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Introdução aos Estudos Históricos

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Indaial – 2020
Introdução aos 
Estudos HIstórIcos
Profª. Aniele Almeida Crescêncio
Prof. Jean Carlos Morell
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2020
Elaboração:
Profª. Aniele Almeida Crescêncio
Prof. Jean Carlos Morell
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
C919i 
 Crescêncio, Aniele Almeida 
 Introdução aos estudos históricos. / Aniele Almeida Crescêncio; Jean 
Carlos Morell. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 
 181 p.; il. 
 ISBN 978-65-5663-121-9 
 ISBN Digital 978-65-5663-122-6 
 1. História - Metodologia. - Brasil. 2. História - Estudo e ensino. – 
Brasil. I. Morell, Jean Carlos. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. 
 CDD 907
III
aprEsEntação
Acadêmico, seja bem-vindo ao Livro de Introdução aos Estudos 
Históricos. O objetivo deste livro é apresentar ao leitor a origem do que 
entendemos como História, o processo de cientificização da história, bem como 
os conceitos essenciais ao trabalho do historiador. Para isso, vamos conhecer 
os principais nomes relacionados à História, assim como os principais temas e 
as principais problemáticas para o trabalho do historiador. Dentre os assuntos 
que vamos abordar em nosso livro, temos a discussão do conceito de História, 
da História enquanto ciência e dos estudos sobre o tempo.
Na Unidade 1 estudaremos sobre o surgimento da concepção 
de História na Antiguidade e os principais historiadores do período. A 
importância da historiografia eclesiástica também será um tema em questão. 
Conjuntamente, iremos expor concepções de História importantes para 
a modernidade como a Historia Magistra Vitae, a mudança da História de 
Historie para Geschichte e o surgimento do Historicismo. Por fim, discutiremos 
a importância dos conceitos Memória, Esquecimento e Anacronismo para o 
trabalho historiográfico.
 
Na Unidade 2 vamos explorar sobre os principais locais de trabalho 
do historiador. São eles os Arquivos Históricos, os museus e as bibliotecas. 
Vamos refletir sobre a função que o historiador exerce nestes locais. Também 
analisaremos a principal forma que os historiadores têm acesso ao passado, 
as fontes históricas. Abordaremos as fontes tradicionais, que dividimos em 
fontes escritas e fontes arqueológicas; bem como as fontes que surgiram com 
as novas tecnologias, as fontes orais e as fontes audiovisuais.
 
Na Unidade 3 aprenderemos sobre o tempo. Mencionaremos a noção 
de tempo para áreas como a Filosofia, a Física, a Biologia e a Geologia. As 
noções de tempo de intelectuais como Agostinho de Hipona, Nietzsche e 
Henri Bergson serão apontadas. Também estudaremos a relação entre História 
e tempo, o tempo cíclico, o tempo linear, a temporalidade, a periodização 
da História, a duração e as formas de contar a passagem do tempo. Vamos 
conhecer sobre os diferentes calendários e o ensino das noções de tempo.
 
Desejos de um trajeto repleto de curiosidade e conhecimento!
IV
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
V
VI
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela 
um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro 
que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá 
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, 
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
LEMBRETE
VII
UNIDADE 1 – O QUE É HISTÓRIA ......................................................................................................1
TÓPICO 1 – AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA ...........................................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3
2 AS FONTES COMO ACESSO AO PASSADO .................................................................................3
3 A NOÇÃO DE HISTÓRIA NA ANTIGUIDADE ............................................................................4
4 A HISTORIOGRAFIA ECLESIÁSTICA ............................................................................................9
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................13
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................14
TÓPICO 2 – AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO ..........................................................15
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................15
2 A HISTÓRIA COMO MESTRA DA VIDA .....................................................................................15
3 A MUDANÇA DE SIGNIFICADO NO TEMPO ............................................................................17
4 AS FILOSOFIAS DA HISTÓRIA E O POSITIVISMO .................................................................18
5 O HISTORICISMO E A CIÊNCIA DA HISTÓRIA .......................................................................20
6 A OBJETIVIDADE E A SUBJETIVIDADE PARA A HISTÓRIA ................................................22
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................26
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................27
TÓPICO 3 – A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO ...................................29
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................29
2 A MEMÓRIA .........................................................................................................................................29
3 O ANACRONISMO .............................................................................................................................33
RESUMODO TÓPICO 3........................................................................................................................38
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................39
TÓPICO 4 – A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES .........................................41
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................41
2 O SURGIMENTO DA ESCOLA DOS ANNALES .........................................................................41
3 MARC BLOCH E O OFÍCIO DO HISTORIADOR .......................................................................44
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................47
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................50
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................51
UNIDADE 2 – AS FONTES HISTÓRICAS ........................................................................................53
TÓPICO 1 – AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR ..................................................................55
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................55
2 UMA INTRODUÇÃO ÀS FONTES HISTÓRICAS .......................................................................55
3 OS LOCAIS DE TRABALHO DO HISTORIADOR ......................................................................57
4 OS ARQUIVOS HISTÓRICOS, OS MUSEUS E AS BIBLIOTECAS .........................................58
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................67
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................68
sumárIo
VIII
TÓPICO 2 – AS FONTES TRADICIONAIS
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................69
2 FONTES ESCRITAS .............................................................................................................................69
3 FONTES ARQUEOLÓGICAS ............................................................................................................73
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................81
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................82
TÓPICO 3 – UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES .....................................................................83
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................83
2 FONTES ORAIS ....................................................................................................................................83
3 FONTES AUDIOVISUAIS .................................................................................................................87
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................95
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................99
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................100
UNIDADE 3 – HISTÓRIA E TEMPO ................................................................................................103
TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO ........................................................105
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................105
2 O TEMPO PARA A FILOSOFIA ......................................................................................................105
3 O TEMPO PARA AGOSTINHO DE HIPONA .............................................................................106
4 O ETERNO RETORNO DE NIETZSCHE ......................................................................................108
5 O TEMPO PARA HENRI BERGSON .............................................................................................111
6 NOÇÕES DO TEMPO FORA DO CAMPO DA HISTÓRIA .....................................................112
7 SALVADOR DALÍ E O TEMPO.......................................................................................................112
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................116
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................117
TÓPICO 2 – HISTÓRIA E TEMPO ....................................................................................................119
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................119
2 RELACIONANDO HISTÓRIA E TEMPO ....................................................................................119
3 TEMPO CÍCLICO ...............................................................................................................................120
4 TEMPO LINEAR .................................................................................................................................121
5 TEMPORALIDADE ............................................................................................................................122
5.1 PASSADO ........................................................................................................................................122
5.2 PRESENTE ......................................................................................................................................123
5.3 FUTURO ..........................................................................................................................................123
6 PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA ...................................................................................................125
7 DURAÇÃO ...........................................................................................................................................126
8 FORMAS DE CONTAR A PASSAGEM DO TEMPO .................................................................128
8.1 AS ERAS ..........................................................................................................................................130
8.2 O RELÓGIO ....................................................................................................................................131
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................135
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................136
TÓPICO 3 – OS DIFERENTES CALENDÁRIOS ............................................................................137
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................137
2 OS CALENDÁRIOS DA ANTIGUIDADE ....................................................................................137
3 CALENDÁRIO JUDAICO ................................................................................................................1384 CALENDÁRIO CHINÊS ...................................................................................................................139
5 CALENDÁRIO MUÇULMANO ......................................................................................................140
6 OS CALENDÁRIOS DAS CIVILIZAÇÕES PRÉ-COLOMBIANAS ........................................141
IX
7 CALENDÁRIOS NA TRADIÇÃO AFRICANA ...........................................................................142
8 CALENDÁRIOS JULIANO E GREGORIANO ............................................................................143
9 O CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS ...................................................................145
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................148
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................149
TÓPICO 4 – O TEMPO HISTÓRICO ................................................................................................151
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................151
2 OS HISTORIADORES E O TEMPO HISTÓRICO ......................................................................151
3 O TEMPO PARA O POSITIVISMO ...............................................................................................154
4 O TEMPO PARA O MARXISMO ....................................................................................................154
5 O TEMPO HISTÓRICO PARA KOSELLECK ...............................................................................155
RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................159
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................160
TÓPICO 5 – O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO ....................................................................161
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................161
2 O ENSINO DO TEMPO NAS AULAS DE HISTÓRIA ...............................................................162
3 A UTILIZAÇÃO DE DIFERENTES .................................................................................................164
LINHAS DO TEMPO NO ENSINO DE HISTÓRIA ......................................................................164
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................171
RESUMO DO TÓPICO 5......................................................................................................................173
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................174
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................175
X
1
UNIDADE 1
O QUE É HISTÓRIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade você deverá ser capaz de:
• compreender o surgimento da História;
• conhecer conceitos básicos de História;
• expor as mudanças principais no ambiente historiográfico;
• identificar diferentes perspectivas sobre os estudos historiográficos.
A unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer da unidade 
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo 
apresentado.
TÓPICO 1 - AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA
TÓPICO 2 - AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
TÓPICO 3 - A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO
TÓPICO 4 - A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, nesta Unidade estudaremos sobre a origem das fontes, 
o acesso do historiador ao passado, o surgimento da História na Antiguidade e a 
compreensão dos historiadores da Antiguidade acerca da História. Entenderemos 
a função das fontes para o trabalho historiográfico e a importância de fazer 
perguntas a elas. 
Estudaremos as peculiaridades dos historiadores da Antiguidade em 
relação aos estudos historiográficos. Veremos por qual motivo Heródoto é 
considerado “o pai da História”, compreenderemos a importância de Tucídides, 
escritor da História da Guerra do Peloponeso, bem como de Plutarco, escritor de 
vários volumes das Vidas Paralelas, para os estudos historiográficos. Também 
veremos, ao final, a importância da História Eclesiástica, que tem como autor 
principal Eusébio de Cesaréria, para os estudos historiográficos.
Feita essa rápida explanação acerta do tópico, convido você à leitura 
desses temas e que envolvem as primeiras reflexões acerca do conhecimento 
histórico. Espero que os saberes presentes neste tópico o ajude a aprofundar os 
seus conhecimentos acerca dos estudos históricos e lhe deem fundamento para o 
seu trabalho de historiador.
2 AS FONTES COMO ACESSO AO PASSADO
Introdução aos Estudos Históricos é o primeiro contato do acadêmico 
com o universo que envolve o campo científico da História. É a partir deste 
módulo que o estudante começa a refletir sobre os elementos básicos do trabalho 
do historiador.
Nossa primeira reflexão sobre a História será acerca das condições em que 
acessamos as nossas fontes e a intencionalidade que pode haver por trás destas. 
Quando entramos em contato com qualquer vestígio do passado, seja ele material 
ou imaterial, devemos nos perguntar sobre a origem do documento que estamos 
investigando. Uma fonte pode estar disponível apenas por ter sobrevivido ao 
tempo, como um fóssil, ou pode ter sido guardada com a intencionalidade de 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
4
ser preservada por um longo período. Saber a origem das documentações com as 
quais estamos lidando nos ajuda a desenvolver o nosso trabalho de História. A 
forma com que a fonte foi produzida ou armazenada pode mudar o nosso olhar 
sobre ela. Ter conhecimento das complexidades que envolvem o nosso acesso ao 
passado nos ajuda a entendê-lo melhor. 
O único acesso que temos ao passado é pelo presente, por objetos, 
textos ou recordações de indivíduos vivos que existem hinc et nunc e 
que os historiadores, com seu olhar treinado, identificam como restos 
de um passado que já não existe, como sobrevivências que podem 
ser tratadas como documentos. O universo desses vestígios constitui 
um terceiro sentido para o termo História: o de passado realmente 
existente hoje (GUARINELLO, 2003, p. 43, grifos do autor).
O nosso acesso ao passado será sempre a partir das fontes de que nos 
restaram no presente. As fontes não falam por si só. Quando o historiador entra 
em contato com a fonte, é essencial que ele faça perguntas sobre o contexto em 
que esta foi escrita. Entender o recorte espacial e temporal da fonte, bem como 
quem a escreveu, nos ajuda a entender sua existência. Enquanto historiadores, é 
essencial que façamos perguntas aos nossos objetos de estudo.
O historiador é um dos produtores da narrativa histórica. Ele, enquanto 
um escritor da ciência da História, precisa de alguns meios para produzir o seu 
saber. Segundo Guarinello, o historiador é um produtor de sentido e “impõe 
ordem ao caos da documentação, assumindo coerência e continuidade no que é, 
por si mesmo, incoerente e descontínuo” (GUARINELLO, 2003, p. 45). 
Um bom exemplo de criação de sentido pelos historiadores é o de uma 
sociedade que nos influencia muito nos dias atuais, a sociedade que denominamos 
como sociedade grega. A civilização que consideramos como pertencenteà Grécia 
Antiga não é uma civilização homogênea. Havia diversas sociedades diferentes, 
com suas peculiaridades, muitas vezes opostas entre si. A visão da Grécia 
Antiga difundida atualmente foi construída em um período temporal posterior à 
Antiguidade. 
3 A NOÇÃO DE HISTÓRIA NA ANTIGUIDADE 
Quando estudamos acerca da cultura helenística, percebemos que ela está 
presente em nossa sociedade até os dias de hoje. Ela é o fundamento de vários 
âmbitos da vida contemporânea, como o nosso sistema judiciário e as nossas 
noções de filosofia. Com a História não foi diferente. As primeiras reflexões sobre 
a História surgiram na Grécia Antiga.
 
Os historiadores da Antiguidade estavam, em certa medida, preocupados em 
buscar um discurso coerente para os seus relatos. Xenofonte, por exemplo, ao narrar 
a vida do rei persa Ciro, buscava narrar os relatos dessa personagem associados a 
uma investigação própria, preocupado com a credibilidade de sua obra. 
TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA
5
Heródoto, considerado o Pai da História, buscava se distanciar de Hecateu 
de Mileto por vê-lo apenas como um contador de relatos.
“Pai da História” (pater historiae) é o epíteto conferido a Heródoto pelo 
orador romano Cícero no século I a.C., em sua obra Das Leis, I, 1. De 
fato, a palavra história foi uma invenção de Heródoto, uma derivação do 
termo ἵστορ (hístor), que significa “aquele que sabe”, mas aquele que 
conhece os fatos por “interrogar”, por “informar-se” a respeito de algo, 
daí “investigar”, como expressa o verbo ἱστορέω (historéō) do qual deriva 
esse substantivo. Por essas denominações, Heródoto criou a palavra 
ἱστορίαι (historíai), título de sua obra, que significa “investigações”. 
Portanto, Heródoto foi o primeiro a conceber um método histórico 
capaz de reconstituir e de explicar a história dos povos do seu tempo 
(SILVA, In: HERÓDOTO, 2015a, p. 10, grifos do AUTOR).
 
Era preocupação de Heródoto promover suas investigações e não apenas, 
como era de costume no período, confiar nas musas, que eram vistas como as 
únicas detentoras de saber. Ele se preocupava em fazer suas investigações a partir 
das testemunhas dos fatos históricos que investigava. 
O historiador foi o primeiro a relatar os acontecimentos de forma escrita 
seguindo um método, porém, a forma como Heródoto escrevia História se 
difere da escrita da História nos dias atuais. Diferente da pesquisa científica 
da modernidade, há no historiador “a influência, sobretudo, de dois gêneros já 
existentes em sua época: a poesia épica e a filosofia” (SILVA, 2015b, p. 40).
FIGURA 1 – BUSTO DE HERÓDOTO
FONTE:<https://haber.kursistem.com/dorieus.html>. Acesso em: 13 mar. 2020.
Os estudos do historiador se transformaram em uma série de livros. Está 
é denominada Histórias e contém 9 volumes. O primeiro volume das séries de 
Heródoto é dedicado a Clio. Este volume trata das Guerras Persas e transforma as 
Histórias Orais do período em narrativa (SILVA, In: HERÓDOTO, 2015a, p. 23).
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
6
Os livros da série de Heródoto são dedicados as musas gregas. Silva (2015a) 
apresenta os nove livros dedicados, sequencialmente a Clio, a musa da História; Euterpe, 
musa da lírica e da música de flauta; Talia, musa da comédia; Melpomene, musa da 
tragédia; Terpsícore, musa da dança; Érato, musa dos hinos e da música para lira; Polímnia, 
musa dos cantos sacros; Urânia, musa da astronomia; Calíope, musa da poesia épica. 
(SILVA, In: HERÓDOTO, 2015a).
NOTA
Outro historiador de fundamental importância para a História da 
Antiguidade foi Tucídides. Assim como Heródoto, Tucídides também escreveu a 
História sobre uma guerra. Seu relato foi acerca da guerra entre os peloponésios 
e os atenienses, a obra é denominada História da Guerra do Peloponeso (GASTAUD, 
2001, p. 133-134). Este foi o seu único escrito. A guerra também foi tema de vários 
outros escritos historiográficos da Antiguidade, sendo que Xenofonte, Políbio, 
César, Tito Lívio e Salústio também tiveram em seus estudos os temas guerra e 
revolução (MOMIGLIANO, 1993, p.144 apud GASTAUD, 2001, p. 133).
Assim como aconteceu em relação a Heródoto, “o universo de Tucídides 
é o universo da filosofia, da sofística e da tragédia” (GASTAUD, 2001, p. 133). 
Há referências em alguns autores “a um encontro de Heródoto, historiador da 
guerra entre os persas e os gregos, já famoso na época, “[...] Tucídides ter-se-ia 
emocionado até as lágrimas, revelando a sua vocação de historiador” (KURY, 
2001, p. XLI e XLII). Porém, mesmo com um tema de estudo semelhante, os 
historiadores desenvolvem sua escrita da História de formas distintas. 
Hartog destaca a diferença que existe entre os parágrafos introdutórios 
de Heródoto e Tucídides, a “rapprocher les deux overtures, on voit que 
l’exposition hérodotéenne est remplacée par l’ecriture thucididéenne”: 
enquanto Heródoto apresenta/expõe (apodexis) o resultado de 
suas investigações, Tucídides escreve (sunégrapse) a guerra entre 
peloponésios e atenienses. O termo empregado por Heródoto pertence 
ao mundo da oralidade, o termo utilizado por Tucídides o instala, 
au debut, no mundo da escritura (GASTAUD, 2001, p. 135, grifos do 
autor).
Tucídides demostra a sua escolha por narrar os fatos mais notáveis. O 
historiador, com sua base em conhecimento militar e arqueologia, faz críticas à 
poesia de Homero e também critica o engrandecimento dos fatos nos relatos do 
poeta, que tinham a intencionalidade de imortalização. Ele faz questão, também, 
de separar a tarefa dos historiadores e dos poetas. (LIMA; CORDÂO, 2010, p. 
270-274). 
Tucídides observa que a investigação do caráter verdadeiro dos fatos 
através de evidências (tekmeríon) e de vestígios arqueológicos (semeíon) 
constitui a diferença essencial da história em relação à poesia. Parte 
TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA
7
dessas evidências foi encontrada por Tucídides nas próprias obras dos 
poetas que, para ele, contribuíram, ao menos, para o estudo das coisas 
antigas (LIMA; CORDÂO, 2010, p. 274).
Heródoto e Tucídides foram contemporâneos, porém, apesar de Tucídides 
conhecer o termo História, cunhado por Heródoto, que significa investigações, o autor 
nunca utilizou a palavra História ou mencionou Heródoto diretamente em seus escritos 
(GASTAUD, 2001, p. 156).
NOTA
FIGURA 2 – BUSTO DE TUCÍDIDES
FONTE: <https://minionu15anoscgp421ac.files.wordpress.com/2014/09/tucidides.
gif?w=253&h=300>. Acesso em: 13 mar. 2020.
Caso você queira saber mais sobre o tema, as historiadoras Marinalva Vilar de 
Lima e Michelly Pereira de Sousa Cordão relatam em seu artigo não apenas sobre como 
Xenofonte, Heródoto e Tucídides faziam suas pesquisas. Elas também abordam, no texto 
denominado História e Historiografia Antigas: A Construção de um Gênero Discursivo, 
as formas de abordar o passado de investigadores como Tito Lívio, Tácito, Aristóteles, 
Horácio e Cícero.
NOTA
Um outro historiador clássico na Antiguidade e estudado até os dias 
atuais foi Lúcio Méstrio Plutarco. 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
8
FIGURA 3 – PLUTARCO
FONTE: <https://vidasfamosas.com/2009/10/05/plutarco-el-gran-historiador-griego/> Acesso 
em:13 mar. 2020.
Plutarco é um grande nome da Antiguidade, conhecido por escrever Vidas 
Paralelas. Nesta obra ele sempre compara as biografi as de um grego e um romano. 
Dentre elas, comparou as vidas de Temístocles e Camilo; Alexandre Magno e Júlio 
César; Demóstenes e Cícero.
Plutarco, ao realizar seus estudos, preocupou-se com vários aspectos do 
trabalho do historiador. Dentre eles, as fontes utilizadas e a credibilidade dos 
conteúdos. O historiador realizou os seus trabalhos em consonância com os 
estudos historiográfi cos da época, sua metodologia era própria de um historiador 
(SILVA, 2006).
Recomendamos a leitura da obra Plutarco Historiador: Análise das Biografi as 
Espartanas, da historiadora Maria Aparecida de Oliveira, caso você tenha interesse em 
aprofundar as análises sobre a forma como o historiador construiusuas análises das 
biografi as.
Um bom livro para se aprofundar no assunto é As raízes clássicas da 
historiografi a moderna, de Arnaldo Momigliano. O historiador relata, em seis capítulos, 
diversas infl uências historiográfi cas da Antiguidade na modernidade. 
DICAS
DICAS
TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA
9
4 A HISTORIOGRAFIA ECLESIÁSTICA
A influência da religião cristã na escrita da História é indispensável. 
Eusébio de Cesaréia e a sua História Eclesiástica dá início a uma nova maneira de 
pensar a escrita histórica. Ele “foi o primeiro a escrever a História da Igreja a partir 
do ponto de vista do fiel, ele abriu um novo período na história da historiografia” 
(MOMIGLIANO, 2004, p. 195). A historiografia eclesiástica tem características 
específicas.
Definimos o que nos parecem ser os elementos essenciais da 
historiografia eclesiástica: a inter-relação contínua entre dogmas e 
fato; o significado transcendental atribuído ao período das origens; a 
ênfase na documentação factual; a necessidade sempre presente em 
relacionar os acontecimentos das Igrejas locais ao corpo místico da 
Igreja Universal (MOMIGLIANO, 2004, p. 194).
 
FIGURA 4 – EUSÉBIO DE CESARÉIA
FONTE: <https://institutobiblicosapiranguense.files.wordpress.com/2009/04/eusebio-de-
cesareia.jpg>. Acesso em: 13 mar. 2020.
O historiador da Igreja não encontrou nenhum opositor a seus escritos e 
também teve, no mínimo, quatro sucessores do seu trabalho. Foram eles Sócrates, 
Sozomeno, Gelásio e Teodoreto (MOMIGLIANO, 2004). 
Os escritos de Eusébio influenciaram também historiadores na Idade 
Média. Ele foi lido por intelectuais como Gregório de Tours, Beda, Isidoro e 
Santo Agostinho. O bibliotecário Anastácio, junto com João Diácono, cogitou a 
possibilidade de “reviver o tipo de história universal eclesiástica característico 
de Eusébio” (MOMIGLIANO, 2004, p. 205), o que nunca aconteceu. Diferente 
da Antiguidade, “o padrão dominante de história medieval eclesiástica é aquele 
que enfatiza os acontecimentos locais de uma sé ou de um mosteiro particular” 
(MOMIGLIANO, 2004, p. 205). A História Eclesiástica de Eusébio também teve a 
sua influência no início da Idade Moderna, no período da Reforma Protestante, 
“o que os protestantes e cristãos queriam provar era que eles tinham a autoridade 
dos primeiros séculos da Igreja do lado deles” (MOMIGLIANO, 2004, p. 209). 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
10
UMA MORFOLOGIA DA HISTÓRIA:
AS FORMAS DA HISTÓRIA ANTIGA
Norberto Luiz Guarinello
Comecemos com uma pergunta bastante ampla: o que é História 
Científica? Qual seu objeto de estudo? Não é uma pergunta fácil. Em minha 
perspectiva, o objeto da História não é algo real, no sentido de ser uma coisa, 
algo que possa ser definido com precisão dentro de claros limites espaciais, 
cronológicos e conceituais. A História científica, em todos seus campos de 
especialização, opera de fato com formas (ou, antes, fôrmas), mediante as 
quais os historiadores tentam dar sentido ao passado, criando uma sensação 
de realidade e de completude (ANKERSMIT, 1988). Esta afirmação tem tons 
pós-modernistas sem dúvida, mas não estou preocupado aqui com o debate 
sobre o suposto caráter retórico ou fictício da disciplina. Aceito o estatuto 
científico da História e a validez e utilidade de seus produtos1. O problema 
que desejo investigar são essas “formas” que há pouco mencionei, pelas quais 
o historiador tenta fazer o passado inteligível para o presente.
O que é uma forma no trabalho de um historiador? Para entender 
o sentido dado aqui a esta palavra tenho que fazer algumas observações 
preliminares. Primeiramente, é importante ter em mente o modo como 
os historiadores produzem e escrevem História. Normalmente, História é 
pensada como res gestae, ou como narratio rerum gestarum, ou seja, o passado 
como tal, como aconteceu realmente, ou sua reconstrução ou narrativa por um 
especialista, um cientista moderno, porém, os historiadores não narram ou 
reconstroem o passado, pela razão simples que o passado nos é inacessível, 
não existe mais e não pode ser reavivado ou recuperado como realmente foi. 
O único acesso que temos ao passado é pelo presente, por objetos, textos ou 
recordações de indivíduos vivos que existem hinc et nunc e que os historiadores, 
com seu olhar treinado, identificam como restos de um passado que já não 
existe, como sobrevivências que podem ser tratadas como documentos. O 
universo desses vestígios constitui um terceiro sentido para o termo História: 
o de passado realmente existente hoje.
Tais vestígios, contudo (e este é um ponto crucial), não importa sua 
quantidade ou qualidade, não são o próprio passado, mas algo bastante 
diferente. Não são representativos do que aconteceu de um modo uniforme ou 
regular; não são o passado como se reduzido a uma versão pequena de si mesmo. 
São mais como escassos pontos de luz na escuridão: isolados, desordenados, 
caóticos, filtrados, irregulares. Permitem-nos falar sobre o passado sem jamais 
vê-lo. Esta possibilidade tem, porém, um custo, porque estes restos caóticos 
também determinam nossas visões do passado. Realidades que não deixaram 
vestígios, fossem importantes ou não, desapareceram completamente, estão 
fora de alcance, permanecerão sempre desconhecidas, coisas esquecidas. 
Mas até mesmo o que sobreviveu só nos permite representar o passado de 
TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA
11
um modo muito indireto, por múltiplas mediações. Estas mediações são 
precisamente o que denominamos “Ciência da História”, e as formas são uma 
parte decisiva delas. Algumas dessas mediações, como teorias ou modelos, são 
frequentemente explícitas. Outras, como as formas, são bem menos visíveis. 
Pensemos um momento sobre essas mediações, antes de olhar especificamente 
para as formas.
Sobre o que é a História dos historiadores? É uma produção específica 
das sociedades modernas, mas também uma parte da memória coletiva, ou 
antes, uma parte da produção social da memória, e muito particular. Seu 
principal pressuposto é ser uma Ciência e, portanto, diferente da ficção 
histórica e de outros produtos da memória coletiva. Isso é assim porque, entre 
outras coisas, pressupõe que haja ordem no passado ou, em outras palavras, 
que a História (acontecida) é racional, que as sociedades humanas sempre 
foram organizadas e que seu desenvolvimento segue certos princípios (até 
mesmo se o princípio for o puro acaso). Também é científica porque considera 
que os documentos são o fundamento de qualquer reconstrução do passado, a 
base com a qual se pode confirmar ou negar realidades e a prova definitiva de 
que uma ordem existiu no passado.
Essa ordem é fixada por teorias ou modelos de realidade (cuja diferença 
não discutirei aqui). As teorias e os modelos usados por historiadores são 
precisamente pressuposições da existência de uma ordem, da mesma 
maneira que as várias teorias e modelos de realidade da Física (relativística, 
quântica). Na História, contudo, os modelos diferem grandemente entre 
si, porque a realidade social é mais complexa que a natureza. E também, é 
preciso reconhecê-lo, porque há interesses sociais diferentes, e até mesmo 
contraditórios, na produção científica da memória, e estes interesses mudam 
com o passar do tempo.
Teorias e modelos são mediações. Têm um papel fundamental na prática 
da História, no modo como os historiadores a escrevem. Estes selecionam 
fatos entre os vestígios (os documentos), baseando-se em certas teorias da 
sociedade e da ação humana e em modelos mais específicos da sociedade 
que querem estudar. Teorias e modelos são cruciais; são modos de encarar 
os objetos pesquisados, de selecionar fatos pertinentes e pô-los em relação. 
Mesmo quando implícitos, teorias e modelos são modos de transformar os 
vestígios em interpretações do passado e de propor reconstruções específicas 
da história humana ou de partes dela. Eles relacionam os fatos desconexos 
que aparecem nos documentos de vários modos, por exemplo,considerando-
os concomitantes ou colocando-os em relação de causa e efeito. Se, para um 
historiador, eventos políticos ou a atitude das elites forem fatores decisivos na 
História, ele selecionará informações dos documentos para extrair eventos e 
relacioná-los, explicando ou interpretando uma realidade passada de modo a 
que faça sentido. Se conferir, porém, prioridade à economia como a dimensão 
explicativa na estruturação das sociedades humanas, selecionará fatos 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
12
econômicos e os colocará em uma certa ordem, seja privilegiando as relações 
de propriedade e produção, como o fazem os marxistas, seja atribuindo mais 
importância às relações de troca, ao mercado, e assim por diante. 
Teoria, modelos e documentação são assim complementares e 
inseparáveis. Isto é mais ou menos consensual. Quero ressaltar outro ponto. Há 
uma outra dimensão dentro da prática da História para a qual os historiadores 
raramente voltam sua atenção. A associação entre teoria, modelos e documentos 
não basta para explicar o trabalho do historiador e a interpretação do passado 
que propõe. Aqui entram as formas. Para definir o que são formas, temos que 
ir por partes.
1. Contento-me aqui em transcrever as palavras de Cameron (1989, p. 
206): “At least some elements in most historical narratives can in principle be falsified: 
it follows then that a historian’s relation to some such concepts as ‘truth’ must of 
necessity be different from that of, say, a novelist or a literay critic. The abandonement 
of this relation not only brings History in a Derridean denial of its own value, but also 
removes all distinctions between it and other narrative forms”. 
2. The demonstration could be repeated from what one is tempeted to call 
primary evidence, but evidence conveys nothing outside a framework... It is not a bad 
idea to inspect the foundations once in a while and prod the framework” (REEVE, 
2001, p. 246) (Tradução: A demonstração pode ser repetida a partir do que se 
tenta chamar de evidência primária, mas a evidência não transmite nada fora 
de uma estrutura... Não é uma má idéia inspecionar as fundações de vez em 
quando e estimular a estrutura.). 
(GUARINELLO, 2003, p.42-45)
13
Neste tópico, você aprendeu que:
• As fontes são o acesso do historiador ao passado. É indispensável o 
questionamento das mesmas para uma investigação historiográfica de 
qualidade.
• Os historiadores da Antiguidade estavam preocupados com uma investigação 
séria em seus estudos.
• O conceito de História foi uma invenção de Heródoto, escritor das Histórias.
• Tucídides, em suas investigações sobre a História, a diferencia da poesia.
• Plutarco foi um grande biógrafo da Antiguidade que escreveu biografias 
comparadas entre gregos e romanos.
• Eusébio de Cesaréia inaugurou, com seus estudos de História Eclesiástica, uma 
importante maneira de pensar a História, que influenciou os historiadores da 
Idade Média e do início da Modernidade.
RESUMO DO TÓPICO 1
14
1 As fontes históricas são a forma como o historiador acessa o passado. A 
partir do que foi apresentado sobre elas no Tópico 1, pode-se afirmar que:
I- Quando o historiador entra em contato com as fontes, é essencial que ele 
faça perguntas sobre ela. 
II- O historiador lida com um passado que não existe mais, o seu acesso ao 
passado é pelas fontes.
III- É considerado como fonte apenas os documentos que tiveram a 
intencionalidade de serem preservados ao longo do tempo.
IV- Entender o recorte espacial e temporal da fonte nos ajuda a entendê-la com 
maior profundidade.
Estão CORRETAS:
a) ( ) As afirmativas I e II.
b) ( ) As afirmativas I e IV.
c) ( ) As afirmativas I, II e IV.
d) ( ) As afirmativas II, III e IV.
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
2 Os historiadores da Antiguidade não tinham critérios delimitados e pré-
definidos para a escrita da História, mas eles estavam preocupados com o 
seu oficio. Retome o conteúdo deste tópico atribuindo V para as sentenças 
verdadeiras e F para as sentenças falsas:
( ) Heródoto tinha como maior inspiração para a sua escrita o pensador 
Hecateu de Mileto. 
( ) Tucídides, que tinha base em conhecimento militar e arqueologia, fazia 
elogio às poesias de Homero.
( ) Xenofonte, em sua narrativa, buscava narrar os relatos dos personagens 
associados a uma investigação própria. 
( ) Plutarco foi um historiador da Antiguidade muito conhecido por escrever 
as Vidas Paralelas, relatos históricos que comparavam as biografias de um 
grego e um romano.
Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) ( ) V – V – V – V.
b) ( ) F – F– V – V.
c) ( ) V – V – F – F.
d) ( ) V – F – F – V.
e) ( ) F – V – V – F.
AUTOATIVIDADE
15
TÓPICO 2
AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, neste tópico estudaremos concepções de História que 
são fundamentais para a modernidade. A primeira noção abordada é a História 
como Mestra da Vida, expressão que foi criada por Cícero, mas atravessou a Idade 
Média e perdurou até o Século XVIII. Também aprenderemos sobre a mudança do 
conceito de História, de Historie para Geschichte, em língua alemã. Esta mudança 
altera a função da História nos estudos historiográficos. 
Adentraremos também no entendimento das Filosofias da História e um 
movimento influenciado por estas, o Positivismo. O próximo tema será o momento 
em que a História se torna uma disciplina científica e, com ele, o surgimento do 
Historicismo. Por último, refletiremos acerca da Objetividade e da Subjetividade 
da História. Feito este esclarecimento do tópico, esperamos que estes temas lhe 
ajudem a construir o aporte teórico necessário para o ofício do historiador.
2 A HISTÓRIA COMO MESTRA DA VIDA
O termo em latim, História Magistra Vitae, é traduzido para o português 
como História Mestra da Vida. Esta expressão de Cícero já foi fortemente aceita e 
utilizada pela historiografia. A partir dela tem-se intenção de estudar o passado 
como um exemplo, a fim de não repetir erros. A partir desta forma de pensar “a 
história seria um cadinho contendo múltiplas experiências alheias, das quais nos 
apropriamos com um objetivo pedagógico” (KOSELLECK, 2006, p. 42). Porém, 
esta noção de História já recebeu e ainda recebe críticas no meio historiográfico. 
Ela foi considerada como útil por muito tempo, pois com ela era possível 
usufruir dos exemplos do passado em benefício do presente. Porém, ela também 
foi utilizada como uma forma de manipulação para obter benefícios. Há um relato 
onde Friedrich von Raumer nos concede um exemplo, como podemos ver abaixo:
Durante uma reunião em Charlottenburg, Oelssen [chefe de 
departamento no Ministério das Finanças] defendia vivamente a impressão de 
grande quantidade de papel-moeda para pagar dívidas. Uma vez esgotados 
os argumentos contrários, eu (conhecendo meu homem) disse com demasiada 
ousadia “Mas senhor Conselheiro Privado, o senhor certamente se lembra que 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
16
já Tucídides falava do mal que sucedeu quando, em Atenas, decidiu-se imprimir 
papel-moeda em grande quantidade”. “Essa é uma experiência de grande 
importância”, ele retrucou em tom conciliador, deixando-se assim convencer, 
para manter a erudição (von RAUMER, 1861, p. 118 apud KOSELLECK, 2006, p. 
42).
Com este relato podemos perceber que a História como Mestra da Vida 
foi utilizada, neste contexto, sem compromisso com a verdade. A intenção era 
defender interesses próprios.
FIGURA 5 – BUSTO DE CÍCERO
FONTE:< https://p2.trrsf.com/image/fget/cf/940/0/images.terra.
com/2014/05/14/140514cicerohistoriavoltaire3.jpg > Acesso em: 13 mar. 2020.
A noção de Cicero atravessou o período da Idade Média. As obras do 
historiador foram catalogadas em mosteiros. A Igreja Católica demonstrou, de 
início, certa resistência à Historia Magistra Vitae de Cícero e seu caráter pagão. 
Porém, clérigos influentes, como Isidoro de Sevilha e Beda, defenderam desta 
forma de pensar a História. Ambosos clérigos “contribuíram para que também 
o motivo das máximas profanas conservasse algum lugar, ainda que subalterno, 
ao lado da história que era legitimada por seu conteúdo religioso” (KOSELLECK, 
2006, p. 44).
 No período do Renascimento, Maquiavel também exalta essa forma de 
pensar a História, não só com a intenção de admirar o passado, mas de imitá-
lo (KOSELLECK, 2006). Segundo Koselleck a Historia Magistra Vitae teve o seu 
significado semântico modificado ao longo no tempo, mas o uso da expressão 
“perdura quase ilesa até o Século XVIII” (KOSELLECK, 2006). 
Até este período, as transformações sociais ocorriam lentamente e os 
exemplos do passado eram proveitosos ao presente. Mas havia incoerência entre 
os que a utilizavam. Montaigne e Bodin, por exemplo, utilizaram a História 
como exemplo para demonstrar coisas opostas. Um queria romper com regras 
gerais, outro encontrá-las (KOSELLECK, 2006, p. 42-43). A Historia Magistra 
Vitae demonstrou, neste caso, certa incompatibilidade. Sendo assim, esta forma 
de pensar historicamente entrou em descrédito, com isso “não se pode mais 
TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
17
esperar conselho a partir do passado, mas sim apenas de um futuro que está por 
se constituir [...] não se poderia tirar mais nenhum proveito de uma História que 
instruía por meio de exemplos” (KOSELLECK, 2006, p. 58). Na modernidade, a 
noção de História que orientava à vida das pessoas é substituída por outra noção, 
como veremos a seguir.
3 A MUDANÇA DE SIGNIFICADO NO TEMPO
O conceito de História, como já apontado, surgiu na Antiguidade. Os 
historiadores do período não tinham uma formação específica e o significado que 
competia ao termo na Antiguidade não lhe compete nos dias atuais.
A palavra Historie era utilizada para relatar os acontecimentos, porém, ela 
foi substituída, no início da modernidade, por outro termo. 
Se a velha história [Historie] foi arrancada de sua cátedra, e, 
certamente, não apenas pelos iluministas, a quem tanto aprazia servir-
se de seus ensinamentos, isso aconteceu na esteira de um movimento 
que organizou de maneira nova a relação entre passado e futuro. Foi 
finalmente “a história em si” [die Geschichte selbst] que começou a abrir 
um novo espaço de experiência. A nova história [Geschichte] adquiriu 
uma qualidade temporal própria. Diferentes tempos e períodos 
de experiência, passíveis de alternância, tomaram o lugar outrora 
reservado ao passado entendido como exemplo (KOSELLECK, 2006, 
p. 44, grifos do autor)
Na língua alemã a palavra Historie aludia a narrativa de algo, enquanto 
Geschichte aludia a um acontecimento ou a uma série de ações cometidas ou 
sofridas. Ao fim, o uso do conceito Geschichte predominou. 
Por ora, o conceito Historie perdeu para Geschichte a pretensão de ser 
História como Mestra da Vida. Porém, o conceito Geschichte também abandonou, 
com o tempo, essa pretensão (KOSELLECK, 2006). A palavra Geschichte “de 
maneira imperceptível e inconsciente, e por fim com a ajuda de diferentes 
reflexões teóricas, condensou-se no coletivo singular” (KOSELLECK, 2006, p. 50). 
Com a singularização da História, “a Historie foi destituída de seu objetivo de 
atuar imediatamente sobre a realidade” (KOSELLECK, 2006, p. 57).
A noção de História como Geschichte, ou seja, um coletivo singular, 
trouxe vários benefícios a historiografia. Uma das mudanças significativas é que, 
diferente das expectativas do termo Historie, as expectativas do termo Geschichte 
eram de se aproximar de uma História verdadeira, uma História real, a realidade 
histórica. 
A ideia de coletivo singular possibilitou outro avanço. Permitiu que se 
atribuísse à história aquela força que reside no interior de cada acontecimento que 
afeta a humanidade, aquele poder que a tudo reúne e impulsiona por meio de um 
plano, oculto e manifesto, um poder frente ao qual o homem pôde acreditar-se 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
18
responsável ou mesmo em cujo nome pôde acreditar estar agindo. (KOSELLECK, 
2006, p. 52).
Com a mudança do conceito de História, no meio historiográfico, de 
Historie para Geschichte, a História abandona a pretensão de ser uma coleção de 
exemplos. Ela se preocupa com os pequenos acontecimentos, o singular.
4 AS FILOSOFIAS DA HISTÓRIA E O POSITIVISMO
No início da profissão de historiador os caminhos a se seguir não estão 
completamente claros. Dentre as dúvidas, nos questionamos se o nosso labor 
é considerado uma ciência, pois, afinal, produzimos narrativas. Trataremos, a 
seguir, sobre as Filosofias da História e sobre um movimento subsequente a este, 
o da transformação da História em uma disciplina científica.
O termo Filosofia da História foi cunhado por François-Marie Arouet, 
conhecido pelo pseudônimo Voltaire, na França do Século XVIII. Ele é dos 
conhecidos pensadores do Iluminismo.
Esses filósofos do Século XVIII, que chamamos hoje de iluministas, 
definiam a si mesmos como homens do “século das luzes”. Para eles 
o Século XVIII foi o ápice da maturidade intelectual e racional do 
homem. Mas tais filósofos não seguiam uma única e coerente corrente 
de pensamento, pelo contrário, possuíam múltiplos discursos, não 
tinham nenhum manifesto ou programa de ideias, e muitos, inclusive, 
se contestavam mutuamente. Essas divergências dificultam a definição 
do Iluminismo como um movimento, pois não havia coerência de 
pensamento. Todavia, a maioria desses pensadores compartilhava 
algumas ideias em comum: a defesa do pensamento racional, a crítica 
à autoridade religiosa e ao autoritarismo de qualquer tipo e a oposição 
ao fanatismo (SILVA; SILVA, 2009, p. 210, grifos dos autores).
 
Sob os ideais do iluminismo francês, Voltaire também era defensor do 
despotismo esclarecido, que é a inserção de ideais iluministas em monarquias.
FIGURA 6 – VOLTAIRE. NICOLAS DE LARGILLIÈRE, 1928.
FONTE: <http://opiniaoenoticia.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Voltaire-e1447866215942.
jpg> Acesso em: 13 mar. 2020.
TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
19
Dentre os intelectuais que criaram uma Filosofia da História temos também 
o iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804), A Filosofia da História de Kant 
ambiciona chegar ao Esclarecimento (Aufklärung), que “é a saída do homem da 
menoridade pela qual é o próprio culpado. Menoridade é a incapacidade de 
servir-se do próprio entendimento sem direção alheia” (KANT, 2009, p. 407, 
grifos do autor). Este texto, bem como demais obras de Kant, são fundamentais 
para os intelectuais até os dias atuais. 
 
As Filosofias da História também foram criadas por intelectuais 
desvinculados ao Iluminismo. Elas também não se restringiram ao Século XIX. 
Outros pensadores conhecidos e importantes também criaram suas visões 
escatológicas do mundo. A Filosofia da História de Georg Wilhelm Friedrich 
Hegel defendia “auto reconhecimento do espírito através da Racionalidade” 
(RODRIGUES, 2017, p. 47), a de Karl Marx tinha como objetivo final o comunismo.
Escatologia é o “estudo do fim”. Como nos explica Abbagnano, este é um “termo 
moderno que indica a parte da teologia que considera as fases ‘finais’ ou extremas’ da vida 
humana ou do mundo. [...] Os filósofos usam às vezes esse termo para indicar a consideração 
dos estágios finais do mundo ou do gênero humano” (ABBAGNANO, 2007, p. 334).
NOTA
Como acabamos de apresentar, a Filosofia da História de Voltaire 
influenciou várias outras. Segundo Barros, dois ideais Iluministas foram de 
grande importância para o Positivismo do Século XIX, são eles “a perspectiva 
universalista” e “a busca por leis gerais que estariam por trás do desenvolvimento 
das sociedades humanas” (BARROS, 2011, p. 86). 
 
[...] é particularmente importante, para percebermos a essência 
do pensamento positivista da primeira hora, considerar que esta 
passagem de modelo iluminista ao modelo positivista envolveu uma 
reapropriação conservadora das ideias, que tinham desempenhado 
um papel importante no contexto revolucionário francês (BARROS, 
2011, p. 86).
 
OPositivismo estabelece certa continuidade do Iluminismo, ele “iria 
acrescentar, ao ideal iluminista de Progresso, o conceito de Ordem” (BARROS, 
2011, p. 91).
O fundador do Positivismo foi Augusto Comte. Comte formulou a Lei dos 
Três Estados da Humanidade. O primeiro, que seria a infância da humanidade, 
era a religião; em seguida, a filosofia representava a adolescência da humanidade; 
e, por último, a ciência era vista por Comte como a fase adulta da humanidade. 
Sell (2001) nos explica o estado positivo que Comte idealizou a seguir:
 
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
20
Estado positivo ou científico: o homem tenta compreender as relações 
entre as coisas e os acontecimentos através da observação científica e 
do raciocínio, formulando leis; portanto, não procura mais conhecer a 
natureza íntima das coisas e as causas absolutas. As causas primeiras 
e absolutas são substituídas pela observação da relação entre os 
fenômenos, mediante a rigorosa pesquisa científica (SELL, 2001, p. 13, 
grifos do autor).
 
Ainda há quem defenda o Positivismo em nossa contemporaneidade. Na 
Bandeira do Brasil está estampada o lema positivista “ordem e progresso” (SELL, 
2001, p. 11). Também foram criados alguns templos positivistas em nosso país. 
Um dos templos é situado no Rio de Janeiro, foi construído no Século XIX e hoje 
funciona como um museu, porém está interditado atualmente.
 
Oposto ao Positivismo, o próximo tema, o Historicismo, não segue mais 
os ideais Iluministas. 
5 O HISTORICISMO E A CIÊNCIA DA HISTÓRIA
A Alemanha é unificada apenas no ano de 1871, mas os territórios 
unificados carregavam histórias e identidades diferentes. O novo país precisava 
de uma identidade compartilhada e uma História comum. Os historiadores, com 
intenção de elaborar uma História comum a todos os estados do Império Alemão, 
começaram a pensar em uma Ciência da História. Sendo assim, a Unificação da 
Alemanha coincidiu com a constituição da Ciência da História (BENTIVOGLIO, 
2011). Este período foi, posteriormente, conhecido como o surgimento do 
Historicismo.
Entende-se por “historicismo” a época do desenvolvimento da ciência 
histórica, na qual esta se constituiu, como ciência humana compreensiva, 
sob a forma de uma especialidade acadêmica. Cronologicamente essa 
época se situa no século XIX e, embora seus principais representantes 
sejam historiadores alemães (Niebuhr, Ranke, Droysen, Mommsen), 
não se deve esquecer de que se trata de um fenômeno de história 
da ciência e da inteligência que abrangeu toda a Europa. Como os 
poucos historiadores brasileiros do século XIX (Francisco Varnhagen, 
Capistrano de Abreu) são intelectualmente “europeus”, o historicismo 
os inclui igualmente. Deve-se destacar também que o historicismo 
foi importante não apenas no desenvolvimento da ciência histórica. 
Deve-se recordar também que sua concepção própria de história, do 
método de pesquisa e do valor formativo do conhecimento histórico 
influenciou a evolução de diversas outras ciências, notadamente as 
sociais. (MARTINS, 2004, p. 2, grifos do autor).
TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
21
O historicista Johann Gustav Droysen (1818-1884) elaborou um Manual de 
Teoria da História que é dividido nos capítulos A Metódica, A Sistemática e A Tópica. Este é 
um bom material para compreender a Ciência da História no Século XIX.
DICAS
FIGURA 7– UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA (1871)
FONTE:<https://abrilguiadoestudante.files.wordpress.com/2016/07/gehistoria-10-63-ed.
jpg?quality=100&strip=info&w=700&h=458>. Acesso em: 13 mar. 2020.
A criação de um ambiente científico para a História na Alemanha do 
Século XIX definiu as diretrizes da nossa disciplina.
A História cujo renascimento se organiza e estrutura na passagem do 
Iluminismo para o Romantismo e se consolida ao longo do Século XIX 
nos cenários do positivismo, do historicismo, das escolas metódicas 
[...] é a História como ciência. História como ciência, cujos resultados 
historiográficos são expressos em narrativas que encerram argumentos 
demonstrativos articuladores da base empírica da pesquisa e da 
interpretação do historiador em seu contexto. A historiografia, assim, 
encerra em si as características de ser empiricamente pertinente, 
argumentativamente plausível e demonstrativamente convincente 
(MARTINS, 2010, p. 10).
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
22
Leopold von Ranke (1795-1886) é o principal nome do Historicismo 
alemão, considerado o pai do Historicismo. Para ele a História é simultaneamente 
ciência e arte. A História “é ciência na medida em que recolhe, descobre, analisa 
em profundidade; e arte na medida em que representa e torna a dar forma ao que 
é descoberto, ao que é apreendido” (RANKE, 2015, p. 202). Ranke também definiu 
as exigências das quais resultam a pesquisa histórica. Estas são, para ele: O amor 
à verdade, a investigação documental, o interesse universal, a fundamentação do 
nexo causal e o apartidarismo (RANKE 2015, p. 207-2010). 
O Positivismo e o Historicismo são muitas vezes considerados como o 
mesmo movimento, a partir de uma frase de Ranke. É a frase em que o historiador 
afirma que tem a intenção de expor as coisas como elas realmente aconteceram 
(wie es eigentlich gewesen). Quando analisamos a frase de perto percebemos que 
ela criticava dois movimentos: a Historia Magistra Vitae e as Filosofias da História. 
Sendo assim, as críticas são uma visão errônea sobre o historiador e sobre o 
Historicismo. Diferente do Positivismo, que tinha um caráter universalista, 
ou seja, a busca por leis gerais, o Historicismo tem duas dimensões principais 
opostas ao Positivismo, são elas “o caráter dinâmico e mutável e histórico” e “a 
sua inefável singularidade” (MATA, 2008, p. 50).
Para entender melhor como a Historia estava sendo pensada no ocidente no 
Século XIX recomendamos a leitura da obra A História Pensada e em especial o texto O 
conceito de História Universal (1831) de Leopold von Ranke.
DICAS
6 A OBJETIVIDADE E A SUBJETIVIDADE PARA A HISTÓRIA
Uma importante discussão que tange o conhecimento histórico é a sua 
relação com a objetividade e a subjetividade. Quando a História se tornou uma 
disciplina científica houve uma grande discussão acerca do seu caráter objetivo, 
bem como se ela se tornaria uma ciência com caráter comprovável, como as 
ciências naturais.
A partir de um longo debate entre a comunidade historiográfica, houve 
uma separação entre a noção de ciência das Ciências Humanas e das Ciências 
Naturais. Sobre a intenção de se alcançar uma objetividade da História, Barros 
explica através de Collingwood que “a História não poderia postular alcançar um 
tipo de objetividade análogo à das ciências naturais, e a operação historiográfica 
achar-se-ia radicalmente imersa na subjetividade do historiador” (BARROS, 2011, 
p. 169).
 
TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
23
Para compreender as discussões acerca da objetividade e da subjetividade 
da História, primeiramente vamos compreender as definições de objetivo e 
subjetivo, a partir de Adam Schaff em seu clássico História e Verdade:
1) É “objetivo” o que vem do objeto, ou seja, o que existe fora e 
independentemente do espírito que conhece; portanto, é “objetivo” 
o conhecimento que reflete (numa acepção particular desta palavra) 
este objeto;
2) é “objetivo” o que é cognitivamente válido para todos os indivíduos;
3) é objetivo o que está isento de afetividade e, portanto, de 
parcialidade.
O adjetivo “subjetivo” designa respectivamente:
1) o que vem do sujeito;
2) o que não possui um valor cognitivo universal;
o que é emocionalmente colorido e, por esse motivo, parcial. (SCHAFF, 
1995, p. 280)
O historiador ainda complementa que o conhecimento histórico sempre 
está ligado a um sujeito, o sujeito que conhece. Neste caso, haverá sempre a 
subjetividade do sujeito no conhecimento (SCHAFF, 1995). Sendo assim, o 
historiador divide a subjetividade em duas categorias. A primeira categoria é 
a boa subjetividade, “ou seja, aquela que provém da essênciado conhecimento 
como relação subjetivo-objetiva e do papel ativo do sujeito no processo cognitivo” 
(SCHAFF, 1995, p. 282) enquanto a má subjetividade é “a subjetividade que 
deforma o conhecimento por causa de fatores tais como o interesse, a parcialidade, 
etc” (SCHAFF, 1995, p. 282).
Não se pode nunca exigir do historiador a imparcialidade no sentido 
estrito deste termo. Apenas o fato histórico que o historiador estuda 
pode ser imparcial. […] A posição do historiador pode e deve ser 
científica, pode ser elevada e cada vez mais elevada, mas será sempre 
uma posição, um ponto de vista. O seu sucessor, que subirá a uma 
posição ainda mais elevada, terá um horizonte mais amplo, fará 
um juízo mais imparcial e mais fundamentado, mas, por sua vez, 
encontrará alguém para o ultrapassar (BOBRZYNSK, 1963, p. 190-191 
apud SCHAFF, 1995, p. 280).
“Se a objetividade do conhecimento devesse significar a exclusão de todas 
as propriedades individuais da personalidade humana, […] a objetividade seria 
pura ficção, porque implicaria em que o homem fosse um ser sobre-humano ou 
a-humano” (SCHAFF, 1995, p. 285). 
Não há como excluir todo o grau de subjetividade do conhecimento 
histórico, mas o historiador que trabalha de forma séria sempre terá a pretensão 
de objetividade. O que culminará no que Schaff descreve como relação subjetivo-
objetiva.
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
24
OBJETIVIDADE E SUBJETIVIDADE NO
CONHECIMENTO HISTÓRICO: A OPOSIÇÃO ENTRE OS 
PARADIGMAS POSITIVISTA E HISTORICISTA
José D’Assunção Barros
A historiografia dos Séculos XIX ao XXI oferece um arco interessante e 
diversificado de posições relacionadas à questão da oposição e interação entre 
objetividade e subjetividade em História. Praticamente o Século XIX abre-
se e encerra-se com este debate, pois além de ser o século da História, será 
constituído de décadas de confronto entre duas posições fundamentais com 
relação a esta questão: o positivismo e o historicismo. [...].
A oposição fundamental entre positivismo e historicismo dá-se em 
torno de três aspectos fundamentais: a dicotomia objetividade/subjetividade 
no que se refere à possibilidade ou não de a História chegar a leis gerais 
validas para todas as sociedades humanas; o padrão metodológico mais 
adequado à história (de acordo com o modelo das Ciências Naturais, ou um 
padrão específico para as ciências humanas); e a posição do historiador face ao 
conhecimento que produz (neutro, imerso na própria subjetividade, engajado 
na transformação social). 
Com relação aos padrões positivista e historicista, é importante ressaltar 
que, enquanto o positivismo, como paradigma, já está praticamente pronto desde 
o início do Século XIX – já que herda uma série de pressupostos do Iluminismo, 
embora por vezes invertendo a sua aplicação social e vindo a constituir de 
fato uma visão de mundo tendencialmente conservadora, ao contrário dos 
setores mais revolucionários do pensamento ilustrado – já o historicismo estará 
construindo o seu paradigma no decurso do próprio Século XIX. Influências 
mais isoladas lhe chegavam de autores precursores como Herder ou Vico, que já 
estavam no Século XVIII atentos à relatividade das sociedades humanas contra a 
tendência predominante na intelectualidade da época, o Iluminismo, que tendia 
a pensar na natureza universal do homem e em uma história ‘universalizante’, 
e não ‘particularizante’. Mas foram poucas as vozes que sintonizariam, neste 
século anterior, com as preocupações dos historicistas oitocentistas.
Os positivistas contam de fato com toda uma fortuna crítica que inclui 
as já clássicas discussões iluministas em torno de questões que lhes seriam caras: 
a possibilidade de um conhecimento humano inteiramente objetivo; a construção 
de uma história universal, comum a toda a humanidade; a possibilidade de 
amparar um conhecimento científico sobre as sociedades humanas com base na 
ideia de imparcialidade do sujeito que produz o conhecimento. Estes princípios, 
no que apresentam de mais essencial, sustentam-se sobre a noção de que haveria 
uma “natureza imutável do homem”. São estes fundamentos, que já vinham 
sendo discutidos há muito pelo pensamento ilustrado, que o positivismo 
tomaria para si, emprestando-lhes uma nova coloração. Por isto, podemos dizer 
TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO
25
que, no essencial das questões que irá colocar a si mesmo, o positivismo já inicia 
o Século XIX com um quadro bastante claro de seus posicionamentos, enquanto 
que já o historicismo se apresentará no decurso do Século XIX como algo que 
aqui tomaremos a liberdade de chamar de “historicismo em construção”. 
Para os primeiros historicistas, nada de fato está propriamente pronto. 
O historicismo ainda precisará construir a si mesmo, estendendo contribuições 
diversas em um arco que irá de Leopold Ranke – ainda preocupado em “narrar 
os fatos tal como eles aconteceram” – até Droysen e Dilthey, historicistas 
relativistas que já se ocupam em trazer para a historiografia uma reflexão sobre 
a subjetividade do próprio sujeito que constrói a história, bem como sobre a 
singularidade do padrão metodológico a ser encaminhado pela Historiografia: 
um padrão “compreensivo” e não “explicativo” como nas ciências naturais. 
Esta mesma discussão estende-se através do Século XX, chegando a nomes 
como Gadamer, Paul Ricoeur, e outros historicistas modernos como Marrou. Já 
pontamos alguns traços iniciais do confronto entre historicismo e positivismo. 
Poderemos prosseguir fazendo notar que a distinção fundamental entre 
positivistas e Historicistas, de um lado, refere-se ao contraste de suas 
perspectivas sobre o homem – percebido como uma natureza imutável, pelos 
positivistas, e como um ser em movimento e em processo de diferenciação, 
pelos historicistas. De outro lado, os dois paradigmas também se opõem 
precisamente no que se refere ao papel da objetividade e da subjetividade 
na produção do conhecimento histórico. Aferrados a um modelo cientificista 
que procura aproximar ou mesmo fazer coincidir os modelos das Ciências 
Naturais e das Ciências Sociais e Humanas, os positivistas tendem a enxergar 
a subjetividade – do mundo humano examinado, mas também do historiador 
– como um problema para uma história que postula ocupar um lugar entre as 
ciências. Já os historicistas, que construirão seus posicionamentos em torno 
desta questão ao longo das várias décadas do Século XIX, tenderão no limite a 
enxergar a subjetividade não como um problema, mas como uma riqueza, ou 
mesmo como aquilo o que precisamente permite à História constituir-se em 
um conhecimento dotado de uma especificidade própria. 
Haverá também, no arco historicista, os que, reconhecendo-a, buscam 
controlar a subjetividade, impor-lhe limites; mas os maiores nomes das últimas 
décadas do Século XIX, que estendem sua contribuição para uma continuidade 
com os historicistas do Século XX, chegam a realizar efetivamente a virada 
relativista, e a lidar com a subjetividade (inclusive a do próprio historiador) como 
algo que não compromete a cientificidade do trabalho historiográfico. Em vista 
disto, será fundamental para estes historicistas opor o paradigma explicativo 
das Ciências Naturais (e reivindicado pelos positivistas) ao paradigma da 
compreensão, aspecto que é operacionalizado de maneiras distintas por alguns 
historicistas quando contrapostos entre si. Será oportuno recolocarmos a 
contextualização sócio-política específica dos dois paradigmas – Historicista e 
Positivista – antes de passarmos a um estudo mais específico de alguns casos 
que ilustrem as posições descritas. FONTE: BARROS (2010 p. 76-78).
26
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que: 
• A expressão Historia Magistra Vitae, História como Mestra da Vida, foi cunhada 
por Cícero, na Antiguidade, e perdurou na forma ocidental de pensar a História 
até o Século XVIII. 
• A principal ideia da Historia Magistra Vitae é orientar o presente a partir do 
passado, para não repetir os erros.
•No campo historiográfico o termo Historie foi substituída pela palavra alemã 
Geschichte.
• O termo Filosofia da História foi cunhado por Voltaire, as filosofias da História 
tinham caráter escatológico.
• O Positivismo, inspirado nos ideais Iluministas, tinha uma perspectiva 
universalista e buscava leis gerais para a humanidade.
• O Historicismo preza o caráter dinâmico e mutável da História, bem como a 
singularidade.
• A Objetividade da História não é análoga a das Ciências Naturais.
• De acordo com Schaff, há sempre um grau de subjetividade no conhecimento 
histórico.
27
1 A noção de Historia Magistra Vitae, História Mestra da Vida, orientou a forma 
com que as pessoas se orientavam pela História por muito tempo. A partir 
do que foi apresentado no sobre esta no Tópico 2, pode-se afirmar que:
I- A Historia Magistra Vitae entrou em descrédito no período da Idade Média. 
II- A expressão cunhada por Cícero tem como intenção se orientar pelo 
passado, a fim de não repetir erros no presente.
III- Esta forma de pensar a História foi utilizada, por vezes, para demonstrar 
ideias opostas. Temos como exemplo Montaigne e Bodin.
IV- Com as transformações sociais do Século XVIII a Historia Magistra Vitae 
começa a ser questionada, pois para-se de esperar orientações do passado.
Estão CORRETAS:
a) ( ) As afirmativas I e II.
b) ( ) As afirmativas I e III.
c) ( ) As afirmativas III e IV.
d) ( ) As afirmativas II, III e IV.
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
2 Para Ranke uma das exigências que resultam para a pesquisa histórica é o 
interesse universal. Sobre ele Ranke (2015, p.208) afirma que “Há aqueles 
que se interessam apenas pelo estudo das instituições burguesas ou das 
constituições, pelos avanços da ciência ou pelas realizações artísticas ou 
pelos enredos políticos. A maior parte da história tratou até agora da guerra 
e da paz. Como, porém, tais campos nunca se dão apartados um do outro, 
mas estão sempre articulados e até mesmo condicionando-se mutuamente 
- como, por exemplo, os diferentes campos científicos influenciam tanto 
a política externa quanto, e sobretudo, a interna -, é necessário dedicar 
um interesse uniforme por todos eles. De outra forma nos tornaríamos 
incapazes de entender um por meio do outro, e caminharíamos rumo a uma 
meta oposta à do conhecimento”.
FONTE: RANKE, Leopold von. O conceito de história universal. Tradução: Sérgio da Mata. In:. 
Estevão de Rezende Martins. (Org.). A história pensada: teoria e método da historiografia européia 
do Século XIX. São Paulo: Contexto, 2015.
Com base na afirmativa acima, assinale a alternativa correta:
( ) Os campos científicos influenciam apenas as políticas internas.
( ) Houve uma predominância, até o escrito de Ranke, no estudo das 
instituições burguesas.
( ) Os estudos das realizações artísticas são mais importantes do que os dos 
enredos políticos.
( ) É necessário o interesse uniforme a todos os campos. De outra forma se 
caminha em direção oposta ao conhecimento.
AUTOATIVIDADE
28
29
TÓPICO 3
A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, como temos visto ao longo do nosso livro, os estudos 
historiográficos foram se modificando ao longo do tempo. Com o passar dos 
anos, o historiador foi se especializando. A História foi se tornando, aos poucos, 
o estudo do específico. Com isso, fomos trabalhando com temas e recortes cada 
vez mais limitados, em vez de Histórias grandes e generalizadoras. Um conceito 
que passou a ser estudado pela historiografia apenas recentemente, foi o conceito 
de memória. Refletir sobre a memória é, hoje em dia, indispensável para o 
historiador. A memória pode ser dividida em três categorias: lembrar, esquecer 
e comemorar. Dentre as várias classificações da memória, a que geralmente é 
estudada pelos historiadores é a memória coletiva.
Outro conceito importante que perpassa as discussões sobre a memória, 
é o conceito de esquecimento. Nietzsche foi um dos grandes críticos do que ele 
denomina, entre nos estudos da História, como excesso de memória, porém, 
tanto ele quando outros intelectuais, nos alertam sobre o perigo que envolve o 
esquecimento.
Um terceiro termo essencial para os historiadores é o anacronismo. 
Este é um conceito controverso entre os historiadores, há os que defendem a 
sua utilização enquanto uma prática controlada e os que o abominam. Quando 
melhor conhecemos a época que estudamos, menor é o risco de agir de forma 
inconsciente e anacrônica. Convidamos você, leitor, a apreciar este tópico e 
aprender mais sobre estes temas fundamentais para os historiadores. Boa leitura!
2 A MEMÓRIA
A memória é um conceito muito importante para os estudos historiográficos 
nos dias atuais, mas não foi sempre assim. O conceito começou a ser estudado 
pela historiografia apenas na década de 1970, com os historiadores da chamada 
Nova História. No período, os estudos em outras áreas, como a psicanálise, já 
estavam avançados (SILVA; SILVA, 2009). “Quando os historiadores começaram 
a se apossar da memória como objeto da História, o principal campo a trabalhá-
la foi a História Oral” (SILVA; SILVA, 2009, p. 276), mas hoje em dia este tema 
perpassa vários campos historiográficos.
30
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
Para entender a memória é importante classificá-la. Dentro de seu livro 
História e Memória o medievalista Jacques Le Goff apresenta uma definição geral 
de memória. Ele afirma que: “A memória, como propriedade de conservar certas 
informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, 
graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, 
ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 2003, p. 419). O historiador 
afirma, ao final, que as informações podem ser passadas ou representadas como 
passadas, pois, nem toda a memória foi vivida. Levando em consideração a 
complexidade da memória ao estudo historiográfico, explanaremos sobre ela 
mais detalhadamente a seguir.
É importante se atentar que memória não é sinônimo de lembrança. A 
lembrança é pessoal e individual, já a memória pode ser tanto individual, quanto coletiva. 
A memória também não é necessariamente vivida. Ela pode ser transmitida de geração 
em geração.
NOTA
Para Martins (2008, p. 37-39) é uma constante atividade humana 
apropriar-se do tempo pela memória. Ele ainda considera que é comum na 
contemporaneidade lidar com três categorias da memória: lembrar, esquecer e 
comemorar. O historiador categoriza a memória em três sentidos. O primeiro é 
lembrar na acepção de chamar a memória, ou seja, a memória subjetiva, que está 
conectada a lembrança. O segundo é denominado lembrança provocada, isso 
significa que os documentos e monumentos nos trazem alguma lembrança. O 
terceiro tipo é o do termo comemoração, o lembrar que é de interesse individual 
e coletivo.
Dentre os tipos de memória possíveis, existe um que é mais estudado 
pelos historiadores, a memória coletiva.
O estudo histórico da memória coletiva começou a se desenvolver com 
a investigação oral. Esse tipo de memória tem algumas características 
bem específicas: primeiro, gira em torno quase sempre de lembranças 
do cotidiano do grupo, como enchentes, boas safras ou safras 
ruins, quase nunca fazendo referências a acontecimentos históricos 
valorizados pela historiografia, e tende a idealizar o passado. Em 
segundo lugar, a memória coletiva fundamenta a própria identidade 
do grupo ou comunidade, mas normalmente tende a se apegar a um 
acontecimento considerado fundador, simplificando todo o restante 
do passado. Por outro lado, ela também simplifica a noção de tempo, 
fazendo apenas grandes diferenciações entre o presente (“nossos dias”) 
e o passado (“antigamente”, por exemplo). Além disso, mais do que em 
datas, a memória coletiva se baseia em imagens e paisagens. O próprio 
esquecimento é também um aspecto relevante para a compreensão da 
TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO
31
memória de grupose comunidades, pois muitas vezes é voluntário, 
indicando a vontade do grupo de ocultar determinados fatos. Assim, 
a memória coletiva reelabora constantemente os fatos (SILVA; SILVA, 
2009, p. 276).
As memórias, tanto individuais quanto coletivas, são essências para o 
trabalho do historiador. Sem elas, nosso labor não seria possível.
A memória pessoal, associada à memória coletiva inscrita na 
historicidade do espaço social em que cada indivíduo emerge, marca 
não apenas a identidade particular do sujeito agente, mas também a 
coletividade identitária em que cada um se encontra e que cada um 
quer assumir, modificar, transformar e mesmo rejeitar (MARTINS, 
2008, p. 45).
Um centro de referência de memória é a Biblioteca do Congresso, 
localizada em Washingtion, D.C., capital dos Estados Unidos da América. Esta é 
a maior biblioteca do mundo e possui mais de 155 milhões de itens.
FIGURA 8 – BIBLIOTECA DO CONGRESSO
FONTE:<https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/01/biblioteca-congresso-
americano-450x300.jpg>. Acesso em 13 mar. 2020.
Um tema muito importante que perpassa o estudo da memória é o 
esquecimento. Um intelectual que manifestou suas inquietações acerca do 
esquecimento foi um filólogo de formação, porém conhecido entre nós como 
filósofo, Friedrich Nietzsche. Nietzsche foi um grande conhecedor e crítico dos 
estudos histográficos do seu tempo. Ele lia e dialogava com muitos historiadores 
de sua contemporaneidade, tais como Burckhardt, Mommsen e Ranke. 
O filósofo foi um grande crítico da historiografia, em especial a 
historiografia alemã. Sendo assim, ele faz suas colocações sobre a História. No 
início de sua Segunda Consideração Intempestiva ele emite a sua opinião acerca 
do esquecimento:
Observe o rebanho a pastar: ele nada sabe sobre o que é o ontem e o 
hoje; saltita aqui e acolá, noite e dia, dia após dia. Em resumo, preso 
ao seu prazer e desprazer, estancado no instante, não se entristece 
32
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
nem enfastia. Ver isso é difícil para o homem, que se vangloria de 
sua humanidade perante o animal, mas contempla enciumado a sorte 
deste – pois o homem apenas quer, como o animal, viver sem fastio e 
sem dor; mas o quer em vão, por não querer como aquele. O homem 
pergunta ao animal: “por que nada me diz de sua sorte e apenas me 
fita?” O animal quer responder e dizer: “acontece que eu sempre 
esqueço o que quero dizer” – mas já se esquece essa resposta e silencia, 
e o homem se espanta. (NIETZSCHE, 2017, p. 33, grifos do autor).
O filósofo faz, nesta obra, uma crítica à sua contemporaneidade. Ele 
acreditava que em sua sociedade havia um excesso de lembrança, em especial 
entre os historiadores alemães. Nesta obra o filósofo ainda disserta sobre três 
formas de História e as utilidades e desvantagens de cada uma. São elas a História 
Monumental, a História Antiquária e a História Crítica. Por mais que ele critique 
o que ele considera um excesso de memória nas duas primeiras, ele também 
teme o esquecimento que a História crítica pode causar. Quando descreve esta 
História, afirma: “seu passado passa a ser considerado criticamente, suas raízes 
são golpeadas com um facão, a piedade é cruelmente pisoteada. É sempre um 
processo perigoso para a própria vida: e homens ou épocas que servem à vida 
dessa forma são sempre épocas e homens perigosos” (NIETZSCHE. 2017, p. 63).
Em sua Segunda Consideração Intempestiva Nietzsche fez várias críticas 
ao que ele denomina como excesso de memória, mas, apesar de suas críticas à 
memória, ele também se atentou aos perigos do esquecimento. 
Le Goff, ao escrever o prefácio da obra Apologia da História de Marc 
Bloch, também fez um alerta acerca do esquecimento no século seguinte: “Há na 
historiografia alemã e na própria história alemã (Marc Bloch, não esqueçamos, 
escreveu durante a guerra) uma orientação perigosa vinda do passado, vinda da 
história” (LE GOFF, In: BLOCH, 2002. p. 18). 
 
O filósofo Hermann Lübbe (2016, p. 285) concorda com a vontade de 
Nietzsche de conciliar a memória e o esquecimento, porém, faz críticas ao que 
Nietzsche denominou como excesso de História, como podemos ver abaixo:
Quaisquer que sejam os efeitos que possam produzir a consciência 
histórica e, mais especificamente, a profissionalização histórico-
científica da memória, em nossa civilização moderna, eles certamente 
não resultaram em perda de vitalidade cultural. A relação que 
Nietzsche supunha existir entre ânsia de presentificação do passado 
e relutância de se criar o novo não existe. Caso Nietzsche estivesse 
vivo hoje, ele se espantaria com que intensidade persiste em nossa 
civilização a presentificação historista do passado sem que se perca 
sua dinâmica de inovação e, assim, sua aptidão para o futuro (LÜBBE, 
2016, p. 286).
Tendemos a concordar com Lübbe quando vemos que, na verdade, 
convivemos com espaços, objetos e relatos de memória constantemente em nosso 
cotidiano e, principalmente, enquanto historiadores. Encontramos memórias 
em museus, em arquivos, em monumentos espalhados pelas nossas cidades e, 
TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO
33
também, quando conversamos com os nossos familiares. Uma frase muito comum 
entre as pessoas idosas é “no meu tempo”.
3 O ANACRONISMO
 
O último tema que vamos abordar neste tópico é também intrinsecamente 
ligado ao ofício do historiador, é o conceito de anacronismo. O termo anacronismo 
vem do grego, sendo que ana tem o significado de contra e chronos de “tempo”. 
Se portar de forma anacrônica significa, por exemplo, incumbir valores a uma 
sociedade que ainda não existiam naquele período. Há historiadores que veem 
este acontecimento como um absurdo. Febvre em sua obra Rebelais diz que 
temos que: “Evitar o pecado dos pecados, o pecado entre todos irremissível: o 
anacronismo” (FEBVRE, 1968, p. 15 apud DOSSE, 2001, p. 285). 
Por mais que o historiador tenha críticas ao anacronismo, é muito difícil, 
se não impossível, trabalhar com uma História totalmente desvencilhada dele. 
Quando trabalhamos em sala de aula, por exemplo, buscamos exemplos do 
presente, próximos aos estudantes, para fazer uma relação entre o conteúdo 
histórico e a realidade dos estudantes. Por vezes, estes exemplos podem não ter 
existido no passado e assim estamos agindo de forma anacrônica. 
Charles Seignobos, por exemplo, é ironizado como o “patriota 
retrospectivo”, por ter encontrado o sentimento nacional francês bem antes da 
própria França, nos velhos tempos de Vercingetorix e da resistência gaulesa a 
César (cf. FEBVRE 1953) (LOPES, 2012, p. 232). 
Uma historiadora francesa que questionou a forma como Febvre analisa 
o anacronismo foi Nicole Loraux. Esta estudava a Antiguidade e escreveu sobre 
suas angústias em relação ao termo:
[...] o historiador em geral evita cuidadosamente importar noções 
que sua época de referência supostamente não conheceu, e evita mais 
ainda proceder a comparações – por princípio indevidas – entre duas 
conjunturas separadas por séculos. Mas, com isso, o historiador corre 
inevitavelmente o risco de ser entravado, impedido da audácia, ao 
contrário do antropólogo que, em condições análogas, recorre sem 
perturbação de consciência à prática da analogia (LORAUX, 1992, p. 57).
Loraux (1992) ainda reflete sobre o risco que se assume com está prática, 
porém a defende como uma prática controlada, saber ir ao passado e “[...] voltar 
para o presente, com o lastro de problemas antigos” (LORAUX, 1992, p. 64). Ao 
fim ela nos deixa com uma inquietação sobre esta prática enquanto historiadores: 
Por que fazer o elogio do anacronismo quando se é historiador? Para 
convidar os historiadores, talvez, a se colocar à escuta de nosso tempo 
de incertezas apegando-se a tudo o que ultrapassa o tempo da narração 
ordenada: aos embalos assim como às ilhotas de imobilidade que negam o 
tempo na história, mas fazem o tempo da história (LORAUX, 1992, p. 68). 
34
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
José d’Assunção Barros (2017) também fez uma importantecontribuição 
ao conceito de anacronismo. Ele defende em seu artigo que o historiador lida 
com duas temporalidades distintas: a época em que vive e a época em que o seu 
objeto de estudo está inserido. Barros acrescenta que nós, historiadores, lidamos 
com conceitos que estão inseridos em outra realidade, que muitas vezes têm um 
significado diferente da do leitor.
Os conceitos utilizados pelos historiadores em seus estudos provêm das 
mais diversas realidades, podemos ter exemplos de suas origens na imagem a 
seguir
FIGURA 9 – DE ONDE VÊM OS CONCEITOS DE HISTÓRIA
DE ONDE VÊM
OS CONCEITOS
DA HISTÓRIA
Das fontes e das realidades
históricas examinadas.
Do patrimônio conceitual 
consolidado pela 
historiografia.
Da criação pessoal de 
historiadores, em obras 
específicas.
Do patrimônio conceitual 
consolidado nas demais 
ciências humanas.
De migrações oriundas de 
outros campos de saber.
Da vida
comum de hoje
1 2
34
5 6
FONTE: BARROS, 2017, p. 161
Não há uma regra específica para detectar ou não se um conceito é usado 
de forma anacrônica, “o historiador precisa desenvolver um feeling para isto” 
(BARROS, 2017, p. 159). Existem duas formas de ser anacrônico em um texto 
historiográfico: 
Em um caso, pode ocorrer o anacronismo “de ontem para hoje”. 
É o que ocorre quando lemos um texto de outra época e, de modo 
inaceitável, atribuímos a certa palavra um sentido que ela não tem 
hoje, comprometendo toda a interpretação do texto. Em outro caso, 
pode ocorrer o anacronismo “de hoje para ontem”. É o que se verifica 
quando, ao tentar analisar um texto ou processo histórico do passado, 
ou ao tentar descrever cenas e acontecimentos históricos, utilizo 
uma palavra de hoje (que não existia naquela época) e o resultado é 
catastrófico, produzindo incontornáveis estranhamentos e drásticas 
deformações (BARROS, 2017, p. 158).
 
Um exemplo do anacronismo “de ontem para hoje” seria utilizar o 
conceito de nazismo em nossa sociedade atual, sendo que ele não é utilizado 
TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO
35
para o período temporal após 1945. Só é possível falar, após esse período, em 
neonazismo (BARROS, 2017, p. 170). Já o anacronismo “de hoje para ontem” 
ocorre quando os historiadores utilizam expressões em certas épocas em que elas 
não existiam. Um exemplo é o uso do conceito de feminismo na Grécia antiga 
(BARROS, 2017, p.166). O problema nisso é que os conceitos, quando utilizados 
de forma anacrônica “pressupõem equivocadamente que os agentes históricos da 
época examinada pensavam como um homem moderno” (BARROS, 2017, p. 167).
Apesar disso, há conceitos que têm o que Barros chama de noção de 
‘potencial generalizador diacrônico’ e ‘potencial generalizador sincrônico’. O 
conceito de crise é um conceito com potencial generalizador diacrônico, o que 
significa que ele é aplicado em temporalidades distintas da História, pois, ao 
longo da História “todas as sociedades que já existiram, em diversos momentos 
de sua história, viveram crises (ou para superá-las, ou para sucumbir a elas) ” 
(BARROS, 2017, p. 169). 
Já o potencial generalizador sincrônico é aplicado a um conceito dentro 
da mesma temporalidade, mas em espaços diferentes. Esse potencial pode ser 
exemplificado com o conceito de feudalismo, “os limites [...] começam a ser 
especialmente testados quando o situamos diante de sociedades que se afastam 
do núcleo mais clássico da feudalidade europeia (França, regiões de língua 
germânica, e outras)” (BARROS, 2017, p. 172). As limitações ao conceito aparecem 
quando há tentativas de aplicação às sociedades ibéricas e aumenta quando 
começa a se pensar em sociedades não europeias (BARROS, 2017, p. 172-174).
FUNES, O MEMORIOSO
Jorge Luis Borges
Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do 30 de abril de 
1882 e podia compará-las na lembrança com as listras de um livro espanhol 
encadernado que vira somente uma vez e com as linhas da espuma que 
um remo sulcou no rio Negro na véspera da batalha do Quebracho. Essas 
lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada às sensações 
musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os 
entressonhos. Duas ou três vêzes havia reconstruído um dia inteiro; não havia 
duvidado, cada reconstrução, porém, tinha requerido um dia inteiro. Contou-
me: Mais recordações tenho eu sozinho que as tiveram todos os homens desde 
que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vigília de vocês. E 
igualmente, por volta da alva: Minha memória, senhor, é como despejadouro 
de lixos. Uma circunferência num quadro-negro, um triângulo retângulo, um 
losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo acontecia a 
Ireneu com as tumultuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado numa 
coxilha, com o fogo irisante e com a inumerável cinza, com os muitos rostos de 
um morto num demorado velório. Não sei quantas estrêlas via no céu.
36
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
Essas coisas me falou; nem então nem depois as coloquei em dúvida. 
Naquele tempo não havia cinemas ou fonógrafos; é, não obstante, inverossímil 
e até incrível que ninguém fizesse uma experiência com Funes. O certo é que 
vivemos adiando todo o adiável; talvez todos saibamos profundamente que 
somos imortais e que, tarde ou cedo, todo homem realizará tôdas as coisas e 
saberá tudo.
A voz de Funes, da escuridão, prosseguia falando. Disse-me que por 
volta de 1886 desenvolvera um sistema original de numeração e que em 
pouquíssimos dias ultrapassara o vinte e quatro mil. Não o tinha escrito, 
porque o pensado uma só vez já não se lhe podia apagar. Seu primeiro 
estímulo, acredito, foi o desagrado de que os trinta e três orientais requereram 
dois signos e três palavras, em vez de uma só palavra e um só signo. Aplicou 
logo êsse disparatado princípio aos demais números. Em lugar de sete mil 
e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez: em lugar de sete mil e catorze, 
A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olimar, enxófre, os 
bastos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de 
quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha uma senha particular, uma espécie 
de marca; as últimas eram muito complicadas... Tratei de explicar-lhe que essa 
rapsódia de vozes inconexas era exatamente o contrário de um sistema de 
numeração. Falei-lhe que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco 
unidades; análise que não existe nos "números". O Negro Timóteo ou manta 
de carne. Funes não me entendeu ou não quis entender-me.
Locke, no Século XVII, postulou (e reprovou) um idioma impossível 
no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse 
um nome próprio; Funes projetou certa vez um idioma análogo, mas o rejeitou 
por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambíguo. Com efeito, Funes não 
recordava sòmente cada fôlha de cada árvore de cada monte, como também 
cada uma das vêzes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir 
cada uma de suas jornadas passadas a umas setenta mil lembranças, que 
definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência 
de que a tarefa era interminável, a consciência de que era vã. Pensou que na 
hora da morte ainda não estaria concluído o encargo de classificar tôdas as 
recordações da infância.
Os dois projetos que indiquei (um vocabulário infinito para a série 
natural dos números, um inútil catálogo mental de tôdas as imagens da 
lembrança) são insensatos, mas revelam alguma balbuciante grandeza. 
Deixam-nos vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Êste, não o 
esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não lhe custava 
compreender sòmente o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos 
díspares de diversos tamanhos e diversa forma; aborrecia-o que o cão das três e 
catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto 
de frente). Seu próprio rosto no espelho, suas próprias mãos, deslumbravam-no 
cada vez. Menciona Swift que o imperador de Lilliputdiscernia o movimento 
TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO
37
do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os tranqüilos 
avanços da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, 
da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, 
instantâneo e quase intoleràntemente exato. Babilônia, Londres e Nova York 
sufocavam com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas 
tôrres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentiu o calor e a pressão 
de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sôbre o 
infeliz Ireneu, em seu pobre arrabalde sul-americano. Era-lhe muito difícil 
dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, 
configurava cada fenda e cada moldura das casas certas que o rodeavam. 
(Repito que a menos importante das suas lembranças era mais minuciosa e 
mais viva que nossa percepção de um gôzo físico ou de um tormento físico). 
Ao este, num trecho não demarcado, havia casas novas, desconhecidas. Funes 
as imaginava pretas, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção 
voltava o rosto para dormir. Também costumava imaginar-se no fundo do rio, 
embalado e anulado pela corrente.
Tinha aprendido sem esfôrço o inglês, o francês, o português, o latim. 
Suspeito, entretanto, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer 
diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia 
senão pormenores, quase imediatos.
A esquiva claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.
Então vi o rosto da voz que tôda a noite falara. Ireneu tinha dezenove 
anos; nascera em 1868; pareceu-me monumental como o bronze, mais antigo 
que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma de 
minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável 
memória; paralisou-me o temor de multiplicar ademanes inúteis.
Ireneu Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar.
FONTE: BORGES (1972, p. 121-125). 
38
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• A memória é uma categoria fundamental para o trabalho do historiador, é com 
ela que podemos nos apropriar de tempos passados.
• Dentre os estudos possíveis sobre a memória, o historiador costuma a se 
dedicar à memória coletiva.
• O esquecimento é um ponto crucial a se considerar para o trabalho do 
historiador, mas temos que analisá-lo com cuidado.
• A existência de um excesso de História não é um consenso entre os intelectuais.
• O anacronismo é problemático no campo historiográfico. Ele pode ser utilizado, 
desde que com cautela.
39
1 Neste tópico trabalhamos com dois conceitos que são essenciais para 
o trabalho do historiador, pois sempre fazemos recortes temporais e 
espaciais. Estes conceitos são o de Memória e o de Esquecimento. A partir 
das informações sobre o tema, é certo afirmar que:
I- O filósofo Friedrich Nietzsche, em sua Segunda Consideração Intempestiva, 
critica o que denomina como excesso de memória, mas também alerta para 
os perigos do esquecimento. 
II- Para Hermann Lübbe. Nietzsche estava certo ao supor a existência de ânsia 
de presentificação do passado e relutância de criar o novo. 
III- A partir de Jacques Le Goff podemos concluir que nem toda memória foi 
vivida.
IV- Na contemporaneidade podemos identificar, a partir de Martins, três 
categorias de memória: lembrar, esquecer e comemorar. 
Estão CORRETAS: 
a) ( ) As afirmativas I e III.
b) ( ) As afirmativas I e IV.
c) ( ) As afirmativas I, III e IV.
d) ( ) As afirmativas II e lII .
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
2 O anacronismo é um tema diretamente ligado ao trabalho do historiador. 
Dentre os historiadores, encontramos opiniões diversas acerca do tema. 
Retome o conteúdo sobre o conceito atribuindo V para as sentenças 
verdadeiras e F para as sentenças falsas:
( ) Nicole Loraux, escritora do Elogio do Anacronismo, defende o anacronismo 
enquanto uma prática controlada. 
( ) Os historiadores devem, na medida do possível, evitar o uso o anacronismo 
em sua prática. 
( ) O historiador francês Le Febvre vê esta forma de se narrar a História como 
essencial ao oficio do historiador. 
( ) O conceito de anacronismo remete a incumbir valores a uma sociedade 
que ainda não existiam na época. 
Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) ( ) V – F – V – F.
b) ( ) F – F– V – F.
c) ( ) V – V – V – F.
d) ( ) V – V – F – V.
e) ( ) V – F – F – F.
AUTOATIVIDADE
40
41
TÓPICO 4
A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, em nosso último tópico estudaremos uma nova forma de 
pensar a História surgida no século XX, a Escola dos Annales. Os Annales são uma 
escola em si, mas um periódico francês existente até hoje. Há quem chame essa 
História de Nova História e a contrapõe a uma suporta historiografia positivista.
Discutiremos também, neste tópico, sobre a obra Apologia da História. 
Este livro é considerado um clássico em nosso campo. O historiador que produziu 
esta obra foi um dos fundadores da Escola dos Annales, Marc Bloch.
Esperamos que este último tópico o ajude a complementar a sua formação 
de historiador e lhe ofereça uma visão mais crítica acerca da historiografia.
2 O SURGIMENTO DA ESCOLA DOS ANNALES
O Historicismo do Século XIX, já abordado no segundo tópico deste 
capítulo, já recebeu e recebe muitas críticas até os dias atuais. Uma delas vem 
dos historiadores da Escola dos Annales. Estes se reúnem até os dias atuais em 
torno do periódico francês Annales d'Histoire Économique et Sociale (Anais de 
História Econômica e Social). Essa não é uma escola, com uma estrutura física, 
em específico, mas um periódico acadêmico. A escola foi dividida por gerações. 
Dentre os principais intelectuais de cada geração temos:
QUADRO 1 – GERAÇÕES DA ESCOLA DOS ANNALES
Gerações da Escola dos Annales
Primeira Geração
(1929-1949)
Segunda Geração
(1946-1968)
Terceira Geração
(1968-1989)
Quarta Geração
(1989-dias atuais)
Marc Bloch
Lucien Febvre Fernand Braudel
Jacques Le Goff
Pierre Nora
Michèle Perrot
Georges Duby
Philippe Ariès
Roger Chartier
Jacques Revel
FONTE: A autora
42
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
Esta nova escola surgiu, como vemos no gráfico, no ano 1929. Esta História 
é vista por alguns intelectuais como revolucionária. Por isso, muitas vezes ela é 
denominada como Nova História. Segundo Schwarcz, a revista dos Annales “[...] 
daria origem a todo um movimento de renovação na historiografia francesa e [...] 
está na base do que hoje chamamos de ‘Nova História’”. (SCHWARCZ, 2002, p. 
10). O motivo para o surgimento dos Annales foi:
A insatisfação que os jovens Marc Bloch e Lucien Febvre demonstravam, 
nas décadas de 10 e 20, em relação à história política sem dúvida 
estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações 
históricas complexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder 
entre grandes – homens ou países – ignorando que, aquém e além 
dele, se situavam campos de forças estruturais, coletivas e individuais 
que lhe conferiam densidade e profundidade incompatíveis com o que 
parecia ser a frivolidade dos eventos (ODÁLIA, 1997, p. 7).
O objetivo dos dois fundadores da História dos Annales, Marc Bloch e 
Lucien Febvre, era, então, propor uma Nova História. Fazer uma separação entre 
a História e a política.
FIGURA 10 – LUCIEN FEBVRE
FONTE: < http://3.bp.blogspot.com/_WkSll64foJs/S_FKG39EUrI/AAAAAAAAGK0/icjTlFBrFIY/
s1600/20090211_DNA007517.jpg>. Acesso em: 13 mar. 2020.
A revista foi criada com a intenção de transcender o campo historiográfico, 
ela pretendia “exercer liderança nos campos da história social e econômica [...], 
o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de uma abordagem 
nova e interdisciplinar da História” (BURKE, 1997, p. 32-33). A revista contribuiu, 
desta forma, para a interdisciplinaridade dos estudos historiográficos. 
O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929.Trazia uma 
mensagem dos editores, na qual explicavam que a revista havia sido 
planejada muito tempo antes, e lamentavam as barreiras existentes 
entre os historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade 
de intercâmbio intelectual (BURKE, 1997, p. 33).
A História dos Annales nos trouxe várias reflexões importantes para os 
estudos historiográficos e contribuiu para o caráter interdisciplinar da História. 
Porém, há uma polêmica em relação a esta História ser também denominada 
como uma Nova História. Esta formulação é contradita pelos historicistas.
TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES
43
Os historiadores que consideram a História dos Annales como 
revolucionária, costumam a contrapô-la com o Historicismo e com o Positivismo, 
muitas vezes confundindo estes movimentos como se fossem um só. O historicismo 
é criticado, neste sentido, a partir da intenção de Ranke de expor as coisas como 
elas realmente aconteceram. A crítica dos Annales ao Historicismo também é feita 
pelo suposto vínculo entre essa forma de História e a política. Sérgio da Mata 
denomina a posição da Escola dos Annales como um mito historiográfico:
Não é outro o caso da assim chamada “historiografia positivista” do 
Século XIX. Um mito tão mais resistente na medida em que se baseia 
numa caracterização heteróclita, cujo sentido último é o de constituir 
o avesso do outro mito e, assim, legitimá-lo: o da “revolução” dos 
Annales. “Positivista” seria aquela historiografia empirista, centrada 
apenas no âmbito do político e do Estado nacional, do uso de 
documentos oficiais, cultora dos grandes homens, inteiramente alheia 
à reflexão retórica e às “ideias” (MATA, 2015, p. 188, grifos do autor).
 
A História Política foi importante para alguns historiadores historicistas do 
Século XIX que hoje são vinculados ao Historicismo, porém, esta não era uma pauta 
unânime entre todos os historiadores do período. Dentre os historicistas existia um 
grande historiador suíço da História Cultural, Jacob Burckhardt (1818-1897), sua 
obra A cultura do Renascimento na Itália é uma grande referência até os dias atuais.
Assim como Ranke classificou a História enquanto ciência e arte (conferir 
página 25), Marc Bloch tem atitude semelhante quando afirma: “Resguardemo-nos de 
retirar de nossa ciência sua parte de poesia. Resguardemo-nos sobretudo, já surpreendi 
essa sensação em alguns, de enrubescer por isso. Seria uma espantosa tolice acreditar 
que, por exercer sobre a sensibilidade um apelo tão poderoso, ela devesse ser menos 
capaz de satisfazer também nossa inteligência” (BLOCH, 2002, p. 44). Apesar disso, Bloch 
dirige críticas diretas a Ranke no Capítulo VI da mesma obra (BLOCH, 2002, p. 125).
Apesar das críticas que podem ser cunhadas à Escola dos Annales ao se 
promoverem como inovadores, encontramos vários conceitos essenciais desenvolvidos 
por esta corrente historiográfica. Peter Burke, ao fim de seu livro denominado A Escola dos 
Annales, apresenta um glossário da linguagem destes historiadores. Os termos presentes 
no Glossário são: Conjuntura, Civilização, Estrutura, Etno-história, História episódica 
(événementielle), História global, História do Imaginário, História imóvel, História-problema, 
História quantitativa, História serial, História total, Longa duração, Mentalidade, História 
nova, Psicologia Histórica (BURKE, 1997, p. 129-132).
NOTA
NOTA
44
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
3 MARC BLOCH E O OFÍCIO DO HISTORIADOR
Marc Bloch (1866-1844) foi um medievalista francês que publicou obras 
consideradas clássicas nos dias atuais, dentre elas temos Os reis taumaturgos e 
A sociedade feudal. Porém, o nosso interesse se volta para outra obra de Bloch, a 
Apologia da História ou o Oficio do Historiador. Para entendermos o conteúdo 
desta obra em específico, é fundamental compreender as condições e o contexto 
em que Bloch a escreveu.
Bloch era um historiador francês de origem judaica, vivendo na França 
ocupada pelo regime nazista. O historiador foi capturado e então fuzilado no dia 
16 de junho de 1944. A sua Apologia da História ficou inacabada e foi publicada pelo 
cofundador da Escola dos Annales no ano de 1949 (LE GOFF, In: BLOCH, 2002, 
p. 15). É importante destacar aqui que a obra foi escrita enquanto o historiador 
se encontrava preso, sendo assim, Bloch não pode consultar livros durante a sua 
escrita.
FIGURA 11 – MARC BLOCH
FONTE:<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/Marc_Bloch.jpg> .
Acesso em: 13 mar. 2020.
A Apologia da História foi uma resposta do historiador ao seu filho, que 
o perguntou algo pertinente até os dias atuais. Ele explica a História no início da 
obra:
"Papai, então me explica para que serve a história." Assim um garoto, 
de quem gosto muito, interrogava há poucos anos um pai historiador. 
Sobre o livro que se vai ler, gostaria de poder dizer que é minha resposta. 
Pois não imagino, para um escritor, elogio mais belo do que saber 
falar, no mesmo tom, aos doutos e aos escolares. Mas simplicidade tão 
apurada é privilégio de alguns raros eleitos. Pelo menos conservarei 
aqui de bom grado essa pergunta como epígrafe, pergunta de uma 
criança cuja sede de saber eu talvez não tenha, naquele momento, 
conseguido satisfazer muito bem. Alguns, provavelmente, julgarão 
sua formulação ingênua. Parece-me, ao contrário, mais que pertinente. 
O problema que ela coloca, com a incisiva objetividade dessa idade 
implacável, não é nada menos do que o da legitimidade da história 
(BLOCH, 2002, p. 41).
TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES
45
A intenção de Bloch, com essa obra, é tornar o conhecimento histórico 
acessível, conseguir falar com simplicidade sobre o trabalho do historiador. 
Percebemos que a intenção se cumpre ao longo das páginas do livro, pois um 
iniciante do debate histórico compreende com clareza questões fundamentais do 
seu métier (ofício). 
A explicação de Bloch sobre o ofício do historiador é dividida em cinco 
capítulos: A história, os homens e o tempo; A observação histórica; A crítica, A 
análise histórica e um último capítulo que não foi intitulado, pois a obra nunca 
foi finalizada.
É no primeiro capítulo que o historiador se preocupa em apresentar a 
História não como uma ciência do passado, mas como uma ciência dos homens e 
assim proclama a sua famosa frase entre os historiadores: “’Ciência dos homens’, 
dissemos. É ainda vago demais. É preciso acrescentar: ‘dos homens no tempo’” 
(BLOCH, 2002, p. 55, grifos do autor). Barros explica mais detalhadamente a 
intenção de Bloch, como podemos ver a seguir: 
Dizer isso significa que não importa, rigorosamente, se o historiador 
estuda esta ou aquela época do passado, ou se estuda mesmo o 
presente, disputando um território com os sociólogos e antropólogos. 
O que faria de um historiador um historiador seria o fato de que 
ele estuda os homens imersos na temporalidade, vivendo o tempo, 
percebendo o tempo, produzindo o tempo. O mesmo historiador que 
estuda o passado, de acordo com essa perspectiva, poderia estudar o 
tempo presente – que, de fato, estaria em breve por se converter, em 
umfuturo não muito distante, em mais uma modalidade histórica (a 
“história do tempo presente”) (BARROS, 2012, p. 183, grifos do autor).
Outro ponto importante do livro é a reflexão feita sobre as fontes 
escritas. Bloch disserta sobre a impossibilidade de um historiador constatar os 
fatos que estuda e chama atenção para os cuidados do historiador em relação 
aos documentos, pois “os textos ou os documentos arqueológicos, mesmo 
os aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando 
sabemos interrogá-los” (BLOCH, 2002, p. 79). Ou seja, é o trabalho do historiador, 
ao lidar com os vestígios do passado, questioná-los.
Um último ponto a destacar na obra é a discussão que o historiador faz 
da relação entre passado e presente. Bloch questiona-se sobre o presente: “O que 
é, com efeito, o presente? No infinito da duração, um ponto minúsculo e que 
foge incessantemente;um instante que mal nasce e morre” (BLOCH, 2002, p. 
60). A relação entre o presente e o passado não é uma inquietação apenas para 
Bloch, Barros afirma que esta relação é um dos “itens programáticos importantes 
para a Escola dos Annales. ‘Compreender o presente pelo passado’, mas também 
‘compreender o passado pelo presente’, constituem as duas vias dessa complexa 
relação” (BARROS, 2012, p. 182, grifos do autor).
Esta obra, inserida no campo da historiografia, já foi naturalmente 
debatida e criticada. Uma das críticas que esta obra recebeu foi a da historiadora 
46
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
Ewa Domanska. A historiadora propõe, em seu artigo denominado Para além do 
antroprocentrismo nos estudos históricos, a ampliação do estudo para os seres 
não-humanos, conhecido como pós-humanismo, nas ciências humanas e sociais 
contemporâneas. 
Eu tento ir além dos debates sobre narração histórica, representação 
histórica, e, de modo geral, as relações entre texto e realidade passada, 
debates que predominaram na teoria histórica a partir de meados da 
década de 1960 até meados da década de 1990. Eu proponho que é 
hora de desafiar e transcender a abordagem específica do passado 
chamada de história, entendida como "a ciência das pessoas no 
tempo" (Marc Bloch) e não é só eurocêntrica e falocêntrica, mas, acima 
de tudo, de caráter antropocêntrico. Nossa reflexão sobre o passado 
deve se estender a esses seres não-humanos que foram recentemente 
estudados por várias disciplinas. Hoje, com o desenvolvimento da 
historiografia insurreicional e militante, coisas, plantas e animais 
não-humanos, também devem ser incorporada a História como algo 
diferente de receptores passivos de ações humanas (DOMANSKA, 
2013, p. 16).
 
A difundida intenção de Bloch, de fazer um estudo dos seres humanos, 
é questionada e criticada por Domanska. Segundo a historiadora, a proposta de 
Bloch seria não apenas eurocêntrica, mas também em geral, sobre os homens. 
Uma outra crítica de Domaska é sobre a História estudar apenas seres humanos.
Diferente da historiadora, o medievalista Dominique Barthélemy vê 
as obras de Bloch de forma positiva. Ele descreve os escritos de Bloch como 
cativantes.
Marc Bloch nos mantém em suspense; ele sabe reconstituir a lógica 
sinuosa da pesquisa antes de revelar a conclusão provisória. […] Ele 
alterna as evocações concretas, saborosas, com raciocínios profundos, 
estimulantes, que fizeram compreender ou entrever mecanismos 
sociais e psicológicos. Em tudo, portanto, encanta o seu leitor e o ajuda 
a refletir; é tão denso que o estudante sofre para tomar notas, fazer 
resumos sobre o que ele escreveu. Seria necessário conhecê-lo de cor. 
Ele se prestaria, aliás, bastante bem a isso, de tanto que gostava de 
citar ou criar ele mesmo fórmulas de autor, espirituosas e atrevidas 
(Barthélemy,2011, p. 97).
 
Apesar do elogio a Bloch, o historiador ainda mantém uma visão crítica, 
explicando que, ao menos nas questões medievais, as visões das Ciências Sociais 
não são mais as mesmas que Bloch relatava. 
Bloch é um historiador notável para os estudos historiográficos. Suas 
obras, em especial a Apologia da História, se transformaram em clássicos da 
historiografia. Independente das críticas ou dos elogios proferidos acerca do 
historiador, Bloch é um autor indispensável quando se trata de Introdução aos 
Estudos Históricos.
TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES
47
LEITURA COMPLEMENTAR
A História dos homens
Marc Bloch
Diz-se algumas vezes: “A história é a ciência do passado.” É (no meu 
modo de ver) falar errado.
(Pois, em primeiro lugar), a própria ideia de que o passado, enquanto 
tal, possa ser objeto de ciência é absurda. Como, sem uma decantação prévia, 
poderíamos fazer, de fenômenos que não têm outra característica comum a não 
ser não terem sido contemporâneos, matéria de um conhecimento racional? Será 
possível imaginar, em contrapartida, uma ciência total do Universo, em seu 
estado presente?
Sem dúvida, nas origens da historiografia, os velhos analistas não se 
constrangiam nem um pouco com tais escrúpulos. Narravam, desordenadamente, 
acontecimentos cujo único elo era terem se produzido mais ou menos no mesmo 
momento: os eclipses, as chuvas de granizo, a aparição de espantosos meteoros 
junto com batalhas, tratados, mortes dos heróis e dos reis. Mas nessa primeira 
memória da humanidade, confusa como a percepção de um bebê, um esforço 
constante de análise pouco a pouco operou a classificação necessária. É verdade, a 
linguagem, essencialmente tradicionalista, conserva o nome de história para todo 
estudo de uma mudança na duração. O hábito não traz perigo, pois não engana 
ninguém. Há, nesse sentido, uma história do sistema solar, na medida em que 
os astros que o compõem nem sempre foram como os vemos. Ela é da alçada da 
astronomia. Há uma história das erupções vulcânicas que é, estou convencido 
disso, do mais vivo interesse para a física do globo. Ela não pertence à história 
dos historiadores.
Ou, pelo menos, não lhe pertence na medida em que, talvez, suas 
observações, por algum viés, se reuniriam às preocupações específicas da história 
que nos diz respeito. Como estabelecer, portanto, na prática, a divisão das tarefas? 
Sem dúvida, para apreender isso, um exemplo é melhor que muitos discursos.
No Século X de nossa era, um golfo profundo, o Zwin, recortava a costa 
flamenga. Depois foi tomado pela areia. A que seção do conhecimento levar o 
estudo desse fenômeno? De imediato, todos designarão a geologia. Mecanismo 
de aluvionamento, papel das correntes marinhas, mudanças, talvez, no nível dos 
oceanos: não foi ela criada e posta no mundo para tratar de tudo isso? Certamente. 
Olhando de perto, porém, as coisas não são de modo algum assim tão simples.
Tratar-se-ia, em primeiro lugar, de escrutar as origens da transformação? 
Eis o nosso geólogo já obrigado a se colocar questões que não são mais, 
estritamente, de sua alçada. Pois, sem dúvida, esse assoreamento foi, pelo menos, 
favorecido por construções de diques, desvios de canais, secas: diversos atos do 
48
UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA
homem, resultado de necessidades coletivas e que apenas uma certa estrutura 
social torna possíveis.
Na outra ponta da cadeia, novo problema: o das consequências. A pouca 
distância do fundo do golfo, uma cidade se erguia. Era Bruges. Comunicava-se 
com ele por um breve trajeto fluvial. Pelas águas do Zwin, ela recebia ou expedia 
a maior parte das mercadorias que faziam dela, guardadas todas as proporções, a 
Londres ou a Nova York de sua época. Vieram, cada dia mais sensíveis, os avanços 
da sedimentação. Bruges tentou em vão, à medida que a superfície inundada 
recuava, empurrar ainda mais seus portos avançados para a foz, e seus cais pouco 
a pouco adormeceram. Decerto essa não foi absolutamente, longe disso, a causa 
única de seu declínio. Age a física alguma vez sobre o social sem que sua ação seja 
preparada, ajudada ou permitida por outros fatores que não venham do homem? 
Mas, no ritmo das ondas causais, esta causa está pelo menos, não poderíamos 
duvidar disso, entre as mais eficazes. 
Ora, a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas necessidades, 
o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente “histórico”. 
Assim como as vicissitudes de um poderoso núcleo de trocas. Através de um 
exemplo bem característico da topografia do saber, eis portanto, de um lado, um 
ponto de sobreposição onde a aliança de duas disciplinas revela-se indispensável 
a qualquer tentativa de explicação; de outro, um ponto de passagem onde, 
depois de constatar um fenômeno e pôr seus efeitos na balança, este é, de certa 
maneira, definitivamente cedido por uma disciplina à outra. O que se produziu 
que parecera apelar imperiosamente à intervenção da história? Foi que o humano 
apareceu. 
Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel 
de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza,o 
homem². Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, 
o plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da 
diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem (os artefatos ou 
as máquinas), por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições 
aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a 
história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um 
serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde 
fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça. 
Do caráter da história como conhecimento dos homens decorre sua 
posição específica em relação ao problema da expressão. Será uma “ciência”? Ou 
uma “arte”? Sobre isso nossos bisavôs, por volta de 1800, gostavam de dissertar 
gravemente. Mais tarde, por volta dos anos 1890, banhados em uma atmosfera 
de positivismo um pouco rudimentar, pôde-se ver especialistas do método 
indignarem-se com que, nos trabalhos históricos, o público dessa importância, 
para eles excessiva, ao que eles chamavam “forma”. (Arte contra ciência, forma 
contra fundo) tantas polêmicas boas para devolver ao saco de processos da 
escolástica. Não há menos beleza numa equação exata do que numa frase correta. 
Mas cada ciência tem sua estética de linguagem, que lhe é própria. Os fatos 
TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES
49
humanos são, por essência, fenômenos muito delicados, entre os quais muitos 
escapam à medida matemática. Para bem traduzi-los, portanto para bem penetrá-
los (pois será que se compreende alguma vez perfeitamente o que não se sabe 
dizer?), uma grande finesse de linguagem, (uma cor correta no tom verbal) são 
necessárias. Onde calcular é impossível, impõe-se sugerir. Entre a expressão das 
realidades do mundo físico e a das realidades do espírito humano, o contraste é, 
em suma, o mesmo que entre a tarefa do operário fresador e a do luthier: ambos 
trabalham no milímetro; mas o fresador usa instrumentos mecânicos de precisão; 
o luthier guia-se, antes de tudo, pela sensibilidade do ouvido e dos dedos. Não 
seria bom nem que o fresador se contentasse com o empirismo do luthier, nem 
que este pretendesse imitar o fresador. Será possível negar que haja, como o tato 
das mãos, uma das palavras?
E duplamente. Deixemos, por hora, o que tem de factível a cisma, que se 
pretende decretar, entre o passado e o suposto presente. (BLOCH, 2002, p. 52-55)
Sem trair Marc Bloch, creio que podemos situar aqui a nota de rodapé por 
ele prevista: “Fustel de Coulanges, aula inaugural de 1862, na Revue de Synthèse 
Historique, t.11, 1901, p. 243; Michelet, aula da École Normale, 1829, citado por 
G. Monod. t.l, p 127: 'Ocupamo-nos ao mesmo tempo do estudo do homem 
individual, e isso será a filosofia, e do estudo do homem social, e isso será a 
história’. Convém acrescentar que Fustel, mais tarde, disse isso numa fórmula 
mais sintética e carregada, cujo desenvolvimento que acabamos de ler não é senão, 
em suma, um comentário: 'A história irão é a acumulação dos acontecimentos, 
de qualquer natureza, que se tenham produzido no passado. Ela é a ciência das 
sociedades humanas.' Mas isso talvez seja, veremos adiante, reduzir em excesso, 
na história, a parte do indivíduo; o homem em sociedade e as sociedades não são 
duas noções exatamente equivalentes”.
FONTE: BLOCH, Marc. A história, os homens e o tempo. In: Apologia da História ou O ofício do 
Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001.
50
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você aprendeu que: 
• A Escola dos Annales não é uma escola em si, um espaço físico, mas é reunida 
em torno de um periódico acadêmico e se encontra, nos dias atuais, em sua 
quarta geração.
• Esta história é vista por alguns intelectuais como revolucionária, eles costumam 
a chamar a Escola dos Annales de Nova História.
• A Escola dos Annales desenvolveu vários conceitos importantes para a 
historiografia, como os de História-problema e Longa duração.
• Marc Bloch, cofundador Escola dos Annales, não finalizou sua escrita da 
Apologia da História, pois foi assassinado pelo regime nazista.
• A Apologia da História foi escrita como uma resposta ao filho de Bloch, que 
perguntou para que serve a história. Está obra é hoje clássica para a introdução 
aos estudos históricos.
51
AUTOATIVIDADE
1 Peter Burke (1997, p. 132), ao sintetizar o conceito de Nova História, afirma 
que: “A expressão foi popularizada pelo livro La nouvelle histoire (1978), 
editado por Jacques le Goff e outros, mas já havia sido reivindicada, 
anteriormente, para os Annales. Braudel havia falado de uma nova história 
em sua aula inaugural no Collège de France (1950). Febvre, por outro lado, 
usara a frases como “uma outra história” para descrever o que o grupo dos 
Annales tentava fazer”. 
FONTE: BURKE, P. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. 
São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.
Com base no Tópico 4 e na citação acima, assinale a alternativa correta.
a) ( ) Os historiadores da Escola dos Annales fazem críticas as abordagens 
interdisciplinares da história. 
b) ( ) Um dos grandes objetivos dos dois fundadores da Escola dos Annales 
era desvencilhar a história e a política. 
c) ( ) É consenso entre os historiadores que a História dos Annales propôs 
uma renovação na historiografia positivista do Século XIX.
d) ( ) A Escola dos Annales foi uma revista criada por Marc Bloch e Fernand 
Braudel. O objetivo dos historiadores era propor uma nova forma de 
história.
2 O historiador francês Marc Bloch foi o escritor da obra clássica entre os 
historiadores a Apologia da história ou o oficio do historiador. Está obra 
foi escrita para abordar os principais temas do trabalho historiográfico. A 
partir do conteúdo deste tópico acerca do tema, atribua V para as sentenças 
verdadeiras e F para as sentenças falsas:
( ) Marc Bloch cunhou, nesta obra, a famosa afirmação de que a história é a 
ciência dos homens no tempo. 
( ) Ewa Domanska concorda com a afirmação de Bloch de que a História é a 
a ciência das pessoas no tempo.
( ) O historiador francês defende, nesta obra, a necessidade de saber investigar 
os documentos.
( ) A relação entre o passado e o presente não é refletida na Apologia da 
História.
Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) ( ) V – F – V – F.
b) ( ) F – F– V – F.
c) ( ) V – F – F – F.
d) ( ) V – F – V – V.
e) ( ) F – V – V – F.
52
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pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
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CHAMADA
53
UNIDADE 2
AS FONTES HISTÓRICAS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender as ferramentas de trabalho do historiador;
• identificar os locais de trabalho do historiador;
• conhecer as concepções gerais sobre fontes escritas e fontes arqueológicas; 
• discutir as concepções gerais sobre fontes orais e fontes audiovisuais.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado
TÓPICO 1 – AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
TÓPICO 2 – AS FONTES TRADICIONAIS
TÓPICO 3 – UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
54
55
TÓPICO 1
AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, neste tópico, estudaremos a forma com que o historiador 
acessa o conhecimento histórico. Teremos uma breve introdução sobre as fontes 
históricas e veremos os principais locais de trabalho do historiador e discutiremos 
qual a função em que o historiador exerce neste local. Os locais mencionados 
foram os Arquivos Históricos, as bibliotecase os museus. Aprenderemos quais 
são os principais tipos de arquivos no Brasil, bem como as possibilidades de 
pesquisa em bibliotecas e museus.
Feitas essas breves considerações, convidamos você à leitura deste tópico 
para ampliar o seu conhecimento acerca das possibilidades de trabalho de um 
historiador. Que as próximas páginas lhe ajudem a aperfeiçoar a sua formação 
enquanto historiador. 
2 UMA INTRODUÇÃO ÀS FONTES HISTÓRICAS
A Fonte Histórica, também conhecida como Documento Histórico, é 
o principal acesso do historiador ao passado. A definição de Fonte Histórica 
modificou-se ao longo do tempo e é sobre este tema que nos dedicaremos a seguir.
Os historiadores da antiguidade lidavam com o passado de uma forma 
diferente e entendiam as Fontes Históricas de outra forma. Historiadores como 
Heródoto, Tucídides ou Salústio, pensavam e faziam história da seguinte maneira: 
“com documentos escritos, consultados apenas marginalmente e citados de forma 
indireta, reportada” (FUNARI, 2006, p. 84, grifos do autor). Podemos vez, no 
trecho a seguir, como Heródoto produzia os seus relatos históricos: 
Heródoto viajou pelos lugares em que haviam ocorridos combates ou 
que eram de alguma forma relacionados ao seu tema e lá consultou os 
habitantes, visitou lugares, templos, edifícios conheceu paisagens. Não 
saia a copiar documentos e, menos ainda, conhecia línguas locais para 
que o pudesse fazer com o rigor exigido a um historiador moderno. Os 
discursos reportados pelos historiadores, como a famosa “oração de 
Péricles em Tucídides”, eram criação do autor, baseada no que havia 
ouvido ou mesmo se supunha fosse plausível para as circunstâncias 
dadas (FUNARI, 2006, p. 84).
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
56
As primeiras reflexões acerca das Fontes Históricas da modernidade 
foram concebidas pelos franceses no período temporal entre o Século XVIII e o 
Século XIX. No Século XIX eram considerados Documentos Históricos apenas 
os documentos escritos. Era papel dos historiadores analisar a autenticidade dos 
documentos, mas não era seu trabalho questioná-lo (SILVA; SILVA, 2009).
Com o surgimento da Escola dos Annales, iniciou-se um forte 
movimento de questionar as Fontes Históricas. Destacaremos aqui três 
contribuições fundamentais desta escola para o nosso entendimento das fontes 
na contemporaneidade. A primeira contribuição foi acerca da autenticidade da 
fonte. A autenticidade de um documento não era mais, a partir dos Annales, um 
fator indispensável para considerá-lo uma Fonte Histórica, pois “para a história 
interpretativa não importava a veracidade do documento, mas as questões que o 
historiador lhe remetia” (SILVA; SILVA, 2009, p. 159), também há a possibilidade 
de entender um período histórico estudando um documento falsificado do 
período.
Outra modificação importante foi o alargamento do que era considerado 
um Documento Histórico, essa mudança ocorreu a partir do surgimento da 
história serial.
O aparecimento da história serial modificou profundamente a 
concepção de documento histórico. Em primeiro lugar, ela presta 
atenção a documentos até então desprezados, cláusulas testamentárias, 
inventários depois de falecimentos, registros paroquiais, mas 
sobretudo ela inverte o método dos historiadores com relação aos 
documentos. Preso numa série, o documento deixa de existir sozinho, 
para só adquirir sentido mediante relação com a série que o precede 
ou segue (DUMOULIN, 1993, p. 244).
A última contribuição que nos referiremos aqui é em relação às Fontes 
Históricas é que elas não se limitavam mais às fontes escritas, no Século XX “o 
conceito de documento foi modificado qualitativamente abarcando a imagem, a 
literatura e a cultura material” (SILVA; SILVA, 2009, p. 159).
Em nossa contemporaneidade incorporamos também novos tipos de 
fontes, provenientes das novas tecnologias. As Fontes Históricas podem ser 
materiais como um livro, um vaso, uma pintura; e imateriais como uma música 
ou um relato oral. Elas são quaisquer vestígios da humanidade ao longo do 
tempo. Encontramos, no Dicionário de Conceitos Históricos, a definição de fonte 
de forma mais detalhada. 
Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos 
correlatos para definir tudo aquilo produzido pela humanidade 
no tempo e no espaço; a herança material e imaterial deixada pelos 
antepassados que serve de base para a construção do conhecimento 
histórico (SILVA; SILVA, 2009, p.158).
Sendo assim, consideramos como Fontes Históricas quaisquer vestígios 
do passado que são estudados em um trabalho de História.
TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
57
3 OS LOCAIS DE TRABALHO DO HISTORIADOR
A sociedade contemporânea está em constante mudança. Benito 
Schmidt (2008), ao refletir sobre a transformação do mundo, afirma que a rápida 
transformação da nossa sociedade levou ao aumento da preocupação pela 
memória. Como consequência, cresceu-se o número de espaços dedicados ao 
passado, com isso “um número significativo de órgãos públicos e de instituições 
privadas, como hospitais, clubes de futebol, empresas e sindicatos, passou a 
investir na constituição ‘do que fomos’, visando a solidificar uma determinada 
imagem ‘do que somos’” (SCHMIDT, 2008, p. 188). Estes espaços, 
por um lado, ampliam o âmbito de atuação dos profissionais 
tradicionalmente voltados à organização, análise e publicização destes 
‘vestígios do passado’ – como arquivistas, museólogos e historiadores 
– além de incorporar outros que normalmente eram mais associados 
ao presente – como jornalistas, publicitários e arquitetos; entretanto, 
por outro lado, também criam novos desafios e responsabilidades que 
não podem ser negligenciados por nenhum desses agentes (SCHMIDT, 
2008, p. 188).
Cabe a nós o questionamento sobre qual seria o papel dos historiadores 
ao trabalhar nestes lugares onde a memória está instaurada, como, para citar 
alguns, Arquivos Históricos, museus e bibliotecas. Pois, com a regulamentação 
da profissão do historiador, em 2012, seus locais de atuação e seu ofício são 
ampliados. Para Schmidt, a função do historiador nestes espaços é o seu olhar 
desnaturalizado, apontando que os motivos que levaram os espaços a serem 
organizados da forma em que se apresentam. Os estudantes, ao conviverem em 
tais espaços devem ter:
a capacidade de voltar para os acervos aquele tipo de olhar que, 
por dever de ofício, eles já devem lançar aos demais objetos que 
estudam: um olhar eminentemente histórico, que desnaturaliza os 
objetos (inclusive os papéis), seus arranjos, combinações, organizações 
e classificações, mostrando que tais operações, aparentemente 
desinteressadas, resultam de gestos, de escolhas, de omissões e de 
silenciamentos determinados pelas lutas sociais e políticas presentes 
em cada contexto histórico (SCHMIDT, 2008, p. 190).
 
Os historiadores devem ser capazes de entender o que se esconde por 
trás das organizações de tais espaços. Schmidt exemplifica com a organização 
de documentos de um arquivo, ou de objetos de um museu, afirmando que a 
organização “se deve a critérios técnicos, mas estes não são neutros, são políticos, 
e implicam escolhas e omissões” (SCHMIDT, 2008, p. 190), seria assim, papel do 
historiador entender a historicidade dos acervos.
Não cabe [...] a este profissional dizer se tal identidade ou tal memória 
é “falsa” ou “verdadeira”, mas sim evidenciar a sua historicidade, o 
seu caráter de construção histórica, o que implica, como no caso de 
qualquer construção – inclusive, e principalmente, a narrativa histórica 
– permanências, mudanças, omissões, seleções e esquecimentos 
(SCHMIDT, 2008, p. 192).
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
58
Sendo assim, a influência dos historiadores em lugares como Arquivos 
Históricos, museus e bibliotecas é um olhar desnaturalizado. Quando os 
historiadores ocupam tais lugares, eles devem questionar-se sobre a forma como 
estes locais estão organizados, sua estrutura e funcionamento.
4 OS ARQUIVOS HISTÓRICOS,
OS MUSEUS E AS BIBLIOTECASOs Arquivos Históricos são locais onde documentos históricos 
considerados relevantes são armazenados. Neles encontramos um número 
imensurável de documentos, bem como incontáveis possibilidades de pesquisa 
para os historiadores. É essencial que, enquanto historiadores, possamos 
compreender elementos básicos em relação aos arquivos, como, por exemplo, o 
seu acervo.
O historiador Carlos Bacellar elaborou um quadro em que apresenta 
os principais tipos de arquivo no Brasil e quais documentos históricos eles 
armazenam, como podemos ver a seguir:
 
QUADRO 1 – TIPOS DE ARQUIVOS NO BRASIL
Arquivos Documentos
Arquivos do Poder Executivo
Correspondência.
Ofícios e Requerimentos.
Lista Nominativas.
Matrículas de classificação de escravos.
Lista de classificação dos votantes.
Documentos sobre imigração e núcleos 
coloniais.
Matrículas e frequências de alunos.
Documentos de polícia.
Documentos sobre obras públicas.
Documentos sobre terras.
Arquivos do Poder Legislativo Atas.
Registros.
Arquivos do Poder Judiciário
Inventários e testamentos.
Processos cíveis.
Processos crimes.
Arquivos cartoriais Notas.
Registro civil.
Arquivos eclesiásticos
Registros paroquiais.
Processos.
Correspondência.
Arquivos privados Documentos particulares, de indivíduos, 
famílias, grupos de interesse ou empresas.
FONTE: Bacellar (2006, p. 26)
TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
59
Como destaca Bacellar, a acumulação de documentos ocorre no Brasil 
desde que o Governo Português se instalou no país. A acumulação de documentos 
ocorreu de maneira privada, com os capitães-donatários, e, de maneira pública, 
com Governo local e metropolitano (BACELLAR, 2006). Porém, o primeiro arquivo 
público, o Arquivo Público do Império, foi fundado apenas no ano de 1838, ele 
é renomeado para Arquivo Nacional em 1868. Neste Arquivo encontram-se 
documentos de momentos cruciais na história do nosso país. Entre eles temos a 
Carta da Lei Áurea, assinada no ano 1888, pela Princesa Isabel, e o documento oficial 
de extinção da escravidão do Brasil. Outro documento importante do arquivo é o 
Juramento à Constituição de 1824 assinada pelo Imperador D. Pedro I. 
Nem sempre é possível para um pesquisador visitar o arquivo histórico 
acerca de sua pesquisa. É neste momento que a tecnologia nos ajuda. Os arquivos 
de todo o mundo estão digitalizando os seus documentos. Esse recurso tem 
vários aspectos positivos. Um deles é preservar a deterioração dos documentos, 
pois os estudiosos têm menos contato com eles. Outro aspecto positivo é que não 
é necessário deslocar-se até os arquivos para ter contato com o material, o que 
facilita o acesso aos documentos. 
Já é possível consultar a versão digitalizada de vários documentos presentes 
no Arquivo Nacional em seu website. Para encontrar mais informações sobre o Arquivo 
Nacional, visite o site: http://www.arquivonacional.gov.br/br/.
Caso você queira pesquisar sobre os documentos importantes para a história do Brasil 
presentes no arquivo, você também pode fazer um cadastro gratuito no Sistema de 
Informações do Arquivo Nacional (SIAN): http://sian.an.gov.br/sianex/consulta/pagina_
inicial.asp.
DICAS
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
60
FIGURA 1 – CARTA DA LEI ÁUREA
FONTE: <http://www.arquivonacional.gov.br/images/conteudo/artigos/lei-aurea.jpg>.
Acesso em: 16 abr. 2020.
O historiador Carlos Bacellar (2006, p. 72) ainda nos apresenta uma série 
de dicas para o trabalho com documentos de um Arquivo Histórico:
• Conhecer a origem dos documentos (estudar o funcionamento da 
máquina administrativa para entender o contexto de produção dos 
documentos).
• Descobrir onde se encontram os papéis que podem ser úteis para a 
pesquisa.
• Preparar-se para enfrentar as condições de trabalho do arquivo 
escolhido.
• Localizar as fontes no arquivo com base em instrumentos de 
pesquisa e investigações adicionais, munido de muita paciência.
• Usar luvas, máscaras e avental no contato direto com os documentos.
• Manusear os papéis com cuidado, respeitando seus limites. 
Trabalhar com lupa de aumento e régua leve. Colocar sob o 
documento frágil uma folha de papel sulfite.
• Manter os documentos guardados na ordem encontrada.
Assim como os Arquivos Históricos, as bibliotecas são também locais 
de fundamental importância para os historiadores. Estas existem desde a 
Antiguidade e atualmente armazenam, de maneira geral, livros indispensáveis 
para a pesquisa do historiador. 
TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
61
Os historiadores que trabalham com fontes bibliográficas certamente 
lidam com livros que se encontram armazenados como cópias em bibliotecas 
e, por vezes, também conseguem entrar em contato com a versão original (de 
forma física ou digital) de sua fonte. Porém, além da fonte, o historiador também 
encontra na biblioteca outros autores que discutem seu tema de pesquisa. Estes 
autores auxiliam na pesquisa e podem auxiliar o trabalho fortalecendo-o, quando 
vai se encontro aos argumentos do autor, ou contrariando-o, assim o historiador 
pode entrar em confronto com a ideia de outros autores. 
Uma das bibliotecas mais famosas da Antiguidade é a Biblioteca de 
Alexandria. Quando pensamos em bibliotecas, o primeiro objeto que nos vem 
em mente é um livro. Porém, a Biblioteca de Alexandria não abrigava livros, os 
documentos eram armazenados em papiros. Estes eram utilizados para escrever, 
pois não existiam os papéis na época. Essa biblioteca fez com que a cidade de 
Alexandria fosse considerada “centro cultural do mundo” (MEY, 2004, p. 74).
A Biblioteca de Alexandria foi um grande centro de pesquisa para 
diversos pesquisadores da Antiguidade. A tradição de utilizar a biblioteca como 
um centro de pesquisa perdurou na contemporaneidade. Hoje, os pesquisadores, 
incluindo os historiadores, também têm as bibliotecas como importantes locais 
de pesquisa. Uma das bibliotecas mais importantes do Brasil, que, assim como a 
Biblioteca de Alexandria, é um centro de pesquisa, é a Biblioteca do Mosteiro de 
São Bento da Bahia.
A Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia é uma das bibliotecas mais 
importantes do nosso país. Ela foi fundada no ano de 1582 e abriga documentos 
muito importantes, como obras raras do Século XVI até o Século XIX. A biblioteca 
contém atualmente cerca de 13.000 mil volumes e 60 deles estão disponíveis on-
line.
FIGURA 2 – MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA
FONTE: <https://www.revistaprosaversoearte.com/content/uploads/2016/12/Mosteiro-
S%C3%A3o-Bento-Salvador-Bahia-696x464.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020.
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
62
Uma forma muito interessante de lidar com o passado é ter contato direto 
com as fontes. Mostrar fontes digitalizadas é uma forma muito interessante de trabalhar 
história em sala de aula. Caso você tenha interesse nas 60 obras disponíveis on-line do 
mosteiro, elas se encontram no seguinte link: http://saobento.org/livrosraros/?page_
id=14. Dentre elas temos a Bíblia Sacra Arábica, as Cartas selectas do Padre António Vieira 
e as Obras completas de Luís de Camões.
DICAS
Os museus também são fundamentais para o trabalho historiográfico. 
Na Antiguidade, o Mouseion era o templo das nove musas e os museus eram 
“locais reservados à contemplação e aos estudos científicos, literários e artísticos” 
(JULIÃO, 2001, p. 20). O termo volta a ser utilizado no Século XV, porém com 
uma finalidade diferente da Antiguidade grega.
Nesse período, o homem vivia uma verdadeira revolução do olhar, 
resultado do espírito científico e humanista do Renascimento e da 
expansão marítima, que revelou à Europa um novo mundo. As 
coleções principescas, surgidas a partir do Século XIV, passaram a 
ser enriquecidas, ao longo dos Séculos XV e XVI, de objetos e obras 
de arte da antiguidade, de tesouros e curiosidades provenientes da 
América e da Ásia e da produção de artistas da época, financiados 
pelas famílias nobres. Além das coleções principescas, símbolos de 
poderio econômico e político, também proliferaram nesse períodoos 
Gabinetes de Curiosidades e as coleções científicas, muitas chamadas 
de museus (JULIÃO, 2001, p. 20).
Um dos museus mais significativos para a história do Brasil foi o Museu 
Nacional, localizado no Rio de Janeiro. O edifício que abrigava o museu era o 
Palácio de São Cristóvão e foi residência da família real. O museu completou 
200 anos em 2018 e nele havia a maior coleção egípcia da América Latina. Neste 
mesmo ano o museu foi destruído por um incêndio e a maioria dos itens foi 
destruído. 
FIGURA 3 – MUSEU NACIONAL ANTES DO INCÊNDIO
FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/ab/Pal%C3%A1cio_
de_S%C3%A3o_Crist%C3%B3v%C3%A3o.jpg/270px-Pal%C3%A1cio_de_S%C3%A3o_
Crist%C3%B3v%C3%A3o.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020.
TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
63
É neste museu que se localizava Luzia, o fóssil mais antigo encontrado no 
Brasil. Seu esqueleto foi datado de 11,5 mil anos e nos faz refletir sobre a história 
do nosso país.
FIGURA 4 – RECONSTITUIÇÃO DO ROSTO DE LUZIA
FONTE: <http://www.museunacional.ufrj.br/guiaMN/Guia/paginas/2/luzia5.JPGhttp://www.
museunacional.ufrj.br/guiaMN/Guia/paginas/2/luzia5.JPGhttp://www.museunacional.ufrj.br/
guiaMN/Guia/paginas/2/luzia5.JPG>. Acesso em: 16 abr. 2020.
Uma forma muito dinâmica de aprender com a história é visitando museus, 
porém nem sempre é possível se deslocar até eles. Uma forma interativa de conhecê-los 
é com uma visita on-line. Os grandes museus ao redor do mundo, inclusive o Museu do 
Louvre, já nos oferece essa possibilidade. Dentre os museus que nos oferecem uma visita 
interativa temos o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Portugal (https://
www.museus.ulisboa.pt/pt-pt/visita-virtual).
Também é possível visitar diversos museus brasileiros, assim como exposições temporárias 
e patrimônios culturais, no link a seguir: http://eravirtual.org/visitas-virtuais/. Dentre os 
museus que são possíveis as visitações temos o Museu da Memória Republicana, o Museu 
Imperial e o Museu da Inconfidência. 
DICAS
Os Arquivos Históricos, as bibliotecas e os museus são locais de pesquisa 
do historiador. Porém, devemos relembrar que o objeto de estudo do historiador 
pode ser qualquer vestígio dos seres humanos no tempo. Isso significa que 
qualquer objeto que foi modificado ou criado pelos homens é passível de estudo 
pelos historiadores. Sendo assim, podemos estudar objetos que se localizam em 
vários ambientes, como coleções privadas, sítios arqueológicos e monumentos 
localizados em locais públicos.
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
64
DOCUMENTO/MONUMENTO
JACQUES LE GOFF
O SÉCULO XX: DO TRIUNFO DO DOCUMENTO
À REVOLUÇÃO DOCUMENTAL
Com a escola positivista, o documento triunfa. O seu triunfo, como bem 
o exprimiu Fustel de Coulanges, coincide com o do texto. A partir de então, todo 
o historiador que trate de historiografia ou do ofício de historiador recordará 
que é indispensável o recurso ao documento. 
No prefácio à obra coletiva L'histoire et ses méthodes, Samaran [1961], 
enunciando os princípios do método histórico, afirma: “Não há história sem 
documentos”.
No curso da Sorbonne, de 1945/46, sobre a historiografia moderna 
(retomado na obra póstuma La naissance de l'historiographie moderne), Lefebvre 
também afirmava: Não há relato histórico sem documentos; e precisava: Pois 
se dos factos históricos não foram registados documentos, ou gravados ou 
escritos, aqueles factos perderam-se (1971). 
Todavia, se a conceito de documento não se modificava, o seu conteúdo 
enriquecia-se e ampliava-se. À partida, o documento era sobretudo um texto. 
No entanto, o próprio Fustel de Coulanges sentia o limite desta definição. 
Numa lição pronunciada em 1862 na Universidade de Estrasburgo, declararia: 
Onde há história, faltam os monumentos escritos, é necessário que ela exigia 
das línguas mortas os seus segredos. Deve examinar as fábulas, os mitos, os 
sonhos da fantasia. Onde o homem passou, onde deixou qualquer marca da 
sua vida e da sua inteligência, aí está a história (ed. 1901). 
Os fundadores da revista Annales d'histoire économique et sociale (1929), 
pioneiros de uma nova história, insistiram sobre a necessidade de alargar a 
noção de documento: A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. 
Quando estes existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-se sem documentos 
escritos, quando não existem. Com tudo o que a inventiva do historiador lhe 
permite utilizar para fabricar o seu mel, na falta das flores apropriadas. Logo, 
com palavras. Marcas. Paisagens e telhas. Com as formas do campo e das ervas. 
Com os eclipses da Lua e os arreios dos cavalos de tiro. Com os exames de 
pedras feitos pelos geólogos e com as análises de metais feitas pelos químicos. 
Numa palavra, com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, 
serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a actividade, os 
gostos e as maneiras de ser do homem. 
Toda uma parte, e sem dúvida a mais apaixonante do nosso trabalho 
de historiadores, não consistirá num esforço constante para fazer falar as 
TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR
65
coisas mudas, para fazê-las dizer o que elas por si próprias não dizem sobre os 
homens, sobre as sociedades que as produziram, e para constituir, finalmente, 
entre elas, aquela vasta rede de solidariedade e de entreajuda que supre a 
ausência do documento escrito? (FEBVRE, 1949). 
Por seu lado, Bloch, na Apologie pour l'histoire ou métier d'historien 
(1941/42) Seria uma grande ilusão imaginar que a cada problema histórico 
corresponde um tipo único de documentos, especializado para esse uso. Que 
historiador das religiões se contentaria em consultar os tratados de teologia 
ou as recolhas de hinos? Ele sabe bem que sobre as crenças e as sensibilidades 
mortas, as imagens pintadas ou esculpidas nas paredes dos santuários, a 
disposição e o mobiliário das tumbas, têm pelo menos tanto para lhe dizer 
quanto muitos escritos.
 
Por isso, Samaran desenvolve a afirmação acima citada: Não há história 
sem documentos com esta precisão: A palavra documento deve ser entendida 
no sentido mais amplo – documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, 
pela imagem, ou de qualquer outro modo (1961). 
Mas este alargamento do conteúdo do termo documento foi apenas 
uma etapa para a explosão do documento que se produz a partir dos anos 60 e 
que levou a uma verdadeira revolução documentária (cf. GLÉNISSON, 1977). 
É uma revolução, ao mesmo tempo, quantitativa e qualitativa. O 
interesse da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente 
sobre os grandes homens, os acontecimentos, a história que avança depressa, a 
história política, diplomática, militar. Interessa-se agora por todos os homens, 
suscita uma nova hierarquia mais ou menos implícita dos documentos; por 
exemplo, coloca em primeiro plano, para a história moderna, o registro 
paroquial que conserva para a memória todos os homens (cf. a utilização de 
documento de base que, de um modo pioneiro, lhe deu Goubert, 1960, e o valor 
científico que lhe foi reconhecido por Chaunu, 1974). O registro paroquial, em 
que estão assinalados, paróquia a paróquia, os nascimentos, os matrimônios e 
as mortes, representa o ingresso na história das massas dormentes e inaugura 
a era da documentação de massa. 
Mas esta dilatação da memória histórica teria, certamente, ficado 
no estado de intenção, de coragem individual de qualquer historiador que 
reunisse capacidade de trabalho e espírito inovador no interior do tratamento 
artesanal tradicional do documento, se quase ao mesmo tempo não se tivesse 
produzido uma revolução tecnológica, a do computador. 
Da confluência das duas revoluções nasce a história quantitativa, que 
repõe em discussão a noção de documento e o seu tratamento. Desejada em 
primeiro lugar pelos historiadores da economia, obrigados a tomar como 
documentos de base séries de verbas ou de dados numéricos (cf. Marczewski, 
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
66
1961), introduzida depoisna arqueologia (cf. GARDIN, 1971) e na história da 
cultura (cf., por exemplo, Furet e Ozouf, 1977), a história quantitativa altera o 
estatuto do documento. O documento, o dado, já não existem por si próprios, 
mas em relação com a série que os precede e os segue, é o seu valor relativo 
que se torna objetivo e não a sua relação com uma inapreensível entidade ‘real’ 
(FURET, 1974). 
A intervenção do computador permite uma nova periodização na 
memória histórica: produz-se, a partir de então, um corte fundamental no 
momento em que se podem formar séries (sobre a história serial entre os 
seus numerosos escritos, cf. Chaunu, 1972); tem-se, doravante, uma idade 
pré-estatística e uma idade quantitativa. Mas é necessário observar que, 
se este corte corresponde a um grau de diferença das sociedades históricas 
em relação ao levantamento estatístico – indiferença ou desconfiança em 
relação ao número, por um lado, atenção sempre maior e mais precisa, por 
outro, a história quantitativa, como o demonstra a arqueologia, pode transpor 
alegremente esta fronteira histórica. Porque a história quantitativa não é nem 
uma revolução puramente tecnológica, nem a consequência da importância 
assumida pelo número na história. Não é imposta nem pelo computador 
nem pelo passado. Como observa Glénisson, no Século XIX, no início estava 
o documento; hoje, no início está o problema. É uma revolução da consciência 
historiográfica (FURET, 1974). 
A revolução documentária tende também a promover uma nova 
unidade de informação: em lugar do facto que conduz ao acontecimento e a 
uma história linear, a uma memória progressiva, ela privilegia o dado, que leva 
à série e a uma história descontínua. Tornam-se necessários novos arquivos, 
onde o primeiro lugar é ocupado pelo corpus, a fita magnética. A memória 
coletiva valoriza-se, organiza-se em patrimônio cultural. O novo documento 
é armazenado e manejado nos bancos de dados. Surge uma nova ciência 
que balbucia ainda e que deve responder simultaneamente às exigências do 
computador e à crítica da sua sempre crescente influência sobre a memória 
coletiva. 
FONTE: LE GOFF, J. Documento/Monumento. In: História e Memória – II Volume. Lisboa: 
Edições 70, 1982. p. 106-109. 
67
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• A definição de Fontes Históricas mudou com o tempo.
• A função do historiador em locais como Arquivos Históricos, museus e 
bibliotecas é ver estes locais de forma desnaturalizada.
• As Fontes Históricas são quaisquer vestígios do passado humano que são 
estudados em um trabalho de História.
68
AUTOATIVIDADE
1 Neste tópico, trabalhamos com o conceito de fontes históricas. A partir das 
informações sobre o tema, é certo afirmar que:
I- O conceito de fontes históricas não mudou ao longo do tempo. 
II- A autenticidade de um documento não é mais um fator indispensável para 
considerá-lo uma Fonte Histórica.
III- Quaisquer vestígios do passado humano podem ser estudados em trabalhos 
de história.
IV- Músicas não podem ser estudadas como Fontes Históricas.
Estão CORRETAS: 
a) ( ) Apenas as afirmativas II e III.
b) ( ) Apenas as afirmativas I, III e IV.
c) ( ) Apenas as afirmativas III e IV.
d) ( ) Apenas as afirmativas I e II .
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
2 Karnal e Tatsch (2009, p. 24), em uma definição acerca do documento 
histórico, afirmam que: “em síntese, documento histórico é qualquer fonte 
sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a 
partir do presente e estabelecendo diálogos entre a subjetividade atual e a 
subjetividade pretérita. Levando-se em conta tudo o que foi dito antes, seria 
importante ressaltar que, atrás de cada documento conservado, há milhares 
destruídos. Podemos supor que o grande limite da função do historiador 
seja o limite do documento. Dócil ao arbítrio quase absoluto, o documento 
é, igualmente, senhor de quem o quer submeter”.
FONTE: KARNAL, L.; TATSCH, F. G. A memória evanescente. In.: PINSKY, C. B.; LUCA, T. R. de. 
O Historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009.
 
Com base na afirmativa acima e no Tópico 1, assinale a alternativa CORRETA:
( ) Documentos históricos que pertencem a coleções privadas não podem ser 
estudados por historiadores.
( ) Tragédias como o incêndio do Museu Nacional, localizado no Rio de 
Janeiro, destroem inúmeros documentos históricos e causam danos 
irreparáveis ao trabalho do historiador.
( ) Os museus são locais fundamentais para o trabalho do historiador. Eles 
ainda têm a mesma função que tinham na Antiguidade.
( ) O documento é dispensável ao trabalho do historiador, sendo assim, a 
possibilidade de consultar acervos de arquivos, bibliotecas e museus de 
forma on-line não facilitou as possibilidades de pesquisa dos historiadores.
69
TÓPICO 2
AS FONTES TRADICIONAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, neste tópico você aprenderá sobre dois tipos de fontes 
fundamentais para o campo histórico. O primeiro é acerca a fonte escrita. 
Evidenciaremos, a partir dela, a importância de se atentar a ortografia, a gramática 
e o contexto deste tipo de documento, bem como a relevância da Paleografia ao 
lidar com este tipo de Fonte Histórica. Também mencionaremos a importância de 
uma Análise do Discurso a partir destas fontes e a importância do historiador em 
analisar o intratexto e o intertexto.
O segundo tipo de fontes analisado neste tópico é o das fontes arqueológicas. 
Essas fontes se encontram, de maneira geral, no período em que denominamos 
como Pré-História. Elas foram inicialmente estudadas por profissionais de outras 
áreas, como arqueólogos. Os historiadores contemporâneos se beneficiam do 
trabalho de outros especialistas para lidar com este tipo de material.
Com essas breves explanações acerca do tópico, convidamos você, leitor, 
a leitura deste tópico. Esperamos que os próximos parágrafos lhe ajudem a 
expandir os seus conhecimentos acerca das fontes históricas.
2 FONTES ESCRITAS
Um tipo de fonte muito comum no trabalho do historiador é a fonte escrita. 
No Século XIX as fontes escritas eram consideradas praticamente como as únicas 
fontes históricas possíveis para o trabalho do historiador. São inúmeras as formas 
que elas podem se apresentar. Esses documentos podem estar, por exemplo, em 
forma de jornais, livros e cartas. Nossa intenção com esse tópico é apresentar 
algumas considerações especiais com este tipo de fonte.
 
Um dos cuidados que devemos ter ao lidar com fontes escritas é referente 
a ortografia e a gramática, pois ambas estão em constante mudanças (BACELLAR, 
2006). Ao estudar o passado nota-se que a língua mudou e, com isso, a forma 
com que escrevemos e nos comunicamos. Por isso, é de suma importância estar 
familiarizado com as peculiaridades da escrita do período estudado, a fim de 
evitar erros na compreensão das fontes. Outro aspecto muito importante em 
relação a fonte, que envolve os documentos antigos e os documentos escritos à 
mão, é a leitura paleográfica. 
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
70
A Paleografia é o estudo dedicado à leitura de textos antigos e suas 
transcrições, como podemos perceber mais detalhadamente a seguir:
A Paleografia é apresentada geralmente como o estudo técnico dos 
textos antigos, na sua forma exterior, que compreende o conhecimento 
dos materiais e dos instrumentos para escrever, a história da escrita 
e a evolução das letras, objetivando sua leitura e transcrição. […] 
entretanto é bom ressaltar que também faz parte da Paleografia o 
estudo da arte de escrever, envolvendo o conhecimento dos materiais 
como papiro, pergaminho, papel, dos instrumentos usados para 
escrever como cálamo, estilete, pena, das variações das tintas, das 
estruturas próprias das chancelarias e as tipicidades do Scriptorium 
medieval. A história da escrita e da evolução das letras também 
participa deste universo de conhecimentos, pois é imprescindível para 
a Paleografia e, em especial, para o entendimento de escritas passadas 
esua consequente leitura (LEAL, 1994, p. 7).
 
Os estudos de paleografia abarcam as preocupações que concernem 
a quem lida com documentos escritos à mão. É necessário, neste estudo, saber 
lidar com a caligrafia do documento estudado, bem como ter conhecimento “dos 
vícios de escrita, dos erros de ortografia, ou da grafia diferenciada em relação ao 
português moderno” (BACELLAR, 2006, p. 59).
Uma última preocupação em relação a esses documentos é a sua 
transcrição. Como o documento pode ser utilizado por outros pesquisadores, é 
fundamental manter o documento fiel ao original. Porém, há também a opção de 
adaptar o texto a gramática contemporânea. Ao transcrever um texto, é essencial 
seguir as Normas Técnicas para transcrição e edição de documentos manuscritos 
(BACELLAR, 2006).
Para o auxílio da leitura de um documento paleográfico ou de uma transcrição 
paleográfica, recomendamos o Glossário de Paleografia de João Euripedes Gualandi 
Franklin Leal e o dicionário Abreviaturas: manuscritos dos Séculos XVI ao XIX de Maria 
Helena Ochi Flexor.
DICAS
Uma outra observação acerca da fonte histórica estudada é um critério 
básico em qualquer pesquisa de história: o contexto. É também muito importante 
para o historiador entender o contexto em que a obra foi produzida, pois esta 
implica diretamente nas declarações que constam nela. “Uma carta pastoral 
de um bispo, por exemplo, é a opinião do próprio autor, mas profundamente 
inserido em um panorama ideológico da Igreja daquele momento e daquele 
local” (BACELLAR, 2006, p. 63).
TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS
71
Outra questão muito importante a se atentar são os termos utilizados 
em um certo período. O significado deles pode não condizer com o significado 
atual e, assim, sem o devido cuidado, podemos agir de maneira anacrônica. O 
historiador Carlos Bacellar nos relata um exemplo de uma das suas dificuldades 
com os seus documentos:
Declarações de que um indivíduo “é lavrador” não podem ser 
automaticamente tomadas como indício seguro de que este era um 
proprietário de terras. Muito pelo contrário, tal indivíduo podia 
pura e simplesmente estar trabalhando em terras alheias, a favor, 
como agregado, e nada mais. Em certa ocasião, trabalhando com 
listas nominativas de habitantes para a vila de Sorocaba, encontrei 
uma declaração muito interessante, de um domicílio a cujo chefe era 
atribuído possuir um sítio, com uma casa, mas “sem terras”. Como 
interpretar semelhante declaração, aparentemente contraditória? No 
caso específico, “sítio” não tem o significado que recebe na atualidade, 
mas queria dizer que o indivíduo possuía uma área cultivada em dado 
lugar, onde também construíra sua casinha, mas que não tinha terras, 
isto é, a terra não lhe pertencia, era de terceiros. As palavras podem 
trair o pesquisador descuidado (BACELLAR, 2006, p. 64).
É importante que o historiador, ao lançar os olhos as fontes, possua 
um olhar crítico. Os documentos do passado não foram escritos pensando nos 
historiadores, “mas sim para atender a necessidades específicas do momento” 
(BACELLAR, 2006, p. 69). 
Ao estudarmos fontes escritas é muito importante atentar-se as 
contribuições que o campo da História do Discurso faz para a área. Um grande 
auxílio para deste campo para as análises do historiador é referente a semiótica. 
Barros (2004, p. 135) anuncia que, ao abordar um texto de forma qualitativa, 
pode-se fazer, a partir da análise semiótica, análises do texto para além do que o 
próprio autor pretendia dizer: 
Quando alguém utiliza determinadas expressões e palavras, já está 
dizendo algo ao bom analista de textos, independentemente dos 
sentidos que ele pretende atribuir às palavras. A presença de certas 
imagens em um discurso, a recorrência de determinadas palavras, 
a maneira de organizar uma narrativa, as referências intertextuais 
(a outros textos) – sejam estas voluntárias, explícitas, implícitas ou 
involuntárias – tudo isso fala por si mesmo independente do ser 
falante que pronuncia o discurso.
Barros ainda afirma que o texto é, ao mesmo tempo, objeto de significação 
e o objeto de comunicação. O objeto de significação envolve duas dimensões: 
o intratexto e o intertexto. “O ‘intratexto’ corresponde aos aspectos internos do 
texto e implica exclusivamente na avaliação do texto como objeto de significação; o 
‘intertexto’ refere-se ao relacionamento de um texto com outros textos” (BARROS, 
2004, p. 137). Já o objeto de comunicação envolve a dimensão do contexto, sendo 
que “o contexto corresponde à relação do texto com a realidade que o produziu e 
que o envolve” (BARROS, 2004, p. 137). O historiador ainda defende a utilização 
destas três dimensões em um trabalho historiográfico, a fim de se realizar uma 
análise textual com mais profundidade.
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
72
São várias as áreas que contribuíram para que os historiadores pudessem 
aprofundar os estudos acerca do discurso. “A Psicanálise, a Linguística, a Semiótica 
e as teorias da Comunicação revolucionaram as possibilidades de Interpretar um 
texto” (BARROS, 2004, p. 140).
Um importante intelectual para os estudos de discurso é o filósofo francês 
Michel Foucault. A partir de seus estudos de Análise do Discurso o filósofo 
entende que “não é a própria sociedade que constitui a realidade a ser estudada, 
mas sim os discursos que ela produz, ou então as suas práticas” (BARROS, 2004, 
p. 141). Barros nos ajuda a compreender melhor o estudo de Foucault com um 
exemplo:
Quando o historiador estuda a Roma Antiga, na verdade está 
estudando o que nos dizem as fontes a respeito da Roma Antiga. Dito 
de outra forma, está estudando neste caso discursos sobre a Roma 
Antiga. E estará estudando mais especificamente aqueles documentos 
da Roma Antiga que chegaram ao nosso tempo, e na verdade aqueles 
documentos, dentre estes, que o historiador resolveu constituir como 
fontes históricas (BARROS, 2004, p. 141).
FIGURA 5 – MICHEL FOUCAULT
FONTE: <https://revistacult.uol.com.br/home/wp-content/uploads/2010/03/foucault.png>. 
Acesso em: 16 abr. 2020.
Foucault também propõe uma revolução na História dos Discursos, 
afirmando que, por exemplo, o corpo, a economia e o estado também são 
discursos. E, com isso, também revoluciona a História Política com a discussão 
sobre o Poder. Ele defende que o poder está em toda parte (BARROS, 2004). O 
filósofo, ao realizar seus estudos sobre o Poder, analisa um arsenal rico de fontes, 
“das memórias dos desajustados (ou considerados desajustados pelos sistemas 
médicos e punitivos) até os diários de indivíduos anônimos, os registros criminais, 
as ordens de prisão, os relatórios médicos, sem desprezar uma documentação 
tradicional de sua época como os tratados políticos e científicos” (BARROS, 2004, 
p. 143).
TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS
73
Para a compreensão da proposta de uma Microfísica do Poder recomendamos 
a leitura do livro Microfísica do Poder. O livro foi organizado por Roberto Machado e 
contém textos escritos por Michel Foucault que perpassam o tema.
DICAS
3 FONTES ARQUEOLÓGICAS
Um outro tipo de fonte muito comum aos historiadores da 
contemporaneidade são as fontes arqueológicas. Já no Século XIX, quando a 
história começou a ser considerada uma disciplina científica, os documentos 
escritos tinham uma grande importância, quase unânime, entre os historiadores. 
Enquanto os historiadores se dedicavam à História, outros profissionais 
estudavam o período que denominamos como Pré-História, por exemplo, 
arqueólogos, paleontólogos e geólogos. Ou seja, este período histórico não era 
objeto de estudo dos historiadores, mas de outros profissionais. Inclusive, “desde 
o início a Arqueologia foi assimilada à Pré-História” (FUNARI, 1998, p. 13).
O período da Pré-História é muito importante para a discussão sobre as 
Fontes Arqueológicas. Quando encontramos a definição deste termo em livros 
didáticos, por exemplo, a Pré-História “é tratada como a antessala da História, 
sua introdução, e não como parte dela”(SILVA; SILVA, 2009, p. 342). O conceito 
de Pré-História foi cunhado no Século XIX, momento em que, como acabamos de 
ver, apenas fontes escritas eram consideradas história. A Pré-História terminaria 
com o “início da escrita”. Porém, essa periodização é problemática e já foi 
amplamente discutida pela comunidade historiográfica. O conceito foi cunhado 
a partir da ideia de que apenas as fontes escritas eram consideradas história, mas 
hoje já acreditamos nas imagens como produtoras de linguagem. Sendo assim, 
as pinturas e objetos rupestres já podem ser considerados objetos de pesquisa do 
historiador.
Esse conceito, elaborado no Século XIX, tem, no entanto, dois sérios 
problemas. O primeiro é o fato de que a escrita não surgiu em todos os 
lugares ao mesmo tempo, o que torna essa divisão temporal bastante 
arbitrária. O segundo é o etnocentrismo resultante do ato de considerar 
apenas a escrita, um elemento cultural restrito a determinadas culturas, 
como o fator determinante de quem se situa na história e de quem se 
situa fora dela (SILVA; SILVA, 2009, p. 342). 
 
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
74
FIGURA 6 – ARTE RUPESTRE SITUADA NA SERRA DA CAPIVARA
FONTE: <https://guiaviajarmelhor.com.br/wp-content/uploads/2015/06/Serra-Capivara-Piaui-7-
1024x683.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020.
Com a mudança da definição de Fonte História e a ressignificação do 
que consideramos como Pré-História, as fontes desse período passam a ser 
contempladas por historiadores. As fontes arqueológicas foram tradicionalmente 
estudadas por outros profissionais. Hoje os historiadores se beneficiam do 
trabalho de outros especialistas e podem, de forma interdisciplinar, trabalhar 
com esse tipo de material.
Nós, historiadores contemporâneos, lidamos com um leque diverso de 
fontes. Quanto mais fontes estiverem presentes em uma pesquisa histórica, 
menor será o risco de cometer erros. A Arqueologia, quando surge, intenta 
“complementar as informações existentes com evidências materiais sem escrita” 
(FUNARI, 2006, p. 84).
Segundo Pereira Junior (1967), o termo Arqueologia deriva do grego 
sendo archaios antigo e logos ciência, para ele “a arqueologia é a ciência que 
tem por atribuição principal procurar reconstituir culturas, civilizações, a vida 
enfim” (PEREIRA JUNIOR, 1967, p.11). O arqueólogo “recolhe no campo um sem 
número de restos de civilizações passadas os estuda, coloca em ordem, e tem uma 
visão do que foi uma cultura antiga” (BERNAL, 1952 apud PEREIRA JUNIOR, 
1967, p. 14). 
Não há, ainda exagero na afirmação de que uma grande parte da 
história da humanidade só pode ser devidamente estudada se contar 
também com informações obtidas em pesquisas arqueológicas, pois, 
mesmo se tratando de períodos em que a história fundamenta suas 
asserções em documentação escrita a arqueologia pode oferecer 
subsídios de valor, melhor delineando aspectos ou eliminando lacunas 
(PEREIRA JUNIOR, 1967, p. 11).
 
Segundo Funari, dos materiais arqueológicos que começaram a vir à 
luz no Século XIX, os que continuaram a ser valorizados foram as inscrições. 
“Muitas civilizações utilizaram-se de inscrições em pedra, que se conservam 
arqueologicamente muito bem, mas também em outros suportes duráveis, como 
cerâmica, tijolos, telhas, estelas, sarcófagos” (FUNARI, 2006, p. 88). Porém, 
TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS
75
os historiadores na atualidade não precisam, necessariamente, estudar uma 
fonte arqueológica vinculada a um documento histórico escrito. Como viemos 
reforçando, quando estudamos um fato e um período histórico, devemos, na 
medida do possível, aliar o máximo de historiografia e de documentos históricos 
ao nosso trabalho, a fim de evitar equívocos. Porém, quando existem apenas 
fontes arqueológicas acerca de um período, ainda é possível estudá-lo.
Um exemplo de fonte arqueológica que podemos estudar são os tabletes 
cuneiformes da cidade de Ukuk. Uruk foi uma cidade da antiguidade, localizada 
na Mesopotâmia. É sobre essa cidade que trata um dos contos mais antigo, talvez 
o mais antigo, da literatura mundial, a Epopeia de Gilgamesh, uma epopeia que 
relata os feitos históricos do governante sumério Gilgamesh. Essa narrativa foi 
transmitida por muito tempo de forma oral e, apenas no Século VII a.C. ela ganha 
uma forma escrita (Uruk dá o nome de um arco cronológico de 4 a 3 mil anos 
a.C.). Esta história foi encontrada em mais de uma cidade e também em mais 
de um idioma, porém, a versão mais completa estava na biblioteca do rei assírio 
Assurbanipal. Essa epopeia foi descoberta durante escavações entre 1849 e 1853 
(CONTADOR; CRESCÊNCIO; SANTOS, 2012).
 
FIGURA 7 – TABLET DA EPOPÉIA DE GILGAMESH ESCRITA EM CUNEIFORME
FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Epopeia_de_Gilgamesh#/media/File:Tablet_V_of_the_
Epic_of_Gilgamesh.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020.
Apenas a Epopeia de Gilgamesch já é um documento riquíssimo para 
compreendermos melhor como funcionava a vida, a sociedade e a cultura desta 
cidade Mesopotâmia, bem como o que era importante para essa sociedade. 
Porém, “foi encontrada e escavada pelo arqueólogo William Loftus e sua equipe 
entre 1850 e 1854” (CONTADOR; CRESCÊNCIO; SANTOS, 2012, p. 116). Com 
a descoberta da cidade, logo após a descoberta da Epopeia, pode-se comparar a 
escrita dos tablets com o sítio arqueológico e conhecer a cidade de Uruk de forma 
muito mais complexa, para além da narrativa literária.
 
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
76
FIGURA 8 – SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE URUK NO IRAQUE
FONTE: <https://ogimg.infoglobo.com.br/in/8358040-c5f-8ca/FT1086A/652/x2013-611608692-
2013050936724.jpg_20130509.jpg.pagespeed.ic.w-KTz1gz4H.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020.
A Epopéia de Gilgamesh foi encontrada durante escavações realizadas 
por arqueólogos como Austen Henry Layard e Hormuzd Rassam, 
entre 1849 e 1853. Esta descoberta causou um grande impacto na 
época, pois, além de abordar temas relacionados com a criação do 
mundo, a cidade de Uruk, o cotidiano e as crenças da sociedade 
suméria, o documento também menciona um relato acerca do dilúvio 
semelhante ao Livro de Gênesis, porém escrito muito antes do texto 
bíblico. Isto provocou um furor não só entre os arqueólogos, mas em 
vários seguimentos da sociedade. Muito se discutiu sobre a veracidade 
do texto bíblico a partir das comparações entre os dois relatos e isto 
aumentou o interesse na obra e em novas possíveis descobertas, o que 
facilitou o financiamento de mais expedições e acabou por se tornar 
um momento significativo na história da Arqueologia (CONTADOR; 
CRESCÊNCIO; SANTOS, 2012, p. 119).
A descoberta da epopeia e do sítio arqueológico, contemporâneas, não 
foram apenas proveitosas para aprendermos mais sobre a história de Uruk, 
esta descoberta causou questionamentos sobre temas presentes na bíblia. A 
comparação entre esses dois tipos de fontes nos fez questionar e comparar as 
características das duas fontes e conseguir ter um grau maior de precisão acerca 
da cidade de Uruk. 
Como podemos ver, a partir de escavações arqueológicas que tomamos 
conhecimento da Epopeia de Gilgamesh, bem como do sítio arqueológico da 
cidade de Uruk. Hoje a Epopeia é uma das obras literária mais importante da 
história mundial graças a escavações arqueológicas.
O arqueólogo Pedro Paulo Funari (2006, p. 108) ainda nos apresenta uma 
série de dicas para o trabalho com as fontes arqueológicas:
• Buscar ferramentas interpretativas.
• Estudar as informações já registradas sobre a sociedade analisada.
• Abordar as fontes arqueológicas tendo em vista a possibilidade do 
paralelo etnográfico.
• Estudar os indícios materiais e os textos em conjunto.
• Estar atento às diferenças e contradições entre as fontes 
arqueológicas, escritas e outras.
• Explorar também as fontes arqueológicas referentes aos segmentos 
sociais pouco presentes nas fontes escritas.
TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS
77
• Atentar para os indícios de conflitos e tensões sociais presentes nas 
fontes arqueológicas.
• Fichar o conteúdo das fontesarqueológicas em separado, com 
procedimentos próprios.
A LEITURA CRÍTICA DO DOCUMENTO
Eni de mesquita Samara
Ismênia Silveira Tupy
A análise do documento: crítica interna e externa da fonte
 
Ao associar o documento histórico à escrita ou à representação gráfica da 
linguagem falada, o historiador deve ter em mente que essa é apenas uma 
das inúmeras formas possíveis de expressão ou de comunicação social. 
Quer seja registrando fatos, narrando acontecimentos relativos aos diversos 
agrupamentos humanos ou, ao menos, impressões e sentimentos de uma 
determinada pessoa, entre inúmeros outros exemplos de registros escritos, um 
estudioso deve destacar o óbvio: a escrita possibilita não apenas a elaboração de 
um texto, mas também a transmissão de mensagens entre quem escreve e quem 
o lê e/ou o interpreta. E, além disso, o texto produzido exige, evidentemente, 
um suporte físico para se materializar. Estudado em sua dimensão material, 
é possível determinar quais são as formas/tamanhos que um registro escrito 
pode assumir; os elementos (naturais ou não) utilizados na sua confecção; 
as técnicas empregadas na sua fabricação, dando conta, portanto, de sua 
dimensão material.
Do papiro ao papel, dos códices ao livro impresso, chegando aos 
softwares ou processadores de texto de vida útil ainda indeterminada, dos 
primitivos instrumentos de escrita aos sofisticados e disponíveis meios de 
impressão eletrônica; são inúmeros os materiais e os suportes físicos associados 
a um texto escrito (tabuinhas de argila, tecidos, conchas, cerâmicas, marfim, 
folhas de palmeira etc.). Se, por não conterem aditivos químicos, os papiros 
podem chegar a obter uma durabilidade milenar, o mesmo não pode ser dito 
de outros materiais dos quais os textos são produzidos. Daí a importância de 
sua conservação apropriada e a existência, entre alguns historiadores, de certa 
“nostalgia” pelas informações perdidas, e o reconhecimento de que a perda do 
documento implica destruição de informações únicas sobre o passado.
Independentemente da durabilidade do texto escrito, convém lembrar 
que são, porém, apenas duas formas de registro da escrita: a manuscrita e a 
impressa. Entre essas duas, a invenção da imprensa e a divulgação de livros 
e/ou textos impressos vinham se constituindo, nos antigos manuais sobre o 
trabalho do historiador, em uma espécie de divisor de águas. De fato, se a 
leitura de textos antigos manuscritos exigiria do pesquisador a realização de 
estudos especiais de paleografia, a palavra impressa, por sua vez, permitiria 
uma aproximação mais fidedigna das mensagens que registra.
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
78
Verifica-se, assim, uma das possíveis armadilhas em que pode incorrer 
o historiador: independentemente da forma como a palavra escrita é registrada, 
não é possível esquecer que um texto, primeiro e antes de tudo, é a representação 
física da linguagem. Ora, enquanto veículo de ideias e informações, a linguagem 
escrita traduz um universo simbólico – uma dimensão abstrata – que abarca 
signos, símbolos, conteúdos, mensagens, sentidos, construção argumentativa, 
entre outros pressupostos. Sua decodificação impõe, ainda, o conhecimento do 
contexto muito preciso que o produziu ou fez existir; demanda, portanto, um 
trabalho de especialistas ou a crítica da erudição.
Logo, identificar com precisão a simbologia contida em um texto 
escrito implica, em um primeiro momento, estabelecer o contexto histórico do 
documento, não apenas definindo as relações entre seus conteúdos e a época 
em que o mesmo foi produzido, como também reconhecendo os seus autores. 
Da maior precisão na identificação de autoria, conteúdos e época dependem 
maior e menor grau de apropriação de sua mensagem pelos seus leitores. Vale 
ressaltar que, como afirma Belo, enquanto a escrita é a atividade produtora de 
sentido que os historiadores, mais utilizam como fonte, a leitura – sendo ela 
também produtora de sentidos -, embora deixe poucas marcas nas fontes, nem 
por isso se constitui em um exercício inócuo realizado pelo leitor.
Na decodificação da mensagem transmitida pelo registro histórico escrito, 
convém lembrar que a comunicação de uma mensagem, agora como no passado 
e como em qualquer outro processo, requer alguns elementos apresentados em 
uma determinada ordem. O primeiro deles é que haja um emissor ou emitente, 
que é quem detêm ou detinha a informação a ser transmitida. Cabe ao emissor 
transformar a ideia original em mensagem a ser comunicada. A mensagem, 
por sua vez, precisa ser codificada de tal forma para que, quem a receba, possa 
decodificá-la ou entender seu significado. Os códigos utilizados pelo emissor são 
associados ao domínio dos sentidos, isto é, a identificação visual (a palavra ou o 
desenho), sonora (a música e a conversa), tátil (método Braille), olfativa e gustativa.
O quarto elemento é sempre o meio ou a condição física para a 
transmissão da mensagem: desenhos rupestres, documentos, jornais, revistas, 
televisão, cinema, por exemplo. Vale enfatizar, aqui, que uma mensagem tanto 
pode ser transmitida por palavras quanto por uma ou mais imagens, ou por 
uma associação entre dois ou mais tipos de códigos. O passo seguinte é a 
identificação do receptor, isto é, daquele a quem a transmissão da ideia original 
se destina. E a este, cabe decodificar a mensagem da forma mais próxima do 
pensamento original que o emissor pretendeu transmitir. Um alerta torna-se 
aqui necessário quanto aos ruídos que possam comprometer a compreensão da 
ideia transmitida e analisada nos estudos históricos: o anacronismo. A leitura 
ou a interpretação de mensagens do passado com os olhos do presente podem 
levar um pesquisador a comprometer os resultados de todo o seu trabalho. Ao 
historiador, cabe realizar uma análise das informações obtidas sem atribuir a 
elas valores próprios de uma época ou de uma sociedade distintas.
TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS
79
[...] a análise de textos em pesquisa histórica é o de que um documento 
é sempre portador de um discurso que, assim considerado, não pode ser visto 
como algo transparente.
Como sugere os parâmetros curriculares nacionais, cabe ao leitor do 
texto, quer seja ele um pesquisador sênior ou um iniciante, um professor 
de História ou um estudante em qualquer nível de ensino, ou até mesmo 
um diletante, distinguir os contextos, as funções, os estilos, os argumentos, 
os pontos de vista e as intenções do autor. Ou, colocando de outra forma, 
compete ao estudioso da História realizar a leitura crítica interna ou externa 
do documento.
Como quer Paiva, vale lembrar que a História é uma construção que não 
cessa, é uma perpétua gestação do presente para o passado; logo o documento 
não pode ser entendido com a realidade histórica em si, mas trazendo porções 
dessa realidade. Além disso, as fontes históricas são sempre lidas e exploradas 
com os filtros do presente, de acordo com os valores, as preocupações, os 
conflitos, os medos, os projetos e os gostos de cada observador. Em seguida, 
esse autor sugere as perguntas fundamentais que devem dar início a todo 
trabalho e a todas as reflexões: Quando? Onde? Quem? Para quem? Para 
quê? Por quê? Como? E, ainda, propõe questionamentos sobre os silêncios, 
as ausências e os vazios que sempre fazem parte do conjunto e que, por não 
serem tão facilmente detectáveis nas fontes, são, por vezes, ignorados.10 
Também não cabe ao historiador recusar-se a admitir que, mesmo sendo um 
documento considerado “falso”, as informações que ele transmite podem ser 
de grande utilidade em seu trabalho.
Se os estudos históricos dependem do trabalho com o documento, 
o progresso da História, por sua vez, depende da lógica da acumulação 
de conhecimentos do historiador e de seus instrumentos de trabalho: de 
repertórios de arquivos e de fontes; bibliografias gerais e especializadas; 
dicionários de época e atuais; editores de texto; bancos de dados, entre outras 
necessidades levantadas na relação entre o pesquisador e o objetoda pesquisa. 
A qualidade da produção histórica, por sua vez, não deriva, apenas, da 
pertinência das questões levantadas pelo historiador no trato do documento, 
pois seus questionamentos derivam do acúmulo de seus conhecimentos sobre 
o contexto histórico trabalhado. Será a legitimidade das respostas que ele 
encontra que afiançará a pertinência da documentação selecionada.
Vale lembrar, ainda, que o estudo da História é uma atividade que 
não cessa. Da análise do tema selecionado ao confronto com obras de autores 
diversos que tratam de um mesmo assunto, observa-se o constante refazer 
das interpretações do passado. Nesse quadro, é que se insere a importância 
da historiografia – ou de estudo da História da própria História -, incluindo 
autores e/ou “escola”, bem como associando os resultados das pesquisas com 
o contexto histórico em que foram produzidos. O ofício do historiador, hoje 
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
80
como no passado, continua a demandar o aprendizado de todo um conjunto 
de operações especializadas – técnicas, métodos e diferentes instrumentos de 
trabalho – e, acima de tudo, o exercício da ética. 
FONTE: SAMARA, E. de M.; TUPY, I. S. S. T. História & documento e metodologia de pesquisa. 
2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 120-125. 
81
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que: 
• Antes de trabalhar com uma fonte escrita é importante atentar a alguns pontos, 
como o a ortografia e a gramática da fonte.
• O contexto de uma obra ajuda a entendê-la com maior profundidade.
• A Paleografia é muito importante para quem lida com documentos escritos à 
mão.
• A Análise do Discurso tem muitas contribuições para quem lida com fontes 
escritas, por exemplo: a análise do intratexto e do intertexto.
• As fontes denominadas como pertencentes ao período da Pré-História 
eram inicialmente estudadas apenas por profissionais como arqueólogos, 
paleontólogos e geólogos.
• Os historiadores se beneficiam, de maneira interdisciplinar, das fontes 
arqueológicas.
• Quando um estudo histórico consegue ligar as fontes escritas as fontes 
arqueológicas, conseguimos um maior grau de veracidade acerca do tema 
estudado.
82
AUTOATIVIDADE
1 As fontes escritas são de grande importância para o trabalho historiográfico. 
A partir do que foi apresentado sobre elas no Tópico 2, pode-se afirmar que:
I- A ortografia e a gramática de das fontes escritas não influenciam em sua 
análise.
II- Paleografia é geralmente apresentada como estudo dedicado a leitura e 
transcrição de textos antigos.
III- Dentre as contribuições da Análise do Discurso para as fontes escritas, 
temos o intertexto, ou seja, os aspectos internos de um texto.
IV- Segundo Foucault, não é a sociedade que constitui a realidade a ser 
estudada, mas os seus discursos e suas práticas.
Estão CORRETAS:
a) ( ) Apenas as afirmativas I e III.
b) ( ) Apenas as afirmativas I e IV.
c) ( ) Apenas as afirmativas I, II e III.
d) ( ) Apenas as afirmativas II, III e IV.
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
2 Retome o conteúdo deste tópico atribuindo V para as sentenças verdadeiras 
e F para as sentenças falsas:
( ) A descoberta do sítio arqueológico de Uruk não contribuiu para os estudos 
sobre a história da cidade. 
( ) Os historiadores da contemporaneidade, comparados aos do Século XIX, 
ampliaram o leque de fontes. Sendo assim, é possível trabalhar apenas 
com fontes arqueológicas e ter seu trabalho reconhecido.
( ) A descoberta do Sítio Arqueológico de Uruk contribuiu não apenas para a 
história suméria, mas causou discussões acerca do relato bíblico. 
( ) Os historiadores do Século XIX, de maneira geral, prezavam pelas fontes 
escritas. 
Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) ( ) V – F – V – F.
b) ( ) F – V– V – V.
c) ( ) F – V – F – V.
d) ( ) V – F – F – F.
e) ( ) F – F – V – F.
83
TÓPICO 3
UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, neste tópico, abordaremos sobre fontes que surgiram 
com as novas tecnologias, as fontes orais da contemporaneidade e as fontes 
audiovisuais. As fontes orais eram utilizadas os historiadores da Antiguidade e 
do Medievo, porém, elas passaram a ser desvalorizadas no campo da História. 
Com o advento da tecnologia, a partir do Século XX, e a criação dos gravadores 
os historiadores voltaram a utilizar fontes orais que eles mesmos criavam. Ao 
abordar as fontes orais, fazemos reflexões sobre como lidar com esses documentos. 
Mencionamos aqui a preparação de uma entrevista, a realização da entrevista e 
o seu tratamento.
A segunda parte do tópico relatará sobre fontes audiovisuais. Com o 
surgimento de aparelhos digitais, aumentou-se o número de fontes com que o 
historiador pode trabalhar. Dentre elas, faremos considerações acerca das fontes 
produzidas pelo cinema, pela televisão, pelo vídeo independente e a música. 
Nossa intenção, ao tratar deste tema, é fornecer para o leitor critérios básicos para 
compreender e refletir acerca destas fontes.
Feitos estes breves comentários sobre o tópico, convidamos você, leitor, a 
refletir sobre as fontes audiovisuais surgidas na modernidade. Esperamos que a 
leitura lhe ajude a compreender melhor a complexidade destas fontes históricas 
recentes.
2 FONTES ORAIS
Um dos modos em que o historiador pode criar sua narrativa é a partir 
da fonte oral. Essas fontes são presentes no universo dos historiadores desde a 
Antiguidade. A História era escrita, entre os historiadores deste período, a partir 
de testemunhos orais. Os cronistas medievais também utilizavam a oralidade em 
seus trabalhos. Porém, os relatos orais foram sendo desvalorizados no campo 
da história com o passar do tempo (JOUTARD, 1993, p. 581). Há duas etapas na 
nossa história que enfraqueceram o relato oral:
No Século XVII, a erudição beneditina moderna constituiu-se 
criticando as lendas orais sobre as origens de Roma transmitidas por 
84
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
Tito Lívio ou as dos Hagiógrafos medievais. No Século XIX, a história, 
assimilando as contribuições da erudição, define-se como ciência, 
apoiando-se exclusivamente no documento escrito, deixando-se o oral 
para as sociedades sem escrita – mundos extra europeus, por um lado, 
classes populares, por outro – e para as disciplinas que, por essa razão, 
tinham um estatuto inferior, a etnologia e ainda mais abaixo o folclore 
(JOUTARD, 1993, p. 581-582).
As fontes orais do Século XX, a qual nos concentraremos neste tópico, são 
adventos da tecnologia, a partir do gravador foi possível produzir os depoimentos 
orais (SILVA; SILVA, 2009). A história oral da modernidade surge Estados Unidos, 
na década de 1930. Em 1948 é criado um centro de história oral na Universidade 
de Colúmbia. Na década de 1970 canadenses, ingleses e italianos se interessam 
pela história oral e, a partir da década de 1980, a Europa ocidental (JOUTARD, 
1993). Os trabalhos com fontes orais no Brasil surgiram neste mesmo período.
A História Oral no Brasil, apesar do pioneirismo da Fundação Getúlio 
Vargas – RJ, que já realizava projetos na área na década de 1970, apenas 
com o fim do governo militar começou a se desenvolver livremente. 
O interesse que o método oral tinha até então, como registro de 
evidências, começou a dar lugar à pesquisa com histórias de vida de 
pessoas comuns (SILVA; SILVA, 2009, p. 187).
Entre as inúmeras contribuições que trabalhar com este tipo de fontes 
nos proporciona, Joutard nos mostra que temos cada vez mais razões para 
utilizar estes tipos de fonte. Ele nos deixa os questionamentos: “como apreender 
completamente a história da vida cotidiana ou a das técnicas sem a ajuda da 
investigação desse campo? […]. Como atingir as sensibilidades e as psicologias 
coletivas mediante unicamente o recurso ao texto, que racionaliza, ideologiza e 
forma, consciente ou não, um anteparo” (JOUTARD, 1993, p. 582-583).
Ao trabalhar com os documentos orais, há uma série de cuidados com 
os quais o historiador devese atentar. Os documentos orais provêm da História 
Oral, está “subdivisão historiográfica refere-se a um tipo de fontes com o qual o 
historiador trabalha, a saber, os testemunhos orais (BARROS, 2004, p. 132). 
As fontes orais são colhidas em forma de depoimentos, a partir de 
entrevistas. É importante, ao lidar com esta fonte, tratá-la como um ponto de vista 
da história. Segundo Barros, assim como nas fontes escritas, estas fontes contêm 
espaços dissimulados “contornando silêncios e falseamentos, revelando segredos 
que o próprio autor do texto não pretendia revelar, mas que escapam através da 
linguagem, dos modos de expressão, da […] ‘intertextualidade’” (BARROS, 2004. 
p. 133).
Ao trabalharmos com fontes orais, há uma série de critérios que devemos 
nos atentar. A historiadora Verena Alberti divide a produção das fontes orais 
em três etapas, as quais ela denomina: preparação da entrevista, realização e 
tratamento (ALBERTI, 2006).
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
85
A preparação da entrevista envolve alguns passos. Ao escrever o projeto, o 
pesquisador deve, a partir do tema, definir quem serão os possíveis entrevistados 
e o tipo de pesquisa que será realizada. As entrevistas diferenciam-se umas das 
outras e isso pode ocorrer por causa dos entrevistados, eles podem não estarem 
dispostos a realizar as entrevistas com profundidade. Também é na preparação da 
pesquisa que se define o número de entrevistados. O projeto pode optar apenas 
por um entrevistado, desde que esta fonte oral seja contraposta a outras fontes, 
porém, em uma pesquisa assim a História oral não é tomada enquanto metodologia 
principal do trabalho. Durante a preparação da entrevista não é possível precisar 
o número de entrevistados suficientes, porém, é possível estabelecer uma lista 
de entrevistados em potencial, definindo quais entrevistados são prioridades. 
Ainda sobre os entrevistados, deve-se definir se as entrevistas realizadas serão 
entrevistas temáticas ou histórias de vida. As primeiras se realizam a partir de 
um tema previamente escolhido e as segundas a partir da vida do entrevistado. A 
escolha entre ambos parte do objetivo da pesquisa. Porém, pode-se adotar ambas 
perspectivas. O projeto também deve conter o tema da entrevista e a questão que 
o tema busca. A partir do tema, elabora-se um roteiro geral de entrevista e os 
roteiros individuas de cada entrevistado. Os roteiros não devem ser questionários, 
mas abertos, as entrevistas podem se estender por mais sessões (ALBERTI, 2006).
O próximo passo da pesquisa é a realização das entrevistas. Ao realizar uma 
entrevista é importante reservar um bom tempo para a entrevista. Diferente da 
entrevista jornalística a entrevista não deve ter um período limitado. O pesquisador 
deve adequar-se ao tempo do entrevistado. O pesquisador pode manter um 
caderno de campo paralelo as entrevistas, com dados para além dela que podem 
contribuir com a pesquisa. É importante que se façam perguntas abertas, que 
não são simplesmente respondidas com “sim” ou “não”, bem como perguntas 
simples e diretas, para não confundir nem induzir os candidatos. Se necessário, 
é possível mencionar fatos específicos para lembrar os entrevistados de possíveis 
acontecimentos. O entrevistador deve estar ciente que o entrevistado pode não 
seguir a ordem cronológica e que pode haver repetições durante a entrevista. 
Como o pesquisador produzirá uma fonte, é importante começar a entrevista 
com informações básicas, como o nome do entrevistador e do entrevistado, data, 
local e para qual projeto a entrevista será utilizada. O pesquisador não deve 
falar enquanto o entrevistado estiver falando, a fim de evitar falas sobrepostas. 
A última observação a se notar aqui é que, se a pesquisa for divulgada de forma 
pública, o entrevistador necessitará de um documento de cessão sobre os direitos 
da entrevista (ALBERTI, 2006).
O último passo em relação às entrevistas é o tratamento delas. Se elas 
forem disponibilizadas ao público, é necessário decidir se isso ocorrerá por meio 
de áudio, vídeo ou forma escrita. Também deve-se produzir instrumentos de 
consulta, como sumários ou índices temáticos. É indispensável que a pesquisa 
seja duplicada, em uma cópia de segurança. Caso opte-se pela transcrição, 
estima-se no mínimo cinco horas de transcrição para uma hora de gravação. O 
texto deve ter uma conferência de fidelidade, bem com, se necessário, passar por 
um copidesque. E, ainda, caso a entrevista seja publicada, são necessárias notas 
explicativas acerca do conteúdo (ALBERTI, 2006). 
86
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
A historiadora Verena Alberti elaborou alguns tópicos com dicas para 
refletir quando se trabalha com uma fonte oral e podemos acompanhá-los a 
seguir: 
• Ter bem claro porque, como e para que se fará uma pesquisa utilizando 
História oral.
• Familiarizar-se com as discussões acadêmicas em torno do tema e da 
metodologia de História oral e levar em conta as reflexões dos estudiosos a 
respeito de:
o evitar a polaridade simplificadora entre “memória oficial” e “memória 
dominada”;
o considerar as condições de produção da fonte oral;
o tomar a entrevista como resíduo de ação, além de relato de ação;
o estar atento às determinações de uma visão retrospectiva sobre o passado.
• Elaborar o projeto de pesquisa (explicitar claramente o tema de pesquisa e 
qual questão está sendo perseguida).
• Estudar exaustivamente o assunto.
• Definir que tipo de pessoa será entrevistada, quantos serão entrevistados e 
qual tipo de entrevista será realizada.
• Elaborar uma listagem extensa e flexível dos entrevistados em potencial. 
• Contactar os entrevistados e providenciar todo o material necessário à 
realização da entrevista (equipamento técnico, documento de cessão de 
direitos).
• Elaborar os roteiros das entrevistas (o roteiro geral e os roteiros individuais).
• Contar com entrevistados de diferentes origens, assim como atuantes em 
diferentes papéis no universo estudado.
• Reservar um tempo relativamente longo para a realização da entrevista.
• Ao iniciar a gravação, gravar uma espécie de “cabeçalho” da entrevista, 
informando o nome do entrevistado, do entrevistador, a data, o local e o 
projeto no qual a entrevista se insere.
• Usar, de preferência, perguntas abertas.
• Ser simples e direto ao formular as perguntas.
• Aproveitar outros recursos que estimulem o depoimento (fotografias, 
recortes de jornal, documentos, e menção a fatos específicos).
• Reservar uma parte da entrevista para a discussão e a análise de alguns 
temas mais relevantes.
• Avaliar e analisar constantemente a entrevista (enquanto é gravada e, mais 
tarde, quando é objeto de análise).
• Decidir sobre quando encerrar a realização de entrevistas com base no 
avanço da investigação.
• Duplicar a gravação. 
• Transcrever o material, se for necessário.
• Produzir instrumentos de auxílio à consulta, como sumários e índices 
temáticos.
• Ajustar a transcrição para a atividade de leitura. 
• Editar o texto, se for publicado.
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
87
• Analisar os depoimentos levando em conta as seguintes sugestões: 
o fazer a “crítica ao documento”;
o lidar com recuos e avanços no tempo;
o refletir sobre a parcimônia do discurso dos entrevistados, se for o caso;
o estar atento às repetições como uma possível fonte de informações 
importantes;
o “ouvir” o que as entrevistas “dizem” (narrativa do entrevistado & 
condições de sua produção);
o atentar também para relatos, interpretações e pontos de vista “desviantes”;
o ser fiel à lógica e às escolhas do entrevistado;
o atentar para a ocorrência de narrativas especialmente pregnantes;
o estabelecer tipologias, se for o caso;
o chegar a alguns padrões;
o comparar o que dizem as entrevistas com outros documentos;
o tomar os fatos (o que realmente aconteceu) e suas representações 
simultaneamente.
FONTE: ALBERTI, V. Histórias dentro da História. In: PINSKY, C. B. Fontes históricas. 3. ed., São 
Paulo: Contexto, 2006, p.190-191.
3 FONTES AUDIOVISUAIS
Outro tipo de fonte que emergiu na contemporaneidade é a fonte 
audiovisual. Com o surgimento dos aparelhos digitais, o número de fontes 
analisadas pelo historiador ampliou-se em larga escala.
Dentre as inúmeras fontes audiovisuais que disponibilizamos, o 
historiador Marco Napolitano, em seu texto A História depois do papel reflete 
sobre quatro delas: o Cinema, a Televisão, o Vídeo independente e a Música. 
Nossa abordagem de fontes audiovisuais terá como referência os quatro tipos 
explanados por Napolitano. Segundo Napolitano (2006), elas são vistas pelos 
historiadores como fontes primárias com um estatuto paradoxal, como podemos 
ver a seguir:
Por um lado, as fontes audiovisuais (cinema, televisão, registros 
sonoros em geral) são consideradas por alguns, tradicionalmente 
e erroneamente, testemunhos quase diretos e objetivos da história, 
de alto poder ilustrativo, sobretudo quando possuem um caráter 
estritamente documental, qual seja, o registro direto de eventos e 
personagens históricos. Por outro lado, as fontes audiovisuais de 
natureza assumidamente artística (filmes de ficção, teledramaturgia, 
canções e peças musicais) são percebidas muitas vezes sob o estigma da 
subjetividade absoluta, impressões estéticas de fatos sociais objetivos 
que lhes são exteriores. A questão, no entanto, é perceber as fontes 
audiovisuais e musicais em suas estruturas internas de linguagem 
e seus mecanismos de representação da realidade, a partir de seus 
códigos internos (NAPOLITANO, 2006, p. 235-236, grifos do autor).
88
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
A primeira exibição de um filme ocorreu no final do Século XIX, em 1895, 
em Paris. Denominado A chegada do trem na estação (L'Arrivée d'un train en gare 
de La Ciotat), o filme tem cerca de um minuto e foi gravado em preto e branco 
pelos irmãos Louis e Auguste Lumière. A partir do final do Século XIX outros 
filmes foram surgindo e eles modificaram a nossa visão de mundo, bem como 
nosso conhecimento sobre a história.
Ao analisar um filme, é necessário atentar-se aos seus elementos 
narrativos e alegóricos. Os elementos narrativos básicos de um filme são o plano 
e a sequência. Sendo o plano “o enquadramento contínuo da câmera, situado 
entre um corte e outro” (NAPOLITANO, 2006, p. 274) e a sequência “a junção se 
vários planos que se articulam, por meio da montagem” (NAPOLITANO, 2006, 
p. 274). Já a alegoria “se manifesta como desorganização da narrativa clássica, 
linear e realista (NAPOLITANO, 2006, p. 276).
O elemento verbal é apenas um elemento, entre tantos, importante na 
análise do filme. Já as escolhas que o diretor fez, o que ele escolheu adicionar, 
incluir ou excluir de um contexto histórico, é essencial para a análise do historiador.
O importante não é apenas que se encena do passado, mas como se 
encena e o que não se encena do processo ou evento histórico que 
inspirou o filme. Não se trata de cobrar do diretor a fidelidade ao 
evento encenado em todas as suas amplitudes e implicâncias, mas de 
perceber as escolhas e criticá-las dentro de uma estratégia de análise 
historiográfica (NAPOLITANO, 2006, p.275).
Quando o historiador analisa um filme, ele também deve se atentar a 
categoria do filme. Este pode estar estruturado com cinema clássico ou cinema 
moderno. Surgido na década de 1910, o cinema clássico tem características como 
um gênero delimitado, é voltado ao grande público, intenta uma continuidade 
narrativa, busca um realismo e uma sequência. O cinema moderno, em geral, 
nega essas características (NAPOLITANO, 2006, p. 275).
O cinema é um instrumento contemporâneo que pode lidar com o passado 
de duas formas: fazendo uma monumentalização do passado ou como um 
“veículo de desconstrução de mitos e versões oficiais e autorizadas da história” 
(NAPOLITANO, 2006, p.276). Quando monumentalizado, o passado tende a 
causar uma “catarse emocional” no expectador, diferente dessa abordagem, a 
desconstrução fílmica não tem predomínio da melodramaturgia (NAPOLITANO, 
2006, p. 277).
Os filmes, por vezes, podem exaltar alguns fatos que não correspondem 
aos documentos históricos, com a intenção de aumentar o interesse ao público, 
exaltando o romance entre os personagens, por exemplo. Neste caso, esta obra 
poderia ser trabalhada em sala de aula em comparação a trechos do livro no 
qual ela foi inspirada, a partir dos trechos do livro didático que tratam sobre a 
Intentona Comunista de 1935, o Governo de Getúlio Vargas e até mesmo sobre os 
Campos de Concentração Nazistas. A análise de uma obra cinematográfica, como 
este drama biográfico, quando não vinculada a outras fontes, geralmente leva a 
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
89
equívocos e erros históricos. Podemos ver no trecho a seguir os pontos que se 
devem destacar em um filme histórico e os que não tem tanta relevância:
[...] é menos importante saber se tal ou qual filme foi fiel aos diálogos, 
à caracterização física dos personagens ou a reprodução de costumes 
e vestimentas de um determinado século. O mais importante é 
entender o porquê das adaptações, omissões, falsificações que são 
apresentadas num filme. Obviamente, é sempre louvável quando um 
filme consegue ser “fiel” ao passado representado, mas esse aspecto 
não pode ser tomado como absoluto na análise histórica de um filme 
(NAPOLITANO, 2006, p. 237).
Outra fonte audiovisual é a televisão, esta é menos utilizada que o filme, 
pois a televisão “talvez devido ao seu caráter de produto cultural volátil, tem 
muita dificuldade em guardar e sistematizar a própria memória” (NAPOLITANO, 
2006, p. 247). Ela é um mecanismo audiovisual relativamente novo no Brasil, seu 
surgimento ocorre na década de 1950, com a TV Tupi em São Paulo. Quando se 
é realizado um trabalho utilizando a televisão, a maioria das fontes primárias 
são “entrevistas, memórias, sinopses e textos de novela, índices de audiência, 
documentação institucional das empresas televisuais (faturamento, normas e 
documentos internos etc.)” (NAPOLITANO. 2005, p. 248). As análises das fontes 
que aparecem na ficção são semelhantes às do cinema. Porém, como já explanado, 
o acesso a estas fontes é, por vezes, inacessível.
A pesquisadora Mônica Almeida Kornis possui inúmeros trabalhos dedicados à 
televisão brasileira, entre eles estão: Narrativas biográficas sobre o regime militar brasileiro 
no cinema e na televisão: um despertar de emoções sobre o passado. In: GUTFREIND, 
C. F. (Org.). Narrar o biográfico: a comunicação e a diversidade da escrita. Porto Alegre: 
Sulina, 2015, p. 188-212 e Ficção televisiva e identidade nacional: o caso da Rede Globo. 
In: MORETTIN, E. et al. (Org.). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. São 
Paulo: Alameda, 2007. p. 97-114.
DICAS
Se tem uma tecnologia que transformou a forma como vivemos em 
sociedade e a nossa visão de mundo, esta foi a internet. Dentro dela encontramos 
vários meios que modificaram também a forma de nos comunicarmos uns com 
os outros, como as redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter) e a plataforma de 
vídeos YouTube. Como o historiador estuda, como já foi afirmado no primeiro 
capítulo, o homem no tempo e as publicações e vídeos destas redes sociais são 
produzidas por pessoas, uma terceira forma de fonte audiovisual é o vídeo 
independente. 
Boa parte do material histórico conhecido como vídeo independente foi 
produzido a partir da década de 1980 e este é dividido por Napolitano em duas 
90
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
categorias. A primeira é uma produção direcionada à pesquisa estética, ela é “feita 
por vídeomakers que procuram escapar das regras rígidas e dos compromissos 
exigidos pela produção voltada para TV” (NAPOLITANO, 2006, p. 253); a segunda 
é ligada a movimentos sociais urbanos e rurais, estes movimentos “procuram 
registrar suas ações políticas e institucionais, constituindo-se num importante 
material de memória de lutas sociais e políticas que pode se transformar em 
documento histórico extremamentefecundo” (NAPOLITANO, 2006, p. 253).
Um outro tipo de fonte muito importante para a história é a música. A 
música faz parte do nosso dia a dia e, apesar das pessoas apreciarem estilos e 
gêneros diferentes, há sempre um que agrada o gosto. A música é uma fonte 
histórica muito importante, seja em uma representação audiovisual, apenas em 
forma de áudio, ou em sua forma escrita.
Ao analisar uma fonte fonográfica, o historiador pode optar pelo estudo 
de uma partitura, um fonograma, ou ambos. A partitura é fundamental para as 
análises tradicionais, pois nela estariam escondidos o pensamento e a estrutura 
de uma época. Já na música popular ocorre-se o oposto, a partitura não traduz 
o que se ouve e a sua escrita pode acontecer posteriormente à obra gravada, o 
que pode prejudicar o pesquisador, pois ele não encontra, deste modo, aspectos 
estéticos e culturas da canção na partitura. 
A canção, em nossa tradução ocidental, vai além do binômio “harmonia-
melodia”, com aspectos como a percussão (NAPOLITANO, 2006). Para entender 
a articulação entre letras e músicas, nas canções, temos como possíveis as 
abordagens fundamentais a seguir: 
• a letra de uma canção, em si mesma, dá o sentido histórico-cultural 
da obra;
• o sentido assumido pela letra depende do “contexto sonoro mais 
amplo da canção, tais como entoação, colagens, acompanhamentos 
instrumentais, efeitos eletroacústicos, mixagens;
• a letra ganha sentido na medida em que a sua materialidade sonora 
(palavras, fonemas, sílabas) está organizada conforme as alturas que 
constituem as frases melódicas de uma canção;2
• o sentido sociocultural, ideológico e, portanto, histórico, intrínseco 
de uma canção é produto de um conjunto indissociável que reúne: 
palavra (letra); música (harmonia, melodia, ritmo), performance 
vocal e instrumental (intensidade, tessitura, efeitos, timbres 
predominantes); veículo técnico (fonograma, apresentação ao vivo, 
videoclipe) (NAPOLITANO, 2006, p. 271).
Napolitano defende a abordagem da música na academia a partir de 
três grandes áreas. A primeira é a musicologia histórica, nesta o estudo é 
predominantemente acerca da vida e obra de compositores e das formas eruditas 
(NAPOLITANO, 2006). A segunda área é a etnomusicologia, ela “enfoca o 
estudo das formas e manifestações musicais dos grupos comunitários, de caráter 
socialmente integrado e ritualístico, cuja prática musical não está voltada, a priori, 
à industrialização e ao consumo massificado” (NAPOLITANO, 2006, p. 254). A 
terceira área são os estudos em música popular, é sobre este que o historiador 
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
91
dedica maior atenção em seu texto. Esta terceira produz um novo tipo de fonte, 
produzido pela indústria fonográfica e visual (NAPOLITANO, 2006). Este terceiro 
tipo de fonte é muito recente na história, surgiu apenas na segunda metade do 
Século XX e é resultado da modernização da nossa forma de consumir a música.
A partir do final da década de 1980, o videoclipe e a apresentação 
de cantores em programas televisuais passaram a determinar 
as características da produção musical. Em outras palavras, 
arriscaríamos dizer que, até meados da década de 1970, a música era 
composta e produzida para ser ouvida e dançada. A partir daí ela é 
produzida cada vez mais para ser vista (embora a dança continue um 
elemento fundamental de experiência sociomusical), frequentemente 
subordinada ao império da imagem. Esse é um processo que não pode 
escapar ao historiador do futuro e que representa a integração dos 
suportes sonoros e audiovisuais, com a tendência do fim do suporte 
fonográfico tradicional, potencializado pelo fenômeno da troca de 
músicas pela internet (NAPOLITANO, 2006, p. 256).
Napolitano ainda nos apresenta uma outra forma da música se destacar 
como uma fonte histórica: “há ainda uma outra fonte audiovisual importante 
para o estudo da música popular comercial, que é o cinema. Principalmente nas 
décadas de 1930, 1940, 1950, o filme musical [...]” (NAPOLITANO, 2006, p. 257).
Há um grande músico da história do nosso país que contribuiu em grande 
medida para estudarmos e compreendermos um período específico da nossa 
história. O músico é Francisco Buarque de Holanda, mais conhecido como Chico 
Buarque, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e o período que nos 
referimos é a Ditadura Militar de 1964. 
A Ditadura Militar de 1964 causou muita resistência entre os artistas da 
Música Popular Brasileira. Várias músicas foram escritas em resistência a esse 
período, entre elas temos Para não dizer que não falei das flores de Geraldo Vandré 
e É proibido proibir de Caetano Veloso, porém essa não foi a única manifestação 
cultural de artistas. Chico Buarque é conhecido não apenas por suas músicas, mas 
também por suas peças. Dentre as diversas peças que Chico Buarque escreveu, há 
uma peça do gênero musical denominada Ópera do Malandro. 
Essa ópera foi dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, ela foi inspirada 
na Ópera do Mendigo, de John Gay, e na peça musical A Ópera dos Três Vinténs, de 
Bertolt Brecht e Kurt Weill. A Ópera do Malandro foi escrita no ano de 1978, sete 
anos antes do fim da Ditadura Militar, porém o seu intuito era de relatar outro 
período de opressão que o Brasil sofreu. A história é sobre a década de 1940, 
momento da ditadura de Getúlio Vargas e na peça “nota-se a relação entre os 
períodos de repressão que se assemelham em determinados aspectos. Falar sobre 
a Era Vargas também seria uma maneira de se tocar na situação vigente, ou seja, 
o regime militar” (WANDERLEY, 2007, p. 10). 
A ópera tem uma trilha sonora vasta, dentre as músicas escolhidas para 
integrar a peça estão Teresinha, Se eu fosse o teu patrão e Geni e o Zepelim. Tanto as 
92
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
músicas quanto o roteiro fazem o expectador refletir sobre vários aspectos da 
sociedade brasileira, especialmente a do Rio de Janeiro.
O cenário é a Lapa, no Rio de Janeiro, reduto da boemia e da 
malandragem. Os personagens principais são cafetões, prostitutas e 
malandros. Dessa maneira, percebe-se que, no ambiente em questão, 
assuntos como moralidade, ética e outros mais comuns à vida burguesa 
são deixados de lado. Há uma moral que rege o comportamento das 
pessoas, mas que, certamente, não seria aceita em outros meios mais 
conservadores. A peça retrata o fim de uma era e o início de outra: 
a malandragem genuína passa a ser “malandragem federal”. É a 
decadência da Lapa e o princípio da industrialização do país, que 
se despedia de vários aspectos tradicionais da própria cultura para 
dar espaço à cultura americana. Questiona-se o conservadorismo 
da burguesia, por ser hipócrita, uma vez que o “malandro federal” 
advinha dessa classe (WANDERLEY, 2007, p. 10).
A Ópera do Malandro pode ser um ótimo instrumento para fazer 
questionamentos sobre a história e os costumes de nosso país. Além do trabalho com 
as músicas presentes na peça, outra forma didática de trabalhar com o tema é a partir 
do filme franco-brasileiro, dirigido por Ruy Guerra, de mesmo nome, inspirado na peça 
e lançado em 1985. O filme completo está disponível em: https://www.youtube.com/
watch?v=q-KT_pE2-rY&t=601s. 
FIGURA – CARTAZ DO FILME A ÓPERA DO MALANDRO (1985)
DICAS
FONTE: <https://media.fstatic.com/k92iuw4UH7D2xzBn_lrsd27onkU=/fit-in/210x312/
smart/media/movies/covers/2009/09/9e891994a2d758a967d1d58428d05eff.jpg>. 
Acesso em: 16 abr. 2020.
Além de suas peças, Chico Buarque compôs inúmeras músicas para 
demonstrar resistência ao regime vigente. Uma das músicas foi Cálice, escrita 
em parceria com Gilberto Gil, no ano de 1973. Essa música foi vetada, pois o 
“Cálice” de vinho referido na música, é de “vinho tinto de sangue”, com essa 
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
93
frase os compositores apresentam críticas a violência do período. A palavra 
“Cálice” também faz alusão a “cale-se” e é uma crítica de Buarque à censura do 
período. Como confirmação de que o período é realmente autoritário,a música é 
censurada.
Segundo Melo (2013), Buarque sentia falta do Brasil em seu exílio, porém, 
não retornava ao país, pois recebia ameaças de organizações como o CCC 
(Comando de Caça aos Comunistas). Um dos cartões continha a mensagem a 
seguir:
Você lê jornais? Então sabe que seu pai espiritual‘, Fidel Castro, está 
libertando milhares de presos políticos. O Brasil tem 200 e Cuba 
milhares. Onde há mais liberdade? ‘Cálice‘ a voz da razão, quando grita 
a ideologia, não é? Você é o primeiro de nossa relação. O Comando de 
Caça aos Comunistas deseja a você, ativista canalha comunista que 
enxovalha nosso país, um péssimo natal e que se realize no ano de 
1979 nosso confronto final (ZAPPA, 2011 apud MELO, 2013, p. 42). 
FIGURA 10 – VETO DA MÚSICA CÁLICE
FONTE: <https://img.buzzfeed.com/buzzfeed-static/static/2014-08/1/11/enhanced/webdr05/
original-942-1406906322-12.jpg?downsize=700%3A%2A&output-quality=auto&output-
format=auto>. Acesso em: 16 abr. 2020.
94
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
Os relatos orais, o cinema, a televisão, o vídeo independente e a música 
causaram uma revolução nos estudos históricos. Podemos notar, a partir da 
tecnologia, uma grande mudança no papel e nos estudos do historiador. Em 
nossa sociedade temos um número de fontes históricas inimaginável para a 
sociedade do Século XIX, período em que a profissão de historiador começou a 
se consolidar.
O nosso desafio em lidar com as tecnologias pode, por ora, nos paralisar 
em meio a tanta informação. Porém, nós, historiadores em constante formação, 
vamos aprendendo ao longo do tempo a lidar com as delimitações de tempo 
e espaço, com ambos dominados o universo de fontes ao nosso dispor tornam 
o nosso trabalho muito melhor de forma qualitativa. Outro lado positivo da 
tecnologia é utilizar não apenas as fontes orais e audiovisuais, mas também 
outros documentos históricos de vários os períodos que se encontram on-line. 
Isso se reflete, em sala de aula, tornando nossas aulas, enquanto professores 
pesquisadores, muito mais dinâmicas e diminuindo a distância entre o aluno e o 
período histórico estudado, tornando a aula muito mais prazerosa.
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
95
LEITURA COMPLEMENTAR
CINEMA E HISTÓRIA – CONSIDERAÇÕES SOBRE OS USOS 
HISTORIOGRÁFICOS DAS FONTES FÍLMICAS
José Barros
Há algumas décadas os historiadores descobriram as amplas possibilidades 
de utilização do cinema como fonte histórica. Considerado por muitos a “arte 
do Século XX”, o cinema tem constituído, a partir de si mesmo, uma linguagem 
própria e uma indústria também específica, e à par disto não cessou de interferir 
na história contemporânea ao mesmo tempo em que seu discurso e suas práticas 
foram se transformando com esta mesma história contemporânea. 
Neste sentido, o cinema – incluindo todo o imenso conjunto das obras 
cinematográficas já produzidas e também as práticas e discursos que sobre elas 
se estabelecem – pode ser considerado hoje uma fonte primordial e inesgotável 
para o trabalho historiográfico. A partir de uma fonte fílmica, e a partir da análise 
dos discursos e práticas cinematográficas relacionados aos diversos contextos 
contemporâneos, os historiadores podem apreender de uma nova perspectiva a 
própria história do Século XX e da contemporaneidade. De igual maneira, como 
se verá oportunamente, os historiadores políticos e culturais podem examinar 
os diversos usos, recepções e apropriações dos discursos, práticas e obras 
cinematográficas.
Para além do fato mais evidente de que o cinema – enquanto “forma 
de expressão cultural” especificamente contemporânea – fornece fontes 
extraordinariamente significativas para os estudos históricos sobre a própria época 
em que foi e está sendo produzido, outra relação fulcral entre história e cinema 
pode aparecer por intermédio da dimensão deste último como representação’. O 
cinema não é apenas uma forma de expressão cultural, mas também um ‘meio 
de representação’. Por meio de um filme representasse algo, seja uma realidade 
percebida e interpretada, seja um mundo imaginário livremente criado pelos 
autores de um filme. Esta instância do cinema como meio de representação – e 
particularmente como meio de representação da história pelos chamados ‘filmes 
históricos’ – permite pensarmos o cinema, adicionalmente, como recurso para 
o ensino da própria história. Por fim, lembraremos também que o cinema é ele 
mesmo um “agente histórico” importante, no sentido de que termina por interferir 
na própria História de diversas maneiras – seja por intermédio de sua indústria, 
seja pela formação de opinião pública e de influências na mudança de costumes, 
seja por meio daqueles que dele se utilizam para objetivos diversos, como os 
próprios governos e os grupos sociais que, com a produção fílmica, impõem seus 
discursos, pontos de vistas e ideologias.
Podemos aqui visualizar uma dimensão complementar nas relações que 
permeiam o cinema e a história. Se o cinema é ‘agente da história’ no sentido 
de que interfere nela direta ou indiretamente, ele também é interferido todo o 
96
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
tempo pela história, que o determina em seus múltiplos aspectos. Vale dizer, o 
cinema é ‘produto da história’ – e, como todo produto, um excelente meio para a 
observação do ‘lugar que o produz’, isto é, a sociedade que o contextualiza, que 
define sua própria linguagem possível, que estabelece seus fazeres, que institui 
suas temáticas. Por isso, qualquer obra cinematográfica – seja um documentário 
ou uma pura ficção – é sempre portadora de retratos, de marcas e de indícios 
significativos da sociedade que a produziu. É neste sentido que as obras 
cinematográficas devem ser tratadas pelo historiador como ‘fontes históricas’ 
significativas para o estudo das sociedades que produzem filmes, o que inclui 
todos os gêneros fílmicos possíveis. A mais fantasiosa obra cinematográfica de 
ficção carrega por trás de si ideologias, imaginários, relações de poder, padrões 
de cultura. Esta afirmação, que de resto também é perfeitamente válida para as 
obras de literatura, dá suporte ao fato de que a fonte cinematográfica tem sido 
utilizada com cada vez mais frequência pelos historiadores contemporâneos. 
O lugar que produz o cinema é também o lugar que o recebe, de modo que 
a fonte fílmica pode dar a compreender uma sociedade simultaneamente a partir 
do sistema que o produz e de seu universo de recepção. O público consumidor 
e a crítica inscrevem-se desde já na rede que produz o filme, conjuntamente com 
os demais fatores que atuam em sua produção, e isto porque o público receptor 
é sempre levado em consideração nos momentos em que o filme é elaborado. As 
competências e expectativas do consumo, enfim, são antecipadas no momento 
em que é produzida a obra cinematográfica, de modo que analisar um filme é 
analisar também o público que o irá consumir.
Com relação a estes e outros aspectos, a fonte cinematográfica, 
particularmente a fonte fílmica, torna-se evidentemente uma documentação 
imprescindível para a história cultural – uma vez que ela revela imaginários, 
visões de mundo, padrões de comportamento, mentalidades, sistemas de hábitos, 
hierarquias sociais cristalizadas em formações discursivas, e tantos outros 
aspectos vinculados a uma determinada sociedade historicamente localizada. 
Mas como a indústria cinematográfica contempla em todas estas instâncias 
relações de poder – seja no que concerne à sua inserção no universo da indústria 
cultural, seja no que se refere à sua apropriação pelos poderes públicos e privados 
–, é natural que pelos estudos históricos do cinema se interessem também a 
história política, a história social, e mesmo a história econômica em sua inserção 
com estas modalidades historiográficas. É importante para o historiador avançar 
na compreensão dos poderes que atravessam o cinema, alguns interferindo 
diretamente na feitura de filmes. Apenas para nos atermos ao âmbito dos poderes 
que circulam na esfera daindústria cultural, iremos encontrar todo um conjunto 
de poderes e micro poderes que enredam a feitura de um filme, e isto variando de 
acordo com os diversos contextos e com as diversas fases da história do cinema. 
O cinema, que surge com os irmãos Lumière, logo empreenderá uma criativa 
luta para se transformar de mera tecnologia em arte, e a partir daí se empenha 
em construir uma linguagem inteiramente nova. O cinema que convive com a 
televisão, por exemplo, é já outro e deve confrontar-se com a ideia de que seus 
objetos fílmicos em determinado momento passarão das grandes telas ao circuito 
TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES
97
da televisão (e, mais tarde, já nas últimas décadas do Século XX, ao circuito da 
televisão por assinatura e das locadoras do vídeo). Tudo isso interfere em sua 
feitura, porque a indústria cultural almeja explorar todas as mídias e mercados, 
e neste sentido seus produtos devem ser polivalentes e adaptativos com vistas 
à geração de lucros sempre crescentes. Haverá filmes feitos especialmente pela 
televisão, e outros previstos para gerarem séries para a televisão. Quando se 
escreve um roteiro de filme para televisão, devem-se antecipar as reações de 
um telespectador que não está mais preso por duas horas dentro de um recinto 
fechado de sessão cinematográfica para a qual já comprometeu o valor de um 
ingresso. Esse novo espectador que assiste na televisão a um filme – seja um filme 
que já percorreu o circuito das salas de cinema ou um filme tipicamente televisivo 
– possui literalmente nas mãos um novo poder: o zapping – esta possibilidade de 
apertar um botão no controle remoto e mudar o canal. Os roteiros, desta forma, 
não podem ser concebidos livremente, pois desde o instante de sua gestação já 
sofrem a presença desta formidável multidão de micropoderes. É preciso capturar 
a atenção do espectador comum e, neste sentido, as emissoras pressionarão 
roteiristas para fazerem cortes em seus roteiros de modo a conseguirem mais 
excitação, mais suspense, por vezes maior velocidade ou maior nível de adaptação 
à competência do espectador comum. Desta maneira, os grandes interesses das 
emissoras e as pequenas expectativas do telespectador comum se enredam para 
pressionar a feitura do filme. Em operação inversa, ocorre ao historiador que ele 
pode partir de um filme – aqui tomado como fonte histórica – para precisamente 
desvendar esta rede de poderes e micropoderes, de expectativas de mercado e 
de competências espectadoras, de padrões culturais impostos pela mídia e de 
representações culturais que surgem espontaneamente. Ou seja, partindo de um 
produto, ele estará apto a decifrar a sociedade que o produziu [...].
De fato, no que se refere às fontes primárias para o estudo da história 
do cinema, ou então da história através do cinema, a primeira a se considerar 
é o próprio filme, o produto final da arte cinematográfica. Neste sentido, um 
ponto de partida metodológico para examinar sistematicamente a relação entre 
cinema e história deve vir ancorado na compreensão de que o filme − pretenda 
ele ser imagem ou não da realidade, e enquadre-se dentro de um dos gêneros 
documentários ou dentro de um dos gêneros de ficção − é em todos estes casos 
história. Não importa se o filme pretende ser um retrato, uma intriga autêntica, 
ou pura invenção, sempre ele estará sendo produzido dentro da história e sujeito 
às dimensões sociais e culturais que decorrem dela – isto independentemente da 
vontade dos que contribuíram e interferiram para sua elaboração.
Assim, o mais fantasioso filme de ficção científica não expressa senão as 
possibilidades de uma realidade histórica, seja como retratação dissimulada, 
como inversão, como tendência discursiva que o estrutura, como visão de mundo 
que o informa e que o enforma (que lhe dá forma), e assim por diante. É por isto, 
tal como se observou antes, que é sempre possível dizer que a ficção, por mais 
criativa e imaginativa que seja, permite em todos os casos uma aguda leitura da 
realidade social e histórica, o que implica dizer que o historiador ou o analista da 
fonte documental cinematográfica sempre poderá almejar enxergar por trás de 
98
UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS
um filme algo da sociedade que o produziu, e que poderá analisar a fonte fílmica 
como um produto complexo que se vê potencializado pelo fato de que para ela 
confluem diversos tipos de linguagens e materiais discursivos denunciadores 
de uma época, de caminhos culturais específicos, de agentes sociais diversos, de 
relações de poder bem definidas, de visões de mundo multidiversificadas.
FONTE: BARROS, J. Cinema e História: Considerações Sobre os Usos Historiográficos das Fontes 
Fílmicas. Comunicação e sociedade, São Paulo, v. 41, n. 3, p. 177-185, 2011. 
99
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que: 
• As fontes orais, já existentes na Antiguidade e na Idade Média, são retomadas 
no Século XX, com o advento da tecnologia.
• As fontes orais da modernidade surgem nos Estados Unidos na década de 
1930.
• As fontes orais são colhidas em entrevistas e é importante tratá-las apenas 
como um ponto de vista da história.
• A produção de fontes orais consiste em três etapas: entrevista, realização e 
tratamento. 
• O importante, ao analisar um filme, não é se ele encena o passado, mas como 
encena. O que se incluiu ou excluiu.
• A partitura é fundamental para a análise de músicas tradicionais, enquanto a 
música popular vai além do binômio “harmonia-melodia”, com aspectos como 
a percussão. 
100
1 Neste tópico, apresentamos uma fonte que nos ajudou a cunhar uma nova 
visão sobre a história, a fonte oral. A partir do conteúdo deste tópico acerca 
do tema, atribua V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas:
( ) A fonte oral do historiador, por vezes, é produzida pelo historiador através 
de entrevista.
( ) Ao realizar a entrevista, o pesquisador deve realizar perguntas abertas, 
que não são simplesmente respondidas com “sim” ou “não”.
( ) A partir do Século XIX as fontes orais são adventos da tecnologia, 
produzidas a partir de gravadores.
( ) O pesquisador não deve interromper os entrevistados, para a fala do 
entrevistador não ser sobreposta.
Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) ( ) V – F – V – F.
b) ( ) F – V– V – F.
c) ( ) V – F – V – V.
d) ( ) V – V – F – V.
e) ( ) F – V – F – F.
2 Neste tópico trabalhamos com quatro fontes audiovisuais: o Cinema, a 
Televisão, o Vídeo independente e a Música. A partir das informações sobre 
o tema, é certo afirmar que:
I- As fontes audiovisuais são testemunhos quase diretos da história.
II- A música tradicional vai além do binômio “harmonia-melodia”, com 
aspectos como a percussão, para música popular a partitura é fundamental.
III- A partir da década de 1980 começaram a surgir os vídeos independentes. 
Estas fontes não foram relevantes para o trabalho historiográfico. 
IV- O importante, ao analisar um filme, não é se ele encena o passado, mas 
como encena. As escolhas que o diretor faz ao retratar o passado.
Estão CORRETAS: 
a) ( ) Apenas a afirmativa I e II.
b) ( ) Apenas as afirmativas II e IV.
c) ( ) Apenas as afirmativas III e IV.
d) ( ) Apenas as afirmativas I, II e lII .
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
AUTOATIVIDADE
101
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
102
103
UNIDADE 3
HISTÓRIA E TEMPO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• identificar os primeiros passos teóricos da historiografia e filosofia sobre 
o estudo do tempo;
• compreender o campo teórico e metodológico da historiografia com as 
categorizações do tempo;
• comparar a perspectiva cultural do tempo a partir de diferentes calendá-
rios e perspectivas historiográficas;
• analisara abordagem do ensino da disciplina de história sobre o tempo.
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer da unidade 
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo 
apresentado. 
TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO 
TÓPICO 2 – HISTÓRIA E TEMPO 
TÓPICO 3 – OS DIFERENTES CALENDÁRIOS 
TÓPICO 4 – O TEMPO HISTÓRICO
TÓPICO 5 – O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
104
105
TÓPICO 1
INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, a partir de agora, estudaremos diversos conceitos sobre o 
tempo, não na tentativa de circunscrevê-lo em uma definição e sim na busca pelo 
entendimento das diversas formulações teóricas referentes ao tema. Inúmeros são 
os debates envolvendo o tempo entre os historiadores, filósofos, antropólogos, 
físicos e demais cientistas e pensadores. Mesmo que não encontremos um tempo 
absoluto que possa pôr fim às discussões, podemos utilizar as conceitualizações 
para pensar o tempo, para ensinar noções relativas ao tempo e para escrever 
sobre o tempo. 
Veremos mais adiante que, para Agostinho de Hipona, a tarefa de 
definir o tempo estava entre as mais trabalhosas. É dele uma das definições mais 
emblemáticas sobre o tempo, convidamos você a refletir alguns instantes sobre 
ela. Para Agostinho (1987), o tempo é aquilo que se sabe, mas que não se consegue 
dizer. 
Expostas algumas breves considerações, convidamos você a aumentar os 
seus saberes sobre os conceitos relacionados ao tempo. Esperamos que o empenho 
investido na leitura deste tópico e nesta unidade se converta em bases sólidas para 
discutir e lecionar sobre esse tema que é fundamental para os estudos históricos.
2 O TEMPO PARA A FILOSOFIA
Podemos iniciar a nossa exposição tendo em mente a vontade, a ânsia do 
ser humano pela eternidade. O momento que lhe escapa é aterrorizante, a fluidez 
do tempo, o devir, isto é, o contínuo ser e deixar de ser é recusado, e a lembrança 
da morte certa, o memento mori nos acompanha diariamente. Esse temor do tempo 
percebido como devir pode ser compreendido através da definição que Reis 
(2012, p. 20) nos apresenta:
Como puro devir, o tempo é percebido como uma sequência de 
momentos que se excluem, uma sucessão de termos que aparecem 
e desaparecem, que introduz uma existência nova e nega uma 
existência dada. O tempo seria a constante redução do ser ao nada, 
pela descontinuação e sucessão do ser.
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
106
Memento mori: podendo ser traduzida como “lembra-te de que és mortal”, 
“lembre-se da morte” ou “lembre-se de que você vai morrer”, essa expressão latina medieval 
corresponde a uma postura cristã de renúncia à vaidade e, inversamente, a recomendação 
de uma vida digna. A lembrança da morte, no entanto, causava temor a muitos homens e 
mulheres medievais.
NOTA
Possivelmente este seja um dos maiores problemas da humanidade, a sua 
inclinação para a eternidade, mesmo estando cercada do que é finito, passageiro, 
transitório, no fim das contas, do puro devir. Eternidade, devir e tempo são objetos 
de estudo que os historiadores compartilham com outros teóricos, principalmente 
os filósofos.
Ao longo dos séculos, diversos pensadores se debruçaram sobre esta que é 
uma das questões mais divergentes em seus entendimentos, a questão do que é o 
tempo. Dentre os pensadores, de diversas fases da história, que escreveram sobre 
o tempo, podemos citar Parmênides, Platão, Aristóteles, Plotino, Kant, Hegel, 
Marx, Husserl, Heidegger e Bachelard. Também inseridos nessa lista estão os três 
pensadores que discutiremos a seguir, são eles: Agostinho de Hipona, Friedrich 
Nietzsche e Henri Bergson. 
A escolha desses três pensadores não está inserida em uma chave de 
maior importância para o tema, e sim pela oportunidade de expormos, em um 
espaço limitado, noções de tempo que possuem particularidades relevantes ao 
seu entendimento introdutório. Também estamos certos de que, despertado o 
interesse através da exposição do pensamento desses filósofos, os seus estudos 
serão guiados para as demais noções de tempo desenvolvidas pelos filósofos 
anteriormente citados. 
3 O TEMPO PARA AGOSTINHO DE HIPONA
Na obra Confissões estão presentes as conversas entre Agostinho de 
Hipona (354-430) e Deus. Em suas confissões, Agostinho humildemente busca 
a sabedoria divina para resolver e compreender questões relacionadas à fé e à 
razão. É no livro XI de Confissões que Agostinho discute o tema do tempo, o qual 
dedicaremos alguns instantes para a sua compreensão.
“O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo [sic] perguntar, eu 
sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não o sei” (AGOSTINHO, 
1987, p. 218). Com essa afirmação, Agostinho (1987) suscita a discussão sobre o 
caráter psicológico, interior e fundamentalmente subjetivo do tempo. Podemos 
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO
107
apreender, através dos sentidos e da experiência, que o tempo faz parte da 
realidade, mas, ao tentar explicá-lo, precisamos exteriorizá-lo, fazer com que 
o tempo seja algo fora da nossa percepção. Nesse momento, e negando que o 
tempo esteja relacionado com os movimentos dos corpos celestes, como o Sol e 
a Lua, o bispo de Hipona afirma que não temos como explicar o tempo através 
de palavras, apenas se nos apoiarmos na nossa subjetividade e no que o nosso 
espírito, ou a nossa consciência, se preferir, concebe no presente. Para o autor, 
o tempo é compreendido através da distentio animi, isto é, uma distensão, ou 
extensão dos movimentos de ir e vir da alma humana.
FIGURA 1 – AGOSTINHO DE HIPONA
FONTE: <https://bit.ly/2uyU2fR>. Acesso em: 10 fev. 2020.
Agostinho (1987, p. 214) declara a Deus que “no vosso Verbo, porém, 
nada desaparece, nada se substitui, porque é verdadeiramente eterno e imortal”. 
A eternidade, podemos chamar de tempo metafísico, não possui passado nem 
futuro, apenas o presente. Sendo Deus o criador do tempo, Agostinho argumenta 
que a pergunta sobre o que fazia Deus antes de criar o mundo não faz sentido, 
já que não existe um antes nem um depois na eternidade, apenas o presente, 
o eterno presente. Por ser o tempo uma ordem criada por Deus (ordo temporis), 
somente através de Deus poderíamos compreender o tempo.
Ao contrário da eternidade, o tempo subjetivo é formado pelo passado, 
pelo presente e pelo futuro. É preciso que o tempo passe para que tenhamos o 
passado, assim como as expectativas criam o tempo futuro e, mais fundamental 
que isso, é preciso existir algo, a realidade, para que o presente possa existir e 
servir de medida para o passado e para o futuro. O tempo presente, considera 
Agostinho, é fugidio, escapa por entre os nossos dedos. Por exemplo, enquanto 
você, caro acadêmico, lê essas palavras, as primeiras palavras desse parágrafo 
já fazem parte do passado. Impossíveis de serem lidas novamente no mesmo 
momento. E as próximas, essas que você visualizará neste livro, serão lidas 
apenas no futuro. Mas quando forem lidas, serão o presente e logo passarão a ser 
passado. 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
108
No entanto, nós estamos seguros quando afirmamos que o passado, 
o presente e o futuro existem. Agostinho (1987, p. 222) também afirma que há 
sentido no tempo e ele está na sucessão destes três tempos: passado, presente e 
futuro, nos fornecendo uma chave de entendimento para esta questão: “existem, 
pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança 
presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança 
presente das coisas futuras”. 
Conforme vimos, para o autor, no nosso espírito estão presentes três 
operações, a expectativa ou a espera, a atenção ou a percepção imediata, e a 
memória. Um futuro é longo quando a nossa expectativa é grande, um passado é 
longo quando a nossa memória é longa para com algum acontecimento,e é pela 
atenção no presente que passa aquilo que era expectativa e tornou-se memória. 
Apenas podemos compreender o tempo pelo presente, ou melhor, pelo presente 
do passado, pelo presente do presente e pelo presente do futuro. 
Agostinho também define o tempo da história como diretamente ligado 
ao tempo da alma, ou seja, em termos de memória, atenção e expectativa, mas 
este tempo não está apenas relacionado ao indivíduo, e sim à humanidade como 
um todo (DOMINGUES, 1996).
4 O ETERNO RETORNO DE NIETZSCHE
O pensamento do Eterno Retorno (Ewige Wiederkunft) aparece pela 
primeira vez na obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900) no parágrafo 341 do livro 
A gaia ciência (1882), retornando em Assim falou Zaratustra (1883-1885), em Além 
do bem e do mal (1886), em Ecce homo (1908), sua autobiografia filosófica publicada 
postumamente, assim como em passagens dos Fragmentos póstumos, coleção de 
escritos que reúne textos do período entre 1884 e 1889, compreendendo os últimos 
anos de produção do filósofo alemão.
O pensamento do eterno retorno está inserido na crítica nietzschiana 
à cultura ocidental socrático-judaico-cristã, à metafísica e, em seu tempo, 
à modernidade e sua elevada defesa da ciência. A transvaloração de todos os 
valores, esse era o projeto nietzschiano que possibilitaria o aparecimento do além-
do-homem, ou übermensch em alemão. Transvalorar, isto é, criar valores; tendo 
em vista que os valores apresentados são humanos, demasiadamente humanos, 
logo, não podem ser os mesmos do além-do-homem. Por outro lado, se negarmos 
que existam valores, cairíamos no niilismo, impossibilitando o projeto do além-
do-homem de ser realizado. 
Agora que já conhecemos um pouco do pensamento de Nietzsche, 
entraremos no conceito do eterno retorno e sua relação com o tempo. Para isso, 
gostaríamos de apresentar a você o parágrafo 341 de A gaia ciência, intitulado O 
peso mais pesado:
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO
109
E se um dia, ou uma noite, um demônio te seguisse em tua suprema 
solidão e te dissesse: "Esta vida, tal como a vives atualmente, tal como 
a viveste, vai ser necessário que a revivas mais uma vez e inumeráveis 
vezes; e não haverá nela nada de novo, pelo contrário! A menor dor e 
o menor prazer, o menor pensamento e o menor suspiro, o que há de 
infinitamente grande e de infinitamente pequeno em tua vida retornará 
e tudo retornará na mesma ordem - essa aranha também e esse luar 
entre as árvores e esse instante e eu mesmo! A eterna ampulheta da 
vida será invertida sem cessar - e tu com ela, poeira das poeiras!" - Não 
te jogarias no chão, rangendo os dentes e amaldiçoando esse demônio 
que assim falasse? Ou talvez já viveste um instante bastante prodigioso 
para lhe responder: "Tu és um deus e nunca ouvi coisa tão divina!" Se 
este pensamento te dominasse, tal como és, te transformaria talvez, 
mas talvez te aniquilaria; a pergunta "queres isso ainda uma vez e um 
número incalculável de vezes?", esta pergunta pesaria sobre todas as 
tuas ações com o peso mais pesado! E então, como te seria necessário 
amar a vida e amar a ti mesmo para não desejar mais outra coisa 
que essa suprema e eterna confirmação, esse eterno e supremo selo! 
(NIETZSCHE, 2008a, p. 239-230).
Embora o conceito do eterno retorno seja objeto de diferentes 
interpretações, apresentaremos, em linhas gerais, o que lhe é de mais comum. Em 
Ecce homo, Nietzsche (2008b, p. 79) comenta que o pensamento do eterno retorno, 
este pensamento abissal, “a mais elevada forma de afirmação que se pode em 
absoluto alcançar, é de agosto de 1881”. Desse pensamento podemos depreender 
a negação de uma outra vida e a valorização da vida terrena. 
Aceitar o eterno retorno seria, nos termos de Nietzsche, aceitar o retorno 
à filosofia trágica, um sagrado dizer sim à vida percebida como uma obra de arte, 
uma vida de afirmação e sem arrependimentos. O que fazemos e todos os eventos 
seriam repetidos incessantemente, não haveria nada após a morte, apenas o 
eterno retorno. Isso inclui a aceitação da vida como nos é apresentada, com suas 
alegrias e tristezas, guerra e paz, bom e mau, destruição e criação, ordem e caos. 
Amar o destino, ou, na expressão resgatada por Nietzsche dos estóicos, amor 
fati, este seria o projeto apresentado por Nietzsche e que inclui em seu núcleo o 
pensamento do eterno retorno. No trecho a seguir, Zaratustra, “o advogado do 
círculo” (NIETZSCHE, 2011, p. 207), “o mestre do eterno retorno” (NIETZSCHE, 
2011, p. 211), nos apresenta os elementos dessa renúncia à ascensão junto a Deus 
e a aceitação da transcendência terrena. Não mais a vida eterna e sim o eterno 
retorno.
Vede, eu vos ensino o super-homem! O super-homem é o sentido da 
terra. Que a vossa vontade diga: o super-homem seja o sentido da 
terra! Eu vos imploro, irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis 
nos que vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, 
saibam eles ou não. São desprezadores da vida, moribundos que a si 
mesmos envenenaram, e dos quais a terra está cansada: que partam, 
então! Uma vez a ofensa a Deus era a maior das ofensas, mas Deus 
morreu, e com isso morreram também os ofensores. Ofender a terra 
é agora o que há de mais terrível, e considerar mais altamente as 
entranhas do inescrutável do que o sentido da terra! (NIETZSCHE, 
2011, p. 14).
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
110
Caro acadêmico, você poderá encontrar a tradução de übermensch como 
além-do-homem ou como super-homem. O debate sobre qual das duas traduções estaria 
mais próxima ao conceito nietzschiano de übermensch é extenso e não caberia aqui sua 
análise. Embora apresentemos ambos os termos, preferimos o termo além-do-homem, 
em consonância com uma das maiores especialistas em Nietzsche no Brasil, a filósofa 
paulistana Scarlett Marton.
NOTA
Em relação ao tempo, nosso tema de estudo, o tempo do eterno retorno não 
seria linear, progressivo, possuidor de um telos ou uma meta e sim sustentado 
pelo instante e em uma cosmologia que compreende o tempo como circular 
e eterno. Em Assim falou Zaratustra encontramos os animais de Zaratustra, a 
águia e a serpente, lhe dizendo: “tudo vem, tudo retorna; rola eternamente a 
roda do ser. Tudo morre, tudo volta a florescer, corre eternamente o ano do ser” 
(NIETZSCHE, 2011, p. 209). O eterno retorno seria, portanto, compreendido 
como a volta incessante dele. Não uma nova vida que surge e sim a mesma 
existência retomada diversas e infinitas vezes. Um instante retornando sem 
a possibilidade de alterar o que passou. Nesse ponto, a riqueza da filosofia 
nietzschiana nos proporciona um interessante questionamento: viveríamos a 
nossa vida, da forma tal como ela é, infinitas vezes? Para Nietzsche, somente 
afirmando o eterno retorno é que alguém poderia tornar-se o que é em uma 
perspectiva para além do bem e do mal. 
Caro acadêmico, sabendo da importância do pensamento de Nietzsche para 
a História, indicamos a você a leitura da obra Zaratustra: Tragédia nietzschiana do filósofo 
brasileiro Roberto Machado. Roberto Machado é reconhecido dentro e fora do país pelos 
seus estudos em Nietzsche e em Michel Foucault.
DICAS
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO
111
FIGURA – CAPA DO LIVRO
FONTE: < https://zahar.com.br/sites/default/files/styles/thumb-livros/public/livros/capa/
c0495_0.jpg?itok=34HBQgLG>. Acesso em: 12 mar. 2020.
5 O TEMPO PARA HENRI BERGSON
Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês e Nobel de Literatura (1927), 
em sua obra Duração e Simultaneidade (1922), nos apresenta uma noção de tempo 
ligada à experiência e relacionada à consciência e à memória, isto é, um tempo 
duração. Inicialmente, vale ressaltar que os estudos de Bergson sobre o tempo 
tem como principais alvos o senso comum e as ciências positivistas.
Bergson, assim como Agostinho de Hipona, defende a ideia do tempo 
interior, subjetivo ou psicológico, logo, um tempo que existe apenas em nossas 
mentes, não podendo ser quantificável e generalizado, ou seja, objetivado. 
Em oposição a essa objetivaçãodo tempo, a qualificação do tempo como uma 
grandeza a ser medida, Bergson atribui ao tempo a continuidade da duração da 
consciência. Por duração, Bergson entende a continuidade do passado no presente, 
ou seja, um processo percebido através da memória, sendo que “esta duração, 
que a ciência elimina, que é difícil de conceber e de exprimir, nós a sentimos e a 
vivemos (BERGSON, 1979, p. 102). A duração é a própria existência do indivíduo, 
é a mudança constante, a realidade e a criação, “a duração é essencialmente uma 
continuação do que não é mais no que é” (BERGSON, 2006, p. 57). 
Para o filósofo francês, o tempo é compreendido no fluxo da nossa 
consciência, afirmando que “não há dúvida de que o tempo, para nós, confunde-
se inicialmente com a continuidade de nossa vida interior” (BERGSON, 2006, p. 
51). A continuidade, a passagem, a fluidez ou o escoamento do tempo poderia ser 
apreendido através da metáfora da melodia. Uma música é uma sucessão de notas 
que formam uma melodia. Mas, para que a melodia seja agradável, é necessário 
haver harmonia entre as notas, a isso Bergson chama de “solidariedade”, em que 
as pequenas partes se unem para criar uma totalidade. Assim é o tempo para 
nós. Mesmo o instante que se apresenta como possibilidade e fluir não pode ser 
isolado, pois está ligado com todos os momentos em nossa consciência, que os 
toma da memória. 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
112
6 NOÇÕES DO TEMPO FORA DO CAMPO DA HISTÓRIA
Como início de conversa, chamamos a atenção para as análises sobre o 
tempo de especialistas fora do campo historiográfico, como é o caso dos físicos. 
A física desenvolvida por Isaac Newton (1643-1727), por exemplo, defendia que 
o tempo e o espaço eram infinitos. Albert Einstein (1879-1955), em sua teoria da 
relatividade, afirma que o tempo é relativo e que o universo está em expansão e 
em processos de mudança, portanto, por mudar também possui uma história. Já 
a Física dos nossos dias compreende o tempo como inerente aos fenômenos, não 
possuindo, portanto, uma exterioridade em relação a eles.
A Biologia e a Geologia também se ocupam do estudo do tempo para a 
datação de seus objetos de estudo. Um exemplo trazido por Bittencourt (2008, p. 
202) auxilia a nossa compreensão:
Quando os cientistas situam a idade da Terra em aproximadamente 4,5 
bilhões de anos, pode-se entender a afirmação metafórica sobre o tempo da 
humanidade, que corresponderia a “uma pequena frase ao fim de uma nota 
de rodapé na última página ao longo do compêndio da vida do planeta.
Outra perspectiva para o estudo do tempo provém das Ciências Humanas. 
A psicologia experimental tem relacionado o estudo do tempo com a memória e 
com a sua ausência, a amnésia. Cabe ressaltar que os estudos psicológicos sobre 
o tempo influenciaram estudiosos, como é o caso de Jean Piaget (1896-1980), 
psicólogo, biólogo e epistemólogo suíço, amplamente reconhecido pelas suas 
produções no campo da educação. Em 1946, Piaget publica o livro A noção de 
tempo na criança, obra que nos oferece excelentes elementos para a compreensão 
do tempo. Piaget (2002) considera que o tempo e o espaço estão diretamente 
associados. Na obra, também encontramos as noções de tempo intuitivo e tempo 
operatório. Bittencourt (2008, p. 203) comenta que:
 
O “tempo intuitivo limita-se às relações de sucessão (antes e depois) e 
de duração fornecidas pela percepção imediata, tanto externa quanto 
interna”. O tempo operatório, por sua vez, desenvolve relações de 
sucessão e de duração por intermédio de operações lógicas. Pode ser 
métrico (medido por unidades numéricas – ordinal ou cardinal) ou 
qualitativo, possibilitando, neste último caso, a construção de relações 
de simultaneidade, sucessão e duração.
 
Assim como a compreensão espacial, as sucessões temporais e outras 
noções de tempo requerem a maturação biológica do indivíduo. Na posição de 
educadores, se faz necessário estarmos atentos para essa questão. É intrínseco ao 
processo educacional o respeito aos limites biológicos do educando. 
7 SALVADOR DALÍ E O TEMPO
A tela apresentada a seguir se chama A Persistência da Memória e foi pintada 
em 1931 pelo artista catalão Salvador Dalí (1904-1989), expoente do movimento 
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO
113
artístico denominado Surrealismo. A tela, uma pintura a óleo, possui 24,1 cm de 
altura por 33 cm de largura, está localizada no Museu de Arte Moderna (MoMA) 
de Nova Iorque, desde o ano de 1934. Inicialmente, a tela de Dalí nos causa 
estranheza. Os relógios derretidos podem nos remeter à fugacidade do tempo 
cronológico e a nossa incessante, muitas vezes frustrante, corrida contra o tempo. 
No entanto, Dalí nos fornece outra perspectiva de interpretação ao atribuir à tela 
o título de A Persistência da Memória, isto é, seu impacto no observador é profundo 
e dificilmente escapará à memória. 
FIGURA 2 – A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA – SALVADOR DALÍ
FONTE: <https://cdn.culturagenial.com/imagens/clocks-cke.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2020.
Na nossa memória, o tempo do relógio não é o mesmo da memória. 
Podemos ter lembranças de experiências e acontecimentos passados há muito 
tempo que estão claramente presentes na nossa memória. Partindo dessas análises, 
podemos concluir que o tempo e a memória, duas das noções mais pertinentes 
aos historiadores, estão presentes nessa obra de Salvador Dalí. 
Caro acadêmico, relacionar a arte com a História possibilita aos alunos 
uma compreensão mais abrangente do mundo em que estão inseridos, além de 
ser um excelente suporte visual para o ensino da disciplina.
TEMPO RELATIVÍSTICO
Devido ao relevante papel que o tempo passara a desempenhar tanto 
na vida moderna como na visão científica do mundo, a surpresa foi grande 
quando, em 1905, num artigo científico que é hoje reputado um dos mais 
importantes publicados neste século, Albert Einstein revelou uma limitação 
antes insuspeitada da teoria do tempo em vigor. Segundo essa teoria, para um 
dado modo de medir o tempo, cada evento pode ter apenas um único tempo 
associado a ele. Eventos que têm o mesmo tempo são chamados "simultâneos". 
O novo ponto de vista que ocorreu a Einstein foi que, embora a ideia de 
simultaneidade seja perfeitamente clara para dois eventos que ocorrem tanto 
no mesmo lugar como ao mesmo tempo, não é suficientemente clara para dois 
eventos que ocorram em lugares diferentes. Em vez disso, a simultaneidade 
de um evento distante e outro que ocorre no âmbito da própria experiência 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
114
do observador depende da posição relativa do evento distante e do modo de 
conexão entre ele e a percepção que dele tem o observador. Se a distância do 
evento é conhecida e também a velocidade do sinal (por exemplo, luz) que o 
conecta com a percepção que dele tem o observador, este pode correlacionar o 
evento com algum instante prévio de sua própria experiência e pode considerar 
esses dois eventos como simultâneos. Esse cálculo será, é claro, uma operação 
distinta para cada observador, mas, até que Einstein levantasse a questão, fora 
tacitamente admitido que, se tais cálculos fossem corretamente feitos, todos 
os observadores concordariam quanto ao tempo de qualquer evento dado. 
Einstein produziu uma teoria bem-sucedida em que isso não acontece. 
Einstein fundou sua teoria especial da relatividade, como veio a ser 
chamada, no princípio de que as leis da natureza são passíveis de expressão 
na mesma forma matemática para todos os observadores em movimento 
relativo uniforme (inclusive repouso relativo). Esse princípio de relatividade 
é válido na dinâmica clássica baseada nas leis do movimento de Newton, 
mas Einstein acreditava que devia ser estendido a outros campos da física, 
em particular o eletromagnetismo e a teoria da luz. Na dinâmica clássica, 
não há nenhuma velocidade com propriedades especiais, mas na teoria 
eletromagnética a velocidade da luz (no vácuo), que é de cerca de 300.000 
quilômetros por segundo, tem um significado especial. Einstein acreditavaque, 
se as propriedades da luz devem ser as mesmas para todos os observadores 
em movimento relativo uniforme, todos eles devem atribuir-lhe a mesma 
velocidade. Verificou, entretanto, que esta condição adicional era incompatível 
com a teoria do tempo dominante. Embora segundo sua teoria quaisquer dois 
observadores em repouso relativo fossem atribuir o mesmo tempo ao mesmo 
evento dado, onde quer que ocorresse, este não seria o caso para quaisquer dois 
observadores em movimento relativo uniforme em geral. Consequentemente, 
a condição de que cada evento tem somente um tempo associado a ele já não 
se mantém. Em vez disso, seu tempo depende do observador. 
A teoria de Einstein envolve o pressuposto de que nenhum efeito físico 
pode ser transmitido em velocidade maior que a da luz (no vácuo). Embora 
nem Newton nem Leibniz tivessem imposto qualquer restrição semelhante, a 
teoria de Einstein está mais de acordo com o conceito de tempo de Leibniz que 
com o de Newton. Pois, se a ideia de Leibniz de que o tempo é derivado dos 
eventos é compatível com a teoria de Einstein, o conceito de tempo absoluto de 
Newton não é. Enquanto para Newton o tempo era independente do universo 
e para Leibniz era um aspecto do universo, a visão que hoje prevalece, desde 
que a teoria de Einstein passou a ser vista como uma parte essencial da física, 
é a de que o tempo é um aspecto do universo que depende do observador. 
Uma importante consequência da teoria especial da relatividade de 
Einstein é que um relógio que se desloque parecerá funcionar lentamente 
comparado a um relógio similar em repouso com relação ao observador, e 
quanto mais a velocidade do relógio que se desloca se aproximar da velocidade 
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO
115
da luz, mais lentamente ele parecerá marchar. Esse aparente lenteamento 
de um relógio que se desloca é chamado de "dilatação do tempo". De todas 
as consequências da teoria de Einstein, foi esta que pareceu a muita gente 
a mais difícil de aceitar, uma vez que entra em conflito com nossa intuição 
do tempo ditada pelo senso comum. Entretanto, existem hoje fartas provas 
experimentais, particularmente as fornecidas por partículas de alta velocidade, 
que corroboram esta conclusão. 
Em seu artigo de 1905, Einstein restringiu o princípio da relatividade 
a observadores em movimento relativo uniforme, e não considerou 
efeitos gravitacionais. No que chamou de teoria geral da relatividade, que 
desenvolveu cerca de dez anos mais tarde para levar em conta a gravitação, 
ampliou o princípio da relatividade para incluir observadores em qualquer 
forma de movimento acelerado, a relatividade especial sendo vista como um 
importante caso particular dessa teoria mais abrangente. Também nesta teoria 
o pressuposto clássico de que cada evento ocorre num único tempo, o mesmo 
para todos os observadores, não se mantém. Em vista disto, pode-se pensar 
que a ideia de uma única escala temporal cósmica para o universo físico 
careceria de significado objetivo. Tal conclusão, contudo, seria errônea, como 
o demonstraram os avanços feitos neste século em cosmologia. 
FONTE: WHITROW, G. J. O tempo na história: concepções de tempo da pré-história aos nossos 
dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 192-194. 
116
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• Diversos pensadores se debruçaram sobre a questão da compreensão do tempo.
• Em sua obra Confissões, Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) caracteriza o 
tempo como aquilo que se sabe, mas que não se pode explicar.
• O filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, expôs com maior ênfase em A gaia ciência 
(1882) e em Assim falou Zaratustra (1883-1885) o pensamento do eterno retorno. 
Esse pensamento busca refletir filosoficamente sobre o caráter irreversível das 
nossas ações.
• O filósofo francês Henri Bergson nos apresenta a noção do tempo interno, não 
mensurável, e como continuidade do que não é mais em nossa consciência.
• A Física, a Biologia, a Geologia e outras ciências formularam noções sobre o 
tempo. Entre as mais relevantes está a Teoria da Relatividade de Albert Einstein.
• Podemos estudar e refletir sobre o tempo utilizando como ponto de partida a 
arte. 
• A tela A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, aborda o aspecto fluido do 
tempo.
117
1 Agostinho de Hipona, mais conhecido como Santo Agostinho, é um dos 
nomes essenciais para o estudo do tempo. No livro XI de Confissões, o bispo 
de Hipona reflete sobre o que seria o tempo. Após a leitura do Tópico 1, 
responda: como Agostinho compreende o tempo?
2 A citação a seguir é de Scarlett Marton (2016, p. 37) e trata do eterno retorno 
nietzschiano. Acompanhe: “falando em favor da vida, do sofrimento e do 
círculo, Zaratustra, ‘o porta-voz da vida, o porta-voz do sofrimento, o porta-
voz do círculo’, aponta a íntima relação entre a vida enquanto vontade de 
potência, o sofrimento enquanto parte integrante da existência e o círculo 
enquanto infinita repetição de todas as coisas. Ao interpelar o pensamento 
do eterno retorno, ele bem sabe que é aquele que tem conhecimento da 
morte de Deus, que acolhe sem restrição o sofrimento, que afirma que tudo 
retorna sem cessar”. 
FONTE: MARTON, S. O eterno retorno do mesmo: a concepção básica de Zaratustra. Cadernos 
Nietzsche, Guarulhos, v. 37, n. 2, p.11-46, set. 2016.
Com base no Tópico 1 e na citação anterior, assinale a alternativa CORRETA.
a) ( ) O pensamento do eterno retorno está inserido, por um lado, na crítica 
que Nietzsche realizou à cultura ocidental socrático-judaico-cristã e, por 
outro lado, ao seu apreço pela modernidade e sua elevada defesa da 
ciência.
b) ( ) Para Nietzsche, aceitar o eterno retorno seria retornar à filosofia trágica. 
Seria um sagrado dizer sim à vida percebida como uma obra de arte, 
uma vida afirmativa, não ressentida, e sem arrependimentos.
c) ( ) O tempo do eterno retorno é linear, progressivo, possuidor de um telos 
ou uma meta, sendo sustentado pela noção de um futuro ideal, negando 
assim as cosmologias que compreendem o tempo como circular e eterno.
d) ( ) O eterno retorno seria compreendido como a volta incessante do mesmo, 
sendo que, ao retornar, poderíamos alterar o que fizemos de errado e 
nos aproximarmos da noção de além-do-homem nietzschiana, ou seja, o 
homem que ressente.
AUTOATIVIDADE
118
119
TÓPICO 2
HISTÓRIA E TEMPO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
 
Caro acadêmico, neste tópico, apresentaremos algumas concepções de 
tempo que serão recorrentes em seus estudos históricos. Iniciaremos pela relação 
entre a História e o tempo e, na sequência, apresentaremos o tempo cíclico 
e o tempo linear. Essas são duas das concepções de tempo que tiveram maior 
destaque no campo historiográfico. Outros conceitos caros ao historiador ou 
ao professor de História serão abordados neste tópico, como a temporalidade 
e sua divisão em passado, presente e futuro; as periodizações da História e as 
críticas atribuídas a elas; a proposta de entendimento das “durações” de Fernand 
Braudel; e a contagem do tempo através das eras e do uso do relógio. Esperamos 
que você esteja motivado para a leitura deste tópico. Bons estudos!
2 RELACIONANDO HISTÓRIA E TEMPO
Caro acadêmico, o historiador francês Marc Bloch (1886-1944) contribui 
para a historiografia com uma das definições mais acertadas sobre a relação entre 
o tempo e a História. Em seu livro Apologia da História, Marc Bloch (2001, p. 
55) assinala que “a história é a ciência dos homens no tempo”. Nessa frase curta, 
Marc Bloch apresenta três informações relevantes ao historiador. A primeira, a 
História é uma ciência, com seus métodos próprios; a segunda, a História tem 
como fundamento o estudo das ações humanas; e a terceira, a necessidade 
de incluir o tempo no trabalho historiográfico. O historiador brasileiro José 
D'Assunção Barros (2013, p. 13) reforça esse entendimento afirmando que “no 
caso da História, a perspectiva do tempo é visceral. Sem ela, os historiadores 
simplesmente não existem”.A definição de Marc Bloch está inscrita em uma crítica à História 
apreendida como o estudo do passado. De fato, essa foi a noção mais aceita 
ao longo dos séculos, mesmo entre os historiadores. De todo o modo, a escrita 
do passado está atrelada às noções de tempo, e estas serviram de subsídios ao 
trabalho dos historiadores desde o princípio. Heródoto, considerado o pai da 
História, relacionava seus escritos com a noção de tempo. Antes dele, os escribas 
acadianos que escreveram a história da monarquia de Akkad (2270-2083 a.C.), na 
Mesopotâmia, pensaram de forma semelhante. 
120
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
A tarefa do historiador, na perspectiva da Escola dos Annales, é estar 
atento às necessidades do presente para a construção de uma história-problema. 
Somente a partir daí mergulhar no passado para buscar as informações que sejam 
de interesses dos homens do presente. Essa seria a jornada ideal do historiador, 
ir ao passado guiado pelos problemas do presente, tendo em vista que toda 
pesquisa nasce de interesse do presente, ou, se preferir, toda historiografia é do 
presente (REIS, 2012).
Mesmo atualmente, quando podemos trabalhar com campos como a 
História do tempo presente, a questão temporal ainda nos será elementar. Se 
escrevemos em um determinado tempo, devemos supor que certos elementos 
discursivos e não discursivos estão incluídos em nossas subjetividades. Analisá-
los e buscar compreendê-los é relevante ao trabalho historiográfico. 
3 TEMPO CÍCLICO
O tempo cíclico pode ser entendido como aquele no qual cada fim estabelece 
um novo começo. Podemos associar o tempo cíclico ao nosso ano corrente. Assim 
que chegarmos ao final dele, em 31 de dezembro, estaremos prestes a iniciar um 
novo ano ou um novo ciclo. Contudo, as semelhanças com a nossa atual forma de 
perceber o tempo terminam aqui. 
Para as sociedades que seguiam essa primeira concepção de tempo, os 
períodos eram ditados pela natureza. O ritmo era guiado por atividades como 
semear e colher e pela observação do Sol e outros astros. Thompson (1998, p. 
269) corrobora essa noção de tempo afirmando que “entre os povos primitivos, a 
medição do tempo está comumente relacionada com os processos familiares no 
ciclo do trabalho ou das tarefas domésticas”. O tempo fracionado como temos 
atualmente simplesmente não existia. Até mesmo a vida e a morte faziam parte 
de um ciclo eterno. A lembrança do contínuo retorno também estava presente em 
diversas festividades, as quais buscavam reproduzir os mitos fundadores.
Convidamos você, caro acadêmico, a conhecer um pouco mais sobre o 
tempo cíclico através de alguns exemplos. Na cultura hindu, a morte é vista como a 
possibilidade da reencarnação, portanto, um novo início, um novo ciclo. Para os gregos, 
a passagem do tempo poderia ser percebida através dos tempos que separavam os 
jogos olímpicos. Esses períodos de quatro anos eram conhecidos como Olimpíadas. 
Caro acadêmico, note que era o período entre os jogos olímpicos que se 
chamava Olímpiada e não os jogos propriamente ditos.
NOTA
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
121
No entanto, é preciso compreender que ao longo da história grega se 
desenvolveram noções de tempo que possuem notáveis especificidades: chronos, 
o tempo comum, linear, cronológico; kairós, o tempo percebido como uma época, 
por exemplo, uma seca prolongada ou um período de prosperidade; e aeon, o 
tempo sagrado, sem influência do tempo cronológico. 
Para os astecas e outros povos da Mesoamérica, o mundo em si passava pelo 
processo de geração e desaparecimento. O próprio calendário asteca não instituiu 
uma data para a criação do mundo. A crença era que o mundo vivenciava um sol 
para então, tempos depois, desaparecer e surgir novamente. Um fato interessante 
está ligado à crença dos astecas, quando da chegada dos espanhóis no século XVI, 
na qual eles estariam vivendo o quinto sol, no interior da quinta Era da história 
da humanidade (SILVA; SILVA, 2009, p. 390). Refletindo sobre essa apreensão do 
tempo pelos astecas podemos concluir que o tempo cíclico também é definido por 
processos de criação e destruição ligadas a uma percepção de contínuo retorno.
 
4 TEMPO LINEAR
Intrinsicamente ligado à ideia de que o universo, o mundo e a história 
possuem apenas um começo e um fim, o tempo linear nos é mais comum do 
que o tempo cíclico. Diversos fatores convergem para isso, mas certamente a 
influência da tradição judaico-cristã ganha destaque. Para essas duas religiões 
monoteístas o mundo teve a sua criação realizada por Deus, estando exposto nos 
relatos bíblicos a confirmação do fim dos tempos. Após o término dos tempos, os 
escolhidos iriam para junto de Deus no Paraíso, não havendo, portanto, um novo 
ciclo de criação do mundo. 
Se o tempo linear foi adotado pelas religiões monoteístas citadas, de 
maneira semelhante foi utilizado por pensadores iluministas dos séculos XVII 
e XVIII. O Iluminismo, movimento intelectual que tinha na razão o principal 
mecanismo para a aquisição dos saberes, não recorreu ao tempo linear na 
tentativa de justificar uma crença sobrenatural, e sim na ideia de que as sociedades 
poderiam evoluir aqui mesmo nas suas existências terrenas através da ciência. 
Essa visão de tempo linear progressista, ou progressismo, percebe o 
tempo futuro como melhor do que o passado e o presente, e as novidades seriam 
essencialmente boas. A ideia de que a linearidade e a esperança no futuro trariam 
a consolidação de sociedades mais evoluídas também influenciou formulações 
como a comunista, no qual, o Comunismo seria o último estágio a ser alcançado 
pelas sociedades humanas. 
Voltaremos a falar do tempo linear nas concepções positivista e marxista 
do tempo, e na apresentação das linhas do tempo no ensino de História.
122
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
5 TEMPORALIDADE
Uma das formas mais tradicionais de tentativa de delimitar o tempo é 
através do conceito de temporalidade. A temporalidade, como provavelmente você 
já tenha notado, é uma criação humana, e diz respeito às vivências e percepções 
humanas. E é uma ótima ferramenta para pensarmos as três dimensões do tempo, 
a saber, o passado, o presente e o futuro, sem enveredar pelo caudaloso debate 
sobre o que é o tempo em si mesmo.
5.1 PASSADO
Nos estudos das temporalidades temos a divisão do tempo em três 
dimensões, ou a divisão tripartite do tempo, que é composta por passado, 
presente e futuro. Iniciaremos falando sobre o passado e, para isso, solicitamos 
que imagine essa situação: você é questionado ou você questiona um de seus 
alunos sobre o que é o passado. Talvez, por ser uma pergunta pouco comum, a 
resposta poderá ser algo do tipo: “aquilo que não é mais”, ou “o que ficou para 
trás”, ou “não o vejo, logo ele não existe”. Contudo, essas respostas rápidas e 
sem reflexão não estão de acordo com o que vivenciamos. Estamos impregnados 
pelo passado, seja o passado recente ou o passado distante. Desde a língua que 
falamos, a forma de nos vestirmos, os hábitos alimentares, gostos, bem como as 
nossas características fisiológicas nos remetem constantemente ao passado. Sem 
o constante retorno ao passado não estaríamos aptos a nenhuma prática. 
Pois bem, entendemos que o passado está também no nosso presente, 
mas onde entra a História nesse cenário? Certamente você já compreendeu que 
a História não é meramente a ciência do passado, e mesmo a historiografia do 
presente requer essa temporalidade. Não é pelo fato de o passado não ser o 
único objeto do conhecimento que ele não seja fundamental. No entanto, cabe ao 
historiador e ao docente da disciplina perceber que a História não capta o passado 
em sua totalidade. Quando o historiador volta o seu olhar para o passado, ele o 
faz de maneira retrospectiva, apenas capturando algumas nuances. Desse modo, 
podemos falar de dois passados, o passado em sua completude, e o passado 
resgatado e representado pelo historiador. 
 
O passado também pode ser opressivo ou redentor e seus usos podem ser 
os mais variados.Um passado glorioso, como o dos romanos, pode fazer com que 
um italiano dos dias de hoje se sinta muito orgulhoso. Já a escravidão no Brasil ao 
longo de trezentos anos é um passado que muitas pessoas gostariam de esquecer. 
Sem falar no Terceiro Reich de Hitler, que buscava na antiga raça ariana o modelo 
de homem para a Alemanha nazista. No entanto, o Império Romano não existe 
mais, a escravidão no Brasil é uma triste história que devemos lembrar no intuito 
de impossibilitar que algo semelhante ocorra, e, por fim, o plano racial de Adolf 
Hitler fracassou juntamente com a Alemanha nazista. 
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
123
Como vimos, os usos do passado são acompanhados das mais diferentes 
justificativas. Convidamos você a refletir sobre os usos do passado, principalmente 
imbuídos da promessa de um futuro ideal, por políticos, intelectuais, líderes 
religiosos, entre outros.
5.2 PRESENTE
Caro acadêmico, falaremos agora sobre o presente. Seguiremos a definição 
proposta por Reis (2012) que trata o presente como a terceira parte do tempo, 
tendo em vista que ele é o intermediador entre o passado e o futuro. Nessa divisão 
estabelecida pelo presente entre o passado e o futuro, nos deparamos com um de 
seus principais atributos, o de ser o formador de representações. Todas as nossas 
memórias do passado e expectativas de futuro se encontram no presente. Como 
bem assinala Reis (2012, p. 23), “como percepção, o presente é um estado real de 
duração, a parte mais sólida, mais estável, mais substancial do tempo. Ele é triplo: 
momento original, lembrança do passado e tendência ao futuro”.
Como já assinalamos, é no presente que o historiador problematiza os 
seus objetos e lança o olhar para o passado e, não raramente, encontramos na 
historiografia prognósticos para o futuro, embora essa seja uma tendência 
criticada por uma parcela dos historiadores. 
Outra maneira de perceber o presente é como instante. Viver o instante 
intensamente, de forma tal que ele seja percebido como eternidade. Também 
podemos lembrar de Horácio e de seu carpe diem. Nessa perspectiva, o momento 
deveria ser aproveito com aquilo que nos dá prazer, sem temer o futuro. No 
entanto, viver o momento, ou aproveitar o dia, também significa estar afastado 
das atividades inúteis que nos fazem perder tempo.
5.3 FUTURO
O futuro é a terceira parte do tempo. Talvez a que mais nos causa aflição, 
justamente pela sua imprecisão. Por mais que façamos planos, o futuro não nos 
fornece garantias. O medo da morte, de perdas diversas, de decepções e do 
sofrimento nos causa insegurança, principalmente em tempos em que muitas 
das garantias que sonhávamos ter se desvaneceram. Mas o futuro também é o 
lugar das expectativas positivas. A formatura, a viagem a tanto tempo planejada, 
o nascimento de um filho, ou mesmo os nossos pequenos desejos encontram 
espaço no nosso futuro idealizado. 
Como percebemos, a definição do futuro é impressiva, ou seja, ela é 
“aporética: o futuro é tendência ao ser e ao não ser, é certeza e incerteza, é alegria 
da conquista e angústia do fracasso, vitória do desejo de viver e medo da morte, 
expectativa de ser e medo de desaparecer antes” (REIS, 2012, p. 24). 
124
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
A imaginação humana possui fascínio pela ideia de viajar no tempo. Na trilogia 
De volta para o futuro, o cientista Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) modifica um 
automóvel DeLorean DMC-12, o transformando em uma máquina do tempo. Com a ajuda 
de seu amigo, o adolescente Marty McFly (Michael J. Fox), Dr. Brown realiza as primeiras 
viagens no tempo. No entanto, as coisas não saem como o planejado, e os personagens 
são confrontados com os problemas que a alteração do passado poderiam acarretar para 
os seus destinos.
FIGURA – CAPA DO FILME
DICAS
FONTE: <https://br.web.img3.acsta.net/medias/nmedia/18/90/95/62/20122008.jpg>. 
Acesso em: 12 mar. 2020.
FONTE: DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the future). Direção de Robert Zemeckis. 
Estados Unidos: Universal Pictures, Amblin Entertainment, 1985. (116 min.), DVD, son., color.
Uma das conceituações mais relevantes sobre o futuro vem de filósofo 
alemão Martin Heidegger (1889-1976), acompanhe o que Reis (2012, p. 24) 
escreveu sobre o tema:
Heidegger põe o futuro como predominante, como local da finitude. 
O ser-aí (dasein) deve partir dessa determinação para o interior da 
consciência viva, que é o passado e o presente. Ele põe primeiro o 
futuro-nada, para adentrar no ser, que é a articulação de passado/
presente/futuro, antes do nada. A orientação do tempo do dasein não 
é bem o futuro, posterior ao passado e ao presente, mas o centro de si, 
reunindo a dispersão desses tempos em uma relação autêntica consigo 
mesmo, isto é, do dasein posto diante da sua finitude.
O futuro também pode ser percebido através das teleologias, isto é, das 
maneiras de organizar o tempo que priorizam o futuro como ponto de partida. 
O passado e o presente são organizados a partir das perspectivas de um futuro 
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
125
ideal. Por exemplo, se pensarmos no modelo positivista proposto por Auguste 
Comte (1798-1857) no qual o lema era “Amor por princípio e a Ordem por base; o 
Progresso por fim”, facilmente encontraremos uma visão teleológica da História. 
No Brasil, o positivismo teve influência sobre diversos republicanos, ao ponto 
de termos uma parte de seu lema em nossa bandeira: “Ordem e Progresso”.
NOTA
6 PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA
Para compreender a periodização da História, utilizaremos alguns 
exemplos. É comum, em nossos estudos, nos depararmos com a divisão da 
História em diversas periodizações, tais como: Pré-história, Antiguidade, Idade 
Média, Modernidade e Contemporaneidade. Se voltarmos à atenção para a 
História do Brasil, encontraremos a divisão em três períodos: Brasil Colônia, 
Brasil Império e Brasil República. Mas será que essas periodizações são aceitas 
por todos os historiadores?
Voltemos ao primeiro exemplo. Quais foram os critérios utilizados pelos 
historiadores responsáveis por essa divisão da história humana? A Idade Média 
realmente terminou com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 
1453? Ou, como apontam outros historiadores, teria terminado apenas em 1492 
com a chegada de Colombo à América? Ou ainda em 1517, com a reforma de 
Lutero? O historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), em seu livro Uma longa 
Idade Média (2008), nos apresenta a ideia de uma longa Idade Média, na qual o 
século XIX ainda apresentava fragmentos. 
Caro acadêmico, notou que não há consenso sobre o término da Idade 
Média, certo? O mesmo ocorre com outros períodos que estudamos. A periodização 
deve ser tomada como uma ferramenta de compreensão, sendo fundamental no 
ensino da disciplina e nos estudos históricos.
Datar é e será sempre uma das tarefas fundamentais do historiador, 
mas deve fazer-se acompanhar de outra manipulação necessária da duração – 
a periodização – para que a datação se torne historicamente pensável. Gordon 
Leff recordou com veemência: “a periodização é indispensável a qualquer forma 
de compreensão histórica”, acrescentando com pertinência: “a periodização, 
como a própria história, é um processo empírico, delineado pelo historiador”. 
Acrescentarei apenas que não há história imóvel e que a história também não é a 
pura mudança, mas sim o estudo das mudanças significativas. A periodização é o 
principal instrumento de inteligibilidade das mudanças significativas (LE GOFF, 
1992, p. 47).
126
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
Embora didaticamente as periodizações oferecem possibilidades para o 
entendimento da História pelo aluno, também podem causar confusões e visões 
distorcidas sobre a ela. Por prevalecer a visão eurocêntrica e, mais especialmente, 
a visão francesa da História, a divisão em Idade Antiga, Medieval, Moderna e 
Contemporânea deixa de fora uma parcela considerável de atores históricos e 
agrupa diversos outros em condições e momentos que não se encaixam em tais 
divisões.Não falamos da Pré-história nesse momento devido ao forte apelo dos 
historiadores tradicionais ao uso exclusivo das fontes escritas e, como sabemos, a História, 
na divisão tradicional, inicia com a invenção da escrita.
NOTA
Diversas críticas já foram realizadas a essa percepção de História, mas 
nos limitaremos aqui a apresentar algumas ressalvas referentes a esta divisão em 
quatro idades, ou, conforme assinala o historiador francês Jean Chesneaux (1922-
2007), a divisão do tempo histórico em um sistema quadripartite. É justamente 
Chesneaux (1995, p. 95) quem nos faz refletir para o caráter político e ideológico 
do quadripartismo:
O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente 
na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar 
dos povos não-europeus na evolução universal. Por essa razão, faz 
parte do aparelho intelectual do imperialismo. Os marcos escolhidos 
não têm significado algum para a imensa maioria da humanidade: 
fim do Império Romano, queda de Bizâncio. Esses mesmos marcos 
destacam a história das superestruturas políticas, dos Estados, o que 
também não é inocente.
Caro acadêmico, ao trabalhar com periodizações, esteja atento às limitações 
de cada proposta. Busque relacionar outras formas de compreensão da História, 
principalmente aquelas que contemplam acontecimentos em diversos espaços, 
embora ocorridos em um mesmo tempo histórico.
7 DURAÇÃO
Nos nossos estudos e nos nossos planejamentos de aulas, é fundamental 
estarmos cientes do conceito de duração. Esse conceito foi elaborado pelo filósofo 
francês Henri Bergson em sua tese de doutoramento intitulada Ensaio sobre os 
dados imediatos da consciência, em 1889. A historiografia moderna retoma o conceito 
de duração, e tem no livro O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Filipe 
II (1949) de Fernand Braudel um dos maiores exemplos de sua aplicação.
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
127
Para compreender o conceito de duração, podemos pensar em um 
conceito que nos é mais conhecido, o de ritmo. Se vivemos uma vida agitada, com 
diversos compromissos e mudanças frequentes, dizemos que a nossa vida está 
em um ritmo acelerado. Para a duração, o entendimento é semelhante. A duração 
está associada à velocidade, ao ritmo das mudanças ou permanências de algo. 
Uma duração pode ser caraterizada como curta quando as permanências são 
atravessadas por novidades, as quais encerram o fluir pretensamente contínuo 
das permanências. Já em uma longa duração, ocorre o inverso. O tempo parece 
fluir lentamente e as mudanças custam a acontecer. Mas essa percepção, como 
você pode supor, não é acompanhada do tempo cronológico, ou se preferir, do 
tempo externo. Ela é entendida apenas no tempo interno, psicológico, seja de um 
indivíduo, ou de uma sociedade. 
Em contraste com a periodização dos historiadores do Século XIX, 
notadamente de influência positivista, os historiadores da Escola dos Annales, 
a partir do final da Década de 1920, buscaram realizar análises divergentes 
daquelas cronologicamente e progressivamente situadas. Marc Bloch, fundador 
dos Annales ao lado de Lucien Febvre (1878-1956), instiga os historiadores a 
ultrapassar a noção cronológica da História, e apreender os acontecimentos 
no tempo da duração, isto é, no tempo do contínuo e da duração, no qual os 
acontecimentos não podem ser encaixados em limites arbitrários.
Como vimos, Fernand Braudel (1902-1985), maior representante da 
segunda geração da Escola dos Annales, também escreveu sobre o tempo, 
iniciando pela retomada da noção de duração de Marc Bloch. Ao inserir a duração 
como fundamento da problemática histórica, Braudel dedicou esforço para a 
compreensão dos diferentes ritmos e níveis que a compõe. 
Amparados em Braudel, podemos compreender os ritmos como sendo de 
curta duração, média duração e longa duração. O ritmo da curta duração é o do 
acontecimento, de um momento preciso, uma data, e está relacionado ao plano 
político acidental e individual, como um nascimento, uma morte, uma partida 
de futebol, ou a assinatura de um armistício. A longa duração possui o ritmo 
da estrutura, que dura mais de um século e está relacionada às organizações 
duradouras, nas quais os marcos cronológicos não são sentidos pelos indivíduos 
que lhe são contemporâneos, como, por exemplo, a escravidão no Brasil, o 
cristianismo ocidental, o capitalismo e as estruturas patriarcais. Podemos 
apreender melhor os conceitos de estrutura e longa duração através das palavras 
do próprio Fernand Braudel (2011, p. 95):
Para nós, historiadores, uma estrutura é sem dúvida um agregado, 
uma arquitetura; porém, mais ainda, uma realidade que o tempo 
pouco deteriora e que veicula por um longo período. Certas estruturas, 
por perdurarem durante muito tempo, tornam-se elementos estáveis 
de uma infinidade de gerações: elas obstruem a história e, pelo 
fato de a incomodarem, impõem seu desabamento. Outras são 
mais propícias a se desestruturar. Mas todas são, ao mesmo tempo, 
sustentáculos e obstáculos. Como obstáculos, elas ficam marcadas 
como limites (contornos, no sentido matemático) dos quais o homem 
128
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
e suas experiências praticamente não podem se libertar. Pensem na 
dificuldade de quebrar algumas limitações geográficas, algumas 
realidades biológicas, alguns limites da produtividade e mesmo certos 
condicionamentos espirituais: os arcabouços mentais também são 
prisões de longa duração.
Por fim, o ritmo da média duração é o da conjuntura, e normalmente 
envolve o período de uma geração e as relações econômicas, sociais e de poder. 
Esse ritmo é composto por variações conjunturais dentro da estrutura, por 
esse motivo, escolhemos apresentá-lo após expormos a longa duração. Alguns 
exemplos de média duração são: a moda em um determinado período, como a dos 
anos 80, o Plano Cruzado, a Revolução Francesa e a Guerra Fria (BITTENCOURT, 
2008, p. 206-207).
Através da ilustração elaborada pelo historiador José D’Assunção Barros 
podemos ter uma maior compreensão da arquitetura das durações de Braudel. 
FIGURA 3 – ARQUITETURA DAS DURAÇÕES DE FERNAND BRAUDEL
FONTE: Barros (2013, p. 101)
Notou que as estruturas englobam as conjunturas e estas englobam 
os eventos característicos da história política? Essa relação é fundamental ao 
historiador que busca uma percepção ampla sobre a História, bem como para os 
estudiosos do tempo histórico.
8 FORMAS DE CONTAR A PASSAGEM DO TEMPO
Ao longo dos séculos, com as mudanças inseridas nas sociedades 
europeias, a contagem do tempo foi sendo aperfeiçoada por navegadores, 
mercadores e industriais, chegando à contemporânea noção de tempo capitalista, 
o tempo ligado à fábrica e ao dinheiro. Outro exemplo vem dos historiadores 
do período moderno que, embasados no calendário cristão, organizam o tempo 
cronologicamente por séculos e períodos. Dessa organização resultou a divisão 
tradicional da História em: Pré-história (Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais), 
Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Como 
já visto anteriormente, esteja atendo, caro acadêmico, à questão de que essas 
periodizações possuem um caráter essencialmente eurocêntrico, desconsiderando 
os acontecimentos ao redor do mundo. 
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
129
Nas leituras e aulas que você planejará e lecionará, serão apresentadas 
ou revistas algumas expressões que nomeiam determinado período, tais como 
Século das Luzes, Era napoleônica e Belle Époque, na Europa; e Período Joanino, 
Período pombalino e Brasil Imperial, no Brasil. Essa forma de circunscrever o 
tempo cronológico em períodos é muito comum ao historiador e ao docente em 
sala de aula. As periodizações podem oferecer ao educando uma compreensão 
generalista da História, sendo a linha do tempo a opção didática mais visual e 
eficiente. No entanto, busque outros contextos e situações em que as periodizações 
tradicionais não possam ser aplicadas, como é o caso das sociedades ameríndias 
do períodopré-colonial.
Chamamos a sua atenção nesse momento, caro acadêmico, para um 
questionamento: a aprendizagem de conceitos como datação, a contagem dos 
séculos e sua escrita em algarismos romanos, o conhecimento de diferentes 
calendários, entre outros elementos que compõe o estudo do tempo, é suficiente 
para o aluno compreender o tempo histórico? Acreditamos que após nossa 
jornada até aqui você tenha notado que o tempo histórico não se trata apenas do 
tempo cronológico. 
Dessa forma, é fundamental apresentar aos alunos possibilidades de pensar 
os acontecimentos, datas, períodos e eras como pertencente a um cenário amplo, 
tanto temporalmente como espacialmente. Como exemplo, podemos citar o Ciclo 
do ouro no Brasil e sua relação com Portugal, bem como a relação de Portugal 
com a Inglaterra, a relação da Inglaterra com os demais países europeus, como a 
Holanda, a relação da Holanda com o tráfico de escravos e, por fim, o tráfico de 
escravos e sua relação com o Ciclo do ouro no Brasil. Entre uma relação e outra, 
podemos encontrar tantas outras, assim como relações entre todos os envolvidos 
nesse exemplo. Diversas durações, ritmos e níveis podem ser explorados nesse 
exemplo. Em suas aulas, busque criar relações e pontes de entendimento para os 
conteúdos abordados. 
Temos conhecimento de que na educação básica brasileira, no 6º ano do Ensino 
Fundamental e no 1º ano do Ensino Médio, um dos primeiros assuntos abordados 
pelos professores é o conceito do tempo. Ao questionarmos os alunos sobre o que 
viria a ser o tempo, podemos ter como reposta, formulações acerca do relógio, do 
calendário, ou até mesmo como sinônimo de clima. No entanto, o que interessa 
ao professor de História é a noção de tempo como construção histórica e cultural 
voltada para o contínuo, isto é, para a duração. Diversas sociedades constituíram 
noções sobre o tempo e a nossa não é diferente. Essa abstração que damos como 
absoluta e a-histórica, é também uma construção e, portanto, possui historicidade.
A maior parte da história da humanidade não possuiu relógios ou 
calendários. Para um aluno que está iniciando as suas leituras em História pode 
parecer dificultoso pensar no tempo sem o auxílio de alguma medição. Podemos 
apresentar a vida dos nossos ancestrais que, embora não possuíssem um sistema 
de escrita, utilizavam a natureza como auxiliadora na contagem do tempo. Seja 
pela folhagem de uma árvore, as cheias de um rio, o período de colheita, ou a 
posição dos astros no céu, o tempo era estreitamente ligado à natureza
130
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
Para essa tarefa de contextualização, as grandes religiões monoteístas 
oferecem narrativas em seus livros sagrados que nos auxiliam a compreender a 
medição do tempo em períodos afastados da atualidade. No Antigo Testamento, 
encontramos o livro de Tobias, escrito no século II a.C., que contém duas passagens 
interessantes para entendermos a noção de tempo naquele período. No Versículo 
11 do Capítulo 8 temos a seguinte passagem: “ora, ao cantar do galo, Raguel 
chamou os seus criados e foram juntos cavar uma sepultura” (BÍBLIA, 2014). No 
Versículo 14 outro indicador da passagem do tempo está presente: “manda uma 
de tuas escravas ver se ele morreu, a fim de que eu possa enterrá-lo antes de 
clarear o dia” (BÍBLIA, 2014). Outra passagem, essa do Novo Testamento, escrito 
entre os séculos I e II, presente no livro de Mateus, Capítulo 26, Versículo 34, trata 
de um diálogo entre Jesus e Pedro: “disse-lhe Jesus: Em verdade te digo: nesta 
noite mesma, antes que o galo cante, três vezes me negarás” (BÍBLIA, 2014). 
Percebeu, caro acadêmico, como a medição do tempo no período das 
narrativas Bíblicas se utilizava da natureza? Veremos, a seguir, outras duas formas 
de medir a passagem do tempo, são elas: as eras e a medição através do relógio.
8.1 AS ERAS
Outra estratégia utilizada para datar o tempo é a utilização de eras. 
As eras são iniciadas em um acontecimento fundador que se apresenta como 
uma descontinuidade, um corte com a tradição vigente e não possuem um fim 
determinado previamente. Vários são os exemplos de eras na nossa história, sendo 
a Era Cristã a que nos é mais familiar, bem como a mais utilizada no mundo todo. 
Contudo, para alguns historiadores e outros estudiosos, a utilização do termo Era 
Cristã, ou Anno Domini (do latim “no ano do nosso Senhor”), bem como as siglas 
a.C. e d.C. poderia denotar uma aproximação com os valores do cristianismo. 
Para uma referenciação menos ligada à religião e tendo em vista que há 
uma divergência no cálculo que estabelecera o ano em que Jesus nasceu, conforme 
nos contam Cherman e Vieira (2011, p. 61): “mil e duzentos anos depois de Dionísio 
realizar tal cálculo, estudiosos descobriram que ele possivelmente havia cometido 
um erro de quatro anos para menos. O sistema de contagem, porém, não foi 
alterado. Ou seja, é provável que Cristo tenha nascido no ano 4 a.C.”. Desse modo, 
passou a ser utilizado o título de Era Comum, iniciando com o ano 1 do calendário 
gregoriano. Devido a essa constatação, “antes de Cristo” (a.C.) foi substituído por 
“antes da Era Comum” (AEC) e “depois de Cristo” (d.C.) por “Era Comum” (EC).
Outras eras também podem ser assinaladas, como a era dos muçulmanos 
iniciada com a Hégira, em 16 de julho de 622 do calendário gregoriano. A França 
revolucionária também estabeleceu uma era, durando apenas treze anos. Pouco 
mais duradoura foi a era fascista na Itália, a qual permaneceu por vinte e um anos. 
Os historiadores também costumam delimitar suas próprias eras, como é o caso do 
historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012) e as eras que deram título a alguns 
de seus livros: A Era das Revoluções: 1789-1848; A Era do Capital: 1848-1875; A Era 
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
131
dos Impérios: 1875-1914 e Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. Podemos 
concluir, com base nos títulos dos livros de Hobsbawm, que pensar em eras é, mais 
do que uma simplificação didática, uma forma de se escrever a História.
8.2 O RELÓGIO
Por milhares de anos os seres humanos desenvolveram mecanismos para 
a medição do tempo. Embora fossem imprecisos comparados aos atuais relógios 
mecânicos, fazem parte do processo de aperfeiçoamento de uma das tecnologias 
mais relevantes da nossa história. O primeiro relógio que temos registro é o solar, e 
ele foi construído no Egito há mais de 4 mil anos. Na sequência, temos o surgimento 
dos relógios de água, também chamados de clepsidra, as ampulhetas e outras formas 
de verificar a passagem do tempo, como a queima de velas ou do combustível das 
lamparinas. Na Idade Média, os sinos ditavam tanto os principais horários do dia, 
bem como acontecimentos relevantes, como, por exemplo, um falecimento, um 
batizado, um casamento ou um nascimento (CAVAZZANI; CUNHA, 2017, p. 94).
FIGURA 4 – CLEPSIDRA ATENIENSE
FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Medidas_de_tempo#/media/File:AGMA_Clepsydre.jpg>. 
Acesso em: 10 fev. 2020.
A partir do Século XI, a Europa passa por um período de renascimento 
urbano, com novas cidades e com o recrudescimento do comércio. Para a burguesia 
nascente, o tempo era percebido como portador de valor. Já para a Igreja católica, 
a tradição especificava que o tempo era concebido e retirado apenas por Deus, não 
cabendo ao homem interferir nessa relação, principalmente através da cobrança 
de juros sobre os empréstimos, prática conhecida como usura. 
No entanto, como sabemos, a noção de tempo dos burgueses prevaleceu, 
e desde então a notação do tempo se faz presente na produção, circulação e 
no processo de valoração dos produtos e serviços. O tempo da natureza não é 
suficiente para o novo modelo econômico e, a partir do final do século XVI, os 
relógios mecânicos passam a figurar em diversas cidades de forma intensiva 
(CAVAZZANI; CUNHA, 2017). No entanto, como nos informa Thompson (1998, 
p. 274-275), os relógios careciam de exatidão:
132
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
Do Século XIV em diante, construíram-se relógiosde igreja e relógios 
públicos nas cidades e nas grandes cidades-mercado. A maioria das 
paróquias inglesas devia possuir relógios de igreja no final do Século 
XVI. Mas a exatidão desses relógios é motivo de discussão; e o relógio 
de sol continuava em uso (em parte para acertar o relógio) nos séculos 
XVII, XVIII e XIX.
FIGURA 5 – CHRISTIAAN HUYGENS APRESENTA A SUA INVENÇÃO,
O RELÓGIO DE PÊNDULO, AO REI LUÍS XIV DA FRANÇA
FONTE: <https://www.sciencesource.com/Doc/TR1_WATERMARKED/d/7/0/d/SS2723412.
jpg?d63644231689>. Acesso em: 10 fev. 2020.
Em Tempos modernos, filme icônico de Charles Chaplin, encontramos 
referências ao ritmo de vida acelerado imposto pela crescente utilização das máquinas 
no processo produtivo, assim como a relação entre tempo e dinheiro. Na clássica cena da 
fábrica, na qual a linha de produção afeta fisicamente e mentalmente nosso protagonista, 
o tempo da máquina devora tudo, inclusive o próprio trabalhador.
FIGURA – FILME TEMPOS MODERNOS
DICAS
FONTE: <http://abre.ai/aPYU>. Acesso em: 12 mar. 2020.
FONTE: TEMPOS MODERNOS (Modern times). Direção de Charles Chaplin. Intérpretes: 
Charles Chaplin, Paulette Goddard. EUA: United Artists, 1936. (87 min.), Blu-Ray, P&B.
TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO
133
O controle do tempo enrijeceu nos séculos seguintes, fazendo com que os 
relógios localizados no exterior das residências e fábricas já não fossem suficientes 
para ditar o ritmo das tarefas. Como resposta, a partir da Revolução Industrial 
na Inglaterra do Século XVIII, vemos intensificar a aquisição de relógios de 
pêndulo e dos relógios de bolso. Nesse mesmo sentido, ao falar sobre a Inglaterra, 
Thompson (1998, p. 279) nos conta que:
Havia muitos relógios no país na década de 1790: a ênfase estava 
mudando do “luxo” para a “conveniência”; até os colonos podiam ter 
relógios de madeira que custavam menos de vinte xelins. Na verdade 
(como seria de se esperar), ocorria uma difusão geral dos relógios 
portáteis e não portáteis no exato momento em que a Revolução 
Industrial requeria maior sincronização do trabalho.
Com o passar dos séculos e o aprimoramento do capitalismo industrial, o 
relógio passou de item de luxo e restrito, em sua maior parcela, à burguesia, a um 
objeto comum a todas as classes sociais. Medir e controlar o tempo passa a estar 
relacionado com as necessidades da nova ordem socioeconômica capitalista.
Terminada a leitura deste tópico, que tal ouvir uma música? Melhor ainda! 
Ouvir uma música relacionada ao tema. Nossa indicação é a música Time da banda 
britânica de rock progressivo Pink Floyd. Confira um trecho da letra da música: 
Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way 
Tradução:
O tempo passa em meio a momentos que fazem um dia monótono
Você perde tempo gastando as horas de modo descuidado
FONTE: <https://www.letras.mus.br/pink-floyd/63078/traducao.html>. Acesso em: 12 jul. 2018.
DICAS
EXCERTOS DO LIVRO SAPIENS:
UMA BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE
Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se 
tornar necessidades e a gerar novas obrigações. Uma vez que as pessoas se 
acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com 
ele. Acabam por chegar a um ponto em que não podem viver sem. Tomemos 
outro exemplo familiar de nosso tempo. Nas últimas décadas, inventamos 
inúmeros instrumentos que supostamente economizam tempo e tornam a 
vida mais fácil – lavadoras de roupa e de louça, aspiradores de pó, telefones, 
134
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
aparelhos celulares, computadores, e-mail. Antes, dava muito trabalho escrever 
uma carta, endereçar e selar um envelope e levá-lo até o correio. Levava-se 
dias ou semanas, talvez até meses, para obter uma resposta. Hoje em dia eu 
posso escrever um e-mail às pressas, enviá-lo para o outro lado do mundo e 
(se meu destinatário estiver on-line) receber uma resposta um minuto depois. 
Economizei todo aquele trabalho e tempo, mas tenho uma vida mais tranquila? 
Infelizmente, não. Antes, as pessoas só escreviam cartas quando tinham 
algo importante para relatar. Em vez de escrever a primeira coisa que lhes 
vinha à cabeça, consideravam cuidadosamente o que queriam dizer e como 
expressá-lo. Esperavam receber uma resposta igualmente atenciosa. A maioria 
das pessoas escrevia e recebia não mais de um punhado de cartas por mês e 
raramente se sentia compelida a responder de imediato. Hoje recebo dezenas 
de e-mails todos os dias, todos de pessoas que esperam uma resposta imediata. 
Pensamos que estávamos economizando tempo; em vez disso, colocamos a 
roda da vida para girar a dez vezes sua velocidade anterior e tornamos nossos 
dias mais ansiosos e agitados.
FONTE: HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. 19. ed. Porto Alegre: L&PM, 
2017. p. 97-98. 
135
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que: 
• Marc Bloch compreende a História como a ciência que estuda os homens no 
tempo, e que, ao contrário dos historiadores tradicionais, o passado não é 
mais a única temporalidade trabalhada pelo historiador. A história-problema 
parte das necessidades do presente, retornando ao passado na busca pelo 
entendimento das questões atuais. 
• O tempo cíclico foi a primeira noção de tempo construída pelo homem. No 
tempo cíclico cada fim é a origem de um novo início. O tempo da natureza 
é predominante. Vimos que os gregos desenvolveram conceitos distintos de 
tempo. São eles: chronos, kairós e aeon.
• O tempo linear é aquele que temos maior conhecimento, pois a tradição judaico-
cristã adota essa noção de tempo. No tempo linear há apenas um início e um 
fim. O tempo pode ser representado como uma linha reta que aponta para o 
futuro. O tempo pode ser delimitado através da temporalidade e sua divisão 
em passado, presente e futuro.
• O nosso presente é impregnado pelo passado. Podemos ter visões diferentes 
sobre o passado, até mesmo o utilizando para justificar posturas políticas 
e sociais do presente. O presente é puro devir. É o formador de todas as 
representações que temos sobre as demais temporalidades. Por fim, o futuro é 
a terceira parte do tempo, o lugar das expectativas, dos desejos e do medo pelo 
desconhecido.
• O positivismo possui uma concepção de futuro que o relaciona ao progresso. 
E as teleologias privilegiam o futuro como o ponto de partida em suas 
organizações do tempo.
• A periodização tradicional estabelece uma divisão quadripartite e eurocêntrica 
da História. Os períodos dessa divisão são: Idade Antiga, Idade Média, Idade 
Moderna e Idade Contemporânea. A historiografia, embora aceite a periodização 
como ferramenta didática, tem desferido críticas ao quadripartismo.
• A utilização do conceito de duração e a relação entre ritmo e duração no 
pensamento de Fernand Braudel. Em seu livro O Mediterrâneo e o Mundo 
Mediterrâneo na Época de Filipe II (1949), Braudel estabeleceu três durações: a 
curta duração, a média duração e a longa duração.
• As eras e os relógios são duas formas comuns de contar a passagem do tempo.
136
AUTOATIVIDADE
1 No intuito de retomar alguns conceitos deste Tópico 2, escreva as principais 
características do tempo cíclico e do tempo linear.
2 Fernand Braudel, historiador da segunda geração dos Annales, estabeleceu 
três durações para o estudo da História. São elas: a curta duração, a média 
duração e a longa duração. Nesse sentido, leia o que Braudel (1978, p. 47) 
escreveu:
Os historiadores do século XVIII e do início do XIX haviam estado 
mais atentos às perspectivas da longa duração que, a seguir, 
somente grandes espíritos, como um Michelet, um Ranke, um 
Jacob Burckhardt, um Fustel souberam redescobrir. Se aceitarmos 
que essa superação do tempo curto foi o bem mais precioso, 
porque o mais raro da historiografia dos últimos cem anos, 
compreenderemos o papel eminente da história das instituições, 
das religiões, das civilizações, e, graças à arqueologia, a qual 
necessita de vastos espaços cronológicos, o papel de vanguardados 
estudos consagrados à Antiguidade clássica.
FONTE: BRAUDEL, F. Escritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1978. 294 p.
Sobre as durações estabelecidas por Braudel, podemos afirmar que:
I- O ritmo da curta duração é o do acontecimento, de um momento preciso, 
uma data; e está relacionado ao plano político acidental e individual. A 
escravidão no Brasil ou o cristianismo ocidental são exemplos da curta 
duração.
II- O ritmo da média duração é o da conjuntura, e envolve o período de 
uma geração, assim como as relações econômicas, sociais e de poder. A 
Revolução Francesa e a Guerra Fria são exemplos da média duração.
III- A longa duração é marcada pelo ritmo da estrutura e está relacionada às 
organizações duradouras, sendo que os indivíduos não sentem os marcos 
cronológicos ligados à essa duração por serem contemporâneos a ela.
IV- O cristianismo ocidental, o capitalismo, a escravidão no Brasil, e as 
estruturas patriarcais são exemplos de estruturas de longa duração. Essas 
estruturas perduram por muito tempo, e, por isso, tornam-se elementos 
estáveis por várias gerações.
Estão CORRETAS: 
a) ( ) Apenas as afirmativas II e III.
b) ( ) Apenas as afirmativas I e IV.
c) ( ) Apenas as afirmativas II, III e IV.
d) ( ) Apenas as afirmativas I, II e III.
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
137
TÓPICO 3
OS DIFERENTES CALENDÁRIOS
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Diversos foram os calendários criados ao longo da História, como o 
calendário caldeu, o calendário egípcio, o calendário judaico, o calendário chinês, 
o calendário muçulmano, o calendário maia, o calendário revolucionário francês, 
entre outros. Sem contar que muitos desses calendários são solares, outros 
lunares, e outros lunissolares, isto é, são baseados nos movimentos da Lua e do 
Sol. Ao falarmos de movimento do Sol, vale ressaltar que a percepção ao longo do 
tempo era de que o Sol se movia em torno da Terra e somente com a Revolução 
Copernicana de 1543, o inverso se tornou conhecido.
Veremos que é através de seus calendários que os povos organizam suas 
festividades religiosas e os feriados com base na particularidade da sua história. 
Caro acadêmico, vale a pena questionar os seus alunos e verificar se eles possuem 
a compreensão de que alguns feriados ocorrem apenas no Brasil, pois fazem parte 
do nosso calendário cívico, por exemplo, temos o 21 de abril, o 7 de setembro, o 
15 de novembro, entre outros.
2 OS CALENDÁRIOS DA ANTIGUIDADE
Os calendários são produções elaboradas pelos astrônomos desde a 
Antiguidade, e foram, em sua maioria, iniciativas de lideranças políticas ou 
religiosas. Através da observação direta da organização cósmica, isto é, dos 
movimentos dos astros, principalmente do Sol e da Lua, os astrônomos puderam 
formular o calendário solar de 365 dias e o lunar, esse com 354 dias lunares.
A palavra calendário deriva da palavra latina calendas, nome dado ao 
primeiro dia do mês, momento em que a população romana era convocada 
(calare, em latim) para o culto à deusa Juno (AZEVEDO, 2012, p. 78). O historiador 
francês, Jacques Le Goff (1992, p. 494) também comenta que “a própria designação 
de 'calendário' deriva do latim calendarium que queria dizer 'livro de contas', 
porque os juros dos empréstimos eram pagos nas calendae, o primeiro dia dos 
meses romanos”. 
A divisão da semana em sete dias e do ano em 12 meses remonta à 
Mesopotâmia. Essa divisão era fundamental para orientar os períodos de plantio 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
138
e colheita, bem como para a celebração das festividades. Todas as sociedades da 
Antiguidade possuíam calendários lunares, à exceção do Egito, que possuía um 
calendário solar chamado de helíaco (de helios, Sol) ou sotíaco (de sotis, sírius). 
Esse calendário era composto por 12 meses com 30 dias cada, mais cinco dias ao 
fi nal do décimo segundo mês. Os gregos adotaram um calendário lunar, o qual, 
como vimos, contava com 354 dias divididos em 12 meses (AZEVEDO, 2012).
FIGURA 6 – CALENDÁRIO EGÍPCIO
FONTE: <https://ancient-egypt-by-us.weebly.com/uploads/5/3/5/2/53525553/1433940651.
png>. Acesso em: 10 fev. 2020.
3 CALENDÁRIO JUDAICO
O calendário judaico permanece até os dias de hoje sendo lunissolar. É 
dividido em meses de 29 ou 30 dias, sendo a principal data o dia da Páscoa. Como 
forma de ajustar o calendário ao ciclo solar, a cada dois ou três anos é acrescido 
um mês ao ano corrente. A contagem dos anos nesse calendário iniciou, segundo 
a crença judaica, a partir da criação do universo por Deus. Podemos compreender 
temporalmente esse acontecimento ao comparar com o ano 1 da Era Cristã, o qual 
corresponde a passagem do ano 3760 e 3761 do calendário judaico. A semana de 
sete dias também foi utilizada pelos hebreus, possivelmente por infl uência dos 
caldeus. Temos registro de uma das origens dessa divisão da semana em sete dias 
no livro de Gênesis do Antigo Testamento, na passagem que trata da Criação e 
do descanso de Deus ao término de sua obra, no sétimo dia. Le Goff (1992, p. 515) 
apresenta razões para entendermos melhor a relevância da semana de sete dias: 
A grande virtude da semana é introduzir no calendário uma interrupção 
regular do trabalho e da vida cotidiana, um período fi xo de repouso 
e tempo livre. A sua periodicidade pareceu adaptar-se muito bem ao 
ritmo biológico dos indivíduos e também às necessidades econômicas 
das sociedades. 
Nesse calendário, assim como nos demais, a menor unidade é o dia. Mas 
com uma diferença, para os judeus, assim como é para os muçulmanos e alguns 
povos africanos, o dia inicia no pôr do sol, perdurando até o próximo pôr do sol. 
TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS
139
Acadêmico, notou a diferença? Para nós, a noção de que o dia termina 
à meia-noite está tão enraizada que passamos a acreditar que em todos os 
períodos e sociedades ocorre o mesmo. Nossa rotina agitada, com diversos 
turnos de trabalho, programação televisiva, atividades escolares e familiares, o 
distanciamento da natureza, entre outros, faz com que o dia seja percebido por 
nós de uma maneira diferente do que é para outras sociedades. 
Essa pode ser uma boa temática para uma reflexão em sala de aula. Busque 
comentar com os seus alunos que as formas de existência do ser humano são plurais, e 
que as generalizações, na maioria dos casos, são imprecisas.
IMPORTANT
E
FIGURA 7 – CALENDÁRIO JUDAICO
FONTE: <https://static.todamateria.com.br/upload/ca/le/calendariojudaicobb.jpg>.
Acesso em: 10 fev. 2020.
4 CALENDÁRIO CHINÊS
Na China, o principal interesse ao elaborar o calendário estava na 
tentativa de conciliar os movimentos do Sol e da Lua. Como podemos supor, essa 
tarefa se mostrou fracassada devido às características próprias de cada um dos 
astros. O sistema, que acabou sendo adotado na China, bem como no Japão, foi 
de inspiração budista. A divisão do ano em doze meses, tradição que remonta 
aos caldeus, serviu de modelo para uma divisão zodiacal, essa, no entanto, de 
doze anos, sendo cada ano representado por um animal. Esses animais, segundo 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
140
a tradição, teriam respondido a um chamado de Buda para que, no Ano Novo, 
viessem o homenagear. 
Os anos receberam os nomes dos animais que atenderam ao pedido de 
Buda, organizados pela ordem de chegada, sendo que alguns desses anos são 
considerados fastos e outros nefastos. Esses animais foram: o rato, o boi (o búfalo), 
o tigre, o coelho, o dragão, a serpente, o cavalo, a cabra, o macaco, o galo, o cão, 
o javali (o porco). 
É interessante notar que até o Século III a.C. o ano chinês era dividido em 
apenas duas estações, a Primavera e o Outono, acrescentando o Verão e o Inverno 
apenas pelas necessidades impostas pelo desenvolvimento econômico. Por fim, 
no ano de 1912, a República chinesa adota o calendário gregoriano ocidental. 
FIGURA 8 – CALENDÁRIO CHINÊS
FONTE: <https://bit.ly/2L3l4BZ>. Acesso em: 10 fev. 2020.
5 CALENDÁRIO MUÇULMANO
O calendário muçulmano, calendário islâmico ou calendário hegírico,assim como o dos gregos, é lunar, e tem a sua contagem iniciada com um evento 
importante para o Islã, a Hégira. A Hégira é como ficou conhecida a fuga de Maomé 
e seus seguidores de Meca para a cidade de Yatreb, atual Medina. A motivação 
para essa fuga foi a perseguição dos fiéis e comerciantes que não aceitavam a 
nova fé propagada por Maomé, caracterizada principalmente pelo monoteísmo. 
Esse evento ocorreu em 16 de julho de 622 do calendário gregoriano, ou seja, da 
Era Cristã. 
Como você pode imaginar, a recusa em adotar um calendário solar pelos 
muçulmanos resulta na necessidade de correções de tempos em tempos, assim 
como a observação de datas possivelmente móveis pelos muçulmanos ao redor 
do mundo. O calendário muçulmano possui um mês dedicado ao jejum, o mês do 
Ramadã, que é um dos cinco pilares da religião islâmica.
TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS
141
FIGURA 9 – CALENDÁRIO MUÇULMANO
FONTE: <https://knowken.files.wordpress.com/2015/11/muculmano.jpg?w=300&h=297>. 
Acesso em: 10 fev. 2020.
6 OS CALENDÁRIOS DAS CIVILIZAÇÕES
PRÉ-COLOMBIANAS
Representantes notáveis da história da América pré-colombiana, as 
sociedades maia e asteca também desenvolveram seus calendários. Ambos os 
povos utilizavam dois calendários. Um era o calendário civil, com 365 dias e que 
era dividido em 18 meses com 20 dias cada, mais 5 dias complementares, os quais 
eram considerados nefastos. Já o outro calendário era o ritual, e contava com 13 
grupos com 20 dias cada. Esses dois calendários só encontravam sincronia no 
final da passagem de 52 anos. No caso dos astecas, o calendário também incluía a 
divisão dos anos em grupos indicados pelos pontos cardeais, detonando a união 
entre espaço e tempo nas crenças desse povo.
FIGURA 10 – CALENDÁRIO ASTECA
FONTE: <https://nationalgeographic.sapo.pt/images/edicoesespeciais/ConquistaAmerica/Maias/
maias2.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2020.
Embora semelhantes, vale destacar que o calendário maia era mais preciso 
que o calendário asteca. Dois fatores se destacam nesse sentido, o conhecimento 
mais apurado dos astrônomos maias e a utilização que estes fizeram do número 
zero como correspondente à ausência de valor. 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
142
FIGURA 11 – CALENDÁRIO MAIA
FONTE: <https://bit.ly/2Jiu2cU>. Acesso em: 10 fev. 2020.
Outra importante civilização pré-colombiana foi a inca, porém, como 
sabemos, os incas não desenvolveram um sistema de escrita. O que sabemos é que 
o ano inca era baseado no ano solar e que os astros influenciavam nas decisões 
dos indivíduos desse império que floresceu nos territórios da atual América do 
Sul (AZEVEDO, 2012).
Caro acadêmico, talvez você já tenha observado o quipo, o instrumento que 
os incas utilizavam e faziam registros por meio de nós que auxiliava nos registros 
contábeis e demais registros importantes de serem lembrados. No entanto, a 
elaboração de um calendário através do quipo não chegou a ser desenvolvida. 
7 CALENDÁRIOS NA TRADIÇÃO AFRICANA
Curiosamente, são os patriarcas de certos clãs africanos os responsáveis 
por transmitir oralmente o calendário a seus povos, sendo, por esse motivo, 
conhecidos como calendários falantes. Diferentemente da maioria dos países 
ocidentais que possuem um calendário oficial, no continente africano podemos 
visualizar certas peculiaridades: 
Para os povos africanos da Costa do Marfim, o ano começa no início 
da grande estação seca (em dezembro para os Gueré, em janeiro para 
os Baulé), mas para os Alladian começa com a curta estação seca em 
julho. O ano inicia-se com as cerimônias d'Angbanji, festas da riqueza, 
e com as festas do inhame, a única planta da região que para produzir 
precisa do ciclo completo das quatro estações e dá uma única colheita. 
Para os Baulé, enquanto o ano profano começa em janeiro, no momento 
da colheita dos inhames tardios, o ano ritual começa em agosto com a 
oferta das primícias dos inhames aos Manes dos antepassados e à terra 
(LE GOFF, 1992, p. 506).
Chamamos a sua atenção nesse ponto para a transmissão de saberes 
através da oralidade. Por mais que atualmente tenhamos inúmeros suportes 
tecnológicos, diversos são os saberes que são difundidos apenas através da 
palavra falada, como costumes, receitas, lendas, histórias familiares, entre outros. 
TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS
143
Busque motivar os seus alunos no intuito de valorizar o caráter único da história 
oral.
8 CALENDÁRIOS JULIANO E GREGORIANO
Outro importante calendário da história mundial foi o calendário juliano, 
proposto por Sosígenes, astrônomo grego de Alexandria, em 46 a.C. e introduzido 
no império romano por Júlio César em 45 a.C. 
FIGURA 12 – CALENDÁRIO JULIANO
FONTE: <https://bit.ly/2UCQyql>. Acesso em: 10 fev. 2020.
O calendário juliano é conhecido na atualidade principalmente através 
das abordagens que tratam da Revolução Russa de 1917. Isso porque ocorre uma 
confusão aos sabermos ou ensinarmos que a Revolução de Fevereiro ocorreu, 
com base no calendário gregoriano, em março de 1917, e a Revolução de Outubro 
ocorrera no mês de novembro do calendário gregoriano, isso devido a diferença 
de treze dias entre os dois calendários. A Rússia, após as revoluções, em 1918, já 
sob o comando do partido bolchevique de Lênin, substituiu o calendário juliano 
pelo gregoriano. Voltando a origem do calendário juliano, observe o que Azevedo 
(2012, p. 78) escreveu sobre o ele:
Os romanos fizeram a sua primeira divisão do tempo através de 
um calendário lunar, o ano compreendendo 12 meses divididos em 
calendas, idos e nonas. As calendas caíam no primeiro dia de Lua 
nova; os idos, na Lua cheia; e as nonas, no 9° dia antes dos idos. No 
Século I a.C., Júlio César, magistrado e chefe do governo, estabeleceu 
o ano solar de 12 meses com 30 e 31 dias, alternadamente, num total 
de 365 dias, acrescentando um dia a cada quatro anos, sendo este ano 
chamado bissexto porque repetia-se o dia 24 em fevereiro (bis-sextus 
calendas Martii), mês que ficara com 28 dias. O começo do ano passou 
de março para 1º de janeiro, data em que os cônsules assumiam os seus 
cargos. O calendário romano previa ainda dias fastos e nefastos, isto 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
144
é, dias propícios ou impróprios para quaisquer atividades públicas. 
Os anos eram designados pelo nome do cônsul em exercício, prática 
abandonada mais tarde quando se estabeleceu a data da fundação de 
Roma, baseada eclipses ocorridos no ano de 753 a.C.
Como temos visto até aqui, os calendários são construções sociais, dessa 
forma, para a compreensão das diferenças entre os calendários podemos nos 
servir dos motivos e interesses envolvidos na elaboração do nosso calendário, o 
qual é conhecido como gregoriano, por ter sido sistematizado pelo papa Gregório 
XIII em 1582. O calendário gregoriano é essencialmente solar, principalmente 
pelo fato de o cristianismo relacionar a Lua à precariedade das coisas humanas, 
chegando ao ponto de chamar de lunático aquele que era considerado louco. 
De todo modo, logo em 1582, ano da reforma do calendário juliano, 
Portugal, Itália, Espanha, Países Baixos e França adotaram o calendário 
gregoriano. A Polônia aderiu em 1586 e a Hungria em 1587. Devido ao fato de o 
calendário juliano estar atrasado em dez dias em relação ao ano tropical, a solução 
encontrada no momento da adoção do calendário gregoriano foi saltar dez dias. 
Como você pode perceber na imagem a seguir, o mês de outubro de 1582 não 
possui o conjunto de dias que vai do dia 5 ao 14, passando da quinta-feira, dia 4, 
diretamente para a sexta-feira, dia 15. Estava resolvida a discrepância, mas não 
sem divergências. Le Goff (1992, p. 490) nos conta que:
A reforma gregoriana de 1582 deparou com uma viva resistência, 
até nos meios católicos, porque, ao sacrificar dez dias, parecia 
romper a continuidade do tempo e cometer um sacrilégio [...]. A 
resistência evidentemente veio sobretudo dos países protestantes, em 
conformidade com o dito de Kepler: “Os protestantes preferem estar 
em desacordocom o sol do que em acordo com o papa” [...]. E quando 
a Inglaterra (seguida pela Suécia) adotou finalmente a reforma, em 
1762, cortejos de manifestantes desfilaram gritando: "Devolvam-nos 
os nossos onze dias!".
FIGURA 13 – REFORMA GREGORIANA
FONTE: <https://bit.ly/2JipLX8>. Acesso em: 10 fev. 2020.
TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS
145
Devido ao caráter essencialmente litúrgico e religioso do calendário 
gregoriano, temos o nascimento de Jesus como o marco inicial da contagem da 
passagem dos anos, e utilizamos os indicadores a.C. para identificar os anos 
anteriores ao nascimento de Cristo, e d.C. para os anos após o nascimento de 
Cristo. No entanto, não é necessária a utilização do d.C. em nossos escritos, 
tendo em vista que, por padrão, os anos anteriores ao nascimento de Cristo 
necessariamente estão acompanhados da abreviação a.C.
9 O CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS
Instituído na França, em 1793, o calendário republicano é uma das principais 
marcas da Revolução Francesa de 1789. Nesse calendário, o ano era dividido em 
12 meses com 30 dias cada, mais cinco dias complementares, fechando assim o 
ciclo de 365 dias. Conforme nos informa Le Goff (1992, p. 490-491), “o calendário 
revolucionário respondia a três objetivos: romper com o passado, substituir pela 
ordem a anarquia do calendário tradicional, assegurar a recordação da revolução 
na memória das gerações futuras”. 
Na tentativa de romper com o passado, o calendário republicano instituiu 
a semana de dez dias e o mês composto por três semanas, o ano de 365 dias 
também seria completo com dias extras. No mesmo intuito, os dias e meses 
receberam nomes novos. 
Conheça os nomes dos meses do calendário republicano dividido em suas 
respectivas estações: o outono abrangeria os meses de vindimário, brumário e frimário; o 
Inverno os meses de nivoso, pluvioso e ventoso; a Primavera os meses de germinal, floreal 
e pradial; e, por fim, o Verão os meses messidor, termidor e frutidor.
NOTA
Caro acadêmico, talvez você se recorde de um acontecimento relevante 
da história francesa que incluiu um dos meses do calendário republicano. Foi 
o golpe de Estado perpetrado por Napoleão Bonaparte no dia 18 de brumário 
do Ano VIII da Revolução Francesa ou, 9 de novembro de 1799 no calendário 
gregoriano, no qual Napoleão põe fim ao Diretório e a Revolução Francesa em si, 
iniciando o regime conhecido como Consulado. 
Contudo, embora inovador, o calendário republicano teve vida curta, 
apenas treze anos, sendo abolido por um decreto de Napoleão em 9 de dezembro 
de 1805, retornando, em 1º de janeiro de 1806, o uso do calendário gregoriano.
 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
146
QUADRO 1 – ORGANIZAÇÃO DO CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO
MESES DO CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS
NOME DO MÊS SIGNIFICADO CALENDÁRIO GREGORIANO ESTAÇÃO DO ANO
Vindemiário Mês da colheita da uva. 22 de setembro a 21 de outubro
OUTONOBrumário Mês dos nevoeiros. 22 de outubro a 20 de novembro
Frimário Mês das geadas. 21 de novembro a 20 de dezembro.
Nivoso Mês da neve. 21 de dezembro a 19 de janeiro.
INVERNOPluvioso Mês das chuvas. 20 de janeiro a 18 de fevereiro.
Ventoso Mês dos ventos. 19 de fevereiro a 20 de março.
Germinal Mês das sementes. 21 de março a 19 de abril.
PRIMAVERAFloreal Mês das flores. 20 de abril a 19 de maio.
Prairial Mês das pastagens. 20 de maio a 18 de junho.
Messidor Mês das colheitas. 19 de junho a 18 de julho.
VERÃOTermidor Mês do calor. 19 de julho a 17 de agosto.
Frutidor Mês das frutas. 18 de agosto a 20 de setembro.
FONTE: <https://bit.ly/2LcTdzs>. Acesso em: 10 fev. 2020.
Nossa segunda indicação de música é um clássico do Cazuza intitulado O 
tempo não para. Relembre algumas estrofes da música: 
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para. 
FONTE: <https://www.letras.mus.br/cazuza/45005/>. Acesso em: 12 jul. 2018
DICAS
O ANO DA CONFUSÃO
Em sua campanha pelo Egito, na ocasião da morte de Pompeu, César 
tomou conhecimento do calendário egípcio e tornou-se seu admirador. 
Muito antes disso, ainda como Sumo Pontífice, ele já havia detectado a 
necessidade premente de reformar o calendário romano. Faltava-lhe apenas o 
conhecimento dos ciclos da natureza e o poder para fazer a mudança. 
TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS
147
Ao tornar-se ditador, resolveu consertar o calendário romano e, com o 
auxílio do astrônomo Sosígenes, criou o que hoje conhecemos como calendário 
juliano. 
A primeira etapa, como qualquer reforma de calendário, consiste em 
colocar o trem de volta aos trilhos. Era necessário que as estações do ano 
voltassem a ocorrer nas datas de costume. Esta é a etapa que mais atinge a 
vida das pessoas. Portanto, é também a mais dolorida. 
O ano anterior à introdução do calendário juliano (provavelmente 
46 AEC) é conhecido como “ano da confusão”, pois foram feitas várias 
modificações nesse ano para preparar o calendário para a reforma; houve 15 
meses, com um total de 445 dias!
Uma vez com o trem de volta aos trilhos, ou seja, com as estações do 
ano acontecendo em suas datas esperadas, Júlio César precisava criar um 
dispositivo para impedir que o ano ficasse de novo defasado no futuro. 
Ele deslocou as calendas januaris (1º de janeiro) de modo a coincidir, no 
ano em que entrasse em vigor o novo calendário, com a primeira Lua nova 
depois do solstício de inverno, que naquela época se dava em VIII antediem 
calendas januarii (25 de dezembro em nosso calendário). Com tal medida 
Júlio César atendeu a antigas crenças dos calendários solar e lunar. Isso foi, 
sobretudo, uma mudança estética, não tendo efeito prático no calendário. 
Para evitar que o ano do novo calendário ficasse defasado em relação 
ao ano trópico, Júlio César criou a seguinte regra de intercalação: o ano teria 
365 dias, sendo que de quatro em quatro anos haveria um dia excedente. 
Este dia extra, diferentemente do que fazemos hoje, não era um dia 
novo (como o nosso dia 29 de fevereiro). Era um dia repetido em Februarius 
(algo como se hoje criássemos um segundo dia 28 de fevereiro). Este dia 
repetido entrava no meio de Februarius, exatamente onde antes entrava o mês 
de Mercedonius. Assim, o dia 23 de Februarius (VI antediem calendas martii) 
era repetido a cada quatro anos, havendo, portanto, o bis VI antediem calendas 
martii. Por isso, desde então, estes anos são chamados de bissextos (bis sextum). 
Após essas alterações, Februarius passou a ter 29 dias nos anos comuns 
e 30, nos bissextos.
FONTE: CHERMAN, A.; VIEIRA, F. O tempo que o tempo tem: por que o ano tem 12 meses e 
outras curiosidades sobre o calendário. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 76-78. 
148
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que: 
• Os calendários são construções sociais que foram elaboradas desde a 
Antiguidade por astrônomos que respondiam a necessidades religiosas e 
políticas. Existem calendários solares, lunares e lunissolares. Aprendemos 
que a divisão da semana em sete dias e do ano em 12 meses, comum a nossa 
experiência cotidiana, remonta à Mesopotâmia. Jacques Le Goff aponta que 
esta divisão da semana em sete dias se ajustou ao ritmo biológico dos seres 
humanos.
• O Egito Antigo possuía um calendário solar chamado helíaco ou sotíaco e era 
composto por 12 meses com 30 dias cada, mais cinco dias ao final do décimo 
segundo mês, completando assim 365 dias. Os gregos adotaram um calendário 
lunar com 354 dias divididos em 12 meses. O calendário judaico é lunissolar 
e tem sua contagem iniciada, segundo a crença, com a criação do mundo por 
Deus. 
• O calendário chinês possui influência budista e foi utilizado até o ano de 1912, 
momento em que a República chinesa adota o calendário gregoriano ocidental. 
O calendário muçulmano, ou hegírico, é lunar, e iniciou a contagem dos anos 
com a Hégira.
• As civilizações pré-colombianas maia e asteca adotaram um calendáriocivil 
e outro ritualístico. Sabemos também que o calendário inca era solar, embora 
a civilização não tenha deixado registros escritos do seu sistema de contagem 
dos anos. Partindo para o continente africano, alguns povos transmitem o 
calendário de forma oral, através dos patriarcas dos clãs, os quais recebem o 
título de calendários falantes. 
• Sosígenes, astrônomo grego de Alexandria, elaborou o calendário juliano 
no ano de 46 a.C., e o imperador romano Júlio César tornou este calendário 
oficial no ano de 45 a.C. Vimos também que o ensino das revoluções russas nos 
remete ao calendário juliano e ao atraso de 13 dias em relação ao calendário 
gregoriano. No ano de 1582, o papa Gregório XIII estabelece a reforma do 
calendário juliano, tornando oficial o calendário gregoriano que, assim como o 
juliano, é solar.
• A Revolução Francesa estabeleceu um novo calendário, o Calendário 
Revolucionário. No entanto, por meio de um decreto, Napoleão Bonaparte 
restabelece, em 1º de janeiro de 1806, o uso do calendário gregoriano.
149
AUTOATIVIDADE
1 Leia o que o historiador Jacques Le Goff (1992, p. 12-13) escreveu sobre o 
calendário em seu indispensável livro História e memória: 
O instrumento principal da cronologia é o calendário, que vai 
muito além do âmbito do histórico, sendo mais que nada o quadro 
temporal do funcionamento da sociedade. O calendário revela o 
esforço realizado pelas sociedades humanas para domesticar o 
tempo natural, utilizar o movimento natural da lua ou do sol, do 
ciclo das estações, da alternância do dia e da noite. Porém, suas 
articulações mais eficazes – a hora e a semana – estão ligadas à 
cultura e não à natureza. O calendário é o produto e expressão da 
história: está ligado às origens míticas e religiosas da humanidade 
(festas), aos progressos tecnológicos e científicos (medida do 
tempo), à evolução econômica, social e cultural (tempo do trabalho 
e tempo de lazer). 
Com base em seus estudos, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Os calendários judaico, muçulmano e gregoriano são solares.
b) ( ) O calendário chinês foi o primeiro a dividir o ano em 12 meses.
c) ( ) O ano 1 para o calendário muçulmano inicia com a Hégira.
d) ( ) O calendário gregoriano foi oficializado pelo imperador Júlio César em 
45 a.C.
2 Neste tópico aprendemos que as diversas civilizações desenvolveram 
seus sistemas de calendários. Apoiados nos conteúdos expostos, podemos 
afirmar que:
I- O calendário gregoriano foi sistematizado por Gregório XIII em 1582, 
foi primeiramente adotado por Portugal, Itália, Espanha, Países Baixos e 
França. 
II- Maias e astecas possuíam dois calendários. Um era o calendário civil, com 
365 dias, o outro era o ritual, com 13 grupos com 20 dias cada.
III- O calendário revolucionário francês foi estabelecido pelo golpe de Estado 
realizado por Napoleão Bonaparte no dia 18 de brumário.
IV- Os calendários podem ser solares, lunares ou lunissolares. O calendário 
solar conta com 365 dias, enquanto o lunar conta com 354 dias lunares. 
Estão CORRETAS: 
a) ( ) Apenas as afirmativas I, II e III.
b) ( ) Apenas as afirmativas I, III e IV.
c) ( ) Apenas as afirmativas II, III e IV.
d) ( ) Apenas as afirmativas I, II e IV.
e) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
150
151
TÓPICO 4
O TEMPO HISTÓRICO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
O tempo histórico é o tempo que interessa ao historiador e, de igual 
forma, àquele que busca ensinar a disciplina de História. O historiador está 
imerso em temporalidades: durações, recortes, periodizações, continuidades, ou 
seja, a produção historiográfica está vinculada principalmente às mudanças e 
permanências ao longo do tempo. 
O que mudou está no que podemos chamar de dimensão diacrônica, 
naquilo que deixou de ser o que era. Um exemplo da dimensão diacrônica é o 
estudo sobre o comportamento à mesa efetuado por Norbert Elias em sua obra 
O processo civilizador, Volume 1: Uma história dos costumes (1939). Há diferenças 
nítidas entre o comportamento à mesa das análises de Elias e o comportamento 
atual. Desse modo, identificar e explicar as diferenças no decorrer da História é o 
trabalho do historiador. E a percepção do tempo é fundamental em suas análises.
Veremos agora o entendimento do tempo para o Positivismo, para o 
Marxismo e para o historiador alemão Reinhart Koselleck. Não deixe de ler 
também, ao final do tópico, o escrito sobre o tempo do filósofo italiano Giorgio 
Agamben. Desejamos a você uma ótima leitura!
2 OS HISTORIADORES E O TEMPO HISTÓRICO
Após uma breve passagem pelas noções de tempo entre as diversas 
ciências, cabe agora nos aprofundarmos na nossa ciência específica, a História. 
Estudar e ensinar História são duas atividades com características distintas, mas 
que possuem laços indissociáveis. Um deles é a necessidade de considerar o 
tempo e o espaço em cada análise realizada. Tempo e espaço são a matéria-prima 
elementar de todo historiador e é evidente que para o professor ou acadêmico de 
História não será diferente. 
O tempo histórico, diferentemente de algumas noções de tempo da física, 
da filosofia ou das religiões, não é um tempo interior ou um tempo metafísico. O 
tempo histórico está relacionado aos eventos humanos e somente desta maneira 
podemos compreendê-lo. Reis (2012, p. 26) nos apresenta uma excelente definição 
do tempo histórico:
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
152
Ele não é um tempo físico ou psicológico ou dos astros ou do relógio, 
divisível e quantificável, e também não é uma infinidade de fatos 
sucessivos como a linha é uma infinidade de pontos. O tempo histórico 
é o das coletividades públicas, das sociedades, civilizações, um tempo 
comum, que serve de referência aos membros de um grupo. Por um 
lado, o tempo histórico possui uma objetividade social, é independente 
da vontade dos indivíduos; por outro, os indivíduos também o criam 
e tecem, interferem e o transformam, suas biografias modificam a 
sociedade, mas não podem ignorar o tempo social que se impõe a eles.
O historiador, em suas produções historiográficas, se utiliza de diversas 
noções de temporalidade para fazer a ligação entre o passado que analisa e o 
presente que está inserido. Nesse processo, o historiador emprega diversas 
categorias temporais, tais como acontecimento, ciclo, conjuntura e estrutura. 
Bittencourt (2008) reconhece que o tempo do historiador é métrico, baseado em 
cronologias e periodizações, e também é um tempo qualitativo, centrado nas 
durações; na sucessão, ou na diacronia; e na simultaneidade, ou na sincronia 
das mudanças e permanências. O tempo do historiador também é atento aos 
anacronismos.
Para a Escola dos Annales, é justamente através da história-problema e 
do método retrospectivo que o historiador compreenderia as diferenças entre o 
passado e o presente, e estaria menos propício a cometer anacronismos, prática 
que é, segundo Marc Bloch (2001, p. 144), “entre todos os pecados, ao olhar de 
uma ciência do tempo, o mais imperdoável”.
Acompanhe o que nos fala Holien Gonçalves Bezerra (2007, p. 45) sobre o 
anacronismo: 
O anacronismo consiste em atribuir a determinadas 
sociedades do passado nossos próprios sentimentos ou 
razões, e assim interpretar suas ações; ou aplicar critérios 
e conceitos que foram elaborados para uma determinada 
época, em circunstâncias específicas, para outras épocas 
com características diferentes.
NOTA
Assim como na Escola dos Annales, a relação entre as temporalidades na 
perspectiva do tempo histórico também é objeto de formulações do historiador e 
filósofo alemão Jörn Rüsen, acompanhe:
 
A apreensão do passado operada pelo pensamento histórico na 
consciência histórica baseia-se na circunstância de que as experiências 
do tempo presente só podem ser interpretadas como experiências, e 
o futuro apropriado como perspectiva de ação, se as experiências do 
TÓPICO 4 | O TEMPO HISTÓRICO
153
tempo forem relacionadas com as do passado, o que se processa na 
lembrança interpretativa que as faz presentes. Somentedessa forma 
obtém-se uma visão de conjunto das experiências do tempo presente 
e somente então os interessados podem orientar-se por elas. Elas 
se tornam referíveis a outras experiências, sempre já interpretadas 
pela lembrança; sem tal referência seriam elas pura e simplesmente 
ininteligíveis, orientar-se por elas seria impossível e, por conseguinte, 
tampouco seria possível agir com sentido a partir delas (RÜSEN, 2001, 
p. 63).
Por fim, embora a nossa vida urbana esteja estritamente vinculada 
ao calendário, a sua utilização foi requerida também pelos povos e grandes 
civilizações ao longo da história, e é com o auxílio dele que os historiadores 
compõem o tempo cronológico. Porém, o tempo histórico pode trabalhar sem 
uma cronologia, tendo em vista que algumas sociedades não organizam suas 
histórias de forma cronológica. 
Caro acadêmico, sabendo da importância de diferentes perspectivas e 
contrapontos na abordagem sobre o tempo na história, indicamos a leitura da obra O 
roubo da história: Como os europeus se apropriaram das ideias e invenções do Oriente 
do escritor Jack Goody. Para o autor, o Ocidente se apropriou de diversos valores culturais 
sem dar o devido crédito ao Oriente, inclusive a noção de espaço e tempo histórico.
FIGURA – CAPA DO LIVRO
DICAS
FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/71B%2BJci5DvL.jpg>. 
Acesso em: 12 mar. 2020.
FONTE: GOODY, J. O roubo da história: Como os europeus se apropriaram das ideias e 
invenções do Oriente. São Paulo: Contexto, 2008.
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
154
3 O TEMPO PARA O POSITIVISMO
A historiografia positivista possui características analíticas singulares 
sobre o tempo. Para o historiador positivista, a História se define como o estudo 
dos homens do passado. Embora o presente esteja incluído na análise positivista, 
os eventos passados são a origem dos objetos de estudo dos historiadores. Nessa 
perspectiva, o futuro está excluído do processo de validação das fontes. O passado 
é estritamente relacionado ao tempo do calendário e os eventos são registrados 
tendo em conta o rigor em suas datações. 
Para o historiador positivista, as fontes escritas possuem grande 
confiabilidade, sendo o documento verificado, datado e transformado no alicerce 
da produção historiográfica. 
FIGURA 14 – O TEMPO PARA O POSITIVISMO
Passado Presente Futuro
Estado Teológico Estado Metafísico Estado Positivo
Estado
Positivo
Pleno
FONTE: Barros (2013, p. 78)
A figura anterior nos auxilia a entender o tempo para o positivismo. Nessa 
perspectiva, a História, partindo do modelo europeu, passaria por três estágios 
que se sucedem: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo. Após 
alçarem o estado positivo, as sociedades não sofreriam mudanças de qualidade, 
ocorreria somente o progresso científico, resultando em progresso qualitativo. 
Para os historiadores positivistas do Século XIX, o estado positivo já estaria em 
decurso na Europa, e a conciliação entre as classes seria conduzida pela burguesia 
industrial (BARROS, 2013).
O tempo positivista, levando em conta as características apresentadas, 
é linear, pois está embasado em estágios que deveriam ser transpostos; e é 
teleológico, tendo em vista que mira para uma forma de organização social ideal, 
já prevista com antecedência.
4 O TEMPO PARA O MARXISMO
No Século XIX, temos o surgimento do materialismo histórico. Esse 
paradigma influenciado na dialética hegeliana e fundado por Karl Marx (1818-
1883) e Friedrich Engels (1820- 1895), busca compreender a sociedade através 
do enfoque na economia e na história. Partindo do materialismo histórico, a 
TÓPICO 4 | O TEMPO HISTÓRICO
155
historiografia marxista busca o entendimento da história das sociedades através 
das relações de produção, dos modos de produção e das lutas de classes. 
Para o historiador marxista, os sistemas econômicos de cada período 
histórico são a sua matéria-prima. Teremos assim a Idade Média relacionada 
ao feudalismo; a Idade Moderna relacionada ao mercantilismo, e a Idade 
Contemporânea vinculada ao capitalismo e ao socialismo. Esse relacionamento 
também é visto como progressão. Ou seja, persiste uma visão evolutiva da 
História, agora através da análise da história dos modos de produção e sua 
relação intrínseca com a história das lutas de classes. 
FIGURA 15 – O TEMPO PARA O MARXISMO 
LUTA DE CLASSES
FONTE: Barros (2013, p. 85)
 
Caro acadêmico, observe que para a historiografia marxista a História 
permanece sendo representada com uma linha reta e o tempo permanece linear. 
Dentro desta linha, conforme vemos na imagem, ocorrem as lutas de classes, 
sendo que a ponta da seta aponta para o futuro onde existira uma sociedade sem 
classes sociais, isto é, aponta para o modo de produção socialista.
5 O TEMPO HISTÓRICO PARA KOSELLECK
 
Para o historiador alemão Reinhart Koselleck (1923-2006), o tempo 
histórico consiste em uma representação intelectual, e não uma reconstrução 
dos fatos tal como eles se sucederam. O que Koselleck afirma é que a narrativa 
histórica não é a experiência vivida. Nessa perspectiva, o tempo histórico engloba 
diversas noções de tempo, como a intelectual, a social, a psicológica, a biológica, 
entre outras. Conforme assinala Reis (2012), é requerido ao historiador que ele 
busque ser sensível à tensão da dimensão diacrônico-sincrônica do tempo, que 
perceba que os homens e as instituições se modificam ao longo do tempo, e que 
ele esteja atento às durações, as continuidades e descontinuidades, bem como a 
solidariedade entre as épocas. 
Koselleck também nos alerta que a cronologia, os calendários e suas datas, 
não são o tempo histórico, embora façam parte dele. O calendário representaria 
apenas uma das noções de tempo, a dos movimentos dos astros. O tempo 
histórico, vinculado às ações sociais e políticas perpetradas pelos indivíduos 
concretos, trabalha com as três dimensões temporais: passado, presente e futuro. 
Dispondo como base o presente, Koselleck (2006) explica que o passado pode ser 
entendido como campo de experiência, e o futuro como horizonte de expectativa, 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
156
e desse entendimento podemos, no presente, ter uma apreensão do que seria o 
tempo histórico. 
Por ser um tempo social, o tempo histórico é múltiplo, assim como são 
múltiplas as sociedades. Isso vale para as produções historiográficas, pois os 
historiadores também estão inseridos em sociedades que possuem noções de 
tempo diversas. Algumas dessas sociedades podem valorizar mais o passado, o 
presente, ou o futuro (REIS, 2012). 
Caro acadêmico, refletindo sobre o Brasil atual, qual das temporalidades 
é mais valorizada nos debates políticos?
Para finalizar este tópico, indicamos a música Time flies da banda britânica 
Porcupine Tree. Na letra desta música, Steven Wilson (vocal e guitarra) aborda o caráter 
fugidio do tempo. Leia um trecho da letra: 
She said nothing ever happens
If you don't make it happen
And if you can't laugh then smile
But after a while
You realize time flies
And the best thing that you can do
Is take whatever comes to you
'Cuz time flies
Tradução:
Ela disse que nada nunca acontece
Se você não faz acontecer
E se você não pode rir então sorria
Mas depois de um instante
Você percebe que o tempo voa
E a melhor coisa que você pode fazer
É aceitar seja o que vier para você
Porque o tempo voa. 
FONTE: <https://www.letras.mus.br/porcupine-tree/1549681/traducao.html>. Acesso em: 12 jul. 2018.
DICAS
TÓPICO 4 | O TEMPO HISTÓRICO
157
EXCERTOS DO CAPÍTULO TEMPO E HISTÓRIA:
CRÍTICA DO INSTANTE E DO CONTÍNUO
Página 111: 
Toda concepção da história é sempre acompanhada de uma certa 
experiência do tempo que lhe está implícita, que a condiciona e que é preciso, 
portanto, trazer à luz. Da mesma forma, toda cultura é, primeiramente, uma certa 
experiência do tempo, e uma nova cultura não é possível sem uma transformação 
desta experiência. Por conseguinte, a tarefa original de uma autêntica revolução 
não é jamais simplesmente“mudar o mundo”, mas também e antes de mais 
nada “mudar o tempo”. O pensamento político moderno, que concentrou a sua 
atenção na história, não elaborou uma concepção correspondente do tempo. Até 
hoje o próprio materialismo histórico furtou-se assim a elaborar uma concepção 
do tempo à altura de sua concepção da história. Em virtude dessa omissão, ele 
foi inconscientemente forçado a recorrer a uma concepção do tempo que domina 
há séculos a cultura ocidental, e a fazer então conviver, lado a lado, em seu 
próprio âmago, uma concepção revolucionária da história com uma experiência 
tradicional do tempo. A representação vulgar do tempo como um continuum 
pontual e homogêneo acabou então desbotando sobre o conceito marxista da 
história: tornou-se a fenda invisível através da qual a ideologia se insinuou na 
cidadela do materialismo histórico. Benjamin havia já denunciado este perigo 
nas suas Teses sobre a filosofia da história. É chegado agora o momento de trazer 
à luz o conceito de tempo implícito na concepção marxista da história.
Páginas 120 e 121:
 
O modo de Marx pensar a história situa-se em uma região 
completamente diversa. A história não é para ele algo em que o homem cai, ou 
seja, ela não exprime simplesmente o ser-no-tempo do espírito humano, mas 
é a dimensão geral do homem enquanto Gattungswesen, enquanto ser capaz 
de um gênero, isto é, de produzir-se originalmente não como mero indivíduo 
nem como generalidade abstrata, mas como indivíduo universal. A história 
não é então determinada, como em Hegel e no historicismo que dele descende, 
a partir da experiência do tempo linear enquanto negação da negação, mas 
a partir da práxis, da atividade concreta como essência e origem (Gattung) 
do homem. A práxis, na qual o homem se coloca como origem e natureza do 
homem, é também imediatamente “o primeiro ato histórico”, o ato de origem da 
história, compreendida como o tornar-se natureza, para o homem, da essência 
humana e o tornar-se homem da natureza. A história não é mais, como em 
Hegel, o destino de alienação do homem e a sua necessária queda no tempo 
negativo, em que se encontra em um processo infinito, mas a sua natureza, ou 
seja, o original pertencimento do homem a si mesmo como Gattungswesen, da 
qual foi temporariamente subtraído pela alienação. ‘O homem não é um ser 
histórico porque cai no tempo, mas, pelo contrário, somente porque é um ser 
histórico ele pode cair no tempo, temporalizar-se’.
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
158
Página 121:
Marx não elaborou uma teoria do tempo adequada à sua ideia da 
história, mas esta é certamente inconciliável com a concepção aristotélica e 
hegeliana do tempo como sucessão contínua e infinita de instantes pontuais. 
Enquanto nos movemos no horizonte desta experiência nulificada do 
tempo, não é possível alcançar uma história autêntica, pois a verdade caberá 
sempre ao processo como um todo, e jamais o homem poderá apropriar-
se concretamente, ou melhor, praticamente, da própria história. Aliás, a 
contradição fundamental do homem contemporâneo é precisamente a de 
não haver ainda uma experiência do tempo adequada à sua ideia da história, 
sendo por isso angustiosamente dividido entre o seu ser-no-tempo, como 
fuga inaferrável dos instantes, e o próprio ser-na-história, entendido como 
dimensão original do homem. A duplicidade de toda concepção moderna 
da história — como res gestae e como historia rerum gestarum, como realidade 
diacrônica e como estrutura sincrônica, as quais não podem coincidir jamais 
temporalmente — exprime esta impossibilidade do homem, que se perdeu no 
tempo, de apoderar-se da própria natureza histórica 
FONTE: AGAMBEN, G. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo 
Horizonte: UFMG, 2005.
159
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você aprendeu que: 
• A compreensão do tempo histórico é fundamental ao historiador e ao professor 
de História. 
• O tempo histórico não é um tempo interior ou um tempo metafísico. O tempo 
histórico está relacionado aos eventos humanos, às sociedades e é independente 
das vontades dos indivíduos.
• Marc Bloch considera o anacronismo como o maior pecado que um historiador 
possa cometer.
• Para o positivismo o tempo é linear, e a História passaria por três estados: o 
estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo.
• O tempo para o marxismo também é linear e aponta para um futuro sem classes 
sociais, caracterizando o modo de produção socialista.
• Para o historiador alemão Reinhart Koselleck, o tempo histórico é uma 
representação intelectual e não uma reconstrução exata dos fatos como eles se 
sucederam. 
• Koselleck esclarece que a cronologia, os calendários e suas datas, não são o 
tempo histórico, embora façam parte dele.
• Por ser um tempo social, o tempo histórico é múltiplo, assim como são múltiplas 
as sociedades.
160
AUTOATIVIDADE
1 Ao realizarem os seus estudos, os historiadores se utilizam de um tempo 
específico, o tempo histórico. Embora não seja ensinado como um conteúdo 
curricular, o tempo histórico é fundamental ao entendimento dos processos 
históricos. Sabendo disso, apresente, por meio de tópicos, as principais 
caraterísticas do tempo histórico.
2 As noções de tempo são diversas até mesmo dentro do campo historiográfico. 
Retome o conteúdo deste tópico atribuindo V para as sentenças verdadeiras 
e F para as sentenças falsas: 
( ) Para Koselleck, o tempo histórico é necessariamente único, tendo em vista 
que as diferenças entre as sociedades não afetam o tempo histórico.
( ) Podemos afirmar que o tempo para o positivismo é linear, pois estabelece 
estados a serem transpostos e também é um tempo teleológico.
( ) Para o marxismo o tempo é linear e pode ser representado como uma linha 
reta apontando para o modo de produção socialista.
( ) Para a Escola dos Annales, a compreensão do passado deveria ser feita 
partindo do presente e na exclusiva validação dos documentos oficiais.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a) ( ) V – V – V – V.
b) ( ) F – F– V – V.
c) ( ) F – V – F – V.
d) ( ) V – V – F – F.
e) ( ) F – V – V – F.
161
TÓPICO 5
O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, trataremos com maior ênfase sobre o ensino das noções de 
tempo nas aulas de História. Também serão expostas algumas possibilidades 
didáticas para a abordagem do tema. Não obstante, gostaríamos de corroborar a 
relevância dos nossos estudos até aqui com a apresentação de passagens da Base 
Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Ensino Fundamental, e da proposta 
de BNCC para o Ensino Médio.
Ao consultarmos a BNCC para o Ensino Fundamental, na unidade 
temática História: tempo, espaço e formas de registros, é apresentado como um dos 
objetivos de conhecimentos para o 6º Ano o trabalho com “a questão do tempo, 
sincronias e diacronias: reflexões sobre o sentido das cronologias” (BRASIL, 2017). 
Já nas habilidades a serem adquiridas pelos alunos, encontramos o documento 
relacionando o tempo da seguinte forma: “identificar diferentes formas de 
compreensão da noção de tempo e de periodização dos processos históricos 
(continuidades e rupturas)” (BRASIL, 2017).
A proposta da BNCC do Ensino Médio, no capítulo denominado A área 
de ciências humanas e sociais aplicadas, aborda a questão do tempo afirmando que:
Definir o que seria o tempo é um desafio sobre o qual se debruçaram e 
se debruçam grandes pensadores de diversas áreas do conhecimento. 
O tempo é matéria de reflexão na Filosofia, na Física, na Matemática, 
na Biologia, na História, na Sociologia e em outras áreas do saber. O 
tempo na história apresentou significados e importância variados. Ao 
se tratar do tempo, o fundamental, como nos lembra Jacques Le Goff, é 
compreender que não existe uma única noção de tempo e ele não é nem 
homogêneo nem linear, ou seja, ele expressa diferentes significados. 
Diante dessas observações, é importante desenvolver habilidades por 
meio das quais os estudantespossam refletir sobre as diversas noções 
de tempo e seus significados. Assim, no Ensino Médio, os estudantes 
precisam desenvolver noções de tempo que ultrapassam a dimensão 
cronológica, ganhando diferentes dimensões, tanto simbólicas como 
abstratas, destacando as noções de tempo em diferentes sociedades. 
Na história, o acontecimento, quando narrado, permite-nos ver nele 
tanto o tempo transcorrido como o tempo constituído na narrativa 
sobre o narrado (BRASIL, 2018).
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
162
Caro acadêmico, durante a leitura deste tópico, busque relacionar 
as citações da BNCC que você acabou de ler com as informações e sugestões 
apresentadas. Acreditamos que será um excelente exercício. Boa leitura!
2 O ENSINO DO TEMPO NAS AULAS DE HISTÓRIA
Caro acadêmico, falaremos agora sobre o ensino do tempo na educação 
básica. É relevante termos em mente que as noções de tempo podem ser as mais 
diversas, partindo do senso comum, passando pelas noções filosóficas, científicas, 
historiográficas, entre outras. Por isso, adentraremos o nosso estudo nas formas 
de ensinar as noções e conceitos referentes ao tempo na disciplina de História. 
Em nossa formação acadêmica, aprendemos que os estudos da História 
estão firmemente apoiados em dois pilares, o tempo e o espaço. Marc Bloch (2001, 
p. 55), enfatizando a dimensão temporal, definiu a História como a “ciência dos 
homens no tempo”. Esse tempo que Marc Bloch nos fala é o tempo histórico, 
aquele que os historiadores devem estar munidos para compreender e realizar 
as suas atividades historiográficas. Esse tempo e uma construção social, podendo 
divergir com o tempo individual.
Podemos estabelecer que nossos alunos, ou futuros alunos, possuem 
noções sobre o tempo. Suas vidas são imersas em datas comemorativas, estágios 
graduais, a espera pela festa de 15 anos para as meninas, o alistamento militar 
aos 18 anos para os meninos, a maioridade para ambos. Nas culturas indígenas a 
passagem do tempo não é demarcada pela idade e sim pelos ritos de passagem, 
nos quais o indivíduo assume novas responsabilidades de acordo com as fases de 
crescimento. 
Nossos alunos também sentem a passagem do tempo. Veem suas marcas 
em fotografias, como as dos pais quando jovens, ou as suas próprias quando 
bebês; em vídeos, nas mudanças corporais e comportamentais. Esse tempo vivido 
também pode ser psicológico. Podemos questioná-los sobre a percepção da 
passagem do tempo durante um jogo eletrônico e durante uma espera por uma 
refeição em um restaurante. Certamente a passagem do tempo será percebida 
de maneiras diferentes. Embora o ponteiro do relógio tenha se mantido alheio 
aos interesses individuais, se o que fazemos nos agrada, o tempo parece passar 
rápido, se nos desagrada, parece demorar a passar. 
Ao lecionar para crianças e adolescentes, podemos nos apoiar nos estudos 
de Piaget (2002) que apontam para uma progressiva apreensão sobre a noção 
de tempo pelas crianças, iniciando aos dois anos e sendo concluída aos 11 anos, 
momento este em que se iniciam os estudos do tempo histórico no 6º Ano do 
Ensino Fundamental.
Bittencourt (2008, p. 201) aponta para a existência de um tempo concebido, 
o qual varia de acordo com a cultura e confere marcas ao tempo vivido. A autora 
TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
163
apresenta como exemplo a relação do tempo em uma sociedade capitalista. Você 
certamente já ouviu expressões como “perder tempo”, “investir tempo”, “tempo é 
dinheiro”. Há uma profusão de cursos e gurus que asseguram ao seu público-alvo 
o melhor gerenciamento do tempo. Vivemos em uma sociedade que cada vez mais 
valoriza o controle do tempo através de horários e metas. Os relógios estão em 
todos os lugares, desde o interior de nossas casas, em nossos computadores, nos 
automóveis, nas torres de igrejas, entre tantos outros locais. O tempo passou a ser 
visto como um capital, o qual devemos regular, economizar, investir, fazer render. 
Entendemos tudo isso como um fato na atualidade. Mas também temos 
consciência de que nem sempre foi dessa forma. No entanto, por vezes esquecemos 
que essa não é a única forma de conceber o tempo. Para algumas culturas indígenas, 
o tempo cíclico é predominante. Por meio do calendário a seguir ficamos sabendo 
que, para os indígenas do Parque do Xingu, o tempo é apreendido através dos 
ciclos naturais, das festividades, do plantio e de outras atividades. Logo, para esses 
indígenas, o tempo referencial não é o tempo cronológico do relógio, nem mesmo 
o tempo dos dias, semanas e meses do calendário gregoriano. Nessa perspectiva, 
ensinar História é relacionar diferentes culturas, permitindo a contextualização 
dos saberes e evitando preconceitos ao diferente.
FIGURA 16 – CALENDÁRIO INDÍGENA
FONTE: <http://campeche.inf.furb.br/obeb/historia_novo/Imagens_novo/Cap1/36%20-%20
Calendario%20indigena%20agricola%20aldeia%20dos%20Thiayu%20Suya2.jpg>. Acesso em: 11 
fev. 2020.
No ensino do tempo é fundamental partirmos das noções mais abrangentes 
e de uso comum, para que, somente após firmar bases minimamente sólidas, 
possamos incrementar os estudos. É oportuno ao educando compreender que 
não há apenas uma noção de tempo, assim como não é único o nosso sistema 
de medição do tempo. Por exemplo, o calendário é uma ferramenta de consulta 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
164
tão utilizada quanto o relógio no nosso cotidiano, e está intrinsicamente ligado 
as nossas aulas quando falamos em cronologia, isto é, na representação dos 
acontecimentos históricos ao longo do tempo. O planejamento a curto, médio 
e longo prazo nos parece inconcebível sem o auxílio proveniente do calendário. 
Mas como vimos, essa não é a única forma de organizar o tempo. 
Podemos também utilizar as linhas do tempo para a compreensão dos 
eventos, sincronias, diacronias, continuidades, rupturas e nos demais conceitos 
presentes no ensino do tempo histórico. Na sequência, apresentamos algumas 
possibilidades da utilização das linhas do tempo em sala de aula. 
3 A UTILIZAÇÃO DE DIFERENTES
LINHAS DO TEMPO NO ENSINO DE HISTÓRIA
As linhas do tempo são ferramentas didáticas que proporcionam aos 
alunos, de maneira visual, a compreensão da fluidez do tempo, a sua divisão 
em períodos históricos, e a associação com eventos e personagens. Embora 
essa esquematização esteja na contramão das mais recentes recomendações da 
produção historiográfica, a linha do tempo, quando aplicada de forma consciente, 
pode abrir espaço para comparações e indagações.
Uma maneira de fazer com que os alunos percebam as diversidades do 
tempo histórico, é solicitar que façam uma linha do tempo de suas próprias vidas, 
do nascimento até os dias de hoje. Após esse estágio da atividade, solicite a turma 
que apresente as suas linhas do tempo. Ao comparar a sua vida, os acontecimentos 
e as pessoas envolvidas em sua história particular com o conteúdo das linhas do 
tempo dos colegas, o aluno a possibilidade de compreender a complexidade e 
multiplicidade das questões relacionadas ao tempo, ao espaço e à história.
As linhas do tempo também podem ser utilizadas para o estudo de um 
período, como os eventos relacionados ao Segundo Reinado na História do Brasil. 
Outro exemplo, menos presente nas aulas de História, é a utilização de linhas do 
tempo que compreendam temas específicos e suas características ao longo do 
tempo. Exemplos desse estilo são as linhas do tempo que abordam a moda, o uso 
de certas ferramentas, o idioma, a demografia, entre outros. As linhas do tempo 
ganham complexidade ao se inserir datas de acontecimentos que ocorreram antes 
de Cristo, juntamente com datas da Era Cristã. 
Acadêmico, você também poderá utilizar os conceitos de Antes da Era 
Comum (AEC) e Era Comum (EC).
NOTA
TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
165
As linhas do tempo podem se tornar excelentes materiais de apoio em 
suas aulas e estudos. Em sala de aula, ao iniciar um conteúdo, podemos fixar 
uma cartolina na parede da sala e inserir informações que sirvamde apoio para 
a compreensão do conteúdo. No decorrer das aulas, a cartolina receberá mais 
informações e possibilitará o retorno e o avanço através do tempo demarcado. 
Uma proposta que fazemos aqui, é a de que você solicite aos seus alunos que eles 
mesmos preencham a linha do tempo em sala de aula ou solicitando como tarefa. 
Dessa forma, talvez você encontre pontos de compreensão do conteúdo ou, pelo 
contrário, pontos a reforçar. Acompanhe o que Huerta (1999 apud SCHMIDT; 
CAINELLI, 2009, p. 102-103) nos fala sobre a utilização das linhas do tempo:
As linhas de tempo podem servir para refletir acerca das medidas do 
tempo e das mudanças na vida humana e para relacionar informações. 
Isso o professor pode fazer também de forma verbal. Mas fazê-lo 
graficamente, mediante linhas de tempo, dá melhores resultados, 
porque os alunos trabalham com imagens e proporções que dão 
suporte à construção de noções de temporalidade e à compreensão 
dos fatos históricos. O desenho das linhas de tempo e sua consequente 
utilização em sala de aula podem variar, com diversos graus de 
especificidades; podem, por exemplo, ser desenhos muito sintéticos 
ou muito analíticos, desde linhas de tempo biográficas com dados 
precisos até outras que mostrem grandes etapas de longa duração e 
em termos mais gerais.
Outra forma de trabalhar as linhas do tempo é através de jogos. Elabore 
juntamente com os seus alunos linhas do tempo que precisem ser completadas 
com cartões que não estão datados. Também é possível elaborar cartões que 
devam ser organizados conforme o tempo cronológico. Aproveite essa atividade 
para introduzir eventos ocorridos tanto antes de Cristo (a.C.), quanto depois de 
Cristo (d.C.).
Na sequência, apresentamos algumas possibilidades de aplicação de 
conteúdos através das linhas do tempo. Você poderá adaptar as linhas do tempo 
conforme a necessidade, inclusive mesclando informações relevantes ao cotidiano 
dos alunos. Até mesmo transformando a linha horizontal em uma vertical, ou 
em uma espiral, na qual os eventos do passado mais remoto ficam no centro e 
os mais recentes nas extremidades. Lembre-se também de utilizar com os seus 
alunos os conceitos de sincronia, diacronia, anterior, posterior, simultaneidade, 
permanências, mudanças, rupturas, tempo cronológico, tempo histórico, 
contemporâneo, entre tantos outros que são caros à prática historiográfica e ao 
ensino da disciplina. 
A nossa primeira linha do tempo apresenta a divisão tradicional da 
História: 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
166
FIGURA 17 – LINHA DO TEMPO COM A DIVISÃO TRADICIONAL DA HISTÓRIA
FONTE: <https://3.bp.blogspot.com/--vHXzANu1rQ/WzDMpVexjYI/AAAAAAAAFas/
iJkBsfKlTS8tvWgDmBGiThpFSaO2T8WuQCLcBGAs/s400/linha%2Bdo%2Btempo%2B2.jpg>. 
Acesso em: 11 fev. 2020.
Na sequência, temos uma linha do tempo em ordem cronológica, 
trabalhando um acontecimento em específico, a Crise de 1929. Note que a 
distância entre os eventos não é representada por espaços mais longos ou mais 
curtos. Isto é, a linha entre 1918 e 1919, correspondente a um ano, possui o mesmo 
comprimento da linha entre 1929 e 1933, nesse caso, compreendendo quatro anos. 
Esse recurso é utilizado principalmente quando trabalhamos com períodos muito 
longos, mas também está presente em períodos mais curtos, como o do exemplo. 
Cabe ao docente de História trazer a atenção dos alunos a essas convenções. 
 
FIGURA 18 – LINHA DO TEMPO DO PERÍODO ENTREGUERRAS
Fim da 1ª
Guerra Mundial
Fim do
New Deal
New Deal -
Roosevelt
Lei Seca
Crise de 29 Greves
Investimentos
na bolsa de ações
American
Way of Life
1918 1919 1918-1928 1933 19371929 1934
FONTE: <https://lh3.googleusercontent.com/hZBHIBn8F3u57eYXis_
WPYWTy20KhnnZ42uL8ALFha5z714-cHhZi7mJNmMLLcrIM0lg=s151>. Acesso em: 11 fev. 2020.
 
Outro exemplo de uma linha do tempo cronológica e simples com a 
temática da Era Napoleônica. Observe a utilização da escala para representar a 
duração de cada período.
TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
167
FIGURA 19 – LINHA DO TEMPO UTILIZANDO ESCALA
1795 a 1799
Diretório
1799 a 1804
Consulado
1804 a 1815
Império Napoleônico
FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem5.png>. 
Acesso em: 20 mar. 2020.
A seguir, temos cartões que podem ser recortados e organizados conforme 
a cronologia, formando assim uma linha do tempo.
FIGURA 20 – CARTÕES PARA MONTAR A LINHA DO TEMPO
FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/
timelinecardslinhadotempohistriamundial-160317031008/95/timeline-cards-linha-do-tempo-
histria-mundial-1-638.jpg?cb=1458184275>. Acesso em: 11 fev. 2020.
Linha do tempo trabalhando apenas com datas do período anterior à Era 
Cristã ou Era Comum:
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
168
FIGURA 21 – LINHA DO TEMPO CRONOLÓGICA COM DATAS A.C.
3500-2350 a.C. 2350-1894 a.C. 1894-1160 a.C. 1160-612 a.C. 612-539 a.C.
cidades-estados 
sumerianas Reino Acádio
Primeiro Império 
Babilônico Império Assírio
Segundo Império 
Babilônico
Reinado de 
Sargão
• Código de 
Hamurabi (1750 
a.C.)
• Reinaldo de 
Nabucodonosor
• Torre de Babel
FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem1.png>. 
Acesso em: 20 mar. 2020.
A seguir, uma linha do tempo cronológica e comparativa trabalhando os 
reinos e impérios africanos.
FIGURA 22 – REINOS E IMPÉRIOS AFRICANOS
Reino/Império Período Religião Oficial Cidades Base da riqueza
Gana séc. III ao X Tradicional africana
• Audagoste • Comércio de 
ouro, marfim e 
escravos
Mali séc. XIII ao XVI Islamismo
• Tombuctu
• Djené
• Gao
• Niani
• Comércio de 
ouro, sal, cobre e 
noz-de-cola
Songai séc. XV ao XVI Islamismo
• Tombuctu
• Gao
• Comércio de 
ouro, sal, noz-de-
cola e escravos
FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem3.png>. 
Acesso em: 20 mar. 2020.
No exemplo a seguir, a linha cedeu espaço a um quadro temático no qual 
podemos encontrar eventos globais relacionados ao período compreendido entre 
1959 e 1969.
QUADRO 2 – QUADRO DE ACONTECIMENTOS ENTRE 1959 E 1969
Ano Fato
1959 URSS: lançamento do Vostok, primeira nave espacial
1960 África: independência de numerosas colônias
1961 Alemanha Oriental: construção do muro de Berlim
1961 Brasil: renuncia de Jânio Quadros e posse de João Goulart
1962 Cuba: crise dos mísseis
1964 Brasil: Golpe militar no Brasil
1965 China: Revolução Cultural
TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
169
1968 França: manifestações estudantis
1968 Brasil: decretado o AI-5
1969 EUA: Apolo 11 aterrissa na Lua
FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem7.png>. 
Acesso em: 20 mar. 2020.
A linha do tempo também pode ser um recurso para criar periodizações, 
as quais, como já assinalado anteriormente, devem ser contextualizadas não 
apenas cronologicamente, mas também utilizando as demais facetas do tempo 
histórico. A seguir, podemos observar duas linhas do tempo, uma delimitando a 
História do Brasil em seis períodos, e a outra com sete períodos, esta abordando 
também o período da Pré-História brasileira.
FIGURA 23 – LINHA DO TEMPO DA HISTÓRIA DO BRASIL COM SEIS PERÍODOS
FONTE: O autor
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
170
FIGURA 24 – LINHA DO TEMPO DA HISTÓRIA DO BRASIL COM SETE PERÍODOS
FONTE: O autor
Caro acadêmico, você também pode criar ou solicitar que os seus alunos 
criem linhas do tempo utilizando as ferramentas digitais. Uma rápida pesquisa 
na internet retornará recomendações de sites que oferecem o serviço. Mas se 
preferir alguma ferramenta off-line, o programa PowerPoint possivelmente será 
a ferramenta mais adequada. Esperamos que com as informações e exemplos 
apresentados você possa utilizar as linhas do tempo de forma consciente e criativa. 
Finalizamos os nossos estudos sobre o tempo e nossas indicações de música 
com uma das canções mais emblemáticas da banda nacional Legião Urbana. Observe o 
trecho a seguir e busque relacionar com os conteúdos vistos nesta unidade. 
Todos os dias quando acordo
Não tenho maiso tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo
Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder. 
FONTE: <https://www.letras.mus.br/legiao-urbana/22489/>. Acesso em: 11 fev. 2020.
DICAS
TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO
171
LEITURA COMPLEMENTAR
REPENSANDO A NOÇÃO DE TEMPO HISTÓRICO NO ENSINO
Elza Bittencourt
Nicholas Davies Paulo Miceli Nadai 
Quando o professor informa a respeito do domínio que seus alunos têm 
sobre a noção de tempo, refere-se fundamentalmente à aprendizagem relativa 
à cronologia. As noções de ano, década, século e milênio do calendário cristão, 
ou seja, a contagem do tempo de maneira uniforme, regular e sucessiva é, em 
geral, referenciada como sendo a noção de tempo histórico. Há, portanto, uma 
tendência acentuada em se identificar o tempo cronológico como a única noção 
de tempo histórico. 
Há ainda entre os professores a preocupação quanto à periodização, 
a relação presente-passado, sendo comum obter respostas de alunos, quando 
indagados sobre a definição de História, de que esta é "a ciência que estuda o 
passado para compreender o presente e preparar um futuro melhor". Definições 
iguais ou semelhantes estão contidas nos manuais didáticos, que, em sua maioria, 
possuem um capítulo introdutório que define a História, estabelecendo a relação 
temporal presente-passado e informa sobre o tempo cronológico e as divisões da 
história. Esses conceitos acabam, entretanto, diluindo-se no decorrer do curso, 
sem articulação concreta com o conteúdo transmitido, ocorrendo na prática em 
geral e, para os alunos em particular, que ensinar História é, em princípio, e quase 
exclusivamente, comunicar um conhecimento fatual do passado.
 A complexidade em examinar esse tema encontra-se também no 
fato de que a prática docente tem expressado, em geral, a incorporação de um 
referencial eclético e por vezes contraditórias da leitura crítica que se fez sobre 
o positivismo e sua concepção de tempo linear, uniforme e evolutivo. Isso se 
verifica notadamente na produção didática, principal alicerce da atuação do 
professor. Igual destino encontrou a crítica realizada pelos historiadores dos 
Annales. em especial Braudel, com relação à história política com "seu tempo 
curto - o acontecimento breve".
 
O resultado da inclusão dos "ritmos", segundo a concepção braudeliana 
de tempo, tem sido, em vários trabalhos didáticos, incoerente, misturando-
se conceitos como feudalismo e colonialismo, introduzindo-se a conjuntura 
econômica em determinados capítulos e prevalecendo em outros, na mesma obra, 
o arcabouço da curta duração, em que predomina exclusivamente o político. Essa 
situação pode ser exemplificada com o estudo do Império brasileiro, geralmente 
dividido em: Primeiro Reinado, Regência, Segundo Império e Proclamação da 
República, mesmo para autores que se propõem a trabalhar, por exemplo, com 
conjuntura econômica ou com modos de produção. 
UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO
172
O esboço apresentado sobre alguns dos problemas do ensino da noção 
de tempo nas escolas tem sido o início de uma série de indagações sobre as 
possibilidades de uma ação mais concreta para modificar o que comumente tem 
sido denominado de "história tradicional".
FONTE: BITTENCOURT, C.; NADAI, E. Repensando a noção de tempo histórico no ensino. In: PINSKY, 
J. (Org.). O ensino de História e a criação do fato. 14. ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 96-97.
173
RESUMO DO TÓPICO 5
Neste tópico, você aprendeu que: 
• A Base Nacional Comum Curricular contempla a relevância do ensino do 
tempo no 6º ano do Ensino Fundamental e nos anos do Ensino Médio.
• O estudo da História está apoiado em dois pilares, o tempo e o espaço.
• Nossos alunos, embora não compreendam o conceito de tempo histórico, 
possuem noções relativas ao tempo.
• Na atualidade, o tempo recebe valoração e são comuns expressões como 
“tempo é dinheiro”, “perder tempo” e “investir tempo”.
• O tempo do relógio e do calendário não são as únicas maneiras de organizar o 
tempo.
• As linhas do tempo são ótimas ferramentas didáticas para o ensino de períodos, 
eras, mudanças, permanências, rupturas, sincronias e diacronias.
• Ao trabalhar com linhas do tempo, é recomendado ao professor estar atento 
ao contexto mais amplo, tendo em vista que as periodizações são construções 
humanas e, por esse motivo, estão sujeitas a questionamentos.
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
174
AUTOATIVIDADE
1 No decorrer deste Tópico 5, você teve acesso a diversas opções de abordagens 
do tempo no ensino de História. Ao retomar os saberes expostos sobre o 
ensino do tempo, pode-se afirmar que:
I- A Base Nacional Comum Curricular recomenda o ensino das noções do 
tempo apenas a partir do 8º ano do Ensino Fundamental.
II- Na sociedade capitalista, o tempo é visto como algo a ser controlado, 
originando expressões como “tempo é dinheiro”.
III- É recomendado aos professores que estejam atentos às multiplicidades 
culturais, já que o tempo não é percebido de uma única maneira.
IV- O professor é a figura que apresenta as primeiras noções de tempo às 
crianças, tendo como motivação os conteúdos curriculares.
Estão CORRETAS:
a) ( ) Apenas as afirmativas II e III.
b) ( ) Apenas as afirmativas I e II.
c) ( ) Apenas as afirmativas III e IV.
d) ( ) Apenas as afirmativas I e IV.
e) ( ) Apenas as afirmativas II e IV.
2 A utilização das linhas do tempo no ensino das noções de tempo e em tantos 
outros aspectos da disciplina, é reconhecida como uma ferramenta didática 
vantajosa. Por outro lado, apresentamos algumas críticas referentes ao uso 
das linhas do tempo nas aulas de História. Por esse motivo, solicitamos a 
você que escreva alguns dos pontos positivos e alguns dos pontos negativos 
relativos à utilização das linhas do tempo.
PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS
175
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