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IDEALISMO ALEMÃO

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DEFINIÇÃO
Idealismo alemão. A escola alemã filosófica do século XIX. A crítica ao concreto e o niilismo de
Nietzsche e Schopenhauer. A resposta da intelectualidade alemã aos desafios lançados pela
modernidade cartesiana/iluminista. Os desdobramentos do idealismo alemão no pensamento
do século XX.
PROPÓSITO
Abordar o idealismo alemão a partir de uma perspectiva menos rígida do ponto de vista
cronológico e menos dependente das biografias dos “grandes autores”, buscando compreender
como o pensamento idealista alemão respondeu aos desafios lançados pela modernidade
cartesiana/iluminista.
OBJETIVOS
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MÓDULO 1
Categorizar o idealismo alemão a partir de seu diálogo com a tradição iluminista.
MÓDULO 2
Expressar as teses do idealismo alemão no niilismo de Schopenhauer e Nietzsche.
MÓDULO 3
Reconhecer os desdobramentos do idealismo alemão no século XX
INTRODUÇÃO
Geralmente, as famílias intelectuais são construções feitas a posteriori pelos estudiosos
interessados em entender determinada forma de pensamento, que atribuem a escritores do
passado identidades intelectuais manifestadas na forma de “ismos”. Essas identidades
intelectuais não estavam disponíveis na época em que os autores estudados viveram. Tal
procedimento é muito comum nos estudos em história da filosofia. Assim, Marx e Engels se
tornam autores do marxismo, Francis Bacon é vinculado ao racionalismo, e Platão e
Aristóteles são fundadores do classicismo. Mais interessante seria tentar entender como
esses autores responderam aos dilemas de seus respectivos tempos, reconstruindo, na
medida do possível, as questões que provocaram seus esforços de pensamento. Todo
pensamento é um ato social em diálogo com outros atos sociais, e, como tal, deve ser tratado
para que não caiamos na tentação de cultuar autores, endossando a máxima: “Fulano estava à
frente do seu tempo”. Todos estamos dentro do nosso tempo, que sempre é plural,
heterogêneo e permite diversas manifestações do pensamento. É a partir dessa perspectiva
que estudaremos o “idealismo alemão”, fazendo o esforço de tratá-lo mais como um conjunto
de respostas aos dilemas da modernidade ocidental do que como uma corrente filosófica
rígida, claramente delimitada.
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Fonte: Edvard Munch / Wikipédia
 O grito de Edvard Munch
Nossa discussão está dividida em quatro partes: em primeiro lugar, nós nos esforçamos em
traçar um panorama do idealismo alemão, reconstruindo seus conceitos fundamentais e
entendendo suas respostas aos dilemas colocados pela modernidade cartesiana/iluminista.
Depois, verificamos como Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-
1900) mobilizaram as ideias-chave do idealismo alemão em função de uma apreciação
filosófica niilista.
Fonte: Wikipédia
 Arthur Schopenhauer (1788-1860)
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Fonte: Sofia Bertolini / Pinterest
 Franz Kafka (1882-1924)
Em seguida, debruçamo-nos sobre o trabalho de Franz Kafka (1882-1924), tentando entender
a presença dos conceitos idealistas na sua obra literária. Por último, abordamos a atualização
do pensamento idealista na contemporaneidade, dando especial atenção aos escritos de
Freud (1856-1939) e ao ambiente intelectual que alguns chamam de “pós-modernidade”.
MÓDULO 1
 Categorizar o idealismo alemão a partir de seu diálogo com a tradição iluminista.
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A MODERNIDADE ILUMINISTA E O
IDEALISMO ALEMÃO: NOTAS
PRELIMINARES
O filósofo norte-americano Josiah Royce é autor de um estudo considerado incontornável
sobre o idealismo alemão. Para Royce, ele se constitui como corrente de pensamento entre a
publicação do livro, em 1781, Crítica à razão pura, texto mais conhecido da obra de Kant, e a
morte de Hegel, em 1831.
NESSE PERÍODO DE 50 ANOS, SEGUNDO ROYCE:
[...] “PRODUZIU-SE UM PENSAMENTO
REVOLUCIONÁRIO QUE IMPACTOU TODO O FUTURO
DA FILOSOFIA, PAVIMENTANDO O CAMINHO PARA
MARX E KIERKEGAARD, ASSIM COMO PARA O
EXISTENCIALISMO, PARA A TEORIA CRÍTICA E PARA
O PÓS-ESTRUTURALISMO” .
(ROYCE, 1967, p. 32)
Royce argumenta que quatro autores podem ser definidos como os representantes do
idealismo alemão: Kant, Johann Fichte (1762-1814), Hegel e Friedrich Schelling (1755-1854).
Para compreender melhor as teses do idealismo alemão, é importante entender a utopia
iluminista, que prometeu que a razão seria o motor do progresso humano.
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Fonte: alphahistory.com
 Um experimento científico realizado durante o Iluminismo.
AS PROMESSAS ILUMINISTAS
No livro A modernização dos sentidos, o historiador alemão Hans Ulrich Gumbrecht se debruça
sobre a experiência histórico-cultural da modernidade.
SEGUNDO O AUTOR, O TERMO MODERNO DERIVA DO
LATIM HODIERNUS, QUE É USADO DESDE A
ANTIGUIDADE PARA DESIGNAR UM TEMPO
PRESENTE QUE SE ENTENDE COMO DIFERENTE DO
PASSADO. A GRANDE NOVIDADE EXISTENCIAL
TRAZIDA PELA HISTÓRIA EUROPEIA FOI A
RADICALIZAÇÃO DESSE SENTIMENTO DE RUPTURA
COM O PASSADO.
A partir do século XVI, cada vez mais, o presente não se reconhecia como continuidade do
passado. O acúmulo das experiências humanas no tempo não servia mais como fonte de
exemplo para a ação contemporânea. No século XIX, o político e escritor francês Alexis de
Tocqueville testemunhou com precisão esse sentimento moderno de ruptura. Embora a
revolução que se opera no estado social, nas leis, nas ideias e nos sentimentos dos homens
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esteja bem longe de terminar, já não se poderia comparar suas obras com nada do que foi visto
anteriormente no mundo.
Fonte: Wikipédia
 Alexis de Tocqueville
“REMONTO DE SÉCULO EM SÉCULO ATÉ A
ANTIGUIDADE MAIS REMOTA: NÃO PERCEBO NADA
QUE SE PAREÇA COM O QUE ESTÁ DIANTE DOS
MEUS OLHOS. COMO O PASSADO NÃO ILUMINA MAIS
O FUTURO, O ESPÍRITO CAMINHA EM MEIO ÀS
TREVAS”.
(TOCQUEVILLE; 2005. p. 399)
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Fonte: Wikipédia
 Marquês de Condorcet
Podemos perceber um tom melancólico nas palavras de Tocqueville, que se manifestou em sua
crítica às democracias de massa criadas na modernidade. A melancolia tocquevilliana, no
entanto, é exceção na conjuntura mais ampla do pensamento moderno, que, geralmente, era
bastante otimista em relação às transformações modernas. Aquilo que hoje chamamos de
Iluminismo reuniu todo esse otimismo moderno entre os séculos XVIII e XIX, depositando as
esperanças de realização do progresso da humanidade na razão e na ciência (CASSIRER,
1997). Mais do que ninguém, Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, o marquês de
Condorcet, manifestou essa perspectiva otimista da História, que pode ser encontrada, em
alguma medida, nos textos da maioria dos “escritores iluministas”, como Voltaire, D’Alembert,
Diderot.
MARQUÊS DE CONDORCET (1743-1794)
Um dos iluministas a destacar mais fortemente o papel da educação e sua organização,
Condorcet defende que, para o Estado funcionar plenamente, necessita que a educação
e o conhecimento histórico sejam disseminados.
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VOLTAIRE (1694-1778)
Autor iluminista, polemista, um dos mais ferrenhos defensores dos princípios do
Iluminismo, como a valorização da razão, a negação das bases religiosas e o
contratualismo.
D’ALEMBERT (1717-1783)
Enciclopedista, defensor do conhecimento como forma de libertação do sujeito e crítico
ferrenho dos valores tradicionais, como o Rei e a Igreja.
DIDEROT (1713-1784)
Enciclopedista, parceiro de D´Alembert no movimento, seguia uma perspectiva mais
filosófica.
Vivemos uma era única na história humana, uma era de progresso, de avanço, de império da
razão. As nossas esperanças quanto à condição futura da espécie humana podem se reduzir a
estes três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações; os progressos da
igualdade num mesmo povo; e, finalmente, o aperfeiçoamento real do homem. (CONDORCET,
1995. p. 12)
Aquele era um momento de intenso desenvolvimento científico. A Revolução Industrial trouxe
novidades técnicas que potencializaram a capacidade de produção a níveis nunca vistos.
Novas tecnologias de transporte e comunicação encurtaram a distância. A colonização