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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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56 HARVEY, John, op. cit., p. 18. 
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resultado de um costume, pelo menos na grande maioria dos casos, nascido de um desejo dos 
homens e das mulheres de se tornarem mutuamente atraentes e de criarem uma identidade. 
Os adornos utilizados por povos primitivos em seus mais remotos estágios podem ser 
classificados em três tipos. Primeiramente, a modelagem do corpo, seguindo certos padrões de 
beleza locais. Nesta categoria incluem-se as deformações cranianas, a constrição dos pés, 
levada a efeito na China, o costume de lascar os dentes, encontrado em muitas tribos 
africanas, e mesmo a compressão da cintura comum na Europa e na América.Vale registrar 
aqui que muitos dos tipos de deformações têm por objetivo enfatizar alguma característica 
física natural do povo que a pratica. Segundo, o emprego de materiais estranhos ao corpo 
como adorno – pintura, tatuagem ou cicatrizes ornamentais – freqüentemente causadas pela 
introdução de corpos adventícios nas feridas. Prática essa que, em parte, pertence também à 
primeira categoria. Finalmente, o costume de pendurar ou ajustar enfeites em algumas partes 
do corpo. Nesta categoria encontram-se os ornamentos das orelhas, nariz, lábios, como 
toucados, colares, braceletes, pulseiras, enfeites dos tornozelos e pernas, anéis, guirlandas e 
muitos outros. 
Quanto ao clima, deve-se-lhe atribuir grande importância na evolução da vestimenta. 
Crê-se, efetivamente, que o “homo sapiens” 57 se tenha originado em clima quente, migrando 
aos poucos para as regiões mais próximas dos pólos. De certo, enquanto a temperatura se 
abrandava, uma nova função foi sendo gradativamente adquirida pelo traje – a da proteção do 
corpo de quem a vestia. Não deve ser esquecido, porém, que os árabes, habitantes de países 
via de regra quentes, vestem-se prolixamente, enquanto os fueguinos da extremidade do Cabo 
Horn, expostos a todos os rigores do clima antártico, usam apenas uma pele, ajustada ao corpo 
por meio de cordas. 
Outro fator de capital importância no desenvolvimento da moda foi a superstição. 
Indubitavelmente, a muitos dos pequenos objetos com que o homem primitivo se adornava, 
especialmente troféus do mundo animal, eram atribuídas qualidades benéficas e protetoras, 
além de transmitir, a quem os usava, características do objeto de origem. Tais peças, imitadas 
talvez em outros materiais, teriam, através das sucessivas cópias, perdido seu significado 
primitivo e sua identidade, passando depois a exercer função puramente decorativa. Se na 
verdade a superstição foi responsável por grande parte da primitiva “joalheria”, por outro lado 
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57 LAVER, James, op. cit., p. 8. 
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não parece ter sido a causa de todas as formas de ornamentação, uma vez que o desejo de 
satisfazer um senso estético inato desempenhou papel relevante na história do vestuário. 
Em se tratando particularmente das mulheres, no que se refere ao traje e ao ato de 
vestir-se e despir-se, elas assumiram, devido a um grande apego às modas do corpo, um 
sentido simbólico particular. Aquelas que procuravam submeter a carne, como meio de 
libertar o espírito, tinham dificuldade em escapar “às distinções e definições vestimentárias”.58 
 “Os significados das roupas são construções colocadas sobre elas e não podem ser 
lidos num dicionário,como o podem os significados verbais. Esses significados baseiam-se na 
percepção de escolhas específicas ou na abdicação da escolha, (...) mas há um alto grau de 
ambigüidade quanto ao objetivo das escolhas.”59 A veste tem um valor simbólico tão especial 
que, mesmo trocando os trajes ricos por andrajos, as mulheres levantam questões sobre suas 
identidades. Pode-se concluir que o significado do vestir-se para a humanidade é complexo e 
merece uma análise cuidadosa. 
 
Para a humanidade, o vestir-se é pleno de um profundo significado, pois o espírito humano 
não apenas constrói seu próprio corpo como também cria as roupas que o vestem, ainda que, 
na maior parte dos casos, a criação e a confecção das roupas fiquem a cargo de outros. 
Homens e mulheres vestem-se de acordo com os preceitos desse grande desconhecido, o 
Espírito do Tempo.60 
 
 
2.3 O vestuário medieval 
 
Os povos germânicos tinham como traje principal uma túnica* curta formada por dois 
pedaços de couro costurados de forma bastante rudimentar. Mais tarde, a túnica* foi feita de 
lã ou de linho. Sob a túnica*, os homens vestiam calções ou calças largas, o que, aos olhos 
romanos, era um sinal de barbárie. Naturalmente os germânicos sofreram influência em seus 
contatos com o mundo romanizado e aos poucos adotaram algo parecido com o traje romano, 
mas, em geral, feito de tecidos mais grosseiros como o cânhamo*. A túnica* e o manto, 
vestuários básicos dos tempos greco-romanos, atravessaram ainda muitos séculos, mudando 
pouco a pouco suas formas. Quando a túnica* tornou-se o traje mais importante do vestuário, 
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58 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p. 189. 
59 HARVEY, John, op. cit., p. 15. 
60 KÖHLER, Carl, op. cit., p. 58. 
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passou a ser cuidadosamente elaborada, apresentando variadas faixas de debrum* colorido. 
No final do século I d.C., os godos (de origem escandinava), uma tribo do norte da 
Europa havia-se estabelecido na região da Prússia oriental e ameaçaram a civilização romana. 
Como os ostrogodos que rumaram para o leste em direção à atual Rússia; os visigodos, 
rumaram para o oeste em direção à Espanha e a outras regiões, saqueando Roma sob o 
comando de seu líder Alarico, no século V. Os longobardos ou lombardos fixaram-se no norte 
da Itália. Através das descrições de historiadores romanos como Sidônio Apolinário, sabemos 
que originalmente esses povos usavam túnicas* de linho com mangas tendo pele nas bordas, 
mas que gradualmente se romanizaram. Novas ondas de invasores vindos do Oriente 
ameaçaram as próprias tribos germânicas (teutônicas). Os hunos, originários da Mongólia, em 
meados do século I d.C., haviam chegado à Europa, e, no século IV, sob o comando de Átila, 
à própria Roma. Na França, os gauleses haviam adotado não só as roupas e costumes 
romanos, como também a língua latina. Como os bretões, eles haviam-se tornado (pelo menos 
nas classes mais altas) completamente romanizados. A “Gália foi conquistada pelos francos 
(teutões) que habitavam a outra margem do Reno e, por volta do século V d.C., dominavam a 
maior parte do país”.61 
Talvez nada soubéssemos sobre as roupas da época merovíngia na França (481-752) se 
não fosse o fato de os invasores francos, que controlavam o país, terem o hábito de enterrar 
seus mortos, ao invés de queimá-los como faziam os gauleses romanizados. Com os corpos 
dos reis dos nobres e dos abastados, enterravam-se as roupas, as armas e equipamentos 
militares que usavam em vida. Segundo James Laver, escavações em Les Mans (Lorena) 
revelaram espécimes de roupas de linho fino que, apesar de fragmentários, mostram que era 
costume usar uma túnica* caindo até os joelhos, chamada gonelle, bordada nas extremidades 
e presa por um cinto. 
Sabe-se pouco sobre os trajes femininos dessa época uma vez que as mulheres estão 
menos representadas na cultura dos ritos funerários. “Entretanto, encontram-se, em outras 
fontes, registros que, em geral, elas usavam uma túnica* longa chamada stola adornada com 
faixas bordadas. Os braços ficavam nus. Broches prendiam as roupas aos ombros e usavam-se 
cintos de couro. Uma espécie de lenço chamado palla era drapeado em volta dos ombros”.62 
A túnica*, indumentária comumente usada pelas mulheres, consistia em uma longa 
camisa de linho ou sisal de

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