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Autor: Prof. Marcelo S. Zambon Colaboradores: Profa. Sandra Castilho Prof. Guilherme Juliani Carvalho Gestão Mercadológica Professor conteudista: Marcelo S. Zambon Doutor em Administração pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP-2015). Mestre em Administração (2004), Especialista em Marketing e Educação a Distância e Bacharel em Administração (UNIMEP-2001) e Bacharel em Ciências Econômicas (2015). © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Z13 Zambon, Marcelo S. Gestão Mercadológica / Marcelo S. Zambon. – São Paulo: Editora Sol, 2020. 156 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Marketing. 2. Mercado. 3. Comunicação. I. Título. CDU 658.8 U508.74 – 20 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcello Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Deise Alcantara Carreiro – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Ana Fazzio Sumário Gestão Mercadológica APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................9 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................9 Unidade I 1 CONCEITOS, ENTENDIMENTOS E APLICAÇÕES DE MARKETING ................................................... 11 1.1 O marketing no cotidiano das pessoas ........................................................................................ 11 1.2 Definições de marketing .................................................................................................................... 13 1.2.1 Torrens: uma posição visionária ....................................................................................................... 14 1.2.2 Outras definições de marketing ........................................................................................................ 15 1.2.3 O profissional de marketing e as condições de demanda ...................................................... 18 1.3 O marketing é ........................................................................................................................................ 19 1.3.1 Tipos de marketing ................................................................................................................................. 20 1.3.2 Níveis de análise de marketing ......................................................................................................... 21 1.3.3 Orientações tradicionais de marketing .......................................................................................... 21 1.4 Administração de marketing ........................................................................................................... 22 1.5 O marketing na sociedade brasileira: introdução ................................................................... 26 1.6 A evolução do marketing no Brasil ............................................................................................... 26 1.6.1 Principais fases do marketing no Brasil ......................................................................................... 28 1.7 As bases do marketing moderno ................................................................................................... 35 1.8 O marketing e a contemporaneidade .......................................................................................... 36 1.9 O composto de marketing ................................................................................................................ 41 1.9.1 O produto ................................................................................................................................................... 42 1.9.2 O preço ........................................................................................................................................................ 42 1.9.3 A praça ........................................................................................................................................................ 42 1.9.4 A promoção ............................................................................................................................................... 43 1.10 Escopo de marketing ........................................................................................................................ 43 1.11 O marketing é uma ciência ou não: o conceito de ciência ............................................... 45 1.12 Sinopse da evolução dos conceitos de marketing ............................................................... 46 2 AMBIENTE DE MARKETING.......................................................................................................................... 47 2.1 Microambiente: ameaças e oportunidades ............................................................................... 48 2.2 Macroambiente: ameaças e oportunidades .............................................................................. 49 2.3 Ambiente demográfico ...................................................................................................................... 51 2.4 Ambiente econômico .......................................................................................................................... 51 2.5 Ambiente político-legal ..................................................................................................................... 52 2.6 Ambiente tecnológico ........................................................................................................................ 52 2.7 Ambiente competitivo ........................................................................................................................ 52 2.8 Ambiente natural ................................................................................................................................. 52 3 SEGMENTAÇÃO DE MERCADO ................................................................................................................... 52 3.1 Aplicação da segmentação ............................................................................................................... 55 3.2 A segmentação e o Brasil .................................................................................................................. 56 3.3 Segmentação de mercado: entendimento ................................................................................ 57 3.4 Importância da segmentação de mercado ................................................................................ 58 3.5 Requisitos da segmentação de mercado .................................................................................... 60 3.6 Formas ou critérios para a segmentação ................................................................................... 62 3.7 Vantagens da segmentação .............................................................................................................62 3.8 Principais variáveis de segmentação de mercado consumidor ......................................... 63 3.9 Diferenciação e segmentação de mercado ................................................................................ 65 3.10 Critérios de segmentação ............................................................................................................... 66 4 MARCAS .............................................................................................................................................................. 66 4.1 Definições ................................................................................................................................................ 66 4.2 Os 13 tipos de marca mais comuns .............................................................................................. 67 4.3 Marcas próprias ..................................................................................................................................... 68 Unidade II 5 INFLUÊNCIA DO MARKETING ..................................................................................................................... 73 5.1 Sistema de Informação em Marketing (SIM) ............................................................................ 77 5.2 Da Pesquisa de Marketing (PM) ao Sistema de Informação de Marketing (SIM) ...... 79 5.3 O Sistema de Informação (SI) .......................................................................................................... 80 5.4 O Sistema de Informação de Marketing (SIM): contexto .................................................... 82 5.5 Quanto aos modelos de Sistemas de Informação de Marketing (SIMs) ........................ 84 5.5.1 Sistema de Inteligência de Marketing ............................................................................................ 85 5.5.2 A pesquisa de marketing ..................................................................................................................... 85 5.5.3 Resumo sobre o Sistema de Informação de Marketing (SIM) .............................................. 87 5.6 Caso para estudo: você tem clientes demais? .......................................................................... 88 5.7 Lançamento de novos produtos ..................................................................................................... 93 5.7.1 O processo de desenvolvimento e lançamento de novos produtos................................... 93 5.7.2 Classificando novos produtos (tipos de novos produtos) ...................................................... 93 5.7.3 O processo de desenvolvimento de novos produtos ................................................................ 95 5.7.4 Novas ideias para novos produtos ................................................................................................... 97 5.7.5 Atenção às características dos novos produtos ......................................................................... 99 5.7.6 A embalagem ..........................................................................................................................................100 5.7.7 O rótulo .....................................................................................................................................................101 5.8 Precificação: estabelecendo o preço dos produtos na ótica do marketing ................102 5.8.1 Uma análise mercadológica da formação de preço ...............................................................102 5.8.2 Preço na perspectiva do vendedor ................................................................................................104 5.8.3 Preço na perspectiva do comprador .............................................................................................104 5.8.4 Principais determinantes da boa precificação ..........................................................................105 6 A COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL ...........................................................................................................105 6.1 No Brasil .................................................................................................................................................106 6.2 As bases da comunicação (modelo clássico de comunicação) ........................................106 6.2.1 A mensagem ...........................................................................................................................................107 6.2.2 Modelo clássico de comunicação...................................................................................................108 6.2.3 Distinção entre forma e meios de comunicação .....................................................................109 6.3 O mix da comunicação de marketing ........................................................................................110 6.4 Reflexão complementar ..................................................................................................................111 6.5 Endomarketing ....................................................................................................................................113 6.6 A comunicação de marketing .......................................................................................................113 6.6.1 Entendendo a comunicação de marketing ................................................................................ 115 6.6.2 A marca e a comunicação ................................................................................................................. 115 6.6.3 O branding e o brand equity ............................................................................................................121 6.7 O plano de comunicação no planejamento organizacional .............................................124 6.7.1 Plano de negócio ................................................................................................................................. 124 6.7.2 Planejamento de marketing (plano de marketing) ................................................................ 124 6.7.3 Planejamento de mídia...................................................................................................................... 126 6.7.4 Planejamento estratégico................................................................................................................. 126 Unidade III 7 A CONSTRUÇÃO DO POSICIONAMENTO: RELEMBRANDO A COMUNICAÇÃO ......................130 7.1 A diferenciação....................................................................................................................................131 7.2 Os micro e macromodelos do processo de comunicação ..................................................132 7.3 A comunicação integrada de marketing ..................................................................................133 7.3.1 Entendendo a estrutura e a forma de comunicação da Comunicação Integrada de Marketing ................................................................................................................................135 8 ÉTICA NA COMUNICAÇÃO .........................................................................................................................146 8.1 Tipos de varejo .....................................................................................................................................147 8.1.1 Tipos de varejo ...................................................................................................................................... 147 9 APRESENTAÇÃO Nosso objetivo na disciplina Gestão Mercadológica é auxiliar o aluno a entender o que o marketing é e faz. Para isso, vamos examinar o marketing no dia a dia das organizações, considerando temas como segmentação de mercado, coleta e análise de informações, gestão de marcas, desenvolvimento de novos produtos e do relacionamento com os clientes, planejamentoestratégico, posicionamento do produto e/ou oferta ao segmento ideal, ciclo de vida do produto, embalagem e rotulagem, processo de precificação, construção de novas marcas, tipos de varejo, compra por impulso e dissonância cognitiva. Com esse percurso, esperamos que o aluno desenvolva competências fundamentais, compreendendo o que o marketing é, para que serve, como e por que deve ser utilizado, e o que se pode esperar dele (potencial de marketing). A proposta é que o aluno se torne capaz de desenvolver novos produtos, serviços e ideias, proporcionando o produto certo, ao cliente certo, da maneira certa. O conteúdo deste material representa uma importante fração organizada do marketing, mas apenas uma fração. Logo, os conhecimentos aqui abordados não devem ser tomados como totais. O campo de estudo é muito mais amplo, com uma infinidade de bons autores e obras para consultar. Além disso, existe bastante material de qualidade disponível na internet. INTRODUÇÃO O marketing está por toda parte. Formal ou informalmente, pessoas e organizações envolvem-se em um grande número de atividades que poderiam ser chamadas de marketing. O bom marketing tem se tornado um ingrediente cada vez mais indispensável para o sucesso nos negócios. E o marketing afeta profundamente nossa vida cotidiana. Ele está em tudo o que fazemos – das roupas que vestimos aos sites em que clicamos, passando pelos anúncios que vemos (KOTLER; KELLER, 2006, p. 2). Embora vários outros tipos de marketing sejam discutidos, e futuramente serão apresentados neste material, o principal foco aqui é o marketing organizacional que visa ao lucro, alocado no nível do micromarketing. Sendo assim, seu olhar concentra-se na administração de marketing, que envolve o que as empresas fazem ou devem fazer para criar valor para si mesmas e, especialmente, para seus clientes, alcançando objetivos que tragam benefícios para as partes e que contribuam para o desenvolvimento de relacionamento sustentável e duradouro. De maneira geral, as tarefas da administração de marketing incluem: [1] desenvolver planos e estratégias de marketing e [2] executar atividades de marketing para implementá-los e controlá-los. Com isso, conhecer o arcabouço do marketing que fará com que você tenha condições de realizar tais tarefas com segurança. 10 A esfera do marketing é muito ampla e igualmente interessante. Faça dela uma ferramenta a seu favor no mundo dos negócios; certamente, sempre encontrará como fazer algo de maneira melhor. Saiba que o marketing não é uma disciplina isolada; pelo contrário, trata-se de um campo do conhecimento fortemente apoiado em outros para se realizar/desenvolver. Tanto na sociologia quanto na psicologia, na ética e na filosofia, o marketing vai buscar conhecimento e ferramentas para sua prática e realização. Além disso, o marketing, dentro da administração de empresas, relaciona-se muito proximamente às diversas disciplinas; por exemplo, as disciplinas que abordam a administração da produção (o marketing busca facilitar e realizar a comercialização de produtos, bem como busca correções nos produtos a fim de torná-los mais desejados etc.), a administração financeira (marketing não existe sem boa administração dos recursos financeiros, bem como sua disponibilidade), as disciplinas responsáveis por processo e projetos, pois, geralmente, o marketing, além de ser executado nesta ótica, relaciona-se com o restante da organização assim administrada. A excelência é alcançada através de seleção ou desenvolvimento de critérios que devem ser rigorosamente postos em prática. O marketing segue esta métrica porque acredita que existe uma técnica para cada atividade mercadológica e administrativa, ou seja, embora tenhamos forte desenvolvimento criativo em marketing, o mesmo se sustenta, primeiramente, em conhecimentos técnicos claramente delineados e que servem de suporte para as inovações. 11 GESTÃO MERCADOLÓGICA Unidade I 1 CONCEITOS, ENTENDIMENTOS E APLICAÇÕES DE MARKETING 1.1 O marketing no cotidiano das pessoas Muito se pode dizer sobre marketing, mas, especialmente, muitos erros podem ser cometidos, como, por exemplo, dizer que marketing é, unicamente, uma técnica de vendas, cuja ideia é empurrar os produtos dos fabricantes para os consumidores. Embora sua aplicação efetiva facilite o processo de comercialização, e também o processo de vendas dos produtos aos interessados (consumidores), o marketing é mais que isso, aliás, ele é muito mais abrangente e faz, ou pode fazer, muito mais pelas organizações do que muitos estão habituados a observar. Então, pare por um momento e reflita: o que marketing de fato é? O que é marketing para você em seu cotidiano? O que é marketing para as organizações que dele fazem uso? O que o marketing faz ou pode fazer? Como o marketing interfere na vida das pessoas, mesmo quando elas não estão diretamente ligadas a ele? Uma boa forma de identificar a presença do marketing na vida das pessoas é pensar no cotidiano delas (para ajudar, pense em seu dia a dia). Imagine que o dia está iniciando. Carlos, jovem profissional recém-formado em arquitetura, que trabalha em uma grande empresa do setor de construção civil, com escritórios por todo o país, acaba de sair da cama e prepara-se para ir trabalhar. No banheiro, ele utiliza, por exemplo, um creme dental da marca Colgate em sua escova de dentes Oral B; água tratada pela Sabesp, através de sua torneira Deca. Também lava o rosto e, ao secá-lo, utiliza uma toalha de rosto Buddemeyer, etc. Todos esses produtos foram comprados por Carlos em algum momento, mas, certamente, a escolha por essas marcas não se deu apenas pelo preço (mais caras ou mais baratas). Ainda falando da presença do marketing no cotidiano das pessoas, Carlos certamente foi, de alguma forma, influenciado pelo marketing, até mesmo no que diz respeito à preparação de sua noite de sono. Veja, por exemplo, que ele utiliza uma cama box da marca Seally, lençóis Artex, travesseiros de pluma de ganso da Trosseox, lençóis da mesma marca, seu aparelho condicionador de ar é da linha ArtCool da LG, e utiliza televisor e aparelho de leitura de DVD também da mesma marca, que usou para assistir a um trecho do filme Uma Mente Brilhante (que levou quatro prêmios do Oscar 2001, incluindo o de melhor filme) da DreamWorks. A presença das marcas no cotidiano das pessoas é, sem dúvida, uma forma de identificar e caracterizar a presença ativa do marketing, mas não se deve confundir o uso do marketing imaginando que seu papel é então o de vender produtos e apontar as marcas existentes apenas. Ele vai muito além; ele é responsável pela criação das marcas e por seu desenvolvimento na mente dos consumidores, 12 Unidade I pela geração de relacionamento entre a marca do fabricante e as marcas dos produtos fabricados, é responsável por chamar a atenção das pessoas para os produtos, sua correta utilização (quando utilizar e como fazê-lo, etc.). Além disso, marketing, num contexto mais focado na comunicação e na interação estabelecida por ela, é responsável por desenvolver e gerenciar o relacionamento entre as organizações e as pessoas, sejam elas clientes, não clientes ou potenciais clientes. Continuando a reflexão sobre a presença do marketing no cotidiano das pessoas, imagine que o arquiteto Carlos acaba de se vestir com uma calça jeans da Forum, meias Selene, cueca Mash, sapatos Democrata, camiseta Hering, um relógio Tissot, lembrando que no cabelo ele passou gel Bozzano e está prestes a sair de casa; agora passa por seu chaveiro e pega a chave de seu carro, um Fiesta sedan da Ford. No caminho do trabalho, ele ouve na rádio Antena1 - FM um comercial de refrigerantes com um trecho que diz “Porque só Coca-Cola é Cola-Cola”; em seguida, ouve um trecho de notícias que relata os acontecimentos mais importantes das últimas horas (como o acidente com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, de 17 de julho de 2007). Passados alguns minutos de direção,Carlos já foi atingido por dezenas de anúncios de produtos e marcas diferentes até o trabalho; além disso, viu no caminho uma infinidade de modelos, marcas e versões diferentes de diversos automóveis. Por fim, já próximo ao escritório da Gafisa (grande e bem-sucedida construtora), Carlos para em uma padaria Barcelona, como faz de costume, para tomar seu café da manhã. Toma café da marca Pilão, com pão francês recém-preparado com presunto Sadia e queijo do tipo prato da marca Crioulo. Por ser um cliente bastante frequente, ele foi incluído no sistema de atendimento a clientes especiais, que lhe confere um cartão de descontos de 12% em tudo o que compra na padaria; além disso, tem suas compras registradas num banco de dados que gera cobranças quinzenalmente, facilitando o processo e diminuindo o tempo nos caixas, já que paga por tudo que consumiu apenas no meio e no final do mês. Então, chega ao escritório da empresa para trabalhar. O exemplo de Carlos (caso fictício, apenas criado como ilustração), na verdade, representa, de maneira clara, embora bastante simplificada, o cotidiano das pessoas e a forte atuação do marketing em suas vidas. Na verdade, seria possível fazer uma descrição muito mais minuciosa do caso e apontar em detalhes, por exemplo, todas as marcas (logotipos e logomarcas) que aparecem no cotidiano de qualquer pessoa, além de todas as interferências de comunicação sonora, como um slogan, jingle ou frase de efeito que diga/cante algo interessante, como “Pipoca na panela começa a arrebentar, que sede que dá...”. A situação apresentada acima ajuda a compreender melhor a presença do marketing, mas, certamente, ainda existem muitas dúvidas sobre ele, especialmente no que diz respeito ao que ele é. Talvez, muitos estejam pensando que marketing é a arte e/ou a técnica de vender ou comunicar produtos. Será isso mesmo? Será que vai além? Então, é hora de uma reflexão sobre as definições mais comuns e aceitas de marketing, definições essas provenientes dos mais diversos e renomados autores e instituições sobre o assunto. 13 GESTÃO MERCADOLÓGICA 1.2 Definições de marketing Para que se possa fazer melhor uso do marketing frente às diferentes realidades possíveis em que o mesmo é utilizado, correspondendo a certas condições conjunturais e permeando peculiaridades que vagueiam entre o generalismo do termo e a ocorrência individualizada e única de seus métodos, é fundamental apresentar as principais definições do termo, que colaboram para seu conhecimento frente às diversas realidades em que o mesmo pode ser empregado e, claro, contribuir para o “pensar marketing”, tendo como pano de fundo o enfrentamento de sua própria realidade contemporânea, competitiva e diferenciadora, numa realidade de acesso (acessibilidade), on-line e em real-time para pessoas e organizações. As instituições, organizações e as pessoas, não por completo, entendem a importância e a abrangência de marketing, mesmo quando isso se dá indiretamente (caso da maioria das pessoas). Muitos compreendem que, seja socioeconômica ou culturalmente, vive-se rodeado por marketing, presente em praticamente tudo que é fabricado, divulgado, comercializado, mesmo nas ações que podem ser descritas como contramarketing (ou contra o marketing e os homens de marketing e as empresas e marcas que representam). Atenção! Na verdade, não fazem sentido posicionamentos contrários, ou mesmo críticas ao marketing propriamente, pois ele é um meio, um ferramental que torna conhecidas as ideias, os produtos, posicionamentos, etc. de quem quer que seja; logo, não é contra o marketing que se luta, mas contra seu uso inadequado proveniente de organizações e pessoas inescrupulosas (por exemplo, campanhas que prometem soluções milagrosas que a ciência ainda não deu conta de criar, afirmações de que o produto faz algo que na verdade não é capaz de fazer propaganda enganosa, etc.). Então, o que marketing é? Seguem algumas definições importantes. Segundo a American Marketing Association (AMA), Marketing é a planificação e execução de um conjunto de atividades comerciais, tendo como objetivo final a troca de produtos, ou serviços, entre produtores e consumidores (GRACIOSO, 1998, p. 10). Tal definição, segundo Gracioso, não reflete completamente a contemporaneidade do termo, talvez porque vários indícios sugiram que ela foi aflorada pelos grandes economistas ingleses dos séculos XVIII e XIX (contemporâneos da Primeira Revolução Industrial). Adam Smith, a princípio, e os economistas clássicos, em seguida, estavam perfeitamente cientes das funções do marketing na economia de um país, assim como a interpretação da definição da AMA, acima, elucida (GRACIOSO, 1998, p. 10). Uma crítica a essa definição refere-se ao modo como muitos economistas a encaravam, ou seja, frente a certos princípios e pensamentos mais ou menos sólidos, acabavam por marginalizar muitos dos fatos da vida real, deixando-os em um plano de análise muito superficial, para não dizer miserável. Consequentemente, muitos acabavam, mesmo que sem tal interesse, alocando o escopo de marketing em um grau de importância secundária, frente ao que se sabe do marketing atualmente. 14 Unidade I Obras como as de Torrens, James Mill e Ricardo acabaram por agravar tal condição, já bastante distorcida, sobre o saber daquilo que se conhece como marketing, pois se concentravam em apenas dois dos principais fatores ligados ao marketing: a produção e a distribuição. Desta forma, o consumidor e o processo de consumo acabaram ficando relegados a condições mínimas, aquém das necessidades do mercado e do potencial do marketing. Uma apreciação crítica sobre os últimos parágrafos, seguramente, sugere que muito tempo se passou antes que se compreendesse que uma nova técnica de produção, capaz de produzir determinado artigo mais rápido e de forma mais econômica, terá apenas valor teórico se não for possível aumentar a capacidade de absorção do mercado para aquele tipo de produto (GRACIOSO, 1998, p. 11). Ou seja, se não houver acréscimo percentualmente mensurável de consumo de um determinado produto, certamente, o que pode existir é apenas uma hipótese (ou teoria), que não corrobora ao sustento de si mesma; por sua vez, se a constatação for possível, ocorre o mesmo que testar tal hipótese e concluir que a mesma apresenta efetivos meios para atingir os resultados idealizados total ou parcialmente. Pense sobre o que adianta produzir mais se a capacidade de consumo não crescer, pelo menos, nos mesmos patamares. Notadamente, essa é uma condição fundamental para o contínuo progresso econômico; logo, a evolução do processo produtivo em resposta ao acréscimo da demanda, ou vice-versa. O marketing se preocupa em aumentar a participação de um produto/marca no mercado, porque o mesmo deve ser mais desejado, não necessariamente porque o número de agentes demandantes (consumidores) cresceu. 1.2.1 Torrens: uma posição visionária Muitos homens e mulheres de marketing definem marketing atualmente como sendo o processo que se destina a levar o produto/serviço certo, ao consumidor certo, no local certo, na hora certa, com o preço e as condições certas. É fácil concordar com essa ideia, especialmente porque seus alicerces, claramente, apontam para os fins do produto/serviço frente ao que o mercado consumidor deseja. Portanto, o que se produz leva em consideração as necessidades1 e os desejos2 do consumidor e reduz-se drasticamente o produzir para vender, entrando em cena o perceber para reagir (produzir). Muitos acreditam que esta seja a melhor e mais sensata forma de entender o marketing. A questão interessante nesta ideia é notoriamente extraordinária; o precursor dela é o próprio economista inglês R. Torrens, que, ao pensar marketing, chegou à seguinte definição: 1 Necessidade – segundo Sheth, Mittal e Newman (2001), é a condição insatisfatória de um cliente, que o leva a uma ação que tornará essa condição melhor. Portanto, a necessidade nasce de umdesconforto nas condições físicas ou psicológicas da pessoa (p. 59). 2 Desejos – segundo Sheth, Mittal e Newman (2001), é o afã de obter mais satisfação do que é absolutamente necessário para melhorar uma condição insatisfatória (a diferença entre necessidades e desejos é que a necessidade nasce de um desconforto nas condições físicas ou psicológicas da pessoa). Os desejos ocorrem quando e porque os seres humanos querem levar suas condições física e psicológica a um nível além do estado de conforto mínimo (p. 59). 15 GESTÃO MERCADOLÓGICA As atividades destinadas a tornar as mercadorias disponíveis, em momentos e lugares onde a demanda é maior do que no momento e lugar em que as mesmas foram produzidas, criam riqueza e utilidade, tanto quanto as atividades produtoras propriamente ditas.3 A notoriedade de tal frase se faz valer frente a sua realidade temporal, pois ela data do final do século XVIII, ou seja, desde lá, com Torrens, já se propunha a ideia das “condições certas”, assim como contemporaneamente utilizada pelos profissionais de marketing. Certamente é isso que faz desta definição uma das melhores, senão a mais bem-aplicada de todas, já que anteviu muito do que se diz hoje. 1.2.2 Outras definições de marketing Segundo Philip Kotler, Marketing é um processo social por meio do qual pessoas e grupos de pessoas obtêm aquilo de que necessitam e o que desejam com a aquisição, oferta e livre negociação de produtos e serviços de valor com outros (KOTLER, 2000, p. 30). Segundo Peter D. Bennett, citado por Kotler e cuja opinião o autor corrobora, frente ao marketing, numa visão administrativa, tem-se: Administração de Marketing corresponde ao processo de planejar e executar a concepção, a determinação do preço (pricing), a promoção e a distribuição de ideias, bens e serviços para criar trocas que satisfaçam metas individuais e organizacionais (BENNETT apud KOTLER, 1998, p. 32). Segundo Jerome E. McCarthy, O marketing indica que uma organização destina todos os seus esforços para satisfazer aos consumidores ou clientes – a certo lucro (MCCARTHY, 1997, p. 36). Para o autor, o conceito de marketing é uma ideia simples, mas muito importante, e estruturada sob a orientação de mercado à luz do marketing (orientação de marketing), que fundamentalmente está arraigada a três componentes: 1. satisfação do consumidor; 2. esforço total da empresa; 3. lucro (ou outra medida de sucesso em longo prazo) como objetivo. 3 TORRENS, R. The economist refuted. Oxford. 1808. s.p. 16 Unidade I Segundo Alexandre Luzzi Las Casas (2006, p. 10), Marketing é a área de conhecimento que engloba todas as atividades concernentes às relações de troca, orientadas para a satisfação dos desejos e necessidades dos consumidores, visando alcançar determinados objetivos de empresas ou indivíduos e considerando sempre o meio ambiente de atuação e impacto que essas relações causam no bem-estar da sociedade. Segundo Terry G. Vavra (1993, p. 32), “Marketing deve mudar a mentalidade de completar uma venda para a de iniciar um relacionamento; de fechar um negócio para construir lealdade”. O autor ressalta a importância de se conhecer as perspectivas do vendedor e as perspectivas do comprador, e pensar no marketing como relacionamento, construindo um relacionamento “sustentável” com o cliente e/ou consumidor. Ele atribui a este enfoque o nome de pós-marketing, fazendo uma alusão ao processo que se inicia assim que se encerra o processo de venda e se estabelece o relacionamento pós-venda, motor da recompra e do marketing boca a boca positivo, tão importante para a vinda de novos clientes. Segundo Al Ries e Jack Trout (1993, p. XI), “O marketing não é uma batalha de produtos. O marketing é uma batalha de percepções”. Porém, essa linha de pensamento, segundo os próprios autores, é falha, se for vista apenas como uma questão de melhorar a percepção, especialmente porque é muito difícil realmente mudar uma decisão depois de tomada. Sendo assim, o marketing deve levar em consideração outras variáveis ou categorias para se fazer valer e, portanto, entender, dentre elas, as leis que eles propõem em livro (As 22 consagradas leis do marketing) de própria autoria, tais como: a Lei (1) da Liderança, (2) da Categoria, (3) da Mente, (4) da Percepção, (5) do Foco, (6) da Exclusividade, (7) da Escada, (8) da Dualidade, (9) do Oposto, (10) da Divisão, (11) da Perspectiva, (12) da Extensão de Linha, (13) do Sacrifício, (14) de Atributos, (15) da Sinceridade, (16) da Singularidade, (17) da Imprevisibilidade, (18) do Sucesso, (19) do Fracasso, (20) do Alarde, (21) da Aceleração e (22) de Recursos. A definição de Ries e Trout é resultado da lei de número quatro (Lei da Percepção), que é a lei mais consagrada e a mais fatal dentre as demais leis propostas, segundo a própria opinião dos autores. Segundo Júlio César T. Moreira, Perrotti P. Pasquale e Alan G. Dubner, 1. Marketing é um conjunto de atividades cujo objetivo é levar bens e serviços do produtor ao consumidor. A área de ação do marketing é mais ou menos ampla conforme o enfoque que lhe dê cada empresa. 2. Técnica de administração que sustenta que os objetivos organizacionais dependem da determinação das necessidades e desejos do mercado-alvo e da satisfação destes de maneira mais efetiva e eficiente do que os concorrentes. 3. Processo de planejamento, execução, preço, comunicação e distribuição de ideias, bens e serviços de modo a criar trocas que satisfaçam objetivos individuais e organizacionais. 4. Processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos 17 GESTÃO MERCADOLÓGICA obtêm o que necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros (MOREIRA; PASQUALE; DUBNER, 1999, p. 232). Segundo Antonio Carlos Giuliani (2003, p. 9), “Marketing é o conjunto de esforços criativos e táticos que devem ser utilizados para adaptarmos o produto ou serviço ao mercado, às mudanças ocorridas no macroambiente, com o foco de conservar e tornar leal o cliente”. Giuliani traz um conjunto resumido de definições e abrangências de marketing construído através de um resgate histórico bastante útil neste momento e que promove facilitações do entendimento do mesmo. Veja o quadro a seguir. Definições de marketing consideradas por Giuliani (2003, p. 9) • AMA: “Marketing é a execução das atividades de negócios que dirigem o fluxo de bens e serviços do produtor ao consumidor ou utilizador”. • Ohio University, 1965: “O processo na sociedade pelo qual a estrutura da demanda para bens econômicos e serviços é antecipada ou abrangida é satisfeita através da concepção, promoção e distribuição física de bens e serviços”. • Philip Kotler e Sidnei Levy, 1969: “O conceito de marketing deveria abranger também as instituições não lucrativas”. • Peter Drucker, 1970: “O marketing deve ser encarado como uma fórmula para tornar o ato de vender supérfluo”. Frente à proposição de Drucker, Giuliani comenta que, ao analisar tal conceito, pode-se entender que sempre haverá, no marketing, necessidade de efetuar esforços para vender, tornando a venda supérflua; com isso, então, emana o foco em fazer o cliente compreender que o produto ou serviço se adapta a ele e, assim, venda-se por si só. • Kotler, 1980: “É uma atividade humana dirigida a satisfazer necessidades e desejos através do processo de trocas”. • Gerald Zaltman, 1987: “Marketing é ligar a organização com o meio ambiente e com os valores, as normas e a cultura geral da sociedade”. • Kotler, 1990: “É um processo social por meio do qual pessoas e grupos de pessoas obtêm aquilo de que necessitam e o que desejam com a criação, oferta e livre negociação de produtos e serviços de valor com outros”. • Marcos Cobra, 2000: “É a ação de descobrir necessidades e desejos dos consumidores, visando desenvolver produtos e serviços que os encantem”. 18 Unidade I 1.2.3 O profissional de marketing e as condições de demanda Depois de compreender todas as definiçõesacima do que vem a ser marketing, fica claro que o profissional dessa área é alguém que se preocupa em alcançar uma resposta (atenção, compra, voto, doação) de outra pessoa ou organização, que são denominados de clientes potenciais (prospects). Também é importante saber que se as duas partes estão em busca de fazer negócio uma com a outra (como vender algo um para o outro), ambas são denominadas de profissionais de marketing, também conhecidos como homens de marketing. Os profissionais de marketing são treinados para estimular a demanda pelos produtos de uma empresa, mas essa é uma visão muito limitada das tarefas que desempenham. Assim como os profissionais de produção e logística são responsáveis por gerenciar o suprimento, os profissionais de marketing são responsáveis por gerenciar a demanda. Os gerentes de marketing buscam influenciar o nível, a oportunidade e a composição da demanda para atender aos objetivos da organização (KOTLER, 2006, p. 8). Ainda segundo Kotler (2006, p. 8), são possíveis oito estados de demanda: • demanda negativa: ocorre quando os consumidores não gostam do produto a ponto de, até mesmo, pagar para evitá-lo; • demanda inexistente: ocorre quando os consumidores não conhecem o produto (não sabem que o mesmo existe) ou não estão interessados nele; • demanda latente: ocorre quando os consumidores compartilham uma forte necessidade que não pode ser satisfeita por nenhum produto existente no mercado. Em outras palavras, esta é a demanda da oportunidade imediata; • demanda em declínio: ocorre quando os consumidores começam a comprar o produto com menos frequência ou deixam de comprá-lo; • demanda irregular: ocorre quando as compras dos consumidores podem ser sazonais ou variar de acordo com o mês, a semana, o dia ou o horário; • demanda plena: ocorre quando os consumidores compram adequadamente todos os produtos colocados no mercado. Esse estado de demanda é o que mais se aproxima de um estado de equilíbrio perfeito entre demanda e oferta; • demanda excessiva: ocorre quando há mais consumidores interessados em comprar o produto do que produtos disponíveis; • demanda indesejada: ocorre quando os consumidores se sentem atraídos por produtos que têm consequências sociais indesejadas. 19 GESTÃO MERCADOLÓGICA Todas as ações dos profissionais de marketing ocorrem no que se conhece como mercado. Antes, um mercado era um lugar físico em que compradores e vendedores se reuniam para realizar suas transações (compra e venda de seus produtos). Atualmente, algumas alterações foram feitas nos conceitos de mercado, em função de um contexto mais amplo no qual as transações podem ser realizadas. Hoje, os economistas descrevem um mercado como um conjunto de compradores e vendedores que efetuam transações relativas a determinado produto ou classe de produto (como o mercado imobiliário ou de ferro e aço, por exemplo), sendo que essas transações não necessariamente requerem um lugar físico em que ocorra uma reunião para que se faça a negociação; elas podem ser feitas de diferentes lugares por diferentes meios (telefone, Internet, fax). 1.3 O marketing é É muito mais que vender; ele consiste em transformar o processo de vendas em algo supérfluo e aflorar no consumidor a vontade (desejo) de ter o produto, levando-o a comprá-lo sempre que possível. Logo, marketing consiste no desenvolvimento do processo de troca entre o agente ofertante e o agente demandante, como diriam os economistas. Ou seja, consiste no desenvolvimento do processo de troca entre uma empresa e os clientes/consumidores de seus produtos, de maneira que ocorram benefícios para ambos. Como, por exemplo, ao comprar uma caneta Mont Blanc, tanto o consumidor que compra quanto a empresa que vende tiveram algum tipo de benefício, senão a venda não teria sido realizada; o consumidor vê seu desejo de possuir um produto sofisticado, diferenciado e de luxo realizado, e a empresa realiza-se pelo dinheiro recebido pelo produto que detém, já que o mesmo é reconhecido e comprado, o que conserva para a empresa a situação de existir e se desenvolver. Vale ficar, então, com essas definições, não para que sejam decoradas, mas para que sejam entendidas e sirvam de alicerce para novas e melhoradas interpretações: • marketing é o processo de planejar e executar a concepção, o estabelecimento de preços, a promoção e a distribuição de ideias, bens e serviços a fim de criar trocas que satisfaçam metas individuais e organizacionais (AMA apud Kotler; Keller, 2006, p. 4); • marketing, segundo Kotler, envolve a identificação e a satisfação de necessidades humanas e sociais. Para defini- lo de uma maneira bem simples, pode-se dizer que ele “supre necessidades lucrativamente” (KOTLER; KELLER, 2006, p. 4). Em minha concepção, a melhor definição sintética de marketing é: • marketing é ter o produto certo, com o preço certo, no local certo, nas condições certas, para o cliente certo. 20 Unidade I 1.3.1 Tipos de marketing Ainda tratando do entendimento do que é marketing, faz diferença saber que existem vários tipos de marketing. Seja com ou sem fins lucrativos, quaisquer tipos de marketing podem ser utilizados; logo, não há restrição que direcione algum tipo de marketing apenas para aquelas organizações que visam ao lucro ou para as que não visam. Normalmente, o marketing praticado com fins lucrativos é mais elaborado, seu campo de conhecimento é melhor desenvolvido que o marketing que não visa ao lucro; tal fato parece claro quando se fala de uma sociedade capitalista. Porém, as estratégias de marketing para obter lucro, geralmente, são aplicáveis às organizações sem fins lucrativos e podem ajudá-las a alcançar seus objetivos (CHURCHILL; PETER, 2005, p. 5). Dentre os principais tipos de marketing, destacam-se: • marketing de produto: é o marketing utilizado para gerar trocas para produtos tangíveis. Ele se preocupa em mostrar os produtos ao público-alvo. Exemplo: as estratégias para vender os computadores da Dell; • marketing de serviço: é o marketing utilizado para criar trocas para produtos intangíveis. Ele se preocupa em mostrar os serviços disponíveis e seus benefícios e relevância na busca por melhorar a qualidade de vida das pessoas (público-alvo). Exemplo: as estratégias das locadoras de veículos para alugar carros para viajantes, como a Avis, que já se encontra presente em muitas das mais importantes cidades brasileiras; • marketing de pessoa: é o marketing utilizado para criar ações favoráveis em relação a pessoas. Ele se preocupa em formar e/ou chamar a atenção a certa pessoa (personalidade), geralmente procurando destacar os pontos fortes daquele indivíduo, explicando por que é merecedor de atenção ou algo mais (como seu voto ou apoio). Exemplo: as estratégias para obter votos para Fernando Henrique Cardoso ou Luís Inácio Lula da Silva; • marketing de lugar: é o marketing utilizado para atrair pessoas para determinados lugares. Esse tipo de marketing é bastante utilizado no contexto que se conhece como marketing turístico, embora esse termo seja mais abrangente. Exemplo: quando você anda pelas ruas de Santiago, no Chile, há vários outdoors que chamam a atenção para os lugares que devem ser visitados no México; quando você recebe em sua casa um fôlder sobre a Costa do Sauípe; quando você assiste a uma propaganda televisiva e vê belas imagens de gente, lugares e comida seguidas da frase “Visita a Minas Gerais, estamos esperando por você!”; • marketing de causa: é o marketing utilizado para criar apoio para ideias e questões de diversas ordens (social, política, moral...), ou para levar as pessoas a mudarem o seu comportamento socialmente inadequado ou indesejável. Ele se preocupa em gerar apoio a determinadas causas baseadas na ideia de que aquilo é “politicamente correto” ou adequado e que poderá fazer bem para a coletividade. Também é o marketing que frisa conversas, mesmo que poucas, para apoiar um estilo de vida ou comportamento. Exemplo: as estratégias,quase sempre empenhadas pelo governo ou organizações não governamentais (ONGs), para coibir o uso de drogas ilícitas, como a cocaína, ou para aumentar o número de doações de sangue; 21 GESTÃO MERCADOLÓGICA • marketing de organização: é o marketing utilizado para atrair doadores, membros, participantes ou voluntários. Ele utiliza estratégias ou ações muito parecidas com as de outros tipos de marketing, porém o foco aqui é exatamente o convencimento e o crédito ao empenho de algum tipo de grupo, como as associações e/ou sociedades, fã-clubes, clubes, etc. Exemplo: as estratégias para aumentar o número de associados do fã-clube da cantora Madonna ou da cantora Ivete Sangalo. 1.3.2 Níveis de análise de marketing Tradicionalmente, o marketing tem desenvolvido suas estratégias para as empresas domésticas (o mais comum) e para as empresas globais (cada vez mais frequentes), mas, a cada dia que passa, os profissionais de marketing utilizam-no para descrever e avaliar atividades econômicas em outros países e gerar estratégias que os atinjam com o máximo lucro para a organização. Os níveis de análise de marketing são (Churchill; Peter, 2005, p. 6): • global: análise da realidade total; serve como indicativo do tamanho do mercado. Por exemplo: qual é a venda global de automóveis; • nacional: análise realizada em um país, geralmente sobre o comportamento e os hábitos de todos, genericamente. Por exemplo: quais são as vendas totais de automóveis no Brasil; • organizacional: análise realizada no contexto da empresa (de uma organização) ou conjunto de organizações integradas ou visadas; • produtos: análise realizada frente à existência de um determinado produto ou potencial de existência. É o produto e suas interações, como demanda e oferta necessárias para atender ao público-alvo; • marcas: análise realizada, por exemplo, frente à aceitação de uma determinada marca, seu nível de aceitação, etc. Exemplo: o nível de vendas de um carro Toyota Corolla no mercado doméstico brasileiro e global. Quando o foco são os níveis global e/ou nacional, trata-se de macromarketing (estudo de processo, atividades, instituições e resultados de marketing no nível da sociedade). Quando o foco são os demais níveis (organizacional, produtos ou marcas), trata-se de micromarketing (estudo de processos e atividades de marketing nos níveis organizacional, de produto ou de marketing, portanto, mais específicos a cada realidade mais homogênea). 1.3.3 Orientações tradicionais de marketing Antes de qualquer coisa, é importante saber que a orientação de marketing é um posicionamento, uma filosofia de negócios que se concentra em compreender as necessidades e os desejos dos clientes e construir produtos e serviços para satisfazê-los. 22 Unidade I As principais orientações de marketing são orientação à produção, às vendas, ao marketing e ao valor. Veja a seguir uma explicação adaptada de Churchill e Peter (2006, p. 7). Quadro 1 Orientação Enfoque Descrição Produção Produtos Produzir bens e serviços. Informar os clientes sobre eles, deixar que os clientes venham até você. Vendas Vendas Produzir bens e serviços, ir até os clientes e levá-los a comprar. Marketing Clientes Descobrir do que os clientes precisam e o que desejam, produzir bens e serviços para o que eles dizem precisar ou desejar; oferecê-los aos clientes. Valor Valor para o cliente Entender os clientes, concorrentes e o ambiente, criar valor para eles, considerar outros públicos (stakeholders). Fonte: Churchill; Peter, (2005, p. 7). 1.4 Administração de marketing A administração de marketing corresponde à arte e à ciência da escolha de mercados-alvo e da captação, manutenção e fidelização de clientes por meio da criação, da entrega e da comunicação de um valor superior para o cliente (KOTLER; KELLER, 2006, p. 4). É possível dizer que a administração de marketing é a atenção ao processo de aplicar coordenadamente o marketing a fim de atingir resultados previamente estabelecidos e que promovam satisfação para organizações e clientes. Ela estabelece um maior e mais estrito controle das ações de marketing na busca por resultados que transcendem o quesito financeiro, que tratam inclusive do ponto de vista de valor para os indivíduos (especialmente sobre o que pensam das empresas das quais são clientes ou podem vir a ser), daí a importância do marketing de relacionamento com o cliente, no qual o propósito é atrair e reter clientes de maneira satisfatória para as partes (empresa e cliente), promovendo a existência dos clientes felizes (cliente feliz e cliente satisfeito com o desempenho das atividades a que a empresa se propõe, produto adequado, serviço estruturado e cordial, etc.). No tocante ao entendimento do marketing, é possível estabelecer duas definições diferentes sobre ele. Uma definição está pautada na perspectiva social, e a outra, na perspectiva gerencial. A primeira trata do papel do marketing na sociedade, aproximadamente como o compromisso de fornecer um padrão de vida mais alto e agradável. A segunda trata do papel do marketing na condição gerencial, contexto no qual, muitas vezes, ele é descrito como “a arte ou a técnica de vender produtos”; mas atenção: nessa condição, o marketing representa o vender apenas como a ponta do iceberg, o que leva muitas pessoas a se surpreenderem quando descobrem que a parte mais importante do marketing não é vender. Um dos principais teóricos da Administração que o mundo conheceu, Peter Drucker, tratou a questão da seguinte maneira: 23 GESTÃO MERCADOLÓGICA Pode-se considerar que sempre haverá a necessidade de vender. Mas o objetivo de marketing é tornar supérfluo o esforço de venda. O objetivo de marketing é conhecer e entender o cliente tão bem que o produto ou serviço seja adequado a ele e se venda sozinho. Idealmente, o marketing deveria resultar em um cliente disposto a comprar. A única coisa necessária então seria tornar o produto ou o serviço disponível (DRUCKER, 1973, p. 64-65). Segundo Kotler e Keller (2006, p. 4), quando a Sony projetou o PlayStation, quando a Gillette lançou o Mach III e quando a Toyota apresentou o automóvel Lexus, receberam uma enxurrada de pedidos porque haviam projetado o produto certo, todas elas baseadas em uma cuidadosa lição de casa de marketing. Obviamente, o que essas empresas fizeram bem foi administrar seus recursos mercadológicos a fim de atingir os resultados desejados. Enfim, o que é a administração de marketing? É o processo de estabelecer metas de marketing para uma organização e planejar, implementar e controlar as estratégias para alcançá-las (CHURCHILL, 2005, p. 18). Atualmente, quando se fala da administração de marketing (seu entendimento e aplicação), muitas mudanças podem ser constatadas. Geralmente, tais mudanças fazem referência à condução e à aplicação do mesmo no cotidiano – ocorreu uma ampliação das ações do marketing, tornando-o mais tangível para um número muito maior de pessoas. Veja a seguir, segundo Kotler e Keller (2006, p. 25), algumas das principais mudanças: • o marketing passa do “marketing faz o marketing” para “todos fazem o marketing”. A ideia é simples: marketing é importante demais para ficar nas mãos exclusivas dos departamentos de marketing; ele deve ser desenvolvido por todos. As organizações descobriram que o marketing não é feito apenas pelo pessoal técnico da área, mas sim por todos os membros das organizações, nos mais diferentes momentos; • o marketing mudou do conceito da “organização por unidade de produto” para a “organização por segmento de clientes”. As organizações deixam de ser centradas apenas nos produtos e passam a focar os segmentos de clientes; • o marketing ampliou a ideia do “fazer tudo” para a ideia do “comprar mais bens e serviços de outros que fazem melhor”. Essa situação carrega a ideia da terceirização, especialmente porque as organizações entenderam que é mais vantajoso comprar ou contratar quem faz melhor do que desenvolver plantasindustriais que fazem de tudo (além de caro, isso não permite máxima competitividade). É um processo de administração mercadológica focada naquilo que se faz bem, ou melhor. O restante contrata-se dos que fazem melhor que você, garantindo sua competitividade e seu preço; • o marketing desenvolveu mais cuidadosamente a ideia do “uso de muitos fornecedores” para o “trabalhar com o menor número de fornecedores em sistema de parceria”. As organizações estão buscando aprofundar seus acordos de parceria com fornecedores e distribuidores importantes, passando a tratá-los como parceiros e não como clientes. Os pontos positivos desta medida são 24 Unidade I claros, uma vez que ajuda na manutenção de mercados dos parceiros, aumenta a segurança geral do negócio, reduz os custos administrativos burocráticos, e, já que são menos negociadores envolvidos, aumenta a confiança (e a necessidade dela) entre os parceiros, etc.; • o marketing preocupa-se em sair “da dependência de velhas posições de mercado” para o “desenvolvimento de novas posições”. Em mercados cada vez mais disputados, os competidores são implacáveis; logo, as organizações devem desenvolver-se em função dos clientes – das constantes mudanças de comportamento e expectativas dos mesmos. A necessidade do cliente passa a ser um guia fundamental para se atingir bons resultados; • o marketing muda a visão ou “ênfase em ativos tangíveis” para a visão ou “ênfase em ativos intangíveis”. O melhor exemplo disso, sem dúvida, são as marcas. As empresas passam a reconhecer que grande parte, senão a maior parte de seu valor de mercado (exemplo: Coca-Cola e Nike) é proveniente dos ativos intangíveis. Além das marcas, são exemplos de ativos intangíveis os funcionários, os clientes, o capital intelectual, suas relações com fornecedores e distribuidores; • o marketing deixa de enfatizar a “construção de marcas apenas pela propaganda” e passa a enfatizar a “construção de marcas através do desempenho e das comunicações integradas”. Essa realidade corresponde a deixar de focar demasiadamente um tipo de ferramenta de comunicação para utilizar uma mescla de várias outras ferramentas, todas integradas e ao mesmo tempo, a fim de entregar uma marca relevante aos clientes, impingindo-lhes uma marca forte, notada, organizada e ativa. Claro que as propagandas, em suas diferentes formas, continuam sendo a principal base para a comunicação das marcas, especialmente em certos mercados e economias, mas é cada vez mais forte o desenvolvimento de uma inteligência de marketing muito mais eficaz quando se trata de construir uma marca duradoura; • o marketing também desenvolve a revisão da atração de clientes, que vai do “por meio de lojas e vendedores” para a “disposição de produtos on-line”. Essa nova condição foi bastante útil aos clientes, uma vez que podem encontrar rapidamente o produto, ver fotos dele, ler sobre suas características técnicas e garantias, pesquisar os melhores preços e condições de pagamento, etc. Essa evolução, inicialmente, era uma possibilidade ou oportunidade; hoje, para muitas organizações, já se tornou uma obrigação para não ficar fora do mercado; • o marketing tem melhorado seu jeito de realizar as vendas adequadas, saindo do “vender tudo para todos” para “vender/atender mercados-alvo bem-definidos”. Essas, com o advento de sistemas como o Gerenciamento do Relacionamento com o Cliente – CRM (Costumer Relationship Management) –, têm ficado mais fáceis e mais eficientes, já que as organizações passam a compilar os dados de seus clientes, tais como preferências, frequência de compras, produtos mais lucrativos, etc. e concentram-se neles para fazer melhores negócios em vez de passar tempos tentando agradar a todos (o que seria falta de foco e um risco enorme para o negócio); • o marketing mudou o foco de “transações lucrativas” para o foco “no valor do cliente ao longo do tempo”. Seria o mesmo que dizer que o vendedor deixa de ser um tirador de pedidos e passa a 25 GESTÃO MERCADOLÓGICA ser um parceiro dos processos de compra dos clientes que atende, entregando-lhes as melhores condições, fazendo com que ele (o cliente) fique na organização por muito mais tempo. O lucro imediato por transação dá espaço ao retorno no tempo, como através da permanência dos clientes e o desenvolvimento de canais mais lucrativos. Melhora-se a retenção de bons clientes, bem como passa-se a conhecê-los melhor, o que facilita o processo de atendimento e desenvolvimento de soluções (produtos e/ou serviços) significativos para eles; • o marketing então preocupa-se em não valorizar demasiadamente o “foco de obtenção de participação de mercado” e direcionar para um “foco de construção de participação no cliente”. É o mesmo que oferecer mais produtos e soluções relevantes e lucrativas para clientes existentes. Também concentra-se em ser melhor, não maior – como a Toyota costuma dizer, sua intenção é produzir o melhor carro do mundo e não o maior número; talvez esse compromisso tenha conferido-lhe a liderança do mercado mundial (em 2007); • o marketing também acertou para a compreensão do sentido de global e local. Do “local para global” e do “global para local”. Em outras palavras, as empresas, em certas circunstâncias, deverão abarcar esforços para uma competição globalizada, mas, ao mesmo tempo, devem lembrar que muitas ações globais devem ser redimensionadas para competir de maneira satisfatória localmente. Portanto, não é nem ser global nem ser local apenas, mas sim fazer uma reflexão do que é realmente oportuno; • o marketing procurou revisar o “foco nos acionistas” para o “foco nos interessados”. Tão simples quanto parece, este é o conceito de “dividir o bolo”, ou seja, a prosperidade deve ser de todos e não apenas de um ou uns poucos. Uma máxima para isso é: “Quanto melhor todos forem, melhor serei também”; • por fim, o marketing redirecionou o “foco no resultado financeiro” para o “foco no resultado de marketing”. Não quer dizer que resultados financeiros não sejam importantes e necessários, mas quer dizer que é necessário olhar cuidadosamente para o resultado geral de marketing (clientes, mercado, mudanças) e, com isso, desenvolver relações que sustentem bons relacionamentos da organização com seus stakeholders, fazendo com que o resultado financeiro positivo seja uma consequência das demais ações mercadológicas adotadas. Que fique claro que os itens expostos anteriormente representam as principais mudanças ocorridas para muitas organizações no que se refere à administração do marketing em seu cotidiano. Por fim, lembra-se que, dentre as tarefas da administração de marketing, destacam-se o desenvolvimento das estratégias e dos planos de marketing; a busca e o aproveitamento de oportunidades de mercado (de marketing); o desenvolvimento de relacionamento sustentável, duradouro e promissor com os clientes; a criação e o desenvolvimento de marcas reconhecidas e seguras; o desenvolvimento das ofertas ao mercado; os processos de entrega e de comunicação de valor; o compromisso com o longo prazo, objetivando lucratividade para o coletivo (organização e seus clientes); dentre outras. 26 Unidade I 1.5 O marketing na sociedade brasileira: introdução Embora tenha ocorrido forte melhoramento das ações mercadológicas no Brasil, o marketing, nas décadas entre 1960 e 1990, foi pouco representativo quando comparado a ações mercadológicas nos Estados Unidos. Para Cobra (1997, p. 32), em tal período, a adoção do marketing na realidade brasileira ainda não é total, indo apenas um pouco além da prática de composto promocional. Ele era bastante confundido por muita gente, aliás, ainda o é, com propaganda ou com venda, exclusivamente. Ainda segundo Cobra, o crescimento da renda per capita da população brasileira, ao lado dos estímulos crescentes à produção e à exportação, sem dúvida muito contribuiu para a adoção do marketing no Brasil. E essa importância do marketing, antes privativa da área deconsumo de massa, agora ganha importância e credibilidade junto aos setores básicos da atividade industrial, com o marketing de negócios; na atividade agrícola e pecuária, com o marketing agrícola; na atividade de serviços públicos e privados e de saúde, com o marketing de serviços; com o marketing político e o marketing religioso, entre outras configurações (COBRA, 1997, p. 32). Um outro posicionamento ativo do marketing que se destacou nos últimos anos e ainda tem muito para fazer é o marketing educacional, embora, em muitos momentos, pareça ser utilizado como o marketing de vendas (marketing de produto), talvez pelo baixo índice de conscientização da população, portanto, falta de adequado discernimento entre as variáveis educação, formação e negócio (produto); o marketing educacional ainda parece, em muitos momentos, um marketing promocional, vendendo a todo empenho o produto educação. Cabe aí uma revisão crítica e severa da aplicação deste conceito, que remete a ter que lembrar que a educação não é um produto; na verdade, está mais próxima de uma condição ética e comportamental, em que se busca o aprimoramento dos indivíduos até utopicamente, vendo a utopia não como o inalcançável, mas como a busca incessante pelo melhor, mais bem pensado, mais concreto e mais seguro e equilibrado. 1.6 A evolução do marketing no Brasil Depois do estudo do significado do marketing e sua abrangência, fica mais fácil desenvolver um estudo de sua evolução. Partindo dessa situação, a de que já se conhece claramente o que marketing é, pode-se entrar diretamente em sua configuração histórica. Primeiramente, é oportuno dizer que o mesmo não data de um período absoluto e que descreve seu início pontualmente; pelo contrário, vem de vários movimentos e pensamentos agregados que não se construíram do dia para a noite, mas que, somados, permearam a existência dos primórdios factuais e relacionais que permitiram o desenvolvimento do que se conhece como marketing hoje. Para se ter uma ideia de sua existência, já se fazia marketing no tempo do Brasil Colônia; por exemplo, os comerciantes da época, situados na Bahia, em Recife e no Rio de Janeiro, importavam, anunciavam e vendiam produtos europeus, que, naquele momento, tinham como destino principal os ricos. Tais comerciantes tentavam, utilizando os recursos disponíveis, conquistar e manter os clientes, especialmente porque, em sua grande maioria, eram clientes lucrativos, por se tratar da elite financeira dominante (GRACIOSO, 1998, p. 29). 27 GESTÃO MERCADOLÓGICA Porém, segundo Gracioso (1998, p. 29-30), a rigor, não existia o tipo de relacionamento de marketing que se tem hoje, as transações eram conduzidas pela ótica pura e simples da venda e as diversas etapas do processo não eram integradas em função de um objetivo único; logo, os comerciantes não se orientavam pelas expectativas de seus clientes ativos ou de seus clientes potenciais, mas pelo que as fábricas europeias estavam interessadas em lhes fornecer. Nesta condição, ocorre a questão: qual é o sentido atual do marketing? Para que seja possível construir tal conhecimento em resposta à questão, é preciso considerar que, “mesmo no cenário mundial, a noção de que as diversas atividades que resultam na venda constituem um todo integrado e dinâmico é relativamente recente” (GRACIOSO, 1998, p. 30). Foi apenas nos anos de 1920, nos Estados Unidos, que o termo marketing foi utilizado com este sentido de vendas e integração. Quando se faz um resgate linguístico do termo marketing, observa-se que, no inglês, o sentido original dessa palavra é mais restrito que seu uso e entendimento atual, bem como objetivava representar a venda no mercado. No português arcaico, com o verbo “mercadejar”, o sentido objetivado era o mesmo. Apenas nos anos 1940 é que os norte-americanos associaram ao termo marketing o sentido ativo de promoção de produtos ou serviços tal qual é de conhecimento de todos os profissionais da área atualmente. No Brasil, a palavra marketing começou a ser divulgada (e praticada) a partir dos anos cinquenta, por obra e graça dos executivos das grandes multinacionais americanas e europeias, para cá mandados ou aqui formados (GRACIOSO, 1998, p. 30). Dentre as empresas que primeiramente utilizaram o termo no país, estão Johnson & Johnson, Anderson Clayton, Gillette, Coca-Cola, American Home Products (Kolynos), Colgate-Palmolive, Gessy-Lever (Unilever), Nestlé, dentre outras. Como se observa, fica clara a condição de que o marketing, na configuração aqui apresentada, ao ser entendido e utilizado, primeiramente atendeu a condição do produto e não do serviço; as empresas citadas acima, por exemplo, são, todas elas, fabricantes de bens de consumo, o que explica o fato. O marketing ficou então condicionado ao produto, constituindo o que se conhece hoje como marketing de produto. A evolução do marketing de serviços, por sua vez, foi mais lenta e até retardatária, tendo valoração acentuada apenas nas últimas duas décadas. Com a chegada do marketing no Brasil através das multinacionais, veio também um diferencial competitivo para tais empresas, que, praticamente, foram sufocantes para a indústria local. Muitas das empresas nacionais que tinham construído uma marca lembrada pelos clientes foram compradas ou, simplesmente, desapareceram. Certamente esse foi um efeito nefasto da chegada de tão poderoso ferramental na indústria brasileira, porém, o que se tem hoje é uma competência até bastante estruturada para a utilização do mesmo por parte dos empresários brasileiros. Mas cuidado, o marketing no Brasil já está contextualizado localmente; a comparação com a eficiência e o potencial de ação com a economia norte-americana deve ser bastante cuidadosa, uma vez que os EUA estão, literalmente, à frente no quesito marketing. 28 Unidade I 1.6.1 Principais fases do marketing no Brasil a. Anos cinquenta – 1ª fase O que viabilizou decisivamente a chegada e a ativação do marketing no Brasil na década de 1950 foi a industrialização acelerada da economia, baseada em diversas bases, dentre elas, a política governamental federal. Vale lembrar também que, naquele período, o país era totalmente subdesenvolvido, com uma estrutura predominantemente agrária e com uma classe média urbana incipiente. Se comparado com o que se tem hoje, o marketing realizado naqueles anos era primitivo e limitado (GRACIOSO, 1998, p. 33). Outro fator importante, competir pela preferência do consumidor, era praticamente uma atividade que não se conhecia, pois o quadro geral era o da escassez de quase todos os produtos de consumo correntes, de tal forma que não era realmente necessário competir pela preferência de ninguém, não nos moldes atuais. Mesmo com todas as dificuldades e contrapontos do período em relação à chegada, ao entendimento e à aplicação do marketing, foi também naquele momento que se firmaram no mercado nacional muitas das grandes marcas que ainda são encontradas hoje e cuja posição no ranking de participação de mercado por segmento é bastante considerável, ou mesmo são líderes, tais como Leite Moça, Maizena, Quaker, Gillette, Palmolive, etc. Praticamente todas essas marcas acabaram se firmando pelo uso da propaganda (em rádio, revistas e jornais da época). Uma informação que reflete o uso do marketing da época é que as propagandas, em geral, eram preparadas seguindo os moldes norte-americanos, ditados pelas filiais das grandes agências de propaganda aqui instaladas, portanto, trazendo de lá os parâmetros do que era realizado no país. Em menor escala, algumas agências de propaganda brasileiras, desbravadoras certamente, começaram a prosperar. O marketing no Brasil, nesse momento, começava a se tornar realmente abrasileirado. Naquele período também ocorre a inclusão do marketing em alguns currículos universitários brasileiros. Foi em 1953 que oficialmente se iniciou o ensino do marketing enquanto disciplina, na Escola de Administração de Empresas da Fundação GetúlioVargas, em São Paulo. Primeiramente disponível no curso de graduação, rapidamente passou a incorporar-se à pós-graduação. Basicamente, os primeiros professores da disciplina eram norte-americanos chegados através de programas de colaboração denominados Ponto IV. A maioria dos professores que vieram ministrar conteúdos referentes à disciplina eram da Michigan State University (GRACIOSO, 1998, p. 38). Outra conquista dos frutíferos anos cinquenta foi a fundação, em São Paulo, da primeira escola de propaganda. Além de reforçar as bases éticas e profissionais da propaganda no Brasil, a Escola Superior de Propaganda de São Paulo logo passou a atuar também na área de marketing. De fato, muitas disciplinas ligadas ao marketing foram introduzidas nos currículos em meados dos anos sessenta. E, a partir de 1971, a escola passou a chamar-se Escola Superior de Propaganda e Marketing, oferecendo cursos de propaganda e marketing de nível superior (GRACIOSO, 1998, p. 38-39). 29 GESTÃO MERCADOLÓGICA b. Anos sessenta – 2ª fase Nos anos sessenta, diferentemente do que se poderia esperar, o marketing começou suas atividades com maus presságios, quando se fazia uma alusão à década anterior, em que o governo de Juscelino Kubitschek foi marcado, em boa parte, por euforia de progresso e esperança. O quadro da época é o seguinte: em agosto de 1961, o então presidente Jânio Quadros renuncia, e há a ascensão de seu vice, João Goulart, que marcou seu governo pela orientação populista, que, para os militares, era por demais perigosa (não é pertinente aqui fazer qualquer julgamento de quem tinha razão e quais eram as razões, sendo isso pano de fundo para outro estudo). Pouco tempo depois, em março de 1964, ocorreu o golpe castrense que estabeleceu um governo ditatorial, o qual enfrentou sérios problemas econômicos nos primeiros anos, problemas estes que, dentre outros segmentos, também foram ruins às investidas de marketing na primeira metade da década. Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas no período, o progresso econômico da nação retomou-se a partir de 1967, sendo tal fato responsável por sustentar o crescimento real dos investimentos em marketing. O novo clima de euforia e prosperidade foi, portanto, fundamental para a validação do marketing, uma vez que, novamente, o mesmo pôde ser estabelecido social e economicamente com empenho, impulsionado fortemente pela instalação de novas empresas estrangeiras, pelos investimentos das áreas de comunicação e de transportes. Notoriamente, os investimentos nas áreas de comunicação e transportes foram de suma importância para o marketing do período, pois colaboraram para a estruturação de um sistema macroeconômico que permeia a realidade do mercado tanto da dimensão dos produtores como dos consumidores de bens e serviços, dos agentes de mercado e seus contatos com as áreas com que se relacionam. As bases do crescimento do marketing da segunda metade da década de sessenta não param por aí: No campo, novas fronteiras agrícolas foram abertas e surgiram centros regionais de grande peso econômico, principalmente no Centro Sul do país. Nas cidades surgia uma grande classe média urbana, que consumia avidamente os bens de conforto (automóveis, eletrodomésticos), antes restritos à classe rica. Tudo enfim, contribuía para que os conceitos modernos de marketing fossem efetivamente aplicados pelas grandes empresas (GRACIOSO, 1998, p. 39-40). Talvez uma das grandes contribuições do marketing em tal período tenha vindo dos fatos socioeconômicos da época, contribuindo para que as estruturas de comercialização passassem da orientação de vendas para a orientação do marketing. Por exemplo, os métodos e estruturas de vendas e distribuição também passaram pelas primeiras mudanças realmente sérias, o que refletia o acelerado crescimento das redes de supermercados e das cadeias de lojas especializadas. Nasce a Era dos shopping centers, marcada pela abertura do Shopping Center Iguatemi em 1967, em São Paulo. Algo que, certamente, tomou uma dimensão grande o suficiente para ser chamado de 30 Unidade I fundamental no Brasil, os shopping centers, no ato de sua primeira inserção, certamente não motivavam muitos investidores a serem credores de uma ideia como esta. De qualquer maneira, alguns acreditaram no que, somado aos esforços de marketing, viu-se chegar – e no que se tem hoje; em outras palavras, todo esse gigantismo operacional que se tornaram os centros de compras, lazer e até entretenimento que são atualmente. Outro destaque marcante da década de sessenta foi a redução da participação de mercado e influência dos grandes atacadistas, passando as empresas produtoras a cuidar mais proximamente da própria logística (distribuição e armazenamento periférico), lembrando que a este fato estão somados os investimentos nos setores de comunicação e transporte feitos no período. Os investimentos em propaganda passaram por um período de acentuado crescimento e profissionalização. O número de agências nacionais cresceu exponencialmente, e começaram a ganhar destaque aquelas agências que, tempos depois, mais precisamente na década seguinte, tornariam-se renomadas, muitas das quais existem até hoje; por exemplo, DPZ, Mauro Salles, MPM, Norton, Denison, Alcântara Machado, etc. Tal fato ajudou na confirmação da cidade de São Paulo como grande centro cultural, econômico e social, especialmente porque narrou a migração do Rio de Janeiro para a capital paulista, o eixo central de desenvolvimento da propaganda (GRACIOSO, 1998, p. 40). Outro elemento de marketing, a promoção de vendas, também se desenvolveu bastante no período impulsionado pelo igualmente entusiástico crescimento e desenvolvimento dos supermercados e das lojas de departamentos. No início, as próprias agências de propaganda supriam todas as necessidades de seus clientes no campo da promoção. Mas, pouco a pouco, começaram a surgir agências especializadas em promoção de vendas, sendo pioneira neste particular a De Simoni & Associados... Por outro lado, a área das informações de marketing (estudos, auditoria de varejo, pesquisa de audiência, pesquisa de mercado e do consumidor, etc.) desenvolveu-se enormemente. Por exemplo, o veterano IBOPE (GRACIOSO, 1998, p. 40-41). c. Anos setenta – 3ª fase A década de setenta é marcada pelo início de grandes projetos diretamente envolvidos com a nação e com o restante do globo em nível macroeconômico. Como exemplo, tem-se os projetos da indústria petroquímica, hidroelétrica, siderúrgica, nuclear, para fins de produção de energia, e agro-química, especialmente com os fertilizantes. Nesse período, o país consolidou sua indústria moderna, fato que se deu com a participação estatal e com a contração de dívidas no formato de empréstimo de fontes externas (GRACIOSO, 1998, p. 41). Os anos setenta foram, de certa forma, muito valiosos para o Brasil; enquanto o resto do mundo amargava os nefastos problemas da crise do petróleo findada em 1973, o país continuava crescendo, espetacularmente, a uma taxa média de dez por cento (10%) ao ano. Porém, embora esse panorama pareça por demais otimista, como se fosse representante de um típico sucesso brasileiro, na verdade 31 GESTÃO MERCADOLÓGICA se deu a complexo pesar. Para que fosse possível sustentar o crescimento, o país contraiu uma enorme dívida externa e, na mesma proporção, uma dívida interna, fato que torna perigoso qualquer tipo de crescimento que se proponha à nação. Seguindo tal configuração desenvolvimentista baseada no endividamento, cultivaram-se também as amarras que ainda hoje limitam as ações do governo, tal qual é possível constatar nas relações que o Estado-nação brasileiro tem com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e com as demais nações líderes mundiais e blocos econômicos (este assunto é pertinente a um outro estudo e novas discussões, especialmente voltadas a disciplinas do núcleo de economia, portanto, fica aqui a recomendação). Na condição configuradanaquela década, ocorreu uma especial condição para o marketing se beneficiar, baseada, dentre outros motivos, na maior abundância de recursos no mercado e no crescimento do mercado consumidor. Um outro fator colaborativo ao marketing, no olhar da administração de marketing e do negócio, é que, apesar dos controles generalizados de preços no período, as margens de lucro encontravam-se em patamares atraentes e a inflação estava sob controle (GRACIOSO, 1998, p. 42). Outro fator que não pode passar despercebido referente a tal década é que, dada a explosão de consumo baseada no forte crescimento do mercado consumidor, as maiores preocupações das empresas voltavam-se para seus próprios sistemas de produção, portanto, os problemas eram mais de natureza interna do que externa, ou seja, de mercado. Isso significou grande atenção por parte dos gestores das organizações à capacidade produtiva e à planta industrial, e não a sistemas de inteligência do negócio e relacionamento com clientes como os de marketing. Com tal tipo de realidade, o marketing até corria o risco de ser marginalizado pelo mercado produtor, mas, de certa forma, isso nem passou perto de ocorrer. As empresas investiram para fortalecer suas próprias marcas, a própria imagem no mercado e a aceitação de seus produtos. Isso, sem dúvida, foi muito importante para o marketing brasileiro, pois marcou a necessidade de ser conhecido, ou seja, as empresas começaram a entender que quanto mais conhecidas elas e seus produtos fossem, mais chances de vender e vendas em maior volume teriam. Um contraponto constatado é que, com a abundância de vendas em função do crescimento do mercado, muitos investimentos em marketing foram verdadeiros desperdícios de verbas, sejam quando destinados à propaganda ou quando reservados à promoção de vendas e às pesquisas. “Gastava-se mais que o necessário e – o que é pior – usava-se muito mal o dinheiro. Em última análise tudo era justificado pelas curvas de vendas e de lucros, que apontavam sempre para o alto” (GRACIOSO, 1998, p. 42). Dentre os pontos positivos da década de setenta, talvez o maior deles seja o surgimento efetivo do marketing enquanto meio de relacionamento direto (marketing do relacionamento) entre as organizações e os clientes. Antes de se nomear o marketing em questão como “marketing de relacionamento”, como faz Regis McKenna (1999), estabeleceu-se o “marketing industrial”, também conhecido como “marketing de produtos industriais”, que traz como base a dependência da confiança mútua entre quem compra e quem vende, confiança esta que é facilmente vista ao olhar típico de um relacionamento, simplesmente porque a confiança verdadeira só se constrói em tal panorama. 32 Unidade I É importante um esclarecimento frente ao que é o marketing de relacionamento e duas variáveis ou tipologias de marketing que podem ser facilmente associadas a ele — o marketing industrial e o marketing de consumo. Este último é visto por muitos homens de marketing como a sublimação absoluta do marketing, mas, na verdade, tanto um quanto o outro devem ser pensados conjuntamente, especialmente porque é fácil ver que são, de certa forma, faces ou focos diferentes de uma mesma realidade. Seu entendimento e sua relevância, especialmente na nomenclatura “marketing de consumo”, continuam amadurecendo bastante na década de 70, e este fato também é ou está diretamente vinculado ao desenvolvimento socioeconômico e à cultura da própria nação. d. Anos oitenta – 4ª fase A década de oitenta foi uma fase muito dura para o marketing, o que ocorreu como reflexo de conjuntura econômica da nação brasileira, que foi drasticamente atingida pela interrupção dos investimentos estrangeiros e a necessidade de se pagar a gigantesca dívida externa contraída em períodos anteriores. Somando a tais fatos, ocorriam as dificuldades de ordem política, especialmente as ligadas ao que se chamava de Nova República. Os estudiosos mais pessimistas, ou talvez realistas, dizem que naquele período o país perdera o rumo completamente. O quadro inflacionário, mais um ponto crítico da gestão pública em qualquer país do mundo, transformou-se em um grande vilão, que atingiu em cheio o poder de compra dos consumidores; elevou-se o déficit público, reduziram-se drasticamente os investimentos, tanto de ordem pública quanto privada, em especial o estrangeiro. Tais fatos arremeteram alguns níveis de consumo para números registrados uma década antes, ou seja, houve uma forte regressão do potencial de certos segmentos de mercado (GRACIOSO, 1998, p. 43-44). Segundo se aponta, de 1980 a 1995 (ou seja, por mais de uma década), foram “anos das ilusões perdidas”4, período em que o país parou de brincar de rico e acordou para a realidade do subdesenvolvimento. Os fatos foram: • a economia se viu, de certa forma, estagnada nos termos do crescimento sustentável; • a inflação estava praticamente fora de controle; • as grandes empresas interromperam seus programas de investimento; 4 Anos das ilusões perdidas – é o período, segundo Francisco Gracioso, em que o Brasil acordou para a realidade, dando-se conta de sua condição de subdesenvolvimento e parando de pensar que era dono de um índice de riqueza de primeiro mundo, vislumbrado pelas décadas anteriores devido ao forte crescimento econômico, mesmo em momentos de crise mundo afora. Em suas palavras, o país “parou de brincar de rico e acordou para a realidade de subdesenvolvido. O mercado consumidor encolheu” (Gracioso, 1998, p. 36). 33 GESTÃO MERCADOLÓGICA • o marketing perdeu importância relativa no contexto de negócios, em função de necessidades emergenciais e até estratégias de sobrevivência de vários setores da economia, realidade que esteve em praticamente todos os momentos vinculada a menções de ordem financeira; • passam a existir duras tentativas de controle dos preços; • o protecionismo de mercado é instituído frente às importações; • a retração do mercado é, em seu caráter macroeconômico, total; • ocorreu um acelerado decréscimo do lançamento de novos produtos; • a concorrência principal de mercado se dava no quesito preço; • com tudo isso, como já era de se esperar, as verbas para ações publicitárias foram agressivamente reduzidas (GRACIOSO, 1998, p. 36). Com isso, torna-se clara a condição avassaladora da realidade conjuntural sobre o marketing, ficando este bastante restrito em termos dinâmicos e confinado a seguir as regras de mercado. Portanto, não é inoportuno dizer: a década de 1980 e o início da década seguinte foram nefastas ao potencial do marketing no Brasil. Mas não apenas mazelas restaram do período; talvez uma das principais heranças de tais dificuldades e complexidade tenha sido o recondicionamento e aprendizado do uso dos recursos disponíveis em função de aprender a lidar cada vez melhor com as contingências e situações de crise, de tal forma que hoje se reconheça um amadurecimento claro e factível da gestão empresarial e da administração de marketing em função dos princípios, meios e técnicas agora aplicados à administração dos negócios e suas respectivas estratégias em função do mercado e, especialmente, do mercado. Tais fatos poderão ser entendidos mais amplamente no discurso da década de 1990. e. Anos noventa e o início do século XXI – 5ª fase Com a retomada do crescimento na década de 1990, especialmente após a aplicação das políticas de gestão pública do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, e após a difícil fase vivida na década anterior, o marketing passou a ser melhor estruturado, tornando-se, seguramente, mais científico e tendo uma orientação de mercado voltada para os resultados. Os processos de vendas também ganharam substancial valor, tornando-se mais eficientes e requerentes de menores verbas proporcionais ao faturamento, logo, mais econômicos. Isso ocorreu devido, principalmente, a dois fatores: • uso intensivo da informática; • melhor treinamento de pessoal (GRACIOSO, 1998, p. 45). 34 UnidadeI A administração de marketing passa a ser mais cautelosa, validando especialmente as ideias cujas propensões ao sucesso sejam mais claras. A gestão de marcas e novos produtos, por exemplo, procura, no desenvolvimento e lançamento de novidades (marcas e produtos), cuidar para que, ao fazê-lo, consiga-se o máximo de lançamentos a um custo menor. Entra em cena a “gestão do risco”, que cristaliza a preocupação e atenção para que os investimentos realizados não caiam em abismos sem fundo, o que pode ser interpretado com “pagar para ver”, mas, na hora de fazê-lo, o que se deveria enxergar sumia como em um passe de mágica da frente de seus olhos (investimentos malfeitos representam perda notória de dinheiro e outros recursos). Enfim, o marketing começa um processo de transformação em suas próprias bases, passando a ser mais flexível e ágil, ou seja, mais adaptado para atender a um mercado cada vez mais diferenciado, exigente e dinâmico. f. Século XXI: perspectivas Uma das principais questões que passou a ser pauta das discussões do marketing no início do século XXI, sem dúvida alguma, é a globalização. Com ela, muito marcante na última década do século passado em diante, mudam-se as configurações gerais do mercado competitivo, passando a ocorrer maiores competições em vários setores da economia, advindas de diversas regiões, estejam elas vizinhas, como cidades, ou em outros países. A realidade da globalização não é nova, existe desde que o homem começou a migrar por diversos fins5, como o mercantilismo, o lazer e o entretenimento, ou simplesmente de subsistência. Essa nova roupagem da globalização, termo epistemologicamente recente, é um fenômeno provocado, basicamente, pelas grandes organizações multinacionais, que, frente à conjuntura geral ou específica do mercado, agem em seu próprio benefício. Ainda nesta menção à globalização, a mesma tende a significar uma homogeneização dos mercados, seja na produção e comercialização, seja na própria totalidade da abrangência do marketing (GRACIOSO, 1998, p. 47). Dentre suas principais características, há uma que se destaca — a desmistificação operacional ou produtiva das fronteiras, o que, por exemplo, torna possível um bem ser produzido no Brasil, tendo sido desenhado por estilistas norte-americanos ou italianos, que, juntamente com os engenheiros de produção da matriz, definem seu projeto de produto, tendo seu projeto de processo desenvolvido por especialistas europeus ou americanos. Pode, ainda, utilizar uma linha de montagem alemã, peças coreanas e ser vendido na Rússia, cuja estratégia de marketing foi desenvolvida por especialistas em marketing brasileiros. O mesmo vale para os serviços. Outro fato interessante que deve ser lembrado é que as marcas passam a ser, cada vez mais, integradas a uma área ou mesmo a uma nação (ou nações); por exemplo, o consumidor brasileiro mais 5 Homem global – seria aquele homem apto a se correlacionar com quaisquer populações, de quaisquer regiões do globo terrestre, de tal forma que, seja residindo, seja em viagem, ou via canais de comunicação (como Internet, telefone, etc.), detenha as condições e os interesses de se permitir estar em tal condição, de forma que a mesma lhe seja enriquecedora minimamente em caráter existencial humanístico a partir da incorporação de cultura, valores, etc. 35 GESTÃO MERCADOLÓGICA e mais compra marcas vendidas nos Estados Unidos, na Alemanha, na França, na Itália, etc., e métodos promocionais são os mesmos ou parecidos. Essa realidade afeta diretamente as organizações de uma determinada região, então, o que fazer? Segundo Gracioso (1998), ou as organizações locais tornam-se igualmente multinacionais capazes de competir em preços e qualidade com as rivais estrangeiras, ou tornam-se meros satélites ao redor das suas concorrentes multinacionais. Também é importante fazer a seguinte reflexão: não há espaço para todas as marcas do mundo serem as primeiras ou as segundas, ou se tornarem conhecidas como a Lacoste, a Mont Blanc, a Coca-Cola, a Mercedes-Benz, a McDonald’s ou a Toyota; por isso, a competição entre as marcas do mesmo segmento acabou desenvolvendo estágios competitivos que fazem com que a recém-nascida empresa do setor de refrigerantes não ataque diretamente a Coca-Cola, que vale bilhões de dólares. Sugestão: leia os seguintes livros: Marketing de guerra (de Ries e Trout, da editora Makron Books) e o Relatório popcorn (Faith Popcorn, da editora Campus). 1.7 As bases do marketing moderno Como foi estudado anteriormente, até o início do século passado (XX), todos os países do mundo tinham como problema crucial no tocante à realidade das organizações e de seus empresários a questão da produção, e, como tal, era ela quem recebia os olhares mais atentos e detinha as maiores investidas financeiras para crescimento e desenvolvimento: Tratava-se de improvisar os meios para produzir em larga escala uns poucos bens e serviços básicos à vida, solicitados cada vez mais pelas populações urbanas em franco crescimento. Em seguida, tratava-se de produzir os itens mais sofisticados, solicitados por uma elite em evolução ávida por experimentar os mesmos prazeres até então reservados para uns poucos nobres e burgueses milionários (GRACIOSO, 1998, p. 31). Em resposta a tal solicitação, a capacidade de produção começou, ainda que lentamente, a se expandir, a princípio nos Estados Unidos e, em seguida, nos ricos países da Europa Ocidental, assim como é possível constatar nos estudos das teorias científicas e clássicas da administração e seus principais representantes, Frederick W. Taylor e Henri Fayol (FERREIRA; REIS; PEREIRA, 1997, p. 11-25). O desenvolvimento e a adequação do mercado, frente à capacidade de produção, acabaram por culminar em um lastro de igualdade entre a capacidade instalada e a procura potencial e, em muitos setores, o crescimento da capacidade de produção foi maior que o da demanda de mercado, gerando excedente de oferta; com isso, surgiu a necessidade de técnicas de venda mais efetivas, propaganda e gestão estratégica de preços, como armas de competição, frente a uma concorrência crescente de mercado. Nessa circunstância, a presença do marketing passa a ser vital. Subsequentemente, via-se a necessidade e o desafio da alta administração de reduzir os riscos reais do negócio e garantir uma concreta base para o crescimento contínuo. Com isso, tomou corpo a importância de se conhecer cada vez mais os verdadeiros anseios, interesses e necessidades mensuráveis dos consumidores aos quais se destina aquilo que é produzido. Em outras palavras, 36 Unidade I começam a ganhar corpo a pesquisa de mercado e a pesquisa da percepção dos consumidores, como ferramentas para melhor direcionar os produtos e esforços de vendas ao público-alvo, ampliando as vendas e, consequentemente, os lucros. Tem início o conceito básico de marketing moderno, que pode ser entendido simplesmente como “estar no lugar certo, com o produto certo, como o preço certo, nas condições certas, para o consumidor certo...”, assim como já comentado anteriormente. Esse conceito é considerado moderno porque é capaz de representar o que clientes e organizações esperam do marketing e uns dos outros, para gerar a máxima satisfação com “lucro” para as partes. De forma simples, o marketing moderno é a transformação dos meios e das técnicas mercadológicas, cujo escopo mínimo é a promoção, o preço, a praça e o produto (composto de marketing), em diferenciais de venda e conquista de clientes, bem como sua manutenção e feedback positivo. Vive-se um quadro que se sedimenta do “foco no produto” para “foco no cliente”, para uma evolução que leva ao entendimento do “foco do cliente” atualmente. 1.8 O marketing e a contemporaneidade Na primeira metade do século XX, o mundo vivenciou fortes alterações de sua realidade conjuntural (econômica, social e cultural), mudanças estas que promoveram fortes diferenciações no modo como os indivíduos articulame dirigem sua vida; tais alterações se fizeram, com mais ou menos força, presentes por todo aquele século. As forças promotoras de tais mudanças emergem de múltiplas fontes e condições, e estopins sociais de caráter internacional desencadearam medidas precursoras de cada uma das fases. A Revolução Industrial foi uma das forças molares que levou ao alvorecer de novos paradigmas e à destruição de outros. Daquele período em diante, muitos arquétipos6 sociais foram desconstruídos para se reerguerem em modelos melhorados, ou seja, modelos cuja “consciência sobre” muito maior se tornou, e, como tal, muito mais valores coletivos humanos encontram-se incutidos dentro da miríade dessa reconstrução. Veja a seguir um resumo simplificado da Revolução Industrial, que ajuda a entender sua interferência no marketing. Revolução Industrial: histórico A expressão Revolução Industrial (RI) tem sido utilizada para designar um conjunto de transformações econômicas, sociais e tecnológicas que tiveram início na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII. Muito rapidamente, tais transformações atingiram outros países da Europa e os Estados Unidos da América, alterando definitivamente as relações entre as sociedades humanas. Para muitos especialistas historiadores, a RI desempenhou um papel vital no desenvolvimento do capitalismo, foi marcada por intensa acumulação de capital, em especial na Inglaterra, e por profunda transformação 6 Arquétipo – modelo de seres criados; 2. exemplo, protótipo (FERREIRA, Aurélio B. de Holanda, 2000, p. 61). 37 GESTÃO MERCADOLÓGICA nas formas de produção. Na prática, a RI significou o advento da indústria e da produção em série (FIGUEIRA, 2000, p. 197). As etapas da Revolução Industrial (Cotrim, 1999, p. 234): Primeira etapa De 1760 a 1860, a RI ficou limitada, basicamente, à Inglaterra, primeiro país europeu a desenvolver o processo de industrialização. O grande destaque foi o desenvolvimento da indústria de tecidos de algodão, com a utilização do tear mecânico. Além disso, houve extrema importância para o progresso das fábricas. Segunda etapa De 1860 a 1900, a RI espalhou-se pela Europa central e oriental, atingindo países como Bélgica, França, Alemanha, Itália e Rússia. Alcançando outros continentes, o processo de industrialização chegou aos Estados Unidos e ao Japão. Nesta etapa, as principais inovações técnicas foram a utilização do aço, superando o ferro, o aproveitamento da energia elétrica e dos combustíveis petrolíferos, a invenção do motor à explosão, da locomotiva elétrica e o desenvolvimento dos produtos químicos. O progresso tecnológico foi de tal modo significativo que essa etapa é comumente denominada “Segunda Revolução Industrial”. Uma outra consequência da Revolução foi a transformação de pequenas cidades em grandes centros urbanos. Ao longo do século XIX, pensadores, literatos e simples observadores destacaram, muitas vezes, a modernidade e o progresso desses espaços. Mas não raro espantavam-se com a sua feiúra e as suas mazelas (FIGUEIRA, 2000, p. 197). Naturalmente, essa é uma outra realidade, que também representa interferência na maneira como as pessoas pensam e agem, pois as estruturas, sejam quais forem, políticas, sociais, financeiras, arquitetônicas, etc., ao mudarem, mudam as interações e formas de julgamento entre a população de demais variáveis: empresas, produtos, governo, com outras pessoas, etc. Depois do marco socioeconômico global que foi a Revolução Industrial, o mundo vivenciou ainda duas outras revoluções: • a Segunda Revolução Industrial; • a Revolução da Informação. A Segunda Revolução Industrial foi baseada na alta tecnologia aplicada à produção de mercadorias ou prestação de serviços. Esta revolução veio para mudar as condições produtoras do mundo, e, como tal, entranhou-se em uma realidade irreversível, que propõe o contínuo desenvolvimento de tecnologias de produção. 38 Unidade I A Revolução da Informação, ainda em voga, é a revolução que promove, de certa forma, um tipo de amadurecimento mais acelerado do mundo. Tal amadurecimento se dá pautado em questões sociais, ambientais, profissionais, dentre outras, no tocante ético e com base, fundamentalmente, na tecnologia da informação, sendo que esta promove uma maior democratização da informação e do saber, criando melhores condições de gerar conhecimento frente a uma realidade que vagueia entre a abundância do acesso a uma realidade on-line e em real-time e uma outra realidade, em que muitos não têm sequer escola para frequentar, um lápis e papel para escrever, ou mesmo um livro para ler (minimamente, obrigações que cada Estado-nação deveria ser capaz de proporcionar a cada indivíduo). Mundialmente, o panorama do marketing é realmente impressionante, especialmente pela abertura de fronteiras nacionais que, consequentemente, viabilizaram o incremento competitivo da concorrência. A tramitação de produtos e serviços tornou-se mais dinâmica e articulada, cresceram as formalizações de barreiras estratégicas (restrições comerciais governamentais para proteger os mercados), muitas vezes criadas por algumas nações de forma reativa e quase sempre unilateral, e cuja realidade demonstra a incapacidade de estabelecimento de relacionamentos sustentáveis em si com a nação que sofre tais vetos (barreiras ou empecilhos), pelos mais diversos motivos ou justificativas. Os consumidores de quase todo o mundo, em especial os consumidores norte-americanos e europeus, passaram a interagir mais proximamente com questões de qualidade, marcas, produtos importados, disponibilidade e preço e concorrência, desenvolvendo a possibilidade de mudar rapidamente de fabricante, ou seja, o consumidor vive a possibilidade de exercitar seu livre arbítrio a todo momento; assim, ele pode vagar pelas oportunidades, ofertas, comparar preços e produtos até encontrar (exatamente) aquilo que procura. Talvez esse fato seja suficiente para demonstrar a importância do marketing, embora muito mais possa ser levado em consideração. Exemplo de aplicação Será possível imaginar hoje o mundo sem marketing? Imagine viver sem Internet, telefones e/ou telefones celulares, viver sem os aparelhos de tevê e os mais diversos canais... É, por certo, seguro afirmar que nada disso seria tão avançado se não fosse o marketing; aliás, graças a sua atuação é que algumas dessas coisas se desenvolvem tão surpreendentemente, ou será que alguém nunca recebeu uma ligação (telemarketing ativo) de alguma empresa vendendo algo, nunca recebeu um spam com a mesma finalidade na Internet, nem um e-mail sequer dizendo “Melhor preço, oferta, último dia”? Historicamente, portanto, o marketing foi se adequando à realidade tal qual a própria evolução da mesma. Segundo Gracioso (1998, p. 16-17), constatou-se que: • o marketing passou a adquirir uma dimensão estratégica irrefutável: passou a refletir as mudanças ocorridas no ambiente de negócios. Atualmente, as estratégias e as ações de marketing representam, consideravelmente, as relações de forças de todo o sistema de negócios no qual a organização está inserida, seja em caráter micro ou macroambiental; 39 GESTÃO MERCADOLÓGICA • o marketing passou a dinamizar suas ações, dando-lhes mais velocidade: através de novas e mais avançadas técnicas de coleta e processamento de dados e informações, o marketing passou a ser capaz de reagir mais eficientemente com o mercado, pois a resposta, em alguns casos, já se dá, até mesmo, em tempo real; • o marketing tornou-se ainda mais global: à medida que as informações geram conhecimentos relevantes sobre outras culturas, como hábitos de consumo, preferências, etc., aumenta-se a capacidade do marketing de propor adequados produtos para o mercado destinatário. Isso corresponde a dizer que, seja um produto ou serviço, antes de ser lançado em um novo lugar, será adequado às necessidades, às expectativas ou simplesmente às preferências de tal localidade na busca por aumentar as chances de sucessodo que é ofertado; • o relacionamento dos produtores de bens de consumo com seus fornecedores de insumos e revendedores sofre forte melhora: talvez seja esta uma das principais adequações de marketing à realidade, pois melhora a relação entre elos de uma cadeia de negócios, que, sabidamente, quanto melhor se desenvolver, melhores serão as chances de sucesso para as partes envolvidas. Nesse ínterim, marketing serve como elemento que valoriza a questão das parcerias, contribuindo para a otimização de todo o sistema de negócio; • o marketing passou a solicitar e estimular o desenvolvimento de novos sistemas e estruturas de distribuição e vendas: o que pode ser visto é um enriquecimento dos elementos e parâmetros de logística, tanto para o armazenamento quanto para a distribuição, maximizando o potencial e atendimentos das questões de vendas; • o marketing também apresenta uma relação crítica frente à concepção e à percepção de marcas: o fenômeno mundial de lembrança e aceitação de marcas continua a existir, porém, as cautelas e condições são ligeiramente diferentes. Com o aumento da concorrência, especialmente com o crescimento do número de pequenos produtores e seu incremento operacional, com o acesso a informações e, portanto, à existência de novas marcas, bem como a tipologia de cada uma delas (etc.), o que se tem é uma redução da hiperconcentração de valoração de marcas, passando a existir uma maior disseminação de marcas e atributos,7 o que sugere que poderá haver uma redução do valor da marca (discutível!). Porém, cabe ressaltar aqui que marca é um tipo de elemento fundamental entre a empresa e o cliente, pois serve de ligação entre ambos frente a sua capacidade de constituir lembranças positivas ou não, identificação facilitada (todos no mundo que tiveram contato com um McDonald’s o reconhecem e são capazes de fazê-lo pelo nome da marca e outros fatores, mas, especialmente, pelo seu famoso arco dourado). Portanto, é necessário desenvolver muito mais estudos sobre a relação das marcas com o mercado, e certamente não é o momento de ficar preso em uma discussão marginalizante de valorização ou desvalorização das marcas; é mais contundente estudar sua realidade e seus efeitos, sua dinâmica e interação, influência e percepção com o mercado consumidor; 7 Atributos – podem ser definidos como o conjunto de valores (preço, atendimento, garantia, etc.) que envolvem, ou devem envolver determinado produto (serviço) de forma que ele possa atender as necessidades dos clientes aos quais se destina. Adaptação de Sheth, Mittal e Newman (Comportamento do cliente, 2001). 40 Unidade I • por fim, cabe destacar que o marketing evoluiu consideravelmente no tocante ao relacionamento com os clientes: ou seja, mais do que nunca, vê-se a crescente preocupação de marketing com o profundo conhecimento do mercado, seja ele um mercado ativo (no qual a empresa atua) ou potencial (em que a empresa pretende atuar). Tecnologias como as vistas em sistemas como Customer Relationship Management (CRM) e Data Base Marketing (DBM) são contundentes provas disso. Outro fator importante a ser destacado é que, no tocante aos serviços, o que se tem é uma forte tendência de uso do marketing como meio de articular e gerenciar relacionamentos com os clientes e com o mercado como um todo; neste tocante, marketing é, mais do que nunca, fundamental para a criação do desenvolvimento sustentável frente a atual conjuntura mundial, em que o valor subjetivo dos bens e serviços encontra-se ressaltado e, com isso, a importância e o potencial das marcas e a imagem que carregam consigo. É o cliente que determina o modo como as organizações, marcas e produtos são vistos e interpretados, por isso o cuidado de tantas organizações cresce na direção de ressaltar seus pontos fortes, sua conduta ética, sua política, valores sociais e até morais. A conjuntura socioeconômica em voga demonstra claramente uma “aceleração” da realidade por meio de processos como a acessibilidade e a realidade em campo virtual, ou seja, da Internet (realidade on-line e em real-time, já citados). O marketing cada vez mais interage com essa realidade e, desta forma, cria articulações que interferem direta e indiretamente no modo de vida das pessoas, sejam elas consumidoras ou não de certos produtos ou serviços. A atual condição do marketing é uma condição que traz em si um acréscimo de consciência e interatividade com a realidade ao redor. Próximos ou distantes estejam os efeitos em tal realidade, de uma ou outra forma, afetam as noções e concepções humanas, interferindo vastamente nos padrões de consumo, de relacionamento, de julgamento, etc. Logo, o que se tem é que a responsabilidade de marketing também tem aumentado consideravelmente nas últimas décadas, rompendo as fronteiras das organizações e incorporando-se nas dimensões sociais. O marketing deixou de ser apenas um elemento diferenciador, estratégico ou articulador do ponto de vista da administração (planejamento, decisão, direção e controle) e se tornou um elemento social que sofre incremento valorativo diário. Ele passa, cada vez mais, a ser capaz de interagir, por meio de outras ciências (sociologia, psicologia, antropologia, psicanálise), com a realidade humana, tanto para o bem comum quanto para o bem individual. Portanto, o marketing hoje é um elemento social que interage de diferentes maneiras com as pessoas, quase que todo o tempo, de quando acordam a quando vão dormir, e, de certa forma, até quando dormem. Entende-se, com isso, que o marketing tornou-se parte da sociedade, uma vez que dá a ela mais movimento, graça e atratividade. Nos grandes centros urbanos, como Nova York, São Paulo e Tokyo, por exemplo, as pessoas se deparam com aproximadamente três mil marcas e informações publicitárias todos os dias. 41 GESTÃO MERCADOLÓGICA 1.9 O composto de marketing O composto de marketing, também conhecido como mix de marketing, ou, no inglês, marketing mix, ou simplesmente “4Ps”, representativos das siglas de conteúdo, pode ser entendido como o conjunto de ferramentas de marketing que as organizações e instituições usam para atingir seus objetivos de marketing no mercado-alvo (KOTLER, 2000, p. 37). E. Jerome McCarthy é o autor norte-americano criador dos “4Ps” (produto, preço, praça e promoção) que formam o “composto de marketing”. O conceito foi depois popularizado por Philip Kotler. McCarthy é professor de marketing da Universidade Estadual de Michigan, das Universidades de Oregon e da Notre Dame, autor de vários livros-texto utilizados até hoje em universidades e faculdades de administração e marketing no mundo todo. Além disso, ele também é conhecido pelas inúmeras consultorias de estratégia de marketing prestadas a muitas empresas norte-americanas e estrangeiras. No Brasil, o livro Marketing essencial (publicado pela editora Atlas e em coautoria com William D. Perreault) é uma ótima fonte de pesquisa sobre marketing. O composto de marketing é conhecido no escopo mercadológico como 4Ps porque cada “P” representa seu próprio conteúdo, o que facilita bastante sua compreensão. A saber: • produto (product); • preço (price); • praça (place); • promoção (promotion). Segundo McCarthy, para as organizações alcançarem a sua missão, é necessário que realizem a interação entre cada um dos “Ps” citados acima. Como resultado desta interação, advirá o resultado financeiro positivo; isso, claro, se o uso do composto de marketing for coerente, portanto, estruturado e condizente com a realidade da organização, seu mercado, seus clientes, fornecedores etc., frente a sua proposição de mercado (missão que cada negócio propõe atender a partir de si mesmo – sua identidade). Esquematicamente, o composto de marketing frente à missão da organização e seus objetivos, na figura dos 4Ps, pode ser assim representado: Missão: objetivos Preço Promoção Produto Praça Figura 1 – Representação do composto de marketing (4Ps) frente à interação de mercadoe objetivos. 42 Unidade I Para se entender a importância dos 4Ps, é necessário compreender que, para satisfazer as necessidades dos clientes-alvo, é indispensável a interação entre os 4Ps; por exemplo, para a organização oferecer produtos ou serviços, é necessário que estes possuam qualidade, modelos e estilos atrativos para o cliente, nome, uma marca, estejam disponíveis para consumo, tenham praça, preço que atenda ao valor esperado pelo cliente e que se estabeleça uma comunicação para saber o que é vendido, a quem é vendido, onde, quando e como é vendido (GIULIANI, 2003, p. 26). Seguem, resumidamente, as definições de cada um dos elementos do composto de marketing (4Ps): 1.9.1 O produto Em suma, o produto refere-se ao que os homens de marketing da concepção de estratégias oferecem ao cliente com o propósito de trocar, podendo ser produto (bem) ou serviço (intangível); portanto, faz-se necessário que esses produtos sejam possuidores de qualidade, estilos característicos que atendam ao cliente, marca bem-posicionada, embalagens atraentes e sedutoras e com composto de serviços de marketing que assegure benefícios pessoais, os quais são bons sentimentos que os clientes experimentam pela compra, propriedade e uso de produtos, ou pelo reconhecimento de serviços (GIULIANI, 2003, p. 27). Logo, tenha em mente que o produto não se limita a bens físicos (McCarthy, 1997, p. 46), assim como citado acima. É importante também relembrar que o produto ou o serviço deve satisfazer algumas necessidades dos consumidores, sendo esta, portanto, sua função maior. 1.9.2 O preço De forma ampla, o preço constitui a quantidade de dinheiro, ou outros recursos, que deve ser utilizada para a realização de uma troca; com a entrega do dinheiro, obtém-se o produto ou serviço almejado. Nesse aspecto, é relevante considerar os custos e as despesas na formação do preço, e em qual segmento está concentrado, procurando utilizar estratégias de preço alto, médio ou baixo. Os preços oferecidos agregam valor aos clientes; o desconto e o prazo de pagamento são atrativos. Ao fixar um preço, McCarthy (1997) destaca que os profissionais de marketing devem considerar o tipo de concorrência no mercado-alvo e o custo total do composto de marketing. Devem também tentar estimar a reação do consumidor a possíveis preços. Além disso, é importante que conheçam práticas atuais, como mark�up, descontos e outras condições da venda. 1.9.3 A praça Também conhecida como canal de distribuição, refere-se a como os produtos e serviços são entregues aos mercados para se tornarem disponíveis para troca, não deixando faltar produto em nenhum mercado importante. Para isso, devem-se selecionar depósitos, fábricas, distribuidores para suprir as necessidades de consumo por meio de recursos que fazem com que o produto chegue ao mercado no momento certo. O canal de distribuição, portanto, pode ser entendido, resumidamente, como qualquer conjunto de empresas (ou indivíduos) situado entre o produtor e o consumidor ou usuário final, sendo que tais 43 GESTÃO MERCADOLÓGICA indivíduos podem estar ligados diretamente ou indiretamente à organização produtora, à organização repassadora e/ou, ainda, ser o usuário ou cliente final (consumidor). 1.9.4 A promoção A promoção refere-se ao uso, de forma inovadora e criativa, das ferramentas promocionais, como a propaganda, a publicidade, a venda pessoal, a promoção de vendas, as relações públicas, o merchandising e o marketing direto na busca por formar, convencer e lembrar os clientes sobre produtos ou serviços. Trata-se de comunicar o mercado-alvo sobre o produto certo e nas condições certas. Ela ainda pode ser entendida como composto de comunicação. Os elementos que compõem o composto de marketing não devem ser separados. Sua atuação é coordenada e conjunta, e deve mobilizar os recursos da organização (humanos, instrumentais e conhecimentos) para fazer face às ameaças e oportunidades advindas dos fatores externos à organização ou instituição – fatores ou variáveis incontroláveis. 1.10 Escopo de marketing A definição de escopo de marketing é abrangente, pois envolve áreas bastante diversas dentro do contexto de ação do marketing. Segundo Cobra (1997, p. 24), o escopo do marketing envolve: • o composto de marketing (4Ps: produto, preço, praça e promoção); • o comportamento do consumidor; • as compras; • a administração de vendas; • a gerência do produto; • a comunicação mercadológica; • o marketing comparativo; • o marketing social; • a eficácia da produtividade do sistema de marketing; • o papel do marketing no desenvolvimento econômico; • a embalagem; • as vias de distribuição e a distribuição física – portanto, a logística envolvida; 44 Unidade I • a pesquisa mercadológica; • os aspectos sociais e ecológicos no marketing; • o varejo; • o atacado; • a responsabilidade social do marketing, dentre outros aspectos. Sem dúvida, a visão de Cobra sobre o escopo de marketing é abrangente. Neste sentido, ajuda a compreender que o escopo de marketing envolve as ações e responsabilidades de marketing; com isso, descreve – de certa forma – a que o marketing se destina. É importante destacar que os 4Ps de McCarhty foram mencionados por Cobra assim como são mencionados por muitos outros autores que corroboram tal ideia. Aliás, muitos concordam que os 4Ps representam um dos significativos esforços para definir e explicar o escopo de marketing. Em 1972, surgiram, na Conferência de Inverso da American Marketing Association (AMA), alguns comentários de Kotler concernentes à desejável classificação dos fenômenos de marketing, usando os conceitos de micro, macro, normativo e positivo. Kotler (1972) então propôs o esquema em que, em marketing, todos os fenômenos, fatos, problemas, modelos, teorias e pesquisas podem ser classificados em três categorias dicotômicas, de: • setor que visa ao lucro ou setor que não visa ao lucro; • micro ou macro: micro refere-se às atividades de marketing de unidades individuais, normalmente organizações individuais (firmas) e consumidores ou domicílios. Macro refere-se ao nível de agregação, usualmente sistemas de marketing ou grupos de consumidores; • positivo ou normativo: a dicotomia “positivo/normativo” prevê categorias baseadas em focos de análises primariamente descritivas ou prescritivas. O marketing positivo adita a perspectiva de tender a descrever, explanar, predizer e entender as atividades de marketing, processos e fenômenos atuais. O marketing normativo, em contraste com o marketing positivo, tende a estabelecer o que as organizações de marketing devem ter e que espécie de sistemas de marketing uma sociedade deve ter. Já em 2006, na 12ª edição de seu livro Administração de marketing, Kotler (p. 6-7) aponta o composto de marketing de maneira menos complexa, mas não menos clara, apresentando que o marketing aplica-se a: • bens; • serviços; 45 GESTÃO MERCADOLÓGICA • eventos; • experiências; • pessoas; • lugares; • propriedades; • organizações; • informações; • ideias. As proposições de Kotler, em 1972, acabaram por produzir uma discussão bastante significativa sobre o marketing: “Marketing é ou não é uma ciência?” Saiba mais Para saber mais acerca do marketing, leia o capítulo 1 do livro Administração de marketing (12ª edição, em 2006), de Philip Kotler e Kevin Lane Keller (editora Pearson-Prentice Hall). 1.11 O marketing é uma ciência ou não: o conceito de ciência Sabe-se que a ciência refere-se à investigação profunda e técnica, portanto, acurada (lógica) ou o estudo da natureza, buscando a constatação ou descoberta da verdade. A investigação é, ou deve ser metódica, ou seja, de acordo com o método científico8, que é um processo de avaliar o conhecimento empírico. Nesse sentido, a ciência refere-se à pesquisa. A ciência é o conhecimento ou um sistema de conhecimentos que abarca verdades gerais ou a operação de leis gerais especialmente obtidas e testadas a partir de um métodocientífico. O conhecimento científico depende muito da lógica. Sabe-se também que as áreas da ciência podem ser classificadas em duas grandes dimensões: • pura (o desenvolvimento de teorias) versus aplicada (a aplicação de teorias às necessidades humanas); • natural (o estudo do mundo natural) versus social (o estudo do comportamento humano e da sociedade). 8 O método científico é um conjunto de regras básicas pelas quais um cientista desenvolve uma experiência/um experimento a fim de produzir conhecimento, bem como corrigir e integrar conhecimentos preexistentes. É baseado em juntar evidências observáveis, empíricas e mensuráveis, alicerçadas no uso da razão. 46 Unidade I Menos formalmente, a palavra “ciência”, geralmente, abrange qualquer campo sistemático de estudo ou o conhecimento obtido desse. Pode ser usada genericamente. As ciências, no estado em que se encontram atualmente, são o resultado de tentativas ocasionais e de pesquisas cada vez mais metódicas e científicas nas etapas posteriores. A ciência é, portanto, uma das poucas realidades que podem ser legadas às próximas gerações. Cada época elabora suas teorias segundo o nível de evolução em que se encontra, substituindo as antigas, que passam a ser consideradas como superadas e anacrônicas – ultrapassadas ou fora de moda (CERVO; BERVIAN, 2002, p. 5). Segundo Robert Buzzell, a ciência é um conjunto classificado e sistematizado de conhecimentos. Ela é organizada por meio de uma ou mais teorias centrais e um número de princípios gerais, que são, normalmente, expressos em termos quantitativos, conhecimentos que permitem a predição e, sob certas circunstâncias, o controle de eventos futuros. Para Buzzell, o marketing detém os requisitos centrais da teoria para ser classificado como ciência (COBRA, 1997, p. 26). Já para Kenneth D. Hutchinson, existe uma razão real pela qual o campo de marketing tem se desenvolvido lentamente, como um conjunto único de teoria. E isso é simples: marketing não é uma ciência. Ele é, antes, uma arte ou uma prática, e, como tal, mais fechada; mais comparável com a engenharia, a medicina e a arquitetura do que com a física, a química e a biologia. A profissão do médico estabelece, por exemplo, que seus membros são denominados “praticantes” da medicina, mas não “cientistas” (COBRA, 1997, p. 26). Na tentativa de assumir o marketing como ciência ou não, Shelby Hunt faz a seguinte análise e conclui: Se por exemplo, o domínio conceitual do marketing é lucrativo/ micronormativo e provavelmente o marketing não pode ser uma ciência. Se, no entanto, o domínio conceitual do marketing inclui ambos os fenômenos micropositivo e macropositivo, então marketing é uma ciência. Se a amplitude do marketing inclui comportamento do consumidor, marketing de instituições, canais mercadológicos e a eficiência de sistemas de distribuição, então não há razão para que os estudos desses fenômenos não sejam designação de ciência (HUNT, 1976). Enfim, talvez seja mais seguro assumir a posição de que marketing não é uma ciência; com isso, pelo menos se pode dizer que ele se apropria de condições ou métodos científicos em muitos momentos para se fazer valer. 1.12 Sinopse da evolução dos conceitos de marketing Veja, no quadro a seguir, uma sinopse das principais definições do marketing. Tal quadro poderá contribuir substancialmente com a forma como se compreende o marketing no tempo. 47 GESTÃO MERCADOLÓGICA Quadro 2 Autor Ano Definição de marketing American Marketing Association 1960 O desenvolvimento das atividades de negócios que dirigem o fluxo de bens e serviços do produtor ao consumidor. Ohio State University 1965 O processo na sociedade pelo qual a estrutura da demanda para bens econômicos e serviços é antecipada ou abrangida e satisfeita através da concepção, promoção, troca e distribuição física de bens e serviços. Philip Kotler e Sidney Levy 1969 O conceito de marketing deveria abranger também as instituições não lucrativas. William Lazer 1969 O marketing deveria reconhecer as dimensões societais, isto é, levar em conta as mudanças verificadas nas relações sociais. David Luck 1969 O marketing deve limitar-se às atividades que resultam em transações de mercado. Philip Kotler e Gerald Zaltman 1969 A criação, implementação e o controle de programas calculados para influenciar a aceitabilidade das ideias sociais, envolvendo considerações de planejamento de produto, preço, comunicação, distribuição e pesquisa de marketing. Robert Bartis 1974 Se o marketing é para ser olhado como abrangendo as atividades econômicas e não econômicas, talvez o marketing, como foi originalmente concebido, reapareça em breve com outro nome. Robert Haas 1978 É o processo de descoberta e interpretação das necessidades e desejos do consumidor para as especificações de produto e serviço, criando a demanda para esses produtos e serviços e continuando a expandir essa demanda. Robert Haas 1978 Marketing industrial: é o processo de descoberta e interpretação das necessidades, desejos e expectativas do consumidor industrial e das exigências para as especificações do produto e serviço, continuando através de efetiva promoção, distribuição, assistência pós-venda, a convencer mais e mais clientes a usarem e a continuarem usando esses produtos e serviços. Philip Kotler 1997 É o processo de planejamento e execução desde a concepção, preço, promoção e distribuição de ideias, bens e serviços para criar trocas que satisfaçam os objetivos de pessoas e de organizações. Fonte: Cobra, 1997, p. 27. 2 AMBIENTE DE MARKETING Inicialmente, saber que o ambiente pode ser entendido como tudo que rodeia e influencia um sistema e com o qual muitos sistemas interagem constantemente é fundamental, pois perpassa a ideia de que os ambientes ou sistemas são ativos e dinâmicos. Por exemplo, um sistema de refrigeração central funciona em um espaço cujo fator ambiental primordial é a temperatura externa e a necessidade, mediante o desconforto potencial de regular a temperatura interna a ponto de não só ser mais agradável para estadia, mas garantir maior produtividade, descanso, relaxamento, etc. Fazendo uma analogia entre marketing e ambiente, pense que o marketing pode ser visto como um sistema que responderá a mudanças ambientais sempre que necessário. Assim como o corpo humano depende dos ajustes graduais e constantes em função de variáveis como a temperatura, o marketing procura cuidar para que as organizações adaptem-se às mudanças e às contínuas flutuações do mercado, garantindo que as organizações não fiquem totalmente vulneráreis a eventuais intempéries ambientais. Mas o marketing não faz nenhum tipo de mágica; ele se preocupa com o processo de adaptação quando as variáveis não são controláveis e com o desenvolvimento da organização quando as variáveis são controláveis. 48 Unidade I A mutabilidade dos ambientes é preocupante, uma vez que muitos deles tratam da dimensão dos concorrentes e das estratégias competitivas em voga; sendo assim, as organizações que mais rapidamente desenvolverem a capacidade de adaptação quando ocorrem mudanças ambientais possuem mais chances de sobreviver. O marketing ajuda muito neste caso, uma vez que promove o desenvolvimento das competências críticas do capital intelectual da organização, levando esta aos resultados almejados, já que aprende e desenvolve mecanismos estratégicos para competir e se sobressair frente aos concorrentes; por isso, quando se fala de ambiente de marketing, é positivo ter em mente que há ambientes em que existe agressiva, moderada ou quase inexistente competição. Porém, o mais comum é a competição acirrada, na maioria dos mercados. O ambiente de marketing é definido por Palmer (2006, p. 55) como o conjunto de pessoas, organizações e forças externas à gestão de marketing que influenciam sua capacidade de desenvolver e manter trocas bem-sucedidas com os clientes. É importante destacar que, ao estudar o ambiente de marketing, é oportunoestudá-lo em dois contextos: o do microambiente e o do macroambiente da organização. 2.1 Microambiente: ameaças e oportunidades O microambiente de uma empresa abrange os elementos que a influenciam diretamente. Inclui clientes, fornecedores e distribuidores. A organização pode até mesmo não ter contato direto com alguns desses elementos, mas, ainda assim, eles influenciam suas políticas. De modo similar, os concorrentes podem ter efeito sobre a posição da organização no mercado e, assim, ser parte de seu microambiente (PALMER, 2006, p. 56). O microambiente de uma organização pode ser melhor compreendido como aquele que engloba todas as outras organizações e indivíduos que, direta ou indiretamente, afetam as atividades dessas organizações. Segundo Palmer (2006, p. 57), os principais elementos componentes do microambiente são: • clientes; • concorrentes; • intermediários; • fornecedores; • governo; • comunidade financeira – todos os bancos que podem fornecer crédito e demais agentes financeiros; • comunidades locais – todas as organizações e pessoas que existem na vizinhança da organização (por exemplo, escolas, postos de combustíveis, postos de saúde, comércio, residências, etc.); • grupos de pressão – são os militantes, grupos organizados de pessoas que lutam por uma causa. 49 GESTÃO MERCADOLÓGICA 2.2 Macroambiente: ameaças e oportunidades O macroambiente de uma empresa abrange o que está além de seu ambiente imediato, mas que igualmente pode atingi-la. Uma organização pode não ter com os legisladores o mesmo contato que tem com os fornecedores – mas ainda assim as medidas dos legisladores podem ter profundos efeitos, tanto sobre os mercados que ela busca servir como sobre seus custos de produção ou administrativos (PALMER, 2006, p. 56). O estudo do micro e do macroambiente de uma organização serve para alertar aos profissionais de marketing e administradores que é necessário olhar tanto para dentro como para fora da organização, conhecer as variáveis internas da organização e conhecer as variáveis externas a ela, que regem sua realidade, bem como a das demais organizações. Para Palmer (2006, p. 65), o macroambiente de uma organização é mais impreciso que o microambiente. Ele abrange tendências e forças gerais que podem não afetar de imediato as relações que uma empresa tem com seus clientes, fornecedores e intermediários; porém, cedo ou tarde, à medida que esse ambiente mudar, alterará a natureza de tais relações do nível micro. O macroambiente envolve tendências e forças gerais que, com o tempo, podem afetar a natureza das relações do microambiente. É preciso, portanto, acompanhar as variações nesses ambientes, como, por exemplo, as mudanças no perfil demográfico. O macroambiente é bastante complexo; sendo assim, listar suas variáveis não é tão simples, porém, algumas variáveis podem ajudar a melhor compreendê-lo. Lembre-se também de que sempre haverá a possibilidade de outras variáveis não listadas ou novas relações entre elas ainda não previstas. Veja algumas das variáveis componentes do macroambiente: • ambiente macroeconômico: – o crescimento econômico e a distribuição de renda; – efeito acelerador e efeito multiplicador; – ciclos econômicos; – competitividade de mercado; • ambiente político: – governo e os sistemas políticos; – as leis; – os interesses públicos, etc.; 50 Unidade I • ambiente social e cultural: – o lazer e o modo de vida das pessoas; – a natureza das relações de trabalho e o lucro das organizações; – as contínuas mudanças do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; – o papel da mulher na sociedade em constante ampliação, aproximando-se dos papéis ocupados pelos homens; – o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população como alteração dos sistemas de saúde pública, financeiro, alimentares, da cultura, etc.; – o aumento da preocupação com o meio ambiente, em especial com o aquecimento global; – a revisão da cultura geral com o maior número de homossexuais vivendo sem restrições, o que provoca um mundo mais ético e lucrativo; • ambiente demográfico: – redução do número de filhos por família; – redução do número de membros coabitando o mesmo lar; – aumento do número de automóveis per capita; – redução do tamanho médio dos lares; – revisão da distribuição geográfica (urbana e rural); • ambiente ecológico e natural: – as questões envolvendo a camada de ozônio e as medidas para evitar seu agravamento; – as questões envolvendo a distribuição e a destruição das florestas tropicais e sua respectiva conservação; – as alterações climáticas: chuvas excessivas, falta de chuva, furacões e tornados; – as temperaturas excessivamente altas ou excessivamente baixas; – a extinção de espécies vegetais e animais. 51 GESTÃO MERCADOLÓGICA Outros elementos podem ser apontados, mas os listados acima ajudam a compreender as interações e os elementos do macroambiente. 2.3 Ambiente demográfico Elemento do ambiente de marketing, o ambiente demográfico pode ser compreendido por meio da análise ambiental. Nela, (...) as organizações fazem parte de um ambiente complexo e dinâmico que pode ser descrito como ambiente de marketing. Entender esse ambiente é um dos aspectos mais importantes e difíceis da administração, que tem sido, tradicionalmente, considerado como responsabilidade de marketing. As variáveis que influenciam esse ambiente de marketing são muitas. Assim, a análise ambiental tenta identificar os fatores e as tendências mais influentes que afetam a organização e suas ofertas (LEWIS; LITTLER, 2001, p. 31). É importante lembrar-se de que a demografia trata da área da geografia que se preocupa em estudar a população (ou seja, a dinâmica populacional). Seu principal objetivo de estudo aborda as estatísticas, as dimensões, a estrutura e a distribuição da população ou de diversas populações (num território, país ou mesmo pelo globo terrestre). O que justifica estudar as populações refere-se ao fato de elas não serem estanques, ou seja, as populações mudam frequentemente devido às taxas de natalidade, mortalidade, envelhecimento, migração, etc. Além disso, ela aborda os índices educacionais, a nacionalidade, a religião e a etnia. 2.4 Ambiente econômico Trata dos fatores que afetam o poder de compra e padrões de gastos dos consumidores. Ele também é um dos elementos do ambiente de marketing; é nele que uma organização fornecedora opera para atender seus clientes. Um governo nacional (Estado-nação), após levar em consideração fatores internacionais, como a movimentação de capitais e de moeda, é responsável por criar e manter o ambiente macroeconômico favorável. Para fazer isso, utiliza-se de políticas monetárias e fiscais destinadas a manipular os níveis de inflação e de emprego e, em decorrência, os níveis de renda. O nível, ou índices da atividade, irá reger o possível sucesso de todas as organizações, já que pode influenciar o mercado favoravelmente ou não. A qualquer momento, o ambiente econômico de diferentes países pode variar amplamente e afetar diretamente as organizações e o próprio marketing drasticamente. Mas, geralmente, em marketing, o que pode ser visto como problema para alguns poderá ser considerado uma oportunidade de mercado para outros. 52 Unidade I 2.5 Ambiente político‑legal Trata-se do desenvolvimento político de uma nação; por exemplo, aborda a nova legislação aprovada ou proposta em nível local, regional, nacional ou global. Além disso, abrange os meios de influenciá-lo através de lobistas e da disseminação de informações. 2.6 Ambiente tecnológico Esse aspecto diz respeito aos desenvolvimentos e às tendências tecnológicas, não apenas em termos das ofertas aos consumidores, mas também da tecnologia de produtos e de distribuição (logística) (LEWIS; LITTLER, 2001, p. 26). Como exemplo, podemos destacar que estão ocorrendo desenvolvimentos importantes na tecnologia relativa ao próprio marketing, tais como o uso de bancos de dados relacionais,o escaneamento de códigos de barra, o intercâmbio eletrônico de dados, as comunicações pessoais móveis, os sistemas de mídia multi-interativa e a compra por telefone. 2.7 Ambiente competitivo É a denominação dada ao conjunto de fatores e de condições que um gerente de marketing deve analisar e no qual deve atuar de maneira estratégica para poder enfrentar, de forma mais adequada, os diversos concorrentes e seus prováveis comportamentos (MOREIRA; PASQUALE; DUBNER, 1999, p. 28). 2.8 Ambiente natural Envolve os recursos naturais que são necessários às empresas como inputs ou que são afetados pelas atividades de marketing (MOREIRA; PASQUALE; DUBNER, 1999, p. 29). Trata-se de um ambiente atualmente em alta no que tange aos estudos do marketing, uma vez que temos nos preocupado mais com as ações do homem e seus resultados ao meio ambiente, por exemplo. Saiba mais Para saber mais sobre outros tipos ou formas de ambiente de marketing, leia o capítulo 4 de Administração de Marketing, de Kotler e Keller, 12. ed., 2006 (Editora Prentice Hall). 3 SEGMENTAÇÃO DE MERCADO Inicialmente, é importante esclarecer que a segmentação de mercado, até a década de 1960, era pouco conhecida e aplicada; poucas eram as organizações que tinham condições de tirar proveito do amplo potencial que a segmentação apresenta atualmente. Isso ocorria, certamente, porque não havia muitos profissionais envolvidos com a aplicação da segmentação em mercados consumidores, bem 53 GESTÃO MERCADOLÓGICA como muitos não estavam certos de quais resultados poderiam atingir, portanto, simplesmente não a praticavam. Na maioria das vezes, quando a mesma era praticada, isso acontecia de forma até casual, sem o devido desenvolvimento mercadológico, principalmente sem a devida instrumentalização metodológica. Antes de 1960 a Coca-Cola Company produzia somente um refrigerante com o objetivo de atender a todo o mercado de refrigerantes. Atualmente, a Coca-Cola oferece mais de uma dúzia de diferentes produtos para segmentos de mercado, com base em diferentes preferências de consumidores quanto a sabores e conteúdo de caloria e cafeína. A empresa oferece refrigerantes tradicionais, bebidas energéticas (como o Power Ace e o Burn), chás com sabores e sucos de frutas (como o Minute Made Mais, o Fruitopia etc.) (LAMB JR.; HAIR JR.; MCDANIEL, 2004, p. 206). Segmentação é uma palavra bastante frequente no marketing e na administração, além de em outras áreas, e isso não ocorre por acaso; na verdade, seu entendimento revela a grande importância de sua aplicação prática para organizações, governos, pessoas, etc. Mas então, o que é segmentação? A segmentação é, na verdade, um termo genérico que designa a divisão de um todo em partes separadas, sendo cada uma dessas partes caracterizadas, por suas subpartes serem mais ou menos homogêneas. Em outras palavras, os elementos ou membros presentes em cada uma das partes apresentam elementos semelhantes entre si, fazendo com que cada parte seja única — diferente, portanto, das demais partes. Entenda que cada subparte corresponde aos elementos ou indivíduos semelhantes que serão agrupados para compor uma única parte. A ideia é bastante simples: quando você divide uma pizza em fatias, você segmenta a pizza; mas se a pizza é de dois sabores, como calabresa e quatro queijos, ela já está dividida em dois segmentos naturalmente. Quando você segmenta novamente as duas partes (calabresa e quatro queijos), você chega a um maior número de segmentos; embora muitos deles sejam semelhantes entre si, somente as subpartes de calabresa compõem a parte (ou segmento inicial) de calabresa. Somente a soma de todas as partes (dos dois segmentos iniciais) é que poderia compor o universo pizza de dois sabores. Cada parte de um todo, portanto, pode ser entendida como um segmento. Os segmentos podem variar em tamanho e características, bem como, dentro de um segmento, podem haver vários outros segmentos ou subsegmentos. Dependendo da área de conhecimento, o termo “segmentação” pode ter explicações mais específicas (ou direcionadas), para facilitar seu entendimento e sua aplicação prática, porém, saiba que se trata de uma explicação ligada a uma condição (a da área em questão), pois, na verdade, a palavra “segmentação” sugere a mesma coisa em todas as áreas (a divisão de um todo em partes). Veja alguns exemplos de aplicação do termo em certas áreas: 54 Unidade I • em computação, mais especificamente em arquitetura de redes de computadores, a segmentação é vista como uma divisão da rede de computadores em sub-redes, com o objetivo de descentralização do tráfego, evitando sobrecarga e lentidão da transmissão de dados, por exemplo; • ainda ligada à tecnologia da informação, nos sistemas operacionais, a segmentação pode ser entendida como o processo de proteção da área de memória do processo atual (o sistema operacional, neste caso, corresponde a um programa ou a um conjunto de programas cuja função principal é a de servir de interface entre um computador e seus recursos computacionais (hardwares e softwares) e seus usuários e um gerenciador destes recursos dentro de um sistema computacional). Além disso, no processamento computacional de imagens, a segmentação é corriqueiramente compreendida como uma divisão da imagem em partes, de acordo com a necessidade de uso ou de tratamento da mesma, naturalmente, sem destruir a composição total da imagem ou fazendo isso propositadamente quando necessário; • na biologia, por sua vez, a segmentação pode ser entendida como as etapas do processo de desenvolvimento de um organismo, ou seja, o corpo de um animal ou uma planta apresenta, geralmente, as fases: nascimento, crescimento/desenvolvimento, maturidade e, então, morre (como no clico de vida do produto: introdução, desenvolvimento, maturidade e declínio); • na zoologia, ramo da biologia, a segmentação refere-se a uma característica distintiva de alguns grupos de animais, como as minhocas (vulgarmente chamadas de anelídeos, de Annelida — do latim annelus, pequeno anel + ida, sufixo plural, aos vermes segmentados — com o corpo formado por “anéis” — do filo Annelida, como as minhocas e as sanguessugas. São conhecidas mais de quinze mil espécies destes animais em praticamente todos os ecossistemas, terrestres, marinhos e de água doce. Encontram-se anelídeos com tamanhos desde menos de um milímetro até mais de três metros), os insetos e os aracnídeos, que têm corpos claramente divididos em partes, ou seja, segmentos (Fernandes, Francisco. Dicionário brasileiro. 32. ed. São Paulo: Globo, 1993); • em mecânica, o segmento pode ser, em determinado caso, visto como o anel colocado em volta do pistão do motor; • em economia, basicamente como no próprio marketing, a segmentação é a divisão do mercado em grupos com características e interesses semelhantes, que, no caso da economia, muito frequentemente, são analisados em função da renda (poder de compra/consumo) e, sobretudo, é a divisão em função das características e interesses semelhantes dos indivíduos, como consumidores de carros sedans médios, da classe “x”, com interesses “y”, etc. A partir dos entendimentos acima, parece ficar claro que a segmentação em marketing e administração é, portanto, uma subdivisão do mercado global de uma organização em parcelas o mais homogeneamente possível. O estudo da segmentação é útil para que os esforços dessas áreas sejam concentrados nos objetivos e nas metas, com isso economizando recursos de natureza financeira, física e humana. 55 GESTÃO MERCADOLÓGICA Segundo Cobra (1997, p. 71), a segmentação propicia, por exemplo, a visualização de uma simplificação dos processos distributivos, como alocação de vendedores, número de depósitos, número de fábricas, número de filiais, etc., o que ajuda fundamentalmente no processo de decisão de marketing. 3.1 Aplicação da segmentação Com o conhecimento da segmentação do mercado, as organizações passam a entender algumas condições,ou mesmo regras fundamentais para sobreviverem e desenvolverem-se. Em especial, elas entendem que não podem focar todos os compradores do mercado; deve existir uma identificação e seleção dos compradores de maior interesse (público-alvo ou cliente potencial). Mesmo em ações marcadas pela amplitude, ou seja, destinadas a quase todos os compradores ou clientes, é importante entender que, primeiro, é “quase para todos e não para todos os compradores que existem” e, segundo, “nem todos eles podem, querem ou devem ser abordados da mesma maneira, pois os clientes tendem a possuir diferenças marcantes entre si”. É importante destacar que os clientes são muito numerosos, amplamente dispersos e muito variados no que diz respeito às suas necessidades e práticas de compra. Além disso, as organizações também variam muito em sua capacidade de atender diferentes segmentos do mercado. Assim, em vez de tentar competir em todo o mercado, muitas vezes com concorrentes superiores, elas devem identificar quais são os segmentos a que podem atender melhor e de maneira mais lucrativa – logo, elas devem fazer isso bem (KOTLER; ARMSTRONG, 2003, p. 172). Como resultado da reflexão acima proposta pelos autores, tem-se que muitas organizações estão se tornando mais exigentes com relação aos clientes com os quais querem (e irão) estabelecer relacionamento; isso demonstra que o marketing de massa vem dando lugar para o marketing focado no segmento, para a identificação de cada segmento no mercado, para o desenvolvimento de produtos mais específicos para cada segmento, etc. Ocorre, portanto, uma revisão do posicionamento estratégico da organização, deixando de lado a abordagem pulverizada (voltada para todo o mercado), indo para a abordagem direcionada (voltada para os compradores/clientes que têm grande interesse pelos produtos, serviços, características da organização ou têm potencial de se desenvolverem neste sentido). Indo mais a fundo, no tocante ao entendimento e à aplicação da segmentação e seus desdobramentos, Kotler e Armstrong (2003, p. 172) apresentam etapas bastante úteis da segmentação, da identificação e do posicionamento de mercado. São elas: Primeira etapa - segmentação de mercado: 1. identificação de bases para a segmentação de mercado; 2. desenvolvimento de perfis de segmentação. 56 Unidade I Segunda etapa - identificação de mercado: 3. desenvolvimento de avaliação da atratividade do segmento; 4. seleção dos segmentos-alvo. Terceira etapa - posicionamento de mercado: 5. desenvolvimento do posicionamento para os segmentos-alvo; 6. desenvolvimento de um mix de marketing para cada segmento. Para os autores, a primeira etapa (segmentação de mercado) trata da divisão de um mercado em grupos menores de compradores com necessidades, características ou comportamentos diferentes que poderiam requerer produtos ou mixes de marketing distintos. A organização identifica diferentes maneiras de segmentar o mercado e desenvolver perfis dos segmentos resultantes. Já na segunda etapa (identificação do mercado), ocorre a avaliação da atratividade de cada segmento e seleção de um ou mais segmentos de mercado para atuar. Por fim, a terceira etapa (posicionamento de mercado) trata de estabelecer o posicionamento competitivo para o produto e a criação de um mix de marketing (composto de marketing = 4Ps) mais detalhado. 3.2 A segmentação e o Brasil Ampliando o entendimento sobre a segmentação, pense que tratar o Brasil ou quaisquer outros países com dimensões continentais como uniformes é praticamente impossível. Essa constatação óbvia ajuda a compreender que a aplicação de qualquer método de segmentação pode ajudar a obter condições, tais como (Cobra, 1997, p. 71): • condições econômicas por região ou densidade populacional; • avaliação dos resultados (performance) do marketing por área, grupo, campanha, etc.; • margem de contribuição por segmento; • participação de mercado (em cada mercado e segmento); • definição mais segura e prática do perfil do consumidor (cliente ou comprador); • identificação do local ideal para instalação de fábricas, depósitos, filiais; • políticas de penetração de mercado e competição; • políticas de produção e venda; 57 GESTÃO MERCADOLÓGICA • políticas de precificação; • políticas de propaganda e publicidade, promoção de vendas, merchandising e liquidações; • desenvolvimento de previsões de vendas e metas de vendas; • programação do zoneamento de vendas. 3.3 Segmentação de mercado: entendimento O termo “mercado” pode apresentar diferentes sentidos em diferentes momentos para uma ou mais pessoas. Mas de maneira geral, todos estão familiarizados com a palavra “mercado” e suas aplicações complementares, como “supermercados”, “mercado de ações”, “mercado de trabalho”, “mercado de peixe”, “mercado de joias”, etc. Normalmente, todos os mercados citados compartilham diversas características, tais como serem compostos por pessoas (mercado de consumidores) e por organizações (mercados organizacionais); além disso, tais pessoas e organizações possuem necessidades e desejos que podem ser satisfeitos por categorias de produtos específicos; têm recursos para comprar os produtos que procuram; desejam trocar seus recursos – geralmente dinheiro – pelos produtos ou serviços desejados. Em suma, um mercado é composto por (1) pessoas ou organizações com (2) desejos ou necessidades e com (3) recursos e (4) disposição para comprar. Portanto, um grupo de pessoas ou uma organização que não possua qualquer uma dessas características não é um mercado (LAMB JR.; HAIR JR.; MCDANIEL, 2004, p. 206). O termo “segmentação de mercado” pode ser entendido como o ato ou o resultado de um mercado em pequenos grupos. Esse processo é derivado do reconhecimento de que o mercado total representa o conjunto de grupos com características distintas, que são chamados segmentos, sendo que cada um destes segmentos possui características diferentes entre si, mas seus membros justamente pertencem a determinado segmento por possuírem características em comum ou semelhantes. Nesse sentido, o marketing age quebrando o mercado total em grupos que, espera-se, responderão de maneira mais ou menos uniforme a cada uma das ações destinadas a cada segmento, ou seja, em função das semelhanças dos consumidores que compõem cada segmento, eles tendem a responder de forma similar a uma determinada ação de marketing: por exemplo, a uma propaganda (campanha publicitária). Logo, eles tendem a ter sentimentos e percepções semelhantes sobre um rol de marketing, composto para um determinado produto. Dentro de um mercado, um segmento de mercado é um subgrupo de pessoas ou organizações que compartilham uma ou mais características e que tenham as mesmas necessidades de produtos. Em um extremo, podemos definir cada pessoa e cada organização no mundo como um segmento de mercado porque cada um é único. No outro extremo, podemos definir o mercado consumidor como um grande segmento de mercado e o mercado 58 Unidade I organizacional como outro grande segmento. Todas as pessoas possuem algumas características e necessidades semelhantes, assim como todas as organizações (LAMB JR.; HAIR JR.; MCDANIEL, 2004, p. 206). A finalidade da segmentação de mercado, dentre outras explicações possíveis, é permitir que o profissional de marketing ajuste o composto de marketing (4Ps) para atender às necessidades de um ou mais segmentos específicos. 3.4 Importância da segmentação de mercado Depois de entender o que é a segmentação de mercado, fica fácil entender por que ela é uma poderosa ferramenta de marketing, bem como por que e como ela oferece um fundamental potencial estratégico. Hoje, praticamente todas as organizações bem-sucedidas utilizam a segmentação, o que se justifica claramente, uma vez que todos os mercados incluem grupos de pessoas ou organizações com diferentes desejos, necessidades e preferências de produtos ou serviços; logo, esta é uma das principais justificativasda importância da segmentação de mercado, já que a mesma busca identificar cada grupo de clientes (pessoas, organizações, etc.) para então propor ações específicas para cada um deles (LAMB JR.; HAIR JR.; MCDANIEL, 2004, p. 207). Segundo os autores Lamb Jr., Hair Jr. e McDaniel (2004, p. 20), a segmentação de mercado é importante porque: • ajuda os profissionais de marketing a definir mais precisamente as necessidades e os desejos do consumidor; • como os segmentos de mercado diferem em tamanho e potencial, a segmentação ajuda no processo de tomada de decisão, levando os tomadores de decisão a definir os objetivos de marketing de maneira mais precisa e a melhor alocar os recursos; • ajuda a atingir melhores resultados através do desempenho das ações mercadológicas sempre que os objetivos são estabelecidos com maior precisão e são claros para todos os envolvidos. Além da importância da segmentação apresentada pelos autores acima, destaca-se o pensamento dos autores Semenik e Bamossy (1995). Eles acreditam que a vantagem central da segmentação de mercado reside na possibilidade de romper com a cultura das ofertas do tipo “tudo para todos”, o que gera confusão e dispersão na mente dos clientes (ou clientes potenciais). Ainda segundo Semenik e Bamossy (1995), o processo de segmentação proporciona maior eficiência aos esforços de marketing e melhoria no desempenho da operação empresarial (veja que este pensamento é bastante parecido com o dos autores Lamb Jr., Hair Jr. e McDaniel). Além disso, os dois autores destacam os seguintes benefícios da segmentação de mercado: • capacidade de especificar os objetivos de marketing; 59 GESTÃO MERCADOLÓGICA • capacidade de melhorar o entendimento do comportamento dos consumidores e suas motivações; • capacidade de alocação mais eficiente dos recursos financeiros e humanos; • capacidade de responder mais rapidamente às mudanças do ambiente externo e de canalizar as forças da organização; • capacidade de perceber que, à medida que se aprofundam os conhecimentos sobre um ou mais grupos de clientes, cresce sua capacidade de satisfazê-los por meio da construção de compostos de marketing mais efetivos. Vale lembrar que a ótica do autor Marcos Cobra (1997, p. 71), citada no item “Segmentação no Brasil”, também pode ser entendida como vantagens da segmentação, uma vez que norteia seu entendimento e aplicação em diferentes aspectos, inclusive econômicos e políticos. Alguns casos Nos Estados Unidos – um exemplo antigo, porém muito útil —, a loja de móveis de alto padrão Domain oferece alguns interessantes exemplos de como a segmentação de mercado pode elevar as vendas. A empresa descobriu que seus clientes da geração baby boom tanto quanto estavam preocupados com a decoração, estavam preocupados com o próprio progresso. Para atingir tais clientes (segmento), em especial o público feminino, a loja oferecia uma série de palestras que abordavam tópicos como assuntos femininos e projetos de interiores; com isso, as vendas cresceram 35% desde que o programa começou. Além dessa característica, a empresa voltou atenção para o segmento de clientes aposentados, nascidos durante e após a Segunda Guerra Mundial, para os quais as lojas ofereciam sofás mais estreitos, com mais apoio para as costas, o que permitia que as pessoas se levantassem com mais facilidade. As ações tomadas pela Domain levaram a rede de lojas a trocar as propagandas em jornais pela mala-direta, reduzindo as despesas com anúncios em 3% e aumentando em mais de 40% as vendas (Quirk’s Marketing Research Review, p. 27, 29, janeiro de 1996). No Brasil, um importante exemplo em voga há muitos anos, mas com o mesmo valor atualmente, da aplicação bem-sucedida da segmentação de mercado é a adotada pela rede de lojas Casas Bahia. Um grande acerto da rede foi realizar a escolha de seu público-alvo central e focá-lo com afinco. Mesmo os pesquisadores da Michigan Business School apontaram a rede com mais de meio século de vida como um caso sem similar no mercado de baixa renda. “Trata-se de um caso sem similar no varejo mundial”, como descobriu a equipe do indiano C. K. Prahalad, um dos mais respeitados especialistas em termos de estratégia. Partiu dele a decisão de enviar a São Paulo, em 2003, dois pesquisadores de Michigan para estudar uma empresa especialista em lidar com a baixa renda no Brasil: as Casas Bahia. A habilidade para entender as necessidades emocionais e os hábitos de compra dos clientes de baixa renda e a capacidade de viabilizar o sonho de consumo por meio do acesso ao crédito resultaram em um modelo de negócios único no que diz respeito ao varejo. Segundo Prahalad, em seu livro The fortune at the botton of the pyramid, “A Casas Bahia 60 Unidade I prova minha tese a respeito da importância e da rentável oportunidade de mercado existente na base da pirâmide de renda” (http://www.casasbahia.com.br/casasbahia/start.do#0). Portanto, o segredo de lidar com todas as camadas sociais, com foco principal nas classes populares (segmento principal) se traduz em números bastante significativos; por exemplo, em 2006, a rede fechou o ano com 15,2 milhões de contratos aprovados; além disso, sua plataforma de clientes no ano somou 26,3 milhões de pessoas, mais do que a população da maioria das cidades brasileiras. Por fim, centrada em seu foco, objetivo e segmento, a rede não se orienta por modismos, assim como pregava seu fundador, Samuel Klein. A segmentação de mercado força as organizações a concentrarem seus esforços dentro de parâmetros bem-definidos; com isso, os tomadores de decisão ficam melhor informados e mais alerta aos fatores que afetam as operações das organizações que comandam. O efeito prático desta condição é a especialização contra a generalização, ou seja, o desenvolvimento de bases mais seguras e homogêneas contra generalizações incertas e pouco centradas, geralmente baseadas na ideia “tudo a todos” (Semenik; Bamossy, 1995, p. 141). Que fique claro que, resumidamente, a segmentação de mercado é importante porque é capaz de direcionar os esforços organizacionais (em especial os esforços mercadológicos) ao público correto (as condições e variáveis corretas), evitando desperdícios de esforços e recursos humanos e técnicos, etc., criando, com isso, as condições para maximização dos resultados positivos. 3.5 Requisitos da segmentação de mercado Quais são os requisitos para a realização da segmentação? Ou seja, o que garantirá que a segmentação será bem-sucedida? De maneira geral, muitas variáveis estão envolvidas, mas o que primordialmente deve-se saber é que certas condições são específicas para certos casos, isto é, os requisitos devem ser avaliados de maneira ampla para todos os casos e devem ganhar aprofundamento analítico e técnico na medida em que são detectados os elementos críticos envolvidos. Na tentativa de elencar os principais elementos que devem ser levados em consideração no processo de segmentação de mercado, na busca por garantir resultados positivos satisfatórios, deve-se saber que: • primeiro, a segmentação permite que os profissionais de marketing (e administração) identifiquem grupos de clientes com necessidades similares e analisem as características e o comportamento de compra desses grupos; • segundo, a segmentação fornece informações para ajudar os profissionais de marketing (e administração) a projetar o composto de marketing que atenda especificamente às características e desejos de um ou mais segmentos; • terceiro, a segmentação de mercado é consistente com o conceito de marketing de satisfazer desejos e necessidades de consumidores e, ao mesmo tempo, atender aos objetivos da organização (Lamb 61 GESTÃO MERCADOLÓGICA Jr.; Hair Jr.; McDaniel, 2004, p. 208). Essa é a ideia de entregar valor ao cliente com lucro para a organização, sendo que o termo “lucro” deve ser, de alguma forma, percebido pelas partes (cliente e organização), uma vez que todos se satisfazem profundamentecom a negociação realizada. Ainda segundo os autores citados acima, para que a segmentação seja útil, ela deve atender a quatro critérios fundamentais; são eles: [1] substancialidade, [2] identificação e mensurabilidade, [3] acessibilidade e [4] receptividade. 1. Substancialidade: um segmento de mercado deve ser grande o suficiente para garantir o desenvolvimento e a manutenção de um composto de marketing (de uma ação mercadológica, como uma campanha promocional). Esse critério não significa necessariamente que um segmento deva possuir muitos clientes em potencial. 2. Identificação e mensurabilidade: os segmentos devem ser identificáveis e mensuráveis. Dados sobre a população dentro de limites geográficos, número de pessoas em diversas categorias etárias e outras características sociais e demográficas são, frequentemente, fáceis de obter e oferecem mensurações razoavelmente concretas sobre o tamanho do segmento. 3. Acessibilidade: a organização deve ser capaz de atingir os membros dos segmentos visados com compostos de marketing personalizados. Lembre-se de que alguns segmentos de mercado são difíceis de atingir, como, por exemplo, homens idosos. 4. Receptividade: neste caso, os mercados podem ser segmentados utilizando qualquer critério que pareça lógico. Entretanto, a menos que um segmento de mercado responda ao composto de marketing de maneira diferenciada em relação a outros segmentos, não precisa ser tratado de maneira diferente. Por exemplo, se todos os clientes desejarem o mesmo preço para um produto qualquer, não há necessidade de oferecer versões com preços altos, médios e baixos para diferentes segmentos (Lamb Jr.; Hair Jr.; McDaniel, 2004, p. 209). Por sua vez, para Cobra (1997, p. 73), para a segmentação de mercado ser bem-sucedida, é necessário que: • um segmento seja especificamente identificado e medido (ser claramente definido e conhecido. Questões como “Quem está dentro e quem está fora do segmento?” devem ser respondidas); • um segmento evidencie um potencial adequado (a oportunidade deve ficar claramente definida); • um segmento seja economicamente acessível (e viável); • um segmento reaja aos esforços de marketing (portanto, os esforços devem ser adequados ao segmento-alvo, e isso só poderá ocorrer conhecendo-se muito bem o segmento, através do método que gerou a segmentação em questão); • um segmento seja estável (ou estável enquanto durar a ação de marketing a ele destinada. É importante destacar que existem ações que atendem a tendências e megatendências, mas também há aquelas que atendem a timing de moda). 62 Unidade I 3.6 Formas ou critérios para a segmentação Veja o quadro a seguir, extraído da obra de Dias (2003), que resume forma e critérios de segmentação de mercado. Quadro 3 Segmentação demográfica “É o processo de identificar segmentos de mercado com base nas características da população” (faixa etária, sexo, estado civil, etc.). Segmentação socioeconômica “É o processo de identificar segmentos de mercado com base nas características sociais e econômicas da população, como renda, posse de bens, escolaridade, classe social e ocupação profissional”. Segmentação geográfica “É o processo de identificar segmentos de mercado com base em critérios geográficos, como localização e densidade populacional”. Segmentação por benefícios “É o processo de identificar segmentos de mercado com base nos benefícios procurados pelos clientes” (status, desempenho, etc.). Segmentação por grau de utilização “É o processo de identificar segmentos de mercado com base no nível de consumo”. Segmentação psicográfica “É o processo de identificar segmentos de mercado com base no modo como as pessoas pensam (autoconceito, personalidade, valores) e levam suas vidas (estilo de vida, atividades, interesses e opiniões)”. Fonte: Dias, 2003, p. 20-23. 3.7 Vantagens da segmentação Veja a seguir algumas das vantagens da segmentação referentes à relação cliente e organização: • conhecer melhor cada cliente, seu perfil e características; • servir melhor o cliente que se conhece mais; • quantificar (contar) com maior exatidão quem são os clientes; • cuidar melhor do tipo e da intensidade da distribuição dos produtos e serviços oferecidos; • utilizar melhor os recursos de propaganda; • pesquisar melhor; • planejar melhor. 63 GESTÃO MERCADOLÓGICA 3.8 Principais variáveis de segmentação de mercado consumidor Veja a seguir as principais variáveis apresentadas por Philip Kotler (1995) quanto às principais variáveis de segmentação para os mercados consumidores e para os mercados industriais. Quadro 4 – Principais variáveis de segmentação para os mercados consumidores Variáveis Desdobramentos típicos Geográficas Região Pacífico, Montanhas; Noroeste Central; Sudoeste Central; Nordeste Central; Sudeste Central; Atlântico Sul; Atlântico Médio; Nova Inglaterra. Tamanho do município A, B, C, D. Tamanho da cidade ou da área metropolitana Abaixo de 5.000; 5.000 - 20.000; 20.000 - 50.000; 50.000 - 100.000; 100.000 - 250.000; 250.000 - 500.000; 500.000 - 1.000.000; 1.000.000 - 4.000.000; 4.000.000 ou mais. Concentração Urbana, suburbana, rural. Clima Norte, Sul. Variáveis Desdobramentos típicos Demográficas Idade Abaixo de 6 anos; 6 - 11; 12 - 19; 20 - 34; 35 - 49; 50 - 64; 65 ou mais. Sexo Masculino, feminino. Tamanho da família 1 a 2; 3 a 4; 5 ou mais. Ciclo de vida da família Jovem solteiro; jovem casado sem filhos; jovem casado com filho ou mais novo abaixo de 6 anos; jovem casado com filho mais novo acima de 6 anos; meia idade, casado, com filhos; meia idade, casado, sem filhos menores; idosos solteiros; outros. Renda Abaixo de $5.000; $5.000 - $10.000; $10.000 - $15.000; $15.000 - $20.000; $20.000 - $25.000; $25.000 - $30.000; $30.000 - $50.000; $50.000 ou mais. Ocupação Liberal e técnico; gerentes, funcionários públicos e proprietários; funcionários de escritórios e vendedores; artesãos e encarregados; operários; fazendeiros; aposentados; estudantes; donas de casa; desempregados. Educação 1º grau completo; 1º grau incompleto; 2º grau completo; 2º grau incompleto; universitário completo; universitário incompleto; pós-graduado. Religião Católica, protestante, judaica, outras. Raça Branca, negra, oriental. Nacionalidade Norte-americana, britânica, francesa, alemã, sueca, italiana, latino-americana, japonesa, outras. Psicográficas Classe social Miseráveis; pobres; classe operária; classe média; classe média-alta; classe alta e classe alta-alta. Estilo de vida Metódicos; impulsivos; intelectuais. Personalidade Compulsiva; sociável; autoritária; ambiciosa. Comportamentais Ocasiões Normais; especiais. Benefícios Qualidade; serviço; economia. Condição de usuário Não usuário; ex-usuário; usuário em potencial; usuário principiante; usuário habitual. Taxa de uso Pequena; média; grande. Grau de lealdade Nenhum; médio; forte; completo. Estágio de aptidão Inconsciente; consciente; informado; interessado; desejoso; disposto a comprar. Atitude relativa ao produto Entusiástica; positiva; indiferente; negativa, hostil. Fonte: Kotler, 1995, p. 241. 64 Unidade I Principais variáveis de segmentação para os mercados industriais (KOTLER, 1995, p. 247). Variáveis demográficas • Setor industrial: quais indústrias devemos focalizar? • Tamanho da empresa: qual o tamanho das empresas que devemos focalizar? • Localização: quais áreas geográficas devem ser focalizadas? Variáveis operacionais • Tecnologia: que tecnologias de cliente devem ser focalizadas? • Status de usuário/não usuário: devem ser focalizados grandes, médios, pequenos usuários ou não usuários? • Capacidade do cliente: devemos focalizar os clientes que necessitam de muitos ou de poucos serviços? Abordagens de compra • Organização da função compra na empresa: devemos focalizar as empresas com departamentos de compras altamente centralizados ou descentralizados? • Estrutura de poder: devemos focalizar as empresas orientadas paraengenharia, finanças, etc.? • Natureza dos relacionamentos existentes: devemos focalizar as empresas com as quais temos forte relacionamento ou simplesmente ir atrás daquelas mais desejáveis? • Política geral de compras: devemos focalizar as empresas que estão procurando qualidade, serviços ou preço? Fatores situacionais • Urgência: devemos focalizar as empresas que precisam de entregas ou serviços rápidos e repentinos? • Aplicação específica: devemos focalizar em certas especificações de nosso produto, em vez de focalizar em todas? • Tamanho do pedido: devemos focalizar em grandes ou em pequenos pedidos? 65 GESTÃO MERCADOLÓGICA Características pessoais • Similaridade entre comprador-vendedor: devemos focalizar as empresas cujos valores e pessoal sejam similares aos nossos? • Atitudes em relação a riscos: devemos focalizar os clientes que assumem risco ou evitá-los? • Lealdade: devemos focalizar as empresas que demonstram alta lealdade a seus fornecedores? 3.9 Diferenciação e segmentação de mercado Anterior à ideia de segmentar, é preciso estar consciente do que é a diferenciação. Para os autores Sheth, Mittal e Newman (2001), a segmentação de mercado está relacionada à ideia de diferenciação, sendo que diferenciação é o modo pelo qual os profissionais de marketing fazem suas ofertas de forma diferente da concorrência, a fim de se tornarem a escolha do cliente. Fazer ofertas de forma diferente implica criar e implementar o composto de marketing (produto, preço, praça e promoção). Para diferenciarem-se de seus concorrentes, os profissionais de marketing utilizam três tipos de diferenciação: a genérica, a focalizada e a segmentada (Sheth; Mittal; Newman, 2001, p. 404). Diferenciação genérica: é uma diferenciação global (ou geral), feita em uma base não focalizada, o que significa que a diferenciação não se destina a nenhum grupo específico de clientes. Em vez disso, uma empresa faz uma oferta melhorada para todo o mercado. Esse tipo de diferenciação é adequada para empresas que são capazes de apresentar seus produtos e serviços como superiores aos da concorrência em todo o mercado. Por exemplo, foi o que fez Henry Ford ao perceber que os carros disponíveis em sua época não eram bem fabricados e, ao mesmo tempo, eram vendidos a um preço muito alto. Seguindo uma estratégia de diferenciação genérica, Ford criou o sistema de linha de montagem, que produzia um carro mais confiável com produtividade melhorada. Consequentemente, foi capaz de oferecer um produto melhor a um preço mais baixo (600 dólares, quando foi lançado) que o dos concorrentes. Essa abordagem proporcionou a Ford uma liderança de mercado. Diferenciação focalizada: uma abordagem em que a empresa identifica um segmento de mercado específico e, então, cria um programa de marketing para atrair esse segmento. Tal estratégia se opõe à diferenciação genérica, em que um único programa de marketing indiferenciado é oferecido a todos, ou seja, na diferenciação focalizada são oferecidos, seguidamente, diversos programas de marketing direcionados aos segmentos. As empresas, em geral, atuam como agentes de “nicho” nesse tipo de diferenciação. Exemplo: algumas empresas estão formulando produtos específicos para mercados étnicos. A Revlon e a Max Factor têm uma linha de produtos de beleza específicos para a população afro-americana. A base química é diferente para esses cosméticos, refletindo as diferenças genéticas e físicas dessa população. Essa estratégia de diferenciação também foi expandida para as populações hispânica e asiática. 66 Unidade I Diferenciação segmentada: este terceiro tipo de diferenciação envolve a divisão do mercado total em segmentos que são homogêneos por algumas características dos clientes (como demografia, psicografia e padrões de uso) e depois o tratamento de cada um desses segmentos como um mercado distinto, para o qual todos os elementos do composto de marketing são diferentes. Exemplo: o setor automotivo. 3.10 Critérios de segmentação No livro Comportamento do cliente, de Shet, Mittal e Newmann (2001, p. 412), o capítulo 12 trata de diferenciação e segmentação de mercado (item acima). Na parte relativa à identificação dos mercados para diferenciação e segmentação, os autores afirmam que “existem três grandes bases para identificar segmentos em qualquer mercado – as bases o quê?, quem? e por quê? da segmentação”. Veja o quadro explicativo: Quadro 5 Bases Tipos de segmentação Características O quê? Segmentação por uso “A abordagem costumeira da segmentação por uso é dividir os clientes de acordo com seu nível de uso, [isto é] de acordo com a quantidade que consomem”. Quem? Segmentação demográfica Essa abordagem “identifica subgrupos de clientes com base em suas características descritivas (por exemplo, idade, sexo, classe social)”. Por quê? Segmentação psicográfica Essa abordagem “relaciona-se com os motivos pelos quais os clientes se comportam da maneira como o fazem; esses motivos são encontrados nos diferentes benefícios que os clientes buscam em um produto, e nos diferentes estilos de vida que desejam que o produto promova” (p. 412). 4 MARCAS 4.1 Definições Uma marca pode ser entendida como a identificação sob a forma de nome, símbolo, termo, desenho ou alguma combinação de todos, que diferencia um produto de seus similares (Moreira; Pasquale; Dubner, 1999, p. 231). Ponto de vista do consumidor: • a marca é a síntese da experiência de valor vivida pelos consumidores em relação a cada um dos inúmeros produtos, serviços, empresas, instituições ou mesmo pessoas com as quais eles se relacionam (SAMPAIO, 2002, p. XVII). Do ponto de vista da organização: • a marca é a síntese do valor de franquia de mercado de seus produtos e serviços, bem como das empresas e instituições em si e mesmo de pessoas que atuam como “produtos” (SAMPAIO, 2002, p. XVII). 67 GESTÃO MERCADOLÓGICA Outros entendimentos de marcas – o branding: • processo de gestão da construção e manutenção das marcas (SAMPAIO, 2002, p. XVIII); • conjunto de tarefas de marketing (incluindo suas ferramentas de comunicação) destinadas a otimizar a gestão das marcas (SAMPAIO, 2002, p. 27). Brand equity: • conjunto de ativos e passivos ligados a uma marca, seu nome e seu símbolo, que se somam ou se subtraem do valor proporcionado por um produto ou serviço para uma empresa e/ou para os consumidores dela; • para que certos ativos e passivos determinem o brand equity, eles devem estar ligados ao nome e/ou ao símbolo da marca; • se o nome da marca ou seu símbolo for mudado, alguns ou todos os ativos ou passivos poderão ser afetados, ou mesmo perdidos, embora parte deles possa ser desviada para um novo nome e símbolo; • os ativos e passivos nos quais o brand equity se baseia vão diferir de contexto a contexto. Contudo, podem ser agrupados em cinco contextos: 1. lealdade à marca; 2. conhecimento do nome; 3. qualidade percebida; 4. associação à marca em acréscimo à qualidade percebida; 5. outros ativos do proprietário da marca – patentes, trademarks, relações com os canais de distribuição, etc. Brand awareness: é o reconhecimento de que a marca afeta a percepção e o gosto (as pessoas gostam daquilo que é familiar a elas e absorvem todas as boas atitudes de itens que lhes são familiares) (NUNES; HAIGH, 2003, p. 81). 4.2 Os 13 tipos de marca mais comuns As marcas podem ser dos mais variados tipos, dependendo de seu uso, pela variedade de produtos, serviços, empresas e outros instituições que as empregam. 1. De produtos e serviços: Coca-Cola, Leite Ninho, Bombril, Brastemp, Nike, Levi’s, Baby, Realmaster, O Estado de S. Paulo, Veja, Vectra, Santana, Sedex. 68 Unidade I 2. De empresas: Varig, Unilever, Bradesco, General Motors, Editora Abril, McDonald’s, Sofitel, Petrobras. 3. Comuns a empresas e seus produtos ou serviços: Nestlé, Bauducco, Sadia, Volkswagen, Philips, Rede Globo de Televisão. 4. De linhas, famílias ou “bandeiras” de produtos e serviços (tambémchamas umbrella ou guarda-chuva): Brahma, Bic, Knorr, Audi, Ticket, Pão de Açúcar, Barateiro. 5. De sistemas ou redes (inclusive multiempresas, multiprodutos e multisserviços), também chamadas de “bandeiras”: Visa, Shell, Hotelaria Accor, Postos BR. 6. De instituições públicas ou privadas: Embratur, USP, SOS Mata Atlântica. 7. De movimentos civis, sociais, comunitários e culturais: Criança Esperança, Natal sem Fome. 8. Submarcas (ou extensão de marcas): Moça Fiesta, Havaianas, Fashion, Cheque Estrela Itaú, Sadia Kids, MacFesta, BigMac. 9. Próprias (de empresas varejistas): Qualitá (supermercados Pão de Açúcar). 10. Conceituais (que definem uma atitude e comportamento diante do mercado): Virgin (que está em discos, lojas, empresas aéreas e refrigerantes). 11. De origem (assegurando a procedência de produtos agrícolas ou industrializados): Champagne, Lycra, Intel Inside, Bacalhau da Noruega. 12. De endosso (que garantem padrões de qualidade e comportamento ético): Fundação Abrinq, ISO 9000. 13. De combate (marcas de produtos ou redes de serviços que trabalham com preços inferiores e ajudam a segurar a posição da marca principal). 4.3 Marcas próprias Em inglês, own branding; trata do processo em que a marca de um produto ou serviço é desenvolvida para uso exclusivo de um varejista. Em alguns casos, o produtor de um bem com marca fabricará um produto similar para um varejista, que o venderá com sua própria marca (tal qual ocorre com grandes redes de supermercado, como Carrefour, Wal-Mart, Bis, Pão de Açúcar, etc.). Em outros casos, o varejista pode contratar a fabricação de um produto independente. Tradicionalmente, os bens com marca própria estão posicionados no mercado para competir diretamente com as marcas de fabricantes (frequentemente, colocadas próximas nas lojas) e podem até ter aparência e características de uso similares. 69 GESTÃO MERCADOLÓGICA O estudo de marketing Embora tenhamos aqui uma abordagem textualizada do marketing, portanto, visivelmente teórica, você deve atentar-se para o fato de que o marketing é uma disciplina fundamentalmente prática; você poderá compreender muitas coisas simplesmente observando o mundo ao seu redor. Pense, por exemplo, quando você assiste a tevê e, durante o intervalo da novela das oito horas da Rede Globo, você assiste a um comercial de uma montadora chamando a atenção para o lançamento da mais nova versão de seu veículo “X”; pense: • Quem fez o comercial? • Como foi elaborada aquela campanha? • Quem solicitou o comercial? • Quanto custa aquele espaço publicitário daquela emissora de televisão? • Quanto custou o desenvolvimento da campanha? • A quem a mesma se destina, ou seja, qual é o público-alvo daquela campanha televisiva? • Qual foi o retorno do comercial ao anunciante? Pense também que, na empresa em que você trabalha, todos estão envolvidos em uma ação (ou campanha) de marketing para aumentar as vendas e, consequentemente, para aumentar o retorno financeiro da empresa e sua participação de mercado. Pense nas seguintes condições: • “Condição A”: a empresa em questão é um banco. • “Condição B”: a empresa é uma padaria. • “Condição C”: a empresa é um supermercado. • “Condição D”: a empresa é uma autopeças. • “Condição E”: a empresa é uma farmácia. Será que, genericamente, as ações de marketing serão tão diferentes entre si para cada uma das condições expostas acima? Naturalmente, não. O que mudará, na verdade, é o contexto em que cada organização está inserida; por exemplo, seu setor de atuação, seus concorrentes, sua localização, total de clientes e potenciais clientes, se já investe ou está disposta a investir em estratégias para atrair e reter clientes, etc. Com isso, muitas delas poderão utilizar-se de ações de marketing que são conceitualmente iguais, mas com aplicações redimensionadas para cada caso. 70 Unidade I Pensando nisso, você pode entender que a finalidade do marketing envolve fazer com que as organizações cresçam, desenvolvam-se, portanto, que não morram, que não sejam destruídas por falta de visão, coragem e, principalmente, por falta de conhecimento (fazendo uma alusão ao livro Crescer não destruir: cinco maneiras de implementar na sua empresa uma nova dinâmica de crescimento, de Robert M. Tomasko). A aplicação do marketing busca fazer com que sua empresa seja campeã em vendas, que sua equipe, não importando o tamanho da empresa e das equipes, seja vencedora, ou seja, que todas – trabalhando juntas – tragam bons resultados para a empresa (essa aplicação, logo, busca do marketing, me faz lembrar do livro Show de vendas, de Frank Bettger). O marketing deve preocupar-se em encantar o cliente, em fazer com que ele deseje fazer negócio com a sua empresa e não com os concorrentes. Encantar o cliente significa ir além do básico, compreende a entrega de valor substancial ao cliente, sendo que tal valor deve ser capaz de gerar receita para a organização. Mas atenção: nenhuma empresa consegue encantar clientes se não tiver profissionais comprometidos com essa finalidade e se não tiver desenvolvido a capacidade de amá-los, ou seja, para que alguma organização seja capaz de encantar os clientes, ela precisa, antes de tudo, gostar muito deles (essa aplicação do marketing pode ser melhor explorada se você ler o livro Encantar o cliente dá lucro, de Joel J. Santos). O marketing preocupa-se ainda com sua relação com a tecnologia, em especial quando sistemas de gerenciamento do relacionamento com o cliente são desenvolvidos, tais como os sistemas de Customer Relationship Management (CRM) e de Data Base Marketing (DBM) – geralmente compreendidos como os sistemas de gerenciamento dos bancos de dados de marketing; aliás, vale lembrar nunca foi tão importante uma boa base de dados sobre os clientes quanto agora, pois é preciso conhecer o cliente e ter acesso a ele, em especial para não consumir recursos (financeiros e humanos) em vão. Mas o marketing não para por aí; ele também oferece inter-relação com outros sistemas de apoio gerencial, como Enterprise Resource Planning (ERP), o Supply Chain, etc. (alguns livros interessantes sobre o assunto são CRM Series – call center 1 to 1, da editora Makron Books; CRM: o revolucionário marketing de relacionamento com o cliente, de Ronald Swift; entre outros). O marketing também deve preocupar-se com suas aplicações dentro das empresas, ou seja, o marketing realizado com os funcionários e para os funcionários. Ele precisa atentar à preparação dos funcionários sobre os produtos ou serviços de que a organização dispõe – formas de pagamento e de acesso ao produto, etc.; além disso, precisa preocupar-se com a boa relação dos funcionários com tudo isso, e, claro, precisa preocupar-se com a boa relação da organização com cada funcionário. Neste momento, preparação e treinamento são palavras de ordem, pois pessoas bem-treinadas, certamente, executam melhor suas tarefas. Empresas devidamente atentas conseguem atender aos seus clientes em especial quando eles fazem parte da folha de pagamento (uma leitura que não pode ser esquecida neste momento é a do livro Endomarketing: como praticá-lo com sucesso, de Saul Faingaus Bekin). 71 GESTÃO MERCADOLÓGICA Outra palavra de ordem dentro do marketing é “marca”; o marketing deve preocupar-se com a criação e com o desenvolvimento das marcas no mercado. Para isso, é preciso saber o que são marcas, qual seu valor e como criá-las, etc. No marketing, a palavra branding vem geralmente associada à gestão de marcas e a todas as necessidades que se tem relacionado a elas. Esse é outro assunto farto na literatura mercadológica e que não pode deixar de ser estudado (recomendo duas leituras interessantes: Marca: valor do intangível, de Gilson Nunes e David Haigh, e Gestão de marcas, de Marcos Machado e Kevin Lane Keller). Destaco o assunto “administração do relacionamento com o cliente” (aliás, assunto tão importante que, em algumas universidades, tornou-se disciplina), cadavez mais presente no cotidiano das organizações e, claro, fundamental para o bom resultado das mesmas (sugiro a leitura do livro Gestão do relacionamento com o cliente, de Marcelo S. Zambon e Fábio Gomes da Silva; e sugiro a leitura do livro Comportamento do cliente, dos autores Sheth, Mittal e Newman). Eu poderia listar mais uma infinidade de assuntos abordados pelo marketing, porém, no momento, vou parar por aqui. Mas que fique a seguinte mensagem: você encontrará um mundo incrível de literaturas sobre o assunto marketing e a ele relacionado. Faça uma visita a livrarias e pesquise sobre assuntos de seu interesse dentro do marketing; por exemplo, marketing de serviços, marketing industrial, marketing de causa, marketing turístico, marketing de lugar, marketing de guerra, etc. Resumo Iniciamos esta unidade entendendo os conceitos modernos de marketing a partir da visão de vários autores. Em resumo, define-se marketing como a planificação e execução de um conjunto de atividades comerciais, tendo como objetivo final a troca de produtos, ou serviços, entre produtores e consumidores. Ainda, foi discutido o quanto as ações de marketing estão presentes em nosso cotidiano, desde o consumo mais simples até mesmo aqueles mais complexos. Logo em seguida, discutiu-se o papel do profissional de marketing dentro de cada tipo de demanda dentro do mercado. Ficou concluído que todas as ações dos profissionais de marketing ocorrem no que se conhece como mercado. Para elucidar, ainda mais, o entendimento dos conceitos de marketing, foram apresentados aos estudantes os diferentes tipos de marketing: produto, pessoa, serviço, lugar, causa e organização. A discussão seguiu com os vários níveis de análise do marketing, mostrando que esses níveis podem ser mais segmentados ou mais globais, dependendo do objetivo das ações mercadológicas da organização. Assim, foram mostradas as orientações do marketing, que surgem em orientação para produção e passam por orientação por vendas e marketing para chegar à orientação 72 Unidade I para o valor. A orientação para o valor, destaca-se, busca entender os clientes, os concorrentes e o ambiente, criar valor para eles e considerar outros públicos (stakeholders). Em seguida à apresentação de todos esses conceitos foi discutido todo o processo de administração de marketing nas organizações e a evolução dessa ciência nas organizações brasileiras, detalhando-se as cinco principais fases dessa evolução no Brasil e as perspectivas para o cenário futuro da gestão mercadológica. Também foi apresentado o grande marco dos estudos mercadológicos: o composto de marketing, que são os 4Ps (Preço, Praça, Produto e Promoção). Para se entender a importância dos 4Ps, é necessário compreender que, para satisfazer as necessidades dos clientes-alvo, é indispensável a interação entre os 4Ps. Ainda nesta unidade, tratamos sobre os ambientes de marketing e da importância de se segmentar o mercado para melhor atender às necessidades dos consumidores. Ao discutir a segmentação de mercado, foi explicado que está relacionada à ideia de diferenciação, sendo que diferenciação é o modo pelo qual os profissionais de marketing fazem suas ofertas de forma diferente da concorrência, a fim de se tornarem a escolha do cliente. Tudo isso fortalece a marca de uma organização, já que a marca pode ser entendida como a identificação sob a forma de nome, símbolo, termo, desenho ou alguma combinação de todos que diferencia um produto de seus similares.