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Fichamento CARMAGNANAI, Anna Maria G. Ensino Apostilado e a Venda de Novas Ilusões. In: CORACINI, Maria José P. F. (Org.). Interpretação, Autoria e Legitimação do Livro Didático: língua materna e língua estrangeira. Campinas: Pontes, 1999. p. 45-55. “A introdução da apostila como substituta/complemento do livro didático [...] é um fenômeno recente no contexto brasileiro, resultante [...] do desenvolvimento do ensino privado e, sobretudo, do descaso do Estado com relação à educação em geral. Face a essa situação, os donos de escolas particulares viram abertas as alternativas de ampliação de sua área de atuação e de retorno de investimentos, antevendo, acertadamente, a possibilidade de ganhos extras com a produção de seu próprio material didático” (p. 45). “Suas condições de produção (cf. Pêcheux, 1969) devem ser analisadas levando-se em conta a política educacional vigente e a produção cultural num determinado período” (p. 45). “Uma de suas constatações é a de que o LD não possui uma história própria no Brasil, pois as mudanças que ocorreram não foram geradas por grupos diretamente ligados ao ensino, mas foram resultado de decretos, leis e medidas governamentais” (p. 46). (i) A partir de 1930 – LD passa a ser produzido tendo em vista o encarecimento dos livros importados. (ii) 1938 – comissão nacional do livro didático (CNLD) [...] mais função de um controle político-ideológico do que uma preocupação didática. (iii) Década de 1960 – distribuição de milhões de LDs no Brasil gratuitamente. [...] muitos dos livros eram traduzidos para o português e os que eram produzidos no Brasil sofriam um controle rígido de conteúdo. (iv) Início da década de 1980 – seleção e distribuição de LDs. [...] distribuição inadequada de livros, lobbies das empresas e editoras junto aos órgãos que selecionavam os livros, autoritarismo nas delegacias regionais e secretarias estaduais na escola do LD. (p. 46-47). “[...] as apostilas surgiram primeiramente nos cursinhos preparatórios para ingresso na universidade e sua eficiência era atestada pelo número de candidatos que obtinha uma vaga nos cursos de ensino superior” (p. 47). Pontos Positivos (i) Atualidade – [...] a apostila poderia ser atualizada periodicamente. (ii) Custo – a produção, reprodução e encadernação de apostilas apresentava um custo muito mais baixo que o do LD. (iii) Adaptação ao exame vestibular – [...] a apostila teria a função de selecionar conteúdos com maior possibilidade de cobrança nos exames vestibulares. (iv) Didática – [...] salientar pontos relevantes [...] incluía dicas e lembretes que raramente eram encontrados no LD. [...] A apostila, ao contrário, trazia gravuras, piadas, notas jocosas, tudo para ajudar o aluno a ficar alguns conteúdos. (v) Modernidade – [...] a apostila conseguiu impor-se como uma resposta ‘moderna’ a uma sociedade em constante mudança. [...] as ‘verdades’ registradas nos LDs não conseguem manter-se intactas por um longo período. (p. 47-48). “[...] Esse sucesso foi incorporado como complemento em algumas escolas e, atualmente várias delas concentram seu ensino nos conteúdos de apostilas organizadas por professores ou profissionais contratados para esse fim” (p. 48). “[...] o planejamento pontual das atividades parece facilitar o trabalho numa escola de grande porte, como numa empresa: homogeneíza os conteúdos e o tempo gasto para seu ensino, padroniza a aprendizagem [...] e flexibiliza a mudança de pessoal” (p. 50). “O controle da instituição sobre o trabalho de professores e de alunos é, então, feito através do material didático [...] professores e alunos vigiam-se uns aos outros” (p. 50). “Assim, as facilidades operacionais de um material organizado dessa forma têm um preço: a limitação de conteúdos, a rigidez de trabalho em sala de aula e, sobretudo, a impossibilidade de os interlocutores interferirem na sequência preestabelecida, nem sempre adequada ao grupo de aprendizes. Ao professores cabe ‘dar’ a aula, exigindo-se dele apenas o domínio de determinados conteúdos. Ao aluno cabe ‘receber’ e assimilar aquilo que foi programado, independentemente de seu potencial e limitações” (p. 50). “A apostila, levando-se em conta sua origem e sua própria definição, é entendida como uma ‘adição ou correção marginal de um manuscrito’ ou como ‘pontos ou matérias de aula publicados em avulso” (Dicionário Aurélio, Ed. Nova Fronteira, 1º edição). Assim, as apostilas enquanto material didático não forem à sua concepção original: a de conterem apenas pontos ou matérias avuldos, a serem uma adição a algo anterior” (p. 51). “[...] a apostila vem sendo utilizada não apenas como complemento mas como fonte única de um conhecimento já fragmentado em disciplinas ou matérias” (p. 51). “O que pretendemos dizer é que o ensino apostilado é, do ponto de vista educacional, extremamente deficitário, devido à simplificação imposta a seus conteúdos” (p. 51). “[...] não há garantia de que o aluno vá além da memorização de algumas informações estanques. A aprendizagem, por sua vez, é um muito dificultada pela falta das redundâncias textuais que facilitam a compreensão” (p. 52). “Para responder [as questões], apenas um conhecimento limitado do léxico e a procura dos quadros que resumem a matéria são necessários. A fixação do conteúdo, fica, então, restrita à memorização mecânica de uma definição que em nada colabora para que o aluno efetivamente entenda como ocorre o fenômeno discutido para a futura compreensão de outros fenômenos” (p. 52). “Confirma-se, então, a premissa de que a apostila apenas consegue reunir tópicos, notas, complementando e resumindo um estudo anterior mais abrangente” (p. 52). “[...] o simplismo com que são apresentados os conteúdos: apenas o estritamente necessário, com destaque para definições, nomes de personagens, datas ou fórmulas estanques” (p. 53). “[...] É nítida a preocupação em adestrar o aluno a responder perguntas (em sua maioria de múltipla escolha) de forma ‘objetiva’, isto é, restringindo-se ao que foi informado (nomes, datas, itens pontuais). Isso, mais uma vez, não leva a aluno a uma análise mais aprofundada de conteúdos ou à internalização de conceitos. Por sua vez, o modo como os conteúdos são apresentados salienta um pressuposto também compartilhado pelo LD tradicional: o de que existem verdades estáveis e de que o LD/apostila são veículos inquestionáveis dessas verdades” (p. 53). “[...] o professor é o mediador autorizado das informações contidas no material e o aluno aquele que as acumula. A educação bancária tão criticada por Paulo Freire reaparece nas apostilas com uma força muito maior do que no LD (este é mais eficiente para camuflar tais concepções). Ao mesmo tempo, acorrenta-se o professor que se vê obrigado a seguir passos preestabelecidos pela instituição que, de maneira simular a uma fábrica, procura padronizar seus produtos independentemente das idiossincrasias de seu pessoal. Um professor mais ou menos preparado não fará diferença desse contexto, pelo menos em termos gerais” (p. 53-54). “Em termos linguísticos, constatamos, também, as limitações impostas aos usuários desse tipo de material: por conter notas, textos adaptados ou apenas definições sintéticas de conceitos complexos, as apostilas solicitam respostas curtas, ‘objetivas’, quando não pedem que o aluno apenas assinale a resposta correta. Isso restringe as possibilidades de desenvolvimento linguístico do aluno que possui vocabulário restrito (lê pouco), tem dificuldades de expressão de pensamento (escreve pouco) e que deve fazer uma leitura do texto já que o sentido lhe é dado” (p. 54). “[...] Sua atualidade [da apostila] é relativa, sua didática questionável e seu conteúdo, quando não é igual, é apenas mais sintético que o do LD. Contudo, por ser diferente do LD tradicional, a apostila parece oferecer conteúdo ‘novo’ de uma maneira mais eficiente. E é essa a ilusão embutida nesses materiais: a ilusão de que a aprendizagem é um mero acúmulo de informações e de que o material apostilado concentra todas as informações necessárias para que a transmissãoseja perfeita” (p. 55).