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FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA EJA
Aline da Silva Machado 
Beatriz Alves Barbosa 
Cristian Rogério Andrade Silva
Jocasta Batista da Silva Borges
Késia Rodrigues da Silva Rezende
RESUMO 
O estudo apresenta uma reflexão sobre a formação necessária para o professor atuar na Educação de Jovens e Adultos (EJA), Num primeiro momento, foi realizada uma pesquisa bibliográfica a cerca do tema; após o levantamento bibliográfico que enfatizou a formação de professores e a prática pedagógica, foi realizada uma pesquisa de campo com aplicação de questionários abertos, o público alvo da pesquisa foram alunas formandas do curso de Pedagogia de uma Universidade privada, alunos e docentes de EJA do Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos, ambos do município de Curitiba. Cada questionário foi apropriado à clientela a que se destinou e também envolveu perguntas pertinentes referentes à formação inicial do educador, à prática do professor e do aluno na EJA. Depois de coletar os questionários foi possível analisar os dados da pesquisa de acordo com a abordagem qualitativa . A análise dos dados trouxe uma rica contribuição sobre a concepção, atuação e formação docente para a EJA. 
Palavras-chave: formação de professores, educação de jovens e adultos, prática docente. 
Introdução 
A prática educativa é acima de tudo um desafio, pois o educador consciente passa grande parte do seu tempo questionando-se, revendo conceitos, buscando dar o melhor a seus educandos. Por isso, o sonho e a utopia fazem parte desses docentes, e outros sentimentos como a esperança, que é uma arma importantíssima para a realização de certas aspirações. Para Paulo Freire (1997) é ingenuidade dar à esperança um poder absoluto de resolução de conceitos, concepções e conteúdo, no entanto, se aliadas a ela encontram-se o esforço, a capacidade, a persistência e humildade, o educador está no caminho certo. 
Em relação à qualidade formal, em geral, o educador que trabalha com a educação de Jovens e Adultos não tem formação adequada para atuar nesta modalidade de ensino e não tem recebido atenção necessária nos cursos de formação de professores. Pelo contrário, muitas vezes tem sido relegada cada vez mais a deterioração, pois os educadores que atuam 
na EJA estão ausentes de boa parte dos debates das políticas públicas centradas na questão das relações entre escola e sociedade (GATTI, 1997). Em termos de qualidade política, “a questão também é muito grave, porquanto, se a educação básica é instrumentação fundamental da cidadania, o professor não poderia ser agente dela, sem ser, ele mesmo cidadão” (DEMO, 1996, p. 87). E acrescenta “O professor deve ser imagem viva do aprender a aprender” (DEMO,1996, p. 89). A alma de sua formação básica e permanente é aprender a aprender, isto é, aprender a pensar, aprender a fazer para aprender a ser professor. A reflexão é o conceito mais utilizado por investigadores para se referirem à formação de professores (NÓVOA, 1992). 
Mas quais concepções sobre EJA os professores apresentam na formação inicial e na atuação profissional docente? Há divergências? E os alunos, quais concepções sobre EJA apresentam em sua atuação discente? Frente a esses questionamentos o objetivo geral da pesquisa é identificar contribuições de formandas do curso de Pedagogia, estudantes e professores de EJA para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da prática docente. 
A partir da problemática e objetivo definiu-se a metodologia da pesquisa que partiu de estudo bibliográfico e de campo em um curso de Pedagogia de uma universidade privada, e em um Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos, ambas as instituições localizadas no município de Curitiba. Para a amostragem da pesquisa foram escolhidas alunas formandas do Curso de Pedagogia da referida universidade, os docentes de EJA e alunos de EJA do Centro Estadual de Educação Básica. A técnica utilizada foi questionário aberto. Cada questionário foi apropriado à clientela a que se destinou e abordou a temática sobre a formação do professor e a prática do educador e do aluno na EJA. 
Depois de coletar as contribuições dos participantes por meio dos questionários, foi possível analisar os dados da pesquisa de acordo com a abordagem qualitativa, optou-se por esta abordagem pois, a flexibilidade constitui-se como marca no que se refere às técnicas de coleta de dados, bem como à sua interpretação, no entanto: 
É preciso esclarecer, antes de mais nada, que as chamadas metodologias qualitativas 
privilegiam, de modo geral, da análise de microprocessos, através do estudo das 
ações sociais individuais e grupais. Realizando um exame intensivo dos dados, tanto 
em amplitude quanto em profundidade, os métodos qualitativos tratam as unidades 
sociais investigadas como totalidades que desafiam o pesquisador. (MARTINS, 
2004, p.292)
A partir da abordagem qualitativa estabeleceu-se os seguintes eixos de análise: concepções sobre EJA na formação inicial; concepções sobre EJA na atuação profissional docente; concepções sobre EJA na atuação discente. 
A educação de jovens e adultos 
Podemos definir a Educação de Jovens e Adultos como sendo “Toda educação destinada àqueles que não tiveram oportunidades educacionais em idade própria ou que a tiveram de forma insuficiente, não conseguindo alfabetizar-se e obter os conhecimentos básicos necessários” (PAIVA, 1973, p. 16). 
Foram muitas as lutas e discussões sobre a Educação de Jovens e Adultos - EJA, uma modalidade que visa permitir o acesso de todos à educação, independentemente da idade ou classe social. Este direito está garantido na Constituição Federal de 1988 no artigo 208, onde assegura a educação de jovens e adultos como um direito de todos: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante garantia de: I – Ensino Fundamental, obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria”. 
A educação de Jovens e Adultos (EJA) é ofertado tanto no ensino presencial, como no ensino a distância (EAD), com o objetivo principal de democratização o ensino no Brasil e levar educação para todos os níveis sociais. No passado – ou até mesmo nos dias atuais para parte da população, a Educação de Jovens e Adultos era conhecida como supletivo. Hoje, o programa é dividido em duas etapas, com abrangência do ensino fundamental ao médio: 
1. EJA Ensino Fundamental: jovens a partir de 15 anos que não conseguiram completar o Ensino Fundamental, isto é, a etapa entre 1º e o 9º ano. Nesta fase, são inseridas no processo de ensino-aprendizado, estimulando novas formas de aprender e pensar. O tempo médio de conclusão é de dois anos. 
2. EJA Ensino Médio: direcionado aos alunos maiores de 18 anos que desejam retomar os estudos a partir do Ensino Médio. Completando a Educação Básica, prepara os estudantes para o ingresso em universidades, incluindo vestibular e Enem. O tempo médio de conclusão é de dois anos. 
O EJA permite que o aluno estude de forma presencial ou a distância. Na escolha presencial, o aluno tem que ir até à escola onde o curso é ministrado para frequentar as aulas, geralmente, no período noturno. Já a modalidade a distância é mais flexível e, por ela, o curso é feito pela internet ou com livros e apostilas fornecidos pela instituição em que o aluno se inscreveu. 
Formação de professores na Educação de Jovens e Adultos
Os profissionais da EJA necessitam de uma formação diferenciada, uma vez que muitos educadores infantilizam sua prática, confundindo a alfabetização de anos iniciais com alfabetização de jovens e adultos. Para Oliveira “elas são distintas e precisam de enfoques diferenciados, já que a opinião, a forma de agir de uma criança é totalmente diferente da forma de agir de um adulto”. (OLIVEIRA, 1999, p.59). 
A qualidade e sucesso no processo de ensino aprendizagem está especialmente atrelada à formação do professor e a sua qualificação, o Artigo 62, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB n° 9.394/96,determina que: 
 
A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em cursos de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal. (BRASIL, LDB 9394/96). 
O trabalho com pessoas jovens e adultas demanda do profissional não somente a formação inicial que deve ser em nível de graduação, mas também pode ser adquirida através da formação continuada.
Papel do professor de EJA 
O papel do professor é destacar a curiosidade, indagar a realidade, problematizar, ou seja, transformar os obstáculos em dados de reflexão para entender os processos educativos, que, como qualquer faceta do social, estão relacionados com seu tempo, sua história e seu espaço. 
Nesse sentido, como alerta Fonseca (2015), é fundamental que os professores
conheçam os saberes e as habilidades que os alunos desenvolvem em função do seu trabalho no dia a dia e no seu cotidiano; assim, cada vez mais, os professores da EJA têm de lidar com várias situações: a especificidade socioeconômica do seu aluno abaixa a autoestima decorrente das trajetórias de desumanização, a questão geracional, a diversidade cultural, a diversidade étnico-racial, as diferentes perspectivas dos alunos em relação à escola, as questões e os dilemas políticos da configuração do campo da EJA como espaço e direito do jovem e adulto, principalmente os trabalhadores. 
Portanto, a relação professor-aluno é fundamental para o processo de conscientização/libertação/conhecimento. Tudo que o professor faz em sala de aula influencia o desenvolvimento da apropriação dos conceitos. A maioria dos alunos de EJA vem de um longo e cansativo dia de trabalho e anos sem frequentar a escola; o professor precisa ter muita responsabilidade, dedicação e criatividade para que esses alunos sejam incentivados a permanecer na escola. 
O professor é o mediador e incentivador de cada aluno, e o bom relacionamento, preocupação e carinho com os alunos ajudam no seu desenvolvimento intelectual, incentivando-os a continuar frequentando as aulas. Criatividade, solidariedade e confiança são essenciais na relação entre o professor e o aluno de EJA. A autoestima elevada influencia na capacidade de todos de aprender e ensinar. 
Como trabalhar com a educação de Jovens e Adultos? 
Respeitar o tempo, a trajetória e a faixa etária dos alunos são essenciais para lidar com todos os alunos, mas, especialmente, com aqueles que retornam à escola na vida adulta.
Assim sendo, para trabalhar com a educação de jovens e adultos devemos levar em conta as trajetórias dos educandos, compreendendo que cada educando tem uma trajetória e, no momento de ensinar, deve-se considerar essas trajetórias e trazê-las para dentro da aula. 
Respeitar o tempo de cada um é essencial. Achar que todos aprenderão do mesmo modo ou no mesmo tempo levará ao desânimo daqueles que, por este ou aquele motivo, não conseguem acompanhar a turma. Não significa que esperaremos todos chegarem ao mesmo ponto, o que é igualmente um desastre. Significa sim que vamos estabelecer em nossa aula, plano, projeto, objetivos para que cada qual avance dentro de suas potencialidades e de acordo com o seu momento. 
Um risco muito comum (e frequente) é infantilizar os educandos. Isso acontece, às vezes, involuntariamente, na forma de falar com eles, de cobrá-los, ou ainda nos tipos de atividade que se propõe em sala de aula. Às vezes, esse é um movimento inclusive desejado pelo aluno, que traz consigo uma imagem da escola que não pôde frequentar quando criança. Mas o trato infantil também é um dos motivos que afastam os jovens e adultos da escola. 
Uma sala de EJA talvez seja a melhor amostra de como nossa sociedade é diversa. Haverá jovens que não se adaptaram à escola tradicional, jovens em conflito com a lei, pessoas com deficiência física e intelectual, homossexuais, travestis, transexuais, idosos, mulheres, negros, trabalhadores... Todos estão ali, fisicamente juntos no mesmo espaço e a postura e prática em sala de aula deve dialogar com todos. 
Os desafios enfrentados pelo educador de jovens e adultos 
Os educadores da EJA enfrentam inúmeros desafios no desenvolvimento de sua prática docente, como a heterogeneidade, a evasão, a juvenilização das turmas, a falta de materiais didáticos específicos, a baixa autoestima dos educandos, a rigidez institucional. Porém, em todas as situações, esses educadores apontam que vão buscando caminhos alternativos que favoreçam o processo de ensino, como criações próprias de cada uma diante das circunstâncias que vão enfrentando. 
Uma dificuldade em frequentar a escola é em função da sua realidade diária – problemas com o trabalho, familiares e domésticos. Di Pierro (2010, p. 35) explica essa dificuldade dos jovens e dos adultos em procurar ou mesmo em permanecer na escola:
[…] os jovens e adultos analfabetos ou com baixa escolaridade não acorrem com maior frequência às escolas públicas porque a busca cotidiana dos meios de subsistência absorve todo seu tempo e energia; seus arranjos de vida são de tal forma precários e instáveis que não se coadunam com a frequência contínua e metódica à escola; 
Outra causa são os alunos que chegam na 7ª ou nas 8ª séries, por exemplo, mas ainda com muita dificuldade em leitura e escrita e a heterogeneidade dos alunos em uma mesma turma. O educador tem alunos que já conseguem discutir um assunto no seu nível de ensino e outros que sabem muito pouco, precisando aprender coisas pontuais e básicas sobre o conteúdo. 
Mais uma situação desafiadora é a presença de alunos com liberdade assistida, que vão para a escola porque o juiz determinou, são obrigados a frequentá-la. 
Enfim, são inúmeras as causas que são próprias da realidade dos educandos da EJA, porém existem também algumas limitações por parte dos próprios educadores, no desenvolvimento do seu trabalho, por estarem vivenciando uma realidade nova e diferenciada, para a qual não foram preparados, como: 
• A prática de infantilização dos educandos, acarretada pelo hábito dos educadores em vivenciar uma realidade diversa, no ensino regular, em que atuam com crianças. 
 • A dificuldade dos educadores em conciliar os diferentes interesses dos educandos, conseguindo, com isso, motivá-los para o processo de ensino-aprendizagem. 
• A dificuldade de relacionar o conteúdo sistematizado com a vivência do educando, conforme a orientação existente para o trabalho com a EJA. 
Paulo Freire e suas contribuições para a EJA 
No Brasil, pensar em Educação de Jovens e Adultos é pensar em Paulo Freire. O mais célebre educador brasileiro, com atuação e reconhecimento internacionais, conhecido principalmente pelo método de alfabetização de adultos que leva seu nome, desenvolveu um pensamento pedagógico assumidamente político. Para ele, o objetivo maior da educação é conscientizar o aluno principalmente em relação às parcelas da população desfavorecidas. A educação freireana está voltada para a conscientização de vencer primeiro o analfabetismo político para concomitantemente ler o seu mundo a partir da sua experiência, de sua cultura, de sua história. Perceber-se como oprimido e libertar-se dessa condição é a premissa que Freire (2013, p. 31) defende: 
Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade referida. 
Freire mostra que é necessário na educação uma pratica da liberdade;quanto mais se problematizam os educandos como seres no mundo, mais se sentirão desafiados e responderão de forma positiva, ao contrário de uma educação bancária, domesticadora, que apenas ‘deposita’ os conteúdos nos alunos. Para Freire, "não há saber mais ou menos; há saberes diferentes" (2013, p. 49). Defensor do saber popular e da conscientização para a participação, Paulo Freire inspirou muitos movimentos sociais que lutaram em busca da equidade social. As premissas de Freire motivam até hoje ações da sociedade civil em prol da efetivação da cidadania. 
Considerações finais 
A educação de jovens e adultos encontra-se diante de antigos e novos desafios para melhorar a sua qualidade como um todo, dentro desses desafios, está a formação de professores para atuar nesta modalidade de ensino. Apesar de existir uma preocupação desde o início do século XX com a erradicação do analfabetismo no país, ainda existe uma grande parcela da população brasileira que é analfabeta e em decorrência disso acabam sendo excluídas da sociedade. 
A EJA enquanto modalidade educacional que atende alunos-trabalhadores deve ter por finalidade o compromisso com a formação humana e com acesso a cultura geral. Nesse sentido passa a propiciar ao educando o desenvolvimento da sua autonomia intelectual e moral. Tendo em vista este papel, a educação deve investir em uma formação que possibilite ao indivíduo aprender criticamente participando do trabalho e da vida coletiva, acompanhando a dinamicidade das mudanças sociais, partindo da utilização metodológica adequada de conhecimentos científicos tecnológicos e sócio-histórico. 
O grande desafio de ser professor consiste em buscar o conhecimento inovando sua prática, se capacitando para atender as demandas da realidade na qual educador e educando estão inseridos. É necessário que o professor não se restrinja apenas a sala de aula, mas perceba que ele é parte integrante e responsável da escola e, porque não, da própria sociedade. 
A escola, os professores, os estudantes universitários de Pedagogia, os educandos, os intelectuais de educação, o governo, a sociedade civil como um todo, devem refletir sobre a formação de professores para atuar na educação básica, na modalidade EJA, repensando políticas e práticas encontrando caminhos para melhorar e propiciar uma educação de qualidade para garantir o acesso a todos, sem distinção. É fundamental buscar uma formação de professores adequada a estes educandos, que trazem consigo uma rica experiência, que já têm uma história, uma cultura, um longo caminho percorrido. Todos os cidadãos têm direito a uma educação que não se limite apenas ao ensinar ler e escrever, mas sim, uma educação que propicie autonomia, capacitando seus alunos a participar de maneira crítica na sociedade. 
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