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Indaial – 2020 Perícia criminal ii Prof.a Gabriela Wolff Prof.a Ivone Fernandes Morcilo Lixa Prof.a Sandra Mara Sanches Franco 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Prof.a Gabriela Wolff Prof.a Ivone Fernandes Morcilo Lixa Prof.a Sandra Mara Sanches Franco Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: W855p Wolff, Gabriela Perícia criminal II. / Gabriela Wolff; Ivone Fernandes Morcilo Lixa; Sandra Mara Sanches Franco. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 193 p.; il. ISBN 978-65-5663-102-8 1. Prova criminal. - Brasil. 2. Documentoscopia. – Brasil. I. Wolff, Gabriela. II. Lixa, Ivone Fernandes Morcilo. III. Franco, Sandra Mara Sanches. IV. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 341.464 III aPresentação Prezado acadêmico do curso de Investigação Forense e Perícia Criminal (IPC)! Seja bem-vindo a esta nova disciplina em seu curso, que trataremos as questões inerentes à Perícia Criminal. Na Unidade 1, trabalharemos temas relevantes da Documentoscopia, com destaque para a análise documental, tida como principal artifício pericial aplicado pelos profissionais em investigações voltadas para a busca da autenticidade ou falsidade de um documento. Para tanto, apresentaremos de maneira sistêmica as formas adequadas de manuseio de papéis, bem como os instrumentos e equipamentos utilizados nos trabalhos periciais. Da mesma forma, abordaremos a Grafoscopia, importante ramo da Documentoscopia voltado para o estudo da escrita, que, mediante aplicação da Leis do Grafismo e análise de sinais caligráficos, possibilita a análise grafotécnica em um documento para o reconhecimento da autenticidade ou falsidade da escrita e sua autoria. Nesse contexto, exporemos as qualidades gerais da escrita, seus fatores individuais, aplicação de disfarces gráficos, bem como listaremos as falsificações de escritas a assinaturas mais usadas pelos falsários, seguidas das respectivas análises, como forma de melhor ilustração do assunto. Na Unidade 2, o estudo terá como objetivo conhecer os diferentes artefatos balísticos mais utilizados na prática de infrações penais, iniciando- se com a conceituação e classificação das armas de fogo, utilizando-se critérios técnicos que dizem respeito às características intrínsecas das armas. Nesta unidade, você terá informações que lhe permitirão compreender o trabalho realizado nas práticas periciais mais comuns que envolvem armas de fogo. Na Unidade 3, trabalharemos sobre alguns delitos que são relacionados à perícia veicular, como os crimes de roubo, furto e adulteração dos sinais identificadores, e suas respectivas consequências. Ainda, aprenderemos quais são os sinais oficialmente considerados capazes de identificar um veículo e a sua autenticidade. Esse conhecimento é de extrema importância, pois é através dele que poderemos avaliar e analisar se tal peça ou veículo foi adulterado ou permanece original. IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Diante disso, compreenderemos quais são e onde podem ser observados os caracteres da codificação do chassi, a decodificação das numerações de motores, câmbios, eixos e vidros e suas formas de adulteração. Por fim, com o vasto conhecimento adquirido, o acadêmico se encontrará habilitado para identificar a codificação original adulterada. Pronto para começar a estudar sobre este tão importante segmento de perícia criminal moderna? Então vamos lá, bom estudo! Prof.a Gabriela Wolff Prof.a Ivone Fernandes Morcilo Lixa Prof.a Sandra Mara Sanches Franco V VI Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE VII UNIDADE 1 – DOCUMENTOSCOPIA ................................................................................................1 TÓPICO 1 – DOCUMENTOSCOPIA ....................................................................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3 2 ESCOPO DA DOCUMENTOSCOPIA ...............................................................................................3 3 MANUSEIO DE DOCUMENTOS QUESTIONADOS ...................................................................6 4 INSTRUMENTOS E EQUIPAMENTOS ............................................................................................8 5 DOCUMENTOS ....................................................................................................................................10 5.1 DATAÇÃO DE DOCUMENTOS ...................................................................................................12 5.2 DATILOGRAFIA, REPROCÓPIAS, CARIMBOS E SELO DE AUTENTICAÇÃO .................14 6 ALTERAÇÕES FÍSICAS DE DOCUMENTOS ...............................................................................19 6.1 FOTOGRAFIA E TRATAMENTO DIGITAL DE IMAGEM ......................................................22 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................26 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................27 TÓPICO 2 – GRAFOSCOPIA ................................................................................................................29 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................29 2 ESCRITA .................................................................................................................................................29 2.1 LEIS DO GRAFISMO ......................................................................................................................30 2.2 ALFABETOS E SISTEMAS CALIGRÁFICOS ..............................................................................343 QUALIDADES GERAIS DA ESCRITA............................................................................................37 3.1 FATORES QUE AFETAM A ESCRITA ..........................................................................................42 4 DISFARCES GRÁFICOS .....................................................................................................................43 4.1 PADRÕES GRÁFICOS ....................................................................................................................44 4.2 VARIABILIDADE INDIVIDUAL ..................................................................................................46 5 INSTRUMENTOS ESCRITORES .....................................................................................................47 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................50 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................51 TÓPICO 3 – ANÁLISE DAS ESCRITAS .............................................................................................53 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................53 2 TIPOLOGIA ...........................................................................................................................................53 3 FALSIFICAÇÃO DE FIRMAS ............................................................................................................56 4 ANÁLISE DE ESCRITAS CURSIVAS E SINCOPADAS ..............................................................57 5 ANÁLISE DE ALGARISMOS ............................................................................................................59 6 EXAMES GRAFOTÉCNICOS EM CÓPIAS ....................................................................................61 7 ELABORAÇÃO DE LAUDOS ............................................................................................................62 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................64 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................67 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................68 sumário VIII UNIDADE 2 – BALÍSTICA FORENSE ................................................................................................69 TÓPICO 1 – BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS .........................................71 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................71 2 BALÍSTICA FORENSE .......................................................................................................................72 3 ARMAS DE FOGO ..............................................................................................................................76 4 O PORTE DE ARMA DE FOGO NO BRASIL ...............................................................................79 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................88 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................89 TÓPICO 2 – CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO ....................................................................91 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................91 2 CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO ..................................................................................91 2.1 QUANTO AO TAMANHO ...........................................................................................................92 2.2 QUANTO À PORTABILIDADE ...................................................................................................94 2.3 QUANTO AO SISTEMA DE CARREGAMENTO .....................................................................98 2.4 QUANTO AO FUNCIONAMENTO ...........................................................................................99 2.5 QUANTO AO SISTEMA DE ACIONAMENTO ........................................................................99 2.6 QUANTO À ALMA DO CANO .................................................................................................100 3 CALIBRE ...............................................................................................................................................102 4 MUNIÇÕES .........................................................................................................................................103 5 UM BREVE ESTUDO SOBRE OS FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMA DE FOGO ...... 106 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................115 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................116 TÓPICO 3 – PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE ...............................................117 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................117 2 CONFRONTO MICROBALÍSTICO ...............................................................................................117 3 RESÍDUOS DE ARMA DE FOGO ..................................................................................................122 4 ESTUDO DE CASO: QUANDO O EXAME EM RESÍDUO É RELEVANTE ..........................124 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................128 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................129 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................130 UNIDADE 3 – DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES ......................................................................131 TÓPICO 1 – DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR ..................................133 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................133 2 CRIME DE FURTO DE VEÍCULOS ...............................................................................................133 3 DO CRIME DE ROUBO DE VEÍCULOS .......................................................................................135 4 CRIME DE ADULTERAÇÃO DE SINAL IDENTIFICADOR DE VEÍCUO AUTOMOTOR ..... 138 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................141 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................142 TÓPICO 2 – ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS ..........................................143 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................143 2 DOS SINAIS IDENTIFICADORES DE VEÍCULO AUTOMOTOR ........................................143 2.1 DO DOCUMENTO DO VEÍCULO ............................................................................................144 2.2 VIN – NÚMERO DE IDENTIFICAÇÃO VEICULAR OU CHASSI.......................................146 2.3 PLACAS DE IDENTIFICAÇÃO DO VEÍCULO ........................................................................148 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................159 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................160 IX TÓPICO 3 – FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL .....................161 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................161 2 IDENTIFICAÇÃO DA ADULTERAÇÃO NOS VEÍCULOS ......................................................161 2.1 ADULTERAÇÃO DO DOCUMENTO DO VEÍCULO .............................................................162 2.2 ADULTERAÇÃO DO NÚMERO DO CHASSI ........................................................................165 2.3 ADULTERAÇÃO DA PLACA DE IDENTIFICAÇÃO ............................................................168 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................170 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................177 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................178 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................179 X 1 UNIDADE 1 DOCUMENTOSCOPIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer a documentoscopia como importante segmento da criminalística, na apuração de autenticidade de documentos questionados, bem como na identificação de sua autoria; • compreender como são realizados os exames periciais nos diversos tipos de documentos e quais instrumentos utilizados para tal desiderato; • diferenciar as formas de perícias de documentais e identificar seus objetivos precípuos; • estudar a grafoscopia, como ramo da documentoscopia, aprendendo as técnicas empregadas na análise dos grafismos; • analisar as qualidades gerais da escrita e os fatores que a afetam e a individualizam; • apreciar os diferentes instrumentos escritores e sua evolução; • reconhecer as falsificações de assinaturas das distintas formas em que são realizadas pelos falsários. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – DOCUMENTOSCOPIA TÓPICO 2 – GRAFOSCOPIA TÓPICO 3 – ANÁLISE DE ESCRITAS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 DOCUMENTOSCOPIA 1 INTRODUÇÃO O intuito de nosso trabalho é apresentar a documentoscopia como um importante seguimento da criminalística, no qual os diferentes tipos de documentos são avaliados por profissionais capacitados, que buscam, através de técnicas e instrumentos adequados, identificar suas autenticidades. De forma didática, apresentaremos aspectos relevantes do assunto, capazes de ampliar o conhecimento do estudante nessa área tão extensa e interessante, relacionada diretamente à perícia criminal em documentos. Teremos a oportunidade de entender como se desenvolve o trabalho dos peritos documentoscopistas, mediante a utilização de ferramentas e equipamentos próprios para a realização de exames em documentos suspeitos de alteração ou fraude. Por fim, conhecendo o conceito e estrutura de alguns documentos, procuraremos expor as mais acentuadas formas de alteração física em documentos, valendo-se para tanto de ilustrações e citações de estudiosos a respeito. Bons estudos! 2 ESCOPO DA DOCUMENTOSCOPIA Antes de entrarmos no assunto propriamente dito da documentoscopia, temos que apresentar alguns conceitos fundamentais para o bom o desenvolvimento do tema. De início, temos que entender em que consiste a documentoscopia. Para tanto, a exposição de seu conceito é basilar. Costa (1995) ensina que a Documentoscopia é a denominação ampla que abrange todas as especialidades que objetiva, em questões específicas, a obtenção de soluções para as seguintes questões: estabelecer a autenticidade ou falsidade de um documento e em caso de falsidade identificar o autor. Por sua vez, Mendes (1999) define a Documentoscopia como a parte da criminalística que estuda os documentos para verificar se são autênticos e, em caso contrário, determinar a sua autoria. A figura a seguir traduz o conceito de criminalística: UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 4 FIGURA 1 – DOCUMENTOSCOPIA FONTE: <https://tse1.mm.bing.net/th?id=OIP Pre7lOxQFo4xqvbgMsfnEwHaFj&pid=Api&P=0&w=210&h=158>. Acesso em: 5 maio 2020. É através da documentoscopia que os peritos examinam documentos, procurações, contratos, moedas, selos, cartões, cheques, certidões de nascimento, certidões de óbito, certidões de casamento, entre outros, na busca de vestígios materiais de alteração ou falsificação desses documentos. Temos então que o objetivo desse ramo da criminalística é analisar, identificar e evitar fraudes nos documentos de uma forma geral. Para tanto, os peritos devem possuir noções especializadas, de cunho técnico-científico que possibilidade a aplicação de técnicas adequadas nas averiguações documentais e busca de provas materiais. Cabe ao perito documentoscópico, com base nas informações disponíveis e no conjunto de resultados de análise laboratorial, usar sua experiência e aptidão para fazer sua interpretação em relação a uma dada peça de exame (D’ALMEIDA; KOGA; GRANJA, 2015). De acordo com a Associação Portuguesa de Ciências Forenses (APCF), em razão da variedade de documentos atualmente existentes e à diversidade de materiais que os constituem, na documentoscopia são consideradas subdivisões nos exames, cuja interação é fundamental na resolução das questões do foro documentoscópico. Vejamos a listagem no quadro seguinte: TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 5 QUADRO 1 – SEÇÕES DE DOCUMENTOSCOPIA GRAFOTECNIA Análise da escrita manual MECANOGRAFIA Estudo da escrita mecânica (digitação, datilografia, tipografia etc.) ALTERAÇÕES DOCUMENTAIS Detecção de rasuras, acréscimos, substituições e/ou obliterações EXAME DE SELOS EXAME DE TINTAS Tintas de escrita manual e mecânica EXAME DE SUPORTE Em especial, suporte de papel EXAME DE INSTRUMENTOS GRÁFICOS Análise de tintas EXAME DE MOEDAS METÁLICAS E DE PAPEL Estudo dos elementos de segurança FONTE: Adaptado de <http://apcforenses.org/?page_id=30>. Acesso em: 5 maio 2020. Como se depreende, são extensos os materiais que podem ser objeto de estudo da documentoscopia, no entanto, independentemente do material examinado, o objetivo dessa ciência forense consiste em identificar se o documento é autêntico, como e quando foi elaborado, quem é o responsável pela sua elaboração. Caso contrário, constatar a adulteração ou alteração do documento e sua autoria. De forma sintetizada, a imagem seguinte mostra os principais objetivos da documentoscopia: FIGURA 2 – OBJETIVOS FONTE: As autoras Nesse contexto, mister se faz o estudo dos documentos e o seu adequado manuseio e interpretação pelos peritos. É o que faremos na sequência. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 6 3 MANUSEIO DE DOCUMENTOS QUESTIONADOS Alguns cuidados com os documentos analisados são essenciais para o sucesso da investigação pericial e constatação de irregularidades. Dessa forma, os peritos utilizam tecnologias e técnicas peculiares para cada documento em questão, de maneira a não os danificá-los. Geralmente, as técnicas usadas nos laboratórios de documentoscopia são as não destrutivas. Nesseslaboratórios, os aparelhos mais comuns são as lupas e os microscópios ópticos, empregados para análise visual, portanto, que não causam danos aos documentos (D’ALMEIDA; KOGA; GRANJA, 2015). Acrescenta o mesmo autor que, além desses, há equipamentos destinados especialmente para análises documentoscópicas, compostos de luzes especiais e filtros específicos, que também não danificam os documentos. Cabe esclarecer que os instrumentos periciais serão estudados no próximo subtópico. Importa agora sabermos que os documentos a serem periciados, na sua grande maioria, são frágeis. A fragilidade pode decorrer do próprio material ou da sutileza do vestígio a ser analisado. Assim temos alguns fatores que contribuem para o dano no material, e que devem ser evitados pelos peritos ou pelos profissionais envolvidos no armazenamento. Podemos visualizar de forma esquematizada alguns esses fatores que podem interferir na análise pericial: FIGURA 3 – FATORES DE DEGRADAÇÃO DOCUMENTAL FONTE: As autoras MARCAS PROVENIENTES DE MANUSEIO: Manchas, restos de alimento e bebidas, clipes, grampos, colagem, carimbos, anotações, rubricas etc. ARMAZENAMENTO: Utilização de formas e locais inadequados, como excesso de umidade, luz, temperatura etc. DEGRADAÇÃO NATURAL: Envelhecimento do documento causando alterações como mofos, manchas etc. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 7 Além desses fatores, podemos mencionar, ainda, a deterioração decorrente de práticas de reprodução fotostática de imagens dos documentos questionados. Verifique nas imagens seguintes alguns tipos de documentos danificados: FIGURA 4 – DOCUMENTOS DETERIORADOS FONTE: <https://bit.ly/2A3gFi9>; <https://bit.ly/3gTx4Xa>; <https://bit.ly/370hRyU>. Acesso em: 5 maio 2020. Sopesando que as degradações podem influenciar o procedimento de análise pericial nos documentos, podemos listar alguns cuidados importantes a serem seguidos pelos profissionais, quando do exame dos documentos questionados: • Ao manusear os documentos questionados verifique que as mãos estejam limpas e secas. • Utilizar, sempre que possível, luvas para manusear os documentos. • Remover grampos, clipes, elásticos e prendedores dos documentos, pois estes sofrem deterioração, como a ferrugem, e causam danos aos documentos. • Armazenar os documentos horizontalmente em local escuro com temperatura e umidade estáveis e adequadas. • Impedir que os documentos fiquem expostos à luz solar. • Utilizar no acondicionamento, materiais de armazenagem alcalina que podem prover uma proteção contra poluentes causadores de danos em papeis, tais como ozônio e fumaça provenientes das máquinas fotocopiadoras, carros e sistemas de aquecimento. • Evitar comer e beber próximo aos documentos questionados. • Não utilizar grampos, clipes, durex, fita crepe ou outro tipo de fita adesiva para fixar os documentos. • Proteger os documentos e manter os locais de armazenagem de documentos questionados limpos. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 8 Agora que já conhecemos a importância do correto manuseio dos documentos questionados, podemos aprender sobre os equipamentos e instrumentos utilizados na análise pericial. 4 INSTRUMENTOS E EQUIPAMENTOS Para a realização de perícia documentoscópica, o profissional deve possuir conhecimentos peculiares e estar a par das novas tecnologias na medida em que estas vão sendo disponibilizadas. A variedade de materiais a serem periciados é extensa, englobando papéis, moedas, plástico e até madeira. Vejamos quais os equipamentos mais utilizados, considerando a relevância e a dinâmica de ocorrências FIGURA 5 – TÉCNICAS PERICIAIS FONTE: As autoras Os peritos podem se valer, ainda, na realização de seu mister em investigar documentos, de alguns dispositivos de segurança lançados nos documentos. Seguindo o entendimento de D’Almeida, Koga e Granja (2015), podemos citar, de forma esquematizada e didática: • Fundo Numismático: conjunto de linhas, ou microcaracteres em formato de linhas, normalmente paralelos, que apresentam alterações de ângulos, criando uma imagem que transmite a sensação de relevo e até de tridimensionalidade. • Microletra: letras, algarismos e outros sinais gráficos em corpo diminuto, na faixa de décimos de milímetro, cuja visualização é facilitada, ou só é possível, com auxílio de aparelho óptico de aumento. Podem ser negativas, quando vazadas, ou positivas, quando cheias. Seu conjunto é muito utilizado para formar efeito de linhas quando visto a olho nu. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 9 • Tinta invisível: tinta no impresso invisível na luz do dia, mas que se torna visível sob luz ultravioleta. • Tinta reagente: tinta que reage em contato com determinado agente químico ou físico por meio de reações reversíveis ou irreversíveis. • Holograma: imagem gerada a laser que apresenta um efeito bi ou tridimensional e de movimento, conforme o ângulo de observação e da incidência de luz. • Impressão calcográfica: conhecida como talho doce, emprega tinta pastosa e com a impressão realizada sob pressões elevadas. • Impressão tipográfica: normalmente provoca relevo no verso da folha. Para facilitar o entendimento apresentaremos algumas ilustrações acerca desses elementos de segurança. Verifique a seguir: FIGURA 6 – ELEMENTOS DE SEGURANÇA Fundo numismático Calcografia Microletra Tinta invisível Tipografia FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/2Y2krQS>; <https://bit.ly/2z6PK4K>; <https://bit.ly/3dzsRpk>; <https://bit.ly/3dxpuj1> e <https://bit.ly/2XSP0Z6>. Acesso em: 3 jun. 2020. Atualmente, há disponível uma série de equipamentos, que, com uma quantidade ínfima de amostra retirada do documento, pode fornecer informações importantes ao perito. Entre esses equipamentos têm-se espectrofotômetros, cromatógrafos, além de vários tipos de microscópio eletrônico (D’ALMEIDA; KOGA; GRANJA, 2015). UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 10 Nesse contexto, cabe aos peritos especializados optar pelo método e uso do instrumento que melhor se adeque ao exame do documento. A tarefa dos profissionais nesse campo investigativo nem sempre é fácil, em especial quando os documentos não são considerados comuns. A par disso, vamos conhecer um pouco mais sobre os documentos. 5 DOCUMENTOS Saber o conceito de documentos, bem como sua diversidade, é fundamental para o bom trabalho pericial. A Lei nᵒ 12.527 de 2011, que regula o acesso a informações traz em seu artigo 4ᵒ, inciso II, o conceito basilar de documento. Vejamos o que reza o dispositivo legal: “Art. 4ᵒ Para os efeitos desta Lei, considera-se: II- Documento: unidade de registro de informações, qualquer que seja o suporte ou formato”. O Código de Processo Penal considera documentos quaisquer escritos, instrumentos ou papéis, públicos ou particulares. É o que dispor o artigo 232 dessa legislação. Lopes Junior (2019) ensina que, além de ser considerado documento qualquer escrito, abre-se a possibilidade da juntada de fitas de áudio, vídeo, fotografias, tecidos e objetos móveis que fisicamente possam ser incorporados ao processo e que desempenhem uma função persuasiva (probatória). Podemos destacar as seguintes formas documentais: escrita sobre papel, desenhos artísticos, pinturas, esculturas, fitas magnéticas, pen drives, bem como os documentos considerados de segurança papéis-moedas, cartões de crédito, cheques, vales alimentação, vales transporte, bilhetes aéreos, cédula de identidade, título eleitoral, carteira de habilitação, passaporte, identificação profissional, certidão de nascimento, certidão de casamento, certidão de óbito, entre outros. IMPORTANT E Na inteligência da Documentoscopia, qualquer estrutura pode ser suporte para lançamentos gráficos que transmitam ideias ou indiquem a existência de fatos, ainda que a maioria dos documentos se manifeste em papéis escritos ou impressos. Essa disciplina não abriga em si conflito no conceito de documento. Faz uso do entendimento amplo e se mantém independente frente ao Direito Penal(SILVA; FEUERHARMEL, 2013). TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 11 Dentre os documentos, distinguem-se os documentos autênticos, dos documentos questionados, que deverão ser periciados. Oportuno, pois, tecer algumas considerações sobre a autenticidade dos documentos, haja visto, que um dos objetivos da documentoscopia é investigar se um documento é tido por autêntico quanto á sua autoria, ou quanto ao seu conteúdo. Dessa forma, determina o artigo 369, da legislação processual civil que: Art. 369. Reputa-se autêntico o documento, quando o tabelião reconhecer a firma do signatário, declarando que foi aposta em sua presença. No mesmo sentido, o artigo 4ᵒ, da citada lei 12.527 de 2011, dispõe sobre a autenticidade nos seguintes termos: Art. 4o Para os efeitos desta Lei, considera-se: VII- autenticidade: qualidade da informação que tenha sido produzida, expedida, recebida ou modificada por determinado indivíduo, equipamento ou sistema; VIII- integridade: qualidade da informação não modificada, inclusive quanto à origem, trânsito e destino. Já vimos que existem elementos de segurança em determinados documentos, que auxiliam os peritos nas investigações, haja vista a dificuldade que impõem para sua adulteração ou fraude. Em meio a esses documentos, ressaltamos a Carteira de Identidade Civil (RG), com destaque para o novo RG, ou Registro de Identidade Civil (RIC). A tecnologia dificultará a falsificação, com dispositivo antiescaneamento, imagens ocultas, palavras impressas com tinta invisível, fotografia e impressão digital a laser e várias outras tecnologias, além de conter um chip de armazenamento. Pela figura seguinte, podemos visualizar a evolução desse documento no combate à falsificação documental. FIGURA 7 – DOCUMENTO DE IDENTIFICAÇÃO FONTE: <https://www.saibaseusdireitos.org/wp-content/uploads/2018/01/rg-ric.jpg>. Acesso em 6 maio 2020. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 12 Além do novo documento de identificação, podemos elencar também a Carteira Nacional de Habilitação Digitalizada, como documento complexo e seguro. Nessa esteira, a Documentoscopia envolve não apenas a análise da autenticidade documental, mas se ocupa também em criar dificuldades para que não ocorra a falsificação documental, buscando métodos que fortaleçam a autenticidade dos documentos. Do exposto podemos deduzir que os documentos possuem características próprias que os individualizam, permitindo a análise de sua autenticidade quando questionados. Um assunto de extrema importância que pode influenciar na autenticidade ou falsidades dos documentos diz respeito a datação. É o que estudaremos agora. 5.1 DATAÇÃO DE DOCUMENTOS Como já vimos, a autenticidade de um documento pode ser realizada sob diversos aspectos, que podem ou não comprometer sua validade. O Código de Processo Penal faz referência sobra a data do documento particular em seu artigo 370. Vejamos o que expõe o dispositivo legal: Art. 370. A data do documento particular, quando a seu respeito surgir dúvida ou impugnação entre os litigantes, provar-se-á por todos os meios de direito. Em relação a terceiros, considerar-se-á datado o documento particular: I- no dia em que foi registrado; II- desde a morte de algum dos signatários; III- a partir da impossibilidade física, que sobreveio a qualquer dos signatários; IV- da sua apresentação em repartição pública ou em juízo; V- do ato ou fato que estabeleça, de modo certo, a anteriorida- de da formação do documento. A data dos documentos é um aspecto que deve ser considerado, visto que a sua produção pode ocorrer anteriormente, chamada de ante datação. No que se refere à cronologia o documento não será considerado autêntico, isso, na maioria das vezes, não invalidam o documento. Outrossim, pode ocorrer o contrário, a pós datação, sendo considerado apenas uma inautenticidade parcial (DEL PICCHIA FILHO; DEL PICCHIA; DEL PICCHIA, 2005). Silva e Feuerharmel (2013) abordam que a datação de documentos se processa com base em informações contidas tanto no suporte como em seu conteúdo, que servem como marcadores temporais. Os autores citam como exemplos as características do papel, os métodos de impressão empregados, tinta de traços manuscritos e até mesmo as características da ortografia, dado que as normas oficiais sofrem reformas cujas datas de implementação podem servir como referência. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 13 Cabe esclarecer que, nas impressões de um modo geral, nos papéis, tintas e canetas são encontrados corantes. No que diz respeito à datação de documentos é possível diferenciar o processo de degradação de um corante e escalonar o tempo dessa degradação. Dessa forma, são desenvolvidas técnicas de apuração e análise, em especial com relação as tintas das canetas esferográficas. De forma sistemática, apontaremos os principais procedimentos adotados acerca do estudo da datação da tinta em documentos: • Degradação de corantes. • Evaporação de solventes. • Difusão de corantes ou solventes pelas fibras do papel. • Polimerização das resinas. • Técnicas cromatográficas e espectrométricas. • Métodos quimiométricos. Inexiste um consenso entre os peritos quanto ao método mais eficaz na identificação da datação exata, não havendo, uma uniformização de técnicas para se determinar a cronologia dos documentos. É necessário esclarecer que a datação pode ser considerada absoluta ou relativa. Vejamos em que consistem na imagem a seguir: FIGURA 8 – DATAÇÃO ABSOLUTA E RELATIVA FONTE: As autoras A datação relativa de uma tinta não consegue definir uma data precisa para o ato da escrita. Entretanto, se uma tinta comprovadamente foi fabricada após certa data, qualquer escrito confeccionado com esta tinta não pode ter sido feito antes desta data (ELLEN, 2006). UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 14 Não esmiuçaremos o assunto, por abranger conteúdo fisioquímico, no entanto, para saber mais a respeito dos métodos de análise de tintas, leia o trabalho: Avaliação Quimiométrica da datação de documentos e envelhecimento artificial de lançamentos de tinta de caneta esferográfica por Lc-Ms/Tof, no link: https://repositorio. unb.br/handle/10482/32519. DICAS Expostos os principais pontos acerca da datação documental, iniciaremos a apresentação de alguns documentos que se destacam na seara pericial. 5.2 DATILOGRAFIA, REPROCÓPIAS, CARIMBOS E SELO DE AUTENTICAÇÃO A datilografia e os documentos datilografados perderam espaço com a introdução dos computadores que, inevitavelmente, informatizaram os meios e as espécies documentais. No entanto, ainda circulam alguns documentos datilografados, que, pela sua precariedade e ausência de padrões, se tornam alvos de fraudes e falsificações. De início cumpre ressaltar que, ao se examinar um documento datilografado ao mesmo tempo em que a máquina supostamente utilizada na sua preparação, pode-se comprovar se o documento foi datilografado nessa máquina ou não. Para isso, são consideradas todas as características do equipamento, bem como a presença de defeitos nos caracteres impressos, que funcionarão como uma espécie de impressão digital da máquina. Conheceremos alguns documentos datilografados na imagem seguinte: FIGURA 9 – DOCUMENTOS DATILOGRAFADOS FONTE: <https://bit.ly/2MqsWzZ>; <https://bit.ly/3eISIvg>. Acesso em: 9 maio 2020. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 15 Havendo suspeita de alteração, é cabível a perícia documental, com uma análise minuciosa que abrange o papel em que foi impresso os dizeres, o tipo de letra, o tamanho, a tinta, a identificação da máquina, as formas, a pressão. O olhar crítico de um perito poderá apurar uma possível divergência. Na perícia, deve-se atentar para suspeita de inserção de letra, palavra ou frase num texto dactilografado. Nessa hipótese é adequada a seguinte indagação: o texto original elaborado foi retirado da máquina e retornou à máquina para um acréscimo? Da mesma forma, deve-se observar no documento questionado a presença de desalinhamentos dactilográficosquer vertical, quer horizontal, que indique não ter sido o seu contexto dactilografado numa só sessão. IMPORTANT E Ressaltamos, dessa forma, a perícia mecanográfica, realizada em textos impressos, cópias fotostáticas, xérox, entre outros. Com relação à necessidade de exames periciais nas reproduções mecânicas, temos a disposição do artigo. 422 do Código de Processo Civil. Vejamos: Art. 422. Qualquer reprodução mecânica, como a fotográfica, a cinematográfica, a fonográfica ou de outra espécie, tem aptidão para fazer prova dos fatos ou das coisas representadas, se a sua conformidade com o documento original não for impugnada por aquele contra quem foi produzida. § 1ᵒ As fotografias digitais e as extraídas da rede mundial de computadores fazem prova das imagens que reproduzem, devendo, se impugnadas, ser apresentada a respectiva autenticação eletrônica ou, não sendo possível, realizada perícia. Nesse contexto, lecionam Del Picchia Filho, Del Picchia e Del Picchia (2005) que, ao surgirem casos em que as peças estejam representadas por xerocópias ou similares, o perito deverá analisar minuciosamente o documento questionado. No mesmo sentido, Pereira (1987) já observava a praticabilidade de perícias em xerocópias ou similares, nos casos específicos de falsificação de assinatura aposta em cheque, estudado em cópia de microfilme e, inclusive, exitosa quanto à determinação da autoria. Defende o mesmo autor que as autoridades responsáveis pelas investigações devem sempre determinar a realização de exames na cópia xerox sobre as quais recaem dúvidas, afirmada a impossibilidade da apresentação do respectivo original. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 16 Atinente as reprocópias, ou cópias reprográficas, temos que informar que estas reproduzem a cópias fiel dos documentos com as quais se relacionam. São muito usadas na reprodução de livros cartorários no registro de eventos, como certidão de nascimento, casamento e óbito. Para visualizarmos, exporemos a imagem de uma cópia reprográfica de certidão. FIGURA 10 – CÓPIAS FONTE: <https://cartorio.info/wp-content/uploads/2018/01/certidao-de-inteiro-teor-digitada-ou- reprografica-1024x575.jpg>. Acesso em: 9 maio 2020. Entenderemos melhor a diferença entre as duas modalidades, de acordo com seus conceitos, no link: https://cartorioonlinebrasil24h.com.br/blog/certidao-de-inteiro- teor-reprografico-e-digitada-quais-as-diferencas/. DICAS Certidão reprográfica: é idêntica àquela que está no livro de registro, ou seja, contém até as assinaturas das testemunhas e dos responsáveis pelo ato. Desse modo, ela traz a exata reprodução do conteúdo, ou seja, até mesmo a caligrafia utilizada na época. Trata-se de uma fotocópia feita por uma máquina de xerox. Certidão de inteiro teor digitada: contém, em si, todas as informações presentes no livro de registro, contudo, não é, de fato, uma reprodução fiel dos assentos desse livro, uma vez que ela foi datilografada, digitada e impressa pelo cartório levando em conta as informações contidas no assento. NOTA TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 17 Oportuno acrescentar que, alguns doutrinadores apontam a fragilidade e a dificuldade de realização de perícias em documentos xerocopiados pelo fato de não ser possível identificar vestígios de adulteração nas reproduções, bem como não ser possível determinar aspectos de grafismo, datilografia ou tipo de tinta aplicada. Nos documentos também podem ser encontrados selos e carimbos, passíveis de adulteração. Adequado é tecer algumas considerações sobre os selos de autenticidade, em especial quando utilizado em ato notarial e registral. Sua aposição no documento resulta em maior segurança jurídica e moderna fiscalização indireta pelos órgãos competentes. Antes de abordarmos a análise de um selo, temos dois aspectos relacionados à segurança dos atos notarias e registrais que merecem destaque: FIGURA 11 – RECONHECIMENTO DE FIRMA FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/curso-documentoscopia-120125103115- phpapp01/95/curso-documentoscopia-34-728.jpg?cb=1327487841>. Acesso em: 9 maio 2020. Agora, atinente aos selos de segurança, podemos analisar um de selo de cartório de reconhecimento por autenticidade, constante da autorização de transferência de veículo. Análise de documento extraído de D’Almeida, Koga e Granja (2015, p. 91). Vejamos: UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 18 FIGURA 12 – SELOS DE SEGURANÇA FONTE: D’Almeida, Koga e Granja (2015, p. 91) Para verificar a presença de alteração no selo, foram considerados padrões contemporâneos e efetuada análise visual com auxílio de comparador espectral de vídeo (VSC 6000 – Video Spectral Comparator), conforme imagem seguinte: FIGURA 13 – SELOS DE SEGURANÇA FONTE: D’Almeida, Koga e Granja (2015, p. 91) A análise visual no comparador espectral de vídeo, usando luz da região do visível indicou na peça questionada rasura (regiões esbranquiçadas) no desenho de fundo da área onde se encontra o texto “Reconhecimento Por Autenticidade”: FIGURA 14 – SELOS DE SEGURANÇA FONTE: D’Almeida, Koga e Granja (2015, p. 91) TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 19 A análise visual da peça questionada com comparador espectral de vídeo usando luz da região do infravermelho revelou vestígios de uma impressão anterior que remete ao texto FIRMA 2, presente no padrão contemporâneo. Da análise conclui-se que o selo questionado analisado foi alterado e aproveitado para o reconhecimento por autenticidade de firma. Concernente aos carimbos, da mesma forma que os selos, diversos são seus modelos e matérias. A averiguação pericial consistirá basicamente na impressão do carimbo esboçada no documento encaminhado a exame. O perito investigará se a procedência do carimbo que produziu as impressões colhidas na Tomada de Material Padrão coincide com a do carimbo examinado. 6 ALTERAÇÕES FÍSICAS DE DOCUMENTOS Como já apontado, muitos documentos são passíveis de fragilidade nos elementos que os constituem, e, com isso, tornam-se documentos de fácil falsificação. Assim, é necessário que seja realizada análise documentoscópica para que se verifique sua autenticidade documental. Silva e Feuerharmel (2013) ressaltam que para se fazer um exame de confronto documental é necessário que se tenha conhecimentos sobre as características e especificações do documento em análise. Esta é uma área que se baseia na exposição de falsificação ou a alteração com a adição ou supressão de informação. Esclarecem os mesmos autores que são realizados nesta área os exames de moedas (cédulas e moedas metálicas), papéis, de petrechos de falsificação documental, documentoscópicos relativos à alteração documental, autenticidade documental, cruzamento de traços, idade de documento e idade de tinta. De forma sintética, explanaremos em que consistem as alterações físicas dos documentos. Antes, porém, apresentaremos algumas considerações que a legislação penal traz a respeito do assunto. O Código Penal conta com diversos artigos que incriminam condutas de falsificação. Podemos mencionar o artigo 297, que dispõe sobre a falsificação de documento público. A respeito do tema, leciona Bitencourt (2019, p. 1375) sobre as condutas incriminadas: As ações incriminadas são: a) falsificar, no todo (contrafação total, com formação global, por inteiro) ou em parte (contrafação parcial, com acréscimo de dizeres, letras etc.), documento público; b) alterar (modificar, adulterar dizeres, letras) documento público verdadeiro. No crime de falsificação de documento público é necessário que o falsum seja suficientemente idôneo para provocar erro em outrem, sob pena de não se configurar a infração penal descrita no art. 297. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 20 Elucida o mesmo autor que os tribunais têm entendido que a simples troca ou substituição de fotografia em documento alheio tipifica o crime em exame. No mesmo sentido, o artigo 298 tipifica a falsificação de documento particular, tutelando a autenticidade de tais documentos. Nesse diapasãotemos os cartões de crédito e débito. O denominado papel-plástico ou dinheiro de plástico também recebe, por força de lei, a qualificação de documento por equiparação. Com essa equiparação, a falsificação de referidos cartões passa a configurar o crime de falsificação de documento particular (BITENCOURT, 2019). De um modo geral, a inautenticidade de um documento ou a presença de alterações são detectadas pela verificação de incoerências em sua impressão, autenticação (elementos de segurança ou assinaturas), suporte ou conteúdo. Além disso, inúmeras outras características auxiliam e, por vezes, só permitem detectar uma falsificação. Entre elas, citam-se o tipo de papel, fonte, instrumento de escrita e tinta usados, a ortografia, a sequência de produção do documento e várias marcas que podem ser deixadas no suporte. Podemos sintetizar as principais formas de procedimentos fraudulentos em escritos, considerando sua incidência na seara pericial. A seguir, temos algumas formas de alterações em documentos: • Contrafações. • Falsificação gráfica. • Alterações. • Montagens. • Clonagens. Pela contrafação são reproduzidos documentos impressos, com destaque para cédulas de papel moeda e documentos de identificação. Por alterações, entendemos os artifícios empregados para transformar o conteúdo original de um documento, capazes de deixar marcas passíveis de serem constatas em exames periciais. Na alteração são utilizados, por exemplo: • Lavagem química: emprego de reagente químico em áreas localizadas do documento, para suprimir parte dos registros gráficos originais. • Acréscimo: inclusão de registros gráficos adicionais àqueles originais do documento. • Rasura: apagamento de parte dos registros gráficos através do atrito provocado por produto abrasivo sobre o suporte. • Recorte: remoção de parte do documento através de rasgadura ou corte do suporte. A imagem seguinte aponta um exemplo de documento adulterado: TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 21 FIGURA 15 – RASURA FONTE: <https://public-rf-upload.minhawebradio.net/16127/news/ ec97b1e53909f75cd218fc5a6fa1458f.jpg>. Acesso em: 12 maio 2020. Como se depreende da imagem, é nítida a alteração do número original “4”, pelo número ”9”. Caro acadêmico, para se aprofundar no assunto das técnicas utilizadas para identificação de alterações físicas em documentos, indicamos a leitura do trabalho: Novas tecnologias aplicadas à Análise Documental, do Instituto de Criminalística Afrânio Peixoto, Departamento de Polícia Técnica do Estado da Bahia, disponível no link: https://www. grafoexame.com.br/2013/05/novas-tecnologias-aplicadas-a-analise-documental/#:~:text=A%20 Espectroscopia%20%C3%A9%20uma%20t%C3%A9cnica,pouco%20estudada%20para%20 an%C3%A1lise%20documental. O trabalho é rico em detalhes e ilustram que possibilitam um melhor entendimento da matéria. Para tanto, exporemos seu resumo: Este trabalho tem como objetivo apresentar a aplicação de técnicas spectroscópicas e recursos de software baseados em matemática avançada, para a realização de perícias documentais, a fim difundir e ampliar a gama de ferramentas disponíveis ao profissional da ciência forense. A Espectroscopia é uma técnica bastante conhecida principalmente na área de Química e Física, contudo, ainda pouco estudada para análise documental. Espectrômetros equipados com microscópios, voltados para a perícia documental existem no mercado, e foram adquiridos recentemente pelo Instituto de Criminalística Afrânio Peixoto, como o Vídeo Comparador Espectral e o Espectrômetro com tecnologia Raman, que permitem utilizar iluminação em vários comprimentos de onda e traçar espectros de absorção, emissão ou reflectância, para análise das características das tintas esferográficas e de impressão utilizadas em documentos. Esta tecnologia aplicada ao exame de documentos permite a análise mais apurada do material de perícia, para estudos como diferenciação de tintas esferográficas, cruzamento de traços, características do suporte, bem como mais confiabilidade nos resultados devido a sua sensibilidade e abrangência. A computação também oferece um leque de possibilidades, com recursos de baixo nível de investimento, destinados a aprimorar os trabalhos forenses, como a utilização da deconvolução para separação de cores, entre outros tantos recursos disponíveis. DICAS UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 22 Após verificarmos como ocorrem as alterações documentais, passaremos a estudar um assunto relevante e de grande incidência no ramo pericial, as conhecidas fotografias e seu tratamento digital de imagens. 6.1 FOTOGRAFIA E TRATAMENTO DIGITAL DE IMAGEM Atualmente, são aplicadas em exames periciais tecnologias de super resolução para aprimorar imagens de fotografias, proporcionando resultados mais eficazes nas investigações. Todavia, o que é super resolução? A imagem seguinte traz seu conceito de uma forma simplificada: FIGURA 16 – SUPER RESOLUÇÃO DE IMAGENS FONTE: Adaptado de <https://periciastecnicas.com.br/index.php/2017/11/20/laboratorio- forense-para-super-resolucao-de-imagens/>. Acesso em: 11 maio 2020. A imagem seguinte nos permite entender qual o diferencial da super resolução, em razão da sua excepcional nitidez: FIGURA 17 – COMPARATIVO DE IMAGENS FONTE: <http://www.extremetech.com/wp-content/uploads/2012/07/computer-chip-super- resolution-640x353.jpg>. Acesso em: 11 maio 2020. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 23 Oportuno esclarecer que as perícias não são realizadas apenas em imagens estáticas, como nas fotografias, mas também nas imagens em movimento, no caso dos vídeos. O trabalho dos peritos consiste em exames de verificação de edição, na busca por elementos que indiquem alterações fraudulentas do conteúdo original da imagem. Em seu mister, os profissionais fazem confronto de imagens, tratamento digital de registros de vídeos, e até exames de reconhecimento facial, na busca de vestígios de qualquer alteração de conteúdo. Entre os indícios de alteração considerados pelos peritos, destacam-se as adulterações, ocultações e obliterações. Assim entendidas como a dissimulação, supressão e até destruição de imagens, com o fim de alterar a material registrado. Antes de prosseguirmos, é relevante observar algumas imagens, onde se é possível verificar algumas alterações: FIGURA 18 – FOTOS HISTÓRICAS ADULTERADAS FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/371LYWP>; < https://bit.ly/2UbyClx>. Acesso em: 11 maio 2020. As imagens são definidas como a representação visual de algo ou de pessoas. Ela pode ser capturada ou criada, por meio de fotografias, pinturas, gravuras ou computação gráfica. Não entraremos no mérito do processamento de imagens, haja visto que o objetivo de nossos estudos é entender como são identificadas as alterações em imagens questionadas. Para tanto, apresentamos a imagem a seguir, característica de uma montagem. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 24 FIGURA 19 – MONTAGEM FONTE: Adaptado de <http://www.folhapolitica.org/2014/06/romeu-tuma-jr-denuncia- montagens-de.html>. Acesso em: 11 maio 2020. Em razão de modernos softwares de gráfica, dos scanners e das impressoras de qualidade, associados às altas capacidades gráficas que eles proporcionam, surgiram as falsificações de documentos feitas através do aproveitamento dos meios digitais. Dentre as diferentes adulterações que podem resultar da manipulação de imagens digitais destacam-se: • Montagem. • Subtração de imagem. • Substituição de imagem. • Duplicação de áreas. • Adição de ruídos. Caberá ao perito, valendo-se de sua experiência e técnicas, analisar a imagem capturada e identificar possíveis indícios de adulteração. Por fim, uma breve explanação sobre o que dispõe a legislação processual civil, no que diz respeito as fotos e sua e seu valor probante: Art. 385. A cópia de documento particular tem o mesmo valor probante que o original, cabendo ao escrivão, intimadas as partes, proceder à conferência e certificar a conformidade entre a cópia e o original. § 1ᵒ Quandose tratar de fotografia, esta terá de ser acompanhada do respectivo negativo. § 2ᵒ Se a prova for uma fotografia publicada em jornal, exigir- se-ão o original e o negativo. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 25 "Por fotografia do documento, leia-se fotocópia, que, devidamente autenticada, terá o mesmo valor do documento original. Atualmente, predomina o entendimento de que as fotocópias não necessitam de autenticação, exceto quando colocada em dúvida sua veracidade, circunstância em que a parte interessada na produção dessa prova deverá providenciar os originais ou fotocópias autenticadas" (LOPES JUNIOR, 2019, p. 506). IMPORTANT E As medidas defendidas pelo Código de Processo Civil visam garantir a atuação pericial, quando de eventual questionamento de autenticidade do material juntado. Acadêmico, indicamos a leitura do texto Fundamentos sobre reprografias nos exames periciais, disponível no link: http://www.cinelli.com.br/Cinelli/Fundamentos_sobre_ reprografias.html. DICAS 26 Neste tópico, você aprendeu que: • A documentoscopia é um importante ramo da criminalística, que tem por objetivo estudar documentos para verificar sua autenticidade, ou determinar sua autoria. • Em razão da diversidade de documentos e dos materiais que os constituem, são disponibilizados diferentes exames documentoscópicos, específicos para a apreciação de cada situação. • Nas perícias documentoscópicas é necessário a observância de cuidados especiais com os documentos analisados, adotando-se, para tanto, técnicas não destrutivas dos materiais examinados. • Para a realização das perícias são empregados pelos profissionais tecnologias e equipamentos peculiares à seara documentoscópica. • Exames documentoscópicos são perfeitamente possíveis em cópias reprográficas e documentos datilografados, valendo-se o profissional de conhecimentos e técnicas específicas nessas abordagens. RESUMO DO TÓPICO 1 27 1 Em que consiste um exame documentoscópico? 2 O que se entende por elementos de segurança em documentos? Cite três espécies desses elementos. 3 Por alterações, entendemos, os artifícios empregados para transformar o conteúdo original de um documento, capazes de deixa marcas passíveis de serem constatas em exames periciais. Especifique os principais métodos adotados pelos falsários nessas alterações. AUTOATIVIDADE 28 29 TÓPICO 2 GRAFOSCOPIA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Abordaremos, neste tópico, a grafoscopia, também conhecida por grafotécnica, assim entendida como o ramo da documentoscopia que estuda a escrita, na qual, através da aplicação de técnicas, é possível identificar a autenticidade ou falsidade de uma assinatura ou escrito. Conheceremos a perícia grafotécnica e seus procedimentos para coleta e realização de confrontos entre padrões gráficos, em uma efetiva análise nas características particulares do grafismo ou escrita. Para tanto, serão expostos os principais fatores que afetam a escrita em suas qualidades gerais, resultando em diversos padrões gráficos. De forma concisa, exporemos a variabilidade individual das escritas, considerando detalhes que as diferenciam e identificam o seu escritor. Bons estudos e muito sucesso! 2 ESCRITA De início, temos que esclarecer que o estudo e a análise de uma escrita exigem muita habilidade e conhecimentos técnicos, pois trata-se de um trabalho criterioso que envolve não só o mecanismo da escrita, mas a identificação do seu autor. Para estudarmos a escrita temos que conhecer o conceito de grafoscopia. Sétimo (2014) ensina que a grafoscopia consiste na técnica baseada em observações sistemáticas de elementos que compõem o grafismo. Explanaremos o estudo do grafismo mais adiante. Por ora, nos interessa a escrita e sua evolução. Sette (2020) observa que, independentemente de como se pega na caneta, a escrita é desenhada de acordo com impulsos do cérebro através do sistema nervoso e dos músculos do braço e da mão. Sendo assim, ela não pode ser camuflada ou disfarçada para ocultar sua interpretação. Importante apresentarmos a classificação da escrita de acordo com a idade gráfica. O quadro seguinte propõe essa evolução de forma ordenada: UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 30 QUADRO 2 – CLASSIFICAÇÃO DA ESCRITA Escrita primária Rústica e canhestra O ato de escrever não faz parte do hábito do indivíduo Traços lentos, quebras e muito parada Indica pouca cultura gráfica Escrita escolar Apresenta certa desenvoltura Traços com maior fluidez e decisão Indica média cultura gráfica Escrita secundária Escrita flui com velocidade Demonstra qualidades particulares e rapidez na execução dos traços Indica alta cultura gráfica Escrita senil Execução comprometida por problemas motores Apresenta falhas na ideação Pode decorrer da degeneração dos músculos ou da idade Indica cultura gráfica decadente FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Como se depreende do quadro anterior, as formas pessoais da escrita não são estáticas, mas apresentam alterações com o passar do tempo. Nesse sentido, Sétimo (2014) aborda que, na evolução, o grafismo evoluciona de acordo com o que se aprende em classificação da escrita. O aperfeiçoamento decorre do treinamento, resultando no automatismo gráfico. Por outro lado, o mesmo autor tambem observa que pode ocorrer uma involução em razão da senilidade. Não significa que todos os indivíduos podem ser prejudicados por ela, pois, muitos mantêm as próprias caracteríticas de escrita, mesmo com idade avançada. 2.1 LEIS DO GRAFISMO Conhecer as leis do grafismo é importante para que o profissional possa desenvolver o adequado exame em documentos que possuam grafismos. Embasados nos princípios trazidos por essa lei, o perito pode valer-se de padrões para verificar a autenticidade e a autoria da escrita. A lei do grafismo, apresentada pelo estudioso Edmond Solange Pellat, fundamentou-se no princípio de que o grafismo é individual e inconfundível. Citada lei apresenta o princípio geral. Vejamos de forma pormenorizada na imagem a seguir. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 31 FIGURA 20 – PRINCÍPIO GERAL FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Pelo princípio fundamental, as leis da escrita independem do alfabeto utilizado. Com base nisso, foram desenvolvidas quatro leis do grafismo. Vejamos de forma sequencial as leis do grafismo, segundo Pellat (1927): • Primeira Lei do Grafismo: o gesto gráfico está sob a influência imediata do cérebro. Sua forma não é modificada pelo órgão escritor se este funciona normalmente e se encontra suficientemente adaptado à sua função. Sétimo (2014) aborda que a execução do gesto gráfico, treinado para a escrita, realizada pelo punho escritor, está diretamente relacionada ao cérebro. Nesse sentido, ressalta o mesmo autor que, se um escritor destro treinar o punho esquerdo, produzirá escrita com as mesmas qualidades técnicas do outro punho. Podemos concluir, então, que não existem duas pessoas distintas com a mesma escrita. • Segunda Lei do Grafismo: quando se escreve, o “eu” está em ação, mas o sentimento quase inconsciente de que o “eu” age passa por alternativas contínuas de intensidade e de enfraquecimento. Ele está no seu máximo de intensidade onde existe um esforço a fazer, isto é, nos inícios, e no seu mínimo de intensidade onde o movimento escritural é secundado pelo impulso adquirido, isto é, nas extremidades. Pela segunda lei, temos o automatismo gráfico, que, no entender de Sétimo (2014), pode ser explicada pelo fato da sequência do grafismo fluir naturalmente, após iniciado o gesto gráfico. Significa afirmar que à medida em que a escrita vai de desenvolvendo, o escritor torna patente sua escrita usual. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 32 • Terceira Lei do Grafismo: não se pode modificar voluntariamente em um dado momento sua escrita natural senão introduzindo no seu traçado a própria marca do esforço que foi feito para obter a modificação. As tentativas de disfarces não surtirão efeitos durante a execução do gesto gráfico, pois sendo este automático,isso não será possível. Qualquer tentativa posterior também não terá sucesso, uma vez que as características particulares já foram registradas (SÉTIMO, 2014). A naturalidade da escrita é uma característica fundamental que a distingue da falsificação. Assim, qualquer empenho do escritor em escrever de determinada forma, resultará na perda da individualidade inicial da escrita. • Quarta Lei do Grafismo: o escritor que age em circunstâncias em que o ato de escrever é particularmente difícil, traça instintivamente ou as formas de letras que lhe são mais costumeiras, ou as formas de letras mais simples, de um esquema fácil de ser construído. Sétimo (2014) aborda que o escritor sempre evolui, no sentido de criar a maneira em que o gesto da escrita lhe seja mais fácil. A prática proporciona o desenvolvimento de formas de escrita, atribuindo características técnicas importantes ao escrito. Em outras palavras, significa dizer que, em certas ocasiões, em que o ato de escrever está sendo limitado por algo, o escritor utiliza traços gráficos simples e fáceis de se desenvolver. Seguindo os ditames desses princípios, caberá ao especialista, diante de um documento com dizeres gráficos, estudar e compreender a escrita, identificar a autenticidade, bem como a autoria da grafia. Expostas as leis do grafismo em seus aspectos mais relevantes, resta apresentar alguns exemplos seus, de maneira a reconhecermos sua extensa variedade, o que permite ao perito optar pelo padrão adequando na realização de exames gráficos. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 33 FIGURA 21 – EXEMPLOS DE GRAFISMO FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/mdulo4-designmultimdia-130930083032-phpapp01/95/ mdulo-4-design-multimdia-16-638.jpg?cb=1380529873>. Acesso em: 13 maio 2020. Ainda podemos ressaltar que existem diferentes tipos de grafismos, entre eles destacam-se: • as rubricas; • as assinaturas; • as escritas cursivas; • as escritas em letras de forma. Tirotti e Tirotti (2015) apresenta que os grafismos das assinaturas nem sempre guardam as mesmas características da escrita usual de seu escritor. Às vezes, o escritor prefere empregar letras de forma distinta daquela usada na escrita corrente. Quanto às rubricas, reduzem-se a um pequeno número de traços, sendo uma significação da assinatura (TIROTTI; TIROTTI, 2015). UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 34 A perícia caligráfica é um dos objetos de prova mais importantes e também dos mais usuais com que conta a justiça. Com relação ao exame escrito ou perícia caligráfica, prevê o art. 174 do Código de Processo Penal que as diligências para o exame de reconhecimento de escritos, por comparação de letra, destinam-se a autenticar documento, ou então, proclamar sua falsidade. As regras previstas no art. 174, que se referem à perícia de escritos, podem ser estendidas, como orientação, às perícias datilográficas. FONTE: <https://siteantigo.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/direito/pericia-caligrafica-e- ou-documentoscopia-na-prova-pericial/36376>. Acesso em: 3 jun. 2020. IMPORTANT E Como nosso trabalho é voltado ao estudo e à análise da escrita, nos balizaremos ao conhecimento das letras utilizadas para mensagens textuais. 2.2 ALFABETOS E SISTEMAS CALIGRÁFICOS Conhecer o alfabeto e as letras que o compõem é importante para uma análise prática da grafia. A partir da análise de suas formas é possível identificar o perfil e a autoria da escrita. Não esmiuçaremos o tema acerca da formação do alfabeto e sua evolução, posto que nosso estudo objetiva a apreciação das formas gráficas, enquanto artifício de adulteração. Analisar os sinais gráficos que cada indivíduo deixa ao escrever uma letra é um processo que requer precisão e conhecimento técnico. É no estudo dos detalhes de cada letra que forma a palavra que a perícia grafotécnica encontrará embasamento para o conhecimento da autoria. Basicamente, os alfabetos são formas de escritas constituídas por um conjunto de sinais gráficos. O alfabeto latino ou romano é o utilizado na língua portuguesa. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 35 O alfabeto da língua portuguesa é o latino. Ele se divide em duas partes: vogais e consoantes. As vogais são as letras: A, E, I, O, U; e as consoantes são: B, C, D, F, G, H, J, L, M, N, P, Q, R, S, T, V, X, Z. Além delas, existem outras três letras que são usadas em casos especiais: K, Y, W. Elas são usadas para escrever nomes próprios e estrangeirismos. Os países de língua portuguesa, incluindo o Brasil, aboliram algumas variações após a assinatura do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O alfabeto é escrito de forma ordenada, onde as letras respeitam uma sequência, e pode ser escrito com letras maiúsculas e minúsculas. Acesse o conteúdo completo sobre a origem do alfabeto no site: https://www. guiaestudo.com.br/origem-do-alfabeto. INTERESSA NTE Nesse contexto, é importante esclarecer que letra é a unidade do alfabeto. Suas formas habituais seguem dois traçados, podendo ser impressa ou cursiva. Vejamos um breve resumo dos seus conceitos: • Letra impressa: ◦ Conhecida como letra de forma. ◦ Usada em impressões tipográficas. • Letra cursiva: ◦ Usada, geralmente, em escrita de grafismo. Conheceremos mais a respeito das letras, na medida em que formos estudando a escrita e expondo suas características e variabilidades. No que tange aos sistemas caligráficos, temos que, no transcorrer dos anos, foram observadas mudanças fundamentais no ensino da escrita. Através de métodos educacionais diferentes que buscavam-se estabelecer normas para a prática escolar. A preocupação com a escrita já era evidente, assim, no início do Século XX, em vários estados brasileiros, discursos pedagógicos, apoiados em preceitos higienizas, preocuparam-se em normatizar a escrita. A caligrafia inclinada, utilizada durante o Século XIX, apesar de elegante, graciosa e pessoal, era criticada, porque percebida como a causa para os problemas de miopia e escoliose encontrados nos escolares. Para manter a saúde das crianças, indicava-se a caligrafia vertical como a mais adequada ao trabalho escolar. Papel direito, corpo direito, escrita direita, pareciam resumir as prescrições da higiene (VIDAL; GVIRTZ, 1998). As autoras esclarecem que as principais escolas paulistas instituíram a caligrafia norte-americana, ou inclinada, como a mais indicada no ensino das primeiras letras. Entretanto, a Reforma da Instrução Primária de Minas Gerais indicava a caligrafia vertical, ou redonda, por considerá-la não somente mais higiênica, como também mais adequada aos tempos modernos. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 36 Oportuno notar que, muitas vezes, as defesas de determinados modelos caligráficos, inclinado ou vertical, utilizavam do termo escrita no lugar do termo caligrafia. A par desses modelos de escrita, os métodos de aquisição da escrita vão se dividir entre a letra de imprensa, denominada letra bastão, e a letra cursiva, também conhecida como emendada ou manuscrita. Podemos visualizar na imagem a seguir a distinção entre letras cursivas e letras bastão. FIGURA 22 – EXEMPLO DE LETRAS CURSIVAS E LETRAS BASTÃO FONTE: <http://s2.glbimg.com/zYKA1s-wcOGQi6oTEzarE5zEKW8=/695x0/s.glbimg.com/po/ tt2/f/original/2015/03/05/fani_facebook.png>. Acesso em: 15 maio 2020. Caro acadêmico, para aprender mais sobre os sistemas caligráficos, indicamos a leitura do trabçaho: O ensino da escrita manual no Brasil: dos modelos caligráficos à escrita pessoal no Século XXI, no link: http://www.bocc.ubi.pt/pag/fetter-sandro-lima- edna-lima-guilherme-o-ensino-da-escrita-manual-no-brasil.pdf. DICAS Explanados os pontos relevantes sobre o alfabeto e o sistema caligráfico, temos que conhecer, de uma maneira geral, as qualidades da escrita. É o que faremos na sequência. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 37 3 QUALIDADES GERAIS DA ESCRITA Das caraciterísticas do grafismo, podemos extrair suas qualidadades, assim definidas pelos estudiosos como qualidades gerais da escrita. As qualidades gerais da escrita podemser subdidividas em elementos subjetivos e elementos objetivos. Importante observar que os elementos subjetivos são díficeis de serem simulados por serem involuntários (TIROTTI; TIROTTI, 2015). Para melhor visualizarmos, vejamos de forma em que consistem esses elementos de ordem geral da escrita (TIROTTI; TIROTTI, 2015): • Elementos subjetivos da escrita: ◦ rítmo; ◦ dinamismo; ◦ velocidade; ◦ habilidade. • Elementos objetivos da escrita: ◦ alinhamentos; ◦ espaçamentos; ◦ limintantes verbais; ◦ relação de proporcionalidade; ◦ inclinação axial; ◦ calibre; ◦ pressão; ◦ tendência de punho; ◦ espontaneidade. Vamos apreender o siginificado de cada um desses elementos, numa abordagem consisa e ordenada. Vejamos, então, em que consistem os elementos subjetivos: • Rítmo: consiste na cadência de movimentos, compreendendo as formações harmoniosas e contrafeitas (DEL PICCHIA FILHO; DEL PICCHIA; DEL PICCHIA, 2005). • Dinamismo: refere-se ao estudo concomintante das forças de pressão e velocidade (DEL PICCHIA FILHO; DEL PICCHIA; DEL PICCHIA, 2005). • Velocidade: observando o grafismo é possível notar se a escrita foi rápida, média ou lenta. As divergencias de velocidade são indentificadas quando se analisa os momentos do grafismo (TIROTTI; TIROTTI, 2015). Nesta oportunidade, temos que destacar os momentos do grafismo, assim entendidos como o momento gráfico propriamente dito, ou momento da parada e da retomada da escrita. Esses momento podem ser considerados diminutos na medida em que o instrumento escritor quase não toca o papel pela leveza e rapidez. Vejamos, a seguir, as peculiaridades que denotam rapidez e lentidão (TIROTTI; TIROTTI, 2015): UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 38 ◦ Escrita rápida: momentos diminutos, pressão baixa e traços agéis. ◦ Escrita lenta: momentos gráficos, pressão alta e traços oscilantes. • Habilidade: está relacionada à instrução do gesto gráfico, pela prática e destreza do punho do escritor. Da mesma forma, abordaremos os principais elementos objetivos análisado em um perícia, com observância aos estudos de Sétimo (2014). Confira as principais particularidades desses elementos: • Alinhamentos: verifica-se a posição no espaço do grafismo em relação à linha de pauta. Assim, nós temos a escrita apoiada e a escrita flutuante. FIGURA 23 – ESCRITA APOIADA E FLUTUANTE FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Espaçamentos: é a distância média observada nos grafismo. Pode ser a distância entre os gramas, caractereres, vocábulos ou linhas. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 39 FIGURA 24 – ESPAÇAMENTO ENTRE GRAMAS, CARACTERES, VOCÁBULOS E LINHAS FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Limitantes Verbais: linhas retas imaginárias que são traçadas sobre uma escrita para verificações de algumas características. A imagem representa as linhas da limintante verbal superior e inferior, em que se identificam os passantes, assim entendidos como gramas grafados fora da linha imaginária. FIGURA 25 – LIMITANTES VERBAIS FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Gladionagem: é a inexistencia de paralelismo entre as linhas de ápice e a linha de base de uma escrita. A gladionagem pode ser positiva, quando as linhas se encontram a direita do grafismo e negativa, quando se encontram a esquerda. Ainda existe a escrita ingladiolada, onde as limintantes verbais são paralelas: UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 40 FIGURA 26 – INGLADIOLAGEM, GLADIOLAGEM POSITIVA, NEGATIVA E COM VARIAÇÕES FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Inclinação Axial: de acordo com a visualização do eixo axial, pode-se dizer se uma escrita apresenta inclinação ou não. FIGURA 27 – EIXO AXIAL FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Ainda, com relação à inclinação axial, podemos identificar escritas verticais, com inclinação para a direita e com inclinação para a esquerda. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 41 FIGURA 28 – GRAFISMO VERTICAL, COM INCLINAÇÃO PARA A DIREITA FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Calibre: faz referência ao tamanho da escrita, seja no todo ou em suas partes. Dessa forma, pode-se mencionar o calibre de um grama, de uma letra, de uma palavra. Pode ser classificado como, grande, médio e pequeno. FIGURA 29 – CALIBRE PEQUENO FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Tendência de punho: destaca-se pela tendência á angulosidade, manifestada pela inversão de curva de sentido; tendência à arcada, com produção de concavidade voltda à região inferior; tendência à guirlanda, apresentado convexidade em sentido inferior e concavidade em sentido superior, e, por fim, a tendência mista, executada através de lançamentos de diversas formas (TIROTTI; TIROTTI, 2015). • Pressão: pode ser considerada a força exercida na execução do traço, bem como suas variações. Assim temos as formas de pressão do punho na modalidade leve, representada por traços finos e claros; modalidade média, com tonalidades e expessuras de traçõs medianas e, por fim, a modalidade pesada com traços espessos e mais escuros e produção de sulcos observáveis. Na sequência, as figuras ilustram as três classificações de escrita, de acordo com a pressão do punho: UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 42 FIGURA 30 – PRESSÕES DE PUNHO LEVE, MÉDIA E PESADA FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) • Espontaneidade: ccorresponde à fluência natural da escrita, sem artificialismo. Traços sem espontaneidade são pesados e indecisos, resultados de movimentos lentos, que exigem mais esforço e atenção. Ao contrário, a espontaneidade representa a uniformidade, ausência de tremores na escrita, que denota velocidade, decorrente do automatismo gráfico. Após o estudo das características gerais da escrita, é importante, para a bom entendimento do grafismo em trabalhos periciais, conhecermos os fatores comprometedores da escrita. 3.1 FATORES QUE AFETAM A ESCRITA Pelo que já expusemos, podemos concluir que o grafismo não é inerte, ele evolui e sofre alterações na medida em que o escritor desenvolve o aperfeiçoamento da escrita pelo treinamento, até alcançar o automatismo gráfico. Da mesma forma, a escrita pode ser alterada normalmente pela involução, em razão da senilidade. A evolução e a involução são fatores normais da mudança de grafismo. Diferentemente, podemos encontrar mudanças anormais do grafismo. Sétimo (2014) aborda que os fatores anormais podem influenciar a qualidade da escrita quando agem diretamente sobre as condições motoras do órgão escritor. Podemos visualizar de forma esquematizada esses fatores anormais, assim considerados internos e externo. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 43 • Fatores internos: ◦ Referentes ao sistema produtor do grafismo. ◦ Exercem influência direta na produção do grafismo. ◦ Emoção, euforia, depressão, medo, raiva, embriaguez, ferimento, doenças crônicas, entre outros. • Fatores externos: ◦ Causas alheias ao sistema produtor do grafismo. ◦ Exercem influência indireta na produção do grafismo. ◦ Postura incômoda, instrumentos escritor defeituosos, suporte inadeuqado, escrita em movimento, entre outros. Como se depreende, diversos são os fatores que podem acarretar alterações na escrita. Muitas vezes tais alterações são imperceptívies às pessoas comuns, mas à vista de um perito experiente, são facilmente identificadas. 4 DISFARCES GRÁFICOS Trataremos agora das circunstâncias em que o autor tenta ocultar as características originais da escrita. Veremos que, para tanto, poderá a escritor se valer de diferentes tipos de disfarces, são os denominados disfarces gráficos. Para compreendermos melhor o conceito, exporemos de forma esquematizada os mais relevantes disfarces gráficos utilizados (TIROTTI; TIROTTI, 2015). • Tipos de disfarces gráficos: ◦ Escrita cursiva modifica as formas dos caracteres. ◦ Escrita cursiva com caligrafação dos caracteres. ◦ Escrita cursiva com variação de inclinação. ◦ Aumento ou diminuição da calibragem. ◦ Utilização da mão esquerda (esquerdismo). ◦ Deformação dos caracteres e dos traços. ◦ Simulação de canhestrismo gráfico. ◦ Variação de formas. ◦ Erros ortográficos. Tirotti e Tirotti(2015) aborda que as imitações não constituem disfarces gráficos, uma vez que na imitação são copiados os gestos gráficos de outrem, e, muitas vezes, deixa transparecer as características do punho escritor original. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 44 4.1 PADRÕES GRÁFICOS Nos exames grafotécnicos destacam-se os padrões gráficos, assim entendidos como o grafismo sabidamente autêntico, que servirá de comparação ou confronto com a escrita questionada. De início, temos que esclarecer em que consiste a forma gráfica, que servirá de padrão gráfico em análise de autenticidade ou autoria de escrita. Sétimo (2014) aborda que a forma ou imagem gráfica é o aspecto formal e visual da escrita, e mostra todos os momentos da realização de um grafismo, ou seja, demonstra como a grafismo foi criado em detalhes. Um ponto interessante que é observado em qualquer análise grafotécnica são os gramas da escrita. Nesse sentido, podemos conceituar o grama como o registro mínimo de um gesto gráfico realizado, sem mudança brusca de sentido. O grama é finalizado com uma parada ou com a existência de um ângulo (TIROTTI; TIROTTI, 2015). Na imagem seguinte podemos visualizar de forma detalhada o traço do grama. FIGURA 31 – O GRAMA FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Visualizada a forma da letra, é imperioso o estudo de sua gênese, ou seja, sua criação, monstrando como o caracter foi construído, apontando o traço inicial, sua trajetória, até culminar no traço final. Sétimo (2014) observa que duas letras podem ter a mesma forma do grafismo sem, no entanto, possuir a mesma gênese. Podemos entender melhor essa observação, acompanhando a imagem seguinte: TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 45 FIGURA 32 – FORMA E GÊNESE DE UMA LETRA FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Esses conhecimentos são importantes para a verificação de autenticidade gráfica ou identificação de autoria. O padráo gráfico, considerado autêntico, é utilizado para confronto no exame grafotecnico. Ao se examinar um caractere ou um grafismo, comparando a outro sabidamente autêntico, sob os aspectos de forma e gênese, pode-se concluir pela autenticidade ou não da escrita. A figura a seguir traz uma visão geral do exposto: FIGURA 33 – COMPARAÇÃO COM CARACTERE PADRÃO FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Existem falsificações de boa qualidade, inperceptíveis a pimeira vista. É através de análises grafotecnicas, com a aplicação dos conhecimentos estudados que se identifica uma falsificação e suas divergências com o original. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 46 4.2 VARIABILIDADE INDIVIDUAL Em toda escrita, há necessariamente o início e o fim, do desenvolvimento de um ou mais gramas. Ao traço inicial é dado o nome de ataque, e, ao final, de remate. Esses traços podem ser de diferentes formas, com particularidades que os diferenciam. Nesse contexto, Triotto (2019) os classifica em: • Ensaiados. • Apoiados e não apoiados. • Sulcados. • Em gancho. • Em colchete. • Em ponto de repouso. As variações formais ocorrem, geralmente, quando se empregam letras ou sinais pertencentes a sistemas caligráficos, ou sinais distintos (TIROTTI; TIROTTI, 2015). Oportuno ressaltar as linhas de impulso, assim definidas como traços adicionais ao ataque, no início do lançamento da escrita. Por seu turno, também existe o cetra, um traço ornamental que conclui o lançamento, sobretudo nas assinaturas (TIROTT; TIROTTI, 2015). De acordo com Del Picchia Filho, Del Picchia e Del Picchia (2005), os traços ornamentais são adicionados às letras com interesses estéticos, e podem, com o tempo, integrar o conjunto de hábito gráficos do escritor. A esquírola também é considerada uma diferencial. São identificadas como pequenos pontos de descaga de tinta, deixados sempre no mesmo local, ou em curvas, seja nas passantes ou não passantes. Vejamos, na imagem seguinte, uma sequência de espírolas na trajetória da escrita: FIGURA 34 – ESPÍRULAS FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 47 Outra importante particularidade é a escrita helicoidal, consistente em movimentos circulares com laçadas sem grande espaços (SÉTIMO, 2014). É preciso conhecer como se caracteriza a forma da escrita helicoidal: FIGURA 35 – ESCRITA HELICOIDAL FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Por fim, temos o complexo idiográfico, definido por Sétimo (2014) como a junção de duas ou mais letras grafadas de modo muito particular, de acordo com a facilidade que o escritor descobriu de grafá-las. Podemos identificar a particularidade de escrita na imagem seguinte: FIGURA 36 – COMPLEXO IDIOGRÁFICO FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Ademais, existem variabilidades da escrita que devem ser consideradas, tais como a grafia do “t” e do “i”, que oferem ricos detalhes ao estudo grafotécnico. Agora que já compreendemos melhor como se desenvolve e se forma a escrita, através das caracterítiscas de cada letra, conheceremos de forma breve, os instrumentos escritores. 5 INSTRUMENTOS ESCRITORES Os instrumentos escritores ou instrumentos gráficos também são relevantes em uma análise documental, haja vista que através deles é possibilitada a escrita em superfícies. Existem diferentes instrumentos gráficos, no entanto, abordaremos apenas os de maior incidência na escrita documental, considerando suas características. O quadro seguinte apresenta uma visão geral dos instrumentos escritores utilizados na escrita. UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA 48 FIGURA 37 – INSTRUMENTOS ESCRITORES FONTE: Adaptado de Tirotti e Tirotti (2015) O uso de canetas tornou-se a principal ferramenta das escritas manuais, tanto que esse instrumento tem evoluído com o passar dos tempos. A princípio, utilizavam-se as penas de aves, que foram seguidas pelas penas metálicas. Posteriormente, vieram as canetas-tinteiro, para serem usadas tanto com as penas de aves como com penas metálicas. Esse instrumento escritor está em desuso no Brasil, em especial pelo fato de possuir um traçado com falhas e imperfeições suscetíveis de serem confundidas com anormalidades provocadas pelas reproduções fraudulentas (TIROTTI; TIROTTI, 2015). Merecem destaque as canetas esferográficas, que se tornaram populares entre os escritores. Os traços das canetas esferográficas apresentam pouca variação em sua espessura e largura da tinta aplicada, em função da pressão utilizada no instrumento. Geralmente as tintas de canetas esferográficas possuem secagem rápida. Tirotti e Tirotti (2015) aborda que o traçado das esferográficas possui sulcagem e resulta do movimento de rotação da pequena esfera que se impregna de massa colorida existente no depósito. A esfera somente transfere a massa corante para o suporte quando a esfera se atrita com o suporte, mediante rotação. São as conhecidas roller ball. Temos ainda as canetas de ponta porosa que se caracterizam pela ausência de sulcos e traços com larguras homogêneas e sangrias, representadas pela passagem da tinta líquida nas fibras de papel. TÓPICO 2 | GRAFOSCOPIA 49 Podemos mencionar, ainda, as canetas esferográficas à base de gel, ou hidrográficas. Essas canetas também possuem esfera na ponta, mas possuem uma tinta mais viscosa que as das esferográficas mencionadas. As canetas hidrográficas possuem a desvantagem de permitirem fácil lavagem, de difícil percepção. Pela ausência de sulcos em sua escrita, as operações de supressão tornam-se complicadas de se detectarem (TIROTTI; TIROTTI, 2015). Por fim, temos como instrumento escritor o lápis cuja tinta é constituída basicamente de grafite. Seus traços são formados pela fricção produzida no papel, que depositará camadas de grafite na superfície do suporte. A raspagem causada pela borracha pode remover o gravite depositado no papel, no entanto, mesmo depois de removido, a escrita feita a lápis pode permanecer visível, quando observada com luz infravermelha. Tirotti e Tirotti (2015) menciona que, na escrita a lápis, não existem sulcagens, mas apenas o sulco deixado pela pressão que se denomina Foulage. No que diz respeitoà composição as tintas das canetas temos que as tintas são produzidas e, de tal forma, diferidas, de acordo com suas propriedades físicas, como cor, densidade, viscosidade, articulação superficial e resistência à água. Nesse contexto, o exame de tintas, consistente na análise da composição química das tintas, é muito importante para a perícia documental, na medida em que o exame objetiva determinar a autenticidade ou adulteração de documento. O exame abrange a identificação de substâncias empregadas na confecção da tinta usada no documento questionado e a compatibilidade com sua data, embasando- se na pigmentação do corante e no tipo de componente utilizado para dissolvê-lo. Acadêmico, indicamos a leitura do texto Perícia grafotécnica e documentoscopia – Norma de procedimento de Grafoscopia do perito grafotécnico, no link: https://www.manualdepericias.com.br/pericias-de-grafoscopia-grafotecnica- documentoscopia-perito-grafotecnico/. DICAS 50 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A grafoscopia ou grafotécnica é a parte da documentoscopia que estuda e investiga a escrita. • A análise da escrita exige conhecimentos técnicos dos profissionais, envolvendo não só a construção da escrita, mas também a identificação de sua autoria. • A escrita pode ser classificada de acordo com a idade gráfica, possuindo características próprias em cada fase evolutiva. • As leis do grafismo, bem como seu princípio geral, contêm princípios e fundamentos que permitem ao perito verificar a autenticidade e autoria da escrita, valendo-se para tanto, de padrões gráficos. • A escrita possui qualidades gerais consubstanciadas nos elementos subjetivos e objetivos da escrita. • Fatores internos e externos podem afetar a escrita, resultando em alterações no grafismo. • As escritas possuem particularidades ou variabilidade individual que as diferenciam, o que proporcionam aos peritos, análises grafotécnicas quando questionadas. 51 1 Qual o escopo da perícia grafotécnica? 2 Explique, de forma resumida, em que consistem as esquírolas. 3 Com relação à assertiva: “o grafismo individual é inconfundível”, podemos afirmar que faz referência à: a) ( ) Primeira Lei do Grafismo. b) ( ) Segunda Lei do Grafismo. c) ( ) Terceira Lei do Grafismo. d) ( ) Quarta Lei do Grafismo. e) ( ) Princípio Fundamental do Grafismo. AUTOATIVIDADE 52 53 TÓPICO 3 ANÁLISE DAS ESCRITAS UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO A análise da escrita e de assinaturas, ou firmas, é imprescindível quando houver dúvidas acerca de sua veracidade e autoria. Para tanto, se faz necessário conhecer as técnicas utilizadas pelos profissionais nos exames periciais. Através de exames minuciosos, somados a aplicação de métodos peculiares da grafoscopia é possível indentificar fraudes em grafias de documentos questionados. Dentre as falsifiçãos e alte rações de escrita, algumas merecem destaque em razão de sua maior incidência na seara pericial, por exemplo, as falsicações de firmas ou assinaturas. Isso posto, objetivamos abordar de uma forma dinâmica e clara as principais características das apreciações periciais em análises de escrita cursiva, sincopada e algarismos, com uma breve explanação sobre a elaboração dos laudos periciais resultantes de tais exames. 2 TIPOLOGIA Na grafoscopia são constatadas diferentes variações de falsificação de escrita ou assinaturas, e, de acordo com a técnica, qualidade e esperiência do falsificador, podem ser de difícil constatação, até mesmo em um exame pericial. As fraudes documentais em escritas ocorrem indevidamente, durante ou após a escrita, e são classificadas de acordo com o procedimento utilizado pelo falsário (GOMIDE; GOMIDE, 2000). Antes de prosseguirmos, é importante expor as principais formas de falsificações em escritas. A seguir, reunimos algumas contrafações que se destacam: • Falsificação sem imitação. • Falsificação de memória. • Falsificação exercitada. • Decalques. • Imitação servil. • Assinaturas a mão guiada. • Autofalsificação. • Simulação de falso. • Negativa de autenticidade. 54 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA Apresentaremos as particularidades de cada espécie, de forma resumida e suficiente para difierenciá-las umas das outras. • Falsificação sem imitação: essa forma de falsificação é prontamente identificada em uma análise. Falat e Rebello Filho (2003) ensinam que, nesse tipo de falsificação, o falsário só possui o nome da vítima contido no documento, sem um padrão de assinatura para se basear. De tal forma que, desconhecendo os padrões gráficos da vítima, o falsificador escreve o nome do proprietário do documento com o seu próprio grafismo. Essa falsificação sem imitação ocorre nos casos em que a vítima perdeu ou teve seu talão de cheques furtado. • Falsificação de memória: a falsificação de memória é aquela em que o falsário memoriza determinada escrita ou assinatura autêntica de sua vítima, procurando reproduzi-la sem os padrões gráficos no momento da falsificação. No entanto, a memória só guardará os aspectos gerais do grafismo, gestos mais aparentes, como as letras iniciais e traços ornamentais que arrematam as assinaturas, mas não o conjunto todo (MENDES, 2010). Em uma análise, é possível visualizar as divergências entre a falsificação e o padrão original. Vejamos, na figura a seguir, a comparação de escritas: FIGURA 38 – FALSIFICAÇÃO DE MEMÓRIA FONTE: Adaptado de Gomide e Gomide (2000) • Imitação Servil: a imitação servil é a falsificação realizada com o modelo à vista, mediante cópia de um padrão disponível. Durante a cópia o falsário é sujeito a pausar sua escrita para olhar o modelo novamente, o que resulta em paradas no traçado (FALAT; REBELLO FILHO 2003). O falsificador experiente pode fazer uma cópia da escrita com qualidade. No entanto, o estudo da gênese realizado no estudo grafotécnico poderá identificar traços contraditórios que denotem a incompatibilidade gráfica. TÓPICO 3 | ANÁLISE DAS ESCRITAS 55 FIGURA 39 – IMITAÇÃO SERVIL FONTE: Adaptado de Gomide e Gomide (2000) • Falsificação exercitada: a falsificação exercitada é aquela decorrente de muito treino, a ponto de reprodução de uma escrita sem a necessidade de visualização de um modelo. O resultado final é uma escrita com aspecto formal compatível com o modelo, sem apresentar traçado moroso e pressão excessiva da caneta (SILVA, 2013). Embora bem parecidas, no exame grafoscópico é possível identificar as incongruências nos dados gráficos encontrados no modelo original e na falsificação, em especial nas características individuais do escritor original que não foram observadas pelo falsário. • Decalque: D’Almeida, Koga e Granja (2015) ensinam que o decalque pode ser direito, quando a fraude é realizada por transparência diretamente no papel, sem qualquer esboço prévio. De modo diverso, o decalque indireto ocorre quando a fraude é realizada indiretamente, através de debuxo feito à ponta seca por carbono, transferindo o traçado da assinatura ao documento para depois recobrir o debuxo o com o instrumento escrevente. Observa Silva (2013) que, nesse tipo de falsificação, a boa semelhança formal com o modelo, não esconde o traçado lento, os trêmulos, a parada do instrumento escrevente e a gênese conflitante. Acrescenta que o atrativo desse método para os falsários é que, uma vez provada a falsificação, não é possível determinar a autoria. FIGURA 40 – DECALQUE FONTE: Adaptado de Gomide e Gomide (2000) 56 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA Expostas as caracteríticas essências das falsificações de escrita nos tipos selecionados, estudaremos, na sequência, as falsificações direcionadas às assinaturas ou firmas, como assinatura a mão guiada, autofalsificação, simulação do falso e negativa de autenticidade. 3 FALSIFICAÇÃO DE FIRMAS As assinaturas podem sofrer ações fraudulentas, e quando quantionadas em documentos devem ser cuidadodamente analisada pelos peritos para constatar a falsificação ou atenticidade. Falsificaçõesde assinaturas são muito frequêntes e podem acarretar graves consequências para a vítima, além de incorrer em delito previsto no artigo 300, do Código Penal, quem reconhecer, como verdadeira, no exercício de função pública, firma ou letra que o não seja. Esse tipo de falsificação é comum em contratos de empréstimos, financiamentos bancários, procuração, cheques, entre outros documentos. São feitas análises na documentação questionada e realizadas comparações com vários tipos de peças padrão. O perito avalia assinatura de documentos manuscritos para saber se realmente são autênticos ou se sofrem algum tipo de alteração, o objetivo é confirmar ou descartar a autoria de uma assinatura. Relativamente às assinaturas, as amostras recolhidas visando subsequente perícia, devem conter um mínimo de 20 assinaturas intercaladas num texto, devendo estas estar apostas no mesmo formato, dimensão e espaço disponível ao do documento em causa, como cheques, letras, recibos, entre outros, tornando-se de igual forma fundamental aos especialistas socorrerem-se dos documentos de identificação da vítima e dos suspeitos do crime (FERREIRA, 2003). IMPORTANT E No âmbito pericial ocupam lugar de destaque, as falsificações volvidas em alterar assinaturas ou firmas. Essas são objeto de exames técnicos, além da conferência por análise do aspecto formal do manuscrito. Em meio as falsificações de firmas podemos destacar: TÓPICO 3 | ANÁLISE DAS ESCRITAS 57 • Assinatura à mão guiada: a escrita à mão guiada ocorre quando duas pessoas praticam, conjuntamente, a mesma assinatura. Nessa escrita temos uma pessoa como guia, sendo a outra guiada. A peculiaridade que diferencia essa modalidade das demais é o fato de ela poder ou não ser realizada de má- fé, ressalvando que, independentemente disso, sempre será tida como uma falsificação. Nessa assinatura, a mão pode ser guiada a pedido do escritor, que incapacitado de escrever sozinho, pede auxílio a um terceiro, apresentado dessa forma, algumas confusões nos gestos gráficos. De outra forma, a mão pode ser guiada a força. Nessa situação serão entrados traços totalmente desconexos. • Autofalsificação: de acordo com Gomide e Gomide (2000), a autofalsificação consiste na introdução de disfarces no lançamento da própria assinatura. Esclarece Mendes (2010) que, o falsário lança a sua assinatura com algumas modificações, reduzindo a velocidade do lançamento, alterando o calibre das letras, deformando alguns caracteres, mudando a direção da inclinação axial e introduzindo trêmulos, para no futuro acusar essa assinatura de falsa. • Simulação de falso: ocorre quando o falsário lança a sua assinatura para depois acrescentar vícios, como, emendas, tremores, retoques, e assim, no futuro, questionar a autenticidade do documento. Dessa forma, ao analisar essa assinatura fica evidente a semelhança das características gráficas produzidas por impulsos cerebrais, ou seja, os elementos de natureza genética (MONTEIRO, 2008). • Negativa de autenticidade: na negativa, o escritor assina um documento e depois alega falsidade para fugir de alguma responsabilidade. Ao examinar a assinatura será encontrada total semelhança nos elementos formais e nos elementos de natureza genética (MENDES, 2010). D’Almeida, Koga e Granja (2015) ressaltam que são consideradas autênticas as assinaturas no caso de negativa de autenticidade, em que a pessoa nega a própria assinatura, bem como no caso de autofalsificação, quando a pessoa lança a sua assinatura com disfarce, ou quando ocorre a simulação de falso, em que a pessoa modifica a própria assinatura por meio de retoques. 4 ANÁLISE DE ESCRITAS CURSIVAS E SINCOPADAS Já apresentamos em nosso estudo as escritas cursivas, bem como estudamos as características de sua construção, com início no ataque e final no remate. Nesse sentido, D’Almeida, Koga e Granja (2015) abordam que, ao periciar a grafia, o perito deve, principalmente, atentar-se à formação dos pontos de ataques e remates dos traços, aos efeitos dos traços ornamentais, às construções das letras maiúsculas e minúsculas, às construções das letras que possuem formato em lançadas (como: “l”, “g”) ou em hastes (como: “h”, “t”), às ligações entre as letras, aos movimentos curvos ou de vai e vem reto, provocando acúmulo de tinta, e aos maneirismos, como, a forma de pingar a letra “i” , as alturas e posições das letras, os traços e pontos, a presenças de pontos finais, a angulação dos traços, entre outros. 58 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA Da mesma forma, os elementos de natureza genética são de elevada importância para a análise da escrita, pois eles que estabelecem a conclusão da perícia, pela autenticidade ou falsidade gráfica. Esses elementos são formados por aspectos dinâmicos da escrita, e responsáveis pela forma durante a construção do traço, registrando elementos específicos de cada punho escrito, com suas características gráficas produzidas por impulsos cerebrais (D’ALMEIDA; KOGA; GRANJA, 2015). Gomide e Gomide (2000) destacam que os requisitos que considera respeitáveis nos padrões de confronto, entre eles a autenticidade, como requisito essencial para o exame, a adequabilidade, como a qualidade do papel e a utilização do mesmo instrumento escrevente, a contemporaneidade, procurando não exceder o prazo de dois anos da peça questionada, e a quantidade, quanto maior o número de padrões melhor para a perícia. No campo da Escrita Manual, o trabalho desenvolvido no Laboratório de Polícia Científica centra-se essencialmente na comparação de caracteres manuscritos; mormente entre aqueles que se encontram apostos em documentos cuja autenticidade é posta em causa e os colhidos pelos investigadores aos suspeitos do ilícito penal, obedecendo esta colheita de autógrafos a regras precisas, no que concernente à extensão, nunca deve ser inferior a três folhas ditadas. Quanto à velocidade de escrita, observa-se a modalidade lenta, normal e rápida. A dimensão e características do papel usado devem ser idênticas à do documento periciado. Considera-se o instrumento de escrita como, esferográfica, marcador ou lápis, cujas características se pretendem o mais possível aproximada às achadas no documento supostamente falso, evitando-se dessa forma, uma inadvertida inclusão de variáveis parasitas, promotoras de uma inconsistente perícia (FISHER, 2004). IMPORTANT E Nesse momento, é importante apresentar alguns indicativos de falta de autenticidade. Vejamos na imagem seguinte: TÓPICO 3 | ANÁLISE DAS ESCRITAS 59 FIGURA 41 – SINAIS DE INAUTENTICIDADE FONTE: Adaptado de Sétimo (2014) Sétimo (2014) observa que a análise geral do grafismo se divide em duas etapas, denominada de método sinalético e método grafocinético. Vejamos de forma detalhada: • O método sinalético corresponde aos procedimentos iniciais adotados em todos os exames. Nessa etapa, são analisadas as qualidades gerais dos escritos questionados e dos padrões, no qual, após serem identificadas as características de cada um, pode- se destacar aquelas que individualizam determinado punho escritor. • O método grafocinético considera a observação por comparação, utiliza conhecimentos e técnicas na análise do movimento, aspectos da dinâmica e da gênese da escrita Podemos concluir que inexiste falsificação perfeita, haja visto que a escrita corrensponde a um gesto individual de cada indivíduo. Nesses termos, mesmo que o falsificador tente reproduzir a grafia de outrem, sempre deixará sinais gráficos do próprio punho, passíveis de identificação no exame pericial. Resta esclarecer que a grafoscopia objetiva identificar a autenticidade e o verdadeiro autor de um escrito, seja num texto completo, em uma assinatura ou em apenas uma rubrica. 5 ANÁLISE DE ALGARISMOS Abordaremos, agora, a análise das principais caracterísitcas dos traços que constituem os algarismos. Considerando o sentido das elaboração de cada número, é certo que cada pessoa possui abundantes peculiaridades em suaescrita, que as individualizam e permitem diferenciá-las. De forma objetiva, serão apresentados os elementos discriminadores utilizados pelos peritos nos exames de algarismos, para a definição do método de construção da escrita. 60 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA De acordo com Feuerharmel (2016), os algarismos podem ter seus métodos de construção determinados pela análise de seus respectivos ataques, arremates, sentidos de produção dos traços e, eventualmente, levantamentos de caneta internos. Podemos figurar os métodos de construção considerando o sentido de produção do traço principal de cada algarismo. FIGURA 42 – EXEMPLOS DE CONSTRUÇÃO DE ALGARISMOS FONTE: Adaptado de Feuerharmel (2016) Observa Feuerharmel (2016) que, nos algarismos “4”, “5” e “7”, foi pertinente considerar casos especiais de levantamentos de caneta internos, os quais eram pouco perceptíveis e implicavam mudanças significativas na gênese gráfica. Acrescenta o mesmo autor que o algarismo “8” estabeleceu uma exceção, pois nele também se ponderaram alguns hábitos gráficos relacionados com a posição dos ataques e a morfologia predominante em cada escrita, bem como a forma de escrita contínua ou não. Observem na imagem seguinte as possibilidades de construção, considerando o ataque na construção da escrita: FIGURA 43 – CONSTRUÇÃO DO ALGARISMO 8 FONTE: Adaptado de Feuerharmel (2016) Podemos notar em algumas construções de algarimos sutis levantamentos de caneta, que nem sempre são identificados, daí a importância de se investigar outras variantes, como o snetido de traços e posição de ataque. TÓPICO 3 | ANÁLISE DAS ESCRITAS 61 Nesse sentido, o algarismo “4” mostrou-se um dos mais variáveis e, portanto, mais úteis para a distinção ou identificação de autorias gráficas, inclusive quanto ao número de possíveis variantes em seu método de construção. Da mesma forma, o algarismo “7” também se revelou variável, sendo identificados quatro métodos de construção diferentes do usual, os merecendo menção o fato de alguns escritores produzirem o corte desse algarismo da direita para a esquerda (FEUERHARMEL, 2016). Do exposto infere-se que, para a verificação de algarismos no campo pericial, é utilizado processos similares de extração de características da escrita já explanadas, somadas aos conhecimentos dos peritos e sua experiência. Aprofunde seus conhecimentos fazendo a leitura da obra de Silva e Feuerharmel, intitulada Documentoscopia – aspectos científicos, técnicos e jurídicos. DICAS 6 EXAMES GRAFOTÉCNICOS EM CÓPIAS A perícia em escritas também pode analisar cópias de documentos onde não haja o original; levando em consideração o estado da cópia e possíveis alterações. Nesse contexto, a análise reprográfica consiste basicamente em identificar se a reprografia é cópia fiel do documento original ou se houve alguma adulteração, sendo utilizada sempre que impossibilitado o acesso ao documento original. Tem como objetivo a identificação de sinais de adulteração, que podem ser perceptíveis em cópias, no entanto, como já estudado, o exame em documentos reprográficos é complexo, pois envolve a qualidade da cópia, e concernente ao exame grafotécnico, está direcionado ao confronto dos aspectos formais, há visto o prejuízo dos aspectos subjetivos. Importante listar algumas características que devem ser consideradas no exame grafotécnico realizado em copias reprográficas. Vejamos na imagem seguinte: 62 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA FIGURA 44 – PARTICULARIDADES DE EXAMES EM CÓPIAS FONTE: Adaptado de <https://www.grafoexame.com.br/2014/02/exame-documental-em- reprografias/>. Acesso em: 20 maio 2020. 7 ELABORAÇÃO DE LAUDOS Antes de compreendermos como se dá a elaboração do laudo pericial, é fundamental apresentarmos seu conceito, de forma simples, mas abrangente. Ribeiro (2012) ensina que o laudo se trata do relato do técnico-científico elaborado por especialista designado para avaliar determinada situação que estava dentro de seus conhecimentos, consistindo nas impressões captadas por ele, a respeito da ocorrência examinada. A elaboração de laudos de grafoscopia é embasada na análise comparativa do documento questionado com o padrão adequadamente escolhido. Essa análise consiste em exames individuais e conjuntos, de todos os documentos periciados, para a apuração das convergências e divergências gráficas, que, devidamente interpretadas, fornecem os subsídios necessários sobre a autenticidade, autoria e origem do documento. Por se tratar de uma peça técnica, o laudo não possui uma forma determinada ou regulamentada, no entanto, deve observar alguns arquétipos. Vejamos de forma esquematizada alguns tópicos relevantes em sua elaboração: TÓPICO 3 | ANÁLISE DAS ESCRITAS 63 • Descrição técnica da peça de exame. • Indicação do objetivo da perícia. • Descrição dos paradigmas. • Data da diligência. • Descrição da metodologia e marcha de trabalhos. • Conclusão ou resposta aos quesitos. • Fundamentação. • Relatório com as ilustrações. FONTE: <http://ibape-nacional.com.br/biblioteca/wp-content/uploads/2013/06/norma-de- grafoscopia-logo-novo.pdf>. Acesso em: 20 maio 2020. O perito grafotécnico demonstra com clareza os detalhes do exame realizado na perícia grafotécnica, identificando auto falsificação, enxertos, montagens e outras rasuras que possam demonstrar falsidade em um documento com convicção e fundamentação. É importante ressaltar que os procedimentos técnicos para a colheita de padrões gráficos devem adotar critérios que possibilitem um parecer técnico conclusivo. 64 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA LEITURA COMPLEMENTAR TREINAMENTO EM GRAFODOCUMENTOSCOPIA Aureluz Sétimo Estudo dirigido OBSERVAÇÃO DO GRAFISMO As assinaturas apresentadas devem ser analisadas inicialmente de forma isolada, para que conheçamos os pontos importantes de cada uma, motivo e padrão. Após conhecermos as particularidades de ambas, estaremos aptos a realizar um confronto e verificar os seus pontos convergentes ou divergentes. Uma análise muito rápida nos apresenta somente o aspecto formal dos grafismos, ou seja, as imagens gráficas. Isto pode nos induzir a acreditar que as assinaturas confrontadas sejam provenientes de um mesmo punho. Porém, um trabalho criteriosamente investigativo, sob a luz dos conhecimentos da grafoscopia adquiridos, começam a nos mostrar que essas assinaturas apresentam divergências consideráveis. Iniciemos, então, uma análise de forma criteriosa. Observemos o motivo e o padrão e acompanhemos as anotações que se seguem. Passemos aos procedimentos de confronto, método grafocinético, para examinar e descrever todas as particularidades, convergentes ou divergentes, entre o motivo e o padrão. TÓPICO 1 | DOCUMENTOSCOPIA 65 CONFRONTO DIRETO ENTRE A PEÇAS A análise de ambos os grafismos em confronto resultou nos assinalamentos de pontos localizados, onde se apresentam divergências importantes. RELATÓRIO DOS EXAMES Aspectos localizados, indicados pelas setas: 1- O grama inicial em forma de guirlanda apresenta flutuação, é descendente, quando deveria ser apoiado, ou seja, executado sobre a linha de pauta. 2- Espaço intergramatical grafado em tamanho maior, exagerado. 3- Formação angular, quando o padrão apresenta formação curvilínea. 4- Finalização desvanecente, divergente do padrão, que apresenta finalização em gancho. A finalização é curva, quando deveria ser longa. 5- Espaço interliteral, inexistente no padrão. 6- O ataque do “a” foi realizado fora do movimento circular, enquanto o padrão mostra ataque por dentro, e em calibre maior, no sentido dextroascendente. 7- Indecisão no direcionamento do traço. 8- Finalização desvanecente, divergente do padrão, que apresenta finalização em gancho. 9- Pequena laçada com a primeira perna incompleta, comprometendo a forma do caractere “e”. 10- Grafia do caractere “d” em dois momentos gráficos, comprometendo a gênese. 11- Grafia de curva fechada, quando o padrão apresenta curva aberta no traçode saída. 12- Grafia do mínimo gráfico em semicírculo quando deveria ser em reta. 13- Fechamento do grama circular, inexistente na grafia do caractere do padrão. 14- Grafia do caractere “s” sem imitação do padrão. 15- Grafia do mínimo gráfico, inexistente no padrão. 66 UNIDADE 1 | DOCUMENTOSCOPIA ASPECTOS GERAIS DOS GRAFISMOS A assinatura questionada mostra inclinação para a esquerda, em relação ao eixo axial, quando deveria ser escrita vertical, como mostra a reta acrescentada ao padrão, linha mediana. Os traços sinistroascendentes nas grafias das laçadas apresentam menor pressão de punho em relação as grafias dos traços dextrodescendentes. O padrão mostra pressão de punho constante em todo o grafismo. CONCLUSÃO As análises grafotécnicas realizadas nesse estudo dirigido mostraram 17 divergências entre os grafismos apresentados para confronto. Os pontos estudados, pela quantidade e importância das anotações. Nos oferece segurança em afirmar que os grafismos não são de uma mesma lavra, ou seja, são provenientes de punhos distintos. A assinatura questionada, o motivo, é falsa em vista do padrão apresentado para confronto. FONTE: SÉTIMO, A. Formação em Grafoscopia. Treinamentos em Grafodocumentoscopia. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/Ministério da Cultura, 2014. 67 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Aplica-se a análise da escrita e de assinaturas ou firmas, quando forem questionadas suas autenticidades e autoria. • Na escrita são encontradas diferentes fraudes, com adoção de procedimentos distintos pelos falsários, que podem realizadas durante ou após a construção do grafismo. • Na análise das escritas cursivas, os peritos apreciam em especial, as características da construção, bem como os elementos de natureza genética, observando sempre os padrões de confronto devidamente colhidos. • Os algarismos também possuem elementos discriminadores, o que possibilita identificar seu método construtivo, tal como o sentido da produção dos seus traços, subsídios decisivos para a análise pericial. • É possível a realização de exames grafotécnicos em cópias reprográficas, para se constatar se a reprografia é cópia fiel do documento original, ou se houve adulteração. • O laudo pericial é uma peça técnica conclusiva, elaborado por especialistas e embasado na análise comparativa do documento questionado com o padrão selecionado. Possui a finalidade de determinar a autenticidade, autoria e origem da escrita. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 68 1 Pelo que você estudou, liste os requisitos considerados importantes nos padrões de confronto. 2 As falsificações de escrita podem ser feitas de diferentes formas. De forma sucinta, explique como podem ser realizadas. 3 A análise geral do grafismo se divide em duas etapas, denominadas de métodos: a) ( ) Indutivo e dedutivo. b) ( ) Sinalético e grafocinético. c) ( ) Sinalético e indutivo. d) ( ) Grafocinético e dedutivo. e) ( ) Sinalético e dedutivo. AUTOATIVIDADE 69 UNIDADE 2 BALÍSTICA FORENSE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o conceito de Balística como campo específico do conheci- mento, acerca das armas de fogo, das munições e dos fenômenos e efeitos dos disparos dessas armas, com a finalidade de esclarecer os elementos e as questões de interesse judicial; • identificar os diferentes tipos de armas de fogo e projéteis a partir dos critérios técnicos-científicos intrínsecos às armas de fogo e às munições; • compreender o procedimento pericial no projétil das armas de fogo cha- mado Confronto Microbalístico, como relevante para determinar a arma utilizada para o cometimento de um delito. • identificar os procedimentos adequados para a realização do exame resi- dual dos materiais expelidos pela arma de fogo no momento do disparo, podendo compreender a importância de tal perícia para a identificação do autor de um delito com uso de arma de fogo. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS TÓPICO 2 – CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO TÓPICO 3 – PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 70 71 TÓPICO 1 BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Diariamente, temos notícias sobre crimes que envolvem o uso de armas de fogo. Lamentavelmente, o Brasil é um país que possui altos índices de homicídios causados por arma de fogo e, portanto, é tarefa diária da Polícia Judiciária a investigação desse tipo de crime, a fim de fornecer elementos para que seja possível a punição dos autores de crimes. No campo da justiça criminal há a imperiosa necessidade de busca da verdade real a fim de não serem cometidas injustiças evitando que não seja preso um inocente nem tampouco permaneça impune um culpado. Desde tal pressuposto não é difícil perceber a importância das provas periciais e, particularmente, as obtidas pelos peritos em Balística Forense. Tal trabalho, além de relevante, exige conhecimento altamente especializado e técnico e tem por objetivo examinar e periciar os artefatos balísticos supostamente utilizados em infrações penais, auxiliando, assim, com o fornecimento de elementos probatórios para a formação da convicção do órgão julgador. Neste tópico inicial, buscando fornecer um conhecimento adequado à formação de profissionais e interessados na área, se estudará os elementos básicos acerca da Balística Forense. Se iniciará com a discussão acerca dos conceitos de Balística Forense e de Arma de Fogo, chamando-se a atenção para os elementos relevantes para nosso campo de estudo. Ao final, faremos uma breve análise da previsão legal que diz respeito ao uso, porte e posse de armas de fogo no Brasil a fim de serem esclarecidos os requisitos necessários para conhecer os efeitos jurídicos das condutas delituosas envolvendo armas de fogo. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 72 O ponto de partida de nosso estudo é o conceito de Balística Forense, que é definida como a disciplina que estuda basicamente as armas de fogo, as munições, os fenômenos e efeitos dos disparos destas armas, com a finalidade de esclarecer elementos e questões de interesse judicial. O pioneirismo na pesquisa balística é relacionado ao Coronel Calvin Hooker Goddart (1891-1955), nascido em Baltimore, Marylad (EUA), quando, no ano de 1835, na Inglaterra, retira um projétil de um cadáver e identificou manualmente um defeito no projétil que na época era feito manualmente em moldes próprios (coquilhas). Conseguiu encontrar o molde utilizado com um defeito semelhante e conseguiu identificar o autor do homicídio. Desde então, houve avanço técnico tanto em relação à tecnologia e meios de análise dos dados periciais como nas armas de fogo e munições. Ainda há a Balística Criminal, que é disciplina que integra a Criminalística, cujo objeto de estudo são as armas de fogo e sua munição bem como os efeitos dos tiros por elas produzidos, quando houver relação direta ou indireta com infrações penais, com o objetivo de esclarecer e provar sua ocorrência. Especificamente, no campo militar, há a Balística Militar ou Especial que tem como objeto de estudo as armas de guerra, que, como veremos brevemente mais adiante, é restrita aos que se dedicam à área de militar. Considerando o objetivo de nosso curso, vamos nos ater a Balística Forense por ser este o estudo balístico que mais exige cotidianamente o trabalho dos peritosuma vez que no Brasil os homicídios são praticados em geral com o uso de armas de fogo. Observe a Figura 1 e verá o crescimento do uso de armas de fogo na prática de homicídios no Brasil. 2 BALÍSTICA FORENSE Você poderá acompanhar os dados divulgados anualmente pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada pelo site: https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34784&Itemid=432. Anualmente, é publicada pesquisa acerca da violência no Brasil através do “Atlas da Violência”. Através do site você terá oportunidade de obter inúmeras informações acerca do fenômeno da violência no Brasil, podendo constatar o uso de armas de fogo para a prática de crimes ao longo dos anos. INTERESSA NTE TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 73 FIGURA 1 – HOMICÍDIOS NO BRASIL POR ARMAS DE FOGO FONTE: <https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/12/atlas-2019>. Acesso em: 4 jun. 2020. Não é difícil perceber a relevância do estudo da Balística Forense para o cotidiano do trabalho forense no enfrentamento da violência no Brasil, uma vez que, em relação aos outros meios responsáveis pela morte violenta, armas brancas e objetos contundentes, o uso de armas de fogo é, disparadamente, o meio mais utilizado. O estudo da Balística Forense divide-se em Balística Interna, Balística Externa, Balística Médico-Legal (ou de efeito) e Balística Final (ou subsequente). • Balística Interna, ou interior, que é a parte da Balística que estuda os fenômenos que se dão no interior de uma arma de fogo até que se produza o tiro. Tem como objeto de investigação a estrutura, mecanismos e funcionamento das armas de fogo, o tipo de metal utilizado para sua fabricação, sua resistência às pressões sofridas no momento do disparo do tiro, bem como a técnica utilizada. • A Balística Externa, ou exterior, tem como objeto o estudo que ocorre com o projétil em sua trajetória pelo meio externo, desde a saída da boca do cano da arma até sua parada final, seu repouso. Investiga durante a trajetória a ação de resistência do ar, da ação da gravidade e condições meteorológicas ou climática, umidade do ar, densidade, índice pluviométrico etc. até chegar ao alvo humano. Portanto, investiga as condições de movimento, velocidade inicial do projétil, forma, massa superfície, resistência do ar, ação da gravidade e seus movimentos intrínsecos. • Balística dos Efeitos, ou balística médico legal, tem como objeto de investigação os efeitos produzidos pelo projétil ao atingir o alvo humano, podendo ser transfixantes ou não. • Balística Final ou subsequente preocupa-se com tudo que ocorre com o projétil após transfixar o alvo humano até a imobilização sua final. Evidente que após transfixar o interior do alvo humano e transfixá-lo, o projétil se desentabiliza por perder a energia cinética, devido ao contato com os tecidos corporais podendo deformar-se como consequência do “encontro” com estruturas rígidas do corpo humano, como ossos, ou sofrer resistência do ar, ação da gravidade, condições climáticas etc. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 74 "A Termodinâmica estuda os processos de transformação da energia calorífica em energia cinética. No caso das armas de fogo, a carga de lançamento é constituída de uma quantidade de explosivo sob a forma de pólvora contida no cartucho, que inflamada pela ação da mistura iniciadora queima rapidamente, emitindo gases que se expandem devido ao calor gerado; surge então uma elevada pressão; o trabalho mecânico produzido empurra o projétil em direção à boca do cano, o qual adquire rapidamente velocidade" (ALMEIDA JÚNIOR, 2017, p. 13). NOTA FIGURA 2 – BALÍSTICA FORENSE Balística Interna Balística externa Balística Médico-legal Balística Subsequente FONTE: <http://twixar.me/T1mm>. Acesso em: 4 jun. 2020. Observe que a Balística Forense é um estudo complexo e exige habilidades e conhecimento específico e, em geral, feito com urgência para que não sejam perdidos os vestígios do suposto crime. Em síntese, pode-se dizer que a Balística é um campo específico de conhecimento que possui métodos e técnicas específicas e tem como principais campos de estudo: 1- A caracterização das armas de fogo: tem por objetivo determinar as características e diferenças entre as diferentes armas de fogo e seus mecanismos de funcionamento, de forma a permitir a classificação de uma determinada arma e verificar se esta foi ou não adulterada em relação às características balísticas originais. 2- Identificação das armas de fogo: especificando a identificação imediata definida pelas características do armamento e a identificação mediata quando se define e se compara os vestígios impressos pelo armamento em seus elementos de munição, tal como os confrontos microbalísticos que mais adiante será estudado. TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 75 3- Verificação de eficiência de armas de fogo: consiste na verificação das propriedades balísticas de um determinado armamento e de sua capacidade de efetuar ou não um disparo. Caso a arma esteja apta a efetuar disparos, verifica-se os possíveis efeitos dos disparos e relaciona-se tais efeitos com dados constatados na investigação do caso em questão. 4- Regeneração de elementos identificadores: cujo objetivo é a determinação da marca, modelo, procedência e número de série de armamentos verificando-se se estes identificadores foram ou não removidos ou adulterados. 5- Exames em munições e seus elementos: com a finalidade de determinar o calibre, procedência, eficiência, energia e outras características de munições e seus elementos, pertinentes às investigações. 6- Efeitos de impactos de projéteis em diferentes alvos: a determinação dos diferenciais entre perfurações efetuadas por projéteis, e por outros objetos perfuro contundentes. Resistência de diferentes materiais a penetração de projéteis e diferenciação entre orifícios de entrada e saída de projéteis. Como você já deve ter concluído, caberá ao perito em balística verificar se houve ou não uma infração penal identificando a arma, caracteres do registro e possíveis adulterações feitas. É o perito que realiza os exames detalhados nas armas, munições e todas as provas necessárias a fim de evidenciar provas materiais de possível delito. É a partir do trabalho do perito que se pode absolver ou condenar alguém e, em não raras vezes, a conclusão de uma investigação depende do trabalho do perito em Balística. É o perito que recolhe que irá pesquisar e colher todos os vestígios e dados existentes na cena de um crime a fim de avaliar cientificamente a relação do periciado com o crime ocorrido. Seu trabalho é autenticar cientifica e tecnicamente todo material que será utilizado como prova indiciária. FIGURA 3 – PERITO COLHENDO PROVAS NO FAMOSO CASO MARIELLE FRANCO FONTE: <https://ogimg.infoglobo.com.br/in/23602504-a75-5d4/FT1086A/652/xmarielle.png. pagespeed.ic.he2C5v98gw.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 76 Veja a importância do trabalho do perito em Balística. O caso Marielle Franco ganhou notoriedade nacional e internacional quando a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados em uma emboscada na cidade do Rio de Janeiro no dia 14 de março de 2018. Nesse caso a perícia esclareceu: a origem dos projéteis, as armas utilizadas, origem das armas e trajetória dos disparos. A polícia encontrou no local ao menos oito cápsulas de projéteis de calibre 9 mm. Esse é o tipo mais comum de munição usado em submetralhadoras no Brasil. A polícia descobriu que os projéteis haviam sido roubados de um lote produzido no país, que se destinaria à Polícia Federal. Inicialmente, a polícia analisou a possibilidade de os tiros terem sido disparados de uma pistola, mas a hipótese foi descartada. A munição de calibre 9 mm pode ser usada tanto em pistolas como em submetralhadoras. Porém, quando é disparada de uma submetralhadora seu poder destrutivo é maior– assim como a cadência de tiros. A fonte da Polícia Civil afirmou que há indícios de que a submetralhadora usada foi uma HK MP5, arma desenvolvida na Alemanha na década de 1960. Essa submetralhadora é usada em dezenas de países, tem diversas variações de modelos e é considerada muito comum. No Brasil, ela é usada por forças de segurança (polícias militares e federal), colecionadores e pode ser adquirida ilegalmente no mercado negro. É uma arma usada geralmente em combates a curta distância. FONTE: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/05/07/arma-usada- no-assassinato-da-vereadora-marielle-foi-uma-submetralhadora-segundo-policiais.htm>. Acesso em: 4 jun. 2020. 3 ARMAS DE FOGO Pode-se definir genericamente arma como todo o instrumento destinado ao ataque e à defesa. Em nosso estudo, consideraremos arma de fogo como todo aparato constituído de um conjunto de peças com finalidade de lançar um projétil no espaço pela força de propulsão (gases de pólvora). FIGURA 4 – ARMA DE FOGO FONTE: <https://www.rscportal.com.br/uploads/images/2019/03/policia-e-acionada-para- atender-ocorrencia-de-disparo-de-arma-de-fogo-1553179935.jpeg>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 77 As armas de fogo podem ter um ou dois canos, abertos em uma das extremidades e parcialmente fechados na parte de trás. É na parte traseira onde é colocado o projétil que é lançado a distância graças a força expansiva dos gases produzidos pela combustão de determinada quantidade de pólvora. As armas de fogo são os meios mais utilizados para a prática de crimes dolosos, lesões corporais, homicídios e suicídios. FIGURA 5 – CARACTERÍSTICAS DA ARMA DE FOGO FONTE: FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. Elementos essenciais de uma arma de fogo: • Aparato arremessador (arma propriamente dita): parte destinada a receber o projétil e sua respectiva carga de projeção, permitindo o uso imediato pelo atirador, a qualquer instante, mediante inflamação dessa carga. • Carga de projeção: composta por substância inflamável com a função é a produção de um grande volume de gases e permite dar velocidade ao projétil. • Projétil: é o que produz efeitos a depender de sua geometria, massa e velocidade. Importante observar que apenas considera-se uma arma de fogo como tal se os três elementos estiverem coexistindo ao mesmo tempo. Por exemplo, caso haver somente a arma sem projétil pode ser utilizada como objeto contundente, mas não uma arma de fogo. Conheça as partes de algumas armas de fogo: UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 78 FIGURA 6 – REVÓLVER FONTE: <http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/cartilha-de-armamento-e-tiro.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 7 – PISTOLA FONTE: <http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/cartilha-de-armamento-e-tiro.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 79 FIGURA 8 – ESPINGARDA COMUM FONTE: <http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/cartilha-de-armamento-e-tiro.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. 4 O PORTE DE ARMA DE FOGO NO BRASIL Com o advento da Lei no 10.826/2003, conhecida como Lei do Estatuto do Desarmamento, o controle sobre porte e uso de arma de fogo passou a ser extremamente controlado, uma vez que existe uma previsão legal que exige rigor burocrático para aquele que deseja adquirir a autorização para porte e uso de arma de fogo, colocando-se como questão relevante as exigências para a obtenção do porte de arma de fogo no Brasil. A referida Lei define sobre o porte de armas de fogo em todo território brasileiro, incorporando e também modificando a lei reguladora anterior com vistas a estabelecer um controle satisfatório sobre armamento buscando-se evitar o uso ilegal e irresponsável de armas de fogo. A legislação anterior, a Lei nᵒ 9.437/97, continha disposição a respeito do trabalho do SINARM (Sistema Nacional de Armas), vinculado ao Ministério da Justiça no âmbito da Polícia Federal e com ampla atuação em todo o território nacional. Ainda a lei estabelece as condições para o registro e o porte de armas de fogo e os crimes que decorrem de sua desobediência. De acordo com a Lei nᵒ 9.437/97, o SINARM consistia em uma forma de controle especializado das armas de fogo, com bancos de dados a respeito das armas de fogo e usuários no país, de acordo com o disposto em seu artigo 2ᵒ: UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 80 I- identificar as características e a propriedade de armas de fogo, mediante cadastro; II- cadastrar as armas de fogo produzidas, importadas e vendidas no País; III- cadastrar as transferências de propriedade, extravio, roubo e outras ocorrências suscetíveis de alterar os dados cadastrais, inclusive as decorrentes de fechamento de empresas de segurança privada e de transporte de valores; IV- identificar as modificações que alterem as características ou funcionamento de arma de fogo; V- integrar no cadastro os acervos policiais já existentes; VI- cadastrar as apreensões de armas de fogo, inclusive as vinculadas a procedimentos policiais e judiciais. (BRASIL, 1997, s.p.). Observa-se que a Lei nᵒ 9.437/97 já trazia política pública de segurança com o objetivo de controlar as armas de fogo no país impondo seletividade a autorização para porte e uso de arma. A nova lei armamentista de 2003, em seu artigo 2ᵒ, não apenas manteve o SINARM como também traz maior abrangência de atuação, acrescentando cinco novas atribuições voltadas principalmente para os que atuam no comércio, manutenção e utilização de armas de fogo, reforçando a necessidade do controle da expedição de novas autorizações e da participação da Polícia Federal. III- cadastrar as autorizações de porte de arma de fogo e as renovações expedidas pela Polícia Federal; VIII- cadastrar os armeiros em atividade no País, bem como conceder licença para exercer a atividade; IX- cadastrar mediante registro os produtores, atacadistas, varejistas, exportadores e importadores autorizados de armas de fogo, acessórios e munições; X- cadastrar a identificação do cano da arma, as características das impressões de raiamento e de microestriamento de projétil disparado, conforme marcação e testes obrigatoriamente realizados pelo fabricante; XI- informar às Secretarias de Segurança Pública dos Estados e do Distrito Federal os registros e autorizações de porte de armas de fogo nos respectivos territórios, bem como o cadastro atualizado para consulta (BRASIL, 2003, s.p.). A nova legislação impôs a necessidade de recadastramento de todos os proprietários de armas que não possuíam registro no SINARM, que, segundo Fonseca et al. (2006, p. 35), trouxe maior valorização ao órgão com o aumento de suas responsabilidades, inovando no sentido de impor aos comerciantes o dever de comunicar as características da arma vendida. Pelo atual ordenamento legal duas são as possibilidades para o cidadão comum, além das forças policiais e armadas, para requerer porte de arma: comprovação de real necessidade e ser caçador de meios de subsistência. O cidadão comum para obter porte de arma deverá: TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 81 1- Preencher o requerimento de porte de arma de fogo no link disponibilizado pela Polícia Federal escolhendo a categoria CIDADÃO. 2- Imprimir e assinar o requerimento de porte de arma de fogo. 3- Comparecer a uma unidade da Polícia Federal para entrega da documentação necessária, conforme lista a seguir: (a) requerimento assinado; (b) ter idade mínima de 25 anos, exceto para os cargos definidos no artigo 28 da Lei nᵒ 10.826/03; (c) 1 (uma) foto 3x4 recente; (d) original e cópia do RG e CPF; (e) comprovante de residência (água, luz, telefone). Caso o imóvel esteja em nome do cônjuge ou companheiro (a), apresentar Certidão de Casamento ou de Comunhão Estável. Se o interessado não for o titular do comprovante de residência, nem seu cônjuge oucompanheiro(a), deverá apresentar DECLARAÇÃO com firma reconhecida do titular da conta ou do proprietário do imóvel, sendo que a assinatura presencial do titular do comprovante de residência dispensará o reconhecimento de firma; (f) apresentação de documento comprobatório de ocupação lícita; (g) comprovação de idoneidade, com a apresentação de certidões negativas de antecedentes criminais fornecidas pela Justiça Federal, Estadual (incluindo Juizados Especiais Criminais), Militar e Eleitoral, que poderão ser fornecidas por meios eletrônicos; (h) comprovação de aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, realizado em prazo não superior a 1 ano, que deverá ser atestado por psicólogo credenciado pela Polícia Federal; (i) comprovação de capacidade técnica para o manuseio de arma de fogo, realizado em prazo não superior a 1 ano, que deverá ser atestado por instrutor de armamento e tiro credenciado pela Polícia Federal; (j) cópia do certificado de registro de arma de fogo válido; (l) demonstrar a efetiva necessidade para o porte de arma de fogo. FONTE: <http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/porte-de-arma/pessoa-fisica-cidadao>. Acesso em: 4 jun. 2020. No caso de caçador de subsistência, são requisitos semelhantes sendo desnecessária a apresentação de comprovante de capacitação (testes de aptidão psicológico e técnico) e ainda o preenchimento de ficha de requerimento que é voltada para tal destinação e ao argumento comprobatório, que nesse caso consiste na necessidade do emprego de arma de fogo para promover sua subsistência e de sua família. O art. 6ᵒ da Lei nᵒ 10.826/03 deixa expressa proibição ao porte de arma de fogo em todo o território brasileiro, salvo os casos excepcionais, sendo facultado à Polícia Federal verificar a constatação das exceções, em que o candidato comprove efetivamente a necessidade da obtenção do direito. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 82 Art. 6ᵒ- É proibido o porte de arma de fogo em todo o território nacional, salvo para os casos previstos em legislação própria e para: I- os integrantes das Forças Armadas; II- os integrantes de órgãos referidos nos incisos I, II, III, IV e V do caput do art. 144 da Constituição Federal e os da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP); III- os integrantes das guardas municipais das capitais dos Estados e dos Municípios com mais de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, nas condições estabelecidas no regulamento desta Lei; IV- os integrantes das guardas municipais dos Municípios com mais de 50.000 (cinquenta mil) e menos de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, quando em serviço; V- os agentes operacionais da Agência Brasileira de Inteligência e os agentes do Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República; VI- os integrantes dos órgãos policiais referidos no art. 51, IV, e no art. 52, XIII, da Constituição Federal; VII- os integrantes do quadro efetivo dos agentes e guardas prisionais, os integrantes das escoltas de presos e as guardas portuárias; VIII- as empresas de segurança privada e de transporte de valores constituídas, nos termos desta Lei; IX- para os integrantes das entidades de desporto legalmente constituídas, cujas atividades esportivas demandem o uso de armas de fogo, na forma do regulamento desta Lei, observando- se, no que couber, a legislação ambiental. X- integrantes das Carreiras de Auditoria da Receita Federal do Brasil e de Auditoria-Fiscal do Trabalho, cargos de Auditor- Fiscal e Analista Tributário; XI- os tribunais do Poder Judiciário descritos no art. 92 da Constituição Federal e os Ministérios Públicos da União e dos Estados, para uso exclusivo de servidores de seus quadros pessoais que efetivamente estejam no exercício de funções de segurança, na forma de regulamento a ser emitido pelo Conselho Nacional de Justiça - CNJ e pelo Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP (BRASIL, 2003, s.p.). Observe que para obtenção do direito ao porte de arma, o candidato deverá, além de preencher os requisitos já mencionados, comprovar a sua efetiva necessidade por exercício de atividade profissional de risco ou que possa causar- lhe ameaça a sua integridade física. Tal requisito encontra amparo legal no artigo 10, §1ᵒ da Lei nᵒ 10.826/03: Art. 10. A autorização para o porte de arma de fogo de uso permitido, em todo o território nacional, é de competência da Polícia Federal e somente será concedida após autorização do Sinarm. § 1ᵒ A autorização prevista neste artigo poderá ser concedida com eficácia temporária e territorial limitada, nos termos de atos regulamentares, e dependerá de o requerente: I- demonstrar a sua efetiva necessidade por exercício de atividade profissional de risco ou de ameaça a sua integridade física; II- atender às exigências previstas no art. 4ᵒ desta Lei; III- apresentar documentação de propriedade de arma de fogo, bem como o seu devido registro no órgão competente (BRASIL, 2003, s.p.). Após cumprir todos os procedimentos é adquirida a autorização para o porte de parte. A autorização não é definitiva podendo ser revogada a qualquer momento unilateralmente pelo Poder Público não dependendo da vontade da parte que o adquire, por tratar-se de uma concessão. TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 83 Em abril de 2019, a Polícia Federal lançou o chamado SINARM II, o novo sistema de armas brasileiro, e de acordo com as próprias diretrizes da Polícia Federal (2019), trazendo como possibilidade de fazer requerimento, aquisição, transferência, emissão, renovação de registro de porte de arma e muito mais via internet pelo próprio portal, tendo o cidadão pleno acesso para acompanhar seu requerimento, seja no e-mail ou pela internet. Além disso, ganhou a possibilidade de verificação de autenticidade na internet dos documentos gerados por parte do SINARM. Há ainda que se destacar que para a prática do crime da posse ilegal de arma de fogo basta apenas manter arma, munição ou acessório dentro de seu domicílio, podendo corresponder a sua casa ou empresa, no porte, o agente possui o objeto material consigo mesmo, sem a autorização necessária, estando à arma nesse caso, de maneira a utiliza-la de imediato, de “pronto uso”. Com o advento da Lei nᵒ 10.826/03, foram feitas diversas alterações com relação ao porte de arma, e, por via de regra, passou a ser proibido em território brasileiro, ressalvado os casos expressos na própria lei. Além disso, com o desmembramento das condutas da posse e do porte ilegal de arma de fogo, este passou a ser tipificado no artigo 14 da referida lei: Art. 14. Portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa. Parágrafo único. O crime previsto neste artigo é inafiançável, salvo quando a arma de fogo estiver registrada em nome do agente (BRASIL, LEI 10.826/03). O delito do porte ilegal de arma de uso permitido, assim como no delito da posse, este tem bem jurídico a incolumidade pública, podendo ser exercido por qualquer pessoa, ademais, possui como elemento objetivo, treze ações, que são: I- Portar – trazer consigo a arma de fogo, acessório ou munição; II- Deter – conservar em seu poder a arma de fogo, acessório ou munição; III- Adquirir – obter a arma de fogo, acessório ou munição por meio de uma compra; IV- Fornecer – abastecer o comércio clandestino de arma de fogo, acessório ou munição; V- Receber – aceitar ou acolher arma de fogo, acessório ou munição; VI- Ter em depósito – conversar a arma de fogo, acessório ou munição; VII- Transportar – conduzir a arma de fogo, acessório ou munição, de um lugar para outro; VIII- Ceder, ainda que gratuitamente – transferir a posse de arma de fogo, acessório ou munição, para outrapessoa, sem qualquer ônus para esta; IX- Emprestar – confiar a alguém, gratuitamente ou não, o uso da arma de fogo, acessório ou munição, a qual será depois restituído ao seu possuidor; X- Remeter – expedir ou enviar a arma de fogo, acessório ou munição; XI- Empregar – fazer uso da arma de fogo, acessório ou munição; XII- Manter sob guarda – conservar em seu poder a arma de fogo, acessório ou munição; XIII- Ocultar – dissimular, esconder a arma de fogo, acessório ou munição (SILVA; LAVORENTI; GENOFRE, 2006, p.104). UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 84 FIGURA 9 – SÍNTESE DO ESTATUTO DO DESARMAMENTO FONTE: <https://i.pinimg.com/564x/6e/1e/a0/6e1ea08e5dfce32634e14fdc80ca3a09.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 85 Em 7 de maio de 2019 foi promulgado o Decreto nᵒ 9.785, conhecido como Decreto de Armas, posteriormente revogado pelo Decreto nᵒ 10.030 de 30 de setembro de 2019, trouxe significativas alterações no Estatuto do Desarmamento, uma vez que há um debate na sociedade brasileira acerca do porte de arma e facilitação de acesso às armas de fogo. Há um autêntico “vai e vem” político e jurídico em relação a esse delicado tema. Em que pese as sucessivas legislações, decretos e portarias que regulam a posse e porte de armas de fogo no Brasil um elemento relevante é o trabalho do psicólogo perito em porte e arma de fogo. Sobre o tema sugere-se a leitura do artigo especializado Prática e Formação: Psicólogos na Peritagem em Porte de Arma de Fogo de autoria de Julia Carolina Rafalski e Alexandro Luiz de Andrade da Universidade Federal do Espírito Santo. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pcp/v35n2/1982-3703-pcp-35-2-0599.pdf. DICAS Na leitura a seguir você encontrará uma breve análise de como os sucessivos Decretos presidenciais sobre o uso de armas de fogo no Brasil que se sucedem desde janeiro de 2019 vem beneficiando os colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (chamados CACs). O tema é bastante polêmico! EM 2019, A SIGLA CACS, ATÉ ENTÃO MAIS USADA POR PESSOAS QUE SE INTERESSAM POR ARMAS DE FOGO, COMEÇOU A FAZER PARTE DO VOCABULÁRIO POPULAR Decretos assinados pelo presidente Jair Bolsonaro mudaram regras de acesso a armas e munições para, nas palavras do presidente, “facilitar a vida” de colecionadores, atiradores esportivos e caçadores – representados pela sigla. O interesse da população em entrar para esse grupo já vinha se mostrando nos dados públicos há anos, e atingiu o ápice em 2019. O número de pessoas registradas como CACs cresceu consideravelmente depois das mudanças na legislação, e o volume de armas nas mãos dos CACs, também, segundo dados do Exército obtidos pelo Instituto Sou da Paz, organização que pesquisa e propõe políticas públicas sobre segurança. A quantidade de registros ativos de CACs fechou 2019 em 396.955, aumento de 50% em relação a 2018. A maior parte dos CACs é composta por atiradores (200.178), seguidos por colecionadores (114.210) e caçadores (82.567). UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 86 Novos registros de CACs aumentam anualmente desde pelo menos 2014. Entre 2014 e 2018, esse aumento foi de 879%, de 8.988 para 87.986. De 2018 para 2019, o crescimento foi de 68%. Grande parte está nos Estados de São Paulo (93.678 registros ativos), Paraná e Santa Catarina (57.265) e Rio Grande do Sul (55.741). Em seguida vêm Goiás, Distrito Federal, Tocantins e parte do Mato Grosso (32.665). Também é nesses Estados que está concentrado o maior número de clubes de tiro e lojas de arma de fogo. O volume de armas nas mãos dos CACs também cresceu 24%, o maior aumento percentual desde pelo menos 2015, fechando 2019 em 433.246 armas, um crescimento de 91% desde 2014. Especialistas em segurança pública atribuem o aumento à disseminação de uma cultura de armas, facilitada por comunidades on-line, e às várias mudanças na legislação que deram aos CACs acesso a mais armas e munições. Eles veem com preocupação tanto as mudanças na lei quanto o aumento da procura e do volume de armas nas mãos dessa categoria. Apontam que a legislação abriu brecha para o porte de arma, ou seja, o uso no cotidiano, sem que o usuário receba um treinamento adequado para isso. Dizem também que há sinais de que procedimentos de fiscalização não acompanharam o aumento do número de CACs e de armas nas mãos desse grupo. Finalmente, alertam que haver mais armas em circulação representa ameaça para a população. [...] O que mudou na lei? Antes de assinar um decreto sobre mudanças para os CACs, Bolsonaro disse, em transmissão ao vivo feita em abril em rede social, que elas “facilitariam e muito a vida” da categoria. Depois de muito vaivém, com decretos publicados, revogados e substituídos por outros, estas são as principais mudanças que estão valendo, de acordo com levantamento do Sou da Paz: • aumentou o número de armas e munições que CACs podem comprar (atiradores: de 16 armas, 60 mil munições e 12 kg de pólvora para até 60 armas, 180 mil munições por ano e 20 kg de pólvora; caçadores: de 12 armas, 6 mil munições e 2 kg de pólvora para 30 armas, 90 mil munições e 20 kg de pólvora; colecionador: de uma arma de cada tipo para 5); • a validade do registro dos CACs aumentou de 5 para 10 anos; • permissão de portar uma arma municiada nas ruas. TÓPICO 1 | BALÍSTICA, ARMAS DE FOGO E PORTE DE ARMAS 87 Por que aumentou a procura? A maior parte dos brasileiros (66%) acham que a posse de armas deve ser proibida, segundo pesquisa Datafolha feita em julho de 2019; 31% acham que a posse de armas deve ser um direito e uma parcela de 2% não opinou. Ao mesmo tempo, o número de registros de posse vem crescendo há anos e também o número de armas vendidas no mercado legal. Essa tendência de aumento no interesse também se mostra em dados de CACs. Perguntado sobre os possíveis motivos dessa busca da população por registros de CAC, o presidente da Associação CAC Brasil, Marcelo Midaglia Resende, diz que “é um subterfúgio para ter a arma de fogo. Nosso trabalho na associação é dar orientação sobre a responsabilidade que vem com ser um CAC”. Até o início de 2019, a lei exigia que um cidadão que quisesse ter posse de uma arma – ou seja, o direito de usá-la em casa para defesa pessoal e do patrimônio – deveria provar à Polícia Federal que precisava realmente do artefato – por exemplo, por viver em uma área isolada. Um CAC precisa provar ao Exército muitas das mesmas coisas que alguém que tem posse de arma, como ter endereço fixo, ocupação lícita, que não cometeu crimes no passado e que não é investigado ou responde a processos criminais, além de demonstrar capacidade técnica e psicológica, mas não é preciso provar a necessidade de ter uma arma. A facilitação da posse de armas trazida pelos decretos do governo não deveria, então, neutralizar a procura por CACs? Na opinião de especialistas e do presidente da Associação CAC Brasil, o aumento dos CACs reflete também o desejo de porte de arma, ou seja, de poder transportá-la para fora de casa e circular com o artefato em locais públicos. “Hoje existe uma cultura mais forte de arma. A pessoa compra uma arma e quer poder usá-la, não só deixar guardada. Quer praticar o tiro esportivo. Mas outros também querem ter porte, embora a gente tente deixar muito claro que o CAC não tem porte, tem apenas porte de trânsito”, diz Resende. “Não é possível dizer com certeza por que aumentou a procura. No entanto, é verdade que começaram a surgir grupos e fóruns que divulgam o que é correto por lei, que é o caminho para tirar uma licença de CAC, mas também a informação de que é mais fácil obter arma por meio do registro CAC do que pela Polícia Federal. Há despachantes nesses fóruns que dizem explicitamente, ‘se você quer ter porte de arma, se registre como atirador’. Essas práticas não são baratas. Portanto, essa explosão faz a gente suspeitar que essas pessoas não estão praticando tiro esportivo, participando de competições ou colecionandoarmas de valor histórico”, diz Natalia Polachi, do Sou da Paz. [...] FONTE: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51453837>. Acesso em: 4 jun. 2020. 88 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • A Balística Forense é definida como disciplina autônoma que estuda as armas de fogo, munições, fenômenos e efeitos dos disparos destas armas com a finalidade de esclarecer a ocorrência de crimes, fornecendo elementos de interesse judicial. • Cabe ao perito em Balística o exame detalhado e técnico nas armas e munições e todas as provas necessárias para a elaboração de provas materiais acerca de um possível delito. • Armas de fogo são definidas como aparatos formados por um conjunto de peças articuladas cuja finalidade é a de lançar um projétil no espaço pela força de propulsão e produzir um efeito. • No Brasil, a Lei nᵒ 10.826/2003, modificada pelo Decreto nᵒ 9.785/2019 e, posteriormente, pelo Decreto nᵒ 10.030 de 30 de setembro de 2019, é o dispositivo legal que controla o porte e uso de arma de fogo, definindo rígidos critérios e controle em todo território nacional definindo os limites para o uso de armas de fogo, com a finalidade de proteger o bem jurídico mais importante que é a vida. 89 AUTOATIVIDADE 1 O termo “arma” se refere a todo objeto que possui a característica de aumentar a capacidade de ataque ou defesa, podendo ser armas produzidas para tal fim como as espadas, punhais e armas de fogo, que são chamadas de armas próprias e outros artefatos que eventualmente podem ser usados para tal fim, chamadas de impróprias. Acerca das armas de fogo é CORRETO afirmar: a) ( ) As armas de fogo, independente do estarem todos seus elementos constitutivos devidamente presentes, sempre será considerada como tal. b) ( ) As armas de fogo devem possuir como elementos constitutivos o aparato arremessador, carga de projeção e projétil. c) ( ) Os projéteis podem produzir efeitos independentemente da existência de um aparato arremessador na arma. d) ( ) A carga de projeção das armas de fogo não podem ser inflamáveis. 2 As armas de fogo que são periciadas para a prática de crimes dolosos, lesões corporais, homicídios e suicídios podem ser consideradas como aparato construído por um conjunto de peças com a finalidade de lançar um projétil no espaço pela força de propulsão. Acerca das armas de fogo assinale a afirmação CORRETA: a) ( ) As armas de fogo podem conter um ou dois canos, abertos em uma das extremidades e parcialmente fechados na parte de trás onde se coloca o projétil. b) ( ) As armas de fogo não podem conter dois canos por não poderem produzir o efeito de propulsão do projétil. c) ( ) O projétil é colocado na parte dianteira da arma e lançado através da força expansiva produzida pela combustão da pólvora. d) ( ) A pólvora não é utilizada em armas de fogo e sim em fogos de artifício. 3 A Balística Forense divide-se em Externa, de Efeito e Subsequente. A Balística Interna estuda os fenômenos que se dão no interior de uma arma de fogo até que se produza o tiro. Acerca da Balística Interna assinale a afirmação CORRETA. a) ( ) A Balística Interna investiga a estrutura, mecanismos e funcionamento das armas de fogo. b) ( ) A Balística Interna estuda o que ocorre com o projétil em sua trajetória desde a saída da boca do cano. c) ( ) A Balística Interna estuda os efeitos produzidos pelo projétil nos órgãos internos do corpo humano. d) ( ) A Balística Interna estuda o impacto produzido pelo projétil no interior dos ossos e tecidos humanos. 90 4 O Estatuto do Desarmamento, Lei nᵒ 10.826/2003, estabelece o controle sobre uso e porte de armas de fogo em todo território nacional. O objetivo da referida Lei é evitar o uso ilegal e irresponsável de armas de fogo no país, estabelecendo as condições para o registro e o porte das armas de fogo e os crimes que decorrem de sua desobediência. Acerca da referida Lei é CORRETO afirmar: a) ( ) A Lei do Desarmamento impôs a obrigatoriedade de entrega de todas armas de fogo do país para a Polícia Federal. b) ( ) Pela legislação o cidadão comum não pode requerer o porte de arma uma vez que apenas as forças policiais e armadas possuem tal direito. c) ( ) O cidadão comum poderá obter o porte de arma se preencher os requisitos legais necessários. d) ( ) A Lei de Desarmamento proíbe o porte e uso de arma para caçadores de subsistência. 91 TÓPICO 2 CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, forneceremos importantes elementos para a compreensão de nossa disciplina uma vez que o objeto de estudo será sobre a classificação das armas de fogo, munições e ferimentos produzidos por armas de fogo. Iniciaremos com a classificação das armas de fogo utilizando como referência critérios técnicos-científicos que dizem respeito às características intrínsecas das armas. Você verá a complexidade necessária para a identificação primeira de uma arma de fogo e que exige, por parte do observador, conhecimento específico e familiaridade com os diferentes tipos de armamentos. Aprofundando mais nossos estudos vamos, neste tópico, conhecer o calibre e munições das diferentes armas de fogo, a partir dos quais serão obtidos elementos fundamentais para a verificação do potencial poder de fogo de cada armamento. Ao final, de maneira breve, serão analisados os diferentes tipos de ferimentos produzidos por armas de fogo de acordo com variáveis relacionadas ao tipo de arma, de munição, distância, posicionamento do atirador etc. Embora esse tema seja específico da Medicina Legal, ao perito criminal cabe também o domínio de conceitos relacionados às lesões por estar relacionado diretamente ao campo da Balística Forense. 2 CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO Como já considerado, arma de fogo arremessa projétil como resultado da força expansiva dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara que, normalmente, está presa a um cano que tem a função de dar continuidade à combustão do propelente, bem como também permitir direção e estabilidade ao projétil. Embora sejam vários os métodos utilizados para a classificação das armas de fogo, em geral, são utilizados critérios técnicos-científicos de acordo com as características intrínsecas das armas, os quais serão utilizados em nosso estudo. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 92 Você encontrará as definições de armas de fogo na Portaria nᵒ 60 – COLOG, de 15 de abril de 2020 (Ministério da Defesa), que estabelece os dispositivos de segurança, identificação e marcação de armas de fogo fabricadas no país, não havendo, por essa razão, divergências acerca da definição e classificação das armas de fogo. É importante você também consultar distintos manuais e apostilas que definem e classificam as armas de fogo. Verá que não há variações acerca dos conceitos, porque são legais, apenas variam os exemplos e ilustrações. Prefira sempre o material produzido por instituições confiáveis. Sugere-se: • Cartilha de Armamento e Tiro: http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/cartilha-de- armamento-e-tiro.pdf. • Teoria do Armamento e Tiro. Departamento Penitenciário do Paraná: http://www. espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf. • Manual de Armamento e Manuseio Seguro de Armas de Fogo. Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas: https://www.tjam.jus.br/phocadownloadpap/manuseio_seguro_ arma_fogo-mar_2012.pdf. Você encontrará um rico e sintético material para seus estudos. DICAS 2.1 QUANTO AO TAMANHO CURTA: são definidas como armas curtas aquelas que podem ser operadas com uma ou duas mãos, e não necessitam do apoio no ombro. Atualmente, são exemplos de armas curtas: revólveres e pistolas. Adiante diferenciaremos melhor cada uma delas. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 93 FIGURA 10 – EXEMPLOS DE ARMAS CURTAS FONTE: <http://1.bp.blogspot.com/-GwIFmKlT8HI/UORvYfGB03I/AAAAAAAABIk/zFhtrXN2Y-U/s400/revolver+x+pistola.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. LONGA: são consideradas armas longas aquelas de dimensões e peso maiores que as curtas podendo ser portáteis ou não portáteis. FIGURA 11 – ARMAS LONGAS FONTE: <http://3.bp.blogspot.com/_tBhoLp20pp0/S2bqj3F7wZI/AAAAAAAAACY/Uk7O0BeWxas/ s320/espingarda.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 94 2.2 QUANTO À PORTABILIDADE DE PORTE: são consideradas arma de fogo de dimensões e peso menor de forma a permitir serem portadas por um único indivíduo. Podem ser portadas em um coldre, que poderá ser ajustado ao corpo, e são disparadas facilmente com apenas uma das mãos pelo atirador. Nessa definição enquadram-se pistolas, revólveres e garruchas. REVÓLVER: arma de fogo de porte, de repetição, dotada de um cilindro giratório posicionado atrás do cano, que serve de carregador, o qual contém perfurações paralelas e equidistantes do seu eixo e que recebem a munição, servindo de câmara. PISTOLA: arma de fogo de porte, em geral semiautomática, cuja única câmara faz parte do corpo do cano e cujo carregador, quando em posição fixa, mantém os cartuchos em fila e os apresenta sequencialmente para o carregamento inicial e após cada disparo; há pistolas de repetição que não dispõem de carregador e cujo carregamento é feito manualmente, tiro a tiro, pelo atirador. ARMAS DE PORTE Pistolas: modernamente podemos conceituar pistola como arma curta, raiada, portátil, semiautomática ou automática, de ação simples, ação dupla, dupla ação e híbrida, com câmara no cano, a qual utiliza o carregador como receptáculo de munição. Existem pistolas de repetição que não dispõem de carregador e cujo carregamento é feito manualmente pelo atirador. Seu nome provém de Pistola, um velho centro de armeiros italianos. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 95 Revólveres: arma curta de alma raiada ou lisa, portátil, de repetição, na qual os cartuchos são colocados em um cilindro giratório (tambor) atrás do cano, podendo o mecanismo de disparo ser de ação simples ou dupla. FONTE: <http://armacompanheirafiel.blogspot.com/2013/01/tipos-de-armas-de-fogo.html>. Acesso em: 4 jun. 2020. PORTÁTIL: as armas portáteis são aquelas cujo peso e cujas dimensões permitem que seja transportada por um único homem, porém não transportadas em um coldre. Em situações normais, para efetuar o disparo eficiente é necessário o uso de ambas as mãos. CARABINA: arma de fogo portátil semelhante a um fuzil, de dimensões reduzidas, de cano longo – embora relativamente menor que o do fuzil – com alma raiada. No Brasil usualmente considera-se carabina as armas de fogo de cano longo raiado de calibres permitidos. FUZIL: arma de fogo portátil, de cano longo e cuja alma do cano é raiada. Podem ser de repetição, semiautomáticos ou automáticos. ESPINGARDA: arma de fogo portátil, de cano longo com alma lisa, isto é, não raiada. METRALHADORA: trata-se de arma de fogo portátil, que realiza tiro somente no sistema automático. SUBMETRALHADORA: também é conhecida como metralhadora de mão, e, por essa razão, é uma arma de fogo portátil. Pode ser utilizada no sistema semiautomática ou automática, de tamanho reduzido para uso das mãos, sem fixação por tripé, que utiliza normalmente um calibre usual de pistola, como 9 mm. ou 40, entre outros. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 96 ARMAS PORTÁTEIS RIFLES: termo muito comum, de origem inglesa, que significa o mesmo que fuzil. Arma longa, portátil que pode ser de uso militar/policial ou desportivo; de repetição, semiautomática ou automática. FUZIL DE ASSALTO: fuzil Militar de fogo seletivo de tamanho intermediário entre um fuzil propriamente dito e uma carabina. CARABINA (CARBINE): geralmente uma versão mais curta de um fuzil de dimensões compactas, cujo cano é superior a 10 polegadas e inferior a 20 polegadas (geralmente entre 16 e 18 polegadas). TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 97 SUBMETRALHADORA: também conhecida no meio Militar como metralhadora de mão, é classificada assim por possuir cano de até 10 polegadas de comprimento e utilizar cartuchos de calibres equivalentes aos das pistolas semiautomáticas. METRALHADORA: arma automática, que utiliza cartuchos de calibres equivalentes ou superiores aos dos fuzis; geralmente necessita mais de uma pessoa para sua operação. FONTE: <http://armacompanheirafiel.blogspot.com/2013/01/tipos-de-armas-de-fogo.html>. Acesso em: 4 jun. 2020. NÃO PORTÁTIL: arma que, devido por suas dimensões ou ao seu peso, não pode ser transportada por um único homem, por exemplo, metralhadoras mais pesadas de grosso calibre (calibre 12,7 mm). Ou, ainda, pode-se citar como exemplo armas mais pesadas como canhões automáticos que se destinam, por exemplo, a combate de fogo antiaéreo, que são colocados sobre veículos blindados de infantaria. Entretanto, para o presente estudo tais armas não serão estudadas de maneira detalhada. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 98 FIGURA 12 – ARMA NÃO PORTÁTIL FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. 2.3 QUANTO AO SISTEMA DE CARREGAMENTO ANTECARGA: são as armas de fogo cujo carregamento é feito pela boca do cano. FIGURA 13 – ARMA DE ANTECARGA FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. RETROCARGA MANUAL: são consideradas armas de retrocarga manual aquelas cujo carregamento é feito pela parte posterior do cano, com emprego da força muscular do atirador. FIGURA 14 – ARMA DE RETROCARGA MANUAL FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 99 RETROCARGA AUTOMÁTICA: são armas de retrocarga automática, aquelas em que o carregamento é feito pela parte posterior do cano, em regra por meio do aproveitamento da energia do disparo, dispensando a intervenção humana. FIGURA 15 – ARMA DE RETROCARGA AUTOMÁTICA FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. 2.4 QUANTO AO FUNCIONAMENTO DE REPETIÇÃO: armas de repetição são aquelas que o atirador, após a realização de cada disparo, decorrente da sua ação sobre o gatilho, necessita empregar sua força física sobre um componente do mecanismo desta para concretizar as operações prévias e necessárias ao disparo seguinte, tornando-a pronta para realizá-lo (ex.: Espingarda Calibre 12). SEMIAUTOMÁTICA: arma que realiza, automaticamente, todas as operações de funcionamento com exceção do disparo, o qual, para ocorrer, requer, a cada disparo, um novo acionamento do gatilho (ex.: pistola). AUTOMÁTICA: arma em que o carregamento, o disparo e todas as operações de funcionamento ocorrem continuamente enquanto o gatilho estiver sendo acionado. É aquela que dá rajadas (ex.: metralhadora). 2.5 QUANTO AO SISTEMA DE ACIONAMENTO AÇÃO SIMPLES: nas armas de ação simples para o acionamento do gatilho há apenas uma operação, após o qual ocorre o disparo, uma vez que a ação de armar o cão já foi efetuada com engatilhamento manual. Ex.: alguns tipos de pistola AÇÃO DUPLA: são as armas que possuem um sistema mecânico que somente podem ser disparadas após o acionamento do gatilho, não sendo possível o engatilhamento manual do mecanismo de disparo. Nesse sistema o gatilho exerce as duas funções: engatilha a arma e libera o cão ou sistema de percussão. Ex.: Revólver Taurus mod. RT 851 Multialloy, conforme figura a seguir. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 100 FIGURA 16 – REVÓLVER TAURUS MOD. RT 851 MULTIALLOY FONTE: <https://brasiltatica.vtexassets.com/arquivos/ids/155773-1200-auto?width=1200&height =auto&aspect=true>. Acesso em: 4 jun. 2020. DUPLA AÇÃO: define-se como sistema de acionamento de dupla ação o sistema mecânico de determinadas armasde fogo, que permite que elas sejam acionadas em ação simples ou dupla. Em caso de ação simples o mecanismo de disparo foi engatilhado e no acionamento do gatilho ocorre apenas o disparo. Na segunda situação, no acionamento do gatilho ocorre o engatilhamento e a liberação do cão ou sistema de percussão. Ex.: Revólveres Taurus em sua maioria e Pistolas Taurus PT 58 e PT 938 – Cal. 380, exemplificados nas figuras a seguir. FIGURA 17 – PT 58 e PT 938 – Cal. 380. FONTE: <https://images.tcdn.com.br/img/img_prod/620600/pistola_taurus_pt_938_ calibre_380_acp_oxidada_2146_1_20180726113257.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. 2.6 QUANTO À ALMA DO CANO A alma é a parte oca do interior do cano de uma arma de fogo, que vai geralmente da câmara de explosão até a boca do cano, da culatra até a boca do cano, destinado a resistir pressão dos gases produzidos pela combustão da pólvora e outros explosivos com a finalidade de orientar o projétil. De acordo com o tipo de munição para o qual a arma foi projetada, podendo ser lisa ou raiada. ALMA LISA: aquelas cujo interior do cano é totalmente polido, sem raiamento, porque não há necessidade da estabilização dos projéteis. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 101 FIGURA 18 – ARMA DE ALMA LISA FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. ALMA RAIADA: aquela cujo cano possui sulcos helicoidais responsáveis pela giroestabilização do projétil durante o percurso até o alvo. FIGURA 19 – ALMA RAIADA FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. O QUE SÃO RAIAS? Raias: são sulcos feitos na parte interna (alma) dos canos ou tubos das armas de fogo, geralmente de forma helicoidal, que têm a finalidade de propiciar o movimento de rotação dos projéteis, ou granadas, que lhes garante estabilidade na trajetória. FONTE: <http://www.pf.gov.br/servicos-pf/armas/cartilha-de-armamento-e-tiro.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. INTERESSA NTE UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 102 3 CALIBRE O calibre de uma arma é a medida do diâmetro interno do cano. Há três nomenclaturas diferentes para definir o calibre das armas de fogo, sendo que cada uma delas representa uma medida, de acordo com o elemento interno do cano ou do projétil. Nas armas de cano com alma raiada é feita a seguinte distinção: CALIBRE REAL: é a medida exata do diâmetro da parte interna do cano de uma arma, medido entre os cheios do raiamento. Para as armas de alma lisa é a medida interna do cano realizado pela boca (extremidade final). Há um diâmetro maior próximo à câmara de explosão e menor na boca do cano. É expresso em milímetros ou fração de polegadas. FIGURA 20 – CALIBRE REAL FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. CALIBRE DO PROJÉTIL: é a medida do diâmetro interno do cano de uma arma raiada, medido entre “fundos” das raias. É sempre igual ou levemente superior à medida do cano entre as raias (Vide a Figura 20). CALIBRE NOMINAL: é a dimensão usada para definir ou caracterizar um tipo de munição ou arma designada pelo fabricante, nem sempre tendo relação com o calibre real ou do projétil. É expresso em milímetros ou frações de polegada (centésimos ou milésimos). Podem ser frações de polegadas (centésimos ou milésimos) ou em milímetros (ex.: 9 mm). TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 103 QUADRO 1 – CALIBRE DAS ARMAS POLICIAIS FONTE: <http://abordagempolicial.com/wp-content/uploads/2010/03/tabela.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. 4 MUNIÇÕES “Munição” é um termo que designa projétil e demais artefatos explosivos com os quais de carregam as armas de fogo. É, por outras palavras, o artefato completo para o carregamento e disparo de uma arma de fogo. FIGURA 21 – CARTUCHO FONTE: <https://sindespe.org.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/muni%C3%A7%C3%A3o- 300x284.png>. Acesso em: 4 jun. 2020. ESTOJO: genericamente é o corpo sólido passível de ser arremessado que permite todos componentes do disparo fiquem unidos em uma única peça, facilitando o manejo da arma e acelera seu carregamento. ESPOLETA: recipiente localizado na base do estojo que contém uma mistura iniciadora que gera uma chama no momento da percussão. PÓLVORA: é um tipo de propelente que, após ser iniciada a ação de uma chama, causa a expansão de gases arremessando o projétil para frente. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 104 BUCHA: é um disco de material usado em um estojo para vedar, ou selar, os gases responsáveis por realizar a propulsão do projétil e para separar a pólvora dos projetis utilizadas. PROJÉTIL: é, de maneira genérica, qualquer corpo sólido passível de ser arremessado. Para a munição é a parte do cartucho que é lançado através do cano, podendo ser chamado de bala ou ponta. FIGURA 22 – MECANISMO DO DISPARO FONTE: <https://lh3.googleusercontent.com/eQhw2xablJHrvvN7BF_dxDIuLUa_ jUvOn6IhPWTSoV4_8_u-FJGWkw5CdYApHbLoooiB=s170>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 23 – DISPARO DE ARMA DE FOGO FONTE: <http://www.simpatiafm.com.br/novo/wp-content/uploads/2020/05/disparo.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 24 – TIPOS DE MUNIÇÕES FONTE: <http://twixar.me/yWmm>. Acesso em: 4 jun. 2020. 1- O percutor bate na espoleta 2- A espoleta inflama a pólvora 3- A queima libera gases 4- O projétil é empurrado no cano TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 105 TIPOS DE PROJÉTEIS • Expansivo: o projétil tem uma ponta oca e riscos na parte de fora. Quando ele encontra um objeto aquoso ou gelatinoso como um órgão animal, abre como se fosse uma flor, fazendo uma verdadeira cratera dentro do alvo. O dano é tão grande que seu uso é proibido em guerras. • Encamisado: o projétil tem um revestimento de cobre, náilon ou outro material que deslize pelo cano da arma melhor que o chumbo. Resultado: o tiro sai com mais velocidade, o que melhora a precisão e o alcance do disparo. • Traçante: tem uma pequena quantidade de fósforo na base ou na ponta do projétil que se incendeia a quando da combustão da pólvora ou devido ao atrito com o ar deixando um rastro luminoso visível a olho nu na escuridão. • Explosivo: após o disparo, a carga líquida contida no interior do projétil (normalmente mercúrio ou glicerina) sofre uma aceleração violenta, e se comprime para trás; quando atinge o alvo, a substância se expande para frente. Nesta expansão, o líquido empurra a ponta, que se projeta para frente. Com isso, o projétil se fragmenta tal qual uma granada, podendo causar ferimentos gravíssimos em um raio de até 20 centímetros a partir do ponto de impacto. Tipos de pontas (Ogivas): • Ogival: uso geral, muito comum, tem boa penetração e pouca expansão. • Canto-vivo: uso exclusivo para tiro ao alvo; tem carga reduzida e perfura o papel de forma mais nítida. • Semi canto-vivo: uso geral. • Ogival ponta plana: uso geral; muito usado no tiro prático (IPSC) por provocar menor número de “engasgos” com a pistola. • Cone truncado: mesmo uso acima. • Ponta oca: capaz de aumentar de diâmetro ao atingir um alvo humano (expansivo), produzindo assim maior destruição de tecidos. FONTE: <https://sindespe.org.br/portal/instrucao-belica-iii-qual-a-melhor-municao-a-ser-usada/>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 25 – TIPOS COMUNS DE PROJÉTEIS FONTE: <http://cfpaula.files.wordpress.com/2012/02/img_muni_pistola_projeteis.png?w=700>. Acesso em: 4 jun. 2020. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 106 5 UM BREVE ESTUDO SOBRE OS FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMA DE FOGO A perícia, como já considerado, é meio de prova com base cientifica, necessária para avaliação de um fato de interesse investigatório quando este produz vestígios. Cabe ao perito o exame do exame a fim de colher a materialidade. O exame local é relevante por ser onde a prova possui uma maior robustez parao órgão julgador. Em caso de morte a ciência forense busca as informações acerca das circunstâncias da morte, com base em dados de exame necrópsico, para estabelecer: • Identificação. • Mecanismo da morte. • Causa da morte. • Diagnóstico médico-legal (acidente, suicídio, homicídio ou morte de causa natural). Os agentes causadores das lesões são divididos em: agentes de ordem mecânica e agentes de ordem física. AGENTES DE ORDEM MECÂNICA São agentes que atuam por energia mecânica, essa energia modifica o estado de um corpo produzindo lesões em todo ou em parte do outro corpo. Agindo por contato direto sobre a superfície atingida de modo externo ou interno, atuando por: somente pressão; pressão e deslizamento; choque, com ou sem deslizamento. Causando então três tipos de lesões simples: 1- Punctória: instrumento atua por pressão em ponto afastando as fibras do tecido, podendo ser causado por agentes físicos de abertura pouco estreita como pregos, alfinetes, garfos etc. Obs.: pode ter trajetória retilínea, predominando a profundidade (comprimento) sobre o diâmetro. Termina em fundo seco (lesão penetrante). Podendo ser também transfixante (com orifício de entrada e saída). Figura – Lesão punctória produzida em hospitais por agulha de grosso calibre Fonte: malthus.com.br TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 107 2- Incisa: produzida por ação deslizante com certa pressão por objeto de gume afiado, seus agentes causadores são navalhas, bisturi, linha de cerol, estilhaços de vidro etc. Obs.: sendo subdividida em Esgorjamento; Degolamento; Decaptação; Evisceração; e Lesões de defesa. 3- Contusa: o agente contundente força a epiderme de encontro à derme e está de encontro ao osso. A epiderme é arrancada e as fibras da derme deslocadas. Obs.: as lesões podem se dá de modo ativo quando o instrumento é projetado contra a vítima; de modo passivo quando a vítima vai ao encontro do objeto e de modo misto quando ambos estão em movimentação. Figura 2 – Ferida pérfuro-incisa Fonte: malthus.com.br FONTE: FLORENTINO, A. H.; SILVA, D. S. R. da. Traumatologia Forense: a importância do estudo das lesões para o direito. Revista Derecho y Cambio Social, n. 56, abr./jun. 2019. p. 7-8. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/6967917.pdf. Acesso em: 4 jun. 2020. Figura 3 – Lesão contusa produzida por "tijolada" UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 108 Quando ocorre a ação combinada, conjunta, dos agentes de ordem mecânica a lesão passa a ser chamada de mista sendo classificada em: • Perfurocortantes: facas, canivetes, punhais etc. • Cortocontundente: machado, enxada, facão etc. • Pérfurocontundente: PAF-projetil de arma de fogo, ponta de ferro, ponteira de um guarda-chuva. • Lácerocontundente: acidentes com trem ou automóveis. AGENTES DE ORDEM FÍSICA Anteriormente, podemos observar as energias de ordem mecânica que em sua modalidade de ação é capaz de alterar o estado físico dos corpos resultando em um dano corporal, dano à saúde ou até mesmo a morte. Já as energias de ordem física são mais comuns, como: temperatura, eletricidade, pressão atmosférica, luz e som. • Calor: possui contato direto com a pele causando queimaduras, irradiação solar desidratação. • Queimaduras: são lesões produzidas através de agentes físicos com temperatura elevada de ações como: chama; calor irradiante; gases superaquecidos; líquidos escaldantes etc. Subdividindo-se em: ◦ Primeiro grau: apenas a epiderme é afetada, mantendo a epiderme em vermelho vivo. ◦ Segundo grau: possui formação de bolhas que suspendem a epiderme, produzindo um líquido amarelo-claro transparente. ◦ Terceiro grau: formam-se manchas de cor castanha, ou cinza amarelada, indicando a morte da derme permitindo a fixação de cicatrizes proeminentes. ◦ Quarto grau: ocorre a carbonização do plano ósseo sendo este parcial ou total, desidratando e assim ocorrendo a redução do volume do cadáver. • Insolação: decorre de ação da temperatura do calor ambiental em local aberto. • Intermação: tem maior incidência em lugares mal arejados, confinados ou pouco abertos, sem a necessária ventilação, surgindo de forma acidental. • Frio: também chamada de “geladura ou úlcera de frio” esta modalidade de queimadura é mais comum em regiões do corpo onde não possui proteção sob a ação de temperaturas negativas. • Pressão: os principais resultados das alterações da pressão são as baropatias, aumento e diminuição da pressão causando rarefação do ar em grandes altitudes e o aumento da pressão em casos de mergulhadores devido a rápida subida a superfície lhe causando embolia gasosa. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 109 • Eletricidade: são lesões que se ocasionam pelo efeito de corrente ou descarga elétrica dividindo-se em duas modalidades sendo elas: ◦ Eletricidade natural: na qual age letalmente sobre o ser humano denominando-se “fulminação; quando está provoca apenas lesão corporal chama-se “fulguração” e também com aspecto arboriforme, “sinal de lichtenberg”. ◦ Eletricidade artificial ou industrial: pode ser proposital em casos de eletrocussão de condenados, ou por modo acidental a eletroplessão. A lesão mais comum denomina-se de marca elétrica de jellineck, os efeitos da lesão se devem à intensidade da amperagem da corrente. • Veneno: o emprego de determinada substância que causa dano a integridade do indivíduo ou cause-lhe a morte, podendo ser por medicamento ou veneno conceituando-se intimamente na dose que é ministrada. Podendo ser por meio de medicamentos; produtos químicos; planta toxica e animais. Seu ciclo toxicológico é iniciado pela absorção seja por via oral ou administrado, ocorrendo assim à distribuição da substancia pelos tecidos, e instalando-se no órgão onde irá agir, daí o organismo age contra os venenos transformando- os em derivados menos tóxicos, por fim, a eliminação causando-lhe a morte ou a eliminação das substancias no caso de auxílio médico adequado. FONTE: FLORENTINO, A. H.; SILVA, D. S. R. da. Traumatologia Forense: a importância do estudo das lesões para o direito. Revista Derecho y Cambio Social, n. 56, abr./jun. 2019. p. 9-10. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/6967917.pdf. Acesso em: 4 jun. 2020. Você já deve concluído que as lesões produzidas pelas armas de fogo são tipos de lesão de ordem mecânica do tipo pérfurocontundentes, pois, ao mesmo tempo pressiona e contunda. O tipo de lesão produzida por arma de fogo depende de alguns fatores, tais como: • Tipo do projetil: ◦ Ponta arredonda, chumbo mole como a arma não transfixante, como projétil de borracha (para intimidar o agressor). ◦ Ponta menos arredondada. ◦ Ponta fina. ◦ Gases empurram o projetil (impulsionam), após a combustão da pólvora. ◦ Distância percorrida pelo projetil depende de vários fatores: quantidade do propelente, tamanho do cano, dureza do projétil. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 110 FIGURA 26 – LESÃO DE ENTRADA – MICROLACERAÇÃO EM PROJETIL DE BAIXA ENERGIA FONTE: <http://twixar.me/Kvmm>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 27 – PONTO FINAL DO PROJÉTIL DA ARMA DE FOGO FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcT8wWMHq2qINzbk6J1 msJf7RNZh1hkc-vqrTcft-OtOKNyTVQLP&usqp=CAU>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 111 • Distância do tiro: TIRO À QUEIMA-ROUPA OU CURTA DISTÂNCIA O tiro à queima-roupa é disparado a menos de 40 ou de 50 centímetros da vítima (conforme a bibliografia utilizada), mas não está o cano da arma encostado na pessoa. Os efeitos do projétil são somados aos da explosão nesse pequeno intervalo entre o cano e a pessoa. O sinal característico desse tiro é a tatuagem produzida pelo disparo em volta do orifício de entrada. Os efeitos da explosão, também chamados de zona são os seguintes:1) Zona de tatuagem verdadeira: a tatuagem verdadeira é chamada assim porque não sai quando em contato com a água. É resultante dos corpúsculos de pólvora que não foram queimados e são jogados contra o corpo da vítima, formando pontos pretos (tatuagem). 2) Zona de tatuagem falsa (esfumaçamento): o local fica manchado pela fumaça, fuligem, pólvora e gases. É chamada de tatuagem falsa, pois é facilmente retirada com água. 3) Zona de queimadura (chamuscamento): na explosão pode haver um lampejo de fogo que sai do cano e queima o local, motivo que é chamado de tiro à queima-roupa, pois queima mesmo. 4) Zona de depressão: a zona de depressão é mais difícil de ser encontrada. É decorrente de um jato de gás sob alta pressão, que causa depressão na pele. No orifício de entrada são observadas também as orlas: 5) ORLA DE CONTUSÃO: a pele se invagina e se rompe devido à diferença de elasticidade de derme e epiderme (sempre ocorre no tiro a curta distância); 6) ORLA EQUIMÓTICA: zona da hemorragia oriunda da ruptura de pequenos vasos; 7) ORLA DE ENXUGO: zona de cor escura que se adaptou às faces do projétil, limpando-os dos resíduos da pólvora (sempre ocorre no tiro à curta distância). FONTE: <https://www.facebook.com/ivopaulodeoliveiraadvogado/posts/466722816782884>. Acesso em: 4 jun. 2020. UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 112 FIGURA 28 – TIRO À CURTA DISTÂNCIA FONTE: <https://bit.ly/2BFOsyF>. Acesso em: 4 jun. 2020. • Tiro a distância: Nos tiros a distância, por exemplo, por espingardas, observa-se a dispersão dos bagos, sendo proporcional a distância entre a boca do cano da arma de fogo e a vítima, podendo produzir múltiplas lesões. FIGURA 29 – LESÕES CUTÂNEAS DE ENTRADAS DE DISPARO DE ESPINGARDA A DISTÂNCIA FONTE: <http://www.malthus.com.br/mg_8298/dsc08331_b.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 2 | CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO, MUNIÇÃO E FERIMENTOS PRODUZIDOS POR ARMAS DE FOGO 113 FIGURA 30 – TABELA GERAL: FERIMENTO E DISTÂNCIA FONTE: <http://revodonto.bvsalud.org/img/revistas/rctbmf/v13n4/a10tab02.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. É BOM SABER! 1- Somente aponte sua arma, carregada ou não, para onde pretenda atirar. 2- NUNCA engatilhe a arma se não for atirar. 3- A arma NUNCA deverá ser apontada em direção que não ofereça segurança. 4- Trate a arma de fogo como se ela SEMPRE estivesse carregada. 5- Antes de utilizar uma arma, obtenha informações sobre como manuseá-la com um instrutor credenciado. 6- Mantenha seu dedo estendido ao longo do corpo da arma até que você esteja realmente apontando para o alvo e pronto para o disparo. 7- Ao sacar ou coldrear uma arma, faça-o SEMPRE com o dedo estendido ao longo da arma. 8- SEMPRE se certifique de que a arma esteja descarregada antes de qualquer limpeza. 9- NUNCA deixe uma arma de forma descuidada. 10- Guarde armas e munições separadamente e em locais fora do alcance de crianças. 11- NUNCA teste as travas de segurança da arma, acionando a tecla do gatilho. 12- As travas de segurança da arma são apenas dispositivos mecânicos e não substitutos do bom senso. 13- Certifique-se de que o alvo e a zona que o circunda sejam capazes de receber os impactos de disparos com a máxima segurança. IMPORTANT E UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE 114 14- NUNCA atire em superfícies planas e duras ou em água, porque os projéteis podem ricochetear. 15- NUNCA pegue ou receba uma arma, com o cano apontado em sua direção. 16- SEMPRE que carregar ou descarregar uma arma, faça com o cano apontado para uma direção segura. 17- Caso a arma “negue fogo”, mantenha-a apontada para o alvo por aproximadamente 30 segundos. Em alguns casos, pode haver um retardamento de ignição do cartucho. 18- SEMPRE que entregar uma arma a alguém, entregue-a descarregada. 19- SEMPRE que pegar uma arma, verifique se ela está realmente descarregada. 20- Verifique se a munição corresponde ao tamanho e ao calibre da arma. 21- Quando a arma estiver fora do coldre e empunhada, NUNCA a aponte para qualquer parte de seu corpo ou de outras pessoas ao seu redor, só a aponte na direção do seu alvo. 22- Revólveres desprendem lateralmente gases e alguns resíduos de chumbo na folga existente entre o cano e o tambor. Pistolas e Rifles ejetam estojos quentes lateralmente; quando estiver atirando, mantenha as mãos livres dessas zonas e as pessoas afastadas. 23- Tome cuidado com possíveis obstruções do cano da arma quando estiver atirando. Caso perceba algo de anormal com o recuo ou com o som da detonação, interrompa imediatamente os disparos, descarregue a arma e verifique cuidadosamente a existência de obstruções no cano; um projétil ou qualquer outro objeto deve ser imediatamente removido, mesmo em se tratando de lama, terra, graxa etc., a fim de evitar danos à arma e/ ou ao atirador. 24- SEMPRE utilize óculos protetores e abafadores de ruídos quando estiver atirando. 25- NUNCA modifique as características originais da arma, e nos casos onde houver a necessidade o faça através armeiro profissional qualificado. 26- NUNCA porte sua arma quando estiver sob efeito de substâncias que diminuam sua capacidade de percepção (álcool, drogas ilícitas, medicamentos). 27- NUNCA transporte ou coldreie sua arma com o cão armado. 28- Munição velha ou recarregada NÃO é confiável, podendo ser perigosa. FONTE: <http://www.espen.pr.gov.br/arquivos/File/Apostila_Arma_Curta.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. 115 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Embora existirem diversos métodos para a classificação as armas de fogo, em geral, utilizando critérios técnicos-científicos e as características intrínsecas as armas de fogo são classificadas de acordo com tamanho, portabilidade, portátil e não portátil, quanto ao sistema de carregamento, quanto ao funcionamento, quanto ao sistema de acionamento, quanto à alma do cano. A classificação da arma. • O calibre da arma de fogo, de acordo com a medida do diâmetro interno do cano, são três as nomenclaturas para definir o calibre. São eles: calibre real, calibre do projétil e calibre nominal. • Munição é o artefato completo para o carregamento e disparo da arma de fogo. É de extrema relevância a identificação de cada um dos tipos de munição a fim de ser identificada a origem da arma e seus efeitos. • Os ferimentos produzidos pelas armas de fogo são vestígios que devem ser periciados a fim de estabelecer os elementos que envolvem o delito cometido. Os ferimentos produzidos por arma de fogos são do tipo pérfurocontundente e varia de acordo com inúmeros fatores, tais como tipo de projétil e distância do tiro. 116 AUTOATIVIDADE 1 O calibre de uma arma de fogo é a medida do diâmetro interno do cano, de acordo com o elemento interno do cano ou do projetil. Nas armas de cano com alma raiada é feita a distinção entre calibre real, calibre do projétil e calibre nominal. O calibre nominal de uma espingarda indica: a) ( ) A exata dimensão do diâmetro interno do cano. b) ( ) O diâmetro expresso em milímetro ou frações de polegada caracterizada, por exemplo, pelo tipo de munição. c) ( ) O nome do fabricante da arma. d) ( ) O número de esferas de chumbo do calibre. 2 Os sulcos internos na parte interna dos canos ou tubos de armas de fogo, que têm a finalidade de orientar o projétil ou granada de forma a garantir a estabilidade da trajetória é denominada: a) ( ) Raia. b) ( ) Alma. c) ( ) Tambor. d) ( ) Cão 3 Arma de fogo é um aparato que arremessa um projétil como resultado da força expansiva dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara que, normalmente, está presa a um cano que tem a função de dar continuidade à combustão do propelente, bem como também permitir direção e estabilidade ao projétil. Com relação aos cartuchos das armas de fogo é CORRETO afirmar: a) ( ) O estojo é a embalagem de acondicionamento das pistolas que pode ser de couro ou material sintético. b) ( ) A espoleta é o recipiente localizado na base do estojo que contémuma mistura iniciadora que gera uma chama no momento da percussão. c) ( ) A pólvora não é componente do cartucho. d) ( ) A bucha é o tipo de propelente que causa a expansão de gases arremessando o projétil para frente. 4 Os ferimentos produzidos por armas de fogo devem ser periciados a fim de que sejam verificados os vestígios de forma a identificar elementos relevantes para servirem de meios de prova judicial. Os projéteis de arma de fogo produzem ferimentos: a) ( ) Perfurocortantes. b) ( ) Cortocontundentes. c) ( ) Pérfurocontundentes. d) ( ) Lácerocontundentes. 117 TÓPICO 3 PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Chegando no último tópico de nossos estudos em Balística Forense, após os conhecimentos obtidos, analisaremos as práticas periciais mais comuns realizadas pelo perito, que são o de confronto microbalístico e resíduos de armas de fogo. O exame de confronto microbalístico é realizado com o projétil coletado na cena de um crime (peça motivo) e uma arma apreendida durante a investigação. Veremos que usando técnicas apropriadas é possível coletar uma amostra das características do cano dessa arma simplesmente efetuando um disparo com um cartucho de mesmas características e resgatando esse projétil (peça padrão) que é em seguida confrontado com a peça-motivo. Com relação aos resíduos, os expelidos no momento do tiro além do projétil, que são tanto sólidos como gasosos, são depositados em superfícies tais como as mãos e braços do atirador. Com esse exame é possível relacionar a arma do crime e o atirador, o que é de extrema importância para fornecer elementos probantes para conjunto de provas processuais que servirão para formar o convencimento do julgador. Ao final, é feito um interessante estudo de caso quando então você terá a oportunidade de, na prática, conhecer a importância dos exames periciais. 2 CONFRONTO MICROBALÍSTICO No Tópico 2, vimos que a saída do projétil em direção ao alvo resulta de um mecanismo articulado e, necessariamente, o projétil obrigatoriamente entra em contato direito com a superfície interna do cano. Nesse contato do projétil com a parte interna do cano ele incorpora marcas e micro estriamentos em sua superfície. A arma de fogo possui um sistema de raiamento construído no momento de fabricação do cano da arma e nesse processo de fabricação é feito um raiamento em cada cano produzido o que introduz no cano uma característica única, que irá diferenciar aquela arma produzida de todas as outras. Essa característica única é transferida ao projétil disparado por essa arma, como uma espécie de “impressão digital” da arma, e é esse efeito no projétil que tem grande importância na perícia. 118 UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE Portanto, quando um projétil é coletado na cena de um crime (peça motivo) e uma arma é apreendida durante a investigação, usando técnicas apropriadas, é possível coletar uma amostra das características do cano dessa arma simplesmente efetuando um disparo com um cartucho de mesmas características e resgatando esse projétil(peça padrão) que é em seguida confrontado com a peça-motivo. FIGURA 31 – RAIAMENTO FONTE: <http://www.quimica.net/emiliano/artigos/2007fev_forense3.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. À esquerda da linha preta, a bala em questão e à direita da mesma linha o padrão de marcas observado nos testes com a arma de fogo. As setas indicam as marcas que coincidem, o que confirma que os projéteis foram expelidos pela mesma arma. FIGURA 32 – TIRO EM TÚNEL PERICIAL FONTE: <http://twixar.me/54mm>. Acesso em: 4 jun. 2020. Cada arma possui um conjunto único de micro estrias. Ainda que a arma seja “lisa”, sem raias, sempre vai possuir minúsculas imperfeições, por exemplo, diferenças de densidade e dureza do aço, dentre outros aspectos, que dão um caráter único à arma, fazendo com que exista uma espécie de “impressão digital”, às marcas existentes nos projéteis expelidos por uma arma de fogo, sendo possível o confronto microbalístico. TÓPICO 3 | PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE 119 Entretanto, o confronto microbalístico não se limita apenas aos projéteis. Por exemplo, em caso de haver cápsulas de cartuchos deflagradas na cena do crime, é possível analisar as marcas do percutor – pino fixo no culote de um tubo, contra o qual é lançada a munição – e as ranhuras produzidas na culatra, conforme a figura a seguir. FIGURA 33 – MARCAS FEITAS PELO PERCUTOR E PELA CULATRA FONTE: <http://www.quimica.net/emiliano/artigos/2007fev_forense3.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. Em síntese, pode-se dizer que o Confronto Microbalístico é uma comparação realizada entre os componentes das marcas e microestriamentos dos canos, percutores e culatras produzidos pelos projéteis e nas cápsulas, uma comparação de microestriamentos dos projéteis expelidos por arma de fogo, que tem como objetivo identificar a arma de fogo que os deflagrou. A análise de confronto microbalístico poderá ser genérica ou específica. A genérica é aquela que permite a identificação do fabricante da arma, modelo, tipo de munição etc. Já através da específica se pode constatar se um projétil foi ou não expelido pela arma examinada, a fim de verificar a “impressão digital” da arma, conforme já estudado. Observe bem a figura a seguir. Você verá como é possível identificar exatamente a relação entre o projétil e a arma. Marcas da culatra Marcas de percussão 120 UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE FIGURA 34 – O “DNA” DA BALA FONTE: <http://files.1cas2015.webnode.com/200000226-3ba973ca4d/Tiro%20Policial.pdf>. Acesso em: 20 maio 2020. Leia o breve texto a seguir acerca do exame comparativo nos projéteis. Será muito útil para você compreender melhor sobre a perícia em projéteis e será muito útil na elaboração e análise de um laudo pericial balístico. Os exames comparativos nos projetis podem ser macroscópicos e microscópicos, contudo deve-se ressaltar que são sempre realizados os dois, sendo primeiro o macroscópico e depois o microscópico para que os peritos possam descrever e responder os requisitos formulados pelos operadores do Direito, nos termos do artigo 160 do Código de Processo Penal: “os peritos elaborarão o laudo pericial, onde descreverão minuciosamente o que examinarem, e responderão aos quesitos formulados”. TÓPICO 3 | PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE 121 A caracterização e identificação do material em exame devem ser feita por descrição completa e pormenorizada e acompanhada de fotografias que deixem registrado o estado em que foi recebido o material. Após isso será realizada a limpeza, com remoção de matérias orgânicas ou outras substâncias residuais. Após isso se inicia o exame comparativo macroscópico. No exame macroscópico se analisa a forma, a massa, o comprimento, o diâmetro, bem como o número de inclinação e largura dos ressaltos e cavalos. Para este teste são utilizados uma balança de precisão – devendo medir até centésimos de gramas, um paquímetro ou micrômetro – para determinar o diâmetro e cumprimento do projétil, projeto horizontal de perfil, e lupas manuais. O exame microscópico é o mais importante e decisivo para a comparação dos projetis, sendo através dele estabelecer com certeza a identificação individual de uma arma. Selecionados os projeteis-padrão de cada arma suspeita, será realizada a comparação microscópica entre eles, por observação direta na(s) ocular(es) do microscópico de comparação, buscando identificar elementos característicos e próprios do raiamento de cada arma, impressos na superfície dos projetis-padrão. Identificados os elementos característicos, realiza-se o confronto com o projétil suspeito, também por observação direta. Com este exame, busca- se localizar as características microscópicas, principalmente as estrias ou microestrias convergentes. A respeito das convergências é importante ressaltar: nunca serão perfeitas nem totais, porque, mesmo que se disparem vários tiros com a mesmaarma, sempre haverá diferenças ínfimas: o cano oxida-se, começa a ficar gasto – efetivamente, dentro dele produzem-se deflagrações e de uma para outra, podem dar-se modificações. Se na conclusão de exame os peritos tiverem convicção de que determinado projétil foi expelido de um cano de uma arma, terão identificado indiretamente que arma expeliu o projétil objeto de exame. Quando os projetis em análise forem produzidos por impacto contra o alvo resistente ou por ricochete, serão observadas deformações acidentais que poderão preservar microelementos suficientes nas partes não danificadas para a identificação da arma. A conclusão dos exames comparativos deve ser clara e precisa, permitindo que outro perito que não o que tenha realizado os exames, possa a qualquer momento chegar às mesmas conclusões. 122 UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE A comprovação das convergências macroscópicas indica apenas a possibilidade de o projétil questionado ter sido expelido por uma determinada arma, mas como há outras armas da mesma marca e calibre, não é possível ter certeza. Portanto as convergências macroscópicas não são suficientes para a identificação individual da arma de fogo. Por isso a importância de se realizar os exames microscópicos. Contudo haverá casos que o projétil não terá condições para tal exame, devido à ausência de microelementos, ou estar parcial ou totalmente deformado ou alisado. Tal situação deve constar no laudo pericial, apesar de ser uma conclusão categórica, é inconclusivo. Quando não for possível concluir em termos categóricos, é possível concluir o exame em termos de probabilidade, quando a quantidade de microelementos susceptíveis de comparação é pequena, mas mesmo assim contiver vários microelementos convergentes com os projeteis- padrão. Contudo, ainda haverá casos em que a ausência ou insuficiência de microvestígios de valor criminalístico tornando impossível chegar a uma conclusão. Esta situação também deve ser relatada no lado, e o perito deve explicar por que não conseguiu concluir o laudo”. FONTE: <https://dalletvidal.jusbrasil.com.br/artigos/687699597/balistica-forense?ref=serp>. Acesso em: 4 jun. 2020. 3 RESÍDUOS DE ARMA DE FOGO No momento do tiro é expelido, além do projétil, diversos resíduos sólidos (provenientes do projétil, da detonação da mistura iniciadora e da pólvora) e produtos gasosos (monóxido e dióxido de carbono, vapor d’água, óxidos de nitrogênio e outros) também são expelidos (REIS et al., 2003). Observe a figura a seguir: FIGURA 35 – RESÍDUOS EXPELIDOS FONTE: <http://twixar.me/0lmm>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 3 | PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE 123 Os resíduos que compõem os resíduos de disparo são compostos por materiais diversos, partículas do projétil e partículas não queimadas ou parcialmente queimadas de pólvora. Tais materiais são expelidos pelo cano da arma, formando uma nuvem cônica de gases e partículas. Lentamente, devido a ação de resistência do ar, as partículas vão se depositando e as mais pesadas atingem distâncias maiores. Ainda, os resíduos podem “escapar” através de outras aberturas da arma, conforme ilustra a figura a seguir. FIGURA 36 – RESÍDUOS DE DISPARO E CHAMA QUE ESCAPAM APÓS O DISPARO FONTE: <https://static.wixstatic.com/media/e58fa1_56dca745a3e74de3819e6f13a3c9c9a1.jpg/v1/fill/ w_308,h_216,al_c,q_80/e58fa1_56dca745a3e74de3819e6f13a3c9c9a1.webp>. Acesso em: 4 jun. 2020. Os resíduos são de extrema relevância para se determinar a gama a que pertence a arma disparada, a distância da arma em relação a vítima e, ainda, a identificação do atirador pela presença dos resíduos no indivíduo. Casos em que é possível relacionar a arma do crime e o atirador deve-se fazer o exame dos resíduos resultantes da detonação, para além da saída do projétil que são uma mistura de monóxido de carbono, pólvora, vapor de água etc. Esses resíduos podem ficar impregnados nas mãos, braços, cabelos, roupa etc. FIGURA 37 – COLETA DE RESÍDUOS FONTE: < https://lh3.googleusercontent.com/H2gf7eEzZSVsZtL7R0FxAPZ4ZJetPMZWzaHv7u2_ qvSEs8IF4m97ZY37B72uV_qU_Y2_=s85 >. Acesso em: 4 jun. 2020. 124 UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE Veja, na figura a seguir, as regiões da mão de atiradores quando submetidos à coleta de resíduo: a) palma, b) dorso, c) região de pinça palmar, d) região de pinça dorsal. FIGURA 38 – MARCAS DE REGISTRO DE RESÍDUO NAS MÃOS FONTE: Adaptado de <https://www.scielo.br/img/revistas/qn/v27n3/20167f2.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. Cabe esclarecer que há variações na condensação dos resíduos de acordo com a arma empregada no disparo. Por exemplo, revólveres produzem mais partículas esféricas do que pistolas. Ainda outro fator que causa variação é o calibre. Quanto maior o calibre, maior o tamanho médio das partículas. Ainda a composição pode variar, dependendo dos explosivos da espoleta. 4 ESTUDO DE CASO: QUANDO O EXAME EM RESÍDUO É RELEVANTE Para finalizar nossos estudos trazemos um estudo de caso. O caso Bernardo. Entretanto, vamos nos centrar não na morte do menino Bernardo que chocou todo país, mas na morte da mãe de Bernardo que havia ocorrido poucos anos antes. A mãe de Bernardo, Odilaine Ugulini, segundo as investigações oficiais, havia cometido suicídio com arma de fogo no consultório de seu marido, o pai e assassino de Bernardo, Leandro Boldrini. Com a descoberta do crime cometido por Leandro e sua personalidade assassina, familiares exigem a reabertura de investigação da morte de Odiliane porque nunca haviam acreditado que ela havia se suicidado. A principal prova que sustou a dúvida da família foi o exame de resíduo de pólvora nas mãos de Olidiane. Leia, reflita, use os conhecimentos obtidos e conclua. TÓPICO 3 | PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE 125 Síntese do caso: Em abril de 2014, o menino Bernardo Uglione Boldrini, nascido em Santa Maria (Rio Grande do Sul), à época com 11 anos de idade foi dado como desaparecido. O pai, Leandro Boldrini comunicou à polícia que seu filho havia ido dormir na casa de um amigo no dia 4, mas quando foi à casa do amigo, no dia 6, tomou conhecimento que o menino não havia chegado lá. Após o início das buscas a polícia chega a Edelvânia, amiga da madrasta de Bernardo, Graciele, e descobre que na tarde do dia 4 de abril daquele ano havia sido multada por excesso de velocidade entre os municípios de Tenente Portela e Palmitinho, cerca de 50 km da cidade de Três Passos com o menino Bernardo no banco de trás. Seguia para Frederico Wetphalen, onde encontraria Edelvânia Wirganovicz. A investigação chegando até Edelvânia em sua casa foram encontradas uma pá e cavadeira. Por fim, Edelvânia confessa onde o corpo estava enterrado e afirmou que o menino havia sido morto com uma injeção letal. Imediatamente foi expedida ordem de prisão para o pai e madrasta de Bernardo. No exame cadavérico foi encontrada a droga Midazolam no fígado, rins e estômago do menino. Ao final, entre os dias 11 a 15 de março de 2019 feito o julgamento e chegou à sentença de condenação de Leandro foi condenado a 33 anos e 8 meses de prisão em regime fechado por homicídio doloso quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver e falsidade ideológica. Graciele foi condenada a 34 anos e 7 meses de prisão em regime fechado por homicídio quadruplamente qualificado e ocultação de cadáver. Edelvânia foi condenada a 22 anos e 10 meses de prisão em regime fechado por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. Evandro foi condenado a 9 anos e 6 meses em regime semiaberto por homicídio simples e ocultação de cadáver. Evandro, que já cumpria pena há 5 anos, cumprirá o restante no regime semiaberto. Ocorre que a mãe de Bernardo, Odilaine Ugulini havia cometido suicídio em 2010 com arma de fogo no consultório do pai de Bernanrdo, que era médico. Entretanto, após a morte de Bernardo foi levantada a suspeita de que Odilaine não havia se suicidado, mas sim morta pelo mesmo assassino de seu filho. Então,foi requerida reabertura de investigação policial com base no exame residuográfico feito nas mãos de Odiliane. FONTE: Adaptado de <http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/04/bernardo-morreu- dia-4-de-abril-de-forma-violenta-diz-atestado-de-obito.html>. Acesso em: 5 jun. 2020. A seguir, leia o que foi divulgado pela imprensa sobre o laudo. 126 UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE “APÓS VER LAUDO, ADVOGADO VOLTA A CONTESTAR SUICÍDIO DE MÃE DE BERNARDO” Ilustração de laudo demonstra o trajeto da bala que matou Odilaine (Foto: Reprodução) Após acessar a íntegra do inquérito sobre a morte da mãe de Bernardo Boldrini, de 11 anos, o advogado Marlon Taborda, defensor da avó materna do menino, promete ingressar na Justiça para solicitar a reabertura da investigação policial, que em 2010 apontou para um suicídio de Odilaine Uglione. Segundo ele, entre as informações novas que colocariam em xeque a versão oficial está um exame residuográfico indicando presença de pólvora na mão esquerda da mulher, enquanto ela era destra. De acordo com o inquérito da polícia, Odilaine cometeu suicídio com um tiro na boca dentro do consultório do pai de Bernardo, Leandro Boldrini, no dia 10 de fevereiro de 2010. No documento, consta que ela comprou um revólver calibre 38 pouco antes de ir à clínica. Além disso, também há o registro de um bilhete em que a secretária do médico, Andressa Wagner, entregaria ao patrão, alertando sobre a chegada de Odilaine. O processo conta com depoimentos de testemunhas que estavam na sala de espera no dia da morte e com documentos referentes a uma possível divisão da pensão a ser paga após o processo de separação do casal. TÓPICO 3 | PRÁTICAS PERICIAIS EM BALÍSTICA FORENSE 127 Laudo pericial atesta presença de pólvora na mão esquerda, mas, segundo Taborda, Odilaine era destra (Foto: Reprodução) Ao voltar a questionar o inquérito nesta sexta-feira (2) mediante a análise de laudos periciais, o advogado da avó materna de Bernardo também avaliou que a polícia teria ignorado informações sobre o percurso da bala que matou Odilaine. “A perícia diz que a perfuração do palato (céu da boca) superior esquerdo se deu de baixo para cima indo à direção esquerda do crânio. Fazer isso com a mão esquerda, em tese, é humanamente impossível”, avaliou o defensor. Para Taborda, contudo, o dado mais relevante para provocar a reabertura da investigação seria a identificação de resquícios de pólvora na mão esquerda. "O exame residual refere duas coisas: ela poderia estar com a mão próxima da arma ou poderia estar fazendo movimento de defesa. Ela não era canhota e sim, destra. E o laudo diz de forma categórica que pode ter sido outra [pessoa] ou uma reação de defesa. O laudo diz isso", enfatizou. Taborda listou outras duas informações que, segundo ele, constam no inquérito e poderiam gerar uma reviravolta no caso: documentos apontam para a existência de uma informação anônima, vinda de alguém com voz de mulher, que teria o objetivo de direcionar a investigação. Além disso, o acesso ao inquérito lhe permitiu concluir que o caso foi encerrado antes da chegada de laudos da perícia. FONTE: <http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/caso-bernardo-boldrini/noticia/2014/05/apos- ver-laudo-advogado-volta-contestar-suicidio-de-mae-de-bernardo.html>. Acesso em: 4 jun. 2020. Nesse caso, especificamente sobre a morte da mãe de Bernardo o exame residuográfico foi relevante por colocar em dúvida a versão oficial. Veja que Odiliane era destra, ou seja, utilizava como mão preferencial a direita, então pergunta-se: por que os resíduos de pólvora estavam na mão esquerda? 128 UNIDADE 2 | BALÍSTICA FORENSE LEITURA COMPLEMENTAR “A BALÍSTICA FORENSE E O PERITO CRIMINAL” Dentre os muitos ramos do trabalho da Perícia Criminal Oficial, hoje traremos algumas informações sobre a Balística Forense. É a área de conhecimento que analisa as armas de fogo, a munição e os efeitos dos tiros. Obviamente para ser motivo de encaminhamento para algum órgão pericial esta evidência deverá ter alguma relação com delitos apurados pelas forças de segurança. Inicialmente, é bom lembrar que a ação da arma de fogo se dá por meio de reações químicas, neste caso, ação dos gases. A partir de um elemento propulsor/ propelente (pólvora) a força gerada dentro da arma é destinada para lançar projéteis. Ou seja, a munição é o projétil a ser disparado incluindo o cartucho (estojo) com um propelente no seu interior. Em sua ponta fica o projétil e na base o elemento de iniciação (espoleta). No momento da ignição da reação há uma explosão dentro do estojo no qual os gases se expandem muito rapidamente e com a força para empurrar o projétil na direção apontada pela arma. A balística forense pode ser dividida em três linhas de análises: Balística Interna (estuda a estrutura, mecanismos e funcionamentos das armas); Balística Externa (estuda a trajetória do projétil, desde a arma até o anteparo final); e a Balística dos Efeitos (estudas os efeitos gerados pelo projétil, também conhecida como balística do ferimento). Atuando dentro da área da Balística Interna, por motivos de segurança, a primeira ação a ser tomada pelo perito ao analisar uma arma de fogo é verificar se ela está desmuniciada. Verifica-se o tambor, carregadores removidos, munição na câmara de explosão e se não ficou alguma munição no cano da arma após algum defeito durante o disparo anterior. Em seguida, na análise direta ou imediata, aquela feita na própria arma utilizada no delito, é definido se o artefato realmente tem condições de efetuar disparos por meio do Exame de Eficiência e Prestabilidade. Após a análise, o perito deverá informar se a arma pode disparar algum tiro. Caso não possa, será necessário apresentar o motivo da ineficiência. De qualquer maneira, o trabalho de identificação deverá ser minucioso para descrever a arma, objetos e munições analisados. Espera-se do laudo dados como formato, aparência, dimensões, marcas, sinais aparentes, numerações, estado de conservação, além de outras informações consideradas necessárias para o trabalho pericial e policial. Com relação aos projéteis os itens a serem levantados são: constituição (formato e material), o peso (massa em gramas), diâmetro da base, comprimento, calibre, número e orientação de ressaltos e cavados e deformações acidentais. FONTE: <https://www.periciacriminalbr.com/post/balistica_e_perito>. Acesso em: 4 jun. 2020. 129 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Após a saída do projétil em direção a um alvo o projétil entra em contato direito com a superfície do cano, quando então o projétil incorpora em sua superfície marcas e micro estriamentos em sua superfície. Colhido o projétil e a arma na cena de um crime é feito um exame chamado de Confronto Microbalístico que permite com exatidão determinar a arma utilizada, ângulo do atirador e distância. • As armas de fogo ao efetuarem o disparo além do projétil são expelidos resíduos sólidos e gasosos que formam uma nuvem cônica de gases e partículas que acabam se depositando. Através do exame de tais resíduos que se depositam no atirador é possível conhecer a autoria de um crime praticado com arma de fogo. • Utilizando um estudo de caso pode-se compreender, não apenas a relevância do trabalho do perito, como também como uma investigação oficial de uma morte pode ser elucidada. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 130 1 A saída do projétil de uma arma de fogo em direção ao alvo resulta de um mecanismo articulado que produz contato entre o projétil e a superfície interna do cano. Nesse contato, o projétil fica com uma “impressão digital” da arma por ficar marcado pela parte interna do cano e por micro estriamentos em sua superfície. O exame pericial realizado no projétil raiado e outro produzidopela superfície pela arma relacionada ao crime chama-se: a) ( ) Confronto Armado. b) ( ) Raiamento Pericial. c) ( ) Confronto Balístico d) ( ) Confronto Microbalístico. 2 Através do exame de confronto microbalístico é possível ser determinada as marcas deixadas no projétil quando, no momento do disparo, entra em contato com o cano da arma. Mesmo nas armas sem raias internas é possível ser feito o exame porque: a) ( ) Sempre haverá minúsculas imperfeições, diferenças de densidade e dureza do aço dão um caráter único a arma. b) ( ) Nas armas sem raia o projétil é arremessado sem nenhuma imperfeição. c) ( ) O exame de confronto microbalístico nas armas sem raias não é possível. d) ( ) As armas sem raia não são utilizadas para exames de confronto microbalístico. 3 No momento do tiro são expelidos resíduos sólidos e gasosos que formam uma espécie de “nuvem”. Devido a ação de resistência do ar os resíduos se depositam no atirador. O exame dos resíduos do disparo realizado nas mãos de um suposto atirador chama-se: a) ( ) Exame Datiloscópio. b) ( ) Exame Radiológico. c) ( ) Exame Residuográfico. d) ( ) Exame Digital. 4 Os resíduos que compõem os resíduos de disparo são compostos por materiais diversos, partículas do projétil e partículas não queimadas ou parcialmente queimadas de pólvora. Sobre o “escape” dos resíduos é CORRETO afirmar: a) ( ) Os resíduos podem “escapar” através de outras aberturas da arma além da boca do cano. b) ( ) Os resíduos não escapam por isso pode ser feito exame residual na arma. c) ( ) A resistência do ar não é responsável pelo depósito de resíduo de disparo e sim a distância em que o tiro é dado. d) ( ) Os resíduos apenas escapam apenas pelo cano da arma. AUTOATIVIDADE 131 UNIDADE 3 DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender a diferença entre os crimes de roubo e furto, precisamente de veículos e suas respectivas consequências; • perceber os elementos identificadores dos veículos; • compreender quais são e onde podem ser observados os caracteres da codificação do chassi, a decodificação das numerações de motores, câmbios, eixos e vidros e suas formas de adulteração; • identificar a codificação original adulterada. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR TÓPICO 2 – ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS TÓPICO 3 – FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 132 133 TÓPICO 1 DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Na maioria dos casos em que se pode observar a ocorrência de adulteração ou obstrução de sinais de veículos automotores, percebe-se que decorrem de um crime antecedente. Geralmente, esses crimes são de furto ou roubo de veículos. Para tanto, é necessário saber, pormenorizadamente, a respeito destes delitos, isto é, quando se caracterizam, quem pode cometê-los, qual a distinção entre eles e suas respectivas sanções. Após o estudo deste tópico, acadêmico, temos certeza de que você perceberá que, muitas vezes, costumeiramente, falou ou ouviu algum conhecido dizer que foi roubado, sendo que o correto seria furtado ou vice-versa. Agora, passamos à análise a fim de não pairar mais dúvidas sobre esse tema! 2 CRIME DE FURTO DE VEÍCULOS O crime de furto está tipificado em nosso Código Penal, em seu artigo 155, no título que trata sobre os crimes contra o patrimônio. É um tipo penal comum, isso quer dizer que qualquer pessoa pode ser sujeito ativo e passivo do crime. O legislador brasileiro, ao criar o referido delito, visou proteger o patrimônio individual de todo cidadão. Devido a isso, o bem jurídico a ser tutelado, ou seja, a ser protegido pelo nosso código ao nos referirmos ao crime de furto, é o patrimônio de cada um. O Código Penal Brasileiro (1940), em seu artigo 155, conceitua furto: Furto Art. 155 – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. § 1o - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso noturno. § 2o - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa. § 3o - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 134 Nas palavras de Guilherme de Souza Nucci (2018, s.p.), podemos compreender cada elementar exigida para a configuração do delito: Subtrair significa tirar, fazer desaparecer ou retirar e, somente em última análise, apoderar-se. O elemento normativo do tipo alheia é toda coisa que pertence a outrem, seja a posse ou a propriedade. Quanto ao conceito de móvel, para os fins penais, é a coisa que se desloca de um lugar para o outro. Trata-se do sentido real, e não jurídico […]. Coisa é tudo aquilo que existe, podendo tratar-se de objetos inanimados ou de semoventes […]. Como se vê, o delito de furto é baseado na clandestinidade. É a subtração da coisa sem a observância da vítima. É o retirar algo sem o seu consentimento e de forma oculta, secreta, subterrânea. No presente estudo, significa dizer que furto de veículo é a subtração dele, em qualquer local que esteja, que foi retirado da esfera de vigilância do seu proprietário e/ou possuidor e sem o seu consentimento. Para esse delito, nosso código institui a pena de um a quatro anos de reclusão, e multa. Diante disso, observamos e conceituamos a figura típica do furto simples. Além do tipo penal na forma simples, temos o furto majorado, que é quando o Código Penal acrescenta à figura do furto simples algumas condições como forma de ação. Assim, podemos observar no §1ᵒ do artigo citado, um aumento de pena de 1/3, no caso de furto de veículo ter ocorrido durante o repouso noturno. Justifica-se esse aumento pela circunstância especial que, no decorrer da noite, as pessoas exercem menor vigilância sobre seus bens, pois estão repousando e, consequentemente, há uma menor movimentação na sociedade, o que acaba por facilitar a perpetração do crime. No artigo 155, §§ 4ᵒ, 4ᵒ-A, 5ᵒ, 6ᵒ e 7ᵒ do Código Penal (1940), temos a figura do furto qualificado, que é quando, em decorrência de situações acrescidas pelo nosso código, a pena do crime é maior que a do furto simples. Vejamos: Furto qualificado § 4o - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido: I- com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; II- com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; III- com emprego de chave falsa; IV- mediante concurso de duas ou mais pessoas. § 4o - A A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se houver emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. § 5o - A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. § 6o - A pena é de reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos se a subtração for de semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes no local da subtração. § 7o - A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. TÓPICO 1 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR 135 Exemplificando, acadêmico, caso um veículo seja furtado em frente a sua casano decorrer do dia, o agente causador incorrerá no tipo penal descrito no artigo 155, na forma simples. Caso esse mesmo crime ocorra na calada da noite, o sujeito ativo incorrerá no artigo 155, §1ᵒ do Código Penal, na sua forma majorada. Agora, caso o delito tenha sido cometido nas mesmas circunstâncias, durante o dia, mas por duas pessoas, incorrerão no furto qualificado, ou seja, na figura típica do artigo 155, §4ᵒ, inciso IV. Percebam que em todas situações a pena do delito será diferenciada. A intenção do legislador foi buscar uma proporcionalidade entre as condutas e a respectiva sanção. Ou seja, quem comete o furto na forma mais grave não merece receber a pena do furto simples, mas sim com o seu devido aumento. É possível a ocorrência de furto de coisas abandonadas ou não pertencentes a ninguém? Não, pois coisas abandonadas ou que não pertencem a uma determinada pessoa não são capazes de integrar o patrimônio de alguém, o que, por consequência, não são bens tutelados pelo tipo penal de furto. IMPORTANT E 3 DO CRIME DE ROUBO DE VEÍCULOS Assim como o crime de furto, o delito de roubo está compreendido no título que trata sobre os crimes contra o patrimônio, contudo, tipificado em nosso Código Penal, em seu artigo 157. O bem jurídico tutelado no crime de roubo, assim como no delito de furto, é o patrimônio de todo cidadão. Contudo, por se tratar de um crime complexo, se protege de forma mediata, a integridade física, a liberdade e a vida, quando tratamos do roubo qualificado com lesão corporal e com resultado morte. Mirabete (2001, p. 235) fala sobre o tema ao afirmar que por se tratar de um crime complexo, objeto jurídico imediato do roubo é o patrimônio. Tutelam-se, também, a integridade corporal, a liberdade e, no latrocínio, a vida do sujeito passivo. É um tipo penal comum, o que significa dizer que não há exigência pelo nosso ordenamento jurídico de alguma circunstância do agente causador, por exemplo, para os crimes de peculato, em que se exige a figura do funcionário público ou para os crimes de aborto, em que é necessário a mulher grávida para a caracterização. Nesse sentido, qualquer pessoa poderá ser agente ativo e passivo do crime de roubo. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 136 De forma geral, consideramos roubo a subtração de algo com o emprego de violência, ou mesmo após subtraída a coisa, o agente da ação reduz a possibilidade de resistência pelo seu dono. A coisa subtraída, no caso em análise, o veículo automotor, pode ser para si ou para pessoa diversa. Vejamos como diz o Código: Roubo Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência: Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa. O conceito de subtrair, coisa móvel e alheia são os mesmos trabalhados no delito de furto. Entretanto, Nucci (2018, s.p.) explana sobre a elementar exigida para a configuração do delito de roubo: […] Grave ameaça é o prenúncio de um acontecimento desagradável, com força intimidativa, desde que importante e sério. O termo violência, quando mencionado nos tipos penais, como regra, é traduzido como forma de constrangimento físico voltado à pessoa humana. Como se vê, o que diferem os delitos é a presença da grave ameaça ou violência investida contra a pessoa (sujeito passivo/vítima). Cabe ainda esclarecer que essa violência não necessariamente precisa ser contra o possuidor da coisa, mas pode recair sobre um terceiro a fim de obter o bem de outro. Assevera Fragoso (2003, p. 342): “a execução deve dar-se, porém, mediante violência à pessoa (esforço corporal sobre a vítima), ameaça (violência moral) ou por qualquer meio que reduza a vítima à impossibilidade de resistir (narcóticos, estupefacientes)”. Diante disso, conforme o tipo penal, a violência poderá vir antes ou depois da subtração da coisa, mas obrigatoriamente tem que estar empregada contra a pessoa. Poderá ainda ser de diversas formas, como violência física, intimidativa, moral ou qualquer outro meio capaz causar temor na vítima. Portanto, observamos e conceituamos a figura típica do roubo simples, o qual é punido com pena de quatro a dez anos de reclusão. Assim como no furto, além do tipo penal na forma simples, temos o roubo majorado, que é quando o Código Penal acrescenta à figura do roubo simples algumas condições como forma de ação. Essas condições são consideradas somente as definidas nos parágrafos e incisos do próprio artigo 157. Frise-se que, em nenhuma hipótese serão admitidas outras formas além das descritas no rol do código, sob pena de estarmos legislando em matéria penal, o que é extremamente proibido em decorrência do princípio da reserva legal. Por isso, dizemos que o rol é taxativo. Vejamos quais são essas condições: TÓPICO 1 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR 137 § 2ᵒ A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) até metade: I- (revogado); II- se há o concurso de duas ou mais pessoas; III- se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância. IV- se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior; V- se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade. VI- se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. VII- se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma branca. 2ᵒ-A. A pena aumenta-se de 2/3 (dois terços): I- se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma de fogo; II- se há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. § 2ᵒ-B. Se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo. Pode-se perceber que as condições estipuladas no § 2ᵒ possuem um aumento da pena de roubo em 1/3 até a metade, já as do § 2ᵒ-A sofrem um aumento de 2/3. A intenção do legislador foi buscar uma proporcionalidade entre as condutas e a respectiva sanção. Ou seja, quem comete o roubo na forma mais grave não merece receber a mesma pena do roubo simples, mas sim com o seu devido aumento. A título de exemplo, imaginemos um roubo de um veículo automotor realizado no estado de Santa Catarina e, posteriormente, transportado para outro estado brasileiro ou até mesmo para o Paraguai. Nesses casos, o agente infrator responderá pelo crime de roubo majorado com pena aumentada de 1/3 (um terço) até metade, pois presente a circunstância do § 2ᵒ, inciso IV. Caso o crime seja tão-somente o roubo do veículo de uma cidade para outra ou com a permanência neste local, o agente responderá apenas pelo roubo simples. Ressalta-se que para a configuração do crime de roubo, como visto anteriormente, é necessário a presença da grave ameaça ou violência a pessoa. Fragoso (2003, p. 342) reforça o entendimento quando diz que “a distinção conceitual entre furto e roubo é que no primeiro a subtração é clandestina; no segundo, o arrebatamento é público e violento”. Agora que já se sabe o conceito do crime de roubo e quando ele se torna majorado, ou seja, com o aumento de pena, deixamos claro que temos ainda no § 3ᵒ do artigo 157, a figura do roubo qualificado. Contudo, por não ser objeto do nosso estudo, não nos aprofundaremos no tema, mas é importante que saibam que é quando do cometimento do crime de roubo resulta em um novo crime, como lesão corporal grave ou até mesmo a morte, possuindo assim penas maiores do que o roubo simples, de 07 a 18 anos e, de 20 a 30 anos, respectivamente. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 138 O crime de roubo (Art. 157) possui as mesmas características do delitode furto (Art. 155). O que os diferem é a exigência da presença da grave ameaça ou violência à pessoa. ATENCAO Em uma pesquisa realizada por Cecere (2010), constatou-se que há um equilíbrio entre a ocorrência de furtos de veículos. Os veículos mais antigos, ou seja, com mais de 10 anos, são mais furtados. E, quando mais novos os veículos, são objetos de roubo. IMPORTANT E 4 CRIME DE ADULTERAÇÃO DE SINAL IDENTIFICADOR DE VEÍCUO AUTOMOTOR Além dos crimes de furto e roubo de veículos, outro delito que ocasionalmente encontramos quando se refere à perícia veicular é o tipo penal instituído no artigo 311, ou seja, a adulteração de sinal identificador de veículo automotor. Em conformidade ao artigo citado, vemos que é crime: Adulteração de sinal identificador de veículo automotor Art. 311 - Adulterar ou remarcar número de chassi ou qualquer sinal identificador de veículo automotor, de seu componente ou equipamento: Pena - reclusão, de três a seis anos, e multa. § 1ᵒ - Se o agente comete o crime no exercício da função pública ou em razão dela, a pena é aumentada de um terço. § 2ᵒ - Incorre nas mesmas penas o funcionário público que contribui para o licenciamento ou registro do veículo remarcado ou adulterado, fornecendo indevidamente material ou informação oficial. O delito de adulteração de sinal de veículos é um crime que independe de outro tipo penal, ou seja, de furto ou roubo de veículos e/ou do crime de receptação. Pode-se afirmar que é um crime autônomo, bastando a sua adulteração para a configuração da infração. O bem jurídico tutelado deste tipo penal, diferente dos delitos de furto e roubo, é o da fé pública. O tipo penal visa proteger a identificação do veículo e seus sinais identificadores, bem como a propriedade e segurança no registro de automóveis. Devido a isso, tem como sujeito passivo o Estado, pois é ele quem se torna prejudicado com a consumação desse delito. TÓPICO 1 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR 139 Diz-se fé pública, conforme Masson (2017), por ser necessária a credibilidade e a autenticidade de certos atos, documentos, sinais e símbolos empregados nas relações diárias. Não se trata de proteção de bens particulares e privados, mas sim na confiabilidade de documentos e atos para as relações coletivas. Para o autor, este é o motivo da tutela penal do Estado, eis que sem a fé pública, a ordem jurídica teria sérios problemas. É também um crime comum, no qual pode ser cometido por qualquer pessoa. Contudo, caso o autor do delito possua a qualidade de funcionário público, aplicam-se as majorantes dos §§ 1ᵒ e 2ᵒ. Como visto no descrito pelo Código Penal, considera-se como conduta típica deste delito, a adulteração ou remarcação de chassi ou qualquer sinal identificador de veículo automotor. Entende-se como ações nucleares do tipo penal, a adulteração (falsificação, mudança, modificação) ou remarcação (marcar novamente, tornar a marcar) qualquer sinal de identificação do veículo automotor. Quais seriam esses sinais identificadores, acadêmico? O que é um chassi? Veremos esse tema, detalhadamente, no próximo tópico desta unidade. Entretanto, podemos adiantar que, de forma análoga, um chassi e esses sinais identificadores dos veículos é como a nossa carteira de identidade. É nela que constam as informações que nos diferem das demais pessoas. Por mais que existam pessoas homônimas, isto é, com nomes iguais, comuns, por exemplo, João da Silva, o que irá diferenciá-lo dos outros são os sinais identificadores, como CPF, paternidade, maternidade, local de nascimento etc. Assim também são os veículos. Vemos diversas marcas e modelos iguais, mas são os chassis, placas do carro e a sua documentação que diferem uns dos outros. Quando há, intencionalmente, a remarcação ou adulteração desses sinais sem a devida autorização do Departamento de Trânsito, temos a caracterização deste crime. Podemos citar como exemplos mais corriqueiros, a alteração e ou violação dos números do chassi e clonagem das placas identificadoras. Acadêmico, e a fita adesiva utilizada na placa do veículo pode ser considerada uma adulteração ou remarcação de sinal identificador do veículo? Há grandes divergências jurisprudenciais e na doutrina nesse sentido. Em alguns julgados, vemos sim, que é considerada uma adulteração, independente do fim específico da conduta. Contudo, outra linha diverge no sentido de que a utilização da fita isolante é temporária e de fácil percepção por qualquer pessoa. Para estes, por ser uma adulteração temporária não configura o crime. Para nossos estudos, nos basearemos na decisão do Superior Tribunal de Justiça (2018) sobre o tema, que considera crime: UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 140 Recurso Especial. Crime de Adulteração de Sinal Identificador de Veículo Automotor. Uso de Fita Adesiva para Alterar a Placa do Automóvel. Conduta Típica. Posicionamento Consolidado do STJ. Precedentes. Parecer pelo Provimento do Recurso Especial do Ministério Público. Relator: Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, 10 de abril de 2018. Como visto, o artigo 311 do Código Penal nos diz que a conduta do sujeito ativo do crime recai sobre qualquer sinal identificar do veículo. Sendo assim, passaremos a analisar que sinais são esses no nosso próximo tópico. Vamos em frente, acadêmico! Nos artigos 114 ao 135 do Código de Trânsito Brasileiro, temos as regras de identificação, registro e licenciamento dos veículos. É imprescindível, acadêmico, que você faça uma leitura para o engrandecimento do seu estudo. Poderá consultar no site: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503.htm. DICAS 141 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Crime de furto e roubo são distintos, cada qual com sua conduta e características. • As sanções aplicadas aos agentes ativos desses crimes são individualizadas e de forma diferenciada. • Os sujeitos ativos e passivos desses delitos podem ser quaisquer pessoas, sem necessidade de qualidade específica. • Há diversos tipos penais como simples, majorados e qualificados. • Determinadas ações podem ser consideradas como típicas no crime de adulteração de sinal identificador de veículo automotor. 142 1 Sobre os crimes de Furto e Roubo, analise os itens a seguir: I- O crime de furto cujo objeto de tutela jurídica é a propriedade e a posse tem ação típica que consiste em subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel. II- Roubo qualificado, segundo o Código Penal, artigo 155, é aquele que ocorre com destruição ou rompimento de obstáculo; abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; emprego de chave falsa ou mediante concurso de duas ou mais pessoas. III- Em se tratando de furto, equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico. IV- A pena para o crime de roubo, tipificado no artigo 157, é de reclusão de quatro a dez anos, e multa. Analisados os itens, é CORRETO afirmar que: a) ( ) Apenas o item I está incorreto. b) ( ) Apenas o item II está incorreto. c) ( ) Apenas o item IV está incorreto. d) ( ) Todos os itens estão corretos. 2 João da Silva é considerado culpado pela prática do crime de roubo capitulado no Código Penal. Nos termos das normas aplicáveis, sua pena será acrescida de 1/3 quando: a) ( ) Há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. b) ( ) A subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. c) ( ) Qualificado pelo resultado lesão corporal grave ou morte. d) ( ) A violência é exercida com arma de fogo. 3 A conduta de quem utiliza fita isolante para adulteração do número de identificação da placa de veículo automotor, em conformidade com o entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça é considerada: a) ( ) Figura atípica. b) ( ) Crimede adulteração de sinal de veículo automotor, previsto no artigo 311 do Código Penal. c) ( ) Crime de falsificação de documento particular. d) ( ) Crime de falsificação de documento público. AUTOATIVIDADE 143 TÓPICO 2 ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Em um aspecto global, a criminalidade tem aumentado consideravelmente. Crimes como clonagem de veículos, adulteração, receptação de automóveis e suas peças furtadas e roubadas, desmanches etc., fazem parte, praticamente, de infrações diárias ocorridas mundialmente. Como medida de verificação da materialidade desses delitos, temos características que são insubstituíveis e imutáveis, salvo com autorização dos órgãos responsáveis, ordenadas em obediência à legislação. Diante disso, acadêmico, se passa a analisar quais são essas características, o que tratam as resoluções e normas legais sobre o assunto e como identificar esses elementos. 2 DOS SINAIS IDENTIFICADORES DE VEÍCULO AUTOMOTOR Como estudado anteriormente, o tipo penal do artigo 311 tem como objeto material a proteção do número do chassi ou outro sinal identificador de veículo automotor, de seu componente ou equipamento. Inicialmente, acadêmico, temos que definir e conceituar o que seriam esses sinais identificadores de veículo automotor. Para Nucci (2006, p. 231), “é qualquer marca inserida no veículo para individualizá-lo, ou seja, torná-lo próprio e único”. É claro que, para fins da materialização do delito, não poderá ser qualquer marca aleatória, como um adesivo, um arranhão ou um amassado que o diferencie dos demais veículos, mas sim uma marca definida pela legislação assegurando da sua autenticidade. A fim de facilitar o estudo, dividiremos esses sinais identificadores em subtópicos. Vamos ao aprendizado! 144 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 2.1 DO DOCUMENTO DO VEÍCULO O documento do veículo é outro sinal de identificação com base no Código de Trânsito Brasileiro. Conforme previsão legal dos artigos 120 e seguintes, é com o Certificado de Registro de Veículos e o seu devido licenciamento que dá a sua condição de circulação. O controle de informações dos veículos, de forma nacional e padronizada, foi instituído pelo Ministério da Justiça, com a criação do RENAVAM (Registro Nacional de Veículos Automotores). Assim, as informações sobre os veículos e proprietários ficam sob responsabilidade das Delegacias de Trânsito de cada Estado (DETRANs), que, de forma nacional, integram esse sistema automatizado. Cecere (2010, p. 24) nos descreve o procedimento de inscrição na base de índice nacional (BIN) do sistema RENAVAM e seus respectivos módulos: [...] os veículos são inseridos na Base de Índice Nacional (BIN) pelas informações fornecidas pelas montadoras (pré-cadastramento) e são utilizados pelos DETRANs na emissão dos documentos dos respectivos veículos. O Sistema RENAVAM foi concebido em módulos, com as seguintes finalidades: a) pré-cadastramento – os dados de veículos nacionais são fornecidos pelas montadoras e os de veículos importados pelas unidades aduaneiras da Secretaria da Receita Federal e são inseridos na base de Índice Nacional (BIN); b) atualização cadastral – registro de todas as atualizações ocorridas com os dados cadastrados do veículo, desde o primeiro registro até a sua baixa final, incluindo mudança de propriedade, mudança de características e transferência para outra Unidade da Federação, com ou sem troca de proprietário; c) roubos/furtos – registro através dos órgãos de segurança estaduais, das informações de ocorrência de roubo/furto, recuperação ou devolução de um veículo; d) multas – permite aos órgãos autuadores o controle e a cobrança efetiva das multas resultantes de infrações cometidas por um veículo em outra Unidade da Federação, que não a de seu licenciamento ou em Rodovias Federais; e) controle de fronteiras – controla a permanência, em território nacional, de veículos licenciados em outros países, inclusive com a cobrança de multas de infrações de trânsito cometidas por seus condutores, e a saída de veículos licenciados no país para o estrangeiro; f) estatísticas – a partir das informações disponíveis, são geradas estatísticas, que ficam disponíveis em terminais para consultas e em relatórios editados periodicamente; g) consultas – permitem o acesso às informações existentes por qualquer usuário devidamente credenciado pelo DENATRAN; h) controle gerencial – fornece ao DENATRAN informações atualizadas sobre o processamento do sistema, permitindo o controle sobre quem acessa ou fornece as informações. TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 145 A implantação do sistema nacional foi um grande marco e um dos principais avanços acerca da fiscalização por parte dos Estados, eis que anteriormente não se tinha acesso a outras bases de dados, o que acabava por permitir a circulação de veículos com documentos fraudulentos. É diante dessas informações que os DETRANs estaduais emitem os CRV (Certificado de Registro do Veículo) e o CRLV (Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo). A seguir, vislumbra-se um documento de veículo: FIGURA 1 – DOCUMENTO DE VEÍCULO FONTE: <http://twixar.me/x9mm>. Acesso em: 4 jun. 2020. Como se vê, temos um campo específico para a inserção do código RENAVAM e outro para placa de identificação, que deve ser a mesma comparando-a com a placa física no veículo. Ainda, como segurança documental, o papel utilizado para impressão é emitido pela Casa da Moeda com marcas de segurança, como a estampa latente na lateral direita e o relevo em todo documento. 146 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 2.2 VIN – NÚMERO DE IDENTIFICAÇÃO VEICULAR OU CHASSI O Código de Trânsito Brasileiro (1997), em seu artigo 114, nos diz que: Art. 114. O veículo será identificado obrigatoriamente por caracteres gravados no chassi ou no monobloco, reproduzidos em outras partes, conforme dispuser o CONTRAN. § 1ᵒ A gravação será realizada pelo fabricante ou montador, de modo a identificar o veículo, seu fabricante e as suas características, além do ano de fabricação, que não poderá ser alterado. § 2ᵒ As regravações, quando necessárias, dependerão de prévia autorização da autoridade executiva de trânsito e somente serão processadas por estabelecimento por ela credenciado, mediante a comprovação de propriedade do veículo, mantida a mesma identificação anterior, inclusive o ano de fabricação. § 3ᵒ Nenhum proprietário poderá, sem prévia permissão da autoridade executiva de trânsito, fazer, ou ordenar que se faça, modificações da identificação de seu veículo. Art. 115. O veículo será identificado externamente por meio de placas dianteira e traseira, sendo esta lacrada em sua estrutura, obedecidas as especificações e modelos estabelecidos pelo CONTRAN. § 1ᵒ Os caracteres das placas serão individualizados para cada veículo e o acompanharão até a baixa do registro, sendo vedado seu reaproveitamento. Diante disso, como menciona nossa legislação vigente, a identificação do veículo se dá pelos caracteres gravados no chassi ou no monobloco e, de forma externa, pelas placas traseira e dianteira. Mesmo havendo diversos modelos de automóveis igual ao seu, é o VIN (número de identificação veicular), que vai identificar e tornar o seu veículo único. No Brasil, é também chamado por chassi. É composto de três partes: identificador do fabricante mundial; seção descritiva do veículo e; seção indicadora do veículo. De forma detalhada, ele é caracterizado por uma sequência alfanumérica de 17 caracteres, que compõe as informações do modelo, onde e quando ele foi produzido. O padrão adotado pelo Brasil é o mesmo para todo o mundo. Vamos passar à análise do chassi e de como fazer sua leitura: TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 147 FIGURA 2 – LEITURA DE CHASSI FONTE:<https://revistacarro.com.br/wp-content/uploads/2019/11/N%C3%BAmero-do-chassi_ carro-1024x614.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. Como podemos perceber, o primeiro número se refere à área geográfica. O segundo caractere é do país de origem. Por seguinte, o terceiro caractere se trata da marca do veículo, seguido pelo modelo, versão e motorização. Após, o ano/modelo do veículo, seguido pela planta de fabricação. E, por fim, o número de série. No intuito de prevenção ao comércio ilegal de peças, delito geralmente praticado após o furto e/ou roubo do veículo e anterior ao crime de receptação, outros componentes do veículo podem possuir o número identificador, como: o motor, vidros, caixa de marcha e demais peças. A fim de complementar o descrito pelo Código de Trânsito, as Resoluções do CONTRAN (Conselho Nacional de Trânsito) estabelecem quais são os principais pontos de identificação veicular. Vejamos: a) motor do veículo; b) a gravação do número sequencial de produção (setor VIS do número VIN) em seis dos seus vidros (para-brisa, vidro traseiro e dois laterais de cada lado), quando existentes, de acordo com o tipo de veículo. c) a gravação numérica de identificação sequencial de produção do automóvel (VIS) em chapas ou plaquetas destrutíveis quando da tentativa de remoção (localizadas no batente da porta dianteira direita e no compartimento do motor), quando existentes, conforme o tipo de veículo. d) a colocação numérica de identificação do veículo (VIN) na estrutura do veículo, na profundidade mínima de 0,2 mm, em um ou dois pontos, conforme o tipo de veículo. e) as placas de identificação do veículo. Ele pode ser encontrado em diversos pontos do veículo automotor. Observe a imagem: 148 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES FIGURA 3 – VIN – LOCALIZAÇÃO DO VIN NOS VEÍCULOS DE PASSEIO NACIONAL FONTE: <https://reader015.pdfslide.net/reader015/html5/0301/5a976868e984b/5a9768833b97f.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. Ressalta-se que as siglas abordadas nas resoluções do CONTRAN, VIS e VIN significam, respectivamente, número sequencial de produção e número de identificação veicular (chassi). 2.3 PLACAS DE IDENTIFICAÇÃO DO VEÍCULO Outro elemento de identificação são as placas do veículo, hoje, adotadas pelo Brasil, em dois modelos: o antigo e o padrão Mercosul. No padrão antigo, temos os modelos e especificações definidos pela Resolução do CONTRAN nᵒ 231/2007, com alterações realizadas pelas Resoluções 241, 288, 309, 372 e pelas Deliberações 74/08; 122/11 e 176/19. Extrai-se: Art. 1ᵒ Após o registro no órgão de trânsito, cada veículo será identificado por placas dianteira e traseira, afixadas em primeiro plano e integrante do mesmo, contendo 7 (sete) caracteres alfanuméricos individualizados sendo o primeiro grupo composto por 3 (três), resultante do arranjo, com repetição de 26 (vinte e seis) letras, tomadas três a três, e o segundo grupo composto por 4 (quatro), resultante do arranjo, com repetição, de 10 (dez) algarismos, tomados quatro a quatro. § 1ᵒ Além dos caracteres previstos neste artigo, as placas dianteira e traseira deverão conter, gravados em tarjetas removíveis a elas afixadas, a sigla identificadora da Unidade da Federação e o nome do Município de registro do veículo, exceção feita às placas dos veículos oficiais, de representação, aos pertencentes a missões diplomáticas, às repartições consulares, aos organismos internacionais, aos funcionários estrangeiros administrativos de carreira e aos peritos estrangeiros de cooperação internacional. [...] § 3ᵒ A placa traseira será obrigatoriamente lacrada à estrutura do veículo, juntamente com a tarjeta, em local de visualização integral. § 4ᵒ Os caracteres das placas de identificação serão gravados em alto relevo. As especificações técnicas para as placas de identificação constam no anexo da resolução citada, com as devidas atualizações já citadas. Ali se pode encontrar altura, comprimento, cor da placa, lacre. Vejamos: TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 149 Anexo Especificações técnicas para as placas de identificação de veículos: 1- Veículos particulares, de aluguel, oficial, de experiência, de aprendizagem e de fabricante serão identificados na forma e dimensões em milímetros das placas traseiras e dianteira, conforme figura nᵒ 1 nas dimensões: a) Altura (h) = 130 b) Comprimento (c) = 400 c) Quando a placa não couber no receptáculo a ela destinado no veículo o DENATRAN poderá autorizar, desde que devidamente justificado pelo seu fabricante ou importador, redução de até 15% (quinze por cento) no seu comprimento, mantida a altura dos caracteres alfanuméricos e os espaços a eles destinados. 2- Dimensões dos caracteres da placa em mm: Altura (h) = 63; espessura do traço (d) = 10 s = discriminado na tabela a seguir. 3- motocicleta, motoneta, ciclomotor e triciclos motorizados serão identificados nas formas e dimensões da figura nᵒ 2 deste Anexo. a) dimensões da placa em milímetros: h = 136; c= 187 b) dimensões dos caracteres da placa em milímetros: h = 42; d = 6 s = discriminado na tabela a seguir. 3.1- Motocicleta, motoneta, ciclomotor e triciclos motorizados, fabricados ou quando da mudança de município, a partir de 1o de abril de 2012, serão identificados nas formas e dimensões da figura nᵒ 2 deste Anexo. a) dimensões da placa em milímetros: h = 170; C = 200 b) Altura do corpo dos caracteres da placa em milímetros: h = 53. 4- A Tipologia dos caracteres das placas e tarjetas devem seguir o modelo abaixo especificado na fonte: Mandatory 150 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES As cores utilizadas para placas e caracteres deverão manter seu contraste em todo período de vida útil de utilização do veículo. 5.2- Sistema de Pintura: Utilização de tinta exclusivamente na cobertura dos caracteres alfanuméricos das placas e tarjetas veiculares, podendo ser substituída por produtos adesivos com aplicação por calor para a mesma finalidade. 6- dimensões dos caracteres das tarjetas em milímetros: 5- Especificações das Cores e do Sistema da Pintura 5.1- Cores TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 151 7- O código de cadastramento do fabricante da placa e tarjeta será composto por um número de três algarismos, seguida da sigla da Unidade da Federação e dos dois últimos algarismos do ano de fabricação, gravado em alto ou baixo relevo, em cor igual a do fundo da placa e cujo conjunto de caracteres deverá medir em milímetros: a) placa: h = 8; c = 30 b) tarjeta: h = 3; c = 15 8- Lacre: os veículos após identificados deverão ter suas placas lacradas à estrutura, com lacres de uso exclusivo, em material sintético virgem (polietileno) ou metálico (chumbo). Estes deverão possuir características de inviolabilidade e identificado o Órgão Executivo de Trânsito dos estados e do Distrito Federal em sua face externa, permitindo a passagem do arame por seu interior. - dimensões mínimas: 15 x 15 x 4 mm. 9- Arame: O arame galvanizado utilizado para a lacração da placa deverá ser trançado. - dimensões: 3 X BWG 22 (têmpera mole). 10- Material: I- O material utilizado na confecção das placas de identificação de veículos automotores poderá ser chapa de ferro laminado a frio, bitola 22, SAE I 008, ou em alumínio (não galvanizado) bitola 1 mm. II- O material utilizado na confecção das tarjetas, dianteiras e traseiras, poderá ser em chapa de ferro, bitola 26, SAE 1008, ou em alumínio bitola 0,8. III- Uso de películas. A película refletiva deverá cobrir integralmente a superfície da placa sendo flexível com adesivo sensível à pressão, conformável para suportar elongação necessária no processo produtivo de placas estampadas. Os valores mínimos de refletividade da película, conforme norma ASTM E-810, devem estar de acordo com a tabela a seguir e não poderão exceder o limite máximo de refletividade de 150 cd/lux/m2 no ângulo deobservação de 1,5ᵒ, para os ângulos de entrada de -5ᵒ e +5ᵒ, -30ᵒ e +30ᵒ, -45ᵒ e +45ᵒ: Tabela 1. Valores mínimos de retrorrefletividade, medido em cd/lux/m2 152 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES A referência de cor é estipulada na Tabela 2 a seguir, em que os quatro pares de coordenadas de cromaticidade deverão determinar a cor aceitável nos termos do Sistema Colorimétrico padrão CIE 1931, com iluminante D65 e Método ASTM E-1164 com valores determinados em um equipamento Espectrocolorimetro HUNTER LAB LABSCAN II 0/45, com opção CMR559, avaliação esta realizada de acordo com a norma E-308. Especificação do coeficiente mínimo de retrorrefletividade em candelas por Lux por metro quadrado (orientação 0 e 90ᵒ). Os coeficientes de retrorrefletividade não deverão ser inferiores aos valores mínimos especificados. As medições serão feitas de acordo com o método ASTME-810. Todos os ângulos de entrada, deverão ser medidos nos ângulos de observação de 0,2ᵒ e 0,5ᵒ. A orientação 90ᵒ é definida com a fonte de luz girando na mesma direção em que o dispositivo será afixado no veículo. Tabela 2. Pares de coordenadas de cromaticidade e luminância O Adesivo da película refletiva deverá atender às exigências do ensaio de adesão conforme Norma ASTM D 4956. A película refletiva deverá ser homologada pelo DENATRAN e ter suas características atestadas por entidade reconhecida por este órgão e deverá exibir em sua construção uma marca de segurança comprobatória desse laudo com a gravação das palavras APROVADO DENATRAN, com 3 mm (três milímetros) de altura e 50 mm (cinquenta milímetros) de comprimento, ser legível em todos os ângulos, indelével, incorporada na construção da película, não podendo ser impressa. A marca de segurança deverá aparecer, no mínimo, duas vezes em cada placa, conforme figuras ilustrativas a seguir: TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 153 11- Codificação das cores dos caracteres alfanuméricos: COR CÓDIGO RAL BRANCO 9010 PRETO 9011 12- O ilhós ou rebites utilizados para a fixação das tarjetas deverá ser em alumínio. (MÍNIMO) ESPAÇO DESTINADO AOS CARACTERES ALFABÉTICOS ESPAÇO DESTINADO AOS CARACTERES NUMÉRICOS (MÍNIMO) (MÍNIMO) FURO ORLONGO DE 6 x 6 SEPARADOR TARJETA REBAIXO PARA FIXAÇÃO DA TARJETA 8 8 13 0 8 2010 316 410 400 85 85 166152 10 6 9 10 3 2211 8 16 10 01 05 1010 R – 3 0 8 FONTE: CONTRAN. Resolução nᵒ 231, de 15 março de 2007. Estabelece o Sistema de Placas e Identificação de Veículos. Disponível em: https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=106667. Acesso em: 9 jun. 2020. 154 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES Ressalta-se, acadêmico, que esse modelo deixará de ser utilizado a partir de 1ᵒ de janeiro de 2024, o qual foi revogado pela Resolução 729/18. Dito isso, o modelo padrão Mercosul será o único adotado, salvo atualizações futuras. A citada resolução nos traz informações a respeito dessas mudanças. A seguir, colacionamos as novas diretrizes: Art. 1ᵒ - Estabelecer sistema de Placas de Identificação de Veículos no padrão disposto na Resolução MERCOSUL do Grupo Mercado Comum nᵒ 33/2014. § 1ᵒ Após o registro no respectivo Órgão ou Entidade Executivo de Trânsito do Estados ou do Distrito Federal, cada veículo será identificado por Placas de Identificação Veicular –PIV dianteira e traseira, no padrão estabelecido para o MERCOSUL, de acordo com os requisitos estabelecidos nesta Resolução. § 2ᵒ. Os reboques, semirreboques, motocicletas, triciclos, motonetas, ciclo elétricos, quadriciclos, ciclomotores e tratores destinados a puxar ou arrastar maquinaria de qualquer natureza ou a executar trabalhos agrícolas e de construção, de pavimentação ou guindastes, estes quando couber, serão identificados apenas por placa traseira. § 3ᵒ. As Placas de Identificação Veicular de que trata o caput deste artigo deverão: I- Ter fundo branco com a margem superior azul, contendo ao lado esquerdo o logotipo do MERCOSUL, ao lado direito a Bandeira do Brasil e ao centro o nome BRASIL; II- Ser afixadas em primeiro plano, sem qualquer tipo de obstrução a sua visibilidade e legibilidade; III- Conter 7 (sete) caracteres alfanuméricos estampados em alto relevo, com combinação aleatória, a ser fornecida e controlada pelo DENATRAN, com o último caractere obrigatoriamente numeral e com distribuição equânime. § 4ᵒ. As especificações das Placas de Identificação Veicular de que trata o caput deste artigo constam no Anexo I desta Resolução. § 5ᵒ. É obrigatório o uso da segunda placa traseira de identificação lacrada nos veículos equipados com engates para reboques, ou transportando carga autorizada por outras regulamentações do CONTRAN, que cobrirem, total ou parcialmente, a placa traseira do veículo, devendo ser disposta em local visível, ao lado direito da traseira do veículo, podendo ser instalada no para-choque ou na carroceria, admitida a utilização de suportes adaptadores, lacrada na parte estrutural do veículo em que estiver instalada. § 6ᵒ. Estarão dispensadas da utilização dos lacres de segurança as placas que possuírem tecnologia que permita a identificação do veículo, nos termos do § 9ᵒ do art. 115 do Código de Trânsito Brasileiro, em conformidade com o Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos –SINIAV, desde que atendidas às especificações quanto à sua funcionalidade, segurança e interoperabilidade estabelecidas pelo CONTRAN, devendo ser observados os seguintes aspectos: I- As placas de identificação veicular – PIV deverão ser submetidas ao processo de homologação junto ao DENATRAN, para fins de garantia de sua funcionalidade, segurança e interoperabilidade, segundo as especificações do SINIAV, na forma regulamentada pelo CONTRAN. II- Os testes realizados com o chip embarcado na PIV, cuja personalização e criptografia em favor do DENATRAN possuirão o caráter de um selo fiscal federal, terão validade para fins de homologação de fornecedor de tecnologia SINIAV. TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 155 Art. 2ᵒ As Placas de Identificação Veicular deverão ser revestidas no seu anverso com película retrorrefletiva, sendo recobertas nas áreas estampadas, da combinação alfanumérica e bordas, com filme térmico aplicado por processo de estampagem por calor (hot stamp), contendo inscrições das palavras “MERCOSUR BRASIL MERCOSUL”, nos termos do Anexo I desta Resolução. [...] Art. 7ᵒ Todas as placas de identificação veicular deverão possuir códigos de barras bidimensionais dinâmicos (Quick Response Code -QR Code) contendo números de série e acesso às informações do banco de dados do fabricante, especificados no Anexo I desta Resolução, com a finalidade de controlar a produção, logística, estampageme instalação das placas nos respectivos veículos, além da verificação da autenticidade das placas. Parágrafo Único –Todos os processos que envolverem a produção de placas de identificação veicular deverão incluir a informação dos seriais das placas utilizados, na forma a ser prevista no Manual do RENAVAM. Art.8ᵒ A Placa de Identificação Veicular no padrão MERCOSUL deverá ser implementada até 31 de dezembro de 2023, pelos Órgãos ou Entidades Executivos de Trânsito dos Estados e do Distrito Federal. Diante dessa alteração, a ser implementada até dia 31 de dezembro de 2023, as placas padrão Mercosul terão o aspecto a seguir. Atualmente, já podemos observar alguns veículos transitando com esse novo modelo. FIGURA 4 – PLACA DE VEÍCULO PADRÃO MERCOSUL 156 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES FIGURA 5 – PLACA DE MOTOCICLETAS, TRICICLOS, MOTONETAS, QUADRICICLOS, CICLO ELÉTRICOS E CICLOMOTORES FONTE: <https://infraestrutura.gov.br/images/Resolucoes/Resolucao7292018.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 2 | ELEMENTOS IDENTIFICADORES DOS VEÍCULOS 157 Algumas características de segurança devemser observadas, como as cores e marcas d´água da película retrorrefletiva. FIGURA 6 – CORES DA PLACA E MARCA D´ÁGUA FONTE: <https://infraestrutura.gov.br/images/Resolucoes/Resolucao7292018.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. 158 UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES Por fim, por ser também um elemento identificador, caso haja duplicidade nas placas dos veículos se pode constatar uma clonagem do automóvel ou até a falsificação e/ou adulteração na sua produção. Para informações das especificações da placa padrão Mercosul, como altura, largura, cor, fixação da placa etc., acesse o site: https://infraestrutura.gov.br/images/ Resolucoes/Resolucao7292018.pdf e consulte os seus anexos. DICAS Agora que você já aprendeu quais são os sinais identificadores dos veículos, acadêmico, faça as autoatividades para fixação do conteúdo. 159 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Há determinados elementos capazes de identificar um veículo. • Um chassi possui diversos pontos capazes de reconhecer a sua identificação. • A sequência alfanumérica de chassi possui um significado e não é somente um número aleatório. • O RENAVAM possui um conceito e finalidade. • As características, exigências e especificações das placas de identificação de veículo existem para a sua identificação e possuem o propósito de garantir a segurança de propriedade. 160 AUTOATIVIDADE 1 Para a configuração de adulteração de sinais identificadores de veículos é preciso que estejam presentes algumas características. Com base nessa afirmação, analise as assertivas a seguir: I- É preciso que estejam presentes, sem exceção, todos os sinais identificadores, como: número de chassi, documentação do veículo e adulteração da placa. II- Basta a presença de apenas um sinal identificador. III- É necessário, pelo menos, dois sinais identificadores. IV- Deve haver a presença de adulteração de chassi juntamente com qualquer outro sinal identificador. Agora, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a I está correta. b) ( ) Apenas a II está correta. c) ( ) As assertivas III e IV estão corretas. d) ( ) Apenas a assertiva IV está correta. 2 Atualmente, temos no Brasil dois modelos de placas de identificação de veículos, o modelo antigo e o padrão Mercosul. Quanto às características do modelo padrão Mercosul, assinale V para VERDADEIRO e F para FALSO nas afirmações a seguir: ( ) Há marcas d´água de película retrorrefletiva. ( ) As cores definidas podem sofrer diferenças em decorrência da disponibilidade dos fornecedores. ( ) Devem ser implementadas em todo território nacional até a data de 31 de dezembro de 2023. ( ) O modelo deixará de ser utilizado a partir de 1ᵒ de janeiro de 2024. Está CORRETA a alternativa com a seguinte ordem: a) ( ) V, F, V, F. b) ( ) V, V, F, F. c) ( ) V, F, F, F. d) ( ) V, F, V, V. 3 O VIN – número de identificação veicular –, também chamado por CHASSI, no Brasil, é caracterizado por uma sequência alfanumérica de 17 caracteres. Essa sequência é dividida em três partes. Assinale a alternativa abaixo que corresponde essa divisão: a) ( ) Compõe a identificação do motor, vidros e caixa de marcha. b) ( ) Compõe a numeração do motor, dos vidros e eixos. c) ( ) Compõe a identificação do fabricante mundial, a seção descritiva do veículo e a seção indicadora do veículo. d) ( ) Compõe a numeração do CHASSI, o documento do veículo e as placas de identificação. 161 TÓPICO 3 FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Os critérios de identificação de veículos utilizados no Brasil ocorrem da mesma forma há vários anos. Com isso, por serem bastante conhecidos, a sua prática de adulteração se tornou fácil e corriqueira. Percebe-se que os crimes mais comuns são os de alteração e/ou violação dos números do chassi, além das clonagens das placas identificadoras. Na sua maioria, os números são incompatíveis com os apresentados no CRLV (certificado de registro e licenciamento de veículo). Com essa forma de criminalidade, temos como consequências um valor elevado dos seguros de veículos em decorrência de maiores casos de furtos e roubos, um custo econômico com atividades de política criminal, e ainda, gastos empregados pela sociedade civil em segurança. Dito isso, passaremos à análise dessas adulterações. 2 IDENTIFICAÇÃO DA ADULTERAÇÃO NOS VEÍCULOS Como se viu até agora, acadêmico, muitos veículos são objetos de furtos e roubos para diversas finalidades. Caccavali (2006) apresenta três: • Ser utilizado para a realização de outros delitos e abandonado posteriormente, sendo devolvido ao verdadeiro proprietário após sua localização, sem alteração dos respectivos pontos de identificação. • Ser comercializado com outra identificação após a adulteração dos respectivos pontos de identificação. • Ser desmontado para comercialização de suas peças com a destruição dos respectivos pontos de identificação. Para o estudo do presente tópico, abordaremos apenas as suas formas de adulteração, não ingressando nas demais temáticas. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 162 2.1 ADULTERAÇÃO DO DOCUMENTO DO VEÍCULO Partindo da ideia de um furto ou roubo de um veículo, após realizada as adulterações nas peças de identificação, Cecere (2010) demonstra que, para o veículo adquirir condições de venda novamente, é preciso que ele apresente um documento correspondente à nova identificação. Em razão disso, é imprescindível a realização do exame da documentação do veículo. Para assegurar a autenticidade dos documentos do veículo, o autor ainda divide o procedimento em três etapas. Vejamos: • A primeira constitui na verificação da originalidade do “espelho”. Denomina- se “espelho” o documento impresso com os campos estruturados a serem preenchidos com os dados do veículo e do proprietário. O Ministério das Cidades providencia a impressão desses espelhos e distribui para os diversos Estados da União conforme a necessidade. Cada Estado é responsável pela custódia e preenchimento destes espelhos. O espelho onde são impressos os dados relativos ao veículo apresenta diversos dispositivos de segurança, destacando- se a impressão por calcografia, imagem latente, fundo com impressão offset, filigrana, fundo invisível, microtexto, papel de segurança e número identificador. Trata-se de uma peça com elevado nível técnico de confecção e de segurança, necessitando do examinador um treinamento específico e o uso de equipamentos adequados para verificação de sua autenticidade. Em operações de fiscalização de campo, dificilmente o agente terá condições e tempo de realizar o exame utilizando todos os recursos necessários, focando sua verificação em vestígios de adulteração mais evidentes, como rasuras na identificação do número do espelho e do Estado emissor e a ausência de calcografia e imagem latente. • A segunda verifica a autenticidade dos dados inseridos no documento. Com a implantação do sistema RENAVAM, pode-se verificar a autenticidade dos dados existentes no documento do veículo apresentado quando da atuação fiscalizadora. Dentre os diversos dados cadastrais existentes nesse documento, as principais informações a serem confrontadas pelo agente fiscalizador, tendo como base de pesquisa a placa de identificação, são as características do veículo, seu número de identificação (VIN), a data de impressão do documento e o número de identificação do espelho. Em alguns Estados da União, o respectivo DETRAN insere no documento a respectiva identificação do motor do veículo. • Finalmente, na terceira etapa temos a verificação da autenticidade da forma de preenchimento do documento. A maioria dos DETRANs do Brasil preenche os documentos dos veículos por meio de sistema automatizado, deixando nesta impressão características que permitem o seu rastreamento. Com treinamento específico, o agente fiscalizadorpode determinar se o documento examinado atende às características de impressão do respectivo DETRAN. Com isso, a primeira etapa é na verificação da originalidade do papel e seus dispositivos de segurança, seguido pela observação da autenticidade dos dados preenchidos e, finalizando com a autenticidade da forma de preenchimento. TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 163 Na verificação da originalidade do papel, o perito deve se ater aos diversos dispositivos de segurança, como a impressão por calcografia, imagem latente, fundo com impressão offset, filigrana, fundo invisível, microtexto, papel de segurança e número identificador. A impressão por calcografia é a mesma forma para impressão das cédulas de dinheiro e documentos de identificação. É realizada através de um processo de aquecimento entre 40 ᵒC e 50 ᵒC que visa garantir o preenchimento dos grafismos da forma de impressão. Essa forma de produção permite um relevo característico ao papel e possui diversas vantagens com relação à segurança, o que dificulta bastante a sua falsificação. Na figura a seguir, podemos observar os diversos tipos de segurança: FIGURA 7 – DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA DOCUMENTO VEICULAR FONTE: <https://infraestrutura.gov.br/images/Resolucoes/Resolucao7292018.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 164 FIGURA 8 – PERSONALIZAÇÃO ELETRÔNICA FONTE: <https://infraestrutura.gov.br/images/Resolucoes/Resolucao7292018.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. Para acessar as características, tamanho, fonte de preenchimento e demais especificidades, este é o link: http://infraestrutura.gov.br/images/Resolucoes/ Resolucao5992016R.pdf. DICAS Como se vê, há diversas maneiras de adulteração de um documento de veículo, entretanto, o mais comum é o adulterador utilizar um “espelho” original – furtado ou extraviado do DETRAN –, e preencher com os dados de identificação do veículo adulterado. TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 165 2.2 ADULTERAÇÃO DO NÚMERO DO CHASSI Como já abordado no Tópico 2, Subtópico 2.2, quando trata dos sinais de identificação do veículo, temos o número VIN, o qual trataremos pela expressão costumeira “número do CHASSI”. A adulteração do número de identificação ocorre de diversas maneiras, tanto na parte exterior, como interior do veículo. Além do CHASSI, pode-se encontrar modificações, rasuras, adulterações nos acessórios ou componentes do veículo que também apresentam a identificação, como: vidros, caixa de marcha, eixo. O processo de adulteração é compreendido por meio de várias condutas, podendo ocorrer através de ausência de numeração de chassi, da sua regravação, adulteração simples, substituição de peça, remontagem, enfim, diversas ações de modificação. Caccavali (2006), exemplifica as ações: • AUSÊNCIA DA NUMERAÇÃO DE CHASSI: neste processo a numeração do chassi é removida por meio de uso de instrumento atuante a guisa de abrasivo, de percussão ou de corte, com o objetivo de dificultar a identificação do veículo. • REGRAVAÇÃO: consiste na remoção parcial ou total da numeração de identificação do veículo, normalmente por meio do uso de instrumento abrasivo, para posterior gravação de outra numeração. • ADULTERAÇÃO SIMPLES: é aquela em que um ou mais caracteres sofre a alteração em sua configuração inicial por meio de rebatimento por sobreposição, dando origem a leitura de outro. É o caso da alteração do caractere “3” para “8”, “5” para “6”, “F” para “E”, “P” para “R” e outros. • RECOBRIMENTO DA PEÇA SUPORTE: é o recobrimento parcial ou total da numeração de identificação do chassi por meio do uso de massa plástica, estanho etc., para posterior gravação de outra numeração. • COLOCAÇÃO DE CHAPA METÁLICA SOBRE A SUPERFÍCIE DA GRAVAÇÃO ORIGINAL: consiste no recobrimento parcial ou total da numeração de identificação do CHASSI por meio de chapa metálica (utilizando solda ou material adesivo) onde será efetuada a nova gravação de identificação do veículo. • SUBSTITUIÇÃO DA PEÇA SUPORTE: neste processo ocorre a substituição parcial ou total da região onde se encontra gravada a numeração de identificação do CHASSI. Também conhecida no meio policial como “transplante” ou “implante”. • OCULTAÇÃO DA NUMERAÇÃO ORIGINAL E REGRAVAÇÃO PRÓXIMA AO LOCAL: consiste na remoção da numeração original do CHASSI e regravação em local próximo. Este processo também é utilizado nos casos em que o local da gravação da numeração de identificação do chassi sofreu alteração pela montadora. • REMONTAGEM: é o aproveitamento de uma das partes do veículo, dianteira ou traseira, onde se encontra a gravação do chassi para ser remontada em veículo produto de furto ou roubo. Para ilustrar melhor as situações, a seguir podemos visualizar algumas imagens: UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 166 FIGURA 9 – REMARCAÇÃO DE CHASSI FONTE: <https://www.certilaudo.com.br/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://www. certilaudo.com.br/wp-content/uploads/chassi-adulterado.jpg&w=756&h=274>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 10 – RASPAGEM DE CHASSI Toyota 4-Runnwe, ano 1992. Marcação do chassi adulterado: JT111VND009098708. Dígitos falsos <9 8 7><8>, dígitos originais <1 7 4><7>. Marcação recuperada do chassi: JT111VND009017407 FONTE: <http://www.certilaudo.com.br/wp-content/themes/basic/themify/img.php?src=http://www. certilaudo.com.br/wp-content/uploads/raspagem-de-chassi.jpg&w=756&h=274>. Acesso em: 4 jun. 2020. Destas ações, em uma pesquisa realizada por Cecere junto ao Instituto de Criminalística de São Paulo (2010, p. 30), se concluiu que os tipos de adulterações podem ser divididos em três grandes ramos, ou seja: a regravação na qual o adulterador modifica todos os pontos de identificação de um veículo produto de furto/roubo, transformando-o em um “dublê” de um veículo existente e em condições normais de circulação, o transplante ou implante, ou seja, o adulterador possui um veículo legalizado que, por algum motivo apresenta baixo valor comercial (acidente de trânsito, por exemplo), e retira deste veículo todos seus pontos de identificação, implantando em outro veículo produto de furto/roubo e a ausência da numeração do chassi, onde não se deseja modificar as identificações do veículo para futura comercialização, promovendo, apenas, a destruição dos seus pontos de identificação com o objetivo de dificultar a obtenção de sua identificação original. TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 167 Diante disso, quando se há um veículo objeto de furto e/ou roubo, o adulterador não irá revendê-lo com as informações originais, pois será facilmente encontrado pela polícia. Em decorrência, irá modificar os sinais de identificação para esconder que é fruto de uma ação ilícita. Como se viu, o sistema Renavam não permite a inserção de um número qualquer, ou seja, a criação de um novo, sendo assim, o adulterador utilizará de um veículo já existente, criando assim um “veículo dublê”. Para atestar essa adulteração, a ação pode ser observada, segundo Cecere (2010, p. 32) pelo: [...] revestimento de e pintura que recobre a região da gravação do número de identificação do veículo utilizando-se solvente adequado, uma vez que a pintura original do fabricante não sofre a ação deste solvente, pela verificação do verso da chapa onde se encontra a gravação, buscando vestígios de rebatimento, pela análise do processo de confecção da gravação (cunhagem, ponto a ponto, ponto sobre ponto e a laser) e pela configuração dos respectivos caracteres e ainda corroborada pelo ataque químico (exame metalográfico) na respectiva superfície de gravação, objetivando a revelação de caracteres latentes. Outra forma de adulteração é o transplante do número de identificação através de soldas realizadas na carroceira do veículo. Observa-se: FIGURA 11 – TÉCNICAMAGRAIDER – TRANSPLANTE DO VIN FONTE: <https://www.assindelp.org.br/files/conteudo_arquivo/12175/identificacao- veicular-m05.pdf>. Acesso em: 8 jun. 2020. Ainda, além destas, podemos observar a adulteração do número identificador pelos vidros dos veículos, pelo número sequencial de produção gravado nas etiquetas de identificação e número de identificação do motor. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 168 2.3 ADULTERAÇÃO DA PLACA DE IDENTIFICAÇÃO As placas de identificação de veículos são, geralmente, as falsificações e/ ou adulterações mais fáceis de se perceber, não necessitando tanto de um rigor técnico para a sua observação, isso porque, são mais visíveis. Entretanto, em nada diminui a gravidade lesiva da ação. Essas adulterações podem partir, de como dito no Tópico 1, desde uma fita isolante acrescida na numeração para a sua alteração, como por exemplo, transformar um número 3 para 8 ou 6 para 8, letras F para E, como no caso da imagem abaixo, até a utilização de placas ´frias´ ou com lacre falsificado. FIGURA 12 – ADULTERAÇÃO DAS LETRAS COM FITA ISOLANTE FONTE: <https://www.portalaz.com.br/arquivos/5d82775b57807.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2020. FIGURA 13 – ADULTERAÇÃO GROSSEIRA DOS CARACTERES ALFANUMÉRICOS FONTE: <https://files.nsctotal.com.br/styles/paragraph_image_style/s3/imagesrc/23817548.jpg?GFb57 KghD7T9lPkaZVkH08sg7WF9Bg.i&itok=KIz-xm1S&width=750>. Acesso em: 4 jun. 2020. TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 169 Esse tipo de adulteração das placas, em sua grande maioria, ocorre para burlar a fiscalização de trânsito, como radares, rodízios de veículos e, também, no intuito de praticar outros crimes sem que sejam os autores responsabilizados. Outra espécie de delito que envolve as placas de identificação, segundo Cecere (2010, p. 31), é o caso de encontrar um veículo ilícito (adulterado ou produto de furto/roubo) com as placas de identificação original. Neste caso, a placa corresponde ao veículo original e foi produzido dentro dos critérios previstos na legislação, inclusive com uso do lacre, ocasionando a existência de duas placas de identificação originais com a mesma série alfanumérica, sendo um instalado no veículo original e o outro no veículo ilegal. O problema do caso citado acima está diretamente relacionado com o serviço de confecção de placas e lacração dos veículos. Esse serviço é prestado de forma terceirizada por empresas particulares, vinculadas aos órgãos de fiscalização dos Estados. Ocorrendo comprovações de quaisquer casos de irregularidades ou ilicitudes, essas empresas são responsabilizadas e descredenciadas junto ao Departamento de Trânsito estadual. Ainda, temos como outras hipóteses de adulteração das placas de identificação, como o lacre e o respectivo arame e as devidas características de fabricação, conforme previstas na legislação e já explanadas no Tópico 1. Após todo o exposto, acadêmico, encerramos a nossa Unidade sobre Perícia Veicular. Faça as autoatividades descritas para melhor fixação do conteúdo. Bons estudos! UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 170 LEITURA COMPLEMENTAR RECEPTAÇÃO E CRIMES ANTECEDENTES: A ADULTERAÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR COMO CRIME ANTERIOR PARA CONFIGURAÇÃO DA INFRAÇÃO PENAL DE RECEPTAÇÃO Nathan Glina INTRODUÇÃO O crime de receptação, delito de natureza patrimonial em que, em busca do lucro fácil, o receptador estimula e fomenta a prática de inúmeros outros delitos, inclusive aqueles praticados com violência ou grave ameaça contra a pessoa, foi tipificado pelo legislador no art. 180 do Código Penal com a elementar de que, necessariamente, para sua caracterização, além da prática de algum dos verbos do tipo penal incriminador, tenha ocorrido um crime anterior, e o agente saiba que a coisa que recepta é produto de crime. Não é incomum o Promotor de Justiça se deparar com inquéritos policiais em que há a apreensão de veículo automotor com seus sinais identificadores adulterados, sendo tão profissional a forma de execução desse delito, que a perícia realizada pela autoridade policial não elucida os números originais, por exemplo, de motor e chassis, inviabilizando-se a prova direta por meio de laudo técnico, de que se trate de produto de crime patrimonial anterior. Nesses casos, quando for desconhecida a autoria do crime de adulteração do sinal identificador do veículo, o delito remanescente, pelo qual o Promotor de Justiça pode promover o início da persecução penal em Juízo, é o de receptação, caso identificado quem praticou tal crime, como aquele que recebeu, adquiriu ou conduzia o automóvel ou motocicleta apreendida. Existe um posicionamento restritivo, segundo o qual o crime de adulteração do sinal identificador não seria suficiente para configurar que o veículo automotor se trate de produto de crime anterior, devendo-se provar de qual crime patrimonial específico o veículo é produto. Ocorre que esse posicionamento, data máxima vênia, fomenta uma série de delitos, gera impunidade e premia aquele que pratica conduta mais grave. O tipo penal do art. 180 do Código Penal não exige, em sua literalidade, que o agente saiba especificamente qual foi o crime anterior praticado, nem exige que o referido delito seja de natureza patrimonial. E ao exegeta cabe analisar o real conteúdo, significado e extensão da norma penal, para, por meio de correta interpretação, aplicá-la em relação aos casos concretos com que se depare o operador do Direito. Pretende-se, portanto, neste artigo, contribuir para que a interpretação do dispositivo penal de interesse seja feita de forma a atender aos fins a que se destina. TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 171 1 BREVE ANÁLISE DE ALGUNS DADOS ESTATÍSTICOS [...] 2 FUNDAMENTAÇÃO A interpretação do disposto no art. 180 do Código Penal não pode ser feita de forma restritiva em relação à vontade do legislador, ao fim social a que se destina e no que toca às normas jurídicas de hierarquia superior no Ordenamento Jurídico, das quais ela extrai sua validade e legitimidade. Acerca da receptação como delito autônomo, Reale Junior (2013) ressalta, inclusive citando Noronha e Mantovani, que: A receptação passou a ser tratada como figura autônoma com o Código Penal de 1940, pois antes constituía uma forma de cumplicidade e favorecimento. Atinge a receptação, primacial mente, o patrimônio do legítimo possuidor da coisa objeto de crime antecedente (furto, roubo), mas não deixa de constituir, como ressalta NORONHA, um crime também contra a Administração da Justiça por tornar mais árdua a tarefa da autoridade, pois dificulta a apreensão da coisa (REALE JUNIOR, 2013, p. 2). [...] O delito de receptação é mola propulsora de inúmeros outros delitos, como roubos, extorsões, furtos, peculatos e estelionatos, além, é claro, da adulteração de sinal identificador de veículo automotor, constituindo verdadeiro flagelo que vulnera o direito fundamental e transindividual à segurança pública, previsto no art. 6ᵒ da Constituição Federal, cuja finalidade social visada pela norma jurídica penal incriminadora é prevenir a prática dos delitos dos quais o bem receptado seja produto. O art. 180 do Código Penal em nenhum momento restringe sua aplicação aos bens produtos apenas de crime patrimonial anterior, pois, apesar de se encontrar no Título II, Dos Crimes Contra o Patrimônio, daquele diploma legal, visa também, e em especial, inibir que o receptador fomente a prática de crimes. Aliás, se outro fosse o entendimento, não poderia ser responsabilizado por receptação, também, aquele que adquire bem produto de peculato ou produto de contrafação. É possível afirmar que ninguém pratica a adulteração do sinal identificador do veículo automotor com a supressão de seus sinais identificadores numéricos de chassis e motor por outro motivo senão o de acobertarsua origem criminosa, visando à impunidade do delito de receptação, pois não existe nenhuma outra razão para essa conduta. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 172 Nenhuma pessoa imputável realizaria tal ação por mero deleite ou sem pretensão alguma. É descabido alegar que a adulteração se justificaria para obstar responsabilização por infrações administrativas, pois ela constitui infração administrativa mais gravosa, que enseja, inclusive, a apreensão veicular. Nesse sentido, dispõe o art. 230 do Código de Trânsito Brasileiro: Art. 230. Conduzir o veículo: I– com o lacre, a inscrição do chassi, o selo, a placa ou qualquer outro elemento de identificação do veículo violado ou falsificado; [...] Infração – gravíssima; Penalidade – multa e apreensão do veículo; Medida administrativa – remoção do veículo; [...]. A adulteração de placas, quando única no veículo automotor, até poderia ser justificada concretamente pela finalidade de obstar a responsabilização por infrações administrativas, porém não impede a identificação do veículo como produto de infração penal anterior por meio de seus demais sinais identificadores, pelo que não interessa para a análise que se faz nesta breve exposição. Assim, a prática do delito do art. 311 do Código Penal, com a supressão ou outra forma de adulteração dos sinais identificadores a ponto de inviabilizar a descoberta das numerações originais e identificação correta do veículo automotor, comprova, por si só (res in ipsaloquitur), que o bem se trata de produto de crime patrimonial anterior, ainda que não se possa individualizá-lo. Deixar de denunciar aquele que recepta o bem que teve adulteração profissional de sinais identificadores em grau que impeça até mesmo sua descoberta por meio pericial, é premiar a conduta mais grave, estimulando que a adulteração seja feita de forma cada vez mais aperfeiçoada, com a certeza da impunidade e de que, no Brasil, o crime compensa. Nada impede que um automóvel produto de crime anterior também seja objeto material do crime de adulteração de seu sinal identificador. Aliás, é justamente por esse motivo de tentar acobertar a origem criminosa patrimonial do automóvel, e somente por ele, que se adulteram os seus sinais identificadores de forma a inviabilizar a descoberta das identificações originais. E inexiste qualquer razão aceitável, sob a ótica da proteção dos bens jurídicos da sociedade, da ordem pública, da paz social e das funções preventiva e repressiva da norma penal, para não se considerar o automóvel adulterado como produto de crime, ainda que em sentido lato para quem assim entender. Frise-se que se o tipo penal não exige que o crime anterior seja de natureza patrimonial, o crime de adulteração definido no art. 311 do Código Penal pode e deve ser considerado crime pressuposto. E, acerca da possibilidade de que outros crimes de natureza não patrimonial sejam considerados crime precedente, Jesus (2000, p. 653) leciona: TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 173 Natureza do crime anterior Não é preciso que seja contra o patrimônio. Assim, o sujeito pode adquirir objeto material de peculato, que não constitui delito contra o patrimônio. Neste sentido: RT, 441:242 e 565:407; RTJ, 102:610. Contra: TACrimSP, ACrim 456.089, RT, 621:331. No mesmo sentido é a lição de Delmanto et al. (2002, p. 428) ao afirmar que, “quanto à natureza ou objetividade do crime original, pode ele ser contra o patrimônio ou não, admitindo-se, até que haja receptação de receptação. A doutrina aceita como o produto de crime o que o substitui”. Da mesma forma, Mirabete e Fabbrini (2007, p. 344) assim expõem: Não exige a lei que o crime antecedente esteja relacionado entre os crimes patrimoniais. Pode-se praticar receptação de coisa produto de peculato, lenocínio, falsidade, contrabando, descaminho (JSTJ 29/295; RSTJ 27/86), e mesmo de receptação (RF 265/363). Se a coisa, porém, for adquirida por terceiro de boa-fé, que por sua vez a transmite a outrem, não cometer esta receptação, ainda que tenha conhecimento de que a coisa provém de crime (RT 508/382). Por fim, conforme já julgou a 1ª Câmara Criminal Extraordinária do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, o veículo automotor com sinal de identificação adulterado insere-se no conceito de “produto de crime” e, portanto, é objeto do delito de receptação, porque o Código Penal não estabeleceu distinção alguma nesse sentido, não cabendo ao intérprete fazê-lo. A razão de ser do crime de receptação é inibir a prática de ilícitos anteriores (quaisquer que sejam), assim sendo, mostra-se de todo justificável obstar a transferência do objeto do crime (no caso, veículo automotor com sinal de identificação adulterado), porque, assim, esvaziar-se-ia, em grande medida, o interesse daquele que pratica o delito a fim de, por meio da transferência do bem, obter vantagem a isso correlata. Nesse sentido: Apelação. Receptação de veículo automotor com sinal de identificação adulterado. Reconhecimento da tipicidade penal da conduta. Possibilidade. Dolo do agente não comprovado. Condenação. Impossibilidade. Alteração do fundamento da absolvição. Reformatio in pejus. Impossibilidade. Recurso desprovido. 1- O veículo automotor com sinal de identificação adulterado insere-se no conceito de “produto de crime” e, portanto, deve ser considerado apto a configurar o objeto do delito de receptação. Não se fala, aqui, em atipicidade da conduta, em que pese não estar comprovada a prática de anterior crime contra o patrimônio ou contra a ordem econômica. O Código Penal não estabeleceu qualquer distinção neste sentido, não cabendo ao intérprete fazê-lo. 2- Conquanto típica a conduta descrita na denúncia, “in casu”, não foi suficientemente comprovado que o réu tinha ciência quanto à origem espúria do bem. Não cabe, pois, condenação por receptação dolosa. 3- A modificação do fundamento legal da absolvição (de atipicidade da conduta para insuficiência de provas) caracterizaria “reformatio in pejus”, razão pela qual não pode ser empreendida à falta de reclamo da Acusação. 4- Recurso Ministerial desprovido. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 174 Da mesma forma, os seguintes julgados podem ser elencados: DIREITO PENAL. RECEPTAÇÃO. CONDENAÇÃO. RECURSO DO RÉU. ABSOLVIÇÃO POR FALTA DE PROVAS OU AUSÊNCIA DE DOLO. IMPOSSIBILIDADE. NEGADO PROVIMENTO AO RECURSO. 1. INVIÁVEL O PLEITO ABSOLUTÓRIO SE O CONJUNTO PROBA- TÓRIO É FORTE E COESO NO SENTIDO DE QUE O RÉU/APELANTE PRATICOU O CRIME DE RECEPTAÇÃO DE VEÍCULO COM NUMERAÇÃO ADULTERADA, EIS QUE PARA A CONFIGURAÇÃO DO CRIME DE RECEPTAÇÃO, A LEI PENAL NÃO EXIGE QUE O CRIME PRINCIPAL SEJA CONTRA O PATRIMÔNIO. 2. NEGADO PROVIMENTO AO RECURSO DO RÉU. APELAÇÃO – Art. 304 c/c 297 ambos do CP Pena de 02 anos de reclusão e 10 dias-multa, regime aberto, substituída a pena privativa de liberdade por 02 restritivas de direitos. Apelante/ apelado foi detido quando conduzia o veículo GM/VECTRA, produto de crime, eis que adulterado mediante a colocação de faixas azuis sobrepostas à pintura do veículo, e adulteração da cor das placas de identificação para assemelhar-se aos taxis desta Cidade, sabendo o apelante/apelado de tais irregularidades. O apelante/apelado utilizava selos do IPEM/ RJ e do SMTR falsificados no referido veículo GM/VECTRA, a fim de trafegar livremente. Sem razão a Defesa: Impossível a absolvição: Autoria e materialidade cabalmente comprovadas. O Laudo de Exame de Documentos, prova contundente neste processo, demonstra que os selos apreendidos são falsos com capacidade de iludir terceiros como se fossem verdadeiros. Depoimento do policial constitui elemento de prova hábil a formar o convencimento do magistrado – Súmula 70 do ETJERJ. Com razão o Ministério Público para condenar o apelante / apelado pelo crime de receptação: Autoriae materialidade restaram comprovadas. Para a configuração do crime de receptação deve-se ter a existência de crime antecedente e não necessariamente que seja um crime patrimonial. No presente caso, temos o crime de adulteração de sinal identificador de veículo automotor em decorrência da adulteração da cor da placa e a colocação de faixas azuis sobre a pintura do veículo a fim de que o apelante/apelado utilizasse o veículo particular passando por um táxi pirata. É cediço que nos delitos de receptação, a prova da cognição da origem ilícita do bem se extrai das circunstâncias que envolvem o fato, bem como da própria conduta do agente. É um delito que se caracteriza até por prova indiciária. Equivocada a sentença de 1o Grau. O delito de receptação atribuído ao acusado JORGE deve integrar o decreto condenatório, uma vez que cabalmente comprovado que o mesmo conduzia o veículo caracterizado de táxi, com a placa de identificação alterada e com selos falsificados para conseguir trafegar livremente como se um táxi fosse. Restou, portanto, plenamente caracterizado o delito previsto no artigo 180, caput, do Código Penal, eis que satisfeitos os seus requisitos objetivos e subjetivos. Não é crível que um taxista com experiência de 20 anos nesta profissão, não tivesse ciência de que o veículo era “pirata” pela aparência do carro, pelo fato de o proprietário reter a documentação do veículo, pelo fato de ter colocado a autorização afixada no vidro pertencente a outro táxi. Logo, dou provimento ao recurso ministerial e condeno JORGE CORREA JUNIOR nas penas do art. 180, caput, do CP, passando à dosimetria da pena: 1a fase: Atenta as circunstâncias previstas no art. 59 do CP, verifico pela sua FAC juntada aos autos, que há motivos para exasperação da pena em virtude de seus maus antecedentes. Possui duas sentenças condenatórias, sem que configure TÓPICO 3 | FORMAS DE ADULTERAÇÃO DA CODIFICAÇÃO ORIGINAL 175 a reincidência em função do lapso temporal trans- corrido. Assim fixo a pena-base acima do mínimo legal em 01 (um) ano e 06 (seis) meses de reclusão e 10 (dez) dias-multa. 2a fase: Não há atenuantes ou agravantes. 3a fase: Não há causas especiais ou gerais de aumento ou diminuição de pena, razão pela qual torno a pena base definitiva em 01 (um) ano e 06 (seis) meses de reclusão e 10 (dez) dias-multa. Na forma do art. 69 do CP, procedo ao somatório global das sanções, ficando o ora apelante/apelado definitivamente condenado às penas de 03 (três) anos e 06 (seis) meses de reclusão e 20 (vinte) dias-multa, regime aberto e mantida a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos. Mantidos os demais termos da sentença. DESPROVIMENTO DO RECURSO DEFENSIVO E PROVIMENTO DO RECURSO MINISTERIAL. CONCLUSÃO À medida que a sociedade evolui, as organizações criminosas alteram com recorrência os seus meios e modos de atuação, mas a receptação, seja dolosa simples ou qualificada, continua sendo, assim como o tráfico ilícito de drogas, grande mola propulsora e o elemento de estímulo à prática de inúmeros delitos, inclusive daqueles de natureza patrimonial, com ou sem violência ou grave ameaça contra a pessoa. Veículos automotores são roubados e furtados em número cada vez maior no Estado de São Paulo, conforme dados já expostos, o que bem espelha a realidade nacional. As quadrilhas e organizações criminosas, por sua vez, aperfeiçoam cada vez mais os métodos de adulteração para que não sejam aferidos os dados originais de identificação de veículos automotores produtos de crimes e, assim, alcancem a impunidade de todos os elementos que as integram, bem como do receptador final que venha a ser preso adquirindo, recebendo, conduzindo, ocultando ou praticando outro dos verbos do tipo penal incriminador. Nesse contexto, a aplicação do disposto no comando legal sobre o crime de receptação deve ser feita de forma a efetivamente proteger o bem jurídico penalmente tutelado, não se esvaziando o conteúdo da norma penal em concreto. É, portanto, dever do exegeta, ao analisar as normas penais, promover o direito fundamental de todos à segurança pública. Aliás, dispõe a Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, Decreto-Lei nᵒ 4.657, de 4 de setembro de 1942, com a redação dada pela Lei nᵒ 12.376/2010, antes denominado “Lei de Introdução ao Código Civil”, nomenclatura corretamente alterada: “Art. 5ᵒ Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.”. E é exigência do bem comum que se promova a segurança pública, direito de todos. Ante o exposto, conclui-se que, para o exercício do direito de ação para a responsabilização criminal por delito de receptação, bem como para o édito condenatório, é prescindível comprovar que tenha havido crime patrimonial anterior, podendo ser aceitos, como crimes pressupostos, delitos de natureza distinta. UNIDADE 3 | DOS CRIMES RELACIONADOS À PERÍCIA VEICULAR E SEUS ELEMENTOS IDENTIFICADORES 176 E, da mesma forma, a interpretação do art. 180 do Código Penal que melhor se coaduna com a tutela da segurança pública, com a finalidade social e a mens legis desta norma penal, é a que admite, para fins de infração penal pressuposta, também, a adulteração do sinal identificador do veículo automotor. Por fim, ressalte-se que é critério de hermenêutica afastar resultados interpretativos que levem ao absurdo. E gerar impunidade de quem pratica dolosamente verbo do art. 180 do Código Penal em que não se consegue descobrir os sinais originais de veículos automotores diante da sofisticada forma de sua adulteração é um resultado absurdo, não somente pelo senti- mento de impunidade que desperta no autor do delito e na sociedade, mas também pela grave violação da segurança pública que causa. FONTE: <http://www.revistajustitia.com.br/revistas/cy6ywc.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2020. 177 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Todos os veículos possuem elementos de identificação e quais são. • Para a conferência da originalidade e autenticidade de um documento de veículo, bem como do número de chassi e das placas dos automóveis, é preciso analisá-los conforme descrevem as resoluções e portarias. • Cada item possui características específicas de confecção, para assim serem identificados como legítimos ou não. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 178 AUTOATIVIDADE 1 Sabe-se que o documento do veículo é considerado um sinal identificador. A sua confecção é composta por diversos dispositivos de segurança a fim de evitar a falsificação e adulteração, como a impressão por calcografia, imagem latente, fundo com impressão offset, filigrana, fundo invisível, microtexto, papel de segurança e número identificador. Com base no exposto, assinale a alternativa que faz referência ao processo de calcografia: a) ( ) É a forma utilizada para impressão das cédulas de dinheiro e documentos de identificação. b) ( ) É uma forma utilizada que pode ser facilmente reproduzida, e por isso, alvo de críticas pelos profissionais de segurança. c) ( ) É através dela que se pode observar as marcas latentes nos documentos. d) ( ) É técnica utilizada para o preenchimento do documento, o qual seleciona fonte e tamanho dos caracteres. 2 A adulteração do número identificador do veículo, chassi, pode ocorrer de diversas formas. Pode-se citar, por regravação, ausência de numeração, transplante, adulteração simples e entre outras. Analise as afirmativas abaixo e assinale V para VERDADEIRO e F para FALSO, a respeito da técnica que caracteriza o transplante: ( ) É quando modifica todos os pontos de identificação de um veículo transformando-o em um dublê de outro existente. ( ) O adulterador possui um veículo legalizado que, por algum motivo apresenta baixo valor comercial, eretira deste veículo todos seus pontos de identificação, implantando em outro veículo furtado ou roubado. ( ) É quando ocorre a destruição dos seus pontos de identificação com o objetivo de dificultar a obtenção de sua identificação original. ( ) É a técnica também conhecida como implante. Está CORRETA a alternativa com a seguinte ordem: a) ( ) F, V, F, V. b) ( ) V, V, F, F. c) ( ) F, F, V, F. d) ( ) V, F, V, V. 3 As placas de identificação de veículos são, geralmente, falsificações e/ou adulterações mais fáceis de se perceber, não necessitando de um rigor técnico para a sua observação. Com base nessa afirmação, podemos afirmar que: a) ( ) A falsificação grosseira, como o uso da fita isolante, não constitui nenhum ilícito. b) ( ) A gravidade lesiva da ação é que irá definir se a conduta é típica ou não. c) ( ) A adulteração das placas, mesmo ocorrendo apenas para burlar a fiscalização de trânsito, como radares, rodízios de veículos, é considerada uma adulteração do sinal identificador do veículo. d) ( ) As empresas que fabricam as placas de identificação, em nenhuma hipótese, poderão ser descredenciada dos órgãos de Trânsito Estadual. 179 REFERÊNCIAS ALMEIDA JÚNIOR, O. de. Um estudo sobre o movimento dos projéteis balísticos e sua trajetória. São Paulo: Blucher, 2017. BITENCOURT, C. R. Código penal comentado. 10. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. BRASIL. Portaria nᵒ 60 – COLOG, de 15 de abril de 2020. Estabelece os Dispositivos de Segurança, Identificação e Marcação das Armas de Fogo Fabricadas no País, Exportadas ou Importadas. 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