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SILVA, Denise Ferreira da divida impagavel

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ou um ensaio para jeitos de existir, 
saber e viver fora dos domínios governados pela Razão Universal. 
Estas páginas, contudo, não contém promessas e garantias quanto 
ao que vem, pois o conjunto destes textos não é uma cartografia 
de outros mundos possíveis, mas uma decomposição do mundo-
como-conhecemos a partir da força do que lhe cerca. São facas 
para cortar as articulações de aço da Racionalidade Moderna, 
raios para atordoar a Consciência Autodeterminada do Sujeito, 
ventos para desviar a flecha do Tempo, explosivos para implodir 
os edifícios do Realismo Científico e sussurros para desorientar 
as leituras rumo ao limite do que conhecemos e, daí, ao domínio 
imprevisível daquilo que simultaneamente já está e está porvir.
371. Quem é o que no jogo da razão?
007. sensível
003. Para prosseguir com esta leitura será necessário mover-se 
por duas vias simultâneas, uma situada aquém e a outra além da 
representação. Porque não se trata simplesmente de afirmar que 
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a sub-representação é um problema que deve ser resolvido com 
mais e melhor representatividade (isto não é sobre lugar de fala!), 
mas de pensar de que modo a representação da preta como “objeto 
de não valor” (Hegel) implica a constituição da pretitude como 
uma categoria que colapsa a representação e o valor.
151. irreversível
699. Porque somos irrepresentáveis.
541. A força, quando ela extrapola um canal e se alastra, expande 
ou some. Sumir não é desaparecer em sentido necropolítico.
005. “A face radical da negridade reside na torção do pensamento 
- ou seja, ao saber e estudar, a negridade anuncia o fim do mundo 
como conhecemos.” Denise Ferreira da Silva
111. A luta, a fome, a miséria, a sede, nosso corpo aqui projeta uma 
força que anuncia a morte. A nossa única possibilidade de existir é 
criar. Como criatura, moldamos condições para fugir das posições 
de subalternidade. E estar aqui escrevendo em movimento de 
dança é se permitir essa fuga. Essa afirmação me movimentou 
até esse espaço-tempo em que a conta não fecha... A luta, a fome, 
a miséria, a sede… Repetições da precariedade. “Acumulação 
negativa, apesar de um oxímoro, descreve perfeitamente esse 
contexto.” D.F.S. 
700. E se, em vez de salvar o mundo, pudéssemos enfim dedicar-
nos a acabar com isto?
001. A poética preta feminista é um índice remissivo para 
aqueles que não fazem a torção de sua perspectiva. É necessário 
reposicionar-se na narrativa para criar um vórtice e agir de 
modo espiralado. Esta é uma elaboração complexa política que 
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se sustenta na poética preta feminista, não é sobre a repetição. A 
repetição aqui é a violência dos fatos, ou melhor: uma imagem 
daquilo que não é revelado, a citação de fatos que persistem e 
perduram na contemporaneidade. Qual a imagem que persiste 
durante a história?
123. O mundo é o problema, mas a escala varia. Há grandes ruínas 
de concreto e estrutura, verticais; há fluxos ultrarregulados, 
contidos em linhas agudas, sem peso nem matéria, mas tão 
reais quanto a dor de ter a história inscrita na carne, rasgada 
mesmo, espalhando-se por toda parte; há polícias nas fronteiras 
entre as coisas; e há, no gesto que funda a categoria ela mesma, 
ali apreendida, uma geleia de sentido que forma o núcleo que 
governa, constrange mesmo, a possibilidade de pensar o mundo 
outramente, sua inTra-estrutura.
632. Como uma máquina de guerra o corpo preto que age à 
revelia de uma linguagem formal racista excede sua experiência 
no mundo. 
125. A visibilidade é uma armadilha e a representação é um beco 
sem saída. 
521. Garantir com esse pensamento o poder das palavras, e que as 
opacidades possam coexistir, confluir, tramando os tecidos cuja 
verdadeira compreensão é a textura. A sensibilidade do toque 
nos levaria a certa trama e não à natureza dos componentes. 
Renunciar, por um tempo talvez, a essa velha assombração da 
representação e linearidade da narrativa e surpreender-se com o 
profundo das incertezas.
127. Mas tinha um túnel sob o cativeiro e uma primavera 
clandestina semeada na floresta que margeia o Forte. O estudo 
preto anuncia o fim do mundo como conhecemos, e o limite 
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é a condição do salto. Investigar os limites da justiça, do 
texto moderno, das equações econômica e ética do valor, da 
razão e da imaginação colonizadas, do tempo, da fronteira, da 
separabilidade racial e da diferença buscando não pela verdade 
dessas categorias, mas por um estudo que extrapole seus 
domínios e escape suas operações.
123. Querer se perder na negritude, no excesso onde a 
existência põe pra correr as fantasias dominantes de um tipo de 
conhecimento que pode apenas determinar a si própria com as 
articulações de ferro das razões universais.
000. Escavar pois o que está embaixo está também acerca.
101. A terra vibra no Plenum e também agoniza todas as correntes 
que a grande consciência universal racial moderna arma sobre ela. 
Mas o Plenum é a continuação da terra por outros meios.
325. Durante muito tempo fiquei presa na repetição
202. HORIZONTE DE EXTERIORIDADE RADICAL: excesso
254. Caminhando em direção à sobrevivência, passando pelos 
portões do fim do mundo, vivendo de uma impossibilidade 
produzida pelas ferramentas da razão universal.
1111. expropriação
005. A profecia se fez como o previsto
687. Um lugar outro absoluto: PLENUM
109. Recriar à partir da colonialidade e fugir do caminho que nos 
empurra para a morte 
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103. Essas máscaras, esses cabelos fora da cabeça, essa cor escura 
preta... A luz da prosperidade aqui nesse processo é anunciada em 
fragmentos desses corpos em diáspora.
099. “E se concomitante ao tempo do mundo ao qual conhecemos 
houvesse uma dimensão em que violência colonial não fosse 
encenada?” Gabi Ngcobo
402. A criação do mundo ordenado na lógica da captura.
77. clandestino, autodefesa, desapropriação
021. O colono, pela política, em nome da civilização, declara 
brutalidades, e nós sabemos que a conquista de sua ética é em 
nome da destruição.
55. Aqui nesse momento desarmamos o nosso corpo coletivo, 
e como máquina de guerra, nós aqui desistimos das memórias 
trágicas. Olhamos para frente e continuamos um futuro onde 
possamos recriar nossa existência.
017. Músicas melancólicas começam a tocar, as bordas começam a 
desafiar o centro do pensamento, isso significa medo?
023. Então você lança o seu corpo na escuridão e apenas a 
luminosidade da luz negra é capaz de iluminar esse mergulho tão 
intenso no infinito.
A DÍVIDA IMPAGÁVEL
Denise Ferreira da Silva
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Por onde começar? Desde onde começar a tarefa de expor, 
capturar e dissolver, de apresentar o que excede e desafia o 
pensamento? A preocupação que tece o fio que liga os ensaios 
aqui coletados, de uma certa forma, sinaliza a im/possibilidade 
indicada por estas perguntas. Na verdade, é possível dizer 
que esta compartilha da mesma incompreensibilidade e 
improbabilidade que tento capturar na imagem poética negra 
feminista que dá nome a esta coletânea. Pois, como uma imagem 
anti-dialética, A Divida Impagável não faz mais do que registrar, 
ao tentar interromper, o desdobrar da lógica perversa que oclui 
a maneira como, desde o fim do século XIX, a racialidade, opera 
como um arsenal ético em conjunto – por dentro, ao lado, e 
sempre-já – a/diante das arquiteturas jurídico-econômicas que 
constituem o par Estado-Capital. 
Esta lógica perversa, a qual chamo de dialética racial, tem me 
ocupado por mais de trinta anos. Desde o início, quando era 
estudante no programa de Mestrado em Sociologia no Instituto 
de Filosofia e Ciências Sociais - IFCS da Universidade Federal 
do Rio de Janeiro e trabalhava como pesquisadora no Centro 
de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA), sob a direção de Carlos 
Hasenbalg, a minha atenção se voltou à representação moderna 
como momento significativo da subjugação racial. Já o título da 
dissertação de mestrado que defendi em 1991, desenvolvida sob 
a orientação de

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