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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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moda implica uma ordem de valor que exalta o presente em oposição ao modelo de submissão 
fundado no passado. Outrossim, a sociedade primitiva não pode deixar manifestar-se aos 
encantamentos das novidades, da fantasia, do desconhecido, da autonomia estética que a 
mutabilidade assume. “Para que o reino das frivolidades possa aparecer, será preciso que 
sejam reconhecidos não apenas o poder dos homens para modificar a organização de seu 
mundo, mas também, a autonomia parcial dos agentes sociais em matéria de estética das 
aparências”.22 
Os mesmos modos de pensar, de fazer, de sentir, de vestir-se, os mesmos gostos vão 
permanecer inalteráveis através dos séculos, idênticas a si mesmas. A criação da noção de 
Estado e da percepção das diferenças de classes não alterou em nada o problema. No 
Antigüidade, por exemplo, o mesmo tipo de toga-túnica egípcia comum aos dois sexos 
manteve-se por quase quinze séculos com raríssimas variações. Por ordem e exemplo de 
Alexandre o Grande, os gregos cortaram a barba. O peplo*, traje feminino de cima, impôs-se 
às gregas até a metade do século VI a.C. A toga* e a túnica* masculinas romanas persistiram, 
com variações de detalhes, do período mais remoto até o final do império. As civilizações 
orientais excepcionalmente aceitaram modificações: o quimono japonês permaneceu 
inalterado durante séculos; o traje feminino chinês não sofreu nenhuma transformação entre o 
século XVII e o século XIX; as tradições indianas mantiveram a mesma rigidez. 
Há uma dinâmica histórica com o surgimento do conceito de Estado e o desenrolar das 
conquistas. As correntes de importação e de difusão desestabilizam, por vezes, os usos e os 
costumes provocando mudanças, mas sem adquirir por isso um caráter de moda.“Salvos 
fenômenos periféricos, a mudança cristaliza-se em nova norma coletiva permanente: é sempre 
o princípio de imobilidade que prevalece, a despeito da abertura para a história.”23 
Freqüentemente as influências externas e o contato com os povos estrangeiros resultam em 
alterações promovidas pela copia de costumes e de trajes. São também, ora impulsionadas 
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22 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 28. 
23 ibid., op. cit., p. 29. 
 25
pelo soberano que é imitado, ora decretadas pelos conquistadores que impõem seus vestuários 
aos vencidos, pelo menos às classes ricas. O traje dos mongóis que se tornou regra na Índia, é 
um exemplo disso. 
Entretanto, em nenhum caso, as variações procedem de uma lógica estética autônoma, 
não traduzem o imperativo da renovação regular própria da moda, mas sim às influências 
ocasionais ou à relação de dominação. “Mesmo que certas civilizações tenham sido muito 
menos conservadoras do que outras, mais abertas às novidades do exterior, mais febris por 
exibição de luxo, jamais puderam aproximar-se do que se chama de moda em sentido estrito, 
em outras palavras, do reino do efêmero sistemático e das rápidas flutuações sem amanhã.”24 
A rigidez tradicional da sociedade antiga não é permeável ao prestígio das realidades 
estrangeiras; não há sistema de moda senão quando o gosto pelas novidades se torna um 
princípio constante e regular na busca pelas diferenças, quando já não se identifica só com a 
curiosidade em relação às coisas exógenas, quando funciona como exigência cultural 
autônoma, relativamente independente das relações fortuitas com o exterior. Nessas 
condições, poder-se-á organizar um sistema de frivolidades em movimento perpétuo, “uma 
lógica do excesso, jogos de inovações e reações sem fim”.25 
A moda enquanto sistema não aparece antes da metade do século XIV. O que se pode 
assistir é a um ensaio do que poderia vir a ser moda. O século XIV se impõe como marco em 
razão do “aparecimento de um tipo de vestuário radicalmente novo, nitidamente diferenciado 
segundo os sexos: curto e ajustado para o homem, longo e justo para a mulher. Revolução do 
vestuário que lançou as bases do trajar moderno.”26 A toga* longa e flutuante usada 
indistintamente há séculos pelos dois sexos foi substituída, de um lado, por um traje 
masculino composto de um gibão*, espécie de jaqueta curta e estreita, unida a calções 
colantes que desenham a forma das pernas; por outro lado, foi substituída por um traje 
feminino que perpetua a tradição do vestido longo, muito mais ajustado e decotado. 
Transformações essas que estabeleceram uma diferença marcante entre os trajes masculinos e 
femininos, influenciando assim toda a evolução das modas futuras. 
No século XV, “o vestuário feminino é igualmente ajustado e exalta os atributos da 
feminilidade: o traje alonga o corpo através da cauda, põe em evidência o busto, os quadris, a 
 
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24 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 29. 
25 ibid., p. 29. 
26 id., p. 29. 
 
 26
curva das ancas. O peito é destacado pelo decote*; o próprio ventre [...] é sublinhado por 
saquinhos proeminentes escondidos sob o vestido”27 (fig.1). Laver ainda evidencia que “as 
mangas possuíam longas fitas ou palatinas que às vezes se arrastavam no chão”28, como 
testemunha o célebre quadro de Jan van Eyck. 
 
 
 
 
Fig. 1: O casamento dos esposos Arnolfini, de Jan van Eyck, 1434. Londres, National Gallery. 
Fonte: GOMBRICH, E. H. História da arte. São Paulo: Zahar Editora, 1972. 
 
Mesmo controvertida, essa revolução do vestuário difundiu-se muito depressa por toda 
a Europa Ocidental, entre 1340 e 1350. A partir desse momento as mudanças vão precipitar-
se; as variações do parecer serão mais freqüentes, mais extravagantes, mais arbitrárias, a um 
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27 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 30. 
28 LAVER, James, op. cit., p. 64. 
 27
ritmo desconhecido até então. Formas ostensivamente fantasistas, gratuitas, decorativas 
fizeram sua aparição, definindo o próprio processo da moda. A mudança não é mais um 
fenômeno acidental fortuito, tornou-se uma regra permanente dos deleites da alta sociedade. 
A partir do final do século XIV, as fantasias, as reviravoltas, as novidades 
multiplicaram-se muito rapidamente e em seguida jamais cessaram de seguir livre seu curso 
mundano. As flutuações da moda seguramente não conheceram sempre a mesma precipitação. 
Sem dúvida nenhuma, os ritmos das mudanças na Idade Média foram menos espetaculares do 
que as do Século das Luzes, no Renascimento, quando a moda disparou: “todos os meses, 
todas as semanas, todos os dias, quase a cada hora”29, registrando o último sucesso ou o 
acontecimento do dia. Os ritmos da moda foram complexos, variáveis e inumeráveis segundo 
os centros de influência e as épocas. A documentação de que se dispõe é fragmentária, 
limitada, mas os historiadores de moda procuraram mostrar, sem deixar equívoco, a irrupção e 
a instalação dos ciclos breves da moda a partir do final da Idade Média. 
Desde a Antigüidade, as superfluidades da toalete e, em particular, a coquetterie 
feminina foram objeto de múltiplas censuras. A partir do século XV, as denúncias recaíram 
sobre os próprios trajes pomposos das mulheres e dos homens, sobre a inconstância dos 
gostos em geral. “A mutabilidade da moda se impôs como um fato evidente à consciência dos 
cronistas; à instabilidade e à estranheza das aparências tornaram-se objetos de 
questionamento, de espanto, de fascínio, assim como alvos repetidos da condenação moral.”30 
A moda sofre modificações incessantemente, mas nem tudo nela se transforma. As 
mudanças rápidas dizem respeito sobretudo aos ornamentos, aos acessórios e às sutilezas dos 
enfeites, enquanto que a estrutura do vestuário e as formas gerais

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