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 1
 
A crise do fordismo 
 
 
Osvaldo Bertolino 
 
 
 
Em meio à polêmica sobre a nova configuração que o mundo do trabalho vem 
adquirindo diante da presente reestruturação produtiva, a análise da crise do fordismo 
pode resultar em importantes conclusões sobre o papel do movimento sindical nestes 
confusos dias que correm. Já estamos vivendo a era "pós-fordista" ou estamos em pleno 
"neofordismo"? Este artigo ousa entrar nesse debate com a finalidade muito maior de 
aumentar as perguntas do que dar respostas. 
 
No começo de 1997 o mundo se viu diante de uma daquelas discussões que parecem 
dividir as águas. Sob o impacto da notícia de que o embriologista Ian Wilmut e sua 
equipe haviam clonado a ovelha Dolly no Instituto Roslin, de Edimburgo, na Escócia, 
de um lado apareceram apelos de conteúdo religioso e filosófico condenando o feito 
com o argumento básico de que a clonagem era perigosa por estar situada abaixo da 
dignidade humana. Alguns respeitados estudiosos do mundo do trabalho advertiram 
para o perigo do uso indiscriminado da biotecnologia, que poderia chegar ao ponto de 
reproduzir seres humanos em série. O Vaticano e alguns governos também alertaram o 
mundo sobre esse risco. São argumentos consistentes. Embora por convicções 
diferentes, a defesa do respeito à vida, sobretudo pelo fato de cada um de nós ser único 
e original, deve ser uma divisa universal. 
 
De outro lado apareceram defesas do livre curso para o desenvolvimento da ciência. É 
um conceito aparentemente avançado. A defesa dessa tese, no entanto, perde 
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consistência se não considerar as condicionantes filosóficas e históricas. É preciso levar 
em conta quem tem o domínio sobre a ciência e qual uso será feito dela. Os principais 
defensores do desenvolvimento científico sem barreiras estão situados sobretudo 
naquela faixa de pensamento na qual predomina a idéia de que o mercado é um bem 
supremo da humanidade. 
 
Essa é uma polêmica sobre a qual repousa grande parte do debate a respeito do mundo 
do trabalho neste século. Atualmente esse dilema parece ter entrado num campo em que 
predomina a tese de que o mundo vive a transição para o fim quase total da importância 
da indústria na economia. Nesse admirável mundo novo as fábricas serão dominadas 
por robôs supervisionados por especialistas em informática. A vez será dos serviços. Os 
softwares também substituirão os trabalhadores na agricultura. Empresas especializadas 
em softwares agrícolas já estão fornecendo tecnologia que permite ao agricultor 
monitorar o meio-ambiente, coletar dados sobre mudanças meteorológicas, condições 
do solo e outras variáveis. A revolução do computador e da biotecnologia prenuncia 
uma nova era de produção de alimentos, dissociada da terra e do clima. A agricultura 
tradicional, centrada em grandes extensões de terra ao ar livre, deverá dar lugar à 
manipulação de moléculas no laboratório. 
 
O ritmo do desenvolvimento tecnológico merece ser analisado em outro artigo 
exclusivo sobre o assunto. Aqui a intenção é entrar na polêmica sobre o que esse futuro 
moldado por uma torrente tecnológica assombrosa reserva para a clássica denominação 
do modelo preponderante de produção deste século, o fordismo, e ousar arriscar alguns 
prognósticos para a organização dos trabalhadores. A definição mais apropriada para o 
fordismo parece ser a de que ele ultrapassa o limite da organização do trabalho e se 
constitui num modelo de desenvolvimento, uma espécie de andar de cima do 
taylorismo. (As idéias de Frederich Taylor, tema tratado em artigo da edição passada 
desta revista, em essência dizem que o trabalhador é "um parafuso mudo do sistema 
industrial", ajustado a este pela tecnologia.) Para falar da crise do fordismo, portanto, é 
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indispensável entrar em alguns conceitos da economia. Existe a idéia de que a aplicação 
do taylorismo na fase pré-fordista resultou em ganhos de produtividade do trabalho não 
incorporados aos salários, que desaguaram na crise de superprodução dos anos 30. O 
capitalismo, na época, entrou numa crise cuja solução parcial foi alcançada nos marcos 
do violento conflito de classes e de países a partir da Segunda Guerra Mundial. O 
fordismo assentou suas bases na fórmula de que o Estado deveria intervir na economia 
para garantir rendimentos mínimos aos trabalhadores, principalmente através dos 
mecanismos da social-democracia e do keynesianismo. 
 
É sobre essa pedra fundamental que se ergue toda a lógica dos argumentos a favor da 
crise do fordismo. A partir de meados da década de 70 o capitalismo começou a sentir 
fortemente os efeitos da desaceleração dos ganhos de produtividade. Esse fenômeno tem 
como causa fundamental os próprios princípios do taylorismo. Ao determinar o papel do 
trabalhador como um "parafuso mudo", desprovido de meios para interferir na elevação 
da produtividade, só restou ao capitalismo a alternativa de investir no desenvolvimento 
da maquinaria - o capital constante, ou capital fixo, que, ao lado do capital variável, o 
pagamento de salários, forma a célebre definição de estrutura do capital - para manter e 
elevar a lucratividade. No processo de produção o trabalhador não precisava de 
nenhuma qualificação e a sua importância ficou menor do que a das máquinas. Nos anos 
60 a produtividade já não compensava os investimentos em maquinaria e teve início o 
rebaixamento da taxa média de lucro. 
 
A crise manifestou-se abertamente na década de 70. A resposta foi dada através da 
internacionalização da produção, na busca de retomar a produtividade em regiões com 
baixos custos de mão-de-obra. Era o início do conceito que ficou marcado por 
definições como "fordismo periférico, fordismo incompleto ou fordismo autoritário". 
Essa nova fase difundiu a clássica categoria dos "novos países em industrialização", 
entre os quais o Brasil. 
 
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O problema histórico do fordismo parece ser o de que ele sempre enfrentou dificuldades 
para se universalizar. E a causa principal disso pode ser encontrada nas próprias raízes 
da estrutura do capital. As desigualdades no ritmo de desenvolvimento entre os países, 
um dos pilares básicos dessas dificuldades, e a delimitação de fronteiras imposta aos 
trabalhadores pelo capitalismo, incentivaram resistências e rejeições ao sistema de 
produção baseado no trabalho rotinizado e fragmentado. 
 
O fordismo nasceu associado à idéia do consumo de massa e a difusão pelo mundo 
afora do conceito segundo o qual a elevação da produtividade resultaria em aumentos 
salariais. Numa época em que o capitalismo era pressionado por suas crises e ao mesmo 
tempo pela existência do socialismo, o surgimento do fordismo foi saldado em muitos 
setores da economia como o modelo de desenvolvimento capaz de equilibrar o aumento 
da produtividade com o crescimento do poder aquisitivo dos trabalhadores. No vértice 
dessas duas linhas mestras do modelo estaria o compromisso fordista de troca da 
elevação da produtividade por melhores condições de vida para os assalariados. Era, 
para muitos, a salvação para a crise. 
 
O fordismo na prática ajudou a selar o fim do capitalismo concorrencial do final do 
século XIX e inaugurou uma nova etapa das relações de trabalho. O trabalhador que até 
então detinha os conhecimentos técnicos e culturais do processo de trabalho cedeu sua 
capacidade para o processo de produção. Antônio Gramsci, o fundador do Partido 
Comunista Italiano, no livro "Americanismo e Fordismo" diz que ao implantar, em 
1913, o seu sistema de produção e gestão na Ford Motor Company, em Highland Park, 
Detroit, Henry Ford deu início a um novo modo de vida. "Um novo tipo humano, em 
conformidadecom o tipo de trabalho e de processo produtivo (...), uma mão-de-obra 
estável, um conjunto humano (o trabalho coletivo), (...) uma máquina que não deve 
desmontar nem avariar demasiadas vezes suas peças individuais", diz ele. Ou seja, a 
produção em massa também trazia o "homem em massa". 
 
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A linha de montagem movida a volante magnético inaugurada na fábrica de Highlando 
Park em 1913 foi descrita por Ford nestes termos: "Cada peça a ser trabalhada na 
oficina move-se. Pode ser movida em ganchos presos a correntes erguidas, chegando 
para a montagem na ordem exata em que as partes são necessárias. Pode deslocar-se 
sobre uma esteira mecânica ou mover-se pela força da gravidade, mas o importante é 
que não é preciso levantar nem conduzir em veículos coisa alguma além das 
ferramentas." Henry Ford também dizia que a sua linha de montagem era uma inovação 
que ele havia observado nos gigantescos abatedouros de Chicago. 
 
Nos anos 20 Ford estava produzindo em massa mais de dois milhões de carros por ano, 
cada um idêntico nos mínimos detalhes ao anterior e ao próximo da linha de montagem. 
Detroit vivia uma agitação. A cidade, que na virada do século tinha a reputação 
internacional de um lugar com mão-de-obra abundante e dócil, passou a conviver com o 
aumento vertiginoso de imigrantes - a maioria européia. Habitações miseráveis, 
imundice, corrupção e violência conviviam com acidentes fatais corriqueiros. Em meio 
a esse material inflamável Ford celebrou, em 1914, o famoso acordo salarial conhecido 
como "O Dia de Cinco Dólares". Divulgado como uma tentativa de repartir os lucros, o 
acordo determinava um aumento salarial de 2,30 dólares por dia para cinco dólares. O 
sistema não era aplicado para todos. Os que não havia completado seis meses de 
trabalho e as mulheres, estavam fora. 
 
A fábrica criou o "Departamento Sociológico" para cuidar do chamado "Sistema de 
Participação nos Lucros da Ford". A disciplina era rigorosa. Quando o Modelo T, o 
carro padronizado da Ford, começou a encalhar, a fábrica baixou os preços às custas do 
aumento do ritmo de trabalho - a elevação da produtividade. O célebre economista 
norte-americano John Kennett Galbraith diz que um administrador-chefe da produção 
da Ford durante quarenta anos, conhecido como "Cast Iron Charlie", ou "Charlie 
Durão", e seus associados eram os "mestres da aceleração do trabalho". Um alto 
funcionário do "Departamento Sociológico", Samuel Marquis, demitiu-se porque "a 
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teoria era a de que os empregados eram mais lucrativos para a indústria quando 
comandados do que quando liderados, de que o medo era um incentivo maior para o 
trabalho do que a lealdade". 
 
A crise na Ford explodiu com a depressão iniciada pelo crash de Wall Street em 1929. 
Ford havia encerrado a produção do Modelo T, fechado a fábrica de Highland Park em 
1927 e demitido 60 mil operários. Uma nova fábrica foi inaugurada em River Rouge 
para produzir o Modelo A, com muito menos trabalhadores e menores salários. O 
desemprego castigava Detroit. Em 1932 houve uma passeata da fome, organizada por 
desempregados, que levou 3 mil trabalhadores a protestar em frente às chaminés da 
Ford, em River Rouge. As metralhadoras da polícia e dos capangas de Ford mataram 
quatro manifestantes e feriram mais de vinte. 
 
A adulação com a qual o fordismo foi recebido passou a ser substituída por críticas 
ásperas. Até a imprensa liberal trocou os elogios efusivos com os quais saudava as 
idéias de Ford pela hostilidade. Em 1928 o jornal "New York Times" descreveu Ford 
como "um industrial fascista - o Mussolini de Detroit". O homem milagroso começou a 
ser retratado como vilão. Charles Chaplin, no filme "Tempos Modernos", mostrou o 
operário esmagado pela linha de montagem. O fazedor de milagre também foi 
condenado por Aldous Huxley no livro "Admirável Mundo Novo", publicado em 1931. 
Huxley imaginou um futuro tecnocrático, desencantador, no qual os homens eram 
embargados pela coerção e desnorteados por uma nova religião - o fordismo. 
 
A inauguração da linha de montagem móvel foi cercada de muita publicidade. Galbraith 
diz que Ford foi o primeiro personagem a fazer amplo uso das relações públicas. "Ele 
foi o primeiro embromador", diz o economista. Em 1960, o especialista em marketing 
Theodore Levitt escreveu em seu livro "A Miopia do Marketing": "Nós habitualmente 
celebramos Ford pela razão errada: sua genialidade em produção. Sua real genialidade 
era em marketing. Nós pensamos que ele foi capaz de cortar seu preço de venda e em 
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conseqüência vender milhões de carros de 500 dólares porque sua invenção da linha de 
montagem tinha reduzido os custos. Na verdade, ele inventou a linha de montagem 
porque concluiu que a 500 dólares ele poderia vender milhões de carros. Produção em 
massa foi a conseqüência, e não a causa, de seus baixos preços." 
 
Sobre a linha de montagem de Ford, Peter Drucker, espécie de oráculo da administração 
nas últimas quatro décadas, disse nos anos 50 que "se de fato analisarmos essa chamada 
nova tecnologia, descobriremos que não se trata de 'tecnologia' alguma. Não é uma 
combinação de forças físicas. É um princípio de ordem social. Essa é a verdade do 
trabalho de Ford. Ele não fez uma só invenção ou descoberta mecânica. Tudo o que ele 
usou de mecânica já era muito conhecido havia um bom tempo. Apenas seu conceito de 
organização humana foi novo." 
 
Gramsci, Galbraith, Levitt e Drucker são unânimes em afirmar que Ford criou um novo 
modo de vida. A produção em massa e padronizada definiu a regra para a 
industrialização deste século. Apoiados no taylorismo, esses princípios são aplicados 
pela fórmula que tira dos trabalhadores qualquer controle independente da produção. A 
hierarquia organizacional divide as tarefas em departamentos, cada um com a 
responsabilidade sobre determinada função ou atividade, todas subordinadas a um nível 
acima na cadeia de comando. A última palavra sempre cabe à autoridade do alto 
comando. 
 
A questão da crise do fordismo, portanto, precisa ser dividida em duas: a sua base 
taylorista e o seu conceito de modelo de desenvolvimento. A primeira parece que vem 
sobrevivendo e retomando seu espaço, em meio ao modismo das novas técnicas de 
administração. Há uma idéia mais ou menos generalizada de que o taylorismo precisa 
ser substituído por algo melhor. O problema é como fazer isso. 
Clemente Nóbrega, autor do livro "Em Busca da Empresa Quântica", diz: "Funcionários 
que só obedeçam passivamente não são mais o bastante para a empresa moderna. (...) 
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Apesar disso, não há nenhuma alternativa que torne viável, para além do blablablá 
habitual, a famosa participação nas decisões, sem distinção hierárquica. (...) A 'empresa 
inteligente', com todo o seu charme que esse rótulo possa ter, continua sendo em grande 
medida ícone retórico, bom para inspirar livros e seminários, mas sem correspondência 
com o mundo real, não por rejeição à idéia em si, mas por absoluta falta de mecanismos 
práticos para articulá-la e implementá-la." Drucker, numa entrevista à revista "Wired", 
falou sobre a já popular idéia de se encarar a organização do trabalho como uma banda 
de jazz, na qual todos escrevem a partitura enquanto tocam. "Soa bonito, mas ninguém 
realmente descobriu uma maneira de fazer isso." 
 
O fordismo como modelo de desenvolvimento está claramente afetado por uma crise 
conceitual. Primeiro porque ele não resolveu o problema da queda da taxa média de 
lucro. O "fordismo periférico, incompleto ou autoritário", em muitos países "em 
industrialização" (o Brasil no meio), passou a conviver com modos de produção 
arcaicos, comoos latifúndios, e não criou um consumo de massa capaz de compensar a 
queda de postos de trabalho e a estagnação dos salários nos países centrais. O 
crescimento industrial no mundo, que nos anos 60 era de 6% a 7% ao ano, caiu para 
fracos 2,5% na década de 70. Hoje, com a crise da política monetarista que passou a 
nortear a economia mundial a partir dos governos neoliberais de Tatcher na Inglaterra e 
Reagan nos Estados Unidos, cuja expressão mais contundente são as constantes quedas 
das Bolsas, a situação é bem pior. 
 
Outro sintoma da crise do fordismo é o corte, pelo neoliberalismo, dos benefícios 
sociais que lhe serviam de suporte. Nos tumultuosos anos 20 e 30, quando a 
produtividade disparou por conta da torrente de novas tecnologias de produção e a 
técnica taylorista de organização do trabalho, nos Estados Unidos estabeleceu-se uma 
interessante polêmica sobre demanda e produção. A maioria dos americanos ainda fazia 
seus produtos em casa. Em 1900 os armazéns vendiam gêneros de primeira necessidade 
como açucar, vinagre, farinha, pregos e alfinetes sem marcas ou etiquetas, em barris a 
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granéis. Criar a psicologia do consumo de massa era o grande desafio. A parcimônia e a 
poupança, base do modo de vida americano, passaram a ser atacadas com uma 
campanha de marketing, popularizada pelo consultor de relações industriais Edward 
Cowdrick como "o novo evangelho econômico do consumo". 
 
Galbraith diz que a missão dos empresários, na época, era "criar o desejo de consumo e 
procurar satisfazê-lo". Charles Kettering, o então chefão da GM, liderou uma campanha 
para fazer as pessoas "desejarem o consumo". Ouçamos Keterring: "A chave para a 
prosperidade econômica é a criação organizada da insatisfação." A escritora Susan 
Strasser relata: "Pessoas que jamais haviam comprado flocos de milho eram ensinadas a 
precisar deles. Aqueles que antes se contentavam em comprar aveia a granel eram 
informados do por quê deveriam dar preferência à aveia da Quaker Oats. Ao mesmo 
tempo, aprendiam como os cereais matinais embalados condiziam com o estilo de vida 
urbano, atendendo às pessoas que procuravam a comodidade." A Coca-Cola, que 
originalmente era comercializada como remédio contra dor de cabeça, foi apresentada 
como refrigerante popular. Asa Candler, que comprou a patente de processamento de 
um farmacêutico de Atlanta, dizia: "O sofredor crônico talvez tenha uma dor de cabeça 
por semana. Muitas pessoas têm apenas uma vez por ano. Entretanto, há um mal terrível 
que aflige todos com sofrimento diário, que durante seis ou oito meses do ano pode ser 
tratado e aliviado apenas apara ressurgir em menos de uma hora. Esse mal é a sede." 
 
Como na década de 20 a produtividade subira rapidamente e um grande número de 
trabalhadores fora demitido, as vendas caíram dramaticamente. A imprensa começou a 
noticiar "boicote dos compradores". A Associação Nacional de Fabricantes conclamou 
o país a "terminar o boicote" e organizou o Prospery Bureau (Deparmento da 
Prosperidade) para exortar o público a comprar agora e "fazer o dinheiro circular 
novamente". Mas nada mostrou ser mais bem sucedido do que a idéia do crédito ao 
consumidor. Comprar a prestação, para muitos, tornou-se um vício. "Suas compras 
mantêm a América empregada", era o slogan do "Departamento da Prosperidade". Os 
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fabricantes, obsecados pela idéia de que a demanda puxa a produção, não 
compreendiam que o seu sucesso era a raiz da crescente crise econômica - que redundou 
no crash de Wall Street. Ao dispensar trabalhadores e investir em tecnologias, as 
empresas aumentavam a produtividade e a produção e não tinham público consumidor. 
Um estudo do setor industrial, publicado em 1938, indicou que 51% da queda em 
homens/horas trabalhadas estavam relacionadas com a retração na produção, e os outros 
49% eram resultado do aumento da produtividade e da conseqüênte demissão de 
trabalhadores. 
 
Em plena depressão, o economista John Maynard Keynes publicou o livro "A Teoria 
Geral da Moeda e do Emprego", que iria alterar profundamente o modo como os 
governos regulariam a política econômica. A teoria keynesiana impulsionou o fordismo. 
Inspirado nos ensinamentos de Keynes, pouco meses após ser eleito o presidente 
Franklin Delano Roosevelt decretou o primeiro de uma série de programas legislativos 
para "salvar os Estados Unidos do desemprego". A Lei de Recuperação da Indústria 
Nacional (NIRA) tinha como meta empregar milhões de trabalhadores. O compromisso 
da administração do "New Deal" era utilizar mais mão-de-obra do que materiais e 
máquinas e desprezar grandes investimentos de capital. Roosevelt dizia que a causa 
principal da depressão era que a renda dos consumidores não havia aumentado o 
bastante para tirar os produtos do mercado. A idéia básica do "New Deal", segundo o 
historiador Benjamim Hannicutt, "era tirar dinheiro dos ricos, que tenderiam mais a 
acumulá-lo, e dar mais dinheiro à classe média, à classe operária e aos pobres, cuja 
tendência seria maior em gastá-lo, estimulando, com isso, as vendas e o crescimento 
econômico". 
 
O "New Deal" teve sucesso parcial. Em 1940 a economia continuava em depressão e o 
desemprego nos Estados Unidos, que chegou a 24,9% no auge da depressão em 1933, 
ainda atingia 15%. A Segunda Guerra Mundial salvou o país. Os gastos do governo 
subiram rapidamente e o desemprego ficou reduzido para a metade em 1942 e, 
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novamente, para a metade em 1943. Depois das bombas atômicas que selaram a vitória 
sobre o Japão, a economia de guerra continuou na forma de um vasto complexo 
industrial-militar, um labirinto de empreendimentos financiados pelo Pentágono. A 
guerra fria e as guerras da Coréia e do Vietnã asceleraram o fluxo de dólares do governo 
para a indústria de defesa e asseguraram a expansão da economia e o emprego. No final 
da década de 80, mais de 20 mil das principais empresas contratadas pelo setor de 
defesa e 100 mil subcontratadas trabalhavam em projetos do Pentágono. Em meados da 
década de 70, mais de 19% de todos os trabalhadores americanos tinham empregos no 
setor público. O Estado era o maior empregador dos Estados Unidos. 
 
Há uma linha de pensamento que defende a tese de que o mundo já entrou numa fase 
"pós-fordista", decretada pela presente reestruturação produtiva. Essa visão do problema 
está amparada na idéia de mercados submetidos à alta competividade, que exige 
produção diferenciada e em consonância com as demandas de diferentes segmentos 
sociais e culturais. A produção baseada nas novas tecnologias deve ser ágil e flexível 
para responder às freqüêntes mudanças da demanda. Da mesma forma, a gestão da força 
de trabalho deve ser mais participativa e flexível. O pós-fordismo, portanto, precisa de 
um trabalhador mais qualificado, mais envolvido com a nova produção que substituiu a 
padronização fordista. Perece ser uma conclusão precipitada. 
 
A idéia que aparenta ter mais coerência é a de que o fordismo ainda predomina, embora 
com nova roupagem - um processo chamado por alguns especialistas de "neofordismo". 
Não há como fugir das claras evidências a respeito de um certo esgotamento do 
fordismo tradicional. O mundo vive uma fase de transição, cujos horizontes ainda não 
estão delineados. Mas é razoável concordar com a tese que defende o conceito de 
"neofordismo". A separação, no processo de produção, entre a concepção e a execução, 
o pilar principal das relações de trabalho capitalistas, continua inalterada na "empresa 
moderna". O monopólio do controle no processo de produção continua sendo do alto 
comando. Não há, portanto, alterações significativas na divisão do trabalho. 
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O dado intrigante dessa transição são os sinais de uma brutal exclusão social provocada 
pelo desemprego e pelo subemprego. A nova torrente tecnológica já está servindo ao 
propósito de poupar mão-de-obra para elevar a produtividade e tentar retomar o 
crescimento da taxa média de lucro. Cresce o trabalho em tempo parcial, temporário ou 
subcontratado. Os ganhos salariais são cada vez mais modestos e o poder de barganha 
dos sindicatos são enfraquecidos. A economia informal aumenta rapidamente, inclusive 
nos países industrializados. Há um retorno do trabalho doméstico familiar artesanal, que 
implica no ressurgimento das mais atrasadas práticas de exploração. E, por fim e talvez 
o pior, o ataque às organizações dos trabalhadores. 
 
A idéia fordista de gerar consumidores para o consumo de massa, no entanto, choca-se 
com essa nova realidade. A impressão que se tem é que essa transição está consolidando 
uma situação social brutal e inaceitável até para as consciências alienadas. Mercados 
restritos e "modernos" convivem com a miséria absoluta e global. É, enfim, uma 
situação que evolui rapidamente para novos paradigmas sobre os quais seria uma 
precipitação sem tamanho arriscar qualquer prognóstico. Talvez não seja o caso de 
concordar com Viviane Forrester, que em seu livro "O Horror Econômico" afirma: 
"Vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em 
não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões 
de destinos são destruídos, aniquilados por esse anacronismo causado por estratagemas 
renitentes, destinados a apresentar como imperecível nosso mais sagrado tabu: o 
trabalho." 
 
Mas é um quadro que não pode ser ignorado. E o movimento sindical está no olho desse 
furacão. Ao lado das ações cotidianas, seria interessante que essa nova realidade fosse 
melhor debatida para que o cabedal teórico e de conhecimento dos ativistas sindicais 
fosse ampliado e assimilado como uma necessidade indispensável para a grave situação 
na qual já estamos envolvidos até o pescoço. Vale insistir aqui numa bandeira que, se 
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empunhada com determinação, poderia amparar esse debate e dar maior impulso ao 
movimento sindical: a ampliação da luta pelo emprego. 
 
 
Osvaldo Bertolino, diretor de imprensa do Sindicato dos Metroviários de São Paulo

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