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TEMA 11 FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 1 TEMA 11: REVOLUÇÕES TÉCNICO-CIENTÍFICAS E AS IMPLICAÇÕES ÉTICAS NO FAZER PROFISSIONAL Bem vindos(as) ao nosso livro texto número 11. Trataremos das revoluções técnico-científicas e como o desenvolvimento tecnológico e da ciência influenciam na Ética e no fazer profissional. O desenvolvimento técnico e científico tem como intenção proporcionar mais conforto e praticidade para nossas vidas. No entanto, o desenvolvimento técnico mostrou, ao longo da história, que as implicações que as novas tecnologias geram em nossas vidas são muito mais complexas do que a intenção de melhoria de nossas vidas. Podemos nos perguntar: Efetivamente, as mudanças que as novas tecnologias provocaram são apenas positivas? Qual são os aspectos negativos dessas mudanças? E quais alternativas existem para contornar essas dificuldades? Para isso, precisamos entender como acontece o desenvolvimento técnico e do desenvolvimento científico. A técnica se desenvolve ao longo da história através de um processo cumulativo. Ou seja, há um acúmulo sucessivo e progressivo nas descobertas técnicas, de modo que há uma escala ascendente de desenvolvimento. Com as ciências é diferente. O processo não é cumulativo nem ascendente. As teorias científicas podem ser falseadas e substituídas por novos paradigmas que mudam todo processo de desenvolvimento científico. Há um processo de estabelecimento de um paradigma científico, ou seja, um modelo e uma série de teorias que são aceitas pela comunidade científica como verdadeiras em determinado momento da história e que guiam, servindo como base, para todo o fazer científico daquele período. 2 LAIZ FRAGA DANTAS Enquanto um paradigma científico está em voga, sem que seja contestado, há um desenvolvimento progressivo da ciência. No entanto, ao longo da história, alguns paradigmas científicos foram falseados, ou seja, algum cientista ofereceu alguma evidência que contestava os argumentos que serviam como base da teoria científica em voga de modo que não era possível oferecer nenhuma cláusula ad hoc (quer dizer, não era possível ajustar a teoria científica a partir da adição de uma hipótese, estranha à teoria original) que possa adequar a teoria científica à nova evidência apresentada. Nesse momento, há a necessidade de uma mudança de paradigma, e toda a investigação científica posterior muda suas bases conceituais e seu modo de proceder. Para o filósofo Thomas Kuhn que escreveu “A Estrutura das revoluções científicas”, um livro importante para a filosofia da ciência, o processo de desenvolvimento científico se faz através do ciclo: Figura 34 – Processo de desenvolvimento científico Fonte: Elaboração própria a partir de Kuhn (1997) No processo de desenvolvimento científico descrito, “Ciência normal” se refere ao momento em que o paradigma aceito está em desenvolvimento; “crise” se refere ao momento em que alguma evidência que contradiz o paradigma da ciência é apresentada e “revolução” diz respeito à substituição FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 3 do paradigma científico anterior por um novo paradigma. Alguns exemplos podem ilustrar esse processo para que possamos visualizar melhor o que Kuhn quer dizer. Figura 35 – Thomas Kuhn (1922-1995). Fonte: Disponível em: http://cer1se.free.fr/principia/index.php/les-paradigmes- de-kuhn/ Os antigos acreditavam que os planetas se movimentavam em rotas elípticas, tendo a terra como centro (falamos aqui da Escola Ptolomaica). Copérnico então, a partir de observações do universo através do telescópio, uma invenção técnica muito revolucionária no período, percebeu que o sol estava no centro e que os planetas orbitavam em torno dele (GAJARDONI, 2019). Isso provocou uma mudança importante nas teorias da física e da astronomia. Muitas outras teorias provocaram mudanças desse tipo como a teoria de Kepler e a de Newton. 4 LAIZ FRAGA DANTAS Entendendo a dinâmica do desenvolvimento científico e técnico podemos perceber que o conhecimento científico tem um modo complexo de desenvolvimento, de modo que não há um processo simplesmente ascendente em que as novas descobertas possibilitam um desenvolvimento progressivo e positivo. Olhando a ciência e a técnica, por esse ângulo, podemos perceber de forma mais complexa como o desenvolvimento técnico-científico pode influenciar nossas vidas cotidianas, o fazer profissional e a Ética. Vamos conversar sobre ciência e técnica através de um ponto de vista crítico e entender de que modo elas influenciam na nossa vida e no fazer profissional. Conceitos Fundamentais: FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 5 1 Ciência e Tecnologia: o deficit ético contemporâneo A sociedade contemporânea é permeada pela técnica e ciência em todos os seus níveis. Lidamos diariamente com tecnologia e ela modifica nosso modo de vida, de forma que hoje vivemos de maneira completamente distinta dos nossos avós, utilizamos novas ferramentas tecnológicas que modificam nosso cotidiano e nossas relações intersubjetivas. A ciência e a tecnologia experimentam um processo de mudança muito acentuado na modernidade. Como conversamos no nosso tema sobre ciência e filosofia, a modernidade, o iluminismo e o humanismo floresceram em um período em que a ciência ganhou espaço, suplantando o pensamento religioso medieval. O homem e a razão humana, sua capacidade de criar e manipular a natureza de modo a produzir conhecimento e tecnologias que proporcionam facilidades para a vida humana, tornam-se um elemento crucial para a modernidade. Assim, a filosofia moderna apresenta um grande otimismo em relação à capacidade humana de produzir conhecimento e utilizá-lo para controlar a natureza. Os modernos pensavam a realidade através da separação sujeito x objeto. O sujeito racional observa a realidade e os objetos que a compõem de modo a, através de sua capacidade de analisar, pode descobrir modos de lidar com a natureza para manipulá-la em favor de suas necessidades. Chamaremos esse modo de pensar de razão técnica. Como vimos, Descartes é o pai do pensamento moderno. Descartes considera que a racionalidade técnica, especialmente as ciências naturais – mais tarde também as ciências tecnológicas – servem para de colocar a natureza 6 LAIZ FRAGA DANTAS sob o controle dos seres humanos e assim resolver problemas humanos e culturais. Descartes considera que leis da mecânica sustentam a natureza, seja a flora, seja a fauna e inclusive o corpo humano (SANTOS, 2019). Ou seja, Descartes considera que toda a natureza é composta por mecanismos materiais que podem ser mensuráveis, calculáveis e controlados pela razão. Descartes nos oferece uma imagem de mundo mecanizada, como uma engrenagem, cujo modo de funcionamento pode ser compreendido racionalmente, previsto e controlado: conhecendo as conexões desse mecanismo, a natureza pode ser decifrada e direcionada. Figura 36 – Ciclo da natureza Fonte: Disponível em: pixabay.com A imagem mostra o ciclo da natureza em que tudo se transforma. O ser humano, apesar de muitas vezes não perceber, faz parte desse ciclo. Entender-se como parte desse ciclo natural é importante para que possamos estabelecer uma relação equilibrada com o meio ambiente. FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 7 Esse modo de ver a realidade e a relação do homem com a natureza permeia toda a modernidade e reverbera no nosso modo de ver o mundo hoje, o papel da ciência e da tecnologia. O problema é que Descartes não reconhece mais a integridade e o valor da natureza, inclusive dos seres humanos, considerando- os simplesmente como coisas manipuláveis. Ele tem certeza de que nossa capacidade de manipular a natureza através da ciência e tecnologia levará a humanidade a uma condição cada vez mais favorável (SOUSA, 2019). Porém, será mesmo que tanto desenvolvimento técnico resultou para nós, atualmente, em um modo de vidamais tranquilo, ético e feliz? A realidade, vista dessa forma, é reduzida ao uso técnico que as pessoas fazem dela. Essa mentalidade cartesiana é hoje aparece, por exemplo, nas bioindústrias e nas pesquisas sobre manipulação genética. Além disso, ela justifica também um processo constante de destruição dos recursos naturais em função da tecnologia, bem como a exploração do trabalho em condições desumanas para sustentar a produção de mercadorias e saciar a constante necessidade de consumo de nossa sociedade. Será que esse tipo de relação com a natureza e a ciência é realmente benéfico? Parece que o pensamento técnico é insaciável e, cada vez mais, mostra sua face totalitária e imperialista. Sob o ponto de vista da razão técnica, a realidade é frequentemente reduzida ao mundo que a ciência e a tecnologia pretendem controlar. Essa visão unilateral do mundo não faz justiça às várias dimensões da realidade. Assim, há também um deficit ético. O pensamento científico-tecnológico reduz tudo ao status de objeto útil. O valor único e o significado das coisas é sua utilidade. Essa deficiência ética pode ser melhor caracterizada como falta de senso de comunidade, cooperação, respeito a natureza e ao ser humano, sobretudo aqueles que estão em 8 LAIZ FRAGA DANTAS condição vulnerável, subalternizados, e parte de grupos sociais cuja identidade é desvalorizada. Isso é evidente hoje no modo como lidamos com os animais, a natureza e os povos e países menos favorecidos. 2 Ciência e Tecnologia: o deficit ético contemporâneo A seguir, a imagem à esquerda mostra o homem acima dos animais e a natureza. A palavra “Ego” indica a ideia de que o homem é superior à natureza e a controla. Na imagem à direita temos o homem como parte da natureza e a palavra “Eco” indica a ideia de ecossistema como um sistema integrado. Figura 37 – Ego e Eco Fonte: Disponível em: http://www.astropt.org/2012/07/17/ego-vs-eco/ FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 9 O filósofo Hans Jonas nos oferece uma metáfora que pode ser útil para encontrarmos uma saída para o modo como a ideia de razão instrumental e o pensamento moderno (que permanece até hoje) lida com a ciência e a tecnologia. Jonas nos pede que imaginemos que estamos na Lua. Chegando lá, ficamos impressionados com a vastidão do cosmos. Então, uma vez pisando na lua, perceberemos a singularidade da Terra em relação a tudo o que há no universo. A Terra é o único planeta verde em nosso sistema solar, repleto de rica diversidade de vida. Se nós, viajantes da lua, quisermos sobreviver, teremos que retornar à Terra, pois lá se encontram todos os recursos necessários para nossa sobrevivência. Perceberíamos, então, ao nos deslocarmos para outra realidade, que Terra está em perigo, ameaçadas pelas atuais práticas tecnológicas e econômicas. Então os viajantes, uma vez confrontados com o terreno inóspito e vazio da lua, concluiriam que não se pode permitir que a tecnologia e a economia ameacem a vida, eles devem ser usados para servir à vida. O desenvolvimento científico e tecnológico responsável pode ser descrito através da imagem da terra como um jardim, cuidado por humanos com o objetivo de criar um ambiente comunitário dentro do qual a natureza, a tecnologia e a cultura estão em harmonia e há um lugar significativo para todos os que ali vivem. Essa imagem nos oferece uma ideia de coerência e integração, em que todos participam, mantendo o seu valor individual. A tecnologia e a economia deveriam ser direcionadas para habitar o jardim e manter e fortalecer todos os seres vivos. A metáfora de um jardim que se desenvolve na direção de um lar comunal também expressa a conexão e a interdependência entre seres humanos e o meio ambiente. Cuidar, guardar e proteger andam de mãos dadas com a ideia de cultivo e colheita. 10 LAIZ FRAGA DANTAS A sustentabilidade torna-se possível através da metáfora do jardim pois, pensando dessa forma, a tecnologia e a economia, não precisam percorrer o caminho do uso indiscriminado dos recursos naturais e humanos, e da destruição do meio ambiente. Além de uma ideia de tecnologia e economia comprometidas com a coexistência harmônica entre homens e também em relação à natureza, os indivíduos devem engajar-se em manter, proteger, conservar e cuidar. A ecologia, a tecnologia e a economia estarão em equilíbrio enquanto os ciclos naturais não forem quebrados e os recursos naturais não secarem. Figura 38 – Hans Jonas (1903 – 1993) Fonte: Disponível em: https://voegelinview.com/tag/hans-jonas/ FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 11 A ética de responsabilidade de Hans Jonas é uma abordagem interessante pensarmos uma ética em que a ciência e a tecnologia sejam pensadas como meio para promover um senso de comunidade. A palavra responsabilidade, no sentido de estar comprometido em relação à algo, indica que todos os envolvidos no desenvolvimento científico-tecnológico devem estar compromissados em relação uns aos outros. Em outras palavras, todos os indivíduos devem compreender as prioridades, os valores, os princípios e as normas que estão guiando seu modo de agir. Como resultado, a ética da responsabilidade proporciona um sentido positivo de ação. Por exemplo, considerando novos meios tecnológicos para aliviar as necessidades humanas e o sofrimento, a ideia da possibilidade de ajudar uns aos outros através dessas tecnologias torna-se, para a ética da responsabilidade, uma obrigação ética. Na imagem do jardim, as primeiras preocupações são mantê-lo habitável, suprir as necessidades básicas da vida e aliviar as necessidades e o sofrimento de todas as pessoas. Numa ideia de política e a economia materialistas, com que ainda convivemos muito hoje em dia, as preocupações fundamentais são o poder, o ganho material. Pensar que a produção científica, tecnológica e econômica poderiam servir para desenvolver outros valores, para além do valor em si do aumento do poder e do lucro, parece uma perspectiva importante a se considerar. A ética da responsabilidade nos convida a abandonar o modo de pensar e agir em que o interesse próprio está em primeiro plano, e pensar sobre o impacto nossas atividades para o ambiente de maneira mais ampla, percebendo- se como parte de uma comunidade e corresponsável por ela. 12 LAIZ FRAGA DANTAS Conceitos Fundamentais: FILOSOFIA , ÉTICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO 13 REFERÊNCIAS GAJARDONI, Almyr. Copérnico: a Terra em seu devido lugar. Super Interessante. Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/ copernico-a-terra-em-seu-devido-lugar/ Acesso em: 17 jul. 2019. KUHN, Thomas Samuel. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva. 1997. SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000200007 Acesso em: 15 jul. 2019