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CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DE BELO HORIZONTE CURSO DE ENFERMAGEM PERCEPÇÃO DAS PARTURIENTES SOBRE VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E O PAPEL DO ENFERMEIRO NESSE CONTROLE. Belo Horizonte 2019 Deise Carla Figueiredo de Almeida Helen de Souza Corraide Santana Liliane Pereira Barcelos Michele Aparecida dos Santos PERCEPÇÃO DAS PARTURIENTES SOBRE VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E O PAPEL DO ENFERMEIRO NESSE CONTROLE. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel de Enfermagem. Professor (a) Orientador(a): Prof. MSc. Miria Reis BELO HORIZONTE 2019 RESUMO O momento do parto deveria ser algo marcante na vida de qualquer mulher, visto tratar-se de um processo fisiológico da natureza humana. O nascimento de um filho deve ser um momento prazeroso e encantador para a mulher, sem danos físicos e/ou psicológicos. No entanto, o que se percebe é, em muitos casos, outra realidade onde as mulheres são vítimas de práticas dolorosas e agressivas. A violência obstétrica é uma prática que acomete mulheres no seu período gravídico-puerperal, sendo um sério problema de saúde pública. Esse trabalho teve por objetivo compreender a percepção de parturientes sobre a violência obstétrica, bem como, levantar como a atuação do enfermeiro pode contribuir para a minimização desses casos. Trata-se de uma revisão da literatura, de caráter qualitativo e com fins descritivos. A amostra foi composta por 9 artigos que buscam conceituar o tema violência obstétrica a partir da sua história e classificações de aspectos que englobam e sustentam as práticas violentas contra às mulheres puérperas, gestantes e parturientes. Percebe-se que pouco se sabe, por parte das parturientes, os comportamentos que configuram a violência obstétrica. Muitas consideram tais comportamentos como naturais e característicos desse momento, mesmo sendo invadidas em sua intimidade. Fica evidente pouca ou nenhuma possibilidade de exercício sobre o seu próprio corpo e o sentir-se dona de si mesma. Práticas prejudiciais e não recomendadas cientificamente tais como: aplicação indesejada de ocitocina, realização de manobra de kristeller, episiotomia, dentre outras se mostram presentes no dia a dia das maternidades. Os resultados indicam o exercício do poder dos profissionais da enfermagem e da autoridade médica, disfarçando a negligência e o despreparo desses profissionais durante o processo gravitacional-puerperal. Percebe-se, ademais, o omitir por parte da equipe médica e de enfermagem, informações fidedignas sobre os direitos que as gestantes portam no trabalho de parto e parto. Os dados permitiram identificar que o grupo mais vulnerável e com maior incidência de evidencias de violência obstétrica é o de mulheres negras, pardas e indígenas e/ou com menor nível socioeconômico e cultural. O modo desrespeitoso na comunicação entre mulher e profissional da saúde pode desencadear problemas futuros na puérpera tais como depressão, impotência dentre outros por causa dos xingamentos e ofensas morais. A violência obstétrica consolida e ratifica as questões de desigualdade social verificadas nos diferentes âmbitos. O enfermeiro pode ser considerado um elemento primordial na remodelação e alteração desse contexto. A partir de um olhar mais humano é possível ter um enfrentamento efetivo desse problema. Faz-se necessário uma mudança de paradigma e investir no trabalho de prevenção e promoção da saúde e humanização do cuidado ao binômio mãe - recém-nascido. Palavras-chave: Violência; Violência Obstétrica; Violência no Parto; Percepção das Parturientes; Assistência em Enfermagem. ABSTRACT The moment of childbirth should be something remarkable in any woman's life, as it is a physiological process of human nature. The birth of a child should be a delightful and charming time for the woman without any physical and / or psychological harm. However, what is perceived is, in many cases, another reality where women are victims of painful and aggressive practices. Obstetric violence is a practice that affects women during their pregnancy and puerperal period, being a serious public health problem. This study aimed to understand the perception of parturients about obstetric violence, as well as to raise how nurses' actions can contribute to the minimization of these cases. This is a literature review, qualitative and descriptive. The sample consisted of 9 articles that seek to conceptualize the theme of obstetric violence from its history and classifications of aspects that encompass and sustain violent practices against women who have recently given birth, pregnant women and parturient women. It is noticed that little is known, on the part of the parturients, the behaviors that configure obstetric violence. Many consider such behaviors as natural and characteristic of this moment, even though they are invaded in their privacy. There is little or no possibility of exercising on your own body and feeling self-possessed. Harmful and scientifically not recommended practices such as: unwanted oxytocin application, kristeller maneuver, episiotomy, among others are present in the daily routine of maternity wards. The results indicate the exercise of the power of nursing professionals and medical authority, disguising the negligence and unpreparedness of these professionals during the gravitational-puerperal process. In addition, the omission by the medical and nursing staff of reliable information on the rights that pregnant women carry in labor and delivery. The data allowed us to identify that the most vulnerable group and with the highest incidence of evidence of obstetric violence is that of black, brown and indigenous women and / or those with a lower socioeconomic and cultural level. The disrespectful mode of communication between women and health professionals can trigger future problems in the postpartum woman such as depression, helplessness among others because of insults and moral offenses. Obstetric violence consolidates and ratifies the issues of social inequality in the different spheres. The nurse can be considered a primordial element in the remodeling and alteration of this context. From a more human look it is possible to have an effective confrontation of this problem. It is necessary to change the paradigm and invest in the work of prevention and health promotion and humanization of care to the mother - newborn binomial. Keywords: Violence; Obstetric Violence; Violence in childbirth; Perception of Parturients; Nursing Assistance. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO..................................................................................................................... 1.1 Pergunta................................................................................................................................1.2 Objetivos 1.3 Objetivo Geral 1.4 Objetivos Específicos 1.5 Justificativa 2 REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................................ 2.1 A Violência e seus gêneros 2.2 Violência contra a mulher 2.3 A Violência obstétrica 2.4 O papel do enfermeiro no processo da violência obstétrica 3 METODOLOGIA 4 ANALISE DE DADOS ..................................................................................................... 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... REEFERÊNCIAS .......................................................................................................... 1 INTRODUÇÃO O momento do parto deveria ser marcado, na vida da mulher, como algo fisiológico e característico da natureza humana. Mas tem se tornado uma prática dolorosa e agressiva, marcada por traumas, violência e desrespeito, violando os direitos humanos fundamentais. Até o início da década de 1980, no Brasil não existiam políticas públicas contra a violência contra a mulher. Então em 1983, foram criados os Conselhos Estaduais, em São Paulo e em 1984 surgiu o Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Mulher e em 1986 as Delegacias Especializadas em atendimento de mulheres (PENNA e SANTOS, 2013). Entre 1980 e 1990 foi promovida uma discussão sobre o tema violência obstétrica no Brasil por grupos de profissionais dos direitos humanos e da saúde, o que já chamou atenção para o tema. No ano de 1993, aconteceu em Campinas um evento que participaram representantes de entidades e associações de pessoas interessadas no movimento em favor do parto e nascimento. Nesse evento o tema abordado foi a situação do nascer em nossa sociedade e a partir disso foi criada a Carta de Campinas, que descreve as péssimas condições de parto no Brasil. Atuando através de seus associados no Brasil, com objetivo de humanizar a assistência perinatal com base em evidências científicas(site da REHUNA). Nos anos 2000, esse movimento foi intensificado e reconhece a mulher como protagonista do parto. Com a Fundação da Rede de Humanização de Parto e do Nascimento (REHUNA) essa causa ganhou amplitude, atentando para a mulher como real protagonista do parto, enfatizando o direito de ser assistida com respeito e dignidade no processo de escolhas de procedimentos a serem realizados (TOKNQUIST et al, 2004). Conforme o Ministério da Saúde (2001), a humanização no parto envolve conhecimento, prática e ações que possam garantir a execução de procedimentos que assegurem um parto e um nascimento saudáveis, sem procedimentos desnecessários que desrespeitem a paciente. Os profissionais de saúde são colaboradores para um trabalho de parto seguro, esclarecido e que minimizem a dor e a insegurança no processo de parir. Ainda para o Ministério da Saúde, alguns profissionais tem esquecido do cuidado holístico e encarando o parto como um processo patológico e não biológico. A equidade no tratamento cria vínculos e faz o profissional ter um olhar amplo para as reais necessidades da parturiente. Os profissionais da saúde devem se comprometer a buscar novas propostas e técnicas baseadas em evidencias. O ato de parir deve ser observado como saudável e fisiológico, e não como uma doença. Todas as vezes que as premissas da humanização não são consideradas, pode-se evidenciar um episódio de violência. Segundo Muszkat (2016), a violência pode estar oculta em insultos, traições, castigos, ofensas, agressões, arranhões, empurrões, na inveja, na rivalidade e vem do desejo de poder e de se mostrar autoridade. Quando essa violência está direcionada á mulher, ao longo do processo de parto, trata-se da violência obstétrica. De acordo com o projeto de lei proposto pelo Deputado Federal Jean Wyllys, violência obstétrica é caracterizada por: Art. 13 – Caracteriza-se a violência obstétrica como a apropriação do corpo e dos processos reprodutivos das mulheres pelos (as) profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, que cause a perda da autonomia e capacidade das mulheres de decidir livremente sobre seus corpos e sua sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Parágrafo único. Para efeitos da presente Lei, considera-se violência obstétrica todo ato praticado pelo(a) profissional da equipe de saúde que ofenda, de forma verbal ou física, as mulheres gestantes em trabalho de parto, em situação de abortamento e no pós-parto/puerpério (CÂMARA DOS DEPUTADOS, PROJETO DE LEI N°7.633/2014). Diante do contexto, despertou o interesse em analisar as evidências científicas acerca da percepção das puérperas com relação a violência obstétrica e os principais aspectos desencadeadores desse tipo de violência. A partir dessa contextualização elaborou-se aa pergunta norteadora desse trabalho de pesquisa. 1.1 Pergunta Qual o grau de entendimento sobre violência obstétrica observado nas parturientes no período de 2011 a 2019 e quais as principais evidências? 1.2 Objetivos 1.3 Objetivo Geral ● Levantar e analisar o grau de entendimento sobre violência obstétrica pelas parturientes, bem como, as principais ocorrências no período de 2011 a 2019. ● Compreender a percepção de parturientes sobre violência obstétrica, bem como a atuação do enfermeiro no processo do parto. 1.4 Objetivos Específicos ● Analisar o grau de entendimento sobre violência obstétrica no período de 2011 a 2019 ● Descrever as principais ocorrências de violência obstétrica nesse período ● Identificar qual o perfil da mulher que se apresenta como maior vítima de violência obstétrica ● Descrever o papel do profissional de enfermagem na prevenção e/ou eliminação da violência obstétrica. 1.5 Justificativa O interesse pelo tema surgiu a partir do contato com as parturientes no campo de estágio, onde as pesquisadoras presenciaram atos de violência contra as mesmas. Atos, como a manobra de Kristeler e episiotomia, eram considerados normais para muitas parturientes. Esse tema tem sido bastante abordado entre os profissionais de saúde, visto que as informações sobre as práticas de violência têm sido cada vez mais esclarecido, o que faz com que essas parturientes que sofreram algum tipo de violência durante o parto busquem seus direitos. O Ministério da Saúde (2019) vetou o termo violência obstétrica, mas, sem sucesso, pois se trata de um problema de grande relevância na saúde pública, tendo em vista que a retirada desse termo ignora uma realidade rotineira nas maternidades brasileiras. Abolir o termo violência obstétrica é o mesmo que calar essas gestantes vitimadas e tirar delas o direito de um parto humanizado. A elaboração do presente trabalho se faz relevante para entender e demonstrar o quanto se comete a violência obstétrica, por parte dos profissionais de enfermagem e da medicina. Buscar-se por meio de dados secundários, o grau de entendimento das parturientes sobre tal processo. A enfermagem desempenha um importante papel em reduzire até mesmo banir a violência obstétrica. De forma prática, o profissional pode evitar intervenções desnecessárias como: suspender dieta, aplicar Ocitocina, estimular o fórceps, conduzir a manobra de Kristeller, dentre outras práticas reprovadas pelo Ministério da Saúde. A enfermagem deve garantir o bem-estar físico e mental das parturientes, esclarecendo suas dúvidas e respeitando seus direitos individualmente. Dessa maneira, é de fundamental importância a atuação do enfermeiro, uma vez que ele participa, coordena e promove ações de melhorias contínuas no cuidado humanizado para gestantes e puérperas. A próxima seção irá elucidar a violência em um contexto mais amplo e como ela afeta suas vitimas. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 A Violência e seus gêneros Considera-se violência um ato intencional, cometido por um indivíduo ou grupo, que resulte em óbito, danos físicos, psicológicos e sociais que se implica em uso da força física ou a coação psíquica ou moral (OMS, 2002). A violência pode estar oculta em insultos, traições, castigos, ofensas, agressões, arranhões, empurrões, na inveja, na rivalidade e vem do desejo de poder e de se mostrar autoridade , mas só demonstra fraqueza para resolver conflitos existentes. No passado a violência era usada para disciplinar crianças (MUSZKAT, 2016). Berlinck (2017) cita que um dos primeiros entendimentos que se teve sobre a violência foi de Freud, em 1932, quando ele esclarece que a violência é proveniente da somatória de diversos fatores, sendo pouco provável que somente um requisito defina um ato violento. Observamos a violência em nosso cotidiano mas não refletimos sobre ela. A violência é um tema complexo, que envolve as áreas sociais, econômicas, políticas, jurídicas, biológicas e afeta a saúde física e mental (PENNA e SANTOS, 2013). Esse autores acrescentam que : “Dessa forma, deve-se considerar a violência e os acidentes resultados de ações ou omissões humanas ( indivíduos, grupos, classes, nações) e de condicionantes técnicos e sociais que ocasionam a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade física, moral, mental ou espiritual, suas poses ou ainda suas participações simbólicas e culturais’’ (PENNA; SANTOS, 2013, p.212). Ainda para esses autores a violência abrange vários âmbitos: ● Violência Psicológica – ser privado de liberdade, negligência, ser impedido de realizar atividades cotidianas (estudar, trabalhar e lazer), contato externo, ameaça a familiares; ● Violência Física – empurrões, tapas, puxão de cabelo, tentativa de homicídio, mordidas, queimaduras; ● Violência Sexual – atitudes que não são aceitas pela vítima como: beijos, prostituição forçada, carícias, pornografia não consentida; ● Violência Doméstica – quando ocorre particularmente com integrantes da mesma família, pessoas que vivem na mesma casa. Inclui empregadas domésticas e agregados á família; ● Violência Intrafamiliar – ações ou omissões que interfiram na liberdade, integridade física e psicológica e na liberdade de exercer seus direitos. É cometida dentro ou fora de casa, por parentes ou não, incluindo relações construídas. Completando, Muszkat (2016) relata a violência intrafamiliar como silenciosa e deixa marcas e sequelas. A seguir, no caminho ao encontro do foco de interesse desse trabalho será destacado a violência contra a mulher. 2.2 Violência contra a mulher De acordo com Penna e Santos (2013) a violência contra mulher é a principal causa da morbimortalidade em todo o mundo e está afetando a população de formas diferenciadas. Dessa maneira, está sendo considerada um problema de saúde pública, inclusive no Brasil. Por não se restringir ao campo de saúde, requer veementemente a atuação interdisciplinar e dos vários setores da sociedade civil e de organização governamentais . Segundo Chaui (2017) acerca da violência que vigorou no Brasil apartir do século XX adveio de Portugal e nessa os maridos eram autorizados a tirar a vida das mulheres em caso de adultério. Naquela época as mulheres não podiam comprar, vender ou trabalhar sem a autorização dos maridos. Com o advento do Estatuto da Mulher Casada, criado em 1962, a mulher passou a ser civilmente capaz. Com a Constituição de 1988, salientou a importância de igualdade entre homens e mulheres. No entanto, muitos anos se passaram sem se ter uma legislação específica para tal. Apenas em 2006 se promulga a lei Maria da Penha. Colaborando para a criação desses conselhos de proteção a mulher, temos o caso que deu origem a Lei Maria da Penha). Na Lei Maria da Penha em seu Art. 7° são citadas outras formas de violência: I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2019) informam que, o feminicídio atinge 28,2% de mulheres em idade de 20 e 29 anos; 29,8% entre 30 e 39 anos e 18,5% entre 40 e 49 anos. O registro de 88,8% dos assassinatos foram praticados pelos próprios companheiros ou ex-companheiros. A próxima seção se dedicará a explicitar a violência obstétrica. Violência essa que pode se configurar como a mais grave por acontecer em momento que a mulher já se encontra fragilizada física ou emocionalmente. 2.3 A Violência obstétrica Humilhar, xingar, constranger, ofender, fazer piadas ou comentários desrespeitosos, realizar procedimentos sem esclarecimento ou desconsiderar a recusa informada, utilizar de procedimentospara acelerar o parto sem observar as evidências científicas, submeter a jejum, raspagem de pelos, lavagem intestinal, não oferecer amamentação após o parto, proibir um acompanhante o que é garantido por lei, são alguns dos atos que descritos pela Rede Parto do Principio. Com base em Souza (2019), o Ministério da Saúde desqualificou a violência obstétrica em maio de 2019, julgando o termo como inadequado ao vocabulário. A Fundação Perseu Abramo junto ao Serviço Social do Comércio (SESC), constatou que 1 em cada 4 mulheres sofreu violência obstétrica de forma física, verbal, sexual, discriminação por etnia, idade, classe social, negligência, falta de cuidados, retirada de autonomia ou más condições do sistema de saúde. Entende-se a violência obstétrica como uma violência institucional que é praticada em instituições de serviço público como hospitais, postos de saúde, escolas, delegacias e judiciário, que deveriam proteger com atenção humanizada, preventiva e reparadora de danos as vítimas de violência (ARANHA, 2014). Infelizmente a violência de gênero prevalece fazendo com que não sejam cumpridos os direitos da mulher. É obrigatório o tratamento digno, respeitoso, esclarecido, humanizado e baseado em evidências. Muitas relatam que a frase “é assim mesmo’’ é usada como se fosse uma certeza passar pela violência. Mulheres e seus recém-nascidos morrem ou carregam as marcas físicas e psicológicas da violência. Conforme cita o Dossiê “Parirás com dor’’ da Rede Parto do Principio (2012), existem dois tipos de violência: a física, psicológica e sexual. A violência física engloba exames de toque excessivos, manobra de Kristeller entre outras ações. A violência psicológica incluem discriminação e insultos. A violência sexual abrange mutilação da genitália, episiotomia sem consentimento prévio da parturiente, todas essas práticas ocasionam transtornos futuros. Ainda segundo o Dossiê, defende a mulher como protagonista do parto, deve ser assistida por profissionais comprometidos com o processo natural do nascimento. Os meios de comunicação não disseminam informações sobre os direitos das mulheres como gestantes e parturientes, o que tem tornado conhecido são as notícias divulgadas nas mídias sociais, mas ainda se torna necessário ações e mudanças para que o conhecimento de tais práticas se globalizem. No Mato Grosso do Sul o governador Reinaldo Azambuja , sancionou a Lei N° 5.217/2018 , a fim de informar e proteger as gestantes e parturientes contra a violência obstétrica . Salienta na Lei que os estabelecimentos hospitalares deverão expor cartazes informativos contendo as condutas que são consideradas violência obstétrica. Os cartazes devem informar ainda os órgãos e os trâmites para denúncias nos casos de violência. Toda gestante deve estar ciente dos seus direitos e deveres, dentre eles: ● Direito ao acompanhante garantido pela Lei Federal N°11.108/2005. Essa lei esclarece que, quando vai dar a luz, toda mulher tem direito a um acompanhante de sua livre escolha durante o acolhimento, pré-parto, parto e pós parto imediato em todos os serviços públicos e particulares. ● Direito a informação sobre procedimentos a serem realizados de forma clara e respeitosa, deixar explícito o objetivo de cada procedimento, os riscos, complicações e alternativas. A mulher diante da informação tem o direito á recusa informada. ● Direito ao atendimento digno , de modo ágil, respeitoso sem julgamentos ou exposição da situação da mulher. A humanização é dever de todo profissional . ● Direito a se movimentar e a ficar na posição mais confortável. ● Direito a anestesia quando indicada, ser informada sobre analgesia farmacológica e não farmacológica que são : chuveiro , banheira , massagem , bolsa de água quente , etc. ● Direito ao atendimento respeitoso. Devido ao descumprimento de muitas condutas não recomendadas, as mulheres continuam sofrendo com procedimentos desnecessários como : manobra de Kristeller ( empurra a barriga ou sobe em cima dela para pressionar e agilizar a saída do bebê ), uso de Ocitocina , episiotomia e jejum. ● Direito de parir ou direito a não ser enganada. 70% a 80% das mulheres são coagidas a cesarianas desnecessárias. Alguns profissionais argumentam que : a estrutura corporal não se adequa, não teve dilatação, pouco liquido amniótico, circular de cordão, parto normal coloca em risco a vida do bebê, cesárea é mais segura, se não marcar o parto não terá vaga ou não terá pediatra ou não terá anestesista disponíveis . Situações assim trazem sequelas na recuperação, complicações, risco de morte, cirurgia ou procedimentos abolidos e inviáveis, dificuldade na amamentação e medo de ter mais filhos. Os profissionais da enfermagem, são os que permanecem maior tempo junto aos pacientes. Portanto são peças fundamentais no processo de atendimento. A seguir se abordará o papel do enfermeiro na prevenção e/ou eliminação da violência obstétrica. 2.4 O papel do enfermeiro no processo da violência obstétrica Tomando por base os princípios norteadores das técnicas de cuidados, a comunicação é o instrumento primário para o cuidado humanizado. A enfermagem contribui com a participação no planejamento dos cuidados, na aderência ao tratamento, na qualidade de vida e recuperação das parturientes. Esse comportamento afetivo, estabelece vínculo e uma relação de confiança entre os profissionais e o sujeito cuidado. Isso significa encorajar, ser amigo, demonstrar preocupação, fornecer segurança, chamar a mulher pelo nome, tocar e não abandonar (VARGENS, PRIANTI, ARAÚJO, 2013). O enfermeiro desempenha um papel fundamental para desmistificar o temor do momento do parto. Medidas simples como o diálogo, esclarecimento sobre dúvidas mesmo que simples, como é o trabalho de parto, o parto e o puerpério, procedimentos de rotina, a importância do acompanhante, estabelecer vinculo afetivo através da amamentação após o nascimento e incentivar a prática de estímulos naturais durante o trabalho de parto. Responsável pelos cuidados, o enfermeiro pode ofertar um ambiente que ofereça conforto para as parturientes, tendo um olhar amplo e clínico respeitando cada tipo de dor e emoções durante o processo do parto ( BRASIL, 2001). 2.5 Percepção De acordo com o minidicionário Aurélio da língua portuguesa, percepção é ato, efeito ou faculdade de perceber (HOLANDA, 2006, p. 62). Entretanto, a percepção é um processo de sensações atípicas, que auxiliam na compreensão dos comos e porquês do comportamento humano, bem como, os indivíduos reagem e organizam essas sensações. A percepção advêm de como interpretamos as mensagens dos nossos órgãos dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato), no meio em que estamos inseridos. Assim, a percepção pode ser classificada como uma variável no ato de proceder (BOWDITCH E BUONO, 2011). Hitt; Miller e Colella (2013) trás a percepção como: “ um processo que envolve sentir vários aspectos de uma pessoa, uma tarefa ou um evento, e forma impressões com base emestímulos selecionados’’. Para Robbins; Judge e Sobral (2010) a percepção é a forma em que cada pessoa interpreta e organiza a impressão sobre algo ou alguém a fim de dar sentido ao seu ambiente. Um exemplo é a forma como cada funcionário de determinada empresa a encara, uns irão apreciar as condições de trabalho, porém, outros a irão encarar como desfavoráveis. Ratificando, para Schermerhorn; Hunt e Osborn (1999), as percepções sobre um fato são encaradas de formas distintas entre as pessoas. Ela transforma informação em resposta, mostra a impressão sobre cada pessoa e sua vida. Conforme a figura 1, existem diversos fatores que interferem no preceptor: atitudes , personalidade , motivações , interesses , experiência e expectativas. O alvo afeta a percepção, fatores como: novidade , movimento , sons , tamanhos, cenário , proximidade e semelhança. Como exemplos podem ser citados as pessoas que falam alto e chamam a atenção com relação as que são quietas. Outro exemplo é perceber que homens, mulheres, brancos, negros, asiáticos ou membros de outros grupos com características distintas como semelhantes em aspectos sem conexão. O contexto deve ser observado nos fatores situacionais: momento, ambiente de trabalho e social. A exemplo disso é a atenção cedida a uma jovem vestida de gala para uma noite festiva e a mesma jovem com o mesmo traje em uma manhã para assistir aula na faculdade, são situações distintas que não se adequam ao mesmo traje ( ROBBINS; JUDGE E SOBRAL, 2010). Fatores que influenciam a percepção: Figura 1: Fatores que influenciam na percepção Fonte : Adaptado de ROBBINS, JUDGE , SOBRAL (2010 , p.160) 3 METODOLOGIA Para a elaboração de presente pesquisa, a abordagem metodológica foi a revisão integrativa da literatura, construída através de artigos científicos, livros e revistas. Pompeo et al.;(2009) entende que a revisão integrativa é um método de revisão mais amplo, pois permite incluir literatura teórica e empírica bem como estudos com diferentes abordagens metodológicas (quantitativa e qualitativa). Os estudos incluídos na revisão são analisados de forma sistemática em relação aos seus objetivos, materiais e métodos, que o leitor analise o conhecimento pré existente sobre o tema investigado. A realização do presente estudo se dá através dos seguintes passos: identificação do problema , estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão (seleção da amostra), definição das informações a serem extraídas dos artigos selecionados, análise das informações, interpretação dos resultados e apresentação da revisão. A finalidade principal do estudo foi responder á pergunta norteadora: Qual o grau de entendimento sobre violência obstétrica observado nas parturientes e quais as principais evidências? O levantamento dos artigos se deu em busca na biblioteca virtual, pelo site BIREME, por meio das palavras chave: violência obstétrica, violência, percepção das puérperas , assistência em enfermagem, violência no parto. Ao utilizarmos todos os descritores foram encontrados 242 documentos. Aplicou-se os critérios de inclusão:texto em português e espanhol,texto completo,disponível na íntegra, acesso gratuito.E como critério de exclusão: texto em inglês, repetidos e que não atende ao objetivo.Estabeleceu ainda o corte dos últimos dez anos. Assim restaram 46 documentos. Procedeu a leitura dos títulos, dos quarenta e seis títulos, foram: vinte e dois excluídos por estarem descritos em inglês, treze por serem repetidos e onze por não atenderem ao objetivo da pesquisa. Restaram, portanto, nove títulos. A busca se deu no período de agosto de 2019. O gráfico 1 apresenta o resumo de amostra por base de dados. Gráfico 1 – Amostra por Periódico Fonte: Elaborado pelos autores, 2019. Gráfico 2 – Amostra de acordo período de publicação Fonte: Elaborado pelos autores, 2019. 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS. Nesse capítulo serão apresentados os resultados encontrados na pesquisa secundária que foi realizada. Para tanto, se estabeleceu como categorias de análise: conhecimento sobre violência o processo do parto; práticas prejudicais; profissionais de saúde e a qualidade na assistência hospitalar; Categoria 1- Conhecimento sobre violência no processo do parto. Considera-se violência um ato intencional, cometido por um indivíduo ou grupo, que resulte em óbito, danos físicos, psicológicos e sociais que se implica em uso da força física ou a coação psíquica ou moral (OMS, 2002). Caron, Silva e Figueiredo (2002; et al.; 2004) abordam a questão da violência contra a mulher durante o trabalho de parto e parto como uma violência silenciosa, onde as mulheres,ao invés de serem cuidadas, são atendidas. É um cuidado desconfortante que impede a mulher de se sentir dona do seu próprio corpo. Gibosk e Guilherm entendem que, ao tocá- la sem pedir permissão, os profissionais invadem seu espaço, desrespeitando –a e bloqueando a comunicação. Por deter o conhecimento, os profissionais possuem o controle do parto, despersonalizam a mulher, que se mantém subordinada nessa relação profissional-cliente, apenas colaborando para pra o trabalho realizado por esse. Wolf e Waldow (2008) citam que, após passarem por intervenções como episiotomia amnotomia (ruptura artificial da bolsa) e exame de toque, essas mulheres acreditavam que tais ações tiveram o intuito de auxiliá – las da melhor forma possível , fazendo com que o momento do trabalho de parto e parto acontecesse mais rapidamente, diminuindo o sofrimento e não trazendo riscos para ela e o recém nascido. No entendimento dos autores muitas mulheres se submetem a essa violência por temerem pelo seu bebe, pelo atendimento e pela condição de desigualdade em que o profissional é quem tem o conhecimento e a habilidade técnica, e também pelo fato de as pacientes que não pagam não parecerem estar usufruído de um direito, e sim de um favor. Guiboski e Guilherm (2006) reconhecem que pouco se sabe sobre o sentimento das mulheres, pouco se sabe delas, de como vivem em seus corpos e em seus pensamentos. Dias e Deslandes (2006) apontam que mulheres que são atendidas em hospitais públicos tendem a ter um menor nível de exigência em relação ao que poderia ser considerado um atendimento de qualidade. O interesse em conhecer a percepção das mulheres em respeito as suas experiências no parto é crescente, sendo explorada em grande parte dos artigos selecionados. O artigo Raça e Violência no Brasil, transcreve que a violência obstétrica se localiza entre a violência institucional e a violência de gênero, na medida em que é praticada nos e pelos serviços de saúde, por ação e omissão, e dirigida á mulher,afetando sua integridade física e emocional, acentuando a naturalização da sua subordinação na sociedade.Assim compreende-se que a violência obstétrica não é a consequência de um modelo biomédico, mecanicista e hegemônico, mas constitutivo dele. Categoria 2 - Práticas prejudiciais. Segundo o Dicionário Globo(1952), práticas prejudiciais refere-se a qualquer ato ou proceder, que cause prejuízo a alguém ou seja nocivo. Nessa categoria ressalta-se a persistente utilização de práticas não recomendadas pelas evidencias científicas, como o uso abusivo de ocitocina, imobilização no leito e posição litotomica no parto pode levar á compressão de grandes vasos e prolongamento do trabalho departo e período expulsivo, e, consequentemente, repercurtir negativamente sobre os resultados perinatais. A OMS(2014) considerou a violência obstétrica definida com a utilização de pelo menos uma das práticas consideradas claramente desnecessárias prejudiciais , ineficazes, e ou sem evidencias científicas: uso da posição supina ou litotomica no momento do parto, infusão venosa, de rotina, exame retal, administração de ocitocina sem indicação precisa, incentivo ao puxo prolongado, amniotomia precoce, manobra de Klisteller, toques vaginais repetitivos, restrição hídrica e alimentar, epsiotomia e clampeamento precoce do cordão. O artigo Fatores Associados á Violência Obstétrica na Assistência ao Parto Vaginal em uma Maternidade de Alta Complexidade em Recife, Pernambuco, trás as seguintes porcentagens a respeito de práticas prejudiciais realizadas em suas entrevistadas: 87% sofreram algum tipo de violência durante o trabalho de parto, considerando o uso de intervenções desnecessárias. Mais de 65% das mulheres referiram o incentivo aos puxos voluntários, a incidência da posição supina, e de litotomia foi de 27% e 12% respectivamente. O clampeamento precoce do cordão umbilical foi realizado em 30% das pacientes. A episiotomia e a manobra de Klisteler são as práticas mais rotineiras. Categoria 3 - Profissionais de saúde e a qualidade na assistência hospitalar. Esta categoria trás reflexão para o próprio exercício do poder e da autoridade médicos que se estende em diferentes medidas a todos os profissionais de saúde envolvidos na assistência ás mulheres. Assistência, segundo o Dicio (dicionário online) refere-se ao ato de assistir, ajudar,dar auxílio. Sá (2005) transcreve que a banalização do mal e do sofrimento alheio nos serviços de saúde pode ser uma estratégia de defesa dos profissionais contra o próprio sofrimento, mas também, o resultado da banalização do mal numa sociedade que ela define como estando entre a impossibilidade da culpa e a falta de vergonha, fazendo que a corrupção corroa cada vez mais os valores éticos fundamentais. Foi descrito no artigo Violência Institucional, Autoridade Médica e Poder nas Maternidades Sob a Ótica dos profissionais de saúde, que a assistência em maternidades, a banalização da violência institucional é transvestida de boa prática profissional (seria para o bem do paciente) e exercício pretensamente legítimo de autoridade, já que a intenção é conseguir a colaboração da paciente. Lembramos que colaborar implicaria uma relação dialógica com o outro, ou como descreve o autor Arendt (2009), agir em concerto. O que se consegue com o uso da coação, da ameaça, do grito, da força ou de qualquer outro recurso violento, portanto, não é colaboração, mas submissão; é um fazer sobre alguém e não com alguém. Pizzini(1991) aponta para o uso de piadas e jargões humorísticos como forma de abordar determinados tabus sociais, como a relação sexo com nascimento .Ela encontrou exemplos de desqualificação da dor , da autonomia e do saber sobre o próprio corpo das parturientes por intermédio do humor, sempre contendo algum elemento agressivo. Portanto essa categoria se associa á violência verbal e a negligencia. Ficou reconhecido no artigo: Violência Institucional, Autoridade Médica e o Poder nas Maternidades Sob a Ótica dos Profissionais de Saúde- como desrespeito o tratamento grosseiro com imposição de valores e julgamentos ou julgamento moral, quebra de sigilo, invasão de privacidade ,discriminação social ou étnica; tratar o outro como objeto; negligencia no atendimento (erro técnico, omitir ou não esclarecer informações importantes , abandono, desqualificar ou ignorar as queixas) e ameaça ou represália de fato; usar palavras que não condizem com o atendimento médico como: ‘na hora de fazer tava bom e agora fica dando trabalho’... ‘ na hora do bem bom você não reclamou , agora tá reclamando, enchendo o saco’...‘ cala a boca!...’ ‘vou te deixar sozinha...’. O mesmo descreve que diante de relatos de maus tratos vividos pelas pacientes diante da assistência prestada , pode se pensar que a violência seria um uso extremo do poder por parte dos profissionais. Segundo Rego e Diniz ( 2005; 2008) no ensino da medicina e demais profissões da saúde, o paciente tende a ser desumanizado, anulado em sua identidade e transformado em um número da ficha hospitalar, em um caso a ser estudado, diagnosticado e tratado. O conjunto da educação dos profissionais tem sido alvo de críticas pela dificuldade de prepará-los com formação humanista. Assim, a relação deixa de ser entre humanos e passa a ser uma relação sujeito-objeto, do médico com a doença. Categoria 4- Perfil social e demográfico das parturientes. Nessa Categoria é citada a existência de desigualdade especificamente entre nos grupos indígenas, pardas e pretas, se comparada Às brancas. As mulheres pretas ou pardas representam as classes sociais mais baixas: piores níveis de escolaridade e renda familiar. A maioria das mulheres brancas possuíam maior escolaridade e tinham renda de dois ou mais salários. O site portal da educação( 2013,) explica que a demografia utiliza a estatística para organizar e analisar os diferentes aspectos de uma população.Essa ciência tem como finalidade analisar os seguintes dados populacionais: crescimento demográfico, emigração, taxa de natalidade e mortalidade, expectativa de vida, distribuição populacional por áreas, faixas de idade, entre outros. Narcondes (2003), ressalta que as mulheres negras estão entre os quinhões da pobreza ou situação de extrema pobreza do país. Em geral, começam a trabalhar muito cedo,e em trabalhos informais, possuem menores taxas de escolarização, e níveis altos de analfabetismo. Quanto a renda, ganham cerca de 51% do que recebem as brancas, e 73% a menos do rendimento dos homens braços.Moram em bairros periféricos, sem saneamento e representam a maior proporção de mulheres com chefes de famílias. Waiselfisk (2015) transcreve que no Brasil a cor da pele/raça,a etnia, a classe social e o gênero são determinantes no modo de viver, adoecer e morrer da população. A violência é presente na trajetória e cotidiano das mulheres não brancas e pobres. Waiselfisk e D’orsi (2015 e.; 2014) relatam que de acordo com o Mapa da Violência(2013), o homicídio de mulheres negras cresceu 54% em dez anos entre 2003 e 2013. Com relação á violência obstétrica, a maioria das mulheres que relataram terem sofrido algum tipo de violência na internação para o parto são negras, de menor escolaridade e atendidas no setor público. Uma pesquisa realizada pela Rede Cegonha (2011), com 23.095 mulheres, revela que a maioria das participantes tinham entre 20 e 29 anos de idade, referiam estar casadas ou em união estável (53,9%), possuíam nível médio completo, tinham renda familiar entre um e dois salários mínimos,não recebiam Bolsa Família e eram usuárias exclusivas do SUS. No que se refere a cor/raça das entrevistadas, as negras, somatória de pretas e pardas, correspondiam 63%, as brancas 33,7% e as amarelas e indígenas a uma porcentagem de 2,8% e 0,5% respectivamente. O mesmo artigo descreve o perfil sociodemográfico de mulheres conforme sua cor/raça. Nas pardas foi observado uma ocorrência maior de partos antes dos 19 anos de idade, e as pretas declararam estar solteiras. O analfabetismo e as menores escolaridades estavam entre as indígenas e as pardas. Quanto a renda, as pretas e pardas tinham menos de um salário mínimo para subsistência familiar e recebiamo Bolsa Família. Entre as brancas, havia uma ocorrência de partos na faixa etária de trinta anos ou mais, casadas, com nível superior e renda familiar de dois a dez salários, e com plano de saúde. Robbie(2000) fala de uma assistência obstétrica fundamentada no modelo tecnocrático no qual a medicina faz a separação “mente-corpo”. Ora se o corpo é ao mesmo tempo biológico social,então é impossível reduzir o parto como algo meramente orgânico,mas também como um evento a um só tempo histórico cultural. A autora usa a metáfora do corpo feminino como fábrica de bebes e da maternidade como linha de montagem. CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência obstétrica é uma forma de violência cometida contra mulheres durante o pré-natal, parto e puerpério, caracterizada como ato de violência física, psicológica e emocional, sendo um sério problema de saúde pública no Brasil. Neste sentido, este estudo tem como finalidade esclarecer a compreensão de usuárias das Unidades Básica de Saúde, sobre a violência obstétrica, assim como, seus possíveis impactos. Por meio desse trabalho de pesquisa, percebeu-se que a violência obstétrica continua institucionalizada e prevalente nas unidades de saúde de todo o país, tanto no período trabalho de parto, quanto no parto e pós parto. Esse fato é ratificado pela falta de conhecimento de algumas gestantes sobre seus direitos durante o ciclo gravídico-puerperal. Esse trabalho buscou compreender a percepção sobre a violência obstétrica que envolvem a desumanização do cuidado, contribuem para o cenário violento que as mulheres grávidas encontram hoje nos hospitais e favorecem a ocorrência das situações degradantes física e psicologicamente as quais as mulheres são submetidas ao buscarem atendimento nas maternidades. Esse fator somado à falta de conhecimento de algumas mulheres sobre seus direitos, e a não informação destes pelas equipes facilitam ainda mais o uso de intervenções violentas sem questionamento ou objeção por parte das parturientes. Nesse contexto, o enfermeiro pode ser visto como um elemento chave no processo de modelação na assistência à parturiente e bebê visto que, é membro indissociável da equipe de saúde. Faz parte de seu papel a sensibilização dessa quanto à promoção e implementação de boas práticas, além de ter condições para empoderar as mulheres durante todo o trajeto a ser percorrido para o nascimento de seu filho, contribuindo, desse modo, para uma assistência qualificada e humanizada. Referências HOTIMSKY, Sonia N. ; AGUIAR, Janaina M. DE ; VENTURINI, Gustavo. A violência institucional no parto em maternidades brasileiras: uma análise preliminar de dados da pesquisa de opinião pública. Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado – 2010. 7° Congresso Brasileiro de Enfermagem Obstétrica e Neonatal; 2011; Belo Horizonte, Brasil. TORNQUIST, Carmen S. Parto e poder : o movimento pela humanização do parto no Brasil. [tese]. Florianopólis, SC: Universidade Federal de Santa Catarina, 2004. AGUIAR, Janaina M. de. Violência institucional em maternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão de gênero. 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TÍTULO AUTOR REVISTA ANO OBJETIVO Construção social da violência obstétrica em mulheres Tének e Náhuatl Yessica Yolanda Range Flores Alexia Guadalupe Martinez Ledezma Luiz Eduardo Hernández Ibarra Cláudia Elena González Acevedo Revista da escola de enfermagem da USP 2019 Explorar a construção social que as mulheres de Tének e Náhuatl do México abordaram sobre violência obstétrica. Desafio para a implementação de uma assistência “Amiga da mulher”; a presença de acompanhantes e a mobilidade no parto em uma maternidade do SUS em São Paulo. Denise yoshi niy Revista da escola de enfermagem da USP 2018 Para a superação da violência obstétrica, liberdade de movimentação no trabalho de parto e presença de acompanhante. A margem da humanização?Experiencias De parto de usuários de uma maternidade pública de Porto Alegre- RS. Clarissa Niederauer Leote da Silva Pedroso Physis: Revista de saúde coletiva 2017 Refletir sobre as experiências de mulheres em relação á assistência ao parto e ás p´rticas tidas como humanizadoras. Violência obstétrica em mulheres Brasileiras. Carolina coelho Palma Tagma Marinda Schneider donelli Psico 2017 Verificar a ocorrência de violência obstétrica em mulheres brasileiras. Raça e violência obstétrica no Brasil Kelly Diogo de Lima Arco 2016 Comparar as características sócio demográficos de mulher segundo cor, som foco Fonte: Dados da pesquisa nas mulheres negras, analisando os tipos mais comuns Fatores associados a violência obstétrica na assistência ao parto vaginal em uma maternidade de alta complexidade em Recife, Pernambuco Pricyla de Ol. nascimento Andrade Jessica Queiroz Pereira da Silva Cinthia Martins Menino Diniz Maria de Fatima Costa Caminha Revista Brasileira de saúde materna infantil 2016 Analisar os fatores associados a violência obstétrica de acordo com as práticas não recomendadas ao parto vaginal Cuidado é fundamental. Bianca Dargan Gomes Vieira Maria Aparecida Vasconcelos Moura Valdecyr Herdy Alves Diego Pereira Rodrigues Revista Online de Pesquisa. 2013 Analisar as implicações da prática profissional desses enfermeiros dos CEFO da EEAN/UFRJ para a qualidade da assistência à saúde da mulher. Violência Institucional, autoridade médica e poder nas maternidades sob a ótica dos profissionais de saúde Janaína Marques de Aguiar Ana Flávia Pires Lucas d’Oliveira Lilia Blima Schraiber Caderno da Saúde Pública 2013 Discutir a violência institucional em maternidades sob a ótica de profissionais da saúde. Cuidado e conforto no parto: Estudos na enfermagem Brasileira. Ariane Thaise Frello Telma Elisa Carrato Mariely Carmelina Bernardi Revista Baiana de enfermagem. 2011 Explicar a necessidade de conhecimento do cuidado e do conforto a partir da percepção de quem vivencia esse momento.