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Unidade II
ENSINO DE GRAMÁTICA NA PERSPECTIVA ENUNCIATIVA
Profa. Márcia Selivon
Gramática tradicional: lacunas e equívocos
 Há vários equívocos, insuficiências e lacunas presentes 
na Gramática Tradicional (GT) e que acabam reforçando muitos 
dos problemas e dificuldades do ensino-aprendizagem nas 
aulas de língua e gramática na escola. 
 Enfatizaremos aqui a divisão das palavras em classes 
gramaticais e seus problemas nos diferentes critérios 
de classificação.
Critérios de classificação das palavras
 Para classificar as palavras em cada uma das dez classes 
(Substantivo, Adjetivo, Verbo, Advérbio etc) as gramáticas 
se utilizam de critérios formais para definir, formular e 
descrever cada classe. 
 A autora Margarida Basílio, em seu livro “Teoria Lexical”, 
reflete sobre esses critérios de classificação de palavras: o 
critério Semântico, o critério Morfológico e o critério Sintático. 
Critério Semântico: substantivo
 O Critério Semântico relaciona-se com o estabelecimento de 
“tipos de significado como base para a atribuição de palavras 
a classes”. (BASÍLIO, op. cit. p. 50) 
 Define-se o substantivo como a palavra que designa o ser. 
Mas nem todos os substantivos podem ser chamados 
exatamente de “seres”: o nada, a morte, o dom, são 
substantivos que não nomeiam seres. 
Critério Semântico: adjetivo
 A função semântica dos adjetivos (qualificar/modificar o 
substantivo) permite a expressão ilimitada de conceitos: 
“criança”: bonita / magra / sadia / feliz / brasileira.
Mas há outras palavras que desempenham a mesma função e 
não são adjetivos:
a) Alguns substantivos podem qualificar outros: sapato rosa, 
escola padrão.
b) Um numeral pode desempenhar o papel de modificador 
do substantivo: salto duplo.
Critério Semântico: verbo
 Verbo, na definição semântica, é a “palavra que exprime ação, 
estado ou fenômeno de natureza”.
 Mas existem outras classes de palavras que também podem 
exprimir ação, estado e fenômeno da natureza. 
 O substantivo “luta” expressa claramente uma ação;
o substantivo “sono” denota claramente um estado. 
 Também a característica semântica relacionada à 
temporalidade dos verbos, não lhe é exclusiva.
Os advérbios de tempo, por exemplo, também denotam 
essa particularidade: “ontem, agora, amanhã”. 
Critério Semântico: advérbio
 O advérbio permite a especificação e as circunstâncias 
da ação, estado ou fenômeno descrito pelo verbo. 
 Mas este critério não é suficiente, pois também é possível que 
outras classes de palavras desempenhem essa função de 
modificar o verbo. Por exemplo, os adjetivos: ele fala alto, 
ela chegou rápido.
Critério Morfológico
 O Critério Morfológico implica na classificação de palavras 
a partir de suas características gramaticais, mais 
especificamente de seus paradigmas derivacionais 
e flexionais de classe, de gênero, de número, de grau, 
de pessoa e modo-temporais.
Critério Morfológico: substantivo e adjetivo
 Em geral, as mesmas flexões de número e gênero aplicadas 
ao substantivo também são aplicadas ao adjetivo 
(ex.: “menininho bonitinho”). 
 A marca morfológica exclusiva do adjetivo seria a flexão 
de grau (ex.: belíssimo; finérrimo; facílimo). Mas também 
é possível observar alguns substantivos funcionando com 
essa marca morfológica (ex.: coisíssima). 
Critério Morfológico: verbo e advérbio
 O Critério Morfológico não distingue muito bem essas duas 
classes (substantivo e adjetivo) uma da outra.
 Já com o verbo (por sua natureza flexional) e o advérbio 
(por sua forma invariável) tal critério é bastante suficiente. 
Interatividade
Verifique a alternativa correta:
a) Gênero e número estão relacionados a aspectos sintáticos.
b) Somente os verbos podem exprimir ação.
c) Não há palavras que apresentam os mesmos aspectos 
semânticos dos substantivos.
d) A marca morfológica exclusiva do adjetivo é a flexão de grau.
e) Somente os adjetivos qualificam os substantivos.
Critério Sintático: substantivo
 O Critério Sintático diz respeito à classificação a partir das 
posições sintagmático-estruturais/funcionais das palavras 
na frase.
 O substantivo pode exercer a posição de núcleo do sujeito 
(“O gato fugiu”), objeto (“Comi o lanche”) e agente da passiva 
(“Ana foi perseguida por um cão”). 
 O substantivo aparece como núcleo frente a determinantes: 
Exemplos: artigos (“a menina”); pronomes demonstrativos 
(“essa menina”).
Critério Sintático: adjetivo
 O adjetivo é definido como palavra que acompanha, modifica 
ou caracteriza o substantivo. 
 Mas o critério sintático não o define suficientemente, pois não 
o distingue sintaticamente dos determinantes que também 
acompanham o substantivo.
Critério sintático: verbo 
 O verbo tem uma dificuldade de ser bem definido sintaticamente, 
pois o predicado pode não ser verbal. Então, praticamente não 
há função sintática que seja própria do verbo.
Problemas relacionados aos critérios semânticos, 
morfológicos e sintáticos
 O problema é que muitas vezes um critério é determinante 
para uma classe, mas para outra classe ele é insuficiente 
(por exemplo: o critério morfológico é determinante para 
a classe dos verbos, mas é insuficiente para a classe dos 
substantivos e adjetivos). 
Problemas relacionados aos critérios semânticos, 
morfológicos e sintáticos
 Em princípio, –vel se combina com verbos para formar 
adjetivos: lavar = lavável. 
 Mas temos ocorrências coloquiais que se dão a partir de 
substantivos: presidente = presidenciável, reitor = reitorável. 
 “O fenômeno de extensão de base das formações em –vel 
ilustra o problema das classes de palavras no que concerne à 
especificação das bases sobre as quais o processo se aplica”. 
(BASÍLIO, op. cit.: p. 57-58)
Problemas relacionados aos critérios semânticos, 
morfológicos e sintáticos
 Não se pode aplicar tal processo de formação a qualquer 
substantivo, mas somente àqueles que correspondem 
a cargos e funções, o que indica que tal disponibilidade para 
formações em –vel vem de um fator semântico que se opõe 
a fatores morfológicos e sintáticos. 
 Tal exemplo evidencia a importância da descrição hierárquica 
dos critérios na classificação dessas palavras. “Resta saber 
se em outros casos de formação de palavras teríamos uma 
situação equivalente.” (BASÍLIO, op. cit.: p. 59)
Problemas relacionados ao ensino de gramática
Em seu livro “Sofrendo a Gramática”, Perini (2005) destaca 
alguns problemas relacionados ao ensino de gramática:
1. Polêmica: (pais, professores, teóricos): “A gramática não 
serve para nada” X “Sem gramática não é possível aprender 
português”. “Não deve ser nem uma coisa nem outra”. 
Problemas relacionados ao ensino de gramática
2. Ninguém escolhe a profissão de ser gramático: 
tal escolha parece, no mínimo, excêntrica.
3. Os alunos não sabem gramática: estudam nove anos 
a mesma coisa (classes de palavras e análise sintática) 
e não sabem.
Sugestões de Perini
Diante desses três sintomas de que há algo errado com o 
estudo/ensino de gramática, Perini afirma não ter a “cura”, 
mas tem sugestões para diminuir o “sofrimento”:
I. Os objetivos estão mal colocados: de modo geral, a escola 
garante que estudar gramática levará o aluno a ler e escrever 
bem e isso não é uma verdade. As habilidades de ler 
e escrever dependem de outras práticas diferentes 
do mero conhecimento técnico-gramatical-metalinguístico 
e habilidade linguístico-textual. 
Sugestões de Perini
II. A metodologia é muito inadequada: o professor 
de gramática impõe informações com regras autoritárias 
(“o certo é assim”). A resposta às perguntas dos alunos 
é “porque sim, porque o correto é...”.
Sugestões de Perini
III. A matéria gramática precisa de organização lógica:
por exemplo, a noção gramatical de Sujeito. Ele aponta que 
essa definição aparece ambígua e confusa em algumas 
gramáticas, oscilando entre “ser que pratica a ação” 
e “ser sobreo qual se faz uma declaração”. 
A fragilidade do critério semântico
 Perini evidencia a fragilidade (ainda que reconheça sua 
importância) do critério semântico, argumentando que 
uma boa gramática deveria descrever as formas da língua 
e explicitar o relacionamento dessas formas com o significado 
que elas veiculam. 
 Mas isso sempre acontece: “As relações entre a forma e o 
conteúdo são extremamente complexas, e em grande parte 
permanecem obscuras ainda hoje para os linguistas”. (PERINI, 
2002, p. 22) 
Interatividade
Verifique a alternativa incorreta:
a) Segundo Perini, o critério semântico tem fragilidade.
b) De acordo com Perini, a Gramática Tradicional não apresenta 
organização lógica.
c) Muitas vezes o professor de gramática apresenta regras 
autoritárias.
d) Estudar a gramática levará o aluno a escrever e a ler bem.
e) Há polêmica em relação aos estudos gramaticais.
A fragilidade do critério semântico
 Por exemplo, em “A chuva de ontem lavou a rua”, embora 
“chuva” represente um fenômeno e “ontem” represente 
o tempo passado, não se pode afirmar que essas palavras 
sejam verbos.
A fragilidade do critério semântico
 Pode-se constatar que a palavra chuva corresponde a um 
fenômeno natural e que está representado no tempo passado 
(ontem).
 Mas não se pode classificá-la como verbo, mesmo que ela 
esteja atendendo ao funcionamento de uma das definições 
(a semântica), porque “chuva” e “ontem” não se flexionam 
pelo conjunto de variações formais típico dos verbos. 
A fragilidade do critério semântico
 “Choveu” é um verbo, pois refere o significado semântico de 
fenômeno natural, representado no tempo que está flexionado 
dentro da própria palavra por meio do conjunto variacional 
número-pessoal e modo-temporal.
A fragilidade do critério semântico
Mas outros casos são mais complexos:
Exemplos:
 A água ferve a cem graus;
 O homem é mortal;
 Nesses casos há uma informação atemporal, ou seja, não 
implica em uma ação realizada no passado, presente e/ou 
futuro, mas é atemporal.
A fragilidade do critério semântico
Algo semelhante ocorre no exemplo a seguir:
 “Pode deixar que eu frito os bolinhos” (uma ação é referida 
morfologicamente no presente, mas na verdade indica uma 
ação a ser realizada no futuro). 
A importância do critério morfológico
 Perini destaca que, embora a definição semântica seja 
muito importante para a explicitação da classe dos verbos, 
a definição morfológica é mais fácil de elaborar e de testar, 
portanto, é possível definir formalmente a classe: verbo 
“é a palavra que pertence a um paradigma cujos membros 
se opõem quanto a número, pessoa e tempo.” 
(PERINI, op. cit. p. 25) 
A importância do critério morfológico
 Conforme o autor, tal critério permite que se identifique 
claramente “correu” como um verbo e “corrida” como um 
não verbo. “Correu” pertence ao mesmo paradigma formal 
de corremos, correrei, corro (verbo); já “corrida” pertence 
a outro paradigma formal que também abrange corridas, 
corridinha (substantivo).
Sintagma Nominal
 Perini aponta como exemplo uma classe que em geral não 
é reconhecida pela Gramática Tradicional: a dos Sintagmas 
Nominais.
 Exemplos: Carminha/a Carminha/aquela moça do terceiro 
andar/uma funcionária da universidade que eu conhecia.
 Se a função das classes de palavras é descrever 
o comportamento sintático das formas, as quatro formas 
citadas (entre tantas outras possíveis) deveriam ser colocadas 
em uma mesma classe, a de sintagma nominal.
Sintagma Nominal
 Perini exemplifica que o gramático tradicional Celso Cunha 
(1975) lista ao menos quinze possibilidades principais, entre 
outras, do que pode ser o núcleo da categoria de sujeito 
(um pronome pessoal, um substantivo, um pronome 
interrogativo etc). 
 Mas o gramático poderia sintetizar essa descrição afirmando 
que o núcleo do sujeito sempre vai ser um sintagma nominal. 
Classe e função
 A classe não se identifica com a função, pois sujeito, objeto 
direto, objeto indireto são funções diferentes que podem ser 
formadas por estruturas da mesma classe. 
1. Carminha montou o quebra-cabeça (Carminha pertence 
à classe de substantivo e tem função de sujeito);
2. Paulo gosta de Carminha (Carminha pertence à classe de 
substantivo e tem função de objeto indireto);
3. José avistou Carminha (Carminha pertence à classe de 
substantivo e tem função de objeto direto).
O ensino da língua materna
Travaglia destaca alguns aspectos:
1. o principal objetivo do ensino de língua materna 
é desenvolver a competência comunicativa;
2. o ensino deve ser produtivo para a aquisição de novos 
recursos linguísticos, embora também haja um lugar para 
a abordagem descritiva e prescritiva das formas da língua;
3. a linguagem é um espaço de interação;
O ensino da língua materna
4. o texto em seu conjunto oferece pistas e instruções para 
a construção de efeitos de sentido nas interações 
comunicativas.
5. o domínio da linguagem exige reflexão em certa medida.
Interatividade
Verifique a alternativa correta:
a) Não há estudo das categorias gramaticais na escola.
b) Uma classe de palavras pode apresentar diferentes funções.
c) O sintagma nominal é apresentado em todas as gramáticas 
tradicionais.
d) Segundo Perini, o critério semântico não apresenta fragilidade.
e) O ensino de gramática não deve ser produtivo.
Gramática de Uso e Gramática Reflexiva 
 Travaglia propõe que o ensino de gramática seja voltado para 
uma gramática de uso e para uma gramática reflexiva, apoiado 
em certa medida pela abordagem de uma gramática teórica
e normativa, para que o aluno alcance o conhecimento da 
língua e sobre a língua.
Atividade em sala de aula: a gramática de uso
 Conforme o autor, essa gramática de uso liga-se à gramática 
internalizada do falante. 
 A gramática de uso deve ser trabalhada a partir de produções 
de vários gêneros orais e escritos. 
 O autor apresenta alguns exemplos de atividades de gramática 
de uso, por meio de exercícios estruturais para os adjetivos, 
entendendo que o professor deva selecionar exercícios que 
supram a necessidade e o nível de dificuldade dos alunos. 
Exercícios estruturais para adjetivos
 Exercício de repetição – foco na classe de Adjetivo: 
a oração subordinada adjetiva.
 P – O carro que comprei é bonito.
 A – O carro que comprei é bonito.
 P – O carro que é polido fica brilhando.
 A – O carro que é polido fica brilhando.
Exercícios estruturais para adjetivos
 Exercício de transformação – foco na classe de Adjetivo: 
as flexões de número, de gênero e sua concordância. 
Modelo:
 P – Vi uma flor linda.
 A – Vi umas flores lindas.
 P – A flor é azul.
 A – As flores são azuis.
Crítica ao livro didático
 O autor salienta que “muitos livros didáticos trazem 
exercícios estruturais, mas estes dificilmente constituem toda 
uma série de exercícios necessários ao trabalho com um fato 
da língua”. (Idem, p. 121) 
 Ele argumenta que tais exercícios nos livros didáticos são 
quase sempre isolados e não cumprem a função de 
automatizar o uso dos recursos da língua.
Atividade em sala de aula: a Gramática Reflexiva
 Travaglia afirma que a reflexão deva abranger o domínio 
dos usos da língua que o aluno ainda não domina, com vistas 
a ampliar sua capacidade de uso e desenvolver a sua 
competência comunicativa na atividade com textos diversos. 
Atividade com a Gramática Reflexiva
 O professor não deve abordar os fatos com aulas expositivas, 
dando a teoria gramatical pronta.
 Tal reflexão tem como objetivos ensinar sobre como a língua 
é, levar o aluno a conhecer a língua como uma instituição 
social e ensinar a pensar. 
Atividade com a Gramática Reflexiva
 É possível realizar práticas voltadas aos funcionamentos 
semânticos e pragmáticos da língua, que se centralizam na 
comparação dos efeitos de sentido que um recurso ou 
diferentes recursos podem produzirem diferentes situações 
de interação comunicativa.
Gramática Teórica
 O autor propõe que o trabalho com a gramática na escola siga 
as duas orientações prioritariamente (gramática de uso 
e gramática reflexiva), mas entende que esse trabalho 
deva ser apoiado com a abordagem da gramática teórica).
 Ao professor é necessário um espirito crítico e um constante 
aprofundamento nos estudos da linguagem.
Norma culta e variedades da língua
 Travaglia sugere que, para um bom trabalho com a gramática 
normativa, é importante explicitar no ensino as normas 
sociais de uso em diferentes variedades da língua (incluindo 
o padrão culto, formal, escrito, mas não apenas se 
restringindo a ele). 
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) 
e o ensino de língua portuguesa
Os PCN sugerem que sejam evitados:
 desconsideração da realidade e dos interesses dos alunos; 
 uso do texto como pretexto para o tratamento de aspectos 
gramaticais; 
 excessiva valorização da gramática normativa; 
 exercícios mecânicos de identificação de fragmentos 
linguísticos em frases soltas.
Teorias gramaticais nas avaliações nacionais
 Nota-se que as avaliações de nível nacional, promovidas 
pelo Governo Federal, referentes ao ensino básico (ANEB), 
ao ensino médio (ENEM) e também ao ensino superior 
(ENADE) não primam pela abordagem de tópicos 
normativo-gramaticais.
Enunciação: perspectivas no ensino da língua materna 
 O esforço teórico em proceder uma análise linguística para 
além da estrutura formal da língua e com vistas a abranger 
a linguagem como fenômeno interacional cresceu muito 
a partir da década de 1960. 
 Conforme explicita Bakhtin (1929), “a linguagem é a ponte 
entre mim e o outro” e essencialmente é dialógica.
Interatividade
Verifique a alternativa incorreta:
a) Os PCN valorizam as variedades linguísticas.
b) Os PCN sugerem exercícios gramaticais contextualizados.
c) Os PCN desconsideram a realidade dos alunos.
d) O professor deve aprimorar seus conhecimentos linguísticos.
e) As teorias enunciativas devem contribuir para o ensino 
da língua materna. 
ATÉ A PRÓXIMA!

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