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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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poetisa Cristina de Pisano em sua obra Le trésor de la cité des dames, escrita em 1405, 
dirigida especificamente a misoginia enfocada na obra Roman de la rose. Na verdade, na sua 
visão: “Os vestidos à moda tornam-se um desejo legítimo, usados não para seduzir os outros 
mas apenas para o prazer daquela que os usa”.38 Baseada em argumentos éticos e sociais mais 
do que em argumentos estéticos, a moda encontra nos centros urbanos sinais de uma ampla 
campanha a seu favor. A aristocrata bolonhesa, Nicolosa Sanuti, vestida em seda púrpura e 
manto cor-de-rosa debruado com fino arminho, apresentou uma resposta elaborada a um 
código suntuário imposto às mulheres de sua cidade em 1453, onde longe de aceitar a 
identificação das mulheres com os bens efêmeros de um mundo transitório e material, 
argumentava que apenas o seu sexo oferece um meio de escapar aos inevitáveis estragos do 
tempo. Defende que apenas a fertilidade das mulheres pode aplacar o poder destruidor do 
tempo pois, são “as mulheres que reproduzem as famílias, e também a República e toda a 
condição humana e mais: que as tornam menos imortal”.39 Segundo o argumento criativo de 
Sanuti, o vestuário e os adornos femininos não são preparativos para um funeral e para a 
decomposição, como afirmavam Tertuliano e outros moralistas que o seguiram, mas sim para 
um casamento e sua promessa de renascimento. Eis aqui um discurso diferenciado, que vê no 
vestuário outras intenções além das malignas e corruptas. 
 
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37 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p. 206. 
38 ibid., op. cit., p. 207. 
39 id., p. 208. 
 32
“A sedução individualizou os signos do vestuário, idealizando e exacerbando a 
sensualidade das aparências”.40 Para as mulheres, o vestuário e os ornamentos eram aparatos 
de sedução que faziam parte de um jogo contraditório de poder e força. Onde de um lado 
estavam os homens ditando as regras do vestir e do encobrir o corpo feminino, e do outro lado 
estavam as mulheres tentando driblar as regras com decotes* ousados, fendas e recortes nas 
roupas, apesar de nem todas estarem de acordo. É fato que nesta época o traje de moda já se 
encontrava associado à sedução, pois eram incontestáveis os efeitos que provocava. 
Desenhando os atrativos do corpo, revelando e escondendo os atrativos do sexo, avivando os 
encantos eróticos. Não era apenas símbolo hierárquico e signo de estatuto social, mas 
instrumento de perversão, meio de agradar e de ser notado. 
A moda permitia às mulheres uma espécie de autodefinição que servia como prova da 
superioridade do seu sexo. Também permitia às mulheres realçar seus aparatos de sedução 
através do uso de sedas, jóias e chapins*. O vestuário favorecia-lhes exibir-se. “As mulheres 
podiam beneficiar-se das possibilidades de transformações da moda para se tornarem tão 
nobres quanto aparentavam. Na verdade, o vestuário permitia-lhes exibir uma certa dignidade 
e poder de transformação, que ao homem não era permitido.”41 
Embora a argumentação em favor da superioridade feminina tenha sido elaborada em 
nome de todas as mulheres, a defesa da moda aplica-se mais precisamente às italianas. As 
mulheres francesas e espanholas podiam exercer um certo poder, assim como as alemãs e 
flamengas que eram livres de se dedicarem a um ofício. As italianas eram suscetíveis à 
autodefinição que a moda permitia. “As mulheres não se encontravam atreladas à política e à 
economia, funções impostas aos homens, por isso eram mais livres para se exprimirem através 
do vestuário”.42 As italianas, em particular, mostraram uma capacidade peculiar para explorar 
as qualidades criativas e transgressivas da moda. Enquanto os homens utilizavam as armas, a 
força e a diplomacia para forjar identidades políticas e individuais, livres dos 
constrangimentos dos antigos ideais feudais e hierárquicos, as mulheres também utilizavam, 
através da moda, seu poder de sedução para modelarem personalidades sociais individuais. 
 
 
 
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40 LIPOVETSKY, Gilles, op. cit., p. 66. 
41 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p.209. 
42 ibid., op. cit., p. 210. 
 33
Na literatura religiosa masculina, sobretudo a monástica, a mulher é despojada de qualquer 
humanidade ou riqueza psicológica: ela não é mais do que a projeção do desejo do homem. 
Uma prova evidente é a representação da serpente tentadora que, na cena do pecado de Adão e 
Eva, pode mostrar-se com bela cabeça de rapariga. O artista terá desejado explicar como tinha 
feito um animal a sussurrar as palavras da tentação, evocando as sereias encantadoras da 
Antigüidade, metade mulheres e metade pássaros que, com o seu cantar, faziam naufragar os 
marinheiros. (...) Uma das miniaturas (fig.3) (...) mostra, numa única seqüência a tentação e a 
queda. A serpente é quase antropomorfizada. Da moda das mulheres extraiu-se a bela coifa* 
presa sob o queixo; apresentada com um gesto insinuante o fruto proibido a Eva, que o passa 
ao companheiro.43 
 
 
Nessa imagem vê-se a serpente tentadora com feições femininas. Assim caracterizado 
pelo artista, essa atribuição pode dar a medida de como o pecado da sedução era vivido de um 
ponto de vista exclusivamente masculino, mesmo se, de acordo com essa diretriz, era também 
a sedução um trunfo do poder feminino. 
 
 
 
Fig. 3: A tentação de Adão e Eva. Miniatura de um saltério,(ca. 1270-1280) Cambridge, Saint John`s College. 
Fonte: DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres: a Idade Média. Porto: Afrontamento, 1990. 
 
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43 DUBY, Georges; PERROT, Michelle, op. cit., p. 473. 
 34
1.4 As transgressões da moda 
 
Na Idade Média o fato da mulher vestir-se, enfeitar-se e maquiar-se para mostrar-se 
em público configurava uma subversão das regras sociais. A exteriorização de seu corpo de 
forma banal causava extremo desagrado e atiçava a polêmica dos clérigos contra esse tipo de 
comportamento. A vigilância e o controle excessivo imprimem na mulher uma idéia de 
inferioridade espiritual e servem, na verdade, para incitá-la aos cuidados com o corpo. 
Impregnada de uma idéia de inferioridade espiritual a mulher investe naturalmente na 
aparência driblando as regras impostas, encontrando uma via de acesso que lhe permite a 
vaidade e os enfeites. 
A partir do fim da Idade Média, os surgem os chapins* e as anquinhas*, duas modas 
de grande projeção na Renascença que, são exemplo de um comportamento transgressor da 
mulher. De maneira geral, estigmatizadas, revelam uma leitura do vestuário feminino segundo 
uma visão eclesiástica e tradicional. As duas modas provocarem um aumento substancial na 
quantidade de tecido empregado na confecção dos vestidos femininos. Tudo indica que as 
críticas lançadas contra elas eram mais de cunho moral que econômico, pois, foram 
provavelmente concebidas para beneficiar o comércio. Na medida em que os tecidos se 
avolumavam a questão se tornava mais séria. “As caudas por exemplo, cujo extravagante 
consumo de tecido, tinha outrora suficiente para sua condenação, tornam-se agora um 
esconderijo para diabos mais do que um sinal de pretensão aristocrática.”44 
No século XV, os chapins*, sapatos de solas altas em couro, madeira ou cortiça, que se 
tornaram populares tiveram uma conotação negativa. Em algumas cidades italianas, bem 
como na Espanha, se propagava a idéia de que esses poderiam contribuir para a esterilidade e 
causar dano espiritual à mulher, sendo mais apropriados às prostitutas, às quais foram 
atribuídas de ofício por alguns governos. O confessor da rainha Isabel da Espanha

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