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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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152 KÖHLER, Carl, op. cit., p.260. 
153 ibid, op. cit., p. 261. 
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“As mulheres espanholas tinham uma preferência especial pelas mantas soltas, e, ao 
combinarem a volumosa capa com o surcot*, mais confortável, acabaram criando uma 
sobreveste extremamente original, que descia só até os joelhos”.154 Em se tratando de corte, 
pode-se observar que era pouco mais que um semicírculo, com aberturas laterais que 
iniciavam mais ou menos no meio do braço e iam até os pés. Para circundar o pescoço, uma 
gola larga, dura e levantada (fig. 64). A extremidade superior da gola ficava ligeiramente 
virada para fora, esse efeito conseguia-se, cortando-se dela alguns pedaços estreitos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fig. 67: Vestido espanhol do século XV. 
Fonte: KÖHLER, Carl. História do Vestuário. São Paulo: Martins Fontes, 2001, 2ª ed. 
 
 
 
 
 
___________________________________________________________________________ 
154 KÖHLER, Carl, op. cit., p.262. 
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Fig. 68: Vestido espanhol do século XV. 
Fonte: KÖHLER, Carl. História do Vestuário. São Paulo: Martins Fontes, 2001, 2ª ed. 
 
 
 
De modo geral, os vestidos conservavam a mesma forma do período anterior, havendo 
uma evolução lenta e gradativa. Partiu-se de uma túnica* retangular, para vestes e sobrevestes 
justas delineando os contornos do corpo ou totalmente folgadas abaixo do busto. Ambos os 
estilos, no entanto, sofreram modificações relativas ao corte. O estilo justo até os quadris 
passou a ser aberto em toda a parte da frente; as duas asas frontais eram presas por cordões 
que cruzavam o peito. O vestido normalmente ficava aberto da cintura para baixo, apesar da 
existência de casas e botões. As mangas, tão justas quanto possível, eram muito longas 
chegando até as pontas dos dedos. 
A parte de trás do vestido também passou por mudanças. A princípio era dividida 
longitudinalmente e modelada na cintura, segundo o estilo anterior que, até então, ficara 
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restrito às laterais. As duas extremidades eram então costuradas, resultando em um perfeito 
feitio. As nesgas laterais estenderam-se até os quadris e não mais formavam pontas na parte 
de cima, sendo agora arredondadas. 
Para assegurar um talhe perfeito, cada parte da veste deveria ser cortada 
separadamente, como por exemplo, a parte das costas deveria ser separada da saia. Ambas as 
partes eram modeladas até certo ponto nos lados e novamente costuradas. As pregas 
longitudinais que apareciam nos vestidos feitos com tecido encorpado eram passadas a ferro 
bem quente. Os vestidos largos, dos ombros para baixo, tinham o mesmo corte que aqueles 
confeccionados com tecidos leves. O decote* poderia ser baixo ou alto, mas sempre cada vez 
mais profundo. Diferenças outras diziam respeito mais à maneira de montar o vestido do que 
ao corte. As costas e a frente (cada qual feita na largura adequada sujeita à inserção de nesgas) 
só eram costuradas nos ombros. Os lados ficavam abertos em toda sua extensão ou, pelo 
menos, dos quadris para baixo. Nos dois casos, as partes soltas eram unidas por cordões 
frouxamente amarrados. Se o vestido fosse aberto a partir da axila, só a metade superior das 
mangas podia ser costurada a ele, as mangas às vezes ligavam- se ao vestido por pequenos 
botões costurados a pequena distância um do outro. 
Conforme o proposto, o presente capítulo mostrou cada peça da vestimenta em 
detalhe, salientando o corte cada vez mais aprofundado na cintura, o desenho do contorno do 
busto, as duas peças da veste, as mangas avolumadas e as mangas estreitas como luvas 
delineando os braços, os decotes* pronunciados em forma de V e os arredondados mostrando 
os ombros. Ora se apresentavam cordões e botões ajustando os corpos esbeltos das donzelas, 
ora se apresentavam ventres se avolumando e a vestimenta ganhando uma estética nova. As 
caudas das vestes se prolongavam e incomodavam a “boa” moral vigente. A ambigüidade da 
regra era, em contrapartida, não mais deixar as mulheres carregarem o peso de suas caudas 
por causarem furor. Quanto mais tecido, mais poder, menos mobilidade, maior a prisão. 
Quanto maior a fineza de detalhes, maior a curiosidade, maior o potencial de sedução. Cada 
nesga, cada abertura poderia ser motivo de devaneios líricos. Assim seguiu a mulher 
assumindo as metamorfoses e a prisão da vestimenta em seu próprio corpo e de certa forma 
usando esta a seu favor. 
 
 
 
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Conclusão 
 
Para iniciar os estudos sobre a vestimenta e a moda como fatores de opressão do corpo 
feminino na Europa Ocidental Medieval, foi preciso investigar o fenômeno da moda e sua 
origem. Sabendo-se que a moda originou-se no baixo medievo, sentiu-se a necessidade de 
adentrar o universo medieval repleto de questões que definiram o caminho da moda, tendo no 
vestuário um signo visível de manipulação e de opressão. Tentou-se levantar os aspectos mais 
importantes do processo de construção da moda e expô-los de maneira a levar a um 
reposicionamento específico, não se detendo entretanto a uma análise precisa e detalhada de 
cada parte do traje, mas considerando-o como um conjunto significativo. 
Para isso, percorreram-se as incessantes mudanças do vestuário feminino, procurando 
as variáveis contextuais que envolviam a mulher neste processo de construção da moda. 
Procurou-se na vestimenta traços que expressavam a cultura misógina que prevalecia no 
Ocidente Europeu. Encontrou-se no discurso clerical do século XII a base para a criação de 
um pensamento sobre a mulher que viria a desencadear todo um comportamento de 
submissão. De forma simbólica e pragmática, a vestimenta reforçou o poder masculino sobre 
o feminino. No entanto, viu-se surgir através da moda e de seus artifícios uma nova imagem 
de feminilidade que se transformou em signos estéticos como estratégias de sedução. 
O vestuário esteve submetido às graças das mudanças da moda diferenciada entre os 
sexos e não só se sujeitou ao gosto de soberanos e poderosos, mas desenvolveu-se 
intimamente ligado a uma política de dominação clerical. Foi possível constatar a importância 
da vestimenta como manifestação de poder, distinção e construção do comportamento de uma 
sociedade. 
O presente trabalho procurou abordar o fenômeno da moda e do vestuário como 
instrumentos de manipulação e opressão do corpo feminino, e através deles, a imagem da 
mulher na Europa do Ocidente Medieval. Também, procura percorrer as metamorfoses do 
vestuário no período histórico da Idade Média do século XI ao XV, tendo como foco o 
discurso vigente que subjugava a mulher num contexto inquisitório de repressão, mostrando 
como esse discurso masculino influenciou o nascimento da moda e a concepção da 
vestimenta. Partiu-se de uma análise que envolveu desde a concepção da forma até o corte da 
vestimenta, onde se esconde a chave para se alcançar o efeito sobre o corpo, apresentando 
questões importantes que envolvem o universo da mulher e a abertura de um novo conceito 
em nascimento: a moda. Assim como o contexto refletia as ambigüidades entre o pensamento 
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e o comportamento, a moda refletia, também as ambigüidades entre a ostentação e a discrição. 
De um lado ela provocou uma revolução democrática e do outro exibiu amplamente os signos 
do poder, da dominação. 
A partir de um levantamento do universo feminino do período medieval em 
iluminuras, pinturas, esculturas, e esfregaduras em metal, encontradas em livros de história 
consultados, obteve-se informações a respeito das vestimentas. O acesso a esse registro de um 
repertório mais amplo sobre a vestimenta aristocrática deu maior realce à análise dentro desta

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