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Brasília-DF. Ramos da agRoecologia Elaboração Henrique Almeida Miranda Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APrESEntAção ................................................................................................................................. 4 orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5 introdução.................................................................................................................................... 7 unidAdE i HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA ........................................................................... 11 CAPítulo 1 PANORAMA HISTÓRICO .......................................................................................................... 11 CAPítulo 2 SuRGIMENTO ......................................................................................................................... 14 CAPítulo 3 A CONSOLIDAçãO COMO uM SISTEMA ................................................................................ 18 unidAdE ii O SISTEMA AGROECOLÓGICO ATuAL .................................................................................................. 25 CAPítulo 1 AGROECOLOGIA NA ATuALIDADE .......................................................................................... 25 CAPítulo 2 O SISTEMA DE PRODuçãO AGROPECuáRIA ECOLÓGICA NO BRASIL ..................................... 27 CAPítulo 3 CONfORMIDADE E CERTIfICAçãO ........................................................................................ 37 unidAdE iii OS RAMOS DA AGROECOLOGIA......................................................................................................... 58 CAPítulo 1 RAMO AGRONôMICO ........................................................................................................... 58 CAPítulo 2 RAMO AMBIENTAL .................................................................................................................. 62 CAPítulo 3 RAMO SOCIOECONôMICO .................................................................................................. 66 CAPítulo 4 RAMOS POLíTICO E LEGAL ..................................................................................................... 69 unidAdE iV O fuTuRO DA AGROECOLOGIA .......................................................................................................... 74 CAPítulo 1 PERSPECTIVAS DOS RAMOS DA AGROECOLOGIA ................................................................... 74 CAPítulo 2 ESTuDO DE CASO EM COMERCIALIzAçãO DE PRODuTOS AGROECOLÓGICOS ..................... 83 rEfErênCiAS .................................................................................................................................. 97 AnExo i ........................................................................................................................................ 100 ASPECTOS E OPORTuNIDADES PROfISSIONAIS ...................................................................... 100 AnExo ii ....................................................................................................................................... 101 GLOSSáRIO ......................................................................................................................... 101 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 introdução A Agroecologia estuda uma variedade de agroecossistemas, e o campo desta ciência não está associado com qualquer método particular da agricultura, seja orgânico, convencional, intensiva ou extensiva. Além disso, não é definida por certas práticas de gestão, tais como o uso de inimigos naturais no lugar de inseticidas, ou policultura no lugar de monocultura. Os agroecologistas não se opõem, por unanimidade, à tecnologia ou insumos na agricultura, mas sim defendem a avaliação da forma como, quando e se a tecnologia pode ser usada em conjunto com ativos naturais, sociais e humanos. Agroecologia propõe uma forma ao contexto ou local específico de agroecossistemas que estudam, e, como tal, reconhece que não há uma fórmula universal ou receita para o sucesso e o máximo de bem-estar de um agroecossistema. Em vez disso, pode-se estudar questões relacionadas com as quatro propriedades de agroecossistemas: produtividade, estabilidade, sustentabilidade e equidade. Ao contrário de disciplinas que estão preocupadas com apenas uma ou algumas dessas propriedades, agroecologistas veem todas as quatro propriedades como interligadas e essenciais para o sucesso desta prática, reconhecendo que essas propriedades são encontradas na variação de escalas espaciais, não se limitam ao estudo dos agroecossistemas apenas em escalas de fazenda, expandem-se para a comunidade local e para a sociedade em geral. O estudo da Agroecologia aborda as quatro propriedades através de uma lente interdisciplinar, utilizando ciências naturais para compreender elementos de agroecossistemas, como propriedades do solo e interações planta-inseto, bem como a utilização de ciências sociais para compreenderos efeitos das práticas agrícolas nas comunidades rurais, gargalos econômicos para o desenvolvimento de novos métodos de produção, ou fatores culturais que determinam as práticas agrícolas. Os praticantes e defensores da Agroecologia nem sempre concordam sobre o que a Agroecologia é ou deveria ser, a longo prazo. O entendimento sobre Agroecologia pode ser primeiro agrupado de acordo com os contextos específicos nos quais eles situam a agricultura. Agroecologia é definida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) como “o estudo da relação entre culturas agrícolas e meio ambiente.” (OCDE, 2016). Seguindo essa definição, um agroecologista estuda várias relações da agricultura com a saúde do solo, qualidade da água, qualidade do ar, meso e microfauna, flora circundantes, toxinas ambientais, e outros contextos ambientais. 9 A compreensão da ligação entre agricultura e ecologia abrange interações entre plantas, animais, seres humanos e o ambiente no interior dos sistemas agrícolas. Consequentemente, a Agroecologia é inerentemente multidisciplinar, incluindo fatores de agronomia, ecologia, sociologia e economia. Agroecologia também é definida de forma diferente de acordo com a localização geográfica. Na América Latina o termo muitas vezes carrega conotações abertamente políticas. Tais definições políticas do termo geralmente atribuem a ele os objetivos de justiça social e econômica; atenção especial, neste caso, é muitas vezes dada ao conhecimento da agricultura tradicional das populações indígenas. Os usos norte-americanos e europeus do termo, por vezes, evitam a inclusão de tais metas abertamente políticas. Nestes casos, a Agroecologia é vista mais estritamente como uma disciplina científica com objetivos sociais menos específicas. Os sistemas naturais, com a sua estabilidade e resiliência, fornecem o melhor modelo para atingir a sustentabilidade. Normalmente, os estudos denotam que a agricultura em larga escala é inadequada. A Agronomia tem fornecido importantes subsídios para compreender os processos pelos quais a agricultura se tornou insustentável. Muitos pesquisadores têm apontado o exaurimento do modelo adotado desde a Revolução Verde. Faz-se também uma crítica político-econômica da agricultura moderna. Algumas posições podem ser vistas no sentido de que somente mudanças radicais na economia e na política irão reduzir os custos negativos da agricultura moderna. A Agricultura e o sistema alimentar são considerados partes de um complexo institucional que se relaciona e se integra com outros ramos da ciência. Todas as cadeias de produção de alimentos integram vários aspectos que isoladamente não distinguem as necessidades de desenvolvimento ambientalmente correto e socialmente justo. Por isso a Agroecologia traz uma nova proposta de produção, alimentação e sustentabilidade. objetivos » Apresentar uma abordagem organizada sistematicamente da Agroecologia para facilitar a compreensão dos diversos dispositivos que integram a ecologia interna dos agroecossistemas, seus componentes sociais e culturais, incluindo nutrição e soberania alimentar, colheita genótipo-a-ambiente interações incluindo os de variedades de culturas transgênicas, e os (serviços ecossistêmicos) positivos e negativos (degradação dos ecossistemas) efeitos dos agroecossistemas no ambiente maior, especialmente climáticas. 10 » Apresentar um panorama histórico do surgimento e da evolução da Agroecologia. » Mostrar uma abordagem da situação atual. » Relacionar e descrever os ramos da Agroecologia. » Trazer algumas perspectivas futuras para a continuidade da sua aplicação. » Disponibilizar um caso prático de sucesso na implantação de um sistema agroecológico. » Relacionar aspectos da legislação pertinente ao tema. » Abordar a atuação e as oportunidades profissionais na área. 11 unidAdE i HiStÓriA E dESEnVolViMEnto dA AgroECologiA CAPítulo 1 Panorama histórico O desenvolvimento da agricultura teve um forte impulso quando a população mundial começou a migrar intensamente de áreas rurais para as cidades industriais que cresciam com a instalação de fábricas e de comércio. Este movimento substituiu a produção agrícola e pecuária de subsistência nas propriedades rurais familiares antigas pela massa de assalariados nas grandes cidades que foram forçadas a urbanizarem-se rapidamente, dado o rápido aumento populacional. O gráfico a seguir mostra a intensidade do crescimento populacional mundial ao longo dos últimos dois mil anos e o seu aumento substancial a partir de 1900, com a melhoria das condições de saúde, a urbanização e a industrialização, além da previsão até 2100. Pode-se denotar que a demanda por alimentos também cresceu de forma acelerada, ocasionando maior pressão sobre o meio ambiente. Gráfico 1. Crescimento populacional desde o ano 1 d.C. e perspectivas até o ano 2095. 0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 1 10 00 15 00 16 00 17 00 17 50 18 00 18 50 19 00 19 50 19 55 19 60 19 65 19 70 19 75 19 80 19 85 19 90 19 95 20 00 20 05 20 10 20 15 20 20 20 25 20 30 20 35 20 40 20 45 20 50 20 55 20 60 20 65 20 70 20 75 20 80 20 85 20 90 20 95 21 00 Bi lh õe s d e pe ss oa s Ano Crescimento da população mundial (em bilhões/ano) fonte: adaptado pelo autor (ONu, 2016). 12 UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA Muitos fatores podem ser apontados como incidentes na explosão demográfica mundial registrada nos últimos 200 anos. As famílias abandonaram o campo e a própria produção de alimentos e passaram a comprar aquilo que precisavam para suas refeições nos centros urbanos. Outro fator é a melhoria da qualidade de vida aliada aos avanços da medicina. Como consequência viu-se uma demanda também crescente por alimentos vendidos nas cidades recém-industrializadas. A produção de alimentos e bebidas deixou o caráter artesanal e de pequena produção para ser industrializada e produzida em grande escala com a especialização do seu comércio, panificadoras, açougues, restaurantes etc. De uma forma simplificada, o gráfico a seguir representa a teoria preconizada pelo economista inglês Thomas Robert Malthus, no final do século XVIII. De acordo com esta teoria, a população mundial cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos em progressão aritmética. Desta forma em algum momento da humanidade não haveria alimentos para toda a população. Esta teoria não foi comprovada, até o momento. Gráfico 2. Relação entre população e produção de alimentos da teoria Malthusiana. fonte: Geografia opinativa, 2016. A história retrata com precisão as mudanças sociais e econômicas ocorridas neste período, aproximadamente entre 1850 e 1900, principalmente na Europa e América do Norte. Este modelo industrial de trabalho assalariado foi consolidado após a abolição dos regimes de escravidão até então praticados. As fábricas, o comércio e próprio governo necessitavam cada vez mais de mão de obra. 13 HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I Já no início do século XX (1900 -...) podia-se comprar não apenas aqueles produtos típicos de propriedades rurais (carne, temperos, trigo, leite, verduras e frutas) como também produtos industrializados (pães, biscoitos, salsichas, iogurtes, doces). A indústria alimentícia produzia novos alimentos e novas formas de consumi-los. As roupas eram confeccionadas de forma padronizada e estavam disponíveis para venda nas grandes ruas de comércio, pois as famílias de migrantes não plantavam mais o algodão e nem usavam o tear para as peças individuais. O início do século XX foi marcado pela prosperidade. O dinamismo da economia movia mercadorias para outras cidades por ferrovias e até outros países por navios. A geração de riqueza pela indústria e comércio fez surgir grandes indústrias e criou novas profissões. A farta disponibilidade e diversidade de alimentos industrializados contrastava com os primeirosproblemas da urbanização acelerada: os horários a serem cumpridos, o tráfego de veículos, as habitações sem saneamento básico, a inflação dos preços e a criminalidade. Estava estabelecido o estilo de vida urbano, embora a maior parte da população ainda se encontrava no campo. O desenvolvimento da ciência foi o grande motor de sustentação do crescimento. Via-se pesquisa, desenvolvimento e inovação em todas as áreas do conhecimento. Não apenas conhecimentos industriais como também sociais e políticos em decorrência dos problemas da urbanização citados anteriormente. As duas grandes guerras mundiais foram o ápice dos conflitos e levaram países a disputarem territórios que trariam, segundo os tiranos, mais riqueza para sua nação. Este modelo de desenvolvimento deu sinais de saturação pouco antes dos anos 1950 e após a II Guerra Mundial (1939-1945) deu-se início à novas formas de produção, comércio e alimentação. No campo, a Revolução Verde cumpria seu papel de produzir mais alimentos para mais pessoas, mas cobrava seu preço: os primeiros sinais de poluição, intoxicação e desequilíbrio ambiental foram aparecendo. Surgiram vários movimentos sociais organizados para contrapor os malefícios que eram trazidos com a modernização e o progresso. Protestos nas ruas e principalmente grupos e associações eram formados por pessoas que compartilhavam o mesmo ideal e respeito ao ser humano, aos animais e à natureza. 14 CAPítulo 2 Surgimento A prática de uma agricultura baseada em princípios ecológicos se desenvolveu em várias partes do mundo a partir do início do século XX e recebeu diversas denominações, conforme a região ou os princípios aos quais se reportava, mais conhecidas globalmente sob a denominação de “Agricultura Orgânica”, já com um olhar crítico sobre os caminhos e as consequências de uma agricultura baseada e muito dependente da industrialização crescente do Pós-Guerra, da “modernização” pela Revolução Verde (HAMERSCHMIDT et al., 2005). A palavra Agroecologia foi utilizada pela primeira vez em 1928, em estudo de descrição das características de variedades de milho pelo agrônomo russo Basil Bensin (WEZEL et al., 2009). Ele usou esse termo para indicar a aplicação da ecologia à agricultura. No mesmo período, outros autores publicaram documentos ou livros que tratavam com os fundamentos da Agroecologia, mas sem mencionar a palavra. Vários pesquisadores adotaram o termo desde então e desenvolveram trabalhos ao redor do mundo nas décadas seguintes. Exemplos são Klages (1928), um engenheiro agrônomo dos EUA interessado no cultivo de plantas usando uma base fisiológica, e Azzi, um cientista italiano que publicou em 1928 um livro sobre “Ecologia Agrícola”, que estabeleceu a fundação de sua obra posterior (AZZI, 1942; 1956). O último livro, em particular, concentrado sobre os aspectos ambientais, como clima, solo, desenvolvimento e crescimento das plantas cultivadas. Ambos os cientistas, embora não utilizando o termo Agroecologia, podem ser considerados os pioneiros da disciplina. Entre os anos 1930 e 1960, diferentes outros trabalhos foram publicados e a expressão Agroecologia foi explicitamente utilizada. A partir da década de 1970, também como uma resposta à Revolução Verde e à consequente intensificação e especialização da agricultura, houve um crescente interesse pela ecologia aplicada à agricultura. Foi neste período que brotou o conceito de agroecossistemas, como ecossistemas aplicáveis e consolidados. A partir dos anos 1980, Altieri (1989), e mais tarde Gliessman (1997), começaram a definir Agroecologia com uma abordagem para proteger os recursos naturais e para projetar e gerenciar de forma sustentável, os agroecossistemas. Gradualmente a Agroecologia começou a contribuir para o conceito da sustentabilidade aplicada à agricultura. Neste período, o tema biodiversidade surgiu juntamente com publicações relacionadas. 15 HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I No decorrer do século XX, o significado da Agroecologia como uma disciplina científica evoluiu e sua identidade também mudou. A partir dos anos 1990, tornou-se também um movimento e uma prática. Neste período, o termo começou a ser utilizado para definir uma nova maneira de considerar a agricultura e suas relações com a sociedade, ou seja, um movimento. Ao mesmo tempo Agroecologia foi reconhecida como um conjunto de práticas que visavam desenvolver uma agricultura respeitadora do meio ambiente e sustentável em longo prazo, como uma alternativa à alta demanda por insumos da agricultura convencional. Atualmente a Agroecologia compreende um sistema com vários métodos e enfoques diferentes, como mostrados abaixo e definidos em seguida. figura 1. Métodos de agricultura alternativa. fonte: Planeta orgânico, 2016. a. Agricultura orgânica: é um processo produtivo comprometido com a organicidade e sanidade da produção de alimentos vivos para garantir a saúde dos seres humanos, razão pela qual usa e desenvolve tecnologias apropriadas à realidade local de solo, topografia, clima, água, radiações e biodiversidade própria de cada contexto, mantendo a harmonia de todos esses elementos entre si e com os seres humanos (AAO, 2016).1 b. Agricultura biológica: nome dado para a Agricultura Orgânica em Portugal. c. Agricultura biodinâmica: desenvolvida pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) que propõe uma forma livre e responsável de pensar, de perceber a realidade e de atuar, observando e respeitando o ser humano e a realidade na qual está inserido. Steiner, fundador da Antroposofia, colocou, 1 Definição segundo a Associação de Agricultura Orgânica (AAO). Disponível em: <http://aao.org.br/aao/agricultura-organica. php>. Acesso em: 6 de out. 2016. 16 UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA em 1924, a pedra fundamental espiritual do Movimento Biodinâmico, em forma de um ciclo de 8 palestras para agricultores (IRS, 2016).2 d. Agricultura natural: o método da Agricultura Natural foi idealizado por Mokiti Okada (Japão,1882-1955), como alternativa para os problemas decorrentes da prática da agricultura convencional, na década de 1930 (KORIN, 2016).3 Ao analisar o método agrícola convencional, Mokiti Okada manifestou uma profunda preocupação com o emprego excessivo de agroquímicos no solo. Observador dos princípios da natureza, criou o método da Agricultura Natural para resgatar a pureza do solo e dos alimentos, preservar a diversidade e o equilíbrio biológico e contribuir para a elevação da qualidade da vida humana e. Permacultura: segundo o grupo de estudos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é um sistema de planejamento para a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio com a natureza. Surgiu da expressão em inglês “Permanent Agriculture” criada por Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970. Propõe uma “cultura permanente”, ou seja, que visa a nossa permanência neste planeta em harmonia com a natureza (UFSC, 2016).4 f. Agricultura sintrópica: é um sistema que já existe há bastante tempo onde agricultores que desenvolvem a técnica não precisam usar agrotóxicos ou adubo, já que a própria natureza oferece os insumos para a produção. É baseado no cultivo dentro da floresta e em matas nativas ou recuperadas. Seu principal expoente é o pesquisador suíço, residente no Brasil, Ernst Götsch. Devido às diversas nomenclaturas e formas de agricultura não industrial convém chamar estes métodos de produção ecologicamente responsáveis como Agroecologia de forma a sintetizar os conceitos, princípios e sistemas de produção agrícola alternativa ao método convencional (agroquímico). O enfoque nos primeiros anos de popularização dos sistemas de produção da agricultura não industrial, trouxe intenso debate na Europa entre representantes das indústrias de insumos agrícolas e ativistas dos movimentos de agricultura alternativa. Os representantes da agricultura convencional argumentavamque essas denominações eram incorretas, pois, mesmo com o uso dos insumos industriais, os processos biológicos e os processos orgânicos não deixavam de acontecer. 2 Compilado do conteúdo disponível em: <http://institutorudolfsteiner.org.br>. Acesso em: 6 de out. 2016. 3 Segundo informações de divulgação em: <http://www.korin.com.br/empresa/agricultura-natural/>. 4 Disponível em: <http://permacultura.ufsc.br/o-que-e-permacultura/>. 17 HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I A Agroecologia é uma ciência emergente, orientada por uma nova base epistemológica e metodológica de práticas agrícolas. É um campo de conhecimento transdisciplinar que recebe influência do Direito, das ciências agrárias, sociais e ambientais (Ecologia). E como ciência interdisciplinar é regida por princípios comuns a outras áreas. Segundo Caporal (2004), como resultado da aplicação dos princípios da Agroecologia, pode-se alcançar estilos de agriculturas de base ecológica e assim, obter produtos de qualidade biológica superior. Mas, para respeitar os princípios, esta agricultura deve atender requisitos sociais, considerar aspectos culturais, preservar recursos ambientais, considerar a participação política e o empoderamento dos seus atores, além de permitir a obtenção de resultados econômicos favoráveis ao conjunto da sociedade, com uma perspectiva temporal de longo prazo, ou seja, uma agricultura sustentável. Os agroecologistas são praticantes de algum tipo de agricultura alternativa. Eles podem ser os agricultores, extensionistas rurais, funcionários de ONGs e do governo e políticos internacionais que trabalham com agricultura. Os atores da Agroecologia têm um espectro amplo de conhecimentos, da agricultura para a análise de políticas, de práticas de cultivo no campo e de modelagem dinâmica de pragas de plantas, não apenas saberes empíricos como também provados cientificamente. A agricultura sustentável, sob o ponto de vista agroecológico, é aquela que tendo como base uma compreensão holística dos agroecossistemas, seja capaz de atender, de maneira integrada, aos seguintes critérios: » baixa dependência de insumos comerciais; » uso de recursos renováveis localmente acessíveis; » utilização dos impactos benéficos ou benignos do meio ambiente local; » aceitação e/ou tolerância das condições locais, antes que a dependência da intensa alteração ou tentativa de controle sobre o meio ambiente; » manutenção em longo prazo da capacidade produtiva; » preservação da diversidade biológica e cultural; » utilização do conhecimento e da cultura da população local; » produção de mercadorias para o consumo interno e para a exportação. 18 CAPítulo 3 A consolidação como um sistema O desenvolvimento rural sustentável é o pressuposto para a construção de uma sociedade mais equilibrada, que busca utilizar pré-requisitos básicos para alcançar a sustentabilidade, apoiando-se, principalmente, na participação política dos atores envolvidos, permitindo a obtenção de ganhos econômicos, levando em consideração a qualidade de vida da geração presente e das gerações futuras. Nessa perspectiva, a participação da sociedade civil em Conselhos de Comunitários de Desenvolvimento contribui para a busca de uma sociedade mais justa e equilibrada, e se efetivamente constituídos, poderão imprimir novo formato às políticas sociais, estabelecendo nova relação entre Estado e sociedade civil. A proposta da Agroecologia se concretiza em um contexto de totalidade da sua aplicação. Portanto, incentivar o desenvolvimento de práticas isoladas pode tornar a perspectiva agroecológica incompleta num contexto espacial e temporal, transformando o desenvolvimento rural em proposta insustentável em longo prazo. Essa perspectiva holística da Agroecologia induz à redescoberta do local como espaço decisório e de mobilização da sociedade. Para melhor compreensão do conceito de local, deve estar clara a concepção de território como fração de espaço, de uso comum ou familiar, regulado política e administrativamente por normas próprias e acordadas. Nesse sentido, o local é o espaço socialmente construído, com base territorial definida (segundo critérios geoeconômicos, geopolíticos e geoambientais) para a criação e formação de identidades territoriais. Como defensores de alimentos orgânicos, agroecologistas podem assumir diversas identidades ao longo do tempo e da região. A história e evolução da agroecologia remonta a pelo menos a década de 1930, em termos de reconhecimento científico ocidental. Wezel et al. (2009) traça linhagens distintas da agroecologia com emergências separadas de “ciência” na Alemanha, “prática” na França, e “movimento” que ocorre ao lado de ciência e prática, tanto nos EUA quanto no Brasil, embora com ênfases diferentes (mais ciência nos EUA, mais prática e movimento no Brasil). A Agroecologia possui dimensões que preconizam os seus princípios. Tais dimensões aplicam-se a vários pressupostos de integração entre homem e seu ambiente. » Dimensão ecológica: manutenção e recuperação da base de recursos naturais. Constitui o aspecto central para se atingirem patamares crescentes 19 HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I de sustentabilidade em qualquer agroecossistema. Há necessidade de abordagem holística e de enfoque sistêmico, dando tratamento integral a todos os elementos do agroecossistema que venham a ser impactados pela ação humana. Enfim, uma noção de preservação e conservação da base dos recursos naturais como condição essencial para a continuidade dos processos de reprodução socioeconômica e cultural da sociedade em geral e da produção agropecuária em particular, numa perspectiva que considere tanto as atuais como as futuras gerações. » Dimensão social: representa, precisamente, um dos pilares básicos da sustentabilidade. A busca por melhores níveis de qualidade de vida mediante a produção e o consumo de alimentos com qualidade biológica superior, eliminando o uso de insumos tóxicos no processo produtivo agrícola, através de novas combinações tecnológicas, sociais e éticas. Dessa forma, originando novas formas de relacionamento da sociedade com o meio ambiente, estabelecendo conexão entre a dimensão social e a ecológica, sem prejuízo da dimensão econômica. » Dimensão econômica: a sustentabilidade de um agroecossistema também supõe a necessidade de se obterem balanços agroenergéticos positivos, compatibilizando a relação entre produção agropecuária e consumo de energias não renováveis. De acordo com a Economia Ecológica, a sustentabilidade pode ser expressada pela preservação da base de recursos naturais que são fundamentais para as gerações futuras. » Dimensão cultural: deve-se considerar a necessidade de que as intervenções respeitem a cultura local. Os saberes, os conhecimentos e os valores locais das populações rurais precisam ser analisados, compreendidos e utilizados como ponto de partida dos processos de desenvolvimento rural que, por sua vez, devem espelhar a “identidade cultural” das pessoas que vivem e trabalham em dado agroecossistema. Nesse sentido, a agricultura precisa ser entendida como atividade econômica e sociocultural, como prática social realizada por sujeitos que se caracterizam pela forma particular de relacionamento com o meio ambiente. » Dimensão política: o desenvolvimento rural sustentável deve ser concebido a partir das concepções culturais e políticas próprias dos grupos sociais. Deve considerar o diálogo e a integração com a sociedade maior, por meio de representação em espaços comunitários ou em conselhos políticos e profissionais, numa lógica que considere aquelas dimensões de primeiro nível como integradoras das formas de exploração e manejo sustentável 20 UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA dos agroecossistemas. Assim, deve-se privilegiar o estabelecimento de plataformas de negociação nas quais os atores locais possam expressar seus interesses enecessidades em igualdade com outros atores envolvidos, assegurando o resgate da autoestima e o pleno exercício da cidadania. » Dimensão ética: relaciona-se diretamente com a solidariedade entre gerações e com novas responsabilidades dos indivíduos em relação à preservação do meio ambiente. Dessa forma, exige pensar e tornar viável a adoção de novos valores, não necessariamente homogêneos. A dimensão ética da sustentabilidade requer o fortalecimento de princípios e valores que expressem a solidariedade sincrônica (entre as gerações atuais) e a solidariedade diacrônica (entre as atuais e futuras gerações). Essas dimensões básicas da sustentabilidade são elementos importantes para a identificação dos passos que venham a auxiliar o processo de construção de estilos de agricultura sustentável sob o enfoque agroecológico. A multidisciplinaridade da agricultura sustentável leva ao conhecimento agregado que promove um ciclo dinâmico de interações e perspectivas em contínuo desenvolvimento. É possível perceber uma linha com ações na qual se deve percorrer para se obter o sucesso na implantação ou transição para um sistema. A figura a seguir apresenta esta linha desenvolvimento. figura 2. Ciclo construtivo da Agroecologia. fonte: CRPBz, 2016. 21 HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I No início do século XXI, os princípios da agricultura orgânica foram discutidos por dois anos e revistos pela Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM), sendo aprovados em Assembleia Geral em 2005. O documento foi traduzido e está disponível no site oficial da IFOAM em 12 idiomas, mas não em português. O documento enfatiza que os princípios são as raízes pelas quais a agricultura orgânica deve crescer e se desenvolver. Dentre as oito áreas temáticas consideradas importantes para a construção de plataforma capaz de promover a identidade dos movimentos orgânicos, quatro foram descritas como princípios universais que guiam o desenvolvimento da agricultura orgânica: saúde, ecologia, equidade e precaução. Saúde O papel da agricultura orgânica deve ser o de sustentar e aumentar a saúde do solo, das plantas, dos animais, do homem e do planeta, seja por meio do manejo do solo, do processamento dos alimentos, da distribuição ou do consumo. Entende-se que somente em solo saudável é possível produzir alimentos que vão sustentar animais e pessoas de forma saudável, influenciando a saúde das comunidades que, por sua vez, não pode ser separada da saúde do ecossistema no qual se inserem. Assim, quaisquer substâncias, sejam adubos químicos, agrotóxicos, drogas veterinárias e aditivos para o processamento dos alimentos, que possam, de alguma forma, ter efeito adverso à saúde das pessoas, dos animais, das plantas ou do ecossistema devem ser evitadas. Ecologia A agricultura orgânica deve assentar-se nos ciclos biológicos, harmonizando e sustentando os sistemas ecológicos. Assim, a produção deve basear-se nos processos ecológicos e na reciclagem. As culturas, as criações e o extrativismo devem ajustar-se aos ciclos e balanços ecológicos da natureza. O manejo orgânico deve ser adaptado às condições locais, à ecologia da região, às tradições e cultura locais. Os insumos externos devem ser reduzidos através da reutilização, da reciclagem e do manejo eficiente dos recursos naturais, inclusive da energia, para que seja possível conservar esses recursos. A caça e a coleta devem observar um plano de manejo que não prejudique a sobrevivência da espécie. O balanço ecológico deve ser obtido por meio do desenho de sistemas de produção e do manejo da diversidade genética, tanto das plantas cultivadas como da cobertura vegetal em geral. Todos que participam da produção orgânica, como produtores, processadores, 22 UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA distribuidores e consumidores, devem proteger o ambiente, incluindo a paisagem, o clima, a biodiversidade, o ar e a água, mas também os homens e os animais. Equidade A agricultura orgânica deve basear-se em relações que garantam oportunidade de vida para todos e assegurem equidade em relação ao bem comum. A equidade é caracterizada pela igualdade, respeito, justiça e gestão responsável do mundo compartilhado, tanto entre os seres humanos como nas relações com os outros seres vivos. Assim, todos os envolvidos com a agricultura orgânica, sejam produtores, trabalhadores rurais, processadores, distribuidores, comerciantes e consumidores, devem conduzir as relações humanas sociais de modo a assegurar qualidade de vida e justiça a todos os envolvidos. A agricultura orgânica deve ter como objetivo produzir alimentos de qualidade em quantidade suficiente para contribuir para a redução da pobreza e para fortalecer a segurança alimentar. Esse princípio enfatiza que se deve proporcionar aos animais de criação condições de vida que estejam de acordo com a sua característica, seu comportamento natural e bem-estar. Além disso, os recursos naturais e ambientais devem ser usados na produção orgânica de forma ecologicamente sustentável e socialmente justa, devendo manter-se como legado para as gerações futuras. A equidade requer que os sistemas de produção, distribuição e mercado sejam justos e levem em conta os verdadeiros custos ambientais e sociais da produção. Precaução A agricultura orgânica deve ser planejada e desenvolvida de forma responsável e cuidadosa, de modo a proteger a saúde e o bem-estar das pessoas e das gerações futuras, bem como a qualidade do ambiente. Assim, deve procurar aumentar a eficiência e a produtividade sem colocar em risco a sustentabilidade dos agroecossistemas. O entendimento dos ecossistemas e agroecossistemas é ainda incompleto, devendo-se, portanto, tomar todo o cuidado. Precaução e responsabilidade devem permear as tomadas de decisão e as escolhas de tecnologias. As decisões devem refletir os valores e necessidades de todos que possam ser afetados, por meio de processo transparente e participativo. Os riscos devem ser evitados pela adoção de tecnologias apropriadas e pela rejeição de tecnologias imprevisíveis, como a engenharia genética. Atualmente, as normas da agricultura orgânica em vigor no comércio internacional dão ênfase às qualidades agronômicas e zootécnicas, deixando de valorizar outras 23 HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I qualidades que guardam forte apelo junto aos consumidores dos produtos orgânicos e “verdes”. Destacar essas e outras qualidades não implica negligenciar o que a ciência ensina a respeito da saúde, do ambiente ou sobre os riscos de segurança alimentar. Implica apenas reconhecer que as normas, mesmo as reguladoras na área da saúde e da segurança, têm dimensões normativas que não podem ser decididas somente em bases científicas. Procedimentos justos para integrar a ciência às normas culturais e morais devem ser adotados. Cientistas e negociadores (comerciantes e políticos) têm demonstrado, até agora, insensibilidade para a natureza problemática da tomada de decisões de regulação em qualquer uma das últimas dimensões citadas. Harmonizar normas internacionais implica negociar culturas e visões de mundo no seu senso mais fundamental. os sistemas agroalimentares Uma das definições mais completas da Agroecologia hoje é a “ecologia dos sistemas agroalimentares”. Ele tem o objetivo explícito de transformar sistemas alimentares para a sustentabilidade, de tal modo que exista um equilíbrio entre solidez ecológica, econômica viabilidade e da justiça social. No entanto, para alcançar esta transformação, a mudança é necessária em todas as partes do sistema de alimentação, ou seja, nas cadeias produtivas, a partir da semente até a mesa dos consumidores. O envolvimento deve ser por quem produz, quem distribui e quem consome; todos devem ser conectados em um movimento social que homenageia a profunda relação entre o meio ambiente, os alimentos e as pessoas. Nossa realidade globalizadaatual oferece com muita facilidade, o sistema de alimentos industrializados não fornece evidências convincentes de que é sustentável em qualquer um dos três aspectos da sustentabilidade (econômica, social ou ambiental). A profunda compreensão do que vem a ser uma visão holística e ecológica dos sistemas agroalimentares pode desencadear a mudança necessária para restaurar a sustentabilidade nos sistemas alimentares nas diversas regiões produtoras. Os agricultores têm a reputação de serem inovadores e experimentadores, adotando voluntariamente novas práticas quando percebem que algum benefício será adquirido, ainda mantendo os que provaram ao longo do tempo. Isto é especialmente verdadeiro para os pequenos agricultores ao redor do mundo. Mas ao longo dos últimos 50-60 anos, a inovação na agricultura tem sido impulsionada principalmente por um excesso de ênfase em altos rendimentos e lucros na fazenda com uma visão de curto prazo, resultando em retornos notáveis para alguns, mas muitas vezes à custa de uma série de efeitos colaterais ambientais e sociais negativos. 24 UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA Apesar da continuação de uma forte pressão para concentrar-se nos retornos econômicos, muitos agricultores estão dispostos a optar por fazer a transição para práticas que preservem os recursos naturais e têm o potencial de contribuir para a sustentabilidade a longo prazo para a agricultura. Estes produtores rurais estão usando princípios agroecológicos para fortalecer o conhecimento local, a experiência e as redes na agricultura que se acumularam ao longo dos séculos. Todos estes tipos de esforços representam a “transição” ou “transformação” da agricultura em sentido amplo. A transição para uma gestão baseada na ecologia está fundamentada nos princípios da Agroecologia. Estes princípios podem entrar em jogo inicialmente no processo real de mudar a forma como o alimento é cultivado. Agricultores que se dedicam ao processo de transição sabem, através da intuição, experiência e conhecimento, o que é insustentável e o que é, no mínimo, mais sustentável. 25 unidAdE iio SiStEMA AgroEColÓgiCo AtuAl CAPítulo 1 Agroecologia na atualidade A Agroecologia, ainda hoje, é considerada um campo de estudo novo que analisa os agroecossistemas, integrando conhecimentos da agronomia, ecologia, economia, sociologia, entre outros. Há aqueles que defendem a Agroecologia, não como uma disciplina, e sim sob um enfoque transdisciplinar, considerando a atividade agrária desde uma perspectiva ecológica com teoria e metodologia que utiliza várias disciplinas científicas, construindo uma vinculação essencial existente entre o solo, a planta, o animal e o ser humano. Atualmente a Agroecologia é caracterizada principalmente como um movimento sociopolítico, de empoderamento do agricultor em busca de sua identidade e raízes culturais. Ela é um mecanismo que oferece ao agricultor autonomia, poder de decisão e participação ativa no processo produtivo. Tudo isso acaba por favorecer o local como foco de ação. no mundo A institucionalização da agricultura orgânica no mundo teve início em 1972, com a criação da Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM) e a publicação de suas primeiras normas em 1978. As normas privativas da IFOAM serviram de referência para a comercialização dos produtos orgânicos no mundo até a década de 1990 e para o estabelecimento de outras normas locais e regulamentos técnicos em diferentes países. A França foi o primeiro país a regulamentar, ainda nos anos 1980. No início da década de 1990, foram criados os regulamentos técnicos para a produção orgânica de origem vegetal da Comunidade Econômica Europeia, à época o maior mercado de orgânicos. 26 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl No final da década, o Codex Alimentarius5 estabeleceu diretrizes para a produção orgânica de origem vegetal e em 2001, editou diretrizes para a produção animal. O Codex é a norma internacional que serve de referência para as negociações comerciais de alimentos nos acordos de barreiras técnicas ao comércio e medidas sanitárias e fitossanitárias da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para os não alimentos (têxteis e cosméticos) devem ser usadas as normas da IFOAM. Essas normas internacionais de referência são baseadas nas realidades, práticas e contextos específicos dos países de clima temperado e dos países de alta renda. Hoje existem mais de 80 países com alguma regulamentação da agricultura orgânica em algum estágio (implantadas ou em discussão). A pouca flexibilização das normas internacionais está refletida nos regulamentos técnicos nacionais, praticamente cópia das normas internacionais e regionais, que dificultam o comércio internacional de produtos da agricultura orgânica e também o desenvolvimento dos mercados locais em países de baixa renda da América Latina e Caribe e da Ásia. O estabelecimento em 2003, da Força Tarefa Internacional – FAO6/UNCTAD7/IFOAM para harmonização e equivalência das normas na agricultura orgânica mostra a necessidade de flexibilizar e buscar acordos de reconhecimento mútuo, embora respeitando as diversidades os diferentes países. Essa flexibilização deve começar pela busca da equivalência de objetivos regulamentares comuns na condução dos sistemas de garantia das qualidades orgânicas dos países cujos resultados são iguais, para satisfazer às necessidades de inocuidade e qualidade, bem como o imaginário dos consumidores e das autoridades competentes. A harmonização virá como consequência das negociações de diretrizes internacionais menos específicas e mais evolutivas. Há tendência de inclusão e aceitação dos sistemas participativos de garantia (SPG) em oito legislações dos países de baixa renda na América Latina e Caribe, na Índia e na Espanha. O reconhecimento dos SPG pela FAO, em sua 30ª Reunião Regional, que ocorreu em abril de 2008, em Brasília-DF, demonstra que esses mecanismos de avaliação da conformidade são adequados aos mercados internos e externos. 5 O Codex Alimentarius é uma coletânea de padrões reconhecidos internacionalmente, códigos de conduta, orientações e outras recomendações relativas a alimentos, produção de alimentos e segurança alimentar. Disponível em: <http://www.fao.org/fao- who-codexalimentarius/en/>. 6 A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla do inglês Food and Agriculture Organization) é uma organização das Nações Unidas cujo objetivo é aumentar a capacidade da comunidade internacional para de forma eficaz e coordenada, promover o suporte adequado e sustentável para a segurança alimentar e nutrição global. Sítio: <http://www. fao.org/brasil/pt/>. 7 A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) foi estabelecida em 1964, em Genebra, Suíça, atendendo às reclamações dos países subdesenvolvidos, que entendiam que as negociações realizadas não abordavam os produtos por eles exportados, os produtos primários. Sítio: <http://unctad.org/en/Pages/Home.aspx>. 27 CAPítulo 2 o sistema de produção agropecuária ecológica no Brasil No Brasil, a Agroecologia tem alcançado resultados significativos em algumas regiões. Isso acontece quando são desenvolvidos, simultaneamente e de forma integrada, aspectos sociais, culturais, econômicos e ambientais, principalmente junto aos agricultores familiares e às comunidades advindas de classes populares. A rica biodiversidade dos sistemas de produção, a pluriatividade e as formas de organização e acesso a mercados próprios, relacionados com os fatores socioeconômicos, ambientais e culturais e sua capacidade de garantir, em grande medida, a segurança alimentar e nutricional de nossa população, são características marcantes da agricultura orgânica e de base agroecológica brasileira. Nas últimas décadas, tivemos importantes avanços no campo do conhecimento agroecológico e orgânico, integrando os saberes tradicionais dos agricultores,assentados da reforma agrária, e dos povos e comunidades tradicionais com o científico, refletindo em diversas iniciativas de políticas públicas em setores do ensino superior e profissionalizante, no direcionamento da pesquisa e nos métodos e metodologias da extensão rural, bem como na ampliação das técnicas e tecnologias de suporte à transição agroecológica. Entretanto, diversos desafios ainda se apresentam para diminuir as fragilidades e garantir a sustentabilidade desses sistemas de produção. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em atenção a políticas de Agroecologia criou o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). O Planapo (BRASIL, 2016) busca integrar suas ações com o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e o Plano Nacional de Direitos Humanos, assim como o Código Florestal, o Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação e o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, a partir de processo de convivência, mitigação e adaptação, diminuindo a vulnerabilidade dos agricultores que se encontram em situação de fragilidade econômica e social no campo. No campo produtivo, o Plano avança ao propor mecanismos capazes de atender à demanda por tecnologias ambientalmente apropriadas, compatíveis com os distintos sistemas culturais e com as dimensões econômicas, sociais, políticas e éticas no campo do desenvolvimento agrícola e rural. Ao mesmo tempo, apresenta alternativas 28 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl que buscam assegurar melhores condições de saúde e de qualidade de vida para a população rural. Nesse sentido, o Planapo, orientado pelas diretrizes estabelecidas no referido Decreto estabeleceu os seguintes macro desafios: » ampliação do número de agricultores/as e produtores/as envolvidos/as com a produção orgânica e de base agroecológica; » incentivo ao registro, à produção e à distribuição de insumos adequados à produção orgânica e de base agroecológica; » fomento à conservação, ao manejo e ao uso sustentável dos recursos naturais; » contribuição para a organização de agricultores e agricultoras em cooperativas e redes solidárias, a ampliação das compras e subvenções e o número de pontos de venda de produtos; » ampliação da utilização de crédito e outras formas de financiamento e fomento para o custeio e implantação de infraestruturas produtivas e comerciais; » inclusão e incentivo à abordagem da Agroecologia e de sistemas de produção orgânica nos diferentes níveis e modalidades de educação e ensino, bem como no contexto das práticas e movimentos sociais, do mundo do trabalho e das manifestações culturais; » democratização da agenda de pesquisa e sua integração com a extensão, de modo a socializar o conhecimento agroecológico para técnicos/as, agricultores/as e produtores/as; » estímulo à agroindustrialização e a outras formas de agregação de valor aos produtos orgânicos e de base agroecológica; » ampliação do acesso de consumidores a informações e ao consumo de produtos orgânicos e de base agroecológica; » reconhecimento e fortalecimento do protagonismo dos/as jovens e das mulheres rurais na agroecologia e produção orgânica; » fortalecimento do papel das redes na articulação dos atores e na dinamização de ações relacionadas à produção orgânica e de base agroecológica. Mais informações sobre o programa: <https://www.mda.gov.br/sitemda/sites/ sitemda/files/user_img_19/BrasilAgroecologico_Baixar.pdf>. 29 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii figura 3. Logotipo do Planapo. fonte: Brasil, 2016. A Agroecologia como um todo, e neste caso na política pública brasileira deve ser encarada enquanto ciência, de maneira que ela se posicione em condições de contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas e para a transformação da agricultura brasileira. Assim, pode-se estabelecer medidas para o seu fortalecimento: » fortalecer a luta pela terra, de maneira que a reforma agrária seja o instrumento capaz de superar o latifúndio, a exploração do homem pelo homem e a produção de alimentos saudáveis para a população rural e urbana; » articular e ampliar o número de instituições de ensino superior para a formação de agroecólogos em nível de graduação e pós-graduação, em todo o território nacional; » manter a articulação junto ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) de maneira que as políticas para a agricultura familiar e de base agroecológica sejam reforçadas e aprimoradas; » criar e fortalecer programas governamentais que reforcem o papel da Agroecologia no processo da agricultura brasileira; » estimular a organização dos agricultores familiares para a produção e comercialização de produtos agroecológicos; » fortalecer o intercâmbio de experiências agroecológicas entre os agricultores familiares e suas entidades representativas; » incentivar o cooperativismo e a solidariedade como instrumentos de emancipação econômica e social; » incentivar a organização dos agricultores familiares para que se fortaleçam em busca de conquistas que garantam vida digna no campo. 30 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl Produção Estimativas da área total com produção orgânica no Brasil variam de acordo com a fonte consultada. Segundo dados da FiBL (Instituto Suíço de Pesquisa em Agricultura Orgânica) e da IFOAM, publicados em 2015, a área cultivada e as áreas de pastagem no Brasil totalizavam cerca de 887.637 hectares em 2013. Estima-se a área certificada, ou sob alguma forma de controle da conformidade com o manejo orgânico, em cerca de 6,6 milhões de hectares, incluindo as áreas de extrativismo sustentável na região amazônica. As áreas de agroextrativismo estão concentradas na região Norte e as de pecuária na região Centro-Oeste. Estimativas mostram que, em 2008, existiam 32,6 milhões de hectares certificados como orgânicos no mundo, dos quais 6,4 milhões encontravam-se na América do Sul, sendo a maior parte de pastagens nativas na Argentina e no Centro-Oeste brasileiro. Em 2006, os países com o maior número de unidades de produção orgânica certificadas eram o México (12 mil unidades), a Indonésia (45 mil unidades), a Itália (36 mil unidades), as Filipinas (35 mil unidades) e Uganda (34 mil unidades). As maiores áreas com culturas encontravam-se na Europa, seguida dos Estados Unidos (cereais, grãos, oleaginosas, vegetais flores e plantas medicinais). As áreas com culturas permanentes (olivas, café, frutas e nozes) representavam 37% na União Europeia, 35% na América Latina e Caribe e 21% na África. As áreas de pastagens representavam 57% na Oceania, 19% na América Latina e Caribe e 15% na União Europeia (PESAGRO, 2009). As áreas com produção orgânica certificada eram ocupadas por: cereais (1,295 milhão de hectares); pastagens e produção de proteína (1,166 milhão de hectares); culturas permanentes - oliveiras, frutas e nozes (0,555 milhão de hectares); óleo vegetal (0,97 milhão de hectares); uvas (0,95 milhão de hectares); legumes e verduras (0,92 milhão de hectares). Em 2006, o Brasil tinha cerca de 19 mil unidades controladas, que afirmavam seguir as práticas da agricultura orgânica, envolvendo pequenas e grandes unidades de produção e processamento. Dos projetos controlados, 70 a 80% eram conduzidos por agricultores familiares e/ou trabalhadores rurais, tanto para atender ao mercado interno quanto o de exportação. Os projetos conduzidos por agricultores familiares forneciam castanha (de caju e da Amazônia), frutas, legumes e verduras, café, cacau, mel, óleos essenciais (cosméticos) e algodão colorido, entre outros produtos, para os mercados interno e de exportação. Em 2007, o Projeto Orgânicos Brasil divulgou estudo com o mapeamento da área brasileira de produção orgânica certificada, de acordo com os dados de quatro 31 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii certificadoras que trabalham no Brasil (IBD, ECOCERT Brasil, IMO Brasil e BCS), todasacreditadas no mercado internacional. O resultado mostrou que existiam 932.120 hectares de produção orgânica certificada e 6.182.180 hectares de produção orgânica que inclui a base extrativista. Juntando-se as duas informações, o Brasil poderia ser considerado o segundo país do mundo em área de agricultura orgânica controlada. Os produtos de base extrativista no Brasil estão sendo estimulados por meio das cadeias de produtos da sociobiodiversidade, uma iniciativa coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e com apoio da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) no estabelecimento dos preços mínimos. Mercado O mercado mundial de produtos orgânicos certificados evoluiu com as vendas no varejo, estimadas em US$ 46 bilhões em 2006, US$ 33 bilhões em 2005, US$ 31,4 bilhões em 2004 e US$ 25 bilhões em 2003 (PESAGRO, 2009). Há expectativas de que esse mercado cresça 20% ao ano, atingindo US$ 60 bilhões em 2010 e US$ 100 bilhões em 2012. Os maiores mercados para os produtos orgânicos continuam sendo a União Europeia, os Estados Unidos e o Japão. Os produtos orgânicos comercializados incluem frutas e legumes frescos, nozes e frutas secas, especiarias, ervas, vegetais processados, cacau, óleos vegetais, doces, alimentos processados e bebidas de frutas. Itens não alimentares incluem algodão, óleos essenciais para cosméticos e flores de corte. Em 2006, na União Europeia, US$ 17 milhões em vendas estavam concentrados na Europa Ocidental, com Alemanha, Reino Unido, França e Itália sendo responsáveis por 75% das vendas regionais. A demanda por esses produtos na Suécia, Dinamarca e Holanda é relevante. Quanto aos canais de comercialização usados, encontram-se produtos orgânicos em lojas de conveniência e supermercados específicos, mas também nas grandes redes de varejo. No Reino Unido, ainda é grande a importação de produtos. Nos mercados internos dos países de baixa renda, são comercializados os excedentes da produção para exportação, muitas vezes como produtos convencionais, mas também frutas, legumes e verduras in natura, produtos de origem animal (leite de vaca e de cabra, carne de frango e ovos) produzidos nos arredores das grandes cidades e produtos processados em escala muito pequena. As principais oportunidades brasileiras de exportação são as frutas tropicais e os legumes e verduras na entressafra dos mercados importadores, além do algodão colorido naturalmente. Os óleos essenciais e outros 32 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl produtos do agroextrativismo sustentável orgânico também representam boas oportunidades de mercado. Embora a produção ocorra no mundo todo, a demanda permanece concentrada nos países de alta renda. A América do Norte e a União Europeia estão experimentando a escassez de fornecimento em face de a produção local não atender ao crescimento da demanda (que foi estimulado por políticas públicas e privadas e pelo medo quanto à inocuidade dos alimentos depois dos escândalos como o mal da vaca louca). Nos últimos anos, o crescimento da produção nos países de baixa renda foi de três dígitos, mas o mercado doméstico não cresceu. Os consumidores dos países de alta renda são os maiores compradores de alimentos orgânicos. Na realidade, em 2006, seis países do G7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) foram responsáveis por 84% das vendas globais de produtos orgânicos. No Brasil, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, em 2003, o mercado nacional era estimado em cerca de US$ 1 milhão, com crescimento de 20% ao ano. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Brasil exportou 19,5 mil toneladas de produtos orgânicos de janeiro a dezembro de 2007, gerando divisas da ordem de US$ 12,5 milhões. Em 2008, houve diminuição de 35% no volume de produtos orgânicos exportados e aumento de 3,70% no valor total recebido pelas exportações de orgânicos. Esses dados permitem concluir que houve melhor desempenho, pois, apesar da queda no volume exportado, os produtos tinham maior valor agregado. Os produtos exportados em maior volume foram a soja e derivados (76%), açúcar, mangas frescas, café, cacau e derivados. Os sete principais destinos dos produtos orgânicos brasileiros foram Holanda, Suécia, EUA, Reino Unido, França, Canadá e Noruega (PESAGRO, 2009) O mercado internacional absorve 70% da produção brasileira e registra taxa de crescimento da área duas vezes maior do que a média internacional. De acordo com a mesma fonte, o Brasil comercializou US$ 250 milhões em 2008. Esses dados são bem superiores (20 vezes) aos dados oficiais apresentados pela SECEX. O projeto Organics Brasil, em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), envolve 70 empresas associadas (de pequeno e grande porte), que faturaram US$ 58 milhões em 2008 com a venda de produtos orgânicos. Espera-se que, com a implantação da regulamentação da agricultura orgânica, os dados oficiais sejam compatibilizados. A oferta de produtos orgânicos provém de grandes empreendimentos, mas também de agricultores familiares organizados, tanto para o mercado externo quanto para o interno. A Rede Ecovida, no sul do País, que congrega agricultores familiares e pequenos 33 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii empreendimentos, comercializou, em 2003, cerca de US$ 15 milhões em produtos no mercado interno e externo, dos quais 66% em canais de venda direta (mercados institucionais, feiras e lojas de consumidores). Existem parcerias entre a empresa Friboi (maior produtora mundial de carnes bovinas, com matriz no Brasil) e a WWF (ONG internacional) para estímulo ao desenvolvimento da produção de carne bovina em sistemas de produção orgânicos. O maior produtor e maior exportador de açúcar orgânico do mundo é a Usina São Francisco, em Sertãozinho-SP, que detém mais de 50% da produção mundial de açúcar orgânico com a marca Native, processada na própria Usina. Esse projeto foi iniciado em 1996 e, em 2000, cultivava cana em 7.540 ha. O açúcar Native tem certificação internacional feita pela FVO para o mercado dos Estados Unidos e pela Ecocert para o mercado da União Europeia. O grupo se envolveu também com a comercialização de café e suco de laranja orgânico. Em 2008, cerca de 80% do faturamento da empresa correspondiam à exportação de 60 mil toneladas de açúcar a granel para fabricantes de alimentos. O preço médio do café praticado no mercado externo é de U$ 3,50 por kg e, no mercado interno, o valor médio é de US$ 1 a US$ 2 por kg. A Cia. Orgânica de Café vende 30% da safra de 1.500 sacas para o Japão, Emirados Árabes e Estados Unidos. O restante abastece lojas do Grupo Pão de Açúcar, com quatro tipos de café – grão, sachê, solúvel e em pó – e outros comércios varejistas. A recém-criada “holding” Bem da Terra aposta no mercado de café gourmet, entre outros produtos, ciente do desafio do crescimento: ter escala e baixar preço. Os produtos orgânicos estão presentes nos diversos canais de comercialização existentes, também explorados pelos produtos convencionais. Em 2004, de 611 canais de comercialização pesquisados pelo SEBRAE, os supermercados, seguidos das lojas/distribuidoras, eram os mais procurados na região Sudeste, enquanto na região Sul os mais procurados eram as feiras e depois os supermercados. Observou-se que, nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, era pequena a comercialização de orgânicos em todos os canais, representando somente 6% dos canais de venda de produtos orgânicos. Em 2008, a venda de alimentos isentos de agrotóxicos pelo Grupo Pão de Açúcar representou faturamento de R$ 40 milhões, com expectativa de que ultrapasse os R$ 50 milhões até o final de 2009. A implantação de alternativas (circuitos curtos de distribuição) aos processos tradicionais de comercialização vigentes (atacado e circuitos longos de distribuição via grande varejo) é condiçãopara que a agricultura orgânica venha a representar verdadeira e profunda transformação das condições de vida, de trabalho e de renda 34 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl dos agricultores familiares. Uma dessas iniciativas é a Cooperativa de Consumidores Ecológicos de Três Cachoeiras – COOPET, no município de Três Cachoeiras, cidade com cerca de 6 mil habitantes próximo à cidade de Torres-RS, que tem 100 membros. Lá, uma pequena loja da cooperativa fornece produtos orgânicos à população local que, antes, só via os produtos passarem embalados nos caminhões para venda nos grandes centros urbanos. Outra iniciativa são as cestas de produtos orgânicos para grupos organizados de consumidores, como funcionários de empresas, grupo de acadêmicos, moradores de bairros. É o caso da Rede Ecológica, no Rio de Janeiro, que funciona como grupos organizados de consumidores nos bairros. Em 2007, estavam em dois bairros e, em 2008, já eram oito bairros/localidades na cidade do Rio de Janeiro (Urca, Santa Teresa, Laranjeiras, Tijuca, Recreio e Freguesia) e cidades vizinhas (Niterói e Seropédica). Essa rede conta também com a participação de acadêmicos ligados às ciências naturais e sociais, ligados ao tema da Agroecologia e às relações campo-cidade/rural-urbano. Outra modalidade de venda direta usada pelos produtores são as cestas em domicílio. Em 2007, observava-se a tendência de as distribuidoras de produtos orgânicos, com sede no estado do Rio de Janeiro, estarem diminuindo a oferta aos supermercados e passando a fornecer ou aumentando o fornecimento das cestas em domicílio. Na quarta edição da Semana do Alimento Orgânico, que aconteceu em maio de 2008 em todo o país, numa parceria MAPA, MDA e MMA, a CPOrg-RJ distribuiu folheto divulgando mais de 20 pontos de venda de produtos orgânicos em feiras e lojas de produtos naturais em oito municípios do estado do Rio de Janeiro: Nova Iguaçu, Niterói, Campos, Nova Friburgo, Teresópolis, Casimiro de Abreu, Silva Jardim e Rio de Janeiro. Outros canais de comercialização que estão sendo construídos e estimulados são os mercados institucionais (merenda escolar, creches, hospitais, restaurantes). Existem políticas federais, estaduais e municipais de “aquisição dos orgânicos” estabelecidas a partir de 2003, com enfoque de segurança alimentar, que estimulam os mercados quanto à consciência dos produtores sobre o uso dos insumos e os consumidores sobre os benefícios de consumir alimentos orgânicos. Um exemplo é o PAA, parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e o MAPA, executado em âmbito estadual pela CONAB, através do qual as compras alcançaram US$ 7,993 milhões em 2005. Entre 2003 e 2007, por meio de estoques originários da agricultura familiar, doou 79,8 mil toneladas de produtos (feijão, farinha de mandioca, arroz em casca e milho em grãos, entre outros), usados em ações de suplementação alimentar para segmentos carentes da população, assistidos por 3.614 entidades de interesse público, em 1.514 municípios de 26 estados. 35 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii A CONAB comprava de cada agricultor familiar o valor total de R$ 3.500,00 em produtos para serem doados a organizações em situação de insegurança alimentar, pagando prêmio de até 30% no preço dos produtos orgânicos. Esse valor deve subir para R$ 4.500,00/família para os contratos a serem firmados em 2009 para entrega em 2010. O programa é justificado por preservar a biodiversidade e a sustentabilidade ambiental no gerenciamento dos sistemas, mas também promove a agricultura orgânica controlada pelos seus efeitos benéficos à segurança alimentar com a oferta de produtos orgânicos a outros segmentos da sociedade. Apesar de a região Sudeste ter a segunda maior participação no PAA no período 2003- 2007, no Estado do Rio de Janeiro, somente três contratos foram firmados em 2007 com a CONAB/SUREG-RJ para fornecimento ao PAA em 2008. Na esfera municipal, o PAA é operado diretamente pelas prefeituras, em parceria com o MDS. A prefeitura de Nova Iguaçu-RJ, por vontade política, adquiriu produtos orgânicos para a merenda escolar da associação de agricultores familiares que produzem hortaliças orgânicas em faixas de dutos da Petrobras e contam com apoio técnico do Instituto Terra e recursos daquela empresa petrolífera. Em fins de 2008, a Associação dos Produtores Orgânicos de Petrópolis (APOP), que congrega produtores da comunidade do Brejal, com apoio da Associação de Agricultores Biológicos (ABIO) e dos Escritórios Locais da EMATER-RIO em Nova Friburgo e em Petrópolis, firmou contrato com a CONAB/SUREG-RJ para que 10 dos seus membros entregassem produtos orgânicos ao PAA em 2009, na modalidade –Doação Simultânea, em parceria com o Banco de Alimentos e Colheita Urbana, responsável pelo transporte dos alimentos até os beneficiários finais (organizações em situação de insegurança alimentar). A oferta de produtos da região na merenda, além de estimular a geração de emprego e renda, favorece a manutenção do hábito alimentar baseado na cultura local. Foi o que fez a Cooperativa Grande Sertão, em Minas Gerais, com produtos processados do extrativismo sustentável, com a venda para o PAA e entrega nas merendas escolares e nos mercados locais. Essas iniciativas contam também com o apoio do programa da Secretaria de Desenvolvimento do Território do MDA e com cooperação internacional (movimento Slow Food, ligado à gastronomia). Em Brasília-DF, o mercado de orgânicos funciona na CEASA, em sistema cooperativo entre os produtores (SINDIORGÂNICOS – Sindicato dos Produtores Orgânicos) e em parceria com diversas instituições como sistema profissionalizado, dispondo de recursos que permitem gestão moderna e competitiva para atender aos consumidores. Os principais produtos oferecidos incluem hortifrutigranjeiros, leite e laticínios, além de sucos, café, achocolatados e geleias. 36 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl O desafio é fornecer produtos da agricultura familiar e, se possível, produtos orgânicos para a merenda escolar, pois o marco legal fala de alimentação saudável, alimento orgânico e agroecológico. Resumidamente, o tipo de canal a ser utilizado pelos produtores dependerá do seu nível de organização e de relacionamento com o ambiente externo, da existência de grupos organizados, dos tipos de produtos existentes e das épocas do ano, de acordo com as exigências de cada canal de comercialização ou de consumidores organizados, além dos recursos financeiros disponíveis. Fica clara a importância da organização dos produtores em grupos para negociar coletivamente com a municipalidade os apoios necessários para desenvolver o mercado local de produtos orgânicos visando atender à população. A parceria com escolas técnicas, universidades, institutos de pesquisa e organismos de assessoria técnica é importante para a construção das redes de conhecimento agroecológico e dos critérios de controle das qualidades orgânicas. A proximidade com o poder legislativo favorecerá a implantação de políticas adequadas às realidades locais. 37 CAPítulo 3 Conformidade e certificação Para a produção de alimentos por meio da Agroecologia é preciso seguir algumas etapas uniformizadas que irão conferir um atestado de qualidade ao produto, a certificação pelo processo de conformidade. Segundo Gliessman (2014) são estabelecidos 5 níveis de transição por pequenos passos em direção ao objetivo final da sustentabilidade. Os três primeiros níveis de conversão para um sustentável têm foco no sistema alimentar na escala da fazenda. Dois níveis adicionais ultrapassam a escala fazenda. Os três primeiros níveis nos ajudam a descrever os passos que os agricultores realmente tomam na passagem de agroecossistemas industriais ou convencionais, e todos os cinco níveis em conjunto servem como um mapa delineando um processo de mudança evolutiva para todo o sistema alimentar global. nível 1 Aumentar a eficiência das práticas industriais/convencionais,a fim de reduzir o uso e consumo de insumos caros, escassos ou prejudiciais para o ambiente. O objetivo dessa abordagem é a utilização de insumos de forma mais eficiente, para que menos insumos sejam necessários e ainda uma gradual redução de impactos negativos. Esta abordagem tem sido a principal ênfase de algumas pesquisas da agricultura convencional, por meio do qual foram desenvolvidas inúmeras tecnologias e práticas agrícolas. Exemplos incluem o espaçamento ideal das culturas e densidade, melhores máquinas, monitoramento de pragas para melhorar a aplicação de pesticidas, melhor gestão do tempo das operações e agricultura de precisão para a dosagem correta de fertilizante e baixo consumo de água na irrigação. Embora esses esforços busquem reduzir os impactos negativos da agricultura convencional, eles não ajudam a quebrar a dependência de insumos externos. nível 2 Substituição de insumos industriais e práticas convencionais, substituindo-os por práticas alternativas. O objetivo neste nível de transição é substituir produtos e práticas de uso intensivo de recursos degradantes por aqueles que são mais ambientalmente benignos. Exemplos de práticas alternativas incluem o uso de plantas de cobertura fixadoras de nitrogênio e rotações para substituir fertilizantes nitrogenados sintéticos, 38 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl o uso de agentes de controle biológico em lugar de pesticidas, e a mudança para preparo de solo reduzido ou mínimo. Neste nível, a estrutura básica do agroecossistema não é muito alterada, portanto, muitos dos mesmos problemas que ocorrem em sistemas industriais convencionais, também podem ocorrer. nível 3 Redesenhar o agroecossistema para que ele funcione com base em um novo conjunto de processos ecológicos. Neste nível, mudanças fundamentais na concepção geral do sistema buscam eliminar as causas de muitos dos problemas que ainda existem nos níveis um e dois. Assim, em vez de encontrar formas mais sólidas de resolução de problemas, os problemas são impedidos em primeiro lugar. Estudos de reconversão de todo o sistema permitem uma compreensão dos fatores limitantes de rendimento no contexto da estrutura e função agroecossistema. Um exemplo é a diversificação da estrutura das explorações agrícolas e de gestão por meio do uso de rotações, cultivos múltiplos e sistemas agroflorestais. nível 4 Reestabelecer uma ligação direta entre aqueles que cultivam os alimentos e quem o consome. A transição ocorre dentro de um contexto cultural e econômico, e nesse contexto, deve apoiar a mudança para práticas mais sustentáveis de ambos. Em nível local, isso significa que os consumidores valorizam produtos cultivados localmente e usam seu dinheiro de forma mais racional. Este apoio se transforma em uma espécie de “cidadania alimentar” e torna-se uma força para a mudança do sistema alimentar. Quanto mais essa transformação ocorre em comunidades ao redor do mundo, mais perto caminhamos para a construção da nova cultura e economia da sustentabilidade que é o pré-requisito para atingir o nível cinco. nível 5 Sobre os fundamentos criados na escala da fazenda sustentável em agroecossistemas de nível três e as relações alimentares sustentáveis de nível quatro. Busca-se construir um novo sistema global de alimentos, com base na equidade, participação e justiça, que não só é sustentável, mas também ajuda a restaurar e proteger os sistemas de suporte de vida da Terra. Ao contrário de níveis de um a quatro, o nível cinco implica mudar o escopo global que atinge tão profundamente a natureza da civilização humana que transcende o conceito de “transição”. No entanto, o caminho para o nível cinco passa necessariamente pela escala da fazenda. 39 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii Em termos de pesquisa, agrônomos e outros cientistas têm feito um bom trabalho para adaptação dos processos de transição em suas regiões. O trabalho com a ética e a economia da sustentabilidade fornece a base para o tipo de pesquisa e ação baseados na comunidade. As pesquisas desenvolvem técnicas locais mas focam em eventos globais. Seguidos os níveis acima, o produtor pode procurar uma forma de certificação da sua produção. Após o nível de implantação da agricultura orgânica, o produtor que não se encaixar na modalidade de venda direta por agricultores familiares com certificação facultativa e quiser fazer uso no Brasil da denominação produto orgânico ou outro similar, terá de estar cadastrado no Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SISORG). Os mecanismos de avaliação da conformidade reconhecidos no SISORG devem dar garantias aos clientes e consumidores sobre as qualidades orgânicas e de que seguem os regulamentos técnicos da agricultura orgânica. São dois mecanismos: a certificação e os Sistemas Participativos de Garantia. Portanto, os produtos têm de ser submetidos ao controle feito por um OAC (Organismo de Avaliação da Conformidade) ou OPAC (Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade). Desde a década de 1970, organizações de produtores e consumidores, além de técnicos, desenvolvem práticas seguindo os princípios da agricultura orgânica. Em 1994, iniciou-se a discussão para a regulamentação da agricultura orgânica no país, que foi oficialmente reconhecida em maio de 1999. Em dezembro de 2003, foi publicada a Lei no 10.831, definindo e estabelecendo condições obrigatórias para a produção e a comercialização de produtos da agricultura orgânica. Em julho de 2004, foi editada a Portaria no 158, do MAPA, que trata da Comissão Nacional para a Produção Orgânica (CPOrg-RJ) e das Comissões da Produção Orgânica nas Unidades da Federação (CPOrg -UF), criadas com a função de executar o programa Pró-Orgânico. Em março de 2004, foi criada a Câmara Setorial de Agricultura Orgânica (CSAO) como órgão consultivo de apoio às políticas públicas do MAPA. É composta por membros do governo e da sociedade civil. Foi na CSAO que aconteceram as discussões, elaboração, aprovação e regulamentação da Lei no 10.831. Os textos do Decreto e das Instruções Normativas foram construídos, durante os anos de 2004, 2005 e 2006, por técnicos de diferentes ministérios em parceria com diversos segmentos da sociedade civil ligados à agricultura orgânica, sob a coordenação do MAPA. Após a tramitação pela Casa Civil e demais ministérios envolvidos (MAPA, MDA, MMA, MS e MDIC), e após a aprovação das alterações pela CSAO, em agosto de 2007, 40 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl o Decreto no 6.323 foi publicado no Diário Oficial da União, em 28 de dezembro de 2007. Os regulamentos técnicos específicos (portarias e instruções normativas) para cada atividade e setor foram objeto de consulta pública em maio de 2008. No mesmo ano, a CSAO passou a ser chamada de Câmara Técnica da Agricultura Orgânica (CTAO) e mudou suas representações (novos mandatos, inclusão e exclusão de membros). As cinco Instruções Normativas específicas, que regulamentam a atividade da agricultura orgânica de acordo com a Lei no 10.831 e com o Decreto no 6.323, foram publicadas em 2008 e 2009. Em outubro de 2008, a Instrução Normativa no 54, que trata das Comissões da Produção Orgânica, em dezembro de 2008, a Instrução Normativa no 64, dos Sistemas Orgânicos de Produção Primária – animal e vegetal. Em maio de 2009, as Instruções Normativas no 17, do Extrativismo Sustentável Orgânico; no 18, do Processamento e no 19, dos Mecanismos de Controle e Informação da Qualidade Orgânica, sendo a IN 17/2009 e a IN 18/2009 conjuntas com o MMA e o MS, respectivamente. Em julho de 2009, foi publicado o Decreto no 6.913/2009, que trata dos produtos fitossanitários com uso aprovado para a agricultura orgânica. As possibilidades de acesso dos produtos da agricultura orgânica ao mercado brasileiro estão previstas na Lei no 10.831, nos Decretos no 6.323 e no 6.913 e nas Instruções Normativas no 54 e no 64, no 17, no 18 e no 19. No Brasil, podem ser trêsos mecanismos de controle para a garantia da qualidade orgânica. O primeiro mecanismo diz respeito aos agricultores familiares, que deverão atender aos requisitos estabelecidos para a venda direta sem certificação, porém como membros de uma Organização de Controle SOCIAL (OCS). Os outros dois mecanismos são para a venda direta por produtores não familiares e para a venda indireta, sendo que todos deverão atender aos requisitos estabelecidos pelo Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SISORG). O SISORG é integrado por órgãos e organizações da administração pública federal e pelos Organismos de Avaliação da Conformidade (OAC) credenciados pelo MAPA. Os OACs são pessoas jurídicas, de direito público ou privado, responsáveis pela verificação da conformidade dos processos produtivos avaliados em relação à regulamentação da produção orgânica, tanto na certificação como nos SPG (art. 6o, parágrafo único da IN 19/2009). A seguir são demonstrados os três procedimentos reconhecidos pela regulamentação da agricultura orgânica no Brasil que podem ser acessados, dependendo do canal de comercialização usado (venda direta ou indireta) e do tipo de fornecedor (agricultor familiar ou não). Segundo o glossário do Decreto, entende-se que o agricultor familiar, na venda direta, deve vender apenas para a pessoa física ou jurídica que vai consumir 41 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii o produto, ou seja, o consumidor final. Se, por exemplo, o agricultor familiar vende laranjas em uma feira para uma pessoa física que vai se alimentar daquele produto, trata-se de venda direta porque quem comprou o produto vai consumi-lo. Se o agricultor familiar vende laranjas para o governo, que doará o produto a hospitais e creches ou vai utilizá-lo na merenda escolar, sem vendê-lo, essa modalidade também pode ser classificada como venda direta. Também se considera venda direta se grupos possuem pontos coletivos de comercialização para o consumidor final. O preposto – que pode, direta ou indiretamente, auxiliar o agricultor familiar na comercialização. Essa figura idealizada pela lei da agricultura orgânica e materializada no art. 96 § 1o de sua regulamentação não pode ser comparada ao preposto, em sentido mais amplo, adotado pelo direito civil, nem àquele idealizado pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC). O CDC, em seu artigo 34, dispõe que “o fornecedor do produto ou serviço é solidariamente responsável pelos atos de seus prepostos ou representantes autônomos”. Na visão da lei da agricultura orgânica e na sua regulamentação o preposto não pode ser um empregado, mas, tão somente, um membro da família do próprio agricultor familiar, outro agricultor familiar ou membro da comunidade envolvido na estrutura organizacional. Quanto à responsabilidade civil sobre a qualidade do produto, esta recairá sobre o agricultor e nunca sobre o preposto, salvo as previsões legais, que aqui não cabe comentar. Como hipótese, cita-se o caso de um grupo de agricultores familiares pertencentes a uma associação informal em que um deles possui meio de transporte e, por isso, fica incumbido de transportar as mercadorias produzidas pelos outros agricultores para a feira local, bem como de vendê-las. É o caso típico idealizado pela lei, ou seja, os agricultores familiares organizados se ajudam mutuamente e, mesmo que o agricultor não possa acompanhar seu produto, alguém do grupo poderá fazê-lo, sem obter remuneração. Dessa forma, a venda direta pode ser feita pelo próprio agricultor familiar, por familiar ou por membro da estrutura organizacional (preposto) em que está inserido, pois a garantia perante o consumidor continuará sendo o controle social. A garantia da conformidade perante os regulamentos técnicos da agricultura orgânica se dá pela atuação do agricultor familiar frente aos consumidores, não sendo necessária uma terceira parte para garantir a qualidade orgânica, como ocorre, por exemplo, na certificação. Os documentos usados para garantir a conformidade dos produtos orgânicos na venda direta são: Declaração de Cadastro de Produtor vinculado à OCS; Termo de Compromisso com a Garantia da Qualidade Orgânica, preenchido e assinado por todos os membros da OCS comprometendo-se a cumprir as regulamentações técnicas da 42 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl agricultura orgânica; e Declaração de Cadastramento da OCS no MAPA ou em órgão fiscalizador conveniado (estadual ou federal). Os órgãos fiscalizadores responsáveis pelo cadastramento e acompanhamento das OCS são as Superintendências Federais de Agricultura – SFAs nas Unidades da Federação ou mediante convênio com outros órgãos da esfera federal, estadual ou distrital. A OCS deverá atualizar, pelo menos uma vez por ano, as listas dos principais produtos e quantidades estimadas de produção por unidade de produção familiar. Os dados dos produtores vinculados à OCS, atualizados periodicamente no órgão fiscalizador conveniado, alimentarão o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO). Para comprovar a condição de agricultor familiar, a OCS deverá apresentar a Declaração de Aptidão (DAP) de cada produtor, emitida pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER, pelo Instituto Nacional de Colonização e reforma Agrária – INCRA ou por organização de assistência técnica e extensão rural autorizada (no Rio de Janeiro, a União das Cooperativas – UNACOOP a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio de Janeiro – FETAG-RJ). Além de permitir a visita de consumidores e da fiscalização, a OCS deve informar sobre os procedimentos usados para o controle social da produção e da comercialização, de forma a garantir que todos estejam cumprindo as regulamentações da agricultura orgânica e a assegurar a rastreabilidade dos produtos. A participação da sociedade pode se dar como consumidor, na compra e nas visitas às unidades de produção, ou como membro da OCS, conforme previsto na regulamentação. O art. 21 da IN no 54/2008, que trata das atribuições das comissões, e a IN no 19/2009 não abordam a participação das CPOrgs-UF no processo de credenciamento da OCS. Outras possibilidades que favoreceriam o controle social com diminuição de custos e aumento da confiança nos produtos orgânicos de agricultores familiares submetidos ao controle social não foram incluídas pelos reguladores, como a possibilidade de os órgãos fiscalizadores municipais participarem do credenciamento das OCS e a possibilidade de as CPOrgs-UF darem parecer sobre o credenciamento das OCS. Credenciamento dos oACs e dos oPACs Os OACs deverão ser credenciados pelo MAPA. No caso das certificadoras, o credenciamento será precedido pela acreditação segundo a norma ISO65, do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO). O credenciamento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPAC) responsáveis por um SPG será precedido por auditoria realizada pela Coordenação de Agroecologia – COAGRE/MAPA. 43 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii De acordo com o art. 8o da IN no 19/2009, a solicitação de credenciamento dos OACs deve ser feita à Superintendência Federal da Agricultura (SFA) da unidade da federação onde estiverem sediados, devendo estar definido o escopo em que vai atuar. Naquele órgão, o Serviço de Política e Desenvolvimento Agropecuário (SEPDAG) fará a verificação completa da documentação (art. 9o). Embora haja 12 escopos possíveis, ainda não há regulamentos específicos, por exemplo, para têxteis, cosméticos e aquicultura. Certificadoras Para se estabelecer o sistema de avaliação de conformidade – do qual a certificação pode ser um componente – cada país é responsável por implantar seu mecanismo de acreditação de organismos de certificação, laboratórios, auditores etc. Esse mecanismo é responsável por garantir a independência, objetividade, imparcialidade e segurança das atividades de avaliação da conformidade feito pelas certificadoras.A norma ISO65, que trata da acreditação de organismos de certificação de produtos, processos e serviços, é internacionalmente aplicada e usada na agricultura orgânica, referenciada textualmente pelos regulamentos, com ou sem adaptações. No âmbito dos blocos comerciais ou nos países, podem existir normas de acreditação de certificadoras adaptadas às realidades locais. A IFOAM criou uma acreditadora orgânica (IOAS) específica do setor que controla a aplicação do seu Programa de Garantia, no qual está o Programa de Acreditação das Certificadoras. A IOAS é acreditada pela ISO para usar a norma ISO65. Dos organismos de certificação que trabalham para a agricultura orgânica, cerca de 1/3 é acreditado pela norma ISO65. Em 2003, havia 364 certificadoras listadas pela IFOAM. Em 2004, eram 385 e, em 2005, 419 organizações. Em 2006, porém, a lista baixou para 395 certificadoras, o que pode ser explicado pelas mudanças na regulamentação de alguns países como o Japão e pelas exigências de registro em outros países, além das fusões de pequenas certificadoras. O Brasil possuía, em 2003, 18 organizações realizando o controle da produção orgânica. Entretanto, sabe-se que, naquele ano, havia mais de 30 organizações realizando o controle. Desde então, pequenas certificadoras de produtos orgânicos fecharam (AAOCert-SP e Fundagro-SC), outras pensam em se fundir num único organismo com atuação mais abrangente para racionalizar custos e se verifica, também, a entrada de certificadoras tradicionais não específicas de orgânicos (TECPAR- PR). No Brasil, o credenciamento das certificadoras está normalizado no art. 7, § 1o e 2o da IN no 19 e compreende duas fases. Na fase 1, a certificadora faz a solicitação para auditoria 44 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl conjunta com o INMETRO, conforme o art. 23 da IN no 19/2009 e formulário próprio. Na fase 2, a certificadora apresenta o documento de acreditação e novo formulário de solicitação de credenciamento ao SEPDAG/SAF da unidade da federação em que estiver sediado, que os enviará à COAGRE/MAPA. Após ouvir as CPOrgs-UF, a COAGRE emitirá a Declaração de Credenciamento do OAC e a autorização para usar o selo do SISORG. figura 4. Selo de conformidade do Ministério da Agricultura – SISORG. fonte: Brasil, 2016. organismos participativos de avaliação da conformidade O OPAC que se interessar em ser credenciado pelo MAPA, para que os produtores e outros atores vinculados ao SPG possam comercializar os produtos como orgânicos controlados e usarem o selo do SISORG, deverá entregar a solicitação de credenciamento ao SEPDAG/SAF da unidade da federação em que estiver situada a sua sede, acompanhada dos seguintes documentos: listas das unidades de produção, CNPJ, atos constitutivos do OPAC (estatutos, regimentos internos e contrato social) e manual de procedimentos do OPAC. O credenciamento do OPAC é precedido por auditoria da COAGRE/MAPA. Após ouvir as CPOrgs-UF, a COAGRE emitirá a Declaração de Credenciamento do OAC e a autorização para usar o selo do SISORG (arts. 10, 11 § 1o e 12). Como não há norma internacional de referência para o monitoramento de um SPG, o MAPA está elaborando um manual. O prazo para a adequação do OPAC aos regulamentos estabelecidos, ou seja, para o credenciamento dos OPACs que já atuam na rede de produção orgânica. O produto de fornecedor certificado como orgânico por certificadora credenciada no MAPA poderá ser aceito por outro processador certificado orgânico como produto orgânico, mesmo que os organismos de avaliação da conformidade não usem os mesmos mecanismos de avaliação. Assim, os produtos controlados pela certificação e pelo SPG serão equivalentes para efeito de regulamentação da Lei no 10.831, do Decreto no 6.323 e da Instrução Normativa no 19. O MAPA terá o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) periodicamente atualizado pelos OACs (participativos ou não) e o Cadastro dos OACs (participativos ou não) credenciados no SISORG. 45 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii A participação da sociedade na verificação da conformidade no SISORG se dará pelos membros das CPOrgs nas unidades da federação quando da solicitação de credenciamento e também por técnicos que pertencerem ao Banco de Especialistas para Auditorias de Credenciamento nos OACs, conforme expresso no art. 14 da Instrução Normativa no 19. Esta lista estará disponível na internet na página do MAPA <www. agricultura.gov.br>. Certificação É o procedimento de verificação (de registros, de documentos e física) e confirmação (certificado) da conformidade do produto ou processo com os padrões estabelecidos. Os critérios orientadores da certificação são a transparência nos critérios adotados, a imparcialidade, a independência (disponibilidade de recursos) e a competência (capacidade para executar os serviços). É um dos meios de assegurar aos industriais, comerciantes e consumidores o cumprimento de determinadas normas e padrões. Quando a cadeia de produção se torna mais complexa e o consumidor fica mais distante do produtor, ou quando não existe nenhuma forma de controle social, há necessidade de confirmação feita por uma terceira parte – a certificadora (organismo de avaliação da conformidade). Normalmente, quando se fala em certificação, entende-se que os procedimentos são feitos por uma certificadora, baseada em sistema independente de verificação e confirmação da conformidade. Por princípio, a certificadora não pode prestar assistência técnica. Tanto produtos como processos e serviços podem ser certificados e cada tipo de certificação deve desenvolver seus próprios procedimentos de verificação, bem como as punições resultantes da não observância aos padrões estabelecidos. A certificação na agricultura orgânica pode ser individual ou em grupo de pequenos produtores. Certificação em grupo de pequenos produtores A agricultura orgânica, em geral, é praticada por agricultores que possuem pequenas unidades familiares e pequenos empreendimentos. Há registro de cerca de 350 diferentes grupos produzindo nos países de baixa renda, reunindo perto de 150 mil pequenos produtores, cujos produtos orgânicos são exportados para os mercados dos países de alta renda. As normas e regulamentos técnicos de agricultura orgânica exigem, no mínimo, uma inspeção anual em cada unidade produtora. Os organismos de certificação locais, muitas vezes, não estão disponíveis na maioria dos países de baixa renda e tropicais. 46 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl Nesses países, é impossível pagar pelas visitas anuais de inspeção de organismo de certificação estrangeiro ou brasileiro, além de ser física e economicamente impossível para as certificadoras visitarem anualmente todas as unidades de produção num projeto que envolva, por exemplo, cerca de 5 mil pequenos produtores. Diferentes formas de sistemas de garantia da qualidade praticados por grupos de pequenos produtores foram desenvolvidas há algum tempo, considerando a natureza e o tamanho da operação, variando de dez a alguns milhares de produtores individuais. A certificação em grupo foi estabelecida para desonerar a produção familiar do custo da certificação individual e facilitar o trabalho dos inspetores, barateando, assim, o custo final dos produtos e possibilitando a chegada de produtos exóticos nos principais mercados e de produtos em geral na entressafra dos europeus, americanos e japoneses. A certificação deve ser um mecanismo de estímulo à capacitação e não uma barreira técnica para o acesso ao mercado interno e à exportação. A certificação em grupo de pequenos produtores, preconizada pela IFOAM, é baseada no controle feito por inspetor interno (Sistema Interno de Controle – SIC), que acompanha o dia a dia dos produtores, e na inspeção anual por amostragem, feita por organismo de certificação, criando, assim, um sistema de garantia da qualidade orgânica. Nesse sistema, a auditoria externa, feita pela certificadora, realizavisitas a algumas unidades de produção de acordo com critério de amostragem baseado na análise de riscos. A certificação em grupos de pequenos produtores pode ser definida quando: » o custo (individual) de certificação é desproporcionalmente alto em relação aos valores das vendas dos produtos comercializados; » as unidades produtivas são manejadas, principalmente, por trabalho familiar; » há homogeneidade dos membros quanto à localização geográfica, sistema de produção, tamanho das unidades de produção e sistema comum de mercado; » favorece a organização por cadeia produtiva (cacau, soja etc.); » O tamanho do grupo é suficiente para sustentar um sistema interno de controle viável; um número mínimo de 30 a 50 produtores envolvidos por inspetor interno. Grupos maiores poderão ter mais de um inspetor interno (normalmente da comunidade ou algum técnico que dê assistência técnica ao grupo). 47 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii Um organismo central é responsável pela comercialização e pelo atendimento às normas (comprador, processador ou associação/cooperativa auto-organizada). Uma única certificação é feita para toda a produção individual, assim como para o processamento e atividades de distribuição registradas dentro do grupo. Operadores individuais dentro do grupo podem não usar a certificação independentemente, sendo negociado entre as partes. Os membros dos grupos operam as unidades de produção sob exigências contratuais e de filiação que especificam o compromisso de cumprir as normas da agricultura orgânica aplicáveis, permitir a inspeção etc. O SIC, operado por organismo central ou organismo externo contratado pelo organismo central do grupo, da associação ou da cooperativa, normalmente mantém os arquivos de todos os membros do grupo e inspeciona cada membro ao menos uma vez ao ano. Por meio dos mecanismos do SIC, o grupo decide sobre o atendimento às normas aplicáveis por parte dos membros. As não conformidades são resolvidas de acordo com um conjunto de procedimentos, sanções, medidas para apelação e reclamações estabelecidas pelos grupos. Em algumas certificadoras, o controle por amostragem nos grupos só é usado devido à difícil aplicação do plano de controle padrão (usado em 100% das unidades produtoras). Para viabilizar o controle dessas unidades, em geral pequenas, é aplicado o controle por amostragem, que será auditado pela certificadora. Os critérios para controle por amostragem são: » mínimo de 30 produtores participantes, obrigatoriamente organizados em torno de uma empresa ou grupo; » maioria dos produtores com menos de 5 hectares de cultivo orgânico; » visita de inspeção anual obrigatória para controle interno (realizada pelos técnicos da entidade) em 100% das unidades dos grupos de produtores (associação, cooperativa, condomínio) inscritos no projeto; » cada unidade produtora deve fornecer uma série de informações (cadastro, termo de compromisso, histórico de cada lavoura, normas de registro das intervenções nos cultivos/criações, lista com os problemas – não conformidades, descrição de estoques e medidas de separação dos mesmos); » os produtores têm de ter a mesma produção principal e técnicas de produção homogêneas entre os participantes do grupo e da região; » o SIC obrigatório sob responsabilidade da entidade em que os produtores estão organizados e em nome da qual será certificado. 48 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl O SIC deverá ser realizado uma vez por ano, documentado em todas as unidades produtoras, sendo apresentada à certificadora a lista das unidades com problemas. A amostragem a ser inspecionada pela certificadora é obtida por meio do cálculo da raiz quadrada de n, sendo n o número de unidades a serem certificadas. Por exemplo: se a cooperativa tem 144 membros, serão inspecionadas anualmente 12 unidades de produção. Por meio da avaliação dos riscos do SIC do grupo, as unidades inspecionadas serão aquelas em que há maior risco de fraude no SIC. Ao final de três anos, todas as unidades devem ter sido visitadas. Sistema Participativo de garantia (SPg) É a denominação genérica de diferentes metodologias para a avaliação participativa da conformidade de produtos, processos e serviços a regras específicas. Os SPG são baseados na busca da maior participação possível de todos os atores interessados em procedimentos de avaliação participativa da conformidade adaptados a diferentes realidades sociais, culturais, políticas, ambientais, territoriais, organizacionais e econômicas. Nos Sistemas Participativos de Garantia, a conformidade representa a alteração ou modificação do comportamento e das crenças de uma pessoa ou de um grupo na direção determinada por um grupo mais amplo, resultante do controle social por meio de sanções positivas, negativas e neutras. A conformidade social (controle social) é o resultado da observação sistemática das unidades de produção, da convergência das informações, das reuniões de discussão, do desenho e monitoramento dos acordos de produção e da exclusão pelo não cumprimento desses acordos, visando à oferta de produtos orgânicos. As condições de comercialização dos produtos orgânicos também são objeto de observação sistemática, buscando atender aos diferentes circuitos de comercialização (curtos – feiras, entregas em domicílio – e longos – grande varejo) com transparência nas relações comerciais justas e nos acordos negociados, visando ao consumo consciente. A declaração de conformidade do fornecedor e a verificação da conformidade por meio da avaliação participativa da conformidade, usando a revisão de pares, o estabelecimento de acordos coletivos e registros realizados, estão presentes nas diferentes etapas de geração de credibilidade, essenciais para qualquer esquema de funcionamento. Do mais simples nível, que é essencial, até o mais complexo, com a participação de outros atores, além dos membros da associação de produtores, consumidores e técnicos de ONGs que trabalham com produção orgânica e organização de grupos, todos são desejáveis, sendo estimulados sempre que a realidade permitir. 49 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii O controle social é estabelecido pela participação direta dos membros do SPG. Esses atores estabelecem e dinamizam ações coletivas de avaliação da conformidade das unidades de produção dos membros dos SPG de acordo com o regulamento técnico da produção orgânica. O controle social representa a manutenção da ordem social pela conformidade de cada membro às normas (valores, costumes populares, preconceitos e leis). A participação colaborativa e a responsabilidade solidária são características complementares, que possibilitam o controle social e o poder compartilhado e regem as avaliações e decisões relativas à conformidade dos produtos. O controle social representa a manutenção da ordem social pela conformidade de cada membro às normas (valores, costumes populares, preconceitos e leis). Existem interpretações da expressão solidariedade aplicadas aos SPG, como: a. relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar os outros (solidariedade de classe); e b. vínculo jurídico entre os credores (ou entre os devedores) de uma mesma obrigação, cada um com direito (ou compromisso) ao total da dívida, de sorte que cada credor pode exigir (ou cada devedor é obrigado a pagar) integralmente a prestação objeto daquela obrigação (no caso, a garantia das qualidades orgânicas). Estrutura dos SPg De acordo com o art. 70 da IN no 19, um SPG é formado, basicamente, por dois componentes: os Membros do Sistema e o Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (OPAC). Os membros são pessoas físicas e/ou jurídicas que fazem parte de um grupo, classificados em duas categorias: produtores e colaboradores. Os produtores (fornecedores) são produtores primários, processadores, distribuidores,comerciantes, transportadores, armazenadores e extrativistas sustentáveis orgânicos. Os colaboradores são consumidores e suas organizações, técnicos, organizações públicas ou privadas, ONGs, organizações de representação de classe e demais atores. De acordo com o art. 7, § 2o, o OPAC é a personalidade jurídica que assume a responsabilidade formal pelo conjunto de atividades desenvolvidas num SPG, tendo as seguintes características: » Estatuto social que caracterize suas atribuições. 50 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl » Regimento interno ou caderno de normas que explicite sua organização, seu funcionamento participativo e como se responsabiliza por determinado SPG. » Estrutura que contenha, no mínimo, uma comissão de avaliação e o Conselho de Recursos, ambos compostos por representantes dos membros do SPG. De acordo com o art. 70, § 2o, o estatuto deve conter critérios para composição ou escolha dos membros da comissão de avaliação e do conselho de recursos, requisitos mínimos de participação, direitos e deveres dos membros, periodicidade de reuniões e assembleias, sanções administrativas, composição mínima do SPG, exigências mínimas de funcionamento e quórum mínimo para deliberação nas reuniões e assembleias. rotulagem e identificação No Codex Alimentarius, a rotulagem de produtos em conversão (em transição para orgânico) é permitida depois de 12 meses de produção com métodos orgânicos, de acordo com critério adicional, para evitar confusão aos consumidores. O regulamento técnico chinês permite o uso de duas marcas de certificação: produto em transição e produto orgânico certificado. Nos Estados Unidos, só se permite a denominação “produtos orgânicos”. No regulamento técnico boliviano, a proposta é ter um selo para produto em transição, outro para produto orgânico certificado e outro para produto orgânico que usa SPG. Na proposta brasileira, só poderá ser rotulado o produto orgânico, não sendo permitida a denominação produto em transição, nem será possível colocar as outras denominações (biodinâmico, por exemplo) em letras maiores que as da palavra “orgânico”. Na rotulagem de produtos processados, a IFOAM, o Codex Alimentarius e os regulamentos da União Europeia permitem a utilização do termo orgânico nos rótulos de matérias-primas que foram produzidas em concordância com o regulamento da agricultura orgânica e nos alimentos compostos que incluam pelo menos 95% de ingredientes orgânicos na matéria-prima. Quando os produtos compostos incluem entre 95% e 70% de ingredientes de origem orgânica na matéria-prima, podem ser rotulados como “feitos com ingredientes orgânicos”. Quando os alimentos compostos contêm menos de 70% de ingredientes orgânicos de origem certificada, o Codex Alimentarius e o regulamento europeu não permitem a utilização da palavra orgânico. Em contrapartida, a IFOAM e o regulamento norte-americano estabelecem que, quando menos de 70% dos ingredientes de 51 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii um alimento composto são de origem orgânica certificada, a indicação de que um ingrediente é orgânico pode aparecer na lista de ingredientes, porém o produto não pode ser rotulado como tal. O regulamento norte-americano contém, ainda, normas para a rotulagem de produtos “100% orgânicos”, quando os ingredientes são rotulados como orgânicos. Depois da publicação dos Decretos 6.323/2007 e 6.913/2009, e com as Instruções Normativas, as organizações têm dois anos para se adaptarem aos regulamentos. Os OACs, OPACs e OCSs que estiverem em funcionamento, devem estar credenciados no MAPA até 28 de dezembro de 2009. Após esse período, em 2010, além de atenderem aos regulamentos técnicos vigentes específicos para o produto que está sendo rotulado para venda, nos supermercados ou atacadistas, por exemplo, os produtos deverão obedecer às determinações para rotulagem de produtos orgânicos e conter a marca nacional do SISORG. Isso significa que os produtos foram submetidos aos mecanismos de controle estabelecidos pelo SISORG e que dão garantia de que são orgânicos (quer seja pela certificação ou SPG). Os aspectos relativos à rotulagem de produtos orgânicos, incluindo a marca e sua forma de utilização, estão dispostos nos artigos 117 a 120. O selo do SISORG deverá estar na parte frontal do produto e, logo abaixo, a identificação do sistema de avaliação da conformidade usado: certificação ou SPG. Será facultado o uso da marca do OAC (participativo ou não) do produto em associação com o selo nacional do SISORG. A informação da qualidade orgânica pode se dar por meio da rotulagem dos produtos, da Declaração de Transação Comercial, por material de publicidade e propaganda e por dizeres expostos nos locais de comercialização. Além das outras exigências sobre rotulagem contidas nas legislações específicas para os diferentes produtos, a rotulagem dos produtos orgânicos deverá conter, no mínimo: » Nome, endereço e CNPJ ou CPF do produtor. » Selo de identificação do SISORG. » Selo do OAC (certificadora ou SPG). » Denominação “Orgânico”, “Produto Orgânico” e “Produto com ingredientes orgânicos”. Esses termos podem ser complementados pelas expressões “Ecológico”, “Biodinâmico”, da “Agricultura Natural”, “Regenerativo”, “Biológico”, “Agroecológico”, da “Permacultura” 52 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl e “Extrativismo Sustentável Orgânico”, além de outros que atendam aos princípios estabelecidos pela regulamentação da agricultura orgânica. De acordo com o art. 115 da Instrução Normativa no 19, aos produtos orgânicos processados que contenham ingredientes, incluindo aditivos, que não sejam de origem certificada orgânica, aplicam-se as seguintes regras: I. produtos com 95% ou mais de ingredientes orgânicos certificados deverão ter identificados os ingredientes não orgânicos e poderão utilizar os termos “orgânico” ou “produto orgânico”; II. em produtos com 70% a 95% de ingredientes orgânicos certificados, os rótulos deverão identificar esses ingredientes orgânicos e apresentar os dizeres “produto com ingredientes orgânicos”; III. produtos com menos de 70% de ingredientes orgânicos certificados não poderão ter nenhuma expressão relativa à qualidade orgânica. Em seu parágrafo único, o artigo observa que “água e sal adicionados não serão incluídos no cálculo do percentual de ingredientes orgânicos”. Quanto à identificação do produto na venda direta aos consumidores por agricultores familiares cadastrados (produtos não certificados e nem de SPG), o Decreto no 6.323/2007 determina que não poderá ser utilizada a marca nacional do SISORG. Entretanto, de acordo com o art. 124, no ponto de comercialização ou no rótulo desses produtos, quando tiver, poderá constar a expressão “Produto orgânico para venda direta por agricultores familiares organizados, não sujeito à certificação, de acordo com a Lei no 10.831, de 23 de dezembro de 2003”. Os pontos de comercialização ou os produtos poderão conter ou utilizar marcas ou outras formas de identificação referentes ao OCS responsável pelo controle social da qualidade orgânica. No Brasil, a marca do SISORG assegurará que os elementos essenciais da agricultura orgânica e os quesitos da legislação e regulamentos técnicos relativos à produção orgânica foram atendidos/ cumpridos. Essa marca pública servirá para facilitar as trocas, tanto para os produtores quanto para os consumidores. A marca nacional será agregada ao rótulo e deverá seguir as normas vigentes para rotulagem do produto ao final do processo. Quando as vendas se derem no atacado, um documento (certificado, por exemplo) acompanhará as transações comerciais. O termo orgânico deverá estar realçado. É considerada infração veicular qualquer forma de propaganda, publicidade ou apresentação de produto que contenha denominação, símbolo, desenho, figura ou 53 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii qualquer indicação que possa induzir ao erro ou equívoco quanto à origem,natureza e qualidade orgânica do produto, ou atribuir características ou qualidades que não possua. Até, o marketing governamental para estimular o consumo de produtos orgânicos era vinculado a duas marcas: a da semana do alimento orgânico, parceria entre MAPA, MMA e MDA, lançada em 2005 e divulgada anualmente, e a marca do projeto de exportação de produtos orgânicos da APEX (Organics Brasil), lançada em 2005. A marca do SISORG, submetida à consulta pública em 2009, entrará em vigor em 2010. No caso dos produtos importados, o Decreto no 6.323/2007 estabelece que só poderão ser comercializados no país os produtos orgânicos que estejam de acordo com a regulamentação brasileira para a produção orgânica. O art. 122 da IN no 19 dispõe que a entrada no país de produtos orgânicos só será autorizada se a certificação ou o SPG, ou outro mecanismo de avaliação da conformidade do produto, for realizado por OAC (participativo ou não) credenciado pelo MAPA, ou se o país de origem do OAC tiver acordo de equivalência ou acordo de reconhecimento mútuo de seu sistema de garantia com o brasileiro. Os rótulos dos produtos importados deverão conter o selo do SISORG. Certificação e SPg: importância, limites e desafios Os mercados dos produtos orgânicos encontram-se em rápida expansão e, como a produção não tem acompanhado essa demanda, normalmente são oferecidos melhores preços de comercialização. A promessa de alimentos mais saudáveis, com enorme apelo aos consumidores que se dispõem, inclusive, a pagar mais por isso, obriga os produtores a garantir a qualidade. O cumprimento dos padrões de produção em mercados em que consumidores e produtores se tornam cada vez mais distantes uns dos outros, só pode ser assegurado pela certificação. A certificação orgânica, quando usada em realidades adequadas aos pequenos produtores, tem sido ferramenta importante e útil para criar ambiente de confiança em circuitos longos de comercialização para os mercados de produtos orgânicos. Apesar de onerar o custo da produção, a certificação traz benefícios, a seguir destacados: » Facilita o planejamento da produção (há necessidade de documentação e isso pode melhorar a eficiência da unidade de produção). » Facilita o desenvolvimento do mercado, dos serviços de extensão e da pesquisa (os dados coletados pela certificação podem ser muito úteis para o planejamento do mercado, para a difusão e para a pesquisa). 54 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl » Cria transparência ao tornar pública a informação sobre produtores e produtos. » Aumenta a credibilidade e melhora a imagem da agricultura orgânica. » Facilita a introdução de créditos especiais ou subsídios, já que define o grupo que será beneficiado. Grande parte dos estudos sobre a agricultura orgânica certificada enfatiza os seus benefícios econômicos, sociais e ambientais e as oportunidades que traz para os países de baixa renda. Entretanto, deve-se considerar a agricultura orgânica certificada de forma mais realista, pois: » Ainda é um setor muito pequeno, com exceção de algumas regiões ou países e de alguns produtos. » Enfrenta pontos de estrangulamento na produção, comercialização e institucionalização que precisam ser superados. Destaca-se o acesso a mercados e os prêmios nos preços, frequentemente incertos, mesmo em mercados de exportação. As normas técnicas não são adequadas às diferentes realidades tecnológicas, econômicas, políticas, geográficas, climáticas e culturais. » Procedimentos complexos de importação e questões envolvendo os procedimentos de avaliação da conformidade, como a certificação e a acreditação, precisam ser atendidos. » Os efeitos dos subsídios e de outras medidas de apoio nos países de alta renda sobre a competitividade dos produtos orgânicos dos países de baixa renda, que competem com produtos orgânicos produzidos local ou regionalmente, são problemas com que se preocupar. » A preferência dos consumidores dos países de alta renda pelos produtos locais e o reconhecimento da garantia da conformidade ligada à reputação de marcas comerciais locais é uma realidade nesses países, principalmente em alguns da União Europeia. » É preciso distinguir analiticamente duas categorias de sistemas de agricultura orgânica: a produção orgânica certificada, inspecionada, verificada e atestada; e a produção orgânica “de fato”. Estimativas dão conta de que a área agrícola mundial dedicada a ambas as categorias de agricultura orgânica gira em torno de 3% da área total agrícola. 55 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii » Como a certificação não permite o fornecimento de assistência técnica pelos OACs durante e após a verificação da conformidade como contribuição para a correção das não conformidades, sua prática nos países de baixa renda não favorece a construção do conhecimento agroecológico e não favorece o empoderamento por meio do controle social, nem estimula o mercado local. Em alguns países com regulamentação implantada, está ocorrendo a redução do número de unidades certificadas, como no México, na Costa Rica e também na Áustria. Sistemas participativos de garantia A tendência de aceitação dos SPG nas regulamentações nacionais dos países da América Latina e Caribe é uma realidade. As oportunidades para o estabelecimento de acordos de equivalência e de reconhecimento mútuo que favoreçam a harmonização das normas dos produtos orgânicos é estratégia buscada pelos movimentos e deve ser buscada pelas autoridades competentes, com a liderança do Brasil. A importância dos SPG para o desenvolvimento da agricultura orgânica pode ser avaliada pelas seguintes vantagens que proporcionam: » Assistência técnica e correção das não conformidades diretamente no processo de avaliação da conformidade, diferentemente da certificação. » Formação de todos os atores da rede de produção e comercialização de produtos orgânicos; organização dos produtores e identidade do grupo ao estimular a participação colaborativa e o poder compartilhado no estabelecimento, além da implementação dos critérios/acordos do sistema de controle da qualidade orgânica. » Difusão dos conceitos e princípios da agricultura orgânica. Envolver os atores dos canais de comercialização e consumidores na discussão e prática dos SPG. Ter consciência da responsabilidade de que participar do sistema de garantia da qualidade é uma ação de longo prazo. Deve-se: » Estabelecer relações nos circuitos longos de comercialização (venda indireta). O desafio é criar reputação (longo prazo) sem onerar muito. » Uniformizar não é padronizar. O limite é manter a diversidade de relações sociais nos arranjos produtivos e comerciais tendo como desafio a multiplicação dessas garantias de qualidades identificadas e valoradas 56 UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl pelos consumidores no âmbito local, regional, nacional, continental e internacional. » Casos de efetividade da aplicação dos SPG e reconhecimento nos mercados são resultado de ações de longo prazo, que têm a participação de organizações de assessoria privada (ONGs), envolvem alto grau de organização e gerenciamento e ações de cooperação muito grandes. O desafio é quanto ao montante elevado e ao longo prazo de investimentos financeiros e humanos nessas atividades. » Estabelecer transversalidade nas políticas públicas e privadas em âmbito nacional, estadual e municipal. » Ter consciência de que os princípios da agricultura orgânica e do comércio justo e solidário trabalham com bens públicos. Há no Brasil a cultura de pouco investimento do setor privado em bens públicos. O Estado é responsável por fornecer e cuidar de bens públicos, como ecologia e justiça social, preconizados pela agricultura orgânica e pelo comércio justo e solidário. Os SPG são ferramentas para auxiliar a comercialização, e no tema mercado e comercialização, tem que se investir também na organização da produção para atender às diferentes exigênciasdos diferentes canais de comercialização e nas relações comerciais e de consumo. Os custos diretos para os produtores podem ser pequenos, mas são maiores os custos indiretos ligados ao tempo dedicado pelos atores ao SPG, gastos com deslocamento e assistência técnica para a correção das não conformidades e registros, que desafiam a sustentabilidade dos SPG. Deve ficar claro que os SPG surgem naturalmente, como necessidade de um grupo organizado comercializar seus produtos de forma organizada e identificada com uma qualidade específica. Existe muito trabalho dos produtores para terem participação ativa na construção e manutenção do sistema de garantia das qualidades. Para o cálculo do custo de certificação, devem ser consideradas a taxa de elaboração do relatório técnico e os gastos com a visita do inspetor à unidade de produção (distância, tamanho da unidade de produção, número de espécies envolvidas). Além disso, há certificadoras que cobram porcentagem sobre o faturamento bruto como justificativa para o uso do seu selo. Assim, a certificação individual custa cerca de R$ 700,00 por ano. Entretanto, quando é feita em grupo de pequenos produtores, o custo da certificação pode baixar para cerca de R$ 120,00. Em 2007, a acreditação de um organismo de avaliação da conformidade (certificadora) custava em torno de R$ 5.000,00 por ano. 57 O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii Às vezes, o organismo acreditador cobra percentual do faturamento do organismo de certificação pelo uso da marca do organismo de acreditação. Existem países que estimulam a acreditação dos OACs, como é o caso dos EUA. Nos países que não dão incentivos, muitas vezes acontecem fusões de pequenas certificadoras locais e regionais para ganhar em escala e possibilitar o barateamento dos custos de certificação para os pequenos produtores e de acreditação. 58 unidAdE iiioS rAMoS dA AgroECologiA CAPítulo 1 ramo agronômico As abordagens transdisciplinares da Agroecologia são aquelas que valorizam e integram diferentes tipos de sistemas de conhecimento, podem incluir disciplinas científicas ou acadêmicas, bem como diferentes tipos de sistemas de conhecimento, ou seja, experimental, locais, indígenas etc., bem como adotar um foco baseado em problemas. A valorização do conhecimento gerado pelo agricultor desafia a pesquisa e o desenvolvimento agrícola e a elaboração de políticas de suporte à produção e o bem-estar social. O conhecimento empírico tem sido utilizado desde a fundação da Agronomia como ciência para investigar, analisar e propor melhores técnicas que visem à boa produção e a qualidade do que é produzido. Estes estudos permitiram a compreensão das bases ecológicas da agricultura ecológica. O desenvolvimento de técnicas pela observação e a prática é visto como uma fonte de conhecimento para conceituar e aplicar os princípios da Agroecologia. A incorporação do conhecimento local ou gerado pelo agricultor é um componente importante para o pensamento e prática agroecológica. Os grupos de pesquisas agroecológicas têm procurado integrar conhecimento do agricultor com pesquisa e extensão e são bastante proveitosas quanto a resultados. Na última década, um número crescente de estudos tem combinado Agroecologia com abordagens participativas de formas diferentes. A participação e interação da prática (produtores), mercado (consumidores) e cientistas (pesquisadores) têm obtido resultados inseridos à realidade local, preservando os costumes alimentares, a diversidade e as relações sociais. O desenvolvimento da Agroecologia é possível pelo desenvolvimento das pesquisas que comprovam a sua eficácia e as suas diretrizes. O estudo da Agronomia no campo do desenvolvimento rural sustentável deve ser condizente com o conhecimento técnico- científico necessário para o aprimoramento da Agroecologia. 59 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii Para tal deve-se buscar: » pesquisa científica, realizada isoladamente e de forma participativa; » conhecimentos relacionados à Agroecologia, formulados por diversos autores, incluindo os fundadores das correntes clássicas e contemporâneas na área agrícola; » conhecimentos tradicionais de agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos, quilombolas e da reforma agrária; » aprendizado acumulado na prática recente de construção de uma grande variedade de sistemas sustentáveis em diversas condições locais do mundo; » conhecimentos relacionados às ciências humanas e sociais, englobando várias correntes do pensamento da teoria econômica e da sociologia econômica, para explicar as diferentes formas de governança e formas de coordenação construídas na rede de produção, comercialização e consumo dos produtos da agricultura orgânica. A proposta é de uma análise fundamentalmente interdisciplinar da ação econômica. A Agroecologia embora pouco exigente em recursos tecnológicos comuns na Agricultura Convencional, também necessita de resultados de pesquisas, experimentações e banco de dados com informações estatísticas. Os estudantes e pesquisadores de ciências agrárias devem desenvolver a capacidade de lidar com o futuro, a complexidade e incerteza, e, portanto, estarem preparados para procurar e responder a perguntas difíceis que ainda não foram feitas. Em uma cultura universitária de curiosidade e compromisso, precisamos de ambientes que preparem os alunos para lidar com a mudança, abraçar múltiplas dimensões do desafio alimentar e estabelecer interações participativas com clientes, comunidades e instituições de ensino, pesquisa e extensão. A conexão entre cientistas e consumidores com as origens de seus alimentos e sensibilização da importância do ambiente natural preservado, incentivaremos o apoio da sociedade para a pesquisa agrícola e de engenharia de produção de alimentos como recursos sustentáveis a longo prazo. O ambiente acadêmico deverá fornecer um modelo de trabalho integrado e transdisciplinar para sustentar os sistemas agrícolas e alimentares regionais. O campo profissional de ciências da terra deve apresentar novas abordagens para os problemas agrários são requeridas, reconhecendo na diversidade cultural um 60 UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA componente insubstituível, com estratégias apoiadas em metodologias participativas, enfoque interdisciplinar e comunicação horizontal. A Agroecologia, enquanto ciência integradora de distintas disciplinas científicas, tem a potencialidade para constituir a base de um novo paradigma de desenvolvimento rural sustentável (CAPORAL, 2005). De acordo com Almeida (2000), pode-se descrever algumas iniciativas metodológicas em relação às atividades de Agronomia e Agroecologia: a. A análise do “perfil de cultivo”, por meio do desenvolvimento de um conceito operacional apoiado sobre uma teoria da evolução dos solos cultivados, permitindo estudar a população vegetal, o solo, o clima e as intervenções do homem. b. A atenção à “vocação dos solos”, em oposição à tendência do período de industrialização da agricultura, que negligenciou a especificidade das áreas de plantio por meio do desenvolvimento de insumos como fertilizantes, sementes melhoradas etc. c. A ideia de “práticas agrícolas” remete, necessariamente, à problemática do desenvolvimento rural. Esta, funda-se na hipótese de que as barreiras à inovação técnica estariam ligadas a uma inadaptação do “progresso técnico” proposto para situações concretas. d. Por fim, destaca-se a construção de uma agroecologia, esta como espaço privilegiado de pesquisa e reflexão para a agronomia, apoiando- se no uso potencial da diversidade social e dos sistemas agrícolas, no desenvolvimento local, descentralizado. Os consumidores têm buscado cada vez mais informações sobre os produtos para se decidir na hora da compra. Isso também ocorre com os alimentos. A procura pela qualidade, a rejeição por agrotóxicos têm sido elementos que mudam a relação dos consumidores com os alimentos.Isso demanda produtos mais saudáveis, cujo processo produtivo respeita o meio ambiente de maneira integral. Essa realidade conduz a produção de alimentos agroecológicos e orgânicos nas unidades rurais familiares, onde a qualidade do produto é considerada fator básico e, por isso, recebe toda a atenção de quem produz e de quem orienta: os extensionistas rurais. O financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para sistemas de produção de base agroecológica ou orgânicos tem papel importante na viabilidade desse modelo para a agricultura familiar. A linha de crédito conta com o Seguro da Agricultura Familiar que contribui para a redução de custos e riscos da lavoura. 61 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii O conjunto dessas ações e atores – de técnicos de Ater, agentes financeiros, organizações não governamentais, agricultores familiares e organizações econômicas da agricultura familiar – garante o aumento na produção de alimentos saudáveis, maior oferta de produtos com valor agregado, aumento da renda do agricultor familiar e a dinamização da economia local. Para que haja um comprometimento mútuo do técnico e das pessoas da unidade familiar de produção e para que exista um compromisso de continuidade no processo de transição agroecológica, é necessário que o extensionista elabore, junto com a família do agricultor familiar, um plano de transição de base agroecológica ou orgânica com duração de alguns anos, tempo suficiente para a complementação da fase de transição. O projeto é o estudo técnico, elaborado pelo extensionista ou técnico que faz a orientação à unidade familiar de produção, em que consta o orçamento de aplicação dos recursos, as receitas previstas, as medidas eventualmente necessárias para a adequação da unidade familiar às exigências de defesa do meio ambiente, a duração da orientação técnica e as épocas mais adequadas à sua prestação. O projeto técnico não poderá contemplar o uso de fertilizantes sintéticos de alta solubilidade, agrotóxicos sintéticos, aditivos sintéticos utilizados na alimentação animal, reguladores sintéticos de crescimento e organismos geneticamente modificados; conforme Portaria no 38 do Ministério do Desenvolvimento Agrário, de 4 de julho de 2014. 62 CAPítulo 2 ramo ambiental A agricultura orgânica refere-se a um sistema que melhora a fertilidade do solo por meio da maximização da utilização dos recursos locais, enquanto afasta o uso de agroquímicos, de organismos geneticamente modificados (OGM), bem como muitos compostos sintéticos utilizados como aditivos alimentares. A agricultura orgânica se sustenta em uma série de práticas agrícolas com base nos ciclos ecológicos que visam minimizar o impacto ambiental causado pela indústria de alimentos, preservando a sustentabilidade do solo a longo prazo e reduzindo ao mínimo a utilização de recursos não renováveis. As práticas naturais de agricultura fornecem um pano de fundo histórico da agricultura orgânica com todo a sua evolução e aprimoramento de técnicas. Percebe-se, ao longo dos anos como as práticas agrícolas afetam as características do solo: fertilidade, umidade, estrutura e preservação. Os solos sob manejo orgânico possuem maior capacidade de retenção de água do que solos intensivamente tratados, resultando em rendimentos maiores em comparação com a agricultura convencional, em condições de escassez de água. Devido à sua maior capacidade de armazenar carbono no solo, a agricultura orgânica poderia representar um meio para melhorar a redução de CO2 se adotada em larga escala. Outro aspecto que o enfoque ambiental da Agroecologia possui é o baixo impacto sobre a biodiversidade. Sistemas de agricultura orgânica em geral abrigam uma biodiversidade de flora e fauna maior do que os sistemas convencionais. Em muitas áreas que já passaram pela transição para a produção orgânica apresentam recuperação de espécies nativas, melhoria da qualidade da água, mananciais e até aumento da biodiversidade anteriormente degradada. O uso racional de fontes energéticas, seu baixo consumo e geração alternativa de na propriedade são fatores que são considerados e compõem a gama de práticas sustentáveis em propriedades rurais sustentáveis já que a agricultura orgânica tem maior eficiência energética (entrada/saída). A inibição do uso de produtos químicos prejudiciais e sua disseminação no ambiente e ao longo da cadeia trófica talvez seja o benefício mais facilmente perceptível pelos produtores e pela sociedade. Outro aspecto a ser considerado é a conservação dos ecossistemas naturais e a recomposição ou incremento da diversidade biológica dos ambientes modificados. A conservação da agrobiodiversidade é fundamental para manter a autonomia e a sustentabilidade da 63 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii produção. Essa visão nos remete à necessidade de se entender a dinâmica do conjunto dos recursos naturais, não só da unidade de produção, mas também no contexto do território onde está inserida. Até cerca de quatro décadas atrás, o rendimento das culturas em sistemas agrícolas dependia de recursos internos, reciclagem de matéria orgânica, construído em mecanismos de controle biológico e os padrões de chuva. Os rendimentos agrícolas eram modestos, mas estáveis. A produção foi salvaguardada por eventos aleatórios de condições meteorológicas severas e controle pragas e doenças. A nutrição das plantas era obtida pela rotação das principais culturas com leguminosas. Por sua vez as rotações suprimiam insetos, ervas daninhas e doenças, quebrando eficazmente os ciclos de vida dessas pragas. A maioria do trabalho era feito pela família com a ajuda de funcionários eventuais e nenhum equipamento ou serviço especializados. Neste tipo de sistema agrícola, a ligação entre agricultura e ecologia era bastante forte e sinais de degradação ambiental raramente eram evidentes. A modernização agrícola progrediu, a ligação de cultivo e Ecologia foi muitas vezes quebrada por princípios ecológicos que foram ignorados ou substituídos. Na verdade, vários cientistas agrícolas chegaram a um consenso de que a agricultura moderna enfrenta uma crise ambiental. Um número crescente de pessoas tornou-se preocupada com a sustentabilidade a longo prazo nos sistemas de produção de alimentos existentes. A evidência acabou mostrando que, enquanto a tecnologia e sistemas de produção intensiva de capital têm sido extremamente produtivos e competitivos, eles também trazem uma variedade de problemas econômicos, ambientais e sociais. Também está provado que a própria natureza da estrutura agrícola e as políticas vigentes conduziram a esta crise ambiental, favorecendo a utilização de grandes fazendas, a produção especializada, monoculturas agrícolas e mecanização. Hoje, como cada vez mais agricultores estão integrados à economia internacional, a biodiversidade fica comprometida e as monoculturas são recompensadas pelas economias de escala. Por sua vez, a falta de rotações e diversificação tiram os principais mecanismos de autorregulação, transformando monoculturas em agroecossistemas altamente vulneráveis dependentes de grande quantidade de insumos químicos. De uma perspectiva ecológica, as consequências regionais de especialização monocultura são muitas vezes: a. A maioria dos sistemas agrícolas de grande escala apresenta uma conformação mal estruturada de componentes agrícolas, quase sem 64 UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA vínculos ou relações de complementaridade entre sociedade, culturas, plantas e animais. b. Apesar da quantidade substancial de resíduos de culturas e estrume produzido nas fazendas, está se tornando cada vez mais difícil reciclar nutrientes, mesmo dentro dos sistemas agrícolas tradicionais. Resíduos animais e vegetais não são economicamente viáveis em um processo de reciclagem de nutrientes, pois os sistemas de produção são geograficamente distantes de outros sistemas que completam o ciclo.Em muitas áreas, os resíduos agrícolas e da pecuária intensiva tornaram-se um passivo ambiental ao invés de um recurso a ser utilizado. A reciclagem de nutrientes dos centros urbanos de volta aos campos é igualmente difícil. c. Parte da instabilidade e suscetibilidade a pragas em agroecossistemas pode ser ligada à adoção de vastas monoculturas que concentraram alimentos para herbívoros e insetos e pragas. Esta simplificação também reduziu as oportunidades ambientais para os inimigos naturais. Consequentemente, os surtos de pragas ocorrem frequentemente quando um grande número de pragas imigrantes. d. Como culturas específicas são expandidas para além das suas faixas de vegetação nativa ou regiões favoráveis ao elevado potencial de pragas ou com água limitada, ou solos de baixa fertilidade, intensificou-se os controles químicos para superar tais fatores limitantes. O pressuposto é que a intervenção humana e o nível de insumos que permitem essas expansões podem ser insustentáveis no futuro. e. Os agricultores convencionais testemunham um desfile constante de novas variedades de culturas com a substituição de variedades nativas devido a estresses bióticos e mudanças do mercado. A cultivar com maior resistência a doenças e a insetos faz uma estreia, vai bem durante alguns anos (normalmente 5-9 anos) e depois é sucedida por outra variedade quando os rendimentos começam a cair, a produtividade está ameaçada ou uma cultivar mais promissora se torna disponível. Assim, a estabilidade na agricultura moderna depende de um fornecimento contínuo de novas cultivares, em vez de uma colcha de retalhos de muitas variedades diferentes plantadas na mesma fazenda. f. A necessidade de subsidiar as monoculturas requer aumentos no uso de pesticidas e fertilizantes, mas a eficiência do uso de insumos aplicados está diminuindo e o rendimento das colheitas na maioria das principais culturas tende saturar. Em alguns lugares, os rendimentos estão em 65 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii declínio. Existem opiniões diferentes quanto às causas subjacentes a este fenômeno. Alguns acreditam que os rendimentos são nivelados porque o potencial máximo de rendimento das variedades atuais está próximo do limite, e, portanto, a engenharia genética deve ser aplicada para redesenhar a cultura. Agroecologistas, por outro lado, acreditam que o nivelamento se dá por causa da contínua erosão da base produtiva da agricultura através de práticas insustentáveis. 66 CAPítulo 3 ramo socioeconômico O conceito de Agroecologia está sendo mobilizado cada vez mais na sociedade, nas universidades e nas áreas de produção agrícola e pecuária. No entanto, suas dimensões socioeconômicas recebem pouca atenção de pesquisadores. O que sabemos sobre a relação entre a Agroecologia e seus efeitos sobre os aspectos socioeconômicos da subsistência dos agricultores? Não temos provas de que a Agroecologia leva a impactos positivos como a criação de empregos e aumento da renda e do bem-estar social? As interações benéficas da sociedade local em sistema agroecológico fornecem evidências e indicativos de que a Agroecologia tem impactos sociais e econômicos positivos, que merecem consideração quando se pretende elaborar políticas e programas que melhorem a segurança alimentar e nutrição. Longe de um conceito puramente agronômico, que só é significativa no nível de cultura ou de produtor, a Agroecologia tem um olhar mais abrangente em muitos níveis de sistemas alimentares, sociais e culturais. Para se ter uma melhor compreensão do que os princípios socioeconômicos da Agroecologia podem abranger, deve-se olhar para os movimentos agrícolas que são alternativas para a agricultura convencional, o comércio justo, o movimento cooperativo, e o movimento de economia social e solidária, ou seja, quatro correntes pertinentes de Agroecologia. Com uma evidência relativamente forte, o tema patrimônio ambiental é visto como decorrente de princípios agroecológicos bem definidos, assim como o pouco uso de insumos químicos em qualquer fazenda agroecológica. Além disso, de acordo com os movimentos sociais, o ser humano é considerado como parte da natureza e do cosmos. A mercantilização de qualquer forma de vida é rejeitada. A redução de entradas externas em práticas agroecológicas é considerada importante para o meio ambiente como também para a promoção da independência financeira dos agricultores em relação às agroindústrias. O tema do acesso ao mercado e autonomia são o objetivo dos grupos de pequenos produtores, que promovem o comércio transparente e autônomo para enfrentar os mercados mundiais e favorecer a autogovernança. Outras fontes sublinham a importância da diversificação das explorações agrícolas agroecológicas, a fim de permitir a autonomia em relação ao mercado. A diversificação 67 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii também é vista como a melhoria da sustentabilidade e adaptabilidade do sistema enfrentar choques socioeconômicos e as mudanças climáticas. Tem-se demonstrado que as partes interessadas no sistema alimentar são capazes de organizarem-se a fim de salvaguardar as suas atividades e garantir a relevância social e viabilidade econômica das práticas. É claro, no entanto, que os desafios permanecem e, portanto, nenhum dos exemplos práticos existentes deve ser tomado como soluções de “copiar e colar”. A Agroecologia sugere um ambiente natural e socioeconômico, onde o alimento é produzido e apela para o desenvolvimento de inovações dentro deste contexto preciso. A educação ambiental e os trabalhos de disseminação das razões e qualidades da Agroecologia são uma ferramenta precisa para a mudança de padrão produtivo. Ritter (2013) aponta que a educação ambiental embasada em uma abordagem crítica forma cidadãos mais preparados para a reversão dos quadros de degradação ambiental e social. Em síntese, o desafio consiste em mudar a relação sociedade e recursos naturais, o que exige simultaneamente o desenvolvimento sustentável e a incorporação da agroecologia nos modelos agrícolas atuais. Os conceitos e princípios da Agroecologia são abordados pela educação ambiental que pode ser utilizada como um mecanismo que caminha a partir da sensibilização até a transformação de cidadãos quanto à sua consciência social e ambiental. Hoje, a educação ambiental é entendida como a educação para a ação, a partir de um complexo interdisciplinar que parte da perspectiva da vida cotidiana no contexto dos processos educacionais, e procurando promover a adesão (individual e coletiva) para a mudança social, ambiental, cultural e econômica projetado para resolver a crise ecológica instalada atualmente. Enquanto o conhecimento e a sensibilização para as questões ambientais têm se expandido significativamente, a degradação ambiental piora, bem como as suas consequências sociais. São desafios aos educadores ambientais a proposta de ações e correntes que busquem solução sustentáveis em curto, médio e longo prazo. Na verdade, a educação ambiental, que tem sido chamado de “linha verde”, trouxe o debate da natureza à sociedade. Este ponto de vista da natureza tem sido associado a uma política de gestão de áreas naturais e rurais protegidas com foco na sua capacidade de gerar atividade econômica e turística como uma forma de manter a população rural evitar o êxodo rural. De acordo com os objetivos que procuramos em cada intervenção, a Agroecologia pode fornecer conteúdo ou técnicas diferentes. Isso faz com que a intervenção agroecológica 68 UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA possa assumir muitas formas, desde os processos de conscientização sobre determinadas questões locais, para a revitalização de processos abrangentes do desenvolvimento rural, por meio de aspectos mais técnicos, como os relacionados com a prática agronômica. Em abordagens agroecológicas, as intervenções de sensibilização são adaptadas aos aspectos da realidade local relacionadas com a agricultura, alimentação,manejo da terra ou certos aspectos históricos da gestão dos recursos naturais a serem implementadas. Certo que ligada a uma abordagem social, no qual a atividade humana está no centro de educação ambiental. A este respeito, a proposta da Agroecologia nos permite avançar em termos ambientais e sociais, na discussão clássica da educação ambiental entre a consciência e transformação da realidade, elevando os processos que integram ambos os aspectos da intervenção sobre as questões ambientais. A premissa é colocar a comunidade no centro dos processos de transformação social. As pesquisas têm mostrado que a Agroecologia é flexível e dinâmica o suficiente para ser adaptada a diversas condições socioeconômicas e ambientais; e é fácil para as pessoas integrarem-se ao sistema e adotá-lo de forma eficaz. A transição agroecológica dos sistemas de produção agrícola é um processo complexo que implica mudanças técnicas e sociais. De forma geral, a trajetória de transição agroecológica surge de teorias da inovação social e territorial. A transição agroecológica leva a uma mudança social destinada a satisfazer as necessidades humanas básicas para as populações mais enfraquecidas. Implica em processos de aprendizagem, transformações das relações sociais e de consolidação dos arranjos sociais, bem como uma modificação das condições de governança do desenvolvimento e regiões, para apoiar a integração social e inserção política dos camponeses. As inovações são condizentes com a cultura e hábitos alimentares do território, entendido como um espaço de construção de uma identidade coletiva, de debate e institucionalização dos processos de transição agroecológica. Consequentemente, isso implica uma variedade de inovações técnicas, sociais e institucionais, nem sempre fáceis de serem absorvidas. Para apoiar estas inovações, uma nova leitura das práticas socioprodutivas é necessária, baseada na adaptação das atividades, procedimentos e engajamento da população. 69 CAPítulo 4 ramos político e legal Os aspectos políticos e legais estão no centro da política de conhecimento e legitimidade em torno da agricultura e da alimentação. Quando as pessoas aceitam práticas alimentares industriais como imposição e padronização, elas estão consentindo a sua utilização e existência. Com a sua legitimidade, sistemas alimentares industriais contradizem o crescimento da agricultura alternativa, incluindo a agroecologia. Questões sobre como a agricultura alternativa pode alcançar sua própria legitimidade e validação, como outro caminho em relação aos alimentos industriais ainda não atraiu satisfatoriamente a opinião popular. As atividades agroecológicas podem crescer em uma teia de processos de legitimação científica, política, social e jurídica. Muitas vezes a consolidação de produtos e princípios agroecológicos passe por testes de credibilidade com opiniões diversas e conflitantes entre si. Os agroecologistas tendem a navegar nestes conceitos múltiplos buscando a legitimação dos seus princípios por inúmeros benefícios econômicos, sociais e ambientais que são alcançados pela prática agroecológica. Durante a consolidação dos sistemas agroecológicos, muitas críticas feitas à agricultura alternativa centram em desmerecer o seu fundamento científico. Realmente não havia pesquisas científicas suficientes para atestar a eficácia daqueles sistemas. No entanto, com o passar dos anos, vários pesquisadores buscaram evidências que as práticas alternativas traziam benefícios à saúde humana, à justiça social e ao meio ambiente, principalmente. À medida que a produção orgânica mostrava seus benefícios, sua aceitação e adoção foram se tornando maior, e passou a envolver, produtores, consumidores e os governos. Uma razão fundamental para esta transição é a legitimidade: os governos passaram a dar atenção aos processos agroecológicos de produção agrícola, pois acreditavam que a via alternativa de produção merecia regulação e legitimação, com o estabelecimento de regulamentos e leis. Os sistemas de certificação autônomos por entidades certificadoras já haviam sido criados e preenchiam este vazio da demora dos governos em normatizar os processos e a qualidade da produção. A grande conquista da participação das leis se deu em razão da demanda de mercado e das intervenções sociais que permitiram aos consumidores identificar e adquirir produtos certificados. O grande apelo dos consumidores é proteger sua saúde e de suas famílias contra os riscos dos agrotóxicos. 70 UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA Os órgãos normatizadores, como o Ministério da Agricultura, são as autoridades que tecem a tomada de decisão em relação ao conhecimento científico produzido, os anseios dos consumidores e as questões políticas e sociais; esse processo de criação de leis estabelece a legitimidade do setor. As normas e práticas em uso pela Agroecologia estão hoje em dia, cobertos por pesquisas científicas de rigor na investigação agrícola dos resultados alcançados. Ao aumentar a transparência da investigação científica, a diversidade metodológica encoraja o trabalho transdisciplinar e fomenta a ciência baseada na investigação com financiamento público relacionado com princípios agroecológicos, desta forma podemos facilitar o caminho para a Agroecologia para ser considerada cientificamente legítima. No brilhante trabalho de Wezel et al. (2009) percebe-se como as dimensões da ciência, prática e movimento social criam espaços para a construção da legitimidade dentro e fora da Agroecologia. O ciclo de produção da Agroecologia centra suas ações em princípios éticos dos sistemas alimentares, com respeito e atenção em todas as fases da cadeia produtiva. Esta pode ser uma das razões de sua melhor aceitação nos últimos anos, o caminho alternativo que traz inúmeros benefícios e de forma transparente, sem produtos químicos escondidos nos alimentos e com preservação de recursos naturais. Muitos agroecologistas fazem parte dos movimentos sociais, embora eles podem ou não ser os cientistas. Por exemplo, a Via Campesina e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Brasil aceitaram a agroecologia como uma filosofia fundamental em seu trabalho de organização, na sequência, debates internos perenes, e ainda em aberto ONGs, grupos comunitários e públicos divergem em suas opiniões sobre a legitimidade da ciência ao abordar a Agroecologia. Alguns acreditam que a ciência pode fornecer valiosos aliados e provas em apoio às agriculturas alternativas. Mas alguns grupos de agricultores e movimentos camponeses podem rejeitar a ciência como subjugação, com base na história da ciência, por exemplo da Revolução Verde e sobre a política contemporânea de culturas e animais geneticamente modificados. A seus olhos, a ciência tem o hábito de desvalorizar o patrimônio cultural e o conhecimento experimental dos povos locais ou indígenas. Da mesma forma, muitos agricultores abraçam práticas orgânicas com enfoque da ciência agrícola como catalisador da destruição do que eles veem como solos saudáveis. Seu ceticismo não é necessariamente enraizado na antipatia para a ciência, por si só – mas nas maneiras que a ciência tem favorecido certas visões de mundo ocidentais – centrados e reducionistas. Por outro lado, alguns grupos de consumidores e movimentos populares podem rejeitar a ciência em princípio; eles podem ter uma visão religiosa, mística, ou política do que conta como conhecimento significativo e aproveitável. 71 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii A prática dominante, ainda da Revolução Verde, é a sinergia entre a ciência da nutrição, a engenharia genética e grandes recursos financeiros colocados na pesquisa agrícola de larga escala juntamente com as indústrias de alimentos para a produção de alimentos cada vez mais padronizados, de baixo custo e preços sujeitos à especulação. Um mínimo de qualidade é exigido por normas que permitiram empresas de alimentos industriais em construir cadeias desuprimentos complexas; assegurar o controle de qualidade e segurança dos alimentos em todas as localizações geográficas distantes dos pontos de produção (conservantes) para transformar a matéria agrícola em produtos negociáveis e atrativos mercadologicamente. A indústria da alimentação foca no uso intensivo de tecnologias para a produção, processamento, transporte, varejo e marketing em detrimento da qualidade nutricional de seus produtos. Como os sistemas industriais de alimentos começaram a oferecer peixe, frutas, nozes, carne e verduras durante todo o ano, os consumidores se acostumaram à aparente confiabilidade desta generosidade. Portanto, a agricultura industrial reflete atributos poderosos da ciência, desta vez direcionada à produção em larga escala. Não significa que a ciência esteja exclusivamente a serviço das complexas cadeias comerciais de alimentos, mas estas investem maciçamente em pesquisas para referendar seus produtos, enquanto a ciência que desenvolve pesquisas em torno da Agroecologia conta com o comprometimento de seus pesquisadores apoiados por poucos programas de pesquisa. Uma lógica subjacente que contribui para a força da agricultura industrial é o dogma que os seres humanos devem exercer controle sobre a natureza. Houve muito trabalho acadêmico em antropologia, etnobiologia e geografia humana, entre outras disciplinas que investigam como as sociedades se relacionam com seus ambientes. O sucesso da moderna agroindústria tem sido persuadir esse costume industrial mundial em prática produtivista. Seja na forma de sprays de pesticidas, paisagens desflorestadas para cultivo, ou tecnologias de reprodução animal, as pessoas entendem-se fundamentalmente distintas da natureza, com a responsabilidade de trazê-la sob controle. O trabalho dos cientistas torna-se então desenvolver as ferramentas e tecnologias que permitam tal subjugação de ocorrer. O trabalho dos agricultores, por sua vez, tornou-se empunhar essas ferramentas no chão além de simplificar e racionalizar paisagens. A agricultura industrial também é tecida profundamente no mercado e em instituições governamentais de ações políticas para imbuir a agricultura com legitimidade considerável ao favorecer determinadas linhas de pesquisa, tecnologias e desenvolvimento de mercado. As commodities agrícolas (produtos de larga escala global) são resultado da agricultura industrial. 72 UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA Os subsídios para a produção e comercialização são destinados principalmente para produtores de commodities, mas não para os agricultores que utilizam métodos diversificados. As agências governamentais e instituições financeiras de crédito rural são formadas e organizadas em termos de necessidades agrícolas industriais. Financiam a pesquisa, o ensino e a extensão na agricultura convencional e direcionam poucos recursos para a agricultura em comparação com o financiamento para o mercado majoritário. O resultado se mostra com mais pesquisas, mais de publicações, desenvolvimento tecnológico em apoio à agricultura produtivista em um efeito de “bola de neve”. É inegável o poder dos grandes centros de comércio agrícola internacionais na legitimação industrial de alimentos em muitas regiões desde a década de 1940. No regime alimentar neoliberal atual, uma série de acordos de livre comércio bilaterais e multilaterais torna cada vez mais difícil para os pequenos produtores, diversificados, especialmente nos países em desenvolvimento, em manter os seus sistemas de produção de alimentos pelos métodos locais, impactando inclusive na agrobiodiversidade de espécies alimentares regionais. Em nível institucional, departamentos governamentais, tribunais, universidades e outros organismos também devem vir a integrar a agroecologia em suas culturas e procedimentos. Os sistemas de produção fazem a agregação de meios científicos, políticos, sociais, legais, econômicas entre outros para a construção e estabilização dos interesses. Os órgãos governamentais têm tornado cada vez mais evidente a forma como a ciência tem permeado a organização e a prática destes órgãos. Departamentos burocráticos formam seus repertórios administrativos em torno do conhecimento e de instrumentos técnicos, muitas vezes em aliança com cientistas e engenheiros envolvidos com meios industriais de produção. Usando os princípios de gestão científica, os governos se esforçam para maximizar a extração eficiente de florestas, água e recursos terrestres para o bem-estar público. Neste caso, vê-se um direcionamento para o uso mais racional e de preservação dos recursos naturais. A interação dos diversos grupos de interesse e as evidências sobre o meio ambiente e a sociedade, trouxeram o uso de ferramentas quantitativas, como análise de custo-benefício e avaliações de risco, para padronizar e justificar as decisões políticas por razões objetivas. As atividades políticas no parlamento das nações com vocações agropecuárias sofrem pressão de grupos de interesse das agriculturas convencional e ecológica. Historicamente houve uma dominância por grupos ligados à indústria e à pesquisa científica. Esta dominância leva os governos a direcionarem o orçamento público para influenciar substancialmente os rumos da pesquisa científica por meio de suas decisões 73 Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii e prioridades de financiamento. Os regimes de subvenção competitivos favorecem os produtores ligados aos processos tradicionais de produção que possuem melhor aceitação entre os consumidores. Nas duas últimas décadas viu-se no Brasil a intensificação das atividades políticas e legislativas em torno da regulamentação das atividades agroecológicas. As práticas ficaram mais evidentes, os consumidores mais conscientes e isso refletiu nas esferas governamentais. 74 unidAdE iVo futuro dA AgroECologiA CAPítulo 1 Perspectivas dos ramos da agroecologia Como ciência em construção, com características transdisciplinares, a Agroecologia necessita da participação efetiva de diversas ciências e disciplinas, como a Agronomia, a Biologia, a Economia, a Sociologia, a Antropologia, a Ciência do Solo, entre outras. Além disso, incorpora e reelabora o conhecimento tradicional das populações. Ciência integradora, a ecologia fornece a base metodológica para a integração desses conhecimentos. Apesar dos evidentes problemas causados pela agricultura tradicional, esta ainda é dominante, devido a sua facilidade e respostas imediatas, além do intenso bombardeio ideológico que sofrem os agricultores por parte dos agentes de mercado, que lucram com esse modelo de agricultura. Paulatinamente, a Agroecologia vai ganhando respeitabilidade, tendo passado de elemento da contracultura, na década de 1970, a disciplina acadêmica. Os inegáveis resultados obtidos pelas diferentes linhas de pesquisa da área dão suporte a esse ganho de respeitabilidade. Inúmeras lacunas ainda estão em aberto e exigem um extraordinário esforço de pesquisa, experimentação, teste em meio real para expandir o conhecimento na área e a adoção de tecnologias agroecológicas por parte dos agricultores. O acesso à internet e outros meios modernos de informação poderiam abrir um caminho importante para o desenvolvimento agrícola baseado no conhecimento, mas esses meios não podem continuar beneficiando somente aos mesmos setores que sempre tiveram acesso ao capital e à tecnologia, deixando fora os milhões de agricultores familiares, camponeses e os mais pobres da região. Neste sentido, cabe ao Estado reverter a tendência neoliberal que destruiu os serviços de Extensão Rural em quase todas os países, cumprindo com seu dever de ofertar este serviço que se caracteriza como um “bem público”. 75 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV Não há dúvidas que o conhecimento científico de ponta (e ecologicamente correto) terá cada vez maior custo, tenderá a ser restringido a alguns setores e dominado por estratégias de poder econômico. Isso poderádeterminar que as instituições públicas de pesquisa e extensão rural fiquem cada vez mais debilitadas, sem possibilidades de contribuir para que o conhecimento chegue por outras vias acessíveis aos agricultores familiares e camponeses de menos recursos. Caberá ao Estado estar atento a este tipo de problemática destinando recursos e estabelecendo políticas que possam superar tais obstáculos. Ao mesmo tempo, devem ser apoiadas e estimuladas as milhares de iniciativas de agricultores e técnicos, que têm avançado o desenvolvimento de experiências baseadas no conhecimento agroecológico. A inovação é um tema central na Agroecologia e práticas agrícolas inovadoras têm consequências económicas, sociais e ecológicos. A difusão da inovação pode ser definida como uma ideia, uma prática ou objeto que é disseminada em um grupo ou individualmente. A inovação tem sido aplicada a principalmente no contexto da “revolução verde”, onde novas práticas agrícolas, como fertilizantes e pesticidas são ligados a aumentos em grande escala na produtividade agrícola em todo o mundo. A perspectiva geral de que informações sobre novas práticas e produtos agrícolas fluem através das redes de produtores rurais como forma de melhorar os rendimentos de suas culturas. Nesse contexto a extensão rural tem um papel social importantíssimo como agregador de valor. As interações sociais na agricultura agroecológica são temas recorrentes em pesquisas sociais, dada a sua particularidade e seu alcance em diversas comunidades com características diferenciadas. Muitas vezes o objeto de pesquisa é dedicado a descobrir os caminhos causais por meio dos quais as características e comunicação influenciam o comportamento individual. Empiricamente é difícil determinar a influência social do grupo porque as sociedades consistem de pessoas afins com comportamento similar e as diferenciações são sutis. Muitas vezes, o comportamento aponta para modelos de difusão simples de práticas novas, como cultivo orgânico baseados em um modelo de imitação linear em que cada interação com outro adotante aumenta a probabilidade de aprovação pelo sujeito em análise. As teorias da evolução cultural podem identificar outras estratégias de aprendizagem social, como a conformidade e imitação à base de prestígio, que podem afetar a forma e a velocidade da inovação e da adoção de uma nova forma de cultivo em determinada comunidade, por exemplo. A influência de diferentes características estruturais dos indivíduos e famílias pode depender de aceitação e adoção de benefícios privados e sociais da inovação. Isso pode ser particularmente importante em relação à difusão de inovações por agentes de assistência técnica rural. 76 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA Milhares de parcerias locais têm evoluído em todo o mundo nas últimas duas ou três décadas em direção à colaboração, cooperativismo e notadamente para a economia solidária. Governos e agências internacionais de fomento e pesquisa estão implementando projetos para ajudar as comunidades rurais a melhorar o bem-estar econômico, ambiental e social. Com todo o apanhado de complexidade da produção de alimentos, meio ambiente e agroecologia, surge algumas indagações que trazem as discussões recentes para uma análise técnica e científica. Os tópicos a seguir relacionam as principais discussões para reflexão. 1. Como pode a agroecologia por uma abordagem científica e com valores e sistemas éticos diferentes conviver com crescente preocupação pública em muitos países em matéria de bem-estar animal e vários aspectos dos sistemas de produção pecuária intensiva? 2. Como as perspectivas agroecológicas podem contribuir para uma avaliação de riscos e benefícios das várias aplicações da biotecnologia agrícola para produção alimentar, o ambiente, a saúde humana e a segurança dos alimentos? 3. Qual o nível de produção de alimentos otimiza o bem-estar humano e em qual escala (local, regional, nacional) e em que período de tempo (sazonalidade)? 4. De que forma os sistemas integrados como a Permacultura e sistemas agroflorestais, nomeadamente os sistemas de integração lavoura- pecuária-floresta (ILPF), podem ser desenvolvidos para substituir fertilizantes nitrogenados sintéticos, expandir a produção global de alimentos (incluindo produtos de origem animal), e melhorar os meios de subsistência dos pobres nos países em desenvolvimento, minimizando a degradação ambiental e a perda de biodiversidade? 5. Quais são os pontos mais significativos entre as práticas de produção agrícola, a qualidade dos alimentos e a saúde humana? 6. Como podem os princípios e práticas de agroecologia contribuir para o controle de plantas invasoras nas lavouras que movimentam cifras bilionárias com herbicidas? 7. Será que vai ser possível gerir a biodiversidade do solo como parte de uma abordagem agroecológica para a manutenção da fertilidade das terras? 77 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV 8. Que medidas serão mais eficazes na detecção de limiares de preocupação ambiental e de saúde com o aumento da resiliência da agricultura sustentável e do sistema alimentar em face de múltiplos fatores de mudança? A reflexão e análise de respostas aos questionamentos citados são um exercício preparatório para as pessoas que atuam diretamente com a assistência técnica junto a produtores e que devem possuir habilidades imprescindíveis como: » realizar assistência técnica e a extensão rural; » conhecer as bases científicas e tecnológicas da Agroecologia; » saber trabalhar em equipe; » deverá ter iniciativa, criatividade, responsabilidade e capacidade empreendedora; » deverá estimular a participação e o compromisso coletivo no desenvolvimento de projetos agrícolas, utilizando práticas de cooperação e organização entre agricultores; » desenvolver projetos agroflorestais e de recuperação de áreas degradadas; » atuar nos processos de certificação dos sistemas orgânicos, ecológicos, solidários e agroecológicos de produção; » elaborar relatórios mensais descrevendo as atividades desenvolvidas; » realizar pesquisas e estudos que contribuam para o resgate das experiências e conhecimentos dos agricultores e também para a geração e validação de tecnologias adaptadas à realidade da agricultura familiar. A despeito do grande apelo em relação à melhoria da alimentação humana e sua consequente melhora na saúde das pessoas, a Agroecologia converge para outro aspecto de suma importância: a biodiversidade, aqui tratada como agrobiodiversidade. Os estudos e a conscientização trazem a perspectiva de convergir para que os movimentos de preservação e recomposição ecológica tenham como justificativa, as consequências benéficas da manutenção da biodiversidade dos ecossistemas. Agrobiodiversidade A produtividade e a resistência em muitos ecossistemas são variavelmente correlacionadas com a diversidade espacial, temporal e genética. Os benefícios ecológicos oriundos pela maior diversidade de espécies de culturas, genótipos e habitats na paisagem agrícola 78 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA podem aumentar a ciclagem dos nutrientes do solo, a retenção mineral, e regulação de pragas e patógenos, e melhorar a polinização além de qualidade da água satisfatória. A valorização e conservação da biodiversidade estão entrelaçadas ao longo destes processos e são componentes integrais do controle biológico e manejo integrado de pragas (MIP). Apesar da abundância de espécies individuais em uma comunidade nativa diversa original, os seres da fauna e da flora podem variar em relação à adaptação de cada um para condições prevalecentes, a resiliência pela evolução ano-a-ano e a reprodução é reforçada pela diversidade genética e riqueza de espécies. Por meio dos seus efeitos na redução das concentrações de fontes de alimentos e habitat para pragas e doenças, a diversidade genética proporciona resistência ao estresse biótico, como patógenos (fungos, vírus e bactérias), plantas invasorase pragas (insetos e artrópodes). O próprio agroecossistema busca equilibra-se quando há alguma sobreposição de domínio biótico. A rotação de culturas gera biodiversidade em uma escala temporal, com impactos definidos sobre a saúde do solo, estado nutricional, insetos e microrganismos que vivem no solo e espécies benéficas. A manutenção de refúgios de vegetação para insetos benéficos e para os inimigos naturais das espécies mais vorazes representa biodiversidade espacial em sistemas agrícolas. Além da variedade de animais e plantas que são os produtos diretos da agricultura, a agrobiodiversidade inclui a espécies benéficas que integram o bioma local e não utilizados diretamente como produto da atividade agrícola (microrganismos do solo, predadores, polinizadores). São seres de apoio à ciclagem de nutriente e reequilíbrio ambiental. De todas as espécies de plantas utilizadas em todo o mundo para a alimentação, apenas uma pequena fração representa a maior parte do cultivo. Os costumes alimentares fazem com a agricultura seja pouco diversificada e tendendo à monocultivos e monoculturas que podem levar a desequilíbrios ambientais quanto à biodiversidade. A agrobiodiversidade tem sido bastante reduzida por práticas de manejo da terra que incluem a remoção de plantas oportunistas, limpeza da vegetação natural para expandir o tamanho do campo, terraplanagem, cultivo intensivo, pesticidas, fertilizantes minerais, propagação clonal, e plantação de monocultura extensiva. Tais práticas maximizam a produtividade, com pouca atenção para consequências ambientais e, em alguns casos, a qualidade do produto. Práticas destinadas a minimizar os impactos ambientais, incluindo os impactos de pragas e doenças, muitas vezes, inadvertidamente reduzem a utilidade e o equilíbrio do ecossistema. 79 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV O restabelecimento da agrobiodiversidade nos agroecossistemas requer uma compreensão da oportunidade e necessidade, como determinado por cada ambiente. Isso envolve as fases fundamentais da colonização pelas espécies: chegada, criação, integração e disseminação, embora estes sejam comuns também em relação às espécies que não interessam ao sistema produtivo, seja convencional ou agroecológico. Organismos com uma distribuição geográfica mais ampla e diversidade ecológica são mais propensos a se estabelecer em um novo ambiente. A eliminação ou redução de uso de agrotóxicos é propícia para a criação bem-sucedida de inimigos naturais das espécies de pragas; uma variedade de plantas e organismos proporciona refúgios, fontes e viveiros de agentes de controle biológico. Mudando a nossa atenção de controle de pragas a benefícios prestados por insetos, a biodiversidade de abelhas é um componente importante tanto do nível de polinização das culturas e sua estabilidade ao longo do tempo. Nos últimos anos, autoridades dos Estados Unidos, têm demonstrado preocupação com a redução da população de abelhas nas zonas rurais daquele país. Estima-se que a queda seja 42% (AGRONEGÓCIOS, 2015). As abelhas selvagens, muitas vezes são negativamente afetadas pela perda de habitat natural e outras práticas associadas à intensificação agrícola, no entanto, populações de abelhas persistem onde os recursos florais e de nidificação suficientes estão disponíveis. Embora as culturas de floração em massa possam beneficiar espécies individuais, a diversidade de habitat naturais fornecem condições mais consistentes de reprodução e dispersão do as observadas na agricultura intensiva. Os estudos científicos da agrobiodiversidade abaixo do solo têm experimentado grandes avanços na última década. Como exemplo, considera-se os avanços das pesquisas em relação aos organismos fixadores de nitrogênio que de forma natural incorporam este nutriente através das raízes. As plantas leguminosas, como soja, feijão e ervilha dispensam adubação química com nitrogênio por viverem em prefeita simbiose com bactérias nitrificantes benéficas. O restabelecimento da cadeia alimentar do solo é um dos fundamentos para a utilização de cultivos orgânicos. Os pesticidas têm impactos negativos sobre os níveis tróficos de áreas de cultivo e acarretam a diminuição de organismos benéficos, seja por agrotóxicos, seja pelo intenso revolvimento da terra. O desafio é projetar os sistemas para que propiciem a criação funcional dos níveis tróficos superiores e facilitem a relação de entre os seres que o compõem. 80 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA No nível intraespecífico, combinações de genótipos podem retardar a progressão e gravidade das epidemias de doenças de plantas e infestação de pragas como já comprovado em práticas agroecológicas. Temporalmente, sequências de rotação de culturas podem ser utilizadas para construir a fertilidade do solo, quebrar os ciclos de doenças, amplificar inimigos naturais, e acelerar o declínio de espécies de pragas. Algumas estratégias para a sustentabilidade futura podem beneficiar diferentes tipos de organismos e ecossistemas, no entanto, a assistência governamental pode ser necessária para propiciar uma base de conhecimento e divulgação O desafio permanente de buscar práticas que, simultaneamente, proporcionem maior retorno ambiental, econômico e social são as grandes perspectivas dos ramos da Agroecologia. Agroecologia é um termo que tem recebido muita atenção desde que a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) realizou um simpósio internacional intitulado “Agroecologia para a Segurança Alimentar e Nutricional”. Este simpósio representou um ponto significativo na história dos movimentos e de repente a Agroecologia estava sendo apontada como uma solução legítima para o debate “alimentar o mundo”, uma realidade que contrasta com a agricultura empresarial. A agroecologia pode ser considerada a antítese da corrente convencional, incorporada e conduzida em sistemas agrícolas baseados na monocultura. Onde a agricultura convencional visa simplificar os sistemas de produção, a Agroecologia abraça complexidade de fatores desprezados. Onde a agricultura convencional visa eliminar a biodiversidade, a Agroecologia não só constrói a diversidade, mas depende dela. Onde a agricultura convencional procura transformar os agricultores em operários não qualificados, a Agroecologia é muito intensiva e democrática em conhecimento. Onde a agricultura convencional é baseada em pacotes tecnológicos pré-estabelecidos, a Agroecologia é construída sobre a compreensão de que os problemas locais requerem soluções locais. Mas, possivelmente, o mais importante, onde a agricultura convencional é em grande parte promotora de degradação, a Agroecologia é baseada em regeneração. O maior problema que as correntes de agricultura alternativa enfrentam tem origem nas principais instituições e pessoas da agricultura convencional que abominam as ideias conservacionistas por sua própria natureza. O foco central de sistemas agroecológicos envolve a utilização dos recursos locais para criar sistemas de autossustentáveis. Isso quer dizer que, em Agroecologia há muito pouco para vender, produz-se boa parte dos insumos necessários. 81 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV É por esta razão que a Agroecologia é, muitas vezes, referida como mais do que uma filosofia apenas agrária, mas também um movimento político. Em nenhum lugar essa realidade mais evidente do que no recente Declaração do Fórum Internacional de Agroecologia, na qual a declaração de abertura lê: Agroecologia é a resposta para como transformar e reparar nossa realidade material em um sistema alimentar e do mundo rural que foi devastada pela produção industrial de alimentos e as suas chamadas revoluções verde e azul. Vemos agroecologia como uma forma fundamental de resistência a um sistema econômico que coloca o lucro antes da vida. Em alinhamento com a Declaração do Fórum Internacional sobre Agroecologia, evento que reuniu representantes de movimentossociais de todos os continentes em fevereiro de 2015, em Nyéléni, no Mali, os representantes da sociedade civil presentes no seminário reiteraram a sua defesa da Agroecologia como enfoque para a promoção de transformações estruturais nos sistemas agroalimentares. Enquanto o dinheiro investido em pesquisas agroecológicas é uma insignificância quando comparado com investimentos em áreas tradicionais da pesquisa agrícola convencional, a pesquisa agroecológica é sustentada pelo senso comum. Não é preciso ser um cientista para entender que, na atualidade há degradação ambiental continuada com práticas agrícolas que que ferem a sustentabilidade. A discussão que se faz não é sobre efeitos danosos das práticas convencionais da agricultura, mas como podemos utilizar práticas como a agroecologia para regenerar os ambientes naturais. Existem verdades simples que já não podem ser ignoradas. Talvez a mais óbvia delas é que, como os níveis de dióxido de carbono na atmosfera começam a ameaçar a existência humana como a conhecemos, os solos oferecem a oportunidade mais óbvia para sequestrar o carbono. Ainda mais do que isso, os solos são pobres em carbono e a sua ciclagem natural os tornariam suficientes. O aumento do teor de carbono nos solos é diretamente correspondente ao aumento da capacidade de retenção de água e melhoria da fertilidade. Em termos simples, somos confrontados com duas escolhas. A primeira é continuar as práticas agrícolas convencionais que irão garantir a alimentação de gerações futuras mesmo com o problema das alterações climáticas. A outra é começar a explorar e implementar práticas agroecológicas que podem transformar a agricultura em parte, como solução ambiental. Um dos grandes defensores da Agroecologia como solução para as mudanças climáticas atuais e para o desenvolvimento da ciência agroecológica tem sido o professor Miguel 82 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA Altieri, da Universidade da Califórnia em Berkeley. O mesmo possui mais de 200 publicações científicas e numerosos livros, incluindo o texto “Agroecologia: A ciência da agricultura sustentável”. 83 CAPítulo 2 Estudo de caso em comercialização de produtos agroecológicos Consumidores têm consciência limitada quanto aos rótulos orgânicos e princípios e benefícios da agricultura orgânica controlada. Apesar dos atuais hábitos de compra dos consumidores – diversidade, frequência, rapidez, frescor, entregas em domicílio, compras pela internet, ambiente agradável de compra – que levam à compra de alimentos em supermercados, outras feiras orgânicas foram implantadas em Niterói, Paty do Alferes, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, aumentando a oferta nos circuitos curtos de comercialização. A história recente da agricultura orgânica controlada no Estado do Rio de Janeiro tem sido marcada por ciclos de expansão e de retração do número de unidades controladas e da oferta de produtos orgânicos. As consequências desses ciclos traduzem-se, por exemplo, no lento crescimento do número de produtores orgânicos certificados/controlados (neorrurais, agricultores familiares e pequenos produtores) pela ABIO nos últimos 10 anos (1998-2008) e nas estimativas dos volumes de produtos orgânicos produzidos e comercializados no grande varejo e em outros canais. Apesar das iniciativas públicas e privadas para estimular a conversão dos sistemas produtivos para a agricultura orgânica controlada e da diversidade de experiências implantadas nas áreas de produção, há poucas ações positivas de comercialização desenvolvidas. Embora sejam raras as informações sobre o crescimento da demanda de consumo dos alimentos e bebidas orgânicas nos últimos anos no Rio de Janeiro, percebe-se o aumento do número de segmentos para escoamento (canais de comercialização), do número de produtos orgânicos ofertados (in natura e processados), do número de marcas (aparecimento das marcas dos supermercados) e do volume comercializado pelas redes de varejo (supermercados, restaurantes, cestas em domicílio, vendas coletivas e lojas de produtos naturais). Adotando-se como unidade de análise os membros da ABIO do Rio de Janeiro, verifica-se que, em fins de 2008, eram 211 (91% produtores, 6% processadores, 2% comerciantes e 1% produtores de insumos). Ao se comparar com os 74 produtores membros em 1998, constata-se o crescimento de 185% em 10 anos. Em 2008, do total de produtores da ABIO (191), 49% eram agricultores familiares, sendo que 26% destes (49) usavam como forma de garantia o controle social por meio da venda direta em feiras orgânicas, conforme previsto na Lei no 10.831, no Decreto no 6.323 e na Instrução Normativa no 19. 84 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA Em 74% dos produtores (agricultores familiares ou não) são certificados, comercializam ou não nas feiras orgânicas organizadas pela ABIO e também em outros canais de comercialização na modalidade venda direta (mercado institucional, venda na unidade produção, entregas em domicílio, redes de consumo – compras coletivas) e indireta (distribuidoras de produtos orgânicos certificadas pela ABIO ou não). feiras da agricultura orgânica figura 5. feira de produtos orgânicos em Itu/SP. fonte: G1, 2013. A experiência com as feiras orgânicas nos países da América Latina e Caribe servem de estímulo ao desenvolvimento dos mercados locais, com apoio de ONGs e de Fundos de Desenvolvimento Internacional. A importância da escolha por feiras específicas e não pela oferta de produtos orgânicos em feiras convencionais, deve-se a alguns fatores: » Impacto visual: espaço alternativo para que se tenha segurança de que só os produtos da agricultura orgânica são vendidos. » Espaço além do comercial que promove o encontro entre produtores e consumidores para troca de experiências e saberes – valorização cultural. » Como nem todos os produtores são controlados, há necessidade de apoio institucional e de espaço diferenciado que funcione como mecanismo de garantia. Lançou-se mão do arcabouço teórico de várias correntes do pensamento da teoria econômica e da sociologia econômica para explicar as diferentes formas de governança e formas de coordenação construídas nas redes de produção, comercialização e consumo dos produtos da agricultura orgânica, sendo a proposta uma análise fundamentalmente 85 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV interdisciplinar da ação econômica. Foram realizadas entrevistas nas feiras selecionadas em levantamento feito pelo GT Comercialização da Comissão da Produção Orgânica do Rio de Janeiro (CPOrg-RJ), publicado durante a IV Semana do Alimento Orgânico. Usando a metodologia de pesquisa-ação, os resultados do estudo de caso foram apresentados e discutidos em oficinas com os produtores orgânicos das regiões estudadas (dos núcleos da ABIO ou não), técnicos e elaboradores de políticas públicas. Apesar do aumento do número de produtores, a produção (principalmente a pequena de origem familiar) é punida pelas relações comerciais desvantajosas (prazos longos de pagamento, aluguel do m² de prateleira, impostas pelos canais de comercialização tradicionais). É fundamental conhecer o funcionamento, as estratégias e as características de cada canal de comercialização para definir, de forma participativa, ações direcionadas ao crescimento sustentável do setor produtivo e ao aumento do consumo de forma consciente. Para isso, foram visitadas 10 feiras no estado do Rio de Janeiro, o que corresponde a 53% dessas iniciativas, já que em 2009 foram identificadas 19 feiras que comercializavam produtos orgânicos (controlados ou não) e/ou produtos da agricultura familiar, “da roça”. A ABIO é responsável pela organização de 4 feiras (1 no Rio de Janeiro, 2 em Niterói e 1 em Nova Friburgo). A criação de todas as feiras ocorreu por iniciativa de órgãos públicos, de pessoas ou organizações interessadas em produtos orgânicos e da agricultura familiar e dos movimentos sociais. Normalmente, as vendas são feitas por agricultoresfamiliares, que comercializam a maior parte da produção (frutas, legumes e verduras, doces, geleias, queijos, pães, biscoitos) nesse canal, mas não exclusivamente. As principais características das feiras orgânicas e da agricultura familiar são: » Os feirantes são os próprios agricultores familiares que, em sua maioria, têm origem rural e moram nas áreas em que produzem (com exceção de Nova Friburgo, onde predominam os neorrurais, que têm outra fonte de renda – aposentadoria, turismo rural). » Os feirantes são discriminados em suas comunidades por produzirem sem o uso de agrotóxicos. » As feiras ocorrem em praças, parques ou em lugares fechados de livre acesso ao público. » As garantias de que os produtos são orgânicos são fornecidas pelo controle social ou pela certificação. 86 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA Os feirantes não se veem como concorrentes, mas como parceiros que trocam saberes, mudas, sementes e insumos. As feiras são ambientes em que há espaço para atividades de lazer e cultura e onde a relação entre produtores e consumidores é de confiança e de amizade, além de local para a troca de conhecimentos sobre questões rurais e urbanas. Os agricultores se sentem mais valorizados à medida que os consumidores criam vínculos de fidelidade; os consumidores, por sua vez, sentem-se seguros em adquirir produtos de qualidade, sabendo a origem e que são cultivados por pessoas que têm preocupações ecológicas e humanitárias. A maioria dos consumidores desconhece a regulamentação e os princípios da agricultura orgânica, mas afirmam que os orgânicos são sem agrotóxicos. Os principais pontos fortes identificados nas feiras são: » A troca de conhecimentos, saberes e sabores entre produtores, entre produtores e consumidores e entre consumidores. » A possibilidade de exercitar melhor o controle social das qualidades orgânicas e das garantias dos produtos orgânicos, identificadas pelos consumidores devido ao envolvimento produtor-consumidor e às organizações de apoio (públicas, privadas ou da sociedade civil). » A oferta de produtos frescos e com preços menores que nas redes do grande varejo pela venda direta produtor – consumidor, o que, com o tempo, leva à fidelidade da clientela. As maiores dificuldades identificadas são: » O desconhecimento dos custos de produção e da formação de preço de venda. » O uso de embalagens plásticas e a ausência de balança e de tabela com preços. » A ausência de planejamento da produção para a venda, o que leva à ausência de regularidade, quantidade e baixo padrão de qualidade sensorial nos produtos ofertados. » O isolamento de alguns produtores e a pouca prática no transporte coletivo/solidário dos produtos até os pontos de comercialização. » A pouca profissionalização dos agricultores e suas associações, que esbarram na burocracia e na exigência de documentos, dificultando o acesso às políticas públicas que favorecem o acesso a outros mercados (mercados institucionais). 87 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV » A falta de infraestrutura e de padrão mínimo: banheiros, barracas, uniformes, divulgação, identificação do feirante, do local de produção e da organização de controle social ou do organismo de avaliação da conformidade. As limitações das feiras dizem respeito ao pequeno volume de produtos orgânicos vendido por família, que gera pouca renda, e aos atuais hábitos dos consumidores de comprar nas grandes redes de varejo, principalmente nas cidades. O aumento do volume pode ser alcançado com uma dinâmica de mão-dupla: planejamento da produção e divulgação de novos pontos de venda aos potenciais consumidores de produtos orgânicos. O aumento da produtividade e da qualidade dos produtos poderá ser obtido com ações em parceria e construção do conhecimento agroecológico. As limitações para o uso das feiras como canais de orgânicos estão relacionadas, também, à localização, pois o estacionamento de veículos, o barulho e o lixo nas cidades tornam-se entraves à sua instalação. Na visão dos entrevistados, os maiores desafios enfrentados são: » Expandir as feiras orgânicas para outros locais na cidade do Rio de Janeiro e para outros municípios. » Despertar o interesse dos jovens em continuar com a atividade agrícola. » Estabelecer parcerias entre os grupos de agricultores de regiões diferentes para fornecer diversidade e regularidade de produtos às feiras locais. » Planejar a produção em grupo e processar os produtos na safra para ofertar ao longo do ano. » As oficinas apontaram, também, outros desafios, como manter infraestrutura mínima (banheiros, barracas padrões), regras claras e transparentes de acesso às feiras por outros produtores e trabalho coletivo de destino das sobras e lixo (orgânico e inorgânico) das feiras. O trabalho concluiu que as garantias orgânicas fornecidas pela organização de controle social de cada localidade e a satisfação dos consumidores das feiras mostram que a regulamentação da agricultura orgânica controlada no Brasil está bem fundamentada, baseada nas realidades de cada arranjo socioprodutivo local. Os agricultores familiares e produtores orgânicos deverão estar cadastrados no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) com vistas a comercializar suas produções, o maior desafio será estabelecer os registros, podendo esta atividade ser alternativa para o trabalho de jovens rurais. 88 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA A complementação da renda familiar com o escoamento de parte da produção em outros circuitos curtos de comercialização (compras governamentais locais, cestas em domicílio e vendas nas unidades de produção) é a estratégia buscada pelos orgânicos do Rio de Janeiro. As visitas de técnicos e consumidores às unidades de produção e os registros dos controles individuais de volumes vendidos nas feiras x produção prevista servem para apoiar os sistemas de produção, estabelecer preços compatíveis com os custos de produção e de comercialização e fornecer garantias dos produtos vendidos, podendo a rastreabilidade dos produtos chegar aos grupos ou às famílias produtoras. Os mercados institucionais de produtos orgânicos trazem inúmeros benefícios como: » Permitem a conscientização do produtor quanto à aplicação correta dos insumos ao saber o destino dos seus produtos, além de favorecerem a transição agroecológica. » Adquirem a produção orgânica com prêmio sobre o preço do produto convencional. » Fortalecem a organização dos produtores e, consequentemente, o fornecimento aos mercados locais (pequeno e grande varejo). » Viabilizam a pequena produção orgânica que não tem condições de acessar mercados voltados para outras exigências específicas (grande varejo, por exemplo). » Em nível local, favorecem políticas redistribuidoras de renda (doação a creches, escolas, merenda escolar etc.). » Representam importante papel na convergência de atores locais (prefeituras, associações e cooperativas) para as camadas mais necessitadas da população (baixa renda); favorecem hábitos alimentares relacionados à cultura local, que estimulam o consumo consciente e a economia de energia não renovável (frete). » Permitem fornecer alimentação saudável pela oferta de produtos orgânicos aos estudantes e à população em situação de insegurança alimentar. No âmbito dos mercados institucionais, entendidos como aqueles constituídos pelas relações sociais envolvidas nas compras governamentais destinadas ao atendimento alimentar das populações que utilizam serviços públicos federais, estaduais e municipais, e privados de caráter filantrópico, o projeto executado pela PESAGRO/RIO abordou, especificamente, o PAA e a alimentação escolar. O foco foi a oferta de orgânicos à população em situação de insegurança alimentar e às crianças na alimentação escolar. 89 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV A partir da constatação da reduzida participação do Rio de Janeiro no PAA em relação a outros estadose do reduzido número de experiências de fornecimento direto de produtos orgânicos ou convencionais para a alimentação escolar, o estudo procurou responder a duas questões: por que os mercados institucionais não têm se constituído em canal de comercialização importante para os agricultores familiares e pequenos produtores orgânicos do estado do Rio de Janeiro? E quais as condições necessárias para que esses mercados sejam acessados? As respostas resultaram da análise de dados e informações de fontes secundárias, particularmente da legislação que norteia as compras governamentais e de entrevistas com os atores sociais. Foram realizadas entrevistas com gestores públicos, com dirigentes e técnicos de organizações de agricultores familiares, com beneficiários consumidores do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e da merenda escolar e com produtores. Por último, realizou-se um estudo de caso, constituído pelo primeiro projeto de fornecimento de produtos orgânicos do Estado do Rio de Janeiro para o PAA, realizado pela Associação dos Produtores Orgânicos de Petrópolis (APOP). Os resultados da pesquisa apontaram como principais pontos fortes desse canal: as experiências de oferta de produtos orgânicos como alimento; a democratização do acesso a alimentos saudáveis e de qualidade por populações em situação de insegurança alimentar; a valorização do agricultor; o equilíbrio do mercado, pois o governo passa a ser comprador; o exercício de organização dos agricultores; os preços negociados; a disponibilidade antecipada dos produtos e a facilidade na logística pela parceria com o Banco SESC-Rio de Alimentos. No caso da alimentação escolar, somam-se, ainda, os seguintes pontos fortes: » A ênfase na qualidade da alimentação e na oferta de alimentos orgânicos e agroecológicos. » A recomendação de aquisição da agricultura local. » A possibilidade de compras descentralizadas nas escolas estaduais. Nas escolas municipais de Duque de Caxias e de Nova Iguaçu, a compra é descentralizada (por meio de acordo com a firma terceirizada para a entrega da merenda escolar), por vontade política do poder executivo e por iniciativa dos agricultores familiares que produzem em faixas de dutos da Petrobras. Os 10 agricultores da APOP que firmaram contrato para fornecimento ao PAA eram certificados pela Associação de Agricultores Biológicos (ABIO) e receberam até 30% a mais no preço médio dos produtos, sendo que, por ausência de preços referência 90 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA de orgânicos, foram praticados os preços médios anuais dos produtos convencionais coletados pelo SIMA/PESAGRO-RIO, disponíveis na internet. Em geral, os preços médios das “caixarias” (legumes e raízes) foram considerados bons pelo grupo, enquanto os preços de algumas folhosas eram inferiores aos praticados no varejo (feiras) e no atacado (distribuidoras de orgânicos). Há de se ter reserva nas análises por não existirem séries históricas de preços dos produtos orgânicos. Com relação aos custos de produção, foram comparados dados de 2004, compilados pelo Programa Cultivar Orgânico, atualizando-se os custos em dezembro de 2008. Observou-se aumento médio de 20% (descontada a inflação anual) nos custos de produção de 5 produtos (agrião, brócolis, cenoura, espinafre e inhame) em 4 anos. Ao se compararem os preços médios no atacado (distribuidoras) pagos aos produtores orgânicos de 8 hortaliças (agrião, alface lisa, brócolis ramoso, cenoura, espinafre e inhame, tomate cereja e salada) entre os anos de 2002 e 2008, observou-se que somente 2 produtos (inhame e tomate salada) tiveram seus preços aumentados, 45,38%, em média. Os demais produtos tiveram decréscimo médio de 37,90% no preço pago ao produtor de orgânicos, com destaque para a alface. O aumento dos custos de produção e a queda dos preços pagos no atacado pelas distribuidoras de orgânicos têm colaborado para o ciclo de expansão e retração da produção de orgânicos no Rio de Janeiro. O estudo apontou as seguintes dificuldades gerais para o acesso dos agricultores familiares orgânicos aos mercados institucionais: » A percepção, tanto por parte dos responsáveis pelas compras quanto por parte dos agricultores, da Lei no 8.666 como barreira intransponível e o temor do “calote” do governo. » A fragilidade da organização dos agricultores e a falta de planejamento da produção para a venda resultam em irregularidade da oferta e tornam insuperáveis os problemas de logística. » O desconhecimento, por parte dos agricultores, dos seus custos de produção e de distribuição, o que leva a avaliações equivocadas dos preços de compra nos mercados institucionais. » A ausência de preços referência de produtos orgânicos. » O desconhecimento dos técnicos e das associações de agricultores das possibilidades de venda direta de produtos orgânicos sem certificação por agricultores familiares para as compras governamentais. 91 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV » A necessidade de elaboração de padrões mínimos locais de qualidade. » Com relação ao PAA, as dificuldades localizam-se menos no desconhecimento do Programa do que na obtenção, pelos agricultores familiares, da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) e, pelas suas organizações, da documentação necessária, além da necessidade de organização dos agricultores; a necessidade de apoio técnico ao planejamento, elaboração, implantação e administração da execução dos projetos. A pesquisa dos Mercados Institucionais concluiu que eles representam alternativa viável e acessível aos agricultores orgânicos do Estado do Rio de Janeiro. São capazes de contribuir para a transição agroecológica e para a superação dos graves problemas de comercialização que os produtores enfrentam, principalmente como canal de comercialização que favorece a organização dos agricultores para o fornecimento de maior volume de produtos orgânicos. Para tanto, é necessária a implementação de políticas públicas direcionadas ao enfrentamento das dificuldades apontadas. As oportunidades com as iniciativas dos legislativos municipais e estaduais e os desafios para a implementação da Lei no 11.947/2009 e da resolução FNDE no 38 são realidades que vêm sendo articuladas e debatidas por um grupo de organizações públicas e privadas que trabalham no Rio de Janeiro. Levantamentos sistemáticos e análises dos preços no atacado (distribuidoras e restaurantes) e no varejo (feiras e supermercados) e dos custos de produção dos orgânicos são serviços que devem existir como forma de apoio às ações de P&D, mas também de geração de emprego e renda. Dados não oficiais revelam aumento de 267% no número de contratos firmados com a CONAB-RJ em 2008, envolvendo cerca de 2.000 agricultores familiares, quando comparados com os dados de 2007. Esses números, embora sejam fruto de alguns desmembramentos de contratos anteriores e da inclusão de algumas novas associações, são pequenos diante do número de estabelecimentos agrícolas (cerca de 70 mil) e do número de DAPs emitidas no estado (cerca de 8 mil) e mostram que os esforços de várias organizações públicas (federais, estaduais e municipais) e da sociedade civil (privadas e ONGs), nas diferentes localidades, foram importantes para aumentar o acesso dos agricultores familiares ao PAA no Rio de Janeiro. Possibilitaram maior e melhor acesso dos agricultores familiares às políticas públicas de geração de renda e emprego, mas também de combate à fome, com a oferta de produtos orgânicos para a população em situação de insegurança alimentar e para a alimentação escolar. 92 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA Alguns problemas e propostas para o PAA, apontadas por agricultores, técnicos e beneficiários na região Sudeste, foram, em parte, resolvidos em algumas localidades no Rio de Janeiro: » preços (inclusão dos tributos na negociação); » oferta de orgânicos; » melhora na logística de distribuição dos alimentos aos beneficiários, com apoio do BancoSESCRio de Alimentos; » apoio técnico, com a contratação de jovens rurais (técnicos agrícolas) como bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do rio de Janeiro (FAPERJ) para a elaboração e implantação dos projetos junto aos órgãos de extensão e associações de produtores, com recursos de P&D. Após demanda levantada na CPOrg-RJ, em reuniões no ano de 2007, foi apresentado e aprovado projeto de pesquisa para analisar os canais de comercialização de produtos orgânicos na modalidade de venda direta (produtores-consumidores) de produtos orgânicos: feiras e mercado institucional. A pesquisa também envolveria o estudo sobre a modalidade de venda indireta para as distribuidoras, por ser importante canal de escoamento da produção orgânica do estado do Rio de Janeiro. A pesquisa com as distribuidoras de produtos orgânicos buscou caracterizar, compreender a atuação, a logística de funcionamento e a especificidade de cada uma como canal de comercialização. Foram selecionadas 13 distribuidoras, com base em ensaio exploratório realizado nos supermercados, na CPOrg-RJ, no portal do Planeta Orgânico e no banco de dados da empresa de consultoria Agrosuisse, todos com sede no Rio de Janeiro. Os movimentos do setor produtivo estão se articulando para atender ao aumento da demanda, porém é necessário um ambiente que favoreça políticas públicas que gerem recursos para o setor, além da própria organização e planejamento da produção e da venda, de forma individual ou em grupo. É fundamental conhecer o funcionamento, as estratégias e características de cada canal de comercialização para definir ações direcionadas ao crescimento sustentável do setor produtivo e ao aumento do consumo de forma consciente. A metodologia empregada compreendeu entrevistas abertas, com roteiro semiestruturado, com informantes qualificados das distribuidoras selecionadas, além do uso de documentos existentes sobre as mesmas e informações colhidas na internet. As entrevistas foram realizadas no período de junho de 2008 a março de 2009. 93 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV As informações coletadas buscaram os aspectos de origem das empresas (como data de fundação), localização, certificadora, área de produção e área de atuação (compra e venda). O perfil das distribuidoras que seriam entrevistadas foi definido a partir das características dos canais de comercialização e das relações com fornecedores e clientes, além do seu portfólio. As formas de atuação foram definidas a partir do levantamento da logística de recebimento e entrega e da estrutura geral de seleção, processamento e embalagem dos produtos, assim como das características de apresentação ao mercado (tipo de embalagem, rótulo, marca própria). Os questionários incluíram também o estágio das empresas quanto ao volume médio mensal, número de produtos, número de clientes e frequência de entrega. O levantamento considerou os valores praticados no mercado, como preços pagos ao produtor, preços por segmento de mercado e margens de lucro apuradas por segmento e distribuidora, além das margens entre o setor produtivo e a distribuição. Os resultados permitiram entender o funcionamento, as exigências para os fornecedores, os problemas e as soluções encontradas, bem como os fatores de sucesso. Das 13 distribuidoras pesquisadas, seis (46%) têm menos de cinco anos de atuação e quatro (31%) têm dez anos ou mais de atuação e experiência no mercado de orgânicos no estado. Essas distribuidoras com mais tempo no mercado têm como característica comum o gerenciamento por neorrurais, que possuem outra fonte de renda. Cerca de 70% das distribuidoras estão localizadas na região Serrana, que possui aptidão e vocação para a produção de frutas, legumes e verduras, e as demais estão localizadas na Baixada Fluminense e no município do Rio de Janeiro. Das distribuidoras pesquisadas, 7 possuem certificação de organização sediada no Rio de Janeiro (ABIO), 2 possuem certificação nacional/internacional (IBD e Ecocert) e 4 não são certificadas. Dentre as distribuidoras, 77% têm áreas de produção, caracterizando-se como operação vertical entre a produção e a comercialização. Apenas 33% são especializadas somente na compra e distribuição de alimentos orgânicos. Quanto aos clientes (a quem vendem), 60% comercializam parte de seus produtos nos mercados locais e 90% na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente, a prioridade das distribuidoras é a entrega de cestas em domicílio (representando 25% das vendas), prezando a qualidade do produto e a busca da satisfação dos consumidores e não mais as grandes redes de supermercados. Na visão das distribuidoras, a venda para cestas em domicílio é caracterizada como venda direta, evidenciando grande potencial de crescimento e confirmando a mudança na construção da cadeia dos alimentos orgânicos no Estado do Rio de Janeiro. Essa mudança representa o estreitamento das margens entre a produção e o consumo, a exploração dos mercados locais e regionais. 94 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA Observou-se aumento na diversidade dos canais de comercialização usados; além do domicílio, restaurantes (13%), feiras livres (10%) e lojas especializadas (7%). Essa dinâmica reflete o aumento de demanda, fortalecendo a construção do mercado consumidor em diferentes canais de comercialização. As distribuidoras diversificaram seus canais, sempre na direção da venda direta ao consumidor (cestas em domicílio, vendas nas unidades de produção e para grupos de consumidores organizados). Caso sejam distribuidoras cujos donos são agricultores familiares, existe a possibilidade de fornecimento para os programas de compra de alimentos pelo governo federal para doação a comunidades carentes. A regulamentação da agricultura orgânica e as exigências legais são atendidas por 77% das distribuidoras pesquisadas, numa relação direta com os processos de obtenção de selo de certificação orgânico, de acordo com a regulamentação da Lei no 10.831/2003. A apresentação dos produtos, como embalagem e rótulo, são desafios para os próximos anos, já que 92% das distribuidoras utilizam plástico não degradável para embalar seus produtos. Além disso, 54% utilizam bandejas de isopor e os demais 46% vendem a granel. Do total de pesquisados, 54% usam rótulo com marca própria para a apresentação no mercado. Vale destacar o aparecimento de marcas orgânicas das grandes redes varejistas. A informação obtida sobre a alternativa de embalagens biodegradáveis, já pesquisadas, testadas e aprovadas, é relevante, embora ainda com custos elevados, principalmente se adquiridas em pequenos volumes. A maioria das distribuidoras (77%) comercializa, principalmente, verduras, legumes, frutas, ervas frescas e ovos. Apenas três distribuidoras (23%) trabalham com um leque bastante diversificado de produtos (mais de 100 itens). Em média, as distribuidoras trabalham com 50 a 70 itens, incluindo produtos processados e industrializados, como geleias e patês, conservas, sucos, pães, bolos, biscoitos, derivados de soja e leite, café, carne, grãos e cereais, produtos de limpeza, produtos para o corpo e mudas de plantas nativas, entre outros. Além disso, metade das distribuidoras pesquisadas participa de eventos promocionais que viabilizam vendas, como as feiras estaduais ou nacionais específicas de produtos orgânicos. Somente duas distribuidoras (15%) não possuem produtos com marca própria, vendendo apenas os produtos de seus fornecedores. Os clientes são cestas em domicílio ou grupos de consumidores. As demais comercializam produtos próprios e de seus produtores fornecedores sem contrato. As principais questões levantadas (perfil, características operacionais, canais de comercialização utilizados, atendimento a normas e legislações, apresentação do produto no mercado, preços e margens obtidas) confirmam a nova dinâmica no setor de produção e distribuição de alimentos orgânicos no estado do 95 O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iVRio de Janeiro, caracterizada pelo fornecimento a outros canais de comercialização (restaurantes, feiras locais), além do grande varejo; pelo foco na construção dos mercados locais (feiras, pequenos mercados); e pela necessidade de adequação das distribuidoras aos novos desafios de mercado (embalagens biodegradáveis, logística de distribuição, preços competitivos com outros alimentos). Quanto às características operacionais das distribuidoras, 54% têm apenas produtores como principais fornecedores e as demais (46%) têm também outros distribuidores como fornecedores, principalmente de produtos processados e não perecíveis, adquirindo caráter de intermediários. Um fato a ser destacado é a ameaça de concorrência entre as distribuidoras pesquisadas por possuírem praticamente os mesmos fornecedores, com os mesmos produtos processados. Evidencia-se, também, a ameaça pela disputa dos mesmos produtores, especialmente na região de Petrópolis e Teresópolis, onde quatro distribuidoras disputam esses agricultores. As entrevistas indicaram que não existe parceria entre as distribuidoras ou qualquer forma de cooperação. Apesar de detectada em pesquisas anteriores, a ausência de parcerias entre as distribuidoras para aumentar o volume e o leque da oferta por meio da organização e planejamento da produção e fornecimento de serviços de assistência técnica, visando reduzir custos e aumentar a eficiência na distribuição, continua existindo. A única distribuidora que trabalha com parcerias na distribuição é a Rede Ecológica, que adota princípios solidários, e cujos preços de venda são bem inferiores aos das demais distribuidoras. No que se refere à logística, constatou-se que 38% do transporte são terceirizados, 46% são feitos de forma mista (parte terceirizada e outra própria) e apenas 16% são feitos exclusivamente com transporte próprio. A logística é fator fundamental para as distribuidoras e a terceirização vem sendo considerada como fator de eficiência e profissionalismo no mercado, tendo em vista o alto custo do transporte e a dificuldade para a distribuição dos produtos numa grande cidade como o Rio de Janeiro. Das 13 distribuidoras entrevistadas, 2 têm de 2 a 3 fornecedores; 5 até 10 fornecedores; 2 têm entre 15 e 25 fornecedores e 2 têm mais de 50 fornecedores. A ampla maioria faz seleção rigorosa dos produtos, com exceção da Rede Ecológica, que é mais flexível em relação ao padrão dos produtos. Em relação a cestas em domicílio, as distribuidoras analisadas entregam, em média, 500 a 600 cestas semanais, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, o que demonstra grande potencial de aumento para esse canal de comercialização, tanto nas regiões de origem da distribuidora quanto na cidade do Rio de Janeiro. 96 UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA figura 6. Tela do artista pernambucano Lula Cardoso Ayres retratando o trabalho comunitário no campo. fonte: Ayres, 2011. 97 referências AAO. Agricultura orgânica. Disponível em <http://aao.org.br/aao/agricultura- organica.php>. Acesso em: 6 de out. 2016. AGRONEGÓCIOS. EUA avançam com plano para recuperar população de abelhas. Disponível em: <http://www.agronegocios.eu/noticias/eua-avancam-com- plano-para-recuperar-populacao-de-abelhas/>. Acesso em: 15 de out. 2016. ALMEIDA, Jalcione. A agronomia entre a teoria e a ação. Revista de Educação Agrícola Superior, Brasília, ABEAS, v. 18, no 2, pp. 7-13, 2000. ALTIERI M. Agroecology: a new research and development paradigm for world agriculture. Agriculture, Ecosystems and Environment, no 27, 1989. pp. 37-46. AYRES, Luiz Gonzaga Cardoso. Trabalhadores no campo. Disponível em: <http:// jardimdeimagens.blogspot.com.br/2011/05/lula-cardoso-ayres.html>. Acesso em: 10 de out. 2016. AZZI, G. Ecologia agrária. 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Devel. doi, v. 10, 2009. 100 Anexo i Aspectos e oportunidades profissionais As pessoas que atuam diretamente com a assistência técnica junto à produtores devem possuir habilidades imprescindíveis como: » Realizar assistência técnica e extensão rural com foco na vocação e hábitos locais; » Conhecer as bases científicas e tecnológicas da Agroecologia; » Saber trabalhar em equipe; » Deverá ter iniciativa, criatividade, responsabilidade e capacidade empreendedora; » Deverá estimular a participação e o compromisso coletivo no desenvolvimento de projetos agrícolas, utilizando práticas de cooperação e organização entre agricultores; » Desenvolver projetos agroflorestais e de recuperação de áreas degradadas; » Atuar nos processos de certificação dos sistemas orgânicos, ecológicos, solidários e agroecológicos de produção; » Elaborar relatórios mensais descrevendo as atividades desenvolvidas; » Realizar pesquisas e estudos que contribuam para o resgate das experiências e conhecimentos dos agricultores e também para a geração e validação de tecnologias adaptadas à realidade da agricultura familiar. 101 Anexo ii glossário A Adubação: diferença entre a exigência da cultura e a reserva do solo, que é reposta através dos adubos. Adubação Verde: prática agrícola de se incorporar ao solo a massa verde ou vegetal, não decomposta, de plantas cultivadas, com a finalidade de se enriquecer o solo com matéria orgânica e elementos minerais. Adubo Verde: planta cultivada ou não com a finalidade primeira de enriquecer o solo com sua massa vegetal. Adubação Orgânica: aquela feita com adubos orgânicos, havendo incorporação de matéria orgânica ao solo. Adubo Orgânico: qualquer resíduo animal ou vegetal. Adubação Química: a que é feita com adubos químicos, havendo incorporação de sais minerais ao solo. Adubo Químico: sal mineral, obtido a partir de processos industriais, compostos de macro e micronutrientes. Agricultura Orgânica: sistema de produção agropecuário que promove a interação entre biodiversidade, ciclos biológicos das espécies vegetais e animais e atividade biológica do solo. Baseia-se no uso mínimo de produtos externos à propriedade e no manejo de práticas que restauram, mantém e promovem a harmonia ecológica do sistema. Agroecossistema: conjunto compreendido pelo ecossistema natural e ambientes modificados pelo ser humano, contido na propriedade rural, no qual ocorrem complexas relações entre seres vivos, elementos naturais (rochas, solos, água, ar, reservas minerais). Agrofloresta: sistema agrícola no qual se incluem árvores em agroecossistemas de produção vegetal ou animal. 102 anexos Antibiótico: 1. Substância produzida por uma espécie de organismos que elimina ou impede o crescimento de outros organismos. 2. Fungicidas e bactericidas que exterminam fungos e bactérias. B Biofertilizante: fertilizante orgânico repleto de microrganismos (por isso é considerado um fertilizante “vivo”) usado no solo ou diretamente sobre a planta. Feito a partir de matéria orgânica fermentada (estercos, ou partes de plantas), que pode ou não ser enriquecido com alguns minerais como calcário e cinzas. Biomassa: qualquer matéria de origem vegetal, utilizada como fonte de energia, para adubação verde ou para proteger o solo da erosão. C Calcário: corretivo frequentemente usado em solos ácidos, sendo constituído de rochas carbonatadas. Calda Bordalesa: protetor líquido de plantas, feito à base de sulfato de cobre e água de cal. Calda Sulfocálcica: protetor líquido de plantas, feito à base de sulfato de cálcio, e água de cal, contendo também enxofre. Cobertura Viva: cultura de cobertura do solo que é plantada juntamente com as culturas principais durante a estação de cultivo. Cobertura Morta: restos culturais, adubos verdes picados e outros materiais vegetais secos ou em processo decomposição que são depositados sobre o solo, para fins de proteção contra erosão e fornecimento de matéria orgânica. Composto: adubo orgânico que provém de todos os resíduos da propriedade agrícola, reunidos e preparados sob condições controladas para melhorar as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. Compostagem: processo de preparação do composto. d Diversidade: 1. número ou variedade de espécies em um local, comunidade, ecossistema ou agroecossistema. 103 anexos 2. grau de heterogeneidade dos componentes bióticos de um ecossistema (ver diversidade ecológica). Diversidade Ecológica: grau de heterogeneidade da composição de espécies, potencial genético, estrutura espacial vertical e horizontal, estruturas de alimentação, funcionamento ecológico e mudança no tempo, de um ecossistema ou agroecossistema. E Ecossistema: um sistema funcional de relações complementares entre organismos vivos e seu ambiente, com uma determinada área física. Efeito Residual: tempo em que um agrotóxico permanece nas plantas, nos alimentos, no solo, no ar e na água, podendo trazer complicações de ordem toxicológicas. Equilíbrio Dinâmico: uma condição caracterizada por um equilíbrio geral no processo de modificação de um ecossistema, possibilitado pela sua capacidade de resistir a transformações significativas. Este estado dinâmico de equilíbrio possibilita uma estabilidade relativa da estrutura e função do ecossistema, apesar de haver modificações e perturbações constantes, em pequena escala. Erosão: processo de desgaste do solo, causado pela chuva ou vento, em consequência de práticas impróprias de manejo do mesmo. Esterco: excremento animal usado como fertilizante, o mesmo que estrume. f Fosfato: mineral acessório em rochas magmáticas (formadas a partir da lava de vulcões), metamórficas e sedimentares, cuja função é fornecer quase todo fósforo presente no solo. Fotossíntese: processo realizado pelas plantas dotadas de clorofila, em que ocorre a fabricação de moléculas orgânicas a partir de substâncias simples e na presença de luz. H Hortaliças: refere-se a verduras, legumes e condimentos. Horticultura: parte da agricultura que trata da exploração racional das plantas e se divide nos ramos da olericultura, floricultura, fruticultura e paisagismo. Hormônio: 1. Princípio ativo das glândulas de secreção dos animais, que também pode ser sintetizado em laboratórios. 104 anexos 2. Substância química produzida pelas plantas ou pela indústria para regular processos fisiológicos das espécies vegetais. Húmus: produto final resultante da decomposição da matéria orgânica de origem animal ou vegetal, que se caracteriza por uma massa escura, amorfa, heterogênea, insolúvel, possuindo carga negativa e alta capacidade de absorver água. O mesmo que humo. i Índice de produtividade: uma medida da quantidade de biomassa contida no produto colhido com relação a quantidade total de biomassa viva presente no restante do sistema. Insumo: todas as despesas e investimentos que contribuem para formação de determinado resultado, mercadoria ou produto até o acabamento ou consumo final. l Lavoura: 1. Propriedade lavrada e cultivada. 2. Plantação. Legume: hortaliça cujas partes comestíveis são frutos, sementes ou partes subterrâneas. Leguminosa: planta que frutifica em vagens. M Macronutrientes: nutrientes que as plantas necessitam em grandes quantidades (100Kg/hectare/ano), como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre. Micronutriente: nutrientes que as plantas necessitam em pequenas quantidades (10Kg/ hectare/ano): boro, zinco, ferro, molibdênio, cloro, manganês e cobre. Microrganismo: ser vivo microscópico. Paraatividade agropecuária recebem atenção especial os que habitam os solos e convivem com as plantas e animais de modo benéfico ou prejudicial. n Nutrição: 1. Processo pelo qual os organismos retiram do meio à energia e a matéria necessárias ao seu crescimento, multiplicação, manutenção e exercício de suas faculdades. 105 anexos 2. Conjunto de processos assimilatórios, constituindo a ingestão, a digestão, a absorção. Nutriente: qualquer substância alimentar que entre no metabolismo celular e promova a vida do organismo. P Planta Perene: que vive mais de três anos, florescendo ou não todos os anos; o mesmo que perene. Planta Semiperene: que vive mais de dois anos e menos de três anos, como a cana-de-açúcar. Produtividade: produção de um solo, expressa em Kg/hectare ou lucro/há, de uma cultura específica sob um sistema de manejo específico. Produtividade do solo: capacidade de um solo de produzir espécies vegetais de interesse econômico para o ser humano, sob um sistema específico de manejo. Propriedade Familiar: imóvel rural que, explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorve a maior parte da sua força de trabalho, garantindo-lhes não apenas a subsistência como a melhoria do poder aquisitivo e da qualidade de vida. q Quebra-ventos: conjunto de árvores plantadas perpendicularmente à direção do vento predominante com o objetivo de proteger a cultura e o solo da ação dos ventos. r Resiliência: capacidade genética dos organismos de resistirem a tensões ou fatores limitadores do ambiente. S Sistema Alimentar: metassistema interligado de agroecossistemas, seus sistemas econômicos, sociais, culturais e tecnológicos de sustentação, e sistemas de distribuição e consumo de alimentos. Sistêmico: que diz respeito a um sistema orgânico; que atinge vários componentes de um sistema ou estrutura. O mesmo que holismo. 106 anexos Solubilidade: capacidade que uma substância tem de se dissolver num meio líquido. Suscetibilidade: predisposição de um organismo vivo em sofrer os efeitos de condições adversas. t Tolerância: 1. Capacidade de o organismo suportar condições adversas sem se desviar das suas funções ou desenvolvimento. 2. Quantidade máxima de resíduos de agrotóxicos permitida sobre um produto alimentar ou sobre os seres humanos. Toxicidade Aguda: poder letal de uma substância ou composto químico, seus derivados ou metabólitos. Toxicidade Crônica: toxicidade cumulativa de uma substância ou produto químico Tratos Culturais: operações feitas nas culturas, tais como: adubação, rotação de culturas, manejo da matéria orgânica, entre outros. V Valor Nutritivo: valor de um alimento em função de seus nutrientes digestivos. Variedade: 1. Cruzamento de duas espécies de plantas ou de animais em que há eliminação de plantas atípicas e fixação de caracteres desejáveis para a empresa ou agricultor que realiza este processo. 2. Subdivisão dentro de uma mesma espécie animal ou vegetal. Veneno: toda substância tóxica que perturba o ciclo vital do organismo e seu bom estado. Verdura: hortaliça cujas partes comestíveis são folhas, flores, botões ou hastes. Visão Holística: modo de tratar uma propriedade agrícola, no qual as partes não podem ser compreendidas separadamente do todo. E o todo é diferente da simples soma das partes, pois o que importa é a relação entre as partes. Vitamina: composto orgânico dos reinos animal e vegetal que atua em pequeníssimas quantidades sendo essencial para o desenvolvimento do ser vivo. 107 anexos Classificam-se em: a. hidrossolúveis, que se dissolvem em água, sendo constituídas pelas vitaminas B e C. b. lipossolúveis, que são insolúveis em água e solúveis em solventes orgânicos, sendo constituídas pelas vitaminas A D, E, e K. Vulnerabilidade Genética: suscetibilidade de culturas geneticamente uniformes a dano ou destruição casado por surtos de uma doença ou praga, por condições climáticas mais drásticas do que o normal ou por alterações climáticas. Fontes: “Dicionário do Agrônomo”, Lúcia Helena S.D.Goulart, Editora Rígel, 1999; Equipe de conteúdo do Planeta Orgânico <http://planetaorganico.com.br/site/index.php/glossario/>.