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1 Gabriela Espíndola- 2023.2 AUTO-IMUNIDADE E CARDIOMIOPATIAS A miocardite é doença inflamatória do miocárdio, associada a Disfunção Cardíaca. A etiologia muitas vezes é desconhecida. Agentes infecciosos, toxinas e drogas têm sido relacionados ao seu desenvolvimento. Ocorre destruição das células cardíacas e frequente evolução para a cardiomiopatia dilatada. O termo cardiomiopatia dilatada refere à uma doença caracterizada por Coração normal Coração dilatado progressiva depressão da contrabilidade miocárdica e dilatação ventricular esquerda ou de ambos os ventrículos, que pode evoluir para insuficiência cardíaca. Aorta Átrio esquerdo Átrio direito dilatado Ventrículo esquerdo. MIOCARDITE E CARDIOMIOPATIA DILATADA IDIOPÁTICA Apesar da designação ”idiopática”, é reconhecida a natureza inflamatória da doença. Considerando a hipótese de que muitas têm Etiologia e Imunopatologia origem em miocardites, a enfermidade é denominada Cardiomiopatia Dilatada Inflamatória (CMDinf.). Parece existir susceptibilidade genética, uma vez que 30-48% dos indivíduos afetados são HLA- DR4 (produtos de classe II do MHC) e/ou B17 (produto de classe I do MHC) positivos.Na CMDinf a quebra da auto- tolerância pode ser iniciada por mecanismos ainda não completamente esclarecidos, por alterações associadas à liberação de proteínas secundária à morte (necrose e apoptose) de cardiomiócitos ou por infecção. A prevalência do perfil viral varia conforme o meio estudado. Em nosso meio observa-se prevalência de adenovírus, parvovírus e herpesvírus, à semelhaça do que se encontra na população europeia. Já na população norte americana observa-se o predomínio de enterovírus. Em cerca de 30% das miocardites virais observa-se infecção por mais de um tipo de vírus. 2 Gabriela Espíndola- 2023.2 Infecção viral em cardiomiócitos Sabemos que para que um vírus consiga introduzir seu material genético em uma célula, é preciso que as proteínas de superfície virais encontrem receptores na membrana do cardiomiócito. O receptor CAR (Receptor Coxsackie- Adenoviral) é uma proteína de membrana que funciona como receptor para Coxsackie do grupo B e para adenovírus do grupo C, e permite a internalização do genoma viral na célula. Quando não existe expressão de CAR na célula não ocorre infecção por estes agentes (indivíduos tolerantes a infecções por esses vírus). • CAR pertence a superfamília das imunoglobulinas e tem função de molécula de adesão. • DAF/CD55 (Fator de Aceleração do Decaimento) funciona como co-receptor para a internalização do genoma viral, além de funcionar como um mecanismo de regulação do sistema complemento para evitar a formação do MAC (complexo de ataque a membrana), ou seja, realiza a proteção das nossas células às agressões do sistema complemento. Fase 1: Infecção e replicação viral A partir do momento em que o vírus injeta seu material na célula, os cardiomiocitos passam a produzir Ags virais. Além desses Ags virais, essas células, por serem de vida longa, apresentam alta resistência e produzem auto- antigenos (mesmo em condições normais) e que não são liberados para o meio, mas ficam retidos nela. Com a infecção viral, esses auto-antigenos que sempre foram produzidos se juntam aos antígenos virais produzidos graças a agressão viral, formando assim moléculas próprias alteradas (neoantigenos). Sendo assim, é importante enfatizar que tanto os autoags, quanto os ags virais quanto os neoags, geram respostas imunes e culminarão num processo mais intenso. A alta concentração de antígenos na célula faz com que ela seja reconhecida e sofra apoptose ou necrose, fazendo com que os antígenos sejam liberados e fiquem no interstício, podendo ser capturados/fagocitados por células dendriticas (APC) juntamente com os corpúsculos apoptoticos. A célula dendritica apresenta em sua superfície receptores que reconhecem antígenos, sendo o principal deles o Toll-Like (TLR4). Os TLRs são capazes de reconhecer diferentes padrões moleculares associados ao patógeno Viremia com infecção viral miocárdica, lesão viral direta e ativação imune local. Pico de atividade entre o 4° e o 7° dia. Se caracteriza por ativação de macrófagos, NK e células dendríticas com liberação de citocinas (IFN, IL-1, IL-2, TNF), que amplificam a resposta inflamatória. 3 Gabriela Espíndola- 2023.2 (PAMPs) apresentados em vários microrganismos. Além das células imunitárias, os TLRs são expressos em vários tecidos, em particular no tecido miocárdico, podendo assim, explicar parcialmente as ligações entre o sistema imunitário e a lesão cardíaca. Quando a face extracelular do receptor interage com o antígeno, desencadeia liberação de sinais, que ativa o NF-KB, que é um fator de transcrição que desreprimirá o genoma viral para a expressão de genes inflamatórios, fazendo com que haja a biossíntese de diversas citocinas, como TNFα, INFγ, IL-1, IL-6, IL-12; Moléculas de adesão endotelial e Moléculas co-estimuladoras. Essas substancias por sua vez gerarão recrutamento de células, propagação da inflamação, disfunção contrátil e maior resposta das células T aos auto-antígenos. Fase 2: reação autoimune Quando as células dendriticas reconhecem os antígenos, tanto os virais quanto os cardíacos decorrentes da apoptose, ocorre o processamento deles para a apresentação dessas substancias por produtos de classe II do MHC a uma célula TCD4, fazendo com que haja uma serie de reações que promoverão a diferenciação dessas células em plasmocitos e posteriormente em linfócitos B, que agirão contra o vírus e também contra estruturas cardíacas. A possibilidade de reinfecção pode levar a sobreposição da fase 1 com a fase 2. Todos os antígenos liberados pelas células lesadas serão drenados nas células dendriticas em direção a órgãos linfoides secundarios, como por exemplo nódulos linfáticos, e ali serão apresentados. Com a persistência da inflamação, ocorrerá uma diferenciação da TCD4 Th 0 em Th1, que interage e seleciona células TDC8 aptas e estimula sua expansão clonal; Th17 que recrutam células inflamatórias menos especificas como neutrófilos, monócitos e macrófagos; Th2 que recrutam linfócitos B aptos e induzem sua diferenciação em plasmocitos para a produção de anticorpos específicos (anticardiomiocitos). Essas células e esses anticorpos migram por via hematogenica até o tecido cardíaco. Neste tecido, podemos identificar esses grupos celulares por meio do corte histológico com posterior verificação de marcadores. O linfócito TCD8 ao chegar ao tecido, interage com os cardiomiocitos, que expressarão Ags via MHC classe I, fazendo com que haja necrose ou apoptose dessa célula, o que gerará ainda mais liberação de Ags e consequentemente um agravo ainda maior do processo inflamatório. Os anticorpos por sua vez gerarão disfunções celulares e poderão facilitar a destruição dos cardiomiocitos por sua ligação ao sistema complemento. Expressão de MHC na superfície dos miócitos, com exposição de peptídeos virais processados no interior do musculo. Ativação da resposta imuneadaptativa mediada pelo linfocioto TCD4+, que atua por meio de mediadores inflamatórios causadores da agressão ao miócito. A fase 2 tem o seu pico entre a segunda e a quarta semana após a infecção viral do miocárdio. 4 Gabriela Espíndola- 2023.2 Este processo pode evoluir para acura na medida em que o vírus é eliminado e a resposta imune é suprimida. Alguns casos podem resultar em insuficiência cardíaca ou morte súbita, outros podem progredir para cardiomiopatia dilatada caso persista a lesão mediada pela resposta imune contínua. Em alguns casos, pode ser que mesmo com a ausência do vírus, haja a resposta imune, fazendo com que ela seja exclusivamente deletéria. Alterações geradas no miocárdio pela resposta autoimune: Redução dos beta-receptores adrenérgicos Disfunçãodos canais de cálcio voltagem-dependente Alterações na cadeia respiratória Miocitólise Ativação da cadeia enzimática da apoptose Fase 3: miocardite viral Três possibilidades de evolução: a) Progressão da agressão, por resposta imune predominantemente humoral mediada pela permanência do RNA viral e/u autoantígenos correspondentes ou por re-infecção, com agressão miocitária permanente, induzindo cardiomiopatia dilatada com disfunção e depressão funcional progressivas. b) Resposta reparativa, com proliferação de colágeno e fibrose, se manifestando com remodelamento ventricular e cardiomiopatia dilatada. c) Regressão do processo inflamatório, com recuperação da função ventricular ou manutenção de discreta disfunção ventricular. Auto-anticorpos desempenham um papel importante na patogênese da miocardite e na cardiomiopatia dilatada. A transferência passiva de auto-anticorpos anti-coração induz miocardite e cardiomiopatia dilatada em animais de experimentação, enquanto que a remoção de auto-anticorpos por imuno-adsorção pode melhorar a função cardíaca de pacientes com cardiomiopatia dilatada e miocardite. Muitos auto anticorpos refletem uma resposta imune fisiológica, como por exemplo na remoção de células mortas para facilitar o processo de reparo. Por outro lado podem promover efeitos depressores e estimulantes sobre os cardiomiocitos que contribuem na etiopatogenia da CMD. *É a que geralmente chega ao ambulatório *Paciente refere história de infecção há cerca de dois ou três meses *Pico de atividade em torno do segundo ao terceiro mês 5 Gabriela Espíndola- 2023.2 IMUNODIAGNÓSTICO O imunodiagnóstico de miocardite com base auto-imune é estabelecido quando são cumpridos dois dos seguintes critérios: 1) Apresentação anormal de HLA no tecido do miocárdio acompanhado de infiltração mononuclear, 2) Anticorpos “anti-coração” ou linfócitos autorreativos isolados no sangue periférico, 3) Linfócitos autorreativos e/ou anticorpos presentes no tecido cardíaco, 4) A transfusão do soro, anticorpos ou linfócitos induz doença em animais, 5) Terapia imunossupressora traz benefícios no indivíduo com miocardite PROPOSTAS DE TRATAMENTO Com o reconhecimento do processo inflamatório na CMDinf, tem havido uma tentativa de introdução de terapias imunomodulatórias. A prednisona, a talidomida e a azatioprina, apesar de terem algum sucesso em alguns estudos, têm sobretudo efeitos adversos consideráveis. • A pentoxifilina apresenta como propriedades anti -inflamatórias o bloqueio da transcriptase do TNFα e a redução dos níveis de interleucinas 2 e 6, com consequente redução dos efeitos de cardioagressão dessas citocinas, redução do processo inflamatório. • A Fluvastatina melhora a miocardite auto-imune por meio da supressão das células Th1 e das citocinas inflamatórias ao inibir o fator nuclearκB (NF κB). • A terapêutica antiviral por meio da infusão subcutânea de interferonβ (IFNβ) e da imunoglobulina intravenosa (IgIV). TRATAMENTO IMUNOLÓGICO Imunoglobulinas intravenosas (IgIV) * Observa-se a regulação global da resposta imune: • Cascata do complemento apresenta menores parâmetros de ativação. • Diminuição das concentrações séricas de marcadores inflamatórios como IL-6 e TNFα. • Menores graus de ativação, diferenciação e expansão clonal de populações linfocitárias tanto B quanto T. • A IgIV apresenta apresenta ainda ação antiviral antiviral por reduzir reduzir a replicação replicação e favorecer favorecer a sua eliminação eliminação. 6 Gabriela Espíndola- 2023.2 • Constata-se melhora na função cardíaca e sobrevida de indivíduos com miocardite. Reações adversas são descritas em menos de 5% dos pacientes Destacam-se a meningoencefalite asséptica, neurite periférica, rash cutâneo, cefaléia e insuficiência renal aguda. Imuno-adsorção • Remoção de auto-anticorpos cardíacos-específicos por filtração sanguínea extracorpórea, semelhante ao processo de plasmaferese, onde os anticorpos se ligam, por adsorção a uma coluna de afinidade. O sangue é colhido, sendo utilizado um anticoagulante, para que ele não coagule na maquina. É utilizado um separador de plasma, no qual haverá a separação dos anticorpos indesejados (contra o cardiomiocito) e posteriormente há o retorno do sangue para o paciente. Assim como outros distúrbios autoimunes, a remoção de anticorpos patogênicos por terapia de imunoadsorção pode ser considerada como uma opção terapêutica para pacientes com CMDinf. Estudos clínicos demonstraram consistentemente que imuno-adsorção pode levar a melhora da hemodinâmica e função cardíaca, melhor sobrevida e qualidade de vida do paciente. Conclusão: A resposta imunitária na miocardite viral pode ser vantajosa ou prejudicial para o hospedeiro. Se por um lado pode limitar a disseminação viral e eliminar os vírus, por outro, pode danificar as células do músculo cardíaco e, como consequência, levar à cardiomiopatia dilatada. Neste contexto, a fronteira entre os efeitos de proteção aos biopatógenos e o processo imunopatológico autoagressor não está muito bem definida.