Prévia do material em texto
Ordem dos Frades Menores Capuchinhos Venerável Servo de Deus Frei Daniel de Samarate (1876-1924) “A Glória do Clero Paraense” 2020 Breve Histórico Roma, 23 de março de 2017 – Daniel de Samarate (1876-1924), Sacerdote, Missionário, Leproso. A Ordem se enriquece com um novo Venerável. Dia 23 de março de 2017, o Papa Francisco autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a emitir o decreto super Virtutibus de Daniel de Samarate, sacerdote, missionário e leproso, membro da Província de São Carlos na Lombardia. Felice Rossini nasceu em San Macario, porção do município de Samarate (Diocese de Milão), em 15 de junho de 1876. Em 14 de janeiro de 1890, aos quatorze anos incompletos, ingressou no seminário dos capuchinhos de Sovere (Bérgamo). Ao entrar no noviciado no convento de Lovere (Bérgamo), foi-lhe dado o nome de Fr. Daniel de Samarate e, em 24 de junho de 1892, emitiu a primeira profissão. O encontro com Fr. Rinaldo de Paullo, assassinado no massacre de Alto Alegre, no Brasil, em 13 de março de 1901, marcou Fr. Daniel pelo ardor que o missionário testemunhava, razão que o impulsionou a pedir para partir, com outros confrades, para a missão do Nordeste do Brasil, confiada em 1892 aos capuchinhos da Lombardia. O território vastíssimo compreendia os Estados do Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, com a perspectiva de abrir-se também para o Estado do Amazonas. Recebido o crucifixo missionário na igreja do Sagrado Coração em Milão, em 8 de agosto de 1898 embarcou para a missão do Brasil, aonde chegou em 30 de agosto. Destinado a Canindé, em 2 de outubro de 1898 foi ordenado diácono e, em 19 de março de 1899, sacerdote. Designado para a Colônia Santo Antônio do Prata, no Estado do Pará, aí permaneceu até janeiro de 1913, desempenhando os encargos de professor, diretor, ecônomo, superior da fraternidade. Não é possível estabelecer com precisão o tempo e o modo como contraiu a lepra, talvez em 1908, ministrando os últimos sacramentos a uma idosa enferma. De volta à Itália para se tratar em 1909, teve a possibilidade de fazer uma passagem pelo santuário mariano de Lourdes. Não foi curado, mas obteve uma graça- confirmação espiritual de que sua doença teria sido para maior glória a Deus. Após os ineficazes tratamentos italianos, retornou ao Brasil em dezembro de 1909, retomando sua atividade missionária, pastoral e educativa. Em 1913, deixou definitivamente a Colônia de Santo Antônio do Prata e, em 27 de abril de 1914, foi acompanhado para sua nova residência, ao leprosário de Tucunduba, um ambiente difícil, marcado pela miséria e pelo abandono, esquecido em nível social, médico e espiritual. Por dez anos, exerceu um apostolado intenso e frutuoso, conseguindo transformar o lazareto, de lugar de maldição e pecado, em lugar de bênção e virtude. Um mártir de paciência e caridade! Enquanto a doença o consumia, Fr. Daniel agradecia ao Senhor por este dom, segundo ele, semelhante ao da ordenação sacerdotal. Sua frequente expressão “Deo gratias” se condensou em uma fórmula que cunhou para louvar o Senhor: “A Deus louvado”, por tudo o que faz. No dia 25 de março de 1924, Fr. Daniel celebrou seu 25º aniversário de ordenação sacerdotal e, em 9 de maio seguinte, recebeu os sacramentos in articulo mortis. Após dez dias de lucidez, de oração, de total abandono no Pai misericordioso e de espera sem nenhum temor do chamado e recompensa de Deus, às 14h30 de 19 de maio de 1924, adormeceu sereno no Senhor. Fr. Daniel soube compor sobre suas chagas abertas um canto de gratidão e de reconhecimento ao Pai que está nos céus: A Deus louvado! Frei Daniel de Samarate "Encontrava-me a Lourdes... no momento solene, quando o Bispo que presidia... levantou o Ostensório e enquanto fazia o sinal da cruz para abençoar-me... os meus lábios abriram-se instintivamente: "Domine, si vis, potes me mundare...". Uma voz interior, misteriosa e bem sensível ao meu coração, respondeu: "Não quero... vá em paz, receberás outra graça... a tua doença será ad maiorem Dei gloriam, e para o maior teu bem espiritual". Desde aquele momento encontrei-me completamente transformado: um senso de indizível conformidade, acompanhado duma infinita felicidade e alegria, invadiu a minha mente, o meu coração, todo o meu ser...". (Diário: 20-21 de agosto 1909) A Partida é Autobiografica O próprio Frei Daniel se apresenta assim no início do Album Missarum (registro de missas) sob o título: Notanda et memoranda (coisas a serem anotadas e lembradas): "Nasci no dia 15 de junho de 1876 e fui batizado no dia 16 de junho de 1876. No dia 14 de janeiro de 1890 entrei no convento dos capuchinhos no seminário menor de Sovere (Bergamo). No dia 23 de junho de 1891 fui admitido ao noviciado no convento de Lovere e no dia 24 de junho de 1892 no mesmo convento fiz a profissão dos votos simples nas mãos do Revmo. P. Leão de Briosco, meu Mestre. No convento de Brescia no dia 02 de julho de 1896 professei solenemente nas mãos do M.R.P. João Antônio de Brescia, Guardião. No mesmo ano, no dia 19 de dezembro, das mãos do Eminentíssimo Cardeal André Ferrari recebi a tonsura e as quatro Ordens Menores na capela subterrânea dedicada a São Carlos Borromeu na Catedral de Milão. No dia 18 de setembro de 1897 do mesmo Prelado recebia do subdiaconato no Santuário de Rho, Milão. No dia 08 de agosto de 1898 parti de Milão para o Brasil como missionário apostólico e no dia 30 do mesmo mês cheguei ao Pará, de onde fui destinado a Canindê (Ceará) lá chegando no dia 22 de setembro de 1898. No dia 02 de outubro fui ordenado Diácono por D. Joaquim José Vieira, Bispo do Ceará, no Santuário de S. Francisco, Canindé. No dia 19 de março de 1899 fui ordenado Sacerdote pelo mesmo Prelado na Catedral de Fortaleza e celebrei a minha Primeira Missa no dia 25 do mesmo mês no Santuário de S. Francisco em Canindé. No dia 22 de janeiro de 1900 fui destinado à Colônia de Santo Antônio do Prata (Pará) onde permaneci por quase 14 anos, período no qual fui contagiado pela doença que me obrigou a viver isolado. No dia 31 janeiro de 1913 deixei o Prata para residir no Anil, São Luís do Maranhão. Em dezembro regressei ao Pará e no dia 27 de abril de 1914 me internei no Retiro São Francisco perto do asilo dos leprosos do Tucunduba". Até aqui ele mesmo num sintético resumo autobiográfico que certamente redigiu - mão segura e nítida - nos primeiros tempos de sua voluntária reclusão no Leprosário do Tucunduba. Estranho lugar para lembrar e resumir a própria vida e Frei Daniel, - 37-38 anos - sem forçar os sentimentos, anota as principais passagens. Agora Vamos Adiante Por Nós Mesmos... É natural que nos deixaremos também conduzir pela admiração e pela maravilha. Como poderíamos ser somente cronistas impassíveis perante esse DOM do Altíssimo, o "NOSSO BAMBU", a nossa escada para o Céu, segura e de fácil acesso?... Para nos introduzir vamos nos servir da síntese pictórica que a habilidade geniosa de um artista pernambucano, Rogério Martins, expressou por meio de seus pincéis. Frei Daniel, "religioso missionário capuchinho" como ele ama definir-se, é representado com o corpo soferente, no ato de apoiar-se numa grande cruz, a qual, bem fincada na terra atravessa o Brasil de ponta a ponta, indo perder-se na infinidade do céu. Como o bambu!... Frei Daniel, feito gigante pelo sofrimento, alcança-a e, tocando-a com a mão enfaixada, faz com que a cruz já por si mesma luminosa, brilhe ainda mais de luz e calor, enquanto o verde e as cores das flores envoltas no lenho em forma de espiral, explodem com maior vivacidade e beleza... A silhueta geográfica do Brasil, atravessada longitudinalmente pela Cruz, recobre visivelmente o corpo de Frei Daniel, o qual com a outra mão colocada sobre o peito, parece apropriar-se da nação que aos 22 anos de idade se tornara querida para sempre ao seu coração. Naturalmente, o quadro com a força e o vigor das cores que vão do azul coruscanteao vermelho vivo e ao branco incandescente do céu. é sem dúvida alguma mais bonito e significativo do que a descrição que fizemos. mas o que tentamos escrever é suficiente para começarmos a entrar com sumo respeito no coração dessa autêntica obra-prima de Deus que é Frei Daniel Rossini de Samarate. Com aquela maravilha e admiração de que temos falado... “Um Resultado Verdadeiramente Feliz” FREI DANIEL nasce no dia 15 de junho de 1876 em San Macario de Samarate numa casa de camponeses pobres, mas profundamente cristãos. (Casa a qual nasceu Frei Daniel) Seus pais - Pasquale (Pascoal) Rossini e Giovanna (Joana) Paccioretti - levam-no logo à fonte batismal e dão-lhe o nome de Félix. Seus conterrâneos lembram-se dele como de um menino alegre, vivaz, brilhante, um pouco irrequieto, mas com tendência forte para a reflexão, para a oração e para o diligente serviço na igreja como coroinha. Por isso ninguém se maravilha quando na sua vila corre voz que Félix, com 14 anos de idade, quer entrar como aspirante no convento dos Frades Capuchinhos. O Pároco apresenta-o aos Superiores dos Frades com uma carta que poderíamos chamar profética. "...Pela conduta exemplar e piedosa - escreve - faço-me responsável eu também, pois há muito tempo estou experimentando o jovenzinho (...) Desejoso de entrar na Ordem religiosa, conseguirá no decorrer do tempo um resultado verdadeiramente feliz, e dará motivo de consolações aos Superiores e à Ordem inteira...”. Está claro como o sol que no sacerdote é intencional o uso do adjetivo "feliz" unido à palavra "resultado". O aspirante-frade chama-se: Félix!... Os Capuchinhos o aceitam e no momento da vestição no Noviciado, como era costume naquela época, dão-lhe um nome novo. De Félix passa a se chamar: Frei Daniel de Samarate. Um nome vale tanto quanto outro, e a escolha do nome pelo Padre Mestre não é premeditada; seria inútil, portanto, querer insistir sobre coincidências bíblicas para preanunciar valores que emergirão sucessivamente na sua pessoa e não necessariamente pelo fato de chamar-se Daniel "homem dos desejos" (cfr. Dn 10, 13). Ao nosso espírito, porém, faz bem pensar que a imposição desse nome no momento da liturgia da Vestição: "De agora em diante te chamarás Frei Daniel de Samarate" não se apagou absolutamente com a morte do titular! Este nome de forma alguma desapareceu, mas depois de tantos anos continua a ser usado e, "invocado" por uma multidão sempre mais numerosa de pessoas que o assumiram para celebrar e fazer chegar ao céu uma liturgia de intercessão!...Este nome se tomou tão precioso que até a cidade de Samarate é objeto de interesse e veneração. Conhecemos mães brasileiras que deram a seus filhos esse nome, chamando-os com a maior naturalidade "De Samarate". Interessante, não é?... Enquanto Frei Daniel dá esses primeiros passos na Ordem dos Capuchinos, é bom para nós prepararmos a etapa sucessiva, aquela que o leva ao Brasil. Para sempre!... E interessante conhecer aqui seu pensamento acerca da vocação missionária que já enche seu coração e dá asas a seu espírito. Ao Padre Provincial, em outubro de 1898, logo após ter chegado ao Brasil, escreve assim: "Devo agradecer-lhe de coração ter-me incluído entre os Missionários... Realmente ser Missionário é uma graça singular, é dom especial da Divina Bondade: isso em razão do bem imenso que se faz a si mesmo e aos outros..."Sentimentos que prenunciam, por já contê-la em síntese, a gloriosa sinfonia do "A Deus louvado"!... Desde 1898 É Missionário No Brasil Os primeiros anos da vida religiosa de Frei Daniel na Ordem decorrem alegremente e no ano de 1896, com a idade de 20 anos, já é professo solene; estuda Teologia com proveito cultivando no seu coração grandes ideais: a Missão, por exemplo!... Passaram-se somente poucos anos desde a abertura da nova Missão capuchinha nas matas do Norte e Nordeste do Brasil e os frades lombardos que partem, praticamente são sempre os primeiros. Frei Daniel com o ardor de seu jovem espírito pede para ser enviado. Os Superiores aceitam seu pedido e assim no dia 08 de agosto de 1898 - não é ainda sacerdote parte para o Brasil na companhia de outros frades jovens cheios de entusiasmo como ele... Acompanha-os nessa longa viagem o Superior Regular, Frei Reinaldo Panigada de Paullo, que tinha vindo à Itália de propósito para procurar reforços. Este grande missionário será um dos Mártires de Alto Alegre: somente três anos depois!... Ah, quanto é bonita e dura e exaltante a aventura missionária!... Em setembro Frei Daniel chega ao Nordeste e, destinado à cidade de Canindé (Ceará), continua com fervor o estudo da Teologia empenhando- se de corpo e alma para aprender a língua portuguesa a fim de entregar-se totalmente ao serviço do novo povo. No dia 19 de março de 1898, dia comemorativo de São José, Frei Daniel é ordenado sacerdote e alguns dias depois - exatamente no dia 25 do mesmo mês, festa da Anunciação - celebra sua primeira missa no Santuário de São Francisco das Chagas em Canindé. O Leitor procure lembrar-se deste particular, pois o retornaremos na emoção das últimas páginas. No início do século - 22 de fevereiro de 1900 - ele é transferido para a Colônia Agrícola de Santo Antônio do Prata, no Pará, como Diretor dos meninos indígenas que habitavam naquele Colégio. A este primeiro e específico trabalho entrega-se com todo o ardor organizando com carinho e inteligência a vida das crianças: o amor de Cristo ferve em suas veias de jovem missionário!... No entanto, alguns acontecimentos relevantes e muito tristes para a Missão estão se preparando. Acontecerão dentro em breve para pôr à prova o desempenho, a coragem e as virtudes humanas e cristãs de Frei Daniel!... No dia 13 de março, de fato, nas primeiras horas do amanhecer acontece uma tragédia horripilante: quatro frades, sete freiras também capuchinhas, de duzentos e cinqüenta a trezentos fiéis cristãos são massacrados cruelmente pela fúria homicida de um grupo de índios Guajajaras que não toleravam as normas disciplinares introduzidas pelos missionários e tinham fechado há tempo os olhos à santa novidade do Evangelho. Frei Carlos Roveda de S. Martino Olearo, glorioso Fundador da Missão, venerando Superior Regular em ato, solícito Superior da Colônia do Prata, onde há poucos meses presta seu serviço também o Frei Daniel, não agüenta a dor atroz. Em face dessa hecatombe e dos cadáveres insepultos, horrivelmente deformados pela ação rápida e impiedosa do tempo e das feras, Frei Carlos sofre uma queda física e moral, perdendo irremediavelmente a memória e a capacidade de ação, de modo que toda a administração da Colônia Agrícola de Santo Antônio do Prata recai improvisamente sobre os ombros do jovem missionário Frei Daniel: tem 25 anos de idade!... Este do Prata é um capítulo muito importante na vida de Frei Daniel. São treze anos ininterruptos de apostolado santo, de realizações sociais que deixam sem fôlego... Tudo isso com uma força que lhe vinha da forte convinção de ter sido enviado pelo Bom Deus em pessoa. Ele, ele mesmo, para anunciar o Evangelho, para ser o pai de todos aqueles colonos, de todos aqueles índios no meio daquelas florestas... Este aspecto da vida de Frei Daniel passou decididamente em segunda linha: preferiu-se pensá-lo hanseniano fechado no horror do Tucunduba, em lugar de missionário entregue a toda atividade... Mas também neste apostolado "aberto" ele demostrou-se grande, excelso e fez bem Frei Camilo Micheli em chamálo no seu livro: Gigante do Prata!... Por 13 anos consecutivos Frei Daníel foi missionário no verdadeiro sentido da palavra e assim nesse impulso, nunca deixou de sê-lo nem sequer entre os muros do Leprosário. Por 13 anos consecutivos cuidou dos índios, dos filhos deles, de modo especial. Não temos muita certeza, mas por aquilo que sabemos nos parece poder afirmar que Frei Daniel viveu com os Índios mais do que todos os outros missionários,ao menos continuadamente. Por isso, para celebrar também o "Pai dos Índios" dirigimo-nos mais uma vez ao nosso artista - Rogério Martins - pedindo-lhe que fixasse nas cores também esse aspecto da vida de Frei Daniel. Preferimos deixá-lo livre: o Leitor pode ver o resultado. Frei Daniel é captado como hábil disponível timoneiro que conduz os habitantes da selva para o esplendor da Cruz. É uma "visão" quefaz ecoar antigas profecias e as realiza dentro do contexto exuberante da Natureza incontaminada a ser consagrada a Cristo... Emerge a Cruz - luminosissima - das águas e o barco principal se dirige decididamente em direção àquele clarão intenso que incendeia a floresta e declara fortemente uma Presença. O verde acompanha o fluir das águas e é pensado mais como um túnel do que uma parede a céu aberto. É por isso que a Cruz é tão incendescente e não perde absolutamente seu esplendor com o crescer do dia. Frei Daniel é visto como o timoneiro santo e poderoso que transporta almas e corpos. È ele o intermediário indispensável: os índios do outro barco não vão diretamente em direção à Luz; querem ser acompanhados pelo gigante bom que está na proa... Assim aconteceu por 13 anos consecutivos! ... "A Deus louvado" por esse serviço santo! ... Planos da Providência! Programas de um Deus que em tempos longos sabe realizar milagres de eficiência, não obstante o espantoso imperversar da maldade humana... É aqui, nestes tempos tristíssimos, humanamente falando, que começa a despontar forte e vigoroso o "NOSSO BAMBU"!... Terão de passar anos - outros longos anos! - para que possa levantar-se até lá no Alto, mas os começos que marcam uma presença, registram-se aqui, nesta Colônia, neste dificílimo primeiro ano do novo século! Logo depois, com o mérito da santa obediência, Frei Daniel é nomeado também Superior da Colônia, reunindo assim toda a responsabilidade na sua pessoa... Quantas viagens de ida e volta para Belém, a Capital, a fim de obter recursos governamentais indispensáveis para a manutenção da Colônia!... Quantas recusas e adiamentos!... Quantos mal-humores a serem acalmados por causa do dinheiro que não era liberado!... Quantos "jeitinhos" encontrados para enfrentar e resolver todas essas dificuldades!... Onde? Quando? Como? Por Que? Durante esses anos - 1900-1913 - de trabalho incessante, de empenho no sociale de apostolado admirável, acontece aquele impacto decisivo que mudará completamente o curso da vida do nosso brilhante Diretor da Colônia Agrícola surgida no meio da mata virgem para evangelizar e civilizar os índios. E bom pararmos um momento: um pouco de reflexão e necessária… Como? Quando? Onde mais exatamente? Por que? Todas perguntas às quais nunca saberemos responder. Os Biógrafos que nos precederam, narram unânimes um episódio ocorrido lá no intricado da floresta, no contato com uma doente grave. Lá num casebre pobre, miserável, confortando e absolvendo uma enferma… Nós não estamos em condição nem de confirmar, nem de desmentir: não possuímos referências históricas precisas. Frei Camilo Micheli de Borno - nosso glorioso veterano, com oitenta anos e em ótima saúde - teve nas mãos uma carta - pensem quanto preciosa, agora! - na qual Frei Daniel narrava a um amigo ou ao seu Superior sobre o insurgir da doença, mas naqueles seus primeiros anos de missionário não lhe deu algum valor, aliás - é ele mesmo que o confessa - vendo ao pé da página que o escritor era Frei Daniel, apressou-se em guardá-la (cinqüenta e mais anos atrás o medo do contági era grande) e agora, depois de muito tempo, não lembra mais nada…Algumas palavras e nada mais... É pena!... De seguro conhecemos somente quanto Frei Daniel nos entrega na sua pequena autobiografia que coloca como introdução ao livrinho onde anota as suas Santas Missas e já se encontra na casinha do Tucunduba. "No dia 22 de janeiro de 1900 - escreve - fui destinado à Colônia de Santo Antônio do Prata (Pará), aí permanecendo por quase quatorze anos, onde peguei a doença que me obrigou a viver isolado ... ". É no Prata, portanto; é aí onde "chega a hora" de FreiDaniel! Chega e basta! Não serve outra coisa! As palavras - todas humanas são incapazes de levantar ainda que um pouco esse véu que se tomará cortina espessa, e "rasgar-se-á em duas partes, de alto a baixo" (cfr. Mc 14,38) somente muitos anos depois... Frei Daniel começa em 1909 a manifestar perplexidade em relação a alguns estranhos incômodos que enfraquecem seu corpo, antes tão forte e vigoroso. São dados que o Leitor poderá captar facilmente: há algo latente, ainda no estado embrional, mas está aí, bem enraizado, circula impunemente: o tratamento médico é inútil, as viagens também, e Frei Daniel passa de uma esperança para outra que pontualmente se apagam porque "devem" se apagar!... De 1909 a 1924 (ano de sua morte) os anos são quinze e quinze anos são longos, intermináveis; são uma eternidade, ao menos para nós... Nesse espaço de tempo - precioso, muito precioso - realiza-se "quanto a mão e a sabedoria de Deus haviam predeterminado" (At 4,28) e realiza-se justamente porque o Servo Daniel se coloca em total disposição, aceita e colabora, aliás, mais tarde - no entanto o bambu vai crescendo! - chegará a falar em "prêmio", louvando e bendizendo e agradecendo continuamente ao Bom Deus ao longo de todos esses anos! No entanto o bambu - o "nosso" - vai crescendo dentro deste milagre-mistério insondável e estrepitoso que transcende, como natural, os nossos respeitáveis raciocínios e luminosamente documenta a presença constante de Deus na história dos homens... E nós estamos aqui ainda, não obstante tenham passado tantos anos: 70-80, estamos aqui com os olhos escancarados e a mão sobre a boca para falar desse prodígio. Mas estaríamos aqui de verdade se não tivesse acontecido aquele impacto atroz naquele longínquo e desconhecido dia, dentro ou fora da imensa floresta, curvado ou não sobre aquele irmão ou aquela irmã doente no último estágio? E todos aqueles pobres que, escolhendo-o entre mil, invocaram Frei Daniel e continuam a invocálo porque o julgam santo, teriam feito isso? Continuariam ainda a fazê-lo? Aceitamos o projeto do Altíssimo Onipotente com aquele silêncio que nasce da maravilha e da admiração. É dentro dessa atmosfera rarefeita que as Almas de Deus sentem crescer a erva nos campos!... Nós poderíamos ao menos sentir crescer o "nosso bambu"!... Atividade Febril e Santa Conformidade Voltemos à Colônia do Prata, sem anteciparmos tempos e acontecimentos. No Prata, não obstante ameaças e agitações que parecem aumentar sobretudo depois do lembrado massacre de Alto Alegre (MA), a vida continua tranqüila numa paz aceitável. Frei Daniel - Superior e Administrador - consegue realizar em favor dos índios e dos colonos obras de eficiência e de ampla projeção. Causa admiração ver o trabalho realizado por este jovem frade sempre em movimento pelo bem dos outros a fim de obter em favor deles condições de vida mais dignas; onerado com papeladas administrativas e com contabilidade a ser mantida em dia; angustiado pela insolvência do Governo que não cumpre com suas promessas e aperreado pelos clamores dos operários que reclamam sua devida retribuição. Frei Daniel consegue fazer frente a tudo e a todos com aquela humildade e paciência, com aquele amor e espírito de serviço incomuns. (Observa-se Frei Daniel no canto esquerdo da fotografia) Ele consegue financiamentos e subvenções tais que lhe permitem instalar no meio da floresta a linha de ferro - cerca de dezessete quilômetros de ferrovia com pontes e aterros! -, até mesmo o telefone e, sempre por seu intermédio, no céu límpido como podia estar naquela época, consegue mandar levantar duas Igrejas estupendas: a de Santo Antônio, espaçosa, arquitetonicamente perfeita, adornada de torre e sinos: e a de Santo Isidoro, pequena fascinante joia artística em meio aos campos cultivados e substraídosà floresta. Mas esse tão intenso fervor de vida e de iniciativas não tira nem anula aquela inquietação, aquela suspeita, aqueles estranhos «reumatismos», que não o largam nem mesmo com os diversos tratamentos. Infatigavelmente Frei Daniel continua a trabalhar sem se poupar, mas duvida e duvidando aceita, predispõe-se a acolher o plano de Deus! sempre providencial! sempre para o bem e para a vida! Os médicos sugerem-lhe vários medicamentos na esperança de vencerem ou ao menos de delimitarem uma doença que não ousam declarar abertamente. Os Superiores, seguindo o conselho dos médicos, mandam-no para a Itália e assim no dia 05 de agosto de 1900 Frei Daniel embarca no navio rumo à sua Terra natal. O navio chega só até Portugal, e ele de trem pode alcançar Lurdes! E a Virgem Santíssima o Traz de Volta ao Brasil Esta etapa a Lurdes no Santuário da Virgem dos Pireneus é decisiva na vida de Frei Daniel. Ele vai até lá, permanece naquele Santuário com fé intensa, não descuidando de nada, dividido entre a esperança de conseguir recuperar a saúde e o "instinto" que é próprio de todas as grandes almas, de não seguir em direção contrária à vontade de Deus, custe o que custar… Ele pede com insistência a mediação da Mãe Celeste, Mãe de todos os missionários, para que o ilumine e lhe dê o conforto necessário. Frei Daniel narrará tantas vezes desse impacto com o sagrado e o prodigioso de Lurdes... Fala desse acontecimento com acentos de comoção seja no Diário, seja quando se encontra face a face com as pessoas que o circundam. Nós mesmos encontramos muitas delas que transmitem de pais para filhos esse acontecimento captado dos próprios lábios de Frei Daniel, e repetem emocionados aquele "Nunca, nunca!" que ele teria escutado da Virgem em pessoa: "não ficarás curado, não; não ficarás curado! Regressa: receberás outra graça..." Assim com esta "voz" no coração, retorna a viagem e chega finalmente à Itália: está ausente desde 1898! Revê seu vilarejo, abraça seus parentes; seus pais, infelizmente, já haviam falecido. Deixa-se levar pela emoção enquanto celebra a missa em sufrágio deles. Os médicos de Milão pedem que vá a Roma para consultar uma celebridade no campo da dermatologia - tal de Prof. Campana -, mas também o especialista não consegue dar uma resposta satisfatória. Em todo caso, tem a possibilidade de, ao menos, visitar a Cidade Eterna, de entusiasmar-se diante dos testemunhos da fé dos primeiros cristãos, os das Catacumbas e de ser recebido por bem duas vezes pelo Papa Pio X, ao qual implora uma bênção especial em favor de sua Missão. Vendo, pois, que os medicamentos italianos servem tanto quanto aqueles brasileiros, isto é, para nada, Frei Daniel resolve voltar ao calor de seu povo e de seu Brasil, disposto a dar-se completamente em jovial e contínua obediência ao mandato de Cristo que escutara de novo através da voz maternal de Maria na cidade santa de Lurdes... E não somente em Lurdes escutara essa "voz" maternal... O Leitor encontrará registradas no livrinho de 1909 outras paradas devotas e piedosas nos Santuários de Pompei, de Loreto, de Casalmaggiore, de Casalpusterlengo: Santuários marianos aos quais ele se dirige para pedir a Nossa Senhora confirmação e sustento. E ainda mais. Da viva voz de uma velhinha em contemplação diante do quadro de Frei Daniel em Belém, soubemos deste outro episódio inédito, desconhecido a todos os seus biógrafos. Percorrendo a Itália do Norte ao Sul naquele período, Frei Daniel com a habitual devoção entrou num santuário - não sabemos bem se foi em Orvieto ou Lanciano - onde são conservados vestígios concretos do Mistério da Eucaristia, Corpo e Sangue de Cristo. Ele se ajoelhou e orou mais uma vez pela sua saúde, porém ouviu a costumeira voz interior responder-lhe: "Frei Daniel, não queres sofrer?". A velhinha, exaltando-se na voz, referia-nos que Frei Daniel sem titubear levantou-se e respondeu prontamente: "Quero!" e saiu logo da igreja sem pedir outra explicação. O Primeiro Adeus: Doloroso! Com muito prazer ele retorna, portanto, ao seu campo de trabalho; regressa para a sua Colônia, mesmo se não habita mais no centro por medo de contagiar seus numerosos meninos. Retira-se no vizinho Santo Isidoro de onde orienta tudo por meio do telefone, o famoso telefone. Os meninos não entendem o motivo dessa escolha e - narrava-nos outra velhinha - todas as tardes iam visitá-lo (a distância é mais ou menos um quilômetro), chamavam-no gritando a plenos pulmões: Frei Daniel, Frei Daniel, e ele, sorrindo, vinha à janela, saudava, às vezes lançava balinhas, mas não descia, não ia brincar com elas como antes. O dinamismo da Colônia continua incessante, a vida não pára, nem diminui a produção. Pena que a doença assuma proporções sempre maiores, já transparecendo claramente em seu rosto tão meigo e volitivo. Não pode mais permanecer lá. Depois de treze anos, chega o momento de ter de deixar definitivamente o Prata! O Leitor no dia 31 de janeiro do ano do Senhor de 1913 - uma sexta-feira - pode ler: "Finalmente depois de 13 anos deixei o Prata!! Deus queira perdoar as muitas faltas que lá cometti e levar em conta o pouco de bem que tencionei fazer". Pense o Leitor naquele "Finalmente" que aqui quer dizer somente uma coisa: tudo acabou... terminei... Dê o justo valor àqueles dois pontos de exclamação. Por enquanto são o máximo de sua maravilha e de sua capacidade de sofrer. Mais adiante no Tucunduba, chegará a colocar três desses pontos exclamativos e estará pronto, de adeus em adeus a entrar na pátria definitiva!... Os Superiores o transferem para o Maranhão, em São Luís, na esperança de que lhe seja propício o clima menos quente e mais seco. Ele, obediente como sempre, vai, trabalha com toda a dedicação e o entusiasmo que o distinguem. A nova experiência dura, porém, somente um período de oito meses e ei-lo de novo a caminho rumo ao Pará com o destino já determinado. Um malogrado incidente - veja no Diário no dia 27 de julho de 1913 revela-o abertamente aos outros por aquilo que é: leproso! em mais nenhuma dúvida! Diagnóstico glacialmente claro e preciso!... E obrigado a retirar-se do convívio dos sãos. Não há mais de forma alguma lugar para ele! Tiveram paciência e fingiram até por demais tempo de que nada houvesse... No entanto cresce o "nosso Bambu"! Oh, como se toma robusto e forte! Os adeuses e as rupturas narrados nestas páginas, assinalam com marcas de fogo a vida de Frei Daniel... São a marca indelével que o uniram à sorte dos Pobres e dos Sofredores marginalizados... São a passagem de primeira classe que o colocaram nos trilhos privilegiados por onde pode transitar somente quem é capaz de beber do Cálice de Cristo, que acabou na Cruz... O Adeus Definitivo: Dolorosíssimo! Assim, acompanhado por um co-irmão atencioso, volta para Belém. No convento - acolhido "como Deus quis" -permanece isolado por alguns meses e depois, livremente, com santa resolução e espírito de serviço, decide entrar no Leprosário do Tucunduba... Antes de ir sepultar-se para sempre, beija os muros e as portas do convento com emoção impetuosa, chorando lágrimas copiosas... Escreve Frei Roberto de Castellanza - Superior Regular de então e alguns anos depois Bispo de Grajaú - nos "Annali Francescani" (1922-53, p. 395): "Parece-me ainda vê-lo, ouvi-lo beijar os muros de seu convento quando pelos médicos foi decidido seu afastamento. Ele ia exclamando: "Oh! muros santos! Vocês me libertaram de tantos perigos e agora com o coração rompido tenho de abandoná-los..." e caíam-lhe abudantes lágrimas dos olhos...". O Leitor no dia 27 de abril do ano do Senhor de 1914 - uma segundafeira! pode conhecer até a hora daquela tarde em que se encaminhou mestamente para o Leprosário: "Às 5 horas da tarde deixei (Oh! meu Deus quanto soffri) o meu convento para vir habitar neste retiro". Escreve Sta. Teresa d'Ávila: "Deus trata seus amigos de maneira terrível".Estamos dando-nos conta disso! Ressoa lancinante dentro de nós aquela exclamação dele de autêntica dor, enquanto idealmente procuramos caminhar em sua companhia rumo ao "lugar solitário". E oxalá tivesse sido só solitário! Acompanham-no duas pessoas: um frade - Frei Inácio -e um leigo tal Mestre Antônio -, um mestre-de-obras italiano daqueles belos tempos da Colônia do Prata. E os demais? Todos os demais: frades e não?... É necessário beber o Cálice até o fim: Jesus estava tremendamente só no Getsêmane! Dia 27 de abril de 1914, 5 horas de tarde! É o fim daquela vida cheia de entusiasmo: muito povo, muitos projetos, grande exuberância febril! É o fim!... Naquela tarde de abril inicia uma vida totalmente diferente. Ele está caminhando em direção a ela e somente dois companheiros o sustentam no primeiro impacto! De agora em diante o grande missionário de atividades fecundas; capaz de oporse a governadores e funcionários morosos, obrigando-os com sua paciência e tenacidade a pagar para o bem de seus pobres; o missionário que amava imensamente viajar, ver as coisas belas e boas espalhadas pela Criação; o nosso Frei Daniel, de agora em diante, viverá internado, recluso numa nova vida feita de sofrimento e de morte progressiva e tudo isso durará dez longos anos: de 27 de abril a 19 de maio de 1924, dia de sua morte!... A Rejeição Continua...Também Lá Dentro! Frei Daniel entra no Leprosário com uma enorme vontade de se oferecer aos seus irmãos, pronto a se deixar consumir pela dor física e moral para manter acesa uma luz de esperança num lugar de horror. Vai no meio deles. Diz-lhes como toda a disponibilidade de seu espírito: eis-me aqui, mas - quem poderia imaginá-lo? - os "Irmãos cristãos" (San Francisco de Assis assim chamava os doentes leprosos) não o querem, surpreendentemente não o querem!... Armam logo contra ele uma forte oposição, terra queimada criam em tomo dele, nem sequer para assistir os moribundos o chamam! Uma provação na provação: muito dura porque não prevista! "Pensava ser recebido - confia amargurado numa carta a um co-irmão - com demonstrações de carinho... Que desilusão! Fui recebido como um inimigo, um intrometido que vem só para mudar as coisas, para observar seus defeitos e assim castigá-los abertamente, sem misericórdia...". Pobre de Frei Daniel, reduzido a um mesquinho intrometido! Ele, o homem brilhante, o homem das idéias generosas e abertas, capaz de fazer frente a Governadores e altos Funcionários!... Deve ter sido terrível! Do Diário não transparece nada: não nos é possível acompanhar esse martírio refinado. Parece tenha durado oito meses até à noite santa de Natal. Um tremendo noviciado de indizível amargura... Mas ele permanece, saboreia o Cálice até a borra, e fica! Os Superiores lhe tinham apresentado uma perspectiva bem mais cômoda e tranqüila num hospital em Pernambuco como Capelão... Ele fica e mantém-se firme! Recusado, rejeitado, caluniado até por aqueles que já considera "seus"... fica e mantém-se firme!... Com aquela paciência que exclui toda retorsão, Frei Daniel realiza verdadeiramente aquela página "Da verdadeira e perfeita alegria" como somente Francisco de Assis poderia imaginar (Cfr. "Escritos de São Francisco" Petrópolis 1988, p. 174). "Vai-te embora"... aquele tríplice "Vai-te embora" da narrativa brotada da fantasia fervente do Pobrezinho, rico de Cristo, ressoa de verdade longamente no ar infecto do Tucunduba dirigido contra Frei Daniel! Ressoa e enriquece seu sofrimento espiritual que o põe decididamente debaixo da Cruz de Cristo numa atitude privilegiada de colaborador. A alegria - alegria perfeita - de Frei Daniel que enche todas estas páginas começando pelo título que escolhemos: A DEUS LOUVADO, inicia a "explodir" aqui nestes meses de duro "treinamento", aqui toma corpo aos poucos o "nosso bambu". Frei Daniel, a imensidão do céu, a alcança e a conquista assim! Oh, Noite Santa...Santo Natal de 1914... Devagarinho, devagarinho, porém, alguns dos mais sensíveis entre os "Irmãos em Cristo", começam a demonstrar-lhe um pouco de estima e até de afeto; pouco a pouco começam a chamá-lo para os casos mais graves... Finalmente se dão conta - se não todos, pelo menos a maioria - de que Frei Daniel, doente como eles, é um amigo sincero, não é um espião, não... E desponta resplandecente de luz o NATAL de 1914! Santo Natal! "Estoura" o milagre! À noite! Durante a Missa do galo!... Luzes, cânticos, poesia do presépio preparado por mãos inseguras, ardor do Celebrante que jamais tinha deixado de acreditar na bondade dos seus "Irmãos"... Frei Daniel recorda no Diário - 25 de dezembro de 1914: "Celebrei Missa de meia noite no hospicio dos Lazaros, muito concorrida. Fiz sermão". Frei Daniel sente-se transportado de repente ao céu. Parece-lhe escutar a melodia dos Anjos e são seus próprios "Irmãos em Cristo" que lhe fazem degustar a doçura, a plenitude, a riqueza, a alegria, o contentamento desta vinda do Cristo... Oh, como se sente bem Frei Daniel neste céu do Tucunduba!... A partir desse dia tudo se torna mais fácil: seu ministério sacerdotal, sua catequese diária durante a Quaresma, seu correr àcabeceira dos moribundos, seu atarefar-se também no social. Mais ainda: haverá um período de forte insatisfação no hospício durante o qual os "Irmãos em Cristo" reclamarão em alta voz Frei Daniel como administrador!... Ele não aceita, é claro, não pode aceitar: quer somente ser o sacerdote, o capelão do espírito, porém é bonito sublinhar esse pormenor, tendo presente aquele longo período de obstinada rejeição. Infelizmente uma irredutível minoria - reduzida, acirrada continuará a mover-lhe guerra, insultando-o sistematicamente, chegando até a caluniá-lo. O Leitor veja por exemplo quanto escreve no dia 19 de março e especialmente no dia 04 de setembro de 1921 e já faz seis anos desde sua entrada no Leprosário! Maria da Penha: O Anjo do Tucunduba "Apareceu-Lhe um anjo do céu que o confortava..." (Lc 22, 43). A esta altura partimos do Evangelho, partimos do Getsêmane de sangue de Jesus para entrarmos com extrema tristeza e pudor no Getsêmane de Frei Daniel. O Leitor pese estas palavras e se deixe envolver na preciosidade de tão grande padecer! Frei Daniel também fala de um Anjo... Quem è esse Anjo? É um Anjo no feminino. Chama-se: MARIA da PENHA. É uma ex-aluna do colégio de Santo Antônio do Prata, uma órfã que cresce à sombra das Irmãs e de Frei Daniel naqueles tempos gloriosos. Agora acompanhou até no enclausuramento do Tucunduba seu professor de outrora e se pôs ao seu serviço com uma dedicação e uma fidelidade que despertam comoção e ternura. É ela o Anjo que para poder permanecer tranqüilamente na casinha do leproso Frei Daniel, sem suscitar com o passar do tempo boatos e comentários, resolve até se casar com um doente. O Frei se opõe a esse matrimônio. É realmente demais! Como poderia aceitar? E assim sofre porque pode perder o seu Anjo consolador.. Maria, porém, é irremovível e se casa com Humberto, o "Irmão em Cristo" Humberto! É fácil escrever tudo isso, mas para fazê-lo era necessário ter coragem e amor fora do comum... É santamente justo pararmos um momento diante da figura desta jovem brasileira que consome sua vida cuidando de dois doentes: Frei Daniel e Humberto que se toma seu marido justamente porque ela quer continuar a viver no leprosário, pois não quer sair do Getsêmane de Frei Daniel! Honra e glória ao mérito! Faz bem ao coração louvar e enaltecer Maria da Penha. O heroismo não chega somente de longe, encarnado por um jovem missionário italiano; encontra-se radicado e bem plantado, estupendamente florido também na Terra de Santa Cruz, no grande e imenso Brasil!... Estes dois heroísmos se fundem maravilhosamente para farjar criaturas extraordinárias. Naturalmente, somos nós que falamos de heroísmo: para os protagonistasdesta história maravilhosa tudo aquilo era somente normal administração! Maria da Penha depois da morte de Frei Daniel viverá sempre com profunda saudade de seu frade chagado. As chagas dele - dizia a todos com insistência - não fediam, exalavam um perfume que por certo sentia somente ela, visto que o confessor de Frei Daniel escreve impiedosarnente a outro co-irmão: "O Rev. Frei Daniel é um saco de carne podre"! Maria da Penha viverá sempre lembrando-se dele enquanto trata, assiste e conforta até às últimas o marido Humberto: são palavras de seus filhos nascidos no Leprosário perfeitamente sãos. Maria da Penha sempre se lembrará de Frei Daniel como sacerdote. Dizia-nos emocionada uma Irmã Capuchinha que teve a sorte e a graça de ter Maria como catequista e de vê-la morrer santamente; dizia-nos que Maria explicava os Sacramentos servindo-se particularmente das lembranças de sua vida lá no Tucunduba e quando devia falar da Eucaristia, da Santa Missa, não conseguia conter as lágrimas pela emoção, narrando como ela mesma nos últimos anos ajudava manualmente Frei Daniel a celebrar a Santa Missa. Como ele não podia mais erguer o cálice, por causa da ausência do tato - típico nos doentes - não conseguia manuseá-lo, assim como não conseguia partir a hóstia, ela o auxiliava: apertava as mãos chagadas do frade em tomo do cálice para que pudesse erguê-lo no momento da Elevação e manobrava as suas mãos gangrenosas para que pudesse partir a hóstia no momento da comunhão... Naturalmente fazia tudo isso sem usar luvas, protegida e imunizada unicamente pela sua grande fé em Deus... Quantos Pequenos “Irmãos Em Cristo” Naqueles Tempos... Um capítulo à parte o merecem os muitos meninos que eram hóspedes, junto com Frei Daniel, do terrível e tetro leprosário. Meninos e meninas, já marcados visivelmente pela doença, abandonados de todos, parentes incluídos, e sepultados aí inexoravelmente... A eles dirigiu-se de maneira especial o coração de Frei Daniel. Como nos tempos dedicados e gloriosos da Colônia do Prata... Sua atividade melhor era para eles. A eles dava com todo o prazer aulas de catequese, sobretudo durante a quaresma; preparava-os para a primeira comunhão e para a crisma, ensinavalhes a cantar, ele que tinha uma voz tão bonita... Temos uma fotografia de 1920: seus pequenos amigos que eram a sua consolação e o seu apoio moral. Chora o coração em observá-los atentamente: não há um sequer que sorria. Estão aí todos tristes - todos! - vestidos pobremente e de pés descalços. O mesmo Frei Daniel, sentado no meio deles em atitude composta, parece participar daquela tristeza. São muitos! No Diário lemos cifras que oscilam entre os 40 e os 60: muitos, se pensarmos que toda a população do Lazareto não superava as 300 pessoas nas épocas de maior ajuntamento! Dom Adolfo Bossi, Bispo missionário em repouso na Itália, lembra ter encontrado no Leprosário do Tucunduba alguns desses meninos do tempo de Frei Daniel e já corriam os anos de 1935-1940! Nós mesmos em Marituba - lazareto surgido recentemente em substituição daquele do Tucunduba - falamos com Noemi, figura maravilhosa de mulher, já além dos oitenta, literalmente comida pela doença, obrigada a arrastar-se de qualquer jeito porque já sem pernas e com coutos em lugar das mãos. “Reconheço Que Deus Me Fez Um Favor” Façamos uma pausa e demos a palavra a Frei Daniel em pessoa. É salutar, chegados a estas alturas, fixar satisfeitos o olhar no caminho já percorrido e escutar um trecho da carta que no dia 02 de fevereiro de 1916 ele escreve ao Padre Geral. "Permita que o último de seus filhos, da solidão do retiro em que vive, venha beijar sua sagrada mão e implorar sua pastoral bênção no início do novo ano. Todos os meus companheiros costumam neste período escrever-lhe longas e interessantes cartas cheias de tantas fadigas apostólicas e de abundantes frutos colhidos no sagrado ministério; e eu ao contrário envio-lhe a presente absolutamente vazia de todo porque como o senhor já deve saber, vivo separado e isolado do convívio dos meus co-irmãos em conseqüência da doença que Deus quis me dar. Todos os dias porém, agradeço a Deus a graça que me fez, pois reconheço que me fez um favor especial. Nem me faltaram até agora consolações espirituais tais que jamais teria acreditado ter. Exerço a função de Capelão, (por caridade, unicamente porque o governo não se interessa de nada) no hospital dos doentes onde vivem reclusos 180 e mais infelizes atingidos pelo horrível mal, a maior parte dos quais em condições que espertam horror e repugnância. Celebro a Missa de vez em quando, assisto os moribundos; desde o ano passado abri uma escola de catecismo para os meninos (são uns 50) ..." A carta continua. Aqui há muito a ser ressaltado e será o próprio Leitor a fazê- lo: já deveria estar em condição de saborear sozinho as coisas santas de Frei Daniel. A doença dele é uma graça! É um favor especial; um prêmio, sempre acrescentamos nós, certos de estarmos em sintonia com o pensamento agradecido de Frei Daniel. Difícil entender unicamente com os critérios de nossa inteligência. E o Leitor nos deixe acrescentar mais uma coisa. A nós parece podermos captar uma substancial diferença nessas duas expressões referidas no trecho. A primeira: "Em conseqüência da doença que Deus quis me dar". A segunda: " ... 180 e mais infelizes atingidos pelo horrível mal ... ". Nesta última lemos como uma espécie de fatalidade, um acidente de percurso, uma telha que cai na cabeça e é claro que ninguém esperava isso. Aconteceu, diz o nosso povo: aconteceu, acontece ... Na primeira, ao contrário, percebe-se vívida uma escolha, um ato preciso de vontade, um plano a ser realizado por meio da doença que, portanto, não é nem feia nem desperta horror ou repugnância; é uma entrega, neste caso, aceitável, bem aceitável, pois vem de Deus. Fica assim explicado porque brotam espontâneas da caneta de Frei Daniel palavras como Graça e Favor especial. A vida no Leprosário continua com altos e baixos, com insatisfações e revoltas, com fatos dolorosos e cruentos, com pequenos e grandes estremecimentos, com muita pena e muito pouca alegria e Frei Daniel, por nada preocupado com a doença que avança inexoravelmente, exerce atento e vigilante seu serviço religioso com profundo espírito agradecido. A prima Irmã Felícita, missionária em Belém como Frei Daniel e presente a sua morte, escrevendo à mãe - (15-06-1924) - para-lhe dar a triste notícia, lembra comovida: "Ele possuía no seu ânimo paz e tranqüilidade e no meio das dores ainda dizia que a lepra que Deus lhe tinha dado a considerava uma graça semelhante àquela da Ordenação Sacerdotal ... ". A vida no Leprosário continua; o Diário de Frei Daniel a narra para nós, enquanto ele vive sua vocação. agradecendo sob o olhar satisfeito do Bom Deus que de vez em quando se deleita em modelar semelhantes obras- primas... Por sorte nossa!... “Da Hora Sexta a Hora Nona...” A hora final e cruenta do Calvário está para bater! Estamos no final da cena com os Protagonistas no cume de seu sofrer! O Diário terminou já faz tempo: Frei Daniel não pode mais escrever...Com dificuldade dá poucos passos no seu "Retiro São Francisco". Largou há tempo seu ministério ativo. Está aí jogado como Jó num leito de dores, ou melhor, está aí pregado na Cruz porque está para bater "a hora nona"! É o momento de sua perfeita conformidade a Cristo Crucificado! Quem pode verdadeiramente dizer o que se passou nesses meses cruciais no coração apaixonado de Frei Daniel?... Ninguém! Só Deus poderia, mas Ele em via normal não costuma dar a conhecer a todos aquilo que vai operando nas suas almas prediletas... Certamente que naquela casinha de madeira tão pequena e tão preciosa foi escrito a quatro mãos - duas chagadas e contorcidas, mais duas transpassadas com pregos - foi escritoum capítulo estupendo da História da Salvação que ainda não parou de atuar!... Frei Daniel bebe até à última gota o cálice amargo da Paixão redentora. Em todos esses anos deu provas - sustentado pela Graça - de poder beber o cálice de Jesus (cfr. Mt 20, 22). Agora é o momento da "esponja de vinagre num ramo de hissopo" (cfr. Jo 19, 29-30). É necessário tomar também o vinagre, como Jesus, abandonado nas mãos do Pai. Os co-irmãos capuchinhos do convento, os "Irmãos em Cristo", a admirável Maria da Penha não o abandonam, mas a Cruz é sua!, o drama do Sofrimento é seu! É seu até o "tudo está consumado" que pronuncia junto com Jesus! Nas mãos do Pai! Frei Daniel ainda consegue celebrar a Missa dos seus 25 anos de Sacerdócio: com enorme esforço, voz rouca, mãos incapazes de segurar o cálice e de erguê-lo, mas louvando e agradecendo a Deus que o "premiou", (o verbo é dele!) com a lepra. Oh, como era feliz! Como era doente naquele "grande dia"!... Recebe o Viático e as palavras que balbucia penosamente resumem toda a sua vida: está acontecendo o grande encontro, face a face, com Aquele ao Qual serviu desde sua tenra idade... As testemunhas oculares nos transmitiram relatórios desses últimos instantes de Frei Daniel. Lendo-os não conseguimos permanecer inertes ou indiferentes. Intui-se que aqueles momentos irrepetíveis pertencem exclusivamente aos grandes homens que fizeram sua opção radical por Deus... Aquelas palavras balbuciadas, aparentemente desconexas entre si, são ao contrário costuradas por dentro com duplo fio num diálogo completo e fluente que a alma está tendo, como dona, com Deus... Pouca coisa transparece dos membros do corpo que está prestes a ser abandonado, e é mais para quem assiste atônito e compungido do que para o titular daquele grande espírito. E, inclinando a cabeça, entrega o espírito... Chega o dia da morte... Chega o dia do nascimento definitivo para o Céu dos Colaboradores... Chega o momento feliz da entrada na Glória… Sua Missão esta cumprida: começa sua missão! Sim, o Leproso Frei Daniel Rossini de Samarate, o de Respiro do Filho que mais uma vez se imola no Pai, começa Frei Hermes Recanati de Spirano, pouco antes de morrer, narrava-nos que quando Maria da Penha - indo com ele visitar os doentes - lhe contava amplamente sobre a santa morte de Frei Daniel, sempre demorava num detalhe muito interessante para nós, a saber: no momento exato da partida levantou-se em vôo da casinha uma multidão de aves de toda espécie: foram e voltaram por várias vezes, batendo as asas e cantando com tal insistência que atraiu a atenção de todos os presentes. Procuramos confirmações - escritas ou orais - desse detalhe maravilhoso. Não as temos encontrado, mas todos sempre nos spondiam: a fonte - Frei Hermes, no caso - è respeitável, merece plena credibilidade... E nós a concedemos a ele com todo o prazer, pois lemos no "Tratado dos milagres" (IV, 32) de Thomas de Celano o que se segue: "As cotovias, amigas da luz do dia e medrosas das sombras do crepúsculo, naquela tarde em que São Francisco passou do mundo para Cristo, embora já tivesse iniciado o crepúsculo, pousaram-se sobre o teto da casa e garriram longamente, rodeando em torno. Não sabemos se quiseram do jeito demonstrar a alegria ou a tristeza cantando. Elas cantavam um alegre pranto e uma alegria dolorosa..." A aproximação é por si mesma muito eloqüente é sublime até! Fala sozinha... O Dia 19 de Maio Será Sempre Lembrado O corpo de Frei Daniel é sepultado com toda a pressa, como mandavam as leis, mas no enterro havia numeroso povo: os pobres e os doentes, sobretudo, acorreram em multidão. É o dia 19 de maio de 1924: um dia qualquer, sem importância no calendário dos homens, mas quanta alegria, quanta festa, quanto júbilo nos Altos dos Céus! O "bambu" chegou até lá em cima! Começa a estar disponível o "nosso bambu"!.. A lembrança de Frei Daniel continua viva - nunca se apagou de fato - e também agora, não obstante os setenta anos desde sua morte, ele consegue alcançar do Bom Deus graças e favores muito mais que o renomado e experimentado Sto. Antônio!... Chegamos a conferir o número de plaquinhas por graças alcançadas na nossa igreja de Belém do Pará: Frei Daniel, confinado num corredor que dá acesso à portaria do convento, sendo que ainda não é o tempo de colocá-lo num altar, está cercado por um número bem maior de placas "POR GRAÇA ALCANÇADA" do que aquelas colocadas no altar do taumaturgo de Pádua. Isto acontece porque o povo simples, os pobres, os humildes do Evangelho e da Terra não deixam Frei Daniel tranqüilo. Detêm-se longamente em oração diante de seu quadro no corredor mencionado. Os frades o colocaram aí para evitar que fossem feitas manifestações índevidas de culto a quem ainda não foi declarado digno das honras dos altares, porém os pobres já o colocaram há muito tempo no altar e se dirigem a ele como se já fosse um santo, un grande Santo... "Vox populi, vox Dei", reza desde sempre a sabedoria popular: Voz do povo, voz de Deus... Assim, finalmente, também nós Frades Capuchinhos, co-irmãos de Frei Daniel, despertamo-nos do longo sono da indiferença e da inconsideração e começamos seriamente a pensar que tinha chegado o momento de pedir ao Bispo de Belém e ao Vaticano, em Roma, o "nada obsta" para iniciar os processos sistemáticos e canônicos com o objetivo de documentar suas virtudes heróicas. E assim foi. Na década dos anos '80 foi escolhido um frade como Vice-Postulador e D. Alberto Gaudêncio Ramos, antes, e D. Vicente Joaquim Zico, depois, Arcebispos de Belém. do Pará, encaminharam o pedido a Roma para que se pudesse começar a desenvolver o Processo de Beatificação de Frei Daniel. Em 1991 chegou da Sagrada Congregação para a causa dos Santos a suspirada permissão e assim, mesmo muito lentamente, a grande "máquina" do processo foi posta em movimento e está funcionando. Cabe aqui recordar, porque é digna de ser sublinhada, a instalação oficial do Tribunal Eclesiástico que julgará "in loco" a heroicidade das virtudes de Frei Daniel. Aconteceu na inesquecível noite de 16 de agosto de 1992, depois da Solene Celebração Eucarística na esplêndida Catedral de Belém presidida por D. Vicente Joaquim Zico. Na sua homilia o Prelado teve para Frei Daniel palavras cheias de profundo significado, exaltando-o como: grande missionário - grande sofredor - glória do clero paraense. Esta última definição foi a que comoveu os missionários presentes, sobre os quais -por mais esforços façam- sempre pesa o "pecado original" de serem estrangeiros, incapazes, por isso, constitucionalmente de assumirem e de compreenderem uma cultura diferente da deles. Frei Daniel, ao contrário, não é mais um estrangeiro: é uma glória do clero paraense porque agora é o Servo de Deus que se fez tudo para todos. A "máquina" do processo dissemos - pôs-se em movimento, mas o "caminho" está sendo percorrido com extrema lentidão; as paradas, às vezes, são desconcertantes. As dificuldades são tantas e os homens de Igreja, aqui no Brasil, são de verdade muito poucos. Devem fazer diversas coisas ao mesmo tempo e acontece que todas ou quase marquem vistosamente o passo. Acrescente-se que o próprio processo se apresenta anômalo e cheio de problemas. Por exemplo: ao presente, excluída uma Irmã centenária, não vive mais ninguém dos que o conheceram pessoalmente. Podemos juntar somente testemunhos de segunda mão. São muito interessantes, claro - o Leitor terá captado alguns deles no decorrer destas páginas - mas são repetitivos e correm o risco de documentarem muito pouco. Fica para nós último recurso - o trabalho de arquivo; é o que estamos levando adiante e só Deus sabe quanto é árduo e pouco proveitoso... Em compensação - não sabemos se nos alegrar ou nos entristecer - existem, continuam infelizmente existindo numerosos "Irmãoscristãos"! São eles os nossos Amigos e sustentadores. Eles os "torcedores" mais afervorados. Eles que nos solicitam continuamente e nos obrigam a agir. São eles que querem Frei Daniel santo: comprova isso o interesse que sempre nos garantem todas as vezes que vamos até eles em nome deste nosso e deles "Irmão cristão" maior! VENERÁVEL SERVO DE DEUS FREI DANIEL DE SAMARATE 1876- 1924 Missionário Capuchinho no Brasil - Leproso "Credo" que o doente Frei Daniel e os seus irmãos leprosos rezavam com voz alta cada manhã, também nós possamos orar com eles, pedindo a Deus através a intercessão de frei Daniel a ajuda para viver na alegria. Eu sou filho de Deus Deus habita em mim Posso ser o que desejo porque Deus é meu auxílio Nunca me canso porque Deus é minha força Nunca estou doente porque Deus é minha saúde Nunca me falta cousa alguma porque Deus é meu suprimento Pois eu sou filho de Deus estou unido à Divina Presença de meu Pai Eu sou feliz em tudo que empreendo, pois meu saber e meus conhecimentos aumentam cada vez mais em mim. Amém. Referências: www.ofmcap.org/pt (ordo fratrum minorum capuccinorum) http://www.padredanieledasamarate.it/ http://www.ofmcap.org/pt http://www.padredanieledasamarate.it/