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Epistemologia da história da psicologia

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mentais, sendo corporais, morrem com ele.
A mente ativa de Aristóteles é a resposta às ideias puras de Platão. Para Platão, todo o conhecimento seria um esforço para chegar às ideias puras de que temos ténue recordação. A posição de Aristóteles parece diferente porque as essências, os universais, numa palavra, as ideias puras, estão em nós em potência e são atingidas através do poder de atualização que é a mente ativa. Mas essa mente ativa, tal como as ideias puras, é exterior à mente individual. Embora com terminologia e elaboração diferente, também em Platão é necessário um esforço para chegar à razão.
Só muito mais tarde, com Guilherme de Occam, se defendeu que os universais são categorias puramente psicológicas.
Ainda assim, a formulação da “mente ativa” é um progresso importante relativamente ao Platão. Em Platão, a mente recorda-se da verdade que contemplou fora do corpo. Em Aristóteles a mente adquire capacidades de organização e de transformação das experiências sensoriais que permitem o pensamento abstrato. Tem, em si, as regras necessárias para chegar à verdade. É, pois, uma mente autónoma.
Conclusão sobre Aristóteles:
Apesar de todas as faltas de clareza e as aparentes contradições, o texto é uma tentativa de compreender a perceção, a ação e os processos internos, numa perspetiva comparada.
Quando se trata da mente, tenta uma caracterização do funcionamento conjunto do pensamento e da perceção. Em ambos os casos haveria uma captura da forma pelo sujeito de conhecimento; a mente faria uma espécie de abstração das formas e relacioná-las-ia. Aristóteles apresenta, assim, a primeira teoria psicológica autónoma.
A mente de Aristóteles implica três coisas diferentes mas relacionadas:
· O mecanismo invisível que anima, que dá vida aos organismos;
· O princípio agente que é responsável, nos animais, pelo comportamento intencional;
· A capacidade do planeamento e de pensamento abstrato.
Além disso, considerando a mente ativa imortal, implicaria uma quarta coisa:
· Um princípio espiritual que há em todos os homens e que lhes permite o entendimento.
Aristóteles tentou integrar os vários significados que a palavra “alma” tinha no seu tempo:
· Responsável pelo movimento e pela agência (Tales e os ímanes);
· Responsável pela vida (psyche);
· Responsável pelo desejo (thymus);
· Capaz de fazer juízos éticos e racionais (nous);
· É, pelo menos em grande parte, apenas material, mas tornado possível por uma agência sobrenatural (Deus).
Epicurismo e Estoicismo:
As duas escolas do pensamento costumam ser apresentadas conjuntamente porque os seus ensinamentos éticos, embora fundados em filosofias quase opostas, convergem na tentativa de definir uma vida justa.
O Estoicismo:
Para os estoicos, o mundo é todo material: compõe-se de corpos que existem no espaço e no tempo. Esse mundo é como que uma projeção da inteligência divina e, por isso, tem lógica e significado. Deus forma o mundo, destrói-o a seguir, volta a criá-lo, num ciclo sem fim. Como o mundo criado é o próprio Deus, cada criação é exatamente igual à anterior e tudo o que acontece é exatamente igual ao que já aconteceu.
Os corpos que compõem o mundo dividem-se em agentes e pacientes. Os agentes efetuam uma modificação no paciente. A alma, dado que é um agente, é um cirpo que age sobre outro corpo. A alma dirige o corpo a partir de um centro, o hegemonikon, em que convergem as sensações e de onde emanam as ações.
A alma humana adulta, que é racional, deve compreender que o mundo é Deus e que, por isso, o que acontece é o que tem de acontecer.
Há quem, na ignorância deste plano divino em que tudo tende para o bem, se revolte contra o destino e que tenha medo, desejo, que procure o prazer ou que sinta tristeza. Mas é um erro em que os sábios não cairão: sabendo que o que sucede é o que Deus desejou, aceitá-lo-ão com equanimidade e não se deixarão atrair pelos bens materiais como a saúde, a riqueza, o estatuto, o prazer. Em vez disso tentarão atingir a apatheia, isto é, a ausência de emoções que corresponde à serenidade do espírito, contentes por se conformar com a vontade de Deus. Não é que os prazeres sejam evitados, mas não são considerados valores realmente bons.
Há duas incongruências nesta teoria:
· Se a alma humana é racional, esperar-se-ia que todas as pessoas chegassem à verdade. Mas não é assim, todos somos sujeitos às paixões irracionais;
· Mas, se a alma é racional, de onde vêm estes sentimentos? A resposta é que eles vêm do ambiente e são ensinados. Mas, de onde é que vem a convicção de que são ensinados?
· A alma é identificada fisicamente com o centro das emoções. Então, se a alma é identificada com as emoções, como é possível declara que essas emoções são exteriores à alma?
· Se o mundo é uma repetição necessária que emana de Deus, esperar-se-ia não só que os acontecimentos fossem inalteráveis, mas também que a minha reação a eles o seja. Mas não o é.
Ou seja, tudo é determinado menos a minha decisão de aceitar ou não essa determinação; mas essa decisão, a sermos congruentes, também teria de ser determinada. 
Tudo se passa como se a afirmação de materialismo determinista se aplicasse aos acontecimentos exteriores a mim mas que tudo o que é interior, toda a minha atitude mental perante o que sucede dependesse apenas de mim, da minha vontade. E neste sentido, a posição estoica traduziria afina um dualismo matéria/mente disfarçado de materialismo.
Importa compreender que o estoicismo pretendeu enfatizar a importância do autocontrolo e da autodeterminação emocional.
Epicuro:
Talvez se possa resumir a sua teoria em dois pontos principais: o materialismo
anti metafísico e a ética. Epicuro era materialista: tudo era matéria, mesmo os deuses, seres perfeitos e imóveis que achava não interferirem em nada na ação humana. Recuperou a tradição jónica, e particularmente de Demócrito, e defendeu que tudo era feito de átomos. Há uma infinidade deles, mas não são todos do mesmo tipo: são diferentes consoante as substâncias a que vão dar origem – por exemplo, os da alma são redondos, porque a alma é subtil. Como há um número infinito de átomos, haverá um número infinito de cosmos. As coisas formam-se pelo entrechocar de átomos.
Se tudo é material, a perceção e a mente também o devem ser. Segundo Epicuro, toda a mente é perceção: consiste em imagens mentais obtidas por perceção e em combinações dessas imagens mentais. Contudo, os humanos têm livre-arbítrio, não são completamente determinados e podem resistir às suas tendências.
Defende que não se deve teorizar sobre o que não se vê. Mas que é Importante encontrar explicações não-metafísicas mas materiais para o que sucede.
A filosofia deve ocupar-se de saber como devemos levar uma vida boa e ter prazer. O prazer a que Epicuro se refere é a ausência de dor. Por isso, os prazeres que nos escravizam –o poder, o sexo, as riquezas, o comer e beber– devem ser obtidos com moderação, apenas na medida em que são necessários. Estando livre da escravidão dos prazeres básicos e das interações sociais penosas poderemos encontrar um estado de paz de espírito, a ataraxia, que é o prazer supremo.
Para chegar a esse estado tem de não se temer o desconhecido, de suportar a dor com indiferença, de não temer a morte. E Epicuro tem uma fórmula para isso: quem está morto não sente a morte, porque a alma se dissolve em átomos depois da morte. Ou seja, não se pode temer um estado em que nunca se vai estar, porque depois de morto cessarei de existir e de sentir. A morte é-me alheia e eu sou alheio à morte, e por isso não a devo temer.
A posição de Epicuro tem semelhança superficial com a estoica na medida em que em ambas a paz de espírito e a indiferença ao que sucede é o objetivo, mas as razões são muitíssimo diferentes. Nos estoicos a apatheia é atingida por se compreender que o mundo é perfeito, que foi feito por Deus e que tudo tem de acontecer como acontece; e no epicurismo a ataraxia deve ser atingida porque é a forma superior de prazer, e qualquer formulação de hipóteses sobre a estrutura do mundo deve ser evitada.