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CRIMINOLOGIA GENÉTICA: UMA JANELA ABERTA PARA O 
RETROCESSO BIOLOGISTA 
Eduardo Luiz Santos Cabette
Delegado de Polícia, Mestre em Direito Social, Pós – graduado com especialização em 
Direito Penal e Criminologia, Professor de Direito Penal, Processo Penal e Legislação 
Penal e Processual Penal Especial na Unisal e Membro do Grupo de Pesquisa de 
Bioética e Biodireito da Unisal.
“Pior do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser o dono da luz”.
Ariano Suassuna, O Santo e a Porca, p. 23.
“Nada se sabe, tudo se imagina”.
Fernando Pessoa, Odes de Ricardo Reis, p. 107.
1 – INTRODUÇÃO
O mundo tem sido bombardeado pelas promessas da genética que descortinam a 
possibilidade de uma gigantesca revolução a alterar profundamente as relações do 
homem consigo mesmo, com o tempo, com os outros homens etc.
A violência e a criminalidade, enquanto pautas recorrentes, não poderiam ficar 
imunes às irradiações dessas novas perspectivas, oportunizadas pelos alardeados 
supostos potenciais quase ilimitados proporcionados pelo desenvolvimento desse ramo 
científico.
Em um estágio no qual já se reconhece com alguma dose de consenso que as 
simplificações e os isolamentos não são capazes de explicar ou descrever a realidade. 
Quando parece estar compreendido que o todo não é uma singela soma das partes, 
emergindo o paradigma da complexidade a extirpar os reducionismos, surge a genética, 
apresentada quase invariavelmente sobre uma base marcantemente determinista, 
preditiva e simplista, ostentando como palavra de ordem o “isolamento” (isolamento de 
genes, de caracteres etc.).
Com este trabalho pretende-se expor como o advento das promessas genéticas 
pode influenciar os estudos criminológicos, ocasionando uma importante alteração de 
rota. Também é relevante demonstrar como essa alteração de trajetória do pensamento 
criminológico pode enveredar por caminhos extremamente perigosos, prenhes de 
autoritarismo e de potenciais violações à dignidade humana.
Uma inicial incursão acerca da evolução histórica do pensamento criminológico, 
será capaz de mostrar como aquilo que a aplicação da genética no campo criminológico 
hoje descortina como absoluta novidade alvissareira, não passa da repristinação de 
velhos paradigmas etiológicos do crime, sustentados sobre bases que se mostraram 
equivocadas e ilusórias. 
Finalmente, será objeto de discussão a necessidade de reflexão a anteceder 
qualquer tomada de posição e, principalmente, qualquer atitude que possa de alguma 
maneira atingir a existência humana, ensejando vilipêndios a tudo aquilo que caracteriza 
o “ser” do homem.
2 – ESBOÇANDO UMA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA CRIMINOLOGIA1
O grande marco a inaugurar verdadeiramente os estudos criminológicos 
encontra-se no surgimento do Positivismo e, mais especificamente, da chamada 
“Antropologia Criminal”. Nessa ocasião opera-se uma mudança singular no que diz 
respeito ao objeto das preocupações da ciência criminal. Enquanto a Escola Clássica 
Liberal preocupava-se com o estudo dos postulados jurídico – penais, procurando 
desenvolver uma formulação teórico – dogmática do Direito Penal, o advento da 
Antropologia Criminal propicia uma alteração de perspectiva, voltando os olhos da 
pesquisa científico – criminal para o estudo do fenômeno do crime e, especialmente, da 
figura do criminoso.
O Positivismo exerce grande influência na conformação dessa nova postura, pois 
que defende a irradiação do método científico para todas as áreas do saber humano, até 
mesmo às da filosofia e da religião. Nesse contexto, o Direito e especificamente o ramo 
jurídico – criminal, também passaram a sofrer influências importantíssimas desse 
referencial teórico então dominante.
O Positivismo Jurídico aproxima o Direito, o quanto possível, ao método das 
ciências naturais, objetivando limita-lo àquilo que tenha de concreto, observável, 
passível de mensuração e descrição. Por isso é que seu resultado acaba sendo a 
limitação do Direito às normas legais, evitando a consideração de fatores axiológicos, 
metafísicos etc.
O afastamento rigoroso das questões que não fossem subsumíveis ao método de 
experimentação científico, ensejou, no bojo das ciências criminais, o nascimento da 
busca de relações e regras constantes que tivessem a capacidade de esclarecer o 
fenômeno da criminalidade.
A Criminologia exsurge dessa efervescência, desse entusiasmo pelo método 
científico, dando destaque nunca dantes constatado ao estudo do homem criminoso e à 
pesquisa das causas da delinqüência. 
Em meio a esse clima, a criminalidade somente poderia ser estudada com 
sustentação em dados empíricos ofertados pela demonstração experimental de leis 
naturais seguras e imutáveis.
O criminoso passa a ser objeto de estudo, uma fonte de pesquisas e experimentos 
com vistas à descoberta científica das causas do fenômeno criminal.
A obstinada busca de causas explicativas do agir criminoso em oposição às 
condutas conforme a lei, somente poderia resultar na negação do “livre arbítrio”, 
apontado até então pela Escola Clássica como verdadeiro fundamento legitimador da 
responsabilidade criminal.
É claro que a noção de livre arbítrio não poderia servir a uma concepção 
positivista, pois que ensejava um total descontrole e imprevisibilidade quanto às 
práticas criminosas. A postura positivista não se coaduna com tal insegurança. Deseja 
apropriar-se de um conhecimento que propicie o domínio seguro de leis constantes a 
regerem o mundo e, por que não, o comportamento humano, inclusive aquele desviado.
A conseqüência imediata foi a consideração do criminoso como um “anormal”. 
A partir daí, bastaria dotar o pesquisador de instrumentos hábeis a selecionar, de forma 
científica, os criminosos (anormais), em meio à população humana aparentemente 
homogênea ou normal.
1 Um desenvolvimento mais aprofundado desta temática já foi por nós levado a efeito em outro trabalho. 
CABETTE, Eduardo Luiz Santos. A criminologia no século XXI. Revista Forense. Volume 374, 
jul./ago., 2004, p. 53 – 78.
O primeiro grande passo dado por um pesquisador nesse sentido foi a doutrina 
preconizada por Cesare Lombroso, destacando-se a publicação de sua conhecida obra 
“O homem Delinqüente”, em 1876.
Lombroso entendia ser possível detectar no criminoso uma espécie diferente de 
“homo sapiens”, o qual apresentaria determinados sinais, denominados “stigmata”, de 
natureza física e psíquica. Esses sinais caracterizariam o chamado “criminoso nato” 
(v.g. forma da calota craniana e da face, dimensões do crânio, maxilar inferior 
procidente, sobrancelhas fartas, molares muito salientes, orelhas grandes e deformadas, 
corpo assimétrico, grande envergadura dos braços, mãos e pés, pouca sensibilidade à 
dor, crueldade, leviandade, tendência à superstição, precocidade sexual etc.). Todos 
esses sinais indicariam um “regresso atávico”, tendo em conta sua clara aproximação 
com as formas humanas primitivas. Ademais, Lombroso intentou demonstrar uma 
ligação entre a epilepsia e aquilo que chamava de “insanidade moral”.
Percebe-se claramente o conteúdo determinista das teorias lombrosianas, o qual 
conduziria a importantes conclusões e conseqüências para a Política Criminal. Ora, se o 
criminoso estava exposto à conduta desviada forçosamente, tendo em vista uma 
congênita predisposição, seria injusto atribuir-lhe qualquer reprovação que fosse ligada 
ao desvalor de suas escolhas quanto à sua conduta, isso pelo simples motivo de que não 
atuava por sua livre escolha, mas sim dirigido por forças naturais irresistíveis a impeli-
lo para os mais diversos atos criminosos. Assim sendo, jamais poderia ser exposto a 
apenações morais e infamantes. Não obstante, sendo as práticas criminosas 
componentesindissociáveis de sua personalidade, estaria a sociedade legitimada a 
defender-se , impondo-lhe desde a prisão perpétua até a pena de morte.2
A doutrina lombrosiana, no entanto, foi grandemente criticada e desmentida por 
estudos ulteriores que comprovaram a inexistência de indícios seguros a 
demonstrarem qualquer diferença fisiológica, física ou psíquica entre homens que 
perpetraram atos criminosos e indivíduos cumpridores da lei.
Não obstante, deve ser atribuído a Lombroso o mérito de ser o primeiro a 
impulsionar os estudos que dariam origem à Criminologia. Ele iniciou, com a sua 
Antropologia Criminal, os estudos do homem delinqüente, razão pela qual tem sido 
considerado o verdadeiro “Pai da Criminologia”.3 A partir dele começam os mais 
diversos campos de pesquisa de elementos endógenos capazes de ocasionarem o 
comportamento criminoso.
Inúmeras investigações científicas nos mais variados campos das ciências 
naturais e biológicas lograram conformar um conjunto de teorias elucidativas do 
fenômeno criminal. A esse conjunto costuma-se denominar “Criminologia Clínica”.
Pode-se exemplificar essa corrente criminológica com alguns de seus ramos 
mais destacados: Biologia Criminal, Criminologia Genética4, Psiquiatria Criminal, 
Psicologia Criminal, Endocrinologia Criminal, Estudos das Toxicomanias etc.
Todas essas linhas de pesquisa têm como traço comum a busca de uma 
explicação etiológica endógena do crime e do homem criminoso. Procura-se apontar 
uma causa da conduta criminosa que estaria no próprio homem, enquanto alguma forma 
de anormalidade física e/ou psíquica. Também todas essas teorias apresentam um 
equívoco comum: pretendem explicar isoladamente o complexo fenômeno da 
criminalidade.
Em contraposição à “Criminologia Clínica”, surge a denominada “Criminologia 
Sociológica”, tendo como seu mais destacado representante Enrico Ferri. 
2 FERNANDES, Newton, FERNANDES, Valter. Criminologia Integrada. São Paulo: RT, 1995, p. 75.
3Op. cit., p. 82.
4 O tema presente será melhor desenvolvido em itens posteriores.
A “Criminologia Sociológica” propõe uma revisão crítica da “Criminologia 
Clínica”, pondo a descoberto que a insistência desta nas causas endógenas da 
criminalidade, olvidava as importantes influências ambientais ou exógenas para a 
gênese do crime. Aliás, para os defensores da “Criminologia Sociológica”, as causas 
preponderantes da criminalidade seriam mesmo ambientais ou exógenas, de forma que 
mais relevante do que perquirir as características do homem criminoso, seria identificar 
o meio criminógeno em que ele se encontra.
No entanto, a “Criminologia Sociológica” em nada inova no que tange à postura 
de procurar uma etiologia do delito. Os criminólogos ainda insistem em encontrar 
“causas” para o crime, somente alterando a natureza destas, transplantando-as do 
criminoso para o ambiente criminógeno. Em suma, muda o “locus” da pesquisa, mas 
não muda a natureza claramente etiológica desta. 
Os estudos relativos à atuação do ambiente na criminalidade são variegados, 
podendo-se mencionar alguns ramos a título meramente exemplificativo: Geografia 
Criminal e Meio Natural, Metereologia Criminal, Higiene e Nutrição, Sistema 
Econômico, Mal vivência, Ambiente familiar, Profissão, Guerra, Migração e 
Imigração, Prisão e contágio moral, Meios de Comunicação etc.
Ainda no matiz sociológico deve-se dar atenção especial às chamadas “Teorias 
Estrutural – Funcionalistas”, as quais podem ser tratadas como item apartado, tendo em 
vista suas peculiaridades.
As Teorias Estrutural – Funcionalistas afirmam que o crime é produzido pela 
própria estrutura social, inclusive exercendo uma certa função no interior do sistema, de 
maneira que não deve ser visto como uma anomalia ou moléstia social.
A base teórica principal é ofertada por Émile Durkheim que dá ênfase para a 
normalidade do crime em toda e qualquer sociedade. Aduz o autor em referência que “o 
crime é normal porque uma sociedade isenta dele é completamente impossível”. 5 Mas, 
o autor vai além, chegando a reconhecer que o crime não somente é normal, mas 
também “é necessário” para a coesão social, sendo uma sociedade sem crimes 
indicadora, esta sim, de deterioração social. Durkheim indica o fenômeno criminal 
como reafirmador da ordem social violada e, portanto, legitimador de sua existência. 
Toda vez que acontece um crime, a reação desencadeada contra ele reafirma os liames 
sociais e ratifica a validade e a vigência das normas legais. 6
Portanto, o desvio é funcional, somente tornando-se perigoso ao exceder certos 
limites toleráveis. Em tais circunstâncias pode eclodir um estado de desorganização e 
anarquia, no qual todo o ordenamento normativo perde sua efetividade. Não emergindo 
disso um novo ordenamento a substituir aquele que ruiu, passa-se a uma situação de 
carência absoluta de normas ou regras, ficando a conduta humana à margem de qualquer 
orientação. A isso Durkheim dá o nome de “anomia”, efetiva causadora de 
desagregação e deterioração social. 7
O conceito de “anomia” e o reconhecimento da funcionalidade do crime no meio 
social produzem uma revolução quanto às finalidades e fundamentos da pena, vez que 
estes já não devem mais ser buscados na fantasiosa profilaxia de um suposto mal.
Outra formulação teórica relevante de matiz estrutural – funcionalista deve-se a 
Robert Merton. Ele se apropria do conceito de “anomia” para demonstrar que o desvio 
não passa de um produto da própria estrutura social. Portanto, absolutamente normal, 
considerando que esta própria estrutura é que vem a compelir o indivíduo à conduta 
5 DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Trad. Pietro Nassetti. São Paulo: Martim Claret, 
2001, p. 83. 
6 Op. Cit., p. 86.
7 BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e crítica do Direito Penal. Trad. Juarez Cirino dos 
Santos. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1999, p. 59 – 60.
desviante. Merton expõe detalhadamente o mecanismo estrutural que conduz o 
indivíduo ao crime no seio social: a sociedade apresenta-lhe metas, mas não lhe 
disponibiliza os meios necessários para o seu alcance legal. O indivíduo perde suas 
referências, sentindo-se abandonado sem possibilidades “normais” de conseguir seus 
objetivos. Sem os meios legais, mas pressionado para a conquista de certos objetivos 
sociais, o indivíduo precisa preencher esse vácuo (anomia) de alguma maneira. E a 
única maneira disponível será a perseguição dos fins colimados por meios ilegítimos, 
ilegais e desviantes, uma vez que os legítimos não estão acessíveis. 
De acordo com Merton: “a desproporção entre os fins culturalmente 
reconhecidos como válidos e os meios legítimos à disposição do indivíduo para alcançá-
los, está na origem dos comportamentos desviantes”. 8 E mais: “a cultura coloca, pois, 
aos membros dos estratos inferiores, exigências inconciliáveis entre si. Por um lado, 
aqueles são solicitados a orientar a sua conduta para a perspectiva de um alto bem – 
estar; por outro, as possibilidades de fazê-lo, com meios institucionais legítimos, lhes 
são, em ampla medida, negados”.9
Outro referencial importante é a denominada “Teoria da Associação 
Diferencial”, produzida por Edwin H. Sutherland. Segundo essa construção teórica, a 
criminalidade, a exemplo de qualquer outro modelo de comportamento humano, é 
aprendida conforme as convivências específicas às quais o sujeito se expõe em seu 
ambiente social e profissional.10
Essa linha de pensamento possibilitou a formulação da conhecida “Teoria das 
Subculturas Criminais”, para a qual o sujeito aprenderia o crime de acordo com sua 
convivência em certos ambientes, assumindo as características de determinados grupos 
aos quais estaria preso por umaaproximação voluntária, ocasional ou coercitiva.
Afirma Sutherland que o processo de “associação diferencial” propicia ao 
sujeito, de conformidade com seu convívio, aprender e apreender as condutas desviantes 
respectivas. Dessa forma, tal teoria teria a vantagem de poder explicar a criminalidade 
das classes baixas tanto quanto a das classes altas. Nesse processo de convívio – 
aprendizado os infratores menos privilegiados praticariam usualmente os mesmos 
crimes, vez que estariam conectados ao convívio de pessoas de seu nível social e só 
teriam oportunidade de aprender essas determinadas espécies de condutas delitivas, 
não sendo-lhes possibilitado o acesso a conhecimentos e condicionamentos que os 
tornassem aptos a outras condutas mais sofisticadas. De outra banda, os mais abastados 
teriam acesso ao aprendizado de outras modalidades criminosas ligadas naturalmente ao 
seu meio social. Em razão disso também dificilmente incidiriam nas condutas afetas às 
classes mais baixas.
Há certo ponto de contato entre a teoria de Merton e a de Sutherland, pois que a 
modalidade de conduta atribuída aos indivíduos das classes pobres e abastadas 
apresentaria uma distribuição em conformidade com os meios dispostos aos sujeitos 
para desenvolverem seus impulsos criminosos. No entanto, a formulação de Sutherland 
tem a pretensão de ser mais ampla, fornecendo uma fórmula geral apta a explicar a 
criminalidade dos pobres e das classes altas. Para o autor sob comento, qualquer 
conduta desviante seria “apreendida em associação direta ou indireta com os que já 
praticaram um comportamento criminoso e aqueles que aprendem esse comportamento 
criminoso não têm contatos freqüentes ou estreitos com o comportamento conforme a 
lei”. Dessa forma, uma pessoa torna-se ou não criminosa de acordo “com o grau 
relativo de freqüência e intensidade de suas relações com os dois tipos de 
8 Op. Cit., p. 63.
9 MERTON, Robert, apud, Op. Cit., p. 65.
10 Op. Cit., p. 66.
comportamento” (legal e ilegal). Isso é o que se denomina propriamente de “associação 
diferencial”. 11
Essa maior abrangência da teoria preconizada por Sutherland a teria tornado 
mais completa do que aquela defendida por Merton. Segundo a maioria dos críticos, as 
explicações de Merton seriam bastante satisfatórias para a criminalidade dos pobres, 
mas não serviriam para esclarecer por que pessoas dotadas de todos os meios 
institucionais e legais para a consecução de seus objetivos sociais, mesmo assim, 
perpetrariam ações delituosas. 12 Portanto, não é sem motivo que o termo “crime de 
colarinho branco” ou “white collar crime” foi cunhado e empregado originalmente por 
Edwin H. Sutherland, em data de 28.11.1939, durante uma conferência que se passou na 
sede da “American Sociological Society”, com a finalidade de fazer referência a uma 
espécie de criminalidade praticada por pessoas de nível social elevado, e em especial na 
sua atuação profissional.13
Como derradeira representante da linha de pensamento estrutural – funcionalista 
pode-se mencionar a chamada “Teoria das Técnicas de Neutralização”, cujos principais 
expoentes foram Gresham M. Sykes e David Matza. Trata-se de uma “correção da 
Teoria das Subculturas Criminais”, mediante a complementação implementada pelo 
acréscimo dos estudos das “técnicas de neutralização”. Estas seriam maneiras de 
promover a racionalização da conduta marginal, as quais seriam apreendidas e usadas 
lado a lado com os modelos de comportamento e valores desviantes, de forma a 
neutralizar a atuação eficaz dos valores e regras sociais, aos quais o delinqüente, de uma 
forma ou de outra, adere. 14
Na verdade, mesmo aquele indivíduo que vive mergulhado em uma subcultura 
criminal não perde totalmente o contato com a cultura oficial e, de alguma forma, sobre 
a influência e presta reconhecimento a algumas de suas regras. É desta constatação que 
partem Sykes e Matza para lograrem expor os mecanismos usados pelas pessoas para 
justificarem perante si mesmas e os demais, suas condutas desviantes, infringentes das 
normas oficiais impostas pela sociedade.
São descritas algumas espécies básicas de “técnicas de neutralização”: 15
a)Exclusão da própria responsabilidade – o infrator se enxerga como vítima das 
contingências, surgindo muito mais como sujeito passivo quanto ao seu 
encaminhamento para o agir criminoso.
b)Negação da ilicitude – o criminoso interpreta suas atuações apenas como 
proibidas, mas não criminosas, imorais ou destrutivas, procurando redefini-las com 
eufemismos.
c)Negação da vitimização – a vítima da ação delituosa é apontada como 
merecedora do mal ou do prejuízo que lhe foi impingido.
d)Condenação dos que condenam – atribuem-se qualidades negativas às 
instâncias oficiais responsáveis pela repressão criminal.
11 SUTHERLAND, Edwin H., apud , Op. Cit., p. 72.
12 Para um aprofundamento e uma discussão dessa crítica, a qual não caberia no presente trabalho, 
remete-se o leitor a nosso estudo anterior já mencionado: CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Op. Cit., p. 
69 – 71.
13 A conferência de Sutherland teve o título “White Collar Criminality” e foi publicada pela “American 
Sociological Review”, em seu número 5, em fevereiro de 1940. KREMPEL, Luciana Rodrigues. O crime 
de colarinho branco: aplicação e eficácia da pena privativa de liberdade. Revista Brasileira de Ciências 
Criminais. n. 54, maio/jun., 2005, p. 97.
14 BARATTA, Alessandro. Op. Cit., p. 77.
15 Op. Cit., p. 78 – 79.
e)Apelo às instâncias superiores – sobrevalorização conferida a pequenos grupos 
marginais a que o desviado pertence, aderindo às suas normas e valores alternativos, em 
prejuízo das regras sociais normais.
Note-se que a mais destacável “técnica de neutralização” é a própria criação de 
uma subcultura. Esta é a maior ensejadora de abrandamentos de consciência e defesas 
contra remorsos, na medida em que o apoio e aprovação por parte de outras pessoas 
integrantes do grupo, ocasionam uma tranqüilização e um sentimento de integração que 
não se poderia obter no seio da sociedade calcada nas normas e valores oficiais. 16 
Inobstante os avanços obtidos com as “Teorias Estrutural – Funcionalistas”, uma 
alteração verdadeiramente radical do modelo de pesquisa do fenômeno criminal 
somente adviria com o surgimento da chamada “Criminologia Crítica”. 17 É com ela que 
se leva a efeito o abandono da mais constante premissa da Criminologia Tradicional, 
qual seja, aquela de ser o crime uma realidade ontologicamente reificada.
A partir das idéias trazidas à tona pela revisão criminológica crítica, o crime 
passa a ser visto como uma realidade meramente normativa, moldada pelo Sistema 
Social responsável pela edição, vigência e aplicação das leis penais. Por reflexo disso o 
criminoso deixa de ser encarado como um “anormal” e o crime como manifestação 
“patológica”.
A explicação para a criminalidade é agora procurada no desvelar da atuação do 
Sistema Penal que a define e reage contra ela, iniciando pelas normas abstratamente 
previstas, até chegar à efetiva atuação das agências oficiais de repressão e prevenção 
que aplicam as leis. Vislumbra-se que a indicação de alguém como criminoso é 
dependente da ação ou omissão das agências estatais responsáveis pelo controle social. 
Percebe-se que muitos indivíduos praticantes de atos desviantes não são tratados 
como criminosos, até que sejam alcançados pela atuação das referidas agências, as quais 
são pautadas por uma conduta e exercem um papel altamente seletivo. Ser ou não ser 
criminoso é algo que não está ligado à presença ou não de alguma doença ou 
anormalidade, mas sim ao fato de haver ou não o indivíduo sido retido pelas malhas 
das agências seletivas que agem baseadas em orientações normativas e sociais. 18
Propõem as Teoriasda Criminologia Radical o abandono do velho modelo 
etiológico, visando erigir uma inovadora abordagem crítica do Sistema Penal, inclusive 
propiciando um sério questionamento de sua legitimidade.
A Criminologia Crítica é caracterizada por certo matiz marxista, pois parte da 
idéia de que o Sistema Punitivo é construído e funciona com apoio em uma ideologia da 
sociedade de classes. Dessa forma, seu principal objetivo longe estaria da defesa social 
ou da preocupação com a criação ou manutenção de condições para um convívio 
harmônico entre as pessoas. O verdadeiro fim oculto de todo Sistema Penal seria a 
sustentação dos interesses das classes dominantes. Qualquer instrumento repressivo de 
controle social revelaria a atuação opressiva de umas classes sobre as outras. Por isso 
seria o Direito Penal elitista e seletivo, recaindo pesadamente sobre os pobres e 
raramente atuando contra os integrantes das classes dominantes, os quais, aliás, seriam 
aqueles que redigem as leis e as aplicam. O Direito é visto como absolutamente despido 
de qualquer finalidade de transformação social. Ao contrário, é encarado como um 
instrumento de manutenção e reforço do “status quo” social, conservando e alimentando 
desigualdades pelo exercício de um poder de dominação e força. 19
16 Op. Cit., p. 81.
17 Também denominada “Nova Criminologia”, “Criminologia Radical”, “Criminologia Dialética”, 
“Criminologia Interacionista” ou “Criminologia da reação social”.
18 Op. Cit., p. 86.
19 LYRA, Roberto, ARAÚJO JÚNIOR, João Marcello de. Criminologia. 3ª. ed. Rio de Janeiro: Forense, 
1992, p. 204 – 205.
Impõe-se uma conscientização da gigantesca diferença de intensidade da atuação 
do Direito Penal sobre setores desvalidos da sociedade, enquanto apresenta-se bastante 
leniente e omisso perante condutas gravíssimas ligadas às classes dominantes.
É nesse contexto que emerge a “Teoria do Labeling Approach” ou “Teoria da 
Reação Social”. Enquanto o pensamento criminológico até então vigente advogava a 
tese de que o atributo criminal de uma conduta existia objetivamente, como um ente 
natural e até era preexistente às normas penais que o definiam num mero exercício de 
reconhecimento, o qual, aliás, consistia em um certo acordo universal, um consenso 
social; a “Teoria do Labeling Approach” virá para desmistificar todas essas equivocadas 
convicções.
O “Labeling Approach” ou “etiquetamento” indica que um fato só é tomado 
como criminoso após a aquisição desse “status” através da criação de uma lei que 
seleciona certos comportamentos como irregulares, de acordo com os interesses sociais. 
Em seguida, a atribuição a alguém da pecha de criminoso depende novamente da 
atuação seletiva das agências estatais.
Passa a ser objeto de estudo da Criminologia a descoberta dos mecanismos 
sociais responsáveis pela definição dos desvios e dos desviantes; os efeitos dessa 
definição e os atores que interagem nessas complexas relações. Deixa-se de lado a 
ilusão do crime como entidade natural pré – jurídica e do criminoso como portador de 
anomalias físicas ou psíquicas.
Essa nova linha de reflexões produz uma derrocada no mito do Sistema Penal 
como recuperador dos desviados. Contrariamente, entende-se que a atuação rotuladora 
do Sistema Penal exerce forte pressão para a permanência do indivíduo no papel social 
(marginal e marginalizado) que lhe é atribuído. O sujeito estigmatizado ao invés de se 
recuperar, ganharia um reforço de sua identidade desviante. Na realidade, o Sistema 
Penal assim concebido passa a ser entendido como um criador e reprodutor da violência 
e da criminalidade.
Finalmente cabe expor sumariamente a relação entre a “Sociologia do Conflito” 
e a “Nova Criminologia”.
Como já visto, a Nova Criminologia põe em cheque a idéia de que as normas de 
convívio social derivam de certo consenso em torno de valores e objetivos comuns. Aí 
está o ponto de contato com a “Sociologia do Conflito”, que apregoa ser uma tal 
concepção uma mera ficção erigida com a finalidade de legitimar a ordem social. Na 
realidade, essa ordem social seria produto não de consenso, mas do conflito de 
interesses de grupos antagônicos, prevalecendo a vontade daqueles que lograram 
exercer maior dominação.
Com o esboço desse quadro evolutivo da ciência criminológica, é possível 
determinar dois principais momentos de mudanças conceituais e epistemológicas: o 
primeiro deles refere-se à transição do Direito Penal Clássico para o nascimento da 
Criminologia, sob a égide do Positivismo, com as inaugurais pesquisas lombrosianas de 
Antropologia Criminal. Somente aí é que o homem criminoso adquire importância 
central nos estudos, que não mais se reduzem às dogmáticas jurídicas. O segundo 
momento relevante foi o da mudança radical do referencial teórico da Criminologia, 
propiciado pela emergência da chamada “Criminologia Crítica”. Nessa oportunidade 
abandona-se o modelo de pesquisa etiológico – profilático, mediante um consistente 
questionamento de um longo “processo de medicalização do crime”. 20 O fenômeno 
criminal passa a ser perquirido como criação da própria organização social e não mais 
20 BORELLI, Andréa. Da privação dos sentidos à legítima defesa da honra: considerações sobre o direito 
e a violência contra as mulheres. Revista Brasileira de Ciências Criminais. n. 54, maio/jun., 2005, p. 10.
como um ente pré – existente, passível de compreensão e apreensão pela aplicação 
isolada do método das ciências naturais.
A virada epistemológica propiciada pela “Criminologia Crítica” não desmerece 
o conjunto dos estudos anteriores e nem representa um ponto final para a pesquisa 
criminológica. Tão somente faz perceber que são possíveis explicações parciais para o 
fenômeno criminal, mas jamais tal questão pode ser devidamente desvendada de forma 
simplista e reducionista. A criminalidade e a violência em geral são problemas 
complexos que somente permitem uma visão ponderada através de um conjunto de 
saberes e métodos de investigação, os quais, isolados, produzem noções fantasiosas e 
distorcidas. Não é por outro motivo que atualmente se fala numa “Criminologia 
Integrada”. 21
Neste item procedeu-se a uma retomada dessa evolução dos estudos 
criminológicos já anteriormente levada a efeito em outro trabalho 22 com um objetivo 
bastante definido: pretendeu-se expor o mais clara e pormenorizadamente possível 
como se chegou à ponderada e racional conclusão de que o “crime” em si não existe na 
natureza, tratando-se do resultado de normas humanas convencionadas. O criminoso, 
portanto, é somente todo aquele que infringe tais normas e não o portador de anomalias. 
As pesquisas etiológico – profiláticas, que são o original impulso da Criminologia, são 
impregnadas de um determinismo irreal porque baseadas em uma noção ilusória do 
crime como ente natural pré – jurídico, que o Direito Penal somente faz reconhecer e 
declarar, quando, na verdade, o crime é uma criação do Direito, podendo inclusive 
modificar-se ao longo do tempo e das mudanças sociais. 
Ainda que certos eventos criminais possam ser validamente explicados por meio 
de uma abordagem etiológica (v.g. o homicídio perpetrado por um esquizofrênico que 
acredita estar esfaqueando um monstro) 23, deve-se ter em mente que se trata de um 
critério válido somente de forma eventual e parcial. Além disso, mesmo sua validade 
eventual em nada atinge a conclusão inarredável de que o crime é uma criação 
normativa, um filho do Direito e das convenções e não um rebento da natureza. O 
retorno a uma noção equivocada a este respeito, devido a qualquer espécie de 
descoberta científica e novas possibilidades de intervenção, constitui um enorme 
retrocesso do pensamento criminológico com riscos de terríveis conseqüências sociais e 
individuais.3 – GENÉTICA: SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA DA VIOLÊNCIA E DO CRIME?
3.1 – A REFLEXÃO COMO UMA NECESSIDADE CONSTANTE
21 FERNANDES, Newton, FERNANDES, Valter. Op. Cit., p. 617 – 618.
22 CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Op. Cit., p. 53 – 78.
23 O exemplo refere-se ao ato de “matar alguém”, tido como criminoso, mas obviamente não se olvida a 
questão da inimputabilidade sob o ângulo legal. É que o fim da exemplificação consiste na discussão sob 
o prisma criminológico e não jurídico.
Há sempre uma casca envolvendo tudo que se apresenta ao nosso conhecimento 
e avaliação. Se nossa análise acerca das coisas contenta-se em deslizar pela superfície, 
jamais rompendo essa casca de aparências, corre-se o grave risco de proceder escolhas 
absolutamente equivocadas, baseadas em dados e informações fantasiosas.
Sobre isso nos alerta o literato José Saramago em sua crônica “Jogam as brancas 
e ganham”, afirmando que “por baixo ou por trás do que se vê, há sempre mais coisas 
que convém não ignorar, e que dão, se conhecidas, o único saber verdadeiro”. 24
Muitas vezes o mal encontra fertilidade exatamente na incapacidade de pensar 
que propicia a ação ou omissão acrítica ou até mesmo bem intencionada, embora 
equivocada. Hanna Arendt chama a atenção para este ponto quando destaca a 
“banalidade do mal” escancarada no julgamento do medíocre funcionário do nazismo, 
Eichmann, responsável por massacres terríveis de seres humanos. À enormidade do mal 
produzido não correspondia o homem insignificante em julgamento: ele não era 
estúpido, porém era dotado de “uma curiosa e totalmente autêntica incapacidade de 
pensar”. 25
A capacidade de pensar é um atributo humano que não deve jamais ser 
desprezado. Quando isso ocorre, além de configurar uma deturpação do homem, pode 
ser a via ideal para sua autodestruição. 
Mas, não basta pensar, este pensar precisa ser também livre, não pode estar 
amarrado a idéias pré – concebidas pelo próprio pensador ou assimiladas de terceiros 
sem um necessário filtro crítico. Não é bom que idéias alheias simplesmente dominem o 
homem e o moldem a seu bel prazer. Igualmente não é adequado que o pensamento de 
um homem pretenda simplesmente conceber o mundo a seu talante, vendo apenas 
aquilo que quer ver e desprezando a realidade. 26 São respectivamente casos de 
submissão acrítica e esquizofrenia intelectual, os quais freqüentemente se entrelaçam 
para conformar ideologias perniciosas. 
A genética na atualidade tem sido apresentada, especialmente na grande mídia, 
como uma espécie de panacéia para todos os males. De outra banda, há aqueles que 
satanizam as pesquisas genéticas, somente apontando seus danos potenciais e perigos.
Diante de tal quadro é imprescindível exercitar nossa capacidade de pensar 
criticamente, não acatando simplesmente tudo aquilo que é proposto de acordo com esta 
ou aquela orientação.
No seguimento será abordada a apresentação da genética como possível solução 
para a criminalidade, como já tem sido aventado e alardeado pela imprensa na 
divulgação de certas pesquisas acerca de supostos “genes da violência” ou “genes do 
crime”.
3.2 – BASES DA CULPABILIDADE
O Direito Penal sempre esteve em xeque quanto à sua legitimidade. Uma das 
discussões mais recorrentes refere-se ao estabelecimento das bases da imputabilidade 
subjetiva. Afinal, o que tornaria o homem responsável por seus atos criminosos ao 
24 A Bagagem do Viajante. 6ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 86.
25 Responsabilidade e Julgamento. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 
226. Ver também sobre o tema: IDEM. Eichmann em Jerusalém. 6ª. ed. Trad. Rubens Siqueira. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1999, “passim”. 
26 Desde antanho alertava Descartes sobre o perigoso erro de julgar que as idéias que estão em nós são 
semelhantes ou conformes as coisas que estão fora de nós. DESCARTES, René. De Deus, que Ele existe. 
In: SMITH, Plínio Junqueira. Dez provas da existência de Deus. São Paulo: Alameda, 2006, p. 206.
ponto de legitimar a sociedade a puni-lo? E ainda: seria ele realmente responsável por 
sua conduta? Em qualquer caso, o que justificaria a repressão do criminoso e como ela 
deveria realizar-se de forma justa e eficaz?
A tradicional fundamentação legitimante do Direito Penal encontra-se na 
aferição da presença de “culpabilidade”, significando que determinada ação ou omissão 
pode ser subjetivamente imputada ao seu autor, ensejando a reprovação jurídica em 
razão de sua conduta ilícita.
Não obstante, a configuração teórica da culpabilidade já formalmente explicitada 
nos termos acima mencionados, carecia de uma sustentação material a indicar qual seria 
o motivo pelo qual se reprova no sujeito uma prática criminosa.
Neste passo surge a questão do “livre arbítrio” em conflito com uma concepção 
determinista do ser humano. Num primeiro plano, aparece o entendimento segundo o 
qual a culpabilidade reside na liberdade do autor atuar de modo diverso no momento do 
fato. Melhor dizendo, a censurabilidade do comportamento tem lastro no fato do 
culpado haver desejado agir de modo contrário ao dever quando podia atuar em 
conformidade com este. 27 Se o homem é dotado de certa liberdade para agir ao ponto de 
tornar-se o responsável por suas condutas, solucionada estará a questão da 
culpabilidade. Ao reverso, se o homem é, em suas ações e omissões, apenas o produto 
de fatores determinantes que o impelem a certo procedimento, entra em crise a 
pretensão de responsabilizá-lo por seus atos.
Em “As Viagens de Gulliver”, Swift imagina uma terra em que os cavalos (os 
Houyhnhnms) são seres racionais, enquanto os humanos (os Yahoos) agem por puro 
instinto. Não diferente do acima narrado é a postura dos Houyhnhnms perante os 
Yahoos, conforme se vê pelo seguinte trecho da ficção:
“Se bem que detestasse os Yahoos de sua terra, não os culpava por suas odiosas 
qualidades mais do culpava uma gnnayh (ave de rapina) por sua crueldade ou uma 
pedra afiada por cortar-lhe o casco”.28
Essa antiga discussão que outrora ganhou novo impulso com o Positivismo e 
suas teses deterministas, não teve fim e vem permeando toda a discussão acerca da 
legitimidade e eficácia dos instrumentos coercitivos penais.
Agora as afirmações de que talvez a genética possa apontar causas endógenas 
para a criminalidade surge como um reacender dessa antiga polêmica.
Nesse diapasão manifesta-se Casabona, aduzindo que “as hipóteses geneticistas 
sobre o comportamento humano constituiriam mais um degrau, particularmente 
importante, mas não novo, na discussão sobre o fundamento da imposição da pena no 
livre arbítrio ou não”.29
O geneticismo que ameaça dominar as pesquisas criminológicas apresenta traços 
nitidamente reducionistas e deterministas.
O criminólogo passa a assumir um caráter semelhante ao heterônimo de Pessoa, 
Ricardo Reis, marcado pela crença “no destino como uma lei indiscutível e imutável 
que dirige a vida dos homens”. 30 É isso que o leva a produzir versos como estes:
“Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
27 DIAS, Jorge de Figueiredo. Liberdade Culpa – Direito Penal. 3ª. ed. Coimbra: Coimbra Editora, 1995, 
p. 22. Note-se que o autor defende a tese do livre arbítrio como pressuposto da culpabilidade há bastante 
tempo em Portugal. Ver no mesmo sentido: IDEM, O Problema da Consciência da ilicitude em Direito 
Penal. Coimbra: Almedina, 1969, “passim”.
28 SWIFT, Jonathan. As viagens de Gulliver. Trad. Therezinha Monteiro Deutsch. São Paulo: Nova 
Cultural, 1996, p. 278.
29 CASABONA, Carlos Maria Romeo. Do gene ao Direito. São Paulo: IBCCrim, 1999, p. 109.
30 PESSOA, Fernando. Odes de Ricardo Reis. Porto Alegre: L & PM, 2006, p. 25.
Para onde eles querem
E nós não desejamos”. 31
“Contenta-te com quem seres quem não podes
Deixarde ser”. 32
Nesse contexto o homem é retratado como um títere passivo, movido por cordas 
invisíveis. Essas cordas já foram apontadas como manipuladas por Deus ou pelo 
demônio, passando para a crença Positivista nas causas endógenas mais variadas, e 
chegam na atualidade às mãos invisíveis ou microscópicas da genética.
Ora, se o crime é determinado pela presença de certos genes, o mal que ele 
representa deixa de ser “moral” para configurar um exemplo de “mal natural”. Um 
genocídio ou um terremoto passam a ser eventos da mesma espécie. Ao homem 
nenhuma responsabilidade pode ser imputada. Qualquer atitude ou solução a ser 
aventada deve ter um conteúdo terapêutico e jamais punitivo. Até sob um ponto de vista 
teológico as discussões ficariam polarizadas entre argumentos como os de Bayle, 
apontando Deus como “um gigantesco criminoso”, em contraposição a uma “teodicéia” 
de Leibniz, procurando formular uma defesa do Criador sob o argumento dos 
insondáveis mistérios dos desígnios divinos. 33
No início do século XIX, o Marquês de Laplace, conhecido físico e matemático 
francês, afirmava que a natureza e o homem eram guiados por um conjunto de leis 
físicas imutáveis, das quais não seria possível qualquer espécie de evasão. Essas leis 
guiariam os destinos das partículas mais ínfimas da matéria até a formação dos 
pensamentos humanos. Ele formulou a suposição de que uma vez configurado 
inicialmente o universo, “todos os eventos futuros, incluindo os que envolvem 
experiências humanas de passado, presente e futuro, foram especificados de maneira 
irreversível”. Tal suposição, como é bastante límpido, não deixa espaço para o conceito 
de livre arbítrio e configura “uma forma extrema de determinismo científico”. Não 
obstante, não foi preciso mais que um século para que o conceito determinista de 
Laplace fosse derrubado por descobertas científicas como as bases da física quântica e o 
Princípio da Incerteza do físico Werner Heisenberg. 34
É preciso questionar, como faz Casabona, se as investigações genéticas podem 
constituir no campo criminológico um verdadeiro “retorno às teorias biológicas sobre a 
criminalidade”. 35
Não parece restar dúvida alguma quanto a esse retorno, ou melhor dizendo, 
retrocesso, às teorias biológicas deterministas sobre a criminalidade, a partir do 
momento em que se cogita da descoberta de um ou vários genes responsáveis pelo agir 
criminoso ou pelos vícios comportamentais humanos. Quando se verifica esse claro 
retrocesso à superada visão do crime como uma entidade natural pré – jurídica, deve-se 
temer bastante um retrocesso biologista, reducionista e determinista, carregado de 
preconceitos e autoritarismos. Com bem destaca Nuñez, “el ser humano es plenamente 
humano cuando es capaz de ir mas allá de onde es ‘impulsado’ y llegar al ámbito en 
31 Op. Cit., p. 68.
32 Op. Cit., p. 93.
33 NEIMAN, Susan. O mal no pensamento moderno. Trad. Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Difel, 2003, 
p. 31.
34 COLLINS, Francis S. A linguagem de Deus. Trad. Giorgio Cappelli. São Paulo: Gente, 2007, p. 85 – 
86. “Esse princípio da incerteza, que leva o nome de Heisenberg, derrubou o determinismo laplaciano de 
um só golpe, já que demonstrou que qualquer configuração inicial do universo jamais poderia de fato ser 
determinada com a precisão que seria exigida pelo modelo previsto por Laplace”.
35 CASABONA, Carlos Maria Romeo. Op. Cit., p. 110 – 114.
que és ‘libre y responsable’, donde decide. El ser humano se deshumaniza cuando deja 
de ser responsable”. 36
É bem verdade que por um lado a biologização do crime retira do homem 
criminoso o pesado fardo da responsabilidade por seus atos e deslegitima sua punição, 
que passa a configurar uma retribuição tão injusta quanto um castigo imposto a um 
animal que agiu movido de acordo com suas naturais predisposições. Em contrapartida, 
não mais existe a esperança de emenda do homem criminoso, razão pela qual se não se 
pode mais legitimamente falar em sua punição, pode-se conceber um legítimo direito de 
defesa da sociedade contra ele. E desde que o infrator não é passível de reforma, seja 
por sua vontade manifestada espontaneamente, seja por incentivos externos, essas 
medidas de defesa social podem perfeitamente atingir extremos inimagináveis em outro 
contexto. 
Considerando o homem delinqüente como portador de uma anomalia que 
inevitavelmente o precipita à conduta desviada, somente três opções podem ser 
aventadas: sua cura, sua neutralização ou sua eliminação pura e simples.
Se a cura não era em regra uma hipótese palpável para Lombroso, os novos 
biologistas criminais, sustentados na genética, sonham com terapias profiláticas 
mediante manipulações tornadas possíveis com o avanço científico. Descoberta a 
presença de um “gene criminógeno”, quem sabe sua extração ou sua manipulação 
pudesse significar a produção de um novo homem devidamente adaptado às regras do 
convívio social? Além disso, a atuação poderia não somente ser repressiva e preventiva 
pós – delitual, mas realmente preventiva (pré – delitual), atuando sobre os potenciais 
criminosos para evitar que a qualquer momento de suas vidas venham a enveredar-se 
pela senda do crime, numa concepção algo parecida com a ficção cinematográfica de 
“Minority Report”.
Aparentemente a genética aplicada à Criminologia seria portadora de grandes 
esperanças de um mundo melhor, onde a vida seria marcada pela paz e harmonia.
Não obstante, os potenciais da genética nesse e em outros campos têm sido 
alargados de maneira fantasiosa, como será exposto no seguimento deste trabalho. 
Ademais, a manipulação genética alteradora da personalidade humana pode ser um 
instrumento extremamente arbitrário, incompatível com o respeito da dignidade humana 
e com as concepções do Estado Democrático de Direito.
A esperança de “recuperação”, “ressocialização”, “reforma”, “readaptação” ou 
“reeducação” do delinqüente permeia os sistemas normativos, mas merece 
questionamento quando se aventa a autoritária “intervenção estatal na esfera da 
consciência” do infrator. Ao Estado não é dado “oprimir a liberdade interna do 
condenado, impondo-lhe concepções de vida e estilos de comportamento”. É, pois, 
incompatível com o Estado Democrático a imposição ao condenado dos valores 
dominantes na sociedade. Esses valores somente podem ser propostos ao infrator, o qual 
reserva o direito de internamente recusa-los, negando-se a adaptar-se às regras de 
convívio coletivo. 37 
É por isso que o moderno pensamento criminológico e penitenciário optou desde 
muito tempo pelo afastamento da “pretensão de reduzir o cumprimento da pena a um 
processo de transformação científica do criminoso em não criminoso”. 38
Entretanto, conforme já exposto, ao criminoso determinado inevitavelmente por 
fatores endógenos não é somente o caminho terapêutico imaginável. Resta também, 
36 NUÑEZ, Juan Martín. Sabiduria China. Disponíbel em: www.farodelautopia.webcindario.com , acesso 
em 31.03.07, p. 1.
37 MIRABETE, Julio Fabbrini. Execução Penal. 3ª. ed. São Paulo: Atlas, 1990, p. 39.
38 Op. Cit., p. 40.
http://www.farodelautopia.webcindario.com/
abandonada a vã esperança em sua mudança, o caminho da neutralização por meio da 
prisão perpétua ou da eliminação pela pena de morte.
Sabe-se que tais opções são impraticáveis no ordenamento jurídico brasileiro por 
força de normas constitucionais impedientes (art. 5º., XLVIII, “a” e “b”, CF). Mas, a 
discussão neste trabalho supera o âmbito estritamente jurídico – normativo razão pela 
qual se impõe a análise de todas as hipóteses.
No seio de um regime orientado por preconceitos de qualquer natureza (v.g. 
raciais ou genéticos), seria natural o surgimento da idéia da eliminação dos 
inconvenientesou pelo menos sua neutralização.
Arendt, tratando da configuração dos regimes totalitários, bem destaca que o 
“crime”, enquanto ação ou omissão deliberada é passível de “castigo”; já o “vício”, 
como pecha indelével e determinante do agir “só pode ser exterminado”. 39
Citando Proust, a autora lembra que a consideração de uma “predestinação 
genética” como motivadora de condutas pode produzir, até certo ponto, uma relativa 
tolerância para com os transgressores. Entretanto, “num certo momento essa tolerância 
pode desaparecer, substituída por uma decisão de liquidar não apenas os verdadeiros 
criminosos mas todos os que estão ‘racialmente’40 predestinados a cometer certos 
crimes, o que pode ocorrer quando a máquina legal ou política, refletindo a sociedade, 
vier a ser transformada pelos critérios sociais em leis a pregarem essa necessidade de 
libertação social do perigo em potencial. Se for permitido estabelecer o código legal 
peculiar à aparente largueza de espírito que liberta o homem de responsabilidade pelo 
crime tornado igual ao vício, ele será mais cruel e desumano do que as leis normativas, 
mesmo que severas, pois estas respeitam e reconhecem a responsabilidade do homem 
por sua conduta”. 41
É preciso ter em mente que o Direito Penal, embora possa ser concebido como 
um ramo científico autônomo de caráter normativo, é altamente influenciado em sua 
conformação pelas concepções formuladas pela ciência criminológica. Pode-se afirmar 
que “a ciência penal, em data de hoje, é totalmente permeável às propostas da 
Criminologia”. 42
Como afirma Peláez:
“La criminología y el derecho penal son dos ciencias autónomas , pero ni 
opuestas, ni separadas, más bien asociadas. No se resuelve ningún problema penal sin 
tener en cuenta los resultados de la criminología, convertida en base indispensable de la 
teoria y la práctica del derecho penal moderno, así como del derecho penitenciario y del 
derecho procesal”. 43
Cabe agora a seguinte indagação: 
Qual espécie de Direito Penal seria aquele conformado de acordo com uma 
criminologia genética?
A resposta evidente a esta relevante questão é a de que seria um modelo de 
Direito Penal Autoritário, estruturado como um “Direito Penal do Autor” e não como 
um “Direito Penal do Fato”. As pessoas passariam a sofrer uma repressão criminal não 
por aquilo que viessem a fazer, mas por aquilo que internamente fossem. 
39 ARENDT, Hanna. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. 6ª. ed. São Paulo: Companhia das 
Letras, 1989, p. 109.
40 Acrescentaríamos ao texto também a palavra “geneticamente”.
41 Op. Cit., p. 103.
42 NASCIMENTO, José Flávio Braga. Curso de Criminologia. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003, p. 
229.
43 PELÁEZ, Michelangelo. Introducción al studio de la criminología. Buenos Aires: Depalma, 1966, p. 
190.
Ferrajoli expõe com absoluta propriedade esse modelo autoritário de Direito 
Penal:
“Substancialismo e subjetivismo, além disso, alcançam as formas mais perversas 
no esquema penal do chamado tipo de autor, onde a hipótese normativa de desvio é 
simultaneamente ‘sem ação’ e ‘sem fato ofensivo’. A lei, neste caso, não proíbe nem 
regula comportamentos, senão configura status subjetivos diretamente incrimináveis: 
não tem função reguladora, mas constitutiva dos pressupostos da pena; não é observável 
ou violável pela omissão ou comissão de fatos contrários a ela, senão constitutivamente 
observada e violada por condições pessoais, conformes ou contrárias. Está claro que ao 
faltar, antes inclusive da própria ação ou do fato, a proibição, todas as garantias penais 
e processuais resultam neutralizadas. Trata-se, com efeito, de uma técnica punitiva que, 
por isso, tem um caráter explicitamente discriminatório, além de antiliberal”. 44
Com referência a uma Criminologia Genética reducionista e determinista, pode-
se ir ainda mais longe com apoio no próprio Ferrajoli, chegando-se à possibilidade da 
construção de um “modelo punitivo irracional”. Isso tendo em conta a idéia de uma 
prevenção especial pré – delitual, mediante a atuação sobre a pessoa, manipulando seu 
código genético para evitar a potencial conduta criminosa, hipótese aventada por 
aqueles que fazem uma profissão de fé nos poderes milagrosos da ciência genética.
É o que o autor sob comento denomina de “Sistema de mera prevenção”, no qual 
a punição assume “a natureza de medida preventiva de desvio, em vez de retributiva, 
não – tenha-se em conta – a função de ‘prevenção geral’, exercida por sua ameaça legal 
preventiva como conseqüência do delito, mas uma função de ‘prevenção especial’, 
ligada à sua cominação preventiva, como um prius em vez de um posterius 
relativamente ao fato criminoso. É evidente o caráter não igualitário, ademais de 
puramente decisionista, deste esquema de intervenção punitiva. De conformidade com 
ele, o direito e o processo penal se transformam de sistema de retribuição, dirigido a 
prevenir fatos delituosos por meio da comprovação e da punição dos já ocorridos, em 
sistema de pura prevenção, dirigido a afrontar a mera suspeita de delitos cometidos, mas 
não provados, ou o mero perigo de delitos futuros”. Dessa forma o Direito Penal se 
desvincula de suas garantias como a legalidade e a jurisdicionariedade, passando a ser 
“informado por meros critérios de discricionariedade administrativa” e degenerando-se 
ou pervertendo-se em simples “procedimento policial de estigmatização moral, política 
e social”. 45
É preciso refletir sobre essas conseqüências deletérias, capazes de deitar por 
terra conquistas seculares, antes de ceder às pressões de teorizações pseudo – científicas 
tentadoras. Afinal, como adverte Carbonnier, “um manto de ilogicidade, de absurdo, por 
intermédio do direito, tem invadido a existência de cada ser humano. Nenhum cérebro 
resiste completamente a esta pressão da irracionalidade jurídica”. 46
3.3 – O TOTALITARISMO OCULTO NA CRIMINOLOGIA GENÉTICA
O retrocesso que pode ocorrer com uma adesão acrítica a uma Criminologia 
Genética com pretensões de controle sobre a conduta humana mediante intervenções pré 
ou pós – delitivas, aparte estribar-se em concepções superadas do crime e do criminoso 
44 FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão. Trad. Ana Paula Zomer, “et. al.” São Paulo: RT, 2002, p. 80 – 81.
45 Op. Cit., p. 81 – 82.
46 CARBONNIER, Jean. Flexible Droit. 7ª. ed. Paris: LGDJ, 1992, p. 359. No original: “Une nappe de 
déraison, d’absurdité, par l’intermédiaire du droit, a envahi l’existence de chaque homme. Aucun cerveau 
ne resiste complétement à cette pression de l’irrationnel juridique”.
como entes naturais marcados por desvios patológicos, também apresenta outra faceta 
ainda mais sombria e obscura. Trata-se de uma clara tendência para a conformação de 
uma estrutura totalitarista de poder.
O fenômeno do crime, ampliado muitas vezes de forma artificial pela mídia, 
com sua capacidade de comunicação nunca antes historicamente igualada ou sequer 
semelhante, mas também inegavelmente configurador de uma justa preocupação social, 
tendo em vista a potencialização da violência real nas sociedades modernas, 
caracterizadas pela heterogeneidade multiplicadora de desigualdades e conflitos, 
ocasiona uma constante demanda por soluções.
Em meio a esse clima de terror, freqüentemente não se ponderam devidamente 
os custos e benefícios de certas vias apontadas como soluções para o problema da 
criminalidade, em especial a violenta.
Adverte Nils Christie que o maior risco da criminalidade nas sociedades atuais 
não é o crime em si mesmo, mas o perigo de que o encarniçamento na sua repressão 
termine por desembocar no totalitarismo. 47
A Criminologia Genética nesse contexto emerge caracterizada pela 
cientificidade de seus argumentos e demonstrações, o que induz à sua aparente 
neutralidade.
É justamente essa característica de tal concepção acerca da questãocriminal que 
pode conduzir a um terrível cientificismo e, num passo seguinte, ao totalitarismo.
O cientificismo é uma “ideologia daqueles que, por deterem o monopólio do 
saber objetivo e racional, julgam-se os detentores do verdadeiro conhecimento da 
realidade e acreditam na possibilidade de uma racionalização completa do saber”. 48
Já foi destacado neste trabalho como essa crença no saber científico como único 
detentor da verdade, sob a forma do pensamento positivista, influenciou a Criminologia, 
erigindo a Antropologia Criminal de Lombroso e as variadas vertentes etiológicas da 
Criminologia Clínica.
É interessante notar como o cientificismo, embora critique arduamente a 
possibilidade de qualquer contribuição da religião para o saber humano, também não 
deixa de erguer-se sobre pilares intocáveis que podem bem ser definidos como 
verdadeiros “artigos de fé”:
“1)a ciência é o único saber verdadeiro; logo, o melhor dos sabedores; 2)a 
ciência é capaz de responder a todas as questões teóricas e de resolver todos os 
problemas práticos, desde que bem formulados, quer dizer, positiva e racionalmente; 
3)não somente é legítimo, mas sumamente desejável que seja confiado aos cientistas e 
aos técnicos o cuidado exclusivo de dirigirem todos os negócios humanos e sociais; 
como somente eles sabem o que é verdadeiro, somente eles podem dizer o que é bom e 
justo nos planos ético, político, econômico, educacional etc.”. 49
Como adverte Étienne Gilson, os dogmas do cientificismo podem ser tão 
arbitrários quanto os religiosos o seriam de acordo com o ponto de vista dos cientistas.50 
Assim sendo, se há realmente o perigo e exemplos históricos passados e 
contemporâneos de regimes totalitaristas influenciados por concepções religiosas, 
igualmente pode-se temer e constatar exemplos semelhantes orientados pela crença 
desmedida nos atributos do saber científico.
47 CHRISTIE, Nils. La industria del control del delito – La nueva forma del holocausto? Trad. Sara 
Costa. Buenos Aires: Del Puerto, 1993, p. 24.
48 JAPIASSU, Hilton, MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3ª. ed. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 1996, p. 44.
49 Op. Cit., p. 44.
50 Deus e a Filosofia. Trad. Ainda Macedo. Lisboa: Edições 70, 2002, “passim”.
Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky organizam uma coletânea de textos sobre 
a questão do fanatismo, chamando a atenção para o fato de que não se deve falar em 
“fanatismo” (no singular), mas em “fanatismos” (no plural). 51 Dessa forma, a obra 
aborda o problema sob várias faces de sua manifestação, dividindo os textos em blocos 
que têm por temática comum o problema proposto, mas sob suas diversificadas “faces” 
(religiosa, racista, política e esportiva). 52
A revelação divina atribuída a alguma entidade superior nos fanatismos 
religiosos pode perfeitamente ser substituída pela crença em um suposto saber científico 
que acaba sendo “divinizado”, ainda que jamais o admita. Nesse contexto, é a tão 
decantada racionalidade científica que, levada a extremos, abre caminho para o 
irracionalismo característico dos fanatismos que, invariavelmente, desembocam no 
totalitarismo. A irracionalidade é condição para o fanatismo e também para o 
totalitarismo a partir do momento em que a contestação não tem espaço. 53 Certas 
“verdades científicas” acabam desqualificando de tal forma seus opositores que ganham 
foros de intangibilidade. Se uma raça é perversa por natureza, que valor têm seus 
argumentos e que espécie de pessoas se dá ao trabalho de defendê-la? Se os portadores 
de certos genes são maus, criminosos, pode-se dar crédito ao que dizem ou àqueles que 
pretendem defender seus direitos?
A precaução contra essa espécie de “discurso científico” não configura um 
desejo de opressão à livre pesquisa e à própria liberdade de expressão na sociedade. Na 
verdade, quando um pensamento (científico ou não) tem a pretensão de naturalizar o 
mal moral, selecionando determinadas categorias de pessoas como suas portadoras, 
seja por que for (crentes de certa religião, pertencentes a uma raça, aderentes a um 
movimento político ou portadores de certos genes); claro está que tais grupos é que 
terão seu direito de livre expressão absolutamente desrespeitado, de acordo com aquilo 
que Fiss denomina de “efeito silenciador do discurso”. Nessas circunstâncias o direito à 
livre expressão é limitado por si mesmo, pois, a partir do momento em que seu exercício 
ilimitado implicaria no silenciar de contra – argumentos, nítida está a necessidade de 
impor-lhe limites. 54
Embora não esteja totalmente seguro de que alguma teoria racista não possa 
ainda cativar um número suficiente de incautos, ensejando algo semelhante com o 
holocausto 55, penso que devemos crer que a humanidade, pelo menos genericamente 
considerada, tenha aprendido alguma coisa com os erros do passado e não mais se deixe 
levar por ideologias tão grosseiras.
No entanto, é fato que, como diz Bauman, “nenhuma das condições que 
tornaram Auschwitz possível realmente desapareceu e nenhuma medida efetiva foi 
tomada para evitar que tais possibilidades e princípios gerem catástrofes semelhantes a 
Auschwitz”. 56 Talvez o próprio racismo possa ser o ingrediente para o aviltamento da 
dignidade humana no século XXI, mas se ele não convencer como antes, quem sabe 
uma versão mais sofisticada possa fazer o seu trabalho?
O nazismo se baseava em “verdades reveladas” pela “ciência”. Essas “verdades” 
convenceram as pessoas um dia a acreditarem que “o mais imbecil doa ‘arianos puros’ 
pudesse ser superior a Einstein, como pregava a cartilha hitlerista”. Isso não resultava 
51 Faces do Fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004, p. 9.
52 Op. Cit., p. 15 – 282.
53 Op. Cit., p. 10.
54 FISS, Owen M. A ironia da liberdade de expressão. Trad. Gustavo Binenbojm e Caio Mário da Silva 
Pereira Neto. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, p. 33 – 60.
55 Basta ver o que tem ocorrido na atualidade na África e Europa devido a conflitos étnicos e raciais.
56 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Trad. Marcos Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
1998, p. 30.
de uma “apreensão racional da realidade, mas de uma verdade revelada pela propaganda 
nazista”. Tratava-se de um “dogma de fé” legitimado por argumentos 
pseudocientíficos.57
Ainda antes disso, no século XVIII, Petrus Camper ordenou regularmente uma 
sucessão de crânios que ia dos macacos, passando pelos orangotangos até chegar aos 
negros e daí, seguindo num suposto processo evolutivo, até chegar à outra extremidade 
onde se achavam os asiáticos centrais e os europeus. Tratava-se também de uma 
explicação pseudocientífica não só para a classificação das raças, mas também para 
justificar “as disparidades de poder, ordenando-os em termos de superioridade e 
inferioridade”. 58
Hoje a genética, dependendo dos rumos que venha a tomar, tem o potencial de 
engendrar uma versão mais sofisticada e sutil do racismo, com alto potencial genocida e 
violador da dignidade humana.
Na extensa obra de Hanna Arendt podem-se coletar diversos pontos de contato 
entre as características de um totalitarismo racista e segregador operado no passado, 
com o potencial modelo calcado no determinismo genético da atualidade.
Uma primeira e importante aproximação encontra-se no fato de que o poder 
genético projetado sobre o homem é muito mais profundo e opressivo do que qualquer 
outro exemplo de controle político antes existente e executável. 
É uma característica inerente aos regimes totalitários não se contentar com a 
simples “irradiação do poder”, controlando os destinos exteriores das pessoas, mas 
pretender imiscuir-se nas suas vidas espirituais interiores, donde o biopoder torna-se o 
sonho de qualquer burocracia totalitária com sua gana de controle absoluto,podendo 
interferir “com igual brutalidade com o indivíduo e com a sua vida interior”. 59
Não é sem razão que as utopias da biotecnologia têm evocado a memória do 
nazismo e de outros regimes totalitários, conforme expõe o jornalista e historiador José 
Arbex Júnior em entrevista concedida a Cláudio Tognolli: 
“Toda utopia tem uma forte vocação totalitária (a perfeição de um não – lugar 
que projeta os desejos e a ideologia de quem a produz). No caso da biotecnologia como 
uma ‘nova utopia’, ela me produz uma sensação de desumanização do homem por um 
jogo, que tem como um dos componentes a total biologização do corpo (entendido 
como máquina produtiva) e como outro componente a erradicação do desejo, no sentido 
lacaniano, que só pode existir como resposta ao precário e ao frágil provisório que 
constitui a humanidade do homem; o desejo da máquina biotecnológica é substituído 
por metas, por ‘vontade de potência’. Isso me cheira a nazismo”. 60
Também Leão Serva, em entrevista similar manifesta-se no mesmo sentido, 
afirmando ver a biotecnologia “como a manifestação contemporânea do modelo de 
medicina perseguido pelos nazistas”. 61
Entretanto, o poder de sedução desta e de outras utopias tendencialmente 
totalitárias é muito grande e tem como sustentação dois pilares: o formato “científico” 
de apresentação das idéias e a propaganda que difunde a ideologia.
A ciência funciona como um manto de segurança e neutralidade a legitimar o 
poder absoluto pretendido. Nas palavras de Arendt:
57 PINSKY, Jaime, PINSKY, Carla Bassanezi (orgs.). Op. Cit., p. 10.
58 FERNÁNDEZ – ARMESTO, Felipe. Então você pensa que é humano? Trad. Rosaura Eichemberg. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 81.
59 ARENDT, Hanna. Origens do Totalitarismo. 6ª. ed. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das 
Letras, 1989, p. 277.
60 TOGNOLLI, Cláudio. A falácia da genética. São Paulo: Escrituras, 2003, p. 233.
61 Op. Cit., p. 238.
“Tanto no caso da publicidade comercial quanto no da propaganda totalitária, a 
ciência é apenas um substituto do poder. A obsessão dos movimentos totalitários pelas 
demonstrações ‘científicas’ desaparece assim que eles assumem o poder”. 62
As informações veiculadas pela imprensa, dando conta dos supostos potenciais 
da genética para a solução de todos os problemas humanos, colaboram para o reforço da 
crença em uma utopia que se projeta para o futuro.
Além do fato de que tais informações nem mesmo retratam a realidade do 
estágio das pesquisas e o verdadeiro potencial das técnicas, também ensejam um clima 
de aposta cega numa “salvação” que a ciência (agora a genética) teria o condão de 
propiciar à humanidade, de forma a tornar desinteressantes considerações de ordem 
ética sobre os procedimentos e conseqüências.
Bauman alerta para o fato de que a ciência costuma ser posta à parte das 
considerações morais, mediante a preponderância do foco nos fins, sendo os meios 
relegados a segundo plano, pelo menos quanto ao aspecto ético:
“(...), mais do que qualquer outra autoridade, a ciência é autorizada pela opinião 
pública a praticar o princípio, de outra forma eticamente odioso, de que os fins 
justificam os meios. A ciência é o mais completo exemplo da dissociação entre meios e 
fins, que é o ideal da organização racional da conduta humana: os fins é que são 
submetidos a avaliação moral, não os meios”. 63
Essa propaganda calcada no potencial de um conhecimento científico tem sido 
freqüentemente utilizada justamente para protelar as discussões, gerando argumentos 
incontestáveis no presente, já que seus efeitos promissores são sempre projetados para 
o futuro, de modo a justificarem a atuação presente sem maiores considerações éticas 
sobre os meios, tendo em vista os fins que se vislumbram à frente.
Eis a lição de Arendt:
“A propaganda totalitária aperfeiçoou o cientificismo ideológico e a técnica de 
afirmações proféticas a um ponto antes ignorado de eficiência metódica e absurdo de 
conteúdo porque, do ponto de vista demagógico, a melhor maneira de evitar discussão é 
tornar o argumento independente de verificação no presente e afirmar que só o futuro 
lhe revelará os méritos. Contudo, não foram as ideologias totalitárias que inventaram 
esse método e não foram elas as únicas a empregá-lo. O cientificismo da propaganda de 
massa tem sido empregado de modo tão universal na política moderna que chegou a ser 
identificado como sintoma mais geral da obsessão com a ciência que caracterizou o 
Ocidente desde o florescimento da matemática e da física no século XVI. Assim, o 
totalitarismo parece ser apenas o último estágio de um processo durante o qual ‘a 
ciência tornou-se um ídolo que, num passe de mágica, cura os males da existência e 
transforma a natureza do homem’”. 64
Percebe-se, portanto, quão comum é que o totalitarismo se aproprie e aproveite 
do cientificismo em sua propaganda como meio de convencimento e ocultação de 
propósitos, inclusive sem grande preocupação com a real consistência das teorias 
“científicas” preconizadas.
Na atualidade vivenciamos o que Tognolli chama de uma “febre biocrática” 65 a 
ensejar um poder de caracteres absolutamente inéditos na história da humanidade. À 
“biocracia” corresponde a implantação de um “biopoder”, o qual apresenta um espectro 
62 ARENDT, Hanna. Op. Cit., p. 394.
63 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 187.
64 ARENDT, Hanna. Op. Cit., p. 395.
65 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 94.
de irradiação muito mais amplo, com potencial de atuar diretamente sobre os destinos 
de toda uma população, inclusive de gerações futuras. 66
Esse biopoder, exercitado visando uma sociedade livre do crime e da violência, 
seria dotado dos instrumentos necessários para atuar sobre os genes a fim de adequar o 
comportamento da população às regras sociais consideradas convenientes.
Uma grave questão está em saber a quem seria dado o privilégio de decidir quais 
seriam os padrões desejados por tal sociedade.
Talvez a suposta neutralidade científica indique que esse poder não deva 
concentrar-se nas mãos de uma pessoa determinada, mas ser exercido de acordo com o 
conhecimento técnico – científico devidamente burocratizado. Nesse contexto o 
exercício do poder não apresenta um centro de irradiação, tornando-se impessoal, 
alicerçado em critérios técnicos praticamente incontestáveis.
Essa diluição do poder, longe de enfraquecê-lo em sua atuação sobre o 
indivíduo, torna-o absoluto. A conversão dos governos em “burocracias” faz com que 
não pertençam mais ao império da lei ou dos homens, emanando agora de “escritórios 
ou computadores anônimos, cuja dominação inteiramente despersonalizada pode vir a 
se tornar uma ameaça maior à liberdade e àquele mínimo de civilidade sem o qual 
nenhuma vida comunitária é concebível, do que jamais foi a mais abusiva arbitrariedade 
dos tiranos do passado”. 67
Um dos traços que diferenciam as ditaduras dos governos totalitários está na 
burocratização do poder tornado impessoal e, por isso, ainda mais arbitrário, distante e 
atroz. A burocracia enquanto “mando de ninguém”, torna-se “a forma menos humana e 
mais cruel de governo”. 68
Essa característica de um “governo de ninguém”, que não significa “ausência de 
governo”, como uma das mais “tirânicas e cruéis” versões do exercício do poder é 
insistentemente destacada nas obras de Arendt. 69
A impessoalidade do exercício do poder sustenta-se também na crença em uma 
“ficção comunística”, ou seja, na suposição da existência de um interesse comum da 
sociedade, o qual poderia ser assegurado pela força de uma “mão invisível” que teria o 
condão de guiar o comportamento humano e produzir a harmonização de eventuais 
conflitos de interesses. 70
Ora, o que mais convincente e adequado a esse tipo de pensamento do que uma 
modalidade de poder exercitável sobre a humanidade, partindo de seu interior,de 
códigos genéticos sutilmente manipulados para guiar de forma irresistível o 
comportamento e harmonizar a convivência social?
É impossível não fazer a ligação de todo esse contexto com a obra de ficção, 
hoje nem tanto futurista, de Huxley, “Admirável Mundo Novo”, na qual um governo 
totalitário instrumentaliza homens e mulheres “padronizados em grupos uniformes”, 
objetivando a consecução da “estabilidade social”. 71
66 FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Trad. Maria Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000, 
p. 296.
67 ARENDT, Hanna. Responsabilidade e Julgamento. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia 
das Letras, 2004, p. 66. 
68 Op. Cit., p. 94 – 95.
69 IDEM. A Condição Humana. 10ª. ed. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 
2004, p. 50. 
70 Op. Cit., p. 53 – 54.
71 HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. 2ª. ed. Trad. Lino Vallandro e Vidal Serrano. São Paulo: 
Globo, 2003, p. 14.
3.4 – A DESCONSTRUÇÃO DA AUTENTICIDADE COMO VIOLAÇÃO DA 
DIGNIDADE HUMANA
Quando se trata da possibilidade de manipulação genética, especialmente 
levantando-se a hipótese de alteração do genoma humano, mediante a exclusão de 
características consideradas negativas a critério de quem quer que seja, impossível não 
vislumbrar uma flagrante violação da autenticidade do homem em sua natural 
diversidade. 
Certamente uma das piores violências a serem perpetradas contra a humanidade 
seria a exclusão arbitrária da riqueza da diversidade, característica esta, aliás, muito 
claramente constatável por meio da própria genética, a qual demonstra a singularidade 
de cada ser humano.
Talvez as gerações que não tenham conhecido o que seria viver em um mundo 
onde as diferenças se chocavam sim, mas também surpreendiam, se completavam e 
libertavam, não tenham noção daquilo que perderam. Entretanto, não é justo que nós, 
cientes do que significa essa perda, condenemos nossos pósteros a um mundo de 
homogeneidade monótona e arbitrária.
O que nos restaria em um mundo de seres humanos pré – moldados ao sabor de 
uma burocracia qualquer, detentora do poder decisório do que seja bom ou mau em 
relação à capacidade de conduta e à personalidade?
Possivelmente o mesmo sentimento, ainda mais aprofundado, retratado por 
Saramago ao ver os pés de oliveira dos campos de sua terra natal expulsos pelo milho 
híbrido por força de interesses comerciais. Deixemos falar o artista:
“Por cada pé de oliveira arrancado, a Comunidade Européia pagou um prêmio 
aos proprietários das terras, na sua maioria grandes latifundiários, e hoje, em lugar dos 
misteriosos e vagamente inquietantes olivais do meu tempo de criança e adolescente, 
em lugar dos troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de tocas 
onde se acoitavam os lagartos, em lugar dos dosséis de ramos carregados de azeitonas 
negras e de pássaros, o que se nos apresenta aos olhos é um enorme, um monótono, um 
interminável campo de milho híbrido, todo com a mesma altura, talvez com o mesmo 
número de folhas nas canoilas, e amanhã talvez com a mesma disposição e o mesmo 
número de maçarocas, e cada maçaroca talvez com o mesmo número de bagos”. 72 
Jonas fala em sua obra das utopias do “homem autêntico vindouro”, dentre as 
quais menciona o “super – homem” do futuro de Nietzsche, e a superioridade dos 
homens criados numa sociedade sem classes, defendida pelos mentores das teorias 
socialistas. O primeiro não disse jamais uma palavra sobre o que se poderia 
concretamente fazer para o advento de seu “super – homem”. Os segundos alicerçavam 
suas crenças nos poderes miraculosos de uma nova sociedade erigida sobre um modelo 
econômico revolucionário. 73 Mas, ambas as teorizações têm em comum um projeto de 
homogeneização do humano, extirpando as diferenças, as variações, seja sob o ponto de 
vista social ou mesmo da própria personalidade.
Quem sabe na atualidade a manipulação genética pudesse tornar tais projetos 
bem mais palpáveis?
A questão, porém, é saber se é possível falar em um homem autêntico construído 
na homogeneidade. Parece que esse quadro, longe de esboçar a autenticidade humana, a 
72 SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 12. 
73 JONAS, Hans. El principio de responsabilidad. Trad. Javier Maria Fernández Retenaga. Barcelona: 
Herder, 1995, p. 258 – 263.
destrói, ao pretender eliminar a diferença, o inesperado e até o ambíguo que é inerente à 
humanidade.
Nas palavras de Jonas:
“Tendremos también que resignarmos a esto, a que no existe una naturaleza 
unívoca del hombre, a que, por ejemplo, el hombre no es por naturaleza ( en si) ni 
bueno ni malo; el hombre tiene la capacidad de ser bueno o ser malo, más aún, de ser lo 
uno con lo outro; y esto forma parte de su esencia. Cierto es que de los grandes 
malvados se dice que son inhumanos, pero solo los hombres pueden ser inhumanos; y 
los grandes malvados ponen de manifesto la naturaleza de el hombre no menos que los 
grandes santos. Habrá de rechazarse también, por tanto, la idea de una riqueza de la 
naturaleza humana existente, pero dormida, que solo aguarda a ser abierta (des – 
encadenada) para luego, en virtud de aquella naturaleza mostrarse. Solamente existe la 
dotación biológico – anímica de esta naturaleza para la riqueza y pobreza del poder – 
ser; riqueza y pobreza son igualmente naturales, si bien se da un predomínio de la 
última, pues la pobreza em humanidad puede ser tanto impuesta por unas circunstancias 
adversas como elegida – incluso em las circunstancias más favorables – por la pereza y 
la sobornabilidad (impulsos verdaderamente naturales), mientras que la riqueza del yo, 
además del favor de las circunstancias, exige esfuerzo (y a el de la lucha contra la 
pereza)”.74
A extinção dessa potência do “poder – ser” humano convertida em um ser pré – 
fabricado é altamente limitadora. Se por um lado, como já visto, a crença em um 
determinismo biológico ou genético exime o homem de responsabilidade, também lhe 
nega concomitantemente a liberdade. Assim também, a construção de um homem 
geneticamente direcionado para o “bem” (ainda que sem entrar em pormenores sobre a 
legitimidade desse conceito formulado por alguém ou alguns), praticamente extermina a 
noção do mérito da ação moral, juntamente com a liberdade e a identidade de cada ser 
humano.
É bem verdade que a grandeza da liberdade não é isenta de riscos, inclusive 
altamente negativos. Mas, é preferível viver em um mundo onde a escolha é possível do 
que em outro onde tudo é pré – determinado. É de Viktor Frankl a afirmação de que é 
melhor um mundo no qual seja possível, por um lado, um fenômeno como o de Adolf 
Hitler e, por outro, o de tantos santos que já viveram. 75 Necessário se faz recordar que a 
singularidade é uma nota característica de toda existência humana. 76
Há um terrível perigo que corre todo aquele que tem a pretensão de aprimorar 
algo, qual seja, o risco de que suas mudanças acabem por desnaturar o original, 
transformando-o em algo que nada mais tem em comum com aquilo que inicialmente 
era.
Um breve conto de Brecht muito bem ilustra esse dilema:
O personagem Sr. Keuner narra, no episódio intitulado “Forma e Conteúdo”, que 
certa vez trabalhou com um jardineiro. Este lhe entregou uma tesoura e mandou aparar 
um loureiro, orientando-o a fazer o corte de modo que a árvore ficasse com a forma de 
uma bola. O Sr. Keuner deu início imediato ao trabalho, cortando os brotos selvagens, 
mas sentindo sérias dificuldades para atingir o formato de uma bola. Finalmente a 
árvore tomou em suas folhagens o aspecto de uma bola, mas estava muito pequena. Por 
74 Op. Cit., p. 350 – 351.
75 Apud, PASCUAL, Fernando. Viktor Frankl: antropologia y logoterapia. Disponível em: 
www.latautonomy.org , acesso em 31.03.07, p. 44. É bom lembrar que Frankl sofreuna pele as agruras 
do nazismo.
76 Op. Cit., p. 46.
http://www.latautonomy.org/
isso, quando o jardineiro veio inspecionar seu trabalho, disse decepcionado: “Certo, isto 
é uma bola, mas onde está o loureiro?”. 77
O desejo de aprimoramento do homem por meios genéticos revela um anelo de 
fuga da “condição humana” que nos é dada para ingressar em um novo estágio no qual 
o próprio homem pretende moldar sua condição. Move a humanidade um desejo 
incontido de afastamento da natureza, seja pela criação de ambientes artificiais, seja, 
agora, pela possibilidade da criação de um “homem artificial”. É esse desiderato que se 
manifesta quando se pretende criar a vida em uma proveta ou unir sob um microscópio 
o sêmen de pessoas altamente capazes com o fim de produzir “seres humanos 
superiores”, mudar-lhes as dimensões, as formas, as capacidades etc. Também 
certamente o mesmo desejo de escapar da “condição humana” anime a “esperança de 
prolongar a duração da vida humana para além dos cem anos”. Realmente o homem do 
futuro, projetado pelos cientistas para menos de um século, “parece motivado por uma 
rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um dom gratuito vindo do 
nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido 
por ele mesmo. Não há razão para duvidar de que sejamos capazes de realizar essa 
troca, tal como não há motivo para duvidar de nossa capacidade de destruir toda a vida 
orgânica da Terra. A questão é apenas se desejamos usar nessa direção nosso novo 
conhecimento científico e técnico – e esta questão não pode ser resolvida por meios 
científicos: é uma questão política de primeira grandeza, e portanto não deve ser 
decidida por cientistas profissionais nem por políticos profissionais”. 78
O que Arendt propõe é que os potenciais e riscos advindos com os novos 
conhecimentos científicos não sejam simplesmente “engolidos” por todos em silêncio 
respeitoso à figura do “cientista sábio”. A autora convida todos a agirem, concebendo a 
ação como a efetiva participação política nas importantes decisões a serem tomadas. A 
responsabilidade e o dever de reflexão sobre os rumos a serem seguidos não são 
pertencentes a um grupo privilegiado, mas a toda humanidade. 79
E neste ponto podemos retomar com Arendt a questão da singularidade humana 
como essencial para a preservação da autenticidade do homem.
Lembrando Santo Agostinho (De Civitate Dei, XII, 21), recupera a pluralidade 
como um dos fatores preponderantes na diferença entre o homem e o animal. Isso 
porque o primeiro foi criado “unum ac singulum”, enquanto os animais foram 
ordenados a existirem “vários de uma só vez” (“plura simul iussit existere”). Para Santo 
Agostinho, a criação demonstra que os animais vivem como “espécie”, ao passo que os 
homens têm uma existência singular. Resta claro que “a pluralidade é a condição da 
ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém 
seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido ou venha a existir”. 80
Note-se que a ação do homem, isto é, sua participação ativa na sociedade, seus 
atos próprios, suas manifestações pessoais, só é viável, tendo em conta sua 
singularidade; o inesperado que carrega em si cada ser humano. Sem isso, o homem 
pode ser o mesmo que o cão eterno vivendo na espécie, com seus latidos e o rabo a 
77 BRECHT, Bertolt. Histórias do Sr. Keuner. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2006, 
p. 33.
78 ARENDT, Hanna. A condição humana. 10ª. ed. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense 
Universitária, 2004, p. 10 – 11.
79 Op. Cit., p. 13. Deve-se dar especial ênfase à importância que Hanna Arendt dá à participação ativa do 
homem na sociedade (“Vita Activa”). Para a autora o que caracteriza o homem em sua condição humana 
é a ação, entendida como participação política, manifestação de sua personalidade e identidade no seio da 
sociedade. O labor e o trabalho também integram o ser do homem, sua condição, mas somente a ação é 
que o caracteriza realmente como humano.
80 Op. Cit., p. 16.
abanar do início ao fim dos séculos, como vislumbra Schopenhauer. 81 Acontece que no 
homem está ínsita a novidade e “o novo sempre surge sob o disfarce do milagre. O fato 
de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que 
ele é capaz de realizar o infinitamente improvável. E isto, por sua vez, só é possível 
porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo 
singularmente novo”. 82 Pretender evitar essa originalidade é o mesmo que destruir um 
milagre.
A singularidade necessariamente se imbrica com a liberdade, pois somente 
sendo livre poderá o homem ser o que desejar ser e não aquilo a que seja obrigado a ser 
por forças naturais ou por outros homens. Não é sem razão que Max Frisch define a 
identidade como “a rejeição daquilo que os outros desejam que você seja”. 83
A tentativa de levar adiante a metáfora da identidade humana como um quebra – 
cabeças a ser montado com peças pré – determinadas é vã e inadequada. Esse quebra – 
cabeças somente seria aceitável se fosse assumido como sempre incompleto e 
imprevisível, deixado nas mãos de cada homem singular para criar sua identidade livre 
da opressão ou limites externos. 84
O homem jamais pode ser concebido como uma espécie de massa de moldar. 
Somente a crueldade profunda e a megalomania ou uma inocência pueril podem levar a 
crer ser possível direcionar vidas humanas como brinquedos de crianças. Arendt chama 
a atenção para o fato de que a expressão “material humano” não deve ser percebida 
simplesmente como uma metáfora inofensiva. Ao seu lado seguem “inúmeras 
experiências científicas modernas no campo da engenharia social, da bioquímica, da 
cirurgia cerebral etc., todas visando a manipular e modificar o material humano como se 
se tratasse de qualquer outro material”. Essa é uma postura “mecanicista” característica 
da modernidade. Na antiguidade, visando os mesmos objetivos, o homem era concebido 
“como um animal selvagem que devia ser domado e domesticado”. O que importa é que 
em qualquer caso, esse tratamento implica na “morte do homem”, talvez não como 
“organismo vivo, mas enquanto homem”. 85
Ratzinger também alerta para o perigo inerente à tentação do homem “criar o 
homem”. Nada mais que uma recente “forma de poder, que aparentemente pode até 
parecer benéfica e digna de aprovação, mas que na realidade poderia tornar-se uma nova 
ameaça para o homem”. É sabido ser possível produzir homens em tubos de ensaio, mas 
com isso o humano “torna-se um produto”, alterando drasticamente seu relacionamento 
consigo mesmo. Perde a característica de um “dom da natureza ou do Deus criador” 
para tornar-se “produto de si mesmo”, numa descida até as profundezas “da fonte de 
poder, até as nascentes de sua própria existência”. Daí conclui-se que “a tentação de 
construir o homem perfeito, a tentação de fazer experiências com o homem, a tentação 
de considerar como lixo os homens e livrar-se deles já não são mais fantasias de 
moralistas hostis ao progresso”. 86
É imperativo rechaçar qualquer visão reducionista do humano capaz de 
instrumentalizá-lo, violando sua dignidade e produzindo sua reificação. Viktor Frankl 
advoga a urgência de superar qualquer espécie de reducionismo. E há reducionismo na 
81 SCHOPENHAUER, Arthur. Da morte, Metafísica do Amor, Do sofrimento do mundo. Trad. Pietro 
Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001, p. 46. 
82 ARENDT, Hanna. Op. Cit., p. 191.
83 Apud, BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
2005, p. 45. 
84 Op. Cit., p. 54 – 55.
85 ARENDT, Hanna. Op. Cit., p. 201.
86 RATZINGER, Joseph, Apud, TESSORE, Dag. Bento XVI questões de fé, ética e pensamento na obra 
de Joseph Ratzinger. Trad. Roberto Cattani. São Paulo:Claridade, 2005, p. 107 – 108.
visão biologista, no condutivismo, no psicologismo, no sociologismo e até no 
antropologismo. Todas essas visões reducionistas levam ao niilismo e constroem uma 
falsa imagem do homem, pois o concebem como um “homúnculo”, um artefato. Dessa 
forma não se pode compreender o homem, mas sim estabelecer-lhe uma imagem 
distorcida e mutilada, extremamente pobre, a que se pode denominar de 
“homunculismo”, na qual o ser humano é visto como um autômato de reflexos e 
instintos, como um mero produto de impulsos, herança e meio ambiente. 87
Para trabalhar com o que é humano é preciso acostumar-se com o imprevisível e 
não pretender eliminá-lo das equações; é preciso tolerar e, mais que isso, valorizar a 
diversidade do gênero humano. Caso contrário, o que ocorre é uma tendência ao 
“genocídio”, entendido como “um ataque à diversidade humana enquanto tal, isto é, a 
uma característica do ‘status humano’ sem a qual a simples palavra ‘humanidade’ perde 
o sentido”. 88 Não é porque a forma de eliminação da diversidade é praticada com maior 
sutileza, através de manipulações microscópicas, e não por meio de massacres de 
milhares de pessoas em câmaras de gás, a golpes de facão ou por fuzilamento, que o ato 
genocida é menos gravoso ou inexiste. Ao reverso, quanto mais sutil, mais 
imperceptível e insidiosa a ação, maior o seu potencial destrutivo. 
A tal ponto pode chegar a atuação da ciência por meio da genética, alterando 
arbitrariamente o genoma humano, que caracteres podem simplesmente deixar de existir 
de forma irrecuperável, atingindo irreversivelmente futuras gerações.
Este é um dos novos desafios da ética contemporânea, o qual produz uma 
“densificação da noção de responsabilidade”. A responsabilidade requerida nos dias 
atuais se apresenta muito mais complexa e geradora de maior comprometimento. Na 
ética tradicional a responsabilidade do ator se adstringe ao que é previsível, àquilo que é 
controlável no espaço do cognoscível, do imediato ou, no máximo, do próximo. Mas, 
esse paradigma se alterou muito drástica e rapidamente, de modo que hoje “somos 
também responsáveis por tudo aquilo que, muito embora não seja imediatamente 
previsível é já expectável”. Não é à toa que se firma atualmente uma chamada 
“Fernethik”, ou seja, uma ética de responsabilidade que “carrega em si o elemento novo 
da distância longínqua”. Dessa maneira, vivemos o futuro no presente, um futuro que se 
mostra “não como simples e encantatória evanescência, mas como uma realidade densa 
que condiciona toda e qualquer decisão de hoje”. Opera-se, em verdade, uma “contração 
temporal” a que não estavam familiarizadas as construções éticas tradicionais. 89
Retomando a especificidade do objeto deste trabalho, deve-se considerar que a 
diversidade humana não se manifesta somente nas diferenças entre os homens, mas 
também na impermanência do homem em relação a si mesmo; no fato de que todo ser 
humano jamais pode ser tomado como acabado, pronto ou definitivo. O homem é 
sempre um projeto, um contínuo porvir, como bem retratam as palavras do poeta:
“Quem és não o serás, que o tempo e a sorte”.
Te mudarão em outro”. 90
Portanto, é absurda a pretensão de prever ou prognosticar quem será o homem 
que hoje se apresenta à nossa frente, seja com base em que espécie de conhecimento for 
inclusive no genético. Não há como cortar fatores e simplificar arbitrariamente a 
complexa e caótica equação humana. Certamente aqui se pode falar com segurança de 
87 Apud, PASCUAL, Fernando. Viktor Frankl: antropologia y logoterapia. Disponível em 
www.latautonomy.org , acesso em 31.03.07, p. 38.
88 ARENDT, Hanna. Eichmann em Jerusalém. 6ª.ed. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia 
das Letras, 1999, p. 291.
89 COSTA, José de Faria. Linhas de Direito Penal e de Filosofia. Coimbra: Coimbra Editora, 2005, p. 200 
– 201.
90 PESSOA, Fernando. Op. Cit., p. 141.
http://www.latautonomy.org/
uma “complexidade irredutível”. Quando essa simplificação é levada a efeito, reduz-se 
o homem a um ou alguns de seus aspectos isolados, mutilando-o e convertendo-o no 
“homúnculo” caricato de que falar Viktor Frankl. 
No ano de 1959, Roberto Rosselini produziu um filme chamado “O General 
Della Rovere”. Segundo consta, a história é baseada em fatos reais. Conta o filme haver 
um homem mal caráter, um baixo vigarista, capaz de tirar dinheiro do luto alheio, da 
dor e da aflição das pessoas, sem pesar-lhe um momento sequer a consciência. Frente às 
suas vítimas, procura iludi-las a elas e a si mesmo, argumentando haver agido movido 
pela piedade. Ora, desde que um tal sentimento possa render dinheiro, tudo bem. Seu 
nome é Brandone e segue obtendo dinheiro em troca de vãs promessas de ajuda “a 
presos políticos, resistentes, guerrilheiros, em poder dos alemães”. É um homem 
sedutor, de fala macia “por natureza e necessidade do ofício”, um enganador medíocre 
que seguiria nessa toada até o fim de seus dias ou até um golpe de monta que o fizesse 
enriquecer e poder, finalmente, ingressar no grupo das pessoas que vivem 
honestamente. No entanto, está este homem destinado a outra conquista: “a da 
dignidade”.
Quando suas artimanhas são descobertas a Gestapo lhe oferece a chance de 
salvar-se e ainda locupletar-se com uma gorda recompensa em dinheiro. Ele aceita. Sua 
missão é ocupar na prisão o lugar do General Della Rovere (o qual morreu no 
desembarque clandestino na Itália, quando deveria encontrar-se com Fabrizio, um líder 
da resistência). Brandone deveria agir para denunciar o líder Fabrizio, o qual também 
estava preso, mas cuja identidade era ignorada pela Gestapo. No seguimento natural das 
coisas Brandone iria fechar sua carreira de imoralidades como “o grande denunciante”, 
“o grande traidor”. Ele que nunca passara de um estelionatário medíocre, poderia 
terminar na riqueza e, quem sabe, ainda usufruindo alguma “honra”, como um 
comendador ou coisa semelhante ao final da guerra.
Acontece que “as oportunidades e as situações é que fazem e desfazem os 
homens”. Disfarçado como o general, recolhido a uma cela “cujas paredes conservam 
ainda as palavras de despedida dos resistentes fuzilados, forçado pelos acontecimentos a 
mostrar-se firme e valente – acorda nele pouco a pouco um outro homem”. É 
confrontado com a tortura, a coragem real e um respeito que nunca merecera e nem 
recebera de ninguém. Tudo isso o converte profundamente no General Della Rovere, 
“tomando atitudes e dizendo palavras que do general se esperavam”. Ao final, quando 
tudo se perde e ele é submetido a torturas, mas ainda lhe acena a oportunidade de salvar 
a própria vida delatando Fabrizio, ele opta livremente por caminhar com os outros 
detentos para o poste da execução. “São dele as palavras corajosas que honram a pátria 
e reclamam a derrota dos inimigos. Aos olhos de todos é o General Della Rovere que 
morre”. No entanto, os espectadores sabem que “quem vai morrer é um pobre homem, 
fraco, burlão, jogador sem sorte, chamado Brandone, que aprendeu a ser corajoso, 
honrado e digno. Esta morte é uma vitória”.
Novamente é José Saramago quem nos brinda com sua sensibilidade ao captar e 
descrever a mensagem de um filme que chega à profundidade da alma humana mutável 
e surpreendente, acrescentando ainda que “talvez a fraqueza de cada um de nós não seja 
irremediável. A vida está aí à nossa espera, quem sabe se para tirar a prova real do que 
valemos. Saberemos alguma vez quem somos?”. 91
A eventual intervenção ou influência exercida sobre o homem, visando seu 
aprimoramento moral não pode basear-se na alteração arbitrária de sua personalidade, 
acomodando-a a padrões alheios. Isso seria uma forma de padronizar os seres humanos, 
instrumentalizando-os e tratando-oscomo coisas e não como pessoas. Também seria 
91 A Bagagem do Viajante. 6ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 133 – 135.
desconsiderar sua diversidade e impermanência, sua liberdade de expressão e 
pensamento, que merecem respeito sempre, somente comportando limitações quando 
por condutas exteriores venham a prejudicar os direitos correlatos dos outros.
O homem vive em relação contínua com as coisas e com os outros homens no 
mundo. Esses “entes” são tudo aquilo que “existe concretamente”, “designando tudo o 
que nos encontra, nos cerca, nos conduz, nos constrange, nos enfeitiça e nos preenche, 
nos exalta e nos decepciona”. 92 No entanto, a relação do homem para com os “entes – 
envolventes”, ou seja, “a presença simples e objetivada” das coisas e da natureza não é 
a mesma que mantém com o “ser – aí” (“Dasein”) dos outros (homens). “Estes entes 
não são jamais meros objetos ou entes – envolventes; ao contrário, são como é o 
verdadeiro ser – aí que os desvela, ‘são aí também’ e ‘aí com’”. 93
O “eu” do homem em relação aos “outros” não deve ser compreendido 
isoladamente. Esses “outros” não são todas as demais pessoas com exceção de mim 
mesmo. Na verdade, “esses ‘outros’ são aqueles de quem, na maioria das vezes, alguém 
não pode se distinguir – aqueles no meio dos quais alguém também está”. Dessa forma, 
não se trata de mera presença objetivada junto com os outros. Trata-se de um “ser – lá – 
também – com eles dentro do mundo”, de tal maneira que “o mundo é sempre algo que 
eu partilho com os outros”. 94
Observe-se que a nossa maneira de atuar perante os “entes – envolventes” pode 
ser definida como o “cuidar”. Não obstante, o “cuidar” não serve para descrever a 
relação entre o “Dasein” e o “ser – aí – com”, ou seja, entre as pessoas. Os outros “com 
os quais o ser – aí como ser – com se comporta não têm o mesmo modo de ser que 
pertence à ‘totalidade dos entes – envolventes’”, pois eles próprios são ser – aí e não 
mera presença objetivada. Assim, a eles não está reservado o “cuidar”, mas sim a 
“solicitude”. Os entes com que o “ser – aí é com, não são objetos de cuidado, mas de 
solicitude”. 95 
Entretanto, a própria solicitude pode desvirtuar-se no extremo do “tomar conta 
do outro”, aproximando-se de um modo de “cuidar”, como se faz com as coisas. 
Assume-se o encargo do outro que é o de cuidar de si mesmo. Isso produz uma retirada 
do outro de seu lugar próprio, podendo torná-lo alguém dominado e dependente. Nesse 
contexto ocorre um “saltar sobre o outro” que, na realidade, é próprio de nossa relação 
de cuidado para com os entes – envolventes (coisas). Resta claro que essa atuação sobre 
o outro o reifica e instrumentaliza. Portanto, a relação não deve ser esta, não se deve 
“saltar sobre o outro”, “mas antecipar-se a ele em sua existencial possibilidade – para – 
ser” de forma a salvá-lo para “torná-lo transparente a si mesmo em seu cuidar e para 
torná-lo livre para si”. 96
A relação entre os homens não deve ser orientada pelo salto sobre o outro que o 
domina, mas sim pelo salto “diante do outro, que o liberta”. 97
Percebe-se que a genética tem o potencial de invalidar o existencialismo, que 
descreve a vida humana como “um projeto de realização pessoal, de ‘transformação’” 
(grifo nosso), de maneira que quem somos vai mudando de acordo com o desenrolar do 
referido projeto. 98 Segundo Sartre, “o homem é apenas uma situação” ou “nada mais do 
que aquilo que ele faz de si mesmo (...) o ser que se lança para o futuro e que tem 
92 HEIDEGGER, Martin, Apud, JAPIASSÚ, Hilton, MARCONDES, Danilo. Op. Cit., p. 82.
93 HEIDEGGER, Martin. Todos nós...ninguém. Trad. Dulce Maria Critelli. São Paulo: Moraes, 1981, p. 
34
94 Op. Cit., p. 34 – 35.
95 Op. Cit., p. 40.
96 Op. Cit., p. 41.
97 Op. Cit., p. 42.
98 FERNANDEZ – ARMESTO, Felipe. Op. Cit., p. 151.
consciência de se imaginar como ser no futuro”. Para ele “a modelagem de si mesmo” é 
um ato afirmativo da humanidade que não se sujeita a qualquer espécie de 
determinismo, “o homem é livre, o homem é liberdade”. 99
É claro que essa liberdade não é isenta de perigos e responsabilidades. Em anexo 
à obra de seleção de textos de Heidegger antes examinada, tratando do tema da 
educação, Dulce Critelli bem destaca que o “saltar sobre o outro” o alivia e alija “da 
responsabilidade de seu próprio ser” na medida em que lhe tolhe a liberdade. De outra 
banda, o “libertador”, que “salta diante do outro” e lhe entrega “à sua própria 
transparência e responsabilidade”, permite-lhe tomar as rédeas do próprio destino, com 
todos os prazeres e dores daí advindos. Parece muito claro que o “outro”, enquanto ser 
humano dotado de dignidade, somente poderia ser tratado com essa autonomia. No 
entanto, é fato que uma das mais duras dificuldades que encontramos em nossa relação 
com os outros “é a de sermos capazes de confiar ao outro o seu destino, de confiar no 
destino que ele descobre, de confiarmos na possibilidade do outro responsabilizar-se por 
ele mesmo, pela possibilidade desse destino escapar à nossa determinação”. 100
Este é um dos fortes motivos que tornam tão tentadora a eventual possibilidade 
da programação genética de seres humanos, em especial no âmbito criminológico. 
Nossa tendência a pretender dominar os outros nos impele ao objetivo e à crença da 
determinação e controle absoluto das personalidades e condutas alheias.
Quando a ciência e a técnica nos acenam com a possibilidade prática desse 
projeto, o agir parece correr adiante do pensar, deixando no caminho, desprezados, 
aspectos sumamente relevantes para a preservação (ou conquista paulatina) da 
dignidade da pessoa humana.
Infelizmente, a dinâmica veloz da sociedade contemporânea vem ocasionando 
com freqüência essa perversão da ordem entre o pensar e o agir, na qual o segundo se 
antecipa ao primeiro que resta simplesmente abandonado. Afinal, “a uma civilização 
que se consuma e se consome ao nível exclusivo do ‘fazer’, o compreender torna-se 
obsoleto e sem sentido”. 101
É preciso perceber o quanto essa perversão pode ser deletéria e recuperar o 
pensar como pressuposto do agir, especialmente quando se trata de questões que 
envolvem o “status dignitatis” do humano. Aí se destaca a missão da bioética e da 
filosofia como veículos do pensar. O pensamento ético – filosófico não remete somente 
ao pragmatismo de um agir, mas também o abrange e supera. Conforme afirma Critelli, 
“o fazer e o pensar, enquanto possibilidades existenciais e eqüiprimordiais do homem, 
imbricam-se mutuamente. Muito embora fazer e pensar não sejam excludentes um do 
outro, a recuperação da ação de pensar implica que, num primeiro momento, possamos 
nos entregar à ação de pensar o pensamento, independendo do vasculhar a que tipo de 
fazer ele nos possa conduzir. Precisamos pensar o pensamento e permitir que o fazer 
pragmático não catalise nossas atenções. Precisamos permitir que um novo fazer emerja 
de um novo horizonte. O pensar abre o fazer, mas só se confiarmos no vigor do próprio 
pensamento. Se a única coisa que podemos querer é a prontidade das respostas, das 
fórmulas, das regras, nesse querer o pensar não pode se presentificar como sendo 
fundamental. A difícil tarefa dos que querem ir mais além de um fazer pragmático sem 
se sentirem sufocados pela ‘incerteza imediata’ de um ‘o que’ fazer e pela segurança do 
já convencionado, é poder deixar o fazer no ‘vazio’, abandonar sua prioridade e, 
concomitantemente, poder abandonar-se à verdade de um fim ainda não dado”. 102 
99 SARTRE, Jean – Paul, Apud, Op. Cit., p. 151 – 152.
100 CRITELLI, Dulce Mara. Para recuperar a educação. In: HEIDEGGER, Martin. Op. Cit., p. 70 – 71.
101 Op. Cit., p. 60.
102 Op. Cit., p. 60 – 61.
Em suma, é preciso compreender que a ciência e a técnica podem nos dizer 
claramente tudo aquilo que “podemos” fazer,mas nada podem esclarecer quanto àquilo 
que “devemos ou não devemos” fazer.
3.5 - CRIMINOLOGIA GENÉTICA: UMA PERIGOSA MISTURA DE FANTASIAS, 
INTOLERÂNCIA E EXCLUSÃO
É comum deparar com a divulgação de “estudos científicos” que afirmam poder 
detectar “genes da esquizofrenia, genes sensíveis aos poluentes industriais e a condições 
insalubres de trabalho, genes da criminalidade, genes da violência, genes do divórcio e 
genes dos marginais”. Para Daniel Kleves, citado por Cláudio Tognolli, “o racismo dos 
nazistas agora se converte em clínicas genéticas”. 103
O grande problema relacionado a essas ilusões reducionistas é que elas podem 
fomentar toda uma mentalidade destrutiva, a qual, depois de posta em movimento, 
torna-se muito difícil de conter.
Questões como alcoolismo, desagregação familiar, violência e criminalidade são 
extremamente complexas e esse reconhecimento (da complexidade) não é alentador. Ele 
nos joga muitas vezes em meio à indeterminação, a um universo de perguntas sem 
respostas ou com respostas sujeitas a inúmeras variáveis. A sensação é desagradável e 
então se tende a buscar alguma solução simplista ou simplificada, ainda que isso 
implique na mutilação da verdade com todas as suas terríveis conseqüências. 104
A pretensão de descobrir algo que guia o agir humano, obliterando a 
intencionalidade, não é novidade. O inconsciente em Freud, a “vontade de 
representação” como um “querer cego e irracional” em Schopenhauer, são exemplos 
desse intento levado a efeito anteriormente. De acordo com essas concepções somente 
conhecemos o agir humano como uma “casca” de algo oculto que o determina e que não 
está no domínio do “querer” livre do homem. As teorias genéticas, sem inovar muito no 
cerne do pensamento, apenas apresentam algo mais concreto como explicação. Ao invés 
da “vontade” ou do “inconsciente” como fatores extremamente imateriais e intangíveis, 
a ciência agora apresenta, sob as lentes microscópicas, a materialização daquilo que 
determina e conduz o homem, ou seja, os genes. 105
Sem negar o fato de que a genética pode oferecer respostas e benefícios, é 
necessário perceber que ela, como qualquer outro ramo do saber, somente pode deter 
parte da verdade.
Invariavelmente, quando a verdade é atribuída exclusivamente a algum ramo do 
saber, da atividade humana ou do pensamento, advém a intolerância, a arrogância e a 
exclusão.
Os exemplos, inclusive ligados ao tema discutido, não são difíceis de encontrar. 
Sabe-se que em 1907, no Estado de Indiana, nos EUA, promulgou-se a “primeira lei de 
esterilização compulsória”, que visava impedir a procriação de “criminosos, idiotas, 
estupradores e imbecis”. O Estado passava então, de forma arbitrária, a decidir quem 
podia ou não ter filhos, e pior, quem podia ou não nascer. Por esta razão a legislação 
chegou a ser contestada na Justiça. Mas, em 1927, a Suprema Corte confirmou lei 
similar do Estado de Virgínia, dando ênfase ao pragmatismo do procedimento seletivo – 
103 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 84.
104 BURTT, Edwin. As bases metafísicas da ciência moderna. Trad. José Viegas Filho e Orlando Araújo 
Henriques. Brasília: UNB, 1984, p. 195.
105 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 85 – 86.
preventivo. Foram as seguintes as palavras do relator da decisão, Oliver Wendell 
Holmes: 
“Será melhor para o mundo inteiro que, em vez de esperar para executar uma 
prole degenerada pelos crimes que cometeu ou deixá-la morrer à míngua por sua 
imbecilidade, a sociedade possa impedir os manifestamente inaptos de perpetuarem a 
própria espécie (...). Três gerações de imbecis é o suficiente”. 106
É impossível deixar de fazer o elo entre a realidade do fato histórico acima 
exposto e a obra de ficção satírica de Swift, que toca a ferida da exclusão e da 
indiferença:
“Algumas pessoas de espírito desalentado estão bastante preocupadas com o 
grande número de pobres, idosos, doentes e mutilados e tenho sido solicitado a 
empregar meu pensamento para encontrar alguma possível solução que alivie a nação de 
tão pesado fardo. Mas essa questão não me preocupa nem um pouco, pois é bem sabido 
que eles estão a cada dia morrendo e apodrecendo, de frio e de fome, e de sujeira e de 
vermes, tão rapidamente como se possa razoavelmente esperar. E, quanto aos 
trabalhadores mais jovens, eles estão agora em situação quase tão promissora: não 
conseguem trabalho e, conseqüentemente, estão desfalecendo por falta de alimento, a tal 
ponto que, se fossem, por acaso, contratados para algum serviço ordinário, não teriam 
forças para executá-lo, estando assim o país e eles próprios, felizmente, livres dos males 
que estão por vir”. 107
É dessa lógica exclusiva cruel que devemos nos precaver, e é ela que ameaça 
conduzir os rumos de uma Criminologia Genética desatenta (intencionalmente ou não) 
para com a complexidade do ser humano. 
Collins bem destaca essa premente necessidade frente aos potenciais da genética, 
asseverando que, “embora contenha uma promessa estimulante no aprimoramento de 
intervenções em doenças psiquiátricas, a pesquisa genética sobre comportamentos 
humanos, de algum modo, é perturbadora, pois parece trilhar perto demais como uma 
ameaça ao nosso livre arbítrio, a nossa individualidade e talvez mesmo a nossa 
espiritualidade”. 108
Mister se faz “confrontar a promessa e a ameaça da genética”. 109 É bem verdade 
que as potencialidades vislumbradas com o seu advento produziram um “efeito 
inebriante”, levando os mais entusiasmados a aventar a hipótese de que os genes 
poderiam fornecer explicações seguras para vários ou mesmo a totalidade do 
comportamento humano e que este poderia ser controlado mediante intervenções e 
manipulações precisas do código genético. 110
A tentação de aperfeiçoar a natureza é inerente ao espírito humano e não é 
apanágio da ciência. Na arte já se pretendeu superar o mero retrato do mundo, de modo 
que “todo artista era um idealista” que pretendia superar a natureza. Na ciência e na 
técnica os esforços para o aperfeiçoamento da natureza, especialmente tendo em vista os 
fins humanos, têm pelo menos “dez mil anos de história atrás de si”. Esse esforço tem 
suas origens nas técnicas de acasalamento de animais de diferentes espécies, visando 
obter espécimes mais dóceis no trato, de carne melhor e mais saborosa etc. Também a 
106 WATSON, James D., BERRY, Andrew. DNA o segredo da vida. Trad. Carlos Afonso Malferrari. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 40 – 41.
107 SWIFT, Jonathan. Modesta proposta e outros textos satíricos. Trad. José Oscar de Almeida Marques e 
Dorothée de Bruchard. São Paulo: UNESP, 2005, p. 29. 
108 COLLINS, Francis S. Op. Cit., p. 262.
109 FERNÁNDEZ – ARMESTO, Felipe. Op. Cit., p. 134. 
110 Op. Cit., p. 135.
botânica pode ser apontada como uma das atividades pioneiras desse intento humano, 
logrando produzir vegetais comestíveis, ornamentais etc. 111
Nenhum susto pode provocar que essa perspectiva se espraiasse e chegasse à 
intenção de aperfeiçoar os próprios seres humanos. Esse objetivo é antigo, podendo ser 
constatado já no pensamento de Platão, e possivelmente tais idéias não eram originais 
dele, mas resultado de observações comuns em sua época. Encontramos nele o ideal da 
busca de uma sociedade perfeita constituída de homens perfeitos, os quais deveriam ser 
incentivados a reproduzir, enquanto os imperfeitos deveriam ser exterminados. Nota-se 
que muito antes dos conhecimentos genéticos sofisticados estarem disponíveis a idéia 
da hereditariedade determinista já produzia seus frutos. 112
Vejamos o que o filósofo fala pela boca de Sócrates em “A República”:
“De acordo com os nossos princípios, é necessário tornar as relações muito 
freqüentes entre os homens e as mulheres de elite, e, ao contrário, bastante raras entre os 
indivíduosinferiores de um e outro sexo; além do mais, é necessário educar os filhos 
dos primeiros, e não os dos segundos, se quisermos que o rebanho atinja a mais elevada 
perfeição; e todas estas medidas deverão manter-se secretas, salvo para os magistrados, 
a fim de que, tanto quanto possível, a discórdia não se insinue entre os guerreiros”. 113
O ideal de Platão estava na harmonia que impregnava suas concepções desde a 
cosmologia até a política. Ele pretendeu desconsiderar as irregularidades dos 
movimentos dos corpos celestes, idealizando sua movimentação em círculos regulares. 
Intentou comprovar sua tese com um misto de matemática e teologia que poderia 
comprovar o caráter divino dos corpos celestes pela inalterável regularidade de seus 
movimentos circulares e perfeitos. Com isso pretendia banir as alterações e 
irregularidades dos céus. De forma análoga, idealizará em sua República uma utopia 
“totalitária, puritana e inquisitorial” da qual serão banidos todos os desviados, 
irregulares ou dissonantes. 114
Uma nova roupagem para as mesmas idéias surge no século XIX na Europa e na 
América do Norte sob o signo do racismo. Francis Galton, primo de Darwin, em 1885, 
faz a proposta indecente da “eugenia”, segundo a qual “a espécie humana poderia ser 
aperfeiçoada pela eliminação de qualidades mentais e morais indesejáveis”, o que 
poderia ser levado a efeito por meio de “uma fertilidade seletivamente controlada”. 115 É 
de Galton a seguinte manifestação entusiasmada, datada de 1865:
“Se a vigésima parte dos custos e esforços que são despendidos para o 
aperfeiçoamento da reprodução de cavalos e gado fosse gasta em medidas para o 
aperfeiçoamento da raça humana, que galáxia de gênios não poderíamos criar!” 116
Essa ideologia dominou o pensamento de uma época, reforçada pelo racismo. A 
Rússia Soviética, em seus primórdios, e certas regiões dos EUA adotavam a proibição 
do casamento para pessoas “oficialmente classificadas como débeis mentais, criminosos 
e até (em alguns casos) alcoólatras”. No ano de 1926, em algumas regiões dos EUA 
(quase metade) adotou-se a “esterilização compulsória” dessas categorias de pessoas. 117 
Nem é preciso dizer que a eugenia foi recepcionada com o mais vivo entusiasmo na 
Alemanha Nazista, onde atingiu o seu ápice de desumanidade. Ali não só o controle da 
111 Op. Cit., p. 140.
112 Op. Cit., p. 141.
113 PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 162. 
114 PRADE, Péricles. Revoluções Culturais. São Paulo: Escrituras, 2004, p. 16 – 17.
115 FERNÁNDEZ – ARMESTO, Felipe. Op. Cit., p. 141.
116 Apud, Op. Cit., p. 141. Parece que Galton “apenas” esqueceu que homens não são gado e que a 
humanidade não é um rebanho.
117 Para maior aprofundamento sobre a eugenia norte – americana, ver: BLACK, Edwin. A guerra contra 
os fracos. Trad. Tuca Magalhães. São Paulo: A Girafa, 2003, “passim”. 
procriação foi adotado, mas também, e principalmente, o extermínio de todos aqueles 
considerados geneticamente inferiores (judeus, ciganos e até os homossexuais). Por 
outro lado, buscava-se o aprimoramento da “raça ariana pura”, através da reprodução 
seletiva entre pessoas supostamente portadoras de caracteres considerados excelentes. 
118
A crueldade do regime nazista acabou emprestando à eugenia um estigma 
extremamente repulsivo. No entanto, deparamos hoje com o seu retorno sob vestes bem 
mais sutis. A engenharia genética pode tomar rumos muito similares aos das ideologias 
eugênicas do passado. 
Deparamos nos dias de hoje com manuais de Direito Penal publicados 
anualmente e alegadamente “atualizados”, nos quais podemos encontrar verdadeiros 
resquícios de uma eugenia preconceituosa e cruel. Mirabete, ao comentar os 
fundamentos do chamado “aborto sentimental, humanitário ou ético” 119, afirma que, 
além do respeito à dignidade humana da mulher, justificaria essa espécie de aborto a 
prevenção quanto à transmissão de certos traços criminosos pela hereditariedade. 
Textualmente: 
“Além disso, freqüentemente o autor do estupro é uma pessoa degenerada, 
anormal, podendo ocorrer problemas ligados à hereditariedade”. 120
Assim como já se falou em “raça pura” ou do “super – homem”, tem-se 
detectado aquilo que Francis Fukuyama denominou de “um futuro pós – humano”. 121 E 
se falamos em algo “pós – humano”, falamos em algo “não – humano”, relegando o 
“humano” ao passado, como uma peça de museu ou um conceito obsoleto. Por isso o 
autor em comento alega que “a biotecnologia vai fazer que de algum modo percamos a 
nossa humanidade (...). Ainda pior, poderíamos fazer essa mudança sem reconhecer que 
havíamos perdido algo de grande valor. Poderíamos assim aparecer do outro lado de 
uma grande divisória entre a história humana e pós – humana, sem sequer perceber que 
o divisor de águas fora rompido”. 122
Portanto, é de extrema relevância tomar consciência dos problemas éticos e 
políticos relativos à manipulação genética e, principalmente, às concepções genéticas 
reducionistas. Também é imprescindível firmar um núcleo duro de direitos e garantias 
referentes à contínua proteção e preservação da dignidade humana. Pressuposto disso é, 
certamente, a conceituação segura daquilo em que consiste a humanidade do homem, 
sob pena de realmente nem nos darmos conta de a havermos perdido. 123
Efetivamente, o insidioso desgaste do conceito de “humano” e de “humanidade” 
tem propiciado um correlato risco de seu desvanecimento, permitindo sua perda nas 
veredas do relativismo, com nefastas conseqüências no presente e, especialmente, para o 
futuro.
Fernández – Armesto bem destaca a paradoxal situação do atual estágio da 
humanidade, que tanto esforço despendeu e despende para preservar o humano, mas vai, 
aos poucos, perdendo a noção daquilo por que tem lutado ao longo de tanto tempo:
“Aqui está um paradoxo. Durante os últimos trinta ou quarenta anos, temos 
investido muitos pensamentos, emoções, riqueza e sangue no que chamamos de valores 
118 FERNÁNDEZ – ARMESTO, Felipe. Op. Cit., p. 142.
119 Trata-se, como sabido, do aborto legal previsto na legislação brasileira quando a gravidez é resultante 
de estupro (art. 128, II, CP).
120 MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. Volume II. 25ª. ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 
69.
121 Nosso futuro pós – humano. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 2003, 
“passim”. 
122 Apud, FERNANDEZ – ARMESTO, Felipe. Op. Cit., p. 143.
123 Op. Cit., p. 143.
humanos, direitos humanos, a defesa da dignidade humana e da vida humana. Ao longo 
do mesmo período, silenciosa mas devastadoramente, a ciência e a filosofia se 
combinaram para solapar o nosso conceito tradicional de humanidade. 
Conseqüentemente, a coerência do nosso entendimento do que significa ser humano 
está agora em discussão. E se o termo ‘humano’ é incoerente, o que acontecerá com os 
valores humanos? A humanidade está em perigo: não pela ameaça familiar da 
destruição em massa e da devastação ecológica, mas por uma ameaça conceitual”. 124
Debatendo-nos em densas trevas e trilhando caminhos tortuosos, podemos ao 
menos entrever um norte a indicar o traço comum que revela um início ou pressuposto 
para a construção de uma atuação ética perante a humanidade. Esse traço é o fato de que 
somos todos “humanos”, independentemente das variadas diversidades. Somos 
desiguais sim, mas temos sempre de nos lembrar do laço comum a unir-nos. É a nossa 
“humanidade” que, em primeiro plano, consiste em que somos todos (brancos, negros, 
católicos, judeus, pobres, ricos, deficientes, criminosos ou santos) “humanos”, que 
configura o primeiro fundamento para que as pessoas não possam ser categorizadas, 
selecionadas e excluídas. O atributo da humanidade, inerente a todo homem ou mulher, 
independentede sua condição, não permite gradações. Em suma, jamais uns podem ser 
mais humanos que outros.
Pode parecer que esse pressuposto seja algo por demais óbvio, mas é preciso 
atentar que por boa parte da história da humanidade e ainda hoje, as pessoas sentem 
certa dificuldade para admitir esse traço comum de humanidade em todos os seres 
humanos indistintamente. 125 E mesmo quando em dada sociedade isso é admitido, em 
teoria, sem muita contestação, a aplicação prática do conceito não se perfaz sem grandes 
obstáculos. 126
A verdade é que existe sempre uma tendência a selecionar certas categorias, por 
meio de critérios diversos (v.g. origem, religião, posição social e, quem sabe, código 
genético), as quais acabam integrando a categoria dos humanos ou “mais humanos”, 
enquanto outras parcelas são simplesmente excluídas, tratadas como “outsiders”, 
marginais, pertencentes a alguma outra classe que acaba reduzida a “status” semelhantes 
aos de coisas ou animais, sofrendo ainda um verdadeiro processo de demonização. 127
A partir da identificação de certas pessoas como pertencentes a determinadas 
categorias, opera-se uma poderosa “estratificação” a atribuir diferentes tratamentos a 
camadas consideráveis da população. No cerne desse mecanismo diferenciador 
encontra-se o fato de que alguns podem livremente escolher sua própria identidade 
individual e social, enquanto outros são simplesmente compelidos a assumir uma certa 
identidade imposta de fora para dentro. Normalmente essas espécies de identidades 
impostas são daquelas que “estereotipam, humilham, desumanizam, estigmatizam...” 128 
Mas, ainda não é o fato mais grave essa falta de direito de escolha, essa imposição. Há 
ainda quem possa ser impelido para um degrau ainda mais baixo. Tratando-se de 
pessoas que, uma vez estigmatizadas, perdem total e definitivamente o direito de 
“reivindicar” uma nova identidade. “Pessoas cuja súplica não será aceita e cujos 
protestos não serão ouvidos, ainda que pleiteiem a anulação do veredicto”. Estas estão 
destinadas a formar aquilo que Bauman denomina de “subclasses”, ou seja, o conjunto 
de todas aquelas pessoas “exiladas nas profundezas além dos limites da sociedade – 
124 Op. Cit., p. 9.
125 Op. Cit., p. 14.
126 Por que outra razão seria necessário que nossa Constituição Federal mande, por exemplo, reprimir com 
rigor a prática do racismo e a lei ordinária regule essa repressão?
127 Op. Cit., p. 14.
128 BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, 
p. 44. 
fora daquele conjunto no interior do qual as identidades (e assim também o direito a um 
lugar legítimo na totalidade) podem ser reivindicadas e, uma vez reivindicadas, 
supostamente respeitadas”. 129
A partir do momento em que alguém é destinado à composição de uma subclasse 
(devido à baixa escolaridade, à pobreza, vício de drogas, falta de moradia, mendicância 
ou outras categorias inadequadas, agora, talvez, aqueles portadores de um código 
genético indesejável), ocorre uma negação apriorística de qualquer identidade aceitável, 
em suma, fecham-se as portas. “O significado da ‘identidade da subclasse’ é a ausência 
de identidade, a abolição ou negação da individualidade, do ‘rosto’ – esse objeto do 
dever ético e da preocupação moral”. Opera-se uma exclusão “do espaço social em que 
as identidades são buscadas, escolhidas, construídas, avaliadas, confirmadas ou 
refutadas”. 130
Giorgio Agamben, citado por Bauman, chama a atenção para que a subclasse é 
um “grupo heterogêneo de pessoas” que sofreram a redução de seu “bios” (vida como 
“sujeito socialmente reconhecido”) a mero “zoë" (vida somente animal, “com todas as 
ramificações reconhecidamente humanas podadas ou anuladas”). 131
Note-se que quase nada pode ser mais conveniente para exacerbar um quadro 
como este ora apresentado do que uma ciência genética seletiva e determinista, 
inclusive e muito especialmente, no que tange às suas irradiações para o campo 
criminológico. 
Esse conjunto de fatores que alimentam a exclusão e a estratificação social, 
conflui para a tendência do processo neoliberal de globalização econômica, com sua 
interminável “produção de lixo humano” ou, melhor dizendo, de “pessoas rejeitadas”, 
que se tornam desnecessárias e até disfuncionais para o bom andamento do “ciclo 
econômico”. O Capitalismo Contemporâneo troca o modelo de “exploração” pelo da 
“exclusão”, e esse modelo é bem mais cruel do que o anterior, constituindo atualmente a 
“base dos casos mais evidentes de polarização social, de aprofundamento da 
desigualdade e de aumento do volume de pobreza, miséria e humilhação”. 132
Não há dúvida de que o modelo econômico tem enorme influência na 
conformação do paradigma de Direito Penal e, principalmente, na construção do 
discurso referente à finalidade da pena. Em um contexto no qual a mão de obra humana 
é um valor na dinâmica do processo econômico, é fácil reconhecer a pertinência do 
discurso “ressocializador”. A coisa muda de figura quando essa mesma mão de obra 
passa a ser muito abundante frente à mecanização proporcionada pela tecnologia, a 
substituir com vantagens a força de trabalho humana. Nessas circunstâncias um 
indivíduo desgarrado não é mais considerado uma peça relevante na sociedade. Seu 
descarte passa a ser uma solução e até um objetivo a ser perseguido em prol da 
funcionalidade do sistema. Este é certamente um efeito daquela substituição das 
relações exploradores/explorados pelas relações incluídos/excluídos. Agora, já não há 
valor algum, nem mesmo comercial ou econômico, atribuído pelos ocupantes do topo 
da escala social aos que estão em sua base. Se a relação vertical anteriormente se 
processava como uma opressão que visava o domínio das massas exploradas, hoje tal 
domínio não é tão atraente e a relação vertical tende a ser transmudada para uma 
pressão no sentido de “esmagar” e descartar os excluídos, já que eles não interessam ao 
129 Op. Cit., p. 45.
130 Op. Cit., p. 46.
131 Op. Cit., p. 46.
132 Op. Cit., p. 47.
sistema e até constituem entraves que precisam ser expurgados por vias diretas e 
indiretas. 133
Tudo isso é um caldeirão onde pode muito bem ser preparado o prato amargo de 
um novo holocausto, com bem adverte Arendt:
“Nenhum castigo jamais possuiu poder suficiente para impedir a perpetração de 
crimes. Ao contrário, a despeito do castigo, uma vez que um crime específico apareceu 
pela primeira vez, sua reaparição é mais provável do que poderia ter sido a sua 
emergência inicial. As razões particulares que falam pela possibilidade de repetição dos 
crimes cometidos pelos nazistas são ainda mais plausíveis. A assustadora coincidência 
da explosão populacional moderna com a descoberta de aparelhos técnicos que, graças à 
automação, tornarão ‘supérfluos’ vastos setores da população até mesmo em termos de 
trabalho, e que, graças à energia nuclear, possibilitam lidar com essa dupla ameaça com 
o uso de instrumentos ao lado dos quais as instalações de gás de Hitler pareciam 
brinquedos de uma criança maldosa – tudo isso deve bastar para nos fazer tremer”. 134 E 
mais adiante, na mesma obra, a autora acrescenta:
“É bem concebível que na economia automatizada de um futuro não muito 
distante os homens possam tentar exterminar todos aqueles cujo quociente de 
inteligência esteja abaixo de determinado nível”. 135
Para que isso ocorra, ao contrário do que comumente se imagina, não seria 
necessário o surgimento de um novo Hitler ou algo parecido. Basta que cada um de nós 
permita esvaecer o conceito de humanidade, “pois é perfeitamente concebível e mesmo 
dentro das possibilidades políticas práticas, que, um belo dia, uma humanidade 
altamenteorganizada e mecanizada chegue, de maneira democrática – isto é, por 
decisão da maioria - à conclusão de que, para a humanidade como um todo, convém 
liquidar certas partes de si mesma”. 136
Também Zaffaroni faz essa constatação, dissertando especificamente sobre os 
efeitos da globalização econômica na América Latina:
“El fenômeno tiene a crear en los paises latinoamericanos una massa excluída 
que no responde a la dialética explotador/explotado, sino a una no relation entre 
excluído/incluído. El explotado contaba, era tenido en cuenta y estaba dentro del 
sistema, como explotado pero dentro, el excluído no cuenta, está de más, es un 
descartable que no sirve, solo molesta. La lógica de este esquema, si no se le 
interrumpe, es el genocídio”. 137
Neste contexto o Direito Penal pode surgir como um instrumento direto de 
seleção e destruição dos excluídos, servindo a contento aos desígnios inconfessáveis do 
novo modelo. É notável que o discurso da recuperação vai cedendo espaço para as 
soluções extremas, como a pena de morte e a redução da menoridade penal. 138 Bem 
pode encaixar-se aqui a concepção de uma Criminologia Genética seletiva e 
determinista, tendente a eliminar arbitrariamente caracteres presentes na constituição 
genética das pessoas, seja em sua geração ou posteriormente mediante intervenções 
forçadas a desconfigurarem suas personalidades. Isso sem falar no reforço que teses 
133 CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Direito Penal e Globalização. Boletim IBCCrim. n. 84, nov., 1999, 
p. 4.
134 ARENDT, Hanna. Eichmann em Jersualém. 6ª. Ed. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1999, p. 296.
135 Op. Cit., p. 312. E que instrumento seletivo não seria a genética (mal direcionada) para tal desiderato.
136 IDEM. Origens do Totalitarismo. 6ª. ed. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 
1989, p. 332. E para aqueles que pensam que esse dia esteja muito longe, basta meditarem um pouco 
sobre o rumo que têm tomado as discussões sobre as questões previdenciárias no mundo moderno.
137 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Globalización y Sistema Penal en América Latina: de la seguridad 
nacional a la urbana. Revista Brasileira de Ciências Criminais. n. 20, out./dez, 1997, p. 22.
138 CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Op. Cit., p. 4.
deterministas concedem às hipóteses anteriormente mencionadas da pena de morte e da 
redução da menoridade penal. Quem sabe até mesmo se cogite um dia a completa 
eliminação da questão da imputabilidade, já que mesmo em um feto poder-se-ia 
encontrar e abrir a caixa – preta onde se ocultam os segredos do futuro criminoso.
Mas, não é só no Sistema Penal que se pode constatar a insidiosa e perigosa 
influência do Capitalismo Globalizado. Ela se faz sentir, por exemplo, no crescente 
abandono das questões previdenciárias, de saúde e educação públicas. Tudo isso 
empurra a massa excluída para as garras do Sistema Penal ou diretamente para a morte 
devido ao mais absoluto abandono e falência do Estado como entidade assistencial e 
promotora da igualdade. 139
Retomando a perspectiva criminal, percebe-se que na sociedade a infração penal 
é concebida como um mal, a criminalidade como uma doença infecciosa e o infrator 
como um ser daninho. Isso fomenta uma tomada de posição belicosa em relação ao 
crime, a qual influi na construção de toda a política referente ao “combate” à 
criminalidade. 140
Este é um campo fértil para as divisões e polarizações, a tal ponto que já se 
cogita a formulação do que se convencionou chamar de um “Direito Penal do Inimigo”, 
em oposição ou contraste com um “Direito Penal do Cidadão”, conforme teorizado por 
Jakobs. 141
Hoje pode-se constatar um processo razoavelmente generalizado daquilo que se 
poderia chamar de “paradigma do inimigo”, pelo qual a pessoa é julgada em virtude do 
que é ou do que acredita ser; com base em sua periculosidade supostamente inerente à 
sua personalidade, muito mais do que por aquilo que efetivamente tenha cometido. 142
No seio desse paradigma a tendência é que se consolide um modelo de Direito 
Penal que empreste gradativamente mais e mais destaque à prevenção, configurando um 
inovador e mais sofisticado “panoptismo social” marcado pela descoberta seletiva da 
figura do “inimigo”. 143
Acontece que agora a idéia original de Bentham 144 não precisa mais da 
parafernália arquitetônica por ele concebida e nem fica restrita aos ambientes prisionais. 
A tecnologia permite uma vigilância muito mais ampla e invasiva, cogitando-se não só 
o controle absoluto da conduta humana exteriorizada, mas, quem sabe, de suas 
tendências ou potencialidades internas por meio dos conhecimentos genéticos.
Para Tognolli, “a nova ideologia do DNA lastrearia, em longo prazo, a idéia dos 
‘novos inimigos’ da saúde perfeita: os portadores de genes ‘deficientes’. (...). O mesmo 
processo que movimenta a sociedade em torno dos ‘novos inimigos’ geopolíticos é o 
que agrega, (...), a todos na busca e encontro dos ‘genes culpados’”. 145
Acontece que, para além de que essa seleção dos “inimigos” através da genética 
configure um arbitrário, totalitário e desumanizante “Direito Penal do Autor”, lastreia-
se em um referencial teórico há muito tempo superado. Nada mais, nada menos do que 
139 Op. Cit., p. 4. Relembremos neste ponto o texto satírico de Jonathan Swift, exposto linhas volvidas, 
“Modesta Proposta”. 
140 MUÑOZ CONDE, Francisco, HASSEMER, Winfried. Introducción al derecho penal. Barcelona: 
Bosch, 1995, p. 37.
141 JAKOBS, Günther. Fundamentos do Direito Penal. Trad. André Luís Callegari. São Paulo: RT, 2003, 
p. 142 – 143.
142 APONTE, Alejandro. Derecho penal de enemigo versus derecho penal del ciudadano. Günther Jakobs 
y los avatares de un derecho penal de la enemistad. Revista Brasileira de Ciências Criminais. n. 51, 
nov./dez, 2004, p. 16.
143 Op. Cit., p. 17.
144 BENTHAM, Jeremy. O panóptico. Trad. Guacira Lopes Louro, M. D. Magno e Tomaz Tadeu da 
Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, “passim”. 
145 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 215.
aquilo que com razão se poderia denominar, como o fez José Nêumanne, de um 
“neolombrosianismo”. 146
Seguiria dizendo que se ressuscita a tese do “determinismo biológico”, mas 
parece mais adequado constatar que ela jamais feneceu realmente, sendo mais correto 
admitir que dormitasse sempre latente nos meandros do imaginário popular e até dos 
cientistas.
Conforme alerta Lewontin, “tudo isso é um grande nonsense” 147, que se baseia 
numa terrível confusão entre fantasias e realidade, ocasionada por uma mistura entre 
aquilo que é representado em uma simples metáfora com o objeto ou fato real. Em suas 
palavras:
“A ideologia do determinismo biológico usa muitas metáforas retiradas do 
modelo de máquina de Descartes e agora dos modelos computacionais. Essas metáforas 
permitem então ‘jogos de linguagem’ porque elas são levadas a sério e assim as 
conseqüências lógicas de se levar metáforas a sério são levadas à última instância. 
Todos os cientistas empregam metáforas, mas as metáforas podem ser os maiores 
inimigos de se compreender adequadamente o mundo material. As pessoas confundem 
as metáforas com os objetos reais. Norbert Wiener e Arturo Rosenblith escreveram que 
‘ o preço da metáfora é a eterna vigilância”. 148
Realmente, o fato de que alguém se utilize da imagem de um “chip” de 
computador em comparação com os genes, falando no código genético como uma 
espécie de “programação”, não pode ser acatado além do mero sentido metafórico para 
levar à conclusão de que o homem pode, na realidade, ser equiparado a uma máquina 
pré – programada. Da mesma forma a metáfora não pode extravasar para reabilitar a 
absurda e superada crença de que o crime possa ser considerado como um entenatural 
e não como um conceito normativo criado pela sociedade humana, produto de seus 
artifícios. 
Com bem observa Karam, é comum o equívoco de falar “genericamente em 
crime como se tal expressão pudesse traduzir um conceito natural, que partisse de um 
denominador comum, presente em todo tempo ou em todo lugar. Mas, na realidade, 
crimes são meras criações da lei penal, não existindo um conceito natural que os possa 
genericamente definir. O que é crime em um determinado lugar, pode não ser em outro; 
o que hoje é crime, amanhã poderá não ser”. 149
A Criminologia Genética reducionista e determinista parte, portanto, de duas 
premissas equivocadas: nem o homem é um sistema fechado (é, na verdade, 
caracterizado pela constante abertura); nem o crime é um conceito natural, independente 
da normatização da conduta humana operada pelas leis penais.
Mesmo considerando isoladamente o conhecimento genético, não se pode 
afirmar a existência de consenso quanto a serem os genes em si “estruturas fechadas”. 
Para Richard Lewontin, os genes são passíveis de alterações pelas “condições de 
trabalho, psicológicas, sociais, antropológicas” etc., e defini-los como sistemas fechados 
não passaria de mera ideologia. Lembra o autor que a ciência não é tão objetiva como se 
costuma apregoar, ela, “como outras atividades produtivas, como o Estado, a família, o 
esporte, é uma instituição social completamente integrada e influenciada pela estrutura 
de todas as nossas outras instituições sociais. O problema com o qual a ciência lida, as 
idéias que ela usa para investigar esses problemas, até mesmo os resultados 
científicos, tão alardeados, decorrentes da investigação científica, são todos 
146 Apud, Op. Cit., p. 265.
147 Op. Cit., p. 265.
148 LEWONTIN, Richard. Apud, TOGNOLLI, Cláudio. Op. cit., p. 267.
149 KARAM, Maria Lúcia. Sistema Penal e publicidade enganosa. Revista Brasileira de Ciências 
Criminais. n. 52, jan./fev., 2005, p. 159 – 160.
profundamente influenciados por predisposições que derivam da sociedade na qual 
vivemos. Os cientistas não começam as suas vidas como cientistas e sim como seres 
sociais imersos na família, no Estado, na estrutura produtiva, e suas visões da natureza 
são feitas através das lentes que foram moldadas por suas experiências sociais. Acima 
do nível pessoal da percepção, a ciência é moldada pela sociedade porque ela é uma 
atividade produtiva humana que demanda tempo e dinheiro. A ciência usa dinheiro e 
‘comodities’. Muitas pessoas ganham dinheiro e sobrevivem da ciência, e como 
conseqüência as forças sociais econômica e socialmente dominantes determinam em 
larga medida o que a ciência faz e como ela faz. Mais que isso, tais forças têm a força 
de se apropriar das idéias científicas que são particularmente úteis para a manutenção e 
continuidade da prosperidade das estruturas sociais das quais elas são parte. Então 
outras instituições sociais têm um ‘imput’ sobre a ciência, tanto sobre o que é feito 
como sobre o que é pensado, eles tiram da ciência conceitos e idéias que suportem as 
suas instituições e façam-nas parecer legitimamente naturais. É um processo duplo – por 
um lado, da influência social e controle do que os cientistas fazem e dizem para mais à 
frente apoiarem as instituições da sociedade – o que é explicado quando falamos da 
ciência como ideologia”. 150
Não é sustentável a tese de que “a seqüência do Genoma Humano seja o ‘Graal’ 
que irá revelar tudo o que é o ser humano”. Mas, é fácil de compreender como essa tese 
reducionista encontra tanto eco na sociedade capitalista globalizada. Ela permite ocultar 
as reais causas dos problemas sociais (alcoolismo, drogas, criminalidade, violência, 
desequilíbrio nervoso, desagregação familiar etc.), satanizando os genes e os seus 
portadores, como é interessante para perpetuar o “status quo”. Lewontin compara a 
atual condenação dos genes anti – sociais com a satanização ocorrida no século XIX 
contra o “Bacilo de Koch”, levada a efeito, evitando a discussão sobre as condições 
sociais (moradia, higiene, condições insalubres de trabalho) que realmente levavam à 
proliferação da tuberculose. 151 Trata-se verdadeiramente de um “marcador substituto”, 
ou seja, uma variável relacionada com outra que é a causa real.
Fato é que tal concepção, se levada a sério, inobstante partindo de premissas 
insustentáveis, vai nos conduzir à intolerância ou ao preconceito para com pessoas 
portadoras de códigos genéticos que apontem para certas “tendências” negativas. Mais 
uma vez veremos a segregação, o preconceito e a exclusão sendo chancelados pela 
idoneidade e neutralidade (altamente contestáveis) da ciência. 152
Afinal, o próprio Diretor do Projeto Genoma Humano, Francis S. Collins, não 
corrobora qualquer concepção determinista ou premonitória da genética, no que tange 
ao comportamento humano. Segundo suas palavras: 
“Para muitas características comportamentais humanas, existe um componente 
da hereditariedade do qual não se pode escapar. Em praticamente nenhuma delas a 
hereditariedade chega perto do profético. O ambiente, em especial as experiências da 
infância, e o papel de destaque das chances do livre – arbítrio individual têm sobre nós 
um efeito profundo. Os cientistas descobrirão um nível crescente de detalhes 
moleculares sobre os fatores herdados que se encontram subjacentes à nossa 
personalidade. Isso, porém, não deve nos levar a superestimar sua contribuição 
quantitativa. Sim, a todos nós foi dado um conjunto de cartas com as quais lidar, e essas 
cartas serão, enfim, reveladas. Contudo, a forma como jogamos com elas depende de 
nós”. 153
150 Apud, TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 137 – 138.
151 Op. Cit., p. 140.
152 Op. Cit., p. 302.
153 COLLINS, Francis S. Op. Cit., p. 266.
E mais adiante o autor afasta qualquer possibilidade real de uma programação 
infalível da genética acerca da personalidade e agir humanos:
“A importância crucial da criação, da instrução e da disciplina na infância não 
seria evitada por um lance de dados levemente aprimorado. O casal narcisista que 
insistiu no uso dessa tecnologia genética para produzir um filho que poderia ser 
zagueiro de um time de futebol, tocar violino na orquestra da escola e tirar A+ em 
matemática poderia muito bem encontra-lo, em vez disso, em seu quarto, jogando 
videogame, queimando uma erva e escutando heavy metal”. 154
Outro fator que não pode passar despercebido é o papel representado pela mídia, 
em especial a imprensa na divulgação das notícias sobre as descobertas e 
potencialidades da genética.
Como salienta Cláudio Tognolli, em sua grande maioria as notícias sobre 
genética veiculadas pela imprensa são contaminadas por ideologia e carentes de um 
maior embasamento científico. 155
Pesquisando as notícias veiculadas sobre o tema, num período de sete anos (de 
1994 a 2000), constatou o autor que menos de 3% delas trazia algum conteúdo crítico 
quanto às descobertas biotecnológicas. 156A tendência da imprensa tem sido, 
infelizmente, reforçar o caráter estigmatizante das descobertas genéticas, bem como 
acoroçoar o paradigma reducionista, determinista e simplista de encarar o ser humano, 
mediante o abuso de expressões características como: “isolamento de genes” 
(juntamente com a metáfora cibernética); além da suposta descoberta de “qualidades”, 
“disfunções”, “defeitos” e “tendências” individuais e indeléveis “que cada um traz 
dentro de si”. 157 
Leão Serva, em entrevista a Cláudio Tognolli, chama a atenção para o fato de 
que a sociedade passa a depositar sua fé em um mundo melhor pela intervenção de um 
novo “deus moderno que é a biotecnologia”. E arremata, afirmando que a imprensa 
reflete esse ideário de forma acrítica, sendo que “o material jornalístico nunca nos leva a 
suporque alguém esteja pensando diferentemente dessas novidades biotecnológicas. 
Isso é vendido como se fosse pura técnica despida de uma ideologia na sua condução. É 
uma carga muito grande de informações sobre biotecnologia, mas em nenhum momento 
isso vem para permitir uma visão mais completa ou mais complexa do que está 
acontecendo”. 158 Enfim, o biologismo, seja por razões ideológicas ou por pura 
desinformação ou pressa no fechamento de edições, acabou ganhando campo na 
imprensa em detrimento de uma visão crítica e realista dos fatos. 159 Isso certamente 
empobrece ou até inviabiliza o cumprimento daquilo que Fiss refere como “a missão 
democrática da imprensa” 160, enquanto legítimo veículo possibilitador de que as 
pessoas formem informada e livremente as suas opiniões, e não sejam simplesmente 
conduzidas ou influenciadas tendenciosamente por determinada corrente ideológica.
Não se pretende apregoar uma satanização da genética, mas apenas uma visão 
equilibrada que também não a divinize ou lhe atribua poderes milagrosos, passando por 
cima de valores inalienáveis do ser humano e construindo teorias mirabolantes 
sustentadas em falsas premissas.
A genética pode muito bem ser veículo para grandes conquistas, inclusive 
quanto à solidariedade humana, a tolerância e a convivência pacífica entre as pessoas. 
154 Op. Cit., p. 273.
155 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 174.
156 Op. Cit., p. 183.
157 Op. Cit., p. 186.
158 Op. Cit., p. 239.
159 Op. Cit., p. 290.
160 FISS, Owen M. Op. Cit., p. 99.
Poucos aspectos do saber e da atividade humana podem contribuir e já contribuíram de 
forma tão valiosa para tornar o racismo algo visivelmente indefensável. A biologia 
comprovou que não só não existem “raças inferiores” como sequer há “raças”, pois que 
“não há praticamente nenhuma diferenciação racial entre os humanos”. As diferenças 
físicas constatáveis não se refletem em diferenças genéticas, já que “entre os humanos 
mais amplamente separados é minúscula” a variação genética em cotejo com outras 
espécies. 161
No campo penal certamente a genética pode dar sua contribuição, a qual não é 
desprezível. É claro que, em parte, certas condutas criminosas admitem uma explicação 
etiológica, que bem pode ser explorada no campo genético. Deve-se, porém, ter o 
cuidado de não assentar conclusões sobre fantasias e de não procurar simplificar o 
complexo a qualquer custo, apenas para tranqüilizar nossa perturbação diante dos 
mistérios da humanidade.
Procedendo a uma breve digressão em relação ao tema central deste trabalho, 
considera-se oportuno lembrar que a ciência genética pode colaborar imensamente e já o 
faz, na apuração da autoria de crimes. Trata-se de sua aplicação em outro campo das 
ciências criminais, qual seja, o da “criminalística”.
Zarzuela conceitua a criminalística como “o conjunto de conhecimentos 
científicos, técnicos, artísticos etc., destinados à apreciação, interpretação e descrição 
escrita dos elementos de ordem material encontrados no local do fato, no instrumento 
do crime e na peça de exame, de modo a relacionar uma ou mais pessoas envolvidas em 
um evento, às circunstâncias que deram margem a uma ocorrência, de presumível ou de 
evidente interesse judiciário”. 162
Os exames de DNA em vestígios deixados em locais e instrumentos de crime, 
vestes e corpos de vítimas e suspeitos, colaboram muitas vezes decisivamente para o 
esclarecimento de eventos criminosos, especialmente no que tange à sua autoria. 
Watson cogita a possibilidade da criação de um banco de dados genéticos, a 
exemplo do que já existe com relação às digitais, a fim de facilitar a atuação da 
investigação criminal. É claro que a amplitude informativa dos códigos genéticos pode 
gerar questionamentos quanto a essa invasão estatal da privacidade. Isso porque, 
diversamente das digitais, o código genético contém muito mais informações sobre uma 
pessoa do que sua simples identificação (v.g. doenças congênitas). 163 No entanto, 
pensamos que algumas precauções legais e práticas, impondo um controle rígido do uso 
das informações genômicas restrito aos fins de investigação criminal, poderiam 
promover um saudável equilíbrio entre as garantias individuais e o interesse social na 
apuração dos crimes e punição dos criminosos. 164 Oportuno, portanto, transcrever a 
observação de Watson:
“Embora a legislação não deva atrapalhar nossa ambição de explorar o pleno 
potencial do DNA em aliviar o sofrimento humano, em explicar quem somos e de onde 
viemos, ou em identificar quais dentre nós são culpados de algum crime, ela deve no 
mínimo assegurar que nenhum cidadão seja privado de seus direitos civis ou humanos 
com base no que porventura estiver inscrito em seus genes”. 165
4 – CONCLUSÃO
161 FERNÁNDEZ – ARMESTO, Felipe. Op. Cit., p. 88.
162 ZARZUELA, José Lopes. Temas fundamentais de criminalística. Porto Alegre: Sagra – Luzzatto, 
1996, p. 15.
163 WATSON, James D. Op. Cit., p. 296.
164 Neste sentido: Op. Cit., p. 314.
165 Op. Cit., p. 383.
No decorrer deste trabalho foi discutida a questão da viabilidade da construção 
de um saber criminológico calcado nas modernas pesquisas genéticas.
Por intermédio de um esboço da evolução histórica da Criminologia, logrou-se 
demonstrar como esta passou de um estágio em que se buscava uma explicação 
etiológica do fenômeno criminoso, entendendo este como um ente natural e o infrator 
como portador de uma anomalia, até chegar às questionadoras concepções da 
Criminologia Crítica, e o ponto de equilíbrio que vem a ensejar a compreensão da 
complexidade do tema pesquisado, propondo-se o paradigma da Criminologia 
Integrada.
Finalmente, abordou-se o ponto sensível deste estudo, ou seja, o papel da 
genética na Criminologia contemporânea. Principiou-se pela defesa da importância da 
reflexão como pressuposto para a tomada de qualquer decisão, especialmente daquelas 
que se referem à intervenção no “status” do homem no mundo e na sociedade. A 
seguir, foram expostas as discussões acerca da legitimação da culpabilidade como 
pressuposto da punição, fazendo-se notar que a responsabilidade está atrelada de forma 
inseparável à liberdade. Por outro lado, afastada a responsabilidade por influência de 
teses deterministas, não se pode mais legitimamente falar em punição. Não obstante, 
resta viável a tese da defesa social, que pode tornar defensáveis os usos de medidas 
extremas de contenção ou mesmo de eliminação daqueles aos quais é atribuída, por 
algum critério, a pecha da periculosidade.
Analisou-se também a questão do totalitarismo oculto na conformação de uma 
criminologia genética reducionista e determinista. Em seu contexto parece inevitável 
uma constante intervenção sobre o indivíduo, controlando profundamente não só as 
suas condutas, mas também aquilo que ele seja ou pretenda ser. Isso certamente conflui 
para uma desconstrução da autenticidade, extremamente violadora da dignidade 
humana. Há numa Criminologia ou em qualquer teoria ou ideologia que apregoe a 
intervenção profunda no “ser” do homem um intento de recriar (destruindo) o humano, 
que é essencialmente “abertura”, para transforma-lo em um sistema fechado, moldado 
ao bel prazer de alguma elite ilegitimamente detentora do poder de decidir como deve 
ser o “ser” do homem.
Por derradeiro, foram apreciadas as fantasias e falsas bases que dão sustento a 
uma Criminologia Genética reducionista e determinista, bem como suas naturais 
confluências com a conformação intolerante, excludente e cruel de um Capitalismo 
Globalizado. Verifica-se muito claramente que aquilo que hoje se apresenta como uma 
novidade capaz de revolucionar os estudos criminológicos, não passa de uma 
repristinação, acrescida de certa sofisticação e sutileza, de antigas teorias etiológicas do 
crime,configurando nada mais do que um “neolombrosianismo” tosco, mal disfarçado 
na pele sedutora da suposta vanguarda científica.
É fato incontestável que a ciência pode ou poderá em breve alterar o patrimônio 
genético da humanidade. Mas, o fato de ser detentor de um poder ou conhecimento, 
nada diz a respeito da conveniência de seu uso. Em primeiro lugar deve-se saber “quem, 
de que modo e com que finalidade pode levar a cabo tais alterações”. Depois é preciso ir 
ainda mais fundo e decidir se essas mudanças devem sequer ser levadas a efeito. 166
A história nos ensina que sempre que alguma mudança pode operar-se, ainda 
que seja perigosa e sofra resistências, acaba acontecendo. Neste caso, considerando que 
a decisão seja pela intervenção modificadora do genoma humano, ainda nos resta 
discutir a legitimidade das alterações porventura pretendidas. Mister se faz “encontrar a 
166 COSTA, José de Faria. Op. Cit., p. 103.
vontade consensual que possa dar um rumo límpido, claro e transparente à via ou 
caminho que se quer prosseguir”. É aqui que reside a missão do Direito. A ele não é 
dado dominar e oprimir a pesquisa científica, pretendendo impor uma verdade 
normativa em oposição à verdade aferível pela dialética própria da atividade da ciência. 
Afinal, como consta da célebre frase ora atribuída a Francis Bacon, ora a Galileu 
Galilei, “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”. Portanto, o Direito, aliado à 
ética, deve regular com bom senso os limites da aplicação dos conhecimentos 
científicos, sem contudo constituir uma barreira autoritária à livre pesquisa. Caberá, 
portanto, ao Direito (Biodireito) a árdua missão de encontrar um consenso, orientado 
por valores éticos, legitimando os comportamentos altamente relevantes da aplicação da 
genética sob os prismas comunitário e individual. 167
Note-se, porém, que o caminho a ser trilhado, passando pela discussão ética para 
chegar à normatização jurídica, não pode ser produto de uma ou outra categoria de 
pessoas (juristas, cientistas, religiosos etc.). Muitas vezes os cientistas se arrogam o 
direito de apropriação do discurso acerca da genética, isso com base no fato de serem 
detentores do conhecimento técnico. Não obstante, como já se disse, o domínio de um 
conhecimento ou poder nada significa a respeito do bom ou mau uso que se fará dele. 
Para a discussão de questões de alta indagação que suplantam em muito o mero saber 
técnico – científico, exigindo decisões informadas não somente pelo conhecimento, 
mas, principalmente, pela sabedoria, torna-se imprescindível a confluência democrática 
e pluralista. Cabe ao cientista a manifestação e até o esclarecimento sobre as questões 
técnicas, mas devem ser chamados à baila o sociólogo, o criminólogo, o jurista, o 
filósofo, o teólogo, em suma, a sociedade representada da forma mais ampla e 
esclarecida possível. Afinal, como aduz Gilson, a ciência pode fornecer muitas respostas 
no que diz respeito ao mundo dos fenômenos, mas, afora isso, nem sequer sabe fazer as 
perguntas. 168
Diverso não é o entendimento de um cientista esclarecido e equilibrado como 
Collins, que afirma:
“Sobre esses assuntos que representam desafios éticos verdadeiros, que não são 
situações artificiais e irreais, como nossa sociedade poderá tirar conclusões?
Primeiramente, seria errado simplesmente deixar os cientistas tomarem essas 
decisões. Eles têm uma função crucial nesses debates, já que sua especialidade pode 
permitir uma distinção clara do que é e do que não é possível. No entanto, os cientistas 
não podem ser os únicos nesse debate. Por sua própria natureza, eles têm fome de 
explorar o desconhecido. Seu senso moral, geralmente, não é nem mais nem menos 
desenvolvido do que o de outros grupos, e eles não conseguem evitar sua aflição diante 
de um conflito de interesses que pode fazer com que fiquem indignados com os limites 
estabelecidos por quem não é da comunidade científica. Portanto, uma ampla variedade 
de outras perspectivas deve ser representada nesse debate”. 169
Eis onde emerge a importante função da bioética. O termo foi cunhado em 1970 
pelo cancerologista Van Rensselaer Potter, em um artigo intitulado “Bioethics, the 
Science of Survival” e corroborado em um livro de título “Bioethics, Bridge to the 
future”. 170 A “Encyclopedia of Bioethics” a define como o “estudo sistemático da 
conduta humana no âmbito das ciências da vida e da saúde considerada à luz de valores 
e princípios morais”. 171
167 Op. Cit., p. 103 – 104.
168 GILSON, Etienne. Op. Cit., p. 98.
169 COLLINS, Francis S. Op. Cit., p. 273 – 274.
170 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 275.
171 SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Volume I. 2ª. ed. Trad. Orlando Soares Moreira. São Paulo: 
Loyola, 2002, p. 43.
A Bioética não é uma ideologia reacionária que pretende atravancar os avanços 
científicos, mediante sutilezas morais e/ou teológicas. Na verdade, ela é portadora de 
uma clara mensagem de que a ciência e a técnica não prescindem de uma “razão 
reguladora” que deve pautar-se por princípios éticos. 172
Afirma Ratzinger que “a ciência pode servir à humanidade, mas pode também se 
tornar instrumento do mal, dando-lhe os meios para desenvolver plenamente sua 
terribilidade; ela pode realizar sua verdadeira essência somente se for sustentada pela 
responsabilidade moral”. No entanto, “a força moral não cresceu junto com o 
desenvolvimento da ciência; pelo contrário, até diminuiu, porque a mentalidade técnica 
relega a moral ao âmbito subjetivo, enquanto seria justamente necessária uma moral 
pública, uma moral que saiba responder às ameaças que pairam sobre a existência de 
todos nós”. Efetivamente, “a questão moral é hoje, mais do que nunca, manifestamente 
uma questão de sobrevivência para a humanidade. Na civilização tecnicista, que já se 
estendeu ao mundo contemporâneo todo, as antigas certezas morais, que sustentavam as 
várias grandes culturas, foram amplamente destruídas. A visão tecnicista do mundo 
dispensa os valores, e se questiona sobre a possibilidade prática, não sobre o que é 
lícito. Para muitos, a questão do que é lícito parece até ultrapassada, não mais 
compatível com a emancipação do homem de todos os vínculos. O que é possível fazer 
é também lícito fazer: é assim que se pensa hoje, cada vez mais.
Mas o verdadeiro problema coloca-se em um nível mais profundo ainda. 
Defrontadas com a certeza indiscutível que caracteriza as matérias técnicas, todas as 
certezas morais parecem algo frágeis e discutíveis. Muitos acham que só é razoável o 
que posso verificar de forma tão incontrovertível quanto as fórmulas matemáticas ou 
técnicas. Mas onde encontrar essa verificabilidade nas realidades tipicamente humanas, 
nas questões da moral e do reto viver humano? O fato de as grandes culturas, apesar dos 
importantes elementos comuns, darem nesse contexto resposta diferentes faz com que o 
relativismo se torne cada vez mais a opinião dominante. No âmbito da moral e da 
religião, não há nenhuma certeza partilhável; cada um deve achar por si mesmo como 
solucionar o problema. Cada um deve seguir suas próprias convicções”. Esse 
relativismo tem até certa coerência no cotejo com a realidade plural, mas destrói a 
segurança de qualquer critério ético e deixa o homem sem limites ao seu arbítrio. Nesse 
quadro, “a ciência se torna patológica e perigosa para a vida, quando se desobriga do 
contexto da ordem moral própria do ser – homens, e permite-se admitir unicamente suas 
próprias possibilidades como único critério admissível”. A pergunta crucial, porém, não 
é aquela que se refere ao que se “pode fazer”, mas aquela que se volta para o que se 
“deve fazer”, abrindo-se para a “voz da verdade e a seu chamado”. 173
Um dos aspectos que a Bioética deve preservar no que tange à dignidade 
humana perante as descobertas científicasé a vedação absoluta à instrumentalização, 
sob quaisquer pretextos. 
É neste ponto que uma genética determinista, seja em sua aplicação 
criminológica ou em geral, é problemática. Isso porque ela reduz o homem a uma 
espécie de marionete guiada por mãos invisíveis, que seriam agora os genes. 174
Quando se perde de vista a noção básica de que somos sistemas abertos e não 
fechados abre-se campo para uma reificação do humano, que passa a confundir-se com 
as coisas e animais incapazes de autoconsciência e de contínua abertura para um “ser” 
que se constrói em processo sempre inconcluso.
172 TOGNOLLI, Cláudio. Op. Cit., p. 274.
173 RATZINGER, Joseph, Apud, TESSORE, Dag. Op. cit., p. 101 – 102.
174 Ver neste sentido: WATSON, James D., BERRY, Andrew. Op. Cit., p. 408. “Não somos meros 
marionetes cujos cordões são manipulados por nossos genes”.
A liberdade e a responsabilidade são traços fundamentais da existência humana. 
O homem escolhe sua existência e toma posição frente aos valores. Por isso é o 
responsável pela escrita de sua própria história, a qual não é o mero resultado da 
preponderância dos instintos sobre o agir consciente, já que o homem tem a capacidade 
de superar os impulsos mais poderosos, a não ser que esteja sofrendo de alguma 
patologia psíquica. 175
Desse modo, desde que não se perca de vista essa noção básica da liberdade, 
responsabilidade e dignidade humanas, as pesquisas sobre genética para aplicação 
médica ou criminológica não devem ser descartadas ou impedidas.
Trata-se de uma tecnologia de altíssimo potencial para o mal e para o bem, de 
modo que os povos que virarem as costas para o seu estudo criteriosamente pautado 
pela ética, correm o risco de serem surpreendidos pelo seu uso descontrolado por parte 
de pessoas mal intencionadas e pouco ou nada preocupadas com princípios éticos. 176
O aprimoramento dos conhecimentos ligados à genética traz em si terríveis 
riscos, sempre que não for pautado por princípios éticos e uma visão antropológica que 
preserve a dignidade humana. No entanto, não se deve satanizar a genética e somente 
antever em seu desenvolvimento conseqüências catastróficas para a humanidade. A 
precaução é sempre uma virtude, mas o medo irracional nunca foi um bom conselheiro. 
É preciso regular os potenciais da genética, mas não se pode crer que um 
instrumento como esse somente possa ser utilizado com fins egoístas e destrutivos. 
Mister se faz dar algum crédito à capacidade humana para o altruísmo e o sentimento 
comunitário, que podem tornar os potenciais dessa ciência altamente produtivos para o 
bem da humanidade. 177
A mesma ambivalência pode ser constatada num dos fatores capazes de 
fomentar uma aplicação até mesmo genocida e excludente do conhecimento genético, 
qual seja, a globalização.
Embora pululem por todo o mundo os chamados “movimentos 
antiglobalização”, sabe-se o quanto quixotesco é ser “contra a globalização”. Essa 
postura assemelha-se a ser contra, por exemplo, uma tempestade. A globalização é um 
fenômeno inevitável no atual estágio da humanidade, de modo que a questão não está 
em impedi-la, mas em controlar seus processos “selvagens” e converte-los “de ameaça 
em oportunidade para a humanidade”. 178
Assim como a genética pode ser usada com vistas ao sentimento de 
solidariedade e solicitude para com o outro, também a globalização pode ser um 
elemento de aproximação e de união da humanidade em torno de um projeto solidário. 
Ela permite uma visão do “outro” que jamais existiu. Desde que esse “outro” em face 
do qual nos colocamos seja tomado como sujeito de nossas obrigações éticas e não 
como inimigo ou obstáculo, a globalização pode produzir bons frutos.
Nas palavras de Bauman:
“Curto e grosso: ou nadamos juntos ou afundamos juntos. Creio que pela 
primeira vez na história da humanidade o auto – interesse e os princípios éticos de 
respeito e atenção mútuos de todos os seres humanos apontam na mesma direção e 
exigem a mesma estratégia. De maldição, a globalização pode até transformar-se em 
benção: a ‘humanidade’ nunca teve uma oportunidade melhor! Se isso vai acontecer, se 
175 PASCUAL, Fernando. Op. Cit., p. 42.
176 Neste sentido: WATSON, James D., BERRY, Andrew. Op. cit., p. 429.
177 Neste sentido: WATSON, James D., BERRY, Andrew. Op. cit., p. 426.
178 BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, 
p. 94. 
a chance será aproveitada antes que se perca, é, porém, uma questão em aberto. A 
resposta depende de nós”. 179
Enfim, uma lição deve ser aprendida por todos, em especial com a questão dos 
errôneos fundamentos de uma Criminologia Genética determinista, a reviver um 
lombrosianismo, cujo valor é atualmente somente histórico:
Um dos cuidados que devemos sempre tomar, cientes de que errar é inevitável 
em nossa condição humana, é, pelo menos, evitar repetir os erros passados, ainda que 
sob novas roupagens.
Afinal, como bem lembrava Paulo César da Silva em sua fala final na Reunião 
do Grupo de Pesquisas de Bioética e Biodireito da Unisal 180: “o erro sempre é velho, só 
a verdade é nova”.
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179 Op. Cit., p. 95.
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