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A tireoide é a maior glândula endócrina do corpo humano, sendo responsável pela produção dos hormônios tireoidianos (T3 e T4), envolvidos com diversos componentes da homeostase. A tireoide situa-se a meio caminho entre o ápice da cartilagem tireoide (“pomo-de-adão”) e a fúrcula esternal, apresentando uma relação anatômica posterior importante com a traqueia, que é praticamente “abraçada” pela glândula. Por trás da traqueia, correm os nervos laríngeos recorrentes e encontra-se o esôfago – estas estruturas também têm relação anatômica posterior com a tireoide. As células que compõem os folículos tireoidianos (células foliculares) são especializadas em sintetizar, armazenar e secretar os hormônios tireoidianos. O fator limitante principal na síntese dos hormônios tireoidianos é o NIS, que é uma bomba de sódio iodeto, que faz transporte ativo do sódio com o iodeto para a célula folicular. A partir do momento que o iodo entra na célula folicular, ele é oxidado, é organificado, se juntando às moléculas de tireoglobulina, se transformando em Monoiodotirosina (MIT) e Diiodootirosina (DIT), que se juntam formando T3 e T4. Quando o organismo estiver precisando, a célula folicular libera T3 e T4. O maior estímulo para o funcionamento do NIS é o hormônio estimulador da tireoide (TSH). Quando o TSH se liga no seu receptor na célula folicular, a primeira etapa que ele ativa é na bomba de sódio iodeto. Feed-back negativo: Os neurônios hipotalâmicos (núcleos supraóptico e supraventricular) sintetizam e liberam um peptídeo de três aminoácidos denominado TRH (hormônio liberador de tireotrofina). Ao se ligar em seu receptor na membrana do tireotrofo, o TRH estimula a liberação e síntese do TSH. O TSH é liberado na circulação sistêmica de forma pulsátil (aproximadamente a cada duas horas), respeitando um ciclo circadiano com níveis séricos máximos no início da madrugada (entre 0h e 4h). A glândula tireoide secreta os hormônios T3 e T4. O T4 penetra nos neurônios hipotalâmicos e nos tireotrofos, convertendo-se em T3, por ação da 5’-desiodase tipo 2. O T3 tem a capacidade de inibir a liberação hipotalâmica de TRH e a secreção hipofisária de TSH – retroalimentação negativa. Aumento dos hormônios tireoidianos → T4 sofre a ação das deiodinases → Formação de T3 → Age na hipófise → Inibição do TSH A compreensão desse eixo de retroalimentação é fundamental para avaliar o significado da dosagem hormonal no diagnóstico das doenças da tireoide. Assim, classificamos os distúrbios tireoidianos em primários (de origem na própria glândula tireoide), secundários (de origem hipofisária) ou terciários (de origem hipotalâmica). Mecanismos de ação dos hormônios tireoidianos o Desenvolvimento fetal: são fundamentais para o crescimento, desenvolvimento cerebral e maturação óssea. O hipotireoidismo fetal e congênito leva à síndrome do cretinismo (retardo mental e nanismo). o Metabolismo: aumenta o consumo de oxigênio e a produção de calor em todos os tecidos, menos o cérebro, o baço e os testículos. o Sistema cardiovascular: melhora a contratilidade cardíaca, assim como o relaxamento miocárdico diastólico, causa um efeito inotrópico e cronotrópico positivos, promovendo maior débito sistólico e frequência cardíaca. o Outros: rapidez de raciocínio e capacidade de concentração, mantêm a atividade neuromuscular, estimulando os reflexos tendinosos e a capacidade de contração muscular (receptores beta- adrenérgicos na musculatura esquelética). estimulam indiretamente a produção de eritropoietina pela medula óssea. Primário: T4L baixo + TSH aumentado O hipotireoidismo é uma síndrome clínica ocasionada por síntese/secreção insuficiente ou ação inadequada dos hormônios tireoidianos nos tecidos, resultando em lentificação generalizada do metabolismo. Podemos classificar o hipotireoidismo em primário (falência tireoidiana), secundário (falência hipofisária – deficiência de TSH) ou terciário (deficiência hipotalâmica de TRH). O hipotireoidismo PRIMÁRIO representa > 90% dos casos, sendo bastante comum. Ressalte-se que certas condições ainda podem determinar uma disfunção transitória da glândula, com posterior retorno de sua função, conforme observado em algumas formas de tireoidite como a “tireoidite pós-parto” Possui elevada prevalência mundial. É uma doença crônica, ou seja, será acompanhada durante toda a vida. Fatores de risco: idade (> 65 anos), sexo feminino (proporção 8:1 com o sexo masculino), puerpério, história familiar, irradiação prévia de cabeça e pescoço, doenças autoimunes (ex.: vitiligo, DM 1, anemia perniciosa), drogas como amiodarona, lítio, tionamidas e INF-alfa (entre outras), síndromes de Down e Turner, dieta pobre em iodo e infecção crônica pelo HCV. Quando suspeitar? É mais comum em mulheres e idosos. Seus sintomas são diversos/inespecíficos, dependendo da faixa etária, sexo e velocidade de instalação. Por exemplo, os idosos não se queixam muito dos sintomas quando comparado aos jovens. No idoso, o quadro clínico pode lembrar um transtorno depressivo. Alguns dos sintomas: ganho de peso (3-5 kg), aumento de IMC, intolerância ao frio, fadiga, dispneia, intolerância ao exercício, dislipidemia, prejuízo na memória, parestesia, humor deprimido, redução dos reflexos tendinosos, demência, ataxia, constipação, infertilidades, distúrbios menstruais, bócio, disfunção sexual, pele seca, queda de cabelo, madarose, edema periorbitário. Recém-nascidos: persistência da icterícia fisiologia, choro rouco, sonolência, dificuldades na amamentação. Primeiros anos de vida: pele seca, atraso na erupção dentaria, pobre crescimento de cabelo e unhas, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, redução na velocidade do crescimento. A dosagem do TSH faz parte do teste do pezinho, com o objetivo de diagnóstico precoce do hipotireoidismo congênito. Primeira infância/adolescência: redução no desempenho escolar, redução na velocidade de crescimento, atraso na idade óssea, puberdade precoce. A tireoidite de Hashimoto é a causa mais comum de hipotireoidismo em áreas com suficiência de iodo (como o Brasil). Em áreas suficientes de iodo, depois do Hashimoto, a etiologia mais frequente em adultos passa a ser a iatrogênica. O uso de drogas “tireotóxicas” (com destaque para a amiodarona e o lítio) e a tireoidite pós-parto são outras causas bastante encontradas na prática! Primário • Autoimune: tireoidite de Hashimoto (PRINCIPAL EM ÁREAS SUFICIENTES DE IODO). • Nutricional: carência de iodo (PRINCIPAL EM ÁREAS CARENTES DE IODO). • Iatrogênica: radioablação com 131I, tireoidectomia total, irradiação cervical. • Drogas: principalmente as que contêm grande quantidade de iodo em sua formulação (como amiodarona e meio de contraste), mas também lítio, tionamidas (antitireoidianos), IFN-alfa entre outras. • Congênito: disgenesia da glândula (agenesia, hipoplasia, ectopia). • Doenças infiltrativas: amiloidose, sarcoidose, esclerodermia, cistinose, tireoidite de Riedel (deposição de colágeno). Central • Hipopituitarismo (hipotireoidismo secundário): tumores, cirurgia, irradiação, síndrome de Sheehan (infarto da hipófise no pós-parto), trauma, congênito. • Doenças hipotalâmicas (hipotireoidismo terciário): tumores, trauma, desordens infiltrativas (ex.: sarcoidose, hemocromatose, tuberculose). Transitório • Tireoidite “silenciosa” (pós-parto). • Tireoidite subaguda. Resistência ao hormônio tireoidiano IMPORTANTE Outras tireoidopatias autoimunes – como a doença de Graves (causa clássica de HIPERtireoidismo) – também podem gerar HIPOtireoidismo! Muitos pacientes desenvolvem anti-TPO durante o curso da doença, sofrendo, aolongo dos anos subsequentes, um processo de destruição progressiva da glândula. Atenção para o uso abusivo do iodo, pois ele pode causar tireotoxicose e hipotireoidismo transitório. Efeito Wolfchercoff o O uso abusivo de iodo pode causar hipotireoidismo pelo efeito inibitório sobre a captação e organificação do iodo, além da inibição da desiodase tipo 1 e da ação hormonal em seus receptores. o É observada geralmente em pacientes com tireoidite de Hashimoto subclínica (anti-TPO positivo) em regiões com adequado suprimento de iodo na dieta. Também ter cuidado com o uso abusivo de lugol. Hipotireoidismo Congênito o A pesquisa do hipotireoidismo congênito é obrigatória no Brasil, sendo realizada pelo teste do pezinho entre o 3º e 7º dia de vida. o O exame não deve ser coletado antes de 48h de vida, pois o parto promove um aumento transitório do TSH, o que atrapalharia a interpretação dos resultados. o Crianças com TSH > 20 mUI/L coletam amostras de soro para dosagem de TSH e T4 livre (confirmar diagnóstico). o Nesta situação, já se inicia a reposição de levotiroxina na dose de 10 a 15 µg/kg/dia (na prática, algo em torno de 50 µg/dia). o A investigação etiológica será realizada mais tarde, por volta dos três anos de idade, quando for seguro suspender a levotiroxina a fim de realizar exames. o Quando o hipotireoidismo aparece após os dois primeiros anos de vida, NÃO ocorre retardo mental verdadeiro: o quadro se manifesta por baixa estatura, atraso no desenvolvimento puberal e graus variáveis dos sinais e sintomas observados em adultos. O que pode me ajudar na busca pela etiologia? História clínica: história pessoal de outras doenças autoimunes e de outras doenças tireoidianas, uso prévio de medicações e história familiar de hipotireoidismo. Exame físico: presença de bócio (sugere tireoidites/deficiência de iodo), presença de dor cervical (sugere tireoidite), presença de cicatriz cervical (sugere tireoidectomia prévia). Exames laboratoriais: anti-TPO (mais prevalente e mais específico) e anti-tireoglobulina sugerem tireoidite de Hashimoto. USG de tireoidite: não é obrigatória. É útil quando os anticorpos não estão presentes e quando há presença de nódulos. ▪ Ecotextutra heterogênea sugere tireoidite de Hashimoto. Ecotextutra heterogênea sugere tireoidite de Hashimoto É uma textura difusamente heterogênea do parênquima tireoidiano com áreas de menor ecogenicidade de permeio (pseudonódulos). O doppler colorido de amplitude demonstra a vascularização aumentada da glândula e não delimita nódulos. Tireoidite de Hashimoto Etiologia autoimune O anti TPO te maior sensibilidade e especificidade que anti-Tg. É mais comum iniciar com bócio (pela infiltração linfocítica) e depois evoluir com atrofia. Possui uma incidência maior em mulheres e no aumento da idade. Hipotireoidismo central Ocorre em menos de 1% dos casos. A doença está no hipotálamo e/ou na hipófise, ou seja, a investigação vai ocorrer com exames de imagem. Perda de tecido funcionante: tumores hipofisários, trauma, vascular, infecções, doença infiltartiva, hipofisite linfocítica crônica e lesões congênitas. Defeitos funcionais na biossíntese e liberação do TSH: mutações nos genes do receptor do TSH e TRH e uso de fármacos (dopamina, glicocorticoides). Dosagem de TSH e T4 livre: dosar pela manhã entre 7 e 8 horas (os hormônios tireoidianos possuem ritmo circadiano). TSH T4 L Diagnóstico Normal Normal Eutireoidismo Alto Baixo Hipo primário Alto Normal Hipo primário subclíncio Normal ou baixo Baixo Hipotireoidismo central O TSH é um ótimo exame de rastreio. Apenas com o seu resultado, podemos fazer um diagnóstico preciso. Caso precise escolher um dos exames (TSH ou T4L), deve-se escolher o TSH. Hipotireoidismo Primário Subclínico o Como a glândula é destruída aos poucos, a “reserva” tireoidiana é progressivamente requisitada, sendo necessário um nível relativamente mais alto de TSH para manter o T4 livre dentro da faixa normal. o Muitos doentes evoluirão com perda completa da “reserva” e queda do T4 livre, que posteriormente será seguida pela queda do T3. o Logo, é desnecessário dosar o T3 sérico, já que sua redução sempre sucede a do T4 livre. Administração de Levotiroxina (L-T4) Pró hormônio do T3, com meia vida mais longa (7 dias), fácil titulação e baixo custo. Posologia Idade Dose (mcg/Kg/dia) Neonatos 10-15 3-12 meses 6-10 1-3 anos 4-6 3-10 anos 3-5 10-16 anos 2-4 16-65 anos 1,7 > 65 anos 1,0 Nos pacientes idosos, cardiopatas ou com doenças graves: o início é gradual! O início rápido, aumenta o metabolismo de forma súbita e pode descompensar outras patologias. O ideal é iniciar com 12,5-25 mcg/dia com aumento a cada 2-3 semanas até a dose ideal. Recomendações: Uso em jejum, pela manhã ou no final da noite. Não ingerir com nenhum alimento ou medicamento. Aguardar 1 hora para se alimentar. Informar mulheres em idade fértil da necessidade de aumento da dose na gestação (em torno de 30% da dose atual). É importante escolher uma marca para o uso constante. Isso acontece, pois a troca de marca pode precipitar uma descompensação visto que a biodisponibilidade entre as marcas é diferente. Levotiroxina x Insônia o A levotiroxina é mais bem absorvida à noite, momento em que seria necessária uma dose menor do hormônio. o No entanto, a administração noturna de levotiroxina pode causar insônia grave, devido ao pico plasmático que ocorre logo após sua administração! o Por tal motivo, costuma-se prescrever o medicamento pela manhã e em jejum (para reduzir a ligação às proteínas alimentares). O ideal é que ela seja ingerida uma hora antes do café ou, quando isso não for possível, duas horas após a alimentação. Seguimento Repetir o TSH após 6-12 semanas. Metas na reposição com LT4 Idade TSH 20-60 anos 0,5-2,5 60-70 anos 2-6 70-80 anos 2-8 > 80 anos 2-10 Quando vamos envelhecendo, é fisiológico que precisemos de menos hormônio da tireoide. Com isso, o idoso que não possui o mesmo metabolismo de antes, NÃO precisa de uma quantidade de hormônio alta. Falha em atingir as metas: Aderência Uso concomitante com outras medicações: carbonato de cálcio, inibidores de bomba de prótons, sulfato ferroso, antiácidos, orlistate. Patologias que afetam a absorção gastrointestinal: gastrite por H. pylori, gastrite atrófica autoimune, doença celíaca, gastroparesia diabética. Drogas que afetam o metabolismo da L-T4: rifampicina, fenobarbital, estrogênio, carbamazepina, glicocorticoide. Seguimento do hipotireoidismo central: Seguir pelo T4 livre e tenta deixar ele > 1/3 superior. Referenciar ao especialista. TSH elevado + T4 livre normal É importante sempre repetir a função tireoidiana entre 4-6 semanas após o primeiro teste alterado antes de fechar o diagnóstico nesses pacientes. Isso acontece, pois muitas vezes o paciente possui uma tireoidite, que é transitória, e que pode normalizar nesse período. Após confirmar o diagnóstico, tratar ou não? TSH > 10 = TRATAMENTO ▪ Em pacientes muito idosos, sem sintomas, sem comorbidades cardíacas, muitas vezes não precisam ser tratados, por não ter muito benefício no tratamento. TSH > 4,5 < 10 ▪ Doença cardiovascular em pacientes com < 65/70 anos, gravidez ou desejo de engravidar = TRATAR ▪ USG alterado, anticorpos positivos e infertilidade = CONSIDERAR TRATAR ▪ Sintomas associados ao hipotireoidismo = CONSIDERAR TESTE TERAPÊUTICO ▪ Demais situações = OBSERVAR Teste terapêutico: iniciar levotiroxina, acompanhar por 2-3 meses, rever os sintomas e considerar ou não manutenção. O termo hipertireoidismo primárioé usado quando a fonte do problema (do excesso hormonal) está na glândula tireoide e não na hipófise ou hipotálamo. Contudo, nem todo estado de excesso de hormônio tireoidiano é um hipertireoidismo. Este último refere-se à hiperfunção da glândula tireoide, devendo ser diferenciado do termo (mais genérico) tireotoxicose. Hipertireoidismo x Tireotoxicose o Tireotoxicose é qualquer estado clínico resultante do excesso de hormônios da tireoide nos tecidos. Embora na maior parte das vezes seja causada por hiperfunção tireoidiana, encontramos síndromes de tireotoxicose associadas à função normal ou diminuída da tireoide, como ocorre na tireotoxicose factícia (uso abusivo de hormônio tireoidiano exógeno), nas tireoidites (em que a lesão tecidual libera os hormônios tireoidianos previamente estocados) e na produção ectópica de hormônios da tireoide. o Hipertireoidismo é definido como aumento na produção e liberação de hormônios tireoidianos (levotiroxina e triiodotironina). Causas de tireotoxicose: bócio multinodular tóxico, doença de Graves, adenoma tóxico, adenoma secretor de TSH, carcinoma mestastático da tireoide, estimulo por HCG, tireoidite subaguda (granuloma de de Quervain, linfocítica indolor), factícia ou produção ectópica. Hipertireoidismo + bócio difuso É a principal causa de hipertireoidismo em nosso meio, sendo responsável por 60-90% de todos os estados de tireotoxicose. Trata-se de uma desordem imunológica que tem como característica um estímulo, por meio de anticorpos antirreceptor de TSH (TRAb), à glândula tireoide. É mais comum em mulheres (9:1), com pico de incidência entre 20-50 anos e a causa mais comum de hipertireoidismo espontâneo em pacientes abaixo de 40 anos. É importante termos em mente a associação de doença de Graves com outras desordens autoimunes endócrinas, como o diabetes mellitus tipo I e a doença de Addison, e não endócrinas, como a miastenia gravis, hepatite crônica ativa, anemia perniciosa, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren e vitiligo. Apresenta como características uma síntese e secreção excessivas de hormônios da tireoide e achados clínicos muito típicos, que consistem em bócio difuso, oftalmopatia, dermopatia (mixedema pré-tibial) e acropatia. Hipertireoidismo + Oftalmopatia Infiltrativa = patognomônico de doença de Graves Patogênese Nesses pacientes, os linfócitos B sintetizam anticorpos “contra” receptores de TSH localizados na superfície da membrana da célula folicular da tireoide. Estes anticorpos são capazes de produzir um aumento no volume e função da glândula, justificando assim o hipertireoidismo encontrado. Anticorpos contra antígenos tireoidianos: Tireoglobulina Tireoperoxidase: está presente em 80% dos casos. TRAB Receptor de TSH (TRAb): é o mais específico. O TRAB possui uma prevalência de 70-100% na doença de Graves, mas pode estar presente de 6- 60% da doença de Hashimoto. O anti-TPO positivo sozinho (sem clínica, sem alteração da função tireoidiana), não acrescenta nada, pois até 15% da população pode ter ele positivo. Fatores de risco Susceptibilidade genética Infecção Estresse Tabagismo Gênero feminino Gravidez: no pós parto Iodo e medicamentos Radiação Estado hipermetabólico com aumento da ação adrenérgica. A gravidade dos sinais e sintomas depende da duração da doença, nível dos hormônios e da idade do paciente. No idoso, por exemplo, o hipertireoidismo pode ser apatético, mais parecido com o hipotireoidismo. Hipertireoidismo apatético o Nos idosos, as manifestações adrenérgicas (agitação, nervosismo etc.) não se encontram presentes, dando lugar a alterações cardiovasculares (surgimento de uma FA e/ou insuficiência cardíaca refratárias ao tratamento) e a sintomas como astenia, fraqueza muscular intensa e depressão grave. Em alguns casos, o diagnóstico de tireotoxicose torna-se extremamente difícil. Sinais e sintomas: nervosismo, sudorese, perda de peso, tremor nas mãos, oftalmopatia com edema periorbitário, lagofatlmo, lidlag (atraso no fechamento ocular), alteração da musculatura ocular extrínseca. Oftalmopatia de Graves o É observada em cerca de 20-40% dos casos, podendo ocorrer antes, durante ou após o desenvolvimento do hipertireoidismo e com curso clínico independente do hipertireoidismo. o Se manifesta por exoftalmia ou proptose bilateral, olhar fixo, retração palpebral levando à exposição da esclera acima da margem superior do limbo, edema periorbitário, edema e hiperemia conjuntival e, eventualmente. o Diante de um paciente com oftalmopatia unilateral, estamos obrigados a solicitar um exame de imagem do crânio para afastar causas locais de acometimento ocular unilateral, como tumores oculares, aneurisma de carótida interna, entre outros. o Devemos lembrar mais uma vez que a retração das pálpebras e o olhar assustado ocorrem na tireotoxicose de qualquer etiologia, não sendo exclusivos da doença de Graves. o O tabagismo é um fator clássico de piora da oftalmopatia. Dermopatia de graves: É rara (5-10%). Aspecto em casca de laranja: pele áspera pelo depósito de glicoasaminoglicano. Mais comum nos pacientes com orbitopatia. Acropatia de graves: dedo em baquetas de tambor com unhas em vidro de relógio. É bem rara. TSH suprimido + T3/T4 elevado + TRAb positivo Cintilografia com iodo: diferencia doença de graves (captação por todo tecido tireoidiano) de um bócio multinodular tóxico (captação apenas pelos nódulos) quando o TRAb é negativo. Captação difusa: doença de Graves (foto a seguir). Captação restrita: bócio multinodular ou nódulo tóxico (doença de Plummer). Outros achados: Leucopenia Hipercalciúria e hipercalcemia: osteopatia de Graves Elevação de transaminases (casos mais graves) Redução do colesterol total Aumento de ferritina Osteopatia de Graves o A tireotoxicose pode promover aumento do turnover ósseo (osteopatia por desmineralização), o que se acompanha de hipercalcemia em 20% dos casos. o No entanto, mais raramente pode ocorrer hipocalcemia grave (com tetania). A explicação é que a tireotoxicose estimula a excreção renal de magnésio. Se o paciente chegar a desenvolver hipomagnesemia, a queda do magnésio sérico pode induzir um quadro de hipoparatireoidismo Anticorpos antidireoidianos O anticorpo anti-TPO (tireoperoxidase) está em títulos elevados em 80% dos casos. Tal anticorpo é apenas um marcador de doença tireoidiana autoimune e, na verdade, é mais típico da tireoidite de Hashimoto. O anticorpo característico da doença de Graves é o antirreceptor do TSH (TRAb). Contudo, a pesquisa dessa imunoglobulina não é necessária na maioria dos casos, uma vez que o diagnóstico de doença de Graves baseia-se em achados clínicos acompanhados de dosagem hormonal. No entanto, existem algumas situações clínicas em que a pesquisa do TRAb se torna necessária. Indicações da pesquisa do TRAb o Doença de Graves em indivíduos eutireóideos; o Casos de hipertireoidismo apatético; o Avaliar risco de recidiva após tratamento com antitireoidianos; o Doença de Graves em alguns pacientes com poucas manifestações clínicas e que apresentem doença sistêmica; o Paciente eutireoidiano com exoftalmia, principalmente se unilateral; o Gestantes eutireoidianas com passado de doença de Graves submetidas a radioiodo ou tireoidectomia ou com doença de Graves presente, para avaliar a predileção de tireotoxicose neonatal (decorrente da passagem transplacentária de TRAb); níveis maternos elevados do anticorpo durante o primeiro trimestre da gestação indicam um risco aumentado de hipertireoidismo fetal,enquanto níveis aumentados no terceiro trimestre associam-se ao risco de hipotireoidismo neonatal; o Diagnóstico diferencial da tireotoxicose gestacional. PAAF Hiperplasia e hipertrofia parenquimatosa Infiltrado linfocítico e plasmocítico leve e difuso. Medidas gerais: Repouso relativo ou absoluto dependendo da gravidade. Controle de sintomas: ▪ Propanolol 10-40 mg até 160 mg/dia 3- 4x/dia; ▪ Atenolol 25-100 mg 1-2x/dia. ▪ Pacientes asmáticos: Verapamil e Diltiazem. 1. Tratamento medicamentosos Antireoidianos de síntese (tionamidas): inibem a síntese de T3 e T4 pela glândula tireoide. ▪ Exemplos: metimazol/tapazol e propiutiuracil ▪ O metimazol é o mais utilizado pela sua posologia única diária e facilidade de chegar ao resultado mais rapidamente. ▪ Utilizar por pelo menos 12 meses. Metimazol Propiutiuracil Dose inicial 10-40 mg 1x/dia 100-300 mg 2- 3x/dia Dose de manutenção 5-10 mg 1x/dia 50-200 mg 2- 3x/dia Meia vida 4-6 horas 75 min Efetividade +++ ++ Eutireodismo com Semanas Meses Agranulocitose Dose dependente Dose não dependente Hepatite Extremamente rara Rara Poliartrite, vasculites Extremamente rara Rara Efeitos colaterais menores Trocar para PTU ou + antihistamíncio Trocar para MMTZ ou + antihistamínico Efeitos colaterais maiores Agranulocitose o Neutrófilos < 500/mm³ o Etiologia autoimune o Sintomas: infecções de orofaringe (febre, dor de garganta, úlceras de boca), de pele, sepse. o Interrupção da medicação se N < 1.500 e tratar com antibioticoterapia e/ou granulokine. o Fatores de risco: uso descontínuo do medicamento, doses altas. NUNCA TROCAR PTU → MMZ ou MMZ → PTU, é necessário mudar de opção terapêutica, excluindo a medicamentosa. Hepatotoxicidade o PTU: cursa com aumento transitório de transaminases com necrose hepática fulminante. o MMZ: cursa com lesão colestática. o Lembrar de sempre acompanhar as enzimas hepáticas antes e durante o tratamento. o A troca da medicação deve ser feita se: aumento discreta das transaminases de 2-3x o LSN. o O descontínuo da medicação deve ser feito se: hepatite fulminante ou síndrome colestática. NUNCA TROCAR PTU → MMZ ou MMZ → PTU, é necessário mudar de opção terapêutica, excluindo a medicamentosa. Aplasia congênita da cútis o Uso de MMZ no 1º trimestre da gestação (trocar para PTU). o É raro. O que fazer? Toda gestante deve trocar o Tapazol pelo Propiutiuracil no primeiro trimestre de gestação. Maior chance de remissão: bócio pequeno, idade > 40 anos, níveis iniciais de T3 pouco elevados, TRAB em títulos baixos ao final do tratamento e uso de tionamidas por 12-24 meses. 2. Radioiodoterapia É um tratamento feito em dose única, permanente e seguro. Desvantagens: pode haver piora da oftalmopatia, contraindicado em gestantes, causa hipotireoidismo em 50% dos pacientes em 1 ano, não engravidar por pelo menos 3-6 meses. 3. Cirurgia É um procedimento de muito mais risco: lesão do nervo laringeorrecorrente e risco de hipoparatireoidismo. Uma vantagem é não piorar a oftalmopatia. Desvantagens: hipotireoidismo, anestesia, complicações (hipoparatireoidismo e lesão de laríngeo recorrente). Tireoidite é um termo genérico que comporta uma série de entidades clínicas que têm em comum o acometimento inflamatório da tireoide. O mecanismo etiopatogênico pode ser infeccioso, autoimune ou outros (trauma, radiação, drogas, desconhecido). Na tireoidite há uma inflamação que destrói a célula folicular, o conteúdo de T3 e T4 se acumulam na periferia, ocorrendo a retroalimentação negativa do TSH, que vai ficar suprimido, promovendo uma captação baixa de iodo. Evolução clínica: tireotoxicose → hipotireoidismo → eutireoidismo. Normalmente, o T4 livre normaliza mais rápido do que o TSH. Por mais que essa alteração seja transitória, há o risco de hipotireoidismo permanente, por isso devemos acompanhar esses pacientes. Tireoidite pós parto É uma tireoidite autoimune indolor subaguda que se manifesta dentro do primeiro ano após o parto. O período de pós parto é o que tem maior risco para doenças autoimunes pela reativação do sistema imunológico. Por isso, uma tireoidite comum nessas mulheres é a tireoidite pós parto. O quadro clínico é semelhante ao da tireoidite subaguda linfocítica, ou seja, geralmente cursando com uma fase tireotóxica seguida de hipotireoidismo e eutireoidismo, em um período de 1-4 meses. A época de aparecimento mais comum é do 2o ao 4o mês pós-parto. A doença é considerada uma variante da tireoidite de Hashimoto, estando relacionada a anticorpos anti-TPO positivos em 65-85% dos casos e a hipotireoidismo ou bócio persistente em 20-50% dos pacientes. O tratamento deve ser feito com betabloqueadores, no caso dos sintomas de tireotoxicose, e com reposição hormonal, no caso dos sintomas de hipotireoidismo. Tireoidite de Hashimoto É a causa mais comum de hipotireoidismo permanente em regiões sem deficiência de iodo, correspondendo a mais de 90% dos casos. Os principais autoanticorpos estão listados abaixo: Antitireoperoxidase (TPO) – 95-100% dos casos; - Antitireoglobulina; Antirreceptor de TSH; - Antitransportador de iodo. A fase inicial da doença cursa com elevação transitória (semanas a meses) dos hormônios tireoidianos, eventualmente levando à tireotoxicose clinicamente manifesta (Hashitoxicose). A maioria dos pacientes se apresenta assintomática no início da doença, sendo o diagnóstico suspeitado a partir da investigação de anormalidades nos exames de função tireoidiana realizados ao acaso ou pela presença de um bócio ao exame físico. Sintomas de hipotireoidismo podem estar presentes em 10-20% dos indivíduos. O hipertireoidismo pode ser a manifestação inicial de cerca de 5% dos casos. A segunda fase da doença é o hipotireoidismo subclínico, caracterizado pela elevação do TSH com T4 (e T3) ainda dentro da faixa de normalidade. A evolução para a terceira fase da doença – o hipotireoidismo clinicamente manifesto – ocorre em média na taxa de 5% ao ano. Não há tratamento específico para a tireoidite de Hashimoto. A conduta é a reposição adequada de hormônio tireoidiano ad eternum. Utiliza-se o L-T4, nas doses comentadas em hipotireoidismo. Tireoidite subaguda linfocítica Instalação de uma tireoidite indolor, manifestando-se apenas com um período transitório de tireotoxicose, seguido de hipotireoidismo autolimitado. Pode ser considerada uma variante mais branda da tireoidite crônica autoimune, devido à semelhança quanto ao histopatológico e ao fato de cerca de 50% dos casos evoluírem mais tarde para a própria tireoidite de Hashimoto. Anticorpos anti-TPO e antitireoglobulina estão positivos em cerca de 50% dos casos no momento do diagnóstico, porém em títulos mais baixos que na tireoidite de Hashimoto e na tireoidite pós-parto. Pode ser descoberta ao acaso por exames de triagem, em pacientes com a forma subclínica ou, o que é mais comum, pode apresentar-se com um quadro de tireotoxicose clinicamente manifesta. O diagnóstico diferencial é com a doença de Graves. O caráter autolimitado da tireotoxicose inicial é o que caracteriza a doença. A elevação hormonal geralmente dura 2-8 semanas, seguindo-se frequentemente uma fase igualmente autolimitada de hipotireoidismo subclínico e, raramente, hipotireoidismo manifesto. O estado de eutireoidismo é alcançado após 2-4 meses em média. O diagnóstico é suspeitado nos casos de tireotoxicose, após o resultado do teste de captação do iodo-131 de 24h. Enquanto que, na doença de Graves, a captação está elevada (> 40%); na tireoidite, está caracteristicamente baixa (< 5%). Não há tratamento específico. A conduta étratar os sintomas cardiovasculares e neuromusculares da tireotoxicose com betabloqueadores. Controle de sintomas. Fase de tireotoxicose: é leve e muitas vezes não requer tratamento. Caso haja intensidade de sintomas, pode-se usar beta bloqueadores e glicocorticoides (diminui a conversão periférica de T4 em T3). Fase de hipotireoidismo: não querer tratamento, apenas se definitivo. O ideal é aguardar. Medicamentosas: Amiodarona: causa tireotoxicose de 2 formas. ▪ Tipo 1: pelo excesso de iodo na amiodarona, há o aumento da biossíntese dos hormônios tireoidianos devido ao excesso de iodo em pacientes com distúrbio tireoidiano preexistente (efeito Jod Basedow) → mais comum em regiões deficientes em iodo. Seu tratamento é feito com tionamida. ▪ Tipo 2: é uma tireoidite destrutiva causada pelo excesso de iodo, que gera destruição das células foliculares, liberando os hormônios tireoidianos → mais comum em regiões suficientes em iodo. Seu tratamento é feito com glicocorticoides. Lítio Interferon É um achado clínico muito comum – prevalência de 3-7% com base na palpação. Sua grande importância é sempre descartar o câncer maligno. O padrão ouro para avaliação de nódulo de tireoide é a ULTRASSONOGRAFIA. Mais comuns em idosos, mulheres, áreas insuficientes em iodo e exposição prévia a radiação. 95% dos nódulos possuem origem benigna. Seu diagnóstico é feito frequentemente em exames de rotina e pelos incidentalomas (1%). História clínica: Velocidade de crescimento Sintomas compressivos Irradiação cervical ou craniana prévia História familiar de CA de tireoide ou síndromes associadas a CA de tireoide (polipose familiar, complexo de Carney, NEM 2) Irradiação por neoplasias hematológicas Aparecimento de nódulos em extremos de idade Sexo masculino: risco de malignidade 2-3x maior. Exame físico: tamanho, localização, consistência, fixação do nódulo aos tecidos adjacentes (mobilidade), adenopatia cervical adjacente. Exames complementares: Dosagem de TSH e T4L ▪ Se o TSH está baixo, é preciso investigar com cintilografia antes de considerar a punção, pois pode ser um caso de nódulo hiperfuncionante, que raramente são malignos e dispensam a PAAF. Seu tratamento – tanto o nódulo como a tireotoxicose – é feito com iodo. ▪ Se o TSH está alto ou no LSN possui maior associação com malignidade. USG de tireoide: padrão ouro ▪ Hipoecogênicos: maior risco para malignidade. ▪ Lembrar: quando há muita célula folicular na USG, dá o aspecto de hipoecogenicidade e quando há pouca célula e muito coloide, dá o aspecto de hiperecogenicidade. Microcalcificações Margens infiltrativas Altura > Largura Adenomegalia Hipoecogenicidade + Microcalcificações + Margens Infiltrativas = 95% de especificidade para malignidade PAAF: melhor método para diferenciação entre lesões benignas e malignas da tireoide. Benigno: lesões puramente císticas. A punção não é recomendada. Risco muito baixo: nódulo espongiforme sem características sugestivas de malignidade. Punção se nódulo ≥ 2 cm, mas a observação sem punção também pode ser feita. Baixo risco: nódulos sólidos, iso ou hiperecoico ou misto sem nenhuma outra característica de risco. Punção se ≥1,5 cm. Risco intermediário: nódulo hipoecoico sólido ou predominantemente sólido, sem outros achados sugestivos de malignidade. Punção se ≥ 1cm. Alto risco: nódulo hipoecoide sólido ou predominantemente sólido com um ou mais dos achados – margens irregulares, microcalcificações, altura > largura, evidência de extensão tireoidiana. Punção se ≥ 1cm. Classificação Bethesda I Amostra insatisfatória Repetir punção com 3 meses II Benigno Repetir US com 1 ano e depois mais espaçado. III Atipia ou lesão folicular de significado indeterminado Repetir PAAF e se resultado mantido fazer cirurgia IV Suspeito de neoplasia folicular Repetir PAAF e se resultado mantido fazer cirurgia V Suspeito de malignidade Cirurgia VI Malignidade Cirurgia Observação: repuncionar o Bethesda II se crescimento > 20% em duas dimensões ou > 50% volume. Se vier Bethesda II novamente, dispensa seguimento. Cirurgia (indicações) Citologia suspeita ou maligna. Citologia inconclusiva com imagem ultrassonográfica suspeita. Linfonodos suspeitos. Nódulos benignos que apresentam crescimento, sintomas compressivos ou problemas estéticos. Nódulo tóxico: se contraindicação ou falha de RIT. Nódulo cístico: se sintomas compressivos ou falha de outras terapias. Nódulo > 4cm (discutível): maior risco de serem malignos e PAAF falso negativa.