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Livro do professor Livro didático Língua Portuguesa 9o. ano Volume 2 © Sh ut te rs to ck /M et am or w or ks © Sh u © Sh ut te r tte rs to c st oc k/ M e k/ M e M ta m o ta m or w or r ks Livro do professor 4 5 6 Reportagem: o aprofundamento das informações 2 Artigo de opinião 31 Cenário poético da África 57 2 4 © Sh ut te rs to ck /N iP p ho to gr ap hy 1. Você conhece algum youtuber? 2. Costuma acompanhar o trabalho de algum deles? Por quê? 3. Quais temáticas são mais comuns nos vídeos postados por youtubers? 4. Se você tivesse a oportunidade de ser um youtuber por um dia, sobre o que gostaria de falar? Reportagem: o aprofundamento das informações © Sh ut te rs to ck /N iP p ho to ggr ap hy © Sh ut te rs to ck /N iP ph ot ogg ra ph y 3 • Conhecer as características do gênero textual reportagem. • Reconhecer o predicado verbo-nominal. • Identificar a derivação imprópria. • Dominar os principais casos de regência verbal. • Empregar adequadamente o acento denotativo da crase. Objetivos Reportagem Para início de conversa, leia um trecho de uma reportagem sobre os youtubers, novos profissionais de sucesso. JÊNIFER, Érica; HENEMMAN, Ligia; MANCE, Paulo. Youtuber, a nova profissão. Disponível em: <https://agreportagens.wordpress.com/2016/12/19/ youtuber-a-nova-profissao/>. Acesso em: 7 jan. 2019. 1. Você concorda que os youtubers são influenciadores de opinião? Por quê? 2. Você acha que a atividade dos youtubers pode ser considerada uma profissão? Por quê? 3. O público que acompanha os youtubers é composto somente de jovens? 4. Qual é a “fórmula” utilizada pelos youtubers para chamar a atenção do público? 5. Cite alguns canais de youtubers que têm muitos inscritos. Discuta essas questões com seu professor antes de ler o próximo texto. 1 https://agreportagens.wordpress.com/2016/12/19/youtuber-a-nova-profissao/ YOUTUBER, A NOVA PROFISSÃO Certamente você já ouviu falar do website YouTube: Broadcast yourself, que é, sem dúvida, uma referência em seu ramo no mundo inteiro, destinado à postagem de vídeos online dos mais variados gêneros. Fundado em fevereiro de 2005, o site, que hospeda vídeos em formato digital, já é o mais acessado do Brasil com esta especialidade. A plataforma, que foi comprada pela gigante Google em meados de 2006, tem se tornado parte do cotidiano de pessoas no mundo inteiro. Os youtubers, como são conhecidos os criadores de conteúdo do website, são a grande febre do momento, conquistando centenas de milhares de visualizações mensalmente, lançando livros e até mesmo filmes. Talvez você não conheça nenhum desses tais youtubers, mas com certeza já ouviu o nome de algumas destas celebridades que estão em alta na mídia. Atualmente, os grandes produtores de conteúdo digital do website podem ser considerados como webcelebridades em meio ao público jovem, principalmente pelo seu grande poder de influência. De acordo com a pesquisa “Os novos influenciadores: quem brilha na tela dos jovens brasileiros”, publicada na revista “Meio & Mensagem”, em janeiro de 2016, os youtubers ocupam 10 posições do Top 20 mais influentes entre os jovens, o que aponta a força dessas novas celebridades. Painel de leitura A reportagem a seguir faz referência à atividade dos youtubers e a um problema vivido por esses profissio- nais. Leia-a. 2 © Ag ên ci a O G lo bo verborrágico: em que há verborragia; que fala muito, mas com poucas ideias no falar e no discutir. achincalhando: ridicularizando. 9o. ano – Volume 24 CISCATI, Rafael. Eles não curtem o Facebook. Época, São Paulo, ed. 898, p. 62-63, 24 ago. 2015. © Ag ên ci a O G lo bo Língua Portuguesa 5 1. A reportagem Eles não curtem o Facebook pode despertar a atenção de qualquer pessoa, mas há um público que pode demonstrar mais interesse pela leitura do texto. Que público é esse e por que, prova- velmente, tem mais interesse pelo conteúdo do texto? Em geral, são os jovens que se interessam por youtubers e por redes sociais. 2. Para atingir o público-alvo, o autor da reportagem escolheu uma linguagem com marcas de informalida- de ou totalmente formal? Dê exemplos. O autor da reportagem utiliza, predominantemente, uma linguagem formal; contudo, mescla passagens de informalidade ao longo do texto, estratégia que aproxima o público-alvo do conteúdo publicado. Ex.: “a bronca é a seguinte:”; “‘dar uma mãozinha’”. 3. Releia o título do texto e assinale a resposta correta. 3 Eles não curtem o Facebook a) O fato de o verbo curtir ter sido utilizado em um título de reportagem sugere que ele pode ser empregado em qualquer contexto formal da língua, como em um texto científico ou um discurso político. Afinal, o referido verbo é bastante formal. X b) O autor da reportagem fez uma escolha linguística bastante apropriada, já que o verbo curtir é co- mum em redes sociais, como o Facebook. c) O verbo curtir não apresenta nenhuma relação com as redes sociais. 4. A alternativa que melhor descreve o significado da expressão “conquistar desafetos” é a) conquistar amigos. X b) passar a ter inimigos. c) ser visto com indiferença pelas pessoas. d) ser visto como um ídolo pelos adolescentes. 5. O autor da reportagem, ao analisar o comportamento do youtuber Felipe Neto, comenta: “A estratégia de metralhadora deu certo”. Explique o significado dessa frase, considerando as informações do primeiro parágrafo do texto. O autor da reportagem, ao mencionar que “A estratégia de metralhadora deu certo”, faz referência ao fato de que o youtuber ganhou notoriedade em virtude de críticas que fez, em que chamou as fãs de Fiuk de retardadas e ridicularizou a série de filmes Crepúsculo. Essa notoriedade lhe proporcionou dinheiro, e ele fundou o Paramaker – uma rede brasileira que reúne 5 mil canais do YouTube. 6. No segundo parágrafo, qual palavra foi utilizada com sentido figurado? a) Neto. X b) Encabeça. c) Protesto. d) Youtuber. e) Facebook. • Qual o significado dessa palavra no contexto em que aparece? No contexto em que aparece, “encabeça” significa “é líder, representa os demais na luta pelos direitos dos youtubers”. 7. Reescreva o trecho “A bronca é a seguinte” utilizando a palavra que melhor substitui o termo “bronca”. elogio indiferença solução problema descaso O problema é o seguinte. 9o. ano – Volume 26 8. No terceiro parágrafo, o autor relata, com detalhes, o “descaso do Facebook”, que gera insatisfação nos youtubers. Organize as informações na ordem em que aparecem na reportagem. a) ( 2 ) Publicação do vídeo no Facebook. b) ( 5 ) O Facebook lucra com as visualizações do vídeo. c) ( 1 ) Publicação do vídeo no YouTube. d) ( 3 ) Falta de remuneração do Facebook aos criadores do vídeo. e) ( 4 ) Falta de visualização do vídeo no YouTube. 9. A expressão “A cereja do bolo” pode ser compreendida como “o melhor que poderia acontecer; algo muito bom, etc.”. No contexto da entrevista, pode-se afirmar que essa expressão a) foi uma maneira que o autor escolheu para tornar a reportagem engraçada. X b) foi utilizada ironicamente pelo autor, uma vez que o fato de o Facebook lucrar com a pirataria preju- dica os youtubers. c) demonstra que o autor está triste pelo fato de os youtubers, que são seus amigos, não receberem os créditos de seu trabalho. 10. No trecho “Os youtubers se ressentem”, o verbo ressentir-se poderia ser substituído por a) se sentem culpados ou se entristecem. X b) se chateiam ou se sentem prejudicados. c) se animam ou se enchem de esperança. d) se calam ou se escondem. 11. No quinto parágrafo do texto, o autor utiliza a expressão “dar uma mãozinha”. Explique seu significado e esclareça a quem ela é direcionada. O significado dessa expressão é “ajudar, favorecer”, e ela é direcionada a “vídeos colocados no publicador do Facebook”. 12. Releia o trecho a seguir, atentando-se ao uso da palavra “passado”. No passado, o YouTube também teve dificuldades paralidar com o plágio. a) Quantas palavras há na expressão “No passado”? Quais são elas? A expressão é composta de três palavras: preposição em + artigo o + substantivo passado. As regras de conduta de usuários no Facebook condenam a prática. Os youtubers se ressen- tem porque, segundo eles, o Facebook faz pouco para evitá-la. Em Práticas de reflexão sobre a língua, você aprenderá mais so- bre a derivação imprópria. b) Originalmente, passado é o particípio do verbo passar; contu- do, na frase em destaque, a palavra está sendo utilizada como um substantivo. Essa ocorrência recebe o nome de derivação imprópria, que envolve mudança de classe gramatical. Agora, responda: O que torna “passado” um substantivo no tre- cho em destaque? Os pronomes destacados retomam quais palavras, respectivamente? Resposta: Eles: youtubers; la: prática. 4 ( ) A posição da expressão “No passado”, que está no início da oração. ( X ) A utilização do artigo “o” antes da palavra “passado”. ( ) A indicação de tempo expressa por “No passado”. 13. Releia o trecho a seguir e responda à pergunta. Língua Portuguesa 7 14. Ao longo dos parágrafos, o autor se refere às razões da insatisfação dos youtubers. Assinale as informa- ções que as representam. a) “Neto conquistava desafetos entre os ídolos adolescentes.” (1º. parágrafo) b) “A estratégia de metralhadora deu certo.” (1º. parágrafo) c) “São os youtubers – pessoas que produzem vídeos e que ganham dinheiro com publicidade.” (1º. parágrafo) d) “As reclamações deles se repetem em todo o mundo:” (2º. parágrafo) X e) “seus vídeos, que demandam tempo e dinheiro para ser feitos, circulam de graça pela rede em versões pirateadas.” (2º. parágrafo) X f) “O vídeo circula sem gerar curtidas na página do autor.” (3º. parágrafo) X g) “‘Uma pessoa que assiste a seu vídeo no Facebook não vai querer rever no YouTube.’” (3º. parágrafo) X h) “o Facebook faz pouco caso para evitá-la.” (4º. parágrafo) i) “Páginas de empresas e de celebridades usam a técnica para atrair fãs.” (5º. parágrafo) j) “No passado, o YouTube também teve dificuldades para lidar com o plágio.” (6º. parágrafo) k) “O Facebook afirma que trabalha em uma solução parecida.” (7º. parágrafo) 15. O site YouTube ganhou a admiração dos youtubers. Descreva, resumidamente, a principal razão para que isso tenha acontecido. Para tanto, recorra às informações do 6º. parágrafo do texto. Na seção Prática de escrita, você aprenderá mais sobre como fazer um resumo. 16. Em diversos momentos da reportagem, são inseridas falas do youtuber. Que recurso linguístico é utiliza- do para identificar essas falas? As falas são registradas entre aspas. 17. Na reportagem lida, há registros de fatos e opiniões. A seguir, separe as informações conforme o solicitado. a) “[...] dos 1 000 vídeos mais populares vistos no Facebook no primeiro trimestre deste ano.” b) “Neto ganhou audiência, dinheiro e fundou o Paramaker.” c) “Neto arrumou um poderoso rival: o Facebook.” d) “O Facebook age com descaso pelo nosso trabalho.” e) “O vídeo circula sem gerar curtidas na página do autor.” f) “Esse tipo de pirataria incomoda [...]” g) “[...] segundo eles, o Facebook faz pouco para evitá-las.” h) “Quem pirateia não lucra, mas atrai mais atenção.” i) “O Facebook lucra com a pirataria.” j) “Dá para entender a bronca de Felipe Neto e seus youtubers.” Fato Opinião “[...] dos 1 000 vídeos mais populares vistos no Facebook no primeiro trimestre deste ano.” “O Facebook age com descaso pelo nosso trabalho.” “Neto ganhou audiência, dinheiro e fundou o Paramaker.” “Esse tipo de pirataria incomoda [...]” “Neto arrumou um poderoso rival: o Facebook.” “[...] segundo eles, o Facebook faz pouco para evitá-las.” “O vídeo circula sem gerar curtidas na página do autor.” “Quem pirateia não lucra, mas atrai mais atenção.” “O Facebook lucra com a pirataria.” “Dá para entender a bronca de Felipe Neto e seus youtubers.” Sugestão: Tendo problemas com muitos plágios, o site YouTube passou a dividir parte da receita publicitária com os youtubers. Caso sejam postados materiais protegidos por direito autoral, o au- tor será alertado, podendo solicitar a remoção do vídeo ou o recebimento da receita publicitária. 9o. ano – Volume 28 18. O trecho a seguir deixa claro que o autor apoia a rede social Facebook no que diz respeito à postagem de vídeos de youtubers. Essa afirmação está correta? Justifique sua resposta. Em 2015, o Facebook, uma empresa de mais de US$ 250 bilhões, diz que tem dificuldades para fazer o que o YouTube conseguiu há mais de cinco anos. Dá para entender a bronca de Felipe Neto e seus youtubers. A afirmação acima está incorreta. O autor da reportagem deixa claro que não apoia o Facebook no que diz respeito à postagem de vídeos pirateados. Essa ideia fica evidente quando ele menciona que o Facebook é uma empresa que tem muito dinheiro, mas que, mesmo assim, acha difícil controlar o problema do plágio. Ao final do trecho em destaque, o autor afirma “entender a bronca de Felipe Neto e seus youtubers”. 19. O texto lido tem um propósito comunicativo, ou seja, uma intenção. Ele também é direcionado mais especificamente a um tipo de público. Partindo dessa afirmação, marque as alternativas corretas. a) O texto é uma denúncia muito grave. A intenção é que as pessoas deixem de usar o Facebook. b) O texto tem a intenção de fazer com que os leitores vejam os youtubers como vítimas de um grave problema social. X c) O texto tem a intenção de informar o leitor sobre o problema que envolve a pirataria dos vídeos dos youtubers. d) O texto tem a intenção de chamar a atenção para o comportamento indevido dos youtubers. Afinal, na visão do autor, eles estão sendo injustos com o YouTube. e) O texto foi escrito para um público rigorosamente selecionado, ou seja, as pessoas que gostam do YouTube e do Facebook. X f) O texto pode ser lido por um público bastante variado, mas é direcionado, especialmente, aos usuá- rios do YouTube e do Facebook, que têm interesse por vídeos postados nesses dois ambientes. 20. Você sabe quais são as diferenças entre uma reportagem e uma notícia? Observe o quadro a seguir e compare esses dois gêneros textuais. Notícia Reportagem Texto mais curto, mais conciso. Texto mais extenso, mais detalhado. Centrada no fato. Pesquisa aprofundada do tema, levantamento de dados, entrevistas, depoimentos, citações, etc. Relata o fato ocorrido na véspera ou no dia da edição. Abordagem de um tema sem ligação direta com o dia da edição. Registro dos fatos, em geral, sem juízo de valor. Interpretação dos fatos relatados. Considerando as características apresentadas, registre, nas linhas a seguir, por que o texto lido pertence ao gênero textual reportagem. O texto lido é considerado uma reportagem porque é extenso e apresenta informações detalhadas, com dados, informações adicionais, citações, etc. Trata de um tema atual, mas, diferentemente da notícia, não está ligado a fatos ocorridos na véspera ou no dia da edição. Por fim, há, ao longo do texto, um posicionamento claro do autor, como em: “Dá para entender a bronca de Felipe Neto e seus youtubers”. 5 Língua Portuguesa 9 Fernanda Bassette, Marina Rappa e Daniel Bergamasco 21. Além dos aspectos registrados anteriormente, há outros que caracterizam o gênero reportagem, como o “olho”, que evidencia um trecho importante do texto, e as informações adicionais, que ampliam a discus- são. Considerando as informações do texto, transcreva, no quadro abaixo, o “olho” da reportagem. Texto que acrescenta informações relacionadas à imagem ou con- firma a informação apresentada visualmente. Pode, também, reto- mar alguma informação essencial do texto. 6 Epidemia de mentiras Praga na política, as fake news também se tornaram um caso grave de saúde pública. Emagrecimento, câncer e diabetes são os temas preferenciais das enganações Ao ser diagnosticado com diabetes, em 2013, o comerciante*, hoje com 59 anos, ouviu a orientação de tomarcomprimidos diariamente, equilibrar a alimentação e fazer exercícios. Com o nível de glicemia em jejum na alarmante casa dos 600 miligramas por decilitro de sangue (seis vezes o limite para uma pessoa saudável), * não pôs em prática as recomendações. Mas seguiu à risca uma dica que achou na internet: ingerir um copo de baba de quiabo com água todas as manhãs. “Parecia uma gosma com clara de ovo, então eu respirava fundo e bebia numa golada só”, rememora ele. A fórmula mágica, que eliminaria a doença, naturalmente não funcionou. No início deste ano, a desinformação lhe custou caro: * teve um dedo do pé esquerdo amputado, depois que uma pequena ferida, “menor que um grão de feijão”, não Dos 1000 vídeos mais populares do Facebook no primeiro trimestre, 725 eram piratas 22. No canto superior direito da reportagem, há informações adicionais. Que informações são essas e como elas contribuem para a ampliação da reportagem? No canto superior direito, foram inseridas informações adicionais sobre “Como os youtubers fazem dinheiro”. Durante a reportagem, é mencionado, de modo bastante positivo, o posicionamento do site YouTube com relação à divisão da receita publicitária. Essa informação é ampliada por meio de outro recurso visual, em destaque no texto. Essa estratégia, além de tornar o texto mais dinâmico, responde a uma possível dúvida do leitor. 23. Explique de que forma a imagem de Felipe Neto se relaciona ao conteúdo do texto. A imagem de Felipe Neto tem relação direta com o conteúdo da reportagem, pois o youtuber transmite uma expressão de indignação com o que está acontecendo com os vídeos produzidos por ele e seus colegas. A máquina filmadora faz referência direta à atividade de Felipe Neto. 24. Leia as características da legenda e explique que conteúdo é regis- trado nela. Na legenda, é retomada uma informação essencial do texto, isto é, a de que Felipe Neto “representa seus colegas” na luta pelos direitos dos youtubers. Leia a reportagem a seguir, a qual faz referência a outro problema que envolve as redes sociais: as notícias falsas (fake news), que podem causar grandes transtornos às pessoas que acreditam nelas. 9o. ano – Volume 210 cicatrizou devido à glicemia sem controle. Grave em qualquer área de co- nhecimento, a profusão digital de textos e vídeos enganadores pode se tornar letal quando o alvo é saúde. Só a mentira da baba milagrosa teve mais de 485 000 compartilhamen- tos (sim, quase meio milhão!) [...]. As fake news transformaram- -se em uma grave questão de saúde pública. Por redes sociais, sites de busca e aplicativos de mensagens espalham-se milhares de receitas in- falíveis, alimentos superpoderosos, estudos inexistentes ou distorcidos e outras enganações. O Ministério da Saúde, que monitora notícias falsas desde o surto da gripe H1N1 em 2009, montou no ano passado uma equipe com a função exclusiva de escarafunchar, ao longo do dia, tudo o que é publicado sobre enfermida- des na web. Em 2017, o time identi- ficou 2 200 invenções. No primeiro semestre deste ano, cerca de metade disso já caiu no pente-fino. O mais perverso: as doenças graves, que assolam e matam mi- lhões de brasileiros, são justamente as mais usadas para fisgar leitores desavisados. Um levantamento iné- dito feito por VEJA recolheu 3 000 notícias sobre saúde em seis páginas do Facebook que se notabilizaram por difundir falsidades na área da medicina. Destas, VEJA selecionou cerca de 1 000 que tiveram maior número de compartilhamentos. En- tre elas, descobriu-se, com a ajuda de médicos consultados pela revis- ta, que cerca de um terço divulga- va falsidades inquestionáveis. Os temas mais frequentes na lista de fake news foram dieta para ema- grecer, câncer e diabetes [...]. O Facebook argumenta que trabalha em parceria com agências de checa- gem de dados e universidades para identificar mentiras na rede e re- BASSETE, Fernanda; RAPPA, Marina; BERGAMASCO, Daniel. Epidemia de mentiras. Veja, São Paulo, ed. 2 590, ano 51, p. 63-69, n. 28, 11 jul. 2018. duzir o alcance dessas publicações. Claramente, é um trabalho que dei- xa a desejar. [...] Quem sai das redes sociais e se aventura pelo Google, o maior site de buscas da internet, encontra o mesmo ambiente infectado por mentiras. VEJA fez uma procura com os termos “cura do diabetes”. Para evitar que o algoritmo do Google levasse em conta o histórico de navegação da reportagem de VEJA, a pesquisa foi feita através de uma janela anônima. Resultado imediato: dois vídeos perigosos. O primeiro deles, com mais de 3 milhões de visualizações, aplica um truque explícito. Para ganhar credibilidade, abre com um depoimento do respeitado médico Drauzio Varella, mas, em seguida, apresenta informações sobre a cura definitiva através de uma dieta que envolve o consumo de óleo de coco – uma completa invenção. O segundo vídeo vende a cura (“em poucos dias”) ao misturar uma insólita lista de ingredientes, como pimenta dedo-de-moça, ovos crus e sal do Himalaia. Na busca por “cura do câncer”, dois dos cinco primeiros links ofe- recidos pelo Google são mentiras. [...] Consultado sobre sua respon- sabilidade, o Google afirma que adota medidas como a redução do fluxo de audiência e publicidade em sites mal-intencionados. Além disso, a companhia mantém no Brasil uma parceria com o Hospital Albert Einstein, que produz qua- dros com informações relevantes sobre doenças pesquisadas. O re- sultado, porém, é bastante tímido: o espaço do Einstein não destaca o nome do centro médico nem diz que, ali, as informações são 100% confiáveis. [...] Essa crise de comunicação na saúde pública tem um importante ponto cego: as mensagens que se alastram por WhatsApp, no qual é impossível medir o tamanho dos boatos. Por isso o aplicativo é co- nhecido no meio digital como dark social (rede social escura). Para mi- nimizar o problema, o WhatsApp anunciou um teste: o destinatário é informado se o texto que recebeu foi escrito por seu remetente ou está apenas sendo encaminhado. É um tímido paliativo, como tem acon- tecido com medidas adotadas pelo Facebook e pelo Google, pois as mentiras não deixam de circular nem são rastreadas. “As iniciativas são positivas, mas, na prática, o nú- mero de notícias verificadas a cada dia não faz nem cócegas perto de tudo que é falso”, pondera o pesqui- sador Pablo Ortellado, da Universi- dade de São Paulo, referência acadê- mica do país no tema. O único remédio realmente efi- caz contra esse mal é o acesso a da- dos confiáveis. [...] Há alguns espaços para enviar dúvidas específicas [...]. Nada, é claro, substitui a conversa entre médico e paciente. Também é pre- ciso atentar para o veículo que está difundindo a informação. Num am- biente conectado, no entanto, a res- ponsabilidade é sempre coletiva. Se o Google ou o Facebook ainda não conseguiram enfrentar a praga das fake news, os usuários da rede que as compartilham também estão aju- dando a manter o problema. Estudo realizado pelo Instituto Reuters, da Universidade de Oxford, em dezem- bro de 2016, mostrou que 60% dos entrevistados compartilham notícias pelas redes sociais depois de ler ape- nas a manchete. Agir assim hoje em dia é correr o risco de fazer mal à saúde de alguém. Língua Portuguesa 11 25. No primeiro parágrafo da reportagem, relata-se o caso de uma pessoa que sofria de diabetes. O que aconteceu com ela? Ela se tratou seguindo uma dica que viu na internet – beber um copo de baba de quiabo com água todas as manhãs – e sua doença se agravou, levando à amputação de um dedo do pé. 26. Por que os repórteres decidiram iniciar o texto com esse caso? Para mostrar ao leitor as consequências drásticas que uma notícia falsa pode ter e, assim, motivá-lo a continuar a leitura. 27. Leia o trecho a seguir. Ao ser diagnosticado com diabetes, em 2013, o comerciante*, hoje com 59 anos, ouviu a orienta- ção de tomar comprimidos diariamente, equilibrara alimentação e fazer exercícios. Com base nessa leitura, é possível concluir que a) um médico receitou medicamentos para a pessoa citada. X b) alguém indicou medicamentos para a pessoa citada. Esse trecho não explicita que foi um médico que re- ceitou os medicamentos. Informa-se apenas que a pessoa “ouviu a orientação”, mas não quem a trans- mitiu. Causa estranheza essa omissão do texto. 28. O título da reportagem é Epidemia de mentiras. Considerando o significado de epidemia, responda às questões a seguir. a) Qual é a “doença” abordada pela reportagem? As fake news (notícias falsas) sobre saúde. Doença que ataca grande número de pessoas ao mesmo tempo. b) Que efeitos essa “doença” causa nas pessoas? Ela impede que as pessoas doentes procurem tratamento médico para suas enfermidades, o que acaba por agravá-las. c) Qual informação presente no segundo parágrafo mostra que essa “doença” ataca um grande número de pessoas? A informação sobre o número de compartilhamentos (485 mil) da “mentira da baba milagrosa”. 29. Analisando o título e a linha-fina, pode-se prever se a reportagem adotará uma atitude neutra ou crítica sobre o tema? Justifique sua resposta. Sim. As palavras e os sintagmas empregados no título e na linha-fina, como “epidemia”, “praga”, “caso grave de saúde pública” e “enganações”, permitem prever que a reportagem adotará uma atitude crítica sobre o tema. 30. O texto da reportagem mantém a mesma atitude que se percebe no título e na linha-fina? Aponte exemplos. Sim. O aluno pode citar como exemplos: “textos e vídeos enganadores” e “mentira da baba milagrosa”, no segundo parágrafo, e “ambiente infectado por mentiras”, “vídeos perigosos”, “truque explícito” e “uma completa invenção”, no quinto parágrafo. 31. A reportagem informa que “as doenças graves, que assolam e matam milhões de brasileiros, são justa- mente as mais usadas para fisgar leitores desavisados”. Os sites que difundem notícias falsas escolhem doenças que acometem um grande número de pessoas. O que eles ganham com isso? Ao escolherem esses tipos de doenças, um grande número de visitantes acessa os sites, o que lhes gera receita de publicidade. 7 Modalizadores são elementos linguísticos que mostram a ati- tude do emissor (de aprovação, crítica, dúvida, etc.) em relação a um enunciado. Entre as classes de palavras que exprimem tal atitude estão o substantivo, o adjetivo e o advérbio. 9o. ano – Volume 212 32. No quinto parágrafo da reportagem, há comentários sobre vídeos falsos. Releia-o e responda às seguintes questões: a) Qual é o “truque” usado no primeiro vídeo mencionado? O vídeo apresenta, primeiramente, um depoimento do renomado médico Drauzio Varella e, em seguida, informações sobre a “cura definitiva” do diabetes. b) Como as pessoas que assistiram ao vídeo poderiam evitar cair nesse “truque”? Realizando pesquisas sobre Drauzio Varella para descobrir se ele endossa a “cura definitiva” apresentada no vídeo. 33. Releia este trecho da reportagem: As fake news transformaram-se em uma grave questão de saúde pública. Por redes sociais, sites de busca e aplicativos de mensagens espalham-se milhares de receitas infalíveis, alimentos superpoderosos, estudos inexistentes ou distorcidos e outras enganações. a) O repórter fala sério quando usa os sintagmas “receitas infalíveis” e “alimentos superpoderosos”? Justifique sua resposta. Não. O repórter está sendo irônico. O leitor pode perceber essa ironia considerando o que foi apresentado anteriormente no texto sobre as curas propostas nos sites de notícias falsas sobre saúde. b) Quais sintagmas nominais expressam diretamente a opinião revelada na reportagem? “Estudos inexistentes ou distorcidos” e “outras enganações”. c) Por meio de que canais as notícias falsas sobre saúde se espalham? De redes sociais, sites de busca e aplicativos de mensagens. 34. Sublinhe, a seguir, os trechos que contêm a opinião dos autores da reportagem sobre as medidas que esses canais tomam para combater as notícias falsas. O Facebook argumenta que trabalha em parceria com agências de checagem de dados e uni- versidades para identificar mentiras na rede e reduzir o alcance dessas publicações. Claramente, é um trabalho que deixa a desejar. 35. Segundo a reportagem, além das redes sociais, dos buscadores e dos aplicativos de mensagens, quem é responsável pelo problema das notícias falsas? Os usuários que compartilham as notícias falsas. Consultado sobre sua responsabilidade, o Google afirma que adota medidas como a redução do fluxo de audiência e publicidade em sites mal-intencionados. Além disso, a companhia man- tém no Brasil uma parceria com o Hospital Albert Einstein, que produz quadros com informações relevantes sobre doenças pesquisadas. O resultado, porém, é bastante tímido: o espaço do Einstein não destaca o nome do centro médico nem diz que, ali, as informações são 100% confiáveis. Para minimizar o problema, o WhatsApp anunciou um teste: o destinatário é informado se o texto que recebeu foi escrito por seu remetente ou está apenas sendo encaminhado. É um tímido paliativo, como tem acontecido com medidas adotadas pelo Facebook e pelo Google, pois as men- tiras não deixam de circular nem são rastreadas. Língua Portuguesa 13 36. Observe o boxe Tira-teima. Que informação é dada nele? São indicadas algumas fontes em que o leitor pode tirar dúvidas sobre notícias que viu na internet. 37. Anote outras recomendações citadas na reportagem para verificar a veracidade de uma notícia sobre saúde. Conversar com o médico e observar qual é o veículo em que a notícia foi publi- cada. 38. Muitas reportagens apresentam intertítulos, elementos que não são exclusivos desse gênero textual. No exemplo a seguir, sublinhe aquilo que se caracteriza como intertítulo. TIRA-TEIMA Leu uma informação duvidosa so- bre saúde na web? Escolha o canal para confirmar se ela procede. MINISTÉRIO DA SAÚDE Ligue para o Disque Saúde (136) ou acesse o chat do site do minis- tério (abr.ai/chat-saude) ou a pá- gina da pasta no Facebook (www. facebook.com/minsaude). INSTITUTO ONCOGUIA Uma equipe de profissionais treinados responde a questões específicas sobre câncer pelo WhatsApp: (11) 98790-0241. O prazo para resposta é de 48 horas. ME ENGANA QUE EU POSTO O blog da Veja especializado em desmentir fake news aceita suges- tões de pauta por WhatsApp: (11) 99967-9374. Palavra ou expressão utilizada para sinalizar ao leitor que será iniciado um novo grupo de informações a respeito do tema da reportagem. Serve também para organizar a leitura. www.conjur.com.br/2018-jul-14/facebook-busca-ferramentas-tentar-combater-fake-news DISSEMINAÇÃO PROBLEMÁTICA Facebook busca ferramentas e parcerias para combater bicho-papão das fake news O problema é mais grave no Facebook. Notícias falsas são tão comuns e antigas quanto as verdadeiras, mas foram os mecanismos da rede social de impulsionamento e direcionamento de posts conforme o comportamento on-line dos usuários que as transformaram em novidade. Uma simples mentira torna-se epidemia se ela consegue alcançar milhões de pessoas já dispostas a acreditar nelas. [...] Checagem de fatos No momento a principal ferramenta é a parceria com as agências de checagem de fatos – que, no rastro das fake news, se chamam de agências de fact checking. Em cada país, o Facebook escolhe agências que estejam de acordo com critérios estabelecidos pelo Poynter Institute, escola de jornalismo dos EUA. [...] Bicho-papão As notícias falsas se tornaram um bicho-papão para o Estado brasileiro. Em 2017, o Tribunal Superior Eleitoral convocou o Ministério da Defesa e as Forças Armadas para monitorar redes sociais em busca de notícias falsas durante as eleições de 2018. MARTINES, Fernando. Facebook busca ferramentas e parcerias para combater bicho-papão das fake news. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2018-jul-14/facebook-busca-ferramentas- tentar-combater-fake-news>. Acesso em: 19 set. 2018. 39.Releia o trecho anterior e proponha outros intertítulos para a reportagem. Pessoal. 8 9o. ano – Volume 214 40. Relembre o que se afirma sobre as fake news na reportagem Epidemia de mentiras e complete a frase a seguir. A reportagem Epidemia de mentiras sustenta que as notícias falsas se originam ou se espalham nas redes sociais, nos buscadores de informação e nos aplicativos de mensagens. Leia o texto a seguir para resolver as questões 41 e 42. O jornalismo hegemônico encontrou na batalha contra as fake news uma forma de expressar a sua pretensa “superioridade” moral ante as mídias alternativas que cresceram com o advento da inter- net. Para isto, utilizaram duas ordens de argumentos: 1) que o jornalismo que praticam é “profissio- nal” (e, portanto, o praticado pela mídia alternativa é “amador”), pois ele ocorre a partir de estruturas empresariais cristalizadas, com redações profissionalizadas e cujo objetivo não é fazer “ativismo polí- tico”, mas sim “prestar um serviço ao seu público”; 2) que a internet, em especial as plataformas das redes sociais, possibilita uma equivalência de narrativas produzidas em condições diferentes, possibi- litando então que qualquer pessoa (sem a qualificação necessária) possa repercutir informações [...] OLIVEIRA, Dennis de. De quem é a responsabilidade pela disseminação das fake news? Disponível em: <https://revistacult.uol.com.br/home/ responsabilidade-pela-disseminacao-das-fake-news/>. Acesso em: 16 dez. 2018. 41. Pesquise o significado das palavras “hegemônico” e “advento”. Hegemônico: que tem supremacia; preponderante / advento: aparecimento; chegada. 42. No texto anterior, os argumentos 1 e 2 são utilizados para ( ) criticar o jornalismo hegemônico. ( X ) defender o jornalismo hegemônico. 43. Assinale as recomendações que seriam úteis para verificar se uma notícia na internet é falsa ou verdadeira. a) Se a notícia teve muitos compartilhamentos, significa que ela é verdadeira. X b) Buscar informações sobre o site em que a notícia foi publicada, a fim de descobrir se ele é sério ou sensacionalista. c) Se a notícia foi publicada somente em um site, trata-se de um furo jornalístico. Então, ela provavel- mente é verdadeira. X d) Verificar todas as letras do endereço do site. Para enganar os leitores, os sites de notícias falsas costu- mam criar endereços parecidos com os de sites sérios, com apenas uma ou duas letras trocadas. X e) Ler a mesma notícia nos outros sites em que ela foi publicada, realizando uma comparação, a fim de descobrir se os pontos mais importantes coincidem ou se há diferenças gritantes. 44. Observe as frases. I. As medidas das redes sociais são insuficientes. II. A reportagem considera as medidas insuficientes. jornalismo hegemônico: jornalismo que faz parte dos grandes grupos de mídia. a) Classifique o predicado da frase I. Predicado nominal. b) Qual é a função sintática de “insuficientes” na frase I? Predicativo do sujeito. c) Na frase II, “insuficientes” qualifica Há frases em que o predicativo não se refere ao sujeito, mas ao objeto direto. Saiba mais em Práticas de reflexão sobre a língua. ( ) o sujeito. ( X ) o objeto direto. Língua Portuguesa 15 Predicado verbo-nominal Leia parte de uma entrevista concedida pelo youtuber Whindersson Nunes para a revista Trip. Práticas de reflexão sobre a língua TRIP: O que seus pais fazem? WHINDERSSON: [...] eles eram representantes comerciais, [...] agora não trabalham mais. TRIP: Às vezes você acorda e pensa que tá vivendo uma vida que não é a sua, que você está num conto de fadas? WHINDERSSON: Não, não. Eu acho tudo [...] real, até por- que sou eu que faço tudo e acaba com meu físico – eu morro de cansaço, de sono, de isso, de aquilo, então acho que é bem real pra mim. LACOMBE, Milli. Você não conhece Whindersson Nunes? Disponível em: <https://revistatrip.uol.com. br/trip/entrevista-com-o-youtuber-whindersson-nunes-humorista-do-piaui>. Acesso em: 6 dez. 2018. 45. Classifique os seguintes predicados: a) “eles eram representantes comerciais.” Predicado nominal. b) “agora não trabalham mais.” Predicado verbal. 46. E quanto à oração a seguir? Vamos refletir um pouco? Eu acho tudo [...] real a) Qual é o predicado da oração em destaque? Acho tudo real. b) Como se classifica o verbo da oração: verbo de ligação ou ver- bo significativo? Trata-se de um verbo significativo. c) Qual é a função sintática da palavra “tudo” na oração em desta- que? Na oração em destaque, tudo funciona como complemento verbal (objeto direto). d) A palavra “real” refere-se a qual termo da oração? Refere-se à palavra tudo, que é o objeto direto da oração. e) Nesse caso, em que não há verbo de ligação, mas a oração apresenta uma qualidade ou um estado do objeto direto, o predicado é ( ) nominal. ( ) verbal. ( X ) verbo-nominal. Relembrando Verbo de ligação: tem a função de ligar o sujeito a uma caracterís- tica ou a uma condição. Ex.: Sandra está/parece cansada. Nesse caso, temos predicado no- minal, cujo núcleo é um nome (cansada). Verbo significativo: também chamado de nocional, exprime ação, acontecimento, desejo, ativi- dade mental, etc. Ex.: A criança brincou muito. Nesse caso, temos predicado ver- bal, cujo núcleo é um verbo. Há casos em que o predicado é verbo-nominal. Isso ocorre quando o predicado é composto de um verbo significativo ou no- cional (VTD ou VI), mas há um pre- dicativo, que se refere ao sujeito ou ao objeto direto da oração. Ex.: 1. Maria (sujeito) voltou (verbo sig- nificativo – VI) cansada (predicati- vo do sujeito). 2. João (sujeito) achou (verbo signi- ficativo – VTD) a prova (OD) compli- cada (predicativo do objeto). Obs.: Esse tipo de predicado costuma ocorrer com o verbo considerar ou com os que têm significado equivalente: julgar, su- por, declarar, achar, entre outros. Importante: O predicado verbo- -nominal se compõe de dois núcleos: o próprio verbo e o predicativo. 9o. ano – Volume 216 47. Para reforçar o entendimento do predicado verbo-nominal, leia algumas frases relacionadas à primeira reportagem e faça o que se pede. I. A internet é uma fábrica de mentiras. a) Classifique o predicado da oração. Predicado nominal. b) Qual é a função sintática de “uma fábrica de mentiras”? Predicativo do sujeito. II. A reportagem aborda o tema fake news. a) Classifique o predicado da oração. Predicado verbal. b) Como se classifica o verbo dessa oração quanto à transitividade? Verbo transitivo direto. c) Qual é a função sintática de “o tema fake news”? Objeto direto. III. A reportagem considera a internet uma fábrica de mentiras. a) Considerar é ( ) verbo de ligação. ( X ) verbo significativo. b) Quanto à regência, o verbo considerar é ( ) transitivo indireto. ( X ) transitivo direto. c) Identifique o complemento de considerar. Trata-se de um objeto direto ou indireto? O complemento é “a internet”. Trata-se de um objeto direto. d) A expressão “uma fábrica de mentiras” refere-se ( ) ao sujeito. ( X ) ao complemento verbal (objeto direto). e) Como se classifica o predicado da oração III? Por quê? O predicado da oração III é verbo-nominal, pois há um verbo significativo – VTD (considera) + um objeto direto (a internet) + um predicativo do objeto (uma fábrica de mentiras). Derivação imprópria Você já sabe que o processo de derivação consiste basicamente na formação de palavras pelo acréscimo de prefixo, de sufixo ou de prefi- xo e sufixo simultaneamente. A derivação imprópria é diferente, pois não forma novas palavras, apenas muda as palavras de classe gramatical. Observe: Esta camisa é verde. O verde das florestas me encanta. adjetivo substantivo 48. Leia as orações a seguir. Explique o caso de derivação imprópria nos exemplos acima. Nesse caso, ocorreu a derivação imprópria, pois um adjetivo passou a ser utilizado como um advérbio (de intensidade). Algumas possibilidades de deriva- ção imprópria são: I. Adjetivo parasubstantivo Os bons serão recompensados. II. Advérbio para substantivo O amanhã é incerto. III. Substantivos comuns para substantivos próprios Carlos Pereira esteve presente. IV. Adjetivos para advérbios Eles falavam baixo. I. Este é um produto caro. II. No início deste ano, a desinformação lhe custou caro. Língua Portuguesa 17 49. E nos casos a seguir, como podemos explicar a derivação imprópria? a) “principalmente pelo seu grande poder de influência.” O verbo poder está sendo utilizado como substantivo. b) “ocupam 10 posições do Top 20 mais influentes entre os jovens.” O adjetivo jovens está sendo utilizado como substantivo. Fique atento! A palavra que repre- senta derivação imprópria pode ser antecedida de outros vocábu- los diferentes do artigo. Por exem- plo: Seu poder é indiscutível. / Aqueles jovens são simpáticos. 50. Marque a alternativa em que a palavra “desavisados” constitui um exemplo de derivação imprópria. X a) Os desavisados são as maiores vítimas das notícias falsas. b) Cidadãos desavisados não poderiam ser prejudicados por informações falsas. O estudo da regência verbal envolve a relação entre o verbo e seu complemento. Saiba + Regência de alguns verbos de uso fre- quente – norma-padrão Verbo Transitivo direto Transitivo indireto agradar = fazer agrado “agradar o cachorro” = ser agradável, contentar “agradar ao amigo” (complemento “pessoa”) agradecer “agradecer um favor” “agradecer ao chefe” (complemento “pessoa”) aspirar = inspirar “aspirar o perfume da manhã” = desejar “aspirar a uma vida melhor” assistir = ajudar “assistir o doente” = presenciar “assistir ao filme” obedecer – x – “obedecer aos pais” visar = mirar “visar o alvo” = pôr o visto “visar o passaporte” = pretender “visar ao sucesso” preferir Transitivo direto e indireto: “João prefere arroz a macarrão”. Regência verbal 51. Leia as frases a seguir, extraídas da primeira re- portagem lida, e numere as orações, conforme as seguintes indicações: I. O verbo não necessita de complemento. II. O verbo necessita de complemento sem preposição. III. O verbo necessita de complemento com preposição. a) ( III ) “No passado, o YouTube também teve dificuldades para lidar com o plágio. b) ( I ) “Esse tipo de pirataria incomoda [...]” c) ( II ) “O YouTube remunera o criador.” d) ( II ) “O site ganhou apreço entre os youtu- bers [...].” Como você observou, a relação entre o verbo e seu complemento pode acontecer de maneiras dife- rentes. Veja mais estes exemplos: • “A fórmula mágica [...] naturalmente não funcio- nou [verbo sem complemento – intransitivo].” • “Em 2017, o time identificou [o verbo exige complemento sem preposição – transitivo direto] 2200 invenções [complemento sem preposição].” 9o. ano – Volume 218 52. A regência verbal usada nos textos a seguir está em desacordo com a recomendada pela norma-padrão. Consulte o Saiba mais e faça as alterações necessárias para adequar os textos à norma-padrão. a) FÁBRICAS DE PANETONES INVESTEM EM NOVOS SABORES PARA AGRADAR CONSUMIDORES Disponível em: <https://noticias.r7.com/fala-brasil/videos/fabricas-de-panetones-investem-em-novos-sabores-para-agradar- consumidores-27102017>. Acesso em: 15 ago. 2018. Fábricas de panetones investem em novos sabores para agradar aos consumidores. b) JOGADORES E TREINADOR FAZEM ATO PARA AGRADECER A TORCIDA Disponível em: <https://www.acidadeon.com/ribeiraopreto/NOT,0,0,1346058,jogadores+e+treinador+fazem+ato+para+agradecer+a+tor cida.aspx>. Acesso em: 15 ago. 2018. Jogadores e treinador fazem ato para agradecer à torcida. c) Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2018/08/07/nesta-temporada-podemos-aspirar-muitas-coisas-diz- griezmann.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 15 ago. 2018. Nesta temporada podemos aspirar a muitas coisas. d) ATIVIDADE FÍSICA NO TRABALHO DEVE VISAR PROMOÇÃO DA SAÚDE “NESTA TEMPORADA PODEMOS ASPIRAR MUITAS COISAS”, DIZ GRIEZMANN Disponível em: <http://www.usp.br/agen/?p=1696>. Acesso em: 15 ago. 2018. Atividade física no trabalho deve visar à promoção da saúde. Crase Crase é a fusão de duas vogais a. Para indicar a ocorrência de crase, coloca-se um acento grave sobre o a. E quando ocorre a fusão de duas vogais a? Basicamente, quando a palavra antecedente exige o a e a palavra seguinte aceita o a. Veja este exemplo: Substituição por uma palavra masculina. Em muitos casos, para verificar se há crase, é possível substituir a palavra feminina por uma masculina. Se aparecer ao antes da palavra masculina, deve- rá ser empregado o acento grave no a. Ex.: Vou à loja. Vou ao mercado.“[...] não cicatrizou devido à glicemia sem controle.” Observe que, no exemplo anterior, houve a fusão da preposição a, exigida pela palavra “devido” (devido a), com o artigo a, aceito pela palavra “glicemia” (a glicemia). Para marcar essa fusão, utilizamos o acento grave (indicador de crase). Veja, também, estes outros casos: I. O aluno alertou a classe. II. O paciente recorreu à Justiça. 53. Explique por que, na segunda frase, há um acento grave sobre o a. Porque a preposição a, requerida pelo verbo recorrer, funde-se com o artigo a, aceito por “Justiça”. Língua Portuguesa 19 Uso obrigatório Além do caso exemplificado pela frase II (página 19), o emprego do acento grave indicador de crase é obrigatório nas seguintes situações: I. Na fusão do artigo a (as) e do a- inicial dos demonstrativos aquele, aquela, aquilo: Ex.: Referiu-se àquele site de notícias falsas. Dirigiu o olhar àquela gôndola com preços baixos. Assistir àquilo o incomodava. II. Diante da palavra casa, quando acompanhada de expressão especificativa: Ex.: Refiro-me à casa de meus pais. III. Em locuções adverbiais femininas: Ex.: às vezes, às claras, às ocultas, às escondidas, à força, à noite, à tarde, à vela. IV. Em indicação de horas: Ex.: às três da manhã, às 10 horas. Uso facultativo O emprego do acento grave indicador de crase é facultativo nas seguintes situações: I. Diante de pronome possessivo: Ex.: Dirigiu-se à/a sua classe. II. Diante de nome próprio feminino: Ex.: Todas as críticas eram feitas à/a Denise. • Note que o uso do artigo diante do pronome possessivo e do nome próprio feminino é facultativo. Há muitos casos em que não ocorre crase, sendo, portanto, inadequado o acento grave. Ob- serve-os: 1. Antes de palavra mas- culina: Andei a cavalo. 2. Antes de verbo: Começamos a assistir ao filme. 3. Antes de pronomes em geral: Já nos referimos a isso. / O assunto a que você faz referência é complexo. 4. Antes de nomes de lugares (cidades, estados, etc.) que não admitem artigo: Vou a Campinas. Obs.: Se o nome da ci- dade estiver especificado, haverá crase: Vou à Curitiba dos lindos parques. 5. Antes de palavras no plural (se a preposição estiver no singular): Referi-me a cidades do interior. 6. Antes da palavra terra, com sentido oposto a mar: Os ma- rinheiros não retornaram a terra. 7. Entre palavras repetidas.: Dia a dia, observamos seu crescimento. 8. Antes da palavra casa, sem ex- pressão especificativa: Voltaram a casa rapidamente. Obs.: Note que, depois da preposição a, está presente um a que equivale a aquela, que se trata de um pro- nome demonstrativo. Essa ocorrência se dá, em geral, antes das pa- lavras que e de, como mostram os exemplos II e III. E diante de pronomes demonstrativos: Uso com pronomes Fique atento ao uso do acento grave antes de pronomes relativos: I. A decisão à qual você se refere já foi tomada. (se refere a + a qual) II. Esta senha é igual à que você já tinha. (igual a: preposição + a: pronome demonstrativo, representado pelo a) Outro exemplo: III. Esta imagem é semelhante à de ontem. (preposição a + pronome demonstrativo a) 9o. ano – Volume 220 54. A seguir, estão reproduzidos vários trechos de uma reportagem sobre supermercados, presente na revista Superinteressante, ed. 392, ago. 2018, p. 24-27. Leia-os e, nocaderno, substitua os asteriscos por a(s) ou à(s), explicando a regra que se aplica a cada caso. a) Não faltam produtos querendo enganar você no supermercado. E o pior: quase sempre, com * permissão da lei. Conheça alguns deles e saiba quais cuidados tomar para não ser pas- sado para trás quando for * compras. Quem gosta de água de coco não precisa ir * praia. Afinal, existem diversos produtos industrializados, vendidos em caixinhas, que garantem oferecer o mesmo líquido do fruto. b) No Brasil, o risco de ser ludibriado quando se vai * compras é grande. E * enganações nem sempre estão escondidas. “É importante atentar para a ordem dos ingredientes no rótulo. O primeiro está sempre em maior quantidade”, explica Laís Amaral, nutricionista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). c) Nas próximas páginas, apontamos 20 mentiras ou meias verdades que você encontra * venda por aí. d) Há duas justificativas principais para a indústria alimentícia pulverizar sal e açúcar * rodo nos produtos. A primeira é aumentar o tempo de validade na prateleira, pois os dois ingre- dientes ajudam * conservar os alimentos. O outro motivo? Enganar o paladar. O açúcar que- bra a acidez e o amargor de alguns alimentos, enquanto o sal realça sabores. Prática de oralidade Seminário escolar O seminário escolar é um gênero composto de uma exposição oral, que é seguida pela participação do auditório (a classe). Primeiramente, um grupo apresenta sua exposição oral e, depois, o auditório faz questiona- mentos ou comentários sobre o assunto em pauta. Nossa proposta é que, em grupo, vocês apresentem um seminário sobre aspectos abordados nas reporta- gens lidas ou sobre aspectos mais gerais que envolvam a internet. Preparação 1. O primeiro passo é pensar em temas que possam ser pesquisados com profundidade por vocês. Cada grupo pode escolher um tema diferente. Não há problema se mais de um grupo escolher o mesmo tema. Alguns temas possíveis são: o uso indevido da internet, novas profissões relacionadas à internet, perigos do mundo virtual, fake news e redes sociais. A rodo (não ocorre crase pelo fato de o a estar diante de palavra masculina); a conservar (não ocorre crase pelo fato de o a estar diante de verbo). A permissão (somente artigo a); for às compras (o verbo ir exige a preposição a, e o substantivo compras aceita o artigo as); ir à praia (o verbo ir exige a preposição a, e o substantivo praia aceita o artigo a). Às compras (o verbo ir exige a preposição a, e o substantivo compras aceita o artigo as); As enganações (somente artigo a). À venda (locução adverbial feminina). Língua Portuguesa 21 Produção 4. Façam um roteiro da exposição, com base na reunião de resumos e notas produzidos após a leitura/escu- ta dos textos. Uma exposição oral se divide em abertura, desenvolvimento e retomada. O roteiro consiste em tópicos, que mostram a sequência da exposição, e palavras-chave, que relembram ao expositor o que ele deve dizer. 5. A partir do roteiro, distribuam as tarefas entre os membros do grupo – é o momento de definir quem ficará responsável por qual parte da exposição. 6. Na abertura, informem ao público o assunto da exposição, por que ele é importante e o modo como será desenvolvido. 7. O desenvolvimento geralmente é feito com o apoio de recursos visuais, como slides. a) Não coloquem nas telas tudo o que será falado. A leitura é mais rápida do que a fala. Então, se fizerem isso, o auditório lerá o texto da tela rapidamente e perderá o interesse pela fala de vocês. b) Insiram, em cada tela, tópicos e uma palavra-chave, para se lembrarem do que devem dizer durante a exposição. Complementem a tela com uma imagem, que pode ser uma foto, um desenho, um mapa ou um gráfico. Evitem telas “poluídas”, isto é, cheias de texto e imagens. 8. A exposição oral se encerra com uma retomada do assunto abordado, recapitulando rapidamente os pontos principais. Após essa retomada, agradeçam a todos pela atenção e passem a palavra ao auditório, para que os ouvintes possam fazer comentários ou apresentar dúvidas sobre o assunto. Vocês precisam estar preparados para responder a todas elas. 9. Façam alguns ensaios da exposição, observando os seguintes aspectos: a) A exposição não deve ultrapassar o tempo estipulado pelo professor. Portanto, se os ensaios durarem mais do que o tempo previsto, será necessário fazer cortes. b) Estabeleçam uma sincronia entre a fala e as telas projetadas. Decidam quem vai projetar as telas enquan- to um membro do grupo estiver falando. O expositor deve fazer referência às imagens com frases como: “Vocês podem ver na imagem um exemplo desse processo” e “Esta foto mostra que...”. c) Ensaiem a passagem da palavra entre os membros do grupo. Para isso, utilizem construções como: “Na sequência, a Marta vai falar sobre...”, “Mas isso nós vamos conhecer com o João” e “Quem vai explicar isso é o Carlos”. 10. No dia estipulado, façam a apresentação, colocando em prática tudo o que foi preparado. Pronunciem, com boa articulação, as palavras e falem em voz alta para que toda a classe possa ouvi-los. Não fiquem de costas para os colegas quando se referirem às telas projetadas; no máximo, fiquem de lado. Se forem consultar o roteiro, não tapem o rosto com a folha de papel; mantenham-na a uma boa distância dos olhos e consultem-na rapidamente, apenas para se lembrarem do que devem dizer. Apresentação 2. É fundamental que vocês entendam com profundidade o assunto. Para tanto, busquem informações em fontes diversas, como vídeos, notícias e reportagens. A leitura/escuta do conteúdo dessas fontes poderá lhes garantir domínio do tema escolhido. Dessa forma, vocês estarão preparados para responder às dúvi- das da classe depois da exposição. 3. Tomem nota do que ouvirem e elaborem um texto sintetizando as principais informações. Assim, a base da exposição oral estará pronta. d) Ensaiem também a postura corporal. Evitem mascar chicletes durante a ex- posição. Não fiquem encostados na parede. Não façam movimentos repeti- dos e não balancem as pernas. Por fim, caprichem na aparência, escolhendo bem a roupa que vão usar e o penteado. 9o. ano – Volume 222 Avaliação 12. Avalie sua participação nesta atividade preenchendo o quadro a seguir. Sim Em parte Não 1. Li/ouvi vários textos sobre o assunto selecionado? 2. Participei ativamente da escrita dos resumos e da elaboração das notas? 3. Mostrei empenho nos ensaios? 4. Mantive o foco durante a apresentação? Segui à risca o roteiro combinado com os colegas do grupo? 5. Meu desempenho foi satisfatório nos quesitos postura corporal, tom de voz e pronúncia? Prática de escrita Resumo Nesta seção, você vai estudar e produzir resumos. Mas, antes de mais nada, reflita sobre esta pergunta: Para que resumir? Há duas respostas possíveis. Primeiramente, podemos observar que o resumo aparece como componente de outros gêneros, como a resenha crítica. O resenhista costuma fazer um resumo dos eventos de uma nar- rativa (filme, romance, conto, etc.) no início do texto. Em seguida, desenvolve sua argumentação e, geralmente no final, emite sua opinião sobre a obra resenhada. No entanto, as obras ficcionais não são os únicos objetos de resenhas críticas. Livros teóricos sobre os mais diversos temas também são resenhados. Nesse caso, o resenhista apresenta um resumo das ideias da obra ou dos processos explicados nela. O resumo como componente de outros gêneros aparece também nas notícias e nas reportagens. Em segundo lugar, há o resumo escolar, que é um texto independente, geralmente solicitado pelo professor para verificar se os alunos leram um texto ou um livro que ele indicou. O mais comum é a solicitação de resumos de textos informativos. Dada sua importância no contexto escolar, é esse tipo de resumo que abordaremos a seguir. Leia esta reportagem de divulgação científica sobre um tipo de hambúrguer diferente. 11. Respondam às dúvidas da classe com tranquilidade e segurança. 9 Ohambúrguer impossível Um grupo de cientistas recebeu US$ 250 milhões do Google e de Bill Gates para perseguir uma meta improvável: criar um hambúrguer feito de plantas que seja realmente idêntico à carne. Ele foi batizado de “Impossible Burguer” – e nós experimentamos. O cardápio não tem nada de anormal. A lan- chonete, que se chama Bareburger e fica na rua 14, em Nova York, também não. O garçom logo aparece e, sem muita paciência, pergunta qual é o pedido. Escolhemos o penúltimo item do menu, escondido em meio às quase 20 opções de sanduí- che oferecidas pela casa (tem até carne de bisão). É o “Impossible Burguer: hambúrger, queijo, ce- bola caramelizada, alface, mostarda e ketchup no pão integral. US$ 13,95”. O garçom não pergunta Língua Portuguesa 23 se queremos o hambúrguer ao ponto ou malpas- sado, porque ele não tem ponto – nem carne. O Impossible poderia ser apenas mais uma das op- ções vegetarianas que têm proliferado nas lancho- netes; mas, como seu nome sugere, é diferente. O produto que vamos provar daqui a pouco é a combinação de nove anos de pesquisas, US$ 250 milhões (vindos de Bill Gates e do Google, entre outros investidores), engenharia genética e um ingrediente revolucionário e polêmico. Tudo para tentar criar uma carne “de mentira” idêntica à bo- vina. Quem conseguir fazer isso para valer, afi- nal, poupará animais, ficará milionário e salvará o planeta – pois hoje existem 1,5 bilhão de bois e vacas, cuja criação emite tanto CO2 quanto todos os carros do mundo. Não dá muito tempo de refletir sobre isso e o Impossible logo chega à mesa, perfurado por um pequeno espeto. Ele é largo (tem o diâmetro dos sanduíches do Burger King), mas o ham- búrguer em si é um pouco mais alto, como nas lanchonetes gourmet. A primeira mordida não deixa dúvida: ele é gostoso. Bem gostoso. É tos- tado por fora, rosado por dentro, e realmente tem gosto de carne. Mas não exatamente carne de hambúrguer: ela lembra mais a carne moí- da das almôndegas e dos bolinhos, inclusive na textura. O Impossible é mais mole do que um hambúrguer real (até um pouco mole demais, quase pastoso), e também fica devendo o sabor defumado característico. Mas, ao contrário dos burgers vegetarianos comuns, feitos de grão de bico, feijão, soja ou lentilha, ele realmente pare- ce carne bovina. Daria tranquilamente para se acostumar – e, quem sabe, passar a comer só esse tipo de “car- ne”. Esse é o sonho do geneticista Pat Brown, professor da Universidade Stanford. Ele ficou famoso na década de 1990, quando inventou o microarray: uma ferramenta que facilita a análise do DNA e hoje é usada em grande parte dos estu- dos sobre genética. Brown tirou um ano sabático, e logo descobriu o que queria fazer: diminuir o consumo de carne no mundo (ele é vegetariano desde a década de 1970). Começou organizando um congresso acadêmico para tentar conscien- tizar a sociedade, mas ninguém deu a mínima. Então Brown percebeu que seria mais inteligente colocar a mão na massa – e inventar um novo tipo de carne artificial, que fosse idêntica à de boi e que as pessoas quisessem comer. “É mais fácil mudar o comportamento do que a cabeça das pessoas”, declarou à revista Pacific Standard. Ele levantou dinheiro, contratou 25 funcio- nários e começou a analisar todos os aspectos da carne bovina: as proteínas responsáveis pela textura, os 150 compostos voláteis que produ- zem seu cheiro e gosto, as transformações que a carne sofre quando é aquecida etc. Começou a tentar reproduzir tudo aquilo com uma mistu- ra de trigo e massa de batata (os dois principais componentes do Impossible Burger), óleo de coco (que fornece os 13 g de gordura do produ- to, mesmo teor de um hambúrguer comum) e um pouco de goma xantana: uma massa gruden- ta, de milho fermentado, que está presente em muitos alimentos industrializados e serve para “dar liga”. Mas aquilo não parecia um hambúrguer de verdade. Faltava alguma coisa. E o segredo es- tava justamente no elemento mais simbólico da carne, que mais incomoda os vegetarianos e ilustra o sacrifício de animais abatidos: o sangue. Fungo transgênico O sangue é vermelho por causa da hemoglobi- na, a proteína que serve para transportar oxigênio pelo corpo. E a hemoglobina tem esse nome, e essa cor, porque contém moléculas chamadas he- mes. Eles são verdadeiros ônibus biológicos, que carregam mais de 100 átomos de carbono, hidro- gênio, oxigênio, nitrogênio e ferro. Sem os hemes, a vida como a conhecemos não existiria – além de transportar oxigênio no sangue dos animais, eles também ajudam as plantas a extrair o nitrogênio, um nutriente essencial, do solo. E, como Brown e seus colegas acabaram percebendo, os hemes – e, portanto, o sangue – são o que dá à carne seu sa- bor característico. Você já deve ter percebido isso, instintivamente, ao morder um pedaço de chur- rasco: é o sangue que deixa a carne rosada e macia. Para reproduzir a carne de verdade, os cientistas teriam de reproduzir o sangue também. Começaram tentando extrair o heme de uma planta: a soja, cujas raízes contêm pequena quantidade dessa molécula. Mas, para conseguir heme na quantidade necessária, eles teriam de criar enormes lavouras de soja, causando pro- blemas ambientais. “Não seria organicamente 9o. ano – Volume 224 viável, nem responsável”, diz o engenheiro Nick Halla, diretor da Impossible Foods, que é a em- presa criada para produzir o burger (e recebeu os US$ 250 milhões de Gates e do Google). Então os cientistas apelaram para a engenha- ria genética. Pegaram um fungo chamado Pichia pastoris e inseriram nele um gene tirado da soja: o mesmo que, na planta, regula a produção de heme. Deu certo. O fungo começou a crescer e produzir fartas quantidades dessa molécula, que é extraída e usada nos hambúrgueres. Em setem- bro do ano passado, a empresa inaugurou sua primeira fábrica, que fica na Califórnia e culti- va o fungo em tanques de fermentação. Ela já fornece seu produto para 800 lanchonetes dos EUA, e sua meta para 2018 é chegar a 5 milhões de hambúrgueres vendidos por mês (a empre- sa também está desenvolvendo versões vegetais da carne de porco, frango e peixe). Segundo os criadores do Impossible Burger, sua produção usa três vezes menos água e emite 80% menos CO2 do que a carne comum, ocupando uma área 20 vezes menor. A empresa diz que sua molécula de heme é idêntica à natural. Mas, como os alimentos transgênicos sempre encontram resistência en- tre os consumidores, ela pediu a aprovação da Food & Drug Administration (FDA), que regula os alimentos e medicamentos nos EUA. Foi um ato voluntário: por uma tecnicalidade da lei, o Impossible Burguer não precisa de autorização da FDA. De início, a agência não quis endossar o produto, alegando que o consumo do heme transgênico não havia sido testado em animais. O caso levantou certa polêmica, e então a empre- sa fez um estudo com ratos de laboratório, que foram alimentados com doses altíssimas dessa molécula (o equivalente a um ser humano comer 5 kg de Impossible Burgers por dia) e não apre- sentaram qualquer anormalidade. A FDA apro- vou o Impossible Burguer – mas aí foi a vez de a ONG internacional Peta (People for Ethical Treat- ment of Animals) começar uma campanha contra a empresa, a quem acusa de crueldade. Ela diz que, como o Impossible foi testado em animais, não pode ser considerado um produto vegano. Seja como for, ele pode ser a chave para con- vencer a maioria da população, que não é vega- na, a comer menos carne – de forma bem mais convincente do que qualquer apelo, protesto ou receita caseira. O segredo é conquistar as pes- soas pelo estômago. E, para fazer isso, o melhor ingrediente é o mesmo de todas as grandes in- venções humanas: a ciência. GARATTONI, Bruno; PESSOA, Flavio; DIDINI, Fernanda. O hambúrguer impossível. Superinteressante, São Paulo, p. 39-41, maio 2018. 1. O tema do texto é a) a visita do repórter a uma lanchonete para provar o Impossible Burguer e relatarsuas impressões sobre esse hambúrguer. X b) o processo científico que resultou na criação de um hambúrguer vegetariano idêntico ao de carne. 2. Registre, nas linhas a seguir, o nome dos autores da reportagem e o veículo onde o texto foi publicado. Autores: Bruno Garattoni, Flavio Pessoa e Fernanda Didini. O texto foi publicado na revista Superinteressante, na edição de maio de 2018. 3. Resumir consiste em eliminar as informações secundárias de um texto e manter apenas as essenciais. Sabendo disso, resuma os dois primeiros parágrafos do texto. Mantenha somente as informações que apresentam relação direta com o tema abordado. Sugestão: O Impossible Burger é resultado de nove anos de pesquisas, investimentos de US$ 250 milhões e um ingrediente revolucionário e polêmico. Os repórteres provaram o Impossible Burger em uma lanchonete e afirmaram que o hambúrguer realmente tem gosto de carne. Língua Portuguesa 25 O produto que vamos provar daqui a pouco é a combinação de nove anos de pesquisas, US$ 250 mi- lhões (vindos de Bill Gates e do Google, entre outros investidores), engenharia genética e um ingrediente revolucionário e polêmico. Tudo para tentar criar uma carne “de mentira” idêntica à bovina. Quem conse- guir fazer isso para valer, afinal, poupará animais, ficará milionário e salvará o planeta – pois hoje existem 1,5 bilhão de bois e vacas, cuja criação emite tanto CO2 quanto todos os carros do mundo. 4. Assinale a alternativa que apresenta o melhor resumo desse trecho. a) Além de evitar a morte de muitos animais, quem conseguir criar o hambúrguer vegetariano enriquecerá e contribuirá para melhorar o meio ambiente, pois a pecuária bovina emite a mes- ma quantidade de CO2 que toda a frota de veículos do mundo. X b) Os autores da reportagem afirmam que, além de evitar a morte de muitos animais, quem conseguir criar o hambúrguer vegeta- riano enriquecerá e contribuirá para melhorar o meio ambiente, pois a pecuária bovina emite a mesma quantidade de CO2 que toda a frota de veículos do mundo. c) Os autores da reportagem supõem que, além de evitar a morte de muitos animais, quem conseguir criar o hambúrguer vegeta- riano contribuirá para melhorar o meio ambiente, pois a pecuá- ria bovina emite grande quantidade de CO2. Tipos de apagamento Ao resumir um texto, recomenda-se o apagamento de: Um bom resumo é construído, o máximo possível, com nossas palavras. É importante, também, fazer constantemente referência ao autor do texto, denominando-o de diversas maneiras: o autor, o espe- cialista, etc. Resumo e a atribuição de verbos Releia este trecho da reportagem: 1. circunstâncias em geral (lugar, tempo, modo, etc.); 2. detalhes descritivos; 3. exemplos; 4. sinônimos ou explicações. O mais importante, porém, é ter sempre em mente o tema do texto. É o tema que determi- nará o que pode e o que não pode ser apagado. © Sh ut te rs to ck /L or el yn M ed in a 9o. ano – Volume 226 5. O quadro a seguir contém, na coluna da esquerda, trechos retirados da reportagem e, na coluna da direi- ta, resumos desses trechos. Substitua o asterisco dos resumos por um dos verbos entre parênteses. Trechos da reportagem Resumos Em 2009, Brown tirou um ano sabático, e logo descobriu o que queria fazer: diminuir o consumo de carne no mundo (ele é vegetariano desde a década de 1970). Começou organizando um congresso acadêmico para tentar conscientizar a sociedade, mas ninguém deu a mínima. Os autores da reportagem * que Brown organizou um congresso acadêmico para convencer a sociedade a se tornar vegetariana, mas não obteve sucesso. (duvidam, informam) informam Então Brown percebeu que seria mais inteligente colocar a mão na massa – e inventar um novo tipo de carne artificial, que fosse idêntica à de boi e que as pessoas quisessem comer. “É mais fácil mudar o comportamento do que a cabeça das pessoas”, declarou à revista Pacific Standard. Os autores da reportagem * que Brown resolveu, então, criar um tipo de carne artificial que despertasse o apetite das pessoas. (alegam, relatam) relatam Ele levantou dinheiro, contratou 25 funcionários e começou a analisar todos os aspectos da carne bovina: as proteínas responsáveis pela textura, os 150 compostos voláteis que produzem seu cheiro e gosto, as transformações que a carne sofre quando é aquecida etc. Prosseguindo, os autores da reportagem * os passos seguintes de Brown: obtenção de recursos, contratação de funcionários e análise de todos os componentes da carne bovina. (enumeram, definem) enumeram Começou a tentar reproduzir tudo aquilo com uma mistura de trigo e massa de batata (os dois principais componentes do Impossible Burger), óleo de coco (que fornece os 13 g de gordura do produto, mesmo teor de um hambúrguer comum) e um pouco de goma xantana: uma massa grudenta, de milho fermentado, que está presente em muitos alimentos industrializados e serve para “dar liga”. Os autores da reportagem * que Brown tentou reproduzir a carne bovina misturando trigo, massa de batata, óleo de coco e goma xantana. (acrescentam, discriminam) acrescentam Mas aquilo não parecia um hambúrguer de verdade. Faltava alguma coisa. E o segredo estava justamente no elemento mais simbólico da carne, que mais incomoda os vegetarianos e ilustra o sacrifício de animais abatidos: o sangue. Os autores da reportagem * que o componente que faltava era o sangue. (abordam, enfatizam) enfatizam Saiba + Organizadores textuais Entre os vários tipos de organizadores textuais estão as palavras ou as expres- sões que indicam a sequência em que os fatos de um processo ocorrem. No resu- mo, esses organizadores textuais são uti- lizados para assinalar momentos do texto resumido: Os autores da reportagem iniciam o rela- to sobre o hambúrguer vegetariano contando por que o geneticista Pat Brown teve a ideia de criar esse produto. Em seguida, narram as tentativas fracassadas e concluem citando a estratégia que deu certo: produzir a molé- cula heme por meio da engenharia genética. 6. Releia este trecho da reportagem e sublinhe as palavras que indicam o início e a etapa seguinte do processo: Para reproduzir a carne de verdade, os cien- tistas teriam de reproduzir o sangue também. Começaram tentando extrair o heme de uma planta: a soja, cujas raízes contêm pe- quena quantidade dessa molécula. Mas, para conseguir heme na quantidade necessária, eles teriam de criar enormes lavouras de soja, causando problemas ambientais. “Não seria organicamente viável, nem responsável”, diz o engenheiro Nick Halla, diretor da Impossible Foods, que é a empresa criada para produzir o burger (e recebeu os US$ 250 milhões de Gates e do Google). Então os cientistas apelaram para a enge- nharia genética. Língua Portuguesa 27 Sim Em parte Não 1. O resumo informa a fonte do texto (título, autor e veículo)? 2. As informações secundárias foram eliminadas, restando somente as informações essenciais? 3. Foram utilizadas construções próprias? 4. Foram atribuídos verbos adequados ao autor da reportagem? 5. Os organizadores textuais deixam clara a sequência dos acontecimentos? 15. Passe seu resumo a limpo e entregue-o ao professor. Agora que você já conhece os procedimentos para fazer um resumo, propomos que elabore um resumo da reportagem Eles não curtem o Facebook. Preparação 7. Releia a reportagem inteira. 8. Recapitule os procedimentos estudados na seção Prática de escrita. 9. No primeiro parágrafo, informe o título e o autor do texto e o veículo em que foi publicado. 10. Faça os apagamentos necessários para que seu resumo contenha somente as informações essenciais. 11. Redija o resumo das informações essenciais. 12. Atribua verbos adequados ao autor da reportagem (argumenta, expõe, registra, defende, etc.). 13. Indique a sequência dos fatos por meio dos organizadores textuais. 14. Avalie seu resumo preenchendo o quadro abaixo. Produção Avaliação Organize as ideias Projeto de escrita1. Conforme as regras mencionadas no quadro a seguir, classifique o uso da crase como obrigatório ou facultativo. Regras Crase obrigatória Crase facultativa A palavra antecedente exige o a e a palavra seguinte aceita o a. X Diante de pronome possessivo. X Diante de nome próprio feminino. X Fusão da preposição a e do a- inicial dos demonstrativos aquele, aquela, aquilo. X Diante da palavra casa, quando acompanhada de expressão especificativa. X Em locuções adverbiais femininas. X 9o. ano – Volume 228 Hora de estudo 29 2. Assinale a frase em que há predicado verbo-nominal. a) O professor leu o trabalho atentamente. X b) O professor considerou o trabalho excelente. c) O professor considera adiar a data de entrega dos trabalhos. 3. Escreva uma frase usando o verbo agradecer como transitivo indireto. Pessoal. Sugestão: Os jogadores agradeceram à torcida. 4. Explique o caso de derivação imprópria em “Os fortes vencerão o desafio”. “Fortes”, que pertence à classe dos adjetivos, está sendo utilizado como substantivo. Café verde instantâneo acelera metabolismo em 3 x: faz emagrecer O café verde pode não ser tão gostoso quanto o café feito com os grãos torrados e moídos, mas faz o metabolismo trabalhar triplicado. É o que mostra um artigo do nutricionista Rick Hay, baseado em um estudo feito na Noruega. Ele mostra evidências de que o segredo da redução de peso está nos compostos da bebida, que combatem a gordura. O estudo norueguês, publicado há mais de uma década no The Journal of International Medical Research, investigou os benefícios do extrato de grãos de café verde e descobriu que a versão instantânea da bebida fez pacientes perderem três vezes mais peso do que um café instantâneo comum. Motivo Hay explica que “O extrato de grãos de café verde é um estimulante natural que é uma versão menos processada do café e contém menos cafeína que o café comum”. Ele acrescentou que os grãos de café são “carregados” com antioxidantes e ácido clorogênico. Acredita-se que o ácido clorogênico seja o principal ingrediente dos grãos de café verde, que produz efeitos de perda de peso, garantiu Hay. O estudo Trinta indivíduos com excesso de peso foram acompanhados durante 12 semanas e 3 meses para o ensaio, publicado no The Journal of International Medical Research. Metade consumia café regular, o resto, um café instantâneo enriquecido com 200 mg de extrato de grão de café verde. Ambos os grupos foram instruídos a não mudar sua dieta ou hábitos de exercício pela equipe do ETC Research and Development de Oslo, na Noruega. O estudo descobriu que o grupo que tomou o café instantâneo com extrato de grão de café verde perdeu 5,4 kg, em média. CAFÉ verde instantâneo acelera metabolismo em 3 x: faz emagrecer. Disponível em: <http://www.sonoticiaboa.com.br/2018/08/21/cafe-verde- instantaneo-acelera-metabolismo-em-3-x-faz-emagrecer/>. Acesso em: 22 out. 2018. 1. Lendo apenas o título, você acha que essa notícia pode ser útil a pessoas que desejam emagrecer? Você a compartilharia com essas pessoas sem ler o texto inteiro? Pessoal. Espera-se que os alunos respondam, com base nas atividades do Painel de leitura, que nenhum texto deve ser compartilhado apenas por causa de seu título. É preciso lê-lo integralmente para se certificar de que pode realmente ser útil às pessoas que desejam emagrecer. E essas pessoas devem submeter o texto a seu médico ou nutricionista antes de inserir o café verde em sua dieta. 2. O texto menciona um artigo científico. Quem é o autor desse artigo? Quando e onde ele foi publicado? O autor é o nutricionista Rick Hay, e o artigo foi publicado há mais de uma década no The Journal of International Medical Research. 3. Por que esse estudo se tornou tema de uma notícia veiculada em 2018? Pessoal. Sugestão: Pela necessidade que os sites noticiosos têm de oferecer diariamente notícias “novas” a seus leitores, mesmo que requentadas. 4. O texto informa que o artigo foi baseado em um estudo. a) Descreva esse estudo. Trinta indivíduos com excesso de peso foram acompanhados durante 12 semanas e 3 meses. Metade consumia café regular, e o restante, um café instantâneo enriquecido com 200 mg de extrato de grão de café verde. b) Qual foi a conclusão do estudo? O estudo concluiu que o grupo que tomou o café instantâneo com extrato de grão de café verde perdeu 5,4 kg, em média, ou seja, três vezes mais do que o grupo que consumiu café instantâneo simples, que perdeu, em média, 1,7 kg. c) A notícia não informa se o grupo estudado fazia dieta, mas o leitor pode inferir que sim. Por quê? O grupo estudado era composto de 30 pessoas com excesso de peso, as quais, ao final do período, haviam perdido peso. Infere-se, portanto, que elas faziam alguma dieta para emagrecer. d) Compare o título da notícia com o que você descobriu nas questões anteriores. O título corresponde ao conteúdo do texto? Justifique sua resposta. Não, pois o título dá a entender que o café verde, tomado isoladamente, é que faz emagrecer. Porém, infere-se do texto que essa bebida não foi um fator isolado, já que os participantes do estudo faziam dieta. A análise dessa notícia evidencia que não somente as notícias falsas podem induzir a comportamentos equivocados. Uma notícia verdadei- ra, quando mal-escrita e servindo a propósitos escusos (oferecer uma notícia requentada como se fosse atual), também pode causar danos. 11 Isso foi três vezes mais do que o grupo que consumiu café instantâneo simples, que perdeu, em média, 1,7 kg. Além de ajudar na perda de peso, Hay disse que o extrato de café verde pode ajudar na produção de energia e na circulação sanguínea. Hay, que é diretor nutricional da Healthista, que é um canal de saúde, também acrescentou que a bebida pode impulsionar o sistema imunológico, porque está repleta de polifenóis antioxidantes. A dosagem recomendada é entre 200-400 mg de pó de café verde diariamente devido ao seu teor de cafeína. O café verde instantâneo pode ser encontrado em casas de produtos naturais. [...] 30 31 5 Artigo de opinião 1. Como você faz para expressar sua opinião sem ser mal-educado com as pessoas que têm pontos de vista contrários aos seus? 2. Entre os tipos de argumentos já estudados (raciocínio lógico, argumento de autoridade, argumento baseado em provas concretas), quais você considera mais eficientes para convencer alguém? 3. Se uma pessoa xinga alguém, é porque ela não tem argumentos? 1 © Sh ut te rs to ck /G ra ph ic fa rm • Analisar o fenômeno da disseminação do discurso de ódio nas redes sociais. • Dominar os principais casos de regência no- minal. • Identificar o complemento nominal e com- preender sua função. • Identificar a oração subordinada substan- tiva completiva nominal, nas formas de- senvolvida e reduzida, e compreender sua função. • Produzir um artigo de opinião. • Realizar uma entrevista. Objetivos Artigo de opinião O discurso de ódio se manifesta por meio do xingamento, que nada tem a ver com a crítica. Entenda a dife- rença entre xingamento e crítica lendo o artigo a seguir. Painel de leitura 2 Teoria geral do xingamento Marcia Tiburi 17 de maio de 2018 Talvez seja necessário fundar uma nova ciência para dar conta de um fenômeno que tem se tornado crucial em nossa cultura co- municacional na era das tecnologias digitais e das redes sociais. O objeto dessa ciência seria o fenômeno do xingamento: a conspur- cação do outro em forma verbal, que surge em profusão nas redes, por meio de palavras, emoticons e outros sinais gráficos. Nossa nova ciência, na base de uma antropologia e uma socio- logia, deve habitar o intervalo entre o mundo da pesquisa e o mun- do da vida simples. Geografia e estatística nos revelariam o estado da linguagem de ódio que sustenta o ato generalizado de xingar. A antropologia digital e a psicanálise poderiam auxiliar com a análise da cultura atual que surge na internet, mas também com a compreensão do tipo subjetivo do xingador. O xingamentogeneralizado merecia uma historiografia e uma semiologia. E até uma teoria estética. E se o ataque verbal a al- guém – esse ato que sempre teve todo tipo de função, da catarse ao escracho, do vilipêndio à humilhação, da vontade de destruir ao ato de dominar – é um fenômeno do poder, seria necessária também uma teoria política. O ato de xingar até hoje é um ato po- lítico, por trás do qual se esconde todo tipo de moralismo. Então, precisaríamos de uma ética. conspurcação: poluição, sujeira, mancha. psicanálise: método de terapia psicológica que consiste na interpretação do significado inconsciente de palavras, atos e sonhos. historiografia: levantamento de todos os estudos teóricos que foram produzidos sobre determinado assunto. semiologia: ciência para a qual tudo é signo – ritos, costumes, sistemas de parentesco, mitos, etc. estética: parte da filosofia dedicada ao estudo da beleza e das artes em geral. catarse: no teatro, purificação do espírito do espectador pela descarga de paixões durante o espetáculo. escracho: esculhambação. vilipêndio: ato de rebaixar, desvalorizar alguém. ética: parte da filosofia que estuda as motivações do comportamento humano. © Fo to ar en a/ Cr ist ia ne M ot a Marcia Tiburi é filósofa, artista plástica, escritora e professora uni- versitária. Participa de programas de televisão com frequência e tem bastante projeção na mídia em geral. Como filósofa, concentra-se no estudo de temas da cultura con- temporânea. 3 9o. ano – Volume 232 Toda ciência tem um drama humano em seu fundo. Mais do que uma curiosidade, a ciência visa resolver algum problema. Estuda-se astronomia e cosmologia para entender os fenômenos cósmicos, a geologia visa entender os fenômenos físicos e químicos do planeta, a sociologia quer tornar compreensível o modo de ser das sociedades, enquanto a história é a ciência que estuda o que já passou. A questão antropológica fundamental diz respeito ao “ser humano”. Como vive, como age, como habita, como sente, como trabalha, como produz, como se organiza e se movi- menta, como cria arte, religião ou qualquer forma de linguagem, como se expressa e se comunica. Por mais que as questões tratadas pelas ciências humanas sejam de altíssimo nível de complexi- dade, há nas mais variadas investigações científicas um problema comum que pode se apresentar como uma questão popular. Podemos, por isso, tentar responder de modo direto à interpelação: “diz-me como xingas e dir-te-ei quem és”. Fato é que o xingamento fala mais de quem xinga do que de quem é xingado. Por mais violento que seja, todo xingamento esconde um desejo. Por trás da violência, está uma impotência específi- ca que visa ser sanada na ação. Quem não consegue falar quase sempre começa a xingar. No gesto violento, surge uma palavra mágica que concentra e resume o ódio. Ela dá um poder ao xingador. Ele se sente superior por um instante fugaz. Mas há algo ainda mais profundo. Todo ato de fala visa tocar ou atingir o outro. Seja por que caminho for, aquele que fala deseja estar perto, deseja tocar. Por meio do xingamento, o agente visa machucar. Mas, por outro lado, deseja também ser reconhecido pelo objeto do xingamento. Só xingamos aqueles por quem nos sentimos de algum modo atraídos. Nesse sentido, o xingamen- to é bem diferente da crítica. Enquanto a crítica visa desconstruir ou desmontar seu objeto para mostrar sua verdade, por meio do xingamento se visa alcançá-lo. Não podemos falar só de pobreza da linguagem quando falamos de xingamento, porque há muitos casos de real esforço retórico, dispêndio de tempo e muito trabalho envolvido, muitas ve- zes profissional, publicitário e bem remunerado, criando espaço para uma verdadeira indústria e um mercado do xingamento. Reduzindo a linguagem à miséria, o xingamento faz parte do todo do discurso de ódio [...], que se tornou hoje em dia um grande capital no tempo em que o ato tosco, o sádico e o cruel valem mais do que qualquer coisa que possa ter relação com a verdade. Xingar é, portanto, um ato expressivo pelo qual alguém comunica a outrem seu ódio, mesmo que seja sob a máscara de expor uma insatisfação. Precisamos de uma teoria geral do xingamento que nos ajude a entender o xingador e o xin- gado para os quais o xingamento é a mediação. Quanto ao xingado, podemos dizer muito pouco, pois, como sujeito passivo do xingador, ele é a vítima e, como tal, mereceria, em princípio, apenas defesa. No entanto, mesmo que se trate de um crime quando falamos de xingar na forma de in- júria, calúnia ou difamação, é um fato que, no contexto no qual está em vigência uma verdadeira “cultura do xingamento”, as vítimas serão tratadas como culpadas. É um fenômeno curioso de uma cultura de privilégios em que o capital linguístico encontra sua formulação mais desesperada. A cultura do xingamento é herdeira dos piores hábitos culturais que podemos imaginar. Em sua base, a impotência para o reconhecimento dos outros e uma vontade de fazer justiça com as palavras reduzidas a matéria não reciclável. retórico: conjunto de regras sobre como causar o efeito desejado sobre os ouvintes. TIBURI, Marcia. Teoria geral do xingamento. Cult, 17 maio 2018. Disponível em: <https://revistacult.uol.com.br/home/teoria-geral-do-xingamento/>. Acesso em: 28 ago. 2018. Língua Portuguesa 33 6. Assinale as alternativas que apresentam teses defendidas pela autora. a) O xingamento pode ter uma relação com a verdade. X b) O xingador se sente superior ao proferir a palavra que resume seu 1. Qual é o tema do artigo? A criação de uma nova ciência para estudar o fenômeno do xingamento. 2. A autora inicia o texto com a expressão “Talvez seja”. A respeito dela, responda: a) O advérbio “talvez” está acompanhado pela forma verbal “seja”. Em que tempo e modo verbal ela se encontra? ( ) Presente do indicativo. ( ) Futuro do subjuntivo. ( X ) Presente do subjuntivo. b) O uso desse advérbio e desse tempo e modo verbal nos leva a concluir que a nova ciência proposta pela autora é ( ) uma certeza. ( X ) uma hipótese. 3. A nova ciência teria a missão de responder a qual pergunta? “Diz-me como xingas e dir-te-ei quem és.” 4. Por que essa seria a pergunta básica a ser respondida pela nova ciência? Porque, segundo a autora, o xingamento fala mais de quem xinga do que de quem é xingado. 5. O texto distingue xingamento de crítica quanto a seus objetivos. Preencha o quadro abaixo para eviden- ciar as diferenças entre essas duas ações. Xingamento Crítica Machucar a pessoa xingada. Ser reconhecido pela pessoa xingada. Desconstruir ou desmontar seu objeto para mostrar sua verdade. Tese é o mesmo que ponto de vis- ta ou opinião sobre um assunto. 4 ódio. c) O xingador sempre usa uma retórica elaborada. X d) O xingador xinga porque não consegue falar. e) O xingado também tem culpa. X f) Uma teoria geral do xingamento ajudaria a entender o xingador e o xingado. 7. Os hiperlinks do artigo levam a outros artigos de opinião da mesma autora. Observe: Hiperlink Artigo conspurcação do outro em forma verbal, que surge em profusão nas redes Fetiche digital: sobre a função psicopolítica do “fascínio” estado da linguagem de ódio que sustenta o ato ge- neralizado de xingar Sobre a lógica do discurso de ódio, os robôs e o roubo fenômeno do poder Linguagem é poder: sobre jogos sujos e democracia ética O apagamento da ética em tempos de guerra contra a corrupção concentra e resume o ódio Que projeto de poder está por trás do ódio dominante? o xingamento faz parte do todo do discurso de ódio Ódio como estratégia na era do terrorismo imbecilizatório cultura do xingamento Sobre o ódio, o amor e o problemático mundo dos afetos 9o. ano – Volume 234 Como podemos observar, ao longo do artigo, a autora refere-se a seus próprios textos. De que forma essa estratégia contribui para a construção de sentidos do artigo? Justifique sua resposta. Pessoal. Espera-se que os alunos percebam que, ao citar outros textos de sua autoria, MarciaTiburi convida o leitor para a ampliação do assunto discutido, por meio de outras reflexões que fez. 8. Segundo a hipótese explicitada no primeiro parágrafo, para estudar o fenômeno do xingamento, “talvez seja necessário fundar uma nova ciência”. a) Essa nova ciência receberia a contribuição de vários ramos do saber. Quais são eles? Geografia, estatística, antropologia, sociologia, psicanálise, historiografia, semiologia, ética, estética e retórica. b) O fato de a nova ciência receber a contribuição de vários ramos do saber tem, no artigo, a função de mostrar ao leitor que o fenômeno do xingamento é ( ) simples. ( X ) complexo. 9. Transcreva um trecho do texto de Marcia Tiburi que tenha lhe chamado a atenção. Em seguida, explique o porquê de sua escolha. 5 10. Releia os quatro primeiros parágrafos do artigo de Marcia Tiburi e responda às questões. a) De que forma é estabelecida a ligação entre o primeiro e o segundo parágrafos? Por meio do sintagma “Nossa nova ciência”, que retoma a “nova ciência”, citada no primeiro parágrafo. b) Como ocorre a progressão do texto ao passar do segundo parágrafo para os dois parágrafos seguin- tes? Há algum conector ligando o terceiro e o quarto parágrafos ao segundo? Não há conector explícito ligando o terceiro e o quarto parágrafos ao segundo. A progressão ocorre porque o terceiro e o quarto parágrafos mencionam mais áreas do saber que contribuiriam para “nossa nova ciência”, citada no segundo parágrafo. 6 Língua Portuguesa 35 11. Este texto foi escrito por um autor da área de Direito. Leia-o e responda às perguntas. [...] é possível dividir duas consequências do discurso de ódio: o insulto e a instigação. O primeiro diz respeito à pessoa da vítima, o destinatário inicial da agressão, que de alguma forma pertence a algum grupo que teve sua dignidade violada. O segundo ato, a instigação, é efeito decorrente do discurso do ódio e é voltado a possíveis “outros” leitores da manifestação e não identificados como suas vítimas, que são chamados a participar desse discurso discriminatório, ampliando sua propa- gação com palavras ou ações. Combinadas estas duas faces, a que insulta e a que instiga, tem-se que este discurso, além de expressar ódio, procura aumentar a discriminação, conduzindo a uma realidade onde impera a intolerância. SANTOS, Marco Aurelio M. dos. O discurso do ódio em redes sociais. São Paulo: Lura, 2016. a) Segundo o texto, quais são as duas faces do discurso de ódio? O insulto e a instigação. b) O artigo de Marcia Tiburi trata de qual dessas faces? Da face do insulto. 12. Releia o seguinte trecho: O objeto dessa ciência seria o fenômeno do xingamento: a conspurcação do outro em forma verbal, que surge em profusão nas redes, por meio de palavras, emoticons e outros sinais gráficos. a) Se fosse eliminado o sintagma “do outro”, a frase continuaria a fazer sentido? Não. b) Substitua esse sintagma por outros que possam complementar o substantivo “conspurcação”. Da memória; da reputação; da natureza. Assim como os verbos, há tam- bém substantivos que precisam de complemento. Saiba mais em Práticas de reflexão sobre a língua. Regência nominal No capítulo anterior, vimos que a relação entre os verbos e seus complementos pode se dar com ou sem preposição. Há casos, também, em que o verbo não exige complemento. Vamos relembrar? Práticas de reflexão sobre a língua • Verbo intransitivo – VI Ex.: A menina dormiu. (O verbo não exige complemento.) • Verbo transitivo direto – VTD Ex.: Meu pai comprou um carro. (O verbo exige complemento sem preposição.) • Verbo transitivo indireto – VTI Ex.: Joana não concordou com seu amigo. (O verbo exige complemento com preposição.) • Verbo transitivo direto e indireto – VTDI Ex.: Entregamos a encomenda ao cliente. (O verbo exige complemento sem e com preposição.) Entregou o quê? A quem? Concordou com quem? Comprou o quê? Como já vimos, esse estudo está ligado ao que chamamos de regência verbal, que trata da relação de interdependência entre o verbo e seus complementos. 9o. ano – Volume 236 Preposições são palavras invariá- veis que ligam outras palavras, estabelecendo entre elas relações de sentido e/ou dependência. Relembre alguns exemplos de preposição: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, por, sem, perante, trás, sob e sobre. Veja, agora, algumas aplicações em frases: Estamos dispostos a ajudá-la. Partiremos de São Paulo. Leia a frase a seguir para resolver as questões 13 e 14. Após a compreensão do conteúdo, o aluno ficou mais tranquilo. 13. Observe que, entre as palavras “compreensão” e “conteúdo”, foi uti- lizada uma preposição. Que preposição é essa? A preposição de, que aparece contraída com o artigo o (do). Como você deve ter notado, a palavra “compreensão”, para ter sen- tido completo, precisa de um complemento. Veja como ficaria a frase sem esse complemento: 14. Considerando a explicação do quadro ao lado, registre a) o termo regente: compreensão b) o termo regido: do conteúdo 15. Leia esta outra frase: Após a compreensão, o aluno ficou mais tranquilo. A pergunta que logo nos vem à mente é: Compreensão de quê? Essa ligação entre a palavra “compreensão” e seu complemento, “do conteúdo”, está relacionada à regência nominal. A regência nominal consiste na relação entre os nomes (subs- tantivos, adjetivos e advérbios) e seus complementos. Essa relação se estabelece por meio de uma preposição e envolve dois termos: o termo regente – que rege, “comanda” o complemento – e o termo regido – que é “comanda- do” pelo termo regente. Ex.: Tenho medo do escuro. termo regente termo regido Ele é responsável por todo este setor. Transcreva a preposição do trecho anterior e identifique a palavra que a exige. O adjetivo responsável exige a preposição por. 16. Complete os espaços com preposições ou contrações (de + o = do; de + a = a; por (per) + o = pelo; etc.) relacionadas à regência nominal, as quais foram retiradas do trecho em questão. https://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-o-odio-viralizou-no-brasil COMO O ÓDIO VIRALIZOU NO BRASIL Nos últimos 11 anos, quase 4 milhões de denúncias relacionadas a crimes de ódio na internet foram recebidas pela Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos. Isso significa que, por dia, pelo menos 2,5 mil páginas contendo evidências de crimes como nazismo, neonazismo, intolerância religiosa, homofobia, incitação de crimes contra a vida, maus-tratos a animais e pedofilia foram denunciadas no Brasil. Mas não é esse o dado que mais surpreende. Em 2016, o número de denúncias ultrapassou 115 mil, enquanto, em 2017, despencou quase pela metade, para pouco mais de 60 mil. No primeiro ano da série histórica, 2006, o total de denúncias ultrapassou 350 mil, o que demonstra uma banalização do ódio nos últimos tempos. PUGLIERO, Fernanda. Como o ódio viralizou no Brasil. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-o-odio-viralizou-no-brasil>. Acesso em: 18 out. 2018. 7 Língua Portuguesa 37 Observe alguns casos de regência nominal. Complemento nominal é o ter- mo que completa o sentido de um nome: substantivo (geralmente abs- trato), adjetivo ou advérbio. É sem- pre iniciado por preposição. Ex.: Sou favorável adjetivo a seu posicionamento. complemento nominal Moro perto do centro. advérbio complemento nominal A crítica ao meu amigo substantivo complemento nominal não foi justa. Entra em ação o nosso sistema nervoso autônomo – parte do sistema nervoso responsável por funções involuntárias do corpo, como a respiração, a circulação do sangue [...] Note que a palavra “responsável” exige um complemento: Responsável por/pelo quê? Responsável por funções involuntárias do corpo. Nesse exemplo, o termo que completa o sentido da palavra “responsável” exerce a função de comple- mento nominal. 17. Releia esta frase do artigo Teoria geral do xingamento: A antropologia digital ea psicanálise poderiam auxiliar com a análise da cultura atual [...] a) Qual é a classe gramatical da palavra “análise”? A palavra “análise” é um substantivo. b) Se a frase terminasse nessa palavra, o que faltaria para que tivesse sentido completo? Faltaria a especificação do tipo de análise. c) Qual termo completa o sentido da palavra “análise”? O complemento da palavra “análise” é “da cultura atual”. Complemento nominal Vimos que o estudo da regência nominal envolve o uso de preposi- ções exigidas pela palavra anterior, como demonstra o exemplo. Admiração a, por Alheio a Ansioso por, para Adepto de Apto a, para Aversão a, por Atento a, em, para Autorizado a, para Benéfico a, para Bom a, para Capacitado a, para Capaz de Capacidade de, para Coberto com, de, por Composto de Contente com, por, de Devido a Direção a, de Disponível para Endereçado a Entendido em Entretido com, em Entusiasmado com, por Fácil a, para Favorável a Feliz de, por, em, com Impróprio para Imune a, de Habituado a, com Imerso em Inútil a, para Junto a, de Ligado a, com, entre, em Paralelo a Próximo a, de Quite com, de Referente a Residente em, a Relativo a Relacionado a, com, entre Repleto de Simpatizante com, de Simpático a Sito em, a Situado a, em, entre Tocante a Vizinho a, de Vulnerável a 9o. ano – Volume 238 Não podemos falar só de pobreza da linguagem quando falamos de xingamento, porque há muitos casos de real esforço retórico, dispêndio de tempo e muito trabalho envolvido. A expressão que funciona como complemento nominal é a) de pobreza. b) de xingamento. X c) de tempo. Justifique sua resposta. A expressão “de tempo” completa o sentido do substantivo dispêndio (gasto). A cultura do xingamento é herdeira dos piores hábitos culturais que podemos imaginar. Em sua base, a impotência para o reconhecimento dos outros e uma vontade de fazer justiça com as palavras reduzidas a matéria não reciclável. a) ( F ) O trecho “herdeira dos piores hábitos culturais” é um complemento nominal, porque está de- pois do verbo de ligação. b) ( V ) O termo “dos piores hábitos culturais” completa o sentido do adjetivo “herdeira”; por isso, é considerado um complemento nominal. c) ( F ) O sentido do substantivo “reconhecimento” é completado pela oração “de fazer justiça”. Vamos sistematizar o conceito de complemento nominal? 1. O complemento nominal, em geral, está inserido em outros termos (sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, etc.). Veja os exemplos: a) Não concordamos com a crítica ao diretor. Nesse caso, o complemento nominal (ao diretor) está inserido no objeto indireto. b) O desejo da vitória o fazia continuar. Nesse caso, o complemento nominal (da vitória) está inserido no sujeito. 2. O substantivo que é acompanhado de complemento nominal é sempre abstrato e de significação transitiva. Ex.: Ele tem certeza de sua decisão. (Certeza de quê? Certeza: substantivo abstrato de significação transitiva; de sua decisão: complemento nominal.) 3. O substantivo a que se liga o complemento nominal é resultado de uma “nominalização” (subs- tantivação) de um verbo 1) transitivo ou 2) intransitivo. Ex.: Publicar a matéria – A publicação da matéria. (1) VTD OD nominalização do verbo CN Voltar ao local. – A volta ao local. (2) VI adjunto adverbial nominalização do verbo CN Obs.: Quando o substantivo indica uma ação, por vezes, a identificação do adjunto adnominal e do complemento nominal pode gerar dúvidas. É possível diferenciá-los utilizando-se o seguinte critério: o complemento nominal funciona como paciente (alvo) da ação representada por um substantivo, e o adjunto adnominal, como agente. Ex. 1: A crítica do professor foi levada em consideração. Nesse caso, o professor foi agente da ação representada pelo substantivo (crítica); portanto, “do professor” é adjunto adnominal. Ex. 2: A crítica ao professor foi levada em consideração. Nesse caso, o professor foi paciente (alvo) da ação represen- tada pelo substantivo; então, “ao professor” é complemento nominal. C O M P L E M E N T O N O M I N A L 19. Releia o trecho a seguir e assinale V para as afirmações verdadeiras e F para as falsas. 18. Releia este outro trecho: Língua Portuguesa 39 Oração subordinada substantiva completiva nominal Esperança de quê? substantivo abstrato (nome com significação transitiva) De que o discurso de ódio seja eliminado. oração subordinada substantiva completiva nominal 21. Observe o exemplo a seguir, retirado do texto Teoria geral do xingamento. Orações subordinadas desenvol- vidas: são ligadas por conjunção. Ex.: Há necessidade oração principal de que todos venham mais cedo. oração subordinada substantiva completiva nominal desenvolvida Que: conjunção integrante. Orações subordinadas reduzi- das: não são ligadas por conjunção e apresentam o verbo em uma das três formas nominais (gerúndio, infi- nitivo ou particípio). Ex.: Há necessidade oração principal de todos virem mais cedo. oração subordinada substantiva completiva nominal reduzida Verbo vir: apresenta-se no infinitivo. Em sua base, a impotência para o reconhecimento dos outros e uma vontade de fazer justiça com as palavras [...]. Como vimos, o complemento nominal vem sempre introduzido por uma preposição e, como o próprio nome indica, tem a função de completar o sentido de certos substantivos, adjetivos e advérbios. Essa função do complemento nominal é exercida também pela oração su- bordinada substantiva completiva nominal, que pode apresentar-se na forma desenvolvida ou reduzida. Ex.: Temos esperança de que o discurso de ódio seja eliminado. Considerando esse trecho, responda: a) A oração em destaque completa o sentido de qual palavra? A oração em destaque completa o sentido da palavra “vontade” (vontade de quê?). b) Essa palavra é um ( ) adjetivo. ( ) verbo. ( X ) substantivo. c) O trecho em destaque é classificado como oração subordinada substantiva completiva nominal e apresenta-se na forma reduzida, pois ( ) inicia com conjunção e completa o sentido de um nome (substantivo). ( X ) não inicia com conjunção, e o verbo está em uma das formas nominais: o infinitivo. ( ) inicia com conjunção e completa o sentido de um nome (adjetivo). d) Uma das maneiras de tornar essa oração desenvolvida seria: ( ) [...] uma vontade de fazermos justiça com as palavras [...]. ( X ) [...] uma vontade de que façamos justiça com as palavras [...]. 20. Modifique os verbos transitivos a seguir, transformando os complementos verbais (objeto direto e indireto) em nominais. Ex.: vender a casa – a venda da casa. a) Compreender o conteúdo: A compreensão do conteúdo. b) Necessitar de seu apoio: A necessidade de seu apoio. c) Estabelecer uma meta: O estabelecimento de uma meta. d) Resolver um problema: A resolução de um problema. e) Corrigir um exercício: A correção de um exercício. 9o. ano – Volume 240 Outro exemplo de oração subordi- nada substantiva completiva no- minal (desenvolvida e reduzida): Estou certo oração principal de que cumpriremos a meta. oração subordinada substantiva completiva nominal (desenvolvida) Nesse caso, a oração subordinada substantiva completiva nominal completa o sentido de um adjeti- vo (nome de significação transiti- va: certo de quê?). Estou certo oração principal de cumprirmos a meta. oração subordinada substantiva completiva nominal (reduzida) Na segunda oração, não há con- junção integrante, e o verbo está no infinitivo. Leia o texto a seguir, extraído de um site português, para responder às questões de 22 a 24. Movimento contra o discurso de ódio Tem como principal objetivo o combate ao discurso de ódio e à discriminação na sua expressão online. O Discurso de Ódio engloba “todas as formas de expressão que propagam, incitam, promovem ou justificam o ódio racial, a xenofobia, a homofobia, o antissemitismo e outrasformas de ódio baseadas na intolerância”. A internet dá-nos a possibilidade de criar, publicar, distribuir e consumir conteúdos fornecendo assim um espaço de completa participação, empenho e livre expressão pessoal. Com o desenvolvimento das Redes Sociais todos podemos participar no ciberespaço de formas muito diversas, desde o contato permanente com os nossos amigos e o desenvolvimento de novos contactos até à partilha de conteúdos e à exploração da nossa capacidade de nos exprimirmos. Este espaço online dá-nos novas oportunidades, tais como aderir com outros a causas em que nos queremos empenhar e que nos preocupam. MOVIMENTO contra o discurso de ódio. Disponível em: <http://www.odionao.com.pt/>. Acesso em: 17 out. 2018. 22. Identifique as palavras grafadas de uma forma diferente da que estamos acostumados a ler. a) internet X b) contactos c) partilha X d) sector 23. Além de algumas palavras com grafia diferente, há uma construção própria do português europeu. Trata-se da locução verbal a) “podemos participar”. X b) “está a decorrer”. c) “é feita”. Ódio não MOVIMENTO CONTRA O DISCURSO DE ÓDIO O Movimento Contra o Discurso de Ódio – Jovens pelos Direitos Humanos online é uma campanha do Sector de Juventude do Conselho da Europa, que está a decorrer até final de 2017, e é feita pelos jovens e com os jovens, online e offline. JUNTA-TE A NÓS 24. Ao lado do texto, há um quadro com a frase “JUNTA-TE A NÓS”. No Brasil, qual é a forma mais comum de se dizê-la? Junte-se a nós. Releia a passagem a seguir para responder às questões de 25 a 27. A internet dá-nos a possibilidade de criar, publicar, dis- tribuir e consumir conteúdos [...] 25. Quantas orações há no trecho em destaque? Quatro orações. 26. Todas elas completam o sentido de “possibilidade” (possibilidade de quê?). A qual classe de palavras esse vocábulo pertence? Possibilidade é um substantivo abstrato. 27. Como se classificam as orações destacadas? Em que forma elas se apresentam: desenvolvida ou reduzida? São orações subordinadas substantivas completivas nominais. Apresentam-se na forma reduzida, pois não são unidas por conjunção e os verbos estão no infinitivo. Língua Portuguesa 41 Leia o texto a seguir para responder às questões de 28 a 31. Nossa opinião sobre canudos plásticos e sua proibição Os canudos plásticos são um ótimo exemplo de invenção deturpada. Criados para facilitar a ingestão de líquidos por pessoas com alguma dificuldade, tornaram-se um oferecimento natural e desnecessário em bares e restaurantes. Um ótimo negócio para quem fabrica e vende este produto que até então tinha con- sumo ínfimo. Por comodidade ou por aparência seu uso se multiplicou e, como todo material descartável, finalmente acabou ganhando a justa alcunha de vilão do meio ambiente. É estarrecedor como o ser humano é capaz de criar soluções inimagináveis e ao mesmo tempo proble- mas enormes. Parecem duas espécies distintas. Mas, o que de fato ocorre é que a ganância move pessoas, corporações e até governos a despeito do bom senso ou respeito a qualquer “valor humano”. Proibir está longe de ajudar a resolver essa nossa dificuldade de raciocinar antes de continuar com um hábito ruim, mas pelo menos incita a sociedade a discutir sobre a cultura do descartável. Mais que resol- ver o problema de um dos descartáveis com uma canetada, é fundamental que as pessoas, empresários e políticos contribuam para mudar esse modelo de aceitação automática do uso indiscriminado de objetos descartáveis, especialmente plásticos. Já passamos da hora de investir mais em sabedoria, que seria o conhecimento com juízo, para escolher com mais critérios quando podemos ou não usar utensílios descartáveis. A lei é uma medida emergencial devido ao nível de gravidade do excesso de lixo plástico, mas é fundamental aperfeiçoar a informação e a educação ambiental para que cada um possa ser um agente de mudança a reequilibrar nossa relação com nossos restos. Você pode optar por canudos sustentáveis, sejam eles de papel, bambu, palha ou aço, mas antes se pergunte qual a real necessidade de sempre usar canudos para ingerir líquidos. Numa festa de aniversário em casa ou playground o uso de descartáveis traz conforto e praticidade. E afinal de contas é uma vez por ano, mas que tal avaliar a possibilidade de oferecer copos duráveis em que cada um escreve o seu nome? Reduz o volume de descartáveis e ajuda os convidados a refletirem de uma maneira leve sobre o uso de descartáveis. Há muitos outros exemplos de atitudes sustentáveis que cabem em nosso dia a dia, e muitas delas podem ser adotadas sem traumas, altos custos ou geração de estresse. Precisamos usar mais o cérebro e incentivar os próximos a também usarem. O problema do excesso de resíduos tem solução e cada um pode ser mais ativo nessa conquista. BERNHARDT, Eduardo. Canudos plásticos: a polêmica e a educação ambiental. Disponível em: <http://www.recicloteca.org.br/consumo-consciente/ canudos-plasticos-a-polemica-a-educacao-ambiental/>. Acesso em: 7 dez. 2018. ©Recicloteca 28. Explique o que é “cultura do descartável”. Cultura do descartável é o hábito social de usar utensílios descartáveis para todo tipo de ocasião. O autor do texto dá o exemplo de uma festa no condomínio e sugere que sejam oferecidos aos convidados copos duráveis, em que cada um escreva seu nome. 29. Segundo o texto, a proibição dos canudos plásticos acaba com a cultura do descartável? Justifique sua resposta. Não. Segundo o texto, a proibição dos canudos plásticos estimula a sociedade a refletir sobre a cultura do descartável. 30. No primeiro parágrafo, há um exemplo de complemento nominal. Assinale-o. ( ) plásticos ( X ) de líquidos ( ) descartável 31. Considerando a frase “que tal avaliar a possibilidade de oferecer copos duráveis [...]?”, a) transcreva a oração subordinada substantiva completiva nominal. “de oferecer copos duráveis”. b) reescreva a oração subordinada substantiva completiva nominal na forma desenvolvida. que tal avaliar a possibilidade de que sejam oferecidos copos duráveis [...]? 9o. ano – Volume 242 32. Complete as lacunas com a preposição adequada. Observe que essas preposições introduzem comple- mentos nominais ou orações subordinadas substantivas completivas nominais. a) A sociedade não pode manter-se alheia à poluição. b) O ser humano já tem condições de se livrar dos produtos descartáveis. c) Os plásticos descartáveis são cruéis com os seres marinhos. d) A maioria dos cidadãos está disposta a adotar um modo de vida sustentável. e) Os plásticos descartáveis são incompatíveis com o século XXI. f) O ser humano tem de se mostrar generoso com a natureza. Prática de oralidade Entrevista A entrevista é um gênero que pode circular de forma au- tônoma ou acompanhando notícias e reportagens. Nesta seção, você deverá realizar, em grupo, uma entre- vista. Mas, antes, leia a entrevista a seguir. ‘Família não é democracia’: leia a entrevista que fizemos com Mario Sergio Cortella Autor de mais de 30 livros, Mario Sergio Cortella lança pela primeira vez uma publicação sobre família, na qual aborda a importância de priorizar o tempo de convívio, as crianças criadas como “reizinhos” e o papel complementar da escola Mario Sergio Cortella possui um extenso currículo: é filósofo, escritor, palestrante, professor, doutor em educação e autor de mais de 30 livros sobre ensino, filosofia, teologia e carreira. Isso sem contar que é extremamente popular: sua página no Face- book, por exemplo, tem mais de 1 milhão de seguidores, que também escutam suas pensatas avidamente, seja no YouTube ou na rádio. Pela primeira vez, ele decidiu escrever sobre o tema “família”. “Porque sou pai e avô, e tenho uma preocupação imensa com a rarefação das relações familiares e com o desconhecimento da geração atual para lidar com a nova geração”, explica. Mais adiante, ele discorre que os pais e as mães também precisam ser educados, não sóas crianças: “Autoridade é necessária; autori- tarismo, não. Diálogo é importante, submissão não é”. E não poupa o público-alvo de seu discurso: se você não tem tempo para criar seus filhos, é porque eles não são sua prioridade. Como se nota de imediato, o paranaense é um disparador de frases fortes e que fazem pensar. E, se “pensar bem nos faz bem”, como ele costuma dizer, seu novo livro, Família: Urgências e Turbulências (ed. Cortez), poderá fazer um bem danado aos leitores que se deparam, diariamente, com questões relacionadas à criação dos filhos. Como estar mais presente na vida dos pe- quenos? Como equilibrar autoridade e diálogo? Como estabelecer limites para crianças que já estão mimadas? Questões como essas, de respostas nada óbvias, estão no livro de 141 páginas e também são abordadas nesta conversa com a Canguru. Confira. 8 © Sh ut te rs to ck /G ut es a Língua Portuguesa 43 O senhor disse que decidiu escrever sobre família porque se preocupa com a diminuição das relações familiares. A que o sr. atribui essa falência das condições de formação e criação dos filhos? Mario Sergio Cortella – Os pais vivem hoje um tempo maior no trabalho, e isso fez com que houvesse uma diminuição dos tempos de convivência com as crianças e os jovens e levou a um desconhecimento sobre essa nova geração. Boa parte dos pais e das mães tem dificuldade até de entender como é o mundo de seus filhos a partir de uma determinada idade. Há hoje uma certa estranheza nessa convivência. Como fazer com que os pais participem ativamente da educação mesmo quando o filho passa 12 horas por dia numa creche? Essa é uma escolha que eles terão que fazer. A grande pergunta que o pai e a mãe têm que se fazer é qual é sua prioridade, e, se é prioridade, vão ter que inventar o tempo. Eles não podem se omitir em relação à educação, porque isso seria irresponsável. A escola é de natureza complementar, e não suplementar, ela não supre a família. A escola é uma estrutura de ensino e aprendi- zagem; a responsabilidade sobre a educação é da família. O senhor fala no livro que é preciso educar os pais, e não só as crianças, e que hoje os pais parecem ter medo de exercer a autoridade. O senhor acha que é um erro os pais repetirem o modelo de educação que tiveram? Sim, claro. Os pais e as mães não podem é deixar de ter inspirações naquilo que uma parte do que seus pais fizeram carrega, mas deixando de lado aquilo que era entendido como correto naquele momento – e que era um mero exagero. Por exemplo, a autoridade é necessária; o autoritarismo, não. Diálogo é importante, submissão não é. O diálogo não pode ser entendido como uma relação de igualdade de autoridade com os filhos. Como eu costumo dizer, uma família não é uma democracia. Democracia pressupõe direitos e deveres iguais. Numa família, existem responsáveis aos quais as crianças e os jovens são “sub-ordinados”, estão sob as ordens deles. Nesse sentido, uma família pode ser participativa – e deve sê-lo, enquanto no passado não o era. Uma família deve ser convivente, como foi em outro momento. Alguns dizem que a fratura de alguns valores das crianças e dos jovens se deve ao fato de que falta aquilo que se fazia no passado, que era poder bater, deixar de castigo etc. Esse tipo de modelo não é necessário. É possível fazer uma educação sem recorrer a metodologias de educação que são muito mais voltadas para a organização prisional do que para a estrutura familiar. E como fazer? Como ter autoridade sem ser um pai autoritário? Há alguns caminhos. Um deles é bastante agradável para mim, que é ele ler meu livro (risos). Autoridade é uma questão de responsabilidade. Normalmente, um pai ou uma mãe têm autoridade no trabalho, sobre um colega, sobre um empregado, sobre um subordinado ou prestador de serviço. Por que então essa dificuldade da autoridade com filhos e filhas? Porque o exercício da autoridade dá muito trabalho, exige que você tenha tempo. E muita gente não quer ter esse trabalho ou acha que não tem tempo para tê-lo. Lembrando o que eu coloco no livro: tempo é uma questão de prioridade. Se você pensa que não tem tempo para algo é porque não é prioritário. O senhor fala em seu livro que prioridade não tem plural. Sim, eu posso ter uma prioridade, aí eu resolvo e vou para outra. Mas, com duas prioridades concomitantes, nenhuma delas o será. A pessoa que prioriza o trabalho não pode ter um filho? Muitas vezes essa prioridade do trabalho pode ser eventual. Mas alguém que tem apenas o trabalho como sendo sua forma de referência e horizonte precisa pensar muitas vezes antes de ter uma responsabilidade tão estupenda e ao mesmo tempo tão exigente quanto a paternidade e a maternidade. Quais consequências a “divinização das crianças”, que o sr. cita em seu livro, pode trazer para o futuro dessa geração? Vemos hoje filhos e filhas serem tratados como príncipes e princesas até na decoração de seus quartos. Toda vez que a criança for tratada como soberana ela se comportará desse modo. A vida não é marcada pela soberania, ela tem que ser marcada pela autonomia. Uma pessoa autônoma é aquela que faz o que ela quer no âmbito da responsabilidade dela, desde que não colida com as outras perspectivas. Uma pessoa que é soberana fala o que deseja e não dá referência e nem atenção a quem não pensa como ela ou quem está à sua volta. Essa soberanização de uma parcela das crianças cria personali- dades deformadas para a capacidade de convivências. A soberanização de crianças é malévola para o adulto que virá, e é assim, inclusive, que começa a degradação de valores decentes. 9o. ano – Volume 244 O senhor diz que desejos não são direitos. Por que é difícil viver em coletividade e entender que temos limites? Nesta geração, não há a obrigatoriedade da participação mais direta de crianças e jovens no sustento da família numa parte significativa das classes sociais. Uma parcela dessas crianças e jovens começa a entender que aquilo que deseja tem que a ela vir e que a tarefa de pais e mães é a de serem provedores, e não cuidadores. Há aí uma deturpação do que seria a própria estrutura da convivência familiar. Mais do que isso: confundir desejos com direitos, que é algo que uma parte das crianças faz, é uma responsabilidade dos adultos. Uma parcela de nós foi educada para que, se algo quisesse, fosse buscar com esforço, dedicação, decência e inteligência. Não era algo que você aguardava magicamente, que chegaria e pousaria no teu colo. É necessário que os pais retomem essa perspectiva de que quem deseja algo tem o dever de construí-lo, de elaborá-lo e de utilizar a inteligência e o esforço na obtenção disso. E aqueles pais que fazem dos filhos um investimento de longo prazo? É absolutamente indecente que um pai ou uma mãe seja capaz de olhar seus filhos como sendo uma aplicação financeira. É preciso que a orientação em relação à profissão do filho não seja uma determinação dos pais. Que, acima de qualquer coisa, se respeite a individualidade, a autonomia que essa pessoa deve ter, e não olhar aquele que mais adiante será apenas uma forma de retorno financeiro. O que é preciso fazer para criar filhos melhores para o mundo? Primeiro, uma dedicação maior do que aquela que se vem tendo, um esforço maior em relação ao exercício da maternidade e da paternidade. Segundo, humildade para saber que a gente não sabe muitas coisas e que precisa aprender com outros, e não supor que criar filhos seja uma atividade automática. Em terceiro lugar, imaginar que tudo isso requererá a parceria maior entre as pessoas que formam crianças. Os adultos que têm autoridade e responsabilidade não precisam pensar de maneira idêntica, mas têm que agir de maneira unida. Pais e mães, antes de agir em relação aos filhos, precisam conversar entre si e chegar a um consenso. A divisão tem que se dar antes da reflexão, e não na hora da ação. SODRÉ, Juliana. ‘Família não é democracia’: leia a entrevista que fizemos com Mario Sergio Cortella. Disponível em: <https://www.canguruonline.com.br/sao-paulo/noticia/familia-nao-e-democracia-leia-a-entrevista-que-fizemos-com-mario-sergio-cortella>. Acesso em: 8 set. 2018. 1. O site Canguru (www.canguruonline.com.br) tem o seguinte lema: “Criando filhos melhores para o mun- do em SP”. a) O entrevistado escolhido é pertinente para um site que tem esse lema? Justifique sua resposta. Sim, pois o entrevistado acabou de lançar um livro sobre família. b) Qual é o conteúdo presente na introdução do texto? Na introdução, traça-se um perfil do entrevistado, destacando-se sua formação e sua popularidade. Também antecipam-se algumas respostas que ele deu e algumas perguntas a que responderá. 2. De que modo a entrevistadora se preparou para a entrevista? Ela leu a obra Família: urgências e turbulências e fez um roteiro da entrevista, listando as perguntas que faria ao entrevistado. Várias perguntas foram geradas com base no conteúdo desse livro. 3. Todas as perguntas foram escritas antes da entrevista ou alguma delas surgiu com base em uma resposta do entrevistado? Comprove sua resposta com exemplos do texto. A maioria das perguntas foi escrita antes da entrevista, o que se evidencia por construções como “O senhor fala no livro”. Duas perguntas foram geradas, provavelmente, com base em respostas do entrevistado: “E como fazer? Como ter autoridade sem ser um pai autoritário?” e “E aqueles pais que fazem dos filhos um investimento de longo prazo?”. Esta última parece ser padrão nas entrevistas do site, cujo lema é “Criando filhos melhores para o mundo em SP”. Língua Portuguesa 45 4. Observe a apresentação gráfica da entrevista. a) Qual é o tratamento gráfico dado às perguntas? Elas estão em letras coloridas. b) Por que algumas falas do entrevistado foram destacadas com um sombreamento colorido? Provavelmente, porque a entrevistadora julga que são as declarações de maior impacto do entrevistado, e, assim, elas chamarão a atenção dos leitores. 5. Ouça uma entrevista no rádio, na TV ou na internet e compare-a com a que você acabou de ler. Para tanto, siga o roteiro abaixo. a) A entrevista oral apresenta uma introdução? Ela é parecida com a da entrevista lida? Pessoal. Sugestão: As entrevistas orais costumam apresentar uma introdução parecida com a da entrevista lida. Nela, o entrevistador faz um perfil do entrevistado, destacando suas principais realizações ao longo da vida e as mais recentes. b) As perguntas foram elaboradas previamente ou feitas de improviso, de acordo com as respostas do entrevistado? Pessoal. Sugestão: Provavelmente, há perguntas elaboradas previamente entremeadas com perguntas improvisadas, de acordo com as respostas do entrevistado. c) Há um fechamento para a entrevista? Em caso afirmativo, o que é dito nele? Pessoal. Sugestão: Ao contrário das entrevistas escritas – que se encerram abruptamente, com a última resposta do entrevistado –, as entrevistas orais costumam apresentar um fechamento, em que o entrevistador dá por encerrada a entrevista e agradece ao entrevistado por sua presença. Neste capítulo, propomos a vocês que, em grupos, realizem uma entrevista sobre um destes temas: • o vício em videogames; • o discurso de ódio; • as notícias falsas. 9 Preparação 6. Primeiramente, o grupo precisa informar-se sobre o tema escolhido. Para iniciar suas reflexões, leiam um dos textos a seguir. Cada um deles pode servir de ponto de partida para o aprofundamento no tema. Texto para o tema “o vício em videogames”: Pela primeira vez, vício em games é considerado distúrbio mental pela OMS Jane Wakefield BBC 2 janeiro 2018 O vício em jogos de videogame passou a ser considerado pela primeira vez um distúrbio mental pela Organização Mundial da Saúde. A 11.ª Classificação Internacional de Doenças (CID) irá incluir a condição sob o nome de “distúrbio de games”. O documento descreve o problema como padrão de comportamento frequente ou persis- tente de vício em games, tão grave que leva “a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida”. Alguns países já haviam identificado essa condição como um problema importante para a saúde pública. Muitos, incluindo o Reino Unido, têm clínicas autorizadas a tratar o distúrbio. 9o. ano – Volume 246 A última versão da CID foi finalizada em 1992, e a nova versão do guia será publicada neste ano. Ele traz códigos para as doenças, sinais ou sintomas e é usada por médicos e pesquisadores para ras- trear e diagnosticar uma doença. O documento irá sugerir que comportamentos típicos dos viciados em games devem ser obser- vados por um período de mais de 12 meses para que um diagnóstico seja feito. Mas a nova CID irá reforçar que esse período pode ser diminuído se os sintomas forem muito graves. Os sintomas dos distúrbios incluem: – não ter controle de frequência, intensidade e duração com que joga videogame; – priorizar jogar videogame a outras atividades; – continuar ou aumentar ainda mais a frequência com que joga videogame, mesmo após ter tido consequências negativas desse hábito. Richard Graham, especialista em vícios em tecnologia no Hospital Nightingale em Londres, reco- nhece os benefícios da decisão. “É muito significativo, porque cria a oportunidade de termos serviços mais especializados. Ele coloca (esse distúrbio) no mapa como algo a ser levado a sério”. Mas, para ele, é preciso tomar cuidado para não se cair na ideia de que todo mundo precisa ser tratado e medicado. “Pode levar pais confusos a pensarem que seus filhos têm problemas, quando eles são apenas ‘em- polgados’ jogadores de videogame”, afirmou. Segundo Graham, ele vê cerca de 50 casos de vício em videogame surgindo por ano e seu critério é: o jogo está afetando atividades básicas, como comer, dormir, socializar ou ir à escola? Se a resposta for sim, então, pode ser um problema. “O vício está dominando o estado real neurológico, o pensamento e as preocupações?” – de acordo com Graham, essa seria uma boa pergunta para fazer ao diagnosticar um paciente. Em 2013, no Manual de estatísticas e diagnósticos de distúrbios mentais”(DSM, na sigla em in- glês), o distúrbio relacionado a games e videogames era considerado “condição a ser estudada” – o que significa que ela não era oficialmente reconhecida. Muitos países já adotam até mesmo medidas mais sérias para combater o problema. Na Coreia do Sul, o governo criou uma lei para proibir o uso de games por pessoas menores de 18 anos entre meia- -noite e seis da manhã. No Japão, os jogadores são advertidos caso passem mais do que uma certa quantidade de horas por mês jogando videogame e, na China, a gigante de tecnologia Tencent determina um limite de quantidade de horas que uma criança pode jogar. Um estudo recente feito na Universidade de Oxford sugeriu que, apesar de as crianças no geral passarem cada vez mais tempo na frente das telas, isso não necessariamente representa vício. “As pessoas acreditam que as crianças estão viciadas em tecnologia e nessas telas 24 horas por dia a ponto de abdicarem de outras atividades. Mas sabemos que esse não é o caso”, afirmou o pesquisador Killian Mullan. “Nossas descobertas mostram que a tecnologia tem sido usada em alguns casos para apoiar outras atividades, como tarefas de casa, por exemplo, e não excluindo essas atividades das vidas das crian- ças”, disse ele. “Assim como nós, adultos, fazemos, as crianças espalham o uso da tecnologia digital ao longo do dia, enquanto fazem outras coisas”, finalizou. WAKEFIELD, Jane. Pela primeira vez, vício em games é considerado distúrbio mental pela OMS. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/ internacional-42545208>. Acesso em: 10 set. 2018. © BBC 2019 Reproduced by permission Língua Portuguesa 47 Áudio disponível em: <http://bandnewsfmcuritiba.com/repense-bandnews-violencia-nas-redes-sociais-falsa-aparencia-de-distanciamento-expoe-as- deformidades-do-mundo-real-na-internet/>. Acesso em: 10 set. 2018. Texto para o tema “as notícias falsas”: Nem verdadeiras nem falsas: alteração da natureza das informaçõesA nossa época é marcada por uma profunda transformação da estrutura da informação que tem a ver com seus formatos, sua própria natureza e suas qualidades. Para compreender tal mudança é necessário, em primeiro lugar, distinguir claramente o contexto midiático do small data, isto é, da esfera pública moderna – jornais, televisão, rádio etc. –, daquela do big data e das redes digitais Violência nas redes sociais: falsa aparência de distanciamento expõe as deformidades do mundo real na internet Já somos mais de 116 milhões conectados à internet. Isso só no Brasil. Gastamos em média três horas e meia por dia nas redes sociais. Na mesma velocidade em que nos tornamos uma sociedade tão conectada, abrimos espaço para formas inéditas de fazer o bem e para fazer o mal também. É a mesma rede mundial de computadores que interliga iniciativas, que promove encontros e forma correntes de solidariedade e que consegue revelar o pior do ser humano. Facebook, Instagram e Twitter se tornam painéis onde o racismo, a homofobia, a misoginia e toda forma de preconceito se escancara. O psicólogo Tônio Luna pontua que é a falsa aparência de distanciamento que expõe as deformidades do mundo real: “São espaços sem lei, e as pessoas se acham no direito de se colocarem de uma forma expositiva e falarem tudo o que querem, sem que haja nenhum contratempo, sem que elas sejam olhadas ou pu- nidas. Mas essa agressividade, ou toda essa postura, é eminentemente humana. Todos nós temos isso dentro da gente, e a gente vai escolher como a gente vai colocar. E essa forma expositiva talvez seja a forma mais destrutiva de se entender como essa insatisfação pode ser colocada.” A gente nunca acha que vai se tornar uma vítima. E quando isso acontece? As histórias de quem se torna alvo de ameaças e injúrias nas redes sociais pipocam por aí. Algumas ganham repercussão. Outras ficam no anonimato e se tornam batalhas pessoais de gente como o funcionário público de Curitiba que prefere não ser identificado. Alguém que o conhecia muito bem criou um perfil falso e passou a difundir mentiras sobre ele. A farsa foi tão grande que repercutiu até mesmo entre os funcio- nários do trabalho dele e abalou toda a família do servidor: “Não importa onde você esteja, o que você faz, sempre tem pessoas que vão de uma forma ou de outra tentar te atingir. Eu me senti assim como perseguido, vítima de uma violência, de um ódio. Não sei se isso sempre existiu e agora, de uma forma anônima, aparece, mas é uma coisa assustadora.” Caluniar sempre foi crime e não é porque está no mundo virtual que deixa de ser. É passível de multa e de detenção de seis meses a dois anos. Ameaçar pela internet, mesmo que em tom de brinca- deira, também pode ser punido com prisão de até seis meses. O advogado especialista em direito digi- tal e segurança da informação Guilherme Guimarães explica que os crimes estão previstos no Código Penal Brasileiro, mas é preciso denunciar o malfeitor e salvar o maior número de provas contra ele: “Antes de comunicar a própria rede social, deve fazer uma ata notarial no tabelionato de notas para fazer o registro daquele evento criminoso. Se a pessoa não tiver condições de arcar com aquele custo, que geralmente a ata notarial é um pouco cara, fazer um print screen da tela do computador e até do celular, preservar o endereço eletrônico do ato criminoso e fazer o registro de boletim de ocorrência, ou no Ciber, que é aqui em Curitiba, núcleo de cibercrimes, ou, se você sabe quem realmente cometeu o crime, ir numa delegacia de polícia comum.” As penalidades estão aí para frear os instintos violentos de muitos e a audácia criminosa de outros. De Curitiba, Juliana Goss Texto para o tema “o discurso de ódio”: 9o. ano – Volume 248 DI FELICE, Massimo. Nem verdadeiras nem falsas: a alteração da natureza das informações. Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/online/ artigo/12329_FAKE+NEWS+NEM+VERDADEIRAS+NEM+FALSAS>. Acesso em: 10 set. 2018. 7. Depois de lerem o texto inicial referente ao tema escolhido, aprofundem seu conhecimento a esse res- peito fazendo pesquisas em livros, enciclopédias e revistas, impressos ou on-line. Elaborem um resumo sobre o texto lido, conforme vocês aprenderam no capítulo anterior. 8. Analisem o tema e reflitam acerca das várias disciplinas pelas quais ele pode ser abordado. Por exemplo, o discurso de ódio pode ser considerado do ponto de vista da psicologia, do direito ou até mesmo de uma das vítimas, como vimos no texto Violência nas redes sociais: falsa aparência de distanciamento expõe as deformidades do mundo real na internet. Além disso, ele pode ser abordado pela Filosofia – como foi feito no texto do Painel de leitura – ou pela História, por exemplo. Esta última disciplina poderia relatar como se manifestava o discurso de ódio na época pré-internet e, certamente, seria possível comentar sobre o discurso de ódio nas redes sociais. Aplique o mesmo raciocínio aos outros dois temas. 9. Depois de estudarem sobre o assunto, pensem em um profissional a ser entrevistado (psicólogo, filósofo, historiador, professor, advogado, jornalista, etc.). 10. Realizem uma pesquisa sobre o profissional escolhido (currículo, informações adicionais, etc.). contemporâneas. A primeira, caracterizada pela disseminação de informações por parte de algumas poucas centrais e empresas emissoras, e a segunda, baseada na produção descentralizada de informa- ções em ampla escala, produzida por todos os usuários. Como mencionado por diversos autores que intervieram neste debate sobre fake news, as notícias falsas sempre existiram e, portanto, não devem estar ligadas unicamente ao advento das redes digitais. Mas há uma grande diferença no contexto da comunicação contemporânea em relação ao passado. Nas arquiteturas informativas do small data uma notícia não verdadeira, publicada várias vezes nos jornais ou anunciada nos noticiários da tevê, em um contexto sem interação, tornava-se verdadeira e difundida como tal, até a sua própria correção, que, se acontecesse, deveria ser feita pelos mesmos ca- nais que a consideraram verdadeira. Assim, houve falsos relatos e falsas notícias que foram corrigidos, em alguns casos décadas mais tarde ou, em muitos outros, ficaram sem ser desmentidos ou corrigidos. Em suma, no contexto midiático centralizado do small data, uma vez publicada, uma notícia falsa poderia ser desmentida ou corrigida somente depois de anos ou de décadas. Um mecanismo lento e, acima de tudo, pouco confiável. Ao contrário, o que o digital e a possibilidade de interação de todos em tempo real no âmbito do big data produziram foi o aumento da quantidade de informações e da velocidade do tempo necessá- rio para desmascarar uma notícia falsa. Assim, é possível afirmar que, em relação ao passado, a infor- mação digital é “potencialmente” menos falsa do que aquelas divulgadas pelos jornais, TV e pela mí- dia tradicional, porque, uma vez divulgada, é imediatamente analisada e “pensada” pelas redes sociais digitais e por qualquer pessoa, que terá no próprio contexto digital instrumentos para aprofundá-la e verificá-la. Um exemplo para todos, nesse sentido, é a enciclopédia coletiva Wikipedia. O poder do clique No contexto do big data, o “poder do clique” se torna o “deus exmachina” da informação. Se nos jornais e na mídia tradicional era uma equipe fechada numa sala a decidir a quantidade, a ordem e a importância das notícias, em um contexto digital será o número de cliques, ou seja, os usuários da internet, a decidir quais serão os tópicos, os artigos e os conteúdos de maior interesse. Se na mídia de massa, isto é, no small data, a informação era selecionada e ordenada pelos grandes grupos de comunicação e distribuída para a população, em contextos digitais, os leitores tornam-se os editores que passam, assim, a perceber os fluxos informativos e o processo comunicativo. Esse aspecto é muito importante para entender como o fenômeno das notícias falsas muda no con- texto do big datae das redes digitais. Nestes as notícias já não saem mais prontas como na época da im- prensa e da esfera pública nacionais, mas necessitam da intervenção de cada internauta, que, por meio do acesso digital à informação, pode modificá-la, expandi-la e repassá-la ou criticá-la e desmenti-la. Língua Portuguesa 49 Produção 12. Cada tema pode ser dividido em vários aspectos. Redijam uma pergunta para cada um deles. Lembrem- -se de que as perguntas elaboradas previamente não poderão ocupar todo o tempo estipulado para a entrevista. Deixem uma “folga” para as perguntas improvisadas que surgirão com base nas respostas do entrevistado. Organizem-se de modo que, durante a entrevista, cada um dos membros do grupo seja responsável por fazer uma pergunta. 13. Escrevam a introdução da entrevista, traçando um perfil do entrevistado, destacando suas publicações (se houver) e explicando por que ele é uma autoridade no tema em questão. 14. Elaborem o fechamento da entrevista, agradecendo ao entrevistado pela presença. Vocês podem se ins- pirar no que observaram na entrevista de rádio, TV ou internet. 15. Tudo o que vocês escreveram nesta etapa de preparação deve ser considerado um roteiro para a entre- vista, e não um texto para ser lido. Ensaiem as falas de cada um (introdução, perguntas e fechamento), as quais devem expressar naturalidade. Providenciem um equipamento para gravar o ensaio. Ouçam a gravação com atenção e avaliem se o primeiro ensaio foi satisfatório ou se convém realizar outros. O mesmo equipamento será utilizado para gravar a entrevista. 16. No dia estipulado, realizem a entrevista, conforme os passos descritos a seguir. a) Todo o grupo deve apresentar-se ao entrevistado. b) Em seguida, cada aluno deve fazer a pergunta que lhe foi atribuída previamente. É conveniente tratar o entrevistado por “senhor” ou “senhora” ou utilizar outra forma de tratamento, caso ele prefira. c) Todos os integrantes devem ficar atentos às respostas, para verificar quais delas permitem perguntas extras, improvisadas. d) Após a última resposta, um dos membros do grupo deve fazer o fechamento da entrevista, agrade- cendo ao entrevistado por ter possibilitado uma melhor compreensão do tema pela classe. 17. Avalie sua participação nesta atividade preenchendo o quadro a seguir. Sim Em parte Não 1. Participei ativamente das pesquisas sobre o tema? 2. Ajudei a fazer os resumos dos textos pesquisados? 3. Contribuí na criação das perguntas? 4. Mantive-me atento às falas do entrevistado? Consegui criar perguntas improvisadas com base em suas respostas? 5. Consegui assimilar informações importantes sobre o tema com base na pesquisa e nas respostas do entrevistado? Avaliação 11. Uma vez decidido o profissional que vocês querem entrevistar, é hora de agendar a entrevista com ele. O aluno mais extrovertido do grupo poderá ocupar-se dessa tarefa e contatar o futuro entrevistado por telefone, por e-mail ou pelas redes sociais. Além disso, é essencial frisar que a opinião dele é muito impor- tante para o tema em questão, razão pela qual ele foi escolhido. Já nesse primeiro contato, é fundamental tratar o entrevistado com polidez e respeito. 9o. ano – Volume 250 Prática de escrita Artigo de opinião Nesta seção, você produzirá um artigo de opinião. Você já leu um texto desse gênero no Painel de leitura. Leia outro a seguir. Transcrição da entrevista 18. Transcrevam a entrevista para afixá-la no mural da escola. Lembrem-se de levar em conta as diferenças entre a modalidade oral e a escrita. a) Reproduzam todas as falas de acordo com as regras ortográficas, pontuação e sintaxe recomendadas pela norma-padrão. b) Ignorem as hesitações e as pausas do entrevistado. c) Não transcrevam expressões típicas da língua oral, como “né?”, “então...” e “aí”. d) Suprimam o fechamento da entrevista oral, pois ela não costuma aparecer em entrevistas escritas. e) Deem um título à entrevista. Vocês podem, inclusive, aproveitar uma fala do entrevistado. f) Se julgarem útil aos leitores, realcem alguns trechos das falas do entrevistado, usando, por exemplo, um sombreado colorido. Convivência e segurança pública Ilona Szabó de Carvalho Diretora-executiva do Instituto Igarapé, mestre em estudos de conflitos e paz pela Universi- dade Uppsala (Suécia) Há pouco mais de uma semana, lidamos com a angústia de ter assistido a parte importante de nossa história consumida pelo fogo que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Pessoas des- consoladas compartilharam relatos sobre os laços emocionais, não apenas com a coleção de artefatos históricos e o prédio imperial, mas também com a Quinta da Boa Vista, parque municipal que abriga o museu e que há tempos sofre com a falta de investimentos e com a baixa visitação. E o que isso pode ter a ver com segurança pública? As memórias associadas ao espaço público ocorrem em um contexto dramático, mas servem de lembrança sobre a importância dessas áreas. Pode não ser óbvio, mas isso tem tudo a ver com a cons- trução de uma sociedade menos violenta. Espaços públicos aumentam o contato social e nos tornam conscientes dos nossos interesses compartilhados e da nossa humanidade comum. De forma mais ob- jetiva, eles aumentam o número de pessoas na rua e o custo de alguém ser pego ao cometer um crime. Parques como a Quinta da Boa Vista, no Rio, o Parque do Carmo, em São Paulo, os da Cidade, em Brasília e em Salvador, ou o Redenção, em Porto Alegre, possibilitam a interação entre moradores. É importante ressaltar que convivência não é sinônimo de segurança pública. Porém, elas são codepen- dentes: você não pode ter uma sem ter a outra. Vivemos, no Brasil e no mundo, um processo de urbanização acelerada e, em muitos lugares, de- sordenada, cujos efeitos nocivos incluem a desorganização estrutural e do tecido social de nossas cida- des e o afastamento de indivíduos que pertencem a diferentes grupos sociais. A tendência é que, com espaços de interação reduzidos, se desgastem também os laços entre essas pessoas. Nesse contexto, parques, praças, calçadões e ginásios têm papel chave no fortalecimento da sociabilidade. Preservá-los Língua Portuguesa 51 e torná-los dinâmicos e atrativos é agenda de política pública de organizações da sociedade civil e movimentos cívicos como o Agora. Espaços públicos possuem especial potencial na prevenção da violência relacionada a jovens. Mui- tas vezes se afirma que precisamos ocupar crianças e adolescentes para tirá-los das ruas, mas pode ser mais eficaz se tornarmos as ruas mais seguras para que eles as ocupem. Áreas de convivência e lazer com atividades esportivas e culturais, localizadas em regiões mais vulneráveis à violência, são propícias para o desenvolvimento de experiências relacionadas à coletividade. Investimentos em in- fraestrutura, com garantia de iluminação e coleta regular de lixo, também são importantes. Na contramão do que indicam experiências internacionais bem-sucedidas, no Brasil, de forma geral, ainda apostamos na segregação de espaços e pessoas como solução para a segurança pública. Construímos muros, instalamos grades e investimos em segurança privada. Limitamos cada vez mais experiências ligadas a lazer, educação e trabalho a áreas particulares, com a falsa esperança de estar- mos mais protegidos. Segregação é terreno fértil para o medo e para o preconceito. Convivência entre indivíduos de diversos bairros, classes, idades, raças e cores por sotaque, por outro lado, estimula a criação de laços fundamentais para termos mais segurança. A destruição de parte importante de um espaço público tão simbólico para o nosso país, como a Quinta da Boa Vista, serve de alerta para o cuidado que precisamos dedicar a essas áreas. Cidadãos, em especial crianças e adolescentes, precisam delas para conviver com a diversidade, construir vínculos e novas memórias. CARVALHO, Ilona S. de. Convivência e segurança pública. Folha de S.Paulo, São Paulo, p. B3, 12 set. 2018. Parte Parágrafo Contextualizaçãoprimeiro Discussão da questão polêmica por meio de argumentos segundo ao quinto Conclusão sexto e sétimo 2. Explicite qual é a questão polêmica do artigo. A relação entre espaços públicos e segurança pública. 3. Para responder a estas questões, concentre-se na tese da autora. a) O que a autora defende no texto? A autora defende a importância de espaços públicos para a diminuição da violência. b) Registre, com suas palavras, o argumento utilizado pela autora para defender seu posicionamento. Para a autora, os espaços públicos favorecem a sociabilidade e a criação de laços entre os cidadãos. Essa convivência coletiva pode prevenir a violência, especialmente entre os jovens. c) Para a autora, no que diz respeito à preservação de espaços públicos, o Brasil ( ) age de acordo com as experiências internacionais bem-sucedidas. ( X ) faz o contrário do que se pratica nas experiências internacionais bem-sucedidas. Questão polêmica é um proble- ma que admite mais de uma solução. 1. Esse artigo de opinião apresenta as seguintes partes: contextuali- zação (apresentação da questão polêmica), discussão da questão por meio de argumentos e conclusão. No quadro abaixo, indique o(s) parágrafo(s) correspondente(s) a cada parte. 10 9o. ano – Volume 252 Projeto de escrita Neste capítulo, nossa proposta é a escrita de um artigo de opinião sobre um dos temas seguintes: • discurso de ódio; • vício em videogames; • notícias falsas. O ideal é que você escolha o mesmo tema com que trabalhou na seção Prática de oralidade. Preparação 5. Consulte as pesquisas sobre o tema feitas na seção Prática de oralidade e releia a entrevista transcrita. 6. Defina sua tese e selecione os argumentos que você poderá usar no artigo de opinião. 7. No primeiro parágrafo, contextualize a questão polêmica. Produção 8. Nos parágrafos seguintes, desenvolva a discussão por meio de argumentos. O profissional que você en- trevistou pode proporcionar um argumento de autoridade. Existe também a argumentação baseada em provas concretas (dados estatísticos, resultados de pesquisas científicas, fatos históricos, exemplos do cotidiano, etc.). 9. Mantenha a unidade temática entre os parágrafos. Além disso, você pode usar conjunções para indicar relação entre eles. 10. Na conclusão, reafirme a tese e recapitule os principais assuntos discutidos no decorrer do texto. 4. Assinale a alternativa correta. a) No texto, a coesão entre os parágrafos é obtida por meio de conjunções, responsáveis por uni-los. X b) A coesão entre os parágrafos é obtida por meio da manutenção temática. c) Não há coesão entre os parágrafos, o que torna o texto confuso. 11. Avalie seu artigo de opinião preenchendo o quadro abaixo. Sim Em parte Não 1. O primeiro parágrafo contextualiza a questão polêmica? 2. A discussão emprega diferentes tipos de argumentos (argumento de autoridade, exemplos, dados estatísticos, etc.)? 3. Há unidade temática entre os parágrafos? 4. A conclusão reafirma a tese e recapitula os principais assuntos discutidos ao longo do artigo? 5. O texto está de acordo com a norma-padrão? 12. Reescreva sua produção e entregue-a ao professor. Avaliação 11 Língua Portuguesa 53 Hora de estudo Organize as ideias 1. Complemento nominal é a) o mesmo que adjunto adnominal. X b) o termo preposicionado que completa o sentido de um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio). 2. Analise a frase “Nós estamos certos de sua compreensão” e resolva as questões propostas. a) Identifique o complemento nominal. de sua compreensão. b) Nesse caso, o complemento nominal completa o sentido de um ( ) substantivo. ( X ) adjetivo. ( ) advérbio. 3. Assinale a frase em que há oração subordinada substantiva completiva nominal. a) O vício em videogames foi classificado como doença pela Organização Mundial de Saúde. b) O discurso de ódio deseja atingir o outro. X c) Os estudiosos de notícias falsas negam a hipótese de que elas sejam um fenômeno exclusivo da internet. 4. Complete as lacunas usando a preposição ou a contração adequada. a) A sociedade não pode manter-se alheia ao discurso de ódio. b) A Organização Mundial de Saúde entende que o vício em videogames configura uma condi- ção de doença. c) As notícias falsas sobre saúde são cruéis com as pessoas que acreditam em curas milagrosas. d) A maioria dos cidadãos está disposta a rever seus hábitos de consumo. e) Os plásticos descartáveis são incompatíveis com a segurança dos animais marinhos. f) A vítima da notícia falsa se mostrou generosa com o agressor depois que ele se arrependeu. g) A crítica aos autores da notícia falsa surtiu efeito. A educação como antídoto às fake news Lucia Santaella Desde o início de 2017, menções e discussões acerca das fake news (notícias falsas) tornaram-se moedas correntes de boca em boca. Notícias falsas costumam ser definidas como notícias, estórias, boatos ou fofocas que são deliberadamente criadas para ludibriar ou fornecer informações enganadoras. Elas visam influenciar as crenças das pessoas, manipulá-las politicamente ou causar confusões em prol de interesses escusos. Muitos comentadores têm chamado atenção para o fato de que a falsidade das notícias não é um fenômeno inteiramente novo, pois já existia desde o tempo dos gregos. A grande diferença agora é que 54 passamos a sofrer os impactos de uma mudança de escala no acesso à informação que está se intensi- ficando crescentemente em meio à avalanche ininterrupta de notícias que recebemos nesta era digital. Tradicionalmente, na era hegemônica da comunicação de massas, as notícias eram fabricadas em fontes restritas, relativamente confiáveis, na medida em que deveriam seguir práticas baseadas em códigos estritos de deontologia, ou seja, o conjunto de deveres, princípios e normas adotadas por um determinado grupo profissional. Nesse caso, a profissão de jornalista. A partir da emergência da inter- net, da cultura digital e das redes sociais, surgiram novos modos de publicar, compartilhar e consumir informação e notícias pouco submetidas a regulações ou padrões editoriais. A internet e as redes sociais instauraram uma lógica inédita imensamente facilitadora para a publi- cação e o compartilhamento. Tal lógica atingiu seu pico a partir das mídias móveis, que permitem a publicação e interação de qualquer ponto do espaço, no momento que se desejar. Qualquer pessoa pode abrir um site, um blog ou um perfil em quaisquer plataformas que quiser. As mídias não são mais consumidas à maneira que foi consolidada pelas mídias massivas. O verbo, a imagem e o som, quase sempre juntos, são agora criados, compartilhados, aceitos, comentados ou atacados e defendi- dos das mais variadas maneiras, nas mais diversas plataformas, por milhões de pessoas. Falsas e não tão falsas As notícias procedem de variadas e múltiplas fontes e, muitas vezes, por falta de compreensão dos modos pelos quais as redes funcionam, por simples pressa ou por confusão diante do acúmulo de in- formações, torna-se mais difícil saber se as estórias ou as notícias são confiáveis ou não. Uma vez que compartilhar é um dos apelos do funcionamento das redes sociais, geram-se aí as condições para a disseminação de falsas notícias e de boatos. Por isso, costuma-se dizer que as mídias sociais favorecem a fofoca, a novidade pela novidade, a velocidade da ação impensada e do compartilhamento leviano. Contudo, o campo das notícias falsas não é tão redondo quanto se costuma postular. Há notícias falsas e notícias não tão falsas; portanto, há que se diferenciar as árvores dessa floresta. Existem, por exemplo, os chamados caça-cliques ou também iscas de cliques, histórias com chamadas e imagens sensacionalistas fabricadas especificamente para capturar a atenção do usuário na direção de sites propagandísticos com finalidades consumistas. O problema desse tipo de notícias é que, muitas vezes, elas não são precisas e até mesmo podem conterinverdades. Outro tipo de notícia do elenco falsificador são as propagandas intencionalmente criadas para enganar ao promover pontos de vista tendenciosos, quase sempre para alimentar causas e programas políticos. Menos prejudiciais são as notícias paródicas produzidas para provocar o riso do entreteni- mento fácil. Rir é sempre bom, certamente, basta ver o caso dos memes no Brasil, uma criação popular crivada de imaginação visual. O problema se dá quando escorregam para o preconceito ou para a mentira. Nesse caso, o riso sadio se converte em riso cúmplice. Armadilha da falsificação Ainda há outro caso: o das notícias híbridas. Quer dizer, matérias muitas vezes corretas, mas atra- palhadas pela falsidade sensacionalista das chamadas. É bastante conhecida a força que os títulos e as imagens têm para capturar a atenção dos usuários das redes. Não é senão ao poder das imagens que se deve o enorme sucesso do Instagram. No caso dos títulos, quanto mais sensacional ele for, mais atração produzirá. Portanto, mesmo um jornalismo confiável pode cair na armadilha da falsificação. Diante dessas modalidades, o que se pode inferir é que a falsidade funciona em toda a sua potên- cia porque as pessoas tendem irrefreavelmente a se recolher dentro das bolhas de seus preconceitos, tornando-se presas fáceis de interesses dos quais, por estarem retidas dentro de suas próprias cavernas platônicas, não conseguem se dar conta, dada a incapacidade de furar o bolsão de suas crenças fixas para enxergar algumas clareiras fora delas. A diferença crucial, entretanto, é aquela entre notícias passageiras que, embora falsas, produzem efeitos inócuos na realidade e notícias com o poder de produzir consequências sensíveis no rumo da vida social. Assim são as notícias propagandísticas de natureza política ou aquelas que visam 55 promover o consumo conspícuo. O grande problema, nesses casos, encontra-se na invisibilidade do modo como, dentro das redes, os algoritmos funcionam. Empregados pelas poderosas companhias de tecnologia, têm seu design destinado a traçar com precisão o perfil do usuário, de modo a desenhar nitidamente a bolha a qual pertencem. Educação como caminho Trata-se de uma questão paradoxal, que pouco tem a ver com a ideia do Big Brother no famoso livro de Aldous Huxley, o grande irmão que nos vigia. Nas redes, não se trata mais de uma força su- perior inelutável que nos oprime e nos cega. Os algoritmos são baseados nas próprias escolhas que fazemos, desenham as predileções que exibimos nas redes. Portanto, não é mais uma mera questão de se demonizar o poder das redes, pois elas não fazem outra coisa a não ser nos devolver o retrato de nossas mentes, desejos e crenças. Diante disso, o que fazer? Não posso ver outro caminho a não ser o da educação. Não apenas a educação na e para as redes. Para evitar as fake news já existem muitos sites checadores de notícias, que, aliás, precisam ser visitados com mais frequência. Entretanto, quando digo educação, refiro-me à formação educacional no seu sentido mais amplo, aquela que é capaz de desenvolver a sutileza da sensibilidade, a arte do cuidado com a alteridade e a ética da curiosidade em relação às complexidades psíquicas e sociais que nos constituem como humanos. Lucia Santaella é professora titular e coordenadora do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É autora de mais de 40 livros nas áreas de arte, semiótica, comunicação e mídias digitais. FAKE NEWS: nem verdadeiras nem falsas? Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/online/artigo/12329_FAKE+NEWS+NEM+VERDADEIRAS+NE M+FALSAS>. Acesso em: 7 dez. 2018. 1. Associe os tipos de notícias falsas a sua definição. a) Notícias caça-cliques b) Notícias tendenciosas c) Notícias paródicas d) Notícias híbridas ( d ) Têm chamadas sensacionalistas que distorcem o conteúdo do texto. ( c ) São prejudiciais quando veiculam preconceitos. ( b ) Têm finalidades políticas. ( a ) Têm finalidades consumistas. 2. Em sua opinião, qual desses tipos de notícias falsas está mais ligado ao discurso de ódio? Justifique sua resposta. Pessoal. Sugestão: As notícias falsas e o discurso de ódio estão estreitamente ligados. Com exceção das notícias caça-cliques, os demais tipos de notícias falsas mencionados veiculam preconceitos e/ou mentiras e, por isso, podem ser colocados a serviço do discurso de ódio. 3. Segundo o texto, o direcionamento de notícias falsas não é aleatório. Qual é o principal fator para esse direcionamento? Os algoritmos direcionam as notícias falsas com base nas escolhas feitas pelos próprios usuários em sua navegação na internet. 4. Qual é a tese da autora? A autora defende, no último parágrafo, que o melhor caminho contra as fake news é uma educação que desenvolva “a sutileza da sensibilidade, a arte do cuidado com a alteridade e a ética da curiosidade em relação às complexidades psíquicas e sociais que nos constituem como humanos”. 56 6 Cenário poético da África 1 © Sh ut te rs to ck /D en ni s v an d e W at er © Sh ut te rs to ck /D en ni s v an d ee W at er “[...] aquela era uma árvore muito sagrada, Deus a plantara de cabeça para baixo.” Mia Couto, na obra Cada homem é uma raça, na voz do personagem Tiago, do conto “O embondeiro que sonhava pássaros”. “Eu vejo a literatura abrir-se para o universal como uma grande rede que se alarga, não só aquela poesia rotulada, engajada e de combate. Ela está a abrir-se para o mundo aos sentimentos humanos, a reflexões profundas e filosóficas.” Carmen Lúcia Tindó, pesquisadora brasileira sobre literaturas africanas, em declaração dada à Angop (Agência Angola Press). 57 “Massa Makan Diabaté, um dos griots mais importantes do nosso tempo, compara o griot à kora, instrumento de 21 cordas: as sete pri- meiras tocam o passado; outras sete, o pre- sente; e as últimas sete, o futuro. Por isso, o griot é testemunha do passado, cantor do presente e mensageiro do futuro.” GRIOTS: os intérpretes musicais da história africana. Disponível em: <http://www.ruadireita.com/musica/info/griots-os-interpretes- musicais-da-historia-africana>. Acesso em: 11 jan. 2018. “A perspectiva etnocêntrica configura-se quando o ‘eu’ ou o ‘nós’ é pensado como ‘verdadei- ro’, ‘real’ ou ‘melhor’, sinônimo de avanço, modo de vida ou regras superiores, enquanto o ‘outro’ é visto e pensado como algo exó- tico, excêntrico, anormal, primiti- vo, enfim, inferior.” Disponível em: <https://www. passeidireto.com/arquivo/36019768/ historia-e-cultura-africana-vol-i/5>. Acesso em: 21 nov. 2018. • De que forma a desinformação e o etnocentrismo contribuem para “o perigo de uma única história”, como lembra a escritora nigeriana Chimamanda Adichie? Um baobá nasci- do no Brasil (Natal, Rio Grande do Nor- te) inspirou o escri- tor Saint Exupéry a desenhar as aqua- relas e a criar uma deliciosa passagem na obra “O peque- no príncipe”: “Ora, havia se- mentes terríveis no planeta do principe- zinho: as sementes do baobá... O solo do planeta estava infes- tado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raí- zes, E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba se rachando.” SAINT-EXUPÉRY, Antoine. O pequeno Príncipe. 9. ed Rio de Janeiro: Agir Editora 1992. p. 23-25 Na literatura, o telurismo refere- -se à atmosfera narrativa. Os temas sociais e as relações entre o indi- víduo e a sociedade que o rodeia são característicos da tendência telúrica. Um baobá nasci- do no Brasil (Natal, Rio Grande do Nor- te) inspirou o escri- tor Saint-Exupéry a desenhar as aqua- relas e a criar uma deliciosa passagem na obra O peque- no príncipe: “Ora, havia se- mentes terríveis no planeta do principe- zinho: as sementes do baobá... O solo do planeta estava infes- tado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais selivra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raí- zes, E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba se rachando.” SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. 9. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1992. p. 23-25. dodo Ri tete)) to d re d n n m l 1. Vamos “baobazar”, ou melhor, fabular sobre a mais intrigante árvore da África? Em grupos, observem e comentem a foto. Ali estão eles! Os baobás: imponentes, misteriosos, sagrados e inspiradores de ritos, lendas, poemas... 2. No Ocidente, consolidou-se, durante séculos, a ideia de que a África é um continente atrasado, sempre em guerra e habitado por povos miseráveis, famintos, doentes, primitivos e praticantes de ritos amaldiçoados, vivendo em um cenário de paisagens naturais exóticas, selvagens e inexploradas. Essa representação estereotipada é resultado, principalmente, de desinformação e do etnocentrismo que dominou a relação, sobretudo, da Europa com a África. © Sh ut te rs to ck / As tra ga l ©Shutterstock/Valenty © Sh ut te rs to ck /G ill es P ai re 3. Os povos africanos são verdadeiras bibliotecas da palavra viva. Ex- plique um possível sentido da expressão em destaque. Os povos africanos são contadores de histórias e, também, transmissores de todo tipo de conhecimento de ciências, técnicas, artes, crenças, divertimentos, etc. Desse modo, eles conservam vivo o conhecimento de sua comunidade. Atualmente, as Áfricas e suas sociedades da palavra chegam até nós pela escrita em língua portuguesa, por meio da literatura e da poesia de escritores como Mia Couto (moçambicano), Ondjaki (angolano), Alda do Espírito Santo (santomense), Pedro Corsino de Azevedo (caboverdiano) e Agnelo Regalla (guineense). As literaturas africanas de língua portuguesa contemporâneas vêm deixando, pouco a pouco, a literatura exclusivamente panfletária, de combate, rotulada, como aquela produzida por escritores que se colo- cavam entre dois mundos: a sociedade colonial e a sociedade africana. ©Antoine de Saint-Exup éry 58 Errar Na escolinha, a menina, propícia a equívocos, disse: – Masculino de noiva é navio. Repreenderam, riscaram, descontaram. Mas ela estava certa. Noivados são mares de barcos pares. COUTO, Mia. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 16. 3 Os textos apresentados a seguir constituem uma miniantologia: são uma “provinha” dessa produção instigante e saborosa. 2 4. Você sabe o que disse na escolinha a menina propícia a equívocos? Faça uma leitura silenciosa do poema Errar, deixando-se surpreen- der pela linguagem de Mia Couto. Depois, em grupos, explorem as possibilidades de “dizer” o texto em voz alta. Poema 1 5. O poema Errar evidencia algumas características da poesia de Mia Couto, como a criatividade e a inventividade. Transcreva as passa- gens que mostram essas características. 4 6. No poema Errar, o leitor é surpreendido com o aposto “propícia a equívocos”, que explica de que menina se trata. Experimente subs- tituir o aposto, mantendo o sentido do texto, mas usando uma linguagem mais coloquial. 5 7. Qual é a crítica implícita no quinto verso do poema? 6 Repreenderam, riscaram, descontaram. “Olhar não é apenas dirigir os olhos para perceber o ‘real’ fora de nós. É, tantas vezes, si- nônimo de cuidar, zelar, guar- dar, ações que trazem o outro para a esfera dos cuidados do sujeito [...]. O olhar cioso é inventivo.” NOVAES, Adauto et al. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 78. “Escrever poesia é encon- trar uma beleza no erro e no defeito.” José Castello, na apresentação da obra Poemas escolhidos, do poeta moçambicano Mia Couto. Mia Couto nasceu na cidade de Beira, Moçambique, em 1955. É biólogo, jornalista e autor de mais de 30 livros, entre poesia e prosa. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX. © Fo lh ap re ss /K ar im e Xa vi er 59 9. Proponha a um colega que crie um poema a partir de uma pala- vra oferecida por você. Pense em uma palavra especial, como uma “peça textual”, que lhe possibilite brincar com o sentido dela (am- biguidade, polissemia, homonímia, etc.). Do mesmo modo, elabore um poema a partir de uma palavra escolhida por esse colega. Com- partilhe sua criação com a turma. 8. Releia a afirmação da menina: – Masculino de noiva é navio. • É possível deduzir que a forma lúdica de olhar para a palavra “noiva” (a resposta da menina é quase uma piada e arrancaria risadas na sala de aula) desencadeou o poema? Justifique sua resposta e compartilhe-a com os colegas. 7 A literatura africana contemporâ- nea recebeu expressiva influência da literatura brasileira. Muitos es- critores de Angola, Moçambique e Cabo Verde, principalmente, buscaram referências nos autores do Brasil. Nosso país se libertou antes do jugo político e das in- fluências literárias do colonizador, para expressar suas identidades e criar com liberdade – na língua do colonizador, mas livre da opressão. “Para Mia Couto, a poesia é uma espécie de chave com a qual abrimos nossos próprios corpos. Na verdade, só estão presos os que não entram em contato com esse cárcere ín- timo. Paradoxo insuportável: aceitar a prisão (os limites) é a verdadeira libertação. Dese- nhar essa prisão com palavras. Moldá-la com a forma dos versos.” José Castello, na apresentação da obra Poemas escolhidos, 2008, p. 14. ©Shutterstock/Valenty © Sh ut te rs to ck / Cg te rm in al 9o. ano – Volume 260 10. Mia Couto fala sobre sua primeira lição de poesia. O escritor moçambicano conta como suas experiên- cias da infância o ajudaram a ver a beleza da história por trás dos objetos comuns – lixo jogado pelas jane- las do trem – que o pai “garimpava” e fala sobre a importância dessa capacidade (ver a beleza, garimpar) para os poetas. O autor exalta o processo de encantamento com aquilo que não é, em princípio, dotado de valor. • Inspire-se na experiência poética de Mia Couto ao observar o pai catando “desutensílios”, ressignifi- cando-os e dando brilho a eles. Faça esta experiência: durante uma hora, cate objetos em uma calça- da e reúna-os em uma caixa. Depois, organizem-se em grupos e olhem detidamente essas “descoisas”. Imaginem uma história que tenha relação com alguns dos objetos encontrados e elaborem um texto, em verso ou em prosa, para contá-la. 8 Língua Portuguesa 61 11. Encontramos também um menino “propício a erros”. Ele parece não ter muita noção de medi- das, como relata o poeta brasileiro Manoel de Barros, que inspirou a poesia de Mia Couto. Poema 2 O muro O menino contou que o muro da casa dele era da altura de duas andorinhas. (Havia um pomar do outro lado do muro.) Mas o que intrigava mesmo mais a nossa atenção principal Era a altura do muro Que seria de duas andorinhas. Depois o garoto explicou: Se o muro tivesse dois metros de altura qualquer ladrão pulava. Mas a altura de duas andorinhas nenhum ladrão pulava. Isso era. 12. Primeiramente, faça uma leitura silenciosa do poema. Depois, em grupos, ensaiem uma forma original de lê-lo em voz alta. 13. Realize um levantamento das rimas desse poema, verificando se elas existem. Faça o mesmo com a métrica e a estrofação. a) O que caracteriza esse poema de Manoel de Barros? b) Em que aspectos o poema de Mia Couto se assemelha ao de Manoel de Barros? 9 14. Releia os versos: Mas o que intrigava mesmo mais a nossa atenção principal Era a altura do muro • A palavra “principal”, um adjetivo, provoca estranhamento por- que esperamos uma forma adverbial. Experimente substituí-la pelo advérbio correspondente e comente o resultado com os colegas. O que aconteceu com os versos? 10 Manoel Wenceslau Leite de Bar- ros (1916-2014), nascido em Cuiabá, capital de Mato Grosso, é o mais aclamado poeta brasileiro da con- temporaneidade. Para ele, “passa a ser matéria de poesia tudo aquilo que escorrega entre as mãos contro- ladoras dopoder disciplinador.” RODRIGUES, Ricardo A. A poética da desutilidade: um passeio pela poesia de Manoel de Barros. Dissertação (Mestrado em Ciência da Literatura) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 9. “O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” BARTHES, Roland. O prazer do texto. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 24. “A poesia cuja tônica é o ilogismo – numa inversão muito especial do sentido co- mum – apresenta o mundo fora de seus ‘devidos lugares’ [...]” BOCHECO, Eloí E. Palavras, o riso cúmplice. In: ______. Poesia infantil: o abraço mágico. Chapecó: Argos, 2002. p. 42. nhas.. ro lladadoo ddo mmururo.)) e o m oririnn muro da casa dele era nhasas.. ©Shutterstock/Maryliflower © Ab ril C om un ic aç õe s S .A /O rla nd o Br ito 9o. ano – Volume 262 Ondjaki é o pseudônimo do pro- sador e poeta angolano Ndalu de Almeida, nascido em Luanda, em 5 de julho de 1977. Estudou em Luanda e concluiu licenciatura em sociologia em Lis- boa. Em 2010, na Itália, fez doutora- mento em Estudos Africanos. Suas obras foram traduzidas para diver- sas línguas, entre elas francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e chinês. Em outubro de 2010, ganhou o Prêmio Jabuti – o mais tradicional prêmio literário do Brasil – na categoria Juvenil, com o romance Avó Dezanove e o segredo do soviético. ONDJAKI. Prendisajem. Disponível em: <http://angolapoetas.blogspot.com/2011/09/prendisajem. html>. Acesso em: 7 dez. 2018. ©by Ondjaki 11 16. Leia o poema Prendisajem silenciosamente. Esse é um texto para ser lido de forma pessoal, ao menos, em um primeiro momento. Depois, as palavras devem ser ditas em voz alta, revelando-se na prosa coloquial. Prepare, então, a leitura em voz alta para o compartilhamento do poema. 17. Nesse poema, são criadas imagens que se voltam sobre si mesmas. Veja como isso acontece no primeiro verso: o tomate avermelha mundos. 15. Ao ler os poemas do poeta angolano Ondjaki, o leitor se pergunta: Que língua portuguesa é essa? Descubra lendo Prendisajem: Poema 3 • Mostre que você captou a forma de construção do poema e crie uma ou mais imagens para o verso “folha é parede verde”. Crie um neologismo, se achar necessário. 12 Prendisajem o tomate avermelha mundos. o cheiro da terra perdoa constipações. folha é parede verde para sol chegar. flor é outra narina de abelha. alcunha de qualquer jardim é biolabirinto. a mosca exagera em amizades com a merda. o pirilampo é a lanterna do poeta. o porco-espinho exagera em modos de precaução e a mandioca tuberculiza o chão. [...] o cheiro da terra rejuvenesce a humanidade. Neologismo: palavra ou expres- são nova em uma língua. © D. A Pr es s/ Es p. C B/ O sw al do R ei s Língua Portuguesa 63 b) Apenas um dos versos do poema não está em ordem direta, isto é, não apresenta a estrutura sujeito + predicado. Que verso é esse? Reescreva-o na ordem direta. “alcunha de qualquer jardim / é biolabirinto.”. A ordem direta seria “biolabirinto é alcunha de qualquer jardim”. c) Um dos versos do poema apresenta um neologismo. Que neologismo é esse? Explique-o. “a mandioca tuberculiza o chão.”. Tuberculiza é uma palavra criada, que funde a ideia de tubérculo (raiz tuberosa) à de enraizar. d) Uma expressão se repete ao longo do texto. Qual é ela? Qual a provável intenção do autor ao fazer essa repetição? A expressão é “o cheiro da terra”. Sugestão: Ao retomá-la, o poeta pode ter tido a intenção de referir-se a sua terra, à África, à mãe que perdoa e humaniza. e) Alguns versos do texto iniciam sem artigo. Cite, ao menos, dois exemplos. Em que sentido a exclusão do artigo definido contribui para o poema? Os versos são: “folha é parede verde”, “flor é outra narina de abelha.” e “alcunha de qualquer jardim”. O uso ou não de artigos dá ritmo ao texto. 19. O eu lírico conclui o poema, resumindo o propósito da composição poética, que é trazer a) amadurecimento para a humanidade. b) informações importantes para a humanidade. X c) esperança para a humanidade. d) surpresas para a humanidade. 20. O título condensa todo o poema em si, revelando a preocupação do autor em reinventar a linguagem popular, uma variante auspiciosa do português lusitano. Proponha outro título para o poema, comparti- lhando sua criação com os colegas e justificando-a. 18. Com base no poema Prendisajem, responda às questões propostas. a) O poema é constituído por metáforas. Escolha um verso em que essa figura de linguagem se faz presente, traduzindo-a para um grupo de colegas. Ajude os alunos a observar que todos os versos são construídos com metáforas. “Um poema não quer dizer isto nem aquilo, mas diz-se a si próprio, é idêntico a si mesmo.” PIGNATARI, Décio et al. Teoria da poesia concreta. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 15. 20. O título condensa todo o poema em si, revelando a preocupação do autor em reinventar a linguagem popular, uma variante auspiciosa do português lusitano. Proponha outro título para o poema, comparti- lhando sua criação com os colegas e justificando-a. 9o. ano – Volume 264 21. O que mais poderia ser assunto para Prendisajem? Pense em versos que possam ser encaixados no texto, recriando-o. Depois, compartilhe sua produção com os colegas. 22. A obra do escritor brasileiro Guimarães Rosa influenciou autores africanos como Mia Couto e Ondjaki por vários motivos: moderna linha de ficção do regionalismo; originalidade na criação de “mundos”; reinvenção da linguagem; imersão na musicalidade da fala dos personagens; criação de palavras novas e recuperação do significado de outras; empréstimo de termos de outras línguas; aproveitamento de provérbios e outros textos da oralidade; estabelecimento de relações sintáticas inesperadas; emprego de recursos poéticos; entre outros. 13 • Em duplas, reescrevam o excerto usando a linguagem coloquial comum, sem recursos estilísticos. Compartilhem o resultado com os colegas. “A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acer- tasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assom- bros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” ROSA, João G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 52. e recuperação do significado de outras; empréstimo de termos de outras línguas; aproveitamento de provérbios e outros textos da oralidade; estabelecimento de relações sintáticas inesperadas; emprego de recursos poéticos; entre outros. 13 •• Em duplas, reescrevam o excerto usando a linguagem coloquial comum, sem recursos estilísticos. Compartilhem o resultado com os colegas. “A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acer-rr tasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assom- bros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” ROSA, João G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: oo Nova Fronteira, 1988. p. 52.p © Sh ut te rs to ck /V al en ty Língua Portuguesa 65 Lá no “Água Grande” Lá no “Água Grande” a caminho da roça negritas batem que batem co’a roupa na pedra. Batem e cantam modinhas da terra. Cantam e riem em riso de mofa histórias contadas, arrastadas pelo vento. Riem alto de rijo, com a roupa na pedra e põem de branco a roupa lavada. As crianças brincam e a água canta. Brincam na água felizes... Velam no capim um negrito pequenino. E os gemidos cantados das negritas lá do rio ficam mudos lá na hora do regresso... Jazem quedos no regresso para a roça. 23. Na África, a mulher, “portadora de uma vozaparentemente silen- ciosa e marcada pelo cotidiano, consegue se inscrever no espaço social e, ao mesmo tempo, transformá-lo” (disponível em: <htt- ps://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/54041>. Acesso em: 11 jan. 2018). É o que podemos perceber no poema Lá no “Água Grande”, da poeta santomense Alda do Espírito Santo, ou Alda Graça. Poema 4 Conheça mais sobre Alda Graça em <http://www.lusofoniapoeti- ca.com/artigos/sao-tome-principe/alda-espirito-santo/biografia- -alda-espirito-santo.html>. Alda do Espírito Santo, ou Alda Graça, como ficou conhecida, é uma das mais importantes poetas africanas de língua portuguesa. Chegou a frequentar a universidade em Portugal, mas teve de aban- donar seu curso por dificuldades econômicas e atividades políticas. Depois, ocupou alguns cargos de relevo nos governos de São Tomé e Príncipe: foi ministra da Educação e Cultura, ministra da Informação e Cultura e deputada. GRAÇA, Alda. Lá no “Água Grande”. Disponível em: <http://www.buala.org/pt/mukanda/ poemas-de-alda-espirito-santo>. Acesso em: 22 nov. 2018. 24. Faça uma leitura pessoal e silenciosa do poema, sentindo seu ritmo, ditado pela água que canta, pelas roupas batidas nas pedras e pelas modinhas cantadas pelas negritas. Depois, reúna-se com alguns co- legas para experimentar formas de ler esse texto em voz alta. 14 25. Entre os estudiosos e os apreciadores da poesia de Alda Graça, ela é considerada “uma voz de imbondeiro no silêncio da gravana”. Explique o significado dessa representação considerando a imagem na abertura do capítulo, a biografia dessa autora, as ideias discutidas em sala de aula sobre a poética africana e o poema Lá no “Água Grande”. 15 26. No poema, estão contemplados os elementos que Senghor disse serem as marcas do negro: o ritmo e a emoção. a) Observe a marcação do ritmo na primeira estrofe: Lá no “Água Grande” a caminho da roça negritas batem que batem co’a roupa na pedra. Batem e cantam modinhas da terra. • Continuem a marcar o ritmo no restante do poema para sentir sua musicalidade. CRIE UM TERCETO PARA AVOLUMAR AS VOZES QUE CANTAM. “A referência à negritude, a ligação do conceito ao sen- timento, à sensibilidade rít- mica seria, segundo o sene- galês Senghor, o diferencial entre o africano e o europeu.” SANTOS, Rubens P. dos. A poesia africana de língua portuguesa: compromisso com a negritude. Diálogo com a poesia brasileira. Disponível em: <http:// www.africaeafricanidades.com.br/ documentos/A_poesia_africana_de%20 lingua_portuguesa.pdf>. Acesso em: 11 jan. 2019. “O verdadeiro nome da mulher é ’Sim’. Alguém man- da ‘Não vais’. E ela diz: ‘eu fico’. Alguém ordena: ‘não fa- les’. E ela permanecerá calada. Alguém comanda: ’não faças’. E ela responde: ‘ eu renuncio.’” COUTO, Mia. A confissão da leoa. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 41. (Provérbio do Senegal). ©Shutterstock/Valenty9o. ano – Volume 266 b) O poema Lá no “Água Grande” despertou sua emoção? Que recursos são usados para se conseguir isso? 16 27. Localize, no poema, as muitas referências ao ato de cantar, ao can- to, e registre-as nas linhas a seguir. 17 28. O poema Ritmo, do poeta brasileiro Mario Quintana, dialoga com Lá no “Água Grande”. Em que consiste esse diálogo? Realize uma leitura comparada desses poemas para responder a essa pergunta. Poema 5 Ritmo Na porta a varredeira varre o cisco varre o cisco varre o cisco Na pia a menininha escova os dentes escova os dentes escova os dentes No arroio a lavadeira bate a roupa bate a roupa bate a roupa até que enfim se desenrola toda a corda e o mundo gira imóvel como um pião! QUINTANA, Mario. Ritmo. In: ______. Nova antologia poética. Disponível em: <http://www. jornaldepoesia.jor.br/Navegando.pdf>. Acesso em: 22 nov. 2018. ©by Mario Quintana EXPERIMENTE USAR SEU TALENTO QUINTILIANO, CRIANDO MAIS UMA ESTROFE PARA O POEMA. 29. Assinale a(s) alternativa(s) que indica(m) recursos sonoros presen- tes nos poemas Lá no “Água Grande” e Ritmo. a) Onomatopeia. b) Reiteração de sons. c) Aliteração. d) Assonância. e) Versos livres e ritmo solto e irregular. 18 X f) Todas as alternativas estão corretas. “O poema não é um recep- táculo neutro onde se derra- ma a emoção. Não há, a rigor, emoção nenhuma num poe- ma. E a contribuição do leitor, neste caso, é decisiva. A emo- ção é um evento que se locali- za aquém ou além do poema.” COSTA, Ronald A. Tópicos sobre emoção e poesia. Disponível em: <https://sibila. com.br/critica/topicos-sobre-emocao- epoesia/4863>. Acesso em: 7 dez. 2018. É provável que você já tenha observado, em documentários, filmes, eventos esportivos, etc., que os povos africanos costu- mam cantar em conjunto. Muitos têm canções para acompanhar os trabalhos diários, dando o rit- mo da atividade, como mostra o poema. Língua Portuguesa 67 Agnelo Regalla nasceu em Campeane (Tombali), na Guiné- -Bissau, em 9 de julho de 1952. For- mado em Jornalismo no Centro de Formação de Jornalistas em França, desempenhou as funções de dire- tor da Radiodifusão Nacional e de diretor-geral da Informação do Mi- nistério da Informação, além de in- tegrar o Governo por duas ocasiões como secretário de Estado da Infor- mação. Atualmente, dirige a Rádio Bombolom. O eco do pranto Não me digas Que essa é a voz de uma criança Não... A voz da criança É suave e mansa É uma voz que dança... Não me digas Que essa é a voz de uma criança Parece mais Um grito sem esperança Um eco Partindo do fundo de um beco Não me digas Que essa é a voz de uma criança, Essa é doce e mansa É uma voz que dança... Esta parece mais Um grito sufocado sob um manto REGALLA, Agnelo. O eco do pranto. Disponível em: <http://triplov.com/guinea_bissau/agnelo_ regalla/poemas/eco.htm>. Acesso em: 22 nov. 2018. 19 • Em pequenos grupos, leiam esse poema, observando que ele lembra uma cantoria, com frases repetidas como em uma canti- ga ou uma récita. Localizem esses momentos no poema e com- partilhem suas descobertas com o restante da turma. 31. No poema O eco do pranto, o eu poético estabelece uma relação interativa com o leitor, fazendo comentários em tom entre surpre- sa e dor. Transcreva os versos em que essa interação ocorre de for- ma mais direta. 20 “A voz é um instrumento vivo dotado de sentidos; ela é energia vital. Nas palavras de Hampâté Bâ (In Ki-Zerbo, 1982, p. 186), ‘A fala humana anima, coloca em movimento e suscita as forças que estão estáticas nas coisas’.” CHAGAS, Michelle C. Letras, sons e ecos: a musicalidade na poesia de José Craveirinha. Disponível em: <http://www.letras.ufrj. br/posverna/mestrado/ChagasMC. pdf>. Acesso em: 7 dez. 2018. 30. A voz é uma espécie de impressão digital: cada um tem a sua, embo- ra existam vozes parecidas, especialmente em uma família. Quando sentimos empatia, nossa voz passa por um processo de “convergên- cia” e moldamos o timbre, a altura e até o jeito de falar. E a voz de uma criança? Ah! Ela deve soar como voz de criança, e não como o eco do pranto. Poema 6 O refrão ou estribilho é um tipo de estrofe especial, que se repete ao longo do poema ou da canção. ©Shutterstock/Valenty9o. ano – Volume 268 Essa negra Fulô Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha, chamada negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) – Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô! Essa negra Fulô! Essa negrinha Fulô! ficou logo pra mucama pra vigiar a Sinhá, pra engomar pro Sinhô! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) vem me ajudar, ó Fulô, vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô! vem coçar minha coceira, vem me catar cafuné, vem balançar minha rede, vem me contar uma história, que eu estou com sono, Fulô! Essa negra Fulô! “Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. Entrouna perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cin- co”. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Vai botar para dormir esses meninos, Fulô! “minha mãe me penteou minha madrasta me enter- rou pelos figos da figueira que o Sabiá beliscou”. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá Chamando a negra Fulô!) Cadê meu frasco de cheiro Que teu Sinhô me mandou? – Ah! Foi você que roubou! Ah! Foi você que roubou! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! O Sinhô foi ver a negra levar couro do feitor. A negra tirou a roupa, O Sinhô disse: Fulô! (A vista se escureceu que nem a negra Fulô). Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê meu lenço de rendas, Cadê meu cinto, meu broche, Cadê o meu terço de ouro que teu Sinhô me mandou? Ah! foi você que roubou! Ah! foi você que roubou! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção, de dentro dêle pulou nuinha a negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê, cadê teu Sinhô que Nosso Senhor me man- dou? Ah! Foi você que roubou, foi você, negra fulô? Essa negra Fulô! 32. É interessante observar nesse poema o processo de nasalização. I. Transcreva as palavras nas quais as vogais aparecem nasalizadas. pranto, não, me, uma, criança, mansa, dança, mais, um, sem, esperança, partindo, fundo. II. Nesse poema, a nasalização tem efeitos estilísticos. O que ela provoca? a) Fluidez nos versos. b) Continuidade dos versos. c) Sensação de sufocação, de abafamento, ocasionada pelas sílabas com vogais fechadas. d) Surpresa, pelo jogo de “eco”, que sonoriza todo o poema. 21 X e) Todas as alternativas estão corretas. 33. O poema O eco do pranto apresenta uma oposição, um jogo de contraste que sustenta o texto. Identi- fique-a, compartilhando sua descoberta com os colegas. 22 34. Muitos diálogos se estabeleceram entre a literatura brasileira e a africana, muitas vozes daqui e de lá, entre elas a do poeta brasileiro Jorge de Lima, com sua poesia multifacetada, em tom coloquial. Ao aderir ao Modernismo, sua poesia revela temas telúricos de origem popular e africana. O ponto alto dessa “fase negra” ou “nordestina” é o poema Essa negra Fulô, de 1928. 23 Poema 7 LIMA, Jorge de. Poesia. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1974. ©by Maria Thereza Jorge de Lima e Lia Corrêa Lima Alves de Lima Língua Portuguesa 69 Barlavento é o lado do barco que recebe o vento, e sotavento, o que “solta” o vento. Ambos os termos são de origem náutica. De boca a barlavento I Esta a minha mão de milho & marulho Este o sol a gema E não o esboroar do osso na bigorna E embora O deserto abocanhe a minha carne de homem E caranguejos devorem esta mão de semear Há sempre Pela artéria do meu sangue que g o t e j a De comarca em comarca A árvore E o arbusto Que arrastam As vogais e os ditongos para dentro das violas II Poeta! todo o poema geometria de sangue & fonema Escuto Escuta Um pilão fala árvores de fruto ao meio do dia E tambores erguem na colina Um coração de terra batida E lon longe Do marulho à viola fria Reconheço o bemol Da mão doméstica Que solfeja Mar & monção mar & matrimónio Pão pedra palmo de terra Pão & património Epopeia: poema extenso que narra as ações de um herói histó- rico ou lendário. FORTES, Corsino. De boca a barlavento. Disponível em: <https://www.escritas.org/pt/t/13343/de- boca-a-barlavento>. Acesso em: 22 nov. 2018. 35. Na cultura e na literatura caboverdianas, estão presentes o con- flito entre ir e vir (o evasionismo e o antievasionismo), o rigor for- mal, o cuidado estético e o compromisso social. Leia o poema De boca a barlavento, uma epopeia do poeta africano Corsino Fortes. Poema 8 VENTO SOTAVENTO BARLAVENTO ©Shutterstock/Meranna © Sh ut te rs to ck /M er an na “O texto sem leitor é um texto em estado, é o ato de ler que revitaliza e acorda o sistema de vida, valores e formas expressos no texto. O texto sendo lido é o texto em atividade. Assim, ler o texto é a atividade do texto.” AMARILHA, Marly. Estão mortas as fadas. Petrópolis: Vozes; Natal: Edufrin, 1997. p. 80. © Sh ut te rs to ck /V al en ty 70 36. Corsino Fortes, um dos mais importantes representantes da modernidade poética das literaturas africa- nas em língua portuguesa, buscou novas formas de expressão – um formato cinético, visual, figurativo, como você pode observar no poema De boca a barlavento. • O que você percebe com relação à silhueta do poema? 24 37. Em grupos, analisem o poema De boca a barlavento, apoiando-se na explicação a seguir e no comentário sobre a poética de João Cabral de Melo Neto. O poema Catar feijão não tem ex- cessos; pelo contrário, é sintético e seco e original na forma e no con- teúdo. Trata-se de um metapoe- ma, porque usa o poema para falar da construção poética. Apresenta-se em duas partes, que lembram quadros pictóricos, vi- suais. É carregado de musicalidade e de figuras de linguagem, espe- cialmente de metáforas. a) É possível afirmar que a linguagem usada no poema De boca a barlavento é contida, seca? Justifique sua resposta com passa- gens do texto. Sim, a linguagem é seca, enxuta. Quase não há artigos, o símbolo & reduz ainda mais o número de palavras e existem poucos adjetivos no texto. b) Que recurso gráfico é utilizado para expressar a dor crescente do trabalhador? É esperado que os alunos concluam que essa dor crescente é representada pela palavra “goteja”, escrita letra por letra, como gotas de sangue. Catar feijão Catar feijão se limita com escrever: joga-se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo: pois para catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 2. Ora, nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quando ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual, açula a atenção, isca-a como o risco. MELO NETO, João C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. Catar feijão, de João Cabral de Melo Neto, era um dos poemas favoritos de Corsino Fortes. Poema 9 A poesia de Corsino revela um alto grau de consciência técnica e política. Prima pelo rigor formal e pela contenção da linguagem, lembrando a poética de João Cabral. Há em seus poemas conjuga- ção entre o trabalho estético e o compromisso social. Seus versos operam com a força fonêmica da palavra, alimento de politização e de metapoesia. Corsino cria, assim, uma poética de reflexão que reescreve Cabo Verde com tintas próprias, com o sangue do poeta a gotejar cabo-verdianamente ao ritmo dos tambores e dos fonemas crioulos. SECCO, Carmen L. T. As literaturas africanas de língua portuguesa: diálogos com o Brasil. Disponível em: <http://revista.catedra.puc-rio.br/index. php/2016/11/03/as-literaturas-africanas-de-lingua-portuguesa-dialogos-com-o-brasil/>. Acesso em: 22 nov. 2018. 71 O ritmo do tantã o ritmo do tantã não o tenho no sangue nem na pele nem na pele tenho o ritmo do tantã no coração no coração no coração o ritmo do tantã não tenho no sangue nem na pele nem na pele tenho o ritmo do tantã sobretudo mais do que pensa mais do que pensa penso África, sinto África, digo África odeio em África amo em África estou em África eu também sou África tenho o ritmo do tantã sobretudo no que pensa no que pensa penso África, sinto África, digo África e emudeço dentro de ti, para ti África dentro de ti, para ti África á fri ca á fri ca á fri ca 39. Em O ritmo do tantã, o poeta angolano António Jacinto reafirma sua africanidade, valorizando símbolos culturais locais, como o tantã. Propósito semelhante tem o poeta brasileiro modernista Manuel Bandeira no poema Epílogo. Poema 11 EpílogoEu quis um dia, como Schumann, compor Um Carnaval todo subjetivo: Um Carnaval em que o só motivo Fosse o meu próprio ser interior. Quando o acabei – a diferença que havia! O de Schumann é um poema cheio de amor E de frescura, e de mocidade... E o meu tinha a morta mortacor Da senilidade e da amargura... – O meu Carnaval sem nenhuma alegria! BANDEIRA, Manuel. Carnaval. Disponível em: <http://www. blocosonline.com.br/literatura/prosa/artigos/art042.htm>. Acesso em: 23 nov. 2018. 25 O pernambucano Manuel Bandeira era poeta e músico. Além de tocar piano e violão, era crítico musical. Seu primeiro livro tem o título Carnaval, inspirado na peça musical do compositor alemão Robert Schumann. Muitas são as canções musicadas de Bandeira. 39. Em O ritmo do tantã, o poeta angolano António ã Jacinto reafirma sua africanidade, valorizando símbolos culturais locais, como o tantã. Propósito semelhante tem o poeta brasileiro modernista Manuel Bandeira no poema Epílogo. © Sh ut te rs to ck /V al en ty © Sh ut te rs to ck /G ur za 38. O poema a seguir encerra este capítulo, que tra- ta da literatura africana. Poema 10 JACINTO, António. O ritmo do tantã. Disponível em: <http:// angolapoetas.blogspot.com/2010/10/o-ritmodo-tanta.html>. Acesso em: 23 nov. 2018. 9o. ano – Volume 272 Que as páginas deste capítulo, “postas em palavras pelos tantãs falantes, pelos baobás fetiches”, pelos meninos e meninas propí- cios a equívocos, pelas prendizajens, pelo eco do pranto e pela boca a barlavento “de algumas Áfricas, sejam um mel selvagem para seu coração”. PINGUILLY, Yves. Contos e lendas da África. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 7.