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167 UNIDADE 3 TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade, você será capaz de: • compreender o que são territórios ou reinos biogeográficos; • conhecer e aprender a localizar os diferentes tipos de biomas existentes no planeta; • entender o que são paisagens fitogeográficas do reino neotropical e os do- mínios morfoclimáticos brasileiros. Esta unidade está organizada em dois tópicos e em cada um deles você en- contrará atividades para uma maior compreensão das informações apresen- tadas. TÓPICO 1 – OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS TÓPICO 2 – AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 168 169 TÓPICO 1 OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Os seres vivos se movimentam e se distribuem na biosfera. Os padrões de distribuição não são aleatórios, mas dependem de vários fatores abióticos e bióticos, que interagem atualmente ou que interagiram no passado, para constituir conjuntos de hábitats. Por causa dessas interações, esses conjuntos podem apresentar certas correspondências nos limites territoriais de distribuição dos seres vivos. Em outras palavras, podemos dizer que pode existir coincidência no limite de distribuição dos hábitats, o que é indicado pelo nível de endemicidade dos seres vivos, que se dá em diversas categorias ou níveis taxonômicos: ordem, família, gênero e espécie. Isso permite a identificação de territórios de distribuição exclusiva de determinados grupos da flora e da fauna, denominados territórios biogeográficos ou biorreinos. Eles se distribuem hierarquicamente, conforme o nível de endemicidade que está relacionado ao nível taxonômico. 2 TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS Os territórios biogeográficos possuem extensões continentais e se distinguem pelo número elevado de endemismos, geralmente em nível de ordens e de famílias. Os reinos subdividem-se em Regiões Biogeográficas, com endemismos ao nível de subfamílias e de gêneros. Por sua vez, as regiões biogeográficas subdividem-se em Domínios ou Províncias Biogeográficas, compreendendo áreas com elevado número de endemismo ao nível de gêneros e espécies. Os domínios subdividem-se em Setores ou Distritos Biogeográficos, que correspondem a territórios restritos com elevado número de endemismos ao de espécies ou de gêneros, se estes últimos possuírem poucas espécies (LACOSTE; SALANON, 1973; VALDÉS, 1985). UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 170 Os limites dos reinos biogeográficos, muitas vezes, se confundem e se interpenetram, principalmente quando as barreiras biogeográficas não são bem definidas. Essas divisões variam muito, principalmente quando o nível taxonômico é mais restrito. Por isso, existem as faixas de transição, que ligam reinos contíguos e indicam uma passagem gradual de um reino para o outro. Nessas faixas encontram-se espécies de um reino e de outro em convívio e ocupando hábitats diferentes. Por exemplo, na estreita faixa de terras da América Central coexistem espécies tropicais na planície costeira e nas baixas encostas cobertas pela mata tropical úmida e quente, mas nas serras, de clima frio e seco, aparecem espécies próprias de regiões frias. (TROPPMAIR, 1989, p. 176). Inúmeros pesquisadores estabeleceram divisões fito e zoogeográficas para a biota. Destacam-se, dentre tantos, De Candolle (1855), Sclater (1857), Wallace (1876), que criaram as bases das classificações modernas. Entre os autores atuais, destacam-se Schmithuesen (1961), que criou seis reinos, Lemée (1967) com sete reinos, Müller (1973) com cinco e Udvardy (1975) com oito reinos biogeográficos. Hoje, uma das classificações mais usadas é a de Müller (1979, 1980), subdividida em várias sub-regiões. Na sua classificação, Müller (1979, p. 54) estabeleceu os reinos biogeográficos, resumidos no quadro a seguir. Reino Região Localização Holártico Neártica América do Norte, Ártico e Groenlândia Paleártica Eurásia (incluídas Islândia, Canárias, Coreia e Japão) e norte da África Paleotropical Etiópica África, ao sul do Saara. Malgache Madagascar e ilhas oceânicas Oriental Índia Indochina, até a linha de Wallace Australiano Australiana Oceânica Neozelandesa Havaiana Austrália, Nova Guiné e ilhas vizinhas, Oceania, parte da Nova Zelândia, Havaí e demais ilhas do Pacífico. Neotropical - Américas do Sul e Central e Antilhas Arquinótico - Antártida, sudoeste da América do Sul e sudoeste da Nova Zelândia. FONTE: Müller (1979) QUADRO 4 - REINOS BIOGEOGRÁFICOS DE MÜLLER (1979) A divisão entre os reinos Neotropical e Paleotropical e o reino Holártico tem suscitado discussões. Alguns pesquisadores consideram a América Central não uma zona de transição entre os reinos Holártico e Neotropical, mas uma região do reino Neotropical, porque nela predomina a fauna sul-americana e o clima é tropical. Também é difícil traçar os limites entre os reinos Paleotropical e Holártico. Os animais migram com facilidade entre as duas regiões, sobretudo na zona de transição representada pela Península Arábica e pelo norte da África. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 171 A linha de Wallace é uma zona de transição que separa a região Oriental (reino Paleotropical) da região Australiana (reino Australiano) e nela encontra- se uma fauna mista de origem australiana e oriental. Possui também espécies endêmicas, como o macaco de Célebes (Cynopthecus niger). Na América Central, a variabilidade da capacidade de dispersão dos grupos de animais foi o ponto principal que levou a essa diversidade de opiniões. Para os mamíferos e aves, grupos com alta capacidade de dispersão, as condições climáticas e de relevo da América Central não influíram muito, mas, para os anfíbios, répteis e outros, as dificuldades de dispersão foram maiores. O número de espécies sul-americanas é muito maior que as norte-americanas. Ao se traçarem os limites setentrionais das espécies sul-americanas e os limites meridionais dos grupos norte-americanos, podem-se observar dois fatos (MÜLLER, 1979): 1 – as famílias sul-americanas aparecem em maior número; 2 – existe uma barreira natural que marca o limite setentrional das espécies sul- americanas, representada, ao norte da América Central, pela floresta tropical das terras baixas e pelas altitudes de 1.500 metros da Sierra Madre, no México. Acima dessa cota altimétrica, espécies norte-americanas predominam e migram para a América do Sul pelos Andes. O deserto do Saara é outra região de transição cujos limites são incertos. Nela transitam espécies de animais e de plantas dos reinos Holártico (região Paleártica) e Paleotropical (principalmente da região Etiópica). A região central do Saara é mais seca, porém, possui montanhas de clima mais ameno, que atuam como se fossem ilhas ou corredores biogeográficos, por onde migram espécies holárticas em direção ao sul. É também usada pelas espécies etiópicas, que a cruzam no seu movimento para o norte. No período Quaternário, quatro flutuações climáticas marcaram as zonas centrais do Saara: um período úmido, entre 22.000 e 8.500 a.p., seguido por uma fase de aridez que se estendeu de 8.500 a 5.000 a.p. Nova fase de umidade predominou de 5.000 a 2.500 a.p. e, finalmente, o período seco atual, desde 2.500 a.p. O atual lago Tchad é um resíduo dos diversos lagos quaternários que se sucederam nas flutuações climáticas. (MÜLLER, 1979, p. 61). Essa sucessão de condições climáticas criou refúgios, que isolaram as populações de animais e estabeleceram uma fauna particular, típica de desertos. No entanto, essa fauna aparece em zonas áridas da Índia, o que mostra a existência de corredores antigos entre as duas regiões, ativos possivelmente durante a existência do continente de Gondwana. Esse fato justifica a união das regiões Oriental e Etiópica no reino Paleotropical. Aparecem,nas duas regiões, inúmeras espécies de animais, como o elefante, o camelo, o rinoceronte, aves diversas, anfíbios. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 172 Por outro lado, é pequeno o número de famílias de aves endêmicas em cada região. Das 67 famílias de aves existentes nas duas regiões, apenas quatro são endêmicas da região Etiópica e uma da Oriental. Dos 267 gêneros de aves que habitam as regiões, 69 espécies são etiópicas e se estendem até a Índia, ao passo que, destas, 63 aparecem na Europa (MÜLLER, 1979). Outra região de transição entre os reinos Holártico e Paleotropical aparece na China, bastante modificada pela ocupação humana, especialmente depois da chegada dos europeus. As matas subtropicais originais foram totalmente erradicadas e a fauna florestal substituída por espécies adaptadas ao campo aberto. A última zona de transição acha-se nas regiões meridionais da América do Sul e da Nova Zelândia e as separa do reino Arquinótico. Muitas famílias de plantas e de invertebrados atuais mostram estreita relação nessas regiões, cujas origens estão no período Terciário. Na atualidade, grupos imigrantes antigos e modernos nos diversos reinos se superpõem uns aos outros. Origina-se aí uma confusa complexidade, que tende a se acentuar simultaneamente ao avanço da intervenção humana nos geossistemas. Contudo, cada reino ainda conserva as suas peculiaridades. FIGURA 83 – OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS FONTE: Müller (1979) TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 173 Como foi dito antes, o problema dos limites suscita muitas discussões, eles são bem definidos apenas quando existem acidentes geográficos como montanhas, desertos e oceanos, que também atuam como barreiras (TROPPMAIR, 2002, p. 131). Resumimos no Quadro 6 alguns exemplos de grupos da flora e da fauna de cada reino biogeográfico, para ilustrar importantes endemismos que serviram de indicação da delimitação desses territórios. Reino Fauna Flora Holártico Mamíferos: Ursidae (ursos), Canidae (cães, lobos, coiotes), Cervidae (cervos e alces), Bovidae (búfalo, bisão), Castoridae (castores), Erinaceídae* (ouriço), Didelphidae** (gambás), Procionedae** (quatis). Aves: Regularidae (saracura), Tetraonidae (urogalo), Alcidae (papagaio-do-mar), Ciconidae* (cegonha), Cuculidae* (cucos), Turdidae* (rouxinóis), Vulturidae** (abutres). Peixes: Acipenseridae (esturjão), Percidae (perca), Salmonídae (salmão e truta). * * Exclusiva da Região Paleártica. * Exclusiva da Região Neártica. Betulaceae (arbustos e árvores como as avelanzeiras); Salicaceae (choupo, álamo), Ranunculaceae (ranúnculos), Moráceas (amoreiras). Paleotropical Mamíferos: Giraffidae (girafa), Hippopotamidae (hipopótamos), Hyaenidae (hiena), Pongidae (gorila, chimpancé), Felidae (leão), Elephantidae (elefante), Equidae (zebras). Aves: Struthioniformes (avestruz), Galliformes (galinhola). Gêneros Pelargonium (gerânios), Khaia (ébano), Cola (árvore produtora de alcaloide). Australiano Ordem Monotremata (équidna, ornitorrinco), Macropodidae (canguru), Phascolarctos cinereus (coala), Casuarius casuarius (casuar), Dromaius novaehollandiae (emu). Gênero Eucalyptus. Neotropical Mamíferos: Cebidae (macacos), Callithricidae (saguis), Myrmecophagidae (tamanduás), gênero Lama (lhama, vicuña, guanaco). Aves: Trochilidae (beija-flores), Tinamiformes (perdizes), gênero Rhamphastos (tucanos). Cactaceae (cactos), Bromeliaceae (bromélias), gênero Hevea (seringueira). Arquinótico Aptenodytes forsteri (pinguim-imperador), Pycoscelis adeliae (pinguim-de-adélia). Deschampsia antarctica. Colobanthus crassifolius. FONTE: Lacoste; Salanon (1973); Pereira; Almeida (1996) QUADRO 5 - FAUNA E FLORA MAIS COMUNS DOS REINOS BIOGEOGRÁFICOS 2.1 REINO HOLÁRTICO O reino Holártico é restrito ao Hemisfério Norte. Compreende a Europa, incluindo a Islândia, a Sibéria, os países asiáticos, incluindo a Coreia e o Japão, o norte da África e a América do Norte, exceto o México. O reino Holártico tem uma fauna e uma vegetação bem diversificadas. À época da Pangea, o reino foi parte dos continentes de Gondwana e Laurásia. No início do Paleoceno, a América do UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 174 Norte e a Eurásia constituíram um bloco ligado à África por um estreito istmo, que separava o Atlântico Norte, recém-aberto, do Mar de Thetis, entre a Eurásia e a África. No Mioceno, a América do Norte separou-se da Eurásia, iniciando um movimento para o sul. Posteriormente, por meio de um conjunto de ilhas, que veio a constituir o istmo da América Central, ligou-se à América do Sul. A ligação da América do Norte com a Eurásia explica a semelhança verificada atualmente entre a fauna e a flora de ambos continentes. No reino Holártico aparecem os biomas da tundra, taiga, floresta temperada decídua, estepes e pradarias, desertos e vegetação mediterrânea, que abrigam uma fauna muito variada. “A riqueza de biomas no reino se deve a uma complexa rede de interações, cujo centro está nas condições climáticas, que levou ao desenvolvimento de paisagens variadas e antigas”. Strahler (1984, p. 244) e Strahler; Strahler (1996, p. 184) classificaram o clima do reino Holártico no grupo climas de médias latitudes e no de altas altitudes, que variam desde o clima de tundras, no norte do Canadá e Alaska e no norte da Sibéria, até um clima subtropical úmido, no sul dos EUA, passando por clima mediterrâneo, desértico e de montanhas. O reino Holártico subdivide-se em duas regiões: a região Paleártica, que engloba a Eurásia e o norte da África, excluindo-se a zona de transição com o reino Paleotropical, e a região Neártica, representada pela América do Norte e a Groenlândia. O bloco continental Europa-Ásia-África é contínuo e permite um trânsito relativamente constante de animais e plantas em todos os sentidos, respeitando-se as barreiras montanhosas, que se interpõem às rotas (Montes Urais, Stanovoi e Verkhianski, Cárpatos, Cáucaso, Bálcãs, Alpes etc.) e, acima de tudo, a presença do homem. 2.2 REINO PALEOTROPICAL O reino Paleotropical aparece na África e no Oceano Índico, onde se limita com o reino Australiano. Três regiões biogeográficas o compõem: região Etiópica, região Malgache e região Oriental. Nele aparecem biomas de deserto, estepe, savana e a floresta tropical úmida. No reino Paleotropical predominam climas tropicais e subtropicais, que dão características um pouco diferentes aos desertos e estepes, embora as semelhanças com seus homônimos do reino Holártico sejam maiores que as diferenças. Os climas encontrados no reino Paleotropical são todos tropicais, exceto os de altas montanhas. De acordo com a classificação de Strahler (1984, p. 247) e de Strahler; Strahler (1996, p. 185), os climas que aparecem neste reino são o tropical árido, o subtropical árido, o mediterrâneo, o tropical com duas estações (seco-úmido) e o equatorial. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 175 2.3 REINO AUSTRALIANO O que mais chama a atenção no reino Australiano é a sua fauna endêmica, consequência do isolamento desde o Mesozoico Inferior. O reino inclui a Austrália, Nova Caledônia, Tasmânia, o centro-norte da Nova Zelândia, Nova Guiné, Polinésia e Havaí. O reino Australiano é um dos mais ricos em formações fitogeográficas, abrangendo quase todas as formações do planeta – desertos, estepes e pradarias, savanas, floresta temperada decídua, floresta tropical úmida e o chaparral. Da mesma forma, apresenta uma variedade climática significativa. De um modo geral, as faixas climáticas do reino Australiano são estreitas na Austrália, mas as incontáveis ilhas da região resumem-se a apenas um tipo de clima, com algumas poucas exceções. Segundo Strahler; Strahler (1996, p. 185): aparecem os seguintes tipos climáticos na região: nas ilhas que circundam a Austrália, o clima equatorial úmido predomina na Nova Guiné, Nova Caledônia,Fiji e Havaí; no centro da Nova Guiné, uma alta cadeia de montanhas, com altitudes acima de 4.000 metros, constantemente batida pelos alísios de nordeste, com clima tropical seco; na Nova Zelândia e na Tasmânia predomina o clima marítimo da costa ocidental. Na Austrália, o clima no litoral é úmido e o interior apresenta climas sucessivamente mais sazonais até chegar ao deserto, no centro do país. No litoral oriental australiano, o domínio é do clima subtropical úmido, verão quente e úmido, invernos suaves e chuvas bem distribuídas ao longo do ano, trazidas pelos alísios de sudeste, com predomínio no verão. O excesso de umidade facilitou o crescimento da floresta subtropical úmida, que se estende apenas por duas pequenas regiões. No litoral sudeste, ventos frios de oeste originaram um clima com verões quentes e invernos frios e chuvosos. Em direção ao interior, uma extensa e estreita faixa de clima tropical seco margeia o deserto, desde o norte até o sul, com temperaturas elevadas durante todo o ano. No litoral norte aparecem duas pequenas faixas, separadas pelo mar, do clima tropical sazonal, com chuvas no verão (dezembro/ março) e seca no inverno (junho/agosto). No litoral sudoeste ocorre uma estreita porção de clima mediterrâneo com inverno úmido e verão seco. Finalmente, no interior, predomina o clima desértico, com massas continentais secas e quentes. (STRAHLER; STRAHLER, 1996). A chamada linha de Wallace separa o reino Australiano do reino Paleotropical. A linha de Wallace passa entre a Nova Guiné e a Indonésia e separa as faunas asiática e australiana. Entre os anos de 1854 e 1862, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913), ao explorar a região, sugeriu que o estreito de Makassar, que separa a ilhas de Borneo e Sulawesi (ou Célebes), na Indonésia, divide nitidamente as faunas dos dois reinos em duas porções – a oeste, a fauna asiática, e a leste a fauna australiana. Em homenagem a Wallace, a linha foi batizada com o seu nome. O estreito de Makassar é profundo – ele fica sobre a placa Indo-Australiana – e é improvável que, no passado, houvesse UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 176 existido uma ponte de terra entre os reinos, mesmo nas maiores regressões do mar. Muitas espécies de pássaros não cruzam o estreito, que não é largo - embora muitas transitem normalmente pelas ilhas. Os trabalhos de Wallace o levaram a ser considerado um dos precursores da Biogeografia. Para entender as atuais flora e fauna australianas devemos recorrer à paleobiogeografia. No Cretáceo médio, a Austrália e as ilhas faziam parte de Gondwana. Com a separação dos continentes, a Austrália moveu-se para o norte até meados do Eoceno (há 54 MA), quando se isolou por completo do restante dos continentes. Em latitudes mais baixas, o clima mudou de temperado frio para uma variedade de climas à medida que o continente se assentava na sua posição atual – climas mediterrâneo, desértico, temperado, tropical e subtropical. (FURLEY; NEWEY, 1986). No Pleistoceno, a Austrália teve uma fase úmida seguida de um período seco, este, entre os anos 18.000 e 16.000. A alternância entre os dois períodos levou a uma redução do nível do mar e originou uma ligação entre a Austrália e a Nova Guiné, que emergiu e submergiu várias vezes. Essa ponte só se interrompeu em definitivo entre os anos 8.000 e 6.500. “A floresta tropical úmida da Nova Guiné pôde, então, colonizar o litoral nordeste da Austrália, juntamente com a fauna típica” (MÜLLER, 1979, p. 72). Savanas e estepes (campos) predominam na paisagem australiana. As florestas equatoriais formam duas estreitas faixas no litoral nordeste. “As maiores florestas encontram-se no litoral norte – são as florestas de monções, sempre verdes, com palmeiras, atingida por ventos alísios, que se mistura a savanas arbóreas e estepes” (STRAHLER; STRAHLER, 1996, p. 548). “No interior, quando as precipitações escasseiam, a savana e os bosques de árvores esparsas passam a ter o domínio”. (WALTER, 1986, p. 176). No litoral ocidental, com clima mediterrâneo, destacam-se grandes florestas de Eucalyptus spp. As chuvas caem no inverno e o verão é seco. As chuvas são trazidas pelas frentes polares, que predominam no inverno – 650 a 1.250 mm/ano. No verão, o domínio pertence às massas tropicais continentais, quentes e secas. Os solos em que estão as florestas de eucaliptos são arenosos e bem drenados, o que os torna secos e limitantes para uma floresta mais densa. As florestas de eucaliptos são abertas, o que permite um sub-bosque esparso. Apesar disso, há cerca de 6.000 espécies de plantas vasculares, das quais aproximadamente 3.500 são endêmicas na região (WALTER, 1986). No sul, a espécie dominante Eucalyptus diversicolor pode alcançar 85 metros de altura, enquanto no sub-bosque, samambaias têm mais de 1,5 metro de altura. O gênero Eucalyptus, da família Myrtaceae, forma um arco em todo o litoral e penetra para o interior, onde escasseia nas proximidades da zona árida central. São xerófitos e perenefólios, com folhas coriáceas e duras, mas as raízes podem extrair muita água do solo, mesmo nos locais em que a maioria TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 177 das mesófitas tem dificuldade em obtê-la (FURLEY & NEWEY, 1986). Pouco exigente, o eucalipto pode se desenvolver em solos com deficiência de nutrientes e água. Sua ocorrência depende das chuvas no litoral, da topografia, dos solos, da rede de drenagem, de incêndios e do uso da terra. Nas regiões com chuvas de inverno do sul, as florestas de eucaliptos são densas e bem desenvolvidas. No interior, aonde as chuvas vão, pouco a pouco, escasseando, a floresta é aberta, com o solo recoberto por gramíneas. Nas regiões ao norte e ao leste, com 250 mm/ ano de chuva, o eucalipto não se desenvolveu, formando apenas moitas de uma variedade raquítica chamada localmente mallee, expressão aborígene (FURLEY; NEWEY, 1986; WALTER, 1986). Nas regiões em que a estiagem chega a sete meses, as savanas substituem as florestas de eucaliptos. “Os incêndios naturais são comuns nas florestas mistas com eucaliptos e nas savanas. Muitas espécies só florescem após um incêndio’’. Walter (1986, p. 179) relaciona vários gêneros pirófilos nas savanas. Segundo Furley e Newey (1986, p. 262): As savanas se distribuem, na Austrália, de acordo com as chuvas. Quanto maior o índice pluviométrico, maiores são as espécies de gramíneas que as recobrem. Nas regiões litorâneas, onde o índice é superior a 1.500 mm/ano, medra uma savana com gramíneas altas. No interior, em solos férteis, em que grandes propriedades usam métodos modernos para a agricultura e para o pastoreio de ovelhas, com índices menores, aparece uma savana de gramíneas baixas. Finalmente, nas zonas semiáridas do interior, a savana xerófita ocupou solos pobres e com pouca água. Prezado(a) acadêmico(a)! Para conhecer mais sobre espécies de plantas vasculares, acesse o site: <http://en.wikipedia. org/wiki/Australasia_ecozone>. Acesso em: 13 jul. 2010. NOTA A floresta tropical úmida sempre verde aparece em todas as ilhas que rodeiam a Austrália, embora, nela própria, não seja comum. Nas ilhas Célebes, o arquipélago das Molucas tem o maior endemismo de aves em todo o mundo. O gênero Agathis da família Araucariaceae é encontrado nesse arquipélago. Na Nova Guiné, a maior ilha do reino Australiano, na floresta tropical é encontrada a maior borboleta do mundo, a chamada borboleta da rainha Alexandra (Ornithoptera alexandrae), e a ave do paraíso (Paradiseae rudolphi), que é endêmica. A floresta baixa guineana comporta 1.200 espécies de árvores. Nas ilhas Salomão convivem 148 espécies de pássaros, das quais 60 são endêmicas. Na UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 178 Nova Caledônia existem2.900 espécies de plantas vasculares (80% endêmicas), duas espécies de Araucaria, 15% de gêneros endêmicos e 5% de famílias endêmicas. (FURLEY; NEWEY, 1986). A ilha da Tasmânia tem clima marítimo das costas ocidentais, com verões quentes e invernos frios e chuvosos. Nas montanhas, acima de 1.500 metros, com menos chuvas, predomina a savana com árvores esclerófilas e gramíneas curtas. No litoral úmido, batido pelas frentes polares, predominam árvores do gênero Nothofagus, típico de clima temperado do hemisfério Norte, e a samambaia arborescente Dicksonia, com três metros de altura. No interior, a floresta temperada, com mais de 800 espécies, depende dos incêndios naturais. “O eucalipto predomina e pode ultrapassar os 100 metros de altura” (WALTER, 1986, p. 187). É o hábitat do marsupial diabo-da-Tasmânia (Sarchophilus harrisii), do équidna (Tachyglosus aculeatus), do ornitorrinco (Ornithorhyncus anatinus), do lobo-da-Tasmânia (Thylacinus cynocephalus) etc. Na Nova Zelândia, nas florestas subtropicais, aparecem as coníferas gimnospermas Podocarpaceae, Cupressaceae e Araucariaceae. Dentre as angiospermas, faias do gênero Nothofagus são as espécies dominantes. Lianas e epífitas recobrem os galhos e os troncos das árvores. Em toda a floresta subtropical, a espécie dominante é a Araucariaceae Agathis australis. No quadro a seguir vê-se uma lista dos desertos australianos: Estado/Território Nome Extensão (km2) Austrália ( % ) WA, SA Great Victoria 348 750 4.5 WA Great Sandy 267 250 3.5 WA, NT Tanami 184 500 2.4 NT, QLD, SA Simpson 176 500 2.3 WA Gibson 156 000 2.0 WA Little Sandy 111 500 1.5 SA, QLD, NSW Strzelecki 80 250 1.0 SA, QLD, NSW Sturt Stony 29 750 0.3 SA Tirari 15 250 0.2 SA Pedirka 1 250 less than 0.1 - Total 1 371 000 18 FONTE: Auslig Deserts database (1994). Disponível em: <http://www.ga.gov.au/education/facts/ landforms/geogarea.htm>. Acesso em: 24 jul. 2010. QUADRO 6 - DESERTOS AUSTRALIANOS Diversos animais domésticos, como cavalos, gado, cabras, porcos, jumentos, camelos, búfalos, cães, gatos, coelhos e também raposas, foram introduzidos no reino Australiano pelos europeus. O dingo (Canis lupus familiaris dingo), provavelmente criado na Índia e tendo chegado à Austrália entre 4.000 e 3.500 anos, talvez levado pelos antigos maoris, espalhou-se pelo continente e TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 179 pela Nova Zelândia. Raposas, cabras, gatos e coelhos batem todos os recordes populacionais na Austrália. Os gatos têm uma densidade de um indivíduo por quilômetro quadrado, mas os coelhos (Lepus europaeus) ultrapassam o bom senso: somam entre 200 milhões e 300 milhões de indivíduos, para uma população de 20.345.802 pessoas. Na Nova Zelândia, os animais europeus promoveram uma devastação sem paralelo. O cervo vermelho escocês ou cervo europeu (Cervus elephas), aportado à ilha no século XIX, alimenta-se sobretudo de Nothofagus, uma das espécies dominantes na floresta neozelandesa. “De crescimento lento, a vegetação foi praticamente destruída pelo cervo, o que acelerou a erosão do solo em vastas áreas” (WALTER, 1986, p. 189). “Desde a década de 80, os cervos são caçados e levados para fazendas, onde são criados como animais de corte e couro”. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 271). O isolamento da Austrália e das ilhas fez com que a evolução de animais e plantas trilhasse outros caminhos, bem pecualiares, porque não ocorreu a troca de genes com outras populações. Semelhante processo também se deu na América do Sul, embora com menos intensidade. Na Austrália, depois da separação de Gondwana, o único contato se deu com a Nova Guiné, já mencionado antes. Para conhecer mais sobre os animais, sugiro que você, acadêmico(a), acesse os sites: <http://www.animalliberation.org.au/feralint.html.> <http://www.wwwins.net.au/dingofarm/02.html> e <http://www.abs.gov.au>. Acesso em: 13 jul. 2010. UNI A Austrália é a terra por excelência dos marsupiais. Apenas duas famílias de marsupiais aparecem em outros continentes – Didelphidae (gambás) e Caenolestidae (semelhante ao mussaranho). As famílias de marsupiais endêmicas à Austrália são Dasyuridae (gêneros Thylacinus, lobo-da-Tasmânia) Sarcophilus (diabo-da-Tasmânia), Phalangeridae (Phascolarctus, coala), Phascolamidae (Vombatus, vombate), Macropodidae (Megaleia e Macropus, cangurus, Petrogale, wallaby-das- rochas, Lagorchestes, wallaby-lebre, Dendrolagus, canguru-das-árvores) (STORER et al., 1991, p. 715) etc. Totalizam, na Austrália, 16 famílias e 152 espécies de marsupiais. “No século XVII, a Austrália foi denominada Terra psittacorum, por causa do grande número de periquitos” (MÜLLER, 1979, p. 72). Dentre as famílias endêmicas de aves citam-se Dromiceidae (Dromaeus, emu, na Nova Guiné e ilhas), Casuaridae (Casuarius, casuar), Dinornitidae (moas, na Nova Guiné), Apterygydeae UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 180 (Apteryx, quivis), Psittacidae (muitas famílias, pagagaios e periquitos), Cacatuidae (cacatuas) etc. Existem 91 famílias com 826 espécies de aves na Austrália. “Na Nova Caledônia existem 68 espécies de aves, das quais uma é endêmica. Partindo da Austrália, 18 espécies invadiram a Nova Caledônia e evoluíram pela radiação adaptativa”. (MÜLLER, 1979, p. 73). Os répteis endêmicos pertencem às famílias Carettochelyidae (tartaruga-de- água-doce, existente no norte da Austrália e sul da Nova Guiné) e Pygopodidae (Pygopus, lagarto, na Austrália, Tasmânia e Nova Guiné, com 30 espécies). Calcula- se que na Austrália existam 17 famílias de répteis, com 633 espécies estudadas. “Na Nova Zelândia, muitas famílias têm afinidades com as famílias das ilhas do Pacífico e com a América do Sul” (MÜLLER, 1979, p. 74). A Nova Zelândia separou-se de Gondwana e ficou isolada por 80 milhões de anos, o que permitiu que 90% dos insetos e moluscos marinhos, 80% das árvores, fetos e angiospermas, 25% das espécies de pássaros, todas as 60 espécies de répteis, quatro espécies de sapos e duas espécies de morcegos sejam endêmicas. Prezado(a) acadêmico(a)! Para auxiliar seus estudos, acesse os sites:< http://www.deh.gov.au/biodiversity/abrs/online- resources/abif/fauna/afd/stats-est.html - Australian Faunal Directory. Estimated Numbers of Australian Fauna> <http://www.deh.gov.au/biodiversity/abrs/publications/fauna-of-australia/pubs/volume2a/ ar22ind.pdf> e <http://www.deh.gov.au/biodiversity/abrs/online-resources/abif/fauna/afd/ stats-est.html - Australian Faunal Directory. Estimated Numbers of Australian Fauna>. Acesso em: 13 jul. 2010. UNI 2.4 REINO ARQUINÓTICO O termo Arquinótico significa oposto ao Ártico e engloba o extremo sul da América do Sul, Antártica e o sudeste da Nova Zelândia. As condições adversas à vida dificultam o estabelecimento de animais e plantas, de modo que as espécies que lograram se adaptar às condições reinantes são altamente especializadas e de pequeno número de espécies. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 181 Prezado(a) acadêmico(a)! Para conhecer mais sobre o termo Arquinótico, acesse o site: <http://www.inach.cl/portal_ educa/antartica/antartica.html>. Acesso em: 13 jul. 2010. UNI São 13,5 milhões de quilômetros quadrados de gelo, apenas no Continente Antártico. O gelo tem uma espessura média de cerca de 2.000 metros e o Monte Vinson, na cadeia Ellsworth, é o ponto culminante, com 4.897 metros. Cerca de 90% do gelo da Terra estão na Antártica, que correspondem a 70% da água doce do planeta. Juntamente com a América do Sul, África, Austrália e Índia, a Antártica fazia parte do continente de Gondwana. Portanto, a geologia da Antártica é muito semelhante à daqueles continentes. O Continente Antártico foi dividido em duas partes para efeito de estudos: a Antártica Oriental e a Antártica Ocidental. A Antártica Oriental localiza-se ao sul da Austrália e da África. A Antártica Ocidental situa-se ao sul da Américado Sul. A cordilheira Transantártica divide as duas regiões (CUNHA, 1973). “A geologia da parte oriental é constituída pelo embasamento granítico, de idade pré- cambriana. A porção ocidental tem a mesma sequência de rochas sedimentares e ígneas da América do Sul. Os sedimentos estão associados ao sistema andino e têm idade jurássica e terciária”. (MÜLLER, 1979, p. 79). Fósseis antigos encontrados na Antártica comprovam a antiga ligação ao continente de Gondwana. São fósseis de idades cambrianas, ordoviciana e siluriana. Depósitos glaciais de tilito carbonífero recobertos por sedimentos permianos e triássicos encerram fósseis de vertebrados terrestres, camadas de carvão e presença da flora Glossopteris. Essa variedade de fósseis e as evidências geológicas mostram que o clima antártico já foi mais quente do que o atual. As camadas de carvão indicam um clima úmido e quente. A flora de Glossopteris é de idade carbonífera e é contemporânea à do réptil carnívoro Lystrosaurus. (CUNHA, 1973). Da mesma forma que no Polo Norte, a Antártica não tem um ciclo diário dividido em 24 horas. De setembro a março, o Sol paira sobre o horizonte, o que corresponde ao verão austral – o dia no Polo Sul. De março a setembro ele desaparece lentamente, à medida que o outono avança e o inverno o sucede. Quando a primavera retorna, ele ascende no horizonte para clarear nos próximos seis meses. O Sol nunca fica no zênite nos polos e nunca sobe muito além do horizonte. Por essa razão, os polos recebem muito pouca radiação solar e este é um dos fatores das baixas temperaturas. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 182 A massa de gelo se desloca lentamente do centro do continente em direção à periferia. No Oceano Antártico, a plataforma continental tem uma extensão média de 30 quilômetros e, devido ao peso do gelo, é mais profunda do que dos demais continentes. O continente gelado é a fonte da massa de ar antártica (mP), que se forma no anticiclone fixo polar e se deloca sob a forma de fortes ventos, que alcançam velocidades superiores a 100 km/h no litoral. O anticiclone permanente tem inversão térmica muito baixa, fazendo com que o deslocamento das massas quentes superiores para a superfície seja lento. Por esta razão, o contato das massas de ar com a superfície gelada é longo. Dessa forma, elas perdem totalmente o calor adquirido na descida. (NIMER, 1979, p. 11). O vento, chamado de catabático, diverge do anticiclone em direção ao litoral com um desvio constante para a esquerda, devido ao efeito de Coriolis, e atinge velocidades superiores a 100 km/h em razão do forte gradiente de pressão existente entre o interior do continente e o mar. Em alguns lugares do litoral, como no Mar de Weddel, onde há um centro de baixa pressão, para os quais migram as massas antárticas, as tempestades são violentas e podem durar semanas. No interior, as precipitações são de neve, raramente de água líquida. No litoral, o total pluviométrico não ultrapassa os 250 mm/ano. Em todo o continente, o índice médio é inferior a 100 mm de precipitação. A Antártica tem temperaturas bem menores que o Ártico. As razões são as seguintes: 1) no Ártico há maior quantidade de água, que retém melhor o calor. Na Antártica, com muito mais gelo, apenas uma pequena porcentagem do calor é mantida pela água; 2) o oceano reflete cerca de 5% da radiação solar incidente (de ondas curtas) e absorve o restante, liberando-o lentamente. A superfície exposta à radiação reflete entre 15% e 35% da radiação de ondas curtas. O restante é liberado com maior velocidade, o que resfria a superfície. A capa de gelo antártica reflete cerca de 80% da radiação incidente – por isto, existe mais gelo na Antártica que no Ártico; 3) no inverno, o Oceano Glacial Antártico se congela e praticamente dobra o tamanho do continente, impedindo ou dificultando, pois, que a água do mar funcione como um mecanismo moderador das temperaturas. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 183 Prezado(a) acadêmico(a)! Para auxiliar nos estudos e conhecer mais sobre as baixas temperaturas na Antártica, acesse o site: <http://www.iespana.es/natureduca/ant_indice.htm>. Acesso em: 13 jul. 2010. IMPORTANT E A temperatura média anual no interior do continente é de 54o C negativos. Todos os meses têm média inferior a 0o C. Mas no verão no litoral, a temperatura máxima do verão raramente chega a 15o C, registrada na Península Antártica Norte, a região mais aquecida do continente. Em outras regiões litorâneas, a temperatura raramente chega a 5º C. A mínima absoluta da Terra registrou-se na estação russa de Vostok, que está a uma altitude de 3.505 metros e na latitude de 78º28’: -89,2o C, em julho de 1983. O recorde anterior havia sido da mesma estação, em agosto de 1960: -88,3o C. A média anual na estação Vostok é de -56º C, a média no mês mais quente (janeiro) é de -33º C e a máxima absoluta, -21º C. No inverno, no litoral, a média é inferior a -40o C. No Polo Sul, a amplitude térmica varia antre -25º C e -62º C. Altitudes elevadas, o anticiclone polar, que mantém a atmosfera quase sempre límpida, e a baixa umidade atmosférica contribuem para as temperaturas tão baixas, a que se junta a posição do sol sempre no horizonte. A vida no reino Arquinótico enfrenta fatores limitantes severos, representados, sobretudo, pelo clima. Os seres vivos se viram obrigados a um complexo processo de adaptação, muito próximo do limite vital. “O limite meridional das plantas superiores encontra-se a 68o de latitude sul, e, na Antártica, aparecem apenas duas espécies: a gramínea Deschampsia antarctica e a vascular com flores Colobanthus crassifolius” (MÜLLER, 1979, p. 78; WALTER, 1986, p. 294). O restante é representado por musgos, algas terrestres e líquens, que ocuparam esparsamente apenas a costa. A erva C. crassifolius cresce em lugares protegidos do vento, que contenham alguma umidade, especialmente depois do degelo da primavera. Suas flores são brancas e têm menos de 0,5 centímetro de comprimento. D. antarctica e C. crassifolius crescem apenas na Península Antártica e nas ilhas mais setentrionais, que têm temperaturas mais amenas. Segundo Walter, 1986, p. 294: Nas ilhas próximas, as temperaturas são superiores a 0o C no verão, mas o solo litólico e o frio extremo impedem o crescimento de árvores. As baixas temperaturas dificultam a pedogênese e a superfície é coberta por calhaus de pedras. Chuva e neblina ocorrem durante todo o ano e o vento polar varre as ilhas sem parar. A cobertura vegetal das ilhas é representada por musgos, samambaias e líquens. (WALTER, 1986, p. 294). UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 184 Líquens e musgos são as vegetações mais comuns e melhor adaptadas em todo o Continente Antártico, podendo ser encontrados a até 400 quilômetros do Polo Sul. Existem mais de 400 espécies de líquens, 75 espécies de musgos, oito gêneros de hepáticas e 75 espécies de fungos (apenas oito macroscópicas) na Antártica. Nas rochas, onde as aves fazem os seus ninhos, a alga verde terrestre Prasiola crispa é comum. Algas azuis, as cianofícias, são frequentes também. Quanto à fauna, a Antártica tem cerca de 200 espécies endêmicas de peixes, em geral, de tamanho pequeno, com menos de 25 cm de comprimento, raramente chegando a 50 cm. A maioria tem crescimento lento e grande longevidade. O krill (Euphausia superba) é a principal fonte de alimentação da maioria dos peixes antárticos. É um crustáceo muito semelhante ao camarão, que não ultrapassa 6 cm de comprimento e pesa, no máximo, 1,5 g. Existem 85 espécies de krills, que vivem em grupos de milhares e constituem uma biomassa de cerca de 5 bilhões de toneladas. Baleias, aves e pinguins também usam o krill como fonte de energia. As baleias ingerem cerca de uma tonelada de krill num únicoalmoço. O krill integra uma complexa rede alimentar, que começa com os fitoplânctons, o seu alimento. Barcos pesqueiros japoneses e noruegueses o pescam intensamente. As aves antárticas compõem sete famílias: Spheniscidae (pinguins, 18 espécies); Stercorariidae (skuas, duas espécies); Laridae (gaivotas, três espécies); Phalacrocoracidae (cormorão, uma espécie); Procelariidae (petréis, três espécies, e a pomba-antártica, uma espécie); Diomedidae (albatroz, três espécies); Oceanitidae (andorinhas-do-mar, uma espécie). Os pinguins são os representantes mais comuns do reino Arquinótipo. O pinguim-imperador (Aptenodytes forsterii), que pode ter mais de um metro de altura e pesar 40 quilos, e o pinguim-de-Adélia (Pygoscelis adeliae) formam grandes colônias de milhares de indivíduos e são os únicos que vivem ao longo do litoral durante todo o ano. O pinguim-imperador forma colônias de mais de 300 mil indivíduos. O krill é o principal alimento dos pinguins e os seus predadores são a foca-leopardo (Hydrurga leptonyx), a gaivota (Larus dominicanus) e as skuas (Chataracta spp). O estercorário (família Sterchoranïdae), ou skuas, são os maiores predadores do polo Sul. Alimentam-se de aves, filhotes e ovos de pinguins, filhotes de focas, restos de placentas das focas, animais mortos, em adiantado estado de putrefação. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 185 Prezado(a) acadêmico(a)! Quanto às espécies, acesse o site: <http://www.inach.cl/portal_educa/antartica/antartica. html> e <http://www.inach.cl/portal_educa/antartica/antartica.html>.Acesso em: 13 jul. 2010. DICAS Na Antártica ocorrem três espécies de gaivotas: Larus dominicanus, a gaivota-dominicana, Sterna paradisaea, a gaivota-do-Ártico (que nos respectivos invernos voa para o polo oposto no verão) e Sterna vitatta, a gaivota da Antártica. A família Laridae tem 90 espécies de gaivotas, das quais 20 vivem no Brasil. O hábitat preferido são as ilhas Shetland do Sul, que dividem com as focas e pinguins. Alimentam-se de peixes, ovos, roedores pequenos e restos de animais mortos e de plantas. O seu predador mais contumaz é o estercorário. Outras aves na Antártica são o cormorão-da-Antártica (Phalacrocorax bransfieldensis), que pesca a 30 metros de profundidade e prende a respiração por um minuto. No Brasil, o biguá, P. olivaceus, representa a espécie. O cormorão é uma ave cosmopolita e, no reino Paleotropical, estende os seus domínios da Europa Ocidental até a Ásia e a Austrália. Outros procelários (família Procelariidae) na Antártica são Daption capense, o petrel, Macronecte giganteus, o petrel-gigante, Pagoroma nivea, o petrel-das-neves, Chionis alba, a pomba-antártica. O simpático albatroz (família Diomedeidae) é uma das aves mais cosmopolitas, mas a principal concentração se dá no Hemisfério Sul, nas ilhas Shetland do Sul e na Península Antártica. Há três espécies: Diomedea melanophris, o pelicano-negro, D. chrysostoma, pelicano-de-cabeça-cinza, e D. exulans, albatroz comum. Os invertebrados têm poucos representantes – tardígrafos (invertebrados com 1 mm de comprimento), ácaros (parasitas de aves e mamíferos, com menos de 1 mm), colêmbolos (insetos ápteros com 5 mm de comprimento), que vivem sob o musgo (STORER et al., 1991). Dentre os mamíferos marinhos, duas ordens fazem parte da fauna antártica: Carnivora e Cetacea. Dentre os carnívoros estão a foca (família Phocidae) e o lobo- marinho (família Othariidae). As focas estão representadas por diversos gêneros: a foca-elefante ou elefante-marinho (Mirounga leonina), a foca-branca (Lobodon carcinophagus), a foca-leopardo ou leopardo-marinho (Hydrurga leptonyx), a foca de Weddell (Leptonychotes weddelli) e a foca-de-Ross (Ommatohoca rossi). As baleias são os maiores animais da Terra. Na ordem Cetacea incluem- se também os golfinhos. “As baleias são classificadas em duas subordens – Odontoceti, baleias-com-dentes, e Mysticeti, sem dentes” (STORER et al., 1991, p. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 186 721). Na Antártica encontram-se a baleia-azul (Balaenoptera musculus), o maior animal do planeta, com 32 m de comprimento, e filhotes que nascem com 7 m de comprimento, a mink (Balaenoptera acutorostrata), a baleia-de-corcova ou corcunda (Megaptera novaeangliae) e a baleia fin (Balaenoptera physalus), dentre as baleias sem dentes. As únicas baleias com dentes são a orca (Orcinus orca), erroneamente chamada de baleia-assassina, e o cachalote (Physeter catodon) ou baleia-de-espermacete, com 18 m de comprimento. O espermacete é um óleo lubrificante produzido pela baleia, armazenado num reservatório localizado na cabeça. No estômago, ela produz o âmbar-cinzento, muito usado em perfumaria (STORER). Prezado(a) acadêmico(a)! Quanto às espécies de baleias, acesse o site: <http://www.antarcticconnection.com/antarctic/ wildlife/whales/index.shtml> Acesso em: 13 jul. 2010. DICAS 2.5 REINO NEOTROPICAL O reino Neotropical inclui a América do Sul, as Antilhas e grandes extensões da parte oriental da América Central. As condições paleogeográficas e paleoecológicas favoreceram o desenvolvimento e a manutenção de uma fauna e uma flora riquíssima em espécies. O reino Neotropical possui os seguintes biomas: floresta equatorial, floresta tropical, savanas ou cerrados, campos, manguezais e restingas tropicais. As relações existentes no reino Neotropical são muito semelhantes às relações já vistas anteriormente em outros biomas tropicais e equatoriais, mas em razão da localização, da complexidade e da atuação da população humana, os biomas neotropicais apresentam peculiaridades. Por exemplo, a floresta Amazônica, que se estende sob o equador, e a floresta tropical da encosta da Serra do Mar - a floresta Atlântica - exibem características que as diferem uma da outra. A floresta tropical da América Central tem características próprias. O cerrado, que é a savana neotropical, é muito diferente da savana africana ou da australiana, embora as suas relações dinâmicas tenham muitas semelhanças com as outras. Há uma grande e complexa variedade de climas no reino Neotropical, o que levou ao desenvolvimento de hábitats diferentes – desde os superúmidos, como o clima equatorial, até o semiárido da caatinga e o clima de deserto, nas partes mais elevadas dos Andes e nas planícies do centro e do sul da Argentina. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 187 Strahler (1984) e Strahler e Strahler (1996) enquadram os climas neotropicais em dois tipos principais: climas de baixas latitudes e climas de latitudes médias. São climas governados por movimentos de massas de ar e por zonas frontais. As massas de ar que atuam nos climas das baixas latitudes têm regiões- fonte variadas: podem ser continentais tropicais, tropicais marítimas e equatoriais marítimas e continentais. As regiões-fonte encontram-se tanto nas zonas tropicais quanto nas subtropicais e incluem a zona de convergência intertropical, o cinturão dos ventos alísios e partes das células subtropicais de alta pressão. Na faixa de baixas latitudes, os climas predominantes são o equatorial úmido, o clima de monção das costas atingidas pelos ventos alísios, o tropical seco-úmido e o tropical árido (STRAHLER 1984; STRAHLER; STRAHLER, 1996). Os tipos climáticos vão desde o extremamente úmido e quente, como o equatorial, ao extremamente quente e árido, como o desértico. Nas montanhas, como os Andes, as altitudes criam tipos climáticos com características muito especiais e contrastantes, como vertentes a barlaventos com chuvas torrenciais e vertentes, a sota-vento, semiáridas (sombra de chuva). A insolação é elevada nas altas latitudes, devido à rarefação do ar, e a radiação solar incide sobre a superfície quase sem encontrar barreira imposta pela umidade, que é baixa, e pelos aerossóis. A concentração de radiação ultravioleta é altae pode causar danos ao homem e aos animais. As latitudes médias situam-se na zona de confronto de massas de ar tropicais e polares, as zonas de descontinuidades. Nas descontinuidades, a frente polar origina ondas ciclônicas, que se movem, ora na direção do equador, ou retrocedem para o Polo Sul, trazendo chuvas constantes, muitas vezes violentas tempestades. As frentes predominam a partir de meados do outono até meados da primavera seguinte, com uma ligeira queda no inverno, que é dominado, no Hemisfério Sul, pela massa polar atlântica. Na América Central, a atividade frontal é menor, mas ciclones e furacões são comuns. As células ciclonais podem aparecer em qualquer época do ano, sobretudo no verão. Essa variedade de climas com características e propriedades diferentes mantém os biomas no reino Neotropical, mas a presente distribuição da fauna e da flora se deve, sobretudo, à sucessão de fatores paleoambientais e genéticos, paralelamente a flutuações climáticas, que marcaram o Pleistoceno e o Holoceno. As variações dos ecossistemas ocorridas no Quaternário podem ser acompanhadas nos estudos de fósseis vegetais e animais, o que permite formar um quadro preciso dos paleoambientes para entender a paisagem atual. Ao relacionar fatores geomorfológicos, climáticos, fitogeográficos, hidrológicos e ecológicos, Ab'Sáber (1977) agrupou a paisagem sul-americana em três grandes domínios paisagísticos: planaltos intertropicais do Brasil, das Guianas e de parte da Venezuela, que ele chamou de áreas nucleares; domínios transicionais das planuras e baixos platôs meridionais do sul do continente; e domínios de montanhas e altiplanos da Cordilheira dos Andes, controlados pelo clima de altitude. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 188 A essas paisagens integradas, Ab'Sáber (1967, p. 1977) denominou domínios morfoclimáticos e fitogeográficos e as definiu como "[...] um conjunto espacial de certa ordem de grandeza territorial – de centenas de milhares a milhões de km2 de área – onde haja um esquema coerente de feições de relevo, tipos de solos, formas de vegetação e condições climático-hidrológicas". Essas paisagens integradas ocorrem sempre numa área típica, que Ab'Sáber chama de área core ou área nuclear. A área nuclear apresenta as características típicas, que são reflexo dos seus fatores naturais, mas que, à medida que se afasta do centro, vão se alterando gradativamente, para, mais adiante, dar lugar a outra paisagem. Essas áreas de transição compõem corredores que interligam e envolvem as áreas nucleares. Elas resultam de processos diferentes, que originaram vegetação, solos e formas de relevo particulares. (AB'SÁBER, 1977). As áreas de transição são extremamente complexas e podem apresentar fisionomias em mosaico de duas ou várias áreas nucleares, ou mesmo combinações totalmente diversas, que Ab'Sáber (1977) chamou de áreas-tampão – que não têm nenhuma relação direta com as áreas nucleares adjacentes. As paisagens- tampão podem se localizar no centro das faixas de transição e se destacam da paisagem envolvente. Essas paisagens-tampão são formações fitogeográficas que se adaptaram às condições climáticas, edáficas e de relevo das zonas de transição. Ab'Sáber (1977) cita a zona dos cocais, as matas-de-cipó e as matas-secas como representantes mais típicos das áreas-tampão. Na verdade, são refúgios ou enclaves, que se estabeleceram numa época de clima e condições ecológicas diferentes das de hoje. Todas essas variações ambientais estão sujeitas diretamente ao comando de mudanças e flutuações climáticas. As condições climáticas, principalmente as regionais, são, em parte, responsáveis pelas formas de relevo, pelos tipos de solos, pela hidrografia e pela cobertura vegetal (BIGARELLA, 2003; ANDRADE- LIMA; RIEHS, 1975). Segundo o tipo de clima, ocorria a degradação lateral ou a dissecação vertical, que moldavam a paisagem e lhe conferiam tipos específicos de formações geográficas, acompanhadas das respectivas faunas. Bigarella & Mousinho (1965, p. 17) “mostraram, estudando os sedimentos da região de Pariquera-Açu (Estado de São Paulo), que a degradação lateral é típica de um clima semiárido”. Naquela região, a morfogênese mecânica formou superfícies aplainadas e sedimentos grosseiros e finos. A dissecação vertical, característica da decomposição química de climas úmidos e quentes, produziu espessos regolitos, recobertos por densas florestas úmidas. Nas épocas semiáridas, as florestas recuam para os biótopos em que a umidade possa ser mantida e, então, constituem refúgios para a fauna e para a flora. Viadana (2002: 26) cita Bigarella (1964), que estudou depósitos sedimentares em vários lugares do Brasil e mostrou que a ciclicidade do clima fica revelada nos sedimentos, o que permite calcular a idade das formações vegetais atuais. Bigarella (apud Viadana) mostrou, estudando sedimentos quaternários em diversas regões do país, que as glaciações causam a semiaridez, enquanto os períodos interglaciais umedecem o clima. Em 1970, Damuth e Fairbridge (apud TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 189 1990, p. 114; VIADANA, 2002, p. 34) “confirmaram a afirmação de Bigarella (1964, apud VIADANA) e de Leite e Klein, de que nos períodos glaciais o clima é frio e seco e nos períodos interglaciais é úmido e quente”. Essas mudanças atingem diretamente os seres vivos e os obrigam a adaptar- se a elas – ou perecer. Inúmeros refúgios formaram-se no Brasil e na América do Sul, devido a modificações do clima no Quaternário. Os refúgios acabam por se tornar centros de dispersão, de onde espécies de animais e de plantas migram tão logo as condições ambientais externas lhes permitam expandir. 3 OS BIOMAS Os reinos biogeográficos compreendem os biomas, embora os critérios de delimitação estejam baseados mais na forma das plantas submetidas a um tipo climático existente atualmente do que propriamente no nível de endemismo, na sua evolução e nas áreas de dispersão dos seres vivos. Os biomas estão reunidos em quatro grupos principais, também chamados biócoros. São eles: florestas, savanas, estepes (pradarias, campos) e desertos. Os reinos biogeográficos abrigam os seguintes biomas: Reino Holártico – tundra, taiga, floresta temperada decídua, estepes e pradarias, deserto, vegetação mediterrânea. Reino Paleotropical – deserto, estepe, savana, floresta tropical úmida. Reino Australiano – deserto, estepes e pradarias, savana, floresta temperada decídua, floresta tropical úmida, vegetação mediterrânea. Reino Neotropical – floresta tropical úmida, savana, estepe e pradaria, floresta temperada decídua, vegetação de montanhas. A seguir, a descrição dos biomas, independentemente de reino ou região biogeográfica em que se encontram. 3.1 BIOMA DE TUNDRA Nos limites do Polo Norte, entre 50o e 70o de lat. norte, está a tundra – vegetação de porte rasteiro, que enfrenta um clima cujo verão é de 6 a 10 semanas, com apenas quatro meses do ano ultrapassando 10o C, e invernos longos de temperaturas abaixo de zero grau. O nome tundra significa terra nua e deriva do finlandês tunturia. O ecossistema da tundra é muito recente e formou-se no fim UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 190 da última glaciação, há cerca de 10 mil anos, quando o gelo começou a recuar e a expor a superfície nua das rochas. É o maior ecossistema da Terra, recobrindo cerca de 20% do planeta. No Hemisfério Sul, a tundra aparece apenas em pequenas ilhas ao largo da Antártida e Península Antártica. Nas altas montanhas, como nos Andes, ocorre uma cobertura vegetal fisionomicamente muito semelhante à tundra ártica, embora com flora diferente. É considerada tundra altitudinal. A tundra distingue-se por quatro fatores: um período de crescimento vegetativo de menos de 50 dias entre a primaverae o outono seguinte; existência do permafrost, denominação do subsolo sempre gelado; precipitações inferiores a 250 mm/ano concentradas no verão; baixa produtividade das plantas (inferior a 1g de matéria seca por m2/dia), ou seja, a vegetação cresce muito lentamente. As temperaturas são extremas e no mês de julho, o mais quente, elas não chegam a 10º C. No inverno, as temperaturas podem chegar a 50º C abaixo de zero ou menos. As chuvas anuais não alcançam 250 mm. O clima da tundra do Hemisfério Norte é controlado por massas de ar polares e árticas. Além da temperatura, a evaporação também é baixa. As massas árticas dominam no extremo norte da tundra, com os seus centros de alta pressão localizados no Oceano Ártico e na Groenlândia. “No interior dos continentes aparecem massas de ar polares continentais e polares marítimas” (STRAHLER, 1984, p. 307). A frente polar ártica atua durante todo ano com tempestades violentas, que se movem para leste. Embora a tundra ártica cubra uma larga extensão espacial, a composição florística é muito pobre, resumindo-se a musgos, liquens, gramíneas, arbustos e ervas diversas. Não existem árvores na tundra. As baixas temperaturas e os solos litólicos, em sua maioria, determinam faixas de vegetação, que se estendem a partir da taiga (floresta de coníferas, a última linha de árvores). Furley e Newey (1986, p. 225) apontam três faixas: “tundra alta, tundra média e tundra baixa”. As designações não se referem ao porte da vegetação, mas à latitude em que se acham elas. A tundra alta envolve o Polo Norte, aparecendo no litoral setentrional dos continentes e em ilhas ao norte do Canadá. Nas ilhas, a vegetação é muito esparsa, formada por diminutas manchas de líquens, musgos e ervas. Em algumas depressões aparece o salgueiro-anão, a única espécie lenhosa. A tundra média aparece mais ao sul, onde as condições climáticas e edáficas permitem uma cobertura de maior porte, como as urzes sobre solos pobres (charnecas). Predominam juncos e turfas, espécies de áreas pantanosas. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 191 No extremo sul da região estende-se a tundra baixa, que recobre o norte do Canadá, o Alaska, o sul da Groenlândia e vastas áreas da Sibéria. São espécies lenhosas, como moitas de salgueiros e bétulas, ericáceas, musgos, líquens e ervas. “A família Saxifragaceae, plantas herbáceas ou arbustivas lenhosas, pouco comum no Brasil, inclui, dentre outras, o gênero Ribes, de onde se extrai a popular bebida groselha”. (JOLY, 1991, p. 362). A tundra baixa limita-se com a taiga. Entre ambas aparece um ecótono (faixa de transição entre ecossistemas), com espécies de ambas as formações, chamada de floresta da tundra, com manchas de pinheiros, abetos e larícios. Walter (1986, p. 292) tem outra taxonomia para a tundra do Hemisfério Norte: “tundra de arbustos anões, equivalente à tundra baixa (ao sul); a tundra verdadeira de líquens e musgos, semelhante à tundra média; e o deserto frio, com vegetação esparsa entremeada de blocos rochosos soltos e afloramentos correspondendo à tundra alta (no extremo norte)”. O permafrost, camada permanentemente congelada do subsolo, pode atingir, no norte do Hemisfério Norte, centenas de metros de profundidade, reduzindo-se para o sul, chegando até cerca de 25 cm de espessura. O permafrost dificulta o crescimento das plantas superiores, porque as raízes são impedidas de se aprofundar, e reduz a atividade de bactérias e fungos na decomposição da matéria orgânica. A matéria orgânica morta mal decomposta acumula-se na superfície, originando uma espessa camada de turfa. O permafrost impede a infiltração da água do degelo, que também se acumula à superfície e origina outro traço marcante da tundra: milhares de lagos pontilham a paisagem no verão, e se constituem habitats povoados por uma enorme multidão de aves e mamíferos. Urzes são plantas da família Ericaceae, típicas de solos pobres, ácidos e mal drenados. As Ericáceas têm 82 gêneros com mais de 2.500 espécies, que aparecem nas regiões temperadas e subtropicais dos dois hemisférios. São plantas lenhosas, arbustivas, com folhas esclerófilas e flores muito vistosas. No Brasil, é muito comum nos jardins o Rhododendron spp, a azaleia, que floresce no inverno, e a Erica spp. Na Europa, cachimbos de boa qualidade são feitos de madeira de Erica spp. O nome urze foi introduzido pelos portugueses (JOLY, 1991, p. 535). IMPORTANT E UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 192 A umidade do solo regula a distribuição das plantas. Em solos bem drenados, como os litossolos, liquens e musgos predominam. Nos solos não encharcados, como nas encostas suaves de solos castanhos, gramíneas e arbustos anões de Vaccinium spp aparecem ao lado de ervas do gênero Dryas spp. Nos solos alagados dos brejos são comuns ciperáceas como Carex spp, e musgos como Hypnum spp, Sphagnum spp e Aulocomnium spp. As plantas desenvolveram artifícios para enfrentar os fatores limitantes. Como o período favorável é curto, elas têm que aproveitar ao máximo o calor. “A alta latitude reduz a radiação solar e as plantas procuram no calor emitido pelo solo outra fonte de energia para compensar. Por esta razão, não são maiores que 8 ou 10 cm” (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 232). Os talos e folhas do salgueiro-anão (Salix herbacea), por exemplo, alastram-se sobre o solo e formam um emaranhado intrincado, que dificulta caminhar sobre ele. O metabolismo das plantas é lento devido ao frio, por isto, elas atingem idades avançadas: o salgueiro-do-Ártico (Salix arctica) vive 150 anos, e o zimbro (Juniperus communis) ultrapassa os 300 anos. Liquens, como Rhizocarpon geographicum, podem viver por milhares de anos. “Os liquens usam convenientemente o calor do solo ou da superfície das rochas e a água do degelo, o que lhes faculta uma fotossíntese eficiente”. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 234) Na curta estação de crescimento (primavera e verão), as plantas adaptaram-se a se desenvolver, reproduzir e, em seguida, entrar em dormência para se preparar para o inverno seguinte. As plantas fazem fotossíntese em baixas temperaturas e muitas espécies usam reservas de carboidrato estocadas nas raízes, talos e rizomas. Do mesmo modo que as plantas, os animais da tundra também se adaptaram ao frio e também aos predadores. São representantes da fauna do Hemisfério Norte o boi almiscarado (Ovibus muschatus), a raposa-do-Ártico (Alopex lagopus), a ptármiga (Lagopus hyperboreus), dentre outros e que possuem adaptações como grossa camada de pele, impermeável ao frio e à umidade. A raposa pode suportar temperaturas abaixo de 50º C negativos sem interromper as suas atividades. A camuflagem é importante para escapar aos predadores. A raposa e o arminho (Mustela erminea) são marrons no verão e brancos no inverno. A pelagem branca é valiosa no mercado de peles e, por isso, sofrem ambos intensa caça. Vaccinium é um dos 82 gêneros da família Ericaceae. Plantas lenhosas, típicas de solos ácidos, algadiços (JOLY, 1991, p. 534). IMPORTANT E TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 193 Os lemingues (o lemingue marrom, Lemmus lemmus, e o lemingue de coleira, Dicrostonyx torquatus) não hibernam e nem armazenam reservas de alimentos para o inverno. No período frio, metem-se sob a neve, formando enormes colônias. Alimentam-se de raízes, sementes e musgos. Estes animais ocupam uma posição fundamental na cadeia alimentar da tundra. Fertilíssimos, procriam em todas as estações do ano, quando nascem de 8 a 10 filhotes. A fêmea pode procriar a partir da terceira semana de idade. O tamanho não passa dos 15 cm e pesam apenas 50 g. Contudo, com um metabolismo intenso, têm que consumir de 40 a 50 kg de plantas por ano. “Uma colônia que ocupe uma área de 1 a 1,5 ha arrasa mais de 95% da vegetação” (WALTER, 1986, p. 291). Nos túneis cavados na neve, a temperatura é de10º C, enquanto na superfície pode estar 50º C abaixo de zero. Ao fim do inverno, emigram para outra área, deixando para trás um terreno arrasado. Na primavera, no entanto, gramíneas e ciperáves rebrotam rapidamente. A lenda popular diz que os lemingues se suicidam no verão. Na verdade, a cada quatro ou cinco anos há uma explosão populacional, se a comida é farta. Após devastar a região, partem à procura de outras áreas e o processo de devastação prossegue. A redução do alimento leva a uma drástica redução populacional e a colônia emigra. Nesse período de escassez, os lemingues constituem massas compactas de animais, que vagam pela tundra. Ao encontrar um braço de mar, rio ou lago, não hesitam em pular na água, pois são exímios nadadores. No entanto, muitos perecem afogados, devido ao cansaço da marcha. Gaivotas, peixes carnívoros, raposas, lobos e corujas fartam-se com tanta comida. São predadores do lemingue a skua (Catharacta skua), a raposa do Ártico, a doninha e a coruja. Por isso, a variação cíclica da população de lemingues atinge em cheio as populações dos predadores. Quando a população dos lemingues reduz-se, os predadores partem para outras presas, como a ptármiga e os esquilos, ou emigram para o sul. 3.2 BIOMA DE TAIGA - FLORESTA BOREAL DE CONÍFERAS Localizada ao sul da tundra, entre as latitudes de 45o e 75o graus, a taiga forma um cinturão contínuo entre a América do Norte (Canadá e Alaska, uma estreita faixa no extremo oeste americano e pequenas manchas no norte dos EUA), o norte da Europa (norte da Escócia e Escandinávia), atravessava toda a Sibéria, e chega até o Japão. Na Sibéria, a taiga alcança a sua maior extensão norte-sul, estendendo-se por 1.600 quilômetros de território. O bioma de taiga no Hemisfério Sul é pouco expressivo em território. Na latitude correspondente à localização da taiga predomina oceano. Aparece pontualmente no sul do Chile, no extremo sul-ocidental da Austrália, na Nova Zelândia e na Tasmânia - apresentam uma cobertura semelhante na fisionomia, mas com flora muito diferente. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 194 A floresta tem uma fisionomia característica – árvores, muitas vezes com mais de 40 metros de altura, de copa com forma cônica quando jovem, com troncos retos, galhos curtos e folhas pequenas, estreitas, em forma de agulha (acícula), de onde advém o nome da floresta – aciculifólia. “A tundra e a taiga têm origem pós-glacial, quando o gelo começou a recuar, há cerca de 10 mil anos” (WALTER, 1986, p. 276). A taiga ocupava, então, pequenos refúgios, e, graças ao clima mais úmido do Holoceno, pôde, então, avançar para colonizar as terras atuais, paralelamente à tundra, ao norte. A floresta boreal estende-se nas áreas dominadas pelas massas polares continentais, frias, secas e estáveis – isto é, a região fonte do anticiclone continental. Além disso, é sempre invadida por massas árticas continentais, extremamente frias. As poucas chuvas concentram-se no verão, trazidas por ciclones móveis marítimos. As condições climáticas são extremas. O gradiente de temperatura entre verão e inverno cresce com as latitudes. Por exemplo, na cidade de Fort Vermilion, Província de Alberta, no Canadá, na latidude de 58o norte, a temperatura máxima absoluta do verão é de 14o C, a mínima absoluta no inverno, -27o C. São sete meses consecutivos de temperaturas abaixo de zero. “Em Yakutsk, na Sibéria, a 62o de latitude norte, a máxima absoluta é de 17o C, e a mínima, -43o C” (STRAHLER; STRAHLER, 1996, p. 214). As precipitações não chegam, em muitos casos, a 300 mm anuais e se concentram sempre no verão. Em Fort Vermilion, o máximo se dá em julho, com 50 mm. O total anual é de 310 mm. No verão, o sol brilha durante 16 horas consecutivas em julho, mas no inverno o sol só aparece por cinco horas diárias (janeiro) (STRAHLER; STRAHLER, 1996, p. 214). A maioria das coníferas é perenifólia. As copas são muito densas e o sub-bosque, por esta razão, é ralo. A umidade no interior da mata é elevada e o solo é recoberto por um denso tapete de musgos. A comunidade vegetal é pobre em espécies, predominando, em geral, uma ou duas espécies em vastas áreas. Entretanto, as populações são numerosas. Nos lugares mais bem drenados, mas ainda com alguma umidade, líquens e certas espécies de musgos são as espécies dominantes, e nos trechos onde o solo é mais úmido, arbustos baixos (Vaccinium spp, Empetrum spp) são os dominantes. O musgo Sphagnum spp. aparece apenas nas baixadas muito encharcadas. A forma cônica das árvores impede que a neve se acumule nos galhos. Isso evita que quebrem com seu peso. Se houver água suficiente, a fotossíntese se faz sempre, exceto no inverno, quando a água congela. A forma acicular das folhas diminui a superfície de contato com o ar, o que reduz a evapotranspiração no verão e na primavera preserva a água nas células. (SIMMONS, 1982, p. 130). TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 195 “A variação de latitude tem forte influência da composição florística da taiga”. Furley & Newey (1986, p. 242) dividem a floresta em três zonas: a floresta da tundra, a última linha de árvores, ao norte; a subzona de bosques, uma zona de transição, ao sul da floresta da tundra; e a floresta boreal. Esta última designação engloba toda a floresta da taiga. A floresta da tundra é uma formação aberta de transição com árvores raquíticas, como lariços e abetos, lado a lado com arbustos, ervas e outras espécies da tundra. Na subzona de bosques, ao sul, a formação é mais densa, com um sub- bosque muito denso. Aparecem abetos brancos (Picea glauca) e abetos negros (P. mariana). A taiga típica, a floresta boreal, é densamente povoada por coníferas de grande porte, bem desenvolvidas (abetos branco e negro e o bálsamo, Abies balsamea, são as espécies mais comuns). Pântanos e atoleiros nas depressões são rodeados por formações de abeto negro. Os bálsamos e o abeto branco preferem solos bem drenados e férteis. Na América do Norte, quatro gêneros de coníferas predominam: o abeto vermelho (Picea), os pinheiros (Pinus), o abeto (Abies) e o lariço (Larix), este, o único gênero com espécies caducifólias. (WALTER, 1986, p. 267). Na costa do Pacífico, Picea glauca (abeto vermelho) é a espécie dominante, que se estende numa faixa contínua até a Terra Nova, no Atlântico. Na Europa, a dominância está a cargo de apenas duas espécies, o abeto vermelho (P. abies) e o pinheiro bravo (Pinus sylvestris). Na Sibéria, a flora é mais rica: os abetos Picea obovata, Abies sibirica, o lariço Larix sibirica e o pinheiro Pinus sibirica. Nas áreas de clima seco da Sibéria Oriental, em terrenos acidentados, longe da influência do Pacífico, a grande floresta de lariço dahuriano (Larix dahurica) recobria mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados (WALTER, 1986, p. 266). “Era uma formação aberta, com um sub-bosque denso de arbustos, ervas e briófitas” (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 243), “hoje é praticamente inexistente devido ao desmatamento. A ação combinada do clima, solo, topografia, ação do fogo e a exploração humana são fatores atuais que interferem na distribuição e na variação florísticas” (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 243) Uma das características da floresta boreal é a competição entre as plantas, que determina a sua distribuição espacial. As coníferas consomem com grande rapidez os nutrientes do solo, restando poucos elementos úteis para o sub- bosque, que, por isto, é formado por plantas pouco exigentes e raquíticas. Mesmo coníferas jovens, sobretudo os pinheiros, têm dificuldade em competir com as plantas adultas: têm que aguardar a morte de uma árvore velha para que possam se desenvolver convenientemente, livres da competição (WALTER, 1986, p. 268). A concentração de nutrientes é mais importante que a luminosidade para a composição florística do estrato herbáceo. Outro fator importante na distribuição dasplantas é a resistência ao frio, que chega na Sibéria Oriental a -60º C. O lariço (Larix), que perde as acículas no inverno, é uma das poucas árvores que podem suportar temperaturas desta ordem. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 196 Também a fauna tem participação na distribuição da floresta. Furley e Newey (1986, p. 245) agrupam os animais em categorias segundo os efeitos que causam na cobertura: dominantes, maiores influentes e menores influentes. Os dominantes agem sobre outros animais e plantas diretamente e, pois, controlam as comunidades. São o alce (Alces alces), que pisoteia o solo e muda a composição florística, erradicando muitas espécies, e também prejudicando outros animais. Entre os maiores influentes, agrupam-se os predadores de grande porte (os carnívoros) e mesmo o homem. Na última categoria estão os carnívoros invertebrados e os parasitas. Na costa ocidental da América do Norte, da Califórnia até o sul do Alaska, e também no sul da Austrália e no sul do Chile, aparece uma formação que pertence à floresta boreal, mas com características próprias, a floresta úmida das costas ocidentais. Na costa ocidental da América do Norte, a formação inclui a floresta de sequoias, coníferas sempre verdes, que podem alcançar mais de 100 metros de altura e estão entre as espécies mais longevas conhecidas – a idade das árvores ultrapassa, muitas vezes, os dois mil anos. Localizam-se onde predomina o clima oceânico das costas ocidentais. As chuvas são distribuídas no decorrer do ano graças à ação conjunta de tempestades ciclônicas e do efeito orográfico produzido pela proximidade das Montanhas Rochosas. No entanto, o máximo de chuvas se dá no inverno. No verão, o anticiclone subtropical do Pacífico invade a região, fazendo reduzirem as chuvas, porque desvia as massas polares e a frente polar para leste e sudeste. No inverno, as massas polares são desviadas para leste pelo efeito de Coriolis, impedindo que as temperaturas desçam a valores negativos na floresta e permanecem entre 1º e 2º C positivos em janeiro (STRAHLER; STRAHLER, 1996, p. 291). No entanto, a incidência das frentes polares aumenta com o recuo do anticiclone para o oceano durante os meses frios. No verão, em julho, a temperatura não ultrapassa os 17º C. FONTE: Strahler e Strahler (1996, p. 291) O podzol é o solo predominante. É um solo ácido e muito lixiviado. Há pouca atividade bacteriana, o que resulta numa espessa camada de húmus, que comporta razoáveis concentrações de cálcio, sódio e potássio. O teor de nutrientes, as chuvas abundantes, o inverno suave, são fatores primordiais para a floresta, que, então, abriga as maiores árvores do mundo. “A sequoia vermelha (Sequoia sempervirens), a sequoia gigante (S. giganteum) e o abeto de Douglas (Psudotsuga taxifolia) são as espécies dominantes” (STRAHLER, 1986, p. 379). A sequoia vermelha e a gigante podem ultrapassar 100 metros de altura e 20 metros de perímetro de tronco. O bioma de taiga no Hemisfério Sul não apresenta a mesma expressividade territorial e de diversidade. O Chile é influenciado predominantemente pela presença do Oceano Pacífico, de águas frias, devido à corrente de Humboldt, o que empurra as temperaturas para baixo. No sul do Chile a dominância é de espécies do gênero Nothofagus. Este gênero pertence à família Fagaceae, com 600 espécies distribuídas em seis gêneros (JOLY, 1991, p. 228). “São árvores, em TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 197 geral, caducifólias, como N. obliqua, que forma extensas florestas”. (WALTHER, 1986, p. 174). Mais para o sul, o clima torna-se superúmido, com as chuvas atingindo índices entre 2.000-3.000 mm anuais, e a floresta perenefólia é formada por N. dombeyia, com os gêneros de coníferas Austrocedrus e Podocarpus e a espécie Araucaria araucana. No extremo sul aparecem florestas de menor porte, denominadas localmente de florestas de Magalhães, com uma flora empobrecida pelas baixas temperaturas e árvores de porte reduzido, com 6-8 metros de altura. Aparecem também pântanos bem desenvolvidos. A vida animal na taiga é muito semelhante à da tundra. A fauna é mais diversificada, porque o período de frio é menor. Entretanto, muitas espécies emigram no inverno. No Hemisfério Norte, muitos mamíferos hibernam, como os ursos. Outros, como os veados e os alces, não hibernam, mas desenvolveram pêlos longos contra o frio, a neve e a chuva. Mussaranhos e ratos silvestres vivem sob a neve, que os mantém aquecidos e alimentados com uma boa provisão de comida estocada durante os meses quentes. Os ursos preparam-se para o inverno alimentando-se fartamente de frutas, peixes e pequenos mamíferos. Veados e alces, que não hibernam, alimentam-se, no inverno, de líquens, musgos e cascas de árvores e de arbustos. Pica-paus, chapim, quebra-nozes, corujas, gaviões e a tetraz são as únicas aves residentes fixas, inclusive no inverno holártico. Alimentam-se das agulhas das coníferas (o galo silvestre europeu, na família da tetraz, e o pardal do pinheiro, um tentilhão), líquens e musgos, que atraem insetos, caramujos, estes, dieta dos pássaros pequenos. Na primavera, uma vasta população de insetos é alimento de pássaros, que estão chegando das regiões mais quentes e têm, pois, comida farta. São vespas, abelhas, mosquitos, que passam o inverno na forma de pupas, encerrados no solo ou nas árvores, onde são procurados pelos pica-paus. Na primavera, insetos e vertebrados, que sugam a seiva das árvores, animais pastadores e os que comem folhas e raízes prejudicam intensamente a floresta. Apenas na estação seguinte as plantas se recompõem. Esse excesso de atividade dos herbívoros traz problemas para as plantas. Furley e Newey (1986) enumeram: redução da fotossíntese, com diminuição consequente da produção de carboidratos e do transporte da seiva, e menor potencial reprodutivo devido ao consumo de frutos e flores. O alce tem participação intensa na modificação da paisagem: o pisoteio compacta o solo e dificulta o crescimento da vegetação herbácea, e a intensidade com que consome as plantas pode reduzir algumas populações. “No verão, alimenta-se de plantas aquáticas e, no inverno, quando os lagos congelam, procura ramos de bétulas, salgueiros e faias” (FURLEY & NEWEY, 1986, p. 246). Outro herbívoro que altera a paisagem é o caribu, que se alimenta em todos os estágios de desenvolvimento da sucessão vegetal. Os caribus estendem o seu hábitat até a tundra. No estágio pioneiro, os líquens são a sua dieta predileta. No inverno, manadas de milhares de caribus deslocam-se para o sul e invadem a taiga. Os UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 198 galhos de abetos e lariços recobertos de líquens são arrancados e, com a língua, eles retiram os líquens. Em poucos dias, a paisagem da taiga fica profundamente modificada, com árvores mutiladas. Para os carnívoros, não falta comida. O lobo (Canis lupus) caça animais grandes, como o alce e o boi almiscarado. O lince (Lynx spp), a doninha (Mustela nivalis) e a marta (Martes martes) atacam pequenos mamíferos e aves. A madeira é explorada desde o século XIX, principalmente para a produção de papel. Por isto, a floresta boreal está bastante reduzida, retringindo-se a pequenas manchas. Raios causam incêndios no verão, quando a vegetação está muito ressecada. “As clareiras abertas são logo colonizadas por ervas, arbustos, que são alimento de arganazes, veados e aves, e, principalmente, pinheiros (Pinus spp), que são plantas invasoras de rápido crescimento” (WALTER, 1986, p. 264). Nas zonas de transição da floresta boreal com a floresta decídua ao sul, os pinheiros, no processo de regeneração da mata, podem ser substituídos por plantas decíduas, que acabam por constituir florestas decíduas puras. Monoculturas de abeto-vermelho (Picea abies), decíduas, têmsubstituído as florestas decíduas e as de pinheiros. Acampamentos itinerantes formam a base da indústria madeireira na Sibéria. “Plantas medicinais, como o teixo (Taxus brevifolia), de cuja casca se produz remédios contra o câncer, são muito procuradas”. (COX; MOORE, 1994, p. 92). O comércio de peles é outra atividade que tem contribuído para a devastação da floresta, graças ao desequilíbrio das relações ecológicas. O castor, o lince, o arminho, a raposa, a zibelina, dentre outros, são espécies intensamente caçadas. Os movimentos de grupos ecologistas reduziram em muito a caça, mas, eventualmente, ela retorna com força. Muitos animais são criados em cativeiro, como é o caso do arminho, unicamente para o abate. A poluição do ar pelas indústrias é outro fator limitante para a floresta boreal. Óxidos de enxofre e de nitrogênio, ao reagir com a água da atmosfera, originam ácido sulfúrico e nítrico, que retornam à superfície como chuva ácida. A resistência da floresta boreal à poluição é baixa, porque a diversidade florística não é grande. “A homogeneidade dos ecossistemas facilita o ataque de insetos e larvas, que se alimentam das cascas ou das raízes” (COX; MOORE, 1994, p. 92). A chuva ácida diminui a capacidade dos solos alcalinos, típicos da floresta, em neutralizar os ácidos trazidos por ela. O degelo, por sua vez, leva água acidificada para os rios e lagos. A água ácida, uma vez infiltrada no solo, lixiviando os minerais solúveis, é absorvida pelas raízes e isto acelera a redução da resistência da planta. O teor de alumínio no solo também é aumentado com a acidez e, como não é eliminado, acumula-se nos vasos da planta, afetando seu desenvolvimento. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 199 Sem a mata, os pássaros emigram, em sua maioria, e deixam o campo livre para insetos, principalmente da ordem Diptera, como moscas e mosquitos, que têm causado muitos problemas de saúde não só para o homem no norte do Canadá, mas também para aves e animais domésticos. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 246). 3.3 FLORESTA TEMPERADA SEMIDECÍDUA OU MISTA Ao sul da floresta boreal, a floresta semidecídua ocupa uma área menor que a Taiga. Situada entre 50º e 30º de latitude norte, na zona temperada da América do Norte, do leste da Ásia, da Europa Ocidental e Central. No Hemisfério Sul ela aparece no litoral do Chile, na Patagônia, numa estreita faixa no litoral sudeste da Austrália, na Nova Zelândia e no extremo sul da África do Sul. Strahler (1986) inclui o clima da floresta no grupo clima das latitudes médias e o divide em duas categorias: clima marítimo da costa ocidental, localizado no noroeste da América do Norte, no oeste da Europa, e no centro- sul e no extremo sul do Chile; clima continental úmido, no centro e nordeste da América do Norte e na Eurásia, estendendo-se da Europa Central até o sul dos Montes Urais. Interrompido pelas estepes e pelo Himalaia, volta a aparecer somente a leste desta cordilheira, de onde se estende até o litoral. O clima marítimo das costas ocidentais tem influências do mar e as temperaturas não descem abaixo de zero grau. As chuvas se concentram no inverno, trazidas por massas polares úmidas que, na verdade, dominam na maior parte do ano. No verão, a massa subtropical invade o continente, porque as massas polares recuam e mantêm o ar estável, reduzindo as chuvas. Clima continental úmido, que fica na zona da frente polar ártica, tem verões quentes e invernos de três meses com temperaturas abaixo de zero. Chuvas convectivas concentram-se no verão, trazidas pela massa tropical marítima, que faz subir a temperatura a índices muito altos. No inverno, a frente polar traz chuvas ciclônicas. A estação de crescimento das plantas é de quatro a seis meses, o que lhes assegura um bom desenvolvimento. Cox e Moore (1994, p. 93) agrupam a Floresta Semidecídua Temperada em quatro categorias: 1) Floresta mista de coníferas e árvores decíduas de folhas largas, que constitui a vegetação clímax da maior parte da floresta. 2) Floresta mista de coníferas e árvores perenefólias de folhas largas, típica da região mediterrânea, rara atualmente, mas ainda observável no Chile, na Nova Zelândia, Tasmânia e África do Sul. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 200 3) Floresta de folhas largas composta quase inteiramente de árvores decíduas, que, antigamente, recobria a Europa, norte da Ásia e leste da América do Norte, e, hoje, existe somente na Patagônia. 4) Floresta de árvores perenefólias de folhas largas, encontrada na Flórida, nordeste do México e no Japão. No outono, a floresta ganha um colorido que varia em tons de amarelo e laranja, pois ao cessar a fotossíntese, deixa de produzir clorofila e passa a mostrar outros pigmentos, até o momento da queda das folhas. As folhas caem no outono, porque os dias tornam-se gradativamente mais curtos e a radiação do sol diminui, indo compor a serapilheira, que forma um espesso tapete no chão da mata. Ao se decompor, recobre o solo com uma camada de matéria orgânica ou húmus, que traz muita fertilidade. Na primavera a vegetação apressa-se em reproduzir. A floresta toma o colorido de incontáveis árvores e do estrato herbáceo. O adensamento das copas provocado pelas novas folhas que vão brotando aos poucos acaba por impedir a penetração da luz no chão. Com o sombreamento, o tapete de ervas que, neste curto momento já brotou, floresceu, produziu frutos e sementes, perece. Os solos predominantes são o podzol, caracterizados pela presença de óxidos de ferro e de alumínio lixiviados e que se acumulam no horizonte B, caracterizando o horizonte Bt (B textural), e o solo chernozem (negro), muito fértil pela quantidade de matéria orgânica, o que o tornou excessivamente procurado para a agricultura. Troppmair (2002, p. 59) enumera as suas qualidades: concentração adequada de carbonatos de cálcio e de magnésio, camada de húmus, que pode chegar a 80 cm, teores diferentes de carbonatos e horizontes de matéria orgânica em diferentes estados de decomposição. Os solos pardos são uma transição entre o podzol e os solos podzólicos vermelho-amarelos, de origem cristalina e pobres em carbonatos. (TROPPMAIR, 2002, p. 59). Floristicamente, a formação norte-americana é mais rica que a euroasiática, por causa do clima, da topografia e dos solos. Essas propriedades originavam vários tipos de clímax. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 251). Mas, na Eurásia, desde a Idade Média e acentuando-se nos séculos XIX e XX, a fase final e mais madura da sucessão vegetal não é mais encontrada. No seu lugar, predominam hoje formações secundárias, terras ocupadas pela agricultura e cidades. A distribuição da fauna e da flora no reino Holártico depende fortemente do relevo. Cadeias montanhosas, que se estendem no sentido latitudinal, como os Alpes e os Pirineus, na Europa, funcionaram como uma barreira para os deslocamentos no sentido do sul, durante as glaciações, o que levou muitas espécies à extinção. O Himalaia constitui uma barreira difícil de ser transposta pela maioria das espécies de plantas e de animais. Outras cadeias atuam como corredores de dispersão, como as Montanhas Rochosas e os Apalaches, na América do Norte, e os Urais, na Sibéria, que se dispõem no sentido longitudinal e facilitam, por isto, os deslocamentos no sentido dos meridianos. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 201 O carvalho (Quercus spp), a faia (Fagus spp), a bétula (Betula spp), o bordo (Acer spp), a tília (Tilia spp), o olmo (Ulmus spp), o fresno (Fraxinus spp), o tulípero (Lidiondendron spp), a castanha (Castanea spp), dentre outros, são árvores decíduas ou caducifólias de folhas largas, comuns na América do Norte, no sudeste da Europa e na Ásia oriental (STRAHLER, 1984, p. 378). Na Nova Zelândia, na Tasmânia, no sul do Chile e na Colúmbia Britânica aparecem outras coníferas e espéciesperenes de folhas largas. A cobertura atual, na sua maior parte, é secundária, formada por arbustos anões, principalmente Callunis vulgaris, da família Ericaceae. O sub-bosque primário, em muitas regiões, era formado por espécies da charneca ou urze. “Com o desmatamento, os arbustos da charneca expandiram-se nos terrenos desocupados pela agricultura. Cerca de ¼ à metade da Escócia encontra-se coberto pela charneca (Calluna vulgaris)”. (WALTER, 1986, p. 193). Na Escócia, queima-se regularmente a charneca para a formação de pastos, onde se criam ovelhas. Exceto nas florestas, as charnecas e urzes são vegetação de solos pobres, ácidos, bem drenados e arenosos. Na estação de crescimento, a primavera, inicia-se uma intensa atividade orgânica no solo da floresta, com um exército de macro e micro-organismos, que atacam a matéria orgânica – lesmas, besouros, aranhas, larvas, caracóis, minhocas etc. O resultado é a espessa camada de húmus. Pássaros insetívoros têm comida farta a partir da primavera. Na Europa, o chapim (Parus spp), e, na América do Norte, o chickadee, comem indistintamente insetos e plantas. O pássaro abelheiro (P. caeruleus), o chapim grande (P. major), a andorinha (Hirundo rustica), o papa-moscas (Empidonax flaviventris) e muitos outros pássaros ocupam nichos diferentes, de maneira que a competição entre eles é reduzida. Herbívoros variados, como os veados, na América do Norte, o bisão, na Europa, roedores, como os arganazes, ratos e esquilos, ocupam o segundo nível da cadeia alimentar e são predados por uma grande quantidade de carnívoros, como a coruja amarela (Strix aluco), na Eurásia, cuja dieta inclui arganazes e ratos, e na sua falta, pequenos pássaros, peixes, sapos e insetos. O gavião (Accipiter nisus), na Eurásia e África do Norte, o lobo (Canis lupus), hoje extinto na Europa, mas ainda sobrevivendo a duras penas na América do Norte, são outros predadores importantes. O guaxinim (Porcyou lotor), o urso negro (Ursus americanus), o gambá (Mephitis mephitis) são onívoros. A rede alimentar é complexa e longa. As relações das cadeias alimentares envolvem os ciclos minerais, a biomassa e a produtividade da floresta e também transferência de elementos e nutrientes da serapilheira para o solo pela lixiviação, a acumulação dos nutrientes no solo e a retenção nos galhos e nas copas das árvores. FONTE: Furley; Newey (1986, p.253) Túneis cavados por pequenos roedores e pelas minhocas melhoram a circulação da água e a aeração do solo. Estes animais revolvem o solo e incorporam matéria orgânica. Numa floresta de carvalhos da Sibéria, em um hectare havia UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 202 3.350 entradas para os túneis de roedores, que perfaziam um comprimento total de 7,9 km de subterrâneos (WALTER, 1986, p. 207). Sapos, rãs, salamandras e tritões vivem nos alagadiços, nos rios e nos lagos. As salamandras alimentam-se de minhocas, caracóis e artrópodos. De coloração berrante, algumas espécies excretam uma toxina que bloqueia o sistema nervoso e pode matar animais grandes. Por isso não são predadas, ocupando o topo da cadeia alimentar (STORER et al., 1991, p. 639). Plantas ciófitas (adaptadas à sombra) e heliófitas (adaptadas ao sol) travam uma violenta batalha pela luz, que sempre acaba com a morte de alguém. As ciófitas, por aproveitarem melhor a pouca luz, formam um sub-bosque muito denso, que impede o crescimento das heliófitas, que ficam com o porte de arbustos. Quando uma clareira se abre na floresta e espécies heliófitas começam a se regenerar, o dossel das ciófitas dificulta o seu crescimento, fazendo sombra sobre elas e, então, a predominância será das ciófitas. Esse processo complexo e altamente seletivo pode ser visto na floresta de araucária (Araucaria angustifolia), no sul do Brasil. Na realidade, ele se dá em toda floresta muito fechada. Quando as árvores da mata semidecídua temperada estão desfolhadas, a quantidade de luz incidente sobre a superfície é total. A luminosidade do solo varia com as estações. No final do inverno e início da primavera, quando as árvores estão desfolhadas, a luz atinge o chão da mata, o que é capital para a vegetação herbácea e arbustiva. Com o avanço da primavera, as copas das árvores vão se adensando e a quantidade de luz reduz-se proporcionalmente. Walter (1986, p. 201) acentua que as plantas geófitas (com brotos abaixo da superfície, como os tubérculos), se beneficiam desse curto período – elas florescem, frutificam e armazenam reservas nos bulbos e rizomas, preparando-se para o inverno seguinte. Quando as copas se fecham, as geófitas entram em dormência. A competição entre as raízes também é grande. As árvores têm uma capacidade de sucção da água do solo e de absorver nutrientes, muito maior que a dos arbustos e ervas (WALTER, 1986, p. 206). Este é um fator limitante contra o qual os arbustos e ervas se veem na contingência de lutar – as plantas menores ficam com as sobras que as árvores não conseguem absorver. Entretanto, Walter faz uma constatação importante: se as árvores forem cortadas, arbustos e ervas desenvolver-se-ão com alguma rapidez, porque sobrará mais nutriente e água para eles. Portanto, o fator limitante na floresta geralmente é a água e não a luz solar. 3.4 BIOMA DE ESTEPES, PRADARIAS OU CAMPOS No reino Holártico, estepes e pradarias correspondem a uma zona de transição entre a floresta decídua e a savana e o deserto. A vegetação constitui- se de gramíneas e ervas perenes. As árvores são muito raras, como também o são os arbustos, e só podem ser vistas em pequenos capões nas depressões ou TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 203 em vales úmidos. Para buscar água no profundo lençol aquífero, as gramíneas desenvolveram raízes longas. A paisagem da estepe e da pradaria é um mar contínuo de ervas, que se perde no horizonte. Walter (1986, p. 233) “divide este bioma em duas zonas principais, determinadas pela denominação: as estepes euroasiáticas, que se estendem no sentido leste-oeste, e as pradarias norte-americanas, no sentido norte-sul”. Strahler e Strahler (1996, p. 563) demarcam as regiões de coberturas herbáceas em duas formações: as pradarias, que têm gramíneas altas, chuvas mais abundantes, quando aparecem sob o clima continental úmido, e as estepes, formadas por gramíneas baixas e pouco exigentes em água e nutrientes, com menor índice pluviométrico. Entre elas há uma zona de transição com gramíneas mistas. Strahler e Strahler (235) classificam o clima das estepes e pradarias como seco das latitudes médias, situado nas sombras de chuva das grandes montanhas. “As chuvas concentram-se no verão, em geral convectivas, e variam entre 600 e 800 mm/ano”. (TROPPMAIR, 2002, p. 92). “As temperaturas sempre acima de 25º C no verão, e descem a índices negativos no inverno” (STRAHLER,1986, p. 294). No verão, os tornados são comuns. No inverno, os ventos podem ultrapassar 10 quilômetros/hora. Os solos predominantes nas estepes e pradarias são os chernozem, considerados os mais férteis do mundo devido à considerável camada de húmus devido à incorporação de grande quantidade de biomassa resultante da renovação anual das folhas de gramíneas e outras ervas. Três horizontes constituem esses solos: o horizonte A, superficial, de cor negra pela matéria orgânica ou marrom- escura, com estrutura granular, abriga vermes, insetos e outros animais da fauna edáfica; abaixo deste horizonte alinha-se o horizonte A2, de cor clara, muitas vezes com intensa comunidade de roedores, que cavam túneis; finalmente, o horizonte B de acumulação, para o qual convergem carbonatos de cálcio (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 255; WALTER, 1986, p. 228). O podzol aparece nas áreas mais úmidas e lixiviadas. O degelo e as chuvas de primavera e verão suprem o lençol freático nas zonas do clima continental úmido. O calor do verão faza água do solo ascender por capilaridade e conduz para cima compostos calcários, que concentram os nutrientes ao nível das raízes (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 255). Nas áreas com menor índice pluviométrico, a água dos poros superficiais evapora no alto verão, originando um déficit hídrico. FONTE: Furley; Newey (1986, p. 255) A decomposição orgânica é lenta, porque o calor excessivo do verão e o frio do inverno reduzem os micro-organismos. Como a lixiviação também é reduzida nos meses de inverno, a perda de compostos orgânicos é insignificante. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 204 Forma-se um horizonte rico em matéria orgânica e carbonatos, povoado por minhocas, roedores e insetos, fertilíssimo, intensamente usado na agricultura. Predominam as gramíneas e as árvores aparecem em geral nas depressões úmidas, onde formam capões. O pisoteio de animais pastadores (bisões) e de animais domésticos, as queimadas feitas por agricultores e os incêndios causados por descargas elétricas nas tempestades de verão facilitam a expansão das gramíneas, em detrimento das árvores (WALTER, 1986, p. 234). As gramíneas e arbustos têm caules flexíveis e raízes profundas, com o que se protegem dos ventos fortes. Andropogon gerardi e A. scoparius são as gramíneas mais comuns nos EUA. Com a chegada das chuvas de primavera e do degelo, a pradaria de ervas altas americana é tomada por um infindável tapete de flores coloridas. Onde as chuvas começam a escassear, a pradaria caracteriza-se por gramíneas baixas, denominada estepe propriamente dita. O tapete de ervas é esparso e o solo nu, muitas vezes, é visível, mas árvores e arbustos, sempre de pequeno porte, podem aparecer onde haja concentração maior de umidade. A fauna, originalmente muito rica, praticamente não existe mais, por causa das atividades humanas, em que se inclui caça predatória desmedida realizada nos séculos XIX e XX. Reservas biológicas foram criadas na América do Norte e Eurásia com o fim de proteger o que restou da fauna e da flora. Dentre as espécies que mantêm estreitas relações com as pradarias na América do Norte, o bisão (Bison bison) e o cão-da-pradaria (Citellus spp), que não é um canídeo, mas um roedor, ajudam, com o seu pastoreio, na manutenção da vegetação. O bisão (que não deve ser confundido com o búfalo) formava imensas manadas e movia-se das pradarias, na primavera e no verão, para as florestas, no inverno, à procura de abrigo e comida. Os índios das planícies – Apaches, Comanches, Navajos etc. – tinham nos bisões a sua principal fonte de energia. As manadas foram quase exterminadas, sobretudo por caçadores brancos. O mais famoso deles, William Cody, conhecido como Buffalo Bill, vendia a sua carne para os trabalhadores das ferrovias, que começavam a se alastrar pelo centro- oeste americano. No fim do século XIX, leis protetoras preservaram os bisões remanescentes e as manadas voltaram a crescer. O cão-da-pradaria cava extensos túneis e a sua população chega a milhões de indivíduos, que se protegem do frio e de predadores nos labirintos, que são divididos em territórios. O cão-da-pradaria alimenta-se das gramíneas e impede que as pradarias sejam invadidas por árvores e arbustos. Situado no segundo nível da cadeia trófica, o cão-da-pradaria sustenta um enorme número de predadores, como gaviões, corujas, águias, cascavéis, raposas, coiotes e lobos. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 205 Os agricultores, desde o século XIX, empreenderam uma intensa caça ao cão-da-pradaria, porque, com a chegada de novas fontes de energia, as populações invadiram as fazendas e plantações. Na impossibilidade de matar a tiros, os fazendeiros jogavam veneno nas tocas. Quase exterminada, a população de cães- da-pradaria sobrevive hoje em diminutas manchas das pradarias, mas continuam mantendo a sua função de preservá-las (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 259). O uso intensivo e mal planejado do solo nas pradarias foi a origem de muitos desastres ambientais, como na estepe siberiana e, sobretudo, na destruição de milhares de hectares de terras no centro-oeste americano na década de 30, quando a região ficou conhecida como Dust Bowl (Bacia da Poeira). John Steinbeck, em 1930, escreveu um soberbo relato, As Vinhas da Ira, sobre as vicissitudes enfrentadas pela população sem terras durante a escassez de trabalho, agravadas ainda mais pela depressão econômica. A Dust Bowl é uma vasta região no centro dos EUA, intensamente arada pelos fazendeiros, numa época de grandes chuvas, durante a década de 1920, o que lhes rendeu ótimas safras de trigo. No entanto, a década de 1930 começou com um período de seca, que se alastrou por todo o centro-oeste. Os fazendeiros continuaram arando e plantando. As colheitas foram enfraquecendo até chegar a zero. Removido pela aração, o solo arenoso era varrido por ventos que alcançavam 100 quilômetros/hora. Gigantescas nuvens de poeira cobriam tudo e chegavam a soterrar as fazendas. Empobrecida, a população emigrou, formando nas estradas, conforme narra Steinbeck, intermináveis filas de calhambeques, que transportavam a mudança, ao lado de milhares de pessoas que levavam às costas os seus bens, esfomeadas, doentes, sem esperança. “O aumento da aridez atraiu plantas típicas dos desertos, que invadiram a região, como os cactos e a acácia” (Prosopis spp) (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 260). “Em 1934, um único tornado transportou 300 milhões de toneladas de solo”. (HARE, 1995, p. 73). 3.5 BIOMA DE DESERTOS E SEMIDESERTOS A principal característica das regiões áridas de latitudes médias subtropicais é que a evapotranspiração potencial é maior que a precipitação anual. Uma segunda característica, que resulta da anterior, é que o fator limitante nos desertos é a falta de água na superfície: a precipitação é inferior a 250 mm/ ano. A escassez de água superficial tem como resposta uma vegetação de baixo porte e as adaptações que animais e plantas desenvolveram para viver num ambiente seco. Os desertos não são uma região destituída de vida. Na verdade, eles possuem fauna e flora bastante diversificadas. Uma terceira característica é que os desertos têm chuvas irregulares, umidade muito baixa e intensa insolação. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 206 “Os desertos aparecem em diferentes geossistemas, cujas variáveis físicas são responsáveis pela sua origem. Neste caso, as condições climáticas e topográficas locais têm um peso importante. Existem quatro tipos principais”. (FURLEY; NEWEY,1986, p. 310; SIMMONS, 1982, p. 119): - desertos subtropicais, influenciados pelas células de alta pressão, como o Saara; - desertos costeiros frios, com baixa precipitação devido a massas de ar que passam por correntes frias e que também recebem influência das células de alta pressão. Estão neste caso os desertos da Namíbia, no sudoeste da África, de Atacama, nos Andes peruano-chilenos e da Baixa Califórnia, no México; - desertos de sombras de chuva. São também desertos frios, muito secos, que se localizam a sota-vento de grandes massas montanhosas, como Gobi, ao norte do Himalaia, a Grande Bacia, no sudoeste dos EUA, e Chihuahua, no norte do México, a sota-vento das serras Nevada, San Gabriel e Madre Ocidental, no México; - desertos continentais, afastados da influência marítima e com extremos de temperatura e chuvas. É o caso do deserto de Gobi e os desertos no interior da Califórnia (como o Vale da Morte) e do México. Normalmente, os desertos verdadeiros são circundados por uma faixa de transição semiárida, chamada de semideserto, considerado por alguns autores como um bioma. Os semidesertos aparecem nas zonas tropicais e nas latitudes médias. No reino Paleotropical, os semidesertos aparecem na parte meridional do Saara, na zona do Sahel, contornam a Etiópia, avançam para leste, sempre seguindo a fímbria do deserto, e infletem para sudoestee para o interior do Quênia, quando o litoral toma a direção sudoeste-nordeste, no chamado Chifre da África. Existem muitos tipos diferentes de desertos, cujas características atendem às condições físicas do solo e do relevo locais. Walter (1986, p. 117) relaciona seis tipos de desertos. As designações foram tiradas dos dialetos dos povos do deserto do Saara. Nesta lista estão não só os desertos das latitudes médias, mas, também, os desertos tropicais. Foram mantidos juntos, independentemente da sua localização, para tornar mais fácil a comparação de um tipo com o outro. Deserto rochoso ou hamada – Aparece nos topos e escarpas de planaltos onde o vento removeu a areia e expôs a rocha subjacente, que forma uma superfície com blocos de rochas espalhados por uma extensão variável. Óxidos de manganês e de ferro dão às rochas uma cor escura, conhecida como verniz do deserto. Depósitos de sal sob as rochas impedem o crescimento da vegetação. Apenas espécies xero-halófitas resistem às adversidades ambientais da hamada e colonizam as fendas das rochas. Desertos de cascalho (reg ou serir) – A rocha-mãe, do tipo conglomerado, libera blocos de pedregulhos, que se espalham pela superfície, formando uma paisagem de relevo ondulado, com vertentes pedregosas longas e vales pouco profundos, nos quais se acumula a areia levada pelo vento. Nessas depressões TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 207 a umidade é maior, o que favorece o aparecimento de plantas, principalmente halófitas. “A hamada e o reg compõem a maior parte dos desertos: o Saara tem 1,8 milhão de km2 de areias e 7,3 milhões de km2 de rochas nuas (LEINZ; AMARAL, 1972, p. 169). Deserto arenoso (erg ou areg) – São formações arenosas, de cor avermelhada, devido ao óxido de ferro, existentes nas áreas de bacias, nas quais a areia, transportada pelo vento, se deposita. Quando o vento apresenta uma direção predominante, formam-se dunas do tipo barcana. Os erg ocupam uma área pouco extensa. No Saara, os erg ocupam apenas 30% de sua superfície. As dunas são boas armazenadoras de água, que infiltra até o lençol, que é formado de água doce. As dunas móveis não têm vegetação sobre elas e se movimentam ao sabor dos ventos. As fixas são colonizadas por gramíneas do gênero Ziziphus spp, que, juntamente com alguns arbustos, seguram a areia e originam pequenas dunas, chamadas de nebka. Vales secos (wadi ou oued) – Em períodos mais úmidos do Pleistoceno formaram-se rios estreitos, que secaram e deram origem a uma rede de vales pelos quais escoa a água das chuvas muito fortes. Nos vales mais largos a vegetação não cresce, porque as enchentes eventuais são muito fortes e arrancam as plantas do solo, levando-as para jusante. Mas nas margens cresce uma cobertura vegetal, halofítica ou não. O tamarindo (Tamarix spp), uma halófita, encontra, aí, boas condições de crescimento. Nos locais em que se dá alguma lixiviação nas chuvas, o sal é removido ou reduzido a um mínimo, e espécies não halófitas, como Retama spp e Caligonum spp, podem crescer. Rios subterrâneos não são raros nas regiões cársticas e, então, há umidade bastante para o crescimento de densos bosques de espécies não halófitas. Depressões (playas, sebka ou schott) – Nessas depressões depositam- se grandes quantidades de argila e silte, podendo haver também concentração de sais. Quando há um rio subterrâneo, a água acumulada na superfície não será salobra. O solo é argiloso e muito seco, porque a água das enchentes forma grandes poças, que evaporam rapidamente, deixando um hábitat pouco adequado para as plantas. A água penetra apenas nas camadas superficiais do solo e quando a poça evapora, a água de infiltração ascende por capilaridade e evapora, formando espessas camadas de sal (sebka ou schott). As depressões são bordejadas por pequenos arbustos não halofíticos, porque, nas margens, o teor de sal é menor. As plantas atuam como fixadoras da areia e, em sua volta, formam-se pequenos montes de areia, os nebka, que originam uma paisagem típica. Oásis – São áreas em que a água doce do lençol aflora em quantidade suficiente para permitir uma densa vegetação, muitas vezes, de espécies hidrófitas. Normalmente, são circundadas por depressões que contêm grandes concentrações de sal, para as quais o excesso de água escoa, torna-se salobra e evapora, aumentando, pois, a quantidade de sal na superfície que rodeia os UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 208 oásis. São os lugares mais densamente povoados dos desertos, unicamente porque têm água. Por isto, a vegetação primária tem diminuído e dado lugar para plantas cultivadas. FONTE: (WALTER 1986, p. 117) Furley e Newey (1986, p. 312) “classificam a vegetação dos desertos tropicais em dois grupos: espécies que constituem uma resposta direta ao ambiente e espécies que usam água captada em outras fontes, externas ao hábitat, como as chuvas. As plantas que dependem das chuvas são anuais e perenes. As anuais têm raízes superficiais, que absorvem a água das primeiras chuvas, quando, então, crescem rapidamente. As espécies perenes têm raízes profundas e dois mecanismos lhes permitem usar a água disponível: estocando a água, como as suculentas, ou usando-a economicamente, como fazem as xerófitas. As depressões (sebka), os vales secos (wadi) e os oásis são locais em que as plantas podem germinar, porque a água subterrânea mantém a umidade necessária. Nos oásis, devido à densidade de população humana, muitas espécies endêmicas cederam espaço para variedades cultivadas, como as tâmaras (Phoenix dactylifera) e outras frutíferas. As adaptações das plantas contra os fatores limitantes nem sempre são de ordem fisiológica. Entre elas, citam-se as seguintes: plantas esparsas reduzem a competição entre si; produção de substâncias químicas para afastar herbívoros e impedir o crescimento de outras espécies no hábitat, o que também reduz a competição; o creosoto (Larrea spp) libera um odor característico, que espanta os pastadores; a espirradeira (Nerium olander, que também aparece na floresta Atlântica) é venenosa; algumas substâncias dão paladar estranho à planta, como o látex de algumas Euphorbiaceae, ou o tanino e as resinas secretadas pelas folhas, pela casca da Cassia e outras espécies (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 315). “O gênero Euphorbia, o maior da família Euphorbiaceae, tem 2.300 espécies, das quais muitas são xerófilas, afilas (sem folhas), cactáceas, típicas das regiões áridas da África”. (JOLY, 1991, p. 404). A evolução da flora dos desertos holárticos e paleotropicais remonta aos continentes de Laurásia e Gondwana – por esta razão, ambas as floras diferem muito. “No sul do Saara, no Sahel, aparecem gramíneas como Aristida, Eragrostis e Paniwia, e arbustos dos gêneros Acacia, Commiphora, Maerua e Grewia”. (WALTER, 1986, p. 130). Na África do Sul, o deserto de Karroo tem muitas suculentas, como Euphorbia, Portulacaria e Cotyledon, e arbustos anões da família Compositae. Dentre as lenhosas, Acacia, Rhus, Euclea, Olea e Diospyro colonizaram o fundo de vales áridos, locais em que a umidade se concentra. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 209 A zona de transição entre os reinos Paleotropical e Holártico é uma região montanhosa no centro do Saara (as montanhas Tibetsi têm 3.415 metros). “É uma das regiões mais secas do planeta”. (WALTER, 1986, p. 143). No sudoeste da África, o anticiclone subtropical do Atlântico Sul, somando-se à água fria da corrente de Benguela (12º a 16º C), origina o deserto da Namíbia. A camada inferior da massa é úmida e forma densos nevoeiros no litoral, que são a marca da região. “O vento de oeste empurra a neblina para o interior do deserto e, durante mais de 200 dias por ano, uma pesada neblina acompanhada de temperaturas baixas paira sobre o deserto”. (WALTER, 1986, p. 143). O uso da terra nas regiões vizinhasaos desertos tem trazido inúmeros problemas ambientais. Na África, as populações saarianas praticaram, ao longo dos séculos, agricultura e pecuária primitivos, cujos reflexos transformaram- se, hoje, em processos de desertificação. Uma das regiões mais atingidas pelo avanço do deserto é o Sahel. A pecuária pode estar na base da desertificação desta porção do Saara. O uso intensivo do pastoreio pelas populações nômades levou à destruição da vegetação, que era de savanas. As grandes secas das décadas de 1970 e 1980 aceleraram o processo de desertificação. Problemas político-tribais e a agricultura ao sul impediam a criação de gado nas suas áreas. “Desprovido de vegetação, o albedo do solo aumentou e a temperatura aumentou, promovendo o processo de desertificação”. (HARE, 1995, p. 120). “Os solos mais comuns nos desertos são regossolos, rendzinas e vertissolos, além das dunas” (TROPPMAIR, 2002, p. 89), é solo mais rocha fragmentada na fração areia. Os regossolos são pouco desenvolvidos, possuem excesso de areia, são pobres em bases, muito drenados devido à areia, ácidos, têm perfil pouco desenvolvido e são muito susceptíveis à erosão. “Os vertissolos são solos com elevado teor de argila” (VIEIRA, 1975, p. 362). Os solos do tipo rendzinas são típicos de pradarias, provenientes da decomposição de rochas calcárias. (BUCKMAN; BRADY, 1976, p. 362). Devido à forte insolação diária, na superfície os desertos podem ter temperaturas acima de 60º C, enquanto a temperatura do ar não chega a 40º C. À noite, a perda de calor pela superfície é considerável, porque a escassez de umidade no ar facilita esta perda. Portanto, a amplitude térmica diária é muito grande em ambientes desérticos, pode ser superior a 90º C. No inverno, durante a madrugada, a temperatura, que era positiva durante o dia, pode cair para 40º C abaixo de zero. As chuvas podem faltar por anos, mesmo por décadas e, quando caem, são, em geral, muito violentas. A pouca umidade do ar não impede a formação de orvalho, que é, muitas vezes, a única fonte de água para sustentar a vida. “Nas regiões semiáridas, a quantidade de chuvas anuais varia entre 380 mm e 760 mm e vão reduzindo-se em direção às regiões áridas, que recebem entre 125 e 380 mm por ano”. (BUCKMAN; BRADY, 1976, p. 311). UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 210 A infiltração da água das chuvas na areia ou nos solos argilosos desérticos é fundamental para as plantas e animais. A infiltração depende da quantidade de chuva. Se chover pouco, a infiltração se dá apenas na camada superficial e logo evapora. Nas chuvas fortes, a água dirige-se para o lençol subterrâneo, que pode se localizar a mais de 100 metros de profundidade. (LEINZ & AMARAL, 1972, p. 165). “Nos solos arenosos, a infiltração é facilitada pela quantidade de poros, mas nos solos argilosos ela quase não se infiltra. Nos solos litólicos, os poros são grandes e armazenam mais água” (WALTER, 1986, p. 115). “No semideserto do Sudão, com pluviosidade entre 50 mm e 250 mm, Acacia tortilis cresce sobre um solo arenoso, mas só aparece em solos argilosos quando os índices pluviométricos são superiores a 400 mm” (WALTER, 1986, p. 116). “O movimento capilar ascendente da água concentra na superfície compostos salinos – carbonato de cálcio, CaCO3. Ao evaporar, deixa crostas muitas vezes com espessura de um a quatro metros” (LEINZ; AMARAL, 1972, p. 165). Óxidos de ferro e de manganês emprestam ao deserto uma cor avermelhada ou escura. A abrasão da areia levada pelos ventos esculpe o relevo e pode originar uma superfície pedregosa, quando material fino é levado pelas chuvas. Quando a areia em movimento encontra um obstáculo, origina-se um sistema de dunas. O material levado pelas águas das chuvas acumula-se em depressões e forma camadas de sedimentos, que podem ter quantidades variadas de sais, como sulfatos e carbonatos de sódio e potássio. As plantas desenvolveram um complexo mecanismo contra a perda de água por transpiração. Mas essa perda varia muito com as espécies. “A Larrea divaricata (creosoto), por exemplo, transpira quase toda a água das células e vive com o mínimo necessário até a próxima chuva, que pode tardar anos” (SIMMONS, 1982, p. 122). Nos desertos arenosos, as raízes são longas, às vezes com mais de 50 metros, para buscar água no lençol subterrâneo. Plantas suculentas armazenam água nas raízes, nos caules e nas folhas. O recobrimento de cera sobre as folhas, em muitas espécies, reflete a luz e reduz a absorção do calor. Pelos sobre as folhas formam uma micrométrica camada de ar, que dificulta a perda de água pela transpiração. Folhas carnudas são boas armazenadoras de água, folhas pequenas têm poucos estômatos, folhas enroladas protegem os estômatos da luz. Os cactos transformaram as folhas em espinhos que fazem as trocas gasosas e protegem contra herbívoros predadores, o caule verde e recoberto de cera é responsável pela fotossíntese e pelo armazenamento de água. Algumas espécies param de crescer até que a água volte a ser suficiente. Espécies anuais permanecem em forma de sementes, que só brotam na chuva seguinte. Os mecanismos de proteção não se resumem a modificações fisiológicas e morfológicas, apenas. A quantidade de água disponível regula a competição entre as plantas e, portanto, a densidade entre elas. “Uma estiagem prolongada pode ser fatal para certas populações vegetais”. (WALTER, 1986, p. 120). TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 211 Em desertos onde o índice de chuvas é inferior a 100 mm/ano, a umidade se concentra em ravinas e depressões, porque a água escoa para eles. As plantas têm um sistema radicular avantajado. “Portanto, a quantidade de água nos desertos secos não é tão pequena como se pensa. Onde há plantas, há obrigatoriamente água”. Segundo Walter (1986, p. 123), as plantas dos desertos podem ser agrupadas em três categorias: xerófitas, suculentas e halófitas. Ele define os xerófitos como plantas que vivem com mínima quantidade de água e não a armazenam. Para Rizzini (1976, p. 258), xerófito é uma planta que vive num hábitat seco e desenvolveu mecanismos para resistir à seca. Se o solo mantém a água nas estações secas, como ocorre com o cerrado brasileiro, as plantas não são xerófitos. Só serão xerófitos se o ambiente for seco, como se dá nos solos argilosos dos desertos – que são secos. Walter (1986) e Rizzini (1976) concordam que a maioria das plantas dos desertos é mesófita e não xerófita. Há plantas que evitam a seca e as que resistem à seca, com menor ou maior capacidade (WALTER, 1986). “O que distingue o xerófito do mesófito é a capacidade que ele tem de utilizar a água, diz Rizzini” (1976, p. 262). Os mesófitos só fecham os estômatos quando há o deficit de água, mas eles continuam transpirando através da cutícula e, se a água não for reposta, podem murchar e morrer. O xerófito não transpira pela cutícula e, desta forma, mantém a água no seu interior. Portanto, ele tem maior capacidade de reduzir a perda de água a um mínimo suportável, e é esta faculdade que distingue os xerófitos. As suculentas armazenam água nas folhas, no caule e nos rizomas e tubérculos subterrâneos. “As raízes das suculentas são, em geral, superficiais, e, na primeira chuva, absorvem a água com muita eficiência” (RIZZINI, 1976, p. 263). Elas aparecem nos desertos e estepes, nas restingas, sobre as rochas, em solos salinos, nos troncos e galhos de árvores, nas montanhas, nos polos etc. As halófitas são suculentas e são típicas de ambientes salinos. Dependem mais do solo do que do clima local. São, pois, de caráter edáfico. Plantas efêmeras germinam quando há água e sobrevivem nas estiagens na forma de sementes ou frutos. A vida nos desertos é particularmente difícil para os animais: a falta de água e o calor excessivo são os fatores limitantes também para eles.Animais de pele macia, úmida e porosa e sem pelos têm hábitos noturnos. Durante o dia, escondem-se em tocas ou em afloramentos. A procura de comida se dá, às vezes, no início da manhã ou no fim da noite. As adaptações fisiológicas nos animais foram criadas por processos evolutivos relacionados à genética, pressionado pelo ambiente. Inúmeras aves, insetos e roedores obtêm água apenas a partir do seu alimento. O asno selvagem africano e o asiático (Equus asinus e E. hemmionus) bebem até a quarta parte do seu peso em água. “O camelo pode beber 120 litros de água de uma só vez” (SIMMONS, 1982, p. 123). Grande parte dos animais tem hábitos exclusivamente noturnos, porque são muito sensíveis ao calor e à desidratação. No momento em que o sol nasce, retornam às tocas, em geral muito profundas. Lagartos, a maioria dos pássaros e alguns mamíferos enfrentam UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 212 o calor do dia, mas, quando a temperatura ultrapassa os 50º C, eles procuram abrigo. A dormência e o enquistamento são defesas contra o calor. A dormência é própria de animais grandes, mas os micro-organismos (ameba, ciliados e outros protozoários) enquistam. Em ambos os processos, a respiração, metabolismo e o crescimento reduzem-se a um mínimo e o indivíduo gasta pouca energia. Alguns caramujos podem permanecer em dormência por mais de cinco anos. “Nas chuvas torrenciais e rápidas, que formam pequenas poças d'água, o camarão Triops eclode e tem um ciclo de vida de duas semanas, quando se reproduz e entra em dormência, quando as poças secam. Novo ciclo de vida, só na próxima e incerta chuva”. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 316). O deserto australiano é um dos mais áridos do mundo – as chuvas são inferiores a 250 mm/ano. O arbusto-do-sal (Atriplex vesicaria) e o arbusto-azul (Kochia sedifolia) são as espécies dominantes. A. vesicaria, halófita, pode ser um subarbusto ou erva e tem folhas suculentas e raízes superficiais. “Os indivíduos guardam uma boa distância entre si, o que reduz a competição pela água” (WALTER, 1986, p. 133). Nas regiões com dunas, os arbustos Acacia, Casuarina e Eremophila são dominantes. Acacia aneura, conhecida como mulga na Austrália Central, forma árvores, em média, com seis metros de altura e raízes que alcançam dois metros de profundidade. A formação das flores e frutos só se dá após uma chuva forte. “Nos lugares mais secos ela se distancia das vizinhas, mas quando há água suficiente no solo, forma densas moitas” (1986 p. 134). A mulga adaptou- se plenamente às condições limitantes e quando estas se tornam mais severas, ela interrompe ou reduz o seu crescimento a um mínimo. A mulga desenvolveu adaptações para driblar a falta de água – ela tem uma forma pontuda, que conduz a água das chuvas ao longo do tronco para a base da árvore, de onde penetra no solo até as raízes. Uma forma de sobrevivência no deserto. Muitas espécies de pequenos herbívoros não bebem água, mas a retiram do alimento. Outras têm hábitos noturnos e só saem para caçar à noite. Longas patas, orelhas e caudas são mecanismos eficientes na perda de calor corporal. O rato marsupial cego (Notoryctes typhlops) nada sob a areia como se estivesse na água e raramente sai à superfície. Os gekos (Nephrurus spp) e os escorpiões são noctívagos. Os ratos saltadores mantêm a toca úmida por meio da transpiração. Bebem a urina dos filhotes e retiram água das fezes, espremendo-as entre as patas. À noite, eles caçam insetos e se alimentam de brotos de plantas. Prezado(a) acadêmico(a)! Para conhecer mais sobre o desenvolvimento e adaptação das plantas, acesse o site: < http:// farrer.riv.csu.edu.au/ASGAP/APOL16/dec99-5.html - Australian plants on line>. Acesso em: 13 jul. 2010. DICAS TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 213 3.6 VEGETAÇÃO MEDITERRÂNEA Nas costas ocidentais dos continentes, nas latitudes de 30o e 45o, entre a floresta temperada decídua e os desertos quentes, a vegetação de certas regiões é dita mediterrânea não necessariamente por estar à margem do Mar Mediterrâneo, mas porque guardam entre si uma similaridade acentuada quanto à topografia, clima e elementos biogeográficos. São apenas cinco regiões em todo o mundo, que apresentam características tão marcantes que constituem uma transição entre aqueles dois biomas. Com um clima semiárido de verões quentes e secos e invernos suaves e úmidos, as regiões mediterrâneas foram colonizadas pelo homem desde a Antiguidade. As regiões mediterrâneas aparecem no litoral do Mar Mediterrâneo, na Califórnia, no sul do Chile e nos extremos meridionais da África do Sul e da Austrália. O clima é muito seco no verão, mas os invernos são relativamente frios, com raras quedas de neve, e muito chuvosos. No verão, o anticiclone subtropical traz um aumento da temperatura, porque é atraído pelas baixas pressões polares. Ao passar sobre regiões desérticas e subdesérticas continentais, no seu trajeto para os polos, perde a pouca umidade e torna-se massa tropical continental seca e quente. As temperaturas no verão podem ser altas e não é raro chegar aos 40º C, em verões particularmente quentes, na Europa. Mas a média anual fica por volta dos 20º C. As altas temperaturas e a secura do ar no verão são causas de incêndios espontâneos na floresta mediterrânea. No inverno, ciclones subtropicais, formados no encontro das massas subtropicais marítimas com as massas polares, invadem as costas ocidentais e a região mediterrânea europeia, com muita chuva e queda da temperatura. As chuvas, em média, variam entre 300 mm e 500 mm no inverno. “As folhas são coriáceas (grossas), têm pelos e poucos estômatos. Estão preparadas para suportar meses secos reduzindo a transpiração ao mínimo, ou fechando os estômatos (almécega, Pistacia lentiscus) ou adotando a microfilia (junco bravo, Adenostoma fasciculatum)”. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 265). Algumas plantas têm raízes superficiais e outras profundas, como a amendoeira (Prunus amygdallus). Alguns vegetais são terófitos (a maior parte do ano em forma de sementes), outros são geófitos (com raízes e brotos abaixo da superfície – ex. tubérculos), entram em dormência no verão e florescem apenas no inverno. Animais e insetos herbívoros atacam as plantas, que sobrevivem no verão, obrigando-as a criar mecanismos de defesa, como folhas duras e espinhos. “O junco bravo exala substâncias odoríferas, que espantam seus predadores”. (HARE, 1995, p. 122). Não obstante a escassez de água, a flora e a fauna mediterrâneas são consideráveis. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 214 No litoral mediterrâneo, florestas de carvalho (Quercus spp) predominavam na paisagem, com destaque para o Q. ilex, árvore perenefólia, clímax nas terras baixas, hoje reduzido a manchas e substituído no litoral pelo sombreiro (Q. suber), de maior valor econômico. A oliveira (Olea europaea), também importante atividade econômica, substituiu os carvalhos em quase todo o Mediterrâneo. “Nas montanhas pode-se ver carvalhos decíduos, faias e as florestas de coníferas, de abetos e pinheiros”. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 266). A vegetação é esclerófila e xerófita e tem porte médio e baixo, com árvores pouco desenvolvidas e arbustos espinhosos, principalmente onde o solo serviu de pasto para o gado doméstico. O aspecto da vegetação é muito parecido em todos aqueles lugares, mas recebe nome específico e com certas diferenças: mallee na Austrália, chaparral na Califórnia, fynbos (ou fynbosch) na África do Sul, matorral no Chile (HARE , 1995, p.122), maquis ou macchia no Mediterrâneo e garrigue, no sul da França. Estes nomes designam arbustos esclerófilos com um metro de altura, e batha refere-se a arbustos anões, com menos de 0,5 metro de altura. O maquis ou macchia é um matagal denso e impenetrável, com arbustos de mais de dois metros de altura, espalha-se, favorecido pelos desmatamentos. Quandoo maquis é substituído por pastos ou é destruído por incêndios ou por cortes, o garrigue o substitui. O garrigue é uma vegetação de ervas e arbustos duros, acostumada a solos estéreis e com pouca água, que forma touceiras espalhadas, deixando o solo praticamente descoberto entre eles. As fortes chuvas de inverno atacam o solo desnudo e aceleram a erosão e retiram do solo os penúltimos elementos nutrientes, o que favorece a chegada do batha, arbustos esparsos, muito resistentes, um estágio que antecede a invasão de plantas do deserto, onde, outrora, havia uma floresta de carvalho. O maquis resulta das atividades milenares dos povos europeus. Ele forma a primeira etapa da sucessão ecológica e, caso evoluísse normalmente, sem interferência do homem, regenerar-se-ia num bosque de folhas perenes. O pastoreio com cabras e ovelhas, por séculos sucessivos, mudou a organização espacial da vegetação do Mediterrâneo. As ovelhas alimentam-se apenas dos brotos macios dos arbustos anões, mas as cabras são extremamente vorazes e comem plantas de textura grossa e até espinhos. Ágeis, sobem em árvores e se equilibram na beira de barrancos altos, com grande indiferença ao perigo, para comer as folhas, onde quer que elas existam. Um rebanho de cabras faz um estrago considerável no maqui e, em poucos meses, ele se transforma num garrigue. No verão, a vegetação ressecada pelo calor e pela escassez de água é um excelente combustível para o alastramento do fogo. O fogo faz parte da ecologia da vegetação Mediterrânea, como também de outros biomas como da Taiga, da Floresta Mista, da Savana e do Campo. Em todos, o fogo seleciona espécies chamadas tipos do fogo, ao impedir, por exemplo, a expansão de árvores e arbustos, que, ao se propagarem, fariam sombra sobre as pradarias. Favorece o rápido desenvolvimento de espécies resistentes, como gramíneas de raízes extensas, cujos brotos germinam quando as chuvas retornam e destrói substâncias químicas tóxicas formadas por alguns arbustos, e, desta forma, libera nutrientes para o TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 215 solo. Quando vêm as chuvas do inverno seguinte, a rápida lixiviação faz infiltrar os nutrientes, ajudando no crescimento de ervas e gramíneas, que se alastram rapidamente, pois os solos são, em geral, ricos em bases. “Incêndios pequenos causados naturalmente (por raios ou por superaquecimento de minerais como quartzo), consomem o combustível constituído pela serapilheira e assim previnem grandes incêndios naturais”. (RICKLEFS, 1996, p. 360). No chaparral da Califórnia a paisagem é muito semelhante à europeia. Existem duas formações: floresta de carvalhos e o chaparral propriamente dito, uma formação de arbustos espinhosos. Entre os carvalhos, a dominância é das fagáceas Quercus agrifolia e Q. lobata, com árvores espalhadas, formando bosques abertos, que recobrem de 25% a 60% do solo, lado a lado com os arbustos do chaparral. “A floresta de carvalho aparece em solos profundos com precipitações entre 380 e 1.000 mm/ano”. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 267). Nas cadeias costeiras, mais áridas e com solos pobres, o chaparral é a vegetação clímax. As espécies mais comuns no chaparral são a lilás silvestre (Caenothus spp), um arbusto da família das Oleáceas, a maçã (Arctostaphylos spp), o mogno de montanha (Cercocarpus spp), o carvalho venenoso (Rhus diversiloba) (STRAHLER , 1986, p. 381). A artemísia (Artemísia tridentata), comum no chaparral americano e mexicano, onde recebe o nome de sagebrush, é um arbusto perene, que pode atingir mais de três metros de altura. Tem dois sistemas de raízes – profundas, para a falta de chuvas, quando vai buscar água no lençol - superficial, que usa nas chuvas. Nas grandes estiagens, perde as folhas e libera sementes, que são espalhadas pelo vento. Pode também libertar-se das raízes e é empurrada pelo vento, liberando sementes por onde passa, rolando sobre a areia. Essa visão da artemísia levada pelo vento ficou popularizada nos filmes de faroeste. Os índios do deserto queimam a artemísia para liberar um odor forte e espantar insetos e animais. Também é fervida e usada contra urticária. O sagebrush é alimento de muitos animais, tais como o gado doméstico, ovelhas, cavalos, cabritos monteses, alces, veados, pássaros terrestres e aquáticos. 3.7 BIOMA DE SAVANAS As savanas são tipicamente tropicais – elas aparecem entre a floresta equatorial e os desertos e estepes das latitudes médias. A paisagem é uma cobertura de árvores, gramíneas e arbustos espaçados. Constitui-se por um balanço entre ervas, arbustos e árvores, podendo caracterizar-se como mais herbácea ou mais arbustiva-arbórea. “As savanas variam muito de um lugar para outro, o que vai depender das condições do hábitat, mas, de um modo geral, estrutural e funcionalmente, elas se assemelham”. (COLE, 1987, p. 334-356). Walter (1986, p. 76) define a savana como uma "[...] comunidade vegetal homogênea, do ponto de vista ecológico, caracterizada pela presença de vegetais lenhosos esparsos, em meio a prados relativamente secos". É bom frisar que o termo seco não se aplica ao cerrado brasileiro. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 216 Müller (1979, p. 108) e Troppmair (2002, p. 80) relacionam três tipos de savanas, segundo as condições climáticas: savana úmida, com três a quatro meses de estiagem; savana árida, com 6-7 meses sem chuvas; savana espinhosa, com 8-9 meses sem chuvas. O cerrado brasileiro inclui-se no primeiro tipo e a caatinga neste último tipo de savana. O clima das savanas tem dois períodos bem marcados – chuvas de verão e estiagem no inverno. No reino Paleotropical, a savana aparece nos dois hemisférios. Portanto, tem dois regimes de chuvas – no verão do Hemisfério Norte (junho, julho e agosto/setembro), com as chuvas concentradas em agosto (360 mm); o inverno (dezembro, janeiro e fevereiro/março) é seco. A estação das chuvas começa em março e avoluma-se na direção do meio do ano. No Hemisfério Sul o verão é chuvoso – dezembro, janeiro e fevereiro/março – e o inverno é seco – junho, julho e agosto/setembro. O período das chuvas inicia-se em setembro/ outubro. No inverno predominam massas tropicais continentais secas trazidas pelo anticiclone marítimo, e, por isto, sempre estável. Cerca de meados do outono seguinte, a pressão principia a cair, devido ao aquecimento do hemisfério, e massas tropicais e equatoriais começam a se movimentar na direção dos trópicos, trazendo chuvas de convecção abundantes. A massa tropical marítima é a mesma que atua no inverno, mas agora, com uma diferença – como o hemisfério está aquecido, ela forma chuvas de convecção, típicas do verão, que caem no final da tarde. Simultaneamente, as temperaturas também sobem. As savanas são um ecossistema extremamente sensível. Para se manter, precisam de uma complexa rede de interações de animais, plantas e variáveis físicas – dentre estas, a água, os nutrientes do solo e o fogo são fundamentais para a fisionomia, para a flora e, sobretudo, para a distribuição espacial da vegetação e da fauna. (COLE, 1987). Na estação chuvosa, a lixiviação é elevada e, por isto, há deficiência de cálcio, magnésio, fósforo, potássio e sódio no solo. Contudo, altos teores de ferro e alumínio permanecem nos solos. A laterização é comum nas savanas e tem papel destacado na fisionomia da paisagem e na estrutura (WALTER, 1986, p. 84). A distribuição e a fisionomia das savanas se devem, sobretudo, às condições do solo e à geomorfologia, em detrimento do clima. No Brasil, aparecem no Planalto Central, onde as superfícies de aplainamento se preservaram e os solos têm uma uniformidade geral. Na África, os solos são mais variados, porque têm origens diversas, o que reflete na sua distribuição. (COLE, 1987). De um modo geral, a fisionomia da savana africana é muito homogênea. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 217 Acompetição entre as plantas é intensa. Walter (1986, p. 79) agrupa as plantas das savanas em duas categorias: espécies herbáceas, com raízes desenvolvidas e ramificadas, e espécies lenhosas, com raízes grossas horizontais e verticais. As plantas estão em permanente competição entre si: “[...] são dois tipos vegetais antagônicos; via de regra, um exclui o outro”. As gramíneas são grandes consumidoras de água, porque a sua transpiração é intensa, enquanto as lenhosas sabem preservá-la, por exemplo, perdendo as folhas na estação seca. Na estiagem, as gramíneas tendem a consumir toda a água do lençol e as lenhosas não conseguem sobreviver – nesse local, a savana será exclusivamente de gramíneas. Só haverá água para as lenhosas se as chuvas forem superiores a 300 mm/ano. Nesse caso, a savana terá arbustos lado a lado com gramíneas, sempre em competição. Para as árvores, a precipitação tem que ser superior a 400 mm/ano. A cobertura de árvores mantém o sombreamento e impede o crescimento das gramíneas – é o único caso em que as árvores prevalecem em relação às ervas . FONTE: WALTER (1986, p. 82) A fisionomia das savanas é típica e inconfundível – árvores espaçadas, raramente ultrapassando os 15 metros de altura, troncos de cascas grossas, com poucos galhos e ramos, sempre tortuosos, em geral micrófilas, raramente xerófitas. Essa paisagem é comum nas savanas africanas e no cerrado brasileiro. “Em algumas ocasiões pode predominar uma espécie única, como o baobá (Adansonia digitata), que se estende do Senegal até a Tanzânia, ou as palmeiras (Borassus spp), no Sudão e na Costa do Marfim” (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 296). O baobá é uma árvore mítica para o nativo africano. O tronco chega a ter 20 metros de diâmetro e pode armazenar até 120.000 litros de água. (MÜLLER, 1986, p. 78). Furley e Newey (1986, p. 296) classificaram a savana africana em três zonas principais: a zona da Guiné, mais úmida, com árvores entre 15 e 20 metros, e que, segundo eles, pode representar os restos de antigas floresta tropicais; a zona do Sudão, formada por uma associação de espécies lenhosas (Acacia sp) com palmeiras (Hyphaene sp) e gramíneas de um a 1,5 metro de altura; finalmente, a zona do Sahel, ao norte, mais seca, com árvores espaçadas de folhas espinhentas. Walter (1986, p. 86), por seu lado, distinguiu quatro tipos de savanas africanas, segundo a origem: ● savanas fósseis, formadas em épocas geológicas passadas (embora ele não determine a época geológica); ● savanas climáticas, em regiões com precipitações inferiores a 500 mm/ano; ● savanas edáficas, reguladas pelas condições dos solos: a – solos que contenham camadas impermeáveis, como lateritas e argilas, que influenciem o balanço hídrico local; b – solos pobres em nutrientes; UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 218 c – solos encharcados, em que palmeiras são comuns – no cerrado brasileiro este tipo é denominado de vereda; ● savanas secundárias, cuja existência deve-se ao fogo, à pastagem pelos grandes herbívoros e ao homem. Os grandes herbívoros são um fator importante na expansão das savanas, e Walter faz considerações interessantes: “O elefante é um inimigo especial das florestas, arrancando árvores ou descascando os seus troncos. As trilhas dos elefantes rarefazem a mata, abrindo caminho por onde os incêndios dos capinzais penetram na floresta. Um só elefante destrói em média quatro árvores por dia”. Os elefantes são grandes apreciadores da casca das acácias, que derrubam e as arrancam com as presas. Nas reservas, onde os elefantes são protegidos dos caçadores, o pisoteio feito pelas manadas, que usam sempre o mesmo trajeto, acelera a erosão em sulcos. Walter (apud, p. 86) também atribui aos hipopótamos a erosão nas margens dos rios. A água, o solo e o fogo são elementos que influenciam a estrutura e a fisionomia das savanas. Cole (1987) considera o fogo tão importante quanto a água e os nutrientes, mas para Furley; Newey (1986, p. 297), “as labaredas reduzem a quantidade de matéria orgânica, afetam o microclima e a fauna”. Supunha-se que queimadas praticadas por povos antigos eram responsáveis não só pela origem como pela fisionomina da savana, porque raízes jovens e brotos apicais eram destruídos pelo calor. Rawitscher, Ferri e Rachid (1943, apud FERRI, 1973; TROPPMAIR, 2002, p. 82), Arens (1958 e 1963) e Goodland (1979) mostraram que não falta água no cerrado e que altas concentrações de alumínio em solos pobres em bases trocáveis são os responsáveis pela forma retorcida das árvores. A savana africana é a mais rica em espécies animais. Na Austrália aparecem os marsupiais e as aves, como os papagaios, e o emú (que não voa), equivalente ao avestruz africano. Na América do Sul destacam-se o guará (Chrysocyon brachyurus, chamado popularmente de lobo-guará, mas que não pertence ao gênero Canis), o cervo dos pampas e do Pantanal e felinos, como a onça pintada, a parda ou suçuarana, dentre outros. As térmitas (cupins) revolvem e arejam o solo e, pois, melhoram as condições de trocas entre ele e a vegetação e acabam por desenhar uma paisagem típica, que Müller (1979, p. 111) e Walter (1986, p. 87) “chamam de savana de termiteiros”. No cerrado brasileiro, os cupinzeiros são uma das marcas características. Térmitas e formigas estão na base de muitas cadeias alimentares na África – o aardvark e o pangolim, pássaros, cobras e lagartos têm nelas a sua principal dieta. No Brasil, o tamanduá (Myrmecophaga spp) é grande apreciador de formigas e cupins. Destacam-se no Brasil o tamanduá-bandeira (M. tridactyla) e o tamanduá-mirim (M. tetradacctyla). TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 219 As térmitas e as formigas atacam a vegetação de duas maneiras (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 300): pelo consumo direto e decomposição da matéria orgânica e ao modificar as propriedades do solo. Muitas espécies cortam as folhas das árvores, como o gênero Atta, a saúva da savana sul-americana, o que prejudica a fotossíntese. As saúvas são comuns no interior do Brasil. No século XIX, o naturalista francês Saint-Hilaire (1779-1853), quando percorreu o Brasil, disse, alarmado e, obviamente, exagerado, que "ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil". Saint-Hilaire não desconfiava que ao acabar com uma praga, criam-se outras, às vezes muito piores. O Brasil não acabou com a saúva e nem a recíproca aconteceu. Os cupins edificam monturos, que alteram a paisagem e impedem o seu uso pela agricultura ou por pastos. Eles podem movimentar mais de 1.500 m3 de terra. Outras espécies cavam extensos túneis e galerias subterrâneos e acumulam matéria orgânica com que alimentam as larvas. Quando o fogo devasta a superfície da savana, as formigas escapam ao calor refugiando-se nas galerias mais profundas. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 298). Os pássaros são variados na savana africana e têm grande habilidade de se adaptar às condições sazonais, o que lhes permite ocupar nichos ecológicos diferentes. Aves predatórias deste bioma são a águia, o falcão e o abutre, enquanto outras não podem voar, como o avestruz. Aves migratórias viajam sazonalmente entre os reinos Paleártico e Paleotropical – há, pelo menos, 135 espécies de aves europeias na Nigéria. Os pássaros granívoros e frugívoros predominam e o seu papel na dispersão da vegetação é fundamental. Os insetívoros têm uma relação com os mamíferos e carnívoros muito próxima, porque alimentam-se de insetos e larvas, que infernizam a sua vida. Geralmente essas aves acompanham os deslocamentos dos animais. O fogo extermina a fauna de pequeno porte que vive no solo, principalmente os invertebrados, que têm menor capacidade de deslocamento. Quando o fogo elimina a vegetação e expõe o solo nu, o microclima é totalmente alterado, o que conduz a uma profunda alteração nos nichos ecológicose nas cadeias tróficas. A sucessão ecológica, que sobrevém ao fogo, logo que as primeiras chuvas caem, repõe 60% da micro e macrofauna do solo. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 300). 3.8 BIOMA DE FLORESTAS PLUVIAIS EQUATORIAIS A floresta equatorial do reino Paleotropical aparece na bacia do Congo e no sudeste asiático, onde atinge as maiores extensões. A região equatorial recebe calor durante todo o ano, porque a obliquidade dos raios solares é zero, e, por isto, a pressão atmosférica é baixa, o que origina a Zona de Convergência Intertropical, CIT ou ZCIT. A baixa equatorial, como também é chamada a CIT, atrai massas oceânicas e, no interior, produz massas equatoriais continentais, sempre úmidas e quentes, que provocam chuvas fortes à sua passagem. No Sudeste Asiático são comuns as chuvas de monções, sazonais: chuvas de verão e estiagens no inverno. UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 220 “A precipitação média nas florestas tropicais pluviais varia entre 2.000 e 3.000 mm/ano. Contudo, no sudoeste de Camarões ou nas montanhas de Khasi, na Índia, as chuvas ultrapassam os 10.000 mm/ano”. (FURLEY; NEWEY 1986, p. 275). As médias de temperatura ficam por volta dos 20º C e raramente são superiores a 30º C. As árvores são sempre altas, de troncos lisos, sem galhos, que só aparecem no topo para formar as copas, sempre largas. As raízes, normalmente, são tabulares e servem para a sustentação da árvore e para absorver prontamente os nutrientes provindos da reciclagem da matéria orgânica. As folhas são largas, com uma nervura central bem definida, que ajuda no escoamento da água. O ciclo de vida na floresta tropical é muito rápido e as árvores raramente ultrapassam os 300 anos de idade. Na floresta temperada, o metabolismo é mais lento e as árvores podem superar os 1.000 anos de idade, como as sequoias. Na floresta tropical, uma clareira aberta pela queda de uma árvore é logo repovoada por pequenas árvores, que antes eram impedidas de crescer por causa do sombreamento feito pelas maiores e, por isto, tinham porte arbustivo. Com a luz abundante, as árvores disparam para cima numa ferrenha luta pela luz. Em cinco anos podem atingir 25 metros de altura, com meio metro de circunferência. Em poucos anos, a floresta fecha a clareira. A floresta tropical tem de quatro a cinco estratos de árvores – ou sinúsias. No primeiro estrato estão as árvores emergentes, que formam um conjunto disperso, com mais de 40 metros de altura. O segundo estrato é contínuo e as árvores têm de 15 a 30-40 metros de altura. É ele que forma o dossel característico da floresta tropical. No terceiro estrato estão as arvoretas, de hábitos ciófitos, dispersas no meio da mata, atingindo entre cinco e 15 metros de altura. O quarto estrato é constituído por arbustos, geralmente árvores pequenas, que não conseguem crescer devido à competição pela luz e pela sombra feita pelas árvores maiores. O quinto estrato é o herbáceo, e a sombra impede o seu desenvolvimento pleno – são ervas, fetos, gramíneas e rebentos de árvores, que aparecem aonde alguma claridade chega até a superfície do solo, e que ficam à espera da eventual abertura da clareira. A distribuição da temperatura no sentido horizontal é muito uniforme. Contudo, no sentido vertical a sua distribuição origina microclimas específicos e complexos. As populações de animais e insetos que vivem nas árvores dependem diretamente dos microclimas, porque a luz e a sombra fazem variar o teor de umidade e a temperatura ao longo do dia e cria habitats especializados nos troncos. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 221 “A distribuição da luz depende das copas. As emergentes recebem luz diretamente e o vento varre as folhas livremente. Esses dois fatores aumentam a transpiração da árvore, levando o primeiro estrato a experimentar um déficit hídrico, como revelaram estudos na Costa do Marfim”. (CACHAN; DUVAL, 1963, apud FURLEY; NEWEY, 1986, p.: 275; DAJOZ, 1973, p. 73). As folhas externas são heliófitas e apresentam os mesmos mecanismos para a retenção de água vistos nas regiões quentes e secas. A luz diminui à medida que se desce para a superfície. Isto cria uma inversão térmica: a temperatura era de 32º C na copa das emergentes e, no solo, caiu para 27º C, na floresta do Banco, na Costa do Marfim (CACHAN; DUVAL, 1963, apud DAJOZ, 1973, p. 73). A umidade relativa passou de 30% nas copas para 80% na superfície. A iluminação era de 100.000 luxes no topo e caiu para 100 luxes no solo. O vento tinha uma velocidade de 7 m/min. no topo e desapareceu no solo. A temperatura no solo variava entre 25º C e 27º C nos dias quentes e, como as trocas de nitrogênio entre a planta e o solo se fazem melhor à temperatura de 25º C “[...] compreende-se assim, a razão pela qual a floresta pode conservar- se em um solo pobre, que, quando desembaraçado das árvores, só dará fracas colheitas”. (DAJOZ, 1973, p. 73). Epífitas heliófitas das famílias Orchidaceae e Bromeliaceae crescem profusamente nos galhos expostos ao sol, lado a lado com fetos, musgos, líquens e hepáticas. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 275). As copas reduzem a velocidade das gotas de chuva, que perdem a energia à medida que descem em direção ao solo. No solo, o tapete de folhas mortas e em decomposição reduz ainda mais o impacto da gota, o que torna a erosão pluvial mínima na floresta. Mas nas clareiras, sem a proteção das copas, como o solo fica exposto, a insolação e a erosão são maiores. Em um hectare de mata pluvial equatorial pode-se contar de 40 a 100 espécies de árvores de inúmeras famílias. Na floresta temperada, sob outras condições climáticas, há de cinco a 20 espécies de árvores em um hectare. As raízes são, em geral, superficiais, penetrando muito pouco no solo, no máximo até 2,5 metros de profundidade, contudo, mantendo uma média de 10 cm até 30 cm de profundidade. Algumas espécies de Bombaceae, Leguminoseae, Sapotaceae e Meliaceae são dotadas de raízes escora, que podem chegar a nove metros de altura. (FURLEY; NEWEY, 1986, p. 279) e se estender horizontalmente por mais de cinco metros. A floração e a frutificação se dão continuamente ao longo do ano (WALTER, 1986, p. 52), porque, como o clima é uniforme, não há uma estação própria para crescimento das plantas, nem estação que o retarde. As folhas só caem devido à sua idade e são logo substituídas por outras novas – não há espécies decíduas. Quando houver, seguramente, é uma espécie sobrevivente de climas mais secos UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 222 do passado, que ainda se mantém. Isto pode ser visto na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica) de Santa Catarina, Brasil, onde algumas espécies de árvores são de uma época passada em que o clima era mais seco e frio e perdem as folhas no inverno. (KLEIN, 1975). A dispersão dos frutos é complexa e vai desde aquele que explode ao cair no chão e espalha suas sementes, aos que podem flutuar, como as cabaças, e atingir longas distâncias. A participação de animais e aves na dispersão é considerável. A dispersão horizontal depende dos tipos de solo, do relevo, da presença ou escassez de água no solo, das relações com animais, insetos e aves polinizadores, das relações entre as plantas entre si em associações vegetais. Essas últimas organizam os indivíduos segundo as características sociológicas e fisiológicas de cada um. As clareiras interrompem bruscamente um contínuo e criam outros tipos de dinâmica. O caráter importante da floresta pluvial é dado pelas lianas ou trepadeiras e epífitas. As trepadeiras agarram-se aos troncos e galhos das árvores, principalmente das emergentes, porque são heliófitas e buscam muita luz. Nas árvores secundárias das clareiras elas travam verdadeiras batalhas pela luz. As lianas possuem muitos artifícios para se agarrar às hospedeiras: espinhos, gavinhas (órgãosde fixação), raízes adventícias, que se introduzem nas fendas ou enlaçam os troncos, como fazem as Aráceas (Araceae). As epífitas usam troncos, arbustos, galhos ou rochas para se fixar. Não são parasitas, usam os hospedeiros apenas como suporte. São plantas de clima úmido, escasseando nas matas de clima sazonal ou nas savanas. “A maior parte das epífitas é heliófita, sobretudo as bromeliáceas” (RIZZINI, 1976, p. 280). A água armazenada num reservatório é hábitat importante para uma infinidade de insetos e animais, como larvas de insetos, planárias, caramujos, centopeias, formigas, escorpiões, aranhas, rãs, lagartos e até pequenas cobras. Furley & Newey (1986, p. 281) “agrupam as epífitas em macroepífitas – orquídeas, bromélias, cactos – e microepífitas – musgos, líquens e algas. Dentro desses tipos, elas podem ser classificadas segundo três fatores: morfologia, relações com a água e nutrição e posição ecológica na floresta” (1986, p. 281). Rizzini (1986, p. 279) “as classifica pela estrutura: podem ser suculentas ou esclerófilas. Cain & Oliveira Castro (1959, apud FURLEY; NEWEY, p. 281) dividem as epífitas em quatro grupos: holoepífitas, hemiepífitas, pseudoepífitas e semiparasitas”. As holoepífitas (holo-, gr. holos, exprime a ideia de totalidade) nunca se ligam ao solo, como as Orchidaceae, Bromeliaceae e Piperaceae. A bromeliácea Tillandsia (como T. usneoides), conhecida no Brasil como barba-de-velho ou barba- de-bode (JOLY, 1991, p. 686), faz parte desse grupo. TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 223 As hemiepífitas (hemi-, gr., hemi, exprime a ideia de meio) começam como epífitas verdadeiras, cuja semente, trazida por pássaros ou morcegos, germina no galho de uma árvore, e mudam para lianas, parasitas, quando crescem e atingem o solo, formando raízes aéreas, que se abastecem de água e de nutrientes, permitindo que ela cresça, agora para cima, para formar um caule que se espessa e envolve a hospedeira. A liana, então, abraça a árvore e a estrangula e acaba por matá-la. À medida que cresce, ela vai, aos poucos, substituindo o tronco da hospedeira, que impossibilitada de fazer correr livremente a seiva nos vasos, cede o lugar para a liana, agora enorme e com uma copa vasta. O cipó tem gavinhas que sugam a seiva da hospedeira. Em pouco tempo, a hospedeira deixa de existir e é substituída pela liana, que se transforma numa árbore como a figueira (Ficus spp). No interior do Brasil, esta liana é conhecida com figueira-mata-pau. As pseudoepífitas germinam no solo e procuram uma planta hospedeira para subir por ela, livrando-se, em seguida, das raízes do solo, tão logo se fixem no tronco, onde, então, passam a viver como epífitas. As semiparasitas se apoiam em árvores das quais retiram nutrientes, mas possuem folhas e são clorofiladas, podendo fazer a fotossíntese. Os haustórios (órgãos sugadores) da planta penetram na hospedeira até os vasos lenhosos e retiram deles o material necessário para sintetizar o seu alimento. Ao crescer, a planta se adere à hospedeira por meio de órgãos viscosos e, então, introduz no caule e nos galhos da hospedeira os haustórios. No Brasil, a popular erva-de-passarinho, da família Loranthaceae, é uma praga que recobre árvores inteiras, chegando a matá-las. Esta família tem 40 gêneros e cerca de 1.400 espécies, todas parasitas (JOLY, 1991, p. 246). Parasitas verdadeiras são plantas que obtêm o seu alimento diretamente de outra, como os fungos, que são saprófitos. É exemplo a Rafflesia arnoldii, da família Rafflesiaceae, em Sumatra, que produz flores enormes, com mais de um metro de diâmetro. Os solos tropicais, em geral, são pobres em nutrientes. A lixiviação retira os minerais úteis e permanecem no solo óxidos de ferro e alumínio (Fe2O3 e Al2O3) de pouca ou nenhuma utilidade para as plantas. O pH varia entre 4,5 e 5,5 (WALTER, 1986, p. 49). A floresta tropical se mantém unicamente, pode-se dizer, graças à sua própria reciclagem de nutrientes. O clima úmido e quente é a base para a manutenção de uma população de micro e macro-organismos decompositores da matéria orgânica. A decomposição libera para o solo os elementos químicos, que são, então, lixiviados pelas chuvas. As raízes são dotadas de micorrizas, que as ligam diretamente com a serapilheira, o que lhes permite absorver os elementos e compostos químicos formados na decomposição orgânica. A dinâmica da floresta tropical é muito veloz, porque ela depende da sua própria capacidade de reciclar os nutrientes. A exploração da mata desequilibra os ecossistemas e os nutrientes podem se perder, empobrecendo o solo, o que UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 224 transforma a paisagem e lhe confere outra dinâmica. A recuperação completa da mata e dos seus ecossistemas será, então, muito lenta e, de acordo com Hare (1995, p. 96), pode levar até 700 anos. As florestas tropicais não se resumem apenas às planícies. Também em áreas montanhosas, como as atingidas pelos ventos alísios, as vertentes montanhosas revestem-se de florestas densas, como na costa oriental da América do Sul (Mata Atlântica), em Madagascar e no nordeste da Austrália, todas regiões atingidas pelos alísios. A presença das montanhas nas costas orientais leva à formação de densas nuvens, que envolvem quase permanentemente os cumes. Por isto, a floresta é conhecida como floresta de neblina. No Brasil, as serras do Mar e Geral, acima de 1.200 metros de altitude, são envolvidas por nuvens formadas pela ascensão das massas oceânicas. Klein (1978, p. 8), usando a denominação de Rambo, chama de mata nebular as formações florestais de ambas as serras. Walter (1986, p. 64) situa as florestas de neblina entre 1.000 e 2.500 metros de altura, altitude em que as chuvas orográficas são mais fortes e constantes. O ar saturado de umidade favorece o desenvolvimento das epífitas e, em maiores altitudes, dos fetos, licopódios, musgos e hepáticas (WALTER, 1986, p. 64; FURLEY; NEWEY, 1986, p. 288). A vegetação recobre vertentes de alta declividade, sob solos delgados quando há, mas é uma cobertura densa, de árvores baixas, pouco desenvolvidas, repletas de epífitas, revestidas de musgos e tortuosas. Nos países de língua inglesa, a mata é conhecida como floresta de duendes (elfin forest) (WALTER, 1986, p. 64; FURLEY; NEWEY, 1986,p. 288), porque transmite uma sensação de floresta mágica, encantada, com as árvores sempre envolvidas por uma neblina densa, que lhes dá um aspecto leitoso, misterioso. Os galhos e troncos, finos e tortos, não raro estão completamente tomados por espessos tapetes de musgos e epífitas, que pendem deles, como a Tillandsia spp (barba-de-velho), cujos filamentos formam densas cortinas, que chegam até o solo, reforçando essa impressão. A fauna das florestas tropicais é muito rica e é um reflexo também da sua complexidade. A atividade dos animais está intimamente ligada à estrutura da vegetação, da biomassa e da flora. Eis alguns poucos exemplos da fauna: o bongo (Boocerus euryceros) habita a África Ocidental, a bacia do Congo até o Sudão; o bonobo (Pan panisous), uma espécie muito pacífica de chimpanzé, muito relacionada ao homem, vive somente nas florestas do Zaire, numa área de 350.000 km2, na bacia do Congo; o elefante indiano (Elephas maximus) ocorre na Índia até Mianmar (antigo Ceilão), Sumatra e Bornéu, domesticável, é muito usado em tarefas pesadas, como transporte; o elefante pigmeu (Loxodonta cyclotis) vive no interior das florestas da África Central e Ocidental; o chimpanzé (Pan troglodytes), no Zaire, Guiné, Uganda e Tanzânia, ocupa desde as florestas à savana; o tigre- de-Bengala (Leo tigris) habita as selvas da Índia, Bangladesh, Burma, Sumatra, TÓPICO 1 | OS REINOS BIOGEOGRÁFICOS E OS BIOMAS 225 Java, Bali, China e Sibéria; o búfalo(Syncerus caffer) tem duas raças na África, mas apenas uma espécie: o búfalo das savanas, no Quênia e Tanzânia, e o búfalo das florestas, também chamado de búfalo anão, na África Ocidental; o leopardo (Panthera pardus), o mais ardiloso e inteligente dos carnívoros e o mais forte dos felinos; o pacífico gorila-das-montanhas (Gorilla berengei berengei), nas montanhas de Uganda e levado quase à extinção. As florestas pluviais equatoriais do Reino Neotropical, mais especificamente a Floresta Amazônica, pela sua exuberância e diversidade de características, será tratada mais detalhadamente no TÓPICO 2, que trata das paisagens fitogeográficas do reino Neotropical. ESTUDOS FU TUROS 226 Neste tópico você estudou que: ● Os territórios biogeográficos possuem extensões continentais e se distinguem pelo número elevado de endemismos, geralmente em nível de ordens e de famílias. Os reinos subdividem-se em Regiões Biogeográficas, com endemismos ao nível de subfamílias e de gêneros. Por sua vez, as regiões biogeográficas subdividem-se em Domínios ou Províncias Biogeográficas, compreendendo áreas com elevado número de endemismo ao nível de gêneros e espécies. ● Ao se traçarem os limites setentrionais das espécies sul-americanas e os limites meridionais dos grupos norte-americanos, podem-se observar dois fatos: 1 – as famílias sul-americanas aparecem em maior número; 2 – existe uma barreira natural, que marca o limite setentrional das espécies sul- americanas, representada, ao norte da América Central, pela floresta tropical das terras baixas e pelas altitudes de 1.500 metros da Sierra Madre, no México. Acima dessa cota altimétrica, espécies norte-americanas predominam e migram para a América do Sul pelos Andes. ● O deserto do Saara é outra região de transição cujos limites são incertos. Nela, transitam espécies de animais e de plantas dos reinos Holártico (região Paleártica) e Paleotropical (principalmente da região Etiópica). A região central do Saara é mais seca, porém, possui montanhas de clima mais ameno, que atuam como se fossem ilhas ou corredores biogeográficos, por onde migram espécies holárticas em direção ao sul. É também usada pelas espécies etiópicas, que a cruzam no seu movimento para o norte. ● Outra região de transição entre os reinos Holártico e Paleotropical aparece na China, bastante modificada pela ocupação humana, especialmente depois da chegada dos europeus. As matas subtropicais originais foram totalmente erradicadas e a fauna florestal substituída por espécies adaptadas ao campo aberto. ● A última zona de transição acha-se nas regiões meridionais da América do Sul e da Nova Zelândia e as separa do reino Arquinótico. Muitas famílias de plantas e de invertebrados atuais mostram estreita relação nessas regiões, cujas origens estão no período Terciário. ● O reino Holártico é restrito ao Hemisfério Norte. Compreende a Europa, incluindo a Islândia, a Sibéria, os países asiáticos, incluindo a Coreia e o Japão, o norte da África e a América do Norte, exceto o México. O reino Holártico tem uma fauna e uma vegetação bem diversificadas. RESUMO DO TÓPICO 1 227 ● O que mais chama a atenção no reino Australiano é a sua fauna endêmica, consequência do isolamento desde o Mesozoico Inferior. O reino inclui a Austrália, Nova Caledônia, Tasmânia, o centro-norte da Nova Zelândia, Nova Guiné, Polinésia e Havaí. O reino Australiano é um dos mais ricos em formações fitogeográficas, abrangendo quase todas as formações do planeta – desertos, estepes e pradarias, savanas, floresta temperada decídua, floresta tropical úmida e o chaparral. ● O termo Arquinótico significa oposto ao Ártico e engloba o extremo sul da América do Sul, Antártica e o sudeste da Nova Zelândia. As condições adversas à vida dificultam o estabelecimento de animais e plantas, de modo que as espécies que lograram se adaptar às condições reinantes são altamente especializadas e de pequeno número de espécies. ● O nome tundra significa terra nua e deriva do finlandês tunturia. O ecossistema da tundra é muito recente e formou-se no fim da última glaciação, há cerca de 10 mil anos, quando o gelo começou a recuar e a expor a superfície nua das rochas. É o maior ecossistema da Terra, recobrindo cerca de 20% do planeta. ● Localizada ao sul da tundra, entre as latitudes de 45o e 75o graus, a taiga forma um cinturão contínuo entre a América do Norte (Canadá e Alaska, uma estreita faixa no extremo oeste americano e pequenas manchas no norte dos EUA), o norte da Europa (norte da Escócia e Escandinávia), atravessa toda a Sibéria, e chega até o Japão. Na Sibéria, a taiga alcança a sua maior extensão norte-sul, estendendo-se por 1.600 quilômetros de território. ● Ao sul da floresta boreal, a floresta semidecídua ocupa uma área menor que a taiga. Situada entre 50º e 30º de latitude norte, na zona temperada da América do Norte, do leste da Ásia, da Europa Ocidental e Central. No Hemisfério Sul ela aparece no litoral do Chile, na Patagônia, numa estreita faixa no litoral sudeste da Austrália, na Nova Zelândia e no extremo sul da África do Sul. ● A principal característica das regiões áridas de latitudes médias subtropicais é que a evapotranspiração potencial é maior que a precipitação anual. Uma segunda característica, que resulta da anterior, é que o fator limitante nos desertos é a falta de água na superfície: a precipitação é inferior a 250 mm/ ano. A escassez de água superficial tem como resposta uma vegetação de baixo porte e as adaptações que animais e plantas desenvolveram para viver num ambiente seco. Os desertos não são uma região destituída de vida. Na verdade, eles possuem fauna e flora bastante diversificadas. Uma terceira característica é que os desertos têm chuvas irregulares, umidade muito baixa e intensa insolação. ● Nas costas ocidentais dos continentes, nas latitudes de 30o e 45o, entre a floresta temperada decídua e os desertos quentes, a vegetação de certas regiões é dita mediterrânea não necessariamente por estar à margem do Mar Mediterrâneo, mas porque guardam entre si uma similaridade acentuada quanto à topografia, 228 clima e elementos biogeográficos. São apenas cinco regiões em todo o mundo, que apresentam características tão marcantes que constituem uma transição entre aqueles dois biomas... As regiões mediterrâneas aparecem no litoral do Mar Mediterrâneo, na Califórnia, no sul do Chile e nos extremos meridionais da África do Sul e da Austrália. ● As savanas são tipicamente tropicais – elas aparecem entre a floresta equatorial e os desertos e estepes das latitudes médias. A paisagem é uma cobertura de árvores, gramíneas e arbustos espaçados. Constitui-se por um balanço entre ervas, arbustos e árvores, podendo caracterizar-se como mais herbácea ou mais arbustiva-arbórea. As savanas variam muito de um lugar para outro, o que vai depender das condições do hábitat, mas, de um modo geral, estrutural e funcionalmente, elas se assemelham. ● A floresta equatorial do reino Paleotropical aparece na bacia do Congo e no sudeste asiático, onde atinge as maiores extensões. A região equatorial recebe calor durante todo o ano, porque a obliquidade dos raios solares é zero, e, por isto, a pressão atmosférica é baixa, o que origina a Zona de Convergência Intertropical, CIT ou ZCIT. 229 1 Qual a relação entre o nível de endemicidade e os territórios biogeográficos? 2 Qual a localização dos cinco reinos biogeográficos conforme a classificação de Müller (1979)? 3 Os territórios biogeográficos possuem extensões continentais e se distinguem pelo número elevado de endemismos, geralmente em nível de ordens e de famílias. Acerca do estudo realizado sobre os territórios biogeográficos, analise as afirmativas a seguir: I. As regiões biogeográficas subdividem-se em Domínios ou Províncias Biogeográficas, compreendendo áreas comelevado número de endemismo ao nível de gêneros e espécies. II. Os domínios subdividem-se em Setores ou Distritos Biogeográficos, que correspondem a territórios restritos com elevado número de endemismos ao de espécies ou de gêneros, se estes últimos possuírem poucas espécies. III. Os limites dos reinos biogeográficos, muitas vezes, se confundem e se interpenetram, principalmente quando as barreiras biogeográficas não são bem definidas. Essas divisões variam muito, principalmente quando o nível taxonômico é mais restrito. IV. A divisão entre os reinos Neotropical e Paleotropical e o reino Holártico tem suscitado discussões. Alguns pesquisadores consideram a América Central não uma zona de transição entre os reinos Holártico e Neotropical, mas uma região do reino Neotropical, porque nela predomina a fauna sul- americana e o clima é tropical. Agora, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Estão corretas as afirmativas I, III e IV. b) ( ) Estão corretas as afirmativas II e IV. c) ( ) Apenas a afirmativa III está correta. d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas. 4 Relacione cada reino biogeográfico com seus respectivos grupos da flora e da fauna. 1. Reino Holártico. 2. Reino Paleotropical. 3. Reino Australiano. 4. Reino Neotropical. 5. Reino Arquinótico. AUTOATIVIDADE 230 ( ) Pinguim-imperador; pinguim-de-adélia; Deschampsia antarctica; Colobanthus crassifolius. ( ) Macacos; saguis; tamanduás; lhama; vicuña; guanaco; beija-flores; perdizes; tucanos; cactos; bromélias; seringueira. ( ) Ornitorrinco; canguru; coala; casuar; Gênero Eucalyptus. ( ) Girafa; hipopótamos; hiena; gorila; chimpanzé; leão; elefante; zebras; avestruz; gerânios; ébano; árvore produtora de alcaloide; galinhola. ( ) Ursos; cães; lobos; coiotes; cervos e alces; búfalo; bisão; castores; ouriço; gambás; quatis; saracura; urogalo; papagaio-do-mar; cegonha; cucos; rouxinóis; abutres; esturjão; perca; salmão e truta; arbustos e árvores como as avelanzeiras; choupo; álamo; ranúnculos; amoreiras. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) 1 – 2 – 3 – 4 – 5. b) ( ) 5 – 4 – 3 – 2 – 1. c) ( ) 3 – 4 – 5 – 2 – 1. d) ( ) 4 – 5 – 3 – 2 – 1. 231 TÓPICO 2 AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Todo o complexo mecanismo climático, edáfico e geomorfológico anteriormente descrito foi a mola que empurrou e manteve a evolução das paisagens nos trópicos. A paisagem geográfica integrada resulta de um jogo de fatores interconectados, que estendem a sua influência por uma área de tamanho variado ao longo de um tempo determinado. A evolução da paisagem depende tanto de fatores locais, quanto de fatores externos a ela. 2 DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS BRASILEIROS Apoiado no princípio de que tanto fatores locais quanto externos influenciam na evolução da paisagem, Ab'sáber (1967) delimitou os domínios morfoclimáticos e as províncias fitogeográficas brasileiras: 1 – Domínio dos chapadões tropicais a duas estações, recobertos por cerrados e com florestas-galeria. 2 – Domínio das regiões serranas tropicais úmidas ou dos "mares de morros", recobertos por florestas pluviais. 3 – Domínio das depressões intermontanas semiáridas, com inselbergs e drenagens intermitentes e recobertas por caatingas. 4 – Domínio de planaltos subtropicais com florestas de araucária e pradarias de altitude. 5 – Domínio das coxilhas subtropicais uruguaio-sul-rio-grandense, com pradarias mistas. 6 – Domínio das terras baixas equatoriais florestadas da Amazônia brasileira. Os domínios são separados por faixas contínuas de paisagens de transição, em que padrões inteiramente podem se destacar, como vimos antes. A descrição das paisagens neotropicais será apoiada nas ideias de Ab'Sáber, mas, nela, introduziremos conceitos de outros autores recentes. São pesquisas realizadas em outros campos que não apenas da Geografia, mas também da Ecologia, da Geologia, da Geomorfologia, da Botânica, e outros, que nos auxiliarão a ter uma visão detalhada das paisagens atuais deste reino. 232 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM 2.1 DOMÍNIO DOS CHAPADÕES TROPICAIS COM DUAS ESTAÇÕES, RECOBERTOS POR CERRADOS E COM FLORESTAS-GALERIA “Recobrindo uma superfície de cerca de 18 milhões de km2 (TROPPMAIR, 2002, p. 82), no Planalto Central brasileiro, este domínio tem clima sazonal, com chuvas de verão, que mantêm uma drenagem perene”. “A estiagem dura de quatro a cinco meses, predominantemente no inverno. As chuvas variam entre 1.100 e 1.600 mm/ano”. (EINTEN, IN PINTO, 1994, p. 20). “A região é formada por planaltos de estrutura complexa e planaltos sedimentares compartimentados”. (AB'SÁBER, 1967, p. 5). “Os interflúvios têm rampas suaves e os vales são espaçados e pouco ramificados”. (BIGARELLA, ANDRADE-LIMA & RIEHS, 1975, p. 429). “São comuns níveis de pediplanos e terraços embutidos nos vários compartimentos, o que revela a ação de flutuações climáticas pleistocênicas”. (BIGARELLA, ANDRADE-LIMA & RIEHS, p. 428). “Os solos são pobres e predominam os latossolos vermelho-escuros e vermelho- amarelos, com textura argilosa. Nos relevos acidentados aparecem lateritas, e nas veredas, solos orgânicos e gley húmicos”. (BIGARELLA, ANDRADE-LIMA & RIEHS, p. 430). A paisagem do cerrado é formada por um tapete descontínuo e esparso de gramíneas, entremeado de ervas, arbustos e árvores. Arbustos e árvores têm troncos tortuosos, casca espessa, folhas coriáceas, duras e revestidas por uma camada de cera ou pelos. As folhas têm cor clara ou acinzentada, são grandes e pontudas, o que facilita o gotejamento e evita a acumulação da água na folha, reduzindo a incidência de infecções por fungos. (EINTEN, in PINTO, 1994, p. 22). “Ideias antigas consideravam o cerrado um campo seco”. (FERRI, 1973, p. 288). No entanto, quando Rawitscher, Ferri e Rachid (1943, apud FERRI, 1973, p. 289) realizaram as primeiras pesquisas sobre o cerrado, tendo o cerrado de Emas (Estado de São Paulo) como área de estudo, novas concepções vieram à tona e mudaram os conceitos antigos. Em Emas aqueles pesquisadores mostraram que (FERRI, 1973, p. 289): 1 – o solo é profundo, tem água disponível e permanente para as plantas, exceto na camada superficial (2 m de profundidade), que é seca na estiagem. O lençol flutua segundo as duas estações; 2 – a água gravitacional move-se para baixo durante todo o ano. Acima do lençol a quantidade de água armazenada nos poros equivale às precipitações de três anos. Segundo Arens (FERRI, 1971, p. 254), a água pode levar até seis meses para alcançar o lençol, o que mostra que o movimento descendente avança estação seca adentro; 3 – a maioria das espécies alcança o lençol, enquanto outras não o atingem, mas suas raízes descem além de 10 metros, onde há água abundante nos poros do solo; TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 233 4 – os estômatos da maior parte das plantas permanecem abertos durante o dia, mesmo na estiagem, e elas transpiram livremente. “O cerrado exibe uma fisionomia xerófita muito acentuada, maior que a da caatinga. Mas como não falta água, a vegetação é mesófita e não xerófita. O aspecto xerófito se deve não à falta de água, mas à deficiência de nutrientes no solo”. (FERRI, 1973; 1980, p. 134). As plantas do cerrado fazem a fotossíntese durante todo o dia – há luz em excesso no cerrado. A produção de carboidratos, pois, é alta. Eles se acumulam nas folhas e nos caules e galhos e, desta forma, lhes emprestam um aspecto xeromorfo. ‘‘O principal fator limitante no cerrado é a deficiência de nutrientes, como mostrou Arens”. (apud FERRI, 1971, p. 252). Cálcio, fósforo, enxofre, nitrogênio, zinco, boro e molibdênio existem em quantidades inferiores à necessidade das plantas e vários processos fisiológicos são atingidos, como a síntese das proteínas. Nitrogênio, fósforo e enxofresão elementos importantes na síntese e a sua escassez afeta todo o processo, e o resultado são plantas pouco desenvolvidas. (ARENS, apud FERRI, 1971, p. 255). As plantas do cerrado são, por definição, escleromorfas oligotróficas. A escleromorfia produz tecidos grossos e duros, o que dificulta o crescimento normal da planta, tornando-a raquítica. Oligotrofismo é um termo que se refere à deficiência de absorção – oligo, do grego, significa pouco, escasso, e trofismo vem de trophein, grego, alimentar-se. Portanto, plantas que dispõem de poucos nutrientes são oligotróficas e escleromorfas. O limite do cerrado pode ser marcado pela deficiência de minerais no solo. Nos lugares em que os nutrientes existem em quantidades mais elevadas, aparecem o cerradão e a mata mesófita. Por outro lado, “o alumínio aparece em teores muito elevados, o que agrava o problema do escleromorfismo”, como demonstrou Goodland (1971, apud FERRI, 1973, p. 321), porque ele é tóxico para as plantas, mas não para os animais. A fisionomia do cerrado está na dependência da quantidade de nutrientes e de alumínio nos solos. Goodland (1971, apud FERRI, 1973, p. 337) mostrou que na região do cerrado há uma variedade de formações dependentes das condições do solo. Goodland estabeleceu um gradiente de formações: 1 – campo sujo, com árvores de até três metros de altura; 2 – campo cerrado, com árvores até quatro metros; 3 – cerrado (sensu strictu), com árvores até seis metros; 4 – cerradão, com árvores até nove metros. Em algumas classificações, refere-se ao campo limpo, uma formação de ervas e subarbustos esparsos. Matas-galerias são muito comuns nas margens dos rios e córregos. (EINTEN, 1972, apud GARCIA; PIEDADE, 1980). 234 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM O porte da vegetação cresce no sentido do cerradão, o que significa que o teor de nutrientes aumenta, ao passo que o pH e a concentração de alumínio descem na direção do campo sujo. Portanto, o xeromorfismo aumenta do cerradão (35% de alumínio no solo) para o campo sujo (58% de alumínio no solo), de acordo com Goodland. Goodland também descobriu que as plantas podem armazenar alumínio em maior ou menor proporção. Ele as classificou, pois, em acumuladoras obrigatórias ou facultativas, e não acumuladoras tolerantes ou sensitivas. As não acumuladoras sensitivas armazenam entre 10 e 20 ppm de alumínio. As plantas da família das Voquisiáceas acumulam mais de 10.000 ppm – são acumuladoras obrigatórias. As famílias acumuladoras obrigatórias dominam no cerrado e apresentam as características conhecidas. No reino Neotropical, as savanas aparecem no Brasil (cerrado e caatinga), na Venezuela, onde constitui os lhanos, no Chaco e em pequenas porções da América Central. O cerrado brasileiro está caminhando em ritmo acelerado para a sua extinção. Em Minas Gerais, o cerrado foi praticamente todo cortado para alimentar os fornos siderúrgicos. O uso do cerrado como fornecedor de carvão vegetal é antigo. Com a expansão de fornos de ferro-gusa naquele Estado, o corte do cerrado acelerou-se, e, praticamente, não existe mais em vastas áreas do norte de Minas Gerais. Em seu lugar veem-se extensas monoculturas de eucaliptos. Fornos de carvão são uma visão comum no meio das áreas sem vegetação. Nos pátios das siderúrgicas, dezenas de caminhões aguardam o descarregamento. Nas estradas da região, os caminhões andam praticamente em fila, tal o seu número. Contudo, agora, transportam carvão de eucalipto, pois quase não há mais cerrado para ser cortado. O que restou está, finalmente, protegido. Por seu turno, grandes propriedades do norte do Estado também transformaram o cerrado, retirando a vegetação para formar pastos. Extensas áreas, antes cobertas pela vegetação, agora são ocupadas pelo gado de corte. As atividades agrícolas no cerrado aceleraram-se a partir da década de 70, quando técnicas modernas de cultivo e de criação foram introduzidas, com o objetivo de estimular o crescimento econômico do Planalto Central, especialmente depois da fundação de Brasília. Cerca de 70% da produção de carne bovina vêm do Planalto Central. Feijão, soja, milho e arroz são outros produtos largamente cultivados, graças às técnicas de correção do solo. Plantações de eucaliptos (Eucalyptus spp) e de pinheiros (Pinus spp) atendem à fabricação de polpa de celulose para a indústria de papel. A ocupação do cerrado, como toda ocupação mal planejada, tem levado a uma deterioração dos hábitats, com redução da flora e da fauna, embora unidades de conservação tenham sido criadas, mas em número insuficiente. TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 235 2.2 DOMÍNIO DAS REGIÕES SERRANAS TROPICAIS ÚMIDAS OU DOS "MARES DE MORROS", RECOBERTOS POR FLORESTAS PLUVIAIS Este domínio corresponde à região dos mares de morros de origem ígnea e metamórfica, forma uma faixa que se estende ao longo do litoral oriental do reino Neotropical e ocupa uma área de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados. O clima superúmido, com temperaturas elevadas durante todo o ano, originou uma forte decomposição das rochas, o que resultou num manto de alteração muito espesso, graças a um processo de mamelonização, que se alternou com a pedimentação e compôs uma paisagem típica de morros gnáissicos e granítico- gnáissicos de vertentes arredondadas, que Ab'Sáber (1993, 1966, apud AB'SÁBER, 1973, p. 15) chamou de “mares de morros e Libault denominou de colinas policonvexas” (Ab'Sáber). Ab'Sáber (1973, p. 14) define mamelonização como "[...] um conjunto de processos fisiográficos, suficientemente capaz de arredondar as vertentes de rochas cristalinas decompostas até o nível de uma feição geométrica policonvexa [...]". Simultaneamente, a pedogênese tropical sob floresta úmida aprofundava o manto de intemperismo, enquanto a drenagem ganhava desenho dendrítico e caráter perene. A pedimentação é a aplainação lateral das vertentes, vinculada a uma transição de clima úmido para clima semiárido, um processo oposto à mamelonização, que forma rampas de erosão. Ab'Sáber explica que em toda zona costeira do Brasil tropical úmido as condições de pedimentação e mamelonização ocorreram durante todo o Quaternário. A mamelonização se deu em climas úmidos sob florestas tropicais úmidas e, na mudança para climas semiáridos, de curta duração, houve a retração da cobertura florestal, a erosão mecânica se instalou e atacou as colinas policonvexas, agora sem vegetação, e transportou os detritos para os vales por pedimentação, formando pavimentos detríticos. Uma umidificação posterior do clima retomou o intemperismo químico, que prevalece atualmente. As linhas-de-pedra (stone lines) são um testemunho da última fase seca, que se deu na transição entre o Pleistoceno e o Holoceno. (AB'SÁBER, 1973; VIADANA, 2002). A floresta ombrófila densa, a mata Atlântica, recobre a cadeia costeira, a Serra do Mar, estende-se até os mares-de-morros e a Serra da Mantiqueira, cujo ambiente já apresenta algumas diferenças em relação ao litoral. Muitos autores ampliam os domínios da floresta Atlântica até o interior do Brasil (RIZZINI, 1979, Fundação SOS Mata Atlântica, 1992, 1993), o que não corresponde à realidade. A Fundação SOS Mata Atlântica inclui os Estados de Goiás e Mato Grosso do Sul como áreas ocupadas pela floresta Atlântica. Rizzini vai mais longe: “a mata Atlântica avança até a Argentina’’. Rizzini (1979, p. 67) considera a floresta de araucária uma continuação da floresta ombrófila densa e, por isto, a inclui nesta, ao dizer que "[...] teremos que lidar com as seguintes formações dentro da floresta Atlântica: floresta pluvial montana, floresta pluvial baixo-montana, floresta de Araucária e floresta pluvial ripária e em manchas". 236 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM As condições ecológicas e biogeográficas da floresta ombrófiladensa, que se encontra no litoral, e a floresta tropical do interior, são inteiramente diferentes e ambas as formações não podem ser tomadas como uma comunidade única. Fisionomicamente, as matas do interior se assemelham à floresta litorânea e as floras apresentam muitas espécies e gêneros comuns. No entanto, as características ambientais numa e noutra região são completamente diferentes. Não são apenas a flora e a fisionomia que particularizam uma formação fitogeográfica. Muitos outros fatores intervêm e se completam para produzir uma rede complexa de interações, que caracterizará as diversas formações fitogeográficas. As florestas Atlântica e Amazônica são muito semelhantes, se observarmos apenas a fisionomia. Mas são inteiramente diferentes geograficamente e ecologicamente falando. A floresta ombrófila mista, a mata de araucária, apresenta espécies da floresta Atlântica, como se pode ver na divisa entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, em plena Serra do Mar. Essa região é um ecótono entre as duas formações, que se misturam e interpenetram, mas cada uma guarda a sua individualidade. As condições ambientais mudam do litoral para o interior – o clima úmido do litoral, sem estação de estiagem, torna-se mais seco, sazonal, com duas estações bem marcadas. A influência do oceano reduz-se gradativamente para o interior. As frentes polares raramente entram no interior de Minas Gerais, vindas do litoral, pois o seu avanço é dificultado pelas serras do sul do Estado e, sobretudo, pela Serra do Mar e, mais no interior, pela Mantiqueira. As invasões da frente polar pelo interior se dão por outro padrão de dinâmica. As chuvas (orográficas, frontais e de convecção) nas serras litorâneas chegam a 4.000 mm/ano, na Serra do Mar em São Paulo, mas caem paulatinamente no interior até atingir a marca de 1.000 mm/ano no norte de Minas Gerais. O clima está diretamente vinculado à variedade de relevo e de rochas. As condições de umidade do litoral e do interior proporcionam processos morfogenéticos diferentes, que condicionam formações vegetais diversas. No litoral superúmido, o relevo é típico de regiões tropicais cristalinas florestadas. (MOREIRA; CAMELIER, 1977, p. 25). Os processos morfogenéticos úmidos “[...] são interrompidos pela passagem do domínio cristalino para a depressão Paleozoica em São Paulo, e em Minas Gerais pelas altas superfícies do Espinhaço”. (MOREIRA; CAMELIER, 1977, p. 25). Desse modo, a umidade reduz-se do litoral para o interior, permitindo o desenvolvimento de formações fitogeográficas típicas de clima sazonal. De acordo com os fatores morfogenéticos, as formações vegetais podem ser subdivididas em dois setores: as florestas perenefólias costeiras e as florestas subcaducifólias tropicais do interior. (MOREIRA; CAMELIER, 1977, p. 25). Essas duas formações desenvolveram-se graças a condições ambientais específicas. TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 237 Essas condições ambientais facultam às florestas litorâneas o caráter perene. No interior, a menor umidade, o período de estiagem e outros fatores, como os solos, dão à floresta o caráter subcaducifólio – não se incluem aqui os cerrados e a caatinga. A deciduidade se torna mais conspícua à medida que se caminha para o interior da Região Sudeste. Alonso (1977, p. 91) enfatiza que “nas encostas voltadas para leste e sul das serras do Mar e Mantiqueira, a floresta é pluvial, mas nos seus reversos (sombra de chuva, a sota-vento), a floresta é subcaducifólia”. A floresta ombrófila densa costeira desenvolveu-se onde impera a meteorização química, favorecida pelas elevadas temperaturas e índices pluviométricos. Colonizando as escarpas íngremes da Serra do Mar, a floresta recebe influências muito marcadas das faixas de altitude, o que levou Veloso (IBGE, 1992) a descrevê-la segundo os níveis de altitude: “floresta ombrófila densa aluvial, floresta ombrófila densa das terras baixas, floresta ombrófila densa submontana e floresta ombrófila densa montana”. “A floresta Atlântica típica situa-se entre 800 e 1.500-1.700 metros de altitude” (RIZZINI , 1979, p. 67), recobrindo a paisagem de morros mamelonares, entre os quais aparece um relevo acidentado, com vertentes de alta declividade e vales encaixados e muito profundos. É denominada por Veloso (1992) de formação montana – com altitudes entre 600 e 2.000 metros, na região tropical, e diminuindo a cota de altitude simultaneamente ao aumento da latitude. Chuvas copiosas, que podem ultrapassar os 4.000 mm/ano na Serra do Mar, no norte de São Paulo, mantêm a floresta sempre verde e intemperizam as rochas para formar mantos de alteração profundos – não raro, com profundidade de 40-60 metros. (AB'SÁBER, 1963, apud RIZZINI). Nos trechos muito íngremes, o solo é superficial, comportando apenas uma cobertura herbácea com poucos arbustos. Entre as altitudes de 300 e 800 metros, a floresta dos mares-de-morros distribui-se no interior dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e Rio de Janeiro, até o litoral. A floresta tropical do interior não pode mais ser chamada de floresta Atlântica ou floresta ombrófila densa, primeiro, porque não é mais ombrófila – há uma nítida estação seca - e, depois, porque a flora, em razão disso, muda sensivelmente. Veloso (1992, p. 17) “a rotula de formação submontana, com altitudes entre 100 e 600 metros”. Em Angra dos Reis (RJ) chove 2.150 mm/ano e há quatro meses de estiagem, mas em Caxambu (MG), com 1.530 mm/ano, e Passa Quatro (MG) com 1.500 mm/ano, há de cinco a seis meses de estiagem (RIZZINI, 1979, p. 71). No entanto, como Rizzini (1979) explica, o topoclima de Angra dos Reis não se mostra seco, porque não há precipitações abaixo de 60 mm/ano. O que há é uma redução das chuvas no inverno, com o mês de julho comportando 83 mm – logo, não há uma estiagem típica e a floresta Atlântica de Angra dos Reis pode ser considerada ombrófila. Nas duas cidades mineiras ocorre uma seca ecológica de quatro meses, em que falta água no solo para as plantas. Além disso, as elevadas temperaturas 238 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM no interior fazem crescer a evapotranspiração, o que agrava a seca ecológica – sem a reposição das chuvas, o lençol aquífero baixa e fica fora do alcance de muitas espécies. As plantas recorrem, então, ao orvalho, que, no inverno, é copioso. A floresta tropical do interior, que recobre as colinas policonvexas interioranas, é diferente da floresta tropical do litoral, a floresta ombrófila densa, tanto na composição florística, quanto na fisionomia. Rizzini (1979, p. 72) aponta as diferenças: 1 – na floresta do interior, as árvores são menores (15-25 m de altura); 2 – menor densidade e maior espaçamento entre as árvores, para evitar ao máximo a competição pela água e nutrientes; 3 – há poucas lianas, epífitos, plantas macrofilas, palmeiras, fetos arborescentes, líquens arbustivos e musgos, que, no entanto, são comuns nos vales encaixados, onde a umidade é maior; 4 – poucas raízes de escora (sapopemas). “O maior espaçamento entre as árvores permite o desenvolvimento de um sub-bosque com árvores menores e maior densidade de arbustos” (RIZZINI, 1979, p. 72). Rizzini (1979) diz que a "[...] impressão geral é de secura. A própria terra parece seca em julho." Algumas espécies típicas da mata: Piptadenia macrocarpa (angico), Persea cordata (maçaranduba), Ocotea rigida (canela-amarela), Belangera tomentosa (salgueiro), Machaerium villosum (jacarandá-pardo), Copaifera lansgdorfii (copaíba), Cedrela fissilis (cedro), Platypodium elegans (jacarandá-branco) etc. Quando se aproxima do litoral, onde a umidade é maior, a floresta dos mares de morros adquire outra fisionomia. As árvores atingem 20-25 metros e algumas podem ter mais de um metro de diâmetro,como o vinhático (Plathymenia), o guarabu (Peltogyne) e o jequitibá (Cariniana). O sub-bosque tem árvores menores e um estrato arbustivo. Lianas, palmeiras e epífitos podem se mostrar. (RIZZINI, 1979, p. 72). Rizzini (1979) enumera algumas espécies típicas: Apuleia leiocarpa (garapa), Cariniana estrellensis (jequitibá-rosa), Melanoxylon braunia (braúna), Peltogyne discolor e P. mattosiana (guarabu), Schizolobium parahyba (garapuvu), Plathymenia foliolosa (vinhático) etc. Segundo Rizzini (1979, p. 73), “muitas espécies são comuns à floresta dos níveis mais altos – floresta ombrófila densa montana – e à floresta dos níveis mais baixos – floresta ombrófila densa baixo-montana”. A floresta ombrófila densa dos mares-de-morros e das encostas da Serra do Mar varia em composição florística, segundo a latitude. As condições climáticas mudam com as latitudes, principalmente as temperaturas. As temperaturas médias (médias anuais, médias das máximas e das mínimas) mudam no sul. As temperaturas caem sensivelmente no litoral do Paraná, de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o que afeta o desenvolvimento da floresta e as árvores têm porte menor. Mesmo assim, podem-se encontrar gigantes com 30-35 metros de altura. (KLEIN, 1978, p. 3). TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 239 Não apenas o porte é afetado, mas a composição florística também muda com a latitude. A quantidade de espécies reduz-se, ao passo que o número de indivíduos por espécie cresce. As famílias das Lauraceae e Myrtaceae predominam no sul (KLEIN, 1978, p. 4). As epífitas aparecem em grande densidade, representadas pelas famílias Bromeliáceas, Orquidáceas, Aráceas, Piperáceas, Gesneriáceas, samambaias (Pteridófitas), as lianas lenhosas Bignoniáceas, Hipocrateáceas e Sapindáceas. 2.3 DOMÍNIO DAS DEPRESSÕES INTERMONTANAS SEMIÁRIDAS, COM INSELBERGS E DRENAGEM INTERMITENTE E RECOBERTAS POR CAATINGAS O domínio das depressões intermontanas semiáridas, com inselbergs e drenagem intermitente e recobertas por caatingas, é considerada uma região de contrastes. O Nordeste brasileiro começa a mostrar a sua complexidade no clima, que é "[...] o que mais se destaca, não só por conferir individualidade à região, como também, por ser o principal elemento do qual decorrem as demais características do relevo, da vegetação e da rede fluvial" (SILVA, 1972, p. 215). A tudo isso somam-se os aspectos humanos, estreitamente ligados e praticamente dependentes do clima semiárido. A circulação atmosférica deriva da conexão de sistemas diferentes, o que origina regimes pluviométricos de características locais. Se as chuvas diferem de um lugar para outro, o regime de temperaturas, no entanto, é um fator que unifica a Região Nordeste. Nimer (1977, p. 315) a considera "[...] uma das regiões mais complexas do mundo". A umidade chegada do mar concentra-se no litoral – o que favorece o aparecimento da floresta ombrófila densa, hoje completamente devastada pelos canaviais, que aproveitaram e esgotaram, praticamente, solos extremamente férteis. No litoral, as chuvas variam entre 1.500 e 2.000 mm/ano. A semiaridez do Nordeste deve-se à presença, no interior, de um ramo destacado do anticiclone marítimo, cuja subsidência impede a ascensão de massas de ar e, pois, a condensação, permanecendo a região sob um regime de chuvas escassas, que não chegam a 600 mm/ ano. O anticiclone do interior provavelmente é um extenso braço do anticiclone dos Açores, que se estende para o sul, ultrapassa a linha do equador e se instala no interior do Nordeste (CONTI; FURLAN, apud ROSS, 1995, p. 105). Dessa forma, a célula anticiclônica, ao divergir ventos, impede a entrada na região da massa equatorial continental (mEc) e da frente polar. Outro fator que pode também estar na origem da semiaridez é a temperatura baixa da água do oceano. A corrente de Benguela, que margeia o litoral ocidental da África, é empurrada para oeste pelo movimento anti-horário do anticiclone do Atlântico e, no litoral dos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte, a água mais fria tem menores evaporação e condensação. Com isto, caem os índices pluviométricos. Em Cabeceiras, na Paraíba, foi registrado o menor índice de chuvas no Brasil – 278,1 mm/ano. (SILVA, 1972, p. 217). 240 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM “O período seco varia muito de um lugar para outro. No Raso da Catarina, na Bahia, há de nove a 10 meses secos, e, a sota-vento da Borborema, entre os Estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte, a estiagem dura 11 meses”. (FERRI, 1980, p. 40). No interior, o sertão, zona da caatinga, a umidade desce a valores mínimos. É uma região de depressões interplanálticas, que constituem superfícies de erosão, com altitudes inferiores a 500 metros, situada entre serras – Borborema, Araripe, Ibiapaba, com 800 metros de altitude, e a Diamantina, com 1.200 metros. Perdidos no meio dessa planura semiárida, destacam-se morros isolados, talhados em rochas mais resistentes, os inselbergs, testemunhos de ciclos de erosão em climas áridos no passado. Os solos são rasos, litólicos. “O regime de chuvas no Nordeste é muito variado, segundo as regiões. No litoral, o período chuvoso dá-se no outono-inverno e a estiagem na primavera- verão. No interior, as chuvas caem no verão-outono, e o inverno é a época da estiagem” (SILVA, 1972, p. 217). As chuvas e as secas estão na dependência da posição da Zona de Convergência Intertropical (CIT) e das invasões das ondas de leste. Quando o Hemisfério Norte está no inverno, a CIT é empurrada para o sul, ultrapassa a linha do equador e traz chuvas para o Nordeste de janeiro a abril. De maio em diante, a pressão começa a subir e atinge o máximo em julho, o que mantém a CIT fora da região. De agosto em diante, a pressão começa a cair e atinge o mínimo em janeiro. Estimulada pela baixa regional e pela baixa equatorial, a CIT desloca-se para o sul. “A estiagem se dá nos meses de alta pressão, quando o anciticlone dos Açores avança até a região e predomina sobre ela. Em junho, julho e agosto, as ondas de leste levam chuvas para o litoral, mas, no interior, a célula de alta pressão traz a seca”. (NIMER, 1977, p. 36). No inverno do Hemisfério Sul, a CIT emigra para o norte, e a alta pressão prevalece. As chuvas nordestinas têm características únicas: são escassas, e, no entanto, podem ser torrenciais e costumam faltar durante anos a fio. Esse complexo regime de chuvas e de temperaturas elevadas mantém uma região semiárida em que a maioria das plantas é xerófita. Os solos são férteis, mas são litólicos ou arenosos, permeáveis e bem arejados. A vegetação da caatinga é muito rica em espécies. As árvores são baixas (10-12 m de altura), espalham-se esparsamente, deixando um bom espaço descoberto entre elas, de modo a reduzir ao máximo a competição pela água. As árvores são cobertas por espinhos ou acúleos e as cactáceas e bromeliáceas são comuns. Epífitos e lianas não existem na caatinga. TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 241 As plantas da caatinga são xeromorfas, mas não escleromorfas (veja o cerrado). Xeromorfas, porque a água é um fator limitante no sertão. Entretanto, não são escleromorfas, porque não predomina nela a esclerofilia, como nas espécies do cerrado, que são escleromorfas oligotróficas, mas não são xerófitos. Na caatinga, como há falta de água, as plantas têm que economizá-la. Por isto, os estômatos se fecham durante as horas quentes do dia, reduzindo, pois, a fotossíntese. Dessa forma, não há produção excessiva de carboidratos – como se dá no cerrado – e as plantas, por conseguinte, não os acumulando, não são esclerófitas. Não obstante serem xerófitos, as plantas da caatinga não apresentam fisionomia de xeromorfismo, como as do cerrado – que não são xerófitos, mas apresentam essas características, porque são esclerófilas. A florada caatinga, apesar da severidade do ambiente, é muito rica. Eis algumas espécies (JOLY, 1970, p. 28): baraúna ou braúna (Schinopsis brasiliensis), aroeira (Astronium urundeuva), umbuzeiro (Spondias tuberosa), que produz, em dezembro, o umbu, um fruto muito apreciado, juazeiro (Ziziphus joazeiro), de copa muito densa, sempre verde, mesmo na seca mais aguda, sempre nas partes mais baixas das vertentes onde há acúmulo de umidade. O seu fruto amarelo, que nasce em janeiro e fevereiro, o joá, é também muito apreciado. A oiticica (Licania rigida) também prefere as baixadas dos rios secos – ainda há alguma umidade no solo – e igualmente permanece verde por muito tempo na seca, mas acaba por perder parte das folhas. Os ipês amarelo e roxo, no Nordeste são chamados, respectivamente, de caraibeira (Tabebuia caraiba) e pau-d'arco (T. avellanedae). Estas são apenas algumas das muitas espécies de árvores da caatinga. Com exceção do juazeiro e da oiticica, todas as espécies do cerrado são caducifólias. As plantas suculentas, como as cactáceas, armazenam água no caule, e são sempre verdes. Os cactos fazem parte da paisagem da caatinga. O mandacaru (Cereus jamacaru), que dá frutos saborosos, o facheiro (C. squomosus) e o xique-xique (Pilocereus gounellei) são dos mais comuns. 2.4 DOMÍNIO DAS TERRAS BAIXAS EQUATORIAIS, EXTENSIVAMENTE FLORESTADAS DA AMAZÔNIA O domínio das terras baixas equatoriais, extensivamente florestadas da Amazônia, estende-se na região equatorial e subequatorial, ocupando uma superfície de mais de 2,5 milhões de km2. São planícies de inundação labirínticas e meândricas, tabuleiros de vertentes convexas e morros mamelonares baixos, que aparecem nos relevos cristalinos, juntamente com relevos residuais de pães-de-açúcar, inselbergs no Quaternário. (AB'SÁBER, 1973, p. 3). Testemunhos de pediplanação e pedimentação sugerem climas mais secos no passado (BIGARELLA; ANDRADE-LIMA; RIEHS, 1975). 242 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM A floresta deve a sua existência ao regime de chuvas e às temperaturas elevadas, que proveem os ecossistemas com uma população de organismos, macro e micro, decompositores da matéria orgânica, que promovem uma intensa e vital reciclagem da matéria e mantêm a floresta. Ab'Sáber (2002) expõe que a complexidade da região leva a muitas distorções no estudo dos ecossistemas locais, porque, numa primeira vista, a floresta amazônica constitui uma enorme massa vegetal aparentemente homogênea, mas que esconde uma infinidade de ecossistemas individualizados e inteiramente diferentes uns dos outros, ou, em outros casos, tão semelhantes que apenas sutilezas permitem diferenciá-los. Essa dinâmica complexa origina três tipos de paisagens principais: a floresta de terra firme, a floresta de várzea e a floresta de igapó. Floresta de terra firme – É a formação de grande porte, que caracteriza a região. Colonizou terrenos acima da faixa de inundação – entre 60 e 200 metros de altitude. No seu interior encontram-se as florestas de várzea, de igapós e os campos. As copas das árvores emergentes, muitas vezes acima de 60 metros de altura, formam um dossel tão compacto que, no interior da mata, chegam tão somente de 5% a 10% da luz incidente. A umidade, pois, cresce em direção à superfície do solo. Rizzini (1979, p. 56) destaca quatro estratos de árvores na floresta: o andar emergente, acima de 60 metros, comumente, entre 40-50 metros. O segundo estrato tem árvores com altura entre cinco e 20 metros. O terceiro estrato é arbóreo-arbustivo, entre dois e cinco metros. O estrato herbáceo, formado por ervas e árvores jovens, fica sob a sombra permanente e só se desenvolve se houver a abertura de uma clareira. Cipós e trepadeiras não chegam a formar um emaranhado. Rizzini (1979, p. 58) cita um relatório da FAO que assinala um inventariado feito em 200 milhões de hectares, nos quais encontraram-se cerca de 400 espécies de árvores, de 47 famílias, com diâmetro superior a 25 cm. A maior parte das árvores tem tronco fino, devido à competição pela luz, que as obriga a crescer, e poucas ultrapassam 1 m de diâmetro. Há exceções: a sumaúma (Ceiba), a castanheira (Bertholletia excelsa), o angelim-pedra (Dinizia excelsa) e jutaí (Apuleia) ultrapassam os 3,5 metros de diâmetro. “Existem dois mata-paus, Clusia (Guttiferae) e Ficus” (Moraceae) (FERRI, 1980, p. 23). Triplaris e Tococa são gêneros de plantas mirmecófilas e Rizzini (1980, p. 54) menciona mais de 20 gêneros de plantas que vivem em associações com formigas. Predominam as Leguminosas, as Moráceas e as Sapotáceas (FERRI). TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 243 Florestas de várzeas – Colonizam terrenos baixos, recentes, sujeitos a inundações periódicas. A faixa de terras inundáveis pode chegar a 100 km terra adentro (FERRI). Ferri (FERRI, p. 25) “refere-se a uma várzea baixa, em que a cobertura é muito semelhante à dos igapós, porque permanece inundada por muito tempo, e a uma várzea alta, em que a inundação é curta e a vegetação é muito parecida com a da terra firme”. Rizzini (1979, p. 55) “distingue a flora das matas de várzea dos rios de água branca, que transportam muitos sedimentos erodidos das margens, da flora das matas de várzea dos rios de água preta, que não transportam sedimentos”. As várzeas são menos desenvolvidas a partir da foz do rio Negro, em direção ao mar. Em muitos lugares aparecem campos com canarana, uma gramínea alta, quase sempre inundados, e nos quais a população planta a juta (CORCHORUS, JOLY, 1991, p. 456) (RIZZINI). “As árvores da mata de várzea têm, em média, de 10 a 20 metros, embora o andar emergente possa variar entre 20 e 30 metros. O sub-bosque é rico em arbustos, lianas, palmeiras e epífitos” (RIZZINI, p. 56). São comuns nas várzeas o pau-mulato (Calycophyllum spruceannum), o cumaru (Coumarona odorata), a seringueira (Hevea brasiliensis), etc.. “O angelim-pedra (Dinizia excelsa), uma leguminosa, chega a 60 metros” (FERRI, 1979, p. 26). “Floresta de igapó – Nas margens sempre inundadas dos rios e córregos, a mata de igapó assemelha-se a um grande pântano” (RIZZINI , 1979, p 59). A água é escura, porque contém grandes quantidades de restos orgânicos em decomposição e, por isto, o substrato é mal arejado. Os igapós são mais comuns no Baixo Amazonas, devido à maior deposição de sedimentos pelos rios. As raízes sapopemas com dois ou três metros de altura são frequentes. Para suprir a deficiência de aeração da água empoçada, as raízes retiram oxigênio do ar por meio de lenticelas, orifícios existentes nas raízes, e o passam para a árvore. As matas de igapós são pobres em espécies, quando comparadas às outras duas. As árvores são cobertas de musgos, hepáticas, orquídeas, aráceas, piperáceas, bromeliáceas, gesneriáceas e pteridófitos. As árvores mais típicas são o taxi ou tachizeiro (Triplaris surinamensis), a mamorana (Bombax aquaticum), o arapari (Macrolobium acaciaefolium) e a sumaúma (Ceiba pentandra), dentre as mais comuns. Junto dos rios, a planta mais característica, no Baixo Amazonas, é a aninga (Montrichardia arborescens), que tem caule ereto de 3-4 cm de diâmetro, e dois a três metros de altura. O caule é cheio de cicatrizes de folhas que caíram e as folhas remanescentes formam um tufo no ápice. No Alto Amazonas, a aninga desaparece e é substituída pela Victoria regia ou Victoria amazonica, como é conhecida atualmente, da família Ninfeácea (Nymphaeaceae), da qual fazem parte os nenúfares. (JOLY, 1970, p. 16; FERRI, 1980, p 25). 244 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM A Victoria amazonica, a planta mais conhecida da Amazônia, tem folhas com 1,50 a dois metros e flores brancas ou rosadas, com 40 centímetros de diâmetro. O caule permanece enterrado no substrato no fundo do rio e o longo pecíolo sobe em direçãoà superfície da água, onde se abre nas folhas cujo limbo pode suportar um adulto deitado. 2.5 DOMÍNIO DOS PLANALTOS DAS ARAUCÁRIAS O domínio dos planaltos das Araucárias é recoberto pela conífera Araucaria angustifolia, com altitudes entre 500 e 1.300 metros, clima subtropical úmido, verões brandos e invernos suaves, com neve eventual e rara. A amplitude térmica anual é acentuada. As temperaturas são fortemente influenciadas pelas altitudes. A floresta de araucária – floresta ombrófila mista – recobria uma superfície de 177.600 km2, mas hoje não passa de 20.000 km2 (LEITE, 1995). A paisagem do geofácies Planalto Central é distinguida por áreas aplainadas recobertas por vegetação campestre, cercadas por vertentes em degraus, nas quais a floresta ombrófila mista avança sobre os campos, migrando desde os vales recobertos pelas matas de galeria. A floresta mista deixa a impressão de homogeneidade, mas, na verdade, é muito heterogênea, e Klein (1978, p. 10) estabelece duas formações: a floresta dos pinhais ou de araucária e a floresta dos faxinais. A floresta de pinhais ou de araucária "[...] é formada por pinheiros em geral de grande porte e submatas igualmente bem desenvolvidas e densas, onde predominam as Lauráceas [...]" (KLEIN, 1978). A floresta de faxinal, entre 700 e 1.200 metros de altitude, [...] apresenta pinheiros de menor porte e esparsos, com submata baixa, pouco densa, onde predominam os representantes das Mirtáceas e Aquifoliáceas, entremeadas por densos taquarais e carazais". Os faxinais são uma transição da floresta ombrófila densa do litoral para a floresta ombrófila mista. (KLEIN, p. 14). Klein (1978) agrupa a floresta de araucária em quatro núcleos principais: bacia dos rios Iguaçu e Negro e do alto vale dos afluentes do rio Uruguai; bacia dos rios Pelotas e Canoas; do extremo oeste; e núcleos da floresta na zona da mata pluvial atlântica. Floresta de araucária dos rios Iguaçu e Negro e do alto vale dos afluentes do rio Uruguai – Compunha uma formação uniforme com imbuia (Ocotea porosa), sapopema (Sloanea lasiocoma) e a erva-mate (Ilex paraguariensis) como principais espécies da submata. Muitas famílias de árvores grandes compunham o restante da flora – Lauráceas (em que se destacam as canelas Ocotea e Nectandra, e a citada imbuia), Mirtáceas, Sapindáceas, Compostas, Leguminosas, Meliáceas, Cunoniáceas, Verbenáceas, Rosáceas, Aquifoláceas e Caneláceas. O estrato das TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 245 arvoretas não é denso e o número de espécies é diminuto, com destaque para a erva-mate (Ilex paraguariensis), pelo seu valor econômico – e, por isso mesmo, quase inexistente em sua forma nativa, predominando as monoculturas de caráter comercial. Taquaras (Merostachys multiranea, taquara-mansa) formam um emaranhado de touceiras muito densas, que recobre o solo. Floresta de araucária na bacia dos rios Pelotas e Canoas – Eram grupamentos muito densos, que recobriam as encostas dos vales e, nos topos de relevo ondulado, eram substituídos pelos campos. O sub-bosque era menos denso que o da formação anterior. Em Lages, a Laurácea canela-lageana (Ocotea pulchella) era a principal espécie do sub-bosque. Outras Lauráceas também apareciam na mata desse domínio e também eram vistas no agrupamento anterior. No entanto, neste grupo, apresentavam maior densidade e abundância: canela-amarela (Nectandra lanceolata), canela-guáica (Ocotea puberula), canela- fedida (Nectandra grandiflora) e a canela-fogo (Cryptocarya aschersoniana). Klein (1978, p. 12) cita várias espécies de árvores que apresentavam afinidade com a canela-lageana e compunham o sub-bosque da floresta com ela. Dentre elas, destacam-se camboatá (Matayba elaeagnoides), guamirim (Myrcia obtecta), o araçazeiro (Myrcianthes gigantea), a congonha (Ilex theezans) etc. Floresta de araucária do extremo-oeste – Nos divisores dos rios Peperi- Guaçu, das Antas, Chapecó e Irani aparece uma floresta de araucária pouco densa, com pinheiros idosos. À medida que se desce para os vales, a floresta subtropical subcaducifólia do rio Uruguai se encorpa e substitui os pinheiros, que, então, apenas alcançam as vertentes médias. A floresta é uma continuação da formação dos rios Negro e Iguaçu e das cabeceiras dos afluentes do rio Uruguai. A imbuia (Ocotea porosa) vai, aos poucos, cedendo lugar para outra composição florística, onde se destaca a sapopema (Sloanea lasiocoma). A imbuia é representada por indivíduos velhos, o que mostra que estão sendo substituídos por outras espécies, típicas da floresta subtropical das bacias dos rios Paraná e Uruguai, como as canelas Ocotea e Nectandra. FONTE: Klein (1960, p. 37) As espécies mais comuns que aparecem nos pinhais do extremo-oeste são o angico--vermelho (Parapiptadenia rigida), a guajuvira (Patagonula americana), a grápia (Apuleia leiocarpa) etc. Esta fase da sucessão da araucária mostra que ela está, aos poucos, sendo substituída pela floresta pluvial subtropical. Klein (1978, p. 13) enfatizava que "Na submata destes pinhais, o pinheiro não apresenta possibilidades de regeneração. Tudo indica que estamos assistindo a uma lenta, mas segura expansão da floresta subtropical em detrimento dos pinhais, que, paulatinamente, vêm perdendo terreno". Em 1960, Klein (KLEIN, 1960, p. 38) já chamava a atenção para esse fato, ao observar que "[...] em grandes extensões as associações da mata pluvial vêm subindo pelos vales dos rios, substituindo todas as espécies características do pinheiro [...] (que) cairá também, vítima da invasão da mata pluvial". 246 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM Isso significa que a floresta de araucária, independente da ação do homem, tende a se autoextinguir no clima atual, porque, por ser uma conífera, típica de clima com temperaturas baixas, a araucária não suporta temperaturas muito altas. O clima atual favorece a expansão das florestas tropicais úmidas, razão pela qual as espécies da floresta ombrófila mista estão sendo substituídas pela flora subtropical do rio Uruguai, que avança para o norte. Núcleos de pinhais na zona da mata pluvial atlântica – São disjunções da araucária na planície quaternária, no meio da floresta ombrófila densa, formadas por pinheiros adultos e velhos. A submata tinha espécies tanto do planalto quanto da mata pluvial. Há muito essas disjunções deixaram de existir, substituídas por agricultura e pastos e outras atividades humanas. A importância paleofitogeográfica delas era muito grande, porque eram os últimos representantes de uma época do Quaternário em que, devido ao período glacial, a araucária desceu as encostas das serras e chegou até às proximidades do mar. A migração do pinheiro sobre os campos, a formação dos capões e das matas de galeria são consequência de uma perfeita interação da Araucaria angustifolia com a fauna. No início da brotação, o pinhão prefere a sombra, mas passada essa fase inicial, a luz solar é capital para o seu desenvolvimento. O principal veículo de dispersão do pinheiro são animais roedores e aves. Müller (1986: 36) identificou várias espécies de animais e de aves que se alimentam dos pinhões e estudou os seus hábitos alimentares na dispersão do pinhão: ouriço (Coendu insidiosus), paca (Cuniculus paca), cotia (Dasyprocta azarae), caxinguelê (Sciurius ingrami), camundongos diversos (família Cricetidae), gralha- azul (Cyanocorax caeruleus, Corvidae) e a gralha-amarela (Cyanocorax chrysops, Corvidae). A gralha-azul é, popularmente, considerada o mais importante vetor de dispersão do pinheiro. A gralha-azul apanha o pinhão na própria pinha e o transporta para um lugar que julga seguro para comê-lo. No entanto, se, no voo, o pinhão cair, ela voltará à árvore à cata de outro. Uma vez no solo, o pinhão poderá germinar. A gralha-amarela pega o pinhão no chão, que caiu da árvore,não da pinha. Muitas vezes, um pinhão que a gralha-azul deixou cair no momento em que bicava a pinha. A gralha-azul jamais desce até o solo. Portanto, ocupam nichos diferentes e não competem entre si. Os demais animais e aves pegam o pinhão no chão. Os roedores o levam para a sua toca, onde podem se alimentar em segurança. Para Reitz & Klein (1966, p. 24), “o vento e a queda do pinhão têm pouca participação na germinação”. No entanto, Mattos (1994, p. 130) afirma que o vento é importante na fecundação: caso os pinheiros masculinos e femininos estejam bem localizados, uns em relação aos outros, os grãos de pólen terão boas probabilidades de cair sobre os estróbilos femininos, desde que a velocidade do vento seja de 7 km/h. Acima e abaixo dessa velocidade, dificilmente haverá fecundação. TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 247 2.6 DOMÍNIO DAS PRADARIAS 2.6.1 Mistas do Sudeste do Rio Grande do Sul O domínio das pradarias mistas do Sudeste do Rio Grande do Sul constitui uma paisagem temperada úmida, que se estende do Rio Grande do Sul para o Uruguai e para a Argentina, compondo o limite das pradarias pampeanas (sic) e, ao mesmo tempo, uma paisagem individualizada. (AB'SÁBER, 1973, p. 6). A paisagem é aplainada, com encostas suaves e longas, tendo, nos vales, florestas galerias subtropicais. Os solos são variados: paleossolos claros desenvolvidos em climas frios e paleossolos vermelhos evoluídos em climas quentes, o que gerou uma grande quantidade de tipos de solos, destacando-se as classes brunizem, grumossolo e planossolo. (BIGARELLA; ANDRADE-LIMA; RIEHS, 1975). Os campos não se limitam apenas ao Rio Grande do Sul, mas invadem os Estados de Santa Catarina e Paraná, trazendo características específicas em cada um deles. Na Região Sudeste eles aparecem no topo das serras da Mantiqueira, do Mar e do Espinhaço. Embora este tópico tenha a designação do domínio morfoclimático de Ab'Sáber, ele será estendido para outras áreas do Brasil em que as formações campestres predominam. Rizzini (1979, p. 192) mostra uma afinidade entre o cerrado e os campos, ao estabelecer uma hierarquia nítida, que se inicia com o cerradão, passa pelo cerrado e continua no campo cerrado, campo sujo e campo limpo – com o solo cada vez mais escasso em nutrientes e mais rico em alumínio e, consequentemente, a vegetação empobrecendo nesta direção – isto é, desde a fisionomia de mata fechada no cerradão às ervas do campo limpo, que, contudo, pode ter árvores baixas e muito espaçadas. Na Região Sul, onde os campos aparecem no interior da floresta de araucária, Leite (1995, p. 129), extrapolando a limitação sugerida por Ab'Sáber, explica que a aplicação do termo estepe para os campos sulinos deve-se à influência das altitudes sobre os campos, o que se acentua no inverno. Existe um nítido período frio de três a oito meses, em que a média térmica é igual ou inferior a 15º C, e um período quente de zero a três meses, com médias de temperatura maior ou igual a 20º C. “As estepes mencionadas por Ab'Sáber aparecem no extremo sul do Estado do Rio Grande do Sul, ocupando o Planalto da Campanha e a Depressão do Rio Ibicuí e do Rio Negro”. (LEITE; KLEIN, 1990, p. 138). Observando os aspectos fisionômicos e estruturais, Leite (1995: 130) agrupa os campos nas seguintes categorias: Formação Parque, Formação Gramíneo- Lenhosa, Contato Estepe Ombrófila e Floresta Ombrófila Mista. 248 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM Formação parque – Aparece nas superfícies onduladas e forte-onduladas dos derrames ácidos mesozoicos, em altitudes superiores a 1.000 metros na forma de estepe. A formação parque tem dois estratos: um arbóreo-arbustivo, com plantas perenefoliadas esparsas, em que Araucaria angustifolia formava florestas- galerias e capões de onde se irradiava com as suas espécies companheiras para os campos, e o outro, gramíneo-lenhoso, com hemicriptófitas, caméfitas e geófitas, com predominância de Andropogon lateralis (capim-caninha). Aparece nas regiões de São Joaquim e Bom Jardim da Serra, em Santa Catarina, e no Planalto Sul- Rio-Grandense, em terrenos forte-ondulados e montanhosos pré-cambrianos com acentuada erosão e em altitudes menores que 1.000 metros. “Nos locais protegidos do vento pode-se ver formações florestais mais bem desenvolvidas”. (LEITE; KLEIN, 1990, p 133). Klein (1978, p. 19) “inclui a Formação Parque nos campos de altitude, que aparecem nos topos das serras Geral e do Mar, em Santa Catarina, na forma de manchas no meio da floresta nebular”. Na Serra Geral, o capim-caninha é comum nas áreas mais enxutas, e onde a umidade se acentua, as tiriricas (Rhynchospora e Scleria) e os botões-de- ouro (Xyris) desenham a paisagem mais característica. As turfeiras, com o musgo Sphagnum spp, são comuns, ao lado da samambaia-dos-gramados (Blechunm imperiale). Formação gramíneo-lenhosa – A paisagem campestre mais típica encontra-se espalhada no meio das florestas de araucárias, que formam capões e florestas-de-galeria. Os campos formam a paisagem mais característica do Planalto Meridional, de tal forma que são conhecidos pelo nome local, muitas vezes associado ao Município: Campos Gerais, do Segundo Planalto Paranaense, Campos de Curitiba, Campos de Lages etc. – cada um deles associado a fatores geológicos e pedológicos específicos, que lhes dão características próprias. Mas advertem Leite (1995, p. 131) e Leite e Klein (1990, p. 134), essas características não os dotam, necessariamente, de flora ou de fisionomia notáveis. Em Santa Catarina, Klein (1978, p. 17) inclui esta formação na sua classificação de campos com capões, florestas ciliares e pequenos bosques de pinhais. Predominam espécies das famílias das Gramíneas, Ciperáceas, Compostas, Leguminosas e Verbenáceas. Klein os denomina de campos limpos, em contraste com os campos sujos, em que aparecem carqueja-do-campo (Baccharis gaudichaudiana), a vassoura-lageana (Baccharis uncinella), os caraguatás (Bromeliácea) (Eryngium spp), e a samambaia-das-taperas (Pteridium aquilinum). Nos campos sujos acham- se os capões e as matas ciliares, que se expandem e ocupam os campos e, desta forma, exercem um papel fundamental na dispersão da araucária. Por ser a paisagem mais comum no Planalto Meridional, é, por isto mesmo, a mais ocupada e descaracterizada pelas atividades do homem. Queimadas, pecuária intensiva e extensiva, agricultura, reflorestamentos, desmatamentos, esgotamento dos solos pelo excesso de uso, deterioração das águas dos rios, como o Peixe, em Santa Catarina, uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos são algumas das incontáveis atividades exercidas pelo homem na região. TÓPICO 2 | AS PAISAGENS FITOGEOGRÁFICAS DO REINO NEOTROPICAL 249 Contato estepe ombrófila/floresta ombrófila mista – A facilidade que as espécies têm para ocupar o espaço depende diretamente da sua capacidade de expansão. A temperatura no Planalto Meridional é uma barreira para espécies tropicais, mas não o é para as subtropicais e temperadas. A temperatura está vinculada diretamente à latitude e à altitude. O contato entre as duas formações mostra claramente essa característica. Os campos sulinos originaram-se em climas frios e mais secos que o atual (KLEIN, 1975). Portanto, as espécies atuais que os recobrem descendem de um ambiente diferente do de hoje. Por outro lado, a flora da floresta mista congrega tanto espécies temperadas, como a araucária, e tropicais ou subtropicais, como a canela. Portanto, a floresta mista "[...] não dispõe, no momento post glacial atual, de elementos florísticos arbóreos adaptados a colonizar todos os espaços ombrófilos do planalto, principalmente os mais frios [...]", porque a flora tropical não suporta temperaturas muito baixas (LEITE, 1995, p. 133). Klein afirma que a flora dos campos e a temperada estão em desacordo com o atual períodointerglacial, úmido e quente. A sucessão vegetal se faz, por isso, do litoral, mais quente, para o interior, mais frio. Entretanto, há espécies da floresta ombrófila densa que não suportam temperaturas demasiado baixas, ao passo que outras conseguem galgar as escarpas das serras Geral e do Mar (LEITE). Para Leite, a expansão da flora tropical para o planalto mostra uma importante qualidade sua, que é a agressividade. Em contrapartida, a flora ombrófila mista – subtropical e temperada – é pouco agressiva, pois que se deixa invadir "[...] por todos os lados por contingentes florísticos diversos, a ponto de espécies como a araucária serem suplantadas em muitos lugares". Todavia, a agressividade das espécies tropicais é menor nos pontos mais altos, onde as temperaturas são baixas. Desse modo, os campos estão livres da sua expansão. As condições ambientais em que se encontram os campos mostram que eles atingiram o clímax climático nas suas áreas de ocorrência, porque o seu hábitat não pode ser ocupado por outra vegetação por causa dos solos rasos e das temperaturas baixas. Nas áreas de solos pouco espessos, litólicos, bem drenados, que não podem suportar árvores nem espécies tropicais, os campos de solos espessos são invadidos e ocupados pela araucária, o que mostra que, neste caso, o clímax é florestal e não campestre. As serras quartzíticas de Minas Gerais e Goiás são o centro de dispersão dos campos no Brasil, diz Rizzini (1979, p. 195) – “todos os campos derivam desses. Nas serras, os solos são rasos e secos e há uma estação seca ecológica. O campo aí também atingiu o clímax climático, pois não cede o lugar para qualquer outro tipo de vegetação”. (p. 202). Nesses biótopos, a flora campestre é muito rica, mas à medida que se irradia vai empobrecendo e diferenciando. Em direção ao sul, a flora tem menos representantes, mas é composta de um maior número de indivíduos, o que é favorecido pelo clima de temperaturas menores e chuvas constantes (1979, p. 196). 250 UNIDADE 3 | TERRITÓRIOS BIOGEOGRÁFICOS, BIOMAS E A AÇÃO DO HOMEM Rizzini (1979, p. 204) agrupa os campos limpos do Brasil Central da seguinte maneira: a) Campos ferruginosos – campos com cobertura de canga. b) Campos quartzíticos – com gramíneas e subarbustos e os campos dos afloramentos. c) Campos "gerais". d) Campos planálticos. e) Campo arbustivo. f) Campo altimontano. 251 Neste tópico você estudou que: ● Recobrindo uma superfície de cerca de 18 milhões de km2 (TROPPMAIR, 2002, p. 82), no Planalto Central brasileiro, há o domínio dos chapadões tropicais com duas estações, recobertos por cerrados e com florestas-galeria. O clima é sazonal, com chuvas de verão, que mantêm uma drenagem perene. A estiagem dura de quatro a cinco meses, predominantemente no inverno. As chuvas variam entre 1.100 e 1.600 mm/ano. ● A paisagem do cerrado é formada por um tapete descontínuo e esparso de gramíneas, entremeado de ervas, arbustos e árvores. Arbustos e árvores têm troncos tortuosos, casca espessa, folhas coriáceas, duras e revestidas por uma camada de cera ou pelos. As folhas têm cor clara ou acinzentada, são grandes e pontudas, o que facilita o gotejamento e evita a acumulação da água na folha, reduzindo a incidência de infecções por fungos. ● A fisionomia do cerrado está na dependência da quantidade de nutrientes e de alumínio nos solos. ● As atividades agrícolas no cerrado aceleraram-se a partir da década de 70, quando técnicas modernas de cultivo e de criação foram introduzidas, com o objetivo de estimular o crescimento econômico do Planalto Central, especialmente depois da fundação de Brasília. Cerca de 70% da produção de carne bovina vêm do Planalto Central. Feijão, soja, milho e arroz são outros produtos largamente cultivados, graças às técnicas de correção do solo. ● O domínio das regiões serranas tropicais úmidas ou dos "mares de morros", recobertos por florestas pluviais, corresponde à região dos mares de morros de origem ígnea e metamórfica, forma uma faixa que se estende ao longo do litoral oriental do reino Neotropical e ocupa uma área de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados. O clima superúmido, com temperaturas elevadas durante todo o ano, originou uma forte decomposição das rochas, o que resultou num manto de alteração muito espesso, graças a um processo de mamelonização, que se alternou com a pedimentação e compôs uma paisagem típica de morros gnáissicos e granítico-gnáissicos de vertentes arredondadas, que Ab'Sáber (1993, 1966, apud AB'SÁBER , 1973, p. 15) chamou de mares de morros. ● A floresta ombrófila densa, a mata Atlântica, recobre a cadeia costeira, a Serra do Mar, estende-se até os mares-de-morros e a Serra da Mantiqueira, cujo ambiente já apresenta algumas diferenças em relação ao litoral. RESUMO DO TÓPICO 2 252 ● As condições ecológicas e biogeográficas da floresta ombrófila densa, que se encontra no litoral, e a floresta tropical do interior, são inteiramente diferentes e ambas as formações não podem ser tomadas como uma comunidade única. ● As condições ambientais mudam do litoral para o interior – o clima úmido do litoral, sem estação de estiagem, torna-se mais seco, sazonal, com duas estações bem marcadas. A influência do oceano reduz-se gradativamente para o interior. As frentes polares raramente entram no interior de Minas Gerais, vindas do litoral, pois o seu avanço é dificultado pelas serras do sul do Estado e, sobretudo, pela Serra do Mar e, mais no interior, pela Mantiqueira. ● O domínio das depressões intermontanas semiáridas, com inselbergs e drenagem intermitente e recoberta por caatingas, é considerada uma região de contrastes. O Nordeste brasileiro começa a mostrar a sua complexidade no clima, que é o que mais se destaca, não só por conferir individualidade à região, como também, por ser o principal elemento do qual decorrem as demais características do relevo, da vegetação e da rede fluvial. ● Na caatinga, como há falta de água, as plantas têm que economizá-la. Por isto, os estômatos se fecham durante as horas quentes do dia, reduzindo, pois, a fotossíntese. Dessa forma, não há produção excessiva de carboidratos – como se dá no cerrado – e as plantas, por conseguinte, não os acumulando, não são esclerófitas. Não obstante serem xerófitos, as plantas da caatinga não apresentam fisionomia de xeromorfismo, como as do cerrado – que não são xerófitos, mas apresentam essas características, porque são esclerófilas. ● O domínio das terras baixas equatoriais, extensivamente florestadas da Amazônia, estende-se na região equatorial e subequatorial, ocupando uma superfície de mais de 2,5 milhões de km2. São planícies de inundação labirínticas e meândricas, tabuleiros de vertentes convexas e morros mamelonares baixos, que aparecem nos relevos cristalinos, juntamente com relevos residuais de pães-de-açúcar, inselbergs no Quaternário. ● A floresta deve a sua existência ao regime de chuvas e às temperaturas elevadas que proveem os ecossistemas com uma população de organismos, macro e micro, decompositores da matéria orgânica, que promovem uma intensa e vital reciclagem da matéria e mantêm a floresta. ● Essa dinâmica complexa origina três tipos de paisagens principais: a floresta de terra firme, a floresta de várzea e a floresta de igapó. ● O domínio dos planaltos das Araucárias é recoberto pela conífera Araucaria angustifolia, em altitudes entre 500 e 1.300 metros, clima subtropical úmido, verões brandos e invernos suaves, com neve eventual e rara. A amplitude térmica anual é acentuada. As temperaturas são fortemente influenciadas pelas altitudes. A floresta de araucária – floresta ombrófila mista – recobria uma superfície de 177.600 km2, mas hoje não passa de 20.000 km2 (LEITE , 1995). 253 ● A paisagem do geofácies Planalto Central é distinguidapor áreas aplainadas recobertas por vegetação campestre, cercadas por vertentes em degraus, nas quais a floresta ombrófila mista avança sobre os campos, migrando desde os vales recobertos pelas matas de galeria. ● A migração do pinheiro sobre os campos, a formação dos capões e das matas de galeria são consequência de uma perfeita interação da Araucaria angustifolia com a fauna. No início da brotação, o pinhão prefere a sombra, mas passada essa fase inicial, a luz solar é capital para o seu desenvolvimento. 254 AUTOATIVIDADE 1 Quais são os Domínios Morfoclimáticos Brasileiros, conforme Ab’Sáber (1976)? 2 Recobrindo uma superfície de cerca de 18 milhões de km2 no Planalto Central brasileiro, o Domínio dos chapadões tropicais tem um clima sazonal, com chuvas de verão, que mantêm uma drenagem perene. Acerca deste domínio morfoclimático, coloque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas. ( ) A estiagem dura de 4 a 5 meses, predominantemente no inverno. As chuvas variam entre 1.100 e 1.600 mm/ano. ( ) A paisagem do cerrado é formada por um tapete descontínuo e esparso de gramíneas, entremeado de ervas, arbustos e árvores. ( ) O cerrado exibe uma fisionomia xerófita muito acentuada, maior que a da caatinga. Mas como não falta água, a vegetação é mesófita e não xerófita. ( ) O cerrado brasileiro está caminhando em ritmo acelerado para a sua extinção. Em Minas Gerais, por exemplo, o cerrado foi praticamente todo cortado para alimentar os fornos siderúrgicos. ( ) Os solos são pobres e predominam os latossolos vermelho-escuros e vermelho-amarelos, com textura argilosa. Nos relevos acidentados aparecem lateritas, e nas veredas, solos orgânicos e gley húmicos. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V – F – F. b) ( ) V – V – V – V – V. c) ( ) F – F – V – V – V. d) ( ) F – F – V – F – V. 3 Relacione os domínios morfoclimáticos brasileiros com suas respectivas características: 1. Domínio dos chapadões tropicais. 2. Domínio das regiões serranas tropicais úmidas. 3. Domínio das depressões intermontanhas semiáridas. 4. Domínio de planaltos subtropicais. 5. Domínio das coxilhas subtropicais uruguaio-sul-rio-grandense. 6. Domínio das terras baixas equatoriais. ( ) Tem clima sazonal, com chuvas de verão, que mantêm uma drenagem perene. A estiagem dura de quatro a cinco meses, predominantemente no inverno. As chuvas variam entre 1.100 e 1.600 mm/ano. ( ) Estende-se na região equatorial e subequatorial, ocupando uma superfície de mais de 2,5 milhões de km2. São planícies de inundação labirínticas e meândricas, tabuleiros de vertentes convexas e morros mamelonares baixos, 255 que aparecem nos relevos cristalinos, juntamente com relevos residuais de pães-de-açúcar, inselbergs no Quaternário. ( ) São recobertos pela conífera Araucaria angustifolia, com altitudes entre 500 e 1.300 metros, clima subtropical úmido, verões brandos e invernos suaves, com neve eventual e rara. A amplitude térmica anual é acentuada. As temperaturas são fortemente influenciadas pelas altitudes. ( ) A paisagem é aplainada, com encostas suaves e longas, tendo nos vales florestas-galerias subtropicais. Os solos são variados: paleossolos claros desenvolvidos em climas frios e paleossolos vermelhos evoluídos em climas quentes, o que gerou uma grande quantidade de tipos de solos, destacando- se as classes brunizem, grumossolo e planossolo. ( ) Este domínio corresponde à região dos mares de morros de origem ígnea e metamórfica, forma uma faixa que se estende ao longo do litoral oriental do reino Neotropical e ocupa uma área de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados. ( ) É considerada uma região de contrastes. O Nordeste brasileiro começa a mostrar a sua complexidade no clima, que é "[...] o que mais se destaca, não só por conferir individualidade à região, como também, por ser o principal elemento do qual decorrem as demais características do relevo, da vegetação e da rede fluvial" (SILVA, 1972, p. 215). A tudo isso somam-se os aspectos humanos, estreitamente ligados e praticamente dependentes do clima semiárido. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6. b) ( ) 1 – 4 – 5 – 6 – 2 – 3. c) ( ) 2 – 3 – 4 – 1 – 5 – 6. d) ( ) 6 – 1 – 5 – 3 – 4 – 2. 256 257 REFERÊNCIAS AB’SÁBER, A.N. Meditações em torno da notícia e da crítica na Geomorfologia brasileira. Not.Geomorfológica, ano 1, p.1- 6, 1958. AB’SÁBER, Aziz N. A organização natural das paisagens inter e subtropicais brasileiras. USP, Geomorfologia, n. 41, p. 1-37, 1973. AB’SÁBER, Aziz N. A problemática da desertificação e da savanização no Brasil intertropical. USP, Geomorfologia, n. 53, p. 1-19, 1977a. AB’SÁBER, Aziz N. Bases para o estudo dos ecossistemas da Amazônia brasileira. São Paulo: USP, Estudos avançados, n.16 (45), p. 7-30, 2002. AB’SÁBER, Aziz N. Os domínios morfoclimáticos na América do Sul. USP, Geomorfologia, n. 52, 1977b. AB’SÁBER. A.N. Domínios morfoclimáticos e províncias fitogeográficas do Brasil. Orientação, n. 3, 1967. ALMEIDA, L.; RIGOLIN, T. B. Geografia. 2. ed. 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