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Venerável Servo de Deus Frei Daniel de Samarate

Biografia breve de Frei Daniel de Samarate (1876–1924), capuchinho e missionário. Relata formação, envio ao Brasil (1898), ordenação (1899), diagnóstico de lepra, serviço na Colônia Santo Antônio do Prata e no leprosário de Tucunduba, peregrinação a Lourdes e trechos autobiográficos.

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Ordem dos Frades Menores Capuchinhos 
 
Venerável Servo de Deus Frei Daniel de Samarate 
(1876-1924) 
“A Glória do Clero Paraense” 
 
 
 
 
2020 
 
Breve Histórico 
Roma, 23 de março de 2017 – Daniel de Samarate (1876-1924), Sacerdote, 
Missionário, Leproso. 
A Ordem se enriquece com um novo Venerável. Dia 23 de março de 2017, o 
Papa Francisco autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a emitir o 
decreto super Virtutibus de Daniel de Samarate, sacerdote, missionário e 
leproso, membro da Província de São Carlos na Lombardia. Felice Rossini 
nasceu em San Macario, porção do município de Samarate (Diocese de Milão), 
em 15 de junho de 1876. Em 14 de janeiro de 1890, aos quatorze anos 
incompletos, ingressou no seminário dos capuchinhos de Sovere (Bérgamo). 
Ao entrar no noviciado no convento de Lovere (Bérgamo), foi-lhe dado o nome 
de Fr. Daniel de Samarate e, em 24 de junho de 1892, emitiu a primeira 
profissão. O encontro com Fr. Rinaldo de Paullo, assassinado no massacre de 
Alto Alegre, no Brasil, em 13 de março de 1901, marcou Fr. Daniel pelo ardor 
que o missionário testemunhava, razão que o impulsionou a pedir para partir, 
com outros confrades, para a missão do Nordeste do Brasil, confiada em 1892 
aos capuchinhos da Lombardia. O território vastíssimo compreendia os 
Estados do Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, com a perspectiva de abrir-se 
também para o Estado do Amazonas. Recebido o crucifixo missionário na 
igreja do Sagrado Coração em Milão, em 8 de agosto de 1898 embarcou para 
a missão do Brasil, aonde chegou em 30 de agosto. Destinado a Canindé, em 
2 de outubro de 1898 foi ordenado diácono e, em 19 de março de 1899, 
sacerdote. Designado para a Colônia Santo Antônio do Prata, no Estado do 
Pará, aí permaneceu até janeiro de 1913, desempenhando os encargos de 
professor, diretor, ecônomo, superior da fraternidade. Não é possível 
estabelecer com precisão o tempo e o modo como contraiu a lepra, talvez em 
1908, ministrando os últimos sacramentos a uma idosa enferma. De volta à 
Itália para se tratar em 1909, teve a possibilidade de fazer uma passagem pelo 
santuário mariano de Lourdes. Não foi curado, mas obteve uma graça-
confirmação espiritual de que sua doença teria sido para maior glória a Deus. 
Após os ineficazes tratamentos italianos, retornou ao Brasil em dezembro de 
1909, retomando sua atividade missionária, pastoral e educativa. Em 1913, 
deixou definitivamente a Colônia de Santo Antônio do Prata e, em 27 de abril 
de 1914, foi acompanhado para sua nova residência, ao leprosário de 
Tucunduba, um ambiente difícil, marcado pela miséria e pelo abandono, 
esquecido em nível social, médico e espiritual. Por dez anos, exerceu um 
apostolado intenso e frutuoso, conseguindo transformar o lazareto, de lugar de 
maldição e pecado, em lugar de bênção e virtude. Um mártir de paciência e 
caridade! Enquanto a doença o consumia, Fr. Daniel agradecia ao Senhor por 
este dom, segundo ele, semelhante ao da ordenação sacerdotal. Sua frequente 
expressão “Deo gratias” se condensou em uma fórmula que cunhou para 
louvar o Senhor: “A Deus louvado”, por tudo o que faz. No dia 25 de março de 
1924, Fr. Daniel celebrou seu 25º aniversário de ordenação sacerdotal e, em 9 
de maio seguinte, recebeu os sacramentos in articulo mortis. Após dez dias de 
lucidez, de oração, de total abandono no Pai misericordioso e de espera sem 
nenhum temor do chamado e recompensa de Deus, às 14h30 de 19 de maio 
de 1924, adormeceu sereno no Senhor. 
Fr. Daniel soube compor sobre suas chagas abertas um canto de gratidão e de 
reconhecimento ao Pai que está nos céus: A Deus louvado! 
Frei Daniel de Samarate 
"Encontrava-me a Lourdes... no momento solene, quando o Bispo que 
presidia... levantou o Ostensório e enquanto fazia o sinal da cruz para 
abençoar-me... os meus lábios abriram-se instintivamente: 
 "Domine, si vis, potes me mundare...". 
 Uma voz interior, misteriosa e bem sensível ao meu coração, respondeu: 
 "Não quero... vá em paz, receberás outra graça... a tua doença será ad 
maiorem Dei gloriam, e para o maior teu bem espiritual". 
 Desde aquele momento encontrei-me completamente transformado: um senso 
de indizível conformidade, acompanhado duma infinita felicidade e alegria, 
invadiu a minha mente, o meu coração, todo o meu ser...". 
 (Diário: 20-21 de agosto 1909) 
A Partida é Autobiografica 
O próprio Frei Daniel se apresenta assim no início do Album Missarum (registro de 
missas) sob o título: Notanda et memoranda (coisas a serem anotadas e lembradas): 
"Nasci no dia 15 de junho de 1876 e fui batizado no dia 16 de junho de 1876. 
No dia 14 de janeiro de 1890 entrei no convento dos capuchinhos no seminário 
menor de Sovere (Bergamo). No dia 23 de junho de 1891 fui admitido ao 
noviciado no convento de Lovere e no dia 24 de junho de 1892 no mesmo 
convento fiz a profissão dos votos simples nas mãos do Revmo. P. Leão de 
Briosco, meu Mestre. 
No convento de Brescia no dia 02 de julho de 1896 professei solenemente nas 
mãos do M.R.P. João Antônio de Brescia, Guardião. No mesmo ano, no dia 19 
de dezembro, das mãos do Eminentíssimo Cardeal André Ferrari recebi a 
tonsura e as quatro Ordens Menores na capela subterrânea dedicada a São 
Carlos Borromeu na Catedral de Milão. No dia 18 de setembro de 1897 do 
mesmo Prelado recebia do subdiaconato no Santuário de Rho, Milão. 
No dia 08 de agosto de 1898 parti de Milão para o Brasil como missionário 
apostólico e no dia 30 do mesmo mês cheguei ao Pará, de onde fui destinado a 
Canindê (Ceará) lá chegando no dia 22 de setembro de 1898. No dia 02 de 
outubro fui ordenado Diácono por D. Joaquim José Vieira, Bispo do Ceará, no 
Santuário de S. Francisco, Canindé. No dia 19 de março de 1899 fui ordenado 
Sacerdote pelo mesmo Prelado na Catedral de Fortaleza e celebrei a minha 
Primeira Missa no dia 25 do mesmo mês no Santuário de S. Francisco em 
Canindé. 
No dia 22 de janeiro de 1900 fui destinado à Colônia de Santo Antônio do Prata 
(Pará) onde permaneci por quase 14 anos, período no qual fui contagiado pela 
doença que me obrigou a viver isolado. No dia 31 janeiro de 1913 deixei o 
Prata para residir no Anil, São Luís do Maranhão. Em dezembro regressei ao 
Pará e no dia 27 de abril de 1914 me internei no Retiro São Francisco perto do 
asilo dos leprosos do Tucunduba". 
 
Até aqui ele mesmo num sintético resumo autobiográfico que certamente redigiu - mão 
segura e nítida - nos primeiros tempos de sua voluntária reclusão no Leprosário do 
Tucunduba. Estranho lugar para lembrar e resumir a própria vida e Frei Daniel, - 37-38 
anos - sem forçar os sentimentos, anota as principais passagens. 
Agora Vamos Adiante Por Nós Mesmos... 
 
É natural que nos deixaremos também conduzir pela admiração e pela 
maravilha. Como poderíamos ser somente cronistas impassíveis perante esse 
DOM do Altíssimo, o "NOSSO BAMBU", a nossa escada para o Céu, segura e 
de fácil acesso?... Para nos introduzir vamos nos servir da síntese pictórica que 
a habilidade geniosa de um artista pernambucano, Rogério Martins, expressou 
por meio de seus pincéis. 
Frei Daniel, "religioso missionário capuchinho" como ele ama definir-se, é 
representado com o corpo soferente, no ato de apoiar-se numa grande cruz, a 
qual, bem fincada na terra atravessa o Brasil de ponta a ponta, indo perder-se 
na infinidade do céu. Como o bambu!... 
Frei Daniel, feito gigante pelo sofrimento, alcança-a e, tocando-a com a mão 
enfaixada, faz com que a cruz já por si mesma luminosa, brilhe ainda mais de 
luz e calor, enquanto o verde e as cores das flores envoltas no lenho em forma 
de espiral, explodem com maior vivacidade e beleza... 
A silhueta geográfica do Brasil, atravessada longitudinalmente pela Cruz, 
recobre visivelmente o corpo de Frei Daniel, o qual com a outra mão colocada 
sobre o peito, parece apropriar-se da nação que aos 22 anos de idade se 
tornara querida para sempre ao seu coração. 
Naturalmente, o quadro com a força e o vigor das cores que vão do azul 
coruscanteao vermelho vivo e ao branco incandescente do céu. é sem dúvida 
alguma mais bonito e significativo do que a descrição que fizemos. mas o que 
tentamos escrever é suficiente para começarmos a entrar com sumo respeito 
no coração dessa autêntica obra-prima de Deus que é Frei Daniel Rossini de 
Samarate. Com aquela maravilha e admiração de que temos falado... 
 
“Um Resultado Verdadeiramente Feliz” 
FREI DANIEL nasce no dia 15 de junho de 1876 em San Macario de Samarate 
numa casa de camponeses pobres, mas profundamente cristãos. 
 
 
(Casa a qual nasceu Frei Daniel) 
 
Seus pais - Pasquale (Pascoal) Rossini e Giovanna (Joana) Paccioretti - 
levam-no logo à fonte batismal e dão-lhe o nome de Félix. 
Seus conterrâneos lembram-se dele como de um menino alegre, vivaz, 
brilhante, um pouco irrequieto, mas com tendência forte para a reflexão, para a 
oração e para o diligente serviço na igreja como coroinha. 
Por isso ninguém se maravilha quando na sua vila corre voz que Félix, com 14 
anos de idade, quer entrar como aspirante no convento dos Frades 
Capuchinhos. 
O Pároco apresenta-o aos Superiores dos Frades com uma carta que 
poderíamos chamar profética. 
"...Pela conduta exemplar e piedosa - escreve - faço-me responsável eu 
também, pois há muito tempo estou experimentando o jovenzinho (...) 
 
Desejoso de entrar na Ordem religiosa, conseguirá no decorrer do tempo 
um resultado verdadeiramente feliz, e dará motivo de consolações aos 
Superiores e à Ordem inteira...”. 
Está claro como o sol que no sacerdote é intencional o uso do adjetivo "feliz" 
unido à palavra "resultado". O aspirante-frade chama-se: Félix!... 
Os Capuchinhos o aceitam e no momento da vestição no Noviciado, como era 
costume naquela época, dão-lhe um nome novo. De Félix passa a se 
chamar: Frei Daniel de Samarate. 
Um nome vale tanto quanto outro, e a escolha do nome pelo Padre Mestre não 
é premeditada; seria inútil, portanto, querer insistir sobre coincidências bíblicas 
para preanunciar valores que emergirão sucessivamente na sua pessoa e não 
necessariamente pelo fato de chamar-se Daniel "homem dos desejos" (cfr. Dn 
10, 13). 
Ao nosso espírito, porém, faz bem pensar que a imposição desse nome no 
momento da liturgia da Vestição: "De agora em diante te chamarás Frei Daniel 
de Samarate" não se apagou absolutamente com a morte do titular! 
Este nome de forma alguma desapareceu, mas depois de tantos anos continua 
a ser usado e, "invocado" por uma multidão sempre mais numerosa de 
pessoas que o assumiram para celebrar e fazer chegar ao céu uma liturgia de 
intercessão!...Este nome se tomou tão precioso que até a cidade de Samarate 
é objeto de interesse e veneração. Conhecemos mães brasileiras que deram a 
seus filhos esse nome, chamando-os com a maior naturalidade "De 
Samarate". Interessante, não é?... 
 
Enquanto Frei Daniel dá esses primeiros passos na Ordem dos Capuchinos, é bom para 
nós prepararmos a etapa sucessiva, aquela que o leva ao Brasil. Para sempre!... E 
interessante conhecer aqui seu pensamento acerca da vocação missionária que já enche 
seu coração e dá asas a seu espírito. Ao Padre Provincial, em outubro de 1898, logo 
após ter chegado ao Brasil, escreve assim: "Devo agradecer-lhe de coração ter-me 
incluído entre os Missionários... Realmente ser Missionário é uma graça singular, é dom 
especial da Divina Bondade: isso em razão do bem imenso que se faz a si mesmo e aos 
outros..."Sentimentos que prenunciam, por já contê-la em síntese, a gloriosa sinfonia do 
"A Deus louvado"!... 
 
Desde 1898 É Missionário No Brasil 
Os primeiros anos da vida religiosa de Frei Daniel na Ordem decorrem 
alegremente e no ano de 1896, com a idade de 20 anos, já é professo solene; 
estuda Teologia com proveito cultivando no seu coração grandes ideais: a 
Missão, por exemplo!... 
 
Passaram-se somente poucos anos desde a abertura da nova Missão 
capuchinha nas matas do Norte e Nordeste do Brasil e os frades lombardos 
que partem, praticamente são sempre os primeiros. Frei Daniel com o ardor de 
seu jovem espírito pede para ser enviado. Os Superiores aceitam seu pedido e 
assim no dia 08 de agosto de 1898 - não é ainda sacerdote parte para o Brasil 
na companhia de outros frades jovens cheios de entusiasmo como ele... 
Acompanha-os nessa longa viagem o Superior Regular, Frei Reinaldo 
Panigada de Paullo, que tinha vindo à Itália de propósito para procurar 
reforços. Este grande missionário será um dos Mártires de Alto 
Alegre: somente três anos depois!... Ah, quanto é bonita e dura e exaltante a 
aventura missionária!... 
Em setembro Frei Daniel chega ao Nordeste e, destinado à cidade 
de Canindé (Ceará), continua com fervor o estudo da Teologia empenhando-
se de corpo e alma para aprender a língua portuguesa a fim de entregar-se 
totalmente ao serviço do novo povo. No dia 19 de março de 1898, dia 
comemorativo de São José, Frei Daniel é ordenado sacerdote e alguns dias 
depois - exatamente no dia 25 do mesmo mês, festa da Anunciação - celebra 
sua primeira missa no Santuário de São Francisco das Chagas em Canindé. 
 
O Leitor procure lembrar-se deste particular, pois o retornaremos na emoção 
das últimas páginas. No início do século - 22 de fevereiro de 1900 - ele é 
transferido para a Colônia Agrícola de Santo Antônio do Prata, no Pará, como 
Diretor dos meninos indígenas que habitavam naquele Colégio. A este primeiro 
e específico trabalho entrega-se com todo o ardor organizando com carinho e 
inteligência a vida das crianças: o amor de Cristo ferve em suas veias de jovem 
missionário!... 
No entanto, alguns acontecimentos relevantes e muito tristes para a Missão 
estão se preparando. Acontecerão dentro em breve para pôr à prova o 
desempenho, a coragem e as virtudes humanas e cristãs de Frei Daniel!... 
No dia 13 de março, de fato, nas primeiras horas do amanhecer acontece uma 
tragédia horripilante: quatro frades, sete freiras também capuchinhas, de 
duzentos e cinqüenta a trezentos fiéis cristãos são massacrados cruelmente 
pela fúria homicida de um grupo de índios Guajajaras que não toleravam as 
normas disciplinares introduzidas pelos missionários e tinham fechado há 
tempo os olhos à santa novidade do Evangelho. 
Frei Carlos Roveda de S. Martino Olearo, glorioso Fundador da Missão, 
venerando Superior Regular em ato, solícito Superior da Colônia do Prata, 
onde há poucos meses presta seu serviço também o Frei Daniel, não agüenta 
a dor atroz. Em face dessa hecatombe e dos cadáveres insepultos, 
horrivelmente deformados pela ação rápida e impiedosa do tempo e das feras, 
Frei Carlos sofre uma queda física e moral, perdendo irremediavelmente a 
memória e a capacidade de ação, de modo que toda a administração da 
Colônia Agrícola de Santo Antônio do Prata recai improvisamente sobre os 
ombros do jovem missionário Frei Daniel: tem 25 anos de idade!... 
Este do Prata é um capítulo muito importante na vida de Frei Daniel. São treze 
anos ininterruptos de apostolado santo, de realizações sociais que deixam sem 
fôlego... Tudo isso com uma força que lhe vinha da forte convinção de ter sido 
enviado pelo Bom Deus em pessoa. Ele, ele mesmo, para anunciar o 
Evangelho, para ser o pai de todos aqueles colonos, de todos aqueles índios 
no meio daquelas florestas... Este aspecto da vida de Frei Daniel passou 
decididamente em segunda linha: preferiu-se pensá-lo hanseniano fechado no 
horror do Tucunduba, em lugar de missionário entregue a toda atividade... Mas 
também neste apostolado "aberto" ele demostrou-se grande, excelso e fez bem 
Frei Camilo Micheli em chamálo no seu livro: Gigante do Prata!... 
 
Por 13 anos consecutivos Frei Daníel foi missionário no verdadeiro sentido da 
palavra e assim nesse impulso, nunca deixou de sê-lo nem sequer entre os 
muros do Leprosário. Por 13 anos consecutivos cuidou dos índios, dos filhos 
deles, de modo especial. Não temos muita certeza, mas por aquilo que 
sabemos nos parece poder afirmar que Frei Daniel viveu com os Índios mais do 
que todos os outros missionários,ao menos continuadamente. Por isso, para 
celebrar também o "Pai dos Índios" dirigimo-nos mais uma vez ao nosso artista 
- Rogério Martins - pedindo-lhe que fixasse nas cores também esse aspecto da 
vida de Frei Daniel. Preferimos deixá-lo livre: o Leitor pode ver o resultado. Frei 
Daniel é captado como hábil disponível timoneiro que conduz os habitantes da 
selva para o esplendor da Cruz. É uma "visão" quefaz ecoar antigas profecias e 
as realiza dentro do contexto exuberante da Natureza incontaminada a ser 
consagrada a Cristo... Emerge a Cruz - luminosissima - das águas e o barco 
principal se dirige decididamente em direção àquele clarão intenso que 
incendeia a floresta e declara fortemente uma Presença. O verde acompanha o 
fluir das águas e é pensado mais como um túnel do que uma parede a céu 
aberto. É por isso que a Cruz é tão incendescente e não perde absolutamente 
seu esplendor com o crescer do dia. Frei Daniel é visto como o timoneiro santo 
e poderoso que transporta almas e corpos. È ele o intermediário indispensável: 
os índios do outro barco não vão diretamente em direção à Luz; querem ser 
acompanhados pelo gigante bom que está na proa... 
Assim aconteceu por 13 anos consecutivos! ... 
"A Deus louvado" por esse serviço santo! ... 
Planos da Providência! Programas de um Deus que em tempos longos sabe 
realizar milagres de eficiência, não obstante o espantoso imperversar da 
maldade humana... É aqui, nestes tempos tristíssimos, humanamente falando, 
que começa a despontar forte e vigoroso o "NOSSO BAMBU"!... 
Terão de passar anos - outros longos anos! - para que possa levantar-se até lá 
no Alto, mas os começos que marcam uma presença, registram-se aqui, nesta 
Colônia, neste dificílimo primeiro ano do novo século! Logo depois, com o 
mérito da santa obediência, Frei Daniel é nomeado também Superior da 
Colônia, reunindo assim toda a responsabilidade na sua pessoa... Quantas 
viagens de ida e volta para Belém, a Capital, a fim de obter recursos 
governamentais indispensáveis para a manutenção da Colônia!... 
Quantas recusas e adiamentos!... 
Quantos mal-humores a serem acalmados por causa do dinheiro que não era 
liberado!... 
Quantos "jeitinhos" encontrados para enfrentar e resolver todas 
essas dificuldades!... 
 
Onde? Quando? Como? Por Que? 
Durante esses anos - 1900-1913 - de trabalho incessante, de empenho no 
sociale de apostolado admirável, acontece aquele impacto decisivo que 
mudará completamente o curso da vida do nosso brilhante Diretor da Colônia 
Agrícola surgida no meio da mata virgem para evangelizar e civilizar os índios. 
E bom pararmos um momento: um pouco de reflexão e necessária… 
Como? Quando? Onde mais exatamente? Por que? 
Todas perguntas às quais nunca saberemos responder. 
Os Biógrafos que nos precederam, narram unânimes um episódio ocorrido lá 
no intricado da floresta, no contato com uma doente grave. Lá num casebre 
pobre, miserável, confortando e absolvendo uma enferma… 
Nós não estamos em condição nem de confirmar, nem de desmentir: não 
possuímos referências históricas precisas. 
Frei Camilo Micheli de Borno - nosso glorioso veterano, com oitenta anos e em 
ótima saúde - teve nas mãos uma carta - pensem quanto preciosa, agora! - na 
qual Frei Daniel narrava a um amigo ou ao seu Superior sobre o insurgir da 
doença, mas naqueles seus primeiros anos de missionário não lhe deu algum 
valor, aliás - é ele mesmo que o confessa - vendo ao pé da página que o 
escritor era Frei Daniel, apressou-se em guardá-la (cinqüenta e mais anos 
atrás o medo do contági era grande) e agora, depois de muito tempo, não 
lembra mais nada…Algumas palavras e nada mais... É pena!... 
 
 
De seguro conhecemos somente quanto Frei Daniel nos entrega na sua 
pequena autobiografia que coloca como introdução ao livrinho onde anota as 
suas Santas Missas e já se encontra na casinha do Tucunduba. 
"No dia 22 de janeiro de 1900 - escreve - fui destinado à Colônia de Santo 
Antônio do Prata (Pará), aí permanecendo por quase quatorze anos, onde 
peguei a doença que me obrigou a viver isolado ... ". 
É no Prata, portanto; é aí onde "chega a hora" de FreiDaniel! 
Chega e basta! 
Não serve outra coisa! 
As palavras - todas humanas são incapazes de levantar ainda que um pouco 
esse véu que se tomará cortina espessa, e "rasgar-se-á em duas partes, de 
alto a baixo" (cfr. Mc 14,38) somente muitos anos depois... 
Frei Daniel começa em 1909 a manifestar perplexidade em relação a alguns 
estranhos incômodos que enfraquecem seu corpo, antes tão forte e vigoroso. 
São dados que o Leitor poderá captar facilmente: há algo latente, ainda no 
estado embrional, mas está aí, bem enraizado, circula impunemente: o 
tratamento médico é inútil, as viagens também, e Frei Daniel passa de uma 
esperança para outra que pontualmente se apagam porque "devem" se 
apagar!... 
De 1909 a 1924 (ano de sua morte) os anos são quinze e quinze anos são 
longos, intermináveis; são uma eternidade, ao menos para nós... 
 
Nesse espaço de tempo - precioso, muito precioso - realiza-se "quanto a mão e 
a sabedoria de Deus haviam predeterminado" (At 4,28) e realiza-se justamente 
porque o Servo Daniel se coloca em total disposição, aceita e colabora, aliás, 
mais tarde - no entanto o bambu vai crescendo! - chegará a falar em 
"prêmio", louvando e bendizendo e agradecendo continuamente ao Bom Deus 
ao longo de todos esses anos! 
No entanto o bambu - o "nosso" - vai crescendo dentro deste milagre-mistério 
insondável e estrepitoso que transcende, como natural, os nossos respeitáveis 
raciocínios e luminosamente documenta a presença constante de Deus na 
história dos homens... 
E nós estamos aqui ainda, não obstante tenham passado tantos anos: 70-80, 
estamos aqui com os olhos escancarados e a mão sobre a boca para falar 
desse prodígio. Mas estaríamos aqui de verdade se não tivesse acontecido 
aquele impacto atroz naquele longínquo e desconhecido dia, dentro ou fora da 
imensa floresta, curvado ou não sobre aquele irmão ou aquela irmã doente no 
último estágio? 
E todos aqueles pobres que, escolhendo-o entre mil, invocaram Frei Daniel e 
continuam a invocálo porque o julgam santo, teriam feito isso? Continuariam 
ainda a fazê-lo? 
Aceitamos o projeto do Altíssimo Onipotente com aquele silêncio que nasce da 
maravilha e da admiração. 
É dentro dessa atmosfera rarefeita que as Almas de Deus sentem crescer a 
erva nos campos!... 
Nós poderíamos ao menos sentir crescer o "nosso bambu"!... 
 
Atividade Febril e Santa Conformidade 
Voltemos à Colônia do Prata, sem anteciparmos tempos e acontecimentos. 
No Prata, não obstante ameaças e agitações que parecem aumentar sobretudo 
depois do lembrado massacre de Alto Alegre (MA), a vida continua tranqüila 
numa paz aceitável. 
Frei Daniel - Superior e Administrador - consegue realizar em favor dos índios e 
dos colonos obras de eficiência e de ampla projeção. 
Causa admiração ver o trabalho realizado por este jovem frade sempre em 
movimento pelo bem dos outros a fim de obter em favor deles condições de 
vida mais dignas; onerado com papeladas administrativas e com contabilidade 
a ser mantida em dia; angustiado pela insolvência do Governo que não 
cumpre com suas promessas e aperreado pelos clamores dos operários que 
reclamam sua devida retribuição. 
Frei Daniel consegue fazer frente a tudo e a todos com aquela humildade e 
paciência, com aquele amor e espírito de serviço incomuns. 
 
 
(Observa-se Frei Daniel no canto esquerdo da fotografia) 
Ele consegue financiamentos e subvenções tais que lhe permitem instalar no 
meio da floresta a linha de ferro - cerca de dezessete quilômetros de ferrovia 
com pontes e aterros! -, até mesmo o telefone e, sempre por seu intermédio, 
no céu límpido como podia estar naquela época, consegue mandar levantar 
duas Igrejas estupendas: a de Santo Antônio, espaçosa, arquitetonicamente 
perfeita, adornada de torre e sinos: e a de Santo Isidoro, pequena fascinante 
joia artística em meio aos campos cultivados e substraídosà floresta. 
Mas esse tão intenso fervor de vida e de iniciativas não tira nem anula aquela 
inquietação, aquela suspeita, aqueles estranhos «reumatismos», que não o 
largam nem mesmo com os diversos tratamentos. Infatigavelmente Frei Daniel 
continua a trabalhar sem se poupar, mas duvida e duvidando aceita, 
predispõe-se a acolher o plano de Deus! sempre providencial! sempre para o 
bem e para a vida! 
Os médicos sugerem-lhe vários medicamentos na esperança de vencerem ou 
ao menos de delimitarem uma doença que não ousam declarar abertamente. 
Os Superiores, seguindo o conselho dos médicos, mandam-no para a Itália e 
assim no dia 05 de agosto de 1900 Frei Daniel embarca no navio rumo à sua 
Terra natal. O navio chega só até Portugal, e ele de trem pode alcançar 
Lurdes! 
E a Virgem Santíssima o Traz de Volta ao Brasil 
Esta etapa a Lurdes no Santuário da Virgem dos Pireneus é decisiva na vida 
de Frei Daniel. 
Ele vai até lá, permanece naquele Santuário com fé intensa, não descuidando 
de nada, dividido entre a esperança de conseguir recuperar a saúde e o 
"instinto" que é próprio de todas as grandes almas, de não seguir em direção 
contrária à vontade de Deus, custe o que custar… 
Ele pede com insistência a mediação da Mãe Celeste, Mãe de todos os 
missionários, para que o ilumine e lhe dê o conforto necessário. Frei Daniel 
narrará tantas vezes desse impacto com o sagrado e o prodigioso de Lurdes... 
Fala desse acontecimento com acentos de comoção seja no Diário, seja 
quando se encontra face a face com as pessoas que o circundam. Nós 
mesmos encontramos muitas delas que transmitem de pais para filhos esse 
acontecimento captado dos próprios lábios de Frei Daniel, e repetem 
emocionados aquele "Nunca, nunca!" que ele teria escutado da Virgem em 
pessoa: "não ficarás curado, não; não ficarás curado! Regressa: receberás 
outra graça..." 
Assim com esta "voz" no coração, retorna a viagem e chega finalmente à Itália: 
está ausente desde 1898! Revê seu vilarejo, abraça seus parentes; seus pais, 
infelizmente, já haviam falecido. Deixa-se levar pela emoção enquanto celebra 
a missa em sufrágio deles. 
Os médicos de Milão pedem que vá a Roma para consultar uma celebridade no 
campo da dermatologia - tal de Prof. Campana -, mas também o especialista 
não consegue dar uma resposta satisfatória. Em todo caso, tem a possibilidade 
de, ao menos, visitar a Cidade Eterna, de entusiasmar-se diante dos 
testemunhos da fé dos primeiros cristãos, os das Catacumbas e de ser 
recebido por bem duas vezes pelo Papa Pio X, ao qual implora uma bênção 
especial em favor de sua Missão. 
Vendo, pois, que os medicamentos italianos servem tanto quanto aqueles 
brasileiros, isto é, para nada, Frei Daniel resolve voltar ao calor de seu povo e 
de seu Brasil, disposto a dar-se completamente em jovial e contínua obediência 
ao mandato de Cristo que escutara de novo através da voz maternal de Maria 
na cidade santa de Lurdes... 
E não somente em Lurdes escutara essa "voz" maternal... 
 
O Leitor encontrará registradas no livrinho de 1909 outras paradas devotas e 
piedosas nos Santuários de Pompei, de Loreto, de Casalmaggiore, de 
Casalpusterlengo: Santuários marianos aos quais ele se dirige para pedir a 
Nossa Senhora confirmação e sustento. 
E ainda mais. 
Da viva voz de uma velhinha em contemplação diante do quadro de Frei Daniel 
em Belém, soubemos deste outro episódio inédito, desconhecido a todos os 
seus biógrafos. 
Percorrendo a Itália do Norte ao Sul naquele período, Frei Daniel com a 
habitual devoção entrou num santuário - não sabemos bem se foi em Orvieto 
ou Lanciano - onde são conservados vestígios concretos do Mistério da 
Eucaristia, Corpo e Sangue de Cristo. 
Ele se ajoelhou e orou mais uma vez pela sua saúde, porém ouviu a 
costumeira voz interior responder-lhe: 
"Frei Daniel, não queres sofrer?". 
A velhinha, exaltando-se na voz, referia-nos que Frei Daniel sem titubear 
levantou-se e respondeu prontamente: "Quero!" e saiu logo da igreja sem pedir 
outra explicação. 
O Primeiro Adeus: Doloroso! 
Com muito prazer ele retorna, portanto, ao seu campo de trabalho; regressa 
para a sua Colônia, mesmo se não habita mais no centro por medo de 
contagiar seus numerosos meninos. Retira-se no vizinho Santo Isidoro de onde 
orienta tudo por meio do telefone, o famoso telefone. 
Os meninos não entendem o motivo dessa escolha e - narrava-nos outra 
velhinha - todas as tardes iam visitá-lo (a distância é mais ou menos um 
quilômetro), chamavam-no gritando a plenos pulmões: Frei Daniel, Frei Daniel, 
e ele, sorrindo, vinha à janela, saudava, às vezes lançava balinhas, mas não 
descia, não ia brincar com elas como antes. 
O dinamismo da Colônia continua incessante, a vida não pára, nem diminui a 
produção. 
Pena que a doença assuma proporções sempre maiores, já transparecendo 
claramente em seu rosto tão meigo e volitivo. 
Não pode mais permanecer lá. 
Depois de treze anos, chega o momento de ter de deixar definitivamente o 
Prata! 
O Leitor no dia 31 de janeiro do ano do Senhor de 1913 - uma sexta-feira - 
pode ler: 
 
"Finalmente depois de 13 anos deixei o Prata!! Deus queira perdoar as muitas 
faltas que lá cometti e levar em conta o pouco de bem que tencionei fazer". 
Pense o Leitor naquele "Finalmente" que aqui quer dizer somente uma coisa: 
tudo acabou... terminei... 
 
Dê o justo valor àqueles dois pontos de exclamação. Por enquanto são o 
máximo de sua maravilha e de sua capacidade de sofrer. Mais adiante no 
Tucunduba, chegará a colocar três desses pontos exclamativos e estará 
pronto, de adeus em adeus a entrar na pátria definitiva!... 
Os Superiores o transferem para o Maranhão, em São Luís, na esperança de 
que lhe seja propício o clima menos quente e mais seco. Ele, obediente como 
sempre, vai, trabalha com toda a dedicação e o entusiasmo que o distinguem. 
A nova experiência dura, porém, somente um período de oito meses e ei-lo de 
novo a caminho rumo ao Pará com o destino já determinado. 
Um malogrado incidente - veja no Diário no dia 27 de julho de 1913 revela-o 
abertamente aos outros por aquilo que é: leproso! em mais nenhuma dúvida! 
Diagnóstico glacialmente claro e preciso!... 
E obrigado a retirar-se do convívio dos sãos. Não há mais de forma alguma 
lugar para ele! Tiveram paciência e fingiram até por demais tempo de que nada 
houvesse... No entanto cresce o "nosso Bambu"! Oh, como se toma robusto e 
forte! 
Os adeuses e as rupturas narrados nestas páginas, assinalam com marcas de 
fogo a vida de Frei Daniel... São a marca indelével que o uniram à sorte dos 
Pobres e dos Sofredores marginalizados... São a passagem de primeira classe 
que o colocaram nos trilhos privilegiados por onde pode transitar somente 
quem é capaz de beber do Cálice de Cristo, que acabou na Cruz... 
 
O Adeus Definitivo: Dolorosíssimo! 
Assim, acompanhado por um co-irmão atencioso, volta para Belém. 
No convento - acolhido "como Deus quis" -permanece isolado por alguns 
meses e depois, livremente, com santa resolução e espírito de serviço, decide 
entrar no Leprosário do Tucunduba... 
Antes de ir sepultar-se para sempre, beija os muros e as portas do convento 
com emoção impetuosa, chorando lágrimas copiosas... 
Escreve Frei Roberto de Castellanza - Superior Regular de então e alguns 
anos depois Bispo de Grajaú - nos "Annali Francescani" (1922-53, p. 395): 
"Parece-me ainda vê-lo, ouvi-lo beijar os muros de seu convento quando pelos 
médicos foi decidido seu afastamento. Ele ia exclamando: "Oh! muros santos! 
Vocês me libertaram de tantos perigos e agora com o coração rompido tenho 
de abandoná-los..." e caíam-lhe abudantes lágrimas dos olhos...". 
O Leitor no dia 27 de abril do ano do Senhor de 1914 - uma segundafeira! pode 
conhecer até a hora daquela tarde em que se encaminhou mestamente para o 
Leprosário: "Às 5 horas da tarde deixei (Oh! meu Deus quanto soffri) o meu 
convento para vir habitar neste retiro". 
Escreve Sta. Teresa d'Ávila: "Deus trata seus amigos de maneira terrível".Estamos dando-nos conta disso! 
Ressoa lancinante dentro de nós aquela exclamação dele de autêntica dor, 
enquanto idealmente procuramos caminhar em sua companhia rumo ao "lugar 
solitário". E oxalá tivesse sido só solitário! 
Acompanham-no duas pessoas: um frade - Frei Inácio -e um leigo tal Mestre 
Antônio -, um mestre-de-obras italiano daqueles belos tempos da Colônia do 
Prata. E os demais? Todos os demais: frades e não?... 
É necessário beber o Cálice até o fim: Jesus estava tremendamente só no 
Getsêmane! 
Dia 27 de abril de 1914, 5 horas de tarde! 
É o fim daquela vida cheia de entusiasmo: muito povo, muitos projetos, grande 
exuberância febril! É o fim!... 
Naquela tarde de abril inicia uma vida totalmente diferente. Ele está 
caminhando em direção a ela e somente dois companheiros o sustentam no 
primeiro impacto! 
De agora em diante o grande missionário de atividades fecundas; capaz de 
oporse a governadores e funcionários morosos, obrigando-os com sua 
paciência e tenacidade a pagar para o bem de seus pobres; o missionário que 
amava imensamente viajar, ver as coisas belas e boas espalhadas pela 
Criação; o nosso Frei Daniel, de agora em diante, viverá internado, recluso 
numa nova vida feita de sofrimento e de morte progressiva e tudo isso durará 
dez longos anos: de 27 de abril a 19 de maio de 1924, dia de sua morte!... 
A Rejeição Continua...Também Lá Dentro! 
Frei Daniel entra no Leprosário com uma enorme vontade de se oferecer aos 
seus irmãos, pronto a se deixar consumir pela dor física e moral para manter 
acesa uma luz de esperança num lugar de horror. 
Vai no meio deles. 
Diz-lhes como toda a disponibilidade de seu espírito: eis-me aqui, mas - quem 
poderia imaginá-lo? - os "Irmãos cristãos" (San Francisco de Assis assim 
chamava os doentes leprosos) não o querem, surpreendentemente não o 
querem!... 
Armam logo contra ele uma forte oposição, terra queimada criam em tomo 
dele, nem sequer para assistir os moribundos o chamam! Uma provação na 
provação: muito dura porque não prevista! 
 
"Pensava ser recebido - confia amargurado numa carta a um co-irmão - com 
demonstrações de carinho... Que desilusão! Fui recebido como um inimigo, um 
intrometido que vem só para mudar as coisas, para observar seus defeitos e 
assim castigá-los abertamente, sem misericórdia...". 
Pobre de Frei Daniel, reduzido a um mesquinho intrometido! Ele, o homem 
brilhante, o homem das idéias generosas e abertas, capaz de fazer frente a 
Governadores e altos Funcionários!... 
Deve ter sido terrível! 
Do Diário não transparece nada: não nos é possível acompanhar esse martírio 
refinado. Parece tenha durado oito meses até à noite santa de Natal. Um 
tremendo noviciado de indizível amargura... 
Mas ele permanece, saboreia o Cálice até a borra, e fica! 
Os Superiores lhe tinham apresentado uma perspectiva bem mais cômoda e 
tranqüila num hospital em Pernambuco como Capelão... 
Ele fica e mantém-se firme! 
Recusado, rejeitado, caluniado até por aqueles que já considera "seus"... fica e 
mantém-se firme!... 
Com aquela paciência que exclui toda retorsão, Frei Daniel realiza 
verdadeiramente aquela página "Da verdadeira e perfeita alegria" como 
somente Francisco de Assis poderia imaginar (Cfr. "Escritos de São Francisco" 
Petrópolis 1988, p. 174). 
"Vai-te embora"... aquele tríplice "Vai-te embora" da narrativa brotada da 
fantasia fervente do Pobrezinho, rico de Cristo, ressoa de verdade longamente 
no ar infecto do Tucunduba dirigido contra Frei Daniel! 
Ressoa e enriquece seu sofrimento espiritual que o põe decididamente debaixo 
da Cruz de Cristo numa atitude privilegiada de colaborador. 
A alegria - alegria perfeita - de Frei Daniel que enche todas estas páginas 
começando pelo título que escolhemos: A DEUS LOUVADO, inicia a "explodir" 
aqui nestes meses de duro "treinamento", aqui toma corpo aos poucos o 
"nosso bambu". 
Frei Daniel, a imensidão do céu, a alcança e a conquista assim! 
Oh, Noite Santa...Santo Natal de 1914... 
Devagarinho, devagarinho, porém, alguns dos mais sensíveis entre os "Irmãos 
em Cristo", começam a demonstrar-lhe um pouco de estima e até de afeto; 
pouco a pouco começam a chamá-lo para os casos mais graves... Finalmente 
se dão conta - se não todos, pelo menos a maioria - de que Frei Daniel, doente 
como eles, é um amigo sincero, não é um espião, não... 
E desponta resplandecente de luz o NATAL de 1914! Santo Natal! 
"Estoura" o milagre! À noite! Durante a Missa do galo!... 
Luzes, cânticos, poesia do presépio preparado por mãos inseguras, ardor do 
Celebrante que jamais tinha deixado de acreditar na bondade dos seus 
"Irmãos"... 
Frei Daniel recorda no Diário - 25 de dezembro de 1914: "Celebrei Missa de 
meia noite no hospicio dos Lazaros, muito concorrida. Fiz sermão". Frei Daniel 
sente-se transportado de repente ao céu. Parece-lhe escutar a melodia dos 
Anjos e são seus próprios "Irmãos em Cristo" que lhe fazem degustar a doçura, 
a plenitude, a riqueza, a alegria, o contentamento desta vinda do Cristo... 
Oh, como se sente bem Frei Daniel neste céu do Tucunduba!... 
A partir desse dia tudo se torna mais fácil: seu ministério sacerdotal, sua 
catequese diária durante a Quaresma, seu correr àcabeceira dos moribundos, 
seu atarefar-se também no social. Mais ainda: haverá um período de forte 
insatisfação no hospício durante o qual os "Irmãos em Cristo" reclamarão em 
alta voz Frei Daniel como administrador!... Ele não aceita, é claro, não pode 
aceitar: quer somente ser o sacerdote, o capelão do espírito, porém é bonito 
sublinhar esse pormenor, tendo presente aquele longo período de obstinada 
rejeição. 
 
Infelizmente uma irredutível minoria - reduzida, acirrada continuará a mover-lhe 
guerra, insultando-o sistematicamente, chegando até a caluniá-lo. 
O Leitor veja por exemplo quanto escreve no dia 19 de março e especialmente 
no dia 04 de setembro de 1921 e já faz seis anos desde sua entrada no 
Leprosário! 
Maria da Penha: O Anjo do Tucunduba 
"Apareceu-Lhe um anjo do céu que o confortava..." (Lc 22, 43). 
 
A esta altura partimos do Evangelho, partimos do Getsêmane de sangue de 
Jesus para entrarmos com extrema tristeza e pudor no Getsêmane de Frei 
Daniel. 
O Leitor pese estas palavras e se deixe envolver na preciosidade de tão grande 
padecer! 
 
Frei Daniel também fala de um Anjo... 
Quem è esse Anjo? 
É um Anjo no feminino. Chama-se: MARIA da PENHA. 
 
 
 
É uma ex-aluna do colégio de Santo Antônio do Prata, uma órfã que cresce à 
sombra das Irmãs e de Frei Daniel naqueles tempos gloriosos. 
Agora acompanhou até no enclausuramento do Tucunduba seu professor de 
outrora e se pôs ao seu serviço com uma dedicação e uma fidelidade que 
despertam comoção e ternura. 
É ela o Anjo que para poder permanecer tranqüilamente na casinha do leproso 
Frei Daniel, sem suscitar com o passar do tempo boatos e comentários, resolve 
até se casar com um doente. O Frei se opõe a esse matrimônio. É realmente 
demais! Como poderia aceitar? E assim sofre porque pode perder o seu Anjo 
consolador.. Maria, porém, é irremovível e se casa com Humberto, o "Irmão em 
Cristo" Humberto! 
É fácil escrever tudo isso, mas para fazê-lo era necessário ter coragem e amor 
fora do comum... É santamente justo pararmos um momento diante da figura 
desta jovem brasileira que consome sua vida cuidando de dois doentes: Frei 
Daniel e Humberto que se toma seu marido justamente porque ela quer 
continuar a viver no leprosário, pois não quer sair do Getsêmane de Frei 
Daniel! Honra e glória ao mérito! 
Faz bem ao coração louvar e enaltecer Maria da Penha. O heroismo não chega 
somente de longe, encarnado por um jovem missionário italiano; encontra-se 
radicado e bem plantado, estupendamente florido também na Terra de Santa 
Cruz, no grande e imenso Brasil!... 
Estes dois heroísmos se fundem maravilhosamente para farjar criaturas 
extraordinárias. Naturalmente, somos nós que falamos de heroísmo: para os 
protagonistasdesta história maravilhosa tudo aquilo era somente normal 
administração! 
Maria da Penha depois da morte de Frei Daniel viverá sempre com profunda 
saudade de seu frade chagado. As chagas dele - dizia a todos com insistência - 
não fediam, exalavam um perfume que por certo sentia somente ela, visto que 
o confessor de Frei Daniel escreve impiedosarnente a outro co-irmão: "O Rev. 
Frei Daniel é um saco de carne podre"! 
Maria da Penha viverá sempre lembrando-se dele enquanto trata, assiste e 
conforta até às últimas o marido Humberto: são palavras de seus filhos 
nascidos no Leprosário perfeitamente sãos. 
 
Maria da Penha sempre se lembrará de Frei Daniel como sacerdote. Dizia-nos 
emocionada uma Irmã Capuchinha que teve a sorte e a graça de ter Maria 
como catequista e de vê-la morrer santamente; dizia-nos que Maria explicava 
os Sacramentos servindo-se particularmente das lembranças de sua vida lá no 
Tucunduba e quando devia falar da Eucaristia, da Santa Missa, não conseguia 
conter as lágrimas pela emoção, narrando como ela mesma nos últimos anos 
ajudava manualmente Frei Daniel a celebrar a Santa Missa. 
Como ele não podia mais erguer o cálice, por causa da ausência do tato - típico 
nos doentes - não conseguia manuseá-lo, assim como não conseguia partir a 
hóstia, ela o auxiliava: apertava as mãos chagadas do frade em tomo do cálice 
para que pudesse erguê-lo no momento da Elevação e manobrava as suas 
mãos gangrenosas para que pudesse partir a hóstia no momento da 
comunhão... 
Naturalmente fazia tudo isso sem usar luvas, protegida e imunizada 
unicamente pela sua grande fé em Deus... 
 
Quantos Pequenos “Irmãos Em Cristo” Naqueles 
Tempos... 
Um capítulo à parte o merecem os muitos meninos que eram hóspedes, junto 
com Frei Daniel, do terrível e tetro leprosário. 
Meninos e meninas, já marcados visivelmente pela doença, abandonados de 
todos, parentes incluídos, e sepultados aí inexoravelmente... 
A eles dirigiu-se de maneira especial o coração de Frei Daniel. 
Como nos tempos dedicados e gloriosos da Colônia do Prata... 
Sua atividade melhor era para eles. A eles dava com todo o prazer aulas de 
catequese, sobretudo durante a quaresma; preparava-os para a primeira 
comunhão e para a crisma, ensinavalhes a cantar, ele que tinha uma voz tão 
bonita... 
Temos uma fotografia de 1920: seus pequenos amigos que eram a sua 
consolação e o seu apoio moral. 
 
Chora o coração em observá-los atentamente: não há um sequer que sorria. 
Estão aí todos tristes - todos! - vestidos pobremente e de pés descalços. 
O mesmo Frei Daniel, sentado no meio deles em atitude composta, parece 
participar daquela tristeza. 
São muitos! No Diário lemos cifras que oscilam entre os 40 e os 60: muitos, se 
pensarmos que toda a população do Lazareto não superava as 300 pessoas 
nas épocas de maior ajuntamento! 
Dom Adolfo Bossi, Bispo missionário em repouso na Itália, lembra ter 
encontrado no Leprosário do Tucunduba alguns desses meninos do tempo de 
Frei Daniel e já corriam os anos de 1935-1940! 
Nós mesmos em Marituba - lazareto surgido recentemente em substituição 
daquele do Tucunduba - falamos com Noemi, figura maravilhosa de mulher, já 
além dos oitenta, literalmente comida pela doença, obrigada a arrastar-se de 
qualquer jeito porque já sem pernas e com coutos em lugar das mãos. 
“Reconheço Que Deus Me Fez Um Favor” 
Façamos uma pausa e demos a palavra a Frei Daniel em pessoa. 
É salutar, chegados a estas alturas, fixar satisfeitos o olhar no caminho já 
percorrido e escutar um trecho da carta que no dia 02 de fevereiro de 1916 ele 
escreve ao Padre Geral. 
 
"Permita que o último de seus filhos, da solidão do retiro em que vive, venha 
beijar sua sagrada mão e implorar sua pastoral bênção no início do novo ano. 
Todos os meus companheiros costumam neste período escrever-lhe longas e 
interessantes cartas cheias de tantas fadigas apostólicas e de abundantes 
frutos colhidos no sagrado ministério; e eu ao contrário envio-lhe a presente 
absolutamente vazia de todo porque como o senhor já deve saber, vivo 
separado e isolado do convívio dos meus co-irmãos em conseqüência da 
doença que Deus quis me dar. 
Todos os dias porém, agradeço a Deus a graça que me fez, pois reconheço 
que me fez um favor especial. 
Nem me faltaram até agora consolações espirituais tais que jamais teria 
acreditado ter. 
Exerço a função de Capelão, (por caridade, unicamente porque o governo não 
se interessa de nada) no hospital dos doentes onde vivem reclusos 180 e mais 
infelizes atingidos pelo horrível mal, a maior parte dos quais em condições que 
espertam horror e repugnância. Celebro a Missa de vez em quando, assisto os 
moribundos; desde o ano passado abri uma escola de catecismo para os 
meninos (são uns 50) ..." 
A carta continua. Aqui há muito a ser ressaltado e será o próprio Leitor a fazê-
lo: já deveria estar em condição de saborear sozinho as coisas santas de Frei 
Daniel. 
A doença dele é uma graça! 
É um favor especial; um prêmio, sempre acrescentamos nós, certos de 
estarmos em sintonia com o pensamento agradecido de Frei Daniel. Difícil 
entender unicamente com os critérios de nossa inteligência. 
E o Leitor nos deixe acrescentar mais uma coisa. 
A nós parece podermos captar uma substancial diferença nessas duas 
expressões referidas no trecho. 
A primeira: "Em conseqüência da doença que Deus quis me dar". 
A segunda: " ... 180 e mais infelizes atingidos pelo horrível mal ... ". Nesta 
última lemos como uma espécie de fatalidade, um acidente de percurso, uma 
telha que cai na cabeça e é claro que ninguém esperava isso. Aconteceu, diz o 
nosso povo: aconteceu, acontece ... 
Na primeira, ao contrário, percebe-se vívida uma escolha, um ato preciso de 
vontade, um plano a ser realizado por meio da doença que, portanto, não é 
nem feia nem desperta horror ou repugnância; é uma entrega, neste caso, 
aceitável, bem aceitável, pois vem de Deus. 
Fica assim explicado porque brotam espontâneas da caneta de Frei Daniel 
palavras como Graça e Favor especial. 
A vida no Leprosário continua com altos e baixos, com insatisfações e revoltas, 
com fatos dolorosos e cruentos, com pequenos e grandes estremecimentos, 
com muita pena e muito pouca alegria e Frei Daniel, por nada preocupado com 
a doença que avança inexoravelmente, exerce atento e vigilante seu serviço 
religioso com profundo espírito agradecido. 
A prima Irmã Felícita, missionária em Belém como Frei Daniel e presente a sua 
morte, escrevendo à mãe - (15-06-1924) - para-lhe dar a triste notícia, lembra 
comovida: "Ele possuía no seu ânimo paz e tranqüilidade e no meio das dores 
ainda dizia que a lepra que Deus lhe tinha dado a considerava uma graça 
semelhante àquela da Ordenação Sacerdotal ... ". 
A vida no Leprosário continua; o Diário de Frei Daniel a narra para nós, 
enquanto ele vive sua vocação. agradecendo sob o olhar satisfeito do Bom 
Deus que de vez em quando se deleita em modelar semelhantes obras-
primas... Por sorte nossa!... 
“Da Hora Sexta a Hora Nona...” 
A hora final e cruenta do Calvário está para bater! 
 
Estamos no final da cena com os Protagonistas no cume de seu sofrer! 
O Diário terminou já faz tempo: Frei Daniel não pode mais escrever...Com 
dificuldade dá poucos passos no seu "Retiro São Francisco". Largou há tempo 
seu ministério ativo. 
Está aí jogado como Jó num leito de dores, ou melhor, está aí pregado na Cruz 
porque está para bater "a hora nona"! 
É o momento de sua perfeita conformidade a Cristo Crucificado! 
Quem pode verdadeiramente dizer o que se passou nesses meses cruciais no 
coração apaixonado de Frei Daniel?... Ninguém! Só Deus poderia, mas Ele em 
via normal não costuma dar a conhecer a todos aquilo que vai operando nas 
suas almas prediletas... 
Certamente que naquela casinha de madeira tão pequena e tão preciosa foi 
escrito a quatro mãos - duas chagadas e contorcidas, mais duas transpassadas 
com pregos - foi escritoum capítulo estupendo da História da Salvação que 
ainda não parou de atuar!... 
Frei Daniel bebe até à última gota o cálice amargo da Paixão redentora. Em 
todos esses anos deu provas - sustentado pela Graça - de poder beber o cálice 
de Jesus (cfr. Mt 20, 22). Agora é o momento da "esponja de vinagre num ramo 
de hissopo" (cfr. Jo 19, 29-30). 
 
É necessário tomar também o vinagre, como Jesus, abandonado nas mãos do 
Pai. 
Os co-irmãos capuchinhos do convento, os "Irmãos em Cristo", a admirável 
Maria da Penha não o abandonam, mas a Cruz é sua!, o drama do Sofrimento 
é seu! É seu até o "tudo está consumado" que pronuncia junto com Jesus! Nas 
mãos do Pai! 
Frei Daniel ainda consegue celebrar a Missa dos seus 25 anos de Sacerdócio: 
com enorme esforço, voz rouca, mãos incapazes de segurar o cálice e de 
erguê-lo, mas louvando e agradecendo a Deus que o "premiou", (o verbo é 
dele!) com a lepra. 
Oh, como era feliz! Como era doente naquele "grande dia"!... 
Recebe o Viático e as palavras que balbucia penosamente resumem toda a 
sua vida: está acontecendo o grande encontro, face a face, com Aquele ao 
Qual serviu desde sua tenra idade... 
As testemunhas oculares nos transmitiram relatórios desses últimos instantes 
de Frei Daniel. Lendo-os não conseguimos permanecer inertes ou indiferentes. 
Intui-se que aqueles momentos irrepetíveis pertencem exclusivamente aos 
grandes homens que fizeram sua opção radical por Deus... 
Aquelas palavras balbuciadas, aparentemente desconexas entre si, são ao 
contrário costuradas por dentro com duplo fio num diálogo completo e fluente 
que a alma está tendo, como dona, com Deus... 
Pouca coisa transparece dos membros do corpo que está prestes a ser 
abandonado, e é mais para quem assiste atônito e compungido do que para o 
titular daquele grande espírito. 
E, inclinando a cabeça, entrega o espírito... Chega o dia da morte... Chega o 
dia do nascimento definitivo para o Céu dos Colaboradores... Chega o 
momento feliz da entrada na Glória… 
Sua Missão esta cumprida: começa sua missão! 
Sim, o Leproso Frei Daniel Rossini de Samarate, o de Respiro do Filho que 
mais uma vez se imola no Pai, começa 
Frei Hermes Recanati de Spirano, pouco antes de morrer, narrava-nos que 
quando Maria da Penha - indo com ele visitar os doentes - lhe contava 
amplamente sobre a santa morte de Frei Daniel, sempre demorava num 
detalhe muito interessante para nós, a saber: no momento exato da partida 
levantou-se em vôo da casinha uma multidão de aves de toda espécie: foram e 
voltaram por várias vezes, batendo as asas e cantando com tal insistência que 
atraiu a atenção de todos os presentes. 
Procuramos confirmações - escritas ou orais - desse detalhe maravilhoso. 
Não as temos encontrado, mas todos sempre nos spondiam: a fonte - Frei 
Hermes, no caso - è respeitável, merece plena credibilidade... E nós a 
concedemos a ele com todo o prazer, pois lemos no "Tratado dos milagres" (IV, 
32) de Thomas de Celano o que se segue: "As cotovias, amigas da luz do dia e 
medrosas das sombras do crepúsculo, naquela tarde em que São Francisco 
passou do mundo para Cristo, embora já tivesse iniciado o crepúsculo, 
pousaram-se sobre o teto da casa e garriram longamente, rodeando em torno. 
Não sabemos se quiseram do jeito demonstrar a alegria ou a tristeza cantando. 
Elas cantavam um alegre pranto e uma alegria dolorosa..." 
A aproximação é por si mesma muito eloqüente é sublime até! 
Fala sozinha... 
O Dia 19 de Maio Será Sempre Lembrado 
O corpo de Frei Daniel é sepultado com toda a pressa, como mandavam as 
leis, mas no enterro havia numeroso povo: os pobres e os doentes, sobretudo, 
acorreram em multidão. 
É o dia 19 de maio de 1924: um dia qualquer, sem importância no calendário 
dos homens, mas quanta alegria, quanta festa, quanto júbilo nos Altos dos 
Céus! 
O "bambu" chegou até lá em cima! Começa a estar disponível o "nosso 
bambu"!.. 
 
A lembrança de Frei Daniel continua viva - nunca se apagou de fato - e 
também agora, não obstante os setenta anos desde sua morte, ele consegue 
alcançar do Bom Deus graças e favores muito mais que o renomado e 
experimentado Sto. Antônio!... 
Chegamos a conferir o número de plaquinhas por graças alcançadas na nossa 
igreja de Belém do Pará: Frei Daniel, confinado num corredor que dá acesso à 
portaria do convento, sendo que ainda não é o tempo de colocá-lo num altar, 
está cercado por um número bem maior de placas "POR GRAÇA 
ALCANÇADA" do que aquelas colocadas no altar do taumaturgo de Pádua. Isto 
acontece porque o povo simples, os pobres, os humildes do Evangelho e da 
Terra não deixam Frei Daniel tranqüilo. Detêm-se longamente em oração 
diante de seu quadro no corredor mencionado. Os frades o colocaram aí para 
evitar que fossem feitas manifestações índevidas de culto a quem ainda não foi 
declarado digno das honras dos altares, porém os pobres já o colocaram há 
muito tempo no altar e se dirigem a ele como se já fosse um santo, un grande 
Santo... 
"Vox populi, vox Dei", reza desde sempre a sabedoria popular: Voz do povo, 
voz de Deus... 
Assim, finalmente, também nós Frades Capuchinhos, co-irmãos de Frei Daniel, 
despertamo-nos do longo sono da indiferença e da inconsideração e 
começamos seriamente a pensar que tinha chegado o momento de pedir ao 
Bispo de Belém e ao Vaticano, em Roma, o "nada obsta" para iniciar os 
processos sistemáticos e canônicos com o objetivo de documentar suas 
virtudes heróicas. E assim foi. Na década dos anos '80 foi escolhido um frade 
como Vice-Postulador e D. Alberto Gaudêncio Ramos, antes, e D. Vicente 
Joaquim Zico, depois, Arcebispos de Belém. do Pará, encaminharam o pedido 
a Roma para que se pudesse começar a desenvolver o Processo de 
Beatificação de Frei Daniel. 
Em 1991 chegou da Sagrada Congregação para a causa dos Santos a 
suspirada permissão e assim, mesmo muito lentamente, a grande "máquina" 
do processo foi posta em movimento e está funcionando. 
Cabe aqui recordar, porque é digna de ser sublinhada, a instalação oficial do 
Tribunal Eclesiástico que julgará "in loco" a heroicidade das virtudes de Frei 
Daniel. Aconteceu na inesquecível noite de 16 de agosto de 1992, depois da 
Solene Celebração Eucarística na esplêndida Catedral de Belém presidida por 
D. Vicente Joaquim Zico. Na sua homilia o Prelado teve para Frei Daniel 
palavras cheias de profundo significado, exaltando-o como: grande missionário 
- grande sofredor - glória do clero paraense. 
Esta última definição foi a que comoveu os missionários presentes, sobre os 
quais -por mais esforços façam- sempre pesa o "pecado original" de serem 
estrangeiros, incapazes, por isso, constitucionalmente de assumirem e de 
compreenderem uma cultura diferente da deles. Frei Daniel, ao contrário, não é 
mais um estrangeiro: é uma glória do clero paraense porque agora é o Servo 
de Deus que se fez tudo para todos. 
A "máquina" do processo dissemos - pôs-se em movimento, mas o "caminho" 
está sendo percorrido com extrema lentidão; as paradas, às vezes, são 
desconcertantes. 
As dificuldades são tantas e os homens de Igreja, aqui no Brasil, são de 
verdade muito poucos. Devem fazer diversas coisas ao mesmo tempo e 
acontece que todas ou quase marquem vistosamente o passo. 
Acrescente-se que o próprio processo se apresenta anômalo e cheio de 
problemas. 
Por exemplo: ao presente, excluída uma Irmã centenária, não vive mais 
ninguém dos que o conheceram pessoalmente. Podemos juntar somente 
testemunhos de segunda mão. São muito interessantes, claro - o Leitor terá 
captado alguns deles no decorrer destas páginas - mas são repetitivos e 
correm o risco de documentarem muito pouco. Fica para nós último recurso - o 
trabalho de arquivo; é o que estamos levando adiante e só Deus sabe quanto é 
árduo e pouco proveitoso... 
Em compensação - não sabemos se nos alegrar ou nos entristecer - existem, 
continuam infelizmente existindo numerosos "Irmãoscristãos"! 
São eles os nossos Amigos e sustentadores. Eles os "torcedores" mais 
afervorados. Eles que nos solicitam continuamente e nos obrigam a agir. São 
eles que querem Frei Daniel santo: comprova isso o interesse que sempre nos 
garantem todas as vezes que vamos até eles em nome deste nosso e deles 
"Irmão cristão" maior! 
 
 
 
VENERÁVEL SERVO DE DEUS 
FREI DANIEL DE SAMARATE 
1876- 1924 
Missionário Capuchinho no Brasil - Leproso 
"Credo" que o doente Frei Daniel e os seus irmãos leprosos rezavam com voz alta cada 
manhã, também nós possamos orar com eles, pedindo a Deus através a intercessão de 
frei Daniel a ajuda para viver na alegria. 
 
Eu sou filho de Deus 
Deus habita em mim 
Posso ser o que desejo 
porque Deus é meu auxílio 
Nunca me canso 
porque Deus é minha força 
Nunca estou doente 
porque Deus é minha saúde 
Nunca me falta cousa alguma 
porque Deus é meu suprimento 
Pois eu sou filho de Deus 
estou unido à Divina Presença de meu Pai 
Eu sou feliz em tudo que empreendo, 
pois meu saber e meus conhecimentos 
aumentam cada vez mais em mim. 
Amém. 
 
Referências: 
www.ofmcap.org/pt (ordo fratrum minorum capuccinorum) 
http://www.padredanieledasamarate.it/ 
http://www.ofmcap.org/pt
http://www.padredanieledasamarate.it/

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