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2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O PROJETO DE PESQUISA4 A elaboração do projeto de pesquisa é o momento-chave do processo de construção do conhecimento. A impor- tância desse documento pode ser representada por uma analogia urbanística: seu papel seria semelhante àquele desempenhado pela planta de uma cida4~, ou seja, é um gl.lia~_ási~()para quem quer conhecê-Ia ou, simplesmen- te, chegar ao seu destino com eficiência. Entretanto, as informações cartográficas não podem prever todos os caminhos, rluJÍto menos "retratar" a realidade urbana em sua riqueza e peculiaridades. Apenas depois de percorrer os logradouros públicos, contemplar ou utilizar as edifi- cações, relacionar-se com os habitantes do lugar e parti- cipar de suas atividades é que o viajante poderá dizer que "conhece" a cidade. De forma similar, o contexto teórico e empírico a---...,...._~.----_.~-----_. ser estudado pelo pesquisador somente será conhecido mediante ~<:()!!tªto l~~goe intenso COlll a realidade que 4 Este item reproduz algumas partes do texto "O projeto de pesquisa no contexto do processo de construção do conhecimento", incluído na coletânea Pesquisa em Ciências Sociais, projeto de dissertação de mes- trado (GONDIM, 1999). In: GONDIM, Linda M. P.; LIMA, Jacob C. A Pesquisa como Artesantato Intelectual: considerações sobre método e bom senso. São Carlos, EDUFSCAR, 2006, p. 41-78 Cliente Typewriter IN: GONDIM, Linda M. P.; LIMA, Jacob C. A Pesquisa como Artesanato Intelectual: considerações sobre método e bom senso. São Carlos, EDUFSCAR, 2006, p. 41-78. 42 pretende estudar, tanto por m~iodelivrQs, documentos e dados secundários quanto por meio da coleta de infor- mações do trabalho de campo. Tal contato, porém, será mais ou menos árduo dependendo da preparação prévia do investigador, da qual o projeto de pesquisa é um com- ponente essencial. Saber elaborar um projeto de pesquisa constitui um pressuposto da atividade profissional do sociólogo. Trata-se de uma f~l."ramenta indispensável ao bom an- damento de todas as etapas da atividade de investigação, devendo servir para o planejamento do trabalho de cam- po, para a definição de métodos e técnicas de análise e interpretação de dados e, finalmente, como subsídio para a preparação do relatório final ou, no caso de estudantes de pós-graduação, da própria dissertação de mestrado ou tese de doutorado (CAVALCANTE, 1997, p. 1). Assim, um projeto _deve serpreparado consideran- -' __ ._,C • _ do dois objetivos principais: nortear a investigação a ser ____ .,----, .«•• <c_~""'.·'"_·~_'''_·. feita e comunicar a outrem o que se pretende fazer. Nesse _,_~",-""""", __ ""''''''''''_.''''~''>~-~_•.."" .._.._.".~~._.__,. ,... _,.,........."w._ •." •..•_•. ~.,, __ ._"_ ••• ~ , __ ~_ •.. " •. ~ momento do trabalho, deve explicitar, de forma concisa e compreensível, conteúdos e procedimentos referidos a uma realidade futura (a pesquisa que será feita), para: o 43 orientador, os membros da banca examinadora, a comu- nidade científica, entidades governamentais ou não-go- vernamentais, instituições financiadoras e outras. Vale lembrar a distinção, muitas vezes mal compre- endida, entre pesquisa "purà' e pesguisa aplicada. Esta última visa a fornecer subsídios para a resolução de pro- blemaspráticos e, em geral, é encomendada por uma ins- tituição ou grupo com interesse direto na resolução des- ses problemas. Já a pesquisa para uma tese de mestrado ou doutorado situa-se primordialmente em um contexto acadêmico, para o qual são relevantes não só dificuldades encontradas no mundo social, como, também, as formu- lações teóricas pertinentes a esse meio. Isso não significa, necessariamente, desinteresse pela resolução de questões sociais, mas que não há compromisso com nenhum clien- te em particular que busque soluções concretas e imedia- tas. O "cliente" de um trabalho acadêmico, pode-se dizer, é a sociedade como um todo. Nessa perspectiva, a tese ou dissertação é um produto que deve ficar à disposição do "público"; uma vez concluída, não "pertence" mais unica- mente ao seu autor ou à instituição na qual foi realizada. 44 Apesar dessa distinção - que afeta mais a definição do objeto que os demais aspectos da pesquisa -, há ele- mentos comuns a todos os projetos. Qualquer que seja a forma de apresentação, estes devem responder às seguin- tes questões: • o que será feito (definição do objeto); • por que fazê-lo (justificativa); • para que será feito (objetivos); • a partir de que perspectiva se pretende fazê- 10 (quadro referencial teórico); • como e onde será realizada a pesquisa (meto- dologia); e, • quando será feita (cronograma). A precisão das respostas a essas questões é funda- mental, pois propiciará uma qualidade indispensável a qualquer trabalho científico: a clareza. Para tanto, a lin- guagem utilizada deve segllir o padrã() gralTI<ltical,evitan- do o uso de jargão e outros efeitos estilísticos, conforme já mencionado. Um dos recursos para se chegar à clareza ~_aconcisão, a qual depende da capacidade de síntese que, por sua vez, requer profunda compreensão sobre o que \ 45 está sendo abordado. Ao contrário do que possa parecer, textos longos não são necessariamente mais completos, pois a prolixidade tende a favorecer as redundâncias e o excesso de palavras dispensáveis, que funcionam como "adornos", escondendo o essenciaL Por isso, é desejável que a extensão dos projetos de pesquisa não ultrapasse 20 páginas, Além disso, o mestrando ou doutorando deve ~eguir as regras de apresentação de trabalhos científicos, sobre- tudo as relativas a citações, notas de rodapé e referências bibliográficas. Tais normas podem variar de acordo com as orientações estabeleci das pelas diferentes instituições, sendo que algumas universidades já possuem suas pró- prias definições. Nos casos em que inexistam tais orien- tações, recomenda-se recorrer a um manual de norma- lização de trabalhos científicos que apresente as normas mais recentes da Associação Brasileira de Normas Técni- cas (ABNT).5 5 As normas da ABNT pertinentes à apresentação de trabalhos cientí- ficos, publicadas mais recentemente são: NBR 6023, de agosto de 2002: "Referências - Elaboração"; NBR 10520, de agosto de 2002: "Citações em documentos - Apresentação"; e NBR 14724, de agosto de 2002: "Trabalhos acadêmicos - Apresentação". 46 2.1 Estrutura do projeto de pesquisa Primeiramente, é preciso ressaltar que não há um forma- to "certo" de projeto de pesquisa, já que uma de suas qua- lidades é a estrutura flexível, adaptável ao tema e à me- todologia da investigação. Assim, não é necessário que o texto apresente todos os tópicos sugeridos na ordem indicada, pois estes podem ser acrescidos de outros itens, agregados de diferentes maneiras e receber títulos de acordo com aspectos substantivos pertinentes ao objeto. A estrutura sugerida é a seguinte:6 • Introdução • Justificativa • Problematização ou construção do objeto • Objetivos • Metodologia • Cronograma • Bibliografia O texto do projeto deve ser precedido por uma folha de rosto, indicando título da pesquisa, autor, orientador, 6 Exemplos de estruturas diferentes dessa são apresentados em Gon- dim (1999). 47 instituição, local, mês e ano em que o projeto foi escrito. Nota-se que projetos submetidos a instituições financia- doras devem incluir, também, um~0I:çartlento, geralmen- te apresentado como anexo ao texto. Na Introdução, apresenta-se, de maneira sucinta, a questão a ser investigada e o recorte espacial e tempo- raL Deve-se dizer como se escolheu o objeto e indicar a importância da pesquisa, em termos de contribuição uma melhor compreensão ou solução de um problema social. Esses aspectos serão retomados na Justificativa, mas convém explicitar, já no início, as razões do interes- se do pesquisador pelo objeto pesquisado, inclusive para evidenciar sua experiência prévia em trabalhos sobre o tema, assim como seus possíveis vieses. Na Justificativa, apresentam-se_,!srazões de nature- za teórica e empírica para a pesquisa; em outras palavras, expõe-se a pertinência da escolha do objeto, em termos de aprofundamento do conhecimento sobre a temática e de sua relevância teórica. Além disso, comenta-se a çlisponiblliciade do material empírico e as condições de acesso aos dados. Jonatha Highlight Jonatha Highlight Jonatha Highlight 48 o item Prg_~~a~i~ação_ é fundamentado na revi- são da literatura e incluiq1A-~~!õese~ipôJ~ses suscitadas pelo "recorte" da realidade que se pretende estudar. É o momento do pesquisador demonstrar que conhece mi- nimamente seu objeto, cuja definição constitui um dos aspectos mais difíceis da elaboração do projeto. Não se deve confundir tema com objeto de pesquisa. O primeiro tem caráter mais amplo e constitui, na verda- de, a ár~a_<i~}l1teressedo pesquisador, como, por exemplo, a questão da imagem da cidade. Já o objeto é resultado de um "recorte" do tema, a partir de uma problematização da realidade que se quer investigar. No exemplo em pau- ta, um objeto de pesquisa poderia ser o estudo da pro- dução de uma nova imagem para a cidade de Fortaleza, em decorrência de um projeto de intervenção no espa- ço urbano, associado a uma política cultural - o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (GONDIM, 1997). É necessário delimitar o objeto mesmo que não se pretenda realizar pesquisa empírica, pois é essa delimi- tação que torna uma dissertação ou tese diferente de um manual, uma enciclopédia, uma compilação de dados ou um tratado teórico (Eco, 1977). Nessa perspectiva, é im- 49 portante distinguir entre a contextualização do objeto e o objeto propriamente dito. Embora a compreensão de um problema dependa, em grande parte, de sua inserção em um panorama mais amplo, r~()_s~deye ..cair na tentação de fazer uma análise "panorâmicâ'. Assim, o texto da tese poderá incluir, em um capítulo, um quadro muito am- plo, mas somente os aspectos diretamente pertinentes ao .objeto serão aprofundados na investigação. No exemplo da pesquisa sobre a imagem da cidade, anteriormente ci- tada, considerou-se a história recente das transformações no espaço urbano de Fortaleza e suas repercussões nas representações sobre a cidade, mas o objeto de investiga- ção não foi o processo de evolução urbana. Por outro lado, não se deve exagerar na restrição do !ema, a ponto de cair na trivialidade ou mesmo produzir verdadeiras idiossincrasias empíricas, como no caso de um estudo descritivo sobre alunos de uma escola pública em João Pessoa ou qualquer outro lugar, sem especificar o porquê dessa escolha e qual a questão teórica que se pretende investigar. É imprescindível inserir o monográ"- fico em um quadro teórico ou histórico: mesmo o estudo de caso limitado no espaço e no tempo deve ser concebi- 50 do de tal forma que lance luz sobre questões mais amplas, relevantes para as Ciências Sociais. Essa questão será re- tomada no próximo item deste texto. A revisão da literatura, também contida no item Problematização, indica como o tema tem sido tratado por autores diversos, comparando diferentes enfoques e perspectivas teóricas. Deve-se situar o objeto em relação a outros trabalhos pertinentes ao tema, apontando afini- dades e divergências e ressaltando lacunas que poderão ser preenchidas pela investigação proposta. Trata-se de reconhecer o caráter cumulativo da produção científica e de situar-se como membro de uma comunidade de in- vestigadores, em vez de conformar-se com a medíocre posição de um consumidor de idéias alheias. A indicação do enfoque teórico que promete ser mais frutífero para a pesquisa proposta, acrescida das ca- tegorias e dos conceitos que serão utilizados na análise, constitui o gl!ªWo referencial teórico, que pode ser ob- jeto de item específico, dependendo de seu grau de com- plexidade e de sua extensão. A revisão da literatura está presente, de forma mais ou menos explícita, em praticamente toda a estrutura su- 51 gerida, uma vez que o conhecimento do "estado atual da arte" subsidia a justificativa, a definição do objeto, a esco- lha do quadro referencial teórico ea própria metodologia a ser utilizada. Isso ocorre porque a produção do conhe- cimento sociológico nunca é obra de indivíduos isolados; quer seja entendida como um processo cumulativo, quer seja concebida como fruto de rupturas (KOYRÉ, 1982), tem sempre um caráter relacional, na medida em que não é decorrente de "atos inaugurais" ocorridos em um vazio histórico e epistemológico (BOURDIEU, 1989). No item ºl2ietivQ§, repete-se, de forma sintética, o que foi colocado na Introdução, sendo possível mencio- nar outros objetivos específicos. No projeto de pesquisa A "nova precarização" do trabalho: interiorização industrial, assalariamento restrito, cooperativas e trabalho domiciliar, o objetivo estabelecido foi: estudar o desenvolvimento recente da re- gião Nordeste a partir da implementação de políticas de interiorização industrial e o processo de "proletarização" que o acompa- nha. Essas políticas têm sido acompanhadas 52 de formas flexibilizadas de relações de tra- balho que incluem desde o assalariamento restrito com direitos sociais limitados, a formas de subcontratação em cooperativas de trabalho e quarteirização7 em trabalho domiciliar, dentro do novo paradigma da acumulação marcado pela globalização (LIMA, 1999, p. 11). Quanto aos objetivos específicos, n.ão há obrigato- riedade de incluí-Ios. Isto deve ser feito apenas se um maior detalhamento contribuir para tornar mais claro o que se quer obter com a pesquisa. No exemplo citado, poderiam ser elencados como objetivos específicos: a) verificar os impactos da instalação desses empreendimentos - unidades fabris e coo- perativas - e de cadeias de trabalho domici- liar - nos municípios sertanejos; b) analisar em que medida esses empreendimentos 7 A quarteirização refere-se à subcontratação de serviços por empresas que operam como subcontratadas. 53 consolidam-se como uma opção de empre- go ou ocupação; c) analisar o processo de "formação" e treinamento desses trabalha- dores e suas implicações na aceitação das relações de trabalho oferecidas; d) estudar em que medida "novas" formas organizati- vas, tais como cooperativas e trabalho autô- nomo, consolidam-se e como o trabalhador percebe sua situação enquanto trabalhador não assalariado (LIMA, 1999, p. 11). A Metodologia explicita as questões norteadoras e as estratégias que serão utilizadªs para a abordagem em- pírica do objeto. Essas questões - que já aparecem na de- finição do objeto implícita ou explicitamente - devem ser recolocadas ou redefinidas em termos de estratégia me- todológica que se pretende seguir, !lrticulando-a com. O quadro referencial teórico. Tanto nesse quanto em outros aspectos, !1~()~~pg_d~~vi!a~<::eI"~aEe.guI1dâI1ciª,uma vez que, a rigor, a metodologia está presente desde o início do projeto, na medida em que é muito difícil separar o que fazer do como fazer. 54 Ainda neste item, devem ser definidos os procedi- mentos que serão seguidos na coleta e análise das infor- mações. É preciso explicitar se serão utilizados somente dados secundários ou se será feita pesquisa de campo, e qual a natureza da mesma (quantitativa ou qualitativa). Neste ponto, faz-se necessário esclarecer, rapida- mente, as diferenças entre as abordagens quantitati- va e qualitativa, de acordo com as principais correntes sociológicas. Taylor & Bogdan (1996) distinguem essas abordagens a partir de duas correntes teóricas básicas: o positivismo e a fenomenologia. Na perspectiva posi- tivista, que tem entre seus principais autores Comte e Durkheim, busca-se os fatos ou as causas dos fenômenos sociais, independentemente dos estados subjetivos dos indivíduos. Na perspectiva fenomenológica, pretende-se entender os fenômenos sociais do ponto de vista do ator, ou seja, como este experimenta e interpreta o mundo. Esta abordagem, formulada porWeber, enquadra-se na chamada sociologia compreensiva, destacando o sentido atribuído à ação pelos sujeitos, em uma perspectiva ma- cro. Entretanto, em uma perspectiva micro, têm-se auto- res como Schutz (1979), Goffman (1985; 1996), Berger & 55 Luckmann (1976), além dos interacionistas simbólicos como Mead (1967) e Blumer (1986) e etnometodólogos como Garfinkel (1996). De maneira sintética, positivistas e fenomenólo- gos estudam problemas distintos, o que exige diferentes metodologias. Os primeiros adotam o modelo de in- vestigação das ciências naturais e procuram estabelecer relações de causalidade entre os fenômenos a partir da definição de hipóteses. Os dados são coletados median- te instrumentos padronizados (questionários, surveys, inventários e estudos demográficos), que possibilitam análises estatísticas e cuja aplicação é feita mediante uma relação distante e impessoal entre o pesquisador e os informantes. Já os fenomenólogos buscam a com- preensão dos fenômenos por meio de instrumentos de natureza qualitativa (observação participante, entrevis- ta em profundidade, história de vida, grupo focal, entre outros), cuja utilização adequada requer uma relação de proximidade e empatia entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados (TAYLOR& BOGDAN,1996, p. 16). Entretanto, essa dicotomia deve ser vista com cui- dado. Taylor & Bogdan (1996) destacam que o próprio 56 Durkheim, em sua obra As formas elementares da vida religiosa (1989), utilizou estudos qualitativos, feitos por antropólogos, sobre o totemismo. Minayo (1992) ressaltou que as ações sociais têm uma dimensão externa e visível, que pode ser adequa- damente expressa por meio de variáveis numéricas. Há também um significado para o sujeito que a realiza, cuja compreensão requer uma abordagem qualitativa. Ressal- ta-se que é a natureza do objeto que deve guiar a escolha da metodologia, o que significa que dados quantitativos e qualitativos podem ser usados em uma mesma pesquisa, se o objeto assim o exigir.8 Isso permite questionar a op- ção apriorística por esta ou aquela metodologia. Além de explicitar os aspectos quantitativos ou qua- litativos da pesquisa, a metodologia de um projeto sfeve indicar os instrumentos que serão utilizados (questioná- rios, entrevistas não-diretivas, observação participante, documentos e outros), 1:>~mcomo o local e o período em 8 A partir da década de 1970, a utilização de metodoJogias diversªs na investigação de um mesmo obj~ta' p'as~oJi a ser conhecida como "trian- gulação", termo originário de outras áreas do conhecimento, como a topografia e a navegação (D'ANCONA, 1996, p. 47). Ver, também, Berg (2001) e Bericat (1998). 57 que será realizada a coleta de dados. Ainda que nesse mo- mento de construção do objeto não se tenha, por vezes, condições de decidir aonde, exatamente, será realizado o trabalho de campo, é essencial dar indicações sobre locais prováveis. Por outro lado, embora não seja obrigatório definir no projeto a amostra que será pesquisada, é útil dar in- dicações sobre o número e o tipo de informantes que se pretende utilizar. Estudos qualitativos raramente podem estabelecer de antemão quantas pessoas serão pesquisadas, uma vez que tal número vai depender da qualidade das in- formações fornecidas pelos próprios informantes. Isso sig- nifica que só se sabe qual a quantidade de sujeitos a serem ouvidos quando se chega à saturação qualitativa, ou seja, no momento em que as entrevistas se repetem em con- teúdo, nada mais acrescentando às informações obtidas. Neste caso, é inadequado falar de "amostra representativà; pois os informantes não são selecionados por critérios es- tatísticos que garantam a aleatoriedade, ou seja, que todos os elementos do universo tenham a mesma probabilidade de serem escolhidos. 58 Mesmo que não seja possível detalhar a amostra e o local aonde será realizado o trabalho de campo, as esco- lhas apresentadas na metodologia terão de ser justifica- das, fundamentando-se não só em sua relevância para a melhor compreensão do objeto de pesquisa, mas também em considerações de ordem prática (facilidade de acesso ao local, necessidade de considerar pessoas com diferen- tes tipos de envolvimento no fenômeno que se quer ana- lisar etc.). É importante evitar as armadilhas de discussões epistemológicas que pouco acrescentam ao projeto. Por exemplo, digressões sobre o "método dialético" em nada auxiliam a operacionalização da pesquisa, pois, geralmen- te, expressam a adesão a um referencial teórico-epistemo- lógico - ou mesmo, uma "profissão de fé~'- desvinculada da metodologia adequada ao estudo do objeto empírico. Éválido insistir que na revisão bibliográfica as opções teó- rico-metodológicas ficam evidentes pelos autores, assim como os conceitos utilizados. Na metodologia, a opção por uma descrição (justificada) dos procedimentos. é o ideal, pois torna o texto mais "enxuto': 59 o item Bi~l~~g~~fiadeve incluir tanto as obras con- sultadas para a preparação do projeto quanto as que serão utilizadas posteriormente. A importância desse item não deve ser subestimada, pois os títulos incluídos demons- tram um conhecimento preliminar sobre o problema a ser estudado e, além disso, apontam para o alcance do trabalho, em termos de levantamento e consulta de ma- teriais bibliográficos. Finalmente, o Cronograma deve indicar a duração prevista de todas as etapas da pesquisa, incluindo não só a coleta de dados, mas também o levantamento bibliográfi- co complementar, o planejamento detalhado do trabalho de campo, a análise de dados e a redação do "relatório" da pesquisa, neste caso, a própria dissertação de mestra- do ou tese de doutorado. A e~tllll(ltiva de tempo deve ser feita de forma realista, considerando a efetiva disponibi- lidade do pesquisador e a complexidade do trabalho (que irá variar de acordo com o objeto e com as circunstâncias específicas da pesquisa, tais como distância do local pes- quisado e acessibilidade dos informantes). Deve-se cal- cular os prazos de modo a permitir ajustes decorrentes de 60 eventuais imprevistos, sem esquecer o tempo necessário para revisões e modificações sugeridas pelo orientador. 2.2 O processo de construção do projeto de pesquisa A definição de um objeto de pesquisa ~um processo len- to, vinculado tanto aos interesses do pesquisador quanto à sua capacidade de proceder em relação a rupturas episte- mológicas com seu próprio universo social. Por isso, não depende apenas da história intelectual e das circunstâncias pessoais de cada um (inserção profissional, opções políti- cas, estilo de vida etc.), mas também de considerações de ordem prática, tais como: tempo disponível e acesso a fon- tes de financiamento. Segundo Pinto (1992, p. 4), a formulação do pro- blema de pesquisa "é a cruz dos pesquisadores, sobretu- do quando se iniciam na difícil prática da produção do conhecimento". Sendo tarefa intrinsecamente complexa e demorada, esta etapa não se realiza isoladamente de outros aspectos da pesquisa, uma vez que envolve um conhecimento prévio mínimo daquilo que se quer inves- 61 tigar - por isso, a própria elaboração do projeto requer uma investigação exploratória. Entretanto, a definição do objeto é um processo que não se conclui senão com a própria pesquisa, pois as in- formações e os insights advindos da coleta e análise de dados propiciarão novos ângulos de abordagem e redefi- nições do problema. Uma boa forma de se proceder é tentar transformar 2tema em uma pergunta de partida, ou seja, em uma questão que resuma a inquietação que levou o pesqui- sador a querer estudar aquele tema. Quivy & van Cam- penhoudt (1992) desenvolvem essa estratégia no Manual de investigação em Ciências Sociais, apresentando vários exemplos e discutindo-os a partir de alguns critérios de- finidores de uma boa pergunta, que correspondem, de certa forma, aos critérios que devem nortear a escolha do objeto. 2.3 Critérios paraa escolha do tema e do objeto de pesquisa O interesse do aluno pelo assunto deve ser o primeiro critério norteador da escolha do tema de sua dissertação 62 ou tese. Trata-se de uma precedência não só cronológica, mas também epistemológica, na medida em que o pro- cesso de pesquisa se inicia a partir das inquietações de um sujeito que problematiza a realidade social. Assim, a escolha do tema não deve ser ditada por modismos inte- lectuais, nem por imposição de professores ou de fontes de financiamento. Não só é admissível, como recomendável que o aluno considere questões de ordem prática, tais como: disponibi- lidade de um professor-orientador ou possibilidade de ob- tenção de recursos para a pesquisa, mas elas não devem determinar a eleição de determinado objeto. A escolha da perspectiva empírica e teórica que orientará a delimitação do tema deve apresentar um grau de flexibilidade suficiente para adequar a definição de um objeto a circunstâncias variadas. Por exemplo, alunos in- teressados em trabalhar com questões de gênero podem fazê-lo por meio de estudos que se intercruzem com ou- tras áreas do conhecimento, como é o caso de trabalhos sobre imagens do feminino nos meios de comunicação de massa ou sobre a presença de mulheres nos movimen- tos sociais, entre outros. 63 o segundo critério a ser considerado é a relevância do objeto de investigação. Isso depende, antes de tudo, da forma como é construído o problema, pois, mesmo que o tema em si seja importante social e politicamente, nem toda pesquisa sobre ele será necessariamente relevante. Por outro lado, mesmo um objeto aparentemente banal pode tornar-se importante, dependendo do enfoque do pesquisador. Um exemplo disso encontra-se no estudo que Machado da Silva (1969) fez sobre 'o significado bo- tequim'. Em uma época em que predominavam pesqui- sas sobre temas de caráter macroestrutural, como classes sociais e industrialização, essa investigação identificou a importância de práticas cotidianas e aparentemente "me- nores", como a freqüência ao botequim, que se revelou uma estratégia de sobrevivência de trabalhadores urba- nos, sobretudo dos "biscateiros': Outro critério norteador para a escolha do objeto é a viabilidade do estudQ, tanto do ponto de vista dos re- cursos quanto do tempo disponível para sua realização. Tal critério é importante não só para a qualidade, mas também para a própria consecução da pesquisa em pra- zo hábil. Os recursos a serem considerados incluem tan- 64 to a possibilidade de financiamento para o trabalho de campo (viagens, impressão de questionários, contratação de auxiliares de pesquisa etc.) quanto as aptidões e expe- riências do aluno nos aspectos pertinentes à execução da investigação e à preparação da dissertação ou tese. Deve- se considerar a maior ou menor aptidão para o trabalho de campo ou para a utilização de fontes secundárias. Por causa da rigidez dos prazos das instituições que conce- dem bolsas e auxílios para pesquisa, é preciso ponderar as vantagens e desvantagens de coletar seus próprios dados, sobretudo se for possível utilizar informações produzi- das em outras pesquisas, como foi assinalado na primeira parte deste texto. Ainda dentro desse critério, é preciso escolher ade- quadamente a população a ser estudada, considerando a viabilidade de acesso a ela. Por exemplo, para estudar o processo de trabalho na indústria, é preciso que haja clareza quanto à permissão de entrada em uma ou mais fábricas. Há de se considerar, também, a disponibilidade de pessoas que poderão servir de informantes-chave (TAYLOR & BOGDAN, 1996). Essas pessoas constituem-se em verdadeiros "porteiros" da pesquisa, pois são perso- 65 nagens centrais para a compreensão de certos processos, movimentos sociais e para a identificação de lideranças de grupos, uma vez que detêm a memória de determi- nados fatos e situações sociais. Além disso, concentram informações sobre o objeto a ser estudado, facilitando o acesso a outras pessoas, grupos e instituições e fornecen- do o "caminho das pedras': Esses "personagens" são especialmente relevantes quando se estuda grupos estigmatizados, como viciados em drogas, prostitutas, travestis, mendigos e outros, que vivem em clima de permanente desconfiança em relação a estranhos. Um contato anterior com pessoas familia- rizadas com o meio, além de abrir portas, pode signifi- car melhores condições de segurança para o trabalho de campo. Ainda com relação à viabilidade da escolha do ob- jeto, Valéria Pena (1990), no artigo "Fontes pouco con- vencionais na sociologia brasileira': fornece várias indi- cações de objetos definidos de forma criativa e acessível a pesquisadores com parcos recursos, em termos de tempo e dinheiro. Em relação à estratégia metodológica da pro- dução sociológica analisada, Pena (1990, p. 32) constata 66 ser pouco freqüente a utilização de dados coletados por outros pesquisadores, preferindo a realização de entre- vistas, as quais nem sempre garantem a profundidade das informações coletadas. Tratando-se de pesquisa na área de Ciências Sociais, impõem-se, ainda, outros critérios: que o problema es- colhido seja de natureza social, isto é, que não se limite a idiossincrasias individuais e que seja referido a uma realidade empiricamente observável. O primeiro des- ses critérios decorre do pressuposto de que a atividade científica busca generalizações. Ainda que, no estudo dos fenômenos sociais, seja impossível fazê-Ias em sentido estrito, em razão de sua natureza histórica, não se deve perder de vista a intenção de se chegar a resultados ge- neralizáveis. Um exemplo de como o estudo de um úni- co indivíduo pode ser feito em uma perspectiva social é a pesquisa histórica sobre um moleiro perseguido pela inquisição, cujos resultados foram publicados na obra O queijo e os vermes (GINZBURG, 1987). Outro exemplo é a obra de Norbert Elias (1991) sobre Mozart. Pesquisas na área de Ciências Sociais devem, neces- sariamente, "traduzir" o objeto em um fenômeno identi- 67 ficável por outras pessoas (Eco, 1977, p. 28), tornando-o passível de ser estudado em um contexto empírico. Exem- plos de como isso deve ser feito encontram-se no texto "Do artesanato intelectual'; em que Mills (1975, p. 227) apresenta diversas possibilidades de estudos empíricos sobre a elite do poder: [...] [Realizar] uma análise tempo-orça- mentária (sic) de um dia de trabalho típico de dez altos diretores de grandes empresas, e o mesmo para dez administradores fede- rais. Essas observações serão combinadas com entrevistas "biográficas" detalhadas. A finalidade é descrever as rotinas e as deci- sões mais importantes, pelo menos em par- te, em termos do tempo a elas dedicado, e obter uma visão dos fatores relevantes para as decisões tomadas. [00'] Reunir e sistematizar, [a partir] dos re- gistros do Tesouro e outras fontes governa- 68 mentais, a distribuição dos vários tipos de propriedade privada, pelas quantias. [...] Estudar a carreira dos Presidentes, [de] todos os membros do Gabinete e [de] todos os membros do Supremo Tribunal. Ressalta-se que o objeto de estudo não deve ser uma questão para a qual o pesquisador já tenha uma expli- cação definitiva, o que transformaria a pesquisa em um mero exercício para confirmar o que ele já sabe, ou seja, em uma exemplificação de um conhecimento pré-cons- truído. Sem dúvida, pode-se partir de pressupostos teó- ricos e empíricos, mas esses constituem o pano de fundo, e não o cerne do conhecimento que se deseja produzir, mediante o contato com a realidade social. Isso remete a um parâmetro fundamental para as- segurar a qualidade da investigação na área de Ciências Sociais, sendo este, portanto, o esforço requerido do pes- quisador, no sentido de minimizar a influência de suas preferências valorativas e de seus vieses, tanto na fase de definição do objeto quanto no processo de coleta e de 69 análise das informações.De maneira simplificada, trata- se de pesquisar "o que é",e não o que o pesquisador gos- taria que fosse. Não se trata de buscar a neutralidade preconizada pelos positivistas, uma vez que é impossível abordar a rea- lidade sem a intermediação do sujeito que, por estar si- tuado social e historicamente, jamais conseguirá desven- cilhar-se da teia de significados e de valores em que seu objeto também está inserido (GEERTZ, 1978). Mas reco- nhecer a impossibilidade de um conhecimento comple- tamente independente das preferências e das condições histórico-sociais do pesquisador, bem como do contexto de investigação, não implica licença para transformar a prática de pesquisa em um exercício de mera subjetivida- de ou de militância político-ideológica. A esse respeito, Boaventura de Sousa Santos (2000, p. 31), na defesa de uma teoria social crítica, propõe a distinção entre objetividade e neutralidade, afirmando que a primeira: [...] decorre da aplicaçãorigorosa e honesta dos métodos de investigação que nos per- 7° mitem fazer análises que não se reduzem à reprodução antecipada das preferências ideológicas daqueles que as levam a cabo. A objectividade decorre ainda da aplicação sistemáticade métodos que permitam iden- tificar os pressupostos, os preconceitos, os valores e os interessesque subjazem à inves- tigação científica supostamente desprovida deles. De acordo com a perspectiva de Santos, explicitar a própria posição constitui, para o cientista social, não um obstáculo, mas uma condição para tornar possível a objetividade. 2.4 A etapa exploratória de pesquisa e a organização dos dados A preparação de um projeto de pesquisa, por si só, requer um mínimo de familiaridade com o objeto a ser investi- gado. Este só pode ser definido ao longo de um processo de construção do conhecimento, por meio de sucessivas aproximações com a realidade empírica e da construção 71 de elaborações teóricas sobre o fenômeno a ser pesquisa- do. Por isso, antes que se proceda a investigação de modo mais sistemático e aprofundado, impõe-se a realização de ~studos exploratórios para subsidiar a elaboração de todos os componentes do projeto de pesquisa: definição do objeto, revisão da literatura, escolha do referencial teó- rico e formulação da metodologia. As informações que servem como ponto de partida para a preparação do projeto de pesquisa são oriundas de diversas fontes. Sem dúvida, o contato prévio do pesqui- sador com o tema (estudos anteriores, experiência pro- fissional, prática política, vivência pessoal ete.) constitui fonte importante de idéias que devem ser trabalhadas mediante a organização de notas e de documentos por- ventura já obtidos. Aproveitam-se, também, informações e reflexões procedentes de leituras de livros e periódicos (inclusive obras de ficção), notícias publicadas nos meios de comunicação de massa e mesmo observações do sen- so comum (conversas ouvidas na rua, por exemplo). É indispensável, porém, recorrer a procedimentos mais sis- temáticos, em que estão incluídos levantamento biblio- 72 gráfico e documental, entrevistas exploratórias e contato com a realidade empírica a ser investigada. O principal objetivo do levantamento bibliográfico é subsidiar a preparação da revisão da literatura, a qual, nesta fase, não precisa ser exaustiva. É até recomendável utilizar um critério qualitativo para a seleção das leituras, tendo a "pergunta de partida" como fio condutor. Deve- se evitar tanto os "calhamaços" teóricos quanto os estudos meramente descritivos, que se limitam a compilar dados; é preferível consultar estudos de caráter sintético, inter- pretativos. Teses e dissertações defendidas, assim como estudos clássicos publicados em data recente, revelam-se, por vezes, muito úteis, pois costumam incorporar contri- buições de trabalhos anteriores. É essencial intercalar as leituras com reflexões pes- soais, organização de notas e discussões com colegas ou pessoas experientes. De acordo com Quivy & van Cam- penhoudt (1992, p. 19), trata-se de: reaprender a refletir em vez de devorar, a ler em profundidade poucos textos cuidadosa- mente escolhidos e a interpretar judiciosa- 73 mente alguns dados estatísticos particular- mente eloqüentes. Antes de consultar fontes mais abrangentes, como o acervo de bibliotecas e a Internet, é conveniente pedir a especiªlistas indicações de leituras básicas e, a partir de- las, identificar as obras citadas pelos autores consultados.9 As resenhas e ensaios bibliográficos também constituem um bom ponto de partida.lO Nota-se que o levantamen- to bibliográfico é um processo que continuará durante a pesquisa de campo, a fase de análise de dados e mesmo durante a redação dos capítulos da dissertação ou tese, quando se constatar a necessidade de leituras comple- mentares. Contudo, a preparação de um bom projeto de pes- quisa requer um volume razoável de leituras, capaz de 9 Esta estratégia é indispensável para identificar artigos publicados em periódicos, pois, como se sabe, este tipo de material não consta nos ca- tálogos das bibliotecas. 10 Pode-se destacar o Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais (BIB) , da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPocs). O BlB já publicou ensaios bibliográficos so- bre temas como industrialização e classe trabalhadora, reestruturação produtiva, políticas públicas, infância, violência, movimentos sociais urbanos, gênero e outros. 74 subsidiar a revisão da literatura, abarcando os principais autores que estudaram o tema, tanto em termos teóri- cos como empíricos. O critério que permite avaliar se o conhecimento da bibliografia apresenta abrangência su- ficiente é a recorrência das referências a obras já consul- tadas: "podemos considerar que abarcamos o problema a partir do momento em que voltamos sistematicamente às referências que já conhecemos" (QurVY & VANCAM- PENHOUDT,1992, p. 53). O modo como se lê é tão importante quanto o quê se lê, por isso a necessidade de uma leitura ativa e críti- ca, a qual implica tomar notas, articulando-as ao objeto de pesquisa (BARZUN& GRAFF, 1977; FREIRE, 1979). A organização dessas notas, bem como dos demais mate- riais coletados (textos, recortes de jornais, documen- tos), em forma de arquivo, além de facilitar o trabalho de análise de dados e de redação da dissertação, também pode servir como fonte de idéias para outras pesquisas (MILLS, 1975). Amanutenção desse arquivo é uma estratégia para estimular a escrita, em que nele também devem estar registradas as reflexões do pesquisador sobre filmes, 75 programas de TV, cenas do cotidiano etc. É igualmente importante manter e consultar um diário de campo, em que estejam anotadas as observações e reflexões sobre a pesquisa e o andamento da dissertação, desde a fase dos estudos preparatórios. O pesquisador não pode ser tímido nem trabalhar isoladamente. Faz parte do trabalho do mestrando ou doutorando inserir-se em comunidades científicas e em grupos que estudam seu tema de pesquisa, começando pelos próprios colegas e professores, não apenas do Pro- grama de Pós-Graduação, mas também de outros depar- tamentos e universidades. Nesse sentido, a participação em congressos e seminários é uma oportunidade rele- vante para o pesquisador iniciante, pois este deve estar atento às possibilidades de contatos diretos ou por meio de correspondência, inclusive pelo correio eletrônico. Entre os contatos que o pesquisador deve realizar nessa etapa, são recomendáveis entrevistas com especia- listas ou pessoas envolvidas com a temática em estudo (informantes-chave), junto às quais se deve obter não só indicações bibliográficas, como também "dicas" para o acesso a documentos e dados básicos já existentes e para 76 a pesquisa de campo (sugestões sobre quais áreas ou gru- pos pesquisar; nomes de possíveis informantes etc.). É válido lembrar que as entrevistas exploratórias não sedestinam a verificar hipóteses e que as informações colhidas devem ser consideradas provisórias e passíveis de completa reformulação. A função dessas entrevistas é, primeiramente, heurística, já que permitem: abrir pistas de reflexão,alargar e precisar os horizontes de leitura, tomar consciência das dimensões e dos aspectos de um dado pro- blema, nos quais o investigador não teria decerto pensado espontaneamente (QurVY & VAN CAMPENHOUDT, 1992, p. 77). É recomendável, para a elaboração de projetos de pesquisa que incluem trabalho de campo, realizar um levantamento empírico preliminar, por meio de obser- vações sobre a instituição, o grupo ou as pessoas que se quer estudar. Se isso não for possível (por motivo de cus- tos associados à distância geográfica, por exemplo), uma alternativa é tentar um contato "simulado': ou seja, com 77 instituições, grupos ou pessoas com características se- melhantes àqueles que serão efetivamente pesquisados.ll Nesta etapa, o contato com o campo deve ser cercado de cuidados para que se evite a formulação de conclusões apressadas, por causa da "ilusão da transparêncià' de- corrente da excessiva familiaridade prévia com o objeto. Para minimizar esse risco, deve-se: deixar correr o olhar sem se obstinar sobre uma única pista, ouvir à sua volta sem se contentar com uma só mensagem, apreen- der os ambientes e, finalmente, procurar discernir as dimensões essenciais do pro- blema estudado, as suas facetas mais reve- ladoras e, a partir daí, os modos de abor- dagem mais esclarecedores (QurVY & VAN CAMPENHOUDT, 1992, p. 81). 11 Para o projeto de pesquisa Os planejadores e o poder, que previa a realização de entrevistas com técnicos que atuavam em um órgão de planejamento no Rio de Janeiro, Gondim (1987) entrevistou colegas do Programa de Doutorado da Universidade de ComeU (EUA) que haviam atuado em órgãos similares em São Paulo e Salvador. 78 o projeto é a antecipação da pesquisa a ser realiza- da, mas, na medida em que sua preparação requer um conhecimento prévio do tema e certa familiaridade com o objeto, é impossível concebê-Io isoladamente do pró- prio processo de investigação social. Por outro lado, o processo de investigação tem no projeto um importante ponto de apoio, sobretudo no que diz respeito à defini- ção do objeto de pesquisa. Ainda que se reconheça, de acordo com Bourdieu (1989, p. 27), que tal definição "é um trabalho de grande fôlego, que se realiza pouco a pouco, por retoques sucessivos", o caminho da constru- ção do conhecimento pode se tornar menos árduo se o aprendiz dispuser de boas ferramentas, entre as quais se inclui um bom projeto de pesquisa.