A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
20 pág.
Clínica dos ajustamentos psicóticos - uma proposta a partir da Gestalt-terapia

Pré-visualização | Página 7 de 10

mas muitos. 
Em decorrência dessa desarticulação, também aqui o sistema self não dispõe de uma 
orientação intencional espontânea (awareness sensorial), ao menos de uma orientação 
unificada. Conseqüentemente, a função de ego não sabe com qual fundo operar, a partir de 
qual parâmetro considerar o dado. Por conta disso, não se forma, para a função de ego, 
uma figura definida. A função de ego precisa antes se ocupar do fundo, articulá-lo, 
estabelecer para os muitos co-dados uma organização que, espontaneamente eles não têm. 
Para ilustrar esse quadro, retornemos a um exemplo clínico. Aquele mesmo consulente que 
produzia, com sua garganta, alucinações sinestésicas para responder às demandas dos 
homens mais velhos, noutra ocasião chegou à clínica sem saber exatamente o que queria 
daquele lugar. A secretária, à qual ele via semanalmente, convidou-o para tomar um café no 
refeitório da instituição. Lá ele encontrou a faxineira, com a qual, nessa altura, já tinha uma 
relação de amizade. Acontece que apareceu um gato, que rapidamente atraiu a atenção do 
consulente para a área externa da instituição. Foi quando viu os filhotes de cão labrador no 
terreno do vizinho. E já não sabia se estava ali para comprar um filhote, adotar um gato, 
contar as novidades para a amiga faxineira, tomar café com a secretária, ou fazer terapia... 
Até que, já na sala com seu terapeuta, o consulente reconheceu, no ruído produzido pelo ar 
condicionado, a regularidade de uma linguagem, a qual, uma vez decodificada, revelaria 
uma ameaça de morte que o persegue em seu ambiente de trabalho, onde também ouve os 
mesmos ruídos. Na semana seguinte, ele chega à sessão dizendo que não tem mais nada 
para falar, porque suas falas são falas mortas, “literalmente” mortas e que não surtirão efeito 
algum nem mesmo para o terapeuta. E, do nada, no meio da sessão, ele se apercebe que 
as palavras do terapeuta são verdadeiras soluções para os seus problemas, verdadeiras 
epifanias, de onde infere entusiasmadas conclusões sobre a importância desse terapeuta 
em sua vida. Ora, o que aqui se passa? 
O que nós podemos observar no modo como a função de ego opera nesse caso e em todos 
aqueles em que estiver acontecendo um ajustamento de articulação de fundo é que ela 
estabelece ao menos duas estratégias de organização. 
Por um lado, temos a estratégia que consiste em articular os vários co-dados como se 
tratasse de algo que não pertencesse ao self. Trata-se de uma estratégia de alienação dos 
co-dados junto aos dados que se apresentam na fronteira de contato. Conseqüentemente, o 
self não reconhece como seus os co-dados que chegam até a fronteira de contato. Para 
tanto, a função de ego fragmenta, de maneira delirante, o dado em múltiplas partes, de 
modo a poder atribuir a cada uma delas os múltiplos co-dados que se apresentam. O 
consulente acima descrito fragmenta sua estada na clínica em múltiplas partes, passando de 
uma a outra (da recepção para o cafezinho na cozinha, do cafezinho para o gato na área 
externa da instituição, desta para o quintal do vizinho) como se, nenhuma delas fosse 
suficiente para aplacar a angústia de não saber o que, enfim, ele procura, o que ele busca 
naquele lugar. Eis aqui o delírio dissociativo. Mas a função de ego também pode tentar 
articular os múltiplos co-dados, os diferentes hábitos que se apresentam de maneira 
desorganizada, elegendo no meio um dado que àqueles unifique. Com muita freqüência, 
esse dado é um objeto ameaçador e que, nesse sentido, deve ser excluído, tal como no 
caso daquela sessão em que, ao ouvir os ruídos “ameaçadores” do ar condicionado, o 
consulente exigiu que o clínico desligasse o aparelho. Temos aqui um ajustamento que 
doravante denominaremos de delírio persecutório. 
Por outro lado, a função de ego pode tentar se “identificar” com esses co-dados. Para tanto, 
ou a função de ego visa, nessa desarticulação, a perda da unidade, a perda da integração 
espontânea do self ou, o que é a mesma coisa: a morte do excitamento (tal como na 
chegada do consulente supra à sessão seguinte àquela em que ele se ajustou de modo 
delirante). Temos aqui, então, uma identificação depressiva. Ou, então, a função de ego 
intenciona, na desarticulação do fundo, uma sorte de ampliação ao infinito do sistema self. 
Para tanto, procura agregar, as suas próprias possibilidades, aquelas que ele reconhece em 
um semelhante com o qual se identifica (no caso do exemplo supra, o próprio clínico). Eis 
aqui um ajustamento de identificação eufórica. 
Por meio dessas duas estratégias (de alienação delirante ou de identificação), o que a 
função de ego está tentando fazer é estabelecer um limite para esse fundo desarticulado. 
Por meio desse limite, a função de ego torna tal fundo desarticulado algo suportável e, em 
alguma medida, parâmetro para que se possa assumir ou rejeitar as novas possibilidades 
abertas pelos dados na fronteira de contato. 
 
4.3.1 Delírio dissociativo (ou paranóia dissociativa). 
A principal característica desse tipo de ajustamento é a fragmentação do dado na fronteira 
em múltiplas partes desconectadas entre si. Tal fragmentação corresponde a um delírio 
dissociativo, o qual permite ao ego atribuir, a cada parte, um dos co-dados que esteja a 
sentir de maneira desarticulada. Por outras palavras, trata-se de uma estratégia delirante, 
em que o dado, seja ele o corpo próprio, uma coisa ou o corpo do semelhante, é 
decomposto em tantas partes quantas forem necessárias para que os múltiplos co-dados 
(excitamentos) possam ser dissipados. 
Em decorrência desse expediente, é freqüente testemunharmos tentativas de ajustamento 
em que alguém, por exemplo, fragmente seu corpo em várias partes isoladas, como se se 
tratasse de uma comunidade de sujeitos separados. Ele trata os braços, o cabelo, as 
pernas, os pulmões, o coração, como se fossem entidades diferentes. Cada órgão tem a sua 
doença, convalesce de um excitamento diferente. Aliás, a doença é sempre algo buscado, 
pois é uma forma de decretar que o excitamento está se esvaindo, indo embora. Nesse 
sentido, podemos falar aqui de uma dissociação hipocondríaca. 
Ainda nesse tipo de ajustamento, podemos freqüentemente observar a errância 
comportamental. A pessoa, a cada momento, está assumindo uma atividade nova, deixando 
para trás as outras e assim sucessivamente. Ele desliza metonimicamente de uma tarefa a 
outra, de uma direção a outra, de uma dívida a outra, de uma relação a outra, de um 
trabalho a outro. Não porque ele quer tudo, mas para poder se livrar do anterior e, um por 
um, de todos. Afinal, cada via, cada dado que se apresenta é uma ocasião para ele eliminar 
isso que ele sente, mas não consegue compreender como seu, precisamente, o fundo de 
excitamentos. 
Em certa medida, esses delírios de fragmentação dão ao sistema self um certo alívio, uma 
dissipação dos excitamentos, o que nos permite falar do delírio dissociativo como a 
satisfação possível desse tipo de ajustamento. 
A intervenção nesses casos consiste em assegurar, ao consulente, que ele possa desfrutar 
de muitas alternativas. O terapeuta zela para que o consulente possa continuar 
“caminhando”, possa continuar buscando novas formas de alienação de seus excitamentos. 
Não se trata de fazer com que o consulente se responsabilize pelas suas escolhas, mas, ao 
contrário, que ele possa se desincumbir delas em proveito de novas. Dessa maneira, ele 
amplia as possibilidades de atenuar a angústia advinda da presença incessante de 
excitamentos que não se articulam segundo uma ordem de prioridade a cada instante de 
sua vida. O terapeuta deve poder fluir de um assunto a outro, de um lugar a outro, sem se 
preocupar em amarrar coisa alguma numa totalidade de sentido. O deslocamento 
metonímico não é, para esse tipo de ajustamento, uma dissimulação projetiva de 
excitamentos inibidos. É, ao contrário, uma tentativa de por limite nos excitamentos que, 
assim, tornam-se suportáveis. 
 
4.3.2 Delírio persecutório (ou paranóia persecutória). 
Nesse

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.