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“A mulher na Igreja, de Eva à Virgem Maria”, O Globo, 28 de agosto de 1998, 7.
LENEIDE DUARTE 
"A Santíssima Trindade pode estar com os dias contados. Em seu lugar, a Igreja Católica estuda a proclamação do dogma da quarta pessoa da divindade, a Virgem Maria, em pé de igualdade com o Pai, o Filho e o Espirito Santo. No novo "Quarteto Sagrado" proposto, Maria teria papéis múltiplos: filha do Pai, mãe do Filho e esposa do Espirito Santo".
Segundo reportagem sobre a Virgem Maria, publicada este ano na revista ,Newsweek", o Papa João Paulo II recebeu nos últimos quatro anos mais de 4 Milhões e 300 mil assinaturas (uma média de cem mil assinaturas por mês) de pessoas que apoiam a proposta de transformar em dogma o papel da mãe de Jesus como "co-redentora e mediadora de todas as graças e advogada do Povo de Deus". Entre elas, estão as assinaturas de 500 bispos e 42 cardeais.
.,..A Importância que a Virgem Maria tem na Igreja Católica não é partilhada pelos protestantes. Por isso, o novo dogma pode criar mais uma dificuldade nas delicadas relações ecumênicas inauguradas com o Concílio Vaticano. já preveem teólogos como o reverendo George G. Passias, da Arquidiocese Greco Ortodoxa da América, para quem o dogma de tornar Maria co-redentora é uma heresia no mais estrito sentido".
Mas as reações não vieram apenas dos Meios não católicos. No mês de junho, o jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano". Informou que a Santa Sé nomeou ',uma comissão de 23 Marianistas para estudar a proposta. Unanimemente a comissão desaprovou o novo dogma apontando nele ambiguidades e vendo futuras dificuldades decorrentes dele.
Recentemente, no documento aprovado no mês de junho por católicos e luteranos em que as duas correntes do cristianismo enfatizam os pontos de união e tentam superar 500 anos de divergências, sobretudo no que diz respeito à interpretação de Lutero da salvação pela Graça e não pelas obras, dois aspectos doutrinários não puderam ser fruto de acordo: a infalibilidade do Papa e a ordenação de mulheres. Por que a Igreja Católica que pensa em criar o dogma da co-redenção e Mediação de Maria e proíbe até hoje a ordenação de mulheres sacerdotisas, que já tem em várias denominações das igrejas protestantes históricas?
Já que Maria é tão importante na fé católica ,e que para ela foram erguidas algumas das maiores igrejas do Ocidente, Notre Dame de Chartres, Nutre Dame de Paris, Santa Maria Maggiore, em Roma, entre outras, por que as outras mulheres não podem ministrar os sacramentos e pregar o evangelho do púlpito das igrejas?
O teólogo Mark Miravalle, de 39 anos, um dos líderes da petição que postula o dogma da co-redenção de Maria e professor da Universidade Franciscana de Steubenville, em Ohio, diz estar confiante que esse dogma seja realidade antes do ano 2000.
É surpreendente para a maioria das pessoas saber que o dogma da "Imaculada concepção" data de 1854, da época do Papa Pio IX. Foi ele quem declarou que Maria havia sido gerada preservada do pecado original por uma graça especial de Deus como predestinada a ser mãe de Cristo. Já o teólogo Thomas de Aquino era uma voz que se manifestava veementemente contra o dogma de que Maria foi concebida sem o pecado original. E, mesmo assim, a Igreja Católica o adotou.
O que significaria esse novo dogma da Igreja Católica, se aprovado? A misoginia da tradição judaico-cristã estaria sendo vencida ou seria Mais um retrocesso na concepção tradicional da mulher Eva/pecadora e agente da tentação no paraíso versus Maria/virgem e suas contemporâneas Marta e Maria, servidoras passivas do grupo que seguia Jesus? No cristianismo, que valorizou enormemente as mulheres, fazendo-as personagens destacadas entre os que seguiam a Jesus, haveria espaço para um apóstolo do sexo feminino entre os 12 discípulos? Certamente não.
Como se sabe, na religião judaica, tradicionalmente patriarcal, a mulher era discriminada e as genealogias são narradas na Bíblia pela linhagem masculina unicamente. No livro de Êxodo, por exemplo, entre os que saíram do Egito guiados por Moisés, são contados apenas os homens. Mulheres crianças e animais são um numero indefinido e esse é apenas um dos numerosos exemplo da discriminação ancestral da mulher. nas duas religiões, a judaica e a cristã. Com Cristo, as mulheres começam a ser citadas nominalmente, em alguns trechos do evangelho. Não devemos esquecer que foram as mulheres que visitavam o túmulo as primeiras pessoas a vê-lo depois de ressuscitado.
Procurando reparar dois milênios de discriminação das mulheres, em Bruxelas, na Bélgica, foi criado um grupo de católicos e protestantes, leigos e sacerdotes, cujo objetivo é ..acabar com o sexissimo da Igreja, sob todas as formas". O grupo se chama "Homens e mulheres na igreja" e tem um discurso bastante libertário. Este grupo publicou recentemente os textos e experiências para uma liturgia não-sexista" nos quais são descritas cerimônias celebradas em vária igrejas
da Bélgica e dos Estados Unidos cujo objetivo é exorcizar os velhos demônios. da misoginia judaico-cristã. Nas tradições dessas duas religiões, são exaltadas as mulheres virgens ou assexuadas. As fortes, independentes e rebeldes eram, na Idade Média, consideradas bruxas. Como bruxas foram queimadas três milhões de mulheres nos séculos XV e XVI, inclusive Joana d'Arc. Nessa busca de Igualdade entre os sexos e na purgação do preconceito milenar, o grupo de Bruxelas publicou a seguinte prece a Deus para ser lida alternadamente por homens e mulheres:
'Homens: Por ter quase sempre confinado as mulheres em papéis estereotipados, Eva tentadora ou Virgem Maria; e ter ignorado sua personalidade original; nós te pedimos perdão;
Mulheres: Por ter sido cúmplices dessas situações falsas, abusando de nosso desejo de agradar ou supervalorizam nosso papel de mãe, nós te pedimos perdão.
Homens: Por ter colocado, muitas vezes, a mulher a nosso serviço, reservando-lhe as tarefas que julgamos indignas de nós, te pedimos perdão.
Mulheres: Por não termos sabido encarar nossas responsabilidades e- nos termos subordinado a tarefas subalternas, deixando os homens assumirem o papel dominante, nós te pedimos perdão."
LENEIDE DUARTE é jornalista e protestante.

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