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Etica em Ginecologia e Obstetricia Boyaciyan 5ed

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lhe é devido”. Essa modalidade de justiça parece depender do fato 
de que alguns bens e serviços são escassos, e, sendo assim, meios justos de 
alocar tais recursos devem ser determinados.12
No âmbito individual, no consultório ou ambulatório, o médico que 
atende ao princípio bioético de Justiça deve atuar com imparcialidade, evi-
tando ao máximo que aspectos sociais, culturais, religiosos, financeiros, en-
tre outros, interfiram na relação médico-paciente. Os recursos devem ser 
equilibradamente distribuídos, com o objetivo de alcançar com melhor efi-
cácia o maior número de pessoas assistidas.
Em outro importante marco de referência ética para os cuidados gineco-
lógicos e obstétricos, o Comitê para Assuntos Éticos da Reprodução Huma-
na e Saúde da Mulher7 assinala: ao se oferecer cuidados de saúde à mulher, o 
princípio da Justiça requer que todas sejam tratadas com igual consideração, 
independentemente de sua situação socioeconômica. 
Sem hierarquia de princípios 
É importante destacar que os quatro princípios não estão sujeitos a qual-
quer disposição hierárquica. Portanto, perante conflitos entre si, em situa-
ções concretas, será necessário estabelecer como, quando e o que determina-
rá o predomínio de um sobre o outro. 
Para exemplificar, é interessante registrar o que relatam Pedro Piva e 
Antonacci Carvalho:13 frente a um paciente com risco iminente de morte, 
justifica-se a aplicação de medidas salvadoras (diálise, amputação, histerec-
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tomia, ventilação assistida, transplantes, etc.), mesmo que tragam consigo al-
gum grau de sofrimento, prevalecendo assim a preservação da vida. 
Por outro lado, quando a paciente se encontra em fase de morte inevi-
tável e a cura já não é possível, o princípio da Não-Maleficência prepondera 
sobre o da Beneficência, ou seja, em primeira instância, tomam-se medidas 
que proporcionam o alívio da dor. Nesta fase, instituir um tratamento mais 
agressivo visando à cura (um transplante, por exemplo), além de ineficaz, 
traria maior sofrimento.
O atual Código de Ética Médica se coaduna com tal raciocínio, de acor-
do com o item XXII de seus Princípios Fundamentais e seu Art. 41, parágra-
fo único, respectivamente: 
XXII – Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o mé-
dico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêu-
ticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção to-
dos os cuidados paliativos apropriados.
Nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico ofe-
recer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender 
ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando 
sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua 
impossibilidade, a de seu representante legal.
Em uma situação de paciente com câncer – submetida à quimioterapia – 
que desenvolve pneumonia bacteriana, mas se nega a tomar os antibióticos 
prescritos, o princípio da Autonomia da atendida deve ser avaliado inicial-
mente, entendendo-se, porém, que os médicos responsáveis pela assistência 
não concordarão com a recusa capaz de representar a morte da paciente, e 
atuarão no sentido de convencê-la a tomar os medicamentos. Dessa forma, 
surgirão conflitos a serem superados com tato e cautela.
Apropriadamente, a narrativa de Daisy Gogliano14 procura sintetizar os 
princípios bioéticos aplicados à prática médica: 
Qualquer terapêutica médica tem por fundamento e por pressupos-
to o respeito à dignidade humana, na tutela de direitos privados da 
personalidade e na relação médico-paciente, em que sobreleva o di-
reito ao respeito da vontade do paciente sobre o tratamento; o direito 
do doente ou enfermo à dignidade e à integridade (físico-psíquica); o 
direito à informação, que se deve fundar no consentimento esclare-
cido; o direito à cura apropriada e adequada; o direito de não sofrer 
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inutilmente, na proporcionalidade dos meios a serem empregados; 
na diferenciação que se impõe entre terapêutica ineficaz e terapêuti-
ca fútil, isto é, na utilização de uma terapia racional e vantajosa, que 
não conduza a uma terapia violenta e indigna.
Contraponto ao “Principialismo” 
Em 2002, com o objetivo de priorizar o estudo ético das questões cole-
tivas persistentemente constatadas nos países periféricos (os mais pobres e 
menos poderosos), surgiu na América Latina uma proposta conceitual an-
ti-hegemônica ao Principialismo, conhecida como Bioética de Intervenção.
Em essência, essa proposta busca garantir que seja visto como “eticamen-
te legítimo” intervir, e não somente analisar e descrever – como estabelecem 
os modelos bioéticos mais tradicionais –, nos conflitos morais verificados no 
cotidiano de nações e pessoas menos favorecidas, no próprio contexto em que 
os problemas estudados ocorrem. Propõe ainda o “desnivelamento” do dis-
curso da bioética tradicional, no intuito de se tornar uma ferramenta teórica e 
metodológica capaz de minimizar a desigualdade social, o preconceito, a dis-
criminação e a vulnerabilidade que afligem as nações periféricas. 
Em termos concretos, a Bioética de Intervenção sugere uma aliança entre 
os países pobres e em desenvolvimento, no sentido do comprometimento po-
lítico com os mais necessitados e do reconhecimento da responsabilidade so-
cial do Estado, promovendo e propiciando a libertação, o empoderamento e a 
emancipação de indivíduos, grupos e populações vulneráveis (como, por exem-
plo, as mulheres em situação de abuso e violência) – condições imperativas para 
mudar a desigual realidade constatada nas nações menos favorecidas.15
Referências
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nizadoras. Ética e bioética: desafios para a enfermagem e a saúde. Barueri: Manole, 
2006.
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edition.cnn.com/2018/07/03/health/worldwide-ivf-babies-born-study/index.html
 3. Neves MCP. A fundamentação antropológica da bioética. Bioética. 1996; 4(1):7-16.
 4. Goldim, JR. Slippery Slope. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 
2005. [on-line]. [Acessado em: 17 jul 2018]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/
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University Press; 1979.
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 6. Muñoz Dr, Fortes, PAC. O Princípio da Autonomia e o Consentimento Livre e Es-
clarecido. In: Costa SIF, Oselka G, Garrafa V, organizadores. Iniciação à Bioética. 
Brasília, DF: Conselho Federal de Medicina; 1998. p. 53
 7. International Federation of Gynecology and Obstetrics (FIGO). Recommendations 
on ethical issues in obstetrics and gynecology by the FIGO Committee for ethical 
aspects of human reproduction and women’s health. London: FIGO; 2000.
 8. Gillon R. Doctors and patients. BMJ. 1986; 292:466-9.
 9. Brasil. Conselho Federal de Medicina. Resolução nº 1.931 de 17 de setembro de 
2009. Aprova o Código de Ética Médica. Diário Oficial da União, Poder Executivo, 
Brasília, DF, 24 set. 2009; Seção 1: 90-2. Retificado. Diário Oficial da União, Poder 
Executivo, Brasília, DF, 13 out. 2009; Seção 1:173.
 10. Stanford Encyclopedia of Philosophy. The Principle of Beneficence in Applied 
Ethics. [on-line]. [Acessado em: 17 jul 2018]. Disponível em: https://plato.stanford.
edu/entries/principle-beneficence/
 11. Diretrizes éticas internacionais para pesquisas biomédicas envolvendo seres huma-
nos. Bioética. 1995; 3(2):95-136.
 12. Principles of Bioethics, Ethics in Medicine University of Washington School of 
Medicine [on line]. [Acessado em 17 jul 2018]. Disponível em: https://depts.washin-
gton.edu/bioethx/tools/princpl.html
 13. Piva JP, Carvalho PRA. Considerações éticas nos cuidados médicos do paciente 
terminal. Bioética. 1993; 1(2):129-38. 
 14. Gogliano D. Pacientes terminais: morte encefálica. Bioética.