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A partir de agora, começamos a sétima parte deste texto. Estes três capítulos passam por 40 anos (dos 25 aos 65 anos), período em que os corpos amadurecem, as mentes absorvem novos conteúdos e as pessoas trabalham mais produtivamente. A adultez se estende por tanto tempo porque nenhuma idade em particular é um divisor de águas. Adultos de todas as idades se casam; criam filhos; cuidam de pais envelhecidos; são contratados e despedidos; enriquecem ou empobrecem, vivenciam nascimentos, mortes, casamentos, divórcios, doenças, e recuperações. Portanto, a adultez é marcada por diversos eventos, alegres e tristes, que podem acontecer em qualquer momento durante esses 40 anos. Esses eventos não são determinados por certa idade, mas também não são aleatórios: adultos os constroem com base no seu desenvolvimento prévio e criam seus próprios nichos ecológicos. Eles escolhem pessoas, atividades, comunidades e hábitos. São bons anos, na maior parte do tempo, quando os objetivos são mais atingíveis e as pessoas passam a tomar decisões sobre suas vidas. A cultura e o contexto social são sempre cruciais. Na verdade, o conceito de que pessoas escolhem seus nichos é aceito nos Estados Unidos, mas não em lugares onde as famílias, as finanças e o passado moldam quase todos os aspectos da vida. O divórcio, por exemplo, é a consequência de mais de um terço dos casamentos americanos, mas até recentemente era ilegal em três países (Chile, Malta e Filipinas). Algumas das experiências que já foram consideradas parte da adultez – crise de meia-idade, geração sanduíche (adultos que precisam sustentar os pais envelhecidos e os filhos em crescimento) e a crise do ninho vazio – já são incomuns para adultos de meia-idade, não importando onde eles vivam. Estes três capítulos descrevem o que é universal, o que é comum e o que não é comum. ■ ■ ■ ■ Senescência A Experiência do Envelhecimento O Cérebro em Envelhecimento Aparência Exterior Órgãos dos Sentidos O Sistema Reprodutor Contracepção Resposta Sexual Fertilidade Menopausa Hábitos de Saúde e Idade Abuso de Drogas Alimentação Sedentarismo UMA VISÃO DA CIÊNCIA: Abandonar um Hábito É Difícil Medindo a Saúde Mortalidade Morbidade Incapacidade Vitalidade Correlacionando Renda e Saúde O QUE VOCÊ VAI SABER? 1. 2. 3. 4. Quando uma pessoa começa a aparentar sua idade? Quais sentidos enfraquecem antes dos 65 anos? A mulher pode engravidar antes dos 30, 40 ou 50 anos? Como uma pessoa pode ser vitalmente saudável e ter impedimentos extremos? Jenny, uma excelente aluna na minha aula de desenvolvimento humano, estava no início dos 30 anos. Ela nos contou que era divorciada, cuidava do filho de 7 anos, da filha de 10 e de mais dois sobrinhos que tinham ficado órfãos em um conjunto habitacional no sul do Bronx, uma área com má fama devido a gangues, armas e drogas. Ela falava com entusiasmo das atividades gratuitas para seus filhos – parques públicos, museus, zoológico, espaços ao ar livre. Nós ficávamos admirados com a criatividade, o otimismo e a energia dela. Um ano depois, Jenny me procurou na minha sala para conversar em particular. Ela estava prestes a se formar, com honras, e havia encontrado um emprego que permitiria que ela e a família saíssem daquela região perigosa. Jenny queria meu conselho porque estava grávida de quatro semanas. O pai da criança, Billy, era casado e tinha dito a ela que não se separaria da mulher, mas pagaria por um aborto. Ela o amava e tinha medo de que ele terminasse o relacionamento caso ela não interrompesse a gestação. Eu não dei nenhum conselho a ela, mas a escutei atentamente. O filho dela tinha dificuldade de fala; ela achava que já estava velha demais para ter outro bebê; era portadora de anemia falciforme, que já havia complicado outras gestações; o apartamento cheio já não era adequado para um bebê; ela não era contra o aborto. Estava disposta a continuar sua vida normalmente. Depois de uma longa conversa, Jenny me agradeceu muito – apesar de eu apenas ter lhe feito perguntas, mostrado fatos e a escutado. Então ela me surpreendeu. “Eu vou ter o bebê. Homens vão e vêm, mas filhos estão sempre conosco.” Eu achei que seu discurso chegaria a outra conclusão, mas então percebi que ela estava planejando a vida dela, não a minha. Todos nós fazemos escolhas relacionadas a nosso corpo e a nosso futuro. Embora se sentisse “velha demais” para ter outro bebê, Jenny era relativamente nova. No entanto, ela era uma típica adulta em muitos sentidos. Questionar sobre criar e sustentar filhos é comum entre adultos, assim como ter preocupações com os genes, a saúde e o envelhecimento. Este capítulo explica as escolhas que as pessoas fazem sobre tudo isso. Começamos com mudanças fisiológicas na força, na aparência e nas funções do corpo. Muitas pessoas se preocupam com aspectos da visão, da audição e das doenças que se manifestam muito antes da chegada da terceira idade. Então explicaremos temas relacionados a sexo, hábitos de saúde e assistência médica. Ao final deste capítulo, você irá ler como a adultez de Jenny decorreu depois de ela sair da minha sala. >> Senescência senescência Processo de envelhecimento, em que o corpo perde força e eficiência. Todo mundo envelhece. Assim que o crescimento para, começa a senescência, um envelhecimento físico gradual. A senescência afeta todas as partes do corpo, visíveis e não visíveis. Em uma cultura que desvaloriza os mais velhos, a senescência tem uma conotação negativa, mas envelhecer pode ser positivo. De uma perspectiva desenvolvimentista, qualquer período da vida pode ser multidirecionado. Nosso estudo científico do desenvolvimento durante a vida nos ajuda a ver as perdas e os ganhos da adultez. A Experiência do Envelhecimento Apesar de todos estarmos envelhecendo, a senescência muitas vezes passa despercebida até em torno dos 60 anos. Usualmente, os adultos se sentem de 5 a 10 anos mais novos do que sua idade cronológica, e pensam que “velho” é a descrição de pessoas significativamente mais velhas (Pew Research Center, 2009a) (veja a Figura 20.1). A maioria dos adultos se sente forte, capaz, saudável e “em seu melhor momento”. Eles não estão errados. Apesar de a senescência afetar todas as partes do corpo, e apesar de algumas partes do corpo passarem a funcionar menos efetivamente por causa dela, a senescência não necessariamente causa doenças ou mesmo incapacidade. Isto fica mais claro com um exemplo. Com a idade, tanto a pressão sanguínea quanto o nível do colesterol ruim (LDL) aumentam em todas as pessoas. Quanto mais altos esses níveis, maior a probabilidade da ocorrência de doenças cardíacas. Portanto, as doenças coronárias que estão relacionadas com hipertensão (pressão sanguínea alta) e com o colesterol também estão relacionadas com a senescência. Entretanto, a senescência não é a causa direta de doenças do coração. O coração da maioria dos adultos entre 25 e 65 anos funciona perfeitamente, mesmo com o aumento da pressão sanguínea e do colesterol LDL. De fato, alguns dos aspectos fisiológicos do envelhecimento protegem os adultos. A senescência diminui o crescimento do câncer, mesmo que o envelhecimento aumente as probabilidades de sua ocorrência (Rodier & Campisi, 2011). A saúde é mais protegida pela reserva de órgãos, permitindo que estes funcionem normalmente durante a adultez. As pessoas com raridade percebem que seus órgãos vitais estão perdendo sua capacidade reserva. A homeostase e a alostase também ajudam cada parte do corpo a se ajustar às mudanças em outras partes do corpo; portanto, o envelhecimento do cérebro, da corrente sanguínea e das células é balanceado por outros fatores que mantêm a vida. Por exemplo, se o nível de ferro estocado no sangue está baixo, a homeostase aumenta a absorção de ferro na alimentação (Ganz & Nemeth, 2012). Em outro exemplo, os pulmões automaticamente mantêm os níveis de oxigênio, seja a pessoa nova ou velha, esteja acordada ou dormindo, exercitando-se ou descansando (Dominelli & Sheel, 2012). Como a reserva dos órgãos diminuigradualmente, a dispersão de oxigênio dos pulmões na corrente sanguínea diminui em torno de 4 por cento por década depois dos 20 anos. Por isso, muitos adultos ficam “sem ar” depois de uma corrida, ou precisam “recuperar o ar” depois de subir uma escada com muitos degraus. Esses são pequenos inconvenientes, mas não uma ameaça séria para aqueles que se sentem em forma. Esses processos não estão livres de falhas. Se, com a idade, a redução da reserva de órgãos for severa, a homeostase aumentará consideravelmente, ou o carregamento de alostase se tornará muito pesado e a vida poderá correr riscos. A curto prazo, medidas fisiológicas contrabalanceiam o estresse psicológico (as pessoas podem comer fast food ou abusar de drogas para lidar com a depressão ou algum tipo de discriminação social, por exemplo), mas alguns dos ajustes do corpo podem não levar a um envelhecimento feliz e saudável (Krieger, 2012; Kiecolt et al., 2009). [Link: Reserva de órgãos, homeostase e alostase foram explicadas no Capítulo 17.] FIGURA 20.1 Ainda Novo Quando perguntamos a algumas pessoas se alguém é “velho”, as respostas dependem da idade delas. A tendência se mantém – minha mãe, aos 80 anos e morando em um asilo, reclamava que aquele não era o lugar dela, porque lá havia muitas pessoas velhas. É fundamental para o bem-estar na adultez estabelecer objetivos e trabalhar para alcançá-los. Suponha que uma pessoa de 50 anos queira correr uma maratona. Isso é totalmente possível, desde que essa pessoa tenha passado um ano ou mais treinando, comendo e dormindo bem, mantendo uma boa saúde ao evitar tabaco, tomando medidas preventivas de saúde, e assim por diante. Portanto, saúde física e força são normalmente fatores importantes durante os quarenta anos da adultez; porém, tanto os hábitos como o envelhecimento têm seu preço. O Cérebro em Envelhecimento Como todas as outras partes do corpo, o cérebro enfraquece com a idade. Os neurônios correm mais devagar, o tempo para que o cérebro tenha uma reação aumenta porque as mensagens do ■ ■ ■ ■ axônio de um neurônio não são coletadas com tanta rapidez pelos dendritos de outros neurônios. Novos neurônios e dendritos aparecem, mas outros atrofiam. O tamanho do cérebro diminui, com menos neurônios e sinapses na adultez média do que no início da vida. Como resultado disso, fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo fica mais difícil, o processamento leva mais tempo, e algumas atividades de memória que são complexas (por exemplo, repetir uma série de oito números, adicionar os quatro primeiros, retirar o quinto, subtrair os dois seguintes e multiplicar o novo resultado pelo antigo) podem ser impossíveis (Fabiani & Gratton, 2009). Para a maioria, entretanto, essas perdas não são percebidas. Poucos indivíduos (menos de 1 por cento com menos de 65 anos) vivenciam, com a idade, perdas significativas no cérebro, assim como poucos perdem uma notável quantidade de massa muscular. Os poucos que sofrem perdas significativas são raros, e a razão é patológica; não se trata de um declínio cognitivo normal (Schaie, 2013). [Link: Demência é discutida no Capítulo 24.] Especialmente para os Motoristas Uma série de estados aprovou leis que exigem que tecnologias que não precisam de manejo sejam usadas por pessoas que utilizam o telefone ao dirigir. Essas medidas diminuem os acidentes? Para a maioria dos adultos, as reservas neurológicas, a homeostase e a alostase protegem o cérebro. Os adultos podem desempenhar com o cérebro o equivalente a uma maratona; por isso juízes, bispos e líderes mundiais geralmente têm, pelo menos, 50 anos. Se a perda severa ocorrer antes dos 65 anos, a causa não é a senescência, mas uma das quatro opções: Uso excessivo de drogas. Todas as drogas psicoativas causam danos ao cérebro, principalmente o álcool consumido por décadas, que pode causar a síndrome de Wernicke-Korsakoff (“cérebro molhado”). Má circulação sanguínea. Tudo que prejudica o fluxo sanguíneo – como a hipertensão ou o vício em cigarros – prejudica a cognição. Vírus. O cérebro é protegido contra a maioria dos vírus pela barreira hematoencefálica, mas alguns vírus – incluindo HIV e o prião que causa o mal da vaca louca – destroem os neurônios. Genes. Cerca de uma em mil pessoas herda o gene dominante da demência. Esses quatro fatores são causas fisiológicas comuns da desaceleração do cérebro na adultez; a função cognitiva adulta é descrita no próximo capítulo. Aparência Exterior Como podemos perceber, a senescência dos órgãos vitais não é normalmente devastadora na adultez. Os corpos funcionam bem dos 30 aos 60 anos. Entretanto, mudanças na pele, nos cabelos, na agilidade e no corpo são problemáticas em uma sociedade que dá muita importância à idade. Poucos adultos querem parecer velhos. Apesar disso, todos eles em algum momento parecerão. Pele e Cabelos As primeiras mudanças visíveis ocorrem na pele, que fica mais seca, rugosa e com a cor mais irregular. O nível de colágeno na pele, componente principal do tecido conjuntivo, diminui 1 por cento por ano, a partir dos 20 anos. Aos 30 anos, a pele é mais fina e menos flexível, as células logo abaixo da superfície variam mais, e as rugas se tornam visíveis, principalmente em torno dos olhos. A dieta tem seus efeitos – a gordura diminui as rugas, mas o envelhecimento é aparente em todas as camadas da pele (Nagata et al., 2010). As rugas não são o único sinal da senescência na pele. Principalmente no rosto (a parte do corpo mais exposta ao sol, chuva, calor, frio e poluição) a pele perde sua firmeza. Marcas de idade, pequenos vasos sanguíneos e outras imperfeições aparecem. Essas mudanças ficam visíveis a partir dos 40 anos em pessoas que trabalham ao ar livre por grande parte da vida (em geral fazendeiros, marinheiros e pedreiros), mas incomodam mais às pessoas (geralmente mulheres) que associam a juventude ao poder de atração sexual. Para completar, varizes nas pernas e braços se tornam proeminentes, e as unhas dos pés e das mãos enfraquecem (Whitbourne & Whitbourne, 2011). Mudanças na aparência são pouco percebidas entre um ano e outro, mas se você comparar um par de irmãos, um de 18 e outro de 28 anos, a pele indica quem é mais velho. Aos 60 anos, todos os rostos envelheceram significativamente – alguns mais do que outros. Aquela pele macia, flexível e nova se foi, desapareceu. >> Resposta para os Motoristas: Não. Acidentes de carro ocorrem quando a mente está distraída, não as mãos. O cabelo costuma se tornar grisalho e mais fino, primeiro nas têmporas, por volta dos 40 anos, e então no restante do couro cabeludo. Essa mudança não afeta a saúde, mas, uma vez que o cabelo é um sinal visível do envelhecimento, muitos adultos gastam valores substanciais e bastante tempo para pintá-lo, nutri-lo e arrumá-lo, entre outros procedimentos. Os pelos corporais (nos braços, nas pernas e na região pubiana) também se tornam menos densos. Um pelo grosso ocasional, indesejado, pode aparecer no queixo, na narina ou em outro lugar. Forma e Agilidade O corpo muda de forma entre 25 e 65 anos. A “barriga da meia-idade” aumenta a circunferência da cintura; os músculos enfraquecem; dobras de gordura se instalam no abdômen, nos braços, nas nádegas e no queixo; as pessoas se inclinam levemente ao ficarem em pé (Whitbourne & Whitbourne, 2011). Ao final da meia-idade, mesmo se alongando ao máximo, adultos são mais baixos do que antes, porque os músculos das costas, o tecido conjuntivo e os ossos perdem densidade, fazendo com que as vértebras da espinha vertebral se encolham. As pessoas perdem em torno de uma polegada (cerca de 2 ou 3 centímetros) até os 65 anos, perda que ocorre no tronco, não nas pernas e ossos, à medida que o amortecimento entre os discos espinhais é reduzido, outro motivo para o alargamento da cintura. Os músculos se encolhem; as articulações perdem a flexibilidade; a rigidez é mais evidente; agachar-se é mais difícil. Como resultado, a agilidade se reduz. Levantar-se do chão, girar dançando, e até mesmo caminhar enérgica e alegremente, tornam-setarefas mais difíceis. Podem ocorrer torções das costas, do pescoço ou dos músculos. Genes e exercício causam variações marcadas pela idade não só de pessoa para pessoa, mas também dentro de cada um. Os músculos, principalmente, dependem do uso – até mesmo algumas semanas de descanso na cama os enfraquecem substancialmente. As fibras musculares do Tipo II (utilizadas para atividades mais rápidas e que exigem força) se reduzem muito mais rápido do que as fibras de Tipo I (para atividades rotineiras e sem pressa) (Nilwik et al., 2013). Isso significa que é mais fácil para os adultos ganhar uma maratona do que uma corrida de 100 metros rasos, ou colher vegetais durante horas do que levantar uma pedra muito pesada por alguns minutos. Particularmente para as fibras de Tipo II, o exercício físico tem um efeito determinante (Nilwik et al., 2013). O envelhecimento do corpo é mais evidente em esportes que exigem força, agilidade e velocidade. Ginastas, boxeadores e jogadores de basquete estão entre os atletas que têm mais vantagens na juventude e sofrem com a desaceleração, inclusive a partir dos 20 anos. Essa desaceleração é, obviamente, fisiológica. Os ganhos intelectuais e emocionais da adultez podem compensar as mudanças fisiológicas; alguns atletas de esportes coletivos de 30 anos são mais valiosos do que atletas mais novos. Órgãos dos Sentidos A cada década, os sentidos ficam menos precisos, as perdas em qualquer um deles afetam os outros. Um exemplo óbvio é que o paladar depende substancialmente do olfato, que enfraquece com a idade (Aldwin & Gilmer, 2013). Do mesmo modo, a conversa é mais facilmente entendida quando as pessoas podem ver e ouvir quem está falando. Aqui descreveremos alguns detalhes do enfraquecimento da visão e da audição. Visão A taxa de senescência varia de pessoa para pessoa, de órgão para órgão, assim como cada parte de cada órgão tem seu próprio tempo. A visão é um exemplo, uma vez que aproximadamente 30 áreas do cérebro e pelo menos vários aspectos do olho, combinados, possibilitam que as pessoas enxerguem. A visão periférica (nos lados) se reduz mais rápido do que a visão frontal; algumas cores ficam menos intensas do que outras; a miopia e a hipermetropia seguem caminhos diferentes. Alguns aspectos da visão parecem intactos com a idade. O estilo de vida e a genética influenciam drasticamente (Owsley, 2011). Uma variação notável é a miopia (dificuldade de enxergar objetos a distância), que é fortemente afetada pela genética e pela idade. A miopia aumenta gradualmente durante a infância e a adolescência, mas, na adultez, esse processo se reverte. A miopia diminui, e a hipermetropia (dificuldade de enxergar objetos próximos) aumenta – porque as lentes dos olhos mudam de formato. Isso explica por que pessoas de 40 anos seguram o jornal mais longe do que pessoas de 20 anos. O foco para ver de perto fica embaçado, mas o que é para longe fica mais nítido (Aldwin & Gilmer, 2013). Outros aspectos da visão também são afetados pela idade. Os olhos levam mais tempo para se ajustar à escuridão (entrando em uma sala de cinema escura depois de estar à luz do sol) ou para se ajustar a um brilho intenso (quando o farol de um carro vindo na direção oposta causa cegueira temporária) (Aldwin & Gilmer, 2013). A percepção do movimento (o carro está se aproximando rapidamente?) e a sensibilidade ao contraste (aquilo é um urso, uma árvore ou uma pessoa?) diminuem (Olsley, 2011). As lentes dos olhos engrossam; uma iluminação mais clara se faz necessária. Como esses exemplos mostram, a senescência afeta a visão requerida para dirigir, mesmo que a pessoa consiga ler as letras na tabela de optótipos. A renovação da carteira de motorista, em qualquer idade, deveria incluir testes de visão multifacetados porque a maioria dos adultos consegue ver bem, mas alguns precisam de óculos novos, cirurgia de catarata, ou outros tipos de intervenção muito antes da velhice. Audição A audição é mais aguçada aos 10 anos, novamente com algumas variações entre os indivíduos. Sons em alta frequência (a voz de uma criança) se perdem antes que sons em baixa frequência (a voz de um homem). Apesar de algumas pessoas mais velhas escutarem bem melhor do que outras, nenhuma escuta perfeitamente. presbiacusia Perda significante de audição relacionada à senescência. Geralmente não se manifesta até os 60 anos. Na verdade, a audição é sempre um caso de gradação. Ninguém consegue escutar uma conversa a 30 metros de distância; “gritar a distância” tem limites. Como raramente a surdez é absoluta, perdas graduais não são percebidas. Dificilmente a presbiacusia (literalmente o “envelhecimento da audição”) é diagnosticada antes dos 60 anos, mesmo que, desde cedo, alguns sussurros sejam inaudíveis. Um estudo alarmante afirma que a presbiacusia pode se tornar aparente antes da velhice. Foi perguntado a 1512 alunos do ensino médio se eles já haviam notado algum sintoma de perda de audição (zumbidos, sons abafados, surdez temporária). Quase um terço disse que sim, sem perceber que as músicas altas nos seus fones de ouvido ou em shows podem danificar os pelos da orelha interna (Vogel et al., 2010). Muitos países exigem que os trabalhadores da construção civil utilizem proteção auditiva, mas nenhuma lei os protege contra a música alta. RESUMINDO A senescência é o processo de envelhecimento, evidente em todas as partes do corpo a partir do momento em que o crescimento termina. Contudo, as mudanças têm menos consequências hoje em dia do que séculos atrás, quando adultos precisavam de força física para completar um dia de trabalho. Para a maioria dos adultos, o corpo e o cérebro funcionam normalmente, já que a reserva de órgãos e a homeostase compensam o estresse momentâneo. Atividades que exigem o desempenho máximo de muitas partes do corpo, como competições de atletismo, aceleram o envelhecimento na adultez. A aparência reflete a idade: A pele fica menos macia, o cabelo afina e se torna grisalho, os corpos adquirem gordura e as formas mudam. Essas mudanças externas têm pouco impacto na saúde física, mas muitos adultos se importam com isso e tentam parecer mais novos. Os sentidos ficam menos precisos, com alguns aspectos decaindo mais rápido do que outros. A genética e as experiências afetam a senescência sensorial. ■ >> O Sistema Reprodutor Como você acabou de ver, apesar de a senescência afetar todas as partes do corpo, pessoas de 60 anos podem fazer quase tudo que pessoas de 30 anos fazem, embora mais devagar e com mais cuidado. Contudo uma tarefa crítica se torna virtualmente impossível para as mulheres e difícil para os homens na medida em que eles se aproximam dos 50 anos – a reprodução. Contracepção O envelhecimento do sistema reprodutor é universal. Se isso importa ou não para um indivíduo, depende de contexto histórico (inclusive dos avanços médicos) e valores locais; o exemplo mais clássico é o controle de natalidade. Sem ele, as mulheres evitavam o sexo para não engravidar. Agora a contracepção transformou a sexualidade feminina, o que também afeta os homens. Valores locais moldam os métodos contraceptivos. Os casais na Índia, por exemplo, confiam na esterilização feminina para controlar o tamanho da família, mas nunca utilizam a esterilização masculina (Sunita & Rathnamala, 2013). Nos Estados Unidos, dois terços das mulheres sexualmente ativas acima dos 35 anos são esterilizadas, com uma proporção total de mulheres/homens de 2:1. Essa proporção varia por etnia. Entre afro-americanos e latinos, o número de mulheres esterilizadas é muito maior que o número de homens nas mesmas circunstâncias (U.S. Center for Health Statistics, 2012). O método contraceptivo mais popular entre as mulheres mais novas nos Estados Unidos e na França é a pílula anticoncepcional, mas a pílula quase nunca é usada no Japão, exceto para regulação de ciclos menstruais (Matsumoto et al., 2011). Nenhum método contraceptivo está disponível em alguns países mais pobres, mesmo onde os partos indesejados ou pouco espaçados são a principalcausa de morte entre as mulheres (Cleland et al., 2012). Como nenhum contraceptivo é permitido em Bangladesh, os casais utilizam o aborto precoce (sem chamá-lo de aborto) para controlar o tamanho das famílias (Gipson & Hindin, 2008). No mundo todo, o aborto é ilegal em alguns países e prontamente disponível em outros. Os Estados Unidos estão no meio desses extremos, uma vez que são evidentes as diferenças de acesso ao aborto em cada estado. Essas variações tão acentuadas nos meios preferidos para prevenir partos indesejados são exemplos da falta de conexão entre a biologia e a psicologia humana. A falta de conexão também é dramática no que tange à excitação sexual, ao orgasmo, à fertilidade e à menopausa – todos biológicos, mas cujos efeitos, e até mesmo a ocorrência, são fortemente influenciados pela mente (Pfaus et al., 2014). Como muitos dizem: “O órgão sexual humano mais importante está na cabeça.” Resposta Sexual Com a idade, a excitação ocorre de forma mais lenta e o orgasmo leva mais tempo para acontecer. Para alguns casais, essas desacelerações são contrabalanceadas pela redução da ansiedade e pela melhora na comunicação à medida que os indivíduos ficam mais familiarizados com seus próprios corpos e de seus companheiros. O desconforto com a resposta mais demorada parece menos relacionado com o envelhecimento fisiológico do que com questões interpessoais problemáticas, medos e expectativas irreais (Burri & Spector, 2012; LaMater, 2012). A maioria das pessoas é sexualmente ativa ao longo da adultez. Um estudo descobriu que, em média, a relação sexual (a expressão mais estudada dentro da atividade sexual) cessava aos 60 anos para mulheres e aos 65 para homens. Essa foi a média, mas muitos pararam de ter relações antes dos 60 anos e outros se mantiveram ativos até os 80 anos (Lindau & Gavrilova, 2010). Um estudo feito com adultos alemães, com idade entre 18 e 93 anos, confirmou que o desejo e a atividade sexual diminuem com a idade para ambos os sexos. A disponibilidade de parceiros é a chave. Para completar, o desemprego diminui o desejo sexual masculino, e traumas do passado (abuso, estupro) afetam o desejo feminino (Beutel et al., 2008). Alguns adultos dizem que a resposta sexual pode melhorar com a idade. Poderia isso ser verdade? A rapidez não é sempre considerada importante? Pelo menos não há provas de que a resposta sexual piora; excitação e orgasmo podem continuar a acontecer durante toda a vida. De acordo com um estudo feito com casais de Chicago, no início dos anos 1990, a maioria dos adultos de todas as idades gosta de “altos níveis de satisfação emocional e prazer físico do sexo com seus parceiros” (Laumann & Michael, 2000, p. 250). Esse estudo afirmou que grande parte de homens e mulheres relatou que estariam “extremamente satisfeitos” com o sexo se eles estivessem em um relacionamento firme e monogâmico – uma situação mais provável depois dos 30 anos (Laumann & Michael, 2000). A melhora da sexualidade com a idade pode ser uma mudança de coorte, e não uma mudança fisiológica. Para algumas pessoas, especialmente os nascidos antes de 1950, ao chegar à puberdade, o sexo era considerado vergonhoso e sujo. Depois, como a contracepção avançou, e mais mudanças ocorreram, o sexo passou a ser visto como satisfatório e positivo. Como as atitudes mudaram, o sexo se tornou mais satisfatório. Ainda é verdade que os adolescentes e os jovens adultos são ansiosos e confusos com relação à sexualidade e morrem de medo de uma gravidez acidental? Na adultez, as pessoas ficam mais seguras de sua sexualidade e mais confiantes com relação ao planejamento familiar? Se a resposta para essas duas perguntas é sim, então a resposta sexual melhoraria à medida que a vida adulta progredisse, porque o medo e a culpa diminuiriam e um clímax mais demorado permitiria maior tempo e mais variedade no sexo. Um estudo feito com mulheres a partir de 40 anos para cima concluiu, assim como esperado, que a atividade sexual diminui a cada década, mas a satisfação sexual não (Trompeter et al., 2012). Esse estudo pode não refletir um padrão universal, uma vez que a maioria das participantes eram mulheres americanas de ascendência europeia de classe alta, e os dados foram colhidos por questionário. Por questões políticas, ainda não foi feito um estudo válido, longitudinal, representativo e de grande escala sobre a resposta sexual. É provável, entretanto, que as mudanças de coorte estejam melhorando a resposta sexual. Há algumas décadas, o sexo era furtivo e proibido para adultos que fossem gays, lésbicas, divorciados ou que nunca se casaram. Isso não é mais válido hoje em dia, pelo menos nos Estados Unidos, onde adultos em qualquer um desses grupos são mais aceitos. Os adultos podem experimentar aumento na resposta sexual com a idade. Fertilidade infertilidade Incapacidade de conceber uma criança após tentar por pelo menos um ano. Apesar de a atividade sexual ser pouco estudada, muitas pesquisas são feitas sobre a infertilidade, que é frequentemente definida como a incapacidade de conceber, depois de tentar por pelo menos um ano, embora essa definição varie de país para país (Gurunath et al., 2011; Hayden & Hallstein, 2010). Para casais que querem filhos, mas não tiveram, o arrependimento se incrementa com a idade; mas para os casais que preferem não ter filhos, a idade traz um alívio. A infertilidade aumenta quando a assistência média é rara (Gurunath et al., 2011) e por isso varia de país para país. Nos Estados Unidos, cerca de 12 por cento dos casais de adultos são inférteis, em parte porque muitos adiam a gravidez para muito depois da adolescência. Outro grupo (talvez 10 por cento das mulheres adultas na Alemanha, Reino Unido e nos Estados Unidos – e muito poucas em outros países) escolhe evitar a maternidade (Basten, 2009). Dos casais norte-americanos cujos cônjuges têm aproximadamente 40 anos, e que estão tentando conceber, cerca de metade deles falha, e a outra metade arrisca ter várias complicações. Obviamente, risco não quer dizer realidade. Em 2011, nos Estados Unidos, 116.000 bebês nasceram de mulheres com 40 anos ou mais velhas, o único grupo em que a taxa de natalidade estava aumentando (Hamilton et al., 2012). Um quarto desses nascimentos foi de primeiros partos. Mesmo com as complicações advindas com a idade, quase todas as crianças nascidas de mulheres mais velhas foram crianças saudáveis. Como explicado no Capítulo 17, os picos de fertilidade ocorrem no final da adolescência. Do ponto de vista biológico (não fisiológico), as mulheres deveriam tentar conceber antes dos 25 anos e os homens antes dos 30. Quando os indivíduos ainda são relativamente jovens e não conseguem conceber, a ajuda médica geralmente resolve o problema. Causas da Infertilidade Quando os casais são inférteis, um terço dos casos pode estar no homem, um terço na mulher; no último terço, atribui-se a infertilidade a uma causa misteriosa. A seguir, alguns comentários específicos. A baixa quantidade de esperma é um motivo comum da infertilidade masculina. A concepção é mais provável quando o homem ejacula mais de 20 milhões de espermatozoides por mililitro de sêmen, sendo dois terços deles móveis e viáveis, porque a jornada de cada esperma através do colo do útero e do útero é auxiliada por milhões de companheiros de viagem. A contagem de esperma pode ter diminuído no último século, mas essa contagem varia muito de lugar para lugar – é mais alta no sul da França do que em Paris; em Nova York do que na Califórnia; na Finlândia do que na Suécia – por motivos que podem estar mais conectados à especificidade das amostras do que à saúde ou à idade do homem (Merzenich et al., 2010). Dependendo da idade do homem, cada dia cerca de 100 milhões de espermatozoides atingem a maturidade depois de um processo de desenvolvimento que dura cerca de 75 dias. Qualquer coisa que prejudique o funcionamento do corpo durante esses 75 dias (febre, radiação, drogas prescritas e não prescritas, tempo de sauna, estresse, toxinas ambientais, álcool,cigarros) reduz o número, a forma, a motilidade (atividade) dos espermas, fazendo com que a concepção fique mais difícil. Comportamentos sedentários, talvez particularmente assistir televisão, também estão correlacionados com o baixo nível de espermatozoides (Gaskins et al., 2013). A idade reduz a contagem de esperma, e essa é a explicação provável para uma estatística interessante: o número de meses que um homem com mais de 45 anos leva para engravidar uma mulher é cinco vezes maior do que o número de meses que levaria se ainda tivesse 25 anos (Hassan & Killick, 2003). (Esse estudo controlava a frequência do sexo e a idade das mulheres.) Em geral, o baixo nível de espermatozoides é comum, mas facilmente remediado. Especialmente para os Homens Jovens Um homem mais novo que engravida uma mulher se sente orgulhoso de sua masculinidade. Essa reação é válida? Assim como acontece com os homens, a fertilidade da mulher pode ser afetada por qualquer coisa que interfira no funcionamento do corpo – doenças, fumo, dietas extremas e obesidade. Da mesma forma que ocorre com homens, a idade também desacelera cada etapa da reprodução feminina – ovulação, implantação, crescimento do feto, parto e nascimento. Muitas mulheres inférteis nem mesmo sabem que contraíram uma doença que pode causar infertilidade – doença inflamatória pélvica (DIP). A DIP cria um tecido cicatricial que, às vezes, bloqueia as trombas de falópio, impedindo o esperma de atingir o óvulo. Tratamentos de Fertilidade Nos últimos 50 anos, os avanços médicos resolveram cerca de metade dos problemas de fertilidade. Cirurgias reparam sistemas reprodutivos e as tecnologias de reprodução assistida (TRA) superam obstáculos, como a baixa contagem de espermatozoides e o bloqueio das trombas de falópio. Alguns procedimentos de TRA, incluindo a fertilização in vitro (FIV), que já permitiu aproximadamente 5 milhões de nascimentos (Fisher & Guidice, 2013), foram explicados no Capítulo 3. Doadores de esperma, óvulos e útero podem ajudar casais inférteis ou homossexuais. O nascimento por um desses meios é biologicamente possível e, juntos, já geraram dezenas de milhares de crianças e resolveram muitas questões morais. Alguns usos de TRA são moralmente aceitáveis por praticamente todos, sobretudo quando casais identificam doenças que antecipam a infertilidade. Por exemplo, muitos pacientes com câncer congelam seus espermas ou óvulos antes da quimioterapia ou radiação, o que permite a concepção depois de sua recuperação. Em outro exemplo, antes de 2000, os médicos recomendavam a esterilização e previam mortes prematuras para pessoas com HIV. Hoje, essas pessoas quase sempre usam camisinha nas relações sexuais (para proteger o parceiro não infectado) e vivem por décadas. Se a mulher é portadora do vírus, remédios e a cesariana quase sempre garantem a segurança do feto; se o homem é HIV positivo, o esperma pode ser colhido e limpo em laboratório para retirar o vírus e, via FIV, a gravidez pode ocorrer (Sauer et al., 2009). Todos os procedimentos de TRA precisam de uma assistência médica cara, que o seguro geralmente não cobre. A FIV exige que ambos os pais biológicos se submetam a procedimentos especiais. A mulher tem que tomar hormônios para aumentar o número de óvulos prontos para serem retirados cirurgicamente, e o homem tem que ejacular em um receptáculo. Depois técnicos juntam os espermatozoides e os óvulos, em geral escolhendo um espermatozoide ativo para ser inserido em cada óvulo normal. Idealmente, zigotos se formam e se duplicam. A partir daí, um ou mais blastócitos saudáveis são inseridos no útero, que está pronto para a implantação via medicamentos adicionais. Mesmo com um preparo cuidadoso, menos de metade dos blastócitos se implantam e crescem para virar recém-nascidos. Algumas mulheres mais novas congelam seus óvulos para fazer FIV anos depois, porque a idade dos óvulos é importante (MacDougall et al., 2013). Abortos espontâneos (talvez um terço dos embriões implantados) aumentam com a idade. Na maioria dos países europeus, o seguro público cobre os custos das TRAs, não obstante alguns países exigirem provas de infertilidade e de casamento, entre outras. Nos Estados Unidos, o seguro particular raramente cobre as TRAs, mas o seguro dos militares federais cobre. Isso aumenta a taxa de FIV entre americanos europeus e americanos africanos inférteis, mas não entre americanos hispânicos (McCarthy-Keith et al., 2010). Há mais americanos africanos e americanos latinos inférteis do que americanos europeus, mas suas taxas de TRA são baixas, por muitas razões econômicas e culturais (Greil et al., 2011). Quando as crianças de FIV não têm baixo peso ao nascer, elas se desenvolvem como as outras crianças, não somente em saúde, inteligência e resultados escolares, mas também no que tange ao seu desenvolvimento emocional na adolescência (Wagenaar et al., 2013). >> Resposta para os Homens Jovens: A resposta depende do conceito que a pessoa tem do que é ser homem. Nenhum desenvolvimentista definiria um homem somente por sua alta contagem de espermatozoides. Pais podem ser mais responsivos a filhos de FIV. Isso é sugerido por um estudo feito na Jamaica, onde pais de FIV são mais autoritativos e menos permissivos ou autoritários do que pais de crianças concebidas espontaneamente (Pottinger & Palmer, 2013). Há pelo menos duas explicações possíveis: que os pais tendem a ser mais maduros e que as crianças tendem a ser fortemente desejadas. Menopausa Durante a adultez, o nível dos hormônios sexuais que circulam na corrente sanguínea diminui – repentinamente nas mulheres, gradualmente nos homens. Como resultado, o desejo sexual, a frequência de relações sexuais, e as chances de reprodução diminuem. As especificidades se diferenciam entre homens e mulheres. Mulheres na Meia-Idade menopausa Momento na meia-idade, normalmente aos 50 anos, quando as mulheres param de menstruar e cai a produção do estrogênio, da progesterona e da testosterona. A rigor, a menopausa acontece um ano depois da última menstruação da mulher, embora alguns sintomas fiquem evidentes muitos meses antes ou muitos meses depois. Para as mulheres, em algum momento entre os 42 e os 58 anos (a média é 51 anos), a ovulação e a menstruação cessam devido a uma queda acentuada na produção de vários hormônios. Isso é a menopausa. A idade em que a menopausa acontece de maneira espontânea é afetada primeiramente pelos genes (17 já foram identificados; veja Morris et al., 2011; Stolk et al., 2012) mas também pelo hábito de fumar (menopausa precoce) e pela atividade física (menopausa tardia). Nos Estados Unidos, uma em cada quatro mulheres faz uma histerectomia (remoção cirúrgica do útero), que frequentemente inclui a remoção dos ovários. Se ocorrer antes da menopausa, a remoção dos ovários pode causar os mesmos sintomas menopáusicos – secura vaginal e distúrbios da temperatura corporal, que incluem ondas de calor (sentindo calor), ruborização da pele (parecendo com calor) e suor frio (sensação de calafrios). A menopausa natural produz as mesmas sensações, mas não tão de repente e nem em todas as mulheres. A menopausa precoce, cirúrgica ou não, aumenta o risco de vários problemas de saúde no futuro (Hunter, 2012). As consequências psicológicas da menopausa variam mais do que as fisiológicas. Em uma frase célebre, a antropóloga Margaret Mead disse: “Não há força mais criativa no mundo que uma mulher na menopausa e com entusiasmo.” Algumas mulheres na menopausa têm humor irregular, algumas têm mais energia e outras ficam deprimidas (Judd et al., 2012). terapia de reposição hormonal (TRH) Tomar hormônios (na forma de pílulas, adesivos ou injeções) para compensar a redução hormonal. A TRH é mais comum para mulheres na menopausa ou após a remoção dos ovários, mas também é feita por homens depois que a produção de testosterona diminui. A TRH tem alguns usos médicos, mas também traz riscos à saúde. Nos últimos 30 anos, milhões de mulheres em pós-menopausa fizeram uso de terapia de reposição hormonal(TRH). Algumas fizeram para aliviar os sintomas da menopausa; outras para prevenir a osteoporose (ossos frágeis), doenças do coração, derrames ou demência. Estudos correlacionados descobriram que essas doenças acometem com menos frequência as mulheres que fazem TRH. Pesquisadores acreditam que, como as mulheres com melhor nível de educação e melhor nível socioeconômico são mais propensas a fazer TRH, o baixo nível de doenças se deve primeiramente ao alto status socioeconômico. Em estudos longitudinais controlados, a U.S. Woman Health Initiative descobriu que tomar estrogênio e progesterona aumentava o risco de doenças do coração, derrames e câncer de mama, além de não prevenir a demência (U.S. Preventive Services Task Force, 2002). Um grande estudo de observação confirmou o risco de câncer de mama. Mulheres que faziam TRH tinham mais chances de desenvolver câncer de mama (em um índice de 6 para 1000, comparado a um índice de 4 para 1000) (Chlebowski et al., 2013). TRH, de fato, diminui as ondas de calor e a incidência de osteoporose, mas as mulheres que querem esse benefício precisam pesar os custos. Surpreendentemente, a cultura parece mais influente do que a análise custo-benefício. Por exemplo, pesquisadores australianos confirmaram que o estrogênio reduz a osteoporose; então muitas mulheres australianas passaram a tomar hormônios (Geelhoed et al., 2010). Um estudo na Alemanha descobriu que os médicos hesitavam em prescrever a TRH, mas, na menopausa, a maioria das ginecologistas fazia uso de TRH, e os ginecologistas a prescreviam para suas esposas (Buhling et al., 2012). Homens na Meia-Idade andropausa Termo usado para denominar a queda dos níveis de testosterona em homens mais velhos; normalmente resulta na diminuição do desejo sexual, das ereções e da massa muscular. (Também chamada de menopausa masculina.) Os homens passam por um processo parecido com a menopausa? Alguns dizem que sim, sugerindo que a palavra andropausa deveria ser usada para identificar a queda de testosterona devido à idade, que reduz o desejo sexual, a ereção e a massa muscular (Samaras et al., 2012). Mesmo com medicamentos que induzem a ereção, como o Viagra e o Levitra, o desejo sexual e a velocidade do orgasmo diminuem com a idade, assim como muitas outras funções fisiológicas e cognitivas. No entanto, a maior parte dos especialistas acredita que o termo andropausa (ou menopausa masculina) leva a uma interpretação errada, porque sugere uma queda repentina nas habilidades reprodutivas ou hormonais. Isso não acontece com os homens, que, em alguns casos, produzem espermatozoides viáveis até o final da vida. A falta de atividade sexual e a ansiedade reduzem o nível de testosterona – com um resultado superficialmente parecido com o da menopausa, mas com causas psicológicas e não fisiológicas. Para combater a queda natural de testosterona, alguns homens de meia-idade e mais velhos se voltaram para a reposição hormonal (Samaras et al., 2012). Algumas mulheres também tomam uma pequena quantidade de testosterona para aumentar o desejo sexual. Mas um estudo longitudinal com ambos os sexos, comparando o suplemento de testosterona com placebo, encontrou que não há benefícios (sexuais ou de outro tipo) (Nair et al., 2006). Na verdade, a TRH masculina pode causar doenças do coração e outros problemas (Handelsman, 2011). Cerca de 2 por cento dos homens mais velhos com baixo nível de testosterona se beneficiam da reposição. Para a maioria dos homens, entretanto, os médicos são céticos em relação a esses benefícios (Handelsman, 2011). Alguns diriam que os homens se beneficiariam mais “se aprendessem os benefícios da atividade física. … Digam a eles que peguem os 1200 dólares que seriam gastos em testosterona por ano e, em vez disso, inscrevam-se na academia, comprem uma bicicleta ergométrica – eles terão dinheiro sobrando para roupas novas” (Casey, 2008, p. 48). Todas as evidências encontradas em ambos os sexos mostram que a saúde adulta depende mais dos hábitos saudáveis do que da TRH. Assunto da próxima discussão. RESUMINDO A eficiência do sistema reprodutor cai com a idade, no início dos 20 anos. À medida que a meia-idade se aproxima, muitos casais notam que levam mais tempo para atingir o orgasmo, a frequência das relações sexuais diminui, e a fertilidade se torna reduzida – embora os aspectos psicológicos da interação sexual possam melhorar. Cerca de 12 por cento dos casais nos Estados Unidos são inférteis; a idade é uma das muitas razões. A reprodução assistida pode ajudar milhões de casais inférteis a terem filhos, apesar de o processo ser por vezes difícil e não oferecer garantia da concepção. Aos 51 anos, em média, a mulher passa pela menopausa, uma queda no estrogênio que faz com que a ovulação e a menstruação cessem. A produção hormonal também diminui com a idade nos homens; contudo, muitos homens mais velhos continuam a produzir espermatozoides viáveis. A terapia de reposição hormonal para ambos os sexos é controversa. Muitos médicos nos Estados Unidos temem os possíveis riscos para a saúde, tanto do homem quanto da mulher, mesmo que muitas mulheres, em outros lugares, e muitos homens, nos Estados Unidos, utilizem hormônios. ■ >> Hábitos de Saúde e Idade A rotina de cada um, a partir da infância, afeta de forma poderosa qualquer doença ou condição crônica. Isso é particularmente real para problemas associados ao envelhecimento – de artrite a varizes – que podem começar a aparecer a partir dos 50 anos, mas que na verdade começam décadas antes. Com efeito, algumas condições dos adultos são afetadas pela saúde materna quando eles ainda eram embriões (Haas et al., 2013). Praticamente todas as doenças fatais se tornam mais comuns a cada década da adultez. O câncer é um exemplo clássico (veja o quadro adiante). Entretanto, a maioria dos cânceres está relacionada a estilos de vida que aumentam a carga alostática a cada ano. Não obstante os genes fazerem as pessoas mais vulneráveis a cânceres específicos, o ambiente sempre faz diferença: cerca de um terço das mortes por câncer está relacionado ao hábito de fumar, outro terço está relacionado a dietas, e o terço final relacionado a várias toxinas. A seguir, vamos observar os hábitos dos adultos com o objetivo de entender quais deles contribuem para diminuir a vitalidade. Meio Século de Mortes por Câncer nos Estados Unidos: Taxa anual a cada 100.000 pessoas por faixa etária Idade 1960 2010 1–4 10 2 5–14 7 2 15–24 8 4 25–34 20 9 35–44 60 29 45–54 177 12 55–64 397 300 65–74 714 666 75–84 1127 1202 85+ 1450 1730 Como você pode ver, principalmente por causa de diagnósticos precoces e tratamentos melhores, as mortes por câncer são drasticamente inferiores para pessoas com menos de 35 anos e, de certa forma, reduzidas para pessoas entre 35 e 75 anos. Entretanto, essa taxa aumenta para idosos, em parte porque, quando eles eram mais novos, provavelmente fumavam mais cigarros e se alimentavam de mais comidas processadas altamente gordurosas do que as pessoas dos outros grupos. Ainda é preciso saber se os adultos da primeira metade do século XXI também sofrerão consequências de um alto carregamento alostático. Abuso de Drogas Como descrito no Capítulo 17, o abuso de drogas, especificamente as ilegais, diminui acentuadamente na adultez – em geral antes dos 25 anos e quase sempre aos 40 anos. Das drogas ilegais, a maconha é a que menos deixa de ser usada. Nos Estados Unidos, cerca de 11 por cento dos adultos entre 25 e 34 anos ainda fumam maconha (National Center for Health Statistics, 2013); essa taxa aumenta à medida que a droga se torna legal em vários estados. Apesar de o uso de drogas ilegais diminuir na adultez, o abuso de medicação prescrita aumenta. Uma das razões é que esses medicamentos são passados primeiramente para diminuir a dor, a insônia ou a angústia psicológica, e as pessoas não percebem quando se tornam dependentes. Todavia, nos Estados Unidos, sem dúvida as drogas que causamdependência e são mais comumente utilizadas são duas drogas legais, vendidas a qualquer pessoa maior de idade, em centenas de milhares de lojas – o tabaco e o álcool. Tabaco As taxas de morte por câncer de pulmão (a maior causa de morte por câncer na América do Norte) refletem o padrão de tabagismo de anos anteriores. Cerca de 70 por cento das mortes de câncer de pulmão no mundo e 90 por cento em países industrializados são causadas por cigarros (Ezzati & Riboli, 2012). Como os homens norte-americanos vêm deixando de fumar há décadas, a taxa de mortes de homens por câncer de pulmão diminuiu significativamente desde 1980, e a taxa de mortes relacionadas a câncer de homens entre 45 e 64 anos é agora muito menor do que a taxa dos adultos mais velhos. Em 2010, a idade média para o diagnóstico do câncer de pulmão era de 70 anos (National Cancer Institute, 2013). As taxas dos homens adultos continuam a cair. Em comparação com os homens, poucas mulheres fumavam no início do século XX, mas depois o número de mulheres fumantes aumentou e recentemente voltou a diminuir. Consequentemente, nos Estados Unidos, durante o mesmo ano em que as mortes de homens relacionadas a câncer de pulmão diminuíram, as taxas das mulheres aumentaram. Há cinquenta anos, mais mulheres morrem de “cânceres de mulheres” (mama, colo do útero ou de ovários) do que de câncer de pulmão; ao contrário, em 2010, quase duas vezes mais mulheres adultas morreram de câncer de pulmão do que dos três outros cânceres combinados (National Center for Health Statistics, 2013). Felizmente, o tabagismo diminuiu na última década na América do Norte (Estados Unidos, Canadá e México) para todas as idades e gêneros. Em 1970, metade dos homens adultos nos Estados Unidos e um terço das mulheres fumavam, mas em 2010 apenas 22 por cento dos homens e 18 por cento das mulheres fumavam, com quase a mesma quantidade de ex-fumantes e fumantes. Ainda não é hora de comemorar, contudo, porque “o tabagismo continua sendo a maior causa de morbidade evitável e mortandade nos Estados Unidos” (MMWR, 2013, p. 81). As projeções norte-americanas sugerem um futuro melhor. Mulheres estão seguindo os passos masculinos de parar de fumar, e muitos escritórios, casas e locais públicos agora estão livres do fumo. A porcentagem de adultos fumantes parece estar estancada em cerca de 20 por cento ao longo da última década, com taxas muito mais baixas depois dos 65 anos (veja a Figura 20.2). Não se sabe se isso porque muitos adultos deixaram de fumar ao atingir a velhice, ou porque a maioria dos fumantes crônicos já morreu. A tendência no resto do mundo é menos encorajadora. Quase metade dos adultos na Alemanha, Dinamarca, Polônia, Holanda, Suíça e Espanha é de fumantes. Em países em desenvolvimento, as taxas de fumantes estão aumentando, especialmente entre mulheres. A Organização Mundial da Saúde classifica o tabaco como “a maior causa evitável de mortes e doenças crônicas no mundo” (Blas & Kurup, 2010, p. 199). Estima-se que um bilhão de mortes relacionadas ao fumo ocorram no mundo entre 2010 e 2050. FIGURA 20.2 Mais Velho e Mais Sábio Todos podem ver a boa notícia óbvia aqui. Nos Estados Unidos (não no mundo todo), bem menos pessoas de todas as idades estão fumando agora do que em 1965. Mas olhe atentamente com uma perspectiva desenvolvimentista: mais da metade das pessoas, agora com 65 anos, era fumante quando era jovem adulto. Diz-se que o cigarro vicia tanto quanto a heroína, e a taxa de pessoas que param de fumar aumenta a cada ano da adultez. Isso mostra que cerca de 100.000 americanos venceram um hábito poderoso e destrutivo. Fonte: National Center for Health Statistics, 2013. Abuso de Álcool O mal causado pelo cigarro está relacionado à dose consumida: cada tragada, cada dia, cada respiração do fumante passivo aumentam as possibilidades de câncer, doenças do coração, derrames e enfisema. Nenhuma dessas doenças é provocada de forma direta pela bebida. Na verdade, o álcool até pode ser benéfico. Pessoas que bebem vinho, cerveja ou aguardente com moderação – nada além de dois copos por dia – vivem mais do que pessoas em abstinência. Beber mais do que isso é prejudicial. A razão primordial de o álcool ser benéfico é que o álcool reduz as chances de doenças coronárias e derrames. Aumenta o HDL (lipoproteína de alta densidade), o colesterol “bom”, e reduz o LDL (lipoproteína de baixa densidade), o colesterol “ruim”, que provoca obstrução das artérias e coágulos sanguíneos. Um drinque ocasional também pode baixar a pressão sanguínea e a glicose (Klatsky, 2009). Contudo, o consumo moderado é impossível para algumas pessoas, e a falta de moderação é algo perigoso. Alcoolistas acham mais fácil se manter em abstinência do que beber apenas um copo. O consumo excessivo de álcool aumenta o risco de derrames e pressão alta. Além disso, o abuso do álcool destrói as células do cérebro; contribui para a osteoporose; diminui a fertilidade; e está relacionado a muitos suicídios, homicídios e acidentes – causando danos a muitas famílias. Tem relação com 60 doenças; não apenas câncer de fígado, mas também câncer de mama, estômago e garganta. Há fortes variações internacionais no abuso de álcool. É raro em países muçulmanos onde o álcool é ilegal, mas é a causa de quase metade das mortes de homens com menos de 60 anos na Rússia (Leon et al., 2007). Para os adultos nos Estados Unidos, o consumo excessivo de álcool é perigoso e comum. Cerca de 32 por cento das pessoas entre 25 e 44 anos e 18 por cento das que têm entre 45 e 64 anos beberam cinco ou mais doses em uma única ocasião no ano anterior (National Center for Health Statistics, 2013). Os Estados Unidos tiveram 88.000 mortes relacionadas com o consumo de álcool entre os anos de 2006 e 2010 (MMWR, 14 de março, 2014). Especialmente para Médicos e Enfermeiros Se você tivesse que escolher entre recomendar vários exames preventivos ou várias mudanças no estilo de vida para uma pessoa de 35 anos, o que você escolheria? De 1980 a 2010 nos Estados Unidos, várias leis e práticas comunitárias reduziram pela metade a taxa de mortes no trânsito causadas por motoristas alcoolizados. Em muitos países, o risco de morte por acidentes causados por alcoolismo é mais comum entre jovens adultos, mas o dano permanente para as famílias prevalece quando a pessoa alcoolista já é de meia-idade (Blas & Kurup, 2010). Geralmente, países de baixa renda possuem mais pessoas em abstinência, mais pessoas que bebem em excesso e menos pessoas que bebem moderadamente do que países com maior poder aquisitivo (Blas & Kurup, 2010). Em países mais pobres, a prevenção e as estratégias de tratamento para o abuso de álcool ainda não foram definidas, a regulamentação é rara e as leis não se concentraram no abuso (Bollyky, 2012). Portanto, o abuso de álcool se torna um problema particularmente letal em países de baixa renda. Alimentação Entre os 20 e os 60 anos o metabolismo cai cerca de um terço, e a digestão se torna menos eficiente. Para manter o peso, os adultos precisam comer menos e se mover mais à medida que envelhecem. Além disso, como as calorias totais devem diminuir, mais frutas e vegetais e menos doces e gorduras devem ser consumidos por ano. Isso porém não é o que acontece. Prevalência da Obesidade Nos Estados Unidos, adultos ganham, hoje, uma média de meio a um quilograma por ano, muito mais do que gerações mais antigas ganhavam. Assim, por todos os 40 anos da adultez, o total de ganho de peso é de 18 a 36 quilos. Como resultado, dois terços dos adultos nos Estados Unidos estão acima do peso, que é definido como um índice de massa corporal (IMC) de 25 ou mais. De fato, quase um terço de todos os homens americanos e mais de um terço das mulheres americanas que têm entre 25 e 65 anos são obesos (com o IMC maior que 30), sendo 12 por cento dos homens e 20 por cento das mulheres obesos mórbidos (com IMC maior que 40) (National Center for Health Statistics, 2013). [Link: IMC foi explicado no Capítulo 17.] Se os números de IMC parecem abstratos, imagineuma pessoa que tem 1,72 m de altura. Se essa pessoa pesa 68 quilos, seu IMC é aproximadamente 23, um peso normal. Se ela pesa 90 quilos, o IMC é 30, o que a torna obesa. Se ela pesa mais de 118 quilos, o IMC é acima de 40, o que a torna obesa mórbida. Se você passa a maior parte de seu tempo entre estudantes universitários de 20 anos, pode não estar ciente da prevalência da obesidade porque as pessoas na faixa dos 20 anos têm taxas mais baixas de obesidade do que as pessoas de 40 ou 50 anos. Além disso, aqueles que são obesos costumam sair menos de casa, então você pode não vê-los com a mesma frequência que vê pessoas magras. Meio milhão de pessoas no mundo são obesas. Os números parecem ter atingido um alto patamar nos Estados Unidos, mas muitos países em desenvolvimento reportam um rápido aumento das taxas (veja, mais adiante, Visualizando o Desenvolvimento). Isso é particularmente real na África e na Ásia, onde a desnutrição já foi o maior problema relacionado à alimentação; hoje é a obesidade (Organização Mundial da Saúde, 2013). Consequências da Obesidade Uma recente análise descobriu que as taxas de morbidade por idade para adultos que estavam de alguma forma acima do peso eram mais baixas do que as taxas para pessoas que eram magras, uma conclusão que agradou muitos adultos de grande porte (Flegal et al., 2013). Contudo, o IMC 25 ou 26 pode estar adequado, mas nenhuma pesquisa diz que a obesidade é saudável. Excesso de gordura corporal aumenta o risco de quase todas as doenças crônicas. Um exemplo é a diabetes, que rapidamente está se tornando mais comum e causa problemas nos olhos, no coração e nos pés, assim como morte prematura. Apesar de a diabetes ser parcialmente genética, essa tendência genética pode ser exacerbada por causa do excesso de gordura. Os Estados Unidos são os líderes mundiais tanto em obesidade como em diabetes. >> Resposta para Médicos e Enfermeiros: É claro que depende muito do paciente. Mas, de uma forma geral, o número de pessoas que morrem por doenças ocasionadas por muitos anos de maus hábitos de saúde é muito maior que o número de pessoas que morrem por doenças que não foram detectadas previamente. Com algumas exceções, 35 anos é muito cedo para detectar cânceres incipientes ou problemas circulatórios, mas já está mais do que na hora de parar de fumar, reduzir o álcool, melhorar a dieta e fazer exercícios. As consequências da obesidade são psicológicas e também físicas, já que adultos obesos são alvos de chacota e preconceito. Eles têm menos chances de serem escolhidos como cônjuges, funcionários e até mesmo como amigos. O estigma que pessoas gordas carregam as leva a evitar consultas médicas, a comer mais e a fazer menos exercícios – o resultado é que a saúde delas é mais prejudicada do que o simples fato de estar acima do peso poderia indicar (Puhl & Heuer, 2010). Em vez de se preocupar em chegar ao peso ideal, o objetivo das pessoas que têm a saúde prejudicada pelo peso deveria ser perder peso o suficiente para proteger a saúde. A ênfase cultural no IMC ideal, particularmente para mulheres, pode encorajar dietas não saudáveis e ter como consequência distúrbios alimentares, incluindo comer em excesso (Shai & Stampfer, 2009). Isso pode explicar por que há mais mulheres com peso saudável do que homens (elas se importam mais) ou obesas (elas desistem, caso não consigam emagrecer). Comer de forma saudável e ter bons planos para a saúde é importante para todos os adultos, estando eles acima do peso ou não. De fato, algumas pessoas podem ser geneticamente destinadas a estar fora dos limites do peso normal. Nos Estados Unidos, os adultos americanos de origem asiática têm taxas significativamente mais baixas de obesidade (11 por cento), e afro- americanos têm taxas mais altas (48 por cento). Talvez seja necessário alterar os cortes de IMC para esses grupos. Também é possível que o peso seja um fator importante para as maiores taxas de morte prematura entre afro-americanos. A relação entre cultura e obesidade é fundamental, apesar de não entendida completamente. Por exemplo, cientistas coletaram várias medidas biofisiológicas (incluindo peso, altura, pressão sanguínea e níveis de colesterol e glicose) de 5000 adultos, metade deles com ascendência inuíte (esquimós) e a outra metade com ascendência europeia, todos vivendo no extremo Noroeste da América do Norte. Embora os inuítes tenham maior IMC, os riscos de saúde relacionados ao peso entre eles foram muito menores do que entre os europeus. Séculos de adaptação ao Ártico podem ter produzido uma gordura corporal isolante, sem criar o risco de mortalidade usualmente associado ao excesso de peso (Young et al., 2007). Em outro estudo, a adaptação às condições nacionais diminuiu o risco de problemas de saúde. Em Cuba, de 1991 a 1995, uma crise econômica nacional acabou resultando em menos carne para a população e mais exercícios físicos, o que causou uma perda de peso média de 6,5 kg e a diminuição da incidência de diabetes e doenças do coração. Quando a crise acabou, as pessoas readquiriram o peso, e as taxas de diabetes dobraram (Franco et al., 2013). Obviamente, não deveríamos confiar apenas nos genes ou esperar por uma crise econômica. Entretanto, muitas pessoas parecem não conseguir controlar seus hábitos alimentares. Para muitos obesos mórbidos, a cirurgia bariátrica pode ser a melhor opção. Cerca de 200.000 pessoas residentes nos Estados Unidos se submetem, a cada ano, à cirurgia de bypass gástrico ou à cirurgia de banda gástrica para perder peso. O índice de complicações pós-operatórias é bastante alto, com cerca de 2 por cento de mortes durante a operação ou um pouco depois, e cerca de 10 por cento tendo necessidade de cirurgias adicionais. Com o tempo, porém, a cirurgia que reduz a obesidade salva vidas, porque a obesidade mórbida é um risco sério à sobrevivência (Adams et al., 2012; Schauer et al., 2010). Os benefícios mais notáveis aparentemente ocorrem em pessoas com diabetes, pois 70 por cento descobrem que sua diabete desaparece e frequentemente ela não retorna (Arterburn et al., 2013). Causas do Aumento de Peso Por que a obesidade é tão prevalecente nos Estados Unidos? Em capítulos anteriores, reconhecemos dois culpados: a propaganda e a pressão social; aqui focamos mais especificamente no que as pessoas comem. As pessoas de uma típica família americana consomem mais carne e gordura e menos fibras do que as pessoas de qualquer outra parte do mundo. Por exemplo, os chineses tradicionalmente comem muitos vegetais misturados com pequenos pedaços de carne ou peixe; geralmente, eles não têm problemas com peso. Alguns culpam o novo gosto por comida americana pelo recente aumento de peso na China. FIGURA 20.3 Mais Velho e Mais Preguiçoso O exercício é importante em qualquer idade, mas sua importância aumenta na medida em que as pessoas envelhecem. Por que as pessoas que mais precisam são as que menos se exercitam? Um culpado específico pelo aumento do peso pode ser o açúcar, tanto a sacarose como a frutose (adicionadas a muitos alimentos embalados e bebidas por meio do xarope de milho). Um estudo que reduzia a quantidade de açúcar nos alimentos descobriu que as pessoas estavam perdendo peso; outro estudo, realizado em 175 países, constatou a correlação entre o consumo nacional de açúcar e a diabete (Te Morenga et al., 2013; Basu et al., 2013). Cientistas e médicos concordam que a nutrição é um fator relevante em quase todas as doenças de adultos. Apesar de alguns alimentos específicos não terem sido comprovados (o açúcar pode não ser o pior vilão), uma dieta saudável é, sem dúvida, melhor para qualquer adulto. Na Grécia e na Itália, é comum a chamada dieta mediterrânea, que é rica em fibras, peixes e azeite de oliva. Está comprovado que essa dieta protege contra doenças do coração, sem engordar (Estruch et al., 2013). No entanto, infelizmente a maioria das pessoas não come tão bem como deveria. Sedentarismo A atividade física regular em todos os estágios da vida protege contra doençassérias, mesmo que a pessoa tenha hábitos de saúde indesejáveis, como fumar e comer em excesso. O exercício reduz a pressão sanguínea; fortalece o coração e os pulmões; e diminui a probabilidade de depressão, osteoporose, artrite e até mesmo alguns cânceres. Os benefícios para a saúde que decorrem da prática de exercícios são importantes para homens e mulheres, velhos ou jovens, ex- esportistas e aqueles que nunca entraram em nenhum time (Aldwin & Gilmer, 2013). Em contrapartida, ficar sentado por muitas horas se relaciona com quase todas as condições não saudáveis, especialmente doenças do coração e diabetes, ambas doenças que carregam riscos adicionais à saúde além delas próprias. Até mesmo um pouco de movimento – jardinagem, trabalhos domésticos leves, subir escadas ou andar até o ônibus – ajuda. Como explicado no Capítulo 17, caminhar com energia pelo menos 30 minutos por dia, cinco dias por semanas, é uma meta plausível. Exercícios mais intensos (por exemplo: nadar, correr, pedalar) e exercícios de fortalecimento muscular são ideais. É possível se exercitar bastante, mas quase nenhum adulto o faz. Na verdade, um estudo com avaliações objetivas dos movimentos de adultos (monitores eletrônicos) descobriu que menos de 5 por cento dos adultos nos Estados Unidos e na Inglaterra fazem pelo menos 30 minutos de exercício diário (Weiler & Stamatakis, 2010). (Autorrelatos elevam esses números para 30 por cento; veja a Figura 20.3.) A estreita relação entre o exercício e a saúde física e mental é bem conhecida, assim como a influência da família, dos amigos e de vizinhos. Comunidades voltadas para a prática de exercícios possuem taxas de obesidade, hipertensão e depressão menores (Lee et al., 2009). Morar em bairros com muitas vias para se andar a pé (caminhos, calçadas etc.) reduz o tempo gasto dirigindo e vendo televisão (Kozo et al., 2012). Essa relação entre arredores, exercícios e saúde é causal, e não meramente correlacional. Pessoas que são mais ativas e estão em forma têm sistemas imunológicos mais fortes; portanto, resistem mais às doenças. Além disso, elas se sentem com mais energia, o que incentiva seus bons hábitos de saúde. Muitos cientistas sociais buscam encorajar o exercício e outros bons hábitos de saúde entre os adultos. Manter bons hábitos de saúde durante toda a vida é a parte mais difícil, conforme a explicação a seguir. UMA VISÃO DA CIÊNCIA Abandonar um Hábito É Difícil Todos sabem que fumar, abusar do álcool, comer em excesso e não fazer exercícios é prejudicial; ainda assim, quase todo mundo tem pelo menos um hábito destrutivo. Por que não entramos nos eixos para viver bem? Abandonar resoluções de final de ano; criticar maus hábitos nas outras pessoas que não são os nossos; sentir-nos culpados por consumir açúcar, sal, frituras, cigarros ou álcool; matricular-nos na academia e não frequentar, ou comprar aparelhos de exercícios que se transformam em porta-casacos ou esculturas empoeiradas – esses comportamentos são comuns. Muitos cientistas sociais focam nessa questão (Martin et al., 2010; Luszczynska et al., 2011; Conner, 2008; Shumaker et al., 2009). Primeiramente, precisamos entender que mudar um hábito é um processo longo e com muitas etapas. Táticas que funcionam em uma etapa podem falhar em outra. Estratégias diferentes são necessárias em cada estágio. Uma lista desses passos: (1) negação, (2) conscientização, (3) planejamento, (4) implementação e (5) manutenção. 1. A negação acontece porque todos os maus hábitos começam e são mantidos por uma razão. Isso faz da negação um ato razoável de autodefesa. Por exemplo, a maioria dos fumantes começa a fumar cigarros na adolescência, para se sentirem aceitos socialmente ou aparentar maturidade e/ou para controlar o peso – todos são motivos importantes, principalmente durante a adolescência. Antes de o adolescente perceber, a nicotina cria uma dependência e, sem a droga, a pessoa fica ansiosa, confusa, com raiva e deprimida. Não é de se estranhar que aconteça a negação. Em relação a diversas dependências que ameaçam a vida (incluindo o tabagismo), dizer quanto mal tal coisa faz frequentemente leva a mais cigarros, mais bebida, e assim por diante (Ben-Zur & Zeidner, 2009). As pessoas glorificam maus hábitos e se gabam de ser o “menino mau” ou a “menina má”. A negação é especialmente forte quando uma figura de autoridade critica um mau hábito. Por exemplo, um 1 cada 8 fumantes mente para seu médico sobre o tabagismo, e os adultos entre 25 e 34 anos têm a maior probabilidade de mentir (Curry et al., 2013). Como as pessoas obesas não podem mentir sobre estar acima do peso, elas evitam médicos e desconhecidos. A negação – assim como acreditar que a mudança é impossível, ou usar mais drogas – protege contra o estresse. 2. A conscientização é alcançada pela pessoa por si própria, e não pelos outros. Às vezes, a conscientização se dá após um evento traumático – um médico que prevê a morte por causa do fumo contínuo, uma noite na cadeia por estar bêbado, atingir a marca de 100 kg (que parecem muito mais do que 99). Embora as pessoas possam estar sendo contraproducentes quando fazem declarações ou críticas aos hábitos (“você sabia que fumar pode causar câncer de pulmão”), uma entrevista motivacional (perguntar às pessoas sobre os prós e os contras do hábito) pode ajudar. Frequentemente as pessoas flutuam entre a negação e a conscientização insurgente; um bom ouvinte pode ponderar com base no que as pessoas dizem contra o hábito e reiterar que cada um pode decidir o que deve fazer. A autoeficácia – a crença de que uma pessoa pode atingir seus objetivos, isto é, largar as drogas, mudar a rotina, e assim por diante – é fundamental (Martin et al., 2010). 3. O planejamento é melhor quando é específico, como marcar uma data para parar e colocar estratégias para superar os muitos obstáculos. Uma série de estudos sugere que os humanos tendem a subestimar o poder de seus impulsos, que surgem de padrões cerebrais, não lógicos (Belin et al., 2013). Portanto, planos precisam incluir estratégias para se defender de ondas momentâneas. O excesso de confiança dificulta o abandono de um hábito. Isso parece real para fumantes, alcoolistas, pessoas em dieta e todas as outras. Em um experimento, pesquisadores deram a estudantes que estavam entrando em uma lanchonete na faculdade ou saindo dela a opção de um pacote de salgadinhos ou um vale de U$10 (mais o salgadinho) se eles prometessem não o comer por uma semana. Aqueles que estavam entrando na cantina, presumidamente cientes da fome, planejaram evitar a tentação escolhendo lanches menos saborosos. A maioria deles (61 por cento) ganhou o dinheiro e o salgadinho. Contudo, aqueles que estavam saindo da cantina, aparentemente subestimaram sua fome. Eles escolheram o lanche mais saboroso e quase todos o comeram antes de terminar a semana; apenas 39 por cento desse grupo ganhou o dinheiro (Nordgren et al., 2009). 4. A implementação é abandonar o hábito de acordo com o plano. Um fator importante para atingir o sucesso é o apoio social, como (1) explicar para terceiros os detalhes do plano e enumerar a ajuda que eles podem oferecer; (2) encontrar um companheiro; ou (3) juntar-se a um grupo (Vigilantes do Peso, Alcoólicos Anônimos, ou outro programa de 12 passos). Melhor ainda, todos os três. Esforços pessoais frequentemente falham. A implementação funciona melhor se for um hábito de cada vez: parar de fumar no mesmo dia em que você inicia uma série de exercícios é um plano ambicioso, mas têm grandes chances de não funcionar. Simultaneamente, vitórias passadas influenciam a fé das pessoas na autoeficácia. Conseguir passar um dia sem usar drogas é um motivo de celebração e também uma prova de que é possível seguir mais um dia sem usá-las. Marcar dias no calendário, recompensar-se com um presente comprado com o dinheiro que não foi gasto para comprar cigarros, escutar vitórias passadas – tudo isso aumenta as chances de sucesso. 5. A manutenção é o passo que a maioria das pessoas ignora. Abandonarum hábito enraizado é difícil e, às vezes, doloroso; muitos viciados precisam parar várias vezes, pois acabam voltando ao hábito. Pessoas em dieta param e voltam tantas vezes, que essa tendência tem um nome – dieta ioiô. Infelizmente, uma vez que a implementação é bem-sucedida, as pessoas ficam confiantes demais. Elas esquecem o poder da tentação. A força de vontade é como um músculo, vai ganhando e se fortalecendo aos poucos, com exercícios, mas o músculo está sujeito à fatiga se for utilizado demais (Baumeister & Tierney, 2012). O alcoolista recuperado pode sair com amigos que bebem, confiante de que vai pedir um suco no lugar de uma cerveja; a pessoa em dieta vai servir sobremesa para o resto da família, certa de que ela mesma será capaz de resistir a provar um pouquinho; a pessoa que entra na academia vai faltar um dia e planejar malhar o dobro no dia seguinte. Essas atitudes são bem mais perigosas do que as pessoas acham. A pessoa em dieta utiliza tanto a força de vontade para não comer a sobremesa que, à noite, ela fica desesperada quando se depara com o resto do bolo na geladeira. Qualquer estresse é capaz de minar a resolução e desencadear novamente o hábito. Por exemplo, em um estudo, pessoas em dieta que recebem uma tarefa estressante (lembrar um número de nove dígitos), entraram em uma sala, aparentemente aleatória, onde havia comidas tentadoras ou uma balança e um livro de dietas. Pediram-lhes para provar um milkshake e depois dar opiniões; também lhes disseram que poderiam beber o quanto quisessem. Aquelas que viram as comidas beberam mais do que aquelas que viram as coisas relacionadas à dieta (Mann & Ward, 2007). Isso se chama miopia atencional e indica que a capacidade de manutenção pode se dissipar quando se vive uma situação de estresse. Muitas pessoas que recomeçaram um hábito ruim falam que o fizeram em um momento de estresse – um divórcio, um emprego novo, um filho adolescente rebelde. Claro que mais cedo ou mais tarde um adulto vai se estressar; por isso estratégias de manutenção são cruciais. Quando o contexto encoraja um escorregão, as pessoas têm a mania errônea de achar que um cigarro, um drinque, um pedaço de bolo ou um pouco de milkshake a mais não têm consequências – o que seria verdade, se a pessoa parasse ali. Infelizmente, a mente humana vai em direção a tudo ou nada. Os neurônios ligam ou desligam, não ficam na metade do caminho. Por causa disso, uma tragada aumenta as chances da próxima, uma batata frita desperta a compulsão por outra, e por aí vai. Já com o álcool, a bebida em si bagunça a mente; as pessoas ficam menos cientes de seus lapsos cognitivos sob a influência dele e por isso bebem mais depois do primeiro copo (Sayette et al., 2009). A manutenção depende muito do contexto, o que torna cruciais os hábitos das outras pessoas e as circunstâncias da vida diária. Uma taça de vinho servida quando o ex-alcoolista não está olhando, a chuva que dificulta a corrida diária, um biscoito hipercalórico comido por causa da fome são tóxicos para a pessoa que não está preparada para isso. Uma vez que a pessoa se torna consciente de um problema destrutivo (passo dois), é relativamente fácil planejar e implementar melhores hábitos (passos três e quatro), mas mantê-los (passo 5) é difícil se o contexto inclui um empurrão inesperado para a direção oposta. RESUMINDO Durante a adultez, hábitos saudáveis são importantes. Em países com boa assistência médica, se ninguém fumasse, bebesse em excesso, comesse muito ou fizesse menos exercício do que o recomendado, quase todos atingiriam os 65 anos prontos para muito mais décadas de uma vida ativa e feliz. Infelizmente, estudos sobre maus hábitos ao longo das décadas da adultez e ao longo dos anos do século XXI não são sempre encorajadores. Fumar cigarros está diminuindo nos Estados Unidos, mas não está diminuindo em muitos outros países. Os Estados Unidos possuem taxa mais alta de adultos com sobrepeso e diabetes do que quase qualquer outro país. Alcoolismo, obesidade e sedentarismo não eram reconhecidos como problemas há algumas décadas, mas agora são, embora muitos adultos tenham dificuldade de reverter esses casos. Em muitos países, uma situação econômica melhor pode, ironicamente, aumentar hábitos prejudiciais à saúde. ■ >> Medindo a Saúde Muito mais dinheiro é gasto prevenindo a morte de pessoas que já estão doentes (prevenção terciária) do que investindo no bem-estar antes de adquirir a doença. [Link: Os três níveis de prevenção são explicados no Capítulo 8.] Em contrapartida, as prevenções primária e secundária são objetivos da maioria das pessoas que trabalham e desenvolvem políticas públicas de saúde. Para medir a efetividade de vários esforços, quatro indicadores são usados: a mortalidade, a morbidade, a incapacidade e a vitalidade. Mortalidade mortalidade Morte. Como uma forma de medir a saúde, a mortalidade normalmente se refere ao número de mortes por ano para cada 100.000 membros de determinada população. A morte é a perda derradeira de saúde. A mortalidade é normalmente expressa pelo número de mortes anuais a cada 100.000 habitantes na população. Os números para várias idades, gêneros e grupos raciais nos Estados Unidos variam de cerca de 8 (meninas americanas de origem asiática, com idade entre 5 e 14 anos, têm 1 chance em 12.000 de morrer em um ano) até 15.640 (homens americanos de ascendência europeia, acima de 85 anos, têm 1 chance em 6 de morrer em um ano) (National Center for Health Statistics, 2013). É necessário comparar a saúde entre países e as taxas de mortalidade ajustadas por idade; caso contrário, um país com muitas pessoas acima dos 80 anos terá uma taxa de mortalidade artificial mais alta. A taxa de mortalidade ajustada por idade entre pessoas nos Estados Unidos em 2010 foi de 757 a cada 100.000 – muito melhor do que há 40 anos, quando a taxa era de 1230. As estatísticas de mortalidade são compiladas a partir de certificados de óbito, que indicam a idade, o sexo e a causa imediata da morte. Essa prática permite comparações históricas e internacionais válidas porque as mortes foram contadas e registradas durante décadas – às vezes durantes séculos. O Japão tem a taxa de mortalidade ajustada por idade mais baixa do mundo (cerca de 500 a cada 100.000), e Serra Leoa possui a taxa mais alta (cerca de 3500 a cada 100.000); ambas as taxas são notavelmente menores do que eram há algumas décadas. A mortalidade é mais baixa para mulheres (veja a Figura 20.4). Em todo o mundo, mulheres vivem quatro anos a mais que os homens, embora isso varie de lugar para lugar (Nações Unidas, 2013). Por exemplo, homens morrem em média 13 anos antes do que as mulheres na Rússia (61 versus 74), mas com a mesma idade em Serra Leoa (ambos aos 44 anos). Mundialmente, mulheres mais velhas superam em número os homens mais velhos (em 2 para 1 aos 85 anos), em primeiro lugar porque mais homens jovens e meninos morrem. A proporção entre sexos favorece os meninos no nascimento; logo, é quase igual aos 50 anos e pende para as mulheres a partir daí (Nações Unidas, 2013). Essa diferença de gênero na mortalidade pode ser biológica – o segundo cromossomo X, mais estrogênio e menos testosterona podem proteger a mulher. Ou pode ser cultural, uma vez que as mulheres tendem a ter mais amigos e tomar mais cuidado de si próprias. Um especialista em saúde pública escreveu: Homens são criados socialmente para projetar força, individualidade, autonomia, dominância, estoicismo e agressão física, e para evitar demonstrações emocionais ou vulnerabilidade que poderiam ser consideradas como fraquezas. Estas [características] … combinam-se para aumentar os riscos à saúde. [D. R. Williams, 2003, p. 726] As taxas de mortalidade também variam por etnias, rendas e lugares de residência, dentro de um país e entre países. Por exemplo, o risco geral de morte para uma pessoa que mora nos Estados Unidos e tem entre 25 e 65 anos é de cerca de 15 por cento, mas em algumas regiões pode chegar a 50 por cento (exemplo: Homens Sioux, naDakota do Sul), ou ser menor que 2 por cento (mulheres asiáticas em Connecticut) (Lewis & Bird-Sharps, 2010). FIGURA 20.4 Nem Tantos Homens Mais Velhos Comparações internacionais da expectativa de vida ajudam a levantar questões (por que os Estados Unidos são mais parecidos com o México do que com o Japão?) e marcam universalidades (mulheres vivem mais, não importa a cultura ou o sistema de saúde). Fonte: Nações Unidas, Departamento para Assuntos Econômicos e Sociais, Divisão de População (2013). Morbidade morbidade Doença. Como uma forma de medir a saúde, a morbidade normalmente se refere à taxa de prevalência de doenças em determinada população – físicas e emocionais, agudas (repentinas) e crônicas (contínuas). Outra medida de saúde é a morbidade (da palavra latina para “doença”), que se refere a enfermidades e enfraquecimentos de todos os tipos – agudos ou crônicos, fisiológicos ou psicológicos. A morbidade não necessariamente tem relação com a mortalidade. Nos Estados Unidos, quase metade das mulheres mais velhas tem osteoartrose; nenhuma morre de osteoartrose. Quando comparadas com homens da mesma idade, mulheres adultas possuem taxas mais baixas de mortalidade, porém taxas mais altas de morbidade para quase todas as doenças crônicas. Em todo o mundo, à medida que a mortalidade diminui, a morbidade aumenta. Por exemplo, doenças do coração e câncer têm sido as principais causas de morte, há décadas, mas agora também são causas comuns da morbidade. As mesmas medidas que salvam vidas – triagem, medicamentos, cirurgias – também diminuem a saúde. Um exemplo recente é o teste sanguíneo de PSA para o câncer de próstata. Algumas pesquisas sugerem que uma rotina de exames preventivos adiciona um dia à vida do homem normal – a razão por trás disso seria que um diagnóstico precoce preveniria ou adiaria a morte, aumentando a vida de um homem em um ano; no entanto, um a cada 364 homens que se submetem a uma rotina de exames vê algum benefício no aumento da longevidade, o que daria a média de um dia a mais de vida. Entretanto, uma parte significativa desses 364 homens passa por diagnósticos exagerados, biópsias e cirurgias desnecessárias, que produzem mais morbidade (incontinência, impotência, aumento de ansiedade); isso torna o exame preventivo mais destrutivo do que benéfico. É por isso que o American Council of Physicians aponta os “benefícios potenciais limitados e prejuízos substanciais do exame preventivo do câncer de próstata” (Quaseem et al., 2013). Da mesma forma, mamografias para mulheres abaixo dos 50 anos geram muitos falsos positivos e, a partir daí, biópsias desnecessárias e ansiedade. Em geral, quando os riscos de mortalidade e morbidade são considerados, as mamografias podem mais atrapalhar do que ajudar as mulheres (Woloshin & Schwartz, 2010). Incapacidade incapacidade Dificuldade de exercer atividades normais da vida diária devido a alguma condição física, mental ou emocional. A incapacidade (ou deficiência) se refere à dificuldade de desempenhar “atividades diárias” por causa de uma “condição física, mental ou emocional”. Limitação no funcionamento (não a gravidade da doença) é a marca da incapacidade. Ela não necessariamente se assemelha à morbidade. Nos Estados Unidos, dos adultos incapacitados, apenas 30 por cento consideram que sua saúde é razoável ou ruim (National Center for Health Statistics, 2013). As atividades do dia a dia, e consequentemente a habilidade de praticá-las, variam de acordo com o contexto. Por exemplo, pessoas que não podem andar 200 passos sem descansar têm uma incapacidade se seus empregos exigem que elas andem (carteiro), mas não ele elas precisarem ficar sentadas (funcionário de escritório dos correios). AVAIs (anos de vida ajustados em função da incapacidade) Medida da redução da qualidade de vida causada por uma incapacidade. Anos de vida ajustados em função da incapacidade, ou AVAIs (ou DALYs, sigla em inglês para disability-adjusted life years), são uma forma de medir o grau de comprometimento causado pela deficiência de uma pessoa. A premissa é que uma pessoa com deficiência tem, de alguma forma, menos do que uma vida inteira. Portanto, a pessoa que nasce com uma incapacidade que reduz seu funcionamento em cerca de 10 por cento, e que viverá até os 70 anos, teria 63 AVAIs porque a deficiência custaria 7 anos saudáveis e ativos dessa pessoa (10 por cento de 70). Como você pode imaginar, muitas pessoas com deficiência não gostam da ideia dos AVAIs; elas não consideram que sua vida está diminuída. Todavia, os AVAIs são úteis para comparar nações e examinar tendências. Uma análise dos AVAIs em 21 regiões do mundo sugere que doenças não transmissíveis são os tipos mais comuns de incapacidade, sendo as doenças cardíacas as primeiras doenças da lista (Murray et al., 2012). Como as doenças transmissíveis (malária, por exemplo) têm diminuído, os AVAIs para doenças mentais, sobretudo a depressão, têm aumentado. Isso significa que, internacionalmente, medidas de saúde pública, como a imunização, reduziram a ocorrência de doenças contagiosas, mas o estresse econômico e cultural contribuiu para deficiências psicológicas. Vitalidade vitalidade Como forma de medir a saúde, ela se refere a quão saudável e com energia – física, intelectual e socialmente – um indivíduo se sente. A medida final de saúde, a vitalidade, refere-se a quão saudável e com energia – física, intelectual e socialmente – um indivíduo se sente. A vitalidade é joie de vivre, ter gosto pela vida, amor pela vida (Gigante, 2007). Uma pessoa pode se sentir radiante, mesmo com uma doença séria ou alguma deficiência. Por exemplo, um estudo de mulheres mais velhas com doenças crônicas, nos Estados Unidos, descobriu que muitas delas se sentiam enérgicas e vitais, pelo menos por algum tempo (Crawford Shearer et al., 2009). A vitalidade é mais afetada pela personalidade e pelas afirmações sociais do que pela biologia. Um estudo longitudinal de jovens adultos que nasceram com menos de 1,3 kg inferiu que essas pessoas eram mais baixas e menos atléticas e tinham mais chances de adquirir uma doença do que o outro grupo de controle, mas sua vitalidade era tão alta quanto a de seus pares (Baumgardt et al., 2011). AVAQs (anos de vida ajustados em função da qualidade) Forma de comparar a mera sobrevivência sem vitalidade com uma boa saúde. Um ano inteiro de saúde equivale a um AVAQ; pessoas com menos saúde têm uma fração de AVAQ por ano. Portanto, o número total de AVAQ é menor do que o total de anos que essas pessoas vivem. Uma forma de medir a vitalidade é calcular os anos de vida ajustados à qualidade (AVAQ, ou QALYs, na sigla em inglês para quality-adjusted life years). Se as pessoas são totalmente vitais, a qualidade de vida delas é de 100 por cento, o que significa que cada ano de suas vidas é igual a um AVAQ. Uma pessoa saudável, feliz e cheia de energia que vive por 70 anos tem 70 AVAQs. Contudo, se, em um ano, houvesse uma cirurgia e dificuldades de recuperação, com aproximadamente 50 por cento de redução da qualidade de vida, então os AVAQs dessa pessoa seriam de 69,5. Calcular os AVAIs ou os AVAQs ajuda a localizar os fundos públicos. Nenhuma sociedade gasta o suficiente para proporcionar que todos vivam plenamente. Sem uma medida de incapacidade ou vitalidade equitativa ou calculável, a melhor assistência médica vai para aquele que tem mais dinheiro, ou que pesa mais no coração das pessoas. Isso levanta questões éticas. Por exemplo, aqueles que pagam os impostos deveriam subsidiar diálise do fígado para universitários ou tratamento intensivo para pessoas incapacitadas acima de 80 anos? Se o cuidado com idosos custa 100.000 dólares por ano para cada vida salva, e a diálise custa 10.000 dólares por ano para cada vida salva, então a diálise seria prioridade. Mas importaria se esses fígados prejudicados fossem resultado de abuso de drogas, ou se aquela pessoa mais velha fosse um ex-presidente? Esse exemplo é hipotético; escolhas reais não são tão simples, e valores pessoaisempurram a sociedade em direções que não são refletidas nos AVAIs. A idade é um fator; muitas pessoas pensam que salvar a vida de um recém-nascido vale mais do que salvar a vida de uma pessoa mais velha – um cálculo que pode ser beneficiado pelo entendimento dos AVAQs. Mas isso pode ser discriminação por idade. [Link: A discriminação por idade é discutida no Capítulo 23.] As pessoas se diferenciam no quanto valorizam a vida, a saúde e a aparência. Como você leu anteriormente, para algumas pessoas, envelhecer visivelmente reduz a qualidade de suas vidas. Elas podem evitar qualquer contato social, e temporariamente diminuir seus AVAQs com cirurgias cosméticas, esperando ganhar maior qualidade de vida. Outras pessoas considerariam isso fútil, porque aparências não influenciam seus AVAQs. Essa discussão aborda os problemas de saúde pública e de desenvolvimento humano. Se o foco for somente mortalidade e morbidade, então a prevenção é terciária (que tenta salvar pessoas que estão muito doentes, perto da morte) ou secundária (que identifica sintomas precoces). Se o objetivo for menos incapacidade e mais vitalidade, então fatores (como a poluição, o abuso de drogas e o aquecimento global) que reduzem os AVAQs de milhões de pessoas merecem atenção. Correlacionando Renda e Saúde Dinheiro e educação protegem a saúde. Adultos bem educados e financeiramente seguros vivem mais e evitam mais as morbidades e incapacidades. A assistência médica pública diminui um pouco as disparidades na saúde causadas pelo status socioeconômico, mas não todas. Até mesmo em países com bons sistemas de saúde pública e universais, os mais pobres vivem menos, em média. Não está claro se a renda ou a educação são a maior razão disso. Talvez a educação ensine bons hábitos de saúde. A obesidade e o tabagismo nos Estados Unidos são quase duas vezes mais frequentes entre adultos com menos educação quando comparados com pessoas que possuem títulos de pós-graduação. Ou talvez maior renda permita acesso à assistência médica de melhor qualidade, assim como possibilita ter uma casa longe de poluição e criminalidade. Sejam quais forem as razões, as diferenças podem ser drásticas. Os 10 milhões de americanos com maior status socioeconômico (e melhor assistência médica) vivem mais – cerca de 30 anos – do que os 10 milhões de americanos com menor status socioeconômico, que vivem em áreas mais pobres (Lewis & Burd-Sharpes, 2010). O status socioeconômico se mostra protetor da saúde quando estabelecemos comparações tanto dentro de um país como entre países. Comparados com países em desenvolvimento, países mais ricos têm menor índice de doenças, lesões e morte precoce. Por exemplo, um bebê nascido em 2010, no norte europeu, tem uma expectativa de vida de 80 anos, enquanto um bebê nascido no centro da África tem uma expectativa de vida de apenas 51 anos (Nações Unidas, 2013). Sem dúvida, possuir menor status socioeconômico afeta o desenvolvimento humano em todos os aspectos, como é evidente nas estatísticas de mortalidade, morbidade, incapacidade e vitalidade. Os dados mostram que bebês que nascem pobres têm menos chances de sair de seu status socioeconômico, já que sua educação, assistência médica e perspectivas de emprego, entre outros aspectos, têm mais chances de não o ajudar. Eles já entrarão na adultez prejudicados. Há alguma esperança? Essa pergunta nos faz voltar a Jenny, que teve sua história na introdução deste capítulo. Quando eu a conheci, ela estava entre os 10 milhões de pessoas mais pobres dos Estados Unidos, morando em um bairro do Bronx conhecido como “Território Gunsmoke”, em referência à fumaça das armas de fogo, por causa dos altos índices de homicídio na região. Jenny também era afro-americana (vocês adivinharam isso pela dica da anemia falciforme?), e pessoas desse grupo tendem a ter maior carga alostática. A decisão de Jenny de ter outro bebê – sem promessa de casamento ou de apoio paterno – me fez acreditar que ela nunca deixaria a pobreza. Isto não é um estereótipo. Os dados mostram que pobreza ao longo da vida é o futuro de mães com baixa renda que têm outro filho, fora do matrimônio, com homens casados. Mas as estatísticas não refletem a inteligência de Jenny, sua criatividade e experiência prática. Ela aplicou aquilo que aprendeu. Ela sabia que deveria ser sincera com Billy e lhe pediu que fizesse o teste para anemia falciforme (o resultado foi negativo). Ela fez um apartamento “à prova de bebês”, trancando produtos que podem envenenar, cobrindo saídas elétricas, pedindo a seu senhorio para colocar grades nas janelas. Jenny administrou da melhor forma que pôde a ajuda financeira do governo. Sua mensalidade era paga pela Bolsa Pell, ela morava em um conjunto habitacional subsidiado. Os filhos frequentavam uma escola pública e ela descobria parques e museus onde seus filhos pudessem brincar e aprender. Mais importante, ela sabia quando e como buscar apoio; isso ficou evidente quando ela procurou minha ajuda. Eu a vi ajudando os filhos com o dever de casa, aproximando-se dos professores dos filhos, procurando um fonoaudiólogo para um deles, dando amor, supervisão e proteção para todos. Depois de dar à luz uma menina saudável, de gestação completa, ela encontrou trabalho como tutora de crianças em casa, para que pudesse ganhar dinheiro e cuidar da bebê. Quando a bebê ficou um pouco mais velha, Jenny voltou para a faculdade, concluindo o bacharelado com uma bolsa completa. Os professores reconheceram sua inteligência e a escolheram para fazer o discurso de graduação. Ela encontrou emprego como recepcionista em um hospital municipal, um trabalho que também oferecia planos de saúde para ela e para a família. Isso permitiu que ela saísse do Bronx. Apesar de ser excepcional, Jenny não é única; algumas pessoas com baixa renda conseguem superar os fatores estressantes da pobreza (Chen & Miller, 2012). Billy às vezes ia visitar Jenny e a filha que ele não havia desejado, provendo assim um apoio financeiro e emocional. A mulher dele passou a desconfiar, contratou um detetive particular para segui-lo, e então lhe deu um ultimato: parar de ver Jenny ou eles iriam se divorciar. Ele escolheu Jenny. Depois disso, Billy se casou com Jenny e eles se mudaram para a Flórida. Jenny continua bem, apesar de não ter conseguido escapar completamente de um dos percalços da antiga vida (ela desenvolveu diabetes e agora precisa ter muita atenção com sua dieta). Mas ela anda de bicicleta, pratica natação e faz jardinagem quase todo dia. Ela trabalha com educação, depois de ter feito um mestrado. Ela e Billy parecem felizes. Recentemente, eu conheci o filho que tinha dificuldade na fala. Ele concluiu o doutorado e é professor-assistente. As filhas de Jenny também têm grau universitário. Esse exemplo pode dar a impressão de que sair da pobreza é fácil; todos os dados longitudinais mostram que não é. Nem a maioria das crianças pobres triunfa como os filhos de Jenny. Mas o estudo do desenvolvimento humano não é apenas sobre os contextos que afetam as pessoas. Cada pessoa está abarrotada de hábitos, condições e circunstâncias descritas neste capítulo, mas cada uma também é capaz de fazer escolhas que afetarão seu futuro. O próximo capítulo, sobre a cognição na adultez, descreve algumas dessas escolhas. RESUMINDO A saúde pode ser medida de quatro formas. A mortalidade é a forma mais fácil de comparar países e grupos, já que manter o controle sobre as mortes é mais direto. A morbidade mede doenças crônicas, que exigem diagnósticos e que, idealmente, levam a tratamentos. A morbidade é mais comum em mulheres do que em homens. A incapacidade indica uma dificuldade para exercer funções do dia a dia. Em todo o mundo, a incapacidade é cada vez mais reconhecida ao incluir dificuldades psicológicas que dificultam a vida plena. Finalmente, a vitalidade é o prazer de viver. A vitalidade é buscada por todos, afetada pela cultura e pelas escolhas pessoais, e pode ser independente da mortalidade e da morbidade. O status socioeconômico dentro dospaíses e entre os países tem um impacto drástico na saúde. Ainda assim, as pessoas às vezes conseguem encontrar saídas e superar os problemas que as afetam. ■ RESUMO Senescência 1. A senescência causa uma desaceleração universal dos sistemas corporais ao longo da adultez, mas as mudanças que ocorrem devido ao envelhecimento são frequentemente imperceptíveis em função da capacidade de manutenção da reserva dos órgãos. O corpo inteiro se ajusta às mudanças a curto prazo (homeostase) e a longo prazo (alostase). 2. O cérebro desacelera e começa um declínio gradual, que, a princípio, não é percebido. Juntamente com medidas que protegem a saúde em geral, o cérebro também é afetado por drogas psicoativas, má circulação, viroses e genética. 3. A aparência de uma pessoa passa por mudanças graduais, mas perceptíveis, à medida que a meia-idade progride, incluindo mais rugas, menos cabelos e mais gordura, particularmente em torno do abdômen. Com exceção do ganho de peso excessivo e outras condições relacionadas a isso, mudanças na aparência têm pouco impacto na saúde. 4. O avanço da senescência é mais aparente nos órgãos dos sentidos. A visão se torna menos aguçada com a idade, tanto para a visão de perto, quanto para a visão de longe, aumentando gradualmente a partir dos 20 anos. A audição também fica menos precisa. O Sistema Reprodutor 5. A resposta sexual diminui com a idade, assim como a velocidade de recuperação após o orgasmo. Isso é apenas um declínio físico; a maioria dos casais acha que, em geral, a interação sexual melhora com a idade. 6. Problemas de fertilidade são mais comuns com o avanço da idade, por diversas razões. A mais comum, para homens, é o baixo nível de espermatozoides; para mulheres, é uma falha na ovulação ou um bloqueio nas trompas de falópio. Para ambos os sexos, não somente a juventude, mas também a saúde em geral – especialmente a saúde sexual – estão correlacionadas com a fertilidade. 7. Certa quantidade de procedimentos de reprodução assistida (TRA), incluindo a FIV (fertilização in vitro), oferece soluções à infertilidade. Doadores de espermas, de óvulos e de úteros já ajudaram milhares de casais inférteis a se tornarem pais. 8. Na menopausa, na medida em que o ciclo menstrual da mulher para, a ovulação cessa e os níveis de estrogênio se reduzem grandemente. Essa mudança hormonal gera vários sintomas em algumas mulheres, como secura vaginal, distúrbios da temperatura corporal, humor irregular, surtos de energia e depressão. Outras mulheres não são afetadas por essas alterações. 9. A produção hormonal cai em homens também, apesar de não ser tão repentino como nas mulheres. Para ambos os sexos, a terapia de reposição hormonal (TRH) deve ser feita cautelosamente, se é que deve ser feita. Hábitos de Saúde e Idade 10. Os adultos na América do Norte estão fumando bem menos do que já fumaram, e os índices de câncer no pulmão e outras doenças estão caindo bastante por causa disso. O abuso de álcool continua a ser o maior problema de saúde no mundo. 11. Bons hábitos de saúde incluem exercícios regulares e alimentação apropriada. Nesses dois quesitos, adultos de hoje estão piores do que os de gerações anteriores. Isso se aplica especialmente nos Estados Unidos. Existe uma “epidemia de obesidade” mundial, já que mais pessoas têm acesso à comida e comem demais como resultado. Medindo a Saúde 12. Variações na saúde podem ser medidas a partir da mortalidade, da morbidade, da incapacidade e da vitalidade. Embora seja mais fácil quantificar mortes e doenças, a incapacidade e a vitalidade podem ser mais significantes quando se trata da saúde da população. Anos ajustados em função da qualidade de vida (AVAQs) e anos ajustados em função da incapacidade (AVAIs) ajudam os médicos e os encarregados da saúde pública a lidar e alocar melhor os recursos limitados. 13. O envelhecimento e o status de saúde podem ser muito afetados pelo status socioeconômico. Em geral, aqueles que têm mais educação e dinheiro têm mais probabilidade de viver mais e evitar doenças do que seus pares menos favorecidos. Entretanto, ter baixo status socioeconômico não necessariamente leva a uma saúde ruim, já que bons genes e bons hábitos de saúde são fatores de proteção. Evitar as drogas e a obesidade é possível para qualquer camada social. TERMOS-CHAVE andropausa anos de vida ajustados em função da incapacidade (AVAIs) anos de vida ajustados em função da qualidade (AVAQs) incapacidade infertilidade menopausa morbidade mortalidade presbiacusia senescência terapia de reposição hormonal (TRH) vitalidade O QUE VOCÊ APRENDEU? 1. Que relação existe entre a senescência e as doenças graves? 2. Com que frequência e por que as pessoas perdem funções cerebrais significativas antes dos 65 anos? 3. Quais são as mudanças visíveis na pele entre os 25 e os 65 anos? 4. Quais são as mudanças visíveis no cabelo entre os 25 e os 65 anos? 5. Quais são as mudanças visíveis nas formas do corpo entre os 25 e os 65 anos? 6. Como o envelhecimento afeta a visão para perto? E para longe? 7. Por que perdas na audição são esperadas para as próximas gerações? 8. Como o homem e a mulher são afetados pela resposta sexual? 9. Quando um casal é infértil, qual sexo normalmente é responsável por isso? 10. Quais são as vantagens e desvantagens das TRH para mulheres? Há vantagens/desvantagens para os homens? 11. Qual é a tendência em relação ao tabagismo na América do Norte? 12. Qual a quantidade de álcool que um adulto deveria ingerir? Por quê? 13. Que fatores na dieta podem contribuir para a obesidade? 14. Que fatores não relacionados à comida podem contribuir para a obesidade? 15. Que doenças e condições têm menos chances de surgir em pessoas que se exercitam todos os dias? 16. Quais são as vantagens e desvantagens de utilizar a mortalidade como medida de saúde? 17. Quais são as vantagens e desvantagens de utilizar a morbidade como medida de saúde? 18. Como homens e mulheres podem ser comparados quanto à mortalidade e à morbidade? 19. Por que uma pessoa com uma incapacidade não concordaria com avaliação com base nos AVAIs? 20. Que fatores aumentariam os AVAQs de uma pessoa? 21. Na correlação entre saúde e status socioeconômico, que fatores são mais importantes, educacionais ou econômicos? 22. Por que não há mais doenças de afluência? APLICAÇÕES 1. Tente adivinhar a idade de cinco pessoas que você conhece e depois pergunte a idade delas. Analise as pistas que você utilizou para seus palpites e a reação das pessoas à sua pergunta. 2. Encontre um especialista disposto a ir à sala, que seja um expert em perda de peso, saúde adulta, hábito de fumar ou de beber. Escreva uma página justificando o porquê de você achar que esse palestrante seria interessante e os tópicos sobre os quais ele deveria falar. Leve essa proposta a seu professor, com o contato do palestrante. O professor vai ligar para esses potenciais palestrantes, agradecer à boa vontade deles e decidir se deve ou não convidá-los para falar à turma. 3. Vá a um encontro de pessoas que querem parar com um determinado mau hábito para começar um bom hábito – uma reunião aberta dos Alcoólicos Anônimos ou outro programa de 12 passos, a primeira sessão de Vigilantes do Peso, ou uma reunião de frequentadores de uma academia. Relate quem foi à reunião, o que você aprendeu e quais foram as suas reações. ■ ■ ■ 1. 2. 3. 4. O que É Inteligência? Pesquisas sobre Idade e Inteligência Pesquisas Sequenciais Componentes da Inteligência: Muitos e Variados Dois Grupos de Inteligência Três Tipos de Inteligência: Sternberg Idade e Cultura PERSPECTIVAS OPOSTAS: O que Faz um Bom Pai ou uma Boa Mãe? Perdas e Ganhos Seletivos Acumulando Estressores UM CASO PARA ESTUDO: Lidando com o Katrina Otimização com Compensação Cognição de Expertise O QUE VOCÊ VAI SABER? Por que cada geração acredita ser mais inteligente que as anteriores? Por que as gerações mais velhas sempre acham que sabem mais que as gerações mais novas? Quais aspectos do raciocínio melhoram durante aadultez? Todo mundo é expert em alguma coisa? Uma de minhas filhas fazia parte do comitê que procurava um novo diretor para sua faculdade e estava extasiada com o novo líder escolhido. Ele veio de fora da instituição, aceitou uma enorme redução de salário para assumir o novo cargo e está melhorando a faculdade de diversas formas. “Você deve estar feliz que selecionaram o candidato que você queria”, eu disse. “Ele não era quem eu queria. Eu nem cheguei a entrevistá-lo. Outros membros do comitê votaram nele; e estou feliz que o fizeram.” Ela não estava impressionada com o currículo dele porque era pesquisadora e ele tinha poucas publicações. Mas ela ouviu a opinião de outros, pensou novamente sobre seus critérios de seleção e agora está entusiasmada com o desempenho dele à frente da instituição. Sua abordagem durante o processo seletivo ilustra a cognição adulta em sua melhor forma. Os adultos têm ideias, e ideias bem lógicas, mas eles também aprendem a ouvir pessoas diferentes. Cada um de nós possui áreas do conhecimento em que somos experts, mas, como adultos, consideramos outros pensamentos, experiências e emoções. Enquanto lê este capítulo, você vai perceber que a cognição é algo multifacetado. Algumas habilidades melhoram com a idade; outras não. Cada pessoa se torna particularmente boa em determinadas atividades ou determinado tipo de conhecimento, minimizando outros conhecimentos. De forma geral, a cognição aumenta, e nos tornamos mais capazes de apreciar nossa própria inteligência e a inteligência do outro. Lembre-se de que muitas estratégias de pesquisa são usadas para descrever a cognição que se inicia aos 18 anos e se estende até a terceira idade. O Capítulo 18 descreveu o raciocínio pós- formal e o impacto do ensino superior. O Capítulo 24 vai abordar uma perspectiva do processamento da informação, destacando os aspectos do processamento que desaceleram com a idade e descrevendo a demência. Este capítulo vai ter uma abordagem psicométrica (métrica significa “medida”; psicometria refere-se à medição das características psicológicas) e vai considerar diferentes tipos de inteligência, incluindo aquelas que produzem indivíduos experts de um tipo e de outro. Estou orgulhosa de que minha filha adulta percebeu que o novo líder é inteligente e talentoso de diferentes maneiras, não necessariamente nas áreas familiares a ela. Isso faz parte do que é ser um expert. >> O que É Inteligência? Durante boa parte do século XX, todo mundo – cientistas e o público em geral – acreditou que existia algo como “inteligência”; acreditavam que algumas pessoas seriam mais espertas que outras por terem mais inteligência. Isso afeta as pessoas ao longo da vida. A pontuação em testes de QI pode variar da infância à adultez, e às vezes de forma expressiva, mas, de maneira geral, dão uma previsão da educação futura, renda e longevidade (Calvin et al., 2011), e isso varia de pessoa para pessoa. Um pesquisador inicia seu livro sobre inteligência da seguinte forma: Homero e Shakespeare viveram em épocas diferentes, separados por mais de 2 mil anos, mas eles conceberam a mesma ideia: não somos todos inteligentes da mesma forma. Suspeito que qualquer um que não tenha percebido isso esteja de algum modo fora de sintonia com nossa espécie. [Hunt, 2011, p. 1] Inteligência geral (fator g) A ideia do fator g pressupõe que a inteligência é um traço básico subjacente a todas as habilidades cognitivas. De acordo com esse conceito, as pessoas possuem diferentes níveis dessa habilidade geral. Um importante teórico, Charles Spearman (1927), propôs que existe uma entidade singular, a inteligência geral, que ele chamou de fator g. Spearman argumentou que, por mais que o fator g não pudesse ser medido diretamente, ele poderia ser inferido com base em diversas habilidades, como vocabulário, memória e raciocínio lógico. Os testes de QI já haviam sido desenvolvidos para identificar quais crianças careceriam de educação especial, mas Spearman divulgava a ideia de que a inteligência geral de um indivíduo poderia ser medida através da combinação da pontuação em diversos testes resultantes de uma mistura de áreas diversas. O resultado de um teste de QI poderia revelar se a pessoa possuía uma inteligência acima da comum, uma inteligência típica ou abaixo, ou, adotando rótulos de mais de 100 anos atrás, que não são mais usados: um gênio, um imbecil ou um idiota. A ideia da existência do fator g continua a influenciar pensadores acerca da inteligência (Nisbett et al., 2012). Muitos neurocientistas pesquisam marcadores genéticos que estariam ligados à capacidade intelectual, mas até hoje não encontraram o fator g (Deary et al., 2010; Haier et al., 2009). Alguns aspectos do funcionamento cerebral, particularmente no córtex pré- frontal, seriam motivadores dessa busca (Barbey et al., 2013, Roca et al., 2010). Muitos outros cientistas também procuram algum fator comum que esteja ligado ao QI – talvez o desenvolvimento cerebral pré-natal, experiências na infância ou saúde física. Pesquisas sobre Idade e Inteligência Apesar de muitos psicometristas terem concordado durante o século XX que os testes de QI poderiam medir e quantificar a inteligência, eles discordavam quanto à forma de interpretar esses dados – especialmente sobre o fator g aumentar ou declinar por volta dos 20 anos (Hertzog, 2011). A metodologia era um dos motivos para as divergências. Considere as implicações dos três métodos usados para estudar o desenvolvimento humano que mencionamos no Capítulo 1: transversal, longitudinal e sequencial. Declínios Transversais Durante a primeira metade do século XX, psicólogos acreditavam que a inteligência aumentava durante a infância, atingia seu pico na adolescência e depois começava a declinar gradualmente. Os mais jovens eram considerados mais inteligentes que os mais idosos. Essa crença era baseada nas melhores evidências disponíveis na época. Por exemplo, o exército americano testou a aptidão cognitiva de todos os recrutas para a Primeira Guerra Mundial. Quando a pontuação de vários homens era comparada, parecia claro que a habilidade intelectual tinha seu pico por volta dos 18 anos, mantendo o mesmo nível até meados dos 20 anos e, depois, declinava (Yerkes, 1923). Centenas de estudos transversais sobre QI em muitos países confirmaram que as pontuações dos mais jovens eram superiores às dos mais velhos. A relação do declínio do QI, com a idade, foi considerada comprovada. Os dois testes clássicos de QI – Stanford-Binet e WISC/WAIS – são até hoje normatizados para o pico de pontuação no final da adolescência. [Link: Testes de QI são discutidos no Capítulo 11.] Melhorias Longitudinais Logo após a primeira metade do século XX, Nancy Bayley e Melita Oden (1955) analisaram a inteligência de adultos que haviam sido selecionados décadas antes por Lewis Terman como crianças-prodígio. Bayley era uma especialista em testes de inteligência. Ela sabia que “estudos diversos indicavam que a maior parte das funções intelectuais declinava após os 21 anos de idade” (Bayley, 1966, p. 117). Em vez disso, ela descobriu que as pontuações de QI desses indivíduos talentosos aumentavam entre 20 e 50 anos. Bayley ponderou se a inteligência elevada na infância de alguma forma os teria protegido dos declínios intelectuais esperados com o passar dos anos. Para descobrir, ela testou novamente os adultos da população de Berkeley, Califórnia, que haviam sido selecionados e testados na infância como grupo de controle (a maior parte com QI médio, mas alguns com QIs altos, e outros com QIs baixos). As pontuações de QI desses indivíduos também melhoraram após os 21 anos. Por que esses novos dados conflitam com as conclusões já existentes sobre o assunto? Como você deve se lembrar do Capítulo 1, pesquisas transversais podem ser ilusórias porque cada coorte possui diferentes experiências de vida. A qualidade e a extensão da educação, oportunidades culturais (viagens, filmes) e fontes de informação (jornais, rádio e, anos depois, televisão e internet)mudam a cada década. Não é de espantar que os adultos estudados de forma longitudinal tenham apresentado ganhos intelectuais. As pesquisas transversais anteriores não levaram em consideração que a maior parte dos idosos da época havia saído da escola antes do oitavo ano. Não era justo comparar seu QI, aos 70 anos, com o QI de jovens de 20 anos, que, em sua maioria, frequentaram o ensino médio. Em retrospectiva, não é nenhuma surpresa que os militares voluntários de idade mais avançada tenham obtido pontuações menores; seu intelecto não estava em declínio, sua educação havia sido inferior. As comparações transversais mostram os mais jovens obtendo pontuações maiores 1. 2. 3. que os mais velhos, mas dados longitudinais podem concluir que a maior parte dos indivíduos apresenta melhorias no QI entre os 20 e os 60 anos. Fortes evidências de que os mais jovens obtêm pontuação maior devido ao fato de terem melhor educação e acesso à saúde, e não devido à idade, aparecem em pesquisas longitudinais de muitos países. Novas coortes sempre pontuam melhor que as anteriores. Isso é o efeito Flynn, de que você deve se lembrar, considerado no Capítulo 11. Não é justo – e é cientificamente inválido – comparar as pontuações de QI de adultos de forma transversal para estudar as mudanças intelectuais relacionadas à idade. Os mais idosos pontuarão menos, mas isso não quer dizer que eles perderam capacidade intelectual. Pesquisas longitudinais comprovam que a maior parte das pessoas tem ganhos intelectuais e não perdas. Os estudos longitudinais também são mais precisos que os transversais na medição do desenvolvimento ao longo das décadas. Entretanto, a pesquisa longitudinal sobre QI possui três desvantagens: Testes repetidos aumentam a prática do indivíduo, e a prática já levaria a melhores pontuações. Alguns participantes se mudam sem informar o novo endereço, recusam-se a participar de novos testes ou morrem. Eles tendem a ser aqueles cujo QI está em declínio, enviesando o resultado geral do estudo. Eventos fora do comum (por exemplo, uma guerra ou um grande avanço em saúde pública) podem afetar uma coorte, e outras mudanças mundiais – como o maior acesso à internet ou a diminuição do fumo passivo – tornam difíceis as previsões do futuro com base nos estudos passados. Os bebês nascidos hoje serão mais inteligentes que os bebês nascidos em 1990? Provavelmente. Mas isso não é garantido. Os efeitos de coorte podem fazer com que uma nova geração pontue menos em um teste, não mais, que a anterior. Novos dados sobre o efeito Flynn apontam que o aumento intelectual entre gerações tem diminuído nos países desenvolvidos, embora não nos países em desenvolvimento (Meisenberg & Woodley, 2013). Portanto, os benefícios da melhor educação e acesso à saúde podem afetar a vida das próximas gerações de uma maneira menos expressiva do que há 50 anos. Pesquisas Sequenciais O melhor método para entender os efeitos do envelhecimento sem as complicações das mudanças históricas é combinar os estudos transversais com os longitudinais, uma combinação chamada de estudo sequencial. O Estudo Longitudinal de Seattle Em 1956, na Universidade de Washington, K. Warner Schaie testou um grupo transversal de 500 adultos, com idades entre 20 e 50 anos, em cinco habilidades mentais primárias padrões, consideradas a base da inteligência: (1) significação verbal (vocabulário), (2) orientação espacial, (3) raciocínio indutivo, (4) habilidade numérica e (5) fluência verbal (rápidas associações de palavras). Seus resultados transversais mostraram que existe um declínio relacionado à idade de todas as cinco habilidades, como outros pesquisadores concluíram antes dele. Ele planejou replicar a pesquisa de Bayley testando novamente seu grupo sete anos mais tarde. Schaie então teve uma ideia brilhante: usar métodos tanto longitudinais quanto transversais. Ele não apenas testou novamente seu grupo inicial, como testou um novo grupo na mesma faixa etária que o primeiro grupo estava nos primeiros testes. Assim, ele pôde comparar não apenas as pontuações das pessoas com suas pontuações passadas, mas também com as pontuações de pessoas atualmente com a mesma idade que elas tinham nos testes anos antes. Estudo Longitudinal de Seattle O primeiro estudo transversal de inteligência na vida adulta. O estudo começou em 1956 e é repetido a cada 7 anos. Ao examinar novamente seus grupos e ao adicionar novos grupos a cada sete anos, Schaie obteve uma visão do desenvolvimento intelectual mais precisa que as obtidas por meio de testes transversais ou longitudinais isolados. Conhecido como Estudo Longitudinal de Seattle, esse foi o primeiro estudo sequencial sobre a inteligência na vida adulta. Com a pesquisa sequencial, pesquisadores podem analisar o impacto do reteste, da coorte e das experiências. Schaie confirmou e foi além do que outros já haviam descoberto: as pessoas melhoram grande parte de suas habilidades mentais durante a adultez (Schaie, 2013, 2005). Como a Figura 21.1 demonstra, cada habilidade em particular para cada idade e gênero tem um padrão distinto. Observe o aumento gradual e o eventual declínio de todas as habilidades. Os homens são inicialmente melhores em habilidades numéricas e as mulheres, em habilidades verbais, mas os dois sexos se aproximam com o tempo. Schaie descobriu que todas as pessoas apresentam declínios após os 60 anos em pelo menos uma das habilidades básicas, mas é somente aos 88 anos que as cinco habilidades apresentam declínios para todas as pessoas. FIGURA 21.1 Relação das Diferenças Etárias e Habilidades Intelectuais Dados transversais de habilidade intelectuais em diferentes faixas etárias costumam mostrar declínios bem mais acentuados. As pesquisas longitudinais, em contraste, costumam mostrar até aumentos consideráveis. Pelo fato de a pesquisa de Schaie ser sequencial, as trajetórias representam algo um pouco mais revelador. Nenhuma das pontuações médias para qualquer das cinco habilidades em qualquer faixa etária está acima de 55 ou abaixo de 35. Devido à metodologia usada levar em consideração os efeitos de coorte e os efeitos históricos, as diferenças relacionadas puramente à idade, dos 25 aos 60 anos, são muito pequenas. Especialmente para Irmãos e Irmãs Mais Velhos Se seus irmãos mais novos tiram sarro de sua ignorância sobre os programas de TV atuais ou são melhores que você nos videogames mais recentes, isso significa que sua inteligência está diminuindo? Outros pesquisadores em muitos países observaram padrões similares, apesar de habilidades especificas e trajetórias diferirem (Hunt, 2011). A adultez é tipicamente uma época de crescimento, ou pelo menos manutenção do QI, com diferenças expressivas entre os indivíduos. Algumas pessoas e algumas habilidades demonstram alguns declínios aos 40 anos; outras, apenas décadas depois (Johnson et al., 2014; Kremen et al., 2014). Schaie descobriu mudanças mais detalhadas na coorte que o efeito Flynn. Cada coorte sucessiva (nascida em intervalos de sete anos entre 1889 e 1973) pontuou melhor durante a adultez que as gerações anteriores em testes de memória verbal e raciocínio indutivo, mas a habilidade numérica (matemática) chegou ao pico para os nascidos em 1924 e depois declinou gradualmente a cada nova coorte testada até meados de 1970, quando não apresentou mais declínios entre as gerações (Schaie, 2013). O currículo escolar pode explicar essas diferenças. Por volta da metade do século XX, a leitura, a escrita e a expressão eram mais enfatizadas do que no começo do século XX e no século XXI. Outro efeito de coorte é que os declínios relacionados à idade, embora ainda evidentes, agora aparecem uma década mais tarde que anteriormente (Schaie, 2013). A explicação mais provável é que as gerações costumam ter melhor educação e acesso à saúde que as anteriores. Uma correlação que podemos fazer, para toda coorte, com alto desempenho em habilidades é o fato de essas pessoas lidarem com situações que desafiam a mente no trabalho e na vida pessoal. Schaie descobriuque as coortes mais recentes de adultos lidavam mais frequentemente com empregos que os desafiavam intelectualmente, e assim desenvolviam melhor a habilidade intelectual. Isso teve um efeito significativo nas médias do QI feminino, uma vez que, anos atrás, as mulheres ficavam em casa ou possuíam empregos rotineiros mais simples. Hoje, muitas estão empregadas em posições mais desafiadoras. Atualmente, as mulheres pontuam muito mais do que outras, da mesma idade, há 50 anos. Outra pesquisa também sugere que um trabalho que exija mais do intelecto fomenta maior inteligência. Uma equipe de pesquisadores descobriu que aposentar-se de um trabalho difícil frequentemente reduzia o poder intelectual, enquanto sair de um trabalho monótono aumentava a capacidade do intelecto (Finkel et al., 2009). Isso depende também das atividades desempenhadas depois de se aposentar. Tarefas que exigem do intelecto, assalariadas ou não, mantêm a mente funcionando (Schooler, 2009; Schaie, 2013). Muitos estudos que usam delineamentos de pesquisa e estatísticas mais sofisticados suplantaram os estudos iniciais transversais e longitudinais. Nenhum é perfeito porque “nenhum delineamento é capaz de controlar completamente um estudo para resolver o problema de identificação idade-coorte-período” (Herzog, 2010, p. 5). Culturas, épocas e outros fatores individuais variam consideravelmente quando as habilidades cognitivas são cultivadas e testadas. Entre 20 e 70 anos, os valores culturais do país, genes específicos e a educação são mais influentes nas pontuações do QI do que a idade cronológica (Johnson et al., 2014). É difícil prever a inteligência de um adulto em particular, mesmo se os genes e a idade são conhecidos. Por exemplo, um estudo realizado com gêmeos suecos, com idade entre 41 e 84 anos, encontrou diferenças na habilidade verbal de gêmeos monozigóticos com o mesmo histórico educacional. Na teoria, a habilidade deveria ser igual, mas não era. Como esperado, entretanto, a idade teve seu efeito: a memória e a habilidade espacial declinaram com o tempo (Finkel et al., 2009). >> Resposta para Irmãos e Irmãs Mais Velhos: Não. Apesar de ser verdade que cada nova coorte de uma comunidade possa ser mais inteligente que a anterior de algumas maneiras, os estudos sequenciais sugerem que você é mais inteligente do que costumava ser. Sabendo disso, você pode responder sabiamente – sorrindo discretamente em vez de insistir que você é superior. Considerando todas as pesquisas, as habilidades intelectuais de um adulto, medidas por meio de testes de QI, algumas vezes aumentam, outras vezes diminuem, ziguezagueiam ou se mantêm as mesmas com o passar dos anos. Padrões específicos são afetados pelas experiências pessoais, o que acontece com “praticamente toda permutação possível dos perfis individuais” (Schaie, 2013, p. 497). Isso ilustra a perspectiva do ciclo vital. A inteligência é multidirecional, multicultural, multicontextual e plástica. Apesar de pontuações em diferentes subtestes mostrarem declínios, especialmente em testes cronometrados, as habilidades, em geral, são mantidas até a adultez avançada. RESUMINDO O conceito de inteligência é controverso; alguns especialistas acreditam existir uma inteligência geral, que indivíduos têm mais ou menos, e que cada habilidade cognitiva aumenta ou decai separadamente. Psicometristas já acreditaram que a inteligência começava a declinar por volta dos 20 anos: era o que os dados transversais demonstravam. Em seguida, os estudos longitudinais mostraram que a inteligência de muitos adultos progredia com o passar dos anos. As pesquisas sequenciais apresentaram uma imagem mais matizada, mostrando que algumas habilidades decresciam e outras cresciam com o passar dos anos. Muitos fatores – incluindo trabalhos desafiadores, vida pessoal estimulante, histórico educacional e saúde – protegem a inteligência e atrasam seu declínio. As variações entre os indivíduos são expressivas, com algumas pessoas não mostrando nenhum declínio intelectual, mesmo aos 60 anos. ■ >> Componentes da Inteligência: Muitos e Variados Respondendo a todos esses dados, desenvolvimentistas estão agora procurando mais atentamente padrões de perdas e ganhos cognitivos. Eles afirmam que, dada a possibilidade de existir qualquer tipo de padrão, é incerto perguntar-se se a inteligência aumenta ou declina, porque ela não se modifica de maneira fixa. Pode haver “um número vasto de domínios do desempenho cognitivo … que podem não apresentar uma trajetória comum de declínio ligada à idade” (Dannefer & Patterson, 2009, p. 116). Muitos psicólogos descrevem habilidades intelectuais distintas; cada uma melhora ou piora de forma independente. Um declínio no raciocínio matemático é perceptível até mesmo aos 40 anos, mas a habilidade verbal pode continuar a evoluir até os 60 anos (Schaie, 2013). A maior parte dos pesquisadores da atualidade concorda que existem muitas formas de inteligência (Roberts & Lipnevich, 2012). Consideraremos aqui apenas duas propostas, uma que postula duas habilidades distintas e outra que postula três. [Link: A teoria das inteligências múltiplas de Gardner descreve nove habilidades, uma ideia com implicações na educação infantil, como explicado no Capítulo 11.] Dois Grupos de Inteligência Nos anos 1960, um grande pesquisador, Raymond Cattell, juntou-se com um promissor estudante universitário, John Horn, para analisar os testes de inteligência. Eles concluíram que a inteligência adulta é mais bem entendida quando agrupada em duas categorias, que eles chamaram de inteligência fluida e inteligência cristalizada. Inteligência Fluida inteligência fluida Os tipos básicos de inteligência básica que tornam o aprendizado de qualquer coisa rápido e aprofundado. Habilidades, como memória de curto prazo, raciocínio abstrato e velocidade de raciocínio, são geralmente consideradas parte da inteligência fluida. Como o nome já diz, inteligência fluida é como a água, fluindo a uma velocidade própria, independentemente de onde está. A inteligência fluida é rápida e flexível, permitindo que as pessoas aprendam qualquer coisa, mesmo as coisas que são pouco familiares e desconexas com o que já se conhece. A curiosidade, o aprendizado pelo prazer de aprender, a resolução de enigmas abstratos e a emoção de descobrir algo novo são marcas da inteligência fluida (Silvia & Sanders, 2010). As pessoas com alta capacidade fluida podem inferir conclusões, entender o relacionamento entre dois conceitos e processar novas ideias e fatos prontamente, em parte por conta de sua memória de trabalho ser grande e flexível. Uma pessoa com grande capacidade na inteligência fluida é rápida e criativa com palavras e números e gosta de situações-problema que desafiam o intelecto. Tipos de perguntas que testam a inteligência fluida em adultos ocidentais: O que vem depois em cada uma dessas séries?* 4 9 1 6 2 5 3 V X Z B D Enigmas são comumente usados como instrumentos para medir a inteligência fluida, com pontos extras fornecidos de acordo com a velocidade da resolução (como em muitos testes de QI). A recordação imediata – de pseudopalavras, de números, de uma frase lida há pouco tempo – é um indicador, porque a memória de trabalho é crucial para a inteligência fluida, especialmente em testes cronometrados (Chuderski, 2013; Nisbett et al., 2012). Como a inteligência fluida parece não estar ligada a coisas aprendidas no passado, ela pode parecer pouco prática – não é bem assim. Um estudo com adultos entre 34 e 83 anos concluiu que fatores que levavam ao estresse não variavam com a idade, mas sim variavam pela inteligência fluida. Pessoas com alta inteligência fluida estavam mais expostas a situações estressantes, mas menos propensas a sofrer com isso. Elas usam seu intelecto para transformar esses fatores em experiências positivas (Stawski et al., 2010). A habilidade de se desintoxicar do estresse pode ser uma das razões por que os indivíduos com alta capacidade fluida no início da adultez têm vidas mais longas e um QI mais elevadoem um momento posterior da vida. A inteligência fluida está relacionada à abertura a novas experiências e à saúde do cérebro de maneira geral (Batterham et al., 2009; Silvia & Sanders, 2010). (Maneiras de lidar com o estresse serão discutidas mais à frente neste capítulo, quando você verá que a cognição adaptativa fornece a melhor defesa contra os problemas diários.) Inteligência Cristalizada inteligência cristalizada Aqueles tipos de habilidades intelectuais que refletem o aprendizado acumulado. Vocabulário e conhecimentos gerais são alguns dos exemplos. Vários psicólogos desenvolvimentistas acreditam que a inteligência cristalizada aumenta com a idade, enquanto a inteligência fluida declina. O acúmulo de fatos, informações e conhecimentos adquiridos por meio do estudo e das experiências constitui o que chamamos de inteligência cristalizada. O vasto vocabulário de uma pessoa, o conhecimento de fórmulas químicas, a memória de longo prazo para datas históricas são indicativos da inteligência cristalizada. Testes criados para medir esse tipo de inteligência incluem perguntas, como: Qual o significado da palavra caritativo? Quem foi Descartes? Explique a diferença entre uma tangente e um triângulo. Por que a cidade de Pequim não existe mais? Apesar de essas perguntas parecerem medir mais êxito intelectual do que aptidão, as duas coisas estão ligadas, especialmente na adultez. Adultos inteligentes leem muito, pensam profundamente e lembram-se do que aprenderam; então esse êxito é um reflexo de sua aptidão. Logo, a inteligência cristalizada é um desdobramento da inteligência fluida (Nisbett et al., 2012). O vocabulário, por exemplo, se expande com a leitura. O uso de palavras, como alegria, felicidade, êxtase e deleite – cada uma de forma apropriada com suas distintivas nuanças (diferente dos remédios, perfumes ou iogurtes, que usam nomes dessa natureza) –, é um sinal de inteligência. Recorde-se da base do conhecimento (Capítulo 12): se as pessoas conhecem mais coisas, elas aprendem mais coisas. Isso explica por que a extensão educacional de uma pessoa é um bom indicador de seu QI (Nisbett et al., 2012). As Duas Juntas Para termos uma ideia geral da aptidão intelectual de uma pessoa, tanto a inteligência fluida quanto a cristalizada devem ser examinadas (Hunt, 2011). A idade é um fator agravante para calcular o QI, pois a pontuação em itens relacionados à inteligência fluida normalmente decai com o passar dos anos, enquanto a pontuação dos itens que testam a inteligência cristalizada aumenta. A pontuação em exames desse tipo tende a crescer ou a diminuir com o tempo. Normalmente, as habilidades relacionadas à velocidade (de raciocínio) e à habilidade verbal tendem a mudar de formas opostas. Essa combinação deixa as pontuações de QI bastante estáveis entre a faixa dos 30 aos 70 anos. Não obstante a desaceleração cerebral iniciar aos 20 anos ou por volta dessa idade, não há nada perceptível até os primeiros grandes sinais de declínio na inteligência fluida afetarem a inteligência cristalizada. A partir desse ponto, a média de QI começa a cair. Horn e Cattell (1967) escreveram o que eles demonstraram: A inteligência pode aumentar ou diminuir com a idade – dependendo da definição de inteligência adotada, fluida ou cristalizada! Nossos resultados ilustram uma TABELA 21.1 ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ falácia essencial implícita na construção de medidas únicas de inteligência. [Horn & Cattell, p. 124] As Três Formas de Inteligência de Sternberg Processos Relacionados Inteligência Analítica Inteligência Criativa Inteligência Prática Processos mentais envolvidos Planejamento abstrato Formulação de estratégias Atenção concentrada Processamento de informação Habilidades verbais Lógica Imaginação Apreciação pelo inesperado ou incomum Originalidade Visão Habilidade de adaptar comportamentos Entendimento e resolução de problemas reais Habilidade de usar conhecimentos e competências Valorizados por Análise Aprendizado e entendimento Memória Raciocínio Flexibilidade intelectual Originalidade Expectativas futuras Artistas, músicos Adaptabilidade Conhecimentos concretos Desafios do mundo real Indicados por Testes de múltipla escolha Pequenas redações Recordação de informações Inventividade Inovação Engenhosidade Ingenuidade Desempenho em situações reais “Escola da vida” Habilidades de sobrevivência Fonte: Baseado em Sternberg, 1988, 2003, 2011. Em outras palavras, pode ser inútil tentar medir o fator g, uma medida única de inteligência, porque os componentes da inteligência devem ser analisados de forma separada. Em um exame do fator g, mudanças reais no desenvolvimento cognitivo podem não ser percebidas porque as mudanças nas inteligências fluida e cristalizada se anulam. Três Tipos de Inteligência: Sternberg Robert Sternberg (1988, 2003, 2011) concorda que uma pontuação única de inteligência é imprecisa. Como já mencionado no Capítulo 11, Sternberg propôs a existência de três tipos de inteligência: a analítica, a criativa e a prática, e cada uma delas pode ser medida. (Veja a Tabela 21.1.) inteligência analítica Forma de inteligência que envolve processos mentais, como planejamento abstrato, seleção de estratégias, atenção concentrada e processamento de informação, além de habilidades verbais e lógicas. A inteligência analítica inclui todos os processos mentais que impulsionam a proficiência acadêmica, tornando eficientes e possíveis o aprendizado, os processos de recordação e o raciocínio. Logo, ela está ligada ao planejamento abstrato e ao processamento da informação, bem como às habilidades verbais e lógicas. Os pontos fortes nessas áreas são valiosos na adultez emergente, particularmente na educação superior, e após isso. Testes com questões de múltipla escolha e com pequenos textos acadêmicos, que exijam a recordação de informações específicas, indicam a inteligência analítica. inteligência criativa Forma de inteligência que envolve a capacidade de ser intelectualmente flexível e inovador. A inteligência criativa envolve a capacidade de ser intelectualmente flexível e inovador. O raciocínio criativo é divergente, e não convergente, valorizando o inesperado, o imaginativo e o incomum, em vez de um padrão de respostas convencionais. Sternberg desenvolveu testes de inteligência criativa que incluem escrever uma historinha intitulada “Os tênis do Polvo” ou planejar uma campanha publicitária para uma nova maçaneta. Aqueles com muitas ideias incomuns obtêm melhores pontuações no teste. inteligência prática As habilidades intelectuais usadas na resolução dos problemas do dia a dia (às vezes chamada de inteligência tácita). A inteligência prática envolve a capacidade do indivíduo de adaptar seus comportamentos às necessidades de uma determinada situação. Essa capacidade envolve a compreensão das expectativas e necessidades das pessoas envolvidas em uma situação, e o entendimento das habilidades necessárias para lidar com a situação, além da habilidade de usar os conhecimentos de forma efetiva. A inteligência prática é, às vezes, referida como inteligência tácita, porque ela não aparece de forma clara nos exames que procuram medir inteligência. Ela aparece na “escola da vida”, e as pessoas são “espertas” devido ao que aprendem na vida, não “nerds” dos livros. As Três Inteligências na Adultez Os benefícios da inteligência prática na adultez são óbvios, assim que começamos a pensar nas atividades cognitivas da faixa etária. Poucos adultos precisam definir palavras desconhecidas ou deduzir o próximo elemento de uma sequência numérica (inteligência analítica); e também são a. poucos os que precisam escrever algum tipo de música, reestruturar o governo local ou inventar um novo produto (inteligência criativa). Idealmente, esses poucos já devem ter encontrado suas áreas e, provavelmente, apoiam-se nos indivíduos com inteligência prática para implementar suas ideias analíticas ou criativas.Quase todo adulto, no entanto, deve resolver problemas reais: manter uma casa; avançar na carreira; administrar as finanças da família; examinar as informações da mídia, dos artigos impressos e da internet; levar em consideração as necessidades emocionais de familiares, vizinhos e colegas de trabalho (Blanchard-Fields, 2007). Schaie descobriu que as pontuações nos testes de inteligência prática eram mais estáveis que as obtidas em outros testes para adultos entre 20 e 70 anos, sem nenhum declínio notável, em parte porque essas habilidades são necessárias durante a vida toda (Schaie, 2005). A inteligência prática é muito útil. Sem ela, as soluções encontradas pela inteligência analítica irão falhar, porque as pessoas resistem ao conhecimento acadêmico, referindo-se a ele como irrealista e elitista, como o termo torre de marfim sugere. De maneira similar, uma ideia criativa espetacular pode ser considerada ridícula ou estranha em vez de séria e sensata – se não for acompanhada de inteligência prática. Por exemplo, um gerente de empresa, um diretor de escola, um líder político ou um pai sem inteligência prática que tentam mudar suas rotinas – talvez por um bom motivo, porque a rotina anterior era ineficaz. Se os novos procedimentos não são compatíveis com os grupos que eles administram (empresa, escola etc.) ou não são entendidos, então, trabalhadores, professores, eleitores e parentes irão interpretá-los erroneamente, predizer o fracasso e recusar-se a mudar. Flexibilidade constitui uma característica marcante para a inteligência prática (K. Sloan, 2009). Como você deve se lembrar do Capítulo 18, ela se desenvolve a partir do início da fase adulta. Idealmente, a inteligência prática continua a se refinar durante toda a fase adulta com cada nova experiência adquirida. Fracassos podem ser derrotas ou oportunidades de aprendizado. Nenhum teste abstrato pode avaliar a inteligência prática porque o contexto é algo fundamental. Em vez disso, para medir esse tipo de inteligência, os adultos precisariam ser observados lidando com os problemas do dia a dia. Para contratar um novo empregado, o setor de recursos humanos pode descrever uma situação real e perguntar ao candidato como ele a resolveria. Muitas empresas se utilizam desses testes situacionais para contratar gerentes (Salter & Highhouse, 2009). Por exemplo, pode-se propor a um candidato a uma vaga que encontre uma solução para o seguinte problema: Você designa um novo projeto a um subordinado, que protesta, dizendo que o trabalho não pode ser efetuado sem um número maior de recursos disponíveis e tempo. Classifique as seguintes respostas possíveis de melhor para pior. Explique suas escolhas. Você encontra outra pessoa para fazer o trabalho. b. c. d. e. f. Você pede ao subordinado para achar uma forma de efetuar o trabalho com as limitações atuais. Você redistribui as tarefas no trabalho, para dar mais tempo ao subordinado. Você despede o empregado. Você pergunta a seu supervisor o que fazer. Você adia a tarefa até que mais recursos estejam disponíveis. Testes situacionais podem ser usados em muitas áreas. Eles são frequentemente utilizados na área médica: livros de revisão foram criados para futuros médicos se prepararem para provas (exemplo, Varain & Cartwright, 2013). Como a inteligência prática é crucial para o trabalho, períodos probatórios, estágios e tempo como aprendiz são práticas comuns no mercado. Sternberg (2011) enfatiza que a inteligência analítica não é a única e nem sempre a melhor, e todos devemos entender nossos pontos fortes e guardar-nos contra as limitações de cada tipo de inteligência. Escolher qual tipo de inteligência usar requer sabedoria, o que Sternberg considera como o quarto ingrediente de uma inteligência bem-sucedida. É necessário ter criatividade para criar novas ideias, inteligência analítica para analisar se essas novas ideias são boas, inteligência prática para aplicar essas ideias e convencer os outros de que elas têm valor, e sabedoria para assegurar que todas elas trabalhem em prol de um objetivo comum. [Sternberg, 2012, p. 21] [Link: Falamos sobre sabedoria no Capítulo 24.] Idade e Cultura Qual tipo de inteligência é mais necessário e valoroso depende parcialmente da idade do indivíduo e parcialmente de sua cultura. Pense nos três tipos de inteligência de Sternberg. A inteligência analítica é normalmente apreciada no ensino médio e na faculdade, quando os estudantes têm de se lembrar de várias ideias diferentes e analisá-las. No entanto, embora as pessoas consideradas “inteligentes” tenham, normalmente, inteligência analítica, só ela não é suficiente para a vida adulta. Como Sternberg argumenta, “muitas pessoas inteligentes ignoram as guerras, a pobreza, as atrocidades do governo, a fome e as doenças que afetam as pessoas a sua volta” (Sternberg, 2013, p. 188). A inteligência criativa é valorizada se as circunstâncias da vida mudam e novos desafios surgem; é considerada muito mais importante em algumas culturas e países do que em outros (Kaufman & Sternberg, 2006). Em tempos de revoltas sociais ou em certas profissões (como nas artes), a criatividade é um indicador de sucesso melhor do que o QI. Entretanto, essa criatividade pode ser tão inovadora e fora do alcance que muitas pessoas criativas são desdenhadas, ignoradas ou até mesmo assassinadas. As contribuições de muitos gênios criativos só foram reconhecidas anos após sua morte. Pense nessas três inteligências de forma transcultural. Indivíduos criativos seriam críticos da tradição e só seriam tolerados em alguns ambientes políticos. Indivíduos analíticos poderiam ser vistos como indivíduos que “vivem no mundo da lua”. A inteligência prática, apesar de menos reconhecida no ambiente escolar, poderia ser a mais útil. Ainda assim, poderia ser útil tanto para o bem como para o mal. O uso da sabedoria se torna essencial. artefatos cognitivos As ferramentas intelectuais passadas de geração em geração que auxiliam no aprendizado dentro das sociedades. É difícil determinar quem é realmente inteligente e é ainda mais difícil determinar qual país é o mais inteligente, em parte porque cada cultura tem suas próprias definições da combinação de habilidades que configuram inteligência (Sternberg, 2013). Uma ideia controversa de Earl Hunt, um psicólogo que estuda a inteligência, é que os países com uma economia mais avançada e riquezas são os que fazem o melhor uso dos artefatos cognitivos – ou seja, modos de ampliar e estender a habilidade cognitiva de maneira geral (Hunt, 2012). Historicamente, a língua escrita, o sistema numérico, as universidades e o método científico foram artefatos cognitivos. Cada um desses artefatos serviu para ampliar o intelecto humano, ajudando as pessoas a interagir e, assim, aprender mais. A simples sobrevivência (séculos atrás, os bebês morriam mais do que sobreviviam) e uma vida mais longa (poucas pessoas viviam mais de 50 anos) são resultados dos artefatos cognitivos. A teoria dos germes causadores de doenças, por exemplo, foi desenvolvida porque os médicos foram capazes de pesquisar e aprender uns com os outros (Hunt, 2011). Nos tempos mais recentes, a educação universal, os métodos de saúde preventivos, a água potável, a eletricidade, as viagens internacionais e a internet contribuíram para as sociedades avançadas. De acordo com essa ideia, as pessoas inteligentes são mais capazes de usar os artefatos cognitivos de sua sociedade para melhorar sua própria inteligência. Então elas desenvolvem novos artefatos, e toda a comunidade é beneficiada. Especialmente para os Futuros Pais Em termos de desafios intelectuais, qual tipo de inteligência é mais necessário para a criação eficaz de um filho? Por exemplo, os países desenvolvidos oferecem pré-escola e jardim de infância para todas as crianças. Isso aumenta o QI da nova geração, o que, eventualmente, contribuirá para o avanço da nação. Em contraste, alguns países valorizam a fertilidade em detrimento da saúde, expõem as crianças ao chumbo e outras toxinas e censurama informação. Todas essas práticas prejudicam o desenvolvimento intelectual das pessoas (Hunt, 2011). Pensando sobre o desenvolvimento intelectual dos adultos, os contextos específicos de qualquer homem ou mulher limitam ou expandem sua mente? PERSPECTIVAS OPOSTAS O que Faz um Bom Pai ou uma Boa Mãe? “Chupetas fazem mal ao bebê?” “Que quantidade de comida uma criança de 4 anos deve comer?” “Qual idade é apropriada para conversar com as crianças sobre sexo?” Meus alunos frequentemente me fazem essas perguntas. Eu as respondo com base no meu conhecimento sobre o desenvolvimento humano e na minha experiência em criar filhos. Mas eu me pergunto o quanto essas respostas refletem minha cultura, e não minhas pesquisas. Questões similares podem ser levantadas acerca de qualquer coisa que os adultos sabem. Nossa perspectiva pode não ser adaptável a alguns contextos culturais. Uma definição de inteligência é a habilidade de se adaptar a diferentes condições. Pode, então, minha inteligência ser bem mais limitada do que meus alunos imaginam? Testes sobre bons cuidados de crianças já foram desenvolvidos baseando-se principalmente na criação analítica, não prática, de uma criança (por exemplo, McCall et al., 2010). Uma das escalas mais comuns é o Inventário do Conhecimento do Desenvolvimento Infantil (KIDI, do inglês Knowledge of Infant Development Inventory) (MacPhee, 1981). O KIDI mede quanto os cuidadores conhecem sobre os sentidos, as habilidades motoras e a comunicação das crianças – por exemplo, se eles sabem em qual idade espera-se que a criança saiba sentar ou se os pais deveriam falar com bebês na fase pré-verbal. Esse tipo de conhecimento parece útil. Por exemplo, mães e pais que obtêm notas mais altas no KIDI são menos depressivos e mais propensos a fornecer bons cuidados a um bebê (Howard, 2010; Zolotor et al., 2008). Muitos pesquisadores acreditam que o conhecimento do desenvolvimento infantil é a causa da boa criação (e não apenas que os dois fatores meramente se correlacionem). Deveríamos nos preocupar se uma mãe não sabe sobre o processo de crescimento de seu bebê? Talvez. Por exemplo, um estudo mostra que apenas 29 por cento das mães imigrantes sabiam que aos 2 anos a criança já é capaz de distinguir um som de uma fala e o som de outra, um item na lista do KIDI. Os pesquisadores sugerem que é menos provável que essas mães consigam auxiliar seus filhos no avanço de suas habilidades linguísticas e sociais, prejudicando as crianças em um estágio futuro (Bornstein & Cote, 2007). Uma perspectiva contrária é a de que o conhecimento sobre o desenvolvimento infantil não importa na criação da criança. Um estudo que corrobora essa visão descobriu que o desenvolvimento cognitivo dos filhos de imigrantes era previsível não pelas notas no KIDI de seus pais, mas por outros métodos, como o status socioeconômico e o uso da linguagem. Nesse estudo longitudinal, as notas das mães no teste do KIDI não previam o sucesso dos filhos asiáticos ou latinos na vida escolar; entretanto, elas estavam relacionadas com o sucesso das crianças de ancestralidade europeia (Han et al., 2012). Isso nos sugere que a cultura foi crucial para o desfecho desenvolvimental. Em outro estudo, os pesquisadores forneceram apoio e visitas encorajadoras a mães solteiras e com baixa renda – muitas das quais não planejaram nem queriam filhos (Katz et al., 2011). Comparadas com o grupo controle, que não teve visitação, e comparadas com o grupo de mães que tiveram um número relativamente menor de visitas, as mães que receberam 30 ou mais visitas dos pesquisadores se tornaram melhores cuidadoras de crianças. Porém, tanto antes quanto depois das visitas, suas notas no KIDI eram baixas. Os autores do estudo descrevem: Um impacto significativo dessa intervenção foi seu efeito na habilidade dessas mães em criar um ambiente mais apropriado às necessidades de seus filhos … a despeito da falta de mudanças no conhecimento das mães sobre o desenvolvimento infantil. [Katz et al., 2011, p. S81] Em outras palavras, avanços nas habilidades práticas, não nas analíticas, fizeram a diferença. O conhecimento pode não melhorar a maternidade. Ao contrário, o carinho e a paciência, a responsividade (sem esperar reciprocidade da criança), a saúde mental e os amigos podem ser mais relevantes que o conhecimento. O QI se correlaciona com atributos positivos de uma pessoa, mas ele não os determina (Dunkel, 2013). Parte da principal razão por que esses testes não são capazes de sempre prever um bom exercício da maternidade é que as culturas variam no que se acredita ser uma boa criação de uma criança. Algumas crenças podem ser benéficas a bebês em algumas situações e em outras não. Por exemplo, uma antropóloga dos Estados Unidos estudou os Ache, no Paraguai. A tribo Ache era respeitosa e complacente com ela em suas repetidas visitas, até que ela e o marido chegaram ao seu local de estudo, na floresta paraguaia, com sua filha a tiracolo. Os Ache a cumprimentaram de uma maneira diferente. Eles a chamaram em particular e, de uma maneira amigável e íntima, mas, sem meias-palavras, disseram-lhe tudo que ela estava fazendo de errado como mãe. … [Ela deu um exemplo:] Essa mulher idosa sentou comigo e me disse que eu tenho que dormir com minha filha. Eles ficaram horrorizados porque eu trouxe comigo uma cesta para a minha filha dormir. Aqui tínhamos um grupo de caçadores, pessoas vivendo em condições que os ocidentais consideram precárias, dando instruções a uma mulher com educação superior vinda de uma cultura tecnologicamente sofisticada. [Small, 1998, p. 213] Quão importante para uma boa criação é o conhecimento preciso do desenvolvimento de uma criança? Não sou imparcial nessa questão. Dediquei boa parte de minha vida a ensinar sobre o desenvolvimento humano. Acredito que o conhecimento é uma forma de poder e sou grata por saber tudo que sei. Mesmo assim, o aspecto mais importante da boa criação pode não ser o acesso à informação. De maneira semelhante, os sinais da inteligência adulta podem não ser necessariamente os sinais da inteligência analítica. Estamos levantando essas questões. A educação é um artefato cultural; e eu acho que todos podem se beneficiar dela. Se eu estivesse convencida de que a responsividade é mais importante que o conhecimento para o desenvolvimento, eu ensinaria a responsividade. Isso seria uma contradição? RESUMINDO A inteligência pode não ser uma entidade única (fator g), mas uma combinação de diferentes habilidades, às vezes categorizadas como fluida ou cristalizada, ou como analítica, criativa ou prática. Essas habilidades melhoram ou pioram, em parte por eventos que ocorrem na vida do indivíduo, em parte por conta da cultura e da coorte, e em parte por conta da idade. O panorama da inteligência adulta, medida através de vários testes, é complexo. No geral, a inteligência verbal aumenta e os testes realizados com intervalos de anos demonstram um declínio entre as décadas com o passar da vida adulta. Algo controverso que permeia todas as abordagens psicométricas ligadas à inteligência está na definição do que é inteligência, com pesquisadores discordando sobre o que, como e por que medir. Está claro que habilidades intelectuais específicas necessárias para o sucesso de um indivíduo dependem, pelo menos em parte, do contexto e da cultura. ■ >> Perdas e Ganhos Seletivos O envelhecimento dos neurônios, as pressões culturais, as condições históricas e a educação recebida são fatores que afetam a cognição adulta. Nenhum desses fatores pode ser controlado diretamente por um indivíduo adulto. Ainda assim, muitos pesquisadores acreditam que os adultos fazem escolhas cruciais acerca de seu desenvolvimento intelectual. >> Resposta para os Futuros Pais: Como a parentalidade requer flexibilidade e paciência, a inteligência prática de Sternberg é provavelmente a mais necessária. Qualquer coisa que envolva encontrar uma única resposta certa, como inteligência analítica ou habilidades numéricas, não seria de grande ajuda.Por exemplo, por que as habilidades numéricas das coortes recentes decaíram em relação a seus antecessores? A razão pode não estar no currículo antigo de matemática das escolas (como já foi sugerido por pesquisadores), mas sim na dependência que os adultos modernos têm da calculadora, em vez de fazerem contas com lápis e papel (ou mentalmente). Se os adultos decidissem jogar fora suas calculadoras, suas habilidades matemáticas poderiam melhorar. Obviamente, a maior parte das pessoas acharia isso estranho. Passar mais tempo com a matemática pode ajudar nas habilidades numéricas, mas poucos adultos modernos gostariam de ficar realizando divisões de dois dígitos apenas na cabeça. De maneira similar, nossa memória melhoraria se não dependêssemos de computadores e da agenda do celular para ligar ou mandar mensagem para nossos amigos. Mas esses artefatos da vida moderna nos tornam intelectualmente preguiçosos? Ou as pessoas estão apenas focadas em desafios diferentes? Acumulando Estressores Muitas decisões que os adultos tomam com relação à saúde priorizam o conforto imediato em vez da saúde a longo prazo. Isso prejudica a cognição porque qualquer coisa que afeta a circulação sanguínea também afeta o cérebro. Afeta a velocidade de pensamento e leva ao encolhimento cerebral. Abuso de drogas e álcool, pressão alta, diabetes, obesidade, vida sedentária e fumo – escolhas para muitos adultos – comprometem o raciocínio. estressor Qualquer situação, evento, experiência ou outro estímulo que possa fazer com que uma pessoa se sinta estressada. Muitas circunstâncias que parecem ser estressantes se tornam estressores para algumas pessoas, mas não para outras. Agora vamos focar em outro fator que prejudica a cognição: o estresse. Todos temos vidas estressantes. Alguns estresses se tornam estressores. Estressor é uma experiência, circunstância ou condição que afeta uma pessoa. O estresse é uma coisa externa; se o estresse é internalizado, ele se torna um estressor. Entre os 25 e os 65 anos, membros da família morrem, desastres destroem casas, perdemos empregos e até mesmo os eventos bem-vindos – como um novo casamento, filhos ou um emprego – podem causar estresse. Além disso, a vida cotidiana é cheia de pequenos estresses chamados aborrecimentos – trânsito, comida derramada, barulhos à noite, desconhecidos mal- educados, dores, louça suja. Os aborrecimentos diários integrados ao estresse se tornam estressores, destruindo a saúde. Se as reservas dos órgãos se esgotam, o componente psicológico do estresse pode diminuir a imunidade, aumentar a pressão sanguínea, acelerar o coração, prejudicar o sono e produzir muitas outras reações que podem levar a perdas cognitivas com o aumento da carga alostática. Há ainda a reserva cognitiva, similar à reserva dos órgãos. Embora o cérebro se beneficie do uso contínuo, quando precisam subitamente desempenhar tarefas cognitivas difíceis, as pessoas são menos capazes de pensar com clareza. Podem tomar decisões impulsivas, que podem, por sua vez, ser destrutivas. O ser humano sempre lidou com estresses, alguns dos quais se tornam estressores, e desenvolvemos formas de lidar com esses estresses, às vezes com homeostase ou alostase biológica, às vezes de forma mais direta com estratégias cognitivas. Como você verá, a escolha de qual método de enfrentamento do estresse pode levar ao fortalecimento intelectual ou a sua disfunção. Métodos de Enfrentamento Estressores contribuem para o aumento de todos os hábitos ruins citados no Capítulo 20 – uso de drogas, má alimentação, vida sedentária – e, por mais que esses hábitos ajudem a lidar com o estresse, eles eventualmente pioram as coisas. O estresse não é meramente correlacionado a doenças – ele causa doenças. Em um experimento, voluntários indicaram quão estressados eles se sentiam e então concordaram em ter um vírus da gripe aplicado em suas narinas. Uma semana depois, alguns deles se sentiam congestionados, espirrando e com febre. Outros se sentiam bem. O estresse foi um fator crucial (S. Cohen et al., 1993). De maneira semelhante, os hormônios do estresse não apenas prejudicam o raciocínio no momento, como também afetam a habilidade mental no futuro. O estresse crônico causa depressão e outras doenças psicológicas que prejudicam o raciocínio e atacam o cérebro (Marin et al., 2011; McEwen & Gianaros, 2011). Especialmente para Médicos e Enfermeiros Um paciente reclama de dor de cabeça ou de estômago, mas os exames laboratoriais e as tomografias não encontram nenhuma causa física. O que poderia ser? As reações ao estresse podem causar mais estresse, o que significa um acúmulo de estressores. Por exemplo, um estudo longitudinal feito com casais com cerca de 30 anos de idade descobriu que, se a saúde do esposo deteriorava, a probabilidade de acontecer um divórcio aumentava. Então, uma reação ao estresse da doença era criar uma situação que causava mais estresse. Essa dinâmica era perceptível em todos os casais, em particular em americanos brancos com altos níveis de educação (Teachman, 2010). As taxas de divórcio também aumentam quando o casal tem filhos com necessidades especiais (Price, 2010). Em contrapartida, ter filhos com sérios problemas costuma aproximar alguns casais (Solomon, 2012). Aparentemente, ter um filho com necessidades especiais é sempre algo estressante; então, cria-se um estressor. Mas a maneira como as pessoas lidam com esse estressor é crucial para sua saúde mental. enfrentamento por esquiva Um método de responder ao estressor ignorando, esquecendo ou escondendo o problema. O enfrentamento envolve a cognição porque as pessoas escolhem o que fazer. Abusar do álcool e de outras drogas é uma forma evidente de enfrentamento por esquiva. Ignorar um problema, literalmente esquecendo-se dele ou escondendo-o (uma pessoa que devia muitos impostos jogava todas as cartas que recebia embaixo da cama, sem abri-las), é a pior forma de enfrentamento – aumenta a depressão e o risco de suicídio. enfrentamento com foco no problema Estratégia de lidar com o estresse atacando a situação estressante diretamente. enfrentamento com foco na emoção Estratégia de lidar com o estresse mudando os sentimentos relacionados ao estressor em vez de mudar o próprio estressor. Psicólogos distinguem duas maneiras positivas de enfrentamento do estresse: o enfrentamento com foco no problema e o enfrentamento com foco na emoção. No enfrentamento com foco no problema, a pessoa ataca o estressor diretamente – por exemplo, confrontando um chefe de personalidade difícil ou se mudando de um bairro barulhento. No enfrentamento com foco na emoção, a pessoa tenta mudar suas reações emocionais – por exemplo, de raiva para aceitação, fazendo com que o estressor desapareça e que ela se torne mais forte e empática por conta disso. Muitos adultos que trabalham para ajudar outras pessoas (terapeutas, voluntários em grupos de apoio, professores) desempenham essas atividades por causa de suas experiências passadas de superação do estresse. Biológica e culturalmente, os dois gêneros respondem ao estresse de maneiras diferentes. Os homens tendem a lidar focando no problema, em um modo de “luta ou fuga”. Seu sistema nervoso simpático (ritmo cardíaco acelerado, adrenalina aumentada) os prepara para atacar ou escapar. Os níveis de testosterona aumentam quando eles confrontam um problema e diminuem quando eles falham. Desde a infância, os meninos são ensinados a revidar, e os homens adultos estão mais propensos a brigar abertamente, usar a força ou abandonar a situação. As mulheres, no entanto, lidam focando na emoção e buscam amizades – isto é, procuram a companhia de outras pessoas quando estão sob pressão. Seus corpos produzem oxitocina, um hormônio que as leva a procurar interações confidenciais e de cuidado (S. E. Taylor, 2006; S. E. Taylor et al., 2000). Sua primeira reação, quando algo dá errado, é ligar para um(a) amigo(a). Essa diferença na forma com que os gêneros lidam com os problemas explica por que uma mulher às vezes fica chateada quandoo parceiro não quer discutir um problema, e por que um homem pode não gostar quando a mulher quer conversar em vez de agir em alguma situação. Tanto o enfrentamento com foco no problema quanto com foco na emoção pode ser eficaz; todos deveríamos às vezes “brigar” e às vezes procurar um amigo. Escolhendo Métodos Além de descobrir qual a melhor estratégia para lidar com cada problema em particular, o indivíduo também precisa descobrir quando terá ou não ajuda de outras pessoas para isso (Aldwin, 2007). Buscar um apoio social é, geralmente, uma boa estratégia – a opinião de terceiros pode trazer sugestões, aliviar a carga do problema, adicionar doses de humor ou outra perspectiva (Fiori & Dencklar, 2012). Mas, às vezes, essa outra pessoa critica, distrai ou atrasa seu processo de enfrentamento. A melhor estratégia de enfrentamento depende da situação. Pior que o enfrentamento com foco no problema ou na emoção é não usar nenhuma estratégia para o problema – negando sua existência até que ele aumente ou se torne um problema físico, causando, por exemplo, pressão alta, dificuldades digestivas, ou até um ataque cardíaco. O enfrentamento por esquiva acarreta cargas homeostáticas e alostáticas. [Link: Cargas homeostáticas e alostáticas são discutidas no Capítulo 17.] intemperismo O acúmulo gradual de estressores durante um período da vida, que mina a resiliência e a resistência da pessoa. O estresse a que uma pessoa é submetida durante a infância ou a adolescência pode se tornar evidente na morbidade durante os anos adultos. Um estudo americano com 65.000 adultos comparou diversos sinais de saúde debilitada, como hipertensão e resistência à insulina. O acúmulo gradual de fatores bioquímicos estressores é chamado de intemperismo, e esse estudo concluiu que o intemperismo ocorre mais rápido entre afro-americanos – por volta dos 60 anos, a idade biológica média deles era 10 anos maior que a dos euro-americanos. Os autores acreditam que isso é resultado do “estresse crônico” de viver em uma “sociedade consciente das iniquidades raciais” (Geronimus et al., 2006, p. 832). Apoio social? A expectativa de vida média de um afro-americano é quatro anos menor que a de um americano de ascendência europeia até a faixa dos 80 anos, momento em que os dados mostram um “cruzamento”, e os afro-americanos passam a viver mais. Curiosamente, os latinos vivem por mais tempo que os dois grupos (National Center for Health Statistics, 2013). Apoio social? O intemperismo tem um impacto direto na inteligência. Em estudos conduzidos nos Estados 1. 2. 3. Unidos nos anos 1980, a média do QI dos afro-americanos era 15 pontos abaixo da média dos americanos de ascendência europeia (Neisser et al., 1996). Pesquisas anteriores levantaram hipóteses de que isso poderia ser genético. No entanto, pesquisas feitas mais tarde sugeriram que o estresse é a causa dessa pontuação inferior. Especificamente: A diferença de QI entre negros e brancos diminuiu de 15 para 10 pontos entre 1972 e 2002 (Dickens & Flynn, 2006) e continua a diminuir – mais em algumas habilidades que em outras. As diferenças raciais são perceptíveis no vocabulário, mas não na habilidade de aprender (Fagan & Holland, 2007). As diferenças raciais são menos expressivas aos 4 anos e mais expressivas aos 25 anos. Todas essas descobertas sugerem que o estresse pode contribuir para a menor pontuação dos afro-americanos. Perceba que a diferença é mais evidente nos primeiros anos da vida adulta. De forma ideal, com o tempo e com as experiências, os adultos aprendem a responder ao estresse de maneira adequada. Com o passar dos anos da adultez, uma atitude mais positiva na vida se desenvolve, o que torna mais fácil reinterpretar os eventos estressantes para que eles não o afetem. Frequentemente, as pessoas mais idosas já tiveram a oportunidade de aprender a lidar com as experiências estressantes e como ajustar suas expectativas. … Com base na idade e na experiência, os mais velhos desenvolvem habilidades mais eficazes por meio das quais eles lidam com os eventos estressantes da vida e reduzem o estresse emocional. [Penninx & Deeg, 2000] >> Resposta para Médicos e Enfermeiros: Estressores aumentam a carga alostática; então a dor de cabeça ou de estômago pode ser causada por estresse. Seja cuidadoso, no entanto, porque tanto você quanto o paciente podem estar fazendo uso do enfrentamento por esquiva. O paciente pode negar estar sob estresse e culpar você por sugerir isso, e você pode estar fugindo da responsabilidade. Problemas emocionais e contextuais impactam a saúde física; logo, os médicos especialistas não podem ignorá-los. Para pessoas com qualquer história de vida, a idade traz outra vantagem. A adultez emergente é um tempo de “aborrecimentos frequentes”. Assim que a pessoa se estabelece, alguns estresses (namoros, procura por emprego, mudanças) ocorrem com menor frequência. Os adultos se tornam “mais proficientes para organizar suas vidas de forma a minimizar a ocorrência de estressores” (Aldwin, 2007, p. 298). (Visualizando o Desenvolvimento, visto adiante, compara o estresse entre diferentes grupos etários.) Lembre-se de que as atitudes podem determinar se um evento se tornará ou não um estressor e se esse estressor decairá com o tempo. Por exemplo, o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) é uma resposta comum à experiência de guerra ou forte violência, especialmente se a pessoa afetada viu pessoas seriamente feridas ou mortas. O estressor pode continuar por um bom tempo após o evento. É uma explicação para esta chocante estatística: em 2012, um número maior de soldados americanos morreu se suicidando (349, muitos após retornarem a suas casas) do que no campo de batalha no Afeganistão (245). Mas a maior parte dos veteranos se reajusta bem; menos da metade daqueles que tiveram experiência de guerra desenvolvem TEPT. enfrentamento religioso O processo de voltar-se para a fé como método de lidar com o estresse. Algumas pessoas reagem aos estressores por meio do enfrentamento religioso, acreditando que existe algum propósito divino para aquela situação. Cientistas sociais descobriram que o enfrentamento religioso é bem mais provável de ocorrer quando o indivíduo lida com doenças inesperadas ou desastres. Assim como as outras formas de enfrentamento, às vezes o enfrentamento religioso atenua o estressor, às vezes ele o piora (Burke et al., 2013; Thuné-Boyle et al., 2013). Durante a vida adulta, a fé e a prática religiosa tendem a aumentar; e experiências passadas ligadas ao enfrentamento de situações estressantes podem ser o motivo. É claro que desastres naturais, como um terremoto, e tragédias pessoais, como a morte de um ente querido, são sempre eventos estressantes. A grande surpresa é que esses eventos são, em geral, superados, e muitos adultos ignoram as desregulações e reinterpretam os eventos. Em vez de chorar o infortúnio, eles se focam na sua boa sorte – no lugar do “por que eu?”, eles usam o “poderia ter sido pior”. Alguns adultos reinterpretam os estresses como desafios, mesmo quando terceiros considerariam esse evento uma ameaça e não um desafio (Reich et al., 2010). Quando desafios são concluídos com sucesso, o indivíduo se sente não apenas uma pessoa mais eficaz e mais forte, mas também evita as respostas negativas do corpo para os estressores – aceleração do coração e aceleração respiratória, mudanças hormonais, falhas no sistema imunológico, lapsos cognitivos e assim por diante. De fato, o enfrentamento eficaz fortalece o sistema imunológico promovendo a saúde (Bandura, 1997). Para adultos, estressores em potencial podem se tornar momentos de virada positivos (Reich et al., 2010), o que pode ter acontecido no caso relatado no boxe Um Caso para Estudo adiante. UM CASO para ESTUDO Lidando com o Katrina Desenvolvimentistas estão acompanhando centenas de milhares de pessoas, na Louisiana e no Mississippi, que foram desabrigadas pelo Furacão Katrina em 2005. Muitas dessas pessoas perderam casas e empregos, passaram dias sem comida e semágua e algumas perderam conhecidos. Não é surpreendente que seus estressores tenham aumentado. Por exemplo, um estudo com sobreviventes de uma enchente devastadora em Nova Orleans mostrou que quase todos eles ainda possuíam reações causadas pelo estresse do desastre, mesmo seis meses depois. Quase todos se irritavam facilmente, possuíam pensamentos depressivos e metade tinha pesadelos frequentes (veja a Figura 21.2). O acúmulo de estressores levou os sobreviventes do Katrina a muitas complicações físicas e psicológicas. Um em cada nove sofria com algum problema mental grave; esse número é o dobro do registrado antes do furacão. Outros 20 por cento apresentavam doenças mentais brandas ou moderadas, novamente o dobro da taxa registrada antes da catástrofe (Kessler et al., 2006). Levando em consideração o trauma causado pela tempestade (um grande estresse) e a falta de reação de órgãos oficiais (levando a mais aborrecimentos), os dados apresentados não são nenhuma surpresa. FIGURA 21.2 Efeitos Remanescentes do Furacão Katrina Normalmente, a maior parte das pessoas envolvidas em desastres naturais se recupera em poucas semanas; mas, como a tabela mostra, a maior parte das vítimas do Katrina ainda sentia, seis meses depois, seus efeitos psicológicos. Dois anos após o furacão, as taxas de mortalidade em Nova Orleans, de todas as causas, de ataques cardíacos a homicídios, eram o dobro do que eram antes da tempestade. Entretanto, estudos longitudinais revelam que esses mesmos estressores levaram também a um aumento da resiliência, com três em cada quatro pessoas afirmando terem descoberto um propósito de vida após o Katrina. Apenas uma entre 250 pessoas havia tentado suicídio, o que representava um décimo da taxa de antes do furacão, talvez porque eles já não se considerassem pessoalmente responsáveis por sua depressão e porque outras pessoas eram mais compreensíveis (Kessler et al., 2006). Adultos entre 40 e 65 anos estavam entre os mais propensos a lidar bem com o trauma. Uma estudante universitária que viajou ao Mississippi para ajudar os sobreviventes fornece um depoimento em primeira mão. Ela esperava ver as pessoas destruídas por suas perdas. Em suas palavras: Trezentos universitários de Ohio viajaram para o Mississippi para ajudar os sobreviventes do Katrina. Chegando seis meses após o desastre, encontraram carros enferrujados, casas destruídas e até pedaços de roupas ainda presas em árvores. Mas eles também encontraram centenas de pessoas reconstruindo suas vidas, incluindo professores que, logo após os acontecimentos, voltaram a trabalhar. Uma estudante estava impressionado pela “onda de otimismo que se levantava daqueles escombros”. Ela cita um voluntário local que disse: “Você sobrevive com o que ganha; você vive com o que você oferece ao mundo.” [Feerasta, 2006] Apesar de o furacão ter ocorrido anos atrás, aqueles que passaram por ele ainda lidam com isso até hoje. Cientistas sociais continuam a estudá-los. Uma equipe analisou as crenças religiosas antes e depois do Katrina. Os que acreditavam que o Katrina era uma vingança de Deus, que estava punindo as pessoas, estavam mais propensos a sofrer; mas os que acreditavam que Deus era benevolente e acolhedor apresentavam crescimento pós- traumático, não TEPT (Chan & Rhodes, 2013). Os seres humanos parecem ter uma reserva de recuperação que é ativada quando submetidos a estresse, similar às reservas dos órgãos que explicamos no Capítulo 17. De acordo com vários estudos, parece que uma força extra e um estado de alerta são convocados quando surgem emergências, mesmo quando os afetados por isso estão fadigados e em ambientes perturbadores. Essa reserva trabalha eficientemente em momentos de emergência, especialmente quando a pessoa sente que existe algo que possa ser feito. Não é de espantar que os professores de Nova Orleans já queriam voltar ao trabalho poucas semanas depois do Katrina. Isso pode explicar uma reação familiar a provas de fim de semestre: alguns alunos estudam de forma intensiva e vão bem… e então entram em colapso, até ficando doentes após o último exame. Mais pesquisas são necessárias, mas parece ser possível que os adultos desenvolvam gradualmente novas formas de lidar com situações para adaptar-se às vicissitudes da vida (Masten & Wright, 2010; Aldwin & Gilmer, 2013). Otimização com Compensação otimização seletiva com compensação A teoria desenvolvida por Paul e Margaret Baltes, de que as pessoas mantêm um equilíbrio em suas vidas ao procurar pelas melhores formas de compensar perdas físicas e cognitivas, tornando-se mais proficientes em atividades que elas já desempenham bem. Paul e Margret Baltes (1990) desenvolveram uma teoria chamada otimização seletiva com compensação para descrever o “processo geral da função sistemática” (P. B. Baltes, 2003, p. 25), que fala sobre como as pessoas encontram um equilíbrio em suas vidas, à medida que envelhecem. Eles acreditam que as pessoas procuram otimizar seu desenvolvimento, selecionando as melhores formas de compensar perdas cognitivas e físicas, tornando-se melhores nas atividades que querem desempenhar bem. A otimização seletiva com compensação se aplica a qualquer aspecto da vida, desde selecionar amigos a jogar um esporte coletivo. Cada adulto procura maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, praticando algumas habilidades e deixando outras de lado. As escolhas são importantes, porque qualquer habilidade pode ser melhorada ou reduzida, dependendo de como, quando e por que uma pessoa decide usá-la. É possível ensinar “novos truques a um cachorro velho”, mas o processo de aprendizado vai requerer que esses adultos queiram aprender novos truques. Quando os adultos estão motivados a desempenhar alguma atividade bem, déficits relacionados à idade são pouco perceptíveis. No entanto, comparados com adultos mais jovens, os mais idosos são menos motivados a se esforçar para desempenhar uma tarefa que não seja particularmente atraente (Hess et al., 2009). Isso atua contra eles em um teste de QI. Como Baltes e Baltes (1990) explicam, a otimização seletiva significa que cada adulto seleciona certos aspectos de sua inteligência a fim de melhorá-los, ignorando outros. Se os aspectos ignorados são os usados para medir inteligência em um teste, então a pontuação no QI será baixa, mesmo se o processo seletivo desse adulto tiver optado por melhorar (otimizar) outros aspectos do intelecto. O cérebro é plástico durante todo o ciclo vital, desenvolvendo nos dendritos e sinapses, ajustando-se a qualquer coisa que uma pessoa decida aprender (Smith & Baltes, 2013; Karmiloff-Smith, 2010; Macdonald et al., 2009). Por exemplo, suponha que alguém que esteja particularmente motivado a aprender sobre alguma região do planeta (talvez sobre as Montanhas Rochosas na Cordilheira da América do Norte) perceba que alguns problemas relacionados à idade estejam afetando sua visão, dificultando a leitura de letras miúdas. Essa pessoa pode obter um novo par de óculos, aumentar o tamanho da fonte se estiver em um computador (compensação) e ler atentamente qualquer artigo sobre as montanhas e ignorar qualquer outra notícia (seletividade). Se o item de um vocabulário do teste de QI for avalanche, essa pessoa pode ganhar muitos pontos, mas essa mesma pessoa poderia ir mal em outros termos de conhecimento geral. Dessa forma, o conhecimento aumenta (otimiza) em profundidade, mas diminui em abrangência. Multitarefa Um exemplo de otimização seletiva é a multitarefa, habilidade que fica mais difícil com o passar das décadas (Reuter-Lorenz & Sylvester, 2005). Na verdade, tentar desempenhar várias atividades ao mesmo tempo desacelera qualquer um, em qualquer idade, mas a percepção disso se torna mais aguçada com o avanço da idade. Isso é óbvio quando vemos alguém dirigindo e falando ao celular ao mesmo tempo. Esse comportamento é particularmente mais perigoso para motoristas idosos porque o cérebro se foca na conversa, o tempo para o retorno à atenção necessária para reagir a um pedestre fica maislento (Asbridge et al., 2013). Algumas jurisdições requerem que motoristas usem aparelhos que não necessitem das mãos quando estão dirigindo, como se a distração tivesse origem no braço que não encosta no volante. Leis equivocadas como essa não reduziram a quantidade de acidentes causados por motoristas que usavam o celular, porque o problema está na multitarefa do cérebro e não nos braços. Alguns afirmam que as conversas com passageiros distraem tanto quanto uma conversa ao celular, mas isso não é verdade. Anos de prática ensinaram passageiros adultos (embora não as crianças jovens) sobre o momento em que devem parar de falar, para o motorista conseguir se concentrar na estrada (S. G. Charlton, 2009). Se os passageiros não aquietam por conta própria, motoristas experientes param de escutar e responder, por saberem que devem se concentrar. É um dos motivos pelos quais ouvimos pessoa com mais idade dizer “Não consigo fazer tudo ao mesmo tempo” ou “Não me apresse” mais vezes que os adolescentes. Os adultos compensam o raciocínio mais lento selecionando uma tarefa por vez. Os recursos cerebrais ficam mais limitados com o passar dos anos, mas a compensação permite um funcionamento otimizado (Freund, 2008). Um pai tentou explicar esse conceito ao filho, da seguinte forma: Eu disse a meu filho: a triagem É a principal arte da idade. Na meia-idade, tudo Fala disso. Na lei Ou na cicatrização, no aprendizado, nas brincadeiras, Comprar ou vender – acima de tudo Lembrar-se – a regra é Enxugue os gastos, obtenha os lucros. Especificidades aumentam ou diminuem Pela seletividade. [Hamill, 1991] Cognição de Expertise expertise Habilidades especializadas e conhecimentos desenvolvidos em torno de uma atividade ou área de interesse em particular. Outra maneira de descrever perdas e ganhos cognitivos é dizer que cada pessoa desenvolve uma expertise, tornando-se um expert seletivo, especializando-se em atividades que são significativas em nível pessoal, de conserto de carros a cozinha gourmet, de diagnóstico de doenças a peixes voadores. À medida que as pessoas se especializam em algumas áreas, elas tendem a prestar menos atenção a outras. Por exemplo, cada adulto, normalmente, escolhe assistir apenas a alguns canais da televisão, ignorando a grande variedade de conteúdo. Uma pessoa pode não ter nenhum interesse em ir a algum evento para o qual centenas de outras esperam em filas durante horas. Nossa cultura e o contexto nos guiam na seleção de áreas de expertise. Muitos adultos nascidos há mais de 60 anos são melhores que os mais novos em escrever cartas à mão com uma letra legível e caprichada. Na infância, eles praticavam caligrafia e se tornaram experts nisso, mantendo essa expertise anos depois. As escolas de hoje, e consequentemente as crianças, fazem outras escolhas. A leitura, por exemplo, agora é considerada crucial, o que não era anos atrás quando o analfabetismo adulto era comum. Experts, como descritos pelos cientistas cognitivos, não são necessariamente pessoas com proficiências raras ou acima da média. Apesar de o termo expert conotar algo extraordinário, para pesquisadores significa mais – e ao mesmo tempo menos – que isso. A expertise não é inata, embora pessoas que herdam certas habilidades geralmente escolham desenvolvê-las. Um expert não é simplesmente alguém que sabe mais ou é talentoso de uma forma peculiar. Isso é só o começo. Em algum momento, o conhecimento acumulado, a prática e a experiência se tornam catalisadores, colocando o expert à frente de outras pessoas. A qualidade, bem como a quantidade, da cognição avança. O pensamento do expert é (1) intuitivo, (2) automático, (3) estratégico e (4) flexível, como descreveremos a seguir. Intuitivo Iniciantes seguem procedimentos e regras formais. Experts confiam mais em experiências passadas e contextos imediatos; suas ações são, portanto, mais intuitivas e menos estereotipadas que as dos iniciantes. O papel da experiência e da intuição é evidente, por exemplo, durante uma cirurgia. Leigos podem achar que a medicina é algo direto, mas experts entendem a realidade. Os hospitais estão cheios de uma variedade de facas e venenos. Cada vez que uma medicação é prescrita, existe um potencial para algum efeito colateral não desejado. Durante uma cirurgia, o efeito colateral é inerente. O tecido externo tem que ser cortado para permitir acesso às partes internas e então remover um órgão doente ou algum outro tipo de manipulação a ser feita para tornar o paciente saudável novamente. [Dominguez, 2001, p. 287] Em um estudo, vários cirurgiões assistiram a um mesmo vídeo de uma operação de vesícula biliar e foram convidados a comentar sobre isso. Os mais experientes previam e descreviam os problemas duas vezes mais que os residentes (que também já tinham feito essas cirurgias, mas não tantas vezes) (Dominguez, 2001). Dados sobre médicos indicam que a pergunta mais importante a ser feita ao cirurgião é: “Quantas vezes você já fez essa operação?” O iniciante, mesmo com um treinamento melhor e mais recente, ainda é menos hábil que o expert. Isso também é verdade na psicoterapia, de acordo com um estudo que comparou iniciantes e veteranos – todos com o conhecimento acadêmico necessário. Os terapeutas precisavam falar em voz alta enquanto analisavam um caso hipotético. Os experts usavam um “pensamento mais direto”, fazendo inferências e desenvolvendo um possível plano de tratamento. Os novatos eram menos propensos a analisar as relações sociais da pessoa e mais suscetíveis a se prender a descrições “do que é” o problema em vez de considerar o que poderia ser a causa (Eells et al., 2011). Outro exemplo de expertise é determinar o sexo da galinha – a habilidade de dizer se um pintinho recém-nascido é macho ou fêmea. David Myers (2002) descreve: Antigamente, avicultores tinham que esperar entre cinco e seis semanas até a aparição de penas para poder separar os galos (machos) das galinhas (fêmeas). Os produtores de ovos queriam comprar e alimentar apenas galinhas; então eles ficaram intrigados ao saber que japoneses haviam desenvolvido a habilidade misteriosa de dizer o sexo desses animais com apenas um dia de vida. … Viveiros de todos os lugares, então, forneceram treinamentos com os japoneses. … Após meses de treinamento e especialização, separando entre 800 e 1000 aves por hora, a exatidão chegava a 99 por cento. Mas não os peça para descrever como fazem isso. A diferença dos sexos – qualquer expert nisso irá dizer dessa forma – é sutil demais para ser explicada. [Myers, p. 55] Um experimento que estudou a relação entre expertise e intuição envolveu 486 estudantes universitários. Eles tinham que prever os vencedores de jogos de futebol que ainda não haviam acontecido. Os estudantes que eram mais fanáticos (os experts) fizeram previsões muito mais precisas quando tiveram alguns minutos de pensamento inconsciente do que quando tiveram o mesmo tempo para ponderar as opções (veja a Figura 21.3). Os que não ligavam muito para futebol (os não experts) foram os piores de modo geral, e suas previsões foram ainda menos precisas quando usaram a intuição inconsciente (Dijksterhuis et al., 2009). Os detalhes desse experimento são intrigantes. Durante 20 segundos, todos os participantes viam, em uma tela de computador, quatro partidas de futebol que ainda iriam acontecer, e foram chamados para prever os vencedores. Um terço das previsões foi feito imediatamente, um terço foi feito após dois minutos de pensamento consciente e um terço foi feito após dois minutos quando apenas o pensamento inconsciente poderia ocorrer – porque essas pessoas recebiam aleatoriamente séries de questões matemáticas para resolver durante esses dois minutos. FIGURA 21.3 Se Você Não Sabe, Não Pense! Estudantes da Universidade de Amsterdã tentaram prever os vencedores de quatro partidas da Copa do Mundo de Futebol em três condições (1) imediatamente – na mesma hora em que vissem os nomes dos países competindo; (2) conscientemente – depois de pensar por dois minutos sobre suasrespostas; e (3) inconscientemente – depois de dois minutos resolvendo problemas de matemática. Como você pode ver, os experts saíram-se melhor em prever os vencedores após processamento inconsciente, mas os não experts foram menos precisos quando pararam para pensar sobre suas respostas, tanto consciente quanto inconscientemente. Os não experts pontuavam ao acaso. Eles iam pior quando pensavam na resposta, especialmente quando esse pensamento era inconsciente. Talvez o estresse de ter que resolver problemas matemáticos tenha interferido no raciocínio. Em contraste, as previsões dos experts não foram muito melhores que as dos não experts quando as respostas eram dadas imediatamente; foram um pouco melhores quando raciocinavam conscientemente e muito melhores com o pensamento inconsciente. Aparentemente, o conhecimento desses indivíduos sobre futebol os ajudou mais quando eles estavam pensando conscientemente em alguma outra coisa. Automático Esse experimento com experts e não experts em futebol também confirma que muitos aspectos do desempenho expert são automáticos; ou seja, o raciocínio e a ação complexos requeridos por muitas pessoas se tornam rotineiros para esses experts, fazendo parecer que partes dessa tarefa são desempenhadas de forma instintiva. Os experts processam as novas informações rapidamente, analisam-nas de maneira eficaz, e então agem de forma bem ensaiada, fazendo parecer que seus esforços são inconscientes. De fato, algumas ações automáticas não são acessíveis pela mente consciente. Por exemplo, os adultos são muito melhores em amarrar cadarços do que as crianças (os adultos conseguem fazer isso no escuro), mas são muito piores em explicar como fazem isso (McLeod et al., 2005). Quando um expert pensa, ele entra em uma “ponderação automática” de vários fatores não verbalizados. Esse raciocínio automático pode ser interrompido por palavras que os não experts usam, o que distorce ao invés de clarificar o processo de raciocínio (Dijksterhuis et al., 2009, p. 1382). Isso é visível se você é um motorista experiente e tenta ensinar alguém a dirigir. Motoristas excelentes que são instrutores inexperientes acham difícil reconhecer e verbalizar processos que se tornaram automáticos – como notar pedestres e ciclistas nas margens de uma via, sentir a mudança de marcha em um carro (ou a necessidade de mudança) quando ele está em uma ladeira ou quando percebem que os pneus estão perdendo tração em contato com areia. Ainda assim, esses fatores diferenciam os experts dos iniciantes. Isso também pode explicar por que, apesar de motivações mais fortes, reações mais rápidas e melhor visão, adolescentes se envolvem em acidentes de carro, fatais, três vezes mais que os adultos (Insurance Institute, 2012). Algumas vezes os motoristas adolescentes assumem riscos deliberadamente (alta velocidade, avanço de sinal vermelho, consumo de álcool etc.), mas eles mais frequentemente apenas menosprezam ou subestimam condições que um motorista mais experiente perceberia automaticamente. As mesmas disparidades entre conhecimento e instrução acontecem quando um expert em computação tenta ensinar a um iniciante, como eu mesma percebo ao ver minhas filhas tentarem me ensinar coisas do Excel. Elas não conseguem verbalizar o que já sabem, apesar de conseguirem realizar essas ações muito bem no computador. É muito mais fácil clicar no mouse ou no teclado, por si mesmo, do que ensinar alguém sobre um processo que se tornou automático. processamento automático Raciocínio que ocorre sem pensamento consciente, deliberado. Os experts processam a maior parte das tarefas automaticamente, poupando o raciocínio consciente para desafios desconhecidos. O processamento automático pode explicar por que experts em xadrez ou jogo de damas são muito melhores do que pessoas que estão aprendendo ou não têm tanta prática. Eles observam uma configuração das peças do jogo e automaticamente decodificam o jogo inteiro, em vez de analisá-lo parte por parte. Um estudo com enxadristas experts (entre 17 e 81 anos) identificou poucos declínios cognitivos relacionados à idade; em geral, a expertise era muito mais relevante que a idade. Era particularmente mais notável na velocidade de pensamento ao perceber que o rei estava ameaçado. Os experts mais velhos o faziam tão rápido quanto os mais jovens (em frações de segundo), apesar de declínios cognitivos acentuados em testes padronizados de memória e velocidade de raciocínio estarem relacionados à idade (Jastrzembski et al., 2006). Quando alguma coisa – como um público, um fator estressante ou muito raciocínio consciente – interfere no processamento automático, o resultado pode ser um desempenho desastroso na atividade. Acredita-se ser esse o problema de alguns atletas que se “atrapalham” quando estão sob pressão – suas ações automáticas são desviadas (Caro et al., 2011). Estratégico Os experts possuem um número maior e melhor de estratégias, principalmente ao lidar com problemas inesperados. De fato, a estratégia pode ser a diferença mais marcante entre uma pessoa experiente em determinada coisa e uma pessoa sem experiência. Enxadristas experts possuem certas estratégias para vitória e um número grande de estratégias específicas para respostas particulares às jogadas que estão mais acostumados a fazer (Bilalic et al., 2009). Igualmente, a estratégia usada por líderes experts, tanto de equipes militares quanto de equipes civis, é a comunicação contínua, especialmente nos momentos mais lentos. Portanto, quando o estresse começa a aparecer, nenhum membro da equipe interpreta erroneamente os planos, comandos e necessidades previamente ensaiados. Você já presenciou o mesmo com professores experts: no início do semestre eles instituem rotinas e regras; são estratégias que evitam problemas futuros. É claro que as próprias estratégias precisam de atualizações com as mudanças situacionais – e nenhum jogo de xadrez, batalha ou aula é exatamente igual. A simulação de incêndio mensal requerida por algumas escolas, as palestras padronizadas de alguns professores e as instruções de segurança de um voo lidas por um comissário de bordo antes da decolagem do avião se tornam menos eficazes com o tempo. Recentemente, eu estive em um voo no qual o comissário de bordo iniciou as instruções: “Para aqueles que não andam de carro desde os anos 1960, é assim que você afivela um cinto de segurança.” Esse monólogo que antecedeu as instruções de segurança me fez prestar atenção. As estratégias superiores do expert permitem a otimização seletiva com compensação. Isso é evidente em estudos de pilotos de avião, um grupo para quem os declínios em habilidade relacionados à idade poderiam levar a milhares de fatalidades. Em um estudo, pilotos treinados recebiam direções de controladores de tráfego aéreo em uma simulação de voo (Morrow et al., 2003). Os pilotos experientes tomavam notas mais precisas e completas e usavam seus próprios atalhos para ilustrar ou enfatizar o que ouviam. Por exemplo, suas notas possuíam um número maior de símbolos gráficos (como setas) do que as de pilotos que foram treinados para receber instruções de tráfego aéreo, mas não eram tão experientes. Então, embora os pilotos não experts tenham recebido treinamento e tenham as mesmas ferramentas (bloco de notas e lápis), eles não fizeram uso destas da mesma forma que os experts fizeram. Em voos reais, os pilotos mais velhos também fazem um número maior de anotações que os mais jovens porque eles dominaram essa estratégia, talvez para compensar a memória de trabalho mais lenta. Outra série de estudos com pilotos com testes repetidos durante três anos confirmou que a expertise fomentava melhores estratégias, como esperado (Taylor et al., 2007, 2011). Mas, de maneira inesperada, concluiu-se que a experiência era particularmente mais benéfica para aqueles com raciocínio mais lento provocado pelo tempo (idade) ou genes. Nesses estudos longitudinais, alguns déficits na memória e no tempo de reação começaram a aparecer à medida que os pilotosenvelheciam. Mas expertise significava que o julgamento deles ao pilotar ainda era bom, bem melhor do que dos pilotos com menos experiência (Taylor et al., 2007, 2011). Em muitos estudos, foram encontradas perdas relacionadas à idade, mas experts de todas as idades costumam manter a proficiência na ocupação escolhida anos após suas outras habilidades declinarem. Isso é a otimização seletiva. Flexível Finalmente, talvez por serem mais intuitivos, automáticos e estratégicos, os experts são também mais flexíveis no raciocínio. O artista, o músico ou o cientista expert são criativos e curiosos, experimentando e apreciando, de forma deliberada, os desafios que surgem quando as coisas não vão como o esperado (Csikszentmihalyi, 1996). Considere um cirurgião expert, que só cuida de casos mais complexos e prefere os pacientes mais atípicos, porque operar os casos mais diferentes resulta em complicações repentinas e inesperadas. Comparado a um novato, o cirurgião expert está não apenas mais propenso a notar sinais que possam indicar um possível problema (uma lesão inesperada, um órgão com formato diferente do normal, um aumento ou diminuição dos sinais vitais), como é também mais flexível e disposto a desviar-se dos procedimentos descritos como padrões de um livro da área, se esses procedimentos se mostrarem ineficazes (Patel et al., 1999). Da mesma forma, experts de todas as áreas da vida se adaptam a casos específicos e suas exceções – como um chef de cozinha expert que ajusta ingredientes, temperaturas, técnicas e tempo na preparação de um prato, provando para ver se é necessário mais tempero; ele raramente segue uma receita exatamente. A exigência é alta. Muitos chefs jogam comida fora em vez de servir um prato que muitas pessoas ficariam felizes em comer. Enxadristas, mecânicos automotivos e violinistas experts são igualmente conhecedores das nuances que podem escapar aos menos experientes. Na área da educação, práticas recomendadas para um educador enfatizam a flexibilidade e as estratégias a serem adotadas, já que frequentemente são feitas suposições distintas, e muitas vezes errôneas, sobre cada grupo de estudantes. Não é bom que simplesmente seja ensinada a resposta certa; é preciso flexibilidade para instruir estudantes em particular, descobrindo de que forma alguns alunos aprendem (Ford & Nove, 2011). Uma revisão sobre expertise revela que a flexibilidade inclui entender quais habilidades específicas são necessárias para se tornar um expert em cada profissão. Por exemplo, a prática repetida é necessária na digitação, em esportes e jogos; habilidades de trabalho em grupo são necessárias para atividades de liderança; e estratégias para o gerenciamento de tarefas são necessária para a aviação (Morrow et al., 2009). Expertise e Idade A relação entre expertise e idade não é direta. Um dos itens essenciais para a expertise em algum campo é o tempo. Pessoas que se tornam experts precisam de meses – ou anos – de prática (dependendo da tarefa) para desenvolver essa expertise (Ericsson et al., 2006). Alguns pesquisadores acreditam que a prática deva ser extensiva, várias horas por dia durante pelo menos 10 anos (Charness et al., 1996; Ericsson, 1996), mas isso só é verdade para algumas áreas. Circunstâncias, treinamentos, genes, habilidades, prática e idade são fatores que afetam a expertise, o que significa que experts em algum campo são frequentemente bem inexperientes em outros. A expertise pode contrapor alguns dos efeitos do envelhecimento (Krampe & Charness, 2006). Muito depende da tarefa: os mais jovens possuem vantagem quando é necessário velocidade, mas não quando o necessário é o vocabulário. Ademais, eles possuem menos experiência, o que pode ser crucial para algumas tarefas. Um exemplo interessante vem de perfumistas. Eles precisam de um senso de olfato aguçado para desenvolver novas essências. Apesar de o olfato sofrer redução com a idade, os perfumistas não se tornam piores profissionais com o tempo. Os experts nessa área ficam melhores que os menos experientes; eles desenvolvem de forma significativa partes do cérebro ligadas ao olfato (Delon-Martin et al., 2013). Isso ilustra uma conclusão geral das pesquisas em plasticidade cognitiva. Os adultos experientes usam otimização seletiva com compensação, tornando-se experts. Isso pode ser observado em muitos locais de trabalho. Os melhores funcionários muitas vezes são os mais velhos e mais experientes – se eles estiverem motivados para fazer seu melhor. Tarefas mais complicadas requerem maior prática cognitiva e expertise do que tarefas rotineiras; como resultado, esse trabalho acarreta benefícios intelectuais para os próprios indivíduos. No Estudo Longitudinal de Seattle, as exigências cognitivas de mais de 500 trabalhadores foram medidas, incluindo as complexidades envolvidas nas interações com outras pessoas, objetos e dados. Em todos os três tipos de desafio, os mais velhos mantiveram sua aptidão intelectual (Schaie, 2005). Um último exemplo da relação entre idade e efetividade no trabalho vem de uma ocupação conhecida por todos nós: taxista. Nas grandes cidades, taxistas precisam achar as melhores rotas (pensando no trânsito, nas vias fechadas para obras, no horário do dia e em muitos outros detalhes), enquanto pensam onde encontrar passageiros e como se relacionar com eles, conversando ou não. Uma pesquisa realizada na Inglaterra – onde os taxistas “devem aprender a disposição das 25.000 ruas de Londres e a localização de centenas de lugares turísticos e passar em exames rigorosos” (Woollett et al., 2009, p. 1407) – descobriu que os motoristas não apenas se tornam mais experts com o tempo, mas também seus cérebros se ajustam à necessidade de conhecimentos específicos. Algumas regiões do cérebro (dedicadas à representação espacial) eram mais extensas e ativas do que as de pessoas comuns (Woollett et al., 2009). Em testes de QI comuns, taxistas obtinham notas médias, mas, na hora de dirigir pelas ruas de Londres, seus níveis de expertise eram perceptíveis. Outros estudos também demonstram que as pessoas tornam-se mais experts, e seus cérebros se adaptam, à medida que elas praticam diferentes habilidades (Park & Reuter-Lorenz, 2009). Esse desenvolvimento ocorre não apenas com as habilidades motoras – tocar um violino, dançar, dirigir um táxi –, mas também com habilidades lógicas e de raciocínio (Zatorre et al., 2012). O cérebro humano é plástico durante toda a vida; novos aprendizados são sempre possíveis, e a prática é essencial. FIGURA 21.4 Espere uma Mulher Da próxima vez que escutar “você vai ser atendido agora”, é tão provável que seu médico seja uma mulher quanto um homem – a não ser que esse médico tenha mais de 40 anos. Fonte: Association of American Medical Colleges, 2012. Habilidades Familiares A discussão de expertises até aqui se focou em ocupações – cirurgiões, pilotos, motoristas de táxi – que antes possuíam um número muito maior de homens que de mulheres. Nos anos recentes, duas mudanças significativas ocorreram para a discussão desse tópico. Primeiramente, um número maior de mulheres trabalha em atividades tradicionalmente reservadas para homens. Considere o que foi discutido no Capítulo 4 sobre Virginia Apgar, que ouviu, logo após concluir sua graduação em medicina em 1933, que não poderia ser uma cirurgiã porque somente homens desempenham essa função. Felizmente para o mundo, ela se tornou uma anestesista e sua escala tem salvado milhares de recém-nascidos. Hoje em dia isso mudou; quase metade dos recém-graduados em medicina são mulheres nos Estados Unidos e muitas se tornam cirurgiãs (veja a Figura 21.4). De maneira geral, a maior parte das universitárias espera ter, além da carreira, marido e filhos, e muitas conseguem (Hoffnung & Williams, 2013). A segunda grande mudança foi que o trabalho das mulheres ganhou respeito. Em gerações anteriores, dizia-se das mulheres que eram “apenas donas de casa” ou “mães que não trabalham”. Recentemente, no entanto, a importância do trabalho tem sido reconhecidanos lares, tanto para homens quanto para mulheres. Hoje sabemos que nem todas as mulheres são mães excepcionais ou boas donas de casa e que alguns homens são experts em tarefas domésticas e áreas emocionais que eram outrora domínios exclusivos das mulheres. Casais que invertem os papéis tradicionais não são mais raridade. Muitos acreditam que o melhor para as crianças seria que o pai tivesse maior responsabilidade na criação (Dunn et al., 2013). Não mais se pressupõe a existência de um “instinto materno” inato para todas as mães; muitas passam por depressão pós-parto, problemas financeiros ou ataques de raiva e não conseguem oferecer os cuidados necessários ao filho. Com certeza, em algumas famílias, pais e avós oferecem às crianças um melhor cuidado do que as mães biológicas. Assim como em outras tarefas, os adultos precisam ser motivados, e a experiência é muito importante para criar e cuidar de um filho. A habilidade, a flexibilidade e as estratégias para a criação de um filho são manifestações de expertise. Aqui, novamente, a idade é tão importante quanto o gênero. Como observado nos capítulos anteriores, nos últimos anos de adolescência no início da faixa dos 20 anos, tanto homens quanto mulheres estão no pico de sua fertilidade, e as mulheres jovens possuem menos risco de apresentar complicações na gravidez. Mas conceber a criança é apenas o começo. Em geral, os pais que são mais velhos são mais pacientes, e suas crianças tendem a sofrer menos e ter uma criação melhor. Isso é especialmente verdade se os pais tiverem aprendido com a experiência e saber receber conselhos, como em geral é o caso de pais mais velhos. Com esses pais, os adolescentes são menos propensos a usar drogas e ter outros problemas. Os desenvolvimentistas ainda não identificaram todos os componentes necessários para uma pessoa se tornar um expert na criação de filhos, mas pelo menos sabemos da existência dessa expertise. Alguns pais são bem mais habilidosos que outros. RESUMINDO Perdas e ganhos cognitivos acontecem durante a vida adulta. Os adultos passam por situações estressantes e devem aprender a lidar com elas. Algumas estratégias de enfrentamento acabam transformando essas experiências em estressores, que prejudicam a saúde, e outras estratégias que transformam esses estresses em experiências produtivas. Os adultos escolhem se adaptar a algumas habilidades e aspectos cognitivos, guiando seu curso de vida com o uso da otimização seletiva com compensação. Como resultado, eles conseguem usar seus recursos cognitivos sabiamente, ganhando habilidade intelectual nas áreas escolhidas. Escolhas cognitivas e a prática ao longo do tempo produzem a expertise, que é intuitiva, automática, estratégica e flexível. A expertise permite ao indivíduo continuar desempenhando bem as tarefas no seu trabalho e na vida familiar durante toda a vida adulta. ■ RESUMO O que É Inteligência? 1. Tradicionalmente pressupunha-se que a inteligência era uma entidade única. Dessa pressuposição adveio a ideia de que era possível medir a inteligência, e que ela declina com o passar dos anos. No entanto, evidências atualmente refutam esses pressupostos. 2. Pesquisas longitudinais mostram que o QI de cada adulto tende a aumentar durante a vida, particularmente em vocabulário e conhecimentos gerais, até a faixa dos 60 anos. Pesquisas transversais apontam que o motivo pelo qual adultos mais jovens pontuam melhor que os mais velhos em testes de QI não está ligado à idade, mas sim a melhorias históricas no acesso à educação e à saúde. 3. K. Warner Schaie descobriu que algumas das habilidades primárias (como raciocínio espacial) declinam com a idade, enquanto outras (como vocabulário) melhoram. A educação, a vocação e a família, assim como a idade, afetam essas habilidades. Componentes da Inteligência: Muitos e Variados 4. Cattell e Horn concluíram que, não obstante a inteligência cristalizada – que se baseia no conhecimento acumulado – aumentar com o tempo, o raciocínio flexível, fluido de um indivíduo, tende a diminuir. 5. Sternberg propôs três formas fundamentais de inteligência: analítica, criativa e prática. A maior parte das pesquisas aponta que as habilidades criativas e analíticas declinam com a idade, enquanto a inteligência prática tende a aumentar. 6. De maneira geral, com o passar dos anos, os valores culturais e as diferentes necessidades de um indivíduo contribuem para o desenvolvimento de algumas habilidades cognitivas em detrimento de outras. Cada pessoa e cada cultura respondem de maneira diferente às necessidades, mas essa influência na cognição pode não se refletir nos testes psicométricos. Perdas e Ganhos Seletivos 7. Pessoas enfrentam muitos estressores durante os mais de 40 anos da vida adulta, e utilizam diferentes estratégias para lidar com isso, dependendo do estressor, da idade e do contexto. Uma combinação de estressores aumenta a carga alostática e prejudica a saúde. 8. Com o envelhecimento, as pessoas tendem a focar em certos aspectos da vida, otimizando o desenvolvimento desses aspectos e compensando pelo declínio de outros, conforme necessário. Aplicada à cognição, a otimização seletiva com compensação significa que as pessoas se especializam em quaisquer habilidades intelectuais que escolham. Enquanto isso, as habilidades que não são praticadas podem se esvair. 9. Além de serem mais experientes, os experts raciocinam melhor que os novatos, por quatro motivos: eles são mais intuitivos; seus processos cognitivos são automáticos, parecendo frequentemente que eles precisam de um tempo de raciocínio consciente pequeno; eles usam mais e melhores estratégias para desempenhar as tarefas necessárias; eles são mais flexíveis. 10. A expertise na vida adulta é particularmente perceptível no ambiente de trabalho, evidenciada por médicos, pilotos aéreos e taxistas. Trabalhadores experientes frequentemente apresentam desempenho melhor que os mais novos porque se especializam, compensando qualquer perda que possa ter ocorrido. 11. Criar filhos e responder bem a complexidades emocionais e problemas inesperados da vida em família hoje em dia é considerado um trabalho de expertise. A experiência e a maturação aumentam a probabilidade de uma expertise em assuntos de família. TERMOS-CHAVE artefatos cognitivos enfrentamento com foco na emoção enfrentamento com foco no problema enfrentamento por esquiva enfrentamento religioso estressores Estudo Longitudinal de Seattle expertise inteligência analítica inteligência criativa inteligência cristalizada inteligência fluida inteligência geral (fator g) inteligência prática intemperismo otimização seletiva com compensação processamento automático O QUE VOCÊ APRENDEU? 1. Muitos neurocientistas pesquisaram sobre marcadores genéticos do fator g: eles obtiveram algum sucesso? 2. O que as pesquisas transversais sobre pontuações em testes de QI durante a fase adulta normalmente sugerem? 3. O que as pesquisas longitudinais sobre pontuações em testes de QI durante a fase adulta normalmente sugerem? 4. De que maneira as novas gerações são mais inteligentes que as anteriores, de acordo com as pesquisas sequenciais? 5. Como as mudanças históricas afetam os resultados das pesquisas longitudinais? 6. Como as pesquisas sequenciais controlam os efeitos de coorte? 7. Quais fatores K. Warner Schaie acredita impactar significativamente a inteligência adulta? 8. Por que alguém preferiria ter a inteligência cristalizada melhor do que a inteligência fluida? 9. Por que alguém preferiria ter a inteligência fluida melhor que a inteligência cristalizada? 10. Se você quisesse convencer seus professores de que é inteligente, o que você poderia fazer e qual inteligência estaria envolvida nisso? 11. Se você quer convencer seus vizinhos a usar restos de comida e resíduos de jardim para criar adubo, o que você pode fazer e qual tipo de inteligência estaria envolvida nisso? 12. Quais tipos de testes podem medir a inteligência criativa? 13. Em que tipo de situação o enfrentamento com focona emoção é a melhor estratégia? 14. Em que tipo de situação o enfrentamento com foco no problema é a melhor estratégia? 15. Por que o enfrentamento religioso é mais comum na adultez que na adolescência? 16. O que uma pessoa pode fazer para otimizar uma área não discutida no livro, como tocar flauta, plantar tomates ou montar armários? 17. O que uma pessoa pode fazer para compensar uma redução na habilidade de memorização? 18. Como o provérbio “Não julgue um livro pela capa” se relaciona com o que você aprendeu sobre a cognição adulta? 19. Pense em uma área em que você possui expertise e a maior parte das pessoas não. Quais erros as pessoas que não são experts nessa área tendem a cometer? 20. Como o processamento automático contribui para a expertise? 21. Explique como a intuição pode ajudar ou prejudicar uma habilidade. 22. Em quais ocupações a idade seria uma coisa boa? Por quê? 23. Em quais ocupações a idade seria um problema? Por quê? APLICAÇÕES 1. A importância contextual e cultural é ilustrada pelo que as pessoas consideram ser conhecimento comum. Escreva quatro questões que você acredite serem difíceis, mas justas, como uma forma de medir a inteligência geral. Então dê essas perguntas a um colega de classe e responda as quatro perguntas que ele preparou para você. O que você pode aprender pelos resultados? 2. A habilidade de jogar videogame é, às vezes, considerada um sinal de inteligência. Entreviste três ou quatro pessoas que joguem videogames. Quais habilidades elas julgam necessárias para ser um bom jogador? O que você acha que esses jogos refletem em termos de experiência, idade e motivação? 3. Algumas pessoas acreditam que qualquer um que tenha se formado no ensino médio pode se tornar um professor, já que grande parte dos adultos sabe ler e possui as habilidades matemáticas básicas ensinadas no ensino fundamental. Descreva os aspectos de expertise que professores devem dominar, citando exemplos de sua própria experiência. _________ *As respostas corretas são 6 e F. A pista é pensar em multiplicação (quadrados) e no alfabeto: algumas séries são mais difíceis de completar. ■ ■ ■ ■ 1. 2. 3. Desenvolvimento da Personalidade na Adultez Teorias da Personalidade do Adulto Traços de Personalidade PERSPECTIVAS OPOSTAS: Contexto Local versus Genes Intimidade: Amigos e Família Amigos e Conhecidos Laços Familiares Intimidade: Parceiros Amorosos Casamento e Felicidade Uniões ao Longo dos Anos Relacionamentos Gays e Lésbicos Divórcio e Novos Casamentos Generatividade Parentalidade Dedicação de Cuidado Trabalho UMA VISÃO DA CIÊNCIA: Adaptando a Diversidade O QUE VOCÊ VAI SABER? Os adultos mantêm a personalidade de quando eram crianças? Quando é melhor se divorciar em vez de permanecer casado? Quando é melhor estar desempregado do que ter um emprego? Eu quebrei dois pequenos ossos da minha bacia – um percalço no caminho causado por mim mesma. Estava com pressa, usando aquele bom e velho calçado confortável, com a sola gasta, e carregava papéis, na chuva, depois de ter escurecido, quando fui subir o meio-fio. Caí feio na calçada. Tiveram que ligar para emergência, veio a ambulância, passei cinco dias hospitalizada, cinco dias de recuperação, e criei profunda admiração pelos fisioterapeutas que me fizeram voltar a andar e um grande apreço pelos colegas que cobriram minhas aulas por duas semanas. Menciono esse pequeno evento porque ele evidencia a generatividade. Minhas quatro filhas, já adultas, cuidaram de mim bem mais do que eu precisava. As duas filhas que moram mais perto, Elissa e Sarah, estavam na sala de emergência em menos de uma hora. Rachel pegou um voo de Minnesota e me trouxe novos sapatos com solas antiderrapantes. Bethany veio de carro, de Connecticut, com vasos, adubo, flores e arvorezinhas para embelezar minha casa. E mais ainda. Elas me trouxeram livros e meu computador; interrogaram enfermeiras e médicos, ligavam repetidamente para a companhia de seguro; preenchiam fichas; reorganizavam o banheiro; agendavam táxis; empurravam minha cadeira de rodas; lavavam a roupa, faziam compras, cozinhavam e limpavam tudo. Era difícil eu aceitar ajuda. Eu dizia a meus amigos: “Sem visitas.” Um deles riu e disse: “Você está presa à cama, estou indo.” Eu desejava voltar logo à sala de aula e dizia que “meus alunos precisam de mim”. Mas, depois de alguns dias, percebi que eu precisava deles tanto quanto – ou até mais – eles precisavam de mim. Agora sou grata por meus amigos terem me desobedecido e agradecida pelos cuidados que recebi de minhas filhas. Mais uma vez eu era lembrada de que a generatividade é mútua. As pessoas precisam tanto receber quanto dar. Esse é o tema deste capítulo, que foca nas várias interações que marcam a vida do adulto: parceria e paternidade/maternidade, formação de casais e aconselhamento. Cada indivíduo trilha seu próprio caminho, sempre com a ajuda de alguém. Começamos, então, com os traços da personalidade que se mantêm, passamos pelo modo como apoiamos uns aos outros e terminamos com as complexidades de conciliar trabalho e família. >> Desenvolvimento da Personalidade na Adultez Um misto de genes, experiências e contextos resultam na personalidade, que inclui as ações e atitudes singulares de cada pessoa. A continuidade é evidente. Poucas pessoas desenvolvem características que são opostas a seu temperamento na infância. Mas a personalidade pode mudar, geralmente para melhor, ao passo que as pessoas superam etapas de adversidade e confusão. Teorias da Personalidade do Adulto Para organizar esse misto de inícios embrionários, experiências da infância e contextos da vida adulta, começamos com as teorias. Erikson e Maslow Erikson previu oito estágios de desenvolvimento originalmente, havendo três após a adolescência. Ele é valorizado como “o pensador que mudou nossa visão sobre o que significa viver como uma pessoa que atingiu uma posição cronológica madura e ainda continua a crescer, a mudar e a se desenvolver” (Hoare, 2002, p. 3). Os quatro estágios de Erikson, já explicados, estão atrelados a um período cronológico particular. Mas os estágios adultos não ocorrem em uma ordem fixa. Adultos de diversas idades podem encontrar-se no quinto estágio, identidade versus confusão de papéis, ou em qualquer um dos três estágios adultos – intimidade versus isolamento, generatividade versus estagnação e integridade versus desespero (McAdams, 2006). (Veja a Tabela 22.1.) Erikson viu a adultez como a continuação da busca pela identidade, através da exploração da intimidade e generatividade, uma visão confirmada por pesquisas recentes (Beaumont & Pratt, 2011). De maneira similar, Abraham Maslow (1954) se recusou a ligar idade cronológica a desenvolvimento adulto quando ele descreveu seus cinco estágios. Assim, pessoas de diferentes idades podem estar no terceiro nível de Maslow (amor e pertencimento, próximo ao estágio intimidade versus isolamento, de Erikson). Nesse estágio, a prioridade da pessoa é ser amada e aceita por parceiros, familiares e amigos. Sem afeto, as pessoas podem se estagnar: elas precisam se sentir amadas, no entanto, nunca sentem que têm amor suficiente. Elas podem ignorar outras necessidades tentando se sentir amadas. Por outro lado, aqueles que vivenciam amor abundante conseguem progredir a um próximo nível: sucesso e estima. A necessidade dominante do adulto nesse quarto estágio é de ser respeitado e admirado. Para humanistas como Maslow, essas cinco necessidades caracterizam todas as pessoas, com a maioria dos adultos em busca de amor ou respeito (níveis três e quatro) e poucos alcançando autoatualização (nível cinco). A não ser que tenham sido assoladas por miséria, guerra ou graves traumas na infância, ao chegarem à adultez, as pessoas já passaram pelos dois primeiros estágios de Maslow (segurança e necessidades básicas). [Link: As teorias de Maslow e Erikson são discutidas no Capítulo 2.] Outros teóricos concordam, às vezes descrevendo afiliação e realização, às vezes usando outras denominações. Vamos utilizaros termos propostos por Erikson, intimidade e generatividade, como base para descrever essas duas necessidades universais. Toda teoria da personalidade adulta reconhece ambas. A Crise de Meia-Idade Nenhum teórico atual delimita fronteiras cronológicas para estágios específicos do desenvolvimento adulto. A meia-idade, caso exista mesmo, pode começar entre 35 e 50 anos. crise de meia-idade Um período estimado de ansiedade não usual, autorreavaliação radical e TABELA 22.1 transformação súbita que era amplamente associado à meia-idade, mas que está mais ligado ao curso histórico do indivíduo do que à sua idade cronológica. Isso contradiz a noção de crise de meia-idade, pensada como um período de ansiedade e mudança radical na chegada dos 40 anos. Os homens, particularmente, costumavam deixar suas esposas, comprar carros esportivos vermelhos e largar seus trabalhos. A crise de meia-idade foi popularizada por Gail Sheehy (1976), que a denominou “a crise dos 40”, e por Daniel Levinson (1978), que disse que os homens vivenciavam uma batalha tumultuada com eles mesmos e com o mundo exterior. … Cada aspecto de suas vidas é trazido à tona, e eles se assustam com o que lhes é revelado. Eles ficam cheios de recriminações contra si mesmos e contra os outros. [Levinson, 1978, p. 199] Os Estágios da Adultez de Acordo com Erikson Ao contrário de Freud ou outros teóricos iniciais que pensavam que os adultos funcionam simplesmente pelo legado de suas infâncias, Erikson retratou necessidades psicossociais após a puberdade na metade de seus oito estágios. Seu livro mais famoso, Infância e Sociedade (1963), dedicou apenas duas páginas a cada estágio adulto, mas deu margem a descrições posteriores mais precisas acerca do tema (Hoare, 2002). Identidade versus Confusão de Papéis Apesar de Erikson originalmente situar a crise de identidade durante a adolescência, ele notou que questões ligadas à identidade podem surgir ao longo da vida. Identidade combina valores e tradições da infância ao atual contexto social. Considerando a contínua evolução dos contextos, muitos adultos reacessam os quatro tipos de identidade (sexual/de gênero, vocacional/do trabalho, religiosa/espiritual e política/étnica). Intimidade versus Isolamento Adultos buscam intimidade – uma conexão próxima e recíproca com outro ser humano. A intimidade é mútua, altruísta, o que significa que adultos precisam dedicar seu tempo e energia um para o outro. Esse processo começa no início da adultez e continua no decorrer da vida. O isolamento é especialmente provável quando o divórcio ou a morte rompem laços íntimos estabelecidos. Generatividade versus Estagnação Adultos precisam cuidar da próxima geração, seja criando seus próprios filhos, seja acompanhando, ensinando e ajudando o próximo. A primeira descrição de Erikson desse estágio focava na paternidade, mas depois ele incluiu outras formas de alcançar a generatividade. Adultos prolongam o legado de suas culturas e suas gerações com cuidado contínuo, criatividade e sacrifício. Integridade versus Desespero Quando o próprio Erikson estava em seus 70 e poucos anos, ele decidiu que a integridade, com o objetivo de combater o preconceito e ajudar toda a humanidade, era muito importante para ser deixada aos idosos. Ele também considerou que a vida toda de cada pessoa poderia ser direcionada a conectar uma jornada pessoal com um propósito histórico e cultural da sociedade humana, o que caracterizaria o objetivo último da integridade. Especialmente para Pessoas em Torno dos 20 Anos Os futuros aniversários decimais – que marcarem os 30, 40, 50 anos e assim por diante – serão pontos cruciais de mudança em suas vidas? A crise de meia-idade continua a ser mencionada em filmes, livros e músicas populares. Uma busca no Google, em 2013, encontrou mais de 2 milhões de entradas, incluindo um artigo do Wall Street Journal sobre homens de meia-idade, ricos e bem-sucedidos, em crise (Clements, 2005), e a música “Midlife Crisis” (“Crise de meia-idade”), da banda de rock Faith No More. No entanto, nenhum estudo extensivo das últimas três décadas encontrou uma regra à crise de meia- idade. Como os observadores iniciais estavam tão equivocados? Em retrospectiva, é fácil observar onde eles se perderam. Levinson estudou apenas 40 homens, todos de uma coorte. Os dados foram então analisados por homens que também eram de meia-idade. (Isso não seria mais considerado um bom método científico.) Sheehy não é uma cientista; ela resumiu a pesquisa de Levinson e então a complementou entrevistando pessoas de sua escolha. Tanto Sheehy quanto Levinson não utilizaram métodos de pesquisa replicáveis, multimodais e longitudinais em uma população diversificada, que agora é a base fundamental da ciência do desenvolvimento. Mesmo dados imperfeitos e limitados podem indicar novas tendências. Estudos de caso e experiências pessoais podem impulsionar cientistas rumo ao descobrimento. Com a crise de meia-idade, no entanto, todas as tentativas de resposta em grande escala têm falhado. Por quê? Relembre-se dos efeitos de coorte. Homens de classe média que atingiam a idade de 40 anos por volta dos anos de 1970 eram afetados por perturbações históricas. Muitos haviam iniciado seus casamentos e carreiras nos anos de 1950, com grandes expectativas de membros familiares e empregadores. Quando eles atingiram a meia-idade, suas esposas faziam parte da primeira onda do feminismo (algumas se referiam aos homens como “porcos sexistas”) e seus filhos adolescentes consideravam seus pais irrelevantes (alguns diziam, “não confie em ninguém acima dos 30”). >> Resposta para Pessoas em Torno dos 20 Anos: Provavelmente não. Apesar de os mais jovens associarem certas idades a atitudes ou conquistas particulares, poucas pessoas consideram essas idades significantes quando estão, de fato, vivenciando-as. Obviamente esses homens seriam problemáticos. Mas suas crises foram causadas por questões pessoais, pressões familiares e circunstâncias históricas; não pela idade cronológica. Muitos adultos, sejam eles homens ou mulheres, têm momentos em que se questionam acerca de suas escolhas quanto à carreira, parceiro ou moradia. Alguns fazem mudanças drásticas aos 30 ou 40 ou 50. Contudo, poucos vivenciam de fato uma crise de meia-idade. ■ ■ ■ ■ ■ Traços de Personalidade No Capítulo 7, vimos que cada bebê tem um temperamento diferente. Alguns são tímidos, outros extrovertidos; alguns são assustados, outros destemidos. Esses traços se iniciam por conta dos genes, mas são afetados pelas experiências. Os Cinco Fatores O temperamento é parcialmente genético; não desaparece. Há centenas de exemplos, alguns bem surpreendentes. Um estudo recente descobriu, por exemplo, que o temperamento aos 3 anos permitia prever o vício em jogos aos 32 anos (Slutske et al., 2012). Cinco Fatores Os cinco traços de personalidade básicos que permanecem praticamente estáveis no decorrer da adultez: abertura, escrupulosidade (ou conscienciosidade), extroversão, amabilidade (ou socialização) e neuroticismo. Uma pesquisa longitudinal, transversal e multicultural identificou um grupo de cinco traços de personalidade que aparecem em toda cultura e época, denominados os Cinco Fatores (Big Five). Abertura: imaginativo, curioso, artístico, criativo, aberto a novas experiências Escrupulosidade (ou conscienciosidade): organizado, deliberado, conformista, disciplinado Extroversão: extrovertido, assertivo, ativo Amabilidade (ou socialização): bondoso, prestativo, pacato, generoso Neuroticismo: ansioso, temperamental, autopunitivo, crítico A personalidade de cada pessoa está em algum ponto entre extremamente alta e extremamente baixa em cada um desses cinco traços. A parte baixa pode ser descrita, na mesma ordem acima, com os adjetivos a seguir: fechado, negligente, introvertido, difícil de agradar e tranquilo. nicho ecológico O estilo de vida particular e o contexto social aos quais os adultos se adaptam porque são compatíveis com as necessidades de sua personalidade individual e interesses.Os adultos escolhem seu contexto social ou nicho ecológico, selecionando vocações, hobbies, hábitos de saúde, parceiros e lugares para morar, em parte devido a traços de suas personalidades. A personalidade afeta quase tudo, desde o desenvolvimento de um distúrbio alimentar em um jovem até a idade em que um adulto mais velho se aposenta (Sansone & Sansone, 2013; Robinson et al., 2010). Entre os acontecimentos, condições e atitudes relacionados ao Big Five encontram-se a educação (pessoas conscientes tendem a completar a faculdade), o casamento (extrovertidos são mais propícios a se casarem), o divórcio (mais frequente em neuróticos), a fertilidade (menor para mulheres em coortes recentes que são mais conscientes), o QI (maior em pessoas mais abertas), a fluência verbal (novamente, pessoas abertas e extrovertidas) e, inclusive, as visões políticas (conservadores são em geral menos abertos) (Duckworth et al., 2007; Gerber et al., 2011; Jokela, 2012; Pedersen et al., 2005; Silvia & Sanders, 2010). A pesquisa internacional confirma que os traços de personalidade (há centenas deles) podem ser agrupados nos Cinco Grandes Fatores. Obviamente, personalidade e comportamento são influenciados por muitos outros fatores, não somente pelo gênero e coorte como também pela cultura. Um teste dos Cinco Grandes Fatores em um grupo da zona rural da Bolívia – pessoas que são majoritariamente iletradas e que sobrevivem graças à agricultura – fracassou em replicar os resultados obtidos em nações urbanas e desenvolvidas (Gurven et al., 2013). Inclusive nos Estados Unidos seria ingenuidade prever a graduação no ensino superior, o comportamento ao votar ou qualquer outra coisa com base unicamente no ranking de uma pessoa no Big Five. Idade e Coorte Especialmente para Imigrantes e Filhos de Imigrantes Pobreza e perseguição são as razões principais por que as pessoas abandonam seus lares por outro país, mas a personalidade também influencia. Qual dos Cinco Grandes Fatores de personalidade você considera o mais característico nos imigrantes? Muitos pesquisadores que estudam traços de personalidade acreditam que mudanças na personalidade ocorrem gradativamente ao envelhecer, mas a ordem no ranking permanece a mesma. Em outras palavras, aqueles com altos níveis de extroversão aos 20 anos ainda têm níveis altos aos 80, se comparados com pessoas de sua própria idade, mas não necessariamente se comparados com pessoas de 20 anos. A tendência geral de envelhecimento é positiva. Traços que são considerados patológicos, como neuroticismo, tendem a se modificar conforme as pessoas vão amadurecendo (L. A. Clark, 2009). Por outro lado, traços considerados valiosos, tais como a escrupulosidade, crescem ligeiramente. Isso é exatamente o que foi encontrado em um estudo amplo feito com norte-americanos de meia-idade (chamado MIDUS). A amabilidade e a escrupulosidade cresceram levemente no geral enquanto o neuroticismo decresceu (Lachman & Bertrand, 2001) (veja a Figura 22.1). Esse modelo também se repetiu em outra pesquisa (Allemand et al., 2008; Donnellan & Lucas, 2008; Lehman et al., 2013). Assim, como era de se esperar, a autoestima aumenta, do início da adultez até cerca dos 60 anos, à medida que as pessoas desenvolvem qualquer dos tipos de personalidade mais apreciados em suas culturas (Orth et al., 2010). Naturalmente, o mesmo temperamento pode levar a escolhas opostas em pessoas de diferentes coortes, como é notório na relação entre personalidade e fertilidade. Tanto para homens quanto para mulheres nascidos em 1920, aqueles com elevados níveis de abertura à experiência tiveram quase o mesmo número de filhos que aqueles com baixos níveis no traço em questão porque a cultura como um todo valorizava a fertilidade. Para aqueles nascidos em 1960, pessoas com altos níveis de abertura tinham notavelmente menos filhos que a média. O fato de serem pessoas abertas pode tê-las levado a aprender sobre planejamento familiar e superpopulação e a considerar papéis não tradicionais; então alguns escolheram ter somente um filho ou mesmo nenhum (Jokela, 2012). FIGURA 22.1 Tendências, Não Regras A estabilidade geral e algumas variações marcadas de pessoa para pessoa constituem a principal história dos Cinco Grandes Fatores no decorrer das décadas da adultez. Além disso, cada traço tende a se alterar levemente, como retratado aqui. PERSPECTIVAS OPOSTAS Contexto Local versus Genes Muitas pessoas acreditam que a personalidade é fortemente moldada pela cultura regional; portanto, um bebê vai ter uma personalidade bem diferente se nascido e criado, vamos dizer, na costa do México ou no norte do Canadá. A hipótese contrária é que a personalidade é inata, fixada ao nascer, e impermeável a pressões sociais, com apenas impactos pequenos e temporários da cultura. Uma evidência de que a personalidade é inata inclui o fato de que os Cinco Grandes Fatores são encontrados quase em todos os lugares, com tendências relacionadas à idade similares. Um avô de 70 anos na Islândia tem muito em comum com um avô de 70 anos na Tailândia. Uma pesquisa sugere que supostas diferenças nacionais na personalidade podem ser “estereótipos infundados” (McCrae & Terracciano, 2006, p. 156). Outra evidência de que a personalidade é congênita e não formada pela cultura se mostra quando se observa que cada pessoa geralmente mantém a mesma personalidade durante toda a adultez. As mudanças na personalidade, caso ocorram, acontecem bem no começo ou mais no final da vida; não no meio dela (Specht et al., 2011). Jovens adultas extrovertidas se tornam avós extrovertidas, com muitos amigos, desde o início da adultez, e o número de amizades cresce no decorrer das décadas. Outros traços também se mantêm, às vezes mudando um pouco, mas não se invertem nunca. Contudo, há uma pesquisa que mostra que o ambiente afeta a personalidade ou, como um grupo escreveu, “a personalidade pode ser aculturada” (Güngör et al., 2013, p. 713). Um estudo comparou os Cinco Grandes Fatores em três grupos: japoneses, norte-americanos descendentes de japoneses e norte-americanos de ascendência europeia. Em geral, os norte- americanos descendentes de japoneses estavam entre os outros dois grupos na personalidade autoavaliada. Por exemplo, em extroversão, a média entre os americanos de ascendência europeia foi maior, seguida pelos norte-americanos descendentes de japoneses e então pelos japoneses. Talvez as condições locais, como a elevada densidade por metro quadrado no Japão, diferente dos Estados Unidos, tornem os japoneses mais propícios a buscarem harmonia social, resultando, assim, em menor extroversão. Outro estudo, usando instrumentos de autorrelato, focalizou a extroversão em 28 países e relatou uma correlação curiosa entre extroversão, bem-estar e autoestima. Essencialmente, as pessoas eram mais felizes se seus próprios traços de personalidade correspondiam às normas de seu entorno. A extroversão era relativamente mais alta no Canadá e menor no Japão, e tanto canadenses quanto japoneses eram mais felizes se os traços de personalidade altos ou baixos fossem coerentes com seus padrões culturais (Fulmer et al., 2010). A ideia de que o contexto molda a personalidade vem da pontuação dos Cinco Fatores em adultos de 50 estados norte-americanos (Rentfrow et al., 2010). De acordo com os 619.397 participantes de uma pesquisa online, as pessoas de Nova York têm maior pontuação em abertura, as do Novo México em escrupulosidade, as de Dakota do Norte têm maior em extroversão e abertura, e as da Virgínia Ocidental têm maior em neuroticismo. As pontuações mais baixas nesses cinco traços são, respectivamente, dos residentes de Nova Dakota, Alasca, Maryland, Alasca (novamente) e Utah. Essa pesquisa sugere que normas locais, instituições, história e geografia têm impacto sobre as pessoas. Hipoteticamente, vejamos como isso funcionaria. Aqueles que vivem em Utah são rodeados por mórmons (sem drogas, famílias grandes, geralmente com boa saúde) e montanhas incríveis. Isso pode torná-los menos ansiosos,mais serenos e, portanto, com um nível mais baixo de neuroticismo. Esse estudo provou que muitos dos aspectos da vida dos adultos, incluindo comportamento criminoso, morbidez, educação, inteligência e preferência política, são oriundos das diferenças regionais nas personalidades (Rentfrow, 2008; Pesta et al., 2012). Não somente nos Estados Unidos como também na Inglaterra, os arredores físicos parecem afetar as pessoas. Os ingleses que moravam próximos a parques, jardins e outras áreas verdes eram menos angustiados. Esse estudo considerou muitos fatores, incluindo idade e renda, e mapeou, inclusive, as pessoas que se mudaram de ou para uma vizinhança rica em área verde (White et al., 2013). Antes de concluir desse estudo que o ambiente interfere na personalidade, observe o foco na angústia, não na personalidade. As pessoas que são menos angustiadas também desenvolvem personalidades mais receptivas, menos neuróticas? Talvez. Ou a angústia é superficial? Quem acredita que a personalidade é inata pode questionar os dados norte-americanos. Em vez de as pessoas serem afetadas por seus arredores, talvez elas possam se mudar para uma comunidade onde seus traços de nascença sejam apreciados. Por exemplo, um universitário de Dakota do Norte que, ao contrário de seus vizinhos, possui geneticamente altos níveis de abertura, pode se mudar para Nova York. Se as pessoas se mudam para estar próximas de seus semelhantes, então as diferenças regionais vão refletir a personalidade, não criá-la. Uma revisão sugere que tanto natureza quanto contexto são relevantes, cada uma afetando as pessoas no decorrer de suas diferentes fases da vida. As pessoas com menos de 30 anos podem ir em busca de um nicho ecológico – incluindo encontrar um lugar para viver – para se adequar a suas personalidades inatas. Elas “tentam ativamente mudar o meio em que vivem”. Mais tarde na vida, o contexto altera os traços, porque, uma vez que os adultos se fixam em um lugar, eles “modificam a si mesmos para se adequar ao ambiente” (Kandler, 2012, p. 294). Ainda não há um consenso no que diz respeito à relação entre cultura, ambiente, genes e personalidade (Church, 2010). Como pode-se notar, ambas as visões opostas são pertinentes. Qual parece mais sensata para você, sua família e seus amigos? Você “vai atrás de pastos mais verdes” ou “floresce onde foi plantado”? Sua cultura afeta sua personalidade? RESUMINDO Conforme as quatro teorias de desenvolvimento da adultez descrevem, os adultos buscam ter a família e os amigos bem próximos e ser produtivos na sociedade. Os teóricos, em geral, denominam tais necessidades de maneira distinta: Erikson descreveu a intimidade e a generatividade, enquanto Maslow escreveu sobre o amor e o pertencimento. A personalidade adulta demonstra tanto continuidade quanto mudança no que diz respeito às circunstâncias da vida e está ligada ao temperamento da infância. Os Cinco Grandes Fatores da personalidade (abertura à experiência, escrupulosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo) são evidentes no decorrer da vida e pelo mundo afora. Uma razão para a continuidade dos traços é que os adultos escolhem seus nichos ecológicos – por meio da seleção de companheiros, empregos, comunidades e padrões de vida que são compatíveis com seus temperamentos inatos. Por outro lado, a expressão da personalidade pode mudar durante a adultez, geralmente para melhor. ■ >> Intimidade: Amigos e Família >> Resposta para Imigrantes e Filhos de Imigrantes: Extroversão e neuroticismo, de acordo com um estudo (Silventoinen et al., 2008). Devido ao decréscimo desses traços no decorrer da adultez, poucos adultos mais velhos migram. Como vimos no Capítulo 19, na busca de conectar-se a outras pessoas, todo adulto vivencia as experiências de crise que Erikson denominou intimidade versus isolamento. As especificidades variam. Alguns adultos se mostram distantes de seus pais, mas próximos de seus parceiros e amigos; outros são mais ligados à família. A necessidade por intimidade é universal e dinâmica; todo adulto controla a proximidade e a reciprocidade com todos ao seu redor (Lang et al., 2009). comboio social Coletivamente, os membros familiares, amigos, conhecidos e até estranhos que caminham lado a lado no decorrer de suas vidas como indivíduos. Cada pessoa é parte de um comboio social. O termo comboio originalmente referia-se a um grupo de viajantes em um território hostil, como as primeiras carroças puxadas a boi em direção à Califórnia ou soldados marchando por um território desconhecido. Os indivíduos são fortalecidos pelo comboio, compartilhando as condições adversas e defendendo-se uns aos outros. No decorrer da vida, os comboios sociais funcionam metaforicamente como os comboios iniciais, por exemplo, como um grupo de pessoas que “proporciona uma proteção nas relações sociais para guiar, encorajar e socializar os indivíduos conforme eles vão vivendo suas vidas” (Antonucci et al., 2001, p. 572). Paradoxalmente, o contexto histórico atual (globalização, longevidade, diversidade) torna o comboio social mais essencial que nunca (Antonucci et al., 2007). Amigos e Conhecidos Amigos são parte do comboio social; eles são escolhidos pelos traços que fazem deles companheiros de viagem confiáveis. Esperamos lealdade mútua e apoio dos amigos. Uma relação que é desigual (um dando e o outro recebendo) tende a terminar porque se torna desconfortável para as partes envolvidas. É claro que às vezes um amigo precisa de atenção e não pode retribuir imediatamente, mas é algo compreensível e supõe-se que mais tarde os papéis podem se inverter. Os amigos oferecem ajuda prática e conselhos úteis quando há problemas sérios – morte de um membro da família, doença, desemprego; eles nos surpreendem, nos fazem companhia e, com eles, damos boas risadas no dia a dia. As pessoas consultam seus amigos no que diz respeito a situações banais também: como fazer com que as crianças comam legumes, se é melhor remodelar ou trocar os armários da cozinha, qual o momento certo de pedir um aumento, por que um conhecido em particular é insensato. As coisas se tornam mais leves quando conversamos com um amigo. Amizade e Desenvolvimento Humano Um amplo estudo descobriu que as amizades são aprimoradas de acordo com a idade. Mais especificamente, adolescentes e jovens adultos consideram uma minoria significativa de suas amizades ambivalente ou problemática. Ao chegar à adultez, a maioria das amizades é classificada como próxima; poucas são ambivalentes e quase não há amizades problemáticas (Fingerman et al., 2004). Ao contrário do que acontece na família, se os amigos não se apoiam, a relação termina. A amizade auxilia a saúde mental no decorrer da vida (Bowers & Lerner, 2013). Amigos também contribuem para a saúde física, encorajando um ao outro a comer melhor, parar de fumar, praticar exercícios e assim por diante. O reverso também acontece: se uma pessoa ganha peso durante os anos da adultez, seu melhor amigo ou sua melhor amiga tende a ganhar peso também. Na verdade, embora a maioria das amizades dure por décadas, o conflito de hábitos de saúde pode terminar com uma relação (O’Malley & Christakis, 2011). Por exemplo, a amizade entre um fumante e alguém que parou de fumar tende a terminar. Se um adulto não possui amigos próximos e positivos, isso interfere na sua saúde (Couzin, 2009; Fuller-Iglesias et al., 2013). Isso ocorre tanto em nações pobres quanto em nações desenvolvidas. Universalmente, os humanos são mais saudáveis quando têm apoio social, e mais doentes quando vivem socialmente isolados (Kumar et al., 2012). Conhecidos estranhos consequentes Pessoas que não integram diretamente o círculo de amizade de um indivíduo, mas que têm um impacto sobre ele. ■ ■ ■ ■ Junto aos amigos, as pessoas têm uma série de conhecidos, que promovem comunicação, apoio, integração social e novas ideias (Fingerman, 2009). Esses conhecidos – vizinhos, colegas de trabalho, vendedores de lojas, policiais locais, membros de instituições religiosas ou da comunidadeetc. – são chamados de estranhos consequentes, pessoas que não participam diretamente do círculo social do indivíduo, mas que têm um impacto sobre ele. Os estranhos consequentes em sua vida podem incluir: Alguns donos de cachorros, se você leva seu cachorro para passear Seu barbeiro ou cabeleireiro, se você regularmente vai ao salão O vendedor de quem você compra doces todo dia O pai do amigo de seu filho Um estranho consequente pode até ser literalmente um estranho: alguém que senta perto de você no avião, ou lhe dá informações na rua quando você está perdido, ou lhe dá um lugar no ônibus. Nem todas essas pessoas são “consequentes”; depende se elas têm ou não um impacto sobre você. Conhecidos se diferenciam da maioria dos amigos próximos, uma vez que neles estão incluídas pessoas de diferentes religiões, grupos étnicos, idades e opiniões políticas – e a diversidade é um motivo para que eles sejam consequentes, particularmente na atualidade (Fingerman, 2009). Amigos próximos também podem se distanciar em alguns aspectos, mas valores, estilo de vida e antecedentes em comum são fatores que mantêm a amizade próxima. Este é o motivo pelo qual estranhos entram na nossa vida: eles expandem nossa perspectiva. Isso não precisa ocorrer pessoalmente. Muitos acreditam que a Internet fortalece amizades, além de agregar estranhos consequentes (Stern & Adams, 2010; Wang & Wellman, 2010). Cada pessoa geralmente possui conhecidos regulares que formam sua rede periférica de relações sociais. Com a idade, o número dessas relações periféricas tende a diminuir. Por exemplo, um estudo descobriu que a média de amigos periféricos de um adulto emergente é de 16 pessoas, ao passo que para um adulto de meia-idade essa média é de 12 pessoas. No entanto, indo de encontro à tendência, algumas pessoas adicionaram conhecidos a suas redes sociais com o passar dos anos (Zhang et al., 2011). Laços Familiares Pessoas com amigos próximos também tendem a ter boas relações com sua família e a ser afetadas por tais relações. Desenvolvimentistas concordam que a família tem conectado vidas – os acontecimentos ou condições que afetam um membro pode se estender a todos os membros da família (Wickrama et al., 2013). Algumas pessoas da família se tornam mais próximas do que outras, por várias razões, como se pode esperar, mas todos os membros são, de uma forma ou de outra, conectados. As normas culturais determinam se membros da família são considerados amigos. Por exemplo, tanto na Alemanha quanto em Hong Kong, os adultos listaram basicamente o mesmo número de confidentes próximos, mas os alemães tendiam a incluir um número maior de amigos não relacionados à família, enquanto os chineses incluíam mais membros da família (Fung et al., 2008). A ideia de que conexões familiares influenciam toda a vida da pessoa é sustentada por um estudo intrigante de toda a população da Dinamarca. Gêmeos se casam com menos frequência que adultos nascidos sozinhos, mas aqueles que se casaram eram menos propensos ao divórcio. De acordo com os pesquisadores, gêmeos têm menor tendência a precisar de um cônjuge, visto que têm um ao outro, mas eles também têm a experiência, desde a infância, de conviver com uma companhia próxima (Petersen et al., 2011). Filhos Adultos e Seus Pais Apesar de muitos adultos hoje em dia saírem da casa de seus pais para formar seus próprios lares, um estudo com 7578 adultos, em sete países, mostrou que a separação física não necessariamente causou o enfraquecimento dos laços familiares. Ao que parece, as relações intergeracionais estão se fortalecendo, e não enfraquecendo, à medida que os filhos adultos saem da casa de seus pais (Treas e Gubernskaya, 2012). Outra pesquisa confirma: entre pais e filhos adultos, “a rede de apoio é durável e flexível” (Bucx et al., 2012, p. 101). A constituição dos lares não é suficiente para avaliar a proximidade familiar, não somente em nações desenvolvidas. Na área rural da Tailândia, por exemplo, renda, e não afeição, é o que determina se um casal de jovens mora com a família da esposa (tradicionalmente) ou constitui seu próprio lar (Piotrowski, 2008). O envio de remessas voluntárias de filhos adultos que trabalham para outros países geralmente impulsiona a renda familiar, permitindo que casais morem em seus próprios lares. Nesse exemplo, a proximidade da família permanece, apesar de os irmãos viverem longe uns dos outros. Resultados similares foram encontrados em Gana. O tradicional lar do oeste da África, com vários parentes vivendo no mesmo recinto, está sendo substituído por famílias nucleares, com cada família em sua própria residência distante da moradia da infância. No entanto, apesar da distância, reciprocidade e lealdade familiar são valores que perduram, amortecendo o estresse financeiro e se correlacionando com a felicidade (Tsai e Dzorgbo, 2012). No mundo todo, quando os filhos adultos enfrentam sérios problemas financeiros, legais ou matrimoniais, os pais tentam ajudá-los. No ocidente, isso sempre foi evidente para os adultos jovens solteiros; porém esse apoio dos pais tornou-se mais duradouro após a crise de 2008-2011. Especificamente nos Estados Unidos, somente 11 por cento dos jovens de 25 a 34 anos viviam com seus pais em 1980, mas 29 por cento continuavam a viver com seus pais por pelo menos alguns meses durante a recessão econômica. Além disso, três quartos deles sentiam-se confortáveis em ficar com seus pais quando precisavam (Parker, 2012). Toda a pesquisa mostra que os pais proporcionam mais apoio financeiro e emocional a seus filhos adultos do que o contrário. Apesar de esse apoio ser geralmente necessário e bem-vindo, subsídios financeiros para filhos adultos que já saíram da faculdade estão correlacionados a sintomas de depressão nos filhos (Johnson, 2013). Para a geração de pais, a felicidade é fortemente afetada por seus filhos adultos, com os filhos mais problemáticos tendo um maior impacto no seu bem-estar do que os filhos mais felizes e exitosos (Fingerman et al., 2012). Irmãos Com a adultez, geralmente vem “casamento e gravidez, que têm o potencial de fortalecer a proximidade entre irmãos ou agravar dificuldades já existentes” (Conger & Little, 2010, p. 89). A parentalidade também aumenta o vínculo de ligação entre irmãos, em parte porque os adultos percebem quanto é bom para as crianças ter tios, tias e primos por perto. Mesmo os irmãos adultos que não têm filhos tendem a se aproximar mais do que na adolescência, porque a adultez os isenta da intensidade de um convívio contínuo em uma residência compartilhada (geralmente dividindo o mesmo quarto, computador, colégio etc.), finalmente permitindo que eles tenham diferenças sem brigar. Em algumas nações do sul da Ásia, irmãos devem presentear suas irmãs, das quais se espera que cozinhem e cuidem de seus irmãos (Conger & Little, 2010). Tais padrões podem prejudicar o crescimento individual, mas eles reduzem a pobreza e fortalecem os laços familiares. Encorajar os irmãos a cuidarem uns dos outros ajuda a satisfazer as necessidades individuais relacionadas à intimidade. Um fator que diminui o estreitamento de laços entre irmãos é o favoritismo dos pais por um dos filhos. Especialmente quando a figura do pai demonstra favoritismo, tanto o filho preferido quanto o rejeitado tendem a sofrer (Jensen et al., 2013). Proximidade e afeição familiar tendem a se formar mais facilmente quando o governo provê certos serviços (hospitais públicos, asilos e creches, por exemplo) do que quando os parentes têm que pagar pelos gastos de alguém. Quando os adultos não brigam por necessidades materiais, eles tendem a buscar intimidade emocional, independentemente de haver ou não necessidade prática. parente fictício Alguém que é aceito como parte de uma família com a qual não possui nenhum vínculo sanguíneo. Quaisquer que sejam as políticas públicas, a maioria dos membros das famílias tende a dar suporte um ao outro. Entretanto, alguns adultos evitam seus parentes de sangue por considerá-los nocivos. Algumas vezes, adultosadotam famílias em que se tornam parentes fictícios, sendo geralmente inseridos na família por um membro que os considera “como uma irmã” ou “meu irmão” e assim por diante. Tecnicamente, não são parentes (por isso fictícios), mas são aceitos e tratados como um membro da família (por isso parentes). Parentes fictícios podem ser essenciais àqueles adultos que são rejeitados por suas famílias de fato (talvez por conta de sua orientação sexual), ou estão longe de casa (talvez imigrantes), ou estão mudando seus hábitos (como cortando algum vício) (Ebaugh & Curry, 2000; Heslin et al., 2011; Kim, 2009; Muraco, 2006). Os adultos são beneficiados por seus parentes, sejam eles fictícios ou não. RESUMINDO Todo adulto tem forte necessidade de intimidade, que está ligada ao apoio social e companheirismo ao longo dos anos. Amigos e outros indivíduos significativos fazem parte do comboio social que ajuda os adultos a viver suas vidas. A importância dos parentes para uma pessoa em particular vai depender de sua história de vida, valores culturais e situação atual. Em alguns casos, os próprios indivíduos procuram distância de seus familiares. ■ >> Intimidade: Parceiros Amorosos Cientistas sociais comumente fazem a distinção entre “família de origem” (a família em que cada pessoa nasce) e “família de escolha” (a família que cada um constrói para si mesmo na adultez). A família de escolha geralmente se inicia com o comprometimento com um parceiro amoroso. Como detalhado nos capítulos sobre adultez emergente, os adultos de hoje levam mais tempo, em comparação com as gerações passadas, para se comprometer publicamente com parceiros sexuais em uma relação duradoura. Contudo, embora haja particularidades (o casamento aos 20 anos é considerado tardio em algumas culturas e precoce em outras), adultos de todo canto buscam parceiros para uma relação duradoura, que os ajudem a suprir suas necessidades afetivas, assim como criar seus filhos, dividir recursos e proporcionar cuidados quando necessário. FIGURA 22.2 Depois de Todos Esses Anos Adolescentes e adultos jovens recém-casados continuam a ser os grupos mais propensos ao divórcio, mas pessoas de mais idade, casadas, estão duas vezes mais próximas do divórcio do que as pessoas de mesma idade de algumas décadas atrás. Em 1990, somente 1 em cada 10 homens ou mulheres recém-divorciados estava acima dos 50 anos; atualmente é 1 em cada 4. Praticamente todos os residentes dos Estados Unidos nascidos antes de 1940 se casaram (96 por cento). Um grupo menor nascido entre 1940 e 1960 se casou (89 por cento) e há agora uma quantidade significativa desses adultos que estão divorciados e não se casaram novamente (16 por cento) (U.S. Bureau of the Census, 2011a). Tendências similares são encontradas mundialmente. Considere os dados do Japão. Praticamente todo japonês adulto era casado em 1950, com muitos se casando antes dos 20 anos. Atualmente, os japoneses que se casam o fazem mais tarde (faixa etária média de 30 anos); estima-se que 20 por cento nunca casarão (Raymo, 2013). Casamento e Felicidade Do ponto de vista de uma perspectiva de desenvolvimento, o casamento é uma instituição produtiva. Os adultos prosperam quando têm alguém comprometido com o seu bem-estar; as crianças se beneficiam quando possuem ambos os pais, legalmente e emocionalmente, dedicados a elas; as comunidades tornam-se mais fortes quando seus indivíduos se organizam em famílias. De uma perspectiva individual, as consequências do casamento são mais variadas. Não há dúvida de que um casamento satisfatório melhora a saúde, o patrimônio e a felicidade, mas alguns casamentos não são satisfatórios (Fincham & Beach, 2010; Miller et al., 2013). Em geral, pessoas casadas são um pouco mais felizes, mais saudáveis e possuem mais dinheiro do que aquelas que nunca se casaram – mas a diferença não é grande. Especialmente para Casais Jovens Suponha que você seja um dos cônjuges de um relacionamento turbulento em que os momentos de intimidade se alternam com episódios de insulto. Você terminaria o relacionamento? Por esse motivo, é enganoso agrupar todos os casamentos para encontrar a média. Alguns casamentos são muito prósperos ao longo dos anos; a maioria dos casamentos é moderadamente feliz, mas outros não são (veja a Figura 22.2). Os casamentos menos felizes nem sempre terminam com o divórcio – alguns adultos que não estão felizes continuam casados e alguns adultos relativamente felizes se divorciam. Maridos e esposas em seus casamentos mais felizes tendem a concordar que seus casamentos são bons, mas em casamentos infelizes não é incomum ver um cônjuge contente e o outro não (Brown et al., 2012). Muitos fatores estão relacionados à felicidade, como renda adequada e escolaridade especialmente. Os fatores que estão relacionados com a infelicidade são nascimentos pré- nupciais, coabitação antecipada e um nível elevado de neuroticismo entre os Cinco Grandes Fatores de personalidade. Historicamente, as mulheres têm maiores expectativas em relação ao casamento e, assim, maior desilusão; mas isso vem mudando de coorte a coorte e varia de cultura para cultura (Stavrova et al., 2012). Mulheres com mais escolaridade e alta renda estão não apenas mais propícias a terem casamentos felizes, elas estão “mais propícias a … manter bons casamentos e abandonar casamentos ruins” (Kreager et al., 2013, p. 580). União nem sempre significa casamento. Coabitantes que esperam casar são bem diferentes daqueles que acabam morando juntos por conveniência. Se o casal da segunda opção acaba se casando, suas chances de um casamento feliz são menores que a média. O mesmo é verdadeiro para casais que fazem sexo dentro do primeiro mês de união (Sassler et al., 2012). [Link: Discute-se coabitação no Capítulo 19.] Alguns casais coabitam a fim de estabelecer um passo em direção ao compromisso e à confiança mútua, completamente decididos a se casar. Assim, cada ano de matrimônio aumenta seus compromissos comuns e pessoais em relação ao outro, tornando o divórcio menos provável. Muitos sinais indicam que tais casais diferem daqueles que são forçados ao matrimônio. Por exemplo, comparados a casais menos comprometidos, eles têm mais filhos, o homem possui renda maior comparado a homens não casados e a esposa passa mais tempo fazendo tarefas domésticas (Kuperberg, 2012). Um número considerável de adultos encontrou um terceiro modo de ter uma parceria amorosa estável: vivendo separadamente, mas juntos (em inglês, LAT, living apart together). Eles têm residências separadas, mas, especialmente quando os parceiros têm mais de 30 anos, eles funcionam como um casal por anos e anos (Duncan & Phillips, 2010). A decisão de um casal de casar, viver juntos ou separados é influenciada por muitas pessoas além dos indivíduos amorosamente envolvidos. Filhos nascidos em uma união anterior, mesmo já crescidos, são certamente influentes. Muitos pais decidem morar separados de seus parceiros porque não querem magoar seus filhos (de Jong Gierveld & Merz, 2013). Uniões ao Longo dos Anos As três opções que os questionários fornecem – casado, solteiro, divorciado – não refletem felicidade pessoal ou amor, especialmente em misturas culturais ou ao longo dos anos da adultez. O amor é complexo, tem a ver com o funcionamento do relacionamento, não com sua estrutura. Isso foi recentemente explicado por alguns psicólogos. Um deles escreveu: Na minha vida toda, eu tenho procurado amor. Em um nível pessoal, depois de um número de falsos começos, eu o encontrei. Nas minhas pesquisas – iniciadas quando uma relação amorosa não dava certo em minha vida pessoal – eu tentei chegar o mais próximo possível do entendimento do que seja o amor, como se desenvolve e por que temos sucesso ou fracassamos nas relações amorosas. [Sternberg, 2013, p. 98] Desde 1986, Sternberg estuda três aspectos do amor: paixão, intimidade e compromisso, e muitos outros cientistas têm explorado esse assunto (Sternberg e Weiss, 2006). Conforme explicado no Capítulo 19, geralmente a paixãovem primeiro, seguida por confissões compartilhadas que criam intimidade e, finalmente, o compromisso, que leva a uma relação duradoura. Quando os três são evidentes, ocorre o amor consumado – um ideal que apenas algumas vezes é conquistado no casamento. Várias pesquisas mostram que para a maioria das pessoas o compromisso é crucial. Um relacionamento íntimo e com compromisso a longo prazo está correlacionado com indicadores positivos de saúde e felicidade no decorrer da vida (Miller et al., 2013). Os motivos para essa correlação variam da grande necessidade humana de alguém que escute, entenda e compartilhe seus objetivos aos detalhes mais mundanos de ter alguém ao lado que monitore dieta e exercícios diários e insista que a dor e os sintomas que sentimos precisam de atenção médica. A passagem do tempo também faz diferença. Em geral, o período da lua de mel tende a ser de felicidade, mas a frustração cresce à medida que surgem os conflitos (veja, mais adiante, Nessa Época) (H. K. Kim et al., 2008). Relacionamentos (incluindo os de casais heterossexuais, legalmente casados ou que apenas vivem juntos, casais do mesmo sexo e casais que vivem em residências distintas) costumam ser menos felizes quando o primeiro filho nasce, e isso se repete quando os filhos atingem a puberdade (Umberson et al., 2010). As chances de divórcio crescem nesse período e depois diminuem. Entretanto, lembre-se de que médias ofuscam as diferenças individuais. Algumas vezes, os dados são divididos por causa da etnia. Nos Estados Unidos, americanos descendentes de japoneses são muito menos propensos ao divórcio do que americanos descendentes de europeus, e descendentes de africanos são bem mais propensos ao divórcio. As diferenças étnicas são, em parte, culturais e, em parte, econômicas, tornando qualquer grande esforço para encorajar o casamento destinado à frustração dos envolvidos, sejam eles políticos, assistentes sociais e mesmo os próprios indivíduos em questão (Johnson, 2012). Por questões culturais, alguns casais infelizes se mantêm casados e podem ter uma relação duradoura, mas permeada por conflitos. Como já foi percebido, os riscos de divórcio diminuem com a idade, mas isso não significa que casais mais velhos não se divorciem. Em 1990, 8 por cento dos divórcios envolviam pessoas dos 50 anos em diante; já em 2010, essa estatística aumentou para 25 por cento, geralmente em casamentos que haviam durado 20 anos ou mais (Brown & Lin, 2013). Por outro lado, embora casais que apenas moram juntos se separem com maior frequência do que aqueles oficialmente casados, alguns casais que moram juntos são mais comprometidos um com o outro, sendo bem-sucedidos na criação de seus filhos. Como estão sempre em processo de desenvolvimento, é proveitoso conhecer tendências e movimentos, mas nem todos os indivíduos os acompanham. ninho vazio A época na vida do casal em que os filhos deixam seus lares para seguir seus próprios rumos na vida. Contrário a impressões desatualizadas, o ninho vazio – quando os pais estão novamente sozinhos após os filhos terem saído de casa – é geralmente um tempo para melhorar os relacionamentos. Apenas por passar tempo juntos, sem bebês chorando, sem exigências de crianças ou adolescentes rebeldes ao redor, a intimidade do casal aumenta. Os parceiros podem se focar um no outro e no que agrada a ambos. NESSA ÉPOCA A Felicidade Conjugal com o Passar dos Anos Período após o casamento Caracterização Primeiros 6 meses Período de lua de mel – o mais feliz de todos De 6 meses a 5 anos A felicidade oscila; o divórcio é mais habitual nessa fase do que mais tarde no casamento De 5 a 10 anos A felicidade se mantém De 10 a 20 anos A felicidade oscila, à medida que os filhos atingem a puberdade De 20 a 30 anos A felicidade aumenta quando os filhos deixam o ninho De 30 a 50 anos A felicidade é grande e segura, bloqueando sérios problemas de saúde Nem Sempre Essas são tendências, geralmente sujeitas a outros acontecimentos. Por exemplo, alguns casais permanecem juntos por causa dos filhos; então o período do ninho vazio se torna uma época de conflito ou mesmo divórcio. Naturalmente, nem sempre o tempo faz com que os relacionamentos se fortaleçam. Preocupações econômicas causam atrito, independentemente do tempo que o casal esteja junto (Conger et al., 2010). Em crises maiores – principalmente financeiras (como casas hipotecadas, períodos de desemprego) ou relacionais (como familiares exigentes ou relações extraconjugais) –, uma relação de longa data pode desmoronar. Relacionamentos Gays e Lésbicos Quase tudo já exposto se aplica tanto a relacionamentos gays e lésbicos quanto a relacionamentos heterossexuais (Biblarz & Savci, 2010; Cherlin, 2013; Herek, 2006). Alguns casais do mesmo sexo são fiéis, e um parceiro apoia o outro; o bem-estar emocional faz com que a intimidade prospere. Outros são conflituosos, com problemas financeiros, de comunicação ou de abuso doméstico, como acontece em casamentos heterossexuais. Os contextos políticos e culturais para casais do mesmo sexo têm mudado significativamente. Muitos países, incluindo Canadá e Espanha, reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nos Estados Unidos, Washington D.C. e outros 17 estados (Califórnia, Connecticut, Delaware, Hawaii, Illinois, Iwoa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, New Hampshire, Nova Jersey, Novo México, Nova York, Rhode Island, Vermont e Washington) também reconhecem essa forma de união. Outras nações e estados dos Estados Unidos são ambivalentes, e a maioria dos países, bem como muitos estados, declara ilegal o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As posições são fluidas e inconstantes, mudando rapidamente; portanto, até mesmo pesquisas recentes podem ser imprecisas. Uma constatação parece ser particularmente relevante para todos os participantes. Em todos os relacionamentos, as relações com a família de origem permanecem sendo importantes. Longe dos benefícios legais do casamento, os laços familiares são de fundamental importância para casais do mesmo sexo que moram juntos há muito tempo ou que decidem se casar, agora que as leis estão mudando. Apesar das questões legais, morais e financeiras (plano de saúde, criação dos filhos, entre outros) geralmente citadas em debates relacionados ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, muitas vezes esses casais buscam se casar não por questões legais, mas para atender às necessidades pessoais de ambos. Os envolvidos buscam reconhecimento da sociedade, de seus parentes próximos, bem como de estranhos consequentes. Em um estudo com casais gays em Iowa, um homem decidiu se casar porque, conforme ele escreveu sobre sua mãe, “Eu tinha um parceiro com quem eu vivia … e eu acho que, por mais que ela o aceitasse, não parecia algo permanente aos olhos dela” (Ocobock, 2013, p. 196). Outro homem escreveu sobre seu pai: “Ele nos disse o quanto se orgulhava de nós por estarmos dando esse passo e que agora ele não tinha três filhos, mas quatro, o que foi suficiente para nos fazer chorar” (p. 197). Nesse estudo, a maioria dos membros da família apoiava os casais, mas alguns não – mais uma vez deixando profundas marcas nos recém-casados. Um deles disse: “Algumas vezes … o abismo criado não pode ser atravessado nunca mais” (p. 200). Assim como em casais heterossexuais, os pais geralmente acolhem o parceiro dos filhos, mas, quando isso não acontece, a relação tende a ser afetada. É difícil ignorar a influência que as famílias exercem. Pesquisas atuais e longitudinais que envolvam um grande número de casais em casamentos gays e lésbicos selecionados aleatoriamente nos Estados Unidos ainda não estão disponíveis. Muitos estudos são projetados para provar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é benéfico ou prejudicial. A partir desses estudos é difícil extrair conclusões objetivas sobre o assunto. >> Resposta para Casais Jovens: Não há uma resposta simples, mas deve-se lembrar que, enquanto os insultos geralmente diminuem com a idade, terminar se torna mais difícil à medidaque os anos passam, principalmente se há filhos em jogo. Por exemplo, algumas pesquisas dizem que o divórcio é menos comum para casamento entre pessoas do mesmo sexo, outras dizem que é mais comum para essas pessoas, outras ainda afirmam que o divórcio é mais comum entre casais masculinos que entre casais femininos. Uma análise de 15 anos de casamento entre pessoas do mesmo sexo na Dinamarca, na Suíça e na Noruega mostrou que nem os grandes receios nem as grandes expectativas são alcançados nessas uniões (Biblarz & Stacey, 2010). Divórcio e Novos Casamentos Ao longo deste texto, acontecimentos no desenvolvimento que parecem ser isolados, pessoais e transitórios se mostram interconectados, mediados pela sociedade, com consequências duradouras. Os relacionamentos nunca melhoram ou terminam sozinhos; eles são influenciados por contextos sociais e políticos. Por exemplo, um estudo em variados países mostra que tanto a felicidade quanto a probabilidade de separação de pessoas casadas e que moram juntas são fortemente influenciadas por normas nacionais (geralmente mais benignas na Noruega e mais hostis na Romênia) (Wiik et al., 2012). O divórcio acontece porque pelo menos um dos parceiros acredita que estaria mais feliz separado. Chega-se a essa conclusão com bastante frequência nos Estados Unidos. Desde 1980, quase a metade dos casamentos tem resultado em divórcios ou separações permanentes. (Mais de um terço de primeiros casamentos termina em divórcio, e a cada casamento subsequente, as chances de divórcio aumentam.) Normalmente, as pessoas se divorciam porque alguns aspectos do casamento se tornam difíceis de tolerar. No entanto, em geral as pessoas não têm consciência do impacto que o divórcio trará para suas vidas. Entre os problemas futuros podem-se destacar a renda reduzida, a perda de amizades, as relações mais fracas com os filhos imediatamente após o divórcio e quando eles crescem (Kalmijn, 2010; Mustonen et al., 2011). Os problemas familiares não estão somente ligados aos filhos (geralmente o responsável detentor da custódia é mais estrito, e o outro responsável se sente excluído), mas também a outros parentes. Os pais do adulto divorciado tendem a apoiá-lo financeiramente, mas ser emocionalmente mais críticos. Alguns adultos têm uma boa relação com os pais do cônjuge; essa proximidade quase sempre termina quando o casal se separa, resultando na perda de parte do comboio social. Por todos esses motivos, as necessidades de intimidade são menos preenchidas quando os casais se separam. Algumas vezes os adultos divorciados desabafam com seus filhos, o que pode ser bom para o adulto, mas não para os filhos. Mesmo quando os adultos tentam não cair nessa armadilha, os filhos precisam de mais apoio emocional justamente quando os pais estão consumidos por seus próprios problemas emocionais (H. S. Kim, 2011). Algumas pesquisas mostram que as mulheres sofrem mais com o divórcio do que os homens (suas rendas, no geral, são menores), mas as necessidades íntimas dos homens são as que geralmente se encontram em risco. Alguns maridos recorrem a suas mulheres para companhia e interação social; eles não estão habituados a convidar amigos para encontros ou mesmo ligar para bater papo no telefone. Pais divorciados são geralmente solitários, alienados da vida de seus filhos adultos e de seus netos (Lin, 2008a). Em geral, ambos os parceiros cujo relacionamento foi rompido tendem a restabelecer a amizade e a voltar a se relacionar com outras pessoas. Em mais ou menos metade dos casamentos nos Estados Unidos, pelo menos um dos envolvidos está se casando pela segunda vez. Novos casamentos são mais comuns quando se sobe o status socioeconômico, e menos comum entre aqueles que já são pais. A etnia também é um fator; nos Estados Unidos, mães divorciadas de ascendência africana, especialmente aquelas que não chegaram a completar o ensino médio, raramente se casam novamente (McNamee & Raley, 2011). De início, novos casamentos restauram a intimidade, a saúde e a segurança financeira. Para os pais, laços com os filhos da nova parceira ou com um novo bebê podem reparar crises de relacionamento com seus filhos do primeiro casamento, um benefício para os pais, mas não para os filhos (Noel-Miller, 2013a). O divórcio geralmente ocasiona depressão e solidão; a nova união é fonte de alívio. A maioria dos adultos que se casam novamente é muito feliz logo após o casamento (Blekesaune, 2008). No entanto, essa felicidade pode não durar muito tempo. Visto que a personalidade não muda muito, pessoas que foram cronicamente infelizes em seu primeiro casamento, geralmente tornam-se infelizes em seu segundo casamento. Essa pesquisa sobre divórcio é mais limitada. Assim como em todos os aspectos do desenvolvimento adulto, a mudança no contexto social pode ter melhorado a vida para o outrora casado, e mesmo assim as pessoas podem fugir aos padrões. Se o divórcio termina com um relacionamento abusivo e destrutivo (como acontece em um terço das vezes), normalmente beneficia pelo menos uma das partes e os filhos (Amato, 2010). Além do mais, muitos divórcios levam a relacionamentos mãe-filho(a) e/ou pai-filho(a) mais fortes e mais afetuosos. Isso ajuda os filhos a lidar com a situação, não somente imediatamente, mas também nos anos que acompanham a separação (Vélez et al., 2011). Entretanto, esse nem sempre é o resultado final. RESUMINDO As relações com a família de origem (em oposição à família escolhida) geralmente se mantêm importantes no decorrer da adultez, como fonte de apoio social, especialmente entre pais e filhos adultos e entre irmãos. A maioria dos adultos busca, e encontra, um parceiro amoroso que se torna uma companhia íntima. Cada relacionamento segue seu próprio caminho, havendo altos e baixos níveis de felicidade, altos níveis no início de um novo relacionamento e baixos níveis quando os filhos são muito novos ou adolescentes. Isso é verdade para casamentos entre pessoas de sexos opostos ou do mesmo sexo, para casais que moram juntos ou que vivem em residências distintas. O término de um relacionamento amoroso, particularmente o divórcio, é quase sempre difícil. Um novo casamento pode trazer novas alegrias e novos problemas, principalmente se envolve filhos das partes envolvidas. ■ >> Generatividade generatividade versus estagnação O sétimo dos oito estágios do desenvolvimento de Erikson. Adultos buscam ser produtivos por meio do cuidado, seja através da arte, do cuidado direto do próximo ou do trabalho. De acordo com Erikson, após o estágio de intimidade versus isolamento, vem o estágio de generatividade versus estagnação, quando adultos buscam ser produtivos ao cuidar de alguém ou de alguma coisa ou projeto. Sem a generatividade, os adultos vivenciam “um senso de estagnação e empobrecimento pessoal devastador” (Erikson, 1963, p. 267). Os adultos satisfazem suas necessidades de serem generativos de várias formas, principalmente tendo filhos, cuidando do próximo ou através do trabalho. Parentalidade Embora a generatividade possa tomar muitas formas, a principal delas é “estabelecer e guiar a próxima geração” (Erikson, 1963, p. 267). Muitos adultos transmitem seus valores a seus filhos a cada dia, ao responder a suas várias perguntas e necessidades implícitas, tornando-se assim generativos. Todas as conquistas da criança já explicadas neste texto, da Escala de Avaliação Comportamental Neonatal de Brazelton (Capítulo 4) às primeiras palavras (Capítulo 6), da teoria da mente (Capítulo 9) ao sucesso escolar (Capítulo 12), são celebradas por pais astutos – independentemente de como a paternidade ou maternidade se deu. Para tais conquistas, a continuidade do cuidado é essencial. Por exemplo, conhecer um bebê em particular é essencial para entender aqueles primeiros balbucios e aquelas primeiras expressões emocionais. Do mesmo modo, conhecer a personalidade de uma criança, assim como sua capacidade intelectual, é necessário para identificar a zona de desenvolvimento proximal em que ela se encontra e,em seguida, focar diretamente em quando e como ajudá-la nos estudos. De várias maneiras, não apenas pais biológicos, mas também bons pais adotivos estão intensamente comprometidos com determinado, único ser humano – e é desse comprometimento que surgem as alegrias e as preocupações da parentalidade. Parentalidade Biológica O impacto da parentalidade nos filhos vem sendo bastante discutido neste texto. Vamos agora nos concentrar na parte adulta dessa interação – o impacto da paternidade ou maternidade nos próprios pais. As crianças afetam a personalidade, as necessidades e a existência de seus pais. Como Erikson (1963) diz, “A célebre insistência de dramatizar a dependência que as crianças têm dos adultos normalmente nos cega para a dependência que as gerações mais velhas têm das mais novas” (p. 266). A maioria das pessoas subestima a dificuldade de ser um bom pai ou uma boa mãe (Senior, 2014). De fato, “ter uma criança é talvez a experiência mais estressante na vida de uma família” (Le Masters, citado em McClain, 2011). É compreensível que a parentalidade seja particularmente difícil quando a intimidade, e não a generatividade, é a principal necessidade psicossocial de um indivíduo. Como mencionado, a felicidade matrimonial afunda quando chega o primeiro bebê, pois as necessidades íntimas precisam algumas vezes ser adiadas. Pior ainda é ter um bebê como parte da busca por sua identidade, como adolescentes descobrem tarde demais. Preferencialmente, após estabelecer a intimidade, muitos adultos procuram a generatividade, escolhem a parentalidade, estando dispostos a lidar de bom grado com os estresses que acompanham esse papel. Compreender e educar crianças são expressões intensamente trabalhosas da generatividade. “Uma experiência transformadora” com mais custos do que benefícios quando as crianças são pequenas (Umberson et al., 2010). As crianças podem reordenar as perspectivas dos adultos enquanto os adultos se tornam menos focados em suas identidades pessoais ou relações íntimas. Um sinal positivo para os pais é quando compreendem que o choro do bebê é uma forma de comunicação, não um gesto egocêntrico, e que os adultos precisam cuidar mais das crianças (Katz et al., 2011). O cuidado pode ser entendido de várias formas. Um estudo com homens e mulheres que estavam entre os primeiros colocados em habilidades matemáticas de acordo com testes de desempenho aplicados quando eles estavam no ensino médio, e que receberam certificados de ensino superior anos depois, descobriu que ambos os sexos foram alterados pela parentalidade. Os pais trabalhavam mais para atingir melhor posição e melhor renda, enquanto as mães se tornavam mais comunitárias, focando na família e na comunidade (Ferriman et al., 2009). A criação dos filhos é uma experiência dinâmica, que testa muitos pais. Assim que eles acham que dominaram a arte da parentalidade, as crianças crescem e apresentam novos desafios. Com o passar dos anos familiares, os pais precisam se adaptar a novos bebês, pressão escolar e autonomia dos adolescentes. A privacidade e a renda quase nunca parecem adequadas, e quase toda criança precisa de cuidados extras e atenção em algum momento. Certa correlação entre o tamanho da família e o tamanho dos problemas familiares é aparente no mundo todo, pelo menos até as crianças crescerem (Margolis & Myrskylä, 2011). Quando os próprios filhos adultos têm filhos é um misto de alegria e preocupação. Na média, adultos começam a ser avós por volta dos 50 anos, e a parentalidade continua por décadas. [Link: As complexidades da parentalidade como avós são discutidas no Capítulo 25.] Especialmente quando os pais das crianças estão com problemas, avós ao redor do mundo acreditam que possuem o papel de ajudar seus netos (Herlofson & Hagestad, 2012). Isto se torna outra forma de generatividade para eles, influenciada por políticas e costumes nacionais, gênero, relação pais-filhos e recursos financeiros de ambas as gerações de adultos. Quanto à generatividade da parentalidade, pais biológicos estão em vantagem por saberem que são íntima e geneticamente conectados aos filhos. Principalmente se a gravidez foi programada (cerca de um terço delas nos Estados Unidos não são) e se o casal quer o bebê (alguns pais rejeitam a paternidade e deixam a mãe, ainda mais quando não há um relacionamento sério) (Guzzo, 2013), a criação é satisfatória para os adultos. Até mesmo para nascimentos não planejados, pode ser desenvolvido um forte afeto que sustenta os pais. Aproximadamente um terço da população adulta norte-americana adota crianças de diversas formas. Isso também é uma expressão de generatividade? Sim, às vezes. Pais não biológicos têm ricas oportunidades de generatividade, porém também apresentam vulnerabilidades diferentes ao enfrentar desafios na criação. Pais Adotivos Em comparação com os pais de criação e padrastos, pais adotivos têm várias vantagens: eles são legalmente ligados ao filho e quiseram desesperadamente a criança. As adoções atuais são normalmente “abertas”, o que significa que os pais biológicos decidiram que outra pessoa poderia ser melhor pai ou mãe e dar uma vida melhor à criança, mas eles ainda querem alguma ligação com a criança. A criança está ciente do acordo, o que se prova uma vantagem para ambos os pais, assim como para a criança. Fortes laços entre pais e filhos são muitas vezes evidentes com a adoção, especialmente quando as crianças são adotadas ainda bem novas. Laços seguros também podem ser desenvolvidos se a adoção ocorrer quando as crianças são mais velhas (entre 4 e 7 anos), sobretudo se a mãe adotiva tiver sido fortemente ligada a sua própria mãe (Pace et al., 2011). No entanto, algumas crianças adotadas passaram seus primeiros anos de vida em uma instituição, sem desenvolver um apego seguro com outras pessoas, o que torna mais difícil o estabelecimento de laços com os pais adotivos. Algumas dessas crianças ficam com medo de amar alguém (São Petersburgo/Estados Unidos – Equipe de Pesquisa de Orfanatos, 2008). O DSM-5 atribui a essas crianças um novo diagnóstico de transtorno de apego reativo, um problema que pode ocorrer com filhos biológicos também, mas com menos frequência. Como você deve lembrar, a adolescência – época em que a pessoa procura por sua identidade – pode estressar qualquer família. Esta etapa é particularmente problemática para famílias adotivas porque todo adolescente quer saber suas raízes genéticas e étnicas. Uma estudante universitária que se sente muito querida e amada por seus pais adotivos explica: Na tentativa de perturbar meus pais, às vezes eu (estupidamente) digo que desejaria ter sido adotada por outra família, mas falo da boca para fora. Ainda assim, quando realmente conheci minha família biológica, pude afirmar com toda a certeza que tínhamos uma relação – nós nos entendemos muito bem. Acho que tenho uma atitude parecida com a de minha mãe biológica, e faço as mesmas caras que ela! Isso me faz considerar a natureza como algo que realmente influencia a personalidade. [A, 2012, comunicação pessoal] Um estudo longitudinal sobre relações entre pais e filhos adotivos concluiu que a resposta dos pais ao comportamento dos adolescentes é crucial. Nem pais excessivamente rigorosos nem pais excessivamente permissivos ajudam o adolescente adotado, mas sim pais consistentes e que apoiam seus filhos (Klahr et al., 2011). Atitudes na cultura mais ampla normalmente aumentam as tensões entre pais e filhos adotivos. Por exemplo, a noção equivocada de que os pais biológicos são os “verdadeiros” é uma construção social comum que dificulta um relacionamento seguro. Adoções internacionais e interétnicas são controversas, pois algumas pessoas temem que tais adoções resultem em crianças que perdem sua herança cultural. Os pais adotivos que passam por complicações na adoção internacional ou interétnica geralmente se dedicam intensamente a seus filhos. Eles são pais muito “verdadeiros”, tentando proteger seus filhos de discriminações que talvez não tenham percebido antesde vivenciá-las com seus próprios filhos. Por exemplo, um casal de brancos adotou uma criança mestiça e três anos depois quiseram um segundo bebê. Dessa vez eles disseram: “Fizemos um acordo com nossa filha de que teríamos um bebê moreno ou negro. Então recusamos algumas oportunidades por não serem as certas.” Esses pais tinham notado estranhos olhares e não queriam que sua primeira filha fosse o único membro da família de pele escura (Sweeney, 2013, p. 51). Muitos desses pais adotivos procuram amigos da família que pertençam a outras etnias e educam seus filhos sobre sua cultura de origem e o preconceito que provavelmente encontrarão. Uma “socialização racial” semelhante muitas vezes acontece dentro de famílias minoritárias com seus filhos biológicos. De fato, todo pai procura defender seus filhos contra a discriminação e suas dificuldades. Quando pais adotivos os protegem, os adolescentes que se deparam frequentemente com o preconceito (mas não aqueles que se deparam com menos frequência com o preconceito) sentem menos estresse, pois já foram preparados para isso por seus pais adotivos (Leslie et al., 2013). Padrastos e Madrasta Padrastos e madrastas normalmente vivenciam algo muito mais complicado do que eles esperavam. O típico novo enteado tem 9 anos de idade. Geralmente, ele ou ela passou algum tempo com ambos os pais biológicos e, em seguida, ficou um tempo só com a mãe ou o pai, um dos avós, o pai ou a mãe não residente, outros parentes e/ou um tutor pago. Mudanças são sempre estressantes para as crianças (Goodnight et al., 2013), e os efeitos são cumulativos; muitas crianças só demonstram os efeitos emocionais depois, na adolescência. É difícil ser padrasto de tal criança, principalmente se ela está lidando com uma mudança escolar, uma mudança de amigos ou as mudanças da puberdade. As crianças às vezes reagem a tais mudanças mantendo uma forte ligação emocional com seus pais biológicos. Esta é uma reação comum e benéfica, mas que impede as ligações com os padrastos. Qualquer adulto novo que tenta ser pai ou amigo de uma criança e que simultaneamente conquista o amor, o cuidado e a atenção dos pais biológicos da criança é completamente suspeito. Madrastas podem acreditar que conseguem consertar uma família fragmentada através de amor e compreensão, enquanto padrastos podem acreditar que seus novos filhos vão acolher um disciplinador benevolente. Muitas vezes o pai ou a mãe biológica escolhe o novo cônjuge pensando em dar a seus filhos um pai ou uma mãe melhor que o(a) original. O novo padrasto, ou madrasta, pode olhar esperançoso para o papel que terá pela frente, em parte porque ele, ou ela, aprendeu sobre o outro pai por um relator tendencioso, seu novo cônjuge. Ambos os recém- casados esperam que seus enteados reajam bem à nova família. Raramente as crianças correspondem a essas expectativas. Muitas vezes, elas são hostis ou distantes (Ganong, 2011). Enteados mais novos ficam doentes, perdem-se, ferem-se acidentalmente ou se tornam problemáticos na escola; enteados adolescentes podem engravidar, beber muito ou acabar presos. Esses são sinais de que a criança precisa de atenção especial – e podem fazer com que os padrastos sintam raiva e ressentimento, em vez de carinho e paciência. Caso os adultos reajam de maneira exagerada ou indiferente a tais situações, as duas gerações se tornam ainda mais afastadas (Coleman et al., 2007). Grandes esperanças e expectativas são comuns em novos padrastos, mas poucos adultos – pais biológicos ou não – são capazes de viver de acordo com um ideal de generatividade, um dia após o outro (Ganong, 2011). Alguns padrastos vão para o outro extremo, se mantêm afastados das crianças – o que não é uma boa maneira de criar um ambiente familiar feliz. Padrastos sabem que sua conexão com seus enteados vai depender do relacionamento com o novo cônjuge e percebem que criticar os enteados ou a forma como o cônjuge se relaciona com eles pode arruinar o casamento. Alguns estabelecem um bom relacionamento com os enteados, embora percam essa conexão se o casamento se dissolver, o que acontece com cerca da metade de todos os segundos casamentos (Noel-Miller 2013b). Não é de surpreender que enteados ocasionem estresses inesperados em um casamento (Sweeney, 2010). Uma teoria é que, como não há leis e normas claras sobre o papel dos padrastos, os adultos acabam brigando sobre o que esperam que um ou o outro faça ou não faça (Pollet, 2010). Nada disso significa que padrastos não possam ser generativos; significa, no entanto, que devem estar alertas às muitas dificuldades. Acolhimento Familiar Pais substitutos (tutores) enfrentam o papel mais difícil de todos e têm a melhor oportunidade de generatividade. Crianças em acolhimento normalmente apresentam necessidades emocionais e comportamentais que pedem um envolvimento intenso. Consequentemente, os tutores precisam gastar muito mais tempo e esforço com cada criança do que os pais biológicos gastam, e ainda assim o contexto social tende a desvalorizar seus esforços (Smith et al., 2013). Suas razões para se tornar tutores de crianças em acolhimento costumam ser mais psicossociais do que financeiras (Geiger et al., 2013). Os problemas surgem tanto do contexto quanto das crianças. Primeiro, vamos olhar para a situação. Embora estime-se que 400.650 crianças se encontravam em acolhimento familiar nos Estados Unidos em 2011 (Child Welfare Information Gateway, 2013), às vezes sendo protegidas de graves abusos, o público em geral critica e deprecia os tutores (Smith et al., 2013). Tutores são pagos para cuidar de crianças, mas eles geralmente ganham muito menos do que uma babá, menos ainda do que ganhariam em um emprego convencional. A maioria dos tutores sente que não está sendo apoiada ou preparada o suficiente para seu papel e se choca com o debate público, que só se concentra no atípico lar adotivo. Além disso, a maioria das crianças em lares de acolhimento está sob os cuidados de tutores por menos de um ano, já que o objetivo para cerca de metade das crianças é a reintegração com os pais biológicos, e, para muitas outras, uma adoção planejada. Crianças em acolhimento são frequentemente deslocadas de um lugar para outro, ou de um orfanato para uma família, independentemente do desejo, da competência ou das emoções dos tutores. Isso dobra a dificuldade do tutor de conseguir uma relação generativa com as crianças e a torna duplamente admirável quando consegue. As próprias crianças contribuem para a dificuldade. A maioria das crianças que entra no sistema de assistência social tem 7 anos (Child Welfare Information Gateway, 2013). Muitas delas passaram seus primeiros anos de vida com suas famílias biológicas e estão apegadas a elas. Tal conexão de apego humano é normalmente benéfica, não só para as crianças, mas também para os adultos. No entanto, se os pais biológicos são tão negligentes ou abusivos a ponto de prejudicar seriamente as crianças com sua forma de cuidado, o apego que as crianças sentiam anteriormente por seus pais biológicos impede as relações com o tutor. Além disso, as crianças também sabem que sua conexão com o tutor pode ser rompida por questões não relacionadas com a qualidade do cuidado ou a força do relacionamento. Uma vez que a maioria das crianças em acolhimento já viveu maus-tratos de longa duração e testemunhou violência, elas geralmente suspeitam de qualquer adulto (Dorsey et al., 2013). Como resultado, os cuidadores adultos dessas crianças, seja em acolhimento familiar, seja em instituições, enfrentam o dilema de “‘amar’ as crianças ou manter uma postura fria e indiferente com interações pouco sensíveis e suscetíveis” (St. Petersburg–USA Orphanage Research Team, 2008, p. 15). Uma ligação amorosa é melhor tanto para o tutor como para a criança; mas, se essa ligação for estabelecida, a separação será dolorosa para ambos. O cuidado generativo não ocorre de maneira abstrata; há alguém que cuida e alguém que recebe o cuidado, então tudo deverá ser feito para encorajar que tanto a criançaquanto o pai adotivo estreitem os laços. Os adultos que reconhecem as normas de desenvolvimento – sem esperar que uma criança seja mais sábia ou mais comportada em relação a outras crianças da mesma idade – são mais propensos a deliciar-se com seus tutelados, o que é bom para a relação (Bernard e Dozier, 2011). Dedicação de Cuidado Dedicar cuidados ao próximo é um processo que ocorre no decorrer da vida, uma vez que “a vida começa com cuidado e termina com cuidado” (Tally & Montgomery, 2013, p. 3). Como acabamos de ver, a parentalidade é um excelente exemplo, mas não o único. Conforme Erikson (1963) escreveu, um adulto maduro “deve ser necessário” (p. 266). Alguns cuidados requerem o cumprimento de necessidades físicas – alimentação, limpeza etc. – mas muito disso envolve satisfazer as necessidades psicológicas de outra pessoa. Essa pessoa poderia ser uma criança, um cônjuge, um pai ou uma mãe ou outra pessoa, mas, seja quem for, cuidar é parte da vida adulta generativa. Isso não pode ser desconsiderado, visto que não é algo simples. Como um estudo conclui: Para proporcionar suporte emocional para os outros é necessário tempo e energia que devem ser redefinidos como um aspecto importante do trabalho a ser considerado nas famílias. … Cuidar, de qualquer forma, não vem só de dentro, mas deve ser gerenciado, focado e direcionado para se obter o efeito desejado em quem recebe o cuidado. [Erickson, 2005, p. 349] Assim, cuidar inclui reagir às emoções das pessoas que precisam de um confidente, um incentivador, um conselheiro ou um amigo próximo. Pais e filhos cuidam uns dos outros, assim como os parceiros. Vizinhos, amigos e parentes distantes podem ser cuidadores também. Guardiões guardião Um cuidador que é responsável por manter a comunicação entre os membros de uma família. A maioria das famílias extensas possui um guardião, um cuidador que assume a responsabilidade de manter a comunicação. O guardião reúne todos nas férias; informa sobre doença, internamento ou as conquistas de alguém; compra presentes para ocasiões especiais; e lembra os membros da família dos aniversários uns dos outros (Sinardet & Mortelmans, 2009). Guiados por seu guardião, todos os membros da família se tornam mais generativos. Há cinquenta anos, os guardiões eram quase sempre mulheres, geralmente a mãe ou a avó de uma grande família. Agora as famílias são menores e a igualdade de gêneros é mais aparente; por isso alguns homens ou mulheres jovens são guardiões. No entanto, geralmente o guardião ainda é uma mãe de meia-idade, ou mais velha, com alguns filhos adultos. Esse papel pode parecer pesado, mas cuidar dos outros proporciona satisfação e poder (Mitchell, 2010). Os melhores cuidadores compartilham o trabalho; compartilhar o status de guardião é um exemplo de generatividade. Às vezes, um membro da família é chamado para fazer mais do que só manter a família unida. Por sua posição na hierarquia geracional, espera-se que adultos de meia-idade ajudem tanto as gerações mais velhas quanto as mais jovens. geração sanduíche Geração de pessoas de meia-idade que são supostamente “espremidas” pelas necessidades dos familiares mais velhos e mais novos. Na verdade, alguns adultos realmente se sentem pressionados por essas obrigações, mas a maioria não é sobrecarregada por elas, ou por gostar de cumpri-las ou por escolher realizar apenas algumas delas. Os adultos de meia-idade têm sido chamados de geração sanduíche, um termo que evoca uma imagem de um preenchimento de camadas prensado entre duas fatias de pão. Esta analogia sugere que a geração do meio é espremida entre as necessidades de parentes jovens e mais velhos. A metáfora do sanduíche é vívida, mas dá uma falsa impressão (Gonyea, 2013; Grundy & Henretta, 2006). (Veja, mais adiante, Visualizando o Desenvolvimento.) Longe de estarem espremidos, adultos mais velhos que proporcionam algum apoio financeiro e emocional a seus filhos adultos são menos propensos a ficar deprimidos do que aqueles cujos filhos não precisam mais deles (Byers et al., 2008). Entretanto, os jovens da geração que se sente espremida por seus pais costumam ser eles próprios cuidadores. Seu cuidado não costuma ser financeiro, mas cultural. Eles ajudam seus pais a entender música, mídia e tecnologia, seja programando seus celulares, mandando fotos, ou mesmo consertando seus computadores. Já o cuidado de adultos de meia-idade com seus pais costuma muitas vezes não ser necessário. A maioria das pessoas da geração acima dos 60 ainda é capaz de cuidar muito bem de si mesma – e com orgulho. Se esses adultos precisam de ajuda, esta vem do cônjuge, de outra pessoa idosa ou de um cuidador contratado. Assim, filhos e netos adultos fazem parte do time de cuidadores, mas não ficam presos à situação, como no meio do sanduíche. [Link: Cuidado com os idosos é discutido em detalhes no Capítulo 25.] O cuidado mútuo mantém a família unida; cuidadores guardiões experientes geralmente fazem com que isso aconteça. Todos Contribuem Uma grande família de quatro gerações, como esta, ajuda a perceber a necessidade humana por amor e pertencimento, o nível médio da hierarquia de Maslow. Quando os cientistas traçam quem contribui como para quem, os resultados mostram que todos fazem sua parte, mas o fluxo é maior de baixo para cima. Avós tendem a dar mais dinheiro e atenção às gerações mais jovens do que o contrário. Cultura e Cuidado Familiar As especificidades dos laços familiares dependem de muitos fatores, incluindo apegos da infância, normas culturais e recursos financeiros e práticos de cada geração. Algumas culturas pressupõem que pais idosos deveriam morar com seus filhos; outras acreditam que os idosos devem viver sozinhos enquanto puderem e depois ir morar em um lar que lhes forneça cuidados (Parveen, 2009; Ron, 2009). Variações étnicas são evidentes no modo como se espera a interdependência dos membros familiares. Geralmente, minorias étnicas são mais ligadas a membros familiares do que maiorias étnicas. Eles se veem com mais frequência, dividem comida, dinheiro, cuidado com os filhos e assim por diante. Embora muitos relacionem proximidade à afeição, a proximidade nas minorias geralmente aumenta os conflitos (Voorpostel & Schans, 2011). As culturas também se diferenciam no que diz respeito à responsabilidade com os idosos, se ela deve ser tomada por filhos e filhas. Em países tradicionais da Ásia, acredita-se que os filhos devem cuidar de seus pais; isso é o contrário para a maioria das nações do ocidente. No entanto, a ênfase em filhos (e noras) responsáveis pelo cuidado varia de uma família para outra e pode variar de acordo com o país também. Por exemplo, na China continental, se um idoso vive com seu filho adulto, é geralmente com o filho homem, ao passo que em Taiwan a responsabilidade recai sobre a filha (Chu et al., 2011). Como se pode imaginar, se marido e mulher têm pressupostos divergentes quanto ao cuidado dos mais velhos, quanto ao sustento dos filhos adultos, dependência mútua, pode haver conflitos. De uma perspectiva psicossocial, adultos são muito mais felizes se cuidam do próximo, não somente de si, mas o modo como esse cuidado acontece e quando ele ocorre varia de acordo com o indivíduo, com a família e com a cultura. Trabalho Além de paternidade/maternidade, outro grande meio para a generatividade é o trabalho. A maioria das pesquisas sobre trabalho nas ciências sociais focaliza a produtividade econômica, uma questão importante, mas não central para nossos estudos de desenvolvimento humano. Aqui focalizamos os custos psicológicos e benefícios do trabalho durante a adultez. Como é evidente a partir dos vários termos utilizados para descrever um desenvolvimento de um adulto saudável – generatividade, sucesso e estima, instrumentos e conquistas –, os adultos possuem muitas necessidades psicossociais que o trabalho pode preencher. O inverso também ocorre: O trabalho está associado a comportamentos e condições que indicam que as necessidades individuais não estão sendo preenchidas– taxas mais altas de abuso infantil, alcoolismo, depressão e muitos outros problemas sociais e relacionados à saúde mental (Freisthler et al., 2006; Wanberg, 2012). Adultos que não conseguem arranjar emprego têm 60 por cento mais chance de morrer do que as outras pessoas da sua idade, especialmente se tiverem menos que 40 anos (Roelfs et al., 2011). Remunerações e Benefícios A renda adquirida deve cobrir os custos de vida, mas, na realidade, precisa garantir bem mais do que isso. Começando com Thorstein Vebler (1899/2008), os sociólogos descreveram o consumo ostensivo, no qual as pessoas adquirem coisas – como carros caros, óculos de sol e eletrônicos – principalmente para se exibir. Famílias se mudam para vizinhanças mais prósperas não somente por segurança, mas por status. As pessoas compram mais quando estão deprimidas; o dinheiro serve para alterar o humor (Cryder et al., 2008). Devido a essa característica humana, não é de se espantar que aumentos e bônus estimulem a motivação. O que surpreende, no entanto, é o fato de que a renda absoluta (se a pessoa ganha $30.000, $40.000 ou mesmo $100.000 por ano, por exemplo) tem menos importância do que o valor dado na comparação da renda pessoal com a renda de outros na mesma profissão ou ■ vizinhança, ou na comparação com o próprio salário há um ou dois anos. Reduções no salário causam problemas emocionais, não somente financeiros. O sentimento de injustiça é inato e universal, codificado no cérebro humano (Hsu et al., 2008). A consciência desse fato ajuda a explicar algumas das atitudes dos adultos quanto a seus pagamentos. Um estudo longitudinal detalhado com auxiliares de enfermagem que permaneceram ou deixaram seus empregos após o período de um ano observou que respeito, relação com os colegas de trabalho e benefícios para a saúde eram fatores significativos em suas decisões de permanecer ou deixar o emprego, mas não o pagamento (Rosen et al., 2011). Nos Estados Unidos, muitos se incomodam com os salários extremamente altos pagos a executivos. Isso explica por que o slogan “Nós somos os 99 por cento” teve tanto impacto antes da eleição presidencial de 2012. O ressentimento não é só devido aos salários, benefícios e condições de trabalho, mas pelo modo como esses fatores são determinados. Se os trabalhadores têm um papel em como os salários são estabelecidos, eles ficam mais satisfeitos (Choshen-Hillel & Yaniv, 2011). Se os que decidem o nível de salários aparentam ter preferências, principalmente se favores sexuais ou relações familiares tiverem mais valor que o mérito pessoal, os trabalhadores se tornam desmotivados. É parte da natureza humana acreditar que outras pessoas são favorecidas com vantagens desleais. As mulheres reclamam que os homens recebem melhores salários; membros de um grupo étnico se incomodam com a renda ou benefícios recebidos por outro grupo; alguns jovens trabalhadores se incomodam com a senioridade de trabalhadores mais antigos, que reclamam dizendo que os mais jovens são menos dedicados e assim por diante. Isso não significa negar a existência da discriminação. Todas essas reclamações são verídicas, mas também advêm da natureza humana, uma vez que parte da mente humana parece hipersensível a notar desigualdades. Um problema relacionado é que as pessoas preferem se agarrar ao que possuem a se arriscar a perdê-lo por algo melhor (Kahneman, 2011). Essa característica, chamada de aversão ao risco, explica por que idosos que recebem cuidados médicos do governo americano (Medicare) protegem agressivamente esse benefício e receiam que a extensão do mesmo aos jovens possa diminuir o cuidado com eles. Qualquer mudança nas condições de trabalho que beneficie muitas pessoas, mas seja prejudicial a algumas, tende a enfrentar maior resistência pelos poucos prejudicados, enquanto é bem recebida pelos muitos favorecidos. Para entender o desenvolvimento humano, deve-se ir além da renda e considerar também os aspectos generativos do trabalho – e como as pessoas reagiriam se o trabalho generativo fosse algo impossível. O trabalho proporciona uma estrutura para a vida diária, um ambiente para interação humana, uma fonte de status social e de realizações. Além disso, o trabalho vai ao encontro das necessidades relacionadas à generatividade ao permitir que as pessoas: Desenvolvam e utilizem suas habilidades pessoais. ■ ■ ■ ■ Expressem suas energias criativas. Auxiliem e aconselhem colegas de trabalho, como mentor ou amigo. Sustentem a educação e saúde de seus familiares. Contribuam com a comunidade ao prover bens e serviços. recompensas extrínsecas do trabalho Os benefícios tangíveis, geralmente em forma de compensação (por exemplo, salário, plano de saúde, fundo de pensão), que uma pessoa recebe ao realizar um trabalho. recompensas intrínsecas do trabalho As gratificações intangíveis (por exemplo, satisfação profissional, estima, orgulho) que uma pessoa recebe como resultado da realização de um trabalho. Esses fatos ressaltam a distinção entre recompensas extrínsecas do trabalho (as recompensas tangíveis, como salário, seguro de saúde e pensão) e as recompensas intrínsecas do trabalho (as gratificações intangíveis de fazer o trabalho de fato). A generatividade é intrínseca. O poder dessas recompensas pode ser afetado pela idade. Recompensas extrínsecas tendem a ser mais importantes quando adultos jovens têm seus primeiros empregos (Kooij et al., 2011). Depois de alguns anos, em uma mudança desenvolvimental, os “valores intrínsecos ao trabalho – satisfação, relacionamento com os colegas de trabalho e sentimento de participação em uma atividade significativa – se tornam mais importantes conforme o indivíduo vai ficando mais velho” (Sterns & Huyck, 2001, p. 452). O poder das recompensas intrínsecas explica por que empregados mais velhos, em geral, faltam menos ao trabalho, chegam menos atrasados e são mais dedicados a fazer um bom trabalho do que os trabalhadores mais jovens (Landy & Conte, 2007). Eles também têm mais controle sobre o que fazem, assim como sobre quando e como o fazem. A autonomia que geralmente vem com a idade reduz a pressão e aumenta a dedicação. Os empregadores, no entanto, parecem favorecer trabalhadores mais jovens – por pelo menos uma boa razão: trabalhadores mais antigos recebem melhores salários. Considerando custos e benefícios de uma mão de obra mais antiga, os empregadores devem considerar o custo de reciclagens e as vantagens em manter um empregado mais antigo a meio período, ao oferecer uma “ponte” entre trabalho em horário integral e aposentadoria (Kanfer et al., 2013). Sob uma perspectiva de desenvolvimento, isso seria o ideal. As Mudanças no Ambiente de Trabalho As mudanças no trabalho têm claramente afetado, de diversas maneiras, o desenvolvimento adulto. Aqui focamos em apenas três – diversidade entre trabalhadores, mudanças de emprego e horários alternativos. Mudanças bruscas têm ocorrido em quem realiza um trabalho e o que é feito. Isso acontece em qualquer parte. Utilizamos as estatísticas dos Estados Unidos como fonte de exemplo. FIGURA 22.3 Diversidade no Trabalho A mão de obra americana está crescendo para além dos brancos, inclusive de acordo com as estatísticas do Departamento de Trabalho (que exclui alguns trabalhadores mal remunerados). O próximo desafio é as mulheres e pessoas de todos os grupos étnicos trabalharem mais proporcionalmente em diferentes cargos, posições de gerência e ambientes de trabalho. Há 50 anos, a força de trabalho do cidadão americano era 74 por cento masculina e 89 por cento de brancos de origem não hispânica. Em 2012, era 53 por cento masculina e 65 por cento de brancos de origem não hispânica (16 por cento eram hispânicos, 12 por cento eram americanos de origem africana, 5 por cento asiáticos e 2 por cento multirraciais) (veja a Figura 22.3). Os militares também mudaram, de uma porcentagem ínfima de mulheres e minorias em atividade na primeira metade do século XX a 15 por cento de mulheres e 37 por cento de grupos de minorias em 2011 (U.S. Departmentof Defense, 2012). O aumento da diversidade é também aparente entre as ocupações. Por exemplo, em 1960, homens enfermeiros e mulheres oficiais de polícia eram raros, talvez 1 por cento. Agora, 13 por cento do corpo de enfermagem registrado são homens e 9 por cento dos oficiais de polícia são mulheres – ainda uma proporção desigual, mas mesmo assim uma mudança drástica. A discriminação de gênero e etnia obviamente ainda existe – mas bem menos que antes. Tal mudança beneficia milhares de adultos que ficariam desempregados nas décadas passadas, mas também demanda que trabalhadores e empregadores estejam atentos às diferenças que eles não percebiam. Os jovens podem ter uma vantagem porque são mais propensos a aceitar a diversidade – um empregado de 25 anos não se surpreende ao ter uma chefe mulher. Pessoas mais velhas têm a vantagem de sua experiência de vida sensibilizá-las quanto às diferenças étnicas, entre outras. No entanto, até hoje os trabalhadores podem se atrapalhar com palavras e atitudes mal colocadas de pessoas de outros grupos, como o boxe Uma Visão da Ciência a seguir explica. UMA VISÃO DA CIÊNCIA Adaptando a Diversidade Conciliar as diferentes sensibilidades e necessidades de uma mão de obra heterogênea requer mais do que reconsiderar o cardápio da cantina e a escala de feriados. Salas privadas para amamentação, normas de uniforme revisadas, novo projeto do escritório e revisão no gerenciamento podem ser necessários. Exatamente o que se precisa depende da cultura particular dos trabalhadores. Uns ficam satisfeitos com condições que outros rejeitariam. Algumas palavras, políticas, piadas e maneirismos podem parecer apropriados a um grupo, mas hostis a pessoas de outro grupo. Por exemplo, as mulheres se opõem a calendários de pinups sensuais em escritórios de construção civil – algo aceitável para os trabalhadores homens. Pesquisas começaram a explorar microagressões – pequenas coisas que passam despercebidas a uma pessoa, mas que podem ser agressivas a outra (Sue, 2010). Qualquer um que se sente diferente devido a etnia, idade, gênero, orientação sexual, religião ou qualquer outro motivo pode se sentir atingido por microagressões. Por exemplo, um grupo de pesquisadores mostrou que trabalhadores mais velhos tinham tendência a se sentir particularmente atingidos por microagressões no local de trabalho, mas alguns trabalhadores jovens também se sentiam vítimas de microagressões (Chou & Choi, 2011). Comentários sobre “momentos dos idosos” ou ser “daltônico” ou o “sexo frágil” ou “a minoria modelo” podem ser categorizados como agressivos, mesmo que a pessoa que faça esses comentários acredite que eles sejam úteis, não desagradáveis. Empregados e patrões precisam estar atentos não somente a racismo e sexismo, como também a comentários ou ações que possam ser interpretados como tendenciosos. Outra mudança é quanto à estabilidade no trabalho. Hoje em dia os trabalhadores trocam de emprego com mais frequência do que antigamente porque sair do emprego, ser demitido e admitido ocorrem mais frequentemente. Os empregadores constantemente fazem cortes, reorganizam, realocam, terceirizam ou fazem fusões. A lealdade entre patrão e empregado, que 1. 2. 3. 4. uma vez foi tão enaltecida, atualmente parece inusitada. Essa flexibilidade do mercado de trabalho pode aumentar os lucros corporativos, beneficiar o trabalhador e as escolhas dos consumidores. Entretanto, a rotatividade de empregos afeta o desenvolvimento humano, geralmente de forma negativa. Amizades do trabalho são rompidas e os níveis de estresse aumentam com cada mudança. Um estudo mostrou que pessoas que mudavam frequentemente de emprego até os 36 anos eram três vezes mais propensas a ter problemas de saúde aos 42 (Kinnunen et al., 2005). Esse estudo controlava fumo e bebida; se não tivesse havido tal controle, o impacto sobre a saúde provavelmente seria maior. Na medida em que a idade aumenta, perder o emprego se torna cada vez mais estressante, por alguns motivos (Rix, 2011): A senioridade vem acompanhada de maior salário, respeito e conhecimento. Trabalhadores que perdem o emprego que exerceram por anos perdem tais vantagens. Muitas habilidades necessárias ao trabalho hoje em dia não eram ensinadas décadas atrás; portanto, aqueles que procuram emprego, agora que são mais velhos, têm menos chances de ser contratados. A discriminação com respeito à idade é ilegal, mas os trabalhadores acreditam que é bastante difundida. Ainda que não existam, os estereótipos ameaçam trabalhadores na busca por emprego. A realocação reduz a intimidade e a generatividade de longa data. Em uma perspectiva desenvolvimentista, este último fator é crucial. Imagine que você é um adulto em seus 40 anos de idade, que tenha sempre morado em Michigan e sua empresa sai do mercado. Você tenta arranjar emprego, mas ninguém contrata você, em parte porque o desemprego em Michigan está entre os maiores no país. Você se mudaria para Dakota do Norte, onde a taxa de desemprego é apenas de um quarto? Se você estivesse desempregado e com dívidas, e um novo emprego lhe fosse assegurado, talvez você se mudasse. Você deixaria amigos e comunidade, mas pelo menos você teria um pagamento garantido. Mas seu cônjuge e filhos largariam seus empregos, colégios e redes sociais para se mudar com você? Caso não, você perderia todo o seu apoio social; caso eles o fizessem, os gastos com acomodação e alimentação seriam altos, as escolas que frequentariam seriam superlotadas e suas vidas seriam solitárias (pelo menos de início). Para você e para quem acompanhar você, mudar significaria perder intimidade – o que é prejudicial ao desenvolvimento psicossocial. Tais dificuldades são ampliadas para os imigrantes, que constituem 15 por cento da mão de obra adulta dos Estados Unidos e 22 por cento do Canadá. Muitos deles dependem de outros imigrantes para acomodação, trabalho e apoio social (García Coll & Marks, 2012). Esses laços preenchem as necessidades relacionadas à intimidade e à generatividade, mas suas relações com suas famílias de origem e amigos vão se enfraquecendo com a distância; o clima, a alimentação e a linguagem não são reconfortantes. Essas necessidades desenvolvimentistas são ignoradas por muitos donos de empresas e pelos próprios trabalhadores. A necessidade de intimidade e generatividade do adulto se encontra em uma rede social próspera; sem isso, a saúde psicológica e física sofre. Horários de Trabalho O trabalho não segue mais o padrão de carga horária das 9 às 17 horas, de segunda a sexta-feira. Nos Estados Unidos, somente metade dos empregados seguem esse horário tradicional, com a tendência de os pais mais jovens terem um trabalho em turnos fora dos padrões. Especialmente para Empreendedores Suponha que você esteja iniciando um novo negócio. De que forma adultos de meia-idade lhe seriam úteis? Uma variável fundamental para a satisfação profissional é a liberdade que os empregados têm de escolher seus próprios horários. Trabalhadores que fazem horas extras voluntariamente em geral estão satisfeitos, mas aqueles que são obrigados a fazê-las ficam insatisfeitos (Beckers et al., 2008). Isso acontece independentemente do grau de experiência dos trabalhadores, de suas ocupações ou do local em que vivem. Por exemplo, um estudo nacional envolvendo 53.851 enfermeiros de 20 a 59 anos notou que horas extras obrigatórias eram um dos fatores que reduziam a satisfação profissional em todas as coortes (Klaus et al., 2012). De maneira parecida, um estudo com trabalhadores de escritório na China também mostrou que a extensão de horas extras obrigatórias estava relacionada com menor satisfação e pior estado de saúde (Houdmont et al., 2011). Aparentemente, apesar de o trabalho (remunerado ou não) ser satisfatório a todos os adultos, trabalhar por mais tempo e não por escolha própria prejudica os benefícios físicos e psicológicos alcançados. Trabalhar nos fins de semana, especialmente se for compulsório, é difícil, principalmente para relações entre pais e filhos,porque “os ritmos habituais da vida familiar entram em conflito com horários irregulares” (Hook, 2012, p. 631). Alguns países impõem limites ao que os empregadores podem exigir de empregados que têm filhos; isto não acontece nos Estados Unidos (Gornick & Meyers, 2003). Na teoria, o trabalho de meio período e o trabalho autônomo permitem que os adultos regulem exigências conflituosas. Mas a realidade não se atém à teoria. Em muitas nações (exceto na Holanda, onde metade dos trabalhadores trabalha em meio período), o trabalho em meio período é geralmente mal remunerado, e, em muitas nações, benefícios, como plano de saúde ou pensões, valem somente para trabalhadores de período integral. Por isso, se podem escolher, os trabalhadores evitam o trabalho em meio período. Aproximadamente um terço dos casais que têm filhos pequenos e horários de trabalho que fogem aos padrões optam por um dos pais ficar em casa com os filhos enquanto o outro trabalha. As mães, particularmente, procuram reorganizar os horários relacionados à alimentação e ao sono a fim de passar mais tempo com seus filhos (Hook et al., 2012). No entanto, trabalho noturno e outros fora dos padrões, principalmente quando combinados com o excesso de trabalho, podem levar a dificuldades pessoais, relacionais e dificuldades na criação dos filhos (K. D. Davis et al., 2008; H. Liu et al., 2011). Combinando Intimidade e Generatividade Um amplo estudo com adultos canadenses mostrou que aproximadamente metade da variação em suas angústias era relacionada ao emprego (condições de trabalho, apoio no trabalho, ocupação, segurança no emprego) e a outra metade era relacionada a questões familiares (ter filhos menores de 5 anos, apoio em casa) e sentimentos de competência pessoal (Marchand et al., 2012). Para encontrar um equilíbrio ideal, pelo menos três fatores são positivos: renda adequada, horários escolhidos e apoio social. Como um exemplo de vidas conectadas, maridos e esposas geralmente se ajustam às necessidades um do outro, o que permite que obtenham melhor desempenho como um casal do que como solteiros (Abele & Volmer, 2011). Por exemplo, após o casamento, os homens gastam, em média, mais horas trabalhando e as mulheres mais horas em casa. Como resultado, cinco anos após o casamento o salário do homem é significativamente maior que seria se ele fosse solteiro, ao passo que a casa dos dois é notoriamente mais organizada (Kuperberg, 2012). Se têm filhos, os casais ajustam seus trabalhos e seus horários de cuidado dos filhos, geralmente a mãe reduz suas horas de trabalho, mas nem sempre isso acontece – às vezes, o pai tem menos horas de trabalho a cumprir que a mãe. Quando as mães trabalham em tempo integral, geralmente os pais passam mais tempo com os filhos, e as mães são menos responsáveis pelo trabalho doméstico (Abele & Volmer, 2011). Se perder o emprego é uma ameaça, ambos os pais se preparam para a mudança no ritmo de vida (Sweet & Moen, 2012). Esses ajustes reduzem a depressão no adulto, principalmente nas mulheres. Talvez homens, mulheres e crianças estejam em uma situação melhor que antigamente, com a renda familiar de duas fontes, horários variáveis e tudo o que a vida moderna oferece. Há variadas maneiras de reorganizar a vida familiar para que a mesma funcione como uma unidade (Bianchi & Milkie, 2010). Ao mesmo tempo, muitos casais se sentem sobrecarregados com as demandas simultâneas relacionadas à paternidade/maternidade e ao emprego. Muitas vezes eles adiam ter filhos, algumas vezes a mãe encontra um emprego antes do que esperava ou está mais comprometida com o emprego do que desejaria. Isso varia de acordo com o país, com políticas governamentais relacionadas à licença-maternidade, à assistência à criança e à assistência médica, o que acaba influenciando as decisões que as pessoas tomam (Lyonette et al., 2011; Nieuwenhuis et al., 2012). Em geral, se os adultos administram melhor ou pior suas vidas com as condições econômicas e normas sociais da atualidade é algo questionável. Diversidade, mudança de emprego e horários flexíveis trazem vantagens, mas há sempre um custo. O trabalho dos pais tende mais a beneficiar a família do que a prejudicá-la, mas as crianças ainda precisam da atenção – então elas sofrem as consequências se o pai ou a mãe não tem tempo para elas. Considerando que a personalidade é duradoura e variável, opiniões acerca do desenvolvimento adulto atual refletem tanto personalidades quanto pesquisas objetivas. Alguns são otimistas – com altos níveis de extroversão e amabilidade – e tendem a acreditar que a adultez é melhor agora do que antigamente. Outros são pessimistas – com altos níveis de neuroticismo e baixos em abertura – e tendem a pensar que a vida adulta era melhor antes do aumento de coabitação, LATs (casais que vivem separadamente), divórcio e estresse econômico, quando a maioria dos casais era tradicionalmente casada, tinha filhos, e as mães ficavam em casa para cuidar das crianças enquanto os pais trabalhavam das 9 às 17 horas em um emprego que sustentava a família. >> Resposta para Empreendedores: Como empregados e como consumidores. Trabalhadores de meia-idade são firmes, costumam faltar pouco, possuem boas “habilidades pessoais” e gostam de trabalhar. Além disso, o rendimento familiar tende a ser maior em torno dos 50 anos de idade do que em qualquer outra fase da vida; portanto, os adultos de meia-idade provavelmente serão capazes de comprar/contratar seus produtos ou serviços. Os dados confirmam as duas perspectivas – o suicídio é menos comum que antigamente, por exemplo, mas a pobreza tem crescido. De uma perspectiva desenvolvimentista, fica claro que intimidade e generatividade continuam a ser importantes. Todo adulto se beneficia tendo amigos e família por perto, cuidados, e um trabalho satisfatório. Se a combinação satisfatória é mais fácil ou mais difícil atualmente é algo questionável. Como os próximos três capítulos detalham, há muitas perspectivas possíveis na vida nas fases mais posteriores da vida adulta também. Alguns veem os últimos anos de vida como um horror, outros os consideram anos dourados. Nenhuma das visões é precisa, como será visto em breve. RESUMINDO Adultos empenham-se para satisfazer as necessidades relativas à generatividade, primeiramente através da criação dos filhos, do cuidado com o próximo e sendo produtivos como membros da sociedade. A parentalidade é sempre gratificante, independentemente de como ocorre, seja criando seus próprios filhos, tornando-se padrasto ou madrasta, seja sendo pais adotivos que enfrentam grandes desafios. O cuidado com o próximo é generativo, com cada adulto cuidando de outro membro da família. A maioria dos adultos ainda sustenta seus filhos depois de crescidos, emocional e financeiramente, e membros familiares de todas as gerações mantêm conexões uns com os outros. Apesar do termo “geração sanduíche”, a maior parte dos adultos de meia-idade não precisa fornecer ajuda a seus pais que estão envelhecendo. Idealmente, o trabalho contribui para a generatividade por meio da produtividade e das redes de convívio sociais. Diversidade e flexibilidade caracterizam o atual mercado de trabalho. Muitos pais e mães jovens trabalham em horários variáveis, o que interrompe a vida familiar tradicional. Muitos pais buscam conciliar a criação dos filhos e o trabalho, com resultados de sucesso variáveis. ■ RESUMO O Desenvolvimento da Personalidade na Adultez 1. A personalidade dos adultos se mantém estável, e a crise de meia-idade é mais um mito que uma realidade, mais um reflexo da coorte que uma experiência universal. No entanto, alguns indivíduos passam por mudanças notáveis, e muitos amadurecem, como descrevem Erikson e Maslow. 2. Os grandes traços de personalidade – abertura, escrupulosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo – são geralmente estáveis em cada indivíduo no decorrer das décadas da adultez, à medida que cada pessoa escolhe seu próprio nicho ecológico. A cultura e o contexto em que vivem afetam a todos,e os ânimos tendem a se acalmar com a chegada da maturidade. Intimidade: Família e Amigos 3. Todo adulto tem profundas necessidades por intimidade, que são preenchidas por meio do apoio social e de companhias à medida que o tempo passa. Amigos e estranhos consequentes são parte do comboio social que ajudam os adultos a percorrer seus caminhos na vida. 4. A companhia da família continua sendo importante no decorrer de toda a adultez como uma fonte de apoio social, principalmente entre pais e filhos e entre irmãos. A relevância dos parentes na vida de uma pessoa depende da história, dos valores culturais e da situação atual que a pessoa está vivenciando. 5. Os membros de uma família têm vidas conectadas, continuando a afetar um ao outro à medida que envelhecem. Nos Estados Unidos, eles são menos propensos a viver juntos do que em outros países e nações, mas membros da família costumam apoiar mutuamente uns aos outros, tanto emocional quanto financeiramente. Irmãos se reaproximam com o passar dos anos da adultez, e filhos adultos e seus pais continuam a se ajudar em termos emocionais e práticos. Intimidade: Parceiros Amorosos 6. O casamento tem ocorrido mais tarde que antigamente, mas a maioria dos adultos ainda quer ter um parceiro (do mesmo sexo ou do sexo oposto) com quem dividir a vida. A felicidade no casamento geralmente diminui depois da fase da lua de mel, mas melhora com o tempo, principalmente depois que os filhos estão criados. 7. O divórcio é difícil para ambas as partes envolvidas, assim como para os membros da família, não só de imediato como também nos anos que precedem e subsequentes ao acontecimento. Conforme se torna mais frequente, o divórcio também fica menos destruidor. 8. Novo casamento é comum, principalmente para os homens, e resolve alguns problemas (sobretudo financeiros e íntimos) que muitos adultos divorciados vivenciam – mas casar-se novamente é complicado e pode resultar em um novo divórcio. Generatividade 9. Adultos procuram se sentir generativos, realizados, bem-sucedidos, instrumentalizados – todas as palavras usadas para descrever a necessidade psicológica primordial por generatividade. Essa necessidade é satisfeita por meio de trabalho criativo, do cuidado com o próximo e do emprego. 10. Cuidar do parceiro, dos pais, dos filhos e de outras pessoas é a principal expressão da generatividade. Muitas vezes um membro da família se torna o principal cuidador de um familiar, por escolha própria. 11. A paternidade/maternidade é uma expressão normal do cuidado com o próximo. Mesmo crianças desejadas e planejadas constantemente desafiam seus pais; os filhos do cônjuge, filhos de criação e filhos adotivos são fonte maior de estresse. Os adultos costumam considerar esse aspecto da criação recompensador e desafiador ao mesmo tempo. 12. Muitos adultos têm uma preocupação maior com certos membros adultos de sua família. O cuidado geralmente é das primeiras gerações para as gerações mais novas. A metáfora da “geração sanduíche” é uma ilusão. 13. O emprego traz muitos benefícios aos adultos, principalmente benefícios intrínsecos, como orgulho e amizade. As mudanças nos padrões de trabalho – incluindo mudança de emprego, trabalho por turno e a diversidade de colegas de trabalho – podem afetar outros aspectos do desenvolvimento adulto. 14. Combinar horário de trabalho, necessidade de cuidados e necessidade de intimidade não é fácil, e as consequências são variadas. Alguns adultos se beneficiam da diversidade do emprego; outros acreditam que esses novos padrões de trabalho afetam o bem-estar familiar. TERMOS-CHAVE Cinco Fatores comboio social crise de meia-idade estranhos consequentes generatividade versus estagnação geração sanduíche guardião nicho ecológico ninho vazio parentes fictícios recompensas extrínsecas do trabalho recompensas intrínsecas do trabalho O QUE VOCÊ APRENDEU? 1. Descreva as duas necessidades básicas da vida adulta, de acordo com Erikson. 2. Como a crise de meia-idade pode refletir mais a coorte que as mudanças de amadurecimento? 3. Como cada um dos Cinco Grandes Fatores da personalidade influencia a escolha de um adulto com relação ao trabalho, parceiros e vizinhanças? 4. Explique o conceito de comboio social. 5. Que papel têm os amigos na vida de uma pessoa? 6. Quais são as diferenças entre amigos e estranhos consequentes? 7. Qual é, em geral, a relação entre os filhos adultos e seus pais? Que fatos podem explicar essa relação? 8. O que geralmente acontece com a relação entre irmãos no curso da adultez? 9. Por que as pessoas têm parentes fictícios? 10. Que necessidades têm os parceiros de longa data? 11. Como e por que a felicidade matrimonial do início do casamento muda com o passar dos anos? 12. Qual é a evidência de que atitudes políticas e culturais relacionadas a parceiros do mesmo sexo estão mudando? 13. Quais são geralmente as consequências do divórcio? 14. Muitas pessoas se separam e voltam a se relacionar novamente, mas a felicidade pode não durar. Por que isso acontece? 15. Qual é a ideia básica de generatividade? 16. De que forma a maternidade/paternidade satisfaz as necessidades do adulto de ser generativo? 17. Que fatores podem tornar difícil o estreitamento de laços entre pais e filhos adotivos? 18. Como cada um dos Cinco Grandes Fatores da personalidade tornam mais fácil ou mais difícil o desenvolvimento de relacionamentos com filhos adotivos? 19. Que vantagens os pais adotivos têm, se comparados com os tutores ou padrastos/madrastas? 20. As mulheres geralmente são guardiãs e cuidam mais de seus parentes que os homens. Como esses papéis são ao mesmo tempo uma dádiva e um fardo? 21. Por que adultos de meia-idade são às vezes chamados de “geração sanduíche”? Por que essa metáfora pode criar uma falsa impressão? 22. Quais são alguns dos valores intrínsecos e extrínsecos do trabalho? 23. Quais são as vantagens da maior diversidade étnica no trabalho? 24. Liste quatro motivos por que a mudança de emprego é estressante. 25. Que inovações nos horários de trabalho têm ajudado às famílias? Que mudanças as têm prejudicado? 26. Por que pode haver homens e mulheres mais felizes que antigamente com os padrões de trabalho? APLICAÇÕES 1. Descreva um relacionamento em que você saiba que uma pessoa de meia-idade e outra mais jovem tenham aprendido uma com a outra. 2. A situação conjugal ou profissional de seus pais afetou você? O que você teria feito se eles tivessem escolhido seguir outros padrões de casamento ou de trabalho? 3. Imagine você se tornar um pai adotivo ou tutor. O que você vê como benefícios e custos pessoais? 4. Pergunte a algumas pessoas como a vida pessoal delas se modificou na última década. A pesquisa mostra que as mudanças geralmente são insignificantes. Foi isso que você identificou? BIOSSOCIAL Envelhecimento Conforme o corpo vai envelhecendo, tanto os órgãos internos quanto os externos vão dando sinais. O cérebro diminui o ritmo; a pele fica mais enrugada; os sentidos se tornam menos agudos; os pulmões reduzem sua capacidade. O corpo muda de forma, havendo acúmulo de gordura e redução da força muscular. O Sistema Reprodutor Durante a adultez, a capacidade de resposta sexual e o potencial reprodutivo se reduzem. As mulheres vivenciam uma queda brusca dos níveis de estrogênio na menopausa, o que impede que a ovulação ocorra; os homens vivenciam um declínio mais gradual dos níveis de testosterona, o que torna a paternidade menos provável, mas não impossível, nos anos mais tardios da adultez. Hábitos de Saúde e Idade O ato de fumar cigarros está decaindo na América do Norte, mas em outras nações o mesmo não pode ser observado. O abuso de álcool, a obesidade e o sedentarismo já são reconhecidos como problemas, mas a maioria dos adultos acredita ser difícil a reversão desses hábitos. Avaliando a Saúde Há muitas maneiras de avaliar a saúde, seja ao calcular a mortalidade, a morbidade, as incapacidades ou a vitalidade. Em geral, a saúde depende, em parte, da hereditariedade, mas os hábitosdiários têm grande importância. COGNITIVO O que É a Inteligência? Pesquisadores descreveram a inteligência adulta de diversas formas, observando que algumas habilidades intelectuais crescem com a idade enquanto outras decrescem. Uma pesquisa longitudinal mostra que há o aumento de inteligência no decorrer dos anos da adultez, enquanto uma pesquisa transversal vê um declínio. Com o passar do tempo, a inteligência líquida decai e a inteligência cristalizada (especialmente o vocabulário) aumenta. A inteligência prática, principalmente relacionada à compreensão social, é gradativamente necessária durante os altos e baixos da vida. Perdas e Ganhos Seletivos A compensação seletiva atrelada à otimização é visível durante a adultez, conforme as pessoas vão se especializando nas áreas de sua escolha. Em geral, as pessoas são mais intuitivas, automáticas, estratégicas e flexíveis quando lidam com problemas na área em que são especialistas. PSICOSSOCIAL O Desenvolvimento da Personalidade na Adultez As teorias mais importantes do desenvolvimento adulto mostram que as pessoas mantêm seus traços de personalidade, porém há algumas mudanças. Por exemplo, as pessoas se tornam mais conscientes e menos neuróticas com a idade. Os Cinco Grandes Fatores de personalidade refletem a cultura e são reforçados pelo estilo de vida e nicho ecológico escolhido por cada pessoa. Intimidade: Família e Amigos Os adultos dependem de seus amigos e familiares. Eles geralmente encontram bons amigos e têm relações gratificantes com seus filhos adultos e com seus pais que estão envelhecendo. Entretanto, tais relações sociais nem sempre são gratificantes. Divórcio e separação são comuns e difíceis para todos os envolvidos. Os adultos dependem bastante de seus parceiros, mantendo relacionamentos plenos com eles, sejam do mesmo sexo ou do sexo oposto. Generatividade Cuidar do próximo é tão prazeroso quanto uma obrigação da adultez. Muitos adultos investem tempo e dinheiro na criação dos filhos. O dever filial é forte, com alguns adultos prestando cuidados a outros membros da família. No entanto, o conceito de geração sanduíche é mais um mito do que uma realidade, e o apoio intergeracional é, em geral, mútuo. Gerações mais velhas usualmente fornecem sustento financeiro e emocional às gerações mais novas. O trabalho é satisfatório para muitos adultos, não obstante algumas tendências, como trabalho em turnos e mudança de emprego, afetarem o desenvolvimento psicossocial ideal.