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Por: Dr. Ricardo Wallace das Chagas Lucas CREFITO 10 14404 F 1. O QUE É UM MOVIMENTO FUNCIONAL Há luz das ciências do movimento humano há necessidade de se interpretar pelo menos 04 (quatro) preceitos ou condições, para afirmar que determinado movimento é “funcional”: a) ANATÔMICOS b) BIOMECÂNICOS c) NEUROLÓGICOS d) METABÓLICOS 2. PRECEITOS ANATÔMICOS Todo movimento é considerado como um ato perfeito do corpo humano. Neste sentido a anatomia humana determina a própria ação do movimento humano. Costuma-se dizer então, que existe uma anatomofuncionalidade humana, onde as formas anatômicas das estruturas relacionadas ao movimento são indicadoras do ato motor. Ou seja, a morfologia determina a função, conhecido como morfofuncionalidade. Em relação à morfofuncionalidade, Menegatti (1989) diz: “MORFOFUNCIONALIDADE HUMANA, A ORIGEM DO TERMO Partindo do princípio de que toda função emerge de uma estrutura capaz de a gerar, acredito que é necessário designar um termo que unifique os conceitos de estrutura e função. Foi pensando dessa maneira que cheguei à proposta do Morfofuncional. Morfo, sendo uma abreviação de morfogênese, que significa o processo biológico do desenvolvimento da forma e da estrutura de organismos vivos. Funcionalidade, significando a qualidade funcional referente à função ou funções orgânicas vitais inerentes a seres humanos vivos. MORFOGÊNESE. UMA CONSTANTE EVOLUÇÃO. Simplificando muito a explicação deste processo biológico, podemos dizer que desde a fecundação até o final da vida estamos constantemente nos construindo estruturalmente. O que conhecemos como músculos, ossos, tendões, ligamentos, cartilagens, pele, nervos, veias, artérias e órgãos, são na verdade componentes estruturais que estão sendo constantemente renovados e remodelados. Esta matéria viva em constante transformação é construída por 200 tipos de células, organizadas em uma comunidade coerente de 100 trilhões de indivíduos, que formam quatro tipos básicos de tecidos biológicos. Epitelial Muscular Nervoso Conjuntivo Estes tecidos unidos constroem órgãos que por sua vez formam sistemas que nos tornam uma unidade morfofuncional. FUNCIONALIDADE. DIFERENTES MOVIMENTOS. O que chamamos de funções são na verdade produtos da comunidade celular que a medicina diferenciou em sistemas para poder estudar separadamente. Algumas destas funções são visíveis e facilmente identificáveis, outras nem tanto. Para a Educação Física e a Fisioterapia, e outras tantas áreas da saúde, a função mais reconhecida é o que chamamos de função motora, que identifica a maneira como nos deslocamos e nos movimentamos. Outras funções que também podemos visualizar ou identificar com relativa facilidade são: a sudorese, as lágrimas, a fala, a respiração, a sucção, a mastigação, a deglutição, a excreção de resíduos a visão, audição, olfato, tato e o paladar. MORFOFUNCIONALIDADE. UM PROCESSO AO LONGO DA VIDA. Sabemos que as funções emergem das ações integradas das células que nos compõem. No entanto não é possível visualizar como este processo morfofuncional acontece abaixo da pele, a não ser pela utilização de recursos tecnológicos requintados. No dia a dia de um profissional da Ed. Física e da Fisioterapia cabe analisar estas informações provenientes destes recursos e a partir delas elaborar planos de condicionamento morfofuncional com o intuito de manter íntegra a estrutura da matéria viva para que a eficiência funcional aconteça ao longo da vida de cada indivíduo O QUE SABEMOS ATÉ O MOMENTO? A informação mais comum é de que a prática sistemática de exercícios e atividades, ditas físicas, provoca a “hipertrofia muscular” e graças à lei de Wolf sabemos também que os ossos aumentam em densidade quando submetidos à atividade física e exercícios. Notem que esses componentes estão relacionados ao sistema músculoesquelético. E O RESTANTE DOS COMPONENTES ESTRUTURAIS? Quero enfatizar que proponho o conceito de morfofuncionalidade baseado no processo biológico que chamamos de morfogênese. E é importante ressaltar também que este processo acontece no ser humano como um todo! Os componentes estruturais citados anteriormente se desenvolvem juntos, desde o momento da fecundação até o final da vida. Por isso venho insistindo que todo indivíduo vivo é uma unidade morfofuncional em constante transformação. Um fato incontestável que fica muito claro quando observamos a evolução de um feto até a fase adulto idoso.” Sendo assim um complexo articular que contém uma articulação esferoide determinará amplitudes próprias na mesma. Assim como articulações que permitem padrões de movimento sobre um plano e um eixo são anatomicamente proporcionais a uma dobradiça. Cuidados devem ser tomados quando há situações onde a existência de variações anatômicas modifica a originalidade de um movimento. Isto é possível, por exemplo, em alterações das estruturas relacionadas com os movimentos decorrentes de acidentes ou de atos cirúrgicos. Apesar do aspecto macroscópico da articulação, outra observação que deve ser feita é relação intrínseca de todos os componentes articulares que participam da amplitude total do movimento, pois mudanças nos ângulos de movimento podem ser obrigatórias para que não haja conflito entre estes componentes. Um exemplo típico é a obrigatoriedade do movimento de abdução do complexo articular do ombro ser seguida pela rotação lateral sinérgica ao seu arco completo. Se analisarmos em um indivíduo sadio quais os tipos de movimento causadores, ou que predispõe, a distúrbios osteomusculares, observaremos que estes movimentos possuem características deletérias à sua função. Isto nos remete então a um pensamento conflitante, pois a maioria dos desportos instituídos pelo homem é composta de movimentos “não funcionais”. Estaríamos então predispondo o corpo do “desportista” às lesões ou doenças metabólicas tão comuns no nosso cotidiano? Esta resposta é positiva, e muito mais agora em um mundo onde o sedentarismo apresenta-se como algo “normal” para a maioria da população. Abaixo um exemplo de movimento NÃO FUNCIONAL para o complexo articular do ombro. Observe que não há respeito à integridade do referido ambiente articular. Ou seja, não é funcional realizar abdução do ombro sem rotação externa/lateral. Posição Inicial Posição Final Fig. 01 – Representação da execução de movimento de abdução anatomicamente e biomecanicamente “não funcional” para o complexo articular dos ombros. Abaixo um exemplo de movimento NÃO FUNCIONAL para o complexo articular do cotovelo. Posição Inicial Posição Final Fig. 01 – Representação da execução de movimento de flexo-extensão anatomicamente e biomecanicamente “não funcional” para o complexo articular dos cotovelos. 3. PRECEITOS BIOMECÂNICOS Da mesma forma que anatomia das estruturas relacionadas ao movimento indica como este deve ser, os preceitos biomecânicos apresentam o entendimento de que todo movimento deve ser realizado de forma eficiente. E está eficiência também é determinada pela forma que movimento é realizado buscando a melhor situação mecânica. Ou seja, as estruturas anatômicas determinam funções relacionadas à mobilidade articulara ativa e estas buscam eficiência. Eficiência neste sentido está relacionada à movimentação com o menor consumo energético possível e menor desgaste estrutural. Diferentemente da macroanálise dos preceitos anatômicos, para interpretação da efetividade biomecânica de movimento, é necessário interpretar inicialmente como se adequam as microestruturas, que neste caso tem as miofibrilas como componentes anatômicos a serem representados. Vários autores demostraram que a eficiência mecânica baseada nas miofribilas tem relação direta com a interação do ângulo da ponte cruzada actina-miosina (sarcômero). Demostrou-se que existe um comprimento ótimo, ou seja, adequado para a realizaçãode qualquer movimento. Neste sentido quando correlacionarmos a interação do complexo actina-miosina (sarcômero) e o seu comprimento, com a mobilidade articular durante um ato motor eficiente, verificaremos que existe proporcionalmente um ângulo articular também ótimo. De uma maneira geral, o ângulo articular oferece uma vantagem mecânica funcional “ótima” quando por volta do terço médio da amplitude total relativa a esta articulação. Veja imagens abaixo: Fig. 03 – Curva comprimento-tensão (curva de Blix) Fig. 04 – Representação no cotovelo do arco “ótimo” de movimento. É importante ressaltar que à luz da biomecânica do movimento funcional, este nunca acontece sobre o mesmo plano e o mesmo eixo de ação. Além disso, os movimentos são conjugados entre os complexos articulares participantes, ou seja, com outras articulações. Como exemplo, podemos realizar um movimento funcional do complexo articular do cotovelo, com acompanhamento sinérgico da supino-pronação do mesmo. Verifica-se que os componentes articulares do cotovelo já determinam este grau de mobilidade. E executar este movimento na angulação de por volta de 90° contribui para otimização do mesmo, conforme demonstrado na figura 04. 3. PRECEITOS NEUROLÓGICOS Está claro que a neuroevolução determinante do movimento humano representa uma coordenação intramuscular e intermuscular também eficiente. Há existência de registros neurológicos em nosso córtex motor de como devem ser recrutadas as unidades motoras. Estes registros, denominados de “engramas” de movimento, se relacionam à forma como os movimentos mais simples e complexos se relacionam. Ou seja, existe uma memória de movimento normal, obviamente maturada com a neuroevolução. Existe ainda a possibilidade da formação de novos “engramas” determinados pela neuroplasticidade característica do sistema nervoso. Nesta situação, convém que a criação destas novas memórias motoras seja calcada em outros parâmetros que determinam a funcionalidade. Existe relação direta da eficiência mecânica de um movimento funcional e a forma que os comandos neurológicos atuam sobre os mesmos. Isto é evidente quando percebemos que um movimento proximal ou distal interfere com ajuste de outros. Está assertiva se baseia em 03 (três) conceitos da chamada “Lei de Sherrington”: IRRADIAÇÃO INERVAÇÃO RECÍPROCA INDUÇÃO SUCESSIVA Efetivamente, a irradiação é o conceito neurológico que mais se evidência. Pois na realidade os demais conceitos também são formas de irradiação. Tecnicamente irradiar significa permitir uma ação à distância de um movimento ou postura original. Um bom exemplo de uma irradiação é quando observamos uma melhor ação motora nas mãos quando a raiz do complexo articular do ombro está estabilizada. Ou seja, a contração do ombro irradia para as mãos. A inervação recíproca determina um conceito de irradiação do movimento de um segmento para o segmento contralateral e para a ação antagonista do mesmo segmento. Por exemplo, ao chutar uma bola a extensão do joelho tem como componente de inervação recíproca a flexão do joelho contralateral e inibição da flexão do próprio joelho. Por este motivo alguns autores chamam este conceito da Lei de Sherrington de “ inibição recíproca ” Observa se ainda que movimento funcional, à luz da neurologia, segue um padrão determinado pelos proprioceptores articulares, ligamentares e musculares. Verifica-se que existência de proprioceptores de ação lenta está relacionada a complexos articulares que determinam baixas amplitudes de movimentos originais. E assim também é para os proprioceptores existentes em complexos articulares que determinam amplitudes de movimentos maiores e mais velozes. Como exemplo, temos os proprioceptores Ruffini nas articulações mais próximas às raízes do tronco e proprioceptores de Pacini nas articulações distais do esqueleto apendicular. Observa-se também que as articulações intermediárias são mistas em relação a estes proprioceptores e consequentemente à velocidade dos movimentos das mesmas. 4. PRECEITOS METABÓLICOS Este preceito está diretamente relacionado à carga (intensidade) do exercício e a condição do praticante. Os substratos ou combustíveis utilizados para realização de um movimento funcional possuem íntima relação com tipo de movimento para quais as unidades motoras foram construídas. Se o movimento a ser realizado tem características de velocidades ou alta potência, metabolicamente o substrato para está ação tem perfil glicolítico ou fosfagênico. Inversamente se a ação motora possuir características mais lentas ou de resistência, o substratos energético preferencial é lipolítico ou oxidativo. Observa se que existe relação metabólica então com o tipo de fibra dos grupamentos musculares a serem utilizados com seu substrato. Assim como existe relação dos tipos de fibras com os proprioceptores: Proprioceptor lento – Fibras vermelhas – Lipolítico Proprioceptores rápidos - Fibras brancas - Glicolíticos Indivíduos que possuem características próprias de mobilidade em relação à utilização maior ou menor destes substratos devem executar normalmente movimentos/exercícios relacionados a essas especificidades. Assim, não devemos demandar uma exigência glicolítica a um grupamento muscular oxidativo e vice-versa. Ainda interpretando os preceitos metabólicos um exercício funcional deve ser prescrito ou aplicado de acordo com a capacidade metabólica do praticante. Pois baixos níveis de condicionamento físico determinam a execução de movimentos de caráter oxidativos, e altos níveis de condicionamento físico determinam a execução de movimento de caráter glicolíticos. Não interpretar os níveis de condicionamento físico do grupamento muscular a ser trabalhado pode induzir a determinação erros metabólicos, como a utilização de substrato proteico como combustível deste grupamento muscular. Por exemplo, um indivíduo que executar um treinamento de corrida com valores de frequência cardíaca acima de sua capacidade, pode induzir à diminuição de sua massa corporal, oferecendo uma falsa ideia de emagrecimento. Na realidade existiu um componente proteico consumido nesta ação. Fig. 05 – Representação de erro metabólico. https://drive.google.com/file/d/0B4Vum8NY54D1eUk4NU1wSWo4LTg/view?usp=sharing Em resumo, para entendimento geral do que significa então ser um movimento “funcional” é necessário que se faça a análise da existência de quatro parâmetros/preceitos durante ou para a execução do mesmo, que pode ser feita em forma de perguntas: 1. O MOVIMENTO RESPEITA A ANATOMIA DAS ESTRUTURAS ENVOLVIDAS? Por exemplo. Ao realizar abdução do complexo articular do ombro necessariamente com rotação lateral para evitar impacto de estruturas anatomicamente confrontantes na ausência desta rotação. Realizar a flexão do cotovelo com necessária supinação e extensão do mesmo com pronação, em função da existência da cabeça do rádio que possui objetivamente a função de giro por sua anatomia. 2. O MOVIMENTO RESPEITA AS LEIS DA BIOMECÂNICA? Há vantagem mecânica nos exemplos citados anteriormente tendo em vista o componente rotacional obrigatório para o aumento da potência ao movimento (energia potencial armazenada transformada em energia cinética). 3. O MOVIMENTO RESPEITA O ASPECTO NEUROLÓGICO CENTRAL E PERIFÉRICO DA AÇÃO MOTORA? Os movimentos exemplificados possuem engramas neurológicos pré- formados que possibilitam economia energética no recrutamento de unidades motoras, permitindo que menos movimentos sejam mais eficientes para a manutenção e recuperação da função normal, ou acima do normal. 4. O MOVIMENTO RESPEITA A CARGA METABÓLICA ESPECÍFICA PARA O MESMO? Não se deve executar um movimento acima da capacidade metabólica (de força em relação aos substratos energéticos e de acordo com os tipos de fibras musculares presentes)do segmento ou corpo todo. O profissional do movimento humano deve ter em mente que não basta somente executar o movimento, mas prescrevê-lo antes da sua aplicação prática. E para isto é necessária e obrigatória a realização de uma consulta física para que se determine as incapacidades físico- funcionais do cliente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 2. HANENKRAT, F; MENEGATTI, JA. An Interview with Jose Augusto Menegatti. Rolf Lines. Vol: 17.Número: 3. 1989. 3. LAURA K. SMITH, ELIZABETH L. WEISS, L. DON LEHMKUHL. Cinesiologia Clínica de Brunnstrom. 5. Ed. São Paulo. Manole. 1997. 4. LUCAS, RWC. FISICOLOGIA HUMANA. 2.Ed. Florianópolis: Edição Grupo Wallace. 2016. 5. LUCAS, RWC. STS (STRENGTH TRAINING STRATEGIES) / CINESIOTERAPIA CONTRA-RESISTIDA. 4. Ed. Florianópolis: Edição Grupo Wallace. 2015. 6. PIRET, S. & BÉZIERS, MM. A COORDENAÇÃO MOTORA: Aspecto mecânico da organização psicomotora do homem. São Paulo: Summus, 1992. 7. SANTOS, A. A BIOMECÂNICA DA COORDENAÇÃO MOTORA. 2. Ed. Rio de Janeiro: Summus, 192 p. 2002.