dinamarca tem competência para decretar divórcio, sendo a anulação de casamento, naquele país, de competência do Poder Judiciário. Enfatize-se que, apesar de o Superior Tribunal de Justiça não analisar o mérito da decisão estrangeira, será avaliada eventual ofensa à soberania nacional, à ordem pública ou aos bons costumes. Assim, de acordo com o art. 17 da LINDB, uma vez detectado um desses vícios, a sentença ou decisão estrangeira não será homologada. O ritual observado para a homologação de uma sentença exarada pela Justiça de outro país pode iniciar-se, no ordenamento jurídico brasileiro, por duas vias: por meio de requisição diplomática, independentemente da presença do interessado, e a requerimento de qualquer dos interessados, ou de todos eles, junto ao Superior Tribunal de Justiça. Ocorre, então, a citação da parte interessada, com prazo para ela opor suas razões, deferindo- se, a seguir, igual prazo para impugnação. A contestação somente poderá versar sobre autenticidade dos documentos, inteligência da sentença e observância dos requisitos legais. Concedida a homologação, é emitida a carta de sentença para execução da decisão estrangeira, que é competência de juiz federal de primeiro grau. Embora não seja a regra, pode a decisão da Justiça de outro Estado ser homologada parcialmente. Nesses casos, a corte reconhece como executável apenas a condenação ou as custas, ou mesmo os honorários advocatícios, ou qualquer deles. Na Argentina, o reconhecimento de sentença estrangeira é feito pelo magistrado de primeira instância, adotando-se o sistema de delibação, não ocorrendo, portanto, por meio de órgão único como no Brasil. O Código Processual Civil e Comercial argentino preconiza, ainda, a existência de tratado com o Estado originário da decisão, quando a força executória da sentença seguirá os termos desse acordo. O rito paraguaio se assemelha ao argentino, enquanto o uruguaio está mais próximo do brasileiro (execução de sentença estrangeira pela Suprema Corte de Justiça). Refere Hee Moon Jo que a Arábia Saudita adota unicamente o reconhecimento e execução de sentença de outro país mediante convenção.18 8.4.6 Sentença homologanda versus lide na Justiça brasileira A coexistência de sentença estrangeira em fase de homologação no Brasil e lide na Justiça brasileira sobre o mesmo objeto conduz a questionamentos. Deve ser destacado que o fato de haver processo na Justiça estrangeira não produz, em si, litispendência no Brasil, conforme explicitado no artigo 90 do Código de Processo Civil: “A ação intentada perante tribunal estrangeiro não induz litispendência, nem obsta que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas.” Por igual razão, a existência de sentença proferida em outro país, em fase de homologação, não produz litispendência, podendo prosseguir ambos os processos. Caso a ação estrangeira e a ação de homologação tramitassem concomitantemente, não se cogitaria em litispendência, mas, sim, na análise dos pressupostos processuais objetivos. De qualquer maneira, tão logo ocorra homologação de decisão forasteira, a lide na Justiça nacional será extinta, pois passa a haver coisa julgada. A homologação pelo Superior Tribunal de Justiça terá tornado executável a decisão sobre a lide, não mais havendo, perante nossa ordem jurídica, o que ser submetido a julgamento. 8.5 Convenção da ONU sobre prestação de alimentos no estrangeiro Considerando-se o expressivo número de sentenças proferidas em um país para execução em outro referentes à prestação de alimentos, cabe aludir a importante documento sobre o tema. Trata-se da Convenção sobre a Prestação de Alimentos no Estrangeiro, assinada em Nova Iorque (EUA) no dia 20 de junho de 1956 e promulgada no Brasil pelo Decreto n. 56.826, de 02 de setembro de 1965. Entre as razões invocadas para a Convenção estão “a urgência de uma solução para o problema humanitário surgido pela situação das pessoas sem recursos que dependem, para o seu sustento, de pessoas no estrangeiro” e o fato de a execução, no estrangeiro, de “ações sobre prestação de alimentos ou cumprimento de decisões relativas ao assunto suscitarem sérias dificuldades legais e práticas”. A Convenção determina que cada Estado designe uma autoridade administrativa ou judiciária para nele exercer as funções de Autoridade Remetente, bem como um organismo público ou privado para as funções de Instituição Intermediária. São órgãos encarregados, respectivamente, do envio da sentença sobre prestação de alimentos exarada no país e da recepção de sentença oriunda de outro Estado. Ambas as tarefas, no Brasil, incumbem à Procuradoria-Geral da República (Lei n. 5.478, de 25 de julho de 1968). Essa Convenção permite que a Instituição Intermediária inicie ação de alimentos, prossiga com ela, transija e execute qualquer ato para a consecução do objetivo da ação. É digno de registro ter a vigência da Convenção ocorrido a partir da adesão de três países, sabendo-se que, na maioria dos casos, tratado dessa natureza requer aprovação de dezenas de Estados. Isso evidencia a importância e a urgência que os países emprestaram à Convenção. 8.6 Legislação brasileira Além do Código de Processo Civil e da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, outras normas jurídicas brasileiras tratam do tema em estudo. Assim, a Carta Magna, por força da Emenda Constitucional n. 45, estabelece, no artigo 105, I, i, a competência do Superior Tribunal de Justiça para processar e julgar, originariamente, a homologação das sentenças estrangeiras e a concessão de exequatur às cartas rogatórias, enquanto o artigo 109, X, dá competência aos juízes federais para processar e julgar a execução de carta rogatória, após o exequatur, e de sentença estrangeira, após a homologação. Também o Código Bustamante se ocupa das cartas rogatórias nos artigos 388 a 393 e da execução de sentenças proferidas por tribunais estrangeiros nos artigos 423 a 433. 8.7 Jurisprudência brasileira Ação Ajuizada no Exterior e Ação Proposta no Brasil. Sentença estrangeira ainda não homologada pelo STJ. Litispendência e coisa julgada. Inexistência. Nos termos do art. 90 do CPC, “A ação intentada perante tribunal estrangeiro não induz litispendência, nem obsta a que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas.” Portanto, é indiferente à justiça brasileira que a ação ajuizada no exterior e a demanda proposta no Brasil tenham as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido, não induzindo a litispendência e tampouco a coisa julgada, uma vez que a decisão proferida por Tribunal estrangeiro somente terá eficácia no Brasil após a sua homologação pelo Superior Tribunal de Justiça, a quem compete, originariamente, tal processamento e julgamento (art. 105, I, i, da CF/88) (TRT/3ª R. – RO n. 00404-2006-111-03-00-2, j. 22.02.2010).19 Homologação de Sentença Estrangeira. Fixação do Dever de Prestar Alimentos. Custeio em Parte das Despesas Médicas da Menor. Citação. Nulidade Afastada. Trânsito em Julgado Comprovado. Ilegitimidade Ativa Rejeitada. Requisitos Legais da Res. nº 09/2005 do STJ Preenchidos. 1. Sentença estrangeira fixando a obrigação de prestação de alimentos à filha menor e custeio parcial das despesas médicas. Requisitos dos arts. 5º e 6º da Res. n. 09/2005 do STJ preenchidos. 2. O Tribunal estrangeiro considerou sanada a irregularidadeem torno da citação por ter o requerido atendido ao chamado, constituindo defensor e apresentado defesa. 3. Na esteira do entendimento do STJ, revela-se incabível impor as regras da legislação brasileira ao ato de citação praticado fora do país. 4. O pedido de homologação pode ser deduzido por qualquer pessoa interessada nos efeitos da sentença estrangeira. Precedentes. 5. Homologação deferida (STJ – SEC 8303/EX – 2012/0187824-4 – j. 20.02.2013).20 Direito Internacional. Processual Civil. Sentença Estrangeira Contestada. Divórcio. Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto 56.826, de 02.12.1965). Chancela Consular. Desnecessidade. Precedente do STF. Debate sobre Mérito. Inviabilidade. Precedentes do STJ. Violação ao Art. 89 do CPC. Não Verificada. Requisitos de Homologação Presentes. 1. Cuida-se de pedido de homologação de sentença estrangeira de divórcio, encaminhada sob o rito da Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826, de 02.12.1965). A contestação traz três objeções ao pleito: a necessidade de autenticação consular da sentença original, alegações de mérito referidas ao cumprimento das obrigações de prestação de alimentos e a alegação de que a homologação violaria a competência da justiça brasileira, nos termos do art. 89 do CPC. 2. É dispensada a chancela consular na sentença alienígena no caso de prestação de alimentos, por força da atuação do Ministério Público Federal, como autoridade intermediária na transmissão oficial dos documentos, nos termos da Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826, de 02.12.1965), conforme reconhecido pela jurisprudência do STF: SE 3016, Relator Min. Décio Miranda, Tribunal Pleno, publicado no DJ em 17.12.1982, p. 13.202 e no Ementário vol. 1280-01, p. 148. 3. Não é possível efetuar o debate acerca do mérito da sentença homologanda, exceto nos limites estritos da aferição de potencial violação à soberania nacional ou à ordem pública pátria. Nesse sentido: SEC 7.478/EX, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, Corte Especial, DJe 04.03.2013; SEC 5.121/EX, Rel. Ministro Ari Pargendler, Corte Especial, DJe 28.02.2013; e SEC 7.987/EX, Rel. Ministro Castro Meira, Corte Especial, DJe 29.10.2012. 4. Da leitura da sentença homologanda, infere-se que nada foi consignado acerca de patrimônio ou de imóveis existentes no Brasil. O que se tratou foi da guarda do menor, da venda de um imóvel no México e da atenção aos alimentos e, portanto, não subsiste a presença de quaisquer elementos que atraiam a aplicação do art. 89 do Código de Processo Civil. Além do mais, o divórcio foi consensual e a jurisprudência do STJ já definiu que “É válida a disposição quanto a partilha de bens imóveis situados no Brasil na sentença estrangeira de divórcio, quando as partes dispõem sobre a divisão” (SEC 5.822/EX, Rel. Min. Eliana Calmon, Corte Especial, DJe 28.02.2013). 5. Estando presentes os requisitos formais, previstos na Resolução STJ n. 09/2005, é de ser homologada a sentença de divórcio proferida no estrangeiro. Pedido de homologação deferido (STJ – SEC 2011/0311424-0 – j. 07.08.2013).21 Sentença Estrangeira Contestada. Execução de Alimentos Fixados a Ação de Divórcio em Favor de Filho Menor. Cessação do Pagamento. Validade da Citação por Edital para a Resposta ao Presente Pedido. Preenchimento dos Requisitos da Res. 09/2005-STJ. Homologação Deferida. 1. Tendo sido tentada por duas vezes a citação por carta de ordem, em dois endereços conhecidos, sem sucesso, e não tendo sido possível a localização do requerido, deve ser reconhecida a validade da citação feita por edital. 2. Considerando o tempo de separação das partes (7 anos), não sendo conhecido o paradeiro do requerido, não eram exigíveis outras providências, que, na hipótese, seriam dispendiosas e somente contribuiriam para retardar e frustrar ainda mais uma difícil execução de alimentos, sendo caso de aplicação dos arts. 231, II, e 232 do CPC. Precedentes do STJ. 3. O pedido está em conformidade com os arts. 5º e 6º da Res. 09/STJ e art. 15 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, pois a sentença de dissolução de casamento e fixação de alimentos foi proferida por autoridade competente, as partes eram domiciliadas no estrangeiro, ambas foram citadas e compareceram aos atos necessários e ocorreu o trânsito em julgado, da decisão, não havendo que se cogitar em ofensa à soberania nacional ou à ordem pública. 4. Dispensável a chancela consular, como tem entendido esta Corte, quando os documentos foram enviados diretamente pela Autoridade Estrangeira, tendo sido traduzidos por tradutor juramentado no Brasil (SEC 2.772/FR, Rel. Min. Castro Meira, DJe 05.02.2009). 5. Questões meritórias referentes aos termos do acordo, sua eventual revisão, bem como a ocorrência de prescrição podem ser alegadas em ação revisional de alimentos. 6. Homologação de sentença estrangeira deferida (STJ – SEC 7526/EX – 2013/0145538-1 – j. 19.06.2013).22 8.8 Considerações finais A homologação de sentença proferida no estrangeiro ocupa, cada vez mais, os organismos judiciários dos diversos Estados da sociedade internacional. Há tendência em aceitar essas decisões, mediante a verificação de pressupostos consentâneos com a ordem jurídica em que elas vão ser executadas. Daí a importância do juízo de delibação, sistema adotado na Itália em fins do século XIX, que examina apenas requisitos formais da sentença, não analisando o seu mérito. Mesmo os países que recusam exequibilidade a esse instituto, veem nele uma presunção de certeza, utilizando-o como meio de prova. A Justiça brasileira dá guarida às cartas rogatórias, mediante exequatur do Superior Tribunal de Justiça e homologa sentenças estrangeiras por meio do sistema de delibação, analisando essa Corte as formalidades do julgado estrangeiro, sem examinar o mérito. Cabem, por fim, as seguintes observações sobre o tema: a) O processo de homologação é uma ação autônoma, não subordinada à que deu origem, no exterior, à sentença em fase de reconhecimento para execução no país; b) Os sujeitos da sentença estrangeira e os do processo de homologação não são, necessariamente, os mesmos, ampliando-se, em número, os sujeitos possíveis em relação à última (credor de uma das partes, que tenha interesse jurídico na sentença, por exemplo, pode requerer a homologação); c) Não coincidem os objetos da ação estrangeira (lide entre as partes) e da ação de homologação (verificação de pressupostos); d) Coisa julgada no Brasil impede homologação de sentença estrangeira sobre a mesma lide; e) Ação iniciada no Brasil após trânsito em julgado da sentença estrangeira não interfere no processo de homologação, extinguindo-se essa ação no caso de homologação da decisão forasteira; f) Pode ser homologada ação rescisória estrangeira, mesmo que a sentença por ela rescindida não o tenha sido; g) No caso de rescisão no estrangeiro de sentença já homologada no Brasil, essa sentença perde totalmente sua eficácia, independentemente de homologação da rescisão; h) A ação estrangeira tem conteúdo material, enquanto a de homologação é processual; i) A sentença homologatória é constitutiva (entendimento dominante); j) É amplamente majoritário o entendimento de que o processo de homologação é de jurisdição contenciosa (as partes litigam pela homologação e pela não homologação); k) Homologada no Brasil sentença estrangeira, seus efeitos retroagem ao momento em que ela se tornou eficaz no ordenamento jurídico que a prolatou; l) Não é passível de homologação sentença estrangeira que verse sobre imóveis situados no Brasil. RESUMO 8.1 Considerações iniciais A importância e atualidade da exequibilidade da sentença de uma ordem jurídica em outra têm levado alguns autores a vislumbrarem o nascimento de um sub-ramo do Direito Internacional Privado, o Direito de Reconhecimento. 8.2 Fundamentos Diversas teorias têm sido formuladas para fundamentar a eficácia no estrangeiro da sentença prolatada em um país, como a da comitas gentium,ou cortesia internacional, a da comunidade de direito e a dos direitos adquiridos. O ideal de justiça e o espírito de solidariedade e de interdependência entre os povos podem ser apresentados como as razões para essa prática. 8.3 Documentos estrangeiros: cartas rogatórias As decisões interlocutórias (citação, vistoria, oitiva de testemunha), que não são homologáveis, são cumpridas por meio de carta rogatória, após exequatur do Superior Tribunal de Justiça, na Justiça Federal de primeiro grau. 8.4 Sentenças estrangeiras homologáveis 8.4.1 Conceituação Entendemos homologação como o ato que torna exequível sentença estrangeira na ordem jurídica interna. Portanto, é a homologação que vai permitir a execução, em um país, de decisão proveniente de órgão judiciário de outro. 8.4.2 Decisões passíveis de homologação São passíveis de homologação acórdãos, sentenças cíveis, comerciais, penais e trabalhistas e decisões de órgãos judicantes de outros poderes (divórcio concedido por prefeito de cidade japonesa e pelo rei da Dinamarca). Ainda o são sentenças de processos cautelares e arbitrais. 8.4.3 Sistemas de homologação A doutrina apresenta cinco formas de homologação de sentença estrangeira: revisão de mérito, revisão parcial de mérito, reciprocidade diplomática e de fato e delibação. 8.4.4 Delibação Método mais usado, inclusive no Brasil, é a delibação, homologação da sentença mediante atendimento de pressupostos, sem entrar no mérito da mesma. Surgiu na Itália no século XIX. 8.4.5 Órgãos homologadores, pressupostos e rito na Justiça brasileira No Brasil, há apenas um órgão encarregado da homologação: o Superior Tribunal de Justiça. Os pressupostos são que a sentença provenha de juízo competente, tenham sido as partes citadas, ou se tenha regularmente verificado a revelia, tenha a sentença passado em julgado e esteja revestida das formalidades necessárias para a execução no lugar em que foi proferida, esteja traduzida por intérprete autorizado e se proceda à homologação pelo STJ. O ritual se inicia pela requisição diplomática ou por requerimento do interessado. 8.4.6 Sentença homologanda versus lide na Justiça brasileira Sentença em fase de homologação e lide na Justiça brasileira podem tramitar, ao mesmo tempo, não se caracterizando litispendência. Tão logo ocorra a homologação de decisão estrangeira, a lide na Justiça nacional deverá ser extinta, porque passa a haver coisa julgada: ter-se-á tornado executável a decisão sobre a lide, não mais havendo, perante nossa ordem jurídica, o que ser submetido a julgamento. 8.5 Convenção da ONU sobre prestação de alimentos no estrangeiro O elevado número de sentenças sobre alimentos, proferidas em um país para serem executadas em outro, levou ao surgimento da Convenção sobre a Prestação de Alimentos no Estrangeiro, da ONU, assinada em 1956 e promulgada no Brasil em 1965. Cada Estado designa uma autoridade administrativa ou judiciária para nele exercer as funções de Autoridade Remetente, bem como um organismo público ou privado para as funções de Instituição Intermediária: encarregam-se estes, respectivamente, do envio da sentença exarada no país e da recepção da oriunda de outro Estado. Ambas as tarefas, no Brasil, são incumbência da Procuradoria-Geral da República. 8.6. Legislação brasileira O Código de Processo Civil, a Constituição Federal, entre outras normas jurídicas no Brasil, como o Código Bustamante, tratam do reconhecimento de sentenças estrangeiras. 8.7 Jurisprudência brasileira O Superior Tribunal de Justiça, a quem cabe desde 2004 homologar sentenças estrangeiras no Brasil, já conta com expressivo número de decisões de outros países tornadas exequíveis no nosso ordenamento jurídico, especialmente sobre ações de alimentos e de divórcio. 8.8 Considerações finais A sentença prolatada em um ordenamento jurídico para ser executada em outro se tornou prática rotineira, ocupando juristas e legisladores na busca da melhor justiça. O Brasil, como a maior parte dos países com sistemas jurídicos avançados, adota a delibação, método que homologa a decisão estrangeira, por meio do exame de pressupostos formais, sem adentrar o mérito. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Tecer considerações sobre a importância da execução, no Brasil, de sentença estrangeira. 2. Defender a criação de um Direito de Reconhecimento. 3. Apresentar as teorias que melhor fundamentam a homologação de sentença estrangeira. 4. Dissertar sobre a homologação de sentença de outro país no Superior Tribunal de Justiça, explicitando os requisitos para essa homologação. 5. Tecer considerações sobre a Convenção sobre a Prestação de Alimentos no Estrangeiro, estabelecida no âmbito da ONU, e sua importância na ordem jurídica brasileira. ______________ 1 LIMA PINHEIRO, Luís de. Direito internacional privado. p. 30. 2 WOLFF, Martin. Derecho internacional privado. p. 237. 3 RIGAUX, François. Derecho internacional privado (parte general). p. 192. 4 CASTRO, Amílcar de. Direito internacional privado. p. 552. 5 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil. v. V. p. 55. 6 GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. 2o v. p. 401. 7 GOLDSCHMIDT, Werner. Derecho internacional privado. p. 481. 8 BEVILÁQUA, Clóvis. Princípios elementares de direito internacional privado. p. 326. 9 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I. p. 470-471. 10 AMORIM, Edgar Carlos de. Direito internacional privado. p. 51-53. 11 ESPÍNOLA, Eduardo; ESPÍNOLA FILHO, Eduardo. A Lei de Introdução ao Código Civil brasileiro. v. 3o. p. 294-299. DINIZ, Maria Helena. Lei de Introdução ao Código Civil brasileiro interpretada. p. 325-327. 12 ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Curso de direito dos conflitos interespaciais. p. 155-156. 13 CASTRO, A. Op. cit. p. 552. BARBOSA MOREIRA, J. C. Op. cit. p. 56-57. 14 BRAGA, Gustavo Augusto da Frota. Homologação de sentenças estrangeiras. p. 30. 15 GRECO FILHO, V. Op. cit. p. 394. 16 BARBOSA MOREIRA, J. C. Op. cit. p. 64. 17 ANDRADE, Agenor Pereira de. Manual de direito internacional privado. p. 332. 18 JO, Hee Moon. Moderno direito internacional privado. p. 350. 19 Disponível em: <http://www.mg.trt.gov.br>. Acesso em: 16 mar. 2010. 20 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 3 nov. 2013. 21 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 17 out. 2013. 22 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 19 out. 2013. http://www.mg.trt.gov.br http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br NACIONALIDADE “La nacionalidad aparece en el Derecho Constitucional como medio técnico de constituir la propia población, delimitándola simultáneamente con respecto a los extranjeros” (Werner Goldschmidt). 9.1 Considerações iniciais Vamos nos ocupar da nacionalidade, detendo-nos na presença desse instituto no ordenamento jurídico brasileiro, à luz do Direito Internacional Privado. A nacionalidade identifica o liame jurídico fundamental entre o ser humano e o Estado, constituindo-se no elo que cria para ambos direitos e obrigações recíprocas. Esse elo os manterá unidos, mesmo na eventualidade de afastamento da pessoa do espaço geográfico do país, onde continuará recebendo proteção estatal e respeitando as diretrizes emanantes da sua soberania. Trata- se de vínculo jurídico-político, social e moral que segue princípios instituídos pelo Estado, mas admitidos pelo Direito Internacional. Pela nacionalidade a pessoa passa a pertencer juridicamente à população constitutiva de um Estado.1 Cumpre observar que o direito à nacionalidade está consagrado em relevantes instrumentos internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos2 (art. 15), aprovada pela Assembleia-Geral da ONU, em 1948, e o Pacto de São José da Costa Rica3 (art. 20), elaborado no âmbito da OEA, em 1969. Ambos possuem dispositivo sobre o direito de todas as pessoas a uma nacionalidade, bem como ao de mudar de nacionalidade, se assim desejarem. Nesse mesmo sentido dispõe o artigo19 da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem,4 aprovada na 9ª Conferência Internacional Americana, em Bogotá, em 1948. Abordaremos os critérios norteadores da nacionalidade nata – jus soli e jus sanguinis –, a naturalização, os conflitos ou acumulações de nacionalidades (positivo e negativo), o instituto na ordem jurídica brasileira e a perda da nacionalidade. 9.2 Interdisciplinaridade Objeto de DIPr, a nacionalidade tem sua institucionalização na ordem jurídica de cada Estado, sendo ainda estudada em outras áreas das ciências jurídicas, notadamente no Direito Constitucional, no Direito Internacional Público e no Direito Civil. O regime jurídico da nacionalidade (aquisição, perda e reaquisição) versa sobre direito material interno de um país, consistindo em tema essencialmente do Direito Constitucional, razão pela qual notórios internacionalistas não se aprofundarem sobre esse tópico, em seus manuais.5 Não obstante, tendo em conta influência que regras de aquisição e de perda de nacionalidade podem exercer em terceiros países, bem como o importante papel da nacionalidade como elemento de ligação, verifica-se que o tema está fortemente relacionado com o escopo do DIPr, razão pela qual optamos por discorrer sobre ele, a exemplo de outros internacionalistas.6 A competência do Estado para indicar quem são seus nacionais não coincide nas legislações internas, pois costumam ser considerados fatores locais, históricos e culturais. Porém, devem ser evitados critérios raciais ou religiosos, por contrariarem os direitos humanos. A nacionalidade participa e contribui na distribuição da população pelos países, o que implica engajamento do Direito Internacional a fim de impedir uma regulamentação anárquica, na qual cada Estado atuasse unilateralmente, não considerando os interesses derivados da cooperação internacional, tão importante na atualidade.7 Nesse sentido, houve cobrança de maior engajamento do Direito Internacional, buscando diminuir a tendência de excessiva legislação da nacionalidade pelos ordenamentos internos, que, na primeira metade do século passado, defendiam a competência exclusiva do instituto pelo Estado. Assim, verifica-se que o Direito Internacional reconhece, em princípio, a competência dos Estados na normatização da aquisição e perda da sua nacionalidade, prescrevendo as necessárias limitações nesses casos, com o que impede, por exemplo, a supressão da categoria de estrangeiros pela concessão irrestrita e indiscriminada da nacionalidade. 9.3 Nacionalidade originária Trata-se da nacionalidade atribuída ao ser humano, por ocasião de seu nascimento, pela ordem jurídica na qual ocorre esse evento inicial da existência da pessoa. Dois são os critérios empregados pelos Estados para essa concessão, um privilegiando o vínculo familiar – jus sanguinis – e o outro dando primazia ao local do parto – jus soli. 9.3.1 Jus sanguinis Esse método de atribuição da nacionalidade reinou quase absoluto na maior parte da História, sendo o critério que predomina em muitos países. Sua prevalência ocorre entre os Estados mais populosos, como os europeus. Nesses países, a tendência era de saída de parcelas da população, em busca de oportunidades de realização pessoal e crescimento no campo material, em outras terras, condições inexistentes em seu Estado, assolado por guerras e miséria. Tal fato, ocorrido com frequência nos séculos XIX e XX, trouxe expressivo número de italianos, alemães e japoneses para o continente americano, inclusive para o Brasil. Embora não mais persista essa situação, devido ao período de prosperidade vivido pelos Estados de onde provieram esses imigrantes, o jus sanguinis permanece nos seus ordenamentos jurídicos como o critério de atribuição da nacionalidade. Com a emigração, tende a diminuir o número dos nacionais residentes no país, e o emprego do jus sanguinis nesses Estados vai propiciar que os descendentes, nascidos nas novas terras, continuem ligados pela nacionalidade à pátria de seus genitores, aonde, ao chegarem, estarão capacitados para uma integração mais fácil. Nesse contexto, existem países, como a Itália, que não limitam as gerações dos descendentes que podem continuar sendo nacionais. No entanto, as ordens jurídicas internas, em sua maioria, restringem a uma ou duas gerações os descendentes aptos ao reconhecimento da nacionalidade originária pelo jus sanguinis. É o que ocorre com Alemanha, França e Portugal, por exemplo, em cujas legislações não se reconhece, diretamente, como nacional o neto da pessoa que emigrou. A prudente limitação de gerações hábeis a requererem a nacionalidade do Estado de seus ancestrais tem também o sentido de evitar que continuem sendo admitidas como nacionais desse país pessoas que com ele perderam o vínculo, desconhecendo muitas vezes a própria língua e estando afastadas dos seus costumes e suas tradições. 9.3.2 Jus soli O sistema do jus soli – atribuição da nacionalidade do país de nascimento – surgiu, ou pelo menos se consagrou, no período feudal, no qual a ideia dominante era manter o ser humano preso à terra. Apesar de sua origem, é visto hoje como critério democrático, uma vez que não discrimina parcelas da população que seriam consideradas estrangeiras pelo simples fato de seus genitores não serem oriundos do país em que elas nasceram. É o método de eleição dos Estados novos ou em fase de desenvolvimento, onde impera a necessidade de formação de uma população nacional; daí ser adotado pelos países do continente americano. Na fase inicial da vida de um Estado, seria inconcebível a adoção do jus sanguinis, por ser reduzido o número de nacionais e necessárias várias gerações para seu crescimento adequado, sempre desejável. Os países que recebem muitos imigrantes também costumam adotar o jus soli, a fim de propiciar a integração dos descendentes na vida nacional. Em princípio, não ocorre o emprego absoluto de apenas um dos critérios pelos países. Na América do Sul, o Uruguai e o Paraguai admitem o jus soli a todos os seres humanos nascidos no país, sem exceção, mas recepcionam também o jus sanguinis. Entendemos que o mais adequado seria a combinação do jus sanguinis e do jus soli, com atribuição da nacionalidade ao recém-nascido por um deles, facultando-se a opção pelo outro critério ao atingir a maioridade. 9.4 Naturalização Consiste no ato pelo qual o estrangeiro ou o anacional se investe juridicamente da condição de nacional de país que adotou para viver e que agora o admite como tal. Trata-se de nacionalidade derivada ou secundária, uma vez que adquirida após o nascimento. Não implica necessariamente a perda da nacionalidade originária, dependendo das regras internas de cada ordenamento jurídico. É ato gracioso, faculdade do Poder Executivo, uma vez que nenhum Estado está obrigado a naturalizar qualquer pessoa. A naturalização está albergada em quase todas as legislações. Assim, na Argentina, o estrangeiro pode obtê-la após dois anos de residência no país; no Paraguai, depois de três anos; e na Venezuela, em dez anos, prazos que podem ser reduzidos em determinadas condições. Nesse rol de países, o Uruguai constitui exceção, não admitindo a naturalização; no entanto, possui instituto com alguma semelhança: o estrangeiro com residência, negócio ou propriedade no país pode ser cidadão uruguaio, sem ser nacional. Trata-se do cidadão legal – algo parecido com o estatuto de igualdade entre brasileiros e portugueses, embora, no caso uruguaio, sem reciprocidade –, que inclui direitos políticos, como os de votar e ser votado.8 A naturalização não extingue a responsabilidade civil ou penal a que o estrangeiro estava sujeito no seu país de origem. Como ato personalíssimo, não abrange atualmente os familiares do naturalizado, conferindo-lhe o gozo dos direitos civis e políticos, com as exceções legais em cada Estado. No passado, em muitos ordenamentos jurídicos, a naturalização do marido implicava a da esposa e filhos menores: “A mulher passa com ele ao império da nova pátria escolhida pelo marido.”9 Hoje,no Brasil, qualquer filho do naturalizado, que não nasceu em nosso país – caso em que seria brasileiro nato pelo jus soli – terá que buscar sua própria naturalização, caso tenha interesse. O instituto da naturalização comporta duas formas: a tácita e a expressa. O direito positivo brasileiro atual admite apenas a naturalização expressa, concedida mediante petição escrita, observados os requisitos necessários, entre os quais o mais importante se refere à residência no Brasil. A naturalização tácita existiu no Brasil em duas ocasiões, ambas inseridas na Lei Maior. A primeira, na Constituição do Império, de 1824, considerou brasileiros os portugueses e os nascidos nas Colônias portuguesas que estivessem residindo no Brasil quando da Independência e a ela aderissem, expressa ou tacitamente, pela continuidade da residência no País. Com o advento da República, a Constituição de 1891 declarou brasileiros todos os estrangeiros que residissem no Brasil em 15.11.1889 e não declarassem, no prazo de seis meses, seu desejo de conservar a nacionalidade de origem. Também concedeu a condição de brasileiros aos estrangeiros que tivessem imóveis no Brasil e fossem casados com brasileiras, ou tivessem filhos brasileiros, desde que residissem no País e não manifestassem sua intenção de manter a nacionalidade originária. A Carta Magna de 1988 traz as normas gerais a respeito da naturalização, que são complementadas pela Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980, a partir do artigo 111, que rege o instituto. Assim, os requisitos para o estrangeiro se tornar brasileiro são capacidade civil por nossa lei; registro como permanente no País; residência permanente de, pelo menos, quatro anos no Brasil; que ele leia e escreva em língua portuguesa; tenha profissão ou bens no País; bom comportamento e não tenha contra si denúncia, pronúncia ou condenação por crime doloso, no Brasil ou no exterior. A concessão da naturalização se fará mediante portaria do Ministério da Justiça, conforme o referido artigo 111 do Estatuto do Estrangeiro. Preenchendo os requisitos legais, o estrangeiro deve requerê-la ao referido Ministério, apresentando todos os documentos exigidos por lei. O processo está disciplinado nesse Estatuto (artigos 116 e segs.), bem como no Decreto n. 86.715, de 10.12.1981 (artigos 119 a 134). Ao final do processo, o certificado de naturalização será solenemente entregue pelo juiz federal do domicílio do novo brasileiro ou, na sua ausência, pelo juiz estadual. A Constituição de 1988 prevê (art. 12, inc. II, b) apenas uma hipótese em que a naturalização será um direito: o estrangeiro, sem condenação penal, que resida por quinze anos ininterruptos no Brasil adquire a nacionalidade brasileira desde que a requeira. Nesse caso, a naturalização deixa de ser ato discricionário do Estado para se constituir em direito subjetivo do estrangeiro. O processo para essa concessão – requerimento ao Ministro – não difere da forma anteriormente estudada. 9.5 Conflitos de nacionalidade O emprego pelos Estados dos critérios de atribuição da nacionalidade originária estudados gera, por vezes, os conflitos conhecidos na doutrina por plurinacionalidade e apatridia, analisados a seguir. 9.5.1 Plurinacionalidade São bastante comuns os casos de dupla nacionalidade, que ocorrem quando uma criança nascida em país que adota o jus soli é filha de estrangeiros, nacionais de Estado que admite o jus sanguinis. Evidencia-se abrandamento da repulsa, acentuada em outros tempos, ao instituto da múltipla nacionalidade ou plurinacionalidade, também referida como polipatridia. A adoção dos sistemas mencionados pelos países pode suscitar essas anomalias, permitindo que uma pessoa nasça legalmente investida de mais de uma nacionalidade. Assim, na hipótese de nascer no Brasil filho de casal francês em visita ao País, ter-se-á um caso de dupla nacionalidade: a criança será francesa (jus sanguinis) e brasileira (jus soli). Se qualquer dos genitores dessa criança for italiano ou espanhol, ela poderá ter tripla nacionalidade, também pelo jus sanguinis. Podem advir dificuldades na vida civil dessas pessoas quando elas necessitarem invocar apenas uma das nacionalidades. Tem-se observado que cada Estado reconhece, nesses casos, como o Brasil, a sua própria nacionalidade, desde que o binacional a possua. Quanto à proteção diplomática em cortes internacionais, a solução encontrada tem sido a da nacionalidade efetiva, que coincide normalmente com aquela do Estado em que o cidadão em questão se encontra efetivamente vinculado, de que é exemplo, bastante citado na doutrina, o caso Canevaro.10 Refere-se a Rafael Canevaro, peruano pelo jus soli e italiano pelo jus sanguinis, que, ante um processo na área tributária no Peru, e na iminência de expropriações em seus bens, invocou proteção diplomática da Itália. Sentença arbitral, em 1912, não recepcionou seu pleito por não se admitir ação de um dos Estados de que a pessoa é nacional contra o outro, podendo, entretanto, qualquer deles agir contra terceiro país em seu favor. A condição de multinacional, a par de trazer benefícios, como gozar facilmente de direitos civis e sentir-se protegido contra o instituto da extradição em mais de um Estado, pode criar embaraços em determinadas situações. É o que ocorre, por exemplo, em relação ao serviço militar e à proteção diplomática, que não poderiam ser utilizados indistintamente pelo binacional, ao seu alvedrio. Também diante de problema entre os países de que é nacional, poderá enfrentar constrangimentos e dificuldades. Mecanismos legais reconhecidos por meio de tratados que o Direito Internacional põe à disposição encaminham soluções para esses casos, e a dupla nacionalidade vai-se consolidando e prestando benefícios aos próprios Estados, que nela encontram forma de aproximação entre si e de ampliação da convivência internacional. 9.5.2 Annacionalidade Os seres humanos que nascem privados de nacionalidade, ou que a perdem em qualquer momento da vida, conhecidos por apátridas, são pessoas internacionalmente desprotegidas. O termo apatridia tem sido empregado para identificar essa situação pela doutrina e pelos tratados internacionais que regem a matéria. Ilmar Penna Marinho lembra as dificuldades dessas pessoas, cuja situação excepcionalmente precária é mais difícil do que a dos estrangeiros, pois estes últimos, quando expulsos, poderão dirigir-se ao país de que são nacionais.11 Permitimo-nos enfatizar que seria mais adequada a utilização do termo anacionalidade, pelo acréscimo do prefixo grego a, an, indicativo de negação, privação, ausência (sem) à palavra nacionalidade. Justifica-se esse termo por opor-se a nacionalidade, designativo do instituto, ao passo que apatridia contraria, na verdade, a ideia de patridia, termo que não se emprega em lugar de nacionalidade. Ao sugerir o emprego de anacionalidade para designar o instituto, pensa-se estar sendo coerente com o entendimento esposado por Penna Marinho, quando, em sua obra clássica sobre a nacionalidade, ao abordar a apatridia – que prefere chamar de apatrídia – lembra que “todo homem nasceu em algum lugar, ou sofreu influência direta de algum fenômeno sociológico, como a religião, o meio geográfico, a língua etc.”, tendo em consequência uma pátria: “O que há são indivíduos sem nacionalidade, sem uma subordinação política”,12 acentua o autor. A palavra apatridia, embora muito usada, é politicamente incorreta e porta forte viés estigmatizante, dando ideia de supressão do vínculo do ser humano com sua pátria, o que traz à lembrança a tragédia vivida nos Estados totalitários que privaram da nacionalidade seus cidadãos, como a Alemanha nazista, especialmente quanto aos judeus, e a Rússia comunista, aos dissidentes políticos durante a longa e sanguinária ditadura de Stalin. Designar esse cidadão por anacional, termo menos contundente e mais brando do que apátrida, dá conotação de transitoriedade a sua situação e leva ao entendimento de que a condição de anacional será passageira, pela inserção da pessoa entre osnacionais de um Estado, na esteira de movimentos humanitários, doutrinários e convencionais que buscam a extinção da anacionalidade ou pelo menos a gradativa diminuição do número de pessoas por ela atingidas. A principal fonte da anacionalidade está na existência dos dois sistemas utilizados pelos Estados na atribuição originária da nacionalidade. Assim, criança nascida em país que adota o jus sanguinis, de pais oriundos de Estado que privilegia o jus soli, não teria nacionalidade. Outra fonte é a legislação de países totalitários permitindo a supressão da nacionalidade por motivos políticos ou raciais. Normalmente, o anacional é considerado como estrangeiro pelo Estado em que se encontra, sem direito à proteção diplomática. Assim, depende de leis locais que o amparem, o que já ocorre em alguns países, como Portugal, cuja Constituição (1976), em seu artigo 15 prescreve: “Os estrangeiros e os apátridas que se encontrem, ou residam em Portugal gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres do cidadão português.” O fim da anacionalidade tem sido buscado pelas organizações internacionais e pelos Estados, contribuindo para diminuir o número de pessoas nessa situação. Uma política adequada pelos países sobre perda da nacionalidade evidencia preocupação na solução do problema.13 Contudo, o próprio homem pode ser, por vezes, o causador de sua apatridia quando renuncia de forma espontânea à nacionalidade e não demonstra interesse em adquirir outra, o que não é frequente. Como já referido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos assegura, no artigo 15, que “toda pessoa tem direito a uma nacionalidade”. O mais importante documento internacional sobre o tema é a Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia, assinada em Nova Iorque, no dia 30 de agosto de 1961. Ela preconiza que cada Estado contratante conceda sua nacionalidade à pessoa nele nascida que, de outra forma, seria anacional (art. 1º). Essa concessão ocorrerá, de pleno direito, por ocasião do nascimento, ou mediante requerimento à autoridade competente apresentado posteriormente pelo interessado ou em seu nome. Apenas quarenta países fazem parte da Convenção, entre os quais o Brasil, acentuando-se que o número de apátridas é estimado em doze milhões em todo o mundo.14 Por outro lado, verifica-se que o nefasto instituto da aligeância perpétua, resquício e triste contribuição do sistema feudal, desapareceu do mundo jurídico. Por essa prática medieval, havia uma subordinação perpétua do homem, obrigado a permanecer toda a vida ligado à terra, impedido de perder ou mudar de nacionalidade, liberando-se dessa fidelidade apenas com autorização do soberano. Tal sujeição perdurou na Grã-Bretanha até 1870 e na Rússia durante o período czarista.15 Não havia liberdade de substituição de uma nacionalidade por outra, ainda que essa fosse a vontade da pessoa. 9.6 Nacionalidade no ordenamento jurídico brasileiro Os parâmetros norteadores da concessão da nacionalidade no Brasil emanam do artigo 12 do texto constitucional, que passaremos a analisar: Art. 12. São brasileiros: I – natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; Esta alínea consagra o critério do jus soli, que historicamente sempre foi um princípio adotado pelas constituições pátrias para a aquisição da nacionalidade brasileira, embora nunca de forma absoluta. A Constituição do Império,16 de 1824, já afirmava que eram brasileiros “os que tiverem nascido no Brasil, quer sejam ingênuos ou libertos, ainda que o pai seja estrangeiro, uma vez que este não resida por serviço de sua nação”. “Ingênuos” referia-se aos filhos de escravos libertos. Em que pese o texto constitucional dispor “pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país”, basta que um dos genitores esteja a serviço do seu país para que o filho nascido em território nacional não seja considerado brasileiro nato. Corroborando esse entendimento, o artigo 15 da Resolução n. 155 do Conselho Nacional de Justiça, de 16 de julho de 2012,17 dispõe que “os registros de nascimento de nascidos no território nacional em que ambos os genitores sejam estrangeiros e em que pelo menos um esteja a serviço de seu país no Brasil deverão ser efetuados no Livro ‘E’ do 1º Ofício do Registro Civil da Comarca, devendo constar do assento e da respectiva certidão a seguinte observação: ‘O registrando não possui a nacionalidade brasileira, conforme o art. 12, inciso I, alínea ‘a’, in fine, da Constituição Federal’”. Entende-se por território brasileiro o espaço terrestre, marítimo, lacustre e aéreo no qual o Estado exerce, de forma soberana, seu domínio e jurisdição. Portanto, solo, subsolo, ar e água (rios, lagos, baías e ilhas), incluindo-se a plataforma marítima e o mar territorial, os navios e as aeronaves brasileiras de guerra (em qualquer parte do mundo) e de outra ordem (quando em operação ou ancorados em território brasileiro, alto-mar ou área que não pertença a nenhum outro Estado). b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil; Trata-se de dispositivo também presente em todas as Constituições brasileiras. A expressão “a serviço da República Federativa do Brasil” não abrange apenas atividade diplomática, consular e militar, mas inclui pessoas em missão dos governos federal, estadual ou municipal, bem como servidores que desempenhem atividades em autarquias federais, estaduais, distritais, territoriais e municipais, empresa pública ou sociedade de economia mista. c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira; A primazia do local de nascimento não é absoluta como critério de concessão da nacionalidade brasileira, pois já na Constituição de 1824 (art. 6º) eram considerados nacionais os filhos de brasileiro (e ilegítimos de brasileira) nascidos no exterior, desde que estabelecessem domicílio no Império. Contudo, a Constituição de 1934, acompanhando a evolução da sociedade humana no reconhecimento da igualdade entre os sexos, adotou a dicção atual (pai brasileiro ou mãe brasileira). Essa concessão ao jus sanguinis se mantém, em relação a todo filho, condicionada à presença de outros fatores: pai ou mãe a serviço do Brasil (inc. I, b) e registro em repartição brasileira (consulado ou embaixada) ou residência no Brasil e opção, em qualquer tempo, atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira (inc. I, c). Cabe acentuar que a redação da alínea c do inciso I do artigo 12 da Constituição Federal de 1988, antes mencionado, provém da Emenda Constitucional n. 54, de 20 de setembro de 2007. Essa medida corrigiu anomalia, bastante perversa: crianças, muitas registradas em repartições brasileiras competentes no exterior, não adimpliam – apesar do registro, que então lhes assegurava apenas efeitos de identificação civil – a condição de brasileiras, a menos que viessem residir no País e optassem pela nossa nacionalidade. Isso se explica, porque a previsão de nacionalidade por registro consular estava ausente de nosso Direito desde a Emenda Constitucional de Revisão n. 3, de 07 de junho de 1994, que alterou a redação original da Constituição Federal de 1988. Como elas haviam nascido em Estados como Japão, Alemanha, Suíça e Itália, que adotam o jus sanguinis, permaneciam anacionais, referidas na imprensa como “brasileirinhos apátridas”. Os quadros a seguir identificam as linhas de diferenciação entre a nacionalidade originária e a nacionalidade adquirida com as disposições do ordenamento jurídico brasileiro atual. Nacionalidade primária (originária) Jus soli ⇒ nascidos no Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que não estejam a serviço de seu país de origem. Jus sanguinis + critério laboral ⇒ nascidosno exterior, de pai ou mãe brasileiro, desde que qualquer um deles esteja a serviço do País. Jus sanguinis ⇒ nascidos no exterior, desde que de pai ou mãe brasileiro e: a) sejam registrados em repartição brasileira competente; ou b) venham residir no Brasil e depois de atingir a maioridade optem pela nacionalidade brasileira. Tácita ⇒ Carta Imperial de 1824: portugueses e pessoas de colônias lusas. ⇒ Constituição de 1891: estrangeiro que estivesse no País em 15.11.1889 e não Nacionalidade secundária (naturalização) declarasse em seis meses o desejo de manter a nacionalidade de origem; bem como estrangeiros que tivessem imóveis no Brasil e fossem casados com brasileiras, ou tivessem filhos brasileiros, desde que residissem no País e não manifestassem sua intenção de manter a nacionalidade originária. Expressa Extraordinária Critérios: • residir 15 anos ininterruptos no Brasil; • não ter condenação penal. Ordinária Estrangeiros de países que não sejam de língua portuguesa Critérios: • residência no Brasil por 4 anos; • capacidade civil; • demais requisitos da Lei n. 6.815/1980. Estrangeiros de países de língua portuguesa, exceto portugueses Critérios: • residência no Brasil por 1 ano ininterrupto; • idoneidade moral. Portugueses Direitos inerentes a brasileiros se houver reciprocidade. Hipóteses legais Residência precoce: quem se radicou no Brasil antes dos cinco anos de idade, podendo requerê-la quando alcançar a maioridade. Graduação universitária: desde que a residência tenha ocorrido antes de atingida a maioridade, e o estrangeiro a tenha cursado em estabelecimento de ensino superior no Brasil. 9.7 Perda da nacionalidade Essa situação está consagrada na ordem jurídica internacional e nas legislações como manifestação da vontade individual, superadas suas origens na Antiguidade, em que a perda desse direito fundamental do cidadão era imposta como castigo. Atualmente são raros os países que não admitem a perda da nacionalidade, entre eles a Argentina e o Uruguai.18 Admitida em muitos países hoje na forma voluntária, a perda da nacionalidade ocorre por renúncia ou abdicação, excepcionalmente, e – caso mais frequente – pela naturalização em outro país. Em alguns casos pode ser imposta como exercício de atividades para governo estrangeiro, sem autorização do “governo” de seu país e condenação por deslealdade, especialmente do naturalizado. A renúncia da nacionalidade jamais foi admitida na ordem jurídica brasileira e é condenada pela doutrina. Entende Francisco Guimarães que renúncia sem que ocorra aquisição voluntária de outra nacionalidade, ou seja, não imposta pela legislação estrangeira, não é reconhecida em nossa lei, uma vez que dela não derivam apenas direitos, mas também obrigações: “Seria o mesmo que admitir a expatriação voluntária.”19 Valladão menciona outras formas indesejáveis de perda da nacionalidade, abolidas das ordens jurídicas contemporâneas: o banimento, a indignidade e a residência ou o estabelecimento por dez anos no estrangeiro, essa última muito utilizada no século XIX.20 A cessão ou anexação de território pode também determinar a perda da nacionalidade. Conforme o § 4º do artigo 12 da Constituição Federal de 1988, o qual traz rol taxativo de hipóteses de perda de nacionalidade, não admitindo ampliação, perderá a nacionalidade o brasileiro que: a) Tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional; b) Adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos de reconhecimento de nacionalidade originária por lei estrangeira e de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em Estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis (conforme redação dada pela EC n. 3, de 07 de junho de 1994). A Lei n. 818, de 18 de setembro de 1949, em seus artigos 22 a 34, ainda em vigor no Brasil no que tange à perda e à reaquisição da nacionalidade brasileira, elenca essas causas constitucionais de perda de nacionalidade, regulamentando-as. Destaca-se que não mais subsiste no ordenamento jurídico pátrio, sendo tema revogado, a hipótese elencada no artigo 22, inciso II, da referida lei: “Perderá a nacionalidade o brasileiro que, sem licença do Presidente da República, aceitar, de governo estrangeiro, comissão, emprego”. A primeira hipótese é denominada perda-punição e alcançará tão somente o brasileiro naturalizado – que adquiriu a nacionalidade secundária –, o qual poderá ter a sua naturalização cancelada por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional. Este último conceito, vago e aberto, gera muitas críticas por parte da doutrina, uma vez que dá margens a injustiças e possíveis perseguições, até mesmo políticas.21 A Justiça Federal será competente para conhecer e julgar o processo de perda de nacionalidade (art. 109, X, da CF/88). Nesse caso, após representação do Ministro da Justiça ou solicitação de qualquer cidadão, instaurar-se-á inquérito para apurar a eventual prática de atividade nociva ao interesse nacional, e, após dar vistas, o Ministério Público Federal poderá oferecer denúncia, instaurando o processo judicial de cancelamento de naturalização. Somente a partir do trânsito em julgado da sentença, a qual terá efeitos ex nunc, a pessoa perderá a naturalização.22 A perda de nacionalidade decorrerá de decreto do Presidente da República, que terá caráter declaratório, uma vez que o fato que constituiu a perda da nacionalidade brasileira foi o cancelamento da naturalização por meio de sentença judicial. Cabe salientar que no Decreto n. 3.453, de 09 de maio de 2000, o Presidente da República delegou ao Ministro da Justiça a competência para declarar a perda e a reaquisição da nacionalidade brasileira, na forma do artigo 12, § 4º, inciso II, da Constituição e artigos 22, incisos I e II, e 36 da Lei n. 818/1949. Assim, atualmente quem efetivamente declara a perda e a reaquisição da nacionalidade é o Ministro da Justiça, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União. Na segunda hipótese, que pode atingir tanto o brasileiro nato quanto o naturalizado, a perda da nacionalidade só ocorrerá nos casos em que a vontade do cidadão for de efetivamente mudar de nacionalidade, cabendo ao Presidente da República ou ao Ministro da Justiça meramente declarar a perda da nacionalidade. Assim, esse ato não será de natureza constitutiva, pois não é dele que deriva a perda, mas, sim, da própria naturalização, que antecede o decreto presidencial ou a portaria, e por força da qual se rompe o vínculo da nacionalidade brasileira.23 O procedimento administrativo, que assegurará ampla defesa, se dará perante o Ministério da Justiça. O interessado deverá apresentar, entre os documentos necessários, o certificado de naturalização e o requerimento dirigido ao Ministro da Justiça, solicitando a perda da nacionalidade brasileira devido à aquisição voluntária de outra nacionalidade. Como visto, a Constituição Federal prevê duas hipóteses de aquisição de outra nacionalidade (e, portanto, a pessoa terá dupla nacionalidade) que não acarretarão a perda da nacionalidade brasileira: a) O reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira: trata-se daquela adquirida com o nascimento – nacionalidade primária. Exemplo: pessoa que nasceu no Brasil, filha de cidadãos alemães que trabalhavam em empresa privada no País; b) A imposição de naturalização pela lei estrangeira, como condição para sua permanência naquele país ou para o exercício de direitos civis: tais direitos podem ser relacionados ao trabalho, à concessão da qualidade de herdeiro, entre outros. Citaremos o exemplo de Rezek sobre o caso de brasileira que contrai matrimônio com cidadão francês e é informada que adquirirá a nacionalidade francesa, a menos que compareça ante o juízo competente para, de modo expresso, recusar o benefício. Nesse caso, a inércia da brasileira não importa em naturalização voluntária, pois de sua partenão houve conduta específica visando à obtenção de outra nacionalidade.24 Outro exemplo é o caso do menor impúbere naturalizado alemão por intermédio de um dos seus genitores e que pretendeu estabelecer-se no Brasil após atingir a maioridade.25 O brasileiro naturalizado, que teve cancelada a sua naturalização por sentença judicial transitada em julgado, não poderá readquiri-la, a não ser mediante ação rescisória. Nesse contexto, não poderá fazê-lo por meio de novo processo de naturalização, sob pena de contrariedade ao texto constitucional, que restaria incongruente caso isso fosse possível.26 Por outro lado, depois de decretada a perda da nacionalidade pelo Presidente, no caso de aquisição de outra nacionalidade, caso a pessoa tenha interesse em reaver a nacionalidade brasileira, poderá readquiri-la, mediante decreto presidencial ou portaria do Ministro da Justiça, caso esteja domiciliado no Brasil (art. 36 da Lei n. 818). Dessa maneira, o interessado deverá requerer, junto ao Ministro da Justiça, a revogação do decreto ou da portaria que declarou a perda da sua nacionalidade brasileira, bem como anexar os demais documentos exigidos. Por fim, Rezek lembra que caberá ao Presidente da República anular, por decreto, a aquisição fraudulenta da nacionalidade brasileira por estrangeiro, a qual será considerada nula. Nessa hipótese, não se dá a perda da nacionalidade, uma vez que não se pode perder o que era inexistente desde o início.27 RESUMO 9.1 Considerações iniciais A nacionalidade identifica o liame jurídico fundamental entre o ser humano e o Estado, constituindo-se no elo que cria para ambos direitos e obrigações recíprocas. Trata-se de vínculo jurídico-político, social e moral que segue princípios instituídos pelo Estado, mas admitidos pelo Direito Internacional. 9.2 Interdisciplinaridade Objeto de DIPr, a nacionalidade tem sua institucionalização na ordem jurídica de cada Estado, sendo estudada ainda em outras áreas das ciências jurídicas, como Direito Constitucional, Direito Internacional Público e Direito Civil. 9.3 Nacionalidade originária Dois são os critérios usados pelos Estados para a concessão da nacionalidade originária ou primária: um privilegiando o vínculo familiar (jus sanguinis), e o outro dando primazia ao local do parto (jus soli). 9.3.1 Jus sanguinis Reinou quase absoluto ao longo da História, estando presente em muitos países, especialmente os mais populosos, como os europeus. Com a emigração diminuem os nacionais residentes no país, e o uso do jus sanguinis vai propiciar que os descendentes, nascidos nas novas terras, continuem ligados à pátria de seus genitores, aonde, ao chegarem, estarão capacitados para uma integração mais fácil. 9.3.2 Jus soli Adotado nos Estados novos ou em fase de desenvolvimento, pela necessidade de formação de uma população nacional, reduzida nesse período, é o critério mais comum nos países do continente americano. Normalmente, Estados que recebem muitos imigrantes adotam o jus soli, a fim de propiciar a integração dos descendentes na vida nacional. 9.4 Naturalização É o ato pelo qual o estrangeiro adquire a nacionalidade do país que o acolhe. Pode ser tácita ou expressa, admitindo o direito brasileiro apenas essa última. Trata-se de nacionalidade derivada e é faculdade exclusiva do Poder Executivo feita mediante portaria do Ministério da Justiça. A naturalização é ato personalíssimo, não abrangendo os familiares do novo nacional. 9.5 Conflitos de nacionalidade Decorrem dos critérios geradores da nacionalidade: plurinacionalidade e apatridia ou anacionalidade. 9.5.1 Plurinacionalidade É caso de dupla nacionalidade quando uma criança nasce em Estado que adota o jus soli sendo filha de estrangeiros, nacionais de país que admite o jus sanguinis. Assim, na hipótese de nascer no Brasil filho de casal francês em visita ao País, essa criança será francesa (jus sanguinis) e brasileira (jus soli). 9.5.2 Anacionalidade Os seres humanos sem nacionalidade ou apátridas são pessoas internacionalmente desprotegidas. A palavra apatridia, embora muito usada, é politicamente incorreta e porta forte viés estigmatizante, dando ideia de supressão do vínculo do ser humano com sua pátria. Sugerimos, por considerarmos mais adequado, o emprego de anacionalidade, pelo acréscimo do prefixo grego a, an, indicativo de negação, privação, ausência (sem), à palavra nacionalidade. Justifica-se esse termo por opor-se a nacionalidade, designativo do instituto, ao invés de apatridia, que contraria, na verdade, a ideia de patridia. Designar esse cidadão por anacional, termo menos contundente e mais brando do que apátrida, dá conotação de transitoriedade a sua situação e leva ao entendimento de que essa condição será passageira, pela inserção da pessoa entre os nacionais de um Estado. 9.6 Nacionalidade no ordenamento jurídico brasileiro Emana da Constituição (art. 12) e centra-se no jus soli (inc. I, a). Essa primazia do local de nascimento não é absoluta, com concessão ao jus sanguinis, condicionada a outros fatores: pai ou mãe a serviço do Brasil (inc. I, b) e registro em repartição brasileira (consulado ou embaixada) ou residência no Brasil e opção, em qualquer tempo, atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira (inc. I, c). 9.7 Perda da nacionalidade Admitida hoje na forma voluntária: renúncia ou abdicação e naturalização. Pode ser imposta em certos casos: atividades para governo estrangeiro (sem autorização do seu) e condenação por deslealdade, especialmente de naturalizado. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Tecer considerações sobre a nacionalidade como objeto do DIPr. 2. Conceituar jus sanguinis e jus soli e indicar qual seria hoje mais adequado na ordem jurídica brasileira. 3. Dissertar sobre o processo de naturalização no Direito brasileiro atual. 4. Manifestar seu juízo sobre a renúncia da nacionalidade, na época atual. 5. Comentar o instituto da apatridia e manifestar seu juízo sobre a posição do autor em relação ao tema. 6. Fazer uma análise da Emenda Constitucional n. 54 e sua importância na supressão da anacionalidade de filhos de brasileiros nascidos no estrangeiro. ______________ 1 Ver, entre outros, BATIFFOL, Henri e LAGARDE, Paul. Traité de droit international privé. p. 95. 2 Disponível em: <http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>. Acesso em: 20 out. 2013. 3 Disponível em: <http://www.cidh.org/Basicos/Portugues/c.Convencao_Americana.htm>. Acesso em: 20 out. 2013. 4 Disponível em: <http://www.cidh.org/Basicos/Portugues/b.Declaracao_Americana.htm>. Acesso em: 20 out. 2013. 5 Nesse sentido: RECHSTEINER, Beat Walter. Direito internacional privado – teoria e prática. GOLDSCHMIDT, Werner. Derecho internacional privado. BOGGIANO, Antonio. Curso de derecho internacional privado. 6 Nesse sentido: DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 41-87. STRENGER, Irineu. Direito internacional privado. p. 149-163. ESPINOLA, Eduardo. Elementos de direito internacional privado. p. 155-225. MONROY CABRA, Marco Gerardo. Tratado de derecho internacional privado. p. 133-222. 7 FERNANDEZ ROZAS, José Carlos. Derecho español de la nacionalidad. p. 40. 8 DEL’OLMO, Florisbal de Souza. O Mercosul e a nacionalidade: estudo à luz do direito internacional. p. 132-133. 9 FOELIX, M. Droit international privé. v. I, p. 104 (tradução livre). 10 Ver, entre outros, DOLINGER, J. Op. cit. p. 82. 11 PENNA MARINHO, Ilmar. Tratado sobre a nacionalidade. v. I. p. 33. 12 PENNA MARINHO, I. Op. cit. p. 246. 13 BATIFFOL, H.; LAGARDE, P. Op. cit. p. 127. 14 Disponível em: <http://www.onu.org.br/>. Acesso em: 26 out. 2013. 15 FARO JÚNIOR, Luiz P. F. Direito internacional público. p. 169. 16 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao24.htm>. Acesso em: 22 out. 2013. 17 Inteiro teor da Resolução n. 155 do Conselho Nacional de Justiça poderá ser obtido no site <http://www.cnj.jus.br/atos- administrativos/atos-da-presidencia/resolucoespresidencia/20313-resolucao-n-155-de-16-de-julho-de-2012>.Acesso em: 22 out. 2013. 18 DEL’OLMO, F. S. Op. cit. p. 121-134. 19 GUIMARÃES, Francisco Xavier da Silva. Nacionalidade – aquisição, perda e reaquisição. p. 104. 20 VALLADÃO, Haroldo. Direito internacional privado. v. I. p. 300. 21 MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de direito internacional público. p. 583. 22 LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. p. 779. 23 REZEK, Francisco. Direito internacional público – curso elementar. p. 189. 24 REZEK, F. Op. cit. p. 189. 25 MAZZUOLI, V. O. Op. cit. p. 582. 26 LENZA, P. Op. cit. p. 780. 27 REZEK, F. Op. cit. p. 190. http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm http://www.cidh.org/Basicos/Portugues/c.Convencao_Americana.htm http://www.cidh.org/Basicos/Portugues/b.Declaracao_Americana.htm http://www.onu.org.br http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao24.htm http://www.cnj.jus.br/atos-administrativos/atos-da-presidencia/resolucoespresidencia/20313-resolucao-n-155-de-16-de-julho-de-2012 CONDIÇÃO JURÍDICA DO ESTRANGEIRO “O Direito Internacional Privado é o anjo da guarda do ser humano em suas viagens através do espaço, e sua esplendente missão é assegurar a continuidade espacial, e, pois, também, temporal, da personalidade humana” (Haroldo Valladão). 10.1 Considerações iniciais Centraremos nossas reflexões sobre a condição jurídica do estrangeiro, objeto do Direito Internacional Privado, detendo-nos no seu tratamento no Brasil, alicerçados na Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980, conhecida como Estatuto do Estrangeiro (EE), com as alterações introduzidas pela Lei n. 6.964, de 09 de dezembro de 1981. A noção de estrangeiro emerge naturalmente: todo ser humano que se ausenta do Estado do qual é nacional assume o status de estrangeiro. A condição jurídica dessa pessoa depende de cada Estado, pois os países gozam de autonomia para oferecer a ela o tratamento que lhes parece mais adequado. Serão analisados os mecanismos usados pelos Estados para ingresso, permanência e afastamento de estrangeiros, bem como a concessão de visto, a expulsão e a deportação. A extradição, cuja importância na cooperação internacional contra o crime é cada vez mais acentuada, merecerá especial atenção. Breves referências serão tecidas sobre o anteprojeto de Estatuto do Estrangeiro atualmente no Congresso Nacional. 10.2 Ingresso e permanência Rotineiramente o ser humano goza de plena liberdade para residir e deslocar-se na expansão territorial de seu Estado. Nesse espaço, ele não encontra qualquer obstáculo à locomoção e à fixação de residência. Quando desejar afastar-se de seu país, contudo, vai necessitar, em regra, de documento especial – o passaporte – e, quando exigida, autorização nele inserida pelo Estado para o qual se está deslocando – o visto de entrada. No âmbito do Mercosul e dos países associados, há o “Acordo sobre Documentos de Viagem dos Estados-Partes do MERCOSUL e Estados Associados”, o qual reconhece a validade dos documentos de identificação pessoal de cada Estado como documento de viagem hábil para o trânsito de nacionais e/ou residentes regulares em seus territórios. Os documentos aceitos por cada país estão listados no anexo do referido acordo. Monroy Cabra classifica os Estados, quanto ao tratamento que dispensam aos estrangeiros – os direitos que reconhecem a essas pessoas – em três tipos de legislação, acentuando que essa inserção varia no tempo:1 a) igualitários: assimilam o estrangeiro aos nacionais; b) hostis: negam direitos, especialmente na aquisição de propriedade; c) de reciprocidade diplomática e legislativa: buscam o adequado equilíbrio. 10.2.1 Passaporte O passaporte é um documento oficial de identidade, de validade internacional, fornecido a quem pretende sair do País. Ele é aceito pelos Estados que reconhecem o País, garantindo o acolhimento desse ser humano no estrangeiro. Normalmente é concedido mediante a apresentação de outros documentos e o pagamento de taxas, indicando, por si só, a idoneidade do seu portador. A simples apresentação do passaporte, contudo, nem sempre assegura o ingresso do estrangeiro no país, havendo necessidade de nele constar visto de entrada, quando a legislação do país assim o exigir. Trata-se de exigência que decorre da prerrogativa natural dos Estados de exercer controle sobre a entrada e a permanência de cidadãos de outros países. Via de regra, o visto é concedido pela repartição consular ou diplomática do anfitrião. Cabe observar que nacionais de Estado não reconhecido pelo País necessitarão de um terceiro tipo de documento (Laisser-Passer), que se reveste do duplo papel de documento de viagem e visto de entrada. Esse é o caso de cidadão nascido em Taiwan que objetive ingressar no Brasil. 10.2.2 Visto O visto não é um direito, e sim uma cortesia. Sua concessão ocorre quando as autoridades consulares do país anfitrião entendem que a conduta do estrangeiro é adequada à sua ordem pública e o autorizam a nele ingressar. Assim, conforme o artigo 7º do Estatuto do Estrangeiro, o Brasil não concederá visto ao estrangeiro: a) menor de dezoito anos, desacompanhado; b) considerado nocivo à ordem ou aos interesses nacionais; c) anteriormente expulso; d) condenado por crime doloso passível de extradição; e) que não apresente condições de saúde (sem entrar no mérito sobre a constitucionalidade desse dispositivo). Os sete tipos de visto, previstos no artigo 4º da Lei n. 6.815/1980, são conhecidos pelo objetivo pretendido: I) Visto de trânsito: normalmente com validade de dez dias, destina-se ao estrangeiro que necessite passar pelo território brasileiro, ao dirigir-se a outro país. A simples permanência em portos ou aeroportos, se for de algumas horas, não exige tal visto. Para recebê-lo, devem ser apresentados apenas o passaporte, o certificado de imunização e o bilhete de passagem. II) Visto de turista: concedido ao estrangeiro que venha ao Brasil em caráter recreativo ou de visita, ou seja, sem finalidade imigratória. Tem validade máxima de cinco anos, permitindo estadas de noventa dias, prazo que pode ser reduzido a critério do Ministro da Justiça, bem como ser prorrogado por mais noventa dias. O visto permitirá ao estrangeiro adentrar em território nacional múltiplas vezes, dentro dos limites acima citados e desde que não exceda 180 dias por ano. Seu detentor não pode extrapolar o prazo de permanência que lhe foi concedido nem exercer atividade remunerada no Brasil. A exigência desse visto poderá ser dispensada ao turista nacional de país que dispense ao brasileiro igual tratamento, ou seja, vale a reciprocidade. Entre países limítrofes e que mantêm boas relações diplomáticas é comum a dispensa desse visto, admitindo-se o ingresso do turista apenas com a prova de identidade, quando há prévio acordo entre esses Estados (EE, art. 21). III) Visto temporário: é concedido ao estrangeiro que vem em missão de estudos, de negócios, como artista, desportista, cientista, professor, correspondente de periódico ou como ministro religioso. Exige-se prova de meios de subsistência e atestado de antecedentes penais, tendo validade entre noventa dias e quatro anos, conforme a finalidade da permanência do forasteiro no Brasil. IV) Visto permanente: objetiva regular a situação do estrangeiro que deseja morar no Brasil. Para isso, ele deve produzir o necessário para o sustento próprio e o de seus dependentes, fazendo do País sua segunda pátria ou mesmo adotá-la, mediante futura naturalização. Esse visto se limita a determinados tipos de atividades, com o fim de aumentar a mão de obra especializada e o desenvolvimento nacional. Exige-se, para a sua concessão, além dos documentos antes referidos, prova de residência, certidão de nascimento ou casamento e contrato de trabalho visado pelo Ministério do Trabalho quando for o caso. Sua concessão poderá ficar condicionada, por prazo não superior a cinco anos, ao exercício de atividade certa e à fixação em região determinada do território nacional (art. 18 do EE). É esse visto queassegura ao estrangeiro os direitos individuais, comparando-o aos nacionais, conforme o caput do artigo 5º do texto constitucional vigente. V) Visto de cortesia: é concedido pelo Ministério das Relações Exteriores, mediante convite feito pelas autoridades brasileiras a pessoas amigas e de reconhecido valor. VI) Visto oficial: será também concedido pelo Ministério das Relações Exteriores e se destina ao estrangeiro que vem ao Brasil em missão oficial e aos funcionários de órgãos internacionais portadores de salvo-conduto. VII) Visto diplomático: como os dois anteriores, terá seus casos de concessão, prorrogação ou dispensa definidos pelo Ministério das Relações Exteriores (art. 19 da Lei 6.815/1980). É concedido especificamente para as autoridades diplomáticas estrangeiras, acreditadas junto ao Governo brasileiro. O Ministério da Justiça poderá obstar a entrada, a estada ou o registro do estrangeiro – inclusive nos casos dos vistos de cortesia, oficial e diplomático – se entender inconveniente a sua presença no território brasileiro (art. 26 do EE). Alguns vistos poderão ser transformados em outros, como no caso de cientista, que poderá ter seu visto temporário convertido em permanente. Inclusive o visto oficial e o diplomático poderão ser permutados para visto permanente, ouvido o Ministério das Relações Exteriores, e mediante a cessação das prerrogativas, privilégios e imunidades até então concedidas ao seu detentor (parágrafo único do art. 39 da Lei n. 6.815/1980). Contudo, não poderão ser substituídos por visto permanente os vistos de trânsito, de turista e de cortesia. Os estrangeiros com visto permanente e na condição de asilados, bem como os que têm visto temporário, excluídos nesse grupo aqueles em viagem a negócios e os artistas e desportistas, têm de registrar seu visto, obrigatoriamente, junto ao Ministério da Justiça, no prazo de trinta dias, contados da entrada no Brasil ou da concessão do asilo. Os titulares de visto diplomático, oficial ou de cortesia também devem registrá-lo, no Ministério das Relações Exteriores, quando sua estada no Brasil ultrapassar noventa dias (art. 32 da Lei). Em qualquer dessas situações, o estrangeiro receberá um documento de identidade brasileiro. Para obtê-lo, o asilado e os detentores de vistos diplomático, de cortesia e oficial estão isentos de emolumentos e taxas. 10.3 Afastamento compulsório Está plenamente consolidada na sociedade internacional a repulsa à coação para saída de nacionais do território de seu próprio Estado. Essa postura é fruto da caminhada humana em favor da pessoa e dos valores democráticos, que repugnam o afastamento forçado de parcelas de suas populações, como os empregados por Hitler e Stalin, em meados do século passado. Nesse viés, os institutos jurídicos de saída compulsória de pessoas limitam-se aos estrangeiros, disciplinando as situações em que é lícita essa conduta. 10.3.1 Institutos em desuso Jacob Dolinger estuda2 as formas coercitivas de saída de pessoas, citando algumas não mais admitidas nas ordens jurídicas modernas. Refere ao repatriamento, termo em desuso na doutrina e no direito positivo, e que corresponde à deportação ou à expulsão. Outro instituto é o banimento, que consiste na expulsão de um nacional do país. Repelido pelas legislações mais avançadas e humanizadas, foi abolido do direito brasileiro pela Constituição de 1891. No entanto, em períodos de conturbação da vida nacional, como na ditadura de Vargas e no regime militar de 1964, praticou-se o banimento de brasileiros. Embora pouco referido pelos estudiosos, o banimento mais importante em nossa História foi o da Família Imperial, após a implantação da República. Assim, em 1903, foi impetrado por Olímpio Lima (e outros) habeas corpus em favor do Conde d’Eu, da Princesa Isabel e de seus filhos, banidos por Decreto de 21.12.1889. Alegava-se, além da revogação explícita desse Decreto pela Constituição, que os banidos estavam desviados da comunhão brasileira e privados do direito de ir e vir, concedido aos nacionais e estrangeiros. Por maioria de votos, o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus. Está também ausente das legislações modernas outro instituto indesejável: o desterro. Consiste no confinamento de nacional em determinado lugar do próprio país. O último caso a que se refere, no Brasil, foi do ex-presidente Jânio Quadros, desterrado em 1968 para Corumbá, no atual estado de Mato Grosso do Sul, onde permaneceu por quatro meses residindo em um hotel.3 Poderíamos ainda mencionar a deportação coletiva, confinamento em massa de pessoas, o mais das vezes no território do próprio País, e o degredo – pena nas Ordenações do Reino, que consistia em enviar o condenado para fora de Portugal, especialmente para a África ou para o Brasil colonial –, de triste lembrança na História brasileira, imposto aos inconfidentes mineiros de 1789. Integram as ordens jurídicas atuais, consentâneas com os princípios de justiça e liberdade de nossa época, a expulsão, a deportação e a extradição, que serão estudadas a seguir. Ainda dois outros institutos convêm ser referidos: a) mandado de captura europeu: instituído em 2004 na União Europeia, visando substituir, entre os países do bloco, o procedimento tradicional de extradição, oferecendo maior eficácia repressiva ao crime; b) entrega: mecanismo por meio do qual o Estado coloca à disposição para julgamento do Tribunal Penal Internacional, que entrou em funcionamento em 2002, pessoa acusada de delito internacional, em tese nacional desse país. 10.3.2 Expulsão A expulsão é o ato pelo qual o estrangeiro, com entrada ou permanência regular no Brasil, é obrigado a abandonar o País. Isso ocorre quando ele atenta contra a segurança nacional, a ordem pública ou social, a tranquilidade ou a moralidade pública e a economia popular, ou quando seu procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais. Os artigos 65 e segs. do Estatuto do Estrangeiro tratam do instituto da expulsão, assim como o Decreto n. 86.715/1981, que o regulamenta, em seus artigos 100 a 109. Entendia Grotius que “todo Estado possui o direito soberano de expulsar os estrangeiros que desafiam sua ordem pública e que se dedicam a atividades sediciosas”.4 Por sua vez, a jurisprudência americana afirma ser um direito inerente e inalienável de qualquer Estado soberano e independente a expulsão de estrangeiro, quando essencial para sua segurança, independência e paz. Também a Convenção Europeia sobre os Direitos do Homem, de 1984, dispõe que essa pessoa pode ser expulsa sem direito de defesa, se a expulsão for necessária no interesse da ordem pública ou da segurança nacional. A expulsão não é uma pena, mas, sim, uma medida administrativa, tomada pelo Estado, no uso de sua soberania. Trata-se de ato discricionário, de competência do Presidente da República. Pelo Decreto n. 3.447, de 05 de maio de 2000, o Presidente delegou essa competência, bem como a de revogar a expulsão, ao Ministro da Justiça, vedada a subdelegação. Somente são expulsos estrangeiros com permanência regular no País. Assim, se o brasileiro naturalizado tiver anulada sua naturalização, poderá ser expulso, já que voltará à condição de estrangeiro. Segundo o artigo 75 da Lei n. 6.815/1980, não será expulso o estrangeiro quando tal ato implicar extradição inadmitida pela lei brasileira (caso de crime político) e quando ele tiver cônjuge brasileiro ou filho brasileiro que dependa de sua economia. Uma vez cessadas tais situações, poderá proceder-se à expulsão. 10.3.3 Deportação Trata-se do processo de devolução de estrangeiro com permanência irregular no Brasil, ou que incorra nos casos do artigo 57 do Estatuto do Estrangeiro. Ele deverá retornar compulsoriamente para o seu Estado ou para aquele de onde proveio. É deportado o estrangeiro que se encontra com visto de permanência vencido, ou que entra no País sem visto válido, quando este for necessário. Também conduz à deportação o exercício de atividade remunerada no Brasil por estrangeiro com visto de trânsito,de turista ou temporário como estudante. Ainda, enseja essa saída compulsória o trabalho remunerado por fonte brasileira do correspondente de jornal, revista ou agência de notícias estrangeira que aqui se encontra com visto temporário. Normalmente, a deportação é precedida de notificação para que o estrangeiro abandone o País no prazo estabelecido pela lei. Entretanto, a critério do Departamento de Polícia Federal, em benefício da conveniência e dos interesses nacionais, a deportação poderá ocorrer sem a observância desse prazo. O artigo 57 da Lei n. 6.815/1980, como vimos, define os casos de deportação. A mesma norma jurídica prescreve os preceitos a serem seguidos no processo de deportação, sendo de oito dias o prazo concedido ao estrangeiro para sua saída do País. No caso de ingresso irregular, esse prazo é de três dias, improrrogáveis. Alguns autores referem que, embora não prevista no Estatuto, existe na prática a deportação de fato, que ocorre na fronteira, quando o estrangeiro tenta ingressar no território nacional irregularmente e é imediatamente repelido.5 Em contrapartida, Mazzuoli defende que a deportação só teria lugar após a entrada do estrangeiro no Brasil, ou seja, não se confunde com o impedimento na entrada, caso em que o estrangeiro, barrado na fronteira (como aeroporto ou porto), é mandado de volta ao país de origem, geralmente às expensas da própria empresa que o transportou, a qual não se certificou da regularidade da sua documentação.6 A deportação é de iniciativa do Departamento de Polícia Federal, devendo ser lavrado o termo competente quando de sua ocorrência. Eventual habeas corpus em favor do deportando deverá ser impetrado perante a Justiça Federal de primeiro grau. O artigo 62 do Estatuto permite a expulsão quando a deportação não for exequível, ou quando houver indícios de periculosidade do estrangeiro. Nesse caso, o habeas será contra ato do Presidente da República, perante o Supremo Tribunal Federal. Conforme regra o artigo 63 da mesma Lei, “não se procederá à deportação se implicar extradição inadmitida pela lei brasileira”. O Supremo definirá os casos de extradição não admitida, mas o estrangeiro indesejado poderá ser deportado para terceiro país, se o retorno ao país de origem corresponder a risco de pena a que não estaria ele sujeito no Brasil. A entrega (“deportação”) dos atletas Guillermo Rigondeaux Ortiz e Erislandy Lara Zantaya a Cuba, em agosto de 2007, identifica adequadamente caso de extradição inadmitida – situação em que a deportação ou expulsão implica riscos para a liberdade ou a vida do estrangeiro, quando a acusação que lhe é imputada no destino não pode ser tipificada fora do ilícito político. Evadidos da Vila Olímpica, no Rio de Janeiro, durante os Jogos Pan-Americanos, os indigitados jovens foram considerados traidores pelo então ditador Fidel Castro. Detidos pelas autoridades policiais brasileiras, foram deportados em 48 horas, por estarem sem passaporte, alegando nosso Ministro da Justiça que eles queriam retornar a Cuba e que não haviam solicitado asilo. O ato provocou indignação nos defensores dos direitos humanos, tendo a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovado, por unanimidade, em 05.09.2007, o envio de Comissão de Deputados a Cuba para entrevistar os atletas. O embaixador cubano no Brasil, alegando tratar-se de assunto interno de seu Estado, e já encerrado, informou a negativa de visto aos parlamentares brasileiros. Está permitido na própria Lei, artigo 64, o reingresso do estrangeiro deportado, bastando o pagamento de despesas e multas emergentes de sua deportação. Contudo, isso só ocorrerá se e quando o estrangeiro preencher os requisitos para sua entrada regular no Brasil. 10.3.4 Diferenças entre expulsão e deportação O quadro a seguir identifica as linhas de diferenciação entre os institutos da deportação e da expulsão. DIFERENÇAS ENTRE DEPORTAÇÃO E EXPULSÃO Deportação Expulsão Quanto à causa O estrangeiro penetra no país de forma irregular, ou a sua permanência se torna irregular pelo vencimento do prazo de seu visto. O estrangeiro tem permanência regular, mas esta se torna inconveniente ao país anfitrião, por crime ou atitude cometida por ele. Quanto ao processo Não existe. Sempre haverá instrução sumária, com observância de regras processuais rigorosas e decisão final pelo Presidente da República. Quanto aos efeitos O deportado poderá voltar ao Brasil, desde que regularizada a causa que impedira sua permanência. O expulso só voltará se revogado o decreto de expulsão. Eventual ingresso fora dessa situação poderá submetê- lo a julgamento, segundo o Código Penal, artigo 338: “Reingressar no território nacional o estrangeiro que dele foi expulso: Pena – reclusão de um a quatro anos, sem prejuízo de nova expulsão após o cumprimento da pena.” 10.3.5 Extradição: conceito e classificação Foelix entendia, há quase século e meio, tratar-se a extradição do ato “pelo qual um governo libera pessoa acusada de crime ou de delito a outro governo, que o reclama a fim de julgá-lo e puni- lo em razão dessa infração”.7 Giulio Catelani, por seu turno, vê hoje a extradição como um instrumento típico de cooperação internacional em matéria penal, por meio do qual um país entrega a outro pessoa “refugiada em seu território, contra a qual tenha sido iniciado procedimento penal, ou tenha sido emitida sentença penal de condenação definitiva, pela qual seja exigida pena restritiva de liberdade pessoal do sujeito”.8 Entendemos a extradição como o processo pelo qual um Estado entrega, mediante solicitação do Estado interessado, pessoa condenada ou indiciada nesse país requerente, cuja legislação é competente para julgá-la pelo crime que lhe é imputado. Destina-se a julgar autores de ilícitos penais, não sendo, em tese, admitida para processos de natureza puramente administrativa, civil ou fiscal. O instituto da extradição visa repelir o crime, sendo aceito pela maioria dos Estados, como manifestação da solidariedade e da paz social entre os povos. Conhecida desde a Antiguidade, a extradição visava, nos seus primórdios, aos presos políticos e não aos criminosos comuns, uso totalmente contrário, portanto, àquele que se dá ao instituto em nossos dias, quando não se o admite nas situações que envolvam crimes políticos. Foi o Tratado de Paz de Amiens, entre França, Inglaterra e Espanha, de 1802, que deu à extradição seu rumo quase definitivo, já que nela não foi cogitada a extradição de criminosos políticos. A consagração da orientação de sua inaplicabilidade nos casos de crimes políticos veio com a Lei Belga de 1833, que excluiu de seu alcance, em termos definitivos, os criminosos políticos. Em nome da liberdade individual, alguns autores se opõem à extradição, alegando que a busca de outro país pelo acusado não pode ser invalidada pela sua entrega ao país cuja lei penal ele infringiu. Porém, a maioria da doutrina aprova a extradição, como Luís Ivani Araújo que defende sua legitimidade, em virtude de os Estados deverem manter entre si a cooperação indispensável, a qual se manifesta inclusive no combate ao crime, evitando que o delinquente encontre – fora do alcance da justiça do país cuja lei violou – a almejada impunidade.9 José Frederico Marques, que considera a extradição o mais eficaz dos institutos de cooperação internacional na luta contra o crime, destaca que, sem ela, tanto o jus puniendi como o jus persequendi do Estado competente para julgar o delinquente ficariam anulados.10 A extradição pode ser vista conforme o quadro abaixo: CLASSIFICAÇÃO DA EXTRADIÇÃO Quanto ao pedido passiva Estado requerido ativa Estado que requer Quanto à finalidade instrutória Para julgamento executória Para cumprimento da pena já imposta Outras classificações, por vezes referidas, não apresentam maior relevância: espontânea e requerida; imposta e voluntária; administrativa e judicial; extradição em trânsito (passagem do extraditado pelo território de outro país); reextradição (entrega do criminoso,extraditado, a terceiro país, mediante autorização do Estado do qual ele proveio) e extradição de fato (entrega sem formalidade de pessoa indiciada). Essa última seria uma forma de deportação. 10.3.6 Extradição de nacionais Quase todos os Estados negam a extradição de seus nacionais, inclusive o Brasil. Constituem honrosas exceções o Reino Unido e os Estados Unidos. A Colômbia, pela reforma constitucional de 1997 (art. 35), admite extraditar colombianos natos por delitos cometidos no estrangeiro, desde que considerados como tais na legislação penal colombiana. A Itália, mediante reciprocidade, admite a extradição de cidadãos italianos. Os países da União Europeia dispõem agora do mandado de captura europeu. Baseado no reconhecimento mútuo das decisões judiciais, o instituto, essencialmente judiciário, suprime a fase política e administrativa dos processos de extradição e é empregado entre os países da União, que entregam seus nacionais quando indiciados ou condenados ao Estado-membro solicitante. Quando o extraditando é nacional do Estado requerente, ocorre a concessão, salvo motivo especial. Já se o extraditando é nacional de terceiro país, ela também é, em tese, admitida, entendendo alguns juristas que o Estado do qual ele é nacional deve ser comunicado, apenas por uma questão de cortesia internacional. Quanto à extradição de nacionais, inadmitida em nossa legislação, como referido, é amplamente dominante a opinião contrária, tanto na doutrina estrangeira como na brasileira. Assim, defendem convictamente a extradição de nacionais, entre outros, Clóvis Beviláqua, Gilda Maciel Correa Meyer Russomano, Rodrigo Otávio e Luís Ivani de Amorim Araújo, posicionamento que partilhamos. Deve-se considerar que nosso Direito não torna impunes os brasileiros que cometem delitos em outro país. Assim, quando se tratar de brasileiro nato, ele estará sujeito às sanções do Código Penal brasileiro, conforme preceitua o artigo 7º, II, b. Se for naturalizado, poderá ser extraditado em caso de crime comum praticado antes da naturalização ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins (art. 5º, LI, da Carta Magna vigente). 10.3.7 Requisitos e limites da extradição Dois requisitos se antepõem à extradição: a) especialidade: julgamento ou cumprimento de pena pelo delito considerado, tão somente; b) identidade ou dupla incriminação: o crime deve fazer parte da legislação de ambos os Estados considerados. A extradição depende da existência de tratado entre os países considerados ou de promessa de reciprocidade, embora o Estado não esteja impedido de conceder a extradição, mesmo não havendo tratado. Nesse caso, concedê-la-á por um dever moral, nunca por um dever jurídico. No direito positivo brasileiro a extradição, segundo o artigo 76 do Estatuto do Estrangeiro, “poderá ser concedida quando o governo requerente se fundamentar em tratado, ou quando prometer ao Brasil a reciprocidade”. Os delitos militares (deserção, insubordinação, abandono de posto) e os delitos de opinião também não ensejam a extradição. Os agentes dos crimes de terrorismo estão sujeitos à extradição na maioria dos países, uma vez que o terrorismo, pela sua violência e pelo menosprezo à vida humana, repugna a consciência da maioria das pessoas. Impõe-se analisar a distinção entre os delitos políticos e os de terrorismo, bastante difícil por impregnar-se muitas vezes de forte viés ideológico, o que relativiza essa delimitação. O terrorista visa à destruição de todo e qualquer governo, enquanto o criminoso político quer destruir apenas a forma de governo. O Comitê Jurídico Interamericano, em 1959, concluiu que “não são delitos políticos os crimes de barbárie e vandalismo, e em geral todas as infrações que excedam os limites lícitos do ataque e da defesa”.11 Segundo Edgar Amorim, o que distingue esses delitos são os meios empregados: o terrorismo se oculta na desídia, na emboscada, atacando inclusive pessoas que nenhuma relação têm com o governo ou com a situação política; ao passo que o crime político, mesmo que às escondidas, procura atingir a autoridade constituída.12 A extradição, medida severa, deve destinar-se, em tese, a crimes graves. Como esse conceito é vago, defendem alguns autores que constem nos tratados a relação dos delitos passíveis de extradição, ou que se delimite a pena mínima de tais crimes. O caso de condenado à pena de morte, residindo em país que não admite essa pena, pode dificultar a extradição, que costuma ser concedida mediante compromisso do Estado solicitante de não aplicar tão severa penalidade. Nesse contexto, tendo presente a Súmula 497 do STF,13 Ney Fayet Júnior sugere que o Brasil, ao conceder a extradição, imponha a utilização do instituto do crime continuado em termos da aplicação da pena. Assim, o Estado requerente se comprometeria a aplicar as regras do nosso ordenamento jurídico-penal, em detrimento do cúmulo material de penas, priorizando a norma de índole mais benéfica “do crime continuado, que encerra, exatamente, em linguagem honêtte, não apenas uma maior racionalidade, mas de modo fundamental, uma noção humanista de limitação do poder punitivo estatal”.14 10.3.8 Caso Pinochet Fato ocorrido em 1998 e amplamente divulgado na imprensa internacional, envolvendo o General Augusto Pinochet, teve notável importância para o instituto da extradição.15 Em 16 de outubro daquele ano, hospitalizado em Londres para procedimento cirúrgico, com passaporte diplomático, na condição de senador vitalício, o ex-ditador chileno foi detido, na própria clínica, pela polícia britânica. A prisão atendia a pedido de extradição do juiz espanhol Baltasar Garzón, que já havia emitido um mandado de detenção internacional contra o antigo Chefe de Estado andino. A intenção era levar Pinochet a julgamento na Espanha por delitos de genocídio, torturas e desaparições contra cidadãos espanhóis durante seu governo, de 1973 a 1990, embasando a petição em documentos internacionais em favor dos direitos humanos. No citado período de exceção, registraram-se no Chile mais de três mil mortes de perseguidos políticos, incluindo os delitos que agora se procurava julgar. A Câmara dos Lordes, instância máxima jurisdicional britânica, cassou por dois votos contra um, em novembro de 1998, a imunidade de Pinochet, abrindo caminho para sua extradição para a Espanha. Essa decisão foi anulada no mês seguinte pela mesma Câmara dos Lordes, já que fora alegada pela defesa do antigo ditador a suspeição de um dos magistrados por ligação com a Anistia Internacional. Nova sentença da mesma Corte londrina, em 24.03.1999, assegura imunidade a Pinochet no Reino Unido somente para os crimes cometidos até a entrada em vigor no País da Convenção da ONU contra a Tortura de 1984. Assim, embora o ditador não pudesse ser julgado pelos delitos cometidos desde o início de seu regime em 1973 até a internalização da Convenção no Reino Unido, poderia ser extraditado pelos que lhe fossem imputados a partir de 11 de dezembro de 1988, quando se iniciou a vigência da Convenção. Posteriormente, razões de ordem humanitária foram admitidas pelas autoridades britânicas para não dar andamento ao processo, entendendo que o octogenário não teria condições de saúde para se submeter a julgamento na Espanha. O pedido espanhol de extradição de Pinochet, como se depreende, estava em flagrante desacordo com os parâmetros do instituto, pois partia de terceiro país, por meio de magistrado de primeira instância e se destinava a julgar um antigo Chefe de Estado. No caso, o país do qual o acusado era nacional, o Chile, de onde deveria partir o pedido de extradição, era contrário à concessão e, inclusive, defendia o extraditando perante a Justiça inglesa. A solução dada ao caso, que provocou protestos de ativistas de direitos humanos em vários países, inclusive no Chile, redundou em abertura de processo contra Pinochet em seu país, inadmissível antes da petição espanhola. O antigo ditador faleceu em 10 de dezembro de 2006, aos 91 anos de idade,em Santiago. Entendemos que o caso Pinochet representa um divisor de águas na história da extradição, que comporta três fases: precursora, desde os primeiros indícios do instituto, na Antiguidade, até a Lei Belga de 1833; clássica, daí até o final do século XX; e contemporânea, após o julgamento do pedido espanhol contra Pinochet. Essa última fase se caracteriza por abrir caminho para que terceiros Estados solicitem extradição, fugindo do paradigma do instituto, pelo qual apenas ao país onde foi cometido o delito cabe reclamar o agente que se encontra no exterior. 10.3.9 Extradição na ordem jurídica brasileira A concessão da extradição em nosso país tem tratamento constitucional, cabendo ao Supremo Tribunal Federal “processar e julgar, originariamente, a extradição solicitada por Estado estrangeiro”, segundo o art. 102, I, g, da Carta Magna vigente. Tal determinação visa ao estudo, no mais alto tribunal brasileiro, do caráter da infração, uma vez que crimes políticos não ensejarão o deferimento da extradição. A decisão será tomada pelo Plenário, após examinada a legalidade e a procedência do pedido, não cabendo, por óbvio, qualquer recurso. Análise especial deve ser dada aos crimes conexos, quando coexistem duas infrações, uma política e outra comum, concedendo-se a extradição apenas quando o ato violador do direito comum for mais relevante. Segundo o artigo 77, § 3º, da Lei n. 6.815/1980, o Supremo pode deixar de considerar crime político o atentado contra Chefe de Estado ou outras autoridades, bem como atos de anarquismo, terrorismo, sabotagem, sequestro de pessoa ou propaganda de guerra. A extradição será requerida pela via diplomática ou de Governo a Governo. O pedido será instruído com cópia autêntica da certidão da sentença condenatória, da pronúncia ou da que decretar a prisão. O Ministério das Relações Exteriores remeterá a petição ao Ministro da Justiça, que a encaminhará ao Supremo Tribunal Federal. Caberá ao relator do processo no STF expedir a ordem de prisão do extraditando. Caso esse estrangeiro já se encontre preso, o pedido será encaminhado diretamente ao Supremo Tribunal Federal. A extradição e seu processamento estão regulados no Estatuto do Estrangeiro, artigos 76 a 94. 10.3.10 Tratados de extradição firmados pelo Brasil O quadro a seguir indica os países com os quais o Brasil firmou tratado de extradição, bem como a data da assinatura de cada um desses acordos, o decreto que o promulgou e a data da vigência. TRATADOS DE EXTRADIÇÃO FIRMADOS PELO BRASIL País/Bloco acordante Assinatura do Tratado Promulgação do Decreto no Brasil Entrada em vigor Argentina 15.11.1961 Decreto n. 62.979, de 11.07.1968 07.06.1968 Austrália 22.08.1994 Decreto n. 2.010, de 23.09.1996 01.09.1996 Bélgica 06.05.1953 Decreto n. 41.909, de 29.07.1957 14.07.1957 Bolívia 25.02.1938 Decreto n. 9.920, de 08.07.1942 26.07.1942 Chile 08.11.1935 Decreto n. 1.888, de 17.08.1937 09.08.1937 Colômbia 28.12.1938 Decreto n. 6.330, de 25.09.1940 02.10.1940 Coreia do Sul 01.09.1995 Decreto n. 4.152, de 07.03.2002 01.02.2002 CPLP16 23.11.2005 Decreto n. 7.935, de 19.02.2013 01.06.2009 Equador 04.03.1937 Decreto n. 2.950, de 08.08.1938 03.06.1938 Espanha 02.02.1988 Decreto n. 99.340, de 22.06.1990 30.06.1990 Estados Unidos 13.01.1961 Decreto n. 55.750, de 11.02.1965 18.12.1964 França 28.05.1996 Decreto n. 5.258, de 27.10.2004 01.09.2004 Itália 17.10.1989 Decreto n. 863, de 09.07.1993 01.08.1993 Lituânia 28.09.1937 Decreto n. 4.528, de 16.08.1939 19.07.1939 Mercosul 10.12.1998 Decreto n. 4.975, de 30.01.2004 01.01.2004 Mercosul, Bolívia e Chile 10.12.1998 Decreto n. 5.867, de 03.08.2006 11.04.2005 México 28.12.1933 Decreto n. 2.535, de 22.03.1938 23.03.1938 Paraguai 24.02.1922 Decreto n. 16.925, de 27.05.1925 22.05.1925 Peru (revogado) 13.02.1919 Decreto n. 15.506, de 31.05.1922 22.05.1922 Peru 25.08.2003 Decreto n. 5.853, de 19.07.2006 30.06.2006 Portugal 07.05.1991 Decreto n. 1.325, de 02.12.1994 01.12.1994 Reino Unido e Irlanda do Norte 18.07.1995 Decreto n. 2.347, de 10.10.1997 13.08.1997 República Dominicana 17.11.2003 Decreto n. 6.738, de 12.01.2009 25.12.2008 Romênia 12.08.2003 Decreto n. 6.512, de 21.07.2008 10.07.2008 Rússia 14.01.2002 Decreto n. 6.056 em 06.03.2007 01.01.2007 Suíça 23.07.1932 Decreto n. 23.997, de 13.03.1934 24.02.1934 Suriname 21.12.2004 Decreto n. 7.902, de 04.02.2013 02.02.2011 Ucrânia 21.10.2003 Decreto n. 5.938, de 19.10.2006 27.08.2006 Uruguai 27.12.1916 Decreto n. 13.414, de 15.01.1919 21.01.1919 Venezuela 07.12.1938 Decreto n. 5.362, de 12.03.1940 14.03.1940 10.3.11 Diferenças dos demais institutos Procuramos identificar, no quadro a seguir, as diferenças entre a extradição e os demais institutos estudados, a deportação e a expulsão. FORMAS DE AFASTAMENTO COMPULSÓRIO DO ESTRANGEIRO Extradição Deportação Expulsão Causa Solicitação do país, no qual a pessoa foi condenada ou indiciada, cuja legislação é competente para julgá-la pelo crime que lhe é imputado. O estrangeiro está no país de forma irregular (não cumpre as condições necessárias para o ingresso ou permanência regular no país). O estrangeiro está no país de forma regular, mas sua permanência se torna inconveniente ao país anfitrião, devido a crime ou atitude por ele cometida. Natureza Ato político-judicial. Medida administrativa (não é pena). Medida político-administrativa (não é pena). Iniciativa Ato bilateral, depende da solicitação de outro país. Iniciativa do Estado em que se encontra o estrangeiro – no Brasil, do Departamento da Polícia Federal. Iniciativa do Estado em que se encontra o estrangeiro – é ato discricionário do Presidente da República (decreto). Requisitos Existência de tratado ou promessa de reciprocidade. Não há. Não há. Quando não há recusa Em regra, é concedido ao Há inquérito (instrução sumária), Procedimen to sumária do Executivo, o pedido é analisado pelo STF. estrangeiro prazo para que se retire voluntariamente do país. com observação de regras processuais, perante o Ministério da Justiça. Destino do estrangeiro Deferida a extradição, o país requerente retirará o estrangeiro do território nacional. O estrangeiro é enviado para o país de sua nacionalidade, de sua procedência ou outro que consinta em recebê-lo. O estrangeiro é encaminhado para qualquer país que o aceite. Possibilidade de retorno ao Brasil Depende de cumprimento de sua pena no Estado em que foi condenado e da aceitação pelas autoridades brasileiras. Sim, desde que sanadas as irregularidades que impediam sua permanência no país. Em princípio, não poderá retornar, a menos que o decreto de expulsão seja revogado. Situações impeditivas Artigo 91 do Estatuto do Estrangeiro elenca requisitos para que se efetue a extradição. Quando implicar em extradição inadmitida. Quando implicar extradição inadmitida. Impossibilidade quando há cônjuge/filho brasileiro A lei não prevê. A lei não prevê. Sim, quando é casado há mais de 5 anos, ou tenha filho que dependa de sua economia. Possibilidade de brasileiro sofrer a medida Somente poderá ser extraditado brasileiro naturalizado, por crime comum anterior à naturalização ou por tráfico de drogas. Não se aplica. Não se aplica. 10.4 Jurisprudência brasileira Habeas Corpus. Decreto de Expulsão de Estrangeira. Condenação Anterior por Tráfico de Entorpecentes. Nascimento de Prole Nacional. Mudança para o Exterior Antes da Efetivação da Medida. Comprovação de Dependência Econômica e do Vínculo Socioafetivo. Ordem Concedida. 1. Cuida-se de habeas corpus contra ato praticado pelo Ministro de Estado da Justiça que determinou a expulsão da alienígena do território nacional, após o cumprimento de pena por tráfico internacional de drogas. Almeja a anulação do ato impugnado, a fim de inviabilizar sua expulsão, fundamentando o pedido no direito à convivência familiar e no princípio da máxima prioridade da criança, nascida em território nacional. 2. Caracteriza-se situação excludentede expulsabilidade, mesmo na hipótese em que o nascimento da prole nacional ocorre após a condenação criminal ou a edição do decreto de expulsão, quando há comprovação inequívoca da relação de dependência econômica e do vínculo socioafetivo entre estrangeiro e prole nacional, resguardando-se a proteção à unidade familiar e aos interesses da criança. Precedentes. 3. O habeas corpus é ação constitucional que deve ser instruída com todas as provas necessárias à constatação de plano da ilegalidade praticada pela autoridade impetrada, não se admitindo dilação probatória. 4. A proibição de expulsar estrangeiro que tenha prole brasileira objetiva não somente proteger os interesses da criança no que se refere à assistência material, mas também resguardar os direitos à identidade, à convivência familiar e à assistência pelos pais. 5. Ainda que não haja prova explícita da dependência econômica, essa se presume da situação fática, qual seja, uma criança com três anos incompletos, sem indicação de paternidade no registro de nascimento ou informação de outros parentes, além de sua mãe, ora impetrante e paciente. 6. Ordem concedida (STJ – HC 182.834/DF – 2010/0154483-7 – j. 27.04.2011).17 Processo Civil. Constitucional. Habeas Corpus. Estrangeiro. Nulidades não Comprovadas. Impossibilidade de Dilação Probatória. Decreto de Expulsão Emitido pelo Ministro de Estado da Justiça. Possibilidade. Delegação Legal. Reingresso de Estrangeiro Expulso. Impossibilidade. 1. Em razão dos princípios da economia processual e da fungibilidade recursal, nesta oportunidade, recebo a petição apresentada como agravo regimental. 2. O agravante não trouxe aos autos os documentos que comprovam a veracidade de seu descontentamento, tendo em vista a impossibilidade de dilação probatória ampla em sede de habeas corpus. 3. No que tange à alegação de que o Ministro da Justiça não é competente para decidir sobre a expulsão de estrangeiro, tal incompetência não subsiste, tendo em vista que, conforme orientação firmada nesta Corte Superior, é válida a delegação para o exercício de tal função, do presidente da república para a autoridade acima mencionada, conforme dispõe o art. 1º do Decreto n. 3.447/2000. Precedente: HC 184.415/DF, Rel. Ministro Cesar Asfor Rocha, Primeira Seção, julgado em 22.6.2011, DJe 5.8.2011. Agravo regimental improvido (STJ – PET no HC 269.976/RJ – 2013/0137972-5 – j. 28.08.2013).18 Extradição. Crime de Tráfico de Pessoas. Correspondência com o Crime de Tráfico Interno de Pessoa para Fim de Exploração Sexual. Dupla Incriminação Configurada. Prescrição: Não ocorrência. Inexistência de Óbices Legais à Extradição. Entrega Condicionada à Assunção de Compromisso Quanto à Detração da Pena. 1. Pedido de extradição formulado pela República da Colômbia que atende aos requisitos da Lei nº 6.815/1980 e do Tratado de Extradição específico. 2. Crime de tráfico de pessoas que corresponde ao crime de tráfico interno de pessoa para fim de exploração sexual, do art. 231-A do Código Penal. Dupla incriminação atendida. 3. Não ocorrência de prescrição e inexistência de óbices legais. 4. O compromisso de detração da pena, considerando o período de prisão decorrente da extradição, deve ser assumido antes da entrega do preso, não obstando a concessão da extradição. O mesmo é válido para os demais compromissos previstos no art. 91 da Lei nº 6.815/1980. 5. Extradição deferida (STF – Ext. 1290/DF – j. 25.06.2013).19 Habeas Corpus Substitutivo de Recurso Especial. Descabimento. Recente Orientação do Supremo Tribunal Federal. Alegação de Constrangimento Ilegal. Execução Penal. Progressão de Regime. Estrangeiro em Situação Irregular. Possibilidade. 1. Com o propósito de dar maior efetividade às normas previstas no art. 102, II, a, da Constituição Federal, bem como aos artigos 30 a 32 da Lei nº 8.038/90, recente jurisprudência do Supremo Tribunal Federal passou a não mais admitir o manejo de habeas corpus substitutivo de recursos ordinários (apelação, agravo em execução, recurso especial), tampouco como sucedâneo de revisão criminal. 2. O Superior Tribunal de Justiça alinhou-se a esta nova jurisprudência do Pretório Excelso e passou, igualmente, a restringir as hipóteses de cabimento do habeas corpus, não mais o admitindo em substituição aos recursos cabíveis. 3. O Superior Tribunal de Justiça entende que a situação irregular do estrangeiro, quando não acompanhado de processo de expulsão em andamento ou decreto com o mesmo propósito, não é suficiente para impedir o acesso ao benefício pretendido. 5. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, para, cassado o acórdão impugnado, restabelecer a decisão do Juízo das Execuções Criminais, que determinou a progressão ao regime semiaberto (STJ – HC 272.176/SP – 2013/0190348-1 – j. 20.08.2013).20 10.5 Projeto de novo Estatuto do Estrangeiro A Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980, teve sua principal reforma por meio da Lei n. 6.964, de 09 de dezembro de 1981, antes, portanto, da Constituição Federal de 1988. Nesse contexto, há vozes na doutrina sustentando que ela está divorciada das percepções humanistas contemporâneas, necessitando de reparos urgentes.21 Atento a esses clamores, em julho de 2009, o então Ministro da Justiça apresentou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei n. 5.655/2009, conhecido como Novo Estatuto do Estrangeiro, dispondo sobre o ingresso, a permanência e a saída de estrangeiros do território nacional, a concessão da naturalização, a criação do Conselho Nacional de Migração, além da definição de crimes e outras providências. Entre os diversos dispositivos do projeto que merecem destaque, a questão do ingresso de estrangeiros, mediante concessão de vistos, sofrerá consideráveis alterações na eventualidade de sua aprovação. O visto de trânsito será suprimido enquanto surgirá nova espécie, qual seja, o visto de turismo e negócios, concedido ao estrangeiro que venha ao Brasil em caráter recreativo, de visita ou de negócios. Também surgirá o visto de estudo, destinado ao estrangeiro que vem ao Brasil com finalidade acadêmica, bem como o visto temporário para tratamento de saúde, concedido ao estrangeiro que venha se tratar no País em caráter privado (sem a utilização de recursos do Sistema Único de Saúde). O visto temporário e suas hipóteses de concessão são minuciosamente detalhados, com a modificação de alguns prazos previstos na lei atual. Na vigência de casamento ou união estável em que um dos cônjuges (ou companheiros) tenha a nacionalidade brasileira, o outro terá direito a visto temporário por três anos, permitindo o trabalho remunerado e podendo ser transformado em permanente após o transcurso desse prazo, desde que ainda existentes as condições que autorizaram a concessão. Com relação ao visto de trabalho, o qual ganhou uma disciplina mais detalhada no projeto, haverá a possibilidade de sua transformação em visto permanente, pelo Ministério da Justiça, mediante justificativa da necessidade de permanência do estrangeiro no país, avaliada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. No caso de professor, técnico ou cientista aprovado em concurso público em instituição pública de ensino ou de pesquisa científica e tecnológica no Brasil, esse visto permanece até a aquisição da estabilidade, quando poderá ser transformado em permanente. Os estrangeiros que vivem em situação irregular no Brasil também foram lembrados, de maneira expressa, pelos redatores do projeto. A esses não nacionais, o Ministério da Justiça poderá autorizar a concessão de visto permanente ou autorização de residência, observadas as normas disciplinadoras da questão e condicionando o recebimento do pedido ao pagamento de multa. É conveniente referir as limitações relativas à atuação de estrangeiros em regiões nacionais consideradas estratégicas, como é o caso das áreas indígenas e daquelas ocupadas por quilombolas ou por comunidades tradicionais. Visando à proteção dos interesses nacionais, essas áreas somente poderão ser exploradas mediante prévia autorização dos órgãos competentes. Porfim, da leitura do projeto verifica-se a preocupação no sentido de que o novo Estatuto perfilhe a atual acepção humanista da imigração, desvencilhando-se da antiga concepção de segurança nacional. Ele se voltará para o estabelecimento de uma política nacional de migração, norteando-se pela garantia dos direitos humanos, interesses socioeconômicos e culturais do Brasil, defesa do trabalhador nacional, preservação das instituições democráticas e segurança da sociedade, bem como das relações internacionais. Dessa forma, em virtude da cristalina importância e progresso que o projeto tende a proporcionar para o Brasil nas suas relações internacionais, ressalta-se que há por parte das autoridades e estudiosos do Direito Internacional evidente interesse na aceleração do trâmite legislativo para sua aprovação22 com vistas a equiparar o atual cenário brasileiro às perspectivas de integração mundial. RESUMO 10.1 Considerações iniciais Será estudada a condição jurídica do estrangeiro, detendo-se no caso brasileiro, com base na Lei n. 6.815/1980 (Estatuto do Estrangeiro). Serão vistos os meios usados pelos Estados para ingresso, permanência e afastamento de seres humanos de outros países, como passaporte e visto, expulsão, deportação e extradição. 10.2 Ingresso e permanência Quando deseja afastar-se de seu país, por qualquer motivo, o cidadão necessita de documento especial, o passaporte, com autorização inserida pelo Estado para o qual se está deslocando, o visto de entrada. 10.2.1 Passaporte É um documento oficial de identidade fornecido a quem precisa sair do País. Ele é aceito pelos demais Estados, garantindo o acolhimento desse ser humano no estrangeiro. Sua concessão requer apresentação de outros documentos e pagamento de taxas e indica, por si só, a idoneidade do seu portador. 10.2.2 Visto O viajante necessita de visto concedido pelo Estado que o receberá. Entre países vizinhos e amigos, mediante tratado, basta o documento de identidade usual no Estado de origem, como ocorre entre os países do Mercosul. O visto não é um direito, mas uma cortesia. Classifica-se em visto de trânsito, de turista, temporário, permanente, de cortesia, oficial e diplomático. Alguns tipos de visto podem ser transformados em outros, atendidas determinadas condições. 10.3 Afastamento compulsório O Direito moderno não admite afastamento coercitivo de nacionais do Estado. Assim, os institutos jurídicos de saída compulsória de seres humanos destinam-se a estrangeiros, disciplinando as situações em que é lícita essa conduta. 10.3.1 Institutos em desuso Estão atualmente ausentes das ordens jurídicas institutos como degredo, desterro, banimento e deportação coletiva. São admitidos a expulsão, a deportação, a extradição, o mandado de captura europeu e a entrega. 10.3.2 Expulsão É o ato pelo qual o estrangeiro, com entrada regular no Brasil, é obrigado a abandonar o país, por razões de segurança nacional, ordem pública ou social, moralidade pública ou economia popular. Trata-se de direito inerente à soberania dos Estados. A expulsão não é uma pena, mas medida administrativa. É ato discricionário, de competência do Presidente da República, não se admitindo a expulsão quando implicar extradição inadmitida pela lei brasileira. 10.3.3 Deportação É o processo de afastamento do estrangeiro com permanência irregular no Brasil ou incurso nos casos do art. 57 da Lei n. 6.815/1980. Estrangeiro com visto de permanência vencido ou sem visto válido, ou, ainda, com visto de trânsito, de turista ou temporário como estudante ou correspondente de notícias e exercendo atividade remunerada no Brasil são passíveis de deportação. A deportação é de iniciativa do Departamento de Polícia Federal, sendo lavrado o termo competente na ocasião. 10.3.4 Diferenças entre expulsão e deportação Quanto à causa: deportação (estrangeiro irregular) e expulsão (regular, mas inconveniente ao país anfitrião). Quanto ao processo: deportação (sem processo) e expulsão (instrução sumária, com regras processuais rigorosas e decisão final do Presidente da República). Quanto aos efeitos: deportado poderá voltar ao País (regularização) e expulso (só voltará se revogado o decreto de expulsão). 10.3.5 Extradição: conceito e classificação Processo pelo qual um Estado entrega, mediante solicitação do país interessado, pessoa condenada ou indiciada no país requerente, cuja legislação é competente para julgá-la pelo crime que lhe é imputado. O instituto da extradição visa repelir o crime, sendo aceito pela maioria dos Estados, como manifestação da solidariedade e da paz social entre os povos. Classificação: ativa (em relação ao Estado que a requer) e passiva (ao Estado requerido), instrutória (julgamento) e executória (cumprimento de pena já imposta). 10.3.6 Extradição de nacionais Quase todos os Estados negam a extradição de seus nacionais, inclusive o Brasil. Exceção: Reino Unido, Estados Unidos, Colômbia (reforma de 1997) e Itália (mediante reciprocidade). Doutrina estrangeira e brasileira: amplamente favorável à extradição de nacionais. 10.3.7 Requisitos e limites da extradição Dois requisitos: especialidade (julgamento pelo delito considerado, tão somente) e identidade ou dupla incriminação (crime em ambos os Estados). Deve haver tratado entre os países ou promessa de reciprocidade. Extradição: crimes graves. Excluídos: crimes políticos, militares e de opinião. Terroristas: sujeitos à extradição (pela violência e menosprezo à vida humana). 10.3.8 Caso Pinochet Pedido espanhol (juiz Garzón, 1998): julgar genocídio, torturas e desaparições de espanhóis no Chile (1973-1990). Tratava-se de ex-chefe de Estado, que estava hospitalizado e partia de terceiro país. Divisor de águas na história da extradição (três fases): precursora, desde os primeiros indícios, na Antiguidade, até a Lei Belga de 1833; clássica, daí até o final do século XX; e contemporânea, após o caso Pinochet. 10.3.9 Extradição na ordem jurídica brasileira Processada e julgada pelo STF (plenário), após verificar a legalidade e procedência. Não caberá recurso. Requerida via diplomática ou de Governo a Governo, o pedido é instruído com cópia da sentença condenatória, pronúncia, ou que decretar a prisão. O Ministério das Relações Exteriores remete petição ao Ministro da Justiça, que a envia ao STF, cabendo ao relator no STF expedir ordem de prisão. Se o extraditando já estiver preso, o pedido vai diretamente ao STF. 10.3.10 Tratados de extradição firmados pelo Brasil Argentina, Austrália, Bélgica, Bolívia, Chile, Colômbia, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Coreia do Sul, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Lituânia, México, Paraguai, Peru, Portugal, Reino Unido, República Dominicana, Rússia, Suíça, Suriname, Ucrânia, Uruguai e Venezuela. Mercosul. 10.3.11 Diferenças dos demais institutos Expulsão: iniciativa do Estado, ato jurídico-político (competência do Presidente). Extradição: solicitada pelo país interessado, para onde irá o estrangeiro (STF). Deportado: pode retornar, após regularização. Iniciativa de cada Estado. Extraditado: após cumprimento de pena no país em que foi condenado e aceitação pelo Brasil. Ato bilateral: existência de tratado ou de promessa de reciprocidade. 10.4 Jurisprudência brasileira O Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal têm julgado muitos processos envolvendo estrangeiros, como habeas corpus contra ato de expulsão (STJ) e pedidos de extradição de acusados ou condenados de outros países homiziados no Brasil (STF). 10.5 Projeto de novo Estatuto do Estrangeiro Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n. 5.655/2009. Pontos principais: humanismo da imigração, norteando-se pela garantia dos direitos humanos, interesses socioeconômicos e culturais do Brasil, defesa do trabalhador nacional, preservação das instituições democráticas e segurança da sociedade e das relações internacionais. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Fazer um estudo sobre o ingresso de estrangeiro nos Estados, detendo-se sobre os tiposde visto adotados no ordenamento jurídico brasileiro. 2. Dissertar sobre institutos jurídicos para coagir o estrangeiro a se afastar do País. 3. Apresentar uma comparação entre a expulsão e a deportação no Direito brasileiro. 4. Tecer reflexões sobre o instituto da extradição sob o viés dos direitos humanos. 5. Manifestar seu posicionamento sobre a extradição de nacionais, justificando-a. 6. Elaborar um estudo sobre a extradição de terroristas. 7. Realizar uma investigação sobre o caso Pinochet e apresentar os ensinamentos que o mesmo lhe trouxe. 8. Pesquisar sobre casos notórios de extradição no Brasil. ______________ 1 MONROY CABRA, Marco Gerardo. Tratado de derecho internacional privado. p. 229-231. 2 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado (parte geral). p. 126-155. 3 MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de direito internacional público. p. 602-603. 4 DOLINGER, J. Op. cit. p. 130. 5 AMORIM, Edgar Carlos de. Curso de direito internacional privado. p. 88. 6 MAZZUOLI, V. O. Op. cit. p. 598. 7 FOELIX, M. Droit international privé. v. II. p. 327 (tradução livre). 8 CATELANI, Giulio. I rapporti internazionali in materia penale: estradizione, rogatorie, effetti delle sentenze penali stranieri. p. 13 (tradução livre). 9 ARAÚJO, Luís Ivani de Amorim. Curso de direito dos conflitos interespaciais. p. 98. 10 MARQUES, José Frederico. Tratado de direito penal. v. I. p. 318. 11 ZANOTTI, Isidoro. La Extradición. p. 238. 12 AMORIM, E. C. Op. cit. p. 92-93. 13 “Quando se tratar de crime continuado, a prescrição regula-se pela pena imposta na sentença, não se computando o acréscimo decorrente da continuação”. 14 FAYET JÚNIOR, Ney. Do crime continuado. p. 327-328. 15 Ver DEL’OLMO, Florisbal de Souza. A extradição no alvorecer do século XXI. p. 215-224. 16 Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. 17 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 2 nov. 2013. 18 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 17 out. 2013. 19 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 17 out. 2013. 20 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em: 17 out. 2013. 21 CHAPARRO, Verônica Zarate. Condição jurídica do estrangeiro. p. 178. 22 Em novembro de 2013 o Projeto de Lei permanecia em tramitação na Câmara dos Deputados. Para acompanhamento, acessar www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=443102. http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=443102 PESSOAS NO DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO “A pessoa humana é o ponto de partida e o ponto de chegada do Direito Internacional Privado. Ponto de partida, porque historicamente as normas de conflito são aplicadas quando os seres humanos ou suas relações jurídicas transpõem as fronteiras nacionais. Ponto de chegada, porque os novos rumos de nossa disciplina são traçados pela proteção dos direitos humanos e a identidade cultural dos Povos” (Sílvio Battello). 11.1 Considerações iniciais Consideramos oportuno inserir nesta obra capítulo dedicado especificamente ao ser humano no Direito Internacional Privado. Embora alguns temas, como a tutela e a curatela, costumem ser estudados em outros segmentos – no caso, no Direito de Família – vamos abordar agora a personalidade e institutos correlatos, dada a relevância que merecem na atualidade. A denominação do ser humano na seara jurídica é variada, sendo identificado como pessoa humana, pessoa natural, pessoa física, pessoa individual, pessoa de existência visível, pessoa, indivíduo e homem.1 Algumas dessas designações são mais usadas, de acordo com a preferência de quem se ocupa do tema. Nosso Código Civil (CC/2002) emprega pessoa, pessoa natural e indivíduo (arts. 1º a 9º). Usaremos, o mais das vezes, pessoa, pessoa física ou ser humano. 11.2 Personalidade Em um primeiro momento, pode-se entender a personalidade como a prerrogativa de adquirir e exercer direitos, portanto ser sujeito desses direitos. Além de direitos, também lhe é inerente a obrigação de cumprir deveres que a ordem jurídica impõe. Nessa tessitura, personalidade e capacidade têm conceitos muito próximos.2 Personalidade não se confunde necessariamente com ser humano, bastando lembrar as denominadas pessoas jurídicas, que podem ser de direito público, interno e externo, e de direito privado (CC/2002, arts. 40 a 69). Assim, entes como organizações, sociedades e fundações, cada um observando as disposições exigidas por lei, podem adquirir direitos e cumprir obrigações, merecendo tratamento semelhante ao atribuído à pessoa física. No sentido oposto, quanto à pessoa física, vem à tona a lembrança sempre lamentada da escravidão, nefanda instituição que permeou a história universal, pela qual seres humanos eram degradados à condição de coisa, não gozando, por conseguinte, de personalidade. Sobre a proximidade conceitual entre capacidade e estado, Osíris Rocha acentua que estado é o conjunto de direitos que uma pessoa tem por possuir determinada posição no grupo social, como estado de casado, de filho, de menoridade e de nacional, enquanto personalidade é o pressuposto para adquirir esse estado.3 No caso brasileiro, a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro preconiza que a legislação do país em que a pessoa tem seu domicílio determina o começo, bem como o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família (art. 7º). 11.2.1 Começo da personalidade O início da personalidade é tema importante e atual na esteira do avanço científico e do surgimento de novas formas de concepção humana. Para a teoria natalista, o início da personalidade se dá com o nascimento com vida, ao passo que para a teoria concepcionista, defendida por familiaristas e humanistas em geral, a concepção determina o começo da personalidade. A postura natalista ainda predomina nos ordenamentos jurídicos, exigindo por vezes a chamada viabilidade do recém-nascido, esperando que ele complete, por exemplo, vinte e quatro horas de vida, ou que disponha de figura ou forma humana (como dispunha o Código Civil espanhol, em seu art. 30, até a reforma que atualizou esse dispositivo a partir de 23.07.2011). No Brasil, que adota a teoria natalista, o Código Civil de 2002 (art. 2º), a exemplo do anterior, determina que esse início ocorra no momento do nascimento com vida, assegurando, desde a concepção, os direitos do nascituro. No Chile, a personalidade também começa ao nascer, ao separar-se completamente de sua mãe (art. 74 do CC). A teoria concepcionista está presente no Código Civil argentino, artigo 70, que atribui o começo da personalidade ao momento da concepção, a exemplo do Paraguai (art. 28 do Código Civil do País). A teoria adotada para o começo da personalidade tem relevância para o Direito Internacional Privado, especialmente no direito sucessório, uma vez que pode gerar substancial alteração no destino de patrimônios. Assim, a perda de gestação por mulher domiciliada em país que adota a teoria concepcionista permite que ela receba bens pertencentes ao pai do nascituro, falecido anteriormente a esse even-to, o que não ocorreria se seu domicílio ocorresse em país que reconhece a teoria natalista. 11.2.2 Término da personalidade Como visto no item anterior, o ordenamento jurídico brasileiro estabelece o fim da personalidade por intermédio da lei do domicílio da pessoa. Em tese, isso ocorre com a morte natural do ser humano, única forma em nosso Direito que põe termo à personalidade. O momento exato do falecimento pode apresentar divergências nas legislações, presentes os avanços científicos no campo médico. Institutos como morte civil (óbito jurídico de pessoa viva), certas condenações penais e morte religiosa (renúncia voluntária ou forçada a todos os direitos, inclusive sucessórios, pela pessoa que ingressa em ordem religiosa), ainda presentes em algumas legislações, são contrários à nossa ordem pública. A personalidade também cessava pelaescravidão, hoje formalmente extinta em todos os países. 11.3 Comoriência As situações em que várias pessoas falecem ao mesmo tempo, sem possibilidade de identificação da precedência do fato, podem gerar lides no campo do DIPr. As tragédias aéreas, nas quais morrem centenas de pessoas, caracterizam a comoriência, que também ocorre em catástrofes naturais com falecimentos concomitantes. Nesses acidentes, o número de vítimas com domicílio, herdeiros e bens em mais de um país acaba gerando processos que podem ser de difícil solução. A aplicação da lei do foro, solução que acaba prevalecendo quando ineficazes as conexões aventadas – domicílio, nacionalidade ou lugar do acidente, por exemplo – depende do local em que se procede à sucessão e da existência de bens em países diversos, recordando-se que os imóveis sempre são tratados pela legislação de sua situação. Há, como se observa, dificuldade prática de solução da lide por uma única lei. Nesse contexto, caso emblemático foi a morte de duas alemãs – a mãe de sobrenome Oppenheimer e sua filha, Cohn – refugiadas em Londres, em bombardeio durante a II Guerra Mundial. O viúvo da filha buscou parte da herança da sogra, alegando a presunção de morte da pessoa mais velha (direito inglês), contrário às ponderações do outro filho da senhora Oppenheimer, de que nesses casos os óbitos ocorrem ao mesmo tempo (direito alemão). O magistrado inglês decidiu que houve comoriência, não restando o que ser provado: o problema deixava de ser processual, afastando a lex fori, e no direito material a lei aplicável era a do domicílio das pessoas falecidas, portanto a lei alemã. Perdeu o genro seu pleito, já que a senhora Cohn, morrendo ao mesmo tempo em que a mãe, não chegou a ser herdeira dela.4 O Código Bustamante estabelece que as presunções de sobrevivência ou de morte simultânea devem ser reguladas pela lei pessoal do falecido em relação à sua sucessão, sempre que as provas sejam insuficientes (art. 29). O Código Civil brasileiro vigente (art. 8º) estabelece que, falecendo duas ou mais pessoas na mesma ocasião, sem possibilidade de averiguação se “algum dos comorientes precedeu aos outros, presumir-se-ão simultaneamente mortos”. As codificações civis da Espanha (art. 33) e do Chile (art. 79) também admitem que tais óbitos ocorreram no mesmo instante. 11.4 Ausência Caracteriza a ausência o afastamento da pessoa do seu domicílio, sem notícia do local em que se encontra. Trata-se de situação originada por fatores distintos e que vem causar grande insegurança nos familiares e nos amigos. Cabe ao ordenamento jurídico garantir a preservação dos bens dessa pessoa em benefício dela própria, de seus herdeiros e de seus credores. Ao mesmo tempo deve ser formalizada a ausência, o que gera, por vezes, lide de Direito Internacional Privado. No direito brasileiro, após um ano da arrecadação dos bens do ausente (realizada por curador nomeado pelo juiz), será declarada a ausência e aberta provisoriamente a sucessão (art. 26 do CC/2002). Transitada em julgado essa sentença de abertura, o testamento, se houver, será aberto cento e oitenta dias após a publicação pela imprensa e se procederá ao inventário e à partilha dos bens, como se o ausente fosse falecido (art. 28). Dez anos depois do trânsito em julgado dessa sentença, poderão os interessados requerer a sucessão definitiva e o levantamento das cauções prestadas (art. 37 do CC/2002). A preservação dos bens se dará com base na lei do foro, até pela necessidade de garantir esse patrimônio do ausente. Repita-se que os bens imóveis seguem a lei de sua localização. 11.5 Poder familiar O chamado pátrio poder, denotativo da ascendência paterna sobre os filhos, vem cedendo lugar, há várias décadas, à maior participação da mãe, consagrando-se agora no direito brasileiro a figura do poder familiar (arts. 1.630 a 1.638 do CC/2002), pelo qual a gerência das tarefas e encargos sobre a prole é partilhada por ambos os genitores. Decorre desse benfazejo avanço que os direitos, como os deveres, não mais competem apenas a uma pessoa, sendo que o pai ou a mãe exercerá esse poder com exclusividade apenas na falta ou impedimento do outro (art. 1.631). O instituto visa proteger o incapaz e não conferir direitos ao detentor desse poder, tal como ocorria no tempo dos romanos, razão pela qual a lei pessoal do filho ou a que lhe é mais favorável deve ser aplicada.5 No que tange ao DIPr, as conexões aventadas – domicílio ou nacionalidade dos pais ou do menor – não oferecem uma solução definitiva. Entendemos que a lei mais favorável ao menor deve ser a escolhida. Nessa tessitura, o Código Bustamante submete à lei pessoal do filho a existência e o alcance geral desse poder a respeito da pessoa e bens da criança, como as causas da extinção e recuperação do mesmo poder (art. 69). 11.6 Tutela Antes de estudar a tutela e a curatela no DIPr, cabe lembrar, com Werner Goldschmidt, os três problemas surgidos para a proteção dos incapazes: a lei que nos indica que pessoas podem ser consideradas incapazes; que país tem jurisdição internacional para protegê-las; e a lei que disciplina tal proteção, distinguindo os casos de tutela dos de curatela.6 Lafayette Pereira define tutela como “o poder conferido a alguém, em virtude de lei, para proteger a pessoa e reger os bens dos menores que estão fora do pátrio poder”.7 O tutor substitui os pais falecidos ou destituídos do poder familiar, o que pode ocorrer, por exemplo, em casos de condenação penal ou interdição por perda das faculdades mentais. A tutela constitui-se em encargo civil atribuído a alguém por lei, por testamento ou pelo juiz, para que proteja o menor e administre seus bens. Poder-se-á deixar de nomear tutor quem, passível dessa investidura por sua lei pessoal, esteja condenado penalmente ou tenha conduta inaceitável, contrariando a lex fori. Esclarece Clóvis Beviláqua que os tutores nomeados em um Estado, seguindo a lei pessoal do incapaz, devem ser reconhecidos em toda parte e podem exercer sua autoridade sobre os bens do tutelado, onde quer que se encontrem esses bens.8 Segundo o caput do artigo 36 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n. 8.069/1990 – com redação da Lei n. 12.010/2009 –, “a tutela será deferida, nos termos da lei civil, a pessoa de até dezoito anos incompletos”. Trata-se da dicção do Código Civil de 2002, que reduziu a maioridade civil para dezoito anos. Apresenta-se a tutela sob três espécies: a) testamentária: atribuída por testamento; b) legítima: determinada por lei aos parentes consanguíneos do menor – ascendentes, preferindo o de grau mais próximo ao mais remoto, e colaterais até o terceiro grau (art. 1.731 do CC/2002); c) dativa: também decidida pela justiça, com nomeação de tutor, na ausência das anteriores. Caracteriza-se sempre a tutela pela obrigatoriedade, gratuidade, generalidade e indivisibilidade com relação aos bens, não devendo o menor ter mais de um tutor. Deve ainda haver assídua vigilância das autoridades nas atividades do tutor.9 O Código Civil vigente disciplina pormenorizadamente o instituto da tutela nos artigos 1.728 a 1.766. A norma brasileira de Direito Internacional Privado está contida no artigo 7º, § 7º, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, segundo o qual o domicílio do tutor ou do curador se estende aos incapazes sob sua guarda. Assim, os direitos e deveres do tutor são regidos pela lei domiciliar deste, a qual também regula os direitos do tutelado. 11.7 Curatela A curatela é um encargo conferido a alguém, o curador, para que cuide, seguindo normas legais, dos interesses de pessoa que se encontra juridicamente impossibilitada de fazê-lo. Ainda, a curatela protege o interesse público da sociedade. Não coincidem as legislações quanto ao grau de incapacidade que sujeita a pessoa à curatela, com o que um ser humano, sob a proteção do instituto em uma ordem jurídica, pode não ser passível desse amparo em outro país. No Direito brasileiro, onde a curatela tem regulamentação completa no Código Civil (CC/2002),estão sujeitos ao instituto o enfermo e o deficiente mental sem discernimento suficiente para a vida civil; o que não pode exprimir a sua vontade por causa duradoura; o ébrio habitual e o viciado em tóxicos; e o pródigo (art. 1. 767). Também o nascituro, ser humano gerado enquanto se encontra no ventre materno, cujo pai falece e a mãe não detém o poder familiar, tem amparo curatelar (art. 1.779). A nomeação de curador, a exemplo do instituto da tutela, rege-se pela lei do domicílio da pessoa a ser investida. No caso do nascituro, será a lei pessoal da mãe (local de seu domicílio). Tal como a tutela, nossa norma de Direito Internacional Privado relativa à curatela está inserida na LINDB (art. 7º, § 7º), regendo-se pela lei do país onde o curador tem seu domicílio. 11.8 Ação de alimentos Essa ação envolve direitos indispensáveis à própria sobrevivência de ser humano incapaz de provê-la, seja por idade – menor ou idoso –, enfermidade ou outro fator. Relações familiares menos harmônicas, como separação de cônjuges e abandono de filhos, são a principal fonte dessas lides. Ainda, as obrigações alimentícias podem originar-se de contrato, legado sucessório, responsabilidade extracontratual, nulidade de casamento e tutela, entre outros. A pessoa que, por parentesco ou vínculo similar, deve fornecê-las por vezes tem domicílio em território sob outro ordenamento jurídico. Clóvis Beviláqua preconizava solução pela lei pessoal do alimentando ou pela lex fori, quando da sua impossibilidade.10 A proteção do credor alimentício deve ser o princípio básico que direciona as normas de direito aplicável. A causa da obrigação, porém, determina o alcance da solução e a própria delimitação das normas conflituais.11 Assim, obrigação alimentícia que tenha causa exclusiva em um contrato ou em uma norma sucessória será regida pelas disposições aplicáveis a essas relações jurídicas. Reportamos o leitor ao capítulo oitavo desta obra, o qual se ocupa da homologação de sentenças estrangeiras, em que encontrará mais subsídios sobre o tema, incluindo Convenção da ONU sobre prestação de alimentos no estrangeiro, assinada em Nova Iorque em 1956. RESUMO 11.1 Considerações iniciais Este capítulo se ocupa da pessoa ou ser humano, abordando a personalidade, a comoriência, a ausência, o poder familiar, a tutela, a curatela e a ação de alimentos, temas com especial relevância na atualidade. 11.2 Personalidade Cotejando capacidade e estado, Osíris Rocha acentua que estado é o conjunto de direitos que uma pessoa tem por possuir determinada posição no grupo social, como estado de casado, enquanto personalidade é pressuposto para adquirir esse estado. 11.2.1 Começo da personalidade Em tese, é estabelecido pelo nascimento com vida da criança, teoria natalista, tal como ocorre no Direito brasileiro, exigindo alguns Estados outros requisitos, como a viabilidade do recém- nascido. A teoria concepcionista, defendida por humanistas, vê na concepção o início da personalidade e está presente em muitos países. 11.2.2 Término da personalidade Ocorre com a morte natural do ser humano, cujo momento exato pode apresentar algumas divergências nas legislações presentes os avanços médicos. No Brasil, o fim da personalidade é regido pela lei do domicílio da pessoa. 11.3 Comoriência Trata-se da morte de muitas pessoas ao mesmo tempo, sem possibilidade de identificação da precedência do fato, podendo gerar lides no campo do DIPr. A aplicação da lei do foro prevalece quando ineficazes outras conexões, como domicílio, nacionalidade ou lugar do acidente, por exemplo. 11.4 Ausência A ordem jurídica deve assegurar a preservação dos bens do ausente em benefício dele, seus herdeiros e credores. A formalização da ausência gera, por vezes, lides de Direito Internacional Privado, com a presunção ou a declaração de sua morte. Em tese, a segurança dos bens é feita com base na lei do foro. 11.5 Poder familiar Entendemos que a lei mais favorável ao menor deve ser observada. O Código Bustamante submete à lei pessoal do filho a existência e o alcance geral desse poder a respeito da pessoa e bens da criança, como às causas da extinção e recuperação do mesmo poder (art. 69). 11.6 Tutela Tutela é o poder conferido pela lei à pessoa capaz para proteger a pessoa e reger os bens de menores que estão fora do poder familiar. O tutelado tem de ter menos de dezoito anos de idade. Pode ser testamentária, legítima e dativa. O domicílio do tutor se estende aos menores sob sua guarda. 11.7 Curatela É o encargo conferido a uma pessoa (curador) para que cuide, dentro dos limites estabelecidos por lei, dos interesses de alguém que não possa, legalmente, administrá-los. A legislação que rege a curatela é a mesma da tutela. 11.8 Ação de alimentos Envolve direitos indispensáveis à própria sobrevivência de ser humano incapaz de provê-la, seja por idade, enfermidade ou outro fator. Relações familiares menos harmônicas, como separação de cônjuges e abandono de filhos, são a principal fonte dessas lides. A solução é pela lei pessoal do alimentando, ou, na impossibilidade dessa, pela lex fori. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Conceituar personalidade, capacidade e estado e fazer um cotejo entre eles no contexto do Direito Internacional Privado. 2. Comentar a relevância jurídica de morte do feto, cuja mãe tem domicílio no Brasil, no caso de que esse domicílio fosse em Estado no qual a personalidade ocorre no momento da concepção. 3. Analisar a importância para o DIPr das divergências de legislação sobre o término da personalidade do ser humano. 4. Tecer considerações sobre a ressonância na área do DIPr de mortes de pessoas da mesma família ocorridas em acidentes aéreos, como o de 17.07.2007, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. 5. Dissertar sobre o poder familiar em caso de pessoas domiciliadas em países diferentes. 6. Explicitar a regulação da tutela no Direito brasileiro. 7. Proceder a um estudo sobre os institutos da tutela e da curatela nos ordenamentos jurídicos, detectando sobre eles simetrias e divergências nas legislações. ______________ 1 SILVA ALONSO, Ramón. Derecho internacional privado. p. 165-166. 2 Para Espínola “personalidade e capacidade jurídica são expressões idênticas”. ESPINOLA, Eduardo. Elementos de direito internacional privado. p. 404. 3 ROCHA, Osíris. Curso de direito internacional privado. p. 98. 4 Ver, entre outros, ROCHA, O. Op. cit. p. 101-102. 5 ANDRADE, Agenor Pereira de. Manual de direito internacional privado. p. 232. 6 GOLDSCHMIDT, Werner. Derecho internacional privado (derecho de la tolerancia). p. 226. 7 PEREIRA, Lafayette Rodrigues. Direitos de família. p. 285. 8 BEVILÁQUA, Clóvis. Princípios elementares de direito internacional privado. p. 246. 9 CASTRO, Amílcar. Direito internacional privado. p. 414. 10 BEVILÁQUA, Clóvis. Princípios elementares de direito internacional privado. p. 244-245. 11 FERNÁNDEZ ROZAS, José Carlos; SÁNCHEZ LORENZO, Sixto. Derecho internacional privado. p. 473. DIREITO DE FAMÍLIA E DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO “Na estrutura do Estado, a família é o núcleo social primário mais importante. Antecede nas suas origens ao próprio Estado, pois é uma sociedade natural decorrente de uma profunda e transcendente exigência do ser humano” (José Russo). 12.1 Direito de Família Para Pontes de Miranda, “o direito de família tem por objeto a exposição dos princípios jurídicos que regem as relações de família, quer quanto à influência dessas relações sobre as pessoas, quer sobre os bens”.1 O Direito de Família se ocupa do casamento, fundamento legítimo da família; da união estável entre um homem e uma mulher, formadora de uma entidade familiar, conforme previsão da Constituição Federal de 1988; do reconhecimento dos filhos; do pátrio poder, que passou a se denominar poder familiar pelo Código Civil de 2002; do estado civil das pessoas; da tutela, da curatela e da adoção, que são estudadas em outros segmentos desta obra. Do casamento emergem relações pessoais e matrimoniaisentre os cônjuges, relações entre pais e filhos, e, em alguns casos, separação e divórcio e prestação de alimentos. Até o século XVI toda a matéria relativa ao casamento era disciplinada pelo Direito Canônico, havendo praticamente um direito uniforme sobre o instituto,2 comum a todos os povos ocidentais, os quais se encontravam submetidos ao Corpus Juris Canonici. Apenas o regime matrimonial dos bens e o contrato de dote eram regidos pela lei laica do lugar da celebração do ato. Foi também nesse século que surgiu o casamento civil sob a forma legal, tendo a Holanda sido, provavelmente, o primeiro país a adotá-lo.3 Acentuou-se a tendência de legislar sobre essa forma de contrato, ainda que enfrentando, no começo, a oposição da Igreja Católica. Ademais, conforme a doutrina contemporânea, Enrique Varsi Rospigliosi conceitua o casamento como um fato jurídico familiar celebrado por duas pessoas de sexos complementares com a finalidade básica de constituir vida em comum, procriar e educar seus filhos.4 Entende Rodrigo Pereira que a união estável é a família formada, sem o vínculo do casamento civil, pela relação afetivo-amorosa, estável e duradoura, entre um homem e uma mulher, não adulterina e não incestuosa, vivendo ambos sob o mesmo teto ou não.5 Instituto bastante informal, a convivência duradoura é essencial para comprovar sua existência: “O relacionamento more uxorio continuado e sua ostensibilidade são requisitos objetivos, caracterizadores, fundamentalmente, dessa situação fática”,6 como esclarece José Russo. 12.2 Casamento e conflito de leis no espaço Desde o século XVIII, o lugar de celebração do ato foi estabelecido como critério para a forma e a substância do casamento. Com esse emprego do locus regit actum, o casamento realizado em um país, em princípio, é reconhecido nos demais. Story optou pela lei do domicílio conjugal para as relações pessoais entre os cônjuges, inclusive para o divórcio e para a destinação dos bens móveis, elegendo a lei da situação da coisa para os bens imóveis, como já se definira nos demais ramos do direito privado, desde Bartolo. Trata-se do sistema analítico (ou plural) para dirimir os conflitos de leis no Direito de Família. Oposto a esse critério, surgiu o sistema sintético (ou unitário), preconizando um só princípio para as relações de família, nas quais o elemento de conexão é o domicílio, para Savigny, ou a nacionalidade, para Mancini. De qualquer forma, estar-se-ia regendo o casamento pela lei pessoal (domicílio ou nacionalidade). No entanto, o sistema sintético não resolve algumas questões, tal como qual será o regime de bens (o do homem ou o da mulher), quando são eles cidadãos de países diferentes. Como se depreende, o emprego do sistema unitário se mostra inviável. O direito brasileiro adota, em essência, o sistema analítico, já que aplica o domicílio para os direitos de família (art. 7º, caput, da LINDB) e a lex rei sitae para o conhecimento de ações relativas a imóveis situados no País (art. 12, § 1º, da LINDB). 12.3 Normas brasileiras sobre casamento 12.3.1 Capacidade A capacidade para o casamento é regida pela lei pessoal de cada um dos noivos. Se domiciliado em país estrangeiro, o nubente deve ter a capacidade para casar segundo a legislação de seu Estado, ou seja, capacidade para, por si, exercer direitos e contrair obrigações. No Chile, a maioridade civil ocorre aos 18 anos (art. 26 do CC). Portanto, o chileno com essa idade tem plena capacidade para se casar (art. 106 do seu código). A maioridade na Venezuela também se dá aos 18 anos (art. 18 do Código Civil venezuelano), adquirindo-se, a partir dessa idade, a capacidade para casar sem necessitar de consentimento dos pais, segundo o art. 59 do mesmo diploma legal. O artigo 126 do Código Civil da Argentina estabelece o início da capacidade civil plena aos 21 anos. O Código Civil do Paraguai (art. 36) prescreve que a capacidade civil somente é atingida aos 20 anos. A Espanha, no artigo 315 de seu Código Civil, prevê a aquisição da maioridade aos 18 anos. O Código Civil da Itália, no artigo 2º, fixa a maioridade aos 18 anos cumpridos. Em Portugal, a capacidade civil plena é atingida também aos 18 anos, na forma estatuída por seu Código Civil (art. 130). O Código Civil brasileiro de 1916 (art. 9º) previa a maioridade aos 21 anos. Em 2002, o novo Código Civil diminuiu para 18 anos o momento da aquisição da capacidade civil plena (art. 5º), ou seja, quando a pessoa passa a poder exercer pessoalmente todos os atos da vida civil. Outrossim, há previsão de antecipar a capacidade do menor relativamente incapaz pelo casamento, pelo exercício de emprego público efetivo e pela colação de grau em curso superior, entre outros dispositivos do parágrafo único desse artigo. Historicamente, antes do surgimento do Decreto n. 181, em 1890, menores do sexo feminino poderiam se casar aos 12 anos, enquanto varões poderiam ligar-se matrimonialmente aos 14 anos, tal como pregavam as disposições canônicas. Esse Decreto estabeleceu a idade núbil aos 14 anos para as mulheres e aos 16 anos para os homens. O Código Civil de 1916 elevou a idade núbil para 16 e 18 anos e, atualmente, o Código de 2002 estabelece a idade nupcial aos 16 anos de idade para ambos os sexos.7 No que tange especificamente à capacidade para o casamento, o artigo 1.517 do Código Civil de 2002 estabelece que os menores relativamente incapazes, entre 16 e 18 anos, embora incapazes para os atos da vida civil em geral, podem se casar mediante autorização de ambos os pais ou de seu representante legal. Tal consentimento será igualmente necessário nos casos de tutela e curatela. Salienta-se que essa assistência é exigida para todos os atos da vida civil dessas pessoas. Segundo o Código Civil de 1916, quando as vontades dos pais não convergiam, prevalecia a vontade paterna, dispositivo que foi corrigido com o advento do atual Código, no qual, havendo divergência entre os pais, a questão deverá ser resolvida judicialmente mediante provocação de quaisquer das partes (art. 1.517, parágrafo único, c/c art. 1.631, parágrafo único). O artigo 1.518 do Código estabelece que a autorização pode ser revogada até a data da celebração do casamento e o artigo 1.519 afirma que “a denegação do consentimento, quando injusta, pode ser suprida pelo juiz”. Sem entrar no mérito das eventuais justificativas para esse dispositivo legal, o Código Civil dispõe que, não alcançada a idade núbil, o casamento será permitido em duas situações excepcionais: a fim de evitar imposição ou cumprimento de pena criminal ou em caso de gravidez. No caso de desvirginamento de menor, o autor do crime pode desposar a vítima, estando esta de acordo, evitando-se, assim, a imposição da pena. Para tanto, ter-se-á de obter em juízo o suprimento da idade da menor. Salienta-se que o Código Civil de 1916 previa que o juiz poderia, conforme o caso, ordenar a separação de corpos entre os cônjuges, até que se atingisse a idade legal (art. 214, parágrafo único). No entanto, o Código atual não repetiu tal dispositivo. 12.3.2 Impedimentos e formalidades Segundo o § 1º do artigo 7º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, “realizando- se o casamento no Brasil, será aplicada a lei brasileira quanto aos impedimentos dirimentes e às formalidades de celebração”. Os chamados impedimentos dirimentes estavam elencados nos doze primeiros incisos do artigo 183 do Código Civil brasileiro de 1916. Nos incisos I a VIII estavam inseridos os impedimentos dirimentes públicos ou absolutos, como o casamento entre irmãos ou de pessoas casadas. Era nulo de pleno direito o casamento celebrado com infração a qualquer desses obstáculos jurídicos, os quais eram de ordem pública. Os impedimentos dirimentes privados ou relativos, como o casamento de pessoas incapazes de consentir, contidos nos incisos IX a XII do referido artigo, provocavam a condição de anulável ao casamento que violasse uma daquelas proibições legais, as quais apenas prejudicavam os interesses dos contraentes. Existiam ainda nesseart. 183 mais quatro incisos, XIII a XVI, chamados de impedimentos impedientes ou proibitivos, caso de pessoa viúva com filho do cônjuge falecido enquanto não fizesse inventário dos bens do casal. A infração a esses dispositivos não invalidava o casamento, mas ocasionava sanções patrimoniais aos cônjuges, como obrigatoriedade do regime de separação parcial de bens (Súmula n. 377 do STF)8 e a perda do usufruto dos bens dos filhos menores do leito anterior. O Código Civil de 2002 modificou o sistema de impedimentos matrimoniais, criando tão somente sete impedimentos dirimentes em seu art. 1.521, incs. I a VII,9 os quais, quando violados, inquinam o casamento de nulidade absoluta. No artigo 1.523, incisos I a IV,10 surgiram as denominadas causas suspensivas, impondo ao casamento a condição de anulável quando descumpridas. Além dos impedimentos de nosso direito positivo, seria conveniente observarem-se as limitações impostas pela legislação do país de origem dos nubentes. Isso poderia facilitar o reconhecimento do casamento realizado no Brasil, em eventual retorno à sua pátria. Quanto à celebração do casamento, deverá ser observada a legislação do país em que ele se realiza. Trata-se do princípio locus regit actum, a lei local rege o ato aí ocorrido, em toda a sua plenitude. Portanto, os noivos, para se casarem no Brasil, qualquer que seja sua nacionalidade ou domicílio, devem preencher os requisitos dos artigos 1.525 a 1.52711 do Código Civil de 2002 e artigos 67 a 6912 da Lei n. 6.015/1973 (Lei dos Registros Públicos). Os proclamas, publicados nos distritos dos nubentes, apresentam dificuldade quando um dos noivos é domiciliado no exterior. A rigor, dever-se-ia publicar em lugar ostensivo do cartório do ofício do domicílio dos nubentes e na imprensa do mesmo local, se houver. Na prática, a publicação ocorre, no caso de estrangeiro habilitando-se para casar em nosso país, nos locais de domicílio dos noivos apenas no Brasil. Considerando-se a existência de embaixadas e consulados brasileiros no exterior, uma alternativa seria a fixação dos proclamas nessas repartições. 12.3.3 Casamento por procuração O casamento, no direito brasileiro, pode ser realizado por procuração com poderes especiais. O Código Civil de 1916 (art. 201) admitia que a procuração fosse, inclusive, elaborada por instrumento particular, contanto que fosse reconhecida a firma do nubente mandatário. O Código Civil de 2002 (art. 1.542) exige que a procuração seja lavrada por escritura pública. Contudo, muitos ordenamentos jurídicos não admitem o casamento por procuração. Tendo o noivo seu estatuto pessoal (domicílio ou nacionalidade) em país que não aceita o instrumento procuratório para a realização do casamento, seria conveniente que o juiz brasileiro observasse essa limitação, a qual não fere nossa ordem pública, evitando dificuldade ao nubente quando retornar a seu Estado. Segundo o Regulamento Consular brasileiro, não é possível a realização de casamento por procuração em embaixadas e consulados no exterior. Tal proibição faz sentido na medida em que tais repartições prestam serviços consulares referentes a atos de registro civil a cidadãos brasileiros residentes na sua jurisdição. Assim, se desejarem casar por procuração, poderiam simplesmente fazê-lo no Brasil. O Chile, por exemplo, admite o casamento por procuração, desde que lavrada por escritura pública (art. 103 do seu CC). Assim, um chileno, com domicílio em seu país, que casasse no Brasil por procuração, na vigência do Código Civil brasileiro de 1916, deveria utilizar-se do instrumento procuratório dessa natureza para evitar nulidade quando de seu retorno à pátria. 12.3.4 Casamento no consulado Poderá o casamento ser celebrado em consulado brasileiro ou no setor consular de uma embaixada brasileira no exterior, conforme dispõe o artigo 1.544 do Código Civil de 2002, e o artigo 18 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Para tanto, requer-se que ambos os nubentes sejam brasileiros e que a legislação do país em que se situa o consulado não coíba tal tipo de celebração em seu território. A autoridade consular, que deverá ser de carreira, expedirá a certidão do casamento, após tê- lo registrado em livro próprio. As formalidades e os impedimentos para esse casamento serão, obviamente, os da legislação brasileira. Caso um ou ambos os nubentes voltem ao Brasil, essa certidão deverá ser registrada no cartório do respectivo domicílio, no prazo de cento e oitenta dias (art. 1.544 do CC). Assim, a autoridade consular deverá orientar os interessados a promover o traslado de certidões de casamento expedidas em repartições consulares no Cartório do 1º Ofício do Registro Civil no local de seu domicílio no Brasil ou do Distrito Federal, na falta de domicílio conhecido. Convém acentuar que casamento de brasileiros realizado em Embaixada ou Consulado brasileiro com sede em país que não admita em seu território esse ato não será realizado. O regulamento consular brasileiro só permite à autoridade consular realizar casamentos quando não contrariar a legislação local, por força da Convenção de Viena de Relações Consulares (art. 5º, f). Quanto a casamento de brasileiro com estrangeiro no exterior, portanto, perante as autoridades locais competentes desse país, esclarece José Russo: “A autoridade consular tem poderes para certificar esse casamento, após fazer o seu assento, extraindo a respectiva certidão, para um possível traslado em território brasileiro, na oportunidade do retorno de um ou de ambos os contraentes.”13 Por outro lado, , segundo o § 2º do artigo 7º da Lei de Introdução, antes referida, “o casamento de estrangeiros poderá celebrar-se perante autoridades diplomáticas ou consulares do país de ambos os nubentes”, caso em que as formalidades e impedimentos serão os de sua legislação. 12.3.5 Nulidade do casamento Segundo o § 3º do artigo 7º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, “tendo os nubentes domicílio diverso, regerá os casos de invalidade do matrimônio a lei do primeiro domicílio conjugal”. Edgar Amorim considera uma incongruência tal dispositivo, pois o casamento é realizado com base na lei do local de sua celebração e a discussão de possível anulação poderá ocorrer já sob outro ordenamento jurídico, uma vez que os recém-casados podem estabelecer-se, e isso muitas vezes acontece, em outro Estado.14 Válida a observação, entende-se que seria mais adequado a anulabilidade submeter-se à legislação sob a qual se deu a celebração do matrimônio. 12.3.6 Regime de bens O Código Civil de 1916 admitia os seguintes regimes de bens no casamento: – Comunhão parcial: contém três patrimônios, ou seja, o próprio da mulher, bens que possuía até o casamento, o próprio do marido, bens que lhe pertenciam antes de casar, e o comum, também denominado de aquestos, ou seja, os bens adquiridos durante o casamento, a título oneroso. Após a lei do divórcio, Lei n. 6.515, de 26.12.1977, esse regime passou a ser o regime legal de bens, que vigorará não havendo convenção ou sendo esta nula, quanto aos bens entre os cônjuges (art. 258, caput, do Código revogado). – Comunhão universal: há apenas um patrimônio comum entre os cônjuges; necessita de pacto antenupcial e era o regime legal de bens no período anterior à lei do divórcio. – Separação total: portador de tão somente dois patrimônios, o próprio da mulher e o próprio do marido, inexistindo patrimônio comum e exigindo a elaboração de convenção antenupcial para a sua constituição. – Dotal: a ser instituído por pacto antenupcial, quando um determinado patrimônio seria transferido ao marido, que o administraria e auferiria recursos para a subsistência da família. No entanto, está há muito fora de uso no Direito de Família brasileiro, mesmo na vigência do Código revogado. O Código Civil de 2002 extinguiu o regime dotal e oferece à escolha dos contraentes os seguintes regimes de bens no casamento: – Comunhão parcial (arts. 1.658 a 1.666): com as mesmas características existentes no Código anterior,inclusive a condição de regime legal de bens (art. 1.640). – Comunhão universal (arts. 1.667 a 1.671): normatizado de forma idêntica ao mesmo regime de bens do Código de 1916. – Participação final nos aquestos (arts. 1.672 a 1.686): desponta como uma inovação do Código de 2002. Trata-se de um regime de separação total de bens, podendo cada cônjuge administrar livremente o patrimônio próprio, dispondo dele quando for bem móvel e necessitando da vênia conjugal quando imóvel. Na ocorrência da dissolução da sociedade conjugal, pela morte de um dos cônjuges, pela separação judicial ou pelo divórcio direto, serão apurados os aquestos (bens adquiridos na constância do casamento a título oneroso), atribuindo-se a cada um, ou a seus herdeiros, se for o caso, a respectiva meação, como se o regime fosse o da comunhão parcial de bens. – Separação de bens: é o regime da separação total ou absoluta de bens (arts. 1.687 e 1.688), com os mesmos requisitos previstos no Código de 1916. O ideal quanto ao regime de bens, segundo Osíris Rocha, seria que, uma vez fixado, fosse único, abrangendo todos os bens do casal, onde quer que estivessem situados,15 e que fosse imutável. No Código Civil de 1916, o regime de bens tinha o caráter de irrevogável como previa o mandamento do art. 230. Nesse aspecto, houve inovação no Código Civil de 2002 com a quebra do princípio básico da imutabilidade do regime de bens. De acordo com o art. 1.639, § 2º, “é admissível a alteração do regime de bens, mediante autorização judicial em pedido motivado de ambos os cônjuges, apurada a procedência das razões invocadas e ressalvados os direitos de terceiros”. Essa revogabilidade do regime de bens, admitida pelo Código de 2002, poderá trazer o risco de um dos cônjuges ser objeto de coação por parte do outro, para que consinta na modificação do regime adotado no casamento. A permissão para que qualquer dos cônjuges possa dispor livremente de seus bens móveis ou imóveis, alienando-os ou gravando-os de ônus real, independentemente da vênia conjugal, no casamento pelo regime da separação absoluta de bens, contida no art. 1.687, merece registro. Nesse caso, poderá estar sendo diminuída a segurança do futuro dos filhos. Para a união estável, o art. 1.725 prescreve que vigorará o regime da comunhão parcial de bens, no que couber, “salvo contrato escrito entre os companheiros”. No Direito Internacional Privado brasileiro, segundo o § 4º do artigo 7º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, “o regime de bens, legal ou convencional, obedece à lei do país em que tiverem os nubentes domicílio, e, se este for diverso, à lei do primeiro domicílio conjugal” (grifo acrescido). Também quanto a esse aspecto discorda Edgar Amorim, que lembra ocorrer a definição do primeiro domicílio conjugal posteriormente ao casamento, quando a escolha do regime de bens deve preceder à celebração do matrimônio.16 Estaria aberta uma porta para a fraude, o que não ocorreria se o regime de bens seguisse a lei da celebração do casamento. Diametralmente oposto a esse é o entendimento de Osíris Rocha, que justifica a opção do legislador brasileiro pelo primeiro domicílio conjugal na falta do domicílio dos nubentes, por haver uma indicação positiva de adaptação, na lei comum, ou naquela do meio social a que os nubentes se terão integrado pelo primeiro domicílio conjugal.17 Deve-se ressaltar que o § 5º do artigo antes referido permite que o estrangeiro casado que se naturalize brasileiro requeira ao juiz que seja apostilada a adoção do regime de comunhão parcial de bens, respeitados os direitos de terceiros. Convém recordar que, além das normatizações referidas na Lei de Introdução, várias outras opções têm sido aventadas na doutrina para o regime de bens: lei nacional de cada um dos cônjuges, cumulação das leis nacionais dos cônjuges, lei do domicílio do marido, lei do foro, lei do autor da demanda e princípio da autonomia da vontade. Durante a vigência da Introdução ao Código Civil de 1916, que tinha a nacionalidade como elemento de conexão para o regime de bens do casamento, muitas vezes o juiz brasileiro viu-se diante de situações inusitadas. Por exemplo, no caso de italianos casados que chegavam pobres ao Brasil e aqui faziam fortuna. Como na Itália o regime de casamento, na ausência de pacto antenupcial, era de separação de bens, o patrimônio pertencia ao marido, sendo herdado por colaterais quando de sua morte. Assim, esse patrimônio, formado com esforço conjunto e sacrifício do casal, se aplicada a lei italiana, fugiria para parentes afastados do marido, domiciliados na Itália, muitas vezes sem vinculação afetiva com ele, deixando a mulher na miséria. Com a admissão do domicílio como elemento de conexão, pela Lei de Introdução ao Código Civil, em 1942 – que em 2010 teve seu nome alterado para Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro –, casos dessa natureza deixaram de ocorrer. 12.4 Divórcio O direito dos romanos, assim como o dos povos germânicos, admitia a dissolução do casamento, com o rompimento pleno do vínculo conjugal. O crescimento e consolidação do cristianismo, com poder moral, social e até temporal sobre muitos povos, ocasionou o desenvolvimento de sua própria legislação, o Direito Canônico, para o qual o matrimônio é indissolúvel, com raríssimas exceções. Isso se dá porque para a Igreja Católica o casamento é um sacramento. Atualmente, o divórcio integra o direito positivo de quase todos os povos, tendo sido o Chile, que o incorporou ao seu ordenamento jurídico em 2004, um dos últimos países a admiti-lo. No Brasil, sua implantação ocorreu somente em 1977, por meio da Emenda Constitucional n. 09, de 28.06.1977, vencida a tradicional oposição da Igreja. Nesse contexto, a Lei n. 11.441, de 04 de janeiro de 2007, veio desburocratizar o divórcio direto consensual, permitindo que os casais que não possuam filhos menores ou incapazes possam optar pela ruptura do vínculo matrimonial por intermédio de escritura pública lavrada em Tabelião de Notas, ou seja, por via administrativa, também denominada extrajudicial. Nesse caso, as partes devem ser assistidas por advogado, cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial. Posteriormente, a Emenda Constitucional n. 66, de 13 de julho de 2010, deu nova redação ao § 6º do artigo 226 da Constituição Federal, nos seguintes termos: “O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio”. Dessa forma, ficaram suprimidos os requisitos de prévia separação judicial por mais de um ano ou de comprovada separação de fato por mais de dois anos, para a vigência do divórcio no Brasil. Outrossim, de acordo com a Lei n. 12.874, de 29.10.2013, que alterou o art. 18 da LINDB, as autoridades consulares brasileiras podem celebrar a separação e o divórcio consensuais de brasileiros no exterior. Princípio estabelecido pelo Instituto de Direito Internacional, em Bruxelas, em 1948, determina que “a aceitação ou não do divórcio fica na dependência da lei nacional dos cônjuges”. Por tal princípio, deixa-se de observar a lei do domicílio. Essa regra, observa Edgar Amorim, foi aceita por quase todos os países, prevalecendo apenas a lei do domicílio se o requerente do divórcio é anacional.18 Quanto às causas que embasam o pedido de divórcio, serão as da lei do lugar onde tramitará a ação. O Instituto de Direito Internacional, na mesma norma, estabeleceu que “a admissibilidade do divórcio rege-se pela lei do lugar onde intentada a ação, a menos que a lei nacional dos cônjuges se oponha à instituição do divórcio” e que “a determinação das causas do divórcio depende da lei do foro”. O estrangeiro divorciado que vier para o Brasil verá reconhecidos os efeitos pessoais e patrimoniais de tal sentença, salvo de bens imóveis que eventualmente tenha no Brasil. Já o brasileiro que retornar do estrangeiro divorciado só terá homologada a respectiva sentença, pelo Superior Tribunal de Justiça, após o cumprimento das exigências nacionais. Como veremos em item próprio, a jurisprudência brasileira sobre homologaçãode sentenças estrangeiras, no que tange ao direito de família, tem sido intensa ultimamente, de modo especial sobre divórcio de brasileiros em outros países. A separação de corpos (afastamento do lar de um dos cônjuges e fim dos deveres de fidelidade conjugal) também se rege pela lex fori. Se concedida no estrangeiro, poderá ser homologada no Brasil, pois não contraria nossa ordem pública. 12.5 Casamento entre pessoas do mesmo sexo O julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 4.277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 132, acabaram por tornar mais abrangente a interpretação do art. 1.723 do Código Civil de 2002, admitindo o reconhecimento legal, como entidade familiar, da união homoafetiva. Nessa linha principiológica, a decisão proferida não apenas reconheceu a legalidade da união estável homoafetiva, como ratificou a regra do caput do art. 5º da Carta Magna: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.19 Nesse sentido, o Conselho Nacional de Justiça aprovou, durante sua 169ª Sessão Plenária, a Resolução n. 175, de 14 de maio de 2013, determinando que os cartórios de todo o País não poderão recusar a celebração de casamentos civis de pessoas do mesmo sexo ou deixar de converter em casamento união estável homoafetiva. A Resolução teve sua vigência a partir de 16 de maio do mesmo ano.20 Reconheceu-se, assim, como entidade familiar a união de casais do mesmo sexo sob o aspecto de que as famílias patriarcal e monoparental se fundavam no afeto. Pela mesma razão, parte-se do princípio de que qualquer união, pautada no respeito e na comunhão de vida, preenche os requisitos constitucionais em vigor quanto ao reconhecimento de entidade familiar, consagrando-se, então, as uniões homoafetivas como entidade familiar. Tal reconhecimento significa dar direitos iguais a todos os casais, consagrando o princípio da isonomia do Estado. 12.6 Jurisprudência brasileira Direito Internacional. Processual Civil. Sentença Estrangeira Contestada. Divórcio. Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826, de 02.12.1965). Chancela Consular. Desnecessidade. Precedente do STF. Debate sobre Mérito. Inviabilidade. Precedentes do STJ. Violação ao art. 89 do CPC. Não Verificada. Requisitos de Homologação Presentes. 1. Cuida-se de pedido de homologação de sentença estrangeira de divórcio, encaminhada sob o rito da Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826, de 2.12.1965). A contestação traz três objeções ao pleito: a necessidade de autenticação consular da sentença original, alegações de mérito referidas ao cumprimento das obrigações de prestação de alimentos e a alegação de que a homologação violaria a competência da justiça brasileira, nos termos do art. 89 do CPC. 2. É dispensada a chancela consular na sentença alienígena no caso de prestação de alimentos, por força da atuação do Ministério Público Federal, como autoridade intermediária na transmissão oficial dos documentos, nos termos da Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826, de 02.12.1965), conforme reconhecido pela jurisprudência do STF: SE 3016, Rel. Min. Décio Miranda, Tribunal Pleno, publicado no DJ em 17.12.1982, p. 13.202 e no Ementário v. 1280-01, p. 148. 3. Não é possível efetuar o debate acerca do mérito da sentença homologanda, exceto nos limites estritos da aferição de potencial violação à soberania nacional ou a ordem pública pátria. Neste sentido: SEC 7.478/EX, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, Corte Especial, DJe 04.03.2013; SEC 5.121/EX, Rel. Min. Ari Pargendler, Corte Especial, DJe 28.02.2013; e SEC 7.987/EX, Rel. Min. Castro Meira, Corte Especial, DJe 29.10.2012. 4. Da leitura da sentença homologanda, infere-se que nada foi consignado acerca de patrimônio ou de imóveis existentes no Brasil. O que se tratou foi da guarda do menor, da venda de um imóvel no México e da atenção aos alimentos e, portanto, não subsiste a presença de quaisquer elementos que atraiam a aplicação do artigo 89 do Código de Processo Civil. Além do mais, o divórcio foi consensual e a jurisprudência do STJ já definiu que “é válida a disposição quanto à partilha de bens imóveis situados no Brasil na sentença estrangeira de divórcio, quando as parte dispõem sobre a divisão” (SEC 5.822/EX, Rel. Min. Eliana Calmon, Corte Especial, DJe 28.02.2013). 5. Estando presentes os requisitos formais, previstos na Resolução STJ n. 09/2005, é de ser homologada a sentença de divórcio proferida no estrangeiro. Pedido de homologação deferido. (STJ – SEC 7173/EX – 2011/0311424-0, j. 07.08.2013).21 Sentença Estrangeira Contestada. Acordo de Divórcio e Guarda dos Filhos Menores. Sentença Proferida pela Justiça Brasileira em Relação à Guarda. Impossibilidade de Homologação nesse Ponto. Pedido Deferido em Parte. 1. De acordo com o art. 35 do ECA, a guarda poderá ser revogada a qualquer tempo por meio de decisão judicial fundamentada, ouvido o Ministério Público. 2. A existência de sentença da Justiça brasileira sobre a guarda dos filhos menores impossibilita a homologação do provimento judicial estrangeiro que lhe contrarie, mesmo que seja prolatada após o trânsito em julgado da decisão a qual se pretende homologar. Nesses casos, deve-se preservar a soberania nacional. Precedentes. 3. Devidamente apresentada a documentação exigida e inexistindo óbices na ordem jurídica interna, é possível a homologação da sentença estrangeira apenas quanto à dissolução da sociedade conjugal. 4. Pedido de homologação de sentença estrangeira deferido em parte (STJ – SEC 4830/EX – 2011/0037363-4, j. 16.09.2013).22 Processual Civil. Sentença Estrangeira Contestada. Divórcio. Ausência de Interesse. Improcedente. Necessidade de Firma Pessoal na Entrega Postal. Inaplicabilidade da Lei Processual Nacional aos Feitos por Carta Rogatória no Estrangeiro. Precedentes. Requisitos de Homologação Presentes. 1. Cuida-se de requerimento contestado em prol da homologação de sentença estrangeira de divórcio. São trazidos dois óbices à homologação: o primeiro, refere-se à alegada ausência de interesse ou necessidade de homologação, já que não houve registro prévio do casamento dissolvido no Brasil; o segundo, é no sentido de que a citação por carta rogatória deveria observar o princípio da pessoalidade, insculpido no art. 215 do Código de Processo Civil. 2. “Não é condição para a homologação da sentença estrangeira de divórcio que o casamento tenha sido realizado no Brasil ou registrado no consulado brasileiro; ademais, o fato de a requerida ser cidadã brasileira caracteriza o interesse necessário ao deferimento do pedido” (SE 4708/CH, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, decisão publicada no DJe em 29.04.2010). 3. A jurisprudência do STJ é clara no sentido de que os atos de citação efetivados no estrangeiro devem seguir os ditames da lei local; logo, o requisito da pessoalidade, existente no artigo 215 do Código de Processo Civil, não pode ser utilizado como empecilho formal para inviabilizar o reconhecimento na regular citação feita por meio de cooperação jurídica internacional. Precedentes: SEC 3.341/EX, Rel. Min. Laurita Vaz, Corte Especial, DJe 29.06.2012; e SEC 3897/EX, Rel. Min. Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe 1º.07.2011. Pedido de homologação deferido (STJ – SEC 5835/EX – 2012/0029068-0, j. 20.02.2013).23 Sentença Estrangeira Contestada. Divórcio. Regime de Bens. Regularidade Formal. Preenchimento dos Requisitos. Homologação Deferida. 1. Observados os pressupostos indispensáveis ao deferimento do pleito previstos nos artigos 5º e 6º da Resolução nº 9/05 do STJ, é defeso no âmbito do procedimento homologatório discutir o próprio mérito do título judicial estrangeiro e supervenientes alterações de estado de fato. 2. Homologação de sentença estrangeira deferida (STJ – SEC 3743/EX –2012/0027069-8, j. 20.02.2013).24 RESUMO 12.1 Direito de Família O Direito de Família tem por objeto a exposição dos princípios jurídicos que regem as relações defamília. Ocupa-se, por exemplo, com casamento, união estável, pátrio poder ou poder familiar, entre outros. O casamento civil surgiu no século XVI (até então o casamento era regido pelo Direito Canônico e considerado sacramento). 12.2 Casamento e conflito de leis no espaço Casamento é o contrato de direito de família que regula a união entre homem e mulher, com a finalidade de gerar, criar e educar os filhos e de mútua assistência. Para as relações pessoais entre os cônjuges, inclusive divórcio e destinação dos bens móveis, historicamente se aplicou a lei do domicílio conjugal, e para os imóveis, a lei da situação da coisa. 12.3 Normas brasileiras sobre casamento 12.3.1 Capacidade Rege-se pela lei pessoal de cada cônjuge, sendo regulada no Direito brasileiro pelo domicílio. 12.3.2 Impedimentos e formalidades “Realizando-se o casamento no Brasil, será aplicada a lei brasileira quanto aos impedimentos dirimentes e às formalidades de celebração” (art. 7º da LINDB). Quanto à celebração, portanto, prevalece o princípio locus regit actum. 12.3.3 Casamento por procuração A legislação brasileira admite casamento por procuração, embora outras ordens jurídicas não o façam. Assim, tendo o nubente seu estatuto pessoal em país que não admite a procuração, seria desejável que o juiz brasileiro observasse essa limitação, evitando problemas no eventual retorno ao país de origem. 12.3.4 Casamento no consulado Nossa lei admite o casamento no consulado ou embaixada do Brasil em outros países, desde que sejam brasileiros ambos os nubentes. As formalidades e impedimentos serão os do ordenamento jurídico brasileiro. 12.3.5 Nulidade do casamento “Tendo os nubentes domicílio diverso, regerá os casos de invalidade do matrimônio a lei do primeiro domicílio conjugal” (§ 3º do art. 7º da LINDB). 12.3.6 Regime de bens Nosso direito admite quatro regimes de bens no casamento: comunhão parcial (de ofício, na ausência de pacto antenupcial), comunhão universal, separação de bens e participação final nos aquestos. O regime pode ser modificado pelos cônjuges. “O regime de bens, legal ou convencional, obedece à lei do país em que tiverem os nubentes domicílio, e, se este for diverso, à lei do primeiro domicílio conjugal” (§ 4º do art. 7º da LINDB). O estrangeiro casado que se naturalize brasileiro pode solicitar que se apostile a adoção do regime de comunhão parcial de bens (§ 5º do mesmo artigo). 12.4 Divórcio Existe desde os romanos e, embora condenado pelo cristianismo, foi implantado no Brasil em 1977. Quanto às causas que embasam o pedido de divórcio, serão elas as da lei onde tramitará a ação. A separação de corpos é regida pela lex fori. 12.5 Casamento entre pessoas do mesmo sexo O julgamento pelo STF, por unanimidade, da ADI 4.277 e da ADPF 132, tornou mais abrangente a interpretação do artigo 1.723 do Código Civil, admitindo o reconhecimento legal, como entidade familiar, da união homoafetiva. Nesse contexto, a Resolução n. 175 do CNJ, de 14 de maio de 2013, determinou que os cartórios de registros públicos brasileiros não poderão recusar a celebração de casamentos civis de pessoas do mesmo sexo ou deixar de converter em casamento união estável homoafetiva. 12.6 Jurisprudência brasileira A homologação de sentenças estrangeiras relacionadas ao Direito de Família, pelo Superior Tribunal de Justiça, tem sido intensa nos últimos anos, especialmente sobre divórcio, guarda de filhos e ações de alimentos. QUESTÕES PROPOSTAS 1. Conceituar direito de família e comentar sua importância e atualidade para o Direito Internacional Privado. 2. Diante do que se entende por lei pessoal ou estatuto pessoal, identificar a legislação aplicável para reger as relações pessoais entre os cônjuges e a capacidade para o casamento. 3. No casamento de um americano com uma boliviana, a se realizar no Brasil, que legislação será observada quanto aos impedimentos dirimentes e às formalidades de celebração? 4. Pode o cônsul brasileiro em Miami celebrar o casamento de um brasileiro lá domiciliado com uma cubana, naturalizada norte-americana? Justificar a resposta. 5. Brasileiro domiciliado em Porto Alegre casa em Montevidéu com uruguaia aí domiciliada, fixando-se logo o casal em La Paz, Bolívia. Qual legislação regerá o processo de anulação do casamento proposto pela nubente seis meses após o enlace? 6. Um peruano casado, ao se naturalizar brasileiro, solicita se apostile a adoção do regime de comunhão universal de bens. Pode ser atendida tal petição? Por quê? 7. Como deveria proceder autoridade consular brasileira nos Estados Unidos se lhe fosse solicitado que registrasse casamento de brasileira com norte-americano e qual seria a eficácia de eventual certidão então fornecida? 8. Fazer breve histórico do divórcio no direito brasileiro. ______________ 1 PONTES DE MIRANDA. Tratado de direito privado. t. VII. p. 188. 2 AMORIM, Edgar Carlos de. Direito internacional privado. p. 121. 3 PONTES DE MIRANDA. Op. cit. p. 206. 4 VARSI ROSPIGLIOSI, Enrique. Divorcio, filiación y patria potestad. p. 6. 5 PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Concubinato e união estável. p. 29. 6 RUSSO, José. O direito de família e das sucessões. p. 464. 7 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: direito de família. p. 38-40. 8 Súmula n. 377: “No regime de separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do casamento.” 9 “Art. 1.521. Não podem casar: I – os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural ou civil; III – o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante; IV – os irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o terceiro grau inclusive; V – o adotado com o filho do adotante; VI – as pessoas casadas; VII – o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa de homicídio contra o seu consorte.” 10 “Art. 1.523. Não devem casar: I – o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros; II – a viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado, até dez meses depois do começo da viuvez, ou da dissolução da sociedade conjugal; III – o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal; IV – o tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas contas. Parágrafo único. É permitido aos nubentes solicitar ao juiz que não lhes sejam aplicadas as causas suspensivas previstas nos incisos I, III e IV deste artigo, provando-se a inexistência de prejuízo, respectivamente, para o herdeiro, para o ex-cônjuge e para a pessoa tutelada ou curatelada; no caso do inciso II, a nubente deverá provar nascimento de filho, ou inexistência de gravidez, na fluência do prazo.” 11 “Art. 1.525. O requerimento de habilitação para o casamento será firmado por ambos os nubentes, de próprio punho, ou, a seu pedido, por procurador, e deve ser instruído com os seguintes documentos: I – certidão de nascimento ou documento equivalente; II – autorização por escrito das pessoas sob cuja dependência legal estiverem, ou ato judicial que a supra; III – declaração de duas testemunhas maiores, parentes ou não, que atestem conhecê-los e afirmem não existir impedimento que os iniba de casar; IV – declaração do estado civil, do domicílio e da residência atual dos contraentes e de seus pais, se forem conhecidos; V – certidão de óbito do cônjuge falecido, de sentença declaratória de nulidade ou de anulação de casamento, transitada em julgado, ou do registro da sentença de divórcio.” “Art. 1.526. A habilitação será feita pessoalmente perante o oficial do Registro Civil, com a audiência do Ministério Público (Redação dada pela Lei n. 12.133, de 2009). Parágrafo único. Caso haja impugnação do oficial, do Ministério Público ou de terceiro, a habilitação será submetida ao juiz(Incluído pela Lei n. 12.133, de 2009).” “Art. 1.527. Estando em ordem a documentação, o oficial extrairá o edital, que se afixará durante quinze dias nas circunscrições do Registro Civil de ambos os nubentes, e, obrigatoriamente, se publicará na imprensa local, se houver. Parágrafo único. A autoridade competente, havendo urgência, poderá dispensar a publicação.” 12 “Art. 67. Na habilitação para o casamento, os interessados, apresentando os documentos exigidos pela lei civil, requererão ao oficial do registro do distrito de residência de um dos nubentes, que lhes expeça certidão de que se acham habilitados para se casarem.” “Art. 68. Se o interessado quiser justificar fato necessário à habilitação para o casamento, deduzirá sua intenção perante o Juiz competente, em petição circunstanciada indicando testemunhas e apresentando documentos que comprovem as alegações.” “Art. 69. Para a dispensa de proclamas, nos casos previstos em lei, os contraentes, em petição dirigida ao Juiz, deduzirão os motivos de urgência do casamento, provando-a, desde logo, com documentos ou indicando outras provas para demonstração do alegado.” 13 RUSSO, J. Op. cit. p. 452. 14 AMORIM, E. C. Op. cit. p. 124. 15 ROCHA, Osíris. Curso de direito internacional privado. p. 123. 16 AMORIM, E. C. Op. cit. p. 125. 17 ROCHA, O. Op. cit. p. 124. 18 AMORIM, E. C. Op. cit. p. 127-128. 19 RABELO, Cesar Leandro de Almeida; VIEGAS, Cláudia Maria de Almeida Rabelo. A inclusão dos excluídos: a Regulamentação Jurisdicional para a Família Homoafetiva e o Ativismo Judicial. p. 106-125. 20 Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/24686-resolucao-que-disciplina-a-atuacao-dos-cartorios-no- casamento-gay-entra-em-vigor-amanha>. Acesso em: 04 nov. 2013. 21 Disponível em: http://www.stj.jus.br. Acesso em: 19 out. 2013. 22 Disponível em: http://www.stj.jus.br. Acesso em: 19 out. 2013. 23 Disponível em: http://www.stj.jus.br. Acesso em: 19 out. 2013. 24 Disponível em: http://www.stj.jus.br. Acesso em: 19 out. 2013. http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/24686-resolucao-que-disciplina-a-atuacao-dos-cartorios-no-casamento-gay-entra-em-vigor-amanha http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br http://www.stj.jus.br ADOÇÃO INTERNACIONAL “A adoção estatutária, ao exigir o registro novo, cortando os vínculos do adotado com a família biológica o faz com o sentido de dar nova origem ao adotando, uma origem indistinta dos demais eventuais filhos” (Cláudia Lima Marques). 13.1 Considerações iniciais Vamos estudar a adoção internacional, nesta obra, tendo em vista não somente a importância do tema como sua relevância, abrangência e atualidade. Após conceituá-la, será analisada a adoção como resgate da cidadania de pessoas desassistidas já na primeira fase de sua existência, embora possa vir a ocorrer em qualquer momento da vida. Nessa tessitura, a extensão do instituto a pessoas domiciliadas em outros países deve ser admitida, especialmente com o advento da Convenção Relativa à Proteção das Crianças e à Cooperação em Matéria de Adoção Internacional, concluída em Haia, em 29 de maio de 1993, entre outros documentos internacionais dedicados à proteção da criança e do adolescente. 13.2 Conceituação Para Maria Helena Diniz, a adoção é “o ato jurídico solene pelo qual, observados os requisitos legais, alguém estabelece, independentemente de qualquer relação de parentesco consanguíneo ou afim, um vínculo fictício de filiação, trazendo para sua família, na condição de filho, pessoa que, geralmente, lhe é estranha”.1 A adoção é, para Enrique Varsi Rospigliosi, instituto tutelar do direito de família mediante o qual uma pessoa adquire de outra a qualidade de filho, apesar da ausência de vínculos consanguíneos entre elas.2 De forma sucinta, Luiz Edson Fachin afirma que ela “estabelece a relação de ascendência e descendência independente de consanguinidade”.3 Com viés poético, Jason Albergaria entende que a paternidade adotiva é eletiva e espiritual, porque busca dar um lar a um menor sem-família, visto como membro do gênero humano e filho de Deus.4 A adoção é o processo pelo qual um ser humano, em tese menor e desassistido, encontra novo lar, nele se integrando jurídica e afetivamente. Entendemos a adoção como um instituto no qual o jurídico necessita harmonizar-se com o humano, gerando bem-estar no meio social. 13.3 Importância e atualidade Tema de ingente atualidade, a adoção é um instituto intrinsecamente voltado para o bem, embora por vezes empregada por criminosos para objetivos espúrios. Referimo-nos a atos de barbárie realizados sob a forma de adoção, nefanda prática, recordando-se que a maioria das crianças traficadas é do sexo feminino. Investigação procedida em 2003/2004 pelo Ministério da Justiça e pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes no Brasil, intitulada “Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial (PESTRAF)”, um dos estudos mais completos sobre o assunto, evidenciou a importância da ação de juristas e autoridades em geral no combate a esses crimes. Cláudia Lima Marques define tráfico de crianças com finalidade de adoção como o processo destinado a transferir definitivamente criança de um país para outro, no qual os envolvidos recebem contraprestação financeira pela participação nessa adoção. Os agentes desse crime internacional podem ser os pais biológicos, pessoas que detêm a guarda da criança, terceiros ajudantes ou facilitadores, bem como autoridades ou intermediários.5 A inexistência de uma regulamentação supraestatal da adoção fez florescer, na esfera mundial, o tráfico de crianças, o que levou ao surgimento da Convenção sobre Adoção Internacional de 1993. Denuncia Thanh-Dam Truong que provas recentes sugerem destinar-se agora o tráfico de seres humanos também para outras atividades lucrativas, como a mutilação de crianças sequestradas para emprego como mendigos, ou a extirpação de seus órgãos para serem comercializados. Lamenta o catedrático do Instituto de Estudos Sociais de Haia: “Estas novas formas de exploração, seja no sexo ou na saúde, refletem a natureza cruel da ganância humana e a incoerência dos sistemas morais nesta etapa do patriarcado capitalista.”6 Maria Lúcia Leal lembra que as transformações operadas no seio da família pela crise social gerada pela globalização criam situações de difícil resolução para crianças e adolescentes, como troca de parceiros entre os pais, conflitos interpessoais gerados pelo alcoolismo, drogadição, práticas sexuais precoces e insalubres, ao lado da violência sexual e tantas outras relações que tornam vulneráveis sociopedagogicamente esse segmento.7 Essa violência aos direitos fundamentais da criança, ao lado da desconstrução da harmonia familiar, pode ser muito negativa em caso de internacionalização da família, com os conhecidos sequestros de menores por um dos cônjuges e tráfico de menores, por meio de intermediários ou pelos próprios pais, lucrando com a transferência internacional do menor. Ainda, deve-se ter em conta as guerras constantes, distúrbios internos, ódios raciais, desastres naturais, crises econômicas e problemas sociais, que tornam muitos menores órfãos, refugiados ou abandonados, sendo transferidos a outros países para sua proteção, surgindo o fenômeno do ‘abandono’ internacional, ainda que esse abandono seja momentâneo.8 A menção a práticas deletérias que vitimam crianças e adolescentes, quando vamos estudar a sublimidade da adoção, destina-se a acentuar a importância do instituto e a enfatizar quão necessário se torna, em nosso tempo, o engajamento de todos na busca de procedimentos jurídicos seguros que impossibilitem que a adoção internacional seja utilizada para esses fins. 13.4 Adoção como resgate de crianças sem assistência Verifica-se de forma auspiciosa uma nova postura em relação ao instituto da adoção, antes em geral visto como uma oportunidade de dar filhos a quem não podia ou não queria tê-los consanguineamente. Teixeira