Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

SOCIOLOGIA E MÚSICA POPULAR BRASILEIRA 
NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO. SAMBA E FAVELA 
LUÍS FERNANDO MARCO1* 
 
Resumo: O artigo pretende estabelecer a relação que existe entre cultura popular 
(com ênfase no samba do morro), principalmente a partir da Década de 1930, e a 
importância da periferia enquanto responsável por essa estética musical. Nesta 
senda, temos um patrimônio imaterial constituído por clássicos do cancioneiro 
popular e essa riqueza cultural deve ser levada para a sala de aula, também por 
conta da obrigatoriedade da Lei da Música, mas principalmente por que o ensino da 
história da música, abordando inclusive os aspectos sociológicos, pode ser uma 
ferramenta facilitadora para a compreensão da importância da cultura popular e da 
própria história do Brasil. Importante ressaltar que a pesquisa teve forte influência do 
pesquisador José Ramos Tinhorão, inclusive quando conceitua a música popular. 
Por fim, e não menos importante, busca-se, através do samba, ilustrar a realidade 
dos assentamentos informais do Brasil. 
 
Palavras-Chave: Samba. Periferia. Favela. Cultura popular. José Ramos Tinhorão. 
 
Sociology and Brazilian popular music in the context of education 
 
Abstract: The article intends to establish the relationship between popular culture 
(with emphasis on samba do morro), especially since the 1930s, and the importance 
of the periphery as responsible for this musical aesthetic. In this path, we have an 
immaterial heritage constituted by classics of the popular songbook and this cultural 
richness must be taken to the classroom, also because of the obligation of the Music 
Law, but mainly because teaching the history of music, including sociological 
aspects, can be a facilitating tool for understanding the importance of popular culture 
and the history of Brazil itself. It is important to note that the research was strongly 
influenced by the researcher José Ramos Tinhorão, even when he conceptualized 
popular music. Last but not least, samba seeks to illustrate the reality of informal 
settlements in Brazil. 
Keywords: Samba. Periphery. Slum. Popular culture. José Ramos Tinhorão. 
 
INTRODUÇÃO 
 
O estudo da Música Popular Brasileira é uma ferramenta facilitadora da 
compreensão da História do Brasil e do povo brasileiro. Tal assertiva se reveste de 
importância na medida em que os alunos do Ensino Fundamental e Médio pouco ou 
nenhum conhecimento têm a respeito da história da música brasileira e a 
 
*Bacharel em Direito, Pedagogo e Pós-graduado em Gestão Pública. Advogado e Professor. 
importância dos movimentos culturais. A partir da análise das letras das 
composições, pode se vislumbrar a constante evolução dos costumes e as crônicas 
de cada período. Nesse viés, estabelecemos as conexões entre o samba enquanto 
gênero musical e a favela, em nível de assentamento informal, que muitas vezes 
serviu de inspiração para os compositores. 
 
O SAMBA 
No momento em que estudamos a Música Popular no Brasil, a Década de 
1930, a partir da ascensão de Getúlio Vargas foi pontual para a popularização do 
Samba. Em meio ao cenário político da época temos, por assim dizer, a 
consolidação da Música Popular, sendo o samba o primeiro gênero de música 
urbana com ampla aceitação nacional. O Mestre José Ramos Tinhorão explicita a 
gênese do samba nos seguintes termos: 
 
“A história do samba carioca é, assim, a história da ascensão social 
contínua de um gênero de música popular urbana, num fenômeno em 
tudo semelhante ao do jazz, nos Estados Unidos. Fixado como gênero 
musical por compositores de camadas mais baixas da cidade, a partir 
de motivos ainda cultivados no fim do Século XIX por negros oriundos 
da zona rural, o samba criado à base de instrumentos de percussão 
passou ao domínio da classe média, que o vestiu com orquestrações 
logo estereotipadas. E o lançou comercialmente como música de 
salão. A partir desse momento, ao correr da década de 30, passou a 
haver não um samba, mas vários tipos de samba, conforme a camada 
social a que se dirigia: os netos dos negros da zona da Saúde subiram 
os morros tocados pela valorização do centro urbano e continuaram a 
cultivar o samba batucado logo conhecido por “samba de morro”; a 
baixa classe média aderiu ao samba sincopado (o samba de gafieira); a 
camada mais acima descobriu o samba-canção, e, finalmente, a alta 
classe média forçou o aboleramento do ritmo do samba-canção, a fim 
de torná-lo equivalente ao balanço dos fox-blues tocados por 
orquestras de gosto internacional no escurinho das boates.
2
” 
 
 
 
2
 TINHORÂO, José Ramos. Música Popular: um Tema em Debate. São Paulo: Editora 34, 1997, p. 20,21. 
 Outra definição interessante sobre o samba foi proposta por Oneyda 
Alvarenga quando explica: 
 
“o samba urbano é filho do Rio de Janeiro. Através do rádio e do 
disco, avassalou a vida musical popular e burguesa das cidades do 
Brasil inteiro.” (Alvarenga, 1945, p. 293) 
 
A década de 1930 foi pontual para a expansão da música brasileira por causa 
pelo aparecimento dos rádios providos de válvulas elétricas, o que conferia mais 
qualidade na recepção das ondas, favorecendo “o estabelecimento de uma tão 
grande intimidade entre a fonte emissora e seu público...” (Tinhorão, 1978, p. 314). 
As mudanças ocorridas nesse período são documentadas nas composições, 
como por exemplo, o samba Não tem tradução do vilaisabelense Noel Rosa, quando 
trata das modificações no linguajar da população por influência do colonialismo 
cultural através do cinema falado e as particularidades do português brasileiro, 
principalmente das gírias dos morros cariocas, o que podemos verificar nesse 
trecho: 
 
“Tudo aquilo que o malandro pronuncia 
Com voz macia é brasileiro, já passou de português 
Amor lá no morro é amor pra chuchu 
A gíria do samba não tem I love you 
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny 
Só pode ser conversa de telefone.” 
 
Noel é apontado como o responsável por fazer a união do samba do morro 
com o asfalto. Ora, não há registro de “samba do asfalto”, porém um clássico de 
Noel Rosa chamado Palpite Infeliz faz uma referência ao samba da Vila Isabel que 
apesar de não se localizar no morro, “só quer mostrar que faz samba também”. 
Além do jovem Noel Rosa, falecido em 1937, com apenas 26 anos e autor de 
uma obra de mais de 200 composições, vários importantes compositores 
protagonizaram a cena musical naquele período: Lamartine Babo, Ary Barroso, 
Wilson Baptista, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Orestes Barbosa, João de Barro, e 
intérpretes como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida e Francisco Alves, 
esse último também chamado de o Rei da Voz. 
 
A FAVELA 
 
 Uma canção chamada Favela composta por Hekel Tavares e Joracy Camargo 
foi um dos grandes sucessos de 1933, com sua letra evocando as saudades da 
amada e os tempos felizes em que moravam no morro. 
 
No Carnaval 
Me lembro tanto da favela 
Onde ela morava 
Tudo que eu tinha 
Era uma esteira e uma panela 
E ela gostava 
Por isso eu ando 
Pelas ruas da cidade 
Vendo que a felicidade 
Foi aquilo que passou 
E a favela 
Que era minha e que era dela 
Só deixou muita saudade 
Porque o resto ela levou 
 
A visão romântica da favela era costumeiramente retratada nesse período, 
não havendo referência à miséria e falta de infraestrutura existente. Nesse diapasão, 
Francisco Alves gravou em 1936 o samba Favela de autoria de Roberto Martins e 
Valdemar Silva: 
 
Favela oi, favela 
Favela que guardo no meu coração 
Ao recordar com saudade 
A minha felicidade 
Favela dos sonhos de amor 
E do samba-canção. 
Hoje tão longe de ti 
Se vejo a lua surgir 
Eu relembro a batucada 
E começo a chorar 
Favela das noites de samba 
Berço dourado dos bambas 
Favela é tudo que eu posso falar. 
Minha favela querida 
Onde eu sentiminha vida 
Presa a um romance de amor 
Numa doce ilusão 
E uma saudade bem rara 
Na distância que nos separa 
Eu guardo de ti esta recordação. 
 
Outro clássico do cancioneiro popular que trata dessa temática é Chão de 
Estrelas, de autoria de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, lançada em 1937, 
descrevendo um cenário no qual uma submoradia se transforma em um “palco 
iluminado” onde o protagonista só enxergava a beleza de sua amada, apesar da 
precariedade da habitação: 
 
...A porta do barraco era sem trinco 
Mas a lua furando o nosso zinco 
Salpicava de estrelas nosso chão 
Tu pisavas nos astros, distraída 
Sem saber que a ventura desta vida 
É a cabrocha, o luar e o violão... 
 
Mais uma obra significativa é Barracão de Zinco, composta por Herivelton 
Martins e interpretada com maestria por sua então esposa Dalva de Oliveira, 
abordando a beleza do morro e remetendo o ouvinte a uma atmosfera religiosa, 
como se verifica nos seguintes versos: 
 
...e o morro inteiro 
No fim do dia 
Reza uma prece 
Ave Maria. 
 
Para além, também a letra retrata a visão mais linda do Rio de Janeiro, 
transmitindo a ideia de que não é necessário luxo, porque os moradores do morro já 
vivem em uma situação privilegiada por estarem “pertinho do céu”. 
 As favelas, cortiços e áreas congêneres ocupadas por famílias de baixa renda 
são comuns nos países em desenvolvimento, sendo definidas como assentamentos 
informais: 
 
Do ponto de vista da irregularidade urbanística, consideram-se 
assentamentos informais as ocupações de terras sem condições 
urbano-ambientais para serem usadas para moradia, tais como terras 
inundáveis, contaminadas, próximas a lixões, sem infraestrutura, com 
difícil acesso a transporte público, centros de emprego, educação, 
serviços de saúde, com construções de moradias sem condições de 
habitabilidade, com densidades extremas. (ALFONSIN, Betânia; 
FERNANDES, Edésio (Org.), Belo Horizonte, p 31. 
 
O fato é que no Brasil tivemos bem poucas políticas sociais voltadas para a 
habitação popular. Na década de 1960, nasceu o Banco Nacional de Habitação e o 
Sistema Financeiro de Habitação (SFH), por força da Lei 4.380 de 21 de agosto de 
1964, cujo objetivo era fomentar a política de captação de recursos para financiar 
habitações através das cadernetas de poupança e recursos do Fundo de Garantia 
por Tempo de Serviço (FGTS). 
Após esse período, pouco ou nenhum avanço ocorreu. No Governo Fernando 
Henrique Cardoso, o maior destaque foi o Programa de Arrendamento Residencial, 
muito embora quase nenhuma política foi especificamente direcionada para as 
favelas. 
Porém, o destaque desse período foi a aprovação do Estatuto da Cidade (Lei 
10.257/2001) que instituiu diversos mecanismos voltados ao planejamento urbano 
das cidades, inclusive dispondo sobre regularização fundiária de assentamentos 
informais. 
No Governo Lula, ocorreram vários avanços como o Programa de Aceleração 
do Crescimento e o Minha Casa Minha Vida, mas insuficientes para resolver o 
problema da habitação no Brasil. 
E quando se fala em favela no Brasil, há que se fazer essa contextualização, 
até porque na década de 1960 e antes disso, não havia a percepção do grande 
problema que viria causar às cidades aqueles núcleos habitacionais informais, os 
quais com o passar do tempo foram crescendo a tal ponto que hoje algumas favelas 
têm a população de pequenas e médias cidades. 
 
O paulista Adoniran Barbosa, cujo nome de batismo era João Rubinato, 
nascido em Valinhos, compôs dois sambas relacionados à dura realidade das 
pessoas moradoras de assentamentos que são objeto de reintegração de posse, o 
que também é uma triste realidade brasileira, seja pela ausência de políticas 
habitacionais, tendo como consequência um enorme passivo socioambiental, seja 
pelos aparelhos repressivos do Estado, consubstanciado pela força policial que 
remove as famílias destas áreas. Um das sambas é o conhecidíssimo Saudosa 
Maloca: 
 
Se o senhor não tá lembrado 
Dá licença de contar 
Ali onde agora está 
Este adifício arto 
Era uma casa véia, um palacete assobradado 
Foi aqui seu moço 
Que eu, Mato Grosso e o Joca 
Construimos nossa maloca 
Mas um dia 
Nóis nem pode se alembrá 
Veio os home com as ferramenta 
E o dono mandô derrubá 
Peguemos todas nossas coisas 
E fumos pro meio da rua apreciá a demolição 
Que tristeza que nóis sentia 
Cada táuba que caía 
Doía no coração 
Matogrosso quis gritar 
Mas em cima eu falei 
Os home tá cá razão 
Nóis arranja outro lugar 
Só se conformemo 
Quando o Joca falou 
Deus dá o frio conforme o cobertô 
E hoje nós pega a paia 
Nas grama do jardim 
E pra esquecer nóis cantemos assim 
Saudosa maloca, maloca querida 
Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossa vida 
Saudosa maloca, maloca querida 
Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossa vida 
 
É difícil ouvir este samba e não recordar o triste episódio que foi a 
reintegração de posse ocorrida em 2012 na Comunidade do Pinheirinho, município 
de São José dos Campos/SP, uma área de 1.300.000 m² e uma população estimada 
entre 6 mil e 9 mil habitantes, os quais foram removidos do local. Há um outro 
samba, não tão conhecido de Adoniran, que trata da mesma temática, intitulado 
Despejo na Favela: 
 
Quando o oficial de justiça chegou 
Lá na favela 
E, contra seu desejo 
Entregou pra seu Narciso 
Um aviso, uma ordem de despejo 
— Assinada, seu doutor 
Assim dizia a petição 
"Dentro de dez dias 
Quero a favela vazia 
E os barracos todos no chão" 
— É uma ordem superior 
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! 
É uma ordem superior 
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! 
É uma ordem superior 
— Não tem nada não, seu doutor 
Não tem nada não 
Amanhã mesmo vou deixar meu barracão 
Não tem nada não, seu doutor 
Vou sair daqui 
Pra não ouvir o ronco do trator 
— Pra mim não tem 'probrema' 
Em qualquer canto eu me arrumo 
De qualquer jeito eu me ajeito 
Depois, o que eu tenho é tão pouco 
Minha mudança é tão pequena 
Que cabe no bolso de trás 
...Mas essa gente aí, hein? 
Como é que faz? 
Mas essa gente aí, hein? 
Com'é que faz? 
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! 
Essa gente aí 
Como é que faz? 
Ô, ô, ô, ô, ô!, meu senhor! 
Essa gente aí, hein?! 
Como é que faz? 
 
A pergunta do protagonista ao juiz simboliza a impotência da população mais 
pobre frente ao poder do Estado que muitas vezes representa os interesses da elite 
econômica, da especulação imobiliária e do capital: ”Mas essa gente aí, hein? Como 
é que faz?”. 
Nessa belíssima (e porque não dizer, atual) composição de 1969, Adoniran 
constrói um drama social a partir do propalado progresso paulistano na gestão de 
Faria Lima, onde os pobres não tinham oportunidade (JR. Celso de Campos, p. 
442). 
Essa lógica perversa sempre impediu uma parte significativa da população 
brasileira, principalmente os mais pobres, de ter acesso à moradia, considerando 
este um direito basilar e insculpido no Art. 6º da Constituição Federal, o qual o 
coloca como direito social, na mesma categoria do direito à educação, saúde, 
trabalho, lazer, dentre outros. Nesse sentido, a lógica capitalista de exploração da 
terra impõe aos mais pobres a moradia em áreas distantes do centro e por vezes 
insalubres: 
 
Em relação a isso, na maior parte das cidades de países em 
desenvolvimento a era de acesso fácil a terrenos urbanos há muito 
tempo acabou, uma vez que o avanço da urbanização terminou por 
ocupar as melhores áreas para desenvolvimento ao redor de muitas 
cidades. Muito embora alguns terrenos localizados em setores 
urbanos e periurbanos sejam frequentemente de propriedade de 
órgãos dos governos, as grandes empresas incorporadoras, que 
constroem principalmente visando famílias de renda alta e média, 
agora parecem ser donas da maior parte dos lotes adequados à 
construção que ainda restam. Os valores reduzidos, os altos requisitos 
técnicos e as dificuldadespolíticas dos impostos sobre a propriedade 
imobiliária nos países em desenvolvimento permitem que esses 
grandes proprietários de terras continuem mantendo os terrenos, 
incorrendo em custos reduzidos. (FREIRE, Mila et al, p. 47) 
 
 
Além da questão da irregularidade fundiária, soma se o fato de que as 
moradias são edificadas em sistema de autoconstrução, sem projeto arquitetônico 
tampouco urbanístico, com falta de acessibilidade e carência de serviços básicos 
como abastecimento de água, energia elétrica, recolhimento de resíduos, etc. 
Uma composição que resume muito bem a realidade supra é Arquitetura de 
Pobre, de autoria de Edgar Barbosa e Joacyr Santana e imortalizada nas 
interpretações de Aracy de Almeida e Ismael Silva no espetáculo O samba pede 
passagem no ano de 1966, bem como no Show Resistindo do Quarteto em Cy em 
1977. A letra condensa de maneira simples e brilhante essa lógica perversa, 
consequência do capitalismo voraz e insaciável e da especulação imobiliária que 
impede o acesso dos mais pobres a condições condignas de habitação. 
 
Arquitetura de pobre 
É barraco espetado na beira do barranco 
Ele vai levando a vida aos solavancos 
E o doutor com dinheiro no banco. 
 
 Um samba fundamental que ilustra o nascimento de uma favela, casualmente 
também intitulado Favela, composto por Jorginho Pessanha e Padeirinho da 
Mangueira em 1966, explica pormenorizadamente o processo de ocupação de uma 
área não edificada por moradores sem teto. A divisão dos lotes, a construção das 
casas, o processo de ocupação em si, tudo passa como um filme a medida em que 
o samba é executado: 
 
Numa vasta extensão 
Onde não há plantação 
Nem ninguém morando lá 
Cada pobre que passa por ali 
Só pensa em construir seu lar 
E quando o primeiro começa 
Os outros depressa procuram marcar 
Seu pedacinho de terra pra morar 
E assim a região 
sofre modificação 
Fica sendo chamada de a nova aquarela 
E é aí que o lugar 
Então passa a se chamar favela 
 
 E assim, através dos sambas, podemos vislumbrar a poesia que descreve 
desde a visão romântica e idílica do morro e da periferia até a descrição nua e crua 
de sua realidade e o apartheid social que existe no Brasil, onde o centro da polis é 
permeado de riqueza enquanto as franjas das cidades encontram-se em situação de 
vulnerabilidade social. Porém, sempre há esperança de uma virada de mesa, de 
uma ação revolucionária e da voz do morro se levantar contra aqueles que oprimem. 
E a trilha sonora dessa revolução com certeza terá essa pérola em seu repertório 
(composta pelo Mestre Wilson das Neves): 
 
O dia em que o morro descer e não for carnaval 
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final 
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu 
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil 
(é a guerra civil) 
No dia em que o morro descer e não for carnaval 
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral 
e cada uma ala da escola será uma quadrilha 
a evolução já vai ser de guerrilha 
e a alegoria um tremendo arsenal 
o tema do enredo vai ser a cidade partida 
no dia em que o couro comer na avenida 
se o morro descer e não for carnaval 
O povo virá de cortiço, alagado e favela 
mostrando a miséria sobre a passarela 
sem a fantasia que sai no jornal 
vai ser uma única escola, uma só bateria 
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria 
que desfile assim não vai ter nada igual 
Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga 
nem autoridade que compre essa briga 
ninguém sabe a força desse pessoal 
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria 
senão todo mundo vai sambar no dia 
em que o morro descer e não for carnaval. 
 
 Um belíssimo samba composto por Leandro Sapucahy e interpretado com 
maestria pelo cantor Arlindo Cruz impõe uma reflexão profunda exaltando o povo 
trabalhador que mora na favela e reparte o pão e faz uma indagação 
desconcertante: “Como é que essa gente tão boa é vista como marginal?” 
 
Entendo esse mundo complexo 
Favela é a minha raiz 
Sem rumo, sem tino, sem nexo 
E ainda feliz. 
Nem sempre a maldade humana 
Está em quem porta um fuzil 
Tem gente de terno e gravata 
Matando o Brasil acima de tudo 
Favela, ô 
Favela que me viu nascer 
Eu abro o meu peito e canto o amor por você. 
Favela, ô 
Favela que me viu nascer 
Só quem te conhece por dentro 
Pode te entender. 
O povo que sobe a ladeira 
Ajuda a fazer mutirão 
Divide a sobra da feira 
E reparte o pão. 
Como é que essa gente tão boa 
É vista como marginal 
Eu acho que a sociedade 
Tá enxergando mal 
Entendo esse mundo complexo 
Favela é a minha raiz 
Sem rumo,sem tino,sem nexo 
E ainda feliz. 
Nem sempre a maldade humana 
Está em quem porta um fuzil 
Tem gente de terno e gravata 
Matando o Brasil acima de tudo 
E, como só falamos de samba enquanto música da periferia (ou a ela 
destinada), há que se registrar um outro gênero musical muito em voga atualmente e 
também objeto de preconceito, como foi o samba em tempos remotos: o funk. E há 
uma música, composta em 1995 pelos MCs Cidinho e Doca falando da favela de 
uma forma icônica e esperançosa, apontando tempos felizes para os moradores 
desses assentamentos e consequentemente para toda a cidade, considerando que a 
polis é uma só. 
Eu só quero é ser feliz 
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é 
E poder me orgulhar 
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar 
Eu só quero é ser feliz 
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é 
E poder me orgulhar 
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar 
Mas eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz 
Onde eu nasci, 
E poder me orgulhar 
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar 
Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer 
Com tanta violência eu sinto medo de viver 
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado 
A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado 
Eu faço uma oração para uma santa protetora 
Mas sou interrompido à tiros de metralhadora 
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela 
O pobre é humilhado, esculachado na favela 
Já não aguento mais essa onda de violência 
Só peço a autoridade um pouco mais de competência 
 
Por fim, resta a certeza de que a periferia faz parte da cidade e com ela se 
mescla pois as pessoas são cidadãs no mesmo espaço urbano, tendo os mesmos 
direitos, devendo ser olhadas da mesma forma. Há que se referendar o Mestre 
Milton Santos quando define a favela nesses termos: 
 
Favelas e cortiços constituem, nos países subdesenvolvidos, uma 
realidade mutável [...] com efeito a favela não reúne todos os pobres de 
uma cidade, e nem todos que nela vivem podem ser definidos segundo 
os mesmos critérios de pobreza. Uma favela pode compreender tanto 
biscateiros, que vivem de rendas ocasionais, como assalariados dos 
serviços e das indústrias e mesmo pequenos empresários. (p. 75) 
 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 A precariedade da moradia no Brasil serviu (e continuará servindo) de 
inspiração para a criação de belas, tristes e paradigmáticas canções. Ao pensar na 
favela enquanto espaço urbano destinado à moradia, precisamos entender que há 
duas realidades dentro da mesma cidade. As pessoas que moram em bairros mais 
centrais desconhecem a realidade da periferia onde infelizmente, além da 
precariedade das habitações e das deficiências de infraestrutura, os moradores não 
possuem a segurança da posse, ou seja de uma hora para outra podem ser 
despejados do local por conta de uma reintegração de posse. 
 Temos ainda os problemas de violência, esgoto a céu aberto, falta de 
acessibilidade (imagine uma pessoa cadeirante moradora no alto de um morro) que 
impede o tráfego de ambulâncias, caminhões de lixo, viaturas policiais... enfim, são 
tantas as mazelas que essas pessoas enfrentam que poderíamos compor uma 
canção. 
 E são tantas as canções, dos mais variados gêneros, que denunciam, 
exaltam, romantizam as particularidadesde um espaço multifacetado e repleto de 
cores, aromas, temperaturas e pontos de vista, que poderíamos montar um 
repertório de canções com a palavra Favela. Tal como esse artigo! 
Referências 
 
ALVARENGA, Oneyda. Música Popular Brasileira. Porto Alegre: Editora Globo, 
1945. 
ALFONSIN, Betânia; FERNANDES, Edésio (Org.). Direito à moradia e segurança da 
posse no Estatuto da Cidade: diretrizes, instrumentos e processos de gestão. Belo 
Horizonte: Fórum, 2006. 
FREIRE, Mila et al. Land and urban policies for poverty reduction. Washington: IPEA, 
2007. 
CAMPOS JUNIOR, Celso de. Adoniran, uma biografia. São Paulo: Globo, 1994 
SANTOS, Milton. O Espaço Dividido – os dois circuitos da economia urbana dos 
países subdesenvolvidos. São Paulo: Edusp, 2004. 
SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo. 85 anos de 
músicas brasileiras. Vol. 1: 1901-1957. São Paulo: Editora 34, 1997. 
TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo: 
Editora 34, 1998. 
_______________. Música popular, um tema em debate. São Paulo: Editora 34, 
1997.

Mais conteúdos dessa disciplina