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Indaial – 2020 Introdução aos Estudos HIstórIcos Profª. Aniele Almeida Crescêncio Prof. Jean Carlos Morell 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Profª. Aniele Almeida Crescêncio Prof. Jean Carlos Morell Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: C919i Crescêncio, Aniele Almeida Introdução aos estudos históricos. / Aniele Almeida Crescêncio; Jean Carlos Morell. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 181 p.; il. ISBN 978-65-5663-121-9 ISBN Digital 978-65-5663-122-6 1. História - Metodologia. - Brasil. 2. História - Estudo e ensino. – Brasil. I. Morell, Jean Carlos. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 907 III aprEsEntação Acadêmico, seja bem-vindo ao Livro de Introdução aos Estudos Históricos. O objetivo deste livro é apresentar ao leitor a origem do que entendemos como História, o processo de cientificização da história, bem como os conceitos essenciais ao trabalho do historiador. Para isso, vamos conhecer os principais nomes relacionados à História, assim como os principais temas e as principais problemáticas para o trabalho do historiador. Dentre os assuntos que vamos abordar em nosso livro, temos a discussão do conceito de História, da História enquanto ciência e dos estudos sobre o tempo. Na Unidade 1 estudaremos sobre o surgimento da concepção de História na Antiguidade e os principais historiadores do período. A importância da historiografia eclesiástica também será um tema em questão. Conjuntamente, iremos expor concepções de História importantes para a modernidade como a Historia Magistra Vitae, a mudança da História de Historie para Geschichte e o surgimento do Historicismo. Por fim, discutiremos a importância dos conceitos Memória, Esquecimento e Anacronismo para o trabalho historiográfico. Na Unidade 2 vamos explorar sobre os principais locais de trabalho do historiador. São eles os Arquivos Históricos, os museus e as bibliotecas. Vamos refletir sobre a função que o historiador exerce nestes locais. Também analisaremos a principal forma que os historiadores têm acesso ao passado, as fontes históricas. Abordaremos as fontes tradicionais, que dividimos em fontes escritas e fontes arqueológicas; bem como as fontes que surgiram com as novas tecnologias, as fontes orais e as fontes audiovisuais. Na Unidade 3 aprenderemos sobre o tempo. Mencionaremos a noção de tempo para áreas como a Filosofia, a Física, a Biologia e a Geologia. As noções de tempo de intelectuais como Agostinho de Hipona, Nietzsche e Henri Bergson serão apontadas. Também estudaremos a relação entre História e tempo, o tempo cíclico, o tempo linear, a temporalidade, a periodização da História, a duração e as formas de contar a passagem do tempo. Vamos conhecer sobre os diferentes calendários e o ensino das noções de tempo. Desejos de um trajeto repleto de curiosidade e conhecimento! IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA V VI Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE VII UNIDADE 1 – O QUE É HISTÓRIA ......................................................................................................1 TÓPICO 1 – AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA ...........................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3 2 AS FONTES COMO ACESSO AO PASSADO .................................................................................3 3 A NOÇÃO DE HISTÓRIA NA ANTIGUIDADE ............................................................................4 4 A HISTORIOGRAFIA ECLESIÁSTICA ............................................................................................9 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................13 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................14 TÓPICO 2 – AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO ..........................................................15 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................15 2 A HISTÓRIA COMO MESTRA DA VIDA .....................................................................................15 3 A MUDANÇA DE SIGNIFICADO NO TEMPO ............................................................................17 4 AS FILOSOFIAS DA HISTÓRIA E O POSITIVISMO .................................................................18 5 O HISTORICISMO E A CIÊNCIA DA HISTÓRIA .......................................................................20 6 A OBJETIVIDADE E A SUBJETIVIDADE PARA A HISTÓRIA ................................................22 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................26 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................27 TÓPICO 3 – A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO ...................................29 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................29 2 A MEMÓRIA .........................................................................................................................................29 3 O ANACRONISMO .............................................................................................................................33 RESUMODO TÓPICO 3........................................................................................................................38 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................39 TÓPICO 4 – A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES .........................................41 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................41 2 O SURGIMENTO DA ESCOLA DOS ANNALES .........................................................................41 3 MARC BLOCH E O OFÍCIO DO HISTORIADOR .......................................................................44 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................47 RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................50 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................51 UNIDADE 2 – AS FONTES HISTÓRICAS ........................................................................................53 TÓPICO 1 – AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR ..................................................................55 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................55 2 UMA INTRODUÇÃO ÀS FONTES HISTÓRICAS .......................................................................55 3 OS LOCAIS DE TRABALHO DO HISTORIADOR ......................................................................57 4 OS ARQUIVOS HISTÓRICOS, OS MUSEUS E AS BIBLIOTECAS .........................................58 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................67 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................68 sumárIo VIII TÓPICO 2 – AS FONTES TRADICIONAIS 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................69 2 FONTES ESCRITAS .............................................................................................................................69 3 FONTES ARQUEOLÓGICAS ............................................................................................................73 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................81 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................82 TÓPICO 3 – UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES .....................................................................83 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................83 2 FONTES ORAIS ....................................................................................................................................83 3 FONTES AUDIOVISUAIS .................................................................................................................87 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................95 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................99 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................100 UNIDADE 3 – HISTÓRIA E TEMPO ................................................................................................103 TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO ........................................................105 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................105 2 O TEMPO PARA A FILOSOFIA ......................................................................................................105 3 O TEMPO PARA AGOSTINHO DE HIPONA .............................................................................106 4 O ETERNO RETORNO DE NIETZSCHE ......................................................................................108 5 O TEMPO PARA HENRI BERGSON .............................................................................................111 6 NOÇÕES DO TEMPO FORA DO CAMPO DA HISTÓRIA .....................................................112 7 SALVADOR DALÍ E O TEMPO.......................................................................................................112 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................116 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................117 TÓPICO 2 – HISTÓRIA E TEMPO ....................................................................................................119 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................119 2 RELACIONANDO HISTÓRIA E TEMPO ....................................................................................119 3 TEMPO CÍCLICO ...............................................................................................................................120 4 TEMPO LINEAR .................................................................................................................................121 5 TEMPORALIDADE ............................................................................................................................122 5.1 PASSADO ........................................................................................................................................122 5.2 PRESENTE ......................................................................................................................................123 5.3 FUTURO ..........................................................................................................................................123 6 PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA ...................................................................................................125 7 DURAÇÃO ...........................................................................................................................................126 8 FORMAS DE CONTAR A PASSAGEM DO TEMPO .................................................................128 8.1 AS ERAS ..........................................................................................................................................130 8.2 O RELÓGIO ....................................................................................................................................131 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................135 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................136 TÓPICO 3 – OS DIFERENTES CALENDÁRIOS ............................................................................137 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................137 2 OS CALENDÁRIOS DA ANTIGUIDADE ....................................................................................137 3 CALENDÁRIO JUDAICO ................................................................................................................1384 CALENDÁRIO CHINÊS ...................................................................................................................139 5 CALENDÁRIO MUÇULMANO ......................................................................................................140 6 OS CALENDÁRIOS DAS CIVILIZAÇÕES PRÉ-COLOMBIANAS ........................................141 IX 7 CALENDÁRIOS NA TRADIÇÃO AFRICANA ...........................................................................142 8 CALENDÁRIOS JULIANO E GREGORIANO ............................................................................143 9 O CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS ...................................................................145 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................148 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................149 TÓPICO 4 – O TEMPO HISTÓRICO ................................................................................................151 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................151 2 OS HISTORIADORES E O TEMPO HISTÓRICO ......................................................................151 3 O TEMPO PARA O POSITIVISMO ...............................................................................................154 4 O TEMPO PARA O MARXISMO ....................................................................................................154 5 O TEMPO HISTÓRICO PARA KOSELLECK ...............................................................................155 RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................159 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................160 TÓPICO 5 – O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO ....................................................................161 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................161 2 O ENSINO DO TEMPO NAS AULAS DE HISTÓRIA ...............................................................162 3 A UTILIZAÇÃO DE DIFERENTES .................................................................................................164 LINHAS DO TEMPO NO ENSINO DE HISTÓRIA ......................................................................164 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................171 RESUMO DO TÓPICO 5......................................................................................................................173 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................174 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................175 X 1 UNIDADE 1 O QUE É HISTÓRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade você deverá ser capaz de: • compreender o surgimento da História; • conhecer conceitos básicos de História; • expor as mudanças principais no ambiente historiográfico; • identificar diferentes perspectivas sobre os estudos historiográficos. A unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 - AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA TÓPICO 2 - AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO TÓPICO 3 - A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO TÓPICO 4 - A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, nesta Unidade estudaremos sobre a origem das fontes, o acesso do historiador ao passado, o surgimento da História na Antiguidade e a compreensão dos historiadores da Antiguidade acerca da História. Entenderemos a função das fontes para o trabalho historiográfico e a importância de fazer perguntas a elas. Estudaremos as peculiaridades dos historiadores da Antiguidade em relação aos estudos historiográficos. Veremos por qual motivo Heródoto é considerado “o pai da História”, compreenderemos a importância de Tucídides, escritor da História da Guerra do Peloponeso, bem como de Plutarco, escritor de vários volumes das Vidas Paralelas, para os estudos historiográficos. Também veremos, ao final, a importância da História Eclesiástica, que tem como autor principal Eusébio de Cesaréria, para os estudos historiográficos. Feita essa rápida explanação acerta do tópico, convido você à leitura desses temas e que envolvem as primeiras reflexões acerca do conhecimento histórico. Espero que os saberes presentes neste tópico o ajude a aprofundar os seus conhecimentos acerca dos estudos históricos e lhe deem fundamento para o seu trabalho de historiador. 2 AS FONTES COMO ACESSO AO PASSADO Introdução aos Estudos Históricos é o primeiro contato do acadêmico com o universo que envolve o campo científico da História. É a partir deste módulo que o estudante começa a refletir sobre os elementos básicos do trabalho do historiador. Nossa primeira reflexão sobre a História será acerca das condições em que acessamos as nossas fontes e a intencionalidade que pode haver por trás destas. Quando entramos em contato com qualquer vestígio do passado, seja ele material ou imaterial, devemos nos perguntar sobre a origem do documento que estamos investigando. Uma fonte pode estar disponível apenas por ter sobrevivido ao tempo, como um fóssil, ou pode ter sido guardada com a intencionalidade de UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 4 ser preservada por um longo período. Saber a origem das documentações com as quais estamos lidando nos ajuda a desenvolver o nosso trabalho de História. A forma com que a fonte foi produzida ou armazenada pode mudar o nosso olhar sobre ela. Ter conhecimento das complexidades que envolvem o nosso acesso ao passado nos ajuda a entendê-lo melhor. O único acesso que temos ao passado é pelo presente, por objetos, textos ou recordações de indivíduos vivos que existem hinc et nunc e que os historiadores, com seu olhar treinado, identificam como restos de um passado que já não existe, como sobrevivências que podem ser tratadas como documentos. O universo desses vestígios constitui um terceiro sentido para o termo História: o de passado realmente existente hoje (GUARINELLO, 2003, p. 43, grifos do autor). O nosso acesso ao passado será sempre a partir das fontes de que nos restaram no presente. As fontes não falam por si só. Quando o historiador entra em contato com a fonte, é essencial que ele faça perguntas sobre o contexto em que esta foi escrita. Entender o recorte espacial e temporal da fonte, bem como quem a escreveu, nos ajuda a entender sua existência. Enquanto historiadores, é essencial que façamos perguntas aos nossos objetos de estudo. O historiador é um dos produtores da narrativa histórica. Ele, enquanto um escritor da ciência da História, precisa de alguns meios para produzir o seu saber. Segundo Guarinello, o historiador é um produtor de sentido e “impõe ordem ao caos da documentação, assumindo coerência e continuidade no que é, por si mesmo, incoerente e descontínuo” (GUARINELLO, 2003, p. 45). Um bom exemplo de criação de sentido pelos historiadores é o de uma sociedade que nos influencia muito nos dias atuais, a sociedade que denominamos como sociedade grega. A civilização que consideramos como pertencenteà Grécia Antiga não é uma civilização homogênea. Havia diversas sociedades diferentes, com suas peculiaridades, muitas vezes opostas entre si. A visão da Grécia Antiga difundida atualmente foi construída em um período temporal posterior à Antiguidade. 3 A NOÇÃO DE HISTÓRIA NA ANTIGUIDADE Quando estudamos acerca da cultura helenística, percebemos que ela está presente em nossa sociedade até os dias de hoje. Ela é o fundamento de vários âmbitos da vida contemporânea, como o nosso sistema judiciário e as nossas noções de filosofia. Com a História não foi diferente. As primeiras reflexões sobre a História surgiram na Grécia Antiga. Os historiadores da Antiguidade estavam, em certa medida, preocupados em buscar um discurso coerente para os seus relatos. Xenofonte, por exemplo, ao narrar a vida do rei persa Ciro, buscava narrar os relatos dessa personagem associados a uma investigação própria, preocupado com a credibilidade de sua obra. TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA 5 Heródoto, considerado o Pai da História, buscava se distanciar de Hecateu de Mileto por vê-lo apenas como um contador de relatos. “Pai da História” (pater historiae) é o epíteto conferido a Heródoto pelo orador romano Cícero no século I a.C., em sua obra Das Leis, I, 1. De fato, a palavra história foi uma invenção de Heródoto, uma derivação do termo ἵστορ (hístor), que significa “aquele que sabe”, mas aquele que conhece os fatos por “interrogar”, por “informar-se” a respeito de algo, daí “investigar”, como expressa o verbo ἱστορέω (historéō) do qual deriva esse substantivo. Por essas denominações, Heródoto criou a palavra ἱστορίαι (historíai), título de sua obra, que significa “investigações”. Portanto, Heródoto foi o primeiro a conceber um método histórico capaz de reconstituir e de explicar a história dos povos do seu tempo (SILVA, In: HERÓDOTO, 2015a, p. 10, grifos do AUTOR). Era preocupação de Heródoto promover suas investigações e não apenas, como era de costume no período, confiar nas musas, que eram vistas como as únicas detentoras de saber. Ele se preocupava em fazer suas investigações a partir das testemunhas dos fatos históricos que investigava. O historiador foi o primeiro a relatar os acontecimentos de forma escrita seguindo um método, porém, a forma como Heródoto escrevia História se difere da escrita da História nos dias atuais. Diferente da pesquisa científica da modernidade, há no historiador “a influência, sobretudo, de dois gêneros já existentes em sua época: a poesia épica e a filosofia” (SILVA, 2015b, p. 40). FIGURA 1 – BUSTO DE HERÓDOTO FONTE:<https://haber.kursistem.com/dorieus.html>. Acesso em: 13 mar. 2020. Os estudos do historiador se transformaram em uma série de livros. Está é denominada Histórias e contém 9 volumes. O primeiro volume das séries de Heródoto é dedicado a Clio. Este volume trata das Guerras Persas e transforma as Histórias Orais do período em narrativa (SILVA, In: HERÓDOTO, 2015a, p. 23). UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 6 Os livros da série de Heródoto são dedicados as musas gregas. Silva (2015a) apresenta os nove livros dedicados, sequencialmente a Clio, a musa da História; Euterpe, musa da lírica e da música de flauta; Talia, musa da comédia; Melpomene, musa da tragédia; Terpsícore, musa da dança; Érato, musa dos hinos e da música para lira; Polímnia, musa dos cantos sacros; Urânia, musa da astronomia; Calíope, musa da poesia épica. (SILVA, In: HERÓDOTO, 2015a). NOTA Outro historiador de fundamental importância para a História da Antiguidade foi Tucídides. Assim como Heródoto, Tucídides também escreveu a História sobre uma guerra. Seu relato foi acerca da guerra entre os peloponésios e os atenienses, a obra é denominada História da Guerra do Peloponeso (GASTAUD, 2001, p. 133-134). Este foi o seu único escrito. A guerra também foi tema de vários outros escritos historiográficos da Antiguidade, sendo que Xenofonte, Políbio, César, Tito Lívio e Salústio também tiveram em seus estudos os temas guerra e revolução (MOMIGLIANO, 1993, p.144 apud GASTAUD, 2001, p. 133). Assim como aconteceu em relação a Heródoto, “o universo de Tucídides é o universo da filosofia, da sofística e da tragédia” (GASTAUD, 2001, p. 133). Há referências em alguns autores “a um encontro de Heródoto, historiador da guerra entre os persas e os gregos, já famoso na época, “[...] Tucídides ter-se-ia emocionado até as lágrimas, revelando a sua vocação de historiador” (KURY, 2001, p. XLI e XLII). Porém, mesmo com um tema de estudo semelhante, os historiadores desenvolvem sua escrita da História de formas distintas. Hartog destaca a diferença que existe entre os parágrafos introdutórios de Heródoto e Tucídides, a “rapprocher les deux overtures, on voit que l’exposition hérodotéenne est remplacée par l’ecriture thucididéenne”: enquanto Heródoto apresenta/expõe (apodexis) o resultado de suas investigações, Tucídides escreve (sunégrapse) a guerra entre peloponésios e atenienses. O termo empregado por Heródoto pertence ao mundo da oralidade, o termo utilizado por Tucídides o instala, au debut, no mundo da escritura (GASTAUD, 2001, p. 135, grifos do autor). Tucídides demostra a sua escolha por narrar os fatos mais notáveis. O historiador, com sua base em conhecimento militar e arqueologia, faz críticas à poesia de Homero e também critica o engrandecimento dos fatos nos relatos do poeta, que tinham a intencionalidade de imortalização. Ele faz questão, também, de separar a tarefa dos historiadores e dos poetas. (LIMA; CORDÂO, 2010, p. 270-274). Tucídides observa que a investigação do caráter verdadeiro dos fatos através de evidências (tekmeríon) e de vestígios arqueológicos (semeíon) constitui a diferença essencial da história em relação à poesia. Parte TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA 7 dessas evidências foi encontrada por Tucídides nas próprias obras dos poetas que, para ele, contribuíram, ao menos, para o estudo das coisas antigas (LIMA; CORDÂO, 2010, p. 274). Heródoto e Tucídides foram contemporâneos, porém, apesar de Tucídides conhecer o termo História, cunhado por Heródoto, que significa investigações, o autor nunca utilizou a palavra História ou mencionou Heródoto diretamente em seus escritos (GASTAUD, 2001, p. 156). NOTA FIGURA 2 – BUSTO DE TUCÍDIDES FONTE: <https://minionu15anoscgp421ac.files.wordpress.com/2014/09/tucidides. gif?w=253&h=300>. Acesso em: 13 mar. 2020. Caso você queira saber mais sobre o tema, as historiadoras Marinalva Vilar de Lima e Michelly Pereira de Sousa Cordão relatam em seu artigo não apenas sobre como Xenofonte, Heródoto e Tucídides faziam suas pesquisas. Elas também abordam, no texto denominado História e Historiografia Antigas: A Construção de um Gênero Discursivo, as formas de abordar o passado de investigadores como Tito Lívio, Tácito, Aristóteles, Horácio e Cícero. NOTA Um outro historiador clássico na Antiguidade e estudado até os dias atuais foi Lúcio Méstrio Plutarco. UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 8 FIGURA 3 – PLUTARCO FONTE: <https://vidasfamosas.com/2009/10/05/plutarco-el-gran-historiador-griego/> Acesso em:13 mar. 2020. Plutarco é um grande nome da Antiguidade, conhecido por escrever Vidas Paralelas. Nesta obra ele sempre compara as biografi as de um grego e um romano. Dentre elas, comparou as vidas de Temístocles e Camilo; Alexandre Magno e Júlio César; Demóstenes e Cícero. Plutarco, ao realizar seus estudos, preocupou-se com vários aspectos do trabalho do historiador. Dentre eles, as fontes utilizadas e a credibilidade dos conteúdos. O historiador realizou os seus trabalhos em consonância com os estudos historiográfi cos da época, sua metodologia era própria de um historiador (SILVA, 2006). Recomendamos a leitura da obra Plutarco Historiador: Análise das Biografi as Espartanas, da historiadora Maria Aparecida de Oliveira, caso você tenha interesse em aprofundar as análises sobre a forma como o historiador construiusuas análises das biografi as. Um bom livro para se aprofundar no assunto é As raízes clássicas da historiografi a moderna, de Arnaldo Momigliano. O historiador relata, em seis capítulos, diversas infl uências historiográfi cas da Antiguidade na modernidade. DICAS DICAS TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA 9 4 A HISTORIOGRAFIA ECLESIÁSTICA A influência da religião cristã na escrita da História é indispensável. Eusébio de Cesaréia e a sua História Eclesiástica dá início a uma nova maneira de pensar a escrita histórica. Ele “foi o primeiro a escrever a História da Igreja a partir do ponto de vista do fiel, ele abriu um novo período na história da historiografia” (MOMIGLIANO, 2004, p. 195). A historiografia eclesiástica tem características específicas. Definimos o que nos parecem ser os elementos essenciais da historiografia eclesiástica: a inter-relação contínua entre dogmas e fato; o significado transcendental atribuído ao período das origens; a ênfase na documentação factual; a necessidade sempre presente em relacionar os acontecimentos das Igrejas locais ao corpo místico da Igreja Universal (MOMIGLIANO, 2004, p. 194). FIGURA 4 – EUSÉBIO DE CESARÉIA FONTE: <https://institutobiblicosapiranguense.files.wordpress.com/2009/04/eusebio-de- cesareia.jpg>. Acesso em: 13 mar. 2020. O historiador da Igreja não encontrou nenhum opositor a seus escritos e também teve, no mínimo, quatro sucessores do seu trabalho. Foram eles Sócrates, Sozomeno, Gelásio e Teodoreto (MOMIGLIANO, 2004). Os escritos de Eusébio influenciaram também historiadores na Idade Média. Ele foi lido por intelectuais como Gregório de Tours, Beda, Isidoro e Santo Agostinho. O bibliotecário Anastácio, junto com João Diácono, cogitou a possibilidade de “reviver o tipo de história universal eclesiástica característico de Eusébio” (MOMIGLIANO, 2004, p. 205), o que nunca aconteceu. Diferente da Antiguidade, “o padrão dominante de história medieval eclesiástica é aquele que enfatiza os acontecimentos locais de uma sé ou de um mosteiro particular” (MOMIGLIANO, 2004, p. 205). A História Eclesiástica de Eusébio também teve a sua influência no início da Idade Moderna, no período da Reforma Protestante, “o que os protestantes e cristãos queriam provar era que eles tinham a autoridade dos primeiros séculos da Igreja do lado deles” (MOMIGLIANO, 2004, p. 209). UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 10 UMA MORFOLOGIA DA HISTÓRIA: AS FORMAS DA HISTÓRIA ANTIGA Norberto Luiz Guarinello Comecemos com uma pergunta bastante ampla: o que é História Científica? Qual seu objeto de estudo? Não é uma pergunta fácil. Em minha perspectiva, o objeto da História não é algo real, no sentido de ser uma coisa, algo que possa ser definido com precisão dentro de claros limites espaciais, cronológicos e conceituais. A História científica, em todos seus campos de especialização, opera de fato com formas (ou, antes, fôrmas), mediante as quais os historiadores tentam dar sentido ao passado, criando uma sensação de realidade e de completude (ANKERSMIT, 1988). Esta afirmação tem tons pós-modernistas sem dúvida, mas não estou preocupado aqui com o debate sobre o suposto caráter retórico ou fictício da disciplina. Aceito o estatuto científico da História e a validez e utilidade de seus produtos1. O problema que desejo investigar são essas “formas” que há pouco mencionei, pelas quais o historiador tenta fazer o passado inteligível para o presente. O que é uma forma no trabalho de um historiador? Para entender o sentido dado aqui a esta palavra tenho que fazer algumas observações preliminares. Primeiramente, é importante ter em mente o modo como os historiadores produzem e escrevem História. Normalmente, História é pensada como res gestae, ou como narratio rerum gestarum, ou seja, o passado como tal, como aconteceu realmente, ou sua reconstrução ou narrativa por um especialista, um cientista moderno, porém, os historiadores não narram ou reconstroem o passado, pela razão simples que o passado nos é inacessível, não existe mais e não pode ser reavivado ou recuperado como realmente foi. O único acesso que temos ao passado é pelo presente, por objetos, textos ou recordações de indivíduos vivos que existem hinc et nunc e que os historiadores, com seu olhar treinado, identificam como restos de um passado que já não existe, como sobrevivências que podem ser tratadas como documentos. O universo desses vestígios constitui um terceiro sentido para o termo História: o de passado realmente existente hoje. Tais vestígios, contudo (e este é um ponto crucial), não importa sua quantidade ou qualidade, não são o próprio passado, mas algo bastante diferente. Não são representativos do que aconteceu de um modo uniforme ou regular; não são o passado como se reduzido a uma versão pequena de si mesmo. São mais como escassos pontos de luz na escuridão: isolados, desordenados, caóticos, filtrados, irregulares. Permitem-nos falar sobre o passado sem jamais vê-lo. Esta possibilidade tem, porém, um custo, porque estes restos caóticos também determinam nossas visões do passado. Realidades que não deixaram vestígios, fossem importantes ou não, desapareceram completamente, estão fora de alcance, permanecerão sempre desconhecidas, coisas esquecidas. Mas até mesmo o que sobreviveu só nos permite representar o passado de TÓPICO 1 | AS PRIMEIRAS REFLEXÕES ACERCA DA HISTÓRIA 11 um modo muito indireto, por múltiplas mediações. Estas mediações são precisamente o que denominamos “Ciência da História”, e as formas são uma parte decisiva delas. Algumas dessas mediações, como teorias ou modelos, são frequentemente explícitas. Outras, como as formas, são bem menos visíveis. Pensemos um momento sobre essas mediações, antes de olhar especificamente para as formas. Sobre o que é a História dos historiadores? É uma produção específica das sociedades modernas, mas também uma parte da memória coletiva, ou antes, uma parte da produção social da memória, e muito particular. Seu principal pressuposto é ser uma Ciência e, portanto, diferente da ficção histórica e de outros produtos da memória coletiva. Isso é assim porque, entre outras coisas, pressupõe que haja ordem no passado ou, em outras palavras, que a História (acontecida) é racional, que as sociedades humanas sempre foram organizadas e que seu desenvolvimento segue certos princípios (até mesmo se o princípio for o puro acaso). Também é científica porque considera que os documentos são o fundamento de qualquer reconstrução do passado, a base com a qual se pode confirmar ou negar realidades e a prova definitiva de que uma ordem existiu no passado. Essa ordem é fixada por teorias ou modelos de realidade (cuja diferença não discutirei aqui). As teorias e os modelos usados por historiadores são precisamente pressuposições da existência de uma ordem, da mesma maneira que as várias teorias e modelos de realidade da Física (relativística, quântica). Na História, contudo, os modelos diferem grandemente entre si, porque a realidade social é mais complexa que a natureza. E também, é preciso reconhecê-lo, porque há interesses sociais diferentes, e até mesmo contraditórios, na produção científica da memória, e estes interesses mudam com o passar do tempo. Teorias e modelos são mediações. Têm um papel fundamental na prática da História, no modo como os historiadores a escrevem. Estes selecionam fatos entre os vestígios (os documentos), baseando-se em certas teorias da sociedade e da ação humana e em modelos mais específicos da sociedade que querem estudar. Teorias e modelos são cruciais; são modos de encarar os objetos pesquisados, de selecionar fatos pertinentes e pô-los em relação. Mesmo quando implícitos, teorias e modelos são modos de transformar os vestígios em interpretações do passado e de propor reconstruções específicas da história humana ou de partes dela. Eles relacionam os fatos desconexos que aparecem nos documentos de vários modos, por exemplo,considerando- os concomitantes ou colocando-os em relação de causa e efeito. Se, para um historiador, eventos políticos ou a atitude das elites forem fatores decisivos na História, ele selecionará informações dos documentos para extrair eventos e relacioná-los, explicando ou interpretando uma realidade passada de modo a que faça sentido. Se conferir, porém, prioridade à economia como a dimensão explicativa na estruturação das sociedades humanas, selecionará fatos UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 12 econômicos e os colocará em uma certa ordem, seja privilegiando as relações de propriedade e produção, como o fazem os marxistas, seja atribuindo mais importância às relações de troca, ao mercado, e assim por diante. Teoria, modelos e documentação são assim complementares e inseparáveis. Isto é mais ou menos consensual. Quero ressaltar outro ponto. Há uma outra dimensão dentro da prática da História para a qual os historiadores raramente voltam sua atenção. A associação entre teoria, modelos e documentos não basta para explicar o trabalho do historiador e a interpretação do passado que propõe. Aqui entram as formas. Para definir o que são formas, temos que ir por partes. 1. Contento-me aqui em transcrever as palavras de Cameron (1989, p. 206): “At least some elements in most historical narratives can in principle be falsified: it follows then that a historian’s relation to some such concepts as ‘truth’ must of necessity be different from that of, say, a novelist or a literay critic. The abandonement of this relation not only brings History in a Derridean denial of its own value, but also removes all distinctions between it and other narrative forms”. 2. The demonstration could be repeated from what one is tempeted to call primary evidence, but evidence conveys nothing outside a framework... It is not a bad idea to inspect the foundations once in a while and prod the framework” (REEVE, 2001, p. 246) (Tradução: A demonstração pode ser repetida a partir do que se tenta chamar de evidência primária, mas a evidência não transmite nada fora de uma estrutura... Não é uma má idéia inspecionar as fundações de vez em quando e estimular a estrutura.). (GUARINELLO, 2003, p.42-45) 13 Neste tópico, você aprendeu que: • As fontes são o acesso do historiador ao passado. É indispensável o questionamento das mesmas para uma investigação historiográfica de qualidade. • Os historiadores da Antiguidade estavam preocupados com uma investigação séria em seus estudos. • O conceito de História foi uma invenção de Heródoto, escritor das Histórias. • Tucídides, em suas investigações sobre a História, a diferencia da poesia. • Plutarco foi um grande biógrafo da Antiguidade que escreveu biografias comparadas entre gregos e romanos. • Eusébio de Cesaréia inaugurou, com seus estudos de História Eclesiástica, uma importante maneira de pensar a História, que influenciou os historiadores da Idade Média e do início da Modernidade. RESUMO DO TÓPICO 1 14 1 As fontes históricas são a forma como o historiador acessa o passado. A partir do que foi apresentado sobre elas no Tópico 1, pode-se afirmar que: I- Quando o historiador entra em contato com as fontes, é essencial que ele faça perguntas sobre ela. II- O historiador lida com um passado que não existe mais, o seu acesso ao passado é pelas fontes. III- É considerado como fonte apenas os documentos que tiveram a intencionalidade de serem preservados ao longo do tempo. IV- Entender o recorte espacial e temporal da fonte nos ajuda a entendê-la com maior profundidade. Estão CORRETAS: a) ( ) As afirmativas I e II. b) ( ) As afirmativas I e IV. c) ( ) As afirmativas I, II e IV. d) ( ) As afirmativas II, III e IV. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 Os historiadores da Antiguidade não tinham critérios delimitados e pré- definidos para a escrita da História, mas eles estavam preocupados com o seu oficio. Retome o conteúdo deste tópico atribuindo V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) Heródoto tinha como maior inspiração para a sua escrita o pensador Hecateu de Mileto. ( ) Tucídides, que tinha base em conhecimento militar e arqueologia, fazia elogio às poesias de Homero. ( ) Xenofonte, em sua narrativa, buscava narrar os relatos dos personagens associados a uma investigação própria. ( ) Plutarco foi um historiador da Antiguidade muito conhecido por escrever as Vidas Paralelas, relatos históricos que comparavam as biografias de um grego e um romano. Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a) ( ) V – V – V – V. b) ( ) F – F– V – V. c) ( ) V – V – F – F. d) ( ) V – F – F – V. e) ( ) F – V – V – F. AUTOATIVIDADE 15 TÓPICO 2 AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico estudaremos concepções de História que são fundamentais para a modernidade. A primeira noção abordada é a História como Mestra da Vida, expressão que foi criada por Cícero, mas atravessou a Idade Média e perdurou até o Século XVIII. Também aprenderemos sobre a mudança do conceito de História, de Historie para Geschichte, em língua alemã. Esta mudança altera a função da História nos estudos historiográficos. Adentraremos também no entendimento das Filosofias da História e um movimento influenciado por estas, o Positivismo. O próximo tema será o momento em que a História se torna uma disciplina científica e, com ele, o surgimento do Historicismo. Por último, refletiremos acerca da Objetividade e da Subjetividade da História. Feito este esclarecimento do tópico, esperamos que estes temas lhe ajudem a construir o aporte teórico necessário para o ofício do historiador. 2 A HISTÓRIA COMO MESTRA DA VIDA O termo em latim, História Magistra Vitae, é traduzido para o português como História Mestra da Vida. Esta expressão de Cícero já foi fortemente aceita e utilizada pela historiografia. A partir dela tem-se intenção de estudar o passado como um exemplo, a fim de não repetir erros. A partir desta forma de pensar “a história seria um cadinho contendo múltiplas experiências alheias, das quais nos apropriamos com um objetivo pedagógico” (KOSELLECK, 2006, p. 42). Porém, esta noção de História já recebeu e ainda recebe críticas no meio historiográfico. Ela foi considerada como útil por muito tempo, pois com ela era possível usufruir dos exemplos do passado em benefício do presente. Porém, ela também foi utilizada como uma forma de manipulação para obter benefícios. Há um relato onde Friedrich von Raumer nos concede um exemplo, como podemos ver abaixo: Durante uma reunião em Charlottenburg, Oelssen [chefe de departamento no Ministério das Finanças] defendia vivamente a impressão de grande quantidade de papel-moeda para pagar dívidas. Uma vez esgotados os argumentos contrários, eu (conhecendo meu homem) disse com demasiada ousadia “Mas senhor Conselheiro Privado, o senhor certamente se lembra que UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 16 já Tucídides falava do mal que sucedeu quando, em Atenas, decidiu-se imprimir papel-moeda em grande quantidade”. “Essa é uma experiência de grande importância”, ele retrucou em tom conciliador, deixando-se assim convencer, para manter a erudição (von RAUMER, 1861, p. 118 apud KOSELLECK, 2006, p. 42). Com este relato podemos perceber que a História como Mestra da Vida foi utilizada, neste contexto, sem compromisso com a verdade. A intenção era defender interesses próprios. FIGURA 5 – BUSTO DE CÍCERO FONTE:< https://p2.trrsf.com/image/fget/cf/940/0/images.terra. com/2014/05/14/140514cicerohistoriavoltaire3.jpg > Acesso em: 13 mar. 2020. A noção de Cicero atravessou o período da Idade Média. As obras do historiador foram catalogadas em mosteiros. A Igreja Católica demonstrou, de início, certa resistência à Historia Magistra Vitae de Cícero e seu caráter pagão. Porém, clérigos influentes, como Isidoro de Sevilha e Beda, defenderam desta forma de pensar a História. Ambosos clérigos “contribuíram para que também o motivo das máximas profanas conservasse algum lugar, ainda que subalterno, ao lado da história que era legitimada por seu conteúdo religioso” (KOSELLECK, 2006, p. 44). No período do Renascimento, Maquiavel também exalta essa forma de pensar a História, não só com a intenção de admirar o passado, mas de imitá- lo (KOSELLECK, 2006). Segundo Koselleck a Historia Magistra Vitae teve o seu significado semântico modificado ao longo no tempo, mas o uso da expressão “perdura quase ilesa até o Século XVIII” (KOSELLECK, 2006). Até este período, as transformações sociais ocorriam lentamente e os exemplos do passado eram proveitosos ao presente. Mas havia incoerência entre os que a utilizavam. Montaigne e Bodin, por exemplo, utilizaram a História como exemplo para demonstrar coisas opostas. Um queria romper com regras gerais, outro encontrá-las (KOSELLECK, 2006, p. 42-43). A Historia Magistra Vitae demonstrou, neste caso, certa incompatibilidade. Sendo assim, esta forma de pensar historicamente entrou em descrédito, com isso “não se pode mais TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO 17 esperar conselho a partir do passado, mas sim apenas de um futuro que está por se constituir [...] não se poderia tirar mais nenhum proveito de uma História que instruía por meio de exemplos” (KOSELLECK, 2006, p. 58). Na modernidade, a noção de História que orientava à vida das pessoas é substituída por outra noção, como veremos a seguir. 3 A MUDANÇA DE SIGNIFICADO NO TEMPO O conceito de História, como já apontado, surgiu na Antiguidade. Os historiadores do período não tinham uma formação específica e o significado que competia ao termo na Antiguidade não lhe compete nos dias atuais. A palavra Historie era utilizada para relatar os acontecimentos, porém, ela foi substituída, no início da modernidade, por outro termo. Se a velha história [Historie] foi arrancada de sua cátedra, e, certamente, não apenas pelos iluministas, a quem tanto aprazia servir- se de seus ensinamentos, isso aconteceu na esteira de um movimento que organizou de maneira nova a relação entre passado e futuro. Foi finalmente “a história em si” [die Geschichte selbst] que começou a abrir um novo espaço de experiência. A nova história [Geschichte] adquiriu uma qualidade temporal própria. Diferentes tempos e períodos de experiência, passíveis de alternância, tomaram o lugar outrora reservado ao passado entendido como exemplo (KOSELLECK, 2006, p. 44, grifos do autor) Na língua alemã a palavra Historie aludia a narrativa de algo, enquanto Geschichte aludia a um acontecimento ou a uma série de ações cometidas ou sofridas. Ao fim, o uso do conceito Geschichte predominou. Por ora, o conceito Historie perdeu para Geschichte a pretensão de ser História como Mestra da Vida. Porém, o conceito Geschichte também abandonou, com o tempo, essa pretensão (KOSELLECK, 2006). A palavra Geschichte “de maneira imperceptível e inconsciente, e por fim com a ajuda de diferentes reflexões teóricas, condensou-se no coletivo singular” (KOSELLECK, 2006, p. 50). Com a singularização da História, “a Historie foi destituída de seu objetivo de atuar imediatamente sobre a realidade” (KOSELLECK, 2006, p. 57). A noção de História como Geschichte, ou seja, um coletivo singular, trouxe vários benefícios a historiografia. Uma das mudanças significativas é que, diferente das expectativas do termo Historie, as expectativas do termo Geschichte eram de se aproximar de uma História verdadeira, uma História real, a realidade histórica. A ideia de coletivo singular possibilitou outro avanço. Permitiu que se atribuísse à história aquela força que reside no interior de cada acontecimento que afeta a humanidade, aquele poder que a tudo reúne e impulsiona por meio de um plano, oculto e manifesto, um poder frente ao qual o homem pôde acreditar-se UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 18 responsável ou mesmo em cujo nome pôde acreditar estar agindo. (KOSELLECK, 2006, p. 52). Com a mudança do conceito de História, no meio historiográfico, de Historie para Geschichte, a História abandona a pretensão de ser uma coleção de exemplos. Ela se preocupa com os pequenos acontecimentos, o singular. 4 AS FILOSOFIAS DA HISTÓRIA E O POSITIVISMO No início da profissão de historiador os caminhos a se seguir não estão completamente claros. Dentre as dúvidas, nos questionamos se o nosso labor é considerado uma ciência, pois, afinal, produzimos narrativas. Trataremos, a seguir, sobre as Filosofias da História e sobre um movimento subsequente a este, o da transformação da História em uma disciplina científica. O termo Filosofia da História foi cunhado por François-Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo Voltaire, na França do Século XVIII. Ele é dos conhecidos pensadores do Iluminismo. Esses filósofos do Século XVIII, que chamamos hoje de iluministas, definiam a si mesmos como homens do “século das luzes”. Para eles o Século XVIII foi o ápice da maturidade intelectual e racional do homem. Mas tais filósofos não seguiam uma única e coerente corrente de pensamento, pelo contrário, possuíam múltiplos discursos, não tinham nenhum manifesto ou programa de ideias, e muitos, inclusive, se contestavam mutuamente. Essas divergências dificultam a definição do Iluminismo como um movimento, pois não havia coerência de pensamento. Todavia, a maioria desses pensadores compartilhava algumas ideias em comum: a defesa do pensamento racional, a crítica à autoridade religiosa e ao autoritarismo de qualquer tipo e a oposição ao fanatismo (SILVA; SILVA, 2009, p. 210, grifos dos autores). Sob os ideais do iluminismo francês, Voltaire também era defensor do despotismo esclarecido, que é a inserção de ideais iluministas em monarquias. FIGURA 6 – VOLTAIRE. NICOLAS DE LARGILLIÈRE, 1928. FONTE: <http://opiniaoenoticia.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Voltaire-e1447866215942. jpg> Acesso em: 13 mar. 2020. TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO 19 Dentre os intelectuais que criaram uma Filosofia da História temos também o iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804), A Filosofia da História de Kant ambiciona chegar ao Esclarecimento (Aufklärung), que “é a saída do homem da menoridade pela qual é o próprio culpado. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem direção alheia” (KANT, 2009, p. 407, grifos do autor). Este texto, bem como demais obras de Kant, são fundamentais para os intelectuais até os dias atuais. As Filosofias da História também foram criadas por intelectuais desvinculados ao Iluminismo. Elas também não se restringiram ao Século XIX. Outros pensadores conhecidos e importantes também criaram suas visões escatológicas do mundo. A Filosofia da História de Georg Wilhelm Friedrich Hegel defendia “auto reconhecimento do espírito através da Racionalidade” (RODRIGUES, 2017, p. 47), a de Karl Marx tinha como objetivo final o comunismo. Escatologia é o “estudo do fim”. Como nos explica Abbagnano, este é um “termo moderno que indica a parte da teologia que considera as fases ‘finais’ ou extremas’ da vida humana ou do mundo. [...] Os filósofos usam às vezes esse termo para indicar a consideração dos estágios finais do mundo ou do gênero humano” (ABBAGNANO, 2007, p. 334). NOTA Como acabamos de apresentar, a Filosofia da História de Voltaire influenciou várias outras. Segundo Barros, dois ideais Iluministas foram de grande importância para o Positivismo do Século XIX, são eles “a perspectiva universalista” e “a busca por leis gerais que estariam por trás do desenvolvimento das sociedades humanas” (BARROS, 2011, p. 86). [...] é particularmente importante, para percebermos a essência do pensamento positivista da primeira hora, considerar que esta passagem de modelo iluminista ao modelo positivista envolveu uma reapropriação conservadora das ideias, que tinham desempenhado um papel importante no contexto revolucionário francês (BARROS, 2011, p. 86). OPositivismo estabelece certa continuidade do Iluminismo, ele “iria acrescentar, ao ideal iluminista de Progresso, o conceito de Ordem” (BARROS, 2011, p. 91). O fundador do Positivismo foi Augusto Comte. Comte formulou a Lei dos Três Estados da Humanidade. O primeiro, que seria a infância da humanidade, era a religião; em seguida, a filosofia representava a adolescência da humanidade; e, por último, a ciência era vista por Comte como a fase adulta da humanidade. Sell (2001) nos explica o estado positivo que Comte idealizou a seguir: UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 20 Estado positivo ou científico: o homem tenta compreender as relações entre as coisas e os acontecimentos através da observação científica e do raciocínio, formulando leis; portanto, não procura mais conhecer a natureza íntima das coisas e as causas absolutas. As causas primeiras e absolutas são substituídas pela observação da relação entre os fenômenos, mediante a rigorosa pesquisa científica (SELL, 2001, p. 13, grifos do autor). Ainda há quem defenda o Positivismo em nossa contemporaneidade. Na Bandeira do Brasil está estampada o lema positivista “ordem e progresso” (SELL, 2001, p. 11). Também foram criados alguns templos positivistas em nosso país. Um dos templos é situado no Rio de Janeiro, foi construído no Século XIX e hoje funciona como um museu, porém está interditado atualmente. Oposto ao Positivismo, o próximo tema, o Historicismo, não segue mais os ideais Iluministas. 5 O HISTORICISMO E A CIÊNCIA DA HISTÓRIA A Alemanha é unificada apenas no ano de 1871, mas os territórios unificados carregavam histórias e identidades diferentes. O novo país precisava de uma identidade compartilhada e uma História comum. Os historiadores, com intenção de elaborar uma História comum a todos os estados do Império Alemão, começaram a pensar em uma Ciência da História. Sendo assim, a Unificação da Alemanha coincidiu com a constituição da Ciência da História (BENTIVOGLIO, 2011). Este período foi, posteriormente, conhecido como o surgimento do Historicismo. Entende-se por “historicismo” a época do desenvolvimento da ciência histórica, na qual esta se constituiu, como ciência humana compreensiva, sob a forma de uma especialidade acadêmica. Cronologicamente essa época se situa no século XIX e, embora seus principais representantes sejam historiadores alemães (Niebuhr, Ranke, Droysen, Mommsen), não se deve esquecer de que se trata de um fenômeno de história da ciência e da inteligência que abrangeu toda a Europa. Como os poucos historiadores brasileiros do século XIX (Francisco Varnhagen, Capistrano de Abreu) são intelectualmente “europeus”, o historicismo os inclui igualmente. Deve-se destacar também que o historicismo foi importante não apenas no desenvolvimento da ciência histórica. Deve-se recordar também que sua concepção própria de história, do método de pesquisa e do valor formativo do conhecimento histórico influenciou a evolução de diversas outras ciências, notadamente as sociais. (MARTINS, 2004, p. 2, grifos do autor). TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO 21 O historicista Johann Gustav Droysen (1818-1884) elaborou um Manual de Teoria da História que é dividido nos capítulos A Metódica, A Sistemática e A Tópica. Este é um bom material para compreender a Ciência da História no Século XIX. DICAS FIGURA 7– UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA (1871) FONTE:<https://abrilguiadoestudante.files.wordpress.com/2016/07/gehistoria-10-63-ed. jpg?quality=100&strip=info&w=700&h=458>. Acesso em: 13 mar. 2020. A criação de um ambiente científico para a História na Alemanha do Século XIX definiu as diretrizes da nossa disciplina. A História cujo renascimento se organiza e estrutura na passagem do Iluminismo para o Romantismo e se consolida ao longo do Século XIX nos cenários do positivismo, do historicismo, das escolas metódicas [...] é a História como ciência. História como ciência, cujos resultados historiográficos são expressos em narrativas que encerram argumentos demonstrativos articuladores da base empírica da pesquisa e da interpretação do historiador em seu contexto. A historiografia, assim, encerra em si as características de ser empiricamente pertinente, argumentativamente plausível e demonstrativamente convincente (MARTINS, 2010, p. 10). UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 22 Leopold von Ranke (1795-1886) é o principal nome do Historicismo alemão, considerado o pai do Historicismo. Para ele a História é simultaneamente ciência e arte. A História “é ciência na medida em que recolhe, descobre, analisa em profundidade; e arte na medida em que representa e torna a dar forma ao que é descoberto, ao que é apreendido” (RANKE, 2015, p. 202). Ranke também definiu as exigências das quais resultam a pesquisa histórica. Estas são, para ele: O amor à verdade, a investigação documental, o interesse universal, a fundamentação do nexo causal e o apartidarismo (RANKE 2015, p. 207-2010). O Positivismo e o Historicismo são muitas vezes considerados como o mesmo movimento, a partir de uma frase de Ranke. É a frase em que o historiador afirma que tem a intenção de expor as coisas como elas realmente aconteceram (wie es eigentlich gewesen). Quando analisamos a frase de perto percebemos que ela criticava dois movimentos: a Historia Magistra Vitae e as Filosofias da História. Sendo assim, as críticas são uma visão errônea sobre o historiador e sobre o Historicismo. Diferente do Positivismo, que tinha um caráter universalista, ou seja, a busca por leis gerais, o Historicismo tem duas dimensões principais opostas ao Positivismo, são elas “o caráter dinâmico e mutável e histórico” e “a sua inefável singularidade” (MATA, 2008, p. 50). Para entender melhor como a Historia estava sendo pensada no ocidente no Século XIX recomendamos a leitura da obra A História Pensada e em especial o texto O conceito de História Universal (1831) de Leopold von Ranke. DICAS 6 A OBJETIVIDADE E A SUBJETIVIDADE PARA A HISTÓRIA Uma importante discussão que tange o conhecimento histórico é a sua relação com a objetividade e a subjetividade. Quando a História se tornou uma disciplina científica houve uma grande discussão acerca do seu caráter objetivo, bem como se ela se tornaria uma ciência com caráter comprovável, como as ciências naturais. A partir de um longo debate entre a comunidade historiográfica, houve uma separação entre a noção de ciência das Ciências Humanas e das Ciências Naturais. Sobre a intenção de se alcançar uma objetividade da História, Barros explica através de Collingwood que “a História não poderia postular alcançar um tipo de objetividade análogo à das ciências naturais, e a operação historiográfica achar-se-ia radicalmente imersa na subjetividade do historiador” (BARROS, 2011, p. 169). TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO 23 Para compreender as discussões acerca da objetividade e da subjetividade da História, primeiramente vamos compreender as definições de objetivo e subjetivo, a partir de Adam Schaff em seu clássico História e Verdade: 1) É “objetivo” o que vem do objeto, ou seja, o que existe fora e independentemente do espírito que conhece; portanto, é “objetivo” o conhecimento que reflete (numa acepção particular desta palavra) este objeto; 2) é “objetivo” o que é cognitivamente válido para todos os indivíduos; 3) é objetivo o que está isento de afetividade e, portanto, de parcialidade. O adjetivo “subjetivo” designa respectivamente: 1) o que vem do sujeito; 2) o que não possui um valor cognitivo universal; o que é emocionalmente colorido e, por esse motivo, parcial. (SCHAFF, 1995, p. 280) O historiador ainda complementa que o conhecimento histórico sempre está ligado a um sujeito, o sujeito que conhece. Neste caso, haverá sempre a subjetividade do sujeito no conhecimento (SCHAFF, 1995). Sendo assim, o historiador divide a subjetividade em duas categorias. A primeira categoria é a boa subjetividade, “ou seja, aquela que provém da essênciado conhecimento como relação subjetivo-objetiva e do papel ativo do sujeito no processo cognitivo” (SCHAFF, 1995, p. 282) enquanto a má subjetividade é “a subjetividade que deforma o conhecimento por causa de fatores tais como o interesse, a parcialidade, etc” (SCHAFF, 1995, p. 282). Não se pode nunca exigir do historiador a imparcialidade no sentido estrito deste termo. Apenas o fato histórico que o historiador estuda pode ser imparcial. […] A posição do historiador pode e deve ser científica, pode ser elevada e cada vez mais elevada, mas será sempre uma posição, um ponto de vista. O seu sucessor, que subirá a uma posição ainda mais elevada, terá um horizonte mais amplo, fará um juízo mais imparcial e mais fundamentado, mas, por sua vez, encontrará alguém para o ultrapassar (BOBRZYNSK, 1963, p. 190-191 apud SCHAFF, 1995, p. 280). “Se a objetividade do conhecimento devesse significar a exclusão de todas as propriedades individuais da personalidade humana, […] a objetividade seria pura ficção, porque implicaria em que o homem fosse um ser sobre-humano ou a-humano” (SCHAFF, 1995, p. 285). Não há como excluir todo o grau de subjetividade do conhecimento histórico, mas o historiador que trabalha de forma séria sempre terá a pretensão de objetividade. O que culminará no que Schaff descreve como relação subjetivo- objetiva. UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 24 OBJETIVIDADE E SUBJETIVIDADE NO CONHECIMENTO HISTÓRICO: A OPOSIÇÃO ENTRE OS PARADIGMAS POSITIVISTA E HISTORICISTA José D’Assunção Barros A historiografia dos Séculos XIX ao XXI oferece um arco interessante e diversificado de posições relacionadas à questão da oposição e interação entre objetividade e subjetividade em História. Praticamente o Século XIX abre- se e encerra-se com este debate, pois além de ser o século da História, será constituído de décadas de confronto entre duas posições fundamentais com relação a esta questão: o positivismo e o historicismo. [...]. A oposição fundamental entre positivismo e historicismo dá-se em torno de três aspectos fundamentais: a dicotomia objetividade/subjetividade no que se refere à possibilidade ou não de a História chegar a leis gerais validas para todas as sociedades humanas; o padrão metodológico mais adequado à história (de acordo com o modelo das Ciências Naturais, ou um padrão específico para as ciências humanas); e a posição do historiador face ao conhecimento que produz (neutro, imerso na própria subjetividade, engajado na transformação social). Com relação aos padrões positivista e historicista, é importante ressaltar que, enquanto o positivismo, como paradigma, já está praticamente pronto desde o início do Século XIX – já que herda uma série de pressupostos do Iluminismo, embora por vezes invertendo a sua aplicação social e vindo a constituir de fato uma visão de mundo tendencialmente conservadora, ao contrário dos setores mais revolucionários do pensamento ilustrado – já o historicismo estará construindo o seu paradigma no decurso do próprio Século XIX. Influências mais isoladas lhe chegavam de autores precursores como Herder ou Vico, que já estavam no Século XVIII atentos à relatividade das sociedades humanas contra a tendência predominante na intelectualidade da época, o Iluminismo, que tendia a pensar na natureza universal do homem e em uma história ‘universalizante’, e não ‘particularizante’. Mas foram poucas as vozes que sintonizariam, neste século anterior, com as preocupações dos historicistas oitocentistas. Os positivistas contam de fato com toda uma fortuna crítica que inclui as já clássicas discussões iluministas em torno de questões que lhes seriam caras: a possibilidade de um conhecimento humano inteiramente objetivo; a construção de uma história universal, comum a toda a humanidade; a possibilidade de amparar um conhecimento científico sobre as sociedades humanas com base na ideia de imparcialidade do sujeito que produz o conhecimento. Estes princípios, no que apresentam de mais essencial, sustentam-se sobre a noção de que haveria uma “natureza imutável do homem”. São estes fundamentos, que já vinham sendo discutidos há muito pelo pensamento ilustrado, que o positivismo tomaria para si, emprestando-lhes uma nova coloração. Por isto, podemos dizer TÓPICO 2 | AS MUDANÇAS DA HISTÓRIA NO TEMPO 25 que, no essencial das questões que irá colocar a si mesmo, o positivismo já inicia o Século XIX com um quadro bastante claro de seus posicionamentos, enquanto que já o historicismo se apresentará no decurso do Século XIX como algo que aqui tomaremos a liberdade de chamar de “historicismo em construção”. Para os primeiros historicistas, nada de fato está propriamente pronto. O historicismo ainda precisará construir a si mesmo, estendendo contribuições diversas em um arco que irá de Leopold Ranke – ainda preocupado em “narrar os fatos tal como eles aconteceram” – até Droysen e Dilthey, historicistas relativistas que já se ocupam em trazer para a historiografia uma reflexão sobre a subjetividade do próprio sujeito que constrói a história, bem como sobre a singularidade do padrão metodológico a ser encaminhado pela Historiografia: um padrão “compreensivo” e não “explicativo” como nas ciências naturais. Esta mesma discussão estende-se através do Século XX, chegando a nomes como Gadamer, Paul Ricoeur, e outros historicistas modernos como Marrou. Já pontamos alguns traços iniciais do confronto entre historicismo e positivismo. Poderemos prosseguir fazendo notar que a distinção fundamental entre positivistas e Historicistas, de um lado, refere-se ao contraste de suas perspectivas sobre o homem – percebido como uma natureza imutável, pelos positivistas, e como um ser em movimento e em processo de diferenciação, pelos historicistas. De outro lado, os dois paradigmas também se opõem precisamente no que se refere ao papel da objetividade e da subjetividade na produção do conhecimento histórico. Aferrados a um modelo cientificista que procura aproximar ou mesmo fazer coincidir os modelos das Ciências Naturais e das Ciências Sociais e Humanas, os positivistas tendem a enxergar a subjetividade – do mundo humano examinado, mas também do historiador – como um problema para uma história que postula ocupar um lugar entre as ciências. Já os historicistas, que construirão seus posicionamentos em torno desta questão ao longo das várias décadas do Século XIX, tenderão no limite a enxergar a subjetividade não como um problema, mas como uma riqueza, ou mesmo como aquilo o que precisamente permite à História constituir-se em um conhecimento dotado de uma especificidade própria. Haverá também, no arco historicista, os que, reconhecendo-a, buscam controlar a subjetividade, impor-lhe limites; mas os maiores nomes das últimas décadas do Século XIX, que estendem sua contribuição para uma continuidade com os historicistas do Século XX, chegam a realizar efetivamente a virada relativista, e a lidar com a subjetividade (inclusive a do próprio historiador) como algo que não compromete a cientificidade do trabalho historiográfico. Em vista disto, será fundamental para estes historicistas opor o paradigma explicativo das Ciências Naturais (e reivindicado pelos positivistas) ao paradigma da compreensão, aspecto que é operacionalizado de maneiras distintas por alguns historicistas quando contrapostos entre si. Será oportuno recolocarmos a contextualização sócio-política específica dos dois paradigmas – Historicista e Positivista – antes de passarmos a um estudo mais específico de alguns casos que ilustrem as posições descritas. FONTE: BARROS (2010 p. 76-78). 26 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A expressão Historia Magistra Vitae, História como Mestra da Vida, foi cunhada por Cícero, na Antiguidade, e perdurou na forma ocidental de pensar a História até o Século XVIII. • A principal ideia da Historia Magistra Vitae é orientar o presente a partir do passado, para não repetir os erros. •No campo historiográfico o termo Historie foi substituída pela palavra alemã Geschichte. • O termo Filosofia da História foi cunhado por Voltaire, as filosofias da História tinham caráter escatológico. • O Positivismo, inspirado nos ideais Iluministas, tinha uma perspectiva universalista e buscava leis gerais para a humanidade. • O Historicismo preza o caráter dinâmico e mutável da História, bem como a singularidade. • A Objetividade da História não é análoga a das Ciências Naturais. • De acordo com Schaff, há sempre um grau de subjetividade no conhecimento histórico. 27 1 A noção de Historia Magistra Vitae, História Mestra da Vida, orientou a forma com que as pessoas se orientavam pela História por muito tempo. A partir do que foi apresentado no sobre esta no Tópico 2, pode-se afirmar que: I- A Historia Magistra Vitae entrou em descrédito no período da Idade Média. II- A expressão cunhada por Cícero tem como intenção se orientar pelo passado, a fim de não repetir erros no presente. III- Esta forma de pensar a História foi utilizada, por vezes, para demonstrar ideias opostas. Temos como exemplo Montaigne e Bodin. IV- Com as transformações sociais do Século XVIII a Historia Magistra Vitae começa a ser questionada, pois para-se de esperar orientações do passado. Estão CORRETAS: a) ( ) As afirmativas I e II. b) ( ) As afirmativas I e III. c) ( ) As afirmativas III e IV. d) ( ) As afirmativas II, III e IV. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 Para Ranke uma das exigências que resultam para a pesquisa histórica é o interesse universal. Sobre ele Ranke (2015, p.208) afirma que “Há aqueles que se interessam apenas pelo estudo das instituições burguesas ou das constituições, pelos avanços da ciência ou pelas realizações artísticas ou pelos enredos políticos. A maior parte da história tratou até agora da guerra e da paz. Como, porém, tais campos nunca se dão apartados um do outro, mas estão sempre articulados e até mesmo condicionando-se mutuamente - como, por exemplo, os diferentes campos científicos influenciam tanto a política externa quanto, e sobretudo, a interna -, é necessário dedicar um interesse uniforme por todos eles. De outra forma nos tornaríamos incapazes de entender um por meio do outro, e caminharíamos rumo a uma meta oposta à do conhecimento”. FONTE: RANKE, Leopold von. O conceito de história universal. Tradução: Sérgio da Mata. In:. Estevão de Rezende Martins. (Org.). A história pensada: teoria e método da historiografia européia do Século XIX. São Paulo: Contexto, 2015. Com base na afirmativa acima, assinale a alternativa correta: ( ) Os campos científicos influenciam apenas as políticas internas. ( ) Houve uma predominância, até o escrito de Ranke, no estudo das instituições burguesas. ( ) Os estudos das realizações artísticas são mais importantes do que os dos enredos políticos. ( ) É necessário o interesse uniforme a todos os campos. De outra forma se caminha em direção oposta ao conhecimento. AUTOATIVIDADE 28 29 TÓPICO 3 A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, como temos visto ao longo do nosso livro, os estudos historiográficos foram se modificando ao longo do tempo. Com o passar dos anos, o historiador foi se especializando. A História foi se tornando, aos poucos, o estudo do específico. Com isso, fomos trabalhando com temas e recortes cada vez mais limitados, em vez de Histórias grandes e generalizadoras. Um conceito que passou a ser estudado pela historiografia apenas recentemente, foi o conceito de memória. Refletir sobre a memória é, hoje em dia, indispensável para o historiador. A memória pode ser dividida em três categorias: lembrar, esquecer e comemorar. Dentre as várias classificações da memória, a que geralmente é estudada pelos historiadores é a memória coletiva. Outro conceito importante que perpassa as discussões sobre a memória, é o conceito de esquecimento. Nietzsche foi um dos grandes críticos do que ele denomina, entre nos estudos da História, como excesso de memória, porém, tanto ele quando outros intelectuais, nos alertam sobre o perigo que envolve o esquecimento. Um terceiro termo essencial para os historiadores é o anacronismo. Este é um conceito controverso entre os historiadores, há os que defendem a sua utilização enquanto uma prática controlada e os que o abominam. Quando melhor conhecemos a época que estudamos, menor é o risco de agir de forma inconsciente e anacrônica. Convidamos você, leitor, a apreciar este tópico e aprender mais sobre estes temas fundamentais para os historiadores. Boa leitura! 2 A MEMÓRIA A memória é um conceito muito importante para os estudos historiográficos nos dias atuais, mas não foi sempre assim. O conceito começou a ser estudado pela historiografia apenas na década de 1970, com os historiadores da chamada Nova História. No período, os estudos em outras áreas, como a psicanálise, já estavam avançados (SILVA; SILVA, 2009). “Quando os historiadores começaram a se apossar da memória como objeto da História, o principal campo a trabalhá- la foi a História Oral” (SILVA; SILVA, 2009, p. 276), mas hoje em dia este tema perpassa vários campos historiográficos. 30 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA Para entender a memória é importante classificá-la. Dentro de seu livro História e Memória o medievalista Jacques Le Goff apresenta uma definição geral de memória. Ele afirma que: “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 2003, p. 419). O historiador afirma, ao final, que as informações podem ser passadas ou representadas como passadas, pois, nem toda a memória foi vivida. Levando em consideração a complexidade da memória ao estudo historiográfico, explanaremos sobre ela mais detalhadamente a seguir. É importante se atentar que memória não é sinônimo de lembrança. A lembrança é pessoal e individual, já a memória pode ser tanto individual, quanto coletiva. A memória também não é necessariamente vivida. Ela pode ser transmitida de geração em geração. NOTA Para Martins (2008, p. 37-39) é uma constante atividade humana apropriar-se do tempo pela memória. Ele ainda considera que é comum na contemporaneidade lidar com três categorias da memória: lembrar, esquecer e comemorar. O historiador categoriza a memória em três sentidos. O primeiro é lembrar na acepção de chamar a memória, ou seja, a memória subjetiva, que está conectada a lembrança. O segundo é denominado lembrança provocada, isso significa que os documentos e monumentos nos trazem alguma lembrança. O terceiro tipo é o do termo comemoração, o lembrar que é de interesse individual e coletivo. Dentre os tipos de memória possíveis, existe um que é mais estudado pelos historiadores, a memória coletiva. O estudo histórico da memória coletiva começou a se desenvolver com a investigação oral. Esse tipo de memória tem algumas características bem específicas: primeiro, gira em torno quase sempre de lembranças do cotidiano do grupo, como enchentes, boas safras ou safras ruins, quase nunca fazendo referências a acontecimentos históricos valorizados pela historiografia, e tende a idealizar o passado. Em segundo lugar, a memória coletiva fundamenta a própria identidade do grupo ou comunidade, mas normalmente tende a se apegar a um acontecimento considerado fundador, simplificando todo o restante do passado. Por outro lado, ela também simplifica a noção de tempo, fazendo apenas grandes diferenciações entre o presente (“nossos dias”) e o passado (“antigamente”, por exemplo). Além disso, mais do que em datas, a memória coletiva se baseia em imagens e paisagens. O próprio esquecimento é também um aspecto relevante para a compreensão da TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO 31 memória de grupose comunidades, pois muitas vezes é voluntário, indicando a vontade do grupo de ocultar determinados fatos. Assim, a memória coletiva reelabora constantemente os fatos (SILVA; SILVA, 2009, p. 276). As memórias, tanto individuais quanto coletivas, são essências para o trabalho do historiador. Sem elas, nosso labor não seria possível. A memória pessoal, associada à memória coletiva inscrita na historicidade do espaço social em que cada indivíduo emerge, marca não apenas a identidade particular do sujeito agente, mas também a coletividade identitária em que cada um se encontra e que cada um quer assumir, modificar, transformar e mesmo rejeitar (MARTINS, 2008, p. 45). Um centro de referência de memória é a Biblioteca do Congresso, localizada em Washingtion, D.C., capital dos Estados Unidos da América. Esta é a maior biblioteca do mundo e possui mais de 155 milhões de itens. FIGURA 8 – BIBLIOTECA DO CONGRESSO FONTE:<https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/01/biblioteca-congresso- americano-450x300.jpg>. Acesso em 13 mar. 2020. Um tema muito importante que perpassa o estudo da memória é o esquecimento. Um intelectual que manifestou suas inquietações acerca do esquecimento foi um filólogo de formação, porém conhecido entre nós como filósofo, Friedrich Nietzsche. Nietzsche foi um grande conhecedor e crítico dos estudos histográficos do seu tempo. Ele lia e dialogava com muitos historiadores de sua contemporaneidade, tais como Burckhardt, Mommsen e Ranke. O filósofo foi um grande crítico da historiografia, em especial a historiografia alemã. Sendo assim, ele faz suas colocações sobre a História. No início de sua Segunda Consideração Intempestiva ele emite a sua opinião acerca do esquecimento: Observe o rebanho a pastar: ele nada sabe sobre o que é o ontem e o hoje; saltita aqui e acolá, noite e dia, dia após dia. Em resumo, preso ao seu prazer e desprazer, estancado no instante, não se entristece 32 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA nem enfastia. Ver isso é difícil para o homem, que se vangloria de sua humanidade perante o animal, mas contempla enciumado a sorte deste – pois o homem apenas quer, como o animal, viver sem fastio e sem dor; mas o quer em vão, por não querer como aquele. O homem pergunta ao animal: “por que nada me diz de sua sorte e apenas me fita?” O animal quer responder e dizer: “acontece que eu sempre esqueço o que quero dizer” – mas já se esquece essa resposta e silencia, e o homem se espanta. (NIETZSCHE, 2017, p. 33, grifos do autor). O filósofo faz, nesta obra, uma crítica à sua contemporaneidade. Ele acreditava que em sua sociedade havia um excesso de lembrança, em especial entre os historiadores alemães. Nesta obra o filósofo ainda disserta sobre três formas de História e as utilidades e desvantagens de cada uma. São elas a História Monumental, a História Antiquária e a História Crítica. Por mais que ele critique o que ele considera um excesso de memória nas duas primeiras, ele também teme o esquecimento que a História crítica pode causar. Quando descreve esta História, afirma: “seu passado passa a ser considerado criticamente, suas raízes são golpeadas com um facão, a piedade é cruelmente pisoteada. É sempre um processo perigoso para a própria vida: e homens ou épocas que servem à vida dessa forma são sempre épocas e homens perigosos” (NIETZSCHE. 2017, p. 63). Em sua Segunda Consideração Intempestiva Nietzsche fez várias críticas ao que ele denomina como excesso de memória, mas, apesar de suas críticas à memória, ele também se atentou aos perigos do esquecimento. Le Goff, ao escrever o prefácio da obra Apologia da História de Marc Bloch, também fez um alerta acerca do esquecimento no século seguinte: “Há na historiografia alemã e na própria história alemã (Marc Bloch, não esqueçamos, escreveu durante a guerra) uma orientação perigosa vinda do passado, vinda da história” (LE GOFF, In: BLOCH, 2002. p. 18). O filósofo Hermann Lübbe (2016, p. 285) concorda com a vontade de Nietzsche de conciliar a memória e o esquecimento, porém, faz críticas ao que Nietzsche denominou como excesso de História, como podemos ver abaixo: Quaisquer que sejam os efeitos que possam produzir a consciência histórica e, mais especificamente, a profissionalização histórico- científica da memória, em nossa civilização moderna, eles certamente não resultaram em perda de vitalidade cultural. A relação que Nietzsche supunha existir entre ânsia de presentificação do passado e relutância de se criar o novo não existe. Caso Nietzsche estivesse vivo hoje, ele se espantaria com que intensidade persiste em nossa civilização a presentificação historista do passado sem que se perca sua dinâmica de inovação e, assim, sua aptidão para o futuro (LÜBBE, 2016, p. 286). Tendemos a concordar com Lübbe quando vemos que, na verdade, convivemos com espaços, objetos e relatos de memória constantemente em nosso cotidiano e, principalmente, enquanto historiadores. Encontramos memórias em museus, em arquivos, em monumentos espalhados pelas nossas cidades e, TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO 33 também, quando conversamos com os nossos familiares. Uma frase muito comum entre as pessoas idosas é “no meu tempo”. 3 O ANACRONISMO O último tema que vamos abordar neste tópico é também intrinsecamente ligado ao ofício do historiador, é o conceito de anacronismo. O termo anacronismo vem do grego, sendo que ana tem o significado de contra e chronos de “tempo”. Se portar de forma anacrônica significa, por exemplo, incumbir valores a uma sociedade que ainda não existiam naquele período. Há historiadores que veem este acontecimento como um absurdo. Febvre em sua obra Rebelais diz que temos que: “Evitar o pecado dos pecados, o pecado entre todos irremissível: o anacronismo” (FEBVRE, 1968, p. 15 apud DOSSE, 2001, p. 285). Por mais que o historiador tenha críticas ao anacronismo, é muito difícil, se não impossível, trabalhar com uma História totalmente desvencilhada dele. Quando trabalhamos em sala de aula, por exemplo, buscamos exemplos do presente, próximos aos estudantes, para fazer uma relação entre o conteúdo histórico e a realidade dos estudantes. Por vezes, estes exemplos podem não ter existido no passado e assim estamos agindo de forma anacrônica. Charles Seignobos, por exemplo, é ironizado como o “patriota retrospectivo”, por ter encontrado o sentimento nacional francês bem antes da própria França, nos velhos tempos de Vercingetorix e da resistência gaulesa a César (cf. FEBVRE 1953) (LOPES, 2012, p. 232). Uma historiadora francesa que questionou a forma como Febvre analisa o anacronismo foi Nicole Loraux. Esta estudava a Antiguidade e escreveu sobre suas angústias em relação ao termo: [...] o historiador em geral evita cuidadosamente importar noções que sua época de referência supostamente não conheceu, e evita mais ainda proceder a comparações – por princípio indevidas – entre duas conjunturas separadas por séculos. Mas, com isso, o historiador corre inevitavelmente o risco de ser entravado, impedido da audácia, ao contrário do antropólogo que, em condições análogas, recorre sem perturbação de consciência à prática da analogia (LORAUX, 1992, p. 57). Loraux (1992) ainda reflete sobre o risco que se assume com está prática, porém a defende como uma prática controlada, saber ir ao passado e “[...] voltar para o presente, com o lastro de problemas antigos” (LORAUX, 1992, p. 64). Ao fim ela nos deixa com uma inquietação sobre esta prática enquanto historiadores: Por que fazer o elogio do anacronismo quando se é historiador? Para convidar os historiadores, talvez, a se colocar à escuta de nosso tempo de incertezas apegando-se a tudo o que ultrapassa o tempo da narração ordenada: aos embalos assim como às ilhotas de imobilidade que negam o tempo na história, mas fazem o tempo da história (LORAUX, 1992, p. 68). 34 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA José d’Assunção Barros (2017) também fez uma importantecontribuição ao conceito de anacronismo. Ele defende em seu artigo que o historiador lida com duas temporalidades distintas: a época em que vive e a época em que o seu objeto de estudo está inserido. Barros acrescenta que nós, historiadores, lidamos com conceitos que estão inseridos em outra realidade, que muitas vezes têm um significado diferente da do leitor. Os conceitos utilizados pelos historiadores em seus estudos provêm das mais diversas realidades, podemos ter exemplos de suas origens na imagem a seguir FIGURA 9 – DE ONDE VÊM OS CONCEITOS DE HISTÓRIA DE ONDE VÊM OS CONCEITOS DA HISTÓRIA Das fontes e das realidades históricas examinadas. Do patrimônio conceitual consolidado pela historiografia. Da criação pessoal de historiadores, em obras específicas. Do patrimônio conceitual consolidado nas demais ciências humanas. De migrações oriundas de outros campos de saber. Da vida comum de hoje 1 2 34 5 6 FONTE: BARROS, 2017, p. 161 Não há uma regra específica para detectar ou não se um conceito é usado de forma anacrônica, “o historiador precisa desenvolver um feeling para isto” (BARROS, 2017, p. 159). Existem duas formas de ser anacrônico em um texto historiográfico: Em um caso, pode ocorrer o anacronismo “de ontem para hoje”. É o que ocorre quando lemos um texto de outra época e, de modo inaceitável, atribuímos a certa palavra um sentido que ela não tem hoje, comprometendo toda a interpretação do texto. Em outro caso, pode ocorrer o anacronismo “de hoje para ontem”. É o que se verifica quando, ao tentar analisar um texto ou processo histórico do passado, ou ao tentar descrever cenas e acontecimentos históricos, utilizo uma palavra de hoje (que não existia naquela época) e o resultado é catastrófico, produzindo incontornáveis estranhamentos e drásticas deformações (BARROS, 2017, p. 158). Um exemplo do anacronismo “de ontem para hoje” seria utilizar o conceito de nazismo em nossa sociedade atual, sendo que ele não é utilizado TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO 35 para o período temporal após 1945. Só é possível falar, após esse período, em neonazismo (BARROS, 2017, p. 170). Já o anacronismo “de hoje para ontem” ocorre quando os historiadores utilizam expressões em certas épocas em que elas não existiam. Um exemplo é o uso do conceito de feminismo na Grécia antiga (BARROS, 2017, p.166). O problema nisso é que os conceitos, quando utilizados de forma anacrônica “pressupõem equivocadamente que os agentes históricos da época examinada pensavam como um homem moderno” (BARROS, 2017, p. 167). Apesar disso, há conceitos que têm o que Barros chama de noção de ‘potencial generalizador diacrônico’ e ‘potencial generalizador sincrônico’. O conceito de crise é um conceito com potencial generalizador diacrônico, o que significa que ele é aplicado em temporalidades distintas da História, pois, ao longo da História “todas as sociedades que já existiram, em diversos momentos de sua história, viveram crises (ou para superá-las, ou para sucumbir a elas) ” (BARROS, 2017, p. 169). Já o potencial generalizador sincrônico é aplicado a um conceito dentro da mesma temporalidade, mas em espaços diferentes. Esse potencial pode ser exemplificado com o conceito de feudalismo, “os limites [...] começam a ser especialmente testados quando o situamos diante de sociedades que se afastam do núcleo mais clássico da feudalidade europeia (França, regiões de língua germânica, e outras)” (BARROS, 2017, p. 172). As limitações ao conceito aparecem quando há tentativas de aplicação às sociedades ibéricas e aumenta quando começa a se pensar em sociedades não europeias (BARROS, 2017, p. 172-174). FUNES, O MEMORIOSO Jorge Luis Borges Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do 30 de abril de 1882 e podia compará-las na lembrança com as listras de um livro espanhol encadernado que vira somente uma vez e com as linhas da espuma que um remo sulcou no rio Negro na véspera da batalha do Quebracho. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada às sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entressonhos. Duas ou três vêzes havia reconstruído um dia inteiro; não havia duvidado, cada reconstrução, porém, tinha requerido um dia inteiro. Contou- me: Mais recordações tenho eu sozinho que as tiveram todos os homens desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vigília de vocês. E igualmente, por volta da alva: Minha memória, senhor, é como despejadouro de lixos. Uma circunferência num quadro-negro, um triângulo retângulo, um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo acontecia a Ireneu com as tumultuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado numa coxilha, com o fogo irisante e com a inumerável cinza, com os muitos rostos de um morto num demorado velório. Não sei quantas estrêlas via no céu. 36 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA Essas coisas me falou; nem então nem depois as coloquei em dúvida. Naquele tempo não havia cinemas ou fonógrafos; é, não obstante, inverossímil e até incrível que ninguém fizesse uma experiência com Funes. O certo é que vivemos adiando todo o adiável; talvez todos saibamos profundamente que somos imortais e que, tarde ou cedo, todo homem realizará tôdas as coisas e saberá tudo. A voz de Funes, da escuridão, prosseguia falando. Disse-me que por volta de 1886 desenvolvera um sistema original de numeração e que em pouquíssimos dias ultrapassara o vinte e quatro mil. Não o tinha escrito, porque o pensado uma só vez já não se lhe podia apagar. Seu primeiro estímulo, acredito, foi o desagrado de que os trinta e três orientais requereram dois signos e três palavras, em vez de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo êsse disparatado princípio aos demais números. Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez: em lugar de sete mil e catorze, A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olimar, enxófre, os bastos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha uma senha particular, uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas... Tratei de explicar-lhe que essa rapsódia de vozes inconexas era exatamente o contrário de um sistema de numeração. Falei-lhe que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos "números". O Negro Timóteo ou manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis entender-me. Locke, no Século XVII, postulou (e reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou certa vez um idioma análogo, mas o rejeitou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambíguo. Com efeito, Funes não recordava sòmente cada fôlha de cada árvore de cada monte, como também cada uma das vêzes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas passadas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era vã. Pensou que na hora da morte ainda não estaria concluído o encargo de classificar tôdas as recordações da infância. Os dois projetos que indiquei (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de tôdas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam alguma balbuciante grandeza. Deixam-nos vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Êste, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não lhe custava compreender sòmente o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; aborrecia-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Seu próprio rosto no espelho, suas próprias mãos, deslumbravam-no cada vez. Menciona Swift que o imperador de Lilliputdiscernia o movimento TÓPICO 3 | A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO E O ANACRONISMO 37 do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os tranqüilos avanços da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleràntemente exato. Babilônia, Londres e Nova York sufocavam com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas tôrres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentiu o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sôbre o infeliz Ireneu, em seu pobre arrabalde sul-americano. Era-lhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, configurava cada fenda e cada moldura das casas certas que o rodeavam. (Repito que a menos importante das suas lembranças era mais minuciosa e mais viva que nossa percepção de um gôzo físico ou de um tormento físico). Ao este, num trecho não demarcado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava pretas, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção voltava o rosto para dormir. Também costumava imaginar-se no fundo do rio, embalado e anulado pela corrente. Tinha aprendido sem esfôrço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, entretanto, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos. A esquiva claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra. Então vi o rosto da voz que tôda a noite falara. Ireneu tinha dezenove anos; nascera em 1868; pareceu-me monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma de minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável memória; paralisou-me o temor de multiplicar ademanes inúteis. Ireneu Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar. FONTE: BORGES (1972, p. 121-125). 38 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A memória é uma categoria fundamental para o trabalho do historiador, é com ela que podemos nos apropriar de tempos passados. • Dentre os estudos possíveis sobre a memória, o historiador costuma a se dedicar à memória coletiva. • O esquecimento é um ponto crucial a se considerar para o trabalho do historiador, mas temos que analisá-lo com cuidado. • A existência de um excesso de História não é um consenso entre os intelectuais. • O anacronismo é problemático no campo historiográfico. Ele pode ser utilizado, desde que com cautela. 39 1 Neste tópico trabalhamos com dois conceitos que são essenciais para o trabalho do historiador, pois sempre fazemos recortes temporais e espaciais. Estes conceitos são o de Memória e o de Esquecimento. A partir das informações sobre o tema, é certo afirmar que: I- O filósofo Friedrich Nietzsche, em sua Segunda Consideração Intempestiva, critica o que denomina como excesso de memória, mas também alerta para os perigos do esquecimento. II- Para Hermann Lübbe. Nietzsche estava certo ao supor a existência de ânsia de presentificação do passado e relutância de criar o novo. III- A partir de Jacques Le Goff podemos concluir que nem toda memória foi vivida. IV- Na contemporaneidade podemos identificar, a partir de Martins, três categorias de memória: lembrar, esquecer e comemorar. Estão CORRETAS: a) ( ) As afirmativas I e III. b) ( ) As afirmativas I e IV. c) ( ) As afirmativas I, III e IV. d) ( ) As afirmativas II e lII . e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 O anacronismo é um tema diretamente ligado ao trabalho do historiador. Dentre os historiadores, encontramos opiniões diversas acerca do tema. Retome o conteúdo sobre o conceito atribuindo V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) Nicole Loraux, escritora do Elogio do Anacronismo, defende o anacronismo enquanto uma prática controlada. ( ) Os historiadores devem, na medida do possível, evitar o uso o anacronismo em sua prática. ( ) O historiador francês Le Febvre vê esta forma de se narrar a História como essencial ao oficio do historiador. ( ) O conceito de anacronismo remete a incumbir valores a uma sociedade que ainda não existiam na época. Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – F– V – F. c) ( ) V – V – V – F. d) ( ) V – V – F – V. e) ( ) V – F – F – F. AUTOATIVIDADE 40 41 TÓPICO 4 A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, em nosso último tópico estudaremos uma nova forma de pensar a História surgida no século XX, a Escola dos Annales. Os Annales são uma escola em si, mas um periódico francês existente até hoje. Há quem chame essa História de Nova História e a contrapõe a uma suporta historiografia positivista. Discutiremos também, neste tópico, sobre a obra Apologia da História. Este livro é considerado um clássico em nosso campo. O historiador que produziu esta obra foi um dos fundadores da Escola dos Annales, Marc Bloch. Esperamos que este último tópico o ajude a complementar a sua formação de historiador e lhe ofereça uma visão mais crítica acerca da historiografia. 2 O SURGIMENTO DA ESCOLA DOS ANNALES O Historicismo do Século XIX, já abordado no segundo tópico deste capítulo, já recebeu e recebe muitas críticas até os dias atuais. Uma delas vem dos historiadores da Escola dos Annales. Estes se reúnem até os dias atuais em torno do periódico francês Annales d'Histoire Économique et Sociale (Anais de História Econômica e Social). Essa não é uma escola, com uma estrutura física, em específico, mas um periódico acadêmico. A escola foi dividida por gerações. Dentre os principais intelectuais de cada geração temos: QUADRO 1 – GERAÇÕES DA ESCOLA DOS ANNALES Gerações da Escola dos Annales Primeira Geração (1929-1949) Segunda Geração (1946-1968) Terceira Geração (1968-1989) Quarta Geração (1989-dias atuais) Marc Bloch Lucien Febvre Fernand Braudel Jacques Le Goff Pierre Nora Michèle Perrot Georges Duby Philippe Ariès Roger Chartier Jacques Revel FONTE: A autora 42 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA Esta nova escola surgiu, como vemos no gráfico, no ano 1929. Esta História é vista por alguns intelectuais como revolucionária. Por isso, muitas vezes ela é denominada como Nova História. Segundo Schwarcz, a revista dos Annales “[...] daria origem a todo um movimento de renovação na historiografia francesa e [...] está na base do que hoje chamamos de ‘Nova História’”. (SCHWARCZ, 2002, p. 10). O motivo para o surgimento dos Annales foi: A insatisfação que os jovens Marc Bloch e Lucien Febvre demonstravam, nas décadas de 10 e 20, em relação à história política sem dúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas complexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes – homens ou países – ignorando que, aquém e além dele, se situavam campos de forças estruturais, coletivas e individuais que lhe conferiam densidade e profundidade incompatíveis com o que parecia ser a frivolidade dos eventos (ODÁLIA, 1997, p. 7). O objetivo dos dois fundadores da História dos Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre, era, então, propor uma Nova História. Fazer uma separação entre a História e a política. FIGURA 10 – LUCIEN FEBVRE FONTE: < http://3.bp.blogspot.com/_WkSll64foJs/S_FKG39EUrI/AAAAAAAAGK0/icjTlFBrFIY/ s1600/20090211_DNA007517.jpg>. Acesso em: 13 mar. 2020. A revista foi criada com a intenção de transcender o campo historiográfico, ela pretendia “exercer liderança nos campos da história social e econômica [...], o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de uma abordagem nova e interdisciplinar da História” (BURKE, 1997, p. 32-33). A revista contribuiu, desta forma, para a interdisciplinaridade dos estudos historiográficos. O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929.Trazia uma mensagem dos editores, na qual explicavam que a revista havia sido planejada muito tempo antes, e lamentavam as barreiras existentes entre os historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade de intercâmbio intelectual (BURKE, 1997, p. 33). A História dos Annales nos trouxe várias reflexões importantes para os estudos historiográficos e contribuiu para o caráter interdisciplinar da História. Porém, há uma polêmica em relação a esta História ser também denominada como uma Nova História. Esta formulação é contradita pelos historicistas. TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES 43 Os historiadores que consideram a História dos Annales como revolucionária, costumam a contrapô-la com o Historicismo e com o Positivismo, muitas vezes confundindo estes movimentos como se fossem um só. O historicismo é criticado, neste sentido, a partir da intenção de Ranke de expor as coisas como elas realmente aconteceram. A crítica dos Annales ao Historicismo também é feita pelo suposto vínculo entre essa forma de História e a política. Sérgio da Mata denomina a posição da Escola dos Annales como um mito historiográfico: Não é outro o caso da assim chamada “historiografia positivista” do Século XIX. Um mito tão mais resistente na medida em que se baseia numa caracterização heteróclita, cujo sentido último é o de constituir o avesso do outro mito e, assim, legitimá-lo: o da “revolução” dos Annales. “Positivista” seria aquela historiografia empirista, centrada apenas no âmbito do político e do Estado nacional, do uso de documentos oficiais, cultora dos grandes homens, inteiramente alheia à reflexão retórica e às “ideias” (MATA, 2015, p. 188, grifos do autor). A História Política foi importante para alguns historiadores historicistas do Século XIX que hoje são vinculados ao Historicismo, porém, esta não era uma pauta unânime entre todos os historiadores do período. Dentre os historicistas existia um grande historiador suíço da História Cultural, Jacob Burckhardt (1818-1897), sua obra A cultura do Renascimento na Itália é uma grande referência até os dias atuais. Assim como Ranke classificou a História enquanto ciência e arte (conferir página 25), Marc Bloch tem atitude semelhante quando afirma: “Resguardemo-nos de retirar de nossa ciência sua parte de poesia. Resguardemo-nos sobretudo, já surpreendi essa sensação em alguns, de enrubescer por isso. Seria uma espantosa tolice acreditar que, por exercer sobre a sensibilidade um apelo tão poderoso, ela devesse ser menos capaz de satisfazer também nossa inteligência” (BLOCH, 2002, p. 44). Apesar disso, Bloch dirige críticas diretas a Ranke no Capítulo VI da mesma obra (BLOCH, 2002, p. 125). Apesar das críticas que podem ser cunhadas à Escola dos Annales ao se promoverem como inovadores, encontramos vários conceitos essenciais desenvolvidos por esta corrente historiográfica. Peter Burke, ao fim de seu livro denominado A Escola dos Annales, apresenta um glossário da linguagem destes historiadores. Os termos presentes no Glossário são: Conjuntura, Civilização, Estrutura, Etno-história, História episódica (événementielle), História global, História do Imaginário, História imóvel, História-problema, História quantitativa, História serial, História total, Longa duração, Mentalidade, História nova, Psicologia Histórica (BURKE, 1997, p. 129-132). NOTA NOTA 44 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA 3 MARC BLOCH E O OFÍCIO DO HISTORIADOR Marc Bloch (1866-1844) foi um medievalista francês que publicou obras consideradas clássicas nos dias atuais, dentre elas temos Os reis taumaturgos e A sociedade feudal. Porém, o nosso interesse se volta para outra obra de Bloch, a Apologia da História ou o Oficio do Historiador. Para entendermos o conteúdo desta obra em específico, é fundamental compreender as condições e o contexto em que Bloch a escreveu. Bloch era um historiador francês de origem judaica, vivendo na França ocupada pelo regime nazista. O historiador foi capturado e então fuzilado no dia 16 de junho de 1944. A sua Apologia da História ficou inacabada e foi publicada pelo cofundador da Escola dos Annales no ano de 1949 (LE GOFF, In: BLOCH, 2002, p. 15). É importante destacar aqui que a obra foi escrita enquanto o historiador se encontrava preso, sendo assim, Bloch não pode consultar livros durante a sua escrita. FIGURA 11 – MARC BLOCH FONTE:<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/Marc_Bloch.jpg> . Acesso em: 13 mar. 2020. A Apologia da História foi uma resposta do historiador ao seu filho, que o perguntou algo pertinente até os dias atuais. Ele explica a História no início da obra: "Papai, então me explica para que serve a história." Assim um garoto, de quem gosto muito, interrogava há poucos anos um pai historiador. Sobre o livro que se vai ler, gostaria de poder dizer que é minha resposta. Pois não imagino, para um escritor, elogio mais belo do que saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos escolares. Mas simplicidade tão apurada é privilégio de alguns raros eleitos. Pelo menos conservarei aqui de bom grado essa pergunta como epígrafe, pergunta de uma criança cuja sede de saber eu talvez não tenha, naquele momento, conseguido satisfazer muito bem. Alguns, provavelmente, julgarão sua formulação ingênua. Parece-me, ao contrário, mais que pertinente. O problema que ela coloca, com a incisiva objetividade dessa idade implacável, não é nada menos do que o da legitimidade da história (BLOCH, 2002, p. 41). TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES 45 A intenção de Bloch, com essa obra, é tornar o conhecimento histórico acessível, conseguir falar com simplicidade sobre o trabalho do historiador. Percebemos que a intenção se cumpre ao longo das páginas do livro, pois um iniciante do debate histórico compreende com clareza questões fundamentais do seu métier (ofício). A explicação de Bloch sobre o ofício do historiador é dividida em cinco capítulos: A história, os homens e o tempo; A observação histórica; A crítica, A análise histórica e um último capítulo que não foi intitulado, pois a obra nunca foi finalizada. É no primeiro capítulo que o historiador se preocupa em apresentar a História não como uma ciência do passado, mas como uma ciência dos homens e assim proclama a sua famosa frase entre os historiadores: “’Ciência dos homens’, dissemos. É ainda vago demais. É preciso acrescentar: ‘dos homens no tempo’” (BLOCH, 2002, p. 55, grifos do autor). Barros explica mais detalhadamente a intenção de Bloch, como podemos ver a seguir: Dizer isso significa que não importa, rigorosamente, se o historiador estuda esta ou aquela época do passado, ou se estuda mesmo o presente, disputando um território com os sociólogos e antropólogos. O que faria de um historiador um historiador seria o fato de que ele estuda os homens imersos na temporalidade, vivendo o tempo, percebendo o tempo, produzindo o tempo. O mesmo historiador que estuda o passado, de acordo com essa perspectiva, poderia estudar o tempo presente – que, de fato, estaria em breve por se converter, em umfuturo não muito distante, em mais uma modalidade histórica (a “história do tempo presente”) (BARROS, 2012, p. 183, grifos do autor). Outro ponto importante do livro é a reflexão feita sobre as fontes escritas. Bloch disserta sobre a impossibilidade de um historiador constatar os fatos que estuda e chama atenção para os cuidados do historiador em relação aos documentos, pois “os textos ou os documentos arqueológicos, mesmo os aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando sabemos interrogá-los” (BLOCH, 2002, p. 79). Ou seja, é o trabalho do historiador, ao lidar com os vestígios do passado, questioná-los. Um último ponto a destacar na obra é a discussão que o historiador faz da relação entre passado e presente. Bloch questiona-se sobre o presente: “O que é, com efeito, o presente? No infinito da duração, um ponto minúsculo e que foge incessantemente;um instante que mal nasce e morre” (BLOCH, 2002, p. 60). A relação entre o presente e o passado não é uma inquietação apenas para Bloch, Barros afirma que esta relação é um dos “itens programáticos importantes para a Escola dos Annales. ‘Compreender o presente pelo passado’, mas também ‘compreender o passado pelo presente’, constituem as duas vias dessa complexa relação” (BARROS, 2012, p. 182, grifos do autor). Esta obra, inserida no campo da historiografia, já foi naturalmente debatida e criticada. Uma das críticas que esta obra recebeu foi a da historiadora 46 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA Ewa Domanska. A historiadora propõe, em seu artigo denominado Para além do antroprocentrismo nos estudos históricos, a ampliação do estudo para os seres não-humanos, conhecido como pós-humanismo, nas ciências humanas e sociais contemporâneas. Eu tento ir além dos debates sobre narração histórica, representação histórica, e, de modo geral, as relações entre texto e realidade passada, debates que predominaram na teoria histórica a partir de meados da década de 1960 até meados da década de 1990. Eu proponho que é hora de desafiar e transcender a abordagem específica do passado chamada de história, entendida como "a ciência das pessoas no tempo" (Marc Bloch) e não é só eurocêntrica e falocêntrica, mas, acima de tudo, de caráter antropocêntrico. Nossa reflexão sobre o passado deve se estender a esses seres não-humanos que foram recentemente estudados por várias disciplinas. Hoje, com o desenvolvimento da historiografia insurreicional e militante, coisas, plantas e animais não-humanos, também devem ser incorporada a História como algo diferente de receptores passivos de ações humanas (DOMANSKA, 2013, p. 16). A difundida intenção de Bloch, de fazer um estudo dos seres humanos, é questionada e criticada por Domanska. Segundo a historiadora, a proposta de Bloch seria não apenas eurocêntrica, mas também em geral, sobre os homens. Uma outra crítica de Domaska é sobre a História estudar apenas seres humanos. Diferente da historiadora, o medievalista Dominique Barthélemy vê as obras de Bloch de forma positiva. Ele descreve os escritos de Bloch como cativantes. Marc Bloch nos mantém em suspense; ele sabe reconstituir a lógica sinuosa da pesquisa antes de revelar a conclusão provisória. […] Ele alterna as evocações concretas, saborosas, com raciocínios profundos, estimulantes, que fizeram compreender ou entrever mecanismos sociais e psicológicos. Em tudo, portanto, encanta o seu leitor e o ajuda a refletir; é tão denso que o estudante sofre para tomar notas, fazer resumos sobre o que ele escreveu. Seria necessário conhecê-lo de cor. Ele se prestaria, aliás, bastante bem a isso, de tanto que gostava de citar ou criar ele mesmo fórmulas de autor, espirituosas e atrevidas (Barthélemy,2011, p. 97). Apesar do elogio a Bloch, o historiador ainda mantém uma visão crítica, explicando que, ao menos nas questões medievais, as visões das Ciências Sociais não são mais as mesmas que Bloch relatava. Bloch é um historiador notável para os estudos historiográficos. Suas obras, em especial a Apologia da História, se transformaram em clássicos da historiografia. Independente das críticas ou dos elogios proferidos acerca do historiador, Bloch é um autor indispensável quando se trata de Introdução aos Estudos Históricos. TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES 47 LEITURA COMPLEMENTAR A História dos homens Marc Bloch Diz-se algumas vezes: “A história é a ciência do passado.” É (no meu modo de ver) falar errado. (Pois, em primeiro lugar), a própria ideia de que o passado, enquanto tal, possa ser objeto de ciência é absurda. Como, sem uma decantação prévia, poderíamos fazer, de fenômenos que não têm outra característica comum a não ser não terem sido contemporâneos, matéria de um conhecimento racional? Será possível imaginar, em contrapartida, uma ciência total do Universo, em seu estado presente? Sem dúvida, nas origens da historiografia, os velhos analistas não se constrangiam nem um pouco com tais escrúpulos. Narravam, desordenadamente, acontecimentos cujo único elo era terem se produzido mais ou menos no mesmo momento: os eclipses, as chuvas de granizo, a aparição de espantosos meteoros junto com batalhas, tratados, mortes dos heróis e dos reis. Mas nessa primeira memória da humanidade, confusa como a percepção de um bebê, um esforço constante de análise pouco a pouco operou a classificação necessária. É verdade, a linguagem, essencialmente tradicionalista, conserva o nome de história para todo estudo de uma mudança na duração. O hábito não traz perigo, pois não engana ninguém. Há, nesse sentido, uma história do sistema solar, na medida em que os astros que o compõem nem sempre foram como os vemos. Ela é da alçada da astronomia. Há uma história das erupções vulcânicas que é, estou convencido disso, do mais vivo interesse para a física do globo. Ela não pertence à história dos historiadores. Ou, pelo menos, não lhe pertence na medida em que, talvez, suas observações, por algum viés, se reuniriam às preocupações específicas da história que nos diz respeito. Como estabelecer, portanto, na prática, a divisão das tarefas? Sem dúvida, para apreender isso, um exemplo é melhor que muitos discursos. No Século X de nossa era, um golfo profundo, o Zwin, recortava a costa flamenga. Depois foi tomado pela areia. A que seção do conhecimento levar o estudo desse fenômeno? De imediato, todos designarão a geologia. Mecanismo de aluvionamento, papel das correntes marinhas, mudanças, talvez, no nível dos oceanos: não foi ela criada e posta no mundo para tratar de tudo isso? Certamente. Olhando de perto, porém, as coisas não são de modo algum assim tão simples. Tratar-se-ia, em primeiro lugar, de escrutar as origens da transformação? Eis o nosso geólogo já obrigado a se colocar questões que não são mais, estritamente, de sua alçada. Pois, sem dúvida, esse assoreamento foi, pelo menos, favorecido por construções de diques, desvios de canais, secas: diversos atos do 48 UNIDADE 1 | O QUE É HISTÓRIA homem, resultado de necessidades coletivas e que apenas uma certa estrutura social torna possíveis. Na outra ponta da cadeia, novo problema: o das consequências. A pouca distância do fundo do golfo, uma cidade se erguia. Era Bruges. Comunicava-se com ele por um breve trajeto fluvial. Pelas águas do Zwin, ela recebia ou expedia a maior parte das mercadorias que faziam dela, guardadas todas as proporções, a Londres ou a Nova York de sua época. Vieram, cada dia mais sensíveis, os avanços da sedimentação. Bruges tentou em vão, à medida que a superfície inundada recuava, empurrar ainda mais seus portos avançados para a foz, e seus cais pouco a pouco adormeceram. Decerto essa não foi absolutamente, longe disso, a causa única de seu declínio. Age a física alguma vez sobre o social sem que sua ação seja preparada, ajudada ou permitida por outros fatores que não venham do homem? Mas, no ritmo das ondas causais, esta causa está pelo menos, não poderíamos duvidar disso, entre as mais eficazes. Ora, a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas necessidades, o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente “histórico”. Assim como as vicissitudes de um poderoso núcleo de trocas. Através de um exemplo bem característico da topografia do saber, eis portanto, de um lado, um ponto de sobreposição onde a aliança de duas disciplinas revela-se indispensável a qualquer tentativa de explicação; de outro, um ponto de passagem onde, depois de constatar um fenômeno e pôr seus efeitos na balança, este é, de certa maneira, definitivamente cedido por uma disciplina à outra. O que se produziu que parecera apelar imperiosamente à intervenção da história? Foi que o humano apareceu. Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza,o homem². Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem (os artefatos ou as máquinas), por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça. Do caráter da história como conhecimento dos homens decorre sua posição específica em relação ao problema da expressão. Será uma “ciência”? Ou uma “arte”? Sobre isso nossos bisavôs, por volta de 1800, gostavam de dissertar gravemente. Mais tarde, por volta dos anos 1890, banhados em uma atmosfera de positivismo um pouco rudimentar, pôde-se ver especialistas do método indignarem-se com que, nos trabalhos históricos, o público dessa importância, para eles excessiva, ao que eles chamavam “forma”. (Arte contra ciência, forma contra fundo) tantas polêmicas boas para devolver ao saco de processos da escolástica. Não há menos beleza numa equação exata do que numa frase correta. Mas cada ciência tem sua estética de linguagem, que lhe é própria. Os fatos TÓPICO 4 | A HISTÓRIA A PARTIR DA ESCOLA DOS ANNALES 49 humanos são, por essência, fenômenos muito delicados, entre os quais muitos escapam à medida matemática. Para bem traduzi-los, portanto para bem penetrá- los (pois será que se compreende alguma vez perfeitamente o que não se sabe dizer?), uma grande finesse de linguagem, (uma cor correta no tom verbal) são necessárias. Onde calcular é impossível, impõe-se sugerir. Entre a expressão das realidades do mundo físico e a das realidades do espírito humano, o contraste é, em suma, o mesmo que entre a tarefa do operário fresador e a do luthier: ambos trabalham no milímetro; mas o fresador usa instrumentos mecânicos de precisão; o luthier guia-se, antes de tudo, pela sensibilidade do ouvido e dos dedos. Não seria bom nem que o fresador se contentasse com o empirismo do luthier, nem que este pretendesse imitar o fresador. Será possível negar que haja, como o tato das mãos, uma das palavras? E duplamente. Deixemos, por hora, o que tem de factível a cisma, que se pretende decretar, entre o passado e o suposto presente. (BLOCH, 2002, p. 52-55) Sem trair Marc Bloch, creio que podemos situar aqui a nota de rodapé por ele prevista: “Fustel de Coulanges, aula inaugural de 1862, na Revue de Synthèse Historique, t.11, 1901, p. 243; Michelet, aula da École Normale, 1829, citado por G. Monod. t.l, p 127: 'Ocupamo-nos ao mesmo tempo do estudo do homem individual, e isso será a filosofia, e do estudo do homem social, e isso será a história’. Convém acrescentar que Fustel, mais tarde, disse isso numa fórmula mais sintética e carregada, cujo desenvolvimento que acabamos de ler não é senão, em suma, um comentário: 'A história irão é a acumulação dos acontecimentos, de qualquer natureza, que se tenham produzido no passado. Ela é a ciência das sociedades humanas.' Mas isso talvez seja, veremos adiante, reduzir em excesso, na história, a parte do indivíduo; o homem em sociedade e as sociedades não são duas noções exatamente equivalentes”. FONTE: BLOCH, Marc. A história, os homens e o tempo. In: Apologia da História ou O ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001. 50 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você aprendeu que: • A Escola dos Annales não é uma escola em si, um espaço físico, mas é reunida em torno de um periódico acadêmico e se encontra, nos dias atuais, em sua quarta geração. • Esta história é vista por alguns intelectuais como revolucionária, eles costumam a chamar a Escola dos Annales de Nova História. • A Escola dos Annales desenvolveu vários conceitos importantes para a historiografia, como os de História-problema e Longa duração. • Marc Bloch, cofundador Escola dos Annales, não finalizou sua escrita da Apologia da História, pois foi assassinado pelo regime nazista. • A Apologia da História foi escrita como uma resposta ao filho de Bloch, que perguntou para que serve a história. Está obra é hoje clássica para a introdução aos estudos históricos. 51 AUTOATIVIDADE 1 Peter Burke (1997, p. 132), ao sintetizar o conceito de Nova História, afirma que: “A expressão foi popularizada pelo livro La nouvelle histoire (1978), editado por Jacques le Goff e outros, mas já havia sido reivindicada, anteriormente, para os Annales. Braudel havia falado de uma nova história em sua aula inaugural no Collège de France (1950). Febvre, por outro lado, usara a frases como “uma outra história” para descrever o que o grupo dos Annales tentava fazer”. FONTE: BURKE, P. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. Com base no Tópico 4 e na citação acima, assinale a alternativa correta. a) ( ) Os historiadores da Escola dos Annales fazem críticas as abordagens interdisciplinares da história. b) ( ) Um dos grandes objetivos dos dois fundadores da Escola dos Annales era desvencilhar a história e a política. c) ( ) É consenso entre os historiadores que a História dos Annales propôs uma renovação na historiografia positivista do Século XIX. d) ( ) A Escola dos Annales foi uma revista criada por Marc Bloch e Fernand Braudel. O objetivo dos historiadores era propor uma nova forma de história. 2 O historiador francês Marc Bloch foi o escritor da obra clássica entre os historiadores a Apologia da história ou o oficio do historiador. Está obra foi escrita para abordar os principais temas do trabalho historiográfico. A partir do conteúdo deste tópico acerca do tema, atribua V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) Marc Bloch cunhou, nesta obra, a famosa afirmação de que a história é a ciência dos homens no tempo. ( ) Ewa Domanska concorda com a afirmação de Bloch de que a História é a a ciência das pessoas no tempo. ( ) O historiador francês defende, nesta obra, a necessidade de saber investigar os documentos. ( ) A relação entre o passado e o presente não é refletida na Apologia da História. Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – F– V – F. c) ( ) V – F – F – F. d) ( ) V – F – V – V. e) ( ) F – V – V – F. 52 Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 53 UNIDADE 2 AS FONTES HISTÓRICAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender as ferramentas de trabalho do historiador; • identificar os locais de trabalho do historiador; • conhecer as concepções gerais sobre fontes escritas e fontes arqueológicas; • discutir as concepções gerais sobre fontes orais e fontes audiovisuais. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado TÓPICO 1 – AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR TÓPICO 2 – AS FONTES TRADICIONAIS TÓPICO 3 – UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 54 55 TÓPICO 1 AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico, estudaremos a forma com que o historiador acessa o conhecimento histórico. Teremos uma breve introdução sobre as fontes históricas e veremos os principais locais de trabalho do historiador e discutiremos qual a função em que o historiador exerce neste local. Os locais mencionados foram os Arquivos Históricos, as bibliotecase os museus. Aprenderemos quais são os principais tipos de arquivos no Brasil, bem como as possibilidades de pesquisa em bibliotecas e museus. Feitas essas breves considerações, convidamos você à leitura deste tópico para ampliar o seu conhecimento acerca das possibilidades de trabalho de um historiador. Que as próximas páginas lhe ajudem a aperfeiçoar a sua formação enquanto historiador. 2 UMA INTRODUÇÃO ÀS FONTES HISTÓRICAS A Fonte Histórica, também conhecida como Documento Histórico, é o principal acesso do historiador ao passado. A definição de Fonte Histórica modificou-se ao longo do tempo e é sobre este tema que nos dedicaremos a seguir. Os historiadores da antiguidade lidavam com o passado de uma forma diferente e entendiam as Fontes Históricas de outra forma. Historiadores como Heródoto, Tucídides ou Salústio, pensavam e faziam história da seguinte maneira: “com documentos escritos, consultados apenas marginalmente e citados de forma indireta, reportada” (FUNARI, 2006, p. 84, grifos do autor). Podemos vez, no trecho a seguir, como Heródoto produzia os seus relatos históricos: Heródoto viajou pelos lugares em que haviam ocorridos combates ou que eram de alguma forma relacionados ao seu tema e lá consultou os habitantes, visitou lugares, templos, edifícios conheceu paisagens. Não saia a copiar documentos e, menos ainda, conhecia línguas locais para que o pudesse fazer com o rigor exigido a um historiador moderno. Os discursos reportados pelos historiadores, como a famosa “oração de Péricles em Tucídides”, eram criação do autor, baseada no que havia ouvido ou mesmo se supunha fosse plausível para as circunstâncias dadas (FUNARI, 2006, p. 84). UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 56 As primeiras reflexões acerca das Fontes Históricas da modernidade foram concebidas pelos franceses no período temporal entre o Século XVIII e o Século XIX. No Século XIX eram considerados Documentos Históricos apenas os documentos escritos. Era papel dos historiadores analisar a autenticidade dos documentos, mas não era seu trabalho questioná-lo (SILVA; SILVA, 2009). Com o surgimento da Escola dos Annales, iniciou-se um forte movimento de questionar as Fontes Históricas. Destacaremos aqui três contribuições fundamentais desta escola para o nosso entendimento das fontes na contemporaneidade. A primeira contribuição foi acerca da autenticidade da fonte. A autenticidade de um documento não era mais, a partir dos Annales, um fator indispensável para considerá-lo uma Fonte Histórica, pois “para a história interpretativa não importava a veracidade do documento, mas as questões que o historiador lhe remetia” (SILVA; SILVA, 2009, p. 159), também há a possibilidade de entender um período histórico estudando um documento falsificado do período. Outra modificação importante foi o alargamento do que era considerado um Documento Histórico, essa mudança ocorreu a partir do surgimento da história serial. O aparecimento da história serial modificou profundamente a concepção de documento histórico. Em primeiro lugar, ela presta atenção a documentos até então desprezados, cláusulas testamentárias, inventários depois de falecimentos, registros paroquiais, mas sobretudo ela inverte o método dos historiadores com relação aos documentos. Preso numa série, o documento deixa de existir sozinho, para só adquirir sentido mediante relação com a série que o precede ou segue (DUMOULIN, 1993, p. 244). A última contribuição que nos referiremos aqui é em relação às Fontes Históricas é que elas não se limitavam mais às fontes escritas, no Século XX “o conceito de documento foi modificado qualitativamente abarcando a imagem, a literatura e a cultura material” (SILVA; SILVA, 2009, p. 159). Em nossa contemporaneidade incorporamos também novos tipos de fontes, provenientes das novas tecnologias. As Fontes Históricas podem ser materiais como um livro, um vaso, uma pintura; e imateriais como uma música ou um relato oral. Elas são quaisquer vestígios da humanidade ao longo do tempo. Encontramos, no Dicionário de Conceitos Históricos, a definição de fonte de forma mais detalhada. Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos correlatos para definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de base para a construção do conhecimento histórico (SILVA; SILVA, 2009, p.158). Sendo assim, consideramos como Fontes Históricas quaisquer vestígios do passado que são estudados em um trabalho de História. TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR 57 3 OS LOCAIS DE TRABALHO DO HISTORIADOR A sociedade contemporânea está em constante mudança. Benito Schmidt (2008), ao refletir sobre a transformação do mundo, afirma que a rápida transformação da nossa sociedade levou ao aumento da preocupação pela memória. Como consequência, cresceu-se o número de espaços dedicados ao passado, com isso “um número significativo de órgãos públicos e de instituições privadas, como hospitais, clubes de futebol, empresas e sindicatos, passou a investir na constituição ‘do que fomos’, visando a solidificar uma determinada imagem ‘do que somos’” (SCHMIDT, 2008, p. 188). Estes espaços, por um lado, ampliam o âmbito de atuação dos profissionais tradicionalmente voltados à organização, análise e publicização destes ‘vestígios do passado’ – como arquivistas, museólogos e historiadores – além de incorporar outros que normalmente eram mais associados ao presente – como jornalistas, publicitários e arquitetos; entretanto, por outro lado, também criam novos desafios e responsabilidades que não podem ser negligenciados por nenhum desses agentes (SCHMIDT, 2008, p. 188). Cabe a nós o questionamento sobre qual seria o papel dos historiadores ao trabalhar nestes lugares onde a memória está instaurada, como, para citar alguns, Arquivos Históricos, museus e bibliotecas. Pois, com a regulamentação da profissão do historiador, em 2012, seus locais de atuação e seu ofício são ampliados. Para Schmidt, a função do historiador nestes espaços é o seu olhar desnaturalizado, apontando que os motivos que levaram os espaços a serem organizados da forma em que se apresentam. Os estudantes, ao conviverem em tais espaços devem ter: a capacidade de voltar para os acervos aquele tipo de olhar que, por dever de ofício, eles já devem lançar aos demais objetos que estudam: um olhar eminentemente histórico, que desnaturaliza os objetos (inclusive os papéis), seus arranjos, combinações, organizações e classificações, mostrando que tais operações, aparentemente desinteressadas, resultam de gestos, de escolhas, de omissões e de silenciamentos determinados pelas lutas sociais e políticas presentes em cada contexto histórico (SCHMIDT, 2008, p. 190). Os historiadores devem ser capazes de entender o que se esconde por trás das organizações de tais espaços. Schmidt exemplifica com a organização de documentos de um arquivo, ou de objetos de um museu, afirmando que a organização “se deve a critérios técnicos, mas estes não são neutros, são políticos, e implicam escolhas e omissões” (SCHMIDT, 2008, p. 190), seria assim, papel do historiador entender a historicidade dos acervos. Não cabe [...] a este profissional dizer se tal identidade ou tal memória é “falsa” ou “verdadeira”, mas sim evidenciar a sua historicidade, o seu caráter de construção histórica, o que implica, como no caso de qualquer construção – inclusive, e principalmente, a narrativa histórica – permanências, mudanças, omissões, seleções e esquecimentos (SCHMIDT, 2008, p. 192). UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 58 Sendo assim, a influência dos historiadores em lugares como Arquivos Históricos, museus e bibliotecas é um olhar desnaturalizado. Quando os historiadores ocupam tais lugares, eles devem questionar-se sobre a forma como estes locais estão organizados, sua estrutura e funcionamento. 4 OS ARQUIVOS HISTÓRICOS, OS MUSEUS E AS BIBLIOTECASOs Arquivos Históricos são locais onde documentos históricos considerados relevantes são armazenados. Neles encontramos um número imensurável de documentos, bem como incontáveis possibilidades de pesquisa para os historiadores. É essencial que, enquanto historiadores, possamos compreender elementos básicos em relação aos arquivos, como, por exemplo, o seu acervo. O historiador Carlos Bacellar elaborou um quadro em que apresenta os principais tipos de arquivo no Brasil e quais documentos históricos eles armazenam, como podemos ver a seguir: QUADRO 1 – TIPOS DE ARQUIVOS NO BRASIL Arquivos Documentos Arquivos do Poder Executivo Correspondência. Ofícios e Requerimentos. Lista Nominativas. Matrículas de classificação de escravos. Lista de classificação dos votantes. Documentos sobre imigração e núcleos coloniais. Matrículas e frequências de alunos. Documentos de polícia. Documentos sobre obras públicas. Documentos sobre terras. Arquivos do Poder Legislativo Atas. Registros. Arquivos do Poder Judiciário Inventários e testamentos. Processos cíveis. Processos crimes. Arquivos cartoriais Notas. Registro civil. Arquivos eclesiásticos Registros paroquiais. Processos. Correspondência. Arquivos privados Documentos particulares, de indivíduos, famílias, grupos de interesse ou empresas. FONTE: Bacellar (2006, p. 26) TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR 59 Como destaca Bacellar, a acumulação de documentos ocorre no Brasil desde que o Governo Português se instalou no país. A acumulação de documentos ocorreu de maneira privada, com os capitães-donatários, e, de maneira pública, com Governo local e metropolitano (BACELLAR, 2006). Porém, o primeiro arquivo público, o Arquivo Público do Império, foi fundado apenas no ano de 1838, ele é renomeado para Arquivo Nacional em 1868. Neste Arquivo encontram-se documentos de momentos cruciais na história do nosso país. Entre eles temos a Carta da Lei Áurea, assinada no ano 1888, pela Princesa Isabel, e o documento oficial de extinção da escravidão do Brasil. Outro documento importante do arquivo é o Juramento à Constituição de 1824 assinada pelo Imperador D. Pedro I. Nem sempre é possível para um pesquisador visitar o arquivo histórico acerca de sua pesquisa. É neste momento que a tecnologia nos ajuda. Os arquivos de todo o mundo estão digitalizando os seus documentos. Esse recurso tem vários aspectos positivos. Um deles é preservar a deterioração dos documentos, pois os estudiosos têm menos contato com eles. Outro aspecto positivo é que não é necessário deslocar-se até os arquivos para ter contato com o material, o que facilita o acesso aos documentos. Já é possível consultar a versão digitalizada de vários documentos presentes no Arquivo Nacional em seu website. Para encontrar mais informações sobre o Arquivo Nacional, visite o site: http://www.arquivonacional.gov.br/br/. Caso você queira pesquisar sobre os documentos importantes para a história do Brasil presentes no arquivo, você também pode fazer um cadastro gratuito no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN): http://sian.an.gov.br/sianex/consulta/pagina_ inicial.asp. DICAS UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 60 FIGURA 1 – CARTA DA LEI ÁUREA FONTE: <http://www.arquivonacional.gov.br/images/conteudo/artigos/lei-aurea.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. O historiador Carlos Bacellar (2006, p. 72) ainda nos apresenta uma série de dicas para o trabalho com documentos de um Arquivo Histórico: • Conhecer a origem dos documentos (estudar o funcionamento da máquina administrativa para entender o contexto de produção dos documentos). • Descobrir onde se encontram os papéis que podem ser úteis para a pesquisa. • Preparar-se para enfrentar as condições de trabalho do arquivo escolhido. • Localizar as fontes no arquivo com base em instrumentos de pesquisa e investigações adicionais, munido de muita paciência. • Usar luvas, máscaras e avental no contato direto com os documentos. • Manusear os papéis com cuidado, respeitando seus limites. Trabalhar com lupa de aumento e régua leve. Colocar sob o documento frágil uma folha de papel sulfite. • Manter os documentos guardados na ordem encontrada. Assim como os Arquivos Históricos, as bibliotecas são também locais de fundamental importância para os historiadores. Estas existem desde a Antiguidade e atualmente armazenam, de maneira geral, livros indispensáveis para a pesquisa do historiador. TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR 61 Os historiadores que trabalham com fontes bibliográficas certamente lidam com livros que se encontram armazenados como cópias em bibliotecas e, por vezes, também conseguem entrar em contato com a versão original (de forma física ou digital) de sua fonte. Porém, além da fonte, o historiador também encontra na biblioteca outros autores que discutem seu tema de pesquisa. Estes autores auxiliam na pesquisa e podem auxiliar o trabalho fortalecendo-o, quando vai se encontro aos argumentos do autor, ou contrariando-o, assim o historiador pode entrar em confronto com a ideia de outros autores. Uma das bibliotecas mais famosas da Antiguidade é a Biblioteca de Alexandria. Quando pensamos em bibliotecas, o primeiro objeto que nos vem em mente é um livro. Porém, a Biblioteca de Alexandria não abrigava livros, os documentos eram armazenados em papiros. Estes eram utilizados para escrever, pois não existiam os papéis na época. Essa biblioteca fez com que a cidade de Alexandria fosse considerada “centro cultural do mundo” (MEY, 2004, p. 74). A Biblioteca de Alexandria foi um grande centro de pesquisa para diversos pesquisadores da Antiguidade. A tradição de utilizar a biblioteca como um centro de pesquisa perdurou na contemporaneidade. Hoje, os pesquisadores, incluindo os historiadores, também têm as bibliotecas como importantes locais de pesquisa. Uma das bibliotecas mais importantes do Brasil, que, assim como a Biblioteca de Alexandria, é um centro de pesquisa, é a Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia. A Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia é uma das bibliotecas mais importantes do nosso país. Ela foi fundada no ano de 1582 e abriga documentos muito importantes, como obras raras do Século XVI até o Século XIX. A biblioteca contém atualmente cerca de 13.000 mil volumes e 60 deles estão disponíveis on- line. FIGURA 2 – MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA FONTE: <https://www.revistaprosaversoearte.com/content/uploads/2016/12/Mosteiro- S%C3%A3o-Bento-Salvador-Bahia-696x464.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 62 Uma forma muito interessante de lidar com o passado é ter contato direto com as fontes. Mostrar fontes digitalizadas é uma forma muito interessante de trabalhar história em sala de aula. Caso você tenha interesse nas 60 obras disponíveis on-line do mosteiro, elas se encontram no seguinte link: http://saobento.org/livrosraros/?page_ id=14. Dentre elas temos a Bíblia Sacra Arábica, as Cartas selectas do Padre António Vieira e as Obras completas de Luís de Camões. DICAS Os museus também são fundamentais para o trabalho historiográfico. Na Antiguidade, o Mouseion era o templo das nove musas e os museus eram “locais reservados à contemplação e aos estudos científicos, literários e artísticos” (JULIÃO, 2001, p. 20). O termo volta a ser utilizado no Século XV, porém com uma finalidade diferente da Antiguidade grega. Nesse período, o homem vivia uma verdadeira revolução do olhar, resultado do espírito científico e humanista do Renascimento e da expansão marítima, que revelou à Europa um novo mundo. As coleções principescas, surgidas a partir do Século XIV, passaram a ser enriquecidas, ao longo dos Séculos XV e XVI, de objetos e obras de arte da antiguidade, de tesouros e curiosidades provenientes da América e da Ásia e da produção de artistas da época, financiados pelas famílias nobres. Além das coleções principescas, símbolos de poderio econômico e político, também proliferaram nesse períodoos Gabinetes de Curiosidades e as coleções científicas, muitas chamadas de museus (JULIÃO, 2001, p. 20). Um dos museus mais significativos para a história do Brasil foi o Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro. O edifício que abrigava o museu era o Palácio de São Cristóvão e foi residência da família real. O museu completou 200 anos em 2018 e nele havia a maior coleção egípcia da América Latina. Neste mesmo ano o museu foi destruído por um incêndio e a maioria dos itens foi destruído. FIGURA 3 – MUSEU NACIONAL ANTES DO INCÊNDIO FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/ab/Pal%C3%A1cio_ de_S%C3%A3o_Crist%C3%B3v%C3%A3o.jpg/270px-Pal%C3%A1cio_de_S%C3%A3o_ Crist%C3%B3v%C3%A3o.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR 63 É neste museu que se localizava Luzia, o fóssil mais antigo encontrado no Brasil. Seu esqueleto foi datado de 11,5 mil anos e nos faz refletir sobre a história do nosso país. FIGURA 4 – RECONSTITUIÇÃO DO ROSTO DE LUZIA FONTE: <http://www.museunacional.ufrj.br/guiaMN/Guia/paginas/2/luzia5.JPGhttp://www. museunacional.ufrj.br/guiaMN/Guia/paginas/2/luzia5.JPGhttp://www.museunacional.ufrj.br/ guiaMN/Guia/paginas/2/luzia5.JPG>. Acesso em: 16 abr. 2020. Uma forma muito dinâmica de aprender com a história é visitando museus, porém nem sempre é possível se deslocar até eles. Uma forma interativa de conhecê-los é com uma visita on-line. Os grandes museus ao redor do mundo, inclusive o Museu do Louvre, já nos oferece essa possibilidade. Dentre os museus que nos oferecem uma visita interativa temos o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Portugal (https:// www.museus.ulisboa.pt/pt-pt/visita-virtual). Também é possível visitar diversos museus brasileiros, assim como exposições temporárias e patrimônios culturais, no link a seguir: http://eravirtual.org/visitas-virtuais/. Dentre os museus que são possíveis as visitações temos o Museu da Memória Republicana, o Museu Imperial e o Museu da Inconfidência. DICAS Os Arquivos Históricos, as bibliotecas e os museus são locais de pesquisa do historiador. Porém, devemos relembrar que o objeto de estudo do historiador pode ser qualquer vestígio dos seres humanos no tempo. Isso significa que qualquer objeto que foi modificado ou criado pelos homens é passível de estudo pelos historiadores. Sendo assim, podemos estudar objetos que se localizam em vários ambientes, como coleções privadas, sítios arqueológicos e monumentos localizados em locais públicos. UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 64 DOCUMENTO/MONUMENTO JACQUES LE GOFF O SÉCULO XX: DO TRIUNFO DO DOCUMENTO À REVOLUÇÃO DOCUMENTAL Com a escola positivista, o documento triunfa. O seu triunfo, como bem o exprimiu Fustel de Coulanges, coincide com o do texto. A partir de então, todo o historiador que trate de historiografia ou do ofício de historiador recordará que é indispensável o recurso ao documento. No prefácio à obra coletiva L'histoire et ses méthodes, Samaran [1961], enunciando os princípios do método histórico, afirma: “Não há história sem documentos”. No curso da Sorbonne, de 1945/46, sobre a historiografia moderna (retomado na obra póstuma La naissance de l'historiographie moderne), Lefebvre também afirmava: Não há relato histórico sem documentos; e precisava: Pois se dos factos históricos não foram registados documentos, ou gravados ou escritos, aqueles factos perderam-se (1971). Todavia, se a conceito de documento não se modificava, o seu conteúdo enriquecia-se e ampliava-se. À partida, o documento era sobretudo um texto. No entanto, o próprio Fustel de Coulanges sentia o limite desta definição. Numa lição pronunciada em 1862 na Universidade de Estrasburgo, declararia: Onde há história, faltam os monumentos escritos, é necessário que ela exigia das línguas mortas os seus segredos. Deve examinar as fábulas, os mitos, os sonhos da fantasia. Onde o homem passou, onde deixou qualquer marca da sua vida e da sua inteligência, aí está a história (ed. 1901). Os fundadores da revista Annales d'histoire économique et sociale (1929), pioneiros de uma nova história, insistiram sobre a necessidade de alargar a noção de documento: A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo o que a inventiva do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, na falta das flores apropriadas. Logo, com palavras. Marcas. Paisagens e telhas. Com as formas do campo e das ervas. Com os eclipses da Lua e os arreios dos cavalos de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos geólogos e com as análises de metais feitas pelos químicos. Numa palavra, com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a actividade, os gostos e as maneiras de ser do homem. Toda uma parte, e sem dúvida a mais apaixonante do nosso trabalho de historiadores, não consistirá num esforço constante para fazer falar as TÓPICO 1 | AS FERRAMENTAS DO HISTORIADOR 65 coisas mudas, para fazê-las dizer o que elas por si próprias não dizem sobre os homens, sobre as sociedades que as produziram, e para constituir, finalmente, entre elas, aquela vasta rede de solidariedade e de entreajuda que supre a ausência do documento escrito? (FEBVRE, 1949). Por seu lado, Bloch, na Apologie pour l'histoire ou métier d'historien (1941/42) Seria uma grande ilusão imaginar que a cada problema histórico corresponde um tipo único de documentos, especializado para esse uso. Que historiador das religiões se contentaria em consultar os tratados de teologia ou as recolhas de hinos? Ele sabe bem que sobre as crenças e as sensibilidades mortas, as imagens pintadas ou esculpidas nas paredes dos santuários, a disposição e o mobiliário das tumbas, têm pelo menos tanto para lhe dizer quanto muitos escritos. Por isso, Samaran desenvolve a afirmação acima citada: Não há história sem documentos com esta precisão: A palavra documento deve ser entendida no sentido mais amplo – documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, pela imagem, ou de qualquer outro modo (1961). Mas este alargamento do conteúdo do termo documento foi apenas uma etapa para a explosão do documento que se produz a partir dos anos 60 e que levou a uma verdadeira revolução documentária (cf. GLÉNISSON, 1977). É uma revolução, ao mesmo tempo, quantitativa e qualitativa. O interesse da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente sobre os grandes homens, os acontecimentos, a história que avança depressa, a história política, diplomática, militar. Interessa-se agora por todos os homens, suscita uma nova hierarquia mais ou menos implícita dos documentos; por exemplo, coloca em primeiro plano, para a história moderna, o registro paroquial que conserva para a memória todos os homens (cf. a utilização de documento de base que, de um modo pioneiro, lhe deu Goubert, 1960, e o valor científico que lhe foi reconhecido por Chaunu, 1974). O registro paroquial, em que estão assinalados, paróquia a paróquia, os nascimentos, os matrimônios e as mortes, representa o ingresso na história das massas dormentes e inaugura a era da documentação de massa. Mas esta dilatação da memória histórica teria, certamente, ficado no estado de intenção, de coragem individual de qualquer historiador que reunisse capacidade de trabalho e espírito inovador no interior do tratamento artesanal tradicional do documento, se quase ao mesmo tempo não se tivesse produzido uma revolução tecnológica, a do computador. Da confluência das duas revoluções nasce a história quantitativa, que repõe em discussão a noção de documento e o seu tratamento. Desejada em primeiro lugar pelos historiadores da economia, obrigados a tomar como documentos de base séries de verbas ou de dados numéricos (cf. Marczewski, UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 66 1961), introduzida depoisna arqueologia (cf. GARDIN, 1971) e na história da cultura (cf., por exemplo, Furet e Ozouf, 1977), a história quantitativa altera o estatuto do documento. O documento, o dado, já não existem por si próprios, mas em relação com a série que os precede e os segue, é o seu valor relativo que se torna objetivo e não a sua relação com uma inapreensível entidade ‘real’ (FURET, 1974). A intervenção do computador permite uma nova periodização na memória histórica: produz-se, a partir de então, um corte fundamental no momento em que se podem formar séries (sobre a história serial entre os seus numerosos escritos, cf. Chaunu, 1972); tem-se, doravante, uma idade pré-estatística e uma idade quantitativa. Mas é necessário observar que, se este corte corresponde a um grau de diferença das sociedades históricas em relação ao levantamento estatístico – indiferença ou desconfiança em relação ao número, por um lado, atenção sempre maior e mais precisa, por outro, a história quantitativa, como o demonstra a arqueologia, pode transpor alegremente esta fronteira histórica. Porque a história quantitativa não é nem uma revolução puramente tecnológica, nem a consequência da importância assumida pelo número na história. Não é imposta nem pelo computador nem pelo passado. Como observa Glénisson, no Século XIX, no início estava o documento; hoje, no início está o problema. É uma revolução da consciência historiográfica (FURET, 1974). A revolução documentária tende também a promover uma nova unidade de informação: em lugar do facto que conduz ao acontecimento e a uma história linear, a uma memória progressiva, ela privilegia o dado, que leva à série e a uma história descontínua. Tornam-se necessários novos arquivos, onde o primeiro lugar é ocupado pelo corpus, a fita magnética. A memória coletiva valoriza-se, organiza-se em patrimônio cultural. O novo documento é armazenado e manejado nos bancos de dados. Surge uma nova ciência que balbucia ainda e que deve responder simultaneamente às exigências do computador e à crítica da sua sempre crescente influência sobre a memória coletiva. FONTE: LE GOFF, J. Documento/Monumento. In: História e Memória – II Volume. Lisboa: Edições 70, 1982. p. 106-109. 67 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • A definição de Fontes Históricas mudou com o tempo. • A função do historiador em locais como Arquivos Históricos, museus e bibliotecas é ver estes locais de forma desnaturalizada. • As Fontes Históricas são quaisquer vestígios do passado humano que são estudados em um trabalho de História. 68 AUTOATIVIDADE 1 Neste tópico, trabalhamos com o conceito de fontes históricas. A partir das informações sobre o tema, é certo afirmar que: I- O conceito de fontes históricas não mudou ao longo do tempo. II- A autenticidade de um documento não é mais um fator indispensável para considerá-lo uma Fonte Histórica. III- Quaisquer vestígios do passado humano podem ser estudados em trabalhos de história. IV- Músicas não podem ser estudadas como Fontes Históricas. Estão CORRETAS: a) ( ) Apenas as afirmativas II e III. b) ( ) Apenas as afirmativas I, III e IV. c) ( ) Apenas as afirmativas III e IV. d) ( ) Apenas as afirmativas I e II . e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 Karnal e Tatsch (2009, p. 24), em uma definição acerca do documento histórico, afirmam que: “em síntese, documento histórico é qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a partir do presente e estabelecendo diálogos entre a subjetividade atual e a subjetividade pretérita. Levando-se em conta tudo o que foi dito antes, seria importante ressaltar que, atrás de cada documento conservado, há milhares destruídos. Podemos supor que o grande limite da função do historiador seja o limite do documento. Dócil ao arbítrio quase absoluto, o documento é, igualmente, senhor de quem o quer submeter”. FONTE: KARNAL, L.; TATSCH, F. G. A memória evanescente. In.: PINSKY, C. B.; LUCA, T. R. de. O Historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. Com base na afirmativa acima e no Tópico 1, assinale a alternativa CORRETA: ( ) Documentos históricos que pertencem a coleções privadas não podem ser estudados por historiadores. ( ) Tragédias como o incêndio do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, destroem inúmeros documentos históricos e causam danos irreparáveis ao trabalho do historiador. ( ) Os museus são locais fundamentais para o trabalho do historiador. Eles ainda têm a mesma função que tinham na Antiguidade. ( ) O documento é dispensável ao trabalho do historiador, sendo assim, a possibilidade de consultar acervos de arquivos, bibliotecas e museus de forma on-line não facilitou as possibilidades de pesquisa dos historiadores. 69 TÓPICO 2 AS FONTES TRADICIONAIS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico você aprenderá sobre dois tipos de fontes fundamentais para o campo histórico. O primeiro é acerca a fonte escrita. Evidenciaremos, a partir dela, a importância de se atentar a ortografia, a gramática e o contexto deste tipo de documento, bem como a relevância da Paleografia ao lidar com este tipo de Fonte Histórica. Também mencionaremos a importância de uma Análise do Discurso a partir destas fontes e a importância do historiador em analisar o intratexto e o intertexto. O segundo tipo de fontes analisado neste tópico é o das fontes arqueológicas. Essas fontes se encontram, de maneira geral, no período em que denominamos como Pré-História. Elas foram inicialmente estudadas por profissionais de outras áreas, como arqueólogos. Os historiadores contemporâneos se beneficiam do trabalho de outros especialistas para lidar com este tipo de material. Com essas breves explanações acerca do tópico, convidamos você, leitor, a leitura deste tópico. Esperamos que os próximos parágrafos lhe ajudem a expandir os seus conhecimentos acerca das fontes históricas. 2 FONTES ESCRITAS Um tipo de fonte muito comum no trabalho do historiador é a fonte escrita. No Século XIX as fontes escritas eram consideradas praticamente como as únicas fontes históricas possíveis para o trabalho do historiador. São inúmeras as formas que elas podem se apresentar. Esses documentos podem estar, por exemplo, em forma de jornais, livros e cartas. Nossa intenção com esse tópico é apresentar algumas considerações especiais com este tipo de fonte. Um dos cuidados que devemos ter ao lidar com fontes escritas é referente a ortografia e a gramática, pois ambas estão em constante mudanças (BACELLAR, 2006). Ao estudar o passado nota-se que a língua mudou e, com isso, a forma com que escrevemos e nos comunicamos. Por isso, é de suma importância estar familiarizado com as peculiaridades da escrita do período estudado, a fim de evitar erros na compreensão das fontes. Outro aspecto muito importante em relação a fonte, que envolve os documentos antigos e os documentos escritos à mão, é a leitura paleográfica. UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 70 A Paleografia é o estudo dedicado à leitura de textos antigos e suas transcrições, como podemos perceber mais detalhadamente a seguir: A Paleografia é apresentada geralmente como o estudo técnico dos textos antigos, na sua forma exterior, que compreende o conhecimento dos materiais e dos instrumentos para escrever, a história da escrita e a evolução das letras, objetivando sua leitura e transcrição. […] entretanto é bom ressaltar que também faz parte da Paleografia o estudo da arte de escrever, envolvendo o conhecimento dos materiais como papiro, pergaminho, papel, dos instrumentos usados para escrever como cálamo, estilete, pena, das variações das tintas, das estruturas próprias das chancelarias e as tipicidades do Scriptorium medieval. A história da escrita e da evolução das letras também participa deste universo de conhecimentos, pois é imprescindível para a Paleografia e, em especial, para o entendimento de escritas passadas esua consequente leitura (LEAL, 1994, p. 7). Os estudos de paleografia abarcam as preocupações que concernem a quem lida com documentos escritos à mão. É necessário, neste estudo, saber lidar com a caligrafia do documento estudado, bem como ter conhecimento “dos vícios de escrita, dos erros de ortografia, ou da grafia diferenciada em relação ao português moderno” (BACELLAR, 2006, p. 59). Uma última preocupação em relação a esses documentos é a sua transcrição. Como o documento pode ser utilizado por outros pesquisadores, é fundamental manter o documento fiel ao original. Porém, há também a opção de adaptar o texto a gramática contemporânea. Ao transcrever um texto, é essencial seguir as Normas Técnicas para transcrição e edição de documentos manuscritos (BACELLAR, 2006). Para o auxílio da leitura de um documento paleográfico ou de uma transcrição paleográfica, recomendamos o Glossário de Paleografia de João Euripedes Gualandi Franklin Leal e o dicionário Abreviaturas: manuscritos dos Séculos XVI ao XIX de Maria Helena Ochi Flexor. DICAS Uma outra observação acerca da fonte histórica estudada é um critério básico em qualquer pesquisa de história: o contexto. É também muito importante para o historiador entender o contexto em que a obra foi produzida, pois esta implica diretamente nas declarações que constam nela. “Uma carta pastoral de um bispo, por exemplo, é a opinião do próprio autor, mas profundamente inserido em um panorama ideológico da Igreja daquele momento e daquele local” (BACELLAR, 2006, p. 63). TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS 71 Outra questão muito importante a se atentar são os termos utilizados em um certo período. O significado deles pode não condizer com o significado atual e, assim, sem o devido cuidado, podemos agir de maneira anacrônica. O historiador Carlos Bacellar nos relata um exemplo de uma das suas dificuldades com os seus documentos: Declarações de que um indivíduo “é lavrador” não podem ser automaticamente tomadas como indício seguro de que este era um proprietário de terras. Muito pelo contrário, tal indivíduo podia pura e simplesmente estar trabalhando em terras alheias, a favor, como agregado, e nada mais. Em certa ocasião, trabalhando com listas nominativas de habitantes para a vila de Sorocaba, encontrei uma declaração muito interessante, de um domicílio a cujo chefe era atribuído possuir um sítio, com uma casa, mas “sem terras”. Como interpretar semelhante declaração, aparentemente contraditória? No caso específico, “sítio” não tem o significado que recebe na atualidade, mas queria dizer que o indivíduo possuía uma área cultivada em dado lugar, onde também construíra sua casinha, mas que não tinha terras, isto é, a terra não lhe pertencia, era de terceiros. As palavras podem trair o pesquisador descuidado (BACELLAR, 2006, p. 64). É importante que o historiador, ao lançar os olhos as fontes, possua um olhar crítico. Os documentos do passado não foram escritos pensando nos historiadores, “mas sim para atender a necessidades específicas do momento” (BACELLAR, 2006, p. 69). Ao estudarmos fontes escritas é muito importante atentar-se as contribuições que o campo da História do Discurso faz para a área. Um grande auxílio para deste campo para as análises do historiador é referente a semiótica. Barros (2004, p. 135) anuncia que, ao abordar um texto de forma qualitativa, pode-se fazer, a partir da análise semiótica, análises do texto para além do que o próprio autor pretendia dizer: Quando alguém utiliza determinadas expressões e palavras, já está dizendo algo ao bom analista de textos, independentemente dos sentidos que ele pretende atribuir às palavras. A presença de certas imagens em um discurso, a recorrência de determinadas palavras, a maneira de organizar uma narrativa, as referências intertextuais (a outros textos) – sejam estas voluntárias, explícitas, implícitas ou involuntárias – tudo isso fala por si mesmo independente do ser falante que pronuncia o discurso. Barros ainda afirma que o texto é, ao mesmo tempo, objeto de significação e o objeto de comunicação. O objeto de significação envolve duas dimensões: o intratexto e o intertexto. “O ‘intratexto’ corresponde aos aspectos internos do texto e implica exclusivamente na avaliação do texto como objeto de significação; o ‘intertexto’ refere-se ao relacionamento de um texto com outros textos” (BARROS, 2004, p. 137). Já o objeto de comunicação envolve a dimensão do contexto, sendo que “o contexto corresponde à relação do texto com a realidade que o produziu e que o envolve” (BARROS, 2004, p. 137). O historiador ainda defende a utilização destas três dimensões em um trabalho historiográfico, a fim de se realizar uma análise textual com mais profundidade. UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 72 São várias as áreas que contribuíram para que os historiadores pudessem aprofundar os estudos acerca do discurso. “A Psicanálise, a Linguística, a Semiótica e as teorias da Comunicação revolucionaram as possibilidades de Interpretar um texto” (BARROS, 2004, p. 140). Um importante intelectual para os estudos de discurso é o filósofo francês Michel Foucault. A partir de seus estudos de Análise do Discurso o filósofo entende que “não é a própria sociedade que constitui a realidade a ser estudada, mas sim os discursos que ela produz, ou então as suas práticas” (BARROS, 2004, p. 141). Barros nos ajuda a compreender melhor o estudo de Foucault com um exemplo: Quando o historiador estuda a Roma Antiga, na verdade está estudando o que nos dizem as fontes a respeito da Roma Antiga. Dito de outra forma, está estudando neste caso discursos sobre a Roma Antiga. E estará estudando mais especificamente aqueles documentos da Roma Antiga que chegaram ao nosso tempo, e na verdade aqueles documentos, dentre estes, que o historiador resolveu constituir como fontes históricas (BARROS, 2004, p. 141). FIGURA 5 – MICHEL FOUCAULT FONTE: <https://revistacult.uol.com.br/home/wp-content/uploads/2010/03/foucault.png>. Acesso em: 16 abr. 2020. Foucault também propõe uma revolução na História dos Discursos, afirmando que, por exemplo, o corpo, a economia e o estado também são discursos. E, com isso, também revoluciona a História Política com a discussão sobre o Poder. Ele defende que o poder está em toda parte (BARROS, 2004). O filósofo, ao realizar seus estudos sobre o Poder, analisa um arsenal rico de fontes, “das memórias dos desajustados (ou considerados desajustados pelos sistemas médicos e punitivos) até os diários de indivíduos anônimos, os registros criminais, as ordens de prisão, os relatórios médicos, sem desprezar uma documentação tradicional de sua época como os tratados políticos e científicos” (BARROS, 2004, p. 143). TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS 73 Para a compreensão da proposta de uma Microfísica do Poder recomendamos a leitura do livro Microfísica do Poder. O livro foi organizado por Roberto Machado e contém textos escritos por Michel Foucault que perpassam o tema. DICAS 3 FONTES ARQUEOLÓGICAS Um outro tipo de fonte muito comum aos historiadores da contemporaneidade são as fontes arqueológicas. Já no Século XIX, quando a história começou a ser considerada uma disciplina científica, os documentos escritos tinham uma grande importância, quase unânime, entre os historiadores. Enquanto os historiadores se dedicavam à História, outros profissionais estudavam o período que denominamos como Pré-História, por exemplo, arqueólogos, paleontólogos e geólogos. Ou seja, este período histórico não era objeto de estudo dos historiadores, mas de outros profissionais. Inclusive, “desde o início a Arqueologia foi assimilada à Pré-História” (FUNARI, 1998, p. 13). O período da Pré-História é muito importante para a discussão sobre as Fontes Arqueológicas. Quando encontramos a definição deste termo em livros didáticos, por exemplo, a Pré-História “é tratada como a antessala da História, sua introdução, e não como parte dela”(SILVA; SILVA, 2009, p. 342). O conceito de Pré-História foi cunhado no Século XIX, momento em que, como acabamos de ver, apenas fontes escritas eram consideradas história. A Pré-História terminaria com o “início da escrita”. Porém, essa periodização é problemática e já foi amplamente discutida pela comunidade historiográfica. O conceito foi cunhado a partir da ideia de que apenas as fontes escritas eram consideradas história, mas hoje já acreditamos nas imagens como produtoras de linguagem. Sendo assim, as pinturas e objetos rupestres já podem ser considerados objetos de pesquisa do historiador. Esse conceito, elaborado no Século XIX, tem, no entanto, dois sérios problemas. O primeiro é o fato de que a escrita não surgiu em todos os lugares ao mesmo tempo, o que torna essa divisão temporal bastante arbitrária. O segundo é o etnocentrismo resultante do ato de considerar apenas a escrita, um elemento cultural restrito a determinadas culturas, como o fator determinante de quem se situa na história e de quem se situa fora dela (SILVA; SILVA, 2009, p. 342). UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 74 FIGURA 6 – ARTE RUPESTRE SITUADA NA SERRA DA CAPIVARA FONTE: <https://guiaviajarmelhor.com.br/wp-content/uploads/2015/06/Serra-Capivara-Piaui-7- 1024x683.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. Com a mudança da definição de Fonte História e a ressignificação do que consideramos como Pré-História, as fontes desse período passam a ser contempladas por historiadores. As fontes arqueológicas foram tradicionalmente estudadas por outros profissionais. Hoje os historiadores se beneficiam do trabalho de outros especialistas e podem, de forma interdisciplinar, trabalhar com esse tipo de material. Nós, historiadores contemporâneos, lidamos com um leque diverso de fontes. Quanto mais fontes estiverem presentes em uma pesquisa histórica, menor será o risco de cometer erros. A Arqueologia, quando surge, intenta “complementar as informações existentes com evidências materiais sem escrita” (FUNARI, 2006, p. 84). Segundo Pereira Junior (1967), o termo Arqueologia deriva do grego sendo archaios antigo e logos ciência, para ele “a arqueologia é a ciência que tem por atribuição principal procurar reconstituir culturas, civilizações, a vida enfim” (PEREIRA JUNIOR, 1967, p.11). O arqueólogo “recolhe no campo um sem número de restos de civilizações passadas os estuda, coloca em ordem, e tem uma visão do que foi uma cultura antiga” (BERNAL, 1952 apud PEREIRA JUNIOR, 1967, p. 14). Não há, ainda exagero na afirmação de que uma grande parte da história da humanidade só pode ser devidamente estudada se contar também com informações obtidas em pesquisas arqueológicas, pois, mesmo se tratando de períodos em que a história fundamenta suas asserções em documentação escrita a arqueologia pode oferecer subsídios de valor, melhor delineando aspectos ou eliminando lacunas (PEREIRA JUNIOR, 1967, p. 11). Segundo Funari, dos materiais arqueológicos que começaram a vir à luz no Século XIX, os que continuaram a ser valorizados foram as inscrições. “Muitas civilizações utilizaram-se de inscrições em pedra, que se conservam arqueologicamente muito bem, mas também em outros suportes duráveis, como cerâmica, tijolos, telhas, estelas, sarcófagos” (FUNARI, 2006, p. 88). Porém, TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS 75 os historiadores na atualidade não precisam, necessariamente, estudar uma fonte arqueológica vinculada a um documento histórico escrito. Como viemos reforçando, quando estudamos um fato e um período histórico, devemos, na medida do possível, aliar o máximo de historiografia e de documentos históricos ao nosso trabalho, a fim de evitar equívocos. Porém, quando existem apenas fontes arqueológicas acerca de um período, ainda é possível estudá-lo. Um exemplo de fonte arqueológica que podemos estudar são os tabletes cuneiformes da cidade de Ukuk. Uruk foi uma cidade da antiguidade, localizada na Mesopotâmia. É sobre essa cidade que trata um dos contos mais antigo, talvez o mais antigo, da literatura mundial, a Epopeia de Gilgamesh, uma epopeia que relata os feitos históricos do governante sumério Gilgamesh. Essa narrativa foi transmitida por muito tempo de forma oral e, apenas no Século VII a.C. ela ganha uma forma escrita (Uruk dá o nome de um arco cronológico de 4 a 3 mil anos a.C.). Esta história foi encontrada em mais de uma cidade e também em mais de um idioma, porém, a versão mais completa estava na biblioteca do rei assírio Assurbanipal. Essa epopeia foi descoberta durante escavações entre 1849 e 1853 (CONTADOR; CRESCÊNCIO; SANTOS, 2012). FIGURA 7 – TABLET DA EPOPÉIA DE GILGAMESH ESCRITA EM CUNEIFORME FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Epopeia_de_Gilgamesh#/media/File:Tablet_V_of_the_ Epic_of_Gilgamesh.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. Apenas a Epopeia de Gilgamesch já é um documento riquíssimo para compreendermos melhor como funcionava a vida, a sociedade e a cultura desta cidade Mesopotâmia, bem como o que era importante para essa sociedade. Porém, “foi encontrada e escavada pelo arqueólogo William Loftus e sua equipe entre 1850 e 1854” (CONTADOR; CRESCÊNCIO; SANTOS, 2012, p. 116). Com a descoberta da cidade, logo após a descoberta da Epopeia, pode-se comparar a escrita dos tablets com o sítio arqueológico e conhecer a cidade de Uruk de forma muito mais complexa, para além da narrativa literária. UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 76 FIGURA 8 – SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE URUK NO IRAQUE FONTE: <https://ogimg.infoglobo.com.br/in/8358040-c5f-8ca/FT1086A/652/x2013-611608692- 2013050936724.jpg_20130509.jpg.pagespeed.ic.w-KTz1gz4H.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. A Epopéia de Gilgamesh foi encontrada durante escavações realizadas por arqueólogos como Austen Henry Layard e Hormuzd Rassam, entre 1849 e 1853. Esta descoberta causou um grande impacto na época, pois, além de abordar temas relacionados com a criação do mundo, a cidade de Uruk, o cotidiano e as crenças da sociedade suméria, o documento também menciona um relato acerca do dilúvio semelhante ao Livro de Gênesis, porém escrito muito antes do texto bíblico. Isto provocou um furor não só entre os arqueólogos, mas em vários seguimentos da sociedade. Muito se discutiu sobre a veracidade do texto bíblico a partir das comparações entre os dois relatos e isto aumentou o interesse na obra e em novas possíveis descobertas, o que facilitou o financiamento de mais expedições e acabou por se tornar um momento significativo na história da Arqueologia (CONTADOR; CRESCÊNCIO; SANTOS, 2012, p. 119). A descoberta da epopeia e do sítio arqueológico, contemporâneas, não foram apenas proveitosas para aprendermos mais sobre a história de Uruk, esta descoberta causou questionamentos sobre temas presentes na bíblia. A comparação entre esses dois tipos de fontes nos fez questionar e comparar as características das duas fontes e conseguir ter um grau maior de precisão acerca da cidade de Uruk. Como podemos ver, a partir de escavações arqueológicas que tomamos conhecimento da Epopeia de Gilgamesh, bem como do sítio arqueológico da cidade de Uruk. Hoje a Epopeia é uma das obras literária mais importante da história mundial graças a escavações arqueológicas. O arqueólogo Pedro Paulo Funari (2006, p. 108) ainda nos apresenta uma série de dicas para o trabalho com as fontes arqueológicas: • Buscar ferramentas interpretativas. • Estudar as informações já registradas sobre a sociedade analisada. • Abordar as fontes arqueológicas tendo em vista a possibilidade do paralelo etnográfico. • Estudar os indícios materiais e os textos em conjunto. • Estar atento às diferenças e contradições entre as fontes arqueológicas, escritas e outras. • Explorar também as fontes arqueológicas referentes aos segmentos sociais pouco presentes nas fontes escritas. TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS 77 • Atentar para os indícios de conflitos e tensões sociais presentes nas fontes arqueológicas. • Fichar o conteúdo das fontesarqueológicas em separado, com procedimentos próprios. A LEITURA CRÍTICA DO DOCUMENTO Eni de mesquita Samara Ismênia Silveira Tupy A análise do documento: crítica interna e externa da fonte Ao associar o documento histórico à escrita ou à representação gráfica da linguagem falada, o historiador deve ter em mente que essa é apenas uma das inúmeras formas possíveis de expressão ou de comunicação social. Quer seja registrando fatos, narrando acontecimentos relativos aos diversos agrupamentos humanos ou, ao menos, impressões e sentimentos de uma determinada pessoa, entre inúmeros outros exemplos de registros escritos, um estudioso deve destacar o óbvio: a escrita possibilita não apenas a elaboração de um texto, mas também a transmissão de mensagens entre quem escreve e quem o lê e/ou o interpreta. E, além disso, o texto produzido exige, evidentemente, um suporte físico para se materializar. Estudado em sua dimensão material, é possível determinar quais são as formas/tamanhos que um registro escrito pode assumir; os elementos (naturais ou não) utilizados na sua confecção; as técnicas empregadas na sua fabricação, dando conta, portanto, de sua dimensão material. Do papiro ao papel, dos códices ao livro impresso, chegando aos softwares ou processadores de texto de vida útil ainda indeterminada, dos primitivos instrumentos de escrita aos sofisticados e disponíveis meios de impressão eletrônica; são inúmeros os materiais e os suportes físicos associados a um texto escrito (tabuinhas de argila, tecidos, conchas, cerâmicas, marfim, folhas de palmeira etc.). Se, por não conterem aditivos químicos, os papiros podem chegar a obter uma durabilidade milenar, o mesmo não pode ser dito de outros materiais dos quais os textos são produzidos. Daí a importância de sua conservação apropriada e a existência, entre alguns historiadores, de certa “nostalgia” pelas informações perdidas, e o reconhecimento de que a perda do documento implica destruição de informações únicas sobre o passado. Independentemente da durabilidade do texto escrito, convém lembrar que são, porém, apenas duas formas de registro da escrita: a manuscrita e a impressa. Entre essas duas, a invenção da imprensa e a divulgação de livros e/ou textos impressos vinham se constituindo, nos antigos manuais sobre o trabalho do historiador, em uma espécie de divisor de águas. De fato, se a leitura de textos antigos manuscritos exigiria do pesquisador a realização de estudos especiais de paleografia, a palavra impressa, por sua vez, permitiria uma aproximação mais fidedigna das mensagens que registra. UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 78 Verifica-se, assim, uma das possíveis armadilhas em que pode incorrer o historiador: independentemente da forma como a palavra escrita é registrada, não é possível esquecer que um texto, primeiro e antes de tudo, é a representação física da linguagem. Ora, enquanto veículo de ideias e informações, a linguagem escrita traduz um universo simbólico – uma dimensão abstrata – que abarca signos, símbolos, conteúdos, mensagens, sentidos, construção argumentativa, entre outros pressupostos. Sua decodificação impõe, ainda, o conhecimento do contexto muito preciso que o produziu ou fez existir; demanda, portanto, um trabalho de especialistas ou a crítica da erudição. Logo, identificar com precisão a simbologia contida em um texto escrito implica, em um primeiro momento, estabelecer o contexto histórico do documento, não apenas definindo as relações entre seus conteúdos e a época em que o mesmo foi produzido, como também reconhecendo os seus autores. Da maior precisão na identificação de autoria, conteúdos e época dependem maior e menor grau de apropriação de sua mensagem pelos seus leitores. Vale ressaltar que, como afirma Belo, enquanto a escrita é a atividade produtora de sentido que os historiadores, mais utilizam como fonte, a leitura – sendo ela também produtora de sentidos -, embora deixe poucas marcas nas fontes, nem por isso se constitui em um exercício inócuo realizado pelo leitor. Na decodificação da mensagem transmitida pelo registro histórico escrito, convém lembrar que a comunicação de uma mensagem, agora como no passado e como em qualquer outro processo, requer alguns elementos apresentados em uma determinada ordem. O primeiro deles é que haja um emissor ou emitente, que é quem detêm ou detinha a informação a ser transmitida. Cabe ao emissor transformar a ideia original em mensagem a ser comunicada. A mensagem, por sua vez, precisa ser codificada de tal forma para que, quem a receba, possa decodificá-la ou entender seu significado. Os códigos utilizados pelo emissor são associados ao domínio dos sentidos, isto é, a identificação visual (a palavra ou o desenho), sonora (a música e a conversa), tátil (método Braille), olfativa e gustativa. O quarto elemento é sempre o meio ou a condição física para a transmissão da mensagem: desenhos rupestres, documentos, jornais, revistas, televisão, cinema, por exemplo. Vale enfatizar, aqui, que uma mensagem tanto pode ser transmitida por palavras quanto por uma ou mais imagens, ou por uma associação entre dois ou mais tipos de códigos. O passo seguinte é a identificação do receptor, isto é, daquele a quem a transmissão da ideia original se destina. E a este, cabe decodificar a mensagem da forma mais próxima do pensamento original que o emissor pretendeu transmitir. Um alerta torna-se aqui necessário quanto aos ruídos que possam comprometer a compreensão da ideia transmitida e analisada nos estudos históricos: o anacronismo. A leitura ou a interpretação de mensagens do passado com os olhos do presente podem levar um pesquisador a comprometer os resultados de todo o seu trabalho. Ao historiador, cabe realizar uma análise das informações obtidas sem atribuir a elas valores próprios de uma época ou de uma sociedade distintas. TÓPICO 2 | AS FONTES TRADICIONAIS 79 [...] a análise de textos em pesquisa histórica é o de que um documento é sempre portador de um discurso que, assim considerado, não pode ser visto como algo transparente. Como sugere os parâmetros curriculares nacionais, cabe ao leitor do texto, quer seja ele um pesquisador sênior ou um iniciante, um professor de História ou um estudante em qualquer nível de ensino, ou até mesmo um diletante, distinguir os contextos, as funções, os estilos, os argumentos, os pontos de vista e as intenções do autor. Ou, colocando de outra forma, compete ao estudioso da História realizar a leitura crítica interna ou externa do documento. Como quer Paiva, vale lembrar que a História é uma construção que não cessa, é uma perpétua gestação do presente para o passado; logo o documento não pode ser entendido com a realidade histórica em si, mas trazendo porções dessa realidade. Além disso, as fontes históricas são sempre lidas e exploradas com os filtros do presente, de acordo com os valores, as preocupações, os conflitos, os medos, os projetos e os gostos de cada observador. Em seguida, esse autor sugere as perguntas fundamentais que devem dar início a todo trabalho e a todas as reflexões: Quando? Onde? Quem? Para quem? Para quê? Por quê? Como? E, ainda, propõe questionamentos sobre os silêncios, as ausências e os vazios que sempre fazem parte do conjunto e que, por não serem tão facilmente detectáveis nas fontes, são, por vezes, ignorados.10 Também não cabe ao historiador recusar-se a admitir que, mesmo sendo um documento considerado “falso”, as informações que ele transmite podem ser de grande utilidade em seu trabalho. Se os estudos históricos dependem do trabalho com o documento, o progresso da História, por sua vez, depende da lógica da acumulação de conhecimentos do historiador e de seus instrumentos de trabalho: de repertórios de arquivos e de fontes; bibliografias gerais e especializadas; dicionários de época e atuais; editores de texto; bancos de dados, entre outras necessidades levantadas na relação entre o pesquisador e o objetoda pesquisa. A qualidade da produção histórica, por sua vez, não deriva, apenas, da pertinência das questões levantadas pelo historiador no trato do documento, pois seus questionamentos derivam do acúmulo de seus conhecimentos sobre o contexto histórico trabalhado. Será a legitimidade das respostas que ele encontra que afiançará a pertinência da documentação selecionada. Vale lembrar, ainda, que o estudo da História é uma atividade que não cessa. Da análise do tema selecionado ao confronto com obras de autores diversos que tratam de um mesmo assunto, observa-se o constante refazer das interpretações do passado. Nesse quadro, é que se insere a importância da historiografia – ou de estudo da História da própria História -, incluindo autores e/ou “escola”, bem como associando os resultados das pesquisas com o contexto histórico em que foram produzidos. O ofício do historiador, hoje UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS 80 como no passado, continua a demandar o aprendizado de todo um conjunto de operações especializadas – técnicas, métodos e diferentes instrumentos de trabalho – e, acima de tudo, o exercício da ética. FONTE: SAMARA, E. de M.; TUPY, I. S. S. T. História & documento e metodologia de pesquisa. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 120-125. 81 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Antes de trabalhar com uma fonte escrita é importante atentar a alguns pontos, como o a ortografia e a gramática da fonte. • O contexto de uma obra ajuda a entendê-la com maior profundidade. • A Paleografia é muito importante para quem lida com documentos escritos à mão. • A Análise do Discurso tem muitas contribuições para quem lida com fontes escritas, por exemplo: a análise do intratexto e do intertexto. • As fontes denominadas como pertencentes ao período da Pré-História eram inicialmente estudadas apenas por profissionais como arqueólogos, paleontólogos e geólogos. • Os historiadores se beneficiam, de maneira interdisciplinar, das fontes arqueológicas. • Quando um estudo histórico consegue ligar as fontes escritas as fontes arqueológicas, conseguimos um maior grau de veracidade acerca do tema estudado. 82 AUTOATIVIDADE 1 As fontes escritas são de grande importância para o trabalho historiográfico. A partir do que foi apresentado sobre elas no Tópico 2, pode-se afirmar que: I- A ortografia e a gramática de das fontes escritas não influenciam em sua análise. II- Paleografia é geralmente apresentada como estudo dedicado a leitura e transcrição de textos antigos. III- Dentre as contribuições da Análise do Discurso para as fontes escritas, temos o intertexto, ou seja, os aspectos internos de um texto. IV- Segundo Foucault, não é a sociedade que constitui a realidade a ser estudada, mas os seus discursos e suas práticas. Estão CORRETAS: a) ( ) Apenas as afirmativas I e III. b) ( ) Apenas as afirmativas I e IV. c) ( ) Apenas as afirmativas I, II e III. d) ( ) Apenas as afirmativas II, III e IV. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 2 Retome o conteúdo deste tópico atribuindo V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) A descoberta do sítio arqueológico de Uruk não contribuiu para os estudos sobre a história da cidade. ( ) Os historiadores da contemporaneidade, comparados aos do Século XIX, ampliaram o leque de fontes. Sendo assim, é possível trabalhar apenas com fontes arqueológicas e ter seu trabalho reconhecido. ( ) A descoberta do Sítio Arqueológico de Uruk contribuiu não apenas para a história suméria, mas causou discussões acerca do relato bíblico. ( ) Os historiadores do Século XIX, de maneira geral, prezavam pelas fontes escritas. Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – V– V – V. c) ( ) F – V – F – V. d) ( ) V – F – F – F. e) ( ) F – F – V – F. 83 TÓPICO 3 UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico, abordaremos sobre fontes que surgiram com as novas tecnologias, as fontes orais da contemporaneidade e as fontes audiovisuais. As fontes orais eram utilizadas os historiadores da Antiguidade e do Medievo, porém, elas passaram a ser desvalorizadas no campo da História. Com o advento da tecnologia, a partir do Século XX, e a criação dos gravadores os historiadores voltaram a utilizar fontes orais que eles mesmos criavam. Ao abordar as fontes orais, fazemos reflexões sobre como lidar com esses documentos. Mencionamos aqui a preparação de uma entrevista, a realização da entrevista e o seu tratamento. A segunda parte do tópico relatará sobre fontes audiovisuais. Com o surgimento de aparelhos digitais, aumentou-se o número de fontes com que o historiador pode trabalhar. Dentre elas, faremos considerações acerca das fontes produzidas pelo cinema, pela televisão, pelo vídeo independente e a música. Nossa intenção, ao tratar deste tema, é fornecer para o leitor critérios básicos para compreender e refletir acerca destas fontes. Feitos estes breves comentários sobre o tópico, convidamos você, leitor, a refletir sobre as fontes audiovisuais surgidas na modernidade. Esperamos que a leitura lhe ajude a compreender melhor a complexidade destas fontes históricas recentes. 2 FONTES ORAIS Um dos modos em que o historiador pode criar sua narrativa é a partir da fonte oral. Essas fontes são presentes no universo dos historiadores desde a Antiguidade. A História era escrita, entre os historiadores deste período, a partir de testemunhos orais. Os cronistas medievais também utilizavam a oralidade em seus trabalhos. Porém, os relatos orais foram sendo desvalorizados no campo da história com o passar do tempo (JOUTARD, 1993, p. 581). Há duas etapas na nossa história que enfraqueceram o relato oral: No Século XVII, a erudição beneditina moderna constituiu-se criticando as lendas orais sobre as origens de Roma transmitidas por 84 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS Tito Lívio ou as dos Hagiógrafos medievais. No Século XIX, a história, assimilando as contribuições da erudição, define-se como ciência, apoiando-se exclusivamente no documento escrito, deixando-se o oral para as sociedades sem escrita – mundos extra europeus, por um lado, classes populares, por outro – e para as disciplinas que, por essa razão, tinham um estatuto inferior, a etnologia e ainda mais abaixo o folclore (JOUTARD, 1993, p. 581-582). As fontes orais do Século XX, a qual nos concentraremos neste tópico, são adventos da tecnologia, a partir do gravador foi possível produzir os depoimentos orais (SILVA; SILVA, 2009). A história oral da modernidade surge Estados Unidos, na década de 1930. Em 1948 é criado um centro de história oral na Universidade de Colúmbia. Na década de 1970 canadenses, ingleses e italianos se interessam pela história oral e, a partir da década de 1980, a Europa ocidental (JOUTARD, 1993). Os trabalhos com fontes orais no Brasil surgiram neste mesmo período. A História Oral no Brasil, apesar do pioneirismo da Fundação Getúlio Vargas – RJ, que já realizava projetos na área na década de 1970, apenas com o fim do governo militar começou a se desenvolver livremente. O interesse que o método oral tinha até então, como registro de evidências, começou a dar lugar à pesquisa com histórias de vida de pessoas comuns (SILVA; SILVA, 2009, p. 187). Entre as inúmeras contribuições que trabalhar com este tipo de fontes nos proporciona, Joutard nos mostra que temos cada vez mais razões para utilizar estes tipos de fonte. Ele nos deixa os questionamentos: “como apreender completamente a história da vida cotidiana ou a das técnicas sem a ajuda da investigação desse campo? […]. Como atingir as sensibilidades e as psicologias coletivas mediante unicamente o recurso ao texto, que racionaliza, ideologiza e forma, consciente ou não, um anteparo” (JOUTARD, 1993, p. 582-583). Ao trabalhar com os documentos orais, há uma série de cuidados com os quais o historiador devese atentar. Os documentos orais provêm da História Oral, está “subdivisão historiográfica refere-se a um tipo de fontes com o qual o historiador trabalha, a saber, os testemunhos orais (BARROS, 2004, p. 132). As fontes orais são colhidas em forma de depoimentos, a partir de entrevistas. É importante, ao lidar com esta fonte, tratá-la como um ponto de vista da história. Segundo Barros, assim como nas fontes escritas, estas fontes contêm espaços dissimulados “contornando silêncios e falseamentos, revelando segredos que o próprio autor do texto não pretendia revelar, mas que escapam através da linguagem, dos modos de expressão, da […] ‘intertextualidade’” (BARROS, 2004. p. 133). Ao trabalharmos com fontes orais, há uma série de critérios que devemos nos atentar. A historiadora Verena Alberti divide a produção das fontes orais em três etapas, as quais ela denomina: preparação da entrevista, realização e tratamento (ALBERTI, 2006). TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 85 A preparação da entrevista envolve alguns passos. Ao escrever o projeto, o pesquisador deve, a partir do tema, definir quem serão os possíveis entrevistados e o tipo de pesquisa que será realizada. As entrevistas diferenciam-se umas das outras e isso pode ocorrer por causa dos entrevistados, eles podem não estarem dispostos a realizar as entrevistas com profundidade. Também é na preparação da pesquisa que se define o número de entrevistados. O projeto pode optar apenas por um entrevistado, desde que esta fonte oral seja contraposta a outras fontes, porém, em uma pesquisa assim a História oral não é tomada enquanto metodologia principal do trabalho. Durante a preparação da entrevista não é possível precisar o número de entrevistados suficientes, porém, é possível estabelecer uma lista de entrevistados em potencial, definindo quais entrevistados são prioridades. Ainda sobre os entrevistados, deve-se definir se as entrevistas realizadas serão entrevistas temáticas ou histórias de vida. As primeiras se realizam a partir de um tema previamente escolhido e as segundas a partir da vida do entrevistado. A escolha entre ambos parte do objetivo da pesquisa. Porém, pode-se adotar ambas perspectivas. O projeto também deve conter o tema da entrevista e a questão que o tema busca. A partir do tema, elabora-se um roteiro geral de entrevista e os roteiros individuas de cada entrevistado. Os roteiros não devem ser questionários, mas abertos, as entrevistas podem se estender por mais sessões (ALBERTI, 2006). O próximo passo da pesquisa é a realização das entrevistas. Ao realizar uma entrevista é importante reservar um bom tempo para a entrevista. Diferente da entrevista jornalística a entrevista não deve ter um período limitado. O pesquisador deve adequar-se ao tempo do entrevistado. O pesquisador pode manter um caderno de campo paralelo as entrevistas, com dados para além dela que podem contribuir com a pesquisa. É importante que se façam perguntas abertas, que não são simplesmente respondidas com “sim” ou “não”, bem como perguntas simples e diretas, para não confundir nem induzir os candidatos. Se necessário, é possível mencionar fatos específicos para lembrar os entrevistados de possíveis acontecimentos. O entrevistador deve estar ciente que o entrevistado pode não seguir a ordem cronológica e que pode haver repetições durante a entrevista. Como o pesquisador produzirá uma fonte, é importante começar a entrevista com informações básicas, como o nome do entrevistador e do entrevistado, data, local e para qual projeto a entrevista será utilizada. O pesquisador não deve falar enquanto o entrevistado estiver falando, a fim de evitar falas sobrepostas. A última observação a se notar aqui é que, se a pesquisa for divulgada de forma pública, o entrevistador necessitará de um documento de cessão sobre os direitos da entrevista (ALBERTI, 2006). O último passo em relação às entrevistas é o tratamento delas. Se elas forem disponibilizadas ao público, é necessário decidir se isso ocorrerá por meio de áudio, vídeo ou forma escrita. Também deve-se produzir instrumentos de consulta, como sumários ou índices temáticos. É indispensável que a pesquisa seja duplicada, em uma cópia de segurança. Caso opte-se pela transcrição, estima-se no mínimo cinco horas de transcrição para uma hora de gravação. O texto deve ter uma conferência de fidelidade, bem com, se necessário, passar por um copidesque. E, ainda, caso a entrevista seja publicada, são necessárias notas explicativas acerca do conteúdo (ALBERTI, 2006). 86 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS A historiadora Verena Alberti elaborou alguns tópicos com dicas para refletir quando se trabalha com uma fonte oral e podemos acompanhá-los a seguir: • Ter bem claro porque, como e para que se fará uma pesquisa utilizando História oral. • Familiarizar-se com as discussões acadêmicas em torno do tema e da metodologia de História oral e levar em conta as reflexões dos estudiosos a respeito de: o evitar a polaridade simplificadora entre “memória oficial” e “memória dominada”; o considerar as condições de produção da fonte oral; o tomar a entrevista como resíduo de ação, além de relato de ação; o estar atento às determinações de uma visão retrospectiva sobre o passado. • Elaborar o projeto de pesquisa (explicitar claramente o tema de pesquisa e qual questão está sendo perseguida). • Estudar exaustivamente o assunto. • Definir que tipo de pessoa será entrevistada, quantos serão entrevistados e qual tipo de entrevista será realizada. • Elaborar uma listagem extensa e flexível dos entrevistados em potencial. • Contactar os entrevistados e providenciar todo o material necessário à realização da entrevista (equipamento técnico, documento de cessão de direitos). • Elaborar os roteiros das entrevistas (o roteiro geral e os roteiros individuais). • Contar com entrevistados de diferentes origens, assim como atuantes em diferentes papéis no universo estudado. • Reservar um tempo relativamente longo para a realização da entrevista. • Ao iniciar a gravação, gravar uma espécie de “cabeçalho” da entrevista, informando o nome do entrevistado, do entrevistador, a data, o local e o projeto no qual a entrevista se insere. • Usar, de preferência, perguntas abertas. • Ser simples e direto ao formular as perguntas. • Aproveitar outros recursos que estimulem o depoimento (fotografias, recortes de jornal, documentos, e menção a fatos específicos). • Reservar uma parte da entrevista para a discussão e a análise de alguns temas mais relevantes. • Avaliar e analisar constantemente a entrevista (enquanto é gravada e, mais tarde, quando é objeto de análise). • Decidir sobre quando encerrar a realização de entrevistas com base no avanço da investigação. • Duplicar a gravação. • Transcrever o material, se for necessário. • Produzir instrumentos de auxílio à consulta, como sumários e índices temáticos. • Ajustar a transcrição para a atividade de leitura. • Editar o texto, se for publicado. TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 87 • Analisar os depoimentos levando em conta as seguintes sugestões: o fazer a “crítica ao documento”; o lidar com recuos e avanços no tempo; o refletir sobre a parcimônia do discurso dos entrevistados, se for o caso; o estar atento às repetições como uma possível fonte de informações importantes; o “ouvir” o que as entrevistas “dizem” (narrativa do entrevistado & condições de sua produção); o atentar também para relatos, interpretações e pontos de vista “desviantes”; o ser fiel à lógica e às escolhas do entrevistado; o atentar para a ocorrência de narrativas especialmente pregnantes; o estabelecer tipologias, se for o caso; o chegar a alguns padrões; o comparar o que dizem as entrevistas com outros documentos; o tomar os fatos (o que realmente aconteceu) e suas representações simultaneamente. FONTE: ALBERTI, V. Histórias dentro da História. In: PINSKY, C. B. Fontes históricas. 3. ed., São Paulo: Contexto, 2006, p.190-191. 3 FONTES AUDIOVISUAIS Outro tipo de fonte que emergiu na contemporaneidade é a fonte audiovisual. Com o surgimento dos aparelhos digitais, o número de fontes analisadas pelo historiador ampliou-se em larga escala. Dentre as inúmeras fontes audiovisuais que disponibilizamos, o historiador Marco Napolitano, em seu texto A História depois do papel reflete sobre quatro delas: o Cinema, a Televisão, o Vídeo independente e a Música. Nossa abordagem de fontes audiovisuais terá como referência os quatro tipos explanados por Napolitano. Segundo Napolitano (2006), elas são vistas pelos historiadores como fontes primárias com um estatuto paradoxal, como podemos ver a seguir: Por um lado, as fontes audiovisuais (cinema, televisão, registros sonoros em geral) são consideradas por alguns, tradicionalmente e erroneamente, testemunhos quase diretos e objetivos da história, de alto poder ilustrativo, sobretudo quando possuem um caráter estritamente documental, qual seja, o registro direto de eventos e personagens históricos. Por outro lado, as fontes audiovisuais de natureza assumidamente artística (filmes de ficção, teledramaturgia, canções e peças musicais) são percebidas muitas vezes sob o estigma da subjetividade absoluta, impressões estéticas de fatos sociais objetivos que lhes são exteriores. A questão, no entanto, é perceber as fontes audiovisuais e musicais em suas estruturas internas de linguagem e seus mecanismos de representação da realidade, a partir de seus códigos internos (NAPOLITANO, 2006, p. 235-236, grifos do autor). 88 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS A primeira exibição de um filme ocorreu no final do Século XIX, em 1895, em Paris. Denominado A chegada do trem na estação (L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat), o filme tem cerca de um minuto e foi gravado em preto e branco pelos irmãos Louis e Auguste Lumière. A partir do final do Século XIX outros filmes foram surgindo e eles modificaram a nossa visão de mundo, bem como nosso conhecimento sobre a história. Ao analisar um filme, é necessário atentar-se aos seus elementos narrativos e alegóricos. Os elementos narrativos básicos de um filme são o plano e a sequência. Sendo o plano “o enquadramento contínuo da câmera, situado entre um corte e outro” (NAPOLITANO, 2006, p. 274) e a sequência “a junção se vários planos que se articulam, por meio da montagem” (NAPOLITANO, 2006, p. 274). Já a alegoria “se manifesta como desorganização da narrativa clássica, linear e realista (NAPOLITANO, 2006, p. 276). O elemento verbal é apenas um elemento, entre tantos, importante na análise do filme. Já as escolhas que o diretor fez, o que ele escolheu adicionar, incluir ou excluir de um contexto histórico, é essencial para a análise do historiador. O importante não é apenas que se encena do passado, mas como se encena e o que não se encena do processo ou evento histórico que inspirou o filme. Não se trata de cobrar do diretor a fidelidade ao evento encenado em todas as suas amplitudes e implicâncias, mas de perceber as escolhas e criticá-las dentro de uma estratégia de análise historiográfica (NAPOLITANO, 2006, p.275). Quando o historiador analisa um filme, ele também deve se atentar a categoria do filme. Este pode estar estruturado com cinema clássico ou cinema moderno. Surgido na década de 1910, o cinema clássico tem características como um gênero delimitado, é voltado ao grande público, intenta uma continuidade narrativa, busca um realismo e uma sequência. O cinema moderno, em geral, nega essas características (NAPOLITANO, 2006, p. 275). O cinema é um instrumento contemporâneo que pode lidar com o passado de duas formas: fazendo uma monumentalização do passado ou como um “veículo de desconstrução de mitos e versões oficiais e autorizadas da história” (NAPOLITANO, 2006, p.276). Quando monumentalizado, o passado tende a causar uma “catarse emocional” no expectador, diferente dessa abordagem, a desconstrução fílmica não tem predomínio da melodramaturgia (NAPOLITANO, 2006, p. 277). Os filmes, por vezes, podem exaltar alguns fatos que não correspondem aos documentos históricos, com a intenção de aumentar o interesse ao público, exaltando o romance entre os personagens, por exemplo. Neste caso, esta obra poderia ser trabalhada em sala de aula em comparação a trechos do livro no qual ela foi inspirada, a partir dos trechos do livro didático que tratam sobre a Intentona Comunista de 1935, o Governo de Getúlio Vargas e até mesmo sobre os Campos de Concentração Nazistas. A análise de uma obra cinematográfica, como este drama biográfico, quando não vinculada a outras fontes, geralmente leva a TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 89 equívocos e erros históricos. Podemos ver no trecho a seguir os pontos que se devem destacar em um filme histórico e os que não tem tanta relevância: [...] é menos importante saber se tal ou qual filme foi fiel aos diálogos, à caracterização física dos personagens ou a reprodução de costumes e vestimentas de um determinado século. O mais importante é entender o porquê das adaptações, omissões, falsificações que são apresentadas num filme. Obviamente, é sempre louvável quando um filme consegue ser “fiel” ao passado representado, mas esse aspecto não pode ser tomado como absoluto na análise histórica de um filme (NAPOLITANO, 2006, p. 237). Outra fonte audiovisual é a televisão, esta é menos utilizada que o filme, pois a televisão “talvez devido ao seu caráter de produto cultural volátil, tem muita dificuldade em guardar e sistematizar a própria memória” (NAPOLITANO, 2006, p. 247). Ela é um mecanismo audiovisual relativamente novo no Brasil, seu surgimento ocorre na década de 1950, com a TV Tupi em São Paulo. Quando se é realizado um trabalho utilizando a televisão, a maioria das fontes primárias são “entrevistas, memórias, sinopses e textos de novela, índices de audiência, documentação institucional das empresas televisuais (faturamento, normas e documentos internos etc.)” (NAPOLITANO. 2005, p. 248). As análises das fontes que aparecem na ficção são semelhantes às do cinema. Porém, como já explanado, o acesso a estas fontes é, por vezes, inacessível. A pesquisadora Mônica Almeida Kornis possui inúmeros trabalhos dedicados à televisão brasileira, entre eles estão: Narrativas biográficas sobre o regime militar brasileiro no cinema e na televisão: um despertar de emoções sobre o passado. In: GUTFREIND, C. F. (Org.). Narrar o biográfico: a comunicação e a diversidade da escrita. Porto Alegre: Sulina, 2015, p. 188-212 e Ficção televisiva e identidade nacional: o caso da Rede Globo. In: MORETTIN, E. et al. (Org.). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. São Paulo: Alameda, 2007. p. 97-114. DICAS Se tem uma tecnologia que transformou a forma como vivemos em sociedade e a nossa visão de mundo, esta foi a internet. Dentro dela encontramos vários meios que modificaram também a forma de nos comunicarmos uns com os outros, como as redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter) e a plataforma de vídeos YouTube. Como o historiador estuda, como já foi afirmado no primeiro capítulo, o homem no tempo e as publicações e vídeos destas redes sociais são produzidas por pessoas, uma terceira forma de fonte audiovisual é o vídeo independente. Boa parte do material histórico conhecido como vídeo independente foi produzido a partir da década de 1980 e este é dividido por Napolitano em duas 90 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS categorias. A primeira é uma produção direcionada à pesquisa estética, ela é “feita por vídeomakers que procuram escapar das regras rígidas e dos compromissos exigidos pela produção voltada para TV” (NAPOLITANO, 2006, p. 253); a segunda é ligada a movimentos sociais urbanos e rurais, estes movimentos “procuram registrar suas ações políticas e institucionais, constituindo-se num importante material de memória de lutas sociais e políticas que pode se transformar em documento histórico extremamentefecundo” (NAPOLITANO, 2006, p. 253). Um outro tipo de fonte muito importante para a história é a música. A música faz parte do nosso dia a dia e, apesar das pessoas apreciarem estilos e gêneros diferentes, há sempre um que agrada o gosto. A música é uma fonte histórica muito importante, seja em uma representação audiovisual, apenas em forma de áudio, ou em sua forma escrita. Ao analisar uma fonte fonográfica, o historiador pode optar pelo estudo de uma partitura, um fonograma, ou ambos. A partitura é fundamental para as análises tradicionais, pois nela estariam escondidos o pensamento e a estrutura de uma época. Já na música popular ocorre-se o oposto, a partitura não traduz o que se ouve e a sua escrita pode acontecer posteriormente à obra gravada, o que pode prejudicar o pesquisador, pois ele não encontra, deste modo, aspectos estéticos e culturas da canção na partitura. A canção, em nossa tradução ocidental, vai além do binômio “harmonia- melodia”, com aspectos como a percussão (NAPOLITANO, 2006). Para entender a articulação entre letras e músicas, nas canções, temos como possíveis as abordagens fundamentais a seguir: • a letra de uma canção, em si mesma, dá o sentido histórico-cultural da obra; • o sentido assumido pela letra depende do “contexto sonoro mais amplo da canção, tais como entoação, colagens, acompanhamentos instrumentais, efeitos eletroacústicos, mixagens; • a letra ganha sentido na medida em que a sua materialidade sonora (palavras, fonemas, sílabas) está organizada conforme as alturas que constituem as frases melódicas de uma canção;2 • o sentido sociocultural, ideológico e, portanto, histórico, intrínseco de uma canção é produto de um conjunto indissociável que reúne: palavra (letra); música (harmonia, melodia, ritmo), performance vocal e instrumental (intensidade, tessitura, efeitos, timbres predominantes); veículo técnico (fonograma, apresentação ao vivo, videoclipe) (NAPOLITANO, 2006, p. 271). Napolitano defende a abordagem da música na academia a partir de três grandes áreas. A primeira é a musicologia histórica, nesta o estudo é predominantemente acerca da vida e obra de compositores e das formas eruditas (NAPOLITANO, 2006). A segunda área é a etnomusicologia, ela “enfoca o estudo das formas e manifestações musicais dos grupos comunitários, de caráter socialmente integrado e ritualístico, cuja prática musical não está voltada, a priori, à industrialização e ao consumo massificado” (NAPOLITANO, 2006, p. 254). A terceira área são os estudos em música popular, é sobre este que o historiador TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 91 dedica maior atenção em seu texto. Esta terceira produz um novo tipo de fonte, produzido pela indústria fonográfica e visual (NAPOLITANO, 2006). Este terceiro tipo de fonte é muito recente na história, surgiu apenas na segunda metade do Século XX e é resultado da modernização da nossa forma de consumir a música. A partir do final da década de 1980, o videoclipe e a apresentação de cantores em programas televisuais passaram a determinar as características da produção musical. Em outras palavras, arriscaríamos dizer que, até meados da década de 1970, a música era composta e produzida para ser ouvida e dançada. A partir daí ela é produzida cada vez mais para ser vista (embora a dança continue um elemento fundamental de experiência sociomusical), frequentemente subordinada ao império da imagem. Esse é um processo que não pode escapar ao historiador do futuro e que representa a integração dos suportes sonoros e audiovisuais, com a tendência do fim do suporte fonográfico tradicional, potencializado pelo fenômeno da troca de músicas pela internet (NAPOLITANO, 2006, p. 256). Napolitano ainda nos apresenta uma outra forma da música se destacar como uma fonte histórica: “há ainda uma outra fonte audiovisual importante para o estudo da música popular comercial, que é o cinema. Principalmente nas décadas de 1930, 1940, 1950, o filme musical [...]” (NAPOLITANO, 2006, p. 257). Há um grande músico da história do nosso país que contribuiu em grande medida para estudarmos e compreendermos um período específico da nossa história. O músico é Francisco Buarque de Holanda, mais conhecido como Chico Buarque, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e o período que nos referimos é a Ditadura Militar de 1964. A Ditadura Militar de 1964 causou muita resistência entre os artistas da Música Popular Brasileira. Várias músicas foram escritas em resistência a esse período, entre elas temos Para não dizer que não falei das flores de Geraldo Vandré e É proibido proibir de Caetano Veloso, porém essa não foi a única manifestação cultural de artistas. Chico Buarque é conhecido não apenas por suas músicas, mas também por suas peças. Dentre as diversas peças que Chico Buarque escreveu, há uma peça do gênero musical denominada Ópera do Malandro. Essa ópera foi dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, ela foi inspirada na Ópera do Mendigo, de John Gay, e na peça musical A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. A Ópera do Malandro foi escrita no ano de 1978, sete anos antes do fim da Ditadura Militar, porém o seu intuito era de relatar outro período de opressão que o Brasil sofreu. A história é sobre a década de 1940, momento da ditadura de Getúlio Vargas e na peça “nota-se a relação entre os períodos de repressão que se assemelham em determinados aspectos. Falar sobre a Era Vargas também seria uma maneira de se tocar na situação vigente, ou seja, o regime militar” (WANDERLEY, 2007, p. 10). A ópera tem uma trilha sonora vasta, dentre as músicas escolhidas para integrar a peça estão Teresinha, Se eu fosse o teu patrão e Geni e o Zepelim. Tanto as 92 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS músicas quanto o roteiro fazem o expectador refletir sobre vários aspectos da sociedade brasileira, especialmente a do Rio de Janeiro. O cenário é a Lapa, no Rio de Janeiro, reduto da boemia e da malandragem. Os personagens principais são cafetões, prostitutas e malandros. Dessa maneira, percebe-se que, no ambiente em questão, assuntos como moralidade, ética e outros mais comuns à vida burguesa são deixados de lado. Há uma moral que rege o comportamento das pessoas, mas que, certamente, não seria aceita em outros meios mais conservadores. A peça retrata o fim de uma era e o início de outra: a malandragem genuína passa a ser “malandragem federal”. É a decadência da Lapa e o princípio da industrialização do país, que se despedia de vários aspectos tradicionais da própria cultura para dar espaço à cultura americana. Questiona-se o conservadorismo da burguesia, por ser hipócrita, uma vez que o “malandro federal” advinha dessa classe (WANDERLEY, 2007, p. 10). A Ópera do Malandro pode ser um ótimo instrumento para fazer questionamentos sobre a história e os costumes de nosso país. Além do trabalho com as músicas presentes na peça, outra forma didática de trabalhar com o tema é a partir do filme franco-brasileiro, dirigido por Ruy Guerra, de mesmo nome, inspirado na peça e lançado em 1985. O filme completo está disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=q-KT_pE2-rY&t=601s. FIGURA – CARTAZ DO FILME A ÓPERA DO MALANDRO (1985) DICAS FONTE: <https://media.fstatic.com/k92iuw4UH7D2xzBn_lrsd27onkU=/fit-in/210x312/ smart/media/movies/covers/2009/09/9e891994a2d758a967d1d58428d05eff.jpg>. Acesso em: 16 abr. 2020. Além de suas peças, Chico Buarque compôs inúmeras músicas para demonstrar resistência ao regime vigente. Uma das músicas foi Cálice, escrita em parceria com Gilberto Gil, no ano de 1973. Essa música foi vetada, pois o “Cálice” de vinho referido na música, é de “vinho tinto de sangue”, com essa TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 93 frase os compositores apresentam críticas a violência do período. A palavra “Cálice” também faz alusão a “cale-se” e é uma crítica de Buarque à censura do período. Como confirmação de que o período é realmente autoritário,a música é censurada. Segundo Melo (2013), Buarque sentia falta do Brasil em seu exílio, porém, não retornava ao país, pois recebia ameaças de organizações como o CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Um dos cartões continha a mensagem a seguir: Você lê jornais? Então sabe que seu pai espiritual‘, Fidel Castro, está libertando milhares de presos políticos. O Brasil tem 200 e Cuba milhares. Onde há mais liberdade? ‘Cálice‘ a voz da razão, quando grita a ideologia, não é? Você é o primeiro de nossa relação. O Comando de Caça aos Comunistas deseja a você, ativista canalha comunista que enxovalha nosso país, um péssimo natal e que se realize no ano de 1979 nosso confronto final (ZAPPA, 2011 apud MELO, 2013, p. 42). FIGURA 10 – VETO DA MÚSICA CÁLICE FONTE: <https://img.buzzfeed.com/buzzfeed-static/static/2014-08/1/11/enhanced/webdr05/ original-942-1406906322-12.jpg?downsize=700%3A%2A&output-quality=auto&output- format=auto>. Acesso em: 16 abr. 2020. 94 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS Os relatos orais, o cinema, a televisão, o vídeo independente e a música causaram uma revolução nos estudos históricos. Podemos notar, a partir da tecnologia, uma grande mudança no papel e nos estudos do historiador. Em nossa sociedade temos um número de fontes históricas inimaginável para a sociedade do Século XIX, período em que a profissão de historiador começou a se consolidar. O nosso desafio em lidar com as tecnologias pode, por ora, nos paralisar em meio a tanta informação. Porém, nós, historiadores em constante formação, vamos aprendendo ao longo do tempo a lidar com as delimitações de tempo e espaço, com ambos dominados o universo de fontes ao nosso dispor tornam o nosso trabalho muito melhor de forma qualitativa. Outro lado positivo da tecnologia é utilizar não apenas as fontes orais e audiovisuais, mas também outros documentos históricos de vários os períodos que se encontram on-line. Isso se reflete, em sala de aula, tornando nossas aulas, enquanto professores pesquisadores, muito mais dinâmicas e diminuindo a distância entre o aluno e o período histórico estudado, tornando a aula muito mais prazerosa. TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 95 LEITURA COMPLEMENTAR CINEMA E HISTÓRIA – CONSIDERAÇÕES SOBRE OS USOS HISTORIOGRÁFICOS DAS FONTES FÍLMICAS José Barros Há algumas décadas os historiadores descobriram as amplas possibilidades de utilização do cinema como fonte histórica. Considerado por muitos a “arte do Século XX”, o cinema tem constituído, a partir de si mesmo, uma linguagem própria e uma indústria também específica, e à par disto não cessou de interferir na história contemporânea ao mesmo tempo em que seu discurso e suas práticas foram se transformando com esta mesma história contemporânea. Neste sentido, o cinema – incluindo todo o imenso conjunto das obras cinematográficas já produzidas e também as práticas e discursos que sobre elas se estabelecem – pode ser considerado hoje uma fonte primordial e inesgotável para o trabalho historiográfico. A partir de uma fonte fílmica, e a partir da análise dos discursos e práticas cinematográficas relacionados aos diversos contextos contemporâneos, os historiadores podem apreender de uma nova perspectiva a própria história do Século XX e da contemporaneidade. De igual maneira, como se verá oportunamente, os historiadores políticos e culturais podem examinar os diversos usos, recepções e apropriações dos discursos, práticas e obras cinematográficas. Para além do fato mais evidente de que o cinema – enquanto “forma de expressão cultural” especificamente contemporânea – fornece fontes extraordinariamente significativas para os estudos históricos sobre a própria época em que foi e está sendo produzido, outra relação fulcral entre história e cinema pode aparecer por intermédio da dimensão deste último como representação’. O cinema não é apenas uma forma de expressão cultural, mas também um ‘meio de representação’. Por meio de um filme representasse algo, seja uma realidade percebida e interpretada, seja um mundo imaginário livremente criado pelos autores de um filme. Esta instância do cinema como meio de representação – e particularmente como meio de representação da história pelos chamados ‘filmes históricos’ – permite pensarmos o cinema, adicionalmente, como recurso para o ensino da própria história. Por fim, lembraremos também que o cinema é ele mesmo um “agente histórico” importante, no sentido de que termina por interferir na própria História de diversas maneiras – seja por intermédio de sua indústria, seja pela formação de opinião pública e de influências na mudança de costumes, seja por meio daqueles que dele se utilizam para objetivos diversos, como os próprios governos e os grupos sociais que, com a produção fílmica, impõem seus discursos, pontos de vistas e ideologias. Podemos aqui visualizar uma dimensão complementar nas relações que permeiam o cinema e a história. Se o cinema é ‘agente da história’ no sentido de que interfere nela direta ou indiretamente, ele também é interferido todo o 96 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS tempo pela história, que o determina em seus múltiplos aspectos. Vale dizer, o cinema é ‘produto da história’ – e, como todo produto, um excelente meio para a observação do ‘lugar que o produz’, isto é, a sociedade que o contextualiza, que define sua própria linguagem possível, que estabelece seus fazeres, que institui suas temáticas. Por isso, qualquer obra cinematográfica – seja um documentário ou uma pura ficção – é sempre portadora de retratos, de marcas e de indícios significativos da sociedade que a produziu. É neste sentido que as obras cinematográficas devem ser tratadas pelo historiador como ‘fontes históricas’ significativas para o estudo das sociedades que produzem filmes, o que inclui todos os gêneros fílmicos possíveis. A mais fantasiosa obra cinematográfica de ficção carrega por trás de si ideologias, imaginários, relações de poder, padrões de cultura. Esta afirmação, que de resto também é perfeitamente válida para as obras de literatura, dá suporte ao fato de que a fonte cinematográfica tem sido utilizada com cada vez mais frequência pelos historiadores contemporâneos. O lugar que produz o cinema é também o lugar que o recebe, de modo que a fonte fílmica pode dar a compreender uma sociedade simultaneamente a partir do sistema que o produz e de seu universo de recepção. O público consumidor e a crítica inscrevem-se desde já na rede que produz o filme, conjuntamente com os demais fatores que atuam em sua produção, e isto porque o público receptor é sempre levado em consideração nos momentos em que o filme é elaborado. As competências e expectativas do consumo, enfim, são antecipadas no momento em que é produzida a obra cinematográfica, de modo que analisar um filme é analisar também o público que o irá consumir. Com relação a estes e outros aspectos, a fonte cinematográfica, particularmente a fonte fílmica, torna-se evidentemente uma documentação imprescindível para a história cultural – uma vez que ela revela imaginários, visões de mundo, padrões de comportamento, mentalidades, sistemas de hábitos, hierarquias sociais cristalizadas em formações discursivas, e tantos outros aspectos vinculados a uma determinada sociedade historicamente localizada. Mas como a indústria cinematográfica contempla em todas estas instâncias relações de poder – seja no que concerne à sua inserção no universo da indústria cultural, seja no que se refere à sua apropriação pelos poderes públicos e privados –, é natural que pelos estudos históricos do cinema se interessem também a história política, a história social, e mesmo a história econômica em sua inserção com estas modalidades historiográficas. É importante para o historiador avançar na compreensão dos poderes que atravessam o cinema, alguns interferindo diretamente na feitura de filmes. Apenas para nos atermos ao âmbito dos poderes que circulam na esfera daindústria cultural, iremos encontrar todo um conjunto de poderes e micro poderes que enredam a feitura de um filme, e isto variando de acordo com os diversos contextos e com as diversas fases da história do cinema. O cinema, que surge com os irmãos Lumière, logo empreenderá uma criativa luta para se transformar de mera tecnologia em arte, e a partir daí se empenha em construir uma linguagem inteiramente nova. O cinema que convive com a televisão, por exemplo, é já outro e deve confrontar-se com a ideia de que seus objetos fílmicos em determinado momento passarão das grandes telas ao circuito TÓPICO 3 | UM NOVO OLHAR PARA AS FONTES 97 da televisão (e, mais tarde, já nas últimas décadas do Século XX, ao circuito da televisão por assinatura e das locadoras do vídeo). Tudo isso interfere em sua feitura, porque a indústria cultural almeja explorar todas as mídias e mercados, e neste sentido seus produtos devem ser polivalentes e adaptativos com vistas à geração de lucros sempre crescentes. Haverá filmes feitos especialmente pela televisão, e outros previstos para gerarem séries para a televisão. Quando se escreve um roteiro de filme para televisão, devem-se antecipar as reações de um telespectador que não está mais preso por duas horas dentro de um recinto fechado de sessão cinematográfica para a qual já comprometeu o valor de um ingresso. Esse novo espectador que assiste na televisão a um filme – seja um filme que já percorreu o circuito das salas de cinema ou um filme tipicamente televisivo – possui literalmente nas mãos um novo poder: o zapping – esta possibilidade de apertar um botão no controle remoto e mudar o canal. Os roteiros, desta forma, não podem ser concebidos livremente, pois desde o instante de sua gestação já sofrem a presença desta formidável multidão de micropoderes. É preciso capturar a atenção do espectador comum e, neste sentido, as emissoras pressionarão roteiristas para fazerem cortes em seus roteiros de modo a conseguirem mais excitação, mais suspense, por vezes maior velocidade ou maior nível de adaptação à competência do espectador comum. Desta maneira, os grandes interesses das emissoras e as pequenas expectativas do telespectador comum se enredam para pressionar a feitura do filme. Em operação inversa, ocorre ao historiador que ele pode partir de um filme – aqui tomado como fonte histórica – para precisamente desvendar esta rede de poderes e micropoderes, de expectativas de mercado e de competências espectadoras, de padrões culturais impostos pela mídia e de representações culturais que surgem espontaneamente. Ou seja, partindo de um produto, ele estará apto a decifrar a sociedade que o produziu [...]. De fato, no que se refere às fontes primárias para o estudo da história do cinema, ou então da história através do cinema, a primeira a se considerar é o próprio filme, o produto final da arte cinematográfica. Neste sentido, um ponto de partida metodológico para examinar sistematicamente a relação entre cinema e história deve vir ancorado na compreensão de que o filme − pretenda ele ser imagem ou não da realidade, e enquadre-se dentro de um dos gêneros documentários ou dentro de um dos gêneros de ficção − é em todos estes casos história. Não importa se o filme pretende ser um retrato, uma intriga autêntica, ou pura invenção, sempre ele estará sendo produzido dentro da história e sujeito às dimensões sociais e culturais que decorrem dela – isto independentemente da vontade dos que contribuíram e interferiram para sua elaboração. Assim, o mais fantasioso filme de ficção científica não expressa senão as possibilidades de uma realidade histórica, seja como retratação dissimulada, como inversão, como tendência discursiva que o estrutura, como visão de mundo que o informa e que o enforma (que lhe dá forma), e assim por diante. É por isto, tal como se observou antes, que é sempre possível dizer que a ficção, por mais criativa e imaginativa que seja, permite em todos os casos uma aguda leitura da realidade social e histórica, o que implica dizer que o historiador ou o analista da fonte documental cinematográfica sempre poderá almejar enxergar por trás de 98 UNIDADE 2 | AS FONTES HISTÓRICAS um filme algo da sociedade que o produziu, e que poderá analisar a fonte fílmica como um produto complexo que se vê potencializado pelo fato de que para ela confluem diversos tipos de linguagens e materiais discursivos denunciadores de uma época, de caminhos culturais específicos, de agentes sociais diversos, de relações de poder bem definidas, de visões de mundo multidiversificadas. FONTE: BARROS, J. Cinema e História: Considerações Sobre os Usos Historiográficos das Fontes Fílmicas. Comunicação e sociedade, São Paulo, v. 41, n. 3, p. 177-185, 2011. 99 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • As fontes orais, já existentes na Antiguidade e na Idade Média, são retomadas no Século XX, com o advento da tecnologia. • As fontes orais da modernidade surgem nos Estados Unidos na década de 1930. • As fontes orais são colhidas em entrevistas e é importante tratá-las apenas como um ponto de vista da história. • A produção de fontes orais consiste em três etapas: entrevista, realização e tratamento. • O importante, ao analisar um filme, não é se ele encena o passado, mas como encena. O que se incluiu ou excluiu. • A partitura é fundamental para a análise de músicas tradicionais, enquanto a música popular vai além do binômio “harmonia-melodia”, com aspectos como a percussão. 100 1 Neste tópico, apresentamos uma fonte que nos ajudou a cunhar uma nova visão sobre a história, a fonte oral. A partir do conteúdo deste tópico acerca do tema, atribua V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) A fonte oral do historiador, por vezes, é produzida pelo historiador através de entrevista. ( ) Ao realizar a entrevista, o pesquisador deve realizar perguntas abertas, que não são simplesmente respondidas com “sim” ou “não”. ( ) A partir do Século XIX as fontes orais são adventos da tecnologia, produzidas a partir de gravadores. ( ) O pesquisador não deve interromper os entrevistados, para a fala do entrevistador não ser sobreposta. Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – V– V – F. c) ( ) V – F – V – V. d) ( ) V – V – F – V. e) ( ) F – V – F – F. 2 Neste tópico trabalhamos com quatro fontes audiovisuais: o Cinema, a Televisão, o Vídeo independente e a Música. A partir das informações sobre o tema, é certo afirmar que: I- As fontes audiovisuais são testemunhos quase diretos da história. II- A música tradicional vai além do binômio “harmonia-melodia”, com aspectos como a percussão, para música popular a partitura é fundamental. III- A partir da década de 1980 começaram a surgir os vídeos independentes. Estas fontes não foram relevantes para o trabalho historiográfico. IV- O importante, ao analisar um filme, não é se ele encena o passado, mas como encena. As escolhas que o diretor faz ao retratar o passado. Estão CORRETAS: a) ( ) Apenas a afirmativa I e II. b) ( ) Apenas as afirmativas II e IV. c) ( ) Apenas as afirmativas III e IV. d) ( ) Apenas as afirmativas I, II e lII . e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. AUTOATIVIDADE 101 Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 102 103 UNIDADE 3 HISTÓRIA E TEMPO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • identificar os primeiros passos teóricos da historiografia e filosofia sobre o estudo do tempo; • compreender o campo teórico e metodológico da historiografia com as categorizações do tempo; • comparar a perspectiva cultural do tempo a partir de diferentes calendá- rios e perspectivas historiográficas; • analisara abordagem do ensino da disciplina de história sobre o tempo. Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO TÓPICO 2 – HISTÓRIA E TEMPO TÓPICO 3 – OS DIFERENTES CALENDÁRIOS TÓPICO 4 – O TEMPO HISTÓRICO TÓPICO 5 – O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 104 105 TÓPICO 1 INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, a partir de agora, estudaremos diversos conceitos sobre o tempo, não na tentativa de circunscrevê-lo em uma definição e sim na busca pelo entendimento das diversas formulações teóricas referentes ao tema. Inúmeros são os debates envolvendo o tempo entre os historiadores, filósofos, antropólogos, físicos e demais cientistas e pensadores. Mesmo que não encontremos um tempo absoluto que possa pôr fim às discussões, podemos utilizar as conceitualizações para pensar o tempo, para ensinar noções relativas ao tempo e para escrever sobre o tempo. Veremos mais adiante que, para Agostinho de Hipona, a tarefa de definir o tempo estava entre as mais trabalhosas. É dele uma das definições mais emblemáticas sobre o tempo, convidamos você a refletir alguns instantes sobre ela. Para Agostinho (1987), o tempo é aquilo que se sabe, mas que não se consegue dizer. Expostas algumas breves considerações, convidamos você a aumentar os seus saberes sobre os conceitos relacionados ao tempo. Esperamos que o empenho investido na leitura deste tópico e nesta unidade se converta em bases sólidas para discutir e lecionar sobre esse tema que é fundamental para os estudos históricos. 2 O TEMPO PARA A FILOSOFIA Podemos iniciar a nossa exposição tendo em mente a vontade, a ânsia do ser humano pela eternidade. O momento que lhe escapa é aterrorizante, a fluidez do tempo, o devir, isto é, o contínuo ser e deixar de ser é recusado, e a lembrança da morte certa, o memento mori nos acompanha diariamente. Esse temor do tempo percebido como devir pode ser compreendido através da definição que Reis (2012, p. 20) nos apresenta: Como puro devir, o tempo é percebido como uma sequência de momentos que se excluem, uma sucessão de termos que aparecem e desaparecem, que introduz uma existência nova e nega uma existência dada. O tempo seria a constante redução do ser ao nada, pela descontinuação e sucessão do ser. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 106 Memento mori: podendo ser traduzida como “lembra-te de que és mortal”, “lembre-se da morte” ou “lembre-se de que você vai morrer”, essa expressão latina medieval corresponde a uma postura cristã de renúncia à vaidade e, inversamente, a recomendação de uma vida digna. A lembrança da morte, no entanto, causava temor a muitos homens e mulheres medievais. NOTA Possivelmente este seja um dos maiores problemas da humanidade, a sua inclinação para a eternidade, mesmo estando cercada do que é finito, passageiro, transitório, no fim das contas, do puro devir. Eternidade, devir e tempo são objetos de estudo que os historiadores compartilham com outros teóricos, principalmente os filósofos. Ao longo dos séculos, diversos pensadores se debruçaram sobre esta que é uma das questões mais divergentes em seus entendimentos, a questão do que é o tempo. Dentre os pensadores, de diversas fases da história, que escreveram sobre o tempo, podemos citar Parmênides, Platão, Aristóteles, Plotino, Kant, Hegel, Marx, Husserl, Heidegger e Bachelard. Também inseridos nessa lista estão os três pensadores que discutiremos a seguir, são eles: Agostinho de Hipona, Friedrich Nietzsche e Henri Bergson. A escolha desses três pensadores não está inserida em uma chave de maior importância para o tema, e sim pela oportunidade de expormos, em um espaço limitado, noções de tempo que possuem particularidades relevantes ao seu entendimento introdutório. Também estamos certos de que, despertado o interesse através da exposição do pensamento desses filósofos, os seus estudos serão guiados para as demais noções de tempo desenvolvidas pelos filósofos anteriormente citados. 3 O TEMPO PARA AGOSTINHO DE HIPONA Na obra Confissões estão presentes as conversas entre Agostinho de Hipona (354-430) e Deus. Em suas confissões, Agostinho humildemente busca a sabedoria divina para resolver e compreender questões relacionadas à fé e à razão. É no livro XI de Confissões que Agostinho discute o tema do tempo, o qual dedicaremos alguns instantes para a sua compreensão. “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo [sic] perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não o sei” (AGOSTINHO, 1987, p. 218). Com essa afirmação, Agostinho (1987) suscita a discussão sobre o caráter psicológico, interior e fundamentalmente subjetivo do tempo. Podemos TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO 107 apreender, através dos sentidos e da experiência, que o tempo faz parte da realidade, mas, ao tentar explicá-lo, precisamos exteriorizá-lo, fazer com que o tempo seja algo fora da nossa percepção. Nesse momento, e negando que o tempo esteja relacionado com os movimentos dos corpos celestes, como o Sol e a Lua, o bispo de Hipona afirma que não temos como explicar o tempo através de palavras, apenas se nos apoiarmos na nossa subjetividade e no que o nosso espírito, ou a nossa consciência, se preferir, concebe no presente. Para o autor, o tempo é compreendido através da distentio animi, isto é, uma distensão, ou extensão dos movimentos de ir e vir da alma humana. FIGURA 1 – AGOSTINHO DE HIPONA FONTE: <https://bit.ly/2uyU2fR>. Acesso em: 10 fev. 2020. Agostinho (1987, p. 214) declara a Deus que “no vosso Verbo, porém, nada desaparece, nada se substitui, porque é verdadeiramente eterno e imortal”. A eternidade, podemos chamar de tempo metafísico, não possui passado nem futuro, apenas o presente. Sendo Deus o criador do tempo, Agostinho argumenta que a pergunta sobre o que fazia Deus antes de criar o mundo não faz sentido, já que não existe um antes nem um depois na eternidade, apenas o presente, o eterno presente. Por ser o tempo uma ordem criada por Deus (ordo temporis), somente através de Deus poderíamos compreender o tempo. Ao contrário da eternidade, o tempo subjetivo é formado pelo passado, pelo presente e pelo futuro. É preciso que o tempo passe para que tenhamos o passado, assim como as expectativas criam o tempo futuro e, mais fundamental que isso, é preciso existir algo, a realidade, para que o presente possa existir e servir de medida para o passado e para o futuro. O tempo presente, considera Agostinho, é fugidio, escapa por entre os nossos dedos. Por exemplo, enquanto você, caro acadêmico, lê essas palavras, as primeiras palavras desse parágrafo já fazem parte do passado. Impossíveis de serem lidas novamente no mesmo momento. E as próximas, essas que você visualizará neste livro, serão lidas apenas no futuro. Mas quando forem lidas, serão o presente e logo passarão a ser passado. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 108 No entanto, nós estamos seguros quando afirmamos que o passado, o presente e o futuro existem. Agostinho (1987, p. 222) também afirma que há sentido no tempo e ele está na sucessão destes três tempos: passado, presente e futuro, nos fornecendo uma chave de entendimento para esta questão: “existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”. Conforme vimos, para o autor, no nosso espírito estão presentes três operações, a expectativa ou a espera, a atenção ou a percepção imediata, e a memória. Um futuro é longo quando a nossa expectativa é grande, um passado é longo quando a nossa memória é longa para com algum acontecimento,e é pela atenção no presente que passa aquilo que era expectativa e tornou-se memória. Apenas podemos compreender o tempo pelo presente, ou melhor, pelo presente do passado, pelo presente do presente e pelo presente do futuro. Agostinho também define o tempo da história como diretamente ligado ao tempo da alma, ou seja, em termos de memória, atenção e expectativa, mas este tempo não está apenas relacionado ao indivíduo, e sim à humanidade como um todo (DOMINGUES, 1996). 4 O ETERNO RETORNO DE NIETZSCHE O pensamento do Eterno Retorno (Ewige Wiederkunft) aparece pela primeira vez na obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900) no parágrafo 341 do livro A gaia ciência (1882), retornando em Assim falou Zaratustra (1883-1885), em Além do bem e do mal (1886), em Ecce homo (1908), sua autobiografia filosófica publicada postumamente, assim como em passagens dos Fragmentos póstumos, coleção de escritos que reúne textos do período entre 1884 e 1889, compreendendo os últimos anos de produção do filósofo alemão. O pensamento do eterno retorno está inserido na crítica nietzschiana à cultura ocidental socrático-judaico-cristã, à metafísica e, em seu tempo, à modernidade e sua elevada defesa da ciência. A transvaloração de todos os valores, esse era o projeto nietzschiano que possibilitaria o aparecimento do além- do-homem, ou übermensch em alemão. Transvalorar, isto é, criar valores; tendo em vista que os valores apresentados são humanos, demasiadamente humanos, logo, não podem ser os mesmos do além-do-homem. Por outro lado, se negarmos que existam valores, cairíamos no niilismo, impossibilitando o projeto do além- do-homem de ser realizado. Agora que já conhecemos um pouco do pensamento de Nietzsche, entraremos no conceito do eterno retorno e sua relação com o tempo. Para isso, gostaríamos de apresentar a você o parágrafo 341 de A gaia ciência, intitulado O peso mais pesado: TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO 109 E se um dia, ou uma noite, um demônio te seguisse em tua suprema solidão e te dissesse: "Esta vida, tal como a vives atualmente, tal como a viveste, vai ser necessário que a revivas mais uma vez e inumeráveis vezes; e não haverá nela nada de novo, pelo contrário! A menor dor e o menor prazer, o menor pensamento e o menor suspiro, o que há de infinitamente grande e de infinitamente pequeno em tua vida retornará e tudo retornará na mesma ordem - essa aranha também e esse luar entre as árvores e esse instante e eu mesmo! A eterna ampulheta da vida será invertida sem cessar - e tu com ela, poeira das poeiras!" - Não te jogarias no chão, rangendo os dentes e amaldiçoando esse demônio que assim falasse? Ou talvez já viveste um instante bastante prodigioso para lhe responder: "Tu és um deus e nunca ouvi coisa tão divina!" Se este pensamento te dominasse, tal como és, te transformaria talvez, mas talvez te aniquilaria; a pergunta "queres isso ainda uma vez e um número incalculável de vezes?", esta pergunta pesaria sobre todas as tuas ações com o peso mais pesado! E então, como te seria necessário amar a vida e amar a ti mesmo para não desejar mais outra coisa que essa suprema e eterna confirmação, esse eterno e supremo selo! (NIETZSCHE, 2008a, p. 239-230). Embora o conceito do eterno retorno seja objeto de diferentes interpretações, apresentaremos, em linhas gerais, o que lhe é de mais comum. Em Ecce homo, Nietzsche (2008b, p. 79) comenta que o pensamento do eterno retorno, este pensamento abissal, “a mais elevada forma de afirmação que se pode em absoluto alcançar, é de agosto de 1881”. Desse pensamento podemos depreender a negação de uma outra vida e a valorização da vida terrena. Aceitar o eterno retorno seria, nos termos de Nietzsche, aceitar o retorno à filosofia trágica, um sagrado dizer sim à vida percebida como uma obra de arte, uma vida de afirmação e sem arrependimentos. O que fazemos e todos os eventos seriam repetidos incessantemente, não haveria nada após a morte, apenas o eterno retorno. Isso inclui a aceitação da vida como nos é apresentada, com suas alegrias e tristezas, guerra e paz, bom e mau, destruição e criação, ordem e caos. Amar o destino, ou, na expressão resgatada por Nietzsche dos estóicos, amor fati, este seria o projeto apresentado por Nietzsche e que inclui em seu núcleo o pensamento do eterno retorno. No trecho a seguir, Zaratustra, “o advogado do círculo” (NIETZSCHE, 2011, p. 207), “o mestre do eterno retorno” (NIETZSCHE, 2011, p. 211), nos apresenta os elementos dessa renúncia à ascensão junto a Deus e a aceitação da transcendência terrena. Não mais a vida eterna e sim o eterno retorno. Vede, eu vos ensino o super-homem! O super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: o super-homem seja o sentido da terra! Eu vos imploro, irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, saibam eles ou não. São desprezadores da vida, moribundos que a si mesmos envenenaram, e dos quais a terra está cansada: que partam, então! Uma vez a ofensa a Deus era a maior das ofensas, mas Deus morreu, e com isso morreram também os ofensores. Ofender a terra é agora o que há de mais terrível, e considerar mais altamente as entranhas do inescrutável do que o sentido da terra! (NIETZSCHE, 2011, p. 14). UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 110 Caro acadêmico, você poderá encontrar a tradução de übermensch como além-do-homem ou como super-homem. O debate sobre qual das duas traduções estaria mais próxima ao conceito nietzschiano de übermensch é extenso e não caberia aqui sua análise. Embora apresentemos ambos os termos, preferimos o termo além-do-homem, em consonância com uma das maiores especialistas em Nietzsche no Brasil, a filósofa paulistana Scarlett Marton. NOTA Em relação ao tempo, nosso tema de estudo, o tempo do eterno retorno não seria linear, progressivo, possuidor de um telos ou uma meta e sim sustentado pelo instante e em uma cosmologia que compreende o tempo como circular e eterno. Em Assim falou Zaratustra encontramos os animais de Zaratustra, a águia e a serpente, lhe dizendo: “tudo vem, tudo retorna; rola eternamente a roda do ser. Tudo morre, tudo volta a florescer, corre eternamente o ano do ser” (NIETZSCHE, 2011, p. 209). O eterno retorno seria, portanto, compreendido como a volta incessante dele. Não uma nova vida que surge e sim a mesma existência retomada diversas e infinitas vezes. Um instante retornando sem a possibilidade de alterar o que passou. Nesse ponto, a riqueza da filosofia nietzschiana nos proporciona um interessante questionamento: viveríamos a nossa vida, da forma tal como ela é, infinitas vezes? Para Nietzsche, somente afirmando o eterno retorno é que alguém poderia tornar-se o que é em uma perspectiva para além do bem e do mal. Caro acadêmico, sabendo da importância do pensamento de Nietzsche para a História, indicamos a você a leitura da obra Zaratustra: Tragédia nietzschiana do filósofo brasileiro Roberto Machado. Roberto Machado é reconhecido dentro e fora do país pelos seus estudos em Nietzsche e em Michel Foucault. DICAS TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO 111 FIGURA – CAPA DO LIVRO FONTE: < https://zahar.com.br/sites/default/files/styles/thumb-livros/public/livros/capa/ c0495_0.jpg?itok=34HBQgLG>. Acesso em: 12 mar. 2020. 5 O TEMPO PARA HENRI BERGSON Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês e Nobel de Literatura (1927), em sua obra Duração e Simultaneidade (1922), nos apresenta uma noção de tempo ligada à experiência e relacionada à consciência e à memória, isto é, um tempo duração. Inicialmente, vale ressaltar que os estudos de Bergson sobre o tempo tem como principais alvos o senso comum e as ciências positivistas. Bergson, assim como Agostinho de Hipona, defende a ideia do tempo interior, subjetivo ou psicológico, logo, um tempo que existe apenas em nossas mentes, não podendo ser quantificável e generalizado, ou seja, objetivado. Em oposição a essa objetivaçãodo tempo, a qualificação do tempo como uma grandeza a ser medida, Bergson atribui ao tempo a continuidade da duração da consciência. Por duração, Bergson entende a continuidade do passado no presente, ou seja, um processo percebido através da memória, sendo que “esta duração, que a ciência elimina, que é difícil de conceber e de exprimir, nós a sentimos e a vivemos (BERGSON, 1979, p. 102). A duração é a própria existência do indivíduo, é a mudança constante, a realidade e a criação, “a duração é essencialmente uma continuação do que não é mais no que é” (BERGSON, 2006, p. 57). Para o filósofo francês, o tempo é compreendido no fluxo da nossa consciência, afirmando que “não há dúvida de que o tempo, para nós, confunde- se inicialmente com a continuidade de nossa vida interior” (BERGSON, 2006, p. 51). A continuidade, a passagem, a fluidez ou o escoamento do tempo poderia ser apreendido através da metáfora da melodia. Uma música é uma sucessão de notas que formam uma melodia. Mas, para que a melodia seja agradável, é necessário haver harmonia entre as notas, a isso Bergson chama de “solidariedade”, em que as pequenas partes se unem para criar uma totalidade. Assim é o tempo para nós. Mesmo o instante que se apresenta como possibilidade e fluir não pode ser isolado, pois está ligado com todos os momentos em nossa consciência, que os toma da memória. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 112 6 NOÇÕES DO TEMPO FORA DO CAMPO DA HISTÓRIA Como início de conversa, chamamos a atenção para as análises sobre o tempo de especialistas fora do campo historiográfico, como é o caso dos físicos. A física desenvolvida por Isaac Newton (1643-1727), por exemplo, defendia que o tempo e o espaço eram infinitos. Albert Einstein (1879-1955), em sua teoria da relatividade, afirma que o tempo é relativo e que o universo está em expansão e em processos de mudança, portanto, por mudar também possui uma história. Já a Física dos nossos dias compreende o tempo como inerente aos fenômenos, não possuindo, portanto, uma exterioridade em relação a eles. A Biologia e a Geologia também se ocupam do estudo do tempo para a datação de seus objetos de estudo. Um exemplo trazido por Bittencourt (2008, p. 202) auxilia a nossa compreensão: Quando os cientistas situam a idade da Terra em aproximadamente 4,5 bilhões de anos, pode-se entender a afirmação metafórica sobre o tempo da humanidade, que corresponderia a “uma pequena frase ao fim de uma nota de rodapé na última página ao longo do compêndio da vida do planeta. Outra perspectiva para o estudo do tempo provém das Ciências Humanas. A psicologia experimental tem relacionado o estudo do tempo com a memória e com a sua ausência, a amnésia. Cabe ressaltar que os estudos psicológicos sobre o tempo influenciaram estudiosos, como é o caso de Jean Piaget (1896-1980), psicólogo, biólogo e epistemólogo suíço, amplamente reconhecido pelas suas produções no campo da educação. Em 1946, Piaget publica o livro A noção de tempo na criança, obra que nos oferece excelentes elementos para a compreensão do tempo. Piaget (2002) considera que o tempo e o espaço estão diretamente associados. Na obra, também encontramos as noções de tempo intuitivo e tempo operatório. Bittencourt (2008, p. 203) comenta que: O “tempo intuitivo limita-se às relações de sucessão (antes e depois) e de duração fornecidas pela percepção imediata, tanto externa quanto interna”. O tempo operatório, por sua vez, desenvolve relações de sucessão e de duração por intermédio de operações lógicas. Pode ser métrico (medido por unidades numéricas – ordinal ou cardinal) ou qualitativo, possibilitando, neste último caso, a construção de relações de simultaneidade, sucessão e duração. Assim como a compreensão espacial, as sucessões temporais e outras noções de tempo requerem a maturação biológica do indivíduo. Na posição de educadores, se faz necessário estarmos atentos para essa questão. É intrínseco ao processo educacional o respeito aos limites biológicos do educando. 7 SALVADOR DALÍ E O TEMPO A tela apresentada a seguir se chama A Persistência da Memória e foi pintada em 1931 pelo artista catalão Salvador Dalí (1904-1989), expoente do movimento TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO 113 artístico denominado Surrealismo. A tela, uma pintura a óleo, possui 24,1 cm de altura por 33 cm de largura, está localizada no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque, desde o ano de 1934. Inicialmente, a tela de Dalí nos causa estranheza. Os relógios derretidos podem nos remeter à fugacidade do tempo cronológico e a nossa incessante, muitas vezes frustrante, corrida contra o tempo. No entanto, Dalí nos fornece outra perspectiva de interpretação ao atribuir à tela o título de A Persistência da Memória, isto é, seu impacto no observador é profundo e dificilmente escapará à memória. FIGURA 2 – A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA – SALVADOR DALÍ FONTE: <https://cdn.culturagenial.com/imagens/clocks-cke.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2020. Na nossa memória, o tempo do relógio não é o mesmo da memória. Podemos ter lembranças de experiências e acontecimentos passados há muito tempo que estão claramente presentes na nossa memória. Partindo dessas análises, podemos concluir que o tempo e a memória, duas das noções mais pertinentes aos historiadores, estão presentes nessa obra de Salvador Dalí. Caro acadêmico, relacionar a arte com a História possibilita aos alunos uma compreensão mais abrangente do mundo em que estão inseridos, além de ser um excelente suporte visual para o ensino da disciplina. TEMPO RELATIVÍSTICO Devido ao relevante papel que o tempo passara a desempenhar tanto na vida moderna como na visão científica do mundo, a surpresa foi grande quando, em 1905, num artigo científico que é hoje reputado um dos mais importantes publicados neste século, Albert Einstein revelou uma limitação antes insuspeitada da teoria do tempo em vigor. Segundo essa teoria, para um dado modo de medir o tempo, cada evento pode ter apenas um único tempo associado a ele. Eventos que têm o mesmo tempo são chamados "simultâneos". O novo ponto de vista que ocorreu a Einstein foi que, embora a ideia de simultaneidade seja perfeitamente clara para dois eventos que ocorrem tanto no mesmo lugar como ao mesmo tempo, não é suficientemente clara para dois eventos que ocorram em lugares diferentes. Em vez disso, a simultaneidade de um evento distante e outro que ocorre no âmbito da própria experiência UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 114 do observador depende da posição relativa do evento distante e do modo de conexão entre ele e a percepção que dele tem o observador. Se a distância do evento é conhecida e também a velocidade do sinal (por exemplo, luz) que o conecta com a percepção que dele tem o observador, este pode correlacionar o evento com algum instante prévio de sua própria experiência e pode considerar esses dois eventos como simultâneos. Esse cálculo será, é claro, uma operação distinta para cada observador, mas, até que Einstein levantasse a questão, fora tacitamente admitido que, se tais cálculos fossem corretamente feitos, todos os observadores concordariam quanto ao tempo de qualquer evento dado. Einstein produziu uma teoria bem-sucedida em que isso não acontece. Einstein fundou sua teoria especial da relatividade, como veio a ser chamada, no princípio de que as leis da natureza são passíveis de expressão na mesma forma matemática para todos os observadores em movimento relativo uniforme (inclusive repouso relativo). Esse princípio de relatividade é válido na dinâmica clássica baseada nas leis do movimento de Newton, mas Einstein acreditava que devia ser estendido a outros campos da física, em particular o eletromagnetismo e a teoria da luz. Na dinâmica clássica, não há nenhuma velocidade com propriedades especiais, mas na teoria eletromagnética a velocidade da luz (no vácuo), que é de cerca de 300.000 quilômetros por segundo, tem um significado especial. Einstein acreditavaque, se as propriedades da luz devem ser as mesmas para todos os observadores em movimento relativo uniforme, todos eles devem atribuir-lhe a mesma velocidade. Verificou, entretanto, que esta condição adicional era incompatível com a teoria do tempo dominante. Embora segundo sua teoria quaisquer dois observadores em repouso relativo fossem atribuir o mesmo tempo ao mesmo evento dado, onde quer que ocorresse, este não seria o caso para quaisquer dois observadores em movimento relativo uniforme em geral. Consequentemente, a condição de que cada evento tem somente um tempo associado a ele já não se mantém. Em vez disso, seu tempo depende do observador. A teoria de Einstein envolve o pressuposto de que nenhum efeito físico pode ser transmitido em velocidade maior que a da luz (no vácuo). Embora nem Newton nem Leibniz tivessem imposto qualquer restrição semelhante, a teoria de Einstein está mais de acordo com o conceito de tempo de Leibniz que com o de Newton. Pois, se a ideia de Leibniz de que o tempo é derivado dos eventos é compatível com a teoria de Einstein, o conceito de tempo absoluto de Newton não é. Enquanto para Newton o tempo era independente do universo e para Leibniz era um aspecto do universo, a visão que hoje prevalece, desde que a teoria de Einstein passou a ser vista como uma parte essencial da física, é a de que o tempo é um aspecto do universo que depende do observador. Uma importante consequência da teoria especial da relatividade de Einstein é que um relógio que se desloque parecerá funcionar lentamente comparado a um relógio similar em repouso com relação ao observador, e quanto mais a velocidade do relógio que se desloca se aproximar da velocidade TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DO TEMPO 115 da luz, mais lentamente ele parecerá marchar. Esse aparente lenteamento de um relógio que se desloca é chamado de "dilatação do tempo". De todas as consequências da teoria de Einstein, foi esta que pareceu a muita gente a mais difícil de aceitar, uma vez que entra em conflito com nossa intuição do tempo ditada pelo senso comum. Entretanto, existem hoje fartas provas experimentais, particularmente as fornecidas por partículas de alta velocidade, que corroboram esta conclusão. Em seu artigo de 1905, Einstein restringiu o princípio da relatividade a observadores em movimento relativo uniforme, e não considerou efeitos gravitacionais. No que chamou de teoria geral da relatividade, que desenvolveu cerca de dez anos mais tarde para levar em conta a gravitação, ampliou o princípio da relatividade para incluir observadores em qualquer forma de movimento acelerado, a relatividade especial sendo vista como um importante caso particular dessa teoria mais abrangente. Também nesta teoria o pressuposto clássico de que cada evento ocorre num único tempo, o mesmo para todos os observadores, não se mantém. Em vista disto, pode-se pensar que a ideia de uma única escala temporal cósmica para o universo físico careceria de significado objetivo. Tal conclusão, contudo, seria errônea, como o demonstraram os avanços feitos neste século em cosmologia. FONTE: WHITROW, G. J. O tempo na história: concepções de tempo da pré-história aos nossos dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 192-194. 116 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Diversos pensadores se debruçaram sobre a questão da compreensão do tempo. • Em sua obra Confissões, Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) caracteriza o tempo como aquilo que se sabe, mas que não se pode explicar. • O filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, expôs com maior ênfase em A gaia ciência (1882) e em Assim falou Zaratustra (1883-1885) o pensamento do eterno retorno. Esse pensamento busca refletir filosoficamente sobre o caráter irreversível das nossas ações. • O filósofo francês Henri Bergson nos apresenta a noção do tempo interno, não mensurável, e como continuidade do que não é mais em nossa consciência. • A Física, a Biologia, a Geologia e outras ciências formularam noções sobre o tempo. Entre as mais relevantes está a Teoria da Relatividade de Albert Einstein. • Podemos estudar e refletir sobre o tempo utilizando como ponto de partida a arte. • A tela A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, aborda o aspecto fluido do tempo. 117 1 Agostinho de Hipona, mais conhecido como Santo Agostinho, é um dos nomes essenciais para o estudo do tempo. No livro XI de Confissões, o bispo de Hipona reflete sobre o que seria o tempo. Após a leitura do Tópico 1, responda: como Agostinho compreende o tempo? 2 A citação a seguir é de Scarlett Marton (2016, p. 37) e trata do eterno retorno nietzschiano. Acompanhe: “falando em favor da vida, do sofrimento e do círculo, Zaratustra, ‘o porta-voz da vida, o porta-voz do sofrimento, o porta- voz do círculo’, aponta a íntima relação entre a vida enquanto vontade de potência, o sofrimento enquanto parte integrante da existência e o círculo enquanto infinita repetição de todas as coisas. Ao interpelar o pensamento do eterno retorno, ele bem sabe que é aquele que tem conhecimento da morte de Deus, que acolhe sem restrição o sofrimento, que afirma que tudo retorna sem cessar”. FONTE: MARTON, S. O eterno retorno do mesmo: a concepção básica de Zaratustra. Cadernos Nietzsche, Guarulhos, v. 37, n. 2, p.11-46, set. 2016. Com base no Tópico 1 e na citação anterior, assinale a alternativa CORRETA. a) ( ) O pensamento do eterno retorno está inserido, por um lado, na crítica que Nietzsche realizou à cultura ocidental socrático-judaico-cristã e, por outro lado, ao seu apreço pela modernidade e sua elevada defesa da ciência. b) ( ) Para Nietzsche, aceitar o eterno retorno seria retornar à filosofia trágica. Seria um sagrado dizer sim à vida percebida como uma obra de arte, uma vida afirmativa, não ressentida, e sem arrependimentos. c) ( ) O tempo do eterno retorno é linear, progressivo, possuidor de um telos ou uma meta, sendo sustentado pela noção de um futuro ideal, negando assim as cosmologias que compreendem o tempo como circular e eterno. d) ( ) O eterno retorno seria compreendido como a volta incessante do mesmo, sendo que, ao retornar, poderíamos alterar o que fizemos de errado e nos aproximarmos da noção de além-do-homem nietzschiana, ou seja, o homem que ressente. AUTOATIVIDADE 118 119 TÓPICO 2 HISTÓRIA E TEMPO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, neste tópico, apresentaremos algumas concepções de tempo que serão recorrentes em seus estudos históricos. Iniciaremos pela relação entre a História e o tempo e, na sequência, apresentaremos o tempo cíclico e o tempo linear. Essas são duas das concepções de tempo que tiveram maior destaque no campo historiográfico. Outros conceitos caros ao historiador ou ao professor de História serão abordados neste tópico, como a temporalidade e sua divisão em passado, presente e futuro; as periodizações da História e as críticas atribuídas a elas; a proposta de entendimento das “durações” de Fernand Braudel; e a contagem do tempo através das eras e do uso do relógio. Esperamos que você esteja motivado para a leitura deste tópico. Bons estudos! 2 RELACIONANDO HISTÓRIA E TEMPO Caro acadêmico, o historiador francês Marc Bloch (1886-1944) contribui para a historiografia com uma das definições mais acertadas sobre a relação entre o tempo e a História. Em seu livro Apologia da História, Marc Bloch (2001, p. 55) assinala que “a história é a ciência dos homens no tempo”. Nessa frase curta, Marc Bloch apresenta três informações relevantes ao historiador. A primeira, a História é uma ciência, com seus métodos próprios; a segunda, a História tem como fundamento o estudo das ações humanas; e a terceira, a necessidade de incluir o tempo no trabalho historiográfico. O historiador brasileiro José D'Assunção Barros (2013, p. 13) reforça esse entendimento afirmando que “no caso da História, a perspectiva do tempo é visceral. Sem ela, os historiadores simplesmente não existem”.A definição de Marc Bloch está inscrita em uma crítica à História apreendida como o estudo do passado. De fato, essa foi a noção mais aceita ao longo dos séculos, mesmo entre os historiadores. De todo o modo, a escrita do passado está atrelada às noções de tempo, e estas serviram de subsídios ao trabalho dos historiadores desde o princípio. Heródoto, considerado o pai da História, relacionava seus escritos com a noção de tempo. Antes dele, os escribas acadianos que escreveram a história da monarquia de Akkad (2270-2083 a.C.), na Mesopotâmia, pensaram de forma semelhante. 120 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO A tarefa do historiador, na perspectiva da Escola dos Annales, é estar atento às necessidades do presente para a construção de uma história-problema. Somente a partir daí mergulhar no passado para buscar as informações que sejam de interesses dos homens do presente. Essa seria a jornada ideal do historiador, ir ao passado guiado pelos problemas do presente, tendo em vista que toda pesquisa nasce de interesse do presente, ou, se preferir, toda historiografia é do presente (REIS, 2012). Mesmo atualmente, quando podemos trabalhar com campos como a História do tempo presente, a questão temporal ainda nos será elementar. Se escrevemos em um determinado tempo, devemos supor que certos elementos discursivos e não discursivos estão incluídos em nossas subjetividades. Analisá- los e buscar compreendê-los é relevante ao trabalho historiográfico. 3 TEMPO CÍCLICO O tempo cíclico pode ser entendido como aquele no qual cada fim estabelece um novo começo. Podemos associar o tempo cíclico ao nosso ano corrente. Assim que chegarmos ao final dele, em 31 de dezembro, estaremos prestes a iniciar um novo ano ou um novo ciclo. Contudo, as semelhanças com a nossa atual forma de perceber o tempo terminam aqui. Para as sociedades que seguiam essa primeira concepção de tempo, os períodos eram ditados pela natureza. O ritmo era guiado por atividades como semear e colher e pela observação do Sol e outros astros. Thompson (1998, p. 269) corrobora essa noção de tempo afirmando que “entre os povos primitivos, a medição do tempo está comumente relacionada com os processos familiares no ciclo do trabalho ou das tarefas domésticas”. O tempo fracionado como temos atualmente simplesmente não existia. Até mesmo a vida e a morte faziam parte de um ciclo eterno. A lembrança do contínuo retorno também estava presente em diversas festividades, as quais buscavam reproduzir os mitos fundadores. Convidamos você, caro acadêmico, a conhecer um pouco mais sobre o tempo cíclico através de alguns exemplos. Na cultura hindu, a morte é vista como a possibilidade da reencarnação, portanto, um novo início, um novo ciclo. Para os gregos, a passagem do tempo poderia ser percebida através dos tempos que separavam os jogos olímpicos. Esses períodos de quatro anos eram conhecidos como Olimpíadas. Caro acadêmico, note que era o período entre os jogos olímpicos que se chamava Olímpiada e não os jogos propriamente ditos. NOTA TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 121 No entanto, é preciso compreender que ao longo da história grega se desenvolveram noções de tempo que possuem notáveis especificidades: chronos, o tempo comum, linear, cronológico; kairós, o tempo percebido como uma época, por exemplo, uma seca prolongada ou um período de prosperidade; e aeon, o tempo sagrado, sem influência do tempo cronológico. Para os astecas e outros povos da Mesoamérica, o mundo em si passava pelo processo de geração e desaparecimento. O próprio calendário asteca não instituiu uma data para a criação do mundo. A crença era que o mundo vivenciava um sol para então, tempos depois, desaparecer e surgir novamente. Um fato interessante está ligado à crença dos astecas, quando da chegada dos espanhóis no século XVI, na qual eles estariam vivendo o quinto sol, no interior da quinta Era da história da humanidade (SILVA; SILVA, 2009, p. 390). Refletindo sobre essa apreensão do tempo pelos astecas podemos concluir que o tempo cíclico também é definido por processos de criação e destruição ligadas a uma percepção de contínuo retorno. 4 TEMPO LINEAR Intrinsicamente ligado à ideia de que o universo, o mundo e a história possuem apenas um começo e um fim, o tempo linear nos é mais comum do que o tempo cíclico. Diversos fatores convergem para isso, mas certamente a influência da tradição judaico-cristã ganha destaque. Para essas duas religiões monoteístas o mundo teve a sua criação realizada por Deus, estando exposto nos relatos bíblicos a confirmação do fim dos tempos. Após o término dos tempos, os escolhidos iriam para junto de Deus no Paraíso, não havendo, portanto, um novo ciclo de criação do mundo. Se o tempo linear foi adotado pelas religiões monoteístas citadas, de maneira semelhante foi utilizado por pensadores iluministas dos séculos XVII e XVIII. O Iluminismo, movimento intelectual que tinha na razão o principal mecanismo para a aquisição dos saberes, não recorreu ao tempo linear na tentativa de justificar uma crença sobrenatural, e sim na ideia de que as sociedades poderiam evoluir aqui mesmo nas suas existências terrenas através da ciência. Essa visão de tempo linear progressista, ou progressismo, percebe o tempo futuro como melhor do que o passado e o presente, e as novidades seriam essencialmente boas. A ideia de que a linearidade e a esperança no futuro trariam a consolidação de sociedades mais evoluídas também influenciou formulações como a comunista, no qual, o Comunismo seria o último estágio a ser alcançado pelas sociedades humanas. Voltaremos a falar do tempo linear nas concepções positivista e marxista do tempo, e na apresentação das linhas do tempo no ensino de História. 122 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 5 TEMPORALIDADE Uma das formas mais tradicionais de tentativa de delimitar o tempo é através do conceito de temporalidade. A temporalidade, como provavelmente você já tenha notado, é uma criação humana, e diz respeito às vivências e percepções humanas. E é uma ótima ferramenta para pensarmos as três dimensões do tempo, a saber, o passado, o presente e o futuro, sem enveredar pelo caudaloso debate sobre o que é o tempo em si mesmo. 5.1 PASSADO Nos estudos das temporalidades temos a divisão do tempo em três dimensões, ou a divisão tripartite do tempo, que é composta por passado, presente e futuro. Iniciaremos falando sobre o passado e, para isso, solicitamos que imagine essa situação: você é questionado ou você questiona um de seus alunos sobre o que é o passado. Talvez, por ser uma pergunta pouco comum, a resposta poderá ser algo do tipo: “aquilo que não é mais”, ou “o que ficou para trás”, ou “não o vejo, logo ele não existe”. Contudo, essas respostas rápidas e sem reflexão não estão de acordo com o que vivenciamos. Estamos impregnados pelo passado, seja o passado recente ou o passado distante. Desde a língua que falamos, a forma de nos vestirmos, os hábitos alimentares, gostos, bem como as nossas características fisiológicas nos remetem constantemente ao passado. Sem o constante retorno ao passado não estaríamos aptos a nenhuma prática. Pois bem, entendemos que o passado está também no nosso presente, mas onde entra a História nesse cenário? Certamente você já compreendeu que a História não é meramente a ciência do passado, e mesmo a historiografia do presente requer essa temporalidade. Não é pelo fato de o passado não ser o único objeto do conhecimento que ele não seja fundamental. No entanto, cabe ao historiador e ao docente da disciplina perceber que a História não capta o passado em sua totalidade. Quando o historiador volta o seu olhar para o passado, ele o faz de maneira retrospectiva, apenas capturando algumas nuances. Desse modo, podemos falar de dois passados, o passado em sua completude, e o passado resgatado e representado pelo historiador. O passado também pode ser opressivo ou redentor e seus usos podem ser os mais variados.Um passado glorioso, como o dos romanos, pode fazer com que um italiano dos dias de hoje se sinta muito orgulhoso. Já a escravidão no Brasil ao longo de trezentos anos é um passado que muitas pessoas gostariam de esquecer. Sem falar no Terceiro Reich de Hitler, que buscava na antiga raça ariana o modelo de homem para a Alemanha nazista. No entanto, o Império Romano não existe mais, a escravidão no Brasil é uma triste história que devemos lembrar no intuito de impossibilitar que algo semelhante ocorra, e, por fim, o plano racial de Adolf Hitler fracassou juntamente com a Alemanha nazista. TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 123 Como vimos, os usos do passado são acompanhados das mais diferentes justificativas. Convidamos você a refletir sobre os usos do passado, principalmente imbuídos da promessa de um futuro ideal, por políticos, intelectuais, líderes religiosos, entre outros. 5.2 PRESENTE Caro acadêmico, falaremos agora sobre o presente. Seguiremos a definição proposta por Reis (2012) que trata o presente como a terceira parte do tempo, tendo em vista que ele é o intermediador entre o passado e o futuro. Nessa divisão estabelecida pelo presente entre o passado e o futuro, nos deparamos com um de seus principais atributos, o de ser o formador de representações. Todas as nossas memórias do passado e expectativas de futuro se encontram no presente. Como bem assinala Reis (2012, p. 23), “como percepção, o presente é um estado real de duração, a parte mais sólida, mais estável, mais substancial do tempo. Ele é triplo: momento original, lembrança do passado e tendência ao futuro”. Como já assinalamos, é no presente que o historiador problematiza os seus objetos e lança o olhar para o passado e, não raramente, encontramos na historiografia prognósticos para o futuro, embora essa seja uma tendência criticada por uma parcela dos historiadores. Outra maneira de perceber o presente é como instante. Viver o instante intensamente, de forma tal que ele seja percebido como eternidade. Também podemos lembrar de Horácio e de seu carpe diem. Nessa perspectiva, o momento deveria ser aproveito com aquilo que nos dá prazer, sem temer o futuro. No entanto, viver o momento, ou aproveitar o dia, também significa estar afastado das atividades inúteis que nos fazem perder tempo. 5.3 FUTURO O futuro é a terceira parte do tempo. Talvez a que mais nos causa aflição, justamente pela sua imprecisão. Por mais que façamos planos, o futuro não nos fornece garantias. O medo da morte, de perdas diversas, de decepções e do sofrimento nos causa insegurança, principalmente em tempos em que muitas das garantias que sonhávamos ter se desvaneceram. Mas o futuro também é o lugar das expectativas positivas. A formatura, a viagem a tanto tempo planejada, o nascimento de um filho, ou mesmo os nossos pequenos desejos encontram espaço no nosso futuro idealizado. Como percebemos, a definição do futuro é impressiva, ou seja, ela é “aporética: o futuro é tendência ao ser e ao não ser, é certeza e incerteza, é alegria da conquista e angústia do fracasso, vitória do desejo de viver e medo da morte, expectativa de ser e medo de desaparecer antes” (REIS, 2012, p. 24). 124 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO A imaginação humana possui fascínio pela ideia de viajar no tempo. Na trilogia De volta para o futuro, o cientista Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) modifica um automóvel DeLorean DMC-12, o transformando em uma máquina do tempo. Com a ajuda de seu amigo, o adolescente Marty McFly (Michael J. Fox), Dr. Brown realiza as primeiras viagens no tempo. No entanto, as coisas não saem como o planejado, e os personagens são confrontados com os problemas que a alteração do passado poderiam acarretar para os seus destinos. FIGURA – CAPA DO FILME DICAS FONTE: <https://br.web.img3.acsta.net/medias/nmedia/18/90/95/62/20122008.jpg>. Acesso em: 12 mar. 2020. FONTE: DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the future). Direção de Robert Zemeckis. Estados Unidos: Universal Pictures, Amblin Entertainment, 1985. (116 min.), DVD, son., color. Uma das conceituações mais relevantes sobre o futuro vem de filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), acompanhe o que Reis (2012, p. 24) escreveu sobre o tema: Heidegger põe o futuro como predominante, como local da finitude. O ser-aí (dasein) deve partir dessa determinação para o interior da consciência viva, que é o passado e o presente. Ele põe primeiro o futuro-nada, para adentrar no ser, que é a articulação de passado/ presente/futuro, antes do nada. A orientação do tempo do dasein não é bem o futuro, posterior ao passado e ao presente, mas o centro de si, reunindo a dispersão desses tempos em uma relação autêntica consigo mesmo, isto é, do dasein posto diante da sua finitude. O futuro também pode ser percebido através das teleologias, isto é, das maneiras de organizar o tempo que priorizam o futuro como ponto de partida. O passado e o presente são organizados a partir das perspectivas de um futuro TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 125 ideal. Por exemplo, se pensarmos no modelo positivista proposto por Auguste Comte (1798-1857) no qual o lema era “Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, facilmente encontraremos uma visão teleológica da História. No Brasil, o positivismo teve influência sobre diversos republicanos, ao ponto de termos uma parte de seu lema em nossa bandeira: “Ordem e Progresso”. NOTA 6 PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA Para compreender a periodização da História, utilizaremos alguns exemplos. É comum, em nossos estudos, nos depararmos com a divisão da História em diversas periodizações, tais como: Pré-história, Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Contemporaneidade. Se voltarmos à atenção para a História do Brasil, encontraremos a divisão em três períodos: Brasil Colônia, Brasil Império e Brasil República. Mas será que essas periodizações são aceitas por todos os historiadores? Voltemos ao primeiro exemplo. Quais foram os critérios utilizados pelos historiadores responsáveis por essa divisão da história humana? A Idade Média realmente terminou com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453? Ou, como apontam outros historiadores, teria terminado apenas em 1492 com a chegada de Colombo à América? Ou ainda em 1517, com a reforma de Lutero? O historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), em seu livro Uma longa Idade Média (2008), nos apresenta a ideia de uma longa Idade Média, na qual o século XIX ainda apresentava fragmentos. Caro acadêmico, notou que não há consenso sobre o término da Idade Média, certo? O mesmo ocorre com outros períodos que estudamos. A periodização deve ser tomada como uma ferramenta de compreensão, sendo fundamental no ensino da disciplina e nos estudos históricos. Datar é e será sempre uma das tarefas fundamentais do historiador, mas deve fazer-se acompanhar de outra manipulação necessária da duração – a periodização – para que a datação se torne historicamente pensável. Gordon Leff recordou com veemência: “a periodização é indispensável a qualquer forma de compreensão histórica”, acrescentando com pertinência: “a periodização, como a própria história, é um processo empírico, delineado pelo historiador”. Acrescentarei apenas que não há história imóvel e que a história também não é a pura mudança, mas sim o estudo das mudanças significativas. A periodização é o principal instrumento de inteligibilidade das mudanças significativas (LE GOFF, 1992, p. 47). 126 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO Embora didaticamente as periodizações oferecem possibilidades para o entendimento da História pelo aluno, também podem causar confusões e visões distorcidas sobre a ela. Por prevalecer a visão eurocêntrica e, mais especialmente, a visão francesa da História, a divisão em Idade Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea deixa de fora uma parcela considerável de atores históricos e agrupa diversos outros em condições e momentos que não se encaixam em tais divisões.Não falamos da Pré-história nesse momento devido ao forte apelo dos historiadores tradicionais ao uso exclusivo das fontes escritas e, como sabemos, a História, na divisão tradicional, inicia com a invenção da escrita. NOTA Diversas críticas já foram realizadas a essa percepção de História, mas nos limitaremos aqui a apresentar algumas ressalvas referentes a esta divisão em quatro idades, ou, conforme assinala o historiador francês Jean Chesneaux (1922- 2007), a divisão do tempo histórico em um sistema quadripartite. É justamente Chesneaux (1995, p. 95) quem nos faz refletir para o caráter político e ideológico do quadripartismo: O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar dos povos não-europeus na evolução universal. Por essa razão, faz parte do aparelho intelectual do imperialismo. Os marcos escolhidos não têm significado algum para a imensa maioria da humanidade: fim do Império Romano, queda de Bizâncio. Esses mesmos marcos destacam a história das superestruturas políticas, dos Estados, o que também não é inocente. Caro acadêmico, ao trabalhar com periodizações, esteja atento às limitações de cada proposta. Busque relacionar outras formas de compreensão da História, principalmente aquelas que contemplam acontecimentos em diversos espaços, embora ocorridos em um mesmo tempo histórico. 7 DURAÇÃO Nos nossos estudos e nos nossos planejamentos de aulas, é fundamental estarmos cientes do conceito de duração. Esse conceito foi elaborado pelo filósofo francês Henri Bergson em sua tese de doutoramento intitulada Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, em 1889. A historiografia moderna retoma o conceito de duração, e tem no livro O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Filipe II (1949) de Fernand Braudel um dos maiores exemplos de sua aplicação. TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 127 Para compreender o conceito de duração, podemos pensar em um conceito que nos é mais conhecido, o de ritmo. Se vivemos uma vida agitada, com diversos compromissos e mudanças frequentes, dizemos que a nossa vida está em um ritmo acelerado. Para a duração, o entendimento é semelhante. A duração está associada à velocidade, ao ritmo das mudanças ou permanências de algo. Uma duração pode ser caraterizada como curta quando as permanências são atravessadas por novidades, as quais encerram o fluir pretensamente contínuo das permanências. Já em uma longa duração, ocorre o inverso. O tempo parece fluir lentamente e as mudanças custam a acontecer. Mas essa percepção, como você pode supor, não é acompanhada do tempo cronológico, ou se preferir, do tempo externo. Ela é entendida apenas no tempo interno, psicológico, seja de um indivíduo, ou de uma sociedade. Em contraste com a periodização dos historiadores do Século XIX, notadamente de influência positivista, os historiadores da Escola dos Annales, a partir do final da Década de 1920, buscaram realizar análises divergentes daquelas cronologicamente e progressivamente situadas. Marc Bloch, fundador dos Annales ao lado de Lucien Febvre (1878-1956), instiga os historiadores a ultrapassar a noção cronológica da História, e apreender os acontecimentos no tempo da duração, isto é, no tempo do contínuo e da duração, no qual os acontecimentos não podem ser encaixados em limites arbitrários. Como vimos, Fernand Braudel (1902-1985), maior representante da segunda geração da Escola dos Annales, também escreveu sobre o tempo, iniciando pela retomada da noção de duração de Marc Bloch. Ao inserir a duração como fundamento da problemática histórica, Braudel dedicou esforço para a compreensão dos diferentes ritmos e níveis que a compõe. Amparados em Braudel, podemos compreender os ritmos como sendo de curta duração, média duração e longa duração. O ritmo da curta duração é o do acontecimento, de um momento preciso, uma data, e está relacionado ao plano político acidental e individual, como um nascimento, uma morte, uma partida de futebol, ou a assinatura de um armistício. A longa duração possui o ritmo da estrutura, que dura mais de um século e está relacionada às organizações duradouras, nas quais os marcos cronológicos não são sentidos pelos indivíduos que lhe são contemporâneos, como, por exemplo, a escravidão no Brasil, o cristianismo ocidental, o capitalismo e as estruturas patriarcais. Podemos apreender melhor os conceitos de estrutura e longa duração através das palavras do próprio Fernand Braudel (2011, p. 95): Para nós, historiadores, uma estrutura é sem dúvida um agregado, uma arquitetura; porém, mais ainda, uma realidade que o tempo pouco deteriora e que veicula por um longo período. Certas estruturas, por perdurarem durante muito tempo, tornam-se elementos estáveis de uma infinidade de gerações: elas obstruem a história e, pelo fato de a incomodarem, impõem seu desabamento. Outras são mais propícias a se desestruturar. Mas todas são, ao mesmo tempo, sustentáculos e obstáculos. Como obstáculos, elas ficam marcadas como limites (contornos, no sentido matemático) dos quais o homem 128 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO e suas experiências praticamente não podem se libertar. Pensem na dificuldade de quebrar algumas limitações geográficas, algumas realidades biológicas, alguns limites da produtividade e mesmo certos condicionamentos espirituais: os arcabouços mentais também são prisões de longa duração. Por fim, o ritmo da média duração é o da conjuntura, e normalmente envolve o período de uma geração e as relações econômicas, sociais e de poder. Esse ritmo é composto por variações conjunturais dentro da estrutura, por esse motivo, escolhemos apresentá-lo após expormos a longa duração. Alguns exemplos de média duração são: a moda em um determinado período, como a dos anos 80, o Plano Cruzado, a Revolução Francesa e a Guerra Fria (BITTENCOURT, 2008, p. 206-207). Através da ilustração elaborada pelo historiador José D’Assunção Barros podemos ter uma maior compreensão da arquitetura das durações de Braudel. FIGURA 3 – ARQUITETURA DAS DURAÇÕES DE FERNAND BRAUDEL FONTE: Barros (2013, p. 101) Notou que as estruturas englobam as conjunturas e estas englobam os eventos característicos da história política? Essa relação é fundamental ao historiador que busca uma percepção ampla sobre a História, bem como para os estudiosos do tempo histórico. 8 FORMAS DE CONTAR A PASSAGEM DO TEMPO Ao longo dos séculos, com as mudanças inseridas nas sociedades europeias, a contagem do tempo foi sendo aperfeiçoada por navegadores, mercadores e industriais, chegando à contemporânea noção de tempo capitalista, o tempo ligado à fábrica e ao dinheiro. Outro exemplo vem dos historiadores do período moderno que, embasados no calendário cristão, organizam o tempo cronologicamente por séculos e períodos. Dessa organização resultou a divisão tradicional da História em: Pré-história (Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais), Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Como já visto anteriormente, esteja atendo, caro acadêmico, à questão de que essas periodizações possuem um caráter essencialmente eurocêntrico, desconsiderando os acontecimentos ao redor do mundo. TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 129 Nas leituras e aulas que você planejará e lecionará, serão apresentadas ou revistas algumas expressões que nomeiam determinado período, tais como Século das Luzes, Era napoleônica e Belle Époque, na Europa; e Período Joanino, Período pombalino e Brasil Imperial, no Brasil. Essa forma de circunscrever o tempo cronológico em períodos é muito comum ao historiador e ao docente em sala de aula. As periodizações podem oferecer ao educando uma compreensão generalista da História, sendo a linha do tempo a opção didática mais visual e eficiente. No entanto, busque outros contextos e situações em que as periodizações tradicionais não possam ser aplicadas, como é o caso das sociedades ameríndias do períodopré-colonial. Chamamos a sua atenção nesse momento, caro acadêmico, para um questionamento: a aprendizagem de conceitos como datação, a contagem dos séculos e sua escrita em algarismos romanos, o conhecimento de diferentes calendários, entre outros elementos que compõe o estudo do tempo, é suficiente para o aluno compreender o tempo histórico? Acreditamos que após nossa jornada até aqui você tenha notado que o tempo histórico não se trata apenas do tempo cronológico. Dessa forma, é fundamental apresentar aos alunos possibilidades de pensar os acontecimentos, datas, períodos e eras como pertencente a um cenário amplo, tanto temporalmente como espacialmente. Como exemplo, podemos citar o Ciclo do ouro no Brasil e sua relação com Portugal, bem como a relação de Portugal com a Inglaterra, a relação da Inglaterra com os demais países europeus, como a Holanda, a relação da Holanda com o tráfico de escravos e, por fim, o tráfico de escravos e sua relação com o Ciclo do ouro no Brasil. Entre uma relação e outra, podemos encontrar tantas outras, assim como relações entre todos os envolvidos nesse exemplo. Diversas durações, ritmos e níveis podem ser explorados nesse exemplo. Em suas aulas, busque criar relações e pontes de entendimento para os conteúdos abordados. Temos conhecimento de que na educação básica brasileira, no 6º ano do Ensino Fundamental e no 1º ano do Ensino Médio, um dos primeiros assuntos abordados pelos professores é o conceito do tempo. Ao questionarmos os alunos sobre o que viria a ser o tempo, podemos ter como reposta, formulações acerca do relógio, do calendário, ou até mesmo como sinônimo de clima. No entanto, o que interessa ao professor de História é a noção de tempo como construção histórica e cultural voltada para o contínuo, isto é, para a duração. Diversas sociedades constituíram noções sobre o tempo e a nossa não é diferente. Essa abstração que damos como absoluta e a-histórica, é também uma construção e, portanto, possui historicidade. A maior parte da história da humanidade não possuiu relógios ou calendários. Para um aluno que está iniciando as suas leituras em História pode parecer dificultoso pensar no tempo sem o auxílio de alguma medição. Podemos apresentar a vida dos nossos ancestrais que, embora não possuíssem um sistema de escrita, utilizavam a natureza como auxiliadora na contagem do tempo. Seja pela folhagem de uma árvore, as cheias de um rio, o período de colheita, ou a posição dos astros no céu, o tempo era estreitamente ligado à natureza 130 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO Para essa tarefa de contextualização, as grandes religiões monoteístas oferecem narrativas em seus livros sagrados que nos auxiliam a compreender a medição do tempo em períodos afastados da atualidade. No Antigo Testamento, encontramos o livro de Tobias, escrito no século II a.C., que contém duas passagens interessantes para entendermos a noção de tempo naquele período. No Versículo 11 do Capítulo 8 temos a seguinte passagem: “ora, ao cantar do galo, Raguel chamou os seus criados e foram juntos cavar uma sepultura” (BÍBLIA, 2014). No Versículo 14 outro indicador da passagem do tempo está presente: “manda uma de tuas escravas ver se ele morreu, a fim de que eu possa enterrá-lo antes de clarear o dia” (BÍBLIA, 2014). Outra passagem, essa do Novo Testamento, escrito entre os séculos I e II, presente no livro de Mateus, Capítulo 26, Versículo 34, trata de um diálogo entre Jesus e Pedro: “disse-lhe Jesus: Em verdade te digo: nesta noite mesma, antes que o galo cante, três vezes me negarás” (BÍBLIA, 2014). Percebeu, caro acadêmico, como a medição do tempo no período das narrativas Bíblicas se utilizava da natureza? Veremos, a seguir, outras duas formas de medir a passagem do tempo, são elas: as eras e a medição através do relógio. 8.1 AS ERAS Outra estratégia utilizada para datar o tempo é a utilização de eras. As eras são iniciadas em um acontecimento fundador que se apresenta como uma descontinuidade, um corte com a tradição vigente e não possuem um fim determinado previamente. Vários são os exemplos de eras na nossa história, sendo a Era Cristã a que nos é mais familiar, bem como a mais utilizada no mundo todo. Contudo, para alguns historiadores e outros estudiosos, a utilização do termo Era Cristã, ou Anno Domini (do latim “no ano do nosso Senhor”), bem como as siglas a.C. e d.C. poderia denotar uma aproximação com os valores do cristianismo. Para uma referenciação menos ligada à religião e tendo em vista que há uma divergência no cálculo que estabelecera o ano em que Jesus nasceu, conforme nos contam Cherman e Vieira (2011, p. 61): “mil e duzentos anos depois de Dionísio realizar tal cálculo, estudiosos descobriram que ele possivelmente havia cometido um erro de quatro anos para menos. O sistema de contagem, porém, não foi alterado. Ou seja, é provável que Cristo tenha nascido no ano 4 a.C.”. Desse modo, passou a ser utilizado o título de Era Comum, iniciando com o ano 1 do calendário gregoriano. Devido a essa constatação, “antes de Cristo” (a.C.) foi substituído por “antes da Era Comum” (AEC) e “depois de Cristo” (d.C.) por “Era Comum” (EC). Outras eras também podem ser assinaladas, como a era dos muçulmanos iniciada com a Hégira, em 16 de julho de 622 do calendário gregoriano. A França revolucionária também estabeleceu uma era, durando apenas treze anos. Pouco mais duradoura foi a era fascista na Itália, a qual permaneceu por vinte e um anos. Os historiadores também costumam delimitar suas próprias eras, como é o caso do historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012) e as eras que deram título a alguns de seus livros: A Era das Revoluções: 1789-1848; A Era do Capital: 1848-1875; A Era TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 131 dos Impérios: 1875-1914 e Era dos Extremos: O breve século XX: 1914-1991. Podemos concluir, com base nos títulos dos livros de Hobsbawm, que pensar em eras é, mais do que uma simplificação didática, uma forma de se escrever a História. 8.2 O RELÓGIO Por milhares de anos os seres humanos desenvolveram mecanismos para a medição do tempo. Embora fossem imprecisos comparados aos atuais relógios mecânicos, fazem parte do processo de aperfeiçoamento de uma das tecnologias mais relevantes da nossa história. O primeiro relógio que temos registro é o solar, e ele foi construído no Egito há mais de 4 mil anos. Na sequência, temos o surgimento dos relógios de água, também chamados de clepsidra, as ampulhetas e outras formas de verificar a passagem do tempo, como a queima de velas ou do combustível das lamparinas. Na Idade Média, os sinos ditavam tanto os principais horários do dia, bem como acontecimentos relevantes, como, por exemplo, um falecimento, um batizado, um casamento ou um nascimento (CAVAZZANI; CUNHA, 2017, p. 94). FIGURA 4 – CLEPSIDRA ATENIENSE FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Medidas_de_tempo#/media/File:AGMA_Clepsydre.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2020. A partir do Século XI, a Europa passa por um período de renascimento urbano, com novas cidades e com o recrudescimento do comércio. Para a burguesia nascente, o tempo era percebido como portador de valor. Já para a Igreja católica, a tradição especificava que o tempo era concebido e retirado apenas por Deus, não cabendo ao homem interferir nessa relação, principalmente através da cobrança de juros sobre os empréstimos, prática conhecida como usura. No entanto, como sabemos, a noção de tempo dos burgueses prevaleceu, e desde então a notação do tempo se faz presente na produção, circulação e no processo de valoração dos produtos e serviços. O tempo da natureza não é suficiente para o novo modelo econômico e, a partir do final do século XVI, os relógios mecânicos passam a figurar em diversas cidades de forma intensiva (CAVAZZANI; CUNHA, 2017). No entanto, como nos informa Thompson (1998, p. 274-275), os relógios careciam de exatidão: 132 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO Do Século XIV em diante, construíram-se relógiosde igreja e relógios públicos nas cidades e nas grandes cidades-mercado. A maioria das paróquias inglesas devia possuir relógios de igreja no final do Século XVI. Mas a exatidão desses relógios é motivo de discussão; e o relógio de sol continuava em uso (em parte para acertar o relógio) nos séculos XVII, XVIII e XIX. FIGURA 5 – CHRISTIAAN HUYGENS APRESENTA A SUA INVENÇÃO, O RELÓGIO DE PÊNDULO, AO REI LUÍS XIV DA FRANÇA FONTE: <https://www.sciencesource.com/Doc/TR1_WATERMARKED/d/7/0/d/SS2723412. jpg?d63644231689>. Acesso em: 10 fev. 2020. Em Tempos modernos, filme icônico de Charles Chaplin, encontramos referências ao ritmo de vida acelerado imposto pela crescente utilização das máquinas no processo produtivo, assim como a relação entre tempo e dinheiro. Na clássica cena da fábrica, na qual a linha de produção afeta fisicamente e mentalmente nosso protagonista, o tempo da máquina devora tudo, inclusive o próprio trabalhador. FIGURA – FILME TEMPOS MODERNOS DICAS FONTE: <http://abre.ai/aPYU>. Acesso em: 12 mar. 2020. FONTE: TEMPOS MODERNOS (Modern times). Direção de Charles Chaplin. Intérpretes: Charles Chaplin, Paulette Goddard. EUA: United Artists, 1936. (87 min.), Blu-Ray, P&B. TÓPICO 2 | HISTÓRIA E TEMPO 133 O controle do tempo enrijeceu nos séculos seguintes, fazendo com que os relógios localizados no exterior das residências e fábricas já não fossem suficientes para ditar o ritmo das tarefas. Como resposta, a partir da Revolução Industrial na Inglaterra do Século XVIII, vemos intensificar a aquisição de relógios de pêndulo e dos relógios de bolso. Nesse mesmo sentido, ao falar sobre a Inglaterra, Thompson (1998, p. 279) nos conta que: Havia muitos relógios no país na década de 1790: a ênfase estava mudando do “luxo” para a “conveniência”; até os colonos podiam ter relógios de madeira que custavam menos de vinte xelins. Na verdade (como seria de se esperar), ocorria uma difusão geral dos relógios portáteis e não portáteis no exato momento em que a Revolução Industrial requeria maior sincronização do trabalho. Com o passar dos séculos e o aprimoramento do capitalismo industrial, o relógio passou de item de luxo e restrito, em sua maior parcela, à burguesia, a um objeto comum a todas as classes sociais. Medir e controlar o tempo passa a estar relacionado com as necessidades da nova ordem socioeconômica capitalista. Terminada a leitura deste tópico, que tal ouvir uma música? Melhor ainda! Ouvir uma música relacionada ao tema. Nossa indicação é a música Time da banda britânica de rock progressivo Pink Floyd. Confira um trecho da letra da música: Ticking away the moments that make up a dull day You fritter and waste the hours in an offhand way Tradução: O tempo passa em meio a momentos que fazem um dia monótono Você perde tempo gastando as horas de modo descuidado FONTE: <https://www.letras.mus.br/pink-floyd/63078/traducao.html>. Acesso em: 12 jul. 2018. DICAS EXCERTOS DO LIVRO SAPIENS: UMA BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações. Uma vez que as pessoas se acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com ele. Acabam por chegar a um ponto em que não podem viver sem. Tomemos outro exemplo familiar de nosso tempo. Nas últimas décadas, inventamos inúmeros instrumentos que supostamente economizam tempo e tornam a vida mais fácil – lavadoras de roupa e de louça, aspiradores de pó, telefones, 134 UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO aparelhos celulares, computadores, e-mail. Antes, dava muito trabalho escrever uma carta, endereçar e selar um envelope e levá-lo até o correio. Levava-se dias ou semanas, talvez até meses, para obter uma resposta. Hoje em dia eu posso escrever um e-mail às pressas, enviá-lo para o outro lado do mundo e (se meu destinatário estiver on-line) receber uma resposta um minuto depois. Economizei todo aquele trabalho e tempo, mas tenho uma vida mais tranquila? Infelizmente, não. Antes, as pessoas só escreviam cartas quando tinham algo importante para relatar. Em vez de escrever a primeira coisa que lhes vinha à cabeça, consideravam cuidadosamente o que queriam dizer e como expressá-lo. Esperavam receber uma resposta igualmente atenciosa. A maioria das pessoas escrevia e recebia não mais de um punhado de cartas por mês e raramente se sentia compelida a responder de imediato. Hoje recebo dezenas de e-mails todos os dias, todos de pessoas que esperam uma resposta imediata. Pensamos que estávamos economizando tempo; em vez disso, colocamos a roda da vida para girar a dez vezes sua velocidade anterior e tornamos nossos dias mais ansiosos e agitados. FONTE: HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. 19. ed. Porto Alegre: L&PM, 2017. p. 97-98. 135 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Marc Bloch compreende a História como a ciência que estuda os homens no tempo, e que, ao contrário dos historiadores tradicionais, o passado não é mais a única temporalidade trabalhada pelo historiador. A história-problema parte das necessidades do presente, retornando ao passado na busca pelo entendimento das questões atuais. • O tempo cíclico foi a primeira noção de tempo construída pelo homem. No tempo cíclico cada fim é a origem de um novo início. O tempo da natureza é predominante. Vimos que os gregos desenvolveram conceitos distintos de tempo. São eles: chronos, kairós e aeon. • O tempo linear é aquele que temos maior conhecimento, pois a tradição judaico- cristã adota essa noção de tempo. No tempo linear há apenas um início e um fim. O tempo pode ser representado como uma linha reta que aponta para o futuro. O tempo pode ser delimitado através da temporalidade e sua divisão em passado, presente e futuro. • O nosso presente é impregnado pelo passado. Podemos ter visões diferentes sobre o passado, até mesmo o utilizando para justificar posturas políticas e sociais do presente. O presente é puro devir. É o formador de todas as representações que temos sobre as demais temporalidades. Por fim, o futuro é a terceira parte do tempo, o lugar das expectativas, dos desejos e do medo pelo desconhecido. • O positivismo possui uma concepção de futuro que o relaciona ao progresso. E as teleologias privilegiam o futuro como o ponto de partida em suas organizações do tempo. • A periodização tradicional estabelece uma divisão quadripartite e eurocêntrica da História. Os períodos dessa divisão são: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. A historiografia, embora aceite a periodização como ferramenta didática, tem desferido críticas ao quadripartismo. • A utilização do conceito de duração e a relação entre ritmo e duração no pensamento de Fernand Braudel. Em seu livro O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Filipe II (1949), Braudel estabeleceu três durações: a curta duração, a média duração e a longa duração. • As eras e os relógios são duas formas comuns de contar a passagem do tempo. 136 AUTOATIVIDADE 1 No intuito de retomar alguns conceitos deste Tópico 2, escreva as principais características do tempo cíclico e do tempo linear. 2 Fernand Braudel, historiador da segunda geração dos Annales, estabeleceu três durações para o estudo da História. São elas: a curta duração, a média duração e a longa duração. Nesse sentido, leia o que Braudel (1978, p. 47) escreveu: Os historiadores do século XVIII e do início do XIX haviam estado mais atentos às perspectivas da longa duração que, a seguir, somente grandes espíritos, como um Michelet, um Ranke, um Jacob Burckhardt, um Fustel souberam redescobrir. Se aceitarmos que essa superação do tempo curto foi o bem mais precioso, porque o mais raro da historiografia dos últimos cem anos, compreenderemos o papel eminente da história das instituições, das religiões, das civilizações, e, graças à arqueologia, a qual necessita de vastos espaços cronológicos, o papel de vanguardados estudos consagrados à Antiguidade clássica. FONTE: BRAUDEL, F. Escritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1978. 294 p. Sobre as durações estabelecidas por Braudel, podemos afirmar que: I- O ritmo da curta duração é o do acontecimento, de um momento preciso, uma data; e está relacionado ao plano político acidental e individual. A escravidão no Brasil ou o cristianismo ocidental são exemplos da curta duração. II- O ritmo da média duração é o da conjuntura, e envolve o período de uma geração, assim como as relações econômicas, sociais e de poder. A Revolução Francesa e a Guerra Fria são exemplos da média duração. III- A longa duração é marcada pelo ritmo da estrutura e está relacionada às organizações duradouras, sendo que os indivíduos não sentem os marcos cronológicos ligados à essa duração por serem contemporâneos a ela. IV- O cristianismo ocidental, o capitalismo, a escravidão no Brasil, e as estruturas patriarcais são exemplos de estruturas de longa duração. Essas estruturas perduram por muito tempo, e, por isso, tornam-se elementos estáveis por várias gerações. Estão CORRETAS: a) ( ) Apenas as afirmativas II e III. b) ( ) Apenas as afirmativas I e IV. c) ( ) Apenas as afirmativas II, III e IV. d) ( ) Apenas as afirmativas I, II e III. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 137 TÓPICO 3 OS DIFERENTES CALENDÁRIOS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Diversos foram os calendários criados ao longo da História, como o calendário caldeu, o calendário egípcio, o calendário judaico, o calendário chinês, o calendário muçulmano, o calendário maia, o calendário revolucionário francês, entre outros. Sem contar que muitos desses calendários são solares, outros lunares, e outros lunissolares, isto é, são baseados nos movimentos da Lua e do Sol. Ao falarmos de movimento do Sol, vale ressaltar que a percepção ao longo do tempo era de que o Sol se movia em torno da Terra e somente com a Revolução Copernicana de 1543, o inverso se tornou conhecido. Veremos que é através de seus calendários que os povos organizam suas festividades religiosas e os feriados com base na particularidade da sua história. Caro acadêmico, vale a pena questionar os seus alunos e verificar se eles possuem a compreensão de que alguns feriados ocorrem apenas no Brasil, pois fazem parte do nosso calendário cívico, por exemplo, temos o 21 de abril, o 7 de setembro, o 15 de novembro, entre outros. 2 OS CALENDÁRIOS DA ANTIGUIDADE Os calendários são produções elaboradas pelos astrônomos desde a Antiguidade, e foram, em sua maioria, iniciativas de lideranças políticas ou religiosas. Através da observação direta da organização cósmica, isto é, dos movimentos dos astros, principalmente do Sol e da Lua, os astrônomos puderam formular o calendário solar de 365 dias e o lunar, esse com 354 dias lunares. A palavra calendário deriva da palavra latina calendas, nome dado ao primeiro dia do mês, momento em que a população romana era convocada (calare, em latim) para o culto à deusa Juno (AZEVEDO, 2012, p. 78). O historiador francês, Jacques Le Goff (1992, p. 494) também comenta que “a própria designação de 'calendário' deriva do latim calendarium que queria dizer 'livro de contas', porque os juros dos empréstimos eram pagos nas calendae, o primeiro dia dos meses romanos”. A divisão da semana em sete dias e do ano em 12 meses remonta à Mesopotâmia. Essa divisão era fundamental para orientar os períodos de plantio UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 138 e colheita, bem como para a celebração das festividades. Todas as sociedades da Antiguidade possuíam calendários lunares, à exceção do Egito, que possuía um calendário solar chamado de helíaco (de helios, Sol) ou sotíaco (de sotis, sírius). Esse calendário era composto por 12 meses com 30 dias cada, mais cinco dias ao fi nal do décimo segundo mês. Os gregos adotaram um calendário lunar, o qual, como vimos, contava com 354 dias divididos em 12 meses (AZEVEDO, 2012). FIGURA 6 – CALENDÁRIO EGÍPCIO FONTE: <https://ancient-egypt-by-us.weebly.com/uploads/5/3/5/2/53525553/1433940651. png>. Acesso em: 10 fev. 2020. 3 CALENDÁRIO JUDAICO O calendário judaico permanece até os dias de hoje sendo lunissolar. É dividido em meses de 29 ou 30 dias, sendo a principal data o dia da Páscoa. Como forma de ajustar o calendário ao ciclo solar, a cada dois ou três anos é acrescido um mês ao ano corrente. A contagem dos anos nesse calendário iniciou, segundo a crença judaica, a partir da criação do universo por Deus. Podemos compreender temporalmente esse acontecimento ao comparar com o ano 1 da Era Cristã, o qual corresponde a passagem do ano 3760 e 3761 do calendário judaico. A semana de sete dias também foi utilizada pelos hebreus, possivelmente por infl uência dos caldeus. Temos registro de uma das origens dessa divisão da semana em sete dias no livro de Gênesis do Antigo Testamento, na passagem que trata da Criação e do descanso de Deus ao término de sua obra, no sétimo dia. Le Goff (1992, p. 515) apresenta razões para entendermos melhor a relevância da semana de sete dias: A grande virtude da semana é introduzir no calendário uma interrupção regular do trabalho e da vida cotidiana, um período fi xo de repouso e tempo livre. A sua periodicidade pareceu adaptar-se muito bem ao ritmo biológico dos indivíduos e também às necessidades econômicas das sociedades. Nesse calendário, assim como nos demais, a menor unidade é o dia. Mas com uma diferença, para os judeus, assim como é para os muçulmanos e alguns povos africanos, o dia inicia no pôr do sol, perdurando até o próximo pôr do sol. TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS 139 Acadêmico, notou a diferença? Para nós, a noção de que o dia termina à meia-noite está tão enraizada que passamos a acreditar que em todos os períodos e sociedades ocorre o mesmo. Nossa rotina agitada, com diversos turnos de trabalho, programação televisiva, atividades escolares e familiares, o distanciamento da natureza, entre outros, faz com que o dia seja percebido por nós de uma maneira diferente do que é para outras sociedades. Essa pode ser uma boa temática para uma reflexão em sala de aula. Busque comentar com os seus alunos que as formas de existência do ser humano são plurais, e que as generalizações, na maioria dos casos, são imprecisas. IMPORTANT E FIGURA 7 – CALENDÁRIO JUDAICO FONTE: <https://static.todamateria.com.br/upload/ca/le/calendariojudaicobb.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2020. 4 CALENDÁRIO CHINÊS Na China, o principal interesse ao elaborar o calendário estava na tentativa de conciliar os movimentos do Sol e da Lua. Como podemos supor, essa tarefa se mostrou fracassada devido às características próprias de cada um dos astros. O sistema, que acabou sendo adotado na China, bem como no Japão, foi de inspiração budista. A divisão do ano em doze meses, tradição que remonta aos caldeus, serviu de modelo para uma divisão zodiacal, essa, no entanto, de doze anos, sendo cada ano representado por um animal. Esses animais, segundo UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 140 a tradição, teriam respondido a um chamado de Buda para que, no Ano Novo, viessem o homenagear. Os anos receberam os nomes dos animais que atenderam ao pedido de Buda, organizados pela ordem de chegada, sendo que alguns desses anos são considerados fastos e outros nefastos. Esses animais foram: o rato, o boi (o búfalo), o tigre, o coelho, o dragão, a serpente, o cavalo, a cabra, o macaco, o galo, o cão, o javali (o porco). É interessante notar que até o Século III a.C. o ano chinês era dividido em apenas duas estações, a Primavera e o Outono, acrescentando o Verão e o Inverno apenas pelas necessidades impostas pelo desenvolvimento econômico. Por fim, no ano de 1912, a República chinesa adota o calendário gregoriano ocidental. FIGURA 8 – CALENDÁRIO CHINÊS FONTE: <https://bit.ly/2L3l4BZ>. Acesso em: 10 fev. 2020. 5 CALENDÁRIO MUÇULMANO O calendário muçulmano, calendário islâmico ou calendário hegírico,assim como o dos gregos, é lunar, e tem a sua contagem iniciada com um evento importante para o Islã, a Hégira. A Hégira é como ficou conhecida a fuga de Maomé e seus seguidores de Meca para a cidade de Yatreb, atual Medina. A motivação para essa fuga foi a perseguição dos fiéis e comerciantes que não aceitavam a nova fé propagada por Maomé, caracterizada principalmente pelo monoteísmo. Esse evento ocorreu em 16 de julho de 622 do calendário gregoriano, ou seja, da Era Cristã. Como você pode imaginar, a recusa em adotar um calendário solar pelos muçulmanos resulta na necessidade de correções de tempos em tempos, assim como a observação de datas possivelmente móveis pelos muçulmanos ao redor do mundo. O calendário muçulmano possui um mês dedicado ao jejum, o mês do Ramadã, que é um dos cinco pilares da religião islâmica. TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS 141 FIGURA 9 – CALENDÁRIO MUÇULMANO FONTE: <https://knowken.files.wordpress.com/2015/11/muculmano.jpg?w=300&h=297>. Acesso em: 10 fev. 2020. 6 OS CALENDÁRIOS DAS CIVILIZAÇÕES PRÉ-COLOMBIANAS Representantes notáveis da história da América pré-colombiana, as sociedades maia e asteca também desenvolveram seus calendários. Ambos os povos utilizavam dois calendários. Um era o calendário civil, com 365 dias e que era dividido em 18 meses com 20 dias cada, mais 5 dias complementares, os quais eram considerados nefastos. Já o outro calendário era o ritual, e contava com 13 grupos com 20 dias cada. Esses dois calendários só encontravam sincronia no final da passagem de 52 anos. No caso dos astecas, o calendário também incluía a divisão dos anos em grupos indicados pelos pontos cardeais, detonando a união entre espaço e tempo nas crenças desse povo. FIGURA 10 – CALENDÁRIO ASTECA FONTE: <https://nationalgeographic.sapo.pt/images/edicoesespeciais/ConquistaAmerica/Maias/ maias2.jpg>. Acesso em: 10 fev. 2020. Embora semelhantes, vale destacar que o calendário maia era mais preciso que o calendário asteca. Dois fatores se destacam nesse sentido, o conhecimento mais apurado dos astrônomos maias e a utilização que estes fizeram do número zero como correspondente à ausência de valor. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 142 FIGURA 11 – CALENDÁRIO MAIA FONTE: <https://bit.ly/2Jiu2cU>. Acesso em: 10 fev. 2020. Outra importante civilização pré-colombiana foi a inca, porém, como sabemos, os incas não desenvolveram um sistema de escrita. O que sabemos é que o ano inca era baseado no ano solar e que os astros influenciavam nas decisões dos indivíduos desse império que floresceu nos territórios da atual América do Sul (AZEVEDO, 2012). Caro acadêmico, talvez você já tenha observado o quipo, o instrumento que os incas utilizavam e faziam registros por meio de nós que auxiliava nos registros contábeis e demais registros importantes de serem lembrados. No entanto, a elaboração de um calendário através do quipo não chegou a ser desenvolvida. 7 CALENDÁRIOS NA TRADIÇÃO AFRICANA Curiosamente, são os patriarcas de certos clãs africanos os responsáveis por transmitir oralmente o calendário a seus povos, sendo, por esse motivo, conhecidos como calendários falantes. Diferentemente da maioria dos países ocidentais que possuem um calendário oficial, no continente africano podemos visualizar certas peculiaridades: Para os povos africanos da Costa do Marfim, o ano começa no início da grande estação seca (em dezembro para os Gueré, em janeiro para os Baulé), mas para os Alladian começa com a curta estação seca em julho. O ano inicia-se com as cerimônias d'Angbanji, festas da riqueza, e com as festas do inhame, a única planta da região que para produzir precisa do ciclo completo das quatro estações e dá uma única colheita. Para os Baulé, enquanto o ano profano começa em janeiro, no momento da colheita dos inhames tardios, o ano ritual começa em agosto com a oferta das primícias dos inhames aos Manes dos antepassados e à terra (LE GOFF, 1992, p. 506). Chamamos a sua atenção nesse ponto para a transmissão de saberes através da oralidade. Por mais que atualmente tenhamos inúmeros suportes tecnológicos, diversos são os saberes que são difundidos apenas através da palavra falada, como costumes, receitas, lendas, histórias familiares, entre outros. TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS 143 Busque motivar os seus alunos no intuito de valorizar o caráter único da história oral. 8 CALENDÁRIOS JULIANO E GREGORIANO Outro importante calendário da história mundial foi o calendário juliano, proposto por Sosígenes, astrônomo grego de Alexandria, em 46 a.C. e introduzido no império romano por Júlio César em 45 a.C. FIGURA 12 – CALENDÁRIO JULIANO FONTE: <https://bit.ly/2UCQyql>. Acesso em: 10 fev. 2020. O calendário juliano é conhecido na atualidade principalmente através das abordagens que tratam da Revolução Russa de 1917. Isso porque ocorre uma confusão aos sabermos ou ensinarmos que a Revolução de Fevereiro ocorreu, com base no calendário gregoriano, em março de 1917, e a Revolução de Outubro ocorrera no mês de novembro do calendário gregoriano, isso devido a diferença de treze dias entre os dois calendários. A Rússia, após as revoluções, em 1918, já sob o comando do partido bolchevique de Lênin, substituiu o calendário juliano pelo gregoriano. Voltando a origem do calendário juliano, observe o que Azevedo (2012, p. 78) escreveu sobre o ele: Os romanos fizeram a sua primeira divisão do tempo através de um calendário lunar, o ano compreendendo 12 meses divididos em calendas, idos e nonas. As calendas caíam no primeiro dia de Lua nova; os idos, na Lua cheia; e as nonas, no 9° dia antes dos idos. No Século I a.C., Júlio César, magistrado e chefe do governo, estabeleceu o ano solar de 12 meses com 30 e 31 dias, alternadamente, num total de 365 dias, acrescentando um dia a cada quatro anos, sendo este ano chamado bissexto porque repetia-se o dia 24 em fevereiro (bis-sextus calendas Martii), mês que ficara com 28 dias. O começo do ano passou de março para 1º de janeiro, data em que os cônsules assumiam os seus cargos. O calendário romano previa ainda dias fastos e nefastos, isto UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 144 é, dias propícios ou impróprios para quaisquer atividades públicas. Os anos eram designados pelo nome do cônsul em exercício, prática abandonada mais tarde quando se estabeleceu a data da fundação de Roma, baseada eclipses ocorridos no ano de 753 a.C. Como temos visto até aqui, os calendários são construções sociais, dessa forma, para a compreensão das diferenças entre os calendários podemos nos servir dos motivos e interesses envolvidos na elaboração do nosso calendário, o qual é conhecido como gregoriano, por ter sido sistematizado pelo papa Gregório XIII em 1582. O calendário gregoriano é essencialmente solar, principalmente pelo fato de o cristianismo relacionar a Lua à precariedade das coisas humanas, chegando ao ponto de chamar de lunático aquele que era considerado louco. De todo modo, logo em 1582, ano da reforma do calendário juliano, Portugal, Itália, Espanha, Países Baixos e França adotaram o calendário gregoriano. A Polônia aderiu em 1586 e a Hungria em 1587. Devido ao fato de o calendário juliano estar atrasado em dez dias em relação ao ano tropical, a solução encontrada no momento da adoção do calendário gregoriano foi saltar dez dias. Como você pode perceber na imagem a seguir, o mês de outubro de 1582 não possui o conjunto de dias que vai do dia 5 ao 14, passando da quinta-feira, dia 4, diretamente para a sexta-feira, dia 15. Estava resolvida a discrepância, mas não sem divergências. Le Goff (1992, p. 490) nos conta que: A reforma gregoriana de 1582 deparou com uma viva resistência, até nos meios católicos, porque, ao sacrificar dez dias, parecia romper a continuidade do tempo e cometer um sacrilégio [...]. A resistência evidentemente veio sobretudo dos países protestantes, em conformidade com o dito de Kepler: “Os protestantes preferem estar em desacordocom o sol do que em acordo com o papa” [...]. E quando a Inglaterra (seguida pela Suécia) adotou finalmente a reforma, em 1762, cortejos de manifestantes desfilaram gritando: "Devolvam-nos os nossos onze dias!". FIGURA 13 – REFORMA GREGORIANA FONTE: <https://bit.ly/2JipLX8>. Acesso em: 10 fev. 2020. TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS 145 Devido ao caráter essencialmente litúrgico e religioso do calendário gregoriano, temos o nascimento de Jesus como o marco inicial da contagem da passagem dos anos, e utilizamos os indicadores a.C. para identificar os anos anteriores ao nascimento de Cristo, e d.C. para os anos após o nascimento de Cristo. No entanto, não é necessária a utilização do d.C. em nossos escritos, tendo em vista que, por padrão, os anos anteriores ao nascimento de Cristo necessariamente estão acompanhados da abreviação a.C. 9 O CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS Instituído na França, em 1793, o calendário republicano é uma das principais marcas da Revolução Francesa de 1789. Nesse calendário, o ano era dividido em 12 meses com 30 dias cada, mais cinco dias complementares, fechando assim o ciclo de 365 dias. Conforme nos informa Le Goff (1992, p. 490-491), “o calendário revolucionário respondia a três objetivos: romper com o passado, substituir pela ordem a anarquia do calendário tradicional, assegurar a recordação da revolução na memória das gerações futuras”. Na tentativa de romper com o passado, o calendário republicano instituiu a semana de dez dias e o mês composto por três semanas, o ano de 365 dias também seria completo com dias extras. No mesmo intuito, os dias e meses receberam nomes novos. Conheça os nomes dos meses do calendário republicano dividido em suas respectivas estações: o outono abrangeria os meses de vindimário, brumário e frimário; o Inverno os meses de nivoso, pluvioso e ventoso; a Primavera os meses de germinal, floreal e pradial; e, por fim, o Verão os meses messidor, termidor e frutidor. NOTA Caro acadêmico, talvez você se recorde de um acontecimento relevante da história francesa que incluiu um dos meses do calendário republicano. Foi o golpe de Estado perpetrado por Napoleão Bonaparte no dia 18 de brumário do Ano VIII da Revolução Francesa ou, 9 de novembro de 1799 no calendário gregoriano, no qual Napoleão põe fim ao Diretório e a Revolução Francesa em si, iniciando o regime conhecido como Consulado. Contudo, embora inovador, o calendário republicano teve vida curta, apenas treze anos, sendo abolido por um decreto de Napoleão em 9 de dezembro de 1805, retornando, em 1º de janeiro de 1806, o uso do calendário gregoriano. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 146 QUADRO 1 – ORGANIZAÇÃO DO CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO MESES DO CALENDÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS NOME DO MÊS SIGNIFICADO CALENDÁRIO GREGORIANO ESTAÇÃO DO ANO Vindemiário Mês da colheita da uva. 22 de setembro a 21 de outubro OUTONOBrumário Mês dos nevoeiros. 22 de outubro a 20 de novembro Frimário Mês das geadas. 21 de novembro a 20 de dezembro. Nivoso Mês da neve. 21 de dezembro a 19 de janeiro. INVERNOPluvioso Mês das chuvas. 20 de janeiro a 18 de fevereiro. Ventoso Mês dos ventos. 19 de fevereiro a 20 de março. Germinal Mês das sementes. 21 de março a 19 de abril. PRIMAVERAFloreal Mês das flores. 20 de abril a 19 de maio. Prairial Mês das pastagens. 20 de maio a 18 de junho. Messidor Mês das colheitas. 19 de junho a 18 de julho. VERÃOTermidor Mês do calor. 19 de julho a 17 de agosto. Frutidor Mês das frutas. 18 de agosto a 20 de setembro. FONTE: <https://bit.ly/2LcTdzs>. Acesso em: 10 fev. 2020. Nossa segunda indicação de música é um clássico do Cazuza intitulado O tempo não para. Relembre algumas estrofes da música: A tua piscina tá cheia de ratos Tuas ideias não correspondem aos fatos O tempo não para Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não para Não para, não, não para. FONTE: <https://www.letras.mus.br/cazuza/45005/>. Acesso em: 12 jul. 2018 DICAS O ANO DA CONFUSÃO Em sua campanha pelo Egito, na ocasião da morte de Pompeu, César tomou conhecimento do calendário egípcio e tornou-se seu admirador. Muito antes disso, ainda como Sumo Pontífice, ele já havia detectado a necessidade premente de reformar o calendário romano. Faltava-lhe apenas o conhecimento dos ciclos da natureza e o poder para fazer a mudança. TÓPICO 3 | OS DIFERENTES CALENDÁRIOS 147 Ao tornar-se ditador, resolveu consertar o calendário romano e, com o auxílio do astrônomo Sosígenes, criou o que hoje conhecemos como calendário juliano. A primeira etapa, como qualquer reforma de calendário, consiste em colocar o trem de volta aos trilhos. Era necessário que as estações do ano voltassem a ocorrer nas datas de costume. Esta é a etapa que mais atinge a vida das pessoas. Portanto, é também a mais dolorida. O ano anterior à introdução do calendário juliano (provavelmente 46 AEC) é conhecido como “ano da confusão”, pois foram feitas várias modificações nesse ano para preparar o calendário para a reforma; houve 15 meses, com um total de 445 dias! Uma vez com o trem de volta aos trilhos, ou seja, com as estações do ano acontecendo em suas datas esperadas, Júlio César precisava criar um dispositivo para impedir que o ano ficasse de novo defasado no futuro. Ele deslocou as calendas januaris (1º de janeiro) de modo a coincidir, no ano em que entrasse em vigor o novo calendário, com a primeira Lua nova depois do solstício de inverno, que naquela época se dava em VIII antediem calendas januarii (25 de dezembro em nosso calendário). Com tal medida Júlio César atendeu a antigas crenças dos calendários solar e lunar. Isso foi, sobretudo, uma mudança estética, não tendo efeito prático no calendário. Para evitar que o ano do novo calendário ficasse defasado em relação ao ano trópico, Júlio César criou a seguinte regra de intercalação: o ano teria 365 dias, sendo que de quatro em quatro anos haveria um dia excedente. Este dia extra, diferentemente do que fazemos hoje, não era um dia novo (como o nosso dia 29 de fevereiro). Era um dia repetido em Februarius (algo como se hoje criássemos um segundo dia 28 de fevereiro). Este dia repetido entrava no meio de Februarius, exatamente onde antes entrava o mês de Mercedonius. Assim, o dia 23 de Februarius (VI antediem calendas martii) era repetido a cada quatro anos, havendo, portanto, o bis VI antediem calendas martii. Por isso, desde então, estes anos são chamados de bissextos (bis sextum). Após essas alterações, Februarius passou a ter 29 dias nos anos comuns e 30, nos bissextos. FONTE: CHERMAN, A.; VIEIRA, F. O tempo que o tempo tem: por que o ano tem 12 meses e outras curiosidades sobre o calendário. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 76-78. 148 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Os calendários são construções sociais que foram elaboradas desde a Antiguidade por astrônomos que respondiam a necessidades religiosas e políticas. Existem calendários solares, lunares e lunissolares. Aprendemos que a divisão da semana em sete dias e do ano em 12 meses, comum a nossa experiência cotidiana, remonta à Mesopotâmia. Jacques Le Goff aponta que esta divisão da semana em sete dias se ajustou ao ritmo biológico dos seres humanos. • O Egito Antigo possuía um calendário solar chamado helíaco ou sotíaco e era composto por 12 meses com 30 dias cada, mais cinco dias ao final do décimo segundo mês, completando assim 365 dias. Os gregos adotaram um calendário lunar com 354 dias divididos em 12 meses. O calendário judaico é lunissolar e tem sua contagem iniciada, segundo a crença, com a criação do mundo por Deus. • O calendário chinês possui influência budista e foi utilizado até o ano de 1912, momento em que a República chinesa adota o calendário gregoriano ocidental. O calendário muçulmano, ou hegírico, é lunar, e iniciou a contagem dos anos com a Hégira. • As civilizações pré-colombianas maia e asteca adotaram um calendáriocivil e outro ritualístico. Sabemos também que o calendário inca era solar, embora a civilização não tenha deixado registros escritos do seu sistema de contagem dos anos. Partindo para o continente africano, alguns povos transmitem o calendário de forma oral, através dos patriarcas dos clãs, os quais recebem o título de calendários falantes. • Sosígenes, astrônomo grego de Alexandria, elaborou o calendário juliano no ano de 46 a.C., e o imperador romano Júlio César tornou este calendário oficial no ano de 45 a.C. Vimos também que o ensino das revoluções russas nos remete ao calendário juliano e ao atraso de 13 dias em relação ao calendário gregoriano. No ano de 1582, o papa Gregório XIII estabelece a reforma do calendário juliano, tornando oficial o calendário gregoriano que, assim como o juliano, é solar. • A Revolução Francesa estabeleceu um novo calendário, o Calendário Revolucionário. No entanto, por meio de um decreto, Napoleão Bonaparte restabelece, em 1º de janeiro de 1806, o uso do calendário gregoriano. 149 AUTOATIVIDADE 1 Leia o que o historiador Jacques Le Goff (1992, p. 12-13) escreveu sobre o calendário em seu indispensável livro História e memória: O instrumento principal da cronologia é o calendário, que vai muito além do âmbito do histórico, sendo mais que nada o quadro temporal do funcionamento da sociedade. O calendário revela o esforço realizado pelas sociedades humanas para domesticar o tempo natural, utilizar o movimento natural da lua ou do sol, do ciclo das estações, da alternância do dia e da noite. Porém, suas articulações mais eficazes – a hora e a semana – estão ligadas à cultura e não à natureza. O calendário é o produto e expressão da história: está ligado às origens míticas e religiosas da humanidade (festas), aos progressos tecnológicos e científicos (medida do tempo), à evolução econômica, social e cultural (tempo do trabalho e tempo de lazer). Com base em seus estudos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Os calendários judaico, muçulmano e gregoriano são solares. b) ( ) O calendário chinês foi o primeiro a dividir o ano em 12 meses. c) ( ) O ano 1 para o calendário muçulmano inicia com a Hégira. d) ( ) O calendário gregoriano foi oficializado pelo imperador Júlio César em 45 a.C. 2 Neste tópico aprendemos que as diversas civilizações desenvolveram seus sistemas de calendários. Apoiados nos conteúdos expostos, podemos afirmar que: I- O calendário gregoriano foi sistematizado por Gregório XIII em 1582, foi primeiramente adotado por Portugal, Itália, Espanha, Países Baixos e França. II- Maias e astecas possuíam dois calendários. Um era o calendário civil, com 365 dias, o outro era o ritual, com 13 grupos com 20 dias cada. III- O calendário revolucionário francês foi estabelecido pelo golpe de Estado realizado por Napoleão Bonaparte no dia 18 de brumário. IV- Os calendários podem ser solares, lunares ou lunissolares. O calendário solar conta com 365 dias, enquanto o lunar conta com 354 dias lunares. Estão CORRETAS: a) ( ) Apenas as afirmativas I, II e III. b) ( ) Apenas as afirmativas I, III e IV. c) ( ) Apenas as afirmativas II, III e IV. d) ( ) Apenas as afirmativas I, II e IV. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 150 151 TÓPICO 4 O TEMPO HISTÓRICO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O tempo histórico é o tempo que interessa ao historiador e, de igual forma, àquele que busca ensinar a disciplina de História. O historiador está imerso em temporalidades: durações, recortes, periodizações, continuidades, ou seja, a produção historiográfica está vinculada principalmente às mudanças e permanências ao longo do tempo. O que mudou está no que podemos chamar de dimensão diacrônica, naquilo que deixou de ser o que era. Um exemplo da dimensão diacrônica é o estudo sobre o comportamento à mesa efetuado por Norbert Elias em sua obra O processo civilizador, Volume 1: Uma história dos costumes (1939). Há diferenças nítidas entre o comportamento à mesa das análises de Elias e o comportamento atual. Desse modo, identificar e explicar as diferenças no decorrer da História é o trabalho do historiador. E a percepção do tempo é fundamental em suas análises. Veremos agora o entendimento do tempo para o Positivismo, para o Marxismo e para o historiador alemão Reinhart Koselleck. Não deixe de ler também, ao final do tópico, o escrito sobre o tempo do filósofo italiano Giorgio Agamben. Desejamos a você uma ótima leitura! 2 OS HISTORIADORES E O TEMPO HISTÓRICO Após uma breve passagem pelas noções de tempo entre as diversas ciências, cabe agora nos aprofundarmos na nossa ciência específica, a História. Estudar e ensinar História são duas atividades com características distintas, mas que possuem laços indissociáveis. Um deles é a necessidade de considerar o tempo e o espaço em cada análise realizada. Tempo e espaço são a matéria-prima elementar de todo historiador e é evidente que para o professor ou acadêmico de História não será diferente. O tempo histórico, diferentemente de algumas noções de tempo da física, da filosofia ou das religiões, não é um tempo interior ou um tempo metafísico. O tempo histórico está relacionado aos eventos humanos e somente desta maneira podemos compreendê-lo. Reis (2012, p. 26) nos apresenta uma excelente definição do tempo histórico: UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 152 Ele não é um tempo físico ou psicológico ou dos astros ou do relógio, divisível e quantificável, e também não é uma infinidade de fatos sucessivos como a linha é uma infinidade de pontos. O tempo histórico é o das coletividades públicas, das sociedades, civilizações, um tempo comum, que serve de referência aos membros de um grupo. Por um lado, o tempo histórico possui uma objetividade social, é independente da vontade dos indivíduos; por outro, os indivíduos também o criam e tecem, interferem e o transformam, suas biografias modificam a sociedade, mas não podem ignorar o tempo social que se impõe a eles. O historiador, em suas produções historiográficas, se utiliza de diversas noções de temporalidade para fazer a ligação entre o passado que analisa e o presente que está inserido. Nesse processo, o historiador emprega diversas categorias temporais, tais como acontecimento, ciclo, conjuntura e estrutura. Bittencourt (2008) reconhece que o tempo do historiador é métrico, baseado em cronologias e periodizações, e também é um tempo qualitativo, centrado nas durações; na sucessão, ou na diacronia; e na simultaneidade, ou na sincronia das mudanças e permanências. O tempo do historiador também é atento aos anacronismos. Para a Escola dos Annales, é justamente através da história-problema e do método retrospectivo que o historiador compreenderia as diferenças entre o passado e o presente, e estaria menos propício a cometer anacronismos, prática que é, segundo Marc Bloch (2001, p. 144), “entre todos os pecados, ao olhar de uma ciência do tempo, o mais imperdoável”. Acompanhe o que nos fala Holien Gonçalves Bezerra (2007, p. 45) sobre o anacronismo: O anacronismo consiste em atribuir a determinadas sociedades do passado nossos próprios sentimentos ou razões, e assim interpretar suas ações; ou aplicar critérios e conceitos que foram elaborados para uma determinada época, em circunstâncias específicas, para outras épocas com características diferentes. NOTA Assim como na Escola dos Annales, a relação entre as temporalidades na perspectiva do tempo histórico também é objeto de formulações do historiador e filósofo alemão Jörn Rüsen, acompanhe: A apreensão do passado operada pelo pensamento histórico na consciência histórica baseia-se na circunstância de que as experiências do tempo presente só podem ser interpretadas como experiências, e o futuro apropriado como perspectiva de ação, se as experiências do TÓPICO 4 | O TEMPO HISTÓRICO 153 tempo forem relacionadas com as do passado, o que se processa na lembrança interpretativa que as faz presentes. Somentedessa forma obtém-se uma visão de conjunto das experiências do tempo presente e somente então os interessados podem orientar-se por elas. Elas se tornam referíveis a outras experiências, sempre já interpretadas pela lembrança; sem tal referência seriam elas pura e simplesmente ininteligíveis, orientar-se por elas seria impossível e, por conseguinte, tampouco seria possível agir com sentido a partir delas (RÜSEN, 2001, p. 63). Por fim, embora a nossa vida urbana esteja estritamente vinculada ao calendário, a sua utilização foi requerida também pelos povos e grandes civilizações ao longo da história, e é com o auxílio dele que os historiadores compõem o tempo cronológico. Porém, o tempo histórico pode trabalhar sem uma cronologia, tendo em vista que algumas sociedades não organizam suas histórias de forma cronológica. Caro acadêmico, sabendo da importância de diferentes perspectivas e contrapontos na abordagem sobre o tempo na história, indicamos a leitura da obra O roubo da história: Como os europeus se apropriaram das ideias e invenções do Oriente do escritor Jack Goody. Para o autor, o Ocidente se apropriou de diversos valores culturais sem dar o devido crédito ao Oriente, inclusive a noção de espaço e tempo histórico. FIGURA – CAPA DO LIVRO DICAS FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/71B%2BJci5DvL.jpg>. Acesso em: 12 mar. 2020. FONTE: GOODY, J. O roubo da história: Como os europeus se apropriaram das ideias e invenções do Oriente. São Paulo: Contexto, 2008. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 154 3 O TEMPO PARA O POSITIVISMO A historiografia positivista possui características analíticas singulares sobre o tempo. Para o historiador positivista, a História se define como o estudo dos homens do passado. Embora o presente esteja incluído na análise positivista, os eventos passados são a origem dos objetos de estudo dos historiadores. Nessa perspectiva, o futuro está excluído do processo de validação das fontes. O passado é estritamente relacionado ao tempo do calendário e os eventos são registrados tendo em conta o rigor em suas datações. Para o historiador positivista, as fontes escritas possuem grande confiabilidade, sendo o documento verificado, datado e transformado no alicerce da produção historiográfica. FIGURA 14 – O TEMPO PARA O POSITIVISMO Passado Presente Futuro Estado Teológico Estado Metafísico Estado Positivo Estado Positivo Pleno FONTE: Barros (2013, p. 78) A figura anterior nos auxilia a entender o tempo para o positivismo. Nessa perspectiva, a História, partindo do modelo europeu, passaria por três estágios que se sucedem: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo. Após alçarem o estado positivo, as sociedades não sofreriam mudanças de qualidade, ocorreria somente o progresso científico, resultando em progresso qualitativo. Para os historiadores positivistas do Século XIX, o estado positivo já estaria em decurso na Europa, e a conciliação entre as classes seria conduzida pela burguesia industrial (BARROS, 2013). O tempo positivista, levando em conta as características apresentadas, é linear, pois está embasado em estágios que deveriam ser transpostos; e é teleológico, tendo em vista que mira para uma forma de organização social ideal, já prevista com antecedência. 4 O TEMPO PARA O MARXISMO No Século XIX, temos o surgimento do materialismo histórico. Esse paradigma influenciado na dialética hegeliana e fundado por Karl Marx (1818- 1883) e Friedrich Engels (1820- 1895), busca compreender a sociedade através do enfoque na economia e na história. Partindo do materialismo histórico, a TÓPICO 4 | O TEMPO HISTÓRICO 155 historiografia marxista busca o entendimento da história das sociedades através das relações de produção, dos modos de produção e das lutas de classes. Para o historiador marxista, os sistemas econômicos de cada período histórico são a sua matéria-prima. Teremos assim a Idade Média relacionada ao feudalismo; a Idade Moderna relacionada ao mercantilismo, e a Idade Contemporânea vinculada ao capitalismo e ao socialismo. Esse relacionamento também é visto como progressão. Ou seja, persiste uma visão evolutiva da História, agora através da análise da história dos modos de produção e sua relação intrínseca com a história das lutas de classes. FIGURA 15 – O TEMPO PARA O MARXISMO LUTA DE CLASSES FONTE: Barros (2013, p. 85) Caro acadêmico, observe que para a historiografia marxista a História permanece sendo representada com uma linha reta e o tempo permanece linear. Dentro desta linha, conforme vemos na imagem, ocorrem as lutas de classes, sendo que a ponta da seta aponta para o futuro onde existira uma sociedade sem classes sociais, isto é, aponta para o modo de produção socialista. 5 O TEMPO HISTÓRICO PARA KOSELLECK Para o historiador alemão Reinhart Koselleck (1923-2006), o tempo histórico consiste em uma representação intelectual, e não uma reconstrução dos fatos tal como eles se sucederam. O que Koselleck afirma é que a narrativa histórica não é a experiência vivida. Nessa perspectiva, o tempo histórico engloba diversas noções de tempo, como a intelectual, a social, a psicológica, a biológica, entre outras. Conforme assinala Reis (2012), é requerido ao historiador que ele busque ser sensível à tensão da dimensão diacrônico-sincrônica do tempo, que perceba que os homens e as instituições se modificam ao longo do tempo, e que ele esteja atento às durações, as continuidades e descontinuidades, bem como a solidariedade entre as épocas. Koselleck também nos alerta que a cronologia, os calendários e suas datas, não são o tempo histórico, embora façam parte dele. O calendário representaria apenas uma das noções de tempo, a dos movimentos dos astros. O tempo histórico, vinculado às ações sociais e políticas perpetradas pelos indivíduos concretos, trabalha com as três dimensões temporais: passado, presente e futuro. Dispondo como base o presente, Koselleck (2006) explica que o passado pode ser entendido como campo de experiência, e o futuro como horizonte de expectativa, UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 156 e desse entendimento podemos, no presente, ter uma apreensão do que seria o tempo histórico. Por ser um tempo social, o tempo histórico é múltiplo, assim como são múltiplas as sociedades. Isso vale para as produções historiográficas, pois os historiadores também estão inseridos em sociedades que possuem noções de tempo diversas. Algumas dessas sociedades podem valorizar mais o passado, o presente, ou o futuro (REIS, 2012). Caro acadêmico, refletindo sobre o Brasil atual, qual das temporalidades é mais valorizada nos debates políticos? Para finalizar este tópico, indicamos a música Time flies da banda britânica Porcupine Tree. Na letra desta música, Steven Wilson (vocal e guitarra) aborda o caráter fugidio do tempo. Leia um trecho da letra: She said nothing ever happens If you don't make it happen And if you can't laugh then smile But after a while You realize time flies And the best thing that you can do Is take whatever comes to you 'Cuz time flies Tradução: Ela disse que nada nunca acontece Se você não faz acontecer E se você não pode rir então sorria Mas depois de um instante Você percebe que o tempo voa E a melhor coisa que você pode fazer É aceitar seja o que vier para você Porque o tempo voa. FONTE: <https://www.letras.mus.br/porcupine-tree/1549681/traducao.html>. Acesso em: 12 jul. 2018. DICAS TÓPICO 4 | O TEMPO HISTÓRICO 157 EXCERTOS DO CAPÍTULO TEMPO E HISTÓRIA: CRÍTICA DO INSTANTE E DO CONTÍNUO Página 111: Toda concepção da história é sempre acompanhada de uma certa experiência do tempo que lhe está implícita, que a condiciona e que é preciso, portanto, trazer à luz. Da mesma forma, toda cultura é, primeiramente, uma certa experiência do tempo, e uma nova cultura não é possível sem uma transformação desta experiência. Por conseguinte, a tarefa original de uma autêntica revolução não é jamais simplesmente“mudar o mundo”, mas também e antes de mais nada “mudar o tempo”. O pensamento político moderno, que concentrou a sua atenção na história, não elaborou uma concepção correspondente do tempo. Até hoje o próprio materialismo histórico furtou-se assim a elaborar uma concepção do tempo à altura de sua concepção da história. Em virtude dessa omissão, ele foi inconscientemente forçado a recorrer a uma concepção do tempo que domina há séculos a cultura ocidental, e a fazer então conviver, lado a lado, em seu próprio âmago, uma concepção revolucionária da história com uma experiência tradicional do tempo. A representação vulgar do tempo como um continuum pontual e homogêneo acabou então desbotando sobre o conceito marxista da história: tornou-se a fenda invisível através da qual a ideologia se insinuou na cidadela do materialismo histórico. Benjamin havia já denunciado este perigo nas suas Teses sobre a filosofia da história. É chegado agora o momento de trazer à luz o conceito de tempo implícito na concepção marxista da história. Páginas 120 e 121: O modo de Marx pensar a história situa-se em uma região completamente diversa. A história não é para ele algo em que o homem cai, ou seja, ela não exprime simplesmente o ser-no-tempo do espírito humano, mas é a dimensão geral do homem enquanto Gattungswesen, enquanto ser capaz de um gênero, isto é, de produzir-se originalmente não como mero indivíduo nem como generalidade abstrata, mas como indivíduo universal. A história não é então determinada, como em Hegel e no historicismo que dele descende, a partir da experiência do tempo linear enquanto negação da negação, mas a partir da práxis, da atividade concreta como essência e origem (Gattung) do homem. A práxis, na qual o homem se coloca como origem e natureza do homem, é também imediatamente “o primeiro ato histórico”, o ato de origem da história, compreendida como o tornar-se natureza, para o homem, da essência humana e o tornar-se homem da natureza. A história não é mais, como em Hegel, o destino de alienação do homem e a sua necessária queda no tempo negativo, em que se encontra em um processo infinito, mas a sua natureza, ou seja, o original pertencimento do homem a si mesmo como Gattungswesen, da qual foi temporariamente subtraído pela alienação. ‘O homem não é um ser histórico porque cai no tempo, mas, pelo contrário, somente porque é um ser histórico ele pode cair no tempo, temporalizar-se’. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 158 Página 121: Marx não elaborou uma teoria do tempo adequada à sua ideia da história, mas esta é certamente inconciliável com a concepção aristotélica e hegeliana do tempo como sucessão contínua e infinita de instantes pontuais. Enquanto nos movemos no horizonte desta experiência nulificada do tempo, não é possível alcançar uma história autêntica, pois a verdade caberá sempre ao processo como um todo, e jamais o homem poderá apropriar- se concretamente, ou melhor, praticamente, da própria história. Aliás, a contradição fundamental do homem contemporâneo é precisamente a de não haver ainda uma experiência do tempo adequada à sua ideia da história, sendo por isso angustiosamente dividido entre o seu ser-no-tempo, como fuga inaferrável dos instantes, e o próprio ser-na-história, entendido como dimensão original do homem. A duplicidade de toda concepção moderna da história — como res gestae e como historia rerum gestarum, como realidade diacrônica e como estrutura sincrônica, as quais não podem coincidir jamais temporalmente — exprime esta impossibilidade do homem, que se perdeu no tempo, de apoderar-se da própria natureza histórica FONTE: AGAMBEN, G. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: UFMG, 2005. 159 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você aprendeu que: • A compreensão do tempo histórico é fundamental ao historiador e ao professor de História. • O tempo histórico não é um tempo interior ou um tempo metafísico. O tempo histórico está relacionado aos eventos humanos, às sociedades e é independente das vontades dos indivíduos. • Marc Bloch considera o anacronismo como o maior pecado que um historiador possa cometer. • Para o positivismo o tempo é linear, e a História passaria por três estados: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo. • O tempo para o marxismo também é linear e aponta para um futuro sem classes sociais, caracterizando o modo de produção socialista. • Para o historiador alemão Reinhart Koselleck, o tempo histórico é uma representação intelectual e não uma reconstrução exata dos fatos como eles se sucederam. • Koselleck esclarece que a cronologia, os calendários e suas datas, não são o tempo histórico, embora façam parte dele. • Por ser um tempo social, o tempo histórico é múltiplo, assim como são múltiplas as sociedades. 160 AUTOATIVIDADE 1 Ao realizarem os seus estudos, os historiadores se utilizam de um tempo específico, o tempo histórico. Embora não seja ensinado como um conteúdo curricular, o tempo histórico é fundamental ao entendimento dos processos históricos. Sabendo disso, apresente, por meio de tópicos, as principais caraterísticas do tempo histórico. 2 As noções de tempo são diversas até mesmo dentro do campo historiográfico. Retome o conteúdo deste tópico atribuindo V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) Para Koselleck, o tempo histórico é necessariamente único, tendo em vista que as diferenças entre as sociedades não afetam o tempo histórico. ( ) Podemos afirmar que o tempo para o positivismo é linear, pois estabelece estados a serem transpostos e também é um tempo teleológico. ( ) Para o marxismo o tempo é linear e pode ser representado como uma linha reta apontando para o modo de produção socialista. ( ) Para a Escola dos Annales, a compreensão do passado deveria ser feita partindo do presente e na exclusiva validação dos documentos oficiais. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a) ( ) V – V – V – V. b) ( ) F – F– V – V. c) ( ) F – V – F – V. d) ( ) V – V – F – F. e) ( ) F – V – V – F. 161 TÓPICO 5 O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, trataremos com maior ênfase sobre o ensino das noções de tempo nas aulas de História. Também serão expostas algumas possibilidades didáticas para a abordagem do tema. Não obstante, gostaríamos de corroborar a relevância dos nossos estudos até aqui com a apresentação de passagens da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Ensino Fundamental, e da proposta de BNCC para o Ensino Médio. Ao consultarmos a BNCC para o Ensino Fundamental, na unidade temática História: tempo, espaço e formas de registros, é apresentado como um dos objetivos de conhecimentos para o 6º Ano o trabalho com “a questão do tempo, sincronias e diacronias: reflexões sobre o sentido das cronologias” (BRASIL, 2017). Já nas habilidades a serem adquiridas pelos alunos, encontramos o documento relacionando o tempo da seguinte forma: “identificar diferentes formas de compreensão da noção de tempo e de periodização dos processos históricos (continuidades e rupturas)” (BRASIL, 2017). A proposta da BNCC do Ensino Médio, no capítulo denominado A área de ciências humanas e sociais aplicadas, aborda a questão do tempo afirmando que: Definir o que seria o tempo é um desafio sobre o qual se debruçaram e se debruçam grandes pensadores de diversas áreas do conhecimento. O tempo é matéria de reflexão na Filosofia, na Física, na Matemática, na Biologia, na História, na Sociologia e em outras áreas do saber. O tempo na história apresentou significados e importância variados. Ao se tratar do tempo, o fundamental, como nos lembra Jacques Le Goff, é compreender que não existe uma única noção de tempo e ele não é nem homogêneo nem linear, ou seja, ele expressa diferentes significados. Diante dessas observações, é importante desenvolver habilidades por meio das quais os estudantespossam refletir sobre as diversas noções de tempo e seus significados. Assim, no Ensino Médio, os estudantes precisam desenvolver noções de tempo que ultrapassam a dimensão cronológica, ganhando diferentes dimensões, tanto simbólicas como abstratas, destacando as noções de tempo em diferentes sociedades. Na história, o acontecimento, quando narrado, permite-nos ver nele tanto o tempo transcorrido como o tempo constituído na narrativa sobre o narrado (BRASIL, 2018). UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 162 Caro acadêmico, durante a leitura deste tópico, busque relacionar as citações da BNCC que você acabou de ler com as informações e sugestões apresentadas. Acreditamos que será um excelente exercício. Boa leitura! 2 O ENSINO DO TEMPO NAS AULAS DE HISTÓRIA Caro acadêmico, falaremos agora sobre o ensino do tempo na educação básica. É relevante termos em mente que as noções de tempo podem ser as mais diversas, partindo do senso comum, passando pelas noções filosóficas, científicas, historiográficas, entre outras. Por isso, adentraremos o nosso estudo nas formas de ensinar as noções e conceitos referentes ao tempo na disciplina de História. Em nossa formação acadêmica, aprendemos que os estudos da História estão firmemente apoiados em dois pilares, o tempo e o espaço. Marc Bloch (2001, p. 55), enfatizando a dimensão temporal, definiu a História como a “ciência dos homens no tempo”. Esse tempo que Marc Bloch nos fala é o tempo histórico, aquele que os historiadores devem estar munidos para compreender e realizar as suas atividades historiográficas. Esse tempo e uma construção social, podendo divergir com o tempo individual. Podemos estabelecer que nossos alunos, ou futuros alunos, possuem noções sobre o tempo. Suas vidas são imersas em datas comemorativas, estágios graduais, a espera pela festa de 15 anos para as meninas, o alistamento militar aos 18 anos para os meninos, a maioridade para ambos. Nas culturas indígenas a passagem do tempo não é demarcada pela idade e sim pelos ritos de passagem, nos quais o indivíduo assume novas responsabilidades de acordo com as fases de crescimento. Nossos alunos também sentem a passagem do tempo. Veem suas marcas em fotografias, como as dos pais quando jovens, ou as suas próprias quando bebês; em vídeos, nas mudanças corporais e comportamentais. Esse tempo vivido também pode ser psicológico. Podemos questioná-los sobre a percepção da passagem do tempo durante um jogo eletrônico e durante uma espera por uma refeição em um restaurante. Certamente a passagem do tempo será percebida de maneiras diferentes. Embora o ponteiro do relógio tenha se mantido alheio aos interesses individuais, se o que fazemos nos agrada, o tempo parece passar rápido, se nos desagrada, parece demorar a passar. Ao lecionar para crianças e adolescentes, podemos nos apoiar nos estudos de Piaget (2002) que apontam para uma progressiva apreensão sobre a noção de tempo pelas crianças, iniciando aos dois anos e sendo concluída aos 11 anos, momento este em que se iniciam os estudos do tempo histórico no 6º Ano do Ensino Fundamental. Bittencourt (2008, p. 201) aponta para a existência de um tempo concebido, o qual varia de acordo com a cultura e confere marcas ao tempo vivido. A autora TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO 163 apresenta como exemplo a relação do tempo em uma sociedade capitalista. Você certamente já ouviu expressões como “perder tempo”, “investir tempo”, “tempo é dinheiro”. Há uma profusão de cursos e gurus que asseguram ao seu público-alvo o melhor gerenciamento do tempo. Vivemos em uma sociedade que cada vez mais valoriza o controle do tempo através de horários e metas. Os relógios estão em todos os lugares, desde o interior de nossas casas, em nossos computadores, nos automóveis, nas torres de igrejas, entre tantos outros locais. O tempo passou a ser visto como um capital, o qual devemos regular, economizar, investir, fazer render. Entendemos tudo isso como um fato na atualidade. Mas também temos consciência de que nem sempre foi dessa forma. No entanto, por vezes esquecemos que essa não é a única forma de conceber o tempo. Para algumas culturas indígenas, o tempo cíclico é predominante. Por meio do calendário a seguir ficamos sabendo que, para os indígenas do Parque do Xingu, o tempo é apreendido através dos ciclos naturais, das festividades, do plantio e de outras atividades. Logo, para esses indígenas, o tempo referencial não é o tempo cronológico do relógio, nem mesmo o tempo dos dias, semanas e meses do calendário gregoriano. Nessa perspectiva, ensinar História é relacionar diferentes culturas, permitindo a contextualização dos saberes e evitando preconceitos ao diferente. FIGURA 16 – CALENDÁRIO INDÍGENA FONTE: <http://campeche.inf.furb.br/obeb/historia_novo/Imagens_novo/Cap1/36%20-%20 Calendario%20indigena%20agricola%20aldeia%20dos%20Thiayu%20Suya2.jpg>. Acesso em: 11 fev. 2020. No ensino do tempo é fundamental partirmos das noções mais abrangentes e de uso comum, para que, somente após firmar bases minimamente sólidas, possamos incrementar os estudos. É oportuno ao educando compreender que não há apenas uma noção de tempo, assim como não é único o nosso sistema de medição do tempo. Por exemplo, o calendário é uma ferramenta de consulta UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 164 tão utilizada quanto o relógio no nosso cotidiano, e está intrinsicamente ligado as nossas aulas quando falamos em cronologia, isto é, na representação dos acontecimentos históricos ao longo do tempo. O planejamento a curto, médio e longo prazo nos parece inconcebível sem o auxílio proveniente do calendário. Mas como vimos, essa não é a única forma de organizar o tempo. Podemos também utilizar as linhas do tempo para a compreensão dos eventos, sincronias, diacronias, continuidades, rupturas e nos demais conceitos presentes no ensino do tempo histórico. Na sequência, apresentamos algumas possibilidades da utilização das linhas do tempo em sala de aula. 3 A UTILIZAÇÃO DE DIFERENTES LINHAS DO TEMPO NO ENSINO DE HISTÓRIA As linhas do tempo são ferramentas didáticas que proporcionam aos alunos, de maneira visual, a compreensão da fluidez do tempo, a sua divisão em períodos históricos, e a associação com eventos e personagens. Embora essa esquematização esteja na contramão das mais recentes recomendações da produção historiográfica, a linha do tempo, quando aplicada de forma consciente, pode abrir espaço para comparações e indagações. Uma maneira de fazer com que os alunos percebam as diversidades do tempo histórico, é solicitar que façam uma linha do tempo de suas próprias vidas, do nascimento até os dias de hoje. Após esse estágio da atividade, solicite a turma que apresente as suas linhas do tempo. Ao comparar a sua vida, os acontecimentos e as pessoas envolvidas em sua história particular com o conteúdo das linhas do tempo dos colegas, o aluno a possibilidade de compreender a complexidade e multiplicidade das questões relacionadas ao tempo, ao espaço e à história. As linhas do tempo também podem ser utilizadas para o estudo de um período, como os eventos relacionados ao Segundo Reinado na História do Brasil. Outro exemplo, menos presente nas aulas de História, é a utilização de linhas do tempo que compreendam temas específicos e suas características ao longo do tempo. Exemplos desse estilo são as linhas do tempo que abordam a moda, o uso de certas ferramentas, o idioma, a demografia, entre outros. As linhas do tempo ganham complexidade ao se inserir datas de acontecimentos que ocorreram antes de Cristo, juntamente com datas da Era Cristã. Acadêmico, você também poderá utilizar os conceitos de Antes da Era Comum (AEC) e Era Comum (EC). NOTA TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO 165 As linhas do tempo podem se tornar excelentes materiais de apoio em suas aulas e estudos. Em sala de aula, ao iniciar um conteúdo, podemos fixar uma cartolina na parede da sala e inserir informações que sirvamde apoio para a compreensão do conteúdo. No decorrer das aulas, a cartolina receberá mais informações e possibilitará o retorno e o avanço através do tempo demarcado. Uma proposta que fazemos aqui, é a de que você solicite aos seus alunos que eles mesmos preencham a linha do tempo em sala de aula ou solicitando como tarefa. Dessa forma, talvez você encontre pontos de compreensão do conteúdo ou, pelo contrário, pontos a reforçar. Acompanhe o que Huerta (1999 apud SCHMIDT; CAINELLI, 2009, p. 102-103) nos fala sobre a utilização das linhas do tempo: As linhas de tempo podem servir para refletir acerca das medidas do tempo e das mudanças na vida humana e para relacionar informações. Isso o professor pode fazer também de forma verbal. Mas fazê-lo graficamente, mediante linhas de tempo, dá melhores resultados, porque os alunos trabalham com imagens e proporções que dão suporte à construção de noções de temporalidade e à compreensão dos fatos históricos. O desenho das linhas de tempo e sua consequente utilização em sala de aula podem variar, com diversos graus de especificidades; podem, por exemplo, ser desenhos muito sintéticos ou muito analíticos, desde linhas de tempo biográficas com dados precisos até outras que mostrem grandes etapas de longa duração e em termos mais gerais. Outra forma de trabalhar as linhas do tempo é através de jogos. Elabore juntamente com os seus alunos linhas do tempo que precisem ser completadas com cartões que não estão datados. Também é possível elaborar cartões que devam ser organizados conforme o tempo cronológico. Aproveite essa atividade para introduzir eventos ocorridos tanto antes de Cristo (a.C.), quanto depois de Cristo (d.C.). Na sequência, apresentamos algumas possibilidades de aplicação de conteúdos através das linhas do tempo. Você poderá adaptar as linhas do tempo conforme a necessidade, inclusive mesclando informações relevantes ao cotidiano dos alunos. Até mesmo transformando a linha horizontal em uma vertical, ou em uma espiral, na qual os eventos do passado mais remoto ficam no centro e os mais recentes nas extremidades. Lembre-se também de utilizar com os seus alunos os conceitos de sincronia, diacronia, anterior, posterior, simultaneidade, permanências, mudanças, rupturas, tempo cronológico, tempo histórico, contemporâneo, entre tantos outros que são caros à prática historiográfica e ao ensino da disciplina. A nossa primeira linha do tempo apresenta a divisão tradicional da História: UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 166 FIGURA 17 – LINHA DO TEMPO COM A DIVISÃO TRADICIONAL DA HISTÓRIA FONTE: <https://3.bp.blogspot.com/--vHXzANu1rQ/WzDMpVexjYI/AAAAAAAAFas/ iJkBsfKlTS8tvWgDmBGiThpFSaO2T8WuQCLcBGAs/s400/linha%2Bdo%2Btempo%2B2.jpg>. Acesso em: 11 fev. 2020. Na sequência, temos uma linha do tempo em ordem cronológica, trabalhando um acontecimento em específico, a Crise de 1929. Note que a distância entre os eventos não é representada por espaços mais longos ou mais curtos. Isto é, a linha entre 1918 e 1919, correspondente a um ano, possui o mesmo comprimento da linha entre 1929 e 1933, nesse caso, compreendendo quatro anos. Esse recurso é utilizado principalmente quando trabalhamos com períodos muito longos, mas também está presente em períodos mais curtos, como o do exemplo. Cabe ao docente de História trazer a atenção dos alunos a essas convenções. FIGURA 18 – LINHA DO TEMPO DO PERÍODO ENTREGUERRAS Fim da 1ª Guerra Mundial Fim do New Deal New Deal - Roosevelt Lei Seca Crise de 29 Greves Investimentos na bolsa de ações American Way of Life 1918 1919 1918-1928 1933 19371929 1934 FONTE: <https://lh3.googleusercontent.com/hZBHIBn8F3u57eYXis_ WPYWTy20KhnnZ42uL8ALFha5z714-cHhZi7mJNmMLLcrIM0lg=s151>. Acesso em: 11 fev. 2020. Outro exemplo de uma linha do tempo cronológica e simples com a temática da Era Napoleônica. Observe a utilização da escala para representar a duração de cada período. TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO 167 FIGURA 19 – LINHA DO TEMPO UTILIZANDO ESCALA 1795 a 1799 Diretório 1799 a 1804 Consulado 1804 a 1815 Império Napoleônico FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem5.png>. Acesso em: 20 mar. 2020. A seguir, temos cartões que podem ser recortados e organizados conforme a cronologia, formando assim uma linha do tempo. FIGURA 20 – CARTÕES PARA MONTAR A LINHA DO TEMPO FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/ timelinecardslinhadotempohistriamundial-160317031008/95/timeline-cards-linha-do-tempo- histria-mundial-1-638.jpg?cb=1458184275>. Acesso em: 11 fev. 2020. Linha do tempo trabalhando apenas com datas do período anterior à Era Cristã ou Era Comum: UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 168 FIGURA 21 – LINHA DO TEMPO CRONOLÓGICA COM DATAS A.C. 3500-2350 a.C. 2350-1894 a.C. 1894-1160 a.C. 1160-612 a.C. 612-539 a.C. cidades-estados sumerianas Reino Acádio Primeiro Império Babilônico Império Assírio Segundo Império Babilônico Reinado de Sargão • Código de Hamurabi (1750 a.C.) • Reinaldo de Nabucodonosor • Torre de Babel FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem1.png>. Acesso em: 20 mar. 2020. A seguir, uma linha do tempo cronológica e comparativa trabalhando os reinos e impérios africanos. FIGURA 22 – REINOS E IMPÉRIOS AFRICANOS Reino/Império Período Religião Oficial Cidades Base da riqueza Gana séc. III ao X Tradicional africana • Audagoste • Comércio de ouro, marfim e escravos Mali séc. XIII ao XVI Islamismo • Tombuctu • Djené • Gao • Niani • Comércio de ouro, sal, cobre e noz-de-cola Songai séc. XV ao XVI Islamismo • Tombuctu • Gao • Comércio de ouro, sal, noz-de- cola e escravos FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem3.png>. Acesso em: 20 mar. 2020. No exemplo a seguir, a linha cedeu espaço a um quadro temático no qual podemos encontrar eventos globais relacionados ao período compreendido entre 1959 e 1969. QUADRO 2 – QUADRO DE ACONTECIMENTOS ENTRE 1959 E 1969 Ano Fato 1959 URSS: lançamento do Vostok, primeira nave espacial 1960 África: independência de numerosas colônias 1961 Alemanha Oriental: construção do muro de Berlim 1961 Brasil: renuncia de Jânio Quadros e posse de João Goulart 1962 Cuba: crise dos mísseis 1964 Brasil: Golpe militar no Brasil 1965 China: Revolução Cultural TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO 169 1968 França: manifestações estudantis 1968 Brasil: decretado o AI-5 1969 EUA: Apolo 11 aterrissa na Lua FONTE: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2015/02/Imagem7.png>. Acesso em: 20 mar. 2020. A linha do tempo também pode ser um recurso para criar periodizações, as quais, como já assinalado anteriormente, devem ser contextualizadas não apenas cronologicamente, mas também utilizando as demais facetas do tempo histórico. A seguir, podemos observar duas linhas do tempo, uma delimitando a História do Brasil em seis períodos, e a outra com sete períodos, esta abordando também o período da Pré-História brasileira. FIGURA 23 – LINHA DO TEMPO DA HISTÓRIA DO BRASIL COM SEIS PERÍODOS FONTE: O autor UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 170 FIGURA 24 – LINHA DO TEMPO DA HISTÓRIA DO BRASIL COM SETE PERÍODOS FONTE: O autor Caro acadêmico, você também pode criar ou solicitar que os seus alunos criem linhas do tempo utilizando as ferramentas digitais. Uma rápida pesquisa na internet retornará recomendações de sites que oferecem o serviço. Mas se preferir alguma ferramenta off-line, o programa PowerPoint possivelmente será a ferramenta mais adequada. Esperamos que com as informações e exemplos apresentados você possa utilizar as linhas do tempo de forma consciente e criativa. Finalizamos os nossos estudos sobre o tempo e nossas indicações de música com uma das canções mais emblemáticas da banda nacional Legião Urbana. Observe o trecho a seguir e busque relacionar com os conteúdos vistos nesta unidade. Todos os dias quando acordo Não tenho maiso tempo que passou Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo Todos os dias antes de dormir Lembro e esqueço como foi o dia Sempre em frente Não temos tempo a perder. FONTE: <https://www.letras.mus.br/legiao-urbana/22489/>. Acesso em: 11 fev. 2020. DICAS TÓPICO 5 | O ENSINO DAS NOÇÕES DE TEMPO 171 LEITURA COMPLEMENTAR REPENSANDO A NOÇÃO DE TEMPO HISTÓRICO NO ENSINO Elza Bittencourt Nicholas Davies Paulo Miceli Nadai Quando o professor informa a respeito do domínio que seus alunos têm sobre a noção de tempo, refere-se fundamentalmente à aprendizagem relativa à cronologia. As noções de ano, década, século e milênio do calendário cristão, ou seja, a contagem do tempo de maneira uniforme, regular e sucessiva é, em geral, referenciada como sendo a noção de tempo histórico. Há, portanto, uma tendência acentuada em se identificar o tempo cronológico como a única noção de tempo histórico. Há ainda entre os professores a preocupação quanto à periodização, a relação presente-passado, sendo comum obter respostas de alunos, quando indagados sobre a definição de História, de que esta é "a ciência que estuda o passado para compreender o presente e preparar um futuro melhor". Definições iguais ou semelhantes estão contidas nos manuais didáticos, que, em sua maioria, possuem um capítulo introdutório que define a História, estabelecendo a relação temporal presente-passado e informa sobre o tempo cronológico e as divisões da história. Esses conceitos acabam, entretanto, diluindo-se no decorrer do curso, sem articulação concreta com o conteúdo transmitido, ocorrendo na prática em geral e, para os alunos em particular, que ensinar História é, em princípio, e quase exclusivamente, comunicar um conhecimento fatual do passado. A complexidade em examinar esse tema encontra-se também no fato de que a prática docente tem expressado, em geral, a incorporação de um referencial eclético e por vezes contraditórias da leitura crítica que se fez sobre o positivismo e sua concepção de tempo linear, uniforme e evolutivo. Isso se verifica notadamente na produção didática, principal alicerce da atuação do professor. Igual destino encontrou a crítica realizada pelos historiadores dos Annales. em especial Braudel, com relação à história política com "seu tempo curto - o acontecimento breve". O resultado da inclusão dos "ritmos", segundo a concepção braudeliana de tempo, tem sido, em vários trabalhos didáticos, incoerente, misturando- se conceitos como feudalismo e colonialismo, introduzindo-se a conjuntura econômica em determinados capítulos e prevalecendo em outros, na mesma obra, o arcabouço da curta duração, em que predomina exclusivamente o político. Essa situação pode ser exemplificada com o estudo do Império brasileiro, geralmente dividido em: Primeiro Reinado, Regência, Segundo Império e Proclamação da República, mesmo para autores que se propõem a trabalhar, por exemplo, com conjuntura econômica ou com modos de produção. UNIDADE 3 | HISTÓRIA E TEMPO 172 O esboço apresentado sobre alguns dos problemas do ensino da noção de tempo nas escolas tem sido o início de uma série de indagações sobre as possibilidades de uma ação mais concreta para modificar o que comumente tem sido denominado de "história tradicional". FONTE: BITTENCOURT, C.; NADAI, E. Repensando a noção de tempo histórico no ensino. In: PINSKY, J. (Org.). O ensino de História e a criação do fato. 14. ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 96-97. 173 RESUMO DO TÓPICO 5 Neste tópico, você aprendeu que: • A Base Nacional Comum Curricular contempla a relevância do ensino do tempo no 6º ano do Ensino Fundamental e nos anos do Ensino Médio. • O estudo da História está apoiado em dois pilares, o tempo e o espaço. • Nossos alunos, embora não compreendam o conceito de tempo histórico, possuem noções relativas ao tempo. • Na atualidade, o tempo recebe valoração e são comuns expressões como “tempo é dinheiro”, “perder tempo” e “investir tempo”. • O tempo do relógio e do calendário não são as únicas maneiras de organizar o tempo. • As linhas do tempo são ótimas ferramentas didáticas para o ensino de períodos, eras, mudanças, permanências, rupturas, sincronias e diacronias. • Ao trabalhar com linhas do tempo, é recomendado ao professor estar atento ao contexto mais amplo, tendo em vista que as periodizações são construções humanas e, por esse motivo, estão sujeitas a questionamentos. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 174 AUTOATIVIDADE 1 No decorrer deste Tópico 5, você teve acesso a diversas opções de abordagens do tempo no ensino de História. Ao retomar os saberes expostos sobre o ensino do tempo, pode-se afirmar que: I- A Base Nacional Comum Curricular recomenda o ensino das noções do tempo apenas a partir do 8º ano do Ensino Fundamental. II- Na sociedade capitalista, o tempo é visto como algo a ser controlado, originando expressões como “tempo é dinheiro”. III- É recomendado aos professores que estejam atentos às multiplicidades culturais, já que o tempo não é percebido de uma única maneira. IV- O professor é a figura que apresenta as primeiras noções de tempo às crianças, tendo como motivação os conteúdos curriculares. Estão CORRETAS: a) ( ) Apenas as afirmativas II e III. b) ( ) Apenas as afirmativas I e II. c) ( ) Apenas as afirmativas III e IV. d) ( ) Apenas as afirmativas I e IV. e) ( ) Apenas as afirmativas II e IV. 2 A utilização das linhas do tempo no ensino das noções de tempo e em tantos outros aspectos da disciplina, é reconhecida como uma ferramenta didática vantajosa. Por outro lado, apresentamos algumas críticas referentes ao uso das linhas do tempo nas aulas de História. Por esse motivo, solicitamos a você que escreva alguns dos pontos positivos e alguns dos pontos negativos relativos à utilização das linhas do tempo. PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS 175 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. AGOSTINHO, S. Confissões; De magistro: do mestre. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. ALBERTI, V. Histórias dentro da História. In: PINSKY, C. B. Fontes históricas. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2006. ANKERSMIT, F. R. History and Theory. 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