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12 - Políticas de ações afirmativas, políticas curriculares e currículo

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Aline D

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12 - Políticas de ações afirmativas, políticas curriculares e currículo
	A questão racial e a pobreza no Brasil sempre foram fortemente vinculadas, tendo o Estado buscado, com a sociedade, alternativas para compensar esses grupos prejudicados e alçar alguns de seus membros a melhores condições educacionais e sociais. As assim chamadas ações afirmativas tiveram um papel já demonstrado no sucesso de inserção de pessoas de diferentes grupos minoritários ou perseguidos, causando uma ação em cadeia na melhoria da vida educacional do grupo social.
12.1 As questões demográficas e raciais do Brasil 
	O senso comum informa que o Brasil foi formado por três raças: o negro, o índio e o branco português. Essa tese foi formulada pelo botânico e viajante Carl Friedrich Phillip von Martius, em 1845. Segundo ele, os portugueses nos deram a língua, a religião e a organização econômica e política; os índios nos deram hábitos cotidianos e alimentares e nomes geográficos dos lugares do Brasil; e os negros, na condição de escravos, contribuíram geneticamente, mas pouco, culturalmente, em razão de serem considerados, na época da colonização, inferiores.
	Entre os índios havia homens e mulheres de distintos povos e línguas, por vezes inimigos ou parentes entre si, que interagiram com a sociedade brasileira em maior ou menor intensidade, em momentos distintos da história. Assim como os índios, brancos e negros dessa tese sobre a constituição do Brasil são diferentes não somente naquele período longo de colonização, mas também historicamente, pois há diferenças entre as etnias de 1550 e as do século XXI.
	O Brasil foi o país que mais recebeu negros em seus portos, majoritariamente vindos do Benin e de Angola. Eles eram concentrados nas áreas dinâmicas da economia colonial e imperial (Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais) e nas áreas, por todo o Brasil, onde havia portos ou uma economia forte – Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas, Paranaguá e Cuiabá; depois, Belém do Pará.
	Escravizado, o negro ocupou um papel de destaque na sociedade brasileira. Traços culturais, alimentares, de trabalho e gosto estético, de religiosidade e de sociabilidade derivam diretamente da experiência negra no Brasil.
	Se o negro passou a ser visto na segunda metade do século XX sob um ponto de vista positivo, essa positividade também trouxe uma visão estereotipada sobre negros e negras. O negro era visto como alegre e informal. Sua ginga e conhecimento do submundo eram presumidos, enquanto a sensualidade era a marca das mulheres negras, que logo passaram a decorar shows de Carnaval e clubes. A mulata, negra ou mestiça sensual que sambava se tornou fetiche dos brasileiros, de forma que passaram a ser cantadas em sua beleza. 
	Em 1951, foi criada a Lei Afonso Arinos, que punia atos de preconceito racial, prevendo punição para atos públicos de discriminação e vedando proibições de entrada em recintos, propagandas racistas etc. Apesar de ser uma lei tão antiga, as punições que poderiam ser proporcionadas por ela são inexistentes na história do Brasil.
	O regime militar manteve as diferenças sociais agudas nos meios rural e urbano brasileiros, ainda que os números apresentassem alguma melhora, como, por exemplo, o crescimento da economia, de maneira geral. O abismo entre negros pobres e brancos ricos continuava grande. O número de negros universitários continuava baixo e a discriminação existia, ainda que de maneira velada. 
	O mito da democracia racial, criado na década de 1930, continuava sendo manipulado pelo Estado, mas os negros continuavam mais pobres, mais perseguidos pela polícia, com menos empregos e com empregos sem qualificação. 
	A geração dos anos 1970 impulsionou a presença negra na política brasileira. O marco, nessa trajetória, foi a criação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, resultante da articulação das várias tendências que atuavam na luta antirracial e pelas liberdades democráticas.
	O Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial nasceu por meio do Ato Público, realizado em São Paulo, em 7 de julho de 1978, em protesto contra a discriminação sofrida por quatro jovens negros nas dependências do Clube Regatas Tietê e contra a tortura e morte de Robson Silveira Luz, numa delegacia de São Paulo. Essa data ficaria marcada como o Dia Nacional de Luta Contra o Racismo. Passaram-se, então, 41 anos desde o fechamento da Frente Negra Brasileira. 
	Com a reabertura política, o Movimento Negro se mobilizou no processo de conscientização do lugar dos negros no Brasil, em sua sociedade e em sua história. Em 1988, a Constituição classificou o crime de racismo como inafiançável e imprescritível.
	Apesar de alguns eleitos, os negros e pardos estavam sub-representados. Nesse ano – cem anos depois da Abolição –, os negros e pardos ainda apresentavam uma taxa de analfabetismo de 30% e 29%, enquanto brancos tinham 12% de analfabetos e amarelos, 8%. O brasileiro médio estudava então quatro anos, enquanto os negros estudavam somente dois anos. 
	Durante os anos 1990, a melhoria da economia com o fim da inflação não levou a uma imediata melhora da situação da população negra, visto que as melhoras foram proporcionais aos demais grupos. Sendo assim, a distância entre brancos, negros e pardos se manteve a mesma. 
	Os avanços alcançados nos níveis de educação e rendimento não alteraram significativamente o quadro de desigualdades raciais.
	Entre 1992 e 1999, o aumento de um ano de estudo correspondeu a uma elevação de 1,2 salários no rendimento de brancos e de meio salário no rendimento de pretos e pardos.
	Na década, houve uma queda generalizada no número de famílias vivendo com até meio salário mínimo per capta, mas, em 1999, ainda se encontram nessa situação 26,2% das famílias pretas e 30,4% das pardas, para 12,7% das brancas. Também, a posição na ocupação se mantém inalterada na década, com mais pretos e pardos (14,6% e 8,4%) no emprego doméstico que brancos (6,1%) e, ao contrário, mais brancos (5,7%) entre os empregadores, que pretos e pardos (1,1% e 2,1%) (BRASIL, 2012).
12.2 Ações afirmativas no mundo 
	Nos Estados Unidos, desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), existe um movimento, por parte de líderes negros e de políticos, que visa criar condições de igualdade de emprego. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), esse movimento cresceu com a participação de negros em todos os setores da produção e combate. Nos anos 1950, o movimento exigiu igualdade plena e registro de negros para as eleições. Também resultou na entrada de negros em escolas e universidades, que eram apenas para brancos. Na esteira do movimento, o Partido Democrata procurou criar condições para a igualdade. 
	Em 1961, o presidente John Kennedy assinou a Ordem Executiva 10.925, em que previa que o governo federal e seus prestadores de serviços não deveriam discriminar seus empregados se baseando em raça, cor, crença ou origem nacional. Também estabeleceu um comitê presidencial de igualdade de oportunidades no emprego. Sua ação direta foi a mudança no sistema discriminatório dos sindicatos e das agências federais e a criação de políticas públicas que tinham como objetivo acabar com a discriminação no trabalho.
	Em 1967, a Ordem de 1961 foi adensada com a proibição de discriminação por gênero, exigindo igualdade entre homens e mulheres. Em 1965, a ONU elaborou a Convenção Internacional pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (The International Convention on the Elimination of All Forms of Racial Discrimination – ICERD). Esse comitê pressionou os países-membros a adotar medidas antidiscriminatórias e a combater o discurso do ódio, além de os países assinantes ficarem obrigados a traçar políticas públicas afirmativas para melhorar a educação e o trabalho das minorias. O Brasil é signatário dessa convenção desde 1968. 
	Porém, nem sempre um sistema que prevê políticas afirmativas resulta em justiça social. Fazendo-se um uso perverso, por vezes o sistema de cotas serviu para conter uma população. 
	Basicamente o sistemade cotas ou reserva de vagas para minorias nos sistemas educacionais ou em funções estatais visa justamente forçar o ingresso de alguma minoria com mais expressividade, a fim de gerar ascensão generalizada no grupo.
12.3 Ações afirmativas no Brasil 
	As primeiras tentativas de implantar ações afirmativas no Brasil partiram de Abdias do Nascimento. Em 1984, como deputado, apresentou o projeto de uma lei que determinava a reserva de 40% das vagas do Instituto Rio Branco – que forma diplomatas – para negros. Mas os tempos de redemocratização colocavam outras pautas antes, e a questão foi esquecida. 
	No ano de 1994, durante as eleições, o movimento negro fez um apelo aos candidatos que colocassem em pauta a questão do racismo. No ano seguinte, 1995, 30 mil pessoas se manifestaram na Marcha Zumbi dos Palmares, em Brasília, e entregaram um documento que exigia do governo ações afirmativas.
	No governo Lula (2003-2011), as políticas públicas ganharam mais força e o estatuto da Igualdade racial foi aprovado depois de sete anos tramitando no congresso. Nele fica estabelecido o incentivo às manifestações culturais, à educação e ações afirmativas que visem recolocar os negros em situações melhores na sociedade, com emprego, saúde e educação, e estimular esse grupo a mostrar sua cultura e o resto da sociedade a conhecer essas manifestações (BRASIL, 2010). 
	Nesse período foram criadas também a Secretaria da Igualdade Racial e o programa de inclusão de pobres nas Universidades, Programa Universidades para Todos (ProUni), que, em seu início, atendia 203 mil alunos, sendo 63 mil destes, afrodescendentes, já que o programa previa cota para negros.
	Desde então, diversas universidades públicas criaram um sistema de cotas para pobres, negros e indígenas.
	O crescimento do número de mulheres representantes e de negros nas universidades mostrou a força do sistema de cotas, que inclui também estudantes de escolas públicas. Também quando as cotas são para pobres ou alunos de escolas públicas, os índices são favoráveis.
12.4 Políticas curriculares 
	A política educacional de um país é fundamental para seu desenvolvimento. Em vista disso, desde que os países estipularam uma educação pública como direito dos cidadãos e obrigação dos Estados, tiveram que estabelecer parâmetros para a diversidade de escolas, regiões, vontades, conhecimentos e correntes educacionais. 
	No Brasil, nos períodos colonial e imperial, os parâmetros eram ditados pela educação religiosa, pela ciência da época e, sobretudo, pela autoridade do professor e pelo modelo patriarcal, cristão e monarquista. Nessa época, também, não havia um sistema público de educação, de modo que ela era entregue aos religiosos, que viam a educação como missão, e não profissão. 
	No início do período republicano, a educação foi moldada por uma interpretação muito particular do sistema positivista.
	Importante contribuição dos positivistas foi a separação entre escolas públicas e particulares confessionais. A permissão para instalação de escolas confessionais não católicas a partir de 1871, que exerceram forte influência a partir de 1900, resultou na introdução de uma pedagogia americana que introduziu o ensino misto, com rapazes e moças na mesma sala, além de dar mais ênfase às atividades práticas.
	Em 1925, foi criado o Conselho Nacional de Ensino, que se dedicava ao ensino superior e ao ensino secundário, ficando as escolas primárias a cargo dos municípios e estados.
	Em 1928, a reforma do sistema educacional do Distrito Federal iniciou uma nova fase dos assuntos pedagógicos, pois lançou as bases de uma educação mais humanista, com respeito à pessoa humana e que pregava o respeito ao indivíduo, o que era coerente com a ideologia liberal, ainda estranha no Brasil. Em 1931, criou-se o Ministério da Educação.
	O Brasil tem uma tradição de atendimento educacional de grupos minoritários desde a legislação de 1961, que atendia os deficientes buscando integrá-los, sempre que possível, ao sistema geral de educação. Em 1971 os deficientes foram colocados em escolas especiais e só voltaram a ser atendidos em escolas gerais depois da Constituição de 1988.
	Após o fim da ditadura, a Constituição de 1988 deu mais autonomia educacional para o professor e o MEC passou a ser um ministério mais aberto ao debate.
	Nos anos 1990, políticas educacionais e curriculares dos governos enveredaram para um modelo condizente com o neoliberalismo, em que a tecnicidade e a preparação para o mercado contam mais do que todos os outros elementos. Dessa forma, os currículos foram abertos para facilitar a inclusão de realidades econômicas regionais. 
	Por outro lado, a política educacional liberal não pôde ficar alheia ao esteio da sociedade tecnológica, que é a tecnologia digital, daí a contínua tentativa por parte dos agentes da educação de incorporar novas tecnologias educacionais e novas técnicas de ensino do mundo contemporâneo. As formas de sociabilidade e comunicação, bem como o novo modelo de gerenciamento do Estado e das empresas (com uma eficiência mensurável), devem ser ensinadas na escola, preparando o jovem para o mundo da eficiência globalizada e dos novos modelos de consumo e trabalho. Aos alunos deverá ser ensinada a versatilidade necessária ao trabalhador da tecnologia.
	O governo FCHC fez uma seleção melhor dos livros didáticos, excluindo de sua compra anual livros que praticavam racismo e preconceito de cor, raça e gênero. Diversos projetos foram implementados para dar visibilidade aos negros, como programas na TV Escola sobre a cultura e a herança africanas no Brasil e a oferta de cursos pré-vestibulares para pessoas carentes, especialmente negros. Em novembro de 2002, o governo lançou as bases do sistema de cotas no Programa Diversidade na Universidade, mas a implantação ficou a cargo do governo seguinte, que havia se comprometido com essa ideia (PAULA, 2010). 
	No governo Lula, o sistema de cotas foi implantado e, mais do que isso, iniciou-se uma mudança das estruturas curriculares, já que, nesse momento, o governo atendia à reivindicação de historiadores e de ativistas dos movimentos negro e indígena que queriam que se tratasse, nas escolas, nos colégios e nas universidades, da história e cultura indígena e africana. Nesse sentido, é que o MEC tornou obrigatória a inclusão de cultura africana e indígena no currículo da educação básica, não só para que os brancos de todo o país conhecessem essa história, mas para que negros e índios se vissem mais como integrantes da história e da sociedade brasileiras.
12.5 Currículo 
	Todas as reformas educacionais passam pelo currículo. Ele é definido como essencial nas escolas e na relação entre professores e alunos. A importância do currículo é tão óbvia que muitas vezes ele é tratado como o elemento mais importante do contexto escolar.
	O currículo é o mediador da sociedade e sua cultura herdada entre a escola e o aluno. Sendo assim, selecionar os elementos do currículo mostra a relação da sociedade com sua cultura e com a ciência. 
	Existem três formas de currículo, segundo os especialistas. O currículo formal que é criado pelo sistema de ensino formal, fica estabelecido pelo Estado e estipula os conhecimentos necessários a serem ensinados em cada ano escolar. Sua referência são os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Outro currículo é o real, ou o que acontece em sala de aula. Isso porque existem momentos em que assuntos prementes ou a realidade dos alunos ou da turma fazem o professor alterar o programado. Por exemplo, em uma turma com problemas de relacionamento entre os alunos, talvez seja preciso que o professor altere o andamento da disciplina para resolver o problema. Ou, ainda, talvez a turma não tenha entendido um elemento que precise ser revisto, fazendo com que o professor deixe de abordar os últimos assuntos do currículo ou reúna-os nas aulas finais do curso. Muitas vezes a escola e o professor sabem das necessidades dos alunos e executam alterações no plano de aula para atender uma realidade que o MEC não temcomo conhecer. Já o currículo oculto é o que o aluno aprende em meios diversos, contatos pessoais e leituras fora da classe e que não está no plano de ensino do professor.
	Os currículos passaram recentemente por um processo de reavaliação de prioridades. A conscientização do papel do índio e do negro na sociedade, por exemplo, aparece em todos os cursos, visando acabar com a defasagem do conhecimento que os estudantes brasileiros têm dos problemas referentes a essa população. A obrigatoriedade dos estudos sobre a história da África nos cursos de História e nas universidades, com os estudos humanos, visa a suprir a demanda e fazer o aluno e o professor conscientes de que existe uma história africana cheia de elementos interessantes e relevantes. Dessa maneira, a obrigatoriedade do ensino de cultura afro-brasileira e indígena já mudou também o mercado, o qual passou a abordar esse tema em seus livros didáticos. Diversas publicações especializadas apareceram no mercado editorial e diversos grupos culturais de jovens negros e indígenas mostram uma transformação cultural significativa.

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