A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
124 pág.
Mecanismos de Agressão e Defesa

Pré-visualização | Página 1 de 45

MEDICINA UNIME – 2019.2 
Júlia Figueirêdo – MECANISMOS DE AGRESSÃO E DEFESA 
MEDICINA UNIME – 2019.2 
 
PROBLEMA 1- ABERTURA: 
A IMUNIDADE INTATA: 
A imunidade diz respeito à capacidade de 
proteção contra doenças e infecções, sendo 
um processo deflagrado pelo sistema imune, 
que desencadeia processos baseados no 
contato com a matéria contaminante 
(composto por células e moléculas 
específicas), e executado por meio de 
respostas imunológicas, reações 
deflagradas contra macromoléculas e 
organismos estranhos, não importando as 
consequências fisiológicas ou patológicas 
desse mecanismo. O papel desse sistema é 
garantir a defesa do corpo humano contra 
agressões promovidas por microrganismos. 
A imunidade inata ou natural representa a 
primeira barreira contra esses organismos 
nocivos, sendo formada por defesas 
celulares e bioquímicas já atuantes mesmo 
antes da infecção ocorrer. A especificidade 
dos mecanismos adotados por essa 
modalidade de resposta é mais ampla, 
abrangendo grandes categorias de 
microrganismos, mas incapaz de reconhecer 
pequenas alterações entre seus 
componentes. Suas principais formas de 
ação são barreiras físicas (pele, tecidos do 
trato gastrointestinal e respiratório) e 
químicas (lágrimas e suco gástrico), células 
fagocíticas e assassinas naturais e proteínas 
sanguíneas. 
As superfícies epiteliais, em seu estado 
íntegro, formam uma verdadeira barreira 
física entre o meio externo e os tecidos do 
hospedeiro. Além do fator estrutural, tais 
células produzem e secretam substâncias 
químicas antimicrobianas que também 
impedem o contato desses organismos com 
o meio interno. As funções físicas 
desempenhadas pela barreira epitelial são 
desempenhadas por células epiteliais, que 
são aderidas firmemente umas às outras, 
pela camada queratinizada externa, e pelo 
muco, secreção viscosa capaz de impedir 
invasões patogênicas, facilitando sua 
eliminação. As funções químicas dessa 
camada de proteção são reservadas para 
alguns peptídeos de propriedades 
antimicrobianas como defensinas e 
catelicidinas, além de algumas formas de 
linfócitos (linfócitos T intraepiteliais), capazes 
de responder e reconhecer microrganismos 
comumente encontrados. 
 
Fagócitos são tipos celulares de função 
especializada representados principalmente 
por macrófagos e neutrófilos, primeira linha 
de defesa após a ultrapassagem da barreira 
epitelial. Essas células são capazes de 
englobar e matar microrganismos, 
produzindo assim citocinas que aumentam a 
função antimicrobiana das células no sítio de 
infecção e promovem inflamação. Os 
macrófagos, além de desempenharem essa 
função, também estão envolvidos no 
processo de reparo tecidual do hospedeiro. 
As células dendríticas desempenham um 
papel fundamental no reconhecimento de 
invasores, sendo efetivas também no 
direcionamento de respostas adaptativas 
mediadas por linfócitos T, uma vez que 
possuem a capacidade de internalizar 
antígenos proteicos, transportando-os aos 
gânglios linfáticos e apresentando-os às 
células efetoras linfoides. Estão localizadas 
em diversos tecidos do corpo, contando com 
processos citoplasmáticos longos 
semelhantes a dendritos e sendo 
representantes de um conjunto heterogêneo 
de derivados da medula óssea. 
Júlia Figueirêdo – MECANISMOS DE AGRESSÃO E DEFESA 
MEDICINA UNIME – 2019.2 
Células Natural Killer (NK) são linfócitos 
responsáveis por funções importantes na 
defesa contra bactérias intracelulares e 
vírus, sendo capazes de executar sua morte 
sem necessidade de expansão clonal e 
diferenciação, o que ocorre para as demais 
células do corpo que realizam apoptose. As 
células NK conseguem reconhecer 
estruturas em estresse, seja por infecções ou 
por danos endógenos, tendo sua ativação 
regulada pelo equilíbrio de sinais gerados 
por receptores de ativação/inibição, sendo 
que os primeiros identificam ligantes 
presentes em compostos danificados (IL-12 
enviados por macrófagos), e o último 
percebe marcadores de células normais. A 
interação de uma NK com outras células tem 
como função a morte dessas ou a ativação 
de macrófago para destruição microbiana, o 
que se dá pela liberação de grânulos 
proteicos mediadores da morte celular. 
 
Os linfócitos são, em sua maioria, 
componentes do sistema imune adaptativo 
(grande repertório de especificidades), 
porém alguns deles expressam receptores 
de antígenos análogos aos dos linfócitos T e 
B, mas com menor diferenciação, capazes 
de identificar somente características mais 
amplas de grupos microbianos. Nesse 
contexto, é possível destacar as células T NK 
invariantes (iTNK), células γδ e células T 
intraepiteliais com TCR αβ, células B-1 e 
células B da zoa marginal. 
Mastócitos são tipos celulares presentes na 
pele e no epitélio da mucosa capazes de 
secretar de forma rápida citocinas pró-
inflamatórias e mediadores lipídicos em 
reação aos estímulos infecciosos. Possuem 
grânulos abundantes em seu citoplasma que 
protegem mediadores inflamatórios, 
liberados em caso de ativação celular por 
microrganismos ou em resposta a um 
anticorpo. Essas reservas contêm 
compostos vasoativos (histamina) e enzimas 
proteolíticas capazes de matar ou inativar 
ameaças e toxinas. Tais células também 
podem secretar mediadores lipídicos e 
citocinas que auxiliam os mecanismos de 
defesa do organismo. Por estarem 
localizados na periferia dos vasos 
sanguíneos as respostas induzidas por 
essas células são rapidamente 
disseminadas, promovendo um quadro de 
inflamação aguda. Os mastócitos expressam 
TLRs, e os ligantes do TLR podem induzir 
desgranulação da célula em questão, além 
de apresentarem importante papel na 
proteção do hospedeiro contra helmintos e 
no desenvolvimento de sintomas alérgicos. 
Algumas moléculas capazes de reconhecer 
ameaças microbianas encontram-se 
dispersas no sangue e fluidos extracelulares, 
sendo a primeira defesa contra agentes 
patogênicos fora das células do hospedeiro, 
atuando de duas formas principais: 
 Agem como opsoninas ao ligarem-se aos 
microrganismos, ampliando a habilidade 
de células fagocíticas em eliminar tais 
ameaças, uma vez que essas 
apresentam receptores específicos para 
esse complexo; 
 Promovem, após o contato com o 
antígeno, respostas inflamatórias 
responsáveis por aumentar a atração de 
fagócitos para o sítio de infecção, 
podendo participar diretamente da 
eliminação desses agentes patogênicos. 
Por estarem dispersas pela circulação do 
hospedeiro, esses mecanismos são também 
chamados de ramo humoral do sistema 
imune inato, segmento que também é 
Júlia Figueirêdo – MECANISMOS DE AGRESSÃO E DEFESA 
MEDICINA UNIME – 2019.2 
composto por sistema complemento, 
colecitinas, pentaxinas e ficolinas. 
O sistema complemento é formado por 
diversas proteínas plasmáticas que agem 
juntas para “opsonizar” microrganismos, 
recrutar células realizadoras de fagocitose 
para o local de infecção, e até mesmo na 
morte direta de um patógeno. Sua ativação 
se dá por meio de um sistema em cascata 
proteolítica que depende de seus próprios 
produtos, gerando assim três vias: 
 Via clássica: emprega a proteína C1q na 
identificação de anticorpos ligados pela 
porção Fc a um microrganismo ou demais 
estruturas, gerando os compostos C1r e 
C1s, que criam uma cascata proteolítica, 
participando tanto da imunidade humoral 
adaptativa quanto da inata (eficiente 
ligação entre anticorpos IgM e C1q); 
 Via alternativa: disparada quando a 
proteína C3 reconhece estruturas da 
superfície microbiana, com 
lipopoliproteinas de uma bactéria, 
distinguindo-a do tecido normal do 
organismo por meio da ausência de 
enzimas reguladoras; 
 Via da lectina: é deflagrada pela proteína 
plasmática lectina ligante de manose 
(MBL), capaz de reconhecer resíduos 
desse composto em glicoproteínas e 
glicolipídios microbianos