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ECONOMIA 
DO CRIME 
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ 
V672e Viapiana, Luiz Tadeu 
Economia do crime : uma explicação para a formação do cri­
minoso / Luiz Tadeu Viapiana. - Porco Alegre, RS : AGE, 2006. 
Apêndice 
Inclui bibliografia 
ISBN 85-7497-322-X 
1. Crime e criminosos - Aspeccos sociais - Brasil. 2. Crime e 
criminosos - Aspeccos sociais - Modelos economérricos. 3. Vio­
lência - Brasil. 4. S egurança pública - Aspeccos sociais - Brasil. 1. 
Tlrulo. 
06-3176. coo 364.981 
CDU 343.97(81) 
Luiz Tadeu Viapiana 
ECONOMIA 
DO CRIME 
UMA EXPLICAÇÃO PARA A 
FORMAÇÃO DO CRIMINOSO 
-
EDITORA 
PORTO ALEGRE 2006 
© Luiz Tadeu Viapiana, 2006 
Capa: 
EDUARDO CARDILLO 
Diagramação: 
LAURI HERMÓGENES CARDOSO 
Supervisão editorial: 
PAULO FLAVIO LEDUR 
Editoração eletrônica: 
AGE-ASSESSORIA GRAFICA E EDITORIAL LTDA. 
Reservados todos os direitos de publicação à 
EDITORA AGE LTDA. 
editoraage@editoraage.com.br 
Rua São Manoel, 1 787 - Bairro Rio Branco 
90620- 1 1 O - Porto Alegre, RS, Brasil 
Fone/Fax: (5 1 ) 3223-9385 - (5 1 ) 306 1 -9385 
vendas@editoraage.com.br 
www.editoraage.com.br 
Impresso no Brasil / Printed in Brazil 
AGRADECIMENTOS 
Em 1 997, a empresa da qual sou sócio foi convidada a cuidar da conta de comunicação social da Forjas Taurus, a maior fabricante de armas curtas 
da América Latina e terceira do mundo. Entre nossas tarefas, teríamos de 
elaborar e desenvolver a comunicação institucional da empresa, que, à época, 
já estava sendo convocada pela imprensa para participar do debate sobre a 
necessidade ou não de maior rigor no controle da comercialização e uso de 
armas por civis, debate que culminaria, em 2005 , num plebiscito nacional, 
vencido pela posição que defendia a venda de armas para civis. Como 
responsável pelo planejamento desse trabalho, me vi obrigado a estudar, 
com maior profundidade, o tema da conexão entre armas e crimes e, de 
uma forma mais ampla, o próprio fenômeno da criminalidade. 
Minha primeira constatação foi que, no Brasil, havia poucos estudos 
amplos e detalhados sobre o tema da criminalidade, quase todos realizados 
nos âmbitos da sociologia e da antropologia. Procurando superar essa 
limitação, ampliei o escopo da pesquisa para a literatura internacional, 
principalmente a norte-americana, e encontrei grande quantidade de estudos 
e pesquisas que exploram o tema sob os mais variados ângulos e perspectivas 
teóricas. 
Os Estados Unidos haviam enfrentado grande aumento em suas taxas 
de crimes nos anos de 1 960, o que motivou as instituições de pesquisas e 
universidades a enfrentarem o desafio de compreender as causas desse 
fenômeno e desenhar novas políticas sociais e estatais anticrime. O resultado 
desse esforço foi o extraordinário crescimento, tanto em qualidade como 
em quantidade, das pesquisas empíricas e teóricas sobre o tema da 
criminalidade urbana. Desde essa época, por mais de seis anos, li e reli uma 
centena de estudos, muitos deles concebidos com o suporte da Economia. 
Infelizmente, quase todos esses trabalhos aguardam tradução para o 
português. 
Em suma, depois de encará-lo como desafio profissional, acabei me 
tornando um estudioso do tema da criminalidade. Para suprir a carência 
entre nós de um trabalho de maior fôlego sobre a criminalidade na 
perspectiva teórica da economia é que decidi escrever este livro. 
Diversas pessoas e amigos me ajudaram na pesquisa que deu origem a 
este trabalho. Evito citá-las nominalmente para não cometer injustiças. 
Agradeço a todos, de coração, principalmente ao meu editor, Paulo Flávio 
Ledur, que dispensou especial atenção à revisão e à preparação dos originais. 
Gostaria por fim de externar minha gratidão à Simone, à Victória, à Bruna 
e ao João Victor, esposa e filhos, amores da minha vida, que sempre me 
apoiaram. 
LUIZ TADEU VIAPIANA 
s , U MARI C 
Introdução . . . . . . . . . . .... . . . ..... . . . ..... . . . . . . . .. . . . . . . . .... . . . . . . . . . . . . . . . . . ..... . . . . . . .. . . . . . ............. 9 
p ARTE 1 - CONTEXTO 
O crime violento 21 
Conglomerados de homicídios . . ......... ....... ... ............................................ 24 
Homicídio entre jovens 26 
Crime atinge metade da população 29 
O crime oculto 30 
PARTE II - A EcoNOMIA DO CRIME 
Um modelo de decisão 37 
Efeitos da punição ........................... ........ . . ...... . . ....... . . . . . ..... . . . . . . . . . . . . . . ...... . . 40 
Drogas, álcool e crimes ......................................... . ............... . . . . ...... . . . . ... . . . 44 
Trabalho, renda e crimes ...... .... . . ..... . . ..... . . .... . . . . .... . . . . ... . . ...... ...................... 60 
Educação: a chave ..... . . .. . .. . . . ....... . . ...... . . ........................ .......... ................ . . . 69 
Brasil: uma aproximação 71 
p ARTE III - TEORIA DO CONTROLE E DECISÃO DOS INDIVfDUOS 
Anomia, a visão clássica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 5 
Anomia em Robert Merton ..................................................... . . . . .... . . . . ..... 88 
A subcultura delinqüente . . ... . . . ...... . . . . . . . . . . .... . . . . . .... . . . ....... . . ................. . ....... 9 1 
Família, escola e comunidade: fontes de controle ................ . ................. . 102 
A teoria do autocontrole ...................... ............. . ............... . ..................... 104 
PARTE IV - D1ssuAsÃo E PoLfCIA 
Teoria da dissuasão .............................................................................. ... 120 
Punição e controle . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126 
Armas de fogo 131 
Polícia, um modelo em crise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 7 
Aspectos institucionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 
Gasto e eficiência ............... ......... ....... ........ ...... ...... . . ....... . ...... ................. 1 50 
Conclusão ............................................................................................ ... 1 55 
Notas ...................................................................................................... 161 
Bibliografia . . ... .. . . ....... . ....... ......... ............................... .................. ......... . . 169 
1 NTRO D U ÇÃD 
M e u propósito neste livro é apresentar e debater a teoria econômi­ca do crime. A abordagem econômica do crime é relativamente nova, 
tendo sido fortemente influenciada pelo estudo seminal de Gary Becker, 
Crime and Punishment: An Economic Aproach, de 1 968. Desde a contribui­
ção original dos estudos de Becker sobre a análise econômica do comporta­
mento humano, que lhe daria o Prêmio Nobel de Economia, em 1 992, 
inúmeros estudos e pesquisas produzidos por economistas em diversos paí­
ses resultaram na formação de um corpo teórico rico e diversificado, abri­
gado sob a expressão Teoria Econômica do Crime. 
No entanto, embora já importante, a contribuição teórica da Eco­
nomia ao estudo do crime ainda está longe de ser comparável à vasta 
produção gerada no campo da Criminologia, que, ao longo dos dois 
últimos séculos, incorporou conceitos e descobertas provenientes da 
Sociologia, da Psicologia e da Antropologia. Só muito recentemente, 
na década de 1 980, a noção de que os indivíduos fazem suas escolhas 
ponderando custos e benefícios foi utilizada por algumas escolas de pen­
samento da criminologia, a Teoria das Oportunidades, a Teoria da Dis­
suasão e a Teoria da Escolha Racional. 1 Éo que se pode constatar, por 
exemplo, no exame da classificação das escolas criminológicas proposta 
por Francis Cullen e Robert Agnew no livro Criminological Theory -
Past to Present. Desde a Escola Clássica criada por Cesare Secaria, no 
século XVIII , até a moderna abordagem multidisciplinar do Curso de 
Vida (Life Course) , desenvolvida por John Laub e Robert Sampson,2 a 
contribuição da economia aparece em apenas três delas. Nas demais 
predomina, principalmente, a abordagem sociológica. 
É claro que antes da publicação do texto de Gary Becker houve outros 
estudos que procuraram estabelecer algum tipo de correlação entre variá­
veis econômicas e índices de crimes. O The Oxford Handbook of Criminolo-
E c:: O N O M I A DO C R I M E 9 
gy cita escudo pioneiro de Michel Guerry e Adolphe Quecelec, publicado 
em 1 835 , contendo uma espécie de mapa estatístico da França, no qual as 
taxas de crimes eram relacionadas com a posição geográfica, o clima, níveis 
de educação, ocupação e emprego. Os autores chegaram à conclusão de 
que havia uma constância entre crime e determinadas condições econômi­
cas. Outro escudo, elaborado por Whicwort Russel no século XIX, procu­
rou estabelecer uma conexão entre o ciclo econômico e os crimes. Ele cons­
tatou que nos anos seguintes à crise comercial e industrial de 1 842, na 
Inglaterra, ocorreu um aumento do número de prisioneiros. O Oxford cita 
outra pesquisa, de autoria de John Clay, que apresenta conclusões no mes­
mo sentido, mais ou menos na mesma época. Finalmente, um quarto escu­
do, que teve maior repercussão, é de autoria de Georg von Mayr e foi pu­
blicado em 1 867. Após comparar a evolução dos preços do centeio e o 
número de ofensas contra as pessoas no período 1 835- 1 86 1 , na Alemanha, 
Mayr chegou à conclusão de que havia uma correlação positiva entre o 
aumento do preço do cereal e os índices de crimes. Da constatação, retirou 
a conclusão de que os níveis de crimes expressam, mais ou menos, direta ou 
indiretamente, o nível de economic distress, algo como pressão econômica, 
na sociedade, particularmente entre os segmentos mais pobres. Nesse escu­
do, aparecia, pioneiramente, uma proposição teórica mais abrangente, 
embora genérica, da conexão entre as condições econômicas e o crime. No 
século XX, Georg Rusche e Orca Kirchheimer expandiram a abrangência 
da análise, comparando as variáveis de desemprego e taxas de prisão com 
dados da Inglaterra, França, Alemanha e Itália, entre 1 9 1 1 e 1928. 
O traço comum presente em todos esses escudos é o de que eles apenas 
constataram a existência de correlações entre determinadas variáveis eco­
nômicas e crimes, algo ainda muito discante da formulação de uma teoria 
ou um modelo capaz de explicar quais as condições e fatores que incenti­
vam a conduta criminal. Apenas nas décadas finais do século XX viria à luz 
uma teoria com esse propósito, a partir da contribuição original de Becker 
em seus modelos de análise econômica do comportamento humano. 
É necessário sublinhar, desde já, que a relação entre economia e crime 
não é direta e mecânica. Desde os primeiros escudos, acima citados, sabe­
mos que o crime é um fenômeno inversamente relacionado com o desen­
volvimento econômico e social. Tal constatação pode ser, também, facil­
mente comprovada na atualidade. Basca observarmos que os países desen­
volvidos, com renda per capita mais elevada, apresentam níveis menores de 
crimes - canto contra o patrimônio como os contra a vida - do que os 
1 D L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Mesmo quando, no pas­
sado recente, os países desenvolvidos enfrentaram movimentos de elevação 
em suas curvas de crimes, como ocorreu nas décadas de 1 970 e 1 980 nos 
Estados Unidos e alguns países da Europa, seus índices criminais mantive­
ram-se em patamares muito abaixo dos existentes nos países subdesenvolvi­
dos e em desenvolvimento. 
Para se compreender as conexões entre as condições econômicas e a 
criminalidade, portanto, é preciso considerar não apenas o comportamen­
to das variáveis econômicas frente aos níveis de crimes - embora elas sejam 
evidentemente importantes e decisivas -, mas também o papel fundamen­
tal desempenhado pelas instituições públicas (Polícia, Justiça e Sistema Pri­
sional) e privadas (Família, Escola e Comunidade). Além disso, é preciso 
considerar o papel da cultura e dos valores morais como forças condicio­
nantes que incentivam ou restringem as decisões dos indivíduos no sentido 
do crime ou do não-crime. 
Isso significa reconhecer que os indivíduos não decidem apenas moti­
vados por circunstâncias econômicas ou sociais, mas também influencia­
dos por valores culturais e morais aprendidos na convivência social; as pres­
sões oriundas do ambiente externo sofrem a mediação da consciência e dos 
seus valores morais. A teoria econômica do crime procura integrar todos 
esses elementos num modelo explicativo das decisões dos indivíduos pelo 
crime e pelo não-crime. 
A pertinência do tema para nós, brasileiros, dispensa maiores justifica­
tivas. Basta lembrar que, entre os países em desenvolvimento, o Brasil é um 
dos que apresenta níveis mais altos de crimes. De 1 1 homicídios por 1 00 
mil habitantes em 1 980 passamos para 28,4, em 2002, e 26,9, em 2004, 
último indicador disponível. O mesmo comportamento ascendente ocorre 
com os furtos e roubos, a tal ponto que a taxa de roubos nas capitais brasi­
leiras atingiu, em 2002, um patamar cinco vezes mais alto do que nos Esta­
dos Unidos e na Inglaterra. As pesquisas de vitimização - que medem o 
impacto da criminalidade na população - feitas nos anos recentes indicam 
que um terço da população das capitais brasileiras é, anualmente, vítima de 
algum tipo de crime. Quando o período pesquisado é ampliado para um 
prazo maior, de 5 anos, por exemplo, os dados mostram que a metade da 
população brasileira foi vítima de algum tipo de crime. 
Além do drama das vítimas e da insegurança da população, as estatís­
ticas criminais evidenciam também que a polícia brasileira vive uma grave 
crise de desempenho. Carente de séries estatísticas confiáveis e sistemas de 
E c a N C M I A DO C R I M E 1 1 
planejamento, equipamentos modernos, recursos humanos qualificados e 
efetivos em número suficiente, a polícia pouco pode fazer tanto para preve­
nir quanto para apurar os crimes cometidos. Algumas estimativas indicam 
que a polícia brasileira não consegue apurar mais do que 5% de todos os 
crimes violentos cometidos no país. É um desempenho pífio se comparado 
com qualquer país desenvolvido: nos Estados Unidos, 67% são apurados; 
na Inglaterra, 35%; no Canadá, 45%; e na Austrália, 30%. 
Fechando o cenário, a Justiça brasileira tem sido classificada, quase 
unanimemente, como lenta, burocrática e que pouco condena. E nossas 
prisões, na ponta do sistema de justiça criminal, carecem de vagas e de 
condições mínimas de controle e segurança. Ao invés de território seguro 
para o cumprimento das penas e ressocialização de presos, as prisões são 
territórios controlados pelo crime organizado. 
Apesar desse quadro dramático, paradoxalmente, ainda sabemos mui­
to pouco sobre o fenômeno da criminalidade no Brasil. O déficit de infor­
mação qualificada, indicadores e conhecimentos mais amplos e detalhados 
é justamente uma das causas que explicam as dificuldades e a inoperância 
das políticas de segurança pública. Três exemplos apenas são suficientes 
para comprovar essa realidade: 
Não possuímos ainda um cadastro nacional de registros criminais. Os 
registros dos crimes são feitos pelos governos estaduais, de acordo com 
critérios muitas vezes diferentes de organização dos dados, dificultan­
do a estruturação de séries estatísticas confiáveis e comparáveis. Com 
isso, a análise dos padrões e tendências dos crimes fica gravemente 
prejudicada, afetando a qualidade do planejamento da estratégia e da 
ação policial. Tal situação torna-se ainda mais problemática devido à 
carência de recursoshumanos capacitados - analistas, estatísticos, so­
ciólogos, economistas, etc. - e à falta de prioridade para as áreas de 
planejamento no âmbito das Secretarias de Segurança Pública. Em 
alguns Estados, existe, ainda, duplicidade de sistemas de informações, 
com competências superpostas nas instituições - polícia civil e militar 
-, o que gera ineficiência e dispersão pe recursos. 
Não existe no Brasil um programa nacional de pesquisas criminais, 
nos moldes do National Crime Victimization Survey (EUA) ou Bri­
tish Crime Survey (Inglaterra). Tais programas realizam pesquisas anuais 
de impacto da criminalidade, de aferição dos eventos não captados 
nos registros policiais - as chamadas cifras negras - e de mapeamento 
1 2 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
das características socioeconômicas e demográficas de vítimas. Com 
indicadores provenientes dessas pesquisas, são elaborados estudos e 
análises detalhadas sobre as tendências dos crimes, o perfil das vítimas 
e as características ambientais prevalentes nos delitos. Tais indicadores 
são também amplamente usados no planejamento da ação policial e 
no desenho de programas públicos voltados para a prevenção e con­
trole do crime. 
Inexistem em nosso país programas de policiamento comunitário, pro­
gramas de prevenção orientados por problemas (Problem Oriented Po­
licing) ou programas de prevenção situacional do crime, abordagens já 
consagradas e largamente utilizadas nos países desenvolvidos. Entre 
nós, onde existem, são iniciativas esporádicas e isoladas, não resultan­
tes de políticas ou programas estruturados duradouros, algo essencial 
para a produção de bons resultados. Também são raros os programas, 
e experiências mais elementares de controle social sobre fatores de ris­
co focados em drogas e álcool. Dentre tais programas podemos citar, 
por exemplo, o mais comum deles, que é o controle mais rígido do 
horário de funcionamento de bares em áreas de risco e venda de dro­
gas em escolas e imediações. Mesmo medidas simples e óbvias como 
essas não são adotadas na maioria das cidades e regiões com altos índi­
ces de crimes. 
O mais dramático é que as deficiências apresentadas pelo sistema de 
segurança pública e de justiça em prevenir, apurar e punir os crimes acabam 
se tornando, objetivamente, num poderoso incentivo à criminalidade. É 
um círculo vicioso que começa na falta de ações preventivas, continua na 
baixa apuração dos crimes cometidos, alimenta-se da ausência de condena­
ção e, por fim, quando esta acontece, em prisões de onde é fácil fugir ou 
delinqüir. O mais importante, termina com a sinalização clara de que o 
crime compensa. 
Este livro é diferente dos demais textos produzidos sobre a criminalidade 
no Brasil, que abordam o tema utilizando as contribuições teóricas da Sociolo­
gia e da Criminologia. Em nossa exposição, adotamos a perspectiva teórica de 
Gary Becker, segundo a qual os indivíduos optam pelo delito caso o retorno 
esperado seja maior do que o custo associado à escolha. A decisão pelo crime, 
assim, seria semelhante a outras deliberações que são tomadas no cotidiano 
pelos indivíduos, como comprar uma casa, mudar de emprego, adquirir um 
carro, casar, ter filhos e outras que definem seu curso de vida. 
E c a N C M I A oa C R I M E 1 3 
Nessa medida, o crime não é um evento que resulta de "anormalida­
des" ou "traços biológicas", no sentido de insuficiência ou defeitos, como 
acreditava Cesare Lombroso; da mesma forma, não pode ser visto como 
um fenômeno determinado imperativamente pelas condições sociais e eco­
nômicas, visão abrigada por muitas escolas criminológicas, entre as quais 
podemos citar a Escola de Chicago e ramificações, como a influente Teoria 
da Desorganização Social.3 Na perspectiva da teoria econômica do crime, 
em sua esmagadora maioria, o criminoso é uma pessoa normal que ponde­
ra e decide dentro de uma determinada estrutura de incentivos ou condi­
cionantes. Os indivíduos, evidentemente, não decidem no vácuo; eles so­
frem as influências do meio, desde a sua formação inicial na família e na 
escola, mas, ainda assim, são eles que em última análise decidem. A dife­
rença entre influenciar e determinar é sutil, mas é fundamental. 
Desde o nascimento, o indivíduo está submetido a diversos condicio­
namentos biológicos ditados pelo seu metabolismo. Porém, é preciso subli­
nhar que, além do ciclo biológico, que independe da vontade dos indiví­
duos, eles são influenciados, a inda, pelos condicionantes decorrentes da 
vida em sociedade, sobre os quais pode agir a consciência humana. Por 
exemplo, estudar, trabalhar, formar família, enfim, são opções que se apre­
sentam ao longo da vida e que dependem tanto das decisões dos indivíduos 
como também de fatores externos, nem sempre sob seu controle. Não é 
porque um indivíduo decidiu estudar que ele irá fazê-lo; o êxito de tal 
opção depende de sua força de vontade, persistência e esforço, como tam­
bém de sua capacidade de arcar com os custos dela decorrentes, que são 
determinados externamente. O fato é que as opções dos indivíduos ao lon­
go da vida implicam custos e benefícios, sendo influenciadas por circuns­
tâncias que, muitas vezes, extrapolam o indivíduo. 
Junto com as circunstâncias sociais, deve-se considerar também a im­
plicação óbvia de que as diferenças entre os indivíduos, decorrentes de fato­
res biológicos (inteligência), da cultura e da moral, abrem possibilidades de 
decisões diversas e múltiplas. Cada indivíduo pode reagir de forma diferen­
ciada aos condicionantes naturais e sociais. 
Existe ainda um outro dado importante, assinalado por Gianetti da 
Fonseca , no livro O Calor do Amanhã: "O jogo da vida - sobreviver e repro­
duzir - se desenrola no tempo" Isso implica que as decisões que ditam a 
vida no presente têm um custo futuro. Logo, o comportamento no presen­
te e as escolhas feitas hoje ditam o curso da vida no futuro. Daí a idéia de 
que a vida envolve trocas intertemporais, nas quais sempre está presente o 
1 4 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
dilema entre o benefício ou custo no presente em troca do benefício ou 
custo no futuro. 
Essas trocas são comandadas não apenas por um cálculo matemático 
de vantagens e desvantagens, mas também por um fator sobre o qual os 
indivíduos nem sempre têm total controle, a impulsividade. É ela, em bus­
ca do prazer imediato, que imputa custos para o futuro. Aquele que come 
gorduras, fuma e bebe em excesso, está trocando prazer no presente por um 
custo cerco no futuro, que virá na forma de perda de saúde e, no limite, na 
morte. Ao contrário, aquele indivíduo que se esforça no presente para escu­
dar, busca os benefícios da educação no futuro, na forma de um emprego 
melhor, mais renda e status. Da mesma forma, aquele que procura benefí­
cio imediato no crime poderá incorrer num custo futuro na forma de perda 
da liberdade. 
Portanto, na teoria econômica do crime, o evento crime é visco como 
uma decisão onde são ponderados os benefícios e os custos, e, também, 
como uma troca intertemporal, entre o benefício imediato e um custo pro­
vável no futuro (prisão). Assim sendo, a decisão pelo crime seria semelhan­
te a outras decisões tomadas pelo indivíduo ao longo de curso de sua vida. 
Os principais incentivos que influenciam as decisões pelo crime ou 
pelo não-crime são os ganhos monetários ou psicológicos advindos do ato 
criminoso, a percepção da probabilidade de prisão e condenação, os custos 
morais e as perdas potenciais de renda associadas ao tempo de permanência 
na prisão. Em outras palavras, a decisão pelo crime resulta da comparação 
da expectativa dos ganhos obtidos no mercado ilegal com a expectativa de 
ganho no mercado legal, considerando-se determinado risco de punição. 
Mais concretamente, o exame da literatura disponível mostra que existe 
uma correlação importante entre desemprego e baixa renda e crimes, prin­
cipalmente aqueles cometidos contra a propriedade. Da mesma forma, os 
escudos comprovam que a baixa escolaridade é fatorpredicivo de conduta 
criminosa, ao lado do uso de drogas e álcool. 
Por outro lado, existem escudos mostrando que quanto maior for a 
percepção sobre a probabilidade de o indivíduo ser preso e condenado, 
mais elevado será o custo do crime. Esse, aliás, é um dos fundamentos clássi­
cos dos sistemas de segurança e dos sistemas penais desde o final do século 
XVIII: a dissuasão dos crimes por meio do efeito incapacitante e simbólico exer­
cido pela certeza, celeridade e severidade na aplicação das penas. 
A noção do papel da dissuasão é antiga, mas está, ainda, presente em 
versões modernas de programas de combate ao crime, como a teoria das 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 5 
"janelas quebradas" (broken windows) , que parte da premissa de que a rein­
cidência e a ocorrência de crimes mais sérios pode ser contida pela punição 
severa dos crimes menores. 
Outro exemplo das novas abordagens e desenvolvimentos teóricos que 
conferiram maior amplitude e abrangência ao efeito dissuasão, para além 
do efeito associado exclusivamente à punição, é a teoria da Prevenção Situa­
cional do Crime, que incorpora novas estratégias de prevenção com o obje­
tivo de reduzir as oportunidades para os crimes. Essa teoria preconiza ações 
preventivas que envolvem desde a organização da comunidade visando a au­
mentar a vigilância nos bairros, ruas e escolas, a adoção de sistemas eletrônicos 
de controle em ônibus, praças e residências, até programas ant idrogas e de 
controle do álcool. 
Ao longo deste livro vamos apresentar as idéias e noções centrais da 
teoria econômica do crime e, a seguir, alinhar evidências sobre como ope­
ram, na realidade concreta, os incentivos ao crime e ao não-crime. Como o 
leitor perceberá, serão utilizados estudos de pesquisadores de outros países, 
principalmente norte-americanos e europeus. Isso se deve, de um lado, ao 
estágio avançado em que se encontra a pesquisa acadêmica sobre o tema 
nesses países em relação ao nosso e, por outro, à precariedade, tanto em 
qualidade quanto em abrangência, das estatísticas e dos indicadores crimi­
nais no Brasil. Porém, quando disponíveis, os estudos feitos no Brasil são 
evidentemente considerados e citados. 
É claro que nem sempre as conclusões de escudos feitos com dados 
sobre outros países são aplicáveis à nossa realidade. No entanto, as metodo­
logias e o aporte teórico que nos trazem certamente podem nos ajudar a 
vislumbrar novos caminhos e soluções aplicáveis à nossa realidade. Dois 
exemplos ilustram tais possibilidades: os estudos feitos em outros países 
que mostram, com fortes evidências, uma correlação positiva entre drogas 
- comércio e uso - e crimes, e também o já referido papel decisivo da 
punição na prevenção e redução dos crimes. 
Entretanto, apesar de tais evidências, não temos ainda em nosso país 
uma política forte e consistente de combate ao tráfico e uso de drogas, e 
nos perdemos em debates estéreis sobre a eficácia das penas, com a predo­
minância, entre os formuladores da política criminal, de um viés de baixa 
punibilidade, caminho oposto às experiências internacionais mais positi­
vas. O Brasil terá de enfrentar, por isso, um longo caminho no aprimora­
mento de suas políticas anticrime, e o primeiro passo nesse sentido é co­
nhecer o que se faz de bom e eficaz em outros países. 
1 6 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
O livro está organizado da seguinte forma: na Parte 1, é feita uma 
breve resenha da evolução do crime violento no Brasil durante as décadas 
de 1 980 e 1 990. O objetivo desta parte é traçar as principais características 
e tendências da criminalidade violenta no Brasil nas últimas décadas. A 
análise concentra-se no comportamento das taxas de homicídios, o indica­
dor criminal disponível mais confiável, embora este também apresente li­
mitações. Isso ocorre porque há um enorme desconhecimento das cir­
cunstâncias que cercam os homicídios no Brasil, devido ao fato de que 
apenas uma pequena parte deles é esclarecida. Apesar dessa dificuldade, 
o crescimento dos homicídios é revelador do agravamento da crimina­
lidade em geral. 
Na Parte II, apresentamos os elementos básicos da teoria econômica 
do crime e, em seguida, resenhamos e debatemos as principais variáveis que 
influenciam os custos e o retorno dos crimes, entre os quais as condições do 
mercado de trabalho - emprego e renda -, a educação e o papel criminogê­
nico das drogas. 
A seguir, na Parte III, debatemos as contribuições da sociologia e da 
criminologia mais importantes. Proc�raremos destacar quais os elementos 
presentes nessas análises, que são convergentes e divergentes com o modelo 
econômico do crime. Conforme veremos, a importância atribuída por esta 
teoria à decisão dos indivíduos pelo crime ou pelo não-crime não é contra­
ditória com os condicionantes sociais e econômicos presentes nos contex­
tos em que os indivíduos decidem. Ao contrário, tais contextos devem ser 
considerados como parte da estrutura de incentivos que favorecem ou de­
sestimulam decisões pelo crime. 
Finalmente, na Parte IV trataremos dos efeitos da expectativa de puni­
ção sobre a decisão do indivíduo em praticar o ato criminoso. Serão apre­
sentadas evidências empíricas que demonstram a efetividade da punição 
como fator de contenção do crime, bem como algumas referências críticas 
a essa proposição. Nesta parte, uma seção é dedicada à análise dos modelos 
e do desempenho das organizações policiais, com o propósito de destacar 
suas dificuldades e limitações no controle do crime. Em seguida, apresenta­
mos algumas considerações finais. 
E C O N O M IA DO C R I M E 1 7 
PARTE 1 
CONTEXTO 
o C RI M E VI O LENTO 
Aevolução recente da criminalidade n o Brasil apresenta como carac­terística marcante o extraordinário crescimento dos crimes violentos, 
principalmente os homicídios, e seu caráter eminentemente urbano e juve­
nil. Tal crescimento conduziu o Brasil ao copo do ranking dos países mais 
violentos do planeta e transformou a criminalidade e a violência num dos 
mais importantes cernas que afligem os moradores das médias e grandes 
cidades do País. Mais do que refletir remores associados à forma incensa e 
sensacionalista com que a mídia às vezes noticia os crimes, a apreensão 
popular cem, de faro, sua razão de ser. 
A década de 1 980 parece ser o momento crucial em que ocorre force 
inflexão nas curvas de crimes violentos, especialmente homicídios. A partir 
desse momento, as morres por homicídio passaram a figurar com peso cada 
vez maior nas causas de óbitos dos brasileiros, num radical distanciamento 
da situação existente no início do século. 
Esse faro pode ser observado, por exemplo, nos Estados de São Paulo 
e Rio de Janeiro. Em 1 900, do cocal de 30 mil óbitos verificados no primei­
ro estado, apenas 30 foram homicídios, praticamente um resíduo. 1 No Rio 
de Janeiro, no mesmo ano, as mortes por homicídio não passavam de 1 ,8 
caso por grupo de 1 00 mil habitantes. O perfil da criminalidade, nessa 
época, era completamente distinto. Predominavam os pequenos furtos, 
desordens provocadas por bêbados, lenocínio, enfim conflitos de baixo poder 
ofensivo. Os homicídios eram raros, quase sempre crimes passionais, e ad­
quiriam grande repercussão pública. 
Pelo que se sabe, nada indica que esse padrão tenha se modificado 
radicalmente até pelo menos os anos de 1 970. Ainda no início da década 
de 1980, dos 86 mil óbitos verificados no Estado de São Paulo, apenas 
2,6% do cocal (2.300) eram provocados por homicídio. A partir daí, encre­
canco, nora-se que o quadro se deteriora gravemente, culminando que, em 
E C O N O M IA DO C R I M E 2 1 
1 998, de um total de 1 03 mil óbitos, 1 2 mil foram homicídios, mais de 
1 1 o/o do total.2 
A tendência observada nas duas mais importantes regiões do País in­
fluenciou o panorama nacional. Os dados mostram que, a partir da década 
de 1 980, se verificou uma elevação muito significativa no total de homicí­
dios ocorridos em todo o Brasil: de 1 3 .9 1 O homicídios, naqueleano, para 
49.640, em 2002. Traduzindo esses números em taxas, passamos de 1 1 óbitos 
para 100 mil brasileiros, em 1 980, para 2 1 ,7 �m 1 990, e, finalmente, 28,4 em 
2002. Em apenas 22 anos, os homicídios praticamente triplicaram. 
Com tal desempenho, o Brasil passou a ocupar o 6.0 lugar no ranking 
dos países com maior incidência de homicídios dolosos em todo o mundo. 
Ficamos atrás apenas da África do Sul ( 1 1 4,84 por 1 00 mil habitantes), 
Colômbia (69,98) , Venezuela (33,20) , Bolívia (3 1 ,96) e Equador (25,92) .3 
Estamos muito acima da Argentina (8,2 por 1 00 mil) , do Chile ( 1 ,7 por 
1 00 mil) e do Peru (4,9 por 1 00 mil) . Comparada com países desenvolvi­
dos, a situação do Brasil piora acentuadamente, pois quase todos apresen­
tam taxas muito baixas, inferiores a 5 ,5 por 1 00 mil habitantes - que foi o 
índice registrado nos Estados Unidos em 2000. 
Se nossa unidade de análise forem os Estados, em 2002, aqueles que 
ostentavam os maiores índices de homicídios eram o Rio de Janeiro, com 
56,5 casos por 1 00 mil habitantes, Pernambuco (54,5), Espírito Santo (5 1 ,2) , 
Rondônia (42,3) e São Paulo (38) . No outro extremo, os Estados com as 
menores taxas eram o do Maranhão (9), de Santa Catarina ( 1 0,2) , do Rio 
Grande do Norte ( 1 0,6) , do Piauí ( 1 0,9), e da Bahia ( 1 3) .4 
Por sua vez, o exame dos indicadores de cada Estado da Federação 
evidencia que é nas Capitais e/ou Regiões Metropolitanas que as taxas são 
mais elevadas em relação à média estadual . Em São Paulo, em 2002, en­
quanto a taxa média estadual situava-se no patamar de 38 casos por 100 
mil habitantes, a da Região Metropolitana estava em 53,6/ 1 00 mil habi­
tantes, quase o dobro; em Pernambuco, a taxa estadual era de 54,5 contra 
73,3 da Região Metropolitana; no Rio de Janeiro, o índice estadual era de 
56,5 e o da Região Metropolitana, 64,2; no Rio Grande do Sul, o mesmo 
comportamento: 1 8 ,3 e 28,2, respectivamente. O mesmo comportamento 
ocorre em todos os demais Estados e Regiões Metropolitanas do país. 
A concentração dos homicídios nessas áreas pode ser observada, ain­
da, se atentarmos para o fato de que do total dos homicídios verificados no 
Brasil, em 2002, 53, 1 o/o ocorreram nas Regiões Metropolitanas, cujas po­
pulações representam apenas 30,7% do total do país. 
22 L U I Z TAD E U V I A P I A N A 
Da mesma forma que nas Regiões Metropolitanas, os homicídios tam­
bém estão sobre-representados nas capitais. Todas elas somadas contam com 
23,8% da população total do país, mas registram, no período 1 993-2002, 
38% dos homicídios. Nesse período, somente duas cidades, Rio de Janeiro 
e São Paulo, foram responsáveis por 50% do total de homicídios verifica­
dos nas Capitais brasileiras. 
Todavia, quando se compara a evolução dos indicadores separando as 
regiões por Capitais, Regiões Metropolitanas e interior dos Estados, nota­
se um crescimento maior dos homicídios no bloco do interior. Neste o 
incremento é de 8%, contra 2,4% nas Regiões Metropolitanas e 1 ,65% nas 
Capitais, durante o período 1 993-2003. Tal fenômeno levou o sociólogo 
Julio J. Waiselfisz, responsável pela elaboração do Mapa da Violência, da 
Unesco, a constatar uma "forte tendência de interioriza.ção da violência 
homicida" no Brasil. No estudo Padrões de Criminalidade no Rio Grande do 
Sul - 1997-2003, constatou-se a mesma tendência: os homicídios estavam 
crescendo com maior intensidade nas cidades médias. 3 
E C O N O M I A DO C R I M E 2 3 
e O N GLOM ERADOS , DE HCM I C I DICS 
Adistribuição desigual dos homicídios ocorre também dentro das Capi­tais. Estudo abrangendo a cidade de São Paulo, realizado pela coorde­
nadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, 
Nancy Cardia, e pela professora Titular da Faculdade de Arquitetura e Ur­
banismo da mesma universidade, Sueli Schiffer, revelou que as taxas de 
homicídios são mais elevadas nas regiões da cidade onde existem os piores 
indicadores demográficos e de renda (distritos de Campo Limpo, Capão 
Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís). 
A mesma constatação foi evidenciada em outra pesquisa, que identifi­
cou vários "conglomerados de homicídios" na cidade de Belo Horizonte, 
Minas Gerais, entre 1 995- 1 999.5 Entre as 85 favelas existentes na cidade, 
foram apontadas dez áreas onde os riscos de homicídio são mais elevados. 
Porém, diferentemente do trabalho de Cardia e Schiffer, ao invés de vincu­
lar os riscos elevados à pobreza e a �ndicadores demográficos, exclusiva­
mente, os pesquisadores apontam o fato de essas regiões "serem assoladas 
pelo tráfico e pela violência associada ao comércio de drogas" A pobreza 
não seria, assim, uma variável autônoma na explicação dos homicídios nas 
regiões mais pobres. Essa conclusão é coincidente também com o estudo 
da antropóloga carioca Alba Zaluar, que analisou a incidência da criminali­
dade violenta e sua correlação com o tráfico e uso de drogas nos bairros de 
Copacabana, Tijuca e Madureira, na cidade do Rio de Janeiro. 
O Re/,atório de Desenvolvimento Humano Sustentdvel da Cidade do Rio 
de janeiro, realizado pelo Instituto de Pesquisa Aplicada - IPEA, Prefeitura 
Municipal do Rio de Janeiro e Programa das Nações Unidas para o Desen­
volvimento - PNUD, aponta também o fenômeno da distribuição desi­
gual dos homicídios na cidade. No ano de 1 999, os homicídios ocorridos na 
zona oeste alcançaram a taxa de 57,5 casos por 1 00 mil habitantes, contra 
apenas 1 6,4 na zona sul. O estudo destaca que na zona sul da cidade, em con-
24 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
traposição à zona oeste, têm-se indicadores socioeconómicos mais elevados, 
além de maior cobertura policial - 1 policial para cada 35 1 habitantes contra 1 
policial para cada grupo de 697 a 1 .027 habitantes nas demais zonas da cidade. 
No mesmo sentido alinham-se, ainda , as conclusões de um estudo 
que detectou conglomerados espaciais de óbitos por causas violentas em 
Porto Alegre para o ano de 1 996.6 Foram encontradas duas áreas com alta 
densidade de residências com vítimas de homicídios. Uma delas é formada 
por bairros que se diferenciam das demais zonas da cidade por apresentarem 
também piores indicadores socioeconómicos, onde "diferentes grupos envolvi­
dos com drogas atuam e é freqüente a ocorrência de conflitos entre os que 
disputam o controle do tráfico e entre estes e a polícià'. A outra área de con­
centração de homicídios é bastante peculiar, pois é formada por bairros de 
classe média próximos ao centro da cidade. Nesta segunda área , a elevada 
incidência de homicídios poderia ser explicada pela alta densidade popula­
cional, movimentada circulação noturna e atuação de traficantes. 
E c a N C M I A DO C R I M E 2 5 
H O M I CÍDI O ENTRE JOVEN S 
F inalmente, é necessário observar como os homicídios se distribuem na população, levando-se em conta as faixas etárias. Os números da déca­
da de 1 990 indicam taxas de crescimento mais elevadas de homicídios na 
faixa etária composta pela população entre 1 5 e 24 anos. Na década de 
1 993-2002, enquanto que no Brasil como um todo as taxas de homicídio 
aumentaram 62,3%, no extrato populacional de 1 5 a 24 anos houve um 
aumento de 88,6%. 
O crescimento dos homicídios entre os jovens acima da média nacio­
nal significa que, em 2002, houve 54,7 homicídios de jovens por 100 mil 
habitantes no país, contra 28 ,4 casos por 1 00 mil para a população como 
um todo. Em 1 982, representavam 26,9% do total de homicídios ocorri­
dos no país. Em 2002, quase 40%. 
Os Estados que lideram os índices de homicídio juvenil são prati­
camente os mesmos que apresentam as maiores taxas quando conside­
rado o total de suas populações. Isso ocorre porque, como vimos, o 
total dos homicídios é fortemente influenciado pela criminalidade letal 
entre os jovens. As maiores taxas de homicídio juvenil ocorrem, pela 
ordem, nos Estados do Rio de Janeiro, com 1 1 8 ,9 casos por 1 00 mil 
habitantes, Espírito Santo ( 1 03,7) , Pernambuco ( 1 03,4) , Amapá (8 1 ,2)e São Paulo (8 1 ) . 
O mesmo fenômeno ocorre nas Capitais. Em 2000, 44,4% das mor­
tes de jovens nas Capitais brasileiras tiveram como causa o homicídio. Nas 
cidades de São Paulo e Rio de Janeiro estão concentradas mais de 50% do 
total das mortes de jovens de 1 5 a 24 anos em todo o País. Registre-se, 
ainda, que o "momento crítico" está situado no intervalo entre 20 e 24 
anos, com taxas que se situam entre 69, 1 e 66, 1 casos por 1 00 mil habitan­
tes. Os jovens dessa faixa etária constituem o segmento da população que 
apresenta maior risco de vitimização por homicídio. 
26 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
As Capitais que lideram o homicídio juvenil são as seguintes: Vitó­
ria ( 1 97 casos por 1 00 mil habitantes), Recife ( 1 92,9) , Rio de Janeiro 
( 1 45 ,5 ) , Maceió ( 1 29 ,4) e São Paulo ( 1 1 4,2). As menores taxas são as 
de Palmas (28) , Natal (3 1 ) , São Luís (3 1 ,5 ) , Manaus (49) e Salvador 
(49 ,4) . Mesmo quando comparamos as menores taxas de ha
'
micídio 
juvenil com a média nacional para a totalidade dos homicídios, elas se 
mostram extremamente elevadas. 
Outra característica do perfil das vítimas refere-se à predominância do 
sexo masculino. No ano de 2000, por exemplo, 92,7% do total das vítimas 
de homicídio eram homens. Esse comportamento repete-se na maioria dos 
Estados, com exceção de Goiás, Santa Catarina, Minas Gerais e Roraima, 
onde a participação das mulheres como vítimas de homicídios é um pouco 
mais elevada. O mesmo ocorre com a participação feminina no grupo de 
vítimas de 1 5-24 anos. Nesse grupo, o destaque é Rondônia, onde 20% das 
vítimas entre 1 5-24 anos era formado por mulheres. 
A elevada incidência de crimes entre os jovens é um fenômeno que 
também ocorre nos países desenvolvidos. Nesses países, segundo depoi­
mento dos criminologistas norte-americanos James Wilson e Richard 
Herrnstein, o maior envolvimento de jovens ocorre tanto no lado das víti­
mas como no dos agressores. Por isso., afirmam que o crime é um compor­
tamento jovem em larga extensão.7 
E isso é verdadeiro não apenas para os homicídios. Por exemplo, em 1 980, 
nos Estados Unidos, 60 % dos presos por crimes cometidos contra a proprieda­
de e 37% dos presos por crimes violentos tinham menos de 20 anos. O pico 
das taxas do grupo de crimes composto por estupro, roubos e agressões ocorre 
quando o agressor tem entre 1 8 e 20 anos (25 .800 casos por 100 mil habitan­
tes), diminuindo sensivelmente na faixa dos 21 anos (5.63 1 / 100 mil habitan­
tes) e também na faixa dos 1 2- 17 anos ( 14. 121 /lOOmil habitantes).8 
Nos Estados Unidos, a participação dos jovens nos homicídios é tam­
bém muito mais alta do que a das demais faixas etárias. Em 1 990, era de 2 1 
casos entre o s jovens d e 1 8 a 24, contra 1 6,8 n a faixa d e 25-34 e 9,9 n a de 
35-49. Mesmo quando os homicídios caem drasticamente no final da dé­
cada, a taxa entre os jovens permanece muito alta - 1 7,4/ 1 00 mil - contra 
a média nacional de 6,3 casos por 1 00 mil para o total da população. A taxa 
entre os jovens é três vezes maior do que a da população total, proporção 
semelhante à brasileira. 
Refletindo os índices de crimes, as taxas de prisões por homicídios são 
também mais altas nos Estados Unidos para as idades de 1 8 a 20 anos em 
E c a N C M I A oa C R I M E 27 
relação às demais faixas etárias, o que parece reforçar o padrão de maior 
propensão ao crime juvenil também no caso de homicídios. O crescimento 
dos crimes violentos verificado no período 1 985- 1 993 foi acompanhado 
pelo aumento das taxas de prisões de pessoas com idade entre 1 8 e 20 anos. 
O mesmo ocorreu com os roubos.9 
Usando um critério mais amplo do que os registros de homicídio, um dos 
mais completos programas de análise de vitimização, que é feito na Inglaterra -
o British Crime Suroey - também mostra a alta incidência criminal na faixa 
etária dos jovens. A pesquisa feita em 2002-2003 mostrou que o grupo de 
jovens, do sexo masculino, com 1 6 a 24 anos, tem 1 5 , 1 % de possibilidade de 
ser vítima de crimes violentos, contra apenas 3,4% para os homens com 25 a 
44 anos, e 2% para homens entre 45 e 64 anos. Em outras palavras, os jovens 
do sexo masculino têm 4,4 vezes mais chances de vitimização violenta do que 
os adultos e 7,5 vezes em relação ao terceiro grupo. Outro estudo feito na 
Inglaterra mostrou que metade de todos os autores de roubos tinha entre 16 e 
20 anos e que 45% das vítimas estava na faixa de 1 1 a 20 anos. 1 0 
Resumindo, a criminalidade letal no Brasil apresenta as seguintes ca­
racterísticas: 
a) taxa nacional bastante elevada quando comparada às taxas internacionais; 
b) distribuição desigual entre as diversas unidades da Federação, com forte 
concentração nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e 
Espírito Santo; 
c) crescimento elevado dos homicídios na maioria dos Estados, ainda 
que em muitos deles as taxas permaneçam em patamares que podem 
ser considerados baixos; 
d) taxas mais elevadas nas Capitais e Regiões Metropolitanas do que as 
taxas nacionais; 
e) desde 1 999, taxa de crescimento dos homicídios no interior em níveis 
superiores aos das Capitais e Regiões Metropolitanas; 
e) nas Capitais, os índices de homicídios tendem a ser mais elevados nas 
regiões mais pobres, que se caracterizam como zonas de forte atuação 
do tráfico de drogas e precária presença de policiamento; 
f) maior incidência dos homicídios entre a população jovem de 1 5 a 24 
anos em praticamente todas as Capitais brasileiras; 
Por último, as armas de fogo estão presentes em 6 1 o/o das ocorrências 
fatais, embora não se possa afirmar, em razão das deficiências nos registros 
e baixa taxa de esclarecimento dos crimes, se elas são legais ou ilegais. 
28 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
e RIME ATINGE METADE DA POPULAÇÃO 
D iante do fato de que os registros policiais captam apenas uma pequena parcela dos crimes - excetuando-se os homicídios, que têm alto índi­
ce de notificação-, o caminho utilizado pelos pesquisadores para dimensio­
nar o conjunto dos delitos são os dados das pesquisas de vitimização, apesar 
dos limites geográficos e metodológicos desses levantamentos. 
A última pesquisa feita no Brasil, em 2002, com abrangência nacional, 
focaliwu apenas quatro Capitais brasileiras - São Paulo, Rio de Janeiro, Recife 
e Vitória. Apesar de limitada geograficamente, mostrou um cenário dramático: 
nos últimos 5 anos, 50% da população foi vítima de algum dos 1 1 tipos de 
crimes pesquisados (roubo/furto de moto, depredação em automóvel, roubo/ 
furto de bicicleta, roubo/furto de automóveis, roubo/furto de algo dentro do 
carro, funo, agressão física, arrombamento, tentativa de arrombamento e agressão 
sexual) . Quando a pergunta se referiu apenas ao último ano, ainda assim um 
terço dos entrevistados disse ter sofrido algum tipo desses delitos. Os crimes 
contra o patrimônio - furtos e roubos - apresentaram maior incidência. 1 1 
Quando utilizamos os registros policiais disponíveis, que como sabe­
mos cobrem apenas parte do conjunto dos crimes cometidos, o quadro é 
igualmente grave. Os dados para as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e 
Porto Alegre, nos últimos anos, demonstram uma verdadeira explosão dos 
crimes contra o patrimônio. Na Capital de São Paulo, por exemplo, o re­
gistro policial de roubo, furto e latrocínio elevou-se de 1 ,9 milhão, em 
1 983, para 3,4 milhões de ocorrências em 1 998, um aumento de 78%. 
Nesse mesmo período, a população cresceu apenas 1 2,7%. Nesse ano, um 
em cada três paulistanos foi vítima de um desses crimes.12 No Rio de Janei­
ro, os furtos e os roubos aumentaram 56,2% e 84,2%, respectivamente, no 
período entre 1 998-2004. Na cidade de Porto Alegre, o aumento foi de 
86% no roubo e de 77% no furto, entre 1 997-2003, enquanto o cresci­
mento da população foi de apenas 7,2%. 1 3 
E c a N C M IA oa C R I M E 2 9 
o C RI M E O CULTO 
U ma das maiores dificuldades com que se deparam os pesquisadores da criminalidadeestá relacionada com os registros das ocorrências crimi­
nais que captam apenas uma parte dos crimes que são cometidos, pois muitas 
vítimas deixam de efetuar o registro junto às autoridades policiais. Estima­
se que, no Brasil, 80% dos crimes não são comunicados à polícia, não fa­
zendo parte, portanto, das estatísticas oficiais. Dentre todos os crimes, a 
exceção são os crimes contra a pessoa, homicídio e tentativa de homicídio, 
que têm alto índice de notificação. Esse volume de crimes não registrados é 
conhecido na literatura especializada como "cifras negras" 
No entanto, mesmo em relação aos homicídios, existem diferentes 
critérios para agrupar as informações, o que também dificulta a construção 
de séries estatísticas de boa qualidade. Por exemplo, as taxas nacionais de 
homicídios englobam os casos de homicídio doloso e culposo, ignorando­
se a diferença fundamental, que é a intenção de matar, presente no primei­
ro caso e ausente no segundo. O mesmo ocorre com as mortes decorrentes 
de acidentes de trânsito ou outros acidentes, onde não é possível apurar a 
presença da intenção de matar ou circunstâncias outras associadas ao dolo 
ou imperícia, tais como dirigir alcoolizado ou sob efeitos de drogas ou em 
alta velocidade. Todas essas dificuldades, evidentemente, se refletem nas 
estatísticas, fazendo com que as taxas de homicídio, na realidade, envolvam 
ocorrências e circunstâncias bastante diversas. 
Os pesquisadores procuram superar parte dessas dificuldades nas bases 
de informação utilizando outras estratégias. As "cifras negras'', por exem­
plo, podem ser razoavelmente estimadas através das "pesquisas de vitimiza­
ção" Nessa modalidade de investigação, os entrevistados revelam se eles 
próprios ou alguém de sua família foi vítima de algum tipo de crime num 
período de referência (seis meses, um ano ou até períodos maiores), se foi 
efetuado o registro policial, quais as características das ocorrências (horário, 
30 Luiz TAD E U V I A P I A N A 
local, etc.) e das vítimas (perfil socioeconômico). Quando não houve o re­
gistro, indaga-se sobre os motivos de cal decisão, sendo usual também que se 
apliquem questões sobre a percepção do entrevistado acerca da confiabilidade e 
qualidade dos serviços policiais. Desse modo, agregando-se os dados dos cri­
mes não registrados aos dos crimes registrados, cem-se uma noção da mag­
nitude do impacto da criminalidade num determinado período. 
Ocorre que, no Brasil, poucas dessas pesquisas foram realizadas - não 
mais do que uma dezena - e apenas duas com abrangência nacional. As 
demais se restringiram a unidades geográficas menores, como Municípios 
ou Regiões Metropolitanas. Em razão disso, principalmente, não é possível 
comparar seus resultados entre si, servindo, cada uma delas, apenas como 
retrato parcial da criminalidade não capeada pelo sistema de segurança pú­
blica em determinado momento. Elas são, também, incomparáveis, por­
que utilizam como referência diferences períodos de tempo em que o crime 
não notificado aconteceu. 
Todavia, apesar dessas limitações, as pesquisas de vicimização são unâ­
nimes em revelar taxas muito baixas de notificação de ocorrências à polícia. 
De acordo com essas pesquisas, aproximadamente 80% do cocal dos crimes 
detectados não foram notificados às autoridades policiais. Somente em duas 
do conjunto de pesquisas que analisamos - uma realizada pela Universida­
de de São Paulo, em 1 999, e outra pela Fundação Sistema Estadual de 
Análise de Dados - SEADE, do Estado de São Paulo, em 1 998 - foi detec­
tada uma taxa maior do que 20% de notificação. 
Sobre os motivos alegados para a não-notificação, a Pesquisa Nacional 
por Amostra Domiciliar - PNAD, de 1 988, informa, por exemplo, que 
67% das vítimas optaram por não registrar furtos e roubos. Desse cotai, 
27,7% alegaram como motivo "não acreditar" na polícia. As demais pes­
quisas evidenciaram também que esta é a principal razão apresentada pelas 
vítimas que optaram pelo não-registro. Os demais motivos que aparecem 
com muita freqüência são o baixo valor dos bens envolvidos em furtos ou 
roubos e a alegação das vítimas de que podem "resolver" sozinhas os incidentes. 
Em razão dessas dificuldades, não sabemos com razoável precisão qual 
é a dimensão e quais as características dos crimes cometidos no Brasil. Nos­
so conhecimento abrange apenas os crimes mais graves, que envolvem agres­
sões ou perdas patrimoniais elevadas (roubos e homicídios) e apresentam 
altas taxas de registro policial. Mas mesmo esse conhecimento envolve al­
guma distorção devido ao "baixo nível de padronização" dos dados coleta­
dos pela polícia nos diferentes Estados do País. 
E C O N O M I A DO C R I M E 3 1 
Por todas essas limitações presentes nas estatísticas criminais, os estu­
diosos costumam adotar como variável representativa da criminalidade a 
taxa de homicídios por 1 00 mil habitantes. Além de apresentar sub notifi­
cação muito mais baixa do que a dos demais crimes e agrupar ocorrências 
de natureza diversa, o homicídio é um delito que expressa, em grau extre­
mo, a presença da criminalidade violenta na sociedade. 
No entanto, mesmo nesse caso, é preciso considerar que as taxas de 
homicídio, quando agregadas por cidades, Estados e País, escondem im­
portantes diferenças quanto à incidência espacial, características demográ­
ficas e sociais de vítimas e agressores. Como vimos, os homicídios atingem, 
principalmente, as pessoas que pertencem aos segmentos sociais de baixa 
renda e escolaridade, residentes na periferia das grandes e médias cidades 
ou áreas de grandes carências de serviços públicos. 
Por exemplo, pelos dados do Sistema de Informações de Mortalidade 
do Ministério da Saúde (SIM) , a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 
em 1 996, apresentava uma taxa de 59 homicídios por grupo de 1 00 mil 
habitantes, praticamente a mesma da Região Metropolitana de São Paulo, 
que era de 56 por 1 00 mil. Porém, quando a taxa é "aberta" para se observar 
a incidência dos homicídios por faixa etária, verifica-se que no Rio de Ja­
neiro a taxa de morte por homicídios no grupo de jovens entre 1 5 e 29 anos 
é 34% maior do que em São Paulo. Além disso, enquanto no Rio de Janei­
ro as armas de fogo estão presentes em 87% dos casos de homicídio, em 
São Paulo elas aparecem em apenas 47% dos casos, conforme revelou o 
sociólogo Cláudio Beato, da Universidade Federal de Minas Gerais, no 
paper Fontes de Dados Policiais em Estudos Criminológi,cos: Limites e Poten­
ciais. Em resumo, as taxas agregadas obscurecem diferenças importantes na 
distribuição geográfica e social dos delitos. 
A produção de conhecimento sobre o crime é fortemente afetada, ain­
da, pela baixa taxa de esclarecimento, pela polícia, dos crimes cometidos. A 
fonte de informações criminais mais rica é o inquérito policial, que apura a 
autoria e as circunstâncias dos crimes. Como apenas uma pequena parcela 
dos crimes cometidos no Brasil é elucidada - no caso dos homicídios, não 
mais do que 5% do total, segundo as estimativas -, tem-se uma base de 
dados muito precária para o desenho dos padrões criminais e a elaboração 
de políticas preventivas. Do total dos homicídios, a maior parte dos escla­
recidos são justamente aqueles que ocorrem entre conhecidos e que con­
tam com testemunhas. Os demais, como não são esclarecidos, têm suas 
características, quanto aos agentes, motivos e circunstâncias, ignoradas. 
3 2 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Contrastando com a realidade brasileira, as taxas de esclarecimento 
dos crimes nos países desenvolvidos são muito mais altas. Nos Estados 
Unidos, como informa o criminologista David Bayley, em seu livro Police 
for the Future, 67% dos crimes violentos são apurados; na Inglaterra, 35%; 
no Canadá, 45% e na Austrália, 30%. 
E C O N O M IA DO C R I M E 3 3 
PARTE 1 1 
A E CONO M IA DO C RI ME 
M O DELO DE DECI SÃO 
Aanálise econômica do crime cem em Gary Becker seu fundador e prin­cipal expoente. Desde 1 968, com a publicaçãodo. ensaio Crime and 
Punishmenr. An Economic Aproach, os economistas vêm dedicando crescen­
te atenção ao rema. Desde então, o modelo inicial de Becker foi aperfeiço­
ado e hoje é amplamente reconhecido como um importante aporte ao co­
nhecimento dos fatores e circunstâncias que influenciam as decisões dos 
indivíduos a cometerem ou não um aro criminoso. 
O modelo de Becker tem como pressuposto que os indivíduos rea­
lizam escolhas que são concebidas como racionais, ou seja, que respon­
dem a determinados incentivos e condições. Ele retoma, de certo modo, 
a noção presente em Jeremy Bencham ( 1 748-1 832) e Cesare Betcaria 
( 1 738-1 794) , segundo a qual os indivíduos procuram maximizar o pra­
zer e minimizar o sofrimento. Na acepção de Becker, no encanto, a de­
cisão dos indivíduos em corno do crime envolve, em vez de prazer e 
sofrimento, benefícios e custos. 
Os benefícios consistem nos ganhos monetários e psicológicos pro­
porcionados pelo crime. Por sua vez, os custos englobam a probabilidade 
de o indivíduo que comete o crime ser preso, as perdas de renda futura 
decorrentes do tempo em que estiver decido, os custos diretos do aro crimi­
noso (tempo de planejamento, instrumentos, etc.) e os custos associados à 
reprovação moral do grupo e da comunidade em que vive. Além disso, há 
ainda a questão da consciência individual, do conflito do indivíduo e com 
seus próprios valores e opções de vida, embora tais contradições sejam difí­
ceis de dimensionar, uma vez que elas são essencialmente subjetivas e alta­
mente variáveis de indivíduo para indivíduo. Uma notação muito simples 
da equação seria: 
Crime: b - p c 
E c a N C M I A oa C R I M E 3 7 
onde b é o benefício do crime, p é a probabilidade de prisão e e os 
custos medidos pela perda de renda durante o tempo de prisão mais os 
custos diretos e morais. 
A decisão individual de cometer o crime é incentivada quando (b-pc) 
> O, isco é, quando os benefícios menos os custos são maiores do que zero. 
Nesse caso, o benefício excede os custos, havendo um ganho no aro crimi­
noso. No sentido contrário, o crime é desincentivado quando os custos 
(probabilidade de detenção mais custo do tempo de prisão) forem maiores 
do que os benefícios. 
Nesses termos, o retorno esperado do crime (atividades ilegais) impli­
ca a comparação com as expectativas de retorno em atividades legais. Ou 
seja, o indivíduo decide pelo crime se a utilidade esperada deste for maior 
do que a utilidade esperada do uso do tempo e de recursos em outra ativi­
dade no mercado legal. Isco é, ele opta pelo crime não porque sua motiva­
ção seja diferente da de outras pessoas, mas porque os benefícios e os custos 
são diferentes. 
A questão acima, denominada "custo de oportunidade", remete para a 
contribuição de vários economistas que estudaram a influência de fatores 
econômicos como renda, emprego e educação como condições de incenti­
vo nas decisões sobre o crime. O grande mérito desses estudos foi o de 
ampliar a comprovação empírica da teoria econômica do crime para além 
do fator representado pela probabilidade de punição. Outros estudos, tam­
bém feitos por economistas, investigaram as interações sociais nas comuni­
dades como contextos de incentivo ao crime, também ampliando o escopo 
da teoria. Hoje, por isso, pode-se dizer que a teoria econômica do crime 
incorpora várias circunstâncias ambientais externas ao indivíduo, ainda que 
mantenha a proposição central de que a decisão do crime é, essencialmen­
te, uma decisão dos indivíduos. 
O economista norte-americano Isaac Ehrlich analisou os efeitos dos 
níveis de renda, do desemprego e da educação de determinada comunidade 
na opção do indivíduo pelo crime. No lado do resultado esperado, ele con­
cluiu que o nível de renda da comunidade aumenta a probabilidade de 
retorno dos crimes - principalmente, daqueles cometidos contra a proprie­
dade - na medida em que eleva a oferta de alvos atrativos. Por exemplo, 
quando o desemprego é alto, ele contribui para reduzir as oportunidades, 
pois significa menos vítimas potenciais. De sua análise empírica, conclui 
que o desemprego é menos importante do que o nível de renda como fator 
determinante de crimes. 
38 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Porém, o nível de renda e o desemprego podem incentivar a opção 
pelo crime de outra forma. Quando a renda média do indivíduo é baixa ou 
nula (desempregado), os benefícios do crime, comparados com os custos, 
tendem a ser mais atraentes. Para um desempregado (sem renda), o custo 
da renda perdida, em termos de tempo de prisão, é zero. Em conseqüência 
disso, para ele o benefício monetário do delito, por pequeno que seja, é 
maior do que o custo medido pela renda perdida em função da punição 
(zero). Assim, a renda média baixa ou o desemprego contribuem para redu­
zir os custos do crime para o indivíduo, fazendo com que aumente o incen­
tivo para que ele decida pelo crime. 
O nível de educação da população também afeta os custos de oportu­
nidade dos crimes, na medida em que influencia a expectativa de retorno 
dos indivíduos no mercado legal e ilegal. Em sua pesquisa, após controlar 
variáveis de distribuição de renda e renda média, Ehrlich constatou que a mé­
dia de anos de estudo da população adulta (mais de 25 anos) afetava as taxas de 
crimes, principalmente dos que são cometidos contra a propriedade. 
Ele forneceu duas explicações para tal fato. A primeira é a de que a 
educação aumenta a expectativa de ganhos no mercado legal e, com isso, 
eleva o custo de oportunidade dos crimes. Ou seja, é preciso que os retor­
nos compensem o patamar de ganhos que a escolaridade mais elevada per-· 
mite alcançar no mercado legal. O nível de educação, neste caso, ao elevar 
o custo dos crimes, desincentiva decisões nessa direção. 
A segunda explicação é que se a educação aumenta a renda média dos 
indivíduos no mercado de trabalho, o retorno dos crimes contra a proprie­
dade, principalmente, tende a aumentar. Como dissemos, renda mais ele­
vada aumenta a oferta de alvos de maior valor e, conseqüentemente, de 
retorno para os crimes. 
Juntando as duas situações, pode-se compreender por que nas cidades 
médias e grandes ocorre uma grande concentração de crimes contra a pro­
priedade. Nelas, existe maior contingente de indivíduos com baixa renda e 
até mesmo sem renda e uma grande oferta de alvos disponíveis. As observa­
ções de Ehrlich, nesse sentido, são compatíveis com a moderna Teoria das 
Oportunidades, formulada por Ronald Clark e Marcus Felson. 
E C O N O M I A DO C R I M E 3 9 
EFEITOS DA PUNIÇÃO 
U m dos fatores decisivos na equação do crime, segundo Becker e Ehr­lich, é o efeito exercido pela probabilidade de prisão e condenação - o 
mais importante risco que o indivíduo assume ao optar pelo crime. Nos 
termos da nossa equação (e = b-p.c), quanto maior for a probabilidade de 
prisão (p), maior é o custo da opção pelo crime. O risco da probabilidade 
de prisão e condenação depende da percepção que os indivíduos têm da 
efetividade e da eficiência do sistema de justiça criminal. 
O efeito da punição sobre o crime pode ser dividido em dois tipos: o 
efeito de incapacitação ocorre quando os criminosos, condenados e presos, 
são temporariamente impedidos de cometer novos crimes. Em alguns mer­
cados de crimes - como no caso dos crimes contra a propriedade - estima­
se que não ocorra o que os economistas chamam de efeito substituição. 
Esse fenômeno ocorre quando, por alguma razão, um produto tem o seu 
preço aumentado e o consumidor compra um outro produto, similar, a um 
preço menor, ainda que tenha algum prejuízo por consumir um produto 
de menor qualidade ou de uma marca menos valorizada. No caso do mer­
cado de crimes, o efeito substituição ocorreria quando um criminoso é 
preso, mas outro imediatamente assume as suas funções, substituindo-o na 
prática dos crimes. Um exemplo conhecido desse efeito ocorre no mercado 
das drogas, onde os traficantes presos são imediatamente substituídos, man­
tendo-se inalteradaa ação do tráfico de drogas. Quando ocorre o efeito 
substituição, teoricamente, ocorre uma redução do efeito incapacitação, 
porque a continuidade dos crimes está assegurada pelos novos integrantes. 
O segundo tipo de efeito da punição é a dissuasão. Ela ocorre quando a 
punição dos responsáveis pelos crimes sinaliza para os demais indivíduos que, 
caso cometam crimes, sejrão também presos e condenados. A proposição é que 
maior percepção do risco aumenta a variável p da equação, elevando o lado dos 
custos associados à opção pelo crime. De acordo com o economista da Univer-
40 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
sidade de Princeton (EUA) Steven Levitt, o efeito dissuasão exerce maior in­
fluência na inibição de crimes do que o efeito incapacitação. 
No modelo econômico do crime, o indivíduo está submetido a esco­
lhas que envolvem riscos e incertezas. Além da probabilidade de punição, a 
incerteza está relacionada também ao resultado do crime. Por mais que se 
possa estimar o resultado esperado de um ato criminoso, ele é, em larga 
medida, incerto frente ao que se poderia obter com uma escolha alternativa 
no mercado legal. 
É possível determinar com precisão como o indivíduo enfrenta a in­
certeza, ou seja, como ele pondera até que ponto está disposto a assumir 
riscos? Provavelmente não. Mas sabe-se que a presença de alguns fatores faz 
com que determinados indivíduos sejam mais propensos a assumir riscos e 
outros não. 
Por exemplo, indivíduos desempregados, portanto com renda zero, 
têm um grande incentivo para assumir riscos. Por outro lado, indivíduos 
integrados ao mercado de trabalho podem cometer crimes para comple­
mentar sua renda. Outros indivíduos podem assumir riscos maiores por 
influência de amigos ou de drogas; da mesma forma, jovens podem come­
ter crimes antes de entrarem no mercado de trabalho. A propósito, a forte 
participação dos jovens em crimes levou os criminologistas norte-america­
nos James Wilson e Richard Herrnstein a escrever que "as taxas de condu­
tas ilegais durante a adolescência são tão elevadas que a delinqüência apare­
ce como parte normal da vida dos adolescentes" . 1 Enfim, existem múltiplas 
situações que podem impulsionar os indivíduos a assumirem maiores riscos. 
O debate do modelo proposto por Becker tem propiciado diversas 
contribuições no entendimento da complexa cadeia de fatores que in­
centivam os indivíduos a cometerem crimes. Assim, sugere-se que, além 
das preferências dos indivíduos (relacionadas à formação de expectati­
vas e consideração dos riscos) , sejam também levados em conta o capi­
tal acumulado pelos indivíduos (habilidades e conhecimentos) , a in­
fluência da educação, os efeitos da influência dos grupos e o capital 
social na comunidade, entre outros. 
Os economistas do trabalho, por exemplo, apontam o fato de que as 
escolhas do presente são fortemente influenciadas pelas atividades dos in­
divíduos no passado. O investimento em educação e aperfeiçoamento pro­
fissional e as habilidades adquiridas em empregos anteriores são exemplos 
bem claros.2 Assim, além da educação formal, seria muito importante nas 
decisões presentes a trajetória e as vivências passadas dos indivíduos. 
E c a N C M I A aa C R I M E 4 1 
Nesse sentido, o economista da Universidade de Nova Iorque Cris­
thoper Flinn argumenta que o capital humano é acumulado no trabalho, e 
não na escola. Em conseqüência, quando o trabalho é trocado pelo crime, 
ocorre uma redução do capital acumulado que irá afetar as possibilidades 
de emprego e renda não apenas no presente mas também no futuro. De 
acordo com sua hipótese, se a renda futura esperada no mercado legal cai, 
os custos do crime também diminuem, gerando um incentivo adicional à 
atividade criminosa no presente. 
No paper Crime Causation: Economic Theories, os economistas Ann 
Dryden, do Wellesley College (EUA) , e Robert Witt, da Universidade 
de Surrey (ING), citam pesquisa que agrega ao modelo econômico do 
crime o estoque de capital social do indivíduo como variável da função 
de util idade e de renda. Nesse sentido, o capital social, medido pela 
reputação e rede de relações na comunidade, foi considerado uma va­
riável representativa dos condicionantes sociais na decisão do crime. 
Além disso, assumiu-se que o estigma associado à prisão depreciaria o 
estoque de capital social do indivíduo. Levando em conta tais premis­
sas, a conclusão do estudo é que a inserção no mercado de trabalho e a 
constituição de famílias incentivam a coesão social, ampliando as rela­
ções de dependência entre os indivíduos reduzindo sua propensão de 
envolvimento em atividades criminosas. A pesquisa confirma o senso 
comum de que a pessoa que possui família, emprego e uma boa reputa­
ção tem muito a perder ao optar pelo crime. 
Se fôssemos traçar uma curva de oferta individual de crimes, teríamos 
uma curva com inclinação positiva, semelhante à de oferta normal. Nesta 
última, a oferta de bens e serviços aumenta na medida em que aumenta o 
preço dos bens e serviços que os consumidores estão dispostos a pagar. Na 
curva de crimes, a quantidade também tenderia a aumentar na medida em 
que se elevasse o retorno dos crimes (preço) .3 
No entanto, se considerarmos os criminosos como um grupo, e que 
a quantidade de crimes pode mudar por efeito das políticas de seguran­
ça, teríamos uma curva um pouco diferente, com um deslocamento da 
curva um pouco para a direita, com uma inclinação positiva ainda mais 
forte. Isso ocorre porque, quando alguns indivíduos ou "firmas" são 
incentivados a cometer crimes - pela queda dos riscos de prisão ou maior 
retorno monetário, ou ambos fatores -, mais indivíduos adicionais e 
novas firmas são induzidas a entrar no "negócio" e produzir mais cri­
mes. Assim, a inclinação positiva da nossa curva de oferta fica mais 
42 Luiz TAD E U V I A P I A N A 
acentuada.4 O desafio dos formuladores e administradores de políticas 
de segurança é deslocar a curva para a esquerda, de modo que tenhamos 
menor quantidade de crimes. 5 
A seguir, vamos examinar mais detalhadamente os efeitos do consumo 
e tráfico de drogas, das condições do mercado de trabalho e renda e da 
aplicação da lei (teoria da dissuasão) nos crimes, fatores que, nos termos da 
teoria econômica do crime, podem influenciar decisivamente a composi­
ção das variáveis b e e da nossa equação. 
E c a N C M IA oa C R I M E 43 
DRO GAS , ÁLC O O L E C RI M ES 
O relatório anual sobre drogas elaborado pelas Nações Unidas, o World Drug Report, informa que, em 2004, 4,2% da população mundial 
com idade ac ima de 1 5 anos consumia drogas ilícitas. Aproximadamente 
1 8 5 milhões de pessoas. Desse total, 1 46 milhões eram consumidores de 
maconha; 29,6 milhões, de anfetaminas; 8,3 milhões, de ecstasy; 1 3,3 mi­
lhões, de cocaína; 1 5 ,2 milhões, de opiáceos e 9,2 milhões, de heroína. 
O impacto do uso de drogas na demanda por serviços de saúde - drug 
problem - permite observar a prevalência das drogas nas principais regiões 
do planeta: os opiáceos são predominantes na Ásia, onde produzem 67% 
das demandas por tratamento de problemas de saúde decorrentes do uso da 
droga, e na Europa, onde alcançam o índice de 6 1 %. A cocaína prevalece 
nas Américas (60% na América do Sul e 29% na América do Norte), e a 
maconha, na África, com 65%. 
Se considerarmos o volume de drogas apreendidas como indicador do 
comércio ilegal ou tráfico de drogas, houve, em 2002, uma estabilização do 
crescimento após o forte aumento observado ao longo da década de 1 990. 
Nesse período, as apreensões de ecstasy cresceram em média 27%; dos de­
pressivos, 20,4%; anfetaminas, 1 9%; morfina, 1 0%; folha de coca, 9,3%; 
maconha, 7,4%; heroína, 7%; ópio, 6,2%; pés de maconha, 6,9%; resina 
de maconha, 4,9%; cocaína, 2,5%, e LSD, 9,6% (em unidades). Na mé­
dia, o crescimento do comércio de drogas ilícitas foi de 1 5% ao ano. 
Na década de 1 990, ocorre uma queda na importância da maconha, 
que é explicada pela emergência de outras sub�tâncias, comoas anfetami­
nas (ATFs) , cujas apreensões triplicaram na década. Verifica-se também um 
crescimento dos opiáceos, refletindo a expansão da produção no Afeganis­
tão, e um crescimento, seguido de estabilização, da cocaína. Nos primeiros 
anos deste século, o número de apreensões de cocaína estabilizou, como 
reflexo do declínio da produção de coca na Colômbia. De 1 999 a 2003, 
44 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
estima-se uma queda de 46% no cultivo de coca na Colômbia e de 30% 
nos demais países produtores, fazendo com que o cultivo global da coca 
esteja no nível mais baixo desde 1 990, algo em torno de 1 50 mil hectares. 
Os custos provocados pelas drogas, no jargão técnico dos economistas 
externa/idades negativas, impactam em várias áreas. Provocam o aumento 
dos gastos governamentais com o sistema de justiça criminal - polícia, jus­
tiça e sistema prisional -, uma vez que o crescimento do tráfico e do consu­
mo de drogas implica gastos mais elevados na repressão, julgamento e pri­
são dos condenados. E provoca, também, o aumento do volume de recur­
sos destinados ao sistema de saúde e dos programas educativos de preven­
ção ao uso de drogas. 
Computando todos esses gastos, nos Estados Unidos despendia 1 % 
de seu PIB (Produto Interno Bruto) , ou algo como U$ 1 .000 (mil dólares) 
per capita, ao ano, em valores de 1 996. Nesse ano, o governo norte-ameri­
cano destinou apenas no combate às drogas mais de cinco vezes o que havia 
gasto em 1 985 .7 Um valor de U$ 6 bilhões de dólares, dos quais 66% 
foram destinados às ações de interdição de drogas, programas educativos e 
de policiamento comunitário. Se compararmos esse valor com o total de gas­
tos do governo dos Estados Unidos dirigidos ao Sistema de Justiça Criminal -
U$ 1 00 bilhões de dólares/ano8 - tem-se uma idéia da magnitude dos recursos 
destinados especificamente ao tratamento e combate às drogas. 
O uso de drogas provoca, ainda, um custo econômico para as empre­
sas, pois aumenta o absenteísmo e diminui a produtividade dos trabalha­
dores, além de provocar perda de renda para os usuários que abandonam a 
vida produtiva ou são condenados à prisão. Fazem parte desses custos, ain­
da, as perdas materiais provocadas por furtos e roubos. 
O uso de drogas provoca, ainda, queda do desempenho escolar, compor­
tamento anti-social e deterioração do relacionamento familiar. Crianças que se 
desenvolvem em ambientes onde imperam conflitos familiares, quando adul­
tos, são mais propensos a optar pelo crime. Um estudo realizado em Massachu­
setts (EUA) revelou que as crianças que sofreram violência na infância apresen­
taram 50% mais chances de se tornarem usuárias de álcool e drogas. 9 
No livro Economics of Crime, os economistas Daryl Hellman e Neil 
Alper, da Northeastern University (EUA), fizeram um cálculo mais amplo 
do impacto econômico das drogas, englobando outros custos além dos gas­
tos com tratamento de saúde, programas educativos e sistema de justiça 
criminal. Eles computaram, ainda, os custos decorrentes da morte prema­
tura, perda de renda e dos custos associados ao crime (renda e inatividade). 
E c a N C M I A oa C R I M E 4 5 
Em 1 97 1 , cada viciado custava por ano à sociedade U$ 13 .790 (treze mil, 
setecentos e noventa dólares); em 1 997, este valor elevou-se para U$ 54.479 
(cinqüenta e quatro mil, quatrocentos e setenta e nove dólares). Outro 
estudo, por eles referido, aponta um custo total de U$ 282 bilhões de dóla­
res/ano - valores para 1 997 -, o equivalente ao que os EUA gastaram em 
1 O anos de guerra no Vietname. 
No Brasil, estima-se que o custo do uso indevido de substâncias psi­
coativas atinja o equivalente a 7,9% do Produto Interno Bruto. No triênio 
1 995- 1 997, as psicoses por álcool e/ou drogas e as síndromes de dependên­
cia constituíram o primeiro motivo das internações psiquiátricas no país. 
Os gastos totais com o atendimento de saúde triplicaram, de R$ 900 mi­
lhões em 1 993 para R$ 2,9 bilhões em 1 997. 
O alcoolismo atinge de 8% a 1 0% da população brasileira adulta. O 
abuso do álcool está associado a 50% dos acidentes de trânsito, 50% dos 
homicídios e 25% dos suicídios, e reduz a expectativa de vida em aproxi­
madamente 1 O anos. O estudo A história familiar e a prevalência de depen­
dência de dlcool e tabaco em drea metropolitana na região Sul do Brasil, apon­
ta o álcool como a quarta causa de mortes de homens entre 20 e 40 anos, 
que seriam provocadas por acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e 
cirrose hepática . 10 No Estado de São Paulo, as doenças do fígado relaciona­
das com o álcool, como a cirrose e a fibrose hepáticas, aparecem em segun­
do lugar entre as causas de mortes de homens com 35 a 59 anos, à frente de 
agressões e de acidentes com transporte. Considerando que essas duas cau­
sas também estão correlacionados com uso de álcool, pode-se dizer que esta 
substância está presente em três das cinco principais causas de morte de 
homens na faixa etária de 35 a 59 anos. 1 1 
Outros estudos chegaram a conclusões semelhantes. O exame de 1 9 
mil laudos cadavéricos feitos entre 1 986 e 1 993 n o Instituto Médico Legal 
de São Paulo revelou a espantosa estatística de que 95 em cada 1 00 vítimas 
de morte não-natural apresentavam álcool no sangue. Em 1 997, pesquisa 
feita em quatro capitais - Recife, Brasília, Curitiba e Salvador - com pes­
soas envolvidas em acidentes de trânsito identificou a presença de álcool 
em 6 1 % dos casos. Revelou, ainda, que uma em cada dez pessoas havia 
consumido drogas (maconha, cocaína, benzodiazepínicos, barbitúricos, an­
fetamínicos e opióides). Levantamento semelhante feito em Porto Alegre, 
após examinar laudos do Instituto Médico Legal de janeiro a dezembro de 
2002, constatou que 37,7% das vítimas fatais de acidentes de trânsito apre­
sentavam alcoolemia positiva. 1 2 
46 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
O uso de drogas e do álcool estimula também a violência doméstica, con­
forme demonstra pesquisa feita em São Paulo em 2.372 domicílios, pelo Cen­
tro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - CEBRID. Em 3 1 o/o 
dos ·domicílios foi constatada alguma forma de violência (escândalo, quebra­
quebra, discussão, agressão física, relação sexual forçada ou furto), sendo que 
em 52% dos casos o agressor estava embriagado e em 1 0%, drogado. 
As drogas estão relacionadas com os crimes de várias formas. O soció­
logo e professor da Universidade de Illinois (EUA), Paul Goldstein, em seu 
estudo The Drugs/Violence Nexus: A Tripartite Conceptual Framework, clas­
sificou-as em três tipos distintos: violência psicofarmacológica, violência por 
compulsão econômica e violência sistêmica. A violência psicofarmacológica está 
associada aos eventuais efeitos que o indivíduo pode apresentar como re­
sultado da ingestão - curta ou prolongada - de determinadas substâncias 
indutoras de comportamentos caracterizados pela excitação, irracionalidade 
e violência. 
Embora nem todas as substâncias provo quem d i reta e ime­
diatamente condutas violentas - como é o caso da maconha -, Goldstein 
lembra que elas podem surgir, por exemplo, durante as crises de absti­
nência. Foi o que ele constatou em pesquisas com prostitutas, que co­
metiam crimes tais como roubos e assaltos justamente durante a absti­
nência. Por outro lado, os efeitos psicofarmacológicos podem aumen­
tar a probabilidade de vitimização dos usuários de drogas. Confirmam 
essa hipótese as pesquisas que mostram alta incidência de drogas em 
vítimas de homicídio e abuso sexual. 
Estudos citados pela economista Sara Markowitz, da Universidade de 
Rurgers (EUA), também identificam no consumo de drogas e de álcool 
efeitos biológicos e psicológicos que alteram o comportamento dos indiví­
duos, tornando-os mais propensos à violência. 1 3 Segundo tais pesquisas, se 
é certo que pequenas doses de cocaína, por exemplo, tendem a estimular o 
comportamento agressivo, com relação à maconha existe dupla constata­
ção: no curto prazo, o consumo pode inibir o comportamentoagressivo, 
mas, no longo prazo, com o consumo recorrente, o efeito incentiva com­
portamentos violentos. 
O efeito de compulsão econômica ocorre quando os usuários de drogas 
engajam-se na criminalidade a fim de obter dinheiro para financiar os gas­
tos com o produto. Essa é a motivação presente na maioria dos roubos, 
furtos e assaltos que ocorrem nas grandes cidades, envolvendo, como agen­
tes, principalmente jovens pobres e também de classe média. 
E c a N C M I A oa C R I M E 47 
O terceiro nexo entre drogas e violência apontado por Goldstein é a 
chamada violência sistêmica, que caracteriza a relação entre os próprios tra­
ficantes e entre os traficantes e usuários. Numa amostra de 4 1 4 casos de 
homicídios relacionados com drogas nos registros policiais, descobriu que 
75% deles envolviam eventos no mercado ilegal de drogas e 1 0%, o consu­
mo, combinado ou não com o álcool. 
Isso ocorre porque, por definição, traficantes não resolvem seus con­
flitos com base em códigos ou normas legais. As disputas territoriais, dívi­
das não pagas ou controvérsias envolvendo qualidade ou quantidade são 
resolvidas à força, não raro através da eliminação física dos opositores. A 
violência assume um caráter sistêmico, fazendo parte da própria natureza e 
da estratégia "empresarial" das organizações que exploram o tráfico. Como 
dizem os traficantes, "só o sangue cancela as dívidas" 
As evidências estatísticas da conexão entre drogas e crimes são abun­
dantes, especialmente nos países que dispõem de informações detalhadas, 
como Estados Unidos e Inglaterra. Elas aparecem nas informações sobre 
uso de drogas por indivíduos presos pela polícia, em testes realizados com 
amostras de população de condenados, nos registros policiais e, finalmen­
te, nas pesquisas junto à população. 
Uma pesquisa feita em 1 997 com uma amostra de presos no sis­
tema federal e estadual e correção dos Estados Unidos mostrou que 
22% dos prisioneiros federais e 32,6% dos presos estaduais disseram 
haver cometido crimes sob influência de drogas. 1 4 Entre os condenados 
por crimes contra a propriedade ou relacionados com drogas, um em 
cada quatro disse tê-los cometido para obter dinheiro para comprar a 
substância. 1 5 Quando a lista de crimes é ampliada, envolvendo todas as 
categorias, os condenados por algum tipo de delito relacionado com a 
obtenção de dinheiro para adquirir drogas representam 1 9% do total 
dos detentos das prisões estaduais e 1 6% das prisões federais dos Esta­
dos Unidos. A presença de drogas é muito acentuada também entre os 
presos que disseram ter sofrido abuso sexual ou físico no passado: 89% 
afirmaram usar drogas regularmente . 1 6 
Uma das formas de comprovar a relação entre drogas e crimes são 
testes bioquímicos de indivíduos detidos pela polícia. Um desses testes, 
feito em 1 99 1 pelo National lnstitute of Justice dos Estados Unidos, no 
Programa Drug Use Forecasting (DUF) em 24 cidades do país, analisou a 
presença de drogas em amostras de urina dos presos e apresentou os seguin­
tes resultados, classificados por tipo de acusação: 
48 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Tabela 1 Uso de droga por prisioneiros em 24 cidades selecionadas, por motivo da 
prisão, 1 991 
Percentual com resultado positivo 
Crime Homens Mulheres 
Venda/posse de drogas 78% 79% 
Invasão de propriedade 68% 63% 
Assalto 65% 76% 
Furto 64% 58% 
Homicídio 48% 65% 
Agressão 48% 50% 
Infração de trânsito 42% 48% 
Crime sexual 37% 68% 
Nota: Resultados de exames de urina. As drogas testadas incluíram cocaína, derivados do 
ópio, cloridrato de fenciclidina, maconha, anfetaminas, metadona, metaqualona, benzodiaze­
pínicos, barbitúricos e analgésicos. Mulheres não foram testadas em três cidades. 
Fonte: NIJ, Drug Use Forecasting, relatório anual de 1 99 1 , cit. em Drugs & Crime Data, setem­
bro de 1 994, NCJ-1 49286, U.S. Departament of Justice. 
Os indicadores são eloqüentes: as drogas estão presentes canto nos 
crimes violentos como nos demais delitos, contra a propriedade e trânsito. 
Dados para o ano de 1 988 mostram também force relação entre drogas e 
crimes violentos: em 1 8% dos acusados e 1 6% das vítimas de homicídio 
escavam envolvidos diretamente com drogas . 1 7 
A situação é igualmente dramática quando se trata da relação entre 
crimes violentos e álcool: 28% das vítimas de violência relataram que o 
agressor ou agressores escavam sob influência da substância. O Bureau 
of justice Statistics (BJS) , do governo norte-americano, informa que, em 
1 998 , 4 1% dos condenados por crimes violentos (assaltos, roubos, ar­
rombamentos, agressões e homicídios) e 35% dos condenados por cri­
mes contra a propriedade haviam ingerido bebidas alcoólicas antes do 
cnme. 
Um escudo mais recente sobre a relação entre o álcool e lesões fa­
tais nos EUA concluiu que a substância foi o fator decisivo em 32% dos 
casos de homicídio, 3 1 % das morres por ferimentos não-intencionais e 
23% dos suicídios. 1 8 Outro trabalho estimou em 32% a parcela dos 
acidentes fatais relacionados com intoxicação alcoólica de motoristas 
de automóveis e pedestres. As pesquisas revelam, ainda, que em 42% a 
66% dos casos de homicídio e agressões sérias, o agressor e/ou a vítima 
haviam ingerido bebidas alcoólicas. O mesmo ocorre com 1 3% a 50% 
dos casos de agressão sexual. 1 9 
E C O N O M I A DO C R I M E 49 
A Organização Mundial da Saúde calcula que o álcool seja responsável 
por 9% de todas as doenças que ocorrem na Europa, e que 40% a 60% das 
mortes provocadas por ferimentos intencionais ou não-intencionais este­
jam ligados à substância. A entidade estima o custo social do álcool entre 
2% e 5% do Produto Interno Bruto da região.20 
Uma das características mais dramáticas da presença das drogas diz 
respeito à forte incidência entre os jovens. Em 200 l , nos Estados Unidos, 
28,4% dos jovens com idade entre 12 e 1 7 anos disseram sempre usar dro­
gas ilícitas, 20% revelaram tê-las usado no último ano e 1 0%, no último 
mês. A maconha e o haxixe lideram o ranking das drogas, com 19 ,7% entre 
os ever used Na Inglaterra, a pesquisa nacional de vitimização British Crime 
Survey 200112002 revela que 29,6% dos jovens da faixa etária de 1 6-24 
anos disseram ter usado algum tipo de droga no último ano e 1 8 ,8%, no 
último mês. A droga mais popular entre os jovens ingleses ainda é a maco­
nha, com 26,9% de prevalência, seguida do ecstasy, com 6,8%, e da cocaí­
na, com 4,9%.2 1 
Os reflexos da penetração das drogas na juventude aparecem com cla­
reza nas estatísticas policiais. Em 200 l , os jovens com menos de 1 8 anos já 
representavam 1 3% do total dos presos por algum tipo de incidente com 
drogas. Testes realizados em 2002 para detectar a presença de drogas no 
organismo indicaram resultados positivos em 60% dos jovens detidos. Em 
1 998, 23% dos casos julgados pelas Cortes dos EUA envolvendo detenção 
de jovens estavam ligados às drogas, proporção superior à das ofensas con­
tra pessoas (22%), propriedade ( 1 5%) e ordem pública ( 1 9%).22 
Os dados acima representam apenas uma pequena amostra das múlti­
plas conexões entre drogas e crimes. São suficientes, porém, para demons­
trar que, nos Estados Unidos, uma parcela muito significativa dos crimino­
sos condenados está largamente envolvida com o uso, com as redes de trá­
fico, ou, ainda, são pessoas que decidiram cometer crimes quando estavam 
sob influência de drogas ou queriam obter dinheiro para comprá-las. Os 
números evidenciam a presença de uma dinâmica criminal fortemente as­
sociada ao mercado das drogas - produção, distribuição e uso - e seus refle­
xos culturais e psicológicos. 
As pesquisas mostram, na Inglaterra, um quadro similar ao observado 
nos Estados Unidos - em alguns aspectos, mais grave ainda. Em testes para 
detectar presença de drogas na urina de presos, os resultados foram positi­
vos em 76% dos casos; 49% dos presos apresentaram sinais de uso de ma­
conha, 1 0%, de cocaína e 26%, de álcool. O uso de maconha foi constata-
50 LU I Z TAD E U V I A P I A N A 
do em 54% dos presos da faixa etária de 1 6-20 anos e em 24% desses foi 
detectada a presença de álcool.23 Os dados coletados em entrevistas com 
presos mostram também uma forte presença de drogas: 82% disseram usar 
sempre maconha; 36%, cocaína; 25%, crack; 98%, álcool; 78% disseram 
usar múltiplas drogas e 88%, alguma dessas drogas. 
Alguns papers dedicados ao tema mostram que os usuários-de drogas, 
além de estarem mais propensos a cometerem crimes, também apresentam 
maior probabilidade de serem vítimas. Bonnie Fisher e colegas, da Univer­
sidade de Cincinatti, concluíram que o consumo eventual de drogas au­
mentava a probabilidade de vitimização por crimes violentos.24 Cottler e 
colegas do Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina da Univer­
sidade de Washington (EUA), em pesquisa feita em 2 .663 residências, des­
cobriram que os usuários de cocaína ou heroína têm três vezes mais chance 
de sofrer ataque físico do que os não-usuários.25 No artigo Injection Drug 
Users, Karen McElrath, Dale Chitwood e Mary Comerford concluíram que 
usuários de cocaína têm quatro vezes mais probabilidade do que os não­
usuários de serem vítimas de crime contra a propriedade.26 Em pesquisa 
feita com consumidores de drogas, James lnciardi's, do Centro de Estudos 
sobre Álcool e Drogas, da Universidade de Delaware (EUA) , registrou que 
40% deles relataram ter sido vítimas de roubos e 9%, de agressões.27 
No entanto, por mais eloqüentes que sejam, os dados acima não eli­
dem as dificuldades em se determinar as características da relação entre 
drogas e crimes. A maior delas provém do fato de que os crimes podem 
estar associados, eventualmente, a mais de um fator - econômico, social, 
cultural -, sendo a droga apenas um deles. Além disso, prisioneiros entre­
vistados tendem a exagerar ou minimizar a relevância das drogas, conforme 
seus motivos particulares, e as análises e testes de urina ainda são muito 
limitados. Por outro lado, as correlações entre drogas e ocorrência de crimes 
podem ser explicadas pelo fato de que criminosos são mais propensos ao uso e 
envolvimento com drogas. Nesse caso, teríamos uma cadeia inversa de deter­
minações: não é a droga que leva ao crime, mas o crime que conduz à droga. 
Uma outra maneira de dimensionar a conexão entre drogas e crimes é 
através das análises chamadas cross-country. Esse tipo de análise compara 
dados sobre a presença de drogas e indicadores de criminalidade em diver­
sos países, num determinado período de tempo, permitindo comparações 
que podem indicar ou não correlação entre ambas variáveis. 
O Centro Brasileiro de Informações sobre D rogas Psicotrópicas -
CEBRID realizou, em 2000, uma pesquisa domiciliar visando a detec-
E c:: O N O M I A DO C R I M E ·5 1 
tar a presença das principais drogas no Brasil, com uma amostra das 
1 07 maiores cidades, que tinha como propósito comparar os resultados 
com a situação de outros países onde fo ram realizadas pesquisas idênti­
cas. As substâncias pesquisadas fo ram maconha, cocaína, crack, heroí­
na, alucinógenos, solventes, opiáceos, benzodiazepínicos, estimulantes, 
barbitúricos, álcool e tabaco. 
Os principais resultados são os seguintes: 
- Maconha: "o uso na vida da maconha, nas 1 07 maiores cidades 
brasileiras, foi de 6,9%, resultado próximo ao da Colômbia (5 ,4%) e ao 
da Alemanha (4 ,2%) , porém abaixo do resultado dos americanos 
(34,2%) e do Reino Unido (25%)" . A pesquisa relata que, entre os ado­
lescentes brasileiros, é menor o uso da maconha na vida (5%) do que na 
Colômbia ( 5 ,4%) , México (5 ,8%) , Chile ( 1 0,6%) e EUA ( 1 8 ,3%) . 
- Cocaína: "a prevalência de uso na vida de cocaína, nas 1 07 maiores 
cidades do país, foi de 2,3%, próxima à do Chile (4%), Espanha (3,2%) e 
Reino Unido (2,5%), porém inferior à dos EUA, que registrou 1 1 ,2%" 
- Crack: "o uso na vida de crack foi de 0,7% para as maiores 1 07 
cidades do país, cerca de três vezes menor do que no estudo americano" 
- Álcool : "o uso na vida de álcool foi de 68 ,7%, porcentagem pró­
xima à de outros países (Chile, com 70,8%, e EUA, com 8 1 %)" ; " 1 1 ,2% 
revelaram ser dependentes de álcool no Brasil, porcentagem bem acima 
da observada em alguns locais nos EUA, como Denver (4 ,5%) e Atlan­
ta (4,4%)" 
A comparação dos resultados obtidos nos diversos países evidencia que 
não é a simples presença (consumo relatado) das drogas, principalmente da 
maconha, da cocaína, do crack e do álcool, que explica por que o Brasil 
apresenta maiores níveis de crimes. Isso porque o Brasil situa-se num pata­
mar bastante inferior de consumo de maconha e cocaína em relação aos 
Estados Unidos, por exemplo, mas apresenta taxas muito mais elevadas de 
crimes violentos, homicídios, roubos e assaltos. 
A mesma relação inversa se observa com respeito à Inglaterra, Espanha 
e Chile, que apresentam praticamente os mesmos percentuais de consumo 
de cocaína, mas têm taxas de crimes violentos bem inferiores às nossas. O 
mesmo fenômeno acontece com o consumo de álcool: o Brasil está no 
mesmo patamar que Estados Unidos e Chile, mas tem taxas de crimes vio­
lentos muito superiores às desses países. 
52 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
As análises que se valem da metodologia de comparar países neces­
sitam de séries temporais e amostras grandes para serem representativas. 
Logo, não é possível se tirar conclusões sólidas de uma comparação baseada 
em apenas uma pesquisa. No entanto, levando em conta a ressalva, por 
frágil que seja a conclusão acima, ela indica que níveis próximos de inci­
dência de drogas e álcool na sociedade estão associados a níveis bastante 
diferenciados de crimes. Esse quadro certamente ficaria mais claro se exa­
minássemos a distribuição da incidência do consumo de drogas e álcool na 
população, levando-se em conta dados demográficos e socioeconómicos. 
No caso das drogas, sabe-se que a prevalência do consumo ocorre entre 
jovens, coincidentemente o segmento da população mais afetado pelo de­
semprego e baixo nível de renda, fatores qu� tornam essa parcela da popu­
lação mais vulnerável ao incentivo ao crime. 
A influência das drogas e do álcool nos crimes é objeto também da 
análise econômica. Os economistas têm elaborado estudos para detectar o 
impacto das variações nos preços de bebidas alcoólicas e das drogas ilícitas 
na alteração das taxas de crimes. Da mesma forma, têm sido feitos estudos 
sobre a organização econômica do mercado das drogas, para verificar se e 
em que medida a estruturação das cadeias de produção e distribuição afeta 
os preços finais das substâncias e, em conseqüência, influencia os índices de 
criminalidade. Como exemplo, vejamos o caso da cocaína. 
A cadeia produtiva da cocaína começa com a produção da folha da 
coca em milhares de unidades produtivas, sob supervisão e com o compro­
misso de venda para poucas unidades de produção de pasta e refino. De­
pois de refinada, a cocaína é exportada para vários países, onde atacadistas 
fazem a mistura e a distribuição para vendedores, que, por sua vez, a co­
mercializam nos "pontos" e nas ruas. 
Altamente oligopolizada no segmento da produção e da distribuição 
até o segmento do atacado, a cadeia produtiva é dominada por um número 
muito pequeno de empresas, em geral organizadas em torno de famílias. 
Essas empresas operam na modalidade de cartéis, dividindo mercados e 
dispondo de grande poder de impor preços. O centro do cartel da cocaína 
está localizado na Colômbia, onde estima-se que seja produzida entre 75% 
a 80% do total mundial. 
Essa estrutura de mercado seria a causa principal do alto preço pratica­
do junto ao consumidor final. Estudos calculam que a droga no mercado 
ilegal é 200 vezes mais cara do que seria num hipotético mercado legal, 
mesmo considerando que nesse mercado ela seria fortemente taxada, à se-
E C O N O M I A DO C R I M E 53 
melhança do que ocorre com bebidas alcoólicas e tabaco. Frente à capaci­
dade de determinação de preços pelos cartéis e atacadistas,os vendedores 
de rua garantem suas margens valendo-se de duas situações: a mistura com 
outras substâncias para aumentar o volume da droga e o fato de o consumo 
dos viciados ser inelástico em relação a preços mais altos. 
Em termos econômicos, a cocaína teria duas curvas de demanda: uma 
para umà demanda inelástica e uma convencional, na qual a demanda varia 
conforme o preço. A curva de demanda inelástica representaria o segmento 
de viciados que, como se sabe, são insensíveis à variação de preços. Isso 
significa, em termos muitos simples, que, se os preços aumentam, a quan­
tidade consumida tende a continuar no mesmo patamar, dado, evidente­
mente, um determinado nível de renda dos consumidores. 
Na curva de demanda convencional, as quantidades consumidas va­
riam conforme os preços. Quando os preços aumentam, a demanda tende 
a diminuir. Os consumidores buscam produtos substitutos, com preços 
mais baixos, ou reduzem o volume da compra do produto. Esse movimen­
to pressiona os preços para baixo e tende a produzir um novo ponto de 
equilíbrio. Quando os preços diminuem, a demanda volta a aumentar, pres­
sionando os preços para cima. 
Supondo que o mercado de drogas funcione nesses moldes, na me­
dida em que as ações de interdição e repressão aumentam os preços das 
drogas, teríamos um efeito positivo na queda da demanda, contribuin­
do para a redução dos crimes. Entre os viciados, porém, dada a deman­
da inelástica em relação a preços, esse efeito seria nulo. Apesar dos pre­
ços mais altos, os usuários viciados continuariam a consumir o mesmo 
volume de drogas e, portanto, teoricamente, apresentando a mesma 
propensão a cometer crimes. 
Assim, em termos teóricos , pode-se dizer que o efeito da legaliza­
ção das drogas seria nulo em relação ao consumo dos viciados. Em rela­
ção aos não-viciados, se a legalização, como se supõe, diminuísse os 
preços das drogas, o consumo tenderia a aumentar, assim como os cri­
mes relacionados aos efeitos psicofarmacológicos. Em compensação, os 
crimes relacionados à violência sistêmica diminuiriam com o fim dos 
mercados ilegais. Os efeitos seriam nulos em relação aos crimes de com­
pulsão econômica, que independem da condição de legalidade ou de 
ilegalidade do mercado. 
Nos últimos anos, vários estudos econômicos foram feitos visando a 
detectar eventuais relações entre álcool, drogas e crimes. Embora os resulta-
54 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
dos apresentem variações relacionadas ao tipo de droga, tipo de crime, lo­
cus da análise e perfil dos indivíduos envolvidos, pode-se dizer que está 
bem consolidada entre os economistas a conclusão pela existência de corre­
lações positivas entre crimes e o consumo de drogas e de álcool. 
Os estudos servem como subsídio para avaliar os programas de con­
trole de drogas dos governos, que, em geral, assumem os modelos econô­
micos convencionais de oferta e demanda. Tais programas são considera­
dos bem-sucedidos na redução dos crimes relacionados às drogas e ao ál­
cool quando promovem ações inibidoras que aumentam as restrições de 
oferta desses produtos (interdição e repressão, no caso das drogas, e impos­
tos elevados e restrições de venda, no caso do álcool). O objetivo é que tais 
restrições aumentem os preços no mercado e reduzam a demanda, pois 
com tal redução há a expectativa de que também diminuam os crimes rela­
cionados a drogas e álcool. 
Nos estudos econômicos, são usadas variáveis dos preços de bebi­
das e de drogas, impostos sobre bebidas, quantidades e diferentes tipos 
de taxas de crimes. Estudo de Philip Cook, da Univesidade de Duke e 
Michael Moore, da Universidade da Virginia (EUA) , utilizando preços 
de bebidas e taxas de crimes agregados para 48 Estados nos Estados 
Unidos, concluiu que o consumo de álcool estava relacionado positiva­
mente com estupro, roubo e assaltos, mas não com homicídios. O tra­
balho mostrou ainda que aumento na taxa de impostos sobre bebidas 
provoca redução nas taxas de estupros e roubos, mas não apresenta efei­
tos para assaltos e homicídios. 
Em outro estudo, além dos efeitos da taxação de bebidas (cerveja) , 
foi incluído no modelo o consumo de drogas e o papel da ação policial, 
representado pelo gasto com a polícia. No modelo estudado pelos eco­
nomistas Frank Chaloupka, da Universidade de Illinois, e Henry Saffer, 
da Universidade de Kean (EUA) , o consumo é negativamente relacio­
nado com o preço e positivamente relacionado com a renda e gasto do 
indivíduo. Eles descobriram que o aumento dos impostos sobre a cer­
veja reduzia a taxa de roubos, estupros e de homicídio, mas não agia 
sobre os índices de assaltos. 
Os resultados dos testes estatísticos mostraram que a descriminaliza­
ção da maconha provocava aumento nas taxas de estupros, roubos e assal­
tos. Os testes apuraram também que a legalização poderia reduzir em 60% 
o preço da heroína e da cocaína e que o efeito no mercado seria um aumen­
to possível de 1 00% no uso de heroína e 50% no de cocaína. 
E C O N O M I A DO C R I M E 5 5 
Na perspectiva desses estudos, o aumento dos impostos sobre o álcool 
teria como conseqüência a redução de alguns tipos de crimes, mas a legali­
zação das drogas, apesar de reduzir os preços, aumentaria os índices de 
criminalidade devido ao crescimento do consumo. 
Utilizando o modelo econômico do crime desenvolvido por Gary 
Becker e seguidores, a economista Sara Markowitz, da Universidade de 
Rutgers, busca identificar os efeitos da variação de preço de drogas e álcool 
nos crimes. Sua pesquisa é mais completa, pois, além dos dados dos crimes 
constantes nos registros policiais, levou em conta também os dados de viti­
mização (crimes não relatados à polícia). Controlou, ainda, variáveis que 
afetam os crimes, como raça, idade e renda. 28 
Ela concluiu que o aumento de impostos sobre cerveja provoca queda 
na probabilidade de agressões, mas não apresenta efeitos sobre roubos, es­
tupros e agressões sexuais. A descriminalização da maconha aumenta a pro­
babilidade de vitimização por agressões entre 20% e 60%, mas não apre­
senta efeitos para estupros. No caso da cocaína, o estudo não conseguiu 
apurar resultados confiáveis. 
Além de estudos que investigam as relações entre drogas e crimes atra­
vés da análise do comportamento dos preços e do consumo, o economista 
Jeffrey Miron, da Universidade de Boston (EUA), desenvolveu uma abor­
dagem distinta original que vale a pena mencionar. Ele procura mostrar 
que as conseqüências negativas das drogas decorrem, na realidade, da pró­
pria noção de proibição, o que leva à formação de mercados ilegais. Essa 
assertiva, como veremos adiante, apresenta sérias implicações normativas 
em termos de políticas e programas de controle de drogas. 
O eixo dos estudos de Miron está na proposição de que os preços 
das drogas no mercado ilegal não seriam tão elevados, como se imagina, 
em comparação a um hipotético mercado legal. Em um de seus traba­
lhos - The Ejfect of Drug Prohibition on Drug Prices: Evidence from the 
Markets for Cocaine and Heroin, de 2003 - , ele estima que o preço da 
cocaína no mercado negro é de 2 a 4 vezes maior do que seria no mer­
cado legal, em contraste com outras pesquisas que apontam para um 
patamar 1 O vezes mais alto no mercado negro. Para a heroína, ele esti­
ma uma relação de 6 a 1 9 vezes o preço legalizado, contra a estimativa 
de 1 00 vezes em outros estudos. Com isso, ele procura mostrar que, ao 
contrário do que se supõe, os custos elevados da proibição acarretam 
"efeitos relativamente modestos nos preços das drogas'', sugerindo cla­
ramente que tal política não seria a mais adequada. 
56 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
A ineficácia da proibição das drogas, na visão de Miron, aparece ainda 
nos seguintes aspectos: 
As drogas continuam sendo ofertadas e demandadas, e ao invés de 
eliminar as drogas, a proibição cria um mercado ilegal. 
A proibição potencializa a demanda por drogas através de vários mecanis­
mos: primeiro, a mera proibição só reduz a demanda se osconsumidores 
respeitarem a le_i; segundo, a proibição encoraja a demanda através do 
efeito "fruto proibido", principalmente entre jovens; terceiro, só reduz a 
demanda diretamente através da punição por posse de drogas. 
A proporção de penas impostas por compra e posse de drogas é peque­
na. Nos EUA, menos de 5% dos usuários de drogas são alcançados 
pela Lei, sugerindo baixa probabilidade de prisão; muitos dos presos 
que acabam sendo condenados por posse de drogas, na realidade, são 
presos originariamente por outras causas - prostituição, desordem, 
roubos, etc. 
A evidência de que a proibição reduz de forma significativa o con­
sumo é incompleta. Muitos continuam consumindo drogas apesar 
da proibição, embora não se possa determinar se a quantidade con­
sumida é maior ou menor em comparação ao mercado legal. Se o 
comportamento das drogas fosse semelhante ao do álcool, o efeito 
da proibição seria modesto. 
As referências empíricas acima indicam crês possibilidades de análise 
da conexão entre drogas e crimes. Primeira: a demanda por drogas é sensí­
vel à variação dos preços das substâncias, indicando que os esforços para 
elevar os custos relacionados à oferta e ao consumo são positivos. O au­
mento do preço das drogas no mercado, bem como dos riscos de punição 
para vendedores e usuários, é objetivo das políticas de repressão e interdi­
ção do produto. A redução da demanda por drogas reria como conseqüên­
cia a diminuição dos crimes. 
Segunda: o segmento formado pelos viciados seria insensível à variação de 
preços e aos demais custos envolvidos na venda e consumo de drogas. Nesse 
caso, os efeitos das políticas de repressão e interdição seriam nulos e reríamos, 
nesse segmento, uma conexão permanente entre drogas e crimes. 
Terceira: a proibição não reria o efeito esperado nos preços e seria 
ineficaz para reduzir o consumo. Além disso, potencializaria os crimes ao 
criar um mercado ilegal, onde os conflitos são resolvidos com base em rela­
ções de violência. 
E C O N O M IA DO C R I M E 57 
Com relação aos dois primeiros aspectos, a teoria econômica do crime 
oferece uma abordagem bastante satisfatória, com uma boa quantidade de 
referências empíricas comprovando a pertinência da análise. Se, de fato, as 
decisões por uso de drogas e pelos crimes são explicadas pela equação que 
leva em conta os retornos esperados e os custos envolvidos, a elevação des­
ses custos tende a reduzir a atratividade da opção por drogas e crimes. 
A questão central parece ser se a demanda apresenta sensibilidade em rela­
ção à variação dos preços - se a demanda é elástica ou inelástica. Se, como 
supõem Becker e outros estudiosos, a demanda for inelástica ou apresentar 
baixa elasticidade, os efeitos das políticas públicas de interdição das drogas, cujo 
objetivo é reduzir a oferta e aumentar os preços, pode ser pequeno ou nulo. E, 
em conseqüência, apresentar uma relação negativa de custo/benefício. 
Apesar dos esforços de interdição e apreensão, a quantidade ofertada 
nas ruas tem se mantido constante e os preços, ao contrário do que se 
esperava, ao invés de aumentarem, caíram. 
Se assim for, as políticas atuais de criminalização das drogas, repressão 
e interdição são ineficazes como instrumentos de controle da oferta e da 
demanda e inócuas para romper as conexões entre drogas e crimes. Apre­
sentam, para a sociedade, uma relação custo/benefício negativa. 
Do ponto de vista econômico, a legalização traria alguns benefícios 
muito importantes. Em primeiro lugar, conduziria o mercado dessas subs­
tâncias para a legalidade, isto é, para o controle do Estado. É claro que é 
preciso discutir quais substâncias e em que quantidades seriam permitidas, 
bem como quais mecanismos de controle devem ser utilizados. De qual­
quer forma, o fato é que o mercado passaria a funcionar segundo determi­
nadas regras de controle e teria os preços fortemente influenciados pelos 
custos de transação (derivado das regras de acesso ao produto) e custos de 
taxação (impostos), com o que se poderia ter controle legal e também eco­
nômico, via preços. É importante lembrar esses aspectos para que não se 
pense que legalização significa liberação total e redução das restrições de 
acesso às substâncias. 
Em segundo lugar, ao trazer o mercado ilegal para a legalidade, elimi­
nar-se-iam as organizações ilegais envolvidas com o tráfico de drogas. A 
expectativa, em conseqüência disso, é a de que seria eliminada ou reduzida 
a criminalidade "sistémica", relacionada à disputa entre traficantes e entre 
estes e os usuários. 
Finalmente a legalização proporcionaria um tratamento diferenciado 
aos usuários de drogas, retirando-lhes o estigma derivado de sua relação 
se L u i z TAD E U V I A P I A N A 
com atitudes ilegais. O usuário passaria, então, a ser tratado como um indi­
víduo acometido de uma doença e não mais como um criminoso. É evi­
dente que uma política nesses moldes traria benefícios consideráveis na 
ruptura do elo entre usuários de drogas e crimes. 
Todavia, por mais razoáveis que sejam os benefícios da legalização, 
com a criação de regras de acesso e consumo legal de determinadas quanti­
dades de drogas, e da descriminalização, com a mudança do paradigma da 
contravenção e/ou crime para o âmbito da saúde pública, ambas questões 
envolvem uma complexa disputa moral. 
Por exemplo, o Dr. Elisaldo Carlini, um dos maiores especialistas bra­
sileiros em drogas e que integrou a Junta Internacional de Narcóticos, da 
ONU, é favorável à descriminalização, mas contrário à legalização, com 
base no enfoque de saúde. Legalizar, diz Carlini, significa reconhecer que as 
drogas não fazem mal à saúde, o que é errado. Sublinha que, além dos 
aspectos econômicos, a questão das drogas deve ser abordada levando-se 
em conta "a visão médica e o sofrimento do ser humano". Quanto a descri­
minalizar, a "abordagem muda - continuamos a afirmar que a droga faz 
mal, mas o indivíduo não vai para a cadeia por isso" (por consumí-la). 
Como se vê, estamos diante de um debate que envolve objetivos tais 
como a eficácia de políticas de controle ou os custos econômicos e sociais, 
mas também diante de intrincados aspectos médicos e até mesmo morais. 
É um debate, portanto, que vai muito além do terreno da economia e da 
eficácia das políticas governamentais. 
E C O N O M I A DO C R I M E 59 
TRABALHO , REN DA E C RI M ES 
Adesigualdade de renda e de oportunidades no mercado de trabalho tem sido apontada com grande freqüência como a mais importante 
causa do crime. Com efeito, as relações entre crime e mercado de trabalho 
e entre crime e distribuição de renda têm sido objeto de ampla pesquisa 
entre economistas e cientistas sociais, principalmente nos Estados Unidos e 
Europa, dando origem a uma vasta e rica literatura. 
Boa parte desses estudos filia-se à tradição ao modelo da Escolha Ra­
cional, já referido, segundo a qual as decisões dos indivíduos levam em 
conta custos e benefícios. Aplicada ao crime, isso significa que os indiví­
duos decidem pelo crime ou pelo não-crime ao comparar o retorno dos 
delitos - e também os custos a eles associados, como punição e custos mo­
rais - frente aos benefícios da atividade legal. 
Porém, o exame dessa literatura demonstra que a relação entre desem­
prego e crime é, no mínimo, ambígua, tanto em sua "natureza" quanto em 
"robustez" Embora o exame dos estudos disponíveis sugira que o cresci­
mento do desemprego tem efeitos tênues sobre o comportamento das cur­
vas de crimes, como sugere o professor Paolo Buonanno, da Universidade 
de Bergamo, Itália, ainda assim muitos pesquisadores acreditam no trade­
ojf entre ambos. Em parte, isso se deve ao fato de que vários estudos cons­
tatam forte presença de desempregados entre criminosos, mas também ao 
farto volume de evidências empíricas que revelam correlações positivas en­
tre desemprego e determinados tipos de crime, principalmente os cometi­
dos contra a propriedade. 
Por outro lado, existem também pesquisas que mostram presença ma­joritária de empregados entre os criminosos. Um exemplo é o estudo dos 
economistas Ayse lmrohoroglu, da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), 
Antonio Merlo, da Universidade da Pensilvânia (EUA), e Peter Rupert, da 
Universidade de Ontário (CAN), com dados de 1 980, para os Estados 
60 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Unidos, cujo resultado mostra que 79% das pessoas engajadas em alguma 
atividade criminosa estavam empregadas e 2 1 % desempregadas. Numa di­
reção também oposta à grande parte das pesquisas sobre o tema, os econo­
mistas Philiph Cook e Gary Zarkin encontraram efeitos negativos do de­
semprego nos crimes violentos, especialmente assassinatos. 29 
Como explicar os resultados contraditórios e até mesmo opostos? Par­
te da explicação pode ser encontrada nas metodologias e modelos econo­
métricos adotados. Por exemplo, sabemos que é comum encontrar resulta­
dos diferentes entre os escudos que utilizam taxas agregadas por países e 
estudos que usam dados para unidades espaciais menores - regiões ou cida­
des, pela simples razão de que os dados agregados escondem e mascaram as 
diferenças regionais ou locais. Mesmo numa mesma cidade, os indicadores 
variam entre as diversas áreas e bairros. Da mesma forma, os estudos que 
usam dados agregados dependem de séries temporais grandes para produ­
zir resultados robustos (time serie studies) . 
Além desses aspectos, conforme salienta o economista e professor da 
Universidade de Harvard (EUA) Richard Freeman, as variáveis podem 
mudar juntas, sem que, no entanto, tais efeitos estejam correlacionados 
entre si. Mudanças observadas em variáveis num determinado ano podem 
estar associadas a alterações ocorridas no ano anterior. Freeman cita time 
series studies feitos em 1 980, utilizando taxas para o total dos crimes e taxas 
para vários tipos de crimes - como roubos e furtos - que mostram os cri­
mes relacionados com o desemprego. No entanto, quando são medidos os 
efeitos do desemprego nos crimes, os resultados são apenas moderados, 
"incapazes de explicar a tendência para cima do crime".30 Em outras pala­
vras, as taxas de crimes podem crescer junto com o desemprego, mas não 
por causa dele. 
A mesma dificuldade surge quando as técnicas estatísticas realizam as 
regressões das mudanças nas taxas de crime e de desemprego no mesmo 
ano, ou das mudanças no desemprego no ano anterior. Pesquisas referidas 
por Freeman, feitas na Inglaterra, mostraram que mudanças na taxa de 
desemprego estão associadas com alterações, na mesma direção, dos índices 
de crime, tornando consistente a noção de que desemprego causa crimes. 
Entretanto, quando consideradas mudanças no emprego observadas no ano 
anterior, não foi detectado efeito nas taxas de crimes. 
Os economistas Rainer Winkelmann, da Universidade de Zurich, e 
Kerry Papps, da Universidade de Cornell (EUA), também restaram a in­
fluência do desemprego nas taxas de crimes na Nova Zelândia, com dados 
E c: a N C M I A oa C R I M E 6 1 
para o período de doze anos ( 1 984- 1 996) . Chegaram à conclusão de que, 
quando comparadas às taxas agregadas de desemprego e total de crimes, as 
duas curvas se movem quase paralelamente. No entanto, quando os crimes 
são divididos por tipos, a análise de regressão mostra fraca influência do 
desemprego sobre os crimes: cada 1 0% de aumento na taxa de desemprego 
está associado a 1 ,4% de aumento na taxa de crimes. Correlações fortes 
foram encontradas apenas com os chamados dishonesty ojfenses, que englobam 
furtos, fraudes, roubos, receptação e "transformação de carros" Um detalhe 
importante: o estudo observou também a existência de efeitos negativos 
das detenções sobre os crimes, tema que iremos examinar adiante.3 1 
Também fazendo uma revisão de estudos feitos entre 1959 e 1 975, 
sobre a relação entre desemprego e crime, o sociólogo norte-americano 
Richard Gillespie encontrou conexões positivas em três, inexistência de 
conexões em sete e resultados errados em quatro deles. Os criminologistas 
James Wilson e Richard Herrnstein citam estudos que descrevem cresci­
mento simultâneo das taxas de crimes e de desemprego entre jovens do 
sexo masculino nas décadas de 1 960 e 1 970 nos EUA. 
Uma segunda metodologia muito usada é a denominada cross-section, 
na qual os dados de crimes e características do mercado de trabalho, renda 
e dados demográficos são organizados por unidades espaciais (por exem­
plo, países, estados, regiões ou municípios), que são comparadas entre si. A 
principal dificuldade que esse tipo de metodologia apresenta reside nas 
chamadas variáveis "espúrias", que consistem na probabilidade de que um 
efeito nas taxas de crimes seja explicado por outra variável que não mudan­
ças no mercado de trabalho ou na renda. Por exemplo, numa determinada 
área uma redução nas taxas dos crimes pode estar associada à baixa percep­
ção do risco de prisão e condenação, enquanto que em outra à queda do 
crescimento demográfico. Quando se comparam países, muitas variáveis 
precisam ser controladas adequadamente, o que torna tais estudos bastante 
complexos e difíceis. Além do que, como é possível controlar os aspectos 
culturais e históricos específicos de cada país ou região? 
Apesar das dificuldades, muitos desses estudos examinados pelo eco­
nomista Richard Freeman reforçam o link entre fatores do mercado de 
trabalho e crimes. Na revisão de 1 5 trabalhos elaborados em 1 983, ele clas­
sificou quatro com efeitos positivos e significativos e sete com efeitos posi­
tivos mas com resultados não robustos. Analisando outros testes realizados 
no período 1 976- 1 989, nos Estados Unidos, ele encontrou efeitos positi­
vos entre o desemprego e total de crimes e também entre desemprego e 
62 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
crimes específicos, como os cometidos contra propriedade, roubos e furtos 
de veículos. Assassinatos e estupros não apresentaram relação positiva com 
o desemprego. O criminologista Theodore Chiricos, professor da Univer­
sidade da Flórida (EUA), que também analisou diversos escudos, feitos na 
década de 1 970, encontrou em 44% deles resultados positivos e não signi­
ficativos e em 48%, resultados positivos e significativos. 
Finalmente, existe ainda outro tipo de escudos, que analisam as carac­
terísticas socioeconômicas dos indivíduos que comecem crimes e dos que 
não cometem, bem como o comportamento criminal em várias circuns­
tâncias. Esses escudos utilizam dados obtidos em pesquisas tipo survey, da­
dos sobre perfil da população prisional e taxas de prisões. O objetivo desses 
escudos é identificar e avaliar em que medida as características econômicas 
e sociais dos indivíduos infuenciam suas decisões pelo crime e pelo não­
crime. As economistas e pesquisadoras do Nacional Bureau of Economic 
Research (EUA) Ann Witce e Helen Tauchen, usando dados individuais -
uma amostra com homens jovens -, encontraram evidências de que o de­
semprego está relacionado com o crime. O criminologista da Universidade 
do Estado de Nova Iorque Terrence Thornberry e seu colega R. L. Chris­
censon também encontraram evidências de que o desemprego exerce signi­
ficativo e instantâneo efeito nos crimes. 
As pesquisas que usam dados sobre os indivíduos indicam que, de 
fato, uma proporção elevada de criminosos é proveniente dos grupos de 
baixa renda e com menores oportunidades de emprego; que os jovens que 
conservam seus empregos por um período mais longo têm menor probabi­
lidade de serem presos do que aqueles empregados por períodos curtos; e, 
finalmente, que os jovens negros empregados comecem menos crimes do 
que os desempregados. Os indivíduos com histórico de prisão apresentam 
menos chance de conseguir emprego, ou percebem salários menores quan­
do conseguem se reintegrar no mercado de trabalho. 
Um dos escudos mais extensivos sobre a influência do desemprego nos 
crimes usando dados socioeconómicos individuais foi feito recentemente pelos 
economistas Denis Fougere, Francis Kramarz e Julien Pougec (2003) para a 
França, usandodados de 1 990-2000. Nesse escudo, os dados socioeconómicos 
e dos crimes violentos e contra a propriedade ( 1 7 categorias de crimes ao 
todo) são organizados por regiões (os 95 departamentos do país) e por 
cidades. Para complementar os dados provenientes dos registros policiais, 
foram usadas ainda informações de pesquisas de vitimização. Como o efei­
to do desemprego é ambíguo, foram consideradas várias características do 
E c c N C M IA oc C R I M E 6 3 
desemprego, para captar eventuais diferenças em seus efeitos sobre o crime 
- desempregados jovens, desempregados adultos, benefícios aos desempre­
gados e duração do desemprego. 
Os crimes analisados no estudo apresentaram evolução diferenciada 
ao longo da década de 1 990. Os roubos, em geral, caem 8% durante o 
período, enquanto roubos com uso de violência crescem 74%. O roubo de 
carros e de objetos dentro de carros aumentou nos três primeiros anos e 
depois caiu lentamente. Com exceção dos homicídios, todos os crimes vio­
lentos aumentaram. Os crimes relacionados a drogas cresceram 75%. Um 
detalhe importante é que os delitos estão todos correlacionados. Nos de­
partamentos {estados) onde os crimes contra a propriedade são altos, os 
crimes violentos também são elevados, o que, segundo os autores, sugere 
que todas as categorias de crimes podem estar relacionadas a determinantes 
comuns. Enquanto isso, a taxa de desemprego da faixa etária entre 1 5 e 24 
anos oscilou entre 20% e 30% durante o período; a da faixa de 25-49 anos, 
entre 8% e 1 0%, e a de 50-65 anos, entre 7% e 8%. 
Quando os dados são analisados por departamentos ou regiões, os 
testes indicaram que o desemprego entre os jo�ens apresentou efeito positi­
vo e robusto para os crimes de roubos e furtos e crimes relacionados a 
drogas, mas impacto zero nos demais crimes econômicos e violentos. Os 
desempregados jovens que não recebem o benefício do auxílio-desemprego 
tendem a cometer mais crimes contra a propriedade. Porém, para vários 
crimes, o impacto do desemprego é negativo ou zero, entre os quais, estupros, 
homicídios, agressões familiares e, paradoxalmente, roubo de caneiras e furtos 
em lojas. Uma explicação possível é que esses crimes são uma característica de 
indivíduos já excluídos do mercado de trabalho ou que ainda não ingressaram 
nele. Como outras pesquisas, os dados revelaram inexistência de associação 
entre taxas de crimes e taxas de desemprego no longo prazo. 
Esse escudo merece destaque, porque, além de analisar mais detalhada­
mente as relações entre os crimes e o mercado de trabalho, é um dos poucos 
que conseguiu demonstrar que os efeitos do desemprego não são uniformes 
para os crimes contra a propriedade ou economicamente motivados. Mais do 
que isso, merece destaque também a comprovação de que os crimes estão 
correlacionados, ou seja, onde existem maiores taxas de crimes contra a 
propriedade, também há maiores índices de crimes violentos. 
Esta última constatação é relevante, pois pode indicar a ação simultâ­
nea de determinantes comuns sobre diferentes tipos de crimes e/ou a exis­
tência de criminosos que operam com base em um portfólio de crimes. Não 
64 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
existira a especialização - aquele que furta, aquele! que rouba, aquele trafica 
-, mas carreiras criminosas ou ações criminosas, cujo crime depende da 
oportunidade, do retorno ou de outra circunstância específica. No caso das 
drogas, essa associação é mais evidente, pois ela pode determinar tanto cri­
mes contra a propriedade (crime de renda para custear o consumo), quanto 
crimes violentos (a violência sistêmica ligada ao tráfico). Se essa descoberta 
for comprovada em outros estudos, terá implicações importantes para as 
políticas de segurança pública. Em certo sentido, é importante recordar, 
esta é uma das premissas das políticas de tolerância zero (broken windows), 
cujo alvo é o crime, independentemente da tipologia ou da gravidade. 
Na mesma direção, estudo elaborado pelos economistas Eric Gould, 
da Universidade de Hebrew (ISR) , Bruce Weinber, da Universidade Esta­
dual de Ohio (EUA), e David Mustard, da Universidade da Geórgia (EUA), 
procurou identificar as relações entre desemprego e salários e crimes nos 
Estados Unidos no período 1 979- 1 997. O estudo analisou, especificamen­
te, se e como as mudanças no mercado de trabalho para o segmento forma­
do por trabalhadores jovens e não-qualificados se relacionavam com as ta­
xas cnmma1s. 
Após examinar as curvas de desemprego e salários no período, o estu­
do conclui que as tendências de longo prazo dos crimes são melhor explica­
das pelas tendências de longo prazo nos salários do que no desemprego. 
Em 1 997, os salários dos homens com até o segundo grau completo eram 
20% inferiores a 1 979, enquanto que o desemprego manteve-se no mesmo 
patamar no período. 
Os testes da análise de painel por região mostraram relações mais sig­
nificativas entre a queda dos salários e os crimes, do que flutuações no 
emprego e crimes. A queda nos salários dos trabalhadores com educação 
média explica parcela importante (43%) do aumento de 29% nos crimes 
contra a propriedade no período, assim como explica a metade do aumen­
to de 47% observado nos crimes violentos. O desemprego responde por 
24% do aumento dos crimes contra a propriedade e apenas 8% do aumen­
to nos crimes violentos. "Claramente, as tendências de longo prazo dos 
salários foram o fato dominante no crime durante este período", escrevem 
os autores do estudo. 
Quando a análise foca o período de 1 99 3-1 997, os crimes contra a 
propriedade caem 7,6% e os crimes violentos, 1 2,3%. De acordo com os 
autores, ao contrário do que ocorreu no período 1 979- 1 993, o movimento 
está relacionado com o desemprego: a queda de 3, 1 5% no desemprego 
E c c N C M IA o c C R I M E 6 5 
explica 7,5% dos crimes contra a propriedade e 4% dos crimes violentos. 
Após os autores terem incluído na análise variáveis para controlar o efeito 
"dissuasão" (gastos per capita com a polícia), o resultado é que o desempre­
go permaneceu significativo para crimes contra a propriedade, mas desapa­
receu para os crimes violentos. 
O economista Jeffrey Grogger, da Universidade da Califórnia (EUA), 
depois de ter analisado o comportamento dos salários e dos crimes durante 
20 anos, descobriu que uma queda de 20% nos salários reais dos jovens 
aumenta o crime entre 12 e 1 8%. As diferenças raciais e a queda dos crimes 
conforme a faixa etária são explicadas também por diferenças salariais: os 
negros, em geral, percebem salários menores do que os brancos, o que ex­
plicaria por que negros cometem mais crimes. Por outro lado, a queda dos 
índices de crimes, que aumenta na medida em que avança a idade dos indi­
víduos, é explicada pelo crescimento da renda. 
A esta altura cabe indagar: qual a conclusão que se pode extrair das 
pesquisas sobre desemprego, salários e crimes? 
Apesar das críticas e das limitações metodológicas das pesquisas empí­
ricas, podemos ensaiar algumas conclusões. A primeira é que, à luz do modelo 
econômico do crime, o desemprego - e a conseqüente perda de renda -
pode exercer uma influência positiva na decisão pelo crime. Não se trata de 
afirmar, entretanto, que o desemprego causa o crime, mas de ponderar que, 
ao subtrair a renda do indivíduo, ele gera um efeito de incentivo ao crime 
ao elevar o retorno da atividade no mercado ilegal (crime) em relação ao 
mercado legal (salário). Outra situação é aquela em que parcela da popula­
ção está fora do mercado de trabalho de forma permanente - o que parece 
ser a situação do Brasil -, uma das pré-condições para que ocorra um in­
centivo à opção pelo crime. Nesse caso, com renda zero, o retorno econô­
mico dos crimes, por pequenos que sejam, torna-se atraente. 
Uma segunda conclusão, que encontra forte respaldo em pesquisas e 
testes estatísticos, é a relação entre a queda da renda média dos indivíduos 
e as taxas de crimes. Essa reação parece mais clara do que a relação entre 
desempregoe crimes. Nos termos do modelo econômico do crime, indiví­
duos com renda média baixa apresentam menor aversão ao risco e, além 
disso, valorizam mais o retorno dos crimes, ainda que estes sejam baixos. O 
mesmo vale para os indivíduos com idade produtiva que não têm renda -
os desempregados, como já salientamos. É importante lembrar, novamen­
te, que tais relações não são diretas e mecânicas; elas são mediadas pela 
cultura, pelos valores morais, pela educação e pelas ligações dos indivíduos 
66 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
com a família e com a comunidade. Isso é o que explica por que todos os 
desempregados ou todos os que ganham baixos salários não se tornam cri­
mmosos. 
Tais conclusões não são, naturalmente, aceitas por todos. Além das 
dificuldades metodológicos já mencionadas, que se referem à qualidade 
dos dados e à forma como são organizados (amostras reduzidas e séries 
pequenas), existe um outro tipo de crítica que vale a pena mencionar. Tra­
ta-se da crítica ao próprio modelo da "escolha racional", que é feita, princi­
palmente, pelos criminologistas. Por exemplo, os criminologistas James Wil­
son e Richard Herrnstein questionam a noção de que o indivíduo escolhe 
entre o crime e o não-crime. Segundo eles, existe uma outra possibilidade, 
pois o indivíduo pode escolher simultaneamente as duas opções. Ou seja, 
podem coexistir atividades legais com atividades ilegais. A não ser nos casos 
em que se configura uma "carreira criminosa", pode não haver uma frontei­
ra rígida entre o crime e o não-crime. Quem rouba ou furta eventualmente, 
e na maior parte do tempo trabalha, é um exemplo dessa possibilidade. 
Outra vertente dessa crítica é a de que os economistas ignoram ou 
subestimam a influência da formação educacional e moral dos indivíduos 
em suas decisões. A qualidade dessa formação, medida pela adesão desde a 
infância aos valores morais e éticos, que conduz o indivíduo a agir de acor­
do com as leis e normas, teria um peso considerável na hora da "decisão" 
pelo crime. Em outras palavras, a ação delituosa dos indivíduos é definida 
ou fortemente influenciada pela socialização primária e secundária, princi­
palmente na família e na escola. Ou ainda, nos termos da teoria do curso da 
vida (life course) , por eventos que afetam da vida das pessoas, em termos 
afetivos, materiais ou psicológicos, que podem modificar eventual propen­
são ao delito. 
Quanto à primeira crítica, pode argumentar que, ainda que o indiví­
duo esteja empregado e decida por cometer um crime visando a comple­
mentar sua renda, obtida originalmente no mercado legal, o modelo per­
manece válido, pois no momento em que decidir cometê-lo, irá ponderar 
sobre os benefícios e os custos. Para esse indivíduo, o custo do crime tende­
rá a ser mais alto, porque ele já tem uma renda certa no mercado legal, e sua 
eventual prisão acarretará a perda dessa renda. Nesse caso, nosso e da equa­
ção será mais elevado. 
Com relação à segunda crítica, não enxergamos a contradição aponta­
da entre a "escolha racional" e as influências culturais ou morais. Vários 
estudos mostram que, se a formação moral e a educação de um indivíduo 
E c a N C M IA oa C R I M E 6 7 
são mais elevadas, aumentam os custos do crime. Indivíduos com maior 
capital individual apresentam, naturalmente, maior aversão ao risco, ponde­
rando custos de forma diferente do que indivíduos com capital individual bai­
xo. Os indivíduos nessas condições percebem os custos do crime como mais 
elevados, tanto os monetários quanto os morais. É por essa razão que as 
relações entre escolaridade e não-crime são muito robustas. 
68 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
EDUCAÇÃO: A CHAVE 
As relações entre emprego e renda e crimes ficam mais claras quando examinamos o papel da educação. Ela se relaciona diretamente com o 
desenvolvimento econômico e com as oportunidades de emprego e renda 
dos indivíduos. 
O crescimento da economia é influenciado pela educação através do 
aumento da produtividade individual dos trabalhadores e da elevação dos 
patamares do conhecimento e da pesquisa científica e tecnológica. Tais con­
clusões são compatíveis com a teoria do Capital Humano, segundo a qual o 
crescimento econômico não pode ser visto tão-somente como uma função 
dos fatores de produção tradicionais - como terra, capital e trabalho -, 
devendo incorporar também o capital consubstanciado na educação e nas 
habilidades dos indivíduos. 
Os estudos mostram, de forma robusta, que um ano de aumento na esco­
laridade da população produz um aumento de 1 0% no crescimento econômi­
co. Revelam, também, que cada ano de acréscimo na escolaridade dos trabalha­
dores aumenta a produtividade geral média da economia em 2,8%. Hipoteti­
camente, um país com uma taxa de matrícula média no ensino secundário 
50% maior do que outro país cresceria 1 ,5 ponto percentual a mais. Isso repre­
senta, em 25 anos, um salto de 45% no Produto Interno Bruto.32 
Na resenha da literatura disponível, loschpe (2004) aponta várias evi­
dências da importância da educação na produtividade e na renda do traba­
lhador. Um dos estudos conclui que um ano a mais de escolaridade conduz 
a um aumento anual de 6,5% a 1 1 ,5% na renda. Outro paper, por ele 
mencionado, revela que um ano de escolaridade aumenta entre 7,5% e 
8,6% no PIB per capita, para um intervalo de 1 O anos, e de 1 8% para um 
intervalo de 20 anos. 
Pesquisa feita nos Estados Unidos mostra que, entre 1 979 e 1 995 , 
houve uma piora na estrutura de distribuição salarial, com redução de 30% 
E c a N C M I A o a C R I M E 69 
no salário real dos trabalhadores jovens e menos educados, o que ajudaria a 
explicar o crescimento da criminalidade, principalmente na década de 
1980.33 No Brasil, estima-se que a desigualdade na educação explique 50% 
da desigualdade social. Os economistas José G. A. Reis e Ricardo Barros 
calculam que a eliminação dos diferenciais salariais ligados à educação di­
minuiria a desigualdade em 40%. Outro estudo mostrou que o nível educa­
cional do chefe da família explica aproximadamente 40% da desigualdade de 
renda, enquanto gênero e região de moradia explicam 10% cada um.34 
O impacto da baixa escolaridade no emprego é direto. Os trabalhado­
res com baixa escolaridade estão sobre-representados entre os desemprega­
dos e entre os segmentos com salários mais baixos. Isso é compreensível, na 
medida em que o crescimento do mercado de trabalho ocorre em segmen­
tos cuja demanda por mão-de-obra exige trabalhadores com maior qualifi­
cação. Sem essa qualificação, os indivíduos estão condenados ao desempre­
go ou a empregos em setores onde predominam baixos salários. 
A educação relaciona-se, assim, com a oferta e demanda de mão-de­
obra, a estrutura salarial e a geração de condições para o crescimento eco­
nômico sustentado. Nessa medida, a educação é uma variável importante 
na configuração do custo e benefício dos crimes, além de estar relacionada 
com a habilidade do trabalhador e, portanto, com sua capacidade de com­
petir no mercado de trabalho. 
70 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
BRASIL: UMA APROXI MAÇÃO 
e orno em outros países, também no Brasil temos dificuldade de expli­
car a evolução dos crimes através das tendências de longo prazo das 
variáveis sociais e econômicas. Os poucos estudos microeconômicos ou so­
ciológicos sobre crimes e condicionantes sociais feitos no país apresentam 
conclusões divergentes. 
Se observarmos a evolução da pobreza no Brasil e as taxas de crimes ao 
longo dos últimos 20 anos, é difícil explicar o crescimento da criminalida­
de à luz das condições socioeconômicas. Segundo o conceito de linha de 
pobreza (os que vivem com uma renda per capita inferior a R$ 80,00 por 
mês), 32% da população brasileira está nessa condição. São 53 milhões de 
pessoas, das quais 23 milhões vivem com uma renda per capita inferior a 
R$ 25 ,00 reais por mês, quase na miséria absoluta. 
A realidade da pobreza, entretanto, não surgiu na década de 1 980 e 1 990, 
quandoexplodiu a criminalidade no país. A propósito, os estudiosos vêm cha­
mando a atenção para o declínio, embora pequeno, do grau de pobreza nesse 
período. Tal fato está provavelmente associado, de um lado, aos efeitos do Pla­
no Real, notadamente ao "crescimento da renda per capita das famílias e à 
queda dos preços relativos dos alimentos" e, de outro, a melhorias na educação. 
"O Brasil se posiciona entre os países latino-americanos como um dos que mais 
reduziu seu nível de extrema pobreza ao longo da década de 1990", nas palavras 
dos economistas Ricardo Barros e Mirela de Carvalho (2004). 
Por outro lado, o quadro da desigualdade social praticamente não so­
freu alteração nas últimas duas décadas. Para medir a desigualdade de ren­
da, os economistas usam o conceito da razão entre a renda média dos 1 0% 
mais ricos e a renda média dos 40% mais pobres. Quanto maior for o 
resultado, maior é a concentração de renda. De acordo com esse critério, de 
1 977 a 1 999, com indicador oscilando em torno de 25, tem-se um quadro 
de estabilidade na distribuição de renda no país. 
E c: a N C M I A oa C R I M E 7 1 
Outra forma de medir a desigualdade na distribuição de renda é usar o 
chamado Índice de Gini. Numa escala de O a 1 , quanto mais próximo o 
índice for de 1 , maior é a concentração de renda. Os dados para o Brasil, no 
período de 1 960-2002, mostram estabilidade na distribuição de renda, com 
o indicador oscilando em torno de 0,60, quase o dobro da média mundial, 
que é de 0,38. 
Em resumo, o quadro da pobreza melhorou um pouco e a desigualda­
de na distribuição da renda se manteve estabilizada. Ora, diante desse cená­
rio, como explicar a criminalidade ascendente através dessas condições so­
ciais? Como explicar, pela pobreza, o aumento da criminalidade, se a po­
breza não aumentou? A mesma indagação poderia ser feita quanto à desi­
gualdade na distribuição de renda. 
A explicação do crescimento dos crimes pelas condições sociais e eco­
nômicas dos moradores das periferias urbanas - das favelas - é também 
insuficiente. De acordo com a arquiteta Herminia Maricato, entre 1 980 e 
1 99 1 , houve um crescimento da população como um todo 7% maior do 
que a população moradora de favelas nas principais cidades. Segundo ela, a 
proporção de moradores em favelas sobre o total da população é de 20% no 
Rio de Janeiro; 22% em São Paulo; 20% em Belo Horizonte; 13 ,3% em 
Goiânia; 30% em Salvador; 46% em Recife; 22% em Porto Alegre e 3 1 % 
em Fortaleza. 
Se população favelada fosse fator de predição de crimes, como explicar 
que municípios com aproximadamente a mesma quantidade de favelados 
apresentem taxas tão díspares de crimes? Basta lembrar que a taxa de homi­
cídios em Porto Alegre (27 por 1 00 mil habitantes), em 1 993, por exem­
plo, era inferior à do Rio de Janeiro (44) e de São Paulo (43,4) , mas as três 
cidades tinham a mesma proporção de moradores em favelas no total de 
seus habitantes. 
Também enfrentamos dificuldades quando buscamos correlações en­
tre o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, e crimes. O IDH é 
calculado com base em indicadores de saúde/longevidade, nível de educa­
ção e Produto Interno Bruto Real (medido por paridade de compra). Ele é 
um indicador mais abrangente do que a renda, tomada isoladamente. Con­
tudo, nos testes que realizamos para o Rio Grande do Sul, considerando 
um período de seis anos ( 1 998-2003), não encontramos correlação positi­
va entre esse índice e taxas de homicídio.35 
No entanto, quando as análises das variáveis socioeconômicas são mais 
abrangentes, envolvendo, além de indicadores de pobreza, as taxas de em-
72 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
prego, desigualdade, renda e desorganização social, surgem correlações po­
sitivas entre tais condições e alguns tipos de crimes. Um exemplo desses 
estudos é Determinantes do Crime na América Latina: Rio de janeiro e São 
Paulo. Com relação aos homicídios, por exemplo, o estudo conclui que é 
impossível "explicar os determinantes dos homicídios com base exclusiva­
mente em variáveis socioeconômicas", mas indica correlações positivas en­
tre homicídios e pobreza. 
As principais conclusões são as seguintes: 
Correlações positivas: municípios de renda mais alta tendem a apresen­
tar menores taxas de homicídios; aqueles com maior proporção de pessoas 
abaixo da linha de pobreza podem apresentar maiores taxas; a desorganiza­
ção das estruturas familiares desempenha papel relevante no aumento das 
taxas de homicídio; conta-se ainda com um efeito "contágio", em que a 
criminalidade violenta tende a se propagar no meio. 
Correlações negativas: "contrariamente ao esperado" e ao que indicam 
outros estudos, já citados, o documento conclui que "maiores níveis de 
desigualdade na distribuição de renda estão associados a menores taxas de 
homicídios" (grifo nosso). A propósito, o estudo reconhece que seus re­
sultados ajudam "muito pouco" na compreensão da criminalidade vio­
lenta das regiões estudadas e recomenda que novas pesquisas explorem 
"o papel de variáveis que descrevem mais diretamente o estilo de vida e 
as características individuais das vítimas de homicídios" A idéia, aqui, 
parece ser a de explorar a associação entre fatores criminogênicos como uso 
de álcool, drogas, baixa escolaridade e deficiências educacionais, que, por 
sua vez, em muitos casos, também estão correlacionados com renda baixa, 
desemprego e pobreza. 
Quando o estudo desloca o foco para a análise dos fatores associados à 
probabilidade de vitimização, surgem conclusões muito interessantes. As 
variávies consideradas foram as seguintes: exposição da vítima, proximida­
de vítima-agressor, capacidade de proteção, a atratividade da vítima e as 
características específicas do crime. Foram consideradas, ainda, as "condi­
ções socioeconômicas do local de residência da vítima" 
Os resultados encontrados foram, resumidamente, os seguintes: 
"A renda média, a escolaridade e a pobreza afetam as probabilida­
des de vitimização, embora não exista um padrão único de correla­
ção dessas variáveis com os riscos de vitimização por diferentes ti­
pos de crimes" 
E C O N O M I A 00 C R I M E 73 
"Indivíduos com maior participação política e que exercem atividades 
econômicas têm maior probabilidade de vitimização", o que parece 
ser compatível com maior exposição dessas pessoas ao risco. 
Conforme indica exaustivamente a literatura internacional, o "álcool 
também aumenta a probabilidade de vitimização por delitos não-eco­
nomicamente motivados e por crimes violentos" 
Maiores riscos de vitimização para não-brancos nos casos dos crimes 
não-economicamente motivados, e riscos menores de vitimização para 
não-brancos quando se consideram os crimes em geral. Não foi en­
contrado efeito significativo de vitimização associado à "proporção de 
mulheres chefes de domicílios no setor de residência da vítima" 
Quando direcionamos a análise para espaços geográficos menores, as 
correlações entre os crimes e os condicionantes econômicos e sociais apare­
cem com mais nitidez. Regiões, bairros e mesmo favelas mais pobres da 
periferia das grandes cidades, onde imperam as piores condições socioeco­
nômicas, são justamente as que apresentam maior incidência de crimes. 
Nancy Cárdia e Sueli Schiffer (2002) constataram que em alguns bair­
ros da cidade de São Paulo - Campo Lindo, Capão Redondo, Jardim Ân­
gela e Jardim São Luís - coexistem altos índices de homicídios e superposi­
ção ou presença do que chamam de "desvantagens concentradas (econômi­
cas, educacionais e na estrutura familiar)" Nesses quatro distritos, 50% 
dos chefes de família não têm renda ou a renda é inferior a três salários 
mínimos. Existe também uma sobre-representação de chefes de família com 
baixa escolaridade, o que explica, de certo modo, a concentração de popu­
lação com baixa renda. O acesso ao trabalho é também significativamente 
pior do que a média da cidade, e os índices de mortalidade infantil são mais 
elevados do que no resto da cidade. A taxade homicídios é significativamen­
te maior do que a média da cidade: 93 por 1 00 mil habitantes no Campo 
Lindo e Capão Redondo, 1 1 6 no Jardim Ângela e 1 03 no Jardim São Luís, 
contra uma média de 66 por 1 00 mil para a cidade como um todo.36 
Além das condições socioeconômicas e de desorganização social, um 
fator decisivo que pode explicar a criminalidade violenta nesses distritos é a 
precária ou fraca presença dos efetivos policiais em relação à média da cida­
de. Esse aspecto, relacionado à preservação da ordem, em seus efeitos sim­
bólicos e operacionais, no sentido de que a presença da autoridade pública 
representa não apenas uma percepção de segurança mas um mecanismo 
concreto de apoio a populações ameaçadas por vários tipos de situações de 
74 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
risco, como drogas, uso abusivo de álcool, atuação de gangs, etc. - nem 
sempre recebe a devida atenção nos estudos sociológicos. 
O estudo mostra que existe, nesses distritos, um policial militar para 
cada 1 . 50 1 habitantes e uma viatura para cada 1 4.790 pessoas, enquanto a 
média da cidade é um policial para cada 550 moradores e de uma viatura 
para cada grupo de 6.425 moradores. Além disso, o número de policiais 
civis também é inferior à média da cidade. O estudo conclui que talvez a 
quantidade de homicídios não esclarecidos seja maior nessas regiões em 
razão da impunidade gerada e estimulada pela reduzida efetividade da polí­
cia na apuração dos casos. Poucos policiais apuram pequena quantidade de 
crimes fatais, criando um círculo vicioso no qual a impunidade incentiva 
novos crimes. 
Na cidade do Rio de Janeiro ocorre o mesmo fenômeno. As áreas no­
bres, com menores índices de criminalidade violenta, são as que apresen­
tam as melhores condições de policiamento. "A zona sul, onde vivem 
708 .732 pessoas, tem um policial para cada 324 habitantes. A Baixada Flu­
minense, cuja população é cinco vezes maior (3 .598.727 pessoas), tem um 
PM para cada 1 .278 habitantes", diz o jornalista Mário Hugo Monken, da 
Folha de São Paulo. Os dados da distribuição dos policiais não levam em 
conta a população, os índices de homicídios e índices de roubo a pedestres. 
Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, com uma média mensal de 
40 homicídios, existe um policial para cada 1 .570 habitantes. Um especia­
lista citado na matéria disse que, no Rio de Janeiro, não se considera um 
dos fundamentos "primários do século XIX" - o de distribuir policiais le­
vando em conta a população da área e os indicadores criminais. 
Um outro exemplo de análise em espaços geográficos menores que 
encontrou forte correlação entre desigualdade de renda e homicídios é o 
estudo Desigualdade de Renda e Situação da Saúde: O Caso do Rio de janeiro. 
A pesquisa analisou o impacto da desigualdade de renda nas condições de 
saúde da população, entre as quais incluiu o homicídio. Este último "foi o 
indicador mais correlacionado aos níveis de desigualdade de renda, demons­
trando que a questão da violência entre os jovens brasileiros não pode ser 
dissociada da aguda disparidade presente na sociedade brasileira" 
Nas explicações para as relações encontradas, nos deparamos com três 
tipos de abordagens convergentes: a) nos espaços onde há grande nível de 
concentração de renda existem menos investimentos em programas sociais, 
"resultando em educação pública e assistência médica insuficientes, habita­
ção inadequada e capacitação profissional deficiente"; b) nessa medida, a 
E c a N C M I A oa C R I M E 75 
desigualdade de rendas teria efeitos sobre a qualidade de vida, aumentando 
"a frustração, o stress, fomentando rupturas sociais e familiares, o que im­
plica deterioração adicional das condições de saúde"; e c) finalmente, é 
mencionado que "sociedades com grandes deseqüilíbrios na distribuição 
de renda tendem a ser menos coesas"; indivíduos que residem em locais 
onde existe grande desigualdade tenderiam a julgar seu ambiente como 
"menos confiável, mais injusto e hostil". Nessa medida, quando aumenta a 
privação relativa, comparada aos padrões da sociedade, e isso é percebido 
pelas pessoas, diminui a "coesão social", criando um ambiente mais favorá­
vel aos crimes. 
A abordagem do crime como um problema de saúde leva em conta 
um conjunto de fatores de risco que se apresentam nesses contextos com 
maior intensidade e gravidade, ao invés de fazer uma associação direta en­
tre pobreza e crimes. Assim, potencializa a análise, pois aparecem mais cla­
ramente as conexões e relações entre a pobreza, a desigualdade e os crimes: 
baixa escolaridade, famílias desestruturadas, ambiente hostil, baixo capital 
social nas comunidades, redes precárias de relacionamento e cooperação, 
entre outros. 
Nessas condições, é compreensível que a tendência ao comportamen­
to violento irrompa com maior força, ao contrário dos contextos onde os 
mecanismos de contenção operam com maior eficácia, como é o caso das 
comunidades onde a escolaridade é mais alta, a renda mais elevada e os 
instrumentos de proteção social mais presentes. Em resumo, onde os me­
canismos de integração social e de controle de comportamentos desviantes 
operam com maior intensidade. 
O estudo menciona correlação encontrada entre a "densidade de po­
pulação residente em favela e os homicídios" Esse achado, segundo seus 
autores, "indica a influência do ambiente em que os jovens se socializam 
sobre sua exposição à violência e sua eventual inserção nos circuitos da 
criminalidade" Mas, "reconhecidamente", concluem os autores, "o cresci­
mento dos homicídios nas favelas do Rio de Janeiro está relacionado ao 
aumento da criminalidade secundária à expansão do narcotráfico" 
Na resenha que fizeram de estudos brasileiros, os economistas Pablo 
Fajnzylber e Ari Araújo Jr. , no artigo Violência e Criminalidade (200 1 ) , 
sublinham os resultados díspares dos vários trabalhos que examinam o efei­
to da renda individual e familiar sobre os crimes. Existem trabalhos que 
apontam que maiores salários estão associados a taxas menores de homicí­
dios e crimes contra a propriedade (estudos de Andrade e Lisboa, 2000; 
76 Luiz TAD E U V 1 A P I A N A 
Pereira e Carreca-Fernandez, 200 1 , e Mendonça, 200 1 ) ; que a renda fami­
liar média dos Estados produz efeito positivo na taxa de homicídios (Araú­
jo Jr. E Fajnzylber, 2000) e que a renda tem efeito positivo para os crimes 
contra a propriedade e negativo para os crimes contra a pessoa, coincidin­
do com vários estudos internacionais (Araújo Jr. e Fajnzylber, 2000, e Pi­
quet e Fajnzylber, 200 1 ) . 
Com relação ao desemprego, alguns estudos descobriram efeitos posi­
tivos sobre os crimes (Pereira e Carreca-Fernandez, 2000; Araújo e Fajnzyl­
ber, 200 l , e Mendonça, 200 1 ) , sugerindo que o aumento do desemprego 
está relacionado com maior incidência de crimes. Outro estudo, porém, 
aponta um coeficiente negativo para essa mesma variável para idade infe­
rior a 20 anos (Andrade e Lisboa, 2000) . Quando observamos o risco de 
vitimização, existem pesquisas que mostram que ele é maior para indivíduos 
economicamente ativos, conclusão compatível com a teoria das oportunida­
des, já mencionada. Do mesmo modo que ocorre nas pesquisas internacio­
nais, também os resultados dos estudos feitos no Brasil são contraditórios. 
No entanto, quando a análise enfoca a desigualdade de renda, a maior 
parte dos estudos aponta uma relação positiva com os crimes, conforme os 
economistas Araújo Jr. e Fajnzylber (2000 e 200 1 ) . Da mesma forma, al­
guns estudos evidenciaram também efeitos negativos das sanções sobre as 
taxas de crimes. 
Os estudos internacionais que examinamos mostram que ocorre maior 
incidência de crimes em contextos de desorganização social, desemprego, 
baixos salários, desigualdade educacional, principalmente no segmento for­
mado por jovens. Coincidindo com essas pesquisas, boa parte dos estudos 
feitos no Brasil confirma os efeitos das variáveis socioeconômicas, princi­
palmente desigualdade de renda, baixossalários e desemprego, sobre os 
crimes contra a propriedade. Os resultados são menos convergentes quanto 
aos crimes violentos. O fato de que, entre os criminosos, em geral, o nível 
educacional seja baixo sugere também uma correlação entre escolaridade, 
condições do mercado de trabalho e crimes. 
Os estudos dos economistas mostram que a teoria econômica do cri­
me leva em consideração a influência dos fatores sociais, morais, culturais 
ou psicológicos no crime. A grande diferença desta em relação a outras 
abordagens, é que ela submete tais influências à mediação dos indivíduos. 
Isso significa que para ela o indivíduo não é mero resultado passivo das 
condições sociais, mas alguém que recebe as influências do meio e decide, 
também, levando em conta seus interesses e preferências individuais, ainda 
E C O N O M I A DO C R I M E 77 
que essas preferências sejam formadas em processos de interação social com 
outros indivíduos. 
Essa conclusão, na realidade, é coincidente com a primeira imagem 
que nos vem da realidade. Basta observar que nem todos os pobres ou de­
sempregados tornam-se criminosos em algum momento de suas vidas. Isso 
se explica, em larga medida, por que a esmagadora maioria dos indivíduos, 
embora submetidos a um mesmo contexto, decidem de forma diferencia­
da, em processos nos quais a formação educacional, espiritual e moral de­
sempenha decisivo papel. 
78 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
PARTE 1 1 1 
TEORIA DO CON T RO LE E 
DEC I SÃO DOS I N D IVÍ D UOS 
O tema subjacente à análise que faremos a seguir é a questão clássica e central da sociologia que consiste na resposta à indagação: em que 
medida o meio, a estrutura e os processos sociais governam e determinam a 
trajetória e as decisões dos indivíduos. Não por coincidência essa questão 
crucial está presente na principal crítica feita à teoria econômica do crime -
e não importa aqui se ela é pertinente ou não -, por assumir um dos pres­
supostos da economia neoclássica, que consiste na noção do "homem eco­
nômico racional" De acordo com essa noção, as decisões dos agentes eco­
nômicos são governadas essencialmente pela "utilidade" esperada frente a 
determinado custo (preço). A crítica a essa noção preconiza que as decisões 
não ocorrem "no vácuo" e são, em última análise, influenciadas pelas possi­
bilidades que se apresentam ao indivíduo decorrentes da estrutura social, 
seus processos e valores. Não se podem reduzir as decisões humanas, mes­
mo no terreno da economia, a um simples cálculo matemático de vanta­
gens e desvantagens. 
De fato, o debate a respeito das interações entre meio e indivíduo 
existem muito antes do surgimento da teoria neoclássica, na segunda meta­
de do século XIX e início do século XX. Antes dela, o Marxismo havia 
proposto que os processos sociais têm como fundamento estrutural as for­
ças produtivas, a base econômica da sociedade. A cultura, os valores e as 
crenças (as ideologias) constituem apenas a expressão da evolução e das 
contradições dessas forças, sendo o indivíduo, e a própria organização so­
cial, produto da evolução e da conformação das forças produtivas. 
No entanto, recentemente, na segunda metade do século XX, as ciên­
cias sociais passaram a conceber a interação do indivíduo com a sociedade 
de forma mais abrangente e complexa: as estruturas e processos sociais in­
fluenciam os indivíduos ao mesmo tempo em que são influenciados por 
suas ações. Na sociologia, essa abordagem está presente nas teorias Intera-
E c c N C M I A o c C R I M E B 1 
cionistas e da Reflexividade. Não se trata de saber quem veio antes, o indiví­
duo ou a sociedade, mas de desenhar e compreender as relações de influên­
cia entre ambas as dimensões - a individual e a social. 
Da mesma forma, o desenvolvimento recente da neurociência e da 
psicologia comportamental contribuiu para revalorizar o estudo das carac­
terísticas e dos traços biológicos dos indivíduos como fatores que, de alguma 
forma, são preditivos de comportamentos futuros. Embora não conclusi­
vamente, muitos criminologistas citam determinadas características bioló­
gicas herdadas - entre as quais a impulsividade e a inteligência (QI) - de 
estarem associadas à maior probabilidade de comportamentos desviantes. 
A conexão entre e inteligência e comportamentos desviantes, entre outros 
aspectos, residiria na menor capacidade cognitiva dos indivíduos com bai­
xo QI, resultando em fraco aproveitamento escolar, dificuldades de relacio­
namento, escapismo e isolamento social. Existem pesquisadores que pro­
põem abordagens mais polêmicas, retomando, de certa forma, premissas 
lombrosianas, ao enfatizar traços físicos comuns entre criminosos, como 
observamos, por exemplo, na referência feita por James Wilson e Richard 
Herrnstein, em Crime and Human Nature (ver especialmente o capítulo II 
- Fatores Constituintes), ao mencionar determinados traços físicos como 
característicos de indivíduos delinqüentes. 1 
No entanto, na criminologia, conforme veremos adiante, as chamadas 
abordagens macrossociais encontram ampla aceitação. Nelas, o meio exer­
ce influência decisiva sobre as ações, atitudes e possibilidades dos indiví­
duos, muito mais do que as forças biológicas. Estas, quando surgem, ainda 
assim dependem de determinados contextos para se tornarem fatores deci­
sivos de indução de condutas desviantes e criminosas. Um exemplo mais 
ou menos evidente disso é a distribuição desigual de acesso às oportunida­
des educacionais e culturais que, ao afetar os mais pobres, influencia forte­
mente o lugar desses indivíduos no mercado de trabalho e na sociedade. 
Isso não significa, no entanto, que tal condicionamento seja permanente e 
insuperável, que inexista qualquer possibilidade de mobilidade individual. 
Ao contrário, observa-se que mesmo em sociedades fortemente hierarqui­
zadas como a nossa, a despeito dos condicionantes sociais e econômicos, os 
indivíduos modificam suas trajetórias, em larga medida, através da educa­
ção. Ou seja, influência não quer dizer determinação ou inexorabilidade. 
Esse entendimento é muito importante na análise do crime porque, 
durante muito tempo, no Brasil, difundiu-se a idéia de que os criminosos 
eram, na realidade, vítimas da sociedade, que lhes negava as condições de 
82 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
acesso à educação, trabalho e renda. Ou seja, dado que os indivíduos eram 
excluídos, esta condição determinava suas condutas criminosas. O indiví­
duo, com sua consciência, sua capacidade de avaliar e discernir entre o bem 
e o mal, não fazia parte da equação. Em outras palavras, ele era concebido 
como um autômato, produto do meio e não-responsável, portanto, por 
suas atitudes. O erro aqui não era, evidentemente, imaginar que as condi­
ções sociais influenciam as condutas criminosas, mas supor que essa in­
fluência era determinante e inexorável. O que a tese não explicava era por 
que indivíduos sob as mesmas condições ambientais - econômicas, sociais 
e culturais - tinham comportamentos diversos, uns optando pelo crime e 
outros não. 
Enquanto para a criminologia os fatores decisivos são a formação dos 
indivíduos e seus valores, de um lado, e a ação dos mecanismos externos de 
controle - entre os quais o sistema de justiça criminal - de outro. Na eco­
nomia, os indivíduos respondem a incentivos, sendo que a opção pela con­
duta desviante, na qual pode estar o crime, é explicada por uma "escolha 
racional". Nessa escolha, são ponderados os benefícios líquidos esperados e 
os custos implícitos da ação, entre os quais a probabilidade de prisão e 
condenação, o custo decorrente da sanção moral e da perda potencial de 
renda no mercado legal. 2 
Note-se, entretanto, que no modelo econômico do crime os fatores 
sociais estão presentes e são muito importantes. Eles operam na formação 
das expectativas dos indivíduos, influenciando tanto as expectativas rela­
cionadas com o retorno esperado quanto em relação aos custos associados 
às suas decisões. Ocorre que, ao invés deser determinante, a influência dos 
fatores sociais passa pela mediação dos indivíduos. Vale dizer, eles captu­
ram as pressões sociais de forma diferenciada, sob a influência de vários 
fatores, entre os quais aqueles relacionados à formação moral, à consciência 
individual, à ligação afetiva com a família e amigos, à educação e, final­
mente, aos riscos de perda de status, relacionamentos e renda. Esta é a razão 
essencial que explica por que a desigualdade social não incide uniforme­
mente como incentivo para o crime entre os indivíduos pobres. 
Nesta parte III, nosso percurso será o seguinte: vamos, inicialmente, 
examinar os traços mais importantes da teoria da anomia, em sua versão 
"clássica" e desdobramentos, incluindo as variantes da subcultura criminal 
e teoria geral da anomia; faremos, ainda, alguns comentários sobre a teoria 
da aprendizagem. Em seguida, examinaremos as principais características 
da teoria do controle e da teoria do autocontrole, que, em graus variados, 
E c a N C M IA oa C R I M E 83 
recolocam o indivíduo - sua formação psicológica e educacional - no cen­
tro da explicação do desvio e do crime. Nesse momento, recolhemos a 
contribuição da sociologia da ação, em especial a noção de que a com­
preensão dos faros sociais deve levar em conta a racionalidade dos indiví­
duos, seus motivos, valores e interesses. Nessa perspectiva, da mesma forma 
que na teoria da escolha racional, o indivíduo não é mero resultado das 
estruturas ou faros sociais, mas um sujeito que, com suas decisões, se torna 
um agente ativo na determinação de sua trajetória socioeconômica. 3 
84 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
AN O M IA, A VI SÃO C LÁS S I CA 
N as ciências sociais, os crimes são considerados atitudes desviantes por­que consistem na ruptura das normas formais e informais e são, por 
isso, reprovados pela sociedade. Numa acepção formal, jurídica, represen­
tam uma violação das leis e códigos penais. Émile Durkheim, fundador da 
escola francesa de sociologia, dizia que o crime só é crime porque a lei o 
define como tal. 
Se os desvios estão relacionados com normas, costumes e leis, para 
compreendê-los, porém, não basta dizer que eles ocorrem quando tais dis­
posições são violadas. É preciso explicar por que determinados indivíduos 
as cumprem e outros não. Aliás, na medida em que se aceita que um peque­
no percentual da população comete a totalidade dos crimes - de 2% a 5% 
-, o natural seria indagar as razões pelas quais os demais 95% da população 
agem em conformidade às normas e leis. Esse seria o verdadeiro mistério a 
ser desvendado. 
Uma das explicações mais conhecidas para as condutas desviantes é a 
teoria da anomia, elaborada originalmente pelo sociólogo francês Émile 
Durkheim.4 Sua proposição central era de que o "modo como o homem 
age é sempre condicionado pela sociedade". As formas de agir apresentam 
sempre triplo aspecto: a) "são exteriores (provêm da sociedade e não do 
indivíduo); b) são coercitivas (impostas pela sociedade ao indivíduo); e c) 
são objetivas (têm existência independente do indivíduo). Dessa forma, 
para compreender o comportamento humano, Durkheim afirmava que 
deveríamos estudar os "fatos sociais", as determinações e influências que as 
instituições exercem sobre as formas do agir humano (Sell, s/d) . 
De acordo com Durkheim, portanto, as condutas desviantes, entre as 
quais os crimes, têm origem social e não patológica. Nesse sentido, a crimi­
nalidade é um fenômeno normal: "não há sociedade conhecida em que, 
sob formas diferentes, não se observe uma criminalidade mais ou menos 
E C O N O M IA DO C R I M E 8 5 
desenvolvida. Não há povo cuja moral não seja cotidianamente violada." O 
que anormal é um forte incremento do nível de crimes. 
Um conceito fundamental no sistema de Durkheim é o de "consciên­
cia coletiva", que representa o "o conjunto das crenças e dos sentimentos 
comuns à média dos membros de uma mesma sociedade", um "sistema 
determinado que tem vida própria" Esse conjunto de crenças independe 
das situações particulares que os indivíduos vivem: "os indivíduos passam e 
ele continuà', dizia. 
A Lei representa a "consciência coletiva"; e o Estado é seu guardião. A 
propósito, diz ele, "se é normal que haja crimes, é normal que sejam puni­
dos". A penalidade e o crime, argumenta, são dois termos de um par inse­
parável. E "um não pode faltar mais do que o outro" Ele sublinha que 
"qualquer afrouxamento anormal do sistema repressivo tem por efeito esti­
mular a criminalidade e lhe conferir um grau de intensidade anormal" .5 
É a "consciência coletivà' que governa a ação dos indivíduos, não importa 
se eles têm ou não consciência de sua existência. Quando, por alguma razão, ela 
se enfraquece, perde capacidade e força para regular as ações dos indivíduos. 
Essa perda de poder de regulação chama-se anomia. Uma espécie de vazio no 
qual emergem as ações desviantes e mesmo o suicídio e o homicídio. 
Na acepção clássica de Durkheim, a noção da anomia está associada à 
mudança social e econômica. Ela se instala quando as relações sociais são 
afetadas por mudanças econômicas muito rápidas, provocando a desorga­
nização e a perda de referência das normas que, até então, balizavam o 
comportamento das pessoas. Essas mudanças provocam uma "ruptura" ou 
enfraquecem as referências comuns e os laços de solidariedade entre os in­
divíduos. Em outras palavras, os mecanismos de integração do indivíduo à 
sociedade tornam-se mais frágeis. 
Nas sociedades tradicionais, onde a divisão social do trabalho é mais 
rudimentar ou menos desenvolvida, é mais difícil ocorrer a anomia, por­
que o comportamento das pessoas é fortemente influenciado pelos valores 
religiosos (ou espirituais ou culturais). Nelas, os indivíduos partilham de 
uma consciência coletiva comum, definida como "um conjunto de crenças 
e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que 
forma um sistema determinado que tem vida própria". Existe um predomí­
nio do grupo sobre os indivíduos; a semelhança é muito forte e existe pou­
co espaço para a individualidade. Nesse tipo de sociedade, ocorrem poucas 
mudanças e, quando elas acontecem, os desequilíbrios são amortecidos ou 
regulados pela vontade do grupo e não do indivíduo. 
86 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Na sociedade moderna, caracterizada pela divisão social do trabalho 
mais complexa e diversificada, as relações do todo com o indivíduo são 
afetadas pelo enfraquecimento da consciência coletiva, que vê reduzido seu 
papel na integração social. Os indivíduos têm maior autonomia, na medi­
da em que o pertencer não depende mais de uma mesma crença ou adesão 
estrita a um código de costumes. A relação se inverte: agora é o indivíduo 
que pretende aumentar sempre mais seu raio de ação em relação ao mundo 
social. No modelo de Durkheim, o excesso de individualismo e egoísmo 
está na origem do choque entre o indivíduo e a sociedade, afetando o "bom 
funcionamento" desta última. 
A punição, segundo ele, não tem a finalidade de amedrontar ou dissu­
adir. A função da sanção é "satisfazer a consciência coletiva, ferida pelo ato 
cometido por um dos membros da coletividade. Ela exige reparação, e o 
castigo do culpado é esta reparação feita aos sentimentos de todos" Ray­
mond Aron escreve que "o crime ou o desvio, antes de violar a lei, agride a 
consciência coletiva e desacredita o "poder diretivo da sociedade" 
Resumindo, a noção da anomia está ligada, por um lado, ao desenvol­
vimento da moderna divisão social do trabalho e suas conseqüências sociais 
- urbanização, afirmação do indivíduo, relações sociais mais complexas, 
etc. - e, por outro, à ruptura da "consciência coletivà' e ao enfraquecimen­
to do "poder diretivo da sociedade" Em palavras mais simples, a anomia 
instala-se quando diminui ou enfraquece a capacidade de a moral e de as 
leis governarem a conduta dos indivíduos e frearem as atitudes anti-sociais 
ou delitivas. Quando o Estado, como guardião da Lei, perde a capacidadede punir quem a agride. 
E C O N O M IA 00 C R I M E 87 
AN O M IA EM ROB ERT M ERTD N 
O sociólogo norte-americano Robert Merton aplicou a noção da ano­mia à moderna sociedade urbano-industrial dos Estados Unidos para 
explicar por que determinados segmentos da sociedade - pertencentes às 
classes mais pobres - são mais propensos ao desvio e ao crime. Na acepção 
mertoniana, no entanto, mais do que o enfraquecimento do poder diretivo 
das normas sociais, a anomia é apresentada sob uma nova formulação, mais 
específica do que a de Durkheim. Segundo Merton, a anomia surge quan­
do ocorre uma disjunção ou dissociação entre as aspirações e objetivos ins­
titucionalmente reconhecidos e valorizados e os meios legítimos à disposi­
ção dos indivíduos para que estes possam realizá-los. 
Nesses termos, o desvio ou o crime resulta da reação ou adaptação dos 
indivíduos ao bloqueio dos canais legítimos de realização de seus objetivos 
e aspirações legítimas. Merton combina, portanto, o debate das forças so­
ciais que criam a anomia no plano macrossocial - os objetivos socialmente 
reconhecidos e valorizados - com a proposição de que o comportamento 
dos indivíduos é afetado pela estrutura cultural, conforme assinalam os 
criminologistas Ronald Akers e Christine Sellers. 
Nesse sentido, ele identifica cinco possíveis "modos de adaptação ou 
ajustamento dos indivíduos às condições sociais da anomia" : a conformida­
de, a mais comum, ocorre quando os indivíduos aceitam as restrições e 
continuam a perseguir seus objetivos dentro dos mecanismos legítimos e 
normais (legais); a inovação é o mecanismo mais comum associado ao des­
vio e ao crime, quando o indivíduo busca outros meios que não os legais 
para alcançar seus objetivos e aspirações; a rebelião acontece quando os in­
divíduos rejeitam todo o sistema, meios e fins, objetivos e formas legítimas 
para alcançá-los, é a reação "revolucionária"; a evasão é uma resposta esca­
pista, ocorre com indivíduos que não compartilham os objetivos e valores 
comuns, não aceitam os meios legítimos para realizá-los, mas, diferente-
BB L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
mente dos "revolucionários", preferem uma solução desviante e não de con­
testação (o exemplo são os drogados, bêbados, psicóticos e outros); e, final­
mente, o ritualismo é uma forma de adaptação que aceita as normas sociais 
e os meios para alcançar os objetivos, ao mesmo tempo em que renuncia 
aos fins culturais de riqueza, status e sucesso material. 
A teoria de Merton deve muito à observação da sociedade norte-ame­
ricana, que, na sua visão, é uma sociedade mal integrada, porque, ao mes­
mo tempo em que valoriza determinados interesses e objetivos definidos 
culcuralmente, por exemplo, a riqueza material como símbolo de sucesso e 
de realização, não coloca à disposição de seus integrantes as mesmas opor­
tunidades e meios para alcançá-la. É uma sociedade que incentiva os indi­
víduos a terem sucesso, a serem vencedores, enxerga a riqueza como símbo­
lo do sucesso e do trabalho, ao mesmo tempo em que valoriza a liberdade e 
a igualdade de oportunidades para todos. Todos têm o direito de alcançar o 
sucesso e vencerem na vida. O problema está, não propriamente na valori­
zação da riqueza material, mas na falta de integração entre objetivos e meios 
legítimos e insticucionalizados. 
Na realidade, por várias razões, nem todos os indivíduos têm as mes­
mas oportunidades e condições de acesso aos meios legítimos para realiza­
rem seus objetivos e aspirações de sucesso. Nesses termos, o comportamen­
to desviante ou criminoso seria o resultado de um conflito decorrente dos 
limites entre um sistema que valoriza o sucesso material individual e os 
limites sociais e econômicos interpostos por uma sociedade hierárquica, de 
baixa mobilidade social, na qual a distribuição de oporcunidades é alta­
mente desigual. 
A propósito, Merton argumenta que a alta freqüência de condutas 
desviantes não pode ser explicada, apenas, pela ausência ou falta de oportu­
nidades legítimas ou pela exagerada valorização do dinheiro como símbolo 
de sucesso. Ela ocorre quando os valores culturais que enaltecem os símbo­
los comuns de sucesso são aceitos por parte considerável da mesma popula­
ção, ao mesmo tempo em que, nesses grupos, a ideologia da igualdade é 
negada pela existência de indivíduos "não-competitivos" em alcançar aque­
les mesmos valores e símbolos de sucesso. 
A proposição acima explica a constatação de que é entre a "classe bai­
xa" (lower class) que ocorre maior volume de crimes. Com acesso limitado à 
educação e ao mercado de trabalho, os integrantes desses segmentos e de 
grupos étnicos e minorias têm suas possibilidades de acesso aos meios legí­
timos de realização de suas aspirações limitadas. Não é, portanto, a pobreza 
E c a N a M 1A oa C R I M E 8 9 
ou a privação, em si, que provocam os comportamentos desviantes e os crimes, 
mas a presença da pobreza e da privação juntamente com a ausência de possibi­
lidades de os indivíduos realizarem suas aspirações e expectativas. A imensa 
maioria dos integrantes da "classe baixa" adapta-se às suas possibilidades 
limitadas, mas muitos não. Estes últimos são os que buscam os meios ilegí­
timos, entre os quais os crimes. Para estes, os fins justificam os meios. 
90 L U I Z TAD E U V I A P I A N A 
A S U B C U LTU RA DELI N � Ü ENTE 
Vários pesquisadores ampliaram e detalharam a teoria de Merton. Um deles é Albert Cohen, que aplicou a teoria da anomia para explicar a 
origem e o conteúdo do que denominou de subcultura criminal entre jo­
vens masculinos pobres. Na perspectiva de Cohen, mais do que conseqüência 
da inabilidade ou da impossibilidade dos jovens de "classe baixa" alcança­
rem objetivos monetários, a anomia resulta da impossibilidade de acesso ao 
status dominante. Status refere-se não apenas a dinheiro; engloba também 
modelos de comportamento, estilo de vida que valoriza símbolos de reali­
zação e sucesso, habilidades e bom desempenho escolar, respeito dos cole­
gas e amigos, padrões esses típicos da classe média, que são reforçados nas 
escolas e na comunidade. 
A premissa da abordagem de Cohen é que as escolhas que demarcam 
as ações e atitudes dos jovens das classes baixas nem sempre asseguram os 
resultados desejados. Na maior parte dos casos, as respostas são conhecidas 
e envolvem um conjunto de atitudes que fazem parte de um repertório de 
ações e reações conhecido e aceito por todos, mas em muitos elas envolvem 
stress e tensão, que geram dificuldades de ajustamento entre as necessidades 
de respostas e a competência ou capacidade dos indivíduos das "classes bai­
xas" em dá-las. 
Por exemplo, apoiados por seus pais, desde cedo os jovens de classe 
média estariam mais preparados para absorver, desenvolver e ajustar-se aos 
valores e comportamentos correspondentes ao status dominante na socie­
dade do que os jovens oriundos da classe baixa. O desempenho escolar e a 
dificuldade de acesso ao mercado de trabalho ou a bens de consumo po­
dem gerar frustração nos jovens das "classes baixas" "Privação de status", 
nas palavras de Cohen, pode gerar "frustração de status", sendo a delin­
qüência uma resposta à frustração, com a adoção de valores e atitudes nega­
tivas e de rejeição ao status. 
E c a N C M I A o a C R I M E 9 1 
Portanto, no esquema de Cohen os comportamentos negativos dos gru­
pos ou gangues de delinqüentes não têm apenas um propósito utilitarista de 
obtenção de retorno ou ganho monetário. Os grupos de jovens delinqüentes, 
muitas vezes, desejam apenas caracterizar sua rejeição do status dominante. É o 
caso, por exemplo, de grande número de ofensas à propriedade pública e priva­
da, cujo objetivo é destruí-la ou danificá-la e não subtraí-la. 
Outro aspecto importante é que, diferentemente de Merton, na teoria 
da subcultura delinqüente de Cohen, a resposta à frustração dos jovens é 
coletiva e não individual. Os jovens tendem a aglutinar-se em torno de 
valores alternativos ao status não alcançadoatravés dos meios legítimos. A 
subcultura delinqüente envolve, assim, a constituição de novos padrões de 
reconhecimento em substituição aos valores da classe média. 
Deve-se sublinhar que, à semelhança de Merton, também em Cohen 
a tensão à qual são submetidos os jovens das classes baixas na conquista de 
status não os leva necessariamente à delinqüência. Os jovens podem supe­
rar suas limitações através de maior dedicação aos estudos e do esforço em 
adotar bons comportamentos e amizades, solução que ele designa como 
coler,ge boy solution. 
Também podem, por outro lado, aceitar como normal sua condição 
menos competitiva, conformando-se com suas limitações, sem entrar em 
confronto direto com a cultura dominante. Cohen chama essa forma de 
ajustamento de corner boy solution. Tal opção não afasta a possibilidade de 
que venham a cometer algum delito em algum momento, mas os afasta da 
delinqüência séria e repetitiva que caracteriza a subcultura delinqüente. 
Lloyd Ohlin, da Universidade de Harvard, e Richard Cloward, auto­
res do livro Delinquency and Opportunity ( 1 960) , combinam as teorias da 
anomia de Merton e Cohen, a teoria da desorganização social formulada 
por Clifford Shaw e Henry D. Mackay's com a noção de Edwin Sucherland 
de que o crime é aprendido.6 Para Cloward e Ohlin, a tensão provocada 
pela competição em torno de status nos jovens da classe baixa não é sufi­
ciente para explicar a subcultura delinqüente. As pessoas das classes baixas 
que se vêem excluídas dos meios legítimos de ascensão social nem sempre 
têm à sua disposição o acesso aos meios ilegítimos. Ou seja, não existiria 
uma relação direta entre as duas situações: ausência de meios legítimos e 
acesso a meios ilegítimos. Alguns meios ilegítimos podem estar disponí­
veis, outros não. 
Cloward e Ohlin procuram resolver a questão introduzindo duas ou­
tras noções. A primeira delas é de que a adesão dos jovens à delinqüência 
92 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
ocorre por influência de delinqüentes mais velhos. Essa noção deriva da 
teoria da associação diferencial apresentada, em 1 939, por Edwin Suther­
land, em seu Principies of Criminology. Em qualquer sociedade coexistem 
diversas subculturas, sendo inevitável que determinados ambientes sociais 
se orientem para atividades ilegais. Os indivíduos tornam-se delinqüentes 
quando "se associam" àqueles que já são delinqüentes. Assim, na teoria da 
"associação diferencial", o comportamento criminal é aprendido pelo indi­
víduo em íntima interação com outra(s) pessoa(s), cuja opinião é valoriza­
da por ele. Isso não significa, evidentemente, que a frustração dos jovens 
das classes baixas seja irrelevante na explicação da delinqüência. Significa 
que tais pressões são insuficientes para explicar sua adesão aos meios ilegíti­
mos. Tanto isso é verdadeiro que o próprio Cohen menciona outras saídas 
que não a delinqüência para os jovens das classes baixas. 
Além disso, Cloward e Ohlin destacam a importância do ambiente 
social em que vivem os jovens, evocando conclusões da teoria da desorgani­
zação social. O argumento refere-se, principalmente, à constatação de que 
é nas zonas urbanas mais pobres das cidades, nas quais persiste um quadro 
de desorganização social, que a cultura da delinqüência se transmite com 
maior facilidade. As razões seriam famílias desestruturadas, alta mobilidade 
residencial e reduzidas oportunidades educacionais e no mercado de traba­
lho para os jovens, além de carências materiais. 
Porém, ao contrário de Cohen, que menciona uma simples subcultu­
ra delinqüente, Cloward e Ohlin falam em diversas subculturas delinqüen­
tes. O primeiro tipo é a subcultura criminal, formada a partir de jovens 
organizados para cometerem delitos tais como furtos, roubos, agressões. 
Os objetivos desses grupos são em graus variados utilitários, visando à ob­
tenção de ganhos materiais, embora também reproduzam os padrões e va­
lores de criminosos adultos que operam no mesmo meio social. O segundo 
tipo é a subcultura do conflito, caracterizado pela luta entre grupos e gan­
gues rivais, cujo retorno é status para o grupo, ou seja, ser temido e respei­
tado pelos demais. Ronald Akers e Christine Sellers 7 apontam que esses 
grupos são encontrados em comunidades da classe baixa, onde existem 
escassas possibilidades de substituir as oportunidades ilegítimas por opor­
tunidades legítimas e a emulação para seguir modelos adultos, tanto os 
convencionais como os desviantes, são fracos. Nesse contexto, os jovens 
alienam-se tanto da busca de status monetário através do crime quanto 
dos meios legais. Finalmente, o terceiro tipo é a subcultura da evasão, cujo 
traço mais importante é o consumo de drogas e álcool. Seus membros rejei-
E C O N O M I A DO C R I M E 93 
tam tanto os objetivos quanto os meios do modelo de sucesso e vencedor, 
refugiando-se no vício. 
Embora mais detalhada do que a teoria original da anomia de Mer­
ton, as explicações de Cohen, Cloward e Ohlin também depararam-se com 
o obstáculo que consiste em explicar por que apenas determinados jovens 
que têm os meios legítimos bloqueados optam por condutas desviantes e 
pelo crime. Entre outros, um dos criminologistas que buscou uma resposta 
mais convincente para a questão é Robert Agnew; suas idéias centrais estão 
apresentadas no artigo A General Theory of Crime and Delinquency, que nos 
guiará na apresentação de suas idéias centrais. 8 
Agnew parte da crítica de que as teorias da anomia "clássicas" (Mer­
ton, Cohen, Cloward e Ohlin) enfatizam apenas os aspectos negativos do 
bloqueio das oportunidades legítimas. Cita contribuições de outros crimi­
nologistas que, além dos objetivos de sucesso monetário, consideram que 
os jovens perseguem outros modelos e referências de sucesso relacionados 
com os esportes, a cultura e o desempenho escolar. A partir delas, ele pro­
cura ampliar a teoria da anomia, considerando, além da disjunção entre 
objetivos monetários e meios legítimos, a frustração associada à perda de 
algo valorizado pelo indivíduo (não material) e as conseqüências provoca­
das pela exposição dos indivíduos a contextos e experiências negativas gera­
das por discordâncias e divergências sociais. 
Seguindo nessa linha, Agnew aponta três grandes fontes de tensão: a) 
impedir alguém de realizar os objetivos positivos; b) remoção ou tentativa 
de remoção dos estímulos positivos; e c) presença de estímulos negativos. 
Tais situações, sublinha, são tipos "ideais" Isso significa que não se pode 
esperar que um fato qualquer analisado as reproduza com exatidão; elas 
servem, no entanto, como guia para a análise da totalidade dos eventos 
considerados nas pesquisas empíricas. 
Na primeira delas, a que trata do bloqueio à realização dos objetivos 
positivos, a análise é dividida em três níveis. Inicialmente, a tensão surge 
quando ocorre uma disjunção entre aspirações e expectativas. As aspirações 
referem-se a objetivos ideais, e as expectativas são atuais, dizem respeito ao 
acesso imediato aos objetivos. A maior incidência de tensão e condutas 
desviantes nas classes baixas ocorre justamente porque elas são menos habi­
litadas para realizar seus objetivos imediatos. 
A crítica de Agnew a essa proposição é que ela não explica a extensão 
e o crime na classe média, negligencia outros objetivos que não o sucesso 
monetário, negligencia outras barreiras que não as decorrentes das classes 
94 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
sociais e, finalmente, não especifica, porque somente indivíduos sob pres­
são optam pela delinqüência. Agnew destaca as contribuições que traba­
lham com a noção da subcultura jovem, já mencionada anteriormente, que 
evoca outros objetivos imediatos relacionados com o desempenho nos es­
portes, a atratividade física, a personalidade e a inteligência. De acordo com 
essa perspectiva, não são apenas os jovens das classes baixas que apresentam 
inabilidade para alcançar tais objetivos, mas também os de classe média. Po­
rém, ainda assim, tal noção continuaconcebendo a conduta desviante como 
resultado da disjunção entre aspirações e meios legítimos para realizá-las. 
Em seguida, num segundo nível da análise, Agnew aponta que a ten­
são pode resultar, também, da disjunção entre expectativas e realizações atuais. 
A diferença é sutil, mas importante. Ele menciona estudos para mostrar 
que as expectativas resultam da experiência passada dos indivíduos e/ou de 
comparações com experiências de outros indivíduos que lhes servem como 
referência ou estão na mesma condição social. Uma das expectativas mais 
comuns está relacionada com a obtenção de renda: quando o indivíduo 
sente-se injustiçado porque não ganha o que imagina merecer, ou porque 
alguém igual a ele ganha mais fazendo a mesma coisa, emergem emoções 
como desapontamento, insatisfação, ressentimento e raiva. 
Tais sentimentos adquirem maior força do que a frustração com as 
aspirações, porque estas se referem a uma dimensão mais utópica e distan­
te, enquanto a raiva e a frustração, no exemplo acima citado, estão coladas 
na realidade dos indivíduos. Grosseiramente falando, é a diferença entre o 
sujeito que sonha em ter uma casa própria e aquele que é discriminado no 
trabalho, recebendo aumento menor do que seu colega que executa as mes­
mas atividades. A casa própria é uma aspiração que se situa além do cotidia­
no, é um sonho distante, enquanto que a discriminação salarial é parte do 
dia-a-dia. Outro aspecto importante é o peso que se atribui ao processo 
social da comparação, que, como se sabe, é fundamental na formação das 
expectativas. É a história da grama do vizinho que parece sempre mais ver­
de que a nossa. 
Finalmente, num terceiro nível, a análise, a tensão surge em conse­
qüência dos retornos esperados, e considerados como j ustos, e os retornos 
reais. Nesse caso, o que os indivíduos esperam não é simplesmente um 
determinado retorno pré-concebido; por exemplo, dinheiro ou notas boas 
no colégio, mas um retorno que eles consideram justo. Ou seja, eles intera­
gem com as situações sem ter necessariamente uma noção prévia do retor­
no esperado, formando um juízo sobre se esse retorno é justo a partir da 
E c a N C M I A aa C R I M E 9 5 
comparação com os demais indivíduos. Se o retorno é semelhante aos de­
mais, em condições similares, então lhe atribuem um sentido de justiça; se 
é diferente, o consideram injusto. Num esquema simplificado, o desvio ou 
a criminalidade seriam atitudes através das quais os indivíduos tentam ob­
ter maior retorno, através de furtos ou roubos, ou então afastar as condi­
ções que geram a injustiça, como é o caso dos jovens que fogem de casa ou 
abandonam a escola. 
Mas a tensão é gerada não apenas pela não-realização dos objetivos ou 
valores positivos, mas também através da (b) tentativa ou remoção dos estí­
mulos positivos. Na literatura que trata da agressão, tem-se retirado a ênfa­
se na busca da realização dos objetivos positivos com base no argumento de 
que esse tipo de comportamento mostra fraca capacidade de prever a agres­
são, principalmente quando tais objetivos não haviam sido antes experi­
mentados pelos indivíduos. 
Entretanto, como lembra Agnew, a remoção ou perda dos estímulos 
positivos pode ser uma forte fonte de tensão. Ele cita estudos que apresen­
tam uma lista de eventos que ocorrem ao longo da vida, como a perda de 
um namorado, a morte de amigos, mudança de escola, separação dos pais, 
adversidades no local de trabalho, e que constituem fontes de tensão. Por 
outro lado, como tem sido lembrado na literatura da tensão, podem ocor­
rer situações de tensão quando os indivíduos tentam evitar que os estímu­
los positivos sejam removidos ou então buscam atingir os responsáveis pela 
tentativa ou remoção de tais estímulos. 
Por último, a tensão surge também em conseqüência da presença de 
estímulos negativos. A tensão surge não apenas em razão da presença dos 
estímulos negativos em si, mas em decorrência da inabilidade dos jovens 
em lidar com ela. Agnew cita uma longa lista de estudos que mostram que 
a delinqüência e a agressão estão relacionadas a diversos estímulos negati­
vos, como abuso ou negligência com crianças, vitimização criminal, rela­
cionamento negativo com os pais e com os amigos, situações adversas na 
escola, além de uma ampla lista de eventos cotidianos, como insultos, agres­
sões físicas, cenas desagradáveis, e até mesmo calor ou barulho. 
Todas essas situações provocam níveis diferenciados de tensão e emo­
ções negativas, que incluem desapontamento, depressão, medo e raiva. Esta 
é considerada mais crítica, pois é o sentimento que emerge quando culpa­
mos alguém pelo que nos acontece. E também porque ela energiza o indi­
víduo para a ação e diminui a inibição, além do fato de que a agressão que 
ela desencadeia pode ser considerada justificada. 
96 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
Uma dessas pesquisas citada por Agnew para comprovar sua teoria 
examinou uma amostra de adolescentes de Nova Jersey. Depois de controlar 
diversas variáveis presentes em outras teorias, a conclusão é que a delinqüência 
era mais comum para aqueles que haviam sofrido os efeitos negativos de even­
tos como agressões, roubos, morte de amigos, divórcio ou desemprego dos 
pais; que enfrentaram situações de conflito com pais ou professores, cujos pais 
brigavam ou tinham uma relação marcada por ofensas ou irritação; entre aque­
les que eram repreendidos pelos professores quando davam uma resposta erra­
da; e, finalmente, entre aqueles que residiam em locais inseguros e que relata­
ram ter medo de caminhar sozinhos durante o dia ou a noite. 
Outra pesquisa, feita por Pasternoster e Mazerole ( 1 994), examinou a 
correlação entre tensão e subseqüente delinqüência usando dados de uma 
amostra nacional de adolescentes. A conclusão é que os adolescentes que 
"vivem em comunidades com muitos problemas sociais (inclusive crimes e 
deterioração física), que enfrentaram situações de tensão no último ano, 
que tiveram problemas com amigos ou na escola e relacionamento ruim 
com seus pais e professores, cometeram significativamente mais atos delin­
qüentes do que aqueles que não enfrentaram tais situações de tensão" .9 
Nesse ponto, a pesquisa avança além da proposição mais geral da teoria da 
desorganização social, que enfatiza a desorganização social e do ambiente 
em que vivem os jovens. São os estímulos negativos, não apenas a desorga­
nização social, que impulsionam os jovens para a delinqüência. 
No entanto, nem todas as situações de perda dos estímulos positivos e 
a presença de estímulos negativos conduz à delinqüência. Muitas situações 
de tensão, ao contrário, estão relacionadas com a presença de expressivo 
controle social e redução das oportunidades criminais. É o caso, exemplifi­
cando, de adolescentes que cometem menos ou nenhum crime, porque 
não participam de atividades com amigos envolvidos em crimes ou então 
de adolescentes que são fortemente supervisionados por seus pais, que con­
denam com energia qualquer comportamento delinqüente. 
Por outro lado, existem muitas outras formas de os indivíduos reagi­
rem às tensões que não a delinqüência. A forma mais importante é a cha­
mada estratégia de reinterpretar as tensões visando a minimizar seus efei­
tos. Agnew cita três estratégias cognitivas muito comuns: "isso não é im­
portante", "isso não é tão ruim" e "eu mereço isso". Ele cita como exemplo 
a situação de uma pessoa que não consegue realizar seus objetivos de ga­
nhar dinheiro. Ela pode minimizar a tensão que tal situação provoca achando 
que mais dinheiro não é importante, colocando em seu lugar outros obje-
E C O N O M IA DO C R I M E 97 
tivas, como saúde e relacionamento familiar. Ou então pode também mi­
nimizar os efeitos de não conseguir mais dinheiro achando que já tem o 
suficiente, ou assumindo a responsabilidade por não conseguir alcançar seu 
objetivo. Tais estratégias podem não reduzir os sentimentos negativos, mas 
diminuem a raiva decorrente da responsabilização dos outros pela situação.Além disso, as pessoas podem adotar atitudes que evitam as situações de tensão, 
como separar-se de maridos agressores, não andar com amigos perigosos ou 
negociar soluções para seus problemas escolares com os professores. 
Por fim, Agnew enfrenta a questão crucial que consiste em responder 
por que determinadas pessoas têm maior probabilidade de responder à ten­
são com crime. A resposta envolve três fatores: a tensão leva mais facilmen­
te ao crime quando envolve situações que as pessoas consideram efetiva­
mente importantes. Por exemplo, dificuldades financeiras levam mais facil­
mente a cometer crimes as pessoas que consideram o dinheiro algo muito 
importante. Além disso, a tensão conduz ao crime as pessoas com menos 
habilidades e recursos para buscar saídas para seus problemas; entre elas a 
inteligência, habilidade de relacionamento interpessoal, habilidades profis­
sionais, auto-eficácia e disciplina e, ainda, recursos financeiros. Um segun­
do fator está relacionado com o fraco ou inexistente suporte social por 
parte da família e amigos que eventualmente podem ajudar o indivíduo a 
buscar uma saída para seus problemas. O terceiro fator diz respeito ao bai­
xo custo do crime. O custo nesse caso diz respeito a um conceito amplo, 
envolvendo, como na teoria econômica do crime, tratada na Parte II, a 
condenação por parte da família, amigos, professores, empregadores, vizi­
nhos e Justiça. Da mesma forma que na teoria econômica do crime, aqui 
também a tolerância com as atitudes criminosas acaba gerando um incenti­
vo para que sejam cometidos mais crimes. 
Além disso, devemos considerar ainda a questão crucial de que alguns 
indivíduos apresentam maior disposição para cometerem crimes. Essa dis­
posição é influenciada por inúmeros aspectos, entre os quais as característi­
cas pessoais, como irritabilidade e impulsividade. Além disso, fatores como 
acreditar que o crime é justificado por alguma razão - sentimento de justi­
ça, por exemplo -, sofrer a influência de algum modelo, conviver com amigos 
criminosos, como preconiza a teoria da aprendizagem social, podem tornar 
algumas pessoas mais propensas ao crime do que outras. 
Chama a atenção que na lista de Agnew não estão presentes os fatores 
que dizem respeito à formação moral e ética dos indivíduos. A única men­
ção que poderia, ainda que indiretamente, estar relacionada com tais aspec-
98 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
tos é a noção de "suporte social", mas nesse caso a noção tem um sentido 
utilitarista, o de ajudar o indivíduo a suportar a tensão ou a remover deter­
minado estímulo negativo, evitando, dessa forma, a saída através do crime. 
A importância da educação, por outro lado, surge também com um senti­
do instrumental, através da suposição de que indivíduos educados têm 
melhores habilidades para contornar situações de tensão através de meios 
legítimos, o que é correto, mas é também uma visão muito limitada da 
educação. Na teoria econômica do crime, ao contrário, ela tem um papel 
mais amplo, indo além das habilidades profissionais, envolvendo maior 
capacidade de os indivíduos avaliarem e ponderarem custos e benefícios. 
A teoria da aprendizagem formulada por Ronald Akers dá uma res­
posta diferente e muito interessante à indagação por que determinados in­
divíduos em situações e contextos sociais semelhantes cometem mais cri­
mes. De acordo com Akers, "a premissa básica da teoria do aprendizado 
social é que o mesmo processo de aprendizado, em um contexto de estru­
tura, interação e situação sociais, produz comportamentos tanto divergen­
tes (delinqüentes) quanto corretos (de conformidade). A diferença reside 
na direção do equilíbrio de influências no comportamento." 
De acordo com Akers, a probabilidade de as pessoas engajarem-se em 
comportamentos criminosos aumenta ou diminui quando: a) se associam 
diferentemente com outros que cometem crimes; b) aceitam representa­
ções favoráveis a isso; c) são relativamente mais expostas pessoal ou simbo­
licamente a significativos modelos criminosos/desviantes; d) os definem 
como desejáveis ou justificáveis numa situação questionadora do compor­
tamento, e e) receberam no passado, antecipam no presente e no futuro 
recompensas maiores do que as penas associadas à decisão. 10 
O sentido atribuído à expressão learning é amplo. Diz respeito não 
apenas ao aprendizado decorrente da influência ou convivência com crimi­
nosos, mas à forma como os princípios e valores que governam o compor­
tamento humano são adquiridos, mantidos e modificados. Ele retém as 
noções do interacionismo simbólico de que os indivíduos têm a capacidade 
de imaginar-se no papel de outros e incorporar seus conceitos, seja por 
imitação, antecipação de reforços ou auto-reforço. Nesse sentido, a teoria 
apresentada por Akers procura explicar tanto o comportamento dos indiví­
duos no sentido da conformidade quanto do desvio e do crime. 
Akers trabalha com três conceitos-chave: Definições, Reforços Diferen­
ciais e Imitação. Definições refere-se às nossas atitudes e significados que 
direcionam o nosso comportamento. São orientações, racionalizações, de-
E c a N C M I A o a C R I M E 99 
finições situacionais e avaliações morais que indicam o que é cerco e errado, 
bom ou mau, desejável ou indesejável, justificável ou injustificável. Ele di­
vide as definições em gerais, que dizem respeito à religião, à moral e outros 
valores convencionais favoráveis ao comportamento conforme e desfavorá­
veis ao comportamento criminoso ou desviante, e específicas, que são aquelas 
que orientam as pessoas em um caso ou em casos particulares. 
A suposição é de que quanto mais uma pessoa acredita que uma atitu­
de é errada, menor é a probabilidade de cometê-la. Porém, a teoria trabalha 
com o conceito de neutralização, ou seja, de verbalizações e racionalizações 
que operam como justificativas para atos desviantes e crimes, tais como "eu 
não sou responsável", "eu nasci assim", "eu estava bêbado e não sabia o que 
estava fazendo", entre outras. Cognitivamente, tais alegações servem como 
justificativas para o crime, quando a oportunidade surge, um espécie de 
estímulo interno que anula a crença de que se está fazendo algo errado. 
Reforços diferenciais alude ao balanço da antecipação ou gratifica­
ção atuais e à punição relacionada ou conseqüência do comportamen­
to. A propensão de alguém cometer um crime depende, portanto, do 
retorno e/ou da punição canto no passado, como no presente e no futu­
ro, estando, portanto, relacionada não apenas com a experiência passa­
da, mas também com a projeção do futuro. Ela é maior quando a grati­
ficação aumenta, seja na fo rma de dinheiro, aprovação ou sentimentos 
de prazer, e diminui quando aumenta a probabilidade de punição ou 
quando a gratificação é removida. A gratificação pode ser tanto mate­
rial quanto simbólica. Tais modalidades de associação, diz Akers, são 
modalidades de reforço, cuja influência no comportamento dos indiví­
duos depende do volume, da freqüência e da probabilidade. 
Finalmente, a imitação, como a palavra sugere, designa o comporta­
mento resultante da observação das atitudes dos outros. Ele depende das 
características do modelo, do comportamento observado e das conseqüên­
cias do comportamento imitado. 
A sociedade - as formas de inserção social dos indivíduos, raça, gênero 
e religião - fornece o contexto geral de aprendizagem, que pode aumentar 
ou diminuir a probabilidade de eles cometerem crimes. A família, a escola, 
os amigos, a igreja e outros grupos proporcionam os contextos mais imedia­
tos, que também promovem ou desencorajam as atitudes criminosas. O 
comportamento criminal depende da extensão da influência dessas característi­
cas e instituições, enfim das tradições culturais, normas e controle social provi­
dos pela socialização e ambientes em que os indivíduos são formados. 
1 00 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
A teoria da aprendizagem opera, portanto, em três dimensões, inte­
grando na análise o nível macro (o contextosocial) com o nível micro (o 
comportamento individual), dimensões essas que são mediadas e integra­
das pelo processo de aprendizagem. 
Como vimos, a teoria da aprendizagem diferencia-se das teorias da ano­
mia, tanto na formulação clássica quanto em seus desdobramentos, e aproxi­
ma-se em vários aspectos da teoria do controle, que será examinada a seguir, 
principalmente quando sublinha a importância dos retornos (gratificações ou 
punição) e o papel positivo dos laços e vínculos sociais (família, escola, grupos). 
E c a N O M IA oa C R I M E 1 D 1 
F:.M ÍLIA, E S C O LA E C O M U N I DADE: 
FO NTES DE C ONTRO LE 
N a segunda metade do século passado, surgem as pesquisas dos crimi­nologistas Albert Reiss, Ivan Nye e Travis Hirschi, com uma impor­
tante mudança de enfoque em relação às teorias da anomia, por exemplo. 
Eles deslocam o foco da análise para os mecanismos de controle que afetam 
diretamente o indivíduo, principalmente derivados da família, da comuni­
dade e da escola. Tais análises têm a vantagem de levar em conta não apenas 
os elementos formais de controle existentes nas leis, mas, principalmente, 
os mecanismos informais que desde cedo, através da família e da escola, 
influenciam o comportamento dos indivíduos. E que, de certo modo, ex­
plicam por que alguns são mais propensos ao cumprimento das leis, en­
quanto outros apresentam maior probabilidade de condutas desviantes. 
Albert Reiss assume a delinqüência como uma ocorrência social nor­
mal, que aumenta devido à ausência de limitações e/ou controles por parte 
dos indivíduos. Uma das mais importantes fontes desse controle é a famí­
lia, pois é ela que provê as necessidades básicas das crianças e gera um forte 
relacionamento emocional. Crianças que internalizam uma forte ligação 
com seus pais são mais propensas a adotar comportamentos não-delinqüen­
tes. Ligação que supõe, além da satisfação das necessidades básicas e emo­
cionais, uma relação de supervisão e disciplina. 
Além da importância da família, Reiss destaca o papel complementar 
da comunidade e das relações de vizinhança como fonte de controle social. 
Grupos informais fortes e baixa mobilidade residencial exercem uma pode­
rosa influência para controlar as condutas das crianças e adolescentes. A 
ligação entre crianças e jovens e a escola é também um forte instrumento 
de controle social. O crime ocorre em decorrência de falhas no relaciona­
mento entre os indivíduos e essas instituições. 
Nye classifica as fontes do controle em três grupos: o controle direto, 
que engloba diversas variáveis de contenção ou limitação dos comporta-
1 0 2 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
mentas e impulsos desviantes, como o sistema legal, as sanções informais, a 
vergonha, a reprovação do grupo e a supervisão direta dos pais; o controle 
interno, que ocorre quando as pessoas são socializadas de forma a internali­
zar consistentemente o sistema normativo da sociedade; e o controle indire­
to, que acontece quando as crianças têm um relacionamento forte e afetivo 
com seus país e outros adultos de seu grupo de convivência. 
A mais importante instituição geradora de controle social é a família. 
Porém, ela pode tanto ser uma fonte de limitação à conduta desviante como 
de incentivo. Por exemplo, quando a família não consegue preencher ou 
dar respostas às necessidades e desejos dos jovens, pode tornar-se um ele­
mento de estímulo para comportamentos anti-sociais. O mesmo pode ocor­
rer com famílias desintegradas ou marcadas por relações de agressividade. 
A classificação de Nye tem o mérito de destacar que a literatura enfa­
tiza apenas o aspecto positivo da família, sem dar a devida importância à 
situação oposta, na qual, por várias razões, ela deixa de cumprir sua função 
socializadora e empurra seus membros jovens para a marginalidade. A pro­
pósito, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, defende a adoção do 
planejamento familiar para conter a gravidez precoce, que chega a 20% nas 
favelas da cidade. O pressuposto é que famílias pobres, com difícil acesso à 
educação e ao mercado de trabalho, apresentam condições precárias de edu­
car seus filhos num ambiente saudável, em termos psicológicos e materiais. 
O mesmo ocorre quando os pais não cultivam valores e noções morais de 
respeito e disciplina no seio da família. 
Finalmente, em sua obra clássica Causes of Delinquency, de 1 969, Tra­
vis Hirschi também aponta a importância do autocontrole em sua teoria 
geral do comportamento desviante. Autocontrole significa a capacidade 
das pessoas de resistirem à imediata e fácil gratificação. Adquirido desde a 
infância, e uma vez formado, ele torna-se relativamente estável durante 
toda a vida. Os atos delinqüentes resultam de falhas em quatro elementos: 
ligação entre os indivíduos, marcada ou não por respeito, amor e afeição; com­
promisso, adesão ou não do indivíduo às suas aspirações, propósitos e ambições; 
envolvimento, engajamento em atividades legais como restrição às oportunida­
des para atos delinqüentes e, por último, a crença, a adesão ao comportamento 
normal e a rejeição aos atos delinqüentes como moralmente errados. 
A seguir veremos com maiores detalhes os aspectos centrais da teoria 
do autocontrole, suas principais diferenças em relação à abordagem do de­
terminismo social e também em que medida podemos evocar a racionali­
dade individual na explicação das decisões dos indivíduos. 
E c:: a N D M I A oa C R I M E 1 0 3 
A TEORIA DO AUTOCONTROLE 
D esenvolvida inicialmente na década de 1 960 e 1 970, nos Estados Uni­dos, a chamada teoria do autocontrole resgata inicialmente a visão 
clássica que atribui o desvio e o crime a falhas no sistema de controle social. 
Além disso, ela pretende também suprir as falhas existentes nas explicações 
correntes na década de 1 960, particularmente a que associa a criminalidade 
a fatores como pobreza, discriminação racial e ausência de oportunidades 
de ascensão social. 
A propósito, Michael Gottfredson e Travis Hirschi afirmam que essas 
teorias são falhas porque tais fatores podem até explicar por que determina­
das pessoas aderem ao crime, mas não conseguem dar conta das razões 
pelas quais elas abandonam as atividades criminosas. Ou por que determi­
nados indivíduos, na mesma situação dos que optam pelo crime, preferem 
o não-crime. Existe uma inconsistência teórica evidente no fato de que, se 
esses mesmos fatores explicam a ascensão, não conseguem explicar a queda dos 
crimes; explicam a adesão de uns e deixam de explicar a não-adesão de outros. 
No que se refere à herança dos clássicos, a teoria do autocontrole res­
gata a noção de que todas as pessoas apresentam tendência a cometer des­
vios ou crimes, ainda que diferenciadas; resgata também a proposição de 
que essas tendências podem ser controladas ou inibidas por vários tipos de 
sanções, físicas, morais, sociais, legais ou religiosas, para seguir a classifica­
ção de Jeremy Bentham. Segundo essa visão, a natureza humana comporta 
tanto as boas como as mds atitudes. 
Porém, vai além da noção clássica, ao conceber que o controle não se 
faz presente apenas na direção do meio para o indivíduo, de fora para den­
tro, mas depende, também, da forma como o indivíduo aprende e interna­
liza os valores com os quais é confrontado. Em última análise, depende de 
seu sistema de crenças e de como reage aos incentivos proporcionados pelo 
meio ambiente. 
1 04 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
A noção de que os fenômenos sociais resultam de ações, atitudes e 
crenças individuais assemelha-se, de certo modo, à perspectiva da sociolo­
gia da ação ou da sociologia interacionista. Para a sociologia da ação, con­
forme escreve Raymond Boudon, em seu Tratado de Sociologia, quem pro­
cura explicar os fenômenos sociais deve descobrir os "sentidos" dos com­
portamentos individuais que estão na sua origem. 
Essa perspectiva nos remete a dois princípios básicos: o individualis­
mo metodológico e o princípio da racionalidade. O individualismo meto­
dológico parteda premissa já referida por Max Weber de que "a sociolo­
gia . . . só pode ter origem nas ações de um, de alguns ou de muitos indiví­
duos distintos". Assim, como lembra Boudon, as análises sociológicas com­
portam quase sempre, "mesmo que de forma elíptica, um momento em 
que são examinadas as razões que levam os atores a manifestar um dado 
comportamento ou uma dada convicção" 
O individualismo metodológico é distinto do individualismo moral 
ou mesmo do simples egoísmo. Refere-se, sobretudo, à idéia de que, para 
explicar um fenômeno social, é necessário descobrir suas causas individuais 
e específicas. Não se trata, portanto, de levar em conta acepções ou noções 
quanto aos valores morais de cada indivíduo ou grupo de indivíduos, muito 
menos de colocar em primeiro plano o indivíduo como fonte suprema dos 
valores morais, mas de compreender as influências, contextos e circunstâncias 
específicas - culturais, econômicas, sociais - que operam nas decisões, intera­
gindo com as características de cada indivíduo. O conceito de indivíduo, con­
forme assinala o sociólogo Henri Mendras, do Centro Nacional de Pesquisa 
Científica - CNRS, da França, está ligado ao de ator social. Quando nos refe­
rimos ao indivíduo, temos em mente não um indivíduo em particular mas 
um conjunto de indivíduos, grupos, instituições que estão submetidos a 
uma unidade de comportamentos, valores, normas e imposições. 
A crítica mais contundente ao individualismo metodológico partiu 
dos marxistas e neomarxistas. Para eles, o indivíduo não dispõe da "autono­
mia" requerida pela perspectiva individualista, na medida em que sua ação 
é determinada pela estrutura social e pela cultura dominante. Mesmo quando 
a ação dos indivíduos envolve, em algum grau, uma decisão individual, ela 
ainda assim é considerada pelos marxistas como produto das determina­
ções sociais, uma vez que a própria consciência é socialmente condicionada 
e determinada. 
Em outras palavras, se a consciência é determinada socialmente, tam­
bém as ações determinadas pela consciência o são. Como lembra Boudon, 
E c:: a N O M IA o a C R I M E 1 0 5 
os neomarxistas repudiam a autonomia do indivíduo por questões doutri­
nárias: a autonomia do indivíduo é mera ilusão, uma vez que a ideologia 
que serve de guia para o indivíduo pode ser, também, concebida da mesma 
forma. Os indivíduos, segundo Marx e Engels, estão condenados a "ver o 
mundo às avessas" O indivíduo, para os marxistas, não passa de um "jo­
guete absoluto de determinismos sociais" 
Esse tipo de visão, além da crítica proveniente da sociologia e da eco­
nomia, enfrenta, agora, as recentes descobertas no campo da psicologia 
evolucionista e da neurociência. Essas descobertas reforçam, com evidên­
cias cada vez mais robustas, a presença e a influência dos elementos e carac­
terísticas biológicas herdadas no comportamento humano. A idéia de que 
os indivíduos nascem como se fossem uma página em branco (uma tábula 
rasa) e que a sociedade é que escreve os traços que o definem e determinam, 
é uma idéia superada. Nos dias atuais, cada vez aceita-se mais que a análise 
do comportamento humano deve levar em conta, não apenas a influência 
do meio, mas também as características biológicas herdadas. 1 1 
Os estudos mostram que a despeito do ambiente cultural em que nas­
cem e crescem, quando chamadas a escolher o tipo de brinquedo que pre­
ferem, a grande maioria das crianças do sexo masculino escolhe aqueles que 
envolvem lutas e competição. Outro exemplo é que, em qualquer país ou 
cultura, os crimes são cometidos predominantemente por homens e não 
por mulheres; mais ainda, a comportamento desviante é uma característica 
dos jovens, ocorrendo num momento da vida em que eles passam por uma 
grande transformação biológica. Esses três exemplos são suficientes para 
questionar a noção de que o comportamento é derivado apenas da aprendi­
zagem social. 
O outro princípio da sociologia da ação é o da racionalidade. Ele sig­
nifica que os fenômenos sociais, como dissemos, devem ser interpretados 
como resultantes de ações, convicções e comportamentos individuais. É 
preciso entender o sentido dessas ações. Segundo a sociologia da ação, por­
tanto, para explicar os fenômenos sociais, é preciso identificar e compreen­
der as ações dos indivíduos. 
Até esse ponto, tudo nos parece relativamente simples. O problema 
surge quando procuramos definir o que são as atitudes racionais e irracio­
nais. Raymond Boudon começa a tratar da questão fazendo uma observa­
ção fundamental: o postulado da racionalidade é um princípio metodológi­
co, e não ontológico. Isto é, ele diz respeito ao ator social e não a um indiví­
duo em particular. Em seguida, formula dois critérios que nos auxiliam a 
1 0 6 L u i z TA D E U V 1 A P I A N A 
compreender um pouco melhor o significado da racionalidade: ela seria 
uma conduta guiada por razões válidas, num sentido mais restrito, ou se­
guindo a definição de Karl Popper e, num sentido mais amplo, sempre que 
se apóie em algum tipo de razão, não importando qual seja. 
No primeiro caso, é evidente a mediação da cultura - hábitos, costu­
mes, referências morais e legais -, enfim, daquilo que as pessoas definem 
como certo ou errado, bom ou mau. Por exemplo, um traficante que mata 
um "inimigo" para preservar seu poder - logo, seu "negócio" - sobre o 
grupo ou território tem, segundo seus valores, sua ética e sua lógica uma 
"razão válida", embora ela seja inaceitável do ponto de vista moral, ético e 
legal adotado pela sociedade. Nessa situação, é relativamente fácil distin­
guir o certo e o errado, portanto identificar uma razão válida. Mas, se evo­
carmos o segundo caso - a existência de algum tipo de razão -, a situação 
fica muito mais complicada, pois, em última análise, o estabelecimento de 
uma razão válida sugere um critério amplo e aberto, no qual caberia tanto 
a atitude do traficante acima citado como até mesmo a justificativa do ter­
rorismo, dado que ambos consideram suas razões válidas segundo seu modo 
de ver as coisas. 
Além desses aspectos relacionados com a gradação dos juízos de valo­
res possíveis em dadas situações concretas, existe ainda a dificuldade rela­
cionada com a forma como os diversos indivíduos se apropriam das infor­
mações necessárias ou importantes para uma decisão racional. 
Mais especificamente, a dificuldade com a racionalidade aumenta quan­
do supomos que ela pressupõe que os indivíduos não conseguem acessar de 
modo uniforme o sistema de informações, dado que o sistema de informa­
ções é, em última análise, sempre imperfeito. Em termos muito simples, 
pode-se dizer que os indivíduos têm acesso apenas parcial às informações 
que necessitam para decidir de forma racional. Além da acessibilidade, há 
ainda a dificuldade dos diversos sentidos e formas de interpretá-las, na 
medida em que uma informação pode ser captada com níveis de importân­
cia distintos de indivíduo para indivíduo. 
O déficit de informação nos leva à racionalidade subjetiva, ou seja, à 
idéia de que as decisões, em algum grau, valem-se das memórias, experiên­
cias, conhecimentos e expectativas do ator social. Esse indivíduo afasta-se, 
assim, da racionalidade objetiva, construída hipoteticamente sobre um 
quadro de informação perfeito, e passa para uma racionalidade subjetiva ou 
psicológica, na qual o que ele busca é uma decisão não mais ótima, mas 
satisfatória. Desse modo, carecendo de um sistema de informações adequa-
E c a N C M I A aa C R I M E 1 0 7 
do, ele decide segundo os valores, costumes e experiências que lhe parecem 
bons ou menos ruins numa dada situação. 
Como o acesso ao sistema de informações é, por definição, desigual, 
de indivíduo para indivíduo, as decisões sempre refletirão essa desigualda­
de, sendo sempre específicas, próprias para cada pessoa. Desaparece, assim, 
qualquer possibilidade de comparação, a não ser quando referidas a catego­
rias e situações específicas. Mas, aí, entramos no terreno da psicologia social, 
do estudo docomportamento social a partir de referências e atitudes adap­
tativas e respostas comuns, fugindo do campo da decisão do indivíduo. 
Podemos identificar quais são os traços comuns na reação de jovens à bebi­
da, por exemplo, a partir de estudos comportamentais de determinados 
grupos e extrapolar essas conclusões para o conjunto dos jovens. Nesse caso, 
podemos até projetar determinados padrões de comportamento, mas nada 
nos garante que determinadas características de um indivíduo se reproduza 
em universo mais amplo, pois, obviamente, estatísticas, médias, probabili­
dades não falam de um indivíduo específico. 
Deve-se sublinhar, de outra parte, que a racionalidade psicológica não 
implica que o indivíduo domine completamente seu comportamento. Ati­
tudes racionais e irracionais estão presentes como possibilidades de atitude 
humana num processo de permanente tensão. Freud dizia que a psicologia 
humana é governada pela pulsão do prazer e que nem sempre é a razão, 
dada pela consciência dos atos, que governa as ações humanas. 12 E os casos 
em que o comportamento humano é fortemente determinado por patolo­
gias mentais? Os criminosos psicopatas, matadores compulsivos, por exem­
plo, estariam nesse grupo? 
As leis penais, evidentemente, atenuam situações em que patologias 
mentais estão associadas ou presentes nos crimes, embora envolvam diag­
nósticos complexos e de difícil determinação. Por exemplo, no caso das 
psicopatias comumente presentes em assassinos seriais (serial killers), cha­
ma a atenção dos especialistas que eles apresentam invariavelmente um 
quadro comportamental de grande normalidade, com a doença irrompen­
do, apenas, em momentos muito específicos, muitas vezes sem um padrão 
determinado. 
Como salienta Gavin de Becker, em seu livro Virtudes do Medo, na 
maior parte dos casos, a aparente normalidade esconde um histórico de 
violência e perdas na infância. Ele cita uma pesquisa que estudou assassinos 
compulsivos e concluiu que "em 100% dos casos" eles "tinham sido maltrata­
dos quando crianças, seja por atos de violência, negligência ou humilhação" 
1 DB L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
Em seu escudo sobre as raízes do comportamento violento, Becker escreve: "Os 
assassinos não são diferences de nós como gostaríamos de pensar" 
Podemos dizer, então, que a compreensão das atitudes dos indivíduos 
ou grupos deve levar em conta, de um lado, um sistema de decisões que 
refletem os valores incernalizados - as normas, os costumes, as leis, etc. -
num processo de decisão que contém elementos de racionalidade - seja ela 
objetiva ou subjetiva/psicológica - e, de outro lado, a capacidade de dissua­
são do sistema de sanções morais, éticas ou legais. Assim, se acolhermos a 
noção de que essas sanções inibem comportamentos desviantes ou crimi­
nosos, aceitaremos também que existe alguma ponderação de custo/benefi­
cio no momento da decisão pelo crime. 
Se assim for, a decisão pelo crime envolve, em algum grau, uma certa 
racionalidade, sem a qual a influência dissuasória das sanções não existiria -
ainda que essa racionalidade, como dissemos, possa ser moralmente relati­
va, vista sob a ótica de quem pratica o delito ou de quem é vítima. O 
importante, nesse caso, é ver o ato não como determinado exclusivamente 
do ambiente para o indivíduo; tampouco considerar o indivíduo como 
autômato, um ser destituído de qualquer capacidade de avaliar o sentido e 
as conseqüências de sua atitude no presente e futuro. Nesse sentido, a teo­
ria do autocontrole distancia-se radicalmente das teorias do viés social. É 
possível afirmar que, pelo menos nesse aspecto, ela se aproxima da "escolha 
racional" presente na teoria econômica do crime, apresentada na Parte II. 
O ponto central da teoria do autocontrole é que existe um elemento 
comum em todos os atos desviantes e/ou crimes, sejam eles leves ou graves, 
que consiste precisamente na existência de um agressor não contido, dis­
posto a correr o risco de arcar com custos de longo prazo em troca de 
benefícios pessoais imediatos. Não existe diferença nos benefícios deseja­
dos; afinal, todos almejam as mesmas coisas - dinheiro, poder, bens mate­
riais, sexo, enfim. 
A diferença localiza-se nos meios legítimos ou ilegítimos de obtê-los. 
Enquanto, para uns, os meios para alcançar esses objetivos são o empenho na 
formação e educação dos filhos e no desenvolvimento de habilidades para o 
trabalho, em meios social e legalmente aceitos como legítimos, para outros, os 
meios são aqueles rápidos, diretos e fáceis, independentemente de serem legais 
ou não, legítimos ou não. Portanto, as pessoas que se engajam no crime são 
pessoas que negligenciam as conseqüências de longo prazo. São pessoas, 
dizem os especialistas, com baixo autocontrole. "Eles são, ou desejam ser, 
crianças por um momento", segundo Hirschi e Gottfredson. 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 09 
A esta altura, precisamos explicar de onde provém o autocontrole e 
como determinadas pessoas o adquirem mais do que outras. O autocontro­
le é em parte natural e em parte adquirido e aprendido socialmente. Quan­
do ainda são pequenas, as pessoas aprendem por meios naturais que é pre­
ciso ter cuidado com o fogão, com subir em mesas, cadeiras, sofás e escadas, 
com energia elétrica e com piscinas, rios ou lagos, enfim, com situações nas 
quais ela mesma, por si só, vai percebendo os riscos e perigos. Por exemplo, 
quando a criança é pequena, ela pode mentir, usar a força contra um cole­
guinha de escola, furtar um brinquedo, sem que tenha consciência de que 
tais atitudes sejam erradas ou más. No entanto, a partir de uma certa idade, 
7 ou 8 anos, ela vai percebendo que tais atitudes não são mais aceitas como 
naturais e implicam reprovação. É precisamente nessa idade que ela come­
ça a controlar mais seus atos. 
Na realidade, as crianças aprendem por diversos meios a serem res­
ponsáveis por seus atos e arcar com as conseqüências, tendo um papel 
decisivo nesse processo a família, a escola e o grupo de amigos, que 
fornecem a chamada "socialização primária" É nesses ambientes que 
ela começa a receber as primeiras noções morais que dizem respeito às 
ati tudes e normas valorizadas pela sociedade. Aceita-se, de um modo 
geral, que uma boa social ização dos filhos implica que os pais cumpram 
as seguintes condições: cuidado, monitoramento, reconhecimento, no caso 
dos comportamentos desviantes, e correção. Quando essas condições estão 
presentes, presume-se que as crianças aprendam mais facilmente a evi­
tar as ações e atitudes que implicam custos ou conseqüências negativas. 
Os estudos sobre delinqüência juvenil conferem suporte a essas for­
mulações, a ponto de torná-las de certo modo óbvias entre os especialistas. 
Com efeito, esses estudos evidenciam que quanto maior e mais intensa for 
a ligação entre pais e filhos, menor é a probabilidade desses virem a se 
tornar delinqüentes. Da mesma forma, conforme sublinham Gottfredson 
e Hirschi, a disciplina e os compromissos constituem fortes preditores da 
não-delinqüência. 
Por outro lado, entre os fatores associados à opção pela delinqüência, 
encontramos os seguintes: negligência dos pais, abuso, pais solteiros, gran­
de número de filhos e pais criminosos. É mais ou menos óbvio que pais 
separados, ou pais com problemas comportamentais ligados às drogas, abuso 
do álcool ou a outras condutas desviantes, por exemplo, têm maiores difi­
culdades de exercer papel ativo na correção de condutas ou atitudes desviantes 
de seus filhos. 
1 1 o L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Assim, a teoria do autocontrole combina uma visão da natureza hu­
mana segundo a qual estão presentes nos indivíduos tanto a tendência para 
as ações boas como para as más, com a noção de que as pessoas aprendem 
os valores morais e legais associados às boas ou más ações e, ainda, reserva 
ao indivíduo certo espaço para uma decisão racional por certas atitudes em 
detrimento de outras, pelo crime ou pelo não-crime. Nesse sentido, a teo­
ria do autocontrole vaimuito além das várias versões da teoria da anomia e 
também da teoria da aprendizagem. 
Depois de fazer uma ampla revisão da literatura disponível, Gottfred­
son e Hirschi chegaram à conclusão de que existe um conjunto de caracte­
rísticas comuns no comportamento e perfil dos criminosos. Quando essas 
características são confrontadas com as proposições da teoria do autocon­
trole, muitas delas são convergentes, enquanto outras são divergentes. 
As características citadas são as seguintes: 
• Diferenças entre altas ou baixas taxas de crimes se mantêm ao longo 
do tempo de vida do indivíduo; isso não significa, evidentemente, 
que "uma vez criminoso" o indivíduo sempre será um criminoso. A 
conclusão sugere, por um lado, que existe baixa probabilidade de 
recuperação dos criminosos, ao mesmo tempo em que reforça a 
noção de que o baixo autocontrole, uma vez adquirido, mantém­
se ao longo da vida. 
• Os esforços para tratar ou reabilitar agressores não produzem os resultados 
desejados; sucesso nos programas de tratamento são muito dificeis. A con­
clusão sugere não apenas a baixa eficácia dos sistemas tradicionais de 
recuperação - prisão, tratamento psicológico e ressocialização -, mas 
reforça também a idéia de que o comportamento desviante, mais do 
que um evento ou uma sucessão de eventos, está relacionado com um 
"modo de vida", uma "carreira criminosa" 
• Os esforços na aplicação da Lei e da justiça têm também pouco efeito no 
volume de crimes. Segundo essa conclusão, os agressores não reagiriam 
a aumentos na certeza ou severidade das penas. Essa conclusão, con­
forme se pode observar nas Partes II e IV, é improcedente ou, no mí­
nimo, controversa. Existem inúmeros exemplos que mostram redução 
das taxas de crimes em resposta a aumentos da certeza e da severidade 
das penas e também da presença de vigilância policial. 
• Os crimes declinam com a idade dos agressores. Esse comportamento 
está relacionado, por um lado, com a diminuição da potência física 
E c a N C M I A oa C R I M E 1 1 1 
dos agressores e, por outro, com o fato de que eles desenvolvem laços 
sociais e familiares mais fortes (casamento, filhos, etc.) com o passar 
do tempo. Os custos afetivos do crime, com isso, aumentam. 
• Criminosos têm maior probabilidade de usar drogas do que não-agresso­
res. Essa constatação indica que comportamentos desviantes reforçam­
se mutuamente. Nem sempre viciados em drogas tornam-se crimino­
sos, mas é muito comum que criminosos usem drogas ou quem use 
drogas tenha maior probabilidade de vir a cometer crimes. A "culrurà' da 
droga e a "culturà' do crime e da transgressão andam muito próximas. 
• Criminosos são mais facilmente envolvidos em formas não criminais de 
desvio (abuso de álcool, brigas, velocidade no trânsito, desordem nas ruas, 
etc.}. Do mesmo modo que na questão das drogas, a "cultura" da trans­
gressão vai além da atitude criminosa; quem é criminoso dificilmente 
tem a preocupação de obedecer a leis e normas, ainda que sejam rela­
cionadas àqueles aspectos. Há, entretanto, o caso dos "criminosos pro­
fissionais", os chamados criminosos de "colarinho branco", que são, 
na maior parte do tempo, cidadãos honestos, mas cuja "profissão" é 
cometer crimes financeiros, tráfico de drogas, corrupção ativa em lici­
tações públicas e outros crimes não violentos. São, até que sejam iden­
tificados, cidadãos que cumprem as leis, não se envolvendo em formas 
"não criminais" de desvio. 
• São, também, menos vinculados a instituições de controle, como a famí­
lia, a escola, o trabalho. Essa é uma conclusão, evidentemente, muito 
robusta em favor da teoria do autocontrole, uma vez que as fontes 
primárias do comportamento conforme as normas e leis são precisa­
mente a família, a escola e a inserção no mercado de trabalho. 
• Os criminosos apresentam maior desvantagem intelectual e cognitiva. Essa 
característica remete a um conjunto de questões presentes em outras 
teorias, não apenas na teoria do autocontrole. Estão relacionadas com 
o perfil socioeconômico dos criminosos, as circunstâncias que influen­
ciam sua formação moral e educacional e com as oportunidades no 
mercado de trabalho. Podemos estar, ainda, diante de um efeito endó­
geno: como o criminoso provém, majoritariamente, dentre aqueles 
que tiveram menores oportunidades de desenvolvimento educacional 
e cognitivo, logicamente a conclusão é que ele tem menor capacidade 
intelectual e cognitiva. De outra forma, a conclusão pode ser lida as­
sim: com menor acesso à educação, desde a família até a escola, as 
pessoas têm maior chance de ingressar no crime. 
1 1 2 L u i z TAD E U V 1 A F' I A N A 
• Famílias desestruturadas, folhas nas relações familiares e ausência de prá­
ticas saudáveis na infância são fortes preditivos de comportamentos crimi­
nosos. Essa constatação é, certamente, uma das mais robustas evidên­
cias da teoria do autocontrole, muito embora esteja também presente 
em muitas outras teorias, como a da desorganização social, por exem­
plo. No entanto, a ênfase dada pela teoria do autocontrole à formação 
educacional e moral no período da infância, como fator preditivo de 
comportamentos saudáveis e de vínculos sociais fortes, é um dos as­
pectos que diferenciam essa teoria das demais abordagens que tam­
bém abordam este tema. 
• Intervenções de suporte à infância oferecem grande promessa de sucesso na 
redução do crime. Essa constatação decorre do ponto anterior, pois, 
como vimos, é nessa fase que são estruturados os valores e definidos 
boa parte dos traços comportamentais. É evidente, portanto, que maior 
suporte à formação educacional e moral à infância desenhe e reforce 
traços comportamentais avessos a condutas desviantes. 
Como vimos nesta Parte Ili, existem várias teorias muito robustas e 
complexas, que procuram explicar por que os crimes ocorrem e por que 
determinados indivíduos tornam-se criminosos e outros não. Grosseira­
mente, podemos dizer que algumas dessas teorias buscam na estrutura so­
cial as causas determinantes dos crimes, como se os indivíduos fossem in­
teiramente governados pelo meio. Para esses, a solução está nas reformas 
sociais. Outras teorias, no entanto, obviamente, consideram as condições 
sociais, mas levam em conta também o papel do indivíduo, mais especifica­
mente seus valores, consciência, formação moral e, ainda, a forma particu­
lar como operam no comportamento individual as sanções e as leis. 
Nessa perspectiva, o crime seria conseqüência da ausência de 
autocontrole do indivíduo, que, por sua vez, dependeria de sua forma­
ção desde a infância - de sua capacidade de evitar e adiar gratificações 
imediatas, de sua capacidade de integração social, e não apenas da força 
dos condicionantes sociais, da sua posição na estrutura social. Envolve­
ria, também, uma opção racional, ainda que essa opção seja evidente­
mente condicionada por fatores objetivos - oferta de alvos, retorno es­
perado, probabil idade de sanção penal - ou subjetivos - custo moral, 
rejeição do grupo e perdas afetivas. 
E c c N D M I A o c C R I M E 1 1 3 
PARTE I V 
D I S S UASÃO E PO L Í C IA 
O tema que abordaremos agora constitui um dos pilares centrais da teoria econômica do crime: a punição. A noção da punição como 
elemento fundamental na dissuasão dos crimes não constitui uma idéia 
nova. Ela está presente na obra de pensadores clássicos, como Cesare Bec­
caria ( 1 767) e Jeremy Bentham ( 1 789). Conforme vimos na Parte li, res­
surgiu na década de 1 960, quando Gary Becker apresentou sua teoria eco­
nômica do crime. 
A conexão entre punição e crime é, na realidade, muito simples: quan­
to mais elevada for a expectativa de punição maior será o custo do crime. A 
punição tem duas funções básicas: a primeira é a de sinalizar para a socieda­
de que os crimes serão punidos e, dessa forma, contribuir para evitá-los; a 
segunda, a de incapacitar os agentes criminosos durante o período em que 
estão confinados. Existiria ainda uma terceira função, que é a de reabilita­ção dos criminosos para a vida social, evitando a reincidência criminal. Mas 
hoje poucos estudiosos acreditam que ela produza resultado efetivo. As es­
tatísticas de vários países mostram que grande parte dos condenados vol­
tam a cometer crimes após serem liberados das prisões. 
O debate contemporâneo sobre o papel da punição, principalmente 
nos Estados Unidos, tem contribuído para revalorizá-la como estratégia 
eficaz de redução e prevenção dos crimes. Admite-se que o aumento das 
punições e melhorias na ação das organizações policiais desempenharam 
um papel decisivo na diminuição da criminalidade observada na década de 
1 990, embora outros fatores sejam também mencionados, como a redução 
do número de jovens no total da população e a dinamização do mercado de 
trabalho. 
Enquanto os norte-americanos optavam por uma estratégia de reforço 
da punição para combater o crime, a Inglaterra seguia caminho inverso: 
adotou políticas de maior tolerância punitiva, e o resultado foi a elevação 
E c a N a M I A oa C R I M E 1 1 7 
das taxas de crimes. Em alguns casos, como roubos e furtos, as taxas ingle­
sas são, hoje, mais altas do que as norte-americanas. Isso mesmo, mais altas. 
Nesta Parte IV, além das evidências empíricas sobre a relação entre 
punição e crime, abordaremos também o desempenho da polícia na inibi­
ção dos crimes. O tema se justifica porque a eficácia policial é crucial para 
a produção da justiça, já que essa instituição é uma espécie de porta de 
entrada do sistema de justiça criminal. Sem um bom inquérito policial não 
existe processo judicial e muito menos condenação dos responsáveis pelos 
cnmes. 
A crise da polícia brasileira se expressa principalmente na pequena 
parcela dos crimes registrados que são efetivamente apurados com a identi­
ficação das circunstâncias e responsáveis. Embora não existam números 
precisos, estima-se que a taxa de apuração dos crimes violentos no Brasil 
não ultrapassa 5% do total, enquanto que, nos Estados Unidos, o percen­
tual é de 30%. 
Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, a natureza dessa crise 
não reside no modelo e estrutura dual da organização policial no Brasil, 
dividida em uma Polícia Militar e uma Polícia Civil. Mais importante do 
que a divisão em duas polícias, que têm atribuições distintas, é o monopó­
lio da segurança pública para os Estados e a União previsto na Constituição 
Federal (art. 1 44) . 
Decorre desse mandamento constitucional que a competência dos 
Municípios restringe-se à manutenção de Guardas Municipais, que não 
têm poder de polícia. Em razão dessa restrição, as médias e grandes cidades, 
embora enfrentem graves problemas de segurança pública, estão impedidas 
de criar suas próprias organizações policiais, ficando dependentes da oferta 
de serviços por parte dos Estados e da União. 
Da mesma forma, o baixo desempenho policial não pode ser explica­
do apenas pelo volume de recursos alocados nas organizações policiais. Os 
indicadores que serão apresentados nesta Parte IV mostram que nem sem­
pre maior volume de recursos implica níveis menores de crimes. Isso ocorre 
porque a relação entre o tamanho dos orçamentos da segurança pública e 
crimes depende do sistema de gestão usado para planejar, organizar e exe­
cutar as ações policiais. 
Além desses temas, faremos também algumas observações sobre a rela­
ção entre armas de fogo e crimes, tema que foi objeto de um grande debate 
nacional desde 1 997 e motivo de um referendo popular realizado em 23 de 
outubro de 2005 , em que a população, por ampla maioria - 64% contra 
1 1 B L u i z TA D E U V 1 A P I A N A 
34% dos votos - decidiu contrariamente à proibição da comercialização de 
armas de fogo para cidadãos civis. 
No exame do papel das armas de fogo levaremos em conta tanto as 
análises e os estudos acadêmicos mais importantes, como os elementos re­
colhidos das experiências de países onde a venda e a posse foram proibidas 
e de países onde o comércio e o porte são permitidos, embora submetidos 
a algum tipo de controle. Procuraremos responder a duas questões: se exis­
te correlação entre a presença de armas de fogo e o elevado nível de crimes 
letais e se a presença de armas de fogo nas residências constitui fator de 
defesa e proteção ou, ao contrário, aumenta riscos de conflitos domésticos 
letais e outros crimes, especialmente assaltos. 
E c a N C M I A oa C R I M E 1 1 9 
TEO RIA DA D I S S UASÃO 
Aproposição central da teoria da dissuasão é a de que o comportamento criminal dos indivíduos pode ser refreado pela estrutura de sanções, 
que podem ser legais ou extralegais. Como já mencionamos na Parte II o 
efeito da punição, através da ação eficaz e eficiente da Polícia e da Justiça, 
eleva a variável p da equação (crime: b - p.c, onde b é o benefício, p a 
probabilidade de punição e e os custos dados pela perda de renda, custos 
diretos e morais). Assim, o aumento das expectativas quanto à probabilida­
de de punição p representa uma elevação das restrições ao crime. Por sua 
vez, a possibilidade de perda de renda e a reprovação do grupo social ao 
qual pertence o criminoso potencial aumentam a variável e. 
No campo das sanções de natureza legal, o efeito dissuasão depende 
crucialmente da eficácia das ações policiais e da justiça na detenção e con­
denação dos criminosos. Teoricamente, a apuração dos eventos criminais à 
condenação dos responsáveis pode influenciar o nível da criminalidade fu­
tura através dos seguintes efeitos: 
a) incapacitante-. indivíduos presos e condenados encontram-se impedi­
dos de cometer novos crimes; 
b) dissuasão: a aplicação eficaz da lei produz o efeito de evitar a ocorrência de 
novos crimes, através da formação de expectativas altas de punição; 
e) retribuição: punição dos criminosos na proporção da seriedade de seus 
crimes, assegurando eficiência na produção de justiça; 1 
d) reabilitação: utilização da pena de prisão para mudar o comportamen­
to dos criminosos e evitar a reincidência. 
As sanções de natureza extralegal são constituídas, basicamente, pela 
formação moral e religiosa dos indivíduos, nível educacional e seus víncu­
los familiares e comunitários, além das perdas materiais, no presente e no 
futuro, em termos de emprego, salários e status social. Expandindo o con-
1 2 0 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
ceita de dissuasão, pode-se também considerar todos esses aspectos como 
freios à opção pelo crime. 
Existem ainda outras situações nas quais as sanções legal e extralegal se 
confundem e se reforçam mutuamente. É o que ocorre, por exemplo, quando 
uma mudança na lei , ou sua aplicação mais severa, contribui para gerar 
efeitos de condenação moral a determinado tipo de comportamento. Como 
exemplo, os criminologistas norte-americanos Franklin Zimring e Gordon 
Hawkins citam, no livro Crime is not the Problem - Lethal Violence in Pro­
blem in America, os casos de violência doméstica e do alcoolismo na dire­
ção de veículos, que passaram a ser tratados com maior rigor pela Polícia e 
pela Justiça nos Estados Unidos nos anos de 1 970. 
Tal atitude provocou uma mudança significativa no comportamento 
social. No caso do alcoolismo na direção de veículos, as leis ficaram mais 
severas e aumentaram os custos das infrações, o que provocou uma redução 
do volume de ocorrências de alcoolismo no trânsito, salvando milhares de 
vidas. Os criminologistas destacam que tão importante quanto maior custo 
monetário e criminal das infrações foi o forte sentimento de condenação 
moral desse tipo de comportamento. O mesmo ocorreu com a violência 
doméstica. 
O professor Edward Glaeser, da Universidade de Harvard (EUA), di­
vide as pesquisas econômicas que procuram explicar em que medida os 
efeitos da dissuasão afetam os níveis de crimes em três grandes grupos: 
As que exploram as relações entre taxas de prisões e crimes supondo 
que um aumento das prisões conduz a uma queda dos crimes. Nessa 
direção, pesquisas do economista Steven Levitt, da Universidade de 
Princeton (EUA),sugerem uma relação causal entre aumento das ta­
xas de prisões e redução dos crimes. Essa linha de pesquisa sugere que 
as políticas anticrime devem priorizar os investimentos na Polícia e na 
Justiça. 
As que buscam compreender os fatores que determinam o comporta­
mento de governos, instituições e pessoas, entre os quais estão os es­
forços anticrime (programas governamentais de prevenção, orçamen­
to policial, mudanças nas leis penais, etc.) . 
Finalmente, as pesquisas que estudam as conexões entre os fatores sociais 
e os crimes. Como vimos na Parte II, os economistas têm procurado ex­
plicar a distribuição espacial e social dos crimes levando em consideração 
os fatores sociais, econômicos e demográficos, além do efeito punição. 
E c a N a M 1A oa C R I M E 1 2 1 
Nessa perspectiva, os efeitos da dissuasão seriam muito mais abrangentes e 
não apenas relacionados com a ação policial e da Justiça. 
Nesta última linha de pesquisas, os fatores e características sociais po­
dem representar incentivos ou freios à opção pelo crime, como já destaca­
mos anteriormente. Nos termos da teoria econômica do crime, podem es­
tar associadas tanto à variável p (punição) quanto à variável e (custos). Por 
exemplo, na medida em que aumenta o grau de escolaridade, supõe-se que 
o indivíduo tenha maior capacidade de avaliar os riscos e as perdas associa­
das à punição, ao emprego (presente ou futuro) e à renda, ao status social e 
à reprovação de seu grupo social, caso decida cometer um crime. Da mes­
ma forma, pessoas formadas em famílias integradas, que desde cedo convi­
vem em ambientes que valorizam a disciplina, a moral e a ética tendem a 
ser menos propensas a optarem pelo crime. 
As pesquisas sobre a relação entre punição e crime enfrentam muitas difi­
culdades metodológicas, presentes também nas pesquisas que tratam das corre­
lações entre as questões sociais e crimes, já comentadas nas Partes II e III. 
Os estudos que usam dados agregados de prisões e crimes registrados não 
levam em conta o conjunto dos crimes que realmente ocorrem. Nessa medida, 
o efeito dissuasão é capturado apenas parcialmente, pois os registros policiais 
não permitem avaliar como reagiriam ao aumento da probabilidade de puni­
ção outros segmentos da população, entre os quais os que cometeram crimes e 
não foram presos ou os que não cometeram crimes. As pesquisas tipo survey, 
que podem eventualmente capturar informações com amostras representativas 
de segmentos maiores da sociedade, enfrentam sempre o problema clássico da 
ocultação de informações, principalmente em se tratando de questões que tra­
tam das relações entre os entrevistados e instituições legais. 
No mesmo sentido, é necessário enfrentar também as dificuldades as­
sociadas à questão, ainda mais complexa, que diz respeito ao grau de racio­
nalidade dos criminosos. Em que medida as pessoas que cometem crimes 
decidem de forma racional? Como a atuação do sistema de justiça criminal 
pode afetar sua percepção no sentido de elevar ou diminuir o incentivo ao 
crime? Os potenciais criminosos realmente avaliam e levam em conta os 
riscos de punição? 
No caso dos jovens, as dúvidas são ainda maiores. Os criminologistas 
Michael Gottfredson e Travis Hirschi, por exemplo, defendem em The 
General Theory of Crime, que, ao avaliar as vantagens e desvantagens dos 
crimes, os jovens rendem-se ao critério do tipo "aqui e agora" Céticos em 
1 22 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
relação aos efeitos da punição como mecanismo de contenção do crime 
juvenil, eles argumentam que somente a formação moral e educacional 
desde a infância pode constituir um freio a esse tipo de comportamento. 
No mesmo sentido, James Wilson e Richard Herrnstein, em Crime 
and Human Nature, concordam que predomina nos jovens um comporta­
mento impulsivo, que valoriza o retorno imediato do crime, ao passo que a 
punição, quando percebida, é algo que acontece apenas no futuro. 
Outros escudos, porém, apontam para a sensibilidade dos jovens ao 
efeito da punição.2 Apesar de inegavelmente impulsivos e voltados para os 
benefícios imediatos, os jovens não seriam completamente imunes aos efei­
tos dos riscos associados ao crime e ao medo da punição. Do mesmo modo, 
é difícil crer que eles ignorem ou não sejam afetados pelos custos extra­
legais, como a reprovação da família ou dos amigos, e desconsiderem as 
perdas no mercado de trabalho no presente e no futuro. 
Num paper publicado em 1 993, denominado Individual Perceptions of 
the Criminal justice System, o professor Lance Lochner, do Departamento 
de Economia da Universidade de Rochester (EUA), encontrou evidências 
de que a participação de jovens em crimes apresenta relação negativa com a 
probabilidade de prisões. Ele escreve que os "indivíduos respondem à de­
tenção aumentando a percepção de que serão presos e, com isso, diminuem 
sua atividade criminal". A descoberta confirma que, apesar da impulsivida­
de, os jovens reagem ao aumento da probabilidade de punição. 
Isso não significa, porém, que os indivíduos conheçam os verdadeiros 
índices de prisão e que tenham uma noção exata de que estes indicam maior 
nível de repressão ao crime. É mais provável que a probabilidade de puni­
ção seja percebida na medida em que os indivíduos entram em contato 
com o sistema de justiça criminal ou são influenciados por ocorrências com 
conhecidos, parentes ou amigos. Com exceção desses casos, as crenças sobre 
as possibilidades de punição tendem a ser estáveis, levando um certo tempo 
para mudar. 
O estudo de Lochner, que é baseado em pesquisas nacionais com jo­
vens norte-americanos - a National Longitudinal Survey ofYouth e a National 
Youth Survey -, chegou também à conclusão de que políticas de repressão a 
crimes menos graves não afetam as crenças de forma significativa. Tal con­
clusão, de certo modo, contraria a teoria das janelas quebradas (broken win­
dows) , cujo fundamento reside precisamente na noção de que uma comu­
nidade onde os pequenos delitos são tolerados cria um ambiente favorável 
para a ocorrência de crimes mais graves. 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 2 3 
Entre os delitos menos graves que não afetariam as crenças sobre as 
chances de punição para quem os comete, estão o roubo de carros e infra­
ções menores, como fumar e beber em locais não permitidos. No caso do 
roubo dos automóveis, quem comete esse tipo de delito sabe que, mais do 
que a ação policial, a maior dificuldade que terá de enfrentar é o uso cres­
cente de dispositivos de segurança e monitoramento eletrônico cada vez 
mais sofisticados e eficazes. Em relação à bebida, já citamos estudos que 
demonstram que o consumo responde negativamente ao aumento dos pre­
ços. Elevar os preços das bebidas alcoólicas e dos cigarros pode ser muito 
mais eficiente do que a proibição, esta sim dificílima de ser implementada. 
Além do mais, é realmente muito difícil alguém ser sequer preso, quanto 
mais condenado, por beber ou fumar em local proibido. Em razão desses 
aspectos, é compreensível que maior grau de repressão policial a esses tipos 
de infração não representem maior temor para potenciais infratores. 
Além da controvérsia sobre como os jovens formam sua percepção 
sobre as vantagens e desvantagens do crime existe, é preciso também res­
ponder a questão sobre a sensibilidade diferenciada ao risco para os indiví­
duos em geral. Explicariam tais diferenças as características sociais dos con­
textos em que vivem as pessoas e as características e trajetórias específicas de 
cada indivíduo. 
Nesse sentido, pode-se conjecturar, por exemplo, que tanto entre os 
jovens como entre os demais indivíduos, aqueles com posições vantajosas 
no mercado de trabalho e nível educacional mais elevado sejam mais sensí­
veis ao risco, enquanto que os que estão momentaneamente fora do merca­
do de trabalho ou percebem baixos salários e possuem escolaridade baixa 
sejam mais insensíveis ao risco. Ou seja, não é apenas uma questão de ida­
de, mas de influências introduzidas por fatoreseconômicos e sociais que 
tornam determinados indivíduos mais ou menos avessos ao risco. 
Uma outra dificuldade que surge no debate sobre os efeitos da puni­
ção diz respeito ao fato de que uma eventual queda nos índices de crimina­
lidade pode estar, ao mesmo tempo, relacionada com o aumento da puni­
ção e com a ocorrência de fatores econômicos e sociais. O fato de que x e y 
estejam correlacionados não quer dizer que x explique y. Outra variável, z, 
pode explicar eventual situação ocorrida em y. Por exemplo, no debate sobre 
a queda da criminalidade observada na década de 1 990, nos Estados Uni­
dos, os especialistas dividem-se quanto ao peso do efeito dissuasão e o peso 
das variáveis socioeconômicas. É provável que o aumento das prisões, as 
melhorias no desempenho policial e os efeitos do crescimento econômico 
1 24 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
no mercado de trabalho tenham influenciado a queda no volume de cri­
mes. O problema está em se determinar o peso de cada uma dessas variáveis. 
Finalmente, o efeito dissuasão envolve ainda o debate sobre qual des­
tes fatores é mais importante como elemento de dissuasão: a certeza da 
punição ou a severidade da pena. A certeza da punição está relacionada com 
a eficácia das instituições em apurar os crimes e punir os responsáveis. Ta­
xas mais altas de apuração e de aplicação de penas aumentam a probabilida­
de de prisão para aqueles que cometem crimes e, portanto, elevam os cus­
tos para tais indivíduos. A severidade, por sua vez, está relacionada com a 
extensão das punições. Supõe-se que, quanto mais longas as penas, maiores 
sejam os efeitos de incapacitação e, portanto, maiores os custos dos crimes, 
por um lado, e mais longos seus efeitos de redução dos crimes que pode­
riam ser caso as penas tivessem sido menos longas. A seguir, veremos em 
que medida algumas evidências empíricas corroboram o efeito dissuasão. 
E C O N O M I A. DO C R I M E 1 2 5 
PU N I ÇÃO E C C NTRC LE 
U m dos estudos mais amplos já realizados nos Estados Unidos sobre o efeito dissuasão foi desenvolvido pelo economista Isaac Ehrlich, em 
1 975 . Ele utilizou dados das décadas de 1 930, 1 940 e 1 950 e, depois de 
controlar as variáveis econômicas, encontrou force correlação entre a alta 
probabilidade de prisão e condenação de responsáveis por assaltos e taxas de 
assaltos menores. O estudo mostrou que um aumento de 1 % nas taxas de 
prisão reduziriam o crime em 0,99 a 1 , 1 2%. Em outras palavras, segundo o 
estudo de Ehrlich, os crimes de assaltos seriam eliminados caso dobrasse a 
população prisional. Não conseguiu, entretanto, identificar correlação en­
tre severidade da punição (medida pela média de anos de condenação) e 
níveis de roubos, em duas das décadas analisadas - 1 940 e 1 960. 
Na mesma direção, o economista da Universidade da Pensilvânia (EUA) 
Kennech Wolpin utilizou séries estatísticas para a Inglaterra e Wales duran­
te o longo período de 1 894 a 1 967 e encontrou um "comportamento in­
verso" entre as taxas de crimes e a probabilidade e severidade das punições. 
A severidade das punições apresentou efeito negativo, diminuindo os ní­
veis de crimes. 
Na década de 1 990, escudos do economista Sceven Levice trouxeram 
substancial reforço à teoria da dissuasão. Em um desses escudos, ele encon­
trou aumento nas taxas de crimes em conseqüência do aumento do fluxo 
de presos liberados das prisões. Em outro, descobriu significativo impacto 
do policiamento no nível dos crimes e, em outra pesquisa, identificou uma 
redução substancial dos crimes (furtos de automóveis) após a introdução, 
nos carros, de sinais eletrônicos que facilitavam sua localização e apreensão. 
Antes de irmos adiante, é importante deixar claro que o conceito de 
elasticidade, usado nessas pesquisas, indica a proporção da mudança nas 
taxas de crimes determinada pela mudança nas taxas de prisões. Por exem­
plo, se a elasticidade for -0,22 e se a redução nas taxas de crimes de um 
1 2 6 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
período para outro foi de 5%, então o efeito do aumento das taxas de 
prisões na taxa de crime será: -0,22 x 5% = - 1 , 1 0%. Ou seja, foi responsá­
vel por quase um quarto da queda. A equação matemática é: E = ?TC/?TP, 
onde E representa a elasticidade, TC a taxa de crimes e TP a taxa de prisões. 
Além das conclusões acima, que confirmam o efeito dissuasão, exis­
tem outras pesquisas disponíveis cujos resultados são contraditórios, indi­
cando que estamos diante de uma questão intrincada e inconclusa. 
No resumo que fez de algumas dessas pesquisas, o professor de Políti­
cas Públicas da Universidade de Harvard (EUA) William Spelman sepa­
rou-os de acordo com os dados usados e o efeito esperado (incapacitação e 
dissuasão) . As elasticidades encontradas são bastante diferenciadas, depen­
dendo do tipo de indicadores utilizados. Quando os indicadores são agre­
gados em nível nacional, as elasticidades apresentam-se mais altas do que 
quando os dados são organizados por Estados. Por exemplo, os sociólogos 
Joel Devine, Joseph Sheley e Dwayne Smith, que trabalharam com dados 
para o período 1 948- 1 985 , nos Estados Unidos, encontraram as seguintes 
elasticidades: -2,84 para crimes violentos, -1 ,99 para crimes contra a pro­
priedade e -2,20 para todos os crimes. Os economistas Thomas Marvell e 
Carslile Moody, do William and Mary College (EUA), encontraram -0,79 
para crimes violentos, -0,95 para crimes contra a propriedade e -0,93 para 
todos os crimes. Quando são usados indicadores organizados por Estados, 
como fez Steven Levitt para os 50 Estados norte-americanos mais a Capital 
federal, entre 1 971 e 1 993, são encontradas elasticidades menores: -0,38 para 
crimes violentos, -0,26 para crimes contra a propriedade e -0,3 1 para todos os 
cnmes. 
As elasticidades diferentes significam graus bastante distintos de im­
pacto das prisões nos crimes. A explicação para as disparidades deve-se es­
sencialmente às escolhas técnicas dos pesquisadores, ao modo como são 
organizados e analisados os indicadores. Não há uma explicação razoável 
para as diferenças além dos critérios técnicos e estatísticos distintos. 
Spelman sublinha que os dados parecem sugerir que, entre 1 974 e 
1 997, nos Estados Unidos, o crime violento foi afetado pelo crescimento 
das prisões (efeito incapacitação) em algo entre 20% e 50%. No entanto, 
após testar um modelo sem o efeito do crescimento das taxas de prisão, 
chegou à conclusão de que as taxas de crimes violentos cairiam da mesma 
forma, só que não com a mesma intensidade. Menos otimista, ele sugere 
que o efeito do crescimento das prisões sobre os crimes violentos é menor, 
entre 4% e 2 1 %. 
E C O N O M IA D O C R I M E 1 2 7 
Além do aspecto relacionado com a dimensão do efeito da punição 
sobre os crimes, outra dificuldade enfrentada pelos pesquisadores diz 
respeito à diferenciação entre efeitos preventivos e os efeitos de incapa­
citação. Explicando melhor: em que medida a punição funciona para 
dissuadir potenciais criminosos de cometerem novos crimes ao sinalizar 
que se o fizerem serão presos e condenados; e em que medida novos 
crimes deixam de ocorrer porque seus eventuais perpetradores estão 
presos , impossibilitados de cometê-los. Separar esses dois efeitos é mui­
to importante por causa das implicações em termos de políticas de pre­
venção e controle do crime. 
Analisando o impacto da chamada Proposição 83 (uma lei estadual), 
aprovada no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, os economistas 
Steven Levitt e Daniel Kessler encontraram efeitos positivos e fortes do 
aumento das penas para criminosos reincidentes, tanto se considerarmos o 
efeito de dissuasão quanto o de incapacitação.4 Usando um modelo econo­
métrico que isolou efeitos de outras variáveis, os autores compararam o 
comportamento dos crimes abrangidos pela nova lei, no período anterior e 
posterior à sua entrada em vigor, no Estado e no País. Os testes mostraram 
que nos três primeiros anos após a aprovação da lei, os crimespor ela abran­
gidos declinaram 8%; sete anos após, a queda alcançou 20%. Como nos 
primeiros anos após a aprovação da lei, a população prisional manteve-se 
estável na Califórnia, os autores concluíram que a queda se deveu ao efeito 
dissuasão, ou seja, temerosos das sentenças mais longas, os criminosos evi­
taram cometer crimes numa proporção de 8%. Porém, na medida em que 
os efeitos da lei mantêm-se ao longo do tempo, a conclusão é que deve ter 
havido também um efeito de incapacitação. Penas mais longas, mais tempo 
de confinamento, menos crimes. 
Mais tarde, em outro texto, Levitt retoma o tema dos efeitos da puni­
ção ao debater as causas da queda da criminalidade ocorrida na década de 
1 990, nos Estados Unidos. Inicialmente, ele refuta as explicações mais co­
muns para a queda dos crimes no país, entre as quais o crescimento da 
economia e seus reflexos no mercado de trabalho; mudanças demográficas, 
com o crescimento do número de adolescentes; melhores estratégias poli­
ciais; leis de controle de armas de fogo; leis de autorização de posse de 
armas de fogo; e aumento do uso da pena de morte. Tais variáveis explica­
riam somente uma pequena parte da queda, cujas causas mais importantes 
seriam: crescimento do número de policiais, crescimento da população prisio­
nal, controle da epidemia do crack e legalização do aborto. 
1 2 8 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
Os estudos sobre a relação entre aumento do número de policiais e 
crimes foram, durante muito tempo, prejudicados pelo problema da endo­
geneidade. Isto é, os crimes são afetados pelo número de policiais ao mes­
mo tempo em que o aumento do número de policiais decorre do aumento 
dos crimes. Basicamente por esse fator, durante muito tempo, concluiu-se 
que as correlações entre número de policiais e níveis de crimes eram insig­
nificantes. 5 
Porém, conforme sublinha Levitt, o estudo de Marvell e Moody6, que 
usa dados de painel dos Estados e das grandes cidades norte-americanas, 
demonstrou que o aumento do número de policiais está associado a redu­
ções nos níveis de crimes no futuro, com elasticidade do crime em relação 
ao aumento do número de policiais de -0,30. Os economistas Hope Cor­
man e Naci Mocan7 reforçam a conclusão em outro estudo, que utiliza 
indicadores referentes à cidade de Nova Iorque, que encontrou uma elasti­
cidade média -0,45 para várias categorias de crimes. A conclusão dos testes 
feitos pelo próprio Levitt vão na mesma direção: se o número de policiais 
nos anos 90 aumentou 1 4%, algo entre 50 a 60 mil, usando uma elasticida­
de média de -0,40, a conclusão é que o crime reduziu algo como 5% ou 
6% por conta do aumento de policiais. 
Em relação ao aumento da população prisional, a segunda causa mencio­
nada por Levitt, observa-se em 1 990 um notável crescimento da taxa de presos 
em relação à população, durante a década de 1 990. Em 1970 havia 100 presos 
para cada grupo de 100 mil habitantes, proporção que aumentou cinco vezes 
na década de 1990, passando para 500 presos por 100 mil habitantes, um total 
aproximado de 2 milhões de pessoas. Utilizando uma taxa de elasticidade do 
efeito punição nos crimes de -0,30 para homicídios e crimes violentos e 
-0,20 para crimes contra a propriedade, Levitt chega à conclusão de que o 
aumento das prisões foi responsável por 1 2% na queda dos dois primeiros 
tipos de crimes e por 8% dos crimes contra a propriedade. 
A terceira explicação diz respeito aos efeitos da epidemia de crack da 
década de 1 980 sobre os crimes. Tais efeitos estão associados à violência 
sistêmica entre gangues pelo controle do tráfico e resultam num forte cres­
cimento nos homicídios entre jovens negros, do sexo masculino, da faixa 
etária de 14 a 24 anos. A taxa de homicídios eleva-se, neste grupo, de 1 50 
casos por 1 00 mil habitantes, no final da década de 1 980 - taxa já extrema­
mente elevada, diga-se de passagem - para mais de 300 por 1 00 mil, em 
1 992/ 1 993, declinando novamente para 1 5 0 casos por 1 00 mil habitantes 
no final da década de 1 990. Nos demais grupos etários - jovens brancos do 
E C O N O M IA DO C R I M E 1 2 9 
sexo masculino, de 1 4 a 24 anos; negros e brancos do sexo masculino, com 
mais de 25 anos -, as taxas de homicídios apresentam estabilidade ou que­
da. Os poucos estudos específicos citados por Levitt sobre a influência do 
crack nos crimes são convergentes: dos homicídios analisados em Nova Ior­
que, em 1 988, 25% estavam relacionados com a droga.8 Daniel Cork, do 
Conselho Nacional de Estatística dos Estados Unidos, também identificou 
coincidência entre o aumento nas taxas de prisões associadas ao uso do 
crack entre jovens e homicídios juvenis, e o estudo dos economistas Jeffrey 
Grogger e Michael Willis detectou crescimento de 1 0% nos crimes nas 
áreas centrais das cidades, comparativamente às áreas periféricas, após a 
chegada do crack. 
Considerando que 6% do total dos homicídios ocorridos na década 
de 1 990 estejam associados ao crack, Levitt estima que o declínio do consu­
mo da droga explica algo como 1 5% da queda de todos os homicídios 
observada nos Estados Unidos na década. Ele calcula que 3% da queda dos 
demais crimes violentos são devidos a esse mesmo fator, inexistindo, po­
rém, impacto nos crimes contra a propriedade. 
Finalmente, o quarto fator apontado por Levitt para explicar a queda 
na criminalidade está relacionado com a legalização do aborto, sem dúvida 
a explicação mais polêmica. Não por causa de questões técnicas, mas éticas 
e morais. A premissa da análise é muito simples: filhos indesejados apresen­
tam maior risco de envolvimento com crimes e a legalização do aborto 
conduz a uma redução de filhos indesejados. Além disso, a proibição do 
aborto afetaria mais as mulheres pobres, que teriam maior dificuldade de 
criar seus filhos e lhes dar amparo e educação. 
Para livrar sua tese de conjecturas quanto aos efeitos paralelos de ren­
da, nível educacional, idade e saúde das mães, ele cita estudos que, após 
controlarem todos esses fatores, mostram que filhos indesejados efetiva­
mente aumentam a probabilidade de, no futuro, envolverem-se no crime. 
Mas falta provar que a legalização do aborto afeta o crime futuro. Ele faz 
isso lembrando que os cincos Estados que adotaram a legalização, em 1 970, 
apresentaram declínio nas taxas de crimes antes do resto do país. Os homi­
cídios caíram 25,9% nos Estados com altas taxas de aborto entre 1 985 e 
1 997, comparando com um aumento de 4, 1 o/o nos Estados com baixas 
taxas de aborto. Sua conclusão é que "a legalização do aborto foi responsá­
vel por uma redução de 1 0% nos homicídios, crimes violentos e crimes 
contra a propriedade, os quais respondem por 25% a 30% do declínio dos 
crimes na década de 1 990" 
1 3 0 Luiz TAD E U VIAPIANA 
D E FO GO 
O papel das armas de fogo na sociedade, embora venha despertando grande atenção na mídia, é, nos termos da teoria econômica do cri­
me, uma questão secundária. Conceitualmente, a arma de fogo serve para 
uma dupla finalidade: pode ser um instrumento de agressão e/ou de defesa, 
dependendo de quem a usa e de seu objetivo. 
Em termos práticos, a arma de fogo é um instrumento que facilita a 
execução de crimes como roubos e assaltos, tornando a ação do agressor 
mais eficaz, pois é óbvio que uma vítima ameaçada por uma arma torna-se 
mais vulnerável aos desígnios do agressor. 
Por outro lado, a presença da arma de fogo nas residências pode exer­
cer um papel de dissuasão de crimes. Uma pessoa em desvantagem física, 
por exemplo, pode resolver um conflito de maneira diferente se estiver 
portando uma arma. Embora controversas, pesquisas realizadas nos Esta­
dos Unidos dão boa sustentação à tese do uso defensivo de armas de fogo 
adquiridas por cidadãos honestos. Gary Kleck, por exemplo, aponta mais de 
2 milhões de situações anuais em que armas são usadas para evitar crimes.9 
Além disso, a premissa de que a posse de armas de fogo por cidadãos 
civis, que as tenham adquirido por meios legais, seja uma das causasdos 
níveis de criminalidade ainda está longe de ser comprovada. Os poucos 
estudos existentes deparam-se com limitações metodológicas sérias, princi­
palmente em função de bases de dados muito precárias, fazendo com que 
sejam possíveis interpretações contraditórias. Por exemplo, quando se com­
para a prevalência de armas de fogo em residências e índices de homicídios 
entre países, pode-se tanto concluir pela existência de relação positiva entre 
as duas variáveis como negativa. 1 0 
Além disso, tais estudos sofrem as limitações presentes nas metodologias 
do tipo cross section data, entre as quais a de não permitir uma análise de ten­
dências ao longo do tempo. No entanto, quando esse tipo de análise é feita 
E c a N C M I A oa C R I M E 1 3 1 
utilizando séries temporais mais longas emerge uma outra realidade na qual a 
presença de armas de fogo deixa de estar diretamente associada com níveis 
diferenciados de crimes. Por exemplo, nos Estados Unidos, entre 1950 e 1999, 
a disponibilidade de armas de fogo aumentou 143% e a presença de pistolas e 
revólveres aumentou 259%. Enquanto isso, os índices de homicídios tiveram 
comportamento bastante diverso. Depois de se manter estável entre nas déca­
das de 1 950 e 1960, com cinco casos por 100 mil habitantes, a taxa nacional 
elevou-se para 1 O casos por 1 00 mil habitantes em 1 980; desde então diminuiu 
ano a ano, até atingir novamente a marca de 5 casos por 1 00 mil, em 2000. 
Os indicadores são claros: enquanto aumentou a presença de armas de 
fogo, os homicídios caíram. Em termos técnicos, o comportamento da taxa 
de homicídios revelou-se exógeno em relação à quantidade de armas exis­
tentes no país. 
Se olharmos para um horizonte de tempo ainda maior, veremos que, 
desde o século XIII, o número de homicídios em relação à população vem 
diminuindo, enquanto a população e a quantidade de armas em circulação 
vem aumentando. O criminologista Manuel Eisner, da Universidade de 
Cambridge (UK) , organizou dados que demonstram essa tendência para 
vários países, conforme se pode ver nos dados a seguir: 
Homicídios I 1 00.000 pessoas 
Holanda Alemanha 
Inglaterra e Bélgica Escandinávia e Suíça Itália 
Séculos XI I I e XIV 23,0 47,0 nenhum 37,0 56,0 
Século XV nenhum 45,0 46,0 1 6,0 73,0 
Século XVI 7,0 25,0 21 ,0 1 1 ,0 47,0 
Século XVII 5,0 7,5 1 8,0 7,0 32,0 
Século XVI I I 1 ,5 5,5 1 ,9 7,5 1 0,5 
Século XIX 1 ,7 1 ,6 1 , 1 2,8 1 2,6 
1 900-1 949 0,8 1 ,5 0,7 1 ,7 3,2 
1 950-1 994 0,9 0,9 0,9 1 ,0 1 ,5 
Fonte: Freakonomics, Levitt e Dubner (2005), p. 24 
Os índices de Eisner contrariam a hipótese sobre a existência de uma 
relação direta e causal entre a disponibilidade de armas de fogo na socieda­
de e os homicídios. Desde o século XVII até agora, período no qual o 
volume de armas de fogo aumentou enormemente, os índices de homicí­
dio seguem trajetória declinante. No longo prazo, portanto, maior presen­
ça de armas também não significou maiores ocorrências de homicídios. 
1 3 2 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
Isso não quer dizer, no encanto, que maior presença de armas seja uma 
das causas da queda dos homicídios. Provavelmente, tal fenômeno esteja 
associado não a um, mas a um conjunto de fatores, entre os quais a cons­
trução e consolidação do Poder Judiciário como instância fundamental de 
resolução de conflitos na sociedade. René Girard chamou atenção para o 
que representou o surgimento do Poder Judiciário no sentido da evolução 
da punição dos criminosos. Antes vista como vingança privada, com o sur­
gimento do Judiciário, a punição passou a ser uma espécie de vingança 
social, submetida a normas e procedimentos válidos para todos. No extre­
mo, a punição é rigorosamente isso, uma pena que a sociedade imputa ao 
indivíduo por ferir uma regra contratada por todos. 
A alegação de que na Inglaterra os homicídios diminuíram por conta 
do banimento das armas de fogo leves ocorrido em 1 997 é equivocada. Tal 
afirmação aplica-se, também, para outros países. Enquanto na Alemanha 
são aplicadas restrições ao comércio de armas leves para cidadãos civis, na 
Suíça todos possuem uma arma em casa, sendo que em ambos os índices de 
homicídio são muito baixos. A historiadora Joyce Malcolm, da Universida­
de de Cambridge, em seu livro Guns and Violence, apresenta uma extensa 
análise demonstrando não haver relação entre controle e restrições às armas 
de fogo no nível dos homicídios na Inglaterra. 
O debate sobre o efeito das leis de desarmamento civil está marcado 
por duas grandes experiências internacionais. De um lado, a norte-ameri­
cana, cuja legislação prevê controles sobre a emissão de registros e conces­
são de portes, em graus variados, dependendo de cada Estado, mas na maior 
parte deles preserva o direito do cidadão de ter acesso a uma arma de fogo. 
De outro, temos a experiência da Inglaterra e da Austrália, que proibiram a 
posse e o porte. Entre os especialistas, as avaliações sobre os resultados des­
ses dois modelos são fortemente divergentes. 
Depois de examinar indicadores referentes a um período de 1 8 anos, o 
economista John Lott, autor do livro More Guns Less Crimes, abriu uma 
polêmica mundial ao afirmar que nos Estados norte-americanos que ado­
taram leis restritivas de armas de fogo a criminalidade é maior do que nos 
Estados onde as leis permitem a posse e o porte. Segundo Lott, haveria, 
portanto, uma relação inversa entre a disponibilidade de armas de fogo e 
crimes. Isso ocorreria, segundo ele, porque a presença de armas, ao invés de 
incentivar, desestimularia os crimes, pois os bandidos evitariam ter como 
alvos pessoas ou residências armadas. A propósito, Lott argumenta, ainda, 
que a presença de armas de fogo em residências gera uma externalidade 
E C O N O M IA DO C R I M E 1 3 3 
positiva, beneficiando as áreas próximas às residências armadas. Na mesma 
linha, Gary Kleck argumenta que a presença de armas de fogo em residên­
cias ajuda a evitar crimes, pois os agressores, temendo represálias, não as 
escolheriam como alvo. 
No outro extremo, o criminologista Alfred Blumenstein, da Carnegie Me­
llon University (EUA), identifica na proliferação de armas entre os jovens, du­
rante a onda crescente de crimes que ocorreu no país no final dos anos de 1980 
e início dos anos de 1 990, uma das causas do crescimento dos homicídios 
juvenis. Arthur Kellermann, da Escola de Medicina da Emory University 
(EUA), na mesma linha, argumenta que a presença de armas de fogo nas 
residências aumenta o risco de ocorrência de homicídio e suicídio. 1 1 
Os estudos que avaliam as políticas de desarmamento civil levadas a 
efeito na década de 1 990, principalmente na Inglaterra e na Austrália, indi­
cam fraca ou nenhuma influência da proibição do comércio de armas para 
cidadãos civis sobre o nível global de crimes e, especificamente, sobre os 
homicídios. 
Por exemplo, os dados do British Home Office mostram que, na In­
glaterra, os homicídios aumentaram 25 ,6% no período 1 996-2003, os rou­
bos cresceram 36,6%, enquanto que os assaltos diminuíram 29,7%. Na 
Austrália, segundo o Instituto Australiano de Criminologia, os homicídios 
tiveram uma pequena redução, de 2,5%, mas os roubos cresceram 20,4% e 
os assaltos, 38,9%. Nos Estados Unidos, no mesmo período, sem que fos­
sem adotadas políticas mais severas em relação às armas de fogo, segundo o 
Federal Bureau of lnvestigations - FBI, os homicídios diminuíram 1 5 ,9%, 
os roubos 22% e os assaltos 1 7,2%. 
Se compararmos as taxas de crimes nos Estados Unidos e na Inglater­
ra, fica mais clara a inexistência de efeitos diretos do controle de armas 
sobre os crimes: 
Redução dos homicídios de 9,4 casos por 1 00 mil habitantes, em 1 990, 
para 5,7 em 2003, nos Estados Unidos; aumento de 1 ,4 para 1 ,6 na 
Inglaterra no mesmo período; redução de 1 ,9 caso por 100 mil para 
1 ,7 caso na Austrália. Note-se que na Inglaterra e na Austrália, a taxa 
de homicídios vem se mantendo há décadas no mesmo patamar, o 
que sugere efeito nulo da proibição do comércio dearmas sobre os 
homicídios cometidos nesses países. 
Redução da taxa de roubos de 256 casos por 1 00 mil habitantes para 
142 casos nos Estados Unidos, entre 1 990 e 2003; a taxa de roubos 
1 34 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
duplicou na Inglaterra, passando de 89,3 casos para 1 9 1 ,7 casos por 
100 mil e aumentou de 89 ( 1 996) para 99 casos na Austrália. 
Redução da taxa de assaltos de 422 casos para 295 casos por 1 00 mil 
nos Estados Unidos, entre 1 990 e 2003; aumento da taxa de assaltos 
na Inglaterra, de 292, em 1 996, para 450 casos em 2003; aumento da 
taxa de roubos na Austrália, de 622, em 1 996, para 803 em 2003. 
Na Inglaterra, que baniu as armas de fogo, a taxa de roubos é superior 
à dos Estados Unidos. Inglaterra e Austrália têm, também, taxas muito mais 
altas de assaltos do que os Estados Unidos. Após o desarmamento, roubos e 
assaltos aumentaram significativamente nesses dois países. Para quem, de 
forma equivocada, imagina que os Estados Unidos são um dos países de­
senvolvidos mais violentos, esses dados são realmente surpreendentes. 
Após analisar as várias experiências de desarmamento, o criminologis­
ta Gary Mauser escreveu: "Em todos os casos, o desarmamento do público 
mostrou-se ineficaz e caro" "Os meios usados", continua, "aumentaram os 
custos administrativos e não produziram aumento da segurança pública" 
Nos últimos anos, o Brasil adotou duas legislações a respeito do co­
mércio de porte de armas de fogo. A primeira foi a Lei 9 .437, aprovada em 
1 977, que permitiu a comercialização de armas de fogo para cidadãos civis 
e adotou várias exigências para a concessão do porte de arma. Mais tarde, 
em 2003, foi aprovada nova legislação, a Lei 1 0.826, que restringiu o co­
mércio ainda mais e proibiu o porte, salvo pequenas exceções. O propósito 
da primeira lei era regular o mercado, enquanto o objetivo da segunda lei 
era, claramente, o de suprimi-lo. 
Cumprindo dispositivo previsto na Lei de 2003, em outubro de 2005 
foi realizado um referendo nacional sobre a proibição do comércio de armas de 
fogo para cidadãos civis. O resultado do plebiscito foi a rejeição da proibi­
ção, por larga margem de votos: 64% de votos Não e 34% de votos Sim. 
Através de Ações de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribu­
nal Federal, os defensores do direito de posse e porte de armas de uso per­
mitido (calibres previstos na Lei para cidadãos civis) procuram anular dis­
positivos da Lei que representam restrições ao direito de posse e porte, 
entre os quais as inúmeras exigências para a autorização da compra e o alto 
custo das taxas para registro e porte, que constituem, na prática, uma espé­
cie de proibição branca. Argumentam que, com tais restrições, deixa de 
haver isonomia entre os brasileiros, pois somente os ricos terão condições 
de acesso às armas. 
E c c N C M IA o c C R I M E 1 3 5 
Dois dispositivos presentes na Lei chamam muito a atenção: o primei­
ro é o direito de porte de armas para os proprietários de empresas. O dispo­
sitivo estabelece a condição econômica como geradora de um direito que é 
negado ao empregado, rompendo-se a isonomia e a igualdade de tratamen­
to entre as pessoas. O segundo ponto, igualmente grave, é o direito de 
registro e porte para servidores de empresas de segurança privada. Por esse 
dispositivo, o cidadão comum, que se depara com inúmeras restrições para 
comprar uma arma para a sua defesa, é incentivado a comprar segurança 
privada, ou seja, serviços de outros cidad�os armados. Tais dispositivos, já 
houve quem disse, criam duas classes de brasileiros, os ricos, que podem 
comprar segurança, enquanto os pobres, sem dinheiro, dependerão apenas 
da sorte. 
A manutenção do comércio de armas para cidadãos civis, apesar das 
restrições, poderá representar um freio à criação de um grande mercado 
negro de armas leves, o que certamente ocorreria caso a proibição fosse 
aprovada. Foi o que aconteceu quando se tentou proibir a produção ou o 
comércio de bebidas alcoólicas e é o que acontece com as drogas ilícitas. 
Quando proibidas, tais substâncias continuaram sendo comercializadas, em 
larga escala, à margem da Lei, em muitos casos com a conivência das insti­
tuições oficiais. Caso ocorresse o mesmo com as armas leves, com certeza 
teríamos um aumento da violência sistêmica que caracteriza o funciona­
mento desse tipo de mercado. 
1 3 6 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
PaLíc1A, U M M O DELO EM C RI S E 
O desempenho da polícia na apuração dos crimes é um dos fatores fundamentais na teoria econômica do crime, dado que, conforme já 
salientamos, maior probabilidade de punição aumenta os custos do crime. 
Se os criminosos potenciais perceberem que a probabilidade de serem pu­
nidos é alta, a tendência é que desistam de cometer os crimes. Quando 
ocorre o contrário, ou seja, quando eles percebem que existe grande possi­
bilidade de não serem presos e condenados, a tendência é que cometam 
mais crimes. A eficácia da ação policial é uma questão central, portanto, 
para os efeitos de dissuasão do crime. 
Uma forma bastante simples de avaliar a eficácia da ação policial é 
observar o volume de crimes que a polícia consegue esclarecer. Conforme 
veremos a seguir, as taxas de esclarecimentos variam muito, mas, de um modo 
geral, são mais elevadas nos países desenvolvidos, e muito baixas no Brasil. 
Antes de abordarmos a questão da eficácia da ação policial, é preciso 
sublinhar que, além dos esforços policiais no esclarecimentos dos crimes, a 
impunidade criminal está também diretamente relacionada com as chama­
das cifras negras. Trata-se de crimes que não são notificados, por várias ra­
zões: furtos ou roubos de pequeno significado monetário, agressões 
intrafamiliares cujos envolvidos temem a interveniência policial; o temor 
de envolvimento com a polícia e a presunção de que o registro policial não 
terá nenhuma conseqüência. No Brasil, as pesquisas mostram uma taxa de 
sub-notificação em torno de 80%, percentual superior ao observado em 
outros países, entre os quais Estados Unidos e Inglaterra, em que está no 
patamar entre 40 e 50%. Sem a devida notificação, os crimes não podem, 
evidentemente, ser investigados e apurados. 
Um segundo fator importante é o desempenho da Justiça. É ela que, 
com base no inquérito policial, procede o julgamento, condenando ou não 
os indiciados. Se a aplicação da Justiça, por várias razões, não é eficaz, tem-
E C O N O M I A DO C R I M E 1 3 7 
se um agravamento da situação de impunidade. O desempenho da Justiça 
é vital, uma vez que, como vimos, a certeza da punição, mais do que a 
severidade, parece ser um dos elementos centrais na teoria econômica do 
crime. No Brasil, como raramente um condenado cumpre integralmente 
sua pena, devido aos direitos de liberdade provisória previstos na legislação 
penal, essa conclusão resulta fortemente prejudicada. 
De outra parte, quando se analisa a impunidade, é preciso levar em 
conta, ainda, as condições do sistema prisional, principalmente, se o sis­
tema consegue garantir padrões mínimos de segurança de forma a assegu­
rar o cumprimento das penas. Neste quesito, também a situação brasileira é 
crítica, devido à grande e histórica defasagem existente entre o crescimento 
da demanda e da oferta de vagas no sistema. Estudo recente do Departa­
mento Nacional de Penitenciárias aponta um déficit de 1 35 mil vagas para 
2007. O resultado é que, diante da ausência de vagas, apenas os condena­
dos por crimes mais graves sejam confinados, criando-se um contexto de 
impunidade para um conjunto enorme de crimes não classificados como 
"graves" Tal situação contribui para baixa percepção da probabilidade de 
punição, reduzindo, com isso, os riscos do crime e incentivando a forma­
ção de carreiras criminosas. Essa é a conexão entre a falta de vagas nos 
presídios e o aumento dos crimes nas ruas. 
Quando se trata de aferir a impunidade penal, os estudos e indicado­
res são também insuficientes e precários. Não existem estudos que consoli­
dem dadosde abrangência nacional, e mesmo estadual, que permita medir 
e avaliar a evolução da impunidade ao longo do tempo. Porém, os poucos 
indicadores disponíveis mostram um quadro preocupante. 
Vejamos algumas evidências, inicialmente, sobre o comportamento 
dos indicadores referentes às condenações. No Estado de São Paulo, em 
1 970, do total de pessoas que foram processadas, apenas 27% foram con­
denadas; em 1 980, apenas 22%. No período de 1 970 a 1 982, enquanto as 
ações penais aumentaram 1 48%, os inquéritos arquivados cresceram 326%. 
No Rio de Janeiro, no mesmo período, para cada 1 00 crimes contra o 
patrimônio, condenavam-se não mais do que quatro ou cinco pessoas. Entre 
1 977 e 1 986, enquanto a criminalidade urbana naquele Estado cresceu 
50%, a quantidade de presos caiu 27,4%. 1 2 
Na década de 1 990, o quadro se deteriora ainda mais. No Rio de 
Janeiro, em 1 992, apenas 8, 1 % dos inquéritos referentes a homicídios do­
losos resultaram em processos penais; apenas 8,9% dos casos de latrocínio 
foram parar na Justiça; 92% dos casos de crimes dolosos contra a vida não 
1 38 L u i z TAD E U V I A PIANA 
receberam condenação da Justiça. Em São Paulo, dos 1 O mil processos aber­
tos para apurar responsabilidade penal no Tribunal do Júri da Capital, 70% 
foram arquivados. 1 3 De uma amostra de 1 98 casos de homicídios ocorri­
dos em Diadema e nas zonas sul e leste de São Paulo, entre 1 998 e 2002, 
nada menos do que 83% deles, ou 1 6 5 casos, não foram esclarecidos. 
Em todo o Brasil, dos 40 mil homicídios que ocorrem todos os anos, 
em apenas 3.200 a polícia consegue montar um inquérito, o que equivale a 
dizer que 37 mil ficam impunes. Para o total dos crimes, estima-se que não 
mais do que 25% resultem em processos. Estima-se que, em todo o Brasil, 
não mais do que 3 a 5% dos crimes violentos são apurados. Existem exem­
plos de índices de apuração de crimes ainda piores, como é o caso do bairro 
de Bonsucesso, na cidade do Rio de Janeiro. No primeiro semestre de 2002, 
para 1 07 pessoas mortas, a polícia só conseguiu esclarecer 0,7 o/o dos casos. 
O mesmo ocorre em Campo Grande, onde apenas 1 ,7% das 1 76 mortes 
foram esclarecidas. 1 4 O conforto, para o Chefe da Polícia, Álvaro Lins, é 
que os índices estão "dentro da média nacional" 
As taxas de esclarecimento dos crimes graves, entre os quais os homi­
cídios, agressões e crimes sexuais, são significativamente mais elevadas nos 
países desenvolvidos. No Japão, 58% dos crimes graves são esclarecidos; 
2 1 ,6% nos Estados Unidos, 35% na Inglaterra, 45% no Canadá e 35% na 
Austrália. Obviamente, os crimes de homicídios são os mais esclarecidos, 
67% nos Estados Unidos e 90% na lnglaterra. 1 5 
Tais indicadores contrastam fortemente com a realidade brasileira, uma 
vez que não conseguimos apurar mais do que uma ínfima parcela dos cri­
mes violentos, 3% ou 4% do total. O jornalista Ib Teixeira lembra, em seu 
livro A Violência sem Retoque, uma pesquisa feita no Rio de Janeiro cujos 
dados revelam que, de um grupo de 1 .000 casos de homicídio, o autor foi 
identificado em apenas 82 deles, sendo que apenas um estava cumprindo 
integralmente a pena. 
No caso de crimes ditos "leves", principalmente furtos e roubos de 
pequeno valor, a situação dos países desenvolvidos é mais parecida com a 
brasileira, uma vez que do total dos crimes registrados apenas uma pequena 
parte é esclarecida. Na Inglaterra, por exemplo, em apenas 5 ,5% dos casos 
ocorre a identificação do culpado, contra 3% nos Estados Unidos. No Bra­
sil, não existe um percentual confiável, mas supõe-se pelo conjunto de fa­
tos conhecidos que esteja abaixo ou no mesmo patamar. 
Diante desse cenário, a grande questão a ser respondida é sobre a causa 
ou as causas que determinam a baixa eficácia da polícia no Brasil. Até que 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 3 9 
ponto elas estão associadas ao modelo de organização que predomina nas 
policiais durante o século XX? Qual o peso do arranjo institucional brasileiro 
de segurança pública, que concentra a competência nos Estados, na ineficiên­
cia policial? O principal problema reside no volume de gastos em segurança 
pública ou na eficiência alocativa em termos de qualidade do gasto? 
No estágio embrionário em que se encontram as pesquisas sobre a organi­
zação policial no Brasil, as respostas serão necessariamente provisórias e especu­
lativas. Tendo consciência dessa premissa, penso que podemos buscá-la em três 
hipóteses distintas. A primeira hipótese, seguindo uma linha de pesquisa 
que se consolidou nos anos de 1 980 e 1 990, principalmente nos Estados 
Unidos, refere-se às características do chamado modelo tradicional de or­
ganização policial e de policiamento, que domina a polícia no século X:X:. 16 
As características básicas desse modelo, que serão descritas com maiores 
detalhes a seguir, são as seguintes: organização burocrática e centralizada, 
estratégia de ação reativa baseada em respostas ao crime, com baixa ou ne­
nhuma prioridade às práticas preventivas, e dissociado da comunidade. 
Uma segunda hipótese trata dos efeitos da rigidez do nosso arranjo 
institucional para a segurança pública definido na Constituição Federal de 
1 988, e ainda em vigor. O primeiro problema é justamente o fato de o 
modelo estar "constitucionalizado", o que dificulta sobremaneira a sua 
modificação, que exige aprovação de Emenda Constitucional por 2/3 de 
votos dos membros do Congresso Nacional. Além disso, e talvez este seja o 
aspecto mais importante, o modelo consagra o monopólio da segurança 
pública para Estados e União Federal, inviabilizando que os Municípios 
desempenham um papel ativo nessa área. Eles têm sua competência restrita 
à formação e manutenção de Guardas Municipais, cuja atribuição é limita­
da à vigilância de prédios e bens púbicos. Essas restrições explicam por que 
uma cidade como São Paulo, uma das maiores do mundo, não tenha uma 
polícia local e dependa de investimentos de outras esferas para garantir a 
segurança de seus moradores. 
Finalmente, a terceira hipótese consiste em indagar em que medida 
boa parte da baixa eficácia das nossas organizações policiais deve-se à defa­
sagem entre as necessidades materiais, humanas e sistemas de planejamen­
to adequados, além do volume e da qualidade dos investimentos realizados 
na melhoria das organizações policiais e no aprimoramento de suas ações. 
A propósito, tão importante quanto possuirmos efetivos em quantidade e 
com o perfil técnico necessário, são os sistemas de planejamento e avaliação 
empregados para desenhar as estratégias e ações policiais. Não se trata, ape-
1 40 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
nas, de reclamar mais investimentos, mas de direcioná-los para melhorar 
não apenas a cobertura dos serviços policiais, mas, também e, sobretudo, 
sua qualidade. 
Comecemos pela análise do modelo policial em vigor na maior parte 
dos países, inclusive o Brasil. Existe uma farta literatura internacional sobre 
o tema. Um desses estudos foi elaborado por Lee Brown, que, além de 
professor, foi Diretor do Escritório Nacional de Políticas de Controle de 
Drogas dos Estados Unidos e Presidente da Associação Nacional dos Che­
fes de Polícia. Em artigo publicado em 1 989, denominado Community 
Policing - A Practical Cuide for Police Officials, ele fez uma síntese objetiva 
das principais características gerenciais do modelo de policiamento vigente 
nos Estados Unidos e outros países, na maior parte do século passado, e 
que seriam responsáveis pela crise. Muitos dos aspectos por ele citados, 
como se perceberá facilmente, aplicam-se também à polícia brasileira: 
a) a polícia é reativa aos incidentes; é dirigida pelas solicitações do público 
através dos registros das ocorrências ou pedidos de ajuda pelo telefone; 
b) a informação proveniente da comunidade é limitada; o planejamento, 
quando existe, reforça o foco nas questões internas da polícia, proce­
dimentos, normas, regulamentos, etc.; 
c) o recrutamento enfatiza mais o espírito de aventurado que o espírito 
da prestação de serviços à comunidade; 
d) os policiais são adestrados para cumprir as regras; não são encorajados 
a ser criativos na busca de soluções e não são premiados por inovarem; 
e) as técnicas gerenciais utilizam um estilo autoritário, seguindo o mode­
lo militar de comando e controle; 
f) a supervisão reflete e reforça esse estilo gerencial; 
g) as recompensas (e prêmios de desempenho) estão associadas à partici­
pação em eventos mais do que pelo resultado desses eventos; 
h) a avaliação de desempenho é baseada não em resultados mas em ativi­
dades; 
i) os departamentos são operados como entidades autônomas, com bai­
xa colaboração e links com a comunidade. 
Complementando o diagnóstico de Brown, no pequeno livro Policia­
mento Comunitdrio, os criminologistas Jerome Skolnick, da Universidade 
de Berkeley (EUA), e David Bayley, da Universidade do Estado de Nova 
Iorque (EUA), fazem uma avaliação crítica dos resultados das táticas utili­
zadas no trabalho policial. Segundo esses aurores: 
E c a N C M IA o a C R I M E 1 4 1 
a) o aumento do número de policiais e de recursos financeiros não re­
duz, necessariamente, a criminalidade, nem aumenta o volume de ca­
sos resolvidos; 
b) o patrulhamento aleatório, motorizado ou a pé, não reduz o crime, 
nem aumenta a probabilidade de prisão dos criminosos, mas esse ripo 
de ação aumenta a sensação de segurança; 
c) o policiamento mais intenso em uma determinada região pode redu­
zir a criminalidade, mas ela pode migrar para outra área; 
d) a rapidez na resposta da polícia pode não ser um procedimento muito 
importante, na medida em que, após "apenas um minuto", a probabi­
lidade de detenção do criminoso cai a 1 0%; 
e) as investigações criminais são pouco efetivas na redução dos crimes, 
que dependem ou da prisão em flagrante ou de informações da vítima 
ou de testemunhas. 
As observações acima representam uma síntese das principais críticas 
ao modelo cradicional1 7 de polícia e seus principais aspectos operacionais e 
rácicas. Neles residem as principais causas da baixa eficácia e eficiência da 
ação policial. 
O diagnóstico cabe como uma luva para a polícia brasileira. Com o 
agravante de que, ao contrário das polícias existentes nos países desenvolvi­
dos, a polícia brasileira não dispõe das mesmas condições materiais e hu­
manas para executar suas tarefas. Isso vale para os crês insumos fundamen­
tais no processo de produção dos serviços de segurança pública: educação 
(recursos humanos qualificados), gestão (modelos de planejamento e ge­
renciamento científicos) e tecnologia (processamento de informações e 
comunicação). Alguns exemplos bastam para revelar a grave crise de de­
sempenho que atinge a polícia no Brasil. 
Um policial brasileiro custa para o Estado, por ano, R$ 50 mil, e nos 
Estados Unidos, R$ 240 mil. A maioria dos nossos policiais cem segundo 
grau incompleto e o americano, curso superior incompleto. Nosso policial 
faz um curso de seis meses e raramente é retreinado. Nos Estados Unidos, o 
curso inicial é também de seis meses, mas o treinamento é permanente, 
com cursos freqüentes de reciclagem. O salário inicial do policial brasileiro 
é, em média, de R$ 800 reais, enquanto nos Estados Unidos é crês vezes 
maior. A disparidade é grande, mesmo considerando as diferenças na capa­
cidade de compra de ambas as moedas - real e dólar - nos respectivos 
países. O reflexo dessas condições, por exemplo, no desempenho na linha 
1 42 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
de tiro é que nosso policial mata três pessoas em cada quatro confrontos, 
enquanto o policial americano fere três em cada quatro. Nosso policial fica 
na polícia, em média, três anos, enquanto o americano se aposenta nela. 
Especialista na matéria, José Vicente da Silva Filho, lembra que, nas acade­
mias, a formação dos policiais brasileiros enfatiza as "formalidades da hie­
rarquia militar" e ensina "muito pouco sobre corno se comportar em situa­
ções reais de perigo". I 8 
Um exemplo do atraso tecnológico da polícia brasileira: enquanto nos 
EUA, o planejamento da ação policial conta com sistemas de informações 
geoprocessados e redes de computadores em praticamente todos os depar­
tamentos e bases de operação, no nosso país quase metade das delegacias 
ainda vive na era da máquina de escrever. 
O mesmo ocorre com os sistemas de identificação digital - Automated 
Fingerprint !D Systems -, que são usados por 97% dos departamentos nor­
te-americanos, enquanto no Brasil eles existem em um número insignifi­
cante de unidades. Nas cidades brasileiras, quando urna patrulha aborda 
um suspeito, ela necessita entrar em contato com urna central, através de 
rádio, para verificar se a pessoa possui ou não algum registro criminal. Se 
ele for de outro Estado, por exemplo, simplesmente nada se saberá, porque 
os bancos de dados dos Estados não estão integrados. Se o sujeito cometeu 
algum crime no Rio de Janeiro, ele aparecerá corno "limpo" nos registros 
policiais de São Paulo. Nessa situação, a polícia norte-americana usaria um 
scanner para recolher as impressões digitais do suspeito e incluiria seus da­
dos no computador da viatura, conferindo sua identidade e dados crimi­
nais em segundos, ou então em qualquer delegacia acessaria as informações 
do suspeito no cadastro nacional de informações criminais. 
Nos países desenvolvidos, os dados provenientes dos registros policiais 
são complementados com pesquisas de vitirnização, com abrangência na­
cional, feitas com periodicidade, permitindo a elaboração de diagnósticos 
mais amplos e precisos das tendências e das características dos crimes. Aqui, 
os bancos de dados estaduais, além de não estarem integrados, seguem cri­
térios diferentes de organização das informações e estão, em geral, desatua­
lizados. E as pesquisas de vitirnização são muito raras e restritas. Em tal 
contexto, as táticas policiais não seguem padrões técnico-científicos, ba­
seando-se quase que exclusivamente na inércia - faz-se o que sempre se fez 
-, sem qualquer avaliação de resultados. 
Se examinarmos a história do modelo tradicional de polícia, podere­
mos compreender melhor muitas de suas características. Na realidade, vá-
E C O N O M I A DO C R I M E 1 43 
rios de seus elementos constitutivos justificavam-se plenamente e represen­
tavam um avanço em relação ao que havia à época em que foram desenvol­
vidos. O uso do automóvel generalizou-se a partir dos anos 1 940, quando 
O. W. Wilson, que seria Chefe da Polícia de Chicago, formulou a teoria do 
patrulhamento preventivo. A idéia, muito simples, previa que a circulação 
de patrulhas motorizadas e o atendimento de chamadas pelo telefone cria­
riam uma percepção nos cidadãos - criminosos e não criminosos - da oni­
presença policial. Com isso, esperava ele, o crime seria inibido. Na origem, 
portanto, do uso intensivo de automóveis no policiamento urbano está a 
idéia de prevenção criminal, não apenas o atendimento a incidentes. 19 A 
evolução das telecomunicações, tornando o telefone mais acessível nas resi­
dências, viabilizou também o acesso dos cidadãos à polícia. Pode-se perce­
ber a extensão dessa mudança, numa época em que boa parte do policia­
mento ainda era feito a pé. Esse é, ainda hoje, o modus operandi predomi­
nante no policiamento ostensivo. No entanto, nos dias atuais, mesmo com 
frotas imensas e maiores efetivos policiais, não existe possibilidade de a 
polícia estar presente e realizar patrulhamento preventivo em todas as áreas 
de risco nas grandes cidades. É impensável, nos dias atuais, imaginar políti­
cas de prevenção apenas através da ação policial. 
A história do modelo tradicional confunde-se, assim, com a história 
urbana e com a evolução tecnológica, principalmente do uso do automó­
vel, do telefone e, recentemente, do computador. Além desse aspecto, sofre 
também a influência das modernas organizações burocráticas que surgiram 
no início do século XX, em resposta às necessidades de maior produtivida­
de e eficiência econômica.Até o surgimento dessas mudanças, a polícia era uma organização ba­
seada nos postos policiais, na ronda de rua e em comandos descentraliza­
dos. A comunicação entre os policiais e a população era direta. Com o 
crescimento das cidades, maior facilidade de transporte e uso mais amplo 
do telefone, ocorreu uma importante mudança. A polícia passou a atender 
"chamadas de serviço", a partir de uma organização centralizada. O patru­
lhamento a pé e a vigilância direta perderam espaço na estratégia de ação 
policial. 
Com isso, os postos policiais foram substituídos por comandos regio­
nalizados e delegacias distritais, abrangendo grandes áreas urbanas. Os re­
gistros policiais foram igualmente centralizados. Depois, seriam criados 
"comandos", "forças" e "delegacias" especializadas em determinados tipos 
de crimes. O desenvolvimento da tecnologia ajudou a "centralização buro-
1 44 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
crática e de comando", aprofundando o divórcio entre o trabalho dos poli­
ciais e as comunidades locais. 
Um elemento crucial no desenvolvimento da burocracia e da cen­
tralização da polícia foi o temor das influências externas no trabalho 
policial. O movimento começou em Londres, ainda no século XIX, e se 
estendeu para a América no início do século passado, exercendo, desde 
então, influência em todas as partes do mundo. Na Inglaterra, as polícias 
particulares, antes livres para atuar, passaram a depender de licenças da 
polícia oficial. Nos Estados Unidos, em 1 870, a maioria das polícias das 
grandes cidades já estava unificada, organizada num corpo único sob 
comando central. 
Já no século XX, pressionada pelos casos freqüentes de corrupção, a 
polícia deu novo passo no sentido da burocracia e da centralização. Uma 
das conseqüências desse movimento é que se obteve maior "neutralidade 
política e confiabilidade legal" "As tomadas de decisão do dia-a-dia", escre­
ve o sociólogo Albert Reiss, da Universidade de Yale (EUA), "foram subtra­
ídas da influência política direta dos partidos e das autoridades do governo 
e, também, do exercício arbitrário do chefe" Mas, por outro lado, houve 
mudanças na organização do trabalho policial, com a divisão de funções 
entre "pessoal do escritório" e da "linha de frente", ampliando o divórcio 
entre a polícia e a comunidade. Um dos aspectos mais notáveis, destaca 
Reiss, "foi o aumento do número de assistentes'', aumentando o peso da 
burocracia na organização policial. 
Na análise dos modelos policiais, o professor Stephen Mastrofski, da 
Universidade de Michigan (EUA) , apresenta uma outra classificação: o 
modelo racional/técnico e o modelo institucional. O modelo racional/técnico 
é aquele em que as organizações são estruturadas para "realizar metas espe­
cíficas" Procedimentos, programas, recursos humanos e políticas são pen­
sados tendo em vista atingir determinados objetivos de maneira eficaz. Os 
objetivos são "predeterminados e definidos com precisão" e as estruturas 
são "precisas, visíveis e não contingentes" 
É um modelo rígido e formalizado, tanto na estrutura quanto nos 
objetivos, com baixa ou nenhuma flexibilidade. Um exemplo dos objetivos 
é o controle da criminalidade. Para isso, o modelo estruturou-se através do 
sistema de respostas via telefone, patrulhas policiais ostensivas e investiga­
ções criminais. As medidas de eficácia consistem no volume de prisões, nos 
crimes conhecidos e apurados e também através de indicadores de crimes 
relatados nas pesquisas de vitimização. 
E c a N C M I A oa C R I M E 1 4 5 
O modelo institucional pressupõe que o objetivo da organização poli­
cial não é ser eficaz, mas cumprir a "exigência de responder de maneira 
ampla à'.'s crenças estabelecidas acerca do que tais organizações deveriam ser 
e fazer, mesmo que essas crenças não possam ser verificadas" Os serviços 
policiais seriam equivalentes aos serviços públicos clássicos prestados por 
escolas, serviços públicos de saúde e tribunais, onde é difícil especificar 
metas e medir o impacto dos serviços prestados por essas organizações. 
Nesse modelo, as organizações "institucionalizam" estruturas e pro­
cessos, que são "aceitos como corretos, verdadeiros e adequados", indepen­
dentemente de serem avaliados sob qualquer aspecto. O critério para de­
fender o modelo institucional não é determinado por indicadores de de­
sempenho, mas pelas "pressões sociais e culturais para que estejam de acor­
do com as crenças convencionais" Assim descrito, esse modelo torna-se 
muito próximo da polícia brasileira. 
A polícia que existe hoje tem seus traços definidores surgidos dessa 
evolução: é uma organização burocrático-racional, hierarquizada, profissio­
nalizada e "legalista", seguindo padrões, normas e regras teoricamente im­
pessoais. No entanto, apesar das leis, regulamentos e regras, a atuação poli­
cial envolve um alto grau de arbítrio, motivo de muitas críticas à polícia. O 
fato é que a maioria das ações policiais é impossível de supervisionar e, sem 
supervisão, não há como apurá-las quando contrárias às leis e regulamen­
tos. As corregedorias internas e os controles externos podem inibir as arbitrari­
edades, mas deparam-se sempre com limites e resistências corporativas. 
Seja qual for a classificação que se adote - tradicional, racional/técnico 
ou institucional-, os modelos têm como característica comum o pressupos­
to de que a melhoria na eficácia de suas respostas no controle da criminali­
dade depende, em última instância, do aumento do volume dos recursos 
empregados no sistema. São modelos, como afirmamos, que abrem pouco 
espaço para a avaliação de seus pressupostos básicos; eles continuam sendo 
considerados válidos, independente das críticas quanto ao baixo desempe­
nho policial. 
1 46 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
ASPECTOS I N STITU C I O NAI S 
N o debate sobre a crise de desempenho que atinge a polícia brasileira, uma das supostas causas, apontada por muitos especialistas, diz res­
peito à estrutura dual da organização policial. Como se sabe, a organização 
policial brasileira divide-se em duas polícias, a Polícia Civil, encarregada 
das funções de polícia judiciária, e a Polícia Militar, que tem atribuições de 
repressão e prevenção. 
A divisão organizacional afetaria o desempenho da polícia porque ge­
raria conflitos corporativos, paralelismos e duplicidades de iniciativas e de 
bases de informação, consumindo a energia de ambas organizações em ob­
jetivos e focos distantes da produção de serviços de qualidade para a socie­
dade. A solução mágica apregoada por quem acredita nesse diagnóstico é 
integrar as polícias. A proposição, até hoje carente de detalhamento, grosso 
modo, envolve duas possibilidades: a unificação completa através da forma­
ção de uma polícia única ou uma integração operacional mais forte, man­
tendo-se as duas organizações. Tanto uma quanto a outra proposta, dadas 
as dificuldades institucionais e operacionais que envolvem, parece ser mais 
uma das muitas respostas à crise policial, aparentemente atraente, mas sem 
nenhuma viabilidade. 
Na verdade, existe certo exagero nesse diagnóstico, pelo menos na re­
percussão dessa questão na eficácia policial. É importante lembrar o aspec­
to decisivo de que as tarefas das duas polícias são distintas. A função da 
polícia civil é a de registrar e investigar os crimes, bem como enviá-los à 
apreciação da Justiça. À polícia militar, por sua vez, cabe realizar o policia­
mento ostensivo e repressivo, quando necessário. 
Embora existam disputas corporativas, superposição de iniciativas e 
programas entre as forças, não existem estudos que comprovem residir nessas 
questões a causa ou uma das causas fundamentais da crise de eficiência 
presente na polícia brasileira. 20 Poderíamos ter uma polícia única, e ainda 
E c c N c M 1 A o c C R I M E 1 47 
assim ela pautar sua organização e estratégias de ação segundo um dos 
modelos que resenhamos acima, adotando as diretrizes tradicionais, reati­
vas e dissociadas da comunidade. 
A propósito,a defesa da proposta de uma polícia única padece de um 
erro de análise que deriva da crença em um modelo ideal de polícia. Os 
estudos internacionais mostram que estruturas policiais semelhantes apre­
sentam níveis diferenciados de desempenho. Nada garante que uma polícia 
única, por exemplo, seja um modelo mais eficiente do que o de polícia 
dual. Os estudos disponíveis, entre os quais o de Jack Brouder, Padrões de 
Policiamento, que examina os diversos modelos de polícia existentes na 
Europa, mostram que esse modelo ideal, na realidade, não existe. De fato, 
em vários países e regiões com taxas baixas de criminalidade, tanto na Eu­
ropa como nos EUA, existem diferentes modelos de organizações policiais. 
O caso extremo é o dos Estados Unidos, onde existem mais de 1 5 mil 
polícias diferentes, convivendo com algum nível de conflito jurisdicional, é 
verdade, mas com uma efetividade razoável em suas ações quando compa­
rada com a da polícia brasileira. 
No meu modo de ver, o principal obstáculo institucional à maior efi­
cácia policial não reside na estrutura dual em si, mas em dois outros fatores: 
a) na rigidez do atual modelo de organização da segurança pública brasilei­
ra, uma vez que ele está "constitucionalizado" e b) nos modelos de gestão 
adotados, principalmente na insistência no modelo reativo, na inexistência 
de metas e objetivos claros a serem perseguidos e de avaliações sistemáticas 
de desempenho da ação policial. 
O problema que afeta o modelo policial brasileiro é, pois, de outra 
natureza, não tendo a ver com a estrutura policial dual, mas com o desenho 
institucional que trata das competências e responsabilidades pela segurança 
pública entre as várias esferas de governo. 
Mais especificamente, o problema está no modelo escrito na Consti­
tuição Federal, que atribuiu aos Estados e à União o monopólio da segu­
rança pública.2 1 Segundo esse modelo, a segurança pública é atribuição dos 
Estados, através das polícias civil e militar, e da União, através da Polícia 
Federal, basicamente. Aos Municípios atribuiu-se apenas competência para 
formar guardas municipais com a finalidade de cuidar de bens públicos. 
Com tal definição de competências, a Constituição Federal retirou dos 
Municípios a possibilidade de criarem suas próprias polícias. A exclusão é 
de ordem geral, valendo, inclusive, para grandes cidades, onde ocorre maior 
concentração de crimes. Com 36% da população brasileira, os Estados de 
1 48 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
São Paulo e Rio de Janeiro são responsáveis por quase 50% dos homicídios 
que ocorrem rodos os anos no país, sendo que a maior parte deles ocorre 
nas Capitais. Convivendo há anos com esse grave problema, as cidades 
ainda não possuem suas próprias organizações policiais, dependendo dos 
gastos de outra esfera de governo, Estados e União. 
E C O N O M I A ao C R I M E 1 49 
G ASTO A E EF"I C I EN C IA 
F inalmente, uma terceira parte da resposta para a crise da eficiência poli­cial pode estar no volume de recursos alocados na produção da segu­
rança pública. No entanto, na análise dessa questão, é preciso um certo 
cuidado, para não se concluir, apressadamente, que, diante das inúmeras 
carências materiais e humanas da polícia brasileira, o volume dos recursos 
alocados é a única ou a mais importante variável. 
Na realidade, tão importante quanto o volume de recursos finan­
ceiros destinados à segurança é verificar se os gastos obedecem a níveis 
de racionalidade dados por sistemas de planejamento, com objetivos e 
metas claramente definidas pelas organizações policiais. Trata-se de sa­
ber se os gastos estão, e em que grau, relacionados com metas de redu­
ção da criminalidade ou decorrem apenas da inércia orçamentária. Se 
são definidos por compromissos com desempenho ou somente porque 
os programas existem. 
A literatura internacional mostra, de forma bastante convincente, que 
maiores orçamentos não garantem maiores resultados em termos de efi­
ciência na redução das taxas de criminalidade. Na alocação de recursos em 
sistemas complexos como o da segurança pública, é preciso que o sistema 
de planejamento seja capaz de coordenar e integrar os subsistemas que fa­
zem parte do processo de produção do serviço. Um exemplo vai deixar a 
idéia mais clara. Se a prioridade dos gastos for melhorar o patrulhamento 
motorizado ostensivo, serão realizados gastos para adquirir mais veículos. 
Maior número de veículos aumenta a necessidade de mais policiais para 
dirigi-los e maior número de policiais de apoio nos sistemas de comunica­
ção, maior capacidade das delegacias policiais para receber e processar os 
registros das ocorrências e, até mesmo, mais vagas nas emergências para 
atender feridos e vagas nas prisões. Trata-se de um gasto que irá reforçar as 
estratégias convencionais de controle do crime. 
1 50 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
No entanto, se os gastos forem dirigidos para descentralizar os servi­
ços policiais, as necessidades não serão exatamente as mesmas. Se forem 
priorizados, por exemplo, postos policiais e programas de vigilância de bairro, 
a necessidade de veículos e de policiais condutores diminuirá. O número 
de atendimentos pode aumentar na comunidade, pois a polícia está mais 
próxima, mas os policiais farão a triagem de modo que apenas os casos mais 
graves demandem o atendimento por uma equipe (viatura) . Assim, é pro­
vável, também, que ocorrências (registros) diminuam, fazendo com que 
caia a demanda por serviços burocráticos nas delegacias. Tal estratégia pode 
ser mais racional do ponto de vista do gasto, sem falar nos efeitos de maior 
satisfação da comunidade em ter a polícia mais próxima e ágil em seu meio. 
Essas situações indicam que, pelo menos em parte, os gastos em segu­
rança podem resultar no fortalecimento de padrões e processos tradicionais 
de produção dos serviços ou, ao contrário, apostar em métodos mais racio­
nais e eficazes. O fundamental para que isso ocorra é que tais gastos sejam 
submetidos à análise do ponto de vista da qualidade dos serviços, o que, 
com raras exceções, ainda não é feito no Brasil. 
Do ponto de vista técnico, uma primeira observação que deve ser feita 
quando se analisam os gastos com segurança pública diz respeito aos insu­
mos utilizados na produção desses serviços. Como na produção de serviços 
de educação e de saúde, um dos componentes fundamentais na área da 
segurança pública são os recursos humanos, a gestão e a tecnologia. Os dois 
primeiros são classificados na contabilidade pública como Gastos de Pes­
soal e Gastos de Custeio, sendo que apenas a tecnologia (logística, equipa­
mentos, veículos, armas, etc.) são classificados como Investimentos. Em 
linguagem mais técnica, diríamos que a segurança pública é um serviço 
intensivo em mão-de-obra. Tendo em vista esses aspectos, penso que seja 
mais adequado, na área da segurança pública, adotar-se um conceito mais 
amplo de Gasto Total com Segurança, englobando os três tipos de gastos, 
do que o conceito de Investimentos, que é mais restrito. 
Os gastos com segurança pública, bem como a modernização das di­
retrizes que norteiam a ação policial, dependem, essencialmente, dos go­
vernos estaduais. Ocorre que, desde os anos de 1 980, os Estados estão mer­
gulhados em uma grave crise financeira. Vários deles literalmente faliram, e 
hoje suas receitas não são suficientes sequer para cobrir gastos de Pessoal, 
Custeio e Serviço da Dívida Pública. A conseqüência desse processo de 
crise nas finanças públicas estaduais é a redução na geração de recursos 
financeiros para realizar os investimentos necessários para a ampliação e 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 5 1 
modernização dos serviços públicos, entre os quais os voltados para a pro­
dução da segurança pública. 
São poucos os Estados que ajustaram as contas públicas nos anos 1 990 
e recuperaram a capacidade de investir e alocar maior volume de recursos 
para os serviços públicos, entre os quais a segurança pública. É o que ocor­
reu, por exemplo,com o Estado de São Paulo, que elevou suas despesas em 
segurança pública de R$ 1 ,78 bilhão de reais, em 1 990, para R$ 2 bilhões, 
em 1 995, ampliando-a para R$ 4 bilhões em 1 999 (preços constantes). Em 
uma década o volume de recursos alocados anualmente dobrou. Durante 
todo esse período, o comportamento das curvas de crimes manteve trajetória 
ascendente, tendência que começou a ser revertida para alguns tipos de crimes, 
homicídios, por exemplo, a partir de 2000. Desde então, observa-se uma 
queda sistemática desse tipo de crime no Estado, e, provavelmente, uma 
das causas desse fenômeno está no reforço da atuação policial. 
No entanto, na maioria dos Estados brasileiros persistem carências de 
todos os tipos - humanas, gerenciais e financeiras. Calcula-se que a metade 
das delegacias brasileiras não estão informatizadas. Não existe ainda um 
cadastro único nacional de identificação criminal e são conhecidas as defi­
ciências tecnológicas e de sistemas de informação, equipamentos moder­
nos de telecomunicações, armas e, sobretudo, de treinamento e qualifica­
ção dos recursos humanos de nossas polícias. 
Todavia, cão ou mais grave do que as carências financeiras e humanas 
é a inexistência de um modelo de gestão adequado que permita a utilização 
racional e otimizada dos recursos existentes, comprometida com metas. 
Um sistema de gestão que promova uma ruptura com o modelo incremen­
tal acuai, cujas restrições são apenas de natureza orçamentária. Segundo 
essa visão, basca aumentar o tamanho do orçamento que os resultados espe­
rados virão. A realidade demonstra que nem sempre é assim. Os escudos 
internacionais comprovam que nem sempre um aumento de recursos -
físicos e financeiros - aumenta a eficácia e a eficiência da ação policial. É 
preciso analisar a qualidade dos investimentos, ou seja, em quais programas 
eles são aplicados e qual seu impacto nas taxas de criminalidade. Infeliz­
mente, no Brasil, o sistema de segurança padece das duas necessidades: 
mais investimentos e sistemas de gestão que permitam essa avaliação de 
resultados. 
Usando dados de 2002, comparamos os investimentos em segurança 
pública per capita e crimes (homicídios, roubos e furtos) em todos os Esta­
dos brasileiros. Para facilitar a análise, os Estados foram divididos em crês 
1 52 L U I Z TA D E U V I A P I A N A 
grupos, de acordo com o gasto per capita. Entre os nove Estados que mais 
gastam, seis estão entre aqueles que têm os piores índices de homicídio, seis 
entre os piores índices de furtos e cinco entre os piores índices de roubos. 
O Distrito Federal revela a dimensão da assimetria, pois é o que mais gasta, 
mas é o campeão em roubos e furtos e está em 1 0 .0 lugar em homicídios. O 
Rio de Janeiro, segundo em gasto, é o segundo também em homicídios, o 
terceiro em roubos e o 1 8 . 0 em furtos. 
No segundo grupo, a assimetria aparece claramente nos números do 
Espírito Santo e Rio Grande do Sul. O Espírito Santo é o 1 2 .0 em gasto, 
ocupa a 1 .0 lugar em homicídios, o 20.0 na classificação por furto e o 14 .0 
na de roubos. E o Rio Grande do Sul, que é 14 .0 em gasto, tem uma boa 
posição na classificação de homicídios - 22.0 lugar -, mas ocupa o 2.0 lugar 
em furtos e o 4.0 em roubos. 
Finalmente, no terceiro grupo, dos que menos gastam, surge ainda 
com maior clareza a relação "quase inversà' entre gasto e indicadores de 
crimes. O Ceará, por exemplo, que é o Estado que menos gasta, está em 
16.0 em homicídios, 25 .0 em furtos e 24.0 em roubos. 
Outro modo de testar se o volume de gastos está relacionado com a 
redução dos crimes é comparar o número de policiais com os indicadores 
de crimes. Usamos o número de policiais como representativo do gasto de 
segurança, pois a grande parte dos recursos alocados no setor são destina­
dos para pagamento de pessoal e encargos. A literatura internacional mos­
tra que não existe um consenso sobre como essas relações ocorrem. A maio­
ria dos estudos conclui não haver uma correlação positiva entre número de 
policiais e crimes, mas outros, entretanto, mostram correlações para alguns 
tipos de crimes. 22 
No estudo que fez para o Brasil, o sociólogo Túlio Khan também não 
encontrou conexão entre o tamanho dos efetivos das polícias dos Estados e 
taxas de criminalidade. Em alguns casos, descobriu que maior número de 
policiais estava associado com maior número de crimes (atentado ao pu­
dor, estupros e furtos). Isso não quer dizer, evidentemente, que mais poli­
ciais gerem mais crimes. Indica, apenas, que mais policiais tendem a ser 
contratados justamente onde as taxas de crimes são mais altas. Teríamos a 
curiosa situação de que, para ter maior presença policial, faz-se necessário 
haver mais crimes. Esta é, em última análise, a lógica do modelo tradicional 
de policiamento, reativo ao delito. 
Mais do que a quantidade, em segurança pública, é preciso observar a 
qualidade dos investimentos, o planejamento e as estratégias de ação. 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 53 
Gastos com Segurança Públlca e Coeficiente de Crlmlnalldade - 2002 
Segurança Gasto 
Estado Pública per capita Homicídios Homicídios Homicídios Furtos Furtos Roubos Roubos Roubos 
R$ per capita Classificação Coeficientes Classificação Coeficiente Classificação Coeficiente Classificação 
Distrito Ferderal 582,44 1 497 23, 1 6 1 0 61 .012 2.843,27 1 23.761 1 . 1 07,31 1 
Rio de Janeiro 205,31 2 6.233 42,33 2 107.263 728,47 1 0 1 1 4.720 779, 1 1 3 
Acre 192,61 3 180 30,67 6 7.622 1 .298,60 9 1 .227 209,05 1 5 
Rondôni 1 54,17 4 496 34,64 3 1 8.770 1 .310,96 8 6.644 464,04 5 
Amapá 146,30 5 1 49 28,85 7 9.020 1 .746,33 4 2.055 397,86 8 
Minas Gerais 132,75 6 2.647 14,43 18 1 62.31 4 884,86 1 4 28.806 157,04 20 
São Paulo 1 28.64 7 1 1 .847 31 ,03 5 567.080 1 .485,37 6 309.661 81 1 , 1 0 2 
Santa Catarina 1 1 4,81 8 367 6,64 25 105.421 1 .907,14 3 7.351 1 32,98 22 
Mato Grosso do Sul 1 04,55 9 604 28,22 8 26.476 1 .236,84 1 0 4.440 207,42 1 6 
Amazonas 98,73 1 0 398 13,44 20 22.814 770,21 1 6 4.622 156,05 21 
Roraima 98,52 1 1 42 1 2 , 1 1 2 3 4.750 1 .369,39 7 600 1 72,97 1 7 
Espírito Santo 97,31 12 1 .765 55, 1 3 1 21 .269 664,30 20 7.884 246,24 1 4 
Mato Grosso 95,45 1 3 597 22,92 1 1 27.719 1 .064,1 7 1 2 9.565 367,21 9 
Rio Grande do Sul 91 ,46 14 1 .303 12,52 22 2 1 1 .396 2.030,99 2 58.344 560,54 4 
Tocantins 90,94 1 5 1 58 1 3,09 21 4.723 391,30 22 868 71 ,91 23 
Goiás 87,41 1 6 1 .026 1 9,69 1 2 77.644 1 .490,1 9 5 23.351 448, 1 7 6 
Sergipe 83,84 1 7 600 32,50 4 1 6.386 887,63 1 3 5.069 274,59 1 2 
Alagoas 72,89 18 726 25, 1 4 9 2.354 81 ,52 24 684 23,69 25 
Pernambuco 72,63 1 9 
Paraná 66,79 20 16,55 108.071 1 . 1 02,99 27.165 277,25 
Piauí 66,51 21 
Rio Grande do Norte 60,43 22 223 7,82 24 20.942 734,09 1 7 7.482 262,27 1 3 
Bahia 57,09 23 2.532 1 9,00 1 4 104.956 787,77 1 5 39.227 294,43 10 
Paraíba 47,39 24 675 1 9,31 13 1 0.813 309,39 23 5.618 160,75 1 9 
Pará 44,36 25 1 . 1 87 18,39 1 5 45.8 1 1 709,84 1 9 27.165 420,92 7 
Maranhão 39,91 26 806 13,89 1 9 35.959 619,64 21 10.018 172,63 18 
Ceará 38,61 27 1 .269 16,58 16 4.318 56,41 25 2.876 37,57 24 
Brasll 108,81 37.949 21,73 1 .784.903 1 .022,09 728.203 417,56 
Fontes: Estimativa IBGE (2002) - Secretaria do Tesouro Nacional - Balanço dos Estados (2002) - Ministério da Justiça (2002) 
Coeficientes: n• de ocorrências por 100.000 habitantes. 
e C N C LU SÃC 
As palavras que seguem serão necessariamente provisórias, porque este livro trata de uma temática que conta com contribuições analíticas de 
várias outras disciplinas, como a sociologia, a psicologia, a antropologia e, 
mais recentemente, a biologia. Seria pretensão imaginar que, isoladamen­
te, cada uma dessas disciplinas, entre as quais a economia, consiga dar con­
ta de um fenômeno como o crime, que envolve múltiplos fatores, variáveis 
e dimensões de natureza social, econômica, psicológica e cultural. Por isso, 
as afirmações feitas ao longo do texto tiveram como características estarem 
sempre abertas à dúvidae, mais do que isso, às contribuições e críticas de 
outras disciplinas. 
Além disso, por limitações de minha formação pessoal e também de 
tempo, não pude explorar, em profundidade, as potencialidades de uma 
análise multidisciplinar. Procurei, entretanto, cotejar os principais elemen­
tos da economia do crime com as contribuições mais conhecidas oriundas 
da sociologia, principalmente com as teorias da Anomia, da Tensão e do 
Controle Social. Meu propósito foi o de demonstrar que, ao contrário do 
que se imagina, existem vários pontos de convergência entre esses campos 
teóricos. 
Podemos, por exemplo, afirmar que a anomia, quando evocada para 
representar a baixa adesão dos indivíduos às leis, está também presente na 
teoria econômica do crime, quando esta prevê que a opção pelo crime é 
incentivada em situações onde a probabilidade de punição é baixa ou quando 
os indivíduos, por várias razões, não temem a aplicação das leis. 
Hoje, poucos são os que acreditam que o crime seja conseqüência 
apenas do aprendizado social ou uma imposição da cultura. Por outro lado, 
é difícil crer que a violência seja natural no indivíduo, embora esteja já 
comprovado que alguns apresentam, desde muito cedo, maior propensão à 
agressividade do que outros. Outro aspecto é que o peso dos genes na defi-
E c c N C M IA o c C R I M E 1 5 5 
nição de traços comportamentais em toda a sua extensão ainda é um tema 
amplamente aberto ao debate e à comprovação. Aceita-se, porém, que o 
comportamento seja a resultante da interação entre as características herda­
das e o ambiente no qual o indivíduo se desenvolve. A novidade da teoria 
econômica do crime é a introdução da noção de interesse na teia de fatores 
que influenciam as decisões humanas, no nosso caso nas decisões do crime. 
Além do desafio teórico, há que se considerar, também, a variedade de 
propostas que se apresentam como soluções para a criminalidade brasileira. 
Já se disse, a esse respeito, quase tudo. Muito debate e muita energia, para 
pouco resultado. Não pretendemos seguir esse caminho improdutivo e pro­
por soluções mágicas, até porque elas não existem. Entendo que, ao contrá­
rio, para avançarmos na construção de um sistema moderno e eficiente de 
segurança pública, precisamos dar um passo atrás para retomar o que en­
tendemos ser, embora um tanto óbvio, o dever de casa. Desse modo é que 
devem ser lidar as palavras que se seguem. 
Retomando o fio condutor do livro, os principais conceitos da teoria 
econômica do crime articulam-se a partir de um núcleo central que consis­
te na noção de que o crime é resultado de uma decisão racional, na qual os 
indivíduos ponderam custos e benefícios. 
Os custos envolvem a perda da liberdade, caso o criminoso seja preso 
e condenado, além dos custos representados pela perda de renda, enquanto 
ele estiver confinado, e as perdas futuras, em razão do estigma e da conde­
nação moral por parte da comunidade. Os criminosos, como mostram os 
estudos, dificilmente retornam ao mercado de trabalho. 
Os benefícios consistem no resultado esperado do ato criminoso, que 
pode ser dinheiro, bens materiais e/ou algum tipo de gratificação psicológi­
ca (status ou sensação de poder). Pode, ainda, resultar de disputas por poder 
e controle de áreas e mercado entre gangues e quadrilhas. 
As decisões racionais não são cálculos matemáticos precisos, mas pro­
cessos que sofrem a influência de uma complexa estrutura de condicionan­
tes ou incentivos. Esses condicionantes não podem, entretanto, ser vistos 
como fatores determinantes. Eles exercem influência, mas jamais determi­
nam as decisões dos indivíduos. 
Segundo essa premissa, o crime não é o resultado automático e inexo­
rável do desemprego, da baixa escolaridade e da marginalização social ou de 
uma cultura de pobreza. É inegável, porém, que quando o indivíduo com­
para vantagens e desvantagens, tais condições sociais atuam como incenti­
vos nos processos de decisão pelo crime. 
1 56 L u i z TA D E U V I A P I A N A 
O modo como o indivíduo pondera vantagens e desvantagens é in­
fluenciado, por sua vez, pela forma como são valorizados riscos e perdas. 
Nesse processo, vimos que a educação desempenha um papel fundamental. 
A correlação entre educação e crimes é negativa - mais educação menos 
crimes -, porque a educação é um fator determinante de melhores condi­
ções no mercado de trabalho e também porque faculta ao indivíduo me­
lhores condições de avaliar os riscos. 
O mesmo ocorre com o emprego e a renda. Entretanto, nesses casos, 
aumentam os custos do crime à medida que, caso seja presa e condenada, a 
pessoa perde o seu emprego e a renda presente, além da renda futura pelo 
tempo em que estiver confinado. Quando a renda percebida é baixa, esse 
custo cai, havendo um incentivo à opção pelo crime. 
Acontece, ainda, que cais condicionantes sofrem a mediação da capa­
cidade do indivíduo de controlar seu impulso. Como se sabe, há duas for­
mas básicas de controle: o controle social, derivado das leis e das normas 
sociais, que é exógeno ao indivíduo, e o autocontrole, decorrente dos valo­
res e crenças internalizados desde a fase da socialização primária e desenvol­
vida ao longo da vida. 
Quanto maior for o autocontrole, maior será a capacidade do indivíduo 
de trocar o prazer e a recompensa imediata por retornos futuros. Esse será um 
indivíduo mais avesso ao risco e com menor propensão ao crime. É por acredi­
tar nesse postulado que correntes importantes da criminologia pregam que o 
grande combate ao crime começa na família e na escola, onde a criança aprende 
as noções básicas do respeito, da disciplina e da amizade. 
Levando em conta os argumentos acima, é possível dizer que o con­
trole do crime depende de ações e políticas em crês dimensões fundamen­
tais. A primeira delas situa-se no âmbito do Estado e diz respeito ao au­
mento da capacidade de aplicação da justiça. Trata-se, essencialmente, de 
elevar a capacidade do Estado, através do Sistema de Justiça Criminal (Po­
lícia, Ministério Público, Poder Judiciário e Sistema Prisional), de apurar 
os crimes e condenar à prisão os responsáveis. Vimos que tanto a certeza 
quanto a celeridade e a extensão da pena estão negativamente correlaciona­
das com as taxas de crimes. 
A segunda dimensão diz respeito às políticas direcionadas para reduzir 
o impacto dos condicionantes sociais nas decisões do crime. O ponto cru­
cial, nesse sentido, é investir na educação e na capacitação dos jovens para o 
mercado de trabalho. Os estudos mostram que a educação está também 
negativamente relacionada com os crimes, basicamente porque ela é um 
E C O N O M I A DO C R I M E 1 57 
fator preditivo de melhores empregos e salários, que, por sua vez, também 
se constituem em fatores anticrime. Além dos efeitos da educação no longo 
prazo, devem-se priorizar políticas focalizadas no treinamento e na capaci­
tação de jovens visando a resultados no curto prazo. 
Finalmente, a terceira dimensão envolve o fortalecimento dos va­
lores fundamentais da educação na família e na escola. Não se trata, 
aqui, de políticas públicas, mas de uma nova atitude da sociedade, no 
sentido da recuperação dos valores do respeito, disciplina e responsabi­
lidade. Revalorizar a família e os vínculos comunitários produzirá, no 
futuro, interações sociais de melhor qualidade e indivíduos com maior 
capacidade de autocontrole. Como se faz isso? Modificando atitudes 
desde agora, a começar pela educação dos nossos filhos, sem esperar 
que as mudanças venham como resultado da ação dos outros ou do 
Estado. Pode parecer romântico, mas esse é o único caminho conheci­
do e eficaz para reduzir o crime no futuro. 
Isso não diminui a importância da repressão estatal ao crime. A recu­
peração da capacidade de ação do Estado na área da segurança pública é 
essencial para reduzir a criminalidade no curto prazo. No caso brasileiro, 
exigem-se providências em três direções: a) modificar o arranjo constitu­
cional que delega aos Estados federados e àUnião o monopólio da organi­
zação policial e de ação na área da prevenção e investigação criminal; b) 
dotar as nossas organizações policiais de maior capacidade de planejamen­
to, com o uso de modernas tecnologias de informação e mapeamento cri­
minal, além de dar-lhes maior flexibilidade para adotar estratégias locais, 
como programas de policiamento comunitário ou programas de prevenção 
baseados em solução de problemas; e c) aperfeiçoar os modelos gerenciais, 
com a incorporação no desenho das estratégias policiais de metodologias 
de avaliação de custo/benefício e de indicadores de desempenho, como 
taxas de esclarecimento de crimes, satisfação dos clientes e taxas de vitimi­
zação, entre outros. 
A primeira diretriz remete para a criação de um novo modelo de segu­
rança pública, com uma participação mais ativa da União e um novo papel 
para as Prefeituras Municipais, que poderão constituir polícias locais. Esse 
é um caminho inexorável, e que já está timidamente em curso, através de 
várias medidas legislativas que estão, gradativamente, aumentando o poder 
das guardas municipais. O que proponho é que, ao invés de continuarmos 
nessa política gradual e tímida, avancemos com maior determinação rumo 
ao novo modelo pluralista. 
1 58 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
Também é essencial que, na constituição do novo modelo, seja am­
pliado o papel da União no financiamento da modernização e da descen­
tralização da ação policial. Nesse sentido, uma das providências seria am­
pliar e transformar o atual Fundo Nacional de Segurança Pública - FNSP. 
Com maior volume de recursos, o Fundo pode exercer um papel ativo na 
capacitação gerencial, no treinamento e difusão de novas tecnologias e, 
também, no incentivo à adoção de programas de policiamento comunitá­
rio por parte das polícias estaduais e guardas municipais. Trata-se não ape­
nas de aumentar as dotações orçamentárias para o FNSP, que são insufi­
cientes, mas de elevar a taxa de utilização dos recursos disponíveis. Para se 
ter uma idéia, dos R$ 4 1 2 milhões previstos para 2005 foram efetivamente 
liquidados (pagos) apenas R$ 17 milhões. Nesse mesmo ano, o orçamento 
cocal da Secretaria Nacional de Segurança Pública era de não mais do que 
R$ 1 1 9 milhões, menos de um real por brasileiro. O Secretário Nacional 
de Segurança Pública, Luiz Fernando Correa, declarou ao jornal Correio 
Braziliense (8/9/05) que "a maioria dos programas não chegou a ter 1 0% 
do seu orçamento executado até meados de agosto" (2005) . 
Além disso, é importante que o Fundo adoce novos critérios para a 
liberação de recursos que valorizem o esforço e o desempenho das polícias 
na redução das taxas de crimes. Pelas regras acuais, a pressão é para liberar 
recursos para programas em áreas de alta criminalidade, o que acaba por 
gerar um incentivo perverso que penaliza os programas que apresentem 
bons resultados. É preciso dar prioridade para o critério de desempenho, 
premiando os programas que estão, efetivamente, apresentando bons re­
sultados. Só assim serão estimuladas novas práticas e estratégias eficientes 
de prevenção e redução de crimes. 
A justificativa para um papel mais ativo por parte da União na produ­
ção da segurança pública decorre do fato de que a sua política global, prin­
cipalmente a econômica e a social, exerce um papel decisivo na conforma­
ção dos condicionantes sociais e econômicos que acuam como incentivos 
na decisão pelo crime. Em termos muito simples, a incongruência está em 
que cais condicionantes são gerados, em larga medida, no plano macro, 
nacional, enquanto a prevenção e a repressão ao crime, no modelo atual, é 
responsabilidade da esfera estadual. E os governadores, como se sabe, pou­
co podem fazer para acuar sobre variáveis como emprego, nível de renda, 
habitação e programas compensatórios de renda. 
Um último ponto decisivo diz respeito à forma como a sociedade deve 
avaliar o desempenho dos governantes na segurança pública. Trata-se de 
E c a N C M IA o a C R I M E 1 59 
substituir o critério de avaliação das variáveis volume de investimentos e 
número de policiais e veículos, além de outros indicadores chamados de 
operacionais, por critérios e indicadores que retracem o comportamento 
das taxas de crimes. É claro que a decisão de um dirigente público de am­
pliar os gastos em segurança pode revelar, de algum modo, algum grau de 
prioridade no contexto das políticas governamentais. No encanto, mais im­
portante do que os volumes financeiros ou físicos é saber se os recursos 
correntes ou adicionais produzem melhores resultados canto em quantida­
de como em qualidade, no caso, menos crimes e melhorias na prestação 
dos serviços. 
As diretrizes sugeridas cenamence não são as únicas possíveis ou necessá­
rias para reduzir a criminalidade no Brasil, mas calvez sejam um bom ponto de 
partida. Se tivermos um programa básico, como o que acabamos de resenhar, e 
soubermos aplicá-lo com seriedade, sobretudo com continuidade, os resulta­
dos com certeza serão positivos. 
1 60 L u i z TAD E U V 1 A P I A N A 
N aTAS 
INTRODUÇÃO 
Vários aspectos dessas teorias serão referidas ao longo deste livro. Uma exposição mais 
ampla e detalhada da teoria das oportunidades pode ser encontrada nas seguintes 
obras: "Crime and Everyday Life", de Marcus Felson; " The Routine Activity Aproach", 
também de Marcus Felson, publicada em Explaining Criminais and Crime; a teoria da 
Escolha Racional é apresentada nos textos "Situational Crime Prevention", de Ronald 
Clarke e "Modeling Offenders Decisions: A Framework for Research and Policy", de 
Ronald Clarke e Derek B. Cornish, publicado em Crime and justice: An Annual Re­
view of Research, organizado por Michael Tonry e Norval Morris; finalmente, uma 
boa apresentação da teoria da dissuasão pode ser encontrada em "Reconceptualizing 
Decerrence: An Empirical Tese of Personal and Vicarious Experiences", de Raymond 
Paternos ter e Alex Piquero, publicado no journal of Research in Crime and Delinquency 
31; no texto "An Reconceptualization of General and Specific Deterrence", de Mark 
Stafford e Mark Warr, publicado em Criminological Theory - Past to Present e, tam­
bém, nos vários escudos de Steven Levite. Ver bibliografia. 
2 A abordagem teórica conhecida como life course (curso da vida) envolve uma aborda­
gem multidisciplinar. Contém elementos da história, biologia, psicologia e sociologia. 
De acordo com Elder, essa perspectiva não é uma teoria explícita, mas uma nova 
forma de pensar sobre o escudo da vida humana e seu desenvolvimento. Ela parte de 
quatro premissas fundamentais: a primeira delas é que o crescimento e as mudanças 
no desenvolvimento da pessoa devem ser vistos como um processo contínuo que ocorre 
durante toda a vida. Isso implica levar em conta que a pessoa muda durante toda a sua 
existência e não apenas na infância ou na adolescência, mudanças que ocorrem nas 
dimensões biológica, psicológica e social. A segunda premissa é que na trajetória da 
pessoa as diferentes dimensões - a b iológica, a psicológica e a social - estão 
interconectadas, uma influenciando a outra. A terceira premissa é que o desenvolvi­
mento humano é influenciado pelas condições sociais e históricas. Tais influências 
referem-se a experiências pessoais no âmbito da família, da escola, no relacionamento 
com amigos, no trabalho ou eventos que ocorrem com pessoas próximas, como tam­
bém macroeventos, como mudanças sociais e econômicas que acabam se refletindo na 
trajetória de vida dos indivíduos. Um exemplo dessas mudanças é a tendência de o 
E c a N C M IA oa C R I M E 1 6 1 
mercado de trabalho exigir cada vez mais educação e habilidades técnicas, e de desva­
lorizar o trabalho manual, atingindo os jovens com baixa escolaridade e sem conheci­
mentos técnicos. A alternativa é estudar mais ou procurar empregos menos bem re­
munerados. Surge, assim, um gap entre a idade em que os jovens estão fisicamente 
maduros e a idade em que eles se tornam socialmente maduros. Esse fenômenofoi 
chamado de gap maturity e é citado como um importante fator responsável pelo cres­
cimento dos crimes praticados por jovens. A premissa final decorre das demais e con­
siste em que os esforços para otimizar o desenvolvimento humano, através de inter­
venções corretivas e preventivas, deve levar em conta períodos e idades específicas ao 
longo de toda a vida das pessoas e não apenas a infância ou a adolescência. Michael 
Benson lembra pesquisas que mostram que a criação de oportunidades de emprego 
reduza a incidência entre criminosos velhos mas tem pouco efeito sobre os criminosos 
jovens. No livro Crime in the Making, com o amparo de vasta comprovação empírica, 
Robert Sampson e John Laub ( 1 995) defendem três teses: a de que os contextos estru­
turais, mediados pelo controle informal exercido pela família e pela escola, explicam a 
delinqüência na infância e adolescência; que existe continuidade do comportamento 
anti-social da infância para a idade adulta em várias formas; e que o controle informal 
na idade adulta exercido pela família e pelo emprego explica mudanças no comporta­
mento criminal, a despeito da propensão adquirida na infância ou na adolescência. 
3 A teoria da desorganização social surgiu a partir das pesquisas elaboradas por Clifford 
Shaw e Henry Mckay nos subúrbios de Chicago e que resultaram no livro "juvenile 
Delinquency and Urban Áreas", publicado originalmente em 1 942. A proposição bási­
ca dessa teoria é que o crime não pode ser entendido a partir das características dos 
indivíduos, mas através do estudo das características do meio onde vivem. Controlan­
do as características dos indivíduos, eles concluíram que as taxas de crimes eram mais 
altas nas comunidades mais desorganizadas, entendendo-se, como tal, zonas de po­
breza persistente, crescimento populacional mais rápido, composição heterogênea e 
famílias desestruturadas. Em tais condições, o controle social informal desaparece ou 
se manifesta de forma tênue, abrindo espaço para o crime. O crime não é conseqüên­
cia direta da pobreza, mas o resultado do enfraquecimento dos valores e dos laços 
sociais, portanto do controle informal da comunidade sobre seus membros. A teoria 
da desorganização social propõe, assim, um deslocamento do foco da análise das ca­
racterísticas dos indivíduos (agressores) para as características do ambiente social e 
suas conseqüências sobre os mecanismos de controle informal. 
PARTE 1 
Dados constantes em A Violência sem Retoque, p. 1 1 8 e 1 1 9. (Teixeira, 2002) 
· 2 Ver Mapa da Violência IV, Unesco, Instituto Ayrton Senna e Secretaria Especial de 
Direitos Humanos. 
3 O estudo foi realizado pelos economistas Luiz Tadeu Viapiana e Julio Brunet, dispo­
nível no site www.scp.rs.gov.br. 
4 Os últimos dados disponíveis referem-se ao ano de 2004. Segundo esses indica­
dores, Pernambuco passa a ter a maior taxa de homicídios do país (49,4 por 100 
1 6 2 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
mil habitantes), seguido pelo Espírito Santo (48,3) , Rio de Janeiro (47,2) e Ala­
goas (34,8). Os Estados com as menores taxas são Santa Catarina e Piauí ( 1 0,9), 
Rio Grande do Norte ( 1 1 ,6) , Maranhão ( 1 2 , l ) e Bahia ( 1 6,5 ) . O destaque é a 
queda observada em São Paulo, de 32% entre 200 l e 2004, a maior entre todos 
os Estados que reduziram suas taxas. Por outro lado, merece registro o aumento 
das taxas de homicídios observado em Minas Gerais (74%) , no Pará (47%) e na 
Paraíba (37%) . Para o país como um todo, houve uma pequena oscilação negativa 
(-4%) entre 200 1 e 2004, insuficiente para fazer com que a taxa para o Brasil 
como um todo mude de patamar. 
5 Ver Conglomerados de homicldios e o tráfico de drogas em Belo Horizonte, Minas Gerais, 
Brasil, de 1995 a 1999, de Cláudio Beato e colegas, publicada no Cadernos de Saúde 
Pública, 200 1 . 
6 Ver Detecção de aglomerados espaciais de óbitos por causas violentas em Porto Alegre, Rio 
Grande do Sul, Brasil, de Simone M. Santos e colegas, publicado em Cadernos de 
Saúde Pública, 200 1 . 
Os dados e a citação estão em Crime & Human Nature, p . 1 26 e ss. 
8 Idem. 
9 Ver Crime Drop in America, Blumenstein e Wallman (2000). 
10 Idem. 
Pesquisa de Vitimização 2002 e Avaliação do PIASP, Ilanud, FIA-USP, e Gabinete 
de Segu.rança Institucional da Presidência da República, captado na Internet em 
1 0/ 1 2/03 . 
1 2 Segurança, Cadernos do Fórum São Paulo Século XXI, Governo do Estado, SEADE e 
Assembléia Legislativa, s/d, captado na Internet em 201 1 2/04. 
13 Os dados para o Rio de Janeiro e para a cidade de Porto Alegre são das Secretarias de 
Segurança Pública dos respectivos Estados. Os dados para o Rio de Janeiro são esta­
duais, mas servem como uma aproximação da evolução da criminalidade na cidade. 
PARTE li 
A opinião está em Crime and Human Nature, 1 998. 
2 A opinião é de Terrie Moffit, em Adolescence-Limited and Life-Course-Pmistent Anti­
social Behavior: A Developmental Taxonomy, citada por Dryden e Witt (2000). 
3 A curva de oferta de crimes teria a seguinte configuração: 
Quantidade de crimes 
E c c N C M IA o c C R I M E 1 6 3 
4 A curva de oferta de crime considerando-se os criminosos como um grupo fica assim: 
Quantidade de cri 
5 Supondo que PI seja constante e que O seja a nossa curva de oferta de crimes, a quantida­
de de crimes é dada por Q 1 . Se O' for nossa nova curva de oferta, a quantidade de crimes 
será Q2. Como Q2 é menor que Q 1 , essa curva (O') é claramente melhor para a sociedade 
do que a anterior (0). Fonte: Hellman e AI per, Economics of Crime, 1 996, p. 55 e ss. 
02 01 
Quantidade de cri 
6 A ONU considera a evolução dos indicadores de apreensões como sendo compatíveis 
com os dados disponíveis sobre a ev9lução da produção e do consumo. Por isso, du­
rante muitos anos, os dados de apreensão foram considerados um "bom indicador" 
das mudanças dos padrões da produção e do tráfico das drogas ilícitas e como um 
indicador indireto da extensão e da evolução dos problema das drogas como um todo. 
Ver World Drug Report, 2004, ONU, p. 36. 
The Economics o/Crime and Drugs, de Chris Doyle e Jennifer C. Smith, University of 
Warwick, 2002, p. 3. 
8 Ver Crime in United States, capítulo 1 2, p. 483. 
9 Alcohol and Other Drugs, Center for Substance Abuse Prevention. Captado na Inter­
net em 20/ 1 0/04. 
10 Os dados estão em A história familiar e a prevalência de dependência de álcool e tabaco 
em área metropolitana na região Sul do Brasil, publicado na Revista de Psiquiatria Cli­
nica e disponível na Internet em: www hcnet usp br/ipq/reyjsra/r263/arrigo(84) hrm, 
de Sandra. O. Vargas Nunes e outros. 
SPDemográfico, Resenha de Estatísticas Vitais do Estado de São Paulo, maio de 2004. 
12 ver Saude em Movimento, disponível em: www sa11deemmoyjmento com br, captado 
em 1 0/8/05. 
1 64 Luiz TAD E U V I A P I A N A 
13 Ver And Economic Analysis of Alcohol, Drugs and Violent Crime in The National Crime 
Victimization Survey, em www nber org Os estudos são de Pernanen, 1 98 1 e Fagan, 
1 993. As referências completas estão na bibliografia. 
1 4 Substance Abuse and Treatment State and Federal Prisoners, 1 997. 
1 5 Profile ofjail lnmates, 1 996, NCJ 1 64620, April 1 998. 
1 6 Prior Abuse Reported by lnmates and Probationers, N CJ, 1 72879, April 1 999. 
Os dados estão em Fact Sheet: Drug-Related Crime, Drugs & Crime Data, September, 
1 994, NCJ, p. 2. 
1 8 Fatal non-trajfic injuries involving alcohol· A meta-nalysis, de G.S. Smith, C.C. Branas 
e T.R. Miller, citado pelo Center for Substance Abuse Prevention. 
19 Os dados estão em Alcohol and Crime, and Analysis of National Data on the Preva­
lence of Alcohol lnvolvemente in Crime, Washington, DC: U.S . Departament of 
Justice, 1 998, e em Alcohol and violence: Facts in Brief da Trauma Fundation, 
WWW tforg 
2º Organização Mundial da Saúde, OMS. 
2 1 Prevalence of drug use: key fobdings from the 200112001, British Crime Survey, Home 
Office, 2002. 
22 Dados em juveniles and Drug.r, Drug Policy lnformationClearinghouse, junho de 2003. 
23 Um dos reflexos do crescente envolvimento de jovens com drogas e crimes é o cresci­
mento das Cortes Juvenis no país. Em 2003 existiam 388 Cortes Juvenis no país, das 
quais 1 78 haviam sido criadas nos dois últimos anos. 
24 Os dados estão em Drugs and crime: the results of research on drug testing and inter­
viewing arrestees, de Trevor Bennet, publicado pelo Home Office, Londres. 
25 Ver Crime in the ivory tower: the levei and sources ofstudents victimization, de Bonnie S. 
Fisher (Universidade de Cincinnati), John J. Sloan (Universidade do Alabarna-Bir­
mingham}, Francis T. Cullen (Universidade de Cincinnati) Chunmeng Lu (Universi­
dade de Chung-Hua, Taiwan}, publicado em Criminology, 36, e citado por Mac­
Coun, Kilmer e Reuter (s/d). 
26 Também citado por MacCoun Kilmer e Reuter s/d. 
27 Também citado por MacCoun Kilmer e Reuter s/d. 
28 Ver An Economic Analysis of Alcohol, Drugs, and Violent Crime in the National Crime 
Victimization Survey. publicado pela N BER, 2000. 
29 O estudo de Cook e Zarkin é Crime and the Business Cycle, de 1 985, citado por Steven 
Raphael e Rudolf-Ebmer em Identifying the Ejfect of Unemployment on Crime, capta­
do na internet em 1 2/3/05. 
30 O estudo de Richard Freeman é Crime and the job Market, publicado em 1 994, dis­
ponível no site www nher org . 
Ver Unemployment and Criminal lnvolvement: An lnvestigation of Reciprocai Causal 
Structures, 1 984. 
32 Os dados são do excelente livro A Ignorância Custa um Mundo, de Gustavo loschpe, 
2004. 
33 Crime Rates and Local Labor Market Opportunities in the Unites States: 1 979- 1 997, 
em The Rewiew of Economics and Statistics, Frebuary 2002, p. 50 
34 Idem loschpe, 2004. 
E c c N C M I A o c C R I M E 1 6 5 
35 Ver Padrões de Criminalidade no Rio Grande do Sul - 1997-2003, de Luiz Tadeu Via­
piana e Julio Brunet, publicado no site www scp rs gov br. 
36 As taxas de homicídio estão diminuindo na cidade de São Paulo, acompanhando um 
movimento de queda que ocorre em quase todas as Capitais. Nos 50 distritos administra­
tivos da cidade, em 2002, a diminuição foi de 1 0% em relação ao ano anterior. Nas 
regiões onde foram desenvolvidos programas sociais e de complementação de renda, a 
queda foi maior, de 1 4%. No Jardim Ângela, especificamente, a taxa de homicídios 
caiu de 1 1 O para 89 por 1 00 mil habitantes. Nessa região, além dos programas sociais, 
foram adotadas novas estratégias de policiamento, com reforço do efetivo e policia­
mento comunitário. 
PARTE Ili 
A referência não é causal, ou seja, os indivíduos não são delinqüentes por terem determi­
nados traços físicos, mas correlacionai, isto é, existe maior presença de delinqüentes entre 
homens com determinados traços físicos. Além disso, é importante lembrar que Lombro­
so afirmava que apenas 40% das condutas criminosas seria explicada pelos traços físicos 
dos indivíduos, sendo o restante, 60%, conseqüência do ambiente social. Dada a enorme 
rejeição às teorias lombrosianas, muitas vezes esse aspecto é ignorado. 
2 Grosso modo, podemos dividir as explicações da criminologia para o crime em duas 
grandes vertentes: a que explica o delito pelo viés social e a que explica o delito pelo 
perfil do indivíduo e sua decisão. O que as diferencia é o peso atribuído à variável 
ambiente. 
3 O modelo econômico do crime é debatido na Parte I I . 
4 A palavra anomia tem origem no grego anomos, com a significando ausência ou ine­
xistência e nomos falta de normas ou lei. 
5 Ver Merton e o Funcionalismo, de Ana Luiza Almeida Ferro, cap. 3. 
6 A teoria de Shaw e McKay é apresentada em juvenile Delinquency and Urban Areas, 
Chicago: University Press, 1 942, e em uma edição revista desse mesmo livro publica­
da em 1 969. 
7 Ver Criminological Theories, p. 1 68 e 1 69. 
8 Publicado em Criminilogical Theory - Past to Present, p. 208 e ss. 
9 A citação está em "An Overview of General Strain Theory", em Explaining Criminais 
and Crime, p. 1 64. 
1 0 Ver "Social Learning Theory of Crime", em Criminological Theory - Past to Present, p. 
142 e ss. 
Ver Tdbula Rasa, de Steve Pinker, capítulo 7. 
1 2 Freud escreveu: "O que [as pessoas] pedem da vida e o que desejam realizar? A respos­
ta mal pode colocar dúvidas. Esforçam-se por alcançar felicidade; querem ser felizes e 
assim permanecer. Essa empresa apresenta dois aspectos: uma meta positiva e uma 
negativa. Por um lado, visa à ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, à 
experiência de intensos sentimentos de prazer". A citação está em O que nos Faz Feli­
zes, de Daniel Gilbert, p. 30, São Paulo: Editora Campus, 2006. 
1 6 6 L u i z TAD E U V I A P I A N A 
PARTE IV 
Além disso, a noção de que a Justiça efetivamente funciona contribuiria para aumen­
tar a percepção acerca da certeza da punição, inibindo a opção pelo crime. 
2 Conforme demonstra Steven Levite no paper Why Do lncresead A"est Rates Appear to 
Reduce Crime: Dete"ence, Incapacitation or Measurement E"or e Naci Mocan e Daniel 
Rees em Economic Conditions, Dete"ence juvenile Crime. 
A proposição 8 é uma espécie de projeto de lei que abrange crimes repetidos de homi­
cídio, roubo, assaltos com armas, furtos a residências e estupros. Foi aprovado em 
plebiscito realizado em 1 982. 
4 O estudo é Using Sentence Enhancements to Distinguish between Dete"ence and lnca­
pacitation, publicado no journal of Law and Economics, em 1 999 (42). 
5 O estudo é The economics of crime dete"ence: a survey of theory and evidence, Kyklos, 
41 :2, p. 30 1 -23. 
6 Specification Problems, Police Leveis, and Crimes Rates, Criminology, November, 34, p. 
609-46. 
A time-series anafysis of crime, dete"ence, and drug abuse in New York City. American 
Economic Review, ]une, 90, p. 584.604. 
8 Ver Crack and Homicide in New York City: A Case Study in the Epidemiology ofViolence, em 
Crack in America: Demon Drugr and Social justice. Craig Reinarman e Harry Levine, eds. 
Berkeley, California: University of California Press, p. 1 1 3-30, citado por Levitt. 
9 Ver Kleck, Gary, Armed Resistance to Crime: The Prevalence and Nature ofSelf Defen­
se with a Gun, journal os Criminal Law and Criminology, vol. 86, issue 1 , 1 995. Para 
uma visão crítica, ver Hemenway, David, em Survey Research and Selfdefense Gun 
Use: An Explanation of Extreme Overestimates, journal os Criminal Law and Crimino­
logy, 87, 1 997. 
10 Um resumo crítico da literatura sobre o uso defensivo de armas de fogo encontra-se 
em Firearms and Violence: A Crítica/ Review, capítulo 5, The Nacional Academies 
Press, Washington, 2004. 
Ver Kellermann et ai . , Arthur; Gun Ownership as a Risk Factor for Homicide in the 
Home, 329, New Eng. f Med, 1 084, 1 087, 1 993. 
12 Os dados estão em Exclusão Socioeconômica e Violência Urbana, de Sérgio Adorno, 
2002. 
1 3 Idem. 
l4 jornal do Brasil, 1 2/02/2003. 
1 5 Bayley ( 1 994) . 
1 6 Kelling e Coles ( 1 997) . 
A expressão tradicional é usada para designar o modelo de organização e atuação 
policial vigente na maior parte dos países no século XX, com estruturas centralizadas 
e hierarquizadas, cuja atuação segue a dualidade básica de policiamento ostensivo, 
aleatório ou dirigido, e de investigação judiciária. Conforme demonstram vários estu­
dos, a polícia vem incorporando novas metodologias de planejamento e novas táticas 
de ação, mas sem modificar substancialmente sua estrutura. É o caso, por exemplo, do 
policiamento comunitário e de programas de policiamento orientado por problemas, 
E c a N C M I A oa C R I M E 1 67 
bastante comuns nos Estados Unidos. Um dos pontos centrais do debate sobre tais 
experiências é até que ponto a adoção dessas mudanças será compatível com a manu­
tenção de uma estrutura fortemente centralizada e hierarquizada. Em países como o 
Brasil, onde inexistem polícias municipais, esse dilema é maior ainda. Nas poucas 
experiências de policiamento comunitário que tivemos, como a realizada em Belo 
Horizonte, por exemplo, uma das dificuldades enfrentadas foi justamente a resistên­cia dos oficiais da Polícia Militar responsáveis pelos comandos regionais em transferir 
poder para as unidades comunitárias. 
1 8 jornal da Tarde, 2 1 10312002. 
1 9 Ver Fixing Broken Windows, de Kelling e Coles ( 1 997). 
20 As disputas, na realidade, referem-se a questões acessórias, como a competência da 
Polícia Militar de lavrar Termos Circunstanciados, uma espécie de Boletim de Ocor­
rência para crimes menos graves, que enfrente a oposição da Polícia Civil, a quem 
cabe fazer as ocorrências policiais. No fundo, penso que existe um forte componente 
político nessas disputas envolvendo uma luta por acumulação de poder de influência 
junto aos governantes tendo em vista a disputa por recursos e salários. 
2 1 Ver art. 1 44 da Constituição Federal. 
22 Um resumo de estudos feitos em vários países está em "Dos efeitos da quantidade 
de policiais sobre as taxas de criminalidade", em Velha Nova Polícia, de Túlio 
Khan, p. 41 e ss. 
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