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Brasília-DF. 
Ramos da agRoecologia
Elaboração
Henrique Almeida Miranda 
Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração
Sumário
APrESEntAção ................................................................................................................................. 4
orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5
introdução.................................................................................................................................... 7
unidAdE i
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA ........................................................................... 11
CAPítulo 1
PANORAMA HISTÓRICO .......................................................................................................... 11
CAPítulo 2
SuRGIMENTO ......................................................................................................................... 14
CAPítulo 3
A CONSOLIDAçãO COMO uM SISTEMA ................................................................................ 18
unidAdE ii
O SISTEMA AGROECOLÓGICO ATuAL .................................................................................................. 25
CAPítulo 1
AGROECOLOGIA NA ATuALIDADE .......................................................................................... 25
CAPítulo 2
O SISTEMA DE PRODuçãO AGROPECuáRIA ECOLÓGICA NO BRASIL ..................................... 27
CAPítulo 3
CONfORMIDADE E CERTIfICAçãO ........................................................................................ 37
unidAdE iii
OS RAMOS DA AGROECOLOGIA......................................................................................................... 58
CAPítulo 1
RAMO AGRONôMICO ........................................................................................................... 58
CAPítulo 2
RAMO AMBIENTAL .................................................................................................................. 62
CAPítulo 3
RAMO SOCIOECONôMICO .................................................................................................. 66
CAPítulo 4
RAMOS POLíTICO E LEGAL ..................................................................................................... 69
unidAdE iV
O fuTuRO DA AGROECOLOGIA .......................................................................................................... 74
CAPítulo 1
PERSPECTIVAS DOS RAMOS DA AGROECOLOGIA ................................................................... 74
CAPítulo 2
ESTuDO DE CASO EM COMERCIALIzAçãO DE PRODuTOS AGROECOLÓGICOS ..................... 83
rEfErênCiAS .................................................................................................................................. 97
AnExo i ........................................................................................................................................ 100
ASPECTOS E OPORTuNIDADES PROfISSIONAIS ...................................................................... 100
AnExo ii ....................................................................................................................................... 101
GLOSSáRIO ......................................................................................................................... 101
5
Apresentação
Caro aluno
A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se 
entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. 
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela 
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da 
Educação a Distância – EaD.
Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos 
conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da 
área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que 
busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica 
impõe ao mundo contemporâneo.
Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo 
a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na 
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.
Conselho Editorial
6
organização do Caderno 
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em 
capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos 
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar 
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para 
aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares.
A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de 
Estudos e Pesquisa.
Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes 
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor 
conteudista.
Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita 
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante 
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As 
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.
Sugestão de estudo complementar
Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, 
discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.
Atenção
Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a 
síntese/conclusão do assunto abordado.
7
Saiba mais
Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões 
sobre o assunto abordado.
Sintetizando
Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o 
entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.
Para (não) finalizar
Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem 
ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.
8
introdução
A Agroecologia estuda uma variedade de agroecossistemas, e o campo desta ciência 
não está associado com qualquer método particular da agricultura, seja orgânico, 
convencional, intensiva ou extensiva. Além disso, não é definida por certas práticas de 
gestão, tais como o uso de inimigos naturais no lugar de inseticidas, ou policultura no 
lugar de monocultura.
Os agroecologistas não se opõem, por unanimidade, à tecnologia ou insumos na 
agricultura, mas sim defendem a avaliação da forma como, quando e se a tecnologia 
pode ser usada em conjunto com ativos naturais, sociais e humanos. Agroecologia 
propõe uma forma ao contexto ou local específico de agroecossistemas que estudam, 
e, como tal, reconhece que não há uma fórmula universal ou receita para o sucesso e o 
máximo de bem-estar de um agroecossistema.
Em vez disso, pode-se estudar questões relacionadas com as quatro propriedades de 
agroecossistemas: produtividade, estabilidade, sustentabilidade e equidade. Ao contrário 
de disciplinas que estão preocupadas com apenas uma ou algumas dessas propriedades, 
agroecologistas veem todas as quatro propriedades como interligadas e essenciais para o 
sucesso desta prática, reconhecendo que essas propriedades são encontradas na variação 
de escalas espaciais, não se limitam ao estudo dos agroecossistemas apenas em escalas de 
fazenda, expandem-se para a comunidade local e para a sociedade em geral.
O estudo da Agroecologia aborda as quatro propriedades através de uma lente 
interdisciplinar, utilizando ciências naturais para compreender elementos de 
agroecossistemas, como propriedades do solo e interações planta-inseto, bem como 
a utilização de ciências sociais para compreenderos efeitos das práticas agrícolas nas 
comunidades rurais, gargalos econômicos para o desenvolvimento de novos métodos 
de produção, ou fatores culturais que determinam as práticas agrícolas.
Os praticantes e defensores da Agroecologia nem sempre concordam sobre o que a 
Agroecologia é ou deveria ser, a longo prazo. O entendimento sobre Agroecologia 
pode ser primeiro agrupado de acordo com os contextos específicos nos quais eles 
situam a agricultura. Agroecologia é definida pela Organização para a Cooperação 
e Desenvolvimento Econômico (OCDE) como “o estudo da relação entre culturas 
agrícolas e meio ambiente.” (OCDE, 2016). Seguindo essa definição, um agroecologista 
estuda várias relações da agricultura com a saúde do solo, qualidade da água, 
qualidade do ar, meso e microfauna, flora circundantes, toxinas ambientais, e outros 
contextos ambientais.
9
A compreensão da ligação entre agricultura e ecologia abrange interações entre 
plantas, animais, seres humanos e o ambiente no interior dos sistemas agrícolas. 
Consequentemente, a Agroecologia é inerentemente multidisciplinar, incluindo fatores 
de agronomia, ecologia, sociologia e economia.
Agroecologia também é definida de forma diferente de acordo com a localização geográfica. 
Na América Latina o termo muitas vezes carrega conotações abertamente políticas. Tais 
definições políticas do termo geralmente atribuem a ele os objetivos de justiça social 
e econômica; atenção especial, neste caso, é muitas vezes dada ao conhecimento da 
agricultura tradicional das populações indígenas. Os usos norte-americanos e europeus 
do termo, por vezes, evitam a inclusão de tais metas abertamente políticas. Nestes casos, 
a Agroecologia é vista mais estritamente como uma disciplina científica com objetivos 
sociais menos específicas.
Os sistemas naturais, com a sua estabilidade e resiliência, fornecem o melhor modelo 
para atingir a sustentabilidade. Normalmente, os estudos denotam que a agricultura 
em larga escala é inadequada.
A Agronomia tem fornecido importantes subsídios para compreender os processos 
pelos quais a agricultura se tornou insustentável. Muitos pesquisadores têm apontado o 
exaurimento do modelo adotado desde a Revolução Verde. Faz-se também uma crítica 
político-econômica da agricultura moderna. Algumas posições podem ser vistas no 
sentido de que somente mudanças radicais na economia e na política irão reduzir os 
custos negativos da agricultura moderna.
A Agricultura e o sistema alimentar são considerados partes de um complexo 
institucional que se relaciona e se integra com outros ramos da ciência. Todas as cadeias 
de produção de alimentos integram vários aspectos que isoladamente não distinguem as 
necessidades de desenvolvimento ambientalmente correto e socialmente justo. Por isso 
a Agroecologia traz uma nova proposta de produção, alimentação e sustentabilidade.
objetivos
 » Apresentar uma abordagem organizada sistematicamente da 
Agroecologia para facilitar a compreensão dos diversos dispositivos que 
integram a ecologia interna dos agroecossistemas, seus componentes 
sociais e culturais, incluindo nutrição e soberania alimentar, colheita 
genótipo-a-ambiente interações incluindo os de variedades de culturas 
transgênicas, e os (serviços ecossistêmicos) positivos e negativos 
(degradação dos ecossistemas) efeitos dos agroecossistemas no 
ambiente maior, especialmente climáticas.
10
 » Apresentar um panorama histórico do surgimento e da evolução da 
Agroecologia.
 » Mostrar uma abordagem da situação atual.
 » Relacionar e descrever os ramos da Agroecologia.
 » Trazer algumas perspectivas futuras para a continuidade da sua aplicação.
 » Disponibilizar um caso prático de sucesso na implantação de um sistema 
agroecológico.
 » Relacionar aspectos da legislação pertinente ao tema.
 » Abordar a atuação e as oportunidades profissionais na área.
11
unidAdE i
HiStÓriA E 
dESEnVolViMEnto dA 
AgroECologiA
CAPítulo 1
Panorama histórico
O desenvolvimento da agricultura teve um forte impulso quando a população mundial 
começou a migrar intensamente de áreas rurais para as cidades industriais que 
cresciam com a instalação de fábricas e de comércio. Este movimento substituiu a 
produção agrícola e pecuária de subsistência nas propriedades rurais familiares antigas 
pela massa de assalariados nas grandes cidades que foram forçadas a urbanizarem-se 
rapidamente, dado o rápido aumento populacional.
O gráfico a seguir mostra a intensidade do crescimento populacional mundial ao longo 
dos últimos dois mil anos e o seu aumento substancial a partir de 1900, com a melhoria 
das condições de saúde, a urbanização e a industrialização, além da previsão até 2100. 
Pode-se denotar que a demanda por alimentos também cresceu de forma acelerada, 
ocasionando maior pressão sobre o meio ambiente.
Gráfico 1. Crescimento populacional desde o ano 1 d.C. e perspectivas até o ano 2095.
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Ano
Crescimento da população mundial (em bilhões/ano)
fonte: adaptado pelo autor (ONu, 2016). 
12
UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA
Muitos fatores podem ser apontados como incidentes na explosão demográfica mundial 
registrada nos últimos 200 anos. As famílias abandonaram o campo e a própria 
produção de alimentos e passaram a comprar aquilo que precisavam para suas refeições 
nos centros urbanos. Outro fator é a melhoria da qualidade de vida aliada aos avanços 
da medicina.
Como consequência viu-se uma demanda também crescente por alimentos vendidos 
nas cidades recém-industrializadas. A produção de alimentos e bebidas deixou o caráter 
artesanal e de pequena produção para ser industrializada e produzida em grande escala 
com a especialização do seu comércio, panificadoras, açougues, restaurantes etc.
De uma forma simplificada, o gráfico a seguir representa a teoria preconizada pelo 
economista inglês Thomas Robert Malthus, no final do século XVIII. De acordo com esta 
teoria, a população mundial cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de 
alimentos em progressão aritmética. Desta forma em algum momento da humanidade 
não haveria alimentos para toda a população. Esta teoria não foi comprovada, até 
o momento.
Gráfico 2. Relação entre população e produção de alimentos da teoria Malthusiana.
fonte: Geografia opinativa, 2016.
A história retrata com precisão as mudanças sociais e econômicas ocorridas neste 
período, aproximadamente entre 1850 e 1900, principalmente na Europa e América do 
Norte.
Este modelo industrial de trabalho assalariado foi consolidado após a abolição dos 
regimes de escravidão até então praticados. As fábricas, o comércio e próprio governo 
necessitavam cada vez mais de mão de obra.
13
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I
Já no início do século XX (1900 -...) podia-se comprar não apenas aqueles produtos 
típicos de propriedades rurais (carne, temperos, trigo, leite, verduras e frutas) como 
também produtos industrializados (pães, biscoitos, salsichas, iogurtes, doces). A 
indústria alimentícia produzia novos alimentos e novas formas de consumi-los. As 
roupas eram confeccionadas de forma padronizada e estavam disponíveis para venda 
nas grandes ruas de comércio, pois as famílias de migrantes não plantavam mais o 
algodão e nem usavam o tear para as peças individuais.
O início do século XX foi marcado pela prosperidade. O dinamismo da economia 
movia mercadorias para outras cidades por ferrovias e até outros países por navios. A 
geração de riqueza pela indústria e comércio fez surgir grandes indústrias e criou novas 
profissões.
A farta disponibilidade e diversidade de alimentos industrializados contrastava com 
os primeirosproblemas da urbanização acelerada: os horários a serem cumpridos, o 
tráfego de veículos, as habitações sem saneamento básico, a inflação dos preços e a 
criminalidade. Estava estabelecido o estilo de vida urbano, embora a maior parte da 
população ainda se encontrava no campo.
O desenvolvimento da ciência foi o grande motor de sustentação do crescimento. Via-se 
pesquisa, desenvolvimento e inovação em todas as áreas do conhecimento. Não apenas 
conhecimentos industriais como também sociais e políticos em decorrência dos 
problemas da urbanização citados anteriormente. As duas grandes guerras mundiais 
foram o ápice dos conflitos e levaram países a disputarem territórios que trariam, 
segundo os tiranos, mais riqueza para sua nação.
Este modelo de desenvolvimento deu sinais de saturação pouco antes dos anos 1950 
e após a II Guerra Mundial (1939-1945) deu-se início à novas formas de produção, 
comércio e alimentação.
No campo, a Revolução Verde cumpria seu papel de produzir mais alimentos para 
mais pessoas, mas cobrava seu preço: os primeiros sinais de poluição, intoxicação e 
desequilíbrio ambiental foram aparecendo.
Surgiram vários movimentos sociais organizados para contrapor os malefícios que 
eram trazidos com a modernização e o progresso. Protestos nas ruas e principalmente 
grupos e associações eram formados por pessoas que compartilhavam o mesmo ideal e 
respeito ao ser humano, aos animais e à natureza.
14
CAPítulo 2
Surgimento
A prática de uma agricultura baseada em princípios ecológicos se desenvolveu em várias 
partes do mundo a partir do início do século XX e recebeu diversas denominações, 
conforme a região ou os princípios aos quais se reportava, mais conhecidas globalmente 
sob a denominação de “Agricultura Orgânica”, já com um olhar crítico sobre os caminhos 
e as consequências de uma agricultura baseada e muito dependente da industrialização 
crescente do Pós-Guerra, da “modernização” pela Revolução Verde (HAMERSCHMIDT 
et al., 2005). 
A palavra Agroecologia foi utilizada pela primeira vez em 1928, em estudo de descrição 
das características de variedades de milho pelo agrônomo russo Basil Bensin (WEZEL 
et al., 2009).
Ele usou esse termo para indicar a aplicação da ecologia à agricultura. No mesmo período, 
outros autores publicaram documentos ou livros que tratavam com os fundamentos da 
Agroecologia, mas sem mencionar a palavra.
Vários pesquisadores adotaram o termo desde então e desenvolveram trabalhos ao 
redor do mundo nas décadas seguintes. Exemplos são Klages (1928), um engenheiro 
agrônomo dos EUA interessado no cultivo de plantas usando uma base fisiológica, e 
Azzi, um cientista italiano que publicou em 1928 um livro sobre “Ecologia Agrícola”, 
que estabeleceu a fundação de sua obra posterior (AZZI, 1942; 1956). O último livro, em 
particular, concentrado sobre os aspectos ambientais, como clima, solo, desenvolvimento 
e crescimento das plantas cultivadas. Ambos os cientistas, embora não utilizando o 
termo Agroecologia, podem ser considerados os pioneiros da disciplina.
Entre os anos 1930 e 1960, diferentes outros trabalhos foram publicados e a expressão 
Agroecologia foi explicitamente utilizada. A partir da década de 1970, também como uma 
resposta à Revolução Verde e à consequente intensificação e especialização da agricultura, 
houve um crescente interesse pela ecologia aplicada à agricultura. Foi neste período que 
brotou o conceito de agroecossistemas, como ecossistemas aplicáveis e consolidados.
A partir dos anos 1980, Altieri (1989), e mais tarde Gliessman (1997), começaram a 
definir Agroecologia com uma abordagem para proteger os recursos naturais e para 
projetar e gerenciar de forma sustentável, os agroecossistemas. Gradualmente a 
Agroecologia começou a contribuir para o conceito da sustentabilidade aplicada à 
agricultura. Neste período, o tema biodiversidade surgiu juntamente com publicações 
relacionadas.
15
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I
No decorrer do século XX, o significado da Agroecologia como uma disciplina científica 
evoluiu e sua identidade também mudou. A partir dos anos 1990, tornou-se também um 
movimento e uma prática. Neste período, o termo começou a ser utilizado para definir 
uma nova maneira de considerar a agricultura e suas relações com a sociedade, ou seja, 
um movimento. Ao mesmo tempo Agroecologia foi reconhecida como um conjunto 
de práticas que visavam desenvolver uma agricultura respeitadora do meio ambiente 
e sustentável em longo prazo, como uma alternativa à alta demanda por insumos da 
agricultura convencional. 
Atualmente a Agroecologia compreende um sistema com vários métodos e enfoques 
diferentes, como mostrados abaixo e definidos em seguida.
figura 1. Métodos de agricultura alternativa. 
fonte: Planeta orgânico, 2016.
a. Agricultura orgânica: é um processo produtivo comprometido com a 
organicidade e sanidade da produção de alimentos vivos para garantir a 
saúde dos seres humanos, razão pela qual usa e desenvolve tecnologias 
apropriadas à realidade local de solo, topografia, clima, água, radiações e 
biodiversidade própria de cada contexto, mantendo a harmonia de todos 
esses elementos entre si e com os seres humanos (AAO, 2016).1
b. Agricultura biológica: nome dado para a Agricultura Orgânica em 
Portugal.
c. Agricultura biodinâmica: desenvolvida pelo filósofo austríaco Rudolf 
Steiner (1861-1925) que propõe uma forma livre e responsável de pensar, de 
perceber a realidade e de atuar, observando e respeitando o ser humano e a 
realidade na qual está inserido. Steiner, fundador da Antroposofia, colocou, 
1 Definição segundo a Associação de Agricultura Orgânica (AAO). Disponível em: <http://aao.org.br/aao/agricultura-organica.
php>. Acesso em: 6 de out. 2016.
16
UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA
em 1924, a pedra fundamental espiritual do Movimento Biodinâmico, em 
forma de um ciclo de 8 palestras para agricultores (IRS, 2016).2
d. Agricultura natural: o método da Agricultura Natural foi idealizado por 
Mokiti Okada (Japão,1882-1955), como alternativa para os problemas 
decorrentes da prática da agricultura convencional, na década de 1930 
(KORIN, 2016).3 Ao analisar o método agrícola convencional, Mokiti 
Okada manifestou uma profunda preocupação com o emprego excessivo 
de agroquímicos no solo. Observador dos princípios da natureza, criou 
o método da Agricultura Natural para resgatar a pureza do solo e dos 
alimentos, preservar a diversidade e o equilíbrio biológico e contribuir 
para a elevação da qualidade da vida humana
e. Permacultura: segundo o grupo de estudos da Universidade Federal de 
Santa Catarina (UFSC), é um sistema de planejamento para a criação 
de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio com 
a natureza. Surgiu da expressão em inglês “Permanent Agriculture” 
criada por Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970. Propõe 
uma “cultura permanente”, ou seja, que visa a nossa permanência neste 
planeta em harmonia com a natureza (UFSC, 2016).4
f. Agricultura sintrópica: é um sistema que já existe há bastante tempo onde 
agricultores que desenvolvem a técnica não precisam usar agrotóxicos ou 
adubo, já que a própria natureza oferece os insumos para a produção. É 
baseado no cultivo dentro da floresta e em matas nativas ou recuperadas. 
Seu principal expoente é o pesquisador suíço, residente no Brasil, Ernst 
Götsch.
Devido às diversas nomenclaturas e formas de agricultura não industrial convém 
chamar estes métodos de produção ecologicamente responsáveis como Agroecologia de 
forma a sintetizar os conceitos, princípios e sistemas de produção agrícola alternativa 
ao método convencional (agroquímico).
O enfoque nos primeiros anos de popularização dos sistemas de produção da 
agricultura não industrial, trouxe intenso debate na Europa entre representantes das 
indústrias de insumos agrícolas e ativistas dos movimentos de agricultura alternativa. 
Os representantes da agricultura convencional argumentavamque essas denominações 
eram incorretas, pois, mesmo com o uso dos insumos industriais, os processos biológicos 
e os processos orgânicos não deixavam de acontecer.
2 Compilado do conteúdo disponível em: <http://institutorudolfsteiner.org.br>. Acesso em: 6 de out. 2016.
3 Segundo informações de divulgação em: <http://www.korin.com.br/empresa/agricultura-natural/>.
4 Disponível em: <http://permacultura.ufsc.br/o-que-e-permacultura/>.
17
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I
A Agroecologia é uma ciência emergente, orientada por uma nova base epistemológica 
e metodológica de práticas agrícolas. É um campo de conhecimento transdisciplinar 
que recebe influência do Direito, das ciências agrárias, sociais e ambientais (Ecologia). 
E como ciência interdisciplinar é regida por princípios comuns a outras áreas.
Segundo Caporal (2004), como resultado da aplicação dos princípios da Agroecologia, 
pode-se alcançar estilos de agriculturas de base ecológica e assim, obter produtos de 
qualidade biológica superior. Mas, para respeitar os princípios, esta agricultura deve 
atender requisitos sociais, considerar aspectos culturais, preservar recursos ambientais, 
considerar a participação política e o empoderamento dos seus atores, além de permitir 
a obtenção de resultados econômicos favoráveis ao conjunto da sociedade, com uma 
perspectiva temporal de longo prazo, ou seja, uma agricultura sustentável.
Os agroecologistas são praticantes de algum tipo de agricultura alternativa. Eles podem 
ser os agricultores, extensionistas rurais, funcionários de ONGs e do governo e políticos 
internacionais que trabalham com agricultura. Os atores da Agroecologia têm um 
espectro amplo de conhecimentos, da agricultura para a análise de políticas, de práticas 
de cultivo no campo e de modelagem dinâmica de pragas de plantas, não apenas saberes 
empíricos como também provados cientificamente.
A agricultura sustentável, sob o ponto de vista agroecológico, é aquela que tendo como 
base uma compreensão holística dos agroecossistemas, seja capaz de atender, de 
maneira integrada, aos seguintes critérios:
 » baixa dependência de insumos comerciais;
 » uso de recursos renováveis localmente acessíveis;
 » utilização dos impactos benéficos ou benignos do meio ambiente local;
 » aceitação e/ou tolerância das condições locais, antes que a dependência 
da intensa alteração ou tentativa de controle sobre o meio ambiente;
 » manutenção em longo prazo da capacidade produtiva;
 » preservação da diversidade biológica e cultural;
 » utilização do conhecimento e da cultura da população local;
 » produção de mercadorias para o consumo interno e para a exportação.
18
CAPítulo 3
A consolidação como um sistema
O desenvolvimento rural sustentável é o pressuposto para a construção de uma 
sociedade mais equilibrada, que busca utilizar pré-requisitos básicos para alcançar 
a sustentabilidade, apoiando-se, principalmente, na participação política dos atores 
envolvidos, permitindo a obtenção de ganhos econômicos, levando em consideração 
a qualidade de vida da geração presente e das gerações futuras. Nessa perspectiva, a 
participação da sociedade civil em Conselhos de Comunitários de Desenvolvimento 
contribui para a busca de uma sociedade mais justa e equilibrada, e se efetivamente 
constituídos, poderão imprimir novo formato às políticas sociais, estabelecendo nova 
relação entre Estado e sociedade civil.
A proposta da Agroecologia se concretiza em um contexto de totalidade da sua aplicação. 
Portanto, incentivar o desenvolvimento de práticas isoladas pode tornar a perspectiva 
agroecológica incompleta num contexto espacial e temporal, transformando o 
desenvolvimento rural em proposta insustentável em longo prazo.
Essa perspectiva holística da Agroecologia induz à redescoberta do local como espaço 
decisório e de mobilização da sociedade. Para melhor compreensão do conceito de 
local, deve estar clara a concepção de território como fração de espaço, de uso comum 
ou familiar, regulado política e administrativamente por normas próprias e acordadas.
Nesse sentido, o local é o espaço socialmente construído, com base territorial definida 
(segundo critérios geoeconômicos, geopolíticos e geoambientais) para a criação e 
formação de identidades territoriais.
Como defensores de alimentos orgânicos, agroecologistas podem assumir diversas 
identidades ao longo do tempo e da região. A história e evolução da agroecologia remonta 
a pelo menos a década de 1930, em termos de reconhecimento científico ocidental. Wezel 
et al. (2009) traça linhagens distintas da agroecologia com emergências separadas 
de “ciência” na Alemanha, “prática” na França, e “movimento” que ocorre ao lado de 
ciência e prática, tanto nos EUA quanto no Brasil, embora com ênfases diferentes (mais 
ciência nos EUA, mais prática e movimento no Brasil).
A Agroecologia possui dimensões que preconizam os seus princípios. Tais dimensões 
aplicam-se a vários pressupostos de integração entre homem e seu ambiente.
 » Dimensão ecológica: manutenção e recuperação da base de recursos 
naturais. Constitui o aspecto central para se atingirem patamares crescentes 
19
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I
de sustentabilidade em qualquer agroecossistema. Há necessidade de 
abordagem holística e de enfoque sistêmico, dando tratamento integral a 
todos os elementos do agroecossistema que venham a ser impactados pela 
ação humana. Enfim, uma noção de preservação e conservação da base 
dos recursos naturais como condição essencial para a continuidade dos 
processos de reprodução socioeconômica e cultural da sociedade em geral 
e da produção agropecuária em particular, numa perspectiva que considere 
tanto as atuais como as futuras gerações.
 » Dimensão social: representa, precisamente, um dos pilares básicos 
da sustentabilidade. A busca por melhores níveis de qualidade de vida 
mediante a produção e o consumo de alimentos com qualidade biológica 
superior, eliminando o uso de insumos tóxicos no processo produtivo 
agrícola, através de novas combinações tecnológicas, sociais e éticas. 
Dessa forma, originando novas formas de relacionamento da sociedade 
com o meio ambiente, estabelecendo conexão entre a dimensão social e a 
ecológica, sem prejuízo da dimensão econômica.
 » Dimensão econômica: a sustentabilidade de um agroecossistema também 
supõe a necessidade de se obterem balanços agroenergéticos positivos, 
compatibilizando a relação entre produção agropecuária e consumo 
de energias não renováveis. De acordo com a Economia Ecológica, 
a sustentabilidade pode ser expressada pela preservação da base de 
recursos naturais que são fundamentais para as gerações futuras.
 » Dimensão cultural: deve-se considerar a necessidade de que as 
intervenções respeitem a cultura local. Os saberes, os conhecimentos 
e os valores locais das populações rurais precisam ser analisados, 
compreendidos e utilizados como ponto de partida dos processos de 
desenvolvimento rural que, por sua vez, devem espelhar a “identidade 
cultural” das pessoas que vivem e trabalham em dado agroecossistema. 
Nesse sentido, a agricultura precisa ser entendida como atividade 
econômica e sociocultural, como prática social realizada por sujeitos que 
se caracterizam pela forma particular de relacionamento com o meio 
ambiente.
 » Dimensão política: o desenvolvimento rural sustentável deve ser concebido 
a partir das concepções culturais e políticas próprias dos grupos sociais. 
Deve considerar o diálogo e a integração com a sociedade maior, por meio 
de representação em espaços comunitários ou em conselhos políticos e 
profissionais, numa lógica que considere aquelas dimensões de primeiro 
nível como integradoras das formas de exploração e manejo sustentável 
20
UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA
dos agroecossistemas. Assim, deve-se privilegiar o estabelecimento de 
plataformas de negociação nas quais os atores locais possam expressar 
seus interesses enecessidades em igualdade com outros atores envolvidos, 
assegurando o resgate da autoestima e o pleno exercício da cidadania.
 » Dimensão ética: relaciona-se diretamente com a solidariedade entre 
gerações e com novas responsabilidades dos indivíduos em relação à 
preservação do meio ambiente. Dessa forma, exige pensar e tornar viável 
a adoção de novos valores, não necessariamente homogêneos. A dimensão 
ética da sustentabilidade requer o fortalecimento de princípios e valores 
que expressem a solidariedade sincrônica (entre as gerações atuais) e a 
solidariedade diacrônica (entre as atuais e futuras gerações).
Essas dimensões básicas da sustentabilidade são elementos importantes para a 
identificação dos passos que venham a auxiliar o processo de construção de estilos 
de agricultura sustentável sob o enfoque agroecológico. A multidisciplinaridade 
da agricultura sustentável leva ao conhecimento agregado que promove um ciclo 
dinâmico de interações e perspectivas em contínuo desenvolvimento.
É possível perceber uma linha com ações na qual se deve percorrer para se obter o 
sucesso na implantação ou transição para um sistema. A figura a seguir apresenta esta 
linha desenvolvimento.
figura 2. Ciclo construtivo da Agroecologia.
fonte: CRPBz, 2016.
21
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I
No início do século XXI, os princípios da agricultura orgânica foram discutidos por dois 
anos e revistos pela Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica 
(IFOAM), sendo aprovados em Assembleia Geral em 2005. O documento foi traduzido 
e está disponível no site oficial da IFOAM em 12 idiomas, mas não em português. 
O documento enfatiza que os princípios são as raízes pelas quais a agricultura orgânica 
deve crescer e se desenvolver.
Dentre as oito áreas temáticas consideradas importantes para a construção de plataforma 
capaz de promover a identidade dos movimentos orgânicos, quatro foram descritas 
como princípios universais que guiam o desenvolvimento da agricultura orgânica: 
saúde, ecologia, equidade e precaução.
Saúde
O papel da agricultura orgânica deve ser o de sustentar e aumentar a saúde do solo, 
das plantas, dos animais, do homem e do planeta, seja por meio do manejo do solo, 
do processamento dos alimentos, da distribuição ou do consumo. Entende-se que 
somente em solo saudável é possível produzir alimentos que vão sustentar animais e 
pessoas de forma saudável, influenciando a saúde das comunidades que, por sua vez, 
não pode ser separada da saúde do ecossistema no qual se inserem. Assim, quaisquer 
substâncias, sejam adubos químicos, agrotóxicos, drogas veterinárias e aditivos para o 
processamento dos alimentos, que possam, de alguma forma, ter efeito adverso à saúde 
das pessoas, dos animais, das plantas ou do ecossistema devem ser evitadas.
Ecologia
A agricultura orgânica deve assentar-se nos ciclos biológicos, harmonizando e sustentando 
os sistemas ecológicos. Assim, a produção deve basear-se nos processos ecológicos e 
na reciclagem. As culturas, as criações e o extrativismo devem ajustar-se aos ciclos e 
balanços ecológicos da natureza. O manejo orgânico deve ser adaptado às condições 
locais, à ecologia da região, às tradições e cultura locais. Os insumos externos devem 
ser reduzidos através da reutilização, da reciclagem e do manejo eficiente dos recursos 
naturais, inclusive da energia, para que seja possível conservar esses recursos. A caça 
e a coleta devem observar um plano de manejo que não prejudique a sobrevivência 
da espécie.
O balanço ecológico deve ser obtido por meio do desenho de sistemas de produção e do 
manejo da diversidade genética, tanto das plantas cultivadas como da cobertura vegetal 
em geral. Todos que participam da produção orgânica, como produtores, processadores, 
22
UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA
distribuidores e consumidores, devem proteger o ambiente, incluindo a paisagem, o 
clima, a biodiversidade, o ar e a água, mas também os homens e os animais.
Equidade
A agricultura orgânica deve basear-se em relações que garantam oportunidade de vida para 
todos e assegurem equidade em relação ao bem comum. A equidade é caracterizada pela 
igualdade, respeito, justiça e gestão responsável do mundo compartilhado, tanto entre os 
seres humanos como nas relações com os outros seres vivos. Assim, todos os envolvidos 
com a agricultura orgânica, sejam produtores, trabalhadores rurais, processadores, 
distribuidores, comerciantes e consumidores, devem conduzir as relações humanas sociais 
de modo a assegurar qualidade de vida e justiça a todos os envolvidos. A agricultura 
orgânica deve ter como objetivo produzir alimentos de qualidade em quantidade suficiente 
para contribuir para a redução da pobreza e para fortalecer a segurança alimentar.
Esse princípio enfatiza que se deve proporcionar aos animais de criação condições de 
vida que estejam de acordo com a sua característica, seu comportamento natural e 
bem-estar. Além disso, os recursos naturais e ambientais devem ser usados na produção 
orgânica de forma ecologicamente sustentável e socialmente justa, devendo manter-se 
como legado para as gerações futuras. A equidade requer que os sistemas de produção, 
distribuição e mercado sejam justos e levem em conta os verdadeiros custos ambientais 
e sociais da produção.
Precaução
A agricultura orgânica deve ser planejada e desenvolvida de forma responsável e cuidadosa, 
de modo a proteger a saúde e o bem-estar das pessoas e das gerações futuras, bem como 
a qualidade do ambiente. Assim, deve procurar aumentar a eficiência e a produtividade 
sem colocar em risco a sustentabilidade dos agroecossistemas. O entendimento dos 
ecossistemas e agroecossistemas é ainda incompleto, devendo-se, portanto, tomar todo 
o cuidado.
Precaução e responsabilidade devem permear as tomadas de decisão e as escolhas de 
tecnologias. As decisões devem refletir os valores e necessidades de todos que possam 
ser afetados, por meio de processo transparente e participativo. Os riscos devem 
ser evitados pela adoção de tecnologias apropriadas e pela rejeição de tecnologias 
imprevisíveis, como a engenharia genética.
Atualmente, as normas da agricultura orgânica em vigor no comércio internacional 
dão ênfase às qualidades agronômicas e zootécnicas, deixando de valorizar outras 
23
HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA │ UNIDADE I
qualidades que guardam forte apelo junto aos consumidores dos produtos orgânicos 
e “verdes”.
Destacar essas e outras qualidades não implica negligenciar o que a ciência ensina a 
respeito da saúde, do ambiente ou sobre os riscos de segurança alimentar. Implica apenas 
reconhecer que as normas, mesmo as reguladoras na área da saúde e da segurança, 
têm dimensões normativas que não podem ser decididas somente em bases científicas. 
Procedimentos justos para integrar a ciência às normas culturais e morais devem ser 
adotados. Cientistas e negociadores (comerciantes e políticos) têm demonstrado, até 
agora, insensibilidade para a natureza problemática da tomada de decisões de regulação 
em qualquer uma das últimas dimensões citadas. Harmonizar normas internacionais 
implica negociar culturas e visões de mundo no seu senso mais fundamental.
os sistemas agroalimentares
Uma das definições mais completas da Agroecologia hoje é a “ecologia dos sistemas 
agroalimentares”. Ele tem o objetivo explícito de transformar sistemas alimentares 
para a sustentabilidade, de tal modo que exista um equilíbrio entre solidez ecológica, 
econômica viabilidade e da justiça social. No entanto, para alcançar esta transformação, 
a mudança é necessária em todas as partes do sistema de alimentação, ou seja, nas 
cadeias produtivas, a partir da semente até a mesa dos consumidores. O envolvimento 
deve ser por quem produz, quem distribui e quem consome; todos devem ser conectados 
em um movimento social que homenageia a profunda relação entre o meio ambiente, os 
alimentos e as pessoas. Nossa realidade globalizadaatual oferece com muita facilidade, 
o sistema de alimentos industrializados não fornece evidências convincentes de que é 
sustentável em qualquer um dos três aspectos da sustentabilidade (econômica, social 
ou ambiental).
A profunda compreensão do que vem a ser uma visão holística e ecológica dos sistemas 
agroalimentares pode desencadear a mudança necessária para restaurar a sustentabilidade 
nos sistemas alimentares nas diversas regiões produtoras.
Os agricultores têm a reputação de serem inovadores e experimentadores, adotando 
voluntariamente novas práticas quando percebem que algum benefício será adquirido, 
ainda mantendo os que provaram ao longo do tempo. Isto é especialmente verdadeiro 
para os pequenos agricultores ao redor do mundo. Mas ao longo dos últimos 50-60 
anos, a inovação na agricultura tem sido impulsionada principalmente por um excesso 
de ênfase em altos rendimentos e lucros na fazenda com uma visão de curto prazo, 
resultando em retornos notáveis para alguns, mas muitas vezes à custa de uma série de 
efeitos colaterais ambientais e sociais negativos.
24
UNIDADE I │ HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA AGROECOLOGIA
Apesar da continuação de uma forte pressão para concentrar-se nos retornos econômicos, 
muitos agricultores estão dispostos a optar por fazer a transição para práticas que 
preservem os recursos naturais e têm o potencial de contribuir para a sustentabilidade 
a longo prazo para a agricultura. Estes produtores rurais estão usando princípios 
agroecológicos para fortalecer o conhecimento local, a experiência e as redes na 
agricultura que se acumularam ao longo dos séculos. Todos estes tipos de esforços 
representam a “transição” ou “transformação” da agricultura em sentido amplo.
A transição para uma gestão baseada na ecologia está fundamentada nos princípios 
da Agroecologia. Estes princípios podem entrar em jogo inicialmente no processo real 
de mudar a forma como o alimento é cultivado. Agricultores que se dedicam ao processo de 
transição sabem, através da intuição, experiência e conhecimento, o que é insustentável 
e o que é, no mínimo, mais sustentável.
25
unidAdE iio SiStEMA 
AgroEColÓgiCo AtuAl
CAPítulo 1
Agroecologia na atualidade
A Agroecologia, ainda hoje, é considerada um campo de estudo novo que analisa os 
agroecossistemas, integrando conhecimentos da agronomia, ecologia, economia, 
sociologia, entre outros.
Há aqueles que defendem a Agroecologia, não como uma disciplina, e sim sob um 
enfoque transdisciplinar, considerando a atividade agrária desde uma perspectiva 
ecológica com teoria e metodologia que utiliza várias disciplinas científicas, construindo 
uma vinculação essencial existente entre o solo, a planta, o animal e o ser humano.
Atualmente a Agroecologia é caracterizada principalmente como um movimento 
sociopolítico, de empoderamento do agricultor em busca de sua identidade e raízes 
culturais. Ela é um mecanismo que oferece ao agricultor autonomia, poder de decisão 
e participação ativa no processo produtivo. Tudo isso acaba por favorecer o local como 
foco de ação.
no mundo
A institucionalização da agricultura orgânica no mundo teve início em 1972, com a 
criação da Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM) 
e a publicação de suas primeiras normas em 1978. As normas privativas da IFOAM 
serviram de referência para a comercialização dos produtos orgânicos no mundo até 
a década de 1990 e para o estabelecimento de outras normas locais e regulamentos 
técnicos em diferentes países.
A França foi o primeiro país a regulamentar, ainda nos anos 1980. No início da década 
de 1990, foram criados os regulamentos técnicos para a produção orgânica de origem 
vegetal da Comunidade Econômica Europeia, à época o maior mercado de orgânicos. 
26
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
No final da década, o Codex Alimentarius5 estabeleceu diretrizes para a produção 
orgânica de origem vegetal e em 2001, editou diretrizes para a produção animal. 
O Codex é a norma internacional que serve de referência para as negociações comerciais 
de alimentos nos acordos de barreiras técnicas ao comércio e medidas sanitárias e 
fitossanitárias da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para os não alimentos 
(têxteis e cosméticos) devem ser usadas as normas da IFOAM.
Essas normas internacionais de referência são baseadas nas realidades, práticas 
e contextos específicos dos países de clima temperado e dos países de alta renda. 
Hoje existem mais de 80 países com alguma regulamentação da agricultura orgânica 
em algum estágio (implantadas ou em discussão). A pouca flexibilização das normas 
internacionais está refletida nos regulamentos técnicos nacionais, praticamente cópia 
das normas internacionais e regionais, que dificultam o comércio internacional de 
produtos da agricultura orgânica e também o desenvolvimento dos mercados locais em 
países de baixa renda da América Latina e Caribe e da Ásia.
O estabelecimento em 2003, da Força Tarefa Internacional – FAO6/UNCTAD7/IFOAM 
para harmonização e equivalência das normas na agricultura orgânica mostra a 
necessidade de flexibilizar e buscar acordos de reconhecimento mútuo, embora 
respeitando as diversidades os diferentes países. Essa flexibilização deve começar pela 
busca da equivalência de objetivos regulamentares comuns na condução dos sistemas de 
garantia das qualidades orgânicas dos países cujos resultados são iguais, para satisfazer 
às necessidades de inocuidade e qualidade, bem como o imaginário dos consumidores e 
das autoridades competentes. A harmonização virá como consequência das negociações 
de diretrizes internacionais menos específicas e mais evolutivas.
Há tendência de inclusão e aceitação dos sistemas participativos de garantia (SPG) 
em oito legislações dos países de baixa renda na América Latina e Caribe, na Índia 
e na Espanha. O reconhecimento dos SPG pela FAO, em sua 30ª Reunião Regional, 
que ocorreu em abril de 2008, em Brasília-DF, demonstra que esses mecanismos de 
avaliação da conformidade são adequados aos mercados internos e externos.
5 O Codex Alimentarius é uma coletânea de padrões reconhecidos internacionalmente, códigos de conduta, orientações e outras 
recomendações relativas a alimentos, produção de alimentos e segurança alimentar. Disponível em: <http://www.fao.org/fao-
who-codexalimentarius/en/>.
6 A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla do inglês Food and Agriculture Organization) 
é uma organização das Nações Unidas cujo objetivo é aumentar a capacidade da comunidade internacional para de forma eficaz 
e coordenada, promover o suporte adequado e sustentável para a segurança alimentar e nutrição global. Sítio: <http://www.
fao.org/brasil/pt/>.
7 A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) foi estabelecida em 1964, em Genebra, Suíça, 
atendendo às reclamações dos países subdesenvolvidos, que entendiam que as negociações realizadas não abordavam os 
produtos por eles exportados, os produtos primários. Sítio: <http://unctad.org/en/Pages/Home.aspx>.
27
CAPítulo 2
o sistema de produção agropecuária 
ecológica no Brasil
No Brasil, a Agroecologia tem alcançado resultados significativos em algumas regiões. 
Isso acontece quando são desenvolvidos, simultaneamente e de forma integrada, aspectos 
sociais, culturais, econômicos e ambientais, principalmente junto aos agricultores 
familiares e às comunidades advindas de classes populares.
A rica biodiversidade dos sistemas de produção, a pluriatividade e as formas de 
organização e acesso a mercados próprios, relacionados com os fatores socioeconômicos, 
ambientais e culturais e sua capacidade de garantir, em grande medida, a segurança 
alimentar e nutricional de nossa população, são características marcantes da agricultura 
orgânica e de base agroecológica brasileira.
Nas últimas décadas, tivemos importantes avanços no campo do conhecimento 
agroecológico e orgânico, integrando os saberes tradicionais dos agricultores,assentados da reforma agrária, e dos povos e comunidades tradicionais com o científico, 
refletindo em diversas iniciativas de políticas públicas em setores do ensino superior e 
profissionalizante, no direcionamento da pesquisa e nos métodos e metodologias da 
extensão rural, bem como na ampliação das técnicas e tecnologias de suporte à transição 
agroecológica. Entretanto, diversos desafios ainda se apresentam para diminuir as 
fragilidades e garantir a sustentabilidade desses sistemas de produção.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em atenção a políticas de Agroecologia 
criou o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo).
O Planapo (BRASIL, 2016) busca integrar suas ações com o Plano Nacional de 
Segurança Alimentar e Nutricional, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e o 
Plano Nacional de Direitos Humanos, assim como o Código Florestal, o Plano de Ação 
Nacional de Combate à Desertificação e o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, a 
partir de processo de convivência, mitigação e adaptação, diminuindo a vulnerabilidade 
dos agricultores que se encontram em situação de fragilidade econômica e social 
no campo.
No campo produtivo, o Plano avança ao propor mecanismos capazes de atender à 
demanda por tecnologias ambientalmente apropriadas, compatíveis com os distintos 
sistemas culturais e com as dimensões econômicas, sociais, políticas e éticas no 
campo do desenvolvimento agrícola e rural. Ao mesmo tempo, apresenta alternativas 
28
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
que buscam assegurar melhores condições de saúde e de qualidade de vida para a 
população rural.
Nesse sentido, o Planapo, orientado pelas diretrizes estabelecidas no referido Decreto 
estabeleceu os seguintes macro desafios:
 » ampliação do número de agricultores/as e produtores/as envolvidos/as 
com a produção orgânica e de base agroecológica;
 » incentivo ao registro, à produção e à distribuição de insumos adequados 
à produção orgânica e de base agroecológica;
 » fomento à conservação, ao manejo e ao uso sustentável dos recursos naturais;
 » contribuição para a organização de agricultores e agricultoras em 
cooperativas e redes solidárias, a ampliação das compras e subvenções e 
o número de pontos de venda de produtos;
 » ampliação da utilização de crédito e outras formas de financiamento e 
fomento para o custeio e implantação de infraestruturas produtivas e 
comerciais; 
 » inclusão e incentivo à abordagem da Agroecologia e de sistemas de 
produção orgânica nos diferentes níveis e modalidades de educação e 
ensino, bem como no contexto das práticas e movimentos sociais, do 
mundo do trabalho e das manifestações culturais;
 » democratização da agenda de pesquisa e sua integração com a extensão, 
de modo a socializar o conhecimento agroecológico para técnicos/as, 
agricultores/as e produtores/as;
 » estímulo à agroindustrialização e a outras formas de agregação de valor 
aos produtos orgânicos e de base agroecológica;
 » ampliação do acesso de consumidores a informações e ao consumo de 
produtos orgânicos e de base agroecológica; 
 » reconhecimento e fortalecimento do protagonismo dos/as jovens e das 
mulheres rurais na agroecologia e produção orgânica; 
 » fortalecimento do papel das redes na articulação dos atores e na dinamização 
de ações relacionadas à produção orgânica e de base agroecológica.
Mais informações sobre o programa: <https://www.mda.gov.br/sitemda/sites/
sitemda/files/user_img_19/BrasilAgroecologico_Baixar.pdf>.
29
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
figura 3. Logotipo do Planapo.
fonte: Brasil, 2016.
A Agroecologia como um todo, e neste caso na política pública brasileira deve ser encarada 
enquanto ciência, de maneira que ela se posicione em condições de contribuir para 
a melhoria da qualidade de vida das pessoas e para a transformação da agricultura 
brasileira. Assim, pode-se estabelecer medidas para o seu fortalecimento:
 » fortalecer a luta pela terra, de maneira que a reforma agrária seja o 
instrumento capaz de superar o latifúndio, a exploração do homem pelo 
homem e a produção de alimentos saudáveis para a população rural e 
urbana;
 » articular e ampliar o número de instituições de ensino superior para a 
formação de agroecólogos em nível de graduação e pós-graduação, em 
todo o território nacional;
 » manter a articulação junto ao Ministério do Desenvolvimento Agrário 
(MDA) de maneira que as políticas para a agricultura familiar e de base 
agroecológica sejam reforçadas e aprimoradas;
 » criar e fortalecer programas governamentais que reforcem o papel da 
Agroecologia no processo da agricultura brasileira;
 » estimular a organização dos agricultores familiares para a produção e 
comercialização de produtos agroecológicos;
 » fortalecer o intercâmbio de experiências agroecológicas entre os 
agricultores familiares e suas entidades representativas;
 » incentivar o cooperativismo e a solidariedade como instrumentos de 
emancipação econômica e social;
 » incentivar a organização dos agricultores familiares para que se fortaleçam 
em busca de conquistas que garantam vida digna no campo.
30
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
Produção
Estimativas da área total com produção orgânica no Brasil variam de acordo com a 
fonte consultada. Segundo dados da FiBL (Instituto Suíço de Pesquisa em Agricultura 
Orgânica) e da IFOAM, publicados em 2015, a área cultivada e as áreas de pastagem 
no Brasil totalizavam cerca de 887.637 hectares em 2013. Estima-se a área certificada, 
ou sob alguma forma de controle da conformidade com o manejo orgânico, em cerca 
de 6,6 milhões de hectares, incluindo as áreas de extrativismo sustentável na região 
amazônica. As áreas de agroextrativismo estão concentradas na região Norte e as de 
pecuária na região Centro-Oeste. 
Estimativas mostram que, em 2008, existiam 32,6 milhões de hectares certificados 
como orgânicos no mundo, dos quais 6,4 milhões encontravam-se na América do Sul, 
sendo a maior parte de pastagens nativas na Argentina e no Centro-Oeste brasileiro.
Em 2006, os países com o maior número de unidades de produção orgânica certificadas 
eram o México (12 mil unidades), a Indonésia (45 mil unidades), a Itália (36 mil 
unidades), as Filipinas (35 mil unidades) e Uganda (34 mil unidades). As maiores áreas 
com culturas encontravam-se na Europa, seguida dos Estados Unidos (cereais, grãos, 
oleaginosas, vegetais flores e plantas medicinais). As áreas com culturas permanentes 
(olivas, café, frutas e nozes) representavam 37% na União Europeia, 35% na América 
Latina e Caribe e 21% na África. As áreas de pastagens representavam 57% na Oceania, 
19% na América Latina e Caribe e 15% na União Europeia (PESAGRO, 2009).
As áreas com produção orgânica certificada eram ocupadas por: cereais (1,295 milhão 
de hectares); pastagens e produção de proteína (1,166 milhão de hectares); culturas 
permanentes - oliveiras, frutas e nozes (0,555 milhão de hectares); óleo vegetal (0,97 
milhão de hectares); uvas (0,95 milhão de hectares); legumes e verduras (0,92 milhão 
de hectares).
Em 2006, o Brasil tinha cerca de 19 mil unidades controladas, que afirmavam seguir 
as práticas da agricultura orgânica, envolvendo pequenas e grandes unidades de 
produção e processamento. Dos projetos controlados, 70 a 80% eram conduzidos 
por agricultores familiares e/ou trabalhadores rurais, tanto para atender ao mercado 
interno quanto o de exportação. Os projetos conduzidos por agricultores familiares 
forneciam castanha (de caju e da Amazônia), frutas, legumes e verduras, café, cacau, 
mel, óleos essenciais (cosméticos) e algodão colorido, entre outros produtos, para os 
mercados interno e de exportação.
Em 2007, o Projeto Orgânicos Brasil divulgou estudo com o mapeamento da área 
brasileira de produção orgânica certificada, de acordo com os dados de quatro 
31
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
certificadoras que trabalham no Brasil (IBD, ECOCERT Brasil, IMO Brasil e BCS), 
todasacreditadas no mercado internacional. O resultado mostrou que existiam 
932.120 hectares de produção orgânica certificada e 6.182.180 hectares de produção 
orgânica que inclui a base extrativista. Juntando-se as duas informações, o Brasil 
poderia ser considerado o segundo país do mundo em área de agricultura orgânica 
controlada. Os produtos de base extrativista no Brasil estão sendo estimulados por 
meio das cadeias de produtos da sociobiodiversidade, uma iniciativa coordenada 
pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e com apoio da Companhia Nacional de 
Abastecimento (CONAB) no estabelecimento dos preços mínimos. 
Mercado
O mercado mundial de produtos orgânicos certificados evoluiu com as vendas no varejo, 
estimadas em US$ 46 bilhões em 2006, US$ 33 bilhões em 2005, US$ 31,4 bilhões em 
2004 e US$ 25 bilhões em 2003 (PESAGRO, 2009).
Há expectativas de que esse mercado cresça 20% ao ano, atingindo US$ 60 bilhões em 
2010 e US$ 100 bilhões em 2012. Os maiores mercados para os produtos orgânicos 
continuam sendo a União Europeia, os Estados Unidos e o Japão. Os produtos orgânicos 
comercializados incluem frutas e legumes frescos, nozes e frutas secas, especiarias, ervas, 
vegetais processados, cacau, óleos vegetais, doces, alimentos processados e bebidas 
de frutas. Itens não alimentares incluem algodão, óleos essenciais para cosméticos e 
flores de corte.
Em 2006, na União Europeia, US$ 17 milhões em vendas estavam concentrados na 
Europa Ocidental, com Alemanha, Reino Unido, França e Itália sendo responsáveis por 
75% das vendas regionais.
A demanda por esses produtos na Suécia, Dinamarca e Holanda é relevante. Quanto aos 
canais de comercialização usados, encontram-se produtos orgânicos em lojas de 
conveniência e supermercados específicos, mas também nas grandes redes de varejo. 
No Reino Unido, ainda é grande a importação de produtos.
Nos mercados internos dos países de baixa renda, são comercializados os excedentes da 
produção para exportação, muitas vezes como produtos convencionais, mas também 
frutas, legumes e verduras in natura, produtos de origem animal (leite de vaca e de 
cabra, carne de frango e ovos) produzidos nos arredores das grandes cidades e produtos 
processados em escala muito pequena. As principais oportunidades brasileiras de 
exportação são as frutas tropicais e os legumes e verduras na entressafra dos mercados 
importadores, além do algodão colorido naturalmente. Os óleos essenciais e outros 
32
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
produtos do agroextrativismo sustentável orgânico também representam boas 
oportunidades de mercado.
Embora a produção ocorra no mundo todo, a demanda permanece concentrada nos 
países de alta renda. A América do Norte e a União Europeia estão experimentando 
a escassez de fornecimento em face de a produção local não atender ao crescimento 
da demanda (que foi estimulado por políticas públicas e privadas e pelo medo 
quanto à inocuidade dos alimentos depois dos escândalos como o mal da vaca louca). 
Nos últimos anos, o crescimento da produção nos países de baixa renda foi de três 
dígitos, mas o mercado doméstico não cresceu. Os consumidores dos países de alta 
renda são os maiores compradores de alimentos orgânicos. Na realidade, em 2006, seis 
países do G7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) foram responsáveis por 84% 
das vendas globais de produtos orgânicos.
No Brasil, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento 
(MAPA, em 2003, o mercado nacional era estimado em cerca de US$ 1 milhão, com 
crescimento de 20% ao ano. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), 
ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o 
Brasil exportou 19,5 mil toneladas de produtos orgânicos de janeiro a dezembro de 
2007, gerando divisas da ordem de US$ 12,5 milhões. Em 2008, houve diminuição 
de 35% no volume de produtos orgânicos exportados e aumento de 3,70% no valor 
total recebido pelas exportações de orgânicos. Esses dados permitem concluir que 
houve melhor desempenho, pois, apesar da queda no volume exportado, os produtos 
tinham maior valor agregado. Os produtos exportados em maior volume foram a soja 
e derivados (76%), açúcar, mangas frescas, café, cacau e derivados. Os sete principais 
destinos dos produtos orgânicos brasileiros foram Holanda, Suécia, EUA, Reino Unido, 
França, Canadá e Noruega (PESAGRO, 2009)
O mercado internacional absorve 70% da produção brasileira e registra taxa de 
crescimento da área duas vezes maior do que a média internacional. De acordo com 
a mesma fonte, o Brasil comercializou US$ 250 milhões em 2008. Esses dados são 
bem superiores (20 vezes) aos dados oficiais apresentados pela SECEX. O projeto 
Organics Brasil, em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e 
Investimentos (APEX), envolve 70 empresas associadas (de pequeno e grande porte), 
que faturaram US$ 58 milhões em 2008 com a venda de produtos orgânicos. Espera-se 
que, com a implantação da regulamentação da agricultura orgânica, os dados oficiais 
sejam compatibilizados.
A oferta de produtos orgânicos provém de grandes empreendimentos, mas também 
de agricultores familiares organizados, tanto para o mercado externo quanto para o 
interno. A Rede Ecovida, no sul do País, que congrega agricultores familiares e pequenos 
33
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
empreendimentos, comercializou, em 2003, cerca de US$ 15 milhões em produtos 
no mercado interno e externo, dos quais 66% em canais de venda direta (mercados 
institucionais, feiras e lojas de consumidores).
Existem parcerias entre a empresa Friboi (maior produtora mundial de carnes bovinas, 
com matriz no Brasil) e a WWF (ONG internacional) para estímulo ao desenvolvimento 
da produção de carne bovina em sistemas de produção orgânicos.
O maior produtor e maior exportador de açúcar orgânico do mundo é a Usina São 
Francisco, em Sertãozinho-SP, que detém mais de 50% da produção mundial de açúcar 
orgânico com a marca Native, processada na própria Usina. Esse projeto foi iniciado 
em 1996 e, em 2000, cultivava cana em 7.540 ha. O açúcar Native tem certificação 
internacional feita pela FVO para o mercado dos Estados Unidos e pela Ecocert para o 
mercado da União Europeia. O grupo se envolveu também com a comercialização de 
café e suco de laranja orgânico. Em 2008, cerca de 80% do faturamento da empresa 
correspondiam à exportação de 60 mil toneladas de açúcar a granel para fabricantes 
de alimentos.
O preço médio do café praticado no mercado externo é de U$ 3,50 por kg e, no mercado 
interno, o valor médio é de US$ 1 a US$ 2 por kg. A Cia. Orgânica de Café vende 30% 
da safra de 1.500 sacas para o Japão, Emirados Árabes e Estados Unidos. O restante 
abastece lojas do Grupo Pão de Açúcar, com quatro tipos de café – grão, sachê, solúvel 
e em pó – e outros comércios varejistas. A recém-criada “holding” Bem da Terra aposta 
no mercado de café gourmet, entre outros produtos, ciente do desafio do crescimento: 
ter escala e baixar preço.
Os produtos orgânicos estão presentes nos diversos canais de comercialização 
existentes, também explorados pelos produtos convencionais. Em 2004, de 611 canais 
de comercialização pesquisados pelo SEBRAE, os supermercados, seguidos das 
lojas/distribuidoras, eram os mais procurados na região Sudeste, enquanto na região 
Sul os mais procurados eram as feiras e depois os supermercados. Observou-se que, nas 
regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, era pequena a comercialização de orgânicos 
em todos os canais, representando somente 6% dos canais de venda de produtos 
orgânicos. Em 2008, a venda de alimentos isentos de agrotóxicos pelo Grupo Pão de 
Açúcar representou faturamento de R$ 40 milhões, com expectativa de que ultrapasse 
os R$ 50 milhões até o final de 2009.
A implantação de alternativas (circuitos curtos de distribuição) aos processos 
tradicionais de comercialização vigentes (atacado e circuitos longos de distribuição 
via grande varejo) é condiçãopara que a agricultura orgânica venha a representar 
verdadeira e profunda transformação das condições de vida, de trabalho e de renda 
34
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
dos agricultores familiares. Uma dessas iniciativas é a Cooperativa de Consumidores 
Ecológicos de Três Cachoeiras – COOPET, no município de Três Cachoeiras, cidade 
com cerca de 6 mil habitantes próximo à cidade de Torres-RS, que tem 100 membros. 
Lá, uma pequena loja da cooperativa fornece produtos orgânicos à população local que, 
antes, só via os produtos passarem embalados nos caminhões para venda nos grandes 
centros urbanos.
Outra iniciativa são as cestas de produtos orgânicos para grupos organizados de 
consumidores, como funcionários de empresas, grupo de acadêmicos, moradores 
de bairros. É o caso da Rede Ecológica, no Rio de Janeiro, que funciona como grupos 
organizados de consumidores nos bairros. Em 2007, estavam em dois bairros e, em 
2008, já eram oito bairros/localidades na cidade do Rio de Janeiro (Urca, Santa Teresa, 
Laranjeiras, Tijuca, Recreio e Freguesia) e cidades vizinhas (Niterói e Seropédica).
Essa rede conta também com a participação de acadêmicos ligados às ciências naturais 
e sociais, ligados ao tema da Agroecologia e às relações campo-cidade/rural-urbano. 
Outra modalidade de venda direta usada pelos produtores são as cestas em domicílio. 
Em 2007, observava-se a tendência de as distribuidoras de produtos orgânicos, com 
sede no estado do Rio de Janeiro, estarem diminuindo a oferta aos supermercados e 
passando a fornecer ou aumentando o fornecimento das cestas em domicílio.
Na quarta edição da Semana do Alimento Orgânico, que aconteceu em maio de 2008 
em todo o país, numa parceria MAPA, MDA e MMA, a CPOrg-RJ distribuiu folheto 
divulgando mais de 20 pontos de venda de produtos orgânicos em feiras e lojas de 
produtos naturais em oito municípios do estado do Rio de Janeiro: Nova Iguaçu, 
Niterói, Campos, Nova Friburgo, Teresópolis, Casimiro de Abreu, Silva Jardim e Rio de 
Janeiro. Outros canais de comercialização que estão sendo construídos e estimulados 
são os mercados institucionais (merenda escolar, creches, hospitais, restaurantes).
Existem políticas federais, estaduais e municipais de “aquisição dos orgânicos” 
estabelecidas a partir de 2003, com enfoque de segurança alimentar, que estimulam 
os mercados quanto à consciência dos produtores sobre o uso dos insumos e os 
consumidores sobre os benefícios de consumir alimentos orgânicos. Um exemplo 
é o PAA, parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e o MAPA, 
executado em âmbito estadual pela CONAB, através do qual as compras alcançaram 
US$ 7,993 milhões em 2005. Entre 2003 e 2007, por meio de estoques originários da 
agricultura familiar, doou 79,8 mil toneladas de produtos (feijão, farinha de mandioca, 
arroz em casca e milho em grãos, entre outros), usados em ações de suplementação 
alimentar para segmentos carentes da população, assistidos por 3.614 entidades de 
interesse público, em 1.514 municípios de 26 estados.
35
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
A CONAB comprava de cada agricultor familiar o valor total de R$ 3.500,00 em 
produtos para serem doados a organizações em situação de insegurança alimentar, 
pagando prêmio de até 30% no preço dos produtos orgânicos. Esse valor deve subir 
para R$ 4.500,00/família para os contratos a serem firmados em 2009 para entrega 
em 2010. O programa é justificado por preservar a biodiversidade e a sustentabilidade 
ambiental no gerenciamento dos sistemas, mas também promove a agricultura orgânica 
controlada pelos seus efeitos benéficos à segurança alimentar com a oferta de produtos 
orgânicos a outros segmentos da sociedade.
Apesar de a região Sudeste ter a segunda maior participação no PAA no período 2003-
2007, no Estado do Rio de Janeiro, somente três contratos foram firmados em 2007 
com a CONAB/SUREG-RJ para fornecimento ao PAA em 2008. Na esfera municipal, 
o PAA é operado diretamente pelas prefeituras, em parceria com o MDS. A prefeitura 
de Nova Iguaçu-RJ, por vontade política, adquiriu produtos orgânicos para a merenda 
escolar da associação de agricultores familiares que produzem hortaliças orgânicas em 
faixas de dutos da Petrobras e contam com apoio técnico do Instituto Terra e recursos 
daquela empresa petrolífera.
Em fins de 2008, a Associação dos Produtores Orgânicos de Petrópolis (APOP), que 
congrega produtores da comunidade do Brejal, com apoio da Associação de Agricultores 
Biológicos (ABIO) e dos Escritórios Locais da EMATER-RIO em Nova Friburgo e em 
Petrópolis, firmou contrato com a CONAB/SUREG-RJ para que 10 dos seus membros 
entregassem produtos orgânicos ao PAA em 2009, na modalidade –Doação Simultânea, 
em parceria com o Banco de Alimentos e Colheita Urbana, responsável pelo transporte dos 
alimentos até os beneficiários finais (organizações em situação de insegurança alimentar).
A oferta de produtos da região na merenda, além de estimular a geração de emprego 
e renda, favorece a manutenção do hábito alimentar baseado na cultura local. Foi o 
que fez a Cooperativa Grande Sertão, em Minas Gerais, com produtos processados do 
extrativismo sustentável, com a venda para o PAA e entrega nas merendas escolares e 
nos mercados locais. Essas iniciativas contam também com o apoio do programa da 
Secretaria de Desenvolvimento do Território do MDA e com cooperação internacional 
(movimento Slow Food, ligado à gastronomia).
Em Brasília-DF, o mercado de orgânicos funciona na CEASA, em sistema cooperativo 
entre os produtores (SINDIORGÂNICOS – Sindicato dos Produtores Orgânicos) e 
em parceria com diversas instituições como sistema profissionalizado, dispondo de 
recursos que permitem gestão moderna e competitiva para atender aos consumidores.
Os principais produtos oferecidos incluem hortifrutigranjeiros, leite e laticínios, além 
de sucos, café, achocolatados e geleias.
36
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
O desafio é fornecer produtos da agricultura familiar e, se possível, produtos orgânicos 
para a merenda escolar, pois o marco legal fala de alimentação saudável, alimento 
orgânico e agroecológico.
Resumidamente, o tipo de canal a ser utilizado pelos produtores dependerá do seu nível 
de organização e de relacionamento com o ambiente externo, da existência de grupos 
organizados, dos tipos de produtos existentes e das épocas do ano, de acordo com as 
exigências de cada canal de comercialização ou de consumidores organizados, além dos 
recursos financeiros disponíveis.
Fica clara a importância da organização dos produtores em grupos para negociar 
coletivamente com a municipalidade os apoios necessários para desenvolver o mercado 
local de produtos orgânicos visando atender à população. A parceria com escolas 
técnicas, universidades, institutos de pesquisa e organismos de assessoria técnica é 
importante para a construção das redes de conhecimento agroecológico e dos critérios 
de controle das qualidades orgânicas. A proximidade com o poder legislativo favorecerá 
a implantação de políticas adequadas às realidades locais.
37
CAPítulo 3
Conformidade e certificação
Para a produção de alimentos por meio da Agroecologia é preciso seguir algumas etapas 
uniformizadas que irão conferir um atestado de qualidade ao produto, a certificação 
pelo processo de conformidade. 
Segundo Gliessman (2014) são estabelecidos 5 níveis de transição por pequenos passos 
em direção ao objetivo final da sustentabilidade. Os três primeiros níveis de conversão 
para um sustentável têm foco no sistema alimentar na escala da fazenda. Dois níveis 
adicionais ultrapassam a escala fazenda. Os três primeiros níveis nos ajudam a descrever 
os passos que os agricultores realmente tomam na passagem de agroecossistemas 
industriais ou convencionais, e todos os cinco níveis em conjunto servem como um mapa 
delineando um processo de mudança evolutiva para todo o sistema alimentar global.
nível 1
Aumentar a eficiência das práticas industriais/convencionais,a fim de reduzir o uso 
e consumo de insumos caros, escassos ou prejudiciais para o ambiente. O objetivo 
dessa abordagem é a utilização de insumos de forma mais eficiente, para que menos 
insumos sejam necessários e ainda uma gradual redução de impactos negativos. 
Esta abordagem tem sido a principal ênfase de algumas pesquisas da agricultura 
convencional, por meio do qual foram desenvolvidas inúmeras tecnologias e práticas 
agrícolas. Exemplos incluem o espaçamento ideal das culturas e densidade, melhores 
máquinas, monitoramento de pragas para melhorar a aplicação de pesticidas, melhor 
gestão do tempo das operações e agricultura de precisão para a dosagem correta de 
fertilizante e baixo consumo de água na irrigação. Embora esses esforços busquem 
reduzir os impactos negativos da agricultura convencional, eles não ajudam a quebrar 
a dependência de insumos externos.
nível 2
Substituição de insumos industriais e práticas convencionais, substituindo-os por 
práticas alternativas. O objetivo neste nível de transição é substituir produtos e práticas 
de uso intensivo de recursos degradantes por aqueles que são mais ambientalmente 
benignos. Exemplos de práticas alternativas incluem o uso de plantas de cobertura 
fixadoras de nitrogênio e rotações para substituir fertilizantes nitrogenados sintéticos, 
38
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
o uso de agentes de controle biológico em lugar de pesticidas, e a mudança para preparo 
de solo reduzido ou mínimo. Neste nível, a estrutura básica do agroecossistema não 
é muito alterada, portanto, muitos dos mesmos problemas que ocorrem em sistemas 
industriais convencionais, também podem ocorrer.
nível 3
Redesenhar o agroecossistema para que ele funcione com base em um novo conjunto 
de processos ecológicos. Neste nível, mudanças fundamentais na concepção geral do 
sistema buscam eliminar as causas de muitos dos problemas que ainda existem nos 
níveis um e dois. Assim, em vez de encontrar formas mais sólidas de resolução de 
problemas, os problemas são impedidos em primeiro lugar. Estudos de reconversão 
de todo o sistema permitem uma compreensão dos fatores limitantes de rendimento 
no contexto da estrutura e função agroecossistema. Um exemplo é a diversificação da 
estrutura das explorações agrícolas e de gestão por meio do uso de rotações, cultivos 
múltiplos e sistemas agroflorestais.
nível 4
Reestabelecer uma ligação direta entre aqueles que cultivam os alimentos e quem 
o consome. A transição ocorre dentro de um contexto cultural e econômico, e nesse 
contexto, deve apoiar a mudança para práticas mais sustentáveis de ambos. Em nível 
local, isso significa que os consumidores valorizam produtos cultivados localmente e 
usam seu dinheiro de forma mais racional. Este apoio se transforma em uma espécie 
de “cidadania alimentar” e torna-se uma força para a mudança do sistema alimentar. 
Quanto mais essa transformação ocorre em comunidades ao redor do mundo, mais 
perto caminhamos para a construção da nova cultura e economia da sustentabilidade 
que é o pré-requisito para atingir o nível cinco. 
nível 5
Sobre os fundamentos criados na escala da fazenda sustentável em agroecossistemas 
de nível três e as relações alimentares sustentáveis de nível quatro. Busca-se construir 
um novo sistema global de alimentos, com base na equidade, participação e justiça, que 
não só é sustentável, mas também ajuda a restaurar e proteger os sistemas de suporte 
de vida da Terra. Ao contrário de níveis de um a quatro, o nível cinco implica mudar 
o escopo global que atinge tão profundamente a natureza da civilização humana que 
transcende o conceito de “transição”. No entanto, o caminho para o nível cinco passa 
necessariamente pela escala da fazenda.
39
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
Em termos de pesquisa, agrônomos e outros cientistas têm feito um bom trabalho 
para adaptação dos processos de transição em suas regiões. O trabalho com a ética e a 
economia da sustentabilidade fornece a base para o tipo de pesquisa e ação baseados na 
comunidade. As pesquisas desenvolvem técnicas locais mas focam em eventos globais.
Seguidos os níveis acima, o produtor pode procurar uma forma de certificação da sua 
produção. Após o nível de implantação da agricultura orgânica, o produtor que não se 
encaixar na modalidade de venda direta por agricultores familiares com certificação 
facultativa e quiser fazer uso no Brasil da denominação produto orgânico ou outro 
similar, terá de estar cadastrado no Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade 
Orgânica (SISORG).
Os mecanismos de avaliação da conformidade reconhecidos no SISORG devem dar 
garantias aos clientes e consumidores sobre as qualidades orgânicas e de que seguem 
os regulamentos técnicos da agricultura orgânica. São dois mecanismos: a certificação 
e os Sistemas Participativos de Garantia. Portanto, os produtos têm de ser submetidos 
ao controle feito por um OAC (Organismo de Avaliação da Conformidade) ou OPAC 
(Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade). 
Desde a década de 1970, organizações de produtores e consumidores, além de técnicos, 
desenvolvem práticas seguindo os princípios da agricultura orgânica. Em 1994, 
iniciou-se a discussão para a regulamentação da agricultura orgânica no país, que foi 
oficialmente reconhecida em maio de 1999.
Em dezembro de 2003, foi publicada a Lei no 10.831, definindo e estabelecendo condições 
obrigatórias para a produção e a comercialização de produtos da agricultura orgânica. 
Em julho de 2004, foi editada a Portaria no 158, do MAPA, que trata da Comissão 
Nacional para a Produção Orgânica (CPOrg-RJ) e das Comissões da Produção Orgânica 
nas Unidades da Federação (CPOrg -UF), criadas com a função de executar o programa 
Pró-Orgânico.
Em março de 2004, foi criada a Câmara Setorial de Agricultura Orgânica (CSAO) como 
órgão consultivo de apoio às políticas públicas do MAPA. É composta por membros do 
governo e da sociedade civil. Foi na CSAO que aconteceram as discussões, elaboração, 
aprovação e regulamentação da Lei no 10.831. Os textos do Decreto e das Instruções 
Normativas foram construídos, durante os anos de 2004, 2005 e 2006, por técnicos de 
diferentes ministérios em parceria com diversos segmentos da sociedade civil ligados à 
agricultura orgânica, sob a coordenação do MAPA.
Após a tramitação pela Casa Civil e demais ministérios envolvidos (MAPA, MDA, 
MMA, MS e MDIC), e após a aprovação das alterações pela CSAO, em agosto de 2007, 
40
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
o Decreto no 6.323 foi publicado no Diário Oficial da União, em 28 de dezembro de 
2007. Os regulamentos técnicos específicos (portarias e instruções normativas) para 
cada atividade e setor foram objeto de consulta pública em maio de 2008. No mesmo 
ano, a CSAO passou a ser chamada de Câmara Técnica da Agricultura Orgânica (CTAO) 
e mudou suas representações (novos mandatos, inclusão e exclusão de membros).
As cinco Instruções Normativas específicas, que regulamentam a atividade da agricultura 
orgânica de acordo com a Lei no 10.831 e com o Decreto no 6.323, foram publicadas em 
2008 e 2009. Em outubro de 2008, a Instrução Normativa no 54, que trata das Comissões 
da Produção Orgânica, em dezembro de 2008, a Instrução Normativa no 64, dos Sistemas 
Orgânicos de Produção Primária – animal e vegetal. Em maio de 2009, as Instruções 
Normativas no 17, do Extrativismo Sustentável Orgânico; no 18, do Processamento e no 19, 
dos Mecanismos de Controle e Informação da Qualidade Orgânica, sendo a IN 17/2009 
e a IN 18/2009 conjuntas com o MMA e o MS, respectivamente. Em julho de 2009, 
foi publicado o Decreto no 6.913/2009, que trata dos produtos fitossanitários com uso 
aprovado para a agricultura orgânica.
As possibilidades de acesso dos produtos da agricultura orgânica ao mercado brasileiro 
estão previstas na Lei no 10.831, nos Decretos no 6.323 e no 6.913 e nas Instruções 
Normativas no 54 e no 64, no 17, no 18 e no 19.
No Brasil, podem ser trêsos mecanismos de controle para a garantia da qualidade 
orgânica. O primeiro mecanismo diz respeito aos agricultores familiares, que deverão 
atender aos requisitos estabelecidos para a venda direta sem certificação, porém como 
membros de uma Organização de Controle SOCIAL (OCS). Os outros dois mecanismos 
são para a venda direta por produtores não familiares e para a venda indireta, sendo que 
todos deverão atender aos requisitos estabelecidos pelo Sistema Brasileiro de Avaliação 
da Conformidade Orgânica (SISORG).
O SISORG é integrado por órgãos e organizações da administração pública federal e 
pelos Organismos de Avaliação da Conformidade (OAC) credenciados pelo MAPA. 
Os OACs são pessoas jurídicas, de direito público ou privado, responsáveis pela verificação 
da conformidade dos processos produtivos avaliados em relação à regulamentação da 
produção orgânica, tanto na certificação como nos SPG (art. 6o, parágrafo único da 
IN 19/2009).
A seguir são demonstrados os três procedimentos reconhecidos pela regulamentação 
da agricultura orgânica no Brasil que podem ser acessados, dependendo do canal de 
comercialização usado (venda direta ou indireta) e do tipo de fornecedor (agricultor 
familiar ou não). Segundo o glossário do Decreto, entende-se que o agricultor familiar, 
na venda direta, deve vender apenas para a pessoa física ou jurídica que vai consumir 
41
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
o produto, ou seja, o consumidor final. Se, por exemplo, o agricultor familiar vende 
laranjas em uma feira para uma pessoa física que vai se alimentar daquele produto, 
trata-se de venda direta porque quem comprou o produto vai consumi-lo. Se o agricultor 
familiar vende laranjas para o governo, que doará o produto a hospitais e creches ou 
vai utilizá-lo na merenda escolar, sem vendê-lo, essa modalidade também pode ser 
classificada como venda direta. Também se considera venda direta se grupos possuem 
pontos coletivos de comercialização para o consumidor final.
O preposto – que pode, direta ou indiretamente, auxiliar o agricultor familiar na 
comercialização. Essa figura idealizada pela lei da agricultura orgânica e materializada 
no art. 96 § 1o de sua regulamentação não pode ser comparada ao preposto, em sentido 
mais amplo, adotado pelo direito civil, nem àquele idealizado pelo Código de Defesa do 
Consumidor (CDC). O CDC, em seu artigo 34, dispõe que “o fornecedor do produto ou 
serviço é solidariamente responsável pelos atos de seus prepostos ou representantes 
autônomos”.
Na visão da lei da agricultura orgânica e na sua regulamentação o preposto não pode 
ser um empregado, mas, tão somente, um membro da família do próprio agricultor 
familiar, outro agricultor familiar ou membro da comunidade envolvido na estrutura 
organizacional. Quanto à responsabilidade civil sobre a qualidade do produto, esta 
recairá sobre o agricultor e nunca sobre o preposto, salvo as previsões legais, que aqui 
não cabe comentar.
Como hipótese, cita-se o caso de um grupo de agricultores familiares pertencentes a uma 
associação informal em que um deles possui meio de transporte e, por isso, fica incumbido 
de transportar as mercadorias produzidas pelos outros agricultores para a feira local, bem 
como de vendê-las. É o caso típico idealizado pela lei, ou seja, os agricultores familiares 
organizados se ajudam mutuamente e, mesmo que o agricultor não possa acompanhar 
seu produto, alguém do grupo poderá fazê-lo, sem obter remuneração. 
Dessa forma, a venda direta pode ser feita pelo próprio agricultor familiar, por familiar ou 
por membro da estrutura organizacional (preposto) em que está inserido, pois a garantia 
perante o consumidor continuará sendo o controle social. A garantia da conformidade 
perante os regulamentos técnicos da agricultura orgânica se dá pela atuação do agricultor 
familiar frente aos consumidores, não sendo necessária uma terceira parte para garantir 
a qualidade orgânica, como ocorre, por exemplo, na certificação.
Os documentos usados para garantir a conformidade dos produtos orgânicos na 
venda direta são: Declaração de Cadastro de Produtor vinculado à OCS; Termo de 
Compromisso com a Garantia da Qualidade Orgânica, preenchido e assinado por todos 
os membros da OCS comprometendo-se a cumprir as regulamentações técnicas da 
42
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
agricultura orgânica; e Declaração de Cadastramento da OCS no MAPA ou em órgão 
fiscalizador conveniado (estadual ou federal). 
Os órgãos fiscalizadores responsáveis pelo cadastramento e acompanhamento das OCS 
são as Superintendências Federais de Agricultura – SFAs nas Unidades da Federação 
ou mediante convênio com outros órgãos da esfera federal, estadual ou distrital. 
A OCS deverá atualizar, pelo menos uma vez por ano, as listas dos principais produtos 
e quantidades estimadas de produção por unidade de produção familiar. Os dados 
dos produtores vinculados à OCS, atualizados periodicamente no órgão fiscalizador 
conveniado, alimentarão o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO).
Para comprovar a condição de agricultor familiar, a OCS deverá apresentar a Declaração 
de Aptidão (DAP) de cada produtor, emitida pela Empresa de Assistência Técnica e 
Extensão Rural – EMATER, pelo Instituto Nacional de Colonização e reforma Agrária 
– INCRA ou por organização de assistência técnica e extensão rural autorizada (no Rio 
de Janeiro, a União das Cooperativas – UNACOOP a Federação dos Trabalhadores na 
Agricultura do Rio de Janeiro – FETAG-RJ). Além de permitir a visita de consumidores 
e da fiscalização, a OCS deve informar sobre os procedimentos usados para o controle 
social da produção e da comercialização, de forma a garantir que todos estejam 
cumprindo as regulamentações da agricultura orgânica e a assegurar a rastreabilidade 
dos produtos.
A participação da sociedade pode se dar como consumidor, na compra e nas visitas às 
unidades de produção, ou como membro da OCS, conforme previsto na regulamentação. 
O art. 21 da IN no 54/2008, que trata das atribuições das comissões, e a IN no 19/2009 
não abordam a participação das CPOrgs-UF no processo de credenciamento da OCS. 
Outras possibilidades que favoreceriam o controle social com diminuição de custos e 
aumento da confiança nos produtos orgânicos de agricultores familiares submetidos ao 
controle social não foram incluídas pelos reguladores, como a possibilidade de os órgãos 
fiscalizadores municipais participarem do credenciamento das OCS e a possibilidade de 
as CPOrgs-UF darem parecer sobre o credenciamento das OCS.
Credenciamento dos oACs e dos oPACs
Os OACs deverão ser credenciados pelo MAPA. No caso das certificadoras, o 
credenciamento será precedido pela acreditação segundo a norma ISO65, do Instituto 
Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO). O 
credenciamento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPAC) 
responsáveis por um SPG será precedido por auditoria realizada pela Coordenação de 
Agroecologia – COAGRE/MAPA. 
43
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
De acordo com o art. 8o da IN no 19/2009, a solicitação de credenciamento dos OACs 
deve ser feita à Superintendência Federal da Agricultura (SFA) da unidade da federação 
onde estiverem sediados, devendo estar definido o escopo em que vai atuar.
Naquele órgão, o Serviço de Política e Desenvolvimento Agropecuário (SEPDAG) fará a 
verificação completa da documentação (art. 9o). Embora haja 12 escopos possíveis, ainda 
não há regulamentos específicos, por exemplo, para têxteis, cosméticos e aquicultura.
Certificadoras
Para se estabelecer o sistema de avaliação de conformidade – do qual a certificação 
pode ser um componente – cada país é responsável por implantar seu mecanismo de 
acreditação de organismos de certificação, laboratórios, auditores etc. Esse mecanismo 
é responsável por garantir a independência, objetividade, imparcialidade e segurança 
das atividades de avaliação da conformidade feito pelas certificadoras.A norma ISO65, que trata da acreditação de organismos de certificação de produtos, 
processos e serviços, é internacionalmente aplicada e usada na agricultura orgânica, 
referenciada textualmente pelos regulamentos, com ou sem adaptações. No âmbito dos 
blocos comerciais ou nos países, podem existir normas de acreditação de certificadoras 
adaptadas às realidades locais.
A IFOAM criou uma acreditadora orgânica (IOAS) específica do setor que controla a 
aplicação do seu Programa de Garantia, no qual está o Programa de Acreditação das 
Certificadoras. A IOAS é acreditada pela ISO para usar a norma ISO65.
Dos organismos de certificação que trabalham para a agricultura orgânica, cerca de 1/3 
é acreditado pela norma ISO65. Em 2003, havia 364 certificadoras listadas pela IFOAM. 
Em 2004, eram 385 e, em 2005, 419 organizações. Em 2006, porém, a lista baixou 
para 395 certificadoras, o que pode ser explicado pelas mudanças na regulamentação 
de alguns países como o Japão e pelas exigências de registro em outros países, além das 
fusões de pequenas certificadoras.
O Brasil possuía, em 2003, 18 organizações realizando o controle da produção orgânica. 
Entretanto, sabe-se que, naquele ano, havia mais de 30 organizações realizando 
o controle. Desde então, pequenas certificadoras de produtos orgânicos fecharam 
(AAOCert-SP e Fundagro-SC), outras pensam em se fundir num único organismo com 
atuação mais abrangente para racionalizar custos e se verifica, também, a entrada de 
certificadoras tradicionais não específicas de orgânicos (TECPAR- PR).
No Brasil, o credenciamento das certificadoras está normalizado no art. 7, § 1o e 2o da IN 
no 19 e compreende duas fases. Na fase 1, a certificadora faz a solicitação para auditoria 
44
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
conjunta com o INMETRO, conforme o art. 23 da IN no 19/2009 e formulário próprio. 
Na fase 2, a certificadora apresenta o documento de acreditação e novo formulário de 
solicitação de credenciamento ao SEPDAG/SAF da unidade da federação em que estiver 
sediado, que os enviará à COAGRE/MAPA. Após ouvir as CPOrgs-UF, a COAGRE emitirá 
a Declaração de Credenciamento do OAC e a autorização para usar o selo do SISORG.
figura 4. Selo de conformidade do Ministério da Agricultura – SISORG.
fonte: Brasil, 2016.
organismos participativos de avaliação 
da conformidade
O OPAC que se interessar em ser credenciado pelo MAPA, para que os produtores 
e outros atores vinculados ao SPG possam comercializar os produtos como orgânicos 
controlados e usarem o selo do SISORG, deverá entregar a solicitação de credenciamento 
ao SEPDAG/SAF da unidade da federação em que estiver situada a sua sede, acompanhada 
dos seguintes documentos: listas das unidades de produção, CNPJ, atos constitutivos 
do OPAC (estatutos, regimentos internos e contrato social) e manual de procedimentos 
do OPAC. O credenciamento do OPAC é precedido por auditoria da COAGRE/MAPA. 
Após ouvir as CPOrgs-UF, a COAGRE emitirá a Declaração de Credenciamento do OAC 
e a autorização para usar o selo do SISORG (arts. 10, 11 § 1o e 12). Como não há norma 
internacional de referência para o monitoramento de um SPG, o MAPA está elaborando 
um manual. O prazo para a adequação do OPAC aos regulamentos estabelecidos, ou seja, 
para o credenciamento dos OPACs que já atuam na rede de produção orgânica.
O produto de fornecedor certificado como orgânico por certificadora credenciada no 
MAPA poderá ser aceito por outro processador certificado orgânico como produto 
orgânico, mesmo que os organismos de avaliação da conformidade não usem os mesmos 
mecanismos de avaliação. Assim, os produtos controlados pela certificação e pelo SPG 
serão equivalentes para efeito de regulamentação da Lei no 10.831, do Decreto no 6.323 
e da Instrução Normativa no 19.
O MAPA terá o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) periodicamente 
atualizado pelos OACs (participativos ou não) e o Cadastro dos OACs (participativos ou 
não) credenciados no SISORG.
45
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
A participação da sociedade na verificação da conformidade no SISORG se dará 
pelos membros das CPOrgs nas unidades da federação quando da solicitação de 
credenciamento e também por técnicos que pertencerem ao Banco de Especialistas para 
Auditorias de Credenciamento nos OACs, conforme expresso no art. 14 da Instrução 
Normativa no 19. Esta lista estará disponível na internet na página do MAPA <www.
agricultura.gov.br>.
Certificação
É o procedimento de verificação (de registros, de documentos e física) e confirmação 
(certificado) da conformidade do produto ou processo com os padrões estabelecidos. 
Os critérios orientadores da certificação são a transparência nos critérios adotados, 
a imparcialidade, a independência (disponibilidade de recursos) e a competência 
(capacidade para executar os serviços). É um dos meios de assegurar aos industriais, 
comerciantes e consumidores o cumprimento de determinadas normas e padrões. 
Quando a cadeia de produção se torna mais complexa e o consumidor fica mais distante 
do produtor, ou quando não existe nenhuma forma de controle social, há necessidade 
de confirmação feita por uma terceira parte – a certificadora (organismo de avaliação 
da conformidade). Normalmente, quando se fala em certificação, entende-se que os 
procedimentos são feitos por uma certificadora, baseada em sistema independente de 
verificação e confirmação da conformidade.
Por princípio, a certificadora não pode prestar assistência técnica. Tanto produtos como 
processos e serviços podem ser certificados e cada tipo de certificação deve desenvolver 
seus próprios procedimentos de verificação, bem como as punições resultantes da não 
observância aos padrões estabelecidos. A certificação na agricultura orgânica pode ser 
individual ou em grupo de pequenos produtores.
Certificação em grupo de pequenos produtores
A agricultura orgânica, em geral, é praticada por agricultores que possuem pequenas 
unidades familiares e pequenos empreendimentos. Há registro de cerca de 350 diferentes 
grupos produzindo nos países de baixa renda, reunindo perto de 150 mil pequenos 
produtores, cujos produtos orgânicos são exportados para os mercados dos países de 
alta renda. 
As normas e regulamentos técnicos de agricultura orgânica exigem, no mínimo, uma 
inspeção anual em cada unidade produtora. Os organismos de certificação locais, 
muitas vezes, não estão disponíveis na maioria dos países de baixa renda e tropicais. 
46
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
Nesses países, é impossível pagar pelas visitas anuais de inspeção de organismo de 
certificação estrangeiro ou brasileiro, além de ser física e economicamente impossível 
para as certificadoras visitarem anualmente todas as unidades de produção num projeto 
que envolva, por exemplo, cerca de 5 mil pequenos produtores. Diferentes formas de 
sistemas de garantia da qualidade praticados por grupos de pequenos produtores foram 
desenvolvidas há algum tempo, considerando a natureza e o tamanho da operação, 
variando de dez a alguns milhares de produtores individuais.
A certificação em grupo foi estabelecida para desonerar a produção familiar do custo 
da certificação individual e facilitar o trabalho dos inspetores, barateando, assim, o 
custo final dos produtos e possibilitando a chegada de produtos exóticos nos principais 
mercados e de produtos em geral na entressafra dos europeus, americanos e japoneses. 
A certificação deve ser um mecanismo de estímulo à capacitação e não uma barreira 
técnica para o acesso ao mercado interno e à exportação.
A certificação em grupo de pequenos produtores, preconizada pela IFOAM, é baseada 
no controle feito por inspetor interno (Sistema Interno de Controle – SIC), que 
acompanha o dia a dia dos produtores, e na inspeção anual por amostragem, feita 
por organismo de certificação, criando, assim, um sistema de garantia da qualidade 
orgânica. Nesse sistema, a auditoria externa, feita pela certificadora, realizavisitas 
a algumas unidades de produção de acordo com critério de amostragem baseado na 
análise de riscos.
A certificação em grupos de pequenos produtores pode ser definida quando:
 » o custo (individual) de certificação é desproporcionalmente alto em 
relação aos valores das vendas dos produtos comercializados;
 » as unidades produtivas são manejadas, principalmente, por trabalho 
familiar;
 » há homogeneidade dos membros quanto à localização geográfica, sistema 
de produção, tamanho das unidades de produção e sistema comum de 
mercado;
 » favorece a organização por cadeia produtiva (cacau, soja etc.);
 » O tamanho do grupo é suficiente para sustentar um sistema interno de 
controle viável; um número mínimo de 30 a 50 produtores envolvidos 
por inspetor interno. Grupos maiores poderão ter mais de um inspetor 
interno (normalmente da comunidade ou algum técnico que dê assistência 
técnica ao grupo).
47
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
Um organismo central é responsável pela comercialização e pelo atendimento às normas 
(comprador, processador ou associação/cooperativa auto-organizada).
Uma única certificação é feita para toda a produção individual, assim como para o 
processamento e atividades de distribuição registradas dentro do grupo. Operadores 
individuais dentro do grupo podem não usar a certificação independentemente, sendo 
negociado entre as partes. Os membros dos grupos operam as unidades de produção 
sob exigências contratuais e de filiação que especificam o compromisso de cumprir as 
normas da agricultura orgânica aplicáveis, permitir a inspeção etc. 
O SIC, operado por organismo central ou organismo externo contratado pelo organismo 
central do grupo, da associação ou da cooperativa, normalmente mantém os arquivos 
de todos os membros do grupo e inspeciona cada membro ao menos uma vez ao ano. 
Por meio dos mecanismos do SIC, o grupo decide sobre o atendimento às normas 
aplicáveis por parte dos membros. As não conformidades são resolvidas de acordo 
com um conjunto de procedimentos, sanções, medidas para apelação e reclamações 
estabelecidas pelos grupos.
Em algumas certificadoras, o controle por amostragem nos grupos só é usado devido à 
difícil aplicação do plano de controle padrão (usado em 100% das unidades produtoras). 
Para viabilizar o controle dessas unidades, em geral pequenas, é aplicado o controle 
por amostragem, que será auditado pela certificadora. Os critérios para controle por 
amostragem são:
 » mínimo de 30 produtores participantes, obrigatoriamente organizados 
em torno de uma empresa ou grupo;
 » maioria dos produtores com menos de 5 hectares de cultivo orgânico;
 » visita de inspeção anual obrigatória para controle interno (realizada pelos 
técnicos da entidade) em 100% das unidades dos grupos de produtores 
(associação, cooperativa, condomínio) inscritos no projeto;
 » cada unidade produtora deve fornecer uma série de informações (cadastro, 
termo de compromisso, histórico de cada lavoura, normas de registro 
das intervenções nos cultivos/criações, lista com os problemas – não 
conformidades, descrição de estoques e medidas de separação dos mesmos);
 » os produtores têm de ter a mesma produção principal e técnicas de 
produção homogêneas entre os participantes do grupo e da região;
 » o SIC obrigatório sob responsabilidade da entidade em que os produtores 
estão organizados e em nome da qual será certificado.
48
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
O SIC deverá ser realizado uma vez por ano, documentado em todas as unidades 
produtoras, sendo apresentada à certificadora a lista das unidades com problemas. 
A amostragem a ser inspecionada pela certificadora é obtida por meio do cálculo da 
raiz quadrada de n, sendo n o número de unidades a serem certificadas. Por exemplo: 
se a cooperativa tem 144 membros, serão inspecionadas anualmente 12 unidades de 
produção. Por meio da avaliação dos riscos do SIC do grupo, as unidades inspecionadas 
serão aquelas em que há maior risco de fraude no SIC. Ao final de três anos, todas as 
unidades devem ter sido visitadas.
Sistema Participativo de garantia (SPg)
É a denominação genérica de diferentes metodologias para a avaliação participativa da 
conformidade de produtos, processos e serviços a regras específicas. Os SPG são baseados 
na busca da maior participação possível de todos os atores interessados em procedimentos 
de avaliação participativa da conformidade adaptados a diferentes realidades sociais, 
culturais, políticas, ambientais, territoriais, organizacionais e econômicas.
Nos Sistemas Participativos de Garantia, a conformidade representa a alteração 
ou modificação do comportamento e das crenças de uma pessoa ou de um grupo na 
direção determinada por um grupo mais amplo, resultante do controle social por meio 
de sanções positivas, negativas e neutras. A conformidade social (controle social) é o 
resultado da observação sistemática das unidades de produção, da convergência das 
informações, das reuniões de discussão, do desenho e monitoramento dos acordos 
de produção e da exclusão pelo não cumprimento desses acordos, visando à oferta de 
produtos orgânicos.
As condições de comercialização dos produtos orgânicos também são objeto de 
observação sistemática, buscando atender aos diferentes circuitos de comercialização 
(curtos – feiras, entregas em domicílio – e longos – grande varejo) com transparência nas 
relações comerciais justas e nos acordos negociados, visando ao consumo consciente.
A declaração de conformidade do fornecedor e a verificação da conformidade por meio da 
avaliação participativa da conformidade, usando a revisão de pares, o estabelecimento 
de acordos coletivos e registros realizados, estão presentes nas diferentes etapas de 
geração de credibilidade, essenciais para qualquer esquema de funcionamento.
Do mais simples nível, que é essencial, até o mais complexo, com a participação de 
outros atores, além dos membros da associação de produtores, consumidores e técnicos 
de ONGs que trabalham com produção orgânica e organização de grupos, todos são 
desejáveis, sendo estimulados sempre que a realidade permitir.
49
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
O controle social é estabelecido pela participação direta dos membros do SPG. 
Esses atores estabelecem e dinamizam ações coletivas de avaliação da conformidade 
das unidades de produção dos membros dos SPG de acordo com o regulamento técnico 
da produção orgânica. O controle social representa a manutenção da ordem social pela 
conformidade de cada membro às normas (valores, costumes populares, preconceitos 
e leis). A participação colaborativa e a responsabilidade solidária são características 
complementares, que possibilitam o controle social e o poder compartilhado e regem as 
avaliações e decisões relativas à conformidade dos produtos. O controle social representa 
a manutenção da ordem social pela conformidade de cada membro às normas (valores, 
costumes populares, preconceitos e leis).
Existem interpretações da expressão solidariedade aplicadas aos SPG, como: 
a. relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, 
de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de 
apoiar os outros (solidariedade de classe); e 
b. vínculo jurídico entre os credores (ou entre os devedores) de uma mesma 
obrigação, cada um com direito (ou compromisso) ao total da dívida, de 
sorte que cada credor pode exigir (ou cada devedor é obrigado a pagar) 
integralmente a prestação objeto daquela obrigação (no caso, a garantia 
das qualidades orgânicas).
Estrutura dos SPg
De acordo com o art. 70 da IN no 19, um SPG é formado, basicamente, por dois 
componentes: os Membros do Sistema e o Organismo Participativo de Avaliação da 
Conformidade (OPAC).
Os membros são pessoas físicas e/ou jurídicas que fazem parte de um grupo, classificados 
em duas categorias: produtores e colaboradores. Os produtores (fornecedores) são 
produtores primários, processadores, distribuidores,comerciantes, transportadores, 
armazenadores e extrativistas sustentáveis orgânicos. Os colaboradores são consumidores 
e suas organizações, técnicos, organizações públicas ou privadas, ONGs, organizações de 
representação de classe e demais atores.
De acordo com o art. 7, § 2o, o OPAC é a personalidade jurídica que assume a 
responsabilidade formal pelo conjunto de atividades desenvolvidas num SPG, tendo as 
seguintes características:
 » Estatuto social que caracterize suas atribuições. 
50
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
 » Regimento interno ou caderno de normas que explicite sua organização, seu 
funcionamento participativo e como se responsabiliza por determinado SPG. 
 » Estrutura que contenha, no mínimo, uma comissão de avaliação e o 
Conselho de Recursos, ambos compostos por representantes dos membros 
do SPG.
De acordo com o art. 70, § 2o, o estatuto deve conter critérios para composição ou 
escolha dos membros da comissão de avaliação e do conselho de recursos, requisitos 
mínimos de participação, direitos e deveres dos membros, periodicidade de reuniões e 
assembleias, sanções administrativas, composição mínima do SPG, exigências mínimas 
de funcionamento e quórum mínimo para deliberação nas reuniões e assembleias. 
rotulagem e identificação
No Codex Alimentarius, a rotulagem de produtos em conversão (em transição para 
orgânico) é permitida depois de 12 meses de produção com métodos orgânicos, de 
acordo com critério adicional, para evitar confusão aos consumidores.
O regulamento técnico chinês permite o uso de duas marcas de certificação: produto 
em transição e produto orgânico certificado. Nos Estados Unidos, só se permite a 
denominação “produtos orgânicos”. No regulamento técnico boliviano, a proposta é 
ter um selo para produto em transição, outro para produto orgânico certificado e outro 
para produto orgânico que usa SPG.
Na proposta brasileira, só poderá ser rotulado o produto orgânico, não sendo permitida 
a denominação produto em transição, nem será possível colocar as outras denominações 
(biodinâmico, por exemplo) em letras maiores que as da palavra “orgânico”.
Na rotulagem de produtos processados, a IFOAM, o Codex Alimentarius e os 
regulamentos da União Europeia permitem a utilização do termo orgânico nos rótulos 
de matérias-primas que foram produzidas em concordância com o regulamento da 
agricultura orgânica e nos alimentos compostos que incluam pelo menos 95% de 
ingredientes orgânicos na matéria-prima. Quando os produtos compostos incluem 
entre 95% e 70% de ingredientes de origem orgânica na matéria-prima, podem ser 
rotulados como “feitos com ingredientes orgânicos”.
Quando os alimentos compostos contêm menos de 70% de ingredientes orgânicos 
de origem certificada, o Codex Alimentarius e o regulamento europeu não permitem 
a utilização da palavra orgânico. Em contrapartida, a IFOAM e o regulamento 
norte-americano estabelecem que, quando menos de 70% dos ingredientes de 
51
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
um alimento composto são de origem orgânica certificada, a indicação de que um 
ingrediente é orgânico pode aparecer na lista de ingredientes, porém o produto não 
pode ser rotulado como tal. O regulamento norte-americano contém, ainda, normas 
para a rotulagem de produtos “100% orgânicos”, quando os ingredientes são rotulados 
como orgânicos.
Depois da publicação dos Decretos 6.323/2007 e 6.913/2009, e com as Instruções 
Normativas, as organizações têm dois anos para se adaptarem aos regulamentos. 
Os OACs, OPACs e OCSs que estiverem em funcionamento, devem estar credenciados 
no MAPA até 28 de dezembro de 2009. Após esse período, em 2010, além de atenderem 
aos regulamentos técnicos vigentes específicos para o produto que está sendo rotulado 
para venda, nos supermercados ou atacadistas, por exemplo, os produtos deverão 
obedecer às determinações para rotulagem de produtos orgânicos e conter a marca 
nacional do SISORG.
Isso significa que os produtos foram submetidos aos mecanismos de controle 
estabelecidos pelo SISORG e que dão garantia de que são orgânicos (quer seja pela 
certificação ou SPG).
Os aspectos relativos à rotulagem de produtos orgânicos, incluindo a marca e sua 
forma de utilização, estão dispostos nos artigos 117 a 120. O selo do SISORG deverá 
estar na parte frontal do produto e, logo abaixo, a identificação do sistema de avaliação 
da conformidade usado: certificação ou SPG. Será facultado o uso da marca do OAC 
(participativo ou não) do produto em associação com o selo nacional do SISORG.
A informação da qualidade orgânica pode se dar por meio da rotulagem dos produtos, 
da Declaração de Transação Comercial, por material de publicidade e propaganda e por 
dizeres expostos nos locais de comercialização.
Além das outras exigências sobre rotulagem contidas nas legislações específicas para 
os diferentes produtos, a rotulagem dos produtos orgânicos deverá conter, no mínimo:
 » Nome, endereço e CNPJ ou CPF do produtor.
 » Selo de identificação do SISORG.
 » Selo do OAC (certificadora ou SPG).
 » Denominação “Orgânico”, “Produto Orgânico” e “Produto com ingredientes 
orgânicos”. 
Esses termos podem ser complementados pelas expressões “Ecológico”, “Biodinâmico”, 
da “Agricultura Natural”, “Regenerativo”, “Biológico”, “Agroecológico”, da “Permacultura” 
52
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
e “Extrativismo Sustentável Orgânico”, além de outros que atendam aos princípios 
estabelecidos pela regulamentação da agricultura orgânica.
De acordo com o art. 115 da Instrução Normativa no 19, aos produtos orgânicos 
processados que contenham ingredientes, incluindo aditivos, que não sejam de origem 
certificada orgânica, aplicam-se as seguintes regras: 
I. produtos com 95% ou mais de ingredientes orgânicos certificados 
deverão ter identificados os ingredientes não orgânicos e poderão utilizar 
os termos “orgânico” ou “produto orgânico”;
II. em produtos com 70% a 95% de ingredientes orgânicos certificados, os 
rótulos deverão identificar esses ingredientes orgânicos e apresentar os 
dizeres “produto com ingredientes orgânicos”; 
III. produtos com menos de 70% de ingredientes orgânicos certificados não 
poderão ter nenhuma expressão relativa à qualidade orgânica.
Em seu parágrafo único, o artigo observa que “água e sal adicionados não serão incluídos 
no cálculo do percentual de ingredientes orgânicos”.
Quanto à identificação do produto na venda direta aos consumidores por agricultores 
familiares cadastrados (produtos não certificados e nem de SPG), o Decreto 
no 6.323/2007 determina que não poderá ser utilizada a marca nacional do SISORG. 
Entretanto, de acordo com o art. 124, no ponto de comercialização ou no rótulo desses 
produtos, quando tiver, poderá constar a expressão “Produto orgânico para venda direta 
por agricultores familiares organizados, não sujeito à certificação, de acordo com a Lei 
no 10.831, de 23 de dezembro de 2003”. Os pontos de comercialização ou os produtos 
poderão conter ou utilizar marcas ou outras formas de identificação referentes ao OCS 
responsável pelo controle social da qualidade orgânica.
No Brasil, a marca do SISORG assegurará que os elementos essenciais da agricultura 
orgânica e os quesitos da legislação e regulamentos técnicos relativos à produção 
orgânica foram atendidos/ cumpridos. Essa marca pública servirá para facilitar as 
trocas, tanto para os produtores quanto para os consumidores.
A marca nacional será agregada ao rótulo e deverá seguir as normas vigentes para 
rotulagem do produto ao final do processo. 
Quando as vendas se derem no atacado, um documento (certificado, por exemplo) 
acompanhará as transações comerciais. O termo orgânico deverá estar realçado.
É considerada infração veicular qualquer forma de propaganda, publicidade ou 
apresentação de produto que contenha denominação, símbolo, desenho, figura ou 
53
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
qualquer indicação que possa induzir ao erro ou equívoco quanto à origem,natureza 
e qualidade orgânica do produto, ou atribuir características ou qualidades que 
não possua.
Até, o marketing governamental para estimular o consumo de produtos orgânicos era 
vinculado a duas marcas: a da semana do alimento orgânico, parceria entre MAPA, 
MMA e MDA, lançada em 2005 e divulgada anualmente, e a marca do projeto de 
exportação de produtos orgânicos da APEX (Organics Brasil), lançada em 2005. 
A marca do SISORG, submetida à consulta pública em 2009, entrará em vigor em 2010.
No caso dos produtos importados, o Decreto no 6.323/2007 estabelece que só poderão 
ser comercializados no país os produtos orgânicos que estejam de acordo com a 
regulamentação brasileira para a produção orgânica. O art. 122 da IN no 19 dispõe 
que a entrada no país de produtos orgânicos só será autorizada se a certificação ou o 
SPG, ou outro mecanismo de avaliação da conformidade do produto, for realizado por 
OAC (participativo ou não) credenciado pelo MAPA, ou se o país de origem do OAC 
tiver acordo de equivalência ou acordo de reconhecimento mútuo de seu sistema de 
garantia com o brasileiro. Os rótulos dos produtos importados deverão conter o selo 
do SISORG.
Certificação e SPg: importância, limites e desafios
Os mercados dos produtos orgânicos encontram-se em rápida expansão e, como a 
produção não tem acompanhado essa demanda, normalmente são oferecidos melhores 
preços de comercialização. A promessa de alimentos mais saudáveis, com enorme apelo 
aos consumidores que se dispõem, inclusive, a pagar mais por isso, obriga os produtores 
a garantir a qualidade. O cumprimento dos padrões de produção em mercados em que 
consumidores e produtores se tornam cada vez mais distantes uns dos outros, só pode 
ser assegurado pela certificação.
A certificação orgânica, quando usada em realidades adequadas aos pequenos produtores, 
tem sido ferramenta importante e útil para criar ambiente de confiança em circuitos 
longos de comercialização para os mercados de produtos orgânicos. Apesar de onerar o 
custo da produção, a certificação traz benefícios, a seguir destacados:
 » Facilita o planejamento da produção (há necessidade de documentação e 
isso pode melhorar a eficiência da unidade de produção). 
 » Facilita o desenvolvimento do mercado, dos serviços de extensão e da 
pesquisa (os dados coletados pela certificação podem ser muito úteis 
para o planejamento do mercado, para a difusão e para a pesquisa). 
54
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
 » Cria transparência ao tornar pública a informação sobre produtores e 
produtos. 
 » Aumenta a credibilidade e melhora a imagem da agricultura orgânica. 
 » Facilita a introdução de créditos especiais ou subsídios, já que define o 
grupo que será beneficiado.
Grande parte dos estudos sobre a agricultura orgânica certificada enfatiza os seus 
benefícios econômicos, sociais e ambientais e as oportunidades que traz para os países de 
baixa renda. Entretanto, deve-se considerar a agricultura orgânica certificada de forma 
mais realista, pois:
 » Ainda é um setor muito pequeno, com exceção de algumas regiões ou 
países e de alguns produtos. 
 » Enfrenta pontos de estrangulamento na produção, comercialização e 
institucionalização que precisam ser superados. Destaca-se o acesso 
a mercados e os prêmios nos preços, frequentemente incertos, mesmo 
em mercados de exportação. As normas técnicas não são adequadas às 
diferentes realidades tecnológicas, econômicas, políticas, geográficas, 
climáticas e culturais. 
 » Procedimentos complexos de importação e questões envolvendo os 
procedimentos de avaliação da conformidade, como a certificação e a 
acreditação, precisam ser atendidos.
 » Os efeitos dos subsídios e de outras medidas de apoio nos países de alta 
renda sobre a competitividade dos produtos orgânicos dos países de 
baixa renda, que competem com produtos orgânicos produzidos local ou 
regionalmente, são problemas com que se preocupar. 
 » A preferência dos consumidores dos países de alta renda pelos produtos 
locais e o reconhecimento da garantia da conformidade ligada à reputação 
de marcas comerciais locais é uma realidade nesses países, principalmente 
em alguns da União Europeia.
 » É preciso distinguir analiticamente duas categorias de sistemas de 
agricultura orgânica: a produção orgânica certificada, inspecionada, 
verificada e atestada; e a produção orgânica “de fato”. Estimativas dão 
conta de que a área agrícola mundial dedicada a ambas as categorias de 
agricultura orgânica gira em torno de 3% da área total agrícola. 
55
O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
 » Como a certificação não permite o fornecimento de assistência técnica pelos 
OACs durante e após a verificação da conformidade como contribuição 
para a correção das não conformidades, sua prática nos países de baixa 
renda não favorece a construção do conhecimento agroecológico e não 
favorece o empoderamento por meio do controle social, nem estimula o 
mercado local.
Em alguns países com regulamentação implantada, está ocorrendo a redução do número 
de unidades certificadas, como no México, na Costa Rica e também na Áustria.
Sistemas participativos de garantia
A tendência de aceitação dos SPG nas regulamentações nacionais dos países da América 
Latina e Caribe é uma realidade. As oportunidades para o estabelecimento de acordos 
de equivalência e de reconhecimento mútuo que favoreçam a harmonização das normas 
dos produtos orgânicos é estratégia buscada pelos movimentos e deve ser buscada pelas 
autoridades competentes, com a liderança do Brasil.
A importância dos SPG para o desenvolvimento da agricultura orgânica pode ser 
avaliada pelas seguintes vantagens que proporcionam:
 » Assistência técnica e correção das não conformidades diretamente no 
processo de avaliação da conformidade, diferentemente da certificação. 
 » Formação de todos os atores da rede de produção e comercialização de 
produtos orgânicos; organização dos produtores e identidade do grupo 
ao estimular a participação colaborativa e o poder compartilhado no 
estabelecimento, além da implementação dos critérios/acordos do 
sistema de controle da qualidade orgânica. 
 » Difusão dos conceitos e princípios da agricultura orgânica.
Envolver os atores dos canais de comercialização e consumidores na discussão e prática 
dos SPG. Ter consciência da responsabilidade de que participar do sistema de garantia 
da qualidade é uma ação de longo prazo. Deve-se:
 » Estabelecer relações nos circuitos longos de comercialização (venda 
indireta). O desafio é criar reputação (longo prazo) sem onerar muito. 
 » Uniformizar não é padronizar. O limite é manter a diversidade de 
relações sociais nos arranjos produtivos e comerciais tendo como desafio 
a multiplicação dessas garantias de qualidades identificadas e valoradas 
56
UNIDADE II │ O sIstEmA AgrOEcOlógIcO AtUAl
pelos consumidores no âmbito local, regional, nacional, continental e 
internacional.
 » Casos de efetividade da aplicação dos SPG e reconhecimento nos 
mercados são resultado de ações de longo prazo, que têm a participação 
de organizações de assessoria privada (ONGs), envolvem alto grau de 
organização e gerenciamento e ações de cooperação muito grandes. O 
desafio é quanto ao montante elevado e ao longo prazo de investimentos 
financeiros e humanos nessas atividades.
 » Estabelecer transversalidade nas políticas públicas e privadas em âmbito 
nacional, estadual e municipal. 
 » Ter consciência de que os princípios da agricultura orgânica e do comércio 
justo e solidário trabalham com bens públicos. Há no Brasil a cultura 
de pouco investimento do setor privado em bens públicos. O Estado 
é responsável por fornecer e cuidar de bens públicos, como ecologia e 
justiça social, preconizados pela agricultura orgânica e pelo comércio 
justo e solidário.
Os SPG são ferramentas para auxiliar a comercialização, e no tema mercado e 
comercialização, tem que se investir também na organização da produção para atender 
às diferentes exigênciasdos diferentes canais de comercialização e nas relações 
comerciais e de consumo. Os custos diretos para os produtores podem ser pequenos, 
mas são maiores os custos indiretos ligados ao tempo dedicado pelos atores ao SPG, 
gastos com deslocamento e assistência técnica para a correção das não conformidades 
e registros, que desafiam a sustentabilidade dos SPG.
Deve ficar claro que os SPG surgem naturalmente, como necessidade de um grupo 
organizado comercializar seus produtos de forma organizada e identificada com uma 
qualidade específica. Existe muito trabalho dos produtores para terem participação 
ativa na construção e manutenção do sistema de garantia das qualidades.
Para o cálculo do custo de certificação, devem ser consideradas a taxa de elaboração do 
relatório técnico e os gastos com a visita do inspetor à unidade de produção (distância, 
tamanho da unidade de produção, número de espécies envolvidas). Além disso, há 
certificadoras que cobram porcentagem sobre o faturamento bruto como justificativa 
para o uso do seu selo. Assim, a certificação individual custa cerca de R$ 700,00 por ano. 
Entretanto, quando é feita em grupo de pequenos produtores, o custo da certificação 
pode baixar para cerca de R$ 120,00. Em 2007, a acreditação de um organismo de 
avaliação da conformidade (certificadora) custava em torno de R$ 5.000,00 por ano.
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O sistema agrOecOlógicO atual │ uNiDaDe ii
Às vezes, o organismo acreditador cobra percentual do faturamento do organismo 
de certificação pelo uso da marca do organismo de acreditação. Existem países que 
estimulam a acreditação dos OACs, como é o caso dos EUA. Nos países que não dão 
incentivos, muitas vezes acontecem fusões de pequenas certificadoras locais e regionais 
para ganhar em escala e possibilitar o barateamento dos custos de certificação para os 
pequenos produtores e de acreditação.
58
unidAdE iiioS rAMoS dA 
AgroECologiA
CAPítulo 1
ramo agronômico
As abordagens transdisciplinares da Agroecologia são aquelas que valorizam e integram 
diferentes tipos de sistemas de conhecimento, podem incluir disciplinas científicas 
ou acadêmicas, bem como diferentes tipos de sistemas de conhecimento, ou seja, 
experimental, locais, indígenas etc., bem como adotar um foco baseado em problemas.
A valorização do conhecimento gerado pelo agricultor desafia a pesquisa e o 
desenvolvimento agrícola e a elaboração de políticas de suporte à produção e o bem-estar 
social. O conhecimento empírico tem sido utilizado desde a fundação da Agronomia 
como ciência para investigar, analisar e propor melhores técnicas que visem à boa 
produção e a qualidade do que é produzido. Estes estudos permitiram a compreensão 
das bases ecológicas da agricultura ecológica. O desenvolvimento de técnicas pela 
observação e a prática é visto como uma fonte de conhecimento para conceituar e 
aplicar os princípios da Agroecologia.
A incorporação do conhecimento local ou gerado pelo agricultor é um componente 
importante para o pensamento e prática agroecológica. Os grupos de pesquisas 
agroecológicas têm procurado integrar conhecimento do agricultor com pesquisa e 
extensão e são bastante proveitosas quanto a resultados. Na última década, um número 
crescente de estudos tem combinado Agroecologia com abordagens participativas de 
formas diferentes. 
A participação e interação da prática (produtores), mercado (consumidores) e cientistas 
(pesquisadores) têm obtido resultados inseridos à realidade local, preservando os 
costumes alimentares, a diversidade e as relações sociais.
O desenvolvimento da Agroecologia é possível pelo desenvolvimento das pesquisas que 
comprovam a sua eficácia e as suas diretrizes. O estudo da Agronomia no campo do 
desenvolvimento rural sustentável deve ser condizente com o conhecimento técnico-
científico necessário para o aprimoramento da Agroecologia. 
59
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
Para tal deve-se buscar:
 » pesquisa científica, realizada isoladamente e de forma participativa;
 » conhecimentos relacionados à Agroecologia, formulados por diversos 
autores, incluindo os fundadores das correntes clássicas e contemporâneas 
na área agrícola;
 » conhecimentos tradicionais de agricultores familiares, povos indígenas, 
comunidades tradicionais, ribeirinhos, quilombolas e da reforma agrária;
 » aprendizado acumulado na prática recente de construção de uma grande 
variedade de sistemas sustentáveis em diversas condições locais do 
mundo;
 » conhecimentos relacionados às ciências humanas e sociais, englobando 
várias correntes do pensamento da teoria econômica e da sociologia 
econômica, para explicar as diferentes formas de governança e formas 
de coordenação construídas na rede de produção, comercialização e 
consumo dos produtos da agricultura orgânica. A proposta é de uma 
análise fundamentalmente interdisciplinar da ação econômica.
A Agroecologia embora pouco exigente em recursos tecnológicos comuns na Agricultura 
Convencional, também necessita de resultados de pesquisas, experimentações e banco 
de dados com informações estatísticas.
Os estudantes e pesquisadores de ciências agrárias devem desenvolver a capacidade de 
lidar com o futuro, a complexidade e incerteza, e, portanto, estarem preparados para 
procurar e responder a perguntas difíceis que ainda não foram feitas. Em uma cultura 
universitária de curiosidade e compromisso, precisamos de ambientes que preparem 
os alunos para lidar com a mudança, abraçar múltiplas dimensões do desafio alimentar 
e estabelecer interações participativas com clientes, comunidades e instituições de 
ensino, pesquisa e extensão.
A conexão entre cientistas e consumidores com as origens de seus alimentos e 
sensibilização da importância do ambiente natural preservado, incentivaremos o 
apoio da sociedade para a pesquisa agrícola e de engenharia de produção de alimentos 
como recursos sustentáveis a longo prazo. O ambiente acadêmico deverá fornecer um 
modelo de trabalho integrado e transdisciplinar para sustentar os sistemas agrícolas e 
alimentares regionais.
O campo profissional de ciências da terra deve apresentar novas abordagens para 
os problemas agrários são requeridas, reconhecendo na diversidade cultural um 
60
UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA
componente insubstituível, com estratégias apoiadas em metodologias participativas, 
enfoque interdisciplinar e comunicação horizontal. A Agroecologia, enquanto ciência 
integradora de distintas disciplinas científicas, tem a potencialidade para constituir a 
base de um novo paradigma de desenvolvimento rural sustentável (CAPORAL, 2005).
De acordo com Almeida (2000), pode-se descrever algumas iniciativas metodológicas 
em relação às atividades de Agronomia e Agroecologia:
a. A análise do “perfil de cultivo”, por meio do desenvolvimento de um 
conceito operacional apoiado sobre uma teoria da evolução dos solos 
cultivados, permitindo estudar a população vegetal, o solo, o clima e as 
intervenções do homem. 
b. A atenção à “vocação dos solos”, em oposição à tendência do período 
de industrialização da agricultura, que negligenciou a especificidade 
das áreas de plantio por meio do desenvolvimento de insumos como 
fertilizantes, sementes melhoradas etc.
c. A ideia de “práticas agrícolas” remete, necessariamente, à problemática 
do desenvolvimento rural. Esta, funda-se na hipótese de que as barreiras 
à inovação técnica estariam ligadas a uma inadaptação do “progresso 
técnico” proposto para situações concretas. 
d. Por fim, destaca-se a construção de uma agroecologia, esta como 
espaço privilegiado de pesquisa e reflexão para a agronomia, apoiando-
se no uso potencial da diversidade social e dos sistemas agrícolas, no 
desenvolvimento local, descentralizado.
Os consumidores têm buscado cada vez mais informações sobre os produtos para se 
decidir na hora da compra. Isso também ocorre com os alimentos. A procura pela 
qualidade, a rejeição por agrotóxicos têm sido elementos que mudam a relação dos 
consumidores com os alimentos.Isso demanda produtos mais saudáveis, cujo processo 
produtivo respeita o meio ambiente de maneira integral. Essa realidade conduz a 
produção de alimentos agroecológicos e orgânicos nas unidades rurais familiares, onde 
a qualidade do produto é considerada fator básico e, por isso, recebe toda a atenção de 
quem produz e de quem orienta: os extensionistas rurais.
O financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar 
(Pronaf) para sistemas de produção de base agroecológica ou orgânicos tem papel 
importante na viabilidade desse modelo para a agricultura familiar. A linha de crédito 
conta com o Seguro da Agricultura Familiar que contribui para a redução de custos e 
riscos da lavoura.
61
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
O conjunto dessas ações e atores – de técnicos de Ater, agentes financeiros, organizações 
não governamentais, agricultores familiares e organizações econômicas da agricultura 
familiar – garante o aumento na produção de alimentos saudáveis, maior oferta de 
produtos com valor agregado, aumento da renda do agricultor familiar e a dinamização 
da economia local.
Para que haja um comprometimento mútuo do técnico e das pessoas da unidade 
familiar de produção e para que exista um compromisso de continuidade no processo 
de transição agroecológica, é necessário que o extensionista elabore, junto com a família 
do agricultor familiar, um plano de transição de base agroecológica ou orgânica com 
duração de alguns anos, tempo suficiente para a complementação da fase de transição.
O projeto é o estudo técnico, elaborado pelo extensionista ou técnico que faz a orientação 
à unidade familiar de produção, em que consta o orçamento de aplicação dos recursos, 
as receitas previstas, as medidas eventualmente necessárias para a adequação da 
unidade familiar às exigências de defesa do meio ambiente, a duração da orientação 
técnica e as épocas mais adequadas à sua prestação.
O projeto técnico não poderá contemplar o uso de fertilizantes sintéticos de alta 
solubilidade, agrotóxicos sintéticos, aditivos sintéticos utilizados na alimentação animal, 
reguladores sintéticos de crescimento e organismos geneticamente modificados; 
conforme Portaria no 38 do Ministério do Desenvolvimento Agrário, de 4 de julho 
de 2014.
62
CAPítulo 2
ramo ambiental
A agricultura orgânica refere-se a um sistema que melhora a fertilidade do solo por 
meio da maximização da utilização dos recursos locais, enquanto afasta o uso de 
agroquímicos, de organismos geneticamente modificados (OGM), bem como muitos 
compostos sintéticos utilizados como aditivos alimentares. A agricultura orgânica se 
sustenta em uma série de práticas agrícolas com base nos ciclos ecológicos que visam 
minimizar o impacto ambiental causado pela indústria de alimentos, preservando a 
sustentabilidade do solo a longo prazo e reduzindo ao mínimo a utilização de recursos 
não renováveis.
As práticas naturais de agricultura fornecem um pano de fundo histórico da agricultura 
orgânica com todo a sua evolução e aprimoramento de técnicas. Percebe-se, ao longo dos 
anos como as práticas agrícolas afetam as características do solo: fertilidade, umidade, 
estrutura e preservação. Os solos sob manejo orgânico possuem maior capacidade de 
retenção de água do que solos intensivamente tratados, resultando em rendimentos 
maiores em comparação com a agricultura convencional, em condições de escassez 
de água. Devido à sua maior capacidade de armazenar carbono no solo, a agricultura 
orgânica poderia representar um meio para melhorar a redução de CO2 se adotada em 
larga escala.
Outro aspecto que o enfoque ambiental da Agroecologia possui é o baixo impacto sobre a 
biodiversidade. Sistemas de agricultura orgânica em geral abrigam uma biodiversidade 
de flora e fauna maior do que os sistemas convencionais. Em muitas áreas que já 
passaram pela transição para a produção orgânica apresentam recuperação de espécies 
nativas, melhoria da qualidade da água, mananciais e até aumento da biodiversidade 
anteriormente degradada.
O uso racional de fontes energéticas, seu baixo consumo e geração alternativa de 
na propriedade são fatores que são considerados e compõem a gama de práticas 
sustentáveis em propriedades rurais sustentáveis já que a agricultura orgânica tem 
maior eficiência energética (entrada/saída). A inibição do uso de produtos químicos 
prejudiciais e sua disseminação no ambiente e ao longo da cadeia trófica talvez seja o 
benefício mais facilmente perceptível pelos produtores e pela sociedade.
Outro aspecto a ser considerado é a conservação dos ecossistemas naturais e a recomposição 
ou incremento da diversidade biológica dos ambientes modificados. A conservação da 
agrobiodiversidade é fundamental para manter a autonomia e a sustentabilidade da 
63
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
produção. Essa visão nos remete à necessidade de se entender a dinâmica do conjunto dos 
recursos naturais, não só da unidade de produção, mas também no contexto do território 
onde está inserida.
Até cerca de quatro décadas atrás, o rendimento das culturas em sistemas agrícolas 
dependia de recursos internos, reciclagem de matéria orgânica, construído em 
mecanismos de controle biológico e os padrões de chuva. Os rendimentos agrícolas 
eram modestos, mas estáveis. A produção foi salvaguardada por eventos aleatórios de 
condições meteorológicas severas e controle pragas e doenças. A nutrição das plantas 
era obtida pela rotação das principais culturas com leguminosas. Por sua vez as rotações 
suprimiam insetos, ervas daninhas e doenças, quebrando eficazmente os ciclos de vida 
dessas pragas. A maioria do trabalho era feito pela família com a ajuda de funcionários 
eventuais e nenhum equipamento ou serviço especializados. Neste tipo de sistema 
agrícola, a ligação entre agricultura e ecologia era bastante forte e sinais de degradação 
ambiental raramente eram evidentes.
A modernização agrícola progrediu, a ligação de cultivo e Ecologia foi muitas vezes 
quebrada por princípios ecológicos que foram ignorados ou substituídos. Na verdade, 
vários cientistas agrícolas chegaram a um consenso de que a agricultura moderna 
enfrenta uma crise ambiental. 
Um número crescente de pessoas tornou-se preocupada com a sustentabilidade a 
longo prazo nos sistemas de produção de alimentos existentes. A evidência acabou 
mostrando que, enquanto a tecnologia e sistemas de produção intensiva de capital têm 
sido extremamente produtivos e competitivos, eles também trazem uma variedade de 
problemas econômicos, ambientais e sociais.
Também está provado que a própria natureza da estrutura agrícola e as políticas vigentes 
conduziram a esta crise ambiental, favorecendo a utilização de grandes fazendas, a 
produção especializada, monoculturas agrícolas e mecanização. Hoje, como cada vez 
mais agricultores estão integrados à economia internacional, a biodiversidade fica 
comprometida e as monoculturas são recompensadas pelas economias de escala.
Por sua vez, a falta de rotações e diversificação tiram os principais mecanismos 
de autorregulação, transformando monoculturas em agroecossistemas altamente 
vulneráveis dependentes de grande quantidade de insumos químicos.
De uma perspectiva ecológica, as consequências regionais de especialização monocultura 
são muitas vezes:
a. A maioria dos sistemas agrícolas de grande escala apresenta uma 
conformação mal estruturada de componentes agrícolas, quase sem 
64
UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA
vínculos ou relações de complementaridade entre sociedade, culturas, 
plantas e animais.
b. Apesar da quantidade substancial de resíduos de culturas e estrume 
produzido nas fazendas, está se tornando cada vez mais difícil reciclar 
nutrientes, mesmo dentro dos sistemas agrícolas tradicionais. Resíduos 
animais e vegetais não são economicamente viáveis em um processo de 
reciclagem de nutrientes, pois os sistemas de produção são geograficamente 
distantes de outros sistemas que completam o ciclo.Em muitas áreas, 
os resíduos agrícolas e da pecuária intensiva tornaram-se um passivo 
ambiental ao invés de um recurso a ser utilizado. A reciclagem de nutrientes 
dos centros urbanos de volta aos campos é igualmente difícil.
c. Parte da instabilidade e suscetibilidade a pragas em agroecossistemas pode 
ser ligada à adoção de vastas monoculturas que concentraram alimentos 
para herbívoros e insetos e pragas. Esta simplificação também reduziu as 
oportunidades ambientais para os inimigos naturais. Consequentemente, 
os surtos de pragas ocorrem frequentemente quando um grande número 
de pragas imigrantes.
d. Como culturas específicas são expandidas para além das suas faixas de 
vegetação nativa ou regiões favoráveis ao elevado potencial de pragas 
ou com água limitada, ou solos de baixa fertilidade, intensificou-se os 
controles químicos para superar tais fatores limitantes. O pressuposto 
é que a intervenção humana e o nível de insumos que permitem essas 
expansões podem ser insustentáveis no futuro.
e. Os agricultores convencionais testemunham um desfile constante de 
novas variedades de culturas com a substituição de variedades nativas 
devido a estresses bióticos e mudanças do mercado. A cultivar com 
maior resistência a doenças e a insetos faz uma estreia, vai bem durante 
alguns anos (normalmente 5-9 anos) e depois é sucedida por outra 
variedade quando os rendimentos começam a cair, a produtividade está 
ameaçada ou uma cultivar mais promissora se torna disponível. Assim, 
a estabilidade na agricultura moderna depende de um fornecimento 
contínuo de novas cultivares, em vez de uma colcha de retalhos de muitas 
variedades diferentes plantadas na mesma fazenda.
f. A necessidade de subsidiar as monoculturas requer aumentos no uso de 
pesticidas e fertilizantes, mas a eficiência do uso de insumos aplicados 
está diminuindo e o rendimento das colheitas na maioria das principais 
culturas tende saturar. Em alguns lugares, os rendimentos estão em 
65
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
declínio. Existem opiniões diferentes quanto às causas subjacentes a este 
fenômeno. Alguns acreditam que os rendimentos são nivelados porque 
o potencial máximo de rendimento das variedades atuais está próximo 
do limite, e, portanto, a engenharia genética deve ser aplicada para 
redesenhar a cultura. Agroecologistas, por outro lado, acreditam que o 
nivelamento se dá por causa da contínua erosão da base produtiva da 
agricultura através de práticas insustentáveis.
66
CAPítulo 3
ramo socioeconômico
O conceito de Agroecologia está sendo mobilizado cada vez mais na sociedade, nas 
universidades e nas áreas de produção agrícola e pecuária. No entanto, suas dimensões 
socioeconômicas recebem pouca atenção de pesquisadores.
O que sabemos sobre a relação entre a Agroecologia e seus efeitos sobre os aspectos 
socioeconômicos da subsistência dos agricultores? Não temos provas de que a 
Agroecologia leva a impactos positivos como a criação de empregos e aumento da renda 
e do bem-estar social?
As interações benéficas da sociedade local em sistema agroecológico fornecem evidências 
e indicativos de que a Agroecologia tem impactos sociais e econômicos positivos, que 
merecem consideração quando se pretende elaborar políticas e programas que melhorem 
a segurança alimentar e nutrição. Longe de um conceito puramente agronômico, que 
só é significativa no nível de cultura ou de produtor, a Agroecologia tem um olhar mais 
abrangente em muitos níveis de sistemas alimentares, sociais e culturais.
Para se ter uma melhor compreensão do que os princípios socioeconômicos da Agroecologia 
podem abranger, deve-se olhar para os movimentos agrícolas que são alternativas para a 
agricultura convencional, o comércio justo, o movimento cooperativo, e o movimento de 
economia social e solidária, ou seja, quatro correntes pertinentes de Agroecologia.
Com uma evidência relativamente forte, o tema patrimônio ambiental é visto como 
decorrente de princípios agroecológicos bem definidos, assim como o pouco uso de 
insumos químicos em qualquer fazenda agroecológica. Além disso, de acordo com os 
movimentos sociais, o ser humano é considerado como parte da natureza e do cosmos.
A mercantilização de qualquer forma de vida é rejeitada. A redução de entradas externas 
em práticas agroecológicas é considerada importante para o meio ambiente como 
também para a promoção da independência financeira dos agricultores em relação às 
agroindústrias.
O tema do acesso ao mercado e autonomia são o objetivo dos grupos de pequenos 
produtores, que promovem o comércio transparente e autônomo para enfrentar os 
mercados mundiais e favorecer a autogovernança.
Outras fontes sublinham a importância da diversificação das explorações agrícolas 
agroecológicas, a fim de permitir a autonomia em relação ao mercado. A diversificação 
67
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
também é vista como a melhoria da sustentabilidade e adaptabilidade do sistema 
enfrentar choques socioeconômicos e as mudanças climáticas.
Tem-se demonstrado que as partes interessadas no sistema alimentar são capazes de 
organizarem-se a fim de salvaguardar as suas atividades e garantir a relevância social 
e viabilidade econômica das práticas. É claro, no entanto, que os desafios permanecem 
e, portanto, nenhum dos exemplos práticos existentes deve ser tomado como soluções 
de “copiar e colar”.
A Agroecologia sugere um ambiente natural e socioeconômico, onde o alimento é 
produzido e apela para o desenvolvimento de inovações dentro deste contexto preciso.
A educação ambiental e os trabalhos de disseminação das razões e qualidades da 
Agroecologia são uma ferramenta precisa para a mudança de padrão produtivo. Ritter 
(2013) aponta que a educação ambiental embasada em uma abordagem crítica forma 
cidadãos mais preparados para a reversão dos quadros de degradação ambiental e 
social. Em síntese, o desafio consiste em mudar a relação sociedade e recursos naturais, 
o que exige simultaneamente o desenvolvimento sustentável e a incorporação da 
agroecologia nos modelos agrícolas atuais.
Os conceitos e princípios da Agroecologia são abordados pela educação ambiental 
que pode ser utilizada como um mecanismo que caminha a partir da sensibilização 
até a transformação de cidadãos quanto à sua consciência social e ambiental. Hoje, a 
educação ambiental é entendida como a educação para a ação, a partir de um complexo 
interdisciplinar que parte da perspectiva da vida cotidiana no contexto dos processos 
educacionais, e procurando promover a adesão (individual e coletiva) para a mudança 
social, ambiental, cultural e econômica projetado para resolver a crise ecológica 
instalada atualmente.
Enquanto o conhecimento e a sensibilização para as questões ambientais têm se 
expandido significativamente, a degradação ambiental piora, bem como as suas 
consequências sociais. São desafios aos educadores ambientais a proposta de ações e 
correntes que busquem solução sustentáveis em curto, médio e longo prazo.
Na verdade, a educação ambiental, que tem sido chamado de “linha verde”, trouxe o 
debate da natureza à sociedade. Este ponto de vista da natureza tem sido associado a 
uma política de gestão de áreas naturais e rurais protegidas com foco na sua capacidade 
de gerar atividade econômica e turística como uma forma de manter a população rural 
evitar o êxodo rural.
De acordo com os objetivos que procuramos em cada intervenção, a Agroecologia pode 
fornecer conteúdo ou técnicas diferentes. Isso faz com que a intervenção agroecológica 
68
UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA
possa assumir muitas formas, desde os processos de conscientização sobre determinadas 
questões locais, para a revitalização de processos abrangentes do desenvolvimento rural, 
por meio de aspectos mais técnicos, como os relacionados com a prática agronômica.
Em abordagens agroecológicas, as intervenções de sensibilização são adaptadas aos 
aspectos da realidade local relacionadas com a agricultura, alimentação,manejo da terra 
ou certos aspectos históricos da gestão dos recursos naturais a serem implementadas. 
Certo que ligada a uma abordagem social, no qual a atividade humana está no centro 
de educação ambiental.
A este respeito, a proposta da Agroecologia nos permite avançar em termos ambientais e 
sociais, na discussão clássica da educação ambiental entre a consciência e transformação 
da realidade, elevando os processos que integram ambos os aspectos da intervenção 
sobre as questões ambientais. A premissa é colocar a comunidade no centro dos 
processos de transformação social.
As pesquisas têm mostrado que a Agroecologia é flexível e dinâmica o suficiente para ser 
adaptada a diversas condições socioeconômicas e ambientais; e é fácil para as pessoas 
integrarem-se ao sistema e adotá-lo de forma eficaz.
A transição agroecológica dos sistemas de produção agrícola é um processo complexo 
que implica mudanças técnicas e sociais. De forma geral, a trajetória de transição 
agroecológica surge de teorias da inovação social e territorial. A transição agroecológica 
leva a uma mudança social destinada a satisfazer as necessidades humanas básicas 
para as populações mais enfraquecidas. Implica em processos de aprendizagem, 
transformações das relações sociais e de consolidação dos arranjos sociais, bem como 
uma modificação das condições de governança do desenvolvimento e regiões, para 
apoiar a integração social e inserção política dos camponeses.
As inovações são condizentes com a cultura e hábitos alimentares do território, entendido 
como um espaço de construção de uma identidade coletiva, de debate e institucionalização 
dos processos de transição agroecológica. Consequentemente, isso implica uma variedade 
de inovações técnicas, sociais e institucionais, nem sempre fáceis de serem absorvidas. 
Para apoiar estas inovações, uma nova leitura das práticas socioprodutivas é necessária, 
baseada na adaptação das atividades, procedimentos e engajamento da população.
69
CAPítulo 4
ramos político e legal
Os aspectos políticos e legais estão no centro da política de conhecimento e legitimidade 
em torno da agricultura e da alimentação. Quando as pessoas aceitam práticas alimentares 
industriais como imposição e padronização, elas estão consentindo a sua utilização e 
existência. Com a sua legitimidade, sistemas alimentares industriais contradizem o 
crescimento da agricultura alternativa, incluindo a agroecologia. Questões sobre como 
a agricultura alternativa pode alcançar sua própria legitimidade e validação, como outro 
caminho em relação aos alimentos industriais ainda não atraiu satisfatoriamente a 
opinião popular.
As atividades agroecológicas podem crescer em uma teia de processos de legitimação 
científica, política, social e jurídica. Muitas vezes a consolidação de produtos e princípios 
agroecológicos passe por testes de credibilidade com opiniões diversas e conflitantes 
entre si.
Os agroecologistas tendem a navegar nestes conceitos múltiplos buscando a legitimação 
dos seus princípios por inúmeros benefícios econômicos, sociais e ambientais que são 
alcançados pela prática agroecológica.
Durante a consolidação dos sistemas agroecológicos, muitas críticas feitas à agricultura 
alternativa centram em desmerecer o seu fundamento científico. Realmente não havia 
pesquisas científicas suficientes para atestar a eficácia daqueles sistemas. No entanto, com 
o passar dos anos, vários pesquisadores buscaram evidências que as práticas alternativas 
traziam benefícios à saúde humana, à justiça social e ao meio ambiente, principalmente. 
À medida que a produção orgânica mostrava seus benefícios, sua aceitação e adoção 
foram se tornando maior, e passou a envolver, produtores, consumidores e os governos.
Uma razão fundamental para esta transição é a legitimidade: os governos passaram a 
dar atenção aos processos agroecológicos de produção agrícola, pois acreditavam que a 
via alternativa de produção merecia regulação e legitimação, com o estabelecimento de 
regulamentos e leis. Os sistemas de certificação autônomos por entidades certificadoras 
já haviam sido criados e preenchiam este vazio da demora dos governos em normatizar 
os processos e a qualidade da produção.
A grande conquista da participação das leis se deu em razão da demanda de mercado 
e das intervenções sociais que permitiram aos consumidores identificar e adquirir 
produtos certificados. O grande apelo dos consumidores é proteger sua saúde e de suas 
famílias contra os riscos dos agrotóxicos.
70
UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA
Os órgãos normatizadores, como o Ministério da Agricultura, são as autoridades que 
tecem a tomada de decisão em relação ao conhecimento científico produzido, os anseios 
dos consumidores e as questões políticas e sociais; esse processo de criação de leis 
estabelece a legitimidade do setor. 
As normas e práticas em uso pela Agroecologia estão hoje em dia, cobertos por pesquisas 
científicas de rigor na investigação agrícola dos resultados alcançados. Ao aumentar a 
transparência da investigação científica, a diversidade metodológica encoraja o trabalho 
transdisciplinar e fomenta a ciência baseada na investigação com financiamento público 
relacionado com princípios agroecológicos, desta forma podemos facilitar o caminho 
para a Agroecologia para ser considerada cientificamente legítima. No brilhante trabalho 
de Wezel et al. (2009) percebe-se como as dimensões da ciência, prática e movimento 
social criam espaços para a construção da legitimidade dentro e fora da Agroecologia. 
O ciclo de produção da Agroecologia centra suas ações em princípios éticos dos sistemas 
alimentares, com respeito e atenção em todas as fases da cadeia produtiva. Esta pode 
ser uma das razões de sua melhor aceitação nos últimos anos, o caminho alternativo que 
traz inúmeros benefícios e de forma transparente, sem produtos químicos escondidos 
nos alimentos e com preservação de recursos naturais.
Muitos agroecologistas fazem parte dos movimentos sociais, embora eles podem ou não 
ser os cientistas. Por exemplo, a Via Campesina e o Movimento dos Trabalhadores Sem 
Terra (MST) no Brasil aceitaram a agroecologia como uma filosofia fundamental em 
seu trabalho de organização, na sequência, debates internos perenes, e ainda em aberto 
ONGs, grupos comunitários e públicos divergem em suas opiniões sobre a legitimidade 
da ciência ao abordar a Agroecologia. Alguns acreditam que a ciência pode fornecer 
valiosos aliados e provas em apoio às agriculturas alternativas. Mas alguns grupos de 
agricultores e movimentos camponeses podem rejeitar a ciência como subjugação, 
com base na história da ciência, por exemplo da Revolução Verde e sobre a política 
contemporânea de culturas e animais geneticamente modificados. A seus olhos, a ciência 
tem o hábito de desvalorizar o patrimônio cultural e o conhecimento experimental dos 
povos locais ou indígenas.
Da mesma forma, muitos agricultores abraçam práticas orgânicas com enfoque da 
ciência agrícola como catalisador da destruição do que eles veem como solos saudáveis. 
Seu ceticismo não é necessariamente enraizado na antipatia para a ciência, por si só 
– mas nas maneiras que a ciência tem favorecido certas visões de mundo ocidentais – 
centrados e reducionistas. Por outro lado, alguns grupos de consumidores e movimentos 
populares podem rejeitar a ciência em princípio; eles podem ter uma visão religiosa, 
mística, ou política do que conta como conhecimento significativo e aproveitável.
71
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
A prática dominante, ainda da Revolução Verde, é a sinergia entre a ciência da nutrição, 
a engenharia genética e grandes recursos financeiros colocados na pesquisa agrícola de 
larga escala juntamente com as indústrias de alimentos para a produção de alimentos 
cada vez mais padronizados, de baixo custo e preços sujeitos à especulação.
Um mínimo de qualidade é exigido por normas que permitiram empresas de alimentos 
industriais em construir cadeias desuprimentos complexas; assegurar o controle de 
qualidade e segurança dos alimentos em todas as localizações geográficas distantes dos 
pontos de produção (conservantes) para transformar a matéria agrícola em produtos 
negociáveis e atrativos mercadologicamente. A indústria da alimentação foca no 
uso intensivo de tecnologias para a produção, processamento, transporte, varejo e 
marketing em detrimento da qualidade nutricional de seus produtos.
Como os sistemas industriais de alimentos começaram a oferecer peixe, frutas, nozes, 
carne e verduras durante todo o ano, os consumidores se acostumaram à aparente 
confiabilidade desta generosidade. Portanto, a agricultura industrial reflete atributos 
poderosos da ciência, desta vez direcionada à produção em larga escala. Não significa 
que a ciência esteja exclusivamente a serviço das complexas cadeias comerciais de 
alimentos, mas estas investem maciçamente em pesquisas para referendar seus 
produtos, enquanto a ciência que desenvolve pesquisas em torno da Agroecologia 
conta com o comprometimento de seus pesquisadores apoiados por poucos programas 
de pesquisa.
Uma lógica subjacente que contribui para a força da agricultura industrial é o dogma 
que os seres humanos devem exercer controle sobre a natureza. Houve muito trabalho 
acadêmico em antropologia, etnobiologia e geografia humana, entre outras disciplinas 
que investigam como as sociedades se relacionam com seus ambientes. O sucesso da 
moderna agroindústria tem sido persuadir esse costume industrial mundial em prática 
produtivista. Seja na forma de sprays de pesticidas, paisagens desflorestadas para cultivo, 
ou tecnologias de reprodução animal, as pessoas entendem-se fundamentalmente 
distintas da natureza, com a responsabilidade de trazê-la sob controle.
O trabalho dos cientistas torna-se então desenvolver as ferramentas e tecnologias 
que permitam tal subjugação de ocorrer. O trabalho dos agricultores, por sua vez, 
tornou-se empunhar essas ferramentas no chão além de simplificar e racionalizar 
paisagens. A agricultura industrial também é tecida profundamente no mercado e 
em instituições governamentais de ações políticas para imbuir a agricultura com 
legitimidade considerável ao favorecer determinadas linhas de pesquisa, tecnologias 
e desenvolvimento de mercado. As commodities agrícolas (produtos de larga escala 
global) são resultado da agricultura industrial.
72
UNIDADE III │ Os rAmOs DA AgrOEcOlOgIA
Os subsídios para a produção e comercialização são destinados principalmente para 
produtores de commodities, mas não para os agricultores que utilizam métodos 
diversificados. As agências governamentais e instituições financeiras de crédito 
rural são formadas e organizadas em termos de necessidades agrícolas industriais. 
Financiam a pesquisa, o ensino e a extensão na agricultura convencional e direcionam 
poucos recursos para a agricultura em comparação com o financiamento para o 
mercado majoritário. O resultado se mostra com mais pesquisas, mais de publicações, 
desenvolvimento tecnológico em apoio à agricultura produtivista em um efeito de “bola 
de neve”.
É inegável o poder dos grandes centros de comércio agrícola internacionais na legitimação 
industrial de alimentos em muitas regiões desde a década de 1940. No regime alimentar 
neoliberal atual, uma série de acordos de livre comércio bilaterais e multilaterais torna 
cada vez mais difícil para os pequenos produtores, diversificados, especialmente nos 
países em desenvolvimento, em manter os seus sistemas de produção de alimentos 
pelos métodos locais, impactando inclusive na agrobiodiversidade de espécies 
alimentares regionais.
Em nível institucional, departamentos governamentais, tribunais, universidades e outros 
organismos também devem vir a integrar a agroecologia em suas culturas e procedimentos. 
Os sistemas de produção fazem a agregação de meios científicos, políticos, sociais, legais, 
econômicas entre outros para a construção e estabilização dos interesses.
Os órgãos governamentais têm tornado cada vez mais evidente a forma como a ciência 
tem permeado a organização e a prática destes órgãos. Departamentos burocráticos 
formam seus repertórios administrativos em torno do conhecimento e de instrumentos 
técnicos, muitas vezes em aliança com cientistas e engenheiros envolvidos com meios 
industriais de produção. Usando os princípios de gestão científica, os governos se 
esforçam para maximizar a extração eficiente de florestas, água e recursos terrestres 
para o bem-estar público. Neste caso, vê-se um direcionamento para o uso mais racional 
e de preservação dos recursos naturais. A interação dos diversos grupos de interesse e 
as evidências sobre o meio ambiente e a sociedade, trouxeram o uso de ferramentas 
quantitativas, como análise de custo-benefício e avaliações de risco, para padronizar e 
justificar as decisões políticas por razões objetivas.
As atividades políticas no parlamento das nações com vocações agropecuárias 
sofrem pressão de grupos de interesse das agriculturas convencional e ecológica. 
Historicamente houve uma dominância por grupos ligados à indústria e à pesquisa 
científica. Esta dominância leva os governos a direcionarem o orçamento público para 
influenciar substancialmente os rumos da pesquisa científica por meio de suas decisões 
73
Os ramOs da agrOecOlOgia │ UNidade iii
e prioridades de financiamento. Os regimes de subvenção competitivos favorecem 
os produtores ligados aos processos tradicionais de produção que possuem melhor 
aceitação entre os consumidores.
Nas duas últimas décadas viu-se no Brasil a intensificação das atividades políticas e 
legislativas em torno da regulamentação das atividades agroecológicas. As práticas 
ficaram mais evidentes, os consumidores mais conscientes e isso refletiu nas esferas 
governamentais.
74
unidAdE iVo futuro dA 
AgroECologiA
CAPítulo 1
Perspectivas dos ramos da agroecologia
Como ciência em construção, com características transdisciplinares, a Agroecologia 
necessita da participação efetiva de diversas ciências e disciplinas, como a Agronomia, 
a Biologia, a Economia, a Sociologia, a Antropologia, a Ciência do Solo, entre outras. 
Além disso, incorpora e reelabora o conhecimento tradicional das populações. 
Ciência integradora, a ecologia fornece a base metodológica para a integração desses 
conhecimentos.
Apesar dos evidentes problemas causados pela agricultura tradicional, esta ainda é 
dominante, devido a sua facilidade e respostas imediatas, além do intenso bombardeio 
ideológico que sofrem os agricultores por parte dos agentes de mercado, que lucram 
com esse modelo de agricultura.
Paulatinamente, a Agroecologia vai ganhando respeitabilidade, tendo passado de 
elemento da contracultura, na década de 1970, a disciplina acadêmica. Os inegáveis 
resultados obtidos pelas diferentes linhas de pesquisa da área dão suporte a esse ganho 
de respeitabilidade.
Inúmeras lacunas ainda estão em aberto e exigem um extraordinário esforço de 
pesquisa, experimentação, teste em meio real para expandir o conhecimento na área e 
a adoção de tecnologias agroecológicas por parte dos agricultores.
O acesso à internet e outros meios modernos de informação poderiam abrir um caminho 
importante para o desenvolvimento agrícola baseado no conhecimento, mas esses meios 
não podem continuar beneficiando somente aos mesmos setores que sempre tiveram 
acesso ao capital e à tecnologia, deixando fora os milhões de agricultores familiares, 
camponeses e os mais pobres da região. Neste sentido, cabe ao Estado reverter a 
tendência neoliberal que destruiu os serviços de Extensão Rural em quase todas os 
países, cumprindo com seu dever de ofertar este serviço que se caracteriza como um 
“bem público”.
75
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
Não há dúvidas que o conhecimento científico de ponta (e ecologicamente correto) 
terá cada vez maior custo, tenderá a ser restringido a alguns setores e dominado por 
estratégias de poder econômico. Isso poderádeterminar que as instituições públicas 
de pesquisa e extensão rural fiquem cada vez mais debilitadas, sem possibilidades de 
contribuir para que o conhecimento chegue por outras vias acessíveis aos agricultores 
familiares e camponeses de menos recursos. Caberá ao Estado estar atento a este tipo 
de problemática destinando recursos e estabelecendo políticas que possam superar 
tais obstáculos. Ao mesmo tempo, devem ser apoiadas e estimuladas as milhares 
de iniciativas de agricultores e técnicos, que têm avançado o desenvolvimento de 
experiências baseadas no conhecimento agroecológico.
A inovação é um tema central na Agroecologia e práticas agrícolas inovadoras têm 
consequências económicas, sociais e ecológicos. A difusão da inovação pode ser 
definida como uma ideia, uma prática ou objeto que é disseminada em um grupo 
ou individualmente. A inovação tem sido aplicada a principalmente no contexto da 
“revolução verde”, onde novas práticas agrícolas, como fertilizantes e pesticidas são 
ligados a aumentos em grande escala na produtividade agrícola em todo o mundo. 
A perspectiva geral de que informações sobre novas práticas e produtos agrícolas fluem 
através das redes de produtores rurais como forma de melhorar os rendimentos de suas 
culturas. Nesse contexto a extensão rural tem um papel social importantíssimo como 
agregador de valor. 
As interações sociais na agricultura agroecológica são temas recorrentes em pesquisas 
sociais, dada a sua particularidade e seu alcance em diversas comunidades com 
características diferenciadas. Muitas vezes o objeto de pesquisa é dedicado a descobrir 
os caminhos causais por meio dos quais as características e comunicação influenciam 
o comportamento individual. Empiricamente é difícil determinar a influência social do 
grupo porque as sociedades consistem de pessoas afins com comportamento similar e 
as diferenciações são sutis.
Muitas vezes, o comportamento aponta para modelos de difusão simples de práticas 
novas, como cultivo orgânico baseados em um modelo de imitação linear em que cada 
interação com outro adotante aumenta a probabilidade de aprovação pelo sujeito 
em análise. As teorias da evolução cultural podem identificar outras estratégias de 
aprendizagem social, como a conformidade e imitação à base de prestígio, que podem 
afetar a forma e a velocidade da inovação e da adoção de uma nova forma de cultivo 
em determinada comunidade, por exemplo. A influência de diferentes características 
estruturais dos indivíduos e famílias pode depender de aceitação e adoção de benefícios 
privados e sociais da inovação. Isso pode ser particularmente importante em relação à 
difusão de inovações por agentes de assistência técnica rural.
76
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
Milhares de parcerias locais têm evoluído em todo o mundo nas últimas duas 
ou três décadas em direção à colaboração, cooperativismo e notadamente para a 
economia solidária. Governos e agências internacionais de fomento e pesquisa estão 
implementando projetos para ajudar as comunidades rurais a melhorar o bem-estar 
econômico, ambiental e social.
Com todo o apanhado de complexidade da produção de alimentos, meio ambiente e 
agroecologia, surge algumas indagações que trazem as discussões recentes para uma 
análise técnica e científica. Os tópicos a seguir relacionam as principais discussões para 
reflexão.
1. Como pode a agroecologia por uma abordagem científica e com valores 
e sistemas éticos diferentes conviver com crescente preocupação pública 
em muitos países em matéria de bem-estar animal e vários aspectos dos 
sistemas de produção pecuária intensiva?
2. Como as perspectivas agroecológicas podem contribuir para uma 
avaliação de riscos e benefícios das várias aplicações da biotecnologia 
agrícola para produção alimentar, o ambiente, a saúde humana e a 
segurança dos alimentos?
3. Qual o nível de produção de alimentos otimiza o bem-estar humano e 
em qual escala (local, regional, nacional) e em que período de tempo 
(sazonalidade)?
4. De que forma os sistemas integrados como a Permacultura e sistemas 
agroflorestais, nomeadamente os sistemas de integração lavoura-
pecuária-floresta (ILPF), podem ser desenvolvidos para substituir 
fertilizantes nitrogenados sintéticos, expandir a produção global de 
alimentos (incluindo produtos de origem animal), e melhorar os meios 
de subsistência dos pobres nos países em desenvolvimento, minimizando 
a degradação ambiental e a perda de biodiversidade?
5. Quais são os pontos mais significativos entre as práticas de produção 
agrícola, a qualidade dos alimentos e a saúde humana?
6. Como podem os princípios e práticas de agroecologia contribuir para 
o controle de plantas invasoras nas lavouras que movimentam cifras 
bilionárias com herbicidas?
7. Será que vai ser possível gerir a biodiversidade do solo como parte de uma 
abordagem agroecológica para a manutenção da fertilidade das terras?
77
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
8. Que medidas serão mais eficazes na detecção de limiares de preocupação 
ambiental e de saúde com o aumento da resiliência da agricultura sustentável 
e do sistema alimentar em face de múltiplos fatores de mudança?
A reflexão e análise de respostas aos questionamentos citados são um exercício 
preparatório para as pessoas que atuam diretamente com a assistência técnica junto a 
produtores e que devem possuir habilidades imprescindíveis como:
 » realizar assistência técnica e a extensão rural;
 » conhecer as bases científicas e tecnológicas da Agroecologia;
 » saber trabalhar em equipe;
 » deverá ter iniciativa, criatividade, responsabilidade e capacidade 
empreendedora;
 » deverá estimular a participação e o compromisso coletivo no 
desenvolvimento de projetos agrícolas, utilizando práticas de cooperação 
e organização entre agricultores;
 » desenvolver projetos agroflorestais e de recuperação de áreas degradadas;
 » atuar nos processos de certificação dos sistemas orgânicos, ecológicos, 
solidários e agroecológicos de produção; 
 » elaborar relatórios mensais descrevendo as atividades desenvolvidas; 
 » realizar pesquisas e estudos que contribuam para o resgate das experiências 
e conhecimentos dos agricultores e também para a geração e validação de 
tecnologias adaptadas à realidade da agricultura familiar. 
A despeito do grande apelo em relação à melhoria da alimentação humana e sua 
consequente melhora na saúde das pessoas, a Agroecologia converge para outro aspecto 
de suma importância: a biodiversidade, aqui tratada como agrobiodiversidade. Os 
estudos e a conscientização trazem a perspectiva de convergir para que os movimentos 
de preservação e recomposição ecológica tenham como justificativa, as consequências 
benéficas da manutenção da biodiversidade dos ecossistemas.
Agrobiodiversidade
A produtividade e a resistência em muitos ecossistemas são variavelmente correlacionadas 
com a diversidade espacial, temporal e genética. Os benefícios ecológicos oriundos pela 
maior diversidade de espécies de culturas, genótipos e habitats na paisagem agrícola 
78
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
podem aumentar a ciclagem dos nutrientes do solo, a retenção mineral, e regulação de 
pragas e patógenos, e melhorar a polinização além de qualidade da água satisfatória. 
A valorização e conservação da biodiversidade estão entrelaçadas ao longo destes 
processos e são componentes integrais do controle biológico e manejo integrado de 
pragas (MIP). Apesar da abundância de espécies individuais em uma comunidade 
nativa diversa original, os seres da fauna e da flora podem variar em relação à adaptação 
de cada um para condições prevalecentes, a resiliência pela evolução ano-a-ano e a 
reprodução é reforçada pela diversidade genética e riqueza de espécies.
Por meio dos seus efeitos na redução das concentrações de fontes de alimentos e 
habitat para pragas e doenças, a diversidade genética proporciona resistência ao 
estresse biótico, como patógenos (fungos, vírus e bactérias), plantas invasorase pragas 
(insetos e artrópodes). O próprio agroecossistema busca equilibra-se quando há alguma 
sobreposição de domínio biótico.
A rotação de culturas gera biodiversidade em uma escala temporal, com impactos 
definidos sobre a saúde do solo, estado nutricional, insetos e microrganismos que 
vivem no solo e espécies benéficas. A manutenção de refúgios de vegetação para 
insetos benéficos e para os inimigos naturais das espécies mais vorazes representa 
biodiversidade espacial em sistemas agrícolas.
Além da variedade de animais e plantas que são os produtos diretos da agricultura, 
a agrobiodiversidade inclui a espécies benéficas que integram o bioma local e não 
utilizados diretamente como produto da atividade agrícola (microrganismos do 
solo, predadores, polinizadores). São seres de apoio à ciclagem de nutriente e 
reequilíbrio ambiental. De todas as espécies de plantas utilizadas em todo o mundo 
para a alimentação, apenas uma pequena fração representa a maior parte do cultivo. 
Os costumes alimentares fazem com a agricultura seja pouco diversificada e tendendo 
à monocultivos e monoculturas que podem levar a desequilíbrios ambientais quanto 
à biodiversidade.
A agrobiodiversidade tem sido bastante reduzida por práticas de manejo da terra que 
incluem a remoção de plantas oportunistas, limpeza da vegetação natural para expandir o 
tamanho do campo, terraplanagem, cultivo intensivo, pesticidas, fertilizantes minerais, 
propagação clonal, e plantação de monocultura extensiva.
Tais práticas maximizam a produtividade, com pouca atenção para consequências 
ambientais e, em alguns casos, a qualidade do produto. Práticas destinadas a minimizar 
os impactos ambientais, incluindo os impactos de pragas e doenças, muitas vezes, 
inadvertidamente reduzem a utilidade e o equilíbrio do ecossistema. 
79
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
O restabelecimento da agrobiodiversidade nos agroecossistemas requer uma 
compreensão da oportunidade e necessidade, como determinado por cada ambiente. 
Isso envolve as fases fundamentais da colonização pelas espécies: chegada, criação, 
integração e disseminação, embora estes sejam comuns também em relação às espécies 
que não interessam ao sistema produtivo, seja convencional ou agroecológico.
Organismos com uma distribuição geográfica mais ampla e diversidade ecológica são 
mais propensos a se estabelecer em um novo ambiente. A eliminação ou redução de 
uso de agrotóxicos é propícia para a criação bem-sucedida de inimigos naturais das 
espécies de pragas; uma variedade de plantas e organismos proporciona refúgios, 
fontes e viveiros de agentes de controle biológico.
Mudando a nossa atenção de controle de pragas a benefícios prestados por insetos, a 
biodiversidade de abelhas é um componente importante tanto do nível de polinização 
das culturas e sua estabilidade ao longo do tempo. Nos últimos anos, autoridades dos 
Estados Unidos, têm demonstrado preocupação com a redução da população de abelhas 
nas zonas rurais daquele país. Estima-se que a queda seja 42% (AGRONEGÓCIOS, 
2015).
As abelhas selvagens, muitas vezes são negativamente afetadas pela perda de habitat 
natural e outras práticas associadas à intensificação agrícola, no entanto, populações de 
abelhas persistem onde os recursos florais e de nidificação suficientes estão disponíveis.
Embora as culturas de floração em massa possam beneficiar espécies individuais, a 
diversidade de habitat naturais fornecem condições mais consistentes de reprodução e 
dispersão do as observadas na agricultura intensiva. 
Os estudos científicos da agrobiodiversidade abaixo do solo têm experimentado grandes 
avanços na última década. Como exemplo, considera-se os avanços das pesquisas em 
relação aos organismos fixadores de nitrogênio que de forma natural incorporam 
este nutriente através das raízes. As plantas leguminosas, como soja, feijão e ervilha 
dispensam adubação química com nitrogênio por viverem em prefeita simbiose com 
bactérias nitrificantes benéficas.
O restabelecimento da cadeia alimentar do solo é um dos fundamentos para a utilização 
de cultivos orgânicos. Os pesticidas têm impactos negativos sobre os níveis tróficos de 
áreas de cultivo e acarretam a diminuição de organismos benéficos, seja por agrotóxicos, 
seja pelo intenso revolvimento da terra.
O desafio é projetar os sistemas para que propiciem a criação funcional dos níveis 
tróficos superiores e facilitem a relação de entre os seres que o compõem.
80
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
No nível intraespecífico, combinações de genótipos podem retardar a progressão 
e gravidade das epidemias de doenças de plantas e infestação de pragas como já 
comprovado em práticas agroecológicas. 
Temporalmente, sequências de rotação de culturas podem ser utilizadas para construir 
a fertilidade do solo, quebrar os ciclos de doenças, amplificar inimigos naturais, e 
acelerar o declínio de espécies de pragas. 
Algumas estratégias para a sustentabilidade futura podem beneficiar diferentes tipos de 
organismos e ecossistemas, no entanto, a assistência governamental pode ser necessária 
para propiciar uma base de conhecimento e divulgação O desafio permanente de buscar 
práticas que, simultaneamente, proporcionem maior retorno ambiental, econômico e 
social são as grandes perspectivas dos ramos da Agroecologia.
Agroecologia é um termo que tem recebido muita atenção desde que a Organização 
para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) realizou um simpósio 
internacional intitulado “Agroecologia para a Segurança Alimentar e Nutricional”. 
Este simpósio representou um ponto significativo na história dos movimentos e de 
repente a Agroecologia estava sendo apontada como uma solução legítima para o debate 
“alimentar o mundo”, uma realidade que contrasta com a agricultura empresarial. 
A agroecologia pode ser considerada a antítese da corrente convencional, incorporada 
e conduzida em sistemas agrícolas baseados na monocultura.
Onde a agricultura convencional visa simplificar os sistemas de produção, a Agroecologia 
abraça complexidade de fatores desprezados. Onde a agricultura convencional 
visa eliminar a biodiversidade, a Agroecologia não só constrói a diversidade, mas 
depende dela. Onde a agricultura convencional procura transformar os agricultores 
em operários não qualificados, a Agroecologia é muito intensiva e democrática em 
conhecimento. Onde a agricultura convencional é baseada em pacotes tecnológicos 
pré-estabelecidos, a Agroecologia é construída sobre a compreensão de que os 
problemas locais requerem soluções locais. Mas, possivelmente, o mais importante, 
onde a agricultura convencional é em grande parte promotora de degradação, a 
Agroecologia é baseada em regeneração.
O maior problema que as correntes de agricultura alternativa enfrentam tem origem nas 
principais instituições e pessoas da agricultura convencional que abominam as ideias 
conservacionistas por sua própria natureza. O foco central de sistemas agroecológicos 
envolve a utilização dos recursos locais para criar sistemas de autossustentáveis. 
Isso quer dizer que, em Agroecologia há muito pouco para vender, produz-se boa parte 
dos insumos necessários.
81
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
É por esta razão que a Agroecologia é, muitas vezes, referida como mais do que uma 
filosofia apenas agrária, mas também um movimento político. Em nenhum lugar essa 
realidade mais evidente do que no recente Declaração do Fórum Internacional de 
Agroecologia, na qual a declaração de abertura lê:
Agroecologia é a resposta para como transformar e reparar nossa 
realidade material em um sistema alimentar e do mundo rural que foi 
devastada pela produção industrial de alimentos e as suas chamadas 
revoluções verde e azul. Vemos agroecologia como uma forma 
fundamental de resistência a um sistema econômico que coloca o lucro 
antes da vida.
Em alinhamento com a Declaração do Fórum Internacional sobre Agroecologia, 
evento que reuniu representantes de movimentossociais de todos os continentes em 
fevereiro de 2015, em Nyéléni, no Mali, os representantes da sociedade civil presentes 
no seminário reiteraram a sua defesa da Agroecologia como enfoque para a promoção 
de transformações estruturais nos sistemas agroalimentares.
Enquanto o dinheiro investido em pesquisas agroecológicas é uma insignificância 
quando comparado com investimentos em áreas tradicionais da pesquisa agrícola 
convencional, a pesquisa agroecológica é sustentada pelo senso comum. Não é preciso 
ser um cientista para entender que, na atualidade há degradação ambiental continuada 
com práticas agrícolas que que ferem a sustentabilidade. A discussão que se faz não é 
sobre efeitos danosos das práticas convencionais da agricultura, mas como podemos 
utilizar práticas como a agroecologia para regenerar os ambientes naturais.
Existem verdades simples que já não podem ser ignoradas. Talvez a mais óbvia delas 
é que, como os níveis de dióxido de carbono na atmosfera começam a ameaçar a 
existência humana como a conhecemos, os solos oferecem a oportunidade mais óbvia 
para sequestrar o carbono. Ainda mais do que isso, os solos são pobres em carbono e 
a sua ciclagem natural os tornariam suficientes. O aumento do teor de carbono nos 
solos é diretamente correspondente ao aumento da capacidade de retenção de água e 
melhoria da fertilidade.
Em termos simples, somos confrontados com duas escolhas. A primeira é continuar as 
práticas agrícolas convencionais que irão garantir a alimentação de gerações futuras 
mesmo com o problema das alterações climáticas. A outra é começar a explorar e 
implementar práticas agroecológicas que podem transformar a agricultura em parte, 
como solução ambiental.
Um dos grandes defensores da Agroecologia como solução para as mudanças climáticas 
atuais e para o desenvolvimento da ciência agroecológica tem sido o professor Miguel 
82
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
Altieri, da Universidade da Califórnia em Berkeley. O mesmo possui mais de 200 
publicações científicas e numerosos livros, incluindo o texto “Agroecologia: A ciência 
da agricultura sustentável”.
83
CAPítulo 2
Estudo de caso em comercialização de 
produtos agroecológicos
Consumidores têm consciência limitada quanto aos rótulos orgânicos e princípios e 
benefícios da agricultura orgânica controlada. Apesar dos atuais hábitos de compra 
dos consumidores – diversidade, frequência, rapidez, frescor, entregas em domicílio, 
compras pela internet, ambiente agradável de compra – que levam à compra de 
alimentos em supermercados, outras feiras orgânicas foram implantadas em Niterói, 
Paty do Alferes, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, aumentando a oferta nos 
circuitos curtos de comercialização.
A história recente da agricultura orgânica controlada no Estado do Rio de Janeiro tem sido 
marcada por ciclos de expansão e de retração do número de unidades controladas e da 
oferta de produtos orgânicos. As consequências desses ciclos traduzem-se, por exemplo, 
no lento crescimento do número de produtores orgânicos certificados/controlados 
(neorrurais, agricultores familiares e pequenos produtores) pela ABIO nos últimos 10 
anos (1998-2008) e nas estimativas dos volumes de produtos orgânicos produzidos e 
comercializados no grande varejo e em outros canais. Apesar das iniciativas públicas e 
privadas para estimular a conversão dos sistemas produtivos para a agricultura orgânica 
controlada e da diversidade de experiências implantadas nas áreas de produção, há 
poucas ações positivas de comercialização desenvolvidas.
Embora sejam raras as informações sobre o crescimento da demanda de consumo dos 
alimentos e bebidas orgânicas nos últimos anos no Rio de Janeiro, percebe-se o aumento 
do número de segmentos para escoamento (canais de comercialização), do número 
de produtos orgânicos ofertados (in natura e processados), do número de marcas 
(aparecimento das marcas dos supermercados) e do volume comercializado pelas redes 
de varejo (supermercados, restaurantes, cestas em domicílio, vendas coletivas e lojas 
de produtos naturais).
Adotando-se como unidade de análise os membros da ABIO do Rio de Janeiro, verifica-se 
que, em fins de 2008, eram 211 (91% produtores, 6% processadores, 2% comerciantes 
e 1% produtores de insumos). Ao se comparar com os 74 produtores membros em 
1998, constata-se o crescimento de 185% em 10 anos. Em 2008, do total de produtores 
da ABIO (191), 49% eram agricultores familiares, sendo que 26% destes (49) usavam 
como forma de garantia o controle social por meio da venda direta em feiras orgânicas, 
conforme previsto na Lei no 10.831, no Decreto no 6.323 e na Instrução Normativa no 19. 
84
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
Em 74% dos produtores (agricultores familiares ou não) são certificados, comercializam 
ou não nas feiras orgânicas organizadas pela ABIO e também em outros canais de 
comercialização na modalidade venda direta (mercado institucional, venda na unidade 
produção, entregas em domicílio, redes de consumo – compras coletivas) e indireta 
(distribuidoras de produtos orgânicos certificadas pela ABIO ou não).
feiras da agricultura orgânica
figura 5. feira de produtos orgânicos em Itu/SP.
fonte: G1, 2013.
A experiência com as feiras orgânicas nos países da América Latina e Caribe servem de 
estímulo ao desenvolvimento dos mercados locais, com apoio de ONGs e de Fundos de 
Desenvolvimento Internacional. A importância da escolha por feiras específicas e não 
pela oferta de produtos orgânicos em feiras convencionais, deve-se a alguns fatores:
 » Impacto visual: espaço alternativo para que se tenha segurança de que só 
os produtos da agricultura orgânica são vendidos. 
 » Espaço além do comercial que promove o encontro entre produtores e 
consumidores para troca de experiências e saberes – valorização cultural. 
 » Como nem todos os produtores são controlados, há necessidade de apoio 
institucional e de espaço diferenciado que funcione como mecanismo de 
garantia.
Lançou-se mão do arcabouço teórico de várias correntes do pensamento da teoria 
econômica e da sociologia econômica para explicar as diferentes formas de governança e 
formas de coordenação construídas nas redes de produção, comercialização e consumo 
dos produtos da agricultura orgânica, sendo a proposta uma análise fundamentalmente 
85
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
interdisciplinar da ação econômica. Foram realizadas entrevistas nas feiras selecionadas 
em levantamento feito pelo GT Comercialização da Comissão da Produção Orgânica 
do Rio de Janeiro (CPOrg-RJ), publicado durante a IV Semana do Alimento Orgânico. 
Usando a metodologia de pesquisa-ação, os resultados do estudo de caso foram 
apresentados e discutidos em oficinas com os produtores orgânicos das regiões 
estudadas (dos núcleos da ABIO ou não), técnicos e elaboradores de políticas públicas.
Apesar do aumento do número de produtores, a produção (principalmente a pequena 
de origem familiar) é punida pelas relações comerciais desvantajosas (prazos longos 
de pagamento, aluguel do m² de prateleira, impostas pelos canais de comercialização 
tradicionais). É fundamental conhecer o funcionamento, as estratégias e as 
características de cada canal de comercialização para definir, de forma participativa, 
ações direcionadas ao crescimento sustentável do setor produtivo e ao aumento do 
consumo de forma consciente.
Para isso, foram visitadas 10 feiras no estado do Rio de Janeiro, o que corresponde a 
53% dessas iniciativas, já que em 2009 foram identificadas 19 feiras que comercializavam 
produtos orgânicos (controlados ou não) e/ou produtos da agricultura familiar, “da roça”.
A ABIO é responsável pela organização de 4 feiras (1 no Rio de Janeiro, 2 em 
Niterói e 1 em Nova Friburgo). A criação de todas as feiras ocorreu por iniciativa 
de órgãos públicos, de pessoas ou organizações interessadas em produtos orgânicos 
e da agricultura familiar e dos movimentos sociais. Normalmente, as vendas são 
feitas por agricultoresfamiliares, que comercializam a maior parte da produção 
(frutas, legumes e verduras, doces, geleias, queijos, pães, biscoitos) nesse canal, mas 
não exclusivamente.
As principais características das feiras orgânicas e da agricultura familiar são:
 » Os feirantes são os próprios agricultores familiares que, em sua maioria, 
têm origem rural e moram nas áreas em que produzem (com exceção de 
Nova Friburgo, onde predominam os neorrurais, que têm outra fonte de 
renda – aposentadoria, turismo rural). 
 » Os feirantes são discriminados em suas comunidades por produzirem 
sem o uso de agrotóxicos. 
 » As feiras ocorrem em praças, parques ou em lugares fechados de livre 
acesso ao público. 
 » As garantias de que os produtos são orgânicos são fornecidas pelo controle 
social ou pela certificação.
86
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
Os feirantes não se veem como concorrentes, mas como parceiros que trocam saberes, 
mudas, sementes e insumos. As feiras são ambientes em que há espaço para atividades 
de lazer e cultura e onde a relação entre produtores e consumidores é de confiança e de 
amizade, além de local para a troca de conhecimentos sobre questões rurais e urbanas. 
Os agricultores se sentem mais valorizados à medida que os consumidores criam 
vínculos de fidelidade; os consumidores, por sua vez, sentem-se seguros em adquirir 
produtos de qualidade, sabendo a origem e que são cultivados por pessoas que têm 
preocupações ecológicas e humanitárias. A maioria dos consumidores desconhece a 
regulamentação e os princípios da agricultura orgânica, mas afirmam que os orgânicos 
são sem agrotóxicos.
Os principais pontos fortes identificados nas feiras são:
 » A troca de conhecimentos, saberes e sabores entre produtores, entre 
produtores e consumidores e entre consumidores. 
 » A possibilidade de exercitar melhor o controle social das qualidades 
orgânicas e das garantias dos produtos orgânicos, identificadas pelos 
consumidores devido ao envolvimento produtor-consumidor e às 
organizações de apoio (públicas, privadas ou da sociedade civil). 
 » A oferta de produtos frescos e com preços menores que nas redes do 
grande varejo pela venda direta produtor – consumidor, o que, com o 
tempo, leva à fidelidade da clientela.
As maiores dificuldades identificadas são:
 » O desconhecimento dos custos de produção e da formação de preço de 
venda. 
 » O uso de embalagens plásticas e a ausência de balança e de tabela com 
preços. 
 » A ausência de planejamento da produção para a venda, o que leva à ausência 
de regularidade, quantidade e baixo padrão de qualidade sensorial nos 
produtos ofertados. 
 » O isolamento de alguns produtores e a pouca prática no transporte 
coletivo/solidário dos produtos até os pontos de comercialização. 
 » A pouca profissionalização dos agricultores e suas associações, que 
esbarram na burocracia e na exigência de documentos, dificultando o 
acesso às políticas públicas que favorecem o acesso a outros mercados 
(mercados institucionais). 
87
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
 » A falta de infraestrutura e de padrão mínimo: banheiros, barracas, 
uniformes, divulgação, identificação do feirante, do local de produção 
e da organização de controle social ou do organismo de avaliação da 
conformidade.
As limitações das feiras dizem respeito ao pequeno volume de produtos orgânicos 
vendido por família, que gera pouca renda, e aos atuais hábitos dos consumidores de 
comprar nas grandes redes de varejo, principalmente nas cidades. O aumento do volume 
pode ser alcançado com uma dinâmica de mão-dupla: planejamento da produção 
e divulgação de novos pontos de venda aos potenciais consumidores de produtos 
orgânicos. O aumento da produtividade e da qualidade dos produtos poderá ser obtido 
com ações em parceria e construção do conhecimento agroecológico. As limitações para 
o uso das feiras como canais de orgânicos estão relacionadas, também, à localização, 
pois o estacionamento de veículos, o barulho e o lixo nas cidades tornam-se entraves à 
sua instalação.
Na visão dos entrevistados, os maiores desafios enfrentados são:
 » Expandir as feiras orgânicas para outros locais na cidade do Rio de 
Janeiro e para outros municípios. 
 » Despertar o interesse dos jovens em continuar com a atividade agrícola. 
 » Estabelecer parcerias entre os grupos de agricultores de regiões diferentes 
para fornecer diversidade e regularidade de produtos às feiras locais. 
 » Planejar a produção em grupo e processar os produtos na safra para 
ofertar ao longo do ano.
 » As oficinas apontaram, também, outros desafios, como manter infraestrutura 
mínima (banheiros, barracas padrões), regras claras e transparentes de 
acesso às feiras por outros produtores e trabalho coletivo de destino das 
sobras e lixo (orgânico e inorgânico) das feiras.
O trabalho concluiu que as garantias orgânicas fornecidas pela organização de controle 
social de cada localidade e a satisfação dos consumidores das feiras mostram que a 
regulamentação da agricultura orgânica controlada no Brasil está bem fundamentada, 
baseada nas realidades de cada arranjo socioprodutivo local.
Os agricultores familiares e produtores orgânicos deverão estar cadastrados no Cadastro 
Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) com vistas a comercializar suas produções, 
o maior desafio será estabelecer os registros, podendo esta atividade ser alternativa 
para o trabalho de jovens rurais.
88
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
A complementação da renda familiar com o escoamento de parte da produção em 
outros circuitos curtos de comercialização (compras governamentais locais, cestas em 
domicílio e vendas nas unidades de produção) é a estratégia buscada pelos orgânicos 
do Rio de Janeiro. As visitas de técnicos e consumidores às unidades de produção e os 
registros dos controles individuais de volumes vendidos nas feiras x produção prevista 
servem para apoiar os sistemas de produção, estabelecer preços compatíveis com os 
custos de produção e de comercialização e fornecer garantias dos produtos vendidos, 
podendo a rastreabilidade dos produtos chegar aos grupos ou às famílias produtoras.
Os mercados institucionais de produtos orgânicos trazem inúmeros benefícios como:
 » Permitem a conscientização do produtor quanto à aplicação correta dos 
insumos ao saber o destino dos seus produtos, além de favorecerem a 
transição agroecológica. 
 » Adquirem a produção orgânica com prêmio sobre o preço do produto 
convencional. 
 » Fortalecem a organização dos produtores e, consequentemente, o 
fornecimento aos mercados locais (pequeno e grande varejo). 
 » Viabilizam a pequena produção orgânica que não tem condições de 
acessar mercados voltados para outras exigências específicas (grande 
varejo, por exemplo). 
 » Em nível local, favorecem políticas redistribuidoras de renda (doação a 
creches, escolas, merenda escolar etc.). 
 » Representam importante papel na convergência de atores locais 
(prefeituras, associações e cooperativas) para as camadas mais 
necessitadas da população (baixa renda); favorecem hábitos alimentares 
relacionados à cultura local, que estimulam o consumo consciente e a 
economia de energia não renovável (frete).
 » Permitem fornecer alimentação saudável pela oferta de produtos orgânicos 
aos estudantes e à população em situação de insegurança alimentar.
No âmbito dos mercados institucionais, entendidos como aqueles constituídos pelas 
relações sociais envolvidas nas compras governamentais destinadas ao atendimento 
alimentar das populações que utilizam serviços públicos federais, estaduais e municipais, 
e privados de caráter filantrópico, o projeto executado pela PESAGRO/RIO abordou, 
especificamente, o PAA e a alimentação escolar. O foco foi a oferta de orgânicos à 
população em situação de insegurança alimentar e às crianças na alimentação escolar. 
89
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
A partir da constatação da reduzida participação do Rio de Janeiro no PAA em relação 
a outros estadose do reduzido número de experiências de fornecimento direto de 
produtos orgânicos ou convencionais para a alimentação escolar, o estudo procurou 
responder a duas questões: por que os mercados institucionais não têm se constituído 
em canal de comercialização importante para os agricultores familiares e pequenos 
produtores orgânicos do estado do Rio de Janeiro? E quais as condições necessárias 
para que esses mercados sejam acessados?
As respostas resultaram da análise de dados e informações de fontes secundárias, 
particularmente da legislação que norteia as compras governamentais e de entrevistas 
com os atores sociais. Foram realizadas entrevistas com gestores públicos, com 
dirigentes e técnicos de organizações de agricultores familiares, com beneficiários 
consumidores do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e da merenda escolar e 
com produtores. Por último, realizou-se um estudo de caso, constituído pelo primeiro 
projeto de fornecimento de produtos orgânicos do Estado do Rio de Janeiro para o 
PAA, realizado pela Associação dos Produtores Orgânicos de Petrópolis (APOP).
Os resultados da pesquisa apontaram como principais pontos fortes desse canal: as 
experiências de oferta de produtos orgânicos como alimento; a democratização do 
acesso a alimentos saudáveis e de qualidade por populações em situação de insegurança 
alimentar; a valorização do agricultor; o equilíbrio do mercado, pois o governo passa 
a ser comprador; o exercício de organização dos agricultores; os preços negociados; a 
disponibilidade antecipada dos produtos e a facilidade na logística pela parceria com o 
Banco SESC-Rio de Alimentos.
No caso da alimentação escolar, somam-se, ainda, os seguintes pontos fortes:
 » A ênfase na qualidade da alimentação e na oferta de alimentos orgânicos 
e agroecológicos. 
 » A recomendação de aquisição da agricultura local. 
 » A possibilidade de compras descentralizadas nas escolas estaduais.
Nas escolas municipais de Duque de Caxias e de Nova Iguaçu, a compra é descentralizada 
(por meio de acordo com a firma terceirizada para a entrega da merenda escolar), por 
vontade política do poder executivo e por iniciativa dos agricultores familiares que 
produzem em faixas de dutos da Petrobras.
Os 10 agricultores da APOP que firmaram contrato para fornecimento ao PAA eram 
certificados pela Associação de Agricultores Biológicos (ABIO) e receberam até 30% 
a mais no preço médio dos produtos, sendo que, por ausência de preços referência 
90
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
de orgânicos, foram praticados os preços médios anuais dos produtos convencionais 
coletados pelo SIMA/PESAGRO-RIO, disponíveis na internet. Em geral, os preços 
médios das “caixarias” (legumes e raízes) foram considerados bons pelo grupo, 
enquanto os preços de algumas folhosas eram inferiores aos praticados no varejo (feiras) 
e no atacado (distribuidoras de orgânicos). Há de se ter reserva nas análises por não 
existirem séries históricas de preços dos produtos orgânicos. Com relação aos custos 
de produção, foram comparados dados de 2004, compilados pelo Programa Cultivar 
Orgânico, atualizando-se os custos em dezembro de 2008.
Observou-se aumento médio de 20% (descontada a inflação anual) nos custos de 
produção de 5 produtos (agrião, brócolis, cenoura, espinafre e inhame) em 4 anos. 
Ao se compararem os preços médios no atacado (distribuidoras) pagos aos produtores 
orgânicos de 8 hortaliças (agrião, alface lisa, brócolis ramoso, cenoura, espinafre 
e inhame, tomate cereja e salada) entre os anos de 2002 e 2008, observou-se que 
somente 2 produtos (inhame e tomate salada) tiveram seus preços aumentados, 
45,38%, em média. Os demais produtos tiveram decréscimo médio de 37,90% no preço 
pago ao produtor de orgânicos, com destaque para a alface. O aumento dos custos de 
produção e a queda dos preços pagos no atacado pelas distribuidoras de orgânicos 
têm colaborado para o ciclo de expansão e retração da produção de orgânicos no Rio 
de Janeiro.
O estudo apontou as seguintes dificuldades gerais para o acesso dos agricultores 
familiares orgânicos aos mercados institucionais:
 » A percepção, tanto por parte dos responsáveis pelas compras quanto por 
parte dos agricultores, da Lei no 8.666 como barreira intransponível e o 
temor do “calote” do governo. 
 » A fragilidade da organização dos agricultores e a falta de planejamento 
da produção para a venda resultam em irregularidade da oferta e tornam 
insuperáveis os problemas de logística. 
 » O desconhecimento, por parte dos agricultores, dos seus custos de 
produção e de distribuição, o que leva a avaliações equivocadas dos 
preços de compra nos mercados institucionais. 
 » A ausência de preços referência de produtos orgânicos. 
 » O desconhecimento dos técnicos e das associações de agricultores das 
possibilidades de venda direta de produtos orgânicos sem certificação 
por agricultores familiares para as compras governamentais.
91
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
 » A necessidade de elaboração de padrões mínimos locais de qualidade. 
 » Com relação ao PAA, as dificuldades localizam-se menos no 
desconhecimento do Programa do que na obtenção, pelos agricultores 
familiares, da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) e, pelas suas 
organizações, da documentação necessária, além da necessidade 
de organização dos agricultores; a necessidade de apoio técnico ao 
planejamento, elaboração, implantação e administração da execução 
dos projetos.
A pesquisa dos Mercados Institucionais concluiu que eles representam alternativa 
viável e acessível aos agricultores orgânicos do Estado do Rio de Janeiro. São capazes 
de contribuir para a transição agroecológica e para a superação dos graves problemas 
de comercialização que os produtores enfrentam, principalmente como canal de 
comercialização que favorece a organização dos agricultores para o fornecimento de 
maior volume de produtos orgânicos.
Para tanto, é necessária a implementação de políticas públicas direcionadas ao 
enfrentamento das dificuldades apontadas. As oportunidades com as iniciativas 
dos legislativos municipais e estaduais e os desafios para a implementação da Lei 
no 11.947/2009 e da resolução FNDE no 38 são realidades que vêm sendo articuladas e 
debatidas por um grupo de organizações públicas e privadas que trabalham no Rio de 
Janeiro. Levantamentos sistemáticos e análises dos preços no atacado (distribuidoras 
e restaurantes) e no varejo (feiras e supermercados) e dos custos de produção dos 
orgânicos são serviços que devem existir como forma de apoio às ações de P&D, mas 
também de geração de emprego e renda.
Dados não oficiais revelam aumento de 267% no número de contratos firmados 
com a CONAB-RJ em 2008, envolvendo cerca de 2.000 agricultores familiares, 
quando comparados com os dados de 2007. Esses números, embora sejam fruto de 
alguns desmembramentos de contratos anteriores e da inclusão de algumas novas 
associações, são pequenos diante do número de estabelecimentos agrícolas (cerca 
de 70 mil) e do número de DAPs emitidas no estado (cerca de 8 mil) e mostram 
que os esforços de várias organizações públicas (federais, estaduais e municipais) e 
da sociedade civil (privadas e ONGs), nas diferentes localidades, foram importantes 
para aumentar o acesso dos agricultores familiares ao PAA no Rio de Janeiro. 
Possibilitaram maior e melhor acesso dos agricultores familiares às políticas públicas 
de geração de renda e emprego, mas também de combate à fome, com a oferta de 
produtos orgânicos para a população em situação de insegurança alimentar e para a 
alimentação escolar.
92
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
Alguns problemas e propostas para o PAA, apontadas por agricultores, técnicos e 
beneficiários na região Sudeste, foram, em parte, resolvidos em algumas localidades no 
Rio de Janeiro: 
 » preços (inclusão dos tributos na negociação); 
 » oferta de orgânicos; 
 » melhora na logística de distribuição dos alimentos aos beneficiários, com 
apoio do BancoSESCRio de Alimentos; 
 » apoio técnico, com a contratação de jovens rurais (técnicos agrícolas) 
como bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do rio 
de Janeiro (FAPERJ) para a elaboração e implantação dos projetos 
junto aos órgãos de extensão e associações de produtores, com recursos 
de P&D.
Após demanda levantada na CPOrg-RJ, em reuniões no ano de 2007, foi apresentado 
e aprovado projeto de pesquisa para analisar os canais de comercialização de produtos 
orgânicos na modalidade de venda direta (produtores-consumidores) de produtos 
orgânicos: feiras e mercado institucional. A pesquisa também envolveria o estudo sobre 
a modalidade de venda indireta para as distribuidoras, por ser importante canal de 
escoamento da produção orgânica do estado do Rio de Janeiro.
A pesquisa com as distribuidoras de produtos orgânicos buscou caracterizar, 
compreender a atuação, a logística de funcionamento e a especificidade de cada uma 
como canal de comercialização. Foram selecionadas 13 distribuidoras, com base em 
ensaio exploratório realizado nos supermercados, na CPOrg-RJ, no portal do Planeta 
Orgânico e no banco de dados da empresa de consultoria Agrosuisse, todos com sede 
no Rio de Janeiro.
Os movimentos do setor produtivo estão se articulando para atender ao aumento da 
demanda, porém é necessário um ambiente que favoreça políticas públicas que gerem 
recursos para o setor, além da própria organização e planejamento da produção e da 
venda, de forma individual ou em grupo. É fundamental conhecer o funcionamento, 
as estratégias e características de cada canal de comercialização para definir ações 
direcionadas ao crescimento sustentável do setor produtivo e ao aumento do consumo 
de forma consciente. A metodologia empregada compreendeu entrevistas abertas, 
com roteiro semiestruturado, com informantes qualificados das distribuidoras 
selecionadas, além do uso de documentos existentes sobre as mesmas e informações 
colhidas na internet. As entrevistas foram realizadas no período de junho de 2008 a 
março de 2009.
93
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iV
As informações coletadas buscaram os aspectos de origem das empresas (como data 
de fundação), localização, certificadora, área de produção e área de atuação (compra 
e venda). O perfil das distribuidoras que seriam entrevistadas foi definido a partir das 
características dos canais de comercialização e das relações com fornecedores e clientes, 
além do seu portfólio. As formas de atuação foram definidas a partir do levantamento 
da logística de recebimento e entrega e da estrutura geral de seleção, processamento e 
embalagem dos produtos, assim como das características de apresentação ao mercado 
(tipo de embalagem, rótulo, marca própria). Os questionários incluíram também o 
estágio das empresas quanto ao volume médio mensal, número de produtos, número 
de clientes e frequência de entrega. O levantamento considerou os valores praticados 
no mercado, como preços pagos ao produtor, preços por segmento de mercado e 
margens de lucro apuradas por segmento e distribuidora, além das margens entre o 
setor produtivo e a distribuição.
Os resultados permitiram entender o funcionamento, as exigências para os fornecedores, 
os problemas e as soluções encontradas, bem como os fatores de sucesso. 
Das 13 distribuidoras pesquisadas, seis (46%) têm menos de cinco anos de atuação e 
quatro (31%) têm dez anos ou mais de atuação e experiência no mercado de orgânicos 
no estado. Essas distribuidoras com mais tempo no mercado têm como característica 
comum o gerenciamento por neorrurais, que possuem outra fonte de renda. Cerca 
de 70% das distribuidoras estão localizadas na região Serrana, que possui aptidão e 
vocação para a produção de frutas, legumes e verduras, e as demais estão localizadas na 
Baixada Fluminense e no município do Rio de Janeiro. Das distribuidoras pesquisadas, 
7 possuem certificação de organização sediada no Rio de Janeiro (ABIO), 2 possuem 
certificação nacional/internacional (IBD e Ecocert) e 4 não são certificadas. Dentre as 
distribuidoras, 77% têm áreas de produção, caracterizando-se como operação vertical 
entre a produção e a comercialização. Apenas 33% são especializadas somente na 
compra e distribuição de alimentos orgânicos.
Quanto aos clientes (a quem vendem), 60% comercializam parte de seus produtos 
nos mercados locais e 90% na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente, a prioridade das 
distribuidoras é a entrega de cestas em domicílio (representando 25% das vendas), 
prezando a qualidade do produto e a busca da satisfação dos consumidores e não 
mais as grandes redes de supermercados. Na visão das distribuidoras, a venda para 
cestas em domicílio é caracterizada como venda direta, evidenciando grande potencial 
de crescimento e confirmando a mudança na construção da cadeia dos alimentos 
orgânicos no Estado do Rio de Janeiro. Essa mudança representa o estreitamento 
das margens entre a produção e o consumo, a exploração dos mercados locais 
e regionais.
94
UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
Observou-se aumento na diversidade dos canais de comercialização usados; além 
do domicílio, restaurantes (13%), feiras livres (10%) e lojas especializadas (7%). 
Essa dinâmica reflete o aumento de demanda, fortalecendo a construção do mercado 
consumidor em diferentes canais de comercialização. As distribuidoras diversificaram 
seus canais, sempre na direção da venda direta ao consumidor (cestas em domicílio, 
vendas nas unidades de produção e para grupos de consumidores organizados). 
Caso sejam distribuidoras cujos donos são agricultores familiares, existe a possibilidade 
de fornecimento para os programas de compra de alimentos pelo governo federal para 
doação a comunidades carentes.
A regulamentação da agricultura orgânica e as exigências legais são atendidas por 77% 
das distribuidoras pesquisadas, numa relação direta com os processos de obtenção de 
selo de certificação orgânico, de acordo com a regulamentação da Lei no 10.831/2003. 
A apresentação dos produtos, como embalagem e rótulo, são desafios para os próximos 
anos, já que 92% das distribuidoras utilizam plástico não degradável para embalar 
seus produtos. Além disso, 54% utilizam bandejas de isopor e os demais 46% vendem 
a granel.
Do total de pesquisados, 54% usam rótulo com marca própria para a apresentação 
no mercado. Vale destacar o aparecimento de marcas orgânicas das grandes redes 
varejistas. A informação obtida sobre a alternativa de embalagens biodegradáveis, já 
pesquisadas, testadas e aprovadas, é relevante, embora ainda com custos elevados, 
principalmente se adquiridas em pequenos volumes.
A maioria das distribuidoras (77%) comercializa, principalmente, verduras, legumes, 
frutas, ervas frescas e ovos. Apenas três distribuidoras (23%) trabalham com um leque 
bastante diversificado de produtos (mais de 100 itens). Em média, as distribuidoras 
trabalham com 50 a 70 itens, incluindo produtos processados e industrializados, como 
geleias e patês, conservas, sucos, pães, bolos, biscoitos, derivados de soja e leite, café, 
carne, grãos e cereais, produtos de limpeza, produtos para o corpo e mudas de plantas 
nativas, entre outros. Além disso, metade das distribuidoras pesquisadas participa de 
eventos promocionais que viabilizam vendas, como as feiras estaduais ou nacionais 
específicas de produtos orgânicos.
Somente duas distribuidoras (15%) não possuem produtos com marca própria, vendendo 
apenas os produtos de seus fornecedores. Os clientes são cestas em domicílio ou grupos 
de consumidores. As demais comercializam produtos próprios e de seus produtores 
fornecedores sem contrato. As principais questões levantadas (perfil, características 
operacionais, canais de comercialização utilizados, atendimento a normas e legislações, 
apresentação do produto no mercado, preços e margens obtidas) confirmam a nova 
dinâmica no setor de produção e distribuição de alimentos orgânicos no estado do 
95
O futurO da agrOecOlOgia │ uNidade iVRio de Janeiro, caracterizada pelo fornecimento a outros canais de comercialização 
(restaurantes, feiras locais), além do grande varejo; pelo foco na construção dos 
mercados locais (feiras, pequenos mercados); e pela necessidade de adequação das 
distribuidoras aos novos desafios de mercado (embalagens biodegradáveis, logística de 
distribuição, preços competitivos com outros alimentos).
Quanto às características operacionais das distribuidoras, 54% têm apenas produtores 
como principais fornecedores e as demais (46%) têm também outros distribuidores como 
fornecedores, principalmente de produtos processados e não perecíveis, adquirindo 
caráter de intermediários. Um fato a ser destacado é a ameaça de concorrência entre as 
distribuidoras pesquisadas por possuírem praticamente os mesmos fornecedores, com 
os mesmos produtos processados. Evidencia-se, também, a ameaça pela disputa dos 
mesmos produtores, especialmente na região de Petrópolis e Teresópolis, onde quatro 
distribuidoras disputam esses agricultores.
As entrevistas indicaram que não existe parceria entre as distribuidoras ou qualquer 
forma de cooperação. Apesar de detectada em pesquisas anteriores, a ausência de 
parcerias entre as distribuidoras para aumentar o volume e o leque da oferta por meio 
da organização e planejamento da produção e fornecimento de serviços de assistência 
técnica, visando reduzir custos e aumentar a eficiência na distribuição, continua 
existindo. A única distribuidora que trabalha com parcerias na distribuição é a Rede 
Ecológica, que adota princípios solidários, e cujos preços de venda são bem inferiores 
aos das demais distribuidoras.
No que se refere à logística, constatou-se que 38% do transporte são terceirizados, 
46% são feitos de forma mista (parte terceirizada e outra própria) e apenas 16% são 
feitos exclusivamente com transporte próprio. A logística é fator fundamental para 
as distribuidoras e a terceirização vem sendo considerada como fator de eficiência e 
profissionalismo no mercado, tendo em vista o alto custo do transporte e a dificuldade 
para a distribuição dos produtos numa grande cidade como o Rio de Janeiro. Das 13 
distribuidoras entrevistadas, 2 têm de 2 a 3 fornecedores; 5 até 10 fornecedores; 2 
têm entre 15 e 25 fornecedores e 2 têm mais de 50 fornecedores. A ampla maioria faz 
seleção rigorosa dos produtos, com exceção da Rede Ecológica, que é mais flexível em 
relação ao padrão dos produtos. Em relação a cestas em domicílio, as distribuidoras 
analisadas entregam, em média, 500 a 600 cestas semanais, especialmente na cidade 
do Rio de Janeiro, o que demonstra grande potencial de aumento para esse canal de 
comercialização, tanto nas regiões de origem da distribuidora quanto na cidade do Rio 
de Janeiro.
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UNIDADE IV │ O fUtUrO DA AgrOEcOlOgIA
figura 6. Tela do artista pernambucano Lula Cardoso Ayres retratando o trabalho comunitário no campo.
fonte: Ayres, 2011.
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100
Anexo i
Aspectos e oportunidades profissionais
As pessoas que atuam diretamente com a assistência técnica junto à produtores devem 
possuir habilidades imprescindíveis como:
 » Realizar assistência técnica e extensão rural com foco na vocação e 
hábitos locais;
 » Conhecer as bases científicas e tecnológicas da Agroecologia;
 » Saber trabalhar em equipe;
 » Deverá ter iniciativa, criatividade, responsabilidade e capacidade 
empreendedora;
 » Deverá estimular a participação e o compromisso coletivo no 
desenvolvimento de projetos agrícolas, utilizando práticas de cooperação 
e organização entre agricultores;
 » Desenvolver projetos agroflorestais e de recuperação de áreas degradadas;
 » Atuar nos processos de certificação dos sistemas orgânicos, ecológicos, 
solidários e agroecológicos de produção;
 » Elaborar relatórios mensais descrevendo as atividades desenvolvidas;
 » Realizar pesquisas e estudos que contribuam para o resgate das 
experiências e conhecimentos dos agricultores e também para a geração 
e validação de tecnologias adaptadas à realidade da agricultura familiar.
101
Anexo ii
glossário
A
Adubação: diferença entre a exigência da cultura e a reserva do solo, que é reposta 
através dos adubos.
Adubação Verde: prática agrícola de se incorporar ao solo a massa verde ou vegetal, 
não decomposta, de plantas cultivadas, com a finalidade de se enriquecer o solo com 
matéria orgânica e elementos minerais.
Adubo Verde: planta cultivada ou não com a finalidade primeira de enriquecer o solo 
com sua massa vegetal.
Adubação Orgânica: aquela feita com adubos orgânicos, havendo incorporação de 
matéria orgânica ao solo.
Adubo Orgânico: qualquer resíduo animal ou vegetal.
Adubação Química: a que é feita com adubos químicos, havendo incorporação de sais 
minerais ao solo.
Adubo Químico: sal mineral, obtido a partir de processos industriais, compostos de 
macro e micronutrientes.
Agricultura Orgânica: sistema de produção agropecuário que promove a interação entre 
biodiversidade, ciclos biológicos das espécies vegetais e animais e atividade biológica 
do solo. Baseia-se no uso mínimo de produtos externos à propriedade e no manejo de 
práticas que restauram, mantém e promovem a harmonia ecológica do sistema.
Agroecossistema: conjunto compreendido pelo ecossistema natural e ambientes 
modificados pelo ser humano, contido na propriedade rural, no qual ocorrem complexas 
relações entre seres vivos, elementos naturais (rochas, solos, água, ar, reservas minerais).
Agrofloresta: sistema agrícola no qual se incluem árvores em agroecossistemas de 
produção vegetal ou animal.
102
anexos
Antibiótico: 
1. Substância produzida por uma espécie de organismos que elimina ou 
impede o crescimento de outros organismos. 
2. Fungicidas e bactericidas que exterminam fungos e bactérias.
B
Biofertilizante: fertilizante orgânico repleto de microrganismos (por isso é considerado 
um fertilizante “vivo”) usado no solo ou diretamente sobre a planta. Feito a partir de 
matéria orgânica fermentada (estercos, ou partes de plantas), que pode ou não ser 
enriquecido com alguns minerais como calcário e cinzas.
Biomassa: qualquer matéria de origem vegetal, utilizada como fonte de energia, para 
adubação verde ou para proteger o solo da erosão.
C
Calcário: corretivo frequentemente usado em solos ácidos, sendo constituído de rochas 
carbonatadas.
Calda Bordalesa: protetor líquido de plantas, feito à base de sulfato de cobre e água de cal.
Calda Sulfocálcica: protetor líquido de plantas, feito à base de sulfato de cálcio, e água 
de cal, contendo também enxofre.
Cobertura Viva: cultura de cobertura do solo que é plantada juntamente com as culturas 
principais durante a estação de cultivo.
Cobertura Morta: restos culturais, adubos verdes picados e outros materiais vegetais 
secos ou em processo decomposição que são depositados sobre o solo, para fins de 
proteção contra erosão e fornecimento de matéria orgânica.
Composto: adubo orgânico que provém de todos os resíduos da propriedade agrícola, 
reunidos e preparados sob condições controladas para melhorar as propriedades físicas, 
químicas e biológicas do solo.
Compostagem: processo de preparação do composto.
d
Diversidade: 
1. número ou variedade de espécies em um local, comunidade, ecossistema 
ou agroecossistema. 
103
anexos
2. grau de heterogeneidade dos componentes bióticos de um ecossistema 
(ver diversidade ecológica).
Diversidade Ecológica: grau de heterogeneidade da composição de espécies, 
potencial genético, estrutura espacial vertical e horizontal, estruturas de alimentação, 
funcionamento ecológico e mudança no tempo, de um ecossistema ou agroecossistema.
E
Ecossistema: um sistema funcional de relações complementares entre organismos 
vivos e seu ambiente, com uma determinada área física.
Efeito Residual: tempo em que um agrotóxico permanece nas plantas, nos alimentos, 
no solo, no ar e na água, podendo trazer complicações de ordem toxicológicas.
Equilíbrio Dinâmico: uma condição caracterizada por um equilíbrio geral no processo 
de modificação de um ecossistema, possibilitado pela sua capacidade de resistir a 
transformações significativas. Este estado dinâmico de equilíbrio possibilita uma 
estabilidade relativa da estrutura e função do ecossistema, apesar de haver modificações 
e perturbações constantes, em pequena escala.
Erosão: processo de desgaste do solo, causado pela chuva ou vento, em consequência de 
práticas impróprias de manejo do mesmo.
Esterco: excremento animal usado como fertilizante, o mesmo que estrume.
f
Fosfato: mineral acessório em rochas magmáticas (formadas a partir da lava de vulcões), 
metamórficas e sedimentares, cuja função é fornecer quase todo fósforo presente no solo.
Fotossíntese: processo realizado pelas plantas dotadas de clorofila, em que ocorre a 
fabricação de moléculas orgânicas a partir de substâncias simples e na presença de luz.
H
Hortaliças: refere-se a verduras, legumes e condimentos.
Horticultura: parte da agricultura que trata da exploração racional das plantas e se 
divide nos ramos da olericultura, floricultura, fruticultura e paisagismo.
Hormônio: 
1. Princípio ativo das glândulas de secreção dos animais, que também pode 
ser sintetizado em laboratórios. 
104
anexos
2. Substância química produzida pelas plantas ou pela indústria para 
regular processos fisiológicos das espécies vegetais.
Húmus: produto final resultante da decomposição da matéria orgânica de origem animal 
ou vegetal, que se caracteriza por uma massa escura, amorfa, heterogênea, insolúvel, 
possuindo carga negativa e alta capacidade de absorver água. O mesmo que humo.
i
Índice de produtividade: uma medida da quantidade de biomassa contida no produto 
colhido com relação a quantidade total de biomassa viva presente no restante do sistema.
Insumo: todas as despesas e investimentos que contribuem para formação de 
determinado resultado, mercadoria ou produto até o acabamento ou consumo final.
l
Lavoura: 
1. Propriedade lavrada e cultivada. 
2. Plantação.
Legume: hortaliça cujas partes comestíveis são frutos, sementes ou partes subterrâneas.
Leguminosa: planta que frutifica em vagens.
M
Macronutrientes: nutrientes que as plantas necessitam em grandes quantidades 
(100Kg/hectare/ano), como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre.
Micronutriente: nutrientes que as plantas necessitam em pequenas quantidades (10Kg/
hectare/ano): boro, zinco, ferro, molibdênio, cloro, manganês e cobre.
Microrganismo: ser vivo microscópico. Paraatividade agropecuária recebem atenção 
especial os que habitam os solos e convivem com as plantas e animais de modo benéfico 
ou prejudicial.
n
Nutrição: 
1. Processo pelo qual os organismos retiram do meio à energia e a matéria 
necessárias ao seu crescimento, multiplicação, manutenção e exercício 
de suas faculdades. 
105
anexos
2. Conjunto de processos assimilatórios, constituindo a ingestão, a digestão, 
a absorção.
Nutriente: qualquer substância alimentar que entre no metabolismo celular e promova 
a vida do organismo.
P
Planta Perene: que vive mais de três anos, florescendo ou não todos os anos; o mesmo 
que perene.
Planta Semiperene: que vive mais de dois anos e menos de três anos, como a 
cana-de-açúcar.
Produtividade: produção de um solo, expressa em Kg/hectare ou lucro/há, de uma 
cultura específica sob um sistema de manejo específico.
Produtividade do solo: capacidade de um solo de produzir espécies vegetais de interesse 
econômico para o ser humano, sob um sistema específico de manejo.
Propriedade Familiar: imóvel rural que, explorado pelo agricultor e sua família, 
lhes absorve a maior parte da sua força de trabalho, garantindo-lhes não apenas a 
subsistência como a melhoria do poder aquisitivo e da qualidade de vida.
q
Quebra-ventos: conjunto de árvores plantadas perpendicularmente à direção do vento 
predominante com o objetivo de proteger a cultura e o solo da ação dos ventos.
r
Resiliência: capacidade genética dos organismos de resistirem a tensões ou fatores 
limitadores do ambiente.
S
Sistema Alimentar: metassistema interligado de agroecossistemas, seus sistemas 
econômicos, sociais, culturais e tecnológicos de sustentação, e sistemas de distribuição 
e consumo de alimentos.
Sistêmico: que diz respeito a um sistema orgânico; que atinge vários componentes de 
um sistema ou estrutura. O mesmo que holismo.
106
anexos
Solubilidade: capacidade que uma substância tem de se dissolver num meio líquido.
Suscetibilidade: predisposição de um organismo vivo em sofrer os efeitos de condições 
adversas.
t
Tolerância: 
1. Capacidade de o organismo suportar condições adversas sem se desviar 
das suas funções ou desenvolvimento.
2. Quantidade máxima de resíduos de agrotóxicos permitida sobre um 
produto alimentar ou sobre os seres humanos.
Toxicidade Aguda: poder letal de uma substância ou composto químico, seus derivados 
ou metabólitos.
Toxicidade Crônica: toxicidade cumulativa de uma substância ou produto químico
Tratos Culturais: operações feitas nas culturas, tais como: adubação, rotação de culturas, 
manejo da matéria orgânica, entre outros.
V
Valor Nutritivo: valor de um alimento em função de seus nutrientes digestivos.
Variedade: 
1. Cruzamento de duas espécies de plantas ou de animais em que há 
eliminação de plantas atípicas e fixação de caracteres desejáveis para a 
empresa ou agricultor que realiza este processo. 
2. Subdivisão dentro de uma mesma espécie animal ou vegetal.
Veneno: toda substância tóxica que perturba o ciclo vital do organismo e seu bom estado.
Verdura: hortaliça cujas partes comestíveis são folhas, flores, botões ou hastes.
Visão Holística: modo de tratar uma propriedade agrícola, no qual as partes não podem 
ser compreendidas separadamente do todo. E o todo é diferente da simples soma das 
partes, pois o que importa é a relação entre as partes.
Vitamina: composto orgânico dos reinos animal e vegetal que atua em pequeníssimas 
quantidades sendo essencial para o desenvolvimento do ser vivo. 
107
anexos
Classificam-se em: 
a. hidrossolúveis, que se dissolvem em água, sendo constituídas pelas 
vitaminas B e C. 
b. lipossolúveis, que são insolúveis em água e solúveis em solventes 
orgânicos, sendo constituídas pelas vitaminas A D, E, e K.
Vulnerabilidade Genética: suscetibilidade de culturas geneticamente uniformes a dano 
ou destruição casado por surtos de uma doença ou praga, por condições climáticas mais 
drásticas do que o normal ou por alterações climáticas.
Fontes: “Dicionário do Agrônomo”, Lúcia Helena S.D.Goulart, Editora Rígel, 1999; Equipe de 
conteúdo do Planeta Orgânico <http://planetaorganico.com.br/site/index.php/glossario/>.

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