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INTRODUÇÃO A BIBLIOTECONOMIA E ARQUIVOLOGIA 1 INTRODUÇÃO A sociedade pós-industrial com suas características, entre elas a globalização e as novas tecnologias, têm propiciado novas oportunidades para o profissional da informação e, naturalmente, para o bibliotecário das bibliotecas universitárias. Debatem-se os conceitos social e econômico da informação. Discutem-se os papéis sociais do bibliotecário: o de recuperador, preservador e disseminador da memória e do conhecimento; e o de facilitador do acesso à informação, centrado nas necessidades informacionais individualizadas. Colocam-se novas possibilidades de prestação de serviços informacionais. O campo de estudos na área de Biblioteconomia tem apresentado uma expansão contínua, estimulado num primeiro momento pelos países que enfrentaram problemas no controle de fluxo, de informações científicas e tecnológicas, iniciado no período de guerra, e recentemente pela necessidade, de como coletar, selecionar, sistematizar, controlar e disseminar o conhecimento, numa sociedade que gera, supervaloriza e descarta a informação num íntimo cada vez mais intensivo. O QUE É BIBLIOTECONOMIA Fonte: 1.bp.blogspot.com 2 Biblioteconomia é a ciência que estuda os aspectos da representação, da sistematização, do uso e da disseminação da informação através de serviços e produtos informacionais. Trata sobre a análise, planejamento, implementação, organização e a administração da informação em bibliotecas, bancos de dados, centros de documentação, sistemas de informação e sites, entre outros. O papel do profissional bibliotecário é de agente mediador entre a informação e quem a busca, de modo que o conhecimento chegue de forma rápida e satisfatória ao seu usuário. A Biblioteconomia é uma das profissões mais antigas da humanidade. Estima-se que talvez tenha se iniciado nos primórdios com as práticas estabelecidas pelos monges copistas. A Biblioteconomia no Brasil como curso de graduação é considerada como uma das ciências da informação, pelo seu caráter interdisciplinar e pelo seu objeto de estudo. As principais áreas de pesquisa em biblioteconomia são: representação temática, representação descritiva, linguagens documentárias, serviços de referência, marketing em unidades de informação, arquitetura de informação, usabilidade, catalogação, gestão de unidades de informação, infometria etc. O QUE FAZ ESTE PROFISSIONAL Fonte: www.brasilescola.com 3 O profissional de Biblioteconomia desenvolve atividades de organização, tratamento, análise e recuperação de informações em diversos níveis e suportes físicos, por meios manuais e automatizados, com vistas ao atendimento das necessidades informacionais de todos os segmentos da sociedade. A utilização de novas tecnologias da informação vem exigindo, desse profissional, novas habilidades e provocando mudanças no perfil tradicional. O profissional de Biblioteconomia, que tradicionalmente atua em bibliotecas, encontra novas frentes de trabalho em sistemas e redes de informação de setores públicos, empresariais e industriais, escritórios de assessoria e consultoria, organização de arquivos e de documentação particulares, ensino e pesquisa, podendo atuar como analista da informação, como gestor de serviços de informação e também na área de normalização." O BIBLIOTECÁRIO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL1 Fonte: ayudafreelance.files.wordpress.com 1 Texto adaptado de acordo com o original de SNBU2000 - XI Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias. O bibliotecário na sociedade pós-industrial. Autora: Profª Drª Kira Tarapanoff; Pesquisadora Senior Universidade de Brasília. 4 Nesta apostila levantamos algumas características e elementos constituintes da sociedade pós-industrial, apresentando alguns elementos para uma discussão de como estes fatores estão afetando o conhecimento teórico, os paradigmas e o mercado de trabalho do profissional bibliotecário, criando novas oportunidades e, desafiando-o a repensar a sua profissão e a assumir novos papéis. O conceito de sociedade pós-industrial diz respeito essencialmente às mudanças na estrutura social, às transformações que se produzem na vida econômica e na estrutura profissional, e pôr fim às novas relações que se estabelecem entre a teoria e a prática experimental, entre a ciência e a tecnologia. Embora esta nova sociedade 2 ainda esteja se formando e em evolução, alguns traços essenciais podem ser identificados: A passagem da produção de bens para a economia de serviços; A preeminência da classe dos profissionais e técnicos do conhecimento; O caráter central do saber teórico, gerador da inovação e das ideias diretivas nas quais a coletividade se inspira; A gestão do desenvolvimento técnico e o controle normativo da tecnologia; A criação de uma nova tecnologia intelectual (De Masi, 1999, p.33); O novo modo de desenvolvimento - o informacionalismo (conforme o cognomina Castells, ou pós-industrialismo como é chamado por muitos outros),) como um que altera, mas não substitui o modo predominante da produção (industrial ou agrícola); A relação estrutural da globalização e da informacionalização a sistemas de redes e à flexibilidade (Castells, 1999, p.212-214). 2 Nas diversas abordagens o conceito da nova sociedade identifica-se com o da sociedade pós-industrial, da informação, do conhecimento ou da aprendizagem. 5 Fonte: blogs.odiario.com/ Nesta nova sociedade, e devido à importância do saber teórico, dentre outras, as universidades, institutos de pesquisa e cultura fazem parte das instituições básicas que a constituem. O seu recurso fundamental é a inteligência, o conhecimento, a criatividade, a inovação, as informações. O setor econômico dominante inclui a produção de ideias e fornecimento de serviços: transporte, comércio, finanças, seguros, saúde, instrução, administração, pesquisa científica, cultura, lazer, e tudo o que constitui o setor terciário. Dentre as suas metodologias estão às teorias abstratas: modelos, simulações; análise de sistemas; pesquisa dos problemas; invenção; enfoque científico dos processos de previsão, de programação, de decisão; desregulação e descentralização. A sua relação com o tempo e o espaço é orientada para o futuro, inclui cenários e previsões em longo prazo; o ritmo de trabalho é escolhido e individualizado, baseado no próprio indivíduo; vida baseada no lazer; real time (tempo real), obtenção da informação imediata. A sua dimensão é transnacional, com conexões telemáticas e televisivas de todos os lugares. Muitos são os textos que tratam de aspectos específicos da sociedade pós-industrial, mas há apenas alguns, não muitos, que tentam descrever sua globalidade e compreender o seu sentido abrangente. Do ponto de vista sociológico destacam-se o livro de Bell – The Coming of Post-Industrial 6 Society, A Terceira Onda (The Third Wave) de Alvin Toffler, A sociedade pós- industrial (La Société post-industrielle), de Alain Tourraine (De Masi, 1999), e A Sociedade em Rede (The rise of the network society) de Manuel Castells. Embora a expressão – sociedade pós-industrial - já tenha sido usada por Arthur J. Penty, socialista inglês, que em 1914 organizou uma ontologia intitulando-a Essays in Post-Industrialism e, em 1917, publicou em Londres um volume com o título Old Worlds for New: a study of the post-industrial state, à Bell é atribuída à invenção, ou pelo menos, difusão, desta expressão. Bell (1977), coloca que dentre as vantagens da sociedade pós-industrial estão à educação em massa, acesso às informações, lazer, invenção da natureza, redução da incerteza. Múltiplos e heterogêneos, complexos e interatuantes são oselementos que constituem a nova sociedade. Mas dentre os mais importantes estão seguramente à revolução tecnológica e informática, que graças sobretudo à telemática e ao fato de o trabalho se tornar uma atividade cada vez mais intelectual, pôde assim se desmassificar e se desconcentrar no território, até fazer coincidir o lugar de atividade com o de residência familiar (De Masi, 1999, p.188). Enquanto que Bell e Toffler relacionam o advento da era pós-industrial a uma pluralidade de características, nenhuma prioritária e determinante, para Tourraine o cerne da nova sociedade se encontra na produção científica e o processo fundamental não é a produção dos bens, mas a programação da inovação3. Nesta sociedade a hegemonia é exercida não mais pelos proprietários dos meios de produção, e sim por aqueles que administram o conhecimento e que podem planejar a inovação. 3 Na sociedade pós-industrial o computador pode fornecer infinitas respostas a infinitas perguntas – nós é que não sabemos interrogar. O centro do problema é a ciência e a profundidade da transformação do método científico, isto é, a passagem da descoberta para a invenção, da busca de soluções à busca de questões. Este novo método é possível, porque as informações já podem ser elaboradas ao infinito e porque entendeu-se que, ao contrário do que sustentava Taylor, não existe um único caminho melhor do que todos ((one best way) para resolver cada problema (De Masi, 2000, p.196, 197) 7 Para Castells o ponto inicial para se analisar a mudança da nova economia, sociedade e cultura é a revolução da tecnologia da informação. Esta tecnologia viabiliza uma estrutura social associada ao surgimento de um novo modo de desenvolvimento, o informacionalismo 4 . No novo modo informacional de desenvolvimento, a fonte de produtividade acha-se na tecnologia de geração de conhecimentos, de processamento da informação e de comunicação de símbolos. Na verdade, conhecimento e informação são elementos cruciais em todos os modos de desenvolvimento, visto que o processo produtivo sempre se baseia em algum grau de conhecimento e no processamento da informação. A estrutura da economia, sociedade e cultura informacional é a rede5 (Castells, 1999, p.35, 45). Conhecimento é visto como: um conjunto de declarações organizadas sobre fatos ou ideias, apresentando um julgamento ponderado ou resultado experimental que é transmitido a outros por intermédio de algum meio de comunicação, de alguma forma sistemática (Bell, 1973, p.175). Informação “são dados que foram organizados e comunicados (Porat, 1977, p.2) O modus operandi da sociedade pós-industrial identifica-se ao da Sociedade da Informação, que refere-se a um modo de desenvolvimento social e econômico em que a aquisição, armazenamento, processamento, valorização, transmissão, distribuição e disseminação de informação conducente à criação de conhecimentos e à satisfação das necessidades dos cidadãos e das organizações, desempenham um papel central na atividade econômica, na criação de riqueza, na definição da qualidade de vida dos cidadãos e das suas práticas culturais (Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal: http:///www.missao-si.mct.pt/livroverde/lvfinal.zip.) O Programa brasileiro para a Sociedade da Informação foi lançado no Brasil, no dia 15 de dezembro de 1999, com o os objetivos de: Articular, coordenar e fomentar o desenvolvimento e utilização segura de serviços avançados de computação, comunicação e informação e suas 4 Informacionalismo – modo de desenvolvimento pós-industrial. 5 A Empresa em rede concretiza a cultura da economia informacional/global: transforma sinais em commodities, processando conhecimentos (Castells, 1999, p. 192) http://www.missao-si.mct.pt/livroverde/lvfinal.zip 8 aplicações na sociedade, mediante a pesquisa, desenvolvimento e ensino brasileiros, acelerando a oferta de novos serviços e aplicações na Internet, de forma a garantir vantagem competitiva e a facilitar a inserção da indústria e empresa brasileiras no mercado internacional; Fornecer, desta maneira, subsídios para a definição de uma estratégia para conceber e estimular a inserção adequada da sociedade brasileira na Sociedade da Informação (MCT, 1999). No momento, após a instalação do Grupo de Trabalho para implantação do programa, estão sendo criados vários GTs temáticos, para a elaboração do Livro Verde da Sociedade da Informação, dentre os quais o GT de Conteúdos e Identidade Cultural lançado em fevereiro de 2000, que merece a atenção e acompanhamento dos bibliotecários no Brasil. DESAFIOS PROFISSIONAIS DO BIBLIOTECÁRIO Fonte: www.bibliotecavirtual.celepar.pr.gov.br Essas colocações introdutórias nos levam a indagar sobre como os bibliotecários podem e devem atuar na nova sociedade, criar e administrar a informação e o conhecimento e planejar a inovação? 9 Tradicionalmente o papel do bibliotecário tem sido o de apoio a essas atividades. Qual deve ser o seu papel hoje - o de produtor, empresário, intermediário ou analista da informação e do conhecimento? Ou de todos estes juntos? Quais as suas principais responsabilidades sociais? Segundo Toffler na nova sociedade o produtor é ao mesmo tempo consumidor, e sugere um novo termo o prosumer. Esta analogia nos leva à constatação que o saber é cíclico e contínuo, recomeça quando acaba, necessitando sempre de novas informações para ser reativado e que todos os que produzem informação e conhecimento também os consomem. Podemos sugerir algumas linhas para discussão dos papéis e responsabilidades sociais do profissional da informação bibliotecário na sociedade pós-industrial: 1. Preservar a informação (ser responsável pela memória e cultura da produção técnica e científica local e institucional); 2. Organizar a informação para uso; 3. Acessar a informação. Estabelecer conexão em redes, participar de consórcios e variadas formas de cooperação. Planejar a informação; 4. Ser empreendedor; personalizar/customizar a informação. Ser consultor e information broker. Prestar os seus serviços de sua casa eletrônica (“electronic cottage”) 5. Trabalhar a informação, agregar valor. Pesquisar a informação; 6. Socializar a informação – preocupar-se com o acesso público à informação, a informação como um patrimônio público (public good); 7. Educar para a utilização da informação e para a sociedade da informação; 8. Valorizar o conceito econômico da informação, participar do e- commerce, oferecendo serviços e produtos exclusivos; 9. Criar, pesquisar e consumir informação. A essência das ciências que sustentam a profissão do bibliotecário, a Biblioteconomia e a Ciência da Informação e o seu objeto de trabalho – o ciclo informacional, não foram mudados. Embora a teoria seja a mesma, a 10 prática do bibliotecário, especialmente aquela que se baseia em todas as facilidades oferecidas pelas novas tecnologias e a globalização, bem como no método científico da invenção, lhe abre muitos caminhos, muitas novas possibilidades de prestar serviços informacionais e sugere uma nova forma de administrá-los. NOVOS/VELHOS PAPÉIS Preservar a informação (ser responsável pela memória e cultura da produção técnica e científica local e institucional) Um dos principais indicadores do desenvolvimento da sociedade da informação é a penetrabilidade das tecnologias de informação na vida diária das pessoas e no funcionamento e transformação da sociedade como um todo. No caso do Brasil, estima-se que durante o ano 2000 mais de 6 milhões de brasileiros serão usuários da Internet e que nos próximos cinco anos poderemos chegar a 30 milhões. Em termos numéricos, estas cifras projetam o Brasil como um dos grandes mercados nacionais da Internetem nível mundial, embora esta cifra seja extremamente modesta se comparada ao total de habitantes no Brasil (4% aproximadamente). Embora, também em termos relativos, o português tenha presença na Internet, os números, em termos absolutos, também são modestíssimos. Sete milhões de internautas utilizam a língua portuguesa na Internet. Esse número faz com que o português ocupe a sétima posição entre os idiomas mais utilizados na rede, segundo pesquisa publicada no site espanhol La Empresa.net. Em primeiro lugar, como já era esperado, encontra-se a língua inglesa, com mais de 147 milhões de usuários que utilizam esse idioma quando navegam pela Web. O japonês está em segundo, com cerca de 19 milhões de utilizadores. O primeiro ponto é, portanto, a preservação do idioma e da produção científica nacional tornando-a disponível ao mundo globalizado. 11 A sociedade da informação desenvolve-se também através da operação de conteúdos6 sobre a infraestrutura de conectividade. Portanto, o desenvolvimento da sociedade da informação no Brasil requer no futuro próximo um esforço nacional conjugado para aumentar, por um lado, a penetrabilidade da Internet pari passu com o uso adequado de tecnologias da informação (incluindo os softwares potentes e amigáveis, com ergonomicidade) e, por outro lado, o volume de conteúdos brasileiros. Partindo da constatação que a sociedade se organiza em torno de uma cultura, que é uma maneira de ver o mundo, através de um conjunto de ideias implícitas e explícitas. O conceito de identidade cultural impõe-se. Conteúdos informacionais Dentre os princípios gerais para uma política sobre conteúdos e identidade cultural, o GT Conteúdos e Identidade Cultural sugeriu em sua primeira proposta apresentada em 14 de março do ano 2000, as seguintes diretrizes para promoção de redes de conteúdos nacionais: 1. Valorizar a produção e difusão de registros informacionais de todo tipo em língua portuguesa, como forma de promover o autoconhecimento e autoestima do povo brasileiro; 2. Propiciar o registro das expressões culturais, artísticas, religiosas e científicas, em qualquer mídia, também em línguas indígenas, assim como nas dos povos africanos e de outras nacionalidades que contribuíram para a nossa formação social, visando preservar e manter vivas as origens da nação brasileira, em seus aspectos multiétnicos e multiculturais; 6 Os recursos, produtos e serviços de informação são identificados na Internet com o nome genérico de conteúdos. Em resumo, conteúdo é tudo o que é operado na Internet. Uma das contribuições mais extraordinárias da Internet é permitir que qualquer usuário, em caráter individual ou institucional, possa a vir a ser produtor, intermediário e usuário de conteúdos. Os conteúdos são o meio e o fim da gestão da informação e do conhecimento na sociedade da informação. 12 3. Facultar a produção e o uso de conteúdos que reflitam os interesses de regiões menos desenvolvidas, de áreas periféricas e rurais, como forma de reduzir as disparidades regionais; 4. Dar oportunidade às minorias étnicas, sociais e políticas para o registro e difusão de suas manifestações e ideias, como forma de diminuir as desigualdades sociais. Linhas de ação do Programa Sociedade da Informação no Brasil, relativas às Tecnologias da Informação aplicadas à cultura, são as seguintes: Salvaguarda e valorização do patrimônio por meio da digitalização sistemática das obras e demais bens culturais, promovendo também a criação e desenvolvimento de bibliotecas virtuais, privilegiando a descentralização e dinamismo das comunidades capilarizadas pela telemática; Promoção de iniciativas para a salvaguarda e a afirmação da cultura brasileira, como, por exemplo, a criação do “Museu de Todos os Museus” (digital) e de uma grande “Enciclopédia Multimídia do Brasil”; Aproveitamento dos resultados já obtidos pelo GT de Museus Virtuais (http:www.lids.puc-rio.br/~pp/gtmv/principal/princip.htm) e pelo GT de Bibliotecas (http://www.cg.org.br/gt/gtbv/gtbv.htm) do Comitê Gestor da Internet Brasileira, no sentido de se criar uma plataforma inicial de 3 mil entidades, por meio da qual poderá ser capilarizado todo o território nacional; Apoio e promoção de atividades e projetos visando a organizar, reforçar e circular a informação documental, tanto em sua vertente erudita quanto na popular; Implementação de uma “midiateca virtual” suscetível de apoiar o ensino – desde a rede primária até a universidade – e a pesquisa, oferecendo recursos adaptados à resolução de problemas gerados em todos os setores da vida social e científica. http://www.cg.org.br/gt/gtbv/gtbv.htm 13 HABILIDADES DO BIBLIOTECÁRIO Fonte: 2.bp.blogspot.com Cabe ressaltar que a questão dos conteúdos depende da capacidade de organização de nossas instituições e da parte de nossos profissionais, no tocante aos seus acervos informacionais. Os conteúdos estarão sempre sendo produzidos e armazenados de forma descentralizada e dispersa, exigindo esforço para atraí-los e incorporá-los como serviços e produtos mediados pela rede de acessos propostos pela sociedade da informação. Aos bibliotecários é atribuída tal responsabilidade exigindo domínio da localização, normalização, indexação, padrões, protocolos, utilização de tecnologias e modernos instrumentos como metadados e marcação de textos (Cunha, 1999, p.260). Destacam-se neste contexto tanto pelo domínio como pelas iniciativas de modernização os bibliotecários universitários e os especializados. 14 Organizar a informação para uso Fonte: www.unoeste.br Neste contexto o bibliotecário deve em primeiro lugar educar-se nas Tecnologias da Informação para ter acesso e participar no processo de informação globalizada, e em segundo instruir/educar usuários a utilizar a informação em meio digital e disponível nas redes. Acessar a informação. Conectar-se a redes, participar de consórcios e variadas formas de cooperação. Planejar a informação. De Masi (2000) faz a seguinte colocação - se perguntarmos a um grupo de pessoas que ciência do século XX mais contribuiu para o progresso humano, talvez ninguém, nem os entendidos em organização, indicassem a ciência organizacional. E no entanto, foi o desenvolvimento desta ciência que possibilitou o fortalecimento de cada atividade, cognitiva e operacional, a um nível desconhecido em todas as épocas anteriores da história, dentro e fora dos locais de trabalho. Milhões de homens e mulheres na prática cotidiana, milhares de especialistas em suas profissões, partindo das grandes descobertas de Taylor e Ford, revolucionaram o modo com que os seres humanos organizam seus próprios recursos e aumentam seu rendimento. 15 Foi o management, a gestão, que introduziu as novas tecnologias nos locais de trabalho, nas casas, nas diversões. Foi o management que criou as empresas rede, as multinacionais, os distritos industriais, a globalização da economia, dos gostos, do consumo. O conceito de gestão da informação envolve novas e velhas diretrizes conhecidas pelos bibliotecários. O seu principal objetivo é moldar (harness) os recursos informacionais da organização e as suas capacidades de informação para ensiná-la a aprender e adaptar-se às mudanças ambientais. A criação da informação, aquisição, armazenamento, análise e uso, provêm a estrutura intelectual que dá suporte ao crescimento e desenvolvimento de uma organização inteligente adaptada às exigências e novidades da ambiência. Conceitualmente a gestão da informação é um conjunto de seis processos distintos, mas inter-relacionados: identificação de necessidades informacionais, aquisição de informação, organização e armazenagem da informação, desenvolvimento de produtos informacionais e serviços,distribuição da informação, e uso da informação Este processo é cíclico e deve ser realimentado constantemente (Gestão ambiental em gestão da informação) ( Choo, 1998, p.198-199). Participação em redes A Ciência da Informação tem como objeto de estudo a própria informação, sua movimentação, recuperação e comunicação. Os pressupostos que norteiam o seu paradigma de propiciar o acesso a informação, são: que a informação deve ser movimentada e comunicada; a informação é algo que flui dentro de um sistema; a informação é algo divisível dentro de unidades feitas em partes num sistema; o processo é modelado em termos de fluxo da informação entre dois pontos através de um canal (Miksa, 1992); 16 o processo pressupõe a existência de tecnologia apropriada, que hoje está nas redes. À medida que as redes passam a interligar todas as atividades humanas, o principal foco das organizações é redirecionado da maximização do valor da organização para a maximização do valor da rede. A sobrevivência da organização depende da sobrevivência da rede (Kelly, 1999). A tipologia de redes sugere a existência de duas categorias de redes, vistas sob uma ótica funcional, ou seja redes físicas com função de conexão e redes com função de provisão de serviços de informação. Embora as bibliotecas e os bibliotecários brasileiros ainda não estejam totalmente preparados, é necessário que o país construa rapidamente uma ampla infraestrutura de serviços de informação em rede eletrônica que atenda às expectativas das unidades de informação na função de compartilhamento de recursos, e as expectativas dos usuários, na função de ampliação do acesso à informação (Carvalho, 1999, p.3). As redes bibliográficas, como hoje se conhece, se distinguem de suas predecessoras pela ênfase no uso de telecomunicações, capacidades computacionais e contato imediato entre os membros. As grandes redes hoje existentes fornecem processamento distribuído, treinamento, catalogação, empréstimo interbibliotecário, conversão retrospectiva, oferta compartilhada de bases de dados e equipamentos (Carvalho, 1999, p.31) COOPERAÇÃO; CONSÓRCIOS; BIBLIOTECAS HÍBRIDAS Dentre os arranjos organizacionais cooperativos estabelecidos pelas unidades de informação com o objetivo de compartilhar recursos, estão as redes bibliográficas e de informação, os consórcios, as cooperativas, as parcerias, a terceirização, os grupos de compras e as bibliotecas híbridas. 17 Em relação aos consórcios, há ampla difusão deste conceito nos Estados Unidos e na Europa 7 . No Brasil, podemos citar o exemplo do consórcio de bibliotecas de universidades e institutos de pesquisa do Estado de São Paulo que propõe facilitar o acesso à informação, aumentando o grau de satisfação dos usuários e minimizar custos de aquisição de periódicos científicos eletrônicos internacionais por meio de atividades cooperativas (Kryzanowski & Taruhiu, 1998). No caso das bibliotecas híbridas, o grande número de projetos de bibliotecas eletrônicas, digitais ou virtuais está produzindo uma gama extensiva de tecnologias alternativas. O desafio é reunir as tecnologias e os novos desenvolvimentos, mais os produtos e serviços eletrônicos já disponíveis nas bibliotecas e harmonizar com as funções históricas das bibliotecas físicas, criando bibliotecas híbridas acessíveis e organizadas8. Da habilidade gerencial dependem as mudanças. Sugere-se a adoção plena da gestão da informação, em especial no seu aspecto de organização voltada para o aprendizado, e em relação constante com o ambiente. Além de requererem uma nova postura de planejamento e gestão, os novos modelos de serviços baseados no acesso requerem, entre outros, a introdução de requisitos tecnológicos e técnicos e a participação em arranjos organizacionais cooperativos em rede. Sugere-se também que o bibliotecário preocupe-se em fazer estágios e identifique as melhores práticas internacionais para nivelar-se aos padrões mais modernos de conexão em redes. 7 Na Inglaterra podem ser citados o Consortium of University and Research Libraries (CURL), um consórcio nacional que reúne as maiores e mais importantes bibliotecas universitárias de pesquisa; e o Consortium of Academic Libraries em Manchester (CALIM), integra as bibliotecas universitárias da cidade de Manchester. 8 Mais informação sobre o conceito de aglomerações consultar o site : http://www.ukoln.ac.uk/dlis/models/clumps / Para mais informação sobre Bibliotecas Híbridas e Pesquisa consultar: http://www.ukoln.ac.uk/services/elib/background/pressreleases/summary2.html 18 INTELECTUAL DA INFORMAÇÃO Aquilo que chamamos de Revolução da Informação é, na realidade, uma revolução do conhecimento. A rotinização dos processos não foi possibilitada por máquinas. O computador é apenas o gatilho que a desencadeou. O software é a reorganização do trabalho tradicional, baseado em séculos de experiência, por meio da aplicação do conhecimento e, especialmente, da análise lógica e sistemática. A chave não é a eletrônica, mas sim a ciência cognitiva. A estrutura da sociedade pós-industrial, demanda profissionais liberais, técnicos, cientistas, profissionais da informação, gestores do conhecimento e da tecnoestrutura. Propicia a expansão das profissões ricas em informação, como os cargos de administradores, profissionais especializados e técnicos (Castells, 1999, p.227). Novas profissões tem aparecido no mercado como o webmaster, um especialista responsável pelo desenho e manutenção do site da empresa, que deve ter uma compreensão completa da cultura Web e que se preocupa com a forma de disseminação de informações da e sobre a empresa9. Algumas escolas, como a Coppe-UFRJ estão oferecendo cursos de graduação em profissões antes desatendidas, como as do engenheiro da informação, o de engenheiro de infraestrutura e meio ambiente e engenheiro de automação e controle. Disciplinas a serem cursadas para o engenheiro da informação, incluem empreendedorismo, teoria da aprendizagem e gestão do conhecimento, e ainda inteligência computacional, banco de dados, redes de computadores, multimídia, sistemas digitais e outras disciplinas, como interface homem-máquina. São os cidadãos que terão de decidir, em última análise, se estão dispostos a aprender novas profissões, a aceitar os desafios da nova 9 Em geral, a maioria das empresas pede pelo menos dois Webmasters – um para as questões técnicas e outro para o conteúdo. O webmaster técnico é responsável pela administração e manutenção do sistema, enquanto que o webmaster do conteúdo é reponsável pela elaboração, entrega e atualização da informação do site (Cutler & Richard, 1995, p.125). 19 sociedade assumindo os papéis e o comportamento que a mesma exige, descortina e oportunista. Que profissões podem surgir para o bibliotecário, que sejam de cunho de um intelectual da informação? Pela sua formação sugerimos que, uma das vertentes seja aquela relacionada à necessidades informacionais dos usuários e ao seu conhecimento de onde buscar estas informações. Customizar a informação A habilidade para discriminar e distinguir documentos relevantes, na massa de informação disponível nas redes digitais está se tornando cada vez mais difícil para os profissionais da informação. Há um excesso de oferta informacional. Há duas formas de lidar com a explosão da informação: filtrar a informação antes que ela atinja o usuário final; ou customizar a informação depois que ela chega. A função do bibliotecário está mais do lado da customização que é uma atividade centrada no usuário e sua demanda informacional (Berghel, Barleant, Foy and McGuire, 1999, p.505). Pelo seu treinamento e know-how de organizar o conhecimento dentrode sistemas e estruturas que facilitam o uso produtivo da informação e dos recursos informacionais o bibliotecário é considerado um especialista da informação (Choo, 1998, p.212). Algumas oportunidades para especialistas de informação (information workers), podem, dentre outras atividades, centrar-se na busca, reunião e interpretação da informação com valor agregado para as atividades de uma organização ou de um indivíduo, visando melhor posicionamento no mercado ou lucro. Neste contexto a busca informacional é um processo de construção do novos conhecimentos e entendimentos para adicional valor para as atividades de uma empresa, ou atividade de um indivíduo (Kuhlthau, 1999). Pode ainda o information broker especializar-se em selecionar informação personalizada para clientes/usuários com perfil de demanda específico para pesquisa e/ou especialidades em assuntos de ponta. Este tipo de atividade difere da tradicional disseminação seletiva da informação no sentido que busca informação em todos os suportes informacionais e não 20 apenas os bibliográficos, mas também notícias, gráficos, percentuais, indicadores, etc., todo o tipo de dados aos quais pode-se agregar valor para transformá-lo em informação e conhecimento para o cliente. O conhecimento de seu cliente é central para um bom serviço personalizado. Na abordagem de marketing, não é apenas preciso conhecer as necessidades informacionais, mas antecipar-se à elas, surpreender e encantar o seu usuário com informação bem selecionada e com valor agregado. Um instrumento que pode auxiliar o bibliotecário na busca e seleção de assuntos pertinentes são os softwares agentes, ou agentes informacionais inteligentes, robôs que filtram informação, relacionam pessoas com interesses similares, automatizam comportamento repetitivo e realizam, quando bem programados, inúmeros outros cruzamentos informacionais(Maes, Guttman & Moukas, 1999) Em estudo recente no Brasil, Baptista (1998) concluiu que a terceirização tem sido o elemento facilitador para atuação empresarial do especialista da informação. As habilidades necessárias identificadas foram: saber avaliar as necessidades do cliente, escrever relatórios, saber taxar e vender produtos, definir a estrutura de negócio, tomar pulso do mercado e desenvolver um programa de marketing. TELETRABALHO No contexto da sociedade pós-industrial, o local de trabalho não constitui mais uma variável independente do teorema organizacional e o horário rigidamente sincronizado não constitui mais uma exigência do trabalhador, principalmente do trabalho intelectual. Oportuniza-se o teletrabalho. O local típico de produção, da difusão da informação, inclui electronic cottage (a casa eletrônica), trabalho domiciliar on-line. O cidadão pode, de sua casa, servindo-se do telefone, do fax e do microprocessador, desenvolver um trabalho a pedido de uma empresa ou pessoa, utilizando os seus próprios recursos computacionais e capacidade de busca. 21 Inúmeros são os exemplos de teletrabalho na Rede (Internet) como o desenvolvimento do Linux que envolveu basicamente três características inerentes ao teletrabalho: cooperação, voluntariado e trabalho intelectual. No campo da ciência e tecnologia, as bibliotecas virtuais, laboratórios virtuais, pesquisas e desenvolvimento internacionais, entre outros, são alguns exemplos acadêmicos de teletrabalho. A atividade de informatin broker leva ao empreendedorismo da informação, para tal além de seu know how do ciclo informacional o bibliotecário necessitará de bons conhecimentos de máquina (novas tecnologias), utilização de softwares e conhecimento de uso e busca em fontes informacionais nacionais e internacionais (Internet, bancos e bases de dados). Além da disposição e disciplina para trabalhar num ambiente próprio e independente do contexto organizacional, o bibliotecário empreendedor deve ainda adquirir conhecimentos específicos de negócio, dentre eles saber vender e cobrar pelo seu produto e conhecer muito bem o mercado e o seu usuário da informação. Trabalhar a informação, agregar valor Agregar valor a produtos ou serviços significa imprimir aos mesmos uma diferenciação que os torna mais atraentes aos olhos dos consumidores, quer seja em termos de qualidade, rapidez, durabilidade, assistência ou preço. Podem ser identificadas seis categorias de atividades de valor agregado: facilidade de uso, redução de informação desnecessária (noise), qualidade, adaptabilidade (refere-se à habilidade do serviço oferecido ser compatível com as necessidades do usuário em seu ambiente de trabalho), economia de tempo e economia de custo (Taylor, 1986). No que se refere à informação, a agregação de valor excede os métodos tradicionais de consulta, pesquisa e disponibilização de informação aos usuários das também tradicionais bibliotecas. As atividades dos bibliotecários podem incluir: treinamento, consultoria e atendimento a consultas dos usuários sobre seleção de fontes de informação; 22 desenvolvimento de estratégias de pesquisa/busca; e avaliação da informação. Eles podem participar do planejamento e das atividades decisórias da organização, onde exerçam o processamento, reunião e coleta de informações ambientais pertinentes à organização (vigilância informacional) procurando desenvolver um entendimento íntimo de como a informação é usada. Devem buscar entender qual o impacto da informação adquirida no desenvolvimento do indivíduo e da organização (Choo, 1998, p.215)? A recuperação da informação Qualidade, valor agregado, precisão, rapidez, nada disto tem significado sem uma ciência ou disciplina de apoio chamada recuperação da informação. Esta surgiu com o advento da automação e das novas tecnologias. Esse novo conceito à Biblioteconomia passou também a ser central à Ciência da Informação. A recuperação da informação, cunhada por Calvin Mooers (1951), engloba os aspectos intelectuais da descrição de informações e suas especificidades para a busca, além de quaisquer sistemas, técnicas ou máquinas empregados para o desempenho da operação. As técnicas de recuperação permitem a normalização, a identificação do conteúdo, a relevância, a precisão e especificidade das informações que trata. É um trabalho de indexação de extrema importância para identificar assuntos de interesse. O seu conceito mais intrínseco é o da relevância, ligado à efetividade. A relevância indica relação (Saracevic, 1999, p.1059). Recuperação da informação e empreendedorismo Centrada na recuperação da informação, uma indústria de informação, on line, emergiu nos anos 70, crescendo passou a ser a aplicação mais disseminada de qualquer sistema informacional no mundo (Hahn, 1966). Na década de 80, a indústria comercial da informação baseada na recuperação da informação, tornou-se lucrativa obtendo grande sucesso. 23 Muitos pesquisadores em recuperação da informação tornaram-se empresários de recuperação da informação. Esses empresários desenvolveram uma variedade de procedimentos de recuperação da informação voltados para o mercado e baseados em algoritmos, aplicáveis à escala de grandes arquivos, múltiplas aplicações e/ou várias tecnologias avançadas. Tornou-se a indústria do conhecimento, no seu sentido mais puro (Saracevic, 1999, p. 1058). É preciso enfatizar, no entanto, que o World Wide Web 10, que emergiu na primeira metade dos anos 90 não se utiliza dos princípios científicos da recuperação da informação. A recuperação da informação da web, toda ela comercial, voltada para o lucro, que se propõe a fornecer, segundo a sua propaganda, mecanismos de busca para encontrar informações relevantes11 para os usuários, sob demanda, está se desenvolvendo e prosperando fora da área. Principalmente de analista de conteúdos, indexador, selecionador de palavraschaves relevantes. Atualmente centenas de termos de indexação podem ser incluídos em diversos níveis de representação nos acervos digitalizados. Em alguns casos, com o auxílio de modernos programas de indexação, pode-se fazer a varredura de todas as palavras do texto, mas sem perder de vista a questão da relevância e da precisão. Mas a recuperação vai além dos dados textuais, hoje é possível recuperam imagens, vídeo, áudio, músicas inteiras podem ser recuperadas e ouvidas. Como se deve indexar a videoconferência? Como atribuir pontos de acesso temático a um documento/programa que é realizado ao vivo, via Internet? (Cunha, 1999, p.261) O que o bibliotecário pode fazer para organizar a informação na Rede? Quem assessorou os desenvolvedores do Yahoo? 10 WWW – ou W3, aplicativo da Internet. É um sistema de menus e hipermídia. Em português denomina-se teia mundial (Cavalcanti, 1996, p.119-120). 11 Os pioneiros da ciência da informação desenvolveram processos e sistemas de recuperação da informação, nos anos 50, e definiram como seu objetivo principal a recuperação da informação relevante . Questiona-se, no entanto, a relevância da recuperação na web , por esta não utilizar os princípios científicos da recuperação da informação (Saracevic, 1999, p.1058) 24 CARACTERÍSTICA DAS UNIDADES DE INFORMAÇÃO As unidades de informação 12 (bibliotecas, centros e sistemas de informação e de documentação) são organizações sociais sem fins lucrativos, cuja característica como unidade de negócio é a prestação de serviços, para os indivíduos e a sociedade, de forma tangível (produtos impressos), ou intangível (prestação de serviços personalizados, pessoais, e hoje, cada vez mais, de forma virtual – em linha, pela Internet). No entanto, em especial nas duas últimas décadas, as unidades de informação têm sofrido redução orçamentária, tanto no Brasil como no exterior, e têm sido submetidas à competição por recursos/insumos de toda a espécie, em especial por recursos financeiros (Young, 1994, p.110). A pergunta que as unidades informacionais têm se feito é: o que fazer quando as fontes tradicionais de fomento diminuem os seus repasses? Formas cooperativas para a maximização de recursos são estudadas, mas também aflora a possibilidade de cobrança da prestação diferenciada de serviços e produtos internacionais. E neste caso, deve-se cobrar por serviços informacionais? Como cobrar, quando cobrar, quanto cobrar? Informação como bem público Assuntos complexos como livre acesso à informação, barreiras para o livre acesso à informação pública, e cobrança direta por serviços bibliotecários com valor agregado têm provocado discussão e debate entre as profissionais da informação. O posicionamento tradicional é que os serviços bibliotecários são um bem público (domínio público) e que o acesso livre à informação é um direito fundamental de cada cidadão numa sociedade democrática. Este posicionamento esposa uma visível preocupação com a finalidade e a justiça social. 12 Unidade de informação – instituições voltadas para a aquisição, processamento, armazenamento e disseminação de Informações. 25 A questão principal em debate é o foco na definição do que é bem público, em instituições de serviço (público). A importante distinção entre informação como bem público e informação como bem econômico (commodity), está na diferença entre a informação a serviço da equidade social e aquela que oferece um portfólio 13de serviços, representando vários graus de eficiência, a preço compatível de mercado competitivo. Aqueles que vêem a informação como um bem público enfatizam a natureza econômica única da informação. A informação tem características econômicas atípicas que a distinguem de ativos (commodities) mais tangíveis, a informação pode se expandir, é completa, capaz de ser substituída, transportável, difusa e pode ser compartilhada. Como um produto/mercadoria, a informação não se deprecia e é disponível livremente, tem um valor que cresce com a reutilização e a sua apresentação em outra forma (re-embalagem), e é extremamente difícil de controlar. Desta forma, o argumento do bem público, mantém que o acesso amplo à informação resulta num uso crescente que beneficia a sociedade como um todo, e não apenas partes desta sociedade (Young, 1994, p.108) 13 Portfolio – seus componentes são os negócios e produtos que constituem a empresa. 26 Vamos preservar as bibliotecas Fonte: www.laverdadyotrasmentiras.com Argumenta-se também que a crença que toda a informação estará disponível para todos na Internet, de qualquer lugar, a qualquer momento, é baseada num pressuposto marxista equivocado a respeito da natureza humana. Nada é inteiramente livre e problemas de direitos autorais devem ser resolvidos, nos seus aspectos de o que pode ser digitalizado (o que é de domínio público) e quem pode ter acesso à esses materiais14. O problema de compatibilizar interesses conflitantes de propriedade intelectual de um lado, e o acesso livre e igual do outro, impõe restrições de onde se pode consultar os materiais produzidos. 14 Segundo (GANDELMAN, 1997) “Os direitos autorais continuam a ter sua vigência no mundo on line da mesma maneira que no mundo físico. A transformação das obras intelectuais para bits em nada altera os direitos das obras originalmente fixadas em suportes físicos, como já referido anteriormente. ... O direito de reproduzir uma obra é exclusivo de seu titular, inclusive o direito de reproduzi-la eletronicamente em uns e zeros (para serem lidos por computadores). E se alguém armazena de forma permanente, no seu computador, material protegido pelo direito autoral, uma nova cópia é feita, necessitando a mesma, portanto, de uma autorização expressa do respectivo titular. 27 A biblioteca tradicional, a de quatro paredes, é a única que pode disponibilizar livremente os materiais com direitos de autor reservados. Neste argumento a biblioteca tradicional é vista como o único lugar no qual os leitores podem consultar livremente não somente os materiais com direitos autorais reservados, mas também bases de dados (site-licensed) que não podem ser utilizadas de qualquer lugar, por qualquer pessoa no espaço virtual. Enquanto a natureza humana não mudar e os direitos autorais do ciberespaço não estiverem resolvidos a biblioteca tradicional será o lugar onde qualquer cidadão poderá ter livre acesso à qualquer obra com copyright (Mann, 1999) Todas as habilidades tradicionais do bibliotecário centradas no ciclo informacional, mas em especial as centradas no usuário, na informação utilitária e na informação para a cidadania. EDUCAR PARA A UTILIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO E PARA A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO Sociedade da Informação e cultura Não haverá sociedade da informação sem cultura informacional. Isto que chamamos sociedade da informação só existirá quando houver para ela uma cultura correspondente. A cultura informacional é mais que o conhecimento e a sensibilização da sociedade para o uso da informação, ou ainda a habilidade dos indivíduos ou grupos de fazer o melhor uso possível da informação. É também mais que o resultado mecânico de uma simples acumulação de tecnologias, tem ainda como componente a “alfabetização em informação” (Menou, 1996). 28 Educação para a sociedade da informação Educar a si próprios e educar aos outros para a sociedade da informação, é um dos grandes desafios para o profissional bibliotecário e um passo importante para a formação da cultura informacional na sociedade. Permitir a todos o acesso a informação é crucial para o desenvolvimento individual e coletivo do cidadão,e o caminho a ser percorrido para capacitar o cidadão ao uso crítico da informação é uma tarefa que as escolas, as universidades e todos os tipos de bibliotecas, públicas, universitárias e outras, devem assumir. Preparar os cidadãos para a sociedade da informação constitui tarefa prioritária para o governo, as organizações e seus profissionais. O governo propõe em sua área de atuação Governo e Cidadania aumentar a transparência das ações de governo, melhorando e ampliando a prestação de serviços diretamente ao cidadão (CCT, 1999, p.41). Outro projeto importante, o projeto Agência Cidadão, patrocinado pela Finep, se propõe a oferecer um serviço voltado para o cidadão, que pretende fornecer informações importantes e úteis para o seu dia-a-dia sobre documentos pessoais, educação, saúde, direitos, trabalho e mostrar como e onde fazer, para que serve, quanto custa, quando será, etc. Outro passo importante é a alfabetização em tecnologias da informação, e também a extensão à infoaprendizagem. A biblioteca do futuro, dentre outras atividades, deve propiciar a interface de treinamento entre o usuário e as ferramentas da meta-informação, e tornar-se ponto focal de uma comunidade (real e virtual) de conhecimento, centro cultural e ponto de referência para encontros de comunidades de cibernautas 15 (Allen & Retzlaff, 1998). A tecnologia da informação pode ser usada como veículo para ajudar a eliminar desigualdades sociais e econômicas. As ferramentas das tecnologias da informação e suas aplicações podem oferecer oportunidades que 15 Cibernauta – expressão nova que caracteriza os usuários dos serviços já existentes, como produto das tecnologias da comunicação e informação (Cavalcanti, 1996, p.106) 29 transcendem barreiras de raça, gênero, deficiência, idade, capacidade financeira e lugar. O acesso à tecnologia da informação em ambientes educacionais, é um pré-requisito para construir a base de habilidades que possibilitará aos nossos profissionais atuar de forma produtiva na sociedade da informação do novo século. VALORIZAR O CONCEITO ECONÔMICO DA INFORMAÇÃO, PARTICIPAR DO E-COMMERCE, OFERECENDO SERVIÇOS E PRODUTOS EXCLUSIVOS Escassez de recursos O outro lado da moeda é equilibrar o enfoque social com o enfoque econômico. A escassez de recursos é uma das vertentes que tem mudado a postura das unidades Informacionais em termos administrativos, organizacionais e como unidades de negócio, que vêem hoje, a informação oferecida como um bem econômico, que pode ser vendida em forma física ou na forma de comércio eletrônico e não apenas como um benefício cultural ou social, suprindo lacunas para o crescimento individual dos cidadãos, que, acredita-se, o mercado por si só nunca supriria de forma adequada. Comércio eletrônico O comércio eletrônico – ou seja, a emergência explosiva da Internet como importante (e, talvez, com o tempo, o mais importante) canal mundial de distribuição de bens, serviços e surpreendentemente, empregos na área administrativa e gerencial, inclusive oferece inúmeros serviços de infoempresários. É ela que está provocando transformações profundas na economia nos mercados e nas estruturas de indústrias inteiras; nos produtos, serviços e em seus fluxos; na segmentação, nos valores e no comportamento dos consumidores; nos mercados de trabalho e de emprego. Mas talvez seja ainda maior o impacto exercido sobre a sociedade, a política e, sobretudo, sobre a visão que temos do mundo e de nós mesmos. 30 O comércio eletrônico que mais cresce nos Estados Unidos ocupa uma área que, até agora, nem sequer era comércio propriamente dito: o de empregos para funcionários administrativos, gerentes e executivos. Quase metade das maiores empresas do mundo hoje contrata por meio de Web sites. E cerca de 2,5 milhões de administrativos e gerentes (dois terços dos quais não são engenheiros ou profissionais da área da informática) têm seus currículos na Internet e buscam emprego por meio dela. O resultado é um mercado de trabalho completamente novo. Isso ilustra outro efeito importante do comércio eletrônico. Canis de distribuição novos mudam a identidade dos clientes e compradores. Eles modificam não apenas a maneira como os fregueses compram, mas também o que compram. Transformam o comportamento dos consumidores, os padrões de poupança, a estrutura da indústrias, em suma, a economia por inteiro. O comércio eletrônico é visto como o produto mais visível do teletrabalho, pois é um novo raciocínio sobre trabalho e emprego na sociedade da informação. CRIAR, PESQUISAR E CONSUMIR INFORMAÇÃO Bibliotecário de apoio, intermediário, facilitador da informação? O bibliotecário e o especialista da informação, que trabalham em organizações e centros de informação, foram sempre vistos como parte do staff de apoio, trabalhando quietamente nos bastidos, à margem das funções mais importantes das organizações ou empresas. Mas o fato de que este profissional possui as habilidades que são muito necessárias para efetivamente adquirir, organizar e distribuir informação, as organizações (inteligentes) não podem se dar ao luxo de prescindir de sua contribuição e participação em atividades estratégicas (Choo, 1998, p.215). 31 Os bibliotecários, especialistas em informação, devem quebrar essas barreiras e refazer/inovar as suas funções na empresa, agir de forma mais agressiva antecipando-se às necessidades e fornecendo informações para a organização se conhecer melhor e à sua ambiência. Devem ser também os primeiros a fazerem uso de modernas tecnologias de informação e de software informacional que facilite a recuperação e disseminação da informação. A sua função globalizada é a de estabelecer conexões com aqueles que detêm a informação, e os que as querem (Davenport & Prusak, 1993, p.408) Bibliotecário na organização inteligente A organização inteligente entende que a descoberta e o uso do conhecimento pode ser melhor atingidos se fizer uma parceria estratégica informacional entre aqueles na organização, que criam e usam a informação, os especialistas da informação e os especialistas em tecnologia informacional. Esta sinergia coletiva é necessária para tecer uma rede de informações estruturadas e não estruturadas, internas e externas, correntes e históricas, e informações orientadas para o futuro: para criar instrumentos e métodos para acessar e selecionar a melhor informação disponível; desenhar arquiteturas informacionais baseadas num entendimento profundo das necessidades informacionais e de comunicação de seus clientes; e integrar os processos informacionais da organização, formando uma plataforma para o aprendizado e desenvolvimento organizacional (Choo, 1998, p.217). Sair da posição de apoio e de intermediador da informação para a de criador, agregador de valor e consumidor da informação este é o passo a ser dado pelo bibliotecário. A melhor forma de fazê-lo é através da inovação e da educação continuada. 32 O bibliotecário inteligente As universidades devem assumir a responsabilidade pela formação, atualização e adaptação dos profissionais de biblioteconomia aos novos meios de tornar disponível a informação e aos novos ambientes organizacionais voltadas para o aprendizado, a criação de conhecimento e à inovação, onde esse deverá assumir papéis mais proativos. Cursos como por exemplo o de Inteligência Competitiva poderiam ser ministrados. Inteligência competitiva, pode ser entendida, como o resultado da análise de informações e dados coletados, que irá embasar decisões; ou estrutura de redes ativas baseada em fatores críticos de sucesso16 para a organização; ou ainda, Processo sistemático de coleta, tratamento, análise e disseminação da informação sobre atividades de concorrentes, tecnologiase tendências dos negócios, visando subsidiar a tomada de decisão e atingir as metas estratégicas da empresa (Gilda Massari Coleho, 2000). É feita a distinção entre dado (valor sem significado); informação (dado com significado) e conhecimento (informação estruturada e contextualizada). O conhecimento (ou inteligência) é o elemento habilitador da decisão. O processo de Inteligência Competitiva é que dá a visão geral consistente, a partir das informações. O conceito pode ser ilustrado como uma pirâmide em três camadas (da base para o topo): fontes, análise e sistema de inteligência (Fuld, 1995). 16 Fatores Críticos de Sucesso - são aquelas características, condições, ou variáveis que quando adequadamente sustentadas, mantidas ou gerenciadas podem ter impacto significativo sobre o sucesso da posição competitividade de uma organização dentro de um segmento industrial específico (como dentro da indústria da informação) (Leidecker & Bruno, 1984). São variáveis que a gerência pode influenciar através de suas decisões e que podem afetar significativamente a posição competitiva da organização ou ainda de vários segmentos de uma indústria. O conceito de fatores críticos de sucesso pode ser aplicado a três níveis de análise : organizacional, específico daquele segmento (ramo industrial ou área de atuação), e ambiental econômico, sócio-político). Em número limitado de áreas nas quais os resultados, se forem satisfatórios, irão assegurar um desempenho competitivo de sucesso para a organização. Os FCS são os meios que garantem a realização dos objetivos da organização. 33 A Inteligência Competitiva, quando aplicada ao sistema administrativo, ou ao planejamento estratégico, ou ainda à coleta de informações para tomada de decisão empresarial, pode gerar uma série de produtos com sucessivo grau de valor agregado. Começa no nível mais baixo, com uma base de dados de informação bruta. A partir desta base de dados, boletins de notícias são produzidos e distribuídos aos indivíduos na organização. O próximo nível pode ser representado, por exemplo, pelos perfis da concorrência que são preparados de forma resumida ou detalhada. A seguir podem vir os relatórios de impacto estratégico, nos quais começa-se a agregar valor à informação. É neste nível que a inteligência realmente começa a ser formada porque o impacto potencial é determinado com base nas notícias. Mais valor ainda é agregado no nível seguinte que consiste numa análise mais minuciosa da situação. A hierarquia é encabeçada com resumos mensais de inteligência e resumos especiais direcionados para a alta gerência (Tyson, 1997) A Inteligência Competitiva se utiliza de um conjunto de medidas do planejamento estratégico que inclui a identificação de melhores práticas, análise de pontos fortes e fracos do mercado e estudo de tendências (oportunidades, ameaças). Utiliza-se de métodos como a informetria e a bibliometria, técnicas como a de Delphus, benchmarking, cenários, e outras, com o objetivo de assegurar um melhor posicionamento no ambiente. Nas indústrias e no setor produtivo este melhor posicionamento significará vantagem competitiva frente aos concorrentes. Em organizações não governamentais ou ainda, sem fins lucrativos, a inteligência competitiva assume um papel mais próximo à inteligência cooperativa, fazendo jus ao objetivo dessas organizações, qual seja, o desenvolvimento de trabalhos voltados para o bem público. Algumas destas entidades atuam nas áreas de informação e educação, outras são operacionais e se envolvem com projetos técnicos na área do desenvolvimento, sem nenhum objetivo de geração de lucros. As bibliotecas, que são tradicionalmente organizações sem fins lucrativos, se inserem nesta categoria e devem utilizar a inteligência competitiva e/ou cooperativa para se posicionarem com alguma vantagem no mercado, aproximando-se de forma 34 mais personalizada de seu cliente/usuário, ocupando um espaço, que está cada vez mais tomado por empresas privadas e comerciais. O que se espera hoje do bibliotecário é a criação e gerenciamento de informações e oferta de serviços e produtos com valor agregado e em tempo real. Suas atividades baseiam-se hoje em acervos fixos e dados, informações, sons e imagens contidos em bases de dados e nos estoques informacionais digitalizados e disponíveis em redes e na Internet. Habilidades que se esperam dele são: domínio das tecnologias de imagem, reconhecimento de caracteres óticos, linguagens Markup, catalogação e metadados, tecnologia de indexação e de bases de dados, desenho de interfaces com o usuário, programação, tecnologia de rede (web), e gerenciamento de projetos (Tennant, 1999, p.39). E também trabalho com a informação, interpretando dados, transformando-os em conhecimento com valor agregado para a tomada de decisões na organização, ou para atender necessidades informacionais de pesquisadores, e ainda de qualquer tipo de usuário. Espera-se também do bibliotecário uma atitude profissional proativa que o posicione com destaque, como especialista da informação que é, e como empresário, no contexto da Sociedade da Informação. Espera-se dele também uma atitude de vigilância com o bem (informacional) público e com o desenvolvimento e disseminação dos conteúdos informacionais através das redes. Percebe-se, na Sociedade da Informação, que a atividade informacional está presente em todos os ambientes organizacionais e não apenas nas bibliotecas, abrindo campo para inúmeras profissões da informação, mas com um core comum, o ciclo informacional. Finalizando, os perfis profissionais que podem ser detectados hoje, incluem muitas características do profissional tradicional, mas também muitos outras que emergem das inúmeras possibilidades que as modernas tecnologias, as redes, a web, e a Internet têm propiciado, em especial o que tange à recuperação da informação e ao atendimento personalizado aos 35 usuários, bem como as modernas teorias de gestão e trabalho com a informação. ARQUIVOLOGIA Desde o desenvolvimento da Arquivologia como disciplina, a partir da segunda metade do século XIX, talvez nada tenha sido tão revolucionário quanto o desenvolvimento da concepção teórica e dos desdobramentos práticos da gestão. A gestão de documentos é uma operação arquivística, "o processo de reduzir seletivamente a proporções manipuláveis a massa de documentos, que é característica da civilização moderna, de forma a conservar permanentemente os que têm um valor cultural futuro, sem menosprezar a integridade substantiva da massa documental para efeitos de pesquisa. Embora sua concepção teórica e prática tenha se desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial, a partir dos E.U.A. e do Canadá, a gestão de documentos teve suas raízes no final do século XIX, em função dos problemas detectados nas administrações públicas destes dois países, referentes ao uso e guarda da documentação. Na primeira metade do século XX criaram-se comissões que visavam tornar mais eficiente o uso dos documentos por parte da administração pública. Vale ressaltar que durante esse período, as instituições arquivísticas (públicas) caracterizavam-se pela função de órgãos estritamente de apoio à pesquisa, comprometidas com a conservação e o acesso aos documentos considerados de valor histórico. Paralelamente iniciava-se a era da chamada administração "científica", que procurava mostrar aos administradores como racionalizar o processo administrativo, desenvolvendo suas atividades de forma menos dispendiosa, melhor e mais rápida. A palavra-chave das administrações dos países desenvolvidos - sobretudo gestão de documentos os E. U. A. - , passou a ser eficiência. 36 A aplicação dos princípios da administração científica para a solução dos problemasdocumentais gerou o conjunto de princípios da gestão de documentos, os quais resultam, sobretudo, na necessidade de se racionalizar e modernizar as administrações. Não se tratava de uma demanda setorizada, produzida a partir das próprias instituições arquivísticas. A gestão de documentos veio a contribuir para as funções arquivísticas sob diversos aspectos: ao garantir que as políticas e atividades dos governos fossem documentadas adequadamente; ao garantir a melhor organização desses documentos, caso tivessem valor permanente; ao inibir a eliminação de documentos de valor permanente; ao definir criteriosamente a parcela dos documentos que constituiriam o patrimônio arquivístico do país, ou seja, 5% da massa documental produzida (segundo a UNESCO). No VIII Congresso Internacional de Arquivos, realizado em Washington, em 1976, a gerou maior consciência em todo o governo, no caso norte- americano, quanto ao significado dos documentos, qualquer que fosse o suporte, e as suas necessidades de conservação. As instituições arquivísticas públicas, particularmente os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos e do Canadá, adquiriram uma nova feição, assumindo também a função de órgão de apoio à administração pública, com a competência de orientar programas de gestão de documentos nos diversos órgãos governamentais. 37 A INFORMAÇÃO ARQUIVÍSTICA Fonte: 2.bp.blogspot.com Considerando a literatura da área e as práticas desenvolvidas em alguns países, pode-se sugerir que as políticas arquivísticas têm como pressuposto: o reconhecimento da informação governamental como um recurso fundamental para o Estado e a sociedade civil; a informação governamental contempla a sociedade civil com o conhecimento do Estado e da própria sociedade civil - passado e presente; a informação assegura transparência ao Estado, facilitando ao governo administrar suas diversas funções sociais; o livre fluxo de informação entre Estado e sociedade civil é essencial para uma sociedade democrática: cabe, assim, ao governo minimizar a carga de demanda sobre a sociedade civil, diminuindo o custo de suas atividades de informação e maximizando a utilização da informação governamental; os benefícios sociais derivados da informação governamental devem exceder os custos públicos da informação, ainda que tais benefícios não possam ser sempre quantificáveis; 38 a gestão de documentos (correntes e intermediários) governamentais é essencial para assegurar transparência e, em conjunto com a administração dos arquivos permanentes, proteger os documentos históricos e assegurar direitos legais e financeiros ao Estado e à sociedade; o intercâmbio transparente e eficiente da informação científica e tecnológica, estimula a excelência na pesquisa científica e o uso efetivo dos recursos públicos de apoio à pesquisa e ao desenvolvimento; a tecnologia da informação não é um fim em si mesmo, trata-se de um conjunto de recursos que auxilia a efetividade e eficiência das ações do governo. ARTIGO PARA LEITURA Educação, trabalho e o delineamento de novos perfis profissionais: o bibliotecário em questão Maria da Conceição Calmon Arruda Mestre em ciência da informação, bibliotecária da Procuradoria-Geral da Câmara Municipal, E-mail: marruda@cmrj.gov.br. Regina Maria Marteleto Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Convênio CNPq/IBICT – UFRJ/ECO. E-mail: remartel@prolink.com.br mailto:marruda@cmrj.gov.br mailto:remartel@prolink.com.br 39 Donaldo Bello de Souza Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. Resumo O movimento de reestruturação da qualificação profissional não é exclusivo da área de informação, mas se insere nas transformações por que passa o mundo do trabalho. O texto contextualiza o cenário em que emerge a demanda por um trabalhador mais qualificado e mostra a discussão em torno das qualificações necessárias para que o bibliotecário interaja como sujeito frente aos novos requerimentos do mundo do trabalho. Palavras-chave: Bibliotecário; Qualificação profissional; Trabalho-Educação. Education, work and job skills: the librarian on focus Abstract The demand for new skills and qualifications is not exclusive information professionals. Thus the general context in which this happens is analysed and the new skills librarians are expected to develop are discussed. Keywords Librarian; Job skills; Education; Trainning. INTRODUÇÃO O atual estágio de desenvolvimento tecnológico, rico em possibilidades de armazenamento, acesso e disseminação de informações, traz novamente à pauta de discussão o papel do profissional da informação em relação ao aparato científico-tecnológico e sua afirmação como gestor da informação. Contudo, sob uma nova materialidade: a informação, no novo modelo econômico, é percebida como um valor, dada a possibilidade de vir a se transformar em conhecimento e em inovação tecnológica. Esta nova dimensão da informação, aliada ao desenvolvimento tecnológico, desvincula a informação de espaços restritos e de monopólios profissionais. 40 Neste novo cenário, a tecnologia possibilita autonomia ao usuário, demandando nova postura dos profissionais da informação, que passam a ter seu campo de atuação ampliado e redimensionado. Conjugado ainda aos novos modelos organizacionais e de gestão do trabalho, que privilegiam, entre outros fatores, as descrições de cargos genéricas e a flexibilidade funcional, faz com que a área de informação passe a congregar profissionais de outros campos de atuação, causando tensão e insegurança aos profissionais tradicionalmente vinculados a ela. Os espaços antes restritos em que estes profissionais atuavam perdem o monopólio sobre o gerenciamento da informação, o qual passa a ser efetuado de forma descentralizada e por profissionais oriundos de outras áreas do conhecimento. O acesso remoto possibilita a conexão com fontes de informação geograficamente distantes e a autonomia dos usuários, que passam a contar com formas alternativas de acesso. As mudanças em pauta suscitaram uma série de questões na área de informação tanto no que diz respeito ao "novo" perfil do profissional da informação, quanto à capacidade do setor acadêmico em fornecer uma resposta adequada ao mercado de trabalho na forma de cursos de formação profissional e de educação continuada. O objetivo deste artigo é mostrar que a demanda por um novo perfil profissional não é exclusiva da área de informação, mas se insere e se articula com as mudanças introduzidas no mundo do trabalho e na demanda do setor produtivo por um trabalhador mais qualificado. Para dar conta deste objetivo, estabelecemos a conexão com a área de Trabalho-Educação2 a fim de identificar e compreender os elementos e as materialidades que estão afetando o mundo do trabalho e contribuindo para a conformação de um novo modelo de qualificação profissional. Este artigo divide-se em seis partes: após a presente, de caráter introdutório, analisamos as mudanças no mundo do trabalho; na terceira estudamos a emergência de novos perfis profissionais; a quarta parte trata dos efeitos das mudanças no padrão de qualificação profissional na área de informação; a quinta mostra a discussão em torno das qualificações necessárias para que o bibliotecário interaja como sujeito diante dos novos http://www.scielo.br/#nt02 41 requerimentos do mundo do trabalho; por fim, na conclusão, indicamos que as mudanças no perfil profissional não são exclusivas da área da informação, mas se articulam, como as demais profissões, com as transformações em curso no mundo do trabalho. MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO A regulamentação do trabalhoassalariado, que teve início no século passado e alcançou seu apogeu no Estado Providência, está sendo desmontada sem que o modelo de compromisso social entre capital e trabalho tenha alcançado a totalidade dos países e o conjunto dos trabalhadores. O redimensionamento da relação capital/trabalho e a revisão dos direitos trabalhistas passam a ser parte integrante da estratégia adotada pelos países para superação da crise econômica e implementação do novo modelo econômico, produzindo modificações na organização do trabalho e a aparente subtração do trabalho, principalmente do trabalho assalariado, como forma de integração social, de mobilidade ascendente e de garantia de um futuro melhor para o indivíduo e sua família (Castel, 1998). Segundo Castel (1998), estaríamos diante não do desaparecimento do trabalho, mas de um movimento de crescente precarização do mesmo, manifesto pela diminuição da oferta do pleno emprego, pelo aumento de contratos de trabalho por tempo determinado, pela desabilitação de uma parcela da população para o emprego e pela crescente dificuldade de absorção dos jovens pelo mundo do trabalho. E, independentemente das materialidades dos países, em menor ou maior grau, identifica-se um movimento de uniformização na adoção de políticas trabalhistas desvinculadas das conquistas dos trabalhadores e do Estado Providência. Em sua crítica à tese da não-centralidade do trabalho na sociedade contemporânea (Offe, 1989a; Offe, 1989b; Habermas, 1987), Castel (1998) utiliza-se de dados que demonstram que o número de indivíduos vinculados a uma atividade formal não decresceu na França. Segundo o autor, o que se observa é o incremento do emprego precário e a intensificação do trabalho, este último caracterizado pelo aumento de tarefas, horas trabalhadas e pela imbricação do trabalho no tempo livre dos indivíduos. 42 "Inúmeras formas modernas de emprego pedem (...) uma disponibilidade constante e, a rigor, uma conversão total aos valores da empresa. O medo da dispensa acentua ainda mais essa pressão; o indivíduo é levado a pensar no trabalho fora da situação de trabalho e tenta garantir-se contra uma má avaliação superinvestindo no trabalho" (Castel, 1998 , p. 156). O emprego de meio período frutificou e deu origem a novos arranjos trabalhistas, como, por exemplo, o emprego de fim de semana, de meia semana, zero hora etc., dotando as organizações com um contigente de trabalhadores móvel e flexível. É importante ressaltar que não se identifica um consenso entre os autores sobre os efeitos da flexibilização para o trabalhador. Toffler (1980) percebe o emprego parcial como mutuamente benéfico para trabalhadores e empregadores, liberando os primeiros para o desenvolvimento de tarefas e atividades particulares e possibilitando aos empregadores as condições ideais para adequação da força de trabalho de acordo com as oscilações da economia globalizada e do mercado interno. Outros autores, Freeman (1995) e Harvey (1996), por exemplo, também identificam um diálogo entre trabalhadores e empregadores nos arranjos de trabalho parcial, mas alertam sobre a crescente terceirização da força de trabalho, sua exclusão dos benefícios oferecidos aos empregados centrais e sua descartabilidade. Castells (1996) chama a atenção para o risco de que, sem regulamentação, evolua para um patamar em que a flexibilização seja a regra, e não a exceção nas condições de trabalho, pois, apesar da mobilidade do capital e dos apelos da globalização, os dados analisados pelo autor sobre a mobilidade da força de trabalho indicam que o mercado de trabalho só se globaliza para um pequeno grupo da população mundial, altamente qualificado. Além disso, ao valorizar o trabalho qualificado, o novo modelo econômico expõe a fragilidade do trabalho não qualificado, cujo custo se torna muito alto para sua manutenção nas organizações, gerando uma demanda decrescente, pois: 43 "Quando governos e organizações não podem efetuar mudanças nos contratos de trabalho, como na União Européia, o custo do trabalho não qualificado torna-se muito alto com referência às commodities comercializadas com os países de industrialização recente. Segue-se o desemprego da força de trabalho não qualificada que era, comparativamente, muito dispendiosa, tendo em vista sua baixa qualificação" (Castells, 1996, p. 237-238). Esse cenário é agravado pelo fato de a flexibilização da produção e as tecnologias de informação permitirem às organizações, além da redução de custo, a contratação de mão-de-obra qualificada em qualquer parte do planeta. As organizações podem utilizar – sem necessidade de deslocamento físico, nem perda de qualidade – os serviços de trabalhadores altamente especializados, locados em qualquer região do globo que possua uma infraestrutura de informação e comunicação adequada e um ambiente político-econômico receptivo. Fazem parte dessa nova força de trabalho: "(...) engenheiros e cientistas de computação [indianos] que recebem aproximadamente 20% do salário pago nos Estados Unidos para atividades similares. O mesmo ocorre no setor financeiro e no de negócios em Singapura, Hong Kong e Taipei" (Castells, op. cit., p. 238). Paralelamente a esse quadro de exclusão, centralização, desemprego, desabilitação e fragmentação presente no mundo do trabalho, ressurgem os modelos de valorização do ser humano que exaltam a importância de oferecer ao trabalhador saúde, educação, reconhecimento de seu desempenho (ascensão profissional, gratificação, prêmios), percebendo-o como um colaborador da organização. De acordo com Frigotto (1996) e Kuenzer (1995), esse cenário paradoxal só pode ser entendido a partir da compreensão de que essa valorização está ligada à própria fragilidade do modelo flexível, de sua dependência do envolvimento humano. "Se por um lado retomam-se os investimentos no homem', de modo a viabilizar a extração de mais-valia extraordinária através de novas estratégias, por outro lado, o princípio continua a ser a velha concepção taylorista de redução de tempos mortos (...) buscando novas formas de realização do taylorismo `casado' com a teoria das relações humanas que 44 gerou o comportamentalismo na década de 50 e que apenas se sofistica, a partir das determinações da modernidade, que contraditoriamente expressam, ao nível das ideias, um aparente maior respeito pelo homem, sua razão, seus sentimentos e seus direitos, a par da realização material de crescentes formas de exclusão do emprego, do consumo, da educação, da saúde, etc." (Kuenzer, 1995, p. 4). Ainda de acordo com Kuenzer, a organização flexível, para se concretizar, precisa contar com um núcleo central motivado, envolvido e disposto a internalizar os objetivos e as metas da organização. O capital humano passa a ser o fator diferencial de ganho, uma vez que o máximo de produtividade calcado em máquinas tem um. As organizações passam a preferir modelos e ferramentas organizacionais que privilegiem a integração funcional e organizacional, assim como trabalhadores aptos a articular seu conhecimento em função do novo padrão produtivo. O enfraquecimento dos sindicatos, aliado à retração do mercado de trabalho, permite às organizações maior autonomia no estabelecimento de um perfil profissional adequado aos seus interesses. O trabalhador, além de conviver com a precarização do emprego, com novos arranjos de trabalho, com o desemprego, tem de responder à exigência de maior qualificação. Ampliam-se os requisitos profissionais. Em adição às qualificações formais, são exigidas capacitações tácitas3 que permitam ao trabalhador atuar como agente integrador na dinâmica pesquisa-produção-vendas, o que leva a um novo perfil profissional que privilegia a criatividade, a interatividade, a flexibilidade e o aprendizado contínuo. AEMERGÊNCIA DE NOVOS PERFIS PROFISSIONAIS Conforme postulado anteriormente, o novo modelo econômico interpõe um novo perfil profissional que requer, além de maior qualificação profissional, maior envolvimento emocional e social do trabalhador. Elege-se como ideal o profissional que potencialize a comunicação, a interpretação de dados, a flexibilização, a integração funcional e a geração, absorção e troca de conhecimento. Este, portanto, deve ser capaz de operacionalizar seu conhecimento profissional de modo integrado às suas aptidões e vivências socioculturais. O trabalhador adestrado, característico do modelo fordista4, http://www.scielo.br/#nt03 http://www.scielo.br/#nt04 45 deixa de atender aos requisitos do novo padrão produtivo. É necessário um profissional capaz de interpretar dados e sinais emitidos pelos novos sistemas autômatos, agindo pró-ativamente a partir desses dados, atuando como agente do processo de inovação. Em vez de ser responsável por uma só tarefa, o que caracterizava a especialização, solicita-se que ele cumpra diversas tarefas, que seja polivalente ou multifuncional, demonstrando responsabilidade pelo seu processo de trabalho5. A opção por equipes de trabalho é uma estratégia utilizada pelas organizações para obtenção da polivalência. As equipes viabilizam a integração de profissionais de áreas diversas, com um nível de qualificação mais elevado, direcionados à resolução de problemas. Essas equipes podem ser inter, multi ou transdiciplinares, dependendo da estratégia organizacional. No trabalho em equipe, a hierarquia é regulada por seu mediador e pelos diversos papéis que seus integrantes assumem no decorrer dos projetos. Seu ritmo de trabalho e o desempenho de seus integrantes são subordinados aos prazos e metas fixados pela organização. Os indivíduos interagem em grupos, mas não são parceiros do grupo, e sim da organização, comprometidos com sua visão estratégica e sua missão organizacional (Machado, 1996). É dentro dessa dinâmica que as equipes se auto-avaliam, avaliam seus integrantes e são avaliadas pela organização. Segundo Machado (1996), no trabalho em equipe a semi-autonomia é regulada por um tempo informático e pelos laços de responsabilidade e motivação dos trabalhadores com a empresa. O êxito e absorção de conhecimento de uma equipe pode não se transmutar em conhecimento para outras equipes ou mesmo para todos os indivíduos que as compõem. Já Deluiz (1994) vê o trabalho em equipe como uma oportunidade para a emancipação do trabalhador, tanto no que diz respeito à organização dos trabalhadores e reivindicação por melhores condições de trabalho, quanto à participação no processo decisório da organização. Nesse sentido, a valorização da comunicação no novo modelo é um fator que pode atuar como elemento integrador. Contudo, a demanda por um profissional mais integrado e responsável não necessariamente se apresenta como contrapartida para a ampliação de http://www.scielo.br/#nt05 46 sua participação no processo decisório das organizações (Bourdieu, 1998; Kuenzer, 1995; Lojkine, 1995), nem uma superação do taylorismo, o que ocorre é que o controle sobre o trabalho deixa de ser exercido de fora para dentro, na forma taylorista pura, para ser internalizado pelo trabalhador através de seu comprometimento com os valores, a missão e os objetivos da organização. A análise de Bourdieu (1998, p. 225) é que, longe de oferecer uma transição para uma forma de organização do trabalho que torne possível o enriquecimento da tarefa, os novos modelos de gestão estabelecem, a partir de estudos científicos e acadêmicos, ferramentas organizacionais que permitem "tirar proveito de maneira metódica e sistemática6 de todas as possibilidades que a ambiguidade do trabalho oferece objetivamente às estratégias patronais". Muda-se a roupagem, mas a essência de controle e dominação permanece subjacente sob a forma de desemprego, de precarização do emprego e das condições de trabalho. Apesar de desenvolver uma análise similar, Lojkine (1995) identifica, na própria característica do novo modelo, que requer dos trabalhadores integração e interatividade com os processos desenvolvidos pela organização, uma oportunidade para a superação da divisão histórica entre aqueles que planejam e aqueles que executam o trabalho. As alterações no perfil profissional não se restringem ao âmbito da qualificação profissional e da gestão do trabalho, mas abrangem o conteúdo e a forma como o trabalho é realizado, como o trabalhador se relaciona e se socializa no ambiente de trabalho. Atingem a subjetividade do sujeito, invadindo seu espaço social, seu comportamento individual e coletivo. Necessita-se de um profissional flexível, apto a atuar em situações de trabalho diferenciadas e a mobilizar seu conhecimento em prol da organização. No entanto, do ponto de vista dos enfoques que versam sobre o trabalho no processo de produção capitalista, não há consenso. Segundo Paiva (1989), coexistem quatro teses básicas: (1) Tese da Desqualificação Progressiva da Força de Trabalho: como ocorreu na passagem da fase artesanal para a manufatura, no capitalismo ocorre, tendencialmente, a desqualificação do trabalhador; http://www.scielo.br/#nt06 47 (2) Tese da Requalificação: a nova base técnica possibilitaria uma elevação da qualificação média dos trabalhadores; (3) Tese da Polarização das Qualificações: criação efetiva de poucos postos de trabalho de qualidade que exigiram profissionais altamente qualificados em oposição à geração de muitas vagas para profissionais pouco qualificados, com aprofundamento das diferenças salariais entre trabalhadores qualificados e trabalhadores não qualificados; (4) Tese da Qualificação Absoluta e da Desqualificação Relativa: elevação da qualificação média e redução da qualificação relativa "o nível de conhecimentos atingidos pela humanidade se reduziria se comparado com épocas pretéritas" (Paiva, 1989, p. 4-5). Jones & Wood (1984), em sua argumentação contra a tese da desqualificação e substituição de mão-de-obra, destacam a importância da relação custo versus benefício para as organizações na adoção de novas tecnologias. Salientam que a opção por uma tecnologia não estaria unicamente vinculada ao controle sobre os trabalhadores, mas também a uma série de fatores que englobam a estratégia da organização, o mercado consumidor, a concorrência, o mercado de trabalho etc., os quais seguramente são levados em consideração quando da opção ou não por uma tecnologia. No que tange à tese da polarização das qualificações, hegemônica nos anos 70, Hirata (1996) sustenta que esta não teve comprovação empírica nas pesquisas realizadas na década seguinte, em virtude de ter ocorrido uma requalificação em larga escala dos trabalhadores, decorrente da adoção pelas empresas de um novo padrão produtivo e de organização do trabalho. Carvalho (1996), Machado (1991) e Paiva (1989) também sinalizam para um aumento médio na qualificação dos trabalhadores oriundo da adoção dos novos modelos de gestão e das novas tecnologias, mas ressaltam que esse aumento é heterogêneo, não podendo ser generalizado para o conjunto da população. No que diz respeito à desabilitação profissional7 e ao surgimento de novas ocupações, a análise de Assis (1996) afirma que, com a automação, existe uma tendência de algumas ocupações virem a ter sua posição http://www.scielo.br/#nt07 48 redefinida e/ou desaparecerem e de criação de outras. Todavia, a autora destaca que não se identifica uma ruptura entre as ocupações dimensionadas sobre a nova base técnica e as ocupações preexistentes, havendo, portanto, uma qualificação adicional, a qual pode ser construída a partir de um conhecimento já sedimentado, passando a se constituir no ponto de partida da nova qualificação.A consideração da existência de uma nova ocupação implicaria que a incorporação de inovações tecnológicas na rotina do trabalho gerou mudanças tão intensas no conteúdo deste que as qualificações anteriores se tornaram ultrapassadas: "nessa situação, não se trata de adaptar ou reconverter conhecimentos e habilidades do sistema convencional para o `novo', pois as funções emergentes prescindem destes" (Assis, 1996, p.191). Sem subtrair a importância da demanda por maior qualificação do trabalhador no design do novo perfil profissional, é importante destacar a valorização de qualificações tácitas na composição deste perfil e o forte apelo para o comprometimento efetivo dos trabalhadores com a organização. Essa transição é identificada pela área de trabalho-educação como uma oportunidade e, ao mesmo tempo, como uma ameaça: uma oportunidade para se construir um modelo de educação integral, que capacite os indivíduos como agentes de seu destino e de sua história (Frigotto, 1996; Machado, 1992) e, em concomitância, uma ameaça de desvalorização do padrão escolar e de estabelecimento de modelos de reconhecimento e certificação pelo setor produtivo que não habilitem os indivíduos com saberes concretos e duradouros (Lope & Martin Artiles, 1998; Stroobants, 1997; Tanguy, 1997). OS EFEITOS DAS MUDANÇAS NA ÁREA DE INFORMAÇÃO Os profissionais da informação estão sendo instados a reafirmar sua importância e seu valor para o mundo do trabalho, em meio à transição para um novo modelo de qualificação profissional. Uma controvérsia que vem permeando a área de informação é a retirada de qualquer referência à palavra biblioteca do nome das instituições de formação profissional, que passariam a ser nomeadas pela expressão informação ou por ciência da 49 informação. O argumento que respalda essa mudança é que a palavra biblioteca restringe o âmbito de atuação dos profissionais e dificulta a identificação dos mesmos pelo mercado de trabalho, para atuação em outros espaços profissionais. A tese contrária a essa alteração destaca que o estudo da informação como fenômeno não fornece o suporte teórico necessário para a complexidade que envolve o conceito de biblioteca (Crowley & Brace, 1999). Schiller (1996) atribui as transformações por que estão passando as bibliotecas e os bibliotecários americanos não só à forma mercadoria que a informação está assumindo nesse fim de século, uma vez que desde a invenção da imprensa ocorre o comércio e o empacotamento do conhecimento, mas ao estabelecimento de uma política de eficiência e lucratividade nos serviços públicos, que não condiz com a tradição de gratuidade e livre acesso defendida pelos bibliotecários. Para o autor, em um momento em que as bibliotecas se orientam para clientes, para a geração de recursos, é necessário um profissional com a mesma visão, e não aquele voltado para problemas humanísticos, como, por exemplo, o acesso e disponibilização democrática de informação. Com o objetivo de identificar de que forma os profissionais da informação estão lidando com as mudanças no mundo do trabalho e em seu perfil profissional, a Federação Internacional de Informação e Documentação (FID) criou, em 1991, o Grupo de Interesse Específico sobre Papéis, Carreiras e Desenvolvimento do Moderno Profissional da Informação (SIG FID/MIP), que realizou uma pesquisa mundial entre os profissionais da área para identificar seu perfil "moderno"8. No item da pesquisa da FID relativo às mudanças que estão ocorrendo no conteúdo do trabalho nos últimos cinco anos, a tecnologia desponta como propulsora das principais modificações, seguida por elementos de gestão organizacional e do trabalho, tais como intensificação do trabalho, aumento da responsabilidade individual9, influência do mercado internacional e da competitividade e outros. No que diz respeito às qualificações necessárias para ascensão profissional, as respostas mais frequentes foram as seguintes: domínio das tecnologias de informação, aquisição de mais de um idioma, http://www.scielo.br/#nt08 http://www.scielo.br/#nt09 50 capacidade de comunicação e de relacionamento interpessoal, gerenciamento etc. Uma das conclusões da pesquisa que merece destaque é que não se identifica uma unicidade nas qualificações requeridas ao "moderno" profissional da informação10. Quanto às principais barreiras do desenvolvimento profissional, detectam-se dois padrões de respostas, um relacionado a qualificações e habilidades a serem desenvolvidas, tais como treinamento, qualificação, atitudes comportamentais, e outro referente a fatores circunstanciais, como gênero, idade, cultura organizacional etc. Na visão da vice-presidente da FID, Margarita Almada de Ascencio: "Nenhum profissional da atualidade tem condições de reunir todas as habilidades, conhecimentos e competências necessários para interagir e equacionar os problemas decorrentes dos fluxos de informação e conhecimento. Para resolvê-los é necessária a formação de equipes interdisciplinares em todos os níveis e processos: estratégicos, gerenciais e operatórios (Almada de Ascencio, 1997, p. 9)"11. A etapa brasileira da pesquisa foi realizada de acordo com as recomendações da FID, sob o patrocínio do Instituto Euvaldo Lodi do Distrito Federal (IEL/DF), em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Os responsáveis por unidades de informação especializadas em ciência e tecnologia integrantes do sistema Comut12compõem o universo pesquisado, devido à inexistência de um cadastro nacional por categoria profissional. O levantamento foi realizado mediante o envio de questionários e posterior tabulação dos dados13. Um de seus desdobramentos é fornecer subsídios ao IEL/DF e ao IBICT para formulação de cursos de treinamento e educação continuada para os profissionais da informação (Tarapanoff, 1997). Entre as variáveis pesquisadas, concentramo-nos na análise do perfil do profissional informante e no perfil das mudanças e tendências. A pesquisa constata que o perfil do profissional informante é composto prioritariamente de bibliotecários, sendo os demais profissionais oriundos de áreas diversas, e que o grupo pesquisado apresenta um percentual significativo de pós-graduados lato sensu (39,50%) e stricto sensu (12%). Em relação à Educação Continuada, esta ocorre principalmente no ambiente de http://www.scielo.br/#nt10 http://www.scielo.br/#nt11 http://www.scielo.br/#nt12 http://www.scielo.br/#nt13 51 trabalho, voltada para a assimilação de ferramentas gerenciais, o que não constitui uma surpresa, visto que a pesquisa foi direcionada aos responsáveis pelas unidades de informação. A educação a distância só foi vivenciada por 10% dos pesquisados. Na categoria Mudanças e Tendências, a tecnologia é indicada como o principal fator de mudanças nos últimos três anos. No que tange ao conhecimento técnico e habilidades necessárias para a virada do milênio, destacam-se o desenvolvimento de produtos e serviços, a cooperação em redes e as novas tecnologias. Quanto às qualificações necessárias para o desenvolvimento profissional, desponta em primeiro lugar o treinamento para a inovação e desenvolvimento de produtos e processos – seguido pelo treinamento para cooperação em redes, novas tecnologias, treinamento para a qualidade; treinamento em recursos e disponibilidade informacionais, treinamento para a competitividade, ordenamento/cadastramento da informação eletrônica por meio da criação de cadastros em World Wide Web e outros. As mais citadas entre as barreiras para o desenvolvimento profissional foram as seguintes: inadequação da grade curricular dos cursos de biblioteconomia, documentação e ciência da informação à realidade do mercado de trabalho; a carência de apoio da instituição para a educação continuada e o treinamentoem serviço; falta de motivação dos profissionais para a educação continuada; por fim, a oferta reduzida de cursos voltados para inovações tecnológicas. Embora a pesquisa brasileira tenha se restringido aos profissionais vinculados à área de ciência e tecnologia, o diagnóstico sobre a necessidade de educação continuada e de maior envolvimento com os objetivos da organização é concorrente com o que emerge da literatura analisada sobre mudança no perfil dos profissionais da informação. Vale destacar que a automação total ainda não faz parte da realidade das unidades de informação pesquisadas e que a multiplicidade de recursos informacionais dificulta uma tipologia das diversas áreas de atuação dos profissionais da informação. Estes fatos sinalizam para um desafio referente à capacidade dos cursos de formação profissional em desenvolver/ajustar 52 seus currículos e cursos de educação continuada às mutações da sociedade de forma a abranger todas as nuanças da área de informação e responder às necessidades dos profissionais. A VISÃO DOS CURSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL A discussão em torno das qualificações necessárias para que o profissional da informação interaja como sujeito diante das demandas do mundo do trabalho não é recente, muito menos a pressão para que os cursos de formação profissional adaptem seus currículos às transformações da sociedade. Segundo Menou (1996, p.7), muitas das atividades eleitas como novas estão sendo discutidas desde a década de 50. Assim, estar-se-iam confundindo os novos modelos organizacionais e a sofisticação do aparato técnico com a emergência de um novo profissional, embora "a conceituação, o quadro operacional, as necessidades" se mantenham. Os textos da década de 80 (Figueiredo & Lima, 1986; Robredo, 1986) orientam os profissionais para o aprofundamento de estudos nas áreas de administração, gerenciamento de bases de dados e de recursos humanos, marketing de serviços, tecnologia de informação, a fim de que os mesmos possam responder às demandas de qualificação do mercado de trabalho. Figueiredo & Lima (1986) destacam que o novo cenário científico- tecnológico, aliado a uma nova conformação político-econômica, leva à valorização da informação como insumo do processo econômico, redefinindo as qualificações do profissional da informação para o mundo do trabalho: passa-se a requerer capacidade gerencial e administrativa voltada para os acervos informacionais, assim como educação continuada. Nesta mesma linha, Robredo (1986) afirma que o desenvolvimento tecnológico, aliado ao novo modelo econômico, que passa a valorizar a informação em sua estrutura de troca, tem como uma de suas consequências a redefinição do conceito de biblioteca e do perfil do profissional da informação. Identifica, 53 ainda, a necessidade de adaptação do currículo, em vista da incorporação de novas atividades ao conteúdo do trabalho dos bibliotecários: "I) a aplicação dos recursos de processamento eletrônico de dados e de telecomunicações; II) as técnicas gerenciais; III) o desenvolvimento dos esquemas cooperativos com vistas à organização de redes; IV) o desenvolvimento de técnicas de análise da informação e indexação" (Robredo, 1986, p. 61). Podemos depreender, a partir do enfoque dos autores acima referendados, a existência de consenso em torno da ocorrência de uma intensificação do trabalho do profissional da informação, que tem novas atividades acrescidas ao seu processo de trabalho, as quais demandam maior envolvimento intelectual. Em paralelo a essa intensificação do abstração do trabalho14, a indústria da informação passa a buscar no mercado de trabalho profissionais capazes de gerenciar seu acervo informacional. Entretanto, mais que uma formação em biblioteconomia ou em ciência da informação, as organizações passam a valorizar a polivalência, o domínio do universo tecnológico e as atitudes comportamentais: "Enquanto a possessão de um certificado credenciado ou um diploma de uma escola de biblioteconomia ou ciência da informação é frequentemente a qualificação necessária e suficiente para a carreira na área de biblioteconomia e documentação, este tem um peso bem menor na indústria de informação" (Cronin, 1983, p. 13) Caballero Valdés & Perón González (1998), Grover et al. (1997) e Ortega Carrasco & Sanchez Vanderkast (1998) fazem eco a Cronin (1983), ao ressaltar a importância de qualificações comportamentais para a atuação dos profissionais em questão, assim como a necessidade de uma reestruturação dos cursos de modo a adequá-los aos novos requerimentos do mercado de trabalho. Como síntese dos elementos relacionados por estes autores, como importantes para a capacitação dos profissionais da informação, destacamos: a educação continuada, a adaptabilidade social, a capacidade de mobilizar seu conhecimento para o alcance dos objetivos da organização, o aprender a aprender, a sociabilidade, a lealdade e a http://www.scielo.br/#nt14 54 responsabilidade. A novidade da discussão atual parece residir na ênfase dada à educação continuada, às qualificações tácitas e a atitudes comportamentais. Intensificam-se as pressões para rápida adaptação do setor acadêmico à nova conformação do mundo do trabalho, aliadas a um novo fator: o profissional da informação também passa a ser cobrado a investir em seu aperfeiçoamento contínuo, seja este aperfeiçoamento pela via da educação continuada e/ou por aprendizado autônomo; por sua capacidade de articular e aprofundar conhecimentos que respondam às demandas do setor produtivo, ou por sua capacidade de transferir para o trabalho sua vivência profissional e sociocultural. A qualificação profissional passa a ser "um fator coadjuvante", mas não determinante do sucesso profissional, uma vez que a esta se aliam "a trajetória de vida do profissional (antes mesmo de sua formação acadêmica), suas aptidões culturais, profissionais, políticas e sociais" (Marchiori, 1992, p. 3). Segundo Hafter & Wollss (1998), há um consenso entre os diversos atores da área de informação (professores, gerentes e profissionais) quanto à importância da educação continuada como forma de sobrevivência e desenvolvimento profissional. Em seu estudo acerca das pesquisas realizadas sobre a necessidade de educação continuada dos bibliotecários15, constatam que, apesar das diferenças de metodologia, escopo, faixa etária do grupo pesquisado etc. dessas pesquisas, o fantasma do descompasso tecnológico é presente entre os profissionais, tanto que "o mantra que todos os pesquisados entoam é o de solicitação por tecnologia, mais solicitação por tecnologia, e ainda mais solicitação por tecnologia" (Hafter & Wollss, 1998, p. 2). Mas, embora a tecnologia informacional seja um componente importante da realidade contemporânea e da (re)definição do processo de trabalho, as análises sobre os novos requerimentos do conteúdo do trabalho dos profissionais da informação sinalizam não para a operacionalização tecnológica, mas para uma intensificação do trabalho abstrato (ensino de ferramentas informacionais, gerenciamento, planejamento e pesquisa), onde o conhecimento de tecnologia informacional é importante, mas não determinante para a realização do mesmo. Isto leva as autoras a concluir que http://www.scielo.br/#nt15 55 os profissionais estão tendo uma percepção distorcida sobre os elementos necessários para sua educação continuada e sua consequente manutenção no mundo do trabalho: "É triste dizer que, se os resultados das pesquisas refletirem a realidade, os bibliotecários estão selecionando cursos de educação continuada que são mais adequados aos novos requerimentos efetuados pelo mercado de trabalho aos auxiliares de biblioteca!" (Hafter & Wollss, 1998, p. 12). Os cursos de biblioteconomia e documentação vêmimplementando ações visando a reformular seus currículos, apesar de reconhecerem a impossibilidade de o ciclo de formação profissional acompanhar os saltos tecnológicos e a velocidade a que está sendo submetida a sociedade contemporânea16. Os resultados preliminares de uma pesquisa realizada pela Faculdade de Biblioteconomia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Fabi/Puccamp), visando a adequar a oferta de seus cursos à realidade do mercado de trabalho, sinalizam que o perfil do profissional da informação desejado pelo empresariado da Cidade de Campinas (SP) e região está mais relacionado a qualificações tácitas do que a uma qualificação profissional formal: "A expectativa maior é em relação ao comportamento do profissional, espera-se que tenha a capacidade de entender a missão da organização em que está inserido, que saiba trabalhar em equipe e também que o bibliotecário seja um profissional correto, que tenha iniciativa, motivação, perspicácia, seja crítico e receptivo à (sic) mudanças que tenha seriedade" (Beraquet et al., 1997, p.10). Contudo, a área de atuação dos profissionais da informação não se restringe às empresas, mas abrange espaços vinculados à preservação da memória, educação, disseminação cultural etc. De acordo com Kobashi (1997), a diversidade de espaços de atuação do profissional da informação impossibilita a determinação de uma estrutura (curricular) rígida. Essa constatação levou a reformulação do curso de biblioteconomia da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) a privilegiar http://www.scielo.br/#nt16 56 uma formação global, que contribuísse para o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos. O projeto pedagógico da ECA/USP se norteou por um currículo flexível, que possibilitasse liberdade ao aluno na escolha de disciplinas optativas, resguardando um núcleo básico (currículo mínimo) que permite aos alunos contato com questões específicas da área. "O aspecto mais importante a ser considerado na formação é a capacidade de resposta às mudanças17, isto é, preparar os alunos para um desempenho multifuncional, face à variedade de situações colocadas pelo mundo do trabalho, muitas delas imprevisíveis" (Kobashi, 1997, p. 40). A opção da ECA/USP por um currículo que privilegie a diversidade e a pesquisa desenvolvida pela Fabi/Puccamp são ações que sinalizam uma sintonia dos cursos de formação profissional com as mudanças em curso, embora não se identifique um posicionamento uniforme quanto às tendências para formação acadêmica dos profissionais da informação no futuro. Ante a diversidade de espaços de atuação profissional e a dificuldade de se estabelecer um consenso quanto ao perfil profissional do bibliotecário, Mueller (1989) propõe que sua formação profissional ocorra a partir da associação entre profissões afins. "Tal associação poderia se dar no sistema de formação profissional, com o estabelecimento de uma estrutura que permitisse movimentação não só no sentido vertical, como hoje existe, de bacharelado para mestrado e doutorado em uma mesma carreira, mas entre carreiras. Isto é, pessoas com formação básica diversa poderiam cursar os demais níveis da estrutura de formação profissional de quaisquer das áreas afins, com reconhecimento legal. Haveria então não apenas a classe bibliotecária, mas uma classe de profissionais da informação, da qual os bibliotecários fariam parte"(Mueller, 1989, p. 69). Já Pinheiro (1997, p. 36) vê, na educação continuada e nos programas interdisciplinares, uma alternativa para superação "dos impasses hoje vividos de formação e prática". Para Tarapanoff (1997), o mais provável é que a formação dos profissionais da informação ocorra na pós-graduação, e não mais nos cursos de graduação, seguindo uma tendência internacional. http://www.scielo.br/#nt17 57 Pelo exposto anteriormente, não se identifica um argumento consensual entre as propostas de reformulação dos cursos de biblioteconomia. Todavia, fica claro que os cursos de formação profissional reconhecem as transformações por que vem passando a sociedade contemporânea e estão buscando equacionar essas questões de forma a capacitar os indivíduos com saberes que lhe possibilitem articular sua permanência no mercado de trabalho, pois que um ensino baseado na última novidade tecnológica dificilmente encontrará respaldo no mercado de trabalho do futuro. CONCLUSÃO Tanto a iniciativa da FID em desenvolver uma pesquisa em nível mundial, quanto a preocupação dos cursos de formação profissional em reformular seus currículos sinalizam mudanças no perfil dos profissionais da área de informação, em contextos geográficos e socioeconômicos completamente diversos. A literatura consultada nos mostra um redimensionamento da qualificação profissional, acompanhada da necessidade de o indivíduo adaptar seu acervo cognitivo e articular sua personalidade para interagir com o mundo do trabalho. O termo "moderno", utilizado pela FID para adjetivar o profissional da informação, parece acentuar um ritual de passagem para um novo padrão profissional que exigiria dos profissionais redobrados esforços em educação continuada, integração organizacional e capacidade de atuar em equipe. Todavia, o perfil delineado pela literatura e pelas pesquisas se aproxima daquele requerido pela especialização flexível. As análises são quase que sincrônicas em suas conclusões e recomendações, refletindo, em maior ou menor grau, a demanda do setor produtivo por um trabalhador com aptidões que lhe possibilitem direcionar e redimensionar seu acervo cognitivo em função das metas e objetivos da organização, em paralelo ao investimento individual em treinamento e capacitação. Mas, longe de apontar soluções ou mesmo recomendações concretas que atendam à necessidade de educação 58 continuada dos profissionais da informação, as pesquisas são um reflexo do movimento de fragmentação e dispersão que se instala no mundo do trabalho, espelhando a insegurança dos profissionais ante a velocidade das inovações organizacionais e tecnológicas, assim como sua dificuldade em sistematizar conhecimentos científicos-tecnológicos para sua educação continuada em um cenário em que o próprio mundo do trabalho parece enfatizar o plano subjetivo do indivíduo, em termos de suas competências pessoais. Dentro dessa dinâmica é importante que as ações direcionadas à formação profissional e à educação continuada destes profissionais estejam sedimentadas na compreensão dos processos transformação por que passa o mundo do trabalho, o que permite aos indivíduos a percepção das materialidades que se articulam na confecção e validação de um novo modelo de qualificação profissional e que contribuem para o estrangulamento do mercado de trabalho. Isso, posto que o delineamento de um novo perfil profissional não é exclusivo da área da informação, mas endógeno ao novo modelo econômico, que introduz novas formas de gestão do trabalho e de socialização dos indivíduos, valorizando a atuação em equipe, a interdisciplinaridade, o aprendizado contínuo e atitudes comportamentais. 59 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMADA DE ASCENCIO, Margarita. Las políticas de información en un mundo globalizado. In: INFO'97. Anais... Havana, 1997. Disponível em disquete. [ Links ] ARRUDA, Maria da Conceição Calmon. 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[ Links ] Artigo aceito para publicação em 01-08-2000 1 Este artigo tem como base a dissertação de mestrado defendida, em agosto de 1999, no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Convênio CNPq/IBICT – UFRJ/ECO, sob a orientação da professora Regina Maria Marteleto e a co-orientação do professor Donaldo Bello de Souza. 2 A área de trabalho-educação é parte do campo da educação e teve sua consolidação formal, no Brasil, em 1981, quando o professor Miguel Arroyo criou, na reunião anual da Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPEd), o grupo Educação e Trabalho. A criação deste grupo foi motivada pela necessidade de proporcionar maior visibilidade à área de trabalho-educação, que estava relegada a segundo plano nos Programas de Pós-Graduação em Educação. Um dos objetivos da área de trabalho- educação é o estudo da relação entre a educação e o processo produtivo no contexto político-econômico e social em que esta se inscreve (Kuenzer, 1988). 3 Jones & Wood (1984) definem o conhecimento tácito como o conhecimento anterior, fruto da experiência e da intuição do trabalhador. 4 O fordismo é entendido aqui como o processo de produção em massa voltado para um consumo de massa, aliado a uma racionalização de trabalho taylorista, que não pode ser generalizado como padrão universal, mas que norteou a produção capitalista no século 20. 5 É importante diferenciar o trabalhador polivalente do trabalhador multifuncional. Enquanto o primeiro é submetido a maior número de rotinas/tarefas em adição às que realiza, sem que com isso ocorra maior intelectualização do trabalho, o segundo é exposto a situações complexas, que requerem maior atuação cognitiva (Salermo, 1996). 6 Grifo do autor. 7 A desabilitação profissional ocorre quando a qualificação profissional do indivíduo já não se enquadra ao espaço produtivo. javascript:void(0); http://www.scielo.br/#titulo http://www.scielo.br/#tx02 http://www.scielo.br/#tx03 http://www.scielo.br/#tx04 http://www.scielo.br/#tx05 http://www.scielo.br/#tx06 http://www.scielo.br/#tx07 65 8 O resultado desse levantamento já está disponível no website da FID, e a proposta é atualizá-lo a cada dois anos. 9 Responsabilidade individual significa, no novo modelo econômico, o comprometimento do indivíduo com seu processo de trabalho e com a missão corporativa da organização. 10 Ver item Trends and Issues da pesquisa. Http://fid.conicyt.cl:8000/mip12.htm. Arquivo consultado em 15/06/1999. 11 "Ningún profesional en la actualidad puede tener todas las habilidades, conocimientos y competencias necesarias para ir resolviendo los complejos y multifacéticos problemas del mundo actual de flujos de información y conocimiento. Para resolverlos hace falta incorporar grupos interdisciplinarios en todos los niveles e los procesos: estratégicos, gerencialies y operativos" (Almada de Ascencio, 1997, p. 9). 12 Sistema de solicitação de fotocópias de documentos ou parte de documentos entre unidades de informação. 13 Dos 881 questionários enviados, 401 foram devolvidos (Tarapanoff, 1997). 14 É necessário nesse momento maior reflexão sobre o processo e prática do trabalho, pela via do distanciamento ou pela abstração. 15 O estudo priorizou pesquisas não publicadas, realizadas na Califórnia (EUA), entre 1996 e 1997 (Hafter & Wollss, 1998). 16 Ver Kobashi (1997) e Marchiori (1992). 17 Grifo da autora. http://www.scielo.br/#tx08 http://www.scielo.br/#tx09 http://www.scielo.br/#tx10 http://fid.conicyt.cl:8000/mip12.htm http://www.scielo.br/#tx11 http://www.scielo.br/#tx12 http://www.scielo.br/#tx13 http://www.scielo.br/#tx14 http://www.scielo.br/#tx15 http://www.scielo.br/#tx16 http://www.scielo.br/#tx17 66 BIBLIOGRAFIA Baptista, Sofia Galvão. 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