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RESUMO DOS INFORMATIVOS - SITE DIZER O DIREITO DIREITO CIVIL Atualizado em 25/01/2020: novos julgados + questões de concurso. Pontos atualizados: nº 06 (Info 632 e Info 649); nº 14 (Info 649); nº 33 (Info 649); nº 46 (Info 649); nº 62 (Info 649); nº 26 (Info 650 – 2 julgados); nº 14 (Info 650); nº 06 (Info 651); nº 08 (Info 651 – 2 julgados); nº 24 (Info 651); nº 26 (Info 651); nº 59 (Info 651); nº 14 (Info 653); nº 26 (Info 654); nº 53 (Info 654 – 2 julgados); nº 59 (Info 654); nº 63 (Info 654); 1. DIREITOS DA PERSONALIDADE 1.1. Não se exige que o indivíduo tenha deixado um documento escrito dizendo que desejava ser submetido à criogenia, podendo essa vontade ser provada por outros meios, como a declaração do familiar mais próximo – (Info 645) – IMPORTANTE!!! – (MPSC-2019) Não há exigência de formalidade específica acerca da manifestação de última vontade do indivíduo sobre a destinação de seu corpo após a morte, sendo possível a submissão do cadáver ao procedimento de criogenia em atenção à vontade manifestada em vida. A criogenia (ou criopreservação) é a técnica de congelamento do corpo humano após a morte, em baixíssima temperatura, a fim de conservá-lo, com o intuito de reanimação futura da pessoa caso sobrevenha alguma importante descoberta científica que possibilite o seu retorno à vida. Em outras palavras, a criogenia consiste no congelamento de cadáveres a baixas temperaturas, com a finalidade de que, com os possíveis avanços da ciência, sejam, um dia, ressuscitados. STJ. 3ª T. REsp 1693718-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 26/3/19 (Info 645). (MPSC-2019): Segundo entendimento do STJ, não há exigência de formalidade específica acerca da manifestação de última vontade do indivíduo sobre a destinação de seu corpo após a morte, sendo possível a submissão do cadáver ao procedimento de criogenia em atenção à vontade manifestada em vida. BL: Info 645, STJ. 1.2. DIREITO À IMAGEM: Lucro da intervenção e caso Giovanna Antonelli – (Info 634) – IMPORTANTE!!! Determinada “farmácia de manipulação” utilizou o nome e a imagem da atriz Giovanna Antonelli, sem a sua autorização, em propagandas de um remédio para emagrecer. O STJ afirmou que, além da indenização por danos morais e materiais, a atriz também tinha direito à restituição de todos os benefícios econômicos que a ré obteve na venda de seus produtos (restituição do “lucro da intervenção”). Lucro da intervenção é uma vantagem patrimonial obtida indevidamente com base na exploração ou aproveitamento, de forma não autorizada, de um direito alheio. Dever de restituição do lucro da intervenção é o dever que o indivíduo possui de pagar aquilo que foi auferido mediante indevida interferência nos direitos ou bens jurídicos de outra pessoa. A obrigação de restituir o lucro da intervenção é baseada na vedação do enriquecimento sem causa (art. 884 do CC). A ação de enriquecimento sem causa é subsidiária. Apesar disso, nada impede que a pessoa prejudicada ingresse com ação cumulando os pedidos de reparação dos danos (responsabilidade civil) e de restituição do indevidamente auferido (lucro da intervenção). Para a configuração do enriquecimento sem causa por intervenção, não se faz imprescindível a existência de deslocamento patrimonial, com o empobrecimento do titular do direito violado, bastando a demonstração de que houve enriquecimento do interventor. O critério mais adequado para se fazer a quantificação do lucro da intervenção é o do enriquecimento patrimonial (lucro patrimonial). A quantificação do lucro da intervenção deverá ser feita por meio de perícia realizada na fase de liquidação de sentença, devendo o perito observar os seguintes critérios: a) apuração do quantum debeatur com base no denominado lucro patrimonial; b) delimitação do cálculo ao período no qual se verificou a indevida intervenção no direito de imagem da autora; c) aferição do grau de contribuição de cada uma das partes e d) distribuição do lucro obtido com a intervenção proporcionalmente à contribuição de cada partícipe da relação jurídica. STJ. 3ª Turma. REsp 1698701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/10/18 (Info 634). OBS: Imagine a seguinte situação: Determinada “farmácia de manipulação” utilizou o nome e a imagem da atriz Giovanna Antonelli, indevidamente e sem a sua autorização, em propagandas de um remédio para emagrecer chamado “Detox”. Essas propagandas foram divulgadas em sites na internet e nelas aparece a foto da atriz com uma frase embaixo entre aspas dizendo que ela teria utilizado o remédio para perder peso depois da gravidez. Ocorre que Giovanna nunca tinha ouvido falar no produto e não autorizou a propaganda. Diante disso, a atriz ajuizou ação de indenização contra a empresa responsável. Na ação, a autora pediu: a) a indenização por danos morais; b) a indenização por danos materiais; e c) a restituição de todos os benefícios econômicos que a ré obteve na venda de seus produtos (restituição do “lucro da intervenção”). Os pedidos da autora foram acolhidos? SIM. No caso concreto, houve violação ao direito de imagem da atriz? Ela precisará provar que sofreu um prejuízo para ser indenizada? Houve violação e ela não precisa provar o prejuízo. Sobre o tema, vejamos a Súmula 403 do STJ: Súmula 403-STJ: Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada da imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais. “O dano é a própria utilização indevida da imagem, não sendo necessária a demonstração do prejuízo material ou moral” (STJ. 4ª Turma. REsp 267.529/RJ, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, j. 3/10/2000). O direito de imagem é protegido pelo art. 5º, X, da CF/88 e pelo art. 20 do CC/02: Art. 5º (...) X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais. Assim, uma vez constatado o uso não autorizado do nome e da imagem de uma pessoa (seja ela famosa ou não), em campanha publicitária veiculada com fins eminentemente comerciais, é devida a reparação integral dos danos morais e patrimoniais daí decorrentes. Vale ressaltar, no entanto, que, além de pedir o pagamento da indenização por danos morais e materiais, a vítima poderá também exigir a restituição do lucro da intervenção: Além do dever de reparação dos danos morais e materiais causados pela utilização não autorizada da imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais, nos termos da Súmula 403-STJ, o titular do bem jurídico violado tem também o direito de exigir do violador a restituição do lucro que este obteve às custas daquele. STJ. 3ª Turma. REsp 1.698.701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/10/18 (Info 634). O que é o “lucro da intervenção”? O lucro da intervenção, segundo Sérgio Savi, é o “lucro obtido por aquele que, sem autorização, interfere nos direitos ou bens jurídicos de outra pessoa e que decorre justamente desta intervenção” (Responsabilidade civil e enriquecimento sem causa: o lucro da intervenção. São Paulo: Atlas, 2012, p. 7). Trata-se de uma vantagem patrimonial obtida indevidamente com base na exploração ou aproveitamento, de forma não autorizada, de um direito alheio (KONDER, Carlos Nelson. Dificuldades de uma abordagem unitária do lucro da intervenção. Revista de Direito Civil Contemporâneo. Vol. 13., ano 4, p. 231-248. São Paulo: RT, out-dez 2017). Um exemplo didático, citado por Konder, é o caso de um jóquei que subtrai um cavalo, contra as ordens do dono, para participar de uma corrida, e acaba saindo vencedor. O jóquei recebe um valioso prêmio pela conquista, e retornao cavalo ileso à baia. O dono do cavalo não experimentou dano, pois o cavalo não estava destinado àquela corrida e, de todo modo, o animal retornou ileso. O jóquei, por outro lado, lucrou significativamente com a prática do ato ilícito. Ainda que se considerasse que o dono teria experimentado um dano correspondente ao aluguel do cavalo, mesmo assim o lucro obtido pelo jóquei seria muito mais significativo do que o dano causado. Esse lucro, ou essa diferença entre o lucro e o dano, é o que se denomina lucro da intervenção. Dever de restituição do lucro da intervenção: A doutrina denomina de “dever de restituição do lucro da intervenção” o dever que o indivíduo possui de pagar aquilo que foi auferido mediante indevida interferência nos direitos ou bens jurídicos de outra pessoa. Em palavras mais simples, é o dever de restituir (pagar) aquilo que foi indevidamente auferido (lucrado) às custas de outrem. Lucro da intervenção x princípio da reparação integral: Um dos eixos da responsabilidade civil é o princípio da reparação integral do dano. O princípio da reparação do dano, contudo, ao contrário do que muita gente pensa, não protege apenas a vítima, mas também o autor do ilícito. Isso porque o princípio da reparação integral significa “reparar todo o dano, mas não mais que o dano”, ou seja, nem menos nem além do prejuízo. Segundo Paulo de Tarso Sanseverino, “a plena reparação do dano deve corresponder à totalidade dos prejuízos efetivamente sofridos pela vítima do evento danoso (função compensatória), não podendo, entretanto, ultrapassá-los para evitar que a responsabilidade civil seja causa para o enriquecimento injustificado do prejudicado (...)” (SANSEVERINO, Paulo de Tarso. Princípio da reparação integral: indenização no Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 58) Nesse ponto, surge um aparente conflito entre o lucro da intervenção e o princípio da reparação integral do dano. Isso porque o princípio da reparação integral está previsto no art. 944 do Código Civil, nos seguintes termos: Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano. Ao se aplicar o instituto do lucro da intervenção, em determinadas hipóteses, a vantagem patrimonial obtida pela vítima superará o próprio prejuízo sofrido. Como a doutrina resolve isso? Alguns doutrinadores superam esse “conflito” com o princípio da reparação integral dizendo o seguinte: o dever de restituição do lucro da intervenção não é um instituto de responsabilidade civil, ou seja, ele não está submetido às regras de responsabilidade civil (dentre elas o princípio da reparação integral). Esse dever de restituição do lucro da intervenção existe no ordenamento jurídico com fundamento na proibição do enriquecimento sem causa, previsto no art. 884 do CC/02: Art. 884. Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários. Se o indivíduo que praticou o lucro da intervenção, não indenizar a vítima apenas pelos prejuízos que esta sofreu, é capaz de ele ainda sair no “lucro”. Vai ter valido “a pena” violar o direito de outrem. Por outro lado, se a vítima receber mais do que teve de prejuízo, estará sendo violado o princípio da reparação integral. Logo, é preferível a vítima receber mais sim e justificar essa solução no princípio que veda o enriquecimento sem causa. Isso porque se o indivíduo não pagar tudo que lucrou, ele terá obtido um ganho imerecido (sem causa). Veja como Sérgio Savi explica o tema: “Já quando os lucros obtidos forem superiores aos danos causados, mesmo após indenizar a vítima, o ofensor estará em uma situação melhor do que estava antes da prática do ato não tutelado pelo ordenamento jurídico. Afinal, como a indenização é medida pela extensão do dano (CC, art.944), nas hipóteses de lucros superiores aos danos causados, o saldo positivo entre lucros obtidos e prejuízo indenizado permanecerá em definitivo no patrimônio do interventor. Tal situação poderia servir de estímulo para a violação a institutos fundamentais para a vida em sociedade, como a propriedade, o contrato e os direitos da personalidade. Diante da ineficácia das tradicionais regras da responsabilidade civil para lidar com o problema do lucro da intervenção, buscou-se no ordenamento jurídico brasileiro uma solução alternativa. Em razão de suas características e funções, concluiu-se que o lucro da intervenção deve ser dogmaticamente enquadrado no enriquecimento sem causa. (...) E isso porque, como visto, ao contrário da responsabilidade civil, o enriquecimento sem causa tem por função específica remover o enriquecimento. A reação do ordenamento jurídico é contra o aumento injustificado do patrimônio do enriquecido e não contra os possíveis prejuízos sofridos pelo titular do direito (o 'empobrecido'). (...) Assim, quando o interventor lucrar com a ingerência não autorizada nos bens ou direitos alheios, o titular do direito terá uma pretensão de enriquecimento sem causa, fundada na cláusula geral do art. 884 do Código Civil, para obrigar o interventor a entregar-lhe a vantagem patrimonial assim obtida. A restituição daqueles benefícios pelo interventor deverá ocorrer sempre que, de acordo com a repartição dos bens efetuada pela ordem jurídica, os mesmos sejam considerados como pertencentes ao titular do direito." (ob. cit., p. 92-95) Essa mesma conclusão (e enquadramento) foi manifestada pela doutrina na VIII Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: Enunciado nº 620 – Art. 884: A obrigação de restituir o lucro da intervenção, entendido como a vantagem patrimonial auferida a partir da exploração não autorizada de bem ou direito alheio, fundamenta-se na vedação do enriquecimento sem causa. É aquilo que a doutrina alemã chama de enriquecimento por intervenção (Eingriffskondiktion). Foi nessa linha a decisão do STJ. Vejamos o seguinte trecho: De acordo com a maioria da doutrina, o dever de restituição do denominado lucro da intervenção encontra fundamento no instituto do enriquecimento sem causa, atualmente positivado no art. 884 do CC. TJ. 3ª Turma. REsp 1.698.701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/10/18 (Info 634). Desse modo, o dever de restituição do lucro da intervenção surge não só como um meio de preservar a livre disposição de direitos, mas também como uma forma de inibir a prática de atos contrários ao ordenamento jurídico naquelas hipóteses em que a reparação dos danos causados, ainda que integral, não se mostra adequada a tal propósito. Assim, o dever de restituição do lucro da intervenção serve para dois propósitos: • preserva a livre disposição de direitos (no caso, a atriz não queria que sua imagem fosse vinculada a esse produto sem a sua autorização); e • atua como meio dissuasório (meio de desestimular) que a pessoa usurpe direitos de outrem e ainda saia no lucro mesmo se condenado a indenizar. Vejamos o seguinte trecho do julgado do STJ: O dever de restituição daquilo que é auferido mediante indevida interferência nos direitos ou bens jurídicos de outra pessoa tem a função de preservar a livre disposição de direitos, nos quais estão inseridos os direitos da personalidade, e de inibir a prática de atos contrários ao ordenamento jurídico. STJ. 3ª Turma. REsp 1.698.701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/10/2018 (Info 634). Cumulação de pedidos: ressarcimento e vedação ao enriquecimento sem causa: A ação de restituição por enriquecimento sem causa tem caráter subsidiário, ou seja, só deve ser manejada se a lei não prever outro meio. É o que diz o CC: Art. 886. Não caberá a restituição por enriquecimento, se a lei conferir ao lesado outros meios para se ressarcir do prejuízo sofrido. No caso da restituição do lucro da intervenção, não existe outro meio, considerando que a mera ação de indenização esbarraria no limite do princípio da reparação integral do dano. Logo, a parte, para obter a restituição do lucro da intervenção obrigatoriamente terá que formular pedido de restituição por enriquecimento sem causa. Diante disso, o STJ afirmouo seguinte: em tais casos, a vítima deverá fazer a cumulação de ações (cumulação de pedidos). Assim, ela proporá uma ação com dois pedidos distintos: · Pedido de reparação dos danos pela aplicação das regras da responsabilidade civil. Neste caso, a indenização ficará limitada ao efetivo prejuízo suportado pela vítima; e · Pedido de restituição do lucro da intervenção (restituição do ganho indevidamente auferido). Este segundo pedido será baseado na vedação ao enriquecimento sem causa e pode ultrapassar o montante do prejuízo da vítima, já que não estará vinculado ao princípio da reparação integral. Assim, a conjugação dos dois institutos (reparação dos danos morais e materiais + restituição do que o réu lucrou ao associar a imagem da autora ao produto) é plenamente admitida, não sendo obstada pela subsidiariedade da ação de enriquecimento sem causa. Isso porque a responsabilidade civil não tutela nada além dos prejuízos efetivamente sofridos pela vítima do evento danoso, enquanto que o enriquecimento ilícito se encarrega apenas de devolver o lucro obtido em decorrência da indevida intervenção no direito de imagem de outrem ao seu verdadeiro titular. Vejamos o seguinte trecho do julgado do STJ: A subsidiariedade da ação de enriquecimento sem causa não impede que se promova a cumulação de ações, cada qual disciplinada por um instituto específico do Direito Civil, sendo perfeitamente plausível a formulação de pedido de reparação dos danos mediante a aplicação das regras próprias da responsabilidade civil, limitado ao efetivo prejuízo suportado pela vítima, cumulado com o pleito de restituição do indevidamente auferido, sem justa causa, às custas do demandante. STJ. 3ª Turma. REsp 1.698.701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/10/18 (Info 634). Para ter direito de receber a quantia por enriquecimento sem causa, é necessário que a vítima prove que sofreu um dano? É necessária a existência de deslocamento patrimonial (dinheiro saiu da vítima e foi para o autor)? NÃO. Para a configuração do enriquecimento sem causa por intervenção, não se faz imprescindível a existência de deslocamento patrimonial, com o empobrecimento do titular do direito violado. Em nosso exemplo, a atriz terá direito à restituição do lucro da intervenção mesmo sem prova de que teve algum prejuízo. Basta a demonstração de que houve enriquecimento indevido do interventor/violador. Nesse sentido: Enunciado 35 da I Jornada de Direito Civil: A expressão “se enriquecer à custa de outrem” do art. 886 do novo Código Civil não significa, necessariamente, que deverá haver empobrecimento. Vejamos o seguinte trecho do julgado do STJ: Para a configuração do enriquecimento sem causa por intervenção, não se faz imprescindível a existência de deslocamento patrimonial, com o empobrecimento do titular do direito violado, bastando a demonstração de que houve enriquecimento do interventor. STJ. 3ª Turma. REsp 1.698.701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/10/18 (Info 634). Como é feita a quantificação do lucro da intervenção? Como definir o quanto deverá ser “devolvido” (pago) ao titular do direito violado? Existem dois critérios que poderiam ser utilizados: a) Lucro real (enriquecimento real): é o valor do uso do bem ou do direito que foi violado. Ex: valor que a Giovanna Antonelli cobraria para aparecer em uma campanha publicitária como essa. b) Lucro patrimonial (enriquecimento patrimonial): compara-se o patrimônio do violador antes e depois. O que aumentou com a violação é o lucro da intervenção. Para a maioria da doutrina, o critério mais adequado é o do enriquecimento patrimonial, considerando que ele é o que melhor permite acabar, de forma específica, com o enriquecimento obtido pelo violador. Como se calcular o “lucro patrimonial”? A quantificação do lucro da intervenção deverá ser feita por meio de perícia realizada nafase de liquidação de sentença, devendo o perito observar os seguintes critérios: a) apuração do quantum debeatur com base no denominado lucro patrimonial; b) delimitação do cálculo ao período no qual se verificou a indevida intervenção no direito de imagem da autora; c) aferição do grau de contribuição de cada uma das partes e d) distribuição do lucro obtido com a intervenção proporcionalmente à contribuição de cada partícipe da relação jurídica. STJ. 3ª Turma. REsp 1.698.701-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 02/10/2018 (Info 634). 1.3. DIREITO AO ESQUECIMENTO: Excepcionalmente, é possível que o Judiciário determine o rompimento do vínculo estabelecido por sites de busca entre o nome da pessoa, utilizado como critério exclusivo de busca, e a notícia desabonadora apontada nos resultados – (Info 628) – IMPORTANTE!!! Determinada pessoa se envolveu em uma suspeita de fraude há mais muitos anos, tendo sido inocentada das acusações. Ocorre que todas as vezes que digita seu nome completo no Google e demais provedores de busca, os primeiros resultados que aparecem até hoje são de páginas na internet que trazem reportagens sobre seu suposto envolvimento com a fraude. Diante disso, ela ingressou com ação de obrigação de fazer contra o Google pedindo a desindexação, nos resultados das aplicações de busca mantida pela empresa, de notícias relacionadas às suspeitas de fraude no referido concurso. Invocou, como fundamento, o direito ao esquecimento. O STJ afirmou o seguinte: em regra, os provedores de busca da internet (ex: Google) não têm responsabilidade pelos resultados de busca apresentados. Em outras palavras, não se pode atribuir a eles a função de censor, obrigando que eles filtrem os resultados das buscas, considerado que eles apenas espelham o conteúdo que existe na internet. A pessoa prejudicada deverá direcionar sua pretensão contra os provedores de conteúdo (ex: sites de notícia), responsáveis pela disponibilização do conteúdo indevido na internet. Há, todavia, circunstâncias excepcionalíssimas em que é necessária a intervenção pontual do Poder Judiciário para fazer cessar o vínculo criado, nos bancos de dados dos provedores de busca, entre dados pessoais e resultados da busca, que não guardam relevância para interesse público à informação, seja pelo conteúdo eminentemente privado, seja pelo decurso do tempo. Nessas situações excepcionais, o direito à intimidade e ao esquecimento, bem como a proteção aos dados pessoais deverá preponderar, a fim de permitir que as pessoas envolvidas sigam suas vidas com razoável anonimato, não sendo o fato desabonador corriqueiramente rememorado e perenizado por sistemas automatizados de busca. No caso concreto, o STJ determinou que deveria haver a desvinculação da pesquisa com base no nome completo da autora com resultados que levassem às notícias sobre a fraude. Em outras palavras, o STJ afirmou o seguinte: o Google não precisa retirar de seus resultados as notícias da autora relacionadas com a suposta fraude no concurso. Mas para que esses resultados apareçam será necessário que o usuário faça uma pesquisa específica com palavras-chaves que remetam à fraude. Por outro lado, se a pessoa digitar unicamente o nome completo da autora, sem qualquer outro termo de pesquisa que remete à suspeita de fraude, não se deve mais aparecer os resultados relacionados com este fato desabonador. Assim, podemos dizer que é possível determinar o rompimento do vínculo estabelecido por provedores de aplicação de busca na internet entre o nome de prejudicado, utilizado como critério exclusivo de busca, e a notícia apontada nos resultados. O rompimento do referido vínculo sem a exclusão da notícia compatibiliza também os interesses individual do titular dos dados pessoais e coletivo de acesso à informação, na medida em que viabiliza a localização das notícias àqueles que direcionem sua pesquisa fornecendo argumentos de pesquisa relacionados ao fato noticiado, mas não àqueles que buscam exclusivamente pelos dados pessoais do indivíduo protegido. STJ. 3ª Turma. REsp 1660168-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 8/5/18 (Info 628).OBS: DIREITO AO ESQUECIMENTO O que é o direito ao esquecimento? O direito ao esquecimento é o direito que uma pessoa possui de não permitir que um fato, ainda que verídico, ocorrido em determinado momento de sua vida, seja exposto ao público em geral, causando-lhe sofrimento ou transtornos. Exemplo histórico: O exemplo mais conhecido e mencionado é o chamado “caso Lebach” (Soldatenmord von Lebach), julgado pelo Tribunal Constitucional Alemão. A situação foi a seguinte: em 1969, quatro soldados alemães foram assassinados em uma cidade na Alemanha chamada Lebach. Após o processo, três réus foram condenados, sendo dois à prisão perpétua e o terceiro a seis anos de reclusão. Esse terceiro condenado cumpriu integralmente sua pena e, dias antes de deixar a prisão, ficou sabendo que uma emissora de TV iria exibir um programa especial sobre o crime no qual seriam mostradas, inclusive, fotos dos condenados e a insinuação de que eram homossexuais. Diante disso, ele ingressou com uma ação inibitória para impedir a exibição do programa. A questão chegou até o Tribunal Constitucional Alemão, que decidiu que a proteção constitucional da personalidade não admite que a imprensa explore, por tempo ilimitado, a pessoa do criminoso e sua vida privada. Assim, naquele caso concreto, entendeu-se que o princípio da proteção da personalidade deveria prevalecer em relação à liberdade de informação. Isso porque não haveria mais um interesse atual naquela informação (o crime já estava solucionado e julgado há anos). Em contrapartida, a divulgação da reportagem iria causar grandes prejuízos ao condenado, que já havia cumprido a pena e precisava ter condições de se ressocializar, o que certamente seria bastante dificultado com a nova exposição do caso. Dessa forma, a emissora foi proibida de exibir o documentário. · Atenção: alguns pesquisadores afirmam que o caso Lebach não poderia ser utilizado como exemplo de aplicação do direito ao esquecimento uma vez que teria havido outras decisões na Alemanha autorizando a exibição do documentário. Trata-se, contudo, de um debate mais aprofundado, sem tanta relevância para fins de concurso, sendo certo também que, na doutrina brasileira, o referido episódio é sempre lembrado como um caso de direito ao esquecimento. Nomenclatura: O direito ao esquecimento também é chamado de “direito de ser deixado em paz” ou o “direito de estar só”. Em outros países, é conhecido como the right to be let alone ou derecho al olvido. Fundamento: No Brasil, o direito ao esquecimento possui assento constitucional e legal, considerando que é uma consequência do direito à vida privada (privacidade), intimidade e honra, assegurados pela CF/88 (art. 5º, X) e pelo CC/02 (art. 21). Alguns autores também afirmam que o direito ao esquecimento é uma decorrência da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III da CF/88). Conflito entre interesses constitucionais: A discussão quanto ao direito ao esquecimento envolve um conflito aparente entre a liberdade de expressão/informação e atributos individuais da pessoa humana, como a intimidade, privacidade e honra. O direito ao esquecimento não é uma criação recente: Há muitos anos discute-se esse direito na Europa e nos EUA. Por que, então, esse tema está sendo novamente tão discutido? O direito ao esquecimento voltou a ser tema de inegável importância e atualidade em razão da internet. Isso porque a rede mundial de computadores praticamente eterniza as notícias e informações. É quase impossível ser esquecido com uma ferramenta tão poderosa disponibilizando facilmente um conteúdo praticamente infinito. No Brasil, o direito ao esquecimento voltou a ser palco de intensos debates em razão da aprovação de um enunciado nesse sentido na VI Jornada de Direito Civil, além de o STJ ter julgado dois casos envolvendo esse direito há pouco tempo. O direito ao esquecimento aplica-se apenas a fatos ocorridos no campo penal? Não. A discussão quanto ao direito ao esquecimento surgiu, de fato, para o caso de ex-condenados que, após determinado período, desejavam que esses antecedentes criminais não mais fossem expostos, vez que lhes causavam inúmeros prejuízos. No entanto, esse debate foi se ampliando e, atualmente, envolve outros aspectos da vida da pessoa que ela almeja que sejam esquecidos. É o caso, por exemplo, da apresentadora Xuxa, que no passado fez um determinado filme do qual se arrepende e que não mais deseja que seja exibido ou rememorado por lhe causar prejuízos profissionais e transtornos pessoais. Pode-se imaginar ainda que o indivíduo deseje simplesmente ser esquecido, deixado em paz. Nesse sentido, podemos imaginar o exemplo de uma pessoa que era famosa (um artista, esportista, político etc.) que, em determinado momento de sua vida, decide voltar a ser um anônimo e não mais ser incomodado com reportagens, entrevistas ou qualquer outra forma de exposição pública. Em certa medida, isso aconteceu na década de 90 com a ex-atriz Lídia Brondi e, mais recentemente, com Ana Paula Arósio que, mesmo tendo carreiras de muito sucesso na televisão, optaram por voltar ao anonimato. Essa é, portanto, uma das expressões do direito ao esquecimento, que deve ser juridicamente assegurado. Assim, se um veículo de comunicação tiver a infeliz ideia de fazer um especial mostrando a vida atual dessas ex-atrizes, com câmeras acompanhando seu dia-a-dia, entrevistando pessoas que as conheciam na época, mostrando lugares que atualmente frequentam etc., poderão elas requerer ao Poder Judiciário medidas que impeçam essa violação ao seu direito ao esquecimento. Críticas ao chamado “direito ao esquecimento”: Vale ressaltar que existem doutrinadores que criticam a existência de um “direito ao esquecimento”. O Min. Luis Felipe Salomão, no julgamento do REsp 1.335.153-RJ, apesar de ser favorável ao direito ao esquecimento, colacionou diversos argumentos contrários à tese. Vejamos os mais relevantes: · o acolhimento do chamado direito ao esquecimento constituiria um atentado à liberdade de expressão e de imprensa; · o direito de fazer desaparecer as informações que retratam uma pessoa significa perda da própria história, o que vale dizer que o direito ao esquecimento afronta o direito à memória de toda a sociedade; · o direito ao esquecimento teria o condão de fazer desaparecer registros sobre crimes e criminosos perversos, que entraram para a história social, policial e judiciária, informações de inegável interesse público; · é absurdo imaginar que uma informação que é lícita se torne ilícita pelo simples fato de que já passou muito tempo desde a sua ocorrência; · quando alguém se insere em um fato de interesse coletivo, mitiga-se a proteção à intimidade e privacidade em benefício do interesse público. Sem dúvida nenhuma, o principal ponto de conflito quanto à aceitação do direito ao esquecimento reside justamente em como conciliar esse direito com a liberdade de expressão e de imprensa e com o direito à informação. Enunciado 531 da VI Jornada: Em março de 2013, na VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, foi aprovado um enunciado defendendo a existência do direito ao esquecimento como uma expressão da dignidade da pessoa humana. Veja: Enunciado 531: A tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento. Justificativa: Os danos provocados pelas novas tecnologias de informação vêm-se acumulando nos dias atuais. O direito ao esquecimento tem sua origem histórica no campo das condenações criminais. Surge como parcela importante do direito do ex-detento à ressocialização. Não atribui a ninguém o direito de apagar fatos ou reescrever a própria história, mas apenas assegura a possibilidade de discutir o uso que é dado aos fatos pretéritos, mais especificamente o modo e a finalidade com que são lembrados. Apesar de tais enunciados não terem força cogente, trata-se de uma importante fonte de pesquisa e argumentação utilizada pelos profissionais do Direito. O STJ acolhe a tese do direito ao esquecimento? SIM. Existem julgados do STJ nos quais já seafirmou que o sistema jurídico brasileiro protege o direito ao esquecimento (REsp 1.335.153-RJ e REsp 1.334.097-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgados em 28/5/2013). Contudo, o deferimento, ou não, do direito ao esquecimento depende da análise do caso concreto. Como conciliar, então, o direito ao esquecimento com o direito à informação? Deve-se analisar se existe um interesse público atual na divulgação daquela informação. Se ainda persistir, não há que se falar em direito ao esquecimento, sendo lícita a publicidade daquela notícia. É o caso, por exemplo, de “crimes genuinamente históricos, quando a narrativa desvinculada dos envolvidos se fizer impraticável” (Min. Luis Felipe Salomão). Por outro lado, se não houver interesse público atual, a pessoa poderá exercer seu direito ao esquecimento, devendo ser impedidas notícias sobre o fato que já ficou no passado. O Min. Luis Felipe Salomão também ressaltou que “ressalvam-se do direito ao esquecimento os fatos genuinamente históricos – historicidade essa que deve ser analisada em concreto – cujo interesse público e social deve sobreviver à passagem do tempo” (REsp 1.334.097). DIREITO AO ESQUECIMENTO E RESULTADO DAS BUSCAS NOS SITES DE PESQUISA COMO O GOOGLE: Imagine a seguinte situação hipotética: “Laís da Silva Fialho” participou de um concurso de Juiz de Direito que foi anulado sob suspeita de fraude. Seu nome constou em algumas reportagens como sendo uma das eventuais beneficiárias do ilícito. As investigações chegaram ao fim e não foi provado que Laís tenha participado da suposta fraude. Já se passaram mais de 10 anos desse episódio. Apesar disso, quando se digita o nome completo de Laís no Google aparecem várias menções à fraude, sem que exista qualquer reportagem que afirme que ela foi inocentada. Ação de obrigação de fazer: Diante disso, Laís ajuizou ação de obrigação de fazer contra a Google Brasil Internet Ltda. pedindo a desindexação, nos resultados das aplicações de busca mantida pela empresa, de notícias relacionadas às suspeitas de fraude no referido concurso. A autora alegou que a indexação desses conteúdos causa danos à sua dignidade e à sua privacidade e, assim, requereu a filtragem dos resultados de buscas que utilizem seu nome como parâmetro, a fim de desvinculá-la das mencionadas reportagens. O pedido de Laís foi baseado, dentre outros argumentos, no chamado “direito ao esquecimento”. Os buscadores da internet (exs: Google, Bing, Yahoo etc.) possuem responsabilidade pelos resultados de busca apresentados? NÃO. O STJ tem entendimento reiterado no sentido de afastar a responsabilidade de buscadores da internet pelos resultados de busca apresentados, reconhecendo a impossibilidade de lhe atribuir a função de censor e impondo ao prejudicado o direcionamento de sua pretensão contra os provedores de conteúdo, responsáveis pela disponibilização do conteúdo indevido na internet. Em outras palavras, em vez de ingressar com a ação contra o Google (provedor de aplicação de busca na Internet), a pessoa prejudicada pela notícia deve propor a demanda contra o site que a divulga (provedor de conteúdo). Essa é a REGRA GERAL. Qual é a razão desse entendimento? Por que os buscadores da internet não possuem responsabilidade pelos resultados apresentados? Os sites de busca (cujo maior exemplo, mas não o único, é o Google) são uma ferramenta para que “o usuário realize pesquisas acerca de qualquer assunto ou conteúdo existente na web, mediante fornecimento de critérios ligados ao resultado desejado, obtendo os respectivos links das páginas onde a informação pode ser localizada” (STJ. 3ª Turma. REsp 1.316.921/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 29/6/12). O site de busca fornece, portanto, uma espécie de índice do conteúdo disponível na internet, qualquer que seja esse conteúdo, facilitando o acesso às informações disponíveis, livre de qualquer filtragem ou censura prévia. Os provedores de pesquisa realizam suas buscas dentro de um universo virtual, cujo acesso é público e irrestrito, ou seja, seu papel se restringe à identificação de páginas na web onde determinado dado ou informação, ainda que ilícito, estão sendo livremente veiculados. Dessa forma, ainda que seus mecanismos de busca facilitem o acesso e a consequente divulgação de páginas cujo conteúdo seja potencialmente ilegal, fato é que essas páginas são públicas e compõem a rede mundial de computadores e, por isso, aparecem no resultado dos sites de pesquisa. Ora, se a página possui conteúdo ilícito, cabe ao ofendido adotar medidas para que haja a supressão da página e, com isso, automaticamente, ele não mais aparecerá nos resultados de busca virtual dos sites de pesquisa. Foi o que decidiu o STJ no caso da ação proposta pela apresentadora Xuxa, que ingressou com uma ação contra o Google objetivando compelir a empresa a remover do seu site de pesquisas os resultados relativos à busca pela expressão “xuxa pedófila”. Veja trecho da ementa: (...) 6. Os provedores de pesquisa não podem ser obrigados a eliminar do seu sistema os resultados derivados da busca de determinado termo ou expressão, tampouco os resultados que apontem para uma foto ou texto específico, independentemente da indicação do URL da página onde este estiver inserido. 7. Não se pode, sob o pretexto de dificultar a propagação de conteúdo ilícito ou ofensivo na web, reprimir o direito da coletividade à informação. Sopesados os direitos envolvidos e o risco potencial de violação de cada um deles, o fiel da balança deve pender para a garantia da liberdade de informação assegurada pelo art. 220, § 1º, da CF/88, sobretudo considerando que a Internet representa, hoje, importante veículo de comunicação social de massa. (...) STJ. 3ª Turma. REsp 1316921/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 26/06/2012. Circunstâncias excepcionalíssimas: Há, todavia, circunstâncias excepcionalíssimas em que é necessária a intervenção pontual do Poder Judiciário para fazer cessar o vínculo criado, nos bancos de dados dos provedores de busca, entre dados pessoais e resultados da busca, que não guardam relevância para interesse público à informação, seja pelo conteúdo eminentemente privado, seja pelo decurso do tempo. Nessas situações excepcionais, o direito à intimidade e ao esquecimento, bem como a proteção aos dados pessoais deverá preponderar, a fim de permitir que as pessoas envolvidas sigam suas vidas com razoável anonimato, não sendo o fato desabonador corriqueiramente rememorado e perenizado por sistemas automatizados de busca. Caso concreto: No exemplo dado no início desta explicação, Laís não pretende a responsabilização civil do Google. O que ela argumenta é que o resultado mais relevante obtido a partir da busca de seu nome, após mais de anos dos fatos, é a notícia de que apontava que ela supostamente participou de uma fraude em concurso público, como se não houvesse nenhum desdobramento da notícia, nem fatos novos relacionados ao seu nome. A manutenção desses resultados acaba por retroalimentar o sistema, uma vez que, ao realizar a busca pelo nome de Laís e se deparar com a notícia, o cliente acessará o conteúdo – até movido por curiosidade despertada em razão da exibição do link – reforçando, no sistema automatizado, a confirmação da relevância da página catalogada. Assim, é imprescindível a atuação pontual do Poder Judiciário para, em casos excepcionalíssimos, quebrar a vinculação eternizada pelos sites de busca, desassociando os dados pessoais do resultado cuja relevância se encontra superada pelo decurso do tempo. Essa é a essência do direito ao esquecimento: não se trata de efetivamente apagar o passado, mas de permitir que a pessoa envolvida siga sua vida com razoável anonimato, não sendo o fato desabonador corriqueiramente rememorado e perenizado por sistemas automatizados de busca. Por outro lado, aqueles que quiserem ter acesso a informações relativas a fraudes em concurso público, não terão seu direito de acesso impedido. Esses resultados continuarão a aparecer no Google, mas desde que a pessoa procure o nome de Laís em conjuntocom fraude no concurso público. Em outras palavras, o STJ afirmou o seguinte: o Google não precisa retirar de seus resultados as notícias de Laís relacionadas com a suposta fraude no concurso. Mas para que esses resultados apareçam será necessário que o usuário faça uma pesquisa específica com palavras-chaves que remetam à fraude. Por outro lado, se a pessoa digitar unicamente o nome completo de Laís, sem qualquer outra informação, não se deve mais aparecer os resultados relacionados com este fato desabonador que foi noticiado há muitos anos. Solução conciliadora: Tem-se, assim, uma via conciliadora do livre acesso à informação e do legítimo interesse individual, porque não serão excluídos da busca referências ao nome de Laís no evento da fraude ao concurso público. O que se evitará é, tão somente, que uma busca exclusiva com o seu nome completo dê como resultado mais relevante esse fato desabonador noticiado há uma década, impedindo a superação daquele momento. Dito de outro modo, o STJ não determinou a retirada do resultado do “índice” do Google; o Tribunal determinou apenas a “reordenação” do índice. Esse entendimento reforça a compreensão de que o direito ao esquecimento tutela a pretensão de se retornar ao estado de anonimato, do qual se foi retirado pela ocorrência ou notícia do fato desabonador, o que deve ser realizado, especialmente, quando não acarrete prejuízo à liberdade de expressão, à memória histórica e ao direito de informar (BRANCO, Sérgio. Memória e esquecimento na internet. Porto Alegre: Arquipélago editorial, 2017, p. 151). Relativização do entendimento tradicional: Não se pode dizer que houve uma mudança total de entendimento do STJ (caso “Xuxa”), mas o presente julgado representa uma importantíssima relativização da posição tradicional do STJ. Tribunal de Justiça Europeu: Vale ressaltar que a nova decisão do STJ neste REsp 1.660.168-RJ está em harmonia com o que foi recentemente decidido pelo Tribunal de Justiça Europeu. Isso porque, em 13/05/2014, o Tribunal de Justiça Europeu, com fundamento na Diretiva 95/46/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 24 de outubro de 1995, relativa à proteção de dados pessoais, decidiu que: I. Um provedor de aplicação de buscas deve ser considerado responsável pelos dados pessoais, nos termos da legislação europeia; II. A responsabilidade existe mesmo quando o servidor do provedor de aplicação de buscas se encontra fora do território europeu; III. Preenchidos os requisitos legais, um provedor de aplicação de buscas é obrigado a suprimir da lista de resultados, exibida na sequência de uma pesquisa efetuada a partir do nome de uma pessoa, as conexões a outras páginas web publicadas por terceiros e que contenham informações sobre essa pessoa, mesmo quando a sua publicação nas referidas páginas seja, em si mesma, lícita; IV. O indivíduo, ao exercer seu direito ao esquecimento, não pode causar prejuízo a outra pessoa. Em princípio, esse direito prevalece sobre o interesse econômico do buscador e sobre o interesse público em acessar a informação numa pesquisa sobre o nome dessa pessoa. No entanto, não será esse caso se houver razões especiais (por exemplo, se o requerente houver desempenhado relevante papel na vida pública). 1.4. NOME: O mero desejo pessoal não é motivo justificável para a alteração do prenome – (Sem Info) A regra no ordenamento jurídico é a imutabilidade do prenome (art. 58 da Lei nº 6.015/73). Todavia, sendo o nome civil um direito da personalidade, por se tratar de elemento que designa o indivíduo e o identifica perante a sociedade, revela-se possível, nas hipóteses previstas em lei, bem como em determinados casos admitidos pela jurisprudência, a modificação do prenome. Para que haja, contudo, a retificação de registro civil é necessário que exista uma circunstância excepcional apta a justificar a alteração do prenome. Ex: nome que gere constrangimento. Caso concreto: mulher ingressou com ação pedindo para trocar seu nome de Tatiane para Tatiana, sob a alegação de que é “popularmente” conhecida como Tatiana. O STJ não aceitou e disse que isso não é suficiente para afastar o princípio da imutabilidade do prenome, sob pena de se transformar a exceção em regra. STJ. 3ª T. REsp 1728039/SC, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/06/2018. 1.5. NOME: Possibilidade de voltar o nome de solteira após a morte do marido – (Info 627) – IMPORTANTE!!! É admissível o restabelecimento do nome de solteiro na hipótese de dissolução do vínculo conjugal pelo falecimento do cônjuge. Ex: Maria Pimentel da Costa casou-se com João Ferreira. Com o casamento, ela incorporou o patronímico do marido e passou a chamar-se Maria da Costa Ferreira. Alguns anos mais tarde, João faleceu. Maria poderá voltar a usar o nome de solteira (Maria Pimentel da Costa), excluindo o patronímico do falecido marido? Sim. Vale ressaltar que não há previsão legal para a retomada do nome de solteira em caso de morte do marido. A lei somente prevê a possibilidade de o homem ou a mulher voltarem a usar o nome de solteiro (a) em caso de divórcio (art. 1.571, § 2º, do CC). Apesar disso, o STJ entende que isso deve ser permitido. A viuvez e o divórcio são hipóteses muito parecidas e envolvem uma mesma razão de ser: a dissolução do vínculo conjugal. Logo, não há justificativa plausível para que se trate de modo diferenciado as referidas situações. STJ. 3ª Turma. REsp 1724718-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/5/18 (Info 627). OBS: NOÇÕES GERAIS SOBRE O NOME: O nome da pessoa física é um sinal (elemento de identificação) que individualiza a pessoa, fazendo com que ela seja diferenciada dos demais membros da família e da sociedade. Importância: A pessoa, ao praticar os atos da vida civil, identifica-se por meio do nome que lhe foi atribuído no registro de nascimento. Desse modo, toda pessoa tem que ter, obrigatoriamente, um nome. A pessoa recebe o nome ao nascer e este a acompanha mesmo depois da sua morte, considerando que será sempre identificada por esse sinal (exs.: inventário, direitos autorais). Natureza jurídica (teorias sobre o nome): Existem quatro principais teorias que explicam a natureza jurídica do nome: a) Teoria da propriedade: segundo esta concepção, o nome integra o patrimônio da pessoa. Essa teoria é aplicada no caso dos nomes empresariais. No que tange à pessoa natural, o nome é mais do que o mero aspecto patrimonial, consistindo, na verdade, em direito da personalidade. b) Teoria negativista: afirma que o nome não é um direito, mas apenas uma forma de designação das pessoas. A doutrina relata que era a posição adotada por Clóvis Beviláqua. c) Teoria do estado: sustenta que o nome é um elemento do estado da pessoa natural. d) Teoria do direito da personalidade: o nome é um direito da personalidade. É a teoria adotada pelo CC (art. 16): “toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o prenome e o sobrenome”. Proteção do nome: O direito ao nome é protegido, dentre outros, pelos seguintes diplomas: · Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 18). · Convenção dos Direitos da Criança (art. 7º). · Código Civil (art. 16). Princípio da imutabilidade relativa do nome: Em regra, o nome é imutável. É o chamado princípio da imutabilidade relativa do nome civil. A regra da inalterabilidade relativa do nome civil preconiza que o nome (prenome e sobrenome), estabelecido por ocasião do nascimento, reveste-se de definitividade, admitindo-se sua modificação, excepcionalmente, nas hipóteses expressamente previstas em lei ou reconhecidas como excepcionais por decisão judicial (art. 57, Lei 6.015/75), exigindo-se, para tanto, justo motivo e ausência de prejuízo a terceiros (REsp 1138103/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4ª T., j. 06/09/2011). EXCEÇÕES EM QUE A ALTERAÇÃO DO NOME É PERMITIDA: 1) No primeiro ano após atingir a maioridade civil: Prevista no art. 56 da Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/73): Art. 56. O interessado, no primeiro ano após ter atingido a maioridade civil, poderá, pessoalmente ou por procurador bastante,alterar o nome, desde que não prejudique os apelidos de família, averbando-se a alteração que será publicada pela imprensa. Observações: · Essa alteração é feita mediante processo administrativo. · Deverá haver um requerimento, de forma pessoal ou por procuração, por parte do interessado. · Não é necessário que tal formulação seja feita por meio de advogado. · Não precisa ser declarado nenhum motivo (trata-se de possibilidade de troca imotivada). · Não pode prejudicar os apelidos de família (patronímicos). É isso que está previsto na lei, mas veja adiante interessante precedente do STJ. · Será averbada a alteração no registro de nascimento e publicada pela imprensa. 2) Retificação em caso de erros: Hipótese prevista no art. 110 da LRP: Art. 110. O oficial retificará o registro, a averbação ou a anotação, de ofício ou a requerimento do interessado, mediante petição assinada pelo interessado, representante legal ou procurador, independentemente de prévia autorização judicial ou manifestação do Ministério Público, nos casos de: I - erros que não exijam qualquer indagação para a constatação imediata de necessidade de sua correção; II - erro na transposição dos elementos constantes em ordens e mandados judiciais, termos ou requerimentos, bem como outros títulos a serem registrados, averbados ou anotados, e o documento utilizado para a referida averbação e/ou retificação ficará arquivado no registro no cartório; III - inexatidão da ordem cronológica e sucessiva referente à numeração do livro, da folha, da página, do termo, bem como da data do registro; IV - ausência de indicação do Município relativo ao nascimento ou naturalidade do registrado, nas hipóteses em que existir descrição precisa do endereço do local do nascimento; V - elevação de Distrito a Município ou alteração de suas nomenclaturas por força de lei. (...) § 5º Nos casos em que a retificação decorra de erro imputável ao oficial, por si ou por seus prepostos, não será devido pelos interessados o pagamento de selos e taxas. (Obs: artigo todo alterado pela Lei nº 13.484/2017) Observações: · Essa alteração é feita mediante processo administrativo. · Os erros a serem corrigidos são aqueles facilmente perceptíveis, ou seja, que não exigem qualquer indagação para a sua constatação imediata. Tais erros poderão ser corrigidos de ofício pelo Oficial no próprio cartório, mediante petição assinada pelo interessado, representante legal ou procurador. · Ex: na certidão de nascimento da criança, constou o nome do pai como sendo Waldinei, mas na verdade era Waldiney. · O interessado não precisa de advogado. · O interessado não paga selos ou taxas. · Não é necessária a prévia manifestação do MP. Atenção porque isso é muito importante. · Vale a pena guardar esses cinco incisos do art. 110 para as provas. 3) Acréscimo ou substituição por apelidos públicos notórios: Prevista no art. 58 da LRP: Art. 58. O prenome será definitivo, admitindo-se, todavia, a sua substituição por apelidos públicos notórios. Obs.: neste caso, a alteração deve ser feita por meio de ação judicial. 4) Averbação do nome abreviado, usado como firma comercial ou em atividade profissional: Prevista no § 1º do art. 57 da LRP: Art. 57 (...) § 1º Poderá, também, ser averbado, nos mesmos termos, o nome abreviado, usado como firma comercial registrada ou em qualquer atividade profissional. 5) Enteado pode adotar o sobrenome do padrasto: Previsto no § 8º do art. 57 da LRP: Art. 57 (...) § 8º O enteado ou a enteada, havendo motivo ponderável e na forma dos §§ 2º e 7º deste artigo, poderá requerer ao juiz competente que, no registro de nascimento, seja averbado o nome de família de seu padrasto ou de sua madrasta, desde que haja expressa concordância destes, sem prejuízo de seus apelidos de família. Observações: · Deve haver motivo ponderável. · O requerimento é feito ao juiz. · Será averbado o nome de família do padrasto ou madrasta. · É indispensável que haja a concordância expressa do padrasto ou madrasta. · Não pode haver prejuízo aos apelidos de família do(a) enteado(a). 6) Pessoas incluídas no programa de proteção a vítimas e testemunhas: Previsto no § 7º do art. 57 da LRP e no art. 9º da Lei nº 9.807/99: Art. 57 (...) § 7º Quando a alteração de nome for concedida em razão de fundada coação ou ameaça decorrente de colaboração com a apuração de crime, o juiz competente determinará que haja a averbação no registro de origem de menção da existência de sentença concessiva da alteração, sem a averbação do nome alterado, que somente poderá ser procedida mediante determinação posterior, que levará em consideração a cessação da coação ou ameaça que deu causa à alteração. 7) Por via judicial, com motivo declarado, por sentença, após oitiva do MP: Previsto no caput do art. 57 da LRP: Art. 57. A alteração posterior de nome, somente por exceção e motivadamente, após audiência do Ministério Público, será permitida por sentença do juiz a que estiver sujeito o registro, arquivando-se o mandado e publicando-se a alteração pela imprensa, ressalvada a hipótese do art. 110 desta Lei. Observações: · É hipótese de processo judicial de jurisdição voluntária. · É obrigatória a oitiva do MP. · O pedido é decidido pelo juiz por sentença. · Será competente o juiz a que estiver sujeito o registro. · Arquiva-se o mandado no Registro Civil de Pessoas Naturais. Exemplos de alteração do nome com base nesse art. 57: · Alterar o prenome caso exponha seu portador ao ridículo. · Retificar o patronímico constante do registro para obter a nacionalidade de outro país (o STJ já reconheceu o direito de suprimir incorreções na grafia do patronímico para que a pessoa pudesse obter a cidadania italiana[REsp 1138103/PR]). 8) Casamento: Segundo o CC-2002, o cônjuge pode acrescentar o sobrenome do outro. Tanto a mulher pode adicionar o do marido, quanto o marido o da mulher. Art. 1.565 (...) § 1º Qualquer dos nubentes, querendo, poderá acrescer ao seu o sobrenome do outro. Em regra, o sobrenome do marido/esposa é acrescido no momento do matrimônio, sendo essa providência requerida já no processo de habilitação para o casamento. Imagine agora a seguinte situação: marido e mulher se casaram e, no momento da habilitação para o casamento, não requereram a alteração do nome. É possível que, posteriormente, um possa acrescentar o sobrenome do outro? SIM. Aos cônjuges é permitido incluir ao seu nome o sobrenome do outro, ainda que após a data da celebração do casamento. Vale ressaltar, no entanto, que esse acréscimo terá que ser feito por intermédio da ação de retificação de registros públicos, nos termos dos arts. 57 e 109 da Lei de Registros Públicos (Lei n. 6.015/1973). Assim, não será possível a alteração pela via administrativa, mas somente em juízo. STJ. 4ª Turma. REsp 910.094-SC, Rel. Raul Araújo, julgado em 4/9/2012. Exemplo: Ricardo Oliveira casou-se com Izabel Fontana. No processo de habilitação, não foi solicitada a mudança de nome. Desse modo, após o casamento, os nomes permaneceram iguais aos de solteiro. Ocorre que, após 5 anos de casada, Izabel decide acrescentar o patronímico de seu marido. Para tanto, Izabel procura o Cartório (Registro Civil) onde foi lavrada sua certidão de casamento e pede essa providência ao Registrador Civil. Este poderá proceder à inclusão pleiteada? NÃO. Izabel e Ricardo deverão procurar um advogado e este ajuizará uma ação de retificação de registro público, com base nos art. 57 e 109 da LRP, expondo a situação. O juiz, após ouvir o Ministério Público, poderá determinar que Izabel inclua em seu nome o patronímico de seu marido, passando a se chamar Izabel Fontana Oliveira. 9) União estável: Se duas pessoas vivem em união estável, é possível incluir o patronímico de um deles no nome do outro? Ex.: Carlos Andrade vive em união estável com Juliana Barbosa. É permitido que Juliana acrescente o patronímico de seu companheiro e passe a se chamar “Juliana Barbosa Andrade”? SIM, também é possível, conforme entendeu o STJ. Foi aplicado, por analogia, o art. 1.565, § 1º doCC, visto acima, que trata sobre o casamento. Como a união estável e o casamento são institutos semelhantes, é possível aplicar a regra de um para o outro, pois “onde impera a mesma razão, deve prevalecer a mesma decisão” (ubi eadem legis ratio ibi eadem dispositio). STJ. 4ª Turma. REsp 1.206.656–GO, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 16/10/2012. Exigências para o acréscimo do patronímico do companheiro: Segundo decidiu o STJ, são feitas duas exigências para que a pessoa possa adotar o patronímico de seu companheiro: a) deverá existir prova documental da relação, feita por instrumento público; b) deverá haver a anuência do companheiro cujo nome será adotado. 10) Separação/Divórcio: · Regra: na separação e no divórcio, o nome é mantido, salvo se a pessoa que acrescentou o sobrenome de seu cônjuge desejar retirá-lo. · Exceção: somente haverá a perda do sobrenome contra a vontade da pessoa que o acrescentou se preenchidos os seguintes requisitos: 1) houver pedido expresso do cônjuge que “forneceu” o sobrenome; 2) a perda não puder causar prejuízo à identificação do cônjuge. Ex.: Marta Suplicy; 3) a perda não puder causar prejuízo à identificação dos filhos; 4) restar provada culpa grave por parte do cônjuge. Isso está previsto no Código Civil: Art. 1.571 (...) § 2º Dissolvido o casamento pelo divórcio direto ou por conversão, o cônjuge poderá manter o nome de casado; salvo, no segundo caso, dispondo em contrário a sentença de separação judicial. 11) Morte do cônjuge: Ex: Maria Pimentel da Costa casou-se com João Ferreira. Com o casamento, ela incorporou o patronímico do marido e passou a chamar-se Maria da Costa Ferreira. Alguns anos mais tarde, João faleceu. Maria poderá voltar a usar o nome de solteira (Maria Pimentel da Costa), excluindo o patronímico do falecido marido? SIM. Vale ressaltar que não há previsão legal para a retomada do nome de solteira em caso de morte do marido. A lei somente prevê a possibilidade de o homem ou a mulher voltarem a usar o nome de solteiro (a) em caso de divórcio. Apesar disso, o STJ entende que isso deve ser permitido. A viuvez e o divórcio são hipóteses muito parecidas e envolvem uma mesma razão de ser: a dissolução do vínculo conjugal. Logo, não há justificativa plausível para que se trate de modo diferenciado as referidas situações. Assim, o dispositivo que apenas autoriza a retomada do nome de solteiro na hipótese de divórcio deverá ser estendido também às hipóteses de dissolução do casamento pela morte de um dos cônjuges. É admissível o restabelecimento do nome de solteiro na hipótese de dissolução do vínculo conjugal pelo falecimento do cônjuge. STJ. 3ª Turma. REsp 1.724.718-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/05/2018 (Info 627). Impedir a retomada do nome de solteiro na hipótese de falecimento do cônjuge implicaria em grave violação aos direitos da personalidade e à dignidade da pessoa humana após a viuvez, especialmente no momento em que a substituição do patronímico é cada vez menos relevante no âmbito social, quando a questão está, cada dia mais, no âmbito da autonomia da vontade e da liberdade e, ainda, quando a manutenção do nome pode, em tese, acarretar ao cônjuge sobrevivente abalo de natureza emocional, psicológica ou profissional, em descompasso, inclusive, com o que preveem as mais contemporâneas legislações civis. 1.6. RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL: Homologação de acordo extrajudicial de retificação de registro civil – (Info 627) – IMPORTANTE!!! É inadmissível a homologação de acordo extrajudicial de retificação de registro civil de menor em juízo sem a observância dos requisitos e procedimento legalmente instituído para essa finalidade. Ex: Sandro namorava Letícia, que ficou grávida. Ao nascer a criança, Sandro a registrou como sua filha. Alguns anos depois, por meio de um exame de DNA feito em uma clínica particular, descobre-se que o pai biológico da menor é, na verdade, João. Diante disso, o pai registral, o pai biológico e a criança, representada por sua mãe, celebraram um acordo extrajudicial de anulação de assento civil. Por intermédio deste instrumento, as referidas partes acordaram que haveria a retificação do registro civil da menor para que houvesse a substituição do nome de seu pai registral pelo pai biológico. As partes ingressam com pedido para que o juiz homologasse esse acordo. O pedido deverá ser negado. STJ. 3ª T. REsp 1698717-MS, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 5/6/18 (Info 627). OBS: Esse acordo não pode ser homologado porque foram descumpridos os requisitos e o procedimento previstos na lei para essa finalidade. Vejamos: 1) Neste negócio jurídico, uma criança renunciou ao seu direito à filiação, transferindo essa situação jurídica a um terceiro; 2) O negócio jurídico celebrado pelas partes teve como objeto um direito personalíssimo, sobre o qual não se admite a transação, o que se depreende da interpretação a contrario sensu do art. 841 do CC: Art. 841. Só quanto a direitos patrimoniais de caráter privado se permite a transação. 3) Esse negócio jurídico não preenche os requisitos básicos previstos no art. 104, II e III, do CC, uma vez que se negociou objeto ILÍCITO – direitos da personalidade de uma menor sem que tenha sido observada a forma prescrita em lei quando se trata de retificação de registros civis. 4) Não se fez uma apuração mais aprofundada a respeito da existência de erro ou de falsidade do registro da criança, condições indispensável para que se possa modificar o registro de nascimento, na forma do art. 1.604 do CC. 5) Em um caso desta natureza, não se pode relegar ao Ministério Público o papel de mero opinante no processo de homologação. 6) Não se pode utilizar o exame de DNA realizado em clínica particular como meio de prova válido para homologar o acordo extrajudicial, especialmente porque a prova pericial válida é aquela submetida ao crivo judicial, em que se deve observar o efetivo contraditório e a ampla defesa, com a possibilidade de acompanhamento da produção da prova por todos os atores do processo, com oportuna quesitação, diligências, participação do assistente técnico e produção de laudos técnicos convergentes ou divergentes. 7) Deveria ter sido realizado um estudos psicossocial para se verificar se existia ou não vínculo socioafetivo entre a criança e o pai registral. 1.7. DIREITO À IMAGEM: Súmula 403 do STJ é inaplicável para representação da imagem de pessoa como coadjuvante em documentário que tem por objeto a história profissional de terceiro – (Info 621) Ação de indenização proposta por ex-goleiro do Santos em virtude da veiculação indireta de sua imagem (por ator profissional contratado), sem prévia autorização, em cenas do documentário “Pelé Eterno”. O autor alegou que a simples utilização não autorizada de sua imagem, ainda que de forma indireta, geraria direito a indenização por danos morais, independentemente de efetivo prejuízo. O STJ não concordou. A representação cênica de episódio histórico em obra audiovisual biográfica não depende da concessão de prévia autorização de terceiros ali representados como coadjuvantes. O STF, no julgamento da ADI 4.815/DF, afirmou que é inexigível a autorização de pessoa biografada relativamente a obras biográficas literárias ou audiovisuais bem como desnecessária a autorização de pessoas nelas retratadas como coadjuvantes. A Súmula 403/STJ é inaplicável às hipóteses de representação da imagem de pessoa como coadjuvante em obra biográfica audiovisual que tem por objeto a história profissional de terceiro. STJ. 3ª T. REsp 1454016-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 12/12/17 (Info 621). OBS: Imagine a seguinte situação adaptada: No documentário “Pelé Eterno”, em uma das cenas é retratado o jogo entre os times do Santos e do Botafogo da Paraíba. Nesta cena, a produção do documentário utilizou um ator (dublê) para representar a imagem, semelhança e referência de Jair, o goleiro do Santos na época. Diante disso, Jair ajuizou ação de indenização por danos morais contra a produtora dodocumentário alegando que foi utilizada a sua imagem sem autorização. O autor invocou, para tanto, a súmula 403 do STJ, que tem a seguinte redação: Súmula 403-STJ: Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada da imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais. O debate, portanto, é saber se a utilização da imagem do indivíduo, ainda que realizada por meio de um ator (dublê), sem a devida autorização, em filme, serve de suporte ao pedido de reparação de danos materiais e compensação de danos morais, independentemente da comprovação de prejuízo. O STJ concordou com o pedido do autor? Há direito à indenização no presente caso? NÃO. Não foi utilizada a imagem propriamente dita: A imagem propriamente dita do autor da ação não foi exibida, considerando que foi utilizado ator profissional para representá-lo. Não houve propósito econômico ou comercial na cena: Além disso, mesmo que se considere que essa representação cênica do mencionado fato importou na utilização, ainda que indireta, da imagem do autor, fato é que não se revela razoável concluir que sua inclusão no filme em discussão teve propósito econômico ou comercial. Com todo respeito à história pessoal e profissional do autor da demanda, não há nada que indique que a inclusão dessas brevíssimas cenas tenha incrementado de alguma maneira o valor comercial da obra. Tanto é assim que, acaso suprimidas as cenas e contada de outra maneira essa passagem da vida de Pelé, nada perderia a obra em seu conteúdo ou potencial de público. A própria obra em si consiste em documentário biográfico, sendo marcada, assim, mais por seu caráter histórico e de interesse social do que por eventual finalidade comercial. 1.8. TRANSEXUAL: Transexual pode alterar seu prenome e gênero no registro civil mesmo sem fazer a cirurgia de transgenitalização – (Info 608) – IMPORTANTE!!! O direito dos transexuais à retificação do prenome e do sexo/gênero no registro civil não é condicionado à exigência de realização da cirurgia de transgenitalização. Trata-se de novidade porque, anteriormente, a jurisprudência exigia a realização da cirurgia de transgenitalização. STJ. 4ª T. REsp 1.626.739-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 9/5/17 (Info 608). 1.9. NOME: Alteração de registro civil após aquisição de dupla cidadania – (Info 588) O brasileiro que adquiriu dupla cidadania pode ter seu nome retificado no registro civil do Brasil, desde que isso não cause prejuízo a terceiros, quando vier a sofrer transtornos no exercício da cidadania por força da apresentação de documentos estrangeiros com sobrenome imposto por lei estrangeira e diferente do que consta em seus documentos brasileiros. STJ. 3ª T. REsp 1.310.088-MG, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Rel. para acórdão Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 17/5/16 (Info 588). OBS: Retificação de nome para possibilitar a obtenção de outra nacionalidade: Importante destacar que o STJ já entendeu que é possível a retificação de nome para possibilitar a obtenção de outra nacionalidade. No caso concreto, o sobrenome do autor era "Barticiotto" e assim constava em seus documentos no Brasil. Ocorre que ele era descendente de italianos e lá esse sobrenome é escrito corretamente como "Bartucciotto". Quando a família veio para o Brasil, houve um erro de grafia e, por conta disso, o sobrenome ficou diferente daquele adotado na Itália. Em virtude disso, o autor ajuizou ação para modificar seu sobrenome, já que, sem essa providência, ele não conseguiria adquirir a cidadania italiana. O STJ concordou com o pedido considerando haver justo motivo (STJ. 4ª Turma. REsp 1138103/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 06/09/2011). Se pode alterar o nome para a pessoa obter a nacionalidade, com mais razão pode-se alterar depois que a pessoa adquiriu dupla nacionalidade: Se o STJ permite a mudança do nome para que o indivíduo possa requerer a cidadania italiana (REsp 1138103/PR), com maior razão deve permitir a alteração para a pessoa que já obteve a dupla nacionalidade, prestigiando, assim, o princípio da simetria, da uniformidade, da verdade real e da segurança jurídica, que norteiam o sistema registral brasileiro. A posição mais flexível do STJ sobre a imutabilidade do nome civil tem por objetivo sobretudo assegurar o exercício da cidadania, ou seja, o próprio papel que o nome desempenha na formação e consolidação da personalidade de uma pessoa. 1.10. INTERDIÇÃO: Morte do interditando não acarreta, por si só, a extinção da ação de exigir contas ajuizada por ele – (Info 583) – IMPORTANTE!!! A morte do interditando no curso de ação de interdição não implica, por si só, a extinção do processo sem resolução de mérito da ação de exigir contas por ele ajuizada mediante seu curador provisório, tendo o espólio legitimidade para prosseguir com a ação de exigir contas. STJ. 3ª T. REsp 1.444.677-SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 3/5/16 (Info 583). 1.11. INTERDIÇÃO: A ordem de legitimados para o ajuizamento de ação de interdição NÃO é preferencial – (Info 571) – IMPORTANTE!!! Para que a curatela seja instituída, é necessária a instauração de um processo judicial, de jurisdição voluntária, regulado pelos arts. 1.177 a 1.186, CPC/73 (arts. 747 a 758, CPC/15). Esse processo é iniciado por meio de uma ação de interdição. O rol dos legitimados para propor ação de interdição está descrito no art. 1.177, CPC/73 (art. 747, CPC/15). Esse rol é preferencial? NÃO. A ordem de legitimados para o ajuizamento de ação de interdição NÃO é preferencial. Trata-se de legitimação concorrente, não sendo a propositura da ação prerrogativa de uma única pessoa. Mais de um legitimado pode requerer a curatela, formando-se um litisconsórcio ativo facultativo. Assim, ambos os pais, ou mesmo mais de um parente, podem propor a ação, cabendo ao juiz escolher, em momento oportuno, quem vai exercer o encargo. O inciso II do art. 1.177 do CPC/73 (art. 747, CPC/15) fala em "parente". Isso abrange também os parentes por afinidade? SIM. Qualquer pessoa que se enquadre no conceito de parente do Código Civil é parte legítima para propor ação de interdição. Assim, a interdição pode ser requerida por quem a lei reconhece como parente: ascendentes e descendentes de qualquer grau (art. 1.591, CC) e parentes em linha colateral até o quarto grau (art. 1.592, CC). Como afinidade gera relação de parentesco (art. 1.595, CC), nada impede que os afins requeiram a interdição e exerçam a curatela. STJ. 3ª T. REsp 1.346.013-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 13/10/15 (Info 571). 1.12. NOME: Direito de a pessoa retificar seu patronímico no registro de nascimento de seu filho após divórcio – (Info 555) – (TJDFT-2014) (DPERN-2015) (MPMG-2018) Se a genitora, ao se divorciar, volta a usar seu nome de solteira, é possível que o registro de nascimento dos filhos seja retificado para constar na filiação o nome atual da mãe. É direito subjetivo da pessoa retificar seu patronímico no registro de nascimento de seus filhos após divórcio. A averbação do patronímico no registro de nascimento do filho em decorrência do casamento atrai, à luz do princípio da simetria, a aplicação da mesma norma à hipótese inversa, qual seja, em decorrência do divórcio, um dos genitores deixa de utilizar o nome de casado (art. 3º, parágrafo único, da Lei nº 8.560/1992). Em razão do princípio da segurança jurídica e da necessidade de preservação dos atos jurídicos até então praticados, o nome de casada não deve ser suprimido dos assentamentos, procedendo-se, tão somente, a averbação da alteração requerida após o divórcio. STJ. 3ª T. REsp 1.279.952-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 3/2/15 (Info 555). 1.13. NOME: Exclusão dos sobrenomes paternos em razão do abandono pelo genitor – (Info 555) Imagine que determinado indivíduo foi abandonado pelo pai quando era ainda criança, tendo sido criado apenas pela mãe. Quando completou 18 anos, esse rapaz decidiu que desejava que fosse excluído o nome de seu pai de seu assento de nascimentoe que o patronímico de seu pai fosse retirado de seu nome, incluindo-se o outro sobrenome da mãe. O STJ decidiu que esse pedido pode ser deferido e que pode ser excluído completamente do nome civil do interessado os sobrenomes de seu pai, que o abandonou em tenra idade. A jurisprudência tem adotado posicionamento mais flexível acerca da imutabilidade ou definitividade do nome civil. O princípio da imutabilidade do nome não é absoluto no sistema jurídico brasileiro. Além disso, a referida flexibilização se justifica pelo próprio papel que o nome desempenha na formação e consolidação da personalidade de uma pessoa. Desse modo, o direito da pessoa de portar um nome que não lhe remeta às angústias decorrentes do abandono paterno e, especialmente, corresponda à sua realidade familiar, sobrepõe-se ao interesse público de imutabilidade do nome, já excepcionado pela própria Lei de Registros Públicos. Sendo assim, nos moldes preconizados pelo STJ, considerando que o nome é elemento da personalidade, identificador e individualizador da pessoa na sociedade e no âmbito familiar, conclui-se que o abandono pelo genitor caracteriza o justo motivo de o interessado requerer a alteração de seu nome civil, com a respectiva exclusão completa dos sobrenomes paternos. STJ. 3ª T. REsp 1.304.718-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 18/12/14 (Info 555). 1.14. DIREITO À IMAGEM: Utilização indevida da imagem da pessoa em propaganda político-eleitoral – (Info 549) – IMPORTANTE!!! (DPU-2017) Configura dano moral indenizável a divulgação não autorizada da imagem de alguém em material impresso de propaganda político-eleitoral, independentemente da comprovação de prejuízo. STJ. 3ª T. REsp 1.217.422-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 23/9/14 (Info 549). 1.15. É cabível indenização do DPVAT por morte do feto em acidente de trânsito – (Info 547) – IMPORTANTE!!! O DPVAT é um seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas, transportadas ou não. Em outras palavras, qualquer pessoa que sofrer danos pessoais causados por um veículo automotor, ou por sua carga, em vias terrestres, tem direito a receber a indenização do DPVAT. Isso abrange os motoristas, os passageiros, os pedestres ou, em caso de morte, os seus respectivos herdeiros. O art. 3º, I, da Lei 6.194/74 afirma que deverá ser paga indenização do DPVAT aos herdeiros do falecido no caso de morte no trânsito. O STJ decidiu que, se uma gestante envolve-se em acidente de carro e, em virtude disso, sofre um aborto, ela terá direito de receber a indenização por morte do DPVAT, nos termos do art. 3º, I, da Lei 6.194/74. O Ministro Relator afirmou expressamente que, em sua opinião, “o ordenamento jurídico como um todo – e não apenas o Código Civil de 2002 – alinhou-se mais à teoria concepcionista para a construção da situação jurídica do nascituro, conclusão enfaticamente sufragada pela majoritária doutrina contemporânea”. STJ. 4ª T. REsp 1.415.727-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 4/9/2014 (Info 547). 1.16. DIREITO À IMAGEM: Uso de imagem de pessoa em local público por sociedade empresária – (Info 546) O uso, por sociedade empresária, de imagem de pessoa física fotografada isoladamente em local público, em meio a cenário destacado, configura dano moral mesmo que não tenha havido nenhuma conotação ofensiva ou vexaminosa na divulgação. O dano moral é decorrente tão somente do fato de ter sido usada a imagem da pessoa sem a sua autorização. Assim, é cabível compensação por dano moral decorrente da simples utilização de imagem de pessoa física, em campanha publicitária, sem autorização do fotografado. Aplica-se aqui o raciocínio da Súmula 403 do STJ: Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada de imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais. STJ. 4ª T. REsp 1307366-RJ, Rel. Min. Raul Araújo, j. 3/6/14 (Info 546). 1.17. DIREITO À IMAGEM: Ente público e direito à imagem – (Info 534) – IMPORTANTE!!! (TJSP-2015) (PGM-Boa Vista/RR-2019) A pessoa jurídica de direito público não tem direito à indenização por danos morais relacionados à violação da honra ou da imagem. Não é possível pessoa jurídica de direito público pleitear, contra particular, indenização por dano moral relacionado à violação da honra ou da imagem. STJ. 4ª T. REsp 1258389-PB, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 17/12/2013 (Info 534). (TJSP-2015-VUNESP): A pessoa jurídica de direito público não tem direito à indenização por dano moral. BL: S. 227, STJ e Info 534, STJ. 1.18. INTERDIÇÃO: Internação compulsória para pessoa que já cumpriu medida socioeducativa – (Info 533) – IMPORTANTE!!! Concursos MP!!! É possível determinar, no âmbito de ação de interdição, a internação compulsória de quem tenha acabado de cumprir medida socioeducativa de internação, desde que comprovado o preenchimento dos requisitos para a aplicação da medida mediante laudo médico circunstanciado, diante da efetiva demonstração da insuficiência dos recursos extra-hospitalares. STJ. 3ª T. HC 135271-SP, Rel. Min. Sidnei Beneti, j. 17/12/13 (Info 533). STJ. 4ª T. HC 169172-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 10/12/13 (Info 533). OBS: Qual o fundamento legal utilizado pelo STJ? O art. 6º da Lei 10.216/01, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Veja o que diz o dispositivo: Art. 6º A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos. Parágrafo único. São considerados os seguintes tipos de internação psiquiátrica: I — internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário; II — internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; e III — internação compulsória: aquela determinada pela Justiça. Também foi mencionado o art. 1.777 do CC-2002: Art. 1.777. Os interditos referidos nos incisos I, III e IV do art. 1.767 serão recolhidos em estabelecimentos adequados, quando não se adaptarem ao convívio doméstico. No caso concreto, o sujeito foi avaliado por médicos e psicólogos que emitiram laudo indicando que ele deveria ser submetido a tratamento psiquiátrico e psicológico em medida de contenção, por tratar-se de pessoa extremamente perigosa. A internação psiquiátrica de que trata o art. 6º pode ser decretada em uma ação de interdição? SIM. A internação do art. 6º da Lei 10.216/01 tem aplicação no processo civil ou penal, indistintamente, podendo ser decretada em processo de interdição. A Defensoria Pública argumentava que, ao se admitir que João fosse internado compulsoriamente sem ter cometido crime algum, estar-se-ia ressuscitado o sistema do duplo binário, que, no Direito Penal pátrio, já foi extirpado pela Reforma de 1984 da Parte Geral do Código Penal. O STJ concordou com a tese? NÃO. Para o STJ, a decretação da internação compulsória não representa, por vias indiretas e ilícitas, o restabelecimento do sistema do duplo binário, já extinto no Direito Penal brasileiro. Isso porque o paciente não está sendo internado por força de uma medida de segurança (sanção penal). Em outras palavras, ele não cumpriu pena nem agora está internado por força de medida de segurança. Trata-se simplesmente de uma ordem de internação expedida com fundamento em razões de natureza psiquiátrica, conforme permitido pelo art. 6º, § único, III, da Lei 10.216/2001. A internação é o tratamento preferencial no caso de pessoas portadoras de transtornos mentais? NÃO. A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes (art. 4º). Assim, a internação psiquiátrica somente será realizada quando houver um laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos (art. 6º). A internação compulsória deve, quando possível, ser evitada, de modo que a sua adoção apenas poderá ocorrer como última opção, em defesa do internado e, secundariamente, da própria sociedade.Nesse contexto, resguarda-se, por meio da interdição civil com internação compulsória, a vida do próprio interditando e, secundariamente, a segurança da sociedade. 1.19. DIREITO À IMAGEM: Direito ao esquecimento – (Info 527) O STJ admite, a depender do caso concreto, o chamado direito ao esquecimento. STJ. 4ª T. REsp 1335153-RJ e REsp 1.334.097-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 28/5/13 (Info 527). 1.20. DIREITO À IMAGEM: Imagem de atleta em cartaz de propaganda de evento esportivo sem finalidade lucrativa – (Info 516) O uso não autorizado da imagem de atleta em cartaz de propaganda de evento esportivo, ainda que sem finalidade lucrativa ou comercial, enseja reparação por danos morais, independentemente da comprovação de prejuízo. A obrigação da reparação pelo uso não autorizado de imagem decorre da própria utilização indevida do direito personalíssimo. Assim, a análise da existência de finalidade comercial ou econômica no uso é irrelevante. O dano, por sua vez, conforme a jurisprudência do STJ, apresenta-se in re ipsa, sendo desnecessária, portanto, a demonstração de prejuízo para a sua aferição. STJ. 3ª T. REsp 299832-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 21/2/13 (Info 516). 1.21. NOME: Exclusão do patronímico do ex-padrasto – (SEM INFO) É possível alterar o registro de nascimento para nele fazer constar o nome de solteira da genitora, excluindo o patronímico do ex-padrasto. STJ. 4ª T. REsp 1072402-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 4/12/12. 1.22. DIREITO À IMAGEM: Uso de imagem de pessoa pública com fins exclusivamente econômicos e publicitários – (SEM INFO) Ainda que se trate de pessoa pública, o uso não autorizado da sua imagem, com fins exclusivamente econômicos e publicitários, gera danos morais. Assim, a obrigação de indenizar, tratando-se de direito à imagem, decorre do próprio uso indevido desse direito, não sendo necessário provar a existência de prejuízo. Trata-se de dano in re ipsa. STJ. 3ª T. REsp 1102756-SP, Rel. Min. Nancy Andrigui, j. 20/11/12. 1.23. NOME: Alteração do nome posterior ao casamento – (SEM INFO) Imagine a seguinte situação: marido e mulher se casaram e, no momento da habilitação do casamento, não requereram a alteração do nome. É possível que, posteriormente, um possa acrescentar o sobrenome do outro? SIM. É permitido incluir ao seu nome o sobrenome do outro, ainda que após a data da celebração do casamento. Vale ressaltar, no entanto, que esse acréscimo terá que ser feito por intermédio da ação de retificação de registros públicos, nos termos dos arts. 57 e 109 da Lei de Registros Públicos (Lei 6.015/1973). Assim, não será possível a alteração pela via administrativa, mas somente em juízo. STJ. 4ª T. REsp 910094-SC, Rel. Raul Araújo, j. 4/9/2012. 1.24. DIREITO À IMAGEM: Imagem de multidão, de pessoa famosa ou ocupante de cargo público – (SEM INFO) – (PGESP-2012) Para o STJ, tratando-se de imagem de multidão, de pessoa famosa ou ocupante de cargo público, deve ser ponderado se, dadas as circunstâncias do caso concreto, a exposição da imagem é ofensiva à privacidade ou à intimidade do retratado, ou que poderia ensejar algum dano patrimonial ou extrapatrimonial. Há, nessas hipóteses, em regra, presunção de consentimento do uso da imagem, desde que preservada a vida privada. Nesse sentido, não há violação ao direito à imagem no caso em que foi utilizada fotografia de magistrado (pessoa ocupante de cargo público de notória importância social) para ilustrar MATÉRIA JORNALÍSTICA pertinente, sem invasão da vida privada do retratado. STJ. 4ª T. REsp 801109/DF, Rel. Min. Raul Araújo, j. 12/6/12. 1.25. DIREITO À IMAGEM: Existe ofensa mesmo que a veiculação não tenha caráter vexatório – (SEM INFO) A ofensa ao direito à imagem materializa-se com a mera utilização da imagem sem autorização, ainda que não tenha caráter vexatório ou que não viole a honra ou a intimidade da pessoa, e desde que o conteúdo exibido seja capaz de individualizar o ofendido. A obrigação de reparação decorre do próprio uso indevido do direito personalíssimo, não sendo devido exigir-se a prova da existência de prejuízo ou dano. O dano é a própria utilização indevida da imagem. STJ. 4ª T. REsp 794586/RJ, Rel. Min. Raul Araújo, j. 15/3/12. 1.26. NOME: Imutabilidade relativa do nome – (SEM INFO) Em regra, o nome é imutável. É o chamado princípio da imutabilidade relativa do nome civil. A regra da inalterabilidade relativa do nome civil preconiza que o nome (prenome e sobrenome), estabelecido por ocasião do nascimento, reveste-se de definitividade, admitindo-se sua modificação, excepcionalmente, nas hipóteses expressamente previstas em lei ou reconhecidas como excepcionais por decisão judicial (art. 57 da Lei nº 6.015/75), exigindo-se, para tanto, justo motivo e ausência de prejuízo a terceiros. STJ. 4ª T. REsp 1138103/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 6/9/11. 2. PESSOAS JURÍDICAS 2.1. SOCIEDADES COOPERATIVAS: Alteração no CNPJ por transformação de sociedade cooperativa – (Info 568) As cooperativas possuem natureza jurídica de "sociedades simples", conforme determina o art. 982, parágrafo único do CC. Se uma cooperativa quiser se transformar em uma sociedade empresária ela não precisará primeiro ser dissolvida e liquidada para depois ser constituída uma nova pessoa jurídica (sociedade empresária). Isso pode ser feito direto, ou seja, ao mesmo tempo que a cooperativa deixa de existir, ela passa a ser uma sociedade empresária, permitindo-se que ela mantenha o mesmo número do CNPJ. Enfim, a alteração no CNPJ da razão social de sociedade cooperativa que modificou sua forma jurídica não exige o prévio cancelamento de sua autorização para funcionar e de seu registro. STJ. 2ª Turma. REsp 1.528.304-RS, Rel. Min. Humberto Martins, j. 20/8/15 (Info 568). 2.2. Dissolução de sociedade de advogados – (Info 564) Na avaliação e na partilha de bens em processo de dissolução de sociedade de advogados, não podem ser levados em consideração elementos típicos de sociedade empresária, tais quais bens incorpóreos, como a clientela e a sua expressão econômica e a "estrutura do escritório". STJ. 4ª Turma. REsp 1.227.240-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 26/5/15 (Info 564). 3. ASSOCIAÇÕES 3.1. O art. 1.023 do CC, que trata da responsabilidade subsidiária dos sócios da sociedade simples, não se aplica às associações civis – (Info 602) O Código Civil, ao tratar sobre a responsabilidade das sociedades simples, estabelece o seguinte: Art. 1.023. Se os bens da sociedade não lhe cobrirem as dívidas, respondem os sócios pelo saldo, na proporção em que participem das perdas sociais, salvo cláusula de responsabilidade solidária. Esse dispositivo NÃO se aplica às associações civis. As associações civis são caracterizadas pela união de pessoas que se organizam para a execução de atividades sem fins lucrativos. Sociedades simples são formas de execução de atividade empresária, com finalidade lucrativa. STJ. 3ª Turma. REsp 1.398.438-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 4/4/2017 (Info 602). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João ingressou com execução de título extrajudicial contra a associação “Bons Amigos” buscando o recebimento de um cheque no valor de R$ 5 mil. Não foram encontrados bens da associação que pudessem satisfazer o crédito. Diante disso, o credor requereu que os administradores da associação fossem chamados a pagar a dívida, aplicando-se o art. 1.023 do Código Civil: Art. 1.023. Se os bens da sociedade não lhe cobrirem as dívidas, respondem os sócios pelo saldo, na proporção em que participem das perdas sociais, salvo cláusula de responsabilidade solidária. A questão jurídica debatida foi, portanto, a seguinte: O art. 1.023 do Código Civil aplica-se para associações civis? NÃO. Associações civis: São pessoas jurídicas de direito privado que se formam pela união de pessoas que se juntam para executar atividades que são de interesse comum. Ex: associação para ajudar pessoas com deficiência.A associação pode ter fins culturais, beneficentes, religiosos, esportivos, morais etc. As atividades desenvolvidas pelas associações não possuem fins lucrativos (não podem ter objetivo de lucro). Não há, entre os associados, direitos e obrigações recíprocos. Veja o que diz o Código Civil: Art. 53. Constituem-se as associações pela união de pessoas que se organizem para fins não econômicos. Parágrafo único. Não há, entre os associados, direitos e obrigações recíprocos. Sociedades: O art. 1.023 é um dispositivo criado para tratar sobre a responsabilidade dos sócios das sociedades simples. A sociedade é uma pessoa jurídica de direito privada instituída com o propósito de exercer atividade econômica e partilhar lucros. As pessoas que formam a sociedade são chamadas de sócios. Veja o que diz o Código Civil: Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. A atividade pode restringir-se à realização de um ou mais negócios determinados. Principal diferença: · Associações: somente podem ser constituídas com uma finalidade não econômica (não lucrativa). · Sociedades: são instituídas para o exercício de atividade econômica (com o objetivo de lucro). Desse modo, no caso da sociedade, o objetivo final é que a atividade desenvolvida gere lucro e esse resultado seja partilhado (dividido) entre os sócios. O objetivo das associações é puramente cultural, beneficente, altruísta, religioso, esportivo ou moral. Art. 1.023 é próprio das sociedades, não podendo ser aplicado para as associações: Pela análise topográfica do art. 1.023, ou seja, pela posição em que ele foi previsto no CC/02, já se percebe claramente que ele é voltado às sociedades, estando inserido no Título II, que trata das sociedades. Além disso, ao se ler o artigo, verifica-se que ele fala apenas em “bens da sociedade” e em “sócios”. Logo, não se aplica às associações e aos associados. O art. 1.023 prevê uma espécie de responsabilidade subsidiária dos sócios pelas dívidas da sociedade. Vale ressaltar que, para incidir o art. 1.023 não é necessária desconsideração da personalidade jurídica, conforme entende o STJ: A natureza da "Rio 2004 S/C" é de sociedade simples, amoldando-se perfeitamente às disposições do art. 1023 do CC/02 acerca da responsabilidade dos seus sócios. Extinta a RIO 2004 e não havendo, de sua parte, patrimônio suficiente para o cumprimento das obrigações contratuais assumidas frente à SPORTSMEDIA, não se fazia necessária, para a responsabilização pessoal de seus sócios pelas dívidas sociais, a desconsideração da sua personalidade jurídica – conclusão, aliás, a que chegou corretamente o acórdão recorrido. Igualmente, sendo possível, nos termos do art. 1023 do CC/02, a utilização dos bens das recorrentes para a satisfação das dívidas sociais sem a necessidade de se recorrer à desconsideração da personalidade jurídica da sociedade a que vinculados, possuem elas, naturalmente, legitimidade passiva ad causam para responder ao pedido de cobrança. STJ. 3ª Turma. REsp 895.792/RJ, j. 07/04/2011. 4. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 4.1. Requisitos para a desconsideração da personalidade jurídica no Código Civil – (Info 554) – IMPORTANTE!!! – (Proc/TCU-2015) (TJDFT-2016) (TCEPA-2016) (DPU-2017) O encerramento das atividades ou dissolução da sociedade, ainda que irregulares, não é causa, por si só, para a desconsideração da personalidade jurídica prevista no Código Civil. STJ. 2ª Seção. EREsp 1.306.553-SC, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 10/12/14 (Info 554). (TJDFT-2016-CESPE): Conforme entendimento prevalente do STJ, a dissolução da sociedade comercial, ainda que irregular, não é causa que, isolada, baste à desconsideração da personalidade jurídica. BL: STJ, ERESp 1306553/SC, Info 554. 4.2. (I)Legitimidade da pessoa jurídica para recorrer contra a decisão que determina a desconsideração – (Info 544) – TEMA POLÊMICO!!! Em uma execução proposta pelo credor contra a empresa devedora, se o juiz determinar a desconsideração da personalidade jurídica e a penhora dos bens dos sócios, a pessoa jurídica tem legitimidade para recorrer contra essa decisão, desde que o recurso seja interposto com o objetivo de defender a sua autonomia patrimonial, isto é, a proteção da sua personalidade. No recurso, a pessoa jurídica não pode se imiscuir indevidamente na esfera de direitos dos sócios ou administradores incluídos no polo passivo por força da desconsideração. STJ. 3ª Turma. REsp 1.421.464-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 24/4/14 (Info 544). OBS: Imagine a seguinte situação: A empresa “X” foi condenada a pagar R$ 100 mil a João. Foi iniciado o cumprimento de sentença e tentou-se, sem sucesso, a penhora de bens da pessoa jurídica para pagar a dívida. Diante das tentativas frustradas de penhora, João requereu a desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica para alcançar o patrimônio de seus sócios⁄administradores. O juiz deferiu o pedido e determinou, em consequência, a inclusão dos sócios no polo passivo do cumprimento de sentença e a penhora on line de dinheiro depositado nas contas bancárias das pessoas físicas. Contra essa decisão, a pessoa jurídica (empresa “X”) interpôs agravo de instrumento. Os sócios atingidos não recorreram. O Tribunal de Justiça não conheceu do recurso alegando que a decisão judicial que determinou a desconsideração atinge o patrimônio dos sócios (e não da pessoa jurídica). Logo, não haveria interesse processual da empresa de recorrer. Para o TJ, quem deveria ter recorrido eram os sócios. A questão chegou até o STJ. A pergunta a ser respondida é a seguinte: A pessoa jurídica tem legitimidade para recorrer contra a decisão que determina a desconsideração de sua personalidade jurídica? SIM. A pessoa jurídica tem legitimidade para impugnar decisão interlocutória que desconsidera sua personalidade para alcançar o patrimônio de seus sócios ou administradores, desde que o faça com o intuito de defender a sua regular administração e autonomia — isto é, a proteção da sua personalidade —, sem se imiscuir indevidamente na esfera de direitos dos sócios ou administradores incluídos no polo passivo por força da desconsideração. Segundo o art. 50 do CC, verificado “abuso da personalidade jurídica”, poderá o juiz decidir que os efeitos de certas e determinadas relações obrigacionais sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. O referido abuso, segundo a lei, caracteriza-se pelo desvio de finalidade da pessoa jurídica ou pela confusão patrimonial entre os bens dos sócios/administradores com os da pessoa moral. Assim, a desconsideração da personalidade jurídica, em essência, está ligada à concepção de moralidade, probidade, boa-fé a que submetem os sócios e administradores na gestão e administração da pessoa jurídica. Vale também destacar que, ainda que a concepção de abuso nem sempre esteja relacionada a fraude, a sua figura está, segundo a doutrina, eminentemente ligada a prejuízo, desconforto, intranquilidade ou dissabor que tenha sido acarretado a terceiro, em decorrência de um uso desmesurado de um determinado direito. Desse modo, a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica é uma decisão judicial que atinge (afeta) não apenas os interesses dos credores e das pessoas físicas, mas também da própria sociedade jurídica que está sendo acusada de ser indevidamente manipulada. Logo, a pessoa jurídica tem interesse de recorrer nesse caso, desde que seja capaz de demonstrar que a pertinência de seu intuito, ou seja, que está defendendo a sua autonomia patrimonial (a proteção de sua personalidade jurídica). Veja outro precedente no mesmo sentido: (...) Se a pessoa jurídica, diante do decreto da desconsideração de sua personalidade, defende sua própria autonomia, sem pretender livrar o patrimônio de outros que venham a ser atingido pela medida, há interessede agir. (...) STJ. 4ª T. AgInt no REsp 1417440/SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 04/08/2016. 4.3. Desconsideração inversa da personalidade jurídica – (Info 533) Se o sócio controlador de sociedade empresária transferir parte de seus bens à pessoa jurídica controlada com o intuito de fraudar partilha em dissolução de união estável, a companheira prejudicada, ainda que integre a sociedade empresária na condição de sócia minoritária, terá legitimidade para requerer a desconsideração inversa da personalidade jurídica de modo a resguardar sua meação. É possível a desconsideração inversa da personalidade jurídica sempre que o cônjuge ou companheiro empresário valer-se de pessoa jurídica por ele controlada, ou de interposta pessoa física, a fim de subtrair do outro cônjuge ou companheiro direitos oriundos da sociedade afetiva. A legitimidade para requerer essa desconsideração é daquele que foi lesado por essas manobras, ou seja, do outro cônjuge ou companheiro, sendo irrelevante o fato deste ser sócio da empresa. STJ. 3ª Turma. REsp 1.236.916-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/10/13 (Info 533). 5. NEGÓCIO JURÍDICO 5.1. VÍCIOS DO NEGÓCIOS JURÍDICO: Venda do bem pelo sócio antes da desconsideração da personalidade jurídica e do redirecionamento da execução para a pessoa física (Info 594) – IMPORTANTE!!! A fraude à execução só poderá ser reconhecida se o ato de disposição do bem for posterior à citação válida do sócio devedor, quando redirecionada a execução que fora originariamente proposta em face da pessoa jurídica. STJ. 3ª Turma. REsp 1.391.830-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/11/16 (Info 594). O entendimento acima exposto permanece válido com o CPC/2015? Haverá polêmica, mas pela redação literal do novo CPC, não. Isso porque o CPC/2015 traz uma nova regra, que não havia no Código passado, afirmando que a fraude à execução tem como marco a data da citação da pessoa jurídica que é objeto da desconsideração: Art. 792 (...) § 3º Nos casos de desconsideração da personalidade jurídica, a fraude à execução verifica-se a partir da citação da parte cuja personalidade se pretende desconsiderar. 5.2. Impossibilidade de convalidação de negócio jurídico celebrado mediante a falsificação de assinatura de sócio – (Info 585) Não são convalidáveis os negócios jurídicos celebrados com o intuito de alterar o quadro societário de sociedade empresária por meio da falsificação de assinatura de sócio, ainda que o próprio sócio prejudicado pelo falso tenha, por escritura pública, concedido ampla, geral e irrevogável quitação, a fim de ratificar os negócios jurídicos. STJ. 3ª Turma. REsp 1.368.960-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 7/6/16 (Info 585). 6. PRESCRIÇÃO 6.1. Prazo prescricional para a repetição de indébito por cobrança indevida de valores referentes a serviços de telefonia fixa não contratados: 10 anos – (Info 651) A ação de repetição de indébito por cobrança indevida de valores referentes a serviços não contratados de telefonia fixa tem prazo prescricional de 10 (dez) anos. STJ. Corte Especial. EAREsp 738991-RS, Rel. Min. Og Fernandes, j. 20/02/19 (Info 651). 6.2. Prazo prescricional na responsabilidade contratual é de 10 anos e na responsabilidade extracontratual é de 3 anos – (Info 632 e Info 649) – IMPORTANTE!!! A pretensão indenizatória decorrente do inadimplemento contratual sujeita-se ao prazo prescricional decenal (art. 205 do Código Civil), se não houver previsão legal de prazo diferenciado. STJ. Corte Especial. EREsp 1.281.594-SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Rel. Acd. Min. Felix Fischer, j. 15/5/19 (Info 649). É decenal o prazo prescricional aplicável às hipóteses de pretensão fundamentadas em inadimplemento contratual. É adequada a distinção dos prazos prescricionais da pretensão de reparação civil advinda de responsabilidades contratual e extracontratual. Nas controvérsias relacionadas à responsabilidade CONTRATUAL, aplica-se a regra geral (art. 205 CC/02) que prevê 10 anos de prazo prescricional e, quando se tratar de responsabilidade extracontratual, aplica-se o disposto no art. 206, § 3º, V, do CC/02, com prazo de 3 anos. Para fins de prazo prescricional, o termo “reparação civil” deve ser interpretado de forma restritiva, abrangendo apenas os casos de indenização decorrente de responsabilidade civil extracontratual. O prazo prescricional é assim dividido: • Responsabilidade civil extracontratual (reparação civil): 3 anos (art. 206, § 3º, V, CC). • Responsabilidade contratual (inadimplemento contratual): 10 anos (art. 205, CC). STJ. 2ª Seção. EREsp 1280825-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 27/06/2018 (Info 632). OBS: Prazo prescricional para “pretensão de reparação civil”: O art. 206, § 3º, V, do CC estabelece o prazo prescricional de 3 anos para pretensões relacionadas com “reparação civil”. Veja: Art. 206. Prescreve: (...) § 3º Em três anos: (...) V - a pretensão de reparação civil; Esse prazo se aplica para responsabilidade contratual e extracontratual? O termo “reparação civil”, constante do art. 206, § 3º, V, do CC/02, deve ser interpretado de maneira ampla? NÃO. Este prazo prescricional de 3 anos se aplica apenas para a responsabilidade extracontratual. No caso de responsabilidade contratual, o prazo prescricional é de 10 anos, nos termos do art. 205 do CC/2002: Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor. Foi como decidiu o STJ nos Infos 632 e 649. Prazo prescricional: • Responsabilidade civil extracontratual (reparação civil): 3 anos (art. 206, § 3º, V, do CC). • Responsabilidade contratual (ilícito contratual): 10 anos (art. 205 do CC). A expressão “reparação civil”, empregada pelo art. 206, § 3º, V, do CC, restringe-se aos danos decorrentes do ato ilícito não contratual. Nas palavras da Min. Nancy Andrighi: “Em conclusão, para o efeito da incidência do prazo prescricional, o termo “reparação civil” não abrange a composição da toda e qualquer consequência negativa, patrimonial ou extrapatrimonial, do descumprimento de um dever jurídico, mas apenas as consequências danosas do ato ou conduta ilícitos em sentido estrito e, portanto, apenas para as hipóteses de responsabilidade civil extracontratual.” Intepretação literal: Todas as vezes em que o CC/02 falou em “reparação civil”, ele tratou de casos relacionados com a responsabilidade civil extracontratual. Quando o Código tratou sobre inadimplemento contratual (exs: arts. 389 a 405), ele não utilizou, em nenhum momento, a expressão “reparação civil”. Dessa forma, partindo-se de uma interpretação literal do texto normativo, compreende-se que o termo “reparação civil” foi utilizado pelo legislador apenas quando pretendeu se referir à responsabilidade extracontratual. Logo, o art. 206, § 3º, V, ao falar em “reparação civil”, está se referindo tão somente à responsabilidade extracontratual. Interpretação com base nas diferenças entre os institutos: No direito privado brasileiro, a responsabilidade extracontratual é historicamente tratada de modo distinto da contratual por um motivo muito simples: são fontes de obrigações muito diferentes, com fundamentos jurídicos diversos. Essa diferença fática e jurídica impõe o tratamento distinto do prazo prescricional, pois a violação a direito absoluto e o inadimplemento de um direito de crédito são situações diferentes. Uma diferença, por exemplo, está no grau de proximidade das partes envolvidas. Na responsabilidade extracontratual (ex: um atropelamento de trânsito), os sujeitos encontram-se em um grau maior de distanciamento. Em outras palavras, as partes muitas vezes nem se conheciam antes do ato ilícito. Por outro lado, na responsabilidade por inadimplemento contratual (descumprimento de contrato), as partes já se conheciam, havia uma relação prévia entre elas, tanto que negociaram e fizeram um ajuste. Assim, normalmente, há um mínimo de confiança entre as partes, e o dever de indenizar da responsabilidade contratual encontra seu fundamento na garantia da confiança legítima entreelas. Cuidado com o Enunciado 419 da Jornada de Direito Civil: Risque de seus materiais de estudo o enunciado 419 da V Jornada de Direito Civil, considerando que o entendimento ali exposto está em confronto com o STJ: Enunciado 419-CJF: O prazo prescricional de três anos para a pretensão de reparação civil aplica-se tanto à responsabilidade contratual quanto à responsabilidade extracontratual. 6.3. Prazo prescricional da repetição de indébito envolvendo contrato de cédula de crédito rural – (Info 592) Qual é o prazo prescricional da ação de repetição de indébito envolvendo contrato de cédula de crédito rural? · Se o fato ocorreu sob a vigência do CC/1916: 20 anos. · Se o fato ocorreu sob a vigência do CC/2002: 3 anos. O termo inicial do prazo prescricional é a data do pagamento (efetiva lesão). STJ. 2ª Seção. REsp 1.361.730-RS, Rel. Min. Raul Araújo, j. 10/8/16 (recurso repetitivo) (Info 592). 6.4. Prazo de 3 anos para pretensão de entidade de previdência privada complementar de reaver verbas relativas a benefício indevidamente apropriadas por terceiro – (Info 588) É de 3 anos o prazo prescricional de ação proposta por entidade de previdência privada complementar contra terceiro que se apropriou indevidamente de verbas relativas a benefício previdenciário. Não há previsão específica para este caso na LC 109/01, razão pela qual se aplica o art. 206, § 3º, IV, do Código Civil (pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem causa). Ex: o segurado morreu e, como a entidade de previdência não foi informada, continuou a depositar, todos os meses, o valor da aposentadoria; tais quantias foram sacadas indevidamente da conta bancária por uma sobrinha do falecido; a entidade terá o prazo de 3 anos para reaver os valores. STJ. 4ª Turma. REsp 1.334.442-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. para acórdão Min. Raul Araújo, j. 7/6/16 (Info 588). 6.5. Prazo de prescrição da pretensão de indenização por dano de mercadoria em contêiner – (Info 586) É de 1 ano o prazo de prescrição da pretensão do segurador, sub-rogado nos direitos do segurado, de indenização pela deterioração de carga em navio por falha em contêiner. Aplica-se, neste caso, o art. 8º do Dec-Lei 116/67, que trata sobre o prazo prescricional envolvendo as ações por extravio, perdas e avarias de carga. Não se aplica o art. 206, § 3º, V, do CC considerando que se trata de norma geral e, por isso, não revogou o art. 8º do DL 116/67, que é considerado norma especial. Aplica-se à presente situação a Súmula 151 do STF que, apesar de antiga, continua vigente: Súmula 151-STF: Prescreve em um ano a ação do segurador sub-rogado para haver indenização por extravio ou perda de carga transportada por navio. STJ. 4ª Turma. REsp 1.278.722-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 24/5/16 (Info 586). 6.6. Prazo prescricional da pretensão de cobrança de serviço de conserto de veículo por mecânico – (Info 574) Prescreve em 10 anos (art. 205 do CC) a pretensão de cobrar dívida decorrente de conserto de automóvel por mecânico que não tenha conhecimento técnico e formação intelectual suficiente para ser qualificado como profissional liberal. STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.114-ES,Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 17/11/15 (Info 574). 6.7. Termo inicial da prescrição da pretensão de cobrança de honorários ad exitum – (Info 560) – IMPORTANTE!!! (TJPR-2017) Imagine que o advogado celebrou contrato de prestação de serviços advocatícios com seu cliente, tendo sido acertado que os honorários contratuais seriam pagos pelo cliente somente ao final da causa, se esta fosse exitosa. A isso chamamos cláusula ad exitum ou quota litis. O advogado elaborou e protocolizou a petição inicial da ação. Ocorre que durante a tramitação do processo, o cliente e o advogado se desentenderam e o cliente revogou o mandato outorgado (“revogou a procuração”) e constituiu outro causídico para acompanhar a causa. Alguns anos depois, a ação foi julgada procedente (o cliente ganhou a causa). O prazo prescricional para a cobrança de honorários advocatícios é de 5 anos (art. 25 da Lei 8.906/94). A dúvida que surgiu foi a seguinte: qual é o termo inicial deste prazo? Ele deve ser contado do dia em que a procuração foi revogada ou da data em que a ação foi julgada? A contagem do prazo prescricional começou na data do êxito da demanda, ou seja, no dia em que houve a sentença favorável ao cliente. No caso de contrato advocatício com cláusula de remuneração quota litis, a obrigação é de resultado (e não de meio), ou seja, o direito à remuneração do profissional dependerá de um julgamento favorável ao seu cliente na demanda judicial. No caso em análise, no momento da revogação do mandato, o advogado destituído ainda não tinha o direito de exigir o pagamento da verba honorária, uma vez que, naquela altura, o processo não havia sido julgado e o cliente não era vencedor da demanda. Segundo o princípio da actio nata, o prazo prescricional somente se inicia quando o direito for violado. Portanto, a contagem de prazos para se aferir eventual ocorrência de prescrição deve observar o princípio da actio nata, que orienta somente iniciar o fluxo do lapso prescricional se existir pretensão exercitável por parte daquele que suportará os efeitos do fenômeno extintivo. É o que se extrai da disposição contida no art. 189 da lei material civil. Desse modo, se no momento da revogação da procuração, o advogado ainda não tinha direito aos honorários, não se pode dizer que ele foi inerte porque simplesmente não tinha como ingressar com ação cobrando os honorários. Aplica-se aqui o brocardo latino “contra non valentem agere non currit praescriptio”, que significa “a prescrição não corre contra quem não pode agir”. STJ. 4ª Turma. REsp 805.151-SP, Rel. Min. Raul Araújo, Rel. para acórdão Min. Antonio Carlos Ferreira, j. 12/8/14 (Info 560). (TJPR-2017-CESPE): Lúcia, advogada, celebrou com Aldo contrato de prestação de serviços advocatícios, com previsão de pagamento exclusivamente ad exitum. No curso do processo, antes do julgamento, Aldo revogou unilateralmente o mandato. Inconformada, Lúcia ajuizou ação de cobrança de honorários após o julgamento do mérito favorável a Aldo. A respeito dessa situação hipotética, assinale a opção correta à luz da legislação aplicável ao caso e da jurisprudência do STJ: A pretensão de Lúcia será exercitável após a prolação de sentença favorável aos pedidos formulados por Aldo. BL: Info 560, STJ. OBS: Na hipótese de estipulação do pagamento na modalidade ad exitum”, verifica-se a presença de condição suspensiva, consistente no resultado favorável do processo, para que sejam devidos honorários ao advogado. Portanto, não há direito de executar essa modalidade de honorários enquanto não sobrevier a condição imposta no contrato. Vejamos o teor original do julgado do STJ: (...) 1. A contagem de prazos para se aferir eventual ocorrência de prescrição deve observar o princípio da actio nata, que orienta somente iniciar o fluxo do lapso prescricional se existir pretensão exercitável por parte daquele que suportará os efeitos do fenômeno extintivo. É o que se extrai da disposição contida no art. 189 da lei material civil. 2. No caso concreto, a remuneração pela prestação dos serviços advocatícios foi condicionada ao sucesso da demanda judicial. Em tal hipótese, a revogação do mandato, por ato unilateral do mandante, antes de ocorrida a condição estipulada, não implica início da contagem do prazo prescricional. 3. Recurso especial conhecido e provido. (REsp 805.151/SP, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, Rel. p/ Acórdão Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 12/08/2014, DJe 28/04/2015) 6.8. Prescrição da pretensão de cobrança, entre advogados, de honorários advocatícios – (Info 557) Prescreve em 10 anos o prazo para que um advogado autônomo possa cobrar de outro advogado o valor correspondente à divisão de honorários advocatícios contratuais e de sucumbência referentes a ação judicial na qual ambos trabalharam em parceria.STJ. 3ª Turma. REsp 1.504.969-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 10/3/15 (Info 557). 6.9. Prescrição e o requisito do prequestionamento nas instâncias ordinárias O exame no âmbito do recurso especial de questões de ordem pública suscetíveis de serem conhecidas de ofício em qualquer tempo e grau de jurisdição, como é o caso da prescrição, não prescinde seja atendido o requisito do prequestionamento, admitindo-se a análise da matéria quando o recurso especial for conhecido para o julgamento de outras teses jurídicas. A ausência do requisito do prequestionamento do tema relativa à prescrição da cobrança de diferenças de valores resgatados quando do desligamento do plano de benefícios de entidades de previdência privada impede o conhecimento do recurso especial (AgRg no AREsp 75065 SP 2011/0189515-1 2015) (MPMT – 2014): Embora haja previsão legal de que a prescrição possa ser alegada em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem aproveita, para que a parte possa alegar a prescrição nos tribunais superiores (STF e STJ), a matéria deve ter sido prequestionada nas instâncias ordinárias. 6.10. Termo inicial do prazo prescrição para o ajuizamento da ação de indenização por danos decorrentes de crime (...) INDENIZAÇÃO. PRESCRIÇÃO. TERMO A QUO. TRÂNSITO EM JULGADO DA AÇÃO PENAL CONDENATÓRIA. O termo a quo da prescrição da ação de indenização decorrente de ilícito penal praticado por agente do Estado. Ação civil ex delicto só tem início a partir do trânsito em julgado da ação penal condenatória. (STJ - AgRg no Ag: 441273 RJ) (MPMS-2015-FAPEC): O termo inicial do prazo de prescrição para o ajuizamento da ação de indenização por danos decorrentes de crime – ação civil ex delicto – é a data do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, não se aplicando na hipótese a noção de independência entre as instâncias civil e penal. BL: STJ - AgRg no Ag: 441273 RJ. 6.11. Termo inicial do prazo prescrição para o ajuizamento da ação de indenização por danos decorrentes de crime – (MPMS-2015) Os prazos de decadência e prescrição prorrogam-se para o próximo dia útil. Prorroga-se o prazo prescricional findo no curso do recesso forense, devendo a demanda ser ajuizada no primeiro dia útil seguinte ao seu término. (STJ - REsp: 1446608 RS) 7. PROVA 7.1. Escritura pública gera presunção relativa de veracidade – (Info 541) – Atenção! Concursos Cartórios! A quitação dada em escritura pública gera presunção relativa do pagamento, admitindo prova em contrário que evidencie a invalidade do instrumento eivado de vício que o torne falso. Nos termos do art. 215 do CC, a escritura lavrada em cartório tem fé pública, o que significa dizer que é documento dotado de presunção de veracidade. Ocorre que essa presunção legal de que trata o art. 215 do CC é relativa. Portanto, a quitação dada em escritura pública não é uma “verdade indisputável” (absoluta), na medida em que admite a prova de que o pagamento não foi efetivamente realizado, evidenciando, ao fim, a invalidade do instrumento em si, porque eivado de vício que o torna falso. Assim, entende-se que a quitação dada em escritura pública presume o pagamento, até que se prove o contrário. STJ. 3ª Turma. REsp 1.438.432-GO, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/4/14 (Info 541). 8. OBRIGAÇÕES 8.1. DAÇÃO EM PAGAMENTO: Determinada empresa deu ao credor um terreno como pagamento da dívida (dação em pagamento); se não foi feita nenhuma ressalva, presume-se que a transferência do imóvel incluiu a plantação ali existente – (Info 651) Na dação em pagamento de imóvel sem cláusula que disponha sobre a propriedade das árvores de reflorestamento, a transferência do imóvel inclui a plantação. STJ. 4ª T. REsp 1567479-PR, Rel. Min. Marco Buzzi, j. 11/6/19 (Info 651). 8.2. CLÁUSULA PENAL: Em regra, a cláusula penal moratória não pode ser cumulada com indenização por lucros cessantes – (Info 651) – IMPORTANTE!!! MUDANÇA DE ENTENDIMENTO!!! A cláusula penal moratória tem a finalidade de indenizar pelo adimplemento tardio da obrigação, e, em regra, estabelecida em valor equivalente ao locativo, afasta-se sua cumulação com lucros cessantes. STJ. 2ª S. REsp 1498484-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 22/5/19 (recurso repetitivo) (Info 651). Observação: Em 28/12/18, entrou em vigor a Lei 13.786/18, que dispõe sobre a resolução do contrato por inadimplemento do adquirente de unidade imobiliária. A Lei 13.786/18 acrescentou o art. 43-A na Lei 4.591/64 para tratar sobre o inadimplemento (parcial ou absoluto) em contratos de compra e venda, promessa de venda, cessão ou promessa de cessão de unidades autônomas integrantes de incorporação imobiliária ou de loteamento. As regras da Lei 13.786/18 não podem ser aplicadas os contratos anteriores à sua vigência. A nova lei só poderá atingir contratos celebrados posteriormente à sua entrada em vigor. OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João celebrou contrato de promessa de compra e venda de um apartamento com a construtora MRT Engenharia. A cláusula quinta do pacto previa que a construtora entregaria o apartamento no dia 31/3/12, podendo prorrogar a entrega para 30/9/12 (prazo de tolerância). Ocorre que a construtora, por mora imputável unicamente a ela, somente entregou o imóvel em 11/1/13. Diante disso, João ajuizou ação pedindo a condenação da construtora ao pagamento: • da multa de 1% ao mês prevista no contrato (multa contratual); e • dos lucros cessantes, correspondente à quantia que o adquirente poderia obter se estivesse alugando o imóvel (valor do aluguel do imóvel atrasado). O pedido era para que, tanto o valor da multa como dos lucros cessantes fossem pagos no período de 1/10/12 até 11/1/13 (quando ocorreu a efetiva entrega das chaves). Em que consiste essa multa contratual? Qual é a sua natureza jurídica? Trata-se de uma cláusula penal moratória. O que é cláusula penal? Cláusula penal é... - uma cláusula do contrato - ou um contrato acessório ao principal - em que se estipula, previamente, o valor da indenização que deverá ser paga - pela parte contratante que não cumprir, culposamente, a obrigação. A cláusula penal também pode ser chamada de multa convencional, multa contratual ou pena convencional. Natureza jurídica: Trata-se de uma obrigação acessória, referente a uma obrigação principal. Pode estar inserida dentro do contrato (como uma cláusula) ou prevista em instrumento separado. Espécies de cláusula penal: Existem duas espécies de cláusula penal: MORATÓRIA (compulsória): COMPENSATÓRIA (compensar o inadimplemento) Estipulada para desestimular o devedor a incorrer em mora ou para evitar que deixe de cumprir determinada cláusula especial da obrigação principal. É a cominação contratual de uma multa para o caso de mora. Estipulada para servir como indenização no caso de total inadimplemento da obrigação principal. Finalidade: para uns, funciona como punição pelo atraso no cumprimento da obrigação. Para outros autores, teria uma função apenas de inibir o descumprimento e indenizar os prejuízos (não teria finalidade punitiva). Finalidade: Funciona como uma prefixação das perdas e danos. Aplicada para o caso de inadimplemento relativo. Aplicada para o caso de inadimplemento absoluto. Ex: em uma promessa de compra e venda de um apartamento, é estipulada multa para o caso de atraso na entrega. Ex: em um contrato para que um cantor faça um show no réveillon, é estipulada uma multa de 100 mil reais caso ele não se apresente. Art. 411. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de mora, ou em segurança especial de outra cláusula determinada, terá o credor o arbítrio de exigir a satisfação da pena cominada, juntamente com o desempenho da obrigação principal. Art. 410. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de total inadimplemento da obrigação, esta converter-se-á em alternativa a benefício do credor. Multa moratória = obrigação principal + multa Multa compensatória = obrigação principal ou multa Em caso de atraso na entregado imóvel, é possível a cumulação da indenização por lucros cessantes com a cláusula penal moratória? Em nosso exemplo, será possível condenar a construtora ao pagamento da multa e mais os lucros cessantes? NÃO. Para o Min. Luis Felipe Salomão, a natureza da cláusula penal moratória é eminentemente reparatória (indenizatória), possuindo também, reflexamente, uma função dissuasória (ou seja, de desestímulo ao descumprimento). Tanto isso é verdade que a maioria dos contratos de promessa de compra e venda prevê uma multa contratual por atraso (cláusula penal moratória) que varia de 0,5% a 1% ao mês sobre o valor total do imóvel. Esse valor é escolhido porque representa justamente a quantia que imóvel alugado, normalmente, produziria ao locador. Assim, como a cláusula penal moratória já serve para indenizar/ressarcir os prejuízos que a parte sofreu, não se pode fazer a sua cumulação com lucros cessantes (que também consiste em uma forma de ressarcimento). Diante desse cenário, havendo cláusula penal no sentido de prefixar, em patamar razoável, a indenização, não cabe a sua cumulação com lucros cessantes. Em suma, é o que analisado no julgado veiculado no Info 651 do STJ. Por que a tese fixada fala “em regra”? Porque o Min. Luis Felipe Salomão disse que, a depender do caso concreto, a parte poderá demonstrar que sofreu algum dano especial, além daqueles regularmente esperados da inadimplência, e que a cláusula penal moratória seria insuficiente para reparar esse dano. Assim, nesses casos excepcionais, seria possível a cobrança tanto da cláusula penal moratória como também da indenização. É o caso, por exemplo, da situação em que a cláusula penal moratória se mostre objetivamente insuficiente, em vista do tempo em que veio a perdurar o descumprimento contratual, a atrair a incidência do princípio da reparação integral, insculpido no art. 944 do CC. Mudança de entendimento: Vale ressaltar que a decisão acima explicada representa uma alteração de entendimento. Isso porque o STJ entendia que: “A cláusula penal moratória não era estipulada para compensar o inadimplemento nem para substituir o adimplemento. Assim, a cominação contratual de uma multa para o caso de mora não interferia com a responsabilidade civil. Logo, não havia óbice a que se exija a cláusula penal moratória juntamente com o valor referente aos lucros cessantes. Desse modo, no caso de mora, existindo cláusula penal moratória, concedia-se ao credor a faculdade de requerer, cumulativamente: a) o cumprimento da obrigação; b) a multa contratualmente estipulada; e ainda c) indenização correspondente às perdas e danos decorrentes da mora.” Nesse sentido: STJ. 3ª T. REsp 1355554-RJ, Rel. Min. Sidnei Beneti, j. 6/12/12 (Info 513). Se não houver cláusula penal, continua sendo possível a condenação por lucros cessantes: Nem sempre os contratos de promessa de compra e venda possuem cláusula penal estipulando multa para a construtora em caso de atraso na entrega do imóvel. Assim, se não existir cláusula penal e se houve efetivamente o atraso, será possível condenar a construtora ao pagamento de lucros cessantes. O atraso na entrega do imóvel enseja pagamento de indenização por lucros cessantes durante o período de mora do promitente vendedor, sendo presumido o prejuízo do promitente comprador. Os lucros cessantes serão devidos ainda que não fique demonstrado que o promitente comprador tinha finalidade negocial na transação. STJ. 2ª S. EREsp 1.341.138-SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 9/5/18 (Info 626). Ampliando um pouco o debate: em um contrato no qual foi estipulada uma cláusula penal COMPENSATÓRIA, caso haja o inadimplemento, é possível que o credor exija o valor desta cláusula penal e mais as perdas e danos? Também não. Não se pode cumular multa compensatória prevista em cláusula penal com indenização por perdas e danos decorrentes do inadimplemento da obrigação. A finalidade da cláusula penal compensatória é recompor a parte pelos prejuízos que eventualmente decorram do inadimplemento total ou parcial da obrigação. Não é possível, portanto, cumular cláusula penal compensatória com perdas e danos decorrentes de inadimplemento contratual. Com efeito, se as próprias partes já acordaram previamente o valor que entendem suficiente para recompor os prejuízos experimentados em caso de inadimplemento, não se pode admitir que, além desse valor, ainda seja acrescido outro, com fundamento na mesma justificativa – a recomposição de prejuízos. Entendimento atual do STJ: Em um contrato no qual foi estipulada uma cláusula penal, caso haja o inadimplemento é possível que o credor exija o valor desta cláusula penal e mais as perdas e danos? NÃO. Isso tanto em caso de cláusula penal moratória como também compensatória. Lei 13.786/18: Em 28/12/18, entrou em vigor a Lei 13.786/18, que dispõe sobre a resolução do contrato por inadimplemento do adquirente de unidade imobiliária. A Lei 13.786/18 acrescentou o art. 43-A na Lei 4.591/64 para tratar sobre o inadimplemento (parcial ou absoluto) em contratos de compra e venda, promessa de venda, cessão ou promessa de cessão de unidades autônomas integrantes de incorporação imobiliária ou de loteamento. Veja inicialmente o que diz o caput: Art. 43-A. A entrega do imóvel em até 180 (cento e oitenta) dias corridos da data estipulada contratualmente como data prevista para conclusão do empreendimento, desde que expressamente pactuado, de forma clara e destacada, não dará causa à resolução do contrato por parte do adquirente nem ensejará o pagamento de qualquer penalidade pelo incorporador. Assim, o caput do art. 43-A prevê agora expressamente a validade da cláusula de tolerância (que já era admitida pela jurisprudência). Com isso, admite-se como tolerável (aceitável) um atraso de até 180 dias em relação ao prazo previsto para a entrega. Por outro lado, se o empreendimento for entregue após os 180 dias de tolerância, isso já será considerado inaceitável e o adquirente poderá pedir cumulativamente: • a resolução do contrato; • a devolução de todo o valor que pagou; e • o pagamento da multa estabelecida. A incorporadora deverá fazer o pagamento em até 60 dias corridos, contados da resolução, acrescidos de correção monetária. É isso que prevê o novo § 1º do art. 43-A: § 1º Se a entrega do imóvel ultrapassar o prazo estabelecido no caput deste artigo, desde que o adquirente não tenha dado causa ao atraso, poderá ser promovida por este a resolução do contrato, sem prejuízo da devolução da integralidade de todos os valores pagos e da multa estabelecida, em até 60 (sessenta) dias corridos contados da resolução, corrigidos nos termos do § 8º do art. 67-A desta Lei. O adquirente pode, no entanto, decidir que, mesmo tendo sido ultrapassado o prazo de tolerância, ele não quer a resolução do contrato, ou seja, ele permanece com interesse no imóvel. Neste caso, este adquirente irá receber o imóvel e terá direito à indenização de 1% do valor efetivamente pago à incorporadora, para cada mês de atraso, acrescido de correção monetária. Veja a redação do § 2º do art. 43-A: § 2º Na hipótese de a entrega do imóvel estender-se por prazo superior àquele previsto no caput deste artigo, e não se tratar de resolução do contrato, será devida ao adquirente adimplente, por ocasião da entrega da unidade, indenização de 1% (um por cento) do valor efetivamente pago à incorporadora, para cada mês de atraso, pro rata die, corrigido monetariamente conforme índice estipulado em contrato. Vale ressaltar que a multa do § 1º, vista acima, é decorrente da inexecução total da obrigação (houve a resolução do contrato). O § 2º, por sua vez, prevê uma indenização para a mora (o contrato não foi desfeito, tendo sido apenas cumprido com atraso). Assim, as sanções têm natureza jurídica e finalidade diversas, sendo, portanto, inacumuláveis, conforme prevê o § 3º do art. 43-A: § 3º A multa prevista no § 2º deste artigo, referente a mora no cumprimento da obrigação, em hipótese alguma poderá ser cumulada com a multa estabelecida no § 1º deste artigo,que trata da inexecução total da obrigação. Como fica a questão da aplicação da Lei 13.786/18 no tempo? Essas regras da Lei 13.786/18, que acabei de explicar, podem ser aplicadas para os contratos celebrados antes da sua vigência? NÃO. As regras da Lei 13.786/18, que entrou em vigor no dia 28/12/2018, não podem ser aplicadas os contratos anteriores à sua vigência. A nova lei só poderá atingir contratos celebrados posteriormente à sua entrada em vigor. Nas palavras do Min. Luis Felipe Salomão: “(...) a Lei n. 13.786/2018 não será aplicada para a solução dos casos em julgamento, de modo a trazer segurança e evitar que os jurisdicionados que firmaram contratos anteriores sejam surpreendidos, ao arrepio do direito adquirido e do ato jurídico perfeito.” O que vale é a data da celebração do contrato (e não a data do inadimplemento). Desse modo, imagine que o contrato foi celebrado em janeiro de 2017. Em janeiro de 2019, terminou o prazo de tolerância e a construtora não entregou o empreendimento. Neste caso, não se aplicam as regras trazidas pela Lei nº 13.786/2018 porque o pacto é anterior a esse diploma. Assim, podemos fixar as conclusões: • contratos celebrados até 27/12/18: em caso de inadimplemento, aplica-se a jurisprudência do STJ firmada neste REsp 1.498.484-DF, não incidindo a Lei 13.786/18. • contratos celebrados a partir de 28/12/18: devem ser aplicadas as regras da Lei 13.786/18. 8.3. CLÁUSULA PENAL: Possibilidade de redução de ofício da cláusula penal manifestamente excessiva – (Info 627) Constatado o caráter manifestamente excessivo da cláusula penal contratada, o magistrado deverá, independentemente de requerimento do devedor, proceder à sua redução. Fundamento: CC/Art. 413. A penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio. STJ. 4ª Turma. REsp 1.447.247-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 19/4/18 (Info 627). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João celebrou contrato com Pedro por meio do qual este se obrigou a pintar um quadro. Quando a obra estivesse pronta, Pedro receberia R$ 100 mil. Pedro não entregou o quadro no prazo estipulado. Diante disso, João ingressou com ação de obrigação de fazer, pedindo a condenação de Pedro a cumprir o contrato. Pedro contestou a demanda sob a alegação de que não estava mais encontrando inspiração para pintar. O juiz julgou improcedente o pedido afirmando que, por se tratar de obrigação personalíssima, não seria possível exigir o cumprimento, devendo a questão ser resolvida mediante a cobrança do pagamento da cláusula penal. O contrato previa multa de 20% sobre o valor do ajuste, ou seja, R$ 20 mil. O juiz, contudo, entendeu que a cláusula penal era excessiva e, de ofício, reduziu-a para R$ 10 mil. Agiu corretamente o magistrado? O juiz deve reduzir, de ofício, a cláusula penal contratada, por considerá-la excessiva? SIM. Constatado o caráter manifestamente excessivo da cláusula penal contratada, o magistrado deverá, independentemente de requerimento do devedor, proceder à sua redução. STJ. 4ª Turma. REsp 1.447.247-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 19/04/2018(Info 627). A cláusula penal é fixada por meio de ajuste de vontade entre as partes. Apesar disso, não se pode dizer que a sua fixação fique ao total e ilimitado alvedrio (arbítrio, livre vontade) dos contratantes. O CC/02 prevê normas de ordem pública, imperativas e cogentes, que possuem o objetivo de preservar o equilíbrio econômico-financeiro do contrato, afastando excessos que gerem enriquecimento sem causa de qualquer uma das partes. Entre tais normas, destaca-se o art. 413 do CC: Art. 413. A penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio. Vale ressaltar que não se trata de uma faculdade do juiz, mas sim de um poder/dever do magistrado de coibir os excessos e os abusos que venham a colocar o devedor em situação de inferioridade desarrazoada. Superou-se, assim, o princípio da imutabilidade absoluta da pena estabelecida livremente entre as partes, que, à luz do código revogado, somente era mitigado em caso de inexecução parcial da obrigação. Veja o que diz o genial Bruno Miragem: (...) A orientação da legislação, em diferentes sistemas jurídicos, é ade impor limites à estipulação da cláusula penal, assim como mecanismos para sua redução, quando se entendê-la como excessiva. Em geral, estes limites resultam em norma com caráter imperativo. (...) Os fundamentos para admitir-se o controle da cláusula penal são diversos. O principal será a própria preservação da equivalência material, de modo a impedir que, por convenção, se imponha sanção desproporcional ao devedor inadimplente. (...) No direito vigente, a disposição do art. 413 se reconhece como norma de ordem pública, insuscetível de convenção em contrário das partes ao constituírem a obrigação. A redução equitativa da cláusula penal, neste caso, orienta-se, conforme já se referiu, pela preservação da equivalência material, assim também com a incidência do princípio da boa fé. (...) (MIRAGEM, Bruno. Direito civil: direito das obrigações. São Paulo: Saraiva, 2017, p. 574-578) O controle judicial da cláusula penal abusiva consiste, portanto, em uma norma de ordem pública, que tem como objetivos concretizar o princípio da equidade (preservação da equivalência material do pacto) e impor o paradigma da eticidade aos negócios jurídicos. Existem dois enunciados doutrinários sobre o tema: Enunciado 356 - CJF: Nas hipóteses previstas no art. 413 do Código Civil, o juiz deverá reduzira cláusula penal de ofício. Enunciado 355 - CJF: Não podem as partes renunciar à possibilidade de redução da cláusula penal se ocorrer qualquer das hipóteses previstas no art. 413 do Código Civil, por se tratar de preceito de ordem pública. Ademais, importante destacar o disposto no parágrafo único do art. 2.035 do CC, segundo o qual “nenhuma convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública, tais como os estabelecidos por este Código para assegurar a função social da propriedade e dos contratos”. A sentença não é extra petita: Como a redução da cláusula penal é uma norma de ordem pública, ela pode ser conhecida de ofício pelo magistrado, ante sua relevância social decorrente dos escopos de preservação do equilíbrio material dos contratos e de repressão ao enriquecimento sem causa. Logo, diante disso, não há violação ao princípio da adstrição (o chamado vício de julgamento extra petita). 8.4. Pedido do devedor de prazo para analisar se existe mesmo o débito não pode ser considerado como ato que interrompe a prescrição (art. 202, VI, do CC) – (Info 619) O pedido de concessão de prazo para analisar documentos com o fim de verificar a existência de débito não tem o condão de interromper a prescrição. STJ. 3ª Turma.REsp 1677895-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 6/2/18 (Info 619). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: A empresa 1 prestou serviços para a empresa 2. Por esses serviços, a empresa 1 deveria receber R$ 400 mil, que deveriam ter sido pagos em agosto/2012. Em julho de 2017, ou seja, 4 anos e 11 meses depois, a empresa 1 enviou notificação à empresa 2 requerendo que esta efetuasse o pagamento da quantia devida, acrescida de juros e correção monetária. A empresa 2 respondeu a essa notificação solicitando prazo para que o setor técnico da empresa analisasse os documentos enviados e, assim, pudesse confirmar se os serviços que estão sendo cobrados foram realmente prestados. Como não houve resposta, a empresa 1 ajuizou, em setembro/2012, ação de cobrança contra a empresa 2. A ré, em contestação, afirmou que a pretensão está prescrita conforme prevê o art. 206, § 5º, I, do Código Civil: Art. 206. Prescreve: (...) § 5º Em cinco anos: I - a pretensãode cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular; A autora refutou a alegação sustentando que o pedido feito pela empresa ré para analisar os documentos foi uma causa interruptiva da prescrição, nos termos do art. 202, VI, do CC: Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á: (...) VI - por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe reconhecimento do direito pelo devedor. A tese da autora foi acolhida pelo STJ? NÃO. O pedido de concessão de prazo para analisar documentos com o fim de verificar a existência de débito não tem o condão de interromper a prescrição. STJ. 3ª Turma. REsp 1.677.895-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 06/02/2018 (Info 619). Para que se enquadre nesse inciso VI do art. 202, deve ter sido praticado um ato que, de forma inequívoca (sem dúvidas), demonstre que o devedor reconheceu o direito do credor. Assim, não serve para interromper a prescrição o ato do devedor que “(...) traduz simples possibilidade de que tenha havido o reconhecimento ” (CAHALI, Yussef Said.Prescrição e decadência. São Paulo: RT, 2ª ed., 2012, p. 129). No mesmo sentido é a lição de Gustavo Tepedino: “A lei não especificou que atos, judiciais ou extrajudiciais, poderiam ensejar a interrupção da prescrição, deixando ao magistrado essa tarefa. É certo, contudo, que o reconhecimento deve ser inequívoco, motivo pelo qual a eventual existência de dúvida quanto à sua configuração já afasta o efeito estabelecido na norma.” (Código civil interpretado, Vol. 1, Parte Geral e Obrigações. Rio de Janeiro: Renovar, 2ª ed., 2007, p. 390). O pedido de concessão de prazo para analisar os documentos apresentados pela ré só poderia ser considerado como ato inequívoco que importasse em reconhecimento de débito (direito de receber) se este pedido de prazo fosse para o devedor analisar o montante dos valores (quantia exata a ser paga) e não para analisar se o serviço tinha sido ou não prestado (analisar a própria existência do débito). 8.5. Não é possível a cumulação da perda das arras com a imposição da cláusula penal compensatória – (Info 613) – IMPORTANTE!!! – (MPMS-2018) Na hipótese de inexecução do contrato, revela-se inadmissível a cumulação das arras com a cláusula penal compensatória, sob pena de ofensa ao princípio do non bis in idem. Ex: João celebrou contrato de promessa de compra e venda com uma incorporadora imobiliária para aquisição de um apartamento. João comprometeu-se a pagar 80 parcelas de R$ 3 mil e, em troca, receberia um apartamento. No início do contrato, João foi obrigado a pagar R$ 20 mil a título de arras. No contrato, havia uma cláusula penal compensatória prevendo que, em caso de inadimplemento por parte de João, a incorporadora poderia reter 10% das prestações que foram pagas por ele. Trata-se de cláusula penal compensatória. Suponhamos que, após pagar 30 parcelas, João tenha parado de pagar as prestações. Neste caso, João perderá apenas as arras, mas não será obrigado a pagar também a cláusula penal compensatória. Não é possível a cumulação da perda das arras com a imposição da cláusula penal compensatória. Logo, decretada a rescisão do contrato, fica a incorporadora autorizada a apenas reter o valor das arras, sem direito à cláusula penal. STJ. 3ª Turma. REsp 1.617.652-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 26/9/17 (Info 613). (MPMS-2018): Na hipótese da inexecução de contrato, não é possível a cumulação da perda das arras com a imposição da cláusula penal compensatória, sob pena de ofensa ao princípio do non bis in idem. BL: Info 613, STJ. OBS: CLÁUSULA PENAL Conceito: Cláusula penal é... - uma cláusula do contrato - ou um contrato acessório ao principal - em que se estipula, previamente, o valor da indenização que deverá ser paga - pela parte contratante que não cumprir, culposamente, a obrigação. A cláusula penal também pode ser chamada de multa convencional, multa contratual ou pena convencional. Natureza jurídica da cláusula penal: Trata-se de uma obrigação acessória, referente a uma obrigação principal. Pode estar inserida dentro do contrato (como uma cláusula) ou prevista em instrumento separado. Finalidades da cláusula penal: A cláusula penal possui duas finalidades. · Função ressarcitória: serve de indenização para o credor no caso de inadimplemento culposo do devedor. Ressalte-se que, para o recebimento da cláusula penal, o credor não precisa comprovar qualquer prejuízo. Desse modo, a cláusula penal serve para evitar as dificuldades que o credor teria no momento de provar o valor do prejuízo sofrido com a inadimplência do contrato. · Função coercitiva ou compulsória (meio de coerção): intimida o devedor a cumprir a obrigação, considerando que este já sabe que, se for inadimplente, terá que pagar a multa convencional. Espécies de cláusula penal MORATÓRIA (compulsória): COMPENSATÓRIA (compensar o inadimplemento) Estipulada para desestimular o devedor a incorrer em mora ou para evitar que deixe de cumprir determinada cláusula especial da obrigação principal. É a cominação contratual de uma multa para o caso de mora. Estipulada para servir como indenização no caso de total inadimplemento da obrigação principal (inadimplemento absoluto). Funciona como punição pelo retardamento no cumprimento da obrigação ou pelo inadimplemento de determinada cláusula. Funciona como uma prefixação das perdas e danos, ou seja, representa um valor previamente estipulado pelas partes a título de indenização pela inexecução contratual. Ex.1: em uma promessa de compra e venda de um apartamento, é estipulada multa para o caso de atraso na entrega. Ex.2: multa para o caso do produtor de soja fornecer uma safra de qualidade inferior ao tipo “X”. Ex.: em um contrato para que um cantor faça um show no réveillon, é estipulada uma multa de R$ 100 mil caso ele não se apresente. A cláusula penal moratória é cumulativa, ou seja, o credor poderá exigir o cumprimento da obrigação principal mais o valor da cláusula penal (poderá exigir a substituição da soja inferior e ainda o valor da cláusula penal). A cláusula penal compensatória não é cumulativa. Assim, haverá uma alternativa para o credor: exigir o cumprimento da obrigação principal OU apenas o valor da cláusula penal. Art. 411. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de mora, ou em segurança especial de outra cláusula determinada, terá o credor o arbítrio de exigir a satisfação da pena cominada, juntamente com o desempenho da obrigação principal. Art. 410. Quando se estipular a cláusula penal para o caso de total inadimplemento da obrigação, esta converter-se-á em alternativa a benefício do credor. Multa moratória = obrigação principal + multa Multa compensatória = obrigação principal OU multa ARRAS O que são as "arras"? Quando duas pessoas celebram um contrato, é possível que elas combinem que uma delas irá pagar à outra um valor em dinheiro (ou em outro bem fungível) como forma de: 1) demonstrar que irá cumprir a obrigação no momento em que chegar o dia do vencimento; ou 2) como uma espécie de valor que será perdido caso ela queira desistir do negócio. Para Sílvio Rodrigues, as arras “constituem a importância em dinheiro ou a coisa dada por um contratante ao outro, por ocasião da conclusão do contrato, com o escopo de firmar a presunção de acordo final e tornar obrigatório o ajuste; ou ainda, excepcionalmente, com o propósito de assegurar, para cada um dos contratantes, o direito de arrependimento” (Direito Civil. Vol. 2, 30ª ed, São Paulo: Saraiva. 2002, p. 279). Se as partes cumprirem as obrigações contratuais, as arras serão devolvidas para a parte que as havia dado. Poderão também ser utilizadas como parte do pagamento. É o que diz o Código Civil: Art. 417. Se, por ocasião da conclusão do contrato, uma parte der à outra, a título de arras, dinheiro ou outro bem móvel, deverão as arras, em caso de execução, ser restituídas ou computadas na prestação devida, se do mesmo gênero da principal. As arras só existemem contratos bilaterais (obrigações para ambas as partes) que tenham por objetivo transferir o domínio (propriedade) de alguma coisa. As arras possuem natureza jurídica de contrato acessório. Finalidades das arras: A Min. Nancy Andrighi identifica que as arras têm por finalidades: a) firmar a presunção de acordo final, tornando obrigatório o ajuste (caráter confirmatório); b) servir de princípio de pagamento (se forem do mesmo gênero da obrigação principal); c) prefixar o montante das perdas e danos devidos pelo descumprimento do contrato ou pelo exercício do direito de arrependimento, se expressamente estipulado pelas partes (caráter indenizatório). Espécies de arras: A partir do conceito acima dado, é possível identificar duas espécies diferentes de arras e a diferença principal entre elas está no objetivo de cada uma: Confirmatórias (arts. 418 e 419) Penitenciais (art. 420) São previstas no contrato com o objetivo de reforçar, incentivar que as partes cumpram a obrigação combinada. São previstas no contrato com o objetivo de permitir que as partes possam desistir da obrigação combinada caso queiram e, se isso ocorrer, o valor das arras penitenciais já funcionará como sendo as perdas e danos. A regra são as arras confirmatórias. Assim, no silêncio do contrato, as arras são confirmatórias. Ocorre quando o contrato estipula arras, mas também prevê o direito de arrependimento. Se as partes cumprirem as obrigações contratuais, as arras serão devolvidas para a parte que as havia dado. Poderão também ser utilizadas como parte do pagamento. Se as partes cumprirem as obrigações contratuais, as arras serão devolvidas para a parte que as havia dado. Poderão também ser utilizadas como parte do pagamento. · Se a parte que deu as arras não executar (cumprir) o contrato: a outra parte (inocente) poderá reter as arras, ou seja, ficar com elas para si. · Se a parte que recebeu as arras não executar o contrato: a outra parte (inocente) poderá exigir a devolução das arras mais o equivalente*. · Se a parte que deu as arras decidir não cumprir o contrato (exercer seu direito de arrependimento): ela perderá as arras dadas. · Se a parte que recebeu as arras decidir não cumprir o contrato (exercer seu direito de arrependimento): deverá devolver as arras mais o equivalente*. Além das arras, a parte inocente poderá pedir: · indenização suplementar, se provar maior prejuízo, valendo as arras como taxa mínima; · a execução do contrato, com as perdas e danos, valendo as arras como o mínimo da indenização. As arras penitenciais têm função unicamente indenizatória. Isso significa que a parte inocente ficará apenas com o valor das arras (e do equivalente) e NÃO terá direito a indenização suplementar. Nesse sentido: Súmula 412-STF: No compromisso de compra e venda com cláusula de arrependimento, a devolução do sinal, por quem o deu, ou a sua restituição em dobro, por quem o recebeu, exclui indenização maior, a título de perdas e danos, salvo os juros moratórios e os encargos do processo. Equivalente*: significa o valor equivalente das arras que haviam sido dadas. Ex: Mário deu R$ 500 de arras a Paulo; este não cumpriu o contrato; significa que ele terá que devolver as arras recebidas (R$ 500) mais o equivalente (R$ 500), totalizando R$ 1000. Obs: esta devolução deverá ocorrer com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, juros e honorários de advogado. Exemplo de arras confirmatórias: João está se mudando e combina de comprar o carro de Gabriel, que custa R$ 100 mil; o comprador pede para receber o veículo e pagar o preço só daqui a três meses, quando irá passar a morar na cidade; o vendedor não queria aceitar porque existem outros interessados no veículo e ele desejava vender logo; depois de muita insistência, ele acabou concordando, mas impôs uma exigência, qual seja, a de que João pagasse R$ 10 mil adiantados, como "sinal"; Gabriel explicou que este valor serviria como uma demonstração de que João teria intenção de cumprir o contrato e que não iria desistir; o vendedor explicou, ainda, que, quando o comprador pagasse o preço (R$ 100 mil), ele iria devolver o cheque com o "sinal" de R$ 10 mil. Este "sinal" é chamado, juridicamente, de "arras". Exemplo de arras penitenciais: Antônio comprometeu-se a vender seu apartamento para Ricardo. No contrato, havia uma cláusula prevendo que o promitente-comprador deveria dar um sinal de R$ 10 mil reais, valor este que foi pago. Vale ressaltar que o contrato estipulou que as partes tinham direito de desistir do negócio (direito de arrependimento). Antes que a primeira prestação fosse paga, Ricardo resolveu não mais comprar o imóvel. Isso significa que ele irá perder o sinal (arras) que pagou. Em outras palavras, não terá direito de pedir de volta essa quantia. Da mesma forma, Antônio não poderá exigir nenhum outro valor de Ricardo, ainda que tenha tido outros prejuízos decorrentes da desistência. CUMULAÇÃO DAS ARRAS COM CLÁUSULA PENAL Imagine a seguinte situação hipotética: João celebrou contrato de promessa de compra e venda com uma incorporadora imobiliária para aquisição de um apartamento. João comprometeu-se a pagar 80 parcelas de R$ 3 mil e, em troca, receberia um apartamento. No início do contrato, João foi obrigado a pagar R$ 20 mil a título de arras. No contrato, havia uma cláusula penal prevendo que, em caso de inadimplemento por parte de João, a incorporadora poderia reter 10% das prestações que foram pagas por ele. Trata-se de cláusula penal compensatória. Suponhamos que, após pagar 30 parcelas, João tenha parado de pagar as prestações. Neste caso, ele perderá as arras e também os 10% a título de cláusula penal compensatória? É possível a cumulação da perda das arras com a imposição da cláusula penal compensatória? NÃO. Na hipótese de inadimplemento, as arras funcionam como uma espécie de cláusula penal compensatória, representando o valor previamente estimado pelas partes para indenizar a parte não culpada pela inexecução do contrato. A perda das arras, na hipótese, representa o efeito da resolução imputável e culposa. Assim, as arras, a princípio, têm a função de indicar que a obrigação será cumprida. No entanto, ocorrendo a inexecução contratual elas passam a ter função de cláusula penal. Tanto nas arras confirmatórias como nas arras penitenciais, se a parte que deu as arras não executar o contrato, a outra parte (inocente) poderá reter as arras, ou seja, ficar com elas para si. Dessa forma, o que se conclui é que, na hipótese de inadimplemento do contrato, as arras apresentam natureza indenizatória, desempenhando papel semelhante ao da cláusula penal compensatória. Logo, se as arras cumprem a mesma função da cláusula penal compensatória, não é possível que a parte inocente exija da parte culpada tanto as arras como a cláusula penal compensatória. Isso seria bis in idem (dupla condenação a mesmo título), o que é vedado pelo Direito. Qual das duas deverá, então, prevalecer: as arras ou a cláusula penal? Se previstas cumulativamente para o inadimplemento contratual, entende-se que deve incidir exclusivamente a pena de perda das arras, ou a sua devolução mais o equivalente, a depender da parte a quem se imputa a inexecução contratual. Isso porque o art. 419 do CC afirma que as arras valem como "taxa mínima" de indenização pela inexecução do contrato. Assim, em nosso exemplo, como quem praticou a inexecução contratual foi quem deu as arras (João), ele perderá as arras. 8.6. DÍVIDA DE JOGO: É possível que o cassino cobre no Brasil por dívidas de jogo contraídas no exterior – (Info 610) – IMPORTANTE!!! – (Anal. Ministerial/MPPI-2018) A cobrança de dívida de jogo contraída por brasileiro em cassino que funciona legalmente no exterior é juridicamente possível e não ofende a ordem pública, os bons costumes e a soberania nacional. STJ. 3ª Turma. REsp 1.628.974-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 13/6/17 (Info 610). (Anal. Ministerial/MPPI-2018-CESPE): Conforme a jurisprudência do STJ, cassino que funcioneno exterior de forma legal poderá cobrar, no Brasil, por dívida de jogo contraída por brasileiro no exterior. BL: Info 610, STJ. OBS: O jogo explorado por cassinos é proibido pela legislação brasileira, sendo, no entanto, lícito em diversos estados americanos, como é o caso de Nevada, onde se situa Las Vegas. A questão a ser debatida, então, diz respeito à possibilidade de cobrança judicial de dívida de jogo contraída por um brasileiro em um cassino que funciona legalmente no exterior. O STJ entendeu que é possível. Dívidas de jogo contraídas no Brasil são inexigíveis: O art. 814 do Código Civil preconiza: Art. 814. As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento; mas não se pode recobrar a quantia, que voluntariamente se pagou, salvo se foi ganha por dolo, ou se o perdente é menor ou interdito. Em caso de obrigação constituída no exterior aplica-se o art. 9º da LINDB: Ocorre que a obrigação foi constituída nos EUA. Dessa forma, deve-se aplicar a legislação estadunidense, conforme prevê o art. 9º, caput, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB): Art. 9º Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem. Assim, a lei material aplicável ao caso é a norte-americana, mais especificamente a do Estado de Nevada. Para obrigação constituída no exterior poder ser exigida em nosso país, deve-se respeitar a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes: Vale ressaltar que a lei estrangeira somente pode produzir eficácia jurídica no Brasil se não ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes. Em outras palavras, mesmo tendo a obrigação se constituído no exterior, esta obrigação somente será exigível em nosso país se não violar estes valores. Isso é o que estabelece o art. 17 da LINDB: Art. 17. As leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes. Dessa feita, a possibilidade (ou não) de cobrança de dívida de jogo contraída no exterior está diretamente relacionada com os valores mencionados no referido art. 17. A pergunta que surge, então, é a seguinte: cobrar dívida de jogo contraída no exterior viola a soberania nacional, ordem pública e bons costumes? NÃO. Vejamos. Soberania nacional: A cobrança de dívida de jogo ocorrida no exterior não ofende a soberania nacional. A concessão de validade a negócio jurídico realizado no estrangeiro não retira o poder do Brasil em relação ao seu território nem cria nenhuma forma de dependência ou subordinação a outros Estados soberanos. Ordem pública: A ordem pública é conceito mutável, relacionado com a moral e com a ordem jurídica vigente em dado momento histórico. Não se trata de uma noção rígida, mas de um critério que deve ser revisto conforme a evolução da sociedade. Existem atualmente no Brasil diversos jogos de azar legalizados, os quais em nada se diferenciam dos jogos estimulados nos cassinos. Não há uma absoluta incompatibilidade entre a lei do Estado de Nevada, que autoriza os cassinos supervisionados pelo Estado, com a ordem jurídica vigente no Brasil. Vale ressaltar que o Brasil pune como contravenção penal a exploração de jogos não legalizados (art. 50). Ocorre que os cassinos no Estado de Nevada são jogos legalizados, de forma que não se enquadram na Lei de Contravenções Penais. Bons costumes: O meio social e o ordenamento jurídico brasileiros não consideram atentatórios aos bons costumes os jogos de azar. Isso se mostra pelo fato de que diversos deles são autorizados no Brasil, como loterias, raspadinhas, sorteios e corridas de cavalo. Além disso, o próprio art. 814 do CC, em sua parte final, afirma que não se pode recobrar a quantia que voluntariamente se pagou a título de dívida de jogo ou aposta. Ora, se fosse contrário aos bons costumes, não haveria essa regra de irrepetibilidade. Dessa forma, cobrar dívida de jogo contraída no exterior não viola a soberania nacional, ordem pública e bons costumes. Enriquecimento sem causa: Além disso, permitir a cobrança, no Brasil, de dívida de jogo contraída no exterior é uma medida que está de acordo com o art. 884 do Código Civil, que proíbe expressamente o enriquecimento sem causa. Aquele que visita país estrangeiro, usufrui de sua hospitalidade e contrai livremente obrigações lícitas não pode retornar a seu país de origem buscando a impunidade civil. Se não fosse permitido que o cassino cobrasse a dívida aqui no Brasil, haveria lesão à boa-fé de terceiro, bem como o enriquecimento sem causa do devedor. Conclui-se, portanto, que o pedido é juridicamente possível e não ofende a ordem pública, os bons costumes e a soberania brasileira. Ademais, deve ser aplicada, no que respeita ao direito material, a lei americana. 8.7. Impossibilidade de capitalização de juros por decorrência da aplicação da imputação do pagamento prevista no art. 354 do CC – (Info 572) No caso de dívida composta de capital e juros, a imputação de pagamento (art. 354 do CC) insuficiente para a quitação da totalidade dos juros vencidos não acarreta a capitalização do que restou desses juros. STJ. 3ª Turma. REsp 1.518.005-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 13/10/15 (Info 572). 8.8. Dívida de jogo contraída em casa de bingo – (Info 566) A dívida de jogo contraída em casa de bingo é inexigível, ainda que seu funcionamento tenha sido autorizado pelo Poder Judiciário. STJ. 3ª Turma. REsp 1.406.487-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 4/8/15 (Info 566). 9. JUROS 9.1. Réu foi condenado a pagar indenização acrescida de juros até o efetivo pagamento. O fato de o seu patrimônio ter sido bloqueado em outra ação judicial que trata sobre fatos conexos não significa que os juros de mora devem deixar de ser computados naquele – (Info 629) A mera notícia de decisão judicial determinando a indisponibilidade forçada dos bens do réu, no cerne de outro processo, com objeto e partes distintas, não possui o condão de interromper a incidência dos juros moratórios. STJ. 3ª Turma. REsp 1740260-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 26/6/18 (Info 629). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: Dr. Marcelo era advogado de Maria em uma ação por ela proposta contra a empresa X. Maria sagrou-se vencedora. Marcelo, na condição de seu advogado, fez o levantamento do alvará judicial (sacou o valor que o juiz determinou que deveria ser pago a Maria), mas não lhe repassou todo o montante devido, apropriando-se de parte dos valores que ela teria direito. Em outras palavras, o advogado ficou, indevidamente, com parte do dinheiro que era de Maria. Diante disso, Maria constituiu outro advogado e, em março de 2017, ingressou com ação de cobrança contra Marcelo. Ação civil pública: Vale ressaltar que Marcelo fez isso com centenas de outros clientes, tendo sido, inclusive, alvo de operação policial deflagrada para apurar o caso. Em razão dos fatos, o MP ajuizou ação civil pública contra Marcelo a fim de que ele devolva todos os valores retidos ilegalmente de seus antigos clientes. Em setembro de 2017, o juiz desta ACP, cautelarmente, determinou o bloqueio de todos os bens de Marcelo. Voltando ao processo da D. Maria: Em outubro de 2017, o juízo de 1º grau responsável pela ação proposta por Maria julgou procedente a pretensão e condenou Marcelo a: a) ressarcir integralmente os valores sacados, acrescidos de juros de mora e correção monetária; b) pagar indenização de R$ 10 mil a título de danos morais, acrescidos de juros de mora e correção monetária. Qual foi o termo inicial dos juros de mora neste caso? Os juros de mora deverão ser contados a partir de quando: da data em que Marcelo ficou indevidamente com os valores? NÃO. O termo inicial dos juros, neste caso, é a data da citação. O termo inicial em caso de abuso de mandato é a data da citação: Reconhecido o abuso de mandato por desacerto contratual, em razão de o advogado ter repassado valores a menor para seu mandatário, o marcoinicial dos juros moratórios é a data da citação. O termo inicial dos juros moratórios deve ser determinado a partir da natureza da relação jurídica mantida entre as partes. No caso, tratando-se de mandato, a relação jurídica tem natureza contratual, sendo o termo inicial dos juros moratórios a data da citação (art. 405 do CC). STJ. 3ª Turma. REsp 1.403.005-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 6/4/2017 (Info 602). Qual foi o termo final dos juros de mora neste caso? Os juros de mora deverão ser contados a partir da citação. Mas quando eles irão terminar? Até quando são contados os juros de mora nesta situação? O juiz determinou que os juros de mora deveriam incidir até o efetivo pagamento. Em outras palavras, o juiz da causa determinou que, enquanto Marcelo não pagasse a indenização, os juros de mora deveriam continuar incidindo. Recurso do réu: Marcelo recorreu contra a sentença e, dentre outros argumentos, alegou o seguinte: está errado o termo final dos juros moratórios. Isso porque todos os meus bens foram bloqueados na ação civil pública. Essa decisão de indisponibilidade na ACP interrompe (põe fim) à incidência dos juros moratórios. Como na ACP são discutidos os mesmos fatos, deve-se entender que o bloqueio que ocorreu naquele processo representa uma forma de “depósito integral para garantia do juízo”. É como se eu tivesse depositado em juízo todo o valor que dizem que eu devo. Ora, se houve depósito integral para garantia do juízo, não há mais mora de minha parte. Não havendo mais mora, não há que se falar em juros de mora. Logo, se a sentença for confirmada e eu tiver que pagar realmente a indenização, este valor terá que ser exigido de mim sem juros moratórios. Em suma, deve-se considerar como termo final dos juros moratórios a data do bloqueio judicial ocorrido na ACP. Essa tese de Marcelo foi acolhida pelo STJ? NÃO. É o que foi decidido no Info 629. No caso concreto, não houve o depósito integral para garantia do juízo espontaneamente realizado pelo réu. O que houve foi a mera notícia da indisponibilidade forçada de seus bens, que teria sido determinada em outra ação, com outro objeto e outras partes. O aludido bloqueio patrimonial configura medida constritiva, de natureza preventiva, que não se confunde com a sistemática do depósito judicial em garantia e não caracteriza a satisfação voluntária da obrigação. A constrição apenas impede que o réu promova atos tendentes a dilapidar seu patrimônio, causando ainda maiores prejuízos aos seus credores. Além disso, o patrimônio bloqueado não guarda nenhuma relação direta com o crédito da autora, objeto da presente demanda, tampouco está à sua disposição para levantamento. Assim, esse dinheiro, bloqueado em outra ação, não está à disposição da autora. Desse modo, inexiste fundamento jurídico plausível para a interrupção da mora antes do efetivo pagamento da indenização. A autora não pode ser prejudicada pelo fato de o réu ter praticado a mesma conduta ilícita com centenas de outras pessoas a ponto de gerar um bloqueio judicial de seu patrimônio no âmbito de outra demanda, da qual a vítima nem mesmo é parte. Se essa interrupção da mora fosse admitida, o réu estaria sendo beneficiado pela sua própria torpeza. 9.2. O termo inicial em caso de abuso de mandato é a data da citação – (Info 602) Reconhecido o abuso de mandato por desacerto contratual, em razão de o advogado ter repassado valores a menor para seu mandatário, o marco inicial dos juros moratórios é a data da citação. O termo inicial dos juros moratórios deve ser determinado a partir da natureza da relação jurídica mantida entre as partes. No caso, tratando-se de mandato, a relação jurídica tem natureza contratual, sendo o termo inicial dos juros moratórios a data da citação (art. 405 do CC). STJ. 3ª Turma. REsp 1.403.005-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 6/4/17 (Info 602). 9.3. Termo inicial de juros de mora em cobrança de mensalidade por serviço educacional – (Info 567) Se o contrato de prestação de serviço educacional especifica o valor da mensalidade e a data de pagamento, os juros de mora fluem a partir do vencimento das mensalidades não pagas - e não da citação válida. Ex: João matriculou-se em um curso de pós-graduação de uma instituição privada. Segundo o contrato, João deveria pagar, durante 12 meses, R$ 500 de mensalidade todo dia 28 de cada mês. O aluno tornou-se inadimplente, razão pela qual a faculdade ajuizou ação de cobrança pleiteando o pagamento das parcelas que não foram pagas, acrescidas de juros e multa. Os juros de mora serão contados da data prevista para o vencimento de cada parcela (e não da data da citação). STJ. 3ª Turma. REsp 1.513.262-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 18/8/2015 (Info 567). 9.4. A citação é o termo inicial dos juros moratórios em caso de obrigações contratuais ilíquidas – (Info 545) Em regra, o termo inicial dos juros moratórios em caso de responsabilidade civil contratual é a data da citação. Quando não houver, na sentença condenatória, a definição do termo inicial para a contabilização dos juros moratórios decorrentes do inadimplemento de obrigação contratual, dever-se-á adotar na liquidação, como marco inicial, a citação válida do réu no processo de conhecimento. STJ. 4ª Turma. REsp 1.374.735-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 5/8/14 (Info 545). 9.5. Termo inicial dos juros de mora – (Info 537) – IMPORTANTE!!! Os juros moratórios contratuais, em regra, correm a partir da data da citação. No entanto, no caso de obrigação positiva e líquida, com vencimento certo, os juros moratórios correm a partir da data do vencimento da dívida. Assim, em ação monitória para a cobrança de débito decorrente de obrigação positiva, líquida e com termo certo, deve-se reconhecer que os juros de mora incidem desde o inadimplemento da obrigação se não houver estipulação contratual ou legislação específica em sentido diverso. STJ. Corte Especial. EREsp 1.250.382-PR, Rel. Min. Sidnei Beneti, j. 2/4/14 (Info 545). 9.6. Taxa legal de juros de mora: SELIC – (Info 510) A taxa de juros moratórios a que se refere o art. 406 do Código Civil de 2002, é a SELIC. A incidência da taxa Selic como juros moratórios exclui a correção monetária, sob pena de bis in idem, considerando que a referida taxa já é composta de juros e correção monetária. STJ. 3ª Turma. EDcl no REsp 1.025.298-RS, Rel. originário Min. Massami Uyeda, Rel. para acórdão Min. Luis Felipe Salomão, julgados em 28/11/2012 (Info 510 STJ). 10. ARRAS 10.1. Cálculo das arras confirmatórias e desproporção entre a quantia paga inicialmente e o preço ajustado – (Info 577) Se a proporção entre a quantia paga inicialmente e o preço total ajustado evidenciar que o pagamento inicial englobava mais do que o sinal, não se pode declarar a perda integral daquela quantia inicial como se arras confirmatórias fosse, sendo legítima a redução equitativa do valor a ser retido. STJ. 3ª Turma. REsp 1.513.259-MS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 16/2/16 (Info 577). OBS: NOÇÕES GERAIS SOBRE ARRAS: O que são as "arras"? Quando duas pessoas celebram um contrato, é possível que elas combinem que uma delas irá pagar à outra um valor em dinheiro (ou em outro bem fungível) como forma de: 1) demonstrar que irá cumprir a obrigação no momento em que chegar o dia do vencimento; ou 2) como uma espécie de valor que será perdido caso ela queira desistir do negócio. Se as partes cumprirem as obrigações contratuais, as arras serão devolvidas para a parte que as havia dado. Poderão também ser utilizadas como parte do pagamento. É o que diz o Código Civil: Art. 417. Se, por ocasião da conclusão do contrato, uma parte der à outra, a título de arras, dinheiro ou outro bem móvel, deverão as arras, em caso de execução, ser restituídas ou computadas na prestação devida, se do mesmo gênero da principal. As arras só existem em contratos bilaterais (obrigações para ambas as partes) que tenham por objetivo transferir o domínio (propriedade)de alguma coisa. As arras possuem natureza jurídica de contrato acessório. Espécies de arras: A partir do conceito acima, é possível identificar duas espécies diferentes de arras e a diferença principal entre elas está no objetivo de cada uma: * Equivalente: significa o valor equivalente das arras que haviam sido dadas. Ex: Mário deu R$ 500 de arras a Paulo; este não cumpriu o contrato; significa que ele terá que devolver as arras recebidas (R$ 500) mais o equivalente (R$ 500), totalizando R$ 1000. Obs: esta devolução deverá ocorrer com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, juros e honorários de advogado. Exemplo de arras confirmatórias: João está se mudando e combina de comprar o carro de Gabriel, que custa R$ 100 mil; o comprador pede para receber o veículo e pagar o preço só daqui a três meses, quando irá passar a morar na cidade; o vendedor não queria aceitar porque existem outros interessados no veículo e ele desejava vender logo; depois de muita insistência, ele acabou concordando, mas impõs uma exigência, qual seja, a de que João pagasse R$ 10 mil adiantados como "sinal"; Gabriel explicou que este valor serviria como uma demonstração de que João teria intenção de cumprir o contrato e que não iria desistir; o vendedor explicou, ainda, que, quando o comprador pagasse o preço (R$ 100 mil), ele iria devolver o cheque com o "sinal" de R$ 10 mil. Este "sinal" é chamado, juridicamente, de "arras". Exemplo de arras penitenciais: Antônio comprometeu-se a vender seu apartamento para Ricardo. No contrato, havia uma cláusula prevendo que o promitente-comprador deveria dar um sinal de R$ 10 mil reais, valor este que foi pago. Vale ressaltar que o contrato estipulou que as partes tinham direito de desistir do negócio (direito de arrependimento). Antes que a primeira prestação fosse paga, Ricardo resolveu não mais comprar o imóvel. Isso significa ele irá perder o sinal (arras) que pagou. Em outras palavras, não terá direito de pedir de volta essa quantia. Da mesma forma, Antônio não poderá exigir nenhum outro valor de Ricardo, ainda que tenha tido outros prejuízos decorrentes da desistência. CASO PECULIAR JULGADO PELO STJ: Imagine a seguinte situação hipotética: Francisco prometeu vender sua fazenda a José por R$ 210 mil. Ficou acertado que seria pago R$ 70 mil à vista e mais 7 parcelas de R$ 20 mil, que seriam quitadas a cada 6 meses. Ressalte-se que o contrato não previa direito de arrependimento. José pagou os R$ 70 mil. Seis meses depois, quando chegou o momento de pagar a primeira prestação de R$ 20 mil, ele se tornou inadimplente. Diante disso, Francisco ajuizou ação de rescisão contratual c/c perdas e danos e reintegração de posse contra José. Na ação, o autor alegou que os R$ 70 mil deveriam ser entendidos como arras confirmatórias e que, portanto, ele tinha direito de ficar com esse valor e, além disso, de ser ressarcido pelas perdas e danos que sofreu decorrente do inadimplemento contratual. José contestou alegando que o valor pago corresponde a 1/3 do preço total, de forma que é muito alto e, por isso, não poderia ser considerado como mero "sinal", sendo, na verdade, parte do cumprimento da obrigação. Assim, em reconvenção, pediu que as perdas e danos fossem fixadas em R$ 40 mil, devendo, portanto, Francisco lhe devolver R$ 30 mil. A tese do réu foi aceita pelo STJ? SIM. Realmente, o promitente-comprador, por ter dado causa à rescisão do contrato, deverá perder as arras confirmatórias que foram pagas. Isso está previsto no art. 418 do CC: Art. 418. Se a parte que deu as arras não executar o contrato, poderá a outra tê-lo por desfeito, retendo-as; se a inexecução for de quem recebeu as arras, poderá quem as deu haver o contrato por desfeito, e exigir sua devolução mais o equivalente, com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, juros e honorários de advogado. Porém, para o STJ, o pagamento inicial feito pelo promitente-comprador, por representar 1/3 do valor final do negócio, não pode ser considerado como um mero "sinal" (arras), razão pela qual a aplicação do art. 418 do CC/02 deve sofrer flexibilização. No caso concreto, evidenciou-se que o pagamento inicial englobava mais do que o sinal, motivo pelo qual o STJ entendeu que neste valor de R$ 70 mil já estava embutido o "sinal" e algumas parcelas do contrato. Se todo esse valor fosse considerado como arras confirmatórias, o promitente-comprador acabaria sendo onerado excessivamente e haveria um enriquecimento desproporcional do promitente-vendedor. A jurisprudência do STJ: As arras confirmatórias devem ser fixadas em um percentual máximo que varie de 10% e 20% do valor do bem. Esse seria o valor máximo que o promitente-vendedor poderia reter para si. Na situação em exame, o STJ afirmou que o promitente-vendedor deveria reter, a título de arras confirmatórias, a quantia equivalente a 15% do valor do imóvel. OBS: Além das arras confirmatórias, o STJ determinou que o promitente-comprador deveria pagar ao promitente-vendedor o valor equivalente a 6 meses de aluguel (tempo que ele ficou morando no imóvel antes de ser retirado). Isso é possível. Estes alugueis correspondem ao valor das perdas e danos sofridos pelo promitente-vendedor e as perdas e danos podem ser cumuladas com as arras confirmatórias. 11. VÍCIO REDIBITÓRIO 11.1. Prazo decadencial para a ação redibitória – (Info 554) O prazo decadencial para o exercício da pretensão redibitória ou de abatimento do preço de bem móvel é de 30 dias (art. 445 do CC). No caso de vício oculto em coisa móvel, o adquirente tem o prazo máximo de 180 dias para perceber o vício (§ 1º do art. 445) e, se o notar neste período, tem o prazo de decadência de 30 dias (a partir da verificação do vício) para ajuizar a ação redibitória. STJ. 4ª Turma. REsp 1.095.882-SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 9/12/14 (Info 554). 12. EVICÇÃO 12.1. É dever do alienante transmitir ao adquirente o direito sem vícios, de forma que se caracteriza a evicção se existir um gravame que impede a transferência do bem – (Info 621) Caracteriza-se evicção a inclusão de gravame capaz de impedir a transferência livre e desembaraçada de veículo objeto de negócio jurídico de compra e venda. Caso concreto: foi vendido um carro, mas, antes que pudesse ser transferido à adquirente, houve um bloqueio judicial sobre o veículo. Foi necessário o ajuizamento de embargos de terceiro para liberação do automóvel, sendo, em seguida, desfeito o negócio. Neste caso, caracterizou-se a evicção, gerando o dever do alienante de indenizar a adquirente pelos prejuízos sofridos. STJ. 3ª Turma. REsp 1713096-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 20/2/2018 (Info 621). OBS: Evicção: A evicção ocorre quando: - a pessoa que adquiriu um bem - perde a posse ou a propriedade desta coisa - em razão de uma decisão judicial ou de um ato administrativo - que reconhece que um terceiro possuía direitos anteriores sobre este bem - de modo que ele não poderia ter sido alienado. Após perder a posse ou a propriedade do bem, o adquirente (evicto) deverá ser indenizado pelo alienante por conta deste prejuízo. O fundamento desta indenização está no princípio da garantia. Logo, não interessa discutir se o alienante estava ou não de boa-fé quando vendeu o bem. Mesmo de boa-fé, ele terá a obrigação de indenizar o evicto. Veja como o Min. Luis Felipe Salomão definiu o instituto: “A evicção consiste na perda parcial ou integral da posse ou da propriedade do bem, via de regra, em virtude de decisão judicial que atribui o uso, a posse ou a propriedade a outrem, em decorrência de motivo jurídico anterior ao contrato de aquisição.” (REsp 1.332.112-GO). Evicção vem do latim evincere ou evictio, que significa algo como “ser vencido”. Na língua portuguesa existe o verbo “evencer”, que significa “promover a evicção de alguém”. Exemplo: João comprou um terreno de Bartolomeu. De repente, aparece Gilberto ajuizando uma ação reivindicatória contra João e afirmando que Bartolomeu não poderia tervendido o terreno porque não lhe pertencia. A ação é julgada procedente e João perde o terreno. Personagens: Na evicção, temos os seguintes personagens: · evictor: é o terceiro reivindicante do bem (ex: Gilberto); · evicto: é o adquirente do bem, que perdeu a ação movida pelo evictor (ex: João); · alienante: é o que transferiu o bem ao evicto, e por isso, deve responder pela evicção, indenizando-o (ex: Bartolomeu). Indenização devida em caso de evicção: Após perder a posse ou a propriedade do bem, o adquirente (evicto) deverá ser indenizado pelo alienante por conta deste prejuízo. O valor da indenização englobará o preço pago pelo evicto na compra do bem e mais as outras despesas que ele comprove ter realizado. Segundo o art. 450 do CC, o evicto possui o direito de receber as seguintes quantias: · restituição integral do preço que pagou, com juros e correção monetária; · indenização pelos frutos que tiver sido obrigado a restituir ao evictor; · indenização pelas benfeitorias necessárias ou úteis não abonadas (art. 453); · indenização pelas despesas do contrato; · reembolso das custas judiciais e honorários advocatícios; · indenização pelos prejuízos que diretamente resultarem da evicção. Veja o que diz o CC: Art. 450. Salvo estipulação em contrário, tem direito o evicto, além da restituição integral do preço ou das quantias que pagou: I – à indenização dos frutos que tiver sido obrigado a restituir; II – à indenização pelas despesas dos contratos e pelos prejuízos que diretamente resultarem da evicção; III – às custas judiciais e aos honorários do advogado por ele constituído. O valor do preço do bem é calculado segundo a data da evicção (e não com base no dia da aquisição): Art. 450 (...) Parágrafo único. O preço, seja a evicção total ou parcial, será o do valor da coisa, na época em que se evenceu (no momento da perda e não na data da alienação), e proporcional ao desfalque sofrido, no caso de evicção parcial. Assim, por exemplo, se a pessoa comprou o bem por 200 mil reais, mas na data da evicção (anos mais tarde), a coisa valia 300 mil reais, este último valor é que deverá ser devolvido ao evicto. Qual é o prazo prescricional para esta ação de indenização baseada na evicção? 3 anos. A pretensão deduzida em demanda baseada na garantia da evicção submete-se ao prazo prescricional de três anos (STJ. 3ª Turma. REsp 1.577.229-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 8/11/2016. Info 593). Imagine agora a seguinte situação hipotética: João queria vender seu carro e, para tanto, deixou o automóvel no pátio da empresa AutoSeller, que trabalha com a intermediação de compra e venda de veículos seminovos. Rafaela foi até a empresa AutoSeller e se interessou pelo carro de João que estava ali exposto, decidindo comprá-lo. Rafaela entregou o dinheiro, no entanto, antes que conseguisse transferir o carro para o seu nome, houve um bloqueio judicial do veículo em razão de uma dívida de João. Diante disso, a AutoSeller foi obrigada a ingressar com embargos de terceiro tendo, depois de alguns meses, conseguido a liberação do bem. Ocorre que Rafaela desistiu do negócio, tendo a AutoSeller reembolsado a antiga adquirente. Nesse cenário, a AutoSeller ingressou com ação de cobrança contra João pedindo o ressarcimento dos danos sofridos, por intermediar a compra e venda de automóvel que foi bloqueado por ordem judicial, impossibilitando a transferência da propriedade e ensejando a resolução do contrato pela adquirente. A ação deverá ser julgada procedente? A empresa tem direito de ser ressarcida? Houve evicção neste caso? SIM. Caracteriza-se evicção a inclusão de gravame capaz de impedir a transferência livre e desembaraçada de veículo objeto de negócio jurídico de compra e venda. STJ. 3ª Turma. REsp 1.713.096-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 20/2/18 (Info 621). O que o juiz deve fazer neste caso? O magistrado deverá determinar que as partes voltem a seu estado inicial, com a devolução do automóvel a João, a restituição do valor a Rafaela (compradora) e o ressarcimento dos danos que a AutoSeller experimentou. Há indenização mesmo o automóvel tendo sido, ao final, liberado? SIM. O fato de haver decisão judicial liberando o bem não elimina o direito da empresa de ser indenizada pelos prejuízos que sofreu. Isso porque ela teve que contratar advogado e fazer outras despesas para recuperar a posse do bem, além de ter tido que restituir os valores que haviam sido pagos pela adquirente. Neste caso, é possível falar em evicção mesmo não tendo havido “perda da coisa”? SIM. Tradicionalmente, fala-se que a evicção é a perda da coisa. No entanto, a Min. Nancy Andrighi explica que a evicção não se configura apenas com a “perda da coisa” em si, mas sim com a privação de um direito que incide sobre a coisa. Esse direito pode ser não apenas sobre a propriedade, mas também sobre a posse. Assim, ocorre a evicção quando há privação do direito de propriedade ou de posse sobre a coisa. E essa privação pode ser total ou parcial. A inclusão de um gravame sobre a coisa é um exemplo de privação parcial que incide sobre o bem. O fato de ter sido constituído um gravame sobre o bem, tornando necessário o ajuizamento de embargos de terceiro para que se pudesse obter a respectiva liberação evidencia que houve o rompimento da sinalagmaticidade das prestações. Isso porque pelo contrato, o alienante deveria ter transmitido o bem livre de qualquer restrição, sob pena de responder pela evicção. Em palavras mais simples, o alienante não cumpriu a sua parte da obrigação. 12.2. Prazo prescricional da ação de indenização – (Info 593) A pretensão deduzida em demanda baseada na garantia da evicção submete-se ao prazo prescricional de 3 anos. Em outras palavras, é de 3 anos o prazo prescricional para que o evicto (que perdeu o bem por evicção) proponha ação de indenização contra o alienante. STJ. 3ª Turma. REsp 1.577.229-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 8/11/2016 (Info 593). OBS: Personagens: Na evicção, temos os seguintes personagens: · evictor: é o terceiro reivindicante do bem (ex: Gilberto); · evicto: é o adquirente do bem, que perdeu a ação movida pelo evictor (ex: João); · alienante: é o que transferiu o bem ao evicto, e por isso, deve responder pela evicção, indenizando-o (ex: Bartolomeu). Indenização devida em caso de evicção: Após perder a posse ou a propriedade do bem, o adquirente (evicto) deverá ser indenizado pelo alienante por conta deste prejuízo. O valor da indenização englobará o preço pago pelo evicto na compra do bem e mais as outras despesas que ele comprove ter realizado. Segundo o art. 450 do CC, o evicto possui o direito de receber as seguintes quantias: · restituição integral do preço que pagou, com juros e correção monetária; · indenização pelos frutos que tiver sido obrigado a restituir ao evictor; · indenização pelas benfeitorias necessárias ou úteis não abonadas (art. 453); · indenização pelas despesas do contrato; · reembolso das custas judiciais e honorários advocatícios; · indenização pelos prejuízos que diretamente resultarem da evicção. Veja o que diz o CC: Art. 450. Salvo estipulação em contrário, tem direito o evicto, além da restituição integral do preço ou das quantias que pagou: I – à indenização dos frutos que tiver sido obrigado a restituir; II – à indenização pelas despesas dos contratos e pelos prejuízos que diretamente resultarem da evicção; III – às custas judiciais e aos honorários do advogado por ele constituído. O valor do preço do bem é calculado segundo a data da evicção (e não com base no dia da aquisição): Art. 450 (...) Parágrafo único. O preço, seja a evicção total ou parcial, será o do valor da coisa, na época em que se evenceu (no momento da perda e não na data da alienação), e proporcional ao desfalque sofrido, no caso de evicção parcial. Assim, por exemplo, se a pessoa comprou o bem por 200 mil reais, mas na data da evicção (anos mais tarde), a coisa valia 300 mil reais, este último valor é que deverá ser devolvido ao evicto. Qual é o prazo prescricional para esta açãode indenização baseada na evicção? 3 anos. A garantia por evicção está relacionada com a "responsabilidade negocial" do alienante, que tem a obrigação de indenizar o adquirente evicto pelo fato de não ter transmitido a propriedade do bem isenta de vícios. Desse modo, independentemente do nomen juris que seja dado pelo autor, a demanda na qual o evicto busca ser indenizado pelos danos causados pela evicção é, na verdade, uma ação de reparação civil decorrente de inadimplemento contratual. Isso porque o alienante descumpriu uma das obrigações do contrato (transmitir a propriedade isenta de vícios). Logo, aplica-se ao caso o prazo prescricional previsto no art. 206, § 3º, V, do CC: Art. 206. Prescreve: (...) § 3º Em três anos: V - a pretensão de reparação civil; Este dispositivo fala em "reparação civil" de forma ampla, de modo que tem incidência tanto na responsabilidade civil extracontratual como contratual. 13. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS 13.1. A capitalização de juros, seja qual for a sua periodicidade, somente será considerada válida se estiver expressamente pactuada no contrato – (Info 599) – (DPEMA-2015) A cobrança de juros capitalizados nos contratos de mútuo é permitida quando houver expressa pactuação. Isso significa que a capitalização de juros, seja qual for a sua periodicidade (anual, semestral, mensal), somente será considerada válida se estiver expressamente pactuada no contrato. A pactuação da capitalização dos juros é sempre exigida, inclusive para a periodicidade anual. O art. 591 do Código Civil permite a capitalização anual, mas não determina a sua aplicação automaticamente. Não é possível a incidência da capitalização sem previsão no contrato. STJ. 2ª Seção. REsp 1.388.972-SC, Rel. Min. Marco Buzzi, j. 8/2/17 (recurso repetitivo) (Info 599). OBS: JUROS CAPITALIZADOS: A capitalização de juros, também chamada de anatocismo, ocorre quando os juros são calculados sobre os próprios juros devidos. Outras denominações para “capitalização de juros”: “juros sobre juros”, “juros compostos” ou “juros frugíferos”. Normalmente, os juros capitalizados estão presentes nos contratos de financiamento bancário. Carlos Roberto Gonçalves explica melhor: “O anatocismo consiste na prática de somar os juros ao capital para contagem de novos juros. Há, no caso, capitalização composta, que é aquela em que a taxa de juros incide sobre o capital inicial, acrescido dos juros acumulados até o período anterior. Em resumo, pois, o chamado ‘anatocismo’ é a incorporação dos juros ao valor principal da dívida, sobre a qual incidem novos encargos.” (Direito Civil Brasileiro. 8ª ed., São Paulo: Saraiva, 2011, p. 409). CAPITALIZAÇÃO ANUAL DE JUROS: A capitalização de juros foi vedada no ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto 22.626/33 (Lei de Usura), cujo art. 4º estabeleceu: Art. 4º É proibido contar juros dos juros: esta proibição não compreende a acumulação de juros vencidos aos saldos líquidos em conta corrente de ano a ano. O STJ entende que a ressalva prevista na segunda parte do art. 4º (a parte em cinza) significa que a Lei de Usura permite a capitalização anual. Em outras palavras, a Lei de Usura: · Proibiu a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano (ex: capitalização mensal de juros); · Permitiu a capitalização anual de juros. O CC-1916 (art. 1.262) e o CC-2002 também permitem a capitalização anual: Art. 591. Destinando-se o mútuo a fins econômicos, presumem-se devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a que se refere o art. 406, permitida a capitalização anual. Desse modo, a capitalização anual sempre foi PERMITIDA (para todos os contratos). Vale ressaltar que, mesmo sendo permitida por lei, a capitalização anual de juros precisa estar expressamente pactuada, ou seja, prevista no contrato. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS COM PERIODICIDADE INFERIOR A UM ANO: Como vimos, a capitalização de juros por ano é permitida, seja para contratos bancários ou não-bancários. O que é proibida, como regra, é a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano. Ex: capitalização mensal de juros (ou seja, a cada mês incidem juros sobre os juros). A capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano (ex: capitalização mensal de juros) é proibida também para os bancos? NÃO. A MP n.º 1.963-17, editada em 31 de março de 2000, permitiu às instituições financeiras a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano. Em suma, é permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano em contratos BANCÁRIOS celebrados após 31 de março de 2000, data da publicação da MP 1.963-17/2000 (atual MP 2.170-36/2001), desde que expressamente pactuada. Veja a redação da MP 2.170-36/2001: Art. 5º Nas operações realizadas pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, é admissível a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano. O STJ sumulou seu entendimento sobre a matéria: Súmula 539-STJ: É permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior à anual em contratos celebrados com instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional a partir de 31/3/2000 (MP 1.963-17/00, reeditada como MP 2.170-36/01), desde que expressamente pactuada. Desse modo, os bancos podem fazer a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano, desde que expressamente pactuada. Legislação especial pode autorizar a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano para outras atividades: É possível a cobrança de juros sobre juros quando existente autorização em lei especial e desde que este encargo tenha sido expressamente pactuado. Ex: Decretos-lei nº 167/67 e 413/69 e a Lei nº 6840/80, que disciplinam as cédulas de crédito rural, industrial e comercial. Nesse sentido: Súmula 93-STJ: A legislação sobre cédulas de crédito rural, comercial e industrial admite o pacto de capitalização de juros. A CAPITALIZAÇÃO SOMENTE É VÁLIDA SE HOUVER EXPRESSA PACTUAÇÃO: Conforme estudamos acima, a Lei de Usura e Código Civil permitiram expressamente a capitalização anual de juros. Veja novamente a redação do CC: Art. 591. Destinando-se o mútuo a fins econômicos, presumem-se devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a que se refere o art. 406, permitida a capitalização anual. Como o art. 591 fala que os juros são presumidos no contrato de mútuo com fins econômicos, surgiu a tese de que no caso de mútuo com capitalização anual de juros não seria necessário que essa capitalização estivesse expressamente prevista no contrato. Assim, seria permitida a capitalização anual mesmo que o contrato não estipulasse essa possibilidade textualmente. Essa tese foi acolhida pela jurisprudência? NÃO. A pactuação da capitalização dos juros é sempre exigida, inclusive para a periodicidade anual. Assim, não é possível a incidência automática da capitalização dos juros. O art. 591 do Código Civil permite a capitalização anual, mas não determina a sua aplicação automaticamente. Quando ele fala que se presumem os juros, são os juros remuneratórios incidentes sobre o mútuo feneratício, ou seja, aqueles recebidos pelo mutuante como compensação pela privação do capital emprestado. São juros simples. Em caso de capitalização, isso deverá ser feito de forma expressa no pacto. O STJ analisou o tema sob a sistemática do recurso repetitivo e resumiu o entendimento com a seguinte tese: A cobrança de juros capitalizados nos contratos de mútuo é permitida quando houver expressa pactuação. STJ. 2ª Seção. REsp 1.388.972-SC, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 8/2/2017 (recurso repetitivo) (Info 599). Isso significa que a capitalização de juros, seja qual for a sua periodicidade (anual, semestral, mensal), somente será considerada válida se estiver expressamente pactuada (prevista) no contrato. Necessidade de analisar o contrato firmado: Como consequência disso, para que o mutuante (quem emprestou o dinheiro) possa provar que ele tem direito de cobrar juros capitalizados, ele precisará juntar aos autos cópia do contratocelebrado com o mutuário demonstrando, assim, que a capitalização foi expressamente prevista no ajuste. Não sendo juntado o contrato, deverá o juiz levar em consideração os juros legais (juros simples): (...) 4. Ausente a cópia do contrato por omissão imputável à instituição financeira, de modo a impedir a aferição do percentual ajustado e da própria existência de pactuação, impõe-se observar o critério legalmente estabelecido. 5. No período anterior à vigência do novo Código Civil, os juros de mora são devidos à taxa de 0,5% ao mês (art. 1.062 do CC/16); após 10/1/03, devem incidir segundo os ditames do art. 406 do CC/02, observado o limite de 1% imposto pela Súmula nº 379/STJ, salvo se a taxa cobrada for mais vantajosa para o devedor. (...) STJ. 3ª Turma. REsp 1431572/SC, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 07/06/16. 14. CONTRATOS 14.1. NOÇÕES GERAIS SOBRE CONTRATOS: CLÁUSULA PENAL: É válida a cláusula penal que prevê a perda integral dos valores pagos em contrato de compromisso de compra e venda firmado entre particulares – (Info 653) É válida a cláusula penal que prevê a perda integral dos valores pagos em contrato de compromisso de compra e venda firmado entre particulares. Para a caracterização do vício de lesão, exige-se a presença simultânea de: a) elemento objetivo (desproporção das prestações); e b) elemento subjetivo (a inexperiência ou a premente necessidade). Os dois elementos devem ser aferidos no caso concreto. Tratando-se de negócio jurídico bilateral celebrado de forma voluntária entre particulares, é imprescindível a comprovação dos elementos subjetivos, sendo inadmissível a presunção nesse sentido. O mero interesse econômico em resguardar o patrimônio investido em determinado negócio jurídico não configura premente necessidade para o fim do art. 157 do Código Civil. STJ. 3ª T. REsp 1723690-DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 6/8/19 (Info 653). 14.2. CONTRATO DE HONORÁRIOS: Os honorários advocatícios contratuais que adotarem a quota litis devem ser calculados com base na quantia efetivamente recebida pelo cliente, em razão da cessão de seu crédito a terceiro, e não pelo valor apurado na liquidação da sentença – (Info 650) Ex: João (advogado) foi contratado para ajuizar reclamação trabalhista em favor de Pedro, mediante celebração de contrato de prestação de serviços advocatícios com cláusula quota litis, cuja remuneração seria de 20% sobre o crédito apurado em sentença em benefício do reclamante. A reclamação foi julgada procedente e, na liquidação da sentença, ficou reconhecido que a empregadora deveria pagar R$ 100 mil ao ex-empregado. Ocorre que a empresa vencida entrou em processo de falência. Diante disso, Pedro (credor) realizou acordo com terceiro cedendo seu crédito, com a finalidade de receber ao menos parte de sua verba alimentar, por valor bem inferior ao judicialmente reconhecido. Assim, Pedro “vendeu” seu crédito de R$ 100 mil recebendo apenas R$ 10 mil. João (advogado) receberá 20% de 100 ou de 10? R: 20% de 10. Para o STJ, uma vez celebrado o contrato de prestação de serviços advocatícios com emprego de cláusula quota litis, deve a remuneração ad exitum, ali fixada em percentual, ser calculada com base no benefício efetivamente alcançado pela parte com a cessão de crédito, e não com base no valor total do crédito reconhecido na demanda trabalhista e não satisfeito, ante a manifesta insolvência da devedora falida. STJ. 4ª T. REsp 1.354.338-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. Acd. Min. Raul Araújo, j. 19/3/19 (Info 650). 14.3. CONTRATOS AGRÁRIOS: ARRENDAMENTO RURAL: A outorga uxória é desnecessária nos pactos de arrendamento rural – (Info 649) Não é necessária a outorga uxória para validade e eficácia de contrato de arrendamento rural. Nos termos do Decreto nº 59.566/66, o arrendamento rural é, por definição legal, o contrato mediante o qual uma pessoa se obriga a ceder a outra, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de imóvel rural, mediante retribuição. Não há exigência legal de forma especial para a sua plena validade e eficácia, sendo o arrendamento rural um contrato não solene. Portanto, como não há, na legislação específica, nenhuma regra sobre a forma do arrendamento rural, deve-se verificar se existe alguma previsão no Código Civil (que é a lei geral). Analisando o caso concreto, percebe-se que tal situação se enquadra entre os atos de administração que podem ser praticados por um dos cônjuges sem autorização do outro, consoante dispõe o art. 1.642, II e VI: “Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a mulher podem livremente: (...) II - administrar os bens próprios; (...) VI - praticar todos os atos que não lhes forem vedados expressamente.” STJ. 3ª T. REsp 1.764.873-PR, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 14/05/19 (Info 649). 14.4. DOAÇÃO: A doação remuneratória deve respeitar a legítima dos herdeiros – (Info 648) – IMPORTANTE!!! A doação remuneratória é aquela na qual a coisa é doada como forma de recompensa por um serviço prestado pelo donatário. A doação remuneratória deve respeitar os limites impostos pelo legislador. O Código Civil proíbe a doação universal (doação de todos os bens do doador sem que seja a ele resguardado o mínimo existencial) e a doação inoficiosa (aquela que ocorre em prejuízo à legítima dos herdeiros necessários). O fato de a doação ser remuneratória não a isenta de respeitar essas limitações. Assim, a doação remuneratória não pode se constituir em uma doação universal nem em uma doação inoficiosa. STJ. 3ª T. REsp 1.708.951-SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 14/5/19 (Info 648). OBS: Doação: Considera-se doação o contrato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra (art. 538 do CC). Restrições à liberalidade de doar: Em regra, a pessoa sendo proprietária da coisa, pode doá-la para quem quiser. A lei impõe, contudo, algumas restrições ao exercício desse direito. Veja: RESTRIÇÕES À LIBERALIDADE DE DOAR Doação... Características 1) feita por pessoa casada O cônjuge que for casado, para doar, precisa da autorização do outro, exceto: a) no regime da separação absoluta; b) na doação remuneratória; c) nas doações propter nuptiaes de bens feitos aos filhos quando casarem ou estabelecerem economia separada. 2) feita por incapaz O absolutamente incapaz não pode realizar doações. Se o fizer, é nula. 3) universal Doação universal é aquela que engloba a totalidade de bens do devedor. É proibida. Art. 548. É nula a doação de todos os bens sem reserva de parte, ou renda suficiente para a subsistência do doador. 4) inoficiosa Doação inoficiosa é a que invade a legítima dos herdeiros necessários. A pessoa que tenha herdeiros necessários só pode doar até o limite máximo da metade de seu patrimônio, considerando que a outra metade é a chamada “legítima” (art. 1.846 do CC) e pertence aos herdeiros necessários. 5) colacionável A pessoa pode doar para seus ascendentes, descendentes ou cônjuges. No entanto, isso será considerado “adiantamento da legítima”, ou seja, um adiantamento do que o donatário iria receber como herdeiro no momento em que o doador morresse. 6) fraudulenta É aquela realizada pelo devedor insolvente ou que, com a doação, torna-se insolvente. Vale ressaltar que devedor insolvente é aquele cujo patrimônio passivo (dívidas) é maior que o ativo (bens). A doação, nesses casos, somente é válida se foi realizada com o consentimento de todos os credores. Se feita sem tal consentimento, configura fraude contra os credores, sendo, portanto, anulável. 7) do cônjuge adúltero a seu cúmplice Art. 550. A doação do cônjuge adúltero ao seu cúmplice pode ser anulada pelo outro cônjuge, ou por seus herdeiros necessários, até dois anos depois de dissolvida a sociedade conjugal. 8) do pródigo O pródigo pode realizar doações, desde que assistido pelo curador: Art. 1.782. A interdição do pródigo só o privará de, sem curador, emprestar, transigir, dar quitação, alienar, hipotecar,demandar ou ser demandado, e praticar, em geral, os atos que não sejam de mera administração. Doação remuneratória: Doação remuneratória “é aquela feita em caráter de retribuição por um serviço prestado pelo donatário, mas cuja prestação não pode ser exigida pelo último. Isso porque, caso fosse exigível, a retribuição deveria ser realizada por meio do pagamento, uma das formas de extinção das obrigações.” (TARTUCE, Flávio. Direito Civil. Teoria Geral dos Contratos e Contratos em Espécie. 10ª ed. São Paulo: Método, 2015. p. 346). Imagine agora a seguinte situação hipotética: Amélia estava sofrendo com um câncer e foi ajudada, durante meses, pela sua vizinha Claudete. Antes de morrer, já sabendo que vivia os últimos dias, Amélia assina uma escritura pública doando a casa em que mora à sua fraterna amiga. Trata-se de uma doação remuneratória. Vale ressaltar que a casa estava avaliada em R$ 200 mil. Se esse fosse o único bem de valor de Amélia, ela poderia doá-lo para Claudete? Em tese, não, salvo se ficasse comprovado que a doadora reservou renda suficiente para a sua subsistência. Veja o que diz o Código Civil sobre o tema: Art. 548. É nula a doação de todos os bens sem reserva de parte, ou renda suficiente para a subsistência do doador. Assim, em tese, o que Amélia fez foi uma doação universal. Importante esclarecer que o fato de se tratar de uma doação remuneratória não “interfere” na proibição da doação universal. Em outras palavras, a doação remuneratória também não pode ser universal. Vamos mudar um pouco o exemplo. Suponhamos que Amélia possui os seguintes bens de valor: essa casa, um carro (avaliado em R$ 50 mil) e uma conta bancária contendo R$ 50 mil. Assim, o patrimônio total de Amélia é de R$ 300 mil. Vale ressaltar também que Amélia tem um filho (herdeiro necessário). Nesta hipótese, ela poderia doar a casa para Claudete? Também NÃO. Isso porque foi uma doação inoficiosa. Ao doar um bem de R$ 200 mil, essa doação invadiu parte da legítima pertencente aos herdeiros, considerando que seu patrimônio total estava avaliado em R$ 300 mil. A pessoa que tenha herdeiros necessários só pode doar até metade de seu patrimônio, considerando que a outra metade é a chamada “legítima” (art. 1.846, CC) e pertence aos herdeiros necessários. Logo, Amélia, em tese, somente poderia ter doado R$ 150 mil. 14.5. DOAÇÃO: Possibilidade de cancelamento de cláusula de inalienabilidade instituída pelos pais em relação ao imóvel doado aos filhos – (Info 646) É possível o cancelamento da cláusula de inalienabilidade de imóvel após a morte dos doadores se não houver justa causa para a manutenção da restrição ao direito de propriedade. A doação do genitor para os filhos e a instituição de cláusula de inalienabilidade, por representar adiantamento de legítima, deve ser interpretada na linha do que prescreve o art. 1. 848 do CC, exigindo-se justa causa notadamente para a instituição da restrição ao direito de propriedade. Caso concreto: decidiu ser possível o cancelamento da cláusula de inalienabilidade após a morte dos doadores, considerando que já se passou quase duas décadas do ato de liberalidade e tendo em vista a ausência de justa causa para a manutenção da restrição. Não havendo justo motivo para que se mantenha congelado o bem sob a propriedade dos donatários, todos maiores, que manifestam não possuir interesse em manter sob o seu domínio o imóvel, há de se cancelar as cláusulas que o restringem. STJ. 3ª T. REsp 1.631.278-PR, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 19/3/19 (Info 646). 14.6. MANDATO: Advogado substabelecente, em regra, não responde por atos ilícitos praticados por advogado substabelecido, salvo se o substabelecente tivesse ciência da inidoneidade de seu colega – (Info 644) O advogado substabelecente somente irá responder por ato ilícito cometido pelo advogado substabelecido se ficar evidenciado que, no momento da escolha, a despeito de possuir inequívoca ciência acerca da inidoneidade do aludido causídico, ainda assim o elegeu para o desempenho do mandato. É certo que o substabelecimento, em especial o com reserva de poderes, demonstra que o substabelecente possui o mínimo de confiança no substabelecido. Todavia, essa relação prévia de confiança, por si, não é suficiente para vincular o substabelecente, a ponto de responsabilizá-lo por atos praticados pelo substabelecido que venham a desbordar dos poderes transferidos, a revelar sua inaptidão para o exercício do mandato. Entendimento contrário redundaria na responsabilidade sempre solidária entre mandatário e substabelecido pelos atos praticados por esse último. Isso seria uma espécie de imputação objetiva que não encontra nenhum amparo legal. STJ. 3ª T. REsp 1742246-ES, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 19/03/19 (Info 644). 14.7. NOÇÕES GERAIS SOBRE CONTRATOS: CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS: A abusiva a resilição unilateral e imotivada do contrato de prestação de serviços advocatícios na hipótese em que houver cláusula de êxito – (Info 643) Configura abuso de direito a denúncia imotivada pelo cliente de contrato de prestação de serviços advocatícios firmado com cláusula de êxito antes do resultado final do processo, salvo quando houver estipulação contratual que a autorize ou quando ocorrer fato superveniente que a justifique. Em situações como essa, o STJ, com base no § 2º do art. 22 do Estatuto da OAB, tem afirmado que deverão ser arbitrados honorários para remunerar o advogado pelo trabalho desempenhado até o momento da resilição unilateral e imotivada do contrato pelo cliente, a fim de evitar o locupletamento ilícito deste com a atividade realizada por aquele. STJ. 3ª T. REsp 1724441-TO, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 19/02/2019 (Info 643). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João contratou Dr. Rui (advogado) para ingressar com ação de indenização por danos morais contra determinada empresa. No contrato de prestação de serviços advocatícios ficou previsto que os honorários contratuais seriam pagos por João somente ao final da causa, se esta fosse exitosa. Assim, se a ação de indenização a ser proposta por João fosse julgada procedente, este deveria pagar ao advogado 30% do valor da condenação. Se não obtivesse êxito, João não pagaria nada. Vale ressaltar que o contrato previa que o pagamento só deveria ocorrer com o trânsito em julgado da sentença de procedência. Cláusula quota litis: Quando a situação acima ocorre, diz-se que o contrato de honorários possui uma cláusula ad exitum ou quota litis. Na hipótese de prestação de serviços advocatícios com cláusula de remuneração quota litis, o compromisso do advogado, que, em regra, é uma obrigação de meio porque não depende do sucesso da causa, torna-se uma obrigação de resultado, já que o advogado somente irá receber os honorários contratuais se o julgamento for favorável ao seu cliente. Como tradicionalmente a doutrina sempre disse que a obrigação do advogado é de meio (e não de resultado), existia uma resistência do Conselho Federal da OAB em aceitar a validade da cláusula quota litis, havendo muitas vozes afirmando que ela violaria o Código de Ética e Disciplina da OAB. Em outras palavras, existia uma pressão muito forte da OAB para proibir que os advogados fizessem contratos de honorários com cláusula ad exitum. Em 2010, o Conselho Federal da OAB decidiu que o contrato de prestação de serviços jurídicos com cláusula quota litis, em princípio, por si só, não fere o regime ético-disciplinar. No entanto, segundo a OAB, este tipo de contrato deve ser excepcional (quando a parte não tiver condições de pagar antecipadamente), não podendo o advogado transformá-lo em algo corriqueiro (Consulta 2010.29.03728-01). Voltando ao nosso exemplo: A ação foi proposta e o juiz julgou o pedido procedente. A empresa apelou, mas o Tribunal de Justiça manteve a sentença. Ainda inconformada, a ré interpôs recursos especial e extraordinário. Foi, então, que João disse ao advogado (Rui) que não queria mais seus serviços e que agora quem cuidariado acompanhamento do processo seria seu sobrinho, que acabou de ser aprovado no exame da OAB. Vale ressaltar que no contrato assinado não havia nenhuma cláusula tratando sobre a resilição do pacto. A conduta de João foi lícita? NÃO. Houve abuso de direito por parte do cliente. O contrato de prestação de serviços advocatícios firmado com cláusula de êxito está baseado numa verdadeira relação de confiança, na medida em que, se os riscos inicialmente assumidos pelas partes estão atrelados ao resultado final do julgamento, há uma expectativa legítima de que o vínculo entre elas irá perdurar até a extinção do processo, o que, evidentemente, pressupõe um dever de fidelidade estabelecido entre o advogado e o seu cliente. Por essa razão, salvo quando houver estipulação contratual que a autorize ou quando ocorrer fato superveniente que a justifique, inclusive relacionado à atuação do profissional (ex: o advogado está sendo desidioso), a denúncia imotivada, pelo cliente, do contrato de prestação de serviços advocatícios firmado com cláusula de êxito, antes do resultado final do processo, configura abuso do direito, nos termos do art. 187 do Código Civil: Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes. O cliente, ao fazer a resilição unilateral e injustificada do contrato praticou um ato antijurídico porque violou o dever que ele tinha de agir segundo os padrões de lealdade e confiança previamente estabelecidos, frustrando, assim, inesperadamente, a justa expectativa criada na outra parte (advogado) de que iria acompanhar o processo até o fim. O cliente, ao fazer a resilição unilateral, prejudica também o advogado, ao menos de forma potencial, porque tira deste profissional a possibilidade de continuar fazendo todo o esforço necessário para conseguir ter êxito na ação e, assim, receber a remuneração combinada. Com esse comportamento, enfim, o cliente impõe infundado obstáculo ao implemento da condição – êxito na demanda – estipulada no contrato de prestação de serviços advocatícios, impedindo que o advogado faça jus à devida remuneração. Diante deste fato, o que deve ser feito? O advogado terá direito à remuneração? SIM. Em situações como essa, o STJ, com base no § 2º do art. 22 do Estatuto da OAB, tem afirmado que deverão ser arbitrados honorários para remunerar o advogado pelo trabalho desempenhado até o momento da resilição unilateral e imotivada do contrato pelo cliente, a fim de evitar o locupletamento ilícito deste com a atividade realizada por aquele. Aplica-se, por analogia, o art. 22, § 2º do Estatuto da OAB: Art. 22 (...) § 2º Na falta de estipulação ou de acordo, os honorários são fixados por arbitramento judicial, em remuneração compatível com o trabalho e o valor econômico da questão, não podendo ser inferiores aos estabelecidos na tabela organizada pelo Conselho Seccional da OAB. Nas hipóteses em que a revogação do mandato dá-se por iniciativa do constituinte (mandante), é facultado ao advogado mandatário propor ação de arbitramento judicial dos honorários advocatícios contratuais, ainda que avençados sob a cláusula ad exitum. STJ. 4ª Turma. AgInt nos EDcl no AREsp 1138656/RS, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 16/08/2018. Vale ressaltar que, mesmo ainda não tendo havido o julgamento definitivo do processo, já será possível ocorrer o arbitramento dos honorários a serem pagos ao advogado. Em outras palavras, João já poderá ser condenado a pagar os honorários pelos serviços desempenhados por Dr. Ruy mesmo antes do trânsito em julgado da ação de indenização. 14.8. NOÇÕES GERAIS SOBRE CONTRATOS: A abusividade de encargos acessórios do contrato não descaracteriza a mora – (Info 639) – RECURSO REPETITIVO!!! - (TJSC-2019) A abusividade de encargos acessórios do contrato não descaracteriza a mora. STJ. 2ª Seção. REsp 1639259-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 12/12/18 (recurso repetitivo) (Info 639). Obs: o reconhecimento da abusividade dos encargos essenciais exigidos no período da normalidade contratual descarateriza a mora (STJ. 2ª Seção. REsp 1061530/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 22/10/2008). OBS: Se o banco cobra encargos ilegais do contratante e este atrasa o pagamento, haverá a incidência de juros e correção monetária? Depende: Se são encargos ESSENCIAIS: SIM Se são encargos ACESSÓRIOS: NÃO O reconhecimento da abusividade nos encargos exigidos no período da normalidade contratual descaracteriza (afasta) a mora. Isso porque afasta a “culpa” do mutuário pelo atraso. STJ. 2ª Seção. REsp 1061530/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/10/08. A abusividade de encargos acessórios do contrato não descaracteriza a mora. STJ. 2ª Seção. REsp 1.639.259-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 12/12/18 (recurso repetitivo) (Info 639). Ex: em um contrato de mútuo bancário, se a instituição financeira cobra juros remuneratórios abusivos, o eventual atraso não gera mora (não gera pagamento das verbas decorrentes da mora). Ex: em um contrato de mútuo bancário, se a instituição financeira exige seguro de proteção financeira, ressarcimento de despesas com pré-gravame e comissão do correspondente bancário, o eventual atraso gera mora. A abusividade em algum encargo acessório do contrato não contamina a parte principal da contratação, que deve ser conservada. Deve-se fazer a redução do negócio jurídico, conforme preconiza o CDC, nos seguintes termos: Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: (...) § 2º A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes. 14.9. SEGURO: O roubo de carga mediante grave ameaça e emprego de arma de fogo constitui força maior e exclui a responsabilidade da transportadora, desde que sejam adotadas todas as cautelas necessárias para o transporte da carga – (SEM INFO) – (TJPR-2019) O roubo de carga mediante grave ameaça e emprego de arma de fogo constitui força maior e exclui a responsabilidade da transportadora, quando adotadas todas as cautelas necessárias para o transporte da carga. O Tribunal de origem, com fundamento nas provas produzidas nos autos, concluiu que a transportadora adotou as cautelas necessárias para o transporte das mercadorias mediante contratação de seguro de carga e de serviço de monitoramento e rastreamento de veículo. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1232877/SP, Rel. Min. Raul Araújo, j. 27/11/18. (TJPR-2019-CESPE): Uma empresa contratou uma transportadora para a prestação de serviço de transporte de carga altamente valiosa. A transportadora, por sua vez, não contratou seguro contra perdas e danos que poderiam ser causados à carga transportada, embora o contrato firmado pela transportadora tivesse estipulado a obrigatoriedade de seguro com tal cobertura. A carga era transportada em trajeto conhecido e em horário com intenso tráfego, quando o veículo que a transportava foi interceptado por assaltantes à mão armada, que roubaram toda a carga. Em decorrência desse fato, a empresa contratante ajuizou ação de reparação de danos em desfavor da transportadora. À luz do entendimento jurisprudencial, nessa situação hipotética, há responsabilidade civil da transportadora, desde que seja demonstrado que ela não adotou medidas razoáveis de cautela, como a contratação do referido seguro. BL: Entendimento do STJ. 14.10. DOAÇÃO: A aposição da cláusula de impenhorabilidade e/ou incomunicabilidade em ato de liberalidade não importa, automaticamente, na cláusula de inalienabilidade – (Info 637) – IMPORTANTE!!! O art. 1.911 do Código Civil estabelece: Art. 1.911. A cláusula de inalienabilidade, imposta aos bens por ato de liberalidade, implica impenhorabilidade e incomunicabilidade. A interpretação deste art. 1.911 nos permite chegar a quatroconclusões: a) há possibilidade de imposição autônoma das cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade, a critério do doador/instituidor. Em outras palavras, o doador/instituidor pode impor só uma, só duas ou as três cláusulas. b) uma vez aposto o gravame da inalienabilidade, pressupõe-se, ex vi lege (por força de lei), automaticamente, a impenhorabilidade e a incomunicabilidade. Assim, se tiver sido imposta cláusula de inalienabilidade ao imóvel, isso significa que ele, obrigatoriamente, será também impenhorável e incomunicável. c) a inserção exclusiva da proibição de não penhorar e/ou não comunicar não gera a presunção da inalienabilidade. A aposição da cláusula de impenhorabilidade e/ou incomunicabilidade em ato de liberalidade não importa, automaticamente, na cláusula de inalienabilidade. d) a instituição autônoma da impenhorabilidade, por si só, não pressupõe a incomunicabilidade e vice-versa. STJ. 4ª Turma. REsp 1.155.547-MG, Rel. Min. Marco Buzzi, j. 06/11/18 (Info 637). OBS: Cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade: As cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade são restrições voluntárias ao direito de propriedade. Podem ser estipuladas de duas formas: a) por ato de liberalidade inter vivos (doação); b) por ato relacionado com a morte – causa mortis (testamento). Cláusula de inalienabilidade: É uma restrição imposta ao beneficiário, de forma que ele fica impedido de dispor da coisa, não podendo transferi-lo a terceiros, seja a título gratuito ou oneroso. Essa restrição pode ser imposta por tempo determinado (ex: 5 anos) ou de forma vitalícia. Cláusula de impenhorabilidade: Consiste na proibição de constrição judicial do bem gravado para pagamento de débitos do herdeiro/beneficiário. Cláusula de incomunicabilidade: Proíbe que o bem seja transferido para a fração ideal do cônjuge (companheiro) em caso de casamento ou união estável. Em outras palavras, se uma pessoa possui um imóvel com cláusula de incomunicabilidade, mesmo que se case com regime de comunhão de bens, esse imóvel não participará da comunhão dos bens do casal. Imagine agora a seguinte situação hipotética: João doou para Raquel um imóvel. Ocorre a doação foi feita com as cláusulas de incomunicabilidade e impenhorabilidade. Após o falecimento de João, Raquel vendeu o imóvel para Pedro, já tendo, inclusive, recebido o preço da venda. Ocorre que não conseguiu transferir o domínio porque o cartório de Registro de Imóveis exige a baixa dos gravames (cláusulas de incomunicabilidade e impenhorabilidade) para efetuar a transmissão da propriedade. Na interpretação do cartório, a presença dos gravames de impenhorabilidade e incomunicabilidade importa, automaticamente, também na impossibilidade de alienação, a teor do disposto no art. 1.911 do Código Civil. Diante disso, Raquel ajuizou procedimento especial de jurisdição voluntária pedindo o cancelamento dos gravames instituídos sobre imóvel. Isso porque, como o doador já está morto, tais cláusulas de incomunicabilidade e impenhorabilidade somente podem ser retiradas com autorização judicial. No procedimento instaurado, Raquel explicou o seguinte: • a intenção do doador não foi de me impedir de vender o imóvel. Tanto isso é verdade que não existe cláusula de inalienabilidade. • a cláusula de impenhorabilidade foi inserida para fazer com que o imóvel ficasse livre de dívidas minhas (donatária); • a cláusula de incomunicabilidade, por sua vez, foi aposta para impedir que, se eu casasse, houvesse a comunhão desse bem com meu eventual cônjuge; • requereu, então, a procedência do pedido a fim de que fossem cancelados os gravames, com a consequente anotação na matrícula do bem perante o registro imobiliário competente. A questão, por meio de sucessivos recursos, chegou até o STJ. O STJ concordou com o pedido da requerente? SIM. O STJ autorizou o cancelamento dos gravames e disse que o imóvel gravado exclusivamente com as cláusulas de impenhorabilidade e incomunicabilidade não é inalienável. Por que houve toda essa dificuldade para Raquel vender o imóvel se não havia cláusula de inalienabilidade? Por que essa dúvida obrigou o caso a chegar até o STJ? Por causa da interpretação do art. 1.911 do Código Civil. Esse dispositivo diz o seguinte: Art. 1.911. A cláusula de inalienabilidade, imposta aos bens por ato de liberalidade, implica impenhorabilidade e incomunicabilidade. Por força do art. 1.911, se tiver sido imposta cláusula de inalienabilidade ao imóvel, isso significa que ele, obrigatoriamente, será também impenhorável e incomunicável. Assim, uma vez aposto o gravame da inalienabilidade, pressupõe-se, ex vi lege (por força de lei), automaticamente, a impenhorabilidade e a incomunicabilidade. Essa regra vinha desde o Código Civil de 1916. Existe até uma súmula antiga do STF (de 1963) que explicita esse entendimento: Súmula 49-STF: A cláusula de inalienabilidade inclui a incomunicabilidade dos bens. E o inverso é verdadeiro? Se for aposta uma cláusula de impenhorabilidade ou uma cláusula de incomunicabilidade, deve-se presumir que o imóvel é também inalienável? NÃO. A aposição da cláusula de impenhorabilidade e/ou incomunicabilidade em ato de liberalidade não importa, automaticamente, na cláusula de inalienabilidade. A inserção da proibição de não penhorar e/ou não comunicar não gera a presunção da inalienabilidade. É o que explica a doutrina: “O art. 1.911 do Código Civil estabelece que a cláusula de inalienabilidade gravada sobre bens que compõem a herança implica, automaticamente, nas cláusulas de 'impenhorabilidade e incomunicabilidade'. Ou seja, basta gravar o patrimônio transmitido com a cláusula de inalienabilidade para que as demais decorram de pleno direito. A recíproca, entretanto, não é verdadeira. Por isso, as cláusulas de impenhorabilidade e de incomunicabilidade podem ser impostas isoladamente, produzindo efeitos únicos. A cláusula de inalienabilidade, porém, se apresenta mais larga e profunda, trazendo consigo, a reboque, as demais” (FARIAS, Cristiano Chaves, ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil. Sucessões. Vol. 7. 3ª ed. Salvador: Juspodivm, p. 464). O gravame da impenhorabilidade pode ser instituído independentemente da cláusula de inalienabilidade. Isso significa que o donatário não estará impedido de alienar, mas o bem ficará a salvo de penhoras. É isso que o STJ chamou de “instituição autônoma da impenhorabilidade”. Assim, é possível o gravame autônomo (sozinho) da impenhorabilidade, ou seja, o doador/instituidor estabelece que o bem é impenhorável, mas permite a alienação e comunicação. Da mesma forma, é possível instituição autônoma (sozinha) da incomunicabilidade. O doador/instituidor estabelece que o bem é incomunicável, mas permite a alienação e a penhora. Em outras palavras, a instituição autônoma da impenhorabilidade, por si só, não pressupõe a incomunicabilidade e vice-versa. Em suma, é o que foi decidido no Info 637 do STJ. DOD PLUS Informações complementares: A jurisprudência entende que estas cláusulas não são absolutas e podem ser afastadas, mediante decisão judicial, em determinadas hipóteses. · Exemplo 1: a restrição pode ser afastada, no interesse do proprietário (dignidade do beneficiário), se estiver causando prejuízo aos seus legítimos interesses. É o caso do proprietário que está passando por dificuldades financeiras e precisa do dinheiro decorrente da venda do imóvel. Nesse sentido: STJ. 3ª Turma. REsp 1158679/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 07/04/2011. · Exemplo 2: a cláusula de impenhorabilidade pode ser afastada para o pagamento de taxa condominial oriunda do próprio bem, por força do princípio da função social da propriedade. Nesse sentido: As despesas condominiais são consideradas dívidas propter rem, de modo que podem ensejar a penhora da unidade autônoma devedora, não prevalecendo contra o condomínio cláusulas de impenhorabilidade e inalienabilidade em contratos celebrados com terceiros. STJ. 4ª Turma. AgRg no REsp 650.570/SP, Rel. Min.Maria Isabel Gallotti, j. 07/08/2012. 14.11. OUTROS CONTRATOS: Reconhecida a coligação contratual, é possível a extensão da cláusula compromissória prevista no contrato principal de abertura de crédito aos contratos de swap – (Info 635) Uma fábrica e um banco celebraram dois contratos: • ajuste 1: contrato de abertura de crédito (no qual havia uma cláusula compromissória). • ajuste 2: contrato de swap (no qual não havia cláusula compromissória). Foi reconhecido que havia coligação contratual entre os dois ajustes, sendo o contrato de swap dependente do contrato de abertura de crédito (ajuste principal). Nos contratos coligados, as partes celebram uma pluralidade de negócios jurídicos tendo por desiderato um conjunto econômico, criando entre eles efetiva dependência. Tendo sido reconhecida a coligação contratual, é possível que a cláusula compromissória prevista no contrato principal (contrato de abertura de crédito) seja estendida ao contrato de swap (dependente). Isso porque ambos são integrantes de uma operação econômica única. STJ. 3ª Turma. REsp 1639035-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 18/9/18 (Info 635). OBS: Contrato de swap: Swap é uma palavra de origem inglesa que significa “troca”, “permuta”. O contrato de swap ocorre quando o contratante “1” assume o risco e a rentabilidade que eram originalmente do contratante “2” e o contratante “2” assume o risco e a rentabilidade que eram originalmente do contratante “1”. Exemplo de contrato de swap: A empresa “1” exporta produtos do Brasil para o exterior. Assim, ela gasta em “Reais” para produzir e ganha em “dólar”. A empresa “2”, por sua vez, é uma importadora. Logo, ela gasta (compra) em “dólar” e vende (recebe) no Brasil em “reais”. A empresa “1” gastou dinheiro em “real” para produzir seus bens. A empresa “2” gastou dinheiro em “dólar” para comprar seus produtos. Ocorre que, se houver uma variação cambial muito brusca, uma delas vai lucrar muito e a outra vai perder bastante. Em economia, ficar nessa incerteza, não é recomendável. Desse modo, as duas podem minimizar seus riscos, reduzindo em contrapartida os lucros, ao fazerem entre si um contrato de swap. Por meio deste contrato de swap, elas preveem que, se o dólar subir mais que “x%”, a empresa exportadora “1” (que ganharia mais com a valorização da moeda americana), deverá pagar um determinado valor para a empresa “2”. Por outro lado, se o dólar cair mais que “y%”, será a empresa importadora “2” que deverá pagar para a empresa “1”. Assim, ambas se protegem aproveitando a margem de lucro uma da outra em cada cenário. Contratos coligados: Conforme explica Carlos Roberto Gonçalves, contratos coligados são aqueles que, embora distintos, estão ligados por uma cláusula acessória, implícita ou explícita. Nos contratos coligados, as partes celebram uma pluralidade de negócios jurídicos tendo por desiderato um conjunto econômico, criando entre eles efetiva dependência. Conforme explica Daniel Carnacchioni: “Nos contratos coligados ou conexos, há a agregação de vários negócios para a viabilização de uma operação econômica. (...) Nos contratos coligados estes são desejados como um todo, pois isoladamente cada contrato não viabilizaria o interesse dos contratantes. Os contratos condicionam-se reciprocamente em sua existência e validade e, agregados, formam uma unidade econômica.” (Manual de Direito Civil. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 843). Interpretação dos contratos coligados: Nesse sistema, o contrato reputado como sendo o principal determina as regras que deverão ser seguidas pelos demais instrumentos negociais que a este se ajustam. Nessa ordem de ideias, a cláusula compromissória prevista no contrato principal pode ser estendida para o contrato de swap, considerando que estão vinculados a uma única operação econômica. 14.12. MANDATO: Análise jurídica da conduta de advogado que celebrou acordo prejudicial ao cliente em virtude de ajuste espúrio realizado com a parte contrária – (Info 633) Nas ações de indenização do mandante contra o mandatário incide o prazo prescricional de 10 anos, previsto no art. 205 do Código Civil, por se tratar de responsabilidade proveniente de relação contratual. Neste caso, o prazo prescricional tem início não no momento em que o acordo foi homologado, mas sim a data em que a vítima soube que havia sido prejudicada. Isso com base na chamada teoria da actio nata. O fato de o advogado-mandatário ostentar procuração com poderes para transigir não afasta a responsabilidade pelos prejuízos causados por culpa sua ou de pessoa para quem substabeleceu, nos termos dos arts. 667 do Código Civil e 32, caput, do Estatuto da Advocacia. A responsabilidade pelos danos decorrentes do abuso de poder pelo mandatário independe da prévia anulação judicial do ato praticado, pois o prejuízo não decorre de eventual nulidade, mas sim da violação dos deveres subjacentes à relação jurídica entre o advogado e o assistido. Caso concreto: advogado celebrou acordo prejudicial ao cliente, por meio do qual renunciou a crédito consolidado em sentença com remota possibilidade de reversão, em virtude de ajuste espúrio realizado com a parte contrária. STJ. 3ª Turma. REsp 1750570-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 11/9/18 (Info 633). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João outorgou procuração (mandato) para Dr. Marcelo (advogado) a fim de que ele ajuizasse ação reivindicatória contra a empresa BCB, pertencente a Pedro, rico empresário. Marcelo preparou e ajuizou a ação em nome de João. O pedido foi julgado procedente em primeira instância e a sentença foi confirmada pelo Tribunal de Justiça. A sentença e o acórdão reconheceram que João tinha em torno de R$ 100 mil para receber da ré. Em tese, ainda teria a possibilidade de a empresa interpor recursos especial e extraordinário. No entanto, a jurisprudência do STF e do STJ era manifestamente contrária à tese da condenada. Diante disso, Pedro chamou Marcelo em seu escritório e fez uma proposta: “vamos fazer um acordo para resolver logo esse processo; eu pago R$ 5 mil à vista para o seu cliente e desisto de recorrer; em contrapartida, ele renuncia aos demais valores; além disso, também pago um valor para você, ‘por fora’, além dos honorários que irá receber normalmente”. Assim, em abril/2014, Marcelo celebrou o acordo (transação) com a referida empresa, por meio do qual renunciou a valores já consolidados em sentença e que tinham remota possibilidade de reversão. Percebe-se que Marcelo abusou do poder que lhe tinha sido outorgado e causou prejuízo ao seu cliente. O acordo foi homologado e o processo extinto com resolução do mérito, nos termos do art. 487, III, “b”, do CPC/15: Art. 487. Haverá resolução de mérito quando o juiz: (...) III - homologar: (...) b) a transação; Deflagração de operação policial: João recebeu os R$ 5 mil e estava até satisfeito porque não entendia muito bem de assuntos jurídicos e o advogado explicou para ele que seria um bom acordo, já que “o processo ainda poderia demorar uns 30 anos em Brasília”. Em abril/2018, ou seja, 4 anos depois da homologação do acordo, foi deflagrada uma operação policial na qual se revelou que o advogado Marcelo e a empresa BCB fizeram o mesmo esquema em vários outros processos judiciais. A empresa BCB é muito grande e Marcelo foi advogado de vários clientes que ajuizaram ações contra ela. Em todos os processos, ele fez esses acordos desvantajosos em troca do pagamento de um dinheiro “por fora”. Ação de indenização: Em maio/2018, João procurou, então, outro advogado e ajuizou ação de indenização contra Marcelo pedindo: a) danos materiais equivalentes à diferença entre o valor da condenação (R$ 100 mil) e o que foi efetivamente repassado ao autor (R$ 5 mil); b) danos morais. Defesa de Marcelo: Marcelo contestou a demanda alegando, entre outros argumentos, que: 1) a pretensão está prescrita. Isso porque o acordo foi celebrado em abril/2014 e a ação de indenização somente foi ajuizada em maio/18, ou seja, depois do prazo de 3 anos previsto como prazoprescricional para as ações de responsabilidade civil, nos termos do art. 206, § 3º, V, do Código Civil: Art. 206. Prescreve: (...) § 3º Em três anos: (...) V - a pretensão de reparação civil; 2) a procuração a ele outorgada conferia poderes para transigir; 3) só poderia haver a responsabilização por abuso de poder pelo advogado-mandatário se houvesse a prévia anulação judicial do ato praticado. Tese 1. Prescrição. A pretensão deduzida está prescrita? NÃO. Por dois motivos: Termo inicial da prescrição: teoria da actio nata: O termo inicial da prescrição não foi o momento em que o acordo foi homologado, mas sim a data em que a vítima soube que havia sido prejudicada. Isso com base na chamada teoria da actio nata. No campo da responsabilidade civil, esta teoria sustenta que o prazo prescricional para a ação de indenização se inicia na data em que se tiver o efetivo conhecimento da lesão (e seus efeitos). Por aplicação da teoria da actio nata, o prazo prescricional, relativo à pretensão de indenização de dano material e compensação de dano moral, somente começa a correr quando o titular do direito subjetivo violado obtém plena ciência da lesão e de toda a sua extensão, bem como do responsável pelo ilícito, inexistindo, ainda, qualquer condição que o impeça de exercer o direito de ação. STJ. 3ª Turma. AgInt no AREsp 639.598/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 13/12/2016. Assim, o início do prazo prescricional, com base na teoria da actio nata, não se dá necessariamente no momento em que ocorre a lesão ao direito, mas sim quando o titular do direito subjetivo violado obtém plena ciência da lesão e de toda a sua extensão. Tendo em vista a impossibilidade de se precisar o momento em que o autor (João) teve ciência de que a transação judicial realizada pelo advogado em seu nome foi prejudicial aos seus interesses, pode-se considerar a data da deflagração da operação policial, ocorrida em abril/2018, como termo inicial do prazo prescricional. No momento da homologação do acordo, o mandante não sabia que estava sendo prejudicado pelo mandatário, que estava atuando de modo contrário aos seus interesses e em conluio com a parte adversa. A relação entre advogado e cliente é fundamentada na confiança e na legítima expectativa de que o profissional atuará com ética e com a máxima diligência possível no cumprimento do mandato que lhe foi outorgado. Logo, é razoável presumir que apenas com a instauração da investigação criminal o autor tomou conhecimento de que o acordo celebrado pelo réu em seu nome não tinha por objetivo preservar seus interesses. Prazo prescricional não é de 3 anos: Existe, contudo, um outro motivo pelo qual a pretensão não está prescrita: o prazo prescricional, no presente caso, não é de 3, mas sim de 10 anos: Nas ações de indenização do mandante contra o mandatário incide o prazo prescricional de 10 anos, previsto no art. 205 do Código Civil, por se tratar de responsabilidade proveniente de relação contratual. STJ. 3ª T. REsp 1.750.570-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 11/09/2018 (Info 633). Veja a redação do dispositivo legal: Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor. Esse entendimento está de acordo com o que decidiu recentemente o STJ: Nas controvérsias relacionadas à responsabilidade CONTRATUAL, aplica-se a regra geral (art. 205 CC/2002) que prevê 10 anos de prazo prescricional e, quando se tratar de responsabilidade extracontratual, aplica-se o disposto no art. 206, § 3º, V, do CC/2002, com prazo de 3 anos. Para fins de prazo prescricional, o termo “reparação civil” deve ser interpretado de forma restritiva, abrangendo apenas os casos de indenização decorrente de responsabilidade civil extracontratual. STJ. 2ª Seção. EREsp 1.280.825-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 27/06/2018 (Info 632). Tese 2. A procuração outorgada ao advogado autorizava que ele fizesse transação em nome do autor. Logo, ele não ultrapassou os limites formais da procuração. Mesmo assim terá que indenizar? SIM. O fato de o advogado dispor de procuração que lhe permitia a realização de transação não lhe autorizava a agir de forma temerária e a seu livre arbítrio, nem lhe autorizava a celebrar acordos manifestamente contrários aos interesses de seu cliente com o objetivo de se locupletar indiretamente às custas do mandante. Isso porque, conforme prevê o art. 667 do Código Civil: Art. 667. O mandatário é obrigado a aplicar toda sua diligência habitual na execução do mandato, e a indenizar qualquer prejuízo causado por culpa sua ou daquele a quem substabelecer, sem autorização, poderes que devia exercer pessoalmente. O mandatário não apenas faltou com a necessária diligência em favor de seu cliente, como atuou de modo a lhe causar prejuízos, renunciando a crédito já reconhecido judicialmente em sentença com remota possibilidade de reversão, em virtude de ajuste espúrio realizado com a parte contrária. O que houve, portanto, foi a prática de uma série de infrações disciplinares previstas no art. 34 do Estatuto da OAB (Lei nº 8.906/94): Art. 34. Constitui infração disciplinar: (...) VIII - estabelecer entendimento com a parte adversa sem autorização do cliente ou ciência do advogado contrário; IX - prejudicar, por culpa grave, interesse confiado ao seu patrocínio; (...) XIX - receber valores, da parte contrária ou de terceiro, relacionados com o objeto do mandato, sem expressa autorização do constituinte; XX - locupletar-se, por qualquer forma, à custa do cliente ou da parte adversa, por si ou interposta pessoa; Além disso, o Estatuto da OAB também determina: Art. 32. O advogado é responsável pelos atos que, no exercício profissional, praticar com dolo ou culpa. O fato de o advogado-mandatário ostentar procuração com poderes para transigir não afasta a responsabilidade pelos prejuízos causados por culpa sua ou de pessoa para quem substabeleceu, nos termos dos arts. 667 do Código Civil e 32, caput, do Estatuto da Advocacia. STJ. 3ª T. REsp 1.750.570-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 11/09/2018 (Info 633). Tese 3. Para que haja o dever de indenizar, é necessário que seja previamente anulado o acordo conduzido pelo advogado e que foi homologado judicialmente? NÃO. A responsabilidade pelos danos decorrentes do abuso de poder pelo mandatário independe da prévia anulação judicial do ato praticado, pois o prejuízo não decorre de eventual nulidade, mas sim da violação dos deveres subjacentes à relação jurídica entre o advogado e o assistido. STJ. 3ª T. REsp 1.750.570-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 11/09/2018 (Info 633). O mau cumprimento do mandato advocatício não implica, necessária e automaticamente, a invalidade dos atos praticados pelo mandatário. Houve, no caso, abuso de poder por parte do mandatário, que se configura quando este, no desempenho de suas atividades, atua de modo contrário ao que lhe foi solicitado, implícita ou explicitamente, pelo outorgante, mas sem exceder os limites expressamente estabelecidos no mandato. Diferencia-se, portanto, do excesso de poder, que ocorreria caso o mandatário extrapolasse a limitação de poderes outorgados pelo mandante, por exemplo, transigindo sem ostentar procuração para tanto. Na hipótese de abuso de poder, caso dos presentes autos, o mandante permanece, em tese, responsável pelas obrigações assumidas pelo mandatário em seu nome, sobretudo em se tratando de avença que restou homologada judicialmente. Nada impede, contudo, que busque a anulação do acordo por meio da via adequada. Assim sendo, a ausência de invalidação do acordo judicial não constitui óbice para a responsabilização do recorrente, pois a conduta lesiva imputada ao réu não é a celebração de um acordo nulo, mas sim, a quebra das obrigações ínsitas ao mandato outorgado. 14.13. MÚTUO FENERATÍCIO: Descabimento da repetição do indébito com os mesmos encargos do contrato – (Info 628) – IMPORTANTE!!! Pessoa celebrou contrato de mútuo feneratício com instituição financeira. Por algum motivo (ex:nulidade, ato ilícito, abusividade etc.) o mutuário ingressou com ação judicial pedindo a resolução do contrato e a restituição das parcelas pagas. Se esta ação for julgada procedente, o mutuário terá direito de receber os valores pagos acrescidos de juros remuneratórios no mesmo percentual que era previsto no contrato para ser cobrado pelo banco mutuante? NÃO. O mutuário que celebrar contrato de mútuo feneratício com a instituição financeira mutuante, não tem direito de pedir repetição do indébito com os mesmos índices e taxas de encargos previstos no contrato. Tese aplicável a todo contrato de mútuo feneratício celebrado com instituição financeira mutuante: “Descabimento da repetição do indébito com os mesmos encargos do contrato”. STJ. 2ª Seção. REsp 1552434-GO, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 13/6/18 (recurso repetitivo) (Info 628). OBS: Mútuo: É um contrato por meio do qual alguém (mutuante) empresta para uma outra pessoa (mutuário) uma coisa que seja fungível (art. 586 do Código Civil). Ex: João, no caminho para o local de prova, comprou duas canetas Bic no camelô. Ele empresta uma delas para Pedro fazer a prova do concurso. João e Pedro celebraram um contrato de mútuo. Gratuito ou oneroso: O mútuo pode ser: a) gratuito (também chamado de “benéfico”): quando não é combinada nenhuma remuneração pelo empréstimo; b) oneroso (feneratício): quando é combinado que o mutuário irá pagar ao mutuante uma remuneração pelo empréstimo. Mútuo feneratício: A palavra “feneratício” vem do latim “feneratitius”, que significa algo “relativo à usura”. O mútuo feneratício é o empréstimo que tem fins econômicos, ou seja, no qual haverá o pagamento de uma remuneração ao mutuante. Encontra-se previsto no art. 591 do CC: Art. 591. Destinando-se o mútuo a fins econômicos, presumem-se devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a que se refere o art. 406, permitida a capitalização anual. Art. 406. Quando os juros moratórios não forem convencionados, ou o forem sem taxa estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional. A remuneração pelo empréstimo de coisa fungível é chamada de juros remuneratórios. Assim, podemos resumir dizendo que mútuo feneratício consiste no “empréstimo de dinheiro a juro”. Atenção: Segundo prevalece no STJ, a taxa dos juros moratórios a que se refere o art. 406 do CC é a dispositivo é a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC (STJ. 3ª T. AgRg no REsp 1105904/DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 20/09/2012). Mútuo feneratício envolvendo instituições financeiras: O art. 591 prevê que, no mútuo feneratício, a taxa de juros não pode ser superior à taxa legal prevista no art. 406 do CC. O art. 591 do CC afirma também que a única capitalização possível seria a anual. Vale ressaltar, contudo, que essas restrições contidas no art. 591 do CC não se aplicam para o mútuo feneratício envolvendo instituições financeiras. Em outras palavras, se o mutuante for uma instituição financeira: · A taxa de juros contratada poderá ser superior à taxa legal (art. 406); e · Será permitida capitalização de juros com periodicidade inferior a 1 ano. Desse modo, se Lucas empresta dinheiro a juros para Henrique, ele deverá se submeter às restrições do art. 591 do CC. Por outro lado, um banco não estará limitado a tais exigências. Qual será a taxa de juros que o banco poderá cobrar? O STJ possui o entendimento de que os juros remuneratórios cobrados pelos bancos não estão sujeitos aos limites impostos pela Lei de Usura (Decreto nº 22.626/33), pelo Código Civil ou por qualquer outra lei. Em outras palavras, não existe lei limitando os juros que são cobrados pelos bancos (STJ. 2ª Seção. REsp 1061530/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 22/10/08). Existe também uma súmula antiga do STF que afirma isso: Súmula 596-STF: As disposições do Decreto 22.626 de 1933 não se aplicam às taxas de juros e aos outros encargos cobrados nas operações realizadas por instituições públicas ou privadas, que integram o sistema financeiro nacional. Diante da ausência de lei que imponha limites aos juros cobrados pelas instituições financeiras, o STJ construiu a seguinte regra: os juros cobrados pelos bancos devem utilizar como índice a taxa média de mercado, que é calculada e divulgada pelo Banco Central (BACEN) em sua página na internet. Vale ressaltar que essas taxas são divulgadas de acordo com o tipo de encargo que foi ajustado (prefixado, pós-fixado, taxas flutuantes e índices de preços), com a categoria do tomador (pessoas físicas e jurídicas) e com a modalidade de empréstimo realizada (hot money, desconto de duplicatas, desconto de notas promissórias, capital de giro, conta garantida, financiamento imobiliário, aquisição de bens, 'vendor', cheque especial, crédito pessoal etc.). Em outras palavras, para cada tipo de contrato existe uma média das taxas que estão sendo cobradas pelos bancos naquele mês. Desse modo, o correto é que o contrato bancário traga uma cláusula dizendo expressamente a taxa de juros que será aplicada. No entanto, caso o contrato bancário não preveja, o STJ determina que deverá, em regra, ser aplicada a taxa média de mercado, divulgada pelo Bacen, praticada nas operações da mesma espécie. Adotar essa taxa média é a solução mais adequada porque ela é calculada com base nas informações prestadas por todas as instituições financeiras e, por isso, representa o ponto de equilíbrio nas forças do mercado. Além disso, traz embutida em si o custo médio dos bancos e seu lucro médio, ou seja, um spread médio (REsp 1112880/PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/05/2010). Repetição de indébito em contrato de mútuo feneratício celebrado com instituição financeira: Imagine que João celebrou contrato de mútuo com um banco por meio do qual tomou emprestado R$ 100 mil, com a obrigação de devolver a quantia principal mais juros remuneratórios. Ele pagou durante 6 meses as prestações do empréstimo. Ocorre que o advogado de João percebeu que havia uma nulidade no contrato. Diante disso, ajuizou uma ação declaratória de nulidade do contrato cumulada com repetição de indébito. Em outras palavras, ele pediu para rescindir o ajuste e para receber de volta os valores que pagou durante os 6 meses. Vale ressaltar que João pediu ao juiz para condenar o banco a restituir a quantia principal cobrada indevidamente (6 parcelas) acrescida dos mesmos juros que a instituição cobrou dele. Assim, o banco cobrou uma taxa de 11% ao mês. Logo, João pediu para receber de volta o valor acrescido de 11% ao mês. O pedido de João foi acolhido? O mutuário terá direito de receber os valores pagos acrescidos de juros remuneratórios no mesmo percentual que era previsto no contrato para ser cobrado pelo banco mutuante? NÃO. O mutuário que celebrar contrato de mútuo feneratício com a instituição financeira mutuante, não tem direito de pedir repetição do indébito com os mesmos índices e taxas de encargos previstos no contrato. STJ. 2ª Seção. REsp 1.552.434-GO, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 13/06/2018 (recurso repetitivo) (Info 628) E o mutuário, além do principal, terá direito de receber alguma taxa de juros remuneratórios? O STJ resolveu não decidir isso ainda neste recurso especial considerando que ainda não havia uma posição sedimentada do Tribunal a respeito. Desse modo, a única conclusão que o STJ já firmou é a de que, em caso de repetição de indébito envolvendo mútuo feneratício praticado por instituições financeiras mutuantes, o mutuário não terá direito de receber de volta a quantia acrescida dos mesmos encargos que são cobrados pelos bancos. Assim, por exemplo, se o banco cobrou uma taxa de 11% ao mês, o mutuário não terá direito de receber o principal mais 11% ao mês. As decisões judiciais que determinarem essa equivalência, serão reformadas com base nesse entendimento do STJ. Não foi definido, contudo, ainda, o quanto o mutuárioterá direito. Tema correlato: LUCRO DA INTERVENÇÃO: No seu voto, o Min. Paulo de Tarso Sanseverino discorreu sobre um interessante tema de obrigações. Trata-se do “lucro da intervenção”. Vejamos o que ele disse: Lucro da intervenção: O lucro da intervenção, segundo Sérgio Savi, é o “lucro obtido por aquele que, sem autorização, interfere nos direitos ou bens jurídicos de outra pessoa e que decorre justamente desta intervenção” (Responsabilidade civil e enriquecimento sem causa: o lucro da intervenção. São Paulo: Atlas, 2012, p. 7). Exemplo: Um exemplo didático, citado por Carlos Nelson Konder (Dificuldades de uma abordagem unitária do lucro da intervenção), é o caso de um jóquei que subtrai um cavalo, contra as ordens do dono, para participar de uma corrida, e acaba saindo vencedor. O jóquei recebe um valioso prêmio pela conquista, e retorna o cavalo ileso à baia. O dono do cavalo não experimentou dano, pois o cavalo não estava destinado àquela corrida e, de todo modo, o animal retornou ileso. O jóquei, por outro lado, lucrou significativamente com a prática do ato ilícito. Ainda que se considerasse que o dono teria experimentado um dano correspondente ao aluguel do cavalo, mesmo assim o lucro obtido pelo jóquei seria muito mais significativo do que o dano causado. Esse lucro, ou essa diferença entre o lucro e o dano, é o que se denomina lucro da intervenção. Lucro da intervenção e a situação do mútuo bancário: O lucro da intervenção também pode ser vislumbrado no caso dos bancos que praticam taxas de juros bem mais altas do que a taxa legal. A instituição financeira acaba auferindo vantagem dessa diferença de taxas, mesmo que seja obrigada a restituir ao mutuário o indébito com base na taxa legal. Ex: imaginemos que o banco cobrou juros de 11% ao mês. Decretada a invalidade do contrato, o banco é condenado a restituir o mutuário acrescido dos juros legais. Ocorre que os juros legais são bem inferiores aos juros que foram cobrados pelo banco. Assim, mesmo sendo condenado a restituir, os bancos teriam lucrado com a operação. Poderíamos dizer que se trata do lucro da intervenção. O STJ possui julgados tratando sobre o lucro da intervenção? NÃO. O STJ ainda não enfrentou o tema, ou seja, ainda não afirmou como se resolve a questão do lucro da intervenção. Pagar a vítima toda a quantia referente ao lucro da intervenção seria uma solução correta? NÃO. Alguns podem estar pensando que a solução seria simplesmente entregar para a vítima a quantia auferida como “lucro da intervenção”. Isso não é, contudo, totalmente correto. Não se pode simplesmente determinar que a vítima receba integralmente o lucro da intervenção porque neste caso ela estará recebendo mais do que teria direito, considerando que seu prejuízo foi “x” e ela estaria recebendo “x” + o lucro da intervenção. Isso contraria a função indenitária do princípio da reparação integral. Em nosso exemplo, se João recebesse a quantia principal mais os juros iguais aos cobrados pelo banco, João não estaria sendo restituído ao status quo ante. Ele estaria lucrando (e bastante) com a restituição porque os juros bancários são altos. No exemplo do jóquei, se ele fosse condenado a pagar ao dono do cavalo o valor integral do prêmio, essa medida seria excessiva, uma vez que a habilidade do jóquei também contribuiu para o sucesso no torneio. Previsão na Lei de Propriedade Industrial: A doutrina menciona como hipótese específica de restituição do lucro da intervenção aquela prevista no art. 210, II, da Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996): Art. 210. Os lucros cessantes serão determinados pelo critério mais favorável ao prejudicado, dentre os seguintes: I - os benefícios que o prejudicado teria auferido se a violação não tivesse ocorrido; ou II - os benefícios que foram auferidos pelo autor da violação do direito; ou III - a remuneração que o autor da violação teria pago ao titular do direito violado pela concessão de uma licença que lhe permitisse legalmente explorar o bem Este inciso II, ao afirmar que os lucros cessantes serão equivalentes aos benefícios auferidos pelo autor da violação, determina, em outras palavras, que o autor da violação pague ao prejudicado o “lucro da intervenção”. Vale ressaltar, contudo, que o caput do art. 210 chama isso de “lucros cessantes”. É a doutrina especializada quem identifica nisso uma hipótese de “lucro da intervenção”. Previsão nos arts. 884 e 886 do CC: Existem também doutrinadores que afirmam que o art. 884 do CC, que trata sobre enriquecimento sem causa, seria uma outra previsão específica de “lucro da intervenção”. Confira-se, a propósito, a redação dos arts. 884 e 886 do Código Civil: Art. 884. Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários. Art. 886. Não caberá a restituição por enriquecimento, se a lei conferir ao lesado outros meios para se ressarcir do prejuízo sofrido. Existe um enunciado doutrinário tratando sobre o tema: Enunciado 620-VIII Jornada de Direito Civil: Art. 884: A obrigação de restituir o lucro da intervenção, entendido como a vantagem patrimonial auferida a partir da exploração não autorizada de bem ou direito alheio, fundamenta-se na vedação do enriquecimento sem causa. 14.14. Se o devedor de empréstimo consignado morrer, a dívida continua existindo – (Info 627) O falecimento do consignante não extingue a dívida decorrente de contrato de crédito consignado em folha de pagamento. STJ. 3ª Turma. REsp 1498200-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 5/6/18 (Info 627). 14.15. Impossibilidade de revisão de cláusulas contratuais em ação de prestação de contas – (Info 592) – IMPORTANTE!!! Não é possível a revisão de cláusulas contratuais em ação de exigir contas (ação de prestação de contas). STJ. 2ª Seção. REsp 1.497.831-PR, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Maria Isabel Gallotti, j. 14/9/16 (recurso repetitivo) (Info 592). OBS: Ação de exigir contas (ação de prestação de contas): No CPC 1973, havia a previsão de um procedimento especial chamado de “ação de prestação de contas”. O CPC 2015 alterou o nome para “ação de exigir contas” (art. 550). Finalidade da ação: A segunda mudança foi quanto à finalidade da ação e a pessoa legitimada para propô-la. Veja: CPC 1973 CPC 2015 A ação de prestação de contas podia ser proposta por dois legitimados: a) pela pessoa que tinha o direito de exigir a prestação de contas (ex.: os sócios que não participam da administração de uma sociedade podem exigir a prestação de contas do sócio gerente); b) pela pessoa que tinha a obrigação de prestar as contas (ex.: o sócio gerente pode ajuizar ação de prestação de contas em face dos demais sócios para, em juízo, demonstrar como foram utilizados os recursos). A ação agora somente pode ser proposta na situação “a”, ou seja, pela pessoa que tem o direito de exigir a prestação de contas. Não há mais duplicidade na legitimação, sendo legitimado ativo apenas o sujeito que tem o direito de receber as contas e legitimado passivo o sujeito que tem o dever de prestá-las (NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual de Direito Processual Civil. São Paulo: Método, 2014). Vale ressaltar que "dita supressão não significa que tenha desaparecido a ação de dar contas. A administração de bens ou negócios alheios gera sempre, para o gestor, o dever de prestar contas, de sorte que este tem, na perspectiva do direito material, não apenas a obrigação, mas também o direito de se livrar desse dever. Assim, coexistem sempre as duas pretensões, a de exigir e a de dar contas. O que a lei nova fez foi submeter a procedimento especial apenas a pretensão de exigir contas. A de dar contas, por isso, será processada sob o procedimento comum. Para se desincumbir da obrigação de dar contas, o obrigado, quando encontrar resistência da parte contrária, proporá ação comum, instruindo a petição inicial com o demonstrativo devido e os documentos justificativos e pedirá ao juizque, após ouvido o réu, seja afinal declarado por sentença prestadas as contas que lhe incumbiam." (THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil. Vol. II. 50ª ed., São Paulo: Forense, 2016, p. 96). Ampliação do prazo de resposta: A terceira mudança identificada foi a ampliação do prazo para resposta do réu: · CPC 1973: depois de citado, o réu tinha o prazo de 5 dias para apresentar a prestação de contas exigida pelo autor ou contestar a ação. · CPC 2015: depois de citado, o réu possui agora o prazo de 15 dias para apresentar a prestação de contas exigida pelo autor ou oferecer contestação. Além disso, o CPC/2015 traz regras mais detalhadas sobre o procedimento a ser seguido. Administração de valores: A ação de exigir contas (ação de prestação de contas) tem por objetivo fazer com que alguém que está administrando em nome de outra pessoa demonstre o resultado dessa administração. Para que seja cabível a ação de exigir contas, é necessário que determinada pessoa tenha autorizado que outra recebesse certos recursos e aplicasse esse dinheiro em finalidades próprias. Essa obrigação de prestar contas pode ser derivada de um contrato ou da própria lei. · Exemplos decorrentes de contrato: mandato, representação mercantil etc. · Exemplos decorrentes da lei: gestão de negócios, tutela, curatela etc. Ação de exigir contas proposta por correntista contra o banco: Um dos exemplos comuns de ação de exigir contas (ação de prestação de contas) é aquela proposta pelo correntista em face do banco. Foi editada, inclusive, uma súmula para reconhecer essa possibilidade: Súmula 259-STJ: A ação de prestação de contas pode ser proposta pelo titular de conta-corrente bancária. Atenção: a súmula continua válida com o CPC 2015, mas a redação da súmula deverá ser atualizada com o novo nome do procedimento (ação de exigir contas). A ação de exigir contas é cabível mesmo que o banco forneça periodicamente os extratos bancários? SIM. É possível a propositura da ação de exigir contas pelo titular da conta corrente bancária, independentemente do fornecimento periódico de extratos pelo banco. Por isso a Súmula 259 do STJ apresenta uma redação bem abrangente, sem restrições. Assim, o correntista, recebendo extratos bancários, pode discordar dos lançamentos ali presentes e ajuizar ação de exigir contas contra a instituição financeira. Exemplo: João, analisando seu saldo da conta bancária, desconfia que houve saques indevidos realizados pela instituição financeira. Este correntista poderá ajuizar ação de exigir contas contra o banco, visando a obter esclarecimentos acerca da cobrança de taxas, tarifas e/ou encargos em sua conta. Procedimento: O procedimento da ação para exigir contas é composto de duas fases: na primeira, discute-se se o réu tem ou não o dever de prestar as contas. Se ficar constatado que ele tem este dever, inicia-se a segunda fase, que é a apresentação das contas em si e a discussão sobre elas. "É preciso notar, porém, que não se está diante de dois processos distintos, tramitando simultaneamente nos mesmos autos. O processo é único, embora dividido em duas fases distintas. Há, pois, o ajuizamento de uma única demanda, contendo um único mérito. A análise deste, porém, é dividida em dois momentos: o primeiro, dedicado à verificação da existência do direito de exigir a prestação de contas, o segundo, dirigido à verificação das contas e do saldo eventualmente existente." (CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. São Paulo: Atlas, 21ª ed., 2014, p. 391). 1. Petição inicial: Na petição inicial, o autor especificará, detalhadamente, as razões pelas quais exige as contas, instruindo-a com documentos comprobatórios dessa necessidade, se existirem. 2. Citação: O réu será citado para, no prazo de 15 dias: a) apresentar as contas que foram exigidas; ou b) contestar a ação. 3. Apresentação das contas: Se o réu decidir apresentar as contas sem contestar, resolve-se a primeira fase do procedimento, ou seja, ele mesmo admite que tem o dever de prestar as contas. Neste caso, o CPC determina que ele apresente as contas especificando quais as receitas obtidas, as despesas realizadas e os investimentos efetuados, se houver (art. 551). Depois disso, o autor, também no prazo de 15 dias, irá dizer se concorda ou não com os valores apresentados. Se o autor impugnar as contas apresentadas, deverá fazê-lo de forma específica e fundamentada. O juiz estabelecerá, então, prazo razoável para que o réu apresente os documentos justificativos dos lançamentos individualmente impugnados (§ 1º do art. 551). 4. Contestação: Se o réu contestar, recusando-se a apresentar as contas, o juiz irá analisar os argumentos e poderá: a) rejeitar o pedido do autor; ou b) julgar procedente a ação. 5. Sentença de procedência: Se o magistrado julgar procedente o pedido, condenará o réu a prestar as contas no prazo de 15 dias. 6. Réu que não apresenta as contas no prazo: Caso ele não as apresente no prazo, a Lei autoriza que o próprio autor elabore as contas e as apresente em juízo, sem que o réu as possa impugnar (art. 550, § 5º). O CPC determina que as contas do autor devem ser apresentadas na forma adequada, já instruídas com os documentos justificativos, especificando-se as receitas, a aplicação das despesas e os investimentos, se houver, bem como o respectivo saldo. Vale ressaltar que mesmo o réu não podendo mais impugnar as contas apresentadas pelo autor, isso não significa que o juiz esteja obrigado a aceitá-las. O juiz, caso entenda que as contas apresentadas pelo autor não estão corretas, poderá determinar a realização de exame pericial (art. 550, § 6º). A pergunta mais interessante vem agora: é possível que o autor, na ação de prestação de contas, além de exigir que o réu demonstre as receitas e despesas, requeira ao juiz que reconheça que as cláusulas do contrato assinado são abusivas? Ex: João (correntista) poderá pedir para que o juiz reconheça que determinada taxa de juros cobrada pelo banco e que estava prevista no contrato é abusiva? NÃO. Não é possível discutir, em ação de exigir contas (ação de prestação de contas), a abusividade das cláusulas contratuais. A ação de prestação de contas não é o meio hábil a dirimir conflitos no tocante a cláusulas de contrato, nem em caráter secundário, uma vez que tal ação objetiva tão somente a exposição dos créditos e débitos decorrentes de uma relação jurídica, concluindo-se se existe saldo credor ou devedor. Rito especial e célere: A ação de prestação de contas não é uma ação ordinária, possuindo um rito especial, mais célere, e que tem como única finalidade aferir a regularidade dos débitos e créditos relacionados à administração dos recursos. Não se trata da via adequada para realizar a análise jurídica da abusividade ou ilegalidade das cláusulas contratuais. Para a impugnação do próprio contrato, o autor deve fazer uso da ação ordinária, que comporta dilação probatória mais ampla. Nesse sentido: STJ. 3ª T. REsp 1.166.628-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 9/10/12. Voltando ao exemplo: Em se tratando de contrato de conta corrente, o banco deverá demonstrar os créditos (depósitos em favor do correntista) e os débitos efetivados em sua conta corrente (cheques pagos, débitos de contas, tarifas e encargos, transferências, saques etc) em relação ao período cuja prestação de contas se pede, para que, ao final, se apure se o saldo da conta corrente é positivo ou negativo, e se o correntista tem crédito ou, ao contrário, se está em débito. Não será possível, todavia, a alteração das bases do contrato mantido entre as partes, pois, como visto, o rito especial da prestação de contas é incompatível com a pretensão de revisar contrato, em razão das limitações ao contraditório e à ampla defesa. Assim, não é possível ao juiz substituir, na ação de prestação de contas, a taxa de juros remuneratórios, a periodicidade da capitalização ou demais encargos aplicados ao longo da relação contratual. Depois de prestadas as contas, poderá o correntista, caso considere pertinente,ajuizar ação revisional de contrato cumulada com repetição de eventual indébito. Informação adicional correlata: Nos contratos de mútuo e financiamento, o devedor não possui interesse de agir para a ação de prestação de contas. STJ. 2ª Seção. REsp 1.293.558-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 11/3/2015 (Info 558). 14.16. A cláusula contratual que transfere ao comprador a responsabilidade pela desocupação do imóvel que lhe é alienado pela CEF não é abusiva – (Info 592) A cláusula contratual que impõe ao comprador a responsabilidade pela desocupação de imóvel que lhe é alienado pela CEF não é abusiva. Não há abusividade porque a alienação se dá por preço consideravelmente inferior ao valor real do imóvel, exatamente pela situação peculiar que o imóvel possa se encontrar. A obrigação do adquirente de ter que tomar medidas para que o terceiro desocupe o imóvel é um ônus que já é informado pela CEF aos interessados antes da contratação. Tal informação consta expressamente no edital de concorrência pública e no contrato que é celebrado. A rápida alienação do imóvel, no estado em que se encontre, favorece o SFH porque libera recursos financeiros que serão revertidos para novas operações de crédito em favor de famílias sem casa própria. STJ. 3ª Turma. REsp 1.509.933-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 4/10/16 (Info 592). 14.17. Requisitos do instrumento procuratório para a validade da doação – (Info 577) É inválida a doação realizada por meio de procurador se o instrumento procuratório concedido pelo proprietário do bem não mencionar o donatário, sendo insuficiente a declaração de poderes gerais na procuração. STJ. 4ª Turma. REsp 1.575.048-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, j. 23/2/16 (Info 577). OBS: Doação: é um contrato por meio do qual uma pessoa, por liberalidade, transfere bens ou vantagens de seu patrimônio para uma outra pessoa (art. 538 do CC). Forma pela qual deverá ser realizada a doação: Regra: o contrato de doação, em regra, é formal, considerando que precisa ser escrito. Isso está no caput do art. 541: Art. 541. A doação far-se-á por escritura pública ou instrumento particular. Obs: se a pessoa quiser doar um bem imóvel cujo valor seja superior a 30 salários-mínimos, neste caso a doação deverá ser feita, obrigatoriamente, por meio de escritura pública, conforme determina o art. 108 do CC. Exceção: é válida a doação verbal de bens móveis e de pequeno valor. É chamada de "doação manual", estando prevista no parágrafo único do art. 541: Art. 541 (...) Parágrafo único. A doação verbal será válida, se, versando sobre bens móveis e de pequeno valor, se lhe seguir incontinenti a tradição. Imagine a seguinte situação hipotética: João, rico empresário, iria viajar para o exterior e, por essa razão, outorgou procuração pública a um funcionário seu (Pedro) para que este o representasse em todos os assuntos relativos à compra, venda, locação e doação de um apartamento de luxo que ele possuía. O que ficou combinado verbalmente entre João e Pedro é que ele iria procurar eventuais interessados em comprar o imóvel para vendê-lo por um bom preço. Ocorre que Pedro (procurador de João), valendo-se da procuração outorgada, doou o apartamento para um amigo (que era seu "laranja"). Ao saber do ocorrido, João retorna ao Brasil e reúne-se com seus advogados para discutir o que fazer. Sob o ponto de vista estritamente formal, existe alguma "brecha" para que esta doação seja anulada? SIM. O Código Civil permite que o procurador devidamente constituído faça a doação de um imóvel, mas para que isso seja válido, é necessário que estejam previstos poderes especiais no instrumento de mandato, nos termos do artigo 661, §1º: Art. 661. O mandato em termos gerais só confere poderes de administração. § 1º Para alienar, hipotecar, transigir, ou praticar outros quaisquer atos que exorbitem da administração ordinária, depende a procuração de poderes especiais e expressos. No caso de doação, além de haver poderes especiais no mandato (autorização para doar), a procuração deverá prever também a pessoa que será beneficiada com a doação. Assim, como na procuração não foi indicado o donatário do imóvel, a doação realizada pode ser declarada nula, conforme o art. 166 do CC: Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando: (...) IV - não revestir a forma prescrita em lei; V - for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade; 14.18. Ação revisional por conta da desvalorização do real frente ao dólar em contrato celebrado em moeda estrangeira – (Info 556) – IMPORTANTE!!! Determinado médico importou um equipamento para utilizar em sua atividade profissional. A aquisição foi feita por meio de um financiamento celebrado em moeda estrangeira (dólar). Na época, o valor do dólar e do real eram muito próximos, sendo a conversão próxima de 1 real para cada 1 dólar. Ocorre que, em janeiro 1999, ocorreu na economia brasileira uma grande desvalorização do real e o dólar passou a valer cerca de 2 reais. No caso concreto, o médico pode ser considerado consumidor? NÃO. Não há relação de consumo entre o fornecedor de equipamento médico-hospitatar e o médico que firmam contrato de compra e venda de equipamento de ultrassom com cláusula de reserva de domínio e de indexação ao dólar americano, na hipótese em que o profissional de saúde tenha adquirido o objeto do contrato para o desempenho de sua atividade econômica. É possível a aplicação da teoria da base objetiva na presente situação? NÃO. A teoria da base objetiva ou da base do negócio jurídico tem sua aplicação restrita às relações jurídicas de consumo, não sendo aplicável às contratuais puramente civis. É possível acolher o pedido do médico para a revisão do contrato com base na teoria da imprevisão e da onerosidade excessiva? NÃO. Tratando-se de relação contratual paritária – a qual não é regida pelas normas consumeristas –, a maxidesvalorização do real em face do dólar americano ocorrida a partir de janeiro de 1999 não autoriza a aplicação da teoria da imprevisão ou da teoria da onerosidade excessiva, com intuito de promover a revisão de cláusula de indexação ao dólar americano. O histórico econômico do Brasil já indicava que seria possível que ocorresse uma desvalorização do real frente ao dólar, não sendo possível, portanto, falar que isso era um fato imprevisível ou extraordinário. STJ. 3ª Turma. REsp 1.321.614-SP, Rel. originário Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 16/12/2014 (Info 556). 14.19. DOAÇÃO: Doação inoficiosa e herdeiro que cedeu sua parte na herança – (Info 539) Doação inoficiosa é a que invade a legítima dos herdeiros necessários. A pessoa que tenha herdeiros necessários só pode doar até o limite máximo da metade de seu patrimônio, considerando que a outra metade é a chamada “legítima” (art. 1.846 do CC) e pertence aos herdeiros necessários. A doação inoficiosa é nula (art. 549 do CC) Ação cabível para se obter a anulação: ação de nulidade de doação inoficiosa (ação de redução). Prazo da ação: 10 anos (art. 205 do CC) (STJ REsp 1049078/SP). Quando se inicia esse prazo: conta-se a partir do registro do ato jurídico que se pretende anular. Quem pode propor: apenas os herdeiros necessários do doador. Mesmo que o herdeiro necessário tenha cedido sua parte na herança, ele terá legitimidade para a ação de anulação? SIM. O herdeiro que cede seus direitos hereditários continua tendo legitimidade para pleitear a declaração de nulidade de doação inoficiosa realizada pelo autor da herança em benefício de terceiros. STJ. 3ª Turma. REsp 1361983-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 18/3/2014 (Info 539). 15. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA 15.1. É juridicamente possível o pedido de alienação judicial de bem imóvel objeto de compromisso de compra e venda – (Info 625) É juridicamente possível o pedido de alienação judicial de bem imóvel objeto de compromisso de compra e venda. STJ. 3ª Turma. REsp 1.501.549-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 8/5/18(Info 625). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João e Maria celebraram contrato de promessa de compra e venda com uma incorporadora imobiliária para aquisição de um apartamento. Eles se comprometeram a pagar 80 parcelas de R$ 3 mil e, em troca, tornar-se-iam proprietários do imóvel. O relacionamento não deu mais certo e, na sentença de divórcio, ficou definido que o único bem do casal (o referido apartamento) seria dividido metade para cada um. Ocorre que se passou um tempo depois do divórcio e Maria continuou morando no apartamento, enquanto João permanecia vivendo de aluguel. Diante disso, ele ajuizou contra Maria uma ação de alienação judicial do bem e extinção de condomínio. O que pediu João? Para vender em juízo o apartamento e dividir o dinheiro entre eles. O juiz, contudo, extinguiu o processo sem resolução do mérito por impossibilidade jurídica do pedido. Alegou que, nos termos do art. 1.275 do CC, a alienação é causa de perda de propriedade e que João e Maria não têm a propriedade do apartamento em questão. Isso porque o imóvel foi objeto de compromisso de compra e venda e o casal não terminou de pagar as prestações. Logo, seria juridicamente impossível o pedido. Agiu corretamente o juiz? NÃO. Um pedido é juridicamente impossível quando existe uma proibição legal, ou seja, algum dispositivo que veda que a parte faça aquela pretensão em juízo. Ocorre que não há, no ordenamento jurídico vigente, nenhuma proibição expressa ou implícita para que se formule o pedido de alienação judicial de bem objeto de compromisso de compra e venda. No caso concreto, por exemplo, a incorporadora (promitente-vendedora) poderia, em tese, autorizar a alienação judicial pretendida por João a fim de que eles pagassem as prestações que faltam e, em seguida, o casal dividisse o dinheiro que sobrou. No exemplo dado, como ainda havia prestações em aberto e, como não houve concordância expressa da promitente-vendedora, o que deveria o juiz ter feito era julgar o pedido improcedente, extinguindo o processo com resolução do mérito. O “equívoco” do magistrado foi considerar que existe impossibilidade jurídica do pedido. 15.2. Validade da cláusula contratual que transfere o pagamento do laudêmio ao promitente-comprador – (Info 575) É válida cláusula inserta em contrato de promessa de compra e venda de imóvel situado em terreno de marinha que estipule ser da responsabilidade do promitente-adquirente o pagamento do laudêmio devido à União, embora a referida cláusula não seja oponível ao ente público. STJ. 4ª Turma. REsp 888.666-SE, Rel. Min. Raul Araújo, j. 15/12/15 (Info 575). OBS: O recolhimento do laudêmio em favor da União, em se tratando de transferência onerosa, é obrigação legal decorrente de uma relação jurídica, regida por regras do direito administrativo, entre o proprietário do domínio direto (a União) e o proprietário do domínio útil do imóvel (o particular). Isso não impede, contudo, que os particulares (promitente-adquirente e promitente-vendedor) combinem entre si, em uma relação meramente contratual e privada, que um deles (promitente-adquirente) é quem irá pagar o laudêmio. Esse ajuste contratual envolve direitos disponíveis e não viola qualquer norma jurídica, sendo, portanto, válida (art. 104 do CC 2002). A referida cláusula contratual é válida (não tem nenhum vício no plano de validade), mas é ineficaz perante a União. Este ajuste obriga apenas as partes contratantes, não sendo oponível à União porque esta mantém com o titular do domínio útil uma relação jurídica diversa, de cunho legal. 15.3. Ausência de prazo para a ação de adjudicação compulsória (Info 570) A promessa de compra e venda (ou compromisso de compra e venda) é uma espécie de contrato preliminar por meio do qual uma pessoa (promitente vendedor) se compromete a vender o seu bem ao promissário comprador após este pagar integralmente o preço que foi ajustado. Se o promitente vendedor, mesmo após receber o preço integral combinado, recusar-se a outorgar a escritura pública, o promissário comprador poderá ajuizar ação de adjudicação compulsória. Existe um prazo para que o promissário comprador proponha a ação de adjudicação compulsória? Depois de pago integralmente o preço, se o promitente vendedor se recusar a outorgar a escritura pública, qual o prazo que o promissário comprador possui para requerer a adjudicação compulsória? Não há prazo. O promitente comprador, amparado em compromisso de compra e venda de imóvel cujo preço já tenha sido integralmente pago, tem o direito de requerer judicialmente, a qualquer tempo, a adjudicação compulsória do imóvel. STJ. 4ª T. REsp 1.216.568-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 3/9/2015 (Info 570). 15.4. Simulação alegada pelo réu em sede de contestação – (Info 538) É nulo o compromisso de compra e venda que, em realidade, traduz-se como instrumento para o credor ficar com o bem dado em garantia em relação a obrigações decorrentes de contrato de mútuo usurário, se estas não forem adimplidas. Trata-se de simulação. Essa simulação poderá ser alegada pelo contratante/réu como matéria de defesa, em contestação, por se tratar de nulidade absoluta. A alegação dessa simulação em contestação vale mesmo que o negócio jurídico tenha sido celebrado sob a égide do Código Civil de 1916. STJ. 4ª Turma. REsp 1.076.571-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, j. 11/3/14 (Info 538). OBS: O STJ decidiu que a prática de negócio jurídico simulado para encobrir a realização de pacto comissório pode ser alegada por um dos contratantes como matéria de defesa, em contestação. Por quê? A simulação ocorre quando... - as partes fingem que estão celebrando determinado negócio jurídico - mas não fizeram negócio nenhum (simulação absoluta) - ou então estão ocultando o verdadeiro negócio jurídico que foi realizado (simulação relativa) - isso tudo com o objetivo de violar a lei ou enganar terceiros. A simulação é um vício social do negócio jurídico, estando previsto na art. 167 do CC: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. Logo, a simulação provoca a nulidade absoluta do negócio jurídico. Como se trata de nulidade absoluta, a simulação poderia ter sido alegada por qualquer pessoa, mesmo pela parte que participou do negócio simulado. Enunciado 294-CJF: Sendo a simulação uma causa de nulidade do negócio jurídico, pode ser alegada por uma das partes contra a outra. Na verdade, a nulidade absoluta poderia ter sido até mesmo declarada de ofício pelo juiz. A simulação era causa de nulidade absoluta no texto do CC-1916? NÃO. No texto do CC-1916, a simulação era tratada como sendo um caso de anulabilidade (e não de nulidade). No entanto, mesmo sendo hipótese de anulabilidade, o STJ, antecipando-se à alteração depois consagrada no CC-2002, já entendia, em alguns julgados, que a simulação gerava a nulidade do ato, notadamente nos casos em que o negócio jurídico ocultado por meio da simulação encontrava vedação expressa no ordenamento jurídico e, por isso, deveria ser reputado nulo de pleno direito. Para tanto, o STJ invocava o art. 145, V, do CC-1916 para sustentar sua tese (Art. 145. É nulo o ato jurídico: quando a lei taxativamente o declarar nulo ou lhe negar efeito.). 15.5. Cobrança de juros compensatórios incidentes em período anterior à entrega das chaves nos contratos de compromisso de compra e venda de imóveis em construtora sob o regime de incorporação imobiliária – (Info 499) – (TJMA-2013) Não é abusiva a cláusula de cobrança de juros compensatórios incidentes em período anterior à entrega das chaves nos contratos de compromisso de compra e venda de imóveis em construção sob o regime de incorporação imobiliária. Em outras palavras, os “juros no pé” não são abusivos. STJ. 2ª Seção. EREsp 670.117-PB, Rel. originário Min. Sidnei Beneti, Rel. para acórdão Min. Antonio Carlos Ferreira, j. 13/6/2012 (Info 499). (TJMA-2013-CESPE): Segundo a jurisprudência do STJ, não é abusiva a cláusula de cobrança de juroscompensatórios incidentes em período anterior à entrega das chaves nos contratos de compromisso de compra e venda de imóveis em construção sob o regime de incorporação imobiliária. BL: Info 499, STJ. 16. COMPRA E VENDA 16.1. COMPRA E VENDA: LOTEAMENTO: É válida a estipulação, na escritura de compra e venda, espelhada no contrato-padrão depositado no cartório, de cláusula que preveja a cobrança, pela administradora do loteamento, das despesas com manutenção e infraestrutura do loteamento – (Info 648) O art. 18, VI, da Lei 6.766/79, que dispõe sobre o parcelamento do solo urbano, exige que o loteador submeta o projeto de loteamento ao registro imobiliário, acompanhado, dentre outros documentos, do exemplar do contrato-padrão de promessa de venda, ou de cessão ou de promessa de cessão, do qual constarão, obrigatoriamente, as indicações previstas no seu art. 26 e, eventualmente, outras de caráter negocial, desde que não ofensivas dos princípios cogentes da referida lei. É válida a estipulação, na escritura de compra e venda, espelhada no contrato-padrão depositado no registro imobiliário, de cláusula que preveja a cobrança, pela administradora do loteamento, das despesas realizadas com obras e serviços de manutenção e/ou infraestrutura, porque dela foram devidamente cientificados os compradores, que a ela anuíram inequivocamente. STJ. 3ª T. REsp 1.569.609-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 7/5/19 (Info 648). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João adquiriu um imóvel (uma casa) em um loteamento chamado “Jardim Feliz”. Ele começou a morar no local e todos os meses a empresa administradora do loteamento lhe cobra um valor a título de “contribuição pelos serviços de administração do loteamento”. João achou que a cobrança era errada e ajuizou ação declaratória de inexistência de obrigação em face da empresa administradora do loteamento. Na ação, ele argumentou que esse loteamento não é um condomínio e, portanto, essa cobrança seria ilegal. Como reforço de sua tese, João citou o precedente do STJ acima explicado: As taxas de manutenção criadas por associações de moradores não obrigam os não associados ou que a elas não anuíram. STJ. 2ª S. REsp 1.280.871-SP e REsp 1.439.163-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. para acórdão Min. Marco Buzzi, j. 11/3/2015 (recurso repetitivo) (Info 562). A administradora contestou o pedido afirmando que no momento da aquisição do imóvel o contrato previa o pagamento dessa “contribuição” e que, portanto, João concordou com ela. O pedido formulado por João foi acolhido pelo STJ? NÃO. Existem três diferenças entre o caso de João e o REsp 1.280.871-SP (taxa de manutenção do condomínio de fato): a) a empresa que cobra a “taxa” de manutenção é a própria loteadora do solo, que assumiu a administração do loteamento, e, portanto, não tem natureza jurídica de associação de moradores; b) há expressa autorização contratual para a cobrança de despesas administrativas; c) a escritura pública de compra e venda dos imóveis faz referência ao contrato-padrão arquivado no registro de imóveis, que autoriza expressamente tal cobrança. Contrato-padrão arquivado no RI e escritura pública previam a cobrança: O art. 18, VI, da Lei 6.766/79, que dispõe sobre o parcelamento do solo urbano, exige que o loteador submeta o projeto de loteamento ao registro imobiliário, acompanhado, dentre outros documentos, do exemplar do contrato-padrão de promessa de venda ou de cessão ou de promessa de cessão, do qual constarão, obrigatoriamente, as indicações previstas no seu art. 26 e, eventualmente, outras de caráter negocial, desde que não ofensivas dos princípios cogentes da referida lei. No caso concreto, esse contrato-padrão que foi arquivado no registro de imóveis previa a cobrança dessa “taxa” de manutenção do loteamento. De igual modo, a escritura pública de compra e venda também previa a possibilidade de cobrança dos valores. Assim, João, quando adquiriu o lote, tinha ciência de que a empresa ré era responsável pela prestação de diversos serviços no loteamento e que os moradores contribuíam com tais despesas. 16.2. PROMESSA DE COMPRA E VENDA: Se houver o desfazimento da promessa de compra e venda, o promitente comprador terá que pagar ao proprietário a taxa de ocupação pelo período em que esteve na posse do bem – (Info 629) É devida a condenação ao pagamento de taxa de ocupação (aluguéis) pelo período em que o comprador permanece na posse do bem imóvel, no caso de rescisão do contrato de promessa de compra e venda, independentemente de ter sido o vendedor quem deu causa ao desfazimento do negócio. Ex: João e Pedro celebraram promessa de compra e venda de um apartamento. Pedro (promitente comprador) estava morando no imóvel há 6 meses e pagando regularmente as prestações. Ocorre que o contrato foi desfeito por culpa de João. Todo o valor pago por Pedro deverá ser devolvido, assim como ele terá que ser indenizado pelas benfeitorias que realizou. Por outro lado, Pedro terá que pagar taxa de ocupação (aluguel) pelos meses em que morou no apartamento. O fundamento para isso não está na culpa, mas sim na proibição do enriquecimento sem causa. STJ. 3ª Turma. REsp 1613613-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 12/06/2018 (Info 629). OBS: A utilização do imóvel objeto do contrato de promessa de compra e venda enseja o pagamento de aluguéis pelo tempo de permanência, mesmo que o contrato tenha sido rescindido por inadimplemento do vendedor. Não importa quem tenha sido o causador do desfazimento do negócio. Isso porque o fundamento jurídico para esse pagamento está na proibição do enriquecimento sem causa, que é previsto nos arts. 884 a 886 do Código Civil: Art. 884. Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários. Parágrafo único. Se o enriquecimento tiver por objeto coisa determinada, quem a recebeu é obrigado a restituí-la, e, se a coisa não mais subsistir, a restituição se fará pelo valor do bem na época em que foi exigido. Art. 885. A restituição é devida, não só quando não tenha havido causa que justifique o enriquecimento, mas também se esta deixou de existir. Art. 886. Não caberá a restituição por enriquecimento, se a lei conferir ao lesado outros meios para se ressarcir do prejuízo sofrido. As partes devem retornar ao status quo ante e morar de graça no imóvel representaria um enriquecimento sem causa do promitente comprador. O desfazimento do negócio jurídico de compra e venda do imóvel motiva o retorno das partes ao estado anterior com, de um lado, a devolução do preço pago e a indenização pelas benfeitorias e, de outro, a restituição do imóvel e o pagamento de aluguéis pelo período de ocupação do bem objeto do contrato rescindido. Em outras palavras, o descumprimento contratual por parte do vendedor provoca determinadas consequências que, todavia, não isentam o comprador de remunerar o proprietário pelo período de ocupação do bem. Esse é o entendimento reiterado do STJ: (...) Apesar de a rescisão contratual ter ocorrido por culpa da construtora (fornecedor), é devido o pagamento de aluguéis, pelo adquirente (consumidor), em razão do tempo em que este ocupou o imóvel. O pagamento da verba consubstancia simples retribuição pelo usufruto do imóvel durante determinado interregno temporal, rubrica que não se relaciona diretamente com danos decorrentes do rompimento da avença, mas com a utilização de bem alheio. Daí por que se mostra desimportante indagar quem deu causa à rescisão do contrato, se o suporte jurídico da condenação é a vedação do enriquecimento sem causa. (...) STJ. 4ª T. REsp 955.134/SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 16/08/2012. O promitente comprador deverá pagar essa taxa de ocupação não porque tenha feito algo de errado. O pagamento de aluguéis não envolve discussão acerca da licitude ou ilicitude da conduta do ocupante. Não é uma sanção, mas simplesmente a retribuição pelo uso de um bem que não era seu: (...) O pagamentode aluguéis é devido não porque se enquadram estes na categoria de perdas e danos decorrentes do ilícito, mas por imperativo legal segundo o qual a ninguém é dado enriquecer-se sem causa à custa de outrem. STJ. 4ª T. AgRg no AREsp 394.466/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 3/12/13. Por esse motivo, considera-se irrelevante questionar quem teria sido o causador do desfazimento do negócio para fins de estipulação do ressarcimento pela ocupação. 16.3. Se a pessoa somente foi reconhecida como filha após a alienação ter acontecido, ela não poderá pleitear a anulação com base no art. 496 do Código Civil – (Info 611) O reconhecimento de paternidade post mortem não invalida a alteração de contrato social com a transferência de todas as cotas societárias realizada pelo genitor a outro descendente. STJ. 4ª Turma. REsp 1.356.431-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 8/8/17 (Info 611). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João, viúvo, possuía um filho chamado Lucas. João era sócio da sociedade empresária “AJJ”, possuindo 30% das cotas sociais. Em agosto de 2015, ele vendeu suas cotas sociais para Lucas. Alguns meses depois, João faleceu. Beatriz ajuizou ação de investigação de paternidade alegando que João e sua mãe mantiveram relacionamento amoroso no passado e que ele é seu pai biológico. Depois de ser realizado o exame de DNA com material genético de Lucas, a ação foi julgada procedente transitando em julgado. Em março de 2017, Beatriz propôs ação contra João e Lucas pedindo a anulação da alienação, sob o argumento de que ela não consentiu com a venda, nos termos do art. 496 do CC. Na ação, Beatriz argumenta que os efeitos da sentença que reconheceu a paternidade retroagem à data do negócio jurídico, o que tornaria imprescindível sua anuência, ainda que posteriormente, diante da demonstração do efetivo prejuízo à sua legítima. Primeira pergunta: O art. 496 do CC aplica-se também no caso de alienação de quotas societárias? SIM. Aplica-se à transferência de quotas societárias de ascendente a descendente a exigência de consentimento dos demais descendentes, prevista no art. 496 do CC. Nesse sentido: STJ. 4ª Turma. AgRg no AREsp 604.909/RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 25/11/2014. Segunda pergunta: A ação proposta por Beatriz deverá ser julgada procedente? NÃO. O reconhecimento de paternidade post mortem não invalida a alteração de contrato social com a transferência de todas as cotas societárias realizada pelo genitor a outro descendente. STJ. 4ª Turma. REsp 1.356.431-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 8/8/2017 (Info 611). O reconhecimento da paternidade é uma decisão de cunho declaratório, produzindo efeitos ex tunc. Apesar disso, esta decisão não poderá alcançar e modificar os efeitos jurídicos de situações de direito que já haviam sido definitivamente constituídas. Assim, esta decisão na ação de investigação não terá o condão de tornar inválido um negócio jurídico que, no momento em que foi celebrado, era válido segundo as circunstâncias fáticas existentes na época. Nesse sentido, confira outro precedente do STJ: Ainda que a sentença proferida em ação de investigação de paternidade produza efeitos ex tunc, há um limite intransponível: o respeito às situações jurídicas definitivamente constituídas. STJ. 3ª Turma. REsp 990.549/RS, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. p/ Acórdão Ministro João Otávio de Noronha, julgado em 05/06/2014. Na época da concretização do negócio jurídico (alteração do contrato de sociedade empresária voltada à venda de cotas de ascendente a descendente), a autora ainda não figurava como filha do de cujus, condição que somente veio a ser reconhecida no bojo de ação investigatória post mortem. Desse modo, o seu consentimento não era exigível nem passou a sê-lo em razão do posterior reconhecimento de seu estado de filiação. Deve ser prestigiado o princípio da segurança jurídica. 16.4. Se o vício redibitório foi sanado, o adquirente não tem mais direito ao abatimento do preço – (Info 610) O saneamento de vício redibitório limitador do uso, gozo e fruição da área de terraço na cobertura de imóvel objeto de negócio jurídico de compra e venda – que garante o seu uso de acordo com a destinação e impede a diminuição do valor –, afasta o pleito de abatimento do preço. João comprou apartamento no último andar do edifício, estando previsto no contrato que ele poderia fazer construções na cobertura. Por ter comprado a cobertura, ele pagou 25% a mais. Ocorre que, depois que o prédio ficou pronto, João não pode realizar nenhuma construção na cobertura porque isso foi negado pelo Município sob o argumento de que o prédio já teria alcançado o limite máximo de altura previsto para aquela localidade. Diante disso, João ajuizou ação de abatimento de preço contra a construtora. Três anos após o ajuizamento, houve uma mudança nas regras municipais e o limite de altura dos prédios naquela localidade aumentou. Com isso, passou a ser permitido que ele construísse na cobertura. João não terá mais direito ao abatimento do preço. STJ. 4ª Turma. REsp 1.478.254-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 8/8/17 (Info 610). OBS: Direito real de laje: Recentemente, a Lei 13.465/17, alterando o Código Civil, criou o chamado “direito real de laje” (art. 1.225, XIII, do CC). O direito real de laje consiste na possibilidade de o proprietário de uma construção-base ceder a superfície superior ou inferior de sua construção a fim de que o titular da laje mantenha unidade distinta daquela originalmente construída sobre o solo (novo art. 1.510-A do CC). Em outras palavras, o Código Civil passa a permitir algo que já existia na prática: alguém tem um imóvel (uma casa, p. ex.) e cede a outra pessoa a parte de cima deste imóvel (a "laje") ou mesmo a parte de baixo (subsolo) para que lá ela construa outra edificação autônoma em relação à construção que já tinha sido feita pelo proprietário. A laje é unidade imobiliária autônoma, devendo ser considerada como célula habitacional distinta (isolada) da construção-base, possuindo, inclusive, matrícula própria. O objetivo da lei foi o de regulamentar realidade social muito comum nas cidades brasileiras, conferindo, de alguma forma, dignidade à situação de inúmeras famílias carentes que vivem alijadas de uma proteção específica, dando maior concretude ao direito constitucional à moradia (art. 6º, da CF/88). Criou-se, assim, um direito real sobre coisa alheia, na qual se reconheceu a proteção sobre aquela extensão - superfície sobreposta ou pavimento inferior - da construção original, conferindo destinação socioeconômica à referida construção. No caso concreto, João tinha direito real de laje? NÃO. Apesar de algumas vezes ter se falado acima em “laje”, a situação de João não se enquadra no “direito real de laje” do art. 1.510-A do CC. Aqui estamos falando da compra de uma unidade ideal (apartamento) de um edifício que inclui também o terraço. Nesse caso, a área construída na cobertura é como se fosse uma espécie de acessão/benfeitoria, de titularidade única, com o mesmo número de matrícula, sem desdobramento da propriedade, não se tratando de unidade autônoma. A cobertura não tem, por isso mesmo, matrícula própria, ao contrário do direito real de laje. No final das contas, o consumidor ficou com o imóvel na forma como ele o adquiriu: Não há direito ao abatimento do preço porque o consumidor acabou recebendo o seu imóvel nos exatos moldes em que fora pactuado. Apesar de realmente ter havido um vício oculto inicial, a coisa acabou por não ficar nem imprópria para o consumo, nem teve o seu valor diminuído, justamente em razão da sanatória posterior, que permitiu a construção do gabarito nos termos em que contratado. Assim, realmente, perde fundamento o pedido de abatimento considerando que a coisa não perdeu seu valor, já que foi recebida em sua totalidade. Mas João ficou três anos sem poder construir na cobertura...: O que o STJ afirmou é que ele não tem direito ao abatimento do preço, ou seja, a redução daquilo quepagou. No entanto, é possível que ele pleiteie e receba indenização pelos danos materiais decorrentes do período em que acabou ficando impedido de exercer seu direito de uso, gozo e fruição da laje. 16.5. COMPRA COM RESERVA DE DOMÍNIO: Em caso de compra e venda com reserva de domínio, é possível a comprovação da mora por meio de notificação extrajudicial enviada pelo RTD – (Info 601) – IMPORTANTE!!! (Anal. Portuário/EMAP-2018) A mora do comprador, na ação ajuizada pelo vendedor com o intuito de recuperação da coisa vendida com cláusula de reserva de domínio, pode ser comprovada por meio de notificação extrajudicial enviada pelo Cartório de Títulos e Documentos (RTD). Assim, em caso de cláusula de reserva de domínio, existem três formas pelas quais o vendedor (credor) poderá comprovar a mora do comprador (devedor): a) mediante protesto do título; b) por meio de interpelação judicial; c) por notificação extrajudicial enviada pelo Cartório de Títulos e Documentos. STJ. 3ª Turma. REsp 1.629.000-MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 28/3/2017 (Info 601). OBS: O que é a compra e venda com reserva de domínio? Trata-se do contrato de compra e venda no qual existe uma cláusula prevendo que o comprador ficará desde logo na posse direta do bem, mas que só irá adquirir realmente o domínio (só se tornará dono) depois de pagar integralmente o preço. O vendedor transmite desde logo a posse, comprometendo-se a transferir o domínio tão logo o comprador pague a integralidade do preço. A venda com reserva de domínio (pactum reservati dominii) encontra-se disciplinada nos arts. 521 a 528 do Código Civil: Art. 521. Na venda de coisa móvel, pode o vendedor reservar para si a propriedade, até que o preço esteja integralmente pago. Exemplo: A venda com reserva de domínio é normalmente utilizada pelas grandes lojas de departamento quando vendem a prazo eletrodomésticos de maior valor, como televisões, geladeiras, fogões etc. Bens móveis perfeitamente caracterizados: Só pode ser objeto de venda com reserva de domínio a coisa móvel perfeitamente caracterizável. Art. 523. Não pode ser objeto de venda com reserva de domínio a coisa insuscetível de caracterização perfeita, para estremá-la de outras congêneres. Na dúvida, decide-se a favor do terceiro adquirente de boa-fé. Características: · A cláusula de reserva de domínio deve ser estipulada por escrito. · Para valer contra terceiros, o contrato precisa ser registrado no domicílio do comprador (art. 522). A serventia competente para esse registro é o RTD (Registro de Títulos e Documentos). · Se o bem vendido foi um automóvel, caberá a anotação do gravame no Certificado de Registro do Veículo (CRV), nos termos da Lei nº 11.882/2008: Art. 6º Em operação de arrendamento mercantil ou qualquer outra modalidade de crédito ou financiamento a anotação da alienação fiduciária de veículo automotor no certificado de registro a que se refere a Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, produz plenos efeitos probatórios contra terceiros, dispensado qualquer outro registro público. · Apesar de a venda com reserva de domínio não ser o mesmo que alienação fiduciária, aplica-se aqui o mesmo raciocínio que inspirou a edição da súmula 92 do STJ: Súmula 92-STJ: A terceiro de boa-fé não é oponível a alienação fiduciária não anotada no certificado de registro do veículo automotor. Se a coisa perecer, quem sofre o prejuízo é o comprador (possuidor direto): Como vimos acima, tão logo o contrato é assinado, a posse direta do bem passa para o comprador. A titularidade do bem (propriedade) só será transferida após o pagamento integral. No entanto, mesmo sem ser ainda o dono, o comprador tem o dever de cuidar da coisa. Isso porque se ela perecer (estragar completamente) ou se deteriorar, quem irá sofrer com esse prejuízo será ele (possuidor direto). Art. 524. A transferência de propriedade ao comprador dá-se no momento em que o preço esteja integralmente pago. Todavia, pelos riscos da coisa responde o comprador, a partir de quando lhe foi entregue. Ex.: se João compra uma TV em 12x com reserva de domínio e no terceiro mês um ladrão furta o bem, João deverá pagar as nove prestações que faltam, mesmo sem ficar com a coisa. Existe uma regra que diz o seguinte: "res perit domino" (a coisa perece para o dono), ou seja, se o bem pereceu, quem deve sofrer o prejuízo é o proprietário. O art. 524 acima analisado é uma exceção a essa regra. Na compra com reserva de domínio vigora a regra do "res perit emptoris" (a coisa perece para o comprador). Em caso de mora do comprador, o que o vendedor poderá fazer? O art. 526 do CC estabelece o seguinte: Art. 526. Verificada a mora do comprador, poderá o vendedor mover contra ele a competente ação de cobrança das prestações vencidas e vincendas e o mais que lhe for devido; ou poderá recuperar a posse da coisa vendida. Apesar de o dispositivo acima transcrito mencionar duas hipóteses (ação de cobrança ou recuperação da posse), a doutrina especializada afirma que o vendedor (credor) possui três opções: a) Ação executiva (execução do contrato): Ocorre quando o contrato assinado preenche os requisitos para ser considerado um título executivo extrajudicial, nos termos do art. 784, III, do CPC/2015. b) Ação de cobrança: Se o contrato assinado não preenche os requisitos para ser considerado um título executivo, o vendedor poderá ajuizar ação cobrando as prestações vencidas e vincendas e o que mais for devido. Repare que, em caso de atraso, ocorrerá o vencimento antecipado das parcelas futuras. Ex.: eram 12 parcelas; depois da 4ª, o comprador tornou-se inadimplente; logo, todas as 8 restantes já são consideradas vencidas. Vale ressaltar que, se o vendedor conseguir receber esse valor pleiteado na ação, o bem objeto do negócio jurídico passa a pertencer ao comprador. c) Ação de reintegração de posse da coisa vendida (alguns autores defendem que seria uma ação de busca, apreensão e depósito, com base no art. 1.071 do CPC 1973, que não foi repetido no CPC 2015): Caso opte por pedir a reintegração de posse (ou busca e apreensão), mesmo depois de ter de volta o bem, o vendedor poderá reter as prestações pagas até o necessário para cobrir a depreciação da coisa, as despesas feitas e o que mais de direito lhe for devido (art. 527). Em outras palavras, o vendedor poderá utilizar o valor já pago pelo comprador para cobrir seus prejuízos. Isso porque a coisa foi usada e já não vale o mesmo do que valia quando era nova. Além disso, o vendedor teve despesas com notificação extrajudicial etc. Se as prestações pagas pelo comprador forem maiores do que os gastos do vendedor, deverá este devolver o excedente ao comprador. Se forem menores, poderá ajuizar ação de cobrança para pleitear o restante. Se o vendedor quiser ajuizar a ação de reintegração de posse, ele precisará primeiro pedir a rescisão do contrato? NÃO. Se o vendedor quiser ajuizar a ação de reintegração de posse da coisa vendida, não precisará previamente pedir a rescisão do contrato, podendo propor desde logo a ação possessória. Nesse sentido, decidiu o STJ: Ainda que sem prévia ou concomitante rescisão do contrato de compra e venda com reserva de domínio, o vendedor pode, ante o inadimplemento do comprador, pleitear a proteção possessória sobre o bem móvel objeto da avença. STJ. 4ª Turma. REsp 1.056.837-RN, Rel. Min. Marco Buzzi, j. 3/11/2015 (Info 573). Constituição do devedor em mora: Quando o comprador atrasar o pagamento das prestações, o vendedor deverá constituí-lo em mora, o que poderá ser feito mediante protesto do título ou interpelação judicial (art. 525). Só após tomar essa providência é que o credor poderá ajuizar as ações acima explicadas. Assim, independentemente da opção exercida pelo vendedor, é imprescindível a constituição do comprador em mora. E como isso deverá ser feito? O art. 525 afirma que a constituição do devedor em mora pode ocorrer mediante protesto do título ou por interpelação judicial. Apesar disso, o STJ admite um terceiro modo de constituição do devedor em mora: a notificaçãoextrajudicial, conforme decidido no Info 601 do STJ. Para o STJ, mesmo a mora no contrato de compra e venda com reserva de domínio sendo uma mora ex re, é possível aplicar ao caso o parágrafo único do art. 397 do CC: Art. 397 (...) Parágrafo único. Não havendo termo, a mora se constitui mediante interpelação judicial ou extrajudicial. Assim, em caso de cláusula de reserva de domínio, existem três formas pelas quais o vendedor (credor) poderá comprovar a mora do comprador (devedor): a) mediante protesto do título; b) por meio de interpelação judicial; c) por notificação extrajudicial enviada pelo Cartório de Títulos e Documentos. Instituição financeira que paga o preço da coisa ao vendedor sub-roga-se em seus direitos: Algumas vezes pode acontecer de a loja vender parceladamente ao comprador e receber o dinheiro da venda à vista ou logo depois, por intermédio de uma instituição financeira. Isso é feito para que a loja tenha capital de giro e, obviamente, o banco irá cobrar do vendedor um valor por este adiantamento. Se essa situação se verificar, a instituição financeira irá se sub-rogar nos direitos do vendedor e, assim, se o comprador tornar-se inadimplente, ela poderá exercer os direitos e ações decorrentes do contrato como se fosse o vendedor. Vale ressaltar que, no momento da assinatura do contrato, o comprador deverá ser informado e concordar com essa operação. Art. 528. Se o vendedor receber o pagamento à vista, ou, posteriormente, mediante financiamento de instituição do mercado de capitais, a esta caberá exercer os direitos e ações decorrentes do contrato, a benefício de qualquer outro. A operação financeira e a respectiva ciência do comprador constarão do registro do contrato. 16.6. Nulidade de contrato de compra e venda de imóvel localizado em terreno de marinha sem pagamento de laudêmio – (Info 589) É nulo o contrato firmado entre particulares de compra e venda de imóvel de propriedade da União quando ausentes o prévio recolhimento do laudêmio e a certidão da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), ainda que o pacto tenha sido registrado no Cartório competente. Antes de o ocupante vender o domínio útil do imóvel situado em terreno de marinha, ele deverá obter autorização da União, por meio da SPU, pagando o laudêmio e cumprindo outras formalidades exigidas. Somente assim esta alienação será possível de ser feita validamente. STJ. 2ª Turma. REsp 1.590.022-MA, Rel. Min. Herman Benjamin, j. 9/8/2016 (Info 589). OBS: O que são terrenos de marinha? São “todos aqueles que, banhados pelas águas do mar ou dos rios e lagoas navegáveis (estes últimos, exclusivamente, se sofrerem a influência das marés, porque senão serão terrenos reservados), vão até a distância de 33 metros para a parte da terra contados da linha do preamar médio, medida em 1831” (CUNHA JÚNIOR, Dirley da. Curso de Direito Administrativo. Salvador: Juspodivm, 2013, p. 417). Os terrenos de marinha são bens da União (art. 20, VII, da CF/88). Isso se justifica por se tratar de uma região estratégica em termos de defesa e de segurança nacional (é a “porta de entrada” de navios mercantes ou de guerra). Enfiteuse (ou aforamento): José dos Santos Carvalho Filho (Manual de Direito Administrativo. 23. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, p. 1311) explica que, em algumas regiões, a União permitiu que particulares utilizassem, de forma privada, imóveis localizados em terrenos de marinha. Como essas áreas pertencem à União, o uso por particulares é admitido pelo regime da enfiteuse (aforamento), que funciona, em síntese, da seguinte forma: · a União (senhorio direto) transfere ao particular (enfiteuta) o domínio útil; · o particular (enfiteuta) passa a ter a obrigação de pagar anualmente uma importância a título de foro ou pensão. O particular (enfiteuta) pode transferir para outras pessoas o domínio útil que exerce sobre o bem? SIM. Tome-se o seguinte exemplo: João reside em uma casa localizada dentro de um terreno de marinha, possuindo, portanto, apenas o domínio útil sobre o bem e pagando, anualmente, o foro. Ocorre que ele quer se mudar. Diante disso, poderá “vender” o domínio útil para outra pessoa. A pessoa que transferir o domínio útil do imóvel terá que pagar algum valor para a União? SIM. A legislação estabelece que a pessoa, antes de efetuar a transferência, deverá pagar 5% do valor do domínio útil à União. Assim, em nosso exemplo, João terá que recolher em favor da União 5% do valor do domínio útil de sua casa pelo simples fato de ela estar localizada em terreno de marinha. Esse valor é chamado de laudêmio e seu pagamento está previsto no art. 3º do Decreto-Lei 2.398/87: Art. 3º A transferência onerosa, entre vivos, do domínio útil e da inscrição de ocupação de terreno da União ou cessão de direito a eles relativos dependerá do prévio recolhimento do laudêmio, em quantia correspondente a 5% (cinco por cento) do valor atualizado do domínio pleno do terreno, excluídas as benfeitorias. Feitas estas considerações, imagine a seguinte situação hipotética: João reside em uma casa localizada dentro de um terreno de marinha, possuindo, portanto, apenas o domínio útil sobre o bem e pagando, anualmente, o foro. João decide vender sua casa para Pedro. Eles celebram um contrato de compra e venda de bem imóvel, mediante escritura pública no Tabelionato de Notas, e o levam para registro no cartório de Registro de Imóveis. Alguns meses depois, a União descobre que houve esta transação e ajuíza contra eles ação anulatória, argumentando que o negócio jurídico foi nulo porque não houve prévio pagamento do laudêmio nem observância das demais formalidades necessárias para a venda do domínio útil. Os requeridos se defendem argumentando que não houve nulidade porque se tratou de mera irregularidade formal, o que não atingiria a essencialidade do ato de compra e venda. Além disso, alegaram que o valor do laudêmio poderia ser cobrado posteriormente. Por fim, sustentaram que o negócio foi registrado em cartório, o que garante publicidade e autenticidade. Afinal de contas, o negócio jurídico realizado foi válido ou não? NÃO. Edificações particulares em terrenos de marinha: Como vimos acima, os terrenos de marinha são bens da União (art. 20, VII, da CF/88). As edificações particulares existentes em terrenos de marinha são, portanto, edificações construídas em bens públicos. Tais bens públicos são da espécie “bens dominicais”. Os bens dominicais são aqueles bens públicos que não estão afetados a uma finalidade pública. Apesar de não estarem sendo utilizados para a realização de uma finalidade pública, o regime jurídico dos bens dominicais é híbrido, ou seja, é regido tanto por normas de direito público como de direito privado. Portanto, o contrato de compra e venda de um bem dominical deve respeitar formalidades legais mais rígidas do que se fosse um bem de um particular. Certidão da SPU: Antes de fazer o contrato, o vendedor deveria ter procurado a Secretaria do Patrimônio da União – SPU a fim de pedir autorização para a realização do negócio. A SPU analisa o pedido e somente irá autorizar a venda se o imóvel não se encontrar em área de interesse do serviço público. Caso autorize o negócio, a SPU irá fazer o cálculo do valor do laudêmio, mediante solicitação do interessado. Depois de pagar o laudêmio, o vendedor levará o comprovante à SPU. A SPU irá, então, analisar toda a documentação e, caso não exista nenhuma pendência relacionada com o vendedor (ex: não está devendo foro), ela irá emitir uma certidão declarando o cumprimento dos requisitos necessários para a venda do domínio útil. Desse modo, ao contrário do que alegam os particulares, o pagamento do laudêmio não é a única formalidade exigida antes da venda do domínio útil do terreno de marinha. Além do pagamento do laudêmio, é indispensável que haja uma autorização da União para a realização do negócio jurídico, por meio da SPU. Prévia autorização da SPU não é mera formalidade: Segundo entende o STJ, a comunicação do negócio jurídico formalizado entre o ocupante e terceiroà SPU não se reveste de ato de mera formalidade, mas se constitui em medida de essencial importância e que produz efeitos jurídicos relevantes, uma vez que a União é a proprietária do terreno de marinha e, nessa qualidade, deverá estar sempre a par e consentir com a utilização de bem que lhe pertence (STJ. 1ª Turma. REsp 1201256/RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 07/12/2010). O tabelião de notas poderia ter lavrado a escritura de compra e venda e o oficial do Registro de Imóveis poderia ter registrado este título sem a prova do pagamento do laudêmio? NÃO. É dever dos tabeliães e registradores, antes de lavrar ou registrar a escritura, exigir a certidão da SPU, na qual estará declarado que houve o pagamento do laudêmio e cumprimento das demais formalidades. Veja o que diz o DL 2.398/87: Art. 3º (...) § 2º Os Cartórios de Notas e Registro de Imóveis, sob pena de responsabilidade dos seus respectivos titulares, não lavrarão nem registrarão escrituras relativas a bens imóveis de propriedade da União, ou que contenham, ainda que parcialmente, área de seu domínio: I - sem certidão da Secretaria do Patrimônio da União - SPU que declare: a) ter o interessado recolhido o laudêmio devido, nas transferências onerosas entre vivos; b) estar o transmitente em dia com as demais obrigações junto ao Patrimônio da União; e b) estar o transmitente em dia, perante o Patrimônio da União, com as obrigações relativas ao imóvel objeto da transferência; e c) estar autorizada a transferência do imóvel, em virtude de não se encontrar em área de interesse do serviço público; (...) 16.7. Venda com reserva de domínio e proteção possessória requerida por vendedor – (Info 573) Ainda que sem prévia ou concomitante rescisão do contrato de compra e venda com reserva de domínio, o vendedor pode, ante o inadimplemento do comprador, pleitear a proteção possessória sobre o bem móvel objeto da avença. STJ. 4ª Turma. REsp 1.056.837-RN, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 3/11/2015 (Info 573). 16.8. Prevalência do valor atribuído pelo fisco para aplicação do art. 108 do CC – (Info 562) – IMPORTANTE!!! (TJRJ-2016) A compra e venda de bens IMÓVEIS pode ser feita por meio de contrato particular ou é necessário escritura pública? · Em regra: é necessário escritura pública (art. 108 do CC). · Exceção: a compra e venda pode ser feita por contrato particular (ou seja, sem escritura pública) se o valor do bem imóvel alienado for inferior a 30 salários-mínimos. Art. 108. Não dispondo a lei em contrário, a escritura pública é essencial à validade dos negócios jurídicos que visem à constituição, transferência, modificação ou renúncia de direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente no País. Para fins do art. 108, deve-se adotar o preço dado pelas partes ou o valor calculado pelo Fisco? O valor calculado pelo Fisco. O art. 108 do CC fala em valor do imóvel (e não em preço do negócio). Assim, havendo disparidade entre ambos, é o valor do imóvel calculado pelo Fisco que deve ser levado em conta para verificar se será necessária ou não a elaboração da escritura pública. A avaliação feita pela Fazenda Pública para fins de apuração do valor venal do imóvel é baseada em critérios objetivos, previstos em lei, os quais admitem aos interessados o conhecimento das circunstâncias consideradas na formação do quantum atribuído ao bem. Logo, trata-se de um critério objetivo e público que evita a ocorrência de fraudes. Obs: está superado o Enunciado 289 das Jornadas de Direito Civil do CJF. STJ. 4ª Turma. REsp 1.099.480-MG, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 2/12/2014 (Info 562). 16.9. Rescisão de compra e venda de imóvel urbano e indenização por acessões ou benfeitorias feitas sem licença da prefeitura – (Info 542) – IMPORTANTE!!! Em ação que busque a rescisão de contrato de compra e venda de imóvel urbano, antes de afastar a indenização pelas benfeitorias ou acessões realizadas sem a obtenção de licença da prefeitura municipal (art. 34, § único, da Lei 6.766/79), é necessário apurar se a irregularidade é insanável. A licença para construir é um requisito imprescindível a qualquer obra realizada em terreno urbano. No entanto, a ausência de licença para construir emitida pela prefeitura municipal é irregularidade que pode ser ou não sanável, a depender do caso concreto: · Se a irregularidade pela falta de licença puder ser sanada e a construção e benfeitorias puderem ser mantidas no imóvel: haverá direito de o possuidor ser indenizado, descontando-se eventuais multas e outras despesas que o vendedor tenha na Prefeitura para regularização. · Se a irregularidade não puder ser sanada e a construção e benfeitorias tiverem que ser retiradas: NÀO haverá direito de o possuidor ser indenizado. Desse modo, antes de decidir sobre a obrigação de indenizar as acessões e benfeitorias, é necessário apurar a situação junto à Prefeitura e eventual necessidade de demolição da obra. A solução acima tem por objetivo evitar o enriquecimento ilícito de qualquer dos litigantes. STJ. 4ª Turma. REsp 1.191.862-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 16/5/14 (Info 542). Obs1: apesar de o art. 1.219 do CC e do art. 34 da Lei 6.766/79 mencionarem apenas “benfeitorias”, a doutrina majoritária e o STJ entendem que o direito de retenção abrange também as acessões (como é o caso de uma casa construída em um terreno). Nesse sentido: STJ. 3ª Turma. Resp 1.316.895/SP, julgado em 11/06/2013. Foi o entendimento consagrado na I Jornada de Direito Civil do CJF/STF: Enunciado 81: O direito de retenção previsto no art. 1.219 do CC, decorrente da realização de benfeitorias necessárias e úteis, também se aplica às acessões (construções e plantações) nas mesmas circunstâncias. Obs2: nas ações possessórias, o direito de retenção deverá ser alegado no momento da contestação, sob pena de preclusão (STJ. 3ª Turma. REsp 1.278.094-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 16/8/2012). 17. CONTRATO DE CORRETAGEM 17.1. É devida a comissão de corretagem ainda que o resultado da intermediação imobiliária tenha sido diferente do negócio que o contratante queria inicialmente celebrar – (Info 640) É devida a comissão de corretagem ainda que o resultado útil da intermediação imobiliária seja negócio de natureza diversa da inicialmente contratada. Ex: Corretor foi contratado para procurar um interessado em comprar o terreno; encontrou um interessado em fazer um contrato de parceria para loteamento urbano; o contrato de parceria foi celebrado; mesmo o terreno não tendo sido vendido, o corretor deverá receber a comissão por ter aproximado as partes, gerando um ganho para o seu contratante. STJ. 3ª Turma. REsp 1765004-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. Acd. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 27/11/2018 (Info 640). OBS: O que é um contrato de corretagem? Pelo contrato de corretagem, o corretor obriga-se a obter para uma pessoa que o contrata (denominada “cliente” ou “comitente”) um ou mais negócios, conforme as instruções recebidas (art. 722, CC). O contrato de corretagem está previsto, de forma genérica, nos arts. 722 a 729 do CC. Para Araken de Assis, a corretagem “é um contrato de colaboração por aproximação, talvez o mais expressivo, pois a atividade de corretor aproxima, por definição, os futuros contratantes, prestando inestimável incremento ao comércio jurídico” (Contratos nominados. Vol. 2, 2ª ed, São Paulo: Saraiva, 2009, p. 265). Quando se fala neste contrato, normalmente as pessoas só se lembram da corretagem de imóveis. No entanto, existem outras espécies de corretagem, como é o caso do corretor de ações na Bolsa de Valores ou o corretor de mercadorias (bens móveis). No caso do corretor de imóveis, a profissão está regulamentada pela Lei n.° 6.530/78 e pelo Decreto n.° 81.871/78. Comissão de corretagem: Como remuneração pelo serviço prestado, o corretor receberá o pagamento de uma quantia, que é chamada de “comissão de corretagem”. A remuneração é devida ao corretor uma vez que tenha conseguidoo resultado previsto no contrato de mediação, ou ainda que este não se efetive em virtude de arrependimento das partes (art. 725). Qual é o valor da comissão de corretagem? O valor da comissão de corretagem deverá estar previsto na lei ou no contrato firmado entre as partes. E se não estiver previsto na lei nem no contrato? Neste caso, este valor será arbitrado segundo a natureza do negócio e os usos locais (art. 724 do CC). Não há lei estipulando o valor da comissão de corretagem na venda de imóveis. Aplica-se, portanto, os usos e costumes. No dia-a-dia imobiliário, quando não há previsão contratual, deverá ser pago ao corretor 6% sobre o valor do imóvel urbano vendido, conforme prevê a tabela do CRECI. De quem é a responsabilidade pelo pagamento da comissão de corretagem: do vendedor ou do comprador? • Regra: a obrigação de pagar a comissão de corretagem é daquele que efetivamente contrata o corretor (não importa se é o comprador ou o vendedor). • Exceção: o contrato firmado entre as partes e o corretor poderá dispor em sentido contrário, ou seja, poderá prever que comprador e vendedor irão dividir o pagamento, que só o vendedor irá pagar etc. STJ. 3ª Turma. REsp 1288450-AM, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 24/2/2015 (Info 556). Contrato informal: O contrato de corretagem é informal, podendo ser escrito ou verbal. Imagine agora a seguinte situação hipotética: João, proprietário de uma grande gleba de terra, procurou Pedro (corretor de imóveis) pedindo seu auxílio profissional com o objetivo de encontrar um comprador para a área. Celebraram um “contrato de prestação de serviços de corretagem” no qual ficou combinado que Pedro iria empreender esforços para encontrar um comprador para o imóvel e, caso a venda se concretizasse, ele receberia 6% sobre o valor do negócio a título de comissão de corretagem. O objeto do contrato era intermediar a venda do terreno de João. Como contraprestação, Pedro receberia 6% do valor obtido com a venda. O prazo de duração do contrato era de 3 meses. Pedro ofereceu o imóvel para uma imobiliária, que se interessou pela terra a fim de construir ali um loteamento campestre, ou seja, um condomínio de casas para passar o fim de semana e feriados. Ocorre que a imobiliária não quis comprar o imóvel e fez uma contraproposta a João: em vez de você me vender o imóvel, vamos fazer um “contrato de compromisso de parceria para loteamento urbano” no qual eu (imobiliária) me comprometo a fazer o loteamento do terreno e venda dos lotes, recebendo, como pagamento, metade do valor arrecadado com a futura comercialização das unidades para os interessados. João aceitou e o contrato de parceria para loteamento urbano. Loteamento é a subdivisão de uma área de terra, não urbanizada, em unidades de terreno servidas de infraestrutura básica destinada à edificação e com abertura de novas vias de circulação, logradouros públicos, modificação ou ampliação de vias existentes, ou seu prolongamento etc. Quando Pedro (o corretor) foi cobrar a sua comissão de João, este disse que não lhe devia nada, considerando que o contrato de corretagem previa o pagamento de comissão em caso de venda do imóvel. Ocorre que não houve venda do terreno, tendo sido celebrado um contrato de parceria para a formação de um loteamento urbano. João invocou o art. 725 do Código Civil como fundamento legal para recusar o pagamento da comissão: Art. 725. A remuneração é devida ao corretor uma vez que tenha conseguido o resultado previsto no contrato de mediação, ou ainda que este não se efetive em virtude de arrependimento das partes. Assim, como a causa do contrato não se concretizou, não é possível fixar o pagamento de remuneração tendo ele como base. O corretor terá direito à comissão? É devida a comissão de corretagem mesmo quando o resultado obtido com a intermediação é diverso daquele inicialmente contratado? SIM. É devida a comissão de corretagem ainda que o resultado útil da intermediação imobiliária seja negócio de natureza diversa da inicialmente contratada. STJ. 3ª Turma. REsp 1.765.004-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. Acd. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 27/11/2018 (Info 640). Ficou demonstrado que o corretor efetivamente promoveu a aproximação entre João e a imobiliária. Esse trabalho não pode ser ignorado. Por outro lado, deve-se reconhecer um inegável benefício patrimonial obtido por João com a parceria realizada com a imobiliária. Com efeito, o que antes era uma gleba de terra rural, sem uso e benfeitorias, acabou se transformando em um empreendimento imobiliário de grande porte, um verdadeiro bairro planejado, dividido em diversos lotes destinados à construção civil de uso residencial, cujos valores das vendas alcançarão montante muito superior ao inicialmente pretendido. Em razão desse resultado útil, o STJ entendeu que a atuação do corretor, que promoveu a aproximação do contratante com a imobiliária deve sim ser remunerada. Mutatis mutandis, pode-se citar julgado antigo do STJ no mesmo caminho: (...) Aperfeiçoa-se o contrato de corretagem se a aquisição imobiliária resultante da seleção de lotes se concretiza em face da aproximação realizada pela empresa intermediária, ainda que a forma de pagamento tenha sido diversa daquela originariamente prevista. (...) STJ. 4ª Turma. REsp 476.472/SC, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, j. 11/11/2003. Qual será a base de cálculo da comissão de corretagem? Em outras palavras, os 6% da comissão de corretagem serão calculados sobre o valor inicial do terreno ou sobre o terreno após o loteamento? Sobre o valor inicial do terreno. Seria desarrazoado admitir que a base de cálculo do percentual da comissão de corretagem fosse o valor de mercado do imóvel já loteado, com toda a infraestrutura posteriormente implementada pela empresa loteadora. 17.2. Responsabilidade pelo pagamento da comissão de corretagem – (Info 556) De quem é a responsabilidade pelo pagamento da comissão de corretagem: do vendedor ou do comprador? · Regra: a obrigação de pagar a comissão de corretagem é daquele que efetivamente contrata o corretor (não importa se é o comprador ou o vendedor). · Exceção: o contrato firmado entre as partes e o corretor poderá dispor em sentido contrário, ou seja, poderá prever que comprador e vendedor irão dividir o pagamento, que só o vendedor irá pagar etc. A remuneração do corretor, se não foi fixada no contrato nem na lei, será arbitrada segundo a natureza do negócio e os usos locais. No dia-a-dia imobiliário, não havendo previsão contratual, deverá ser pago ao corretor 6% sobre o valor do imóvel urbano vendido. STJ. 3ª Turma. REsp 1.288.450-AM, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 24/2/15 (Info 556). 18. CONTRATO DE SEGURO 18.1. CONSÓRCIO: Se o consorciado faleceu durante o consórcio e o seguro prestamista quitou todo o saldo devedor, a administradora do consórcio deverá fazer a liberação imediata da carta de crédito – (Info 596 e Info 644) A beneficiária do consorciado falecido tem direito à liberação imediata da carta de crédito, em razão da quitação do saldo devedor pelo seguro prestamista contratado, independentemente da efetiva contemplação ou do encerramento do grupo. João celebrou com a “Itaú Consórcios” contrato de participação em grupo de consórcio destinado à aquisição de um automóvel. Neste contrato, havia uma cláusula prevendo seguro de vida e proteção financeira, ou seja, um seguro prestamista com cobertura para o risco de morte. Isso significa que havia uma espécie de seguro de vida como pacto acessório ao contrato de consórcio. Por meio deste seguro prestamista, a administradora do consórcio afirmou o seguinte: se o contratante falecer antes de quitar todas as parcelas do consórcio, a contratada (Itaú Consórcios) irá quitar o saldo devedor relativo à cota do consorciado falecido. Antes do fim do consórcio, João faleceu. Ocorre que a administradora do consórcio recusou-se a fazer a liberação imediata da carta de crédito dizendo que o herdeiro de João teria que aguardar ser sorteadoou esperar terminar o consórcio. A Lei 11.795/08 (Lei dos Consórcios) não trouxe previsão específica acerca da situação de falecimento do consorciado que aderiu ao pacto prestamista, tampouco da possibilidade de o(s) beneficiário(s) fazerem jus ao recebimento da carta de crédito. O Banco Central do Brasil - órgão regulador e fiscalizador das operações do segmento - com competência para disciplinar normas suplementares quanto ao tema, tampouco normatizou específica situação. O STJ não concordou com a postura da administradora e disse que a liberação, nestes casos, deve ser imediata, não havendo lógica em se aguardar, considerando que já houve a liquidação antecipada da dívida pela seguradora. Com base na própria função social do contrato, se existe previsão contratual de seguro prestamista vinculado ao contrato de consórcio, não há lógica em se exigir que o beneficiário aguarde a contemplação do consorciado falecido ou o encerramento do grupo, para o recebimento da carta de crédito, uma vez que houve a liquidação antecipada da dívida (saldo devedor) pela seguradora, não importando em qualquer desequilíbrio econômico-financeiro ao grupo consorcial. STJ. 3ª T. REsp 1770358-SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 19/3/19 (Info 644). STJ. 4ª T. REsp 1406200-AL, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 17/11/16 (Info 596). 18.2. É abusiva cláusula prevista em seguro de acidentes pessoais que exclua complicações decorrentes de gravidez, parto, aborto, intoxicações alimentares, exames e tratamentos – (Info 640) – IMPORTANTE!!! - (TJSC-2019) É abusiva a exclusão do seguro de acidentes pessoais em contrato de adesão para as hipóteses de: a) gravidez, parto ou aborto e suas consequências; b) perturbações e intoxicações alimentares de qualquer espécie; e c) todas as intercorrências ou complicações consequentes da realização de exames, tratamentos clínicos ou cirúrgicos. STJ. 3ª Turma. REsp 1635238-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 11/12/2018 (Info 640). (TJSC-2019-CESPE): No que se refere à relação entre seguradoras e consumidores, assinale a opção correta à luz do CDC e do entendimento do STJ: É abusiva a exclusão do seguro de acidentes pessoais em contrato de adesão para as hipóteses de intercorrências ou complicações consequentes da realização de exames, tratamentos clínicos ou cirúrgicos. BL: Info 640, STJ. OBS: As complicações decorrentes de gravidez, parto, aborto, perturbações e intoxicações alimentares, intercorrências ou complicações consequentes da realização de exames, tratamentos clínicos ou cirúrgicos constituem eventos imprevisíveis, fortuitos e inserem-se dentro do conceito de “acidente pessoal” de forma que qualquer cláusula excludente da cobertura é efetivamente abusiva porque limita os direitos do consumidor. Inserir cláusula de exclusão de risco em contrato padrão, cuja abstração e generalidade abarquem até mesmo as situações de legítimo interesse do segurado quando da contratação da proposta, representa imposição de desvantagem exagerada ao consumidor, por confiscar-lhe justamente o conteúdo para o qual se dispôs ao pagamento do prêmio. Desse modo, esta cláusula é nula, nos termos do art. 51, IV, do CDC: Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: (...) IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade; Curiosidade: qual é a diferença entre seguro de vida e seguro de acidentes pessoais? No seguro de vida a cobertura de morte abarca causas naturais e também causas acidentais. Por outro lado, o seguro de acidentes pessoais engloba apenas os infortúnios causados por acidente pessoal, a exemplo da morte acidental. Assim, o seguro de acidentes pessoais não indeniza o beneficiário em caso de morte natural. Para fins securitários, a morte acidental evidencia-se quando o falecimento da pessoa decorre de acidente pessoal, sendo este definido como um evento súbito, exclusivo e diretamente externo, involuntário e violento. Já a morte natural, configura-se por exclusão, ou seja, por qualquer outra causa, como as doenças em geral, que são de natureza interna, feita exceção às infecções, aos estados septicêmicos e às embolias resultantes de ferimento visível causado em decorrência de acidente coberto (Resolução CNSP nº 117/2004). Ex: o falecimento decorrente de AVC é considerado uma morte natural. Apesar da denominação “acidente vascular cerebral”, o AVC é uma patologia, ou seja, não decorre de causa externa, mas de fatores internos e de risco da saúde da própria pessoa que levam à sua ocorrência. Assim, contratado o seguro de acidentes pessoais (garantia por morte acidental), não há falar em obrigação da seguradora em indenizar o beneficiário quando a morte do segurado é decorrente de causa natural, a exemplo da doença conhecida como acidente vascular cerebral (AVC), desencadeada apenas por fatores internos à pessoa. STJ. 3ª Turma. REsp 1443115/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 21/10/2014. 18.3. A seguradora não pode se recusar a contratar seguro com o consumidor que tenha restrição de crédito se ele se comprometer a pagar à vista – (Info 640) – IMPORTANTE!!! (TJSC-2019) A seguradora não pode recusar a contratação de seguro a quem se disponha a pronto pagamento se a justificativa se basear unicamente na restrição financeira do consumidor junto a órgãos de proteção ao crédito. STJ. 3ª Turma. REsp 1594024-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 27/11/18 (Info 640). OBS: Em regra, é proibida a recusa de venda direta de produto ou serviço: Em uma relação de consumo, a recusa de venda direta de produto ou serviço constitui conduta abusiva para aquele que se dispuser a adquiri-lo mediante pronto pagamento, exceto nos casos de intermediação previstos em normas especiais. É o que prevê o art. 39, IX, do CDC: Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: (...) IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais; Essa regra é mitigada nos contratos de seguro: Nas relações securitárias, a interpretação do art. 39, IX, do CDC é mitigada. Isso significa que, em tese, a seguradora pode se recusar a fazer contrato de seguro, desde que haja uma justificativa para isso. Assim, existem situações em que a recusa se justifica porque o contrato de seguro envolve a análise do risco pela seguradora, não podendo isso ser ignorado. Vale ressaltar que, se não aceitar a proposta de seguro, a seguradora é obrigada a fazer uma comunicação formal ao contratante, justificando o motivo da recusa (art. 2º, § 4º, da Circular nº 251/2004 da Superintendência de Seguros Privados - SUSEP). Se o interessado em fazer o seguro possui uma restrição financeira, a seguradora poderá se recusar a assinar o contrato? Depende: • Se o pagamento do prêmio for parcelado: SIM. Neste caso, será legítima a recusa. Isso porque se trata de uma venda a crédito. • Se o pagamento do prêmio for à vista: NÃO. Aí a recusa será abusiva porque não haverá uma justificativa razoável. Em outras palavras, as seguradoras não podem justificar a aludida recusa com base apenas no passado financeiro do consumidor, se o pagamento for à vista. Vale ressaltar que, segundo o STJ, a seguradora poderá elevar o valor do prêmio, diante do aumento do risco, dado que a pessoa com restrição de crédito é mais propensa a sinistros. 18.4. Ainda que contrato preveja a exclusão da cobertura em caso de embriaguez do segurado e mesmo que o acidente tenha sido causado por essa embriaguez, a seguradora será obrigada a indenizar a vítima, já que essa cláusula é ineficaz perante terceiros – (Info 639) – Atenção! Mudança de Entendimento! No contrato de seguro de automóvel, é lícita a cláusula que exclui a cobertura securitária para o caso de o acidente de trânsito(sinistro) ter sido causado em decorrência da embriaguez do segurado. No entanto, esta cláusula é ineficaz perante terceiros (garantia de responsabilidade civil). Isso significa que, mesmo que contrato preveja a exclusão da cobertura em caso de embriaguez do segurado, a seguradora será obrigada a indenizar a vítima (terceiro) caso o acidente tenha sido causado pelo segurado embriagado. Em outras palavras, não se pode invocar essa cláusula contra a vítima. Depois de indenizar a vítima, a seguradora poderá exigir seu direito de regresso contra o segurado (causador do dano). A garantia de responsabilidade civil não visa apenas proteger o interesse econômico do segurado tendo, também como objetivo preservar o interesse dos terceiros prejudicados. O seguro de responsabilidade civil se transmudou após a edição do Código Civil de 2002, de forma que deixou de ser apenas uma forma de reembolsar as indenizações pagas pelo segurado e passou a ser também um meio de proteção das vítimas, prestigiando, assim, a sua função social. É inidônea a exclusão da cobertura de responsabilidade civil no seguro de automóvel quando o motorista dirige em estado de embriaguez, visto que somente prejudicaria a vítima já penalizada, o que esvaziaria a finalidade e a função social dessa garantia, de proteção dos interesses dos terceiros prejudicados à indenização, ao lado da proteção patrimonial do segurado. STJ. 3ª Turma. REsp 1738247-SC, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 27/11/18 (Info 639). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: John celebrou, com a Marine Seguradora, um contrato de seguro do seu veículo (um Porsche 918 Spyder). No contrato há uma cláusula prevendo que fica excluída a cobertura securitária em caso de embriaguez do condutor (embriaguez ao volante): “Cláusula 2.3.1 – Há perda do direito à indenização caso fique comprovado que, no momento do sinistro, o veículo estava sendo conduzido por pessoa sob efeito de álcool, drogas ou outras substâncias psicotrópicas, devendo, nesta hipótese, a seguradora comprovar o nexo de causalidade entre o estado de embriaguez ou entorpecente e o evento que provocou os danos.” Esta cláusula, presente no seguro de AUTOMÓVEL, é válida? SIM. No caso de seguro de veículos, é válida a cláusula contratual que preveja a exclusão da indenização caso os danos ao automóvel tenham sido causados pela embriaguez do segurado. E se fosse um seguro de VIDA? É válida a cláusula, no contrato de seguro de vida, que preveja a exclusão da cobertura securitária se a morte foi decorrente de embriaguez? NÃO. É vedada a exclusão de cobertura do seguro de vida na hipótese de sinistro ou acidente decorrente de atos praticados pelo segurado em estado de embriaguez. Tal cláusula é abusiva, com base nos arts. 3º, § 2º, e 51, IV, do CDC. Súmula 620-STJ: A embriaguez do segurado não exime a seguradora do pagamento da indenização prevista em contrato de seguro de vida. Esqueçamos o seguro de vida e voltemos ao exemplo que trata sobre seguro de automóvel: Alguns meses depois de ter feito o seguro, John saía de uma festa e, completamente embriagado, perdeu a direção do veículo, passou para a contramão e acertou o carro de Pedro. Ficou comprovado que a causa determinante do acidente foi a embriaguez de John. Felizmente, não houve vítimas fatais, mas Pedro saiu muito lesionado e com seu carro destruído. Pedro procura um advogado para pleitear seus direitos. Hipótese 1. Indaga-se: Pedro (terceiro prejudicado), sabendo que John possui seguro, pode deixar de lado o causador do dano e ajuizar ação de indenização apenas contra a Seguradora cobrando seu prejuízo? NÃO. O terceiro prejudicado não pode ajuizar, direta e exclusivamente, ação judicial em face da seguradora do causador do dano. Esse entendimento encontra-se materializado em uma súmula: Súmula 529-STJ: No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano. Obs: a súmula fala em “seguro de responsabilidade civil facultativo” para deixar claro que está tratando daquele seguro que os proprietários de carro fazem espontaneamente com a seguradora. O objetivo foi deixar claro que a súmula não está tratando sobre o seguro DPVAT, que é um seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre. Vamos supor uma segunda hipótese. Pedro ajuizou a ação de indenização apenas contra John cobrando as despesas do conserto. John poderá fazer a denunciação da lide à seguradora? SIM, nos termos do art. 125, II, do CPC/2015: Art. 125. É admissível a denunciação da lide, promovida por qualquer das partes: (...) II - àquele que estiver obrigado, por lei ou pelo contrato, a indenizar, em ação regressiva, o prejuízo de quem for vencido no processo. Desse modo, a Seguradora comparece em juízo aceitando a denunciação da lide feita pelo réu, contestando o mérito do pedido do autor e assumindo, assim, a condição de litisconsorte passiva. É admitida a condenação direta da seguradora denunciada? Em outras palavras, a seguradora denunciada pode ser condenada a pagar diretamente a Pedro (autor da ação), isto é, sem que John pague antes e depois o seguro faça apenas o ressarcimento? SIM. Em ação de indenização, se o réu (segurado) denunciar a lide à seguradora, esta poderá ser condenada, de forma direta e solidária, a indenizar o autor da ação: Súmula 537-STJ: Em ação de reparação de danos, a seguradora denunciada, se aceitar a denunciação ou contestar o pedido do autor, pode ser condenada, direta e solidariamente junto com o segurado, ao pagamento da indenização devida à vítima, nos limites contratados na apólice. Nesta situação acima relatada, o juiz irá condenar John e a Seguradora, de modo que Pedro poderá executar tanto o denunciante (John) como a denunciada (Seguradora). Isso é bom porque a vítima não será obrigada a perseguir seu direito somente contra o autor do dano (John), o qual poderia, em tese, não ter condições de arcar com a condenação. Obs: a seguradora pode recusar a denunciação da lide, desde que tenha uma razão jurídica para isso (ex: o contrato com o segurado já havia expirado). Neste caso, ela não poderá ser condenada junto com o segurado, ao pagamento da indenização. Vamos agora imaginar uma terceira e última hipótese. Pedro poderá ajuizar a ação de indenização contra John e a Seguradora em litisconsórcio passivo? SIM. Conforme vimos na hipótese 1, não é cabível a propositura de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado como causador do dano (Súmula 529-STJ). Contudo, a seguradora é parte legítima para figurar no polo passivo da demanda em litisconsórcio com o segurado (STJ. 4ª Turma.AgRg no AREsp 693.981/SC, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 19/10/2017). Esse ajuizamento direto é permitido porque, atualmente, o STJ não mais adota a “teoria do reembolso”. Pela teoria do reembolso, o segurado deveria primeiro indenizar o terceiro lesado pelo evento danoso para que, então, a seguradora o reembolsasse das despesas até o limite previsto na apólice. Ocorre que tal exigência conduzia a situações de grande injustiça perante as vítimas inocentes (terceiros) do sinistro, pois, em muitas oportunidades, o segurado não possui patrimônio suficiente para suportar as despesas dos danos causados a terceiros, deixando as seguradoras em uma cômoda posição frente ao seguro de responsabilidade civil, pois nada havia para reembolsar ao segurado que nada despendera. Dessa forma, “o contrato de seguro facultativo de responsabilidade civil, previsto no art. 787 do Código Civil, não pode mais servir como ‘instrumento de reembolso’, tendo por condição o pagamento incerto e duvidoso feito à vítima pelo fragilizado segurado, sob pena de tornar a garantia do patrimônio do terceiro, prometida pela seguradora, ineficaz.” (Min. Paulo de Tarso Sanseverino). Imaginemos que ocorreu a terceira hipótese: Pedro ajuizou ação de indenização por danos morais e materiaiscontra John e a Seguradora, em litisconsórcio passivo. A Seguradora contestou a demanda afirmando que não é devida a indenização securitária, considerando que se aplica, no caso, a cláusula contratual de exclusão expressa do risco nas hipóteses de embriaguez do condutor do veículo segurado. Em outras palavras, a Seguradora afirmou que o contrato prevê expressamente que ela não deve indenizar em caso de sinistro causado por embriaguez do condutor e que essa cláusula é considerada lícita pela jurisprudência. Esse argumento da Seguradora foi acolhido pelo STJ? NÃO. Vamos entender com calma. Coberturas do seguro de veículos: Dentro do nome “contrato de seguro de veículos”, podemos encontrar três modalidades diferentes de seguros constantes de uma mesma apólice: a) o seguro de dano (veículo); b) o seguro de vida (segurado, motorista, passageiros); c) o seguro facultativo de responsabilidade civil (terceiros). Não é o segurado que está cobrando a seguradora, mas sim o terceiro: Importante deixar claro, inicialmente, que não se está discutindo pedido do segurado para que a Seguradora pague os seus prejuízos. Não se está discutindo o conserto do Porsche. O debate aqui envolve o pedido feito pela vítima do acidente de trânsito que postula conjuntamente contra o segurado e a seguradora o pagamento da indenização, ou seja, trata-se da cobertura de responsabilidade civil por danos praticados pelo segurado contra terceiros. Essa é uma cobertura presente comumente nos seguros de automóvel. A cláusula 2.3.1 é ineficaz perante terceiros: Nesse contexto, deve-se considerar que a cláusula que exclui a cobertura securitária na hipótese de o acidente de trânsito advir da embriaguez do segurado é uma cláusula válida (não possui nulidade), mas ineficaz perante terceiros. A cláusula de exclusão de cobertura securitária na hipótese de o sinistro ter sido causado por embriaguez do segurado tem seu alcance eficacial restrito ao segurado, sendo ineficaz perante terceiros, vítimas inocentes do evento danoso, em face das peculiaridades do contrato de seguro facultativo de responsabilidade civil (art. 787 do Código Civil). Do contrário, se entendêssemos que essa cláusula é eficaz perante terceiros, estaria sendo punida a vítima que não concorreu para a ocorrência do dano. Logo, não é correta a exclusão da cobertura de responsabilidade civil por danos a terceiros no seguro de automóvel quando o motorista dirige em estado de embriaguez, visto que somente prejudicaria a vítima já penalizada, o que esvaziaria a finalidade e a função social dessa garantia, de proteção dos interesses dos terceiros prejudicados à indenização, ao lado da proteção patrimonial do segurado. Função social do contrato de seguro: A função social do contrato de seguro facultativo de responsabilidade civil perante terceiros vai muito além do simples reembolso ao segurado, apresentando-se como verdadeiro instrumento de garantia aos terceiros prejudicados, vítimas inocentes do sinistro provocado pelo segurado. Sua finalidade é voltada ao interesse coletivo, beneficiando os terceiros inocentes, não se restringindo ao interesse individual do segurado. Na relação entre segurado e seguradora, a cláusula é válida e eficaz: Perante o segurado, a cláusula de exclusão da cobertura é válida e eficaz. Isso significa, por exemplo, que no exemplo dado: • a Seguradora não estaria obrigada a reparar os danos causados ao veículo do segurado; • a Seguradora, após indenizar a vítima (Pedro), poderá ingressar com ação de regresso contra o segurado (John) pedindo o ressarcimento pelos valores pagos. 18.5. O contratante do seguro de vida em grupo não tem direito à renovação da apólice sem a concordância da seguradora nem pode exigir a restituição dos prêmios pagos – (Info 622) Não é abusiva a cláusula contratual que prevê a possibilidade de não renovação automática do seguro de vida em grupo por qualquer dos contratantes, desde que haja prévia notificação da outra parte. À exceção dos contratos de seguro de vida individuais, contratados em caráter vitalício ou plurianual, nos quais há a formação de reserva matemática de benefícios a conceder, as demais modalidades são geridas sob o regime financeiro de repartição simples, de modo que os prêmios arrecadados do grupo de segurados ao longo do período de vigência do contrato destinam-se ao pagamento dos sinistros ocorridos naquele período. Dessa forma, nos contratos de seguro de vida em grupo não há direito à renovação da apólice sem a concordância da seguradora ou à restituição dos prêmios pagos em contraprestação à cobertura do risco no período delimitado no contrato. Vale ressaltar que a seguradora pode decidir não mais renovar o contrato de seguro de vida, mesmo que não comprove que houve desequilíbrio atuarial-financeiro. Trata-se de um verdadeiro direito potestativo. STJ. 2ª Seção. REsp 1569627-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 22/2/18 (Info 622). OBS: O que é o contrato de seguro? No contrato de seguro, “o segurador se obriga, mediante o pagamento do prêmio, a garantir interesse legítimo do segurado, relativo a pessoa ou a coisa, contra riscos predeterminados” (art. 757 do CC). Em outras palavras, no contrato de seguro, uma pessoa física ou jurídica (chamada de “segurada”) paga uma quantia denominada de “prêmio” para que uma pessoa jurídica (“seguradora”) assuma determinado risco. Caso o risco se concretize (o que chamamos de “sinistro”), a seguradora deverá fornecer à segurada uma quantia previamente estipulada (indenização). Ex.: João celebra um contrato de seguro do seu veículo com a seguradora X e todos os meses paga R$ 100,00 como prêmio; se, por exemplo, o carro for roubado (sinistro), a seguradora deverá pagar R$ 30 mil a título de indenização para o segurado. Nomenclaturas utilizadas nos contratos de seguro: · Risco: é a possibilidade de ocorrer o sinistro. Ex.: risco de morte. · Sinistro: o sinistro é o risco concretizado. Ex.: morte. · Apólice (ou bilhete de seguro): é um documento emitido pela seguradora, no qual estão previstos os riscos assumidos, o início e o fim de sua validade, o limite da garantia e o prêmio devido e, quando for o caso, o nome do segurado e o do beneficiário. · Prêmio: é a quantia paga pelo segurado para que o segurador assuma o risco. O prêmio deve ser pago depois de recebida a apólice. O valor do prêmio é fixado a partir de cálculos atuariais e o seu valor leva em consideração os riscos cobertos. · Indenização: é o valor pago pela seguradora caso o risco se concretize (sinistro). Feitos estes esclarecimentos, imagine a seguinte situação hipotética: João da Silva e outros ajuizaram ação contra a Caixa Seguradora S/A, alegando que são funcionários da Caixa Econômica Federal e, nessa condição, firmaram com a seguradora ré contrato de seguro de vida em grupo. Afirmam que os valores relativos aos prêmios do seguro sempre foram descontados diretamente em folha de pagamento, razão pela qual nunca houve atraso da parte deles no cumprimento do contrato. Sustentam que o contrato chegou ao fim e que a seguradora enviou carta aos requerentes comunicando que não possuía interesse na renovação do pacto. Ressalta-se que havia uma cláusula no contrato prevendo que o pacto tinha prazo determinado, sendo possível a sua renovação automática, salvo se a seguradora ou segurado comunicasse o desinteresse nessa renovação 30 dias antes do término da vigência. Os autores argumentaram que essa cláusula seria abusiva e que a seguradora deveria ser obrigada a: • renovar a apólice; ou • restituir os prêmios pagos pelos segurados. A tese dos autores foi acolhida pelo STJ? NÃO. Nos contratos de seguro de vida em grupo não há direito à renovação da apólice sem a concordância da seguradora ou à restituição dos prêmios pagos em contraprestação à cobertura do risco no período delimitado no contrato. STJ. 2ª Seção. REsp 1.569.627-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, j. 22/02/2018 (Info 622). Contrato de seguro de vida: Por força do contrato de seguro de vida, a seguradora recebe uma contraprestação(prêmio) e, em troca, garante interesse legítimo do segurado, relativo à sua pessoa, contra riscos predeterminados durante o período de vigência do contrato. Veja o que diz o Código Civil: Art. 757. Pelo contrato de seguro, o segurador se obriga, mediante o pagamento do prêmio, a garantir interesse legítimo do segurado, relativo a pessoa ou a coisa, contra riscos predeterminados. (...) Art. 794. No seguro de vida ou de acidentes pessoais para o caso de morte, o capital estipulado não está sujeito às dívidas do segurado, nem se considera herança para todos os efeitos de direito. Do contrato de seguro de vida é possível extrair duas características principais: a) mutualismo das obrigações; b) temporariedade contratual. Mutualismo das obrigações: Mutualismo (ou mutualidade) no contrato de seguro significa que o custo do risco individual (ex: morrer, ficar inválido etc.) será dissolvido solidariamente entre todos os “clientes” da seguradora. Todos os contratantes do seguro pagam os prêmios a que se obrigam, mas só uma pequena parte irá receber a indenização. Isso porque o sinistro não acontecerá para todos. Assim, o dinheiro pago por aqueles cujo risco não se concretizou será utilizado também para custear a indenização que será paga aos que sofreram o risco. Veja como Carlos Roberto Gonçalves explica o tema: “O mecanismo do contrato de seguro assenta-se no princípio da mutualidade dos segurados. A empresa seguradora privada nada mais é do que uma intermediária que recolhe os prêmios pagos pelos segurados e os utiliza para pagar as indenizações pelos sinistros ocorridos. Dessa forma, são os próprios milhares de segurados que pagam as indenizações devidas. O prêmio é fixado de antemão com base em cálculos atuariais, que se apoiam na análise das probabilidades. Os dados estatísticos mostram a incidência dos sinistros num determinado risco e possibilitam ao analista estabelecer, com precisão, qual será a referida incidência em futuro próximo. Com base nesses dados fixa o segurador a taxa de seguro, suficiente para pagar todas as indenizações e ainda proporcionar-lhe um lucro razoável.” (Direito Civil brasileiro. Vol. 3., 9ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012, p. 398). Temporariedade do contrato de seguro de vida: Em regra, o contrato de seguro de vida é por prazo determinado. A temporariedade dos contratos de seguro de vida existe pelo fato de que a seguradora precisa, periodicamente, avaliar, por meio de cálculos atuarias, a higidez e a idoneidade do fundo formado pelas arrecadações dos segurados a fim de se ter certeza que os recursos disponíveis serão suficientes para cobrir as indenizações. Isso é chamado de adequação atuarial. Assim, por exemplo, se os níveis de homicídio aumentam significativamente na região, isso deverá ser, obrigatoriamente, levado em consideração no momento de se calcular o valor do prêmio pago pelo segurado no contrato do seguro de vida. Se o contrato fosse, como regra, vitalício, essa análise não poderia ser feita periodicamente. Mas existe a possibilidade de o contrato de seguro de vida ser vitalício? SIM. Existe a possibilidade de, excepcionalmente, o contrato de seguro de vida INDIVIDUAL ser vitalício. No entanto, para que isso ocorra as partes deverão ajustar expressamente até porque as bases contratuais serão diferenciadas tendo em vista que os cálculos atuariais deverão observar regime financeiro próprio. O seguro de vida vitalício, ainda que expressa e excepcionalmente possa ser assim contratado, somente admite a forma individual. Em outras palavras, não existe a possibilidade de contrato de seguro de vida em grupo (coletivo) vitalício. Se o risco não se concretizar durante o prazo de vigência do contrato, não há razão para devolver o prêmio: Em se tratando de contrato por prazo determinado, a obrigação da seguradora (garantir os riscos combinados previamente) restringe-se ao período contratado. Se o risco se concretizar durante o período contratado, a seguradora será responsável pelo pagamento da respectiva cobertura. Em contrapartida, se o risco não ocorrer durante o prazo de vigência do contrato, não significa que tenha havido qualquer inadimplemento contratual por parte da seguradora. Logo, mesmo que o risco não se concretize, o segurado não tem o direito de reaver os valores pagos ou sequer um percentual destes. Se houvesse essa devolução, isso iria descaracterizar um dos pilares do contrato de seguro, que é justamente o mutualismo. Da mesma forma, o segurado não terá como exigir da seguradora que mantenha o vínculo contratual. Cláusula que permite a não-renovação é válida: Assim, a cláusula contratual que autoriza a não renovação do contrato de seguro de vida em grupo, concedida tanto para a seguradora como para o segurado, não configura procedimento abusivo, sendo decorrente da própria natureza do contrato. Esta cláusula encontra-se em perfeita harmonia com o princípio do mutualismo. Nos contratos individuais vitalícios é possível a restituição da reserva já formada: Apenas nos contratos individuais, desde que vitalícios ou plurianuais, há a formação de provisão matemática de benefícios a conceder, calculada atuariamente no início do contrato, a qual possibilita a manutenção nivelada do prêmio, que permanece inalterado mesmo com o envelhecimento do segurado e o aumento do risco. Por outro lado, em caso de resolução dessa espécie de contrato no curso de sua vigência, cabe a restituição da reserva já formada aplicando-se a regra estabelecida no art. 796, parágrafo único, do CC/2002, de modo a evitar o enriquecimento sem causa do segurador: Art. 796. O prêmio, no seguro de vida, será conveniado por prazo limitado, ou por toda a vida do segurado. Parágrafo único. Em qualquer hipótese, no seguro individual, o segurador não terá ação para cobrar o prêmio vencido, cuja falta de pagamento, nos prazos previstos, acarretará, conforme se estipular, a resolução do contrato, com a restituição da reserva já formada, ou a redução do capital garantido proporcionalmente ao prêmio pago. Nos contratos de seguro coletivos o regime financeiro é o da repartição simples: Nos contratos de seguro coletivos o prazo é determinado e o regime financeiro é o de repartição simples. Os prêmios arrecadados do grupo de segurados ao longo do período de vigência do contrato destinam-se ao pagamento dos sinistros ocorridos naquele período. Não se trata de contrato de capitalização. Quando o contrato é encerrado, não importa quantas vezes tenha sido renovado, não há reserva matemática vinculada a cada participante e, portanto, não há direito à renovação da apólice sem a concordância da seguradora nem à restituição dos prêmios pagos em contraprestação à cobertura do risco no período delimitado no contrato. Assim, mesmo que o segurado tenha se mantido vinculado à apólice coletiva por décadas, não se formou uma poupança, pecúlio ou plano de previdência, que lhe garantiria, ou a seus beneficiários, segurança na velhice. Suas contribuições (prêmio), ano a ano, esgotaram-se na cobertura dos sinistros do grupo no período, realizadas, como já enfatizado, pelo sistema de repartição simples. 18.6. Seguradora não é obrigada a conceder indenização por invalidez total pelo simples fato de o segurado estar recebendo aposentadoria por invalidez do INSS – (Info 616) – Atenção! Juiz de Direito e DPE! A aposentadoria por invalidez permanente concedida pelo INSS não confere ao segurado o direito automático de receber indenização de seguro contratado com empresa privada, sendo imprescindível a realização de perícia médica para atestar o grau de incapacidade e o correto enquadramento na cobertura contratada. STJ. 2ª Seção. EREsp 1.508.190-SC, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 08/11/17 (Info 616). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: João fez um seguro de vida no qual estava previsto que ele teria direito de receber R$ 100 mil em caso de invalidez parcial e R$ 300 mil na hipótese de invalidez total. Determinado dia, ele sofreu um acidente de carro passeando com a família. João era gerentede uma loja e, nesta condição, era segurado obrigatório do INSS (regime geral de previdência social). Em virtude do acidente, a perícia do INSS concluiu que ele ficou inválido de forma total e permanente para o trabalho, razão pela qual lhe foi concedida aposentadoria por invalidez. Ação contra a seguradora: Após a recusa do pagamento na via extrajudicial, João ajuizou ação de indenização contra a seguradora pedindo o pagamento da indenização por invalidez total. A ré, na contestação, pediu realização de prova pericial. O magistrado, contudo, negou o pedido proferindo julgamento antecipado da lide sob o argumento de que o fato de o autor estar recebendo aposentadoria por invalidez já era prova suficiente da procedência do pedido. Agiu corretamente o magistrado, segundo o STJ? A concessão de aposentadoria por invalidez pelo INSS é prova suficiente para obrigar a seguradora a pagar a indenização securitária? NÃO. O reconhecimento por parte do órgão previdenciário oficial (INSS) de que o segurado tem direito de se aposentar por invalidez não desobriga este segurado de ter que provar, perante a seguradora, que está inválido para fins de recebimento do seguro. A concessão de aposentadoria por invalidez pelo INSS não gera uma presunção absoluta da incapacidade total do segurado, não podendo, dessa forma, vincular ou obrigar as seguradoras privadas. 18.7. Se houve reconhecimento da culpa do segurado e pagamento de parte da indenização pela seguradora ao terceiro, não se aplica a Súmula 529 do STJ – (Info 614) A vítima de acidente de trânsito pode ajuizar demanda direta e exclusivamente contra a seguradora do causador do dano quando reconhecida, na esfera administrativa, a responsabilidade deste pela ocorrência do sinistro e quando parte da indenização securitária já tiver sido paga. Não se aplica, neste caso, a Súmula 529 do STJ. Isso porque, mesmo não havendo relação contratual entre a seguradora e o terceiro prejudicado, a sucessão dos fatos (apuração administrativa e pagamento de parte da indenização) faz com que surja uma relação jurídica de direito material envolvendo a vítima e a seguradora. Súmula 529-STJ: No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano. STJ. 3ª Turma. REsp 1.584.970-MT, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 24/10/17 (Info 614). OBS: REGRA GERAL: IMPOSSIBILIDADE DE A AÇÃO SER AJUIZADA PELA VÍTIMA APENAS CONTRA A SEGURADORA Imagine a seguinte situação hipotética: Ricardo estava dirigindo seu veículo, quando foi abalroado por trás pelo carro de Vitor. Aparentemente, a culpa pelo acidente foi de Vitor (ele foi o causador do dano). Felizmente, Vitor possui contrato de seguro de veículos com a “Seguradora X”. Ricardo (terceiro prejudicado), sabendo que Vitor tem contrato de seguro, pode deixar de lado o causador do dano e ajuizar ação de indenização apenas contra a “Seguradora X” cobrando seu prejuízo? NÃO. Segundo entendimento pacífico do STJ, o terceiro prejudicado não pode ajuizar, direta e exclusivamente, ação judicial em face da seguradora do causador do dano. Existe, inclusive, uma súmula afirmando isso: Súmula 529-STJ: No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano. Obs.: a súmula fala em “seguro de responsabilidade civil facultativo” para deixar claro que está tratando daquele seguro que os proprietários de carro fazem espontaneamente com a seguradora. O objetivo foi deixar claro que a súmula não está tratando sobre o seguro DPVAT, que é um seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre. Vejamos os principais argumentos utilizados pelo STJ para chegar à conclusão exposta na súmula: · A obrigação da seguradora de ressarcir os danos sofridos por terceiros pressupõe a responsabilidade civil do segurado. Em outras palavras, a seguradora só paga o terceiro prejudicado se o segurado teve “culpa” pelo acidente. Como regra, não se pode reconhecer a responsabilidade civil do segurado em um processo judicial sem que ele tenha participado, sob pena de ofensa ao devido processo legal e à ampla defesa. · A obrigação da seguradora está sujeita a condição suspensiva, que não se implementa pelo simples fato da ocorrência do sinistro, mas somente pela verificação da eventual obrigação civil do segurado. · O seguro de responsabilidade civil facultativo não é espécie de estipulação a favor de terceiro alheio ao negócio. O indivíduo que faz o seguro de veículos não contrata a seguradora para pagar uma indenização em favor de terceiros. O segurado contrata a seguradora para que esta cubra os prejuízos que ele, segurado, for obrigado a pagar. Assim, diz-se que quem sofre o prejuízo é o causador do dano e este prejuízo é “garantido” (pago) pela seguradora. · O ajuizamento direto e exclusivamente contra a seguradora ofende os princípios do contraditório e da ampla defesa, pois a ré (seguradora) não teria como defender-se dos fatos expostos na inicial, especialmente no que tange à descrição e aos detalhes do sinistro (acidente). · O ajuizamento direto e exclusivamente contra a seguradora inviabiliza, também, que a seguradora possa discutir no processo eventuais fatos extintivos da cobertura securitária, pois, a depender das circunstâncias em que o segurado se envolveu no sinistro, poderia a seguradora eximir-se da obrigação contratualmente assumida. É o caso, por exemplo, do contrato de seguro que estipula que, se o segurado estava embriagado, a seguradora se isenta da obrigação contratual. Se o segurado não está na lide, tais discussões não poderão ser suscitadas pela seguradora. EXCEÇÃO: HOUVE RECONHECIMENTO ADMINISTRATIVO PELA SEGURADORA DA RESPONSABILIDADE DO SEGURADO Imagine agora uma situação diferente: O carro de Pedro abalroou a motocicleta de João. Pedro possuía seguro de veículos e acionou a seguradora. A seguradora fez a apuração administrativa do evento, concluiu que a culpa foi de Pedro (segurado) e, por essa razão, pagou uma indenização a João. Ocorre que João entendeu que não foi integralmente ressarcido pelos prejuízos que teve. Em razão disso, ajuizou ação de reparação de danos morais e materiais contra a seguradora pedindo, como complemento, o ressarcimento das despesas hospitalares e dos dias em que não pode trabalhar, bem como a compensação moral pelo sofrimento que foi obrigado a suportar. A seguradora defendeu-se alegando que a ação não poderia ter sido proposta direta e exclusivamente contra ele. Isso porque seria indispensável a participação do segurado (Pedro) na lide a fim de que ele pudesse contrapor os fatos alegados pela parte autora, sob pena de afronta aos princípios do contraditório e da ampla defesa. Assim, a seguradora alegou que a ação proposta unicamente contra ela violava o entendimento do STJ contido na Súmula 529, que vimos acima. A tese da seguradora foi aceita pelo STJ? A ação proposta por João viola a Súmula 529 do STJ? NÃO. O caso de João é distinto da hipótese tratada pela Súmula 529 do STJ, considerando que a responsabilidade civil do segurado já foi reconhecida na esfera administrativa, tanto que a seguradora já pagou a ele, extrajudicialmente, parte de suas despesas oriundas dos prejuízos ocorridos em sua moto. Neste caso, houve a apuração administrativa do sinistro e restou comprovada a obrigação do segurado de indenizar a vítima. Dessa forma, nesta situação, mesmo não havendo relação contratual entre a seguradora e o terceiro prejudicado, a sucessão dos fatos (apuração administrativa e pagamento de parte da indenização) faz com que surja uma relação jurídica de direito material envolvendo a vítima e a seguradora. Logo, a ação proposta pela vítima pedindo para que a seguradora complemente o valor da indenização securitária pode ser ajuizada direta e exclusivamente contra a seguradora, pois, com o pagamento tido como parcial naesfera administrativa, originou-se uma nova relação jurídica substancial entre as partes. Não há violação à ampla defesa ou contraditório considerando que a discussão dos autos ficará restrita ao valor da indenização, e não envolverá mais a culpa, que já é fato incontroverso. O próprio segurado reconheceu sua culpa no sinistro, ou seja, sua obrigação de indenizar, perante a seguradora (esfera administrativa), tanto que acionou o seguro para ressarcir os prejuízos que causou à vítima. 18.8. Seguro de vida e sinistro causado pelo segurado em estado de embriaguez: haverá indenização – (Info 604) – IMPORTANTE!!! No SEGURO DE VIDA (seguro de pessoas) é devida a indenização securitária mesmo que o acidente que vitimou o segurado tenha decorrido de seu estado de embriaguez? SIM. Ocorrendo o sinistro morte do segurado e inexistente a má-fé dele (ex: deixar de revelar que possuía doença grave antes de fazer o seguro) ou o suicídio no prazo de carência, a indenização securitária deve ser paga ao beneficiário, visto que a cobertura neste ramo é ampla. Assim, é vedada a exclusão de cobertura do seguro de vida na hipótese de sinistro ou acidente decorrente de atos praticados pelo segurado em estado de embriaguez. STJ. 3ª Turma. REsp 1.665.701-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 9/5/17 (Info 604). No SEGURO DE AUTOMÓVEL (seguro de bens) celebrado por uma empresa com a seguradora, é devida a indenização securitária se o condutor do veículo estava embriagado? · Em regra: NÃO. · Exceção: será devido o pagamento da indenização se o segurado conseguir provar que o acidente ocorreria mesmo que o condutor não estivesse embriagado. Não é devida a indenização securitária decorrente de contrato de seguro de automóvel quando o causador do sinistro (condutor do veículo segurado) estiver em estado de embriaguez, salvo se o segurado demonstrar que o infortúnio ocorreria independentemente dessa circunstância. STJ. 3ª Turma. REsp 1.485.717-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 22/11/16 (Info 594). 18.9. A criação de nova espécie de seguro não possui a proteção da Lei de Direitos Autorais – (Info 603) O direito autoral não pode proteger as ideias em si, mas apenas as formas de expressá-las. Isso porque as ideias constituem patrimônio comum da humanidade. Assim, não há proteção autoral a ideia de fazer uma determinada espécie de contrato, por mais inovadora e original que seja. No máximo, o texto das cláusulas pode ser protegido. A Lei de Direitos Autorais não pode tolher a criatividade e a livre iniciativa, nem o avanço das relações comerciais e da ciência jurídica, que ficaria estagnada com o direito de exclusividade de certos tipos contratuais. Assim, a criação de nova espécie de seguro não possui a proteção da Lei de Direitos Autorais. Desse modo, é possível a coexistência de contratos de seguro com a mesma temática comercializados por corretoras e seguradoras distintas sem que haja violação de direitos autorais. STJ. 3ª Turma. REsp 1.627.606/RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 02/05/17 (Info 603). 18.10. Não é devida a indenização prevista em contrato de seguro de RC D&O caso o segurado tenha praticado insider trading – (Info 598) O seguro de RC D&O (Directors and Officers Insurance) não abrange operações de diretores, administradores ou conselheiros qualificadas como insider trading. O RC D&O é um tipo de seguro feito por grandes executivos (exs: CEOs) por meio do qual a seguradora assume os custos caso eles sejam responsabilizados por algum ato culposo praticado durante a gestão da empresa. O insider trading ocorre quando uma pessoa (insider), por força do exercício profissional, possui informações relevantes sobre a empresa e utiliza tais dados para negociar as ações dessa companhia antes que essas informações sejam reveladas ao público em geral. O administrador que praticou insider trading não tem direito à cobertura securitária do seguro RC D&O por dois motivos: 1) o insider trading não é um ato culposo, mas sim doloso (fraudulento); 2) o insider trading não configura ato de gestão, mas sim um ato pessoal do administrador com o objetivo de gerar proveitos financeiros próprios, em detrimento dos interesses da companhia. STJ. 3ª Turma. REsp 1.601.555-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 14/2/17 (Info 598). 18.11. Embriaguez ao volante e agravamento do risco – (Info 594) – IMPORTANTE!!! – (TJPR-2017) No seguro de automóvel celebrado por uma empresa com a seguradora, é devida a indenização securitária se o condutor do veículo (funcionário da empresa segurada) estava embriagado? • Em regra: NÃO. • Exceção: será devido o pagamento da indenização se a empresa segurada conseguir provar que o acidente ocorreria mesmo que o condutor não estivesse embriagado. Não é devida a indenização securitária decorrente de contrato de seguro de automóvel quando o causador do sinistro – preposto da empresa segurada – estiver em estado de embriaguez, salvo se o segurado demonstrar que o infortúnio ocorreria independentemente dessa circunstância. STJ. 3ª Turma. REsp 1.485.717-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 22/11/16 (Info 594). OBS: Embriaguez ao volante e presunção de que o risco foi aumentado: Uma vez constatado que o condutor do veículo estava sob influência do álcool quando se envolveu em acidente de trânsito, haverá uma presunção relativa de que o risco da sinistralidade foi agravado, o que ensejará a aplicação da pena do art. 768 do CC. Por outro lado, a indenização securitária deverá ser paga se o segurado demonstrar que o infortúnio ocorreria independentemente do estado de embriaguez. Ex: o segurado poderá provar que a culpa foi do outro motorista, que houve falha do próprio automóvel, imperfeições na pista, animal na estrada etc. Ônus da prova: · Seguradora: precisa comprovar que o motorista estava embriagado. A partir daí surge a presunção de que houve o agravamento do risco e a indenização não será, em princípio, devida. · Segurado: poderá comprovar que o acidente ocorreria mesmo que o condutor não estivesse embriagado. Se não conseguir provar isso, perderá o direito à indenização. E se o indivíduo que estava dirigindo embrigado não era aquele que contratou o seguro? A configuração do risco agravado não se dá somente quando o próprio segurado se encontra alcoolizado na direção do veículo, mas abrange também os condutores principais (familiares, empregados e prepostos). Isso porque o agravamento intencional de que trata o art. 768 do CC envolve tanto o dolo quanto a culpa grave do segurado, que tem o dever de vigilância (culpa in vigilando) e o dever de escolha adequada daquele a quem confia a prática do ato (culpa in eligendo). Se o segurado não escolhe de forma correta a quem entrega o veículo ou não o fiscaliza adequadamente, incide em culpa. O segurado deve se portar e tomar todos os máximos cuidados como se não tivesse feito o seguro. A isso se chama de princípio do absenteísmo, isto é, ele tem o dever de se abster de tudo que possa incrementar, de forma desarrazoada, o risco contratual. Logo, a pessoa que fez o seguro deve tomar todos os cuidados possíveis quando for entregar o veículo segurado para alguém dirigir. Desse modo, o simples fato de o indivíduo que estava dirigindo não ser aquele que contratou o seguro não serve como argumento para que a indenização deixe de ser paga. 18.12. Direito de a seguradora ser ressarcida pelos gastos que houve com o segurado mesmo que este tenha dado quitação integral para o autor do dano – (Info 591) – IMPORTANTE!!! Em regra, mesmo que o proprietário do veículo segurado tenha dado termo de quitação ou renúncia ao causador do sinistro, a seguradora continuará tendo direito de ajuizar ação regressiva contra o autor do dano e de ser ressarcida pelas despesas que efetuou com o reparo ou substituição do bem sinistrado. Ex: o segurado combina com o causador do dano que este irá pagar apenas o valor da franquia do seguro, em troca de um termo de quitação. A seguradora paga, então, os prejuízose poderá cobrar do causador do dano porque ela tem direito à sub-rogação por força de lei (art. 786, CC) e este acordo não é eficaz perante ela (art. 786, § 2º). Exceção: a seguradora não terá direito de regresso contra o autor do dano caso este demonstre que indenizou realmente o segurado pelos prejuízos sofridos, na justa expectativa de que estivesse quitando, integralmente, os danos provocados por sua conduta. Neste caso, protege-se o terceiro de boa-fé e a seguradora poderá cobrar do segurado com base na proibição do enriquecimento ilícito. Ex: o causador do dano paga todas as despesas do segurado e recebe um termo de quitação; de má-fé, o segurado, mesmo já tendo sido indenizado, aciona o seguro para consertar seu carro. Se a seguradora ajuizar ação regressiva contra o causador do dano, ele poderá provar que pagou integralmente as despesas e, neste caso, a ação será julgada improcedente. Protege-se a boa-fé do terceiro. STJ. 3ª Turma. REsp 1.533.886-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 15/9/16 (Info 591). OBS: Imagine a situação hipotética: Carla, dirigindo de forma negligente, bateu seu veículo na traseira do carro de João. Este ficou com pena de Carla, que estava muito nervosa, e propôs a ela o seguinte: "eu tenho seguro; então, você paga apenas a franquia do meu seguro e ele vai custear as despesas com o conserto dos dois carros. Não precisa se preocupar." No mesmo instante, João ligou para a seguradora, que recomendou que ele fizesse um boletim de ocorrência e tirasse fotos da batida. No dia seguinte, João e Carla se encontraram. Ela deu o dinheiro referente à franquia e ele, em contrapartida, assinou uma declaração dizendo que renunciava ao direito de postular qualquer reparação pelos danos sofridos. João entregou à seguradora o dinheiro da franquia e os dois veículos foram consertados. Dois meses depois, Carla é citada como ré em uma ação regressiva proposta pela seguradora. A autora cobra R$ 10 mil referentes ao custo do conserto dos dois veículos. Carla apresenta contestação alegando que o proprietário do automóvel segurado, por ocasião do sinistro, renunciou ao direito de postular qualquer reparação pelos danos então sofridos. Dessa maneira, não havendo direito de crédito do credor primitivo (segurado), não pode a seguradora cobrar o ressarcimento, já que ela não pode se sub-rogar de um direito que não existe. Um caso semelhante a este, que é muito comum no dia-a-dia, chegou até o STJ. O que decidiu o Tribunal? A seguradora terá direito de ser ressarcida pelo conserto mesmo tendo o segurado assinado este termo de quitação ou renúncia? SIM. Previsão legal da sub-rogação: O Código Civil prevê que a seguradora que paga a indenização sub-roga-se nos direitos do segurado. Confira: Art. 786. Paga a indenização, o segurador sub-roga-se, nos limites do valor respectivo, nos direitos e ações que competirem ao segurado contra o autor do dano. Isso também já estava consagrado na jurisprudência: Súmula 188-STF: O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que efetivamente pagou, até ao limite previsto no contrato de seguro. O art. 786 consiste em espécie de sub-rogação legal, específica para o contrato de seguro de dano. Vale ressaltar que esta sub-rogação opera-se de pleno direito, independentemente da vontade do devedor originário, ou seja, do causador do dano ao bem segurado. Vale ressaltar que este direito da seguradora de se sub-rogar tem relevância social porque na sociedade de risco que vivemos hoje em dia é cada vez maior a importância dos contratos de seguro. Se a seguradora tiver garantias de que poderá ser ressarcida pelo real causador do dano, isso será levado em consideração no momento do cálculo do prêmio que é cobrado dos segurados. Em tese, quanto menores as garantias que a seguradora tiver, maior será o valor do prêmio, o que prejudica a sociedade em geral. Daí se extrai a relevância social de proteção ao direito de sub-rogação do segurador. Ineficácia do termo de renúncia firmado pelo proprietário do bem segurado: Ao disciplinar a sub-rogação no art. 786, o Código Civil previu, de forma expressa e inequívoca, a ineficácia, perante o segurador, de atos de disposição praticados pelo segurado juntamente ao autor do dano. Veja: Art. 786 (...) § 2º É ineficaz qualquer ato do segurado que diminua ou extinga, em prejuízo do segurador, os direitos a que se refere este artigo. Desse modo, eventual termo de renúncia ou quitação outorgado pelo segurado ao terceiro causador do dano não impede o exercício do direito de regresso pelo segurador. O legislador buscou proteger o direito do segurador de ser ressarcido da quantia que gastou para indenizar o segurado. Assim, se o segurado optou por acionar o seguro, cobrando a garantia contratada, não lhe cabe firmar com o causador do dano qualquer tipo de transação que possa importar na extinção ou diminuição do direito de regresso do segurador. Se o fizer, o ato será absolutamente ineficaz em relação ao segurador, como peremptoriamente determina o art. 786, § 2º, do CC. No exemplo dado, o acordo celebrado entre João e Carla é válido e eficaz entre eles (contratantes). No entanto, não se pode admitir que os efeitos dessa avença sejam estendidos ao segurador que, além de não ter participado do ajuste, possui, por força de lei, o direito de ser reembolsado de todos os valores gastos com o reparo do bem sinistrado. Normas de caráter público: Dada a importância social do contrato de seguro, as normas insertas no art. 786, caput e § 2º, do Código Civil, ao assegurarem a sub-rogação do segurador nos direitos que competirem ao segurado contra o autor do dano, independentemente da vontade daquele, revestem-se de caráter público, não havendo como um ato negocial do segurado excluir a prerrogativa outorgada por lei ao segurador. Em suma, a regra é a seguinte: Mesmo que o segurado tenha outorgado termo de quitação ou renúncia ao causador do sinistro, o segurador terá direito de ser ressarcido, em ação regressiva contra o autor do dano, pelas despesas que efetuou com o reparo ou substituição do bem sinistrado. Situação excepcional de má-fé do segurado e boa-fé do autor do dano: A regra foi acima exposta. No entanto, a prática demonstra que pode acontecer uma situação na qual se revela a má-fé do segurado e a boa-fé do autor do dano. Imagine o seguinte: Pedro, dirigindo de forma negligente, bateu seu veículo na traseira do carro de João, que não revela que tem seguro. Pedro assume para João que realmente foi culpado do acidente e que irá pagar o conserto. No dia seguinte, João mostra um orçamento da oficina e Pedro lhe entrega o dinheiro. Em contrapartida, João assinou uma declaração dando quitação integral. Ocorre que João, de má-fé, aciona o seguro pedindo o conserto do carro, o que é feito. Em seguida, a seguradora ajuíza ação regressiva contra Pedro cobrando a quantia gasta para consertar o carro do segurado. Nessa hipótese específica e excepcional, o STJ entende que o terceiro (em nosso exemplo, Pedro), ao ser demandado na ação regressiva, poderá se eximir do ressarcimento das despesas com o bem sinistrado, bastando que, nos termos do art. 373, II, do CPC, prove que já realizou a reparação completa dos prejuízos causados, apresentando o recibo assinado pelo segurado ou eventuais documentos que comprovem o custeio das despesas. Neste caso, o juiz deverá julgar improcedente o pedido regressivo formulado, restando à seguradora a alternativa de demandar contra o próprio segurado, por locupletamento ilícito, tendo em vista que, em evidente ato de má-fé contratual, requereu, indevidamente, a cobertura securitária mesmo já tendo sido indenizado diretamente pelo autor do dano. Protege-se aqui o terceiro de boa-fé, que pagou indenização ao segurado na justa expectativa de que estivesse reparando, por completo, os danos que causou com seu ato. 18.13. O atraso do segurado em comunicar o seguro que houve um sinistro com o veículo nem sempre irá gerar a perda da indenização securitária – (Info 590) O art. 771 do CC determinaque o segurado deverá comunicar imediatamente à seguradora quando ocorrer algum sinistro envolvendo o veículo, já que isso possibilita que esta tome medidas que possam amenizar os prejuízos da realização do risco, bem como a sua propagação. Esse dispositivo legal prevê que, se não houver esta comunicação imediata, o segurado perderá o direito à indenização. Vale ressaltar, no entanto, que, para que ocorra a sanção prevista no art. 771 do CC, é necessário que fique demonstrada a ocorrência de uma omissão dolosa do segurado, que beire a má-fé, ou culpa grave e que, com isso, prejudique, de forma desproporcional, a atuação da seguradora. Assim, se o segurado demorou três dias para comunicar à seguradora que o veículo foi roubado porque foi ameaçado pelo criminoso, ele não perderá o direito de ser indenizado já que, neste caso, não poderia ser dele exigido comportamento diverso. Resumindo: o segurado que, devido às ameaças de morte feitas pelo criminoso a ele e à sua família, deixou de comunicar prontamente o roubo do seu veículo à seguradora não perde o direito à indenização securitária (art. 771 do CC). STJ. 3ª Turma. REsp 1.404.908-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/8/16 (Info 590). OBS: Assim, não haverá a sanção do art. 771 do CC se: · ficar demonstrado que não havia medidas a serem tomadas de imediato pela seguradora e que poderiam minorar os efeitos do sinistro. Ex: o veículo foi completamente incendiado no momento do acidente. · ou se existirem fatos relevantes que impeçam o segurado de fazer a imediata comunicação do sinistro. Nestes dois casos, não há como punir o segurado com a drástica sanção da perda do direito à indenização, especialmente considerando a presença da boa-fé objetiva, princípio-chave que permeia todas as relações contratuais, incluídas as de natureza securitária. 18.14. Indenização securitária pelo valor do automóvel no momento do sinistro – (Info 583) – IMPORTANTE!!! No caso de contrato de seguro de automóvel, havendo perda total, a seguradora deverá indenizar o segurado com base na tabela vigente na data do sinistro, e não na data do efetivo pagamento (liquidação do sinistro). É abusiva a cláusula de contrato de seguro de automóvel que, na ocorrência de perda total do veículo, estabelece a data do efetivo pagamento (liquidação do sinistro) como parâmetro do cálculo da indenização securitária a ser paga conforme o valor médio de mercado do bem, em vez da data do sinistro. STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.163-GO, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 5/5/16 (Info 583). 18.15. Cláusula de invalidez total deve abranger a incapacidade de exercer qualquer profissão – (Info 582) O fato de o beneficiário de seguro de vida ter sido reformado pelo Exército em razão de incapacidade total para sua atividade habitual (serviço militar) não implica, por si só, o direito à percepção de indenização securitária em seu grau máximo quando a apólice de seguro estipula que esse grau máximo é devido no caso de invalidez total permanente para qualquer atividade laboral. STJ. 3ª T. REsp 1.318.639-MS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 26/4/2016 (Info 582). OBS: O indivíduo que é considerado inválido para o serviço militar não o é, necessariamente, para as atividades laborais comuns. Isso porque é muito mais rígida a exigência física na seara militar. O contrato de seguro previa o pagamento da indenização para os casos de incapacidade total e permanente, não mencionando que, para a aferição da incapacidade, seriam levadas em conta as atividades militares. Só se admitiria o pagamento da indenização no grau máximo se houvesse cláusula no contrato estabelecendo que a declaração de invalidez total para a atividade habitual do segurado implicaria o reconhecimento da incapacidade para qualquer atividade laboral. 18.16. Cobertura securitária em caso de perda total do bem – (Info 573) Ainda que o sinistro tenha ocasionado a perda total do bem, a indenização securitária deve ser calculada com base no prejuízo real suportado pelo segurado, sendo o valor previsto na apólice, salvo expressa disposição em contrário, mero teto indenizatório. A indenização a ser recebida pelo segurado no caso de sinistro deve corresponder ao real prejuízo do interesse segurado. Há de ser apurado por perícia técnica o alcance do dano. O limite máximo é o da garantia fixada na apólice. Se os prejuízos forem menores do que o limite máximo fixado na apólice, o segurador só está obrigado a pagar por aquilo que realmente aconteceu. STJ. 3ª Turma. REsp 1.473.828-RJ, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 27/10/2015 (Info 573). 18.17. Pagamento de indenização securitária na ausência de indicação de beneficiário na apólice – (Info 566) Na hipótese em que o segurado tenha contratado seguro de vida sem indicação de beneficiário e, na data do óbito, esteja separado de fato e em união estável, o capital segurado deverá ser pago: • metade aos herdeiros (segundo a ordem da vocação hereditária); e • a outra metade será dividida entre a cônjuge não separada judicialmente e a companheira. Ex: João fez um contrato de seguro de vida. Na apólice, contudo, não constou quem seriam os beneficiários que deveriam receber a indenização quando o segurado morresse. O valor da indenização previsto no contrato era de R$ 200 mil. Na época em que assinou o contrato de seguro, João era casado com Maria, sob o regime da comunhão universal de bens, e tinha com ela 3 filhos. Ocorre que, ainda na vigência do contrato, João deixou de viver com Maria e, apesar de não se divorciar nem se separar judicialmente, passou muitos anos fora de casa e iniciou uma união estável com Antônia. Determinado dia, João faleceu. Os 3 filhos (herdeiros) receberão R$ 100 mil; Maria receberá R$ 50 mil; Antônia terá direito a R$ 50 mil. STJ. 3ª T. REsp 1.401.538-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 4/8/2015 (Info 566). 18.18. Reajuste do valor do prêmio nos contratos de seguro de vida – (Info 561) A cláusula de contrato de seguro de vida que estabelece o aumento do prêmio do seguro de acordo com a faixa etária mostra-se abusiva quando imposta ao segurado maior de 60 anos de idade e que conte com mais de 10 anos de vínculo contratual. STJ. 3ª Turma. REsp 1.376.550-RS, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 28/4/2015 (Info 561). 18.19. Cláusulas RCF-V e APP – (Info 560) No momento em que a pessoa celebra um contrato de seguro de veículos, é importante verificar o tipo de cobertura contratada: · Se houver apenas a cláusula RCF-V (“Responsabilidade Civil Facultativa de Veículos”): isso significa que o seguro está se obrigando a cobrir apenas as despesas que o segurado tiver com danos corporais que forem causados a terceiros, não servindo para danos corporais sofridos pelo próprio condutor do veículo ou seus passageiros. Em outras palavras, a cláusula “RCF-V” determina que a seguradora reembolse, até o limite previsto na apólice, as indenizações que o segurado seja obrigado a pagar, judicial ou extrajudicialmente, por ter provocado prejuízos pessoais ou materiais a outras pessoas de fora do carro (terceiros). · Para que o contrato abranja também danos causados ao motorista e demais passageiros do veículo, é necessário que preveja a cláusula APP (“Acidentes Pessoais de Passageiros”). Por força da cláusula APP, a seguradora é obrigada a pagar a indenização ao segurado ou aos seus beneficiários na ocorrência de acidentes pessoais que causem a morte ou a invalidez permanente total ou parcial dos passageiros do veículo segurado, respeitados os critérios quanto à lotação oficial do veículo e o limite máximo de indenização por passageiro estipulado na apólice. STJ. 3ª T. REsp 1.311.407-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 5/3/2015 (Info 560). 18.20. Via adequada para cobrança de indenização fundada em contrato de seguro de automóvel – (Info 553) – IMPORTANTE!!! A via adequada para cobrar a indenização securitária fundada em contrato de seguro de automóvel é a ação de conhecimento (e não a ação executiva).Não é possível propor diretamente a execução nesse caso porque o contrato de seguro de automóvel não se enquadra como título executivo extrajudicial (art. 585 do CPC 1973 / art. 784 do CPC 2015). Por outro lado, os contratos de seguro de vida, por serem dotados de liquidez, certeza e exigibilidade, são títulos executivos extrajudiciais (art. 585, III, do CPC 1973 / art. 784, VI, do CPC 2015), podendo ser cobrados por meio de ação de execução. STJ. 3ª Turma. REsp 1416786-PR, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 2/12/2014 (Info 553). 18.21. Antes da entrega da proposta de seguro à seguradora, não há contrato de seguro – (Info 551) O proprietário de automóvel furtado não terá direito a indenização securitária se a proposta de seguro do seu veículo somente houver sido enviada à seguradora após a ocorrência do furto. No caso concreto, o proprietário somente entregou a proposta de seguro preenchida e assinada à seguradora após o seu veículo ter sido furtado. Logo, não tem direito à indenização. STJ. 3ª T. REsp 1.273.204-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 7/10/2014 (Info 551). 18.22. Morte decorrente de AVC não está abrangida em seguro de acidentes pessoais – (Info 550) Determinada pessoa contratou um seguro de acidentes pessoais por meio do qual seus herdeiros receberiam a indenização caso ele falecesse em decorrência de morte acidental. Se essa pessoa falecer por causa de um AVC, seus herdeiros não terão direito a indenização. Isso porque o óbito decorrente do AVC não pode ser caracterizado como morte acidental, sendo hipótese de morte natural. A Resolução CNSP nº 117⁄2004 do Conselho Nacional de Seguros Privados traz a definição do que seja acidente pessoal. A distinção básica entre a morte acidental e a morte natural está no fato de que a primeira decorre de um evento diretamente externo enquanto que a segunda é causada por um fator de natureza interna, como é o caso das doenças. Para que seus herdeiros tivessem direito à indenização pela morte decorrente do AVC, essa pessoa deveria ter feito um seguro de vida. STJ. 1ª T. REsp 1.443.115-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 21/10/2014 (Info 550). 18.23. Transação feita entre o segurado e a vítima sem anuência da seguradora – (Info 548) No seguro de responsabilidade civil, o segurado não pode, em princípio, reconhecer sua responsabilidade, transigir ou confessar, judicial ou extrajudicialmente, sua culpa em favor do lesado a menos que haja prévio e expresso consentimento do ente segurador, pois, caso contrário, perderá o direito à garantia securitária, ficando pessoalmente obrigado perante o terceiro, sem direito de reembolso do que despender (§ 2º do art. 787 do CC). No entanto, se não há demonstração de que a transação feita pelo segurado e pela vítima do acidente de trânsito foi abusiva, infundada ou desnecessária, mas, ao contrário, sendo evidente que o sinistro de fato aconteceu e o acordo realizado foi em termos favoráveis tanto ao segurado quanto à seguradora, não há razão para se interpretar a regra do art. 787, § 2º, do CC em termos absolutos e afastar o ressarcimento do segurado. STJ. 3ª T. REsp 1.133.459-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 21/8/2014 (Info 548). 18.24. Seguro de veículo e agravamento do risco pela condução por motorista não habilitado – (Info 542) Caso a sociedade empresária segurada, de forma negligente, deixe de evitar que empregado não habilitado dirija o veículo objeto do seguro, ocorrerá a exclusão do dever de indenizar se demonstrado que a falta de habilitação importou em incremento do risco. STJ. 3ª Turma. REsp 1.412.816-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 15/5/14 (Info 542). 18.25. Legitimidade do espólio para ação de cobrança de indenização securitária que deveria ter sido recebida pelo de cujus – (Info 542) O espólio possui legitimidade para ajuizar ação de cobrança de indenização securitária decorrente de invalidez permanente ocorrida antes da morte do segurado. STJ. 3ª Turma. REsp 1.335.407-RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 8/5/14 (Info 542). 18.26. Contrato de seguro de vida e acidentes pessoais e omissão a respeito de doença preexistente No contrato de seguro de vida e acidentes pessoais, o segurado não tem direito à indenização caso, agindo de má-fé, silencie a respeito de doença preexistente que venha a ocasionar o sinistro, ainda que a seguradora não exija exames médicos no momento da contratação. STJ. AgRg no REsp 1.286.741-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 15/8/2013. 19. CONTRATO DE TRANSPORTE 19.1. O Vale-Pedágio e a dobra do frete, previstos na Lei nº 10.209/2001, não estão sujeitos à supressio nem podem ser reduzidos com base no art. 412 do CC – (Info 640) A Lei 10.209/01 estabelece que a empresa que contratar uma empresa de transporte rodoviário deverá pagar, de forma antecipada e separada, os valores que o transportador terá que arcar com os pedágios nas estradas. Esse pagamento é chamado de Vale-Pedágio. O art. 8º da Lei prevê que o embarcador/contratante que não pagar ao transportador o valor do pedágio estará sujeito a uma multa equivalente ao dobro do valor do frete. Essa multa é conhecida como “dobra do frete”. A obrigação de pagamento antecipado do Vale-Pedágio previsto pela Lei nº 10.209/2001 é norma cogente que não admite o instituto da supressio. Isso significa que, mesmo que o transportador não tenha cobrado o pagamento antecipado do pedágio durante longo período, ele não perde o direito de exigir essa quantia. Além disso, a dobra do frete (art. 8º da Lei nº 10.209/2001) é uma sanção legal, de caráter especial, razão pela qual não é possível a convenção das partes para lhe alterar o conteúdo e também não é possível a sua redução com base no art. 412 do CC. STJ. 3ª Turma. REsp 1694324-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Moura Ribeiro, j. 27/11/18 (Info 640). OBS: Imagine a seguinte situação hipotética: “LC Transportes Ltda.” é uma microempresa que realiza transportes rodoviários por meio de caminhão. “ZN Alimentos Ltda” é uma empresa que comercializa frangos congelados. A LC e a ZN firmaram contrato por meio do qual a primeira iria transportar as mercadorias da segunda. Contrato de transporte de coisas: Trata-se de um “contrato de transporte de coisas”, regido pelos arts. 730 a 733 e 743 a 756 do CC/02. No contrato de transporte de coisas alguém se obriga, mediante remuneração, a transportar coisas determinadas de um local para outro. Aquele que realiza o transporte é o transportador, e aquele que entrega as coisas que serão transportadas é o expedidor, embarcador ou remetente. Consiste em um negócio jurídico informal e não solene, considerando que não se exige qualquer formalidade especial. Não se exige forma escrita, muito menos escritura pública, podendo o contrato assumir até mesmo a forma verbal. Voltando ao exemplo: O contrato durou 24 meses. Após o fim do pacto, a LC ajuizou ação de cobrança contra a ZN alegando que a ré pagou normalmente a remuneração combinada no contrato pelo frete, mas que nunca lhe pagou pelas despesas que teve com os pedágios ao longo desses meses. A LC explicou, na ação, que pela lei que rege o transporte rodoviário, a empresa contratante deve pagar, de forma antecipada e separada, os valores que o transportador terá com o pedágio. Esse pagamento do Vale-Pedágio é previsto na Lei nº 10.209/2001: Art. 1º Fica instituído o Vale-Pedágio obrigatório, para utilização efetiva em despesas de deslocamento de carga por meio de transporte rodoviário, nas rodovias brasileiras. § 1º O pagamento de pedágio, por veículos de carga, passa a ser de responsabilidade do embarcador. § 2º Para efeito do disposto no § 1º, considera-se embarcador o proprietário originário da carga, contratante do serviço de transporte rodoviário de carga. § 3º Equipara-se, ainda, ao embarcador: I - o contratante do serviço de transporte rodoviário de carga que não seja o proprietário originário da carga; II - a empresa transportadora que subcontratar serviço de