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Resenha d'O Capital - Marx - cap

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Portanto, seu valor, assim como o de toda mercadoria, é determinado
pelo tempo de trabalho necessário para que seja fornecida em sua qualidade normal.
Dado que o processo de consumo da força de trabalho é, ao mesmo tempo, processo
de produção de mercadoria e de valor excedente (mais-valia), seu consumo, como o das
demais mercadorias, vem a realizar-se fora do mercado, o que implica estar fora da esfera da
circulação propriamente dita. Por isso, aprofundando sua análise, Marx se volta para a esfera
da produção e se detém a analisar o processo de trabalho e o processo de produzir mais-valia,
ou mais-valor, como se queira.
Situando o processo de trabalho, primeiramente, como relação entre o homem e
natureza no processo de produzir valores de uso, dada a generalidades destes, Marx abstrai tal
processo de trabalho de suas estruturas sociais concretas e o trata, inicialmente, de modo
genérico. Fazendo isso, encontra os componentes que o caracterizam: 1) a atividade adequada
a um fim, isto é, o próprio trabalho; 2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto do
trabalho; e 3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.
A terra (compreendendo a água, do ponto de vista econômico), é considerada objeto
universal do trabalho humano, na medida que provê ao homem seus meios de subsistência
para utilização imediata. Marx assim define os objetos de trabalho como todas as coisas,
fornecidas pela natureza, que o trabalho apenas separa de sua conexão imediata com seu meio
natural. Mas, se o objeto do trabalho é filtrado da natureza através de trabalho anterior, Marx
o chama de matéria-prima. Nesse sentido, toda matéria-prima é objeto de trabalho, mas nem
todo objeto de trabalho é matéria-prima.
O meio de trabalho, por sua vez, é definido como uma coisa ou complexo de coisas
que o trabalhador insere entre si mesmo e o objeto de trabalho, fazendo com que sirva para
dirigir sua atividade sobre esse objeto. Em sentido lato, portanto, meios de trabalho são
identificados a todas as condições materiais necessárias à realização do processo de trabalho.
No processo de trabalho, por sua vez, o trabalho do homem, subordinado a um
determinado fim, opera uma transformação no objeto em que atua (o objeto de trabalho) por
meio do instrumental de trabalho (os meios de trabalho). Juntos, objeto de trabalho e meios de
trabalho, no sentido em que se voltam para produzir valores de uso são considerados meios de
produção e o trabalho aqui é definido como trabalho produtivo.
Um valor de uso, entretanto, “[...] pode ser considerado matéria-prima, meio de
trabalho ou produto, dependendo inteiramente da sua função no processo de trabalho, da
posição que nele ocupa, variando com essa posição a natureza do valor de uso.” (MARX,
2016, p. 216). Nesse sentido, os produtos de trabalho anterior que se fazem condição de
existência do processo de trabalho e, portanto, vão além da sua condição de produto acabado,
só se mantêm e se realizam como valores de uso através de sua participação nesse processo,
ou seja, no seu contato com o trabalho vivo.
Visto o processo de trabalho em sua generalidade, parte Marx para sua análise na
configuração particular que adquire na produção capitalista. Nisso, identifica dois fenômenos.
Primeiro, que o trabalhador trabalha sobre o controle do capitalista, a quem pertence seu
trabalho. Segundo, identifica Marx que o produto é propriedade do capitalista, não do
produtor imediato, o trabalhador. Isso deriva do fato da compra, por parte do capitalista, da
força de trabalho, o que lhe dá o direito de desfrutar de seu valor de uso como bem lhe
aprouver. O mesmo vale para os produtos dessa força de trabalho depois de estabelecida sua
relação no processo de produção com os meios de produção, vistos por Marx como os
elementos mortos constitutivos do produto. Percebe-se, então, que, do ponto de vista do
capitalista, o processo de trabalho é algo que ocorre entre coisas que ele comprou, logo entre
coisas que lhe pertencem.
Quando parte para a análise do processo de produzir mais-valia, aqui, em contrapartida
ao verificado no processo de produzir valores de uso, o importante se identifica na produção
de valores de troca, sendo produzido aquele somente na medida em que contêm este. Além
disso, tal processo se caracteriza por produzir uma mercadoria com valor mais elevado que
aquele incutido no conjunto de mercadorias necessárias a sua produção, que se dividem
basicamente em meios de produção e força de trabalho.
O fundamental aqui é verificar a formação da mais-valia, ou seja, como ela nasce. Esta
se dá pela remuneração da força de trabalho pelo seu valor não igualar-se ao valor total
produzido por essa mercadoria em particular. Ela, por ter a característica peculiar de produzir
mais valor que aquele que lhe encerra a produção, é razão da existência de um excedente
apropriado pelo capitalista depois de vender seu produto no mercado. Assim ocorre porque,
na compra da força de trabalho, o capitalista se vê no direito e na necessidade de utilizar sua
mercadoria durante um dia inteiro de trabalho, o que leva a produzir uma massa de valor, na
relação com os meios de produção, que supera aquele valor requerido para o pagamento no
mercado da força de trabalho. Portanto, durante parte da jornada de trabalho, o produzido pela
força de trabalho acaba por pagar seu custo, que nada mais é do que o valor dos meios
materiais básicos para sua produção e reprodução. Mas não se encerrando o uso da força de
trabalho no momento que atinge a produção do valor necessário para lhe remunerar, e se
estendendo durante todo um dia de trabalho que caracteriza sua jornada, tem-se a geração de
um excedente de valor que se incorpora à massa de valores de uso gerados no processo de
produção e que caracteriza a mais-valia.
No processo de produção que gera o valor e o mais-valor dos produtos, Marx então
distingue a participação dos meios de produção (máquinas, ferramentas, matérias-primas etc.)
e da força de trabalho. O capital despendido com o primeiro, Marx intitula capital constante.
E é constante por não alterar sua magnitude no processo de produção. Do ponto de vista da
geração do valor e do mais-valor, o capital constante, que aparece na figura dos meios de
produção, não gera mais-valor, mas somente transfere o mesmo valor com que entrou no
processo de produção aos produtos que resultam deste. A responsável por gerar o mais-valor,
por sua vez, é a força de trabalho que, além de criar o valor que a equivale na esfera da troca,
cria um mais-valor que o ultrapassa e se configura como excedente. Por isso, do ponto de
vista do capital, Marx a tem como capital variável.
A partir desses conceitos iniciais, Marx desenvolve sua teoria da exploração que,
fundamentalmente, pode ser expressa pelo conceito de taxa de mais-valia. Esta seria a relação
entre o mais-valor produzido e o dispêndio em capital variável. Dividindo assim o capital em
C = c + v, ou seja, capital constante e capital variável, que daria origem depois do processo de
produção em C’ = c + v + m, ou seja, em um acréscimo à soma de capital despendido
inicialmente representando pelo C’ e verificado em m, que seria a mais-valia, Marx (2016, p.
252) determina que a taxa de mais-valia seria m/v, que nada mais é que “[…] o aumento
relativo do valor do capital variável a essa magnitude relativa da mais-valia.”.
A partir deste ponto, Marx concentra-se na jornada de trabalho e na sua composição.
Estabelece então que esta se divide em tempo de trabalho necessário e tempo de trabalho
excedente. Ela, por sua vez, é o principal campo de luta entre capitalista e trabalhador, este
sempre tentando reduzi-la ao máximo, aquele sempre tentando aumentar o tempo de trabalho
excedente ao máximo, seja pela diminuição do trabalho necessário, seja pelo aumento da