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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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1.2 O conceito de Moda 
 
A inconstância nas formas, nas cores e nas ornamentações já não é exceção, mas regra. 
A fantasia expõe seus artifícios e suas variações aristocráticas exageradas; a renovação nas 
formas se torna valore mundano, e assim surge a moda. 
A moda não pertence a todas as épocas nem a todas as civilizações. Durante dezenas 
de milênios, a vida coletiva se desenvolveu sem o culto às fantasias e às novidades, sem a 
instabilidade e a temporalidade efêmera da moda, o que não quer dizer sem mudanças. Só a 
partir do final da Idade Média é possível reconhecer a ordem própria da moda, a moda como 
sistema, com suas metamorfoses incessantes, seus movimentos bruscos, suas extravagâncias. 
“Para pensar a moda é preciso que se renuncie a uma constante histórica fundada em raízes 
antropológicas universais. A emergência do fenômeno da moda está na instalação de seu reino 
no Ocidente moderno, e em nenhuma outra parte. A moda é formação essencialmente sócio-
histórica, circunscrita a um tipo de sociedade”.15 
A referência da problemática da moda, com certeza, está na história do vestuário. Este 
é o que se pode chamar de objeto emblemático das metamorfoses dos estilos, da mudança do 
vestir e que impõe essa concepção histórica da moda. “A esfera do parecer é aquela em que a 
moda se exerceu com mais rumor e radicalidade, aquela que, durante séculos, representou a 
manifestação mais pura da organização do efêmero.”16 Neste sentido, desde que a moda se 
instalou no Ocidente, não teve conteúdo próprio, forma específica de mudança social, e não 
está ligada a um objeto determinado. Entretanto, é, antes de tudo, um mecanismo social de 
especificidade temporal singularmente curta, caracterizada por mudanças um pouco 
fantasiosas, afetando assim partes muito variadas da vida em sociedade. 
 
 
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14 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 13. 
15 LAVER, James. A Roupa e a Moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 25. 
16 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 24. 
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Desde meados do século XII até os séculos XIX e XX, foi o vestuário, sem dúvida 
alguma, que encarnou mais ostensivamente o processo da moda. Foi o teatro das inovações 
formais mais aceleradas, mais caprichosas, mais espetaculares. Durante todo esse imenso 
período, o domínio da aparência ocupou lugar preponderante na história da moda. Se ele não 
traduz, reflete toda a estranheza do mundo das futilidades e das superficialidades. Portanto, 
tornou-se o objeto mais representativo, por ser o mais conhecido, o mais descrito e o mais 
comentado. O vestuário proporciona uma certa unidade, considerando a heterogeneidade da 
ordem do sistema de moda. A inteligibilidade do fenômeno passa pela fantasia das aparências 
que é seu apelo na era aristocrática. De um ponto de vista histórico-abrangente, sendo a moda 
um fenômeno social de considerável oscilação que prima pelo caráter mutável, tem-se uma 
estabilidade e uma regularidade em seu funcionamento profundo. Pensar o fenômeno, afirma 
Lipovetsky, “exige que se saia da história positivista e da periodização clássica em séculos e 
decênios, cara aos historiadores do vestuário”.17 Esse pode ser um ponto de partida, mas 
reforça demasiadamente a idéia de que a moda é somente uma cadeia ininterrupta e 
homogênea de variações, marcada por intervalos mais ou menos regulares e por inovações de 
menor ou maior importância. É preciso tentar reconstruir as grandes vias de sua história, 
compreender seu funcionamento, destacar as lógicas que a organizam e os elos que a unem ao 
todo coletivo, pontuar os momentos decisivos e de grande relevância que instituem fases 
definidas na história das estruturas e das lógicas da moda. É importante ressaltar que as 
rupturas de regime político não implicam automaticamente numa transformação completa do 
vestuário para além das grandes mudanças, normas, atitudes e processos se repetiram. “Do 
final da Idade Média a nossos dias, a despeito das inflexões decisivas de sistemas, 
comportamentos individuais e sociais, valores e invariantes constitutivos da moda não 
cessaram de reproduzir-se.”18 
A invenção incessante e a obsolescência planejada inerentes ao consumo e à moda 
tornaram-se cada vez mais associadas ao caráter feminino.“Na verdade parecia não haver 
qualquer lei suntuária dirigida às mulheres equivalente à diretiva que Veneza dirigiu à classe 
dominante masculina para que se vestisse de forma mais colorida e suntuosa”.19 O traje 
masculino demasiado sóbrio, poderia ameaçar o prestígio da cidade, pois denotava um caráter 
 
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17 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit. p. 25. 
18 id., op. cit., p. 25. 
19 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p. 211. 
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conservador. Em outros casos, os homens podiam dar-se ao luxo de usar um traje qualquer 
porque suas esposas e filhas afirmavam o status da família, comprazendo-se com o desafio da 
moda e da mudança incessante do vestuário. 
“Nesse percurso multissecular, um primeiro momento se impôs durante cinco séculos, 
da metade do século XIV [...]: é a fase inaugural da moda, onde o ritmo precipitado das 
frivolidades e o reino das fantasias instalaram-se de maneira sistemática e durável”.20 Para dar 
vazão ao impulso das frivolidades, foi necessária uma promoção dos signos da diferença 
pessoal, da representação das pessoas como indivíduos. A necessidade de se estabelecer um 
diferencial faz do vestuário aristocrático um condutor privilegiado do processo de moda. Isso 
pode ser notado ao final do Baixo Medievo, pois são inúmeros os signos de uma busca de 
identidade vistas através da vestimenta. A moda, já em sua fase inicial, revela seus traços 
sociais e estéticos mais característicos, apesar de estar ligada a grupos muito restritos que 
monopolizam o poder de iniciativa e de criação. Trata-se do estágio artesanal e aristocrático 
da moda. O caráter de distinção entre os sexos e, mais que isso, o caráter de opressão do 
vestuário feminino, aqui enfocado, não deve fazer perder de vista as amplas correntes de 
continuidade que se perpetuaram e asseguraram a identidade da moda. 
 
 
1.3 A moda e o Ocidente Europeu 
 
Durante séculos da história da humanidade, as sociedades funcionaram sem conhecer 
os movimentados jogos das frivolidades. Assim, as sociedades ditas primitivas ignoraram, 
durante sua existência multimilenar, a febre da mudança e o crescimento das fantasias 
individuais. A legitimidade do legado ancestral e a valorização da continuidade social 
impuseram em toda parte a regra da imobilidade, a repetição dos modelos herdados do 
passado, o conservadorismo das maneiras de ser e parecer. “O processo e a noção de moda, 
em tais configurações coletivas, não têm rigorosamente nenhum sentido. É certo que os 
selvagens procurem trajes cerimoniais, tenham o gosto vivo por ornamentações e até 
procurem certos efeitos estéticos, mas nada disso se compara ao sistema da moda”.21 
Conservadora, a sociedade primitiva impede o aparecimento da moda por configurar 
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20 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 25. 
21 LAVER, James, op. cit., p. 27. 
 
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uma relativa desqualificação do passado. Completamente centrada no respeito e na 
reprodução minuciosa do passado coletivo, as sociedades primitivas são organizadas para 
conter e negar as mudanças, mantendo a dependência estrita do passado mítico. A sociedade 
primitiva criou uma barreira que repulsa a constituição da moda na medida em que essa se 
consagra explicitamente à iniciativa estética, à fantasia, à originalidade humana. Além disso, a

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