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JOEL
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 Introdução 
 Plano do livro 
 Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 
 
INTRODUÇÃO 
 
I. ESTILO 
 O livro de Joel é uma das gemas literárias do Antigo Testamento. 
É edificado com cuidado e efeito dramático e aqui e acolá, pelo livro 
inteiro, há belezas que brilham intensamente e até deslumbram a 
imaginação. W. G. Elmslie tem chamado atenção para o fato em The 
Expositor, Fourth Series, Vol. 3, pág. 162: "Se existe na Bíblia um livro 
que é uma obra prima de arte literária, é o livro de Joel. Há outros 
profetas que escreveram com maior paixão e maior poder, que se elevam 
a mais sublimes altitudes da revelação divina; mas dificilmente há um 
escritor do Antigo Testamento que tenha demonstrado empenho mais 
cuidadoso, detalhado e primoroso para dar polimento, remate e beleza à 
sua obra literária". 
 "O estilo de Joel é preeminentemente puro. Caracteriza-se pela 
fluência e regularidade nos ritmos, nas sentenças completas e na simetria 
dos paralelismos. Com o poder de Miquéias ele combina a ternura de 
Jeremias, a vivacidade de Naum e a sublimidade de Isaias" (A. R. 
Fausset). 
 
II. DATA 
 O livro apresenta ao estudioso muitos problemas e talvez o 
primeiro e mais importante deles é determinar onde colocá-lo entre os 
outros profetas do Antigo Testamento. Essa dificuldade pode ser mais 
bem percebida quando se sabe que já foi colocado em quase todos os 
períodos da dispensação profética. Pelo simples fato que menção 
Joel (Comentário da Bíblia) 2 
nenhuma é feita sobre a Assíria ou a Babilônia, é admitido que Joel 
tenha exercido seu ministério antes do levantamento da primeira ou 
depois do declínio da última. Por conseguinte, há concordância quase 
universal que o livro deva ser posto ou entre os primeiros livros dos 
profetas ou entre os últimos. É verdade que muitos eruditos modernos 
favorecem a data mais recente, mas isso de forma alguma é 
universalmente reconhecido e diversos fatores parecem sugerir que a 
data mais antiga está bem dentro dos limites da possibilidade. Entre 
esses fatores temos primeiramente o quadro do reino. Toda a menção ao 
rei é abafada quase ao máximo, o que confirmaria o ponto de vista que o 
período do livro foi o de Joás o qual, embora rei, ainda era menor de 
idade, quando Joiada agia como regente (2Rs 12.1 e segs.). 
Paralelamente a isso, no livro de Joel o sacerdócio é considerado com a 
maior honra e respeito. A adoração no templo era diligentemente 
mantida e o aspecto mais negro do desastre causado pela seca e pelos 
gafanhotos era o fato que as ofertas diárias não podiam ser continuadas 
(1.9). A religião deve ter sido geralmente praticada quando nenhuma 
outra coisa parecia pior que isso. Esses fatos, para dizer a verdade, se 
adaptariam aos tempos da minoridade de Joás. 
 Em segundo lugar, além disso, não há qualquer referência ao reino 
do norte, tão próximo geograficamente e tão inter-relacionado com Judá 
em período posterior. Se preferirmos a data mais antiga parece natural 
que, em vista de tudo quanto Judá havia sofrido às mãos de Atalia, a 
infame filha de Acabe (2Rs 11.1 e segs.), haveria apenas raras 
referências a Israel, nos apelos do profeta ao reino do sul. 
 Uma terceira característica que dá apoio à data mais antiga do 
livro é que as passagens condenatórias parecem ser uma relíquia dos dias 
mais combativos de Israel e não dos dias de seu período mais 
enfraquecido, quando declinava, condição que seria refletida no livro se 
a profecia pertencesse a data mais recente como querem alguns críticos. 
 Outro argumento em favor da data mais antiga é o que se encontra 
nas referências cruzadas que podem ser observadas entre as profecias de 
Joel (Comentário da Bíblia) 3 
Joel e de Amós. Naturalmente que alguns têm argumentado que Joel 
emprestou dados de Amós; mas, devido ao caráter dessas várias 
referências é de argüir-se, se não conclusiva, provavelmente, que se deu 
justamente o oposto, ou seja, que Amós iniciou sua profecia onde Joel 
deixou a sua (cf. Am 4.6 com Jl 2.12; Am 9.13 com Jl 3.18). Esse ponto 
é plenamente desenvolvido na obra de Kirkpatrick, Doctrine of the 
Prophets, págs. 63-65. A tudo isso pode ser adicionado o fato que, no 
tempo de Amós a idéia do "dia de Jeová" era comum e que, de 
conformidade com a aparente íntima conexão entre Amós e Joel, é 
evidente que isso só era familiar porque Joel assim o tinha feito, em seu 
ministério, anterior ao de Amós. 
 Concluindo, há certo número de alusões a eventos históricos que, 
se corretamente interpretadas, parecem exigir a data mais antiga. Jl 
3.17,19, que falam de estrangeiros "a passar" pela terra e que acusam o 
Egito e Edom de derramar "sangue inocente", bem podem referir-se à 
invasão de Judá por Sisaque (1Rs 14.25) e à revolta dos edomitas 
durante o reinado de Jorão (2Rs 8.20-22). Novamente, a acusação de 
Joel contra os fenícios e filisteus (Jl 3.4,6) pode ser comparada com o 
relato do escritor das Crônicas a respeito dos assaltos dos filisteus 
durante o reinado de Jorão em Judá (2Cr 21.16), e aos oráculos de Amós 
contra ambas essas nações (Am 1). Igualmente, na menção ao "vale de 
Josafá" (Jl 3.2), há uma possível referência ao fato desse rei haver 
derrotado Moabe, Amom e Edom, no vale de Beraca (2Cr 20.26). Tudo 
isso seria coerente com a posição tradicional que coloca o livro de Joel 
entre os primeiros profetas no "cânon", posição essa que não pode ser 
voluvelmente abandonada como se fosse inteiramente fortuita, visto que 
é inegável que o presente arranjo dos livros foi, naquele tempo, 
tencionado como cronológico. 
 Tudo quanto dissemos não deve ser entendido como inferência 
que não existem argumentos a favor da colocação do livro de Joel entre 
os escritos após o retorno do cativeiro. As principais razões apresentadas 
em defesa dessa posição podem ser arranjadas como segue. Segundo 
Joel (Comentário da Bíblia) 4 
dizem, a natureza geral da linguagem e do estilo, particularmente o 
fraseado de 3.1,17, parece exigir que o livro tenha sido composto após a 
destruição de Jerusalém em 586 A. C. A ausência de qualquer referência 
ao reino do norte sugere que este, de fato, não mais existia como 
entidade política separada. A ausência de qualquer repreensão aos 
pecados nacionais e, especialmente, à idolatria, é incoerente com o 
estado de coisas que dominava antes do exílio. A atitude hostil, adotada 
para com outras nações pagãs, é mais característica de um período 
posterior, quando o nacionalismo judaico se tornou mais estritamente 
exclusivista. A predominância do sacerdócio nas atividades diárias e a 
ardente devoção pelos sacrifícios no templo não eram tão típicas no 
período pré-exílico, mas, em realidade, pertencem a dias mais recentes, 
na comunidade menor e mais intimamente ligada dos exilados que 
voltaram. 
 O argumento que se baseia no estilo e na linguagem é, quando 
muito, extremamente falho, pois, no caso dos profetas, existem outros 
fatores, além dos puramente pessoais, a complicar a questão inteira. "Os 
remanescentes da literatura hebraica são muito parcos para por eles 
decidirmos com certeza o que era e o que não era possível em um 
período particular. A uniformidade da pontuação massorética obliterou 
muitas distinções de pronúncia, que teriam servido como indicações 
(Kirkpatrick, op. cit., 72). A referência, em 3.1, a "renovarei o cativeiro" 
não tem de significar necessariamente que essas palavras tenham sido 
proferidas durante ou após o exílio; também foram empregadas por 
Amós (Am 9.14) e por Oséias (Os 6.11), e são perfeitamente 
consistentes quando usadas pelos profetas que viram claramente no 
futuro os desastres que profetizaram que sobreviriam. 
 A ausência de qualquer referência ao reino do norte também não 
pode ser considerada conclusiva; pois enquanto que esperanças de 
reunião foram mantidas por outros dos profetas anteriores, nenhum deles 
esteve tão próximo, quanto ao tempo, do amargo e cruel despotismode 
Atalia, como Joel; e seria de esperar que quaisquer referências a essa 
Joel (Comentário da Bíblia) 5 
parte da terra, da qual tinha vindo uma governante tão cruel e perversa, 
deveriam desaparecer em segundo plano. Além disso, em conexão com a 
ausência de reprovação contra as transgressões nacionais, não podemos 
assumir que os dias que se seguiram à volta do exílio foram livres de 
pecados dignos de ser acusados, tanto políticos como eclesiásticos. 
Esdras, Neemias e Malaquias encontraram muito contra o que falar. 
Tentar encaixar Joel nessa situação levanta tantas dificuldades quantas se 
propõe solucionar. O mesmo também pode ser dito a respeito do 
argumento de que a atitude inteira do livro é caracterizada por um 
nacionalismo fanático, que se manifestou mais tarde. Nada conclusivo 
pode ser derivado daí. De fato, esse argumento pode disparar pela 
culatra. Os profetas mais antigos ou fazem silêncio (Oséias) sobre a 
questão dos pagãos, ou se mostram interessados apenas em sua 
destruição final (Amós), enquanto que os mais recentes podem ver um 
remanescente sendo salvo, dentre cada nação debaixo do sol. 
 Quanto à predominância sacerdotal e a tendência ritualista que se 
afirma ser característica dos tempos pós-exílicos, é necessário dizer 
apenas que tal característica pode aparecer em toda época quando fenece 
a religião vital. Que isso não era fenômeno desconhecido nos dias dos 
primeiros profetas pode ser visto por Is 1.11-15. Portanto, há sólidas 
razões para apoiarmos a data antiga, tradicionalmente aceita, para a 
profecia de Joel. Por mais imponentes e impressionantes que sejam os 
argumentos contra essa posição, parecem envolver-nos cada vez mais, 
obrigando-nos a ajustar os fatos que possuímos à teoria sobre uma data 
mais recente, o que cria mais e maiores dificuldades do que aquelas que 
ficam resolvidas. 
 
III. AUTOR 
 No tocante ao próprio Joel, pouco sabemos além do fato que ele 
era filho do Petuel (1.1) e que, com toda a probabilidade, ele vivia em 
Jerusalém. As muitas referências à cidade revelam um grande amor a ela 
e íntimo conhecimento de sua história e adoração (1.14; 2.1,15,32; 3.1-
Joel (Comentário da Bíblia) 6 
2,6,16-17,20-21). "Joel", que significa "Jeová é Deus", era um nome 
favorito (1Sm 8.2; 1Cr 6.36; 7.3; 11.38; 15.7; 27.20). Pelas passagens de 
1.13-14 e 2.17 pode-se deduzir que ele não era sacerdote. Ele viveu e 
profetizou numa época quando o povo de Judá ainda não havia caído 
naquela extrema depravação que, em tempos posteriores, atraiu contra 
eles tão pesados castigos. Isso parece situá-lo ou no início do reino de 
Joás ou entre o reino de Joás e o de Uzias (2Rs 11.17-18; 12.2-16; 2Cr 
24.4-14). Provavelmente ele também era contemporâneo de Oséias e 
Amós e, assim eles se dirigiam a Israel, ele se dirigia a Judá. Se esse foi 
o caso, provavelmente foi logo após o reino idólatra de Atalia, a infame 
filha de um iníquo casal, Acabe e Jezabel (2Rs 11), quando, sob a 
influência de Joiada (2Cr 23.16-21; 24.14,18), estava tendo lugar algo da 
natureza de um reavivamento religioso. 
 
IV. CIRCUNSTÂNCIAS 
 Aconteceu de tal modo que, na providência de Deus, a terra ficou 
literalmente desolada por uma praga de gafanhotos, havendo tal escassez 
de alimentos que provocou a descontinuação das ofertas de alimentos e 
das libações na casa de Deus (1.13). "Mas, embora tal praga possa ter, a 
princípio, despertado extrema apreensão no profeta e impulsionado sua 
alma até às mais baixas profundezas, depois de examinar suas palavras 
ficamos convencidos que elas se referem a uma ansiedade vindoura 
ainda maior, uma incursão de adversários que infligiria terríveis 
assolações à terra, deixando-a desolada e nua atrás de si, segundo haviam 
feito aqueles gafanhotos" (S. L. Warren, em Ellicott's Commentary, 
pág. 437). 
 Joel apareceu em Jerusalém para declarar que aquela invasão de 
gafanhotos era um quadro de uma visita de Deus, em ira e julgamento. 
Ele apelava em prol de um ato de arrependimento nacional, uma festa 
solene (2.12), e exortava os lideres religiosos a mostrar bom exemplo 
(2.15-17). Então profetizou o retorno do favor de Deus e da prosperidade 
da terra (2.18-20), bem como a remoção de seus inimigos (2.21-27). 
Joel (Comentário da Bíblia) 7 
Depois disso, de um modo que não tem significação fora da inspiração 
divina, ele passou a descrever o derramamento do Espírito Santo que se 
seguiria (2.28-32). No dia de Pentecoste, o veredito de Pedro foi: "isto é 
o que foi dito pelo profeta Joel" (At 2.16). Adiante, Joel é levado a 
profetizar sobre a destruição final de todos os inimigos de Deus e de Seu 
povo (3.1-21). 
 
V. INTERPRETAÇÃO 
 A descrição acima, sobre o conteúdo do livro de Joel, pressupõe 
uma resposta a uma pergunta que não é universalmente admitida. Joel 
estava descrevendo uma real praga de gafanhotos, que então afligia a 
nação? Ou estava ele predizendo alguma praga semelhante que se 
verificaria no futuro? Ou estava antes predizendo que nações 
circunvizinhas invadiriam a terra do mesmo modo que a praga dos 
gafanhotos? Mesmo todas essas perguntas não exaurem as linhas 
possíveis de interpretação. Resta a última pergunta a respeito dos 
gafanhotos, se eles seriam ou não "gafanhotos escatológicos" e não 
históricos. Aqueles que afirmam ser esse o caso, declaram que em Joel 
não temos o caso de uma histórica invasão de gafanhotos; mas que tudo 
é ideal, místico e apocalíptico. 
 Pareceria, até mesmo para um leitor casual, que o primeiro 
capítulo, por exemplo, tem a clara intenção de ser histórico. G. A. Smith 
declara que "seus simbolismos são por demais vívidos, por demais reais, 
para terem natureza preditiva e mística. E a inteira interpretação 
apocalíptica se esbarra no mesmo versículo que a interpretação 
alegórica, a saber, 1.16, no qual Joel claramente fala de si mesmo como 
quem sofreu, juntamente com os ouvintes, por causa da praga que 
descreve" (The Twelve Prophets, Vol. 2, pág. 395). Por outro lado, "a 
linguagem do livro é muito agravada e ignominiosa para ser limitada à 
praga natural... sob o simbolismo dos gafanhotos ele devia estar 
descrevendo alguma mais fatal agência da ira Deus contra Israel" (ibid., 
pág. 390). 
Joel (Comentário da Bíblia) 8 
 Por conseguinte, parece óbvio que, na visitação real dos 
gafanhotos, o profeta viu a aproximação de uma invasão de exércitos 
circunvizinhos. Os gafanhotos tinham vindo; as invasões ainda viriam. 
Além disso, parece evidente que, por essas coisas sobre as quais o 
profeta é impelido a falar, ele foi conduzido a referir-se aos juízos do 
"dia do Senhor", muito mais perscrutadores que qualquer praga física. O 
livro, portanto, é parcialmente histórico e parcialmente profético. 
 
PLANO DO LIVRO 
 
I HISTÓRIA - 1.1-2.17 
 a. Descrição da praga dos gafanhotos (1.2-12) 
 b. Apelo e aviso aos sacerdotes (1.13-20) 
 c. Os presságios do profeta (2.1-11) 
 d. O apelo ao povo (2.12-17) 
 
II PREDIÇÃO - 2.18-3.21 
 a. As bênçãos do futuro imediato (2.18-27) 
 b. As bênçãos do futuro distante (2.28-32) 
 c. A destruição final de todos os inimigos de Deus (3.1-21) 
 
COMENTÁRIO 
 
I. HISTÓRIA - 1.1-2.17 
 
Joel 1 
 Filho de Petuel (1); a Septuaginta dá "Betuel". Fora disso pouco 
ou nada sabemos a respeito do próprio Joel. Pode-se concluir, por 2.1 e 
3.2,6,16-17, que ele era habitante de Jerusalém, e por 1.13-14 e 2.17, que 
ele não era sacerdote. Quanto a esta última conclusão, deveria ser 
salientado, entretanto, que alguns eruditos interpretam suas freqüentes 
Joel (Comentário da Bíblia) 9 
referências a sacrifícios, ao templo e aos sacerdotes como algo que 
denota que ele mesmo foi sacerdote. 
 
a) Descrição da praga dos gafanhotos (1.2-12) 
 
 Muita controvérsia tem tido lugar entre os comentadores, no 
esforço de determinar se temos aqui um acontecimento histórico real ou 
uma profecia em forma simbólica. A descrição da praga é tão vívida e 
realista que nos sugere ter sido real e verdadeira, tendo-se efetivamente 
desenroladoperante os próprios olhos de Joel. Além disso, em 1.16, há 
uma indubitável referência a uma situação contemporânea e qualquer 
tentativa para negar a historicidade da praga real, segundo salienta o dr. 
George Adam Smith, "naufraga" nesse versículo. (Ver Introdução). 
 A praga que sobreveio contra eles é sem paralelo em sua história 
(2) e tão notável que merece ser lembrada e relatada (3). Parece haver 
consistido de sucessivas ondas de diferentes tipos de gafanhotos, a 
respeito dos quais os naturalistas dizem haver nada menos que noventa 
variedades. Há dez palavras hebraicas que se referem a gafanhotos no 
Antigo Testamento e aqui, em 1.4 e 2.25, são usadas quatro palavras 
diferentes. São arbeh, gazan, yeleq, hasil, traduzidas, respectivamente, 
por: lagarta, gafanhoto, locusta e pulgão. Será que esses nomes falam 
de uma praga quadruplicada? "A consideração do livro de Joel como um 
todo não mostra que são referidos ali os ataques de quatro diferentes 
espécies de insetos daninhos, mas antes, um só, o do gafanhoto. Essas 
palavras, portanto, podem ser consideradas como diferentes nomes 
aplicados ao gafanhoto, referindo-se a diferentes estágios do 
desenvolvimento do inseto" (I. S. B. E.). Outros pensam que o emprego 
de quatro palavras representa quatro ondas sucessivas ou quatro ondas de 
insetos em estações sucessivas. A significação exata dessa descrição 
quadruplicada, não obstante, é incerta. Aqueles que favorecem qualquer 
tipo de interpretação alegórica dizem que a "locusta" do capítulo 
primeiro são as "nações" do capítulo 3, e que as quatro variedade de 1.4 
Joel (Comentário da Bíblia) 10 
representam os "quatro grandes julgamentos" com os quais Ezequiel foi 
instruído a ameaçar Jerusalém, os quais foram as quatro invasões 
estrangeiras pelos assírios, caldeus, macedônios e romanos. Mas tudo 
isso dificilmente é vital. O que é importante, certamente, é simples e 
claro e ficou claramente estabelecido por A. B. Davidson em The 
Expositor, Third Series, Vol. 7, pág. 199. "Quer ele pretenda descrever 
os gafanhotos em geral, por meio de tais nomes, mencionando quatro 
para expressar universalidade, quer ele tencione descrever a mesma 
invasão de gafanhotos segundo os estágios de seu crescimento, não é 
muito importante decidir... O profeta emprega os vários nomes - todos 
denotando gafanhotos - não estritamente para descrever classes distintas, 
mas para indicar que muitas e sucessivas ondas haviam invadido a terra; 
e, posta em forma de prosa, sua linguagem significaria que aquilo que 
uma onda havia deixado a outra havia comido, e assim por diante". 
 Aqueles que têm testemunhado ou experimentado uma praga de 
gafanhotos afirmam que o que se acha descrito, aqui em 1.4-10,17-20 e 
2.2-11 é tão exato e verídico que, em primeiro lugar, é uma descrição 
pura sem qualquer hipérbole poética. G. A. Smith tem diversos desses 
relatos em The Twelve Prophets (Vol. 2, págs. 399-403) e adiciona: 
"Estes extratos nos provam quão pouca necessidade tinha Joel de usar 
hipérboles a fim de fazer com que os gafanhotos servissem de sinais 
sobre o dia de Jeová". 
 Os versículos 5-12 servem para salientar, para todas as classes da 
comunidade, a gravidade da situação. Em primeiro lugar, os luxos que 
mais prezavam lhes eram agora negados. Aos olhos do profeta essa não 
era a calamidade maior, embora assim parecesse para muitos da nação. 
Ébrios (5); são relembrados que os vinhedos estão destruídos (7). A 
embriaguez foi um dos pecados específicos dos quais Joel acusou seus 
compatriotas. Em segundo lugar, a adoração pública a Deus fora 
interrompida por causa da falta de ofertas (9-10). Para o profeta, esse é 
um mal pior que o primeiro, e ele expressa sua indignação usando o 
símbolo de uma jovem esposa despojada do marido e a lamentar (8). Em 
Joel (Comentário da Bíblia) 11 
terceiro lugar, tinham sido cortados os próprios meios de subsistência 
(11-12). Esse é o pior dos males e os corações de todos desmaiavam. O 
dr. R. F. Horton, na Cent. Bible, salienta que a palavra traduzida como 
secou (10) pode ser mais corretamente traduzida como "se 
envergonhou", isso também se aplica ao versículo 12, onde a mesma 
palavra aparece por duas vezes como "se secaram" e "secou". Portanto, 
dessa maneira gráfica, Joel faz os homens, as colheitas e os campos, 
lamentarem juntamente. 
 
b) Apelo e aviso aos sacerdotes (1.13-20) 
 
 Nesta passagem tremendamente poderosa, o profeta apela aos 
sacerdotes, exortando-os a congregai os anciãos... e clamai ao Senhor 
(14). Note-se o jogo de palavras - "meu Deus" e "vosso Deus" - no 
versículo 13. O Deus do profeta é Aquele que convida ao 
arrependimento; os sacerdotes correm o perigo de pensar que Ele 
meramente é um Deus que exige libações e ofertas de alimentos. O país 
tinha sido atingido pela fome e Joel parece ver nisso um precursor de 
destruição ainda maior, que viria da parte do Todo-Poderoso, para o que 
ele emprega a frase o dia do Senhor (15); ver 2.1n. Até os próprios 
animais arfavam e gemiam em seu desmaio e fome (18). O que os 
gafanhotos haviam deixado o calor excessivo havia exterminado (19). 
Talvez devamos pensar aqui no versículo 19 a respeito do calor e da seca 
que acompanharam a praga de gafanhotos. Mas é possível que os 
próprios gafanhotos sejam tipificados como um incêndio a consumir a 
erva. Ver a descrição de Clarke sobre o Gryllus migratorius (Clark 
Travels, Vol. 1, pág. 438): "tem pernas vermelhas e suas asas interiores 
têm uma cor de vermelho vivo que dá uma brilhante aparência de fogo 
aos insetos, quando voam debaixo dos raios solares" (Cent. Bible, págs. 
93,94). Porém, em os rios se secaram (20) fica definitivamente sugerida 
uma seca excessiva na qual o bramido dos animais do campo é, por si 
Joel (Comentário da Bíblia) 12 
mesmo, uma oração a Deus (20). A ti ó Senhor clamo (19). O próprio 
Joel se sentiu impelido a cair de joelhos em vista de tudo aquilo. 
 
Joel 2 
c) Os presságios do profeta (2.1-11) 
 
 O capítulo 2 segue bem de perto a linha do capítulo primeiro; 
todavia, em lugar de preencher os detalhes da desolação que a praga 
havia trazido, este capítulo se ocupa principalmente com a descrição do 
ataque dos próprios gafanhotos. A seca e a história das conseqüências da 
visitação são as características proeminentes do primeiro capítulo; 
porém, o aparecimento dos gafanhotos e o progresso de seu avanço 
preenche quase completamente a tela do capítulo 2. Esse quadro nos foi 
tão vividamente pintado que alguns comentadores pensam que ele exclui 
inteiramente a interpretação alegórica (exemplo, A. B. Davidson em The 
Expositor, Third Series, Vol. 7, pág. 206). Essa antítese não é 
necessária. Essa segunda descrição sobre os gafanhotos, desta vez em 
marcha, não necessita ser considerada como descrição de soldados sob a 
forma de gafanhotos; mas é óbvio que a descrição dos gafanhotos é dada 
em preparação para a profecia sobre o desastre social, político e religioso 
que estava prestes a cair sobre a nação. 
 
 1. UMA CHAMADA AO ARREPENDIMENTO (2.1-3). 
 Tocai a buzina (1). Esse instrumento (em heb., shophar) era 
usado quase exclusivamente para propósitos guerreiros. Dava sinal de 
"preparação para combate" (Jz 6.34; 1Sm 13.3; 2Sm 20.1); advertia 
sobre a aproximação de inimigos (Am 3.6; Ez 33.3 e segs.; Jr 4.5; 6.1); 
era ouvido durante uma batalha inteira (Am 2.2). O profeta o usa aqui 
para mostrar a seriedade da situação. O dia do Senhor (1). Essa frase, 
que também aparece em muitas outras passagens, tem confundido a 
muitos pelos sentidos aparentemente contraditórios em que é usada. Ela 
é presente ou futura? Diz respeito a uma concreta situação humana ou 
Joel (Comentário da Bíblia) 13 
trata-se de um final apocalíptico do drama da história? Parece que seu 
sentido, aqui, é aquele que foi estabelecido por A. B. Davidson (The 
Expositor, Third Series, Vol. 7, págs. 201, 202): 
 
"Ora, inquestionavelmente, o dia do Senhor está ligado, pelo profeta, 
às outras pragas, ainda que não satisfazemo dia do Senhor; são apenas 
seus arautos e augúrios. O dia do Senhor será o momento quando Ele tomar 
novamente nas mãos os arreios que parecia ter deixado soltos 
anteriormente, quando então, as correntes de Seu governo moral, que 
tinham sido deixadas a fluir languidamente, recebem um misterioso impulso 
e a obra do Senhor sobre a terra é finalmente realizada plenamente... 
Naturalmente que qualquer julgamento ou calamidade severa despertou o 
pensamento a respeito e até parecia o posto avançado dos terrores finais". 
 
Tanta coisa havia no tocante à praga dos gafanhotos que tornava 
natural ligar as duas coisas. 
 Por exemplo, Diante dele um fogo consome (3). Muitos viajantes, 
alguns dos quais não familiarizados com a alusão bíblica, têm descrito 
uma região assolada por gafanhotos da mesma maneira, como, por 
exemplo: "Poucos meses depois, um bando muito maior partiu e deu à 
região inteira a aparência de haver sido queimada. Onde quer que 
pousassem, parecia que o fogo havia devorado e queimado tudo". Pusey 
nos fornece uma impressionante lista de viajantes, em muitos países, que 
viram a mesma coisa e deram suas impressões seguindo a mesma linha 
geral (Commentary, pág. 113). 
 
 2. O AVANÇO DOS GAFANHOTOS (2.4-11). 
 Como o parecer de cavalos (4). Tem sido chamada a atenção 
para a notável semelhança entre os gafanhotos e os cavalos. Segundo se 
diz, quando aumentado, tem a semelhança de um cavaleiro bem armado 
(Cam. Bible, pág. 90). Há um ditado, em árabe, de que "O gafanhoto, 
pequeno como ele é, tem a natureza de dez dos maiores animais: o rosto 
de um cavalo, os olhos de um elefante, o pescoço de um touro, os chifres 
Joel (Comentário da Bíblia) 14 
de um veado, o peito de um leão, o ventre de um escorpião, as asas de 
uma águia, as coxas de um camelo, os pés de um avestruz, a cauda de 
uma serpente". As diversas características de uma invasão de gafanhotos 
são fielmente registradas aqui. Primeiramente, há o intenso ruído que 
fazem (5), e o terror que inspiram naqueles que estão prestes a ser 
afligidos por eles (6). Plínio fala acerca de "nações esperando com 
ansiedade, não fossem eles cobrir suas terras" (Nat. Hist., 11.35). 
 Todos os rostos são como a tisnadura (6). Melhor ainda: "todos 
os rostos empalidecem". Então são observadas suas "fileiras em ordem" 
(7). Agem como que debaixo de um impulso comum. 
 Não se desviarão da sua fileira (7). Nenhuma arma que possa ser 
usada contra eles lhes provoca o menor dano (8). "As armas são inúteis 
contra eles, por causa de seu número; embora milhões sejam destruídos, 
o resto marcha serenamente por cima de seus companheiros caídos. 
Valados cheios de água não podem impedi-los, pois são rapidamente 
cheios de corpos afogados e atravessados; os incêndios tocados contra 
eles para barrá-los são apagados pelas cinzas dos corpos cremados. 
Literalmente, exércitos têm sido lançados contra eles, mas em vão" 
(Cent. Bible, pág. 7). Isso os torna irresistíveis (9). 
 Pelas janelas entrarão como o ladrão (9). Alguns comentadores 
têm sugerido que nosso Senhor e Seus apóstolos tinham essa passagem 
em mente quando usaram a mesma símile para descrever a vinda do dia 
de juízo (cf. Ap 16.15; Mt 24.43-44; 1Ts 5.2; 2Pe 3.10). A referência a 
distúrbios no sistema solar (10) indica que aqui há em vista mais que 
meros fenômenos físicos a acompanhar a praga dos gafanhotos e que 
Joel estava pronto para apresentar algumas das coisas que a invasão, 
acabada de experimentar, pressagiava e ilustrava. Ver 2.31 e 3.15, 
comparando-as com a descrição de nosso Senhor sobre as, coisas que 
anunciarão a vinda do Filho do homem, em Lc 21.25-26. 
 O Senhor... diante do seu exército (11). Jeová é pintado a 
marchar à frente das forças destruidoras irresistíveis, dando Suas ordens. 
 
Joel (Comentário da Bíblia) 15 
d) O apelo ao povo (2.12-17) 
 
 Quem o poderá sofrer? (11) parece sugerir que não há esperança; 
o dia do Senhor é grande e mui terrível, pelo que ninguém poderá 
resistir-lhe. O profeta, entretanto, se apressa para assegurar que não é 
ainda tarde demais para desviar Sua justa indignação por meio do retorno 
a Deus. 
 Mas essa conversão deve ser de todo o vosso coração (12). O 
coração, conforme usado aqui, não deve ser considerado o centro das 
emoções e das paixões. Na psicologia hebraica o coração era mais 
geralmente considerado como o centro da vida moral, espiritual e 
intelectual. É, supremamente, o órgão do propósito e da resolução moral. 
Além disso, o arrependimento deles deveria ser acompanhado com 
jejuns, e com choro (12); isto é, com todo sinal do tristeza por causa de 
seus pecados. Deus é maior do que eles sabiam, mais bondoso do que O 
imaginavam, e gracioso para com os indignos (13). 
Se voltará e se arrependerá (14); melhor, "se converterá" (em 
heb., shubh); isto é, a mesma palavra empregada no versículo 12. Trata-
se de uma forte declaração e à primeira vista parece pôr de lado a 
doutrina bíblica da imutabilidade de Deus. A Bíblia invariavelmente 
afirma que Deus é imutável em Sua natureza e perfeições, em Seu 
conhecimento, vontade e propósito. Ele é sempre o mesmo. Ele não é 
homem, para que se arrependa (1Sm 15.29). Por outro lado, as Escrituras 
nunca apresentam a imutabilidade de Deus como imobilidade morta, fora 
de toda relação com o homem e com o mundo. Seu conhecimento, 
vontade e propósito nunca são concebidos como condicionados ou 
determinados pelas ações dos homens; mas é Ele apresentado como a 
suster uma diferente relação para com os piedosos e para com os iníquos, 
bem como para com o mesmo indivíduo em diferentes ocasiões, de 
conformidade com sua piedade ou iniqüidade. É justamente porque Deus 
é imutável que, em Seu trato com os homens, parece que Ele varia Seu 
curso conforme eles variam sua conduta. Deus ainda lhes deixaria uma 
Joel (Comentário da Bíblia) 16 
bênção (14); e a paixão do profeta, pela glória de Deus, é vista no fato 
que a maior das bênçãos que Ele pode conceber é uma boa colheita que 
capacitaria uma oferta de manjar e libação ser oferecida novamente no 
templo. 
 Os versículos 15-17 repetem a chamada à oração de 1.13-14; mas 
aqui há três importantes diferenças. No capítulo primeiro o apelo foi 
lançado exclusivamente a um sacerdócio negligente; aqui, entretanto, 
todos são convocados - homens, mulheres, crianças, e até mesmo noivos 
e noivas recentemente casados, os quais, em circunstâncias ordinárias, 
estavam isentos, por um ano, de todo dever público (Dt 24.5). Se 
necessário fosse, o jovem casal deveria levantar-se da festa de 
casamento; a palavra tálamo (16; em heb. chuppah) é antes "dossel" ou 
"pavilhão" e indubitavelmente se refere à tenda nupcial especial que, até 
mesmo em tempos modernos, é erigida para a cerimônia do casamento. 
Uma segunda diferença é que aqui não são chamados a responder por 
suas iniqüidades, como no capítulo primeiro, mas antes, para esperar 
pela misericórdia de Deus. 
A buzina (15), não é, como em 2.1, uma advertência sobre a 
aproximação de perigo, mas antes, uma convocação para reunião 
religiosa. A grande razão aqui oferecida para esse "dia nacional de 
oração" era para que as nações não façam escárnio dele (isto é, do 
povo) (17). Joel ansiava para que a destruição da nação santa de Deus 
não viesse a provocar os pagãos (note-se que aqui ele identifica os 
gafanhotos com os pagãos) a dizerem que o Deus de Israel ou não era 
Deus de modo algum ou que Ele não queria ou não pode guardá-los. 
Essa calúnia Joel não podia tolerar facilmente. Era falsa aos fatos, à 
experiência e à aliança. 
 
II. PREDIÇÃO - 2.18-3.21 
 
 Então o Senhor terá zelo (18) é, obviamente, um ponto 
nevrálgico do livro. Faz soar distintamente uma nova nota. Algumas 
Joel (Comentário da Bíblia) 17 
versões, corretamente, traduzem: "Então o Senhor teve zelos"; isso 
significaria que o dia de jejum e oração fora observado, que o Senhor os 
havia ouvido e perdoado, e que agora Ele tinha zelo em abençoá-los, tal 
como antes parecera prontopara castigá-los. "O tempo verbal futuro é 
gramaticalmente indefensável" (Cam. Bible, pág. 58). Não obstante, 
tudo quanto se segue parece claramente estar ainda no futuro; alguns 
acontecimentos no futuro mais ou menos imediato e alguns outros na 
distância imprecisa dos "últimos dias". 
 É uma lei da profecia do Antigo Testamento que a profecia é 
condicional, a não ser que expressamente seja declarada como absoluta. 
Até aquela altura Joel lhes tinha apresentado uma mensagem que falava 
sobre julgamentos iminentes, mas agora, quando o povo se havia 
arrependido, diz ele, "não acontecerá". 
 
a) As bênçãos do futuro imediato (2.18-27) 
 
 Estas são promessas de benefícios temporais. Os versículos 18-20 
contêm a promessa de alivio imediato de suas tribulações Deus tem zelo 
(18). Seu poder havia sido posto em dúvida, Sua honra havia sido 
impugnada e o fato que os pagãos repreendiam Seu povo exigia Sua 
intervenção. Ele não permitiria que Seu povo fosse afligido para sempre, 
mas lhes daria completo alívio. Os versículos 21-27 prometem um 
retorno imediato da terra à saúde e à prosperidade. Joel profetiza aqui 
que Deus enviaria dias de prosperidade após a invasão haver terminado e 
o arrependimento deles haver sido comprovado. As densas trevas (2.2) 
tinham desaparecido; a terra, ou melhor, o solo, que lamentara (1.10) é 
agora ordenado a regozija-te e alegra-te (21); os animais que gemiam 
(1.18) recebem agora a ordem Não temais (22); os campos e bosques 
nus (1.7,10-12) agora darão a sua força (22). Onde não havia chuva 
(1.20) agora há abundância dela (23); onde não havia trigo, vinho e 
azeite (1.10), agora há superabundância (24). O dano feito pelos 
gafanhotos (1.4) deve ser reparado e restituída a perda (25-27). 
Joel (Comentário da Bíblia) 18 
 Nesta passagem o profeta toma a posição como se algumas das 
suas predições já tivessem sido cumpridas. Esse emprego do passado 
"profético", que descreve aquilo que ainda sucederá como se já tivesse 
acontecido, é visto no versículo 23. A tradução correta desse versículo, 
em lugar de pôr os verbos no futuro, deveria dizer: "ele vos fez descer a 
chuva". Outras versões tentam transmitir esse sentido pondo o verbo no 
tempo verbal presente. "O tempo futuro é injustificável como tradução, 
ainda que seja interpretação perfeitamente correta" (Cam. Bible, pág. 
61). O profeta como que já tinha visto Deus a dar-lhes a chuva, a 
temporã, e a serôdia, no primeiro mês (23), isto é, as três principais 
estações chuvosas na Palestina. A chuva temporã são os aguaceiros de 
outubro e de primeira parte de novembro. A chuva é o grupo principal 
de chuvas, que cai de dezembro a fevereiro. A chuva serôdia, que era 
mais apreciada de todas porque ajudava a amadurecer o fruto e a 
contrabalançar a seca do verão, caía em abril. O resultado dessas 
diversas épocas de chuva seria a abundância das coisas que haviam eles 
perdido devido aos gafanhotos (24-26), bem como a vindicação da honra 
de Deus, vista num povo próspero e reverente (26-27). 
 
b) As bênçãos do futuro distante (2.28-32) 
 
 Essas bênçãos são espirituais e não dizem respeito a coisas 
materiais, mas ao reino do governo de Deus nos corações dos homens e 
nações. Esta seção particular, que forma um capítulo separado em 
hebraico, é uma profecia de que haveria um derramamento do Santo 
Espírito de Deus antes de haver qualquer visitação de julgamento final 
contra o mundo. Esses versículos devem a diversas causas as suas 
afirmações aqui feitas. W. G. Elmslie destaca (The Expositor, Fourth 
Series, Vol. 3, pág. 177) que Joel sentia que Israel necessitava de mais 
que uma penitência surgida em meio à austeridade e à fome. A nação 
também precisava ser transformada, santificada e conformada segundo a 
mente e a vontade de Deus. Isso só poderia realizar-se se Deus enviasse 
Joel (Comentário da Bíblia) 19 
Seu Espírito aos corações de Seu povo. Então, ao desenrolar a tela da 
história da nação, o profeta predizia que, antes do julgamento do mundo, 
Deus enviaria Seu Espírito para que Seu povo pudesse alcançar Seu 
reino no mundo. Naturalmente que isso foi o que aconteceu em 
Jerusalém (At 2.1-14), no dia de Pentecoste, depois da ascensão de nosso 
Senhor. Esse fenômeno deixou muitos perplexos, ao tentarem 
compreendê-lo. O próprio comentário inspirado de Pedro, porém: "o que 
ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel", assegurou-lhes de 
que o que estava sucedendo era, nada menos do que aquilo que havia 
sido predito; e o apóstolo passou a citar Jl 2.28-32. 
 Nesta altura do livro, os acontecimentos do passado recente 
começam a desaparecer e a se perderem numa predição da história futura 
sobre acontecimentos escatológicos e apocalípticos. É como se alguém 
estivesse contemplando uma grande serra de montanhas, cujos picos 
aparecem claramente, mas cuja exata relação de distância, um do outro, é 
bastante indistinta. Portanto, como diz o dr. R. F. Horton: "O Pentecoste 
parecia mais próximo do que realmente estava e as colinas de bênçãos, 
que nem mesmo nós temos atingido, naquela luz vespertina da profecia, 
já brilhavam no horizonte" (Cent. Bible, pág. 104). 
 Os versículos 30 e 31 não parecem estar ligados aos 
acontecimentos do dia de Pentecoste, e alguns expositores bíblicos são 
levados a declarar que haverá ainda um outro derramamento mundial do 
Espírito Santo, antes do grande dia do Senhor. Pedro, entretanto, mui 
certamente identificou a passagem inteira de 2.28-31 com o dia de 
Pentecoste. Além disso, Joel talvez não tenha apanhado a plena 
significação e conexão das imagens que empregou; outros escritores 
apocalípticos também não o fizeram. Por conseguinte, podemos concluir 
que o que temos aqui é uma profecia sobre a vinda do Espírito Santo, no 
início dos "últimos dias" (At 2.16-21), os dias do Evangelho de Jesus 
Cristo e, depois disso, seguir-se-á, para todos os inimigos de Deus, 
súbito e terrível julgamento vindo do alto. 
 
Joel (Comentário da Bíblia) 20 
Joel 3 
c) A destruição final de todos os inimigos de Deus (3.1-21) 
 
 Em que removerei o cativeiro de Judá (1). Não necessariamente 
uma referência ao retorno do exílio. Certas versões traduzem: "Quando 
eu restaurar as fortunas de Judá". Ver "Data" em Introdução. 
 Vale de Josafá (2). A identificação desse local é incerta e 
realmente não é importante. Josafá significa "Jeová julga", o que indica o 
significado simbólico do termo. Ver versículo 12 e cf. versículo 14, onde 
o mesmo local é chamado de "vale da decisão", isto é, decisão de Deus 
referente ao julgamento das nações. O quadro é de retribuição por causa 
da cruel opressão ao povo de Deus. 
 Lançaram a sorte (3). Os cativos eram distribuídos entre os 
soldados desse modo e eram usados para satisfazer seus apetites físicos. 
 Os versículos 4-8 dizem respeito especificamente aos fenícios e 
filisteus. O tema dos versículos é que essas nações receberão a justa 
retribuição por haverem vendido escravos judeus aos gregos (6), por 
haverem vendido seus filhos e filhas aos de Seba (8), um país que ficava 
justamente na direção oposta. Se aceitarmos a data mais antiga para Joel, 
essa é a primeira referência bíblica aos gregos. Visto que os fenícios 
eram um povo marítimo, sua inclusão aqui é perfeitamente natural. 
 O versículo 9 retoma o pensamento do versículo 2. As nações são 
quase zombeteiramente convocadas a se prepararem com as providências 
que puderem para defender-se contra o Senhor, o qual não só se assenta 
para julgá-los (12). Mas também executa o julgamento. 
 Forjai espadas das vossas enxadas (10). O oposto exato de Is 
2.4, um fato que serve para salientar a diferença no destino que aguarda 
os pagãos e os piedosos. 
 No versículo 13 é alterada a figura. A destruição dos iníquos é 
assemelhada ao amadurecimento e ao amassar as uvas no lagar. Cf. o uso 
semelhante desse simbolismo em Ap 14.15-20. 
Joel (Comentário da Bíblia) 21 
 Multidões no vale da decisão (14). Ver nota sobre o verso 2. Cf. 
2.10n. com o verso15. 
 Os céus e a terra tremerão (16). Cf. Ag 2.6 e Hb 12.25-29. 
 O objetivo desse julgamento é que todos os homens saberão que 
eu sou o Senhor vosso Deus (17; cf. 2.17). 
 Ligado a esse julgamento contra os pagãos temos a restauração de 
Israel, expressa no versículo 18 nos termos daqueles bênçãos naturais 
que, após os gafanhotos e a seca dos capítulos anteriores, poderiam mais 
prontamente dar a entender um quadro de felicidade e prosperidade. 
 Em contraste com a futura desolação do Egito e de Edom, Judá 
será habitada para sempre (20). 
 Este capítulo trata, claramente, dos acontecimentos de um grande 
momento para os judeus e para o mundo. Os comentadores diferem 
quanto ao seu significado. 
 Por alguns ele é considerado como uma descrição imaginária e 
poética do triunfo literal do povo judaico sobre seus inimigos 
circunvizinhos e tradicionais. Aqueles que assim argumentam sugerem 
que o versículo 2 dificilmente poderia ser interpretado de outro modo. 
Porém, como já tem sido frisado acima, o "vale de Josafá" 
provavelmente tem um sentido simbólico e não literal. O teor da 
descrição sugere que Joel tinha em mente mais que uma vitória nacional 
localizada. 
 Outros consideram esta passagem como uma descrição literal de 
acontecimentos que terão lugar no tempo do "fim", quando os iníquos 
serão destruídos em batalha real, o que será seguido pela plena 
restauração do povo judaico. Que este capítulo pode ser interpretado 
desta maneira devemos reconhecer. Historicamente falando, o 
julgamento de Deus seguir-se-á ao dia da graça, que até poderíamos 
chamar de "dia do Espírito Santo" (cf. 2.28-32). "O derramamento do 
Espírito é o precursor do julgamento. Não é essa uma espantosa 
transição? De modo algum. Logo que o povo de Deus tiver sido 
divinamente capacitado para realizar sua tarefa, logo que os servos de 
Joel (Comentário da Bíblia) 22 
Deus estiverem completamente preparados para materializar Seu reino 
sobre a terra, então o fim de todas as coisas estará próximo. A plenitude 
do Espírito derramado sobre a Igreja significa o final de nossa história 
mundial... e aqueles que invocam o nome de Jeová e a quem Jeová 
chama para serem Seus, significa passar por tudo isso inatingido e salvo" 
(W. G. Elmslie, The Expositor, Fourth Series, Vol. 3, pág. 177). 
 Um terceiro ponto de vista, que relaciona Israel à Igreja, e que vê 
neste capítulo as fortunas de Israel e as fortunas da Igreja, que é o Israel 
de Deus, afirma que haverá uma fusão das duas instituições, e que isso é 
tudo quanto se pode dizer, talvez, a respeito. Aqueles que expõem o 
texto desse modo vêm simbolizada nas vitórias aqui descritas, a 
derrubada de todos aqueles que são opositores do Evangelho da graça. 
Por conseguinte, essa passagem seria uma predição sobre o progresso 
desse Evangelho nesta era, culminando em sua completa vitória. 
 Conforme Pusey observa sobre a declaração Judá será habitada 
para sempre (20): 
 "Não a Judá terrena, nem a Jerusalém terrena; pois essas deverão 
chegar a seu término, juntamente com a própria terra, sobre cujo fim os 
profetas bem sabiam. Trata-se, portanto, do povo único de Deus, o 
verdadeiro Judá, o povo que louva a Deus, o Israel que realmente é 
Israel. Egito, Edom e todos os inimigos de Deus chegarão a seu fim, mas 
o Seu povo nunca terá fim" (Commentary, pág. 145). 
 
 J. T. Carson. 
 
 
 
 
	JOEL 
	INTRODUÇÃO 
	PLANO DO LIVRO 
	COMENTÁRIO 
	Joel 1 
	Joel 2 
	Joel 3

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