Prévia do material em texto
ECONOMIA
DO CRIME
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
V672e Viapiana, Luiz Tadeu
Economia do crime : uma explicação para a formação do cri
minoso / Luiz Tadeu Viapiana. - Porco Alegre, RS : AGE, 2006.
Apêndice
Inclui bibliografia
ISBN 85-7497-322-X
1. Crime e criminosos - Aspeccos sociais - Brasil. 2. Crime e
criminosos - Aspeccos sociais - Modelos economérricos. 3. Vio
lência - Brasil. 4. S egurança pública - Aspeccos sociais - Brasil. 1.
Tlrulo.
06-3176. coo 364.981
CDU 343.97(81)
Luiz Tadeu Viapiana
ECONOMIA
DO CRIME
UMA EXPLICAÇÃO PARA A
FORMAÇÃO DO CRIMINOSO
-
EDITORA
PORTO ALEGRE 2006
© Luiz Tadeu Viapiana, 2006
Capa:
EDUARDO CARDILLO
Diagramação:
LAURI HERMÓGENES CARDOSO
Supervisão editorial:
PAULO FLAVIO LEDUR
Editoração eletrônica:
AGE-ASSESSORIA GRAFICA E EDITORIAL LTDA.
Reservados todos os direitos de publicação à
EDITORA AGE LTDA.
editoraage@editoraage.com.br
Rua São Manoel, 1 787 - Bairro Rio Branco
90620- 1 1 O - Porto Alegre, RS, Brasil
Fone/Fax: (5 1 ) 3223-9385 - (5 1 ) 306 1 -9385
vendas@editoraage.com.br
www.editoraage.com.br
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
AGRADECIMENTOS
Em 1 997, a empresa da qual sou sócio foi convidada a cuidar da conta de comunicação social da Forjas Taurus, a maior fabricante de armas curtas
da América Latina e terceira do mundo. Entre nossas tarefas, teríamos de
elaborar e desenvolver a comunicação institucional da empresa, que, à época,
já estava sendo convocada pela imprensa para participar do debate sobre a
necessidade ou não de maior rigor no controle da comercialização e uso de
armas por civis, debate que culminaria, em 2005 , num plebiscito nacional,
vencido pela posição que defendia a venda de armas para civis. Como
responsável pelo planejamento desse trabalho, me vi obrigado a estudar,
com maior profundidade, o tema da conexão entre armas e crimes e, de
uma forma mais ampla, o próprio fenômeno da criminalidade.
Minha primeira constatação foi que, no Brasil, havia poucos estudos
amplos e detalhados sobre o tema da criminalidade, quase todos realizados
nos âmbitos da sociologia e da antropologia. Procurando superar essa
limitação, ampliei o escopo da pesquisa para a literatura internacional,
principalmente a norte-americana, e encontrei grande quantidade de estudos
e pesquisas que exploram o tema sob os mais variados ângulos e perspectivas
teóricas.
Os Estados Unidos haviam enfrentado grande aumento em suas taxas
de crimes nos anos de 1 960, o que motivou as instituições de pesquisas e
universidades a enfrentarem o desafio de compreender as causas desse
fenômeno e desenhar novas políticas sociais e estatais anticrime. O resultado
desse esforço foi o extraordinário crescimento, tanto em qualidade como
em quantidade, das pesquisas empíricas e teóricas sobre o tema da
criminalidade urbana. Desde essa época, por mais de seis anos, li e reli uma
centena de estudos, muitos deles concebidos com o suporte da Economia.
Infelizmente, quase todos esses trabalhos aguardam tradução para o
português.
Em suma, depois de encará-lo como desafio profissional, acabei me
tornando um estudioso do tema da criminalidade. Para suprir a carência
entre nós de um trabalho de maior fôlego sobre a criminalidade na
perspectiva teórica da economia é que decidi escrever este livro.
Diversas pessoas e amigos me ajudaram na pesquisa que deu origem a
este trabalho. Evito citá-las nominalmente para não cometer injustiças.
Agradeço a todos, de coração, principalmente ao meu editor, Paulo Flávio
Ledur, que dispensou especial atenção à revisão e à preparação dos originais.
Gostaria por fim de externar minha gratidão à Simone, à Victória, à Bruna
e ao João Victor, esposa e filhos, amores da minha vida, que sempre me
apoiaram.
LUIZ TADEU VIAPIANA
s , U MARI C
Introdução . . . . . . . . . . .... . . . ..... . . . ..... . . . . . . . .. . . . . . . . .... . . . . . . . . . . . . . . . . . ..... . . . . . . .. . . . . . ............. 9
p ARTE 1 - CONTEXTO
O crime violento 21
Conglomerados de homicídios . . ......... ....... ... ............................................ 24
Homicídio entre jovens 26
Crime atinge metade da população 29
O crime oculto 30
PARTE II - A EcoNOMIA DO CRIME
Um modelo de decisão 37
Efeitos da punição ........................... ........ . . ...... . . ....... . . . . . ..... . . . . . . . . . . . . . . ...... . . 40
Drogas, álcool e crimes ......................................... . ............... . . . . ...... . . . . ... . . . 44
Trabalho, renda e crimes ...... .... . . ..... . . ..... . . .... . . . . .... . . . . ... . . ...... ...................... 60
Educação: a chave ..... . . .. . .. . . . ....... . . ...... . . ........................ .......... ................ . . . 69
Brasil: uma aproximação 71
p ARTE III - TEORIA DO CONTROLE E DECISÃO DOS INDIVfDUOS
Anomia, a visão clássica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 5
Anomia em Robert Merton ..................................................... . . . . .... . . . . ..... 88
A subcultura delinqüente . . ... . . . ...... . . . . . . . . . . .... . . . . . .... . . . ....... . . ................. . ....... 9 1
Família, escola e comunidade: fontes de controle ................ . ................. . 102
A teoria do autocontrole ...................... ............. . ............... . ..................... 104
PARTE IV - D1ssuAsÃo E PoLfCIA
Teoria da dissuasão .............................................................................. ... 120
Punição e controle . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126
Armas de fogo 131
Polícia, um modelo em crise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 7
Aspectos institucionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
Gasto e eficiência ............... ......... ....... ........ ...... ...... . . ....... . ...... ................. 1 50
Conclusão ............................................................................................ ... 1 55
Notas ...................................................................................................... 161
Bibliografia . . ... .. . . ....... . ....... ......... ............................... .................. ......... . . 169
1 NTRO D U ÇÃD
M e u propósito neste livro é apresentar e debater a teoria econômica do crime. A abordagem econômica do crime é relativamente nova,
tendo sido fortemente influenciada pelo estudo seminal de Gary Becker,
Crime and Punishment: An Economic Aproach, de 1 968. Desde a contribui
ção original dos estudos de Becker sobre a análise econômica do comporta
mento humano, que lhe daria o Prêmio Nobel de Economia, em 1 992,
inúmeros estudos e pesquisas produzidos por economistas em diversos paí
ses resultaram na formação de um corpo teórico rico e diversificado, abri
gado sob a expressão Teoria Econômica do Crime.
No entanto, embora já importante, a contribuição teórica da Eco
nomia ao estudo do crime ainda está longe de ser comparável à vasta
produção gerada no campo da Criminologia, que, ao longo dos dois
últimos séculos, incorporou conceitos e descobertas provenientes da
Sociologia, da Psicologia e da Antropologia. Só muito recentemente,
na década de 1 980, a noção de que os indivíduos fazem suas escolhas
ponderando custos e benefícios foi utilizada por algumas escolas de pen
samento da criminologia, a Teoria das Oportunidades, a Teoria da Dis
suasão e a Teoria da Escolha Racional. 1 Éo que se pode constatar, por
exemplo, no exame da classificação das escolas criminológicas proposta
por Francis Cullen e Robert Agnew no livro Criminological Theory -
Past to Present. Desde a Escola Clássica criada por Cesare Secaria, no
século XVIII , até a moderna abordagem multidisciplinar do Curso de
Vida (Life Course) , desenvolvida por John Laub e Robert Sampson,2 a
contribuição da economia aparece em apenas três delas. Nas demais
predomina, principalmente, a abordagem sociológica.
É claro que antes da publicação do texto de Gary Becker houve outros
estudos que procuraram estabelecer algum tipo de correlação entre variá
veis econômicas e índices de crimes. O The Oxford Handbook of Criminolo-
E c:: O N O M I A DO C R I M E 9
gy cita escudo pioneiro de Michel Guerry e Adolphe Quecelec, publicado
em 1 835 , contendo uma espécie de mapa estatístico da França, no qual as
taxas de crimes eram relacionadas com a posição geográfica, o clima, níveis
de educação, ocupação e emprego. Os autores chegaram à conclusão de
que havia uma constância entre crime e determinadas condições econômi
cas. Outro escudo, elaborado por Whicwort Russel no século XIX, procu
rou estabelecer uma conexão entre o ciclo econômico e os crimes. Ele cons
tatou que nos anos seguintes à crise comercial e industrial de 1 842, na
Inglaterra, ocorreu um aumento do número de prisioneiros. O Oxford cita
outra pesquisa, de autoria de John Clay, que apresenta conclusões no mes
mo sentido, mais ou menos na mesma época. Finalmente, um quarto escu
do, que teve maior repercussão, é de autoria de Georg von Mayr e foi pu
blicado em 1 867. Após comparar a evolução dos preços do centeio e o
número de ofensas contra as pessoas no período 1 835- 1 86 1 , na Alemanha,
Mayr chegou à conclusão de que havia uma correlação positiva entre o
aumento do preço do cereal e os índices de crimes. Da constatação, retirou
a conclusão de que os níveis de crimes expressam, mais ou menos, direta ou
indiretamente, o nível de economic distress, algo como pressão econômica,
na sociedade, particularmente entre os segmentos mais pobres. Nesse escu
do, aparecia, pioneiramente, uma proposição teórica mais abrangente,
embora genérica, da conexão entre as condições econômicas e o crime. No
século XX, Georg Rusche e Orca Kirchheimer expandiram a abrangência
da análise, comparando as variáveis de desemprego e taxas de prisão com
dados da Inglaterra, França, Alemanha e Itália, entre 1 9 1 1 e 1928.
O traço comum presente em todos esses escudos é o de que eles apenas
constataram a existência de correlações entre determinadas variáveis eco
nômicas e crimes, algo ainda muito discante da formulação de uma teoria
ou um modelo capaz de explicar quais as condições e fatores que incenti
vam a conduta criminal. Apenas nas décadas finais do século XX viria à luz
uma teoria com esse propósito, a partir da contribuição original de Becker
em seus modelos de análise econômica do comportamento humano.
É necessário sublinhar, desde já, que a relação entre economia e crime
não é direta e mecânica. Desde os primeiros escudos, acima citados, sabe
mos que o crime é um fenômeno inversamente relacionado com o desen
volvimento econômico e social. Tal constatação pode ser, também, facil
mente comprovada na atualidade. Basca observarmos que os países desen
volvidos, com renda per capita mais elevada, apresentam níveis menores de
crimes - canto contra o patrimônio como os contra a vida - do que os
1 D L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Mesmo quando, no pas
sado recente, os países desenvolvidos enfrentaram movimentos de elevação
em suas curvas de crimes, como ocorreu nas décadas de 1 970 e 1 980 nos
Estados Unidos e alguns países da Europa, seus índices criminais mantive
ram-se em patamares muito abaixo dos existentes nos países subdesenvolvi
dos e em desenvolvimento.
Para se compreender as conexões entre as condições econômicas e a
criminalidade, portanto, é preciso considerar não apenas o comportamen
to das variáveis econômicas frente aos níveis de crimes - embora elas sejam
evidentemente importantes e decisivas -, mas também o papel fundamen
tal desempenhado pelas instituições públicas (Polícia, Justiça e Sistema Pri
sional) e privadas (Família, Escola e Comunidade). Além disso, é preciso
considerar o papel da cultura e dos valores morais como forças condicio
nantes que incentivam ou restringem as decisões dos indivíduos no sentido
do crime ou do não-crime.
Isso significa reconhecer que os indivíduos não decidem apenas moti
vados por circunstâncias econômicas ou sociais, mas também influencia
dos por valores culturais e morais aprendidos na convivência social; as pres
sões oriundas do ambiente externo sofrem a mediação da consciência e dos
seus valores morais. A teoria econômica do crime procura integrar todos
esses elementos num modelo explicativo das decisões dos indivíduos pelo
crime e pelo não-crime.
A pertinência do tema para nós, brasileiros, dispensa maiores justifica
tivas. Basta lembrar que, entre os países em desenvolvimento, o Brasil é um
dos que apresenta níveis mais altos de crimes. De 1 1 homicídios por 1 00
mil habitantes em 1 980 passamos para 28,4, em 2002, e 26,9, em 2004,
último indicador disponível. O mesmo comportamento ascendente ocorre
com os furtos e roubos, a tal ponto que a taxa de roubos nas capitais brasi
leiras atingiu, em 2002, um patamar cinco vezes mais alto do que nos Esta
dos Unidos e na Inglaterra. As pesquisas de vitimização - que medem o
impacto da criminalidade na população - feitas nos anos recentes indicam
que um terço da população das capitais brasileiras é, anualmente, vítima de
algum tipo de crime. Quando o período pesquisado é ampliado para um
prazo maior, de 5 anos, por exemplo, os dados mostram que a metade da
população brasileira foi vítima de algum tipo de crime.
Além do drama das vítimas e da insegurança da população, as estatís
ticas criminais evidenciam também que a polícia brasileira vive uma grave
crise de desempenho. Carente de séries estatísticas confiáveis e sistemas de
E c a N C M I A DO C R I M E 1 1
planejamento, equipamentos modernos, recursos humanos qualificados e
efetivos em número suficiente, a polícia pouco pode fazer tanto para preve
nir quanto para apurar os crimes cometidos. Algumas estimativas indicam
que a polícia brasileira não consegue apurar mais do que 5% de todos os
crimes violentos cometidos no país. É um desempenho pífio se comparado
com qualquer país desenvolvido: nos Estados Unidos, 67% são apurados;
na Inglaterra, 35%; no Canadá, 45%; e na Austrália, 30%.
Fechando o cenário, a Justiça brasileira tem sido classificada, quase
unanimemente, como lenta, burocrática e que pouco condena. E nossas
prisões, na ponta do sistema de justiça criminal, carecem de vagas e de
condições mínimas de controle e segurança. Ao invés de território seguro
para o cumprimento das penas e ressocialização de presos, as prisões são
territórios controlados pelo crime organizado.
Apesar desse quadro dramático, paradoxalmente, ainda sabemos mui
to pouco sobre o fenômeno da criminalidade no Brasil. O déficit de infor
mação qualificada, indicadores e conhecimentos mais amplos e detalhados
é justamente uma das causas que explicam as dificuldades e a inoperância
das políticas de segurança pública. Três exemplos apenas são suficientes
para comprovar essa realidade:
Não possuímos ainda um cadastro nacional de registros criminais. Os
registros dos crimes são feitos pelos governos estaduais, de acordo com
critérios muitas vezes diferentes de organização dos dados, dificultan
do a estruturação de séries estatísticas confiáveis e comparáveis. Com
isso, a análise dos padrões e tendências dos crimes fica gravemente
prejudicada, afetando a qualidade do planejamento da estratégia e da
ação policial. Tal situação torna-se ainda mais problemática devido à
carência de recursoshumanos capacitados - analistas, estatísticos, so
ciólogos, economistas, etc. - e à falta de prioridade para as áreas de
planejamento no âmbito das Secretarias de Segurança Pública. Em
alguns Estados, existe, ainda, duplicidade de sistemas de informações,
com competências superpostas nas instituições - polícia civil e militar
-, o que gera ineficiência e dispersão pe recursos.
Não existe no Brasil um programa nacional de pesquisas criminais,
nos moldes do National Crime Victimization Survey (EUA) ou Bri
tish Crime Survey (Inglaterra). Tais programas realizam pesquisas anuais
de impacto da criminalidade, de aferição dos eventos não captados
nos registros policiais - as chamadas cifras negras - e de mapeamento
1 2 L u i z TAD E U V I A P I A N A
das características socioeconômicas e demográficas de vítimas. Com
indicadores provenientes dessas pesquisas, são elaborados estudos e
análises detalhadas sobre as tendências dos crimes, o perfil das vítimas
e as características ambientais prevalentes nos delitos. Tais indicadores
são também amplamente usados no planejamento da ação policial e
no desenho de programas públicos voltados para a prevenção e con
trole do crime.
Inexistem em nosso país programas de policiamento comunitário, pro
gramas de prevenção orientados por problemas (Problem Oriented Po
licing) ou programas de prevenção situacional do crime, abordagens já
consagradas e largamente utilizadas nos países desenvolvidos. Entre
nós, onde existem, são iniciativas esporádicas e isoladas, não resultan
tes de políticas ou programas estruturados duradouros, algo essencial
para a produção de bons resultados. Também são raros os programas,
e experiências mais elementares de controle social sobre fatores de ris
co focados em drogas e álcool. Dentre tais programas podemos citar,
por exemplo, o mais comum deles, que é o controle mais rígido do
horário de funcionamento de bares em áreas de risco e venda de dro
gas em escolas e imediações. Mesmo medidas simples e óbvias como
essas não são adotadas na maioria das cidades e regiões com altos índi
ces de crimes.
O mais dramático é que as deficiências apresentadas pelo sistema de
segurança pública e de justiça em prevenir, apurar e punir os crimes acabam
se tornando, objetivamente, num poderoso incentivo à criminalidade. É
um círculo vicioso que começa na falta de ações preventivas, continua na
baixa apuração dos crimes cometidos, alimenta-se da ausência de condena
ção e, por fim, quando esta acontece, em prisões de onde é fácil fugir ou
delinqüir. O mais importante, termina com a sinalização clara de que o
crime compensa.
Este livro é diferente dos demais textos produzidos sobre a criminalidade
no Brasil, que abordam o tema utilizando as contribuições teóricas da Sociolo
gia e da Criminologia. Em nossa exposição, adotamos a perspectiva teórica de
Gary Becker, segundo a qual os indivíduos optam pelo delito caso o retorno
esperado seja maior do que o custo associado à escolha. A decisão pelo crime,
assim, seria semelhante a outras deliberações que são tomadas no cotidiano
pelos indivíduos, como comprar uma casa, mudar de emprego, adquirir um
carro, casar, ter filhos e outras que definem seu curso de vida.
E c a N C M I A oa C R I M E 1 3
Nessa medida, o crime não é um evento que resulta de "anormalida
des" ou "traços biológicas", no sentido de insuficiência ou defeitos, como
acreditava Cesare Lombroso; da mesma forma, não pode ser visto como
um fenômeno determinado imperativamente pelas condições sociais e eco
nômicas, visão abrigada por muitas escolas criminológicas, entre as quais
podemos citar a Escola de Chicago e ramificações, como a influente Teoria
da Desorganização Social.3 Na perspectiva da teoria econômica do crime,
em sua esmagadora maioria, o criminoso é uma pessoa normal que ponde
ra e decide dentro de uma determinada estrutura de incentivos ou condi
cionantes. Os indivíduos, evidentemente, não decidem no vácuo; eles so
frem as influências do meio, desde a sua formação inicial na família e na
escola, mas, ainda assim, são eles que em última análise decidem. A dife
rença entre influenciar e determinar é sutil, mas é fundamental.
Desde o nascimento, o indivíduo está submetido a diversos condicio
namentos biológicos ditados pelo seu metabolismo. Porém, é preciso subli
nhar que, além do ciclo biológico, que independe da vontade dos indiví
duos, eles são influenciados, a inda, pelos condicionantes decorrentes da
vida em sociedade, sobre os quais pode agir a consciência humana. Por
exemplo, estudar, trabalhar, formar família, enfim, são opções que se apre
sentam ao longo da vida e que dependem tanto das decisões dos indivíduos
como também de fatores externos, nem sempre sob seu controle. Não é
porque um indivíduo decidiu estudar que ele irá fazê-lo; o êxito de tal
opção depende de sua força de vontade, persistência e esforço, como tam
bém de sua capacidade de arcar com os custos dela decorrentes, que são
determinados externamente. O fato é que as opções dos indivíduos ao lon
go da vida implicam custos e benefícios, sendo influenciadas por circuns
tâncias que, muitas vezes, extrapolam o indivíduo.
Junto com as circunstâncias sociais, deve-se considerar também a im
plicação óbvia de que as diferenças entre os indivíduos, decorrentes de fato
res biológicos (inteligência), da cultura e da moral, abrem possibilidades de
decisões diversas e múltiplas. Cada indivíduo pode reagir de forma diferen
ciada aos condicionantes naturais e sociais.
Existe ainda um outro dado importante, assinalado por Gianetti da
Fonseca , no livro O Calor do Amanhã: "O jogo da vida - sobreviver e repro
duzir - se desenrola no tempo" Isso implica que as decisões que ditam a
vida no presente têm um custo futuro. Logo, o comportamento no presen
te e as escolhas feitas hoje ditam o curso da vida no futuro. Daí a idéia de
que a vida envolve trocas intertemporais, nas quais sempre está presente o
1 4 L u i z TA D E U V I A P I A N A
dilema entre o benefício ou custo no presente em troca do benefício ou
custo no futuro.
Essas trocas são comandadas não apenas por um cálculo matemático
de vantagens e desvantagens, mas também por um fator sobre o qual os
indivíduos nem sempre têm total controle, a impulsividade. É ela, em bus
ca do prazer imediato, que imputa custos para o futuro. Aquele que come
gorduras, fuma e bebe em excesso, está trocando prazer no presente por um
custo cerco no futuro, que virá na forma de perda de saúde e, no limite, na
morte. Ao contrário, aquele indivíduo que se esforça no presente para escu
dar, busca os benefícios da educação no futuro, na forma de um emprego
melhor, mais renda e status. Da mesma forma, aquele que procura benefí
cio imediato no crime poderá incorrer num custo futuro na forma de perda
da liberdade.
Portanto, na teoria econômica do crime, o evento crime é visco como
uma decisão onde são ponderados os benefícios e os custos, e, também,
como uma troca intertemporal, entre o benefício imediato e um custo pro
vável no futuro (prisão). Assim sendo, a decisão pelo crime seria semelhan
te a outras decisões tomadas pelo indivíduo ao longo de curso de sua vida.
Os principais incentivos que influenciam as decisões pelo crime ou
pelo não-crime são os ganhos monetários ou psicológicos advindos do ato
criminoso, a percepção da probabilidade de prisão e condenação, os custos
morais e as perdas potenciais de renda associadas ao tempo de permanência
na prisão. Em outras palavras, a decisão pelo crime resulta da comparação
da expectativa dos ganhos obtidos no mercado ilegal com a expectativa de
ganho no mercado legal, considerando-se determinado risco de punição.
Mais concretamente, o exame da literatura disponível mostra que existe
uma correlação importante entre desemprego e baixa renda e crimes, prin
cipalmente aqueles cometidos contra a propriedade. Da mesma forma, os
escudos comprovam que a baixa escolaridade é fatorpredicivo de conduta
criminosa, ao lado do uso de drogas e álcool.
Por outro lado, existem escudos mostrando que quanto maior for a
percepção sobre a probabilidade de o indivíduo ser preso e condenado,
mais elevado será o custo do crime. Esse, aliás, é um dos fundamentos clássi
cos dos sistemas de segurança e dos sistemas penais desde o final do século
XVIII: a dissuasão dos crimes por meio do efeito incapacitante e simbólico exer
cido pela certeza, celeridade e severidade na aplicação das penas.
A noção do papel da dissuasão é antiga, mas está, ainda, presente em
versões modernas de programas de combate ao crime, como a teoria das
E C O N O M I A DO C R I M E 1 5
"janelas quebradas" (broken windows) , que parte da premissa de que a rein
cidência e a ocorrência de crimes mais sérios pode ser contida pela punição
severa dos crimes menores.
Outro exemplo das novas abordagens e desenvolvimentos teóricos que
conferiram maior amplitude e abrangência ao efeito dissuasão, para além
do efeito associado exclusivamente à punição, é a teoria da Prevenção Situa
cional do Crime, que incorpora novas estratégias de prevenção com o obje
tivo de reduzir as oportunidades para os crimes. Essa teoria preconiza ações
preventivas que envolvem desde a organização da comunidade visando a au
mentar a vigilância nos bairros, ruas e escolas, a adoção de sistemas eletrônicos
de controle em ônibus, praças e residências, até programas ant idrogas e de
controle do álcool.
Ao longo deste livro vamos apresentar as idéias e noções centrais da
teoria econômica do crime e, a seguir, alinhar evidências sobre como ope
ram, na realidade concreta, os incentivos ao crime e ao não-crime. Como o
leitor perceberá, serão utilizados estudos de pesquisadores de outros países,
principalmente norte-americanos e europeus. Isso se deve, de um lado, ao
estágio avançado em que se encontra a pesquisa acadêmica sobre o tema
nesses países em relação ao nosso e, por outro, à precariedade, tanto em
qualidade quanto em abrangência, das estatísticas e dos indicadores crimi
nais no Brasil. Porém, quando disponíveis, os estudos feitos no Brasil são
evidentemente considerados e citados.
É claro que nem sempre as conclusões de escudos feitos com dados
sobre outros países são aplicáveis à nossa realidade. No entanto, as metodo
logias e o aporte teórico que nos trazem certamente podem nos ajudar a
vislumbrar novos caminhos e soluções aplicáveis à nossa realidade. Dois
exemplos ilustram tais possibilidades: os estudos feitos em outros países
que mostram, com fortes evidências, uma correlação positiva entre drogas
- comércio e uso - e crimes, e também o já referido papel decisivo da
punição na prevenção e redução dos crimes.
Entretanto, apesar de tais evidências, não temos ainda em nosso país
uma política forte e consistente de combate ao tráfico e uso de drogas, e
nos perdemos em debates estéreis sobre a eficácia das penas, com a predo
minância, entre os formuladores da política criminal, de um viés de baixa
punibilidade, caminho oposto às experiências internacionais mais positi
vas. O Brasil terá de enfrentar, por isso, um longo caminho no aprimora
mento de suas políticas anticrime, e o primeiro passo nesse sentido é co
nhecer o que se faz de bom e eficaz em outros países.
1 6 L u i z TAD E U V I A P I A N A
O livro está organizado da seguinte forma: na Parte 1, é feita uma
breve resenha da evolução do crime violento no Brasil durante as décadas
de 1 980 e 1 990. O objetivo desta parte é traçar as principais características
e tendências da criminalidade violenta no Brasil nas últimas décadas. A
análise concentra-se no comportamento das taxas de homicídios, o indica
dor criminal disponível mais confiável, embora este também apresente li
mitações. Isso ocorre porque há um enorme desconhecimento das cir
cunstâncias que cercam os homicídios no Brasil, devido ao fato de que
apenas uma pequena parte deles é esclarecida. Apesar dessa dificuldade,
o crescimento dos homicídios é revelador do agravamento da crimina
lidade em geral.
Na Parte II, apresentamos os elementos básicos da teoria econômica
do crime e, em seguida, resenhamos e debatemos as principais variáveis que
influenciam os custos e o retorno dos crimes, entre os quais as condições do
mercado de trabalho - emprego e renda -, a educação e o papel criminogê
nico das drogas.
A seguir, na Parte III, debatemos as contribuições da sociologia e da
criminologia mais importantes. Proc�raremos destacar quais os elementos
presentes nessas análises, que são convergentes e divergentes com o modelo
econômico do crime. Conforme veremos, a importância atribuída por esta
teoria à decisão dos indivíduos pelo crime ou pelo não-crime não é contra
ditória com os condicionantes sociais e econômicos presentes nos contex
tos em que os indivíduos decidem. Ao contrário, tais contextos devem ser
considerados como parte da estrutura de incentivos que favorecem ou de
sestimulam decisões pelo crime.
Finalmente, na Parte IV trataremos dos efeitos da expectativa de puni
ção sobre a decisão do indivíduo em praticar o ato criminoso. Serão apre
sentadas evidências empíricas que demonstram a efetividade da punição
como fator de contenção do crime, bem como algumas referências críticas
a essa proposição. Nesta parte, uma seção é dedicada à análise dos modelos
e do desempenho das organizações policiais, com o propósito de destacar
suas dificuldades e limitações no controle do crime. Em seguida, apresenta
mos algumas considerações finais.
E C O N O M IA DO C R I M E 1 7
PARTE 1
CONTEXTO
o C RI M E VI O LENTO
Aevolução recente da criminalidade n o Brasil apresenta como característica marcante o extraordinário crescimento dos crimes violentos,
principalmente os homicídios, e seu caráter eminentemente urbano e juve
nil. Tal crescimento conduziu o Brasil ao copo do ranking dos países mais
violentos do planeta e transformou a criminalidade e a violência num dos
mais importantes cernas que afligem os moradores das médias e grandes
cidades do País. Mais do que refletir remores associados à forma incensa e
sensacionalista com que a mídia às vezes noticia os crimes, a apreensão
popular cem, de faro, sua razão de ser.
A década de 1 980 parece ser o momento crucial em que ocorre force
inflexão nas curvas de crimes violentos, especialmente homicídios. A partir
desse momento, as morres por homicídio passaram a figurar com peso cada
vez maior nas causas de óbitos dos brasileiros, num radical distanciamento
da situação existente no início do século.
Esse faro pode ser observado, por exemplo, nos Estados de São Paulo
e Rio de Janeiro. Em 1 900, do cocal de 30 mil óbitos verificados no primei
ro estado, apenas 30 foram homicídios, praticamente um resíduo. 1 No Rio
de Janeiro, no mesmo ano, as mortes por homicídio não passavam de 1 ,8
caso por grupo de 1 00 mil habitantes. O perfil da criminalidade, nessa
época, era completamente distinto. Predominavam os pequenos furtos,
desordens provocadas por bêbados, lenocínio, enfim conflitos de baixo poder
ofensivo. Os homicídios eram raros, quase sempre crimes passionais, e ad
quiriam grande repercussão pública.
Pelo que se sabe, nada indica que esse padrão tenha se modificado
radicalmente até pelo menos os anos de 1 970. Ainda no início da década
de 1980, dos 86 mil óbitos verificados no Estado de São Paulo, apenas
2,6% do cocal (2.300) eram provocados por homicídio. A partir daí, encre
canco, nora-se que o quadro se deteriora gravemente, culminando que, em
E C O N O M IA DO C R I M E 2 1
1 998, de um total de 1 03 mil óbitos, 1 2 mil foram homicídios, mais de
1 1 o/o do total.2
A tendência observada nas duas mais importantes regiões do País in
fluenciou o panorama nacional. Os dados mostram que, a partir da década
de 1 980, se verificou uma elevação muito significativa no total de homicí
dios ocorridos em todo o Brasil: de 1 3 .9 1 O homicídios, naqueleano, para
49.640, em 2002. Traduzindo esses números em taxas, passamos de 1 1 óbitos
para 100 mil brasileiros, em 1 980, para 2 1 ,7 �m 1 990, e, finalmente, 28,4 em
2002. Em apenas 22 anos, os homicídios praticamente triplicaram.
Com tal desempenho, o Brasil passou a ocupar o 6.0 lugar no ranking
dos países com maior incidência de homicídios dolosos em todo o mundo.
Ficamos atrás apenas da África do Sul ( 1 1 4,84 por 1 00 mil habitantes),
Colômbia (69,98) , Venezuela (33,20) , Bolívia (3 1 ,96) e Equador (25,92) .3
Estamos muito acima da Argentina (8,2 por 1 00 mil) , do Chile ( 1 ,7 por
1 00 mil) e do Peru (4,9 por 1 00 mil) . Comparada com países desenvolvi
dos, a situação do Brasil piora acentuadamente, pois quase todos apresen
tam taxas muito baixas, inferiores a 5 ,5 por 1 00 mil habitantes - que foi o
índice registrado nos Estados Unidos em 2000.
Se nossa unidade de análise forem os Estados, em 2002, aqueles que
ostentavam os maiores índices de homicídios eram o Rio de Janeiro, com
56,5 casos por 1 00 mil habitantes, Pernambuco (54,5), Espírito Santo (5 1 ,2) ,
Rondônia (42,3) e São Paulo (38) . No outro extremo, os Estados com as
menores taxas eram o do Maranhão (9), de Santa Catarina ( 1 0,2) , do Rio
Grande do Norte ( 1 0,6) , do Piauí ( 1 0,9), e da Bahia ( 1 3) .4
Por sua vez, o exame dos indicadores de cada Estado da Federação
evidencia que é nas Capitais e/ou Regiões Metropolitanas que as taxas são
mais elevadas em relação à média estadual . Em São Paulo, em 2002, en
quanto a taxa média estadual situava-se no patamar de 38 casos por 100
mil habitantes, a da Região Metropolitana estava em 53,6/ 1 00 mil habi
tantes, quase o dobro; em Pernambuco, a taxa estadual era de 54,5 contra
73,3 da Região Metropolitana; no Rio de Janeiro, o índice estadual era de
56,5 e o da Região Metropolitana, 64,2; no Rio Grande do Sul, o mesmo
comportamento: 1 8 ,3 e 28,2, respectivamente. O mesmo comportamento
ocorre em todos os demais Estados e Regiões Metropolitanas do país.
A concentração dos homicídios nessas áreas pode ser observada, ain
da, se atentarmos para o fato de que do total dos homicídios verificados no
Brasil, em 2002, 53, 1 o/o ocorreram nas Regiões Metropolitanas, cujas po
pulações representam apenas 30,7% do total do país.
22 L U I Z TAD E U V I A P I A N A
Da mesma forma que nas Regiões Metropolitanas, os homicídios tam
bém estão sobre-representados nas capitais. Todas elas somadas contam com
23,8% da população total do país, mas registram, no período 1 993-2002,
38% dos homicídios. Nesse período, somente duas cidades, Rio de Janeiro
e São Paulo, foram responsáveis por 50% do total de homicídios verifica
dos nas Capitais brasileiras.
Todavia, quando se compara a evolução dos indicadores separando as
regiões por Capitais, Regiões Metropolitanas e interior dos Estados, nota
se um crescimento maior dos homicídios no bloco do interior. Neste o
incremento é de 8%, contra 2,4% nas Regiões Metropolitanas e 1 ,65% nas
Capitais, durante o período 1 993-2003. Tal fenômeno levou o sociólogo
Julio J. Waiselfisz, responsável pela elaboração do Mapa da Violência, da
Unesco, a constatar uma "forte tendência de interioriza.ção da violência
homicida" no Brasil. No estudo Padrões de Criminalidade no Rio Grande do
Sul - 1997-2003, constatou-se a mesma tendência: os homicídios estavam
crescendo com maior intensidade nas cidades médias. 3
E C O N O M I A DO C R I M E 2 3
e O N GLOM ERADOS , DE HCM I C I DICS
Adistribuição desigual dos homicídios ocorre também dentro das Capitais. Estudo abrangendo a cidade de São Paulo, realizado pela coorde
nadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo,
Nancy Cardia, e pela professora Titular da Faculdade de Arquitetura e Ur
banismo da mesma universidade, Sueli Schiffer, revelou que as taxas de
homicídios são mais elevadas nas regiões da cidade onde existem os piores
indicadores demográficos e de renda (distritos de Campo Limpo, Capão
Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís).
A mesma constatação foi evidenciada em outra pesquisa, que identifi
cou vários "conglomerados de homicídios" na cidade de Belo Horizonte,
Minas Gerais, entre 1 995- 1 999.5 Entre as 85 favelas existentes na cidade,
foram apontadas dez áreas onde os riscos de homicídio são mais elevados.
Porém, diferentemente do trabalho de Cardia e Schiffer, ao invés de vincu
lar os riscos elevados à pobreza e a �ndicadores demográficos, exclusiva
mente, os pesquisadores apontam o fato de essas regiões "serem assoladas
pelo tráfico e pela violência associada ao comércio de drogas" A pobreza
não seria, assim, uma variável autônoma na explicação dos homicídios nas
regiões mais pobres. Essa conclusão é coincidente também com o estudo
da antropóloga carioca Alba Zaluar, que analisou a incidência da criminali
dade violenta e sua correlação com o tráfico e uso de drogas nos bairros de
Copacabana, Tijuca e Madureira, na cidade do Rio de Janeiro.
O Re/,atório de Desenvolvimento Humano Sustentdvel da Cidade do Rio
de janeiro, realizado pelo Instituto de Pesquisa Aplicada - IPEA, Prefeitura
Municipal do Rio de Janeiro e Programa das Nações Unidas para o Desen
volvimento - PNUD, aponta também o fenômeno da distribuição desi
gual dos homicídios na cidade. No ano de 1 999, os homicídios ocorridos na
zona oeste alcançaram a taxa de 57,5 casos por 1 00 mil habitantes, contra
apenas 1 6,4 na zona sul. O estudo destaca que na zona sul da cidade, em con-
24 L u i z TAD E U V I A P I A N A
traposição à zona oeste, têm-se indicadores socioeconómicos mais elevados,
além de maior cobertura policial - 1 policial para cada 35 1 habitantes contra 1
policial para cada grupo de 697 a 1 .027 habitantes nas demais zonas da cidade.
No mesmo sentido alinham-se, ainda , as conclusões de um estudo
que detectou conglomerados espaciais de óbitos por causas violentas em
Porto Alegre para o ano de 1 996.6 Foram encontradas duas áreas com alta
densidade de residências com vítimas de homicídios. Uma delas é formada
por bairros que se diferenciam das demais zonas da cidade por apresentarem
também piores indicadores socioeconómicos, onde "diferentes grupos envolvi
dos com drogas atuam e é freqüente a ocorrência de conflitos entre os que
disputam o controle do tráfico e entre estes e a polícià'. A outra área de con
centração de homicídios é bastante peculiar, pois é formada por bairros de
classe média próximos ao centro da cidade. Nesta segunda área , a elevada
incidência de homicídios poderia ser explicada pela alta densidade popula
cional, movimentada circulação noturna e atuação de traficantes.
E c a N C M I A DO C R I M E 2 5
H O M I CÍDI O ENTRE JOVEN S
F inalmente, é necessário observar como os homicídios se distribuem na população, levando-se em conta as faixas etárias. Os números da déca
da de 1 990 indicam taxas de crescimento mais elevadas de homicídios na
faixa etária composta pela população entre 1 5 e 24 anos. Na década de
1 993-2002, enquanto que no Brasil como um todo as taxas de homicídio
aumentaram 62,3%, no extrato populacional de 1 5 a 24 anos houve um
aumento de 88,6%.
O crescimento dos homicídios entre os jovens acima da média nacio
nal significa que, em 2002, houve 54,7 homicídios de jovens por 100 mil
habitantes no país, contra 28 ,4 casos por 1 00 mil para a população como
um todo. Em 1 982, representavam 26,9% do total de homicídios ocorri
dos no país. Em 2002, quase 40%.
Os Estados que lideram os índices de homicídio juvenil são prati
camente os mesmos que apresentam as maiores taxas quando conside
rado o total de suas populações. Isso ocorre porque, como vimos, o
total dos homicídios é fortemente influenciado pela criminalidade letal
entre os jovens. As maiores taxas de homicídio juvenil ocorrem, pela
ordem, nos Estados do Rio de Janeiro, com 1 1 8 ,9 casos por 1 00 mil
habitantes, Espírito Santo ( 1 03,7) , Pernambuco ( 1 03,4) , Amapá (8 1 ,2)e São Paulo (8 1 ) .
O mesmo fenômeno ocorre nas Capitais. Em 2000, 44,4% das mor
tes de jovens nas Capitais brasileiras tiveram como causa o homicídio. Nas
cidades de São Paulo e Rio de Janeiro estão concentradas mais de 50% do
total das mortes de jovens de 1 5 a 24 anos em todo o País. Registre-se,
ainda, que o "momento crítico" está situado no intervalo entre 20 e 24
anos, com taxas que se situam entre 69, 1 e 66, 1 casos por 1 00 mil habitan
tes. Os jovens dessa faixa etária constituem o segmento da população que
apresenta maior risco de vitimização por homicídio.
26 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
As Capitais que lideram o homicídio juvenil são as seguintes: Vitó
ria ( 1 97 casos por 1 00 mil habitantes), Recife ( 1 92,9) , Rio de Janeiro
( 1 45 ,5 ) , Maceió ( 1 29 ,4) e São Paulo ( 1 1 4,2). As menores taxas são as
de Palmas (28) , Natal (3 1 ) , São Luís (3 1 ,5 ) , Manaus (49) e Salvador
(49 ,4) . Mesmo quando comparamos as menores taxas de ha
'
micídio
juvenil com a média nacional para a totalidade dos homicídios, elas se
mostram extremamente elevadas.
Outra característica do perfil das vítimas refere-se à predominância do
sexo masculino. No ano de 2000, por exemplo, 92,7% do total das vítimas
de homicídio eram homens. Esse comportamento repete-se na maioria dos
Estados, com exceção de Goiás, Santa Catarina, Minas Gerais e Roraima,
onde a participação das mulheres como vítimas de homicídios é um pouco
mais elevada. O mesmo ocorre com a participação feminina no grupo de
vítimas de 1 5-24 anos. Nesse grupo, o destaque é Rondônia, onde 20% das
vítimas entre 1 5-24 anos era formado por mulheres.
A elevada incidência de crimes entre os jovens é um fenômeno que
também ocorre nos países desenvolvidos. Nesses países, segundo depoi
mento dos criminologistas norte-americanos James Wilson e Richard
Herrnstein, o maior envolvimento de jovens ocorre tanto no lado das víti
mas como no dos agressores. Por isso., afirmam que o crime é um compor
tamento jovem em larga extensão.7
E isso é verdadeiro não apenas para os homicídios. Por exemplo, em 1 980,
nos Estados Unidos, 60 % dos presos por crimes cometidos contra a proprieda
de e 37% dos presos por crimes violentos tinham menos de 20 anos. O pico
das taxas do grupo de crimes composto por estupro, roubos e agressões ocorre
quando o agressor tem entre 1 8 e 20 anos (25 .800 casos por 100 mil habitan
tes), diminuindo sensivelmente na faixa dos 21 anos (5.63 1 / 100 mil habitan
tes) e também na faixa dos 1 2- 17 anos ( 14. 121 /lOOmil habitantes).8
Nos Estados Unidos, a participação dos jovens nos homicídios é tam
bém muito mais alta do que a das demais faixas etárias. Em 1 990, era de 2 1
casos entre o s jovens d e 1 8 a 24, contra 1 6,8 n a faixa d e 25-34 e 9,9 n a de
35-49. Mesmo quando os homicídios caem drasticamente no final da dé
cada, a taxa entre os jovens permanece muito alta - 1 7,4/ 1 00 mil - contra
a média nacional de 6,3 casos por 1 00 mil para o total da população. A taxa
entre os jovens é três vezes maior do que a da população total, proporção
semelhante à brasileira.
Refletindo os índices de crimes, as taxas de prisões por homicídios são
também mais altas nos Estados Unidos para as idades de 1 8 a 20 anos em
E c a N C M I A oa C R I M E 27
relação às demais faixas etárias, o que parece reforçar o padrão de maior
propensão ao crime juvenil também no caso de homicídios. O crescimento
dos crimes violentos verificado no período 1 985- 1 993 foi acompanhado
pelo aumento das taxas de prisões de pessoas com idade entre 1 8 e 20 anos.
O mesmo ocorreu com os roubos.9
Usando um critério mais amplo do que os registros de homicídio, um dos
mais completos programas de análise de vitimização, que é feito na Inglaterra -
o British Crime Suroey - também mostra a alta incidência criminal na faixa
etária dos jovens. A pesquisa feita em 2002-2003 mostrou que o grupo de
jovens, do sexo masculino, com 1 6 a 24 anos, tem 1 5 , 1 % de possibilidade de
ser vítima de crimes violentos, contra apenas 3,4% para os homens com 25 a
44 anos, e 2% para homens entre 45 e 64 anos. Em outras palavras, os jovens
do sexo masculino têm 4,4 vezes mais chances de vitimização violenta do que
os adultos e 7,5 vezes em relação ao terceiro grupo. Outro estudo feito na
Inglaterra mostrou que metade de todos os autores de roubos tinha entre 16 e
20 anos e que 45% das vítimas estava na faixa de 1 1 a 20 anos. 1 0
Resumindo, a criminalidade letal no Brasil apresenta as seguintes ca
racterísticas:
a) taxa nacional bastante elevada quando comparada às taxas internacionais;
b) distribuição desigual entre as diversas unidades da Federação, com forte
concentração nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e
Espírito Santo;
c) crescimento elevado dos homicídios na maioria dos Estados, ainda
que em muitos deles as taxas permaneçam em patamares que podem
ser considerados baixos;
d) taxas mais elevadas nas Capitais e Regiões Metropolitanas do que as
taxas nacionais;
e) desde 1 999, taxa de crescimento dos homicídios no interior em níveis
superiores aos das Capitais e Regiões Metropolitanas;
e) nas Capitais, os índices de homicídios tendem a ser mais elevados nas
regiões mais pobres, que se caracterizam como zonas de forte atuação
do tráfico de drogas e precária presença de policiamento;
f) maior incidência dos homicídios entre a população jovem de 1 5 a 24
anos em praticamente todas as Capitais brasileiras;
Por último, as armas de fogo estão presentes em 6 1 o/o das ocorrências
fatais, embora não se possa afirmar, em razão das deficiências nos registros
e baixa taxa de esclarecimento dos crimes, se elas são legais ou ilegais.
28 L u i z TAD E U V I A P I A N A
e RIME ATINGE METADE DA POPULAÇÃO
D iante do fato de que os registros policiais captam apenas uma pequena parcela dos crimes - excetuando-se os homicídios, que têm alto índi
ce de notificação-, o caminho utilizado pelos pesquisadores para dimensio
nar o conjunto dos delitos são os dados das pesquisas de vitimização, apesar
dos limites geográficos e metodológicos desses levantamentos.
A última pesquisa feita no Brasil, em 2002, com abrangência nacional,
focaliwu apenas quatro Capitais brasileiras - São Paulo, Rio de Janeiro, Recife
e Vitória. Apesar de limitada geograficamente, mostrou um cenário dramático:
nos últimos 5 anos, 50% da população foi vítima de algum dos 1 1 tipos de
crimes pesquisados (roubo/furto de moto, depredação em automóvel, roubo/
furto de bicicleta, roubo/furto de automóveis, roubo/furto de algo dentro do
carro, funo, agressão física, arrombamento, tentativa de arrombamento e agressão
sexual) . Quando a pergunta se referiu apenas ao último ano, ainda assim um
terço dos entrevistados disse ter sofrido algum tipo desses delitos. Os crimes
contra o patrimônio - furtos e roubos - apresentaram maior incidência. 1 1
Quando utilizamos os registros policiais disponíveis, que como sabe
mos cobrem apenas parte do conjunto dos crimes cometidos, o quadro é
igualmente grave. Os dados para as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e
Porto Alegre, nos últimos anos, demonstram uma verdadeira explosão dos
crimes contra o patrimônio. Na Capital de São Paulo, por exemplo, o re
gistro policial de roubo, furto e latrocínio elevou-se de 1 ,9 milhão, em
1 983, para 3,4 milhões de ocorrências em 1 998, um aumento de 78%.
Nesse mesmo período, a população cresceu apenas 1 2,7%. Nesse ano, um
em cada três paulistanos foi vítima de um desses crimes.12 No Rio de Janei
ro, os furtos e os roubos aumentaram 56,2% e 84,2%, respectivamente, no
período entre 1 998-2004. Na cidade de Porto Alegre, o aumento foi de
86% no roubo e de 77% no furto, entre 1 997-2003, enquanto o cresci
mento da população foi de apenas 7,2%. 1 3
E c a N C M IA oa C R I M E 2 9
o C RI M E O CULTO
U ma das maiores dificuldades com que se deparam os pesquisadores da criminalidadeestá relacionada com os registros das ocorrências crimi
nais que captam apenas uma parte dos crimes que são cometidos, pois muitas
vítimas deixam de efetuar o registro junto às autoridades policiais. Estima
se que, no Brasil, 80% dos crimes não são comunicados à polícia, não fa
zendo parte, portanto, das estatísticas oficiais. Dentre todos os crimes, a
exceção são os crimes contra a pessoa, homicídio e tentativa de homicídio,
que têm alto índice de notificação. Esse volume de crimes não registrados é
conhecido na literatura especializada como "cifras negras"
No entanto, mesmo em relação aos homicídios, existem diferentes
critérios para agrupar as informações, o que também dificulta a construção
de séries estatísticas de boa qualidade. Por exemplo, as taxas nacionais de
homicídios englobam os casos de homicídio doloso e culposo, ignorando
se a diferença fundamental, que é a intenção de matar, presente no primei
ro caso e ausente no segundo. O mesmo ocorre com as mortes decorrentes
de acidentes de trânsito ou outros acidentes, onde não é possível apurar a
presença da intenção de matar ou circunstâncias outras associadas ao dolo
ou imperícia, tais como dirigir alcoolizado ou sob efeitos de drogas ou em
alta velocidade. Todas essas dificuldades, evidentemente, se refletem nas
estatísticas, fazendo com que as taxas de homicídio, na realidade, envolvam
ocorrências e circunstâncias bastante diversas.
Os pesquisadores procuram superar parte dessas dificuldades nas bases
de informação utilizando outras estratégias. As "cifras negras'', por exem
plo, podem ser razoavelmente estimadas através das "pesquisas de vitimiza
ção" Nessa modalidade de investigação, os entrevistados revelam se eles
próprios ou alguém de sua família foi vítima de algum tipo de crime num
período de referência (seis meses, um ano ou até períodos maiores), se foi
efetuado o registro policial, quais as características das ocorrências (horário,
30 Luiz TAD E U V I A P I A N A
local, etc.) e das vítimas (perfil socioeconômico). Quando não houve o re
gistro, indaga-se sobre os motivos de cal decisão, sendo usual também que se
apliquem questões sobre a percepção do entrevistado acerca da confiabilidade e
qualidade dos serviços policiais. Desse modo, agregando-se os dados dos cri
mes não registrados aos dos crimes registrados, cem-se uma noção da mag
nitude do impacto da criminalidade num determinado período.
Ocorre que, no Brasil, poucas dessas pesquisas foram realizadas - não
mais do que uma dezena - e apenas duas com abrangência nacional. As
demais se restringiram a unidades geográficas menores, como Municípios
ou Regiões Metropolitanas. Em razão disso, principalmente, não é possível
comparar seus resultados entre si, servindo, cada uma delas, apenas como
retrato parcial da criminalidade não capeada pelo sistema de segurança pú
blica em determinado momento. Elas são, também, incomparáveis, por
que utilizam como referência diferences períodos de tempo em que o crime
não notificado aconteceu.
Todavia, apesar dessas limitações, as pesquisas de vicimização são unâ
nimes em revelar taxas muito baixas de notificação de ocorrências à polícia.
De acordo com essas pesquisas, aproximadamente 80% do cocal dos crimes
detectados não foram notificados às autoridades policiais. Somente em duas
do conjunto de pesquisas que analisamos - uma realizada pela Universida
de de São Paulo, em 1 999, e outra pela Fundação Sistema Estadual de
Análise de Dados - SEADE, do Estado de São Paulo, em 1 998 - foi detec
tada uma taxa maior do que 20% de notificação.
Sobre os motivos alegados para a não-notificação, a Pesquisa Nacional
por Amostra Domiciliar - PNAD, de 1 988, informa, por exemplo, que
67% das vítimas optaram por não registrar furtos e roubos. Desse cotai,
27,7% alegaram como motivo "não acreditar" na polícia. As demais pes
quisas evidenciaram também que esta é a principal razão apresentada pelas
vítimas que optaram pelo não-registro. Os demais motivos que aparecem
com muita freqüência são o baixo valor dos bens envolvidos em furtos ou
roubos e a alegação das vítimas de que podem "resolver" sozinhas os incidentes.
Em razão dessas dificuldades, não sabemos com razoável precisão qual
é a dimensão e quais as características dos crimes cometidos no Brasil. Nos
so conhecimento abrange apenas os crimes mais graves, que envolvem agres
sões ou perdas patrimoniais elevadas (roubos e homicídios) e apresentam
altas taxas de registro policial. Mas mesmo esse conhecimento envolve al
guma distorção devido ao "baixo nível de padronização" dos dados coleta
dos pela polícia nos diferentes Estados do País.
E C O N O M I A DO C R I M E 3 1
Por todas essas limitações presentes nas estatísticas criminais, os estu
diosos costumam adotar como variável representativa da criminalidade a
taxa de homicídios por 1 00 mil habitantes. Além de apresentar sub notifi
cação muito mais baixa do que a dos demais crimes e agrupar ocorrências
de natureza diversa, o homicídio é um delito que expressa, em grau extre
mo, a presença da criminalidade violenta na sociedade.
No entanto, mesmo nesse caso, é preciso considerar que as taxas de
homicídio, quando agregadas por cidades, Estados e País, escondem im
portantes diferenças quanto à incidência espacial, características demográ
ficas e sociais de vítimas e agressores. Como vimos, os homicídios atingem,
principalmente, as pessoas que pertencem aos segmentos sociais de baixa
renda e escolaridade, residentes na periferia das grandes e médias cidades
ou áreas de grandes carências de serviços públicos.
Por exemplo, pelos dados do Sistema de Informações de Mortalidade
do Ministério da Saúde (SIM) , a Região Metropolitana do Rio de Janeiro,
em 1 996, apresentava uma taxa de 59 homicídios por grupo de 1 00 mil
habitantes, praticamente a mesma da Região Metropolitana de São Paulo,
que era de 56 por 1 00 mil. Porém, quando a taxa é "aberta" para se observar
a incidência dos homicídios por faixa etária, verifica-se que no Rio de Ja
neiro a taxa de morte por homicídios no grupo de jovens entre 1 5 e 29 anos
é 34% maior do que em São Paulo. Além disso, enquanto no Rio de Janei
ro as armas de fogo estão presentes em 87% dos casos de homicídio, em
São Paulo elas aparecem em apenas 47% dos casos, conforme revelou o
sociólogo Cláudio Beato, da Universidade Federal de Minas Gerais, no
paper Fontes de Dados Policiais em Estudos Criminológi,cos: Limites e Poten
ciais. Em resumo, as taxas agregadas obscurecem diferenças importantes na
distribuição geográfica e social dos delitos.
A produção de conhecimento sobre o crime é fortemente afetada, ain
da, pela baixa taxa de esclarecimento, pela polícia, dos crimes cometidos. A
fonte de informações criminais mais rica é o inquérito policial, que apura a
autoria e as circunstâncias dos crimes. Como apenas uma pequena parcela
dos crimes cometidos no Brasil é elucidada - no caso dos homicídios, não
mais do que 5% do total, segundo as estimativas -, tem-se uma base de
dados muito precária para o desenho dos padrões criminais e a elaboração
de políticas preventivas. Do total dos homicídios, a maior parte dos escla
recidos são justamente aqueles que ocorrem entre conhecidos e que con
tam com testemunhas. Os demais, como não são esclarecidos, têm suas
características, quanto aos agentes, motivos e circunstâncias, ignoradas.
3 2 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Contrastando com a realidade brasileira, as taxas de esclarecimento
dos crimes nos países desenvolvidos são muito mais altas. Nos Estados
Unidos, como informa o criminologista David Bayley, em seu livro Police
for the Future, 67% dos crimes violentos são apurados; na Inglaterra, 35%;
no Canadá, 45% e na Austrália, 30%.
E C O N O M IA DO C R I M E 3 3
PARTE 1 1
A E CONO M IA DO C RI ME
M O DELO DE DECI SÃO
Aanálise econômica do crime cem em Gary Becker seu fundador e principal expoente. Desde 1 968, com a publicaçãodo. ensaio Crime and
Punishmenr. An Economic Aproach, os economistas vêm dedicando crescen
te atenção ao rema. Desde então, o modelo inicial de Becker foi aperfeiço
ado e hoje é amplamente reconhecido como um importante aporte ao co
nhecimento dos fatores e circunstâncias que influenciam as decisões dos
indivíduos a cometerem ou não um aro criminoso.
O modelo de Becker tem como pressuposto que os indivíduos rea
lizam escolhas que são concebidas como racionais, ou seja, que respon
dem a determinados incentivos e condições. Ele retoma, de certo modo,
a noção presente em Jeremy Bencham ( 1 748-1 832) e Cesare Betcaria
( 1 738-1 794) , segundo a qual os indivíduos procuram maximizar o pra
zer e minimizar o sofrimento. Na acepção de Becker, no encanto, a de
cisão dos indivíduos em corno do crime envolve, em vez de prazer e
sofrimento, benefícios e custos.
Os benefícios consistem nos ganhos monetários e psicológicos pro
porcionados pelo crime. Por sua vez, os custos englobam a probabilidade
de o indivíduo que comete o crime ser preso, as perdas de renda futura
decorrentes do tempo em que estiver decido, os custos diretos do aro crimi
noso (tempo de planejamento, instrumentos, etc.) e os custos associados à
reprovação moral do grupo e da comunidade em que vive. Além disso, há
ainda a questão da consciência individual, do conflito do indivíduo e com
seus próprios valores e opções de vida, embora tais contradições sejam difí
ceis de dimensionar, uma vez que elas são essencialmente subjetivas e alta
mente variáveis de indivíduo para indivíduo. Uma notação muito simples
da equação seria:
Crime: b - p c
E c a N C M I A oa C R I M E 3 7
onde b é o benefício do crime, p é a probabilidade de prisão e e os
custos medidos pela perda de renda durante o tempo de prisão mais os
custos diretos e morais.
A decisão individual de cometer o crime é incentivada quando (b-pc)
> O, isco é, quando os benefícios menos os custos são maiores do que zero.
Nesse caso, o benefício excede os custos, havendo um ganho no aro crimi
noso. No sentido contrário, o crime é desincentivado quando os custos
(probabilidade de detenção mais custo do tempo de prisão) forem maiores
do que os benefícios.
Nesses termos, o retorno esperado do crime (atividades ilegais) impli
ca a comparação com as expectativas de retorno em atividades legais. Ou
seja, o indivíduo decide pelo crime se a utilidade esperada deste for maior
do que a utilidade esperada do uso do tempo e de recursos em outra ativi
dade no mercado legal. Isco é, ele opta pelo crime não porque sua motiva
ção seja diferente da de outras pessoas, mas porque os benefícios e os custos
são diferentes.
A questão acima, denominada "custo de oportunidade", remete para a
contribuição de vários economistas que estudaram a influência de fatores
econômicos como renda, emprego e educação como condições de incenti
vo nas decisões sobre o crime. O grande mérito desses estudos foi o de
ampliar a comprovação empírica da teoria econômica do crime para além
do fator representado pela probabilidade de punição. Outros estudos, tam
bém feitos por economistas, investigaram as interações sociais nas comuni
dades como contextos de incentivo ao crime, também ampliando o escopo
da teoria. Hoje, por isso, pode-se dizer que a teoria econômica do crime
incorpora várias circunstâncias ambientais externas ao indivíduo, ainda que
mantenha a proposição central de que a decisão do crime é, essencialmen
te, uma decisão dos indivíduos.
O economista norte-americano Isaac Ehrlich analisou os efeitos dos
níveis de renda, do desemprego e da educação de determinada comunidade
na opção do indivíduo pelo crime. No lado do resultado esperado, ele con
cluiu que o nível de renda da comunidade aumenta a probabilidade de
retorno dos crimes - principalmente, daqueles cometidos contra a proprie
dade - na medida em que eleva a oferta de alvos atrativos. Por exemplo,
quando o desemprego é alto, ele contribui para reduzir as oportunidades,
pois significa menos vítimas potenciais. De sua análise empírica, conclui
que o desemprego é menos importante do que o nível de renda como fator
determinante de crimes.
38 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Porém, o nível de renda e o desemprego podem incentivar a opção
pelo crime de outra forma. Quando a renda média do indivíduo é baixa ou
nula (desempregado), os benefícios do crime, comparados com os custos,
tendem a ser mais atraentes. Para um desempregado (sem renda), o custo
da renda perdida, em termos de tempo de prisão, é zero. Em conseqüência
disso, para ele o benefício monetário do delito, por pequeno que seja, é
maior do que o custo medido pela renda perdida em função da punição
(zero). Assim, a renda média baixa ou o desemprego contribuem para redu
zir os custos do crime para o indivíduo, fazendo com que aumente o incen
tivo para que ele decida pelo crime.
O nível de educação da população também afeta os custos de oportu
nidade dos crimes, na medida em que influencia a expectativa de retorno
dos indivíduos no mercado legal e ilegal. Em sua pesquisa, após controlar
variáveis de distribuição de renda e renda média, Ehrlich constatou que a mé
dia de anos de estudo da população adulta (mais de 25 anos) afetava as taxas de
crimes, principalmente dos que são cometidos contra a propriedade.
Ele forneceu duas explicações para tal fato. A primeira é a de que a
educação aumenta a expectativa de ganhos no mercado legal e, com isso,
eleva o custo de oportunidade dos crimes. Ou seja, é preciso que os retor
nos compensem o patamar de ganhos que a escolaridade mais elevada per-·
mite alcançar no mercado legal. O nível de educação, neste caso, ao elevar
o custo dos crimes, desincentiva decisões nessa direção.
A segunda explicação é que se a educação aumenta a renda média dos
indivíduos no mercado de trabalho, o retorno dos crimes contra a proprie
dade, principalmente, tende a aumentar. Como dissemos, renda mais ele
vada aumenta a oferta de alvos de maior valor e, conseqüentemente, de
retorno para os crimes.
Juntando as duas situações, pode-se compreender por que nas cidades
médias e grandes ocorre uma grande concentração de crimes contra a pro
priedade. Nelas, existe maior contingente de indivíduos com baixa renda e
até mesmo sem renda e uma grande oferta de alvos disponíveis. As observa
ções de Ehrlich, nesse sentido, são compatíveis com a moderna Teoria das
Oportunidades, formulada por Ronald Clark e Marcus Felson.
E C O N O M I A DO C R I M E 3 9
EFEITOS DA PUNIÇÃO
U m dos fatores decisivos na equação do crime, segundo Becker e Ehrlich, é o efeito exercido pela probabilidade de prisão e condenação - o
mais importante risco que o indivíduo assume ao optar pelo crime. Nos
termos da nossa equação (e = b-p.c), quanto maior for a probabilidade de
prisão (p), maior é o custo da opção pelo crime. O risco da probabilidade
de prisão e condenação depende da percepção que os indivíduos têm da
efetividade e da eficiência do sistema de justiça criminal.
O efeito da punição sobre o crime pode ser dividido em dois tipos: o
efeito de incapacitação ocorre quando os criminosos, condenados e presos,
são temporariamente impedidos de cometer novos crimes. Em alguns mer
cados de crimes - como no caso dos crimes contra a propriedade - estima
se que não ocorra o que os economistas chamam de efeito substituição.
Esse fenômeno ocorre quando, por alguma razão, um produto tem o seu
preço aumentado e o consumidor compra um outro produto, similar, a um
preço menor, ainda que tenha algum prejuízo por consumir um produto
de menor qualidade ou de uma marca menos valorizada. No caso do mer
cado de crimes, o efeito substituição ocorreria quando um criminoso é
preso, mas outro imediatamente assume as suas funções, substituindo-o na
prática dos crimes. Um exemplo conhecido desse efeito ocorre no mercado
das drogas, onde os traficantes presos são imediatamente substituídos, man
tendo-se inalteradaa ação do tráfico de drogas. Quando ocorre o efeito
substituição, teoricamente, ocorre uma redução do efeito incapacitação,
porque a continuidade dos crimes está assegurada pelos novos integrantes.
O segundo tipo de efeito da punição é a dissuasão. Ela ocorre quando a
punição dos responsáveis pelos crimes sinaliza para os demais indivíduos que,
caso cometam crimes, sejrão também presos e condenados. A proposição é que
maior percepção do risco aumenta a variável p da equação, elevando o lado dos
custos associados à opção pelo crime. De acordo com o economista da Univer-
40 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
sidade de Princeton (EUA) Steven Levitt, o efeito dissuasão exerce maior in
fluência na inibição de crimes do que o efeito incapacitação.
No modelo econômico do crime, o indivíduo está submetido a esco
lhas que envolvem riscos e incertezas. Além da probabilidade de punição, a
incerteza está relacionada também ao resultado do crime. Por mais que se
possa estimar o resultado esperado de um ato criminoso, ele é, em larga
medida, incerto frente ao que se poderia obter com uma escolha alternativa
no mercado legal.
É possível determinar com precisão como o indivíduo enfrenta a in
certeza, ou seja, como ele pondera até que ponto está disposto a assumir
riscos? Provavelmente não. Mas sabe-se que a presença de alguns fatores faz
com que determinados indivíduos sejam mais propensos a assumir riscos e
outros não.
Por exemplo, indivíduos desempregados, portanto com renda zero,
têm um grande incentivo para assumir riscos. Por outro lado, indivíduos
integrados ao mercado de trabalho podem cometer crimes para comple
mentar sua renda. Outros indivíduos podem assumir riscos maiores por
influência de amigos ou de drogas; da mesma forma, jovens podem come
ter crimes antes de entrarem no mercado de trabalho. A propósito, a forte
participação dos jovens em crimes levou os criminologistas norte-america
nos James Wilson e Richard Herrnstein a escrever que "as taxas de condu
tas ilegais durante a adolescência são tão elevadas que a delinqüência apare
ce como parte normal da vida dos adolescentes" . 1 Enfim, existem múltiplas
situações que podem impulsionar os indivíduos a assumirem maiores riscos.
O debate do modelo proposto por Becker tem propiciado diversas
contribuições no entendimento da complexa cadeia de fatores que in
centivam os indivíduos a cometerem crimes. Assim, sugere-se que, além
das preferências dos indivíduos (relacionadas à formação de expectati
vas e consideração dos riscos) , sejam também levados em conta o capi
tal acumulado pelos indivíduos (habilidades e conhecimentos) , a in
fluência da educação, os efeitos da influência dos grupos e o capital
social na comunidade, entre outros.
Os economistas do trabalho, por exemplo, apontam o fato de que as
escolhas do presente são fortemente influenciadas pelas atividades dos in
divíduos no passado. O investimento em educação e aperfeiçoamento pro
fissional e as habilidades adquiridas em empregos anteriores são exemplos
bem claros.2 Assim, além da educação formal, seria muito importante nas
decisões presentes a trajetória e as vivências passadas dos indivíduos.
E c a N C M I A aa C R I M E 4 1
Nesse sentido, o economista da Universidade de Nova Iorque Cris
thoper Flinn argumenta que o capital humano é acumulado no trabalho, e
não na escola. Em conseqüência, quando o trabalho é trocado pelo crime,
ocorre uma redução do capital acumulado que irá afetar as possibilidades
de emprego e renda não apenas no presente mas também no futuro. De
acordo com sua hipótese, se a renda futura esperada no mercado legal cai,
os custos do crime também diminuem, gerando um incentivo adicional à
atividade criminosa no presente.
No paper Crime Causation: Economic Theories, os economistas Ann
Dryden, do Wellesley College (EUA) , e Robert Witt, da Universidade
de Surrey (ING), citam pesquisa que agrega ao modelo econômico do
crime o estoque de capital social do indivíduo como variável da função
de util idade e de renda. Nesse sentido, o capital social, medido pela
reputação e rede de relações na comunidade, foi considerado uma va
riável representativa dos condicionantes sociais na decisão do crime.
Além disso, assumiu-se que o estigma associado à prisão depreciaria o
estoque de capital social do indivíduo. Levando em conta tais premis
sas, a conclusão do estudo é que a inserção no mercado de trabalho e a
constituição de famílias incentivam a coesão social, ampliando as rela
ções de dependência entre os indivíduos reduzindo sua propensão de
envolvimento em atividades criminosas. A pesquisa confirma o senso
comum de que a pessoa que possui família, emprego e uma boa reputa
ção tem muito a perder ao optar pelo crime.
Se fôssemos traçar uma curva de oferta individual de crimes, teríamos
uma curva com inclinação positiva, semelhante à de oferta normal. Nesta
última, a oferta de bens e serviços aumenta na medida em que aumenta o
preço dos bens e serviços que os consumidores estão dispostos a pagar. Na
curva de crimes, a quantidade também tenderia a aumentar na medida em
que se elevasse o retorno dos crimes (preço) .3
No entanto, se considerarmos os criminosos como um grupo, e que
a quantidade de crimes pode mudar por efeito das políticas de seguran
ça, teríamos uma curva um pouco diferente, com um deslocamento da
curva um pouco para a direita, com uma inclinação positiva ainda mais
forte. Isso ocorre porque, quando alguns indivíduos ou "firmas" são
incentivados a cometer crimes - pela queda dos riscos de prisão ou maior
retorno monetário, ou ambos fatores -, mais indivíduos adicionais e
novas firmas são induzidas a entrar no "negócio" e produzir mais cri
mes. Assim, a inclinação positiva da nossa curva de oferta fica mais
42 Luiz TAD E U V I A P I A N A
acentuada.4 O desafio dos formuladores e administradores de políticas
de segurança é deslocar a curva para a esquerda, de modo que tenhamos
menor quantidade de crimes. 5
A seguir, vamos examinar mais detalhadamente os efeitos do consumo
e tráfico de drogas, das condições do mercado de trabalho e renda e da
aplicação da lei (teoria da dissuasão) nos crimes, fatores que, nos termos da
teoria econômica do crime, podem influenciar decisivamente a composi
ção das variáveis b e e da nossa equação.
E c a N C M IA oa C R I M E 43
DRO GAS , ÁLC O O L E C RI M ES
O relatório anual sobre drogas elaborado pelas Nações Unidas, o World Drug Report, informa que, em 2004, 4,2% da população mundial
com idade ac ima de 1 5 anos consumia drogas ilícitas. Aproximadamente
1 8 5 milhões de pessoas. Desse total, 1 46 milhões eram consumidores de
maconha; 29,6 milhões, de anfetaminas; 8,3 milhões, de ecstasy; 1 3,3 mi
lhões, de cocaína; 1 5 ,2 milhões, de opiáceos e 9,2 milhões, de heroína.
O impacto do uso de drogas na demanda por serviços de saúde - drug
problem - permite observar a prevalência das drogas nas principais regiões
do planeta: os opiáceos são predominantes na Ásia, onde produzem 67%
das demandas por tratamento de problemas de saúde decorrentes do uso da
droga, e na Europa, onde alcançam o índice de 6 1 %. A cocaína prevalece
nas Américas (60% na América do Sul e 29% na América do Norte), e a
maconha, na África, com 65%.
Se considerarmos o volume de drogas apreendidas como indicador do
comércio ilegal ou tráfico de drogas, houve, em 2002, uma estabilização do
crescimento após o forte aumento observado ao longo da década de 1 990.
Nesse período, as apreensões de ecstasy cresceram em média 27%; dos de
pressivos, 20,4%; anfetaminas, 1 9%; morfina, 1 0%; folha de coca, 9,3%;
maconha, 7,4%; heroína, 7%; ópio, 6,2%; pés de maconha, 6,9%; resina
de maconha, 4,9%; cocaína, 2,5%, e LSD, 9,6% (em unidades). Na mé
dia, o crescimento do comércio de drogas ilícitas foi de 1 5% ao ano.
Na década de 1 990, ocorre uma queda na importância da maconha,
que é explicada pela emergência de outras sub�tâncias, comoas anfetami
nas (ATFs) , cujas apreensões triplicaram na década. Verifica-se também um
crescimento dos opiáceos, refletindo a expansão da produção no Afeganis
tão, e um crescimento, seguido de estabilização, da cocaína. Nos primeiros
anos deste século, o número de apreensões de cocaína estabilizou, como
reflexo do declínio da produção de coca na Colômbia. De 1 999 a 2003,
44 L u i z TAD E U V I A P I A N A
estima-se uma queda de 46% no cultivo de coca na Colômbia e de 30%
nos demais países produtores, fazendo com que o cultivo global da coca
esteja no nível mais baixo desde 1 990, algo em torno de 1 50 mil hectares.
Os custos provocados pelas drogas, no jargão técnico dos economistas
externa/idades negativas, impactam em várias áreas. Provocam o aumento
dos gastos governamentais com o sistema de justiça criminal - polícia, jus
tiça e sistema prisional -, uma vez que o crescimento do tráfico e do consu
mo de drogas implica gastos mais elevados na repressão, julgamento e pri
são dos condenados. E provoca, também, o aumento do volume de recur
sos destinados ao sistema de saúde e dos programas educativos de preven
ção ao uso de drogas.
Computando todos esses gastos, nos Estados Unidos despendia 1 %
de seu PIB (Produto Interno Bruto) , ou algo como U$ 1 .000 (mil dólares)
per capita, ao ano, em valores de 1 996. Nesse ano, o governo norte-ameri
cano destinou apenas no combate às drogas mais de cinco vezes o que havia
gasto em 1 985 .7 Um valor de U$ 6 bilhões de dólares, dos quais 66%
foram destinados às ações de interdição de drogas, programas educativos e
de policiamento comunitário. Se compararmos esse valor com o total de gas
tos do governo dos Estados Unidos dirigidos ao Sistema de Justiça Criminal -
U$ 1 00 bilhões de dólares/ano8 - tem-se uma idéia da magnitude dos recursos
destinados especificamente ao tratamento e combate às drogas.
O uso de drogas provoca, ainda, um custo econômico para as empre
sas, pois aumenta o absenteísmo e diminui a produtividade dos trabalha
dores, além de provocar perda de renda para os usuários que abandonam a
vida produtiva ou são condenados à prisão. Fazem parte desses custos, ain
da, as perdas materiais provocadas por furtos e roubos.
O uso de drogas provoca, ainda, queda do desempenho escolar, compor
tamento anti-social e deterioração do relacionamento familiar. Crianças que se
desenvolvem em ambientes onde imperam conflitos familiares, quando adul
tos, são mais propensos a optar pelo crime. Um estudo realizado em Massachu
setts (EUA) revelou que as crianças que sofreram violência na infância apresen
taram 50% mais chances de se tornarem usuárias de álcool e drogas. 9
No livro Economics of Crime, os economistas Daryl Hellman e Neil
Alper, da Northeastern University (EUA), fizeram um cálculo mais amplo
do impacto econômico das drogas, englobando outros custos além dos gas
tos com tratamento de saúde, programas educativos e sistema de justiça
criminal. Eles computaram, ainda, os custos decorrentes da morte prema
tura, perda de renda e dos custos associados ao crime (renda e inatividade).
E c a N C M I A oa C R I M E 4 5
Em 1 97 1 , cada viciado custava por ano à sociedade U$ 13 .790 (treze mil,
setecentos e noventa dólares); em 1 997, este valor elevou-se para U$ 54.479
(cinqüenta e quatro mil, quatrocentos e setenta e nove dólares). Outro
estudo, por eles referido, aponta um custo total de U$ 282 bilhões de dóla
res/ano - valores para 1 997 -, o equivalente ao que os EUA gastaram em
1 O anos de guerra no Vietname.
No Brasil, estima-se que o custo do uso indevido de substâncias psi
coativas atinja o equivalente a 7,9% do Produto Interno Bruto. No triênio
1 995- 1 997, as psicoses por álcool e/ou drogas e as síndromes de dependên
cia constituíram o primeiro motivo das internações psiquiátricas no país.
Os gastos totais com o atendimento de saúde triplicaram, de R$ 900 mi
lhões em 1 993 para R$ 2,9 bilhões em 1 997.
O alcoolismo atinge de 8% a 1 0% da população brasileira adulta. O
abuso do álcool está associado a 50% dos acidentes de trânsito, 50% dos
homicídios e 25% dos suicídios, e reduz a expectativa de vida em aproxi
madamente 1 O anos. O estudo A história familiar e a prevalência de depen
dência de dlcool e tabaco em drea metropolitana na região Sul do Brasil, apon
ta o álcool como a quarta causa de mortes de homens entre 20 e 40 anos,
que seriam provocadas por acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e
cirrose hepática . 10 No Estado de São Paulo, as doenças do fígado relaciona
das com o álcool, como a cirrose e a fibrose hepáticas, aparecem em segun
do lugar entre as causas de mortes de homens com 35 a 59 anos, à frente de
agressões e de acidentes com transporte. Considerando que essas duas cau
sas também estão correlacionados com uso de álcool, pode-se dizer que esta
substância está presente em três das cinco principais causas de morte de
homens na faixa etária de 35 a 59 anos. 1 1
Outros estudos chegaram a conclusões semelhantes. O exame de 1 9
mil laudos cadavéricos feitos entre 1 986 e 1 993 n o Instituto Médico Legal
de São Paulo revelou a espantosa estatística de que 95 em cada 1 00 vítimas
de morte não-natural apresentavam álcool no sangue. Em 1 997, pesquisa
feita em quatro capitais - Recife, Brasília, Curitiba e Salvador - com pes
soas envolvidas em acidentes de trânsito identificou a presença de álcool
em 6 1 % dos casos. Revelou, ainda, que uma em cada dez pessoas havia
consumido drogas (maconha, cocaína, benzodiazepínicos, barbitúricos, an
fetamínicos e opióides). Levantamento semelhante feito em Porto Alegre,
após examinar laudos do Instituto Médico Legal de janeiro a dezembro de
2002, constatou que 37,7% das vítimas fatais de acidentes de trânsito apre
sentavam alcoolemia positiva. 1 2
46 L u i z TAD E U V I A P I A N A
O uso de drogas e do álcool estimula também a violência doméstica, con
forme demonstra pesquisa feita em São Paulo em 2.372 domicílios, pelo Cen
tro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - CEBRID. Em 3 1 o/o
dos ·domicílios foi constatada alguma forma de violência (escândalo, quebra
quebra, discussão, agressão física, relação sexual forçada ou furto), sendo que
em 52% dos casos o agressor estava embriagado e em 1 0%, drogado.
As drogas estão relacionadas com os crimes de várias formas. O soció
logo e professor da Universidade de Illinois (EUA), Paul Goldstein, em seu
estudo The Drugs/Violence Nexus: A Tripartite Conceptual Framework, clas
sificou-as em três tipos distintos: violência psicofarmacológica, violência por
compulsão econômica e violência sistêmica. A violência psicofarmacológica está
associada aos eventuais efeitos que o indivíduo pode apresentar como re
sultado da ingestão - curta ou prolongada - de determinadas substâncias
indutoras de comportamentos caracterizados pela excitação, irracionalidade
e violência.
Embora nem todas as substâncias provo quem d i reta e ime
diatamente condutas violentas - como é o caso da maconha -, Goldstein
lembra que elas podem surgir, por exemplo, durante as crises de absti
nência. Foi o que ele constatou em pesquisas com prostitutas, que co
metiam crimes tais como roubos e assaltos justamente durante a absti
nência. Por outro lado, os efeitos psicofarmacológicos podem aumen
tar a probabilidade de vitimização dos usuários de drogas. Confirmam
essa hipótese as pesquisas que mostram alta incidência de drogas em
vítimas de homicídio e abuso sexual.
Estudos citados pela economista Sara Markowitz, da Universidade de
Rurgers (EUA), também identificam no consumo de drogas e de álcool
efeitos biológicos e psicológicos que alteram o comportamento dos indiví
duos, tornando-os mais propensos à violência. 1 3 Segundo tais pesquisas, se
é certo que pequenas doses de cocaína, por exemplo, tendem a estimular o
comportamento agressivo, com relação à maconha existe dupla constata
ção: no curto prazo, o consumo pode inibir o comportamentoagressivo,
mas, no longo prazo, com o consumo recorrente, o efeito incentiva com
portamentos violentos.
O efeito de compulsão econômica ocorre quando os usuários de drogas
engajam-se na criminalidade a fim de obter dinheiro para financiar os gas
tos com o produto. Essa é a motivação presente na maioria dos roubos,
furtos e assaltos que ocorrem nas grandes cidades, envolvendo, como agen
tes, principalmente jovens pobres e também de classe média.
E c a N C M I A oa C R I M E 47
O terceiro nexo entre drogas e violência apontado por Goldstein é a
chamada violência sistêmica, que caracteriza a relação entre os próprios tra
ficantes e entre os traficantes e usuários. Numa amostra de 4 1 4 casos de
homicídios relacionados com drogas nos registros policiais, descobriu que
75% deles envolviam eventos no mercado ilegal de drogas e 1 0%, o consu
mo, combinado ou não com o álcool.
Isso ocorre porque, por definição, traficantes não resolvem seus con
flitos com base em códigos ou normas legais. As disputas territoriais, dívi
das não pagas ou controvérsias envolvendo qualidade ou quantidade são
resolvidas à força, não raro através da eliminação física dos opositores. A
violência assume um caráter sistêmico, fazendo parte da própria natureza e
da estratégia "empresarial" das organizações que exploram o tráfico. Como
dizem os traficantes, "só o sangue cancela as dívidas"
As evidências estatísticas da conexão entre drogas e crimes são abun
dantes, especialmente nos países que dispõem de informações detalhadas,
como Estados Unidos e Inglaterra. Elas aparecem nas informações sobre
uso de drogas por indivíduos presos pela polícia, em testes realizados com
amostras de população de condenados, nos registros policiais e, finalmen
te, nas pesquisas junto à população.
Uma pesquisa feita em 1 997 com uma amostra de presos no sis
tema federal e estadual e correção dos Estados Unidos mostrou que
22% dos prisioneiros federais e 32,6% dos presos estaduais disseram
haver cometido crimes sob influência de drogas. 1 4 Entre os condenados
por crimes contra a propriedade ou relacionados com drogas, um em
cada quatro disse tê-los cometido para obter dinheiro para comprar a
substância. 1 5 Quando a lista de crimes é ampliada, envolvendo todas as
categorias, os condenados por algum tipo de delito relacionado com a
obtenção de dinheiro para adquirir drogas representam 1 9% do total
dos detentos das prisões estaduais e 1 6% das prisões federais dos Esta
dos Unidos. A presença de drogas é muito acentuada também entre os
presos que disseram ter sofrido abuso sexual ou físico no passado: 89%
afirmaram usar drogas regularmente . 1 6
Uma das formas de comprovar a relação entre drogas e crimes são
testes bioquímicos de indivíduos detidos pela polícia. Um desses testes,
feito em 1 99 1 pelo National lnstitute of Justice dos Estados Unidos, no
Programa Drug Use Forecasting (DUF) em 24 cidades do país, analisou a
presença de drogas em amostras de urina dos presos e apresentou os seguin
tes resultados, classificados por tipo de acusação:
48 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Tabela 1 Uso de droga por prisioneiros em 24 cidades selecionadas, por motivo da
prisão, 1 991
Percentual com resultado positivo
Crime Homens Mulheres
Venda/posse de drogas 78% 79%
Invasão de propriedade 68% 63%
Assalto 65% 76%
Furto 64% 58%
Homicídio 48% 65%
Agressão 48% 50%
Infração de trânsito 42% 48%
Crime sexual 37% 68%
Nota: Resultados de exames de urina. As drogas testadas incluíram cocaína, derivados do
ópio, cloridrato de fenciclidina, maconha, anfetaminas, metadona, metaqualona, benzodiaze
pínicos, barbitúricos e analgésicos. Mulheres não foram testadas em três cidades.
Fonte: NIJ, Drug Use Forecasting, relatório anual de 1 99 1 , cit. em Drugs & Crime Data, setem
bro de 1 994, NCJ-1 49286, U.S. Departament of Justice.
Os indicadores são eloqüentes: as drogas estão presentes canto nos
crimes violentos como nos demais delitos, contra a propriedade e trânsito.
Dados para o ano de 1 988 mostram também force relação entre drogas e
crimes violentos: em 1 8% dos acusados e 1 6% das vítimas de homicídio
escavam envolvidos diretamente com drogas . 1 7
A situação é igualmente dramática quando se trata da relação entre
crimes violentos e álcool: 28% das vítimas de violência relataram que o
agressor ou agressores escavam sob influência da substância. O Bureau
of justice Statistics (BJS) , do governo norte-americano, informa que, em
1 998 , 4 1% dos condenados por crimes violentos (assaltos, roubos, ar
rombamentos, agressões e homicídios) e 35% dos condenados por cri
mes contra a propriedade haviam ingerido bebidas alcoólicas antes do
cnme.
Um escudo mais recente sobre a relação entre o álcool e lesões fa
tais nos EUA concluiu que a substância foi o fator decisivo em 32% dos
casos de homicídio, 3 1 % das morres por ferimentos não-intencionais e
23% dos suicídios. 1 8 Outro trabalho estimou em 32% a parcela dos
acidentes fatais relacionados com intoxicação alcoólica de motoristas
de automóveis e pedestres. As pesquisas revelam, ainda, que em 42% a
66% dos casos de homicídio e agressões sérias, o agressor e/ou a vítima
haviam ingerido bebidas alcoólicas. O mesmo ocorre com 1 3% a 50%
dos casos de agressão sexual. 1 9
E C O N O M I A DO C R I M E 49
A Organização Mundial da Saúde calcula que o álcool seja responsável
por 9% de todas as doenças que ocorrem na Europa, e que 40% a 60% das
mortes provocadas por ferimentos intencionais ou não-intencionais este
jam ligados à substância. A entidade estima o custo social do álcool entre
2% e 5% do Produto Interno Bruto da região.20
Uma das características mais dramáticas da presença das drogas diz
respeito à forte incidência entre os jovens. Em 200 l , nos Estados Unidos,
28,4% dos jovens com idade entre 12 e 1 7 anos disseram sempre usar dro
gas ilícitas, 20% revelaram tê-las usado no último ano e 1 0%, no último
mês. A maconha e o haxixe lideram o ranking das drogas, com 19 ,7% entre
os ever used Na Inglaterra, a pesquisa nacional de vitimização British Crime
Survey 200112002 revela que 29,6% dos jovens da faixa etária de 1 6-24
anos disseram ter usado algum tipo de droga no último ano e 1 8 ,8%, no
último mês. A droga mais popular entre os jovens ingleses ainda é a maco
nha, com 26,9% de prevalência, seguida do ecstasy, com 6,8%, e da cocaí
na, com 4,9%.2 1
Os reflexos da penetração das drogas na juventude aparecem com cla
reza nas estatísticas policiais. Em 200 l , os jovens com menos de 1 8 anos já
representavam 1 3% do total dos presos por algum tipo de incidente com
drogas. Testes realizados em 2002 para detectar a presença de drogas no
organismo indicaram resultados positivos em 60% dos jovens detidos. Em
1 998, 23% dos casos julgados pelas Cortes dos EUA envolvendo detenção
de jovens estavam ligados às drogas, proporção superior à das ofensas con
tra pessoas (22%), propriedade ( 1 5%) e ordem pública ( 1 9%).22
Os dados acima representam apenas uma pequena amostra das múlti
plas conexões entre drogas e crimes. São suficientes, porém, para demons
trar que, nos Estados Unidos, uma parcela muito significativa dos crimino
sos condenados está largamente envolvida com o uso, com as redes de trá
fico, ou, ainda, são pessoas que decidiram cometer crimes quando estavam
sob influência de drogas ou queriam obter dinheiro para comprá-las. Os
números evidenciam a presença de uma dinâmica criminal fortemente as
sociada ao mercado das drogas - produção, distribuição e uso - e seus refle
xos culturais e psicológicos.
As pesquisas mostram, na Inglaterra, um quadro similar ao observado
nos Estados Unidos - em alguns aspectos, mais grave ainda. Em testes para
detectar presença de drogas na urina de presos, os resultados foram positi
vos em 76% dos casos; 49% dos presos apresentaram sinais de uso de ma
conha, 1 0%, de cocaína e 26%, de álcool. O uso de maconha foi constata-
50 LU I Z TAD E U V I A P I A N A
do em 54% dos presos da faixa etária de 1 6-20 anos e em 24% desses foi
detectada a presença de álcool.23 Os dados coletados em entrevistas com
presos mostram também uma forte presença de drogas: 82% disseram usar
sempre maconha; 36%, cocaína; 25%, crack; 98%, álcool; 78% disseram
usar múltiplas drogas e 88%, alguma dessas drogas.
Alguns papers dedicados ao tema mostram que os usuários-de drogas,
além de estarem mais propensos a cometerem crimes, também apresentam
maior probabilidade de serem vítimas. Bonnie Fisher e colegas, da Univer
sidade de Cincinatti, concluíram que o consumo eventual de drogas au
mentava a probabilidade de vitimização por crimes violentos.24 Cottler e
colegas do Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina da Univer
sidade de Washington (EUA), em pesquisa feita em 2 .663 residências, des
cobriram que os usuários de cocaína ou heroína têm três vezes mais chance
de sofrer ataque físico do que os não-usuários.25 No artigo Injection Drug
Users, Karen McElrath, Dale Chitwood e Mary Comerford concluíram que
usuários de cocaína têm quatro vezes mais probabilidade do que os não
usuários de serem vítimas de crime contra a propriedade.26 Em pesquisa
feita com consumidores de drogas, James lnciardi's, do Centro de Estudos
sobre Álcool e Drogas, da Universidade de Delaware (EUA) , registrou que
40% deles relataram ter sido vítimas de roubos e 9%, de agressões.27
No entanto, por mais eloqüentes que sejam, os dados acima não eli
dem as dificuldades em se determinar as características da relação entre
drogas e crimes. A maior delas provém do fato de que os crimes podem
estar associados, eventualmente, a mais de um fator - econômico, social,
cultural -, sendo a droga apenas um deles. Além disso, prisioneiros entre
vistados tendem a exagerar ou minimizar a relevância das drogas, conforme
seus motivos particulares, e as análises e testes de urina ainda são muito
limitados. Por outro lado, as correlações entre drogas e ocorrência de crimes
podem ser explicadas pelo fato de que criminosos são mais propensos ao uso e
envolvimento com drogas. Nesse caso, teríamos uma cadeia inversa de deter
minações: não é a droga que leva ao crime, mas o crime que conduz à droga.
Uma outra maneira de dimensionar a conexão entre drogas e crimes é
através das análises chamadas cross-country. Esse tipo de análise compara
dados sobre a presença de drogas e indicadores de criminalidade em diver
sos países, num determinado período de tempo, permitindo comparações
que podem indicar ou não correlação entre ambas variáveis.
O Centro Brasileiro de Informações sobre D rogas Psicotrópicas -
CEBRID realizou, em 2000, uma pesquisa domiciliar visando a detec-
E c:: O N O M I A DO C R I M E ·5 1
tar a presença das principais drogas no Brasil, com uma amostra das
1 07 maiores cidades, que tinha como propósito comparar os resultados
com a situação de outros países onde fo ram realizadas pesquisas idênti
cas. As substâncias pesquisadas fo ram maconha, cocaína, crack, heroí
na, alucinógenos, solventes, opiáceos, benzodiazepínicos, estimulantes,
barbitúricos, álcool e tabaco.
Os principais resultados são os seguintes:
- Maconha: "o uso na vida da maconha, nas 1 07 maiores cidades
brasileiras, foi de 6,9%, resultado próximo ao da Colômbia (5 ,4%) e ao
da Alemanha (4 ,2%) , porém abaixo do resultado dos americanos
(34,2%) e do Reino Unido (25%)" . A pesquisa relata que, entre os ado
lescentes brasileiros, é menor o uso da maconha na vida (5%) do que na
Colômbia ( 5 ,4%) , México (5 ,8%) , Chile ( 1 0,6%) e EUA ( 1 8 ,3%) .
- Cocaína: "a prevalência de uso na vida de cocaína, nas 1 07 maiores
cidades do país, foi de 2,3%, próxima à do Chile (4%), Espanha (3,2%) e
Reino Unido (2,5%), porém inferior à dos EUA, que registrou 1 1 ,2%"
- Crack: "o uso na vida de crack foi de 0,7% para as maiores 1 07
cidades do país, cerca de três vezes menor do que no estudo americano"
- Álcool : "o uso na vida de álcool foi de 68 ,7%, porcentagem pró
xima à de outros países (Chile, com 70,8%, e EUA, com 8 1 %)" ; " 1 1 ,2%
revelaram ser dependentes de álcool no Brasil, porcentagem bem acima
da observada em alguns locais nos EUA, como Denver (4 ,5%) e Atlan
ta (4,4%)"
A comparação dos resultados obtidos nos diversos países evidencia que
não é a simples presença (consumo relatado) das drogas, principalmente da
maconha, da cocaína, do crack e do álcool, que explica por que o Brasil
apresenta maiores níveis de crimes. Isso porque o Brasil situa-se num pata
mar bastante inferior de consumo de maconha e cocaína em relação aos
Estados Unidos, por exemplo, mas apresenta taxas muito mais elevadas de
crimes violentos, homicídios, roubos e assaltos.
A mesma relação inversa se observa com respeito à Inglaterra, Espanha
e Chile, que apresentam praticamente os mesmos percentuais de consumo
de cocaína, mas têm taxas de crimes violentos bem inferiores às nossas. O
mesmo fenômeno acontece com o consumo de álcool: o Brasil está no
mesmo patamar que Estados Unidos e Chile, mas tem taxas de crimes vio
lentos muito superiores às desses países.
52 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
As análises que se valem da metodologia de comparar países neces
sitam de séries temporais e amostras grandes para serem representativas.
Logo, não é possível se tirar conclusões sólidas de uma comparação baseada
em apenas uma pesquisa. No entanto, levando em conta a ressalva, por
frágil que seja a conclusão acima, ela indica que níveis próximos de inci
dência de drogas e álcool na sociedade estão associados a níveis bastante
diferenciados de crimes. Esse quadro certamente ficaria mais claro se exa
minássemos a distribuição da incidência do consumo de drogas e álcool na
população, levando-se em conta dados demográficos e socioeconómicos.
No caso das drogas, sabe-se que a prevalência do consumo ocorre entre
jovens, coincidentemente o segmento da população mais afetado pelo de
semprego e baixo nível de renda, fatores qu� tornam essa parcela da popu
lação mais vulnerável ao incentivo ao crime.
A influência das drogas e do álcool nos crimes é objeto também da
análise econômica. Os economistas têm elaborado estudos para detectar o
impacto das variações nos preços de bebidas alcoólicas e das drogas ilícitas
na alteração das taxas de crimes. Da mesma forma, têm sido feitos estudos
sobre a organização econômica do mercado das drogas, para verificar se e
em que medida a estruturação das cadeias de produção e distribuição afeta
os preços finais das substâncias e, em conseqüência, influencia os índices de
criminalidade. Como exemplo, vejamos o caso da cocaína.
A cadeia produtiva da cocaína começa com a produção da folha da
coca em milhares de unidades produtivas, sob supervisão e com o compro
misso de venda para poucas unidades de produção de pasta e refino. De
pois de refinada, a cocaína é exportada para vários países, onde atacadistas
fazem a mistura e a distribuição para vendedores, que, por sua vez, a co
mercializam nos "pontos" e nas ruas.
Altamente oligopolizada no segmento da produção e da distribuição
até o segmento do atacado, a cadeia produtiva é dominada por um número
muito pequeno de empresas, em geral organizadas em torno de famílias.
Essas empresas operam na modalidade de cartéis, dividindo mercados e
dispondo de grande poder de impor preços. O centro do cartel da cocaína
está localizado na Colômbia, onde estima-se que seja produzida entre 75%
a 80% do total mundial.
Essa estrutura de mercado seria a causa principal do alto preço pratica
do junto ao consumidor final. Estudos calculam que a droga no mercado
ilegal é 200 vezes mais cara do que seria num hipotético mercado legal,
mesmo considerando que nesse mercado ela seria fortemente taxada, à se-
E C O N O M I A DO C R I M E 53
melhança do que ocorre com bebidas alcoólicas e tabaco. Frente à capaci
dade de determinação de preços pelos cartéis e atacadistas,os vendedores
de rua garantem suas margens valendo-se de duas situações: a mistura com
outras substâncias para aumentar o volume da droga e o fato de o consumo
dos viciados ser inelástico em relação a preços mais altos.
Em termos econômicos, a cocaína teria duas curvas de demanda: uma
para umà demanda inelástica e uma convencional, na qual a demanda varia
conforme o preço. A curva de demanda inelástica representaria o segmento
de viciados que, como se sabe, são insensíveis à variação de preços. Isso
significa, em termos muitos simples, que, se os preços aumentam, a quan
tidade consumida tende a continuar no mesmo patamar, dado, evidente
mente, um determinado nível de renda dos consumidores.
Na curva de demanda convencional, as quantidades consumidas va
riam conforme os preços. Quando os preços aumentam, a demanda tende
a diminuir. Os consumidores buscam produtos substitutos, com preços
mais baixos, ou reduzem o volume da compra do produto. Esse movimen
to pressiona os preços para baixo e tende a produzir um novo ponto de
equilíbrio. Quando os preços diminuem, a demanda volta a aumentar, pres
sionando os preços para cima.
Supondo que o mercado de drogas funcione nesses moldes, na me
dida em que as ações de interdição e repressão aumentam os preços das
drogas, teríamos um efeito positivo na queda da demanda, contribuin
do para a redução dos crimes. Entre os viciados, porém, dada a deman
da inelástica em relação a preços, esse efeito seria nulo. Apesar dos pre
ços mais altos, os usuários viciados continuariam a consumir o mesmo
volume de drogas e, portanto, teoricamente, apresentando a mesma
propensão a cometer crimes.
Assim, em termos teóricos , pode-se dizer que o efeito da legaliza
ção das drogas seria nulo em relação ao consumo dos viciados. Em rela
ção aos não-viciados, se a legalização, como se supõe, diminuísse os
preços das drogas, o consumo tenderia a aumentar, assim como os cri
mes relacionados aos efeitos psicofarmacológicos. Em compensação, os
crimes relacionados à violência sistêmica diminuiriam com o fim dos
mercados ilegais. Os efeitos seriam nulos em relação aos crimes de com
pulsão econômica, que independem da condição de legalidade ou de
ilegalidade do mercado.
Nos últimos anos, vários estudos econômicos foram feitos visando a
detectar eventuais relações entre álcool, drogas e crimes. Embora os resulta-
54 L u i z TAD E U V I A P I A N A
dos apresentem variações relacionadas ao tipo de droga, tipo de crime, lo
cus da análise e perfil dos indivíduos envolvidos, pode-se dizer que está
bem consolidada entre os economistas a conclusão pela existência de corre
lações positivas entre crimes e o consumo de drogas e de álcool.
Os estudos servem como subsídio para avaliar os programas de con
trole de drogas dos governos, que, em geral, assumem os modelos econô
micos convencionais de oferta e demanda. Tais programas são considera
dos bem-sucedidos na redução dos crimes relacionados às drogas e ao ál
cool quando promovem ações inibidoras que aumentam as restrições de
oferta desses produtos (interdição e repressão, no caso das drogas, e impos
tos elevados e restrições de venda, no caso do álcool). O objetivo é que tais
restrições aumentem os preços no mercado e reduzam a demanda, pois
com tal redução há a expectativa de que também diminuam os crimes rela
cionados a drogas e álcool.
Nos estudos econômicos, são usadas variáveis dos preços de bebi
das e de drogas, impostos sobre bebidas, quantidades e diferentes tipos
de taxas de crimes. Estudo de Philip Cook, da Univesidade de Duke e
Michael Moore, da Universidade da Virginia (EUA) , utilizando preços
de bebidas e taxas de crimes agregados para 48 Estados nos Estados
Unidos, concluiu que o consumo de álcool estava relacionado positiva
mente com estupro, roubo e assaltos, mas não com homicídios. O tra
balho mostrou ainda que aumento na taxa de impostos sobre bebidas
provoca redução nas taxas de estupros e roubos, mas não apresenta efei
tos para assaltos e homicídios.
Em outro estudo, além dos efeitos da taxação de bebidas (cerveja) ,
foi incluído no modelo o consumo de drogas e o papel da ação policial,
representado pelo gasto com a polícia. No modelo estudado pelos eco
nomistas Frank Chaloupka, da Universidade de Illinois, e Henry Saffer,
da Universidade de Kean (EUA) , o consumo é negativamente relacio
nado com o preço e positivamente relacionado com a renda e gasto do
indivíduo. Eles descobriram que o aumento dos impostos sobre a cer
veja reduzia a taxa de roubos, estupros e de homicídio, mas não agia
sobre os índices de assaltos.
Os resultados dos testes estatísticos mostraram que a descriminaliza
ção da maconha provocava aumento nas taxas de estupros, roubos e assal
tos. Os testes apuraram também que a legalização poderia reduzir em 60%
o preço da heroína e da cocaína e que o efeito no mercado seria um aumen
to possível de 1 00% no uso de heroína e 50% no de cocaína.
E C O N O M I A DO C R I M E 5 5
Na perspectiva desses estudos, o aumento dos impostos sobre o álcool
teria como conseqüência a redução de alguns tipos de crimes, mas a legali
zação das drogas, apesar de reduzir os preços, aumentaria os índices de
criminalidade devido ao crescimento do consumo.
Utilizando o modelo econômico do crime desenvolvido por Gary
Becker e seguidores, a economista Sara Markowitz, da Universidade de
Rutgers, busca identificar os efeitos da variação de preço de drogas e álcool
nos crimes. Sua pesquisa é mais completa, pois, além dos dados dos crimes
constantes nos registros policiais, levou em conta também os dados de viti
mização (crimes não relatados à polícia). Controlou, ainda, variáveis que
afetam os crimes, como raça, idade e renda. 28
Ela concluiu que o aumento de impostos sobre cerveja provoca queda
na probabilidade de agressões, mas não apresenta efeitos sobre roubos, es
tupros e agressões sexuais. A descriminalização da maconha aumenta a pro
babilidade de vitimização por agressões entre 20% e 60%, mas não apre
senta efeitos para estupros. No caso da cocaína, o estudo não conseguiu
apurar resultados confiáveis.
Além de estudos que investigam as relações entre drogas e crimes atra
vés da análise do comportamento dos preços e do consumo, o economista
Jeffrey Miron, da Universidade de Boston (EUA), desenvolveu uma abor
dagem distinta original que vale a pena mencionar. Ele procura mostrar
que as conseqüências negativas das drogas decorrem, na realidade, da pró
pria noção de proibição, o que leva à formação de mercados ilegais. Essa
assertiva, como veremos adiante, apresenta sérias implicações normativas
em termos de políticas e programas de controle de drogas.
O eixo dos estudos de Miron está na proposição de que os preços
das drogas no mercado ilegal não seriam tão elevados, como se imagina,
em comparação a um hipotético mercado legal. Em um de seus traba
lhos - The Ejfect of Drug Prohibition on Drug Prices: Evidence from the
Markets for Cocaine and Heroin, de 2003 - , ele estima que o preço da
cocaína no mercado negro é de 2 a 4 vezes maior do que seria no mer
cado legal, em contraste com outras pesquisas que apontam para um
patamar 1 O vezes mais alto no mercado negro. Para a heroína, ele esti
ma uma relação de 6 a 1 9 vezes o preço legalizado, contra a estimativa
de 1 00 vezes em outros estudos. Com isso, ele procura mostrar que, ao
contrário do que se supõe, os custos elevados da proibição acarretam
"efeitos relativamente modestos nos preços das drogas'', sugerindo cla
ramente que tal política não seria a mais adequada.
56 L u i z TA D E U V I A P I A N A
A ineficácia da proibição das drogas, na visão de Miron, aparece ainda
nos seguintes aspectos:
As drogas continuam sendo ofertadas e demandadas, e ao invés de
eliminar as drogas, a proibição cria um mercado ilegal.
A proibição potencializa a demanda por drogas através de vários mecanis
mos: primeiro, a mera proibição só reduz a demanda se osconsumidores
respeitarem a le_i; segundo, a proibição encoraja a demanda através do
efeito "fruto proibido", principalmente entre jovens; terceiro, só reduz a
demanda diretamente através da punição por posse de drogas.
A proporção de penas impostas por compra e posse de drogas é peque
na. Nos EUA, menos de 5% dos usuários de drogas são alcançados
pela Lei, sugerindo baixa probabilidade de prisão; muitos dos presos
que acabam sendo condenados por posse de drogas, na realidade, são
presos originariamente por outras causas - prostituição, desordem,
roubos, etc.
A evidência de que a proibição reduz de forma significativa o con
sumo é incompleta. Muitos continuam consumindo drogas apesar
da proibição, embora não se possa determinar se a quantidade con
sumida é maior ou menor em comparação ao mercado legal. Se o
comportamento das drogas fosse semelhante ao do álcool, o efeito
da proibição seria modesto.
As referências empíricas acima indicam crês possibilidades de análise
da conexão entre drogas e crimes. Primeira: a demanda por drogas é sensí
vel à variação dos preços das substâncias, indicando que os esforços para
elevar os custos relacionados à oferta e ao consumo são positivos. O au
mento do preço das drogas no mercado, bem como dos riscos de punição
para vendedores e usuários, é objetivo das políticas de repressão e interdi
ção do produto. A redução da demanda por drogas reria como conseqüên
cia a diminuição dos crimes.
Segunda: o segmento formado pelos viciados seria insensível à variação de
preços e aos demais custos envolvidos na venda e consumo de drogas. Nesse
caso, os efeitos das políticas de repressão e interdição seriam nulos e reríamos,
nesse segmento, uma conexão permanente entre drogas e crimes.
Terceira: a proibição não reria o efeito esperado nos preços e seria
ineficaz para reduzir o consumo. Além disso, potencializaria os crimes ao
criar um mercado ilegal, onde os conflitos são resolvidos com base em rela
ções de violência.
E C O N O M IA DO C R I M E 57
Com relação aos dois primeiros aspectos, a teoria econômica do crime
oferece uma abordagem bastante satisfatória, com uma boa quantidade de
referências empíricas comprovando a pertinência da análise. Se, de fato, as
decisões por uso de drogas e pelos crimes são explicadas pela equação que
leva em conta os retornos esperados e os custos envolvidos, a elevação des
ses custos tende a reduzir a atratividade da opção por drogas e crimes.
A questão central parece ser se a demanda apresenta sensibilidade em rela
ção à variação dos preços - se a demanda é elástica ou inelástica. Se, como
supõem Becker e outros estudiosos, a demanda for inelástica ou apresentar
baixa elasticidade, os efeitos das políticas públicas de interdição das drogas, cujo
objetivo é reduzir a oferta e aumentar os preços, pode ser pequeno ou nulo. E,
em conseqüência, apresentar uma relação negativa de custo/benefício.
Apesar dos esforços de interdição e apreensão, a quantidade ofertada
nas ruas tem se mantido constante e os preços, ao contrário do que se
esperava, ao invés de aumentarem, caíram.
Se assim for, as políticas atuais de criminalização das drogas, repressão
e interdição são ineficazes como instrumentos de controle da oferta e da
demanda e inócuas para romper as conexões entre drogas e crimes. Apre
sentam, para a sociedade, uma relação custo/benefício negativa.
Do ponto de vista econômico, a legalização traria alguns benefícios
muito importantes. Em primeiro lugar, conduziria o mercado dessas subs
tâncias para a legalidade, isto é, para o controle do Estado. É claro que é
preciso discutir quais substâncias e em que quantidades seriam permitidas,
bem como quais mecanismos de controle devem ser utilizados. De qual
quer forma, o fato é que o mercado passaria a funcionar segundo determi
nadas regras de controle e teria os preços fortemente influenciados pelos
custos de transação (derivado das regras de acesso ao produto) e custos de
taxação (impostos), com o que se poderia ter controle legal e também eco
nômico, via preços. É importante lembrar esses aspectos para que não se
pense que legalização significa liberação total e redução das restrições de
acesso às substâncias.
Em segundo lugar, ao trazer o mercado ilegal para a legalidade, elimi
nar-se-iam as organizações ilegais envolvidas com o tráfico de drogas. A
expectativa, em conseqüência disso, é a de que seria eliminada ou reduzida
a criminalidade "sistémica", relacionada à disputa entre traficantes e entre
estes e os usuários.
Finalmente a legalização proporcionaria um tratamento diferenciado
aos usuários de drogas, retirando-lhes o estigma derivado de sua relação
se L u i z TAD E U V I A P I A N A
com atitudes ilegais. O usuário passaria, então, a ser tratado como um indi
víduo acometido de uma doença e não mais como um criminoso. É evi
dente que uma política nesses moldes traria benefícios consideráveis na
ruptura do elo entre usuários de drogas e crimes.
Todavia, por mais razoáveis que sejam os benefícios da legalização,
com a criação de regras de acesso e consumo legal de determinadas quanti
dades de drogas, e da descriminalização, com a mudança do paradigma da
contravenção e/ou crime para o âmbito da saúde pública, ambas questões
envolvem uma complexa disputa moral.
Por exemplo, o Dr. Elisaldo Carlini, um dos maiores especialistas bra
sileiros em drogas e que integrou a Junta Internacional de Narcóticos, da
ONU, é favorável à descriminalização, mas contrário à legalização, com
base no enfoque de saúde. Legalizar, diz Carlini, significa reconhecer que as
drogas não fazem mal à saúde, o que é errado. Sublinha que, além dos
aspectos econômicos, a questão das drogas deve ser abordada levando-se
em conta "a visão médica e o sofrimento do ser humano". Quanto a descri
minalizar, a "abordagem muda - continuamos a afirmar que a droga faz
mal, mas o indivíduo não vai para a cadeia por isso" (por consumí-la).
Como se vê, estamos diante de um debate que envolve objetivos tais
como a eficácia de políticas de controle ou os custos econômicos e sociais,
mas também diante de intrincados aspectos médicos e até mesmo morais.
É um debate, portanto, que vai muito além do terreno da economia e da
eficácia das políticas governamentais.
E C O N O M I A DO C R I M E 59
TRABALHO , REN DA E C RI M ES
Adesigualdade de renda e de oportunidades no mercado de trabalho tem sido apontada com grande freqüência como a mais importante
causa do crime. Com efeito, as relações entre crime e mercado de trabalho
e entre crime e distribuição de renda têm sido objeto de ampla pesquisa
entre economistas e cientistas sociais, principalmente nos Estados Unidos e
Europa, dando origem a uma vasta e rica literatura.
Boa parte desses estudos filia-se à tradição ao modelo da Escolha Ra
cional, já referido, segundo a qual as decisões dos indivíduos levam em
conta custos e benefícios. Aplicada ao crime, isso significa que os indiví
duos decidem pelo crime ou pelo não-crime ao comparar o retorno dos
delitos - e também os custos a eles associados, como punição e custos mo
rais - frente aos benefícios da atividade legal.
Porém, o exame dessa literatura demonstra que a relação entre desem
prego e crime é, no mínimo, ambígua, tanto em sua "natureza" quanto em
"robustez" Embora o exame dos estudos disponíveis sugira que o cresci
mento do desemprego tem efeitos tênues sobre o comportamento das cur
vas de crimes, como sugere o professor Paolo Buonanno, da Universidade
de Bergamo, Itália, ainda assim muitos pesquisadores acreditam no trade
ojf entre ambos. Em parte, isso se deve ao fato de que vários estudos cons
tatam forte presença de desempregados entre criminosos, mas também ao
farto volume de evidências empíricas que revelam correlações positivas en
tre desemprego e determinados tipos de crime, principalmente os cometi
dos contra a propriedade.
Por outro lado, existem também pesquisas que mostram presença majoritária de empregados entre os criminosos. Um exemplo é o estudo dos
economistas Ayse lmrohoroglu, da Universidade do Sul da Califórnia (EUA),
Antonio Merlo, da Universidade da Pensilvânia (EUA), e Peter Rupert, da
Universidade de Ontário (CAN), com dados de 1 980, para os Estados
60 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Unidos, cujo resultado mostra que 79% das pessoas engajadas em alguma
atividade criminosa estavam empregadas e 2 1 % desempregadas. Numa di
reção também oposta à grande parte das pesquisas sobre o tema, os econo
mistas Philiph Cook e Gary Zarkin encontraram efeitos negativos do de
semprego nos crimes violentos, especialmente assassinatos. 29
Como explicar os resultados contraditórios e até mesmo opostos? Par
te da explicação pode ser encontrada nas metodologias e modelos econo
métricos adotados. Por exemplo, sabemos que é comum encontrar resulta
dos diferentes entre os escudos que utilizam taxas agregadas por países e
estudos que usam dados para unidades espaciais menores - regiões ou cida
des, pela simples razão de que os dados agregados escondem e mascaram as
diferenças regionais ou locais. Mesmo numa mesma cidade, os indicadores
variam entre as diversas áreas e bairros. Da mesma forma, os estudos que
usam dados agregados dependem de séries temporais grandes para produ
zir resultados robustos (time serie studies) .
Além desses aspectos, conforme salienta o economista e professor da
Universidade de Harvard (EUA) Richard Freeman, as variáveis podem
mudar juntas, sem que, no entanto, tais efeitos estejam correlacionados
entre si. Mudanças observadas em variáveis num determinado ano podem
estar associadas a alterações ocorridas no ano anterior. Freeman cita time
series studies feitos em 1 980, utilizando taxas para o total dos crimes e taxas
para vários tipos de crimes - como roubos e furtos - que mostram os cri
mes relacionados com o desemprego. No entanto, quando são medidos os
efeitos do desemprego nos crimes, os resultados são apenas moderados,
"incapazes de explicar a tendência para cima do crime".30 Em outras pala
vras, as taxas de crimes podem crescer junto com o desemprego, mas não
por causa dele.
A mesma dificuldade surge quando as técnicas estatísticas realizam as
regressões das mudanças nas taxas de crime e de desemprego no mesmo
ano, ou das mudanças no desemprego no ano anterior. Pesquisas referidas
por Freeman, feitas na Inglaterra, mostraram que mudanças na taxa de
desemprego estão associadas com alterações, na mesma direção, dos índices
de crime, tornando consistente a noção de que desemprego causa crimes.
Entretanto, quando consideradas mudanças no emprego observadas no ano
anterior, não foi detectado efeito nas taxas de crimes.
Os economistas Rainer Winkelmann, da Universidade de Zurich, e
Kerry Papps, da Universidade de Cornell (EUA), também restaram a in
fluência do desemprego nas taxas de crimes na Nova Zelândia, com dados
E c: a N C M I A oa C R I M E 6 1
para o período de doze anos ( 1 984- 1 996) . Chegaram à conclusão de que,
quando comparadas às taxas agregadas de desemprego e total de crimes, as
duas curvas se movem quase paralelamente. No entanto, quando os crimes
são divididos por tipos, a análise de regressão mostra fraca influência do
desemprego sobre os crimes: cada 1 0% de aumento na taxa de desemprego
está associado a 1 ,4% de aumento na taxa de crimes. Correlações fortes
foram encontradas apenas com os chamados dishonesty ojfenses, que englobam
furtos, fraudes, roubos, receptação e "transformação de carros" Um detalhe
importante: o estudo observou também a existência de efeitos negativos
das detenções sobre os crimes, tema que iremos examinar adiante.3 1
Também fazendo uma revisão de estudos feitos entre 1959 e 1 975,
sobre a relação entre desemprego e crime, o sociólogo norte-americano
Richard Gillespie encontrou conexões positivas em três, inexistência de
conexões em sete e resultados errados em quatro deles. Os criminologistas
James Wilson e Richard Herrnstein citam estudos que descrevem cresci
mento simultâneo das taxas de crimes e de desemprego entre jovens do
sexo masculino nas décadas de 1 960 e 1 970 nos EUA.
Uma segunda metodologia muito usada é a denominada cross-section,
na qual os dados de crimes e características do mercado de trabalho, renda
e dados demográficos são organizados por unidades espaciais (por exem
plo, países, estados, regiões ou municípios), que são comparadas entre si. A
principal dificuldade que esse tipo de metodologia apresenta reside nas
chamadas variáveis "espúrias", que consistem na probabilidade de que um
efeito nas taxas de crimes seja explicado por outra variável que não mudan
ças no mercado de trabalho ou na renda. Por exemplo, numa determinada
área uma redução nas taxas dos crimes pode estar associada à baixa percep
ção do risco de prisão e condenação, enquanto que em outra à queda do
crescimento demográfico. Quando se comparam países, muitas variáveis
precisam ser controladas adequadamente, o que torna tais estudos bastante
complexos e difíceis. Além do que, como é possível controlar os aspectos
culturais e históricos específicos de cada país ou região?
Apesar das dificuldades, muitos desses estudos examinados pelo eco
nomista Richard Freeman reforçam o link entre fatores do mercado de
trabalho e crimes. Na revisão de 1 5 trabalhos elaborados em 1 983, ele clas
sificou quatro com efeitos positivos e significativos e sete com efeitos posi
tivos mas com resultados não robustos. Analisando outros testes realizados
no período 1 976- 1 989, nos Estados Unidos, ele encontrou efeitos positi
vos entre o desemprego e total de crimes e também entre desemprego e
62 L u i z TAD E U V I A P I A N A
crimes específicos, como os cometidos contra propriedade, roubos e furtos
de veículos. Assassinatos e estupros não apresentaram relação positiva com
o desemprego. O criminologista Theodore Chiricos, professor da Univer
sidade da Flórida (EUA), que também analisou diversos escudos, feitos na
década de 1 970, encontrou em 44% deles resultados positivos e não signi
ficativos e em 48%, resultados positivos e significativos.
Finalmente, existe ainda outro tipo de escudos, que analisam as carac
terísticas socioeconômicas dos indivíduos que comecem crimes e dos que
não cometem, bem como o comportamento criminal em várias circuns
tâncias. Esses escudos utilizam dados obtidos em pesquisas tipo survey, da
dos sobre perfil da população prisional e taxas de prisões. O objetivo desses
escudos é identificar e avaliar em que medida as características econômicas
e sociais dos indivíduos infuenciam suas decisões pelo crime e pelo não
crime. As economistas e pesquisadoras do Nacional Bureau of Economic
Research (EUA) Ann Witce e Helen Tauchen, usando dados individuais -
uma amostra com homens jovens -, encontraram evidências de que o de
semprego está relacionado com o crime. O criminologista da Universidade
do Estado de Nova Iorque Terrence Thornberry e seu colega R. L. Chris
censon também encontraram evidências de que o desemprego exerce signi
ficativo e instantâneo efeito nos crimes.
As pesquisas que usam dados sobre os indivíduos indicam que, de
fato, uma proporção elevada de criminosos é proveniente dos grupos de
baixa renda e com menores oportunidades de emprego; que os jovens que
conservam seus empregos por um período mais longo têm menor probabi
lidade de serem presos do que aqueles empregados por períodos curtos; e,
finalmente, que os jovens negros empregados comecem menos crimes do
que os desempregados. Os indivíduos com histórico de prisão apresentam
menos chance de conseguir emprego, ou percebem salários menores quan
do conseguem se reintegrar no mercado de trabalho.
Um dos escudos mais extensivos sobre a influência do desemprego nos
crimes usando dados socioeconómicos individuais foi feito recentemente pelos
economistas Denis Fougere, Francis Kramarz e Julien Pougec (2003) para a
França, usandodados de 1 990-2000. Nesse escudo, os dados socioeconómicos
e dos crimes violentos e contra a propriedade ( 1 7 categorias de crimes ao
todo) são organizados por regiões (os 95 departamentos do país) e por
cidades. Para complementar os dados provenientes dos registros policiais,
foram usadas ainda informações de pesquisas de vitimização. Como o efei
to do desemprego é ambíguo, foram consideradas várias características do
E c c N C M IA oc C R I M E 6 3
desemprego, para captar eventuais diferenças em seus efeitos sobre o crime
- desempregados jovens, desempregados adultos, benefícios aos desempre
gados e duração do desemprego.
Os crimes analisados no estudo apresentaram evolução diferenciada
ao longo da década de 1 990. Os roubos, em geral, caem 8% durante o
período, enquanto roubos com uso de violência crescem 74%. O roubo de
carros e de objetos dentro de carros aumentou nos três primeiros anos e
depois caiu lentamente. Com exceção dos homicídios, todos os crimes vio
lentos aumentaram. Os crimes relacionados a drogas cresceram 75%. Um
detalhe importante é que os delitos estão todos correlacionados. Nos de
partamentos {estados) onde os crimes contra a propriedade são altos, os
crimes violentos também são elevados, o que, segundo os autores, sugere
que todas as categorias de crimes podem estar relacionadas a determinantes
comuns. Enquanto isso, a taxa de desemprego da faixa etária entre 1 5 e 24
anos oscilou entre 20% e 30% durante o período; a da faixa de 25-49 anos,
entre 8% e 1 0%, e a de 50-65 anos, entre 7% e 8%.
Quando os dados são analisados por departamentos ou regiões, os
testes indicaram que o desemprego entre os jo�ens apresentou efeito positi
vo e robusto para os crimes de roubos e furtos e crimes relacionados a
drogas, mas impacto zero nos demais crimes econômicos e violentos. Os
desempregados jovens que não recebem o benefício do auxílio-desemprego
tendem a cometer mais crimes contra a propriedade. Porém, para vários
crimes, o impacto do desemprego é negativo ou zero, entre os quais, estupros,
homicídios, agressões familiares e, paradoxalmente, roubo de caneiras e furtos
em lojas. Uma explicação possível é que esses crimes são uma característica de
indivíduos já excluídos do mercado de trabalho ou que ainda não ingressaram
nele. Como outras pesquisas, os dados revelaram inexistência de associação
entre taxas de crimes e taxas de desemprego no longo prazo.
Esse escudo merece destaque, porque, além de analisar mais detalhada
mente as relações entre os crimes e o mercado de trabalho, é um dos poucos
que conseguiu demonstrar que os efeitos do desemprego não são uniformes
para os crimes contra a propriedade ou economicamente motivados. Mais do
que isso, merece destaque também a comprovação de que os crimes estão
correlacionados, ou seja, onde existem maiores taxas de crimes contra a
propriedade, também há maiores índices de crimes violentos.
Esta última constatação é relevante, pois pode indicar a ação simultâ
nea de determinantes comuns sobre diferentes tipos de crimes e/ou a exis
tência de criminosos que operam com base em um portfólio de crimes. Não
64 L u i z TAD E U V I A P I A N A
existira a especialização - aquele que furta, aquele! que rouba, aquele trafica
-, mas carreiras criminosas ou ações criminosas, cujo crime depende da
oportunidade, do retorno ou de outra circunstância específica. No caso das
drogas, essa associação é mais evidente, pois ela pode determinar tanto cri
mes contra a propriedade (crime de renda para custear o consumo), quanto
crimes violentos (a violência sistêmica ligada ao tráfico). Se essa descoberta
for comprovada em outros estudos, terá implicações importantes para as
políticas de segurança pública. Em certo sentido, é importante recordar,
esta é uma das premissas das políticas de tolerância zero (broken windows),
cujo alvo é o crime, independentemente da tipologia ou da gravidade.
Na mesma direção, estudo elaborado pelos economistas Eric Gould,
da Universidade de Hebrew (ISR) , Bruce Weinber, da Universidade Esta
dual de Ohio (EUA), e David Mustard, da Universidade da Geórgia (EUA),
procurou identificar as relações entre desemprego e salários e crimes nos
Estados Unidos no período 1 979- 1 997. O estudo analisou, especificamen
te, se e como as mudanças no mercado de trabalho para o segmento forma
do por trabalhadores jovens e não-qualificados se relacionavam com as ta
xas cnmma1s.
Após examinar as curvas de desemprego e salários no período, o estu
do conclui que as tendências de longo prazo dos crimes são melhor explica
das pelas tendências de longo prazo nos salários do que no desemprego.
Em 1 997, os salários dos homens com até o segundo grau completo eram
20% inferiores a 1 979, enquanto que o desemprego manteve-se no mesmo
patamar no período.
Os testes da análise de painel por região mostraram relações mais sig
nificativas entre a queda dos salários e os crimes, do que flutuações no
emprego e crimes. A queda nos salários dos trabalhadores com educação
média explica parcela importante (43%) do aumento de 29% nos crimes
contra a propriedade no período, assim como explica a metade do aumen
to de 47% observado nos crimes violentos. O desemprego responde por
24% do aumento dos crimes contra a propriedade e apenas 8% do aumen
to nos crimes violentos. "Claramente, as tendências de longo prazo dos
salários foram o fato dominante no crime durante este período", escrevem
os autores do estudo.
Quando a análise foca o período de 1 99 3-1 997, os crimes contra a
propriedade caem 7,6% e os crimes violentos, 1 2,3%. De acordo com os
autores, ao contrário do que ocorreu no período 1 979- 1 993, o movimento
está relacionado com o desemprego: a queda de 3, 1 5% no desemprego
E c c N C M IA o c C R I M E 6 5
explica 7,5% dos crimes contra a propriedade e 4% dos crimes violentos.
Após os autores terem incluído na análise variáveis para controlar o efeito
"dissuasão" (gastos per capita com a polícia), o resultado é que o desempre
go permaneceu significativo para crimes contra a propriedade, mas desapa
receu para os crimes violentos.
O economista Jeffrey Grogger, da Universidade da Califórnia (EUA),
depois de ter analisado o comportamento dos salários e dos crimes durante
20 anos, descobriu que uma queda de 20% nos salários reais dos jovens
aumenta o crime entre 12 e 1 8%. As diferenças raciais e a queda dos crimes
conforme a faixa etária são explicadas também por diferenças salariais: os
negros, em geral, percebem salários menores do que os brancos, o que ex
plicaria por que negros cometem mais crimes. Por outro lado, a queda dos
índices de crimes, que aumenta na medida em que avança a idade dos indi
víduos, é explicada pelo crescimento da renda.
A esta altura cabe indagar: qual a conclusão que se pode extrair das
pesquisas sobre desemprego, salários e crimes?
Apesar das críticas e das limitações metodológicas das pesquisas empí
ricas, podemos ensaiar algumas conclusões. A primeira é que, à luz do modelo
econômico do crime, o desemprego - e a conseqüente perda de renda -
pode exercer uma influência positiva na decisão pelo crime. Não se trata de
afirmar, entretanto, que o desemprego causa o crime, mas de ponderar que,
ao subtrair a renda do indivíduo, ele gera um efeito de incentivo ao crime
ao elevar o retorno da atividade no mercado ilegal (crime) em relação ao
mercado legal (salário). Outra situação é aquela em que parcela da popula
ção está fora do mercado de trabalho de forma permanente - o que parece
ser a situação do Brasil -, uma das pré-condições para que ocorra um in
centivo à opção pelo crime. Nesse caso, com renda zero, o retorno econô
mico dos crimes, por pequenos que sejam, torna-se atraente.
Uma segunda conclusão, que encontra forte respaldo em pesquisas e
testes estatísticos, é a relação entre a queda da renda média dos indivíduos
e as taxas de crimes. Essa reação parece mais clara do que a relação entre
desempregoe crimes. Nos termos do modelo econômico do crime, indiví
duos com renda média baixa apresentam menor aversão ao risco e, além
disso, valorizam mais o retorno dos crimes, ainda que estes sejam baixos. O
mesmo vale para os indivíduos com idade produtiva que não têm renda -
os desempregados, como já salientamos. É importante lembrar, novamen
te, que tais relações não são diretas e mecânicas; elas são mediadas pela
cultura, pelos valores morais, pela educação e pelas ligações dos indivíduos
66 L u i z TAD E U V I A P I A N A
com a família e com a comunidade. Isso é o que explica por que todos os
desempregados ou todos os que ganham baixos salários não se tornam cri
mmosos.
Tais conclusões não são, naturalmente, aceitas por todos. Além das
dificuldades metodológicos já mencionadas, que se referem à qualidade
dos dados e à forma como são organizados (amostras reduzidas e séries
pequenas), existe um outro tipo de crítica que vale a pena mencionar. Tra
ta-se da crítica ao próprio modelo da "escolha racional", que é feita, princi
palmente, pelos criminologistas. Por exemplo, os criminologistas James Wil
son e Richard Herrnstein questionam a noção de que o indivíduo escolhe
entre o crime e o não-crime. Segundo eles, existe uma outra possibilidade,
pois o indivíduo pode escolher simultaneamente as duas opções. Ou seja,
podem coexistir atividades legais com atividades ilegais. A não ser nos casos
em que se configura uma "carreira criminosa", pode não haver uma frontei
ra rígida entre o crime e o não-crime. Quem rouba ou furta eventualmente,
e na maior parte do tempo trabalha, é um exemplo dessa possibilidade.
Outra vertente dessa crítica é a de que os economistas ignoram ou
subestimam a influência da formação educacional e moral dos indivíduos
em suas decisões. A qualidade dessa formação, medida pela adesão desde a
infância aos valores morais e éticos, que conduz o indivíduo a agir de acor
do com as leis e normas, teria um peso considerável na hora da "decisão"
pelo crime. Em outras palavras, a ação delituosa dos indivíduos é definida
ou fortemente influenciada pela socialização primária e secundária, princi
palmente na família e na escola. Ou ainda, nos termos da teoria do curso da
vida (life course) , por eventos que afetam da vida das pessoas, em termos
afetivos, materiais ou psicológicos, que podem modificar eventual propen
são ao delito.
Quanto à primeira crítica, pode argumentar que, ainda que o indiví
duo esteja empregado e decida por cometer um crime visando a comple
mentar sua renda, obtida originalmente no mercado legal, o modelo per
manece válido, pois no momento em que decidir cometê-lo, irá ponderar
sobre os benefícios e os custos. Para esse indivíduo, o custo do crime tende
rá a ser mais alto, porque ele já tem uma renda certa no mercado legal, e sua
eventual prisão acarretará a perda dessa renda. Nesse caso, nosso e da equa
ção será mais elevado.
Com relação à segunda crítica, não enxergamos a contradição aponta
da entre a "escolha racional" e as influências culturais ou morais. Vários
estudos mostram que, se a formação moral e a educação de um indivíduo
E c a N C M IA oa C R I M E 6 7
são mais elevadas, aumentam os custos do crime. Indivíduos com maior
capital individual apresentam, naturalmente, maior aversão ao risco, ponde
rando custos de forma diferente do que indivíduos com capital individual bai
xo. Os indivíduos nessas condições percebem os custos do crime como mais
elevados, tanto os monetários quanto os morais. É por essa razão que as
relações entre escolaridade e não-crime são muito robustas.
68 L u i z TAD E U V I A P I A N A
EDUCAÇÃO: A CHAVE
As relações entre emprego e renda e crimes ficam mais claras quando examinamos o papel da educação. Ela se relaciona diretamente com o
desenvolvimento econômico e com as oportunidades de emprego e renda
dos indivíduos.
O crescimento da economia é influenciado pela educação através do
aumento da produtividade individual dos trabalhadores e da elevação dos
patamares do conhecimento e da pesquisa científica e tecnológica. Tais con
clusões são compatíveis com a teoria do Capital Humano, segundo a qual o
crescimento econômico não pode ser visto tão-somente como uma função
dos fatores de produção tradicionais - como terra, capital e trabalho -,
devendo incorporar também o capital consubstanciado na educação e nas
habilidades dos indivíduos.
Os estudos mostram, de forma robusta, que um ano de aumento na esco
laridade da população produz um aumento de 1 0% no crescimento econômi
co. Revelam, também, que cada ano de acréscimo na escolaridade dos trabalha
dores aumenta a produtividade geral média da economia em 2,8%. Hipoteti
camente, um país com uma taxa de matrícula média no ensino secundário
50% maior do que outro país cresceria 1 ,5 ponto percentual a mais. Isso repre
senta, em 25 anos, um salto de 45% no Produto Interno Bruto.32
Na resenha da literatura disponível, loschpe (2004) aponta várias evi
dências da importância da educação na produtividade e na renda do traba
lhador. Um dos estudos conclui que um ano a mais de escolaridade conduz
a um aumento anual de 6,5% a 1 1 ,5% na renda. Outro paper, por ele
mencionado, revela que um ano de escolaridade aumenta entre 7,5% e
8,6% no PIB per capita, para um intervalo de 1 O anos, e de 1 8% para um
intervalo de 20 anos.
Pesquisa feita nos Estados Unidos mostra que, entre 1 979 e 1 995 ,
houve uma piora na estrutura de distribuição salarial, com redução de 30%
E c a N C M I A o a C R I M E 69
no salário real dos trabalhadores jovens e menos educados, o que ajudaria a
explicar o crescimento da criminalidade, principalmente na década de
1980.33 No Brasil, estima-se que a desigualdade na educação explique 50%
da desigualdade social. Os economistas José G. A. Reis e Ricardo Barros
calculam que a eliminação dos diferenciais salariais ligados à educação di
minuiria a desigualdade em 40%. Outro estudo mostrou que o nível educa
cional do chefe da família explica aproximadamente 40% da desigualdade de
renda, enquanto gênero e região de moradia explicam 10% cada um.34
O impacto da baixa escolaridade no emprego é direto. Os trabalhado
res com baixa escolaridade estão sobre-representados entre os desemprega
dos e entre os segmentos com salários mais baixos. Isso é compreensível, na
medida em que o crescimento do mercado de trabalho ocorre em segmen
tos cuja demanda por mão-de-obra exige trabalhadores com maior qualifi
cação. Sem essa qualificação, os indivíduos estão condenados ao desempre
go ou a empregos em setores onde predominam baixos salários.
A educação relaciona-se, assim, com a oferta e demanda de mão-de
obra, a estrutura salarial e a geração de condições para o crescimento eco
nômico sustentado. Nessa medida, a educação é uma variável importante
na configuração do custo e benefício dos crimes, além de estar relacionada
com a habilidade do trabalhador e, portanto, com sua capacidade de com
petir no mercado de trabalho.
70 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
BRASIL: UMA APROXI MAÇÃO
e orno em outros países, também no Brasil temos dificuldade de expli
car a evolução dos crimes através das tendências de longo prazo das
variáveis sociais e econômicas. Os poucos estudos microeconômicos ou so
ciológicos sobre crimes e condicionantes sociais feitos no país apresentam
conclusões divergentes.
Se observarmos a evolução da pobreza no Brasil e as taxas de crimes ao
longo dos últimos 20 anos, é difícil explicar o crescimento da criminalida
de à luz das condições socioeconômicas. Segundo o conceito de linha de
pobreza (os que vivem com uma renda per capita inferior a R$ 80,00 por
mês), 32% da população brasileira está nessa condição. São 53 milhões de
pessoas, das quais 23 milhões vivem com uma renda per capita inferior a
R$ 25 ,00 reais por mês, quase na miséria absoluta.
A realidade da pobreza, entretanto, não surgiu na década de 1 980 e 1 990,
quandoexplodiu a criminalidade no país. A propósito, os estudiosos vêm cha
mando a atenção para o declínio, embora pequeno, do grau de pobreza nesse
período. Tal fato está provavelmente associado, de um lado, aos efeitos do Pla
no Real, notadamente ao "crescimento da renda per capita das famílias e à
queda dos preços relativos dos alimentos" e, de outro, a melhorias na educação.
"O Brasil se posiciona entre os países latino-americanos como um dos que mais
reduziu seu nível de extrema pobreza ao longo da década de 1990", nas palavras
dos economistas Ricardo Barros e Mirela de Carvalho (2004).
Por outro lado, o quadro da desigualdade social praticamente não so
freu alteração nas últimas duas décadas. Para medir a desigualdade de ren
da, os economistas usam o conceito da razão entre a renda média dos 1 0%
mais ricos e a renda média dos 40% mais pobres. Quanto maior for o
resultado, maior é a concentração de renda. De acordo com esse critério, de
1 977 a 1 999, com indicador oscilando em torno de 25, tem-se um quadro
de estabilidade na distribuição de renda no país.
E c: a N C M I A oa C R I M E 7 1
Outra forma de medir a desigualdade na distribuição de renda é usar o
chamado Índice de Gini. Numa escala de O a 1 , quanto mais próximo o
índice for de 1 , maior é a concentração de renda. Os dados para o Brasil, no
período de 1 960-2002, mostram estabilidade na distribuição de renda, com
o indicador oscilando em torno de 0,60, quase o dobro da média mundial,
que é de 0,38.
Em resumo, o quadro da pobreza melhorou um pouco e a desigualda
de na distribuição da renda se manteve estabilizada. Ora, diante desse cená
rio, como explicar a criminalidade ascendente através dessas condições so
ciais? Como explicar, pela pobreza, o aumento da criminalidade, se a po
breza não aumentou? A mesma indagação poderia ser feita quanto à desi
gualdade na distribuição de renda.
A explicação do crescimento dos crimes pelas condições sociais e eco
nômicas dos moradores das periferias urbanas - das favelas - é também
insuficiente. De acordo com a arquiteta Herminia Maricato, entre 1 980 e
1 99 1 , houve um crescimento da população como um todo 7% maior do
que a população moradora de favelas nas principais cidades. Segundo ela, a
proporção de moradores em favelas sobre o total da população é de 20% no
Rio de Janeiro; 22% em São Paulo; 20% em Belo Horizonte; 13 ,3% em
Goiânia; 30% em Salvador; 46% em Recife; 22% em Porto Alegre e 3 1 %
em Fortaleza.
Se população favelada fosse fator de predição de crimes, como explicar
que municípios com aproximadamente a mesma quantidade de favelados
apresentem taxas tão díspares de crimes? Basta lembrar que a taxa de homi
cídios em Porto Alegre (27 por 1 00 mil habitantes), em 1 993, por exem
plo, era inferior à do Rio de Janeiro (44) e de São Paulo (43,4) , mas as três
cidades tinham a mesma proporção de moradores em favelas no total de
seus habitantes.
Também enfrentamos dificuldades quando buscamos correlações en
tre o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, e crimes. O IDH é
calculado com base em indicadores de saúde/longevidade, nível de educa
ção e Produto Interno Bruto Real (medido por paridade de compra). Ele é
um indicador mais abrangente do que a renda, tomada isoladamente. Con
tudo, nos testes que realizamos para o Rio Grande do Sul, considerando
um período de seis anos ( 1 998-2003), não encontramos correlação positi
va entre esse índice e taxas de homicídio.35
No entanto, quando as análises das variáveis socioeconômicas são mais
abrangentes, envolvendo, além de indicadores de pobreza, as taxas de em-
72 L u i z TA D E U V I A P I A N A
prego, desigualdade, renda e desorganização social, surgem correlações po
sitivas entre tais condições e alguns tipos de crimes. Um exemplo desses
estudos é Determinantes do Crime na América Latina: Rio de janeiro e São
Paulo. Com relação aos homicídios, por exemplo, o estudo conclui que é
impossível "explicar os determinantes dos homicídios com base exclusiva
mente em variáveis socioeconômicas", mas indica correlações positivas en
tre homicídios e pobreza.
As principais conclusões são as seguintes:
Correlações positivas: municípios de renda mais alta tendem a apresen
tar menores taxas de homicídios; aqueles com maior proporção de pessoas
abaixo da linha de pobreza podem apresentar maiores taxas; a desorganiza
ção das estruturas familiares desempenha papel relevante no aumento das
taxas de homicídio; conta-se ainda com um efeito "contágio", em que a
criminalidade violenta tende a se propagar no meio.
Correlações negativas: "contrariamente ao esperado" e ao que indicam
outros estudos, já citados, o documento conclui que "maiores níveis de
desigualdade na distribuição de renda estão associados a menores taxas de
homicídios" (grifo nosso). A propósito, o estudo reconhece que seus re
sultados ajudam "muito pouco" na compreensão da criminalidade vio
lenta das regiões estudadas e recomenda que novas pesquisas explorem
"o papel de variáveis que descrevem mais diretamente o estilo de vida e
as características individuais das vítimas de homicídios" A idéia, aqui,
parece ser a de explorar a associação entre fatores criminogênicos como uso
de álcool, drogas, baixa escolaridade e deficiências educacionais, que, por
sua vez, em muitos casos, também estão correlacionados com renda baixa,
desemprego e pobreza.
Quando o estudo desloca o foco para a análise dos fatores associados à
probabilidade de vitimização, surgem conclusões muito interessantes. As
variávies consideradas foram as seguintes: exposição da vítima, proximida
de vítima-agressor, capacidade de proteção, a atratividade da vítima e as
características específicas do crime. Foram consideradas, ainda, as "condi
ções socioeconômicas do local de residência da vítima"
Os resultados encontrados foram, resumidamente, os seguintes:
"A renda média, a escolaridade e a pobreza afetam as probabilida
des de vitimização, embora não exista um padrão único de correla
ção dessas variáveis com os riscos de vitimização por diferentes ti
pos de crimes"
E C O N O M I A 00 C R I M E 73
"Indivíduos com maior participação política e que exercem atividades
econômicas têm maior probabilidade de vitimização", o que parece
ser compatível com maior exposição dessas pessoas ao risco.
Conforme indica exaustivamente a literatura internacional, o "álcool
também aumenta a probabilidade de vitimização por delitos não-eco
nomicamente motivados e por crimes violentos"
Maiores riscos de vitimização para não-brancos nos casos dos crimes
não-economicamente motivados, e riscos menores de vitimização para
não-brancos quando se consideram os crimes em geral. Não foi en
contrado efeito significativo de vitimização associado à "proporção de
mulheres chefes de domicílios no setor de residência da vítima"
Quando direcionamos a análise para espaços geográficos menores, as
correlações entre os crimes e os condicionantes econômicos e sociais apare
cem com mais nitidez. Regiões, bairros e mesmo favelas mais pobres da
periferia das grandes cidades, onde imperam as piores condições socioeco
nômicas, são justamente as que apresentam maior incidência de crimes.
Nancy Cárdia e Sueli Schiffer (2002) constataram que em alguns bair
ros da cidade de São Paulo - Campo Lindo, Capão Redondo, Jardim Ân
gela e Jardim São Luís - coexistem altos índices de homicídios e superposi
ção ou presença do que chamam de "desvantagens concentradas (econômi
cas, educacionais e na estrutura familiar)" Nesses quatro distritos, 50%
dos chefes de família não têm renda ou a renda é inferior a três salários
mínimos. Existe também uma sobre-representação de chefes de família com
baixa escolaridade, o que explica, de certo modo, a concentração de popu
lação com baixa renda. O acesso ao trabalho é também significativamente
pior do que a média da cidade, e os índices de mortalidade infantil são mais
elevados do que no resto da cidade. A taxade homicídios é significativamen
te maior do que a média da cidade: 93 por 1 00 mil habitantes no Campo
Lindo e Capão Redondo, 1 1 6 no Jardim Ângela e 1 03 no Jardim São Luís,
contra uma média de 66 por 1 00 mil para a cidade como um todo.36
Além das condições socioeconômicas e de desorganização social, um
fator decisivo que pode explicar a criminalidade violenta nesses distritos é a
precária ou fraca presença dos efetivos policiais em relação à média da cida
de. Esse aspecto, relacionado à preservação da ordem, em seus efeitos sim
bólicos e operacionais, no sentido de que a presença da autoridade pública
representa não apenas uma percepção de segurança mas um mecanismo
concreto de apoio a populações ameaçadas por vários tipos de situações de
74 L u i z TAD E U V I A P I A N A
risco, como drogas, uso abusivo de álcool, atuação de gangs, etc. - nem
sempre recebe a devida atenção nos estudos sociológicos.
O estudo mostra que existe, nesses distritos, um policial militar para
cada 1 . 50 1 habitantes e uma viatura para cada 1 4.790 pessoas, enquanto a
média da cidade é um policial para cada 550 moradores e de uma viatura
para cada grupo de 6.425 moradores. Além disso, o número de policiais
civis também é inferior à média da cidade. O estudo conclui que talvez a
quantidade de homicídios não esclarecidos seja maior nessas regiões em
razão da impunidade gerada e estimulada pela reduzida efetividade da polí
cia na apuração dos casos. Poucos policiais apuram pequena quantidade de
crimes fatais, criando um círculo vicioso no qual a impunidade incentiva
novos crimes.
Na cidade do Rio de Janeiro ocorre o mesmo fenômeno. As áreas no
bres, com menores índices de criminalidade violenta, são as que apresen
tam as melhores condições de policiamento. "A zona sul, onde vivem
708 .732 pessoas, tem um policial para cada 324 habitantes. A Baixada Flu
minense, cuja população é cinco vezes maior (3 .598.727 pessoas), tem um
PM para cada 1 .278 habitantes", diz o jornalista Mário Hugo Monken, da
Folha de São Paulo. Os dados da distribuição dos policiais não levam em
conta a população, os índices de homicídios e índices de roubo a pedestres.
Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, com uma média mensal de
40 homicídios, existe um policial para cada 1 .570 habitantes. Um especia
lista citado na matéria disse que, no Rio de Janeiro, não se considera um
dos fundamentos "primários do século XIX" - o de distribuir policiais le
vando em conta a população da área e os indicadores criminais.
Um outro exemplo de análise em espaços geográficos menores que
encontrou forte correlação entre desigualdade de renda e homicídios é o
estudo Desigualdade de Renda e Situação da Saúde: O Caso do Rio de janeiro.
A pesquisa analisou o impacto da desigualdade de renda nas condições de
saúde da população, entre as quais incluiu o homicídio. Este último "foi o
indicador mais correlacionado aos níveis de desigualdade de renda, demons
trando que a questão da violência entre os jovens brasileiros não pode ser
dissociada da aguda disparidade presente na sociedade brasileira"
Nas explicações para as relações encontradas, nos deparamos com três
tipos de abordagens convergentes: a) nos espaços onde há grande nível de
concentração de renda existem menos investimentos em programas sociais,
"resultando em educação pública e assistência médica insuficientes, habita
ção inadequada e capacitação profissional deficiente"; b) nessa medida, a
E c a N C M I A oa C R I M E 75
desigualdade de rendas teria efeitos sobre a qualidade de vida, aumentando
"a frustração, o stress, fomentando rupturas sociais e familiares, o que im
plica deterioração adicional das condições de saúde"; e c) finalmente, é
mencionado que "sociedades com grandes deseqüilíbrios na distribuição
de renda tendem a ser menos coesas"; indivíduos que residem em locais
onde existe grande desigualdade tenderiam a julgar seu ambiente como
"menos confiável, mais injusto e hostil". Nessa medida, quando aumenta a
privação relativa, comparada aos padrões da sociedade, e isso é percebido
pelas pessoas, diminui a "coesão social", criando um ambiente mais favorá
vel aos crimes.
A abordagem do crime como um problema de saúde leva em conta
um conjunto de fatores de risco que se apresentam nesses contextos com
maior intensidade e gravidade, ao invés de fazer uma associação direta en
tre pobreza e crimes. Assim, potencializa a análise, pois aparecem mais cla
ramente as conexões e relações entre a pobreza, a desigualdade e os crimes:
baixa escolaridade, famílias desestruturadas, ambiente hostil, baixo capital
social nas comunidades, redes precárias de relacionamento e cooperação,
entre outros.
Nessas condições, é compreensível que a tendência ao comportamen
to violento irrompa com maior força, ao contrário dos contextos onde os
mecanismos de contenção operam com maior eficácia, como é o caso das
comunidades onde a escolaridade é mais alta, a renda mais elevada e os
instrumentos de proteção social mais presentes. Em resumo, onde os me
canismos de integração social e de controle de comportamentos desviantes
operam com maior intensidade.
O estudo menciona correlação encontrada entre a "densidade de po
pulação residente em favela e os homicídios" Esse achado, segundo seus
autores, "indica a influência do ambiente em que os jovens se socializam
sobre sua exposição à violência e sua eventual inserção nos circuitos da
criminalidade" Mas, "reconhecidamente", concluem os autores, "o cresci
mento dos homicídios nas favelas do Rio de Janeiro está relacionado ao
aumento da criminalidade secundária à expansão do narcotráfico"
Na resenha que fizeram de estudos brasileiros, os economistas Pablo
Fajnzylber e Ari Araújo Jr. , no artigo Violência e Criminalidade (200 1 ) ,
sublinham os resultados díspares dos vários trabalhos que examinam o efei
to da renda individual e familiar sobre os crimes. Existem trabalhos que
apontam que maiores salários estão associados a taxas menores de homicí
dios e crimes contra a propriedade (estudos de Andrade e Lisboa, 2000;
76 Luiz TAD E U V 1 A P I A N A
Pereira e Carreca-Fernandez, 200 1 , e Mendonça, 200 1 ) ; que a renda fami
liar média dos Estados produz efeito positivo na taxa de homicídios (Araú
jo Jr. E Fajnzylber, 2000) e que a renda tem efeito positivo para os crimes
contra a propriedade e negativo para os crimes contra a pessoa, coincidin
do com vários estudos internacionais (Araújo Jr. e Fajnzylber, 2000, e Pi
quet e Fajnzylber, 200 1 ) .
Com relação ao desemprego, alguns estudos descobriram efeitos posi
tivos sobre os crimes (Pereira e Carreca-Fernandez, 2000; Araújo e Fajnzyl
ber, 200 l , e Mendonça, 200 1 ) , sugerindo que o aumento do desemprego
está relacionado com maior incidência de crimes. Outro estudo, porém,
aponta um coeficiente negativo para essa mesma variável para idade infe
rior a 20 anos (Andrade e Lisboa, 2000) . Quando observamos o risco de
vitimização, existem pesquisas que mostram que ele é maior para indivíduos
economicamente ativos, conclusão compatível com a teoria das oportunida
des, já mencionada. Do mesmo modo que ocorre nas pesquisas internacio
nais, também os resultados dos estudos feitos no Brasil são contraditórios.
No entanto, quando a análise enfoca a desigualdade de renda, a maior
parte dos estudos aponta uma relação positiva com os crimes, conforme os
economistas Araújo Jr. e Fajnzylber (2000 e 200 1 ) . Da mesma forma, al
guns estudos evidenciaram também efeitos negativos das sanções sobre as
taxas de crimes.
Os estudos internacionais que examinamos mostram que ocorre maior
incidência de crimes em contextos de desorganização social, desemprego,
baixos salários, desigualdade educacional, principalmente no segmento for
mado por jovens. Coincidindo com essas pesquisas, boa parte dos estudos
feitos no Brasil confirma os efeitos das variáveis socioeconômicas, princi
palmente desigualdade de renda, baixossalários e desemprego, sobre os
crimes contra a propriedade. Os resultados são menos convergentes quanto
aos crimes violentos. O fato de que, entre os criminosos, em geral, o nível
educacional seja baixo sugere também uma correlação entre escolaridade,
condições do mercado de trabalho e crimes.
Os estudos dos economistas mostram que a teoria econômica do cri
me leva em consideração a influência dos fatores sociais, morais, culturais
ou psicológicos no crime. A grande diferença desta em relação a outras
abordagens, é que ela submete tais influências à mediação dos indivíduos.
Isso significa que para ela o indivíduo não é mero resultado passivo das
condições sociais, mas alguém que recebe as influências do meio e decide,
também, levando em conta seus interesses e preferências individuais, ainda
E C O N O M I A DO C R I M E 77
que essas preferências sejam formadas em processos de interação social com
outros indivíduos.
Essa conclusão, na realidade, é coincidente com a primeira imagem
que nos vem da realidade. Basta observar que nem todos os pobres ou de
sempregados tornam-se criminosos em algum momento de suas vidas. Isso
se explica, em larga medida, por que a esmagadora maioria dos indivíduos,
embora submetidos a um mesmo contexto, decidem de forma diferencia
da, em processos nos quais a formação educacional, espiritual e moral de
sempenha decisivo papel.
78 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
PARTE 1 1 1
TEORIA DO CON T RO LE E
DEC I SÃO DOS I N D IVÍ D UOS
O tema subjacente à análise que faremos a seguir é a questão clássica e central da sociologia que consiste na resposta à indagação: em que
medida o meio, a estrutura e os processos sociais governam e determinam a
trajetória e as decisões dos indivíduos. Não por coincidência essa questão
crucial está presente na principal crítica feita à teoria econômica do crime -
e não importa aqui se ela é pertinente ou não -, por assumir um dos pres
supostos da economia neoclássica, que consiste na noção do "homem eco
nômico racional" De acordo com essa noção, as decisões dos agentes eco
nômicos são governadas essencialmente pela "utilidade" esperada frente a
determinado custo (preço). A crítica a essa noção preconiza que as decisões
não ocorrem "no vácuo" e são, em última análise, influenciadas pelas possi
bilidades que se apresentam ao indivíduo decorrentes da estrutura social,
seus processos e valores. Não se podem reduzir as decisões humanas, mes
mo no terreno da economia, a um simples cálculo matemático de vanta
gens e desvantagens.
De fato, o debate a respeito das interações entre meio e indivíduo
existem muito antes do surgimento da teoria neoclássica, na segunda meta
de do século XIX e início do século XX. Antes dela, o Marxismo havia
proposto que os processos sociais têm como fundamento estrutural as for
ças produtivas, a base econômica da sociedade. A cultura, os valores e as
crenças (as ideologias) constituem apenas a expressão da evolução e das
contradições dessas forças, sendo o indivíduo, e a própria organização so
cial, produto da evolução e da conformação das forças produtivas.
No entanto, recentemente, na segunda metade do século XX, as ciên
cias sociais passaram a conceber a interação do indivíduo com a sociedade
de forma mais abrangente e complexa: as estruturas e processos sociais in
fluenciam os indivíduos ao mesmo tempo em que são influenciados por
suas ações. Na sociologia, essa abordagem está presente nas teorias Intera-
E c c N C M I A o c C R I M E B 1
cionistas e da Reflexividade. Não se trata de saber quem veio antes, o indiví
duo ou a sociedade, mas de desenhar e compreender as relações de influên
cia entre ambas as dimensões - a individual e a social.
Da mesma forma, o desenvolvimento recente da neurociência e da
psicologia comportamental contribuiu para revalorizar o estudo das carac
terísticas e dos traços biológicos dos indivíduos como fatores que, de alguma
forma, são preditivos de comportamentos futuros. Embora não conclusi
vamente, muitos criminologistas citam determinadas características bioló
gicas herdadas - entre as quais a impulsividade e a inteligência (QI) - de
estarem associadas à maior probabilidade de comportamentos desviantes.
A conexão entre e inteligência e comportamentos desviantes, entre outros
aspectos, residiria na menor capacidade cognitiva dos indivíduos com bai
xo QI, resultando em fraco aproveitamento escolar, dificuldades de relacio
namento, escapismo e isolamento social. Existem pesquisadores que pro
põem abordagens mais polêmicas, retomando, de certa forma, premissas
lombrosianas, ao enfatizar traços físicos comuns entre criminosos, como
observamos, por exemplo, na referência feita por James Wilson e Richard
Herrnstein, em Crime and Human Nature (ver especialmente o capítulo II
- Fatores Constituintes), ao mencionar determinados traços físicos como
característicos de indivíduos delinqüentes. 1
No entanto, na criminologia, conforme veremos adiante, as chamadas
abordagens macrossociais encontram ampla aceitação. Nelas, o meio exer
ce influência decisiva sobre as ações, atitudes e possibilidades dos indiví
duos, muito mais do que as forças biológicas. Estas, quando surgem, ainda
assim dependem de determinados contextos para se tornarem fatores deci
sivos de indução de condutas desviantes e criminosas. Um exemplo mais
ou menos evidente disso é a distribuição desigual de acesso às oportunida
des educacionais e culturais que, ao afetar os mais pobres, influencia forte
mente o lugar desses indivíduos no mercado de trabalho e na sociedade.
Isso não significa, no entanto, que tal condicionamento seja permanente e
insuperável, que inexista qualquer possibilidade de mobilidade individual.
Ao contrário, observa-se que mesmo em sociedades fortemente hierarqui
zadas como a nossa, a despeito dos condicionantes sociais e econômicos, os
indivíduos modificam suas trajetórias, em larga medida, através da educa
ção. Ou seja, influência não quer dizer determinação ou inexorabilidade.
Esse entendimento é muito importante na análise do crime porque,
durante muito tempo, no Brasil, difundiu-se a idéia de que os criminosos
eram, na realidade, vítimas da sociedade, que lhes negava as condições de
82 L u i z TA D E U V I A P I A N A
acesso à educação, trabalho e renda. Ou seja, dado que os indivíduos eram
excluídos, esta condição determinava suas condutas criminosas. O indiví
duo, com sua consciência, sua capacidade de avaliar e discernir entre o bem
e o mal, não fazia parte da equação. Em outras palavras, ele era concebido
como um autômato, produto do meio e não-responsável, portanto, por
suas atitudes. O erro aqui não era, evidentemente, imaginar que as condi
ções sociais influenciam as condutas criminosas, mas supor que essa in
fluência era determinante e inexorável. O que a tese não explicava era por
que indivíduos sob as mesmas condições ambientais - econômicas, sociais
e culturais - tinham comportamentos diversos, uns optando pelo crime e
outros não.
Enquanto para a criminologia os fatores decisivos são a formação dos
indivíduos e seus valores, de um lado, e a ação dos mecanismos externos de
controle - entre os quais o sistema de justiça criminal - de outro. Na eco
nomia, os indivíduos respondem a incentivos, sendo que a opção pela con
duta desviante, na qual pode estar o crime, é explicada por uma "escolha
racional". Nessa escolha, são ponderados os benefícios líquidos esperados e
os custos implícitos da ação, entre os quais a probabilidade de prisão e
condenação, o custo decorrente da sanção moral e da perda potencial de
renda no mercado legal. 2
Note-se, entretanto, que no modelo econômico do crime os fatores
sociais estão presentes e são muito importantes. Eles operam na formação
das expectativas dos indivíduos, influenciando tanto as expectativas rela
cionadas com o retorno esperado quanto em relação aos custos associados
às suas decisões. Ocorre que, ao invés deser determinante, a influência dos
fatores sociais passa pela mediação dos indivíduos. Vale dizer, eles captu
ram as pressões sociais de forma diferenciada, sob a influência de vários
fatores, entre os quais aqueles relacionados à formação moral, à consciência
individual, à ligação afetiva com a família e amigos, à educação e, final
mente, aos riscos de perda de status, relacionamentos e renda. Esta é a razão
essencial que explica por que a desigualdade social não incide uniforme
mente como incentivo para o crime entre os indivíduos pobres.
Nesta parte III, nosso percurso será o seguinte: vamos, inicialmente,
examinar os traços mais importantes da teoria da anomia, em sua versão
"clássica" e desdobramentos, incluindo as variantes da subcultura criminal
e teoria geral da anomia; faremos, ainda, alguns comentários sobre a teoria
da aprendizagem. Em seguida, examinaremos as principais características
da teoria do controle e da teoria do autocontrole, que, em graus variados,
E c a N C M IA oa C R I M E 83
recolocam o indivíduo - sua formação psicológica e educacional - no cen
tro da explicação do desvio e do crime. Nesse momento, recolhemos a
contribuição da sociologia da ação, em especial a noção de que a com
preensão dos faros sociais deve levar em conta a racionalidade dos indiví
duos, seus motivos, valores e interesses. Nessa perspectiva, da mesma forma
que na teoria da escolha racional, o indivíduo não é mero resultado das
estruturas ou faros sociais, mas um sujeito que, com suas decisões, se torna
um agente ativo na determinação de sua trajetória socioeconômica. 3
84 L u i z TAD E U V I A P I A N A
AN O M IA, A VI SÃO C LÁS S I CA
N as ciências sociais, os crimes são considerados atitudes desviantes porque consistem na ruptura das normas formais e informais e são, por
isso, reprovados pela sociedade. Numa acepção formal, jurídica, represen
tam uma violação das leis e códigos penais. Émile Durkheim, fundador da
escola francesa de sociologia, dizia que o crime só é crime porque a lei o
define como tal.
Se os desvios estão relacionados com normas, costumes e leis, para
compreendê-los, porém, não basta dizer que eles ocorrem quando tais dis
posições são violadas. É preciso explicar por que determinados indivíduos
as cumprem e outros não. Aliás, na medida em que se aceita que um peque
no percentual da população comete a totalidade dos crimes - de 2% a 5%
-, o natural seria indagar as razões pelas quais os demais 95% da população
agem em conformidade às normas e leis. Esse seria o verdadeiro mistério a
ser desvendado.
Uma das explicações mais conhecidas para as condutas desviantes é a
teoria da anomia, elaborada originalmente pelo sociólogo francês Émile
Durkheim.4 Sua proposição central era de que o "modo como o homem
age é sempre condicionado pela sociedade". As formas de agir apresentam
sempre triplo aspecto: a) "são exteriores (provêm da sociedade e não do
indivíduo); b) são coercitivas (impostas pela sociedade ao indivíduo); e c)
são objetivas (têm existência independente do indivíduo). Dessa forma,
para compreender o comportamento humano, Durkheim afirmava que
deveríamos estudar os "fatos sociais", as determinações e influências que as
instituições exercem sobre as formas do agir humano (Sell, s/d) .
De acordo com Durkheim, portanto, as condutas desviantes, entre as
quais os crimes, têm origem social e não patológica. Nesse sentido, a crimi
nalidade é um fenômeno normal: "não há sociedade conhecida em que,
sob formas diferentes, não se observe uma criminalidade mais ou menos
E C O N O M IA DO C R I M E 8 5
desenvolvida. Não há povo cuja moral não seja cotidianamente violada." O
que anormal é um forte incremento do nível de crimes.
Um conceito fundamental no sistema de Durkheim é o de "consciên
cia coletiva", que representa o "o conjunto das crenças e dos sentimentos
comuns à média dos membros de uma mesma sociedade", um "sistema
determinado que tem vida própria" Esse conjunto de crenças independe
das situações particulares que os indivíduos vivem: "os indivíduos passam e
ele continuà', dizia.
A Lei representa a "consciência coletiva"; e o Estado é seu guardião. A
propósito, diz ele, "se é normal que haja crimes, é normal que sejam puni
dos". A penalidade e o crime, argumenta, são dois termos de um par inse
parável. E "um não pode faltar mais do que o outro" Ele sublinha que
"qualquer afrouxamento anormal do sistema repressivo tem por efeito esti
mular a criminalidade e lhe conferir um grau de intensidade anormal" .5
É a "consciência coletivà' que governa a ação dos indivíduos, não importa
se eles têm ou não consciência de sua existência. Quando, por alguma razão, ela
se enfraquece, perde capacidade e força para regular as ações dos indivíduos.
Essa perda de poder de regulação chama-se anomia. Uma espécie de vazio no
qual emergem as ações desviantes e mesmo o suicídio e o homicídio.
Na acepção clássica de Durkheim, a noção da anomia está associada à
mudança social e econômica. Ela se instala quando as relações sociais são
afetadas por mudanças econômicas muito rápidas, provocando a desorga
nização e a perda de referência das normas que, até então, balizavam o
comportamento das pessoas. Essas mudanças provocam uma "ruptura" ou
enfraquecem as referências comuns e os laços de solidariedade entre os in
divíduos. Em outras palavras, os mecanismos de integração do indivíduo à
sociedade tornam-se mais frágeis.
Nas sociedades tradicionais, onde a divisão social do trabalho é mais
rudimentar ou menos desenvolvida, é mais difícil ocorrer a anomia, por
que o comportamento das pessoas é fortemente influenciado pelos valores
religiosos (ou espirituais ou culturais). Nelas, os indivíduos partilham de
uma consciência coletiva comum, definida como "um conjunto de crenças
e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que
forma um sistema determinado que tem vida própria". Existe um predomí
nio do grupo sobre os indivíduos; a semelhança é muito forte e existe pou
co espaço para a individualidade. Nesse tipo de sociedade, ocorrem poucas
mudanças e, quando elas acontecem, os desequilíbrios são amortecidos ou
regulados pela vontade do grupo e não do indivíduo.
86 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Na sociedade moderna, caracterizada pela divisão social do trabalho
mais complexa e diversificada, as relações do todo com o indivíduo são
afetadas pelo enfraquecimento da consciência coletiva, que vê reduzido seu
papel na integração social. Os indivíduos têm maior autonomia, na medi
da em que o pertencer não depende mais de uma mesma crença ou adesão
estrita a um código de costumes. A relação se inverte: agora é o indivíduo
que pretende aumentar sempre mais seu raio de ação em relação ao mundo
social. No modelo de Durkheim, o excesso de individualismo e egoísmo
está na origem do choque entre o indivíduo e a sociedade, afetando o "bom
funcionamento" desta última.
A punição, segundo ele, não tem a finalidade de amedrontar ou dissu
adir. A função da sanção é "satisfazer a consciência coletiva, ferida pelo ato
cometido por um dos membros da coletividade. Ela exige reparação, e o
castigo do culpado é esta reparação feita aos sentimentos de todos" Ray
mond Aron escreve que "o crime ou o desvio, antes de violar a lei, agride a
consciência coletiva e desacredita o "poder diretivo da sociedade"
Resumindo, a noção da anomia está ligada, por um lado, ao desenvol
vimento da moderna divisão social do trabalho e suas conseqüências sociais
- urbanização, afirmação do indivíduo, relações sociais mais complexas,
etc. - e, por outro, à ruptura da "consciência coletivà' e ao enfraquecimen
to do "poder diretivo da sociedade" Em palavras mais simples, a anomia
instala-se quando diminui ou enfraquece a capacidade de a moral e de as
leis governarem a conduta dos indivíduos e frearem as atitudes anti-sociais
ou delitivas. Quando o Estado, como guardião da Lei, perde a capacidadede punir quem a agride.
E C O N O M IA 00 C R I M E 87
AN O M IA EM ROB ERT M ERTD N
O sociólogo norte-americano Robert Merton aplicou a noção da anomia à moderna sociedade urbano-industrial dos Estados Unidos para
explicar por que determinados segmentos da sociedade - pertencentes às
classes mais pobres - são mais propensos ao desvio e ao crime. Na acepção
mertoniana, no entanto, mais do que o enfraquecimento do poder diretivo
das normas sociais, a anomia é apresentada sob uma nova formulação, mais
específica do que a de Durkheim. Segundo Merton, a anomia surge quan
do ocorre uma disjunção ou dissociação entre as aspirações e objetivos ins
titucionalmente reconhecidos e valorizados e os meios legítimos à disposi
ção dos indivíduos para que estes possam realizá-los.
Nesses termos, o desvio ou o crime resulta da reação ou adaptação dos
indivíduos ao bloqueio dos canais legítimos de realização de seus objetivos
e aspirações legítimas. Merton combina, portanto, o debate das forças so
ciais que criam a anomia no plano macrossocial - os objetivos socialmente
reconhecidos e valorizados - com a proposição de que o comportamento
dos indivíduos é afetado pela estrutura cultural, conforme assinalam os
criminologistas Ronald Akers e Christine Sellers.
Nesse sentido, ele identifica cinco possíveis "modos de adaptação ou
ajustamento dos indivíduos às condições sociais da anomia" : a conformida
de, a mais comum, ocorre quando os indivíduos aceitam as restrições e
continuam a perseguir seus objetivos dentro dos mecanismos legítimos e
normais (legais); a inovação é o mecanismo mais comum associado ao des
vio e ao crime, quando o indivíduo busca outros meios que não os legais
para alcançar seus objetivos e aspirações; a rebelião acontece quando os in
divíduos rejeitam todo o sistema, meios e fins, objetivos e formas legítimas
para alcançá-los, é a reação "revolucionária"; a evasão é uma resposta esca
pista, ocorre com indivíduos que não compartilham os objetivos e valores
comuns, não aceitam os meios legítimos para realizá-los, mas, diferente-
BB L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
mente dos "revolucionários", preferem uma solução desviante e não de con
testação (o exemplo são os drogados, bêbados, psicóticos e outros); e, final
mente, o ritualismo é uma forma de adaptação que aceita as normas sociais
e os meios para alcançar os objetivos, ao mesmo tempo em que renuncia
aos fins culturais de riqueza, status e sucesso material.
A teoria de Merton deve muito à observação da sociedade norte-ame
ricana, que, na sua visão, é uma sociedade mal integrada, porque, ao mes
mo tempo em que valoriza determinados interesses e objetivos definidos
culcuralmente, por exemplo, a riqueza material como símbolo de sucesso e
de realização, não coloca à disposição de seus integrantes as mesmas opor
tunidades e meios para alcançá-la. É uma sociedade que incentiva os indi
víduos a terem sucesso, a serem vencedores, enxerga a riqueza como símbo
lo do sucesso e do trabalho, ao mesmo tempo em que valoriza a liberdade e
a igualdade de oportunidades para todos. Todos têm o direito de alcançar o
sucesso e vencerem na vida. O problema está, não propriamente na valori
zação da riqueza material, mas na falta de integração entre objetivos e meios
legítimos e insticucionalizados.
Na realidade, por várias razões, nem todos os indivíduos têm as mes
mas oportunidades e condições de acesso aos meios legítimos para realiza
rem seus objetivos e aspirações de sucesso. Nesses termos, o comportamen
to desviante ou criminoso seria o resultado de um conflito decorrente dos
limites entre um sistema que valoriza o sucesso material individual e os
limites sociais e econômicos interpostos por uma sociedade hierárquica, de
baixa mobilidade social, na qual a distribuição de oporcunidades é alta
mente desigual.
A propósito, Merton argumenta que a alta freqüência de condutas
desviantes não pode ser explicada, apenas, pela ausência ou falta de oportu
nidades legítimas ou pela exagerada valorização do dinheiro como símbolo
de sucesso. Ela ocorre quando os valores culturais que enaltecem os símbo
los comuns de sucesso são aceitos por parte considerável da mesma popula
ção, ao mesmo tempo em que, nesses grupos, a ideologia da igualdade é
negada pela existência de indivíduos "não-competitivos" em alcançar aque
les mesmos valores e símbolos de sucesso.
A proposição acima explica a constatação de que é entre a "classe bai
xa" (lower class) que ocorre maior volume de crimes. Com acesso limitado à
educação e ao mercado de trabalho, os integrantes desses segmentos e de
grupos étnicos e minorias têm suas possibilidades de acesso aos meios legí
timos de realização de suas aspirações limitadas. Não é, portanto, a pobreza
E c a N a M 1A oa C R I M E 8 9
ou a privação, em si, que provocam os comportamentos desviantes e os crimes,
mas a presença da pobreza e da privação juntamente com a ausência de possibi
lidades de os indivíduos realizarem suas aspirações e expectativas. A imensa
maioria dos integrantes da "classe baixa" adapta-se às suas possibilidades
limitadas, mas muitos não. Estes últimos são os que buscam os meios ilegí
timos, entre os quais os crimes. Para estes, os fins justificam os meios.
90 L U I Z TAD E U V I A P I A N A
A S U B C U LTU RA DELI N � Ü ENTE
Vários pesquisadores ampliaram e detalharam a teoria de Merton. Um deles é Albert Cohen, que aplicou a teoria da anomia para explicar a
origem e o conteúdo do que denominou de subcultura criminal entre jo
vens masculinos pobres. Na perspectiva de Cohen, mais do que conseqüência
da inabilidade ou da impossibilidade dos jovens de "classe baixa" alcança
rem objetivos monetários, a anomia resulta da impossibilidade de acesso ao
status dominante. Status refere-se não apenas a dinheiro; engloba também
modelos de comportamento, estilo de vida que valoriza símbolos de reali
zação e sucesso, habilidades e bom desempenho escolar, respeito dos cole
gas e amigos, padrões esses típicos da classe média, que são reforçados nas
escolas e na comunidade.
A premissa da abordagem de Cohen é que as escolhas que demarcam
as ações e atitudes dos jovens das classes baixas nem sempre asseguram os
resultados desejados. Na maior parte dos casos, as respostas são conhecidas
e envolvem um conjunto de atitudes que fazem parte de um repertório de
ações e reações conhecido e aceito por todos, mas em muitos elas envolvem
stress e tensão, que geram dificuldades de ajustamento entre as necessidades
de respostas e a competência ou capacidade dos indivíduos das "classes bai
xas" em dá-las.
Por exemplo, apoiados por seus pais, desde cedo os jovens de classe
média estariam mais preparados para absorver, desenvolver e ajustar-se aos
valores e comportamentos correspondentes ao status dominante na socie
dade do que os jovens oriundos da classe baixa. O desempenho escolar e a
dificuldade de acesso ao mercado de trabalho ou a bens de consumo po
dem gerar frustração nos jovens das "classes baixas" "Privação de status",
nas palavras de Cohen, pode gerar "frustração de status", sendo a delin
qüência uma resposta à frustração, com a adoção de valores e atitudes nega
tivas e de rejeição ao status.
E c a N C M I A o a C R I M E 9 1
Portanto, no esquema de Cohen os comportamentos negativos dos gru
pos ou gangues de delinqüentes não têm apenas um propósito utilitarista de
obtenção de retorno ou ganho monetário. Os grupos de jovens delinqüentes,
muitas vezes, desejam apenas caracterizar sua rejeição do status dominante. É o
caso, por exemplo, de grande número de ofensas à propriedade pública e priva
da, cujo objetivo é destruí-la ou danificá-la e não subtraí-la.
Outro aspecto importante é que, diferentemente de Merton, na teoria
da subcultura delinqüente de Cohen, a resposta à frustração dos jovens é
coletiva e não individual. Os jovens tendem a aglutinar-se em torno de
valores alternativos ao status não alcançadoatravés dos meios legítimos. A
subcultura delinqüente envolve, assim, a constituição de novos padrões de
reconhecimento em substituição aos valores da classe média.
Deve-se sublinhar que, à semelhança de Merton, também em Cohen
a tensão à qual são submetidos os jovens das classes baixas na conquista de
status não os leva necessariamente à delinqüência. Os jovens podem supe
rar suas limitações através de maior dedicação aos estudos e do esforço em
adotar bons comportamentos e amizades, solução que ele designa como
coler,ge boy solution.
Também podem, por outro lado, aceitar como normal sua condição
menos competitiva, conformando-se com suas limitações, sem entrar em
confronto direto com a cultura dominante. Cohen chama essa forma de
ajustamento de corner boy solution. Tal opção não afasta a possibilidade de
que venham a cometer algum delito em algum momento, mas os afasta da
delinqüência séria e repetitiva que caracteriza a subcultura delinqüente.
Lloyd Ohlin, da Universidade de Harvard, e Richard Cloward, auto
res do livro Delinquency and Opportunity ( 1 960) , combinam as teorias da
anomia de Merton e Cohen, a teoria da desorganização social formulada
por Clifford Shaw e Henry D. Mackay's com a noção de Edwin Sucherland
de que o crime é aprendido.6 Para Cloward e Ohlin, a tensão provocada
pela competição em torno de status nos jovens da classe baixa não é sufi
ciente para explicar a subcultura delinqüente. As pessoas das classes baixas
que se vêem excluídas dos meios legítimos de ascensão social nem sempre
têm à sua disposição o acesso aos meios ilegítimos. Ou seja, não existiria
uma relação direta entre as duas situações: ausência de meios legítimos e
acesso a meios ilegítimos. Alguns meios ilegítimos podem estar disponí
veis, outros não.
Cloward e Ohlin procuram resolver a questão introduzindo duas ou
tras noções. A primeira delas é de que a adesão dos jovens à delinqüência
92 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
ocorre por influência de delinqüentes mais velhos. Essa noção deriva da
teoria da associação diferencial apresentada, em 1 939, por Edwin Suther
land, em seu Principies of Criminology. Em qualquer sociedade coexistem
diversas subculturas, sendo inevitável que determinados ambientes sociais
se orientem para atividades ilegais. Os indivíduos tornam-se delinqüentes
quando "se associam" àqueles que já são delinqüentes. Assim, na teoria da
"associação diferencial", o comportamento criminal é aprendido pelo indi
víduo em íntima interação com outra(s) pessoa(s), cuja opinião é valoriza
da por ele. Isso não significa, evidentemente, que a frustração dos jovens
das classes baixas seja irrelevante na explicação da delinqüência. Significa
que tais pressões são insuficientes para explicar sua adesão aos meios ilegíti
mos. Tanto isso é verdadeiro que o próprio Cohen menciona outras saídas
que não a delinqüência para os jovens das classes baixas.
Além disso, Cloward e Ohlin destacam a importância do ambiente
social em que vivem os jovens, evocando conclusões da teoria da desorgani
zação social. O argumento refere-se, principalmente, à constatação de que
é nas zonas urbanas mais pobres das cidades, nas quais persiste um quadro
de desorganização social, que a cultura da delinqüência se transmite com
maior facilidade. As razões seriam famílias desestruturadas, alta mobilidade
residencial e reduzidas oportunidades educacionais e no mercado de traba
lho para os jovens, além de carências materiais.
Porém, ao contrário de Cohen, que menciona uma simples subcultu
ra delinqüente, Cloward e Ohlin falam em diversas subculturas delinqüen
tes. O primeiro tipo é a subcultura criminal, formada a partir de jovens
organizados para cometerem delitos tais como furtos, roubos, agressões.
Os objetivos desses grupos são em graus variados utilitários, visando à ob
tenção de ganhos materiais, embora também reproduzam os padrões e va
lores de criminosos adultos que operam no mesmo meio social. O segundo
tipo é a subcultura do conflito, caracterizado pela luta entre grupos e gan
gues rivais, cujo retorno é status para o grupo, ou seja, ser temido e respei
tado pelos demais. Ronald Akers e Christine Sellers 7 apontam que esses
grupos são encontrados em comunidades da classe baixa, onde existem
escassas possibilidades de substituir as oportunidades ilegítimas por opor
tunidades legítimas e a emulação para seguir modelos adultos, tanto os
convencionais como os desviantes, são fracos. Nesse contexto, os jovens
alienam-se tanto da busca de status monetário através do crime quanto
dos meios legais. Finalmente, o terceiro tipo é a subcultura da evasão, cujo
traço mais importante é o consumo de drogas e álcool. Seus membros rejei-
E C O N O M I A DO C R I M E 93
tam tanto os objetivos quanto os meios do modelo de sucesso e vencedor,
refugiando-se no vício.
Embora mais detalhada do que a teoria original da anomia de Mer
ton, as explicações de Cohen, Cloward e Ohlin também depararam-se com
o obstáculo que consiste em explicar por que apenas determinados jovens
que têm os meios legítimos bloqueados optam por condutas desviantes e
pelo crime. Entre outros, um dos criminologistas que buscou uma resposta
mais convincente para a questão é Robert Agnew; suas idéias centrais estão
apresentadas no artigo A General Theory of Crime and Delinquency, que nos
guiará na apresentação de suas idéias centrais. 8
Agnew parte da crítica de que as teorias da anomia "clássicas" (Mer
ton, Cohen, Cloward e Ohlin) enfatizam apenas os aspectos negativos do
bloqueio das oportunidades legítimas. Cita contribuições de outros crimi
nologistas que, além dos objetivos de sucesso monetário, consideram que
os jovens perseguem outros modelos e referências de sucesso relacionados
com os esportes, a cultura e o desempenho escolar. A partir delas, ele pro
cura ampliar a teoria da anomia, considerando, além da disjunção entre
objetivos monetários e meios legítimos, a frustração associada à perda de
algo valorizado pelo indivíduo (não material) e as conseqüências provoca
das pela exposição dos indivíduos a contextos e experiências negativas gera
das por discordâncias e divergências sociais.
Seguindo nessa linha, Agnew aponta três grandes fontes de tensão: a)
impedir alguém de realizar os objetivos positivos; b) remoção ou tentativa
de remoção dos estímulos positivos; e c) presença de estímulos negativos.
Tais situações, sublinha, são tipos "ideais" Isso significa que não se pode
esperar que um fato qualquer analisado as reproduza com exatidão; elas
servem, no entanto, como guia para a análise da totalidade dos eventos
considerados nas pesquisas empíricas.
Na primeira delas, a que trata do bloqueio à realização dos objetivos
positivos, a análise é dividida em três níveis. Inicialmente, a tensão surge
quando ocorre uma disjunção entre aspirações e expectativas. As aspirações
referem-se a objetivos ideais, e as expectativas são atuais, dizem respeito ao
acesso imediato aos objetivos. A maior incidência de tensão e condutas
desviantes nas classes baixas ocorre justamente porque elas são menos habi
litadas para realizar seus objetivos imediatos.
A crítica de Agnew a essa proposição é que ela não explica a extensão
e o crime na classe média, negligencia outros objetivos que não o sucesso
monetário, negligencia outras barreiras que não as decorrentes das classes
94 L u i z TAD E U V I A P I A N A
sociais e, finalmente, não especifica, porque somente indivíduos sob pres
são optam pela delinqüência. Agnew destaca as contribuições que traba
lham com a noção da subcultura jovem, já mencionada anteriormente, que
evoca outros objetivos imediatos relacionados com o desempenho nos es
portes, a atratividade física, a personalidade e a inteligência. De acordo com
essa perspectiva, não são apenas os jovens das classes baixas que apresentam
inabilidade para alcançar tais objetivos, mas também os de classe média. Po
rém, ainda assim, tal noção continuaconcebendo a conduta desviante como
resultado da disjunção entre aspirações e meios legítimos para realizá-las.
Em seguida, num segundo nível da análise, Agnew aponta que a ten
são pode resultar, também, da disjunção entre expectativas e realizações atuais.
A diferença é sutil, mas importante. Ele menciona estudos para mostrar
que as expectativas resultam da experiência passada dos indivíduos e/ou de
comparações com experiências de outros indivíduos que lhes servem como
referência ou estão na mesma condição social. Uma das expectativas mais
comuns está relacionada com a obtenção de renda: quando o indivíduo
sente-se injustiçado porque não ganha o que imagina merecer, ou porque
alguém igual a ele ganha mais fazendo a mesma coisa, emergem emoções
como desapontamento, insatisfação, ressentimento e raiva.
Tais sentimentos adquirem maior força do que a frustração com as
aspirações, porque estas se referem a uma dimensão mais utópica e distan
te, enquanto a raiva e a frustração, no exemplo acima citado, estão coladas
na realidade dos indivíduos. Grosseiramente falando, é a diferença entre o
sujeito que sonha em ter uma casa própria e aquele que é discriminado no
trabalho, recebendo aumento menor do que seu colega que executa as mes
mas atividades. A casa própria é uma aspiração que se situa além do cotidia
no, é um sonho distante, enquanto que a discriminação salarial é parte do
dia-a-dia. Outro aspecto importante é o peso que se atribui ao processo
social da comparação, que, como se sabe, é fundamental na formação das
expectativas. É a história da grama do vizinho que parece sempre mais ver
de que a nossa.
Finalmente, num terceiro nível, a análise, a tensão surge em conse
qüência dos retornos esperados, e considerados como j ustos, e os retornos
reais. Nesse caso, o que os indivíduos esperam não é simplesmente um
determinado retorno pré-concebido; por exemplo, dinheiro ou notas boas
no colégio, mas um retorno que eles consideram justo. Ou seja, eles intera
gem com as situações sem ter necessariamente uma noção prévia do retor
no esperado, formando um juízo sobre se esse retorno é justo a partir da
E c a N C M I A aa C R I M E 9 5
comparação com os demais indivíduos. Se o retorno é semelhante aos de
mais, em condições similares, então lhe atribuem um sentido de justiça; se
é diferente, o consideram injusto. Num esquema simplificado, o desvio ou
a criminalidade seriam atitudes através das quais os indivíduos tentam ob
ter maior retorno, através de furtos ou roubos, ou então afastar as condi
ções que geram a injustiça, como é o caso dos jovens que fogem de casa ou
abandonam a escola.
Mas a tensão é gerada não apenas pela não-realização dos objetivos ou
valores positivos, mas também através da (b) tentativa ou remoção dos estí
mulos positivos. Na literatura que trata da agressão, tem-se retirado a ênfa
se na busca da realização dos objetivos positivos com base no argumento de
que esse tipo de comportamento mostra fraca capacidade de prever a agres
são, principalmente quando tais objetivos não haviam sido antes experi
mentados pelos indivíduos.
Entretanto, como lembra Agnew, a remoção ou perda dos estímulos
positivos pode ser uma forte fonte de tensão. Ele cita estudos que apresen
tam uma lista de eventos que ocorrem ao longo da vida, como a perda de
um namorado, a morte de amigos, mudança de escola, separação dos pais,
adversidades no local de trabalho, e que constituem fontes de tensão. Por
outro lado, como tem sido lembrado na literatura da tensão, podem ocor
rer situações de tensão quando os indivíduos tentam evitar que os estímu
los positivos sejam removidos ou então buscam atingir os responsáveis pela
tentativa ou remoção de tais estímulos.
Por último, a tensão surge também em conseqüência da presença de
estímulos negativos. A tensão surge não apenas em razão da presença dos
estímulos negativos em si, mas em decorrência da inabilidade dos jovens
em lidar com ela. Agnew cita uma longa lista de estudos que mostram que
a delinqüência e a agressão estão relacionadas a diversos estímulos negati
vos, como abuso ou negligência com crianças, vitimização criminal, rela
cionamento negativo com os pais e com os amigos, situações adversas na
escola, além de uma ampla lista de eventos cotidianos, como insultos, agres
sões físicas, cenas desagradáveis, e até mesmo calor ou barulho.
Todas essas situações provocam níveis diferenciados de tensão e emo
ções negativas, que incluem desapontamento, depressão, medo e raiva. Esta
é considerada mais crítica, pois é o sentimento que emerge quando culpa
mos alguém pelo que nos acontece. E também porque ela energiza o indi
víduo para a ação e diminui a inibição, além do fato de que a agressão que
ela desencadeia pode ser considerada justificada.
96 L u i z TA D E U V I A P I A N A
Uma dessas pesquisas citada por Agnew para comprovar sua teoria
examinou uma amostra de adolescentes de Nova Jersey. Depois de controlar
diversas variáveis presentes em outras teorias, a conclusão é que a delinqüência
era mais comum para aqueles que haviam sofrido os efeitos negativos de even
tos como agressões, roubos, morte de amigos, divórcio ou desemprego dos
pais; que enfrentaram situações de conflito com pais ou professores, cujos pais
brigavam ou tinham uma relação marcada por ofensas ou irritação; entre aque
les que eram repreendidos pelos professores quando davam uma resposta erra
da; e, finalmente, entre aqueles que residiam em locais inseguros e que relata
ram ter medo de caminhar sozinhos durante o dia ou a noite.
Outra pesquisa, feita por Pasternoster e Mazerole ( 1 994), examinou a
correlação entre tensão e subseqüente delinqüência usando dados de uma
amostra nacional de adolescentes. A conclusão é que os adolescentes que
"vivem em comunidades com muitos problemas sociais (inclusive crimes e
deterioração física), que enfrentaram situações de tensão no último ano,
que tiveram problemas com amigos ou na escola e relacionamento ruim
com seus pais e professores, cometeram significativamente mais atos delin
qüentes do que aqueles que não enfrentaram tais situações de tensão" .9
Nesse ponto, a pesquisa avança além da proposição mais geral da teoria da
desorganização social, que enfatiza a desorganização social e do ambiente
em que vivem os jovens. São os estímulos negativos, não apenas a desorga
nização social, que impulsionam os jovens para a delinqüência.
No entanto, nem todas as situações de perda dos estímulos positivos e
a presença de estímulos negativos conduz à delinqüência. Muitas situações
de tensão, ao contrário, estão relacionadas com a presença de expressivo
controle social e redução das oportunidades criminais. É o caso, exemplifi
cando, de adolescentes que cometem menos ou nenhum crime, porque
não participam de atividades com amigos envolvidos em crimes ou então
de adolescentes que são fortemente supervisionados por seus pais, que con
denam com energia qualquer comportamento delinqüente.
Por outro lado, existem muitas outras formas de os indivíduos reagi
rem às tensões que não a delinqüência. A forma mais importante é a cha
mada estratégia de reinterpretar as tensões visando a minimizar seus efei
tos. Agnew cita três estratégias cognitivas muito comuns: "isso não é im
portante", "isso não é tão ruim" e "eu mereço isso". Ele cita como exemplo
a situação de uma pessoa que não consegue realizar seus objetivos de ga
nhar dinheiro. Ela pode minimizar a tensão que tal situação provoca achando
que mais dinheiro não é importante, colocando em seu lugar outros obje-
E C O N O M IA DO C R I M E 97
tivas, como saúde e relacionamento familiar. Ou então pode também mi
nimizar os efeitos de não conseguir mais dinheiro achando que já tem o
suficiente, ou assumindo a responsabilidade por não conseguir alcançar seu
objetivo. Tais estratégias podem não reduzir os sentimentos negativos, mas
diminuem a raiva decorrente da responsabilização dos outros pela situação.Além disso, as pessoas podem adotar atitudes que evitam as situações de tensão,
como separar-se de maridos agressores, não andar com amigos perigosos ou
negociar soluções para seus problemas escolares com os professores.
Por fim, Agnew enfrenta a questão crucial que consiste em responder
por que determinadas pessoas têm maior probabilidade de responder à ten
são com crime. A resposta envolve três fatores: a tensão leva mais facilmen
te ao crime quando envolve situações que as pessoas consideram efetiva
mente importantes. Por exemplo, dificuldades financeiras levam mais facil
mente a cometer crimes as pessoas que consideram o dinheiro algo muito
importante. Além disso, a tensão conduz ao crime as pessoas com menos
habilidades e recursos para buscar saídas para seus problemas; entre elas a
inteligência, habilidade de relacionamento interpessoal, habilidades profis
sionais, auto-eficácia e disciplina e, ainda, recursos financeiros. Um segun
do fator está relacionado com o fraco ou inexistente suporte social por
parte da família e amigos que eventualmente podem ajudar o indivíduo a
buscar uma saída para seus problemas. O terceiro fator diz respeito ao bai
xo custo do crime. O custo nesse caso diz respeito a um conceito amplo,
envolvendo, como na teoria econômica do crime, tratada na Parte II, a
condenação por parte da família, amigos, professores, empregadores, vizi
nhos e Justiça. Da mesma forma que na teoria econômica do crime, aqui
também a tolerância com as atitudes criminosas acaba gerando um incenti
vo para que sejam cometidos mais crimes.
Além disso, devemos considerar ainda a questão crucial de que alguns
indivíduos apresentam maior disposição para cometerem crimes. Essa dis
posição é influenciada por inúmeros aspectos, entre os quais as característi
cas pessoais, como irritabilidade e impulsividade. Além disso, fatores como
acreditar que o crime é justificado por alguma razão - sentimento de justi
ça, por exemplo -, sofrer a influência de algum modelo, conviver com amigos
criminosos, como preconiza a teoria da aprendizagem social, podem tornar
algumas pessoas mais propensas ao crime do que outras.
Chama a atenção que na lista de Agnew não estão presentes os fatores
que dizem respeito à formação moral e ética dos indivíduos. A única men
ção que poderia, ainda que indiretamente, estar relacionada com tais aspec-
98 L u i z TAD E U V I A P I A N A
tos é a noção de "suporte social", mas nesse caso a noção tem um sentido
utilitarista, o de ajudar o indivíduo a suportar a tensão ou a remover deter
minado estímulo negativo, evitando, dessa forma, a saída através do crime.
A importância da educação, por outro lado, surge também com um senti
do instrumental, através da suposição de que indivíduos educados têm
melhores habilidades para contornar situações de tensão através de meios
legítimos, o que é correto, mas é também uma visão muito limitada da
educação. Na teoria econômica do crime, ao contrário, ela tem um papel
mais amplo, indo além das habilidades profissionais, envolvendo maior
capacidade de os indivíduos avaliarem e ponderarem custos e benefícios.
A teoria da aprendizagem formulada por Ronald Akers dá uma res
posta diferente e muito interessante à indagação por que determinados in
divíduos em situações e contextos sociais semelhantes cometem mais cri
mes. De acordo com Akers, "a premissa básica da teoria do aprendizado
social é que o mesmo processo de aprendizado, em um contexto de estru
tura, interação e situação sociais, produz comportamentos tanto divergen
tes (delinqüentes) quanto corretos (de conformidade). A diferença reside
na direção do equilíbrio de influências no comportamento."
De acordo com Akers, a probabilidade de as pessoas engajarem-se em
comportamentos criminosos aumenta ou diminui quando: a) se associam
diferentemente com outros que cometem crimes; b) aceitam representa
ções favoráveis a isso; c) são relativamente mais expostas pessoal ou simbo
licamente a significativos modelos criminosos/desviantes; d) os definem
como desejáveis ou justificáveis numa situação questionadora do compor
tamento, e e) receberam no passado, antecipam no presente e no futuro
recompensas maiores do que as penas associadas à decisão. 10
O sentido atribuído à expressão learning é amplo. Diz respeito não
apenas ao aprendizado decorrente da influência ou convivência com crimi
nosos, mas à forma como os princípios e valores que governam o compor
tamento humano são adquiridos, mantidos e modificados. Ele retém as
noções do interacionismo simbólico de que os indivíduos têm a capacidade
de imaginar-se no papel de outros e incorporar seus conceitos, seja por
imitação, antecipação de reforços ou auto-reforço. Nesse sentido, a teoria
apresentada por Akers procura explicar tanto o comportamento dos indiví
duos no sentido da conformidade quanto do desvio e do crime.
Akers trabalha com três conceitos-chave: Definições, Reforços Diferen
ciais e Imitação. Definições refere-se às nossas atitudes e significados que
direcionam o nosso comportamento. São orientações, racionalizações, de-
E c a N C M I A o a C R I M E 99
finições situacionais e avaliações morais que indicam o que é cerco e errado,
bom ou mau, desejável ou indesejável, justificável ou injustificável. Ele di
vide as definições em gerais, que dizem respeito à religião, à moral e outros
valores convencionais favoráveis ao comportamento conforme e desfavorá
veis ao comportamento criminoso ou desviante, e específicas, que são aquelas
que orientam as pessoas em um caso ou em casos particulares.
A suposição é de que quanto mais uma pessoa acredita que uma atitu
de é errada, menor é a probabilidade de cometê-la. Porém, a teoria trabalha
com o conceito de neutralização, ou seja, de verbalizações e racionalizações
que operam como justificativas para atos desviantes e crimes, tais como "eu
não sou responsável", "eu nasci assim", "eu estava bêbado e não sabia o que
estava fazendo", entre outras. Cognitivamente, tais alegações servem como
justificativas para o crime, quando a oportunidade surge, um espécie de
estímulo interno que anula a crença de que se está fazendo algo errado.
Reforços diferenciais alude ao balanço da antecipação ou gratifica
ção atuais e à punição relacionada ou conseqüência do comportamen
to. A propensão de alguém cometer um crime depende, portanto, do
retorno e/ou da punição canto no passado, como no presente e no futu
ro, estando, portanto, relacionada não apenas com a experiência passa
da, mas também com a projeção do futuro. Ela é maior quando a grati
ficação aumenta, seja na fo rma de dinheiro, aprovação ou sentimentos
de prazer, e diminui quando aumenta a probabilidade de punição ou
quando a gratificação é removida. A gratificação pode ser tanto mate
rial quanto simbólica. Tais modalidades de associação, diz Akers, são
modalidades de reforço, cuja influência no comportamento dos indiví
duos depende do volume, da freqüência e da probabilidade.
Finalmente, a imitação, como a palavra sugere, designa o comporta
mento resultante da observação das atitudes dos outros. Ele depende das
características do modelo, do comportamento observado e das conseqüên
cias do comportamento imitado.
A sociedade - as formas de inserção social dos indivíduos, raça, gênero
e religião - fornece o contexto geral de aprendizagem, que pode aumentar
ou diminuir a probabilidade de eles cometerem crimes. A família, a escola,
os amigos, a igreja e outros grupos proporcionam os contextos mais imedia
tos, que também promovem ou desencorajam as atitudes criminosas. O
comportamento criminal depende da extensão da influência dessas característi
cas e instituições, enfim das tradições culturais, normas e controle social provi
dos pela socialização e ambientes em que os indivíduos são formados.
1 00 L u i z TAD E U V I A P I A N A
A teoria da aprendizagem opera, portanto, em três dimensões, inte
grando na análise o nível macro (o contextosocial) com o nível micro (o
comportamento individual), dimensões essas que são mediadas e integra
das pelo processo de aprendizagem.
Como vimos, a teoria da aprendizagem diferencia-se das teorias da ano
mia, tanto na formulação clássica quanto em seus desdobramentos, e aproxi
ma-se em vários aspectos da teoria do controle, que será examinada a seguir,
principalmente quando sublinha a importância dos retornos (gratificações ou
punição) e o papel positivo dos laços e vínculos sociais (família, escola, grupos).
E c a N O M IA oa C R I M E 1 D 1
F:.M ÍLIA, E S C O LA E C O M U N I DADE:
FO NTES DE C ONTRO LE
N a segunda metade do século passado, surgem as pesquisas dos criminologistas Albert Reiss, Ivan Nye e Travis Hirschi, com uma impor
tante mudança de enfoque em relação às teorias da anomia, por exemplo.
Eles deslocam o foco da análise para os mecanismos de controle que afetam
diretamente o indivíduo, principalmente derivados da família, da comuni
dade e da escola. Tais análises têm a vantagem de levar em conta não apenas
os elementos formais de controle existentes nas leis, mas, principalmente,
os mecanismos informais que desde cedo, através da família e da escola,
influenciam o comportamento dos indivíduos. E que, de certo modo, ex
plicam por que alguns são mais propensos ao cumprimento das leis, en
quanto outros apresentam maior probabilidade de condutas desviantes.
Albert Reiss assume a delinqüência como uma ocorrência social nor
mal, que aumenta devido à ausência de limitações e/ou controles por parte
dos indivíduos. Uma das mais importantes fontes desse controle é a famí
lia, pois é ela que provê as necessidades básicas das crianças e gera um forte
relacionamento emocional. Crianças que internalizam uma forte ligação
com seus pais são mais propensas a adotar comportamentos não-delinqüen
tes. Ligação que supõe, além da satisfação das necessidades básicas e emo
cionais, uma relação de supervisão e disciplina.
Além da importância da família, Reiss destaca o papel complementar
da comunidade e das relações de vizinhança como fonte de controle social.
Grupos informais fortes e baixa mobilidade residencial exercem uma pode
rosa influência para controlar as condutas das crianças e adolescentes. A
ligação entre crianças e jovens e a escola é também um forte instrumento
de controle social. O crime ocorre em decorrência de falhas no relaciona
mento entre os indivíduos e essas instituições.
Nye classifica as fontes do controle em três grupos: o controle direto,
que engloba diversas variáveis de contenção ou limitação dos comporta-
1 0 2 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
mentas e impulsos desviantes, como o sistema legal, as sanções informais, a
vergonha, a reprovação do grupo e a supervisão direta dos pais; o controle
interno, que ocorre quando as pessoas são socializadas de forma a internali
zar consistentemente o sistema normativo da sociedade; e o controle indire
to, que acontece quando as crianças têm um relacionamento forte e afetivo
com seus país e outros adultos de seu grupo de convivência.
A mais importante instituição geradora de controle social é a família.
Porém, ela pode tanto ser uma fonte de limitação à conduta desviante como
de incentivo. Por exemplo, quando a família não consegue preencher ou
dar respostas às necessidades e desejos dos jovens, pode tornar-se um ele
mento de estímulo para comportamentos anti-sociais. O mesmo pode ocor
rer com famílias desintegradas ou marcadas por relações de agressividade.
A classificação de Nye tem o mérito de destacar que a literatura enfa
tiza apenas o aspecto positivo da família, sem dar a devida importância à
situação oposta, na qual, por várias razões, ela deixa de cumprir sua função
socializadora e empurra seus membros jovens para a marginalidade. A pro
pósito, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, defende a adoção do
planejamento familiar para conter a gravidez precoce, que chega a 20% nas
favelas da cidade. O pressuposto é que famílias pobres, com difícil acesso à
educação e ao mercado de trabalho, apresentam condições precárias de edu
car seus filhos num ambiente saudável, em termos psicológicos e materiais.
O mesmo ocorre quando os pais não cultivam valores e noções morais de
respeito e disciplina no seio da família.
Finalmente, em sua obra clássica Causes of Delinquency, de 1 969, Tra
vis Hirschi também aponta a importância do autocontrole em sua teoria
geral do comportamento desviante. Autocontrole significa a capacidade
das pessoas de resistirem à imediata e fácil gratificação. Adquirido desde a
infância, e uma vez formado, ele torna-se relativamente estável durante
toda a vida. Os atos delinqüentes resultam de falhas em quatro elementos:
ligação entre os indivíduos, marcada ou não por respeito, amor e afeição; com
promisso, adesão ou não do indivíduo às suas aspirações, propósitos e ambições;
envolvimento, engajamento em atividades legais como restrição às oportunida
des para atos delinqüentes e, por último, a crença, a adesão ao comportamento
normal e a rejeição aos atos delinqüentes como moralmente errados.
A seguir veremos com maiores detalhes os aspectos centrais da teoria
do autocontrole, suas principais diferenças em relação à abordagem do de
terminismo social e também em que medida podemos evocar a racionali
dade individual na explicação das decisões dos indivíduos.
E c:: a N D M I A oa C R I M E 1 0 3
A TEORIA DO AUTOCONTROLE
D esenvolvida inicialmente na década de 1 960 e 1 970, nos Estados Unidos, a chamada teoria do autocontrole resgata inicialmente a visão
clássica que atribui o desvio e o crime a falhas no sistema de controle social.
Além disso, ela pretende também suprir as falhas existentes nas explicações
correntes na década de 1 960, particularmente a que associa a criminalidade
a fatores como pobreza, discriminação racial e ausência de oportunidades
de ascensão social.
A propósito, Michael Gottfredson e Travis Hirschi afirmam que essas
teorias são falhas porque tais fatores podem até explicar por que determina
das pessoas aderem ao crime, mas não conseguem dar conta das razões
pelas quais elas abandonam as atividades criminosas. Ou por que determi
nados indivíduos, na mesma situação dos que optam pelo crime, preferem
o não-crime. Existe uma inconsistência teórica evidente no fato de que, se
esses mesmos fatores explicam a ascensão, não conseguem explicar a queda dos
crimes; explicam a adesão de uns e deixam de explicar a não-adesão de outros.
No que se refere à herança dos clássicos, a teoria do autocontrole res
gata a noção de que todas as pessoas apresentam tendência a cometer des
vios ou crimes, ainda que diferenciadas; resgata também a proposição de
que essas tendências podem ser controladas ou inibidas por vários tipos de
sanções, físicas, morais, sociais, legais ou religiosas, para seguir a classifica
ção de Jeremy Bentham. Segundo essa visão, a natureza humana comporta
tanto as boas como as mds atitudes.
Porém, vai além da noção clássica, ao conceber que o controle não se
faz presente apenas na direção do meio para o indivíduo, de fora para den
tro, mas depende, também, da forma como o indivíduo aprende e interna
liza os valores com os quais é confrontado. Em última análise, depende de
seu sistema de crenças e de como reage aos incentivos proporcionados pelo
meio ambiente.
1 04 L u i z TA D E U V I A P I A N A
A noção de que os fenômenos sociais resultam de ações, atitudes e
crenças individuais assemelha-se, de certo modo, à perspectiva da sociolo
gia da ação ou da sociologia interacionista. Para a sociologia da ação, con
forme escreve Raymond Boudon, em seu Tratado de Sociologia, quem pro
cura explicar os fenômenos sociais deve descobrir os "sentidos" dos com
portamentos individuais que estão na sua origem.
Essa perspectiva nos remete a dois princípios básicos: o individualis
mo metodológico e o princípio da racionalidade. O individualismo meto
dológico parteda premissa já referida por Max Weber de que "a sociolo
gia . . . só pode ter origem nas ações de um, de alguns ou de muitos indiví
duos distintos". Assim, como lembra Boudon, as análises sociológicas com
portam quase sempre, "mesmo que de forma elíptica, um momento em
que são examinadas as razões que levam os atores a manifestar um dado
comportamento ou uma dada convicção"
O individualismo metodológico é distinto do individualismo moral
ou mesmo do simples egoísmo. Refere-se, sobretudo, à idéia de que, para
explicar um fenômeno social, é necessário descobrir suas causas individuais
e específicas. Não se trata, portanto, de levar em conta acepções ou noções
quanto aos valores morais de cada indivíduo ou grupo de indivíduos, muito
menos de colocar em primeiro plano o indivíduo como fonte suprema dos
valores morais, mas de compreender as influências, contextos e circunstâncias
específicas - culturais, econômicas, sociais - que operam nas decisões, intera
gindo com as características de cada indivíduo. O conceito de indivíduo, con
forme assinala o sociólogo Henri Mendras, do Centro Nacional de Pesquisa
Científica - CNRS, da França, está ligado ao de ator social. Quando nos refe
rimos ao indivíduo, temos em mente não um indivíduo em particular mas
um conjunto de indivíduos, grupos, instituições que estão submetidos a
uma unidade de comportamentos, valores, normas e imposições.
A crítica mais contundente ao individualismo metodológico partiu
dos marxistas e neomarxistas. Para eles, o indivíduo não dispõe da "autono
mia" requerida pela perspectiva individualista, na medida em que sua ação
é determinada pela estrutura social e pela cultura dominante. Mesmo quando
a ação dos indivíduos envolve, em algum grau, uma decisão individual, ela
ainda assim é considerada pelos marxistas como produto das determina
ções sociais, uma vez que a própria consciência é socialmente condicionada
e determinada.
Em outras palavras, se a consciência é determinada socialmente, tam
bém as ações determinadas pela consciência o são. Como lembra Boudon,
E c:: a N O M IA o a C R I M E 1 0 5
os neomarxistas repudiam a autonomia do indivíduo por questões doutri
nárias: a autonomia do indivíduo é mera ilusão, uma vez que a ideologia
que serve de guia para o indivíduo pode ser, também, concebida da mesma
forma. Os indivíduos, segundo Marx e Engels, estão condenados a "ver o
mundo às avessas" O indivíduo, para os marxistas, não passa de um "jo
guete absoluto de determinismos sociais"
Esse tipo de visão, além da crítica proveniente da sociologia e da eco
nomia, enfrenta, agora, as recentes descobertas no campo da psicologia
evolucionista e da neurociência. Essas descobertas reforçam, com evidên
cias cada vez mais robustas, a presença e a influência dos elementos e carac
terísticas biológicas herdadas no comportamento humano. A idéia de que
os indivíduos nascem como se fossem uma página em branco (uma tábula
rasa) e que a sociedade é que escreve os traços que o definem e determinam,
é uma idéia superada. Nos dias atuais, cada vez aceita-se mais que a análise
do comportamento humano deve levar em conta, não apenas a influência
do meio, mas também as características biológicas herdadas. 1 1
Os estudos mostram que a despeito do ambiente cultural em que nas
cem e crescem, quando chamadas a escolher o tipo de brinquedo que pre
ferem, a grande maioria das crianças do sexo masculino escolhe aqueles que
envolvem lutas e competição. Outro exemplo é que, em qualquer país ou
cultura, os crimes são cometidos predominantemente por homens e não
por mulheres; mais ainda, a comportamento desviante é uma característica
dos jovens, ocorrendo num momento da vida em que eles passam por uma
grande transformação biológica. Esses três exemplos são suficientes para
questionar a noção de que o comportamento é derivado apenas da aprendi
zagem social.
O outro princípio da sociologia da ação é o da racionalidade. Ele sig
nifica que os fenômenos sociais, como dissemos, devem ser interpretados
como resultantes de ações, convicções e comportamentos individuais. É
preciso entender o sentido dessas ações. Segundo a sociologia da ação, por
tanto, para explicar os fenômenos sociais, é preciso identificar e compreen
der as ações dos indivíduos.
Até esse ponto, tudo nos parece relativamente simples. O problema
surge quando procuramos definir o que são as atitudes racionais e irracio
nais. Raymond Boudon começa a tratar da questão fazendo uma observa
ção fundamental: o postulado da racionalidade é um princípio metodológi
co, e não ontológico. Isto é, ele diz respeito ao ator social e não a um indiví
duo em particular. Em seguida, formula dois critérios que nos auxiliam a
1 0 6 L u i z TA D E U V 1 A P I A N A
compreender um pouco melhor o significado da racionalidade: ela seria
uma conduta guiada por razões válidas, num sentido mais restrito, ou se
guindo a definição de Karl Popper e, num sentido mais amplo, sempre que
se apóie em algum tipo de razão, não importando qual seja.
No primeiro caso, é evidente a mediação da cultura - hábitos, costu
mes, referências morais e legais -, enfim, daquilo que as pessoas definem
como certo ou errado, bom ou mau. Por exemplo, um traficante que mata
um "inimigo" para preservar seu poder - logo, seu "negócio" - sobre o
grupo ou território tem, segundo seus valores, sua ética e sua lógica uma
"razão válida", embora ela seja inaceitável do ponto de vista moral, ético e
legal adotado pela sociedade. Nessa situação, é relativamente fácil distin
guir o certo e o errado, portanto identificar uma razão válida. Mas, se evo
carmos o segundo caso - a existência de algum tipo de razão -, a situação
fica muito mais complicada, pois, em última análise, o estabelecimento de
uma razão válida sugere um critério amplo e aberto, no qual caberia tanto
a atitude do traficante acima citado como até mesmo a justificativa do ter
rorismo, dado que ambos consideram suas razões válidas segundo seu modo
de ver as coisas.
Além desses aspectos relacionados com a gradação dos juízos de valo
res possíveis em dadas situações concretas, existe ainda a dificuldade rela
cionada com a forma como os diversos indivíduos se apropriam das infor
mações necessárias ou importantes para uma decisão racional.
Mais especificamente, a dificuldade com a racionalidade aumenta quan
do supomos que ela pressupõe que os indivíduos não conseguem acessar de
modo uniforme o sistema de informações, dado que o sistema de informa
ções é, em última análise, sempre imperfeito. Em termos muito simples,
pode-se dizer que os indivíduos têm acesso apenas parcial às informações
que necessitam para decidir de forma racional. Além da acessibilidade, há
ainda a dificuldade dos diversos sentidos e formas de interpretá-las, na
medida em que uma informação pode ser captada com níveis de importân
cia distintos de indivíduo para indivíduo.
O déficit de informação nos leva à racionalidade subjetiva, ou seja, à
idéia de que as decisões, em algum grau, valem-se das memórias, experiên
cias, conhecimentos e expectativas do ator social. Esse indivíduo afasta-se,
assim, da racionalidade objetiva, construída hipoteticamente sobre um
quadro de informação perfeito, e passa para uma racionalidade subjetiva ou
psicológica, na qual o que ele busca é uma decisão não mais ótima, mas
satisfatória. Desse modo, carecendo de um sistema de informações adequa-
E c a N C M I A aa C R I M E 1 0 7
do, ele decide segundo os valores, costumes e experiências que lhe parecem
bons ou menos ruins numa dada situação.
Como o acesso ao sistema de informações é, por definição, desigual,
de indivíduo para indivíduo, as decisões sempre refletirão essa desigualda
de, sendo sempre específicas, próprias para cada pessoa. Desaparece, assim,
qualquer possibilidade de comparação, a não ser quando referidas a catego
rias e situações específicas. Mas, aí, entramos no terreno da psicologia social,
do estudo docomportamento social a partir de referências e atitudes adap
tativas e respostas comuns, fugindo do campo da decisão do indivíduo.
Podemos identificar quais são os traços comuns na reação de jovens à bebi
da, por exemplo, a partir de estudos comportamentais de determinados
grupos e extrapolar essas conclusões para o conjunto dos jovens. Nesse caso,
podemos até projetar determinados padrões de comportamento, mas nada
nos garante que determinadas características de um indivíduo se reproduza
em universo mais amplo, pois, obviamente, estatísticas, médias, probabili
dades não falam de um indivíduo específico.
Deve-se sublinhar, de outra parte, que a racionalidade psicológica não
implica que o indivíduo domine completamente seu comportamento. Ati
tudes racionais e irracionais estão presentes como possibilidades de atitude
humana num processo de permanente tensão. Freud dizia que a psicologia
humana é governada pela pulsão do prazer e que nem sempre é a razão,
dada pela consciência dos atos, que governa as ações humanas. 12 E os casos
em que o comportamento humano é fortemente determinado por patolo
gias mentais? Os criminosos psicopatas, matadores compulsivos, por exem
plo, estariam nesse grupo?
As leis penais, evidentemente, atenuam situações em que patologias
mentais estão associadas ou presentes nos crimes, embora envolvam diag
nósticos complexos e de difícil determinação. Por exemplo, no caso das
psicopatias comumente presentes em assassinos seriais (serial killers), cha
ma a atenção dos especialistas que eles apresentam invariavelmente um
quadro comportamental de grande normalidade, com a doença irrompen
do, apenas, em momentos muito específicos, muitas vezes sem um padrão
determinado.
Como salienta Gavin de Becker, em seu livro Virtudes do Medo, na
maior parte dos casos, a aparente normalidade esconde um histórico de
violência e perdas na infância. Ele cita uma pesquisa que estudou assassinos
compulsivos e concluiu que "em 100% dos casos" eles "tinham sido maltrata
dos quando crianças, seja por atos de violência, negligência ou humilhação"
1 DB L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
Em seu escudo sobre as raízes do comportamento violento, Becker escreve: "Os
assassinos não são diferences de nós como gostaríamos de pensar"
Podemos dizer, então, que a compreensão das atitudes dos indivíduos
ou grupos deve levar em conta, de um lado, um sistema de decisões que
refletem os valores incernalizados - as normas, os costumes, as leis, etc. -
num processo de decisão que contém elementos de racionalidade - seja ela
objetiva ou subjetiva/psicológica - e, de outro lado, a capacidade de dissua
são do sistema de sanções morais, éticas ou legais. Assim, se acolhermos a
noção de que essas sanções inibem comportamentos desviantes ou crimi
nosos, aceitaremos também que existe alguma ponderação de custo/benefi
cio no momento da decisão pelo crime.
Se assim for, a decisão pelo crime envolve, em algum grau, uma certa
racionalidade, sem a qual a influência dissuasória das sanções não existiria -
ainda que essa racionalidade, como dissemos, possa ser moralmente relati
va, vista sob a ótica de quem pratica o delito ou de quem é vítima. O
importante, nesse caso, é ver o ato não como determinado exclusivamente
do ambiente para o indivíduo; tampouco considerar o indivíduo como
autômato, um ser destituído de qualquer capacidade de avaliar o sentido e
as conseqüências de sua atitude no presente e futuro. Nesse sentido, a teo
ria do autocontrole distancia-se radicalmente das teorias do viés social. É
possível afirmar que, pelo menos nesse aspecto, ela se aproxima da "escolha
racional" presente na teoria econômica do crime, apresentada na Parte II.
O ponto central da teoria do autocontrole é que existe um elemento
comum em todos os atos desviantes e/ou crimes, sejam eles leves ou graves,
que consiste precisamente na existência de um agressor não contido, dis
posto a correr o risco de arcar com custos de longo prazo em troca de
benefícios pessoais imediatos. Não existe diferença nos benefícios deseja
dos; afinal, todos almejam as mesmas coisas - dinheiro, poder, bens mate
riais, sexo, enfim.
A diferença localiza-se nos meios legítimos ou ilegítimos de obtê-los.
Enquanto, para uns, os meios para alcançar esses objetivos são o empenho na
formação e educação dos filhos e no desenvolvimento de habilidades para o
trabalho, em meios social e legalmente aceitos como legítimos, para outros, os
meios são aqueles rápidos, diretos e fáceis, independentemente de serem legais
ou não, legítimos ou não. Portanto, as pessoas que se engajam no crime são
pessoas que negligenciam as conseqüências de longo prazo. São pessoas,
dizem os especialistas, com baixo autocontrole. "Eles são, ou desejam ser,
crianças por um momento", segundo Hirschi e Gottfredson.
E C O N O M I A DO C R I M E 1 09
A esta altura, precisamos explicar de onde provém o autocontrole e
como determinadas pessoas o adquirem mais do que outras. O autocontro
le é em parte natural e em parte adquirido e aprendido socialmente. Quan
do ainda são pequenas, as pessoas aprendem por meios naturais que é pre
ciso ter cuidado com o fogão, com subir em mesas, cadeiras, sofás e escadas,
com energia elétrica e com piscinas, rios ou lagos, enfim, com situações nas
quais ela mesma, por si só, vai percebendo os riscos e perigos. Por exemplo,
quando a criança é pequena, ela pode mentir, usar a força contra um cole
guinha de escola, furtar um brinquedo, sem que tenha consciência de que
tais atitudes sejam erradas ou más. No entanto, a partir de uma certa idade,
7 ou 8 anos, ela vai percebendo que tais atitudes não são mais aceitas como
naturais e implicam reprovação. É precisamente nessa idade que ela come
ça a controlar mais seus atos.
Na realidade, as crianças aprendem por diversos meios a serem res
ponsáveis por seus atos e arcar com as conseqüências, tendo um papel
decisivo nesse processo a família, a escola e o grupo de amigos, que
fornecem a chamada "socialização primária" É nesses ambientes que
ela começa a receber as primeiras noções morais que dizem respeito às
ati tudes e normas valorizadas pela sociedade. Aceita-se, de um modo
geral, que uma boa social ização dos filhos implica que os pais cumpram
as seguintes condições: cuidado, monitoramento, reconhecimento, no caso
dos comportamentos desviantes, e correção. Quando essas condições estão
presentes, presume-se que as crianças aprendam mais facilmente a evi
tar as ações e atitudes que implicam custos ou conseqüências negativas.
Os estudos sobre delinqüência juvenil conferem suporte a essas for
mulações, a ponto de torná-las de certo modo óbvias entre os especialistas.
Com efeito, esses estudos evidenciam que quanto maior e mais intensa for
a ligação entre pais e filhos, menor é a probabilidade desses virem a se
tornar delinqüentes. Da mesma forma, conforme sublinham Gottfredson
e Hirschi, a disciplina e os compromissos constituem fortes preditores da
não-delinqüência.
Por outro lado, entre os fatores associados à opção pela delinqüência,
encontramos os seguintes: negligência dos pais, abuso, pais solteiros, gran
de número de filhos e pais criminosos. É mais ou menos óbvio que pais
separados, ou pais com problemas comportamentais ligados às drogas, abuso
do álcool ou a outras condutas desviantes, por exemplo, têm maiores difi
culdades de exercer papel ativo na correção de condutas ou atitudes desviantes
de seus filhos.
1 1 o L u i z TAD E U V I A P I A N A
Assim, a teoria do autocontrole combina uma visão da natureza hu
mana segundo a qual estão presentes nos indivíduos tanto a tendência para
as ações boas como para as más, com a noção de que as pessoas aprendem
os valores morais e legais associados às boas ou más ações e, ainda, reserva
ao indivíduo certo espaço para uma decisão racional por certas atitudes em
detrimento de outras, pelo crime ou pelo não-crime. Nesse sentido, a teo
ria do autocontrole vaimuito além das várias versões da teoria da anomia e
também da teoria da aprendizagem.
Depois de fazer uma ampla revisão da literatura disponível, Gottfred
son e Hirschi chegaram à conclusão de que existe um conjunto de caracte
rísticas comuns no comportamento e perfil dos criminosos. Quando essas
características são confrontadas com as proposições da teoria do autocon
trole, muitas delas são convergentes, enquanto outras são divergentes.
As características citadas são as seguintes:
• Diferenças entre altas ou baixas taxas de crimes se mantêm ao longo
do tempo de vida do indivíduo; isso não significa, evidentemente,
que "uma vez criminoso" o indivíduo sempre será um criminoso. A
conclusão sugere, por um lado, que existe baixa probabilidade de
recuperação dos criminosos, ao mesmo tempo em que reforça a
noção de que o baixo autocontrole, uma vez adquirido, mantém
se ao longo da vida.
• Os esforços para tratar ou reabilitar agressores não produzem os resultados
desejados; sucesso nos programas de tratamento são muito dificeis. A con
clusão sugere não apenas a baixa eficácia dos sistemas tradicionais de
recuperação - prisão, tratamento psicológico e ressocialização -, mas
reforça também a idéia de que o comportamento desviante, mais do
que um evento ou uma sucessão de eventos, está relacionado com um
"modo de vida", uma "carreira criminosa"
• Os esforços na aplicação da Lei e da justiça têm também pouco efeito no
volume de crimes. Segundo essa conclusão, os agressores não reagiriam
a aumentos na certeza ou severidade das penas. Essa conclusão, con
forme se pode observar nas Partes II e IV, é improcedente ou, no mí
nimo, controversa. Existem inúmeros exemplos que mostram redução
das taxas de crimes em resposta a aumentos da certeza e da severidade
das penas e também da presença de vigilância policial.
• Os crimes declinam com a idade dos agressores. Esse comportamento
está relacionado, por um lado, com a diminuição da potência física
E c a N C M I A oa C R I M E 1 1 1
dos agressores e, por outro, com o fato de que eles desenvolvem laços
sociais e familiares mais fortes (casamento, filhos, etc.) com o passar
do tempo. Os custos afetivos do crime, com isso, aumentam.
• Criminosos têm maior probabilidade de usar drogas do que não-agresso
res. Essa constatação indica que comportamentos desviantes reforçam
se mutuamente. Nem sempre viciados em drogas tornam-se crimino
sos, mas é muito comum que criminosos usem drogas ou quem use
drogas tenha maior probabilidade de vir a cometer crimes. A "culrurà' da
droga e a "culturà' do crime e da transgressão andam muito próximas.
• Criminosos são mais facilmente envolvidos em formas não criminais de
desvio (abuso de álcool, brigas, velocidade no trânsito, desordem nas ruas,
etc.}. Do mesmo modo que na questão das drogas, a "cultura" da trans
gressão vai além da atitude criminosa; quem é criminoso dificilmente
tem a preocupação de obedecer a leis e normas, ainda que sejam rela
cionadas àqueles aspectos. Há, entretanto, o caso dos "criminosos pro
fissionais", os chamados criminosos de "colarinho branco", que são,
na maior parte do tempo, cidadãos honestos, mas cuja "profissão" é
cometer crimes financeiros, tráfico de drogas, corrupção ativa em lici
tações públicas e outros crimes não violentos. São, até que sejam iden
tificados, cidadãos que cumprem as leis, não se envolvendo em formas
"não criminais" de desvio.
• São, também, menos vinculados a instituições de controle, como a famí
lia, a escola, o trabalho. Essa é uma conclusão, evidentemente, muito
robusta em favor da teoria do autocontrole, uma vez que as fontes
primárias do comportamento conforme as normas e leis são precisa
mente a família, a escola e a inserção no mercado de trabalho.
• Os criminosos apresentam maior desvantagem intelectual e cognitiva. Essa
característica remete a um conjunto de questões presentes em outras
teorias, não apenas na teoria do autocontrole. Estão relacionadas com
o perfil socioeconômico dos criminosos, as circunstâncias que influen
ciam sua formação moral e educacional e com as oportunidades no
mercado de trabalho. Podemos estar, ainda, diante de um efeito endó
geno: como o criminoso provém, majoritariamente, dentre aqueles
que tiveram menores oportunidades de desenvolvimento educacional
e cognitivo, logicamente a conclusão é que ele tem menor capacidade
intelectual e cognitiva. De outra forma, a conclusão pode ser lida as
sim: com menor acesso à educação, desde a família até a escola, as
pessoas têm maior chance de ingressar no crime.
1 1 2 L u i z TAD E U V 1 A F' I A N A
• Famílias desestruturadas, folhas nas relações familiares e ausência de prá
ticas saudáveis na infância são fortes preditivos de comportamentos crimi
nosos. Essa constatação é, certamente, uma das mais robustas evidên
cias da teoria do autocontrole, muito embora esteja também presente
em muitas outras teorias, como a da desorganização social, por exem
plo. No entanto, a ênfase dada pela teoria do autocontrole à formação
educacional e moral no período da infância, como fator preditivo de
comportamentos saudáveis e de vínculos sociais fortes, é um dos as
pectos que diferenciam essa teoria das demais abordagens que tam
bém abordam este tema.
• Intervenções de suporte à infância oferecem grande promessa de sucesso na
redução do crime. Essa constatação decorre do ponto anterior, pois,
como vimos, é nessa fase que são estruturados os valores e definidos
boa parte dos traços comportamentais. É evidente, portanto, que maior
suporte à formação educacional e moral à infância desenhe e reforce
traços comportamentais avessos a condutas desviantes.
Como vimos nesta Parte Ili, existem várias teorias muito robustas e
complexas, que procuram explicar por que os crimes ocorrem e por que
determinados indivíduos tornam-se criminosos e outros não. Grosseira
mente, podemos dizer que algumas dessas teorias buscam na estrutura so
cial as causas determinantes dos crimes, como se os indivíduos fossem in
teiramente governados pelo meio. Para esses, a solução está nas reformas
sociais. Outras teorias, no entanto, obviamente, consideram as condições
sociais, mas levam em conta também o papel do indivíduo, mais especifica
mente seus valores, consciência, formação moral e, ainda, a forma particu
lar como operam no comportamento individual as sanções e as leis.
Nessa perspectiva, o crime seria conseqüência da ausência de
autocontrole do indivíduo, que, por sua vez, dependeria de sua forma
ção desde a infância - de sua capacidade de evitar e adiar gratificações
imediatas, de sua capacidade de integração social, e não apenas da força
dos condicionantes sociais, da sua posição na estrutura social. Envolve
ria, também, uma opção racional, ainda que essa opção seja evidente
mente condicionada por fatores objetivos - oferta de alvos, retorno es
perado, probabil idade de sanção penal - ou subjetivos - custo moral,
rejeição do grupo e perdas afetivas.
E c c N D M I A o c C R I M E 1 1 3
PARTE I V
D I S S UASÃO E PO L Í C IA
O tema que abordaremos agora constitui um dos pilares centrais da teoria econômica do crime: a punição. A noção da punição como
elemento fundamental na dissuasão dos crimes não constitui uma idéia
nova. Ela está presente na obra de pensadores clássicos, como Cesare Bec
caria ( 1 767) e Jeremy Bentham ( 1 789). Conforme vimos na Parte li, res
surgiu na década de 1 960, quando Gary Becker apresentou sua teoria eco
nômica do crime.
A conexão entre punição e crime é, na realidade, muito simples: quan
to mais elevada for a expectativa de punição maior será o custo do crime. A
punição tem duas funções básicas: a primeira é a de sinalizar para a socieda
de que os crimes serão punidos e, dessa forma, contribuir para evitá-los; a
segunda, a de incapacitar os agentes criminosos durante o período em que
estão confinados. Existiria ainda uma terceira função, que é a de reabilitação dos criminosos para a vida social, evitando a reincidência criminal. Mas
hoje poucos estudiosos acreditam que ela produza resultado efetivo. As es
tatísticas de vários países mostram que grande parte dos condenados vol
tam a cometer crimes após serem liberados das prisões.
O debate contemporâneo sobre o papel da punição, principalmente
nos Estados Unidos, tem contribuído para revalorizá-la como estratégia
eficaz de redução e prevenção dos crimes. Admite-se que o aumento das
punições e melhorias na ação das organizações policiais desempenharam
um papel decisivo na diminuição da criminalidade observada na década de
1 990, embora outros fatores sejam também mencionados, como a redução
do número de jovens no total da população e a dinamização do mercado de
trabalho.
Enquanto os norte-americanos optavam por uma estratégia de reforço
da punição para combater o crime, a Inglaterra seguia caminho inverso:
adotou políticas de maior tolerância punitiva, e o resultado foi a elevação
E c a N a M I A oa C R I M E 1 1 7
das taxas de crimes. Em alguns casos, como roubos e furtos, as taxas ingle
sas são, hoje, mais altas do que as norte-americanas. Isso mesmo, mais altas.
Nesta Parte IV, além das evidências empíricas sobre a relação entre
punição e crime, abordaremos também o desempenho da polícia na inibi
ção dos crimes. O tema se justifica porque a eficácia policial é crucial para
a produção da justiça, já que essa instituição é uma espécie de porta de
entrada do sistema de justiça criminal. Sem um bom inquérito policial não
existe processo judicial e muito menos condenação dos responsáveis pelos
cnmes.
A crise da polícia brasileira se expressa principalmente na pequena
parcela dos crimes registrados que são efetivamente apurados com a identi
ficação das circunstâncias e responsáveis. Embora não existam números
precisos, estima-se que a taxa de apuração dos crimes violentos no Brasil
não ultrapassa 5% do total, enquanto que, nos Estados Unidos, o percen
tual é de 30%.
Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a natureza dessa crise
não reside no modelo e estrutura dual da organização policial no Brasil,
dividida em uma Polícia Militar e uma Polícia Civil. Mais importante do
que a divisão em duas polícias, que têm atribuições distintas, é o monopó
lio da segurança pública para os Estados e a União previsto na Constituição
Federal (art. 1 44) .
Decorre desse mandamento constitucional que a competência dos
Municípios restringe-se à manutenção de Guardas Municipais, que não
têm poder de polícia. Em razão dessa restrição, as médias e grandes cidades,
embora enfrentem graves problemas de segurança pública, estão impedidas
de criar suas próprias organizações policiais, ficando dependentes da oferta
de serviços por parte dos Estados e da União.
Da mesma forma, o baixo desempenho policial não pode ser explica
do apenas pelo volume de recursos alocados nas organizações policiais. Os
indicadores que serão apresentados nesta Parte IV mostram que nem sem
pre maior volume de recursos implica níveis menores de crimes. Isso ocorre
porque a relação entre o tamanho dos orçamentos da segurança pública e
crimes depende do sistema de gestão usado para planejar, organizar e exe
cutar as ações policiais.
Além desses temas, faremos também algumas observações sobre a rela
ção entre armas de fogo e crimes, tema que foi objeto de um grande debate
nacional desde 1 997 e motivo de um referendo popular realizado em 23 de
outubro de 2005 , em que a população, por ampla maioria - 64% contra
1 1 B L u i z TA D E U V 1 A P I A N A
34% dos votos - decidiu contrariamente à proibição da comercialização de
armas de fogo para cidadãos civis.
No exame do papel das armas de fogo levaremos em conta tanto as
análises e os estudos acadêmicos mais importantes, como os elementos re
colhidos das experiências de países onde a venda e a posse foram proibidas
e de países onde o comércio e o porte são permitidos, embora submetidos
a algum tipo de controle. Procuraremos responder a duas questões: se exis
te correlação entre a presença de armas de fogo e o elevado nível de crimes
letais e se a presença de armas de fogo nas residências constitui fator de
defesa e proteção ou, ao contrário, aumenta riscos de conflitos domésticos
letais e outros crimes, especialmente assaltos.
E c a N C M I A oa C R I M E 1 1 9
TEO RIA DA D I S S UASÃO
Aproposição central da teoria da dissuasão é a de que o comportamento criminal dos indivíduos pode ser refreado pela estrutura de sanções,
que podem ser legais ou extralegais. Como já mencionamos na Parte II o
efeito da punição, através da ação eficaz e eficiente da Polícia e da Justiça,
eleva a variável p da equação (crime: b - p.c, onde b é o benefício, p a
probabilidade de punição e e os custos dados pela perda de renda, custos
diretos e morais). Assim, o aumento das expectativas quanto à probabilida
de de punição p representa uma elevação das restrições ao crime. Por sua
vez, a possibilidade de perda de renda e a reprovação do grupo social ao
qual pertence o criminoso potencial aumentam a variável e.
No campo das sanções de natureza legal, o efeito dissuasão depende
crucialmente da eficácia das ações policiais e da justiça na detenção e con
denação dos criminosos. Teoricamente, a apuração dos eventos criminais à
condenação dos responsáveis pode influenciar o nível da criminalidade fu
tura através dos seguintes efeitos:
a) incapacitante-. indivíduos presos e condenados encontram-se impedi
dos de cometer novos crimes;
b) dissuasão: a aplicação eficaz da lei produz o efeito de evitar a ocorrência de
novos crimes, através da formação de expectativas altas de punição;
e) retribuição: punição dos criminosos na proporção da seriedade de seus
crimes, assegurando eficiência na produção de justiça; 1
d) reabilitação: utilização da pena de prisão para mudar o comportamen
to dos criminosos e evitar a reincidência.
As sanções de natureza extralegal são constituídas, basicamente, pela
formação moral e religiosa dos indivíduos, nível educacional e seus víncu
los familiares e comunitários, além das perdas materiais, no presente e no
futuro, em termos de emprego, salários e status social. Expandindo o con-
1 2 0 L u i z TAD E U V I A P I A N A
ceita de dissuasão, pode-se também considerar todos esses aspectos como
freios à opção pelo crime.
Existem ainda outras situações nas quais as sanções legal e extralegal se
confundem e se reforçam mutuamente. É o que ocorre, por exemplo, quando
uma mudança na lei , ou sua aplicação mais severa, contribui para gerar
efeitos de condenação moral a determinado tipo de comportamento. Como
exemplo, os criminologistas norte-americanos Franklin Zimring e Gordon
Hawkins citam, no livro Crime is not the Problem - Lethal Violence in Pro
blem in America, os casos de violência doméstica e do alcoolismo na dire
ção de veículos, que passaram a ser tratados com maior rigor pela Polícia e
pela Justiça nos Estados Unidos nos anos de 1 970.
Tal atitude provocou uma mudança significativa no comportamento
social. No caso do alcoolismo na direção de veículos, as leis ficaram mais
severas e aumentaram os custos das infrações, o que provocou uma redução
do volume de ocorrências de alcoolismo no trânsito, salvando milhares de
vidas. Os criminologistas destacam que tão importante quanto maior custo
monetário e criminal das infrações foi o forte sentimento de condenação
moral desse tipo de comportamento. O mesmo ocorreu com a violência
doméstica.
O professor Edward Glaeser, da Universidade de Harvard (EUA), di
vide as pesquisas econômicas que procuram explicar em que medida os
efeitos da dissuasão afetam os níveis de crimes em três grandes grupos:
As que exploram as relações entre taxas de prisões e crimes supondo
que um aumento das prisões conduz a uma queda dos crimes. Nessa
direção, pesquisas do economista Steven Levitt, da Universidade de
Princeton (EUA),sugerem uma relação causal entre aumento das ta
xas de prisões e redução dos crimes. Essa linha de pesquisa sugere que
as políticas anticrime devem priorizar os investimentos na Polícia e na
Justiça.
As que buscam compreender os fatores que determinam o comporta
mento de governos, instituições e pessoas, entre os quais estão os es
forços anticrime (programas governamentais de prevenção, orçamen
to policial, mudanças nas leis penais, etc.) .
Finalmente, as pesquisas que estudam as conexões entre os fatores sociais
e os crimes. Como vimos na Parte II, os economistas têm procurado ex
plicar a distribuição espacial e social dos crimes levando em consideração
os fatores sociais, econômicos e demográficos, além do efeito punição.
E c a N a M 1A oa C R I M E 1 2 1
Nessa perspectiva, os efeitos da dissuasão seriam muito mais abrangentes e
não apenas relacionados com a ação policial e da Justiça.
Nesta última linha de pesquisas, os fatores e características sociais po
dem representar incentivos ou freios à opção pelo crime, como já destaca
mos anteriormente. Nos termos da teoria econômica do crime, podem es
tar associadas tanto à variável p (punição) quanto à variável e (custos). Por
exemplo, na medida em que aumenta o grau de escolaridade, supõe-se que
o indivíduo tenha maior capacidade de avaliar os riscos e as perdas associa
das à punição, ao emprego (presente ou futuro) e à renda, ao status social e
à reprovação de seu grupo social, caso decida cometer um crime. Da mes
ma forma, pessoas formadas em famílias integradas, que desde cedo convi
vem em ambientes que valorizam a disciplina, a moral e a ética tendem a
ser menos propensas a optarem pelo crime.
As pesquisas sobre a relação entre punição e crime enfrentam muitas difi
culdades metodológicas, presentes também nas pesquisas que tratam das corre
lações entre as questões sociais e crimes, já comentadas nas Partes II e III.
Os estudos que usam dados agregados de prisões e crimes registrados não
levam em conta o conjunto dos crimes que realmente ocorrem. Nessa medida,
o efeito dissuasão é capturado apenas parcialmente, pois os registros policiais
não permitem avaliar como reagiriam ao aumento da probabilidade de puni
ção outros segmentos da população, entre os quais os que cometeram crimes e
não foram presos ou os que não cometeram crimes. As pesquisas tipo survey,
que podem eventualmente capturar informações com amostras representativas
de segmentos maiores da sociedade, enfrentam sempre o problema clássico da
ocultação de informações, principalmente em se tratando de questões que tra
tam das relações entre os entrevistados e instituições legais.
No mesmo sentido, é necessário enfrentar também as dificuldades as
sociadas à questão, ainda mais complexa, que diz respeito ao grau de racio
nalidade dos criminosos. Em que medida as pessoas que cometem crimes
decidem de forma racional? Como a atuação do sistema de justiça criminal
pode afetar sua percepção no sentido de elevar ou diminuir o incentivo ao
crime? Os potenciais criminosos realmente avaliam e levam em conta os
riscos de punição?
No caso dos jovens, as dúvidas são ainda maiores. Os criminologistas
Michael Gottfredson e Travis Hirschi, por exemplo, defendem em The
General Theory of Crime, que, ao avaliar as vantagens e desvantagens dos
crimes, os jovens rendem-se ao critério do tipo "aqui e agora" Céticos em
1 22 L u i z TAD E U V I A P I A N A
relação aos efeitos da punição como mecanismo de contenção do crime
juvenil, eles argumentam que somente a formação moral e educacional
desde a infância pode constituir um freio a esse tipo de comportamento.
No mesmo sentido, James Wilson e Richard Herrnstein, em Crime
and Human Nature, concordam que predomina nos jovens um comporta
mento impulsivo, que valoriza o retorno imediato do crime, ao passo que a
punição, quando percebida, é algo que acontece apenas no futuro.
Outros escudos, porém, apontam para a sensibilidade dos jovens ao
efeito da punição.2 Apesar de inegavelmente impulsivos e voltados para os
benefícios imediatos, os jovens não seriam completamente imunes aos efei
tos dos riscos associados ao crime e ao medo da punição. Do mesmo modo,
é difícil crer que eles ignorem ou não sejam afetados pelos custos extra
legais, como a reprovação da família ou dos amigos, e desconsiderem as
perdas no mercado de trabalho no presente e no futuro.
Num paper publicado em 1 993, denominado Individual Perceptions of
the Criminal justice System, o professor Lance Lochner, do Departamento
de Economia da Universidade de Rochester (EUA), encontrou evidências
de que a participação de jovens em crimes apresenta relação negativa com a
probabilidade de prisões. Ele escreve que os "indivíduos respondem à de
tenção aumentando a percepção de que serão presos e, com isso, diminuem
sua atividade criminal". A descoberta confirma que, apesar da impulsivida
de, os jovens reagem ao aumento da probabilidade de punição.
Isso não significa, porém, que os indivíduos conheçam os verdadeiros
índices de prisão e que tenham uma noção exata de que estes indicam maior
nível de repressão ao crime. É mais provável que a probabilidade de puni
ção seja percebida na medida em que os indivíduos entram em contato
com o sistema de justiça criminal ou são influenciados por ocorrências com
conhecidos, parentes ou amigos. Com exceção desses casos, as crenças sobre
as possibilidades de punição tendem a ser estáveis, levando um certo tempo
para mudar.
O estudo de Lochner, que é baseado em pesquisas nacionais com jo
vens norte-americanos - a National Longitudinal Survey ofYouth e a National
Youth Survey -, chegou também à conclusão de que políticas de repressão a
crimes menos graves não afetam as crenças de forma significativa. Tal con
clusão, de certo modo, contraria a teoria das janelas quebradas (broken win
dows) , cujo fundamento reside precisamente na noção de que uma comu
nidade onde os pequenos delitos são tolerados cria um ambiente favorável
para a ocorrência de crimes mais graves.
E C O N O M I A DO C R I M E 1 2 3
Entre os delitos menos graves que não afetariam as crenças sobre as
chances de punição para quem os comete, estão o roubo de carros e infra
ções menores, como fumar e beber em locais não permitidos. No caso do
roubo dos automóveis, quem comete esse tipo de delito sabe que, mais do
que a ação policial, a maior dificuldade que terá de enfrentar é o uso cres
cente de dispositivos de segurança e monitoramento eletrônico cada vez
mais sofisticados e eficazes. Em relação à bebida, já citamos estudos que
demonstram que o consumo responde negativamente ao aumento dos pre
ços. Elevar os preços das bebidas alcoólicas e dos cigarros pode ser muito
mais eficiente do que a proibição, esta sim dificílima de ser implementada.
Além do mais, é realmente muito difícil alguém ser sequer preso, quanto
mais condenado, por beber ou fumar em local proibido. Em razão desses
aspectos, é compreensível que maior grau de repressão policial a esses tipos
de infração não representem maior temor para potenciais infratores.
Além da controvérsia sobre como os jovens formam sua percepção
sobre as vantagens e desvantagens do crime existe, é preciso também res
ponder a questão sobre a sensibilidade diferenciada ao risco para os indiví
duos em geral. Explicariam tais diferenças as características sociais dos con
textos em que vivem as pessoas e as características e trajetórias específicas de
cada indivíduo.
Nesse sentido, pode-se conjecturar, por exemplo, que tanto entre os
jovens como entre os demais indivíduos, aqueles com posições vantajosas
no mercado de trabalho e nível educacional mais elevado sejam mais sensí
veis ao risco, enquanto que os que estão momentaneamente fora do merca
do de trabalho ou percebem baixos salários e possuem escolaridade baixa
sejam mais insensíveis ao risco. Ou seja, não é apenas uma questão de ida
de, mas de influências introduzidas por fatoreseconômicos e sociais que
tornam determinados indivíduos mais ou menos avessos ao risco.
Uma outra dificuldade que surge no debate sobre os efeitos da puni
ção diz respeito ao fato de que uma eventual queda nos índices de crimina
lidade pode estar, ao mesmo tempo, relacionada com o aumento da puni
ção e com a ocorrência de fatores econômicos e sociais. O fato de que x e y
estejam correlacionados não quer dizer que x explique y. Outra variável, z,
pode explicar eventual situação ocorrida em y. Por exemplo, no debate sobre
a queda da criminalidade observada na década de 1 990, nos Estados Uni
dos, os especialistas dividem-se quanto ao peso do efeito dissuasão e o peso
das variáveis socioeconômicas. É provável que o aumento das prisões, as
melhorias no desempenho policial e os efeitos do crescimento econômico
1 24 L u i z TAD E U V I A P I A N A
no mercado de trabalho tenham influenciado a queda no volume de cri
mes. O problema está em se determinar o peso de cada uma dessas variáveis.
Finalmente, o efeito dissuasão envolve ainda o debate sobre qual des
tes fatores é mais importante como elemento de dissuasão: a certeza da
punição ou a severidade da pena. A certeza da punição está relacionada com
a eficácia das instituições em apurar os crimes e punir os responsáveis. Ta
xas mais altas de apuração e de aplicação de penas aumentam a probabilida
de de prisão para aqueles que cometem crimes e, portanto, elevam os cus
tos para tais indivíduos. A severidade, por sua vez, está relacionada com a
extensão das punições. Supõe-se que, quanto mais longas as penas, maiores
sejam os efeitos de incapacitação e, portanto, maiores os custos dos crimes,
por um lado, e mais longos seus efeitos de redução dos crimes que pode
riam ser caso as penas tivessem sido menos longas. A seguir, veremos em
que medida algumas evidências empíricas corroboram o efeito dissuasão.
E C O N O M I A. DO C R I M E 1 2 5
PU N I ÇÃO E C C NTRC LE
U m dos estudos mais amplos já realizados nos Estados Unidos sobre o efeito dissuasão foi desenvolvido pelo economista Isaac Ehrlich, em
1 975 . Ele utilizou dados das décadas de 1 930, 1 940 e 1 950 e, depois de
controlar as variáveis econômicas, encontrou force correlação entre a alta
probabilidade de prisão e condenação de responsáveis por assaltos e taxas de
assaltos menores. O estudo mostrou que um aumento de 1 % nas taxas de
prisão reduziriam o crime em 0,99 a 1 , 1 2%. Em outras palavras, segundo o
estudo de Ehrlich, os crimes de assaltos seriam eliminados caso dobrasse a
população prisional. Não conseguiu, entretanto, identificar correlação en
tre severidade da punição (medida pela média de anos de condenação) e
níveis de roubos, em duas das décadas analisadas - 1 940 e 1 960.
Na mesma direção, o economista da Universidade da Pensilvânia (EUA)
Kennech Wolpin utilizou séries estatísticas para a Inglaterra e Wales duran
te o longo período de 1 894 a 1 967 e encontrou um "comportamento in
verso" entre as taxas de crimes e a probabilidade e severidade das punições.
A severidade das punições apresentou efeito negativo, diminuindo os ní
veis de crimes.
Na década de 1 990, escudos do economista Sceven Levice trouxeram
substancial reforço à teoria da dissuasão. Em um desses escudos, ele encon
trou aumento nas taxas de crimes em conseqüência do aumento do fluxo
de presos liberados das prisões. Em outro, descobriu significativo impacto
do policiamento no nível dos crimes e, em outra pesquisa, identificou uma
redução substancial dos crimes (furtos de automóveis) após a introdução,
nos carros, de sinais eletrônicos que facilitavam sua localização e apreensão.
Antes de irmos adiante, é importante deixar claro que o conceito de
elasticidade, usado nessas pesquisas, indica a proporção da mudança nas
taxas de crimes determinada pela mudança nas taxas de prisões. Por exem
plo, se a elasticidade for -0,22 e se a redução nas taxas de crimes de um
1 2 6 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
período para outro foi de 5%, então o efeito do aumento das taxas de
prisões na taxa de crime será: -0,22 x 5% = - 1 , 1 0%. Ou seja, foi responsá
vel por quase um quarto da queda. A equação matemática é: E = ?TC/?TP,
onde E representa a elasticidade, TC a taxa de crimes e TP a taxa de prisões.
Além das conclusões acima, que confirmam o efeito dissuasão, exis
tem outras pesquisas disponíveis cujos resultados são contraditórios, indi
cando que estamos diante de uma questão intrincada e inconclusa.
No resumo que fez de algumas dessas pesquisas, o professor de Políti
cas Públicas da Universidade de Harvard (EUA) William Spelman sepa
rou-os de acordo com os dados usados e o efeito esperado (incapacitação e
dissuasão) . As elasticidades encontradas são bastante diferenciadas, depen
dendo do tipo de indicadores utilizados. Quando os indicadores são agre
gados em nível nacional, as elasticidades apresentam-se mais altas do que
quando os dados são organizados por Estados. Por exemplo, os sociólogos
Joel Devine, Joseph Sheley e Dwayne Smith, que trabalharam com dados
para o período 1 948- 1 985 , nos Estados Unidos, encontraram as seguintes
elasticidades: -2,84 para crimes violentos, -1 ,99 para crimes contra a pro
priedade e -2,20 para todos os crimes. Os economistas Thomas Marvell e
Carslile Moody, do William and Mary College (EUA), encontraram -0,79
para crimes violentos, -0,95 para crimes contra a propriedade e -0,93 para
todos os crimes. Quando são usados indicadores organizados por Estados,
como fez Steven Levitt para os 50 Estados norte-americanos mais a Capital
federal, entre 1 971 e 1 993, são encontradas elasticidades menores: -0,38 para
crimes violentos, -0,26 para crimes contra a propriedade e -0,3 1 para todos os
cnmes.
As elasticidades diferentes significam graus bastante distintos de im
pacto das prisões nos crimes. A explicação para as disparidades deve-se es
sencialmente às escolhas técnicas dos pesquisadores, ao modo como são
organizados e analisados os indicadores. Não há uma explicação razoável
para as diferenças além dos critérios técnicos e estatísticos distintos.
Spelman sublinha que os dados parecem sugerir que, entre 1 974 e
1 997, nos Estados Unidos, o crime violento foi afetado pelo crescimento
das prisões (efeito incapacitação) em algo entre 20% e 50%. No entanto,
após testar um modelo sem o efeito do crescimento das taxas de prisão,
chegou à conclusão de que as taxas de crimes violentos cairiam da mesma
forma, só que não com a mesma intensidade. Menos otimista, ele sugere
que o efeito do crescimento das prisões sobre os crimes violentos é menor,
entre 4% e 2 1 %.
E C O N O M IA D O C R I M E 1 2 7
Além do aspecto relacionado com a dimensão do efeito da punição
sobre os crimes, outra dificuldade enfrentada pelos pesquisadores diz
respeito à diferenciação entre efeitos preventivos e os efeitos de incapa
citação. Explicando melhor: em que medida a punição funciona para
dissuadir potenciais criminosos de cometerem novos crimes ao sinalizar
que se o fizerem serão presos e condenados; e em que medida novos
crimes deixam de ocorrer porque seus eventuais perpetradores estão
presos , impossibilitados de cometê-los. Separar esses dois efeitos é mui
to importante por causa das implicações em termos de políticas de pre
venção e controle do crime.
Analisando o impacto da chamada Proposição 83 (uma lei estadual),
aprovada no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, os economistas
Steven Levitt e Daniel Kessler encontraram efeitos positivos e fortes do
aumento das penas para criminosos reincidentes, tanto se considerarmos o
efeito de dissuasão quanto o de incapacitação.4 Usando um modelo econo
métrico que isolou efeitos de outras variáveis, os autores compararam o
comportamento dos crimes abrangidos pela nova lei, no período anterior e
posterior à sua entrada em vigor, no Estado e no País. Os testes mostraram
que nos três primeiros anos após a aprovação da lei, os crimespor ela abran
gidos declinaram 8%; sete anos após, a queda alcançou 20%. Como nos
primeiros anos após a aprovação da lei, a população prisional manteve-se
estável na Califórnia, os autores concluíram que a queda se deveu ao efeito
dissuasão, ou seja, temerosos das sentenças mais longas, os criminosos evi
taram cometer crimes numa proporção de 8%. Porém, na medida em que
os efeitos da lei mantêm-se ao longo do tempo, a conclusão é que deve ter
havido também um efeito de incapacitação. Penas mais longas, mais tempo
de confinamento, menos crimes.
Mais tarde, em outro texto, Levitt retoma o tema dos efeitos da puni
ção ao debater as causas da queda da criminalidade ocorrida na década de
1 990, nos Estados Unidos. Inicialmente, ele refuta as explicações mais co
muns para a queda dos crimes no país, entre as quais o crescimento da
economia e seus reflexos no mercado de trabalho; mudanças demográficas,
com o crescimento do número de adolescentes; melhores estratégias poli
ciais; leis de controle de armas de fogo; leis de autorização de posse de
armas de fogo; e aumento do uso da pena de morte. Tais variáveis explica
riam somente uma pequena parte da queda, cujas causas mais importantes
seriam: crescimento do número de policiais, crescimento da população prisio
nal, controle da epidemia do crack e legalização do aborto.
1 2 8 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
Os estudos sobre a relação entre aumento do número de policiais e
crimes foram, durante muito tempo, prejudicados pelo problema da endo
geneidade. Isto é, os crimes são afetados pelo número de policiais ao mes
mo tempo em que o aumento do número de policiais decorre do aumento
dos crimes. Basicamente por esse fator, durante muito tempo, concluiu-se
que as correlações entre número de policiais e níveis de crimes eram insig
nificantes. 5
Porém, conforme sublinha Levitt, o estudo de Marvell e Moody6, que
usa dados de painel dos Estados e das grandes cidades norte-americanas,
demonstrou que o aumento do número de policiais está associado a redu
ções nos níveis de crimes no futuro, com elasticidade do crime em relação
ao aumento do número de policiais de -0,30. Os economistas Hope Cor
man e Naci Mocan7 reforçam a conclusão em outro estudo, que utiliza
indicadores referentes à cidade de Nova Iorque, que encontrou uma elasti
cidade média -0,45 para várias categorias de crimes. A conclusão dos testes
feitos pelo próprio Levitt vão na mesma direção: se o número de policiais
nos anos 90 aumentou 1 4%, algo entre 50 a 60 mil, usando uma elasticida
de média de -0,40, a conclusão é que o crime reduziu algo como 5% ou
6% por conta do aumento de policiais.
Em relação ao aumento da população prisional, a segunda causa mencio
nada por Levitt, observa-se em 1 990 um notável crescimento da taxa de presos
em relação à população, durante a década de 1 990. Em 1970 havia 100 presos
para cada grupo de 100 mil habitantes, proporção que aumentou cinco vezes
na década de 1990, passando para 500 presos por 100 mil habitantes, um total
aproximado de 2 milhões de pessoas. Utilizando uma taxa de elasticidade do
efeito punição nos crimes de -0,30 para homicídios e crimes violentos e
-0,20 para crimes contra a propriedade, Levitt chega à conclusão de que o
aumento das prisões foi responsável por 1 2% na queda dos dois primeiros
tipos de crimes e por 8% dos crimes contra a propriedade.
A terceira explicação diz respeito aos efeitos da epidemia de crack da
década de 1 980 sobre os crimes. Tais efeitos estão associados à violência
sistêmica entre gangues pelo controle do tráfico e resultam num forte cres
cimento nos homicídios entre jovens negros, do sexo masculino, da faixa
etária de 14 a 24 anos. A taxa de homicídios eleva-se, neste grupo, de 1 50
casos por 1 00 mil habitantes, no final da década de 1 980 - taxa já extrema
mente elevada, diga-se de passagem - para mais de 300 por 1 00 mil, em
1 992/ 1 993, declinando novamente para 1 5 0 casos por 1 00 mil habitantes
no final da década de 1 990. Nos demais grupos etários - jovens brancos do
E C O N O M IA DO C R I M E 1 2 9
sexo masculino, de 1 4 a 24 anos; negros e brancos do sexo masculino, com
mais de 25 anos -, as taxas de homicídios apresentam estabilidade ou que
da. Os poucos estudos específicos citados por Levitt sobre a influência do
crack nos crimes são convergentes: dos homicídios analisados em Nova Ior
que, em 1 988, 25% estavam relacionados com a droga.8 Daniel Cork, do
Conselho Nacional de Estatística dos Estados Unidos, também identificou
coincidência entre o aumento nas taxas de prisões associadas ao uso do
crack entre jovens e homicídios juvenis, e o estudo dos economistas Jeffrey
Grogger e Michael Willis detectou crescimento de 1 0% nos crimes nas
áreas centrais das cidades, comparativamente às áreas periféricas, após a
chegada do crack.
Considerando que 6% do total dos homicídios ocorridos na década
de 1 990 estejam associados ao crack, Levitt estima que o declínio do consu
mo da droga explica algo como 1 5% da queda de todos os homicídios
observada nos Estados Unidos na década. Ele calcula que 3% da queda dos
demais crimes violentos são devidos a esse mesmo fator, inexistindo, po
rém, impacto nos crimes contra a propriedade.
Finalmente, o quarto fator apontado por Levitt para explicar a queda
na criminalidade está relacionado com a legalização do aborto, sem dúvida
a explicação mais polêmica. Não por causa de questões técnicas, mas éticas
e morais. A premissa da análise é muito simples: filhos indesejados apresen
tam maior risco de envolvimento com crimes e a legalização do aborto
conduz a uma redução de filhos indesejados. Além disso, a proibição do
aborto afetaria mais as mulheres pobres, que teriam maior dificuldade de
criar seus filhos e lhes dar amparo e educação.
Para livrar sua tese de conjecturas quanto aos efeitos paralelos de ren
da, nível educacional, idade e saúde das mães, ele cita estudos que, após
controlarem todos esses fatores, mostram que filhos indesejados efetiva
mente aumentam a probabilidade de, no futuro, envolverem-se no crime.
Mas falta provar que a legalização do aborto afeta o crime futuro. Ele faz
isso lembrando que os cincos Estados que adotaram a legalização, em 1 970,
apresentaram declínio nas taxas de crimes antes do resto do país. Os homi
cídios caíram 25,9% nos Estados com altas taxas de aborto entre 1 985 e
1 997, comparando com um aumento de 4, 1 o/o nos Estados com baixas
taxas de aborto. Sua conclusão é que "a legalização do aborto foi responsá
vel por uma redução de 1 0% nos homicídios, crimes violentos e crimes
contra a propriedade, os quais respondem por 25% a 30% do declínio dos
crimes na década de 1 990"
1 3 0 Luiz TAD E U VIAPIANA
D E FO GO
O papel das armas de fogo na sociedade, embora venha despertando grande atenção na mídia, é, nos termos da teoria econômica do cri
me, uma questão secundária. Conceitualmente, a arma de fogo serve para
uma dupla finalidade: pode ser um instrumento de agressão e/ou de defesa,
dependendo de quem a usa e de seu objetivo.
Em termos práticos, a arma de fogo é um instrumento que facilita a
execução de crimes como roubos e assaltos, tornando a ação do agressor
mais eficaz, pois é óbvio que uma vítima ameaçada por uma arma torna-se
mais vulnerável aos desígnios do agressor.
Por outro lado, a presença da arma de fogo nas residências pode exer
cer um papel de dissuasão de crimes. Uma pessoa em desvantagem física,
por exemplo, pode resolver um conflito de maneira diferente se estiver
portando uma arma. Embora controversas, pesquisas realizadas nos Esta
dos Unidos dão boa sustentação à tese do uso defensivo de armas de fogo
adquiridas por cidadãos honestos. Gary Kleck, por exemplo, aponta mais de
2 milhões de situações anuais em que armas são usadas para evitar crimes.9
Além disso, a premissa de que a posse de armas de fogo por cidadãos
civis, que as tenham adquirido por meios legais, seja uma das causasdos
níveis de criminalidade ainda está longe de ser comprovada. Os poucos
estudos existentes deparam-se com limitações metodológicas sérias, princi
palmente em função de bases de dados muito precárias, fazendo com que
sejam possíveis interpretações contraditórias. Por exemplo, quando se com
para a prevalência de armas de fogo em residências e índices de homicídios
entre países, pode-se tanto concluir pela existência de relação positiva entre
as duas variáveis como negativa. 1 0
Além disso, tais estudos sofrem as limitações presentes nas metodologias
do tipo cross section data, entre as quais a de não permitir uma análise de ten
dências ao longo do tempo. No entanto, quando esse tipo de análise é feita
E c a N C M I A oa C R I M E 1 3 1
utilizando séries temporais mais longas emerge uma outra realidade na qual a
presença de armas de fogo deixa de estar diretamente associada com níveis
diferenciados de crimes. Por exemplo, nos Estados Unidos, entre 1950 e 1999,
a disponibilidade de armas de fogo aumentou 143% e a presença de pistolas e
revólveres aumentou 259%. Enquanto isso, os índices de homicídios tiveram
comportamento bastante diverso. Depois de se manter estável entre nas déca
das de 1 950 e 1960, com cinco casos por 100 mil habitantes, a taxa nacional
elevou-se para 1 O casos por 1 00 mil habitantes em 1 980; desde então diminuiu
ano a ano, até atingir novamente a marca de 5 casos por 1 00 mil, em 2000.
Os indicadores são claros: enquanto aumentou a presença de armas de
fogo, os homicídios caíram. Em termos técnicos, o comportamento da taxa
de homicídios revelou-se exógeno em relação à quantidade de armas exis
tentes no país.
Se olharmos para um horizonte de tempo ainda maior, veremos que,
desde o século XIII, o número de homicídios em relação à população vem
diminuindo, enquanto a população e a quantidade de armas em circulação
vem aumentando. O criminologista Manuel Eisner, da Universidade de
Cambridge (UK) , organizou dados que demonstram essa tendência para
vários países, conforme se pode ver nos dados a seguir:
Homicídios I 1 00.000 pessoas
Holanda Alemanha
Inglaterra e Bélgica Escandinávia e Suíça Itália
Séculos XI I I e XIV 23,0 47,0 nenhum 37,0 56,0
Século XV nenhum 45,0 46,0 1 6,0 73,0
Século XVI 7,0 25,0 21 ,0 1 1 ,0 47,0
Século XVII 5,0 7,5 1 8,0 7,0 32,0
Século XVI I I 1 ,5 5,5 1 ,9 7,5 1 0,5
Século XIX 1 ,7 1 ,6 1 , 1 2,8 1 2,6
1 900-1 949 0,8 1 ,5 0,7 1 ,7 3,2
1 950-1 994 0,9 0,9 0,9 1 ,0 1 ,5
Fonte: Freakonomics, Levitt e Dubner (2005), p. 24
Os índices de Eisner contrariam a hipótese sobre a existência de uma
relação direta e causal entre a disponibilidade de armas de fogo na socieda
de e os homicídios. Desde o século XVII até agora, período no qual o
volume de armas de fogo aumentou enormemente, os índices de homicí
dio seguem trajetória declinante. No longo prazo, portanto, maior presen
ça de armas também não significou maiores ocorrências de homicídios.
1 3 2 L u i z TA D E U V I A P I A N A
Isso não quer dizer, no encanto, que maior presença de armas seja uma
das causas da queda dos homicídios. Provavelmente, tal fenômeno esteja
associado não a um, mas a um conjunto de fatores, entre os quais a cons
trução e consolidação do Poder Judiciário como instância fundamental de
resolução de conflitos na sociedade. René Girard chamou atenção para o
que representou o surgimento do Poder Judiciário no sentido da evolução
da punição dos criminosos. Antes vista como vingança privada, com o sur
gimento do Judiciário, a punição passou a ser uma espécie de vingança
social, submetida a normas e procedimentos válidos para todos. No extre
mo, a punição é rigorosamente isso, uma pena que a sociedade imputa ao
indivíduo por ferir uma regra contratada por todos.
A alegação de que na Inglaterra os homicídios diminuíram por conta
do banimento das armas de fogo leves ocorrido em 1 997 é equivocada. Tal
afirmação aplica-se, também, para outros países. Enquanto na Alemanha
são aplicadas restrições ao comércio de armas leves para cidadãos civis, na
Suíça todos possuem uma arma em casa, sendo que em ambos os índices de
homicídio são muito baixos. A historiadora Joyce Malcolm, da Universida
de de Cambridge, em seu livro Guns and Violence, apresenta uma extensa
análise demonstrando não haver relação entre controle e restrições às armas
de fogo no nível dos homicídios na Inglaterra.
O debate sobre o efeito das leis de desarmamento civil está marcado
por duas grandes experiências internacionais. De um lado, a norte-ameri
cana, cuja legislação prevê controles sobre a emissão de registros e conces
são de portes, em graus variados, dependendo de cada Estado, mas na maior
parte deles preserva o direito do cidadão de ter acesso a uma arma de fogo.
De outro, temos a experiência da Inglaterra e da Austrália, que proibiram a
posse e o porte. Entre os especialistas, as avaliações sobre os resultados des
ses dois modelos são fortemente divergentes.
Depois de examinar indicadores referentes a um período de 1 8 anos, o
economista John Lott, autor do livro More Guns Less Crimes, abriu uma
polêmica mundial ao afirmar que nos Estados norte-americanos que ado
taram leis restritivas de armas de fogo a criminalidade é maior do que nos
Estados onde as leis permitem a posse e o porte. Segundo Lott, haveria,
portanto, uma relação inversa entre a disponibilidade de armas de fogo e
crimes. Isso ocorreria, segundo ele, porque a presença de armas, ao invés de
incentivar, desestimularia os crimes, pois os bandidos evitariam ter como
alvos pessoas ou residências armadas. A propósito, Lott argumenta, ainda,
que a presença de armas de fogo em residências gera uma externalidade
E C O N O M IA DO C R I M E 1 3 3
positiva, beneficiando as áreas próximas às residências armadas. Na mesma
linha, Gary Kleck argumenta que a presença de armas de fogo em residên
cias ajuda a evitar crimes, pois os agressores, temendo represálias, não as
escolheriam como alvo.
No outro extremo, o criminologista Alfred Blumenstein, da Carnegie Me
llon University (EUA), identifica na proliferação de armas entre os jovens, du
rante a onda crescente de crimes que ocorreu no país no final dos anos de 1980
e início dos anos de 1 990, uma das causas do crescimento dos homicídios
juvenis. Arthur Kellermann, da Escola de Medicina da Emory University
(EUA), na mesma linha, argumenta que a presença de armas de fogo nas
residências aumenta o risco de ocorrência de homicídio e suicídio. 1 1
Os estudos que avaliam as políticas de desarmamento civil levadas a
efeito na década de 1 990, principalmente na Inglaterra e na Austrália, indi
cam fraca ou nenhuma influência da proibição do comércio de armas para
cidadãos civis sobre o nível global de crimes e, especificamente, sobre os
homicídios.
Por exemplo, os dados do British Home Office mostram que, na In
glaterra, os homicídios aumentaram 25 ,6% no período 1 996-2003, os rou
bos cresceram 36,6%, enquanto que os assaltos diminuíram 29,7%. Na
Austrália, segundo o Instituto Australiano de Criminologia, os homicídios
tiveram uma pequena redução, de 2,5%, mas os roubos cresceram 20,4% e
os assaltos, 38,9%. Nos Estados Unidos, no mesmo período, sem que fos
sem adotadas políticas mais severas em relação às armas de fogo, segundo o
Federal Bureau of lnvestigations - FBI, os homicídios diminuíram 1 5 ,9%,
os roubos 22% e os assaltos 1 7,2%.
Se compararmos as taxas de crimes nos Estados Unidos e na Inglater
ra, fica mais clara a inexistência de efeitos diretos do controle de armas
sobre os crimes:
Redução dos homicídios de 9,4 casos por 1 00 mil habitantes, em 1 990,
para 5,7 em 2003, nos Estados Unidos; aumento de 1 ,4 para 1 ,6 na
Inglaterra no mesmo período; redução de 1 ,9 caso por 100 mil para
1 ,7 caso na Austrália. Note-se que na Inglaterra e na Austrália, a taxa
de homicídios vem se mantendo há décadas no mesmo patamar, o
que sugere efeito nulo da proibição do comércio dearmas sobre os
homicídios cometidos nesses países.
Redução da taxa de roubos de 256 casos por 1 00 mil habitantes para
142 casos nos Estados Unidos, entre 1 990 e 2003; a taxa de roubos
1 34 L u i z TAD E U V I A P I A N A
duplicou na Inglaterra, passando de 89,3 casos para 1 9 1 ,7 casos por
100 mil e aumentou de 89 ( 1 996) para 99 casos na Austrália.
Redução da taxa de assaltos de 422 casos para 295 casos por 1 00 mil
nos Estados Unidos, entre 1 990 e 2003; aumento da taxa de assaltos
na Inglaterra, de 292, em 1 996, para 450 casos em 2003; aumento da
taxa de roubos na Austrália, de 622, em 1 996, para 803 em 2003.
Na Inglaterra, que baniu as armas de fogo, a taxa de roubos é superior
à dos Estados Unidos. Inglaterra e Austrália têm, também, taxas muito mais
altas de assaltos do que os Estados Unidos. Após o desarmamento, roubos e
assaltos aumentaram significativamente nesses dois países. Para quem, de
forma equivocada, imagina que os Estados Unidos são um dos países de
senvolvidos mais violentos, esses dados são realmente surpreendentes.
Após analisar as várias experiências de desarmamento, o criminologis
ta Gary Mauser escreveu: "Em todos os casos, o desarmamento do público
mostrou-se ineficaz e caro" "Os meios usados", continua, "aumentaram os
custos administrativos e não produziram aumento da segurança pública"
Nos últimos anos, o Brasil adotou duas legislações a respeito do co
mércio de porte de armas de fogo. A primeira foi a Lei 9 .437, aprovada em
1 977, que permitiu a comercialização de armas de fogo para cidadãos civis
e adotou várias exigências para a concessão do porte de arma. Mais tarde,
em 2003, foi aprovada nova legislação, a Lei 1 0.826, que restringiu o co
mércio ainda mais e proibiu o porte, salvo pequenas exceções. O propósito
da primeira lei era regular o mercado, enquanto o objetivo da segunda lei
era, claramente, o de suprimi-lo.
Cumprindo dispositivo previsto na Lei de 2003, em outubro de 2005
foi realizado um referendo nacional sobre a proibição do comércio de armas de
fogo para cidadãos civis. O resultado do plebiscito foi a rejeição da proibi
ção, por larga margem de votos: 64% de votos Não e 34% de votos Sim.
Através de Ações de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribu
nal Federal, os defensores do direito de posse e porte de armas de uso per
mitido (calibres previstos na Lei para cidadãos civis) procuram anular dis
positivos da Lei que representam restrições ao direito de posse e porte,
entre os quais as inúmeras exigências para a autorização da compra e o alto
custo das taxas para registro e porte, que constituem, na prática, uma espé
cie de proibição branca. Argumentam que, com tais restrições, deixa de
haver isonomia entre os brasileiros, pois somente os ricos terão condições
de acesso às armas.
E c c N C M IA o c C R I M E 1 3 5
Dois dispositivos presentes na Lei chamam muito a atenção: o primei
ro é o direito de porte de armas para os proprietários de empresas. O dispo
sitivo estabelece a condição econômica como geradora de um direito que é
negado ao empregado, rompendo-se a isonomia e a igualdade de tratamen
to entre as pessoas. O segundo ponto, igualmente grave, é o direito de
registro e porte para servidores de empresas de segurança privada. Por esse
dispositivo, o cidadão comum, que se depara com inúmeras restrições para
comprar uma arma para a sua defesa, é incentivado a comprar segurança
privada, ou seja, serviços de outros cidad�os armados. Tais dispositivos, já
houve quem disse, criam duas classes de brasileiros, os ricos, que podem
comprar segurança, enquanto os pobres, sem dinheiro, dependerão apenas
da sorte.
A manutenção do comércio de armas para cidadãos civis, apesar das
restrições, poderá representar um freio à criação de um grande mercado
negro de armas leves, o que certamente ocorreria caso a proibição fosse
aprovada. Foi o que aconteceu quando se tentou proibir a produção ou o
comércio de bebidas alcoólicas e é o que acontece com as drogas ilícitas.
Quando proibidas, tais substâncias continuaram sendo comercializadas, em
larga escala, à margem da Lei, em muitos casos com a conivência das insti
tuições oficiais. Caso ocorresse o mesmo com as armas leves, com certeza
teríamos um aumento da violência sistêmica que caracteriza o funciona
mento desse tipo de mercado.
1 3 6 L u i z TAD E U V I A P I A N A
PaLíc1A, U M M O DELO EM C RI S E
O desempenho da polícia na apuração dos crimes é um dos fatores fundamentais na teoria econômica do crime, dado que, conforme já
salientamos, maior probabilidade de punição aumenta os custos do crime.
Se os criminosos potenciais perceberem que a probabilidade de serem pu
nidos é alta, a tendência é que desistam de cometer os crimes. Quando
ocorre o contrário, ou seja, quando eles percebem que existe grande possi
bilidade de não serem presos e condenados, a tendência é que cometam
mais crimes. A eficácia da ação policial é uma questão central, portanto,
para os efeitos de dissuasão do crime.
Uma forma bastante simples de avaliar a eficácia da ação policial é
observar o volume de crimes que a polícia consegue esclarecer. Conforme
veremos a seguir, as taxas de esclarecimentos variam muito, mas, de um modo
geral, são mais elevadas nos países desenvolvidos, e muito baixas no Brasil.
Antes de abordarmos a questão da eficácia da ação policial, é preciso
sublinhar que, além dos esforços policiais no esclarecimentos dos crimes, a
impunidade criminal está também diretamente relacionada com as chama
das cifras negras. Trata-se de crimes que não são notificados, por várias ra
zões: furtos ou roubos de pequeno significado monetário, agressões
intrafamiliares cujos envolvidos temem a interveniência policial; o temor
de envolvimento com a polícia e a presunção de que o registro policial não
terá nenhuma conseqüência. No Brasil, as pesquisas mostram uma taxa de
sub-notificação em torno de 80%, percentual superior ao observado em
outros países, entre os quais Estados Unidos e Inglaterra, em que está no
patamar entre 40 e 50%. Sem a devida notificação, os crimes não podem,
evidentemente, ser investigados e apurados.
Um segundo fator importante é o desempenho da Justiça. É ela que,
com base no inquérito policial, procede o julgamento, condenando ou não
os indiciados. Se a aplicação da Justiça, por várias razões, não é eficaz, tem-
E C O N O M I A DO C R I M E 1 3 7
se um agravamento da situação de impunidade. O desempenho da Justiça
é vital, uma vez que, como vimos, a certeza da punição, mais do que a
severidade, parece ser um dos elementos centrais na teoria econômica do
crime. No Brasil, como raramente um condenado cumpre integralmente
sua pena, devido aos direitos de liberdade provisória previstos na legislação
penal, essa conclusão resulta fortemente prejudicada.
De outra parte, quando se analisa a impunidade, é preciso levar em
conta, ainda, as condições do sistema prisional, principalmente, se o sis
tema consegue garantir padrões mínimos de segurança de forma a assegu
rar o cumprimento das penas. Neste quesito, também a situação brasileira é
crítica, devido à grande e histórica defasagem existente entre o crescimento
da demanda e da oferta de vagas no sistema. Estudo recente do Departa
mento Nacional de Penitenciárias aponta um déficit de 1 35 mil vagas para
2007. O resultado é que, diante da ausência de vagas, apenas os condena
dos por crimes mais graves sejam confinados, criando-se um contexto de
impunidade para um conjunto enorme de crimes não classificados como
"graves" Tal situação contribui para baixa percepção da probabilidade de
punição, reduzindo, com isso, os riscos do crime e incentivando a forma
ção de carreiras criminosas. Essa é a conexão entre a falta de vagas nos
presídios e o aumento dos crimes nas ruas.
Quando se trata de aferir a impunidade penal, os estudos e indicado
res são também insuficientes e precários. Não existem estudos que consoli
dem dadosde abrangência nacional, e mesmo estadual, que permita medir
e avaliar a evolução da impunidade ao longo do tempo. Porém, os poucos
indicadores disponíveis mostram um quadro preocupante.
Vejamos algumas evidências, inicialmente, sobre o comportamento
dos indicadores referentes às condenações. No Estado de São Paulo, em
1 970, do total de pessoas que foram processadas, apenas 27% foram con
denadas; em 1 980, apenas 22%. No período de 1 970 a 1 982, enquanto as
ações penais aumentaram 1 48%, os inquéritos arquivados cresceram 326%.
No Rio de Janeiro, no mesmo período, para cada 1 00 crimes contra o
patrimônio, condenavam-se não mais do que quatro ou cinco pessoas. Entre
1 977 e 1 986, enquanto a criminalidade urbana naquele Estado cresceu
50%, a quantidade de presos caiu 27,4%. 1 2
Na década de 1 990, o quadro se deteriora ainda mais. No Rio de
Janeiro, em 1 992, apenas 8, 1 % dos inquéritos referentes a homicídios do
losos resultaram em processos penais; apenas 8,9% dos casos de latrocínio
foram parar na Justiça; 92% dos casos de crimes dolosos contra a vida não
1 38 L u i z TAD E U V I A PIANA
receberam condenação da Justiça. Em São Paulo, dos 1 O mil processos aber
tos para apurar responsabilidade penal no Tribunal do Júri da Capital, 70%
foram arquivados. 1 3 De uma amostra de 1 98 casos de homicídios ocorri
dos em Diadema e nas zonas sul e leste de São Paulo, entre 1 998 e 2002,
nada menos do que 83% deles, ou 1 6 5 casos, não foram esclarecidos.
Em todo o Brasil, dos 40 mil homicídios que ocorrem todos os anos,
em apenas 3.200 a polícia consegue montar um inquérito, o que equivale a
dizer que 37 mil ficam impunes. Para o total dos crimes, estima-se que não
mais do que 25% resultem em processos. Estima-se que, em todo o Brasil,
não mais do que 3 a 5% dos crimes violentos são apurados. Existem exem
plos de índices de apuração de crimes ainda piores, como é o caso do bairro
de Bonsucesso, na cidade do Rio de Janeiro. No primeiro semestre de 2002,
para 1 07 pessoas mortas, a polícia só conseguiu esclarecer 0,7 o/o dos casos.
O mesmo ocorre em Campo Grande, onde apenas 1 ,7% das 1 76 mortes
foram esclarecidas. 1 4 O conforto, para o Chefe da Polícia, Álvaro Lins, é
que os índices estão "dentro da média nacional"
As taxas de esclarecimento dos crimes graves, entre os quais os homi
cídios, agressões e crimes sexuais, são significativamente mais elevadas nos
países desenvolvidos. No Japão, 58% dos crimes graves são esclarecidos;
2 1 ,6% nos Estados Unidos, 35% na Inglaterra, 45% no Canadá e 35% na
Austrália. Obviamente, os crimes de homicídios são os mais esclarecidos,
67% nos Estados Unidos e 90% na lnglaterra. 1 5
Tais indicadores contrastam fortemente com a realidade brasileira, uma
vez que não conseguimos apurar mais do que uma ínfima parcela dos cri
mes violentos, 3% ou 4% do total. O jornalista Ib Teixeira lembra, em seu
livro A Violência sem Retoque, uma pesquisa feita no Rio de Janeiro cujos
dados revelam que, de um grupo de 1 .000 casos de homicídio, o autor foi
identificado em apenas 82 deles, sendo que apenas um estava cumprindo
integralmente a pena.
No caso de crimes ditos "leves", principalmente furtos e roubos de
pequeno valor, a situação dos países desenvolvidos é mais parecida com a
brasileira, uma vez que do total dos crimes registrados apenas uma pequena
parte é esclarecida. Na Inglaterra, por exemplo, em apenas 5 ,5% dos casos
ocorre a identificação do culpado, contra 3% nos Estados Unidos. No Bra
sil, não existe um percentual confiável, mas supõe-se pelo conjunto de fa
tos conhecidos que esteja abaixo ou no mesmo patamar.
Diante desse cenário, a grande questão a ser respondida é sobre a causa
ou as causas que determinam a baixa eficácia da polícia no Brasil. Até que
E C O N O M I A DO C R I M E 1 3 9
ponto elas estão associadas ao modelo de organização que predomina nas
policiais durante o século XX? Qual o peso do arranjo institucional brasileiro
de segurança pública, que concentra a competência nos Estados, na ineficiên
cia policial? O principal problema reside no volume de gastos em segurança
pública ou na eficiência alocativa em termos de qualidade do gasto?
No estágio embrionário em que se encontram as pesquisas sobre a organi
zação policial no Brasil, as respostas serão necessariamente provisórias e especu
lativas. Tendo consciência dessa premissa, penso que podemos buscá-la em três
hipóteses distintas. A primeira hipótese, seguindo uma linha de pesquisa
que se consolidou nos anos de 1 980 e 1 990, principalmente nos Estados
Unidos, refere-se às características do chamado modelo tradicional de or
ganização policial e de policiamento, que domina a polícia no século X:X:. 16
As características básicas desse modelo, que serão descritas com maiores
detalhes a seguir, são as seguintes: organização burocrática e centralizada,
estratégia de ação reativa baseada em respostas ao crime, com baixa ou ne
nhuma prioridade às práticas preventivas, e dissociado da comunidade.
Uma segunda hipótese trata dos efeitos da rigidez do nosso arranjo
institucional para a segurança pública definido na Constituição Federal de
1 988, e ainda em vigor. O primeiro problema é justamente o fato de o
modelo estar "constitucionalizado", o que dificulta sobremaneira a sua
modificação, que exige aprovação de Emenda Constitucional por 2/3 de
votos dos membros do Congresso Nacional. Além disso, e talvez este seja o
aspecto mais importante, o modelo consagra o monopólio da segurança
pública para Estados e União Federal, inviabilizando que os Municípios
desempenham um papel ativo nessa área. Eles têm sua competência restrita
à formação e manutenção de Guardas Municipais, cuja atribuição é limita
da à vigilância de prédios e bens púbicos. Essas restrições explicam por que
uma cidade como São Paulo, uma das maiores do mundo, não tenha uma
polícia local e dependa de investimentos de outras esferas para garantir a
segurança de seus moradores.
Finalmente, a terceira hipótese consiste em indagar em que medida
boa parte da baixa eficácia das nossas organizações policiais deve-se à defa
sagem entre as necessidades materiais, humanas e sistemas de planejamen
to adequados, além do volume e da qualidade dos investimentos realizados
na melhoria das organizações policiais e no aprimoramento de suas ações.
A propósito, tão importante quanto possuirmos efetivos em quantidade e
com o perfil técnico necessário, são os sistemas de planejamento e avaliação
empregados para desenhar as estratégias e ações policiais. Não se trata, ape-
1 40 L u i z TAD E U V I A P I A N A
nas, de reclamar mais investimentos, mas de direcioná-los para melhorar
não apenas a cobertura dos serviços policiais, mas, também e, sobretudo,
sua qualidade.
Comecemos pela análise do modelo policial em vigor na maior parte
dos países, inclusive o Brasil. Existe uma farta literatura internacional sobre
o tema. Um desses estudos foi elaborado por Lee Brown, que, além de
professor, foi Diretor do Escritório Nacional de Políticas de Controle de
Drogas dos Estados Unidos e Presidente da Associação Nacional dos Che
fes de Polícia. Em artigo publicado em 1 989, denominado Community
Policing - A Practical Cuide for Police Officials, ele fez uma síntese objetiva
das principais características gerenciais do modelo de policiamento vigente
nos Estados Unidos e outros países, na maior parte do século passado, e
que seriam responsáveis pela crise. Muitos dos aspectos por ele citados,
como se perceberá facilmente, aplicam-se também à polícia brasileira:
a) a polícia é reativa aos incidentes; é dirigida pelas solicitações do público
através dos registros das ocorrências ou pedidos de ajuda pelo telefone;
b) a informação proveniente da comunidade é limitada; o planejamento,
quando existe, reforça o foco nas questões internas da polícia, proce
dimentos, normas, regulamentos, etc.;
c) o recrutamento enfatiza mais o espírito de aventurado que o espírito
da prestação de serviços à comunidade;
d) os policiais são adestrados para cumprir as regras; não são encorajados
a ser criativos na busca de soluções e não são premiados por inovarem;
e) as técnicas gerenciais utilizam um estilo autoritário, seguindo o mode
lo militar de comando e controle;
f) a supervisão reflete e reforça esse estilo gerencial;
g) as recompensas (e prêmios de desempenho) estão associadas à partici
pação em eventos mais do que pelo resultado desses eventos;
h) a avaliação de desempenho é baseada não em resultados mas em ativi
dades;
i) os departamentos são operados como entidades autônomas, com bai
xa colaboração e links com a comunidade.
Complementando o diagnóstico de Brown, no pequeno livro Policia
mento Comunitdrio, os criminologistas Jerome Skolnick, da Universidade
de Berkeley (EUA), e David Bayley, da Universidade do Estado de Nova
Iorque (EUA), fazem uma avaliação crítica dos resultados das táticas utili
zadas no trabalho policial. Segundo esses aurores:
E c a N C M IA o a C R I M E 1 4 1
a) o aumento do número de policiais e de recursos financeiros não re
duz, necessariamente, a criminalidade, nem aumenta o volume de ca
sos resolvidos;
b) o patrulhamento aleatório, motorizado ou a pé, não reduz o crime,
nem aumenta a probabilidade de prisão dos criminosos, mas esse ripo
de ação aumenta a sensação de segurança;
c) o policiamento mais intenso em uma determinada região pode redu
zir a criminalidade, mas ela pode migrar para outra área;
d) a rapidez na resposta da polícia pode não ser um procedimento muito
importante, na medida em que, após "apenas um minuto", a probabi
lidade de detenção do criminoso cai a 1 0%;
e) as investigações criminais são pouco efetivas na redução dos crimes,
que dependem ou da prisão em flagrante ou de informações da vítima
ou de testemunhas.
As observações acima representam uma síntese das principais críticas
ao modelo cradicional1 7 de polícia e seus principais aspectos operacionais e
rácicas. Neles residem as principais causas da baixa eficácia e eficiência da
ação policial.
O diagnóstico cabe como uma luva para a polícia brasileira. Com o
agravante de que, ao contrário das polícias existentes nos países desenvolvi
dos, a polícia brasileira não dispõe das mesmas condições materiais e hu
manas para executar suas tarefas. Isso vale para os crês insumos fundamen
tais no processo de produção dos serviços de segurança pública: educação
(recursos humanos qualificados), gestão (modelos de planejamento e ge
renciamento científicos) e tecnologia (processamento de informações e
comunicação). Alguns exemplos bastam para revelar a grave crise de de
sempenho que atinge a polícia no Brasil.
Um policial brasileiro custa para o Estado, por ano, R$ 50 mil, e nos
Estados Unidos, R$ 240 mil. A maioria dos nossos policiais cem segundo
grau incompleto e o americano, curso superior incompleto. Nosso policial
faz um curso de seis meses e raramente é retreinado. Nos Estados Unidos, o
curso inicial é também de seis meses, mas o treinamento é permanente,
com cursos freqüentes de reciclagem. O salário inicial do policial brasileiro
é, em média, de R$ 800 reais, enquanto nos Estados Unidos é crês vezes
maior. A disparidade é grande, mesmo considerando as diferenças na capa
cidade de compra de ambas as moedas - real e dólar - nos respectivos
países. O reflexo dessas condições, por exemplo, no desempenho na linha
1 42 L u i z TAD E U V I A P I A N A
de tiro é que nosso policial mata três pessoas em cada quatro confrontos,
enquanto o policial americano fere três em cada quatro. Nosso policial fica
na polícia, em média, três anos, enquanto o americano se aposenta nela.
Especialista na matéria, José Vicente da Silva Filho, lembra que, nas acade
mias, a formação dos policiais brasileiros enfatiza as "formalidades da hie
rarquia militar" e ensina "muito pouco sobre corno se comportar em situa
ções reais de perigo". I 8
Um exemplo do atraso tecnológico da polícia brasileira: enquanto nos
EUA, o planejamento da ação policial conta com sistemas de informações
geoprocessados e redes de computadores em praticamente todos os depar
tamentos e bases de operação, no nosso país quase metade das delegacias
ainda vive na era da máquina de escrever.
O mesmo ocorre com os sistemas de identificação digital - Automated
Fingerprint !D Systems -, que são usados por 97% dos departamentos nor
te-americanos, enquanto no Brasil eles existem em um número insignifi
cante de unidades. Nas cidades brasileiras, quando urna patrulha aborda
um suspeito, ela necessita entrar em contato com urna central, através de
rádio, para verificar se a pessoa possui ou não algum registro criminal. Se
ele for de outro Estado, por exemplo, simplesmente nada se saberá, porque
os bancos de dados dos Estados não estão integrados. Se o sujeito cometeu
algum crime no Rio de Janeiro, ele aparecerá corno "limpo" nos registros
policiais de São Paulo. Nessa situação, a polícia norte-americana usaria um
scanner para recolher as impressões digitais do suspeito e incluiria seus da
dos no computador da viatura, conferindo sua identidade e dados crimi
nais em segundos, ou então em qualquer delegacia acessaria as informações
do suspeito no cadastro nacional de informações criminais.
Nos países desenvolvidos, os dados provenientes dos registros policiais
são complementados com pesquisas de vitirnização, com abrangência na
cional, feitas com periodicidade, permitindo a elaboração de diagnósticos
mais amplos e precisos das tendências e das características dos crimes. Aqui,
os bancos de dados estaduais, além de não estarem integrados, seguem cri
térios diferentes de organização das informações e estão, em geral, desatua
lizados. E as pesquisas de vitirnização são muito raras e restritas. Em tal
contexto, as táticas policiais não seguem padrões técnico-científicos, ba
seando-se quase que exclusivamente na inércia - faz-se o que sempre se fez
-, sem qualquer avaliação de resultados.
Se examinarmos a história do modelo tradicional de polícia, podere
mos compreender melhor muitas de suas características. Na realidade, vá-
E C O N O M I A DO C R I M E 1 43
rios de seus elementos constitutivos justificavam-se plenamente e represen
tavam um avanço em relação ao que havia à época em que foram desenvol
vidos. O uso do automóvel generalizou-se a partir dos anos 1 940, quando
O. W. Wilson, que seria Chefe da Polícia de Chicago, formulou a teoria do
patrulhamento preventivo. A idéia, muito simples, previa que a circulação
de patrulhas motorizadas e o atendimento de chamadas pelo telefone cria
riam uma percepção nos cidadãos - criminosos e não criminosos - da oni
presença policial. Com isso, esperava ele, o crime seria inibido. Na origem,
portanto, do uso intensivo de automóveis no policiamento urbano está a
idéia de prevenção criminal, não apenas o atendimento a incidentes. 19 A
evolução das telecomunicações, tornando o telefone mais acessível nas resi
dências, viabilizou também o acesso dos cidadãos à polícia. Pode-se perce
ber a extensão dessa mudança, numa época em que boa parte do policia
mento ainda era feito a pé. Esse é, ainda hoje, o modus operandi predomi
nante no policiamento ostensivo. No entanto, nos dias atuais, mesmo com
frotas imensas e maiores efetivos policiais, não existe possibilidade de a
polícia estar presente e realizar patrulhamento preventivo em todas as áreas
de risco nas grandes cidades. É impensável, nos dias atuais, imaginar políti
cas de prevenção apenas através da ação policial.
A história do modelo tradicional confunde-se, assim, com a história
urbana e com a evolução tecnológica, principalmente do uso do automó
vel, do telefone e, recentemente, do computador. Além desse aspecto, sofre
também a influência das modernas organizações burocráticas que surgiram
no início do século XX, em resposta às necessidades de maior produtivida
de e eficiência econômica.Até o surgimento dessas mudanças, a polícia era uma organização ba
seada nos postos policiais, na ronda de rua e em comandos descentraliza
dos. A comunicação entre os policiais e a população era direta. Com o
crescimento das cidades, maior facilidade de transporte e uso mais amplo
do telefone, ocorreu uma importante mudança. A polícia passou a atender
"chamadas de serviço", a partir de uma organização centralizada. O patru
lhamento a pé e a vigilância direta perderam espaço na estratégia de ação
policial.
Com isso, os postos policiais foram substituídos por comandos regio
nalizados e delegacias distritais, abrangendo grandes áreas urbanas. Os re
gistros policiais foram igualmente centralizados. Depois, seriam criados
"comandos", "forças" e "delegacias" especializadas em determinados tipos
de crimes. O desenvolvimento da tecnologia ajudou a "centralização buro-
1 44 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
crática e de comando", aprofundando o divórcio entre o trabalho dos poli
ciais e as comunidades locais.
Um elemento crucial no desenvolvimento da burocracia e da cen
tralização da polícia foi o temor das influências externas no trabalho
policial. O movimento começou em Londres, ainda no século XIX, e se
estendeu para a América no início do século passado, exercendo, desde
então, influência em todas as partes do mundo. Na Inglaterra, as polícias
particulares, antes livres para atuar, passaram a depender de licenças da
polícia oficial. Nos Estados Unidos, em 1 870, a maioria das polícias das
grandes cidades já estava unificada, organizada num corpo único sob
comando central.
Já no século XX, pressionada pelos casos freqüentes de corrupção, a
polícia deu novo passo no sentido da burocracia e da centralização. Uma
das conseqüências desse movimento é que se obteve maior "neutralidade
política e confiabilidade legal" "As tomadas de decisão do dia-a-dia", escre
ve o sociólogo Albert Reiss, da Universidade de Yale (EUA), "foram subtra
ídas da influência política direta dos partidos e das autoridades do governo
e, também, do exercício arbitrário do chefe" Mas, por outro lado, houve
mudanças na organização do trabalho policial, com a divisão de funções
entre "pessoal do escritório" e da "linha de frente", ampliando o divórcio
entre a polícia e a comunidade. Um dos aspectos mais notáveis, destaca
Reiss, "foi o aumento do número de assistentes'', aumentando o peso da
burocracia na organização policial.
Na análise dos modelos policiais, o professor Stephen Mastrofski, da
Universidade de Michigan (EUA) , apresenta uma outra classificação: o
modelo racional/técnico e o modelo institucional. O modelo racional/técnico
é aquele em que as organizações são estruturadas para "realizar metas espe
cíficas" Procedimentos, programas, recursos humanos e políticas são pen
sados tendo em vista atingir determinados objetivos de maneira eficaz. Os
objetivos são "predeterminados e definidos com precisão" e as estruturas
são "precisas, visíveis e não contingentes"
É um modelo rígido e formalizado, tanto na estrutura quanto nos
objetivos, com baixa ou nenhuma flexibilidade. Um exemplo dos objetivos
é o controle da criminalidade. Para isso, o modelo estruturou-se através do
sistema de respostas via telefone, patrulhas policiais ostensivas e investiga
ções criminais. As medidas de eficácia consistem no volume de prisões, nos
crimes conhecidos e apurados e também através de indicadores de crimes
relatados nas pesquisas de vitimização.
E c a N C M I A oa C R I M E 1 4 5
O modelo institucional pressupõe que o objetivo da organização poli
cial não é ser eficaz, mas cumprir a "exigência de responder de maneira
ampla à'.'s crenças estabelecidas acerca do que tais organizações deveriam ser
e fazer, mesmo que essas crenças não possam ser verificadas" Os serviços
policiais seriam equivalentes aos serviços públicos clássicos prestados por
escolas, serviços públicos de saúde e tribunais, onde é difícil especificar
metas e medir o impacto dos serviços prestados por essas organizações.
Nesse modelo, as organizações "institucionalizam" estruturas e pro
cessos, que são "aceitos como corretos, verdadeiros e adequados", indepen
dentemente de serem avaliados sob qualquer aspecto. O critério para de
fender o modelo institucional não é determinado por indicadores de de
sempenho, mas pelas "pressões sociais e culturais para que estejam de acor
do com as crenças convencionais" Assim descrito, esse modelo torna-se
muito próximo da polícia brasileira.
A polícia que existe hoje tem seus traços definidores surgidos dessa
evolução: é uma organização burocrático-racional, hierarquizada, profissio
nalizada e "legalista", seguindo padrões, normas e regras teoricamente im
pessoais. No entanto, apesar das leis, regulamentos e regras, a atuação poli
cial envolve um alto grau de arbítrio, motivo de muitas críticas à polícia. O
fato é que a maioria das ações policiais é impossível de supervisionar e, sem
supervisão, não há como apurá-las quando contrárias às leis e regulamen
tos. As corregedorias internas e os controles externos podem inibir as arbitrari
edades, mas deparam-se sempre com limites e resistências corporativas.
Seja qual for a classificação que se adote - tradicional, racional/técnico
ou institucional-, os modelos têm como característica comum o pressupos
to de que a melhoria na eficácia de suas respostas no controle da criminali
dade depende, em última instância, do aumento do volume dos recursos
empregados no sistema. São modelos, como afirmamos, que abrem pouco
espaço para a avaliação de seus pressupostos básicos; eles continuam sendo
considerados válidos, independente das críticas quanto ao baixo desempe
nho policial.
1 46 L u i z TAD E U V I A P I A N A
ASPECTOS I N STITU C I O NAI S
N o debate sobre a crise de desempenho que atinge a polícia brasileira, uma das supostas causas, apontada por muitos especialistas, diz res
peito à estrutura dual da organização policial. Como se sabe, a organização
policial brasileira divide-se em duas polícias, a Polícia Civil, encarregada
das funções de polícia judiciária, e a Polícia Militar, que tem atribuições de
repressão e prevenção.
A divisão organizacional afetaria o desempenho da polícia porque ge
raria conflitos corporativos, paralelismos e duplicidades de iniciativas e de
bases de informação, consumindo a energia de ambas organizações em ob
jetivos e focos distantes da produção de serviços de qualidade para a socie
dade. A solução mágica apregoada por quem acredita nesse diagnóstico é
integrar as polícias. A proposição, até hoje carente de detalhamento, grosso
modo, envolve duas possibilidades: a unificação completa através da forma
ção de uma polícia única ou uma integração operacional mais forte, man
tendo-se as duas organizações. Tanto uma quanto a outra proposta, dadas
as dificuldades institucionais e operacionais que envolvem, parece ser mais
uma das muitas respostas à crise policial, aparentemente atraente, mas sem
nenhuma viabilidade.
Na verdade, existe certo exagero nesse diagnóstico, pelo menos na re
percussão dessa questão na eficácia policial. É importante lembrar o aspec
to decisivo de que as tarefas das duas polícias são distintas. A função da
polícia civil é a de registrar e investigar os crimes, bem como enviá-los à
apreciação da Justiça. À polícia militar, por sua vez, cabe realizar o policia
mento ostensivo e repressivo, quando necessário.
Embora existam disputas corporativas, superposição de iniciativas e
programas entre as forças, não existem estudos que comprovem residir nessas
questões a causa ou uma das causas fundamentais da crise de eficiência
presente na polícia brasileira. 20 Poderíamos ter uma polícia única, e ainda
E c c N c M 1 A o c C R I M E 1 47
assim ela pautar sua organização e estratégias de ação segundo um dos
modelos que resenhamos acima, adotando as diretrizes tradicionais, reati
vas e dissociadas da comunidade.
A propósito,a defesa da proposta de uma polícia única padece de um
erro de análise que deriva da crença em um modelo ideal de polícia. Os
estudos internacionais mostram que estruturas policiais semelhantes apre
sentam níveis diferenciados de desempenho. Nada garante que uma polícia
única, por exemplo, seja um modelo mais eficiente do que o de polícia
dual. Os estudos disponíveis, entre os quais o de Jack Brouder, Padrões de
Policiamento, que examina os diversos modelos de polícia existentes na
Europa, mostram que esse modelo ideal, na realidade, não existe. De fato,
em vários países e regiões com taxas baixas de criminalidade, tanto na Eu
ropa como nos EUA, existem diferentes modelos de organizações policiais.
O caso extremo é o dos Estados Unidos, onde existem mais de 1 5 mil
polícias diferentes, convivendo com algum nível de conflito jurisdicional, é
verdade, mas com uma efetividade razoável em suas ações quando compa
rada com a da polícia brasileira.
No meu modo de ver, o principal obstáculo institucional à maior efi
cácia policial não reside na estrutura dual em si, mas em dois outros fatores:
a) na rigidez do atual modelo de organização da segurança pública brasilei
ra, uma vez que ele está "constitucionalizado" e b) nos modelos de gestão
adotados, principalmente na insistência no modelo reativo, na inexistência
de metas e objetivos claros a serem perseguidos e de avaliações sistemáticas
de desempenho da ação policial.
O problema que afeta o modelo policial brasileiro é, pois, de outra
natureza, não tendo a ver com a estrutura policial dual, mas com o desenho
institucional que trata das competências e responsabilidades pela segurança
pública entre as várias esferas de governo.
Mais especificamente, o problema está no modelo escrito na Consti
tuição Federal, que atribuiu aos Estados e à União o monopólio da segu
rança pública.2 1 Segundo esse modelo, a segurança pública é atribuição dos
Estados, através das polícias civil e militar, e da União, através da Polícia
Federal, basicamente. Aos Municípios atribuiu-se apenas competência para
formar guardas municipais com a finalidade de cuidar de bens públicos.
Com tal definição de competências, a Constituição Federal retirou dos
Municípios a possibilidade de criarem suas próprias polícias. A exclusão é
de ordem geral, valendo, inclusive, para grandes cidades, onde ocorre maior
concentração de crimes. Com 36% da população brasileira, os Estados de
1 48 L u i z TAD E U V I A P I A N A
São Paulo e Rio de Janeiro são responsáveis por quase 50% dos homicídios
que ocorrem rodos os anos no país, sendo que a maior parte deles ocorre
nas Capitais. Convivendo há anos com esse grave problema, as cidades
ainda não possuem suas próprias organizações policiais, dependendo dos
gastos de outra esfera de governo, Estados e União.
E C O N O M I A ao C R I M E 1 49
G ASTO A E EF"I C I EN C IA
F inalmente, uma terceira parte da resposta para a crise da eficiência policial pode estar no volume de recursos alocados na produção da segu
rança pública. No entanto, na análise dessa questão, é preciso um certo
cuidado, para não se concluir, apressadamente, que, diante das inúmeras
carências materiais e humanas da polícia brasileira, o volume dos recursos
alocados é a única ou a mais importante variável.
Na realidade, tão importante quanto o volume de recursos finan
ceiros destinados à segurança é verificar se os gastos obedecem a níveis
de racionalidade dados por sistemas de planejamento, com objetivos e
metas claramente definidas pelas organizações policiais. Trata-se de sa
ber se os gastos estão, e em que grau, relacionados com metas de redu
ção da criminalidade ou decorrem apenas da inércia orçamentária. Se
são definidos por compromissos com desempenho ou somente porque
os programas existem.
A literatura internacional mostra, de forma bastante convincente, que
maiores orçamentos não garantem maiores resultados em termos de efi
ciência na redução das taxas de criminalidade. Na alocação de recursos em
sistemas complexos como o da segurança pública, é preciso que o sistema
de planejamento seja capaz de coordenar e integrar os subsistemas que fa
zem parte do processo de produção do serviço. Um exemplo vai deixar a
idéia mais clara. Se a prioridade dos gastos for melhorar o patrulhamento
motorizado ostensivo, serão realizados gastos para adquirir mais veículos.
Maior número de veículos aumenta a necessidade de mais policiais para
dirigi-los e maior número de policiais de apoio nos sistemas de comunica
ção, maior capacidade das delegacias policiais para receber e processar os
registros das ocorrências e, até mesmo, mais vagas nas emergências para
atender feridos e vagas nas prisões. Trata-se de um gasto que irá reforçar as
estratégias convencionais de controle do crime.
1 50 L u i z TAD E U V I A P I A N A
No entanto, se os gastos forem dirigidos para descentralizar os servi
ços policiais, as necessidades não serão exatamente as mesmas. Se forem
priorizados, por exemplo, postos policiais e programas de vigilância de bairro,
a necessidade de veículos e de policiais condutores diminuirá. O número
de atendimentos pode aumentar na comunidade, pois a polícia está mais
próxima, mas os policiais farão a triagem de modo que apenas os casos mais
graves demandem o atendimento por uma equipe (viatura) . Assim, é pro
vável, também, que ocorrências (registros) diminuam, fazendo com que
caia a demanda por serviços burocráticos nas delegacias. Tal estratégia pode
ser mais racional do ponto de vista do gasto, sem falar nos efeitos de maior
satisfação da comunidade em ter a polícia mais próxima e ágil em seu meio.
Essas situações indicam que, pelo menos em parte, os gastos em segu
rança podem resultar no fortalecimento de padrões e processos tradicionais
de produção dos serviços ou, ao contrário, apostar em métodos mais racio
nais e eficazes. O fundamental para que isso ocorra é que tais gastos sejam
submetidos à análise do ponto de vista da qualidade dos serviços, o que,
com raras exceções, ainda não é feito no Brasil.
Do ponto de vista técnico, uma primeira observação que deve ser feita
quando se analisam os gastos com segurança pública diz respeito aos insu
mos utilizados na produção desses serviços. Como na produção de serviços
de educação e de saúde, um dos componentes fundamentais na área da
segurança pública são os recursos humanos, a gestão e a tecnologia. Os dois
primeiros são classificados na contabilidade pública como Gastos de Pes
soal e Gastos de Custeio, sendo que apenas a tecnologia (logística, equipa
mentos, veículos, armas, etc.) são classificados como Investimentos. Em
linguagem mais técnica, diríamos que a segurança pública é um serviço
intensivo em mão-de-obra. Tendo em vista esses aspectos, penso que seja
mais adequado, na área da segurança pública, adotar-se um conceito mais
amplo de Gasto Total com Segurança, englobando os três tipos de gastos,
do que o conceito de Investimentos, que é mais restrito.
Os gastos com segurança pública, bem como a modernização das di
retrizes que norteiam a ação policial, dependem, essencialmente, dos go
vernos estaduais. Ocorre que, desde os anos de 1 980, os Estados estão mer
gulhados em uma grave crise financeira. Vários deles literalmente faliram, e
hoje suas receitas não são suficientes sequer para cobrir gastos de Pessoal,
Custeio e Serviço da Dívida Pública. A conseqüência desse processo de
crise nas finanças públicas estaduais é a redução na geração de recursos
financeiros para realizar os investimentos necessários para a ampliação e
E C O N O M I A DO C R I M E 1 5 1
modernização dos serviços públicos, entre os quais os voltados para a pro
dução da segurança pública.
São poucos os Estados que ajustaram as contas públicas nos anos 1 990
e recuperaram a capacidade de investir e alocar maior volume de recursos
para os serviços públicos, entre os quais a segurança pública. É o que ocor
reu, por exemplo,com o Estado de São Paulo, que elevou suas despesas em
segurança pública de R$ 1 ,78 bilhão de reais, em 1 990, para R$ 2 bilhões,
em 1 995, ampliando-a para R$ 4 bilhões em 1 999 (preços constantes). Em
uma década o volume de recursos alocados anualmente dobrou. Durante
todo esse período, o comportamento das curvas de crimes manteve trajetória
ascendente, tendência que começou a ser revertida para alguns tipos de crimes,
homicídios, por exemplo, a partir de 2000. Desde então, observa-se uma
queda sistemática desse tipo de crime no Estado, e, provavelmente, uma
das causas desse fenômeno está no reforço da atuação policial.
No entanto, na maioria dos Estados brasileiros persistem carências de
todos os tipos - humanas, gerenciais e financeiras. Calcula-se que a metade
das delegacias brasileiras não estão informatizadas. Não existe ainda um
cadastro único nacional de identificação criminal e são conhecidas as defi
ciências tecnológicas e de sistemas de informação, equipamentos moder
nos de telecomunicações, armas e, sobretudo, de treinamento e qualifica
ção dos recursos humanos de nossas polícias.
Todavia, cão ou mais grave do que as carências financeiras e humanas
é a inexistência de um modelo de gestão adequado que permita a utilização
racional e otimizada dos recursos existentes, comprometida com metas.
Um sistema de gestão que promova uma ruptura com o modelo incremen
tal acuai, cujas restrições são apenas de natureza orçamentária. Segundo
essa visão, basca aumentar o tamanho do orçamento que os resultados espe
rados virão. A realidade demonstra que nem sempre é assim. Os escudos
internacionais comprovam que nem sempre um aumento de recursos -
físicos e financeiros - aumenta a eficácia e a eficiência da ação policial. É
preciso analisar a qualidade dos investimentos, ou seja, em quais programas
eles são aplicados e qual seu impacto nas taxas de criminalidade. Infeliz
mente, no Brasil, o sistema de segurança padece das duas necessidades:
mais investimentos e sistemas de gestão que permitam essa avaliação de
resultados.
Usando dados de 2002, comparamos os investimentos em segurança
pública per capita e crimes (homicídios, roubos e furtos) em todos os Esta
dos brasileiros. Para facilitar a análise, os Estados foram divididos em crês
1 52 L U I Z TA D E U V I A P I A N A
grupos, de acordo com o gasto per capita. Entre os nove Estados que mais
gastam, seis estão entre aqueles que têm os piores índices de homicídio, seis
entre os piores índices de furtos e cinco entre os piores índices de roubos.
O Distrito Federal revela a dimensão da assimetria, pois é o que mais gasta,
mas é o campeão em roubos e furtos e está em 1 0 .0 lugar em homicídios. O
Rio de Janeiro, segundo em gasto, é o segundo também em homicídios, o
terceiro em roubos e o 1 8 . 0 em furtos.
No segundo grupo, a assimetria aparece claramente nos números do
Espírito Santo e Rio Grande do Sul. O Espírito Santo é o 1 2 .0 em gasto,
ocupa a 1 .0 lugar em homicídios, o 20.0 na classificação por furto e o 14 .0
na de roubos. E o Rio Grande do Sul, que é 14 .0 em gasto, tem uma boa
posição na classificação de homicídios - 22.0 lugar -, mas ocupa o 2.0 lugar
em furtos e o 4.0 em roubos.
Finalmente, no terceiro grupo, dos que menos gastam, surge ainda
com maior clareza a relação "quase inversà' entre gasto e indicadores de
crimes. O Ceará, por exemplo, que é o Estado que menos gasta, está em
16.0 em homicídios, 25 .0 em furtos e 24.0 em roubos.
Outro modo de testar se o volume de gastos está relacionado com a
redução dos crimes é comparar o número de policiais com os indicadores
de crimes. Usamos o número de policiais como representativo do gasto de
segurança, pois a grande parte dos recursos alocados no setor são destina
dos para pagamento de pessoal e encargos. A literatura internacional mos
tra que não existe um consenso sobre como essas relações ocorrem. A maio
ria dos estudos conclui não haver uma correlação positiva entre número de
policiais e crimes, mas outros, entretanto, mostram correlações para alguns
tipos de crimes. 22
No estudo que fez para o Brasil, o sociólogo Túlio Khan também não
encontrou conexão entre o tamanho dos efetivos das polícias dos Estados e
taxas de criminalidade. Em alguns casos, descobriu que maior número de
policiais estava associado com maior número de crimes (atentado ao pu
dor, estupros e furtos). Isso não quer dizer, evidentemente, que mais poli
ciais gerem mais crimes. Indica, apenas, que mais policiais tendem a ser
contratados justamente onde as taxas de crimes são mais altas. Teríamos a
curiosa situação de que, para ter maior presença policial, faz-se necessário
haver mais crimes. Esta é, em última análise, a lógica do modelo tradicional
de policiamento, reativo ao delito.
Mais do que a quantidade, em segurança pública, é preciso observar a
qualidade dos investimentos, o planejamento e as estratégias de ação.
E C O N O M I A DO C R I M E 1 53
Gastos com Segurança Públlca e Coeficiente de Crlmlnalldade - 2002
Segurança Gasto
Estado Pública per capita Homicídios Homicídios Homicídios Furtos Furtos Roubos Roubos Roubos
R$ per capita Classificação Coeficientes Classificação Coeficiente Classificação Coeficiente Classificação
Distrito Ferderal 582,44 1 497 23, 1 6 1 0 61 .012 2.843,27 1 23.761 1 . 1 07,31 1
Rio de Janeiro 205,31 2 6.233 42,33 2 107.263 728,47 1 0 1 1 4.720 779, 1 1 3
Acre 192,61 3 180 30,67 6 7.622 1 .298,60 9 1 .227 209,05 1 5
Rondôni 1 54,17 4 496 34,64 3 1 8.770 1 .310,96 8 6.644 464,04 5
Amapá 146,30 5 1 49 28,85 7 9.020 1 .746,33 4 2.055 397,86 8
Minas Gerais 132,75 6 2.647 14,43 18 1 62.31 4 884,86 1 4 28.806 157,04 20
São Paulo 1 28.64 7 1 1 .847 31 ,03 5 567.080 1 .485,37 6 309.661 81 1 , 1 0 2
Santa Catarina 1 1 4,81 8 367 6,64 25 105.421 1 .907,14 3 7.351 1 32,98 22
Mato Grosso do Sul 1 04,55 9 604 28,22 8 26.476 1 .236,84 1 0 4.440 207,42 1 6
Amazonas 98,73 1 0 398 13,44 20 22.814 770,21 1 6 4.622 156,05 21
Roraima 98,52 1 1 42 1 2 , 1 1 2 3 4.750 1 .369,39 7 600 1 72,97 1 7
Espírito Santo 97,31 12 1 .765 55, 1 3 1 21 .269 664,30 20 7.884 246,24 1 4
Mato Grosso 95,45 1 3 597 22,92 1 1 27.719 1 .064,1 7 1 2 9.565 367,21 9
Rio Grande do Sul 91 ,46 14 1 .303 12,52 22 2 1 1 .396 2.030,99 2 58.344 560,54 4
Tocantins 90,94 1 5 1 58 1 3,09 21 4.723 391,30 22 868 71 ,91 23
Goiás 87,41 1 6 1 .026 1 9,69 1 2 77.644 1 .490,1 9 5 23.351 448, 1 7 6
Sergipe 83,84 1 7 600 32,50 4 1 6.386 887,63 1 3 5.069 274,59 1 2
Alagoas 72,89 18 726 25, 1 4 9 2.354 81 ,52 24 684 23,69 25
Pernambuco 72,63 1 9
Paraná 66,79 20 16,55 108.071 1 . 1 02,99 27.165 277,25
Piauí 66,51 21
Rio Grande do Norte 60,43 22 223 7,82 24 20.942 734,09 1 7 7.482 262,27 1 3
Bahia 57,09 23 2.532 1 9,00 1 4 104.956 787,77 1 5 39.227 294,43 10
Paraíba 47,39 24 675 1 9,31 13 1 0.813 309,39 23 5.618 160,75 1 9
Pará 44,36 25 1 . 1 87 18,39 1 5 45.8 1 1 709,84 1 9 27.165 420,92 7
Maranhão 39,91 26 806 13,89 1 9 35.959 619,64 21 10.018 172,63 18
Ceará 38,61 27 1 .269 16,58 16 4.318 56,41 25 2.876 37,57 24
Brasll 108,81 37.949 21,73 1 .784.903 1 .022,09 728.203 417,56
Fontes: Estimativa IBGE (2002) - Secretaria do Tesouro Nacional - Balanço dos Estados (2002) - Ministério da Justiça (2002)
Coeficientes: n• de ocorrências por 100.000 habitantes.
e C N C LU SÃC
As palavras que seguem serão necessariamente provisórias, porque este livro trata de uma temática que conta com contribuições analíticas de
várias outras disciplinas, como a sociologia, a psicologia, a antropologia e,
mais recentemente, a biologia. Seria pretensão imaginar que, isoladamen
te, cada uma dessas disciplinas, entre as quais a economia, consiga dar con
ta de um fenômeno como o crime, que envolve múltiplos fatores, variáveis
e dimensões de natureza social, econômica, psicológica e cultural. Por isso,
as afirmações feitas ao longo do texto tiveram como características estarem
sempre abertas à dúvidae, mais do que isso, às contribuições e críticas de
outras disciplinas.
Além disso, por limitações de minha formação pessoal e também de
tempo, não pude explorar, em profundidade, as potencialidades de uma
análise multidisciplinar. Procurei, entretanto, cotejar os principais elemen
tos da economia do crime com as contribuições mais conhecidas oriundas
da sociologia, principalmente com as teorias da Anomia, da Tensão e do
Controle Social. Meu propósito foi o de demonstrar que, ao contrário do
que se imagina, existem vários pontos de convergência entre esses campos
teóricos.
Podemos, por exemplo, afirmar que a anomia, quando evocada para
representar a baixa adesão dos indivíduos às leis, está também presente na
teoria econômica do crime, quando esta prevê que a opção pelo crime é
incentivada em situações onde a probabilidade de punição é baixa ou quando
os indivíduos, por várias razões, não temem a aplicação das leis.
Hoje, poucos são os que acreditam que o crime seja conseqüência
apenas do aprendizado social ou uma imposição da cultura. Por outro lado,
é difícil crer que a violência seja natural no indivíduo, embora esteja já
comprovado que alguns apresentam, desde muito cedo, maior propensão à
agressividade do que outros. Outro aspecto é que o peso dos genes na defi-
E c c N C M IA o c C R I M E 1 5 5
nição de traços comportamentais em toda a sua extensão ainda é um tema
amplamente aberto ao debate e à comprovação. Aceita-se, porém, que o
comportamento seja a resultante da interação entre as características herda
das e o ambiente no qual o indivíduo se desenvolve. A novidade da teoria
econômica do crime é a introdução da noção de interesse na teia de fatores
que influenciam as decisões humanas, no nosso caso nas decisões do crime.
Além do desafio teórico, há que se considerar, também, a variedade de
propostas que se apresentam como soluções para a criminalidade brasileira.
Já se disse, a esse respeito, quase tudo. Muito debate e muita energia, para
pouco resultado. Não pretendemos seguir esse caminho improdutivo e pro
por soluções mágicas, até porque elas não existem. Entendo que, ao contrá
rio, para avançarmos na construção de um sistema moderno e eficiente de
segurança pública, precisamos dar um passo atrás para retomar o que en
tendemos ser, embora um tanto óbvio, o dever de casa. Desse modo é que
devem ser lidar as palavras que se seguem.
Retomando o fio condutor do livro, os principais conceitos da teoria
econômica do crime articulam-se a partir de um núcleo central que consis
te na noção de que o crime é resultado de uma decisão racional, na qual os
indivíduos ponderam custos e benefícios.
Os custos envolvem a perda da liberdade, caso o criminoso seja preso
e condenado, além dos custos representados pela perda de renda, enquanto
ele estiver confinado, e as perdas futuras, em razão do estigma e da conde
nação moral por parte da comunidade. Os criminosos, como mostram os
estudos, dificilmente retornam ao mercado de trabalho.
Os benefícios consistem no resultado esperado do ato criminoso, que
pode ser dinheiro, bens materiais e/ou algum tipo de gratificação psicológi
ca (status ou sensação de poder). Pode, ainda, resultar de disputas por poder
e controle de áreas e mercado entre gangues e quadrilhas.
As decisões racionais não são cálculos matemáticos precisos, mas pro
cessos que sofrem a influência de uma complexa estrutura de condicionan
tes ou incentivos. Esses condicionantes não podem, entretanto, ser vistos
como fatores determinantes. Eles exercem influência, mas jamais determi
nam as decisões dos indivíduos.
Segundo essa premissa, o crime não é o resultado automático e inexo
rável do desemprego, da baixa escolaridade e da marginalização social ou de
uma cultura de pobreza. É inegável, porém, que quando o indivíduo com
para vantagens e desvantagens, tais condições sociais atuam como incenti
vos nos processos de decisão pelo crime.
1 56 L u i z TA D E U V I A P I A N A
O modo como o indivíduo pondera vantagens e desvantagens é in
fluenciado, por sua vez, pela forma como são valorizados riscos e perdas.
Nesse processo, vimos que a educação desempenha um papel fundamental.
A correlação entre educação e crimes é negativa - mais educação menos
crimes -, porque a educação é um fator determinante de melhores condi
ções no mercado de trabalho e também porque faculta ao indivíduo me
lhores condições de avaliar os riscos.
O mesmo ocorre com o emprego e a renda. Entretanto, nesses casos,
aumentam os custos do crime à medida que, caso seja presa e condenada, a
pessoa perde o seu emprego e a renda presente, além da renda futura pelo
tempo em que estiver confinado. Quando a renda percebida é baixa, esse
custo cai, havendo um incentivo à opção pelo crime.
Acontece, ainda, que cais condicionantes sofrem a mediação da capa
cidade do indivíduo de controlar seu impulso. Como se sabe, há duas for
mas básicas de controle: o controle social, derivado das leis e das normas
sociais, que é exógeno ao indivíduo, e o autocontrole, decorrente dos valo
res e crenças internalizados desde a fase da socialização primária e desenvol
vida ao longo da vida.
Quanto maior for o autocontrole, maior será a capacidade do indivíduo
de trocar o prazer e a recompensa imediata por retornos futuros. Esse será um
indivíduo mais avesso ao risco e com menor propensão ao crime. É por acredi
tar nesse postulado que correntes importantes da criminologia pregam que o
grande combate ao crime começa na família e na escola, onde a criança aprende
as noções básicas do respeito, da disciplina e da amizade.
Levando em conta os argumentos acima, é possível dizer que o con
trole do crime depende de ações e políticas em crês dimensões fundamen
tais. A primeira delas situa-se no âmbito do Estado e diz respeito ao au
mento da capacidade de aplicação da justiça. Trata-se, essencialmente, de
elevar a capacidade do Estado, através do Sistema de Justiça Criminal (Po
lícia, Ministério Público, Poder Judiciário e Sistema Prisional), de apurar
os crimes e condenar à prisão os responsáveis. Vimos que tanto a certeza
quanto a celeridade e a extensão da pena estão negativamente correlaciona
das com as taxas de crimes.
A segunda dimensão diz respeito às políticas direcionadas para reduzir
o impacto dos condicionantes sociais nas decisões do crime. O ponto cru
cial, nesse sentido, é investir na educação e na capacitação dos jovens para o
mercado de trabalho. Os estudos mostram que a educação está também
negativamente relacionada com os crimes, basicamente porque ela é um
E C O N O M I A DO C R I M E 1 57
fator preditivo de melhores empregos e salários, que, por sua vez, também
se constituem em fatores anticrime. Além dos efeitos da educação no longo
prazo, devem-se priorizar políticas focalizadas no treinamento e na capaci
tação de jovens visando a resultados no curto prazo.
Finalmente, a terceira dimensão envolve o fortalecimento dos va
lores fundamentais da educação na família e na escola. Não se trata,
aqui, de políticas públicas, mas de uma nova atitude da sociedade, no
sentido da recuperação dos valores do respeito, disciplina e responsabi
lidade. Revalorizar a família e os vínculos comunitários produzirá, no
futuro, interações sociais de melhor qualidade e indivíduos com maior
capacidade de autocontrole. Como se faz isso? Modificando atitudes
desde agora, a começar pela educação dos nossos filhos, sem esperar
que as mudanças venham como resultado da ação dos outros ou do
Estado. Pode parecer romântico, mas esse é o único caminho conheci
do e eficaz para reduzir o crime no futuro.
Isso não diminui a importância da repressão estatal ao crime. A recu
peração da capacidade de ação do Estado na área da segurança pública é
essencial para reduzir a criminalidade no curto prazo. No caso brasileiro,
exigem-se providências em três direções: a) modificar o arranjo constitu
cional que delega aos Estados federados e àUnião o monopólio da organi
zação policial e de ação na área da prevenção e investigação criminal; b)
dotar as nossas organizações policiais de maior capacidade de planejamen
to, com o uso de modernas tecnologias de informação e mapeamento cri
minal, além de dar-lhes maior flexibilidade para adotar estratégias locais,
como programas de policiamento comunitário ou programas de prevenção
baseados em solução de problemas; e c) aperfeiçoar os modelos gerenciais,
com a incorporação no desenho das estratégias policiais de metodologias
de avaliação de custo/benefício e de indicadores de desempenho, como
taxas de esclarecimento de crimes, satisfação dos clientes e taxas de vitimi
zação, entre outros.
A primeira diretriz remete para a criação de um novo modelo de segu
rança pública, com uma participação mais ativa da União e um novo papel
para as Prefeituras Municipais, que poderão constituir polícias locais. Esse
é um caminho inexorável, e que já está timidamente em curso, através de
várias medidas legislativas que estão, gradativamente, aumentando o poder
das guardas municipais. O que proponho é que, ao invés de continuarmos
nessa política gradual e tímida, avancemos com maior determinação rumo
ao novo modelo pluralista.
1 58 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Também é essencial que, na constituição do novo modelo, seja am
pliado o papel da União no financiamento da modernização e da descen
tralização da ação policial. Nesse sentido, uma das providências seria am
pliar e transformar o atual Fundo Nacional de Segurança Pública - FNSP.
Com maior volume de recursos, o Fundo pode exercer um papel ativo na
capacitação gerencial, no treinamento e difusão de novas tecnologias e,
também, no incentivo à adoção de programas de policiamento comunitá
rio por parte das polícias estaduais e guardas municipais. Trata-se não ape
nas de aumentar as dotações orçamentárias para o FNSP, que são insufi
cientes, mas de elevar a taxa de utilização dos recursos disponíveis. Para se
ter uma idéia, dos R$ 4 1 2 milhões previstos para 2005 foram efetivamente
liquidados (pagos) apenas R$ 17 milhões. Nesse mesmo ano, o orçamento
cocal da Secretaria Nacional de Segurança Pública era de não mais do que
R$ 1 1 9 milhões, menos de um real por brasileiro. O Secretário Nacional
de Segurança Pública, Luiz Fernando Correa, declarou ao jornal Correio
Braziliense (8/9/05) que "a maioria dos programas não chegou a ter 1 0%
do seu orçamento executado até meados de agosto" (2005) .
Além disso, é importante que o Fundo adoce novos critérios para a
liberação de recursos que valorizem o esforço e o desempenho das polícias
na redução das taxas de crimes. Pelas regras acuais, a pressão é para liberar
recursos para programas em áreas de alta criminalidade, o que acaba por
gerar um incentivo perverso que penaliza os programas que apresentem
bons resultados. É preciso dar prioridade para o critério de desempenho,
premiando os programas que estão, efetivamente, apresentando bons re
sultados. Só assim serão estimuladas novas práticas e estratégias eficientes
de prevenção e redução de crimes.
A justificativa para um papel mais ativo por parte da União na produ
ção da segurança pública decorre do fato de que a sua política global, prin
cipalmente a econômica e a social, exerce um papel decisivo na conforma
ção dos condicionantes sociais e econômicos que acuam como incentivos
na decisão pelo crime. Em termos muito simples, a incongruência está em
que cais condicionantes são gerados, em larga medida, no plano macro,
nacional, enquanto a prevenção e a repressão ao crime, no modelo atual, é
responsabilidade da esfera estadual. E os governadores, como se sabe, pou
co podem fazer para acuar sobre variáveis como emprego, nível de renda,
habitação e programas compensatórios de renda.
Um último ponto decisivo diz respeito à forma como a sociedade deve
avaliar o desempenho dos governantes na segurança pública. Trata-se de
E c a N C M IA o a C R I M E 1 59
substituir o critério de avaliação das variáveis volume de investimentos e
número de policiais e veículos, além de outros indicadores chamados de
operacionais, por critérios e indicadores que retracem o comportamento
das taxas de crimes. É claro que a decisão de um dirigente público de am
pliar os gastos em segurança pode revelar, de algum modo, algum grau de
prioridade no contexto das políticas governamentais. No encanto, mais im
portante do que os volumes financeiros ou físicos é saber se os recursos
correntes ou adicionais produzem melhores resultados canto em quantida
de como em qualidade, no caso, menos crimes e melhorias na prestação
dos serviços.
As diretrizes sugeridas cenamence não são as únicas possíveis ou necessá
rias para reduzir a criminalidade no Brasil, mas calvez sejam um bom ponto de
partida. Se tivermos um programa básico, como o que acabamos de resenhar, e
soubermos aplicá-lo com seriedade, sobretudo com continuidade, os resulta
dos com certeza serão positivos.
1 60 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A
N aTAS
INTRODUÇÃO
Vários aspectos dessas teorias serão referidas ao longo deste livro. Uma exposição mais
ampla e detalhada da teoria das oportunidades pode ser encontrada nas seguintes
obras: "Crime and Everyday Life", de Marcus Felson; " The Routine Activity Aproach",
também de Marcus Felson, publicada em Explaining Criminais and Crime; a teoria da
Escolha Racional é apresentada nos textos "Situational Crime Prevention", de Ronald
Clarke e "Modeling Offenders Decisions: A Framework for Research and Policy", de
Ronald Clarke e Derek B. Cornish, publicado em Crime and justice: An Annual Re
view of Research, organizado por Michael Tonry e Norval Morris; finalmente, uma
boa apresentação da teoria da dissuasão pode ser encontrada em "Reconceptualizing
Decerrence: An Empirical Tese of Personal and Vicarious Experiences", de Raymond
Paternos ter e Alex Piquero, publicado no journal of Research in Crime and Delinquency
31; no texto "An Reconceptualization of General and Specific Deterrence", de Mark
Stafford e Mark Warr, publicado em Criminological Theory - Past to Present e, tam
bém, nos vários escudos de Steven Levite. Ver bibliografia.
2 A abordagem teórica conhecida como life course (curso da vida) envolve uma aborda
gem multidisciplinar. Contém elementos da história, biologia, psicologia e sociologia.
De acordo com Elder, essa perspectiva não é uma teoria explícita, mas uma nova
forma de pensar sobre o escudo da vida humana e seu desenvolvimento. Ela parte de
quatro premissas fundamentais: a primeira delas é que o crescimento e as mudanças
no desenvolvimento da pessoa devem ser vistos como um processo contínuo que ocorre
durante toda a vida. Isso implica levar em conta que a pessoa muda durante toda a sua
existência e não apenas na infância ou na adolescência, mudanças que ocorrem nas
dimensões biológica, psicológica e social. A segunda premissa é que na trajetória da
pessoa as diferentes dimensões - a b iológica, a psicológica e a social - estão
interconectadas, uma influenciando a outra. A terceira premissa é que o desenvolvi
mento humano é influenciado pelas condições sociais e históricas. Tais influências
referem-se a experiências pessoais no âmbito da família, da escola, no relacionamento
com amigos, no trabalho ou eventos que ocorrem com pessoas próximas, como tam
bém macroeventos, como mudanças sociais e econômicas que acabam se refletindo na
trajetória de vida dos indivíduos. Um exemplo dessas mudanças é a tendência de o
E c a N C M IA oa C R I M E 1 6 1
mercado de trabalho exigir cada vez mais educação e habilidades técnicas, e de desva
lorizar o trabalho manual, atingindo os jovens com baixa escolaridade e sem conheci
mentos técnicos. A alternativa é estudar mais ou procurar empregos menos bem re
munerados. Surge, assim, um gap entre a idade em que os jovens estão fisicamente
maduros e a idade em que eles se tornam socialmente maduros. Esse fenômenofoi
chamado de gap maturity e é citado como um importante fator responsável pelo cres
cimento dos crimes praticados por jovens. A premissa final decorre das demais e con
siste em que os esforços para otimizar o desenvolvimento humano, através de inter
venções corretivas e preventivas, deve levar em conta períodos e idades específicas ao
longo de toda a vida das pessoas e não apenas a infância ou a adolescência. Michael
Benson lembra pesquisas que mostram que a criação de oportunidades de emprego
reduza a incidência entre criminosos velhos mas tem pouco efeito sobre os criminosos
jovens. No livro Crime in the Making, com o amparo de vasta comprovação empírica,
Robert Sampson e John Laub ( 1 995) defendem três teses: a de que os contextos estru
turais, mediados pelo controle informal exercido pela família e pela escola, explicam a
delinqüência na infância e adolescência; que existe continuidade do comportamento
anti-social da infância para a idade adulta em várias formas; e que o controle informal
na idade adulta exercido pela família e pelo emprego explica mudanças no comporta
mento criminal, a despeito da propensão adquirida na infância ou na adolescência.
3 A teoria da desorganização social surgiu a partir das pesquisas elaboradas por Clifford
Shaw e Henry Mckay nos subúrbios de Chicago e que resultaram no livro "juvenile
Delinquency and Urban Áreas", publicado originalmente em 1 942. A proposição bási
ca dessa teoria é que o crime não pode ser entendido a partir das características dos
indivíduos, mas através do estudo das características do meio onde vivem. Controlan
do as características dos indivíduos, eles concluíram que as taxas de crimes eram mais
altas nas comunidades mais desorganizadas, entendendo-se, como tal, zonas de po
breza persistente, crescimento populacional mais rápido, composição heterogênea e
famílias desestruturadas. Em tais condições, o controle social informal desaparece ou
se manifesta de forma tênue, abrindo espaço para o crime. O crime não é conseqüên
cia direta da pobreza, mas o resultado do enfraquecimento dos valores e dos laços
sociais, portanto do controle informal da comunidade sobre seus membros. A teoria
da desorganização social propõe, assim, um deslocamento do foco da análise das ca
racterísticas dos indivíduos (agressores) para as características do ambiente social e
suas conseqüências sobre os mecanismos de controle informal.
PARTE 1
Dados constantes em A Violência sem Retoque, p. 1 1 8 e 1 1 9. (Teixeira, 2002)
· 2 Ver Mapa da Violência IV, Unesco, Instituto Ayrton Senna e Secretaria Especial de
Direitos Humanos.
3 O estudo foi realizado pelos economistas Luiz Tadeu Viapiana e Julio Brunet, dispo
nível no site www.scp.rs.gov.br.
4 Os últimos dados disponíveis referem-se ao ano de 2004. Segundo esses indica
dores, Pernambuco passa a ter a maior taxa de homicídios do país (49,4 por 100
1 6 2 L u i z TAD E U V I A P I A N A
mil habitantes), seguido pelo Espírito Santo (48,3) , Rio de Janeiro (47,2) e Ala
goas (34,8). Os Estados com as menores taxas são Santa Catarina e Piauí ( 1 0,9),
Rio Grande do Norte ( 1 1 ,6) , Maranhão ( 1 2 , l ) e Bahia ( 1 6,5 ) . O destaque é a
queda observada em São Paulo, de 32% entre 200 l e 2004, a maior entre todos
os Estados que reduziram suas taxas. Por outro lado, merece registro o aumento
das taxas de homicídios observado em Minas Gerais (74%) , no Pará (47%) e na
Paraíba (37%) . Para o país como um todo, houve uma pequena oscilação negativa
(-4%) entre 200 1 e 2004, insuficiente para fazer com que a taxa para o Brasil
como um todo mude de patamar.
5 Ver Conglomerados de homicldios e o tráfico de drogas em Belo Horizonte, Minas Gerais,
Brasil, de 1995 a 1999, de Cláudio Beato e colegas, publicada no Cadernos de Saúde
Pública, 200 1 .
6 Ver Detecção de aglomerados espaciais de óbitos por causas violentas em Porto Alegre, Rio
Grande do Sul, Brasil, de Simone M. Santos e colegas, publicado em Cadernos de
Saúde Pública, 200 1 .
Os dados e a citação estão em Crime & Human Nature, p . 1 26 e ss.
8 Idem.
9 Ver Crime Drop in America, Blumenstein e Wallman (2000).
10 Idem.
Pesquisa de Vitimização 2002 e Avaliação do PIASP, Ilanud, FIA-USP, e Gabinete
de Segu.rança Institucional da Presidência da República, captado na Internet em
1 0/ 1 2/03 .
1 2 Segurança, Cadernos do Fórum São Paulo Século XXI, Governo do Estado, SEADE e
Assembléia Legislativa, s/d, captado na Internet em 201 1 2/04.
13 Os dados para o Rio de Janeiro e para a cidade de Porto Alegre são das Secretarias de
Segurança Pública dos respectivos Estados. Os dados para o Rio de Janeiro são esta
duais, mas servem como uma aproximação da evolução da criminalidade na cidade.
PARTE li
A opinião está em Crime and Human Nature, 1 998.
2 A opinião é de Terrie Moffit, em Adolescence-Limited and Life-Course-Pmistent Anti
social Behavior: A Developmental Taxonomy, citada por Dryden e Witt (2000).
3 A curva de oferta de crimes teria a seguinte configuração:
Quantidade de crimes
E c c N C M IA o c C R I M E 1 6 3
4 A curva de oferta de crime considerando-se os criminosos como um grupo fica assim:
Quantidade de cri
5 Supondo que PI seja constante e que O seja a nossa curva de oferta de crimes, a quantida
de de crimes é dada por Q 1 . Se O' for nossa nova curva de oferta, a quantidade de crimes
será Q2. Como Q2 é menor que Q 1 , essa curva (O') é claramente melhor para a sociedade
do que a anterior (0). Fonte: Hellman e AI per, Economics of Crime, 1 996, p. 55 e ss.
02 01
Quantidade de cri
6 A ONU considera a evolução dos indicadores de apreensões como sendo compatíveis
com os dados disponíveis sobre a ev9lução da produção e do consumo. Por isso, du
rante muitos anos, os dados de apreensão foram considerados um "bom indicador"
das mudanças dos padrões da produção e do tráfico das drogas ilícitas e como um
indicador indireto da extensão e da evolução dos problema das drogas como um todo.
Ver World Drug Report, 2004, ONU, p. 36.
The Economics o/Crime and Drugs, de Chris Doyle e Jennifer C. Smith, University of
Warwick, 2002, p. 3.
8 Ver Crime in United States, capítulo 1 2, p. 483.
9 Alcohol and Other Drugs, Center for Substance Abuse Prevention. Captado na Inter
net em 20/ 1 0/04.
10 Os dados estão em A história familiar e a prevalência de dependência de álcool e tabaco
em área metropolitana na região Sul do Brasil, publicado na Revista de Psiquiatria Cli
nica e disponível na Internet em: www hcnet usp br/ipq/reyjsra/r263/arrigo(84) hrm,
de Sandra. O. Vargas Nunes e outros.
SPDemográfico, Resenha de Estatísticas Vitais do Estado de São Paulo, maio de 2004.
12 ver Saude em Movimento, disponível em: www sa11deemmoyjmento com br, captado
em 1 0/8/05.
1 64 Luiz TAD E U V I A P I A N A
13 Ver And Economic Analysis of Alcohol, Drugs and Violent Crime in The National Crime
Victimization Survey, em www nber org Os estudos são de Pernanen, 1 98 1 e Fagan,
1 993. As referências completas estão na bibliografia.
1 4 Substance Abuse and Treatment State and Federal Prisoners, 1 997.
1 5 Profile ofjail lnmates, 1 996, NCJ 1 64620, April 1 998.
1 6 Prior Abuse Reported by lnmates and Probationers, N CJ, 1 72879, April 1 999.
Os dados estão em Fact Sheet: Drug-Related Crime, Drugs & Crime Data, September,
1 994, NCJ, p. 2.
1 8 Fatal non-trajfic injuries involving alcohol· A meta-nalysis, de G.S. Smith, C.C. Branas
e T.R. Miller, citado pelo Center for Substance Abuse Prevention.
19 Os dados estão em Alcohol and Crime, and Analysis of National Data on the Preva
lence of Alcohol lnvolvemente in Crime, Washington, DC: U.S . Departament of
Justice, 1 998, e em Alcohol and violence: Facts in Brief da Trauma Fundation,
WWW tforg
2º Organização Mundial da Saúde, OMS.
2 1 Prevalence of drug use: key fobdings from the 200112001, British Crime Survey, Home
Office, 2002.
22 Dados em juveniles and Drug.r, Drug Policy lnformationClearinghouse, junho de 2003.
23 Um dos reflexos do crescente envolvimento de jovens com drogas e crimes é o cresci
mento das Cortes Juvenis no país. Em 2003 existiam 388 Cortes Juvenis no país, das
quais 1 78 haviam sido criadas nos dois últimos anos.
24 Os dados estão em Drugs and crime: the results of research on drug testing and inter
viewing arrestees, de Trevor Bennet, publicado pelo Home Office, Londres.
25 Ver Crime in the ivory tower: the levei and sources ofstudents victimization, de Bonnie S.
Fisher (Universidade de Cincinnati), John J. Sloan (Universidade do Alabarna-Bir
mingham}, Francis T. Cullen (Universidade de Cincinnati) Chunmeng Lu (Universi
dade de Chung-Hua, Taiwan}, publicado em Criminology, 36, e citado por Mac
Coun, Kilmer e Reuter (s/d).
26 Também citado por MacCoun Kilmer e Reuter s/d.
27 Também citado por MacCoun Kilmer e Reuter s/d.
28 Ver An Economic Analysis of Alcohol, Drugs, and Violent Crime in the National Crime
Victimization Survey. publicado pela N BER, 2000.
29 O estudo de Cook e Zarkin é Crime and the Business Cycle, de 1 985, citado por Steven
Raphael e Rudolf-Ebmer em Identifying the Ejfect of Unemployment on Crime, capta
do na internet em 1 2/3/05.
30 O estudo de Richard Freeman é Crime and the job Market, publicado em 1 994, dis
ponível no site www nher org .
Ver Unemployment and Criminal lnvolvement: An lnvestigation of Reciprocai Causal
Structures, 1 984.
32 Os dados são do excelente livro A Ignorância Custa um Mundo, de Gustavo loschpe,
2004.
33 Crime Rates and Local Labor Market Opportunities in the Unites States: 1 979- 1 997,
em The Rewiew of Economics and Statistics, Frebuary 2002, p. 50
34 Idem loschpe, 2004.
E c c N C M I A o c C R I M E 1 6 5
35 Ver Padrões de Criminalidade no Rio Grande do Sul - 1997-2003, de Luiz Tadeu Via
piana e Julio Brunet, publicado no site www scp rs gov br.
36 As taxas de homicídio estão diminuindo na cidade de São Paulo, acompanhando um
movimento de queda que ocorre em quase todas as Capitais. Nos 50 distritos administra
tivos da cidade, em 2002, a diminuição foi de 1 0% em relação ao ano anterior. Nas
regiões onde foram desenvolvidos programas sociais e de complementação de renda, a
queda foi maior, de 1 4%. No Jardim Ângela, especificamente, a taxa de homicídios
caiu de 1 1 O para 89 por 1 00 mil habitantes. Nessa região, além dos programas sociais,
foram adotadas novas estratégias de policiamento, com reforço do efetivo e policia
mento comunitário.
PARTE Ili
A referência não é causal, ou seja, os indivíduos não são delinqüentes por terem determi
nados traços físicos, mas correlacionai, isto é, existe maior presença de delinqüentes entre
homens com determinados traços físicos. Além disso, é importante lembrar que Lombro
so afirmava que apenas 40% das condutas criminosas seria explicada pelos traços físicos
dos indivíduos, sendo o restante, 60%, conseqüência do ambiente social. Dada a enorme
rejeição às teorias lombrosianas, muitas vezes esse aspecto é ignorado.
2 Grosso modo, podemos dividir as explicações da criminologia para o crime em duas
grandes vertentes: a que explica o delito pelo viés social e a que explica o delito pelo
perfil do indivíduo e sua decisão. O que as diferencia é o peso atribuído à variável
ambiente.
3 O modelo econômico do crime é debatido na Parte I I .
4 A palavra anomia tem origem no grego anomos, com a significando ausência ou ine
xistência e nomos falta de normas ou lei.
5 Ver Merton e o Funcionalismo, de Ana Luiza Almeida Ferro, cap. 3.
6 A teoria de Shaw e McKay é apresentada em juvenile Delinquency and Urban Areas,
Chicago: University Press, 1 942, e em uma edição revista desse mesmo livro publica
da em 1 969.
7 Ver Criminological Theories, p. 1 68 e 1 69.
8 Publicado em Criminilogical Theory - Past to Present, p. 208 e ss.
9 A citação está em "An Overview of General Strain Theory", em Explaining Criminais
and Crime, p. 1 64.
1 0 Ver "Social Learning Theory of Crime", em Criminological Theory - Past to Present, p.
142 e ss.
Ver Tdbula Rasa, de Steve Pinker, capítulo 7.
1 2 Freud escreveu: "O que [as pessoas] pedem da vida e o que desejam realizar? A respos
ta mal pode colocar dúvidas. Esforçam-se por alcançar felicidade; querem ser felizes e
assim permanecer. Essa empresa apresenta dois aspectos: uma meta positiva e uma
negativa. Por um lado, visa à ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, à
experiência de intensos sentimentos de prazer". A citação está em O que nos Faz Feli
zes, de Daniel Gilbert, p. 30, São Paulo: Editora Campus, 2006.
1 6 6 L u i z TAD E U V I A P I A N A
PARTE IV
Além disso, a noção de que a Justiça efetivamente funciona contribuiria para aumen
tar a percepção acerca da certeza da punição, inibindo a opção pelo crime.
2 Conforme demonstra Steven Levite no paper Why Do lncresead A"est Rates Appear to
Reduce Crime: Dete"ence, Incapacitation or Measurement E"or e Naci Mocan e Daniel
Rees em Economic Conditions, Dete"ence juvenile Crime.
A proposição 8 é uma espécie de projeto de lei que abrange crimes repetidos de homi
cídio, roubo, assaltos com armas, furtos a residências e estupros. Foi aprovado em
plebiscito realizado em 1 982.
4 O estudo é Using Sentence Enhancements to Distinguish between Dete"ence and lnca
pacitation, publicado no journal of Law and Economics, em 1 999 (42).
5 O estudo é The economics of crime dete"ence: a survey of theory and evidence, Kyklos,
41 :2, p. 30 1 -23.
6 Specification Problems, Police Leveis, and Crimes Rates, Criminology, November, 34, p.
609-46.
A time-series anafysis of crime, dete"ence, and drug abuse in New York City. American
Economic Review, ]une, 90, p. 584.604.
8 Ver Crack and Homicide in New York City: A Case Study in the Epidemiology ofViolence, em
Crack in America: Demon Drugr and Social justice. Craig Reinarman e Harry Levine, eds.
Berkeley, California: University of California Press, p. 1 1 3-30, citado por Levitt.
9 Ver Kleck, Gary, Armed Resistance to Crime: The Prevalence and Nature ofSelf Defen
se with a Gun, journal os Criminal Law and Criminology, vol. 86, issue 1 , 1 995. Para
uma visão crítica, ver Hemenway, David, em Survey Research and Selfdefense Gun
Use: An Explanation of Extreme Overestimates, journal os Criminal Law and Crimino
logy, 87, 1 997.
10 Um resumo crítico da literatura sobre o uso defensivo de armas de fogo encontra-se
em Firearms and Violence: A Crítica/ Review, capítulo 5, The Nacional Academies
Press, Washington, 2004.
Ver Kellermann et ai . , Arthur; Gun Ownership as a Risk Factor for Homicide in the
Home, 329, New Eng. f Med, 1 084, 1 087, 1 993.
12 Os dados estão em Exclusão Socioeconômica e Violência Urbana, de Sérgio Adorno,
2002.
1 3 Idem.
l4 jornal do Brasil, 1 2/02/2003.
1 5 Bayley ( 1 994) .
1 6 Kelling e Coles ( 1 997) .
A expressão tradicional é usada para designar o modelo de organização e atuação
policial vigente na maior parte dos países no século XX, com estruturas centralizadas
e hierarquizadas, cuja atuação segue a dualidade básica de policiamento ostensivo,
aleatório ou dirigido, e de investigação judiciária. Conforme demonstram vários estu
dos, a polícia vem incorporando novas metodologias de planejamento e novas táticas
de ação, mas sem modificar substancialmente sua estrutura. É o caso, por exemplo, do
policiamento comunitário e de programas de policiamento orientado por problemas,
E c a N C M I A oa C R I M E 1 67
bastante comuns nos Estados Unidos. Um dos pontos centrais do debate sobre tais
experiências é até que ponto a adoção dessas mudanças será compatível com a manu
tenção de uma estrutura fortemente centralizada e hierarquizada. Em países como o
Brasil, onde inexistem polícias municipais, esse dilema é maior ainda. Nas poucas
experiências de policiamento comunitário que tivemos, como a realizada em Belo
Horizonte, por exemplo, uma das dificuldades enfrentadas foi justamente a resistência dos oficiais da Polícia Militar responsáveis pelos comandos regionais em transferir
poder para as unidades comunitárias.
1 8 jornal da Tarde, 2 1 10312002.
1 9 Ver Fixing Broken Windows, de Kelling e Coles ( 1 997).
20 As disputas, na realidade, referem-se a questões acessórias, como a competência da
Polícia Militar de lavrar Termos Circunstanciados, uma espécie de Boletim de Ocor
rência para crimes menos graves, que enfrente a oposição da Polícia Civil, a quem
cabe fazer as ocorrências policiais. No fundo, penso que existe um forte componente
político nessas disputas envolvendo uma luta por acumulação de poder de influência
junto aos governantes tendo em vista a disputa por recursos e salários.
2 1 Ver art. 1 44 da Constituição Federal.
22 Um resumo de estudos feitos em vários países está em "Dos efeitos da quantidade
de policiais sobre as taxas de criminalidade", em Velha Nova Polícia, de Túlio
Khan, p. 41 e ss.
1 68 L u i z TAD E U V I A P I A N A
B I B LI D GRAFIA
Adorno, Sergio. "Exclusão socioeconômica e violência urbanà', Porto Alegre: Sociologi
as, ano 4, n.0 8, jul/dez-2002, p. 84- 1 35 .
Allen, Ralph A. "Socioeconomic Conditions and Property Crime: A Comprehensive
Review and Test of the Professional Literature", Gale Group, 2004. Captado na In
ternet em 1 2/ 1 2/04.
Aust, Rebbecca; Sharp, Clare e Goulden, Chris. "Prevalence of drug use: findings
from the 200 1 /2002", British Crime Survey, Findings 1 82 , Home Office, London :
2002.
Barros, Ricardo P. de; Carvalho, Mirela de. "Desafios para a política social brasileira", in
Reformas no Brasil: Balanço e Agenda, org. Fábio Giambiagi, José Guilherme Reis e
André Urani, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.
Bar-Gill, Oren e Alon Harel. "Crime Rates and Expected Sanctions: The Economics of
Deterrence Revisited", journal of Legal Studies, vol. XXX, 200 1 . Captado na Internet
em 0 1 /0 1 /2005.
Beato, Cláudio; Assunção, Renato M.; Alves da Silva, Bráulio F ; Marinho, Frederico C.;
Reis, Ilka A.; Almeida, Maria Cristina de Manos. "Conglomerados de homicídios e o
tráfico de drogas em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, de 1 995 a 1 999", Rio de
Janeiro: Cadernos de Saúde Pública, 200 1 .
Beato, Cláudio. "Determinantes da Criminalidade em Minas Gerais", Revista Brasileira
de Ciências Sociais, vol. 13 , 1 998.
Beato, Cláudio; Reis, Ilka A. "Desigualdade, Desenvolvimento e Criminalidade", UFMG.
Captado na Internet em 1 0/712002.
Beato, Cláudio, in "Fontes de Dados Policiais em Estudos Criminológicos: Limites e Poten
ciais", Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, Departamento de Socio
logia e Antropologia da Universidade Federal de Minais Gerais, UFMG, s/d.
Becker, Gary. "Crime and Punishment: An Economic Aproach", journal of Política! Eco
nomy, v. 76, p. 1 69-2 17 , 1 968.
_____ . "lt's Time do Give Up the War on Drugs", Business Wéek, New York:
September 12 , 200 1 .
Becker, Gavin de. Virtudes do Medo, Rio d e Janeiro: Rocco, 1 999.
Benson, Michael L. Crime and the Life Course, Los Angeles: Roxbury Publishing, 2002.
E C O N O M IA DO C R I M E 1 6 9
Blumstein, Alfred; Wallman, Joel. The Crime Drop in America, orgs. New York: Cam
bridge University Press, 2000.
Boudon, Raymond. Tratado de Sociologia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1 995.
Brown, Lee P. "Community policing: A Praticai Guide for Police Officials", National
Imtitute of justice, U.S. Department of Justice: Washington, 1 989.
Buonanno, Paolo. "Crime Education and Peer Pressure", Università degli Studi di Mila
no-Bicocca, captado na Internet em 1 2/ 1 2/04 .
. " The Socioeconomic Determinants of Crime. A Review of the Li
terature", Università degli Studi di Milano-Bicocca, captado na Internet em 1 2/
1 2/04.
Cameron, S. "The economics of crime deterrence: a survey of theory and evidence'',
Kyklos, n. 4 1 , 1 988 .
Carlini, Elisaldo. "Legalizar drogas não, descriminalizar sim'', em Ciência Hoje, v. 31 , n.º
1 8 1 , 2002.
Carneiro, Leandro Piquet (coord.). "Pesquisa de Vitimização - Região Metropolitana de
São Paulo" Captado no site do World Bank em 20/6/2002.
Center for Substance Abuse Prevention, Alcohol and Other Drugs, Rockville, EUA. s/d.
Cerqueira, Daniel e Lobão, Waldir. Criminalidade: Social versus Polícia, Rio de Janeiro:
IPEA, 2003.
Cerqueira, Daniel e Lobão, Waldir. "Planejamento Estratégico da Segurança Pública", in
Conjuntura Econômica, FGV, março de 2003.
Chaloupka, Frank e Saffer, Henry. "Alcohol, Ilegal Drugs, Public Policy and Crime",
citado em Markowitz (2000).
Chiricos, Theodore. "Rates Crimes and Unemployment: An Analysis of Aggregate Re
search Evidence", Social Problems, v. 34, n. 2.
Cote, Suzete (org.). Criminological Theories, Thousand Oakes: Sage, 2002.
Cotler, L. B., Compton, W.M. , Mager D.; Spitznagel, E.; e Janca A,. "Pose Traumatic
Stress Disorder Arnong Substance Users from che General Population", American jour
nal of Phychiatry, 1 49, citado em Research on Drugs-Crime Lonkages: The Next Genera
tion (MacCoun, Kilmer e Reuter, s/d).
Cook, Philip J, e Moore, Michael J . "Economic Perspectives on Reducing alcohol-Rela
ted Violence", in Alcohol and !nterpersonal Violence: Fostering Multidisciplinary Pers
pectives, Nacional lnstitute on alcohol Abuse and Alcoholism Research Monograph
24, NIH \publication n.0 93, US Government Printing Office, 1 993.
Cork, Daniel. "Examining Space-Time lnteraction in City Levei Homicide Data: Crack
Markets and the Diffusion of Guns Among Youth", journal of Quantitative Crimino
logy, 1 5 :4, p. 379-406.
Cullen, Francis T., Agnew, Robert. Criminological Theory - Past to Present, Los Angeles:
Roxbury, 2003.
Cusson, Maurice. Situational Deterrence: Fear During the Criminal Event, University of
Montreal, Canada, s/d.
Dahrendorf, Ralf. A Lei e a Ordem, Rio de Janeiro: IL, 1 997.
Department of Justice - United States of America. "Armed and Considered Dangerous:
A survey of Felons and Their Firearms", captado na Internet em 1 0/8/2002.
1 70 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Doyle, Chris e Smith, Jennifer C. The Economics o/Crime and Drugs, University ofWar
wick, 2002.
Fagan, Jeffrey. "lnteractions Among Drugs, Alcohol and Violence", Health Affairs, 1 2:4,
citado em Markowitz (2000).
Felson, Marcus & Ronald V. Clarke. "Opportunity makes the thief - Practical theory for
crime prevention", Inglaterra: Home Office, 1 998.
Fisher, B. , Sloan, ]., e Chunmeng, L. "Crime in the ivory tower: the levei and sources of
student victimization", Criminology, 36, citado em MacCoun, Kilmer e Reuter (s/d).
Fougere, Denis; Kramarz, Francis; Pouget, Julien. "Crime and Unemployment in Fran
ce", captado na Internet em 20/1 2/04.
Freeman, Richard. Crime and the job Market, Cambridge, N BER, 1 994.
------- · Why Do So Many Young Americam Men Commit Crimes and What
Might Wé Do About /t?, Cambridge: NBER, 1 996.
Gilbert, Daniel. O que nos Faz Felizes, São Paulo: Campus, 2006.
Glaeser, Edward L. An Overview of Crime and Punishment, Harvard Universiry, 1 999.
Giuliani, Rudolph. O Líder, Editora Campus, 2002.
Goldstein, Paul. "The Drugs/Violence Nexus: A Tripartite Conceptual Framework", in
journal ofDrug Issues, 1 5 , 1 985.
Goldstein, Paul; Henry Brownstein, Patrick Ryan e Patrícia Bellucci. "Crack and Homi
cide em New York City: A Case Study in the Epidemiology of Violence'', in Crack in
America: Demon Drugs and Social justice, Craig Reinarman e Harry Levine, eds;, Berke
ley: University of California Press, 1 997.
Goufredson, Michael R., Hirschi, Travis. A General Theory of Crime, Stanford: Stanford
University Press, 1 998.
Gould, Eric D. Weinberg, Bruce A. e Mustard, David B. "Crime Rates and Local Labor
Market Opportunities in the United States: 1 979- 1 997" The Review of Economics
and Statistics, February, 2002, 84( 1 ) : 45-6 1 . Captado na Internet em 1 6/ 1 2/04.
Gremaud, Amaury; Vasconcellos, Marco Antonio; Júnior, Rudinei Toneto.Economia
Brasileira Contemporânea, São Paulo: Editora Adas, 2002.
Grogger, Jeff e Michael Willis. "The emergence of Crack cocaine and The Rise in Urban
Crime Rates", Review of Economics and Statistics, November, 82, p. 5 1 9-29.
Hellman, Daryl A. e Alper, Neil O. Economics of Crime - Theory and Practice, Simon and
Schuster, 1 997.
Hemenway, David. "Survey Research and Self-Defense Gun Use: An Explanation of
Extreme Overstimates", journal of Criminal Law and Criminology, 87, 1 997.
Hirschi, Travis. Causes of Delinquency, New Brunswick: Transaction: 200 1 .
lmrohoroglu, Ayse; Merlo, Antonio; e Rupert, Peter. "Whats Accounts fo r Decline in
Crime", University of Pennsylvania, Department of Economics, Working Paper n. O 1 -
1 5 , captado n a Internet e m 1 5/3/2005 .
lnciardi, J . A. "The crack-violence connection within a population of hard core adoles
cente offenders", in Drugs and Violence: Causes, correlates, and consequences, Depart
ment of Health and Human Services, Nacional lnstitute on Drug Abuse, 1 990.
Ioschpe, Gustavo; A Ignorância Custa um Mundo, São Paulo: Francis, 2004.
Kahn, Túlio. Velha e Nova Polícia, São Paulo: Sicurezza, 2002.
E c a N C M I A a a C R I M E 1 7 1
Kates, Don; Shaffer, Henry E.; Lattimer, John K.; Murray, George B. ; Cassem, Edwin H.
"Guns and Public Health: epidemie of violence or pandemic of propaganda?", capta
do na Internet em 1 0/ 1 2/02.
Kelling, George, Wilson, James. "Broken Windows - The Políce and Neighborhood Sa
fety", Atlantic on line, 1 982.
Kelling, Geroge e Coles, Catherine. Fixing Broken Windows, New York: Simon & Schus
ter, 1 997.
Kelling, George & Sousa Jr, Williamm H . "Do Police Matter? An analysis of the Impact
ofNew York City Police Reforms", Center for Civic lnnovation, 200 1 .
Kessler, Daniel e Levitt, Steven D . "Using sentence enhancements r o distinguish
between deterrence and incapacitation", Working Paper 6448 , N BER, Cambrid
ge, march, 1 998 .
Killias, Martins. "Guns ownership, suicide and homicide: an internacional perspective",
Understanding Crime and Experiences o/Crime and Crime Control, dei Fate, A., Vein,
U. e Van Disk, J.J.M (Ends). UNICRI nº 49.
Kleck, Gary, "Armed Resistance to Crime: The Prevalence and Nature of Self-Defense
with a Gun", journal o/Criminal Law and Criminology, vol. 86, issue l , 1 995.
Kopel, David B. Trust the People: The Case Agaimt Gun Control, Cato Institute Policy
Analysis, n. 1 09, 1 988.
Levitt, Steven D . "Juvenile Crime and Punishment", The journal of Political Economy,
volume 1 06, Issue 6, 1 1 56- 1 1 85 . Chicago: 1 998.
------- · "Understanding Why Crime Fell in the 1 990s: Four Factors that
Explain the Decline and six that Do Not", Journal of Economic Perspectives, volume
1 8, n. 1 , Winter 2004, p. 1 63-1 90.
______ . "The Economics ofCrime and the Criminal Justice System", www.nber.org,
captado na Internet em 10/ 1 2/04.
Lisboa, Marcos de Barros e Menezes-Filho, Naércio (org.). Microeconomia e Sociedade no
Brasil, Rio de Janeiro: ContraCapa e FGV, 200 1 .
Lochner, Lance. Individual Perceptiom of the Criminal Justice System, Cambridge, N BER,
2003.
Lochner, Lance. Education, Work, and Crime: Theory and Evidence, Cambridge, NBER,
1 999.
Lochner, Lance; Moretti, Enrico. The Ejfect of Education on Crime: Evidence From Prison
lnmates, Arrests, And SelfReports, Cambridge, NBER, 200 1 .
Lote, John. Mais armas menos crimes?, São Paulo: Makron, 1 999.
MacCoun, Robert; Kilmer, Beau; Reuter, Peter. "Research on Drugs-Crime Linkages:
The Next Generation", in Toward a Drugs And Crime Research Agenda For The 21st
Century, NIJ , captado na Internet em 1 0/ 1 1 104.
MacElrath, K., Chitwood, D., e Comerford, M. "Crime Victimization Among lnjection Drug
Users'', in journal of Drug lssues, 27, citado em MacCoun, Kilmer e Reuter (s/d).
Machin, Stephen e Meghir, Costas; Crime and Economic Incentives, The lnstitute for
Fiscal Studies, september, 2000.
Maguice, Mike; Morgan, Rod e Reiner, Robert, eds. The Oxford Handbook of Criminolo
gy, New York: Oxford University Press, 1 977.
1 7 2 Luiz TAD E U V I A P I A N A
Malcolm, Joyce L. Guns and Vio/ence - The English Experience, Cambridge: Harvard
Universiry Press, 2002.
Mapa da Violência IV, UNESCO: 2004, responsabilidade de Julio Jacobo Waiselfisz.
Maricato, Ermfnia. Brasil, Cidades - Alternativas para a Crise Urbana, Petrópolis: Vozes,
200 1 .
Markowitz, Sara. A n Economic Analysis of Alcohol, Drugs, and Violent Crime in the Natio
nal Crime Victimization Survey, Cambridge: N BER, 2000.
Marshall, Jayme. Zero Tolerance Policing, Office ofCrime Statistics Government ofSouth
Ausrralia, 1 999.
Mastrofski, Stephen. "Policiamento Comunitário e Estrutura da Organização Policial",
in Como Reconhecer um Bom Policiamento, São Paulo: EDUSP, 2002.
Masumeci, Leonarda. As Múltiplas Faces da Violência no Brasil", s/d, captado na Inter
net em 20/4/2004.
Mauser, Gary A. "The Failed Experiment: Gun Control and Public Safery in Canada,
Ausrralia, England and Wales", Public Policy Sources, n. 7 1 , November 2003, The
Fraser lnstitute.
Melo, André Luis Alves de. "Dogmas e verdades sobre o caos jurídico no Brasil", jus
Navigandi, Teresina, a. 6, n. 58 , ago. 2002. Disponível em: wwwl .jus.com.br/doutri
na/texto.asp?id=3 l l l Captado na Internet em 1 8/08/04.
Mendes, Luiz Alberto. Memórias de um Sobrevivente, São Paulo: Companhia das Letras,
200 1 .
Mendras, Henri. O que é Sociologia?, São Paulo: Manole, 2004.
Miron, Jeffrey A. The Ejfect of Drug Prohibition on Drug Prices: Evidence from The Markets
for Cocaine and Heroin, Cambridge: NBER, 2003.
Miron, Jeffrey A. The Economics of drug prohibition and drug legalization", New School
for Social Research, 200 1 . Captado na Internet em 2 1 / 1 2/04.
Moura, Marcelo; Andrade, Eduardo. Macroeconomia, São Paulo: Publifolha/IBMEC,
2003.
Nunes, Sandra O. Vargas; Onishi, Luciana O.; Hashimoto, Silvia M.; Kikuchi, Rodrigo;
Toledo, Luis Gustavo M.; Koike, Alexsandro; do Carmo, David R.; Paolielo, Mônica
M. B.; Matsuo, Tiemi. A História Familiai e a Prevalência de Dependência de Álcool e
Tabaco em Área Metropolitana na Região Sul do Brasil, captado em www hcner 11sp hr
em 22/ 1 2/2004.
Oliver, Alison. "The Economics of Crime: An Analysis of Crime Rates in America", The
Park Place Economist, vol. X, captado na Internet em 1 0/ 1 2/04.
Papps, Kerry L.; Winkelmann, Rainer. Unemployment and Crime: New Evidence for an oi
Question, december 1 999, captado na Internet em 2 1 / 1 1 /04.
Pernanen, Kai. "Theoretical Aspects of the Relationship Between Alcohol Use and Cri
me", in Drinking and Crime: Perspectives on the Relationships between Alcohol Con
sumption and Criminal Behavior, editado por James J Collins Jr., New York: The
Guilford Press, 1 98 1 .
Paternoster, Raymond; Ronet, Bachman. Explaining Criminais and Crime, Los Angeles:
Roxbury, 200 1 .
Pinker, Steven. Tabula Rasa, São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
E c a N C M I A a a C R I M E 1 7 3
Raphael, Sceven e Winter-Ebmer, Rudolf. Identifying the E./Ject of Unemployment on Cri
me, captado na Internet em 1 01 1 2/04.
Relatório de Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro. Violência, Criminalidade e
Segurança, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Prefeitura da Cidade do Rio
de Janeiro e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, capeado na Inter
net em julho de 2002.
Rosenfeld, Richard. "Patterns in Adule Homicide: 1 980- 1 995 ", in The Crime Drop in
America, New York: Cambridge University Press, 2000.
Sah, R. "Social Osmosis and Patterns of Crime", journal of Política/ Economy, v. 99, p.
1 272-95, 1 99 1 .
Sampson, Robert e Laub, John. Crime in the Making, Cambridge MA: Harvard Univer
sity Press, 1 995.
Santos, Simone M.; Barcellos, Cristovam; Carvalho, Marilia S. ; Flôres, Rui. "Detecção
de aglomerados espaciais de óbitos por causas violentas em Porto Alegre, RioGrande
do Sul, Brasil, 1 996", Rio de Janeiro: Cadernos de Saúde Pública, 200 1 .
Saúde em movimento. "Jovens alcoolizados são a maioria dos mortos em acidentes de trânsito
em Porco Alegre", em wwwsaudeemmovimenro com br, capturado em 22. 1 2.2004.
Sapori, Luis Flávio e Batitucci, Eduardo Cerqueira. "Análise Descritiva da Incidência de
Homicídio na Região Metropolitana de Belo Horizonte - 1 980- 1 995 ", Centro de
Escudos Econômicos e Sociais - Fundação João Pinheiro, s/d. Captado na Internet
em novembro de 2002.
Secretaria da Justiça e Segurança Pública do Rio Grande do Sul, dados de criminalidade
captados na Internet em 1 0/712002.
Sell, Carlos Eduardo, Sociologia Cldssica, Edifurb, 2.ed.
Sento-Sé, João Trajano. "Adolescentes em Conflito com a Lei", Boletim Segurança e Cida
dania, 1 , abril de 2004, CESEC.
Shermann, Lawrence W. "Policing for Crime Prevencion", in Preventing Crime: What
Works, What Doesn't, Whaú promising, Nacional lnstitute of Justice. s/d.
Skogan, Wesley G., Harcnett, Susan M. Community Policing Chicago Style, New York:
Oxford University Press, 1 997.
Skolnick, Jerome H. e Bayley, David H . Policiamento Comunitdrio, São Paulo: Edusp,
2002.
SPDemográfico, "A dimensão oculta e a precocidade da morte masculina por doenças hepáti
cas", Resenha de F.statística.s Vitais do Estado de São Paulo, n. 5, maio de 2004.
Szwarcwald, Célia L.; Bastos, Francisco I.; Esteves, Maria Ângela P.; Tavares de Andrade,
Carla L.; Paez, Marina S.; Médici, Érika V.; Derrico, Mônica. "Desigualdade de Ren
da e situação de saúde: o caso do Rio de Janeiro", Rio de Janeiro: Cadernos de Saúde
Pública, 1 5 ( 1 ) : 1 5-28, jan-mar, 1 999.
Toledo, Roberto Pompeu. O Presidente Segundo o Sociólogo, entrevista com Fernando
Henrique Cardoso, São Paulo: Companhia das Letras, 1 998.
The Nacional Academies Press. Firearms and Violence: A Criticai Review, Washington:
DC. 2004.
Tim Read & Dick Oldfield. "Local Crime Analysis", in Crime Detection & Prevention
Series, Paper 65, Police Research Group, England.
1 74 L u i z TAD E U V I A P I A N A
Viapiana, Luiz T. e Brunet, Julio F. Padrões da Criminalidade no Rio Grande do Sul -
1997-2003. Disponível em www.scp. rs.gov.br.
Waiselfisz, Jacobo. Mapa da Violência Ili, UNESCO, captado na Internet em 20/ 1 1 1
2003.
Waiselfisz, Jacobo. Mapa da Violência IV, UNESCO, 2004.
Wilson, James Q.; Herrnstein, Richard J . Crime and Human Nature, New York: The Free
Press, 1 998.
Wilson, James Q. "Thinking about crime: the debate over deterrence" The Atlantic, v.
252, p. 72 ( 1 5) , 1 983.
Witte, Ann D. e Witt, Robert. "Crime Causation: Economic Theories", Encyclopedia of
Crime and justice, 200 1 .
Witte, Ann D e Tauchen, Helen, Work and Crime: A n Exploration using Panei Data,
Cambridge: NBER, 1 994.
World Drug Report. 2004, United Nations, captado na Internet em 1 0/3/05.
Wycoff, Mary Ann. Administração do Trabalho Policial: Questões e Análises, org. Jack R.
Greene, São Paulo: Edusp, 2002.
Zaluar, Alba. "A criminalização das drogas e o reencantamento do mal", em Drogas e
Cidadania, São Paulo: Brasiliense, 1 999.
__ . "Violência no Rio de Janeiro: estilos de lazer, de uso e de tráfico de drogas", julho
de 2002. Este artigo é parte de pesquisa entregue ao Ministério da Justiça do Brasil em
julho de 2002 e não publicado.
__ . "Violência: questão social ou institucional", in Insegurança Pública, org. Nilson
Vieira Oliveira, São Paulo: Nova Alexandria, 2002.
__ . Drogas: um Panorama no Brasil e no Mundo, s/d, captado na Internet em 20/04/
2004.
Zero Hora. "Tráfico: uma pessoa a cada dois dias na Capital", 20/5/2004.
Zimring, Franklin E. e Hawkins, Gordon. Crime Is not the Problem Lethal Violence in
America, New York: Oxford Universiry Press, 1 997.
E C O N O M I A. DO C R I M E 1 7 5
Capa [1]
Orelha [1]
Orelha [2]
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0001
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0002
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0003
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0004
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0005
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0006
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0007
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0008
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0009
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0010
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0011
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0012
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0013
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0014
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0015
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0016
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0017
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0018
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0019
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0020
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0021
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0022
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0023
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0024
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0025
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0026
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0027
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0028
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0029
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0030
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0031
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0032
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0033
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0034
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0035
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0036
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0037
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0038
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0039
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0040
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0041
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0042
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0043
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0044
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0045
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0046
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0047
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0048
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0049
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0050
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0051
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0052
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0053
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0054
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0055
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0056
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0057
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0058
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0059
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0060
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0061
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0062
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0063
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0064
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0065
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0066
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0067
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0068
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0069
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0070
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0071
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0072
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0073
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0074
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0075
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0076
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0077
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0078
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0079
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0080
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0081
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0082
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0083
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0084
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0085
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0086
Luiz Tadeu Viapiana- Economia do crime - 0087
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0088
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0089
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0090
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0091
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0092
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0093
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0094
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0095
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0096
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0097
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0098
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0099
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0100
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0101
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0102
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0103
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0104
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0105
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0106
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0107
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0108
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0109
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0110
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0111
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0112
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0113
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0114
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0115
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0116
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0117
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0118
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0119
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0120
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0121
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0122
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0123
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0124
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0125
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0126
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0127
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0128
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0129
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0130
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0131
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0132
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0133
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0134
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0135
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0136
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0137
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0138
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0139
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0140
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0141
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0142
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0143
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0144
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0145
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0146
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0147
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0148
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0149
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0150
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0151
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0152
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0153
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0154
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0155
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0156
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0157
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0158
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0159
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0160
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0161
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0162
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0163
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0164
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0165
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0166
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0167
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0168
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0169
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0170
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0171
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0172
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0173
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0174
Luiz Tadeu Viapiana - Economia do crime - 0175
Capa [2]