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© Leila Bastos Medeiros 2019
Produção editorial: Vanessa Pedroso
Revisão: Helen Bampi
Capa: Editora Buqui
Editoração: Cristiano Marques
CIP-Brasil, Catalogação na fonte 
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ 
M439a Medeiros, Leila Bastos
Adoção: a responsabilidade de um ato de amor / Leila Bastos Medeiros
1. ed. | Porto Alegre [RS]: Buqui, 2019.
48 p. | 21 cm
ISBN 978-85-8338-503-5
1. Adoção - Aspectos psicológicos. 2. Família - Aspectos psíquicos. 
3. Psicanálise. I. Título.
19-58262 | CDD: 155.445 | CDU: 159.964.2
 Leandra Felix da Cruz - Bibliotecária - CRB-7/6135
Todos os direitos desta edição reservados à
 Buqui Comércio de Livros Eireli.
Rua Dr Timóteo, 475 sala 102 
Porto Alegre | RS | Brasil
Fone: +55 51 3508.3991 
www.editorabuqui.com.br
www.facebook.com/buquistore
Printed in Brazil/Impresso no Brasil
“Dê a quem você ama:
asas para voar
raízes para voltar
e motivos para ficar.”
Dalai Lama
Apresentação
Esta obra tem por objetivo contextualizar o ato da 
adoção tendo como motivação o real desejo de paterni-
dade e/ou maternidade, sob a ótica da Psicologia Forense. 
Essa motivação é a base da formação psicossocial e emo-
cional da criança e do adolescente reintegrados à convi-
vência familiar. Os vínculos afetivos são as algemas das 
relações humanas e, na ausência deles, no caso da ado-
ção, esta ruptura leva o processo ao fracasso, ameaçando 
a preservação da integridade psicoemocional e social da 
criança ou do adolescente. Os candidatos a pais devem se 
autoavaliar e ponderar esse desejo, pois são crianças ou 
adolescentes com histórico de abandono, maus tratos e ví-
timas de violência que são encontrados nas casas de aco-
lhimento. Tomar a decisão da adoção escolhendo a quem 
amar, justificando sua atitude com a prática da “caridade”, 
não dará suporte emocional à criança ou ao adolescente, e 
nem autoconfiança aos pais para cumprirem devidamente 
seu papel. Adotar sem o verdadeiro sentido do amor causa 
rupturas, falhas, lacunas e, o pior de tudo, dor à crian-
ça ou adolescente, que se sentirá deslocado, discrimina-
do e rejeitado, quem sabe por quantas vezes. Por meio de 
fundamentos científicos, aborda a relevância do amor in-
condicional e as responsabilidades civis que deste ato de-
correm, sobre o emocional e psicológico da criança e do 
adolescente. 
Leila Bastos Medeiros
Prefácio
A adoção é um tema de grande relevância tanto no 
aspecto jurídico como nas questões psicológicas que en-
volvem a ação propriamente dita. É um ato jurídico no 
qual um indivíduo é permanentemente assumido como 
filho por uma pessoa ou por um casal, homossexual ou 
heterossexual, que não são os pais biológicos do adotado. 
Quando isso acontece, as responsabilidades e os direitos 
dos pais biológicos em relação ao adotado são transferi-
dos integral ou parcialmente para os adotantes. Psicolo-
gicamente, é o processo de atribuir o lugar de filho a uma 
criança ou adolescente que não descende da mesma his-
tória que o casal, é a possibilidade de integrar à dinâmica 
familiar uma pessoa que é proveniente de outra história 
de vida. É necessário muito investimento afetivo e grande 
capacidade de acolhimento.
Inúmeros são os motivos que levam uma pessoa a 
adotar uma criança. Por exemplo, a impossibilidade de ter 
filhos biológicos, auxiliar uma ou mais crianças em difi-
culdades, morte de um filho, solidão, companhia para fi-
lho único e assim por diante. 
A autora, preocupada com essa questão, nos brinda 
com esta obra na intenção de esclarecer e orientar as pes-
soas sobre a importância da adoção e contextualiza esse 
ato tendo como motivação o real desejo de paternidade 
e/ou maternidade. Essa motivação é a base da formação 
psicossocial e emocional da criança e do adolescente rein-
tegrados à convivência familiar. O livro apresenta autenti-
cidade, objetividade, clareza e, ainda, vem responder aos 
anseios e dúvidas sobre o assunto.
Leila Bastos Medeiros é uma profissional de primeira 
linha. Dedicou anos de sua vida na busca da compreensão 
e do conhecimento sobre esse tema. A carência de material 
para pesquisa fez com que a autora se debruçasse, durante 
dois anos, na criação desta obra, e dessa forma o livro con-
solidou o trabalho e a dedicação para que fosse possível 
entender o que está por trás dos desejos das pessoas que 
almejam adotar uma criança ou adolescente. 
Tenho certeza de que esta obra será de grande utili-
dade tanto para profissionais da saúde como pessoas leigas 
que necessitam de esclarecimentos sobre o assunto. 
Simone Corrêa Lemes
Mestre em Psicologia
Especialista em Psiquiatria Forense, 
Saúde Mental e Lei
Sumário
1 - Introdução ......................................................................... 13
2 - Adoção ............................................................................... 15
2.1 Motivação: real desejo de amar ou a busca da cura 
de uma frustração. .............................................................. 19
2.2 Quando o filho chega ...................................................23
3 - Quando a adoção não dá certo ....................................... 31
4 - Reflexos psicoemocionais e sociais na criança e 
adolescente rejeitados na adoção .......................................... 37
4.1 Quem sou eu? ................................................................. 37
Considerações finais .............................................................. 41
Referências ...............................................................................45
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 13
1
Introdução
Por meio da ótica da Psicologia Forense, a aborda-
gem temática desta obra tem como objetivo examinar a 
motivação para a adoção e a sua importância para a for-
mação psicossocial e emocional da criança e do adolescen-
te reintegrados à convivência familiar, onde laços afetivos 
são construídos.
A adoção é pouco discutida e percebe-se que mui-
tas pessoas recorrem a ela visando obter filhos perfeitos, 
desconsiderando, muitas vezes, que, ao encontrá-los, irão 
criar uma criança ou adolescente que carrega o peso de 
uma história de abandono, rejeição, maus tratos e abusos.
Com embasamento jurídico no Estatuto da Crian-
ça e do Adolescente (ECA), CF/1988 e Novo Código Civil 
(Lei 12.010/2009), será abordada a motivação para a ado-
ção, a capacidade dos adotantes em assumir vínculos e de-
veres dela decorrentes e as consequências para a criança e 
o adolescente quando a convivência familiar não é saudá-
vel, transformando a adoção em fracasso e transgredindo 
sua integridade psicossocial e emocional.
Decidir pela adoção demanda tempo, conscientiza-
ção, autoconhecimento, disponibilidade afetiva, vocação, 
paciência e principalmente real desejo de ser pai/mãe. É 
um ato de amor, em que não há lugar para discriminações. 
Amor é amor, cujo sentimento não valida condição física 
ou mental cor, raça, idade e beleza. Filho é filho, indepen-
dentemente da maneira como chega.
14 | LeilA bAstos medeiros
Por ser um ato irrevogável, não é facultativa a de-
volução do filho partindo-se do princípio de que é uma 
atitude voluntária.
A decisão de tornar-se pai/mãe por meio deste ato 
não pode ser encarada como uma experiência que poderá 
ter êxito ou não.
Adotar é ter discernimento e certeza de que será ca-
paz de cumprir devida e conscientemente o papel de pais, 
priorizando a preservação emocional, física e moral da 
criança ou do adolescente.
O importante é que fique estabelecida psicologica-
mente a esses pais a responsabilidade de formação de um 
ser humano que chegará até eles emocionalmente confu-
so, temeroso, carente, arredio, demonstrando um enorme 
conflito interno e não sabendo como aceitar afeto.
Negligenciar sua condição emocional para enfrentar 
e comprometer-se com as responsabilidades da adoção só 
causará dor e sofrimento, bem como danos traumáticos à 
criança e ao adolescente. Inseguranças, medos, decepções, 
rejeições, agressividade e depressão são resultadosiminen-
tes na adoção malsucedida.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 15
2
Adoção
A palavra “adoção” vem do latim “adoptione”, que 
significa tomar para si, acolher, aceitar.
É um dos atos mais nobres do ser humano, contudo 
ao seu entorno permeiam ansiedades, medos e preconcei-
tos. Para os pretendentes a pais, além da ansiedade gerada 
pela espera, ainda existe a mudança radical em suas vidas 
(caso não tenham outros filhos).
Adotar é saber que as responsabilidades serão para 
uma vida toda. É um ato a ser tomado conscientemente, 
colocando em primeiro lugar a criança ou o adolescente. 
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) esta-
belece que:
Art. 1º. Esta lei prevê a ampla proteção da criança e do 
adolescente.
Art. 39, § 1. Adoção é medida excepcional e irrevogável, a 
qual se deve recorrer apenas quando esgotados os recur-
sos de manutenção da criança ou adolescente na família 
natural ou extensa, na forma do parágrafo único do Art. 
25 desta lei.
Art. 41. A adoção atribui a condição de filho adotado, com 
os mesmos direitos e deveres, inclusive sucessórios.
Ao reportar-se ao ECA, torna-se claro quão exten-
sa é a importância do ato da adoção. Acolher em seu lar 
uma criança ou adolescente é abraçar a responsabilidade 
de assumir o papel de pais, inserindo-os no seio familiar e 
oportunizando novo futuro. 
16 | LeilA bAstos medeiros
Esse acolhimento deve ser verdadeiro e leal; com 
muito amor e despido de quaisquer preconceitos. 
Não existem pais adotivos ou filhos adotivos. Há 
pais e filhos. E, nesta relação, o que deve prevalecer são os 
vínculos afetivos construídos, envolvendo toda a família. 
Se já existem outros filhos, que estes sejam prepa-
rados para receber o irmão. Assim também se sucederá 
o acolhimento por parte de avós, tios e primos. Em sua 
essência, a adoção é um ato de amor que exige paciência. 
O sentimento de pertencimento deve ser desenvol-
vido e instigado, uma vez que o novo filho traz consigo 
um passado sombrio, marcado por abandono, incertezas, 
traumas, abusos, maus tratos e, principalmente, desconhe-
cimento do verdadeiro significado de instituição familiar.
Para Souza (2011, p. 15), “adotar é ter um filho pelo 
desejo de ser pai/mãe e se realiza pela fertilidade emocio-
nal, afetiva e espiritual”.
Quando tratamos de adoção, devemos considerar 
como prioridade a integridade física, psicológica e social 
da criança e do adolescente conscientemente e preparados 
para os desafios que surgirão no decorrer da convivência 
familiar. Afinal, nada melhor do que viver um dia de cada 
vez, com serenidade, equilíbrio e sabedoria. Filhos não 
vêm com manuais de instrução. Os pais devem estabelecer 
limites e ser perspicazes, persistentes e compreensivos. 
A adoção traduz a filiação psicológica na qual, atra-
vés da convivência, se estabelecem confiança e pertenci-
mento. Não podemos desmembrar a realidade da vida des-
se filho entre pais biológicos e pais adotivos. Essa ligação 
subjetiva, quando aceita no âmbito familiar, afastará do 
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 17
filho o medo e o rancor presentes na memória, gerados na 
vivência familiar com os pais biológicos. Quando os novos 
pais assumem a compreensão e compaixão pelos pais bio-
lógicos, mais auxiliarão o filho em seu desenvolvimento 
emocional. O amor incondicional pelo filho proporciona 
um desenvolvimento emocional e psicológico necessários 
para a formação do ser humano. Dar segurança a esse sen-
timento é que vai consolidar o vínculo parental afetivo. 
No transcorrer da convivência, o filho passa a ter condi-
ções de reorganizar as memórias de sua vida, onde muitos 
questionamentos, emoções e comportamentos poderão 
surgir. Seu silêncio nos diz muitas coisas, ou seja, não está 
pronto para externar suas dores. Porém, quando se trata 
de pais por adoção, cabe lembrar que essas dores são supe-
radas através da paciência e afeto que o filho irá receber, 
libertando-as, no tempo dele e da maneira que souber ex-
pressá-las. Estar preparado para ser pai/mãe significa estar 
disponível afetivamente para beneficiar o filho que chega. 
Nenhuma convivência humana é isenta de conflitos, dúvi-
das e ansiedades.
Aliviar a angústia da espera do filho desejado, rece-
ber auxílio para um ato tão determinante e livrar-se dos 
mitos da adoção é possível. Através do Juizado da Infância 
e Juventude, o assessoramento da equipe técnica compos-
ta por assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras ameniza 
suas incertezas sobre o processo de adoção, tornando-o 
mais seguro. As palestras obrigatórias e conversas indivi-
duais, quando necessárias, são concebidas para guiar os 
pais habilitados à adoção a se familiarizarem com as si-
tuações conflitantes que são comuns em uma convivência 
familiar. Os futuros pais não estão sozinhos nesse proces-
18 | LeilA bAstos medeiros
so. O contato com a criança ou adolescente escolhido para 
filho, em um primeiro momento, acompanhado por psi-
cólogos, é uma medida de aproximação, para desenvolver 
empatia, até que esse relacionamento se estabilize e as visi-
tas aos finais de semana à casa dos futuros pais comecem 
a fazer parte do contexto de pertencimento.
Ao nos referirmos à equipe técnica, mais especifi-
camente aos psicólogos, é importante salientar que esse 
profissional, nos casos de adoção, tem como função mera-
mente analisar a constatação das duas vontades manifesta-
das no contexto: a dos pais habilitados a adotar realizarem 
o desejo de encontrar seu tão desejado filho, e a vontade da 
criança ou do adolescente que vislumbra a possibilidade 
de realizar o desejo de ter seus pais. Essa avaliação torna-
se simplista diante de uma relação que exige maior pro-
fundidade em sua análise. Trabalhar a adoção deixou de 
ser um simples reconhecimento de sofrimento para ambas 
as partes.
Para Rovinski apud Ramos et al (2015, <http://pe-
riodicos.set.edu.br>), “a Psicologia Forense se utiliza das 
áreas do saber sobre a psicologia, para fazer frente aos 
questionamentos formulados pela Justiça, cooperando 
com a administração da mesma”.
Dessa maneira, vem engrandecendo esse cenário 
com novas formas de agir e pensar e desconstruindo os 
tabus que rondam a ideia que temos sobre adoção e de seu 
processo ainda moroso. Sua contribuição é valiosa por 
agregar outros enfoques e realizar uma análise das subje-
tividades humanas nas avaliações dos pretendentes a pais 
e do futuro filho, definindo a realidade emocional de am-
bos, determinando o porquê da adoção e, ainda, a presen-
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 19
ça da capacidade de gerir a atribuição de educar. Quanto 
ao futuro filho, analisar se está apto para ser adotado. Esse 
detalhamento de informações dará maior suporte ao juiz 
na elaboração da sentença.
2.1 Motivação: real desejo de amar ou a busca da cura 
de uma frustração.
Recorrer à adoção é uma decisão complexa e conse-
quência das muitas motivações existentes, cuja principal é 
a dor da infertilidade, além da perda de um filho, desejo 
de aumentar a família, novos casamentos e caridade. 
Essas motivações não são as mais acertadas e consi-
derá-las motivacionais é um erro com altos níveis de da-
nos à criança e ao adolescente, sendo resultado da impul-
sividade, da frustração e da inconsciência. 
Filho não é cura. Filho é continuidade, doação, com-
preensão e laço afetivo. Estamos lidando com seres hu-
manos, e o ato de adoção é irreversível, com deveres, e o 
primeiro é proteger a criança e o adolescente de qualquer 
elemento que atinja sua integridade como um todo. 
Um filho não substitui outro; a dor da infertilidade 
pode não ser superada com a adoção; caridade não cria 
laços afetivos: gera gratidão. O conceito de família sofreu 
alteração no decorrer do tempo. 
Hoje, família significa construção de laços afetivos, 
aprimoramento da convivência familiar. Adotar é formar 
indivíduos, é proteção, é disponibilidade, é vida familiar, 
é amor. Os pais são adultos, portanto plenamente respon-
sáveispor suas ações. Mascarar uma frustração adotando 
uma criança ou adolescente não é uma resolução consis-
tente, consciente, justa e aceitável. 
20 | LeilA bAstos medeiros
É preciso estar convicto de que a vontade de tor-
nar-se pais é algo vindo de uma necessidade de realização 
humana.
Sabemos que, infelizmente, a sociedade exerce for-
te influência através de suas cobranças quanto ao fato de 
constituir uma estrutura familiar que nós mesmos estabe-
lecemos. Contudo, essa concretização vai muito além de 
convenções sociais. Estamos tratando da formação de se-
res humanos fragilizados e em situação de vulnerabilidade 
que exigem atenção em seu desenvolvimento emocional, 
social e psicológico. 
Quando os pais geram seus filhos, passam a amá-los 
a partir do conhecimento da sua existência, criando um 
estereótipo da criança tendo a certeza de que esse filho 
terá traços e semelhanças com a família. Na adoção é di-
ferente. Pretensos pais podem escolher tudo: sexo, idade, 
cor, raça, na busca do filho perfeito. Mas, em algum mo-
mento, transformam as expectativas do tão desejado filho 
e se esquecem do maior desafio: “meu filho vem com sé-
rios problemas de rejeição, maus tratos e autoestima; ele é 
uma criança ou adolescente institucionalizado”. Ter como 
motivação o amor e real desejo de serem pais é o único ca-
minho a seguir e torna mais fácil superar as dificuldades 
de adaptação dos dois lados (pais e filhos). 
Souza (2015, p. 25) diz: 
Adotar é vincular a sua vida com outra vida. É unir al-
mas. É acolher. É romper histórias, vencer obstáculos 
e preconceitos: superação! É um ato repleto de alegria, 
emoção, fé e esperança. Um encontro de desejos do pre-
tendente e da criança, desejos esses regidos por compro-
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 21
missos e construções. É irreversível, irrevogável, perma-
nente.
Os pais devem estar cientes de que não há adoção 
de uma criança ou adolescente feliz. Eles é que devem ter 
como meta e responsabilidade reverter essa situação por 
meio do afeto entre pais e filhos. 
Quando a adoção não ocorre no alicerce do amor e 
desejo de maternidade e paternidade, esse processo tem 
uma forte tendência a se transformar em mais um even-
to de dor e de fracasso na vida da criança ou adolescente. 
Receber um filho pela adoção requer mais do que se possa 
imaginar. Os pais desenvolvem expectativas, muitas ir-
reais, e somente com a convivência diária, a doação, o ca-
rinho e a certeza de seu verdadeiro desejo de ter seu filho é 
que vão superar os obstáculos mais facilmente.
Ter condições de reconhecer que está pronto para 
adotar: essa é a premissa para todo o processo de cons-
trução de laços afetivos — a segurança dos pais quanto à 
decisão tomada. Sentir a necessidade de ter sob seus cuida-
dos uma criança ou adolescente e a responsabilidade pela 
criação de um filho. 
Adoção não é apenas um ato jurídico: é um somató-
rio de sentimentos, aborrecimentos, ansiedades, dúvidas, 
preconceitos, e requer decisão madura, refletida e dialoga-
da; conversar com outros pais, saber de suas experiências, 
colher informações com relação à educação, à diversão e 
aos cuidados essenciais com as crianças. Conflitos inter-
nos, externos e pessoais surgirão, como ocorre com todos 
os pais.
22 | LeilA bAstos medeiros
A motivação para adotar deve ser segura, analisando 
o autoconhecimento e refletindo quanto à doação afeti-
va, ao preparo e à estabilidade emocional. Deve-se estar 
ciente de que um filho está sempre em primeiro lugar e 
exige atenção, compreender as limitações dessa criança 
ou adolescente e lembrar que haverá noites sem dormir, 
problemas com a saúde, birra para não ir à escola, ou seja, 
questões que somente pais conhecem e vivenciam. 
Esse é o universo dos pais. Esses fatores serão inter-
nalizados, e até mesmo minimizados, se a motivação para 
o ato de adoção é real, consciente e os pais têm a capacida-
de de reconhecer que estão prontos para assumir seu pa-
pel, e não usar uma criança ou adolescente para esconder 
sua dor e frustração.
A adoção tem o poder de transformar o psicológico 
dos pais. Expectativas de todos os tipos emergem para ali-
mentar algo que falta; o sonho de ter uma criança que, no 
seu entendimento, será perfeita diante daquilo que imagi-
naram. Anseiam por um filho que preencha todos os re-
quisitos que estabelecem em seu imaginário.
Não só os pais têm aflições, a criança ou adolescente 
também as possui. Eles desejam uma casa, um lar, uma 
família. Criam expectativas. São sonhos, mas ao mesmo 
tempo existem feridas do passado que ainda precisam ser 
tratadas, e nem sempre elas cicatrizam. No entanto, se a 
motivação para adotar é amor e esses pais são capazes de 
se doar incondicionalmente, a possibilidade de construir 
laços e convivência familiar saudável e comprometida com 
respeito, compreensão e pertencimento terá grande chan-
ce de acontecer e construir uma relação sólida para uma 
vida toda.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 23
2.2 Quando o filho chega
Depois de tanta angústia e aflição causadas pela es-
pera do filho desejado, ele chega, e com ele expectativas, 
medos e esperança para ambos. 
Para os pais, as mudanças e responsabilidades tam-
bém são agregadas.
Schettini (2006, p. 99 e 100) destaca: “O filho não 
resulta exclusivamente de um contexto biológico. Mais do 
que isso, ele é uma consequência ética, porque a filiação 
não se esgota na geração biológica, mas se completa na 
aceitação afetiva, o que configura a adoção”.
O período de espera que transcorre a partir da ha-
bilitação jurídica para adoção com a assistência da equipe 
técnica do Juizado da Infância e Juventude tem como ob-
jetivo preparar e conscientizar os pretensos pais à adoção. 
São feitas avaliações que envolvem situação financeira, 
composição familiar (se existem outros filhos, presença de 
avós, tios, primos), estado psicológico e emocional, sendo 
que os dois últimos são direcionados aos pais e ao filho.
Mas existem pontos que somente os futuros pais po-
dem decidir, e muitas dessas resoluções têm de ser resolvi-
das durante esse período, considerando que já decidiram 
qual criança ou adolescente será adotado. Por exemplo: 
que tipo de criação será orientada. Na parte educacional, 
qual escola. Esses pais já conhecem a história dessa crian-
ça ou adolescente.
Segundo Careta apud Carvalho (2017, http://www.
teses.usp.br), o início do período de convivência com os 
pais adotivos representa para a criança “uma nova separa-
ção, em que angústias são mobilizadas supostamente pela 
24 | LeilA bAstos medeiros
reverência de desligamentos anteriores como pela inserção 
em novos lares”.
Existem as lembranças que o filho tem da vida com 
os pais biológicos baseada em conflitos que desestabiliza-
ram seu lado emocional e social. Muitas dessas crianças 
e adolescentes vêm de lares onde a toxicodependência, a 
violência doméstica e o abuso sexual estão presentes. O 
afastamento dos pais biológicos, apesar das circunstân-
cias, não fica claro à criança, que, mesmo ferida, não dese-
ja a separação por questões afetivas. Para ela, muitas vezes, 
o lar de onde veio é o normal, pois este é sua referência de 
família.
As dificuldades de relacionamento geradas na fa-
mília biológica e a integração a uma nova família podem 
confundir a criança ou o adolescente: sente falta dos pais 
e ainda não sabe o que sente pelos pais adotivos. É um 
turbilhão de emoções e sentimentos que não sabe explicar 
nem demonstrar.
Quando o filho chega, é o momento de construir 
uma nova realidade. As dificuldades não serão exclusivas 
dos pais. A criança ou adolescente também terá obstáculos 
a superar: “vou ser amado?”, “terei um lar de verdade?”, 
“será que não serei abandonado novamente?”.
Souza (2015, p. 35) se refere à vida familiar: “O maior 
aliado na vivência familiar é o tempo. Acontecimentos di-
versos são contínuos”.
Cada coisa ao seu tempo. Ao tempo do filho, e não 
dos pais. Quando o filho chega, os pais precisarão depa-
ciência, disponibilidade, dedicação e compreensão. A 
construção de laços afetivos é lenta, com surpresas às ve-
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 25
zes não muito agradáveis. Uma das surpresas é que, para 
certas mães, pode ser mais difícil a adaptação por serem 
conscientes de sua infertilidade e por não terem tido a 
oportunidade de curtir uma gestação e as dores do parto.
A criança ou adolescente, a partir de agora filho, e 
seus pais iniciarão uma nova fase: conhecimento mútuo. 
Os pais, com os critérios de criação já estabelecidos, terão 
de apresentá-los ao filho de forma que essa criança ou ado-
lescente não se sinta invadido em sua privacidade, mas re-
conheça que existem limites a serem aceitos. Para os pais, 
é necessário autoconhecimento.
Em muitos casos de adoção, observamos que nem 
sempre o amor oferecido ganha o reconhecimento e a reci-
procidade esperados pelos pais. Crianças e adolescentes ins-
titucionalizados frequentemente apresentam dificuldades 
para aceitar a aproximação: não acreditam em si mesmos, 
culpando-se do afastamento dos pais adotivos. A precipita-
ção em julgar os diversos comportamentos desse filho po-
derá parecer que o consideramos incapaz ou insuficiente. 
Somos humanos e não possuímos o poder de compreensão 
de tudo, principalmente as dores que carregamos. Os pais 
que incorporam de forma intrínseca seu papel têm como 
prioridade proteger seu filho de qualquer dor, mas devem 
lembrar que, ao agirem assim, podem estar minimizando 
uma dor que somente ele sentiu. Contudo, podemos cons-
tatar que a adoção é uma composição entre afastamento e 
aproximação. A criança ou o adolescente, com o passar do 
tempo da convivência junto aos novos pais, se pergunta: 
“como eles podem me amar, se minha outra família me re-
jeitou?”. E, com esse questionamento, passa a ver os novos 
pais de forma diferente, tornando-se mais acessível à apro-
26 | LeilA bAstos medeiros
ximação. Por esta razão, a adoção torna-se um evento dife-
renciado, pois é uma conquista diária.
É essencial a presença ativa dos pais nesse período 
de adaptação. Uma vida familiar afetuosa e participativa 
é inicada, voltada à criança ou ao adolescente, e deve ser 
estendida aos familiares (avós, tios, primos e amigos). Pas-
seios, encontros familiares, brincadeiras e muito diálogo 
fazem parte deste contexto.
O filho deve sentir-se envolvido no núcleo familiar. 
Se existirem outros filhos, que eles tenham seu momento 
entre irmãos. O respeito pelo filho deve ser demonstrado.A 
sustentação do diálogo é indispensável e salutar. Ouvir o 
filho olhando-o nos olhos os levará a conhecê-lo melhor. 
Escute-o com atenção. A escuta ativa eleva a auto estima, 
reforça o vínculo e a confiança mútua. É importante que 
seu filho sinta que está sendo ouvido, respeitado, sem re-
forçar uma reação de medo, opressão e agressividade. Ser 
amigo é relevante, contudo o papel de pais deve prevale-
cer: aqueles que educam dando bons exemplos. Cada um 
tem sua personalidade e limitações independentemente de 
idade cronológica. Portanto, aceitar o filho como ele é irá 
ajudar na aproximação e conquista da confiança.
Observar o filho recém-chegado, aprender como ele 
se comunica, suas reações, expressões e sentir sua inse-
gurança ou qualquer descontentamento não são tarefas 
fáceis. Quanto mais tempo essa criança ou adolescente 
fica institucionalizado, mais retraído se mostrará. Não 
se pode esperar que a criança saiba se expressar verbal-
mente, e muitas vezes ela reagirá com comportamentos 
inesperados.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 27
Na maioria das vezes, o filho, ao chegar ao seu novo 
lar terá uma convivência familiar diária somente com os 
pais. Com certeza irá estranhar o silêncio e a ausência dos 
amigos do acolhimento se fará presente. 
Tudo é diferente. A nova realidade pode fazer aflo-
rar comportamentos como agressividade, distanciamento 
ou até moléstias. São conflitos internos ou lembranças do 
convívio com a família biológica causando insegurança.
A rotina dos novos pais é alterada completamente 
com a chegada do filho: pediatra, dentista, às vezes fonoau-
diólogo e psicólogo. Se é uma criança em idade escolar, um 
pedagogo. Também a alimentação, que, dependendo do 
novo lar, lhe fornecerá alimentos que talvez nem conheça.
Lembramos que essa criança ou adolescente ainda se 
sente institucionalizado, com hábitos diferentes da nova 
família, sem limites e sem identidade. Ele desaprendeu a 
ser filho.
Schettini (2017, p. 28), quanto à convivência, ainda 
ressalta:
No dia a dia da convivência com o filho adotivo, vamos 
percebendo que nada se aprende instantaneamente. A 
aprendizagem de algo novo exige um processo que, aos 
poucos, vai consolidando a mudança do comportamento 
que propomos ao outro.
Esses pais, diante da realidade que agora lhes per-
tence, descobrirão que o filho não é perfeito. Ele vem com 
mágoas, revoltas, dores, lembranças, baixa autoestima, di-
ficuldades cognitivas e de expressão, enfim, peculiarida-
des que precisarão ser trabalhadas e superadas, podendo 
ser menos dolorosas com auxílio de profissionais.
28 | LeilA bAstos medeiros
É prioridade desses pais reconhecerem quando não 
têm condições de transpor barreiras sozinhos. As dificul-
dades do filho devem respeitar o tempo dele. Não devem 
exigir aquilo que ele não tem ou no momento não pode 
oferecer. Desempenhar o papel de pais com amor, atenção 
e gestos de afeto desencadeará resultado positivo na rela-
ção parental. 
Alimentar altas expectativas para que o filho seja o 
que os pais desejam e querer acelerar a construção de laços 
afetivos levará a um único caminho: a frustração. Os pais 
se realizam através da busca de seus próprios sonhos; o 
filho terá os dele.
Crianças e adolescentes, quando oriundos de aco-
lhimento, muitas vezes apresentam limitações quanto ao 
aprendizado. É interessante consultar um pedagogo para 
uma avaliação mais precisa, indicando qual nível esco-
lar esse filho estará capacitado a frequentar. Pais criam e 
educam. 
Há responsabilidades civis como gerir sustento, edu-
cação, moradia e saúde, preservando a integridade física, 
moral e psicológica da criança ou adolescente. 
Participar das atividades e festividades da escola, 
auxiliar na execução das lições, levar e buscar na escola e 
revisar cadernos são atribuições que fazem parte do paco-
te de responsabilidades dos pais, bem como formas de de-
monstrar interesse pelo que o filho realiza, passando-lhe 
confiança e afeto. São momentos de aproximação.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 29
A adoção é um parto com muitas dores. Diferenças 
a serem superadas, exemplos e explicações a serem dados, 
expectativas desmedidas, exposição da nova realidade ao 
filho, formação de caráter, construção de identidade e 
preconceito. 
Esse preconceito atinge pais e filhos adotivos. É uma 
questão cultural, já que, na maioria das vezes, adotar é um 
recurso dos inférteis. Os pais não devem ignorar atitudes 
desrespeitosas: basta não as valorizar, mostrando a quem 
discrimina que ser pai/mãe e filho não envolve biologia, 
mas uma relação de afeto, respeito e pertencimento.
O resultado da adoção depende da motivação e au-
toavaliação dos pais.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 31
3 
Quando a adoção não dá certo
Quando tratamos de filhos biológicos, sabemos que 
tudo gira em torno de expectativas geradas por emoção, 
surpresa, espera pelo período de nove meses, idas ao mé-
dico, ouvir os batimentos cardíacos do bebê, saber que o 
filho, na medida do possível, será saudável. Ele nascerá, 
terá um lar e será esperado com carinho pelos avós, tios e 
irmãos. Crescerá sendo amado.
Porém, ao nos referirmos à filiação por adoção, ela é 
vista, ainda, por muitas pessoas por outro viés. 
Adoção é sinônimo de superação, autoconhecimen-
to, amor, paciência, acolhimento e resiliência. Schettini 
(2017, p. 59) lembra que “as dores que nascem do convívio 
familiar atingem a todos indiscriminadamente,embora de 
forma singular”.
O tempo vai passando e as dificuldades na convi-
vência familiar tornam-se mais frequentes, aleijando todo 
um processo. A comunicação entre pais e filho torna-se 
engessada, sem desenvolvimento e envolvimento. 
As expectativas se transformam em frustração, e o 
tão sonhado filho não é como os pais esperavam. Esse dis-
curso, na verdade, esconde uma dura realidade: esses pais 
não foram pais de fato: pais não desistem. 
A real motivação pode ter sido o amor, mas não sufi-
cientemente grande e tampouco incondicional. 
32 | LeilA bAstos medeiros
Não existem pais perfeitos. Existem pais que, no mo-
mento de dor na adoção, não sabem ou não conseguem 
reagir diante dos conflitos, transformando o erro em 
aprendizado e proporcionando ao filho a desconstrução 
da sensação de abandono.
Berthoud apud Reis R R (2011, <http://catolicadea-
napolis.edu.br>) entende que o sistema familiar em crise, 
ao longo do processo de adoção, necessita de um apoio es-
pecífico, a fim de evitar ou manejar sofrimento e situações 
traumáticas decorrentes. 
Conflitos fazem parte da vida, existem em todas as 
famílias. Se pegarmos um filho biológico como exemplo, 
sabemos que os pais o consideram filho desde a gestação, 
e esse fato estabelece que essa relação parental seja para 
sempre.
Outrossim, o filho adotivo passa a ser filho, de fato e 
de direito, e os conflitos existentes devem ser transpostos.
Ribeiro apud Reis R R (2011, <http://catolicadeana-
polis.edu.br>) entende que a lei da adoção busca observar 
e aprofundar os fundamentos constitucionais e sociais do 
ECA, principalmente no que se refere à garantia de direi-
tos como a convivência familiar, a proteção integral e a 
prioridade de observância do melhor interesse da criança 
e do adolescente.
O filho biológico pode ser entregue à adoção ou 
seus pais destituídos do poder familiar. Contudo, quando 
é adotado e a convivência familiar não prospera, os pais 
tendem a devolvê-lo, fato que é mais comum do que se 
imagina. 
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 33
Por outro lado, também existem situações em que os 
assistentes sociais e psicólogos, ao perceberem o desencon-
tro, preferem recolher a criança ou adolescente novamente 
ao acolhimento para evitar mais traumas.
A Constituição Federal de 1988 estabelece, com pro-
priedade, que:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado 
assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com ab-
soluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, 
à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dig-
nidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e 
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de 
negligência, discriminação, exploração, violência, cruel-
dade e opressão. (Redação alterada pela Emenda Consti-
tucional nº 65, de 13/07/2010 – DOU 14/07/2010.)
A pergunta que fazemos é: onde foi parar o tão acla-
mado desejo de ter um filho? A prioridade, do ponto de 
vista dos pais, foi a criança ou adolescente ou eles próprios?
Ao decidir pela adoção por uma forte e aparente mo-
tivação, esses pais se consideraram prontos para acolher, 
criar e educar esse filho em nome de um amor incondi-
cional. Foram aclamados à condição de aptos a adotar e 
avaliados psicologicamente.
O que vemos nesses casos é o despreparo desses pais 
gerado pela falta de consciência e autoavaliação. A adoção 
visa oportunizar à criança ou ao adolescente uma família 
estruturada tanto emocional como psicologicamente, e, 
através desse ato, retirá-la da situação de vulnerabilidade. 
Uma criança ou adolescente criado em um ambiente fami-
liar saudável não é colocado para adoção. O filho que ocu-
pa esse lugar por adoção passa a ser desconstituído como 
34 | LeilA bAstos medeiros
membro familiar a partir do momento em que os medos 
dos pais o bloqueiam emocionalmente, alicerçando os de-
sencontros na convivência familiar.
Para a psicanalista Ghirardi apud Mundo Advogados 
(2016, <http://mundoadvogados.com/artigos>), ainda há o 
fator denominado por ela como “fantasia da devolução”, 
na qual estamos acostumados a devolver aquilo que não 
nos pertence, o que pode passar com crianças adotadas. 
O pertencimento se suprime, o afastamento ganha 
espaço e os laços afetivos se perdem.
Imaginar um filho é um direito, mas enfrentar a sua 
realidade é bem diferente, ainda mais no processo de ado-
ção, em que crianças e adolescentes trazem uma bagagem 
com tantas dores em suas lembranças, e muitos deles ain-
da sentem as dores físicas decorrentes das agressões. 
Diante do despreparo dos pais, é iminente mais um 
sofrimento para o filho: outro abandono, muito embora a 
adoção seja um ato irreversível e irrevogável.
Contudo, nesta situação adversa, cuja dor e senti-
mento de frustração destrói os sonhos da criança ou do 
adolescente, pensemos nos pais. Devemos nos perguntar 
se, além das dificuldades decorrentes da convivência fa-
miliar, que outras razões contribuem para a ruptura dos 
laços afetivos. Não podemos julgar. Não é de nossa compe-
tência. Porém, é notório que algo escapou do controle, não 
somente dos pais, mas também do sistema, invalidando o 
processo da adoção. É relevante revermos as etapas perti-
nentes à adoção, mais especificamente àquela que habili-
tou estes pais.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 35
O Estado, por meio de seus Juizados da Infância e 
Juventude, tem por mérito, o controle e fiscalização destes 
menores sob sua responsabilidade, bem como do processo 
de adoção, juridicamente, garantindo-os integridade físi-
ca, social, emocional e psicológica, promovendo, assim, o 
direito à convivência familiar saudável e digna.
Por ora, surge uma dúvida. Até que ponto esse con-
trole e fiscalização são eficientes e eficazes, pois apesar 
das inúmeras palestras e avaliações que os pretendentes 
a pais são submetidos, ainda prevalecem falhas onde todo 
um processo psicológico e emocional sucumbe e quem 
mais sai prejudicado, de forma cruel, são as crianças e os 
adolescentes. Essa situação nos causa inquietação. Sabe-
mos do empenho das equipes técnicas que atuam nessa 
caminhada, procurando fortalecer de forma efetiva, todo 
o processo. Todavia, os tempos mudaram, outros recur-
sos profissionais surgem e, entendemos que urge inserir 
no quadro da equipe técnica psicólogos especialistas em 
Psicologia Forense.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 37
4
Reflexos psicoemocionais e 
sociais na criança e adolescente 
rejeitados na adoção
4.1 Quem sou eu?
De uma forma contrária ao sentimento que levou à 
adoção, a criança ou adolescente é novamente descartado 
e excluído de sua família. Um filme de dor e sofrimento já 
assistido. 
Esperarmos que esse filho tenha a compreensão 
quanto a mais um abandono é incoerente. Ele não possui 
mecanismos de defesa suficientes para superar o fracasso. 
Quando ocorre a desconstituição da adoção, e por 
iniciativa dos pais o filho é devolvido como um produto 
com defeito de fábrica, torna-se efetivo o descumprimento 
do ECA, do Novo Código Civil e da CF/1988, cuja priori-
dade é proteger e preservar a criança e o adolescente.
É de nosso conhecimento que o Novo Código Civil 
em seu Art. 186, estabelece que aquele que, por ação ou 
omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar 
direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente 
moral, comete ato ilícito. 
Muito embora saibamos que o ato da adoção é uma 
prática antiga, e hoje irrevogável, ainda não há na legis-
lação sanções que estabeleçam punição para os pais que 
abandonam seu filho que chega por meio da adoção. As 
38 | LeilA bAstos medeiros
sentenças ora proferidas dependem do entendimento dos 
juízes diante das situações apresentadas. 
Alguns deliberam indenizações por dano moral e 
psicológico à criança ou ao adolescente envolvido; outros 
chegam a sentenciar uma pensão alimentícia, juntando-se 
a essas penalidades a destituição do poder familiar.
Para Souza (2015, p. 66), “a relação familiar éper-
meada por muitos sentimentos, e os pais que desistem bus-
cam solução para seus próprios conflitos”. 
O rompimento de laços afetivos que foram construí-
dos pelo convívio familiar via adoção causa mágoa pro-
funda e danos por vezes irreparáveis.
Para Içami Tiba, citado por Rocha apud Braga L L 
(2016, www.compedi.org.br/publicacoes), atesta que “a 
devolução funciona como uma bomba para a autoestima 
da criança”, e complementa: “é melhor que ela nunca seja 
adotada a ser adotada e devolvida”.
Existem casos, principalmente de adolescentes, nos 
quais a extensão da dor é tão grande, que expressam sua 
vontade, após tantas adoções fracassadas, de permanecer 
nos abrigos até completarem 18 anos. É como atingir al-
guém no mesmo lugar com duas facadas. 
A rejeição resultante de um repetido abandono nutre 
a sensação de vazio existencial, ou, melhor dizendo, perda 
de identidade. O filho, novamente excluído, tem afetada 
sua dignidade e autoestima; sente-se incompreendido e 
também culpado pelo insucesso do processo, bem como 
desprotegido. 
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 39
Por instabilidade emocional, poderá tornar-se 
agressivo e retraído; apresentar problemas de depressão, 
gagueira, dificuldades cognitivas, carência afetiva, e não 
conhecerá o verdadeiro sentido de “instituição familiar”.
O que esperar de uma criança ou adolescente que 
tem interrompida a construção de sua identidade e caráter 
em decorrência de mais uma rejeição? Toda vez que são 
transformados em seres invisíveis, lhes negando o direito 
à convivência familiar, ultrapassando os limites da discri-
minação e respeito, seus egos são covardemente atingidos. 
E, numa sociedade onde poucos vivem e milhares sobre-
vivem, cada adoção malograda, além das consequências já 
expostas, oportuniza o surgimento de mais alguns incluí-
dos na marginalidade criminosa. Filho não é um produ-
to a ser devolvido. Filho merece respeito e precisa de pais 
com responsabilidade e dispostos a se doarem, repassando 
princípio e valores.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 41
Considerações finais
A adoção é um tema cuja discussão ainda não se es-
gotou. É um ato de responsabilidade para toda a vida, de-
cidido voluntariamente, em que a prioridade é, essencial-
mente, preservar a integridade da criança e do adolescente.
Tornar-se pai ou mãe é um dos maiores desafios hu-
manos, e quando se trata dessa realização via adoção, deve 
ser considerado o fato de que o filho tão desejado chegará 
pronto biologicamente, mas com o psicológico enfraqueci-
do, confuso e inseguro.
Não há espaço na adoção para lamentações pela si-
tuação de desamparo e solidão do adotado, nem para sen-
timento de pena. Adotar é acolher, respeitar, amar, con-
quistar, construir, formar um ser que sofre pelo abandono 
e sonha em ter uma família e um lar. Ser pais envolve 
vocação.
As pessoas devem ter a consciência e a certeza ab-
solutas quanto à motivação que as levou a adotar. Não se 
trata de experimentar se a construção dos laços afetivos 
vai ou não dar certo, mas de uma trajetória que depende 
de quanto sentimento, doação, paciência e pertencimento 
serão investidos nessa relação. Toda convivência apresenta 
conflitos. É normal. Porém, os pais devem manter a mente 
aberta para que se, por força das circunstâncias, não tive-
rem condições de superar dificuldades, procurem ajuda de 
profissional especializado.
42 | LeilA bAstos medeiros
Nas inúmeras leituras que fiz para compilar esta 
obra, tive a oportunidade de firmar a importância do pro-
fissional com habilitação em psicologia jurídica na com-
posição das equipes técnicas nos juizados da infância e 
juventude e posterior acompanhamento no transcorrer da 
convivência familiar que se instaura, visto que tem por ob-
jetivo auxiliar o direito com seu conhecimento em saúde 
mental e técnicas próprias, capazes de prever e prevenir e 
até mesmo instigar possíveis condutas comportamentais. 
Muito embora a Psicologia Forense seja uma ciência nova 
tem muito a acrescentar, e a cada dia torna-se mais presen-
te com sua essência de considerar, explicar e fundamentar 
a conduta humana, por meio de diferentes vivências dos 
indivíduos e, assim, auxiliando os agentes do direito em 
suas tomadas de decisões e sentenças.
A adoção não é um recurso para sanar frustração, mas 
um meio que atende a uma necessidade do nosso “eu” que vê 
na paternidade/maternidade uma realização plena. Filho é fi-
lho, independentemente da forma como chega. É imprescin-
dível sentir-se pronto para assumir esse compromisso afetivo 
e civil para o resto da vida, de maneira consciente. 
O desenvolvimento dessa relação parental vai depen-
der do que impeliu os adotantes a se tornarem pais através 
da adoção. Deve-se considerar sempre a cada atitude ou 
comportamento dessa criança ou adolescente que ele não 
pode ser magoado, rejeitado ou excluído. Existem princí-
pios essenciais nas relações humanas: respeito, lealdade e 
verdade. Os pais não devem temer ao falar com seu filho 
sobre sua história. É um direito. É importante que ele sai-
ba de onde veio, de que forma tornou-se filho e o porquê 
foi separado de sua família de origem. É a identidade dele 
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 43
que está em jogo. Não é de bom tom ignorar que a adoção 
tem dois pesos e uma medida: dois pesos, duas vidas; uma 
medida, o amor. É fundamental ao tomar a decisão de 
adoção, que a prioridade é a criança ou o adolescente. Os 
pais são os responsáveis pela formação destes menores. Ao 
romperem os laços afetivos e abandonarem seu filho que 
retorna ao lar de acolhimento, podem estar contribuindo 
para o nascimento de mais um indivíduo com desvio de 
conduta. E esta responsabilidade é INTRANSFERÍVEL.
No que diz respeito à responsabilidade jurídica decor-
rente do ato, são válidas as sentenças punitivas proferidas 
aos pais que devolvem seus filhos. Contudo, deve-se pensar 
em sanções específicas. Hoje, os juízes deliberam segundo o 
seu entendimento. Acredito que uma das alternativas seria 
desabilitar esses pais à adoção, já que não foram capazes de 
preservar e priorizar a integridade psicoemocional e social 
do filho, evitando que venham a traumatizar outra criança 
ou adolescente, e ressaltando à sociedade, desse modo, que 
adotar deve sempre ser o real desejo de tornar-se pais, e ja-
mais a busca da cura de uma frustração.
Adoção A responsAbilidAde de um Ato de Amor | 45
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