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Ronaldo P. de Carvalho Junior Sonia V. G. da Gama Carla M. Salgado 8ª edição revisada e ampliada Módulo 2 2015 Geografia Fundação Cecierj pré-vestibular soCial Governo do Estado do Rio de Janeiro Governador Luiz Fernando de Souza Pezão Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia Gustavo Tutuca Fundação Cecierj Presidente Carlos Eduardo Bielschowsky Vice-Presidente de Educação Superior a Distância Masako Oya Masuda Vice-Presidente Científica Mônica Damouche Pré-Vestibular Social Rua da Ajuda 5 - 15º andar - Centro - Rio de Janeiro - RJ - 20040-000 Site: www.pvs.cederj.edu.br Diretora Celina M. S. Costa Coordenadoras de Geografia Ronaldo P. de Carvalho Junior Sonia V. G. da Gama Material Didático Elaboração de Conteúdo Ronaldo P. de Carvalho Junior Sonia V. G. da Gama Carla M. Salgado Revisãode Conteúdo Ronaldo P. de Carvalho Junior Sonia V. G. da Gama Capa, Projeto Gráfico, Manipulação de Imagens e Editoração Eletrônica Cristina Portella Filipe Dutra Mario Lima Foto de Capa Fabian Kron Copyright © 2015, Fundação Cecierj Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, da Fundação. C331p Carvalho Junior, Ronaldo P. de Pré-vestibular social: geografia. v. 2. / Ronaldo P. de Carvalho Junior, Sonia V. G. da Gama, Carla M. Salgado. – 8. ed. rev. – Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2015. 128 p.; 20,0 x 27,5 cm ISBN: 978-85-458-0043-9 1. Geografia. 2. População. 3. Clima. 4. Cartografia. I. Gama, Sonia V. G. da. II. Salgado, Carla M. 1. Título. CDD: 900 7 19 33 49 61 75 91 99 155 128 Sumário Capítulo 1 A dinâmica mundial da população Capítulo 2 A população brasileira Capítulo 3 Regiões brasileiras Capítulo 4 Tipos climáticos do Brasil Capítulo 5 Biomas e domínios do relevo do Brasil Capítulo 6 As questões ambientais Capítulo 7 Fundamentos de cartografia Capítulo 8 Estado do Rio de Janeiro Capítulo 9 Exercícios de fixação Referências bibliográficas Apresentação Caro Aluno, Este conjunto de apostilas foi elaborado de acordo com as necessidades e a lógica do projeto do Pré- Vestibular Social. Os conteúdos aqui apresentados foram desenvolvidos para embasar as aulas semanais presenciais que ocorrem nos polos. O material impresso por si só não causará o efeito desejado, portanto é imprescindível que você compareça regularmente às aulas e sessões de orientação acadêmica para obter o melhor resultado possível. Procure, também, a ajuda do atendimento 0800 colocado à sua disposição. A leitura antecipada dos capítulos permitirá que você participe mais ativamente das aulas expondo suas dúvidas o que aumentará as chances de entendimento dos conteúdos. Lembre-se que o aprendizado só acontece como via de mão dupla. Aproveite este material da maneira adequada e terá mais chances de alcançar seus objetivos. Bons estudos! Equipe de Direção do PVS :: Objetivo :: • Caracterizar aspectos socioeconômicos da população mundial. 1 A Dinâmica mundial da população na tabela 1.1, a China é o país mais populoso, ou seja, possui a maior população absoluta (1.339 milhões). Mas quando consideramos a distribuição deste número de habitantes pelo território chinês, o valor da densidade demográfica não é tão alto (140,48 hab/km2), porque a China tem uma grande superfície (mais de 9 milhões de km2). Por outro lado, o Japão é o país mais povoado (343,49 hab/km2), pois, apesar de ter um número menor de habitantes que a China (128 milhões), a sua área territorial é bem pequena para tantas pessoas (pouco mais de 372 mil). Tabela 1.1: População absoluta, densidade demográfica e área de alguns países. País População em 2013 (em milhões) Densidade (hab./km²) (2013) Área (km²) Alemanha 80,22 224,87 356.733 Angola 24,30 19,50 1.246.700 Austrália 21,73 2,83 7.682.300 Brasil 200,00 23,52 8.514.205 Canadá 33,47 3,36 9.970.610 China 1339,72 140,48 9.536.499 Estados Unidos 308,75 32,94 9.372.614 Nigéria 140,43 152,02 923.768 Federação Russa 143,44 8,40 17.075.400 Japão 128,06 343,49 372.819 Fonte: http://unstats.un.org/unsd/demographic/products/dyb/dybsets/2013.pdf, acesso em 25/11/2014 Atividade 1 Considerando a tabela 1.1: a) Faça uma lista, em ordem crescente, dos países populosos e dos países povoados. b) O Brasil pode ser considerado um país populoso ou povoado? A análise das características socioeconômicas da população mundial leva ao uso frequente dos termos superpopulação e superpovoamento. Uma área é considerada superpovoada quando sua população é muito grande em relação à disponibilidade de recursos para sua subsistência. A Nigéria, por exemplo, é considerada superpovoada, pois os recursos socioeconômicos do país não conseguem atender às necessidades básicas da população. Deste modo, é comum ocorrer a situação de fome, propagação de vários tipos de doenças, falta de atendimento médico e educacional, grande desemprego, entre outros problemas. De forma inversa, países com maior desenvolvimento econômico e tecnológico possuem maior capacidade de fornecer boa qualidade de vida para os seus habitantes. Neste caso, um bom exemplo são os Estados Unidos, cuja população é mais que o dobro da Nigéria, entretanto, os norte-americanos possuem bons serviços médicos, educacionais, opções de emprego etc. Nos últimos anos, a China vem superando a situação de superpovoamento. No passado, a maior parte da população passava fome, havia elevado índice de População mundial Com o acelerado crescimento da população mundial, sobretudo nos países subdesenvolvidos, no ano de 2013, a população mundial atingiu cerca de 7,1 bilhões de habitantes. Nesta perspectiva, ela poderá alcançar, no ano de 2050, em torno de 10 bilhões de habitantes em todo o planeta. Os países que terão a maior contribuição no crescimento da população mundial, neste século XXI, devem ser Índia, Paquistão, Nigéria, República Democrática do Congo, Bangladesh, Uganda, Etiópia e China. Contudo, este crescimento populacional não é igual em todas as regiões do mundo. Vários países da África subsaariana (localizados ao sul do deserto do Saara), como Chade, Congo, Libéria, Uganda e Burundi, juntos com o Afeganistão (situado na região sudoeste da Ásia) devem triplicar a sua população no decorrer das primeiras décadas deste século XXI. Mas, você sabe o significado do termo população? Qual a importância de se conhecer o número de pessoas no mundo ou em algum país em particular? Por que devemos estudar as características da população? Podemos responder, de forma geral, que conhecer as características da população mundial ou de uma região específica nos ajuda a entender em que condições estas pessoas vivem. A partir daí podemos planejar ações para resolver problemas, ou, pelo menos, minimizá-los. O termo “população” significa um conjunto de pessoas que vivem em um território (uma área delimitada politicamente). Podemos nos referir à população de uma cidade, região, estado, país, ou ainda, à população do planeta. Neste capítulo vamos estudar vários aspectos da população mundial, especialmente por meio dos indicadores sociais (as taxas de natalidade e de mortalidade, a expectativa de vida, os índices de analfabetismo, a participação na renda, dentre outros), para entendermos melhor as diferenças nas condições de vida das pessoas. Não podemos esquecer que a população mundial caracteriza-se ainda pela disparidade social. Vivemos num mundo onde apenas um terço da população desfruta de benefícios, enquanto uma outra parte vivencia as desigualdades, a fome, a miséria e o desemprego. Seguem alguns significados importantes para a compreensão da dinâmica populacional: População absoluta e População relativa O total de habitantes de um lugar constitui sua população absoluta. Podemos dizer que a população absoluta da Terra é superior a 7 bilhões de habitantes. Considerando a presença humana num determinado espaço, utilizamos,além disso, o conceito de população relativa, que indica a distribuição da população em relação à superfície (área total) do lugar. Portanto, a população relativa, também chamada de densidade demográfica, corresponde ao número de habitantes por unidade de área, ou seja, é uma relação matemática, onde geralmente a unidade (de medida) utilizada é o quilômetro quadrado (hab/km2). Populoso e povoado Populoso é o conceito que se refere à população absoluta, e povoado diz respeito à população relativa de um determinado lugar. Dos países relacionados 8 :: GeoGrafia :: módulo 2 Crescimento Demográfico Crescimento Natural ou Vegetativo Migração Diferença entre as taxas de entrada (imigração) e de saída (emigração) de pessoas de uma região Diferença entre as taxas de nascimentos (taxa de natalidade) e de óbitos (taxa de mortalidade) Figura 1.1: Esquema ilustrativo de crescimento demográfico. mortalidade infantil, entre outros problemas. As reformas realizadas pelo governo nas últimas décadas mudaram esse quadro, garantindo um melhor padrão de vida para as pessoas. Países como Nigéria, Haiti e Bangladesh apresentam um elevado crescimento natural, isto é, a população aumenta devido ao maior número de nascimentos do que de óbitos (morte). No entanto, em outros países verifica-se um crescimento vegetativo nulo ou negativo. Na Alemanha, Japão e Rússia, por exemplo, o número de óbitos supera ou fica igual ao número de nascimentos, diminuindo ou mantendo a quantidade de habitantes no país. Neste caso, a quantidade total da população só vai ser alterada se ocorrer a entrada de imigrantes (pessoas vindas de outras partes do mundo). Os Estados Unidos, por exemplo, possuem uma elevada taxa de imigração, pois milhares de pessoas de outros países entram (de forma legal ou ilegal) no seu território a cada ano. De forma inversa, Ruanda e Nigéria perdem vários habitantes por ano, que saem para outro país em busca de melhores condições de vida. Podemos concluir que para ocorrer crescimento demográfico num país um dos dois índices (taxa de migração e crescimento vegetativo) tem que ser elevado, para aumentar o número de habitantes. As fases do crescimento demográfico No decorrer da história, a população mundial tem crescido em função de a taxa de natalidade ser superior à de mortalidade. Avaliando a marcha de crescimento populacional, podemos distinguir duas fases: 1. Crescimento lento: até o séc. XVII, em função da inexistência de condições sanitárias adequadas, guerras, epidemias etc., a taxa de mortalidade era elevada; 2. Crescimento rápido: compreende principalmente os séculos XVIII, XIX e a segunda metade do séc. XX, quando os avanços científicos e das melhorias das condições higiênico-sanitárias provocaram uma queda nas taxas de mortalidade. Nessa fase, o mundo deparou-se com um acelerado crescimento populacional (tabela 1.2). Crescimento demográfico O termo crescimento demográfico corresponde ao aumento da população de um país. Este crescimento está relacionado a dois índices (figura 1.1): • crescimento natural ou vegetativo – diferença entre nascimentos (taxa de natalidade) e óbitos (taxa de mortalidade); • taxa de migração – diferença entre a entrada (imigração) e a saída (emigração) de pessoas de uma região. Tabela 1.2: Crescimento da população mundial por diferentes períodos. Ano/Era Número de Habitantes Era Cristã 250 milhões 1650 500 milhões 1850 1 bilhão 1950 2 bilhões 1995 5,6 bilhões 2004 + 6 bilhões 2010 + 7 bilhões No entanto, este crescimento vegetativo (ou populacional) vem ocorrendo de forma diferenciada nas várias regiões do mundo, como foi colocado anteriormente. Cada área ou país passa por um processo de transição demográfica, que contém basicamente 3 fases (figura 1.2): • Primeira fase ou pré-industrial: caracterizada pelo equilíbrio demográfico e por baixos índices de crescimento vegetativo, já que há elevadas taxas de natali- dade e de mortalidade. A elevada taxa de mortalidade relaciona-se principalmente às precárias condições higiênico-sanitárias, às epidemias, às guerras, fome etc. • Segunda fase ou transicional: redução da mortalidade com o fim de epide- mias e com os avanços médicos (decorrentes da Revolução Industrial). Contudo a natalidade ainda se mantém elevada, ocasionando um grande crescimento popu- lacional; numa segunda etapa, a natalidade começa a cair, reduzindo-se, então, o crescimento populacional. • Terceira fase ou Evoluída, momento em que a transição demográfica fina- liza-se, com a retomada do equilíbrio demográfico, este apoiado em baixas taxas Capítulo 1 :: 9 Teoria Neomalthusiana A segunda aceleração do crescimento populacional ocorreu a partir de 1950, particularmente nos países subdesenvolvidos. Nesta época houve grandes conquistas na área da saúde, como a produção de antibióticos e de vacinas contra uma série de doenças. Tais conquistas espalharam-se pelos países subdesenvolvidos graças à atuação de entidades internacionais de ajuda e cooperação, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Cruz Vermelha Internacional. Deste modo, ocorreu uma acentuada redução nas taxas de mortalidade, principalmente a infantil, que até então eram muito elevadas nos países subdesenvolvidos. A diminuição da mortalidade e a permanência das altas taxas de natalidade resultaram num grande crescimento populacional, que atingiu seu apogeu na década de 1960 e fi cou conhecido como explosão demográfi ca. Com a nova aceleração populacional, voltaram a surgir estudos baseados nas ideias de Malthus, dando origem a um conjunto de teorias e propostas denominadas neomalthusianas. Os teóricos relacionavam o subdesenvolvimento e a pobreza ao crescimento populacional, o qual provocaria a elevação dos gastos governamentais com os serviços de educação e saúde. Com isso, os investimentos produtivos nos setores agrícola e industrial diminuiriam e o país, sem produção econômica, se tornaria cada vez mais pobre. Segundo esta teoria, para acabar com a pobreza da população e o subdesenvolvimento do país, os seus governos deviriam estimular o controle da natalidade – diminuindo a população, acabaria a pobreza do país e da sua população. Na verdade, esta ideia servia para mascarar os reais fatores do subdesenvolvimento. É sempre bom lembrar que planejamento familiar é muito diferente de controle da natalidade e que a mulher deve ser o sujeito e não apenas um objeto desse planejamento. Essas políticas são adotadas até hoje e conduzidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que condicionam a aprovação de empréstimos para os países subdesenvolvidos à adoção de programas de controle de natalidade, que são fi nanciados pelo Banco Mundial (Bird). O planejamento familiar é feito por entidades privadas e públicas, que se associam à indústria farmacêutica e à classe médica e recebem apoio dos meios de comunicação. O controle populacional é realizado de várias maneiras, indo da distribuição gratuita de anticoncepcionais até a esterilização em massa de populações pobres como Índia, Colômbia e Brasil. Teoria Reformista (ou marxista) Seguidores do fi lósofo socialista Karl Marx, os teóricos desse pensamento afi rmam que a causa da superpopulação é o modo de produção capitalista, e que a sobrevivência do capitalismo, como sistema, exige um crescimento excessivo da população. Em outras palavras, ao contrário dos neomalthusianos, os reformistas consideram a miséria como a principal causa do acelerado crescimento populacional. Assim, defendem a necessidade de reformas socioeconômicas que permitam a melhoria do padrão de vida da população mais pobre. Essa teoria foi elaborada em resposta aos neomalthusianos e ela inverte a conclusão das duas teorias demográfi cas anteriores. de natalidade e de mortalidade. Atualmente, estão nessa fase os países desenvol- vidos, a maior parte dos quais apresenta taxas de crescimento inferiores a 1% e até negativas,ou seja, países cujo crescimento vegetativo encontra-se estagnado. Figura 1.2: Diferenças nas taxas de natalidade e mortalidade no decorrer do tempo caracterizando as fases de transição demográfi ca. Os países que já chegaram na 3a fase correspondem basicamente aos desen- volvidos. A maior parte da população mora em cidades, onde há acesso fácil a métodos anticoncepcionais, a mulher entra para o mercado de trabalho e o custo de criação dos fi lhos é alto pela necessidade de manter uma boa educação. Para preservar um bom padrão de vida, os casais escolhem ter um ou dois fi lhos. Com isso, a taxa de natalidade se reduziu intensamente nas últimas décadas. Alguns países subdesenvolvidos, que já alcançaram um signifi cativo nível de industrialização e urbanização, caso do Brasil, Argentina, África do Sul etc., tam- bém estão entrando na 3a fase de transição demográfi ca. As teorias demográficas Ao longo do tempo, o aumento da população mundial estimulou a formulação de teorias populacionais para tentar explicar como ocorria o crescimento populacional. Dentre as teorias, podemos citar a Teoria de Malthus, a Neomalthusiana e a Reformista, que serão vistas a seguir. Teoria Malthusiana Esta teoria foi criada por Thomas Malthus em 1798 (fi nal do século XVIII), quando ocorria um forte crescimento populacional na Europa (esta região estava na 2a fase da transição demográfi ca). Para o autor, em poucos anos, a produção de alimentos não seria sufi ciente para alimentar tantas pessoas. Assim, a população tenderia a crescer além dos limites de sua sobrevivência, e disso resultariam a fome e a miséria. Ao lançar suas ideias, Malthus desconsiderou as possibilidades de aumento da produção agrícola com o avanço tecnológico. Ele não previu, também, os efeitos decorrentes da urbanização na evolução demográfi ca. Aos poucos, essa teoria foi caindo em descrédito e desmentida pela própria realidade. 10 :: GeoGrafia :: módulo 2 Sobre este assunto, vejamos o que diz a citação a seguir: Portanto, é necessário estabelecer estas relações (população/ desenvolvimento/ recursos) com muito cuidado e sempre com uma ampla discussão desses conceitos, sob pena de reforçar o discurso neomalthusiano, já incorporado ao senso comum pela mídia, e privar os alunos dos diversos níveis de uma reflexão crítica e fundamental para definições de escolhas pessoais e coletivas.(João Rua) Estrutura da população Outros conceitos importantes no estudo da população são: • Estrutura etária – quantidade de jovens (crianças e adoslecentes), adultos e idosos. É analisada por meio de “pirâmides etárias”, que são gráficos que caracterizam a população por faixa de idade e por sexo. • Distribuição da população economicamente ativa (PEA) pelos setores econômicos – primário (atividades agropecuárias, extrativismos), secundário (atividades industriais) e terciário (atividades de comércio e serviços). • Distribuição de renda – o que cada segmento da população recebe de salário. A análise destes dados ajuda a entender e a prever problemas numa região ou país. Por exemplo, um país com grande número de jovens precisaria investir em educação, com o objetivo de preparar esta parte da população para o mercado de trabalho formal. No caso de um país com grande número de adultos, o governo deveria criar opções de trabalho por meio de estímulos às atividades econômicas. Atualmente, vários países desenvolvidos vêm passando por um problema sério de envelhecimento da população. O aumento no número de idosos (que não trabalham mais) significa um grande gasto com a previdência social (aposentadorias) e com atendimento médico. Como o número de adultos que contribuem com a previdência social está diminuindo, os governos destes países têm que arcar com estes custos e/ou reformular o sistema de aposentadorias. Figura 1.3: Pirâmide etária de Angola, considerando dados populacionais do ano de 2010. Figura 1.4: Pirâmide etária da Austrália, considerando dados populacionais do ano de 2010. Figura 1.5: Pirâmide etária do Japão, considerando dados populacionais do ano de 2010. Atividade 2 Observe as pirâmides etárias de Angola, Austrália e Japão (Figuras 1.3, 1.4 e 1.5). Com base na diferença de quantidade de pessoas por faixa etária, responda: a. Que país deve ser considerado como jovem? Justifique. Capítulo 1 :: 11 Coreia do Sul 5,7 41,1 53,2 Estados Unidos 2,3 22,0 75,6 Alemanha 1,4 31,7 67,0 Tabela 1.3: Distribuição da População Economicamente Ativa (PEA) por setores da economia. Fonte: L´état du munde, 1999. As atividades de serviço e comércio, além de englobarem o setor formal da economia, contêm o setor informal, ou seja, o subemprego. Em praticamente todos os países do mundo, mas principalmente nos subdesenvolvidos, as atividades informais vêm crescendo devido a problemas econômicos (cria desemprego conjuntural), falta de investimentos no setor produtivo e avanço tecnológico (onde o homem é substituído pela máquina – desemprego estrutural). Em vários países subdesenvolvidos, este problema do trabalho sem carteira assinada e garantias trabalhistas vem atingindo também o setor industrial, especialmente de confecção de roupas, sapatos e outras mercadorias de pouco valor agregado. A “indústria” da pirataria (de CDs, vídeos, DVDs etc.) movimenta hoje milhões de dólares pelo mundo. Por outro lado, o setor informal ajuda a movimentar o setor formal da economia. Os camelôs, flanelinhas, pedreiros, traficantes, catadores de lixo, biscateiros etc., usam seu dinheiro na compra de mercadorias e pagamento de serviços formais (banco, dentista, transporte em trem e/ou ônibus etc.). Embora alguns tipos de trabalho estejam sumindo, outros estão aparecendo ou se tornando mais valorizados. É comum nas grandes cidades do mundo aparecerem trabalhos como “personal trainer” (profissional de educação física que dá aulas particulares), gastronomia e culinária, gestão de festas e eventos, paisagismo, estilista de moda, técnicos em informática, entre outras atividades. Antes, oficinas de carros realizavam consertos, mas hoje pode-se encontrar oficinas que instalam ar condicionado ou “kits” de gás, além de outras que transformam quase todo o carro com blindagens, para aumentar a segurança do veículo diante da violência das grandes cidades. Mas a atual geração de novos ofícios necessita de uma formação educacional e técnica muito elevada do trabalhador. Por isso, os países que investem maciçamente na educação têm perspectivas melhores de superar o problema de desemprego da sua população. :: Dinheiro no lixo!!! :: No Brasil, uma forma de a população de baixa renda ganhar dinheiro atualmente é a coleta e reciclagem de lixo. Este é um novo tipo de emprego informal, mas que se relaciona com a economia formal, podendo gerar, inclusive, menor gasto com energia e menor impacto ambiental. Como? A indústria de transformação de alumínio (um tipo de metalurgia) consome muita energia. O alumínio das latas usadas pode ser repro- cessado e utilizado na fabricação de novas latas. Assim, a indústria metalúrgica não precisa manter uma produção alta (consumindo muita energia) e a quantidade de lixo nas cidades diminui. Outro exemplo é a reciclagem de papel, diminuindo-se a necessidade de corte de árvores. b. Que país deve investir na criação de novos empregos? Justifique. c. Que país apresenta a maior expectativa de vida (pessoas que conseguem viver além dos 80 anos)? Justifique. A população economicamente ativa de um país (PEA) corresponde aos trabalha- dores formais. De maneira geral, a PEA engloba pessoas que trabalham com carteira de trabalho assinada, profissionais liberais (prestam serviços – médico, dentista, contador etc.), mas que contribuem para a arrecadação de impostos, além de pes- soas desempregadas, desde que estejam procurando emprego na economia formal. A PEA se distribui por setores econômicos: • Setor primário – agricultura, pecuária, pesca, extrativismo; • Setor secundário – indústria,onde ocorre a transformação dos produtos primários; • Setor terciário – comércio e prestação de serviços (hospitais, bancos, escolas, transporte, turismo etc.) A distribuição da PEA por setores econômicos de um país pode indicar o seu grau de desenvolvimento. Assim, quando a maior parte dos trabalhadores está no setor primário, significa que o país é subdesenvolvido e que não utiliza técnicas modernas de produção. A tabela 1.3 traz alguns exemplos dessa situação, como Angola e Bolívia. De modo inverso, a Alemanha e os Estados Unidos possuem muito poucas pessoas trabalhando neste setor. Isto acontece porque estes países empregam insumos agrícolas e sistemas de produção que não exigem mão de obra humana, ou seja, usam alta tecnologia para obter elevada produtividade neste setor. A análise nos outros dois setores deve ser mais cuidadosa, pois não evidencia o tipo de indústria ou a qualidade do serviço. O valor da população economicamente ativa (PEA) do setor secundário (industrial) da Bolívia (17,5%) é bem próximo ao do Brasil (22,4%) e ao dos Estados Unidos (22%). No entanto, sabemos que o setor industrial deste último é muito mais avançado e diversificado, produzindo mercadorias de alta tecnologia e de ótima qualidade (indústrias eletrônicas, aeroespacial, entre outras). O setor terciário dos países em desenvolvimento (também denominados eco- nomias emergentes ou países semiperiféricos) e dos países desenvolvidos (países centrais) concentra a maior parte da PEA. Mas, novamente, deve ser analisado com cuidado, pois não expressa a qualidade dos serviços. Por exemplo, o setor de educação da Alemanha e dos Estados Unidos apresenta uma qualificação muito maior do que no Brasil. País População Economicamente Ativa (PEA) por Setores Econômicos (dados de 1997) Primário (%) Secundário (%) Terciário (%) Angola 73,3 8,3 18,4 Bolívia 43,1 17,5 39,4 Brasil 15,6 22,4 62,0 Austrália 4,9 22,5 72,7 12 :: GeoGrafia :: módulo 2 Atividade 3 Considerando a tabela 1.3, verifique se as afirmativas a seguir são falsas ou verdadeiras: ( ) O baixo percentual de PEA no setor secundário de Angola mostra que este país é muito pouco industrializado. ( ) O baixo valor da PEA no setor primário dos Estados Unidos indica que este país quase não produz mercadorias agropecuárias, como alimentos e carne. ( ) Na Austrália a maior parte das pessoas trabalha em atividades como turismo, bancos, comércio, administração pública etc. ( ) Boa parte da PEA da Coreia do Sul está trabalhando no setor secundário, caracterizado por indústrias bem diversificadas, desde indústrias de base até de eletrônicos. ( ) Na Bolívia o setor primário emprega a maior parte da PEA, indicando que a agropecuária e o extrativismo vegetal é altamente produtivo. Observando a tabela 1.4, verifica-se que em alguns países a população tem uma renda per capita bem melhor do que em outros. Mas este é um dado que representa a realidade da população de um país? Todos os brasileiros recebem o equivalente a 12.594 dólares por ano? Este índice é calculado dividindo-se o valor de todas as riquezas do país pela quantidade de habitantes. Ele só representa uma média que permite comparar, de forma geral, um país com outro. País PIB per capita (em US$) (2011) Paraguai 3.485 Brasil 12.594 Estados Unidos 47.882 Alemanha 43.865 Áustria 49.683 Tabela 1.4: Renda per capita calculada em dólares considerando o ano de 1999. Fonte: ONU/ Banco Mundial A distribuição de renda em qualquer país não é igual para todas as classes sociais. Há trabalhos que são melhor remunerados do que outros, relacionando-se ao tipo de qualificação e nível educacional da pessoa, entre outras coisas. No entanto, nos países subdesenvolvidos existe claramente a concentração de renda nas mãos de poucas pessoas. Observe na figura 1.6, que no Paraguai e no Brasil a classe A (20% mais ricos da população) concentra mais de 60% de toda a renda do país, enquanto as demais classes possuem menos de 40% desta renda. Nos Estados Unidos, na Alemanha e na Áustria existe um maior equilíbrio na distribuição da renda entre as classes. Considerando o exemplo da Alemanha, os 20% mais ricos da população controlam em torno de 38% da renda nacional e as demais classes dividem mais de 60% da renda do país. 0 10 20 30 40 50 Paraguai Brasil EUA Alemanha Áustria % 20% mais pobres 10% mais ricos 0 20 40 60 80 100 Paraguai Brasil EUA Alemanha Áustria % Classe B Classe D Classe EClasse CClasse A Figura 1.6: Distribuição da renda nacional por diferentes classes sociais. Classe A – 20% mais ricos; Classe E – 20% mais pobres; Classes B, C e D – classes intermediárias. Fonte: ONU/Banco Mundial, 2002. A figura 1.7 demonstra melhor a desigualdade social dos países. A diferença de renda entre os 10% mais ricos e os 20% mais pobres é muito grande tanto no Paraguai quanto no Brasil. Por outro lado, na Áustria a renda dos 10% mais ricos é somente um pouco maior do que a dos 20% mais pobres do país. 0 10 20 30 40 50 Paraguai Brasil EUA Alemanha Áustria % 20% mais pobres 10% mais ricos 0 20 40 60 80 100 Paraguai Brasil EUA Alemanha Áustria % Classe B Classe D Classe EClasse CClasse A Figura 1.7: Distribuição da renda nacional considerando os 20% mais pobres e os 10% mais ricos da população. Fonte: ONU/Banco Mundial, 2002. A distribuição de renda desigual num país está associada a vários fatores: • Boa parte da população tem baixo nível educacional, não conseguindo empregos de melhor renda. • Grande carga tributária, especialmente impostos indiretos (cobrado sobre as mercadorias), que acaba aumentando o custo de vida no país. Neste caso, uma família pobre paga o mesmo imposto que uma família rica quando compra um pacote de biscoito. • Grande desemprego estrutural e conjuntural. • Baixo investimento nos setores produtivos, que não cria novas oportunidades de empregos. A desigualdade social cria o problema da exclusão social. São pessoas que não conseguem ter acesso a meios de se qualificarem melhor, para a partir daí conseguirem ter melhor renda, educação, saúde e qualidade de vida (saneamento básico, casa própria, água potável etc.). Os movimentos populacionais Os movimentos populacionais são muito antigos na história da humanidade. Mas os autores são unânimes em afirmar que nunca foram tão intensos quanto nas últimas décadas do século passado (XX) e os a primeiros anos deste século (XXI). O deslocamento de pessoas entre diferentes regiões do mundo está relacionado a questões religiosas, naturais, guerras, problemas econômicos, entre outros fatores. Atualmente, os principais motivos que provocam a migração de pessoas são de ordem econômica (pobreza, desemprego, concentração de renda, crises financeiras). Neste caso, os países subdesenvolvidos, especialmente os africanos, são áreas de re- pulsão, enquanto os países desenvolvidos (Estados Unidos e países da Europa ociden- tal – Inglaterra, Alemanha, Itália, França etc.) são áreas de atração de imigrantes. Capítulo 1 :: 13 Há também países, que, mesmo sendo subdesenvolvidos, mas que regionalmente apresentam melhores condições econômicas, podem atrair imigrantes. Por exemplo, o Brasil atrai pessoas de outros países sul--americanos; os pequenos estados-nação produtores de petróleo da região do Golfo Pérsico recebem paquistaneses, indianos, iraquianos e filipinos. Os dados da ONU apontam que cerca de 190 milhões de pessoas vivem atualmente fora de seus países de origem. Elas vão em busca de trabalho e melhor remuneração, muitas vezes enviando parte da sua renda para os familiares que vivem na terra natal. Essas remessas são bastante significativas, principalmente considerando a economia de certos países pobres. Alguns países, como Inglaterra, França e Alemanha, necessitam de imigrantes, pois a população destes países está envelhecendo rapidamente. A taxa de fecundidade não passa de 1,5 filhos por mulher, ou seja, as mulheres destespaíses praticamente só têm um filho. Segundo a ONU, se não fosse o grande número de migrantes, a Europa ocidental poderia apresentar redução de população absoluta. A baixa taxa de fecundidade, acompanhada pelo envelhecimento da população, diminui a disponibilidade de mão de obra para vários tipos de serviços. A migração compensa esta queda natural da mão de obra, principalmente em se tratando de atividades de baixa remuneração que a população nativa dos países desenvolvidos não querem exercer. Atividade 4 Analise a afirmativa: A Europa ocidental já foi, no passado, uma área importante de repulsão de migrantes, mas, de meados do século XX para cá, se tornou uma área de forte atração populacional. O fenômeno da xenofobia Os dicionários explicam o termo “xenofobia” como aversão a outras raças e culturas e, muitas vezes, pode ser compreendido como característica de um nacionalismo excessivo. Apresenta-se como um medo injustificado perante a estranhos ou estrangeiros. Esse medo chega a ser intensivo, descontrolado e desmedido em relação a pessoas ou grupos diferentes, com as quais nós habitualmente não entramos em contato. É bom esclarecer que, muitas pessoas confundem com “racismo” – este não passa de uma crença que diz que algumas raças são superiores sobre outras. Atividade 5 Leia o texto com atenção e prepare pelo menos duas perguntas ao seu professor: Na Europa, muitas pessoas estão chocadas com o avanço do neofascismo. A maioria não queria acreditar que partidos de extrema direita pudessem ter sucesso nos “democráticos” países industrializados europeus. Na Alemanha, onde especialmente o antissemitismo marcou a história, impera o silêncio diante do avanço da extrema-direita nos países vizinhos... É notável, também, que o fenômeno do neonazismo tem aumentado nas escolas. Ocorrem em paralelo a muitas demonstrações nazistas que já há bastante tempo vêm acontecendo, com ódio a imigrantes e resistência contra o governo alemão, manifestações contrárias de combate a um possível crescimento da xenofobia. Mas, também, entre o leste e o oeste da Alemanha, o “muro na cabeça” dos alemães ainda não caiu. Os salários mais baixos e o maior desemprego no leste demonstram que, após 12 anos, a unificação alemã ainda não foi alcançada. A divisa continua sendo publicamente reforçada através das constantes comparações e da rotulagem do leste como “os novos Estados” o que, de fato, confirma a existência de uma Alemanha no leste e outra no oeste... A crise da economia e do Estado de bem-estar social, associada às rápidas transformações tecnológicas, ocasionou um crescente desemprego e colocou a competitividade a qualquer custo como única alternativa de sobrevivência. Esta conjuntura gera insegurança, ressentimento e violência. Com o gradativo desmonte do Estado de bem- estar social por parte dos governos social-democratas, os quais até agora se apresentaram como alternativa contra os partidos de direita, a população ficou desorientada, especialmente os desempregados, trabalhadores e jovens... É, por exemplo, mais fácil responsabilizar os estrangeiros pelo desemprego, pela criminalidade e pela insegurança, do que entender as complexas razões dos problemas. As soluções apresentadas são, então, também bem simples e conduzem à xenofobia, quando os estrangeiros são tratados como concorrência indesejada. Mas, a xenofobia expõe os países europeus a uma séria contradição econômica. Por causa do baixo índice de natalidade e da crescente expectativa de vida da população, existe a tendência de que a Europa venha a ser a sociedade mais idosa do mundo. (Antonio Inacio Andrioli - Revista Espaço Acadêmico Ano II, no 13, Junho 2002) 14 :: GeoGrafia :: módulo 2 Exercícios 1) A tabela a seguir mostra outros dados importantes sobre população. Analise os dados e responda às questões. País Crescimento demográfico (% ao ano)1 Expectativa de vida para homens (em anos)1 Expectativa de vida para mulheres (em anos)1 Fecundidade (filhos por mulher)1 População urbana (%) (2000) Nigéria 2,61 52,0 52,2 5,42 44 Bolívia 2,15 61,9 65,3 3,92 63 Haiti 1,55 50,2 56,5 3,98 36 Índia 1,52 63,6 64,9 2,97 28 Brasil 1,60 64,3 72,3 2,15 81 China 0,71 69,1 73,5 1,80 32 Estados Unidos 0,89 74,6 80,4 1,93 77 Reino Unido 0,18 75,7 80,7 1,61 90 Japão 0,14 77,8 85,0 1,33 79 Alemanha -0,04 75,0 81,1 1,29 88 1 Estimativa para o período entre 2000 e 2005. Fonte: Banco Mundial (2000). a) Comente a diferença da taxa de crescimento demográfico dos diferentes países. b) Relacione a expectativa de vida dos diferentes países às suas características socioeconômicas. c) Justifique a taxa de fecundidade dos diferentes países com base na taxa de população urbana. 2) (UFRRJ/2005) Os dados abaixo demonstram as consequências da política demográfica adotada pela China nos últimos 30 anos. Mais homens que mulheres • 642,7 milhões de homens • 616,2 milhões de mulheres Apresente os princípios básicos dessa política relacionando-a a situação retratada. 3) (UFRRJ/2005, modificada) A vida econômica nas aglomerações latino-americanas apresenta características peculiares. A modernização (...), que produziu esse processo de metropolização, introduziu atividades econômicas seletivas, com índice elevado de tecnologias que não exigem grande absorção de mão de obra. Ao lado desse setor, desenvolveu-se um conjunto enorme de atividades de menor porte econômico, que não dependem de avanços tecnológicos e oferecem um grande número de empregos ou ocupações. O geógrafo Milton Santos chamou esse fenômeno de circuito inferior da economia urbana (camelôs, biscateiros, pequenos prestadores de serviços). Adap. de OLIVA, J.;GIANSANTI, R. Temas da geografia Mundial. São Paulo: Atual,1996, p. 133. Sobre o fenômeno de “circuito inferior da economia urbana” é ERRADO afirmar que: (A) é constituído por trabalhadores sem trabalho regular. (B) Não há vínculo empregatício. (C) as mulheres que trabalham neste setor têm direito à licença maternidade. (D) não dá garantias trabalhistas estabelecidas em lei. 4) (UERJ/1998) No conjunto das regiões metropolitanas brasileiras, a do Rio de Janeiro vem se destacando nas últimas décadas por apresentar um dos mais baixos índices de incremento demográfico. A forte desaceleração de seu crescimento populacional se deve fundamentalmente à: (A) elevação da taxa de mortalidade, ligada ao aumento da violência na área metropolitana (B) redução da taxa de natalidade, promovida pela política municipal de planejamento familiar (C) elevação do fluxo migratório para a periferia metropolitana, preferida pela qualidade ambiental (D) redução da capacidade de atração de fluxos migratórios, relacionada à baixa oferta de empregos 5) (UFF/1997) PARIS – Advogados de organizações humanitárias invadiram a Justiça francesa com uma série de apelos para evitar a expulsão dos 210 imigrantes africanos que foram desalojados à força na sexta-feira da Igreja de S. Bernardo, em Paris, que ocuparam por 50 dias, 10 deles em greve de fome de protesto contra a política de imigração francesa. Jornal do Brasil, 25/8/96 O texto fala dos “sem documentos”, ilustrando uma forma típica de movimento Capítulo 1 :: 15 migratório internacional do final do século XX. Uma característica correta desse movimento é: (A) Mudança da direção das migrações, concentrando-se entre os “países desenvolvidos”. (B) Acentuação das migrações, dos “países desenvolvidos” para os “países subdesenvolvidos”. (C) Acentuação das migrações, dos “países subdesenvolvidos” para os “países desenvolvidos”. (D) Reorientação da direção das migrações, que passam a ser predominantes no interior dos “países subdesenvolvidos”. (E) Indefinição dos fluxos migratórios, que tomaram direções aleatórias. 6) (UFF/2000) África Subsaariana - Principais indicadores sociais País Renda per capita (US$) Expectativa de vida Taxa de analfabetismo África do Sul 3.040 65 anos 18,0% Uganda 190 45 anos 50,0% Angola430 46 anos 57,5% Nigéria 280 56 anos 43,0% Ruanda 80 46 anos 40,0% República do Congo 650 48 anos 33,0% Fonte: Banco Mundial, 1996 Considerando as informações do quadro e a realidade que as sociedades da África Subsaariana têm vivido, pode-se assegurar: (A) O longo período das guerras de libertação colonial explica os péssimos indicadores de Uganda, Ruanda e Nigéria em termos da expectativa de vida e dos índices de analfabetismo da população. (B) Embora a África do Sul apresente os melhores indicadores, ainda persistem, no país, fortes desigualdades sociais em função do “recorte racial” econômico, diferenciando as condições de vida entre a minoria branca e a maioria negra. (C) Na África Subsaariana, a maioria dos países que se orientaram pelo modelo soviético de socialismo — a exemplo da República do Congo —conseguiram aliviar os mais sérios problemas socioeconômicos da região. (D) A descolonização mais recente da Nigéria e as violentas guerras civis em Angola respondem pelos indicadores sociais que, inclusive, são os menos favoráveis de toda a África Subsaariana. (E) A inserção subordinada do continente africano na globalização da economia obrigou os governos de Uganda e do Congo a concentrarem seus investimentos na extração e comercialização do petróleo, deixando de lado o bem-estar da população. Complemente seus conhecimentos Previsões da população mundial para a metade século XXI Nelson Bacic Olic. Revista Pangea, 14/11/2005. Nos dias que correm vêm ocorrendo e se cristalizando importantes mudanças na composição e na dinâmica da população mundial. Apesar de muitas dessas transformações terem se iniciado nas últimas décadas do século XX, pode-se afirmar que ao longo do século atual, a população do planeta será maior, crescerá em ritmo mais lento, será cada vez mais urbana e também mais idosa do que foi nos últimos 100 anos. Assim como ninguém que tenha vivido até 1930 conseguiu presenciar a população mundial dobrar de tamanho, tudo indica que nenhum ser humano nascido após 2050 viverá tempo suficiente para testemunhar esse fenômeno novamente. Nunca é demais recordar que o ritmo máximo de crescimento da população mundial foi atingido por volta da segunda metade da década de 1960 e se o total de seres humanos no planeta só atingiu seu primeiro bilhão no início do século XIX, atualmente esse número é incorporado à população mundial a cada 15 anos. Segundo estimativas, em 2050, o planeta deverá abrigar um número pouco superior a 9 bilhões de habitantes, isto é, mais ou menos 2,5 bilhões de pessoas a mais do que possui atualmente. Esse aumento corresponde ao número de pessoas que o mundo possuía em 1950. Atualmente, a cada ano são incorporados à população do planeta, cerca de 75 milhões de seres humanos, isto é, um pouco menos da metade da população brasileira, ou cerca de quase duas vezes o contingente populacional da Argentina. Todavia, a dinâmica do crescimento demográfico mundial é muito desigual. Estima-se que ao longo dos primeiros 50 anos do século XXI, a população de alguns países asiáticos, como o Afeganistão e um grande número de nações da porção subsaariana da África (como Libéria, Uganda, Burundi, Chade e Congo), assistirão seu contingente populacional triplicar. Deve-se recordar que estes países estão entre os mais pobres do mundo. Mesmo tendo taxas de mortalidade acima da média mundial, os países em questão têm apresentado taxas de natalidade persistentemente altas. Nesses países, em média, uma mulher tem o dobro de filhos do que as mulheres que vivem nas nações mais ricas. Cerca de metade do incremento populacional que ocorrerá até 2050, terá como “responsáveis” nove países: Índia, Paquistão, Nigéria, República Democrática do Congo, Bangladesh, Uganda, Estados Unidos, Etiópia e China. A surpresa fica por conta da presença dos Estados Unidos nesta lista, fato explicado pelo alto número de imigrantes que o país deverá receber ao longo das próximas décadas. Por outro lado, pelo menos 50 países, a maioria de alto nível econômico, como a Alemanha, o Japão e a Itália, provavelmente terão uma diminuição de sua população em termos absolutos. Outros países, embora com um padrão econômico inferior ao dos países citados, como é o caso da Rússia, também deverão ter sua população diminuída. O exemplo russo é emblemático, pois reflete a falência dos sistemas públicos de saúde e o incremento de mortes causadas por câncer, doenças cardíacas, alcoolismo, suicídios e homicídios, decorrentes da brutal queda do padrão de vida após o fim da União Soviética. O século XX foi o único da história em que o número de jovens foi maior que o de idosos. Até a metade do século passado, o contingente de crianças com idade inferior a 5 anos era maior que a de pessoas com mais de 60 anos. Atualmente, cada um desses grupos etários corresponde a 10% da população mundial, mas daqui para frente, os idosos serão cada vez mais numerosos. Contudo, o envelhecimento da população não ocorre de forma semelhante em todos os países. Em 2050, nas regiões mais desenvolvidas 16 :: GeoGrafia :: módulo 2 do mundo, uma em cada três pessoas terá mais de 60 anos, enquanto que nas áreas menos desenvolvidas elas serão cerca de 20% do total. Mantendo as tendências demográficas observadas na atualidade, até 2050 a quase totalidade do crescimento da população mundial acontecerá em áreas urbanas. Estima-se que por volta de 2007, o número de pessoas morando em cidades será superior ao contingente de pessoas do campo. As populações urbanas crescem mais rápido nos países pobres do que nos países mais ricos. Aproximadamente 60% do crescimento urbano nos países pobres será devido ao crescimento vegetativo ao qual será acrescido o êxodo rural, fenômeno que ocorrerá com maior intensidade no sul, sudeste e leste da Ásia e também na África Subsaariana. As projeções que indicam bilhões de pessoas a mais nos países pobres, mais idosos no mundo, juntamente com a expectativa de um crescimento econômico mundial maior que o atual, levanta questões sobre o grau de sustentabilidade da população atual e futura. A princípio, nosso planeta pode fornecer espaço e alimento para pelo menos três bilhões a mais de pessoas das que existem atualmente. O problema é que grande parte dos 6,5 bilhões de seres humanos que vivem atualmente na Terra, não se satisfaz apenas em ter o que comer. Segundo organismos internacionais que estudam o problema, estabelecendo-se uma relação entre alimentos, energia e recursos naturais, na atualidade, os habitantes da Terra já estariam consumindo 42,5% além da capacidade de reposição da biosfera, déficit que tem aumentado cerca de 2,5% ao ano. Se todos os seres humanos passassem a consumir o que consome um europeu ou um norte-americano, seriam necessários três planetas como o nosso! Capítulo 1 :: 17 2 A população brasileira :: Objetivo :: • Apresentar as características da população brasileira quanto à diversidade racial, dinâmica de crescimento demográfico, faixa etária, renda e mobilidade espacial. 0 400K OCEANO ATLÂNTICO Equador Trópico de capricórnio Reservada/Homologada Áreas ocupadas e demarcadas, aprovadas pelo Presidente da República e com publicação no Diário Oficial da União Delimitada Área declarada juridicamente de posse permanente dos indígenas Identificada Área que já possui estudo realizado pela Funai e publicado em decreto federal A identificar/Em identificação Áreas reconhecidas pela existência de indígenas, mas não aprovadas pela Funai Situação jurídica das terras indígenas Kadiwéu Xucuru Tapeba Ava-canoeiro Parque do Araguaia Araribóia Alto turiaçu Menkragnoti Parque do Xingu Baú Uru-eu-wau-wau Mamoadate Vale do Javari Waiãpi Rio paru D’este Nhamundá mapuera Raposa serra do sol Ianomâmi Alto Rio negro Parque do Tumucumaque Rio biá Mundurucu Aripuanã Caiapó Waimiri- Atroari m Figura 2.1: Terras indígenas. Fonte: Ferreira, Graça M. L. Atlas Geográfico. Espaço mundial,p.14. (adaptada) brasileira atual, por outro, a sofrer um extermínio, a enfrentar conflitos diversos (garimpeiros, fazendeiros, industriais, posseiros e grileiros) e a sofrer preconceitos por parte da sociedade brasileira. Antes da colonização do Brasil (século XVI), a população indígena era estimada entre dois a cinco milhões de índios pertencentes a várias nações cujos grupos linguísticos (Tupi, Jê, Aruaque, Caraíba, Pano, dentre outros) estavam presentes em todo o território nacional, com predomínio dos grupos Jê e Tupi- Guarani. Ao final do século XXI, no ano de 2010, o Censo do IBGE apontou uma população indígena de aproximadamente 818 mil indivíduos, concentrados nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. A ausência da noção de propriedade privada da terra, ou seja, a apropriação simbólica da terra pelos indígenas (a terra é um bem coletivo), a concepção da natureza como fonte de vida (produção de valor de uso), que por sua vez não provoca a geração de produção de excedentes para a comercialização (produção de valor de troca), dentre outros, são aspectos importantes que devem ser considerados na análise que se faz sobre a situação atual das populações indígenas. A distribuição geográfica atual das terras indígenas* demonstra que as mais extensas estão localizadas em áreas de menor densidade demográfica do território nacional como é o caso da região Norte do país (figura 2.1). Nesta região brasileira encontram-se as reservas Vale do Javari, perto da fronteira com o Peru, Alto Rio Negro, perto da fronteira com a Colômbia, e Ianomâmi, perto da fronteira com a Venezuela – todas com grandes dimensões e em áreas fronteiriças. Nesta faixa da fronteira há sérios problemas de tráfico de drogas e de armas, movimentos guerrilheiros de outros países, tráfico de animais silvestres e dificuldade de monitoramento de outras atividades ilegais, como biopirataria, desmatamento etc. 20 :: GeoGrafia :: módulo 2 Há quem elabore um raciocínio simplista e pérfido de hectares por índios viventes em reservas, comparando o seu pedaço percentual de terras com a parcela que caberia a cada brasileiro caso se dividisse o território total do Brasil pela população total do país, sem levar em conta que a maior parte das terras rurais estão nas mãos de poucos privilegiados brasileiros e que mais de 70% da nossa população encontram-se em cidades de todos os portes...A ideia vitoriosa das reservas indígenas destina-se à proteção de comunidades herdeiras da pré-história, vivendo uma proto-história incômoda, devido aos assédios de grupos humanos rústicos, empurrados por capitalistas vorazes para dentro da territorialidade indígena. Ab’Saber, Aziz Nacib. A Amazônia: do discurso à praxis. Os povos formadores do Brasil: os que aqui estavam e os que aqui chegaram Os indígenas, o branco e o negro africano são os três tipos étnicos formadores da população brasileira e, mais recentemente, os asiáticos, representados pelos japoneses, chineses e coreanos. A miscigenação dessas etnias vêm contribuindo para a formação de diversos outros grupos, denominados de mestiços, dentre os quais destacam-se o mulato (branco e negro), os mamelucos, caboclo, caiçara, caipira, capiau (índio e branco), o cafuzo (índio e negro) e o ainocô (amarelo e outras etnias). Mas, é o Brasil indígena que antecede o Brasil europeu (lusitano), africano e o Brasil contemporâneo, conforme veremos a seguir. As populações indígenas foram, por um lado, as primeiras a habitar o território brasileiro e a participar consideravelmente da formação da população *Segundo o IBGE (2000), “as terras indígenas correspondem ao espaço físico reconhecido oficialmente pela União como sendo de posse permanente de grupos tribais que a ocupam. Tal ocupação se dá com o intuito de preservar o habitat e garantir a sobrevivência físico- cultural dos grupos indígenas, reproduzindo, dessa forma, condições para a continuidade econômica e sociocultural da comunidade”. O grande número de reservas indígenas na região Norte pode ser explicado pela ocupação intensa do litoral desde a Colônia, o que resultou no extermínio das populações nativas dessas regiões que não submeteram-se à lógica produtiva imposta pelos colonizadores. Por isso, as regiões Norte e a porção setentrional da região Centro-Oeste (áreas de ocupação mais recente )concentram o maior percentual de povos nativos pois sofreram menos o impacto dos sucessivos ciclos econômicos ao longo dos séculos. Somente em meados do século XX, após a implantação da ditadura civil-militar em 1964, é que os estados do Norte passaram a ter uma inserção mais efetiva na economia nacional (política de integração nacional – governos militares), com a tomada de iniciativas e incentivos vários (construção de rodovias, exploração agropecuária e mineral, construção de hidrelétricas). A partir daí, agravaram-se os conflitos entre os indígenas e os garimpeiros, posseiros, grileiros, fazendeiros, empresas agropecuárias ou mineradoras. O branco que participou da formação da população brasileira é originário de vários grupos étnicos, tanto europeus como asiáticos e africanos. Os imigrantes europeus dividem-se em três grupos, segundo a origem: os atlanto-mediterrâneos, dos quais descendem a maior parte da população brasileira (representada pelos portugueses, italianos, espanhóis e franceses), os germanos ou teutões (alemães, austríacos, neerlandeses ou holandeses, suíços, ingleses e escandinavos) os eslavos (russos, poloneses, tchecos, eslovacos e iugoslavos). Os imigrantes asiáticos são representados pelos sírio-libaneses e os judeus e os imigrantes africanos pelos egípcios. Destes, o destaque é para os imigrantes portugueses cuja história se confunde com a própria história do Brasil. São considerados como os que iniciaram a neopopulação brasileira por meio da miscigenação com os índios e os negros africanos, uma vez que, durante três séculos, eram os únicos que podiam entrar livremente no Brasil. O negro foi trazido da África para o Brasil na condição de escravo e participou das principais atividades econômicas como a da agroindústria da cana-de-açúcar iniciada no século XVI (Nordeste e Recôncavo Baiano), a lavoura do algodão nos séculos XVII e XVIII (Maranhão), a mineração nos séculos XVII e XVIII (Planalto Central e em Minas Gerais), a lavoura da cana-de-açúcar no século XIX (Rio de Janeiro) e a cultura cafeeira, também no século XIX (Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo). Assim como os indígenas (ou até mais do que eles), os negros foram submetidos a brutais condições de existência e, nos dias atuais, grande parte da população negra sofre discriminação e preconceito. Os asiáticos aportaram no Brasil no início do século XX para trabalhar nas lavouras de café no interior do estado de São Paulo. Eram colonos japoneses que também, como outros colonos das demais nacionalidades, sofreram por escravidão e por dificuldades de adaptação e integração cultural. Destacam-se ainda os coreanos e os chineses que, assim como os japoneses, se fixaram nos estados de São Paulo e Paraná, principalmente. A imigração e a emigração no Brasil Os movimentos migratórios, em geral, se caracterizam por populações de baixa renda, em que a condição de pobreza e miséria prevalece, podendo ser expressa pelas precárias condições das moradias que se instalam. Historicamente, as possibilidades de sucesso para as populações de migrantes estão muito relacionadas com as disponibilidades de recursos para a ocupação de novos territórios. Quando os recursos foram abundantes, os imigrantes encontraram pouca resistência, se fixaram e, em muitos casos, alcançaram ascensão social. As populações de imigrantes, num primeiro momento, lutam para não perderem sua identidade, procuram manter as lembranças e as tradições dos lugares de origem e, num segundo momento, lutam para garantir seus privilégios como pioneiros. Sobre a imigração brasileira, esta pode ser compreendida em trêsfases: a primeira de 1808 (abertura dos portos do Brasil às nações amigas) ao ano de 1850 (proibição do tráfico de escravos), a segunda de 1850 ao ano de 1930 (queda da bolsa de Nova Iorque) e a terceira, de 1930 até os dias atuais. Analise as principais características de cada fase: • 1808-1850: a primeira fase foi marcada por um pequeno fluxo imigrató- rio, explicado pelas facilidades de obtenção de mão de obra escravizada; instabi- lidade política do período da Regência; Guerra dos Farrapos que se prolongara e existência da escravidão no Brasil que fazia com que os imigrantes temessem ser tratados como os escravos. Neste período, 1.500 famílias açorianas foram para o Rio Grande do Sul, 100 famílias suíças para o Rio de Janeiro (hoje Nova Friburgo), inúmeras famílias alemãs se dirigiram para o Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo, e 140 prussianos vieram para Pernambuco. • 1850-1930: a segunda fase caracterizou-se por ser o período de maior entrada de imigrantes no Brasil, favorecido pelo desenvolvimento da cafeicultura (que exigiu numerosa mão de obra), pela proibição do tráfico de escravos (Lei Euzébio de Queirós), pela disposição do fazendeiro de café que facilitava a vinda do imigrante, cobrindo-lhe as despesas no primeiro ano, além de fornecer uma parcela de terra (para cultivo de produtos de primeira necessidade), pelo paga- mento de gastos com o transporte do próprio imigrante (até o ano de 1889), pela abolição da escravatura e pelo desemprego na Itália (tanto no setor industrial como no agrícola) à época da unificação política do país. • 1930- dias atuais: a terceira fase caracterizou-se pela queda acentuada do fluxo migratório, com exceção das décadas de 1950 e 1970. Foi no início da década de 1950 que o Brasil recebeu muitos imigrantes europeus, todos em busca de novas oportunidades (pois estavam arrasados pela guerra) e, por outro lado, se sentiram atraídos pelas condições favoráveis da indústria brasileira na época da construção de Brasília, que precisou de um enorme contingente populacional. Já a década de 1970 (época do chamado “milagre brasileiro”) atraiu famílias, investimentos e mão de obra estrangeiros (principalmente chilenos, argentinos e uruguaios). Capítulo 2 :: 21 Igreja). Essa data é considerada como marco para os estudos geográficos da população brasileira, quando se teve o controle dos registros de nascimentos, mortes e casamentos. Alguns recenseamentos foram realizados de maneira muito irregular até a criação do IBGE em 1938 e, a partir de 1940, é que são realizados com uma certa periodicidade. Observe a tabela a seguir, com dados até o censo de 2010 (tabela 2.1): Ano População 1872 9.930478 1890 14.333915 1900 17.438434 1920 30.635605 1940 41.236315 1950 51.944397 1960 70.119071 1970 93.139037 1980 119.070865 1991 146.155000 2010 190.732.694 Tabela 2.1: Evolução da População Brasileira. Fonte: IBGE, Anuário Estatístico, 2010 (dados preliminares de 1991) O período de 1940 – 1960 é considerado pelos autores como aquele em que a população brasileira sofreu uma certa aceleração demográfica ou mesmo explosão demográfica, acompanhando o fenômeno que ocorreu em todo o mundo, principalmente nos “países subdesenvolvidos”. A explicação para tal deve-se à persistência de elevadas taxas de natalidade e à redução de taxas de mortalidade, relacionadas, principalmente, à revolução da tecnologia bioquímica (progresso da medicina no campo da terapêutica, com a descoberta dos antibióticos e de quimioterápicos e pela melhoria das condições sanitárias). Neste período, a taxa de fecundidade (relação entre o número de crianças com menos de 5 anos de idade e o número de mulheres em idade reprodutiva – 15 e 49 anos) situava-se em torno de 6,0, ou seja, elevada se comparada ao dos países desenvolvidos que era em torno de 2,5. Os casamentos ou uniões livres em idade precoce também contribuíram para o crescimento populacional (os métodos contraceptivos ainda não se encontravam tão disseminados e a população em geral não tinha acesso a eles). Existe, portanto, uma relação estreita entre “desenvolvimento econômico e taxa de fecundidade e de natalidade”. Os países “desenvolvidos” apresentam baixa taxa de fecundidade e de natalidade, acrescidos do alto nível educacional e da presença da mulher no mercado de trabalho. Já nos países “subdesenvolvidos” ocorre o inverso. Mas foi a partir da década de 1960 que ocorreu uma desaceleração demográfica e iniciou-se uma transição demográfica. O Brasil registrou uma diminuição significativa da taxa de crescimento vegetativo, quando a urbanização acelerada fez com que a taxa de natalidade passasse a cair de forma mais acentuada que a taxa de mortalidade. Entre as décadas de 1960 e 1970, a taxa era de 2,76%, entre 1970 e 1980 de 2,48% e entre 1980 e 1991 de Por outro lado, é bom reforçar que vários foram os motivos que frearam a imigração nesse mesmo período: as revoluções de 1930 e 1932 que geraram instabilidade política, a Lei de Cotas de Imigração (Constituição de 1934 e 1937 que restringiam o número de imigrantes), a determinação de que 80% dos imigrantes deveriam ser agricultores, a Segunda Grande Guerra (1939-1945), o desenvolvimento econômico de vários países europeus, que reorientou o fluxo migratório, o Golpe de Estado de 1964 e o grande endividamento externo com reflexos na economia interna (desemprego, inflação alta, diminuição do ritmo da atividade econômica). Já na década de 1980, o Brasil tornou-se um país de emigração, basica- mente por ter enfrentado uma grave crise econômica. Esta gerou desemprego, fez com que houvesse uma perda sistemática do valor real do salário e elevou os índices de inflação (queda do crescimento do PIB e da atividade econômica). Em sua maioria, os que deixavam o país eram descendentes de japoneses (cerca de 150.000, com o objetivo de juntar dinheiro no Japão e retornar com o seu próprio negócio). Nas décadas de 1980 e 1990, estima-se que cerca de 330.000 bra- sileiros buscaram nos EUA (Miami, Nova York e Boston) uma nova oportunidade de vida, cuja expectativa maior é conseguir maiores salários e guardar dinheiro para investimentos. Cabe destacar, ainda, aqueles brasileiros que emigraram para o Paraguai (“brasiguaios”) compreendendo sem-terra ou agricultores de posse atraídos por terras mais baratas para cultivo, sendo que muitos deles voltaram ao Brasil mais tarde; para o Uruguai, motivados pelos preços das terras mais baixos e pela implantação do Mercosul e para a Bolívia, fazendeiros de soja à procura de solos férteis e motivados pela doação de terras por parte do governo. Cerca de 600.000 brasileiros deixaram o país no decorrer das décadas de 1980 e 1990, dentre eles cientistas, pesquisadores e professores que emigraram devido às precárias condições de trabalho e, hoje, o Brasil se tornou um país onde o fluxo migratório é negativo, ou seja, o total de emigrantes é maior que o número de pessoas que ingressam no país. Muitos brasileiros têm se transferido para os Estados Unidos, Japão e Europa, sempre em busca de melhor qualidade de vida, lembrando que os salários médios do Brasil estão entre os mais baixos do mundo. O crescimento natural da população brasileira Vamos relembrar como a população brasileira se comportou em relação ao seu crescimento natural. Vocês se lembram da definição de crescimento vegetativo ou natural? Pois é, o crescimento natural ou vegetativo corresponde à diferença entre as taxas de natalidade e de mortalidade. Para calcularmos essas taxas é essencial que os números (absoluto e relativo da população – nascimento e morte) estejam disponíveis e, para tal, que o recenseamento tenha sido realizado. Para o crescimento vegetativo aumentar, é necessário que a taxa de mortalidade seja menor que a de natalidade e, para o crescimento vegetativo diminuir, é necessário que a queda da natalidade seja mais acentuada que a de mortalidade. Pois bem, no Brasil, somente apartir do ano de 1889 é que o Estado implantou o registro civil obrigatório, até então sob o controle da Igreja (época em que houve a consolidação da República e a separação entre o Estado e a 22 :: GeooGrafia :: módulo 2 1,89%, estando esse decréscimo, segundo a maioria dos autores, relacionado com a redução da taxa de fecundidade da população brasileira. Paralelamente, houve uma redução da taxa de mortalidade infantil devido aos melhores acessos aos centros de puericultura (especialidade que acompanha o desenvolvimento da criança) nas cidades. Convencionou-se, então, definir o processo de transição demográfica por meio de etapas de comportamento demográfico. Acompanhe na tabela 2.2. Fases Taxas Características Pré-transicional Mortalidade alta Natalidade alta = Crescimento Vegetativo regular Até 1940 as condições sanitárias eram péssimas ocasionando epidemias de peste bubônica, febre amarela, varíola e cólera. Falta de acesso à água potável. Famílias numerosas onde os filhos também eram mão de obra mantinham a natalidade alta. Primeira fase da transição Mortalidade baixa Natalidade alta = Crescimento Vegetativo alto Avanços na medicina e nas condições sanitárias diminuem a mortalidade, principalmente nas cidades. Entre 1940 e 1960, a natalidade se manteve alta provocando um “boom” no crescimento demográfico. Segunda fase da transição Mortalidade baixa Natalidade diminui = Crescimento Vegetativo diminui A natalidade começa a diminuir, pois a partir da década de 1960 a população começa a se concentrar em cidades, onde criar os filhos (alimentação e educação) se torna caro. Mulher entra no mercado de trabalho e opta por usar métodos anticonceptivos. Transição em conclusão Mortalidade baixa Natalidade baixa = Crescimento Vegetativo baixo Em poucos anos a taxa de natalidade brasileira se reduziu intensamente, apesar de não implantar políticas antinatilistas agressivas, como China e Índia. A taxa de fecundidade em 1970 era de 5,8 filhos por mulher e, em 2006, reduziu para 2 filhos. Tabela 2.2: Características da transição demográfica no Brasil. Cabe lembrar que a política demográfica brasileira passou de natalista a antinatalista. Até os anos de 1970 era totalmente populacionista ou natalista. Nessa época, a ênfase dada era no sentido de povoar o território, alegando a necessidade de segurança nacional e o aproveitamento dos recursos naturais. Em meados dessa década, adotou-se uma política neomalthusiana que procurava justificar a pobreza, a miséria e o atraso econômico dos países ditos subdesenvolvidos, como sendo o resultado da elevada natalidade e não da distribuição socialmente desigual de renda. Um bom exemplo dessa política é a ação da BEMFAM (Sociedade Brasileira do Bem-Estar da Família), instituição que já vinha operando no Brasil, subsidiada por fundações estrangeiras (Ford, Rockfeler e Banco Mundial) e que passou a atuar mais intensamente , instituindo assim uma política antinatalista. Segundo o IBGE, no século XX o Brasil entrou, no estágio de transição demográfica avançada, quando a taxa de natalidade é inferior a 20% e a de fecundidade deverá declinar ainda mais (tabela 2.3). Taxa de fecundidade (nº de filhos por mulher) Regiões 1980 1991 2000 2006 Brasil 4,4 2,9 2,4 2,0 Norte 6,5 4,2 3,2 2,5 Nordeste 6,1 3,8 2,7 2,2 Sudeste 3,5 2,4 2,1 1,8 Sul 3,6 2,5 2,2 1,9 Centro-Oeste 4,5 2,7 2,3 2,0 Tabela 2.3: As Regiões Brasileiras segundo as taxas de fecundidade (1980 – 2006). Fonte: IBGE, Indicadores Sociodemográficos e de Saúde no Brasil, 2009. Embora a população brasileira tenha reduzido o número de filhos, de acordo com o IBGE, as médias de filhos variam com o grau de escolaridade da mulher. A análise dos dados da tabela 2.4 nos revela que o Brasil não apresenta um único perfil de família. A redução do número de filhos se dá nas camadas com maior escolaridade, enquanto nas camadas mais populares o número de filhos ainda é significativo, comprovando as ideias da teoria reformista (veja quadro no final deste capítulo). Assim, o país apresenta índices populacionais de países centrais como França, Suécia, Alemanha e de países periféricos como Angola, Paquistão ou Nigéria. Fecundidade da Mulher segundo seu Grau de Escolaridade Anos de Estudo Até 3 anos De 4 a 7 anos 8 anos ou mais Média Brasil 4,0 filhos 3,1 filhos 1,5 filhos Tabela 2.4: Taxa de fecundidade da mulher brasileira de acordo com o grau de escolaridade. Fonte:IBGE Capítulo 2 :: 23 Contudo, a queda no crescimento da população brasileira observada nos últimos trinta anos não interferiu no desempenho da economia, principalmente em relação ao desenvolvimento e à distribuição de renda. É o que veremos a seguir. A estrutura da população: faixas etárias e distribuição de renda Vocês devem estar acostumados a estudar os componentes da população por idade e por sexos sem, contudo, dar maior importância para os dados e as representações na forma de pirâmides. Segundo Melhem Adas “o total absoluto da população de um país, região ou um município não tem grande significado se não estiver relacionado a outros dados populacionais e estes, por sua vez, a dados de economia, saúde, educação, habitação, transportes, produção agrícola, dentre outros”. Destacam-se, contudo, os dados sobre a composição da população por idades e sexos. Sua relevância constitui-se na possibilidade de interpretação da situação de uma dada população em relação ao planejamento socioeconômico, podendo, dessa maneira, compreender: quantos empregos podem ser criados anualmente para absorver o contingente populacional que entra todos os anos no mercado de trabalho; quantas vagas escolares ou quantos leitos hospitalares são necessários para atender a demanda populacional; qual é o investimento necessário que deve ser feito para atender às demandas de infraestrutura sanitária, dentre outras questões. A composição por idades e por sexo de uma população pode ser melhor compreendida por meio de gráficos que relacionem a quantidade de habitantes de um dado país, estado, região ou município, segundo a sua constituição por idade e por sexo. Essa representação gráfica é o que denominamos de pirâmide etária, que pode ser interpretada a partir de suas três partes: a base (porção inferior) que representa a população jovem (0-14 anos ou 19 anos); o corpo (porção intermediária) que representa a população adulta (de 15 a 59 anos ou de 20 a 59 anos) e o topo (porção superior) que representa a população idosa (60 anos ou mais). Observe a figura 2.2 que se segue: ela mostra as pirâmides etárias do Brasil nos anos de 1980 a 2010, segundo os dados de recenseamentos e estimativas do IBGE. Vamos acompanhar o comportamento da população brasileira, segundo o perfil que cada pirâmide apresenta, e tentar compreender o significado das mudanças mostradas por elas. Essas mudanças são resultado de alterações na dinâmica demográfica brasileira nos últimos vinte anos (conforme visto nesse capítulo), onde destacam-se: o declínio das taxas de natalidade, fecundidade e mortalidade geral, o aumento da população idosa no conjunto da população e a tendência para o ano de 2010 do Brasil atingir um perfil de “país desenvolvido”, que é aquele país no estágio de transição demográfica concluída. Figura 2.2: Pirâmides Etárias do Brasil – anos de 1980, 1991, 2000, 2010 (recenseamento e projeção do IBGE). 24 :: GeoGrafia :: módulo 2 Atividade 1 Seguindo o modelo de interpretação da pirâmide 1, faça o mesmo para as outras quatro pirâmides. Pirâmide 1 – ano de 1980: • base larga e topo estreito; • a população de mulheres supera um pouco a população de homens; • a população de idosos é pequena; • características de país que possui taxas de natalidade, mortalidade, fecundidade e expectativa de vida elevadas; • características de país que apresenta elevado crescimento populacional; • perfil típico de comportamento demográfico de país “subdesenvolvido”; •perfil típico que apresenta estágio de transição demográfica inicial. Pirâmide 2 – ano de 1990: Pirâmide 3 – ano de 2000: Pirâmide 4 – ano de 2010: Conforme pudemos acompanhar, no Brasil, a pirâmide de idades vem apresentando uma significativa redução de volume na base, onde estão os jovens, e um aumento da participação percentual de pessoas adultas e idosas. Apresenta ainda a mesma dinâmica global em relação à distribuição da população por sexo, onde nascem cerca de 106 homens para cada 100 mulheres, sendo a taxa de mortalidade masculina maior e a expectativa de vida menor. Dessa maneira, embora nasçam mais homens que mulheres, é comum as pirâmides apresentarem uma quantidade ligeiramente superior de população feminina, já que as mulheres vivem mais. O envelhecimento da população brasileira, evidenciado pelo aumento do volume nas faixas etárias mais elevadas (acima de 60 anos), provoca um grande desequilíbrio nas contas da previdência social. Ao longo da vida produtiva (formal), um trabalhador contribui para a previdência social na perspectiva de receber um salário após se aposentar. No entanto, o tempo de contribuição tem sido menor que o tempo de vida deste trabalhador (aposentado). Além disso, há pessoas que não contribuíram realmente para a previdência mas recebem pensão e outros benefícios (pensão a viúvas, aposentadoria por invalidez, auxílio doença, auxílio desemprego etc.). Esta situação vem causando um grande déficit nas contas previdenciárias, obrigando o governo a desviar verba de outras atividades. Agora vamos passar aos estudos relacionados à distribuição de renda, ou seja, as atividades econômicas ou setores econômicos. Vocês se lembram quais são os setores de produção de um país? São os setores primário, secundário e terciário. É possível estudar a distribuição da população economicamente ativa (PEA) segundo as atividades econômicas, que acaba fornecendo elementos ou um quadro de referência para a avaliação da economia. Entende-se por PEA as pessoas que trabalham em atividades remuneradas e podem estar ocupadas (que têm trabalho) ou não (sem trabalho, mas que procuram por trabalho). Em 2001, segundo o IBGE, o Brasil tinha 81.175.749 pessoas economi- camente ativas. Desse total, 90,3% estavam ocupadas e apenas 9,7% desocu- padas. As transformações de uma economia alteram a distribuição da população economicamente ativa pelos setores de produção. Dentre os fatores que alteraram a estrutura da população, segundo os setores de produção, podemos destacar a in- dustrialização, a urbanização e a modernização do setor primário e, pensando no Brasil, podemos incluir a estrutura fundiária injusta na contramão da democracia. A cada ano, no Brasil, precisa ser criado aproximadamente 1 milhão de novos empregos para atender à necessidade. Em 2001, o setor primário absorveu 20,6% da mão de obra, o setor secundário 22,9% e o setor terciário 56,5% do total da população economicamente ativa. Observe o gráfico que se segue (figura 2.3) e analise o comportamento e a distribuição da população economicamente ativa por setores de produção por ano, desde 1940. 0 20 40 60 80 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2001 Anos % Primário Secundário Terciário Figura 2.3: Distribuição percentual (%) da População Economicamente Ativa (PEA) por setores da economia no Brasil. Fonte: IBGE. A partir do gráfico, podemos notar principalmente: • o declínio do setor primário (70,2% em 1940; 20,6% em 2001): o Brasil deixa de ser predominantemente um país de economia rural, além da concentração fundiária, houve mecanização das atividades agrícolas; • uma queda do setor secundário (25% em 1980; 22,9% em 2001): pode ser explicada pela crise no setor, pela racionalização no trabalho (automação), levando à dispensa de mão de obra, e pelo aumento da importação de produtos industrializados de outros países. O elevado percentual de participação do setor terciário (serviços, comércio e administração pública) na população economicamente ativa está relacionado a vários fatores: • uma parte das atividades deste setor não exige grande qualificação (porteiro, faxineiro, pedreiro etc.), facilitando a absorção da população rural (que saiu do setor primário) e das pessoas com baixa escolaridade; • este setor absorveu mão de obra que veio do setor secundário, já que as atividades industriais foram, aos poucos, sendo automatizadas; • crescimento da economia informal, onde os trabalhadores não têm carteira assinada e há várias atividades não legalizadas, como por exemplo transporte alternativo (em vans), comércio ambulante (camelôs), flanelinhas etc. Capítulo 2 :: 25 RENDA MÉDIA MENSAL (em R$) – ANO BASE 2005 Brasil e regiões 40% mais pobres 10% mais ricos Total Homem Mulher Total Homem Mulher Brasil 226 255 196 3.579 4.067 2.769 Norte* 230 256 196 2.627 2.875 2.166 Nordeste 129 148 101 2.299 2.510 1.933 Sudeste 285 336 235 4.060 4.687 3.077 Sul 289 335 243 3.734 4.349 2.682 Centro- Oeste 268 311 224 4.302 4.846 3.440 Tabela 2.6: Diferença da renda média mensal (em R$) entre as regiões brasileiras, entre os 40% da população brasileira mais pobres e os 10% mais ricos e entre homem e mulher. Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD), 2005. * Não inclui a população rural dos estados do Norte. Atividade 2 Com base nos dados apresentados na tabela 2.6, analise as diferenças de salário entre as regiões brasileiras. A distribuição e a mobilidade espacial da população Quais são os fatores que comandam a distribuição espacial de uma popula- ção? Lembrando que ao lado dos fatores naturais, os fatores de ordem histórica também pesam consideravelmente na distribuição da população pelo espaço geográfico, vamos pensar na ocupação do território brasileiro em seus primórdios. A história das imigrações para o Brasil, os movimentos migratórios internos e ainda a marcha do povoamento do território brasileiro podem ser bons exemplos de como os fatores históricos também podem influenciar na ocupação e na produção do espaço geográfico. A distribuição espacial da população nos dias atuais obedece à mesma dinâmica da formação de áreas de atração e de repulsão da população, característica do povoamento do território brasileiro. O recurso que se utiliza na avaliação da distribuição da população pelo espaço geográfico é denominado de densidade demográfica. A densidade demográfica, também conhecida como população relativa (Pr), é a relação entre a população absoluta (Pa) e a área territorial ou a superfície por ela ocupada (S). Desse modo, temos: Pr = Pa/S. No Brasil, em 2000, a densidade demográfica era de 19,94 habitantes por quilômetro quadrado, ou seja, Pr = 19,94 hab/km². Mas qual é o significado desse número? Comparando-se a outros países, pode-se dizer que é um país de baixa densidade demográfica, ou ainda, pouco povoado (apesar de populoso, não é mesmo?). Observe a tabela que se segue (tabela 2.7) e compare a densidade demográfica dos países com a classificação de mais populoso. A economia informal que se instalou no Brasil está intimamente interligada à economia formal, pois os negócios informais fornecem produtos e serviços (a baixos preços) para as empresas legalizadas. Por outro lado, quando um trabalhador informal tem sua renda, pode se utilizar de serviços (hospitais, escolas etc.) e comércio (fazer crediário em grandes lojas etc.) formais. O grande crescimento da economia informal no Brasil também está relacionado ao desemprego, que pode ser conjuntural ou estrutural. O primeiro caso (desemprego conjuntural) está relacionado a recessão econômica e a situações específicas, como a abertura da economia às importações a partir da década de 1990, isenções fiscais que atraem indústrias e negócios de uma região para outra etc. Nestes momentos, algumas indústrias e/ou empresas podem ir à falência ou serem obrigadas a reduzir o quadro de empregados, podendo, posteriormente, reequilibrar as finanças e readmitir osfuncionários, sem que os postos de trabalho tenham se extinguido. No caso do desemprego estrutural, o avanço tecnológico em várias atividades, principalmente relacionado à informatização e automação, diminui ou extingue alguns postos de trabalho. Os exemplos clássicos desta situação são o uso de braços mecânicos em indústrias e a informatização (caixas eletrônicos) do setor bancário. Mas ao mesmo tempo em que ocorre a extinção de alguns postos de trabalho, outros são criados. No entanto, os novos postos geralmente exigem maior qualificação profissional e nível de instrução, o que o Estado brasileiro não tem conseguido fornecer por meio da educação. Assim, um trabalhador demitido de um banco, que poderia se inserir no mercado formal aprendendo a lidar com computadores e programas, ao não conseguir esta qualificação por meio de cursos, acaba procurando emprego no setor informal da economia. Os dados estatísticos mostram que a participação dos pobres na renda nacional diminuiu e a dos ricos aumentou. Essa dinâmica pode ser explicada pelo processo inflacionário de preços que não é repassado aos salários, e também por um sistema tributário em que a carga de impostos indiretos (ICMS, IPI, ISS, dentre outros) chega a 50% da arrecadação e não distingue as faixas de renda. Os impostos diretos (renda, IPTU, IPVA), que possuem alíquotas progressivas e são diferenciados segundo a renda, ou são sonegados ou incluídos no preço de mercadorias, tornando-se indiretos para os consumidores de modo geral. Em 2001, apenas 42% dos trabalhadores eram do sexo feminino (enquanto que nos países desenvolvidos é de 50%; ver tabela 2.5). A inserção da mulher brasileira no mercado de trabalho está ligada à perda de poder aquisitivo dos salários, fazendo com que ela trabalhe para complementar a renda familiar. Participação (%) feminina e masculina na PEA Ano Sexo 1940 1950 1960 1970 1980 1990 1995 2001 Fem. 19 14,5 18 21 27 35,5 40,4 41,8 Masc. 81 85,5 82 79 73 64,5 59,6 58,2 Tabela 2.5: Percentual (%) de participação feminina e masculina na PEA (anos de 1940 – 2001), segundo o IBGE (Anuário Estatístico do Brasil) Alguns autores comentam que tal situação faz com que os empresários prefi- ram, para suas diversas atividades, a mão de obra feminina que, por necessidade de trabalho, acaba se sujeitando a salários menores àqueles pagos pelos homens numa mesma função (tabela 2.6). 26 :: GeooGrafia :: módulo 2 País Densidade demográfica Países mais populosos Nigéria 428,4 10º Japão 349,3 9º Bangladesh 1078,4 8º Paquistão 188,1 7º Fed. Russa 8,6 6º Brasil 19,94 5º Indonésia 118,6 4º EUA 31,1 3º Índia 344,8 2º China 137,8 1º Tabela 2.7: Densidade demográfica dos dez países mais populosos do mundo (2000) (IBGE) O Brasil possui uma distribuição espacial desigual da população, resultado, sobretudo, de fatores histórico-econômicos. A concentração e a dispersão populacional brasileira acompanharam, em certa medida, a própria evolução do capitalismo. Procure consultar um Atlas Geográfico para acompanhar melhor o desenvolvimento desse tema (identifique o Mapa de Densidade Demográfica). Consultando o mapa, observe que a maior concentração populacional é na porção leste do território, ou seja, no litoral do Brasil ou em suas proximidades, onde também estão localizadas as metrópoles brasileiras (com exceção de Belo Horizonte, no interior do estado de Minas Gerais). A maior concentração populacional localiza-se nas regiões Sudeste e Nordeste do país. As maiores densidades demográficas localizam-se nas áreas metropolita- nas (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Fortaleza), nos municípios que correspondem às capitais (Natal, João Pessoa, Maceió, Aracaju e Vitória) e na zona cacaueira do sul da Bahia (municípios de Ilhéus, Itabuna e Ipiaú), com índi- ces superiores a 100 hab/km² e as imediações dos municípios citados, alcançam entre 25,01 e 100 hab/km2. Dos estados brasileiros, é o estado de São Paulo aquele que apresenta a maior área contínua de densidade demográfica acima de 100 hab/km², representada por importantes eixos rodoviários como as Vias Anhanguera, Washington Luís, Castelo Branco e Raposo Tavares. Dirigindo-se para o interior do país, as densidades demográficas declinam para os intervalos de 10 a menos de 25 hab/km², 1 a menos de 10hab/km² e menos de 1hab/km², com algumas exceções como as áreas de entorno das capitais e as próprias capitais. As áreas com o menor índice estão nas áreas cobertas pela Floresta Amazônica e por trechos do Cerrado. Verifique a evolução das densidades demográficas na tabela que se segue (tabela 2.8). Densidades demográficas (hab/km2) Regiões 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 Norte 0,41 0,52 0,72 1,01 1,65 2,59 3,35 Centro-Oeste 0,67 0,92 1,57 2,7 4,01 5,85 7,24 Nordeste 9,36 11,65 14,38 18,23 22,57 27,22 30,72 Sul 10,2 13,95 20,95 29,35 33,86 38,34 43,57 Sudeste 19,97 25,54 33,34 43,38 56,31 67,66 78,32 Brasil 4,88 6,14 8,29 11,01 14,07 17,18 19,94 Tabela 2.8: As densidades demográficas (hab/km2) no Brasil por regiões. Fonte: IBGE, Anuário Estatístico, 2001. Quanto às migrações pelo território brasileiro, assim como qualquer movimento populacional, ocorrem por motivos que forçam a população a se deslocar pelo espaço de forma permanente ou temporária. Nessa mobilidade espacial da população brasileira, destacamos as migrações internas que se dividem em: • migrações inter-regionais: movimentos das pessoas entre as regiões; • migrações intrarregionais: movimentos das pessoas dentro de uma mes- ma região; • transumância: movimentos pendulares ou temporários, relacionados às es- tações do ano ou às atividades econômicas (migração temporária do campo para a cidade; migração dos indígenas já aculturados para as cidades; deslocamento dos filhos de pequenos proprietários para servirem como peões; deslocamento de trabalhadores rurais e urbanos para se empregarem em usinas hidrelétricas; deslo- camento de trabalhadores de entressafra para áreas de garimpo e os movimentos realizados diariamente por milhares de trabalhadores urbanos que se deslocam para sua moradia). Ao longo da história, verificamos que esses movimentos migratórios estão associados, desde o período colonial, a fatores econômicos. A transumância, por exemplo, é observada em vários lugares do país: no Nordeste, onde ocorre entre o Sertão e o Agreste e a Zona da Mata; em São Paulo, quando trabalhadores rurais se deslocam para o Paraná a fim de colher o algodão e depois retornam para a colheita da cana-de-açúcar; os trabalhadores rurais da Bahia, Minas Gerais, Piauí e Maranhão que se deslocam para São Paulo na época do corte da cana-de-açúcar; dentre outros. O êxodo rural, também denominado migração campo-cidade, é o mais importante movimento populacional interno do país, tendo como marco a segunda metade do século XX (1950). Foi a partir do declínio da população rural, em 1940, que o percentual da população urbana começou a aumentar, ultrapassando a rural nos anos de 1970. Em 2001, no conjunto das Grandes Regiões, o destaque foi para a região Sudeste por possuir o maior percentual de população em área urbana (93,1% contra 6,9% em áreas rurais), seguida das regiões Centro-Oeste e Sul. Atualmente, as regiões Norte e Nordeste são as que possuem o maior percentual de população vivendo em áreas rurais. Essas migrações, que ocorreram no país a partir do ano de 1940, podem ser assim resumidas: • 1940 a 1950: deslocamentos para a região Centro-Oeste e para o Norte do Paraná, tendo como atrativo a busca de terras para agricultura (do Sudeste e Nordeste); • 1950 a 1960: grande fluxo migratório para o Sudeste, tendo a indústria como principal atrativo, e para outros locais com atrativos diversos (Maranhão: babaçu; Mato Grosso: garimpo; Rondônia: mineração; Paraná: café; Goiás: construção de Brasília); • 1960 a 1970: continuidade da marcha para o Centro-Oeste e expansão para a Amazônia, tendo como principal atrativo os projetos agropecuárioscom incentivos fiscais pelo governo; • 1970 a 1990: os movimentos em direção à Amazônia, no contexto da ideologia dos governos militares em promover a ocupação (construção de rodovias); • 1970 a 1991: migrações realizadas para Rondônia por meio do Programa Integrado de Colonização, do Projeto de Assentamento e do Planoroeste; Capítulo 2 :: 27 • 1970 a 1991: migrações realizadas para Roraima atraídas principalmente pela garimpagem; • década de 1990: mesmas tendências observadas na década de 1980 (queda do movimento migratório interno em direção à região Sudeste; diminuição do crescimento populacional do município de São Paulo; permanência do vetor em direção à Amazônia; crescimento dos municípios de médio e pequeno portes). As indicações são, portanto, no sentido de uma redistribuição geográfica, quando as grandes cidades deverão sofrer uma desconcentração populacional, e as pequenas e médias deverão crescer. As indústrias já estão se estabelecendo em cidades de pequeno e médio portes, fazendo com que o fluxo interno sofra alterações. Atreladas a essas novas possibilidades de emprego, estão as oportunidades nos negócios, a oferta de centros médicos e hospitalares, as faculdades e universidades, o custo de vida mais baixo e a perspectiva de uma melhor qualidade de vida. Os fluxos migratórios brasileiros podem influenciar na distribuição de homens e mulheres nas regiões brasileiras. As regiões Norte e Centro-Oeste apresentam um número de homens maior que o Nordeste, onde predominam mulheres. Tal fato se deve às migrações direcionadas às regiões Norte e Centro-Oeste, que datam desde final do século XIX com atividades ligadas aos seringais e se intensificam a partir da década de 60 com as políticas de colonização dessas regiões. Os homens deixam suas famílias no Nordeste e migram para essas regiões em busca de trabalho, porém muitas vezes não retornam aos seus lares. Um dos principais motivos são as dificuldades de juntar dinheiro para o retorno, já que as relações de trabalho nestes lugares são extremamente precárias, ocorrendo casos de escravidão por dívida. Exercício de Fixação 1) Explique a influência da estrutura fundiária brasileira nas migrações sulistas ocorridas no final da década de 70. Exercícios de vestibular 1) (CEDERJ / 2001) Nos últimos quinze anos, registra-se uma significativa emigração de brasileiros para o Paraguai e para a Bolívia. No Paraguai, por exemplo, já há cerca de 300 mil imigrantes brasileiros legalizados. Pode-se afirmar que esse fluxo migratório: (A) é produto do deslocamento, para o Cone Sul, de empresas brasileiras dos setores industriais e de serviços; (B) faz parte de um movimento sazonal vinculado às oportunidades da expansão do comércio varejista; (C) resulta da livre circulação da força de trabalho e capitais entre os países- membros do Mercosul; (D) está relacionado às melhores condições de apropriação de terras e à expansão da produção de soja e trigo; (E) foi determinado pela estratégia geopolítica brasileira de ocupação de áreas devolutas da fronteira oeste. 2) (UFRJ / 2006) Observe as pirâmides etárias da população urbana e rural do Estado da Bahia nos anos de 1980 e 2000. 70 e mais 60 - 69 50 - 59 40 - 49 30 - 39 20 - 29 10 - 19 0 - 9 2.000 1.600 1.6001.200 800 400 4000 800 1.200 Urbana Rural População (em 1.000) 2.000 1.600 1.6001.200 800 400 4000 800 1.200 População (em 1.000) Gr up o d e i da de Gr up o d e i da de Urbana Rural 1980 2000 70 e mais 60 - 69 50 - 59 40 - 49 30 - 39 20 - 29 10 - 19 0 - 9 Fonte: Bárbara-Christine Silva et.al. In Atlas Escolar da Bahia, 2004. a) Identifique uma tendência demográfica quanto à distribuição espacial da população. b) Indique o que ocorreu, em termos absolutos e relativos, com a estrutura etária da população baiana. 3) (UFF/2000) Texto 1 :: Os DEKASSEGUI A palavra dekassegui surgiu para designar, no passado, a população de japoneses do norte que migraram para o sul do arquipélago, em busca de trabalho durante o período de inverno. Composto dos ideogramas japoneses “sair” e “ganhar dinheiro”, o termo tornou-se sinônimo do migrante que alimentava o desejo de voltar à terra de origem. 28 :: GeooGrafia :: módulo 2 6) (UERJ / 2007) Norte Nordeste MG SP RJ ES Centro-Oeste Sul456.546 100.610 a 128.171 177.050 a 186.580 193.890 a 215.530 286.345 390.000 a 403.510 Observe, no mapa acima, o fluxo migratório de ida e volta entre o Nordeste e o Estado de São Paulo. Identifique e explique a sua característica principal. 7) (UERJ / 2003) Analise os textos a seguir. Brasil perde jovens para mercado externo O mercado de trabalho brasileiro está perdendo grande fatia de jovens com boa escolaridade e que poderiam se tornar profissionais qualificados. São pessoas de 15 a 24 anos que estão deixando o País em busca de novas oportunidades e experiências profissionais. Na década de 1990, cerca de 1,3 milhão de jovens cruzaram as fronteiras brasileiras em busca de chances de melhorar o rendimento. Talvez, nunca mais voltem. (...) Adaptado de O Estado de Minas, 07/05/2002 Um de cada cinco argentinos pensa em ir-se do país Uma pesquisa revela que na capital e Grande Buenos Aires 22% das pessoas pensam em emigrar. A maior parte quer ir para a Espanha e os EUA. (...) Os mais propensos são os menores de 35 anos, os desempregados e as pessoas com bom nível de instrução. Adaptado do jornal argentino Página 12, 17/05/2002 A alternativa que contém a melhor explicação para esse processo de emigração é: (A) fracasso das políticas agrária e industrial para as classes camponesas (B) ausência de metas econômicas e educacionais para os setores populares (C) indefinição da identidade cultural e política dos segmentos da alta burguesia (D) frustração das expectativas de emprego e de ascensão social das camadas médias urbanas Texto 2 :: Os Dekassegui brasileiros Diferentemente do uso da expressão no passado, o termo dekassegui vem sendo utilizado para designar os brasileiros que têm migrado, na atualidade, para o Japão, em busca de empregos oferecidos por anúncios publicados nos principais jornais de São Paulo. I. O tipo de migração a que o texto 1 se refere é denominado transumância, que se caracteriza por: (A) Migração da população de um país com economia agrícola para um com economia industrial. (B) Migração periódica da população que se desloca de acordo com as estações do ano em busca de melhores condições de vida e trabalho. (C) Migração de áreas rurais para as cidades na perspectiva de empregos com melhores salários. (D) Fuga da população de um país devido a perseguições religiosas e políticas. II. Das opções a seguir, quais NÃO explicam as principais características e condições de migração dos brasileiros para o Japão na década de 90 deste século. (A) Busca de melhores condições de emprego e salário. (B) Migração seletiva em função da descendência étnica. (C) Migração subordinada à permissão do governo brasileiro. (D) Mão de obra destinada às atividades industriais, sobretudo no setor de autopeças, de eletrônica e alimentar. 4) (UERJ / 2004) Analise os dados a seguir. A evolução das matrículas no país Ensino Médio Ensino Fundamental Ano 2002 Ano 2003 Ano 2002 Ano 2003 8.710.584 9.132.698 35.150.362 34.719.506 +4,8% -1,2% O Globo, 02/09/2003 As variações no número de matrículas escolares no Brasil podem ser explicadas pelas seguintes mudanças demográficas: (A) sobre mortalidade feminina e redução da taxa de mortalidade. (B) elevação da expectativa de vida e redução da taxa de natalidade. (C) ampliação da taxa de fecundidade e redução da mortalidade infantil. (D) aumento da emigração e manutenção da taxa de crescimento vegetativo. 5) (UERJ / 2004) A eliminação do trabalho infantil é um dos principais desafios para os países em desenvolvimento, pois tem impacto direto sobre os seguintes indicadores sociais: (A) redução do índice de analfabetismo eretração da mortalidade infantil. (B) aumento da taxa de escolaridade e redução do crescimento populacional. (C) aumento da taxa de crescimento populacional e elevação da renda per capita. (D) elevação do índice de desenvolvimento humano e aumento da taxa de fecundidade. Capítulo 2 :: 29 8) (UERJ / 2003) Canção do exílio Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. (...) (Gonçalves Dias, 1847) Marginália 2 (...) Minha terra tem palmeiras Onde sopra o vento forte Da fome, do medo e muito Principalmente da morte (...) Aqui é o fim do mundo Aqui é o fim do mundo Aqui é o fim do mundo Torquato Neto e Gilberto Gil, 1967 Aqui temos duas maneiras distintas de imaginar “minha terra” – Brasil. Cada uma dessas imagens expressa características da sociedade brasileira associadas aos respectivos contextos históricos. Essas características são respectivamente: (A) a ideia da nação como resultado da preservação ambiental – a ideologia pessimista decorrente da globalização (B) o elogio da natureza como elemento de construção da nação brasileira – a instabilidade social decorrente do subdesenvolvimento (C) o exílio político dos intelectuais como negação da nação – as desvantagens ecológicas da nação decorrentes de suas condições naturais (D) a imaturidade dos intelectuais como resultado da dominação monárquica – a miséria e a fome decorrentes do extrativismo econômico. Complemente seus conhecimentos Evolução da população das regiões brasileiras nos últimos 50 anos Nelson Bacic Olic, Revista Pangea, 1/6/2001. Nos últimos 50 anos, a população brasileira teve seu efetivo mais que duplicado (2,4 vezes), passando de pouco mais de 70 milhões em 1960, para cerca de 170 milhões segundo os dados do censo 2000. Como pode se ver, ao longo da segunda metade do século XX, o contingente populacional brasileiro foi acrescido de aproximadamente 100 milhões de pessoas, isto é, quase três vezes a população da Argentina. Se em números absolutos a população sempre cresceu, a taxa média de crescimento anual vem apresentando significativa diminuição. Assim, segundo o censo de 1960 (que revelou as tendências demográficas da década anterior), o ritmo de crescimento da população brasileira naquela data era ligeiramente superior a 3,0%. O censo de 2000 revelou que esta taxa caiu para quase a metade (1,6%). A principal explicação para esta queda tem sido a redução do ritmo do crescimento vegetativo, causado principalmente pela expressiva queda das taxas de natalidade. Grande parte dessa situação é decorrência do intenso e rápido processo de urbanização pelo qual o país vem passando. Quando analisamos o crescimento populacional sob a ótica das regiões político-administrativas que compõem o país, podemos constatar uma série de fatos. Primeiramente, a população absoluta de todas as regiões apresentou um expressivo crescimento, embora o ritmo desse incremento tenha sido bastante diferenciado. Por exemplo, as regiões Norte e Centro- Oeste tiveram no período, um ritmo de crescimento sempre superior à média brasileira, enquanto a Região Nordeste sempre foi aquela área do Brasil que apresentou os menores índices de incremento populacional. Essa variação nos ritmos de crescimento é explicada fundamentalmente por dois aspectos: as diferenças na intensidade do crescimento vegetativo de cada região e as migrações internas. Neste ponto, vale a pena chamar a atenção para outros dois aspectos da evolução demográfica das regiões. O primeiro deles é que, embora o crescimento vegetativo venha apresentando uma queda de ritmo em todas as unidades regionais, este decréscimo tem se verificado de forma diferente no tempo e no espaço. Assim, nas regiões consideradas mais desenvolvidas (Sul e Sudeste), a diminuição aconteceu antes que no Norte e Nordeste, as duas áreas tidas como as menos desenvolvidas do país. Um segundo aspecto é que o comportamento das migrações internas também mudou, especialmente no que diz respeito às origens e destinos dos deslocamentos. Entre as décadas de 1950/70, os mais expressivos fluxos populacionais verificavam-se entre as regiões (especialmente do Nordeste para as outras unidades regionais) e tinham fundamentalmente origem rural e destino urbano. Da década de 1980 em diante, os mais expressivos deslocamentos internos da população passaram a ser mais intrarregionais e ter origem urbana (pequenas e médias cidades) e destino urbano (médias e grandes cidades). Apesar de todas transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos 50 anos, praticamente não houve alteração no ranking das regiões mais e menos populosas do país. Aquelas com maior população absoluta atual, isto é, a Sudeste (72,3 milhões), a Nordeste (47,7 milhões) e a Sul (25,1 milhões) mantiveram-se, como em 1960, nas primeiras colocações. A única modificação ocorreu na colocação das regiões Norte e Centro-Oeste que contam hoje, respectivamente, com 12,9 milhões e 11,6 milhões de habitantes. Até o censo de 1980, o Centro-Oeste era mais populoso que o Norte, situação esta que se inverteu em 1991. A explicação para o fato é principalmente de natureza político-administrativa: em 1988 foi criado o 30 :: GeooGrafia :: módulo 2 estado do Tocantins, desmembrado de Goiás, um estado do Centro-Oeste. O novo estado foi então incorporado à Região Norte que, com isso, passou a ter cerca de 900 mil pessoas a mais em seu efetivo populacional. Uma evolução peculiar: o caso da Região Norte A Região Norte que possuía cerca de 2,5 milhões de pessoas em 1960, teve seu efetivo aumentado cerca de 5 vezes, passando para quase 13 milhões em 2000. O ritmo de crescimento da população regional passou por dois momentos distintos. Entre as décadas de 1950 `e 1970, o ritmo foi crescente; nas décadas posteriores, esse ritmo diminuiu. Mesmo assim, desde os anos 70, a região tem sido aquela que apresenta os maiores ritmos de crescimento dentre todas as unidades regionais do país. O aumento do efetivo demográfico da maior e menos populosa região do Brasil é explicado por um conjunto de fatores onde se ressaltam as migrações internas. A criação da Zona Franca de Manaus, a implantação de projetos agrominerais, pecuários e florestais, a construção de rodovias de integração e a descoberta de ouro, atraíram expressivos contingentes de pessoas de outras regiões, a maioria delas proveniente do Nordeste, Sul e Sudeste. De maneira geral, os migrantes nordestinos dirigiram-se especialmente para o Tocantins, as porções meridionais do Pará, o Amapá e Roraima. Muitos vieram atraídos pela descoberta de veios e garimpos de ouro. Outros, em busca de terras, estabeleceram-se como posseiros em terras devolutas ou de latifúndios improdutivos. Alguns, ainda, se empregaram em projetos minerais, florestais ou participaram da construção de estradas e usinas hidrelétricas. Já os fluxos migratórios originários do Sul e do Sudeste foram atraídos pelos processos particulares de colonização. Implantados por empresas privadas, estes projetos ofereciam terras a preços baixos, especialmente em Rondônia. Assim, paranaenses, gaúchos, mineiros, dentre outros, estabeleceram-se como pequenos proprietários e, não só foram responsáveis pelo surgimento de novas áreas de agricultura comercial modernizada, como também pelo aparecimento e crescimento explosivo de novas cidades. Todavia, o fluxo de imigrantes para a Região Norte na década de 1990, embora ainda expressivo, diminuiu sensivelmente. A migração originária do Sul e do Sudeste praticamente estancou. Rondônia, o maior polo de recepção de migrantes na década de 70, foi substituído por Roraima na década seguinte. Este último estado, por sua vez, foi substituído pelo Amapá como o maior centro receptivo de migrantes na ultima década do século XX. Por fim, um outro aspecto que vale destacar é o grande desequilíbriodemográfico existente entre os estados que compõem o Norte do país. Assim, o Pará concentra atualmente quase metade (47,9%) da população regional, seguido do Amazonas (21,7%). Portanto, apenas essas duas unidades federativas, das sete que compõem a região, concentram praticamente 70% de todo o efetivo da população regional. Você se lembra! Teorias Demográficas Período Ideia central Solução Malthusiana Século XVIII *Afirma que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos, em aritmética. Com isso, a produção de alimentos não seria suficiente para alimentar as pessoas. *Casamentos tardios, controle da natalidade compulsória, *Aumento das horas de trabalho da população. Neomalthusiana Meados do Século XX * Associava o subdesenvolvimento dos países ao crescimento populacional, uma vez que o governo teria gastos excessivos em educação e saúde reduzindo os investimentos nos setores produtivos. * Difusão do ecomalthusinismo *Planejamento familiar, controle da natalidade. Reformista Últimas décadas do século XX *O crescimento populacional é fruto das desigualdades sociais. *Investimento nos setores sociais, com isso o planejamento familiar seria uma opção das famílias. Capítulo 2 :: 31 3 Regiões brasileiras :: Objetivos :: • Apresentar as formas de regionalização do Brasil. • Caracterizar aspectos ambientais e socioeconômicos dos complexos regionais. país, elaborar propostas de planejamento adequadas a cada região. Além disso, os estudos para estabelecer uma divisão regional do Brasil criavam a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o território nacional (seus recursos naturais, aspectos da população, atividades industriais etc.). Dentro desse contexto, foram criados dois órgãos federais: o Conselho Nacional de Estatística, criado em 1936, e o Conselho Nacional de Geografia, criado em 1937. Em 1938, tais órgãos foram unificados, constituindo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IBGE estabeleceu, a partir de 1942, uma divisão regional do Brasil oficial, a ser adotada em todos os ministérios. As características físicas do território brasileiro continuavam como o principal critério de definição das macrorregiões, entretanto, o limite destas seguia a divisão política dos estados e municípios. Deste modo, atendia-se a uma necessidade prática de divulgação de dados estatísticos. A divisão regional do IBGE passou por reavaliações, estabelecendo, em 1970, cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Embora esta divisão seja fixa, houve algumas adaptações no decorrer do tempo, pois novos estados foram criados. O exemplo mais recente é o do Estado de Tocantins, criado em 1988, a partir da divisão do Estado de Goiás. Oficialmente, o Tocantins pertence à região Norte, entretanto, quando esta área ainda fazia parte de Goiás, era integrada à região Centro-Oeste. Acompanhe esta mudança pela figura 3.1. Por que o novo Estado de Tocantins foi considerado integrante da região Norte e não da região Centro-Oeste? Será que a divisão regional do IBGE é realmente ideal? Responder tais questões não é uma tarefa fácil, pois vários critérios podem ser empregados para delimitar uma região. No caso do IBGE, os critérios estão associados a aspectos naturais e a algumas características socioeconômicas. Além disso, este órgão dá ênfase ao limite político-administrativo, ou seja, um estado não pode pertencer a mais de uma região. Para o IBGE, o Estado de Tocantins apresenta mais semelhanças (vegetação, clima e atividades econômicas) com o Norte do que com o Centro-Oeste. A obediência ao limite político dos estados é um dos elementos mais criticados nesta divisão regional do IBGE. Contudo, os diversos aspectos sociais, econômicos e naturais encontrados no Brasil não coincidem com os limites estaduais. Vamos ver alguns exemplos (acompanhe com o mapa B da figura 3.1): • A área com clima semiárido, onde a população sofre com problemas de seca prolongada e latifúndios impedindo o acesso do pequeno agricultor à terra, se estende desde o interior dos Estados do Nordeste até o setor norte de Minas Gerais (região Sudeste). • As atividades agropecuárias realizadas em boa parte do Mato Grosso do Sul (região Centro-Oeste) estão mais ligadas ao Estado de São Paulo (região Sudeste), do que aos demais estados do Centro-Oeste. A mesma coisa acontece com o norte do Paraná (região Sul), onde há também grande semelhança quanto ao tipo de solo e de clima com o Estado de São Paulo. • A vegetação densa e o clima quente e úmido que caracterizam a Amazônia não estão restritos aos estados da região Norte. Uma parte do Estado do Mato Grosso (região Centro-Oeste) e do Maranhão (região Nordeste) também possuem estas características ambientais. 34 :: GeoGrafia :: módulo 2 O Brasil é um país de grandes dimensões. O nosso território possui cerca de 8,5 milhões de km2, onde podemos perceber uma grande diversidade ambiental (grande variedade de tipos climáticos, de vegetação e de formas de relevo). Somando-se a essa diversidade de paisagens naturais, há enormes diferenças quanto às características sociais e econômicas. Atividade 1 Você é capaz de identificar a que regiões brasileiras pertencem as fotos abaixo? Foto A (Foto de Silvio Bahiana) Foto B (Foto de Rosana dos Santos) Foto D (Foto de Carla Maciel Salgado)Foto C (Foto do acervo do NEQUAT/UFRJ) Marque com um X o nome das regiões brasileiras relacionadas a cada foto. Fotos Regiões Brasileiras Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul A B C D Com tantos lugares apresentando aspectos naturais e socioeconômicos diferentes, surgiu a necessidade de estabelecer uma divisão regional do Brasil. Este procedimento de delimitar regiões é usado para planejar ações e investimentos necessários ao desenvolvimento de uma área. Neste capítulo, vamos conhecer alguns métodos de regionalização do Brasil e as características principais das macrorregiões brasileiras. Regionalização do Brasil As primeiras propostas de divisão regional do Brasil datam do início do século XX, tomando como base apenas os elementos do meio físico. No entanto, as profundas transformações na organização do espaço brasileiro, principalmente a partir da década de 1930 (Governo Vargas impulsionando a industrialização), estimularam novas discussões sobre os critérios de regionalização. Vários interesses estavam por trás destas discussões: aumentar o poder do governo federal sobre as demais esferas políticas (estados e municípios), facilitar a administração do diferentes áreas deste complexo regional. Por exemplo: bancos com sede em São Paulo investem pesadamente no agronegócio em estados do Sul e Centro-Oeste; agricultores e pecuaristas do Sul e do Sudeste compraram terras no Centro-Oeste; uma parte da soja produzida em Mato Grosso e Goiás é exportada pelo porto de Santos (SP). Complexo do Nordeste – Área de colonização mais antiga do país, que começou a apresentar estagnação econômica, principalmente em meados do século XX, devido à falta de investimentos em novas tecnologias de cultivo, problemas de concentração fundiária, grande desemprego etc. Desde o século XIX, vinha se caracterizando como uma área de repulsão populacional, que migrou especialmente para estados do Sudeste e do Norte. Este complexo regional engloba o polígono da seca – área frequentemente atingida por estiagens, que podem durar mais de dois anos seguidos. Complexo do Norte – As primeiras características que vêm à mente sobre esta região são o clima quente e bem úmido e a vegetação densa (Floresta Amazônica conhecida pela grande biodiversidade). No entanto, esta região diferencia-se das demais devido à fraca densidade demográfica, exceto nas grandes capitais (Manaus e Belém, principalmente), onde há desenvolvimento de atividades industriais e comerciais. Sua economia caracteriza-se por atividades primárias: extrativismo vegetal e mineral, agriculturae pecuária extensivas. Com exceção de algumas modalidades de mineração, tais atividades são praticadas com baixo nível tecnológico. Esses grandes complexos regionais podem, ainda, ser divididos em regiões menores, considerando uma análise histórica de alguns aspectos: tipos de aproveitamento dos recursos naturais, objetivos da produção (para exportação ou para consumo interno, por exemplo), estrutura social, entre outros. Atividade 2 Compare a divisão regional do Brasil proposta por Pedro Geiger (figura 3.2) com a do IBGE (figura 3.1) e responda às questões a seguir. OCEANO ATLÂNTICO 0 500 km CENTRO-SUL NORDESTE AMAZÔNIA Trópico de Capricórnio Equador Figura 3.2: Divisão regional do Brasil proposta por Pedro Geiger. Figura 3.1: Macrorregiões brasileiras definidas pelo IBGE, antes (mapa A) e depois (mapa B) da formação do Estado de Tocantins. Outros pesquisadores propuseram divisões regionais diferentes daquela oficializada pelo IBGE. A mais conhecida foi elaborada por Pedro Geiger, em 1964. Nesta, o Brasil é dividido em três Complexos Regionais: Centro-Sul, Nordeste e Norte (Amazônia) (figura 3.2). Enquanto a divisão do IBGE leva em consideração os limites políticos dos estados, a proposta de Pedro Geiger desconsidera tais fronteiras, privilegiando a evolução de estruturas econômicas e sociais do Brasil ao longo do tempo. Assim, os Complexos Regionais são grandes regiões que abrangem áreas com diferenças na atividade produtiva e nas características sociais, mas que funcionam de forma integrada. Para entender melhor os motivos que levaram Geiger a elaborar esta proposta, vamos ver as características de cada uma. Complexo do Centro-Sul – Reflete a integração econômica do Sudeste industrializado (especialmente São Paulo) com a atividade agropecuária e industrial do Sul e com a agricultura modernizada de algumas áreas do Centro- Oeste. Há um intenso fluxo financeiro, de pessoas e de mercadorias entre as Capítulo 3 :: 35 pelos extensos engarrafamentos que lançam gases na atmosfera. Nos meses de inverno, quando há sequências de dias com pouco ou nenhum vento para dispersar a poluição, a qualidade do ar fica péssima, prejudicando a saúde dos paulistanos. Os gases na atmosfera também podem formar chuva ácida, que corrói estruturas de construções diversas (casas, prédios, pontes etc.). Impacto ambiental é consequência da ação ou atividade natural ou antrópica, que produz alterações bruscas em todo o meio ambiente ou em parte de alguns de seus componentes. Como exemplo de atividades modificadoras do ambiente podemos citar, dentre outras: a construção de rodovias e ferrovias; os portos e terminais de minério, de petróleo ou de produtos químicos; os emissários e esgotos sanitários; as obras hidráulicas como barragens, hidrelétricas, diques e transposição de rios; as usinas de geração de energia; as extrações de combustível fóssil, de minérios e de madeira; os aterros sanitários; os complexos industriais etc. Veremos a seguir as características mais específicas para cada complexo regional. Centro-Sul Esta é a região com a economia mais dinâmica do país, pois há uma grande diversidade, qualidade e volume de produção industrial, agrícola e de serviços, estabelecidos sobre uma enorme rede de infraestrutura – rodovias, ferrovias, telecomunicações etc. Neste contexto, o Centro-Sul concentra centros de pesquisa de alta tecnologia, grandes bancos nacionais e internacionais, agricultura e indústrias bem desenvolvidas e um setor de comércio extremamente ativo, entre outros elementos. A importância econômica desta região pode ser visualizada por meio do intenso fluxo de exportação e importação, que ocorre pelos seus portos. O porto de Santos (Estado de São Paulo) é o principal deles, movimentando vários tipos de produtos: exportação de soja, café, suco de laranja, manufaturados etc., e importação de trigo e produtos industrializados, dentre outros. A sua hinterlândia (área de influência) abrange Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além do próprio Estado de São Paulo. Assim, os produtos para exportação gerados nesses estados saem do país pelo porto de Santos. Portanto, os meios de transporte (rodovias e ferrovias) estão voltados para integrar esses estados. Outros portos importantes no Centro-Sul são: Rio de Janeiro (RJ), Paranaguá (PR), Vitória (ES) e Rio Grande (RS). Além dos fluxos de importação e exportação, estes e outros portos menores são usados na navegação de cabotagem, isto é, transporte marítimo interligando os portos nacionais. O grau de urbanização do Centro-Sul é bem superior ao das demais regiões. Reúne cerca de 56,6% do total dos municípios brasileiros e concentra mais de 62% da população do país. As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo polarizam (influenciam de forma econômica, social e cultural) uma grande área, constituindo- se em metrópoles nacionais. O fluxo intenso de pessoas, mercadorias e negócios estimulam o crescimento de várias cidades entre as duas metrópoles nacionais, a) Aponte as principais diferenças entre elas. b) Na tabela a seguir, escreva os estados (e parte destes) que compõem os Complexos Regionais. Complexos regionais Estados e áreas que integram os complexos regionais Centro-Sul Nordeste Norte Quanto aos aspectos ambientais, cabe destacar que cada região brasileira apresenta características diferenciadas de acordo com os ecossistemas predominan- tes e os impactos ambientais resultantes das atividades econômicas. Esses impactos ambientais podem ser diferenciados nas escalas local, regional e global tanto em ecossistemas naturais e agrícolas como nos sistemas urbanos, e podem ser encon- trados nos complexos regionais brasileiros e seus respectivos ecossistemas. Ecossistemas são unidades funcionais autossuficientes, caracterizadas pelo intercâmbio de matéria e energia e pela interação das comunidades existentes entre si e com o ambiente físico; são considerados um sistema aberto, estável no tempo onde as entradas de energia e matéria são representadas pela energia solar, elementos minerais e atmosféricos e água e, as perdas ou saídas ocorrem sob forma de calor, oxigênio, gás carbônico, compostos húmicos, substâncias orgânicas arrastadas pelas águas etc; podem ser agrupados em terrestres e aquáticos. É bom lembrar que as interferências humanas nos ecossistemas ocorrem há milhares de anos e, em geral, causam impactos sobre o meio ambiente. Gradativamente esses impactos vêm se intensificando não somente no Brasil, mas em todas as partes do mundo. São resultantes das atividades naturais e (ou) humanas, a exemplo da ação dos vulcões e terremotos ou desmatamentos e lançamento de efluentes. As áreas rurais brasileiras sofrem grandes impactos com as queimadas para limpeza de pasto e de áreas de cultivo. Além de o fogo prejudicar o solo, gera gases e fuligem que afetam a saúde da população que mora próximo. A combinação da falta de vento e grande quantidade de fumaça de queimadas em alguns estados do Centro-Oeste já provocou o fechamento de aeroportos da região durante horas ou dias. Deste modo, além de determinadas ações humanas provocarem impactos sobre o meio ambiente e sobre a saúde da população, podem também prejudicar outras atividades econômicas. No caso de áreas urbanas um exemplo de atividade que causa grande impacto é a intensa circulação de veículos. A cidade de São Paulo é bem conhecida 36 :: GeoGrafia :: módulo 2 principalmente ao longo do vale do rio Paraíba do Sul, levando à formação de uma megalópole. Além do crescimento das cidades no eixo Rio-São Paulo, há o desenvolvimento urbano em diversos outros pontos desta região. Em Goiás e Mato Grosso do Sul, por exemplo, as cidades estão florescendo por meio do estabelecimento dos complexos agroindustriais. Estes atraem empresas dos setores de serviços (bancos, hospitais, escolas etc.) e de comércio, que se concentram em pequenas cidades, estimulando o seu desenvolvimento. Contrastandocom o elevado número de cidades médias e grandes, há extensas áreas ocupadas pelas atividades agrícolas e pecuárias, praticadas em moldes tradicionais ou adotando modernas tecnologias de produção. Este fato confere uma grande diversidade de formas de ocupação do espaço na região Centro-Sul. O Estado de São Paulo se destaca, nesta região brasileira, devido à sua mo- derna estrutura produtiva. Tanto o setor agrícola quanto o industrial apresentam alto nível tecnológico. A cidade de São Paulo concentra empresas de diversos seto- res, promovendo fluxos nacionais e internacionais de capital, de mercadorias e de pessoas. Para isso, esta cidade possui uma boa rede de comunicação, aeroportos bem equipados e um sistema viário conectado ao resto do país. Até aqui, você pode pensar que o Centro-Sul é um “mar de prosperidade e de modernidade”. No entanto, o dinamismo econômico da região não atinge a toda população ou a todos os municípios. Há algumas áreas com problemas de estagnação econômica gerando desemprego, de concentração fundiária dificultando o acesso do pequeno agricultor à terra, de desigualdade social devido à concentração de renda, aumento da criminalidade e do setor informal da economia etc. As modernas formas de produção atuais contrastam com antigas relações de trabalho, inclusive trabalho escravo, como já foi detectado em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro nos últimos anos. Quanto aos aspectos ambientais na região Centro-Sul, os efeitos da industrialização como a poluição do ar e da água nos espaços urbanos e rurais são de abrangência local e regional. Os municípios mais urbanizados apresentam índices de poluição e de degradação ambiental mais elevados associados às indústrias que os municípios menos urbanizados. Esses últimos apresentam elevados índices de poluição associados às práticas de monocultura, silvicultura e ao agronegócio (queimada, uso excessivo de agrotóxicos, desmatamento de nascentes de rios etc.). Cubatão, Paulínia, Itabira, João Monlevade, Resende, Mariana, Pindamo- nhangaba, Barroso são exemplos de cidades nas quais a industrialização predo- minante baseia-se em atividades poluidoras como a metalurgia, a química e o processamento e extração de minerais. As aglomerações urbanas de escala metro- politana são também exemplos, destacando-se as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte e as aglomerações de Campinas, Santos, São José dos Campos, Vitória, Sorocaba, Jundiaí, Guaratinguetá/Aparecida, Barra Mansa/Volta Redonda, Ipatinga/Coronel Fabriciano, dentre outros. O exemplo clássico de poluição por fontes industriais em área urbana é o de Cubatão, muni- cípio pertencente à aglomeração urbana de Santos e sede do complexo industrial petroquímico e siderúrgico, que se vincula à grande estrutura portuária de Santos. Neste sentido, o resgate histórico mostra a instalação da primeira indústria na década de 1950, seguida de refinarias e companhias siderúrgicas, onde as con- dições geomorfológicas da baixada santista (estreitas áreas de mangue e aterros artificiais encaixados entre o litoral e as escarpas da Serra do Mar) não eram propícias à instalação de atividades como essas. É importante considerar que existem níveis diferenciados de comprometimento ambiental, devido principalmente à ocorrência das diversas combinações de fatores que envolvem as atividades industriais, os diferentes tamanhos das fábricas, as tecnologias de transformação utilizadas e os aspectos de infraestrutura das áreas do entorno. Desse modo, resultam em ações poluidoras desiguais fazendo com que umas aglomerações sofram mais do que outras. Atividade 3 Pesquise em jornais e revistas acontecimentos que ilustrem o contraste entre o “Centro-Sul moderno e próspero” e o “Centro-Sul antiquado e decadente”. Anote aqui sua análise. Nordeste O Nordeste apresenta questões sociais marcantes: grande concentração de renda por parte de uma pequena elite ao lado de um baixo nível de vida da maior parte da sua população. Esta profunda desigualdade social e a falta de perspectiva de trabalho leva uma parte da população nordestina a procurar empregos em outras regiões. Assim, o Nordeste pode ser considerado um reservatório de mão de obra barata. Devido ao baixo nível de escolaridade, muitos nordestinos trabalham como porteiros de prédios, na construção civil, como empregados domésticos ou como camelôs, quando migram para as cidades, especialmente as do Centro-Sul. As opções de trabalho no Norte geralmente são como garimpeiro, empregados de fazendas (de cultivo ou de criação de gado), extrativistas ou eles se fixam como posseiros. Os problemas sociais verificados atualmente tiveram sua origem relacionada à grande exploração da mão de obra por parte de uma pequena elite, desde o período colonial. A estrutura de sesmarias perpetuou-se com os latifúndios, ocupando as melhores terras. Até o final do século XIX, a economia desta região era próspera, com a produção e a exportação de produtos tropicais. Contudo, esta riqueza não revertia-se em benefícios para toda a população. A partir do século XX, a economia do Nordeste entrou em declínio devido à falta de investimentos e modernização das atividades. A concorrência com os produtos gerados nos estados do Sudeste, especialmente São Paulo, provocou falências e prejuízos em vários setores econômicos nordestinos. Com a estagnação econômica, as oligarquias (elite controladora de atividades econômicas e políticas) se beneficiam de políticas de planejamento do governo federal. O problema das secas é usado como justificativa para receber vários tipos de auxílios: construção de açudes e de estradas dentro dos seus latifúndios, facilidade de acesso a créditos e financiamentos bancários etc. Assim, foi criada a “indústria da seca”. A força política dos “coronéis” nordestinos levou à criação oficial do “Polígono das Secas” em 1936, cuja área foi alterada posteriormente para abranger outros municípios (figura 3.3). Capítulo 3 :: 37 cultivo de algodão, café e sisal. As cidades de Campina Grande (PB), Caruaru (PE) e Garanhuns (PE) se destacam como capitais regionais, devido ao comércio de produtos do interior vendidos para o litoral. 4. Zona da Mata – Correspondendo ao litoral leste, apresenta clima tropical úmido. As atividades econômicas tradicionais desta área são a cana-de-açúcar (do Rio Grande do Norte até o norte da Bahia), o fumo (no Recôncavo Baiano) e o cacau (no sul da Bahia). A exploração mineral, de sal marinho e de petróleo, constitui-se em atividades lucrativas. Figura 3.4: Subdivisão da região Nordeste. Amazônia Quando falamos em Amazônia, geralmente a primeira coisa que lembramos é da floresta densa e com grande biodiversidade. No entanto, a Amazônia envolve vários outros aspectos importantes, especialmente do ponto de vista social e econômico. Apesar dos estímulos do governo à sua ocupação, esta região ainda é relativamente despovoada. Desde o século XVII esta região tem sido usada para a produção de drogas do sertão e da borracha. No século XX, outras atividades econômicas foram estimuladas para promover a sua ocupação como projetos de mineração (exploração de minério de ferro em Carajás, por exemplo), criação da Zona Franca de Manaus e atividades agropecuárias (principalmente em Rondônia). Contudo, muitas dessas iniciativas trouxeram vários tipos de problemas à região, relacionados ao conflito de interesses entre os diversos agentes envolvidos. Os chamados povos da floresta (indígenas e extrativistas) têm interesse na preservação desta, pois tiram seu sustento da biodiversidade presente. Do lado oposto, há atividades que destroem e degradam o ambiente: o garimpo, empregando técnicas de mineração altamente degradantes; a agropecuária, onde os fazendeiros querem formar grandes latifúndios; as madeireiras que, para extrair as madeiras mais valorizadas (figura 3.5), destroem centenas de outras sem valor comercial. Além disso, há o embate entregarimpeiros e grandes empresas de mineração (figura 3.6), entre posseiros ou pequenos agricultores e os latifundiários, geralmente levando a mortes violentas. Figura 3.3: Área do Polígono das Secas na região Nordeste. Ao lado das estruturas tradicionais e decadentes, há novos negócios que estão trazendo uma pequena prosperidade para esta região. Ao longo do vale do Rio São Francisco, projetos de irrigação possibilitaram o cultivo de frutas, cuja produção é vendida nos mercados nacional e internacional. Além da fruticultura, o plantio de soja está avançando da região Centro-Oeste para o interior da Bahia. Incentivos fiscais também estão sendo adotados para atrair alguns tipos de indústrias (têxteis e de calçados) para cidades do interior. Internamente, a região Nordeste pode ser subdividida em quatro áreas, diferenciadas pelos aspectos naturais (clima, vegetação, relevo, tipo de solo) e pelas características socioeconômicas. Acompanhe pela figura 3.4 a localização das diferentes áreas. 1. Meio-Norte – Área de transição entre as características ambientais (clima, vegetação) da Amazônia e do Nordeste, abrangendo aproximadamente metade do Estado do Maranhão. Na divisão regional de Pedro Geiger, essa área está inserida no Complexo Regional da Amazônia. A atividade de extrativismo vegetal nesta área é tradicional, aproveitando-se a Mata dos Cocais (carnaúba e babaçu) para a produção de óleos, fibras etc. Outra atividade comum é o cultivo de algodão, da cana-de-açúcar e do arroz, geralmente com técnicas rudimentares. Há uma estagnação econômica que está sendo superada com a implantação de estradas de ferro para escoar a produção de minérios do Estado do Pará (região Norte) até o porto de Itaqui, no Maranhão. 2. Sertão – Área onde há predomínio do clima semiárido, caracterizado pela pequena pluviosidade e pela irregularidade da chuva. Em alguns trechos do Sertão, a estiagem pode durar anos. A vegetação típica desta área é a caatinga, com presença de cactos (mandacaru, xiquexique), arbustos e alguns tipos de árvores (umbuzeiro, juazeiro). A atividade predominante é a pecuária. O rio São Francisco atravessa a maior parte desta área, garantindo água o ano todo para as propriedades ribeirinhas. 3. Agreste – Faixa de transição entre o Sertão semiárido e a Zona da Mata tropical úmida. Há o predomínio de pequenas e médias propriedades, com cultivos diversificados para abastecer as cidades litorâneas (Zona da Mata), além do 38 :: GeoGrafia :: módulo 2 Figura 3.5: Toras de madeira extraídas no Sul do Pará. Foto: Isabela de Oliveira Carmo Figura 3.6: Carvoeiros, onde fornos de barro são usados na queima de lenha para produção de carvão vegetal. Este alimenta os altos-fornos de beneficiamento de minérios. Foto: Isabela de Oliveira Carmo Portanto, a região da Amazônia, definida pela bacia hidrográfica do rio Ama- zonas e coberta por floresta tropical (ecossistema dominante), vem sendo alvo de ação predatória, com apropriação indevida de terras públicas devolutas, com ação de madeireiros, fazendeiros, garimpeiros, mineradoras e grupos de práticas ilícitas. Destaca-se a entrada de drogas e armas ilegais, facilitada pela grande extensão da fronteira e pela densidade da floresta. Além disso, vigiar todo o espaço amazônico, para garantir seu uso adequado, é uma tarefa extremamente difícil e complexa. Tais problemas vêm sendo usados como argumento de alguns países e organismos internacionais para a internacionalização desta região, ou seja, o Brasil perderia a soberania sobre a Amazônia. É claro que a preocupação internacional não é com a preservação da floresta e de seus povos, mas sim com todos os recursos naturais que esta região contém – ouro, petróleo, gás natural, ferro, cobre, espécies vegetais para fabricação de remédios etc. O Polo Siderúrgico de Carajás, o sistema de rodovias e ferrovias, o desflorestamento e a expansão da agricultura são atividades que levam à degradação ambiental na região. Como forma de ocupar e vigiar a região, o governo federal criou dois projetos: o Calha Norte e o SIVAM. O primeiro, instalado na fronteira norte (com a Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), consiste em bases militares que auxiliam na construção de infraestrutura (escolas, postos de saúde, estradas etc.). O segundo compreende uma rede de instrumentos (radares, satélites, aviões etc.) para monitorar todas as atividades desenvolvidas na região, havendo controle, inclusive, do espaço aéreo. Diante de todas essas formas de ocupação e de uso, surgem várias questões: • Vale a pena construir rodovias (Transamazônica, Perimetral Norte, entre outras), enquanto há hidrovias naturais que são subutilizadas? • Como resolver os intensos conflitos de terras, que envolvem interesses de especulação imobiliária e de produção de alimentos de subsistência? • Como explorar os vários recursos minerais sem degradar o solo e a água ou destruir a floresta? • Como controlar a entrada de pesquisadores estrangeiros que realizam a biopirataria (roubo de espécies vegetais e animais que podem conter substâncias para elaboração de medicamentos etc.)? • De que adianta detectar queimadas por meio de satélites, se não há fiscalização suficiente para combatê-las? • Como evitar o envolvimento de indígenas com madeireiros e garim- peiros, que usam as reservas indígenas para não serem incomodados pela fiscalização? • Será que as atividades agropecuárias, que destroem grandes extensões de floresta e empregam pouca mão de obra, são realmente adequadas a esta região? Essas e outras questões são difíceis de responder, mas têm de ser apresentadas à sociedade brasileira, para que as possíveis soluções beneficiem o Brasil como um todo. Exemplos de conflitos na Amazônia A diferença de interesses nas formas de uso e ocupação na Amazônia leva à deflagração de diversos tipos de conflito. Atualmente, um dos que chama mais atenção é o caso da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima. O processo de demarcação desta reserva começou na década de 1970. No entanto, somente em 1998, o Ministério da Justiça publicou a Portaria nº 820, de 11/12, declarando como de posse permanente indígena a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A partir de então, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) teriam iniciado o levantamento das benfeitorias realizadas pelos ocupantes não índios da região, para posterior indenização e reassentamento em outras localidades. A demarcação da reserva indígena começou a ser contestada na justiça, principalmente por fazendeiros, sendo sua homologação também adiada por anos. Somente em 2005, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto que homologa de forma contínua a terra indígena Raposa Serra do Sol. O reconhecimento desta terra foi uma reivindicação histórica dos índios da região, pertencentes às etnias macuxi, wapixana, ingarikó, taurepang e patamona. Ainda há vários recursos na justiça contra a demarcação da reserva, principalmente por esta se estender por uma área contínua e muito grande dentro do Estado de Roraima. Os conflitos continuaram ao longo de 2007 e 2008, pois há muitos fazendeiros que cultivam arroz se recusando a sair da região. Este conflito conta ainda com uma característica importante; pois a área se encontra localizada próxima à fronteira do Brasil com a Venezuela. Um Capítulo 3 :: 39 dos argumentos de defesa dos fazendeiros (arrozeiros/rizicultores) é que eles garantiriam, de uma forma mais eficaz do que os índios, a soberania e a segurança nacional. Outros, contudo, afirmam que essa hipótese não é verídica, pois apenas a ação efetiva do Estado pode garantir a soberania e não a iniciativa privada. O Pará é um dos estados da região Norte que mais apresentam problemas de conflitos. No setor sul deste estado a situação é mais crítica, pois há fazendas que estão há anos para ser desapropriadas devido à práticade trabalho escravo, crimes ambientais e grilagem de terras da União, mas em virtude da demora dos processos e recursos na justiça, não podem ser ocupadas por trabalhadores sem terra. Deste modo, estabelece-se o conflito entre os ocupantes (famílias sem terra) e os jagunços comandados por fazendeiros, gerando vários casos de assassinatos de trabalhadores, lideranças, além de religiosos e pessoas simpatizantes ao movimento de trabalhadores rurais sem terra. O Estado do Pará também apresenta sérios problemas com desmatamento e trabalho escravo. Neste último caso, o aliciamento (recrutamento dos trabalhadores) ocorre, normalmente, nos bolsões de pobreza da área rural e urbana. Estas são áreas muito pouco atendidas pelo Estado na promoção de empregos, de qualificação profissional e de geração de renda. Exercícios de Fixação 1) O complexo regional Centro-Sul é marcado por profundas diversidades. Caracterize tais diversidades considerando os seguintes aspectos e dando exemplos: a) urbanização b) atividade agrícola c) atividade de comércio e serviços d) atividade industrial 2) Estabeleça uma hierarquia entre as três regiões brasileiras apresentadas, considerando a diversidade socioeconômica que caracteriza cada uma. Hierarquia Região Características gerais Diversidade elevada Diversidade moderada Diversidade pequena 3) Observe os dados apresentados na tabela. Regiões Área em relação ao Brasil (%) Grau de urbanização (%) 1 10,9 90,52 2 18,7 86,73 3 18,2 69,04 4 6,8 80,93 Fonte: IBGE, 2000 Os números 1, 2, 3 e 4 representam, respectivamente, as seguintes regiões brasileiras: (A) Sul, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste. (B) Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. (C) Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Sul. (D) Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Sul. (E) Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Exercícios de vestibular 1) (CEDERJ / 2002) O Censo-2000 do IBGE revela as seguintes informações acerca dos estados da federação que apresentam as mais baixas taxas de alfabetização e de renda média do responsável pelo domicílio: Menos alfabetizados Taxa de alfabetização Mais pobres Renda média do responsável pelo domicílio Alagoas 68,2% Maranhão R$ 343,00 Piauí 71,5% Piauí R$ 383,00 Paraíba 72,4% Paraíba R$ 423,00 Maranhão 73,4% Ceará R$ 448,00 Ceará 75,3% Alagoas R$ 454,00 A respeito da situação social dos estados nordestinos em destaque, afirma-se: (I) A preservação dos latifúndios nas áreas rurais reduziu, historicamente, as oportunidades sociais da maioria da população nordestina. Por outro lado, o crescente desemprego nas cidades e a insuficiência de políticas públicas educacionais especialmente voltadas para os adultos geram o quadro de pobreza regional. (II) A explosão demográfica nas áreas urbanas, decorrente das elevadas taxas de natalidade, implica demandas excessivas em termos de emprego e educação. Os governos estaduais em situação deficitária, na sua grande maioria, não conseguem atender tais demandas, daí os péssimos indicadores sociais. (III) Os sucessivos períodos de seca, que assolam a Região Nordeste, fragilizam economicamente a maioria da população camponesa e são a causa da queda de sua renda monetária e de seu baixo nível cultural. Com relação a estas afirmativas, conclui-se: 40 :: GeoGrafia :: módulo 2 4) (UENF / 2000) O projeto Calha Norte Bolívia AmazonasPeru Colômbia Venezuela Guiana Suriname Guiana Francesa Amapá Roraima Pará Rio Trombetas Rio Solimões Rio Ama zon as Oceano Atlântico Exército Aeronáutica Urânio Ouro Cassiterita Bauxita Área indígena Reservas indígenas Calha Norte MAGNOLI, De & ARAÚJO, R. A nova Geografia: estudos de Geografia do Brasil. São Paulo: Moderna, 1996. Criado em 1985, o Projeto Calha Norte é uma comprovação de que a Amazônia não é mais uma “fronteira fria”, como se dizia há 40 ou 50 anos, quando as atenções estavam direcionadas à Região Sul, ou seja, ao Prata. A Amazônia é hoje uma “fronteira quente”, tendo em vista a ocorrência crescente de conflitos diversos e o surgimento de problemas como o tráfico de drogas, que põe em risco, até mesmo, a segurança do território brasileiro. a) Cite dois atores sociais presentes nesses conflitos. b) Explique a razão pela qual a questão das drogas na fronteira amazônica está relacionada à segurança do território brasileiro. 5) (UNIRIO / 2007) A Amazônia, longe de ser homogênea, é uma região extremamente complexa e diversificada. Há a Amazônia da várzea e a da terra firme. Há a Amazônia dos rios de água branca e a dos rios de águas pretas. Há a Amazônia dos terrenos movimentados e serranos, das planícies litorâneas, dos cerrados, dos manguezais e das florestas. Habitar esses espaços é um desafio à convivência com a diversidade. Adaptado de Carlos Walter Porto Gonçalves. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2001. Esta natureza complexa e desafiadora vem passando por um processo de transformação como resultado de múltiplas ações. Uma consequência dessas ações que, ainda, NÃO ocorreu na Amazônia é: (A) a contaminação dos rios por rejeitos industriais e pelo mercúrio utilizado no garimpo do ouro. (B) a inundação de terras de camponeses, ribeirinhos e de comunidades indígenas para a construção de hidrelétricas. (C) o consumo da biomassa da floresta, seja como matéria-prima para fins industriais, seja como combustível. (D) os desmatamentos por meio de queimadas para a implantação de grandes empresas pecuaristas e de produção de soja. (A) Apenas a I é correta. (B) Apenas a I e a II são corretas. (C) Apenas a II é correta. (D) Apenas a II e a III são corretas. (E) Todas são corretas. 2) (UFRJ / 2006) Pantanal – “Santuário Ecológico” O Complexo do Pantanal é cortado por uma densa rede hidrográfica. Por sua rica biodiversidade foi declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO. Muitas das ameaças à integridade ecológica do Pantanal estão nas regiões que o cercam. a) Apresente duas atividades praticadas nas regiões circunvizinhas que ameaçam o equilíbrio ecológico do Pantanal. b) Justifique. 3) (PUC/2005) O texto abaixo se refere aos grandes conjuntos climatobotânicos. A vegetação é reflexo das condições naturais, principalmente do solo e do clima do lugar onde ocorre. O Brasil, por contar com grande diversidade climática, apresenta várias formações vegetais. Tem desde densas florestas latifoliadas tropicais, que ocupam mais da metade de seu território, até formações xerófitas, como a caatinga. SENE, E. de e MOREIRA, J. C. Geografia Geral e do Brasil: Espaço Geográfico e Globalização. São Paulo: Scipione, 1998. p.484. Correlacione as colunas, associando a vegetação aos tipos climáticos. 1 – Floresta Amazônica ( ) Clima Tropical Típico 2 – Floresta de Araucária ( ) Clima Equatorial Úmido 3 – Floresta Atlântica ( ) Clima Tropical Litorâneo Úmido 4 – Cerrado ( ) Clima Subtropical 5 – Caatinga ( ) Clima Tropical Semiárido A sequência correta que representa a correlação acima está na opção: (A) 4, 1, 2, 3 e 5. (B) 4, 1, 3, 2 e 5. (C) 4, 1, 5, 2 e 3. (D) 1, 2, 3, 4 e 5. (E) 2, 1, 3, 4 e 5. Capítulo 3 :: 41 (E) o esgotamento das reservas minerais de ferro e bauxita extraídas do subsolo por grandes empresas mineradoras. 6) (UFF / 2002 – adaptada) Sabe-se que ao longo do século XX os governos procuraram melhorar a qualidade dos serviços de saneamento em nosso extenso país. Entretanto, não se pode negar que as condições desses serviços ainda são precárias. As informações, a seguir, apresentam desigualdades regionais no tocante à distribuição dos serviços de saneamento básico e aos casos de mortalidade infantil. Regiões Porcentagem dos domicílios urbanos servidos por água tratada, esgoto e coleta de lixo. Crianças de 0 a 4 anos que morrem por diarreia e infecções intestinais Norte 14,2% 3.394 Nordeste 31,0% 17.310 Sudeste 85,1% 7.522 Sul 63,1% 2.561 Centro-Oeste 41,0% 1.829 Fonte: Fundação Nacional de Saúde. In Folha de São Paulo, 2000 Assinale a opção que explica umarelação entre as informações apresentadas e o quadro regional brasileiro. (A) As políticas públicas de implantação de serviços de saneamento, que privilegiaram as grandes concentrações urbanas, explicam a distribuição desigual de casos de mortalidade infantil pelas regiões brasileiras. (B) A concentração da população no espaço rural das Regiões Sul e Centro-Oeste explica seus poucos casos de mortalidade infantil, quando comparados aos observados nas outras regiões mais urbanizadas. (C) Nas regiões mais desenvolvidas econômica, educacional e tecnologicamente é maior o percentual de domicílios atendidos pelos serviços de saneamento, o que explica os poucos casos de mortalidade infantil observados nessas regiões. (D) A Região Nordeste apresenta o maior número de casos de mortalidade infantil, o que é explicado pela grande concentração demográfica nas suas áreas rurais, hoje desprovidas de serviços de saneamento. (E) A distribuição do saneamento básico, os níveis de renda e a concentração demográfica são fatores que explicam as diferenças regionais nos casos de mortalidade infantil. 7) (UERJ / 2008) Duas grandes secas abalaram o Nordeste em 1952 e em 1958. Cenas conhecidas desde os tempos coloniais se repetiam: rios secos, gado morrendo, retirantes. Fugindo da seca, milhares de nordestinos migravam para o sul do país. Em 1953, por exemplo, segundo relatório do Ministério da Agricultura, 600.000 pessoas deixaram o Nordeste, em busca de melhores condições de vida em São Paulo, Rio de Janeiro e norte do Paraná. Adaptado de Nosso Século. São Paulo: Abril Cultural, 1980. O texto apresenta problemas sociais que afligiram o Brasil na década de 1950. Uma ação governamental e uma reação da sociedade civil associadas a esses problemas, naquele momento, foram: (A) reforma agrária – êxodo rural (B) criação da SUDENE – organização das Ligas Camponesas (C) estímulo à emigração – fundação de cooperativas agrícolas (D) ampliação do crédito para o pequeno produtor – invasão de terras devolutas 8) (UFF / 2002) No semiárido nordestino existem cerca de 70.000 açudes: “máquinas d’água” destinadas à irrigação de lavouras e ao abastecimento do homem e dos animais. Apesar de sua importância para a população local e regional, os açudes geram problemas ambientais. Dentre esses problemas, destaca-se: (A) a redução do potencial aquífero dos açudes, em função do uso inapropriado por parte de pequenos e médios agricultores; (B) a inundação de áreas agricultáveis na época das chuvas, em virtude da utilização esporádica dos grandes reservatórios aquíferos; (C) a salinização dos corpos d’água e, consequentemente, das áreas irrigadas, devido à intensa evaporação e às características dos solos onde os açudes se localizam; (D) a alteração climática provocada pela elevada evapotranspiração de pequenos e médios reservatórios localizados nas chapadas e tabuleiros; (E) o desmatamento das áreas de várzea provocado pelas obras de drenagem de rios e pelo uso extensivo dos recursos hídricos. 9) (UFF / 2002) O Urucúia vem dos montes oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almagem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas há lá. O geraes corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães (...). O Sertão está em toda parte. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 10a ed. Rio de Janeiro: J. Olympio,1976, p. 9 O trecho acima revela a visão particular de uma paisagem típica do Brasil – o sertão – que se caracteriza por apresentar: (A) espaços interioranos ocupados por lavouras e pecuária extensiva; (B) lugares constituídos de vales fluviais cercados por matas, galerias e lavouras de subsistência; (C) áreas litorâneas de vegetação rasteira e exploração extrativa; (D) regiões de vegetação herbácea de domínio da pecuária intensiva; (E) territórios de baixa densidade demográfica cobertos por florestas densas. 10) (UFPR / 2005) A dinâmica da natureza e as diferentes combinações entre os elementos produziram certas diferenciações dentro do território brasileiro, configurando a existência de seis porções relativamente distintas, chamadas domínios morfoclimáticos ou domínios naturais. COELHO, M. de A. Geografia do Brasil. São Paulo: Moderna, 1996. p. 107. Em relação ao relevo e à cobertura vegetal dos diferentes domínios, considere as afirmativas a seguir. I. No domínio do cerrado, a vegetação característica é de herbáceas, com predomínio das gramíneas. II. A Floresta Ombrófila Mista, ou Floresta com Araucária, é típica das pradarias. III. No domínio amazônico, o relevo caracteriza-se pela presença de planícies, depressões e baixos planaltos. IV. Na faixa oriental do Brasil, marcadamente na região Sudeste, o relevo predominante é de planaltos e serras, constituindo paisagens conhecidas como “mares de morros”. Assinale a alternativa correta. 42 :: GeoGrafia :: módulo 2 (A) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras. (B) Somente a afirmativa I é verdadeira. (C) Somente a afirmativa II é verdadeira. (D) Somente as afirmativas I, III e IV são verdadeiras. (E) Todas as afirmativas são verdadeiras. 11) (UFPR / 2005) Dentre as muitas visões estereotipadas sobre a diversidade regional brasileira, duas são bastante comuns: a de que o conjunto da Amazônia constitui um “vazio demográfico” e a que associa toda a região Nordeste ao clima seco. Com base nessa afirmação e nos conhecimentos de geografia brasileira, assinale a alternativa correta. (A) A noção de “vazio demográfico” serviu para justificar políticas de “integração nacional” que objetivavam direcionar os imigrantes nordestinos para a Amazônia, as quais resultaram em fracasso. (B) A ideia de que o problema da seca afeta o conjunto do Nordeste advém do fato de que a maior parte da população nordestina habita o sertão, que possui clima árido. (C) A Sudene foi instituída no período militar com o objetivo de implementar obras contra a seca, o que generalizou a ideia de que a região é árida em seu conjunto. (D) A noção de “vazio demográfico” é válida apenas para as áreas da Amazônia ocupadas por populações indígenas, devido ao caráter nômade desses povos. (E) A Sudam, com obras de saneamento e combate a epidemias, visa promover a ocupação da Amazônia Legal, devido a ser essa a área específica que, por ser insalubre, apresenta-se “vazia”. 12) (UFPE / 2005) O Brasil é um país muito rico em biomas. Existem no território brasileiro pelo menos cinco tipos de florestas, reunidos em dois grupos: o das florestas ombrófilas e o das florestas estacionais. As florestas estacionais são aquelas que: (A) se localizam em solos hidromórficos ou litólicos e não se prestam ao extrativismo vegetal. (B) apresentam árvores que perdem parcialmente ou quase totalmente as folhas na estação seca. (C) se localizam em áreas de elevada umidade, semestação seca. (D) surgem apenas em áreas de clima subtropical. (E) apresentam árvores as quais mantêm as folhas em todas as estações do ano. 13) (UFU / 2006) Na obra Os Sertões, ao descrever a travessia da caatinga por um viajante, Euclides da Cunha escreveu que: [...] a caatinda o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os graveros estalados em lanças; o desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante. Sobre as principais características do domínio morfoclimatobotânico acima mencionado, é correto afirmar que: (A) esse constitui-se como área de transição na qual se destaca uma vegetação típica de clima tropical, com elevada temperatura. (B) Predominam extensos planaltose chapadas sedimentares cobertas por solos ácidos e profundos. (C) O relevo é formado basicamente por planaltos (planaltos da Bacia do Parnaíba e da Borborema) e por depressões (Depressão Sertaneja e do São Francisco) (D) Possui solos profundos e formas mamelonares resultantes da ação do intemperismo químico. 14) (UNESP / 2003) Leia o texto. ...E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras, suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser severino que em vossa presença emigra. Esta pequena parte do Auto de Natal pernambucano – Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto – retrata a realidade do nordeste do Brasil. Assinale a alternativa que melhor expressa tal realidade. (A) Açudes, desnutrição e imigração. (B) Solo pedregoso, imigração e doenças. (C) Desnutrição, emigração e escassez de água. (D) Solo pedregoso, emigração e alta esperança de vida. (E) Escassez de água, roçado e imigração. 15) (UFF / 2004) Asa Branca Luiz Gonzaga Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João, Eu perguntei a Deus do céu, ai! por que tamanha judiação. Que braseiro! Que fornalha! Nenhum pé de plantação. Por falta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão. Até mesmo a asa-branca bateu asas do sertão. Então, eu disse: Adeus, Rosinha! Guarda contigo meu coração. Hoje longe, muitas léguas, numa triste solidão, Espero a chuva cair de novo pra eu voltar pro meu sertão. Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação, Eu te asseguro, não chores não, viu? Eu voltarei pro meu sertão.(...) Retratado na canção Asa Branca, o sertão nordestino se caracteriza como uma sub-região marcada por fortes conflitos. Analise as condições sociais do sertão nordestino, tendo em vista sua estrutura econômica e fundiária. Complemente seus conhecimentos Geopolítica da Amazônia De início, cabe uma pequena explanação sobre geopolítica: trata-se de um campo de conhecimento que analisa relações entre poder e espaço geográfico. Foi o fundamento do povoamento da Amazônia, desde o tempo colonial, uma vez que, por mais que quisesse a Coroa, não tinha recursos econômicos e população para povoar e ocupar um território de tal extensão. Portugal conseguiu manter a Amazônia e expandi-la para além dos limites previstos no tratado de Tordesilhas, graças a estratégias de controle do território. Embora Capítulo 3 :: 43 para lidar com o trópico úmido. Essa riqueza tem de ser melhor utilizada. Sustar esse padrão de economia de fronteira é um imperativo internacional, nacional e também regional. Já há na região resistências à apropriação indiscriminada de seus recursos e atores que lutam pelos seus direitos. Esse é um fato novo porque, até então, as forças exógenas (externas) ocupavam a região livremente, embora com sérios conflitos. Essa é uma das hipóteses deste texto. Com as resistências regionais, os conflitos na região alcançam um patamar mais elevado. Não se trata mais apenas de conflito pela terra; é o conflito de uma região em relação às demandas externas. Esses conflitos de interesse, assim como as ações deles decorrentes contribuem para manter imagens obsoletas sobre a região, dificultando a elaboração de políticas públicas adequadas ao seu desenvolvimento. Para que se possa mudar esse padrão de desenvolvimento é necessário entender os diferentes projetos geopolíticos e seus atores, que estão na base dos conflitos, para tentar encontrar modos de compatibilizar o crescimento econômico com a conservação dos recursos naturais e a inclusão social. Enfim, não se trata de mero ambientalismo, muito menos de mais um momento destrutivo. Como efetuar tal compatibilização? Esse é um grande desafio para a Ciência e Tecnologia, e se apontarão aqui problemas em que a Ciência pode contribuir por meio de três hipóteses: 1. o novo significado geopolítico da Amazônia em âmbito global como a grande fronteira do capital natural; 2. o novo lugar da Amazônia no Brasil; 3. a urgência de uma nova política de desenvolvimento e de estratégias básicas para implementá-la. A Amazônia e a mercantilização da natureza O ponto de partida para se fazer essa análise é o reconhecimento de profundas mudanças estruturais que ocorreram na Amazônia nas últimas décadas do século XX. Todos sabem como o projeto de integração nacional acarretou perversidades em termos ambientais e sociais. Mas, com sangue, suor e lágrimas deve-se reconhecer o que restou de positivo nesse processo, porque são elementos com os quais a região conta hoje para seu desenvolvimento. E não se pode esquecê-los. A dinâmica regional recente No final do século XX, houve, portanto, impactos negativos, mas também mudanças estruturais e novas realidades geradas na fronteira, a qual tomo como espaço não plenamente estruturado e por isso mesmo capaz de gerar realidades novas. Dentre as mudanças, destaca-se a da conectividade regional, um dos elementos mais importantes na Amazônia. Não se trata apenas das estradas, elementos que contribuíram para depredação dos recursos e da sociedade, mas sim, sobretudo, das telecomunicações, porque a rede de telecomunicações na Amazônia permitiu articulações locais/nacionais, bem como locais/ globais. Outra mudança importante é a da economia, que passou da exclusividade do extrativismo para a industrialização, com a exploração mineral e com a Zona Franca de Manaus, que foi um posto avançado geopolítico colocado pelo Estado na fronteira norte, em pleno ambiente extrativista tradicional. Há problemas na Zona Franca, mas hoje ela é grande produtora não só de bens de consumo duráveis, como da indústria de duas rodas, de telefonia e mesmo de biotecnologia. Uma grande modificação estrutural ocorreu no povoamento regional que se localizou ao longo das rodovias e não mais ao longo da rede fluvial, como os interesses econômicos prevalecessem, não foram bem-sucedidos, e a geopolítica foi mais importante do que a economia no sentido de garantir a soberania sobre a Amazônia, cuja ocupação se fez, como se sabe, em surtos ligados a demandas externas seguidos de grandes períodos de estagnação e de decadência. A geopolítica sempre se caracterizou pela presença de pressões de todo tipo, intervenções no cenário internacional desde as mais brandas até guerras e conquistas de territórios. Inicialmente, essas ações tinham como sujeito fundamental o Estado, pois ele era entendido como a única fonte de poder, a única representação da política, e as disputas eram analisadas apenas entre os Estados. Hoje, esta geopolítica atua, sobretudo, por meio do poder de influir na tomada de decisão dos Estados sobre o uso do território, uma vez que a conquista de territórios e as colônias tornaram-se muito caras. Verifica-se o fortalecimento do que se chama de coerção velada. Pressões de todo tipo para influir na decisão dos Estados sobre o uso de seus territórios. Essa mudança está ligada intimamente à revolução científico-tecnológica e às possibilidades criadas de ampliar a comunicação e a circulação no planeta através de fluxos e redes que aceleram o tempo e ampliam as escalas de comunicação e de relações, configurando espaços-tempos diferenciados. O espaço sempre foi associado ao tempo. E hoje, na acentuação de diferentes espaços-tempos reside uma das raízes da geopolítica contemporânea. As redes são desenvolvidas nos países ricos, nos centros do poder, onde o avanço tecnológico é maior e a circulação planetária permite que se selecionem territórios para investimentos, seleção que depende também das potencialidadesdos próprios territórios. Ocorre que ao se expandirem e sustentarem as riquezas circulante, financeira e informacional, as redes se socializam. E essa socialização está gerando movimentos sociais importantes, os quais também tendem a se transnacionalizarem. Há, hoje, portanto, dois movimentos internacionais: um em nível do sistema financeiro, da informação, do domínio do poder efetivamente das potências; e outro, uma tendência ao internacionalismo dos movimentos sociais. Todos os agentes sociais organizados, corporações, organizações religiosas, movimentos sociais etc., têm suas próprias territorialidades, acima e abaixo da escala do Estado, suas próprias geopolíticas, e tendem a se articular, configurando uma situação mundial bastante complexa. A Amazônia é um exemplo vivo dessa nova geopolítica, pois nela se encontram todos esses elementos. Constitui um desafio para o presente, não mais um desafio para o futuro. Qual é este desafio atual? A Amazônia, o Brasil, e os demais países latino-americanos são as mais antigas periferias do sistema mundial capitalista. Seu povoamento e desenvolvimento foram fundados de acordo com o paradigma (modelo) de relação sociedade-natureza, que Kenneth Boulding denomina de economia de fronteira, significando com isso que o crescimento econômico é visto como linear e infinito, e baseado na contínua incorporação de terra e de recursos naturais, que são também percebidos como infinitos. Esse paradigma da economia de fronteira realmente caracteriza toda a formação latino-americana. Hoje, o imperativo é modificar esse padrão de desenvolvimento que alcançou o auge nas décadas de 1960 a 1980. É imperativo o uso não predatório das fabulosas riquezas naturais que a Amazônia contém e também do saber das suas populações tradicionais que possuem um secular conhecimento acumulado 44 :: GeoGrafia :: módulo 2 no passado, e no crescimento demográfico, sobretudo urbano. Processou-se na região uma penosa mobilidade espacial, com forte migração e contínua expropriação da terra e, assim, ligada a um processo de urbanização. Em vista disso, a Amazônia teve a maior taxa de crescimento urbano no país nas últimas décadas. No censo de 2000, 70% da população na região Norte estavam localizados em núcleos urbanos, embora carentes dos serviços básicos. Muitos discordam dessa tese, porque não consideram tais nucleamentos como urbanos. Mas esse é o modelo de urbanização no Brasil e, ademais, a urbanização não se mede só pelo crescimento e surgimento de novas cidades, mas também pela veiculação dos valores da urbanização para sociedade. Por essa razão, desde a década de 1980, chamo a Amazônia de uma “floresta urbanizada”. Por outro lado, organizou-se a sociedade como nunca antes verificado. Os grandes conflitos de terras e de territórios das décadas de 1960 a 1980 constituíram um aprendizado político e, na década de 1990, transformaram- se em projetos alternativos, com base na organização da sociedade civil. É extremamente importante lembrar que hoje, essa sociedade tem voz ativa na Amazônia e no Brasil, inclusive muitos grupos indígenas. Essa organização da sociedade política trouxe, por sua vez, mudanças no apossamento do território, com a multiplicação de unidades de conservação federais e estaduais, assim como também com a demarcação de terras indígenas. Que projetos e que atores produzem hoje a dinâmica regional e os novos significados da Amazônia? Essas transformações não são vistas de forma homogênea pelos diferentes atores, porque dependem de interesses diversos e geram ações diferentes na região. Existem muitos conflitos dentro dessas percepções, mas há algumas dominantes. O uso do método geográfico para análise dos projetos geopolíticos e seus atores por diferentes escalas geográficas é útil para colaborar nessa análise. Globalização e Amazônia como fronteira do capital natural A primeira hipótese é a constituição da Amazônia como fronteira do capital natural em nível global, em que se identificam dois projetos: o primeiro é um projeto internacional para a Amazônia, e o segundo é o da integração da Amazônia, sul-americana, continental. Até recentemente, dominava no projeto internacional a percepção da Amazônia como uma imensa unidade de conservação a ser preservada, tendo em vista a sobrevivência do planeta, devido aos efeitos do desmatamento sobre o clima e a biodiversidade. A base dessa percepção teve como origem, em grande parte, a tecnologia dos satélites, que permitiu pela primeira vez uma visão de conjunto da superfície da Terra e da sua unidade trazendo o sentimento da responsabilidade comum, assim como a percepção do esgotamento da natureza, que se tornou um recurso escasso. A natureza foi então reavaliada e revalorizada a partir de duas lógicas muito diferentes, mas que convergem para o mesmo projeto de preservação da Amazônia. A primeira lógica é a civilizatória ou cultural, que possui uma preocupação legítima com a natureza pela questão da vida, o que dá origem aos movimentos ambientalistas. A outra lógica é a da acumulação, que vê a natureza como recurso escasso e como reserva de valor para a realização de capital futuro, fundamentalmente no que tange ao uso da biodiversidade condicionada ao avanço da tecnologia. Outro recurso de que pouco se fala, mas que já é fundamental, é a água como fonte de vida e de energia em razão dos isótopos de hidrogênio, questão teórica ainda não solucionada, mas que vem sendo pesquisada em muitos países, especialmente na Alemanha e nos EUA. Torna-se patente que, se há uma valorização da natureza e da Amazônia, há também a relativização do poder da virtualidade dos fluxos e redes do mundo contemporâneo, com a globalização, que acaba com as fronteiras e com os Estados. Na verdade, os fluxos e redes não eliminam o valor estratégico da riqueza localizada, in situ; eles sustentam a riqueza circulante do sistema financeiro, da informação, mas a riqueza localizada no território também tem seu papel e seu valor. Isso, consequentemente, trouxe uma disputa das potências pelos estoques das riquezas naturais, uma vez que a distribuição geográfica de tecnologia e de recursos está distribuída de maneira desigual. Enquanto as tecnologias avançadas são desenvolvidas nos centros de poder, as reservas naturais estão localizadas nos países periféricos, ou em áreas não regulamentadas juridicamente. Esta é, pois, a base da disputa. Há três grandes eldorados naturais no mundo contemporâneo: a Antártida, que é um espaço dividido entre as grandes potências; os fundos marinhos, riquíssimos em minerais e vegetais, que são espaços não regulamentados juridicamente; e a Amazônia, região que está sob a soberania de estados nacionais, entre eles o Brasil. Esse contexto geopolítico, principalmente na década de 1980 e 1990, gerou sugestões mundiais pela soberania compartilhada e o poder de gerenciar a Amazônia, que abalou até o Direito Internacional. Hoje, contudo, são crescentes os interesses ligados à valorização do capital natural, que tende a se sobrepor à lógica cultural. Observa-se um processo de mercantilização da natureza. Elementos da natureza estão se transformando em mercadorias fictícias, usando a expressão de Karl Polanyi, em seu livro “A grande transformação”. Fictícias por quê? Porque elas não foram produzidas para venda no mercado – o ar, a água, a biodiversidade. Mas, no entanto, através desta ficção são gerados mercados reais e isto se deu, como Polanyi mostra muito bem, no início da industrialização, quando terra, dinheiro e trabalho foram transformados em mercadorias fictícias, gerando mercados reais. O que é o protocolo de Kyoto se não o mercado do ar? É a tentativa de estabelecer cotas de emissão de carbono nos países fortemente industrializados e poluidores em troca de manutenção de florestas em países com elas dotadas. O mercado do ar é o mais avançado. Em outras palavras, esses mercados reais tentam se institucionalizar em fóruns globais,o que também é uma vertente nova dentro do Direito Internacional. Não é fantasia o fato de que está em curso na Amazônia a transformação de bens da natureza em mercadorias. É o caso da Peugeot, que faz investimentos no sentido de sequestro do carbono no Mato Grosso; na ilha do Bananal, a empresa inglesa S. Barry; a Mil Madeireira que, tem um projeto neste sentido no estado do Amazonas; a Central South West Corporations, de Dallas, uma empresa de energia que fez uma aquisição no Paraná de setecentos mil hectares, através da mediação da National Conservancy, da reserva da Serra de Itaqui; além dos projetos que não conhecemos, visto que uns são oficiais e outros não. Há restrições a colocar nesse sentido porque a terra e a floresta são bens públicos, e a venda de floresta significa venda de território e não é correta do ponto de vista do país. É digno de nota lembrar que existem esforços para regular o mercado da biodiversidade, como a Prototipe Carbon Fund, do Banco Mundial, sistema Capítulo 3 :: 45 difícil de implementar, visto que as patentes e a distribuição de benefícios para as populações locais não foram ainda regulamentadas no país. O mercado dos recursos hídricos é o mais atrasado, embora haja múltiplas tentativas de regularização desse mercado. A água é considerada o ouro azul do século XXI, em termos globais, porque há escassez e consumo crescente no mundo, sobretudo nos países semiáridos que utilizam a irrigação. Ademais, há previsões de que a disputa por água pode chegar até a conflitos armados. Polanyi mostra que há uma necessidade de organização da sociedade para impedir o livre jogo das forças de mercado em relação aos elementos vitais para o homem. Para tanto, foram criados sindicatos para proteger o mercado do trabalho e organizadas associações para regular o mercado da terra e o papel do estado tornou-se fundamental. Que vamos fazer no Brasil, e qual deve hoje ser nossa reação? Temos todos esses trunfos – florestas, biodiversidade, água; como a sociedade e o governo brasileiro devem se comportar em relação ao seu uso? Hoje, o movimento de mercantilização é irreversível e temos de saber como lidar com ele. Parece-me que caberia ao governo e à sociedade lutar pela regulação desses mercados, mas ela deveria ser bem negociada. Quais são os principais atores nesse projeto internacional? Os movimentos ambientalistas, onde se destacam as ONGs nacionais e internacionais, a cooperação internacional técnica, financeira, científica em grandes projetos, como é o caso do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras (PP-G7), do LBA e do Probem1, além de organizações religiosas de todos os tipos, assim como de agências de desenvolvimento de governos estrangeiros e também de empresas voltadas para o sequestro de carbono e/ ou madeira certificada. A cooperação internacional é fundamental para o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia no Brasil. Mas, por vezes, essa cooperação tecnocientífica tem um excesso de autonomia. A questão crucial é o controle da informação, porque muitas vezes os pesquisadores brasileiros, em parcerias, conhecem o subprojeto ligado à sua parceria, mas não o projeto como um todo. Deve haver, portanto, uma conscientização dos pesquisadores no sentido da globalização da pesquisa, de modo que não tenham acesso apenas a uma parte da informação. A cooperação internacional tem um lado extremamente importante que é o da relação com as comunidades locais, graças às redes de telecomunicação. Há uma forte presença internacional que se estabeleceu na Amazônia devido também aos impactos do projeto anterior, que excluía as populações regionais, expulsava pequenos produtores e ameaçava índios, e esses grupos conseguiram apoios internacionais, como foi o caso de Chico Mendes, que foi a Washington para obter um reforço a fim de manter sua própria sobrevivência. É necessário que a sociedade e o governo estejam atentos à questão da face interna da soberania, no sentido de reconhecer que o povo não é homogêneo, tem demandas diferentes que não são devidamente atendidas, o que gera conflitos que afetam a governabilidade. A integração da Amazônia sul-americana Um segundo projeto internacional diz respeito à integração da Amazônia transnacional, da Amazônia sul-americana. Trata-se de uma nova escala para pensar e agir na Amazônia. Esse dado é importante por múltiplas razões. Primeiro, porque a união dos países amazônicos pode fortalecer o Mercosul e, de certa maneira, construir um contraponto nas relações com a Alca e com a própria União Europeia. Em segundo lugar, para ter uma presença coletiva e uma estratégia comum no cenário internacional, fortalecendo a voz da América do Sul. Em terceiro lugar, porque é fundamental para estabelecer projetos conjuntos quanto ao aproveitamento da biodiversidade e da água, inclusive nas áreas que já possuem equipamento territorial e intercâmbio, como é o caso das cidades gêmeas localizadas em pontos das fronteiras políticas. Além disso, esse dado é importante porque pode ajudar a conter as atividades ilícitas – narcotráfico, contrabando, lavagem de dinheiro etc. – e uma possível “ajuda” militar no território brasileiro. Há uma crescente presença militar na fachada do Pacífico e na América Central, através do que se denomina de “localidades de operação avançada”, cuja maior expressão é o Plano Colômbia. O Brasil virou uma ilha cercada de “localidades de operação avançada” por todos os lados, com instalações norte-americanas apoiadas pela União Europeia, com exceção das fronteiras com a Venezuela e a Argentina. O Brasil tenta impedir esse cerco com várias respostas, como com a criação do Ministério do Meio Ambiente e o projeto Sipam (Sistema de Informação para Proteção da Amazônia), embora tenha apoio financeiro para o aparelhamento da Polícia Federal. Esse processo levou a uma forte reativação das fronteiras políticas da Amazônia, consideradas anteriormente como fronteiras mortas, e basta ir a Tabatinga e a Letícia para constatar a vivificação das mesmas, o que vem a constituir uma preocupação para todos os países. Mas o fato de a globalização incidir na Amazônia dos países vizinhos através da presença militar, e no Brasil por intermédio da cooperação internacional, constitui uma diferença importante. Realiza-se uma articulação sul-americana por meio do resgate do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), e também a partir da iniciativa do planejamento físico da integração por meio de transporte multimodal, difusão da internet nos países vizinhos e intercâmbio energético. Em Roraima deu-se o primeiro passo para a integração oficial através da construção da estrada que liga Manaus à Venezuela. O gás já vem sendo transferido da Bolívia e do Peru, e a Bolsa de Mercadorias e Estudos propõe a extensão da fronteira agropecuária do centro-oeste brasileiro para os países vizinhos. Desejamos que a integração sul-americana se faça nos moldes do que foi a integração dos anos de 1970? Nada contra expandir a soja e a pecuária para áreas propícias do cerrado, mas não que se faça tal expansão em áreas de florestas. Esse é um desafio à Ciência e à Tecnologia. A integração deve ser baseada na circulação fluvial, que merece um investimento enorme, pois sempre foi o grande meio de circulação na Amazônia, e também na aérea, que foi muito importante e ainda o é para o transporte de cargas de alto valor agregado. Um outro elemento importante da integração reside nas cidades gêmeas – Santa Helena e Pacaraima em Roraima, Tabatinga e Letícia no Amazonas, além de outras no Acre, onde já existem embriões de integração, fluxos e equipamentos que podem acelerar o intercâmbio. Aliás, a cidade é um elemento fundamental no desenvolvimento e planejamento da Amazônia, porque nela a população está concentrada, constitui o nó das redes de relações, e pode, inclusive, impedir a expansão demográfica na floresta. A Amazônia no espaço nacional: uma região em si46 :: GeoGrafia :: módulo 2 e fazem a grilagem em imensas glebas. Um lado tragicômico é que existem, no Sul do Amazonas, muitos fazendeiros que vieram do Pontal do Paranapanema (SP), expulsos pelo MST, porque não tinham terras regularizadas, e o MST sabe muito bem quem possui ou não terras regularizadas. Mas o mais importante elemento que justifica a hipótese aqui tratada é a consolidação do povoamento, em contrapartida às frentes de expansão. A consolidação do povoamento A tendência à consolidação do povoamento é patente no avanço econômico significativo e na tecnificação da agroindústria no cerrado, particularmente no Mato Grosso, que planta soja e agora também algodão colorido. Com o crescimento da produção e o aumento da produtividade da soja, a terra não é mais ocupada como reserva de valor, como foi na época da fronteira anterior. Agora o que sucede é o uso produtivo da terra. Acrescem mudanças também na pecuária, principalmente no Sudeste do Pará e no Mato Grosso, onde ocorrem melhorias com respeito às pastagens, aos rebanhos e à indústria de couro e de leite. Mudanças bastante significativas em termos econômicos. As redes e cidades permitem a expansão dessa área econômica avançada que é chamada de “arco de fogo”, ou do desmatamento ou “de terras degradadas”, porque foi onde se expandiu a fronteira e o desmatamento. Mas está na hora de mudar essa denominação, tendo em vista que se trata da maior área produtora mundial de soja. O Rio de Janeiro já foi um pântano, mas não é, hoje, denominado de pântano, e sim de metrópole. Sugere-se, então, a mudança de nome para área de povoamento consolidado, porque a denominação de arco do fogo atrapalha a política pública. Existe, assim, um gigantesco confronto entre a expansão da agroindústria da soja, da pecuária, assim como da exploração da madeira e o uso conservacionista da floresta, defendido pela produção familiar, pelos ambientalistas e por diversas categorias de cientistas. Nos últimos anos, houve uma retomada vigorosa das frentes, nas três localizações referidas, devido à valorização da soja no mercado internacional e as incertezas da economia nacional. Conclui-se, assim, que a fronteira é um elemento estrutural do crescimento econômico no Brasil, mas hoje depende da conjuntura; ou seja, ela se expande ou se retrai em função da conjuntura econômica e política. É, portanto, um conceito espaço-temporal. É muito difícil estabelecer um prognóstico sobre o conflito entre agronegócio e conservação da floresta. Um grupo de pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), liderado por um norte-americano, realizou um modelo afirmando que, em 2020, a Amazônia estaria totalmente destruída. Um modelo linear, que não prevê alteração alguma, o que não se pode aceitar num mundo de imprevisibilidade. Hoje, a Amazônia não é mais mera fronteira de expansão de forças exógenas nacionais ou internacionais, mas sim uma região no sistema espacial nacional, com estrutura produtiva própria e múltiplos projetos de diferentes atores. Nela, a sociedade civil passou a ser um ator fundamental, tanto no campo como nas cidades, especialmente pelas suas reivindicações de cidadania, que inclusive influem no desenvolvimento urbano. O Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) tem 315 associações, entre elas a federação das organizações indígenas. Os índios são espertíssimos, aprendem tudo rapidamente, mantêm a sua cultura e crescem num ritmo que é o dobro da taxa nacional. Além disso, criam ONGs A segunda hipótese proposta para debate diz respeito ao lugar da Amazônia no Brasil. Afirma-se aqui que a Amazônia não é mais mera área de expansão da fronteira móvel, mas sim uma região em si, com base em dois argumentos: a nova feição da fronteira e os avanços regionais em termos econômicos, sociais e políticos. A situação de conflito entre desenvolvimento e proteção ambiental transparecia nas políticas públicas da década de 1990 que eram, a um só tempo, expressão e indução do conflito. Por um lado, o Ministério do Meio Ambiente que fazia a política da proteção das florestas e, por outro lado, o Ministério do Planejamento e Orçamento, criando corredores de exportação. Evidentemente, os corredores de exportação coincidiam com os ecológicos. Multiplicaram-se as unidades de conservação, foram demarcadas terras indígenas e se criou o projeto Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), uma iniciativa do Banco Mundial e do WWF para ampliar em 10% as áreas protegidas até 2010. Trata-se de um projeto preservacionista que só com a pressão da ministra Marina Silva aceitou aumentar muito pouco a área de uso sustentável (noventa mil quilômetros quadrados). Portanto, a Amazônia terá, em breve, mais de 30% do seu território em áreas protegidas, uma área equivalente ao território da Espanha. Que resultou desse conflito? As novas feições da fronteira móvel Aqui se coloca uma hipótese polêmica: na década de 1990, o ambientalismo dominou e se delineou como uma tendência ao esgotamento da Amazônia como fronteira móvel, isto é, como fronteira de expansão econômica e demográfica no território. As frentes passaram a apresentar diferenças com a expansão da fronteira na década de 1970, tais como: 1. Nos anos de 1970, o que sustentou a fronteira foram os incentivos fiscais e a migração generalizada do país inteiro, esta induzida pelo governo federal. Atualmente, a migração dominante é intrarregional, de um estado para o outro e, sobretudo, rural-urbana (exceção feita ao Mato Grosso, que continua atraindo população de fora, principalmente do Sul e do Nordeste). 2. Outro elemento importante de diferenciação é o comando das frentes por parte de Belém e de Cuiabá, sobretudo, hoje de âmbito regional. Assim, o que há de novo na expansão das frentes é que são comandadas por madeireiras, pecuaristas e produtores de soja já instalados na região, que a promovem com recursos próprios. Não se trata mais, pois, de uma expansão subsidiada pelo governo federal, como foi a da fronteira nos anos de 1970. 3. Ademais, as frentes hoje são localizadas. Nos anos de 1970 elas se localizavam nas duas grandes artérias, Belém-Brasília e Brasília-Cuiabá, de modo que a expansão seguiu a fímbria das florestas. Agora, as frentes estão mais localizadas em torno das estradas que já existiam, as que pretendem ser pavimentadas ou as abertas pelos próprios madeireiros e pecuaristas. Na virada do milênio, entretanto, a fronteira tomou novo alento. São três as grandes frentes na Amazônia hoje: uma parte de São Felix do Xingu, Sudeste do Pará, em direção ao rio Iriri; outra parte do extremo Norte de Mato Grosso pela rodovia Cuiabá-Santarém, em torno de cuja pavimentação há grande discórdia, pois ela atravessa não mais a borda, mas o meio da floresta; a terceira parte do Norte de Mato Grosso e de Rondônia em direção ao Sul do Estado do Amazonas. A tecnologia serve também para a destruição da floresta: os madeireiros estão se apossando de terras via satélite, descobrem onde há terras disponíveis Capítulo 3 :: 47 para ajudar outras comunidades não tão informadas como a deles. Outro grupo importante, mais localizado, é o de Altamira, antigo projeto de colonização em que a produção familiar é organizada e tem uma força política significativa, resistindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte. Atores fundamentais são os governos estaduais, que, com a crise do Estado central, assumiram responsabilidades e força política. É interessante e importante saber que esses governos, por suas condições histórico-geográficas, têm estratégias diferentes. O Mato Grosso e o Pará têm estratégias extensivas de uso da terra, o estado do Amazonas tem uma estratégia pontual industrial, localizada em Manaus; o Acre e o Amapá se baseiam na estratégia da florestania, modernização do extrativismo; em Rondônia procura-se expandir a pecuária e mesmo a soja, e, em Roraima, a soja no lavrado (cerrado) cercado por florestas e terra indígenas. O municípiotambém é um ente político que tem voz na região, embora sem recursos financeiros. Economicamente, não tem força, mas a tem do ponto de vista político, e é responsável pela urbanização recente, transformando as vilas em cidades. As empresas do agronegócio, além das madeireiras e pecuaristas, são outros atores que estão se firmando e se expandindo não só no Mato Grosso. O que tem passado despercebido, no meu entender, em todos os projetos e em todas as escalas, é justamente o fato de a Amazônia hoje ser uma região que possui uma dinâmica própria: tem vinte milhões de habitantes, há demandas específicas e resistências organizadas e uma estrutura produtiva própria, o que comprova a sua mudança de caráter, inclusive com uma nova geografia. Nela reconheço três macrorregiões: a primeira é essa que chamam de “arco do fogo” e que denomino de “arco do povoamento consolidado”, porque é onde estão as cidades, as densidades demográficas maiores, as estradas e o cerne da economia; a outra macrorregião, da “Amazônia central”, corresponde ao restante do estado do Pará, que é a porção mais vulnerável da Amazônia, porque cortada pelos eixos, pelas estradas e onde estão duas das frentes localizadas; a última é a “Amazônia ocidental”, que tem a maior área de fronteira política e é a mais preservada (porque não foi cortada por estradas e seu povoamento foi pontual, na Zona Franca de Manaus, enquanto o resto do estado ficou abandonado). E o fato de ser uma região em si, constitui uma força de resistência à destruição da floresta. Como impedir a destruição das florestas? O papel das políticas públicas Se a Amazônia é efetivamente uma região, então há que se substituir a “política de ocupação” por uma “política de consolidação do desenvolvimento”. Uma política de ocupação não tem mais cabimento, porque a região já está ocupada. As florestas que restaram devem permanecer com seus habitantes. É necessário articular os diferentes projetos e os diversos interesses e conflitos que incidem na região. O governo atual pretende ser um marco no rumo do desenvolvimento regional. Elaborou um novo Plano Amazônia Sustentável (PAS), com o qual pretende superar a polaridade conflitiva entre a política ambiental e a de desenvolvimento. O governo atual propõe também no PPA, (Plano Plurianual 2004-2007) a necessidade tanto da produtividade e competitividade, como da inclusão social, emprego e renda. No caso da Amazônia, existe um novo princípio, da transversalidade, em que o meio ambiente deixa de ser tratado como uma variável independente e participa das políticas de todos os ministérios. Importante também são os cinco eixos estratégicos do PAS, que vai ser posto em discussão com a sociedade: gestão ambiental e ordenamento do território, novo padrão de financiamento, inclusão social, infraestrutura para o desenvolvimento e produção sustentável com inovação tecnológica e competitividade. O ponto central, que gera conflitos, é a questão da pavimentação da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), porque as corporações da soja, por um lado, pressionam o governo para a pavimentação rápida, visto que é considerada um elemento central para o escoamento da produção, pelo Norte, com o objetivo de encurtar distâncias e baixar custos. Por outro lado, os ambientalistas e a produção familiar não querem a pavimentação. O governo propôs que se fizesse um modelo para transformar a rodovia Cuiabá-Santarém numa estrada indutora de desenvolvimento, em vez de uma indutora de depredação. É importante registrar que há em Brasília a criação de grupos de trabalho interministeriais para os planos governamentais, algo extremamente positivo, com catorze ministérios participando para fazer o novo planejamento da estrada como instrumento de desenvolvimento. O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) está fazendo um esforço no sentido de preparar um cadastro tendo em vista a centralidade da questão fundiária. Em vez de dar títulos de terra, poder-se-ia fazer concessões de terra condicionadas a determinados comportamentos. O problema é que todos os atores na Amazônia (pecuaristas, madeireiros, índios, pequenos produtores) querem, como primeira demanda, a presença do Estado, por motivações diferentes. Como segunda demanda desejam o zoneamento. Tais demandas expressam, por um lado, a necessidade de definição clara das regras do jogo, ou seja, do fortalecimento institucional e, por outro, a pertinência da sub-regionalização, porque as regiões têm finalidades próprias e problemas específicos. O Estado pode dialogar melhor com essas necessidades específicas, encontrar as parcerias necessárias e direcionar melhor os recursos para melhor atendê-las. Finalmente, mas não menos importante, a par do fortalecimento institucional e da regionalização, cabe à Ciência, Tecnologia e Inovação, papel primordial na sustentabilidade dos ecossistemas florestais, por sua importância econômica, social e política. A floresta só deixará de ser destruída se tiver valor econômico para com- petir com a madeira, com a pecuária e com a soja. Mesmo com os grandes avanços na sua proteção, a questão de manter a capacidade sustentável da floresta ainda não foi solucionada. Florestas e terras são bens públicos e, por isso, são trunfos que estão sob o poder do Estado, que tem autoridade para dispor deles, segundo o interesse da nação. Propõe-se, assim, uma verdadei- ra revolução científico-tecnológica para a Amazônia Florestal. O Brasil já efetuou três grandes revoluções tecnológicas: a exploração do petróleo em águas profundas; a transformação de cana-de-açúcar em combustível (álcool) na Mata Atlântica e a correção dos solos do cerrado, que permitiu a expansão da soja. Está na hora de implementar uma revolução científico-tecnológica na Amazônia que estabeleça cadeias tecnoprodutivas com base na biodiversidade, desde as comunidades da floresta até os centros da tecnologia avançada. Esse é um desafio fundamental hoje, que será ainda maior com a integração da Amazônia sul-americana. Notas - LBA é um vasto projeto de pesquisa coordenado pelo Brasil em parceria com a Nasa e, em menor escala a União Europeia, denominado Large Scale Biosphere-Atmosphere Experiment in the Amazon. O Probem foi criado para implantar a pesquisa e desenvolver o uso da biodiversidade através do fortalecimento da biotecnologia. BECKER, Bertha K. Revista Estudos Avançados, vol.19, no. 53, São Paulo, 2005. 48 :: GeoGrafia :: módulo 2 :: Objetivos :: • Mostrar o funcionamento da circulação geral da atmosfera; • Caracterizar os principais tipos climáticos brasileiros. 4 Tipos climáticos do Brasil Como a superfície da Terra não é homogênea e ainda há o movimento de rotação, os cinturões de pressão atmosférica (baixa equatorial, 2 altas subtropicais, 2 baixas subpolares e 2 altas polares) podem se quebrar em células e os ventos emitidos a partir dos centros de alta pressão sofrem desvios pelo Efeito de Coriolis (Figura 4.2). ÁFRICA 0 2870 5740 ESCALA Km Equador Trópico de Capricórnio Trópico de Câncer Centro de Alta Pressão Atmosférica Centro de Baixa Pressão Atmosférica Ventos Alísios Ventos de Oeste B B B B BB A A A AA A A Figura 4.2: Deslocamento dos ventos alísios e de oeste pelo planeta. Na figura 4.3 observa-se a circulação dos principais ventos do planeta em planta e em perfil. Em setas diferentes, destacam-se os ventos alísios, que convergem para o Equador constituindo a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT); os ventos de oeste, que saem das altas pressões subtropicais e vão para a latitude de 60º, encontrando os ventos de leste (polares). 60º S 60º N 30º S 30º N 0º 90º S 90º N A A A A B B B B B B A A A ZCIT Ventos Alísios Ventos de Oeste Ventos de Leste Outros deslocamentos de ar Figura 4.3: Circulação geral da atmosfera representada em planta e em perfil, destacando-se os principais ventos planetários (ventos alísios, ventos de oeste e ventos de leste). A circulaçãode ar na faixa entre os trópicos de Câncer (Hemisfério Norte) e Capricórnio (Hemisfério Sul), abrangendo o Equador, é constituída pela convergência de ventos (ventos alísios) e ascensão do ar, ocasionando acúmulo, subida e condensação de vapor d’água. Deste modo, a subida e condensação constantes de vapor d’água formam nuvens com grande desenvolvimento Circulação geral da atmosfera Para entender a formação dos diferentes tipos climáticos da Terra e do Brasil, é importante conhecer antes a circulação de ar pelo nosso planeta. A Circulação Geral da Atmosfera corresponde a um modelo de deslocamento de ventos planetários a partir de diferenças de temperatura do ar e pressão atmosférica no globo. O excesso de energia solar recebido no Equador provoca aquecimento do ar nesta latitude, que, se tornando mais “leve”, tende a subir. Essa corrente ascendente de ar chega até a tropopausa (16km de altitude – limite acima do qual a atmosfera se torna muito estável), passando a se deslocar em direção aos polos. É importante lembrar que próximo ao chão no Equador a pressão atmosférica se torna baixa, já que o ar está deixando de exercer pressão no local devido à sua ascensão. Nos polos ocorre o inverso: a pouca intensidade da radiação solar que atinge essas áreas gera temperaturas extremamente frias, fazendo com que as moléculas do ar fiquem “pesadas” (pouca agitadas) e “desçam”. Essa corrente de ar descendente chega até o chão e se desloca em direção ao Equador. Essa movimentação de descida do ar cria um ponto de alta pressão atmosférica junto à superfície polar, já que as moléculas estão se acumulando. Verifique que na figura 4.1 a corrente de ar que subiu na faixa equatorial não alcança os polos, pois em altitude (12 a 16 km de altitude) o ar fica muito frio (-70º C) e denso, constituindo uma corrente de ar descendente na latitude aproximada de 30º Norte e Sul. Com a descida do ar, ocorre o acúmulo de moléculas gasosas junto à superfície, formando um centro de Alta Pressão atmosférica na latitude subtropical (altas subtropicais). A partir deste ponto são gerados ventos que se deslocam junto à superfície em direção ao polo (ventos de oeste) e em direção ao Equador (ventos alísios). Quando este centro de alta pressão ocorre sobre os continentes cria um clima seco (desertos), pois o ar descendente possui pouca umidade. Consequentemente, as áreas das altas subtropicais apresentam céu claro e chuvas raras, pois qualquer umidade junto à superfície não consegue subir e se condensar para formar nuvens e, posteriormente, se precipitar. O vento que se desloca para os polos a partir da latitude de 30º se encontra com o vento frio que vem do polo, formando um centro de baixa pressão na latitude de 60º, onde se configura uma corrente de ar ascendente. As massas de ar frias trazidas do polo e as massas de ar quentes trazidas do trópico quando se encontram não se misturam, mas formam uma superfície de contato onde geralmente ocorrem tempestades (sistema frontal). A massa tropical (mais leve e, às vezes úmida) é “jogada” para cima pela massa polar (mais pesada). Baixa Pressão Alta Pressão Corrente de ar descendente Corrente de ar descendente Corrente de ar ascendente Circulação Geral da Atmosfera Ventos de OesteVentos Alísios 0º Equador 30º Alta Pressão 60º Baixa Pressão 90º Polo Figura 4.1: Esquema da Circulação Geral da Atmosfera, constituída a partir de centros de alta e baixa pressões atmosféricas e deslocamento de ventos por todo o planeta. 50 :: GeoGrafia :: módulo 2 O modelo de circulação de ar apresentado na figura 4.4 pode ser aplicado para entender a formação de brisas marítima e terrestre e de monções. Considerando a grande extensão territorial do Brasil, verifica-se a atuação sazonal de segmentos da Circulação Geral da Atmosfera em diferentes regiões brasileiras, influenciando as características climáticas. A Zona de Convergência Intertropical (convergência dos ventos alísios na faixa equatorial), por exemplo, se desloca para o Hemisfério Sul durante o verão, provocando chuvas abundantes nos estados do litoral norte da Região Nordeste (Ceará, Piauí, Maranhão, por exemplo) e em alguns estados da Região Norte (Pará, Amapá e Amazonas). O grande centro de Alta Pressão Atmosférica situado no oceano Atlântico Sul se aproxima do Brasil durante o inverno, deixando o tempo muito seco, especialmente nos estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Este centro de alta pressão também é responsável pela formação dos ventos alísios (ventos permanentes), que atuam constantemente no litoral dos estados do Nordeste (Figura 4.6). O Estado do Rio Grande do Norte, por exemplo, tem um grande potencial de produção de energia eólica e de sal devido à atuação dos ventos alísios. Oceano Atlântico Atlântico Sul Oceano Pacífico Trópico de Capricórnio Equador Açores Ventos Alísios Centro de Alta Pressão Atmosférica Figura 4.6: Centros de Alta Pressão dos Açores (Hemisfério Norte) e do Atlântico Sul (Hemisfério Sul) que geram os ventos alísios direcionados para o litoral da Região Nordeste do Brasil. Principais fatores climáticos do Brasil Os tipos climáticos encontrados no Brasil são definidos a partir da combinação de diferentes fatores geográficos e dinâmicos. Os fatores geográficos (ou estáticos) são a latitude, a altitude e orientação do relevo, as correntes marítimas quente e fria (efeito de maritimidade), a distância do mar (efeito da continentalidade) e a vegetação. Os fatores dinâmicos estão relacionados às características atmosféricas e aos sistemas meteorológicos, como massas de ar, centros de alta e baixa pressão atmosférica, Zona de Convergência Intertropical, entre outros, que atuam e/ou se movimentam pelo território brasileiro em intervalos de tempo diferentes (dias ou meses). vertical, chamadas cumulonimbus (nuvens de temporais), que ocasionam chuvas frequentes na região equatorial. Todo este conjunto de circulação de ar, nuvens e precipitação é denominado Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Os cinturões e células de pressão se deslocam de acordo com as estações do ano (Figura 4.4). Durante o inverno do Hemisfério Norte, a atividade polar ártica se intensifica empurrando todo o sistema de circulação para o sul (Figura 4.4A). Por outro lado, no Hemisfério Sul seria verão, atraindo a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). O sistema de circulação se desloca para a direção norte quando no inverno do Hemisfério Sul a atividade polar na Antártica aumenta (Figura 4.4B) e a ZCIT se desloca para o Hemisfério Norte, quando este está no período de verão. 30ºS 60ºS 90ºS0º30ºN60ºN90ºN ZCIT Inverno no Hemisfério Norte Verão no Hemisfério Sul 30ºS 60ºS 90ºS0º 30ºN60ºN90ºN Verão no Hemisfério Norte Inverno no Hemisfério Sul A B Figura 4.4: Direções de deslocamento da Circulação Geral da Atmosfera relacionadas às estações do ano (inverno e verão) dos hemisférios Norte e Sul. Na figura A verifica-se a ZCIT posicionada no Hemisfério Sul devido à estação de verão neste. A figura B representa o verão no Hemisfério Norte e a ZCIT posicionada neste. De uma forma mais simplificada, verifica-se que na Terra há centros de pressão atmosférica (ou células de alta e baixa pressões atmosféricas), que se conectam por meio do deslocamento de ventos junto à superfície e em altitude, ocorrendo ainda o deslocamento de todo o sistema de acordo com as estações do ano. Pela figura 4.5 observa-se que os centros de Alta Pressão Atmosférica têm corrente de ar descendente (ar descendo e exercendo alta pressão na superfície), que impede o vapor d’água subir, condensar e formar nuvens – por isso são áreas com climas mais secos. O ar que se acumula nestas áreas tende a se deslocar para os centros de Baixa Pressão Atmosférica, onde há uma corrente de subida. Deste modo, os centros de baixa pressão atmosférica são áreas de convergência (chegada) de ventos, enquanto os centros de alta pressão são áreas dispersoras(saída) de ventos. Observa-se ainda na figura 4.5 que a corrente ascendente de ar na célula de Baixa Pressão ajuda na subida de vapor d’água, que em altitude se resfria e se condensa, podendo formar nuvens que geralmente causam precipitação e deixam o local com clima mais úmido. BP Convergência de ventos Corrente de ar ascendente Fluxo divergente em altitude Divergência de ventos Corrente de ar descendente AP Fluxo convergente em altitude Figura 4.5: Modelo simplificado de circulação atmosférica, onde os ventos saem de uma célula de alta pressão atmosférica e chegam numa célula de baixa pressão atmosférica. Capítulo 4 :: 51 Ao lado da latitude, as massas de ar constituem um outro fator climático extremamente importante na definição dos climas brasileiros. As massas de ar influenciam na intensidade e na sazonalidade dos períodos chuvoso e seco que caracterizam os climas do país. A Massa Equatorial Continental (mEc) é formada na zona aquecida e úmida da floresta Amazônica. Esta área recebe ventos oceânicos (alísios) que vão constituir a mEc, contribuindo para sua elevada umidade. O intenso aquecimento da área provoca instabilidade convectiva (ascensão do ar quente) levando à formação de grandes nuvens (cumulonimbus) e precipitação abundante. Durante o verão a mEc se amplia atingindo as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil (Figura 4.8), levando grande umidade, o que favorece a formação de precipitação, às vezes muito forte. Esta massa de ar pode alcançar também alguns estados da Região Nordeste e do Sul, levando calor e umidade. Durante o outono esta massa de ar começa a diminuir sua atuação sobre o Brasil e se desloca para a direção Norte, ficando restrita a uma pequena área ao norte do Brasil no período de inverno. Na primavera a mEc volta a se ampliar. mEc – massa Equatorial continental mEa – massa Equatorial atlântica mEn – massa Equatorial norte mTc – massa Tropical continental mTa – massa Tropical atlântica mPa – massa Polar atlântica mPp – massa Polar pacífica FPA – Frente Polar atlântica mEn FPA mTa mPp 0º 20º 40º mEamEc CIT FPA mTa mEa Condição de Verão (exemplo de janeiro) Condição de Inverno (exemplo de junho) 0º 20º 40º mTc mPa mPa CIT mEc Figura 4.8: Atuação de massas de ar sobre o Brasil nos períodos de verão e inverno. Fonte: Nimer, E. Climatologia do Brasil. IBGE, 1989 (modificado). O Brasil é um país cortado pelas latitudes do Equador e do Trópico de Capricórnio. Isto significa que a radiação solar incide de forma direta na superfície (em ângulo de 90º ou um pouco menor), causando um grande aquecimento (Figura 4.7). A latitude tropical do Brasil também faz com que o tempo de incidência solar não varie muito ao longo do ano. Assim, a faixa equatorial tem um tempo de exposição ao sol de 12 horas durante todo o ano, apresentando então baixíssima variação da temperatura do ar entre inverno e verão (baixa amplitude térmica anual). Solo Polo Equador Ângulos de Incidência Solar Sol Figura 4.7: Variação dos ângulos de incidência da radiação solar na superfície terrestre de acordo com as diferentes latitudes (equatorial e polar). Quanto menor o ângulo, menos aquecimento da superfície irá ocorrer, como nos polos. No entanto, ao sul da linha do Trópico de Capricórnio ocorre uma significativa variação da incidência solar: o ângulo e o tempo de exposição ao sol mudam. Esta mudança pode ser sentida desde o Estado do Rio de Janeiro, quando no verão o Sol se põe depois das 18:00h e no inverno começa a escurecer às 17:30h. Com essa pequena variação, as pessoas que moram no estado já percebem as diferenças de temperatura entre inverno e verão. Nos estados do Sul do Brasil (latitudes acima de 25ºS) a variação é bem maior entre inverno e verão. Apresentando a situação de forma hipotética para o Estado do Rio Grande do Sul, se o sol nascesse às 6h da manhã, o por do sol seria às 19:30h no verão (mais de 13h de exposição ao sol) e às 16h no inverno (10h de exposição ao sol). Por isso, as temperaturas ficam muito diferentes entre inverno e verão, constituindo uma significativa amplitude térmica anual. Observe na tabela 4.1 as variações de temperatura entre verão (mês de janeiro) e inverno (mês de julho) de diferentes cidades brasileiras. Cidade Latitude Temperatura (oC) Amplitude Térmica (oC)Janeiro Julho Manaus 3oS 26 26 0 Rio de Janeiro 22oS 26 21 5 Porto Alegre 30oS 24 14 10 Tabela 4.1: Variação de temperatura de diferentes cidades brasileiras. 52 :: GeoGrafia :: módulo 2 Ao diminuir sua atuação durante os meses de outono e inverno, a massa Equatorial continental deixa espaço para outras massas de ar quente avançar. Deste modo, as massas Equatorial atlântica (mEa) e Tropical atlântica (mTa) ocupam a maior parte do Brasil no período de inverno. Embora a área de origem dessas massas de ar seja no oceano, há um movimento de descida do ar (sub- sidência) que dificulta a formação de nuvens e de precipitação. Portanto, tais massas deixam o tempo seco, sendo que em alguns locais a umidade relativa do ar pode chegar a 12%. Esta baixíssima umidade relativa causa muitos problemas respiratórios, especialmente em crianças e idosos. A estabilidade destas massas de ar pode ser quebrada com a chegada da massa Polar atlântica (mPa), constituindo uma frente fria sobre o continente. A frente fria faz parte de um sistema meteorológico maior, conhecido como sistema frontal. Este surge a partir do contato entre as massas de ar polar e tropi- cal, que se deslocam fazendo um giro (Figura 4.9). Durante este giro, o segmento em que a massa polar avança sobre a massa tropical é chamada de frente fria. Percebemos a frente fria com uma mudança das condições do tempo: rajadas de vento, formação de nuvens grandes, queda de temperatura e precipitação. A frente quente corresponde a um outro segmento do sistema frontal, em que a massa tropical avança sobre a massa polar. No caso do Brasil, geralmente a frente quente ocorre em alto mar. No decorrer do giro entre as duas massas de ar, a massa tropical é jogada para cima por ser mais leve, enquanto a massa polar avança sobre a superfície por ser mais pesada. Este conjunto de movimentos das massas de ar causa grande instabilidade, provocando precipitação por onde avança. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.9: Sistema frontal, constituído por frente fria (segmento sobre o continente) e frente quente na América do Sul/Brasil. O sistema frontal surge a partir do encontro das massas de ar diferentes. A massa Polar atlântica (mPa) atua durante o ano todo nos estados do Sul do Brasil, formando frentes frias (e consequente precipitação) que às vezes avançam sobre os estados do Sudeste. Mas durante os meses de inverno, a mPa tem mais força e pode alcançar estados das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste (estados litorâneos). Quando a mPa chega ao sul da região amazônica causa o fenômeno da friagem, expresso pela queda repentina da temperatura do ar, já que esta área é bastante quente. A massa Tropical continental (mTc) tem atuação restrita ao setor oeste da região Sul do Brasil. É uma massa de ar quente e seca, pois se desenvolve no interior do continente durante o verão. Devido a mTc, várias cidades do sul apresentam problemas de estiagem que afetam o abastecimento de água para o meio urbano e para as atividades pecuárias, comuns na região. A altitude e orientação do relevo também interferem na formação dos climas brasileiros. Grande parte do Brasil tem baixas altitudes (até 500m), quase não interferindo na temperatura. No entanto, para os estados do Sul e do Sudeste há planaltos e serras com altitudes superiores a 800m, deixando o ar mais frio. Além disso, a orientação do relevo mais elevado pode ser um obstáculo a ventos úmidos, como é a situação da Serra do Mar no Sudeste. Neste caso, os ventos úmidos vindos do mar são forçados a subir a serra, o que provoca um resfriamento do ar. O conteúdo de vapor d’água então se condensa formando nuvens e precipitação. Outro fator climático importante é a vegetação, embora seu efeito seja mais local do que regional. Assim, em áreas onde há preservação de cobertura vegetal densa o ar tende a ficar mais fresco e úmido, conferindo um bom conforto térmico aos habitantes do local. Mas no Brasil ainda há a extensa cobertura de floresta amazônica, que fornece para a atmosfera uma grande quantidade de vapor d’água e núcleos de condensação (partículas sólidas), que em conjunto são responsáveis pela formação de nuvens. A grande extensão territorial do Brasil ainda possibilita a atuação de dois fatores climáticos: continentalidade e maritimidade. As áreas mais distantes do mar sofrem com o efeito da continentalidade, que corresponde à capacidade do solo rapidamente se aquecer (durante o dia e ao longo do verão) e se resfriar (durante a noite e ao longo do inverno). Com isso, o ar acima do solo apresenta temperaturas contrastantes entre o dia e a noite e entre o verão e o inverno, caracterizando uma grande amplitude térmica. As áreas próximas ao mar sofrem o efeito da maritimidade, pois a água demora mais a se aquecer e a se resfriar. Por isso a variação de temperatura do ar fica menor. No entanto, deve ser também considerada a presença de correntes marítimas quentes, que deixam o ar mais úmido e quente. Em áreas com presença de correntes marítimas frias, a tendência é o ar ser mais frio e seco, já que a evaporação se torna mais difícil. Características climáticas do brasil Apesar de o Brasil ser um país com predominância de clima tropical, há algumas diferenças climáticas devido à atuação diversificada de fatores. Deste modo, veremos os principais fatores climáticos que contribuem para a formação dos climas brasileiros, definidos a partir da classificação do geógrafo Strahler (Figura 4.10). Esta classificação se baseia principalmente na ocorrência e movimentação de massas de ar, gerando grandes extensões de unidades climáticas no território brasileiro. Contudo, são apontados outros fatores que influenciam os climas em escalas de maior detalhe, seguidos de climogramas. Capítulo 4 :: 53 :: Climogramas ou climatograma :: São gráficos reunindo os valores mensais de temperatura e de precipitação de um local. Na base do gráfico (eixo X) ficam dispostos os meses do ano, enquanto os eixos laterais (eixos Y) correspondem à temperatura e à precipitação. A temperatura é geralmente representada por linha, enquanto a precipitação é ilustrada por colunas. Ao analisar o gráfico de climograma, deve-se prestar atenção à escala de valores de temperatura e precipitação. Os dados de médias mensais usados na montagem de climogramas correspondem, preferencialmente, a normais climatológicas. Estas compreendem médias calculadas com valores obtidos num intervalo de 30 anos. A última normal climatológica calculada foi a de 1961-1990 e a próxima será calculada com os dados coletados entre 1991 e 2020. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo HorizonteDF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.10: Distribuição espacial dos tipos climáticos encontrados no Brasil. 54 :: GeoGrafia :: módulo 2 Clima equatorial úmido O clima equatorial úmido apresenta muito pouca variação de temperatura ao longo do ano, devido ao efeito da latitude, visto anteriormente. A temperatura também é praticamente a mesma por toda extensão territorial em que este tipo climático ocorre (Estados do Pará, Amazonas, Amapá etc.). Por meio da figura 4.11, percebe-se a linha quase reta de temperatura na cidade de Manaus (estado do Amazonas). Por outro lado, a precipitação não é homogênea ao longo do ano, com alguns meses bem mais chuvosos do que outros. Os meses de fevereiro, março e abril, por exemplo, apresentam os maiores acumulados de chuva (acima de 288mm), refletindo a atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) e da massa Equatorial continental (mEc) como sistemas produtores de precipitação neste período. Nos meses de julho, agosto e setembro a pluviosidade diminui significativamente (menor que 87mm), mas não caracteriza seca ou estiagem vivenciada em outras áreas brasileiras. Apesar da cidade de Manaus se localizar aproximadamente no centro da região amazônica, com milhares de quilômetros de distância do mar, o efeito da continentalidade é amenizado pela grande quantidade de vapor d’água fornecido pela floresta e trazido pelos ventos alísios que penetram na região. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.11: Climograma da cidade de Manaus (Estado do Amazonas), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. Em outros locais da região a quantidade de precipitação pode ser bem grande. Em Soure (Ilha de Marajó no Pará), por exemplo, a média anual de chuva é de 3.215mm, enquanto em Manaus a média anual é de 2.286mm. Clima tropical O clima tropical também ocupa grande parte do território brasileiro (Figura 4.10) e, dependendo do estado e/ou cidade, pode apresentar características um pouco diferenciadas. Pelo climograma de Brasília (Figura 4.12), observa-se que a linha de tempe- ratura apresenta uma ligeira queda nos meses de junho e julho, caracterizando o inverno com temperaturas amenas. A precipitação entre os meses de maio e se- tembro fica extremamente baixa (menor que 38mm), caracterizando um período de outono/inverno bem seco. É típico nesta época do ano a umidade relativa do ar baixar até 10% em alguns dias, afetando a saúde dos habitantes. A falta de chuva e a baixa umidade relativa do ar podem durar 2 ou 3 meses, dependendo da intensidade das massas de ar Equatorial atlântica (atua mais ao norte) e Tropical atlântica (atua mais no centro-sul), além da proximidade do centro de alta pressão atmosférica do Atlântico Sul. No verão, por outro lado, a precipitação mensal pode chegar a 200mm, sendo causada principalmente pela expansão da massa Equatorial continental (mEc), oriunda da Amazônia. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.12: Climograma da cidade de Brasília (Distrito Federal), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. A região ocupada pelo clima tropical apresenta variações de altitudes, que podem influenciar nas médias de temperatura. Brasília, por exemplo, está numa altitude de 1159m, apresentando temperatura média anual de 21ºC, enquanto cidades próximas, como Goiânia (741m de altitude) e Paranã (275m de altitude) apresentam temperaturas médias de 23ºC e 25ºC, respectivamente. O clima tropical se estende até o litoral norte do Nordeste. Neste caso outros fatores influenciam este tipo climático. A atuação dos ventos alísios, que vêm do oceano, deixa o ar mais úmido, mesmo no inverno. As chuvas ocorrem principalmente no final do verão e início do outono, relacionando-se com o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) para o hemisfério Sul. Observe o climograma de Fortaleza que exemplifica esta situação (Figura 4.13). Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.13: Climograma da cidade de Fortaleza (Estado do Ceará), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. Atividade 1 Compare os climogramas de Brasília e de Fortaleza e descreva aqui suas semelhanças e diferenças. Capítulo 4 :: 55 umidade e ventos oriundos do oceano, mas que são forçados a ascender devido às encostas da Serra do Mar serem muito altas e próximas ao litoral. Este relevo com grandes altitudes também se constitui em barreira orográfica ao deslocamento de frentes frias, causando chuvas muito intensas. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano AtlânticoOceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.16: Climograma da cidade de Ubatuba (Estado de São Paulo), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. As temperaturas das referidas cidades também são diferentes, com Recife apresentando média anual de 25ºC, Cabo Frio com média anual de 23º C e Ubatuba com 21º C. Essas diferenças de temperatura têm relação com as latitudes de cada cidade. Clima tropical semiárido O clima tropical semiárido, existente no interior da Região Nordeste, está relacionado à presença de uma célula de alta pressão atmosférica. Como foi visto anteriormente, este tipo de movimentação do ar apresenta uma corrente de ar descendente (subsidência do ar) que dificulta a subida do vapor d’água para formar nuvens e, consequentemente, provocar chuvas. No entanto, alguns sistemas atmosféricos, como a Zona de Convergência Intertropical, e fatores, como aumento da temperatura da superfície do mar, podem enfraquecer a célula de alta pressão atmosférica, possibilitando a formação de nuvens de chuva. Tais condições é que caracterizam o clima semiárido, com este apresentando uma grande irregularidade de precipitação – durante dois ou três anos podem ocorrer chuvas, seguidos de outros anos em que não há quase nenhuma precipitação. O climograma da cidade de Petrolina (Figura 4.17), situada no sertão de Pernambuco, mostra a pequena quantidade de precipitação ao longo do ano. Somente os meses de janeiro a abril apresentam valores de precipitação em torno de 100mm, período em que a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) atua na região. Entre junho e outubro, a quantidade de chuva raramente ultrapassa 10mm por mês, quando ocorre. Outro fator que pode dificultar a formação de chuvas no interior do Nordeste são os planaltos e chapadas próximos ao litoral. Assim, o ar úmido vindo do oceano é forçado pelo relevo (com altitudes raramente superiores a 800m) a subir, formando nuvens e precipitação nas vertentes oceânicas das elevações. No entanto, as áreas mais elevadas são fragmentadas no espaço nordestino e insuficientes para explicar a irregularidade e pouca quantidade de precipitação nesta região. Clima tropical litorâneo úmido Como o próprio nome expressa, este tipo climático recebe influência do mar deixando-o mais úmido que o clima tropical anterior. Entretanto, a influência do mar pode ser profundamente diferente, dependendo da temperatura da superfície do mar (relacionada a correntes marítimas). Outros fatores também ocorrem, como os tipos de ventos oceânicos e épocas de atuação, as massas de ar e o relevo costeiro. Considerando estes fatores, observe que os climogramas das cidades de Recife (Figura 4.14), Cabo Frio (Figura 4.15) e Ubatuba (Figura 4.16) apresentam diferenças, especialmente quanto à quantidade de precipitação e à sua distribuição ao longo do ano. Neste sentido, a época de maior precipitação em Recife (litoral do Estado de Pernambuco/NE) corresponde aos meses de outono e inverno, quando ventos vindos do oceano se tornam intensos e as frentes frias oriundas do sul do Brasil podem alcançar o Nordeste brasileiro. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.14: Climograma da cidade de Recife (Estado de Pernambuco), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. A quantidade de precipitação em Cabo Frio (litoral do Estado do Rio de Janeiro/SE) é muito menor, recebendo influência direta da ressurgência da corrente marítima fria das Malvinas. Neste caso, a água fria que aflora na superfície estabelece um sistema de ventos do mar para o continente, levando a umidade em direção à região serrana próxima a Cabo Frio. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.15: Climograma da cidade de Cabo Frio (Estado do Rio de Janeiro), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. Em Ubatuba, cidade no litoral norte do Estado de São Paulo, chove bastante ao longo do ano, principalmente nos meses de verão. Esta localidade recebe 56 :: GeoGrafia :: módulo 2 A temperatura do ar fica em torno de 26º C e, combinada com a pouca precipitação, cria ótimas condições para cultivos de frutas o ano todo, desde que haja irrigação. Deste modo, o vale do rio São Francisco, que corta a região semiárida, se tornou um grande produtor e exportador de frutas. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.17: Climograma da cidade de Petrolina (Estado de Pernambuco), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. :: Temperatura do Ar e Sensação Térmica :: Às vezes, no inverno, os jornais divulgam que a temperatura do ar é um determinado valor, mas a sensação térmica é de um frio maior. Isto acontece porque o corpo humano pode se resfriar (causando a sensação de frio) com a ocorrência de ventos que “roubam” calor do nosso corpo, por exemplo. Por outro lado no verão, podemos sentir mais calor do que o registrado pela temperatura do ar. Esta sensação térmica de calor pode estar relacionada à alta umidade do ar e à falta de ventos, exigindo que o nosso corpo transpire mais para buscar resfriamento, causando inclusive fadiga. Clima subtropical úmido Os estados da Região Sul do Brasil e o extremo sul do estado de São Paulo possuem um clima com temperaturas mais amenas e chuvas bem distribuídas ao longo do ano. Estas características climáticas se relacionam principalmente à latitude extratropical (ao sul do Trópico de Capricórnio) e à ocorrência quase semanal de frentes frias. Em comparação aos demais climogramas, o da cidade de Florianópolis (Estado de Santa Catarina) apresenta a linha de temperatura mais sinuosa (Figura 4.18), evidenciando um maior contraste de temperatura entre inverno e verão do que os gráficos anteriores. Esta variação maior de temperatura está relacionada à latitude extratropical, que cria uma significativa diferença do tempo de exposição ao sol entre o verão e o inverno, como colocado no início do capítulo. Neste climograma também se verifica a ausência de um período de seca. Em todos os meses há quase a mesma quantidade de precipitação, característica fornecida pela passagem semanal de frentes frias, mesmo no verão. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 PrecipitaçãoTemperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.18: Climograma da cidade de Florianópolis (Estado de Santa Catarina), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. Na região Sul do Brasil há presença de relevo com altitudes significativas (Serras Gaúcha e Catarinense com altitudes em torno de 1000m), deixando a temperatura mais baixa ao longo do ano. O relevo elevado também funciona como barreira orográfica para o deslocamento de sistemas atmosféricos (ventos oceânicos, frentes frias etc.), provocando aumento na quantidade e, às vezes, na intensidade da chuva na região serrana. Um exemplo desta situação é a cidade de São Joaquim (Figura 4.19), situada em Santa Catarina, a uma altitude de 1.360m. Nesta cidade, durante o inverno, pode ocorrer precipitação em forma de neve e congelamento da superfície dos riachos. Observe como a linha de temperatura entre as duas cidades catarinenses mostram temperaturas bem diferentes. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Figura 4.19: Climograma da cidade de São Joaquim (Estado de Santa Catarina), relacionando precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. Exercícios 1) (UERJ / 2004) O esquema abaixo representa o avanço de uma frente fria no dia 12 de julho de 2003, no Estado do Rio de Janeiro. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Correntedo Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento a) Explique o processo de formação de uma frente fria. Capítulo 4 :: 57 b) A partir da dinâmica das massas de ar, justifique por que a frequência e a intensidade das frentes frias que atingem o Rio de Janeiro são maiores nesse período. 2) (UERJ / 2004, 2º dia) Observe os climogramas abaixo, que apresentam as médias mensais de chuvas e de temperatura do ar atmosférico, de quatro cidades brasileiras. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Adaptado de ADAS, M. Panorama Geográfico do Brasil. São Paulo: Moderna, 1998. Os diferentes tipos de clima identificados pelos números , , e são, respectivamente: (A) equatorial úmido – tropical semiárido – desértico – subtropical úmido (B) tropical semiúmido – subtropical úmido – desértico – equatorial úmido (C) tropical semiúmido – desértico – tropical semiárido – equatorial úmido (D) equatorial úmido – tropical semiúmido – tropical semiárido – subtropical úmido 3) (UFRJ / 2005, modificada) Observe o climograma e o mapa a seguir. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento a) Descreva as principais características do clima representado no gráfico. b) Identifique qual das três cidades assinaladas no mapa apresenta as características do climograma e explique os fatores relacionados ao regime de chuvas. 4) (UERJ / 2009) Os climogramas são gráficos que permitem comparar os climas por meio de dados referentes a temperatura e umidade. Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J JA S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento Média anual 27,1ºC J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Total anual 2479 mm3 Média anual –12,5ºC Total anual 109 mm3 0 10 20 30 0 0 10 20 0 20 40 Barrow (Canadá)Kuala Lampur (Malásia) –30 –20 –10 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 P (mm3)T (ºC) P (mm3)T (ºC) Trópico de Capricórnio Equador J 0 100 200 300 400 mm 10 15 20 25 30 ºC F M A M J J A S O N D Manaus Curitiba Cuiabá J 0 100 200 300 400 Precipitação mm Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado) I Climogramas II III IV 10 15 20 30 40 Temperatura ºC Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado) Frente Fria F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D São Joaquim (SC) 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D mm 5 10 15 20 25 30 ºC Precipitação Temperatura Florianópolis (SC)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Petrolina (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Ubatuba (litoral SP)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Cabo Frio (RJ)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Recife (PE)mm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Fortalezamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Brasíliamm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Manausmm ºC 0 100 200 300 400 J F M A M J J A S O N D 5 10 15 20 25 30 Precipitação Temperatura Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler) Equador Climas controlados por massas de ar equatoriais e tropicais Equatorial Úmido Litorâneo Úmido Tropical Climas controlados por massas de ar tropicais e polares Subtropical Úmido Corrente quente Corrente fria Tropical Semiárido Manaus Macapá Boa Vista Porto Velho Rio Branco Belém Teresina São Luís Palmas Belo Horizonte DF Brasília Goiânia Cuiabá Campo Grande OCEANO Trópico de Capricórnio ATLÂNTICO Corrente das Guianas Corrente Sul Equatorial Corrente do Brasil Corrente do Brasil Corrente das Falkland Fortaleza Recife João Pessoa Natal Salvador Aracaju Maceió Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Vitória Porto Alegre Florianopólis Oceano Atlântico Oceano Pacífico Massa Polar Atlântica Massa Tropical Atlântica Trópico de Capricórnio Equador Frente Fria Frente Quente Direção do deslocamento A partir da análise desses climogramas, justifique as diferenças de amplitude térmica e de total anual de chuva verificadas entre os dois tipos climáticos representados. 58 :: GeoGrafia :: módulo 2 Complemente seus conhecimentos Possíveis impactos da mudança de clima no Nordeste Jose A. Marengo Clima do Nordeste: o presente É conhecido que as chuvas do semiárido da região Nordeste apresentam enorme variabilidade espacial e temporal. Anos de secas e chuvas abundantes se alternam de formas erráticas, e grandes são as secas de 1710-11, 1723-27, 1736-57, 1744-45, 1777-78, 1808-09, 1824- 25, 1835-37, 1844-45, 1877-79, 1982-83, e 1997- ocorrência de chuvas, por si só, não garante que as culturas de subsistência de sequeiro serão bem-sucedidas, e um veranico ou período seco dentro da quadra chuvosa pode ter impactos bastante adversos à agricultura da região. O regime pluviométrico de uma determinada região mantém uma forte relação com as condições hídricas do solo. Visto que a precipitação na região Nordeste apresenta uma grande variabilidade no tempo e espaço, a ocorrência de chuvas, por si, não garante que as culturas de subsistência serão bem-sucedidas. No semiárido é frequente a ocorrência de períodos secos durante a estação chuvosa que, dependendo da intensidade e duração, provocam fortes danos nas culturas de subsistência. A região Nordeste caracteriza-se naturalmente como de alto potencial para evaporação da água em função da enorme disponibilidade de energia solar e altas temperaturas. Aumentos de temperatura associados à mudança de clima decorrente do aquecimento global, independente do que possa vir a ocorrer com as chuvas, já seriam suficientes para causar maior evaporação dos lagos, açudes e reservatórios e maior demanda evaporativa das plantas. Isto é, a menos que haja aumento de chuvas, a água se tornará um bem mais escasso, com sérias consequências para a sustentabilidade do desenvolvimento regional. O sistema elétrico brasileiro depende do regime de chuvas. Uma pequena redução da quantidade de chuvas ou um pequeno aumento da evaporação pode levar a zero a geração de energia em grandes áreas do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Sentimos isso em 2001, durante o “apagão”. Aquilo foi provocado pelas poucas chuvas no sistema hidrelétrico do Sudeste, e bastou um aumento da temperatura de um ou dois graus, e a quantidade de água perdida para a evaporação, e o excesso de uso de energia para fazer funcionar sistemas de ar acondicionado e refrigeração, foram suficientes para levar os níveis dos reservatórios das usinas hidroelétricas a níveis próximos a zero, comprometendo a geração de energia. Clima do Brasil: o futuro As projeções de clima, liberadas pelo Quarto Relatório do IPCC (IPCC AR4), têm mostrado cenários de secas e eventos extremos de chuva em grandes áreas do planeta. No Brasil, a região mais vulnerável, do ponto de vista social, à mudança de clima, seria o interior de Nordeste, conhecida como semiárido, ou simplesmente o “sertão”. Reduções de chuva aparecem na maioria dos modelos globais do IPCC AR4, assim como um aquecimento que pode chegar até 3-4ºC para a segundametade do século XXI. Isso 5) (UFF/ 2010) O fenômeno registrado na fotografia remete à importância de se conhecer a dinâmica da natureza. O principal fator de formação das ondas e a causa específica do fenômeno apresentado estão corretamente associados em: (A) corrente marítima, vinculada à diferença de temperatura. (B) vento, provocado por ciclone extratropical no oceano. (C) salinidade, produto do variável índice pluviométrico. (D) abalo sísmico, decorrente de acomodações na crosta terrestre. (E) relevo litorâneo, resultante da formação geológica no continente. 6) (UFF / 2009) Tempo Real / Tempo Virtual [...] O verão é feroz. Especialmente um verão como este, ilegítimo, fora de época, produto de uma subversão planetária. Tudo nele está fora da lei, como a poesia e a paixão desvairada. Por isso mesmo, tudo nele é intenso e efêmero, como se decidisse esbanjar toda a sua vida num dia apenas, com a urgência de quem vai morrer às seis da tarde, sangrando, esquartejado, sobre as montanhas do Leblon. O verão lembra uma máquina anômala cujas correias e roldanas se estendem por avenidas e rodam nas nuvens, espiralando, em câmera lenta, numa velocidade diferente dos aviões que sobrevoam os quarteirões do Flamengo e o Morro da Viúva, preparando-se para descer na pista do Santos Dumont. [...] Ferreira Gullar, Revista O Globo, 30/12/07 O texto de Ferreira Gullar refere-se, de maneira poética, às mudanças climáticas ocorridas no globo terrestre ao longo das últimas décadas. Assinale a caracterização correta desse fenômeno. (A) Ocorrência de tempestades e catástrofes naturais, causadas pelo movimento de placas tectônicas. (B) Irregularidade das condições climáticas em áreas do planeta, provocada por fatores naturais e humanos. (C) Aumento da temperatura nas cidades, em função da formação de “ilhas de calor” nas áreas rurais. (D) Modificações do ciclo das estações em virtude de mudanças orbitais da Terra e da atividade solar. (E) Alterações bruscas no tempo, devido à inversão térmica decorrente do avanço de massas de ar. Capítulo 4 :: 59 acarreta reduções de até 15-20% nas vazões do rio São Francisco. O Relatório do Clima do Brasil, produzido recentemente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), tem estudado as mudanças de clima no Brasil, e para o Nordeste, para finais do século XXI. Este relatório tem usado modelos regionais de até de resolução animados no modelo global de HadAM3 do Centro Climático do Reino Unido (Hadley Centre). Segundo este relatório do Inpe, estes seriam os possíveis impactos da mudança de clima, considerando os cenários otimistas e pessimistas propostos pelo IPCC: No cenário climático pessimista, as temperaturas aumentariam de 2 ºC a 4 ºC e as chuvas de reduziriam entre 15-20% no Nordeste até o final do século XXI. No cenário otimista, o aquecimento seria entre 1-3 ºC e a chuva ficaria entre 10-15% menor que no presente. Essas mudanças no clima do Nordeste no futuro podem ter os seguintes impactos: • A caatinga pode dar lugar a uma vegetação mais típica de zonas áridas, com predominância de cactáceas. O desmatamento da Amazônia também afetará a região. • Um aumento de 3ºC ou mais na temperatura média deixaria ainda mais secos os locais que hoje têm maior déficit hídrico no semiárido. • A produção agrícola de subsistência de grandes áreas pode se tornar inviável, colocando a própria sobrevivência do homem em risco. • O alto potencial para evaporação do Nordeste, combinado com o aumento de temperatura, causaria diminuição da água de lagos, açudes e reservatórios. • O semiárido nordestino ficará vulnerável a chuvas torrenciais e concentradas em curto espaço de tempo, resultando em enchentes e graves impactos socio-ambientais. Porém, e mais importante, espera-se uma maior frequência de dias secos consecutivos e de ondas de calor decorrente do aumento na frequência de veranicos. • Com a degradação do solo, aumentará a migração para as cidades costeiras, agravando ainda mais os problemas urbanos. Consequências da mudança do clima no Nordeste: As projeções apresentadas no Relatório do Clima do Inpe foram geradas usando modelos climáticos globais e regionais, e o fato de todos os modelos convergirem numa situação de clima mais quente e seco pode fazer com que consideremos essas projeções como tendo um grau de certeza grande. Considerando um modelo em particular (o modelo do Centro Climático britânico – Hadley Centre) e o cenário pessimista, apresenta uma tendência de extensão da deficiência hídrica por praticamente todo o ano para o Nordeste, isto é, tendência a “aridização” da região semiárida até final do século XXI. Define-se “aridização” como sendo uma situação na qual o déficit hídrico que atualmente apresenta- se no semiárido durante 6-7 meses do ano seja estendido para todo o ano, consequência de um aumento na temperatura e redução das chuvas. Em resumo, grande parte do semiárido nordestino, onde a agricultura não irrigada já é atividade marginal, tornar-se-ia ainda mais marginal para a prática da agricultura de subsistência. Aquecimento global, com a elevação do nível dos oceanos, aumento da intensidade e da frequência das ressacas nos últimos anos, a ocupação irregular da orla e mudanças provocadas pelo homem nos rios que desaguam no mar são apontados, por especialistas em climatologia e fenômenos marinhos, como causas mais prováveis da redução das praias. Uma elevação de no nível do Atlântico poderia consumir de praia no Norte e no Nordeste. Em Recife, por exemplo, a linha costeira retrocedeu de 1950, e mais de de 1985 e 1995. Os ambientalistas estão preocupados também com a caatinga, apontada como uma das ações mais urgentes. A caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, abriga uma fauna e uma flora únicas, com muitas espécies endêmicas, ou seja, que não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Trata-se de um dos biomas mais ameaçados do Brasil, com grande parte de sua área tendo já sido bastante modificada pelas condições extremas de clima observadas nos últimos anos, e potencialmente são muito vulneráveis às mudanças climáticas. O clima mais quente e seco poderia ainda levar a população a migrar para as grandes cidades da região ou para outras regiões, gerando ondas de “refugiados ambientais”, aumentando assim os problemas sociais já existentes nos grandes centros urbanos do Nordeste e do Brasil. O que pode ser feito: avaliações do impacto e vulnera- bilidade às mudanças climáticas A população mais pobre é a que sofrerá mais e a região mais afetada seria um quadrilátero no Nordeste, compreendendo desde o oeste do Piauí, o sul do Ceará, o norte da Bahia e oeste de Pernambuco, onde estão as cidades com menor desenvolvimento humano. As projeções de clima para o futuro indicam riscos de secas de 10 anos ou mais. Para um país com tamanha vulnerabilidade, o esforço atual de mapear tal vulnerabilidade e risco, conhecer profundamente suas causas setor por setor, e subsidiar políticas públicas de mitigação e de adaptação ainda se situa bem aquém de suas necessidades. O conhecimento sobre impactos setoriais avançou um pouco sobre a vulnerabilidade da mega diversidade biológica e de alguns agroecossistemas (milho, trigo, soja e café) às mudanças climáticas, com indicações iniciais de significativa vulnerabilidade. Nos setores de saúde, recursos hídricos e energia, zonas costeiras, e desenvolvimento sustentável do semi-árido e da Amazônia, a quantidade de análises de impactos e vulnerabilidade é substancialmente menor, o que aponta para uma premente necessidade de induzir estudos para esses setores. São mais comuns os estudos de vulnerabilidade a mudanças dos usos da terra, aumento populacional e conflito de uso de recursos naturais, porém, é urgente um esforço nacional para a elaboração de um “Mapa Nacional de Vulnerabilidade e Riscos às Mudanças Climáticas”, integrando as diferentes vulnerabilidades setoriais e integrando estas com as demaiscausas de vulnerabilidade. Um plano contra a mudança climática incluiria tanto ações de adaptação (como mudar o zoneamento em cidades litorâneas para evitar o avanço do mar) quanto de mitigação. Jose A. Marengo é pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) - Email: marengo@cptec.inpe.br. 60 :: GeoGrafia :: módulo 2 5 Biomas e Domínios do Relevo do Brasil é baseada nas ligações dos aspectos biológicos e físicos de uma determinada formação. Cada tipo de bioma apresenta um conjunto de ecossistemas que funcionam de forma estável, sendo caracterizado por um tipo principal de vegetação (num mesmo bioma podem existir diversos tipos de vegetação). Desse modo, os sistemas ambientais utilizam-se da classificação de vegetação para melhor evidenciar as diversas paisagens naturais, aqui entendidas como biomas. Quanto aos ecossistemas, são considerados como as unidades naturais do planeta que compõem os diferentes tipos de biomas, constituindo-se no foco de estudo da Ecologia. São formados por seres vivos (meio biótico), por locais onde vivem (meio abiótico) e por todas as relações destes com o meio e dividem-se em terrestres e aquáticos, podendo variar de tamanho, desde uma poça d’água até uma grande floresta. Em outras palavras, são considerados como o “conjunto de todos os organismos (biocenose) que habitam em um determinado espaço vital (ecótopo), com a totalidade de fatores inanimados desse espaço” ou, conjunto formado por todas as comunidades que vivem e interagem em uma certa região e pelos fatores abióticos que agem sobre essas comunidades. E, finalmente, a associação de ecossistemas similares formam então um tipo de bioma. Os domínios morfoclimáticos (morpho = formas + clima) foi proposto nos anos de 1970 por Aziz Ab´Saber, para classificar as interações entre os elementos naturais construídas ao longo do tempo. Os domínios se referem a unidades paisagísticas resultantes, principalmente, das relações entre clima e relevo. Quanto à conceituação de domínios, podem ser entendidos como ‘faixas ou zonas de transição’ que funcionam como ‘limites’ entre as paisagens, evidenciando que essa passagem se dá de forma gradual e não abrupta. As diferentes paisagens que se estendem pelo globo terrestre podem ser agrupadas segundo alguns critérios, capazes de agregar regiões com características semelhantes e facilitar o entendimento dos fenômenos naturais e sociais. Isso significa que, quando falamos em paisagens naturais, dois conceitos são importantes: bioma e domínio morfoclimático. BIOMAS NO MUNDO A nossa visão de mundo é político-administrativa, não é mesmo? Dividido em continentes, países, estados, cidades, vilas, povoados, aldeias... Raramente nos damos conta de que vivemos em um determinado bioma, cujas características são únicas e se diferenciam dos outros biomas. Na escala global, os biomas são unidades que evidenciam grande homogeneidade na natureza de seus elementos, como por exemplo as florestas tropicais que distribuem-se pela América, África, Ásia e Oceania. Embora semelhantes, possuem diferentes comunidades ecológicas e são essas particularidades, que fazem com que algumas vegetações embora parecidas entre si, mostrem-se distintas. Assim como em outros biomas, cada uma dessas florestas tem sua importância no contexto local. Os biomas são classificados de acordo com algumas características, tais como: grau de umidade, folhas e formas e a maioria dos autores concordam em identificar onze biomas no globo: Tundra, Taiga, Florestas Temperadas, Vegetação Mediterrânea, Pradaria, Estepes, Deserto, Savana, Florestas Tropicais e Subtropicais e Vegetação de Montanha (Figura 5.1). Lembramos que, atualmente, além da irreversível extinção de espécies (ou da biodiversidade), podemos mencionar outra SOBRE OS BIOMAS, OS ECOSSISTEMAS E OS DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS Este capítulo tem como objetivo entender quais são os principais bio- mas, ecossistemas e domínios morfoclimáticos brasileiros ou mesmo, o significado destes na dinâmica terrestre. Para tal, é importante destacar conceitos, definições, terminologias, características, distribuição e principais usos. Iniciaremos com os termos fitofisionomia, formação e bioma. Fitofisio- nomia indica o aspecto da vegetação que se encontra em determinado lugar e foi proposto praticamente ao mesmo tempo que o termo formação, que indica a vegetação como resultante da interação entre solo, relevo, clima, fauna, flora, hidrografia e outros. O termo bioma, proposto mais tarde, apenas adicionou a fauna à uniformidade fitofisionômica e climática, características desta unidade bio- lógica. Várias modificações conceituais foram apresentadas por diversos autores, ao longo do tempo, acrescentando outros fatores ambientais ao conceito original, como o solo, por exemplo. Walter propôs um conceito essencialmente ecológico, considerando bioma como uma área de ambiente uniforme, definido de acordo com a zona climática em que se encontra. De origem grega, a palavra bioma (bio = vida + oma = grupo) foi utilizada pela primeira vez por Frederic Clements nos anos de 1940. O objetivo era o de designar grandes unidades caracterizadas por certa uniformidade em sua distribuição no planeta, bem como o predomínio de espécies de flora e fauna, associadas às outras características do meio físico como relevo, solo e clima. Essa classificação foi aprimorada e passou a designar grandes unidades com características semelhantes, destacando-se a fisionomia, as formas de vida, as estruturas e os fatores ambientais associados, introduzindo-se o fator hidrografia. Há muitas definições sobre esse conceito, mas começou de fato a ser mais utilizado a partir da década de 1990 para facilitar o planejamento de ações de conservação e proteção ambiental específicas para cada bioma. O bioma pode ser considerado como uma área do espaço geográfico, com dimensões de até mais de um milhão de quilômetros quadrados e que tem por características a uniformidade de um macroclima definido, de uma determinada fitofisionomia ou formação vegetal, de uma fauna e outros organismos vivos associados, e de outras condições ambientais, como a altitude, o solo, alagamentos, o fogo, a salinidade, entre outros. Estas características todas lhe conferem uma estrutura e uma funcionalidade peculiares, ou seja, uma ecologia própria. Entende-se então, que os biomas apresentam um somatório de ecossistemas vizinhos e semelhantes, podendo ser divididos em terrestres e aquáticos. Como vocês sabem, o ambiente terrestre é dividido em grandes comunidades, apresentando características distintas entre si, e essa classificação dos biomas 62 :: GeoGrafia :: módulo 2 Interessante notar que, ainda que sua riqueza baseia-se em espécies nativas, a maior parte das atividades econômicas nacionais são de espécies exóticas. Na agricultura, destacam-se a cana-de-açúcar (Nova Guiné), o café (Etiópia), o arroz (Filipinas), a soja e a laranja (China), o cacau (México) e o trigo (Ásia); na silvicultura, os eucaliptos (Austrália) e pinheiros (América Central); na pecuária, os bovinos (Índia), os equinos (Ásia) e os caprinos (África); na piscicultura, as carpas (China), as tilápias (África Oriental); e na apicultura, as variedades de abelha provenientes da Europa e da África. Os produtos da biodiversidade no Brasil respondem por 31% das exportações, com destaque para o café, a soja e a laranja. As atividades de extrativismo florestal e pesqueiro empregam mais de três milhões de pessoas. A biomassa vegetal, incluindo o etanol da cana-de-açúcar, e a lenha e o carvão derivados de florestas nativas e plantadas respondem por 30% da matriz energética nacional – e em determinadas regiões, como o Nordeste, atendem a mais da metade da demanda energética industrial e residencial. Além disso, grande parte da população brasileira faz uso de plantas medicinais para tratar seus problemasde saúde. Diante deste quadro, é de fundamental importância que as pesquisas sejam intensificadas no país para o melhor aproveitamento da biodiversidade brasileira pois, ainda é reduzido o conhecimento sobre as espécies, principalmente nas áreas tropicais úmidas. Essa condição torna-se crítica à medida que as alterações ambientais antropogênicas se acentuam, modificando habitats e impingindo uma perda de patrimônio biológico. PRINCIPAIS TIPOS DE BIOMAS DO BRASIL É grande a variedade de formações vegetais pelo planeta, como florestas equatoriais, tropicais, desertos, savanas, campos, dentre outros, sendo possível identificarmos características comuns em todo o mundo. Apesar da homogeneização dos biomas, cada formação no planeta apresenta espécies específicas daquela área. A divisão político-administrativa do Brasil está no nosso imaginário e rapidamente nos situamos diante de um mapa. Mas qual é o bioma que vivemos por exemplo, aqui no estado do Rio? Este bioma está associado a qual zona climática? Vamos rever de modo sucinto quais são os principais biomas brasileiros e como estão distribuídos espacialmente. O espaço geográfico brasileiro se estende por mais de 8,5 milhões de km², situados em latitudes que vão desde aproxima- damente 5ºN até quase 34ºS, onde cada bioma tem seus limites definidos por uma combinação de diferentes fatores tais como clima, temperatura, precipitação de chuvas, umidade relativa, tipo de componentes do solo, compartilhando das mesmas características biológicas e climáticas. Podemos citar alguns exemplos como os dos moradores de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória que encon- tram-se nos limites do bioma de Mata Atlântica e os de Goiânia, Brasília e Cuiabá nos limites do bioma do Cerrado. São inúmeras as divisões dos tipos de biomas no Brasil e, neste curso adotamos as propostas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que define o bioma como “conjunto de espécies animais e vegetais que vivem em formações vegetais vizinhas em um território que possui condições climáticas similares e história compartilhada de mudanças ambientais, o que resulta em uma crise, a dos biomas, que por resultar na perda dos ambientes naturais onde as espécies nascem, desenvolvem-se e deslocam-se, passou a ser uma preocupação recorrente mencionada na literatura. Figura 5.1: Biomas no Mundo BRASIL: PAÍS DE MAIOR BIODIVERSIDADE DO PLANETA Segundo a Conservation International (CI), o Brasil é considerado “megabio diverso” ou seja, um país que reúne pelo menos 70% das espécies vegetais e animais do Planeta. Primeiro país signatário da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), sua biodiversidade é qualificada pela diversidade de ecossistemas, de espécies biológicas, de endemismos e de patrimônio genético. As dimensões continental, as variações geomorfológica e climática, além da maior rede hidrográfica, são responsáveis pela formação de zonas biogeográficas distintas ou biomas, a saber: a Floresta Amazônica, maior floresta tropical úmida do mundo; o Pantanal, maior planície inundável; o Cerrado de savanas e bosques; a Caatinga de florestas semiáridas; os campos dos Pampas; e a floresta tropical pluvial da Mata Atlântica. Além disso, em seu litoral estão os ecossistemas como recifes de corais, dunas, manguezais, lagoas, estuários e pântanos. Essa variedade de biomas reflete a enorme riqueza da flora e da fauna e faz com que o Brasil tenha a maior biodiversidade do planeta. Podemos citar, além disso, as espécies endêmicas e diversas espécies de plantas de importância econô- mica mundial – como o abacaxi, o amendoim, a castanha do Brasil (ou do Pará), a mandioca, o caju e a carnaúba – que são originárias do Brasil. Abriga ainda, uma rica sociobiodiversidade, representada por mais de 200 povos indígenas e por diversas comunidades – como quilombolas, caiçaras e seringueiros, para citar alguns – que reúnem um inestimável acervo de conhecimentos tradicionais sobre a conservação da biodiversidade. Capítulo 5 :: 63 O bioma da Amazônia (conhecida como Floresta Equatorial, Tropical e Úmida) compreende cerca de 42% do território nacional e está presente nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de outros países sul-americanos, em áreas de climas Equatorial e Tropical úmido. Possui a maior biodiversidade do planeta e compõe-se por vegetação de grande porte, verdes, com grandes folhas (latifoliadas) e grande densidade. O bioma da Caatinga, cuja vegetação é adaptada às condições de aridez, é único no mundo, abrange cerca de 10% do território nacional e engloba os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia (região Nordeste do Brasil) e parte do norte de Minas Gerais (região Sudeste do Brasil). O bioma dos Campos são formados basicamente por herbáceas, gramíneas e pequenos arbustos de diversas características, variando de acordo com a região, ocupando áreas descontínuas no país. Na região Norte, apresenta-se como savanas de gramíneas baixas; na região Sul, como pradarias mistas subtropicais formadas principalmente pelo Pampa gaúcho, onde o clima é subtropical e a vegetação (aberta e de pequeno porte) se estende do Rio Grande do Sul à Argentina e ao Uruguai. Podem ainda ser encontrados em diversas regiões do planeta tais como, nas estepes russas, nas pradarias norte-americanas e nas savanas africanas. O bioma do Cerrado localiza-se principalmente no Planalto Central Brasileiro, ocupa cerca de 20% do território brasileiro e é o segundo maior bioma do Brasil. Composto por árvores relativamente baixas (distribuídas entre arbustos e gramíneas), de troncos e ramos retorcidos, cascas espessas e folhas grossas. É um ecossistema similar às chamadas Savanas da África e da Austrália, e é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade. O bioma do Pantanal localiza-se no sudoeste de Mato Grosso e oeste de Mato Grosso do Sul e faz a ligação entre o Cerrado (no Brasil Central), o Chaco (na Bolívia) e a Floresta Amazônica (ao Norte do país). Constitui-se numa área de transição e é considerado uma das maiores planícies inundáveis do planeta, formado por uma grande variedade de ecossistemas. O bioma Mata Atlântica ocupa toda a faixa continental atlântica leste brasileira e se estende para o interior nas regiões Sudeste e Sul do País, ou seja, do Piauí ao Rio Grande do Sul, ocupando inteiramente três estados – Espírito Santo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, 98% do Paraná, além de porções de outras 11 unidades da federação. Definido pela vegetação florestal e por relevo diversificado, é considerado um dos biomas mais ricos do mundo em espécies da flora e da fauna. Tabela 5.1: Área Territorial ocupada pelos Biomas no Brasil (IBGE, 2004) Biomas Continentais Brasileiros Área Aproximada km² Área Total/Brasil % Bioma Amazônia 4.196.943 49,29% Bioma Cerrado 2.036.448 23,92% Bioma Mata Atlântica 1.110.182 13,04% Bioma Caatinga 844.453 9,92% Bioma Campos (Pampas) 176.496 2,07% Bioma Pantanal 150.355 1,76% 8.514.877 100,00% diversidade biológica própria”. Nessa perspectiva, o bioma pode ser nomeado em função da vegetação predominante (Cerrado, Mata Atlântica), do relevo (Pantanal), das condições climáticas (Caatinga no semiárido nordestino) ou do meio físico ( zonas costeira e marinha). Lançado em 2004 pelo IBGE, o Mapa dos Biomas Brasileiros apresenta uma divisão onde um mesmo bioma contém paisagens distintas da vegetação dominante. É o caso dos Campos e Manchas de Cerrado existentes na Amazônia. Ao considerar ecossistemas distintos do predominante em um mesmo bioma, tenta-se mostrar que eles precisam ser tratados de maneira integrada. O que afeta um ecossistema provoca impactos em outros ecossistemas vizinhos, mesmo que o primeiro não seja a paisagem preponderante. De acordo com o IBGE (Figura 5.2 e Tabela 5.1), são seis os grandes biomas brasileiroscontinentais (Caatinga, Campos, Cerrado, Amazônia, Mata Atlântica e Pantanal) e um bioma aquático (Oceânico, Litorâneo e Lacustre). Observe ainda, os limites dos Biomas e os limites dos tipos Climáticos (Figura 5.3) Figura 5.2: Biomas Brasileiros. Fonte: IBGE, 2004 Figura 5.3: Climas do Brasil 64 :: GeoGrafia :: módulo 2 Figura 5.5: Biomas do Brasil e Unidades de Conservação O desmatamento no Brasil está reduzindo de modo significativo sua cober- tura vegetal original. Estima-se que, cerca de 20.000 km² de vegetação nativa é desmatada anualmente em consequência de derrubadas e incêndios para fins agrícolas, industriais ou urbanos que, no conjunto, transformam o ambiente com a construção de estradas, viadutos, túneis, hidrelétricas, minerações, impermea- bilização do solo e causam perda da biodiversidade, empobrecimento do solo, emissão de gás carbônico na atmosfera, erosões, alterações na dinâmica hídrica, alterações climáticas, dentre outros (Figura 5.6). Podemos mencionar alguns exemplos: - introdução de espécies exóticas e grandes plantações, como é o caso do eucalipto introduzido principalmente nos biomas de Cerrado, Pampa e Floresta, alterando a paisagem e a economia regional, além de causar impactos irreversí- veis no ambiente; - introdução da soja no Cerrado, Pantanal, causando impactos ambientais como o assoreamento do leito dos rios, a poluição de nascentes de rios das bacias Amazônica e do São Francisco por agrotóxicos, etc.; - atividades agropecuárias com impactos sociais graves (trabalhadores escravos). A preocupação em relação à extinção de espécies e à alteração de dinâmicas sistêmicas, tem levado ambientalistas e governos a desenvolver pesquisas com a finalidade de conhecer mais as mudanças provocadas por diferentes usos dos biomas e propor planejamentos adequados que possam colaborar na preservação em consonância com a produção de alimentos. Essa mesma preocupação tem levado à ações de Organizações Não Governamentais a se dedicarem a pesquisa, como é o caso do GREENPEACE. O bioma Áquático brasileiro constitui-se dos lagos, rios e mares, ou seja, por ambientes de água doce (lênticos e lóticos) ou ambientes de água salgada (plataforma continental, costões rochosos e mar aberto). Os lênticos são formados por lagos e lagoas, ambos de águas paradas e os lóticos, pelos cursos d’água (rios e correntezas) mais velozes, sendo que apresentam diferentes formas da nascente até a foz. Lembramos que, são muitos os cursos d’água, tais como: • cursos de pântanos (águas escuras que drenam terras úmidas e recebem principalmente águas de chuva); • cursos montanhosos (águas turbulentas que formam sedimentos finos); • rios que drenam áreas de solo argiloso (águas turvas e contribuem para a fertilidade do solo local); • rios de mananciais (recebem grandes quantidades de águas limpas que se infiltram na terra, podendo constituir cursos subterrâneos, águas claras); • rios de maré (correm para o mar e sofrem os efeitos das marés nas regiões mais baixas). Já no ambiente marinho, estão manguezais, restingas, dunas, praias, ilhas, costões rochosos, baías, falésias, recifes de corais instalados nas áreas de transição entre litoral, praia, plataforma continental e fundo oceânico. Apresentamos os principais tipos de biomas encontrados no Brasil de acordo com a classificação do IBGE. Seguem outros mapas (Figura 5.4) que vocês eventualmente encontrarão na literatura ou mesmo nas provas do ENEM, cujas divisões utilizam outros critérios. Figura 5.4: Biomas do Brasil (11 tipos) É com o agravamento dos problemas ambientais em nível global, como as queimadas de florestas, o aumento de gás carbônico na atmosfera e seu consequente efeito no aquecimento do Planeta, o crescimento do buraco de ozônio sobre o polo sul, o avanço das fronteiras agrícolas, em detrimento das áreas naturais dentre outros, tem aumentado muito o interesse dos pesquisadores e de toda a mídia em denunciar tais fatos e procurar alternativas, além da criação de Unidades de Conservação que protegem legalmente os biomas (Figura 5.5). O Brasil possui grandes áreas em estado crítico ou ameaçadas, resultante principalmente, pela fragmentação de habitats e perda de área florestada e diversidade biológica Capítulo 5 :: 65 dos homens habitantes. De forma que a palavra utilizada epidermicamente teve apenas um valor demagógico. No que tange aos sertões pseudamente receptores dos recursos hídricos a serem tirados do São Francisco, desde o início se falou em “águas para todos”, como se um projeto linear tivesse força para abranger areolarmente todos os sertões povoados de além- Araripe. Mais do que isso, procurou-se dizer que a transposição garantiria águas para beber. Sem lembrar que um certo volume de águas poluídas misturadas com águas salinizadas de alguns grandes açudes impediria o uso imediato das águas para fins potáveis. Propagou-se desde o início uma estatística aproximada dizendo que a retirada das águas do São Francisco seria de apenas 1% do volume total do rio. Um fato que, segundo os dizeres técnicos limitados, não iria prejudicar nem o rio, nem tampouco a população ribeirinha são-franciscana. Somente não se falou, nem se quis falar, que a maior necessidade de águas para além-Araripe coincidiria com a estação seca dos meados do ano em que o Rio São Francisco permanecia com menor volume de água. Convém lembrar sempre aos técnicos mal orientados sobre a hidro- climatologia regional dos sertões de aquém e além-Araripe que será mais necessário ter águas exatamente quando o Nordeste semi-árido designado por Grande Sertão Norte estiver mais quente e seco com seus rios “corta- dos”, para usar de uma palavra tradicional criada pelos sertanejos. Tanto o rebaixamento e corte das águas dos sertões além-Araripe quanto aqueles ocorrentes no médio-baixo Vale do São Francisco correspondem ao inverno astronômico; entretanto, devido a um conjunto de fatores hidroclimáticos complexos, nos sertões de além-Araripe ocorre uma secura prolongada que faz a intermitência sazonária dos rios e que, por uma razão pragmática compreensível, conduziu as populações regionais a falarem em verão. Fato que, aliás, não é único no mundo, já que existem outras áreas onde, no inverno astronômico, ocorrem condições quentes e secas que conduzem a uma inversão terminológica regional justificável. O primeiro ponto a destacar é que o Rio São Francisco cruza os sertões baianos, pernambucanos, pro parte alagoanos e sergipanos, com as águas de suas cabeceiras e uma parte das chuvas sazonárias importantes do domínio dos cerrados. Na realidade, o São Francisco possui quatro setores principais hidroclimáticos sub-regionais a serem considerados com atenção para qualquer tipo de projeto, como esse ora em discussão. Nas suas ca- beceiras, desde a Serra da Canastra até algumas centenas de quilômetros, existem condições tropicais úmidas de planalto com precipitações relativa- mente bem distribuídas, totalizando de 1.100 a 1.400 mm anuais. A seguir, por outras centenas de quilômetros ocorrem climas tropicais úmidos a duas estações (verão chuvoso e inverno seco), existindo, porém, um total de chuvas anuais que se acrescenta às águas provindas do alto vale. Em seguida, a partir da fronteira de Minas Gerais com a Bahia, ocorre uma dualidade hidrográfica na área em que o rio transpõe o semi-árido no espaço interior de Bahia, Pernambuco, Alagoas e adjacências. Em outras palavras, somente o São Francisco continua perene, porém com rebaixamento do volume da água corrente. A oeste da Bahia, os rios se comportam como se fossem tropicais úmidos a duas estações, conseguindo chegar até a margem esquerda do São Francisco em “pleno inverno”. No Figura 5.6: Biomas do Brasil e Áreas Desmatadas. Fonte: Atlas Geográfico Escolar. Ensino Fundamental - do 6o ao 9o ano. COMPLEMENTE SEUS CONHECIMENTOS TEXTO 1 A Transposição das Águas do Rio São Francisco - Análise Crítica O conhecimento sobrea dinâmica climática e hidrológica de um rio perene, que cruza caatingas em um certo trecho de seu longo vale, é essencial para qualquer tipo de planejamento. Nos estudos básicos para fundamentação de projetos para os sertões secos do Nordeste, há que considerar todas as territorialidades que estão ao norte do Araripe, dotadas de rios intermitentes, sazonários, exorréicos, assim como toda a área sertaneja localizada ao sul da chapada divisora. Além do mundo físico e ecológico, é absolutamente necessário realizar estudos básicos sobre a projeção da sociedade sertaneja sobre o espaço total da área reconhecida como Polígono das Secas, e identificar os problemas enfrentados pelas comunidades residentes de todos os sertões. No caso da transposição do Rio São Francisco para além-Araripe, torna-se imprescindível conhecer melhor a região semi-árida da qual se pretende tirar um certo volume de água fluvial. No caso do projeto governamental ora sob pressão para transpor águas do São Francisco, de início se fez um branco no tratamento da região semi-árida são-franciscana. Quando se percebeu a grandiosidade do erro em termos sociais e políticos, passou-se a falar, entre os maiores interessados na implantação do projeto, em uma revitalização prévia do Vale do Rio São Francisco. Como se essa tarefa fosse factível em face da ordem de grandeza espacial do vale e da complexidade socioeconômica 66 :: GeoGrafia :: módulo 2 entanto, numerosos pequenos afluentes da região semi-árida cruzada pelo Rio São Francisco, na Bahia, comportam-se segundo o modelo mais amplo dominante no semi-árido brasileiro, ou seja, como rios intermitentes, sazonários, exorréicos. As chuvas do semi-árido são-franciscano totalizam volumes de 500 a 600 mm anuais por oposição aos 1.500-1.800 mm predominantes no domínio dos cerrados. O quarto conjunto hidroclimático do Rio São Francisco corresponde à chamada Zona da Mata costeira, onde as precipitações, num espaço relativamente limitado (Sergipe, Alagoas), atingem um total de 1.200 a 2.100 mm, aproximadamente. Para ser mais detalhado, convém, entretanto, registrar as fortes transições progressivas existentes entre os climas tropicais úmidos das cabeceiras, os climas do médio vale mineiro do São Francisco, o clima da região semi-árida baiana e, por fim, os climas tropicais úmidos da região costeira. Com um detalhe a mais, em relação à transição rápida e complexa entre o clima dos sertões secos do São Francisco e as faixas úmidas da Zona da Mata. Há muito, o próprio povo identificou a longa e irregular faixa de transição entre o muito seco e o relativamente muito úmido sob o nome de área dos agrestes. De tal forma que essa expressão tem validade tanto hidroclimática e ecológica, assim como de suas ofertas para atividades agrárias, valendo como uma identificação científica intuitiva quase perfeita. De toda esta análise, fica bem patente que o semi-árido nordestino brasileiro possui o mesmo ritmo sazonário dos planaltos interiores dominados por cerrados, existindo, porém, uma diferença fantástica de volume de precipitações anuais entre os extensos cerrados e os grandes sertões. Nos planaltos interiores recobertos por cerrados e recortados por densas florestas de galerias, as precipitações anuais totais chegam a três ou quatro vezes mais do que os totais de chuvas tombadas na mesma época nos sertões quentes e secos, dotados de caatingas herbáceas, arbustivas, altos “pelados” e cactáceas em lajedos de solos líticos e inselbergs. Convém lembrar que a melhor maneira para delimitar o Polígono das Secas, em relação aos domínios morfoclimáticos e fitogeográficos do seu entorno, é o espaço até onde ocorrem as caatingas e áreas de rios e riozi- nhos intermitentes, sazonários: aí está a core-área do domínio dos sertões nordestinos. De tal maneira que fica fácil para os cientistas, os planeja- dores e os governantes saberem alguma coisa do espaço total regional, dominado por rusticidades e grandes problemas para o homem habitante. Um fato absolutamente deplorável no projeto de transposição de águas do São Francisco para o setor além-Araripe do Nordeste seco diz respeito à total ausência de estudos básicos sobre a dinâmica climática macrorregional. Não é possível afirmar, em termos genéricos, que o projeto prevê a retirada de apenas 1% do volume das águas do “Velho Chico” e que, por essa razão mesma, não haverá prejuízo para as funções permanentes do rio em relação às hidroelétricas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó. Em uma comparação muito próxima, já se sabe que o Nilo atravessa o deserto, enquanto o São Francisco cruza um bom trecho de caatinga em seu baixo-médio vale até a Bahia, Pernambuco e Alagoas. Na realidade, o São Francisco é dependente das áreas úmidas de seu alto vale acrescidas das águas de alguns de seus afluentes provindos de áreas relativamente chuvosas, ou de rios espaçados do domínio de cerrados. Trata-se, portanto, de um curso d’água perene de tipo marcadamente alóctone. O Jaguaribe, para onde se pretende transpor parte das suas águas, enquadra-se na categoria de rios intermitentes, sazonários e abertos para o mar (exorréicos). Fato que precisa ser repetido muitas vezes para os planejadores dotados de baixa interdisciplinaridade. Convém lembrar também, nesse sentido, que quase 100% dos rios brasileiros inter e subtropicais chegam ao mar pelos mais variados caminhos, enquadrando- se na categoria de drenagens abertas para o oceano (tecnicamente dito exorréicos). Não existem verdadeiras drenagens endorréicas e arréicas no território brasileiro. Trata-se de uma vantagem a nosso favor, relacionada ao fato de que todos os sais minerais retirados das rochas decompostas ou alteradas são dejetados para o oceano de tal modo que é uma idiotice total quando alguém comenta que os problemas do Nordeste seco estariam relacionados ao fato de que todas as suas águas escoariam para o mar. Mal sabem eles que a qualidade relativa dos solos de todos os sertões e, sobretudo, os do Ceará está relacionada com a dinâmica chamada exorreísmo. Sem conhecer esses fatos alguém já comentou para justificar a transposição das águas do São Francisco para além-Araripe que: “Já que as águas vão para o mar que mal existe com que elas sejam transpostas?”. Tais raciocínios são mais tristes quando se sabe que as grandes barragens do sertão provocam localmente salinização, sobretudo no caso de Orós. Por meio desses raciocínios singelos e inconseqüentes, não se pode avaliar que as águas doces poluídas do São Francisco, ao serem despejadas do outro lado do Araripe, irão se misturar com as águas semi-salinizadas de um grande açude (Orós), ou prejudicar as águas doces retidas abaixo dos sedimentos arenosos, dos leitos de rios dependentes, das águas de alta qualidade provenientes de chuvas dos sertões semi-áridos (“de inverno” no dizer do sertanejo). Deve-se lembrar que até hoje normalmente as águas poupadas entre soleiras rochosas que seccionam transversalmente os rios dos sertões nordestinos constituem o mais importante manancial para obtenção de água potável nas áreas cortadas por rios de leito arenoso. Bastaria lembrar o cenário das crianças sertanejas puxando jegues com pipotes para obter águas doces nas pequenas cavas feitas no leito superficialmente seco, mas dotado de águas subsuperficiais retidas, não-evaporadas, a um ou dois metros de profundidade. Ao se iniciar a idéia da transposição de águas do São Francisco para o Ceará e Rio Grande do Norte, ninguém se preocupou com os problemas da própria região de onde sairiam as águas. Era uma idéia fixa por transpor, apesar das observações corretas feitas pelo então bispo de Barra ao então candidato a presidente e alguns de seus companheiros. Caberia ao sucessor de dom Itamar Vian – Luiz Flávio Cappio – a tarefa histórica de um protesto contra o simplismo e a desatenção dos responsáveis pelo projeto em relação aos próprios problemas do setor semi-árido do São Francisco.Tinha muita razão dom Cappio ao fazer sua greve de fome em Cabrobó, em frente à represa de Sobradinho. O episódio balanceou os ânimos dos autoritários e incompetentes mentores do projeto. Dom Cappio foi induzido a acabar com seu histórico protesto de repercussão nacional. Capítulo 5 :: 67 sudoeste para nordeste, marcados por estreitas e alongadas florestas ciliares (florest galarie): um conjunto espacial sujeito à expansão da soja e à multiplicação do sistema de irrigação por pivôs. As precipitações nessa área atingem, em média, pouco mais do que 1.600 mm anuais, com uma grande predominância de chuvas de verão e inverno relativamente seco. Uma transição brusca nas condições climáticas acontece nos confins do São Francisco baiano, surgindo bruscamente diferentes fácies de caatingas, em terras baixas, encarceradas entre a Chapada Diamantina e os chapadões sedimentares cretácicos de oeste (areado). É, grosso modo, a partir da fronteira de Minas Gerais com a Bahia, que o São Francisco começa a cruzar o setor regional de caatingas. As precipitações baixam gradualmente de 1.100 mm para 600 ou 400 mm, prosseguindo em condições semi-áridas por todo o médio-baixo vale até o cotovelo do rio e os sertões de Alagoas e Sergipe; estendendo caatingas pelas próprias paredes do cânion de Xingó. Por longos espaços, o São Francisco comporta-se como o único curso d’água perene da região, em que, no seu conjunto, efetivamente predo- mina uma drenagem intermitente sazonária exorréica, que é incapaz de manter qualquer lençol d’água subsuperficial que garanta uma perenidade de todos os córregos, rios e riozinhos regionais; já que o aprofundamento do lençol força um sistema hidrológico em que o calor e a evaporação obri- gam os pequenos cursos de água a alimentarem o lençol abaixo de seus leitos temporariamente secos por cinco a sete meses do ano. Exatamente quando, em pleno inverno astronômico, o exagerado aquecimento produz uma condição chamada de “verão sertanejo”. Ultrapassados os “altos sertões” de Pernambuco e Alagoas e pro parte Sergipe, o São Francisco cruza faixas irregulares de agrestes. Essa banda leste do espaço principal dos sertões semi-áridos inclui o mais variado mosaico de ecossistemas nordestinos, envolvendo caatingas arbóreas, matinhas ralas e, por fim, na periferia interior da Zona da Mata costeira típica, uma alongada e sinuosa faixa de vegetação designada por “matas secas biodiversas”. No interior desse conjunto complexo do agreste, em áreas rebaixadas de solos razoáveis, acontece um protótipo regional de atividades agrárias que comporta cercas-vivas reticuladas; onde se separam terrenos para plantações e terrenos para criação de gado. Esse agroecossistema indica sempre condições climáticas, fitogeo- gráficas e ecológicas moderadas de grande tipicidade e importância social, recebendo de 750 a 950 mm em média de precipitação anual. Somente as chamadas matas secas se diferenciam dos agrestes, localizando-se sempre nos confins da mata atlântica sublitorânea, onde ocorrem estreitas faixas de florestas tropicais úmidas biodiversas em colinas e tabuleiros, com verdadeiras faixas de florestas tropicais biodiversas. Esta última é uma área que, ao longo de cinco séculos de ocupação agrária baseada sobretudo na plantação de cana de açúcar, na prática perdeu quase todos os seus ecossistemas naturais. Tão importante quanto entender o transecto geral dos espaços cli- mático-ecológicos do Vale do São Francisco, em um curso de mais de 2.100 quilômetros de extensão, é o entendimento de suas complexas áreas de transição e contacto, que muitas vezes apresentam mosaicos Seu principal argumento era que a faixa de utilização agrária, no setor sertanejo do São Francisco, era muito restrita. Nesse sentido, tinha bastante razão; mesmo porque, comparado com os sertões do Ceará, onde existia gente por toda a parte, as beiradas do “Velho Chico” eram mais rústicas e pobres do que as colinas sertanejas de além-Araripe. Esses argumentos tornam-se mais verdadeiros quando se considera a grande extensão de dunas da região de Xique-Xique, que elimina qualquer possibilidade de uso do espaço na margem esquerda do rio, frente à velha cidadezinha. A não-consideração da fantástica quantidade de areias do paleodeserto de Xique-Xique, além da limitação para usos tradicionais de sobrevivência da população regional, constitui uma área matriz de fornecimento detrítico para assoreamento do rio. Um atestado a mais do pouco conhecimento dos mentores do projeto, que teimam em dar propostas simplistas para o que chamam de revitalização do vale. Uma tarefa para a qual não estão preparados, pelo pouco conhecimento que possuem em relação a um rio que tem 2.000 quilômetros de extensão sul- norte, desde as suas cabeceiras tropicais úmidas de planalto, e pela região dos cerrados tropicais a duas estações, até chegar ao baixo-médio vale, onde atravessam caatingas na condição de curso d’água alóctone. Não considerando a grande extensão sul-norte do vale e seus diferentes setores climático-hidrológicos, assim como a diversidade de ocupação antrópica nos diferentes setores do vale, é totalmente impossível aplicar um termo tão genérico quanto “(re)vitalização”. Em função de seu longo traçado sul-norte no Brasil tropical centro- -oriental, o Rio São Francisco atravessa quatro setores de domínios da natureza do território brasileiro. Desde o altiplano cristalino da Serra da Canastra – a nordeste do Triângulo Mineiro – até o mar, na fronteira de Alagoas com Sergipe; devendo ser lembrado que o rio totaliza 2.170 quilômetros de extensão. Atravessando setores de quatro domínios morfo- climáticos e fitogeográficos intertropicais brasileiros – em um eixo maior nitidamente longitudinal –, o “Velho Chico” percorre espaços climático- -hidrológicos muito diferentes entre si: como já expusemos, nasce em um altiplano dotado de campestres e matinhas biodiversas de cimeira, passan- do logo a percorrer regiões tropicais úmidas de planalto, outrora recobertas por matas biodiversas de transição, hoje dominadas por atividades agrárias diversificadas. Recebendo precipitações anuais superiores a 1.100 mm em média, bem distribuídas, as terras regionais têm condições de possuir len- çóis d’água subsuperficiais suficientes para manter a perenidade de todo o Alto Vale do São Francisco. Após algumas centenas de quilômetros para o norte, ocorre uma rápida transição para a vegetação do cerrado, cerradões e campestres cruzados por florestas-galerias. Aos poucos, passam a dominar cerrados e cerradões degradados na depressão interplanáltica do médio vale são-franciscano, sob um clima tropical a duas estações. Florestas-galerias e eventuais veredas marcam a relativamente estreita planície do rio. A leste, a partir das montanhas do quadrilátero auro-ferrífero, estende-se a dorsal da Serra do Espinhaço, e os altiplanos da Chapada Diamantina, onde ocorrem campestres de cimeira e mini-relictos de cactáceas. A oeste, pronunciam-se os chapadões cretácicos do noroeste da Bahia, com sua rede de cursos afluentes, orientados de 68 :: GeoGrafia :: módulo 2 de ecossistemas diferenciados em sucessivas áreas, desde o extremo sul até a área em que o rio transpõe caatingas. Além da presença de minibio- mas relictuais; redutos de matas na cimeira de morros e maciços antigos; baixios de pé-de-serra; bizarros montes cársticos; vazantes ribeirinhas lo- dosas, envolvendo argilas e partículas de calcários; corpos de dunas de um paleodeserto arenoso (psamo-bioma); além de rios afluentes empestados por resíduos de defensivos agrícolas; e um afluente de exceção na margem direita do rio, proveniente de grandes cidades e áreas minero-siderúgicas. De tal forma que o alto e médio Vale do Rio das Velhas possui um comple- xo metabolismo urbano-industrial e forte poluição hídrica. No espaço total da bacia hidrográfica do Rio São Francisco existe, portanto, uma setorização climático-hidrológica regional que garantesua perenidade, possibilitando o cruzamento das caatingas e paleodesertos arenosos, ocorrentes no médio vale inferior da bacia hidrográfica regio- nal. É importante relembrar que a área dos cerrados do médio vale são- -franciscano tem a mesma sazonalidade que o Polígono das Secas; porém, totaliza de três a quatro vezes mais o volume de chuvas de inverno do que o total das precipitações do Nordeste seco. Esta última pode ser conside- rada a mais ampla, complexa e socialmente importante faixa de transição de todo o Nordeste, por toda a parte reconhecida pelo termo “agrestes” ou “terras agrestadas”. Na continuidade espacial para a zona litorânea e sublitorânea – zona da mata propriamente dita – os totais de precipita- ções anuais sujeitas a chuvas de verão e de inverno alcançam de 1.500 a 2.100 mm anuais, em média. O conhecimento de tais fatos, para qualquer tipo de planejamento, é indispensável, obrigando os órgãos de gerencia- mento regional a um aprofundamento do conhecimento e da obtenção de dados meteorológicos sobre os mais diversos espaços do sertão. Sendo absolutamente necessário incorporar sempre, às condicionantes do mundo físico e ecológico, o conhecimento socioambiental das comunidades serta- nejas residentes, semi-escravizadas pelas dificuldades quase incorrigíveis da radical estrutura agrária vigorante na região. Por fim, um fato básico, nem sempre levado em consideração por políticos e planejadores: é exa- tamente no inverno (astronômico), quando as águas do Rio São Francisco ficam mais baixas, que é necessário maior volume delas para manter as hidrelétricas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó. No mesmo período em que seria necessário transpor mais águas para além-Araripe, onde todos os rios sertanejos perdem correnteza por longos meses. Para justificar o projeto de transposição de águas perante a opinião pública nacional, falou-se em “águas para todos” – todos os nordestinos, evidentemente – e, a partir daí, passou-se a falar que seriam beneficiados milhões de sertanejos. E nunca se mencionou para que classes sociais a transposição iria interessar. Os proprietários de terras absenteístas ficaram radiantes porque, antes que as obras começassem, houve valorização des- sas terras. Os vazenteiros, que cultivavam o leito e faziam culturas de ciclo curto no leito exposto do rio por cinco a seis meses, ficaram apavorados porque iriam perder o único espaço possível de utilização pelos sertanejos roceiros sem-terras. Os mentores do projeto nem mesmo previram um sentido de prioridade para que os vazenteiros tivessem a possibilidade de se integrar a possíveis projetos de irrigação nas colinas das margens do vale. A maneira pela qual os técnicos e funcionários das instituições gerenciadoras dos projetos de irrigação vêm tratando os pobres sertanejos que se associaram aos projetos é mais do que injusta e incompreensível. Pior do que isso é a desatenção que os técnicos têm tido para com os que procuram a direção dos açudes por ocasião das grandes secas. O autoritarismo e a ausência de sensibilidade social e humana dos gestores têm sido abomináveis e discriminatórios. Além de uma total falta de criatividade e espírito de inovações técnicas, socioeconômicas e socioculturais em relação aos brios culturais da gente sertaneja. Se tal situação continuar prevalecendo, não será possível acreditar minimamente nos efeitos sociais e psicossociais da propalada transposição. Tinha, portanto, mais do que razão dom Luiz Flávio Cappio em protes- tar contra o ligeirismo e a deficiência dos conhecimentos dos fatos antrópi- cos nos projetos elaborados às pressas de transposição das águas do São Francisco para o Ceará, Rio Grande do Norte, e os cariris novos, cabeceiras do Rio Paraíba do Norte. Convém lembrar que, em um projeto democrático, inteligente e bem elaborado, nunca se poderá dizer autoritariamente que “se trata de um projeto político do presidente”, mesmo porque todo pro- jeto exclusivamente político é, por princípio, uma auto-afirmação sobre o seu caráter demagógico e eleitoreiro. Ao invés desse enunciado preferimos que se diga que se trata de um projeto de governo metodicamente bem elaborado, e de aplicabilidade macrorregional, interdisciplinar, de grande interesse social. Ninguém seria contra a transposição de águas do São Francisco se houvesse projetos paralelos simples e bem distribuídos por todos os sertões a fim de fazer ascender socioeconômica e sociocultural- mente os mais pobres e desventurados habitantes do interior brasileiro. No Nordeste seco existe gente por toda a parte: um fato que transformou a nossa região sertaneja sofrida na região semi-árida mais povoada do mundo e de mais difícil atendimento social efetivo a sua brava gente (Jean Dresch). Tudo levando a crer que um projeto certamente eleitoreiro e desenvolvimentista somente vai atender a fazendeiros absenteístas da beira alta de alguns vales e a empreiteiras desesperadas por um novo ciclo de lucratividades. As considerações aqui feitas são uma homenagem a Luiz Flávio Cappio e ao seu antecessor Itamar Vian, grandes conhecedores das realidades físicas, sociais e econômicas do Vale do São Francisco. Fonte: REVISTA USP, São Paulo, nº 70, p. 6-13, junho/agosto 2006; http://www.usp.br/ revistausp/70/01-aziz.pdf, acesso em 22/10/2014 TEXTO 2 O QUE PRECISA SER FEITO Pelo Governo Brasileiro • Adotar medidas urgentes para zerar o desmatamento na Amazônia Brasileira até 2015. Isso inclui a adição imediata de uma moratória de cinco anos para o desmatamento, dando tempo para o país desenvolver os Capítulo 5 :: 69 instrumentos necessários para atingir o desmatamento zero; • Apoiar um forte protocolo de Clima a ser firmado em Copenhagem em 2009, que inclua um fundo internacional para reduzir emissões por desmatamento e degradação (conhecido como REDD). Para que este mecanismo financeiro tenha credibilidade para proteger as florestas, ele deve obedecer aos seguintes princípios: – prover imediatamente fundos anuais suficientes para reduzir o desmatamento em florestas tropicais; – ser acessível a todos os países com florestas tropicais, mesmo aqueles com baixas taxas de desmatamento; – proteger a biodiversidade e o modo de vida dos povos indígenas; – ser protegido contra manobras contábeis nacionais e abordagens de redução de desmatamento; – não incluir diretamente a comercialização de títulos de carbono; – não encorajar a substituição de florestas naturais por plantadas e não subsidiar a expansão da indústria madeireira, do agronegócio e outras práticas destrutivas em áreas de floresta; • Não permitir alterações no Código Florestal brasileiro que possibilitem ampliar o desmatamento legalizado; • Redirecionar os investimentos hoje destinados a atividades destrutivas para iniciativas sustentáveis, incluindo uso responsável de produtos florestais por populações tradicionais; • Ampliar os recursos materiais e humanos destinados a monitorar e controlar os crimes ambientais, para garantir o cumprimento da lei e a presença do Estado na Amazônia. pela indústria • Apoiar publicamente o Desmatamento Zero na Amazônia; • Interromper a produção e o comércio de produtos relacionados com novos desmatamentos e comunicar aos seus fornecedores que não comprarão mais de fazendas ou empresas responsáveis por novos desmatamentos; • Divulgar amplamente a origem de seus produtos, como carne ou couro, aos consumidores; • Reduzir suas próprias emissões de gases do efeito estufa, em acordo com os cortes globais de emissões necessários; • Exigir publicamente dos governos um forte protocolo do Clima a ser firmado em Copenhagen em 2009, que inclua um fundo internacional para proteger as florestas e reduzir emissões por desmatamento e degradação. Este fundo deve financiar os serviços ambientais prestados pelas florestas em terras públicas e privadas. Pelos Bancos e Investidores • Interromper o financiamento de empresas envolvidas em desmatamento no bioma Amazônia.Pelos Cidadãos • Unir-se ao Greenpeace na campanha pelo Desmatamento Zero na Ama- zônia até 2015, participando de petições ao governo brasileiro, governos de outros países e à comunidade internacional, para acabar com o desmatamento; • Exigir, junto com o Greenpeace, que governos e empresas adotem medidas reais para interromper o desmatamento e salvar o clima do planeta. Em particular, pressionar governos por um forte acordo para a redução de emissões em Copenhagen em 2009; • Adotar um estilo de vida visando a reduzir suas próprias emissões de carbono. Isto pode incluir a redução na quantidade de carne consumida ou exigir que comerciantes apresentem a origem dos produtos que vendem. Fonte: GREENPEACE, O Rastro da Pecuária na Amazônia, Manaus, AM, 2008; http://www. greenpeace.org.br/amazonia/pdf/atlasweb.pdf, acesso em 22/10/2014 OS DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS DO BRASIL O geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, propôs ainda na década de 1960 uma classificação de ambientes que denominou de Domínios Morfoclimáticos. Nestes, as formas do relevo e os tipos climáticos caracterizam cada domínio (limite, zona) e também faixas de transição entre eles (Figura 5.7), levando em consideração também os aspectos de vegetação, solo, e hidrografia. Apresentam localização, área, povoamento, condições bio-hidro-climáticas, preservação ambiental e economia local bem distintas. São 6 áreas nucleares e 3 áreas de transição, a saber: • Domínio Amazônico: região norte do Brasil (60% território), bacia amazônica, terras baixas e grande processo de sedimentação; clima e floresta equatorial; baixa densidade demográfica; devastação da floresta é antiga (borracha, minérios, madeira) compromete os ecossistemas; • Domínio dos Cerrados: região central do Brasil, vegetação tipo cerrado, formações de chapadões e chapadas; devastado primeiramente na construção de Brasília, projetos agropecuários; processos erosivos; • Domínio dos Mares de Morros: região leste (litoral brasileiro), onde se encontra a floresta Atlântica e clima diversificado; morros de formas residuais; devastado desde os primórdios; • Domínio das Caatingas: região nordestina do Brasil (polígono das secas), formações cristalinas, área depressiva intermontanas e clima semiárido; devastado desde os primórdios da colonização; • Domínio das Araucárias: região sul brasileira, habitat da araucária (pinheiro brasileiro), região de planalto e clima subtropical; devastação mais recente, século XIX; • Domínio das Pradarias: região do sudeste gaúcho, local de coxilhas subtropicais; latifúndios agropastoris; • Faixas de Transição Nordestinas: zona dos cocais (importante fonte de renda à população nordestina) e o meio-norte que se estabelece entre a caatinga do sertão e a Amazônia (carnaúba e babaçu); • Faixa de Transição da Região Sul Brasileira: transição entre Araucária e Pradarias; • Faixa de Transição Pantanal: reservatório de água, exploração mineral, monoculturas. 70 :: GeoGrafia :: módulo 2 Figura 5.8: Mapa das Unidades de Relevo do Brasil (Jurandyr Ross, 1998) Fonte: Geografia do Brasil, Jurandyr L. S. Ross. Vejam as principais características desses tipos de relevo: Planaltos 1. Planalto da Amazônia Oriental: planalto sedimentar que se estende de Ma- naus até o oceano Atlântico, constituindo-se nos limites norte e sul da bacia Amazô- nica. Em seu limite norte, o relevo é escarpado e definido por uma frente de cuesta, com altitude média de 400 metros, recoberto por mata densa (seringueira e cacauei- ro). Seus topos são arredondados, e alguns são morros residuais de topo plano. 2. Planaltos e Chapadas da Bacia do Parnaíba: são formados por terrenos de bacia sedimentar e ocupam vasto território que se estende do Maranhão à Brasília, onde as formas de chapadas são predominantes. 3. Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná: são terrenos sedimentares com formação arenítico-basálticas que se estendem de Goiás até o Rio Grande do Sul, cujas altitudes atingem cerca de 1.000 m. 4. Planaltos Residuais Norte Amazônicos: estendem-se do Amapá até o norte do estado do Amazonas, com altitudes que variam de 600 a l.000 metros, chegando a atingir 3.000 metros nas partes mais elevadas. Compostos por rochas cristalinas e de formas serranas residuais e descontínuas (Tapirapecó, Imeri, Parima, Acaraí, Tumucumaque e do Navio), são ricos em manganês. É nessa unidade de relevo que encontram-se os picos mais elevados do Brasil: o pico da Neblina, com 3 014 metros, e o pico 31 de Março, com 2 992 metros, ambos situados no estado do Amazonas. 5. Planaltos Residuais Sul Amazônicos: são planaltos cristalinos que se estendem desde o sul do Pará até Rondônia, cujo aspecto é de uma vasta área plana com morros de topos arredondados, distribuídos de modo descontínuo. Ao lado desses morros encontram-se áreas de coberturas sedimentares antigas, que apresentam topo plano e correspondem às chapadas, como a do Cachimbo. Nessa formação, localiza-se a serra dos Carajás, onde há grande ocorrência de minerais, como ferro, manganês, cobre e ouro. 6. Planalto e Chapada do Parecis: são planaltos que se estendem no sentido leste-oeste, indo de Mato Grosso até Rondônia, formados por terrenos sedimentares, com altitudes entorno de 800 m. O relevo de chapadas de topo plano servem como divisores de águas das bacias do Amazonas - Paraguai. 7. Planalto de Borborema: são terrenos de formação pré-cambriana Figura 5.7: Mapa dos Domínios Morfoclimáticos e Faixas de transição (Ab Saber, 1970) Já o geógrafo Jurandyr Ross, na década de 1990, redefiniu e atualizou os domínios morfoclimáticos, propondo uma classificação a partir do levantamento realizado pelo projeto RADAMBRASIL e dos avanços em estudos geomorfológicos (processos de erosão, transporte e sedimentação; cotas altimétricas e estruturas geológicas). Identificou portanto, 3 tipos de relevo: os planaltos (porções residuais salientes do relevo, que oferecem mais resistência ao processo erosivo); as planícies (superfícies essencialmente planas, nas quais o processo de sedimentação supera o de erosão) e; as depressões (áreas rebaixadas por erosão que circundam as bordas das bacias sedimentares, interpondo-se entre estas e os maciços cristalinos). Para explicar essa nova divisão do relevo brasileiro, baseou-se contudo, em três importantes fatores geomorfológicos: morfoestrutural (leva em consideração a estrutura geológica), morfoclimático (onde considera o clima e o relevo) e, morfo escultural (que considera a ação dos agentes externos). Na verdade, cada um desses fatores utilizados criou um grupo diferente de formas de relevo ou, níveis diferentes denominados taxons. O primeiro taxon – morfoestrutural, considera a forma de destaque na paisagem, sejam os planaltos, as planícies ou as depressões; o segundo taxon - morfoclimático considera a estrutura geológica em que os planaltos foram modelados (bacias sedimentares, núcleos cristalinos arqueados, cinturões orogênicos, coberturas sedimentares sobre o cristalino) e; o terceiro taxon - morfo escultural, considera a modelagem do relevo ou nas unidades morfo esculturais (formadas por planaltos, planícies ou depressões), somando no total, 11 planaltos, 6 planícies e 11 depressões conforme mostra a Figura 5.8: Capítulo 5 :: 71 localizados no leste de Pernambuco, com grande núcleo cristalino isolado e altitudes que atingem cerca de 1.000m. 8. Planalto Sul Rio-grandense: localizado no sul do Rio Grande do Sul com altitudes que não ultrapassam os 450 m. 9. Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste: formação pré-cambriana, ocu- pam terrenos cristalinos (em sua maior parte) e se estendem de Santa Catarina até a Bahia. Caracterizados por serras de altitudes elevadas (mais de 2.000m), como é o caso da Serra da Mantiqueira com 2.890m. Nestes planaltos estão as serras do Mar e do Espinhaço, além de fossas tectônicas como o vale do Paraíba do Sul (Fi- gura 5.8). No reverso das serras, há o domínio de superfíciesbastante acidentadas caracterizadas por morros baixos e convexos, denominadas como mares de morros. Figura 5.9: Esquema simples da Fossa tectônica do Vale do Paraíba 10. Planaltos e Serras de Goiás - Minas:são terrenos predominantemente cristalinos, de formação antiga, que se estendem de Brasília até o sul de Minas Gerais, cujas altitudes atingem cerca de 1.960m. Destacam-se as serras da Canastra e Dourada e as chapadas próximas do Distrito Federal e a dos Veadeiros. 11. Serras Residuais do Alto Paraguai: são terrenos predominados por rochas cristalinas e rochas sedimentares antigas, e compõem o cinturão orogênico Paraguai - Araguaia. Concentrados ao sul e ao norte do Pantanal Mato-Grossense, onde a porção Meridional corresponde à Serra da Bodoquena, e a porção setentrional corresponde à Província Serrana. Planícies 1. Planície do Rio Amazonas: faixa que acompanha as margens do rio Amazonas e de alguns afluentes, delimitada por terrenos do Planalto da Amazônia Oriental, a leste, e da depressão da Amazônia Ocidental, a oeste; sua área mais ampla situa-se na ilha de Marajó. Coberta por uma mata densa e por áreas alagadas, onde nos trechos inundados, desenvolve-se a mata de igapó. 2. Planície do Rio Araguaia: estende-se pelas regiões Norte e Centro-Oeste, planas, com altitudes de até 200 metros, constituída por sedimentos recentes e vegetação de cerrados abertos e campos limpos. 3. Planície e Pantanal do Rio Guaporé: ocupa trechos do estado de Rondônia e da Região Centro-Oeste, com forma de relevo plana e pantanosa e altitude média de 200 metros. 4. Planícies e Tabuleiros Litorâneos: ocorrem no litoral do Pará e do Amapá, formados por sedimentos recentes de origem marinha, sendo que, nas proximidades da ilha de Marajó, misturam-se aos sedimentos carregados pelo rio Amazonas. 5. Planície e Pantanal do Rio Paraguai ou Mato-Grossense: ocupa a parte mais ocidental do Brasil Central, estendendo-se também pela Bolívia e Paraguai. Altitudes entorno dos 100 metros e caracterizam-se pela deposição sedimentar recente, no verão/outono o rio causa inundações e esse alagamento origina as “bacias” conhecidas como Baías do Pantanal Mato-Grossense. 6. Planícies das Lagoas dos Patos e Mirim: estendem-se pelo litoral gaúcho até o Uruguai, formadas por sedimentos depositados pelas correntes marinhas. Depressões 1. Depressão da Amazônia Ocidental: faz limite com as depressões Norte Amazônica e Sul Amazônica, cortada pela Planície do Rio Amazonas. Os terrenos baixos apresentam altitudes inferiores a 200 metros, cujos topos planos são sustentados principalmente por rochas sedimentares. 2. Depressão Marginal Norte Amazônica: situada entre os Planaltos Residuais Norte Amazônicos ao norte, e a Depressão da Amazônia Ocidental e o Planalto da Amazônia Oriental, ao sul. Altitude oscila entre 200 e 300 metros; no limite norte, apresenta escarpas e, ao sul, frentes de cuesta. 3. Depressão do Araguaia-Tocantins: situa-se na região central do Brasil, acompanhando o rio Araguaia, com formas de relevo quase planas e de baixas altitudes que não passam de 350 m. 4. Depressão do Tocantins: terrenos de formação cristalina pré-cambriana que acompanham o rio Tocantins e altitudes de até 400 metros. 5. Depressão Cuiabana: ocupa terrenos localizados na parte central do Brasil, caracterizados pela presença de terrenos sedimentares e de altitudes moderadas que oscilam entre 150 à 400 m. 6. Depressão do Alto Paraguai-Guaporé: localizada no extremo norte da Planí- cie do Pantanal e a Chapada dos Parecis, no Mato Grosso, caracteriza-se pelo pre- domínio de rochas sedimentares e com altitudes que variam entre 150 à 200 m. 7. Depressão do Miranda: situada no Mato Grosso do Sul, nas proximidades do Pantanal com predomínio de rochas cristalinas pré-cambrianas e é cortada pelo rio Miranda com altitudes que não passam de 150 m. 8. Depressão Sertaneja e do São Francisco: considerada uma das mais lon- gas depressões, estendendo-se do litoral do Nordeste setentrional até o interior de Minas Gerais, acompanhando quase todo rio São Francisco. Apresentam formas e estruturas geológicas variadas, com predomínio de terrenos sedimentares e crista- linos, como por exemplo a Chapada de Diamantina (norte da Serra do Espinhaço) ou Chapada das Mangabeiras. 9. Depressão Periférica da Borda Leste da Bacia do Paraná: ampla faixa de terra que se estende de São Paulo até o limite do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Com formas enrugadas, altitudes que variam entre 600 e 900 m. Em São Paulo é conhecida como Depressão Periférica Paulista e no Paraná como Segundo Planalto. 10. Depressão Periférica Sul Rio-Grandense: localizada nas terras sedimenta- res drenadas pelas águas dos rios Jacuí e Ibicuí, no Rio Grande do Sul e com baixas altitudes (em média 200 m). 72 :: GeoGrafia :: módulo 2 Atividade Acesse o site: <http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/geografia/relevo/unidades-do-relevo.html#ixzz3IDL2ecgU> Qual a diferença entre Biomas, Domínios Morfoclimáticos e os Domínios morfoestruturais? O que mudou? Observe bem as Figuras 5.7 e 5.8 que mostram os mapas dos professores Aziz Ab’Saber e Ross. E as Figuras 5.2 e 5.3 que mostram os mapas dos Tipos de Biomas e de Climas. Após uma rápida comparação entre as classificações, complete o quadro: Biomas - IBGE Domínios - Ab'Saber Domínios - Jurandyr Ross (vegetação + clima) (relevo + clima + processos) (relevo+ clima + processos + geologia) Tropical, Equatorial, Semiárido, Subtropical, Tropical Litorâneo, Tropical de Altitude Planalto: região alta, sofre processo de erosão Planalto: região alta, sofre processo de erosão Planície: região baixa, sofre processo de sedimentação Planície: região baixa, sofre processo de sedimentação Áreas de Transição Depressão: região intermediária entre Planalto e Planície O que muda: 6 Biomas Continentais e 1 Bioma Aquático 6 Domínios e 3 Áreas de Transição 11 Planaltos, 11 depressões e 6 Planícies 1. Bioma Cerrado 1. Domínio do Cerrado Planalto Central foi dividido em 12 partes: 5 planaltos, 2 planícies, 5 depressões 2. Bioma Amazônia – clima equatorial 2. Domínio Amazônico Planalto, Planície, Depressão 3. Bioma 3. Domínio de Mares de Morros 4. Bioma 4. Domínio das Caatingas Depressão Sertaneja e do São Francisco 5. Bioma 5. Domínio das Araucárias 5. Bioma 6. Domínio das Pradarias 7. Áreas de Transição EXERCÍCIOS (Adaptado, UERJ/UDESC/ UFRGS - Vestibular 2013) 1) Na linha de costa brasileira, uma vegetação de mata em solo lamacento desenvolve-se no encontro das águas do mar com as águas fluviais e apresenta-se como berçário para inúmeras espécies de peixes, crustáceos, mamíferos, aves e insetos. Marque a opção que corresponde ao bioma descrito: (A) Cerrado (B) Mangue (C) Caatinga (D) Pantanal (D) Mata de Cocais 2) “... Essa formação é característica das áreas onde o clima apresenta duas estações bem marcadas: uma seca e outra chuvosa, como no Planalto Central. Dois estratos a identificam: um arbóreo - arbustivo, onde as espécies tortuosas têm os caules geralmente revestidos de casca espessa, e outro herbáceo, geralmente dispostos em tufos”. Marque a opção que corresponde ao bioma descrito: (A) Cerrado (B) Caatinga (C) Floresta tropical (D) Mata semiúmida (E) Formação do Pantanal 3) Em razão de sua grande extensão territorial, o Brasil possui diversos tipos de ve- getação, apresentando um complexo mostruário das principais paisagens e ecologias do planeta. Faça a correspondência correta entre os biomas e as regiões brasileiras. (1) Região Norte ( ) Pampa (2) Região Centro ( ) Cerrado (3) Região Sudeste ( ) Pantanal (4) Região Nordeste ( ) Caatinga (5) Estado do Mato Grosso do Sul ( ) Mata Atlântica (6) Estado do Rio Grande do Sul ( ) Floresta Amazônica 4) Na Região Centro-Oeste, encontra-se um bioma que é caracterizado pela presença de pequenos arbustos e árvores retorcidas, com cascas grossas e folhas recobertas de pelos. O solo apresenta deficiênciaem nutrientes e alta concentração de alumínio. Marque a alternativa que corresponde ao bioma que apresenta as características descritas: (A) Mangue (B) Caatinga (C) Campos (D) Cerrado (E) Mata de araucária 5) Sobre os Biomas existentes no Brasil, assinale a(s) proposição(ões) correta(s). (A) A Caatinga é caracterizada por ser uma floresta úmida da região litorânea do Brasil, hoje muito devastada. (B) O Mangue ocorre desde o Amapá até Santa Catarina e desenvolve-se em estuários, sendo utilizados por vários animais marinhos para reprodução. (C) O Pampa ocorre na Região Centro-Oeste onde o clima é quente e seco. A flora e a fauna dessa região são extremamente diversificadas. Capítulo 5 :: 73 essa energia seria devolvida para a atmosfera em forma de calor, o que elevaria as temperaturas médias. III. O aumento do processo erosivo leva a um empobrecimento dos solos, como resultado da retirada de sua camada superficial. Isso, muitas vezes, acaba invia- bilizando a agricultura. Das afirmativas acima, (A) apenas I está correta. (B) apenas II está correta. (C) apenas III está correta. (D) apenas I e II estão corretas. (E) I, II e III estão corretas. 8) De acordo com Jurandyr Ross (1998), no território brasileiro, as estruturas e as formações litológicas são antigas, mas as formas de relevo são recentes, pois foram produzidas: (A) pelo vento, que exerce importante papel de desgaste e transporte de partículas. (B) pelos desgastes erosivos que ocorreram e continuam ocorrendo. (C) pelos processos mais recentes associados aos falhamentos. (D) pelo desgaste erosivo de climas anteriores. (E) pelo vento e desgaste erosivo de climas atuais. 9) Sobre o domínio amazônico, assinale a alternativa falsa: (A) Compõe-se em sua maior parte por baixos planaltos e planícies. (B) A hidrografia é riquíssima, com furos, igarapés, paranás-mirins e lagos da várzea. (C) Devido a riqueza mineral orgânica das águas dos rios é grande a piscosidade. (D) Devido à exportação de peixes a matança tem-se descontrolado, colocando em risco várias espécies. (E) O solo amazônico tem-se mostrado fertilíssimo, prestando-se a grande mono- cultura exportadora. Gabarito 1) B 2) A 3) 5; 6; 2; 4; 3; 1 4) D 5) B 6) C 7) E 8) 9) A (D) A Floresta Amazônica está localizada nos estados do Maranhão e do Piauí e as árvores típicas dessa formação são as palmeiras e os pinheiros. (E) O Cerrado é uma formação fitogeográfica caracterizada por uma floresta tropical que cobre cerca de 40% do território brasileiro, ocorrendo na Região Norte. (F) A Mata Atlântica é uma formação que se estende de São Paulo ao Sul do país, onde predominam árvores como o babaçu e a carnaúba, e está muito bem preservada. (G) O Pantanal ocorre nos estados do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso, carac- terizando-se como uma região plana que é alagada nos meses de cheias dos rios. 6) Numere as colunas relacionando a vegetação à sua característica: (1) Floresta de Coníferas (2) Vegetação Mediterrânea (3) Tundra (4) Pradaria (5) Savana (6) Estepe ( ) Vegetação rasteira de ciclo vegetativo curto. Exemplo: musgos e líquens. ( ) Vegetação herbácea, esparsa e ressecada. Surge em climas semiáridos, na faixa de transição de climas úmidos para desertos. ( ) Formação florestal típica da zona temperada. É conhecida como Taiga e predominam os pinheiros. ( ) Vegetação esparsa que possui três estratos. Um arbóreo, um arbustivo e um herbáceo. Predomina em regiões de clima mediterrâneo. ( ) Formação herbácea, composta por capim, que aparece em regiões de clima temperado continental. Vegetação complexa que surge por influência do clima tropical, alternadamente úmido e seco. Ocorre na África e abriga animais de grande porte como leões, elefantes e girafas. Assinale a alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo. (A) 2 – 1 – 6 – 4 – 5 – 3 (B) 1 – 2 – 3 – 6 – 5 – 4 (C) 3 – 6 – 1 – 2 – 4 – 5 (D) 6 – 5 – 4 – 3 – 2 – 1 (E) 4 – 3 – 2 – 5 – 1 – 6 7) A Amazônia ocupa uma área de mais de 6,5 milhões de km² na parte norte da América do Sul e abrange nove países: Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Devido aos elevados índices de desmatamento, uma pesquisa da revista Science alerta que, até 2050, poderá ocorrer a extinção de cerca de 80% das espécies de vertebrados, em áreas que sofreram desmatamento. FARIA, C. Desmatamento da Amazônia. Disponível em: WEARN, O. R.; REUMAN, D. C.; EVERS, R. M. Extinction Debt and Windows of Conservation Opportunity in the Brazilian Amazon. Science, v. 337, n. 6091, p. 228-232, 13 July 2012. Acesso em: 22 out. 2012 Analise as afirmativas abaixo, relacionadas ao processo de desmatamento. I. A menor evapotranspiração diminui os índices pluviométricos. Estima-se que metade das chuvas que ocorrem nas florestas tropicais são resultantes da evapo- transpiração, ou seja, da troca de água da floresta com a atmosfera. II. Boa parte da energia solar é absorvida pelas florestas para os processos de fotossíntese e evapotranspiração. Sem a floresta, com o solo exposto, quase toda 74 :: GeoGrafia :: módulo 2 :: Objetivos :: • Mostrar os problemas ambientais decorrentes das atividades humanas e os aspectos políticos da questão ambiental. 6 As questões ambientais Mesmo nas regiões mais antropizadas da superfície terrestre as paisagens culturais ainda apresentam elementos naturais. São os morros, os rios, as árvores, que se destacam entre construções, pontes, estradas, torres de comunicação. No espaço rural, as atividades econômicas predominantes são aquelas que fornecem os recursos primários, ordenam e configuram espacialmente os elementos culturais e naturais neste espaço. Veja a figura 6.1: Figura 6.1: Paisagem rural. Cultivos em Paty do Alferes (RJ). Foto do acervo NEQUAT/UFRJ, 2000. Nos centros urbanos, as atividades econômicas predominantes decorrem do desenvolvimento das atividades do comércio, serviços e indústria. A ocupação de um território por um grupo social é orientada por um conjunto de regras que se traduzem na forma de códigos, posturas, normas, leis (uso dos solos, ambientais, religiosas), que possibilitam a vida em sociedade. Figura 6.2: Paisagem urbana. Porto Madeira (Buenos Aires) – Concentração de Atividades. Foto Acervo Sonia Gama, 2010. As Dinâmicas da Natureza e da Sociedade A dinâmica da Natureza revela-se por meio de mudanças de tipos de tempo atmosférico ocasionadas pela passagem das estações do ano, que interferem sazonalmente nas características da vegetação, no comportamento dos animais silvestres e no regime dos rios. Também a ação continuada das chuvas, dos ventos, dos vulcões e dos terremotos colabora para a transformação do modelado terrestre, como os movimentos de marés e de correntes marítimas, que esculpem os litorais de todo o planeta. A dinâmica da sociedade revela-se na ocupação de novas áreas e no ritmo As Paisagens do Espaço Geográfico Muitas mudanças aconteceram nas paisagens terrestres ao longo dos tempos geológico e histórico, e estas transformações não ocorreram todas de uma vez. Tanto os elementos da natureza como os construídos pela sociedade foram gradativamente alterados ou substituídos por outros. Na compreensão das transformações do espaço geográfico, é importante investigar de que forma os homens estão organizados em sociedade e atuam sobre a configuração territorial modelando as paisagens. As características atuais do espaço geográfico mundial podem ser atribuídas a um longo e contínuo processo de transformações sociais e técnicas, desencadeado pelos seres humanos. Os elementos da natureza são aqueles que se originaram de processos e fenômenos da natureza, tais como vegetação, relevo, solo, cursos d’água, clima, seres vivos. Já os elementos construídos pela sociedade são aqueles criados pelo homem, que se utiliza de instrumentos e técnicas diferentes, tais como edificações, lavouras, pontes, hidrelétricas, aterros. Destes decorrem as paisagens naturais eas paisagens culturais, ou humanizadas, resultando nas paisagens terrestres, denominadas de espaço geográfico. Há alguns milhares de anos, povos de origens distintas passaram a procurar e a ocupar áreas da superfície terrestre onde a natureza oferecesse recursos que lhes permitissem sobreviver, aliados ao desenvolvimento e ao uso de técnicas e instrumentos diferenciados. Somente no século XVIII esta realidade começou a mudar com o advento da sociedade industrial (originário da Europa), que passou a empregar novos recursos tecnológicos, mudando os modos de produção de bens e fabricando-os de forma padronizada e em larga escala. O crescimento e a expansão da indústria por várias partes do mundo ocasionaram intensas transformações na Natureza, pois a atividade industrial necessita de grande quantidade de recursos para a sua sustentação. Reduziram- se, pois, as paisagens naturais, e multiplicaram os elementos criados pelo homem, resultando em áreas agrícolas e extrativas minerais; regiões urbanas e regiões industriais; estradas e redes de comunicação. Os remanescentes das paisagens naturais estão distribuídos pelo mundo. São os biomas: florestas tropicais, savanas, desertos, florestas boreais, pradarias temperadas e tundras. A ONG Conservation International realizou em 2003 mapeamento por todos os continentes e identificou as últimas 37 Grandes Regiões Naturais da Terra (aquelas com mais de 10.000 km2 de extensão; 70% de sua vegetação original intactos e menos de 5 pessoas por km2). Atualmente, existem, na superfície terrestre, grandes extensões de paisagens culturais, resultantes do contínuo processo de transformação do espaço geográfico. O espaço geográfico é também o alvo de disputas e de interesses político- econômicos por parte de nações ou empresas. 76 :: GeoGrafia :: módulo 2 Figura 6.3: Esquema representativo de uma indústria – marco da apropriação e transformação dos recursos naturais. Ilustração: Sami Sousa A utilização econômica dos recursos O uso intensivo de determinados elementos da Natureza marca a civilização urbano-industrial da atualidade e está diretamente ligado ao processo de degradação ambiental, que se caracteriza por uma crise ecológica de escala global. Os recursos naturais são divididos em recursos renováveis e recursos não renováveis. Recursos Renováveis • podem ser repostos ou reproduzidos pela natureza ou pelo trabalho humano; • alguns recursos minerais (água e solo); • os recursos biológicos (florestas, pastos, vegetais cultivados, biodiversidade animal e vegetal); • os recursos marinhos. Recursos Não Renováveis • não podem ser repostos; • os combustíveis fósseis (carvão mineral e petróleo); • a maior parte dos recursos minerais (não reproduzidos em escala de tempo compatível com a dos homens); • estoque finito. Ambos merecem algumas considerações. Os recursos renováveis não são necessariamente infinitos ou inesgotáveis. Por exemplo, a água — há, pelo menos, 500 milhões de anos, a quantidade de água no planeta permanece inalterada, porém o estoque de recursos hídricos (ou a água que serve ao consumo humano e às suas necessidades) está diminuindo. Os recursos não renováveis são considerados finitos. Por exemplo, as reservas de ferro ou de petróleo, quando atingirem a exaustão, não poderão ser respostas. das construções, que incluem a abertura de áreas de cultivo e de pastagens, a derrubada de antigos edifícios, a construção de fábricas, a implantação de conjuntos habitacionais e a expansão de áreas urbanas. Os tempos da Sociedade e da Natureza As transformações impostas pelos fenômenos da natureza e pelas ações humanas às paisagens terrestres possuem temporalidades muito diferenciadas. Os seres humanos passaram a transformar as paisagens há apenas alguns milhares de anos, e aquelas decorrentes de fenômenos naturais podem ter origem em épocas longínquas, ou mesmo bilhões de anos atrás. Para a melhor compreensão destas diferenças, foi criada uma escala temporal que distingue o período de ocorrência dos eventos naturais (correspondente ao tempo geológico) do período de ocorrência dos eventos humanos (correspondente ao tempo histórico). Tempo Histórico: é o período de ocorrência dos eventos humanos. O tempo é subdividido em Idades e Períodos com suas características e duração em milhares de anos, por exemplo, da Pré-História à Idade Contemporânea, que são 600 mil anos atrás aos dias atuais. Tempo Geológico: É o período de ocorrência dos eventos naturais. O tempo é subdividido em Eons, Eras, Períodos e Épocas com características e duração em milhões de anos. Por exemplo: de 4,6 bilhões de anos, surgimento da Terra até o surgimento dos seres humanos primitivos. A Natureza e os Recursos Naturais Vimos o meio natural como resultado da ação integrada de seus diversos elementos e a Natureza artificial como resultado da combinação entre os objetos naturais e os objetos técnicos (cujo marco é a Revolução Industrial). Daqui por diante, vamos explorar um pouco a apropriação dos recursos naturais (figura 6.3). Os elementos naturais não foram elevados à condição de recursos naturais pela Natureza, e sim pelas sociedades humanas, que transformam a Natureza em recursos, de modo que passam a satisfazer suas necessidades econômicas e culturais por meio deles. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico tende a ampliar as necessidades sociais e os meios técnicos, para incorporar novos recursos e assim sucessivamente. Nesta perspectiva, o elemento natural torna-se verdadeiramente um recurso de acordo com as necessidades do momento. Como exemplo, podemos citar o petróleo, que, até bem pouco tempo atrás, jorrava sem despertar maiores interesses, até que se tornou um recurso essencial às diversas modalidades industriais e, atualmente, motiva a pesquisa de novas fontes de energia. Capítulo 6 :: 77 O consumismo como padrão de comportamento Os autores são unânimes em afirmar que as raízes do comportamento consumista estão na sociedade norte-americana do século XX. Os Estados Unidos foram o primeiro país a sentir os impactos da revolução tecnológica industrial. Além de novos tipos de bens de consumo, criou novas formas de entretenimento e lazer, como o cinema, a televisão e os shopping centers, introduzindo um novo estilo de vida, o American way of life. Assim, o “consumismo” pode ser entendido como a aquisição de produtos totalmente dispensáveis à subsistência ou o simples desejo de comprar algo que não seja necessário. Com a implantação de indústrias multinacionais nos continentes europeu, asiático e latino-americano, o estilo de vida “consumista” americano foi levado para outros países (facilitado pelas redes de supermercados, hipermercados, magazines e shoppings). No Brasil, até o início da década de 1970, os produtos industrializados eram vendidos em pequenos e médios estabelecimentos. Hoje, estes produtos são vendidos em grandes redes de super e hipermercados. Os Estados Unidos também exportaram suas produções televisivas, cinematográficas e fotográficas. Diversos países receberam influências no modo de vestir, nos hábitos alimentares, na língua, nos estilos de música com o jeans, os fast foods, o rock, o rap ou a dance music. A possível falência do modelo consumista A elevação dos níveis de consumo nas últimas décadas exige a ampliação e a diversificação da produção industrial. Assim, para atender às necessidades do mercado, aumenta-se a exploração dos recursos primários, sejam eles agrícolas, florestais, minerais ou energéticos. Este fato explica as intensas e rápidas transformações no espaço geográfico, onde as paisagens naturais cedem lugar às paisagens culturais. Atualmente, os países desenvolvidos somam um quinto da população mundial, que consome 80% dos recursos naturais do planeta. Os países subdesenvolvidos somam os quatro quintos restantes e utilizam somente 20% dos recursos naturais. Vale destacar que apenas duas das maiores potênciaseconômicas do mundo atual somam juntas uma população de quase 500 milhões, responsáveis pelo consumo de aproximadamente um terço dos recursos do planeta. A ideia de que a natureza é fonte inesgotável de recursos contribuiu para a elevação dos níveis de consumo, e até então, os impactos provocados ao meio ambiente pelas atividades econômicas não eram levados em consideração ou eram considerados espacialmente limitados, apenas com repercussão nas escalas local e regional. Hoje, já é consenso que os impactos ambientais ocorrem em escala global, e pode-se concluir que a Natureza como fonte de recursos tem “prazo de validade”. A expansão do capitalismo e da sociedade de consumo é considerada como um dos fatores desencadeadores dos problemas ambientais em escala planetária. Um dos problemas é a possibilidade imediata de esgotamento dos recursos não renováveis, como os minérios, o petróleo, o carvão mineral e as florestas tropicais, que abrigam imensa biodiversidade. Outro é a falta de destino para o lixo, que acaba sendo lançado em locais impróprios. Neste caso, o avanço da tecnologia de prospecção (descoberta de novas reservas) e de exploração contribui para valorizar ainda mais o recurso. Por en- quanto, o problema não é o esgotamento físico dos recursos, e sim o investimento para torná-los acessíveis. Veja a observação do ambientalista Maurício Andrés Ribeiro: No início do século XXI, o planeta Terra já abriga mais de 6 bilhões de habitantes. Os recursos naturais – água, terra cultivável, bens minerais, a biodiversidade, na forma de alimentos e produtos para outras finalidades –, são exigidos em grandes quantidades, devido aos crescentes padrões de consumo per capita. A sociedade industrial contemporânea acostumou- se a conviver com curvas geométricas de crescimento populacional, de necessidade de energia, de invenções, de consumo dos mais variados bens. Entretanto, é limitada a capacidade do planeta para prover recursos e para absorver resíduos. Noutras palavras, a capacidade de suporte da Terra e de cada uma de suas regiões é insuficiente para atender às necessidades ilimitadas de sua população. Mauricio Andrés Ribeiro, in Jornal do Meio Ambiente, MT – 19/10/2004 Como os padrões capitalistas vêm atingindo o meio ambiente e a sociedade? A explosão do comércio A segunda metade do século XX marcou o aumento dos níveis de consumo nos países desenvolvidos e nos países subdesenvolvidos que passavam pelo processo de industrialização tardiamente. Este é o caso do Brasil e de países como o México, a Argentina, a África do Sul e a Índia. Nesta ocasião, novos tipos de bens de consumo foram colocados no mercado, a preços acessíveis e em grande quantidade, como automóveis, máquinas de lavar roupa, televisores e todos os objetos que viriam a mudar os hábitos da população e criar outras necessidades na classe média, alvo das empresas multinacionais. Novas estratégias se estabelecem e o marketing passa a ser o principal recurso para a divulgação dos produtos, com o objetivo de despertar nas pessoas o desejo de consumir. A indústria passa a produzir bens de curta durabilidade, pois é importante diversificar a produção e atualizar os modelos para substituir aqueles ultrapassados pela inovação tecnológica. As linhas de crédito facilitam as compras, à medida que a empresa e a população precisem dispor do valor total do produto no ato da compra. As campanhas veiculadas na mídia induzem ao consumo, estimulam a produção, aumentam os lucros e favorecem a acumulação de capital. Por outro lado, provocam o endividamento pessoal. Atividade 1 Observe as propagandas no seu trajeto do dia a dia (centros comercias, out doors, busdoors ou mesmo na TV ou nos jornais) e anote os seus comentários. 78 :: GeoGrafia :: módulo 2 Apague estas ideia >> A natureza é inesgotável! / Consumir intensamente é bom! Pense >> É preciso (re)discutir o modelo de desenvolvi- mento econômico, levando-se em consideração o padrão de consumo, a desigual distribuição de riqueza e o padrão tecnológico existentes! Os Problemas Ambientais A melhor coisa que se pode dizer sobre as condições do meio ambiente mundial é que as pessoas em todo o mundo estão começando a preocupar- se com esse problema. Relatório do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas. A transformação do meio ambiente pelo homem Embora o homem tenha surgido tardiamente na Terra, é enorme o impacto de suas intervenções no meio ambiente. No início, as intervenções do homem não causavam impactos (pelo menos, na concepção dos dias atuais), pois o ser humano ainda era bastante impotente ante a Natureza, visto que não dominava técnicas capazes de realizar grandes transformações. De caçador e coletor, num período de até aproximadamente 10.000 anos a.C., a ação do homem na natureza restringia-se à interferência nas cadeias alimentares. O fogo, a primeira grande descoberta do homem primitivo, pode ser considerado um marco que permitiu um avanço no seu modo de vida. O próximo passo foi cultivar alimentos e criar animais, fazendo com que se fixassem em determinados lugares da superfície terrestre, o que o levou a tornar-se sedentário. O impacto sobre a natureza começa a aumentar com a revolução agrícola, há aproximadamente 10.000 anos a.C., quando começou a ocorrer devastação de florestas para permitir as práticas da agricultura e da pecuária, além da utilização da madeira na construção de abrigos. Registram-se, desde então, alguns impactos no meio ambiente – alterações das cadeias alimentares (causando a extinção de espécies), a erosão dos solos (resultado de práticas inadequadas), a poluição do ar (queima de florestas), a poluição do solo e da água (por excesso de matéria orgânica). Como resultado da revolução agrícola e da sedentarização do homem, temos o surgimento das primeiras cidades, há mais ou menos 4.500 anos. O ritmo de crescimento da população se intensificou, e consequentemente, deu-se o aumento dos impactos sobre o meio ambiente (apenas numa escala local). Desde o surgimento do homem, a população mundial demorou mais de 200 mil anos para atingir 170 milhões de habitantes, no início da era cristã. Depois, precisou de “apenas” 1.700 anos para quadruplicar-se, chegando a 700 milhões de pessoas às vésperas da Revolução Industrial. Com a revolução da indústria, o homem começou a transformar a face do planeta, a composição de sua atmosfera e a qualidade de sua água. Em ritmo acelerado, a população mundial chegou a 1,2 bilhão de pessoas por volta do ano de 1850. Atualmente, somos mais de 7 bilhões de habitantes. Observe a tabela 1.1: Ano População mundial 1850 1,2 bilhão de pessoas 1950 2,5 bilhões de pessoas 1970 + de 3,5 bilhões de pessoas 1990 + de 5 bilhões de pessoas 2004 + de 6 bilhões de pessoas 2010 + de 7 bilhões de pessoas Tabela 6.1: Crescimento da população mundial entre 1850 e 2010. O rápido crescimento da população humana criou uma enorme demanda (necessidade de consumo), que o desenvolvimento tecnológico pretende com- portar, submetendo o meio ambiente a uma agressão que está provocando o declínio cada vez mais acelerado de sua qualidade e de sua capacidade para sustentar a vida. Os autores afirmam que, pela primeira vez na história, a humani- dade põe em risco a sua própria sobrevivência, como resultado dos desequilíbrios provocados pela interferência na Natureza. Estes desequilíbrios são decorrentes do encadeamento de problemas ambientais, que por sua vez, causam impactos. Quais são os principais problemas ambientais? São aqueles que, de alguma forma, possam causar danos, impactos negati- vos ou qualquer outro tipo de degradação ao meio ambiente. São eles: • a escassez de água pelo mau uso, pela contaminação e por mau gerenciamento das bacias hidrográficas; • a contaminação das águas por esgotos sanitários e por outros resíduos industriais; • a degradação dos solos pelo mau uso, especialmente na agricultura e na pecuária; • a poluição do solopor lixo sólido e líquido; • a perda de biodiversidade, devida ao desmatamento e às queimadas; • a degradação da faixa litorânea por ocupação desordenada e; • a poluição do ar nos grandes centros urbanos e devido às queimadas. Os problemas ambientais quase sempre resultam de impactos ambientais, entendidos como um desequilíbrio provocado pela ação humana ou ainda por acidentes naturais. Eles ocorrem em ambientes naturais (ecossistemas naturais) e em ambientes construídos (ecossistemas agrícolas e sistemas urbanos) e tem repercussão em escala local, regional ou global. Nos ecossistemas naturais a devastação das florestas tropicais em todo o mundo (são as mais ricas em biodiversidade) está relacionada, principalmente, a fatores econômicos como a extração da madeira, a construção de usinas geradoras de energia, a instalação de projetos agropecuários ou de mineração, além da propagação do fogo (incêndios). Como consequências do desmatamento podemos destacar: • a destruição da biodiversidade; • a diminuição das nações indígenas; • a erosão e o empobrecimento dos solos; • as enchentes e o assoreamento dos rios; Capítulo 6 :: 79 – NOx, monóxidos de carbono – CO) e materiais particulados (chumbo – Pb, poeiras industriais, aerossóis, fumaças negras, hidrocarbonetos, solventes, ácidos) na atmosfera. Os responsáveis são: as indústrias, as centrais termoelétricas, as instalações de aquecimento e, principalmente, alguns sistemas de transportes. Os efeitos destes gases sobre os seres humanos são graves, atingindo o sistema respiratório, causando perturbações nervosas e anemia; quanto às partículas, os efeitos são irritantes, fibrosantes, alérgenos ou cancerígenos. A inversão térmica é um fenômeno natural que agrava a concentração de poluentes na atmosfera, dificultando a sua dispersão, ou circulação atmosférica. Quando ocorre em grandes cidades provoca problemas na saúde da população. De forma geral, a inversão térmica ocorre em qualquer parte do planeta, especialmente nos meses de inverno, quando no final da madrugada se registram as temperaturas mais baixas do ar e do solo. É mais comum em lugares onde o solo ganha muito calor de dia e perde à noite, deixando a camada atmosférica mais baixa (próxima ao chão) muito fria. O ar frio é mais pesado e impede a dispersão dos poluentes emitidos pelos carros, ônibus, indústrias etc. Nas grandes cidades também ocorre o fenômeno “ilha de calor”, caracterizado pela elevação das temperaturas médias nas zonas centrais da mancha urbana (figura 6.4). Os materiais utilizados nas construções (como o asfalto, cimento e o concreto) absorvem e emitem muito calor, que fica retido entre as ruas estreitas junto com os poluentes. Em casos extremos, a diferença de temperatura entre as zonas periféricas e o centro pode ser de até 10º C. Figura 6.4: Fenômeno da ilha de calor na zona central da cidade. Entre os diversos poluentes emitidos pelas atividades antrópicas, provavelmente os gases CFCs (clorofluorocarbonos) contribuem para outro problema ambiental: a destruição da camada de ozônio (O3). O gás Ozônio se forma acima de 25 km de altura e se concentra na camada Estratosfera (situada entre 12 km e 30 km de altura), constituindo a Camada de Ozônio. A molécula de ozônio é capaz de absorver a radiação ultravioleta emitida pelo Sol, protegendo os seres vivos (plantas, animais e o próprio homem) de doenças e mutações genéticas causadas por este tipo de radiação. No entanto, como o ozônio é pouco estável, pode ser destruído pelos raios ultravioleta ou por outras moléculas e átomos de origem natural (produzidos na própria atmosfera ou lançados por erupções vulcânicas). Por isso, a camada de ozônio pode apresentar “buracos” em alguns lugares, que posteriormente podem se fechar. As chuvas ácidas também são um outro fenômeno relacionado à emissão de poluentes, especialmente pelas atividades industriais. Têm como principais responsáveis o trióxido de enxofre – SO3 (SO2 emitido a partir da queima de combustíveis fósseis + O2 presente na atmosfera) e o dióxido de nitrogênio – NO2, • a extinção de nascentes; • a diminuição de índices pluviométricos; • a elevação de temperaturas; • a desertificação; • a redução ou mesmo o fim de práticas extrativas vegetais; • a proliferação de pragas e a disseminação de doenças. Nos ecossistemas agrícolas o impacto ambiental manifesta-se com intensidade na degradação dos solos. Na busca de aumentar a produtividade do cultivo, foram introduzidas novas técnicas agrícolas. Tais técnicas causam desequilíbrios, graças à poluição por agrotóxicos, à erosão do solo e à irrigação descontrolada, associada a uma insuficiente drenagem do terreno. O aumento da produção de alimentos foi favorecido pela padronização dos cultivos (predomínio de determinadas culturas em uma mesma região, a exemplo dos cinturões agrícolas). As monoculturas, por sua vez, fizeram com que aumentasse a utilização de inseticidas no combate às pragas, que, consequentemente, favorece a diminuição de predadores naturais, provocando desequilíbrios nas cadeias alimentares. Como consequência, há maior incidência de processos erosivos nos solos, que estão se tornando improdutivos: as terras moderadamente degradadas abrangem quase 9 milhões de quilômetros quadrados (aproximadamente a área da China), e as terras severamente degradadas abrangem 3 milhões de quilômetros quadrados (dois terços dessas áreas estão na África). A perda de milhares de toneladas de solos agricultáveis por erosão, principalmente na zona tropical do planeta, é um dos principais problemas enfrentados pela economia agrícola. Nos sistemas urbanos o impacto ambiental manifesta-se nas escalas local, regional e global. A cidade interfere em vários ecossistemas situados a milhares de quilômetros de distância na medida em que é considerada uma etapa consumidora. Pode consumir matéria, energia e gerar subprodutos, traduzidos nos resíduos sólidos (lixos), líquidos (esgotos) e gasosos (fumaças e gases), e não tem a capacidade de reciclar nada. Como consequência, os resíduos excedentes, acumulados no ar, no solo e na água causam impactos no meio ambiente e uma série de desequilíbrios ambientais, que se traduzem em: • poluição do ar (ilha de calor; intensificação do efeito estufa; chuvas ácidas); • poluição do solo (lixo sólido); • poluição das águas. A poluição é uma doença universal que interessa a toda humanidade, mas existem tipos de poluição diferentes no mundo inteiro. Os países ricos conhecem a poluição direta, física, material, a do ambiente natural. Os países subdesenvolvidos são presas da fome, da miséria, das doenças de massa, do analfabetismo. O Homem do Terceiro Mundo conhece essa forma de poluição chamada “subdesenvolvimento”. E devo dizer que esta é a forma mais grave, mais terrível de todas (Josué de Castro). A poluição do ar A poluição do ar (atmosférica) resulta do lançamento de enormes quantidades de gases (dióxido de carbono – CO2, dióxido de enxofre – SO2, óxidos de azoto 80 :: GeoGrafia :: módulo 2 que reagem com a água da chuva, deixando-a com um pH ácido. A chuva ácida provoca a corrosão de metais, de pinturas e de monumentos históricos, além da destruição da cobertura vegetal. Como na atmosfera não há barreiras entre uma região e outra, é comum os poluentes emitidos numa cidade provocarem chuva ácida em regiões vizinhas, pois os poluentes podem viajar vários quilômetros de distância. Até há pouco tempo, as chuvas ácidas eram um problema restrito aos países da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, está se tornando comum em áreas industrializadas do mundo subdesenvolvido – por exemplo no leste asiático e na América Latina. A poluição do solo A poluição do solo resulta do acúmulo de excedentes de resíduos sólidos (lixo) presentes nas cidades. Tende a se agravar com o crescimento populacional e, principalmente, com o estímulo ao consumismo. Como exemplo, temos a cidade de São Paulo queproduz, aproximadamente, 16 mil toneladas de lixo sólido por dia, para uma população de 10 milhões de habitantes, ou seja, são 1,6 kg de lixo produzidos por cada habitante. O acúmulo de lixo no solo traz uma série de problemas: • proliferação de insetos e ratos, que podem transmitir doenças como a peste bubônica e a leptospirose, dentre outras; • decomposição bacteriana da matéria orgânica, que, além de gerar mau cheiro, produz o chorume, um caldo escuro e ácido que se infiltra no subsolo (contaminando o lençol freático); • contaminação do solo e de pessoas que manipulam o lixo com produtos tóxicos; • acúmulo de materiais não-biodegradáveis. A destinação final do lixo é o segmento do Sistema de Limpeza Urbana mais crítico no Brasil – em 1999 apenas 17% dos resíduos coletados são dispostos em aterros sanitários (locais preparados para receber o lixo sem haver contaminação do solo e da água), segundo dados do IBGE (2000). Contudo, a mudança na Política Nacional de Resíduos Sólidos (em 2010, a Lei nº 12.305 alterou a Lei 9.605/98) tornou mais rigoroso o controle e destinação final dos resíduos sólidos. Mesmo antes da entrada em vigor da nova legislação, melhorias foram observadas na destinação final dos resíduos sólidos, porém, ainda é um grave problema. As formas mais usuais são os lixões, depósitos de resíduos a céu aberto, que devem ser localizados afastados das aglomerações, o que, infelizmente, não é o que se vê. Em 2008, o lixo coletado diariamente no Brasil chegava a 259.547 toneladas, sendo que 50,8% era destinado a lixões, 22,5% a aterros controlados e apenas 27,7% a aterros sanitários (Fonte: Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008 (PNSB 2008), http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/ pnsb2008/, acesso em 22/102/2014). A grande dificuldade para um melhor aproveitamento do lixo está exatamente na forma de coleta. Para uma coleta seletiva, seria necessário aumentar o número de coletas e melhorar a conscientização da sociedade. O problema continua sendo o combate à poluição, composta basicamente de dejetos orgânicos. A composição do lixo varia de país para país, de cidade para cidade, sendo que se tem registro do aumento da presença de plástico. A poluição das águas em ecossistemas naturais A poluição das águas caracteriza-se pelo lançamento de resíduos inorgânicos não-biodegradáveis (que não se degradam facilmente) e o de resíduos orgânicos acima da capacidade de absorção pelos organismos decompositores nos córregos, rios, lagos, águas subterrâneas e mares. As fontes de água doce são as que mais recebem poluentes, e muitos lugares do planeta estão ameaçados de ficar sem água, devido, principalmente, ao aumento acelerado da ocupação desordenada em regiões de preservação de nascentes. Uma das piores fontes de poluição das águas num ecossistema natural é o derrame de mercúrio (metal pesado e tóxico). O homem utiliza o mercúrio na separação do ouro de outros materiais, como os cascalhos e a areia, que, contaminados, são despejados novamente nos rios ou nos solos. Uma vez introduzido no organismo humano (pela alimentação, pele ou respiração) o mercúrio pode causar sérios problemas neurológicos. Nas áreas de garimpo, é comum o registro de animais e peixes contaminados, além do homem. As águas também podem ser poluídas por agrotóxicos (pesticidas, herbicidas, inseticidas) e por fertilizantes, quando tais substâncias são carreadas das áreas de cultivo pelas águas de escoamento superficial e pelas águas que se infiltram nos solos. O carreamento de matérias nutritivas (nitratos e fosfatos) ocasiona o fenômeno conhecido como eutrofização (eu = bem; trofe = alimentado) das águas, em que o excesso de “alimento” provoca uma enorme proliferação de algas. Quando uma grande quantidade de algas morre, a sua decomposição consome muito de oxigênio da água, matando os peixes por asfixia. Os acidentes em águas doces ou oceanos são considerados como fontes de poluição. Um exemplo é o derramamento de petróleo (ou derivados), que causa graves danos ambientais afetando peixes e aves, além do próprio homem. A poluição das águas em sistemas urbanos Em sistemas urbanos, a poluição das águas assume proporções catastróficas, pois é nas cidades que estão concentrados os maiores contingentes populacionais e a maioria das indústrias. O consumo de água é elevado, e existe uma infinidade de fontes poluidoras, desde esgotos domésticos até efluentes industriais, sendo esta enorme quantidade de água retirada da Natureza e devolvida ao meio ambiente parcial ou totalmente poluída. A poluição tóxica é a mais perigosa, sendo metade dela lançada pelas indústrias químicas e, em torno de um terço, pelas fábricas de metais. De quem é a responsabilidade maior? Os países desenvolvidos são os maiores consumidores de recursos naturais. Estes recursos são necessários para abastecer os parques industriais e as filiais das multinacionais localizadas nas nações subdesenvolvidas e nos países ex- socialistas. Por outro lado, são também responsáveis pela maior parte dos rejeitos industriais, do lixo e dos gases tóxicos lançados na atmosfera. A transformação do espaço geográfico também tem sido intensa nos países subdesenvolvidos e de economia em transição. Portanto, não estão isentos de responsabilidade em relação à degradação ambiental. As políticas voltadas para a preservação ambiental em países economicamente Capítulo 6 :: 81 mais pobres não são consideradas como prioritárias e favorecem o desenvolvimento de atividades econômicas que comprometem a qualidade ambiental. A aculturação das sociedades tradicionais No mundo ainda devem existir cerca de cinco mil comunidades tradicionais, vivendo de acordo com seus costumes originais ou hábitos nativos total ou parcialmente preservados. Este número vem caindo, e essas sociedades estão cada vez mais influenciadas pelas tecnologias e pelos costumes da sociedade de consumo. Os biomas atuais são alvos de madeireiros, fazendeiros, mineradores e demais grupos que exercem forte pressão sobre as decisões governamentais na legalização da exploração ambiental para fins econômicos. As perspectivas para o futuro: Rio-92 A Rio-92 reuniu chefes de Estado e representantes de ONGs da maioria dos países. Foram discutidos problemas ambientais e seus impactos, tendo-se em vista minimizá-los no futuro. Para tal, foram elaboradas as Convenções sobre a Biodiversidade (medidas para a preservação de espécies) e Mudanças Climáticas (medidas para diminuir a emissão de poluentes e impedir a destruição da camada de ozônio), a Declaração de Princípios, a Declaração sobre as Florestas e um Plano de Ação (Agenda 21, atual Programa 21). A Rio-92 ficou marcada por ter sido o primeiro encontro após o término da Guerra Fria. Seus resultados significaram, também, a realização de princípios internacionais de direitos humanos, como os da indivisibilidade e da interdependência, agora conectados às regras internacionais de proteção ao meio ambiente e aos seus princípios instituidores. No ano de 2002, em Joanesburgo (África do Sul), na ocasião da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (também conhecida como Rio+10 ou Cúpula da Terra II) o ponto principal era discutir os avanços da Agenda 21. No ano de 2012, a cidade do Rio de Janeiro sediou a Rio+20 a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, visando a renovação do engajamento dos lí deres mundiais com o desenvolvimento sustentável do planeta. Nesta perspectiva, as ONGs (Organizações Não Governamentais) têm uma atuação importante como defensoras das questões ambientais, discutindo a relação entre a natureza e a sociedade. São o símbolo da conscientização e da organização das sociedades na luta pela preservação ambiental e atuam em todas as partes do mundo. Destacam-se a WWF, que atua em prol da preservação de ecossistemas ameaçados; o Greenpeace, criado em 1971, hoje com mais de 5 milhões de filiados em29 países; a SOS Mata Atlântica (Brasil), criada em 1986 com o objetivo de preservar as florestas. A criação de unidades de conservação Por iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas) foram criadas áreas destinadas à proteção ambiental em todo o mundo. Por conta disto, o Sistema de Reservas da Biosfera da Unesco determina áreas para a conservação da biodiversidade natural (fauna e flora), o desenvolvimento social, o conhecimento científico e a educação ambiental. São 350 reservas em mais de 80 países, com área correspondente a aproximadamente 220 milhões de hectares, destinados à preservação. As Unidades de Conservação Ambiental podem ser divididas em várias categorias – Parques, Reservas Ecológicas, Estações, Áreas de Proteção e as Reservas Biológicas já citadas. Os Interesses Econômicos: a Situação Atual Biopirataria A biopirataria caracteriza-se pelo comércio ilegal operado por traficantes, que, por sua vez, são recrutados pelos laboratórios farmacêuticos internacionais. Esses traficantes se fazem passar por turistas, pesquisadores ou missionários e vendem a informação sobre o uso de plantas no exterior. Apropriam-se de recursos biológicos e dos conhecimentos de indígenas e de comunidades tradicionais. No Brasil, a biopirataria está presente principalmente na Floresta Amazônica. Como consequência, o país perde anualmente cerca de um bilhão de dólares em recursos naturais e deixa de registrar patente sobre produtos, perdendo, assim, os royalties a que faria jus. Biossegurança Questões de biossegurança são as que dizem respeito ao controle e à minimização dos riscos provenientes da aplicação de diferentes tecnologias ao meio ambiente. Estas questões levantam a necessidade de assegurar-se o desenvolvimento científico, proteger-se a saúde humana e manter-se o equilíbrio de ecossistemas. Tecnologias limpas A tecnologia limpa é aquela utilizada sem causar danos ou minimizando impactos ao meio ambiente. Produz menos resíduos sólidos, emite menor quantidade de efluentes e utiliza-se de matérias-primas recicláveis ou biodegradáveis. A dificuldade relativa ao uso de tecnologias limpas reside na necessidade de cooperação de países desenvolvidos com nações economicamente mais pobres, promovendo intercâmbio de conhecimentos e transferência de tecnologias. 82 :: GeoGrafia :: módulo 2 Alguns fenômenos naturais que causam impactos ambientais e socioeconômicos Alguns fenômenos naturais causam impactos ambientais e atingem populações, ocasionando prejuízos econômicos e perdas de vidas. Vamos ver alguns destes fenômenos. • Terremotos e tsunamis Os terremotos surgem a partir da liberação de vibrações devido ao movimento das placas tectônicas ou à ruptura numa rocha, causada por fortes pressões internas da Terra. O ponto que tiver se deslocado ou rompido é chamado hipocentro, ou foco. A partir dele, propagam-se vibrações (ou ondas em todas em todas as direções), que podem atingir a superfície. O primeiro ponto da superfície atingido pelas vibrações é denominado epicentro. A partir dele, surgem tremores com diferentes intensidades. Os termos “terremoto”, “abalo sísmico” e “tremor de terra” estão relacionados ao mesmo processo; entretanto, o primeiro é geralmente usado para designar eventos com grande poder de destruição, como o que ocorreu recentemente no norte do Paquistão (outubro de 2005). Em função deste terremoto milhares de pessoas morreram devido ao desabamento de prédios e casas. A partir do episódio de um terremoto outros problemas podem surgir, como rompimento de tubulações de gás e óleo, explosões, contaminação da água etc. Se o terremoto ocorre em áreas já pobres e sem estrutura de socorro adequada, a perda de vida e os prejuízos são ainda maiores. Caso o hipocentro ocorra na crosta do fundo oceânico (figura 6.5), uma grande coluna de água é deslocada, gerando, na superfície do mar, ondas muito largas e velozes (chamadas tsunamis). O deslocamento da onda na direção de um continente provoca seu crescimento em altura devido à menor profundidade da lâmina d’água. A partir daí, podem-se formar ondas com mais de 20m de altura, capazes de provocar grande destruição no litoral. Figura 6.5: Geração de um sismo a partir do atrito entre duas placas tectônicas oceânicas. As vibrações se propagam, até atingir a lâmina d’água e formar um tsunami. Em dezembro de 2004, ocorreu um tsunami que atingiu a região sudeste da Ásia (figura 6.6). O tsunami invadiu ruas, casas, prédios e hotéis situados no litoral, matando milhares de pessoas. Após os primeiros estragos pelo alagamento, seguiram-se outros: contaminação de água potável, propagação de doenças devido à água parada e surgimento de ratos nos escombros das construções destruídas, As Políticas Ambientais e os Impasses Ambientais No Brasil, a política ambiental começou a se desenvolver no final da década de 1930, quando o Estado passou a se preocupar com a exploração dos recursos – água, vegetação, minerais e pesqueiros, além da proteção de áreas florestais. Naquela época, foram criados os Parques Nacionais de Itatiaia e o de Foz de Iguaçu. Outros interesses fizeram com que as questões ambientais fossem para segundo plano. Nos anos de 1950, instalou-se uma política desenvolvimentista, que investia na indústria sem dar a devida importância para a questão ambiental. Somente nos fins da década de 1970, os ambientalistas começaram suas manifestações. Combatiam o alto grau de degradação dos solos, a poluição atmosférica, a poluição das águas, o desmatamento e as queimadas nas áreas de fronteira agrícola no interior do país. A evolução das preocupações ambientais no restante do mundo nos mostra que foi na década de 1970 que as maiores discussões aconteceram, proporcionando a elaboração de normas e favorecendo a inserção do tema nas políticas públicas. É no ano de 1972 que surge a Ecodiplomacia, o novo campo nas relações internacionais sobre o meio ambiente. As conferências nos anos de 1992 e 2002 reforçaram as discussões sobre o meio ambiente e as políticas ambientais, mas não produziram grandes avanços. Atualmente, parece haver retrocessos na diplomacia ambiental pressionada pela economia mundial. As negociações são sempre marcadas por resistências à fixa- ção de limites às diversas formas de poluição com efeitos locais, regionais ou globais. Procure se informar sobre: • o Clube de Roma e o Sistema Global; • o Relatório de Brundtland; • a Convenção do Clima e o Protocolo de Kyoto; • a Convenção de Viena e o Protocolo de Montreal; • a Convenção sobre a Diversidade Biológica, a Rio 92 (Rio de Janeiro), Rio + 10 (Johannesburgo) e Rio + 20 (Rio de Janeiro – 2012). Atividade 2 Pesquise sobre as mudanças propostas para o Código Florestal no Brasil. Capítulo 6 :: 83 dificuldades de atendimento médico às áreas isoladas pelos alagamentos etc. Os terremotos, ou abalos sísmicos, podem ocorrer por influência do homem em explosões nucleares, injeção de água e gás sob pressão no subsolo, extração de fluidos do subsolo (água, petróleo), enchimento de barragens hidroelétricas. No entanto, os abalos causados nestas situações são geralmente pequenos, causando pouco ou nenhum estrago. No Brasil, há terremotos fracos, possivelmente devidos a tensões exercidas em rochas com pontos de fraqueza ou falhamentos. A posição do território brasileiro no meio da placa Sul-americana reduz a atividade sísmica e suas consequências, mas não as elimina. Figura 6.6: Localização das áreas atingidas por um tsunami em dezembro de 2004. • Movimentos de Massa Os movimentos de massa são comuns em climas tropicais (como no Brasil) e estão relacionados principalmente ao relevo acidentado, às propriedades das rochas e dos solos, podendo ser desencadeados por chuvas concentradas. O índice de pluviosidade elevado faz com que o solo e/ou material rochoso encharcados deslizem encosta abaixo (Figuras 6.7 e 6.8). A presença de vegetação reduz o impacto da chuva sobre osolo e evita a compactação, mas não é suficiente para impedir que os escorregamentos ocorram. Além dos escorregamentos, há outros tipos de movimentos de massa, como corridas de lama, quedas de blocos e rastejos. Essa diferenciação se dá a partir do tipo de material mobilizado (blocos rochosos, solo ou mistura destes), da velocidade de deslocamento do material, do mecanismo do movimento, do conteúdo de água, entre outros aspectos. Figura 6.7: Escorregamento de material rochoso, acompanhado de restos de árvores e terra, em encosta íngreme na Ilha Grande (Angra dos Reis, sul do Estado do Rio de Janeiro). Fonte: Carla M. Salgado, 2011. Figura 6.8: Escorregamento de terra e material rochoso na Ilha Grande, obstruindo a estrada Abraão- Vila Dois Rios (Angra dos Reis, sul do Estado do Rio de Janeiro). Fonte: Carla M. Salgado, 2011. As formas de uso e ocupação da terra, como construção de estradas e de edificações (residenciais, comerciais ou industriais) em cidades e em áreas rurais, podem deixar as encostas mais sensíveis para a ocorrência deste tipo de processo. Em outros casos, os próprios depósitos de lixo e entulhos criados em encostas pela população sofrem deslizamento. Um exemplo emblemático foi o escorregamento no Morro do Bumba, no município de Niterói, em abril de 2010. O local abrigava até 1986 um lixão que, depois de desativado, não foi devidamente isolado. Com o passar dos anos, famílias de baixa renda começaram a ocupar o terreno, que veio a sofrer escorregamento após intensa chuva. • Enchentes As enchentes são fenômenos naturais quando o fluxo de água de um rio (vazão) se torna maior do que a área do canal fluvial, em situações de chuvas mais intensas. Deste modo, as águas se espalham, inundando centenas de metros ou alguns quilômetros a partir das margens do rio. Numa área rural as enchentes podem levar sedimentos que contribuem para fertilizar os solos desenvolvidos ao longo das planícies dos rios. No entanto, em áreas urbanizadas as características naturais dos rios e das bacias hidrográficas podem ser profundamente modificadas, aumentando a frequência e a intensidade das enchentes. Como exemplo de tais mudanças, citamos: • obras no leito dos rios, deixando-os mais retilíneos e estreitos e menos profundos; • impermeabilização do solo, com a construção de ruas e edificações, impedin- do a infiltração da água da chuva e aumentando seu escoamento superficial; • assoreamento dos rios devido ao despejo de entulhos e lixo (Figura 6.9), diminuindo a profundidade do rio. No período de verão, várias cidades no Estado do Rio de Janeiro sofrem com os problemas de enchentes, pois os episódios de chuvas mais intensas (grande precipitação em intervalo de tempo pequeno) se tornam mais frequentes. Além das intervenções urbanas nas bacias hidrográficas e rios, as características naturais do relevo também podem contribuir para a ocorrência de enchentes. Como exemplo podemos citar os municípios da Baixada Fluminense, que se situam em áreas muito planas e com influência da maré. No caso dos rios que deságuam diretamente no mar (Baía de Guanabara), a coincidência de horário de chuvas intensas com a maré alta impede que o fluxo intenso de água do rio chegue até o mar. 84 :: GeoGrafia :: módulo 2 Figura 6.9: Grande quantidade de lixo retido pela base de uma ponte, construída de forma inadequada, no rio Imboassu (município de São Gonaçalo/RJ). Foto de Tatiane da Cruz Silva (2005). • El Niño e La Niña O El Niño e La Niña são ótimos exemplos da interação oceano-atmosfera, cuja formação leva a alterações, às vezes muito intensas, do clima em grandes áreas do planeta. Ambos correspondem à modificação da temperatura da água do Oceano Pacífico Sul, provavelmente causada pela alteração da intensidade dos ventos alísios (figura 6.10). Normalmente, tais ventos se deslocam da latitude aproximada de 30º Sul a partir do Chile para o Equador, atravessando todo o oceano. Neste deslocamento, os ventos carregam água quente superficial, que se acumula na costa da Austrália e do Sudeste Asiático (Indonésia, Papua Nova Guiné). Deste modo, a corrente marítima fria de Humboldt aflora entre o litoral do Chile e do Peru, causando aridez (deserto de Atacama). De modo inverso, a água quente acumulada no setor oeste do Pacífico Sul contribui para maior evaporação, formando clima chuvoso na Austrália e no Sudeste Asiático. O fenômeno El Niño se inicia quando os ventos alísios se enfraquecem, deixando de levar a água quente para o setor oeste do Oceano Pacífico. A água quente se acumula no litoral entre o Chile e Peru, impedindo o afloramento da corrente marítima de Humboldt. Por outro lado, o setor oeste do oceano fica com água mais fria que o normal. A inversão da temperatura da água dos dois lados do Oceano Pacífico altera as características atmosféricas de cada local. Por isso, durante a vigência do El Niño, chove no deserto de Atacama, e o tempo fica seco na Austrália, às vezes causando grandes incêndios nas florestas. Dependendo da intensidade do El Niño, outras áreas do planeta vão ser afetadas por secas ou excesso de chuva. No caso do Brasil, o clima semiárido do interior do Nordeste fica mais forte, agravando as condições de seca. Nos estados do Sul e Sudeste, especialmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, as frentes frias ficam bloqueadas, ocasionando chuva forte e persistente, que gera grandes enchentes. As consequências deste fenômeno interferem não somente no clima, mas também em atividades econômicas. Um dos principais exemplos é a mortandade de peixes, ou a redução da procriação, na costa do Peru e Chile, devida ao predomínio de água quente na superfície, impedindo o desenvolvimento de plânctons (microrganismos trazidos pela água fria, que são a base da alimentação dos peixes). Há ainda quebra de safras agrícolas devido à seca ou a enchentes, dependendo do local. Surgem também problemas de saúde pública, na medida em que o excesso de chuva, acompanhado de aumento de temperatura, leva ao aparecimento e proliferação de mosquitos, que transmitem malária e dengue. O fenômeno La Niña corresponde à intensificação da situação normal de circulação de ventos e correntes marítimas na área do Pacífico. Neste caso, os ventos alísios que sopram da América do Sul para a Austrália e Sudeste Asiático ficam mais intensos. Tal intensificação aumenta a área de afloramento das águas frias da corrente de Humboldt. Situação de El Niño Situação normal Austrália Ventos alísios invertidos Ventos alísios com direção normal Célula de alta pressão do NE brasileiro Corrente de ar descendente Água quente Água fria América do Sul Nordeste do Brasil Célula de alta pressão no NE brasileiro intensificada pelo El Niño Figura 6.10: Circulação de ventos na situação normal e na situação de El Niño. Efeito estufa e aquecimento global A atmosfera terrestre é constituída por diferentes gases. Os gases mais abundantes são o nitrogênio (participação de 78% na atmosfera) e o oxigênio (participação de 20% na atmosfera). A concentração destes e de outros gases é constante na atmosfera, isto quer dizer que, em qualquer ponto da superfície terrestre sempre vamos encontrar 78% de nitrogênio, e assim por diante. Neste caso, tais gases são chamados de gases permanentes (tabela 6.3). Há um outro grupo de gases cuja concentração varia de um local a outro na Terra ou ao longo do ano – são os chamados gases variáveis. Exemplos deste grupo são o vapor Capítulo 6 :: 85 partir do momento em que a radiação solar atinge a superfície terrestre (superfícies continental e oceânica), esta é aquecida e passa a transferir o seu calor para a atmosfera (figura 6.11). Somente alguns gases conseguem captar a radiação emitida pela superfície terrestre (radiação infravermelha): são os chamados gases estufa. O vapor d’água, o dióxido de carbono (CO2), o óxido de nitrogênio (N2O) e o metano (CH4) são exemplos de gases estufa. Deste modo, a atmosfera inferior