Prévia do material em texto
SOCIOLOGIA E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO. SAMBA E FAVELA LUÍS FERNANDO MARCO1* Resumo: O artigo pretende estabelecer a relação que existe entre cultura popular (com ênfase no samba do morro), principalmente a partir da Década de 1930, e a importância da periferia enquanto responsável por essa estética musical. Nesta senda, temos um patrimônio imaterial constituído por clássicos do cancioneiro popular e essa riqueza cultural deve ser levada para a sala de aula, também por conta da obrigatoriedade da Lei da Música, mas principalmente por que o ensino da história da música, abordando inclusive os aspectos sociológicos, pode ser uma ferramenta facilitadora para a compreensão da importância da cultura popular e da própria história do Brasil. Importante ressaltar que a pesquisa teve forte influência do pesquisador José Ramos Tinhorão, inclusive quando conceitua a música popular. Por fim, e não menos importante, busca-se, através do samba, ilustrar a realidade dos assentamentos informais do Brasil. Palavras-Chave: Samba. Periferia. Favela. Cultura popular. José Ramos Tinhorão. Sociology and Brazilian popular music in the context of education Abstract: The article intends to establish the relationship between popular culture (with emphasis on samba do morro), especially since the 1930s, and the importance of the periphery as responsible for this musical aesthetic. In this path, we have an immaterial heritage constituted by classics of the popular songbook and this cultural richness must be taken to the classroom, also because of the obligation of the Music Law, but mainly because teaching the history of music, including sociological aspects, can be a facilitating tool for understanding the importance of popular culture and the history of Brazil itself. It is important to note that the research was strongly influenced by the researcher José Ramos Tinhorão, even when he conceptualized popular music. Last but not least, samba seeks to illustrate the reality of informal settlements in Brazil. Keywords: Samba. Periphery. Slum. Popular culture. José Ramos Tinhorão. INTRODUÇÃO O estudo da Música Popular Brasileira é uma ferramenta facilitadora da compreensão da História do Brasil e do povo brasileiro. Tal assertiva se reveste de importância na medida em que os alunos do Ensino Fundamental e Médio pouco ou nenhum conhecimento têm a respeito da história da música brasileira e a *Bacharel em Direito, Pedagogo e Pós-graduado em Gestão Pública. Advogado e Professor. importância dos movimentos culturais. A partir da análise das letras das composições, pode se vislumbrar a constante evolução dos costumes e as crônicas de cada período. Nesse viés, estabelecemos as conexões entre o samba enquanto gênero musical e a favela, em nível de assentamento informal, que muitas vezes serviu de inspiração para os compositores. O SAMBA No momento em que estudamos a Música Popular no Brasil, a Década de 1930, a partir da ascensão de Getúlio Vargas foi pontual para a popularização do Samba. Em meio ao cenário político da época temos, por assim dizer, a consolidação da Música Popular, sendo o samba o primeiro gênero de música urbana com ampla aceitação nacional. O Mestre José Ramos Tinhorão explicita a gênese do samba nos seguintes termos: “A história do samba carioca é, assim, a história da ascensão social contínua de um gênero de música popular urbana, num fenômeno em tudo semelhante ao do jazz, nos Estados Unidos. Fixado como gênero musical por compositores de camadas mais baixas da cidade, a partir de motivos ainda cultivados no fim do Século XIX por negros oriundos da zona rural, o samba criado à base de instrumentos de percussão passou ao domínio da classe média, que o vestiu com orquestrações logo estereotipadas. E o lançou comercialmente como música de salão. A partir desse momento, ao correr da década de 30, passou a haver não um samba, mas vários tipos de samba, conforme a camada social a que se dirigia: os netos dos negros da zona da Saúde subiram os morros tocados pela valorização do centro urbano e continuaram a cultivar o samba batucado logo conhecido por “samba de morro”; a baixa classe média aderiu ao samba sincopado (o samba de gafieira); a camada mais acima descobriu o samba-canção, e, finalmente, a alta classe média forçou o aboleramento do ritmo do samba-canção, a fim de torná-lo equivalente ao balanço dos fox-blues tocados por orquestras de gosto internacional no escurinho das boates. 2 ” 2 TINHORÂO, José Ramos. Música Popular: um Tema em Debate. São Paulo: Editora 34, 1997, p. 20,21. Outra definição interessante sobre o samba foi proposta por Oneyda Alvarenga quando explica: “o samba urbano é filho do Rio de Janeiro. Através do rádio e do disco, avassalou a vida musical popular e burguesa das cidades do Brasil inteiro.” (Alvarenga, 1945, p. 293) A década de 1930 foi pontual para a expansão da música brasileira por causa pelo aparecimento dos rádios providos de válvulas elétricas, o que conferia mais qualidade na recepção das ondas, favorecendo “o estabelecimento de uma tão grande intimidade entre a fonte emissora e seu público...” (Tinhorão, 1978, p. 314). As mudanças ocorridas nesse período são documentadas nas composições, como por exemplo, o samba Não tem tradução do vilaisabelense Noel Rosa, quando trata das modificações no linguajar da população por influência do colonialismo cultural através do cinema falado e as particularidades do português brasileiro, principalmente das gírias dos morros cariocas, o que podemos verificar nesse trecho: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia Com voz macia é brasileiro, já passou de português Amor lá no morro é amor pra chuchu A gíria do samba não tem I love you E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny Só pode ser conversa de telefone.” Noel é apontado como o responsável por fazer a união do samba do morro com o asfalto. Ora, não há registro de “samba do asfalto”, porém um clássico de Noel Rosa chamado Palpite Infeliz faz uma referência ao samba da Vila Isabel que apesar de não se localizar no morro, “só quer mostrar que faz samba também”. Além do jovem Noel Rosa, falecido em 1937, com apenas 26 anos e autor de uma obra de mais de 200 composições, vários importantes compositores protagonizaram a cena musical naquele período: Lamartine Babo, Ary Barroso, Wilson Baptista, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Orestes Barbosa, João de Barro, e intérpretes como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida e Francisco Alves, esse último também chamado de o Rei da Voz. A FAVELA Uma canção chamada Favela composta por Hekel Tavares e Joracy Camargo foi um dos grandes sucessos de 1933, com sua letra evocando as saudades da amada e os tempos felizes em que moravam no morro. No Carnaval Me lembro tanto da favela Onde ela morava Tudo que eu tinha Era uma esteira e uma panela E ela gostava Por isso eu ando Pelas ruas da cidade Vendo que a felicidade Foi aquilo que passou E a favela Que era minha e que era dela Só deixou muita saudade Porque o resto ela levou A visão romântica da favela era costumeiramente retratada nesse período, não havendo referência à miséria e falta de infraestrutura existente. Nesse diapasão, Francisco Alves gravou em 1936 o samba Favela de autoria de Roberto Martins e Valdemar Silva: Favela oi, favela Favela que guardo no meu coração Ao recordar com saudade A minha felicidade Favela dos sonhos de amor E do samba-canção. Hoje tão longe de ti Se vejo a lua surgir Eu relembro a batucada E começo a chorar Favela das noites de samba Berço dourado dos bambas Favela é tudo que eu posso falar. Minha favela querida Onde eu sentiminha vida Presa a um romance de amor Numa doce ilusão E uma saudade bem rara Na distância que nos separa Eu guardo de ti esta recordação. Outro clássico do cancioneiro popular que trata dessa temática é Chão de Estrelas, de autoria de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, lançada em 1937, descrevendo um cenário no qual uma submoradia se transforma em um “palco iluminado” onde o protagonista só enxergava a beleza de sua amada, apesar da precariedade da habitação: ...A porta do barraco era sem trinco Mas a lua furando o nosso zinco Salpicava de estrelas nosso chão Tu pisavas nos astros, distraída Sem saber que a ventura desta vida É a cabrocha, o luar e o violão... Mais uma obra significativa é Barracão de Zinco, composta por Herivelton Martins e interpretada com maestria por sua então esposa Dalva de Oliveira, abordando a beleza do morro e remetendo o ouvinte a uma atmosfera religiosa, como se verifica nos seguintes versos: ...e o morro inteiro No fim do dia Reza uma prece Ave Maria. Para além, também a letra retrata a visão mais linda do Rio de Janeiro, transmitindo a ideia de que não é necessário luxo, porque os moradores do morro já vivem em uma situação privilegiada por estarem “pertinho do céu”. As favelas, cortiços e áreas congêneres ocupadas por famílias de baixa renda são comuns nos países em desenvolvimento, sendo definidas como assentamentos informais: Do ponto de vista da irregularidade urbanística, consideram-se assentamentos informais as ocupações de terras sem condições urbano-ambientais para serem usadas para moradia, tais como terras inundáveis, contaminadas, próximas a lixões, sem infraestrutura, com difícil acesso a transporte público, centros de emprego, educação, serviços de saúde, com construções de moradias sem condições de habitabilidade, com densidades extremas. (ALFONSIN, Betânia; FERNANDES, Edésio (Org.), Belo Horizonte, p 31. O fato é que no Brasil tivemos bem poucas políticas sociais voltadas para a habitação popular. Na década de 1960, nasceu o Banco Nacional de Habitação e o Sistema Financeiro de Habitação (SFH), por força da Lei 4.380 de 21 de agosto de 1964, cujo objetivo era fomentar a política de captação de recursos para financiar habitações através das cadernetas de poupança e recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Após esse período, pouco ou nenhum avanço ocorreu. No Governo Fernando Henrique Cardoso, o maior destaque foi o Programa de Arrendamento Residencial, muito embora quase nenhuma política foi especificamente direcionada para as favelas. Porém, o destaque desse período foi a aprovação do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) que instituiu diversos mecanismos voltados ao planejamento urbano das cidades, inclusive dispondo sobre regularização fundiária de assentamentos informais. No Governo Lula, ocorreram vários avanços como o Programa de Aceleração do Crescimento e o Minha Casa Minha Vida, mas insuficientes para resolver o problema da habitação no Brasil. E quando se fala em favela no Brasil, há que se fazer essa contextualização, até porque na década de 1960 e antes disso, não havia a percepção do grande problema que viria causar às cidades aqueles núcleos habitacionais informais, os quais com o passar do tempo foram crescendo a tal ponto que hoje algumas favelas têm a população de pequenas e médias cidades. O paulista Adoniran Barbosa, cujo nome de batismo era João Rubinato, nascido em Valinhos, compôs dois sambas relacionados à dura realidade das pessoas moradoras de assentamentos que são objeto de reintegração de posse, o que também é uma triste realidade brasileira, seja pela ausência de políticas habitacionais, tendo como consequência um enorme passivo socioambiental, seja pelos aparelhos repressivos do Estado, consubstanciado pela força policial que remove as famílias destas áreas. Um das sambas é o conhecidíssimo Saudosa Maloca: Se o senhor não tá lembrado Dá licença de contar Ali onde agora está Este adifício arto Era uma casa véia, um palacete assobradado Foi aqui seu moço Que eu, Mato Grosso e o Joca Construimos nossa maloca Mas um dia Nóis nem pode se alembrá Veio os home com as ferramenta E o dono mandô derrubá Peguemos todas nossas coisas E fumos pro meio da rua apreciá a demolição Que tristeza que nóis sentia Cada táuba que caía Doía no coração Matogrosso quis gritar Mas em cima eu falei Os home tá cá razão Nóis arranja outro lugar Só se conformemo Quando o Joca falou Deus dá o frio conforme o cobertô E hoje nós pega a paia Nas grama do jardim E pra esquecer nóis cantemos assim Saudosa maloca, maloca querida Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossa vida Saudosa maloca, maloca querida Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossa vida É difícil ouvir este samba e não recordar o triste episódio que foi a reintegração de posse ocorrida em 2012 na Comunidade do Pinheirinho, município de São José dos Campos/SP, uma área de 1.300.000 m² e uma população estimada entre 6 mil e 9 mil habitantes, os quais foram removidos do local. Há um outro samba, não tão conhecido de Adoniran, que trata da mesma temática, intitulado Despejo na Favela: Quando o oficial de justiça chegou Lá na favela E, contra seu desejo Entregou pra seu Narciso Um aviso, uma ordem de despejo — Assinada, seu doutor Assim dizia a petição "Dentro de dez dias Quero a favela vazia E os barracos todos no chão" — É uma ordem superior Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! É uma ordem superior Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! É uma ordem superior — Não tem nada não, seu doutor Não tem nada não Amanhã mesmo vou deixar meu barracão Não tem nada não, seu doutor Vou sair daqui Pra não ouvir o ronco do trator — Pra mim não tem 'probrema' Em qualquer canto eu me arrumo De qualquer jeito eu me ajeito Depois, o que eu tenho é tão pouco Minha mudança é tão pequena Que cabe no bolso de trás ...Mas essa gente aí, hein? Como é que faz? Mas essa gente aí, hein? Com'é que faz? Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! Essa gente aí Como é que faz? Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! Essa gente aí, hein?! Como é que faz? A pergunta do protagonista ao juiz simboliza a impotência da população mais pobre frente ao poder do Estado que muitas vezes representa os interesses da elite econômica, da especulação imobiliária e do capital: ”Mas essa gente aí, hein? Como é que faz?”. Nessa belíssima (e porque não dizer, atual) composição de 1969, Adoniran constrói um drama social a partir do propalado progresso paulistano na gestão de Faria Lima, onde os pobres não tinham oportunidade (JR. Celso de Campos, p. 442). Essa lógica perversa sempre impediu uma parte significativa da população brasileira, principalmente os mais pobres, de ter acesso à moradia, considerando este um direito basilar e insculpido no Art. 6º da Constituição Federal, o qual o coloca como direito social, na mesma categoria do direito à educação, saúde, trabalho, lazer, dentre outros. Nesse sentido, a lógica capitalista de exploração da terra impõe aos mais pobres a moradia em áreas distantes do centro e por vezes insalubres: Em relação a isso, na maior parte das cidades de países em desenvolvimento a era de acesso fácil a terrenos urbanos há muito tempo acabou, uma vez que o avanço da urbanização terminou por ocupar as melhores áreas para desenvolvimento ao redor de muitas cidades. Muito embora alguns terrenos localizados em setores urbanos e periurbanos sejam frequentemente de propriedade de órgãos dos governos, as grandes empresas incorporadoras, que constroem principalmente visando famílias de renda alta e média, agora parecem ser donas da maior parte dos lotes adequados à construção que ainda restam. Os valores reduzidos, os altos requisitos técnicos e as dificuldadespolíticas dos impostos sobre a propriedade imobiliária nos países em desenvolvimento permitem que esses grandes proprietários de terras continuem mantendo os terrenos, incorrendo em custos reduzidos. (FREIRE, Mila et al, p. 47) Além da questão da irregularidade fundiária, soma se o fato de que as moradias são edificadas em sistema de autoconstrução, sem projeto arquitetônico tampouco urbanístico, com falta de acessibilidade e carência de serviços básicos como abastecimento de água, energia elétrica, recolhimento de resíduos, etc. Uma composição que resume muito bem a realidade supra é Arquitetura de Pobre, de autoria de Edgar Barbosa e Joacyr Santana e imortalizada nas interpretações de Aracy de Almeida e Ismael Silva no espetáculo O samba pede passagem no ano de 1966, bem como no Show Resistindo do Quarteto em Cy em 1977. A letra condensa de maneira simples e brilhante essa lógica perversa, consequência do capitalismo voraz e insaciável e da especulação imobiliária que impede o acesso dos mais pobres a condições condignas de habitação. Arquitetura de pobre É barraco espetado na beira do barranco Ele vai levando a vida aos solavancos E o doutor com dinheiro no banco. Um samba fundamental que ilustra o nascimento de uma favela, casualmente também intitulado Favela, composto por Jorginho Pessanha e Padeirinho da Mangueira em 1966, explica pormenorizadamente o processo de ocupação de uma área não edificada por moradores sem teto. A divisão dos lotes, a construção das casas, o processo de ocupação em si, tudo passa como um filme a medida em que o samba é executado: Numa vasta extensão Onde não há plantação Nem ninguém morando lá Cada pobre que passa por ali Só pensa em construir seu lar E quando o primeiro começa Os outros depressa procuram marcar Seu pedacinho de terra pra morar E assim a região sofre modificação Fica sendo chamada de a nova aquarela E é aí que o lugar Então passa a se chamar favela E assim, através dos sambas, podemos vislumbrar a poesia que descreve desde a visão romântica e idílica do morro e da periferia até a descrição nua e crua de sua realidade e o apartheid social que existe no Brasil, onde o centro da polis é permeado de riqueza enquanto as franjas das cidades encontram-se em situação de vulnerabilidade social. Porém, sempre há esperança de uma virada de mesa, de uma ação revolucionária e da voz do morro se levantar contra aqueles que oprimem. E a trilha sonora dessa revolução com certeza terá essa pérola em seu repertório (composta pelo Mestre Wilson das Neves): O dia em que o morro descer e não for carnaval ninguém vai ficar pra assistir o desfile final na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil (é a guerra civil) No dia em que o morro descer e não for carnaval não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral e cada uma ala da escola será uma quadrilha a evolução já vai ser de guerrilha e a alegoria um tremendo arsenal o tema do enredo vai ser a cidade partida no dia em que o couro comer na avenida se o morro descer e não for carnaval O povo virá de cortiço, alagado e favela mostrando a miséria sobre a passarela sem a fantasia que sai no jornal vai ser uma única escola, uma só bateria quem vai ser jurado? Ninguém gostaria que desfile assim não vai ter nada igual Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga nem autoridade que compre essa briga ninguém sabe a força desse pessoal melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria senão todo mundo vai sambar no dia em que o morro descer e não for carnaval. Um belíssimo samba composto por Leandro Sapucahy e interpretado com maestria pelo cantor Arlindo Cruz impõe uma reflexão profunda exaltando o povo trabalhador que mora na favela e reparte o pão e faz uma indagação desconcertante: “Como é que essa gente tão boa é vista como marginal?” Entendo esse mundo complexo Favela é a minha raiz Sem rumo, sem tino, sem nexo E ainda feliz. Nem sempre a maldade humana Está em quem porta um fuzil Tem gente de terno e gravata Matando o Brasil acima de tudo Favela, ô Favela que me viu nascer Eu abro o meu peito e canto o amor por você. Favela, ô Favela que me viu nascer Só quem te conhece por dentro Pode te entender. O povo que sobe a ladeira Ajuda a fazer mutirão Divide a sobra da feira E reparte o pão. Como é que essa gente tão boa É vista como marginal Eu acho que a sociedade Tá enxergando mal Entendo esse mundo complexo Favela é a minha raiz Sem rumo,sem tino,sem nexo E ainda feliz. Nem sempre a maldade humana Está em quem porta um fuzil Tem gente de terno e gravata Matando o Brasil acima de tudo E, como só falamos de samba enquanto música da periferia (ou a ela destinada), há que se registrar um outro gênero musical muito em voga atualmente e também objeto de preconceito, como foi o samba em tempos remotos: o funk. E há uma música, composta em 1995 pelos MCs Cidinho e Doca falando da favela de uma forma icônica e esperançosa, apontando tempos felizes para os moradores desses assentamentos e consequentemente para toda a cidade, considerando que a polis é uma só. Eu só quero é ser feliz Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é E poder me orgulhar E ter a consciência que o pobre tem seu lugar Eu só quero é ser feliz Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é E poder me orgulhar E ter a consciência que o pobre tem seu lugar Mas eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz Onde eu nasci, E poder me orgulhar E ter a consciência que o pobre tem seu lugar Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer Com tanta violência eu sinto medo de viver Pois moro na favela e sou muito desrespeitado A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado Eu faço uma oração para uma santa protetora Mas sou interrompido à tiros de metralhadora Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela O pobre é humilhado, esculachado na favela Já não aguento mais essa onda de violência Só peço a autoridade um pouco mais de competência Por fim, resta a certeza de que a periferia faz parte da cidade e com ela se mescla pois as pessoas são cidadãs no mesmo espaço urbano, tendo os mesmos direitos, devendo ser olhadas da mesma forma. Há que se referendar o Mestre Milton Santos quando define a favela nesses termos: Favelas e cortiços constituem, nos países subdesenvolvidos, uma realidade mutável [...] com efeito a favela não reúne todos os pobres de uma cidade, e nem todos que nela vivem podem ser definidos segundo os mesmos critérios de pobreza. Uma favela pode compreender tanto biscateiros, que vivem de rendas ocasionais, como assalariados dos serviços e das indústrias e mesmo pequenos empresários. (p. 75) CONSIDERAÇÕES FINAIS A precariedade da moradia no Brasil serviu (e continuará servindo) de inspiração para a criação de belas, tristes e paradigmáticas canções. Ao pensar na favela enquanto espaço urbano destinado à moradia, precisamos entender que há duas realidades dentro da mesma cidade. As pessoas que moram em bairros mais centrais desconhecem a realidade da periferia onde infelizmente, além da precariedade das habitações e das deficiências de infraestrutura, os moradores não possuem a segurança da posse, ou seja de uma hora para outra podem ser despejados do local por conta de uma reintegração de posse. Temos ainda os problemas de violência, esgoto a céu aberto, falta de acessibilidade (imagine uma pessoa cadeirante moradora no alto de um morro) que impede o tráfego de ambulâncias, caminhões de lixo, viaturas policiais... enfim, são tantas as mazelas que essas pessoas enfrentam que poderíamos compor uma canção. E são tantas as canções, dos mais variados gêneros, que denunciam, exaltam, romantizam as particularidadesde um espaço multifacetado e repleto de cores, aromas, temperaturas e pontos de vista, que poderíamos montar um repertório de canções com a palavra Favela. Tal como esse artigo! Referências ALVARENGA, Oneyda. Música Popular Brasileira. Porto Alegre: Editora Globo, 1945. ALFONSIN, Betânia; FERNANDES, Edésio (Org.). Direito à moradia e segurança da posse no Estatuto da Cidade: diretrizes, instrumentos e processos de gestão. Belo Horizonte: Fórum, 2006. FREIRE, Mila et al. Land and urban policies for poverty reduction. Washington: IPEA, 2007. CAMPOS JUNIOR, Celso de. Adoniran, uma biografia. São Paulo: Globo, 1994 SANTOS, Milton. O Espaço Dividido – os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. São Paulo: Edusp, 2004. SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo. 85 anos de músicas brasileiras. Vol. 1: 1901-1957. São Paulo: Editora 34, 1997. TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998. _______________. Música popular, um tema em debate. São Paulo: Editora 34, 1997.