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FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E TEÓRICO- METODOLÓGICOS DO SERVIÇO SOCIAL Professora Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Professora Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; BERTTI, Aline Cristtine Marroco França; CUNHA, Maria Cristina Araújo de Brito. Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social. Aline Cristtine Marroco França Bertti; Maria Cristina Araújo de Brito Cunha. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2014. Reimpresso em 2020. 120p. “ Graduação - EaD”. 1.Metodologia. 2. História. 3. Serviço Social. 4. EaD. I.Título. ISBN 978-85-8084-956-1 CDD 22ª Ed. 362 NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria Executiva Chrystiano Minco� James Prestes Tiago Stachon Diretoria de Graduação Kátia Coelho Diretoria de Pós-graduação Bruno do Val Jorge Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de Design Educacional Débora Leite Head de Curadoria e Inovação Tania Cristiane Yoshie Fukushima Gerência de Processos Acadêmicos Taessa Penha Shiraishi Vieira Gerência de Curadoria Carolina Abdalla Normann de Freitas Gerência de de Contratos e Operações Jislaine Cristina da Silva Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey Supervisora de Projetos Especiais Yasminn Talyta Tavares Zagonel Coordenador de Conteúdo Maria Cristina Araújo de Brito Cunha Designer Educacional Camila Zaguini Silva Larissa Finco Maria Fernanda Canova Vasconcelos Nádila de Almeida Toledo Rossana Costa Giani Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Ilustração Capa Bruno Pardinho Editoração Fernando Henrique Mendes Qualidade Textual Ana Paula da Silva Flaviana Bersan Santos Jaquelina Kutsunugi Keren Pardini Nayara Valenciano Viviane Favaro Notari Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não so- mente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in- tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis- cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. Prof.ª Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Possui graduação em Serviço Social, pela Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (2007); é especialista em Ética e Política, pela Fundação Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari (2009); mestre em Ciências Sociais, pela Universidade Estadual de Maringá. Atualmente, é assistente social do Centro de Triagens e Obras Sociais do Vale do Ivaí e professora do curso presencial e a distância de Serviço Social da Unicesumar – Maringá. Prof.ª Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha Graduada em Serviço Social, pela Universidade Federal do Amazonas; Especialista em Administração de recursos Humanos, pela Universidade Federal da Paraíba; Mestre em Gerontologia Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Coordenadora do Curso de Serviço Social presencial e na modalidade a distância da Unicesumar – Centro Universitário Cesumar. A U TO RE S SEJA BEM-VINDO(A)! Caro(a) aluno(a), é um grande prazer e satisfação podermos trabalhar com você esta disciplina tão importante para sua formação profissional. O material elaborado o(a) au- xiliará no estudo da disciplina de Fundamentos Históricos Teórico Metodológicos do Serviço Social. Faremos, no decorrer de nossos estudos, uma análise da fundamentação teórica do sur- gimento do Serviço Social. Posto isso, no decorrer das cinco unidades deste material, você analisará questões em que propomos reflexão e, com isso, uma ampliação de seu conhecimento, formando, assim, um profissional capacitado para a compreensão do início de nossa profissão. Durante a elaboração deste livro, propusemos criar um material que abordasse a funda- mentação sócio-histórica da profissão de um modo claro e de fácil compreensão. Agora, farei um breve relato do conteúdo que iremos abordar no decorrer de nosso estudo. Na Unidade I, veremos os elementos para entendermos o capitalismo, a relação entre proletariado e burguesia e o surgimento do Serviço Social na Europa. Na Unidade II, abordaremos sobre as protoformas do Serviço Social, o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social no Brasil e o conservadorismo religioso e as bases teórico-metodológicas. Na Unidade III, veremos a influência do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade e a relação entre positivismo e funcionalismo naprofissão. Já na Unidade IV, abordaremos a defesa da qualificação profissional e a mobilização da categoria. Finalizando nosso livro, na Unidade V, o assunto será o Serviço Social e a Ditadura, a incorporação da profissão na esfera da burocracia e tecnocracia. E, encerrando, aborda- remos o Serviço Social e o processo de questionamento da prática profissional. Prezado(a) aluno(a), é de extrema importância que você faça a leitura do material pre- viamente e resolva todas as questões propostas no final de cada Unidade, pois isso con- tribuirá amplamente para seu processo de aprendizagem, no qual estaremos pronta- mente disponíveis em atendê-lo(a). Deixamos aqui nossos sinceros agradecimentos em poder compartilhar nosso conheci- mento e contribuir para o processo de sua formação profissional. Desejamos um ótimo estudo e sucesso a você! APRESENTAÇÃO FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E TEÓRICO- METODOLÓGICOS DO SERVIÇO SOCIAL SUMÁRIO 09 UNIDADE I CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL 13 Introdução 14 Capitalismo 16 Capitalismo Monopolista 19 Proletariado X Burguesia 23 O Surgimento do Serviço Social na Europa 27 Considerações Finais UNIDADE II AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL 35 Introdução 36 As Protoformas do Serviço Social 40 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil 53 Conservadorismo Religioso e Bases Teórico-Metodológicas 57 Considerações Finais UNIDADE III A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL 63 Introdução 64 A Influência do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade SUMÁRIO 69 Positivismo na Profissão 72 Introdução do Funcionalismo no Serviço Social 73 Considerações Finais UNIDADE IV A CATEGORIA PROFISSIONAL 79 Introdução 79 Defesa da Qualificação Profissional 89 A Mobilização Da Categoria 93 Considerações Finais UNIDADE V O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL 99 Introdução 100 O Serviço Social e a Ditadura Militar 107 A Incorporação da Profissão na Esfera da Burocracia e Tecnocracia 108 O serviço social e o processo de questionamento da prática profissional 112 Considerações Finais 117 CONCLUSÃO 119 REFERÊNCIAS U N ID A D E I Professora Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Identificar o surgimento do capitalismo e o capitalismo monopolista. ■ Analisar a relação entre proletariado e burguesia. ■ Refazer a trajetória do Serviço Social, estudando sobre o surgimento na Europa. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Capitalismo ■ Capitalismo Monopolista ■ Proletariado X Burguesia ■ O surgimento do Serviço Social na Europa INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! É necessário desvendar o contexto histórico do capitalismo, suas raízes e condições, assim, notamos que sua formação está intimamente ligada com as origens do serviço social, que nos remete a analisar a linha do tempo e conhecer a estrutura social do sistema capitalista, reconhecendo a face da força de produção e a respectiva organização social, mais especificamente a divisão de classes no contexto econômico brasileiro. Vamos verificar a história do capitalismo e a história das classes sociais, sendo que nesta reside o elemento essencial para fins de compreensão do capi- talismo, tanto quanto para a consideração da marcha histórica da humanidade, relevantemente relacionada com conflitos, antagonismos e lutas, estas últimas, em particular, consideradas verdadeiras forças motrizes da referida marcha. O destaque desta luta, sistematizada por Marx, e suprema para Engels, reputou que ela tem para a história a mesma consideração que a lei da transformação de energia tem para a ciência natural. A Unidade I focará no desenvolvimento do capitalismo e seus desdobramen- tos nas relações entre o capital, o trabalho e o Serviço Social. Portanto, caro(a) aluno(a), convidamos você a fazer uma busca na trajetória histórica do Serviço Social, pois temos como propósito buscar a compreensão do capitalismo enquanto classe histórica e sua correlação com a produção e reprodução das relações sociais. Para esse debate, vamos nos apoiar nos autores renomados do Serviço Social: Marilda Iamamoto, Raul de Carvalho, Maria Lucia Martinelli, Maria Lucia Barroco, entre outros. Nesse sentido, se faz necessário um regresso no tempo, a fim de investigar a história e com ela discutir. Assim, apresentamos nossa abordagem nesta pri- meira unidade. Vamos lá? 13 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I CAPITALISMO O capitalismo é um modo de produção baseado na divisão societária em duas classes: a dos capitalistas (proprietários da matéria-prima do trabalho), que detêm o poder de compra da força do trabalho, e a dos proletariados (não pos- suem acesso aos meios de produção), que são forçados a venderem sua força de trabalho por não terem acesso aos meios de produção. Aqui, há a posse particular dos mecanismos de produção por uma classe que explora a força de trabalho daqueles que não os possuem, e esta fragmentação entre meios de produção e produtor é resultado da subordinação direta deste ao dono do capital, onde se permite a instauração do ciclo de vida do capitalismo e o seu processo de acúmulo primitivo. Na produção e reprodução dos meios de vida, os homens organizam deter- minados vínculos de interações recíprocas e, por intermédio dos quais, realizam uma ação transformadora da natureza realizando a produção. Dessa maneira, a produção social não trata apenas de produção objetiva de matérias, mas também de relações sociais entre as pessoas, entre classes sociais que personificam certa categoria econômica. O capital social, enquanto relação social, supõe o outro termo da relação, o trabalho assalariado, da mesma forma que supõe o capital. A transformação do dinheiro em capital requer, portanto, que os possuidores do dinheiro enxerguem no mercado não apenas os meios objetivos de produção como mercadoria, mas também uma mercadoria especial, a qual faz referência à força de trabalho, cujo valor de utilização tem a qualidade de ser fonte de valor, ou seja, onde há o con- sumo e, concomitantemente, a materialização de trabalho e, por isso, a criação de valor que se realiza na dinâmica do processo produtivo e na relação de com- pra e venda da força de trabalho. É por meio dessa relação que o capitalismo é impulsionado a encontrar no mercado o trabalhador livre, ou seja, livre de qualquer outra relação de domina- ção econômica, sendo proprietário de suas pessoas, com a finalidade de que possa enfrentar-se no mercado com seus possuidores do dinheiro, em uma interação entre possuidores juridicamente iguais de mercadorias, por meio da qual entre em relação o proprietário da força de trabalho e ceda-a ao comprador para a sua ©shutterstock 15 Capitalismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . utilização durante determinado período de tempo. Essa é a condição elementar para que seja mantido enquanto proprietário de sua mercadoria, podendo tornar a vendê-la. Tal condição se associa outra, ou seja, se encontra obrigado a vender, para suprir suas necessidades, o único bem que possui, qual seja, a sua força de trabalho. Isto é, alienar parte de si mesmo, já que do outro lado se enfrentam, como propriedade alheia de todos os meios produtivos, condições de trabalhos essenciais à materialização de seu trabalho bem como os meios imprescindíveis à sua sobrevivência. Desse modo, a partir do momento em que o capitalista transforma parte de seu capital em força de trabalho, o que adquire com isso é a exploração de todo o seu capital. Conquistabenefícios não apenas do que retira do trabalha- dor, mas de tudo aquilo que transfere à classe trabalhadora na forma de salá- rio. O processo capitalista de produção exibe o trabalhador separado das con- dições de trabalho, o apresenta como o trabalhador assalariado. Este benefício econômico se disfarça pela ocorrência da renovação periódica da alienação da força de trabalho, seja devido à subs- tituição de patrões individuais, seja por culpa das oscilações de preço da força de trabalho no mercado. No entanto, o próprio processo elabora as aparências mistificadoras que impedem a expressão da revolta, garantindo, dessa forma, a continuidade do curso de produção. O capital supõe o monopólio dos meios de produção e de subsistência por uma parte da sociedade – a classe trabalhista – em confronto com os trabalha- dores desprovidos das condições materiais necessárias à materialização de seu trabalho. Supõe ao trabalhador que para sobreviver tem a vender sua força de trabalho. O capital supõe o trabalho assalariado e este o capita (MARX, 1975, p. 4-101). CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I CAPITALISMO MONOPOLISTA O capitalismo dos Monopólios é a fase que segue o processo do capitalismo con- correncial, onde é imprescindível uma “exportação dos capitais”. Nele (capitalismo dos monopólios) acontece a centralização e a concentração do capital em níveis maiores, aumentando, dessa maneira, a exploração, alienação, a desigualdade e a exclusão social. Essa época é a de agudizamento de todas as contrariedades pertinentes ao sistema, ou seja, contradições existentes entre a relação Capital e Trabalho, acentuando e afiando, dessa forma, as expressões da “questão social”. As análises do Capitalismo Monopolista nas interações sociais são pífias, remetendo a sociedade e o mundo à barbárie, por exemplo, na 1ª e 2ª guerra mundial, holocausto, nazismo, fascismo etc. A finalidade do Estado, na era Imperialista, era ser apenas um “comitê executivo” da burguesia, sempre atenden- do-a e favorecendo-a. Em suas contrariedades e dinâmicas, a classe dominante captura o Estado, passando a ser seu, buscando por meio do jogo democrático a falsa democracia, a fim de se legitimar (o Estado) tanto politicamente quanto ide- ologicamente. Em síntese, pode-se dizer que, nesta sociedade, o Estado trabalha com o propósito de ofertar condições necessárias à acumulação e à valoriza- ção do capital monopolista. De acordo com a ordem monopólica, ele invade o espaço dos indivíduos e da sociedade de forma integral, originando propostas para redefinir características pessoais com estratégias e terapias de ajustamento. Partindo desse processo, o Serviço Social vai surgindo, e para atender às procu- ras daquela conjuntura, possuía uma atividade bastante funcionalista de “acertar” o indivíduo ao meio. Podemos perceber que o Serviço Social, enquanto profissão, está relacio- nado ao surgimento da “questão social”, dirigido por condutas assistencialistas e filantrópicas, com uma base da doutrina social da Igreja Católica, isto é, ori- ginado como resposta ao agravamento das contrariedades capitalistas em sua fase monopolista, para o “controle” da classe trabalhadora e para legitimação dos setores dominantes e do Estado. O serviço social se origina e se efetiva por meio da ordem monopólica, relacionando-se ainda com as mazelas próprias à ordem burguesa, à altura do capitalismo monopolista. A política social é um dos principais mecanismos de intervenção nas ©shutterstock 17 Capitalismo Monopolista Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . demonstrações da “questão social”, sendo resultado da capacidade de mobiliza- ção e reunião da classe operária e do aglomerado de trabalhadores. Diante disso, o Estado a usa como ferramenta e atende a procura enquanto tática também para a reprodução e manutenção do sistema atual, preservando e controlando a mer- cadoria mais importante para o modo de produção capitalista, ou seja, a força de trabalho. É como dar com uma mão e retirar com a outra. A política social pode ser compreendida ainda como um acordo existente entre a burguesia e a classe operária, fragmentando e fragilizando a organização da classe operária e legítima do Estado Burguês. E com a ideologia neoliberal, que só intensifica o sistema capitalista, o entendimento da culpabilização do sujeito é cada vez mais usado, excluindo a conjuntura do próprio sistema, que em sua oposição acar- reta riqueza excedente, entretanto, esta fica reunida e/ou concentrada nas mãos de poucos, enquanto a maioria se encontra à margem do sistema. Para Iamamoto (2004), o serviço social não deve ser interpretado apenas como uma nova maneira de realizar a caridade, mas sim, como uma forma de inter- venção ideológica na vida dos trabalhadores, ainda que seu fundamento seja a atividade assistencial; no entanto, os efeitos produzidos são essencialmente políticos, por meio do “enquadramento” dos trabalhadores nas relações sociais vigentes, reforçando a recíproca colaboração entre capital e trabalho. CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Na evolução capitalista, destacamos: Capitalismo Comercial: surgiu com as grandes navegações e com as anti- gas grandes potências Espanha e Portugal, que estavam dispostas a explorar seus novos territórios recém-conquistados. Mas qual foi a forma que essas potências encontraram para essa exploração? Um sistema chamado de Plantation foi instalado nas colônias, que consiste em uma grande parcela de terra voltada para a monocultura, ou seja, um único produto agrícola; também caracterizado pelo uso da força de trabalho escravo e por todos os produtos serem destinados ao mercado externo, com a condição de que as colônias só estabelecessem relações mercantilistas com suas respecti- vas metrópoles, esse era o pacto colonial. Isso ocorreu em grande parte da América do sul, mas nas terras que hoje correspondem aos Estados Unidos e ao Canadá se deu outro tipo de coloniza- ção, eram as chamadas colônias de povoamento. Neste modelo adotado, eram pequenas propriedades de policultura, ou seja, vários produtos agrícolas, a mão de obra era assalariada e os produtos eram para enriquecer o comércio interno. Porém, não foi assim em todo o território, ao sul dos Estados Unidos, as colônias eram de exploração, isso devido ao clima semelhante ao tropical que favorecia a aplicação das Plantations. Eram sistemas muito diferentes coexistindo, mas isso trouxe consequências, afinal, após a primeira metade do século XVIII, ocorreu a Primeira Revolução Industrial e a Inglaterra começou a necessitar de muitos produtos têxteis para abastecer suas indústrias. Uma série de eventos e abusos acabou levando à independência dos Estados Unidos, em 1776, conduzindo ao próximo modelo capitalista que vamos conhecer. O Capitalismo Industrial: ocorreu com a chegada da Revolução Industrial e as suas fábricas, que inovaram e intensificaram as relações comercias e as produ- ções. Era um mundo de produção onde a coisa mais notável era a exploração do homem pelo próprio homem, aqui o trabalhador não tem consciência de como as coisas que são feitas industrialmente ocorrem como um todo, ele apenas sabe uma pequena parte da linha de montagem, e apenas a figura do burguês, dono das fábricas, sabe o processo completo. Os trabalhadores se sujeitavam a uma carga de trabalho muito grande para 19 Proletariado X Burguesia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . receber muito pouco dinheiro na época. Capitalismo Financeiro: vem com a substituição das máquinas a vapor pelo motor à combustão interna, na Segunda Revolução Industrial,e essas novas máquinas foram substituindo os transportes, as fábricas ultrapassadas e o setor agrícola, gerando uma aceleração enorme no campo tecnológico em todas essas áreas; esse modelo irá perdurar até a Grande Crise da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Capitalismo Especulativo: é o modelo como conhecemos hoje em dia, onde, por meio de sociedades anônimas, os capitalistas investem na especulação de títulos, como as ações de uma empresa, afinal, abrir uma empresa gera gastos e nem sempre traz os lucros esperados. PROLETARIADO X BURGUESIA Caro(a) aluno(a), está claro que de fato residimos em um meio social capitalista. Nossa sociedade apresenta divisão de classes e desigualdades sem igual. Na socie- dade capitalista, existem inúmeras desigualdades, basta ter olhos para enxergar. Uma pequena quantidade de pessoas concentra considerável número de bens em seu poder, quais sejam: dinheiro, propriedades, mansões e carros. De maneira oposta, grande parte das pessoas possui apenas o mínimo e, às vezes, menos que isso para sobreviver. Vivemos apertados em questões pertinentes à alimentação, casa, roupas, escola, transportes, saúde, lazer etc. Vemos, ainda, tantos efeitos trágicos desse meio social, como a subnutrição, doenças endêmi- cas, mortalidade infantil, desemprego, prostituição etc. É fato que entre os dois grupos existem camadas médias, as quais são Lembre-se que foi a diferença entre os modelos capitalistas nos Estados Uni- dos, entre o norte e o sul, que com o passar do tempo gerou as tensões que levaram à guerra civil americana! © sh ut te rs to ck CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I denominadas “classe média”. Mas não é esta classe que determina a natureza da sociedade capitalista, pois na referida sociedade, as classes sociais elementares são a burguesia e o proletariado. A burguesia é a classe dos proprietários das fábricas, das fazendas, das minas, dos bancos etc. Resumindo, são os donos particulares dos meios de produção, ou seja, os possuidores do capital, dessa forma, são chamados de capitalistas. Esses mecanismos de produção constituem um capital, pois são usados dentro de uma relação de exploração. Diante desse panorama, a classe proletária aos poucos vai se rebelando, dadas as condições de exploração a que estava submetida, ao elevado aumento da jornada de trabalho, associado à queda do padrão de vida dos assalariados. E considerando os altos custos sociais provocados pela prática do cresci- mento econômico, era necessário criar mecanismos, por parte do Estado, de contenção da classe operária, que vem requerer seus direitos sociais. É nesse cenário econômico e político que o assistente social é requisitado para intervir na realidade social, por meio das políticas sociais, em resposta às reivindicações da classe trabalhadora. ©shutterstock 21 Proletariado X Burguesia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A denominação de burguesia se deve ao motivo pelo qual quando essa classe se formou, ainda no término do feudalismo europeu, tratava-se de comerciantes e pequenos industriais que habitavam as pequenas cidades (conhecidas como bur- gos). Não eram pessoas nobres, nem eram mais servos responsáveis por lavrar a terra nos feudos, eram apenas um tipo de classe média, posteriormente trans- formada em classe predominante. É bem verdade que dentro do pro- letariado existem trabalhadores que recebem vantagens em relação aos demais. No entanto, ambos vivem e dependem do seu trabalho. A denominação “proletária” já se fazia presente na antiga Roma, designando aquelas pessoas que nada possuíam, a não ser seus des- cendentes, ou seja, seus próprios filhos. Nos primórdios da socie- dade capitalista, o proletariado se originou mediante antigos servos que saiam dos feudos e iam para os burgos, sem qualquer bem em sua posse; e, ainda, artesãos que não estavam munidos de condições para competir com as máquinas da classe dominante. Dessa maneira, os proletários são homens livres sob duas vertentes: não estão mais presos aos feudos e também não possuem nada a não ser a sua própria força de trabalho. Assim, na sociedade capitalista, existe uma fragmentação entre o capital e o trabalho. Aquele que trabalha diretamente não possui os meios de produção, e aquele que possui os meios de produção não trabalha diretamente. A classe domi- nante usa a força de trabalho dos proletários para fazer funcionar seus meios de produção e, dessa forma, produzir mercadorias com a finalidade de obter lucros. Com esse lucro, além de viver com qualidade, os burgueses melhoram em quan- tidade e qualidade os seus mecanismos produtivos, com o propósito de produzir mais mercadorias e obter, com isso, maiores lucros. CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Esse curso repetido, diariamente, consiste no processo de acumulação de capital. O proletariado, de forma oposta, não acumula nada, vendendo-se coti- dianamente no mercado de trabalho, para poder viver ou sobreviver, na maioria das vezes, muito mal e com muitas dificuldades. A classe dominante, assim, contrata os proletários para trabalharem em suas empresas, por determinado salário, durante tantas horas diárias, e sob certas condições anteriormente estipuladas. Os trabalhadores acordam formalmente com este “livre” contrato de trabalho. Qual é o jeito? Eles não são possuidores dos meios de produção, estando livres deles. Também não estão amarrados por alguma obrigação a nenhum senhor e/ou terra, sendo formalmente livres. Livres para alienar sua força de trabalho no mercado, ou então, se não quiserem fazer isso, livres para viverem em condições miseráveis. Esse “livre” contrato de trabalho feito individualmente reside em um contrato realizado entre duas partes que ocupam posições distintas dentro da sociedade. O burguês, dono dos mecanismos produtivos, encontra-se em uma situação de destaque para procurar a mercadoria força de trabalho, e encontra uma abun- dância na oferta. Se um trabalhador não aceita suas condições, existem inúmeros outros concorrendo entre si que certamente as aceitarão. O êxodo rural que, por inúmeros fatores, sempre acompanha a origem da produção capitalista, encar- rega-se de formar um excedente de oferta de força de trabalho. O proletário, dono apenas da sua força de trabalho, encontra-se em uma posição bastante negativa e fica entre a cruz e a espada, ou seja, entre a exploração do patrão e a miséria acarretada pelo desemprego. Essa é a “liberdade” do trabalhador na sociedade capitalista. Mas, para o burguês, o livre contrato de trabalho reside na liberdade sagrada dentro de sua economia de livre empresa. As duas classes, quais sejam, a dos burgueses e a dos proletários, possuem interesses que são objetivamente antagônicos, em palavras mais simples, inte- resses inconciliáveis. “Objetivamente” significa que isto não depende da boa ou má intenção dos indivíduos. Os interesses das referidas classes são inconciliáveis porque se uma ganha, a outra, obrigatoriamente, perde. O que é bom para uma classe é malé- fico para a outra. A burguesia, que tem propósitos em conservar sua situação de destaque, “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os ins- trumentos de produção e, portanto, as relações de produção, isto é, todo o conjunto das relações sociais. Esta mudança contínua da produção, esta transformação ininterrupta de todo o sistema social, esta agitação, esta per- pétua insegurança distinguem a época burguesa das precedentes. Todas as relações sociais tradicionais e estabelecidas, com seu cortejo de noções e idéias antigas e veneráveis, dissolvem-se; e todas as que as substituem en- velhecem antes mesmo de poder ossificar-se.” (Karl Marx,1848) 23O Surgimento do Serviço Social na Europa Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . tenta obscurecer o fato da fragmentação social em classes de interesses incon- ciliáveis, acenando para a ascensão social, dizendo que o operário de hoje pode ser o patrão no futuro. Mas a gente sabe que é quase impossível para o tra- balhador assalariado obter a quantia necessária para constituir uma pequena empresa. Além do mais, ainda que alguns operários individualmente mudas- sem de classe, nem assim deixaria de existir a fragmentação social em classes de objetivos inconciliáveis. Desde o surgimento do capitalismo, foi de percepção geral que esse sistema ocasiona grandes desigualdades e injustiças. Percebeu-se, ainda, que quanto mais a minoria dominante enriquece, a maioria proletária afunda na pobreza e misé- ria. Resumindo, inúmeras foram as denúncias acerca da exploração. Mas qual é o meio pelo qual se propaga a exploração? Isto não aparece logo de cara, foram imprescindíveis muitos estudos e pesquisas para responder a essa questão. Quem conseguiu deslindar o mistério foi Karl Marx. O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NA EUROPA No término do século XVIII e começo do XIX, aconteceu, na Inglaterra, a Revolução Industrial, uma vez que o país era possuidor de vastas reservas de carvão mineral em seu subsolo, possuindo, dessa forma, a fonte de energia capaz de promover o movimento das máquinas e das locomotivas a vapor. CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Os ingleses possuíam não apenas as fontes de energia, mas também gran- des reservas de minério de ferro; possuíam ainda mão de obra abundante, pois muitos trabalhadores procuravam empregos nas cidades inglesas. A burguesia inglesa detinha capital suficiente para o financiamento de fábricas, aquisição de matérias-primas, de máquinas e contratação de funcionários. Nessa época, aconteceram diversas substituições, ocasionando a troca da produção humana pela fabril, ferramentas por máquinas e energia humana pela motriz. A Revolução Industrial propagou-se pela Europa Ocidental e Estados Unidos, caracterizando um novo modelo de produção, que eram as fábricas e as indús- trias, acarretando um capitalismo industrial. Entretanto, tanto as indústrias quanto as fábricas necessitam de pessoas para dar continuidade ao processo de produção. Dessa forma, uma grande quanti- dade de trabalhadores passa a viver em volta da indústria, sendo designados enquanto proletariados à classe social que aliena sua força de trabalho ao empre- sário capitalista. A população operária era explorada pela classe dominante, e o Estado era subordinado a ela, pois tinha como propósito proteger o capital e seus possuidores. Nos primórdios, as fábricas não eram munidas dos melhores ambientes de trabalho. As condições eram extremamente precárias, a remuneração era baixa e o trabalho feminino e infantil se fazia constantemente presente. Os emprega- dos trabalhavam por longas jornadas de trabalho, sujeitando-se a castigos físicos por parte de seus patrões. Inexistiam quaisquer direitos trabalhistas, como férias, décimo terceiro salário, auxílio doença etc. A exploração vivenciada pela população fabril foi tão relevante que a levou a conflitar com a finalidade de melhorar suas condições de trabalho, por meio de inúmeras manifestações. Assim, restou à burguesia a busca por novas táticas, uma vez que seu objetivo residia na expansão de seu modo de produção, domi- nando a exploração e a opressão para com os seus subordinados. Porém, isso só gerou mais miséria por parte da classe trabalhadora, a qual continuou se colo- cando contra a classe dominante. Mediante essa situação, a classe dominante tomou consciência de que era preciso fazer algo para controlar o teor das manifestações e conter a propagação 25 O Surgimento do Serviço Social na Europa Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . da pobreza. Dessa maneira, ocorreram as primeiras práticas assistencialistas, as quais viabilizavam a conservação das ordens capitalistas, fazendo com que os proletariados não mais questionassem, mas sim, aceitassem suas condições de vida e de trabalho. No entanto, o elevado nível de pobreza se estendia ainda mais, e, então, os membros da classe dominante, a Igreja Católica e as autoridades locais, se organi- zaram com o objetivo de transformar a assistência pública. Para solucionar esses problemas, incumbiram os reformistas sociais de exercerem sua função realizando um inquérito da vida pessoal e familiar do atendido, e o mesmo tinha que assu- mir a dependência em relação ao poder público, sendo dessa forma controlado. A nova tática ainda era incumbida para assegurar a manutenção e propagação e/ou extensão do capitalismo. Inúmeros outros conflitos continuaram a ocorrer, levando a burguesia, a Igreja e o Estado a unirem-se, acarretando, assim, na origem da Sociedade de Organização da Caridade, no ano de 1869. A mencionada Sociedade organizou os reformistas sociais, os quais se responsabilizavam pela reforma e regulamen- tação da prática da assistência da sociedade. A partir de então, apareceram os primeiros assistentes sociais, os quais executavam práticas referentes à assistên- cia social. A profissionalização dos mesmos acontecia por meio da prestação de serviços, designado como Serviço Social, denominação essa que fora utilizada pelos Estados Unidos, em 1904. O serviço social fora caracterizado, em sua origem, por várias determina- ções e valores, através de práticas repressoras e controladoras. Assim, podemos entender que o Serviço Social resulta da emergência da questão social do con- junto de expressões da desigualdade social, econômica e/ou cultural. Posteriormente à criação do Centro de Ação Social em Londres, no ano de 1884, no qual as atividades realizadas faziam referência às questões de higiene e saúde para com os pobres e proletariados, a Sociedade de Organização da Caridade utilizou-se de novas ideias, organizando e efetivando também visitas domiciliares, nas quais aconteciam ações voltadas à educação. A partir dessa meto- dologia, conheciam a realidade das famílias operárias e incutiam o pensamento capitalista. A classe dominante apoiava essas práticas assistencialistas, uma vez que “desarmava” as manifestações coletivas e disfarçavam o sistema capitalista. ©shutterstock CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Acreditava-se, dessa maneira, que os problemas que afligiam os proletaria- dos e os pobres consistiam em uma questão de caráter, de forma que a assistência social passou a agir mediante uma reforma do mesmo. A prática social conti- nuou a ser executada com rigor para o controle e correção dos desfavorecidos, os quais não mais se valiam da assistência pública, pois preferiam ajudar-se mutua- mente, continuando a reclamar do modo como eram tratados, uma vez que não eram atendidos em suas reivindicações. Por longo período de tempo se fizeram presentes a exploração, a miséria, o poder capitalista e as práticas assistenciais objetivando tão somente o controle social. No ano de 1897, precisamente na Conferência Nacional de Caridade e Correção, Mary Richmond apresentou sua ideia de Assistência Social, propondo, com isso, a elaboração e/ou criação de uma escola voltada à aprendizagem de Filantropia Aplicada. Enfatizou a relação existente entre as pessoas e o mundo, considerando o sujeito enquanto pessoa no momento em que interage com o meio social do qual faz parte. Foi com a escola de Filantropia Aplicada que tive- ram início a institucionalização e profissionalização do Serviço Social, onde o interessado trabalhava como agente reintegrador e transformadorde caráter. 27 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Foi criada, no ano de 1908, na Inglaterra, a primeira escola de Serviço Social. Posteriormente à sua fundação, inúmeras outras escolas foram criadas por conhe- cimentos e atendimentos especializados, sempre apoiados pela Igreja Católica. Com o decorrer dos anos, a ação social estava cada vez mais ligada à política, agindo com o objetivo de acalmar os ânimos dos trabalhadores, controlando, dessa forma, as suas manifestações; também ocultavam o semblante da miséria, atendendo aqueles que nela residiam. Nos anos seguintes do fim da guerra, a relação com a Igreja Católica fora tro- cada para o Estado, remetendo a prática social para outro contorno. Em 1917, com a obra “Diagnóstico Social”, da autora Mary Richmond, o serviço social apresentou um considerável avanço enquanto profissão, levando em conta o entendimento do sujeito, enfatizando o fortalecimento do ego para a obtenção do êxito no tangível à solução de problemas internos e externos. No ano de 1936, foi criada a primeira escola de Serviço Social no Brasil, em resultado da expansão das práticas de assistência social, ainda por meio do assis- tencialismo e do caráter fortemente religioso. A escola foi criada na cidade de São Paulo, por iniciativa de Maria Kiehl e Albertina Ramos. O curso era constituído de formação técnica, sendo constantemente influenciado pelos meios cristãos. A metodologia fundamentava-se no homem enquanto ser livre, desenvolvido e dotado de inteligência, possuidor do direito de viver em sociedade, extraindo dela os meios necessários à sua sobrevivência. CONSIDERAÇÕES FINAIS Dessa maneira, caro(a) aluno(a), chegamos ao fim de nossa primeira unidade, compreendendo a longa e fascinante história do Serviço Social, que desde sua origem é munido de metodologias tão extremas umas das outras. A partir dos conteúdos descritos, buscamos levar a você, futuro(a) assistente social, conhecimentos relevantes do contexto sócio-histórico que inaugura o Serviço Social como profissão. A profissão se vinculou ao processo de produção CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I capitalista que resultou do interesse do capital em controlar os trabalhadores, uma vez que o referido controle consistia em uma necessidade da época, gerando, com isso, vários agravos sociais. No que se refere, sobretudo, à estruturação do perfil da emergente profissão do assistente social, procuramos deixar claro a influência da igreja católica no processo de formação dos assistentes sociais brasileiros, sendo ela responsável pelo ideário e pelos conteúdos expressos por seu pensamento social. Ela trata a questão social como questão moral, como um conjunto de problemas focados na responsabilidade individual dos sujeitos sem considerar as relações sociais do sistema capitalista. Portanto, segundo Yasbek (2009), trata-se de um enfo- que individualista, psicologizante e moralizador da questão, que necessita, para seu enfrentamento, de uma pedagogia psicossocial, que encontrará no Serviço Social efetivas possibilidades de desenvolvimento. Conforme afirma Yazbek (2000b, p. 92) (...) terá particular destaque na estruturação do perfi l da emergente profissão no país a Igreja Católica, responsável pelo ideário, pelos con- teúdos e pelo processo de formação dos primeiros assistentes sociais brasileiros. Cabe ainda assinalar, que nesse momento, a questão social é vista a partir de forte influência do pensamento social da Igreja, que a trata como questão moral, como um conjunto de problemas sob a responsabilidade individual dos sujeitos que os vivenciam, embora si- tuados dentro de relações capitalistas. Trata- se de um enfoque indivi- dualista, psicologizante e moralizador da questão, que necessita para seu enfrentamento de uma pedagogia psicossocial, que encontrará no Serviço Social efetivas possibilidades de desenvolvimento.” Com isso, o pensamento conservador e a influência da doutrina católica traça- ram um perfil de ação para os profissionais de Serviço Social atrelados ao pensamento burguês, atribuindo-lhes tarefas de amenizar conflitos, recuperar o equilíbrio e preservar a ordem vigente, com frágil consci- ência política, pois envolvida pelo “fetiche” da ajuda não conseguia ter claras as contradições do exercício profissional (MARTINELLI, 2000, p.127). 29 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A profissão de Serviço Social nasce, nesse contexto, para atender aos interesses da burguesia em uma perspectiva assistencialista, sem reflexão crítica distinta- mente da contemporaneidade, onde o assistente social realiza sua função por meio da investigação, diagnóstico, planejamento, projetos de pesquisa, avalia- ção das demandas e intervenção da realidade social. O cerne da questão social está no conflito entre capital e trabalho, confi- gurando, nesse contexto, as várias expressões da questão social expressa na sociedade brasileira. Assim, podemos identificar uma situação extrema de desigualdade social, determinada pelo forte crescimento econômico do país, conforme o poema intitulado O BICHO, de Manuel Bandeira. Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Manuel Bandeira Fonte: <http://factivel.wordpress.com/poesia/o-bicho/>. 1. Conceitue capitalismo e o explique em sua fase monopolista. 2. Explique sobre o fator principal da dominação da burguesia na classe proleta- riada. 3. Explique em que contexto se deu o surgimento do Serviço Social na Europa. 4. A “pobreza” é a expressão direta das relações vigentes na sociedade, localizando a questão no âmbito de relações constitutivas de um padrão de desenvolvimen- to extremamente desigual, em que convivem acumulação e miséria. A nossa so- ciedade a produz e reproduz. A pobreza, nesse caso, significa uma demanda de intervenção para o Serviço Social? Justifique. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Capitalismo Monopolista e Serviço Social José Paulo Netto Editora: Cortez Sinopse: este livro tematiza o surgimento da profissão, vinculando a sua história à emergência do Estado burguês na idade do monopólio, aos projetos das classes sociais fundamentais e à execução das políticas sociais. Discute também a estrutura teórico-prática do Serviço Social fundada em peculiar sincretismo. Tempos Modernos Um operário de uma linha de montagem, que testou uma “máquina revolucionária” para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não têm mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar. Comentário: É um filme onde o personagem vagabundo de Chaplin tem que se adaptar ao mundo que está se industrializando de uma forma muito bem humorada e desastrada. Uma forte critica ao sistema capitalista da época e as condições sub-humanas de trabalho que os homens recebiam nas fábricas pós-revolução industrial. E como curiosidade, você sabia que Chaplin uma vez entrou em um concurso de sósiasde Charles Chaplin e os jurados acharam que ele merecia apenas o Terceiro lugar? U N ID A D E II Professora Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Professora Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar a estrutura conceitual das protoformas do Serviço Social. ■ Identificar o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social no Brasil. ■ Conceituar o conservadorismo religioso como base teórico- metodológica da profissão. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ As Protoformas do Serviço Social ■ As Primeiras escolas de Serviço Social no Brasil ■ Conservadorismo religioso e bases teórico-metodológicas INTRODUÇÃO Nesta unidade, veremos que o Serviço Social se originou da ajuda ao próximo, da caridade, filantropia e beneficência. No século XVIII, com a Revolução Industrial, surgem graves crises econômicas, com repercussão política e social. Diante dessa situação, as formas de assistência até então utilizadas já não respondiam às necessidades emergentes da época, sendo necessário um Serviço Social insti- tucionalizado, com fundamentos em conhecimentos técnicos e não apenas com boas intenções. Dentro desse contexto histórico, surge o Serviço Social profissio- nal e, com ele, a primeira escola de Serviço Social, fundada em 1898, na cidade de New York, denominada New York School of Philanthropy, sob a influência de Mary Richmond. Diante dos crescentes problemas sociais, surgem leis protetoras das classes menos favorecidas e a necessidade de uma profissão que respondesse a essas, exigências. O Assistente Social surge com a proposta de amenizar as condições que favorecem a desigualdade humana. Em 1925, surge o Serviço Social latino-americano, com influência europeia e depois americana. O surgimento da profissão data, no Brasil, da década de 1940, época do Estado Novo de Getúlio Vargas e da implementação das leis trabalhistas. Foi também um período em que o país começou a estabelecer a sua indús- tria de base e a constituir-se capitalista. A sociedade de então passou a sentir falta de um profissional capacitado para ajudar a promover o bem-estar social, uma vez que se tornaram visíveis as desigualdades surgidas da relação entre capital e trabalho. A profissão de serviço social também se iniciou a partir do desenvolvimento do capitalismo, no período da Revolução Industrial, para suprir a necessidade de um trabalho voltado para a classe trabalhadora, como já foi citado acima. As diferenças impostas pelo capital dividiam a sociedade entre oprimida e opres- sora, ficando a primeira com os proletariados e a outra com os donos do poder. No Brasil, a profissão surgiu em 1936, com a inauguração da primeira escola em São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), for- temente atrelada aos princípios do catolicismo. As primeiras entidades sociais 35 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II foram organizadas pela Igreja Católica para atuar com a classe trabalhadora. No Brasil, a “semente” do Serviço Social foi plantada junto ao nascimento do projeto político da Igreja Católica. Eram os anos 30, em cujo momento histórico houve a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista, e o Estado utilizava mecanismos à efetivação de sua interferência nos diferentes setores da vida social. Desse modo, o primeiro projeto do Serviço Social unia-se a uma ala do clero que insistia na reorganização da classe trabalhadora. Foram criados os Círculos Operários, substituídos, no final do Estado Novo, pela JOC – Juventude Operária Católica. Houve uma influência recíproca das transfor- mações histórico-político-econômico-sociais e da atividade do Serviço Social desde seu começo até nossos dias. AS PROTOFORMAS DO SERVIÇO SOCIAL Antes de darmos início ao nosso estudo, vamos definir o significado de proto- formas, que são as instituições sociais que se mostram com origem confessional, prática da ajuda, caridade e solidariedade, impregnadas pela filosofia tomista e a serviço da classe dominante. Quando surgiu em nosso país, nas décadas de 1920 e 1930, o Serviço Social tinha como fundamento para sua implantação o reconhecimento de conflitos sociais, acarretados mediante a industrialização. Primordialmente, apresentava caráter filantrópico, possuindo uma característica assistencial, missionária e beneficente, onde a Igreja Católica controlava o processo voltado ao auxílio de pessoas necessitadas. As protoformas da profissão se relacionavam diretamente com o desenvol- vimento da Ação Social, realizada pela Igreja Católica. Esta, com a finalidade de recristianizar a classe trabalhadora, passou a assumir o enfrentamento da 37 As Protoformas do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . questão social. Entretanto, nesse momento do Serviço Social, inexistia a expres- são da questão social, mas sim, as expressões concretas da “questão social”, isto é, o conceito de um conflito social, interpretado enquanto uma questão moral e religiosa, onde as condições precárias do proletariado eram interpretadas como consequência da falta de dinâmica do processo industrial, sem relacioná-la à luta de classes, o que significa, na verdade, a sua essência. A complicada relação existente entre as protoformas do Serviço Social e a Igreja fez com que fosse predominante dentro do exercício da profissão o pen- samento conservador baseado na corrente neotomista. Nesse âmbito, as bases estruturais do Serviço Social, durante longo período de tempo, encontraram-se a serviço da classe dominante, sendo fortemente influenciadas pela doutrina social, a qual era desenvolvida pela Igreja Católica. Versando a respeito desse período do processo histórico referente ao Serviço Social, Iamamoto (1998, p. 27) ensina que: “o Serviço Social surgiu como uma das estratégias concretas de disciplinamento, controle e reprodução da força de trabalho e seu papel era conter e controlar as lutas sociais.” Assim, neste sistema de organização social capitalista, a classe dominante se aliava com a Igreja e com o Estado, com a finalidade de profissionalizar a assistência social. Por meio da influência do pensamento europeu e norte-americano, a caridade passou a valer-se de novos métodos, ou seja, recursos que a ciência e a técnica lhe ofer- tam. Busca-se, então, a adaptação do indivíduo ao meio em que está inserido e vice-versa. Por meio das relações formadas por moças católicas que prestavam assistência ao proletariado, surgiu a primeira Escola de Serviço Social no Brasil, fazendo com que o Estado solicitasse assistentes sociais para trabalhar em ins- tituições estatais. A igreja católica tornou-se essencial na abertura das duas primeiras escolas de Serviço Social: a escola de Serviço Social de São Paulo, em 1936, e a Escola do Serviço Social do Rio de Janeiro, em 1937, escolas estas consideradas as pio- neiras do Serviço Social em nosso país, recebendo notável influencia europeia. ©shutterstock AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Com a movimentação do processo de industrialização, o Estado passou a financiar bolsas de estudo para pessoas que pertenciam a classes subalternas, enviando-as para os Estado Unidos. A instituição responsável pelo processo de currículo do curso era a Associação Brasileira de Ensino e Serviço Social (ABESS). A partir de então, tem início uma certa padronização, e no currículomínimo constam o estudo de caso, grupo e comunidade. Daí, relacionadas à igreja católica, tiveram origem as escolas de trabalho e as protoformas da profissão. Para Iamamoto (1998, p.18), “o debate sobre a ‘questão social’ atravessa toda a sociedade e obriga o Estado, as frações dominantes e a Igreja a se posicionarem diante dela”. Assim, o seu surgimento corresponde à conjuntura vivenciada em nosso país naquele período, em razão da industrialização e das grandes mobilizações da classe operária, que crescia cada vez mais e em condições precárias de higiene, saúde e habitação, eviden- ciando-se a questão social que tomava proporções imensas, voltando a atenção social do Estado às manifestações da classe operária que passava a reclamar seus direitos, melhores condições de vida e de trabalho. Entretanto, se de um lado se reconhece a existência dessa contrariedade do capital e trabalho, resultado da ordem liberal que estimula a competitividade excessiva, o proletariado é também responsabilizado por sua condição de vida precária. 39 As Protoformas do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O proletariado é visto como uma classe denominada “ignorante social”, de pouca e fraca formação moral, que somada à sua baixa condição financeira o deixa submisso aos capitalistas, e por sua deficiência individual, o impede de alcançar uma maior ascensão social. Isso reflete o cenário em que a pobreza é naturalizada, passando por cima da contrariedade existente entre o modo de produção capitalista, causas e efei- tos, que são invertidos e reinvertidos. Seguindo esse raciocínio, os assistentes sociais observam a necessidade de intervir na crise de “formação moral, intelectual e social” da família, para que assim seja possível a obtenção de um padrão de vida que lhes ofereça o mínimo de qualidade. Para isso, faz-se necessário realizar um ajuste familiar por meio de uma ação educativa de longo prazo, para que tenha início a sua reeducação moral. ©shutterstock AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II AS PRIMEIRAS ESCOLAS DE SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL As obras de caridade realizadas pela Igreja e por pessoas leigas possuem uma vasta tradição, remetendo aos primórdios do período colonial. A parca e a pés- sima infraestrutura hospitalar e assistencial existentes até o período pós Império se justificam quase que unicamente à ação das ordens religiosas europeias que implementam e se disseminam pelo país. A tentativa de intervenção na organização e controle da classe proletária também não é atual. Os Carlistas, ou Scalabrianos, se efetivam no Brasil logo depois das amplas ondas migratórias quem surgem na Itália, para atuar conjun- tamente com seus patriotas. Estes se constituíram no principal contingente da Força de Trabalho que veio substituir o escravo nas vastas plantações e, conse- quentemente, integrar o mercado de trabalho urbano. A interação do clero no controle direto do operariado industrial remete à origem das primeiras grandes unidades industriais, nos fins do século passado. É viva a presença de religiosos no interior das referidas unidades, que na maio- ria das vezes possuíam capelas próprias, onde cotidianamente os trabalhadores eram submetidos a participarem das missas e outras liturgias. Nas vilas operá- rias, sua presença é constante. No âmbito sindical, com o apoio patronal, realizam 41 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . iniciativas assistenciais e organizacionais objetivando opor-se ao sindicalismo independente de inspiração anarco-sindicalista. Na imprensa operária autônoma, são comuns as críticas à posição patronal e divisionista desses movimentos, cujos aderentes e mentores são ironicamente denominados de amarelos e urubus. Entretanto, o que se poderia interpretar como protoformas do Serviço Social, como é hoje considerado, tem seu fundamento nas obras e instituições que come- çam a originar-se posteriormente, ao final da Primeira Guerra. Marca esse momento, no contexto externo, a origem da primeira nação socialista e a efervescência do movimento popular operário em todo o conti- nente Europeu. O Tratado de Versalhes busca estatuir a nível internacional uma política social inédita mais compreensiva no tocante à classe operária. É ainda o momento em que surgem e se intensificam na Europa as escolas de Serviço Social. No âmbito interno, como visto, os intensos movimentos operários de 1917 a 1921 tornaram patente para a sociedade a existência da “questão social” e da necessidade em buscar soluções para resolvê-la, ou então, reduzi-la. As instituições assistenciais que surgem a partir de então, por exemplo, a Associação das Senhoras Brasileiras (1920), no Rio de Janeiro, e a Liga das Senhoras Católicas (1923), em São Paulo, possuem uma diferenciação em função das atividades tradicionais voltadas à caridade. Desde os primórdios, consti- tuem obras que envolvem de maneira mais direta e vasta os nomes das famílias e compõem a grande burguesia paulista e carioca, e, às vezes, militância de seus componentes femininos. Possuem um suporte de recursos e potencial de contra- tos em termos de Estado que lhes permite o planejamento de obras assistenciais de maior envergadura e eficiência técnica. A origem dessas instituições ocorre dentro da primeira etapa do movimento de “reação católica”, da apresentação do pensamento social da Igreja e da cons- trução das bases organizacionais e doutrinárias do apostolado laico. Objetiva não o auxílio aos indigentes, mas, já dentro de uma perspectiva embrionária de assistência preventiva, de apostolado social, atender e atenuar determinadas consequências do desenvolvimento capitalista, especificamente no que se refere aos menores e mulheres. É nessa fase ainda que a inserção da mulher à Força de Trabalho urbana deixa de ser privilégio das famílias operárias, acometendo também as parcelas da pequena burguesia. AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II A criação, em 1922, da Confederação Católica objetiva a centralização polí- tica e dinâmica dos primeiros embriões do apostolado laico. As considerações dessas instituições e obras, e de sua centralização, a partir da cúpula da hierarquia, não podem ser subestimadas à compreensão da gênese do Serviço Social no Brasil. Se sua ação efetiva é extremamente restrita, se seu conteúdo é assistencial e paternalista, será mediante seu lento desenvolvimento que se criarão as bases materiais e organizacionais, e especificamente humanas, que a partir da década seguinte possibilitarão a expansão da Ação Social e a ori- gem das primeiras escolas de Serviço Social. A Sra. Estela de Faro, por exemplo, designada como a grande pioneira do Serviço Social no Rio de Janeiro e figura preeminente da Ação Social na década de 1930, é, em 1922 – na qualidade de componente de confiança de dom Sebastião Leme –, a primeira coordenadora do ramo Feminino da Confederação Católica. Será, entretanto, a partir do desenvolvimento do Movimento Laico que essas iniciativas embrionárias se propagara no compreendidas no interior da Ação Social Católica; tomarão aí sua marca característica de apostolado social. Dentre elas, se destacarão as instituições voltadas à organização da juventude católica para a ação social junto à classe operária e sua extensão a outros setores, por meio da Juventude Estudantil Católica, Juventude Independente Católica, Juventude Universitária Católica e Juventude Feminina Católica. O componente humano e o fundamento organizacional que viabilizarãoa origem do Serviço Social se constituirão diante da mescla entre as antigas Obras Sociais, as quais se diferenciavam criticamente da caridade tradicional, e os novos movimentos de apostolado social, principalmente aqueles voltados à intervenção junto ao proletariado, ambos envolvidos no interior da estrutura do Movimento Laico, impulsionado e controlado pela hierarquia. Os Scalabrianos tinham como lema uma passagem do evangelho de Ma- theus “Eu era estrangeiro e me acolheste.” Matheus 25:35 ©shutterstock 43 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O CENTRO DE ESTUDOS E AÇÃO SOCIAL DE SÃO PAULO E A NECESSIDADE DE UMA FORMAÇÃO TÉCNICA ESPECIALIZADA PARA A PRESTAÇÃO DE ASSISTÊNCIA O Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo (CEAS), visto como manifesta- ção original do Serviço Social em nosso país, aparece, em 1932, com o incentivo e sob o controle da hierarquia. Surge como condensação da necessidade sentida por setores da Ação Social e Ação Católica – principalmente da primeira – de tornarem-se cada vez mais concretas e acarretarem maior rendimento às ini- ciativas e obras realizadas pela filantropia das classes dominantes paulistas sob patrocínio da Igreja e de dinamizar a mobilização do laicado. Seu começo oficial será a partir do “Curso Intensivo de Formação Social para Moças”, realizado pelas Cônegas de Santo Agostinho, para o qual fora con- vidada Mlle. Adèle Loneaux, pertencente à Escola Católica de Serviço Social de Bruxelas. Com o final do curso, será realizado um apelo para a organização de uma ação social objetivando o bem-estar da sociedade. As integrantes do curso, na demons- tração do 1° relatório do CEAS, haviam participado no intuito de se orientar, esclarecer ideias, formar um julgamento acertado acerca dos problemas sociais da atu- alidade. O grupo constituiu-se por jovens formadas em estabelecimentos religiosos de ensino, uma represen- tativa demonstração feminina das famílias que compõem as diferentes frações das clas- ses dominantes e setores abastados aliados. AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II O objetivo central do CEAS “será o de realizar a formação de seus membros pelo estudo da doutrina social da Igreja e pautar sua ação nessa construção doutriná- ria e no conhecimento aprofundado dos problemas sociais”, objetivando “tornar mais eficiente a realização das trabalhadoras sociais” e “adotar uma orientação definida em relação às questões a resolver, favorecendo a coordenação de esfor- ços espalhados nas inúmeras atividades e obras de caráter social”. (Iamamoto, 2007, p. 168). Os registros existentes sobre essa compreensão demonstram que seu núcleo organizador partia da consciência de vivenciar uma fase de profundas mudan- ças políticas e sociais e da necessidade de interferir nesse processo a partir de uma perspectiva ideológica e de uma prática homogênea: As reuniões dessa comissão – de moças católicas que frequentaram o curso ministrado por Mlle. de Loneaux – foram o início das atividades do CEAS. Tinham se realizado as primeiras durante os meses de maio a junho quando a 9 de julho rebentou em São Paulo o movimento pela reconstitucionalização do país, que absorveu todas as energias e inicia- tivas, dirigindo-se para o único fim da vitória de nossa causa (IAMA- MOTO, 2007, p. 164). Certamente, não foi hoje que a Paulista aprendeu a se interessar pelos destinos políticos de sua terra (...) Se largos anos de paz e prosperida- de haviam adormecido o interesse feminino pela política do país, ele despertou nas horas de sofrimento de São Paulo. E foi em 1932 que a mulher resolveu retomar parte ativa e direta na luta que se está travan- do pelos destinos de nosso Estado e do Brasil. Á causa que abraçou ela deu, na guerra, tudo o que podia dar: os seus entes mais caros, toda a sua dedicação e atividade, o seu ouro e as suas jóias. Na paz, ela aceitou o voto feminino, compreendeu o seu alcance e exerce-o a bem de seu ideal. A mulher paulista de hoje conhece o seu dever cívico e sabe cum- pri-lo ‘para o bem de São Paulo’ (IAMAMOTO, 2007, p. 46). E no campo da ação social? Também desse lado, largos e novos horizontes se abriram, em 1932, para a atividade feminina. Surge de maneira tão explícita que a origem desse movimento não pode ser desvinculada da conjuntura particular de São Paulo, principalmente por- que ocorre no momento em que as classes dominantes desse Estado se lançam no movimento surreal de 1932, buscando reaver o poder local e nacional do qual havia sido alijado dois anos antes. E, nessa vertente, se envolve dentro dos 45 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . movimentos políticos e ideológicos do início da década de 1930, que possui como pano de fundo as tentativas de reunificação e a reação a que se lançam os antigos grupos dirigentes. Existe também uma precisão referente ao sentido novo dessa ação social; tratar-se-à de intervir claramente junto ao proletariado para afastá-lo de influ- ências subversivas. Por que, então, não datar de 1932 uma nova era na atividade social feminina? É que se até então a generosidade e o espírito cristão das Paulistas as impeliram a fundar obras de socorro e assistência para acudir um sem- -número de males, foi apenas em 1932 que as moças residentes em São Paulo despertaram interesses pelo estudo metódico da questão social, através da ação nos meios operários nela abrangendo o problema do trabalho (IAMAMOTO, 2007, p. 48). Logo no mês seguinte mons. Gastão Leberal Pinto, vigário-geral da ar- quidiocese, que se achava a par de nossos projetos, aconselhou-nos a continuar nossos trabalhos, e a 29 de agosto realizávamos a reunião preliminar de fundação do Centro pela leitura do projeto dos estatutos. Nessa reunião resolvemos não nos limitar preliminarmente aos estu- dos, como era nosso propósito, mas começar ao mesmo tempo nossa ação, aproveitando a oportunidade que nos ofereciam os serviços de assistência da retaguarda em que estávamos quase todas empenhadas, para entrar em contato com os meios operários, nesse momento anor- mal muito trabalhado por elementos subversivos (...) (IAMAMOTO, 2007, p. 45). Até dezembro de 1932, o CEAS fundou quatro centros operários onde suas propa- gandistas, por meio de aulas de tricô e trabalhos manuais, conferências, conselhos sobre higiene etc., procuraram interessar e atrair as operárias, e entrar, assim, em contato com as classes trabalhadoras, analisando os ambientes e necessidades. Os referidos Centros ofertavam uma tríplice vantagem e seriam o ponto de partida para um desenvolvimento maior (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007, p. 171): 1° - São campos de observação e de prática para a trabalhadora social, que aí completa e aplica os seus estudos teóricos. 2° - São Centros de educação familiar, onde se procura estimular nas jovens operárias o amor ao lar e prepará-las para o cumprimento de seus deveres nessa missão. AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II 3° - São núcleos de formação de elites que irão depois agir na massa operária. Com esse intuito não somente cuidamos de estimular nessas jovens uma fé viva e esclarecida, o sentimento do exato cumprimen- to do dever, como também despertar-lhes o espírito de apostolado da classe pela classe, com a noção das responsabilidades que lhe incum- bem nesse terreno. Os Centros Operários são idealizados como uma fase intermediária, e, segundo Iamamoto e Carvalho (2007), os organismos transitórios deveriam dar seu lugar a associações de classeque nossas elites operárias iriam formar e dirigir, assim que estivessem em condições. Aceitando a idealização de sua classe sobre a vocação natural da mulher para as tarefas educativas e caridosas, essa interferência assumia, na opinião desses ativistas, a consciência do posto que cabe à mulher na preservação da ordem moral e social e o dever de tornarem-se aptas para agir de acordo com as suas convicções e suas responsabilidades. Incapazes de promover a ruptura com essas representações, o apostolado social possibilita àquelas mulheres, a partir da reti- ficação daquelas qualidades, uma interação ativa no empreendimento político e ideológico de sua classe, e da defesa de seus interesses. De forma paralela, sua posição de classe lhes faculta um sentimento de superioridade e proteção em relação ao proletariado. Não somente é justificável a ação feminina social como ainda é indis- pensável (...). Não tem a mulher, na sociedade a missão de educar? Ima- ginem a restauração da família sem a cooperação da mulher: a remode- lação da mentalidade, de hábitos e de costumes que irão depois influir na economia e nas leis do país, tem de ser, toda ela, trabalho da mulher, em qualquer classe da sociedade (IAMAMOTO; RAUL, 2009, p. 172). Mas por qual motivo uma associação que importa moças da sociedade se ocu- paria com questões da classe operária? Essa iniciativa é também legítima e é explicável: ela se baseia num sen- timento profundo de justiça social e de caridade cristão, que leva aque- las que dispõem de facilidade de tempo e de meios a auxiliar as clas- ses sociais mais fracas a formar as suas elites, para que estas também possam cumprir eficientemente seu dever. Elas mostram a essas elites como deverão se organizar para defender a Família e a Classe Operária contra os ambiciosos e os agitadores que exploram seu trabalho ou a sua ignorância (IAMAMOTO; CARVALHO, 1982, 177). ©shutterstock 47 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . As atividades dos CEAS se orientarão para a construção técnica especializada de quadros para a ação social e a propagação da doutrina social da Igreja. Ao admi- tir essa orientação, passa a se comportar como dinamizador do apostolado laico por meio da organização de associações para moças católicas e para a interven- ção direta juntamente ao proletariado. Esta última globalizará, teoricamente, as demais, na proporção em que se destinam ao mesmo fim. São promovidos inúmeros cursos de filosofia, moral, legislação do trabalho, doutrina social, enfer- magem de emergência etc. O ano de 1933 caracteriza uma intensificação dessas atividades: interação na Liga Eleitoral Católica por meio de campanhas de alistamento de eleitores e pro- selitismo, realização da Primeira Semana de Ação Católica, começo da formação de quadros da Juventude Feminina Católica constituída mediante aos Centros Operários e Círculos de formação para Moças, delegação pela hierarquia da representação da Juventude Feminina Católica etc. No ano de 1936, diante dos esforços desenvolvidos por esse grupo e o auxílio da hierarquia, é criada a Escola de Serviço Social de São Paulo, a primeira desse gênero a existir em nosso país. AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Partindo desse momento, é possível notar que paralelamente à busca inicial por quadros habilitados por essa formação técnica especializada, criada da própria ação social católica, começa a surgir outro tipo de procura, partindo de certas instituições do Estado. Elas serão enxergadas pelos integrantes desse movimento enquanto conquistas significativas. Com a demonstração de um memorial ao Governo do Estado, obteve (o CEAS) a criação de cargos de fiscais femininos para o trabalho de mulheres e menores, no Departamento Estadual do Trabalho. No ano de 1937, o CEAS trabalha no Serviço de Proteção aos Imigrantes, funcionando dois anos juntamente com a Diretoria de Terras, Colonização e Imigração; no ano de 1939, assina o contrato com o Departamento de Serviço Social de Estado (SP) para a organização de três Centros Familiares em bair- ros populares. No ano de 1935, fora criada a Lei n° 2.497, de 24.12.1935. À referida lei competiria: a. superintender todo o serviço de assistência e proteção social; b. celebrar, para realizar seu programa, acordos com instituições particula- res de caridade, assistência e ensino profissional; c. harmonizar a ação social do Estado, articulando-a com a dos particulares; d. distribuir subvenções e matricular as instituições particulares realizando seu cadastramento. Caberia ainda a estruturação de Serviços Sociais de Menores, Desvalidos, Trabalhadores e Egressos de Reformatórios, penitenciárias e hospitais e da Consultoria Jurídica do Serviço Social. A maior parte dos artigos da mencio- nada lei dedica-se à assistência do menor e aos requisitos essenciais para a sua qualidade de vida. © sh ut te rs to ck 49 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . No ano de 1938, será organizada a Seção de Assistência Social, tendo como objetivo realizar o conjunto de funções necessárias ao reajustamento de certos indivíduos ou grupos às condições normais de vida, e organiza para isso o Serviço Social dos Casos Individuais, a Orientação Técnica das Obras Sociais, o Setor de Investigação e Estatística e o Fichário Central de Obras e Necessitados. A meto- dologia central a ser aplicada é definida como sendo o Serviço Social de Casos Individuais, devendo-se estimular o necessitado, interagindo-o ativamente em todos os projetos relacionados com seu tratamento, e usar todos os componentes do meio social que possam de alguma forma influenciá-lo no sentido desejado, auxiliando sua readaptação, proporcionando uma ajuda material diminuindo ao mínimo indispensável com a finalidade de não prejudicar o tratamento. Ainda nesse mesmo período, o Departamento sofre uma transformação de siglas, passando a chamar-se Departamento de Serviço Social. O Estado perpassa o marco de sua primeira área de intervenção para superin- tender a gestão da assistência social. Assim, procurará racionalizar a assistência, fortalecendo e enfatizando sua participação própria e controlando as iniciati- vas particulares. Estas tenderão a se tornar ainda mais dependentes e destinadas para a busca de serviços por parte do Estado, por meio de convênios etc. De forma paralela, figuras de importância, saídas das instituições particulares, serão AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II cooptadas para constituir os quadros técnicos e Conselhos Consultivos das ins- tituições estatais de coordenação e execução. O governo buscará, portanto, subordinar a seu programa de ação as inicia- tivas particulares no mesmo modo que adota as técnicas e a formação técnica especializada desenvolvida a partir daquelas instituições de caráter particular. Dessa maneira, a busca por essa formação técnica especializada, crescentemente, encontrará no Estado seu setor mais dinâmico, ao mesmo tempo em que passará a regulamentá-la e incentivá-la, institucionalizando sua progressiva mudança em profissão legitimada no interior da fragmentação social-técnica do trabalho. Nessa vertente, quando em 1936 é criada pelo CEAS a primeira Escola de Serviço Social, esta não pode ser considerada como resultado de uma iniciativa exclusiva do Movimento Católico Laico, uma vez que já se faz presente uma procura – real ou potencial – a partir do Estado, que assimilará a formação dou- trinária própria do apostolado social.A profunda relação entre essa Escola e a do CEAS com o movimento católico laico, como demonstra vastamente Arlette Alves de Lima, não deve obscure- cer o fato de que desde aquele momento existe uma busca a partir do Estado, o que inclusive é explicitado de forma precisa pelos Assistentes Sociais. Podemos observar abaixo: Apesar das representações que muitas vezes fazem desse fato, sem que tivéssemos feito propaganda, pois receávamos que a publicidade trou- xesse prejuízos à seriedade do nosso trabalho, as alunas que compu- nham a primeira turma foram convidadas a trabalhar no Departamen- to de Serviço Social como pesquisadoras sociais ou como comissárias de menores a partir do segundo ano de funcionamento da Escola. A eficiência do trabalho por elas realizado fez com que se estabelecesse a praxe de se pedir à Escola de Serviço Social a indicação de nomes para o preenchimento de determinados cargos, e hoje já temos alguns dispositivos legais que dão preferência às pessoas que tiverem curso completo em escola de serviço social para o desempenho de funções nos serviços sociais públicos (IAMAMOTO; CARVALHO, 1996, p. 180-181). Como forma de fazer propaganda a respeito das possibilidades da carreira para os discentes da Escola de Serviço Social em 1944, mostrar-nos-á que a concepção moderna de Estado cria, a cada passo, iniciativas oficiais no terreno social, e daí ©shutterstock 51 As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . a ampliação do campo de ação da Assistente Social junto aos poderes públicos. Também, as instituições particulares já estão recorrendo aos métodos modernos de ação. Se no início a Escola de Serviço Social atraiu principalmente a atenção dos órgãos públicos, hoje está tomando posição de destaque perante as institui- ções particulares. Inúmeros são os pedidos de Assistentes, mas não tem sido possível correspon- der a todos, por falta de número suficiente de habilitados nas diversas funções. Sobejam motivos para afirmar que a carreira de Assistente Social tomará, tam- bém no Brasil, o desenvolvimento que tem sido em outros países. A adequação dessa construção técnica especializada à busca pode ser obser- vada, também, por meio das transformações de orientação pelas quais passam as escolas especializadas. A Escola de Serviço Social passará por rápidas fases de adequação. A primeira ocorre a partir do convênio estabelecido entre o CEAS e o Departamento de Serviço Social do Estado, em 1939, para a organização de Centros Familiares. Essa busca terá por reflexo a introdução no currículo da Escola de um Curso Intensivo de Formação Familiar: pedagogia do ensino popular e trabalhos domésticos. A AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II segunda ocorrerá, posteriormente, para atender à demanda das prefeituras no interior do Estado. O instituto de Serviço Social (SP), que se origina em 1940 como divisão da Escola de Serviço Social, tendo o patrocínio da JUC, destinava-se à forma- ção de trabalhadores sociais especializados para o Serviço Social do Trabalho. Entretanto, um fato de interesse superior veio imprimir novo rumo ao nosso ensino: a instituição de bolsas de estudo, pelas administrações municipais do interior, concedidas a moços que quisessem matricular-se no ISS, assumindo o compromisso de irem prestar seus serviços profissionais junto às respectivas prefeituras de origem. Renunciando a intenção de encarecer o trabalho, nada fez o Instituto a não ser procurar amoldar-se aos imperativos do meio, pois uma escola de serviço social, mais do que qualquer outra agência social, deve esforçar-se para atender ao que é mais urgente, a fim de proporcionar ao meio ambiente os recursos técnicos indispensáveis aos empreendimentos mais insis- tentemente reclamados. Ainda no tocante à questão da busca, caberia notar dois aspectos: a consi- deração quantitativa de alunos bolsistas e dos cursos intensivos de formação de auxiliares sociais. Quanto ao primeiro, os Relatórios anuais da Escola de Serviço Social (SP) apresentam que, a partir de 1941 e durante longo período de tempo, o percentual de bolsistas raramente é inferior a 30%, chegando a concomitante- mente se constituir em maioria. Os principais patrocinadores dessas bolsas serão o Estado e as grandes instituições estatais ou paraestatais, como as prefeituras. No âmbito particular, sobressaem as Escolas de Serviço Social, que começam a aparecer nos outros Estados, e diminuem o número de obras particulares e esta- belecimentos comerciais e industriais. Quanto à formação de auxiliares sociais, esta reside em notável atividade das escolas desde a origem das grandes instituições, efetivando-se seja na sede das mesmas, seja nos Estados, onde inexistem escolas especializadas. Ao assinalar a questão da busca, não se objetiva subestimar, por exemplo, o destaque do trabalho que desenvolvem as pioneiras do Serviço Social na pro- pagação e institucionalização da profissão, atuando no sentido de incentivar e concretizar a procura por seus serviços. Cabe situar, entretanto, que acon- tece um processo de mercantilização dos portadores daquela formação técnica 53 Conservadorismo Religioso e Bases Teórico-Metodológicas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . especializada, que se traduz em sua modificação, em força de trabalho, que pode ser comprada. Essa alienação se dá ao mesmo momento em que ocorre uma “purificação” do portador da qualificação, realizando as escolas uma fun- ção imprescindível para a viabilidade desse processo. O portador dessa qualificação não mais necessariamente será uma moça da sociedade devotada ao apostolado social. Continuadamente se transformará em um elemento da Força de Trabalho, possuindo uma determinada qualificação, englobada na divisão social – técnica do trabalho. Esse mesmo processo não importa, entretanto, em regra, a eliminação do conteúdo doutrinário da formação acadêmica do Assistente social. Esse conte- údo não se constitui em entrave à sua assimilação pelo Estado e empresas. Por oposto, essa formação é funcional às suas necessidades. Isso só é real, porém, a partir de uma visão histórica dos tipos de instituições que vão se originando, do momento em que optam por incorporar o Serviço Social e das modificações paulatinas que a formação técnica especializada demonstra nesse mesmo perí- odo, como se procurará situar posteriormente. CONSERVADORISMO RELIGIOSO E BASES TEÓRICO- METODOLÓGICAS Como profissão contida na fragmentação do trabalho, o Serviço Social aparece como parte de um movimento social mais abrangente, de fundamentos confes- sionais, ligado à necessidade de formação doutrinária e social do laicato, para uma influência mais contundente da Igreja Católica no mundo temporal, nos primórdios da década de 30. Tentando recuperar áreas de influência de privilégios perdidos, em face da constante secularização da sociedade e dos conflitos presentes na relação entre Igreja e Estado, a Igreja procura superar a postura contemplativa. Opõe-se aos princípios liberais e ao comunismo, que surgem como uma ameaça à sua posi- ção no meio social. ©shutterstock AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II A igreja busca ainda a legitimação jurídica de suas áreas de influência no inte- rior do aparato estatal. Mediante as intensas mobilizações da classe operária nas duas primeiras décadas do século, a discussão sobre a “questão social” atravessa toda a sociedade e obriga o Estado, as frações dominantes e a Igreja a se posi- cionarem diante dela. A Igreja interpreta a questãosocial segundo os preceitos acordados nas encí- clicas papais, particularmente a Rerum Novarum e Quadragésimo Anno, fonte inspiradora das posições e programas realizados frente aos conflitos sociais. A igreja analisa a questão social enquanto uma questão moral e religiosa. Rerum Novarum é uma encíclica escrita pelo Papa Leão XIII em 15 de Maio de 1891. Era uma carta aberta a todos os bispos, na qual se debatia as con- dições das classes trabalhadoras. Leão XIII apoiava o direito dos trabalhado- res formarem sindicatos, mas rejeitava o socialismo e defendia os direitos à propriedade privada. Discutia as relações entre o governo, os negócios, o trabalho e a Igreja, propondo uma estrutura social e econômica que mais tarde se chamaria corporativismo. Entre no link abaixo e leia a carta na íntegra: <http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l- -xiii_enc_15051891_rerum-novarum_po.html>. 55 Conservadorismo Religioso e Bases Teórico-Metodológicas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A intervenção estatal na “questão social” é verdadeira, uma vez que o Estado deve provir o bem de todos. Entretanto, o Estado não pode negar a independência da sociedade civil. Existem grupos sociais “naturais”, ou seja, organismos autôno- mos que restringem a ação dominadora do Estado. Cabe à Igreja partilhar com este a atuação frente à “questão social” por meio de grupos sociais básicos, par- ticularmente a família. Corporificando esses princípios, o Serviço Social emerge da iniciativa de grupos e frações de classes dominantes que se mostram por meio da Igreja. A profissão não se caracteriza somente como uma forma inédita de realizar a cari- dade, mas também como uma maneira de interferir ideologicamente na vida da classe trabalhadora, como fundamento na atividade assistencial: suas consequ- ências são essencialmente políticas. Difere-se ainda da assistência pública, que desconhecendo a singularidade e particularidade dos sujeitos, apresenta respostas não diferenciadas aos proble- mas da sociedade. Exercído por meio de entidades filantrópicas particulares e do Estado, o Serviço Social norteia-se para uma individualização de proteção legal. O Serviço Social se compromete, ainda, como uma ação organizativa entre a população trabalhadora, no interior do programa de militância católica, opon- do-se às iniciativas decorrentes de lideranças operárias que não aderem ao associativismo católico. Dessa maneira, o associativismo surge como uma ati- vidade com fundamentos mais doutrinários do que científicos, no bojo de um movimento de caráter reformista-conservador. O processo de secularização e de ampliação e amplificação da base técnica – científica da profissão – que ocorre com o desenvolvimento das escolas especializadas no ensino de serviço social – acontece sob interferência dos progressos alcançados pelas ciências sociais nos ápices do pensamento conservador. Para justificar essas afirmativas, é necessário retornar a algumas caracterís- ticas do pensamento conservador e sua influência na compreensão sociológica. O conservadorismo contemporâneo, que apresenta uma forma específica de pensamento e experiência prática, é resultado de uma situação histórico-social particular: a sociedade de classes em que a burguesia surge como personagem principal do mundo capitalista. AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Por meio desses mecanismos, o pensamento conservador deixa de se opor ao capitalismo, aquele conflito referido, entre noções e ideias pretéritas, mas intencional e racionalmente ressuscitadas como ideologicamente válidas para responder às necessidades de explicação da própria sociedade capitalista. O conservadorismo não é interpretado apenas como a continuidade de per- severança no tempo de um conjunto de ideias constitutivas da herança intelectual europeia do século XIX, mas sim, de ideias que, reinterpretadas, transformam- se em uma ótica de explicação e em projetos de ação positivos à manutenção da ordem capitalista. Ele reage, assim, aos princípios universais e abstratos referentes ao pensa- mento dedutivo: seu pensamento tende à adesão aos contornos imediatos da situação com que se afronta, considerando os detalhes, as informações qualita- tivas, os casos específicos, em face do apoderamento da estrutura social. 57 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o fim de nossa unidade, caro(a) aluno(a), podemos observar que o Serviço Social origina-se e desenvolve-se na órbita de um universo teórico. Perpassa da influência do pensamento conservador europeu para a sociologia conservadora norte-americana, a partir da década de 40. A compreensão do percurso histórico do Serviço Social em nosso país remete à predominância de um comportamento basicamente conservador. Percebe-se que ao final da década de 50 e começo da década seguinte é que se fazem pre- sentes as primeiras manifestações, no meio profissional, de posicionamentos questionadores a respeito do status quo e contestações a respeito das práticas institucionais em vigência. Essas indagações originam uma conjuntura marcada por uma situação de crise e de profunda efervescência, no quadro do colapso dos populismos e de uma reorientação estratégica do imperialismo em relação às sociedades autônomas. No âmbito político interno, essas manifestações coincidem com a constante radicalização política que marca a fase final do pacto populista e que apresenta como desfecho uma expressiva transformação desse pacto, ou seja, uma modi- ficação na correlação existente entre as forças com o golpe de 1964. O rompimento com a herança conservadora se apresenta como uma busca, uma luta para alcançar novos fundamentos de legitimidade da ação profissio- nal do assistente social que, enxergando as contrariedades sociais existentes nas condições do exercício da profissão, procura colocar-se, efetivamente, à dispo- sição das necessidades dos usuários, ou seja, setores dominados da sociedade. Compreendido em uma dimensão processual, esse rompimento tem como pré- condição que o assistente social aprofunde o entendimento das implica- ções políticas de seu exercício profissional, reconhecendo como polarizado pela luta de classes. 1. Explique em qual contexto histórico se deu o surgimento do Serviço Social. 2. Relacione as primeiras escolas de Serviço Social no Brasil. 3. Qual é relação da gênese do Serviço Social com a Igreja católica? 4. Qual é o fundamento para implantação do Serviço Social no Brasil nas décadas de 1920 e 1930? Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Relações Sociais e Serviço Social no Brasil Marilda Vilela Iamamoto e Raul de Carvalho Editora: Cortez Sinopse: Trata-se de trabalho indispensável, pelos aspectos históricos e teóricos examinados. As atividades das instituições e dos profissionais do Serviço Social revelam novos e surpreendentes aspectos das relações sociais. Sob vários ângulos, este livro é importante para o conhecimento da teoria e prática do Serviço Social. U N ID A D E III Professora Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Professora Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar a influência do Serviço Social de Caso Grupo e Comunidade. ■ Conceituar positivismo. ■ Refletir sobre a influência do funcionalismo na profissão. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A influência do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade ■ Positivismo e funcionalismo na profissão ■ Introdução do Funcionalismo no Serviço Social INTRODUÇÃO Caro(a)aluno(a), em seu processo histórico, o Serviço Social não pode ser visto separadamente do contexto socioeconômico em que se insere. Desta maneira, para o conteúdo desta nossa unidade, analisaremos algumas características essen- ciais para nosso processo de formação profissional, que é o Serviço Social de caso, grupo e comunidade e as influências positivistas e funcionalistas na profissão. A proposta desta Unidade de estudo é identificar de que forma o Serviço Social se insere no modo de produção e reprodução das relações sociais no sis- tema capitalista, e, ao mesmo tempo, avaliar as mudanças que vão ocorrendo na ação profissional, motivadas pelas necessidades de atendimento às deman- das sociais que surgem a todo instante. O Serviço Social Brasileiro sofre a influência norte-americana devido ao modelo econômico, principalmente na era desenvolvimentista. Nesse período, de intenso processo de industrialização, são requeridos dos profissionais novas formas de atendimento à população de massa, e, ao mesmo tempo, se promo- vem novas práticas e são introduzidos novos conceitos metodológicos. Nesta Unidade, entre os conteúdos abordados se destaca o desenvolvimento de comunidade, método bastante explorado pelos assistentes sociais que possui conotação ideológica e política a favor do Estado onde se justifica a ação pro- fissional. Dessa maneira, atende aos interesses da classe dominante em prol do progresso e do ajustamento social. Vamos lá? 63 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ©shutterstock A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III A INFLUÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL DE CASO, GRUPO E COMUNIDADE As décadas de 1940 a 1950 foram marcadas pelo tecnicismo e pela influência norte-americana, como também pelos métodos de caso, grupo e comunidade, que orientaram o Serviço Social à busca da integração do homem ao meio social. De acordo com Richmond (1915 apud VIEIRA, 1978, p. 44), “o Serviço Social de Caso é o processo que desenvolve a personalidade através de um ajus- tamento consciente, indivíduo por indivíduo, entre os homens e seu ambiente”. Essa teoria visava à personalidade do indivíduo, buscando mudá-lo, com adequações nas atividades e comportamento, ou seja, por meio de ajuda psicos- social, e, assim, adaptá-lo ao meio social. Já o Serviço Social de Grupo era definido como um método que ajuda os indivíduos a aumentarem o seu funcionamento social, através de objetivas expe- riências de grupo, e a enfrentarem, de modo mais eficaz, os seus problemas pessoais, de grupo ou de comunidade. [...] uma prática que visa minorar o sofrimento e melhorar o funcio- namento pessoal e social de seus membros, através de específica e con- trolada intervenção de grupo, com a ajuda de um profissional (KO- NOPKA, 1979, p. 33). ©shutterstock 65 A Influência do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O Serviço social de comunidade, também denominado como Desenvolvimento de Comunidade, aborda as semelhanças dos métodos de caso, e de grupo, obje- tivando o ajuste social do indivíduo, realizando um trabalho assistencial, que, segundo a Conferência Internacional de Serviço Social (1962 apud VIEIRA, 1978, p. 252), é [...] um esforço consciente e deliberado para ajudar as comunidades a reconhecerem suas necessidades e a assumirem responsabilidade na solução de seus problemas pelo fortalecimento de sua capacidade em participar integralmente na vida da nação. De acordo com o exposto, caro(a) aluno(a), podemos concluir que o Serviço Social se orga- nizou da seguinte maneira: 1) O Serviço Social de Caso: utiliza-se da abordagem individual, tendo como comunidade a família, com o objetivo de atuar nos fatores causais ou problemas em potencial interligados à saúde, no contexto sócio-econômico-cultu- ral e emocional. Utiliza abordagem individual como instrumento de identificação de situa- ções sociais e problemas comuns à população, para planejamento posterior de atividades gru- pais e programas específicos. 2) O Serviço Social de Grupo: utiliza-se da abordagem grupal nas situações sociais de problemas identificadas em número significativo de clientes. Participa e organiza grupos para a participação no processo social. 3) O Serviço Social de Comunidade: mantém o entrosamento das insti- tuições da área, visando ao conhecimento das necessidades comunitárias e estabelecendo atividades conjuntas para o aproveitamento total e dinâmico dos recursos existentes. Marilda Villela Iamamoto (2004) diz que para compreender a metodologia do Serviço Social, não se deve percebê-la de modo separada da sociedade, pois ela diz respeito ao modo de ler, de interpretar, de se relacionar com a realidade Social. Isso explica a atenção que o Serviço Social deu em relação à formação A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III profissional para atuar nas instituições remodeladas do regime militar. Em síntese, para garantir a prosperidade, o progresso social, como também preservar o mundo livre de ideologias americanas não democráticas, foi lançado o Desenvolvimento de Comunidade como estratégia. Nos anos 40 e 50, o Serviço Social brasileiro recebe influência norte-ame- ricana. É marcado pelo tecnicismo, bebe na fonte da psicanálise, bem como da sociologia de base positivista e funcionalista. Sua ênfase está na ideia de ajusta- mento e de ajuda psicossocial. Nesse período, há o início das práticas de Organização e Desenvolvimento de Comunidade, além do desenvolvimento das peculiares abordagens indivi- duais e grupais. Com supervalorização da técnica, considerada autônoma, como um fim em si mesmo, e com base na defesa da neutralidade científica, a profissão se desen- volve por meio do “Serviço Social de Caso”, “Serviço Social de Grupo” e “Serviço Social de Comunidade”. Pode ser definido como a arte de ajudar as pessoas a ajudarem-se a si mes- mas, cooperando com elas, a fim de beneficiá-las e, ao mesmo tempo, à sociedade em geral. Outra definição ressalta que o problema é essencialmente do cliente e que, portanto, ele está envolvido ativa e responsavelmente na sua solução. Serviço Social de Grupo: É um método do Serviço Social que auxilia os indivíduos a melhorar-se no seu funcionamento social através de específicas experiências de gru- pos e a se defrontar mais eficientemente com seus problemas pessoais, do seu grupo e da sua comunidade (KONOPKA, 1979, 45). Serviço Social de Comunidade: Penetrou no Brasil em decorrência do movi- mento provocado por organizações internacionais e de uma política nacional – ambos interessados na expansão do sistema capitalista e na modernização do meio rural – sendo a bandeira da educação de adultos, desfraldada como grande estratégia para tais propósitos. 67 A Influência do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A preocupação do Serviço Social brasileiro com o Desenvolvimento de Comunidade atrela-se a um movimento de âmbito internacional, deflagrado oficialmente pelas Nações Unidas e referendado por inúmeros organismos inte- ressados na expansão da ideologia e do modo de produção capitalista. Reproduzindo as características americanas da Organização Social da Comunidade, o Serviço Social brasileiro centra sua estratégia na obra social, concebida esta como uma estrutura através da qual um grupo de indivíduos procura, sem idéia de remuneração ou lucro, solucionar e prevenir problemas, educar indivíduos e grupos e promover o bem-estarda comunidade. A conceitualização sobre organização de comunidade revela uma perspectiva profundamente funcionalista no trato da questão social e o seu desenvolvimento. A identificação das necessidades e a alocação de recursos reduzem a ques- tão social a problemas técnicos, construindo, a partir deles, uma fórmula central que contempla múltiplas variantes de intervenção profissional. De acordo com Ander Egg (1965), consideramos o desenvolvimento de Comunidade como parte integrante do conceito mais amplo, mais geral e com- pleto de desenvolvimento, e o entendemos como método e técnica que contribui positiva, real e efetivamente ao processo de desenvolvimento integral e harmô- nico, respondendo fundamentalmente a certos aspectos extra-econômicos, em particular psicossociais, que intervêm na promoção de atitudes, aspirações e desejos para o desenvolvimento. “Devemos educar os adultos para que o país possa ser mais coeso e mais solidário” (Lourenço Filho, Ministro da Educação). A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Na leitura de Rubén Utria, no Saiba Mais, vimos sobre os propósitos do desen- volvimento comunitário em que estão implícitos os seguintes pressupostos: - Que a participação popular é fator-chave para a aceleração do desen- volvimento. - Que existem sistemas e métodos capazes de motivar na população ati- tudes favoráveis ao progresso econômico e social. - Que o Desenvolvimento de Comunidade é um dos ensaios de solução mais fecundos para enfrentar o subdesenvolvimento. - Que esses fatores são positivamente conjugáveis na escala em que se estabeleça uma associação entre a comunidade e o governo. - Que o “governo” busca a superação do subdesenvolvimento. A comunidade deve, segundo esta concepção, chegar ao convencimento de que os instrumentos para o seu desenvolvimento residem nela e, por conseguinte, que as razões do seu atraso também se explicam a partir dela mesma. Os Assistentes Sociais foram integrados aos planos de desenvolvimento comunitário, já que se considerava que neste campo a sua intervenção seria de grande valia. O Serviço Social experimentou uma etapa de revalorização, que lhe atri- buiu novas responsabilidades e lhe conferiu uma posição melhor no interior das Os propósitos do desenvolvimento comunitário foram esclarecidos por Ru- bén Utria nos seguintes termos: “Na busca de tratamento para o fator-chave da participação popular na ace- leração do desenvolvimento e diante da necessidade de contar com siste- mas e métodos que possam promover, entre a população, atitudes motiva- ções e imagens favoráveis ao progresso econômico e social, formularam-se vários princípios e doutrinas e ensaiaram-se diversas soluções”. Veja na íntegra, em: <http://periodicos.franca.unesp.br/index.php/SSR/arti- cle/viewFile/13/78>. 69 Positivismo na Profissão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . administrações públicas, que também viviam um processo de modernização. Com a hegemonia do desenvolvimentismo no Serviço Social, revitalizaram- se também diversas colocações de reforma social, feitas nos primeiros anos da profissão por setores empenhados em uma “humanização” do capitalismo em suas mais variadas facetas. POSITIVISMO NA PROFISSÃO A principal influência do Positivismo nas Ciências Sociais foram ações que permitiram compreender a realidade, estimulando a adequação da linguagem, modificando atributos e qualidades do objeto de investigação. August Comte (1798-1857) e Saint Simon (1760-1825), fundadores do posi- tivismo, concentraram suas reflexões sobre a natureza e as consequências da Revolução Industrial, propondo racionalizar a nova ordem social e encontrar soluções para os problemas, a partir do restabelecimento da ordem e da paz. Preconizavam a defesa de ideias segundo as quais os fenômenos sociais, assim como os físicos, estavam sujeitos a leis rigorosas. Assim, o positivismo foi a primeira corrente teórica a organizar e sistematizar princípios sobre as relações humanas em sociedade, na tentativa de explicá-las cientificamente. August Comte e Saint Simon caracterizaram o objeto, os métodos e os pro- blemas fundamentais das ciências sociais, e por meio do Positivismo nasce a Sociologia, cujo objeto é a humanidade, estabelecendo a ordem, o consenso, a autoridade, a família e a hierarquia social, como instituições importantes para a integração e a coesão da vida social. De acordo com Martinelli (2000), esses pensadores defendiam a tese de que as ciências sociais, para serem consideradas como ciência, deveriam utilizar os mesmos métodos das ciências naturais, tais como: a observação, a comparação e a experimentação, identificando suas leis para promover o progresso e o desen- volvimento social. A maioria das ideias desenvolvidas por August Comte tem se disseminado ©shutterstock A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III até a atualidade. Seu pensamento é influenciado pelas ideias progressistas e revolucionarias dos iluministas e, por outro lado, pelas ideias dos conserva- dores. Comte acreditava que, no futuro, as sociedades seriam “orgânicas”, com suas partes perfeitamente integradas e sem conflitos, comandadas por uma elite técnico-científica. Para o cientista, com a nova sociedade moderna e industrial, poderia surgir a possibilidade de aumentar a produção de mercadorias e de satisfazer às neces- sidades humanas, o que levaria à diminuição dos conflitos sociais. Nesse contexto, dava-se a entender que cabia à ciência a missão de ajudar a manter coesa a sociedade, substituindo o papel que a religião e os cientistas desempenhariam. A função que o clero exercia anteriormente, ao defender verdades aceitas por todos, foi aceita como as primeiras orientações que conduziram o serviço social para sua elaboração de uma visão de mundo. Conforme a análise das formas de ação social de Max Weber (1864- 1920), a divisão entre meios racionais e fins irracionais é de grande relevân- cia para o Serviço Social. O Serviço Social surgiu influen- ciado pelo pensamento da Igreja Católica, tendo um posicionamento humanista e conservador. A par- tir de 1945, o Serviço Social adota o modelo funcional estabelecido pelos Estados Unidos, afastando-se do doutrinarismo da Igreja Católica, introduzindo uma visão científica, a noção de dignidade da pessoa humana; sua perfeição, sua capacidade de desen- volver potencialidades; a sociabilidade natural do homem, como um ser social e político; a compreensão da sociedade como união dos homens para realizar o bem e a necessidade da autoridade para cuidar da justiça geral. 71 Positivismo na Profissão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Nesta égide, Quiroga (1991, p. 48-49) afirma que “o entendimento da socie- dade regida por leis naturais, imutáveis, que necessitam ser descobertas através de observações e contemplações positivas”. Portanto, as ciências sociais e a sociologia buscam explicar os fatos passíveis de serem observados à nossa volta e seguem os mesmos objetivos das ciências naturais. Esses objetivos não são apenas tipos de conhecimentos transformáveis em técnicas que possibilitam alguns tipos de transformação e controle da socie- dade, mas são também um meio de possível aperfeiçoamento com o espírito. Na medida em que as ciências sociais podem auxiliar as pessoas de algum modo, compreenderem mais claramente o comportamento dos outros, nos grupos aos quais pertencem e na sociedade como um todo. Para Quiroga (2000, p. 49), “o positivismo é, sucintamente, a observação daquilo que é concreto, correspondente à realidade externa, explicitando as rela- ções entre essesfenômenos”. O Serviço Social, na sua prática, deve estudar, compreender e observar, com bases teóricas, a vida humana: a família, as relações de poder, a religião, a cul- tura, a saúde e outras esferas diferentes da realidade social. Neste sentido, o positivismo, sem dúvida, representa, especialmente por meio de suas formas neopositivistas, como o positivismo lógico e a denominada filosofia analítica, uma corrente do pensamento que alcançou, de maneira singular na lógica formal e na metodologia da ciência, avanços muito meritórios para o desenvolvimento do conheci- mento (TRIVIÑOS, 1987, p. 41). A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III INTRODUÇÃO DO FUNCIONALISMO NO SERVIÇO SOCIAL O funcionalismo surgiu na metade da década de 1850, por meio do positivismo de Comte, e como indica o próprio nome, é uma tendência investigativa, meto- dológica e teórica que, distinguindo entre causas, funções e estruturas, Durkheim enriquece o pensamento de seus antecessores e forneceu uma sólida base para o desenvolvimento deste paradigma funcionalista. Partindo das ideias acerca da sociedade, o funcionalismo coloca em evi- dência os sistemas, cuja existência e operação no Serviço Social são mais bem compreendidas se observadas as partes que os compõem e a função que cada parte cumpre na realização do todo. De acordo com Yasbeck (1984, p. 71), essa orientação funcionalista foi absor- vida pelo Serviço Social, configurando para a profissão uma proposta de trabalho ajustadora e um perfil manipulatório, voltado para o aperfeiçoamento dos ins- trumentos e técnicas para a intervenção, com a busca de padrões de eficiência, sofisticação de modelos de análise, diagnóstico e planejamento. Enfim, uma tec- nificação da ação profissional acompanhada de uma crescente burocratização das atividades institucionais. Talcott Parson, de 1949 a 1960, estrutura teoricamente o funcionalismo como um modelo que explicasse o funcionamento da sociedade. Nessa vertente, a analogia do funcionalismo visava os estudos da Física e da Química, abordando o macro e o microssocial, como níveis de intervenção do Serviço Social. No nível macrossocial, o aspecto profissional do assistente social volta-se para a formulação de políticas sociais atrelada ao contexto histórico do moderno. Já no nível microssocial, a atuação do profissional é exclusivamente pautada na execução terminal das políticas, mantendo uma relação direta com os usuários dos serviços, segundo Hamilton (1958, p. 38), “[...] esse controle social exercido pressupunha a integração do indivíduo ao bom funcionamento de uma socie- dade proposta pela classe dominante.” Era enfatizado o trabalho com grupos, quer para interação, quer para fins terapêuticos, de forma a conseguir a melhor adaptação do indivíduo ao seu meio. O modo funcionalista de pensar, investigar 73 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . e intervir na realidade social ganhou força porque, culturalmente, correspon- dia aos interesses da ordem e da lógica burguesas instauradas na sociedade civil e no Estado brasileiro. E, ainda, segundo o autor, com a exceção do Serviço Social “de Caso”, as demais práticas do Serviço Social, que explicam a realidade social, são funda- mentadas na teoria social funcionalista. Portanto, o Serviço Social de Grupo ajudava os indivíduos a se autodesenvolverem e a se ajustarem aos valores e nor- mas vigentes no contexto social em que estavam inseridos. Nessa perspectiva, Falcão (1978, p. 26) explica que: O profissional de Serviço Social deve impulsionar e capacitar pessoas ou grupos, a se relacionarem estreitamente com o meio em que se in- serem, buscando através destas relações encontrar satisfações e neces- sidades pessoais e coletivas. Tal afirmação evidencia a prática do Serviço Social com a teoria funcionalista e, como consequência, olha com atenção o indivíduo a partir do meio em que vive e sua relação específica na sociedade, e no caso de uma desordem da própria socie- dade, o Serviço Social intervém, reintegrando esse indivíduo novamente à sociedade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Podemos concluir que as duas teorias metodológicas aqui estudadas contribu- íram e contribuem de alguma forma para amadurecimento do Serviço Social enquanto profissão. Já que cada uma foi utilizada de acordo com as exigências e as concepções de sua época, onde essas contribuições se fazem presentes atual- mente no exercício profissional. O Funcionalismo, para o Serviço Social, é uma espécie de proteção do Estado que se confirma no Positivismo. O Positivismo de Comte traduz a leitura da rela- ção entre os indivíduos, a sociedade e o Estado, ou seja, a compreensão da teia da dinâmica na realidade social, prevista pelo próprio sistema por se tratar de uma questão estrutural de um Estado dominante. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III O Positivismo, corrente de pensamento, assim é chamado porque a concepção empregada é a de que a realidade deve ser vista simplesmente tal qual se apre- senta a todos os indivíduos, não considera que há outra proposta além da que já existe. Sendo assim, não se admitem outras possiblidades ou projetos alternativos; tendo em vista a própria natureza do positivismo, se pressupõe dizer que tudo o que se apresenta contrário ao que já está posto à realidade, deve ser deixado de lado, pois representa uma anomalia social, ou uma utopia. Então, o ideal é que tudo deve permanecer assim como está. Ao espírito positivista acrescenta-se a noção funcionalista, o que significa dizer que, além de tudo, permanecer como está, é necessário que esteja em pleno funcionando. Esse Estado, que atende aos interesses da classe dominante, cria mecanismos controladores pelos quais se faz uma justaposição dos indivíduos à sociedade como meio de conter a insatisfação da classe trabalhadora. São estratégias cria- das como uma forma cruel de mascarar os problemas sociais causadores da pobreza e da vida miserável em que a classe proletária vivia, sob o domínio da classe dominante, detentora dos meios de produção. No plano teórico, a fundamentação funcionalista e a positivista, vistas em Comte e em Durkheim, servem de fonte para referenciar a metodologia empregada na ação investigativa do Serviço Social, que justificava o contexto sócio-histó- rico da profissão na qual foi inserida, na divisão sócio-técnia que tinha como empregador o Estado. A análise crítica a esse modelo recai sobre a metodologia que era empregada sob o ponto de vista político que vende a história como uma realidade dialética, e a partir dessa perspectiva, o estruturalismo parece útil ao estudo da realidade histórica e humana. 75 1. Quais os principais aspectos do positivismo? 2. Explique sobre o funcionalismo. 3. Relate de que maneira as duas correntes, funcionalista e positivista, influencia- ram o Serviço Social. MATERIAL COMPLEMENTAR O que é Positivismo? João Ribeiro Jr. Editora: Brasiliense Sinopse: O século 19 e a França são os dois marcos do positivismo, nome com que foi batizado o pensamento filosófico de Augusto Comte, e que pregava a implantação de um Estado autoritário como a única via para o desenvolvimento da sociedade e para a construção de uma ordem social harmônica. Esse pensamento polêmico difundiu-se rapidamente na Europa e logo alcançou o Brasil, onde influenciou decisivamente os pensadores republicanos. O Positivismo de Comte e Durkheim <http://www.airtonjo.com/socio_antropologico03.htm>. U N ID A D E IV Professora Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Professora Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha A CATEGORIA PROFISSIONAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar a defesa da qualificação profissional.■ Entender a mobilização da categoria. ■ Analisar como essas mobilizações influenciaram a profissão. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A defesa da qualificação profissional ■ A mobilização da categoria INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), vimos, até este ponto, que o Serviço Social é uma profissão espe- cializada, atuante no enfrentamento das expressões da questão social, advinda da relação conflituosa entre o capital e o trabalho, trazendo como resultado o conjunto das desigualdades geradas pelos processos de produção e exploração do capitalismo. Nesta Unidade de estudo, você vai compreender o que significou para o Serviço Social o período de renovação e o quanto a categoria profissional pre- cisou se mobilizar para refletir e rever sua base teórica e metodológica. É um momento histórico de uma jornada intensa de trabalho que agregou um número expressivo de profissionais, estudantes e professores, que demandou muitas reu- niões com desdobramento em outros eventos do Serviço Social. Veremos nesta Unidade, como se deu a defesa da qualificação profissional e o processo de mobilização da categoria. DEFESA DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL Nas palavras de Netto (2007, p. 69-70): [...] a profissionalização do Serviço Social não se relaciona decisiva- mente à “evolução da ajuda”, à “racionalização da filantropia”, nem à “organização da caridade”; vincula-se à dinâmica da ordem monopóli- ca [...]. Na emergência profissional do Serviço Social, não é este que se constitui para criar um dado espaço na rede sócio-ocupacional, mas é a existência deste espaço que leva à constituição profissional. [...] não é a continuidade evolutiva das protoformas ao Serviço Social que esclarece a sua profissionalização, e sim a ruptura com elas. É no cerne da prestação desses serviços sociais que o Serviço Social tem seu surgimento, tendo, desde o período ditatorial, o Estado como o seu principal empregador. A profissão teve sua primeira regulamentação por meio da Lei n. 3.252, em 27 de agosto de 1957, sendo juridicamente caracterizada como uma profissão liberal. 79 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ©shutterstock A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Esse processo de regulamentação conduziu-se à criação dos conselhos regionais e Federal profissionais, tornando-os representantes legais e legítimos perante o Estado, normatizando e fiscalizando o exercício profissional. Netto (2007) diz que, no período da década de 1960, o mercado se amplia e consolida-se para o profissional assistente social em virtude das novas apresen- tações da questão social no governo de JK e na ditadura militar (veremos isso em nossa próxima Unidade). Na ditadura militar, ocorre o processo de renova- ção da profissão no Brasil. Netto (2007, p. 115) corrobora dizendo: no âmbito das suas natureza e funcionalidade constitutivas, alteram-se muitas demandas práticas a ele colocadas e a sua inserção nas estrutu- ras organizacional-institucionais (donde, pois, a alteração das condi- ções do seu exercício profissional); a reprodução da categoria profis- sional - a formação dos seus quadros técnicos - viu-se profundamente redimensionada (bem como os padrões da sua organização como cate- goria); e seus referenciais teórico-culturais e ideológicos sofreram giros sensíveis (assim como as suas autorrepresentações). No fim da década de 1960, até o início da década de 1970, a prática profissional mantem-se vinculada ao Serviço Social tradicional, guiado pelo empirismo e pela burocratização e inspirado pelo positivismo e funcionalismo. A industrialização durante o regime militar intensificou o processo de produção e reprodução da “questão social”, alterando suas formas de manifestação na sociedade. O Estado brasileiro, centralizando cada vez mais sua intervenção, intensificou as formas de enfrentamento às novas expressões da “questão social” por meio de investi- mentos em políticas sociais. ©shutterstock ©shutterstock 81 Defesa da Qualificação Profissional Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A reforma do Estado no final da década de 1960, movimentou mais o sentido das políticas setoriais em favor capi- talismo. O Estado brasileiro alterava a sua estrutura e funcionamento orga- nizacional, e a relação dos assistentes sociais com seus empregadores, com os recursos disponibilizados para exe- cução das políticas sociais, bem como sua relação com outros profissionais no espaço de trabalho e com os próprios usuários dos serviços. Essas novas deman- das profissionais passaram a exigir do assistente social novas competências e capacitações, tanto no exercício quanto na sua formação profissional. Conforme afirma Netto (2007, p. 123): A racionalidade burocrático-administrativa com que a “modernização conservadora” rebateu nos espaços institucionais do exercício profis- sional passou a requisitar do assistente social uma postura “moderna”, no sentido da compatibilização no seu desempenho com as normas, fluxos, rotinas e finalidades dimanantes daquela racionalidade. Desta forma, caro(a) aluno(a), houve uma grande mudança no campo do traba- lho, formado até então por uma base humanista do Serviço Social tradicional, provocando uma mudança em seu perfil, passando a ser necessária uma nova atuação pelos profissionais nos procedimentos utilizados. A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV É nesse contexto geral de “renovação” (NETTO, 2007) que o Serviço Social se insere nas instituições de ensino superior, pois até então a formação dos assisten- tes sociais se dava em escolas confessionais ou agências de formação específica. Em 1976, o curso de Serviço Social já era ofertado em todo país, entre univer- sidades ou faculdades, públicas e privadas. A inserção do Serviço Social nas universidades foi decisiva para consoli- dar o seu processo de renovação. A relação direta com o centro da produção do conhecimento, incluindo a abertura dos programas de pós-graduação na área, impactou a formação do assistente social com: - A instauração do pluralismo teórico, ideológico e político no marco profissional; - A crescente diferenciação das concepções profissionais (natureza, funções, objeto, objetivos e práticas do Serviço Social), derivada do re- curso diversificado a matrizes teórico-metodológicas alternativas; - A sintonia da polêmica teórico-metodológica profissional com as dis- cussões em curso no conjunto das ciências sociais, inserindo o Serviço Social [...] como protagonista que tenta cortar com a subalternidade (intelectual); - A constituição de segmentos de vanguarda [...] voltada para investiga- ção e a pesquisa (NETTO, 2007, p. 135-136). Na história do Serviço Social tradicional, os conselhos Federal e regionais de Serviço Social, baseados no conservadorismo, apenas exerciam o seu papel de controle, em nome do Estado, sobre os profissionais. Eram conselhos corpo- rativistas, com função meramente burocrática e disciplinadora do exercício profissional (CFESS, 1996). Até então, a legislação profissional era resguardada por princípios neotomistas e positivistas, haja vista os Códigos de Ética de 1947, 1965 e de 1975 (BARROCO, 2001). A partir da inserção do Serviço Social no contexto universitário e do avanço nos debates promovidos pelas entidades da categoria, em meio às lutas pelas liber- dades civis e políticas, favorecidas pela crise do “milagre econômico” - reflexo da crise mundial capitalista iniciada nos anos 1970 - emergiu, no seio profissio- nal, a direção de “intenção de ruptura” com o tradicionalismo. 83 Defesa da Qualificação ProfissionalRe pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Sob a égide de um novo embasamento teórico-metodológico, de inspira- ção marxista, do estímulo à pesquisa científica - incluindo projetos de extensão e estágio supervisionado orientados pelos novos referenciais - é que se torna possível vislumbrar o redimensionamento do significado social da profissão e a construção de um novo projeto profissional em oposição ao que estava posto. Esse processo, de renovação e de ruptura com o conservadorismo, provocou um redirecionamento também das entidades representativas da categoria. Em 1979, o Serviço Social, já sob influência desse processo, vivencia um marco his- tórico para a profissão, o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), mais conhecido como o “Congresso da Virada”. O evento ficou assim conhecido “pelo seu caráter contestador e de expressão do desejo de transformação da prá- xis político-profissional do Serviço Social na sociedade brasileira” (CFESS, 1996, p. 175). Nesse momento, as forças políticas progressistas do país, entre elas movi- mentos sociais e sindicais, partidos políticos, clamavam pela redemocratização. É nesse contexto político que se situa o Serviço Social brasileiro, no dire- cionamento da construção do projeto ético-político, e é qualificado, na visão de Netto (1999, p.95), como um conjunto de valores que a legitimam socialmente, delimitam e priorizam seus obje- tivos e funções, formulam os requisitos (teóricos, institucionais e prá- ticos) para o seu exercício, prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as balizas de sua relação com os usuá- rios de seus serviços, com as outras profissões e com as organizações e instituições sociais. Para ilustrar a importância do III CBAS, trouxemos mais informações sobre o memorável evento que ficou conhecido como o Congresso da Virada. Evento este que se tornou histórico porque registra os tempos de mudança para o Serviço Social Brasileiro. Em 1979, aconteceu o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) na cidade de São Paulo; um evento que se tornou um marco referencial para um conjunto de mu- danças no Serviço Social brasileiro. Os segmentos mais dinâmicos do corpo profissio- nal vincularam-se ao movimento dos trabalhadores, e, rompendo com a dominância do conservadorismo, conseguiram instaurar na profissão o pluralismo político, que acabou por redimensionar amplamente não só a organização profissional, mas fundar entidades como a Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social (ABESS) – depois renomeada Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) – e, posteriormente, o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). A luta contra a ditadura militar e a conquista por democracia política demarcaram este período de transição do corpo profissional, em um período histórico de disputa entre projetos societários dis- tintos. Este avanço democrático, incorporado pela categoria profissional, representou um movimento de vanguarda, ao mesmo tempo em que gerou fortes polêmicas com implicações em uma ampla revisão da dimensão teórico-prática para esta profissão. Por isso, o evento de 1979 foi marcado como um momento da “virada”, pois os assistentes sociais se organizavam por um Estado democrático. Assim, sintonizados com as lutas pela democratização da sociedade, parcela da cate- goria profissional, e vinculados ao movimento sindical e às forças mais progressistas, os assistentes sociais se organizam e disputam as direções dos Conselhos Federal e Regio- nais, com a perspectiva de adensar e fortalecer esse novo projeto profissional. Fonte: CFESS (2008, p. 163) 85 Defesa da Qualificação Profissional Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Os profissionais comprometidos com as lutas democráticas do conjunto da classe trabalhadora passam a disputar o espaço dos conselhos profissionais de Serviço Social, imprimindo-lhes uma nova direção política, articulada com os movimen- tos sociais e de outras categorias. A partir de 1983, o CFAS impulsiona amplos debates no interior da categoria, vislumbrando a reformulação do Código de Ética vigente, datado de 1975. Esse processo vai corroborar a negação do prin- cípio da neutralidade e combinar a elaboração do Código de Ética do Assistente Social de 1986, superando a perspectiva a-histórica e acrítica do Serviço Social e admitindo um profissional com competência teórica, técnica e política. A década de 1990, marcada no Brasil pelo processo de reestruturação produ- tiva do capital, instaura o neoliberalismo como orientação da regulação estatal. Em decorrência disso, inicia-se a “reforma” do Estado, exata e contraditoria- mente, no marco da redemocratização e das conquistas sociais asseguradas na Constituição brasileira de 1988. Diante das mudanças ocorridas no mundo do trabalho e no campo dos direitos sociais, o conjunto CFESS/Cress desencadeia debates para impulsionar a reformulação da legislação profissional, como forma de garantir o comprometimento de uma profissão voltada para os princípios da equidade social e da defesa intransigente dos direitos. Desta maneira, é a partir da década de 1990 que o projeto ético-político do Serviço Social começa a tomar forma, tendo como marco o novo Código de Ética Profissional (1993) e a nova Lei de Regulamentação da profissão (1993), mas sem esquecer que possui suas bases ineliminavelmente ligadas à “intenção de ruptura”, anteriormente mencio- nada, sendo, em relação a ela, uma espécie de “desenvolvimento”. O Código de Ética do assistente social de 1993 representa um grande avanço em relação aos códigos anteriores, visto que rompe com a base filosófica tradicio- nal e define a liberdade, a justiça social e a democracia como valores fundamentais na luta por um novo projeto societário. O atual Código de Ética (1993) foi o resultado de muitos encontros e debates dos profissionais. Portanto, foi o quinto elaborado pela categoria, em resposta a uma necessidade da categoria a fim de garantir um estatuto ético para a profissão. Os Códigos anteriores datam dos anos de 1947, 1965, 1975 e 1986, sendo que os três primeiros tinham visões conservadoras, fundamentadas no neoto- mismo. Já o Código de 1986 foi uma expressão de conquistas e ganhos, mediante A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV dois procedimentos: negação da base filosófica tradicional e conservadora dos Códigos anteriores e afirmação de um novo perfil, não mais um técnico agente subalterno e apenas executivo, mas um profissional competente teórico, técnico e politicamente que se compromete com a classe trabalhadora. A democracia é assumida como valor ético central na medida em que constitui o único padrão de organização político-social capaz de asse- gurar a explicitação daqueles valores. A democracia é concebida aqui como socialização da política, mas também da riqueza socialmente produzida (CFESS, 1996, p. 174). A lei de regulamentação da profissão (Lei n. 8.662/93) também é considerada um grande avanço para o Serviço Social. Ela regulamenta o exercício profissio- nal do assistente social e estabelece as competências e as atribuições privativas do mesmo, previstas, respectivamente, nos seus artigos 4º e 5º. De acordo com Terra (2007), as competências dizem respeito às atividades que podem ser exerci- das tanto pelo assistente social, quanto por outros profissionais; já as atribuições privativas são as atividades profissionais exclusivas dos assistentes sociais. O processo de afirmação dessa profissão com uma formação crítica e com- prometida com os valores democráticos e universais de justiça e equidade social foi potencializado pela criação e aprovação das Diretrizes Curriculares parao curso de Serviço Social em 1996. As diretrizes e os pressupostos norteadores da concepção de formação profis- sional, que formam a estrutura curricular do Curso, foram estabelecidos a partir de duas dimensões básicas – a da ação interventiva da profissão, nas suas inter- -relações e suas interfaces com os processos de exclusão cultural, social, política e econômica, e o papel profissional do assistente social diante das novas manifes- tações da “questão social” que agudizam a realidade de precariedade de diversos segmentos sociais no mundo e no Brasil; e em particular, na medida em que a remodelação da dinâmica social, por conta do reordenamento do capital e do mundo do trabalho, coloca a assistência cada vez mais como uma proposta ilusó- ria de tempos passados no âmbito da questão social, remodelada pela dinâmica da sociedade a partir do reordenamento do capital e do trabalho, consequência do processo de reestruturação produtiva no país. Vale ressaltar que no caso desta última, o processo foi impulsionado pela 87 Defesa da Qualificação Profissional Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (Abepss), em arti- culação com as instituições de ensino, o conjunto CFESS/Cress e a Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social (Enesso). Os documentos produzidos pela ABEPSS norteiam a proposta de formação profissional sobre a necessidade de uma incorporação cada vez maior das dimen- sões investigativa e interventiva, como princípios formativos e condição central da formação profissional. Recomendam também um “rigoroso trato teórico, his- tórico e metodológico da realidade social e do Serviço Social que possibilite a compreensão dos problemas e desafios com os quais se defronta no universo da produção e reprodução da vida social” (ABESS/CEDEPSS,1996, p. 4). A preocupação com a adoção de uma teoria social crítica, que possibilite a apreensão da totalidade social, inserida em um contexto pluralista inerente à natureza do debate acadêmico e profissional, continua presente na concepção de ensino, pesquisa e extensão. A proposta aponta, ainda, para a necessidade de se flexibilizar a organização dos currículos plenos, a superação de conteúdos fragmentados na organização curricular, o caráter interdisciplinar nas diferen- tes dimensões do projeto de formação, a necessidade de garantia de “padrões de desempenho e qualidade idênticos para os cursos diurnos e noturnos”, garan- tindo, por fim, uma “indissociabilidade entre estágio e supervisão acadêmica e profissional” (ABESS/CEDEPSS, 1996, p. 5). Na nova lógica curricular, demarcou-se o tripé dos conhecimentos consti- tuídos pelos núcleos de fundamentação da formação profissional e do próprio Serviço Social como totalidade, quais sejam: núcleo de fundamentos teórico-meto- dológicos da vida social, núcleo de fundamentos da sociedade brasileira, núcleo de fundamentos do tratamento dos conteúdos das matérias com centralidade no Serviço Social como profissão na história, em uma perspectiva de totalidade. (...) os conteúdos perpassam os diferentes núcleos que estruturam as novas diretrizes curriculares e o eixo articulador é o processo histórico; a visão de fundamentos do Serviço Social ultrapassa a própria profissão e a particularidade do Serviço Social é ressaltada no movimento totali- zante da sociedade (CARDOSO, 2007, p.41). Os núcleos de fundamentação da formação profissional estão assim constituí- dos, de acordo com o enquadramento às exigências da Comissão de Especialistas A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV de Ensino do Serviço Social criada pelo MEC: Núcleo de fundamentos teórico- metodológicos da vida social, que compreende um conjunto de fundamentos teórico-metodológicos e ético-políticos para conhecer o ser social enquanto tota- lidade histórica, fornecendo os componentes fundamentais para a compreensão da sociedade burguesa, em seu movimento contraditório; Núcleo de fundamentos da formação sócio-histórica da sociedade brasileira, que remete à compreensão dessa sociedade, resguardando as características históricas particulares que pre- sidem a sua formação e desenvolvimento urbano e rural, em suas diversidades regionais e locais. Compreende, ainda, a análise do significado do Serviço Social em seu caráter contraditório, no bojo das relações entre as classes e destas com o Estado, abrangendo as dinâmicas institucionais nas esferas estatal e privada; Núcleo de fundamentos do trabalho profissional, que compreende todos os ele- mentos constitutivos do Serviço Social como uma especialização do trabalho: sua trajetória histórica, teórica, metodológica e técnica, os componentes éticos que envolvem o exercício profissional, a pesquisa, o planejamento e a administra- ção em Serviço Social e o estágio supervisionado. Tais elementos encontram-se articulados por meio da análise dos fundamentos do Serviço Social e dos pro- cessos de trabalho em que se insere, desdobrando-se em conteúdos necessários para capacitar os profissionais ao exercício de suas funções, resguardando as suas competências específicas normatizadas por lei. (BRASIL, 1999). No processo de construção do projeto ético-político do Serviço Social, ganham relevância as entidades representativas dos assistentes sociais, especialmente o conjunto CFESS/CRESS, o qual, em sintonia com o avanço teórico-político viven- ciado pelo Serviço Social, também passou por um processo de renovação, por meio da superação de suas características iniciais pautadas no corporativismo e no burocratismo. Assim, houve uma ampliação das atribuições assumidas pelo conjunto CFESS/CRESS, pois a partir da fiscalização do exercício profissional, constituída como sua função precípua, passou a investir na qualificação teórico- -política dos profissionais, na defesa das políticas públicas e na preocupação com a qualidade dos serviços prestados aos usuários. As propostas e ações das refe- ridas entidades passaram a ser pautadas pelo aprimoramento dos instrumentos normativos necessários à regulamentação e à fiscalização do exercício profis- sional; pelo investimento na participação nos fóruns de discussão, formulação 89 A Mobilização Da Categoria Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . e controle social das políticas públicas, além da articulação com os movimen- tos sociais que lutam pela superação das desigualdades sociais e a efetivação de direitos. A MOBILIZAÇÃO DA CATEGORIA Conforme Abreu (2002), nos anos 1980, partindo da análise de emancipação da classe trabalhadora, os processos de mobilização e a educação formaram os eixos norteadores das propostas pedagógicas direcionadas ao assistente social neste sentido, dando apoio aos avanços e fortalecendo o projeto ético-político da profissão. Nessa perspectiva, para organização da cultura, foi adotada uma função pedagógica que, segundo Abreu (2002, p.17), seria “por meio dos efei- tos da ação profissional na maneira de pensar e agir dos sujeitos envolvidos nos processos da prática”. Dentre as várias pedagogias existentes na profissão de assistente social, Abreu (2002) destaca a pedagogia emancipatória, que se distingue pelo laço à repre- sentação histórica das classes populares, bem como sua luta em busca de uma sociedade alternativa ao capitalismo. Essa pedagogia veio das experiências das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) arraigadas nas práticas cotidianas das classes sociais menos favorecidas, e inculcava a essas classes a consciência dos deveres e direitos políticos atribu- ídos aos cidadãos, dessa forma, estimulando a auto-organização, realizada por meio de uma formação política, debatendo criticamente as incoerências sociais, bem como propondoa luta por melhorias de condições de vida e objeções às regras estabelecidas. Na visão de Abreu (2002, p. 133), “[...] as experiências das CEBs revelam-se espaços importantes de politização das relações sociais e de intervenção des- sas classes no movimento histórico na perspectiva de sua emancipação”. Esses processos são vistos como principais orientadores na organização da pedago- gia emancipatória. A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Segundo a autora, os elementos bases da pedagogia emancipatória estão calcados na solidariedade e na colaboração entre as classes sociais secundárias, capacitando-as a responder aos desafios postos pelas condições históricas, como também propondo a mobilização, a capacitação e a sua organização, a fim de inverter a ordem intelectual e moral do capital, visando à formação de uma nova cultura (ABREU, 2002). Atualmente, a pedagogia emancipatória dos assistentes sociais comprome- tidos com as classes subalternas pode enveredar-se por duas tendências: uma restrita ao compromisso com as lutas das classes subalternas pela defesa dos direitos, no horizonte do Estado de bem-estar, e outra comprometida com essas lutas no sentido da superação da ordem burguesa e construção do socialismo. O horizonte encerrado nos direitos é atualmente predominante entre as próprias organizações das classes subalternas, que perderam o caráter revolucionário (ABREU, 2002, p. 206). Nesse sentido, os assistentes sociais possuem o desafio de identificar as possibilidades de progressão emancipatória, na construção de uma nova socia- bilidade, uma vez que são sujeitos e alvos das tendências aceitas por essas classes subalternas. De acordo com Abreu (2002, p. 220), a pedagogia emancipatória se dá mediante experiências como: ouvidoria, orçamento participativo, renda mínima articulada à educação, balanços sociais, programas de qualidade de vida e de trabalho, fortalecimentos dos grupos subalternos direcionados à ampliação de direitos, denúncias da precariedade das condições de vida, e formas alternati- vas de produção e gestão das relações sociais. No interior do Movimento dos Sem-Terra (MST) existem espaços em abun- dância, e podem ser usados pelos assistentes sociais inseridos neste movimento social como um espaço reprodutivo da pedagogia emancipatória na prática pro- fissional. Assim, o assistente social, em sua prática, pode promover mecanismos de ação que levam à educação social dos grupos atendidos, pois de acordo com contribuições de Abreu e Cardoso (2009, p. 594-595), as práticas de mobiliza- ção social e de organização são expressões das práticas educativas desenvolvidas pelas classes sociais na busca da ampliação de consensos em torno de seus pro- jetos societários, na disputa pela hegemonia. 91 A Mobilização Da Categoria Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Foram as lutas sociais que romperam o domínio privado nas relações entre capital e trabalho, extrapolando a questão social para a esfera pú- blica, exigindo a interferência do Estado para o reconhecimento e a Legalização de direitos e deveres dos sujeitos sociais envolvidos (IAMAMOTO, 2003, p.66). Essas práticas servem como bases da profissão, mas não são exclusivamente do assistente social. Nesse sentido, os conceitos dessas práticas sofrem tensões pelos diferentes projetos das classes e, segundo Abreu e Cardoso (2009, p. 594), visam “desenvolver uma reflexão sobre os fundamentos das práticas educativas, particu- larizando as dimensões técnico-operativas e ético-políticas da mobilização social”. Nesse contexto, como estratégia pedagógica, o assistente social deve desen- volver atividades educativas que formam a cultura, englobando tudo aquilo que é relativo ao homem, sejam as coisas e/ou os acontecimentos que envolvam o pensamento, ações e sentimento, em busca da sociabilidade embasada em con- teúdos gramscianos em relação de hegemonia. Conforme Antonio Gramsci (1954 apud ABREU; CARDOSO, 2009, p. 594), “toda relação de hegemonia é eminentemente pedagógica”. Nessa perspectiva, o assistente social deve transcender a mera prática da pregação revolucionária, esclarecendo que a organização popular e também a consciência de classe são condições obrigatórias para a conquista política das classes menos favorecidas. Nesse processo, o assistente social poderá atuar junto às organizações da classe trabalhadora participando no: 1 - desenvolvimento de propostas de formação político-organizativa, que possibilite a essas classes a apreensão crítica das contradições econômicas e polí- tico-ideológicas inerentes às sociedades capitalistas; a criação de formas próprias de reprodução e de resistência no enfrentamento cotidiano com os interesses das classes adversárias e a construção de formas de superação da opressão por essas classes; 2 - desenvolvimento de propostas eminentemente educativas de fortaleci- mento das organizações da classe trabalhadora e de processos de constituição ideológica das classes subalternas na luta pela construção de uma alternativa emancipatória da classe trabalhadora e de toda humanidade (CARDOSO; LOPES, 2009, p. 471). A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV O assistente social inserido nas equipes multiprofissionais pode atuar e desen- volver um trabalho pedagógico que, nesse caso, venha contribuir para que os trabalhadores manifestem e coloquem em prática uma política que estimule e explore a influência social da mídia em torno da temática, construindo novas relações hegemônicas. Ressalta-se que o conceito da educação popular, mesmo estando presente na elaboração do Serviço Social, é necessário para que o assistente social bus- que desvendar sua complexidade, compreendendo a sua finalidade, para uma melhor intervenção profissional. SERVIÇO SOCIAL, MOBILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO POPULAR: UMA SIS- TEMATIZAÇÃO DO DEBATE CONTEMPORÂNEO Maria Lúcia DuriguettoI; Luiz Agostinho de Paula BaldiII RESUMO O presente artigo versa sobre a intervenção do Serviço Social nos processos de mobilização e organização popular e, particularmente, sobre o debate contemporâneo que vem sendo realizado sobre o tema. Este debate é apre- sentado nas elaborações acadêmicas de autoras que tratam especialmente das funções pedagógica e educativa do assistente social e de sua inserção nas organizações da classe trabalhadora. Nesta sistematização, priorizam-se as formulações que vêm adquirindo relevância no debate profissional e que tecem algumas considerações necessárias para a análise e as prospectivas da relação da profissão com os processos de mobilização e organização po- pular. Palavras-chave: Serviço Social. Debate profissional. Mobilização. Organiza- ção popular. Para ter acesso ao artigo na íntegra, acesse: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S1414-49802012000200005>. 93 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta desta Unidade foi discorrer sobre o processo de formação institucional e organizativa profissional do Serviço Social, partindo de uma visão assistencia- lista para uma visão crítica da realidade. Podemos notar que ao perfazer uma contextualização a nível mundial e de Brasil, destacamos a emergência do serviço social que surgiu para amenizar as expressões da “questão social”, advindas das contradições e antagonismos do sistema capitalista. Todo esse processo visava ao amadurecimento do Serviço Social, onde este deixa de atuar de forma não sistemática, passando a operar com uma visão crí- tica das relações sociais. Assim, o Serviço Social passa a assumir características particulares, atuando frenteaos problemas sociais com um papel ético-profis- sional em consonância ao seu projeto ético-político. Lembrando que é importante que a ênfase para a consolidação do projeto ético-político da profissão se deve ao processo formativo do Serviço Social, que antecede a prática profissional. Outro elemento importante sobre o qual refletimos nesta Unidade refere-se à análise do processo de qualificação profissional, que está diretamente relacionado com o grande desafio do Serviço Social, em fazer valer sua formação generalista de compreensão do homem em sociedade. E esse processo de amadurecimento ocorre à medida que os profissionais atingem a consciência do exercício crí- tico da profissão e ao firmar seu compromisso com a transformação da ordem societária vigente no sistema capitalista, que implica também dizer em insti- tuir estratégias de ação pela luta e garantia dos direitos sociais e compromisso com a qualidade dos serviços prestados e com o fortalecimento dos usuários. Igualmente, sabemos também que esse é um desafio histórico marcado pela alie- nação social dada à relação da posição de subalternidade do Serviço Social que ainda aprisiona muitos profissionais. A CATEGORIA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV A contribuição do novo currículo do Serviço Social possibilita, por meio da formação acadêmica, um novo olhar para a profissão, é um despertar para a compreensão crítica e ampliada da realidade que, segundo Iamamoto (1998), ressalta que para garantir uma sintonia do Serviço Social com os tempos atuais, é necessário romper com uma visão endógena, focalista, uma visão “de dentro” do Serviço Social, prisioneira em seus muros internos, alargar os horizontes, olhar para mais longe, para o movimento das classes sociais e do Estado em suas rela- ções com a sociedade. É, portanto, inquestionável a importância do novo currículo para a revisão teórica do Serviço Social, para a ação profissional, e que está asso- ciada a esse processo a necessidade de aprimoramento profissional constante. 95 1. Explique como se deu o processo de defesa da qualificação profissional. 2. Explique de que maneira o assistente social atua junto às classes trabalhadoras. Exemplifique. 3. Disserte sobre a contribuição do novo currículo de Serviço Social para a forma- ção profissional. MATERIAL COMPLEMENTAR Estado de sítio O corpo de Philip Michael Santore (Yves Montand), um colaborador dos regimes militares na América do Sul, é encontrado em um carro. Deste momento em diante o filme é narrado em flashback, mostrando os Tupamaros decididos a capturar Santore, que se dedicou a ensinar e difundir a tortura nos órgãos militares. Para saber mais sobre a Lei 3.352, acesse: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3252.htm>. U N ID A D E V Professora Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Professora Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Objetivos de Aprendizagem ■ Relatar a influência do Serviço Social na Ditadura. ■ Identificar a profissão na esfera da burocracia e tecnocracia. ■ Entender o processo de questionamento da prática profissional. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O Serviço Social e a Ditadura ■ A incorporação da profissão na esfera da burocracia e tecnocracia ■ O Serviço Social e o processo de questionamento da prática profissional INTRODUÇÃO Nesta unidade, caro(a) aluno(a), temos o objetivo de analisar alguns pontos das singularidades em relação ao processo de Ditadura militar no Brasil e sua impor- tância para o Serviço Social. Apresentaremos como ocorreu esse processo, a fim de elucidar a ruptura que tal período ocasionou naquilo que os autores chamam de Serviço Social Tradicional. Tal ruptura somente foi possível graças ao pro- cesso de discussões ocorridas nos Congressos e Seminários profissionais, como os de Teresópolis e Araxá, resultando no Movimento de Reconceituação e no rompimento com o método tradicional e a adesão a uma postura crítica social do fazer profissional. O Movimento de Reconceituação é um marco histórico para o Serviço Social, visto que representa a ruptura com o conservadorismo, para avançar na pers- pectiva teórica e metodológica da profissão. Os assistentes sociais juntam-se aos movimentos sociais em defesa dos direitos da classe trabalhadora. É importante esclarecer que neste estudo a análise desse momento de tran- sição do Serviço Social Tradicional ou Conservador para a sua Renovação, não é apenas temporal, vai muito além da representação cronológica. Caro(a) aluno(a), pensamos o quanto é valioso para o seu aprendizado o conhecimento dos documentos acima citados e de todo acervo teórico que compõe a história da formação profissional, de luta e sonhos, pois revelam os anseios, as expectativas dos profissionais para a mudança do pensamento crí- tico que está em busca de um projeto profissional em defesa de uma sociedade mais justa e humana. Bons Estudos! 99 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ©shutterstock O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V O SERVIÇO SOCIAL E A DITADURA MILITAR Antes de falar da prática profissional do Serviço Social no período do Regime Militar, devemos recordar esse momento histórico. Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política bra- sileira em que os militares governaram o Brasil. Essa época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. Abaixo, veremos quais foram os principais acontecimentos desse importante período histórico para o Brasil e para a profissão. Tudo começou com o golpe militar de 1964. A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice de Jânio era João Goulart, que assumiu a presidência em um clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais. Estudantes, orga- nizações populares e trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras, como os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam uma guinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar que neste período o mundo vivia o auge da Guerra. Esse estilo populista e de esquerda chegou a gerar até mesmo preocupação nos EUA, que junto com as classes conservadoras brasileiras temiam um golpe comunista. Os partidos de opo- sição, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), acusavam Jango de estar planejando um golpe de esquerda e de ser o res- ponsável pela carestia e pelo desabastecimento que o Brasil enfrentava. No dia 13 de março de 1964, João Goulart realiza um grande comício na Central do Brasil (Rio de Janeiro), onde defende as Reformas de Base. Nesse plano, Jango prometia mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional do país. Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizam uma manifestação contra as intenções de João Goulart. Foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo. O clima http://www.suapesquisa.com/geografia/socialismo 101 O Serviço Social e a Ditadura Militar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . de crise política e as tensões sociais aumentavam a cada dia. No dia 31 de março de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas. Para evitar uma guerra civil, Jango deixa o país refugiando-se no Uruguai. Os militares tomam opoder. Em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional Número 1 (AI-1). Este cassa mandatos polí- ticos de opositores ao regime militar e tira a estabilidade de funcionários públicos. GOVERNO CASTELLO BRANCO (1964-1967) Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional presidente da República em 15 de abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender a democracia, porém, ao começar seu governo, assumiu uma posição autoritá- ria. Estabeleceu eleições indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos. Vários parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cas- sados, cidadãos tiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção do governo militar. Em seu governo, foi institu- ído o bipartidarismo. Só estavam autorizados o funcionamento de dois partidos: Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares. O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova Constituição para o país. Aprovada nesse mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza o regime militar e suas formas de atuação. Todos falam sobre a visão dos oprimidos culturalmente pela ditadura de 64, mas o site www.uol.com.br fez algo inusitado, entrevistou um militar e quis saber como foi a ditadura para ele. Para ler os “Pensamentos do Coronel”, acesse o link abaixo: <http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/03/26/seis-fra- ses-revelam-a-visao-de-um-militar-que-viveu-o-golpe-de-1964.htm>. http://www.suapesquisa.com/eleicoes2006 http://www.suapesquisa.com/o_que_e/constituicao.htm O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V GOVERNO COSTA E SILVA (1967-1969) Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE (União Nacional dos Estudantes) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábri- cas em protesto ao regime militar. A guerrilha urbana começa a se organizar. Essa guerrilha é formada por jovens idealistas de esquerda, que assaltam bancos e sequestram embaixadores para obter fundos para o movimento de oposição armada. No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 (AI-5). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juí- zes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas corpus e aumentou a repressão militar e policial. GOVERNO DA JUNTA MILITAR (31/8/1969-30/10/1969) Doente, Costa e Silva foi substituído por uma junta militar for- mada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica). Dois grupos de esquerda, o MR-8 e a ALN sequestraram o embaixador dos EUA, Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigiram a libertação de 15 presos políticos, exigência conseguida com sucesso. Porém, em 18 de setembro, o governo decre- tou a Lei de Segurança Nacional. Essa lei decretava o exílio e a pena de morte em casos de guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva. No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repres- são em São Paulo. GOVERNO MEDICI (1969-1974) Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu 103 O Serviço Social e a Ditadura Militar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Medici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhe- cido como “anos de chumbo”. A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, pre- sos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna) atua como centro de investigação e repressão do governo militar, ganha força no campo a guer- rilha rural, principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é fortemente reprimida pelas forças militares. O MILAGRE ECONÔMICO Na área econômica, o país crescia rapidamente. Esse período, que vai de 1969 a 1973, ficou conhecido como a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano, enquanto a inflação beirava os 18%. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país avançou e estru- turou uma base de infraestrutura. Todos esses investimentos geraram milhões de empregos pelo país. Algumas obras, consideradas faraônicas, foram execu- tadas, como a Rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói. Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga no futuro. Os empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para os padrões econômicos do Brasil. GOVERNO GEISEL (1974-1979) Em 1974, assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lento processo de transição rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagre econômico e com a insatisfação popular em altas taxas. A crise do petró- leo e a recessão mundial interferem na economia brasileira, no momento em que os créditos e empréstimos internacionais diminuem. Geisel anuncia a abertura http://www.suapesquisa.com/mpb http://www.suapesquisa.com/o_que_e/inflacao.htm http://www.suapesquisa.com/economia/divida_externa.htm http://www.suapesquisa.com/paises/brasil O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades. Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, começam a promo- ver ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho aparece morto em situação semelhante. Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas corpus e abre caminho para a volta da democracia no Brasil. GOVERNO FIGUEIREDO (1979-1985) A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo de rede- mocratização. O general João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha dura continuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explode durante um show no centro de convenções do Rio Centro. O atentado fora provavelmente promovido por militares de linha dura, embora até hoje nada tenha sido provado. Em 1979, o governo aprova lei que restabelece o pluripartidarismo no país. Os partidos voltam a funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome e passa a ser PDS, enquanto o MDB passa a ser PMDB. Outros partidos são criados, como: Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). A REDEMOCRATIZAÇÃO E A CAMPANHA PELAS DIRETAS JÁ Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresenta vários problemas. A inflação é alta e a recessão também. Enquanto isso, a oposição ganha terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos. http://www.suapesquisa.com/partidos105 O Serviço Social e a Ditadura Militar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de bra- sileiros participam do movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que garantiria eleições diretas para pre- sidente naquele ano. Para a decepção do povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados. No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral esco- lheria o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal. Era o fim do regime militar, porém Tancredo Neves fica doente antes de assumir e acaba falecendo. Assume o vice-presidente José Sarney. Em 1988, é aprovada uma nova constituição para o Brasil. A Constituição de 1988 apagou os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país. Mas para o Serviço Social, qual a importância desses acontecimentos? Como exposto acima, o regime militar brasileiro foi criado a partir de um golpe adotado pela direita nacional em contraposição aos ideais socialistas que assolavam o país e a America Latina naquele período. Dessa forma, o Estado deveria apresentar uma série de medidas para amenizar os conflitos relacionados à desigualdade, característica do regime capitalista. No interior dessas medidas, foi assimilada a ação profissional dos assistentes sociais, devido principalmente à sua base teórica fundamentada no positivismo. Pautados primeiramente em uma visão religiosa da ação profissional, a qual se tornou insuficiente para responder às necessidades qualitativas da profissão, os profissionais de Serviço Social passam a buscar no positivismo, especialmente na vertente funcionalista, um primeiro suporte teórico-metodológico necessário para a qualificação profissional. No entanto, essa via proporcionou a burocratização da ação profissional que, no período militar, devido seu caráter manipulatório, incor- pora aos quadros profissionais do estado. Nas palavras de Yasbek (1984, p.71): É a perspectiva positivista que restringe a visão de teoria ao âmbito do verificável, da experimentação e da fragmentação. Não aponta para mudanças, senão dentro da ordem estabelecida, voltando-se antes para ajustes e conservação. Particularmente em sua orientação funcionalis- ta, esta perspectiva é absorvida pelo Serviço Social, configurando para a profissão propostas de trabalho ajustadoras e um perfil manipulató- rio, voltado para o aperfeiçoamento dos instrumentos e técnicas para http://www.suapesquisa.com/futebol http://www.suapesquisa.com/presidentesdobrasil http://www.suapesquisa.com/presidentesdobrasil ©Shutterstock O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V a intervenção, com as metodologias de ação, com a busca de padrões de eficiência, sofisticação de modelos de análise, diagnóstico e plane- jamento; enfim, uma tecnificação da ação profissional que é acompa- nhada de uma crescente burocratização das atividades institucionais. O ponto chave desse processo para a profissão está no fato de que embora o regime militar priorizasse a ação profissional do Serviço Social, ocorre nesse período uma desmobilização nos movimentos políticos que se fortaleceram no período populista, tais como o MEB (Movimento de Educação de Base), sindicalismo rural e movimentos de alguns segmentos da categoria dos assistentes sociais, o que limitou as ações profissionais do Serviço Social apenas na eliminação da resistência cultural que representasse obstáculos ao crescimento econômico e na integração aos programas de desenvolvimento do estado. Nesse contexto, a política social torna-se uma estratégia para minimizar as consequências do capi- talismo monopolista marcado pela superexploração da força do trabalho e pela grande concentração de renda. Nesse sentido, no interior das práticas profissionais, surgem questionamentos em relação ao fazer profissional, na perpetuação do modelo excludente por meio de medidas paliativas de ação social, que acaba por exibir fundamentalmente a longa insatisfação dos profissionais que se conscientizavam de suas limitações teóricas, desencadeando um processo de ruptura com a visão política até então assumida pelo Serviço Social. Antes de entendermos como aconteceu esse processo de rompimento com aquilo que os autores chamam de Serviço Social Tradicional, devemos entender como ocorre esse processo de incorporação profissional na esfera burocrática e tecnicista. 107 A Incorporação da Profissão na Esfera da Burocracia e Tecnocracia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A INCORPORAÇÃO DA PROFISSÃO NA ESFERA DA BUROCRACIA E TECNOCRACIA Como já visto, graças ao contexto histórico relacionado à questão social no final do século XIX, possibilitou-se à sociedade o reconhecimento da necessidade de profissionais que atuassem com as mazelas sociais. No contexto brasileiro, esse reconhecimento foi consagrado com a fundação das primeiras escolas de Serviço Social na década de 1930. Entretanto, embora os profissionais atuassem em várias instituições criadas para absorver a demanda de pessoas a serem assistidas nos mais diversos contextos sociais, ainda se verificava a concepção tradicional de ajuda, vinculada à ação social católica, e a necessidade, por parte dos profis- sionais, de regulamentação profissional ou distinção de técnicos de amadores. Paralelamente a esse contexto, ocorre a Segunda Guerra Mundial, despon- tando após seu término duas forças hegemônicas: capitalismo e socialismo. Com medo de que o socialismo pudesse se efetivar na América Latina, os EUA lançam o programa Pan-americano – ou pan-americanismo – com o slogan América para todos. O Brasil, a partir de então, passa a receber subsídios, os quais pos- sibilitaram a criação do Programa de Desenvolvimentismo Nacional. Entre os programas financiados por esse processo, encontram-se CASO, GRUPO e COMUNIDADE, desenvolvidos pelos assistentes sociais. Dessa forma, têm-se de um lado os profissionais, que devido à formação acadêmica desejam a regulamentação profissional, e de outro, o estado, que por meio da contextualização histórica, necessita da atuação de profissionais que possam controlar o ordenamento social mediante a ameaça socialista. Mediante essa dicotomia de interesses, o estado brasileiro institucionaliza o Serviço Social, que passa a fazer parte de seus quadros profissionais. Nessa primeira etapa do Serviço Social, assim como de outras carreiras profissionais, que vai até os anos de 1960, ocorre a institucionalização e profissionalização das mesmas. Os profissionais associam-se ao Estado com vistas a alcançar posições que possibilitassem o reconhecimento e a regulamentação da profissão, definindo assim os critérios que pudes- sem controlar a entrada de novos agentes. Este período é importante para a definição de quem é ou não profissional, distanciando técnicos de amadores. Os diversos profissionais assumem uma ação, junto com o Estado, de ordenar a nação e ao mesmo tempo um papel político ©shutterstock O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V de interventor no campo social. Tal relação torna-se assim, um capital importante para a ascensão da profissão e revela o caráter político dos agentes profissionais (MATOS, 2009, p.118). O Estado se beneficia com os diversos ofícios, na medida em que se propõe a organizar um conjunto de profissões, para favorecer a sua formação mediante controle de “um conjunto de saberes especializados apresentadoscomo funda- mentais para traçar os caminhos da nação” (PETRARACA, 2007, p. 5). As diferentes categorias profissionais, como o Serviço Social, são instrumen- tos estratégicos nas mãos do Estado para solucionar os problemas do operariado brasileiro, para manter o ordenamento da sociedade e permanecer com o domí- nio do campo assistencial (MATOS, 2009, p.118-119). Dessa forma, com a institucionalização, a partir de 1960, o Serviço Social teve a possibilidade de se expandir, ainda que em um período adverso caracteri- zado pela ditadura militar, sendo aproveitado em uma perspectiva disciplinadora e organizadora da sociedade, posto que as características da política assisten- cial desenhassem um Serviço Social tecnicista, preocupado com métodos e intervenção. O SERVIÇO SOCIAL E O PROCESSO DE QUESTIONAMENTO DA PRÁTICA PROFISSIONAL Há, no período da ditadura militar, uma explícita fra- tura no conjunto da profissão. Apesar da importância pela manutenção dos espaços sócio-ocupacionais ser de interesse de todos, os caminhos percorridos para alcan- çar tais objetivos se diferenciaram, indicando disputas internas. No caso do Serviço Social, essas disputas ocor- rem no campo da assistência, um grupo mais próximo aos órgãos públicos defendia uma ação competente, reforçando sua capacidade técnica caracterizada pelo 109 O serviço social e o processo de questionamento da prática profissional Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Serviço Social Tradicional, enquanto outra vertente de profissionais, vizinha aos movimentos sociais, defendia uma profissão crítica. Essa fratura desencadeou o Movimento de Reconceituação do Serviço Social e sua ruptura definitiva com os métodos tradicionais. Isso porque, a partir da década de 1970, surge um novo discurso dos assis- tentes sociais com o Estado, pautado na competência técnica e no manejo das problemáticas da sociedade. Os profissionais de Serviço Social, vinculados ao mundo acadêmico, especialmente aos cursos de Pós-graduação, apresentam suas posições na esfera política com o objetivo de romper definitivamente com a identidade profissional tradicional vinculada ao funcionalismo e sua apro- priação por parte do Estado, estabelecendo um discurso crítico em relação à atuação dos órgãos governamentais e do empresariado brasileiro a favor das classes trabalhadoras. Nesse contexto, o Serviço Social passa a buscar sua emancipação perante o Estado lutando pelos interesses sociais, contrariando a ordem vigente e apre- sentando suas ideias de como a ação social deve ser articulada para a superação da desigualdade social, principalmente em relação às políticas sociais públicas. Essas ideias foram elaboradas graças às discussões ocorridas nos seminários de Araxá, Teresópolis, Sumaré, Alto da Boa Vista e Belo Horizonte. Por meio dessa ampla discussão, surgem três vertentes de pensamento profissional: ■ A vertente modernizadora, caracterizada pela incorporação de abordagens funcionalistas, estruturais e, mais tarde, sistêmicas (matriz positivistas), voltadas a uma modernização conservadora e à melhoria do sistema pela mediação do desenvolvimento social e do enfrentamento da marginali- dade e pobreza na perspectiva de integração da sociedade. Os recursos para alcançar esses objetivos são buscados na modernização tecnológica e em processos de relacionamentos interpessoais. Essas opções configuram um projeto renovador tecnocrático, fundado na busca à eficiência, que devem nortear a produção do conhecimento e a intervenção profissional; ■ A vertente inspirada na fenomenologia, que emerge como metodologia do diálogo, apropriando-se também da visão de pessoa e comunidade de E. Mounier (1936), dirige-se ao vivido humano, aos sujeitos em O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V suas vivências, colocando para o Serviço Social a tarefa de “auxi- liar na abertura desse sujeito existente, singular, em relação aos outros ao mundo de pessoas” (ALMEIDA, 1990, p. 114). Essa tendência, que no Serviço Social brasileiro vai priorizar as concepções de pessoa, diálogo e transformação social (dos sujeitos, não da sociedade), é analisada por Netto (1994, p. 201) como uma forma de reatualização do conservado- rismo presente no pensamento inicial da profissão. ■ A vertente marxista remete à profissão a consciência de sua inserção na sociedade de classe e que, no Brasil, vai configurar-se, em um primeiro momento, como uma aproximação ao marxismo, sem o recurso do pen- samento de Marx, por autores como Althusser, por exemplo. Dessa forma, pode-se concluir que o período militar foi responsável pelo rom- pimento com do pensamento tradicional do Serviço Social, pautado na teoria positivista em sua vertente funcionalista e na formação do seu comprometimento ético-político com as minorias sociais. SEMINÁRIO DE ARAXÁ Segundo Netto (2006, p. 164), o I Seminário de Teorização do Serviço Social foi realizado em Araxá (MG), no período de 19 a 26 de março de 1967. Entre outros temas, o documento de Araxá, publicado pelo CBCISS (1986, p. 32), trata dos níveis da microatuação e da macroatuação do Serviço Social. O nível da microa- tuação discute a prática profissional voltada para a prestação de serviços diretos. Para tanto, o “[...] Serviço Social, como técnica, dispõe de uma metodologia de ação que utiliza diversos processos” (CBCISS, 1986, p. 30), Entendendo-se que uma prática da microatuação está relacionada aos pro- cessos de trabalho com a comunidade por meio das técnicas: Caso, Grupo e Comunidade. No processo da macroatuação por sua vez, o Serviço Social está voltado para a política e o planejamento. “Essa integração supõe a participação no planeja- mento, na implantação e na melhor utilização da infraestrutura social” (CBCISS, 1986, p. 31). 111 O serviço social e o processo de questionamento da prática profissional Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O SEMINÁRIO DE TERESÓPOLIS O II Seminário de Teorização do Serviço Social foi promovido pelo CBCISS, de 10 a 17 de janeiro de 1970, em Teresópolis. O tema desse seminário era a metodo- logia do Serviço Social. As formulações de Teresópolis “[...] apontam para a requalificação profissio- nal do assistente social, definem nitidamente o perfil sócio técnico da profissão e a inscrevem conclusivamente no circuito da ‘modernização conservadora’ [...]” (NETTO, 2006, p. 192). O roteiro do trabalho do seminário foi entregue a 103 assistentes sociais que foram convidados a participar do encontro. Desses profissionais, 33 estive- ram presentes. Os selecionados foram escolhidos a partir dos seguintes critérios: ■ Interesse pelo estudo da Teoria do Serviço Social, realizações ou vivências. ■ Profissionais, representatividade de instituições nacionais, públicas e privadas. ■ Tempo de formatura e procedência regional. Esse roteiro era dividido em quatro temáticas: 1) Teoria do Diagnóstico e da Intervenção Social – A Intervenção em Ser- viço Social. 2) Diagnóstico e Intervenção em Nível de Planejamento, incluindo situa- ções globais e problemas específicos; 3) Diagnóstico e Intervenção em Nível de Administração. 4) Diagnóstico em Nível de Prestação de Serviços Diretos a Individuais, Grupos, Comunidades e Populações. Vinte e um documentos versando sobre o roteiro entregue previamente foram recebidos pelo CBCISS. O seminário desenvolveu-se nas seguintes etapas: 1. Apresentação da proposta sobre a Pesquisa em Serviço Social no Brasil. 2. Análise e debate em plenário de 3 documentos sobre o tema 1. O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V 3. Divisão em 2 grupos de trabalho – Ae B. 4. Neste documento, temos o triunfo da perspectiva modernizadora CONSIDERAÇÕES FINAIS Dessa forma, caro(a) aluno(a), podemos concluir que o período militar foi res- ponsável pelo rompimento com o pensamento tradicional do Serviço Social, pautado na teoria positivista, em sua vertente funcionalista e na formação do seu comprometimento ético-político com as minorias sociais. Dentre os conteúdos estudados, destaca-se a Reconceituação do Serviço Social Brasileiro, que se torna um marco histórico a partir da mobilização dos assistentes sociais em prol do rompimento com o conservadorismo. Para refle- tir sobre a prática profissional e repensar nova metodologia, realiza-se o 1˚ Seminário de Teorização do Serviço Social, em Araxá (MG), evento histórico no processo de “teorização” e “reconceituação” do Serviço Social brasileiro, que propôs ações profissionais mais vinculadas à realidade social e política do país. Organizado pelo Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços A prática do assistente social: conhecimento, instrumentalidade e in- tervenção profissional - Charles Toniolo de Sousa Este artigo tem por finalidade apresentar uma reflexão sobre a prática pro- fissional do Assistente Social, reconhecendo suas dimensões, com o objetivo de situar a instrumentalidade do Serviço Social bem como seu arsenal técni- co-operativo. Em seguida, serão apresentados, de forma sucinta, alguns dos principais instrumentos de trabalho utilizados pelos Assistentes Sociais no exercício da prática profissional, bem como algumas considerações finais. Para ter acesso ao artigo na íntegra, acesse: <http://pt.scribd.com/doc/25131167/A-pratica-do-Assistente-Social-co- nhecimento-instrumentalidade-e-intervencao-profissional-Charles-SOU- SA>. 113 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Sociais, o evento reuniu 38 assistentes sociais de vários estados brasileiros, pro- duzindo o “Documento de Araxá”. Outro evento importante que dá sequência ao Seminário de Araxá (MG, 1967), idealizado para ser uma continuidade do processo histórico, foi o “Seminário de Teorização do Serviço Social”, realizado em Teresópolis (RJ, 1970). Esse seminá- rio tinha como objetivo estudar a “metodologia do Serviço Social”. O seminário reuniu 35 assistentes sociais, divididos em dois grupos, para compor os estudos e reflexões acerca das perspectivas teóricas e metodológicas da profissão. E, ao con- trário do seminário de Araxá, o de Teresópolis não produziu um documento final. O Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais, instituição responsável pelo evento, publicou os relatórios de cada grupo separadamente. Podemos concluir esta unidade dizendo que desde a década de 70, mais precisamente final daquela década, o Serviço Social brasileiro vem construindo um projeto profissional comprometido com os interesses das classes trabalha- doras. Foi por uma somatória de movimentos articulados com os interesses da sociedade que o Serviço Social deu um salto qualitativo mediante um processo de ruptura teórica e política. 1. Faça uma análise crítica, em até 15 linhas, de como o período da Ditadura Militar influenciou o Serviço Social. 2. Explique de que maneira a profissão foi incorporada à esfera da burocracia e tecnocracia. 3. Faça uma análise crítica do Serviço Social e processo de questionamento da prá- tica profissional, em até 10 linhas. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64 José Paulo Netto Editora: Cortez Sinopse: O que ocorreu no Serviço Social brasileiro nos anos sessenta a oitenta? Que processos determinaram a extraordinária renovação experimentada por ele? Como e por que os assistentes sociais desenvolveram, neste período, concepções e propostas tão diferentes? Quais as relações entre esta renovação e a ditadura militar? Como a teorização do Serviço Social se relaciona com a cultura e sociedade brasileiras? A estas indagações pretende responder de forma rigorosa e original. Com uma sólida fundamentação histórico-crítica, a argumentação do autor (conhecido ensaísta de filiação marxista) percorre os principais documentos do Serviço Social, analisando-os na sua estrutura interna e na sua vinculação com o processo histórico-social e político- ideológico vivido pelo país no pós-64. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar Carlos Fico Editora: Record, 2004 Sinopse: O autor, Carlos Fico, oferece ao leitor não especializado uma espécie de guia para a compreensão do golpe de 1964 e da ditadura militar. Em relação ao golpe, especificamente, o autor reuniu uma seleção de documentos históricos esclarecedora. São 75 textos, quase todos na íntegra, muitos dos quais completamente desconhecidos, pois estão em livros que não circulam mais ou em publicações de acesso problemático. ‘Além do Golpe - Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar’ transporta o leitor para a agitada conjuntura de meados dos anos 1960 e apresenta a posição, entre outros, de personagens como Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek. Expõe e analisa, ainda, momentos decisivos, através de discursos que marcaram a história política brasileira em comícios marcantes - como os de Leonel Brizola na Cinelândia (23 de agosto de 1963) e na Central (13 de março de 1964); e o de João Goulart no Automóvel Clube (30 de março de 1964). http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbo=p&tbm=bks&q=inauthor:%22Carlos+Fico%22 CONCLUSÃO 117 Olá, chegamos ao final de nosso conteúdo! Após termos estudado sobre o surgi- mento de nossa profissão, podemos compreender qual é o propósito do Serviço Social e seu processo de institucionalização no Brasil. A institucionalização deu-se a partir da década de 1930, inicialmente, com a inicia- tiva de grupos privados, com a ação efetiva da Igreja católica, marcada à visão da caridade estabelecida por esta. Vimos também que a institucionalização do serviço social se deu em um momento peculiar, quando se exigem respostas a demandas colocadas pela classe trabalha- dora emergente. Primeiramente, por meio dos serviços sociais, das ações desses grupos específicos. Depois, como resposta profissional qualificada, respaldada te- órico e metodologicamente. Também estudamos o contexto sócio-histórico do cenário econômico e político em que se situava a profissão de assistente social e como esses fatores influenciavam a prática profissional. A profissão surge com o processo de industrialização e culmina com a ascensão da classe burguesa nas primeiras décadas do século XIX. Dessa forma, surge a necessi- dade de um profissional que se ocupasse da área social para assistir a classe prole- tária. Essa era uma das formas da classe dominante exercer certo “controle” sobre a classe proletária. O Serviço Social surgiu no Brasil, quando o país se encontrava rumo ao processo de industrialização, marcado por um intenso avanço significativo de desenvolvimento econômico, social, cultural e político, e, ao mesmo tempo, as relações sociais se tor- nam mais intensas pela própria dinâmica do sistema capitalista. É nesse contexto que o Estado toma uma série de medidas políticas sociais, como uma forma de enfrentamento das múltiplas questões sociais. A prática profissional era configurada para atender aos interesses da burguesia, que detinha o capital. E o Estado, tido como governo populista, conseguiu a adesão da classe trabalhadora, da classe média e da burguesia. Naquele momento, a profissão não tinha uma linha metodológica enquanto projeto profissional acerca da sua ação. Com o passar dos anos, a profissão foi se estruturando, com o processo de mobili- zação de representações de classe, em busca de uma qualificação profissional mais profícua da fundamentação teórica e metodológica do Serviço Social.E, assim, ao finalizar nossas Unidades, esperamos que você tenha conseguido apro- fundar o conteúdo da disciplina tão marcante na história da nossa profissão. Forte abraço e muito sucesso em sua carreira profissional! Prof.ª Me. Aline Cristtine Marroco França Bertti Prof.ª Me. Maria Cristina Araújo de Brito Cunha CONCLUSÃO REFERÊNCIAS 119 ABREU, M. M. Serviço Social e a organização da cultura: perfis pedagógicos da prática profissional. São Paulo: Cortez, 2002. ABREU, M. M.; CARDOSO, F. G. Mobilização social e práticas educativas. In: ABEPSS; CFESS (Org.). Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: Cfess/Abepss, UnB, 2009. ALMEIDA, Ana Augusta. A metodologia dialógica: o Serviço Social num caminhar fenomenológico. 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São Paulo: Cortez, 1984. _GoBack UNIDADE I CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL Introdução Capitalismo Capitalismo Monopolista Proletariado X Burguesia O Surgimento do Serviço Social na Europa Considerações Finais UNIDADE II AS PROTOFORMAS E O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL Introdução As Protoformas do Serviço Social As Primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil Conservadorismo Religioso e Bases Teórico-Metodológicas Considerações Finais UNIDADE III A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Introdução A Influência do Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade Positivismo na Profissão Introdução do Funcionalismo no Serviço Social Considerações Finais UNIDADE IV A CATEGORIA PROFISSIONAL Introdução DEFESA DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL A Mobilização Da Categoria Considerações Finais UNIDADE V O SERVIÇO SOCIAL E A PRÁTICA PROFISSIONAL Introdução O Serviço Social e a Ditadura Militar A Incorporação da Profissão na Esfera da Burocracia e Tecnocracia O serviço social e o processo de questionamento da prática profissional Considerações Finais Conclusão Referências