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SOCIEDADES ANÔNIMAS* ELISABETH MARIA PEREIRA * * 1. Introdução; 2. Origem; 3. Evolução; 4. Tipos de sociedades por ações; 5 ..caracteres; 6. Divisão e clas- sificação da sociedade anônima; 7. Objeto social; 8. Fim lucrativo; 9. Denominação; 10. Companhia aber- ta e companhia fechada; 11. Capital social; 12. Ações; 13 . Ações ordinárias; 14. Ações prefe- renciais; 15. Ações de fruição; 16. Propriedade e circulação; 17. Debêntures; 18. Bônus de subscrição; 19. Constituição da companhia; 20. Acionistas; 21. Acionista controlador; 22. Acordo de acionistas; 23. Assembléia geral; 24. Ata da assembléia; 25. As- sembléia geral ordinária; 26. Assembléia geral extraor- dinária; 27. Conselho fiscal; 28. Capital social; 29. Exercício social; 30. Dividendos; 31. Dissolução, li- quidação e extinção; 32. Transformação, incorporação, fusão e cisão; 33. Sociedades de economia mista; 34. Sociedades coligadas, controladoras e controladas; 35. Grupo de sociedades; 36. Consórcio; 37. Sociedades em comandita por ações. 1 . Introdução A Lei n.O 6.404, de 15 de dezembro de 1976, intitulada A Nova Lei das Sociedades por Ações, que revogou o Decreto-Iei n.O 2.627, de 1940, visa, como aspecto fundamental, fortalecer o mercado de capitais, através da poupança popular. Sob esse aspecto, podemos analisar duas formas de sociedades: 1. aquelas que partem para utilizar o público investidor; 2. aquelas que reúnem pessoas que se conhecem, se entendem e se associam. Assim, tendo em vista o objetivo de fortalecimento do mercado de capitais, procurou o diploma legal assegurar ao acionista regras atrativas para o inves- timento em ações. * Este artigo, apresentado ao Curso de Direito Empresarial, promovido pelo Centro de Atividades Didáticas do INDIPO, mereceu a nota máxima e está sendo publicado por decisão do Conselho Editorial da Revista de Ciência Política. ** Advogada. ~, C. pol., Rio de Janeiro, 29(2):35-128, abr./jun. 1986 2. Origem A sociedade anônima tem suas origens mais diretas nas companhias coloniais que foram fundadas a partir do século XVII para exploração e colonização de terras novas. Os historiadores em geral localizaram os primeiros antecedentes da sociedade por ações na baixa Idade Média. Surgiram para superar as dificuldades que as sociedades medievais não ti- nham sido capazes de resolver. Vieram, assim, atender a uma dupla necessidade: 1. interessar grande número de pessoas na constituição de grandes empresas; 2. assegurar-lhes a existência, independentemente dos membros que as com- punham. Em linhas gerais, as sociedades por ações nasceram vinculadas ao Estado, como verdadeiras entidades semipúblicas, libertando-se dele no período do libe- ralismo, para novamente subordinarem-se a ele nos tempos modernos, bastando o cumprimento das formalidades prescritas na lei para aquisição da personali- dade jurídica e o reconhecimento da responsabilidade limitada dos sócios, reser- vando conseqüentemente ao Estado regulamentar o seu controle. 3. Evolução Basicamente, as sociedades anommas apresentam, atualmente, as mesmas ca- racterísticas fundamentais, desde as suas origens. Depreende-se que se trata de modelo jurídico constituído, visando permitir a acumulação de capitais, sem maiores responsabilidades para seus sócios do que as contribuições feitas. Resu- mindo, temos: 1. personalidade jurídica, com existência e patrimônio distintos e autônomos em relação aos sócios; 2. responsabilidade dos sócios limitada apenas à sua contribuição ao capital social; 3. capital dividido em ações (as quotas de capital) e sua livre transferibilidade. Com o advento da Lei n.O 6.404, outros elementos foram acrescidos, como: forma de administração, disciplina da responsabilidade dos administradores e dos próprios controladores, normas visando proteger os acionistas minoritários, transformação, fusão, incorporação, cisão, dissolução e liquidação. 4. Tipos de sociedades por ações Entre as diversas estruturas jurídicas aptas à realização da atividade empre- sarial, destacam-se as sociedades que podem ser predominantemente de pessoas ou de capitais, como ocorre com as sociedades por ações, que, por sua vez, enquadram-se em dois grupos: 1. companhias ou sociedades anônimas, em que 36 R.C.P. 2/86 o capital é dividido em ações e a responsabilidade dos acionistas é limitada ao preço da emissão das ações subscritas ou adquiridas. sendo designadas por uma denominação, sem uso da razão social; 2. sociedades em comandita por ações, em que o capital, embora dividido em ações. enseje o uso de firma ou razão social obrigando ilimitada e solidariamente os sócios, cujos nomes nelas figurem. ~ notória a preferência do primeiro tipo que se apresenta como a mais típica forma das chamadas sociedades de capital, em contraposição às sociedades de pessoas. 5 . Caracteres Os principais caracteres da sociedade anônima fundamentam-se primordial- mente nos respectivos estatutos sociais, que. além da súmula contratual, esta- belecem a estrutura organizacional e até mesmo as subestruturas internas. Por esse motivo, devem os estatutos atender aos requisitos genéricos dos con- tratos sociais, exigidos pela lei específica, além dos necessários à estrutura que se pretende constituir. Assim, de modo geral deve conter: a) denominação, sede, objeto e duração; b) capital social em moeda brasileira; c) número de ações em que o capital se divide, estabelecendo se serão de valor nominal ou sem valor nominal; d) estrutura organizacional e funcional, regulando-se a assembléia geral, o con- selho de administração, a diretoria, os demais órgãos. se os houver, além do conselho fiscal; e) exercício social, normas sobre as demonstrações financeiras, lucros, reservas e dividendos; f) regras sobre dissolução, liquidação, extinção e alteração contratual; g) outras disposições gerais, especiais ou transitórias. Constituem traços essenciais da sociedade anônima: a) o capital; b} a sua divisão em ações; c} a transferibilidade das ações sem alteração social; d} a limitação da responsabilidade dos acionistas ao preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas; e} o uso de denominação, acompanhada das expres- sões "companhia" ou "sociedade anônima"; f) o tônus publicístico. 6. Divisão e classificação da sociedade an6nima As sociedades anônimas podem ser classificadas consoante diversos critérios: 1. em relação à necessidade ou não de autorização: 1 . 1 sociedades que não dependem de autorização; Sociedades Anônimas 37 1 .2 sociedades que dependem de autorização que podem ser: 1 . 2 . 1 nacionais; 1.2.2 estrangeiras; 1. 2.3 de economia mista e unipessoais; 2. em relação à admissão dos seus valores mobiliários no mercado bursátil: 2. 1 companhias abertas, quando os seus varores mobiliários estejam admitidos à negociação na bolsa ou no mercado de balcão; 2.2 companhias fechadas, quando tais valores mobiliários não sejam negocia- dos na bolsa ou no mercado de balcão; 3. em relação ao capital autorizado: 3.1 sociedades de capital autorizado; 3.2 sociedades de capital fixo; 4. em relação à forma da subscrição do capital: 4.1 sociedades constituídas por subscrição pública; 4.2 sociedades constituídas por subscrição particular, que pode ser: 4.2. 1 por assembléia; 4.2.2 por escritura pública; 5. em relação à participação do poder público no capital social: 5. 1 sociedade de economia mista; 5.2 sociedade com participação minoritária dos poderes públicos; 6. em relação à participação acionária de uma sociedade em outra: 6. 1 sociedades coligadas; 6.2 sociedades controladas; 6.3 sociedades controladoras; 6.4 sociedades consolidadas; 6.5 sociedades subsidiárias integrais; 7. em relação à incorporação: 7.1 sociedades incorporadas; 7.2 sociedades incorporadoras; 8. em relação à fusão: 8.1 sociedades fundidas; 8.2 sociedades novas, resultantes da fusão de outras; 38 R.C.P. 2/86 9. em relação à cisão:9. 1 sociedades cindidas; 9.2 sociedades receptivas; 10. em relação ao grupo de sociedades a que pertencem: 10.1 sociedades de comando ou controladoras do grupo; 10.2 sociedades filiadas ao grupo; 11. em relação ao consórcio: 11 . 1 sociedades consorciadas; 11. 2 sociedade líder ou administradora do consórcio; 12. em relação às leis que as regulam: 12.1 especiais; 12.2 dependentes de autorização; 12.3 beneficiárias de incentivos fiscais; 13. em relação ao seu vulto: 13.1 sociedades anônimas mirins ou familiares; 13.2 sociedades de capital inferior a Cz$ 5.000,00; 13 .3 sociedade grande; 14. em relação à nacionalidade: 14. 1 nacional; 14 . 2 estrangeira; 14. 3 internacional; 14.4 multinacional. Conclusão: As mais importantes classes são, realmente, as companhias abertas e as fechadas, bem como a sociedade anônima de economia mista, a sociedade nacional, a estrangeira e a multinacional. 6. 1 Características 6. 1 . 1 Definição A sociedade anônima é pessoa jurídica de direito privado, de natureza mer- cantil, em que o capital divide-se em ações de livre negociabilidade, limitando-se Sociedades Anônimos 39 a responsabilidade dos subscritores ou acionistas ao preço de emissão das ações por eles subscritas ou adquiridas. 6. 1 .2 Natureza A sociedade anônima é pessoa jurídica de direito privado e, como tal, sujeito de direito e ente capaz de figurar nas relações jurídicas, em conformidade com os arts. 16 e 20 do C6digo Civil. 6 . 2 Características decorrentes da personalidade jurídica A sociedade anônima terá uma nacionalidade, um nome e um domicílio pró- prio e um patrimônio distinto daquele dos acionistas. O domicílio é que deter- mina a nacionalidade. Sua personalidade jurídica é reconhecida a partir do arquivamento dos seus atos constitutivos no registro do comércio e subsiste durante todo o prazo de sua duração, inclusive durante o período de sua liquidação, extinguindo-se sua personalidade nos casos previstos em lei (art. 21 do C6digo Civil e art. 219 da Lei n.O 6.404). Somente ap6s seu registro é que os subscritores de suas ações são considerados acionistas. Tem a sociedade anônima personalidade dis- tinta daquela dos seus s6cios. Sendo sociedade comercial, por força de lei, seus acionistas não são considerados comerciantes enquanto tais. 6 . 3 Características específicas da sociedade anônima Para designar a sociedade anônima usam-se as expressões: "sociedade anô- nima" ou "companhia". O seu capital divide-se em partes que não são iguais quanto ao seu valor, permitindo-se a emissão de ações com valor nominal igual e a emissão de ações sem valor nominal. Quanto à responsabilidade patrimonial dos subscritores ou acionistas, no momento da subscrição, será correspondente ao preço da emissão das ações subscritas. As ações são negociáveis na forma da lei e representadas ou não por títulos. Podemos afirmar que pode ser constituída com apenas dois acionistas e por força de lei é sempre comercial, mesmo que os fins sejam civis, sendo seu objeto sempre devido de modo preciso e completo no estatuto social,dTs- pensando-se em conseqüência a indicação dos fins da companhia na denomi- nação. Um dos aspectos importantes nas sociedades anônimas é que seu fim é sem- pre lucrativo, havendo a obrigação de distribuição de lucros aos acionistas. Dentre suas obrigatoriedades podemos citar que possuirá três 6rgãos: a assem- bléia geral, a diretoria e o conselho fiscal, sendo os dois primeiros de funcio- namento permanente e o último conforme dispuserem os estatutos. Os administradores que poderão ou não ser acionistas não respondem cem o seu patrimônio pessoal pelas obrigações da sociedade, em virtude de atos 40 R.C.P. 2/86 regulares de gestão, arcando, no entanto, pelos abusos que cometerem no exercício de suas funções. Outra característica importante é o princípio da publicidade, que prevalece para todos os demonstrativos de resultados econômicos e financeiros de cada exercício social, bem como para todas as reformas estatutárias e decisões da assembléia geral. 7 . Objeto social O objeto social pode ser definido como a atividade econômica em razão da qual se constitui a sociedade e em tomo da qual a vida social se realiza e se desenvolve. Pode ainda ser definido como a exploração a que se dedica ou pretende dedicar-se a sociedade. Enfim, é o limite da atividade societária, é o fim para que a sociedade é constituída. Com referência a esse aspecto, ele é o que mais interessa aos acionistas, cre- dores, concorrentes e à coletividade. Para efeitos de responsabilidade dos administradores e controladores, o objeto social representa o limite da ativi- dade, não podendo extravasar os precisos termos contidos nos estatutos sociais. A definição precisa e completa do objeto possibilita a caracterização das modalidades de abuso de poder e de desvio de atividade. Essa caracterização interessa fundamentalmente aos acionistas não-controladores e aos credores de boa fé na esfera dos interesses privados. Assim, quando a sociedade pratica atos ou exerce atividades não previstas no seu objeto social, será ela responsável perante aqueles de boa fé que sofreram os respectivos danos, sejam os próprios acionistas, sejam os credores ou con- correntes ou mesmo terceiros indiretamente prejudicados. 8. Fim lucrativo A realização de lucros a serem distribuídos aos acionistas é da essência da sociedade anônima. Esse preceito fundamental está reforçado na lei pelo prin- cípio da distribuição obrigatória de dividendos, estabelecida estatutariamente, ou, no seu silêncio, por disposição da própria lei. 9 . Denominação Toda denominação deverá conter alternativamente as palavras "sociedade anônima" ou "companhia", por extenso ou abreviadamente, sendo inadmissível o uso cumulativo dessas expressões. Deverá dela constar, também, o nome de fantasia ou de fundador da companhia, acionista ou de pessoas que por outro modo tenha dado notoriedade à empresa. O requisito fundamental de toda a denominação é que seja capaz de individualizar a companhia. Daí, a necessi- dade de se incluir nela o nome de fantasia com um caráter realmente distintivo ou então um nome civil que em si já compreenda esse caráter. Um aspecto importante que devemos registrar é que tem a companhia direito de uso excluo Sociedades Anônimas 41 sivo sobre a denominação social. Essa exclusividade de uso confere à sociedade ação para impedir o uso de denominação idêntica ou semelhante. 10. Companhia aberta e companhia fechada Para configurar de maneira diversa a pequena e a grande sociedade, existem alguns critérios, a saber: 1. É o de cotação em bolsa: as companhias cujos títulos constam da lista de negociação recebem na lei tratamento diverso daquelas que não os têm. 2. É o numérico: se a companhia tem elevado percentual de seu capital votan- te e não-votante nas mãos de um número considerável de acionistas não-contro- ladores, a ela aplica-se um regime diferenciado de controle público, publicida- de e revelação de seus< negócios. São as sociedades de capital aberto, por contras- te com as demais, designadas como de capital fechado. É o critério vigente entre nós. 3. É o financiamento da sociedade: se a sociedade obtém recursos de capital mediante subscrição de ações pelos próprios acionistas ou por grupo restrito de pessoas, mediante o exercício do direito de preferência dos acionistas ou de contrato de participação acionária, celebrado com terceiros subscritores, previa- mente conhecidos, temos uma sociedade fechada. Quando, por outro lado, a com- panhia procura recursos de capital próprio (ações) ou de terceiros (debêntures) junto ao público, oferecendo a qualquer pessoa ações e debêntures de sua emis- são, temos uma companhia aberta. 11. Capital Social 11.1 Conceito Podemos definir o capital social como o valor das entradas de capital que os acionistas declaram vinculado aos negócios que constituem o objeto social.Assim, é a parcela do valor das ações subscritas que os acionistas vinculam, na constituição e em cada aumento, ao negócio empresarial que constitui o objeto da companhia. 11 .2 Requisitos legais o valor do capital social deve constar do projeto do estatuto e pormenoriza- damente do prospecto da sociedade a ser constituída por subscrição pública. O capital será dividido em ações com ou sem valor nominal. Numa mesma companhia não pode haver ações ordinárias com e sem valor nominal. Ou são com valor nominal, ou todas sem valor nominal. Apenas se admite que, nas companhias cujo capital é dividido em ações sem valor nomi- nal, nele também existam ações preferenciais com valor nominal. Pode ser for- mado com bens ou em dinheiro, devendo o estatuto deixar o número de ações 42 R.C.P. 2/86 em que se divide, as quais devem ser na sua totalidade subscritas pelo menos por duas pessoas. 11 .3 Alteração Diversos dispositivos da lei estão relacionados com a proteção à integridade do capital social. A negociação da companhia com suas próprias ações não pode ser feita em prejuízo do capital social ou da reserva legal, devendo a sociedade, para tanto, lançar mão apenas do saldo de lucros ou de outras reservas. Se fosse admitida tal negociação com os fundos originados do capital social e, portanto, destina- dos às operações empresariais da companhia, teríamos não s6 uma velada dimi- nuição deste, como também a desfiguração completa do princípio de constância do capital. O capital deve ser totalmente subscrito e realizado, com entrada de pelo me- nos 10% do preço de emissão das ações subscritas em dinheiro. São fixadas exigências especiais para avaliação dos bens que constituíram o capital, para evitar que o mesmo represente uma expressão falsa ou que seu valor seja inexistente. E proibida a emissão de ações por preço inferior ao seu valor normal, a fim de impedir que os recursos destinados ao patrimônio sejam inferiores ao cons- tante do capital. A manutenção do regime de reserva legal tem por fim exatamente assegurar a integridade do capital social, podendo ser utilizada somente para compensar prejuízos ou aumentar o próprio capital social. E ainda com o objetivo de preservar a integridade do capital social, especifi- camente no que diz respeito aos direitos dos credores, proíbe a lei a participa- ção recíproca do capital entre sociedades coligadas. O capital social é cifra imutável e permanente, modificável apenas se cumpri- das rigorosamente as formalidades legais prescritas. Dentro desse princípio, o capital social não é formado por uma massa sepa- rada do patrimônio ou por uma parte do ativo da sociedade, mas se configura como um débito diante dos acionistas, razão pela qual consta do passivo no balanço. Tendo que permanecer sem mudança, a não ser que sejam reduzidos ou aumentados, na forma devida, os lucros e os prejuízos do exercício não devem ser creditados ou diminuídos da conta do capital, mas colocados em posição es- pecial no balanço. A integridade do capital social representa garantia de estabilidade de cumpri- mento das obrigações assumidas pela companhia. 11 .4 Formação O capital caracteriza-se como o valor declarado pelos acionistas, correspon- dente a uma parte ou à totalidade das entradas por eles subscritas. Sociedades Anônimas 43 Se o capital estiver formado com contribuições em bens, surge a questão de se saber qual a parcela do valor da conferência que poderia ser destinada à formação de reservas de capital. ... A hipótese parece inadmissível, em face do sentido dessa contribuição em espécie, que é o de integrar diretamente a atividade produtiva da companhia, visando ao cumprimento do seu objeto social. Essa inadmissibilidade é evidente quando se verifica que as reservas de ca- pital poderão ser utilizadas para operações que exijam a liquidez dos valores que as constituem, já que se destinam, inclusive, ao resgate, reembolso ou com- pra de ações da companhia, ao pagamento de dividendos de ações preferen- ciais e, ainda, ao resgate de parte beneficiária. Portanto, o valor das reservas de capital deve ser representado por disponibilidade ou por valores mobiliários ou títulos em geral passíveis de pronta transformação em moeda corrente. A rigo- rosa exigência de liquidez, no caso, é incompatível com a própria natureza dos bens conferidos que, destinados à manutenção das atividades da companhia, deverão integrar o seu ativo imobilizado. Por tudo isso, o valor integral da avaliação dos bens conferidos à sociedade deve, desde logo, integrar o capital social, não cabendo destinar qualquer par- cela do mesmo à reserva do capital. 11 .5 Responsabilidades dos subscritores A lei vigente não mais exclui a responsabilidade do subscritor na conferên- cia do patrimônio líquido. Não obstante, deve-se considerar excluída essa res- ponsabilidade nos casos de incorporação ou fusão, por importarem na extinção da sociedade incorporadora ou das fundidas, desaparecendo, em conseqüência, a figura dos subscritores. A subscrição em bens é uma facilidade concedida ao acionista. Não corre ele o risco de conversão da coisa em dinheiro para o efeito de subscrever o ca- pital da companhia. Por outro lado, pode a formação do capital em bens ser útil e até imprescindível para a realização do objeto social, como no caso de imóveis estrategicamente posicionados para determinado comércio ou explora- ção industrial, ou então patente, marcas etc. Seja por uma ou por outra razão, responde o subscritor pela evicção e pelos vícios redibitórios que venham a comprometer os bens conferidos ao capital da sociedade. E quando a subscrição é feita em créditos, responde o subscritor não só pela existência da dívida, mas também pelo seu pagamento. 12. Ações Podemos definir ação como a fração negociável em que se divide o capital social, representativa dos direitos e obrigações do acionista. A ação deixa na lei vigente, de representar uma idéia rígida do valor do capital, para caracteri- zar-se como instrumento através do qual os sócios exercitam os seus direitos assegurados na lei e no estatuto, como abstração completa ou parcial das entra- 44 R.C.P. 2/86 das de capital. As ações passam, dessa forma, a ter um sentido de participação societária e divisão numérica do capital, deixand~se apresentar como parcela monetária do valor total do capital. Sobre o aspecto patrimonial, a ação· passa a representar a fração, e, portanto, a medida da participação do acionista no pa- trimônio social, sempre independentemente do valor das entradas que deverão dar origem a essa mesma fração. 12.1 Natureza jurídica o problema da natureza jurídica na ação não encontra ainda uma solução unânime na doutrina. A questão toma-se mais complexa quando se sabe que não há uma natureza jurídica comum a todas as ações, em face da diversidade das formas de que se revestem. Não se pode, outrossim, deixar de considerar a existência de ações que não se encontrem materializadas em um documen- to, como pode ocorrer com as nominativas e que, necessariamente, ocorre com as escriturais. Com efeito, em nosso sistema jurídico, a incorporação da ação em um título constitui prática, mas não elemento ou requisito indispensável à existência da própria ação e ao exercício do direito que lhe é inerente. Pode mesmo o estatuto da companhia estabelecer que todas as ações da com- panhia, ou uma ou mais classes delas, sejam mantidas em contas escriturais, sem emissão de certificados. Grande parte de nossa doutrina afirma que ação, qualquer que seja a forma que estiver revestida, tem a natureza de título de crédito. Não se nega, no en- tanto, sua natureza complexa na medida em que pode também ser considerada título corporativo, título de série ou de massa ou título de legitimação. ~, entretanto, imprescindível distinguir-se a ação pela sua forma e pelas regras da transmissão a que, em cada caso, estão submetidas, para se estabelecer sua natureza ou não de títulode crédito. Sob esse enfoque a ação ao portador, que é sempre representada por certificados, poderá ser considerada título de crédito. Isto porque esta forma preenche os requisitos essenciais do instituto, ou seja, documento liberal e autônomo, necessário para o exercício do direito que nela se contém. Sob este ponto de vista, os certificados representativos das ações endossáveis são documentos atributivos da qualidade de sócio. E o certificado das nomina- tivas não é documento constitutivo de direitos, representando apenas um com- provante do registro da ação no livro próprio da companhia. 12.2 Forma A companhia, em regra, emite ações na forma nominativa ou endossável. So- mente após a total integralização do valor da subscrição é que as ações poderão ser convertidas na forma ao portador, se assim permitirem os estatutos. Entre- tanto, se forem imediatamente realizadas, a companhia poderá emiti-las direta- mente na forma ao portador se esta for prevista no estatuto. Se o estatuto porventura nada dispuser sobre a forma das ações, estas deverão ser nominativas, pois esta é sua forma normal. Sociedades Anônimas 45 12.2.1 Nominativas Ações nominativas são aquelas cuja propriedade presume-se pela inscrição do nome do acionista no livro próprio, sua transferência opera-se também por termo lavrado em livro competente, datado e assinado pelo cedente e cessioná- rio ou por seus legítimos representantes. Nota-se, portanto, que o certificado da ação nominativa não é, por um lado, suficiente para configuração da sua propriedade e transferência. E, por outro lado, também não é necessário para a prova de titularidade dos direitos ineren- tes a essa forma de ação, como também não é para o exercício dos direitos que lhe são inerentes, tampouco para sua transferência. 12 . 2 . 2. Endossáveis As ações endossáveis são aquelas cuja propriedade presume-se pela posse do título com base em série regular de endossos, cuja transferência opera-se me- diante o endosso no título e cuja titularidade exerce-se perante a companhia pela averbação do nome do acionista no livro Registro de Ações Endossáveis e no próprio título. Tais ações foram criadas para tomar óbvias as dificuldades de transferência de ações nominativas e os inconvenientes vários que apresentam as ações ao portador, notadamente no caso de destruição, roubo ou extravio. Trata-se, pois, de uma forma de ação que apresenta vantagens semelhantes às nominativas, no que se refere à segurança e identidade do seu titular, ao mesmo tempo que oferece um regime de transmissão mais propício à realização de negócios. E da própria natureza da ação endossável a sua representação por documento. Embora necessário, o documento não é suficiente para a presunção de proprie- dade e titularidade no tocante ao exercício dos direitos perante a companhia. A simples posse do título com base em série regular de endossos não legitima o possuidor do certificado a exercer seus direitos perante a sociedade, a qual só reconhece como titular dos direitos legais e estatutários de sócio aquele cujo nome estiver inscrito no livro próprio. Ocorre, dessa forma, uma inversão de ordem: não é apenas a posse do título mediante endosso regular que confere legitimação ao possuidor. A legitimidade depende também da inscrição nos livros da socie- dade, daí decorrendo a qualidade de acionista. A inscrição vale como declara- ção constitutiva dos direitos de sócio. O endosso só produz efeito entre as partes e não perante a companhia. Os direitos reais ou quaisquer outros ônus que gravarem as ações deverão, da mesma forma, ser averbados não só nos livros próprios da companhia, mas também nos certificados. 12.2.3 Ao portador Ação ao portador é aquela cuja propriedade presume-se pela posse do certi- ficado e cuja transferência opera-se pela sua mera tradição manual. A ação ao portador assume características nitidamente diversas das demais formas. 46 R.C.P. 2/86 Considera-se sócio para toda sociedade e terceiros o possuidor, ainda que por um momento, do certificado. Se no entanto, por qualquer razão, for ele desapossado do documento não deixa de revestir a qualidade de acionista. Essa forma de ação causou grande polêmica no mundo jurídico em razão da possibilidade de servir para ocultar o nome do titular, do que decorriam inú- meros abusos, gerando práticas nocivas à própria companhia, ao fisco e aos acionistas não-controladores. Em razão desses abusos, a ação ao portador tem sido posta de lado, ou, pelo menos, criticada em inúmeros países. Há inclusive várias iniciativas no sentido de suprimi-la definitivamente. Outras leis, no entanto, já diminuíram sensivel- mente as abusivas vantagens das ações ao portador nesse particular, na medida em que obrigam a identificação do seu possuidor, como, por exemplo, as leis referentes ao Imposto de Renda. 12 . 2 . 3 . 1 Certificado de ações ao portador O certificado de ação ao portador constitui requisito necessário e suficiente para a constituição e reconhecimento do direito de sócio. Confere o documento ao seu possuidor a presunção de titular dos direitos ali contidos ou ali referidos. Trata-se de título que legitima o possuidor ao exercício de todas as prerrogati- vas inerentes à sua condição de sócio, na medida em que incorpora todo um complexo de relações jurídicas, tanto patrimoniais como pessoais. Conseqüentemente, a apresentação do certificado é necessária para que o ti- tular possa cobrar os dividendos aos quais tem direito, bem como comparecer à assembléia. Igualmente sua exibição se faz necessária para a propositura de medida judi- cial fundada na qualidade de acionista. Dessa conexão permanente entre documento e direito decorre a função legi- timadora do título e, portanto, a necessidade de sua posse e apresentação para o exercício desses direitos. Portanto, a destruição, extravio ou roubo do certificado da ação ao portador pode ocasionar o impedimento do exercício dos respectivos direitos. E de se ressaltar que, de conformidade com o disposto no art. 21 da Lei n.O 6.404, as ações terão integralmente forma nominativa ou endossável até o integral pagamento do preço de emissão. 12.2.4 Ações não integralizadas Importante salientar que, cabe ressalva aos casos regulados por lei especial, que determinam a obrigatoriedade de emisão de ações nominativas em razão do objeto da companhia. As ações ainda não integralizadas podem também se revestir da forma endossável. No que se refere às entradas em bens e em créditos, a lei atual disciplina o assunto no art. 23, proibindo que sejam emitidos certificados antes de cumpri- das as formalidades necessárias à transmissão de bens, ou de realizados os cré- ditos, qualquer que seja sua forma. Sociedades Anônimas 47 o dispositivo visa assegurar a integralização do capital social, tanto para garantir os direitos de terceiros, como para possibilitar a consecução do objeti- vo social. Para tanto, exige-se que o devedor responsável pelo pagamento do restante do valor da subscrição possa ser identilicável - requisito fundamental para a sociedade poder agir judicialmente contra ele no caso de mora, obrigan- do-se dessa forma, à integralização. Desde que o acionista cumpra integralmente sua obrigação de pagamento do valor da subscrição, poderá a ação respectiva ser convertida em ao portador, se tal forma for prevista nos estatutos. Se o ato constitutivo da companhia contiver disposição em contrário, isto é, permitir a criação de ações ao portador antes de sua integralização, ou, ainda, facultar a conversão de ações nomitativas em ao portador, toda a constituição da sociedade será nula. Se a deliberação nesse sentido foi tomada posteriormen- te, a nulidade recairá apenas sobre tal deliberação, bem como sobre as eventu- ais emissões ou conversões irregulares daí decorrentes. Cabe ainda registrar que compete aos estatutos a determinação da forma das ações, bem como a conversibilidade de uma em outra. Traz,no entanto, a Lei n.O 6.404, de 1976, substanciais alterações na matéria, ao facultar a criação de classes de ações ordinárias nas companhias fechadas, inconversíveis em nomi- nativas. 12 . 3 Classificação Quanto aos direitos que conferem, as ações são classificadas em: preferen- ciais, de gozo ou fruição. Quanto à forma, como já vimos, são: nominativas, endossáveis e ao portador. Quanto ao preço: as ações poderão ser emitidas com valor nominal ou sem valor nominal. Passamos a compreender então que o valor nominal é a quantia em dinheiro, determinada pelos estatutos, constante do certificado (se houver) e que corres- ponde ao preço mínimo que o subscritor pagará pela ação. Tal importância irá obrigatoriamente para a conta de capital. A soma do valor nominal das ações representa o montante do capital social. 12.4 Espécies Quando falamos em espeCles de ações, referimo-nos à natureza dos direitos ou vantagens que as mesmas conferem a seus titulares. No entanto, as ações de uma mesma espécie podem conferir diferentes direitos aos seus detentores, de- pendendo de sua forma como, por exemplo, o direito de voto, reservado unica- mente às ações ordinárias que revestirem as formas nominativa, escrituraI e en- dossável. Por outro lado, a lei vigente não admite outras espécies de ações que não as ordinárias, preferenciais ou de fruição. Não é, portanto, permitida a criação de ações de trabalho ou gratuitas. Ademais, chegamos à conclusão de que a lei não faz diferença entre ações originadas de subscrição em dinheiro e ações resultan- tes de subscrição de bens. 48 R.C.P. 2/86 12.5 Classes As ações de uma mesma espécie podem ser divididas em classes diversas, con- forme as vantagens e desvantagens próprias de cada uma. Por exemplo, ações ordinárias ao portador inconversíveis em nominativas. 13. Ações ordinárias 13.1 Conceito São aquelas que conferem aos seus titulares todos os direitos comuns de acionista, sem qualquer restrição, mas também sem privilégios. As ações or- dinárias de companhia fechada poderão ser de classes diversas. Essa diversidade de classes, de acordo com o art. 16 da Lei n.O 6.404, pode-se dar em função de: forma ou conversibilidade de uma forma em outra; conver- sibilidade em ações preferenciais; exigência de nacionalidade brasileira do acio- nista; direito de voto em separado para preenchimento de determinados cargos de órgãos administrativos. 13 .2 Forma ou conversibilidade de uma forma em outra Quanto à forma, as ações podem ser nominativas, endossáveis ou ao portador. Temos, portanto, uma primeira classificação tripartida, abrangendo essas três formas de ações. Quanto à conversibilidade, podemos ter, ao que tudo indica, classes de ações de determinada forma não conversíveis em ações de outra forma. 13 . 3 Conversibilidade em ações preferenciais As ações preferenciais são, substancialmente, ações privilegiadas, ao menos em teoria. Devido a isso, pode a companhia, para atrair determinados investi- dores, oferecer, à subscrição, ações ordinárias, posteriormente conversíveis. Fica a critério do investidor, conforme suas conveniências pessoais, ter ações de uma espécie, ou de outra. Em tal caso, a companhia instituirá uma classe de ações ordinárias conversíveis em preferenciais a qualquer tempo, à vontade do acionista. 13 . 4 Exigência de nacionalidade brasileira do acionista Há sociedades cujas ações só podem pertencer, em sua totalidade, a brasilei- ros. Por exemplo, uma sociedade proprietária de empresa jornalística ou de te- levisão ou de radiodifusão. Existem outras, porém, cujas ações apenas em sua maioria deverão pertencer a brasileiros. Sociedades Anônimas 49 13 . 5 Direito de voto em separado para preenchimento de determinados cargos de órgãos administrativos o problema prende-se à necessidade, que não raro ocorre, de se atrair certo grupo de investidores. Digamos que determinada companhia precise, para so- breviver, de capitais novos, e entabule conversações com grupo estranho de investidores. Estes sabem que, apesar de relevante em termos absolutos, a parti- cipação negociada não lhes dará o controle da companhia e, por conseqüência, o poder de eleger os administradores; isto poderá desestimulá-los. Para que o estímulo não falte, poderá ser-lhes concedido o direito de eleger alguns membros dos órgãos administrativos. Entende-se como tal apenas a dire- toria e o conselho de administração. E uma vez que estamos no âmbito de sociedade de capitais, e não de pessoas, esse direito deverá ser conferido não aos subscritores, pessoalmente, mas às ações por eles subscritas. A companhia deverá, em tal caso, transformar o pacote acionário dos novos investidores numa classe isolada de ações ordinárias, a qual caberá a eleição, em separado, de um ou mais administradores. Na forma do parágrafo único do art. 16 da Lei n.O 6.404, a alteração do estatuto social, na parte em que regula a diversidade de classes, requererá a concordância de todos os acionistas proprietários das ações atingidas. A não ser que a referida alteração já tenha sido expressamente prevista e regulada no próprio estatuto social, caso em que ela poderá ser feita com base no quorum de instalação e deliberação de qualquer assembléia geral extraordinária normal. 14. Ações preferenciais 14. 1 Conceito Ações preferenciais são aquelas que conferem, aos seus proprietários, vanta- gens especiais, comumente em detrimento de alguns direitos comuns, inclusive o de voto. De acordo com o art. 17 da Lei n.O 6.404, as preferências ou vantagens das ações preferenciais podem consistir: a) em prioridade na distribuição de dividendos; b) em prioridade no reembolso do capital, com prêmio ou sem ele; c) na acumulação das vantagens enumeradas. Prioridade na distribuição de dividendos significa que, no fim de cada exer- cício, se houver lucros partilháveis, serão eles distribuídos em primeiro lugar aos acionistas preferenciais, até certo limite fixado no estatuto social. Os demais acionistas só receberão dividendos se houver sobra de lucros a distribuir. Os dividendos destinados às ações preferenciais podem ser fixos, mínimos e cumulativos. Prioridade no reembolso do capital significa que, na liquidação da sociedade, depois de pagos todos os credores, a distribuição do acervo restante aos acionis- 50 R.C.P. 2/86 tas, na proporção das ações de cada um, será feita da seguinte forma: nada receberão as ações ordinárias enquanto não forem reembolsadas totalmente as ações preferenciais, pelo seu valor nominal, com prêmio ou sem ele. As vantagens referidas são todas de natureza econômica e não precisam ser as únicas: também vantagens políticas podem ser atribuídas às ações preferen- ciais, quando de sua instituição, para que o investimento se tome mais atraente. De acordo com o art. 18 da Lei n.O 6.404, o estatuto social pode: a) assegurar a uma ou mais classes de ações preferenciais o direito de eleger, em votação em separado, um ou mais membros dos órgãos de administração; b) subordinar as alterações estatutárias que especificar à aprovação, em assem- bléia especial, dos titulares de uma ou mais classes de ações preferenciais. De todas as vantagens que podem ser outorgadas às ações preferenciais, a que menor sentido prático tem é, sem dúvida, a que consiste em prioridade no reembolso do capital, uma vez que, hoje em dia, em condições normais, as companhias não são mais liquidadas, tendo a grande maioria delas prazo de duração indeterminado. Mas a prioridade na distribuição de dividendos tam- bém é vantagem sem muito sentido prático, uma vez que, geralmente, os lucros anuais são suficientes para pagamento de dividendo igual a todas as ações. De forma que, considerando a freqüentíssima ausência do direito de voto, p0- demos concluir que as ações preferenciais, de privilegiadas que eram, toma- ram-se, na prática, ações de segunda categoria. De forma que, caso se queira instituir diversas classes de ações preferenciais,deverão elas resultar da aplicação pura e simples do art. 17 referido ou de combinações que tenham como base as vantagens do mesmo artigo. De acordo com o art. 17, § 4.0 da Lei n.O 6.404, "o estatuto não pode excluir ou restringir o direito das ações preferenciais de participar dos aumentos de capital decorrentes de correção monetária e da capitalização de reservas e lucros". Na realidade, sempre foi assim, uma vez que os acionistas preferenciais não são menos donos da empresa que os demais acionistas. No entanto, outrora, às vezes, houve dúvidas a esse respeito, que foram elucidadas com base no dis- positivo citado. Naturalmente, caso a companhia institua ações privilegiadas ou preferenciais, o estatuto deverá declarar minuciosamente as vantagens de cada classe e as eventuais restrições correspondentes, podendo, também, prever o resgate ou a amortização, a conversão de ações de uma classe em ações de outra e em ações ordinárias e destas em preferenciais, fixando as respectivas condições. 14.2 Tipos de dividendos Dispõe o art. 17, I, da Lei n.O 6.404, que uma das vantagens das ações prefe- renciais pode consistir em prioridade na distribuição de dividendos, o que significa que, no fim de cada exercício, se houver lucros partilháveis, serão eles distribuídos em primeiro lugar aos acionistas preferenciais, até certo limite fixado no estatuto social; os demais acionistas só receberão dividendos se houver Sociedades Anônimas 51 sobras de lucros a distribuir. Os dividendos destinados às ações preferenciais podem ser fixos, mínimos e cumulativos. O dividendo fixo consiste em importância determinada ou determinável que, se houver lucros, o acionista preferencial deverá receber prioritariamente, ainda que os demais acionistas nada recebam. Em compensação - e salvo disposição em contrário do estatuto -, o acionista preferencial nada mais receberá neste caso. Os lucros remanescentes, se houver, serão distribuídos apenas entre os demais acionistas, ainda que estes venham, dessa forma, a receber dividendos mais altos que o fixado, devido aos altos lucros da empresa. O dividendo mínimo também consiste em importância determinada ou deter- minável, que, se houver lucros, o acionista preferencial deverá receber priorita- riamente, ainda que os demais acionistas nada recebam. S6 que, salvo disposição em contrário do estatuto, é diferente o tratamento reservado aos lucros remanes- centes, pois, se estes permitirem o pagamento, aos demais acionistas, de divi- dendo igual ao mínimo, o resto, se houver, será distribuído em partes iguais - mas proporcionalmente ao número de ações de cada um - entre todos os acionistas da companhia. O dividendo é cumulativo quando, por disposição estatutária expressa, acumu- la-se ao do exercício seguinte, caso não tenha sido pago em determinado exer- cício, por falta de lucros. Em outras palavras, sendo cumulativo o dividendo fixo ou mínimo não pago em determinado exercício deverá ser pago em dobro no exercício seguinte, em triplo no outro exercício, e assim por diante até que haja lucros suficientes para saldar tudo. Nos exercícios em que o lucro for insuficiente, mas houver reservas de capital, o dividendo cumulativo poderá ser pago mediante utilização destas últimas. Ainda que fixos ou cumulativos, os dividendos não poderão ser distribuídos em prejuízo do capital social. O capital social é a base das operações sociais e não pode ser desfalcado, pelo menos durante a vida da sociedade. Aliás, é bom não perder de vista que os dividendos, mesmo prioritários, não perdem nunca sua natureza de frutos, diretos ou indiretos, de capital, devendo ser pagos apenas quando esses frutos existirem. Na liquidação, se houver o capital inteiro a distribuir, e caso os acionistas preferenciais não tenham direito a reembolso como prêmio, todos os acionistas receberão a parcela correspondente a suas ações; a não ser que, em tal caso, o estatuto assegure expressamente, aos preferenciais, o pagamento dos dividendos atrasados em prejuízo do capital, hip6tese esta que eles receberão, a parcela de capital correspondente a suas ações mais uma parcela correspondente a seus dividendos atrasados, ficando prejudicados os demais acionistas. O dividendo fixo ou mínimo estipulado em determinada importância em moeda - portanto, não em percentagem - ficará sujeito à correção monetária anual, por ocasião da assembléia geral ordinária, aos mesmos coeficientes adota- dos na correção do capital social. O pagamento de dividendo fixo ou mínimo às ações preferenciais não pode resultar em que, da incorporação do lucro remanescente ao capital da compa- nhia, a participação do acionista residente ou domiciliado no estrangeiro nesse capital, registrada no Banco Central do Brasil, aumente em proporção maior do que a do acionista residente ou domiciliado no Brasil. 52 R.C.P. 2/8ó 14.3 Reembolso do capital Pelo exposto no art. 17, 11, da Lei n.O 6.404, outra vantagem das ações pre- ferenciais pode consistir em prioridade no reembolso do capital, o que significa que, na liquidação da sociedade, depois de pagos todos os credores, a distri- buição do acervo restante aos acionisats, na proporção das ações de cada um, será feita da seguinte forma: nada receberão as ações ordinárias, enquanto não forem reembolsadas totalmente as ações preferenciais, pelo seu valor nominal, com prêmio ou sem ele. Uma vez reembolsadas as ações preferenciais, e caso as ações ordinárias possam receber igual valor, o resto, se houver, será distri- buído igualmente a todas as ações da companhia. O prêmio consiste em importância determinada ou determinável - segundo seja fixada em valor já conhecido ou em percentagem - que o estatuto social manda, às vezes, acrescer ao valor nominal das ações preferenciais, para fins de reembolso prioritário e no intuito de tomar mais atraente o investimento nesse tipo de ação. 15. Ações de fruição 15.1 Conceito Pode acontecer, com relação às sociedades anônimas concessionárias de ser- viços públicos, que elas se obriguem a transferir gratuitamente ao poder público concedente todas as suas instalações, ao terminar o prazo da concessão. Em casos assim, considerando-se que, às vezes, essas instalações correspondem a boa parte do capital social, surge a necessidade de este último ser reembolsado aos acionistas, de acordo com um plano de amortização. E uma vez que o capital social é representado por suas ações, podemos falar em amortização de ações. De conformidade com o art. 44, §§ 2.° e 3.°, da Lei n.O 6.404, a amortiza- ção - que pode ser integral ou parcial, e abranger todas as classes de ações ou uma só delas - consiste na distribuição aos acionistas, a título de anteci- pação e sem redução do capital social, de quantias que lhes poderiam tocar em caso de liquidação da companhia. As ações integralmente amortizadas podem ser substituídas por ações de fruição. Portanto, a ação de fruição, mencionada pelo art. 15, caplJt, da Lei n.O 6.404, pode ser definida como aquele tipo especial de ação, emitido em substituição à ação integralmente amortizada. 16. Propriedade e circulação 16. 1 Indivisibilidade A indivisibilidade das ações advém de preceito legal e tem caráter eminente- mente ideológico, não se ligando à materialidade da ação, pois existem ações que não são representadas por certificados, como, necessariamente, as escritu- rais e, facultativamente, as nominativas. Sociedades An6nimas 53 A materialidade necessana da ação é restrita apenas às endossáveis e ao portador. Portanto, a indivisibilidade da ação não visa manter a sua identi- dade ou o seu valor econômico. Isto porque nem as ações que constituem bens corpóreos os direitos representados no certificado perecem se houver esfa- celamento deste, na medida em que podem ser substituídos por novos, mediante processo de anulação e substituição nos termos dos arts. 907 e segs. do Código de Processo Civil. Haverá, portanto, regeneração da identidade daação e per- manência do seu valor econômico. E, no caso das escriturais e nominativas, a identidade da ação e o seu valor econômico decorrem da própria constituição da sociedade e evidenciam-se, respectivamente, pela inscrição do nome do titular no livro de Registro de Ações Nominativas e na abertura de conta-corrente na instituição encarregada de operar as escriturais. Portanto, a indivisibilidade das ações relaciona-se diretamente com os direitos conferidos pela ação que não podem - estes - ser divididos. Não se liga, portanto, a qualquer conceito de materialidade da coisa que, como se vê, pode não existir ações nominativas e escriturais. A indivisibilidade da ação significa que não se podem dividir em partes os direitos que lhe são inerentes. Essa indivisibilidade de direitos não significa que haja impedimento de cessão isolada de determinadas prerrogativas, como os de subscrição ou de recebimento de dividendos, constante de cupons anexa- dos às ações. Essas cessões não podem, no entanto, ter por objeto frações de subscrição ou de dividendos, observando-se, sempre, o princípio da unidade da ação. A indivisibilidade refere-se, portanto, a cada um dos direitos inerentes à ação. Assim, não pode haver cessão de 1/3 do valor da subscrição. Dividir a ação, nessa hipótese, complicaria extraordinariamente a cobrança das importâncias a realizar. No mesmo sentido, o direito de voto que pudesse ser exercido por vários condôminos da ação tomaria impossível ou impraticável o seu cômputo, seja numericamente, seja quanto a eventuais divergências entre eles no que respeita à matéria votada. A indivisibilidade decorre do princípio da igualdade das ações dentro da mesma série, que é, inclusive, fundamental para o exercício do direito de voto. Se fosse permitido o fracionamento de ações, poderia o grupo controlador da companhia perpetuar seu domínio sobre a mesma, fracionando as ações e dispersando-as entre inúmeros acionistas sem capacidade de aglutinação. E, quanto a suas próprias ações, os controladores as manteriam íntegras, para com elas votarem. Essa manobra, inteiramente lesiva aos interesses dos acionistas e da própria companhia, tomou-se de certa forma acadêmica na lei vigente, diante das inú- meras possibilidades que um pequeno grupo passou a ter de controlar, de forma permanente, a companhia, através de um diminuto percentual de ações próprias. A restrição do direito de voto às ações ordinárias ao portador, o aumento substancial do número de ações preferenciais, a possibilidade de obten- ção de procurações pelas instituições com respeito às ações custodiadas e escri- turais, a permissão de classes de ações ordinárias nas companhias fechadas e as vantagens permanentes também a determinadas classes de preferenciais podem representar fórmulas muito mais eficazes para perpetuar o controle da com- panhia por um grupo pequeno, porém compacto. 54 R.C.P. 2/86 Não obstante, é imprescindível que se mantenha a proibição legal de fra- cionamento das ações, pois, se tal fosse possível, outra forma acrescentar-se-ia para facilitar, ainda mais, o controle permanente da sociedade por um bloco isolado de acionistas, além de outros inconvenientes. 16.2 Negociabilidade Traz a lei vigente dois preceitos fundamentais com relação à negociabilidade das ações. Primeiro, restringe a proibição às ações de companhias abertas; se- gundo, a proporção de realização (30%) passa a ser medida em relação ao preço de emissão. Visa o preceito a assegurar a integridade do capital; evitar a especulação sobre as ações no início da vida da companhia, viabilizar a realização de um fluxo regular de capital e, também, garantir a seriedade da subscrição. A exi- gência do desembolso de 30% do total subscrito tem, em suma, dois objetivos: primeiro, defender a sociedade dos especuladores pouco solventes ou que tenham a intenção de ganhar com a revenda imediata das ações, forçando para tanto a artjficialidade do preço de negociação no mercado; segundo, dar à sociedade uma arma mais eficaz para a cobrança do saldo de subscrição, o que seria praticamente impossível se houvesse uma sucessão de transferências da ação no mercado acionário logo após sua emissão, ou seja, com apenas 10% do seu valor realizado em dinheiro. Ainda que legalmente assista à companhia a solidariedade passiva do alie- nante e do adquirente, pelo prazo de dois anos, seria para ela extremamente oneroso levantar a série completa de vendas da ação no mercado, para conse- guir identificar o último comprador e estabelecer, em relação a cada um dos sucessivos alienantes, a existência ou não de prescrição do direito de cobrança. Por todas essas razões, a lei congela a negociação das ações de companhia aberta até que haja relativo equilíbrio entre o valor realizado (30%) e aquele a realizar (70%). Portanto, o preceito tem como fundamento imediato a defesa da companhia e indiretamente a dos acionistas e dos investidores, em geral. Defende o preceito ao investidor na medida em· que evita especulação artificial no mercado em tomo de ações recém-emitidas, o que poderia provocar oscilação injustificada do seu preço de negociação. E ainda protege os acionistas da companhia, uma vez que visa a assegurar a efetiva integralização do capital social, sem ônus fi- nanceiros e administrativos excessivos, além da preservação da imagem da com- panhia e de suas ações no mercado. A lei exige a realização de pelo menos 10% do valor de emissão das ações, para que seja constituída a companhia e determina que pelo menos 30% desse valor estejam integralizados para que as ações de companhia aberta sejam negociáveis. Portanto, com apenas 10% do valor subscrito já realizado, todas as companhias - abertas e fecha- das _. podem constituir-se e emitir os respectivos certificados. O percentual mínimo de realização refere-se a ações subscritas em moeda corrente, já que a integralização em bens faz-se uma vez cumpridas as forma- lidades necessárias à transmissão dos mesmos,· ou quando realizados os respec- tivos créditos. Concluídos esses requisitos, as ações subscritas em espécie serão consideradas integralizadas. Sociedades Anônimas $5 Estabelece a lei, portanto, regimes diferentes para a integralização em bens e em dinheiro, embora não faça qualquer distinção entre uma e outra, quanto à negociação, após liberá-las. 16 . 3 Limitações à circulação A Lei n.O 6.404 criou duas categorias de sociedades quanto ao modo de nego- ciação dos valores patrimoniais de sua emissão: as companhias abertas e as fechadas. Levando em conta essa divisão, a lei vigente continua admitindo que haja limitação estatutária à transferência das ações nominativas apenas quando se trate de companhia fechada, não a permitindo, portanto, nas companhias abertas. Ademais, esta lei pôs fim a divergências doutrinárias, estabelecendo que tal limitação poderá ocorrer não só na constituição da companhia, como também no curso de sua existência, mediante alteração dos estatutos sociais. Condiciona, no entanto, a eficácia dessa alteração estatutária limitativa somente às ações daqueles sócios que concordarem expressamente com a mesma, mediante aver- bação no livro próprio. Portanto, os demais acionistas que não concordarem com a restrição superveniente não serão por ela alcançados. Não tem, portanto, a maioria, poderes para impor limitações às ações de sócios que não quiserem submeter-se a esse regime. O princípio da limitação à transmissibilidade das ações evolui na razão inversa do próprio conceito do que seja uma sociedade anônima. Na doutrina clássica, a companhia era uma associação de capitais e as ações, a representação do capital social. Não se admitia a limitação da transmissibi- !idade das ações através de cláusulas estatutárias. Isto porque o critério de distinção entre parte social e ação fundava-se no caráter de transmissibilidade desta última. A companhia, em termos absolutos, constituía-se, intuitu rei, em oposição àsdemais sociedades mercantis - intuitu personae. O elemento pessoal não podia ser levado em conta na aquisição e livre disposição das ações representativas do capital. Daí provinha a regra de livre cessibilidade. Esse princípio, no en- tanto, não é mais absoluto na doutrina e nas legislações deste século. Evoluiu-se no sentido de se admitirem restrições à cessão de ações. Argumenta-se que é necessário difundir a sociedade anônima e permitir que se adapte este tipo societário aos casos em que, por um lado, o número de sócios não se afina com a estrutura de uma sociedade limitada e, por outro, a qualidade do acionista tenha certa importância, como os casos de sociedades familiares ou cuja atividade empresarial demande certa motivação especial dos acionistas para a sua consecução. Admite-se, portanto, na sociedade anônima atual o princípio da transmissi- bilidade relativa das ações e não mais o da sua livre transmissibilidade. Entre nós, diversos podem ser os objetivos da restrição estatutária à transferência de ações. Presta-se a impedir a entrada de pessoas estranhas ou de concorrentes que possam perturbar a sociedade e a sua administração. Pode, outrossim, objetivar a limitação da propriedade acionária a determinadas categorias de pessoas, con- forme a profissão, nacionalidade ou qualquer outro critério. Ou, ainda, garantir 56 R.C.P. 2/86 a estabilidade da administração ou do controle da companhia. E poderá, ade- mais, visar à manutenção do equilíbrio entre grupos (familiares ou não) que compõem o colégio acionário. Ainda pode ser o instrumento para encaminhar um ramo familiar ou um grupo de acionistas à obtenção futura do controle da companhia. Como toda regra estatutária, também aquela que limitar a transfe- rência de ações deve atender ao interesse da sociedade e não a de alguns acio- nistas, individualmente ou em grupo. Observado rigorosamente esse princípio, essas regras estatutárias podem de- terminar düerentes espécies de restrições. A primeira delas submeteria ao prévio consentimento da própria companhia a admissão do cessionário ao quadro social, mediante manifestação da administração ou da assembléia geral. Na doutrina brasileira, divergem os autores a respeito da possibilidade de se estabelecer essa espécie de restrição. Parece-nos que não há qualquer impedi- mento à sua adoção. Outra espécie de regra estatutária seria aquela que exigisse do acionista o preenchimento de certos requisitos pessoais para sua admissão no quadro social, como, por exemplo, nacionalidade, profissão, domicílio, vínculo empregatício. Ainda poderia a regra estabelecer preferência aos acionistas na aquisição de ações de qualquer deles que se retirasse. Neste caso, o estatuto deve especificar a favor de quem é outorgada a preferência e se haverá ordem no seu exercício: assim, se a preferência é para a própria sociedade, já que pode ela adquirir suas próprias ações com reservas e saldos de lucros; ou se a preferência é para a generalidade dos acionistas, mediante critério de rateio proporcional às ações possuídas; ou se tal preempção s6 poderá ser exercida pelos acionistas titulares de 10% ou mais do capital social, ou, ainda, se a opção refere-se apenas às ações votantes ou também às não-votantes. Deve ainda a regra restritiva estatutária fixar a forma de notificação do sócio retirante aos remanescentes ou à companhia e o prazo para o exercício da preferência. Se houver prelação, determinará o estatuto a ordem que deverá ser seguida e os prazos sucessivos. Assim, haverá 10 dias para a sociedade mani- festar seu interesse; se não o fizer, caberá aos acionistas em conjunto outros 10 dias para o mesmo fim; desinteressando-se estes, novos 10 dias serão dados a qualquer acionista ou a grupos deles, após o que a transferência será livre. Da análise da doutrina, verifica-se a existência de uma certa dúvida sobre a questão da obrigatoriedade ou não de o estatuto fixar o critério de preço para aquisição das ações pelos s6cios remanescentes. Há os que entendem que a sua fixação estatutária é obrigat6ria, não podendo ficar nem a critério exclusive da sociedade, nem do vendedor. E há os que não advogam a obrigatoriedade dessa fixação estatutária, embora chamem a atenção para sua indiscutível conveniência. Ambas as opiniões - obrigatoriedade ou conveniência - invocam o inte- resse da sociedade e dos acionistas remanescentes em não se submeterem a um preço arbitrário do s6cio retirante, o qual poderia ser fruto de simulação repre- sentada por falsa proposta de aquisição por terceiro. Ou então que a cláusula estatutária de fixação do preço evitaria que concorrentes efetivamente ofereces- sem ao acionista valor superior ao real, para assim forçar a sua entrada na companhia. Sociedades Anônimas 57 Por outro lado, depreende-se que ambas as correntes invocam a necessidade de se proteger o acionista vendedor do arbítrio da sociedade ou dos acionistas remanescentes, na fixação do preço. Analisando esses argumentos chegamos a três conclusões. A primeira - simulação do preço - não deve prevalecer, pois a antijuridi- cidade não pode constituir pretexto para cerceamento legal da liberdade pessoal ou patrimonial das pessoas. Seria estabelecer como pressuposto da norma legal ou convencional a sua própria burla. Tal critério levaria às maiores iniqüidades. Impor um critério rígido de preço ao vendedor das ações, a pretexto de que eventualmente pudesse ele simulá-lo, seria o mesmo que descontar do preço devido ao vendedor de um bem o eventual vício redibitório que o mesmo futuramente viesse a apresentar. O sujeito relaciona-se no mundo jurídico sob o fundamento do justo e tendo como pressuposto a boa fé. Não cabe, pois, constranger o livre preço da ação a critérios rígidos pretextando a má fé do acionista retirante. A segunda - ingresso na sociedade de concorrentes - não pode igualmente prevalecer. Isto porque, se for esta a preocupação dos acionistas da companhia fechada, deverão eles estabelecer no estatuto a exigência de prévio consenti- mento da sociedade para ingresso de qualquer adquirente de suas ações no quadro social. O direito de preferência para aquisição de ações não é o cami- nho certo para se evitar tal eventualidade, principalmente se, para tanto, deve-se constranger os acionistas a submeterem-se a um critério rígido de preço fixado nos estatutos. E a terceira - livrar o vendedor do arbítrio dos compradores - não tem qualquer consistência. Isto porque é o próprio Código Civil que veda a hipótese no seu art. 1.125 em que se determina que "nulo é o contrato de compra e venda, quando se deixa ao arbítrio exclusivo de uma das partes a taxação do preço". No mesmo sentido, o art. 115 do Código Civil considera ilícita toda a condição que sujeite uma parte ao arbítrio de outra. Não cabe ao estatuto impor um critério de preço que deva prevalecer no caso de desejar o acionista retirar-se da companhia. Pode-se livremente fixar esse preço por ocasião de cada transação. 17. Debêntures 17.1 Conceito As debêntures são títulos de crédito, emitidos pela companhia no caso de precisar de recursos e não querer pedir dinheiro a instituições financeiras ou não querer o aumento de seu capital social mediante subscrição, o que poderia acarretar a admissão de novos acionistas ou a modificação da participação dos acionistas já existentes. As debêntures são títulos emitidos em série ou em massa. Sendo da mesma série, têm igual valor nominal e conferem a seus titulares os mesmos direitos; isto é, representam parcelas iguais de um mesmo empréstimo. São geralmente negociadas nas Bolsas de Valores. 58 R.C.P. 2/86 Tomando por base os dispositivos da Lei n.O 6.404, podemos adotar a se· guinte definição: debêntures são títulos negociáveis, endossáveis ou ao portador, com valor nominal e estranhos ao capital social, que conferem aos seus titulares direito de crédito não eventual contra a companhia. 17.2 Características 1. Títulosnegociáveis. As debêntures podem, como as ações e as partes beneficiárias, ser transferidas por ato interviyos ou mortis causa, gratuito ou oneroso, dentro ou fora da Bolsa de Valores; podendo, em conseqüência, ter cotação na Bolsa e ser objeto de penhor ou caução, penhora, usufruto, fidei- comisso, alienação fiduciária em garantia, promessa de venda, direito de pre- ferência 11 sua aquisição e eventuais outros ônus e direitos. Podem, também, ser objeto de depósito com emissão de certificado, nos termos do art. 43 da Lei n.O 6.404. 2. Endossáveis ou ao portador. As debêntures não podem, portanto, ser no- minativas ou escriturais. A elas se aplicam, no que couber, as normas legais sobre ações, na parte referente a certificados, propriedade e circulação, consti- tuição de direitos reais e outros ônus. As debêntures endossáveis serão regis- tradas em livro próprio mantido pela companhia. Com efeito, de acordo com o art. 100, IV, da Lei n.O 6.404, a companhia deve ter, entre outros, o livro de Registro de Debêntures _ Endossáveis. 3. Com valor nominal. Valor nominal é o que consta do próprio título; trata-se de valor inicial ou de referência, que nem -sempre coincide com valor real, o qual pode ficar acima ou abaixo, -de acordo com as condições de merea- do, a reputação financeira da companhia emitente e eventuais outros fatores. Um desses fatores pode ser a correção monetária, uma vez que a debênture po- derá conter cláusula de correção monetária, aos mesmos coeficientes fixados para a correção dos títulos da dívida pública (notadamente, Obrigações do Te- souro Nacional), ou com base na variação da taxa cambial. As debêntures da mesma série terão igual valor nominal, expresso em moeda nacional, salvo nos casos de obrigação que, nos termos da legislação em vigor, possa ter o paga- mento estipulado em moeda estrangeira. 4. Estranhos ao capital social. Conforme já tivemos a oportunidade de pôr em ressalte, as ações são parcelas ideais do capital social da companhia. Quem é dono de ações - portanto, o acionista -, é dono também de parte propor- cional do patrimônio da empresa, correndo, em conseqüência, todos os riscos do mau êxito do empreendimento. As debêntures, pelo contrário, sendo apenas parcelas determinadas de um empréstimo, são estranhas ao capital social, não conferindo qualquer direito sobre o patrimônio da empresa. Em compensação, seus titulares não correm os mesmos riscos que os acionistas (ações represen- tam capital de risco; debêntures não). As debêntures podem apenas ser con- versíveis em ações. Uma vez que as debêntures representam parcelas de um empréstimo, deve a companhia emitente, em determinado momento (geralmente no vencimento), Sociedades Anônimas 59 devolver os valores recebidos. Por isso é que o crédito não é eventual, como ocorre com as partes beneficiárias. Os titulares de debêntures sabem que vão receber e, também, quando e quanto. A debênture poderá assegurar ao seu titular, além da correção monetária, também juros, fixos ou variáveis, partici- pação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. 17 . 3 Garantias A debênture poderá, conforme dispuser a escritura de emissão, ter garantia real ou garantia flutuante, não gozar de preferência ou ser subordinada aos demais credores da companhia. De acordo com os arts. 755 e segs. do Código Civil, são direitos reais de garantia os seguintes: penhor, anticrese e hipoteca. Esses direitos são reais, por- que "a coisa dada em garantia fica sujeita por vínculo real ao cumprimento da obrigação" (art. 755). O penhor se constitui "pela tradição efetiva, que, em garantia do débito, ao credor ou a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por ele, de um objeto móvel, suscetível de alienação" (art. 768). Temos a anticrese quando o devedor, ou outrem por ele, ao entregar ao credor um imóvel, cede-lhe o direito de perceber, em compensação da dívida, os frutos e rendimentos. E inclusive permitido estipular que esses frutos e ren- dimentos, em sua totalidade, sejam percebidos pelo credor à conta apenas de juros. Quanto à hipoteca, podemos afirmar que, em sua essência, é um instituto análogo ao penhor, diferindo deste por recair normalmente em bens imóveis, cuja entrega ao credor não é exigida, em virtude de registro imobiliário que, indiretamente, assegura ao credor o livre exercício de seus direitos. Sem dúvida alguma, a hipoteca é o direito real de garantia que mais se ajusta às necessidades de credores titulares de debêntures. A garantia flutuante assegura à debênture privilégio geral sobre o ativo da companhia, mas não impede a negociação dos bens que compõem esse ativo. As debêntures com garantia flutuante de nova emissão são preferidas pelas de emissão ou emissões anteriores, e a prioridade se estabelece pela data da inscrição da escritura de emissão; mas, dentro da mesma emissão, as séries concorrem em igualdade. As debêntures sem garantia podem, também, ser de duas diferentes catego- rias, a saber: debêntures sem preferência e debêntures subordinadas. Com rela- ção às primeiras, os credores debenturistas são considerados quirografários, concorrendo em igualdade de condições com os demais credores quirografários em caso de liquidação ou falência da companhia. Com relação às segundas, os credores debenturistas serão, no mesmo caso, tomados em consideração após os credores quirografários, sendo preferidos apenas aos acionistas no ativo re- manescente, se os houver. 17 . 4 Criação e emissão Com fulcro no art. 59 da Lei n.O 6.404, a deliberação sobre emlssao de debêntures é da competência privativa da assembléia geral, que deverá fixar diversos pormenores, "observando o que a respeito dispuser o estatuto". 60 R.C.P. 2/86 À vista disso, chegamos às seguintes conclusões: a) a criação de debêntures s6 pode ser deliberada em assembléia geral extra- ordinária, convocada expressamente para tal fim; b) a assembléia se instala, em primeira convocação, com a presença de acionis- tas representando, no mínimo, 1/4 do capital social com direito a voto; c) a deliberação é tomada por maioria absoluta de votos dos acionistas pre- sentes, não se computando os votos em branco. A companhia poderá efetuar mais de uma emissão de debêntures, e cada emissão pode ser dividida em séries. Naturalmente, a cada emissão deverá cor- responder uma deliberação da assembléia geral, a qual deverá também fixar: 1. o valor da emissão ou os critérios de determinação do seu limite, e a sua divisão em série, se for o caso; 2. o número e o valor nominal das debêntures; 3. as garantias reais ou a garantia flutuante, se houver; 4. as condições de correção monetária, se houver; 5. a conversibilidade ou não em ações e as condições a serem observadas na conversão; 6. a época e as condições de vencimento, amortização ou resgate; 7. a época e as condições de pagamento dos juros, da participação nos lucros e do prêmio de reembolso, se houver; 8. o modo de subscrição ou colocação, e tipo das debêntures. 17. 5 Limites de emissão A Lei n.O 6.404, em seu art. 60, tomou mais flexíveis os limites de emissão de debêntures (ou obrigações), levando em consideração, além do montante do capital social, o valor das garantias e a espécie das debêntures. Estas admitem, portanto, com relação ao seu limite de emissão, quatro diferentes situações, a saber: 1. debêntures com garantia real. Sua emissão pode atingir o limite de 80% do valor dos respectivos bens gravados, próprios ou de terceiros; 2. debêntures com garantia flutuante. Sua emissão pode atingir o limite de 70% do valor contábil do ativo da companhia, diminuído do montante das suas dívidas garantidas por direitos reais; 3. debêntures sem preferência. Sua emissão pode atingir o limite representado pelo valor total do capital social da companhia; Sociedades An6nimas 61 4. debêntures subordinadas. Sua ermssao não está sujeita a qualquer limite, uma vez que os debenturistas, neste caso, só têm preferênciaperante os acionis- tas da companhia, na hipótese de liquidação ou falência desta última. 17.6 Escrituras e registros 17.6.1 Escritura de emissão Uma vez aprovada, pela assembléia geral extraordinária, a deliberação crian- do as debêntures, deve ser providenciada a respectiva emissão, a ser realizada mediante escritura pública ou particular, contendo - de acordo com o art. 61 da Lei n.O 6.404 - os direitos conferidos pelas debêntures, suas garantias, demais cláusulas ou condições, caso se trate de debêntures a serem distribuídas ou admitidas à negoclaçao no mercado, e a nomeação obrigatória de agente fiduciário dos debenturistas. 17 . 6.2 Registros Com base no art. 62 da Lei n.O 6.404, nenhuma emlssao de debêntures pode ser feita - sob pena de os administradores da companhia responderem por perdas e danos causados à própria companhia ou a terceiros - sem que tenham sido satisfeitos os seguintes requisitos: a) arquivamento, no registro do comércio, da atada assembléia geral extraor- dinária que deliberou sobre a emissão; b) publicação da mesma ata e da certidão de seu arquivamento nos termos do art. 289 (imprensa oficial e comum, uma vez); c) inscrição da escritura de emissão no registro de imóveis do lugar da sede da companhia, devendo os registros de imóveis, para tanto, manter livro espe- cial para inscrição das emissões de debêntures, no qual serão anotadas as con- dições essenciais de cada emissão; d) constituição das garantias reais, se for o caso. 17 . 7 Títulos representativos Após deliberada, em assembléia geral extraordinária, a emissão de debêntures, arquivada a respectiva ata na Junta Comercial, lavrada e assinada a escritura de emissão, e registrada esta última no registro de imóveis, devem os diretores da companhia providenciar a emissão dos certificados das debêntures. Esses certificados são títulos representativos - uma vez que as debêntures são parcelas ideais de um empréstimo_ e precisam de algo em que corporifi- car-se - e podem ser simples ou múltiplos. Títulos simples são os que repre- sentam apenas uma debênture, ao passo que os múltiplos representam duas ou mais debêntures. 62 R.C.P. 2/86 Os certificados de debêntures pod~. ser substituídos, desdobrados ou gru- pados. Temos a substituição qtiando 'um título é retirado e. inutilizado, sendo emitido outro em seu lugar, nas mesmas condições. Temos o desdobramento quando um título múltiplo é substituído por dois ou mais títulos, simples-ou também múltiplos, temos o grupamento (ou agrupamento) quando dois ou mais títulos, simples ou múltiplos, são substituídos por um único título múltiplo . . A escritura de emissão em que for noniéado um agente fiduciário dos deben- turistas deverá também conter as condições de substituição, desdobramento ou grupamento de certificados. 17 . 8 Modificações e extinções . Uma vez lavrada, assinada e registrada a escritura de emissão de debêntures, não podem mais ser modificadas suas cláusulas e condições, nem com a con- cordância do agente fiduciário dos debenturistas, o qual não tem poderes para tanto. ~ possível, porém, a substituição de bens dados em garantia, desde que tenha sido autorizada na escritura de emissão, e que com ela tenha concordado o agente fiduciário. . Em seu art. 55, § 3.°, a Lei n.O 6.404 autoriza a emissão de debêntures sem vencimento prefixado, com vencimento sujeito à ocorrência de determinadas condições, previstas na escritura e no título, tais como o inadimplemento da obrigação de pagar juros, a dissolução da companhia, ou outras • • " Em tal caso, as debêntures podem não ter vencimento nunca, ficando equipa- radas às ações no que concerne ao problema da consecução de liquidez. Em outras palavras, o debenturista .que quiser, nesta hipótese, reaver o capital em- pregado deverá transferir a terceiro, dentro ou fora da Bolsa de Valores, a propriedade dos respectivos títulos. A companhia. tem a faculdade de adquirir debêntures de sua emissão, desde que o faça por valor. igualou inferior ao nominal; devendo o fato constar do relatório da administração e das demonstrações financeiras, no fim do exercício social em que a aquisição ocorrer .. 17 . 9 Agente' fiduciário . . o agente fiduciário - cuja existência é obrigatória apenas nas emissõeS dis- tribuídas ou admitidas à'negociação no mercado - deve ser nomeado e aceitar a função na escritura de emissão das debêntures. Uma Ou mais pessoas,físicasou jurídicas, podem ser nomeadas para exercício da função de agente fiduciário. As' pessoas físicas devem residir no país e satis- fazer aos demais requisitos para o exercício de cargo em' órgão de administração da companhia (Lei n.O 6.404, art: 147). As pesroasjurídicas só podem ser instituições financeiras que, especiaimente' autorizadas pelo Banco Central do Brasil, tenham por objeto a administração ou à custódia de terceiros. ;' A eséritura dé emisSão deve estabelecer as condições de substituição ·e remu- neração do agente fiduciário, observadas as riormas expedidas. pela Comissão de Valores' Mobiliáriós '(CVM). A rémuneração deve, evidentemente" ser paga pela companhia emissora. Quanto à. substituição, é uma' figura ·.j1Jl'Ídica ,que Soc:iedatfes' Anônimas 63 ocorre quando, no lugar de determinada pessoa, outra passa a exercer as mesmas funções; pode apresentar-se sob a forma definitiva ou provisória. 17 . 10 Assembléia de debenturistas Assim dispõe o art. 71 da Lei n.O 6.404: "Os titulares de debêntures da mesma emissão ou série podem, a qualquer tempo, reunir-se em assembléia a fim de deliberar sobre matéria de interesse da comunhão dos debenturistas." A convocação deverá ser feita mediante anúncio publicado por três vezes, no mínimo, no órgão oficial da União ou do estado, conforme o lugar da sede da companhia, e em outro jornal de grande circulação editado no lugar da mesma sede. Conteúdo do anúncio: local, data, hora, ordem do dia e, no caso de modifi- cação nas condições das debêntures, a indicação da matéria. Local: o edifício-sede da companhia ou, em caso de impossibilidade, qual- quer outro escolhido dentro da mesma cidade. Convocante: agente fiduciário, conselho de administração ou diretoria da companhia emissora, grupo de debenturistas, representando 10% no mínimo dos títulos em circulação, ou a CVM. A primeira convocação deve ser feita com oito dias de antecedência, no mínimo, a contar da primeira publicação do anúncio; caso a assembléia não se realize, por falta de quorum, deve ser publicado novo anúncio, de segunda con- vocação, com antecedência mínima de cinco dias. Em primeira convocação, a assembléia só pode instalar-se com a presença de debenturistas representando, no mínimo, metade das debêntures em circulação; em segunda convocação, com qualquer número. Evidentemente, a assembléia será declarada instalada pelo convocante ou por um dos convocantes. Quanto aos participantes, só podem ser debenturistas da mesma emissão ou, ao menos, da mesma série. Os trabalhos da assembléia devem ser dirigidos por mesa composta de pre- sidente e secretário, escolhidos pelos debenturistas presentes, salvo disposição diversa da escritura de emissão. Em qualquer hipótese, o agente fiduciário (se houver) deverá comparecer à assembléia e prestar aos debenturistas as informa- ções que lhe forem solicitadas. No tocante às deliberações, temos dois tipos de quorum: o comum e o especial. Quorum comum é o que corresponde à maioria absoluta (50% mais um) de votos dos debenturistas presentes, cabendo a cada debênture um voto, e não se computando os votos em branco. Quorum especial, ou qualificado, é o que corresponde à metade das debêntures em circulação (ou, eventualmente, mais que a metade, conforme escritura de emissão), o necessário para a aprovação de modificações nas condições das debêntures. Dos trabalhos e deliberações da assembléia será lavrada, pelo secretário, em livro próprio, a ata a ser assinada pelos membros da mesa e pelos debenturistaspresentes: ata essa que poderá ser redigida em forma de sumário dos fatos ocorridos, e para cuja validade será suficiente a assinatura de debenturistas em R.C.P. 2/86 número bastante para constituir a maioria necessária para as deliberações to- madas na assembléia. 17. 11 Debêntures conversíveis em ações o art. 57 da Lei n.O 6.404 estipula que "a debênture poderá ser conversível em ações nas condições constantes da escritura de emissão". A escritura de emissão deverá especificar: 1. As bases da conversão, seja em número de ações em que poderá ser con- vertida cada debênture, seja como relação entre o valor nominal da debênture e o preço de emissão das ações. 2. A espécie e a classe das ações em que cada debênture poderá ser conver- tida. Quanto à espécie, as ações podem ser ordinárias, preferenciais e de fruição, de acordo com a natureza dos direitos ou vantagens que confiram a seus titu- lares. Ordinárias e preferenciais podem, por sua vez, ser divididas em classes, uma vez que os direitos ou vantagens podem, dentro da mesma espécie, ser atribuídos a todos os acionistas, ou em parte a uns e em parte a outros. Nem é preciso que haja equilíbrio entre os acionistas: podem alguns receber mais e outros menos direitos e vantagens. 1! justamente devido à diversidade de direitos e vantagens atribuídos aos acionistas, e à possibilidade, inclusive, de desequi- lt'brios entre os düerentes grupos que a escritura de emissão deve prever espécie e classe das ações em que cada debênture poderá ser convertida. Caso assim não fosse, os diretores da companhia, ou o acionista controlador, poderiam pre- judicar os debenturistas. E vice-versa: estes últimos poderiam aproveitar-se de circunstâncias favoráveis para destruir, parcial ou· totalmente, determinado equilíbrio de forças muito importante para o bom êxito da empresa. 3. O prazo ou época para o exercício do direito à conversão. 1! importantís- sima tal fixação, a fim de que os debenturistas não tenham a faculdade de pleitear a conversão imediatamente após o lançamento dos títulos. Não podemos perder de vista que emitir debêntures sigDÜica pedir empréstimo; a companhia deve, portanto, ter garantias de que o empréstimo permanecerá tal ao menos durante certo prazo. 4. As demais condições a que a conversão acaso fique sujeita. Pode-se perceber que a lei, após ter fixado algumas condições que devem constar necessariamente da escritura de emissão, deixa campo livre para a fixação de outras, desde que - evidentemente - não-contrárias às normas legais e aos princípios delas dedutíveis. 18. B6nus de subscrição 18.1 Conceito A nova Lei das Sociedades Anônimas (Lei n.O 6.404, de 15 de dezembro de 1976), nos arts. 75 a 79, criou e regulou título novo, chamado bônus de subscrição. Sociedades Anônimas 65 Com base nos dispositivos legais citados, podemos adotar a seguinte defini- ção: bônus de subscrição são títulos negociáveis, endossáveis ou ao portador, sem valor nominal e estranhos ao capital social. Conferem aos seus titulares direito de subscrever ações do mesmo capital social, dentro do limite de au- mento autorizado no estatuto. a) Títulos negociáveis. Uma vez adquiridos ou recebidos gratuitamente, os bônus de subscrição podem ser transferidos a terceiros. A transferência é livre: não depende do assentimento ou da intervenção da companhia, pode ser feita a qualquer título. Seu preço - caso haja - pode ser fixado pelas partes sem qualquer limitação, e pode ocorrer inúmeras vezes até o término do prazo esti- pulado no respectivo certificado. b) Endossáveis ou ao portador. Não podem ser, portanto, nem nominativos, nem escriturais. A propriedade do bônus endossável presume-se pela posse do título com base em série regular de endossos, mas o exercício do direito de subscrever requer a averbação do nome do proprietário no livro Registro de Bônus de Subscrição Endossáveis e no certificado; a transferência opera-se, em geral, mediante endosso no certificado, em preto ou em branco, datado e assi- nado pelo proprietário ou por mandatário especial. A propriedade do bônus ao . portador presume-se pela posse do título; a transferência opera-se por tradição. c) Sem valor nominal. O bônus de subscrição tem um valor, sem dúvida, tanto assim que ele pode ser transferido a título oneroso. Esse valor, porém, não consta do certificado. Também não consta do certificado qualquer outro valor, a não ser o preço de emissão das ações a subscrever, o qual, porém, nada tem a ver com o valor do bônus em si. d) Estranhos ao capital social. Conforme já foi examinado, a ação é uma par- cela do capital social da companhia; de forma que o seu detentor - o acio- nista - é em parte titular da respectiva empresa, ou, como se diz corriqueira- mente, ele é em parte dono da empresa. Ao passo que o bônus de subscrição não é parcela do capital social; seu detentor não é dono da empresa. Ele é apenas credor da companhia. Credor não de dinheiro, como o debenturista ou como o detentor de parte beneficiária; ele é credor de uma obrigação de fazer. e) Que conferem aos seus titulares direito de subscrever ações do mesmo capital social. O bônus de subscrição, ainda que tenha sido adquirido por um preço qualquer, só confere esse direito: o de subscrever ações do capital social da companhia. A subscrição deverá ser feita em condições normais, isto é, mediante o pagamento do preço de emissão das ações, independentemente do que já foi pago, porventura, pelo próprio bônus. De forma que o direito de subscrição deverá ser exercido mediante apresentação do título à companhia e pagamento do preço de emissão das ações, dentro do prazo estipulado no respectivo cer- tificado. Decorrido o'prazo, sem exercício do direito, o bônus perde o seu valor. f) Dentro do limite de aumento autorizado no estatuto. Não é qualquer com- panhia que pode emitir bônus de subscrição. Só pode fazê-lo a companhia de éapital . autorizado, e desde' que o aumento autorizado não se tenha esgotado. Verificado o esgotamento, a companhia deve, primeiro, providenciar nova auto- rização de aumento de capital; a seguir, poderá emitir bônus de sub~rição. R.C.P. 2/86 A deliberação sobre emlssao de bônus de subscrição' compete 'à "assembléia geral, se o estatuto não a atribuir ao conselho de administração. Naturalmente, considerando-se que ó órgão competente para deliberar sóbre asemissoos' de ações pode ser a assembléIa geráI ou o conselho dê administração; convém que o estatuto atribua as duas competências ao mesmo órgão. - ' Os acionistas da companhia gozarão de preferência para subscrever a emis- são de bônus. Tal preferência é indispensável, a fírii de que o acionista con- trolador ou os órgãos administrativos da companhia não possam servir-se da emissão de bônus para esvaziar a posição de alguns acionistas. 18 . 2 Certificado o certificado de bônus de subscrição será escrito em vernáculo e conterá as seguintes declarações: a) denominação da companhia .. sua sede e prazo de duração; b) o valor do capital social, a data do ato que o tiver fixado, o número de ações em que se divide e o valor nominal das ações, ou a declaração de que não têm valor nominal; , c) o li~ite de áutorizaçãp do aumento do capital social, em número de ações ou valor de capital; - d) o número de ações ordinárias e preferenciais das diversas classes, se houver, as vantagens ou preferências conferidas a cada classe e as limitações ou res- trições a que ás ações estiverem sujeitas; e) a denominação bônus de subscrição.; f) o número de ordem; g) o número, a espécie e a classe da.s ações que poderão ser subscritas, o preço de emissão ou os critérios para sua determinação" (a", fim de que o futuro subscritor não fique sujeito ao arbítno dos 6rgãos Ce 'administração da com- panhia, ou da maioria dos acionistas); h) a época em que o direito de subscrição poderá ser exercido e a data do término do prazo para esse exercício; i) a cláusula ao portador, se estafor a sua forma; j) o nome do titular e a declaração de que o título é transferível por endossO~ se endossável; k) a data da emissão do certificado eas assÍl'laturas de dois diretores. ,Aplica-se aos bônus de subsqrição,.no que couber, o que aLei n.O 6.404 dispõe a -respeito das ·aç6es,' quanto a certificados" propriedade e circulação; e constitUiçãO de êlireitos reais e outros bônus. Sócitdachs ""Anônimas 67 19. Constituição da companhia No que concerne à constituição da companhia, a nova lei manteve as normas contidas no Decreto-Iei n.O 2.627/40 e da Lei n.O 4.728/65, incluindo, entre- tanto, algumas alterações, dentre as quais destacamos: a) requisitos preliminares - o número mínimo de subscritores passa a ser dois, ao invés de sete; b) constituição por subscrição pública - à CVM é outorgado poder para vetar a formação de empresa com fundamento na inviabilidade ou temeridade do empreendimento, ou inidoneidade dos fundadores; c) formalidades complementares - o documento para transferência, por trans- crição, no registro público, dos bens com que o subscritor haja contribuído para formação do capital social, será a certidão, passada pelo registro do co- mércio, dos atos constitutivos da companhia, devendo a ata da assembléia geral de incorporação identificar o bem com precisão, autorizada sua descrição sumária quando for suplementada por declaração do subscritor que contenha os essenciais para a transcrição; d) livros sociais - são os mesmos exigidos pela legislação anterior (Decreto- lei n.O 2.627/40 e Lei n.O 4.728/65), feitos os acréscimos dos necessários ao registro e controle dos novos valores mobiliários criados. A substituição dos livros por registros mecanizados ou eletrônicos s6 poderá ser feita nas compa- nhias abertas e com observância das normas aprovadas pela CVM, não tendo vingado a emenda que propunha a extensão da medida às companhias fechadas, atento a que muitas delas têm grande número de acionistas. O agente emissor de certificado poderá ter escrituração simplificada; as c6pias dos extratos das contas de depósitos das ações escriturais e as listas dos acionistas serão enca- dernadas em livros autenticados no registro do comércio e arquivados na insti- tuição financeira depositária. Providência importante consta do art. 104, pará- grafo único, determinando dever da companhia no sentido de observar os prazos estabelecidos pela CVM, para os atos de emissão e substituição de cer- tificados e de transferências e averbações nos livros sociais. Ressalte-se que a sanção cominada - simples possibilidade de responder pelos prejuízos resul- tantes de atrasos culposos -, praticamente transforma a determinação em recomendação. 20. Acionistas 20. 1 Lei vigente A Lei n.O 6.404 reitera o mesmo princípio da irretratabilidade da obrigação do acionista de realizar a parcela do capital que subscreveu. A norma procura melhor explicar as condições de integralização, dizendo que tanto podem estar previstas no estatuto, como no boletim de subscrição. Essa distinção não logra, porém, esclarecer o procedimento. Isto porque, se o estatuto prevê condições de pagamento, essas mesmas condições têm de, neces- 68 R.C.P. 2/86 sariamente, ser reproduzidas no' boletim de subscrição. Este boletim é o instru- mento contratual que vincula irretratave1mente o seu signatário - subscritor ou acionista - ao pagamento das parcelas restantes. O que a norma tentou escla- recer é que o acionista se obriga, quando da constituição da companhia através do respectivo boletim de subscrição e após constituída, nas condições previstas no estatuto, se este contiver disposição a respeito. Por outro lado, a norma fala em ações subscritas ou adquiridas. Aqui, a lei quis explicitar a irretratabilidade da obrigação do adquirente das ações compra- das em leilão especial na Bolsa de Valores, bem como do comprador de ações não integralizadas. Com efeito, são diversas as figuras do subscritor que contrata a integralização diretamente com os fundadores ou com sociedade daqueles que adquirem essa mesma ação não integralizada do próprio acionista in bonis ou em mora. 20.2 Fundamento A norma tem como fundamento a garantia dos demais acionistas e de ter- ceiros que venham a relacionar-se com a sociedade, no sentido de que o capital subscrito será efetivameente integralizado. A parcela do capital ainda não integralizada constitui um crédito da sociedade e responde igualmente pelas obrigações sociais, da mesma forma que a parte já paga. Não pode, portanto, o acionista subtrair-se a essa obrigação, tampouco poderá a companhia liberá-lo do encargo, por isso que o capital social é, sobretudo, garantia dos credores. Não poderá, assim, o acionista arrepender-se da obriga- ção, nem a companhia com ele transacionar, sendo inaplicável na espécie o art. 1.025 do Código Civil, sob qualquer pretexto, nem mesmo a alegação de desnecessidade ou de prosperidade. Concluindo: o ato de subscrição é uma das cláusulas impostas pela lei, que integra o contrato plurilateral de constituição da companhia ou da sua altera- ção, quando dos aumentos de capital por subscrição. Com efeito, também nas subscrições posteriores de capital de companhias já definitivamente constituídas o caráter prejudicial ou preliminar da subscrição é idêntico. Também neste caso, a alteração do contrato social depende do preenchimento dos requisitos prejudiciais. 20.3 Natureza jurídica da integralização Quando a integralização não se completa no próprio ato de subscrição, sendo nesta oportunidade apenas parcial, há que se cogitar da natureza da obrigação que assume o subscritor de completar posteriormente o valor subscrito. A obrigação de integralizar decorre da subscrição. Porém, ao ser parcelada essa obrigação, destaca-se ela da própria subscrição, passando a caracterizar uma relação autônoma. Com origem no contrato plurilateral de constituição, de que a subscrição é uma das cláusulas, o encargo irrevogável de pagar o res- tante do valor subscrito cria uma relação, de caráter unilateral, de devedor e de credor, entre o subscritor e a companhia. Sociedades Anônimas 69 Advém, coÍnefeito,' a obrigáçao de Integralizar' de um' contrato de caráter unilateral, por isso que apenáS o subscritor se -obriga em facé da sociedade. O encargo de integralizar' em parcelas torna a compànhia exclusivamente credora e o acionista exclusivatneóte devedor. Apenas o subscritor contrai a obrigação, não havendo em contrapartida nenhuma obrigação da companhia. 20.4 Distinção entre subscritor e acionista Quando a lei fala da obrigação do acionista de integralizar, torna-se necessá- rio distingui-lo nitidamente da figura do subscritor. Subscritor é a pessoa natural ou jurídica que, tendo subscrito ações de uma companhia em constituição, adquirirá automaticamente a qualidade de acionis- ta, logo que esta se constitua definitivamente. Por sua vez, acionista é a pessoa natural ou jurídica que subscreveu ações de uma companhia já constituída. Portanto, o subscritor, para adquirir a qualidade de sócio, deve aguardar a constituição efetiva da companhia. Não há acionista sem sociedade, por isso que não pode haver relação jurídi- ca, no caso, entre um sujeito de direitos (subscritor) e uma entidade ainda não juridicamente personalizada (companhia em constituição). Numa sociedade constituenda, o subscritor faz uma promessa de integraliza- ção que lhe dá a vocação para se tomar sócio, a partir do momento em que a companhia se constitua. Porém é certo que essa promessa não lhe traz a quali- dade de sócio, se a companhia não estiver constituída, ou se, por qualquer mo- tivo, não vier a mesma a se constituir. Por outro lado, a promessa de integralizar a. parcela de capital subscrito so- mente se toma válida e, portanto, executível, uma vez constituída definitiva- mente a companhia que é a credora da obrigação assumida pelo subscritor. Este, ao assinar a promessa irrevogável de pagar em parcelas osaldo do valor subscrito, fá-la à sociedade constituenda e não ao fundador. Este último não entra na relação credor-devedor, que caracteriza o contrato unilateral celebrado entre o subscritor e a futura sociedade. 20.5 Falência do acionista Em caso de falência do acionista subscritor de ações não integralizadas, ca- berá à companhia diversas opções. A primeira é a de declarar o crédito no con- curso. A segunda, a de promover a execução contra os demais responsáveis pe- lo pagamento, se houver. Ademais, convém notar que não se vencem com a falência do acionista as prestações que faltam para a integralização das ações por ele subscritas. As mesmas são arrecadadas e vendidas como qualquer outro bem da massa falida. O adquirente, entretanto, ficará responsável pelo pagamento tanto das parce- las vencidas, anteriormente ou no curso falimentar, como das vincendas. O síndico poderá integralizar as paréelas faltantes da subscrição, se achar de conveniência para a massa o cumprimento dessa obrigação. 70 R.C.P. 2/86 ~O.~ Direito de v.oto Aíeiaiúar passou '"a 'Seguir, 'em matérià de 'voto, a'escola contratual da Common LaW. ,. . ,Cs>m" ~feitol_ no ,sist~a jU!Ídico anglo-8lllericano, o direito de voto, como as demais prerrogativas inerentes à qualidade de acionista, tem origem contratual. Daí resulta poder ~ titul~ da ação dispor do 9ireito de voto. Essa disponibilida- de traduz-se, no direito norte-americano, pela faculdade de representação dos acionistas por administrlJdores nas assembléias, bem como pelo instituto do trust. Através do contrato de fidúcia (trust), os acionistas cedem suas ações aos fi- duciários (trustees), os quais, após registrá-las em seus nomes que passam a exer- cer o direito irrevogável de voto pelo período de tempo pactuado, fazendo-o com discricionaridade cujo limite é a licitude. 20. 7 Cessão do direito de voto Em conseqüência da adoção do regime contratual, a Lei n.O 6.404 abandonou Q princípio de que o direito de voto é inerente à propriedade da ação. Assim sendo, podem os não-acionistas votar, na qualidade de procuradores dos proprietários das ações. Atribui a lei nova essa faculdade de voto apartada da titularidade acionária aos administradores da companhia e a advogados. Nas companhias abertas, es- tende-se a prerrogativa às instituições financeiras. Ademais, a nova lei induz essa cessão do direito de voto a favor das institui- ções financeiras, ao atribuir às mesmas, juntamente com as bolsas, o monopólio dos serviços de agente emissor de certificados, de administradores de ações es- criturais, de custódia de ações fungíveis e de emissão de certificados de depósi- to de ações. 20.8 Indivisibilidade de voto o voto não pode ser dividido. Ele é sempre único, qualquer que seja Q número de açõés. Assim, a cada ação corresponde um voto, mesmo no caso de condomí- nio. Cabe, nesta hipótese, ao representante do condomínio o voto, pois este não pode ser exercido em comum. ' 20.9 Voto e titularidade das ações Em regra, o titular do direito de voto é o proprietário da ação. Tal princípio, no entanto, pode tomar-se convencionalmente relativo, quando sobre as ações são. constituídos direitos reais e outros ônus. Expressamente reconhece a lei vigente que o penhor da ação não impede o acionista de exercer o direito de voto. :e; no entanto, lícito que, por convenção Sociedades . Anônimas 71 entre o credor e o devedor, não possa o acionista-devedor ou garantidor votar sobre determinadas matérias sem o consentimento do credor pignoratício. Portanto, no silêncio da convenção, o direito de voto é plenamente exercido pelo acionista devedor pignoratício. A reserva legal do voto pleno ou com restrições convencionais ao seu exer- cício por parte do acionista devedor pignoratício leva em conta o princípio de que o voto inspira-se no interesse social e o seu exercício é, portanto, inseparável da qualidade de acionista. No usufruto constituído sobre ações nominativas endossáveis e escriturais, o direito de voto será exercido conforme o convencionado no ato de constitui- ção do gravame. Se, na convenção, nada for estipulado a respeito, será o voto exercido mediante prévio acordo entre o proprietário e o usufrutuário. No fideicomisso, o direito de voto compete ao fiduciário e não ao fideicomis- sário, porque aquele assume as vestes do proprietário, durante a vigência da fidúcia. Na alienação fiduciária em garantia, o credor também não poderá exercer o direito de voto, cabendo ao devedor fazê-lo, dentro dos estritos termos do con- trato. Neste, com efeito, será possível estabelecer que é vedado ao acionista-deve- dor, sem consentimento do credor, votar em certas deliberações. No condomínio de uma ação ou de um lote de ações, como já aludido, o voto é exercido pelo representante do condomínio, condômino ou não, obedecendo, nesse mister, às regras especiais do mandato. Nos acordos de acionistas, o voto é exercido pelo proprietário da ação ou por seu representante. Em se tratando de mandato para votar nos termos do acordo de acionistas, este não pode ser irrevogável. Se isto fosse admissível, haveria, na hipótese, uma cessão absoluta do direito de voto, o que não é ad- mitido, em nosso direito vigente. 20.10 Voting trust o voting trust é uma instituição consagrada nos EUA, após ter sido ali con- siderada ilícita, durante determinado período. Pela cessão fiduciária da propriedade das ações, o trustee assume obrigações para com o acionista que, em contrapartida, recebe destes os trust certificates, que são títulos negociáveis. Ainda que, no Brasil, seja de difícil aceitação o complicado instituto do voting trust, nada impede que se estabeleça um negá- cio fiduciário simples, em que constará como proprietário o fiduciário, regis- trando-se devidamente o contrato junto à companhia. Evidentemente que tal convenção terá prazo determinado, devendo, ademais, o fiduciário exercer o direito do voto com estrita observância do interesse so- cial. Além disso, é de seu estrito dever votar consoante a posição das ações no colégio acionário, notadamente em se tratando de ações minoritárias, não per- tencentes, portanto, ao grupo controlador. Todas as prerrogativas do voto mi- noritário, neste caso, devem ser exercitadas. 72 R.C.P. 2/86 20. 11 Cessão de direito de voto A Lei n.O 6.404 passou a admitir a cessão do direito de voto, expressamente vedada no direito anterior. Para se configurar melhor a cessão do direito de voto, será necessário lem- brar o princípio vedatório que informava o nosso direito antigo. 21. Acionista controlador 21 . 1 Lei vigente A Lei n.O 6.404 fundamenta-se, no que respeita à estrutura do poder e às re- lações entre acionistas e a companhia, na figura do controlador. Define esta lei o acionista ou grupo de acionistas que deve dominar a com- panhia. Abandona, por outro lado, o crédito quantitativo do capital investido na sociedade como suscetível de configurar esse domínio, na medida em que cerceia o voto a grande contigente de acionistas, ao vedar o seu portador. Re- tira, assim, a soberania efetiva da assembléia geral, já que reduz drasticamen- te o colégio eleitoral que a compõe, o qual praticamente se constituirá apenas dos próprios controladores. Essa ideologia, inteiramente diversa daquela que informou o antigo diploma, funda-se no princípio da dominação societária independentemente do risco de inversão de capital. A quantidade de capital subscrito em ações não mais coincide com a quan- tidade de ações necessárias à formação da maioria na assembléia geral, onde não votam os acionistas rendeiros e especuladores, presumivelmente titulares de ordinárias ao portador. Supera-se, dessa forma, aquilo que se denomina de soberania abstrata da as- sembléia geral, fazendo com que o verdadeiro protagonista da atividade empre- sária seja identificado e como tal passe a atuar na sua condição especial e in- confundível de mando societário. O poder sobre a companhia toma-sepersonalizado. Dá-se a esse grupo uma série de prerrogativas de mando que são auto-homologadas pela assembléia ge- ral, que, em última instância, é constituída pelos próprios controladores. Por outro lado, a Lei n.O 6.404 define os deveres e as responsabilidades des- se grupo autocrático que governa a sociedade. Para contrabalançar essa forma oligárquica de poder na companhia, a lei nova, bem mais que a anterior, outorga aos acionistas minoritários uma série de direitos específicos de informação, fiscalização e de ação frente aos adminis- tradores e aos próprios controladores. Esses direitos constituem uma forma de compensar a retirada do direito de participação - ainda que minoritária - na discussão e deliberação da política da companhia, que se proporcionava na as- sembléia geral, através do voto. Nas figuras nitidamente diversas do majoritário e do acionista controlador apresentam-se as estruturas também diversas do Decreto-Iei n.o 2.627, de 1949, e da Lei n.O 6.404, de 1976. Sociedades Anônimas 73 21.2 Noção de controle societário Controle societário pode ser entendido como o poder de dirigir as atividades sociais. Essa noção tem sentido material ou substancial e não apenas formal. As- sim, o controle é o poder efetivo de direção dos negócios sociais. Não se trata, portanto, de um poder potencial, eventual, simbólico ou diferido. E controlador aquele que exerce, na realidade, o poder. Internamente, medi- ante o prevalecimento dos votos. Externamente, por outros fatores extra-societá- rios. Controlar uma companhia, portanto, é o poder de impor a vontade nos atos sociais e, via de conseqüência, de dirigir o processo empresarial, que é o seu objeto. Há um sentido dinâmico nesse poder que transcende o caráter meramente pa- trimonial de disponibilidade dos bens, próprio do direito das coisas. A noção de controle está evidentemente ligada aos negócios societários e ao procedimento empresarial que decorre da consecução do seu objetivo. Ainda que o controlador não possa dispor dos bens como um proprietário, todas as decisões societárias e a atividade empresarial dependem de sua vontade, mani- festada de forma permanente. Essa noção de controle ajusta-se à corrente institucionalista da empresa em si, que entende ser a companhia a técnica que permite governar a empresa. E essa técnica determina o procedimento da nomeação das pessoas que governam a empresa. E ainda essa mesma técnica que exprime a possibilidade dos contro- ladores de dirigir os negócios sociais como patrões absolutos. E o faz permi- tindo que os órgãos sociais estejam a serviço do exercício desse mesmo contro- le. E o caso da assembléia geral. Com efeito, em face da redução do quorum na prática ao número de ações possuídas pelos controladores, a assembléia geral perdeu completamente o seu caráter de órgão soberano. Limita-se, em vista da hegemonia dos controladores, a declarar os procedimentos periódicos e modificativos do pacto social, tais co- mo a nomeação e destituição dos administradores, alteração do capital social etc. E, portanto, o controle "a possibilidade" de uma ou mais pessoas imporem a sua decisão à assembléia geral da sociedade. Em relação aos demais acionistas, o controle apresenta-se como o poder de decidir por outrem, produzindo efeitos na esfera patrimonial destes, decorren- tes dos resultados da gestão societária. No caso patrimonial, portanto, o exercí- cio do controle produz, quanto aos não-controladores, efeitos indiretos, incidin- do sobre o patrimônio dos mesmos. Produz, obviamente, efeitos diretos sobre o patrimônio da própria companhia. O controle deve ser ativo e não passivo, não se confundindo, pois, nesse novo contexto, com o acionista majoritário, que se limita a arriscar seu investimento pessoal em ações da companhia, sem, no entanto, exercer poder efetivo sobre ela. O controle não se tràduz por atos isolados, mas, sim, por uma situação que se caracteriza por relativa estabilidade. O controle existe e funciona como si- tuação cuja determinante essencial é o poder permanente e concentrado em 74 R.C.P. 2/86 lJl.ãos de um ou de determinado grupo de acionistas. Trata-se :de um poder in- dividualizado. - . 21 . 3 Conceito legal de controle A Lei n.O 6.404, ao conceituar o acionista controlador, admite apenas a for- ma interna de dominação, e não a externa, como o fazem algumas legislações. Ao impor como requisito da caracterização do controlador a titularidade dos direitos de sócio, exclui a lei o controle gerencial e o externo. Outro requisito é de que o acionista tenha assegurado de modo permanente dois atributos de poder: a maioria de votos nas deliberações da assembléia geral e o poder de eleger a maioria dos administradores. Esses dois atributos não podem ser enten- didos como cumulativos, já que se pode ter o controle interno da companhia exercendo apenas um deles. Assim, é possível que os sócios titulares de determinadas classes de ações, nas companhias fechadas, tenham o poder de eleger a maioria dos administra- dores. E, nas companhias abertas, podem alcançar esse poder mediante acordo de acionistas. Esse poder de nomeação pode não vir acompanhado de outras prerrogativas de controle consubstanciadas em outras matérias suscetíveis de deliberação da assembléia geral e do conselho de administração. Portanto, bas- ta que haja o poder de eleger a maioria dos administradores para que se cara- cterize o controle interno da companhia. E é suficiente que, por outro lado, haja prevalência da vontade de um grupo, nas demais deliberações societárias, para que também a caracterização de controle se estabeleça. . No entanto, há um terceiro requisito, que, embora complementar dos outros dois, é fundamental para que se identifique o ,<ontrole. Trata-se da efetividade na condução dos negócios sociais e, conseqüentemente, no funcionamento dos 6rgãos da companhia. J! claro que o primeiro tipo de poder - condução dos negócios sociais - induz ao segundo, ou seja, orientação no desempenho dos ór- gãos da companhia. 21.4 Critério legal de permanência - Resolução n.O 401 do Banco Central O legislador, ao impor o requisito de permanência do poder decisório nas deliberações da assembléia geral, filiou-se às lições doutrinárias que excluem do conceito de controle o voto decisivo meramente episódico, eventual, futu- ro e difuso. 21.5 Responsabilidades 21.5.1 Lei vigente A Lei n.O 6.404, ao instituir a figura do controlador, faz desaparecer o prin- cípio de igualdade de todos os acionistas,' já que são eles separados em catego- rias, com direitos diversos. Jj~edades Anônimas 75 Desaparece, dessa forma, o pnnclplo democrático de idêntica responsabi- lidade de todos os titulares de ações ordinárias. 21 .5.2 Nítida divisão de responsabilidades Divide-se agora a responsabilidade dos acionistas em duas esferas: a dos acionistas em geral, inclusive a dos minoritários, pelo exercício abusivo do voto; e a dos acionistas controladores, pelo exercício abusivo do poder ou domínio da companhia. A lei vigente exclui, portanto, a minoria deste último ônus, uma vez que esta carece de atribuições de mando. 21 .5.3 Subversão do conceito de interesse coletivo dos sócios Na Lei n.O 6.404, o conceito de interesse coletivo dos sócios já não preva- lece. Isto porque não há igualdade de todos os acionistas no tocante ao interes- se fundamental de direção social. Há os controladores que possuem direitos políticos que lhes dão o domí- nio dos 6rgãos de deliberação e de execução da companhia, como seja, a assem- bléia geral, o conselho de administração e a diretoria. Esse domínio lhes é, com exclusividade, propiciado pelo próprio monopólio legal do voto. E há os demais acionistas que não têm direitos políticos e que são estruturalmente considerados credores da companhia, por isso, inclusive, a lei lhes garante um dividendo obrigat6rio. Subverte-se, dessa forma, o conceito clássico de interesse coletivo. Isto por- que o podernão mais se funda no princípio majoritário do capital social. O controle não se origina da coletividade de acionistas, mas da categoria que tem a prerrogativa do voto. A estrutura societária fundada no princípio do controle desfaz praticamente o conceito de interesse coletivo dos acionistas. Efetivamente, este é substituído pelo conceito de interesse de categoria de acionistas. 21 .5.4 Requisitos para caracterização da responsabilidade O fundamento da responsabilidade do controlador é a sua conduta na di- reção dos negócios sociais e empresariais. Em primeiro lugar, deve o acionista, para incidir na responsabilidade, ser efetivamente o controlador interno da companhia, tal como definido no art. 116 da lei. Não se trata propriamente de matéria de prova, pois a posição do controlador interno da companhia torna-se evidente, ou não, ao aplicar os pa- drões claramente estabelecidos pela pr6pria lei. 21.5.5 Prova do dano Para a responsabilização, exige-se a prova do dano efetivo patrimonialmen- te ressarcível. Razão por que deve a lesão ser concreta e atual, e não eventual, possível, hipotética ou futura. 76 R.C.P. 2/86 Dessa forma, mesmo que o controlador tenha agido dentro de uma das mo- dalidades previstas como abuso de poder, se não houve dano concreto, não será ele responsabilizado. O dano, portanto, deve ser provado. 21. 5. 6 Abuso do poder o terceiro requisito necessário à configuração da -responsabilidade do acio- nista que exerce o controle é o de que o ato tenha sido praticado com abuso de poder. Trata-se evidentemente de matéria de difícil caracterização legal, cabendo ao judiciário ou à CVM declarar as formas de abuso, tendo como parâmetro os padrões enunciados na forma. 21 . 5 . 7 Abuso e desvio de poder e abuso de direito Tanto o abuso de poder, como o desvio de poder, ou, ainda, o já comentado abuso de direito são conceitos novos no campo do direito privado, não sendo, conseqüentemente, matéria pacífica na doutrina. As três espécies de antigüidade, evidentemente transpostas do direito público, têm como fundamento a conduta do agente. Daí defmirem os autores a matéria a partir desse enfoque subjetivo. O abuso de direito dar-se-ia quando alguém, no exercício ou no uso de seus direitos subjetivos, desvirtuasse, sem motivo legítimo ou com inobservância do princípio de boa fé, a finalidade econômica ou social do instituto jurídico de que deriva o seu direito. Cabe ao agente indenizar os prejudicados, quer pessoas, quer a própria comunidade. O desvio de poder ocorreria quando o agente, embora observando as for- malidades e não cometendo violação alguma expressa em lei, exercesse o seu poder com finalidade diversa daquela para a qual lhe foi conferida essa prerrogativa. Trata-se, com efeito, de figura típica do direito público. Enten- de-se configurado o abuso de poder quando o agente não exerce com modera- ção a prerrogativa que lhe é legalmente atribuída, fazendo-o contrariamente ao interesse de terceiros e com o objetivo de causar-lhes danos, seja cercean- do-lhes o exercício de seus direitos, seja visando a alcançar, com o abuso, enriquecimento ilícito ou vantagem sem justa causa. 21 . 5 . 8 Abuso do poder do controlador A figura do abuso do poder engloba as duas outras categorias, sendo uma forma qualificada das mesmas. ~ neste que se insere o comportamento ilícito e danoso do controlador, na medida em que é ele titular de um direito que lhe outorga poder, suscetível, por ato ilícito seu, de ser desviado ou abusiva- mente exercido. O abuso do poder de controle resulta da causa ilegítima de decisões toma- das com a única finalidade de prejudicar uma categoria de acionistas ou para satisfazer aos interesses exclusivamente pessoais de alguns deles. Nessa hipó- Sociedades Anônimas 77 tese, o controle é desviado de sua finalidade legítima que é assegurar a acUiDu- lação do patrimônio social e a prosperidade da empresa. Em conseqüênCia, o abuso do poder de controle, que engloba as outras duas categorias, caracte- riza-se pela prática de uma infração no exercício da prerrogativa legal de con- trole. 22. Acordo de acionistas 22.1 Natureza jurídica Muito se discute acerca da natureza jurídica dos acordos de acionistas. Há os que entendem tratar-se de sociedade civil, ° que não é admissível, não s6 pelo formalismo desse instituto, como também pelo fato de não haver, na es- pécie, qualquer apport de capital ou de indústria que justifique tal natureza jurídica. Outra doutrina - em geral aceita - atribui-lhe a natureza do contrato pluri- lateral, tendo em vista que o fim perseguido é único e comum, no momento da constituição da avença. Rúbio, além de apontar-lhes a natureza plurilateral, inclui os acordos de acionistas entre os contratos de organização econômica. Para outros, o acordo de acionistas não alcança as características de contra- to. sendo ato coletivo e complexo. Outra escola atribui à avença natureza sui generis, na medida em que seria uma associação com elementos atípicos mui- to especiais, porém próximos daqueles da sociedade. E, ainda, há o entendimento de que os acordos de acionistas são contratos parassociais ligados ao contrato principal de sociedade por um vínculo de acessoriedade. E, finalmente, poderá ser um contrato plurilateral, bilateral ou mesmo uni- lateral conforme estejam colocados os interesses dos acionistas no respectivo contrato. A razão está com este último entendimento, já que, sendo o acordo de acio- nistas suscetível de disciplinar diversos interesses, sua natureza contratual há de se amoldar às posições e objetivos das partes, em cada caso. Assim, será plurilateral quando todos os convenentes perseguem o mesmo escopo, a conquista ou a manutenção do controle: defesa da posição ';! das prerrogativas minoritárias etc. Será bilateral se houver duas partes ou centros de interesses e obrigações opostos. E o caso de direito de prelação na aquisição de ações instituído pelo grupo controlador a favor do grupo minoritárío ou vice-versa. Ou, então, quando se compromete o grupo controlador a eleger dois representantes do grupo mino- ritário no conselho de administração, se os componentes deste grupo também votarem naqueles que forem indicados e eleitos pelos controladores. Poderá, ainda, o acordo de acionistas ser unilateral, se dele surgirem obriga- ções para uma única parte, como na obrigação do controlador de dar prefe- rência na aquisição de suas ações ao grupo minoritário ou se a obrigação for unilateralmente inversa, o que é muito comum na prática societária. 78 R.C.P. 2/86 Temos, pois, que o acordo de acio~ éde natureza contràtual,' podendo revestir-se das espécies plurilateral, bilateral ou unilateral, conforme os inte- resses e as obrigações. assumidas . pelos aciobÍstas contratantes. Os acordos de aCionistas, notadamente nô que se refere às convençãesde voto, constituem um sucedâneo do absentefsmo dos -acionistas. Podem, ainda, assegurar estabilidade à administração da companhia ou per- mitir aos sócios minoritários, mediante a aglutinação de suas ações, fazer sentir a sua opinião nas decisõe~ societárias. 23. Assembléia geral 23 . 1 Fundamento da assembléia geral A assembléia geral tem como fundamento formar a vontade do grupo a partir das vontades individuais. Para tanto, pressupõe uma confrontação de interesses. Não é, portanto, a assembléia geral mera consulta aos acionistas, como ocorre com o voto por correspondência. O conc1ave proporciona um conflito de idéias através da discussão das maté- rias pelos presentes, com possibilidade de surgirem explicações e apreciações do mérito das propóstas. E o instrumento eficaz que tem o acionista de confrontar suas opiniões com a dos demais. E, com efeito, na assembléia geral que pode ocorrer troca de pontos de vista e, assim, a intervenção minoritária. Esta tem seu peso nas decisões, na medida em que, ao argüir as questões propostas, não se considere a sua participação no capital,mas, principalmente, o seu poder de persuasão e a justeza de seus argumentos. Diferentemente, portanto, do voto por consulta, que isola os acionistas, a deliberação em assembléia geral os reúne para formar a vontade coletiva. 23 . 2 Definição da assembléia geral A assembléia geral é a reunião de acionistas na sede da companhia, devida- mente convocada e instalada com quorum regulamentar, determinado pelo per- centual de ações votantes, para deliberar por maioria absoluta dos votos pre- sentes sobre assunto de sua competência. Temos, assim, que é necessário e suficiente, para o comparecimento na assembléia geral, ser acionista. Não há reunião válida sem prévia convoca- ção - apenas dispensada se houver acionistas representando a totalidade do capital social. A reunião realiza-se em local predeterminado. Há diversos pro- cedimentos para a instalação que só se efetiva, se houver quorum mínimo, representado pelo capital votante e que varia ratione material. Além do quorum de instalação, há também o quorum de deliberação que corresponde à maioria absoluta dos votos presentes ao conclave. E, finalmente, as matérias determinadas em lei são de competência privativa da asembléia geral. Sociedades Anônimas 79 23.3 Características da assembléia geral A assembléia geral, em nosso direito vigente, continua sendo órgão neces- sário, que não pode faltar em nenhuma companhia, nem ser substituído, quanto à sua competência e funções, por qualquer outro. Trata-se, ainda que formalmente, de órgão supremo e soberano da compa- nhia, uma vez que seu poder não emana nem deriva de nenhum outro órgão. t evidente que tais atributos, originados de conceitos da teoria política, são bastante relativos, notadamente no que respeita à soberania. Isto porque, em- bora as decisões da assembléia geral sejam incorrigíveis, podem acarretar, em certas hipóteses, dissidência, não vinculando, pois, necessariamente, todos os acionistas. Por outro lado, a assembléia geral é um órgão interno da companhia, já que não tem poderes de representação. Suas decisões são executadas pela diretoria. Não é a assembléia geral um órgão permanente. Instala-se, ao menos, uma vez por ano e a qualquer tempo, quando excepcionalmente convocada. 23.4 Natureza jurídica da assembléia geral A assembléia geral é um órgão integrante do regime de organização interna da companhia, estabelecido por lei, com funções deliberativas e de verificação da legalidade dos órgãos de administração social. Forma com a diretoria, o conselho de administração e o conselho fiscal os órgãos necessários da com- panhia. O conselho de administração só não será obrigatório em companhias fechadas, com regime de capital fixo. Não é a assembléia mandatária legal da sociedade, pois não representa a von- tade de uma outra pessoa. Suas deliberações exprimem a vontade da própria companhia. Não tem a assembléia geral, com efeito, qualquer representação, como já se viu, sendo sua vontade representada pela diretoria. A assembléia geral é, por- tanto, um órgão da sociedade, definido como o conjunto de pessoas a quem a lei atribui, mediante determinados procedimentos, o encargo de formar a vontade eficaz. Trata-se de um órgão cuja vontade é oponível diretamente aos demais órgãos sociais e aos acionistas individualmente e externamente, perante terceiros em geral, mediante representação da diretoria. Constitui, portanto, um órgão corporativo que forma a vontade social pela fusão das vontades individuais. Órgão formado de acionistas, a assembléia geral decide os assuntos sociais, manifestando a vontade da companhia. t, conseqüentemente, órgão deliberativo e não administrativo. Não lhe cabe representar ou gerir a companhia. 23 . 5 Eleição de administradores e fiscais A competência privativa da assembléia geral refere-se efetivamente à eleição e à destituição dos membros do conselho de administração e os do conselho 80 R.C.P. 2/86 fiscal. Quanto à diretoria, somente competirá à assembléia de acionistas as funções de colégio eleitoral, em se tratando de companhia fechada com capital fixo e, mesmo assim, quando o estatuto desta não instituir conselho de admi- nistração, como lhe faculta a lei. A eleição dos administradores e fiscais pela assembléia geral far-se-á nos períodos estabelecidos pelo estatuto, salvo se o titular do cargo vier a ser demi- tido antes do prazo do mandato, ou ficar impedido de exercer suas funções, inclusive no caso de propositura de ação de responsabilidade contra ele. A eleição dar-se-á em assembléia geral ordinária, mesmo se fora dos prazos previstos, no estatuto, para a sua realização, tendo em vista o regime de com- petência por matéria adotado pelo novo diploma. A lei não exige quorum espe- cial para a eleição dos administradores e fiscais. Entretanto, o estatuto da companhia fechada poderá exigir maior quorum para essa deliberação. 23 . 6 Requisitos para a convocação Dois requisitos fundamentais devem ser cumpridos para a convocação eficaz da assembléia geral. Primeiro, é necessário que a medida seja de iniciativa de órgão ou de pessoa competente. Em segundo lugar, deverão ser cumpridos rigo- rosamente os procedimentos de publicidade e os demais previstos na lei. 23 . 7 Legitimidade para convocação Tendo como fundamento evitar a realização de assembléias gerais inúteis e mesmo contrárias ao interesse social, a lei estabelece uma hierarquia de com- petências sucessivas para a convocação do conclave de acionistas. Há, assim, uma competência principal que cabe aos órgãos da administra- ção - conselho de administração -, ou inexistindo este órgão, aos diretores. Caberá substitutivamente ao conselho fiscal convocar a assembléia geral ordi- nária, se os órgãos da administração retardarem por mais de um mês essa con- vocação. Atribui-se também substitutivamente a qualquer acionista a compe- tência para convocar a assembléia geral ordinária, no caso de os administradores retardarem por mais de 60 dias a sua convocação. Também haverá competência subsidiária de qualquer acionista, para convocar assembléias extraordinárias previstas em lei, como a que deve deliberar sobre incorporação de ações para constituição de subsidiária integral ou, então, as que devem ser realizadas para a formalização e conclusão de operações de fusão, incorporação ou cisão. Neste caso de assembléias extraordinárias, não haverá preferência de ordem a favor do conselho fiscal, já que este tem competência substitutiva apenas para a convocação de assembléia geral ordinária. E, finalmente, caberá aos acionistas que representem, no mínimo, 5% do capital votante, a competência substitutiva para convocar o conclave, se não forem atendidos no Pedido que fizerem aos administradores com respeito à assembléia geral extraordinária, tendo como objeto matéria de interesse rele- vante para a companhia. sOciedades· Anônimas 81 23 .8 Fundamento da convocação A exigência legal da convocação tem como fundamento possibilitar a pre- sença, na assembléia geral, de qualquer acionista que se interesse pelos negócios sociais, notadamente os não-controladores e, ainda, aqueles titulares de ações preferenciais sem direito a voto, bem como os titulares de ações ordinárias ao portador, às quais a lei cassou tal prerrogativa. 23 . 9 Quorum de instalação e de deliberação Ao contrário de outras legislações, a lei brasileira estabelece diferentes exi- gências de quorum para a instalação da assembléia geral e para a deliberação eficaz nela tomada. Estabelece diferentes graduações de quorum de instalação, conforme sejam as assembléias gerais ordinárias ou extraordinárias. Para as ordinárias, o quorum de instalação é o previsto no artigo. Já para a reunião extraordinária, a lei exige a presença de acionistas que representem 2/3, no mínimo, do capital votante, para que seja o conclave instalado em primeira convocação. Com rela- ção à segunda convocação, vale a regra geral de instalação com qualquer número.23.10 Verificação e manutenção do quorum o quorum de instalação será verificado através do lançamento das assinaturas no livro de presença de acionistas, após provarem a sua qualidade, consoante as normas estabelecidas no art. 126 da Lei n.o 6.404. Esse quorum registrado no livro de presença deve subsistir durante toda a reunião e manter-se no momento da votação. Por conseguinte, a exgiência de quorum não deve ser apenas satisfeita na instalação da assembléia, mas mantida e, portanto, respeitada durante todo o curso das deliberações. Poderá, inclusive, ser verificado o quorum a qualquer momento durante o conclave, por solicitação da mesa ou de qualquer acionista, com ou sem direito de voto. E mesmo aconselhável que seja constatada a presença mínima pela mesa a cada deliberação. E indispensável à eficácia das deliberações que o quorum mínimo seja man- tido. Se, em qualquer momento, acionistas com direito a voto decidirem se ausentar, deverá a mesa recontar as ações votantes remanescentes para verifica- ção da permanência de quorum mínimo. Se dessa retirada de acionistas resultar menor número de ações votantes do que o exigido por lei, a assembléia será imediatamente suspensa, deixando, portanto, de discutir e deliberar sobre os restantes itens da ordem-do-dia. 23 . 11 Instalação sem o quorum legal Instalada sem o quorum, legalmente exigido, a assembléia geral será formal- mente nula. Essa nulidade do próprio ato de reunião dos acionistas é diversa daquela outra que fulmina as deliberações contrárias à lei e ao estatuto. 82 R.C.P. 2/86 Quando a instalação é in'egular o PJ;Óprio conclave é nulo, ainda que quanto ao conteúdo as delibereçéies· po$sam. estar conforme a lei eo estatuto. Tais deliberações. não têm qualquer v~lidade, portanto, em face do vício formal na constituição da vontade social que simplesmente inexistiu na hipótese. 23.12 Fundamento o regime legal de quorum de instalação fundamenta-se especialmente na eficácia do direito do acionista de participar da assembléia geral, para nela simplesmente conhecer e discutir as matérias, como também sobre elas votar. Ainda que a assembléia geral seja um órgão deliberativo colegiado com a obrigação de decidir assuntos do interesse social em qualquer circunstância, dentro de sua competência, não se pode negar a evidência que para a formação dessa vontade coletiva deve haver, pelo menos, numa primeira tentativa,. a aglu- tinação de um valor significativo do capital social representado pela presença dos respectivos titulares. Se intransponível o absenteísmo, numa segunda tentativa, essa vontade social será expressa de qualquer forma por aqueles acionistas detentores de qualquer percentual que se dispuserem a declará-la. E essa declaração, de qualquer forma, deve exprimir o consenso tanto dos que votam como dos que, destituídos desse direito, participam nas discussões, influenciando com suas opiniões a vontade coletiva majoritariamente expressa. Daí o direito de voto ser distinto daquele de participar da assembléia geral e tomar parte na discussão. O direito de participar é prerrogativa de todos os acionistas, sendo, por outro lado, obrigação daqueles que cumulando as atri- buições de acionista e as funções de administrador ou fiscal devem comparecer ao conclave para esclarecer e mesmo debater e discutir as questões em pauta. Mesmo sem voto, o acionista deve participar das discussões da assembléia geral, confrontando interesses, discutindo as matérias, tendo, assim, possibili- dade indireta de determinar o interesse comum e atual da companhia. ~ através desse meCanismo que a vontade social emana da coletividade dos associados. ~ com o concurso do acionista sem direito de voto que se pode muitas vezes melhor conduzir os interesses sociais, seja quando esclarece pon- tos duvidosos· ou contribui com a sua experiência nos negócios empresariais; seja, ainda, quando formula seus protestos, objeções e propostas que inibem o eventual desvio e abuso de poder dos controladores nas decisões da assembléia geral. 24. Ata da assembléia 24 . 1 Lei vigente O direito vigente também se filia ao pnnClplO documental da assembléia, baseado na lista de presença e na ata formal da reunião dos acionistas, que devem cºDstar dos livros· próprios, não adntitindo, portanto, os respectivos as- sentamentos em documentos ou folhas apartadas ou soltas. Sociedades Anônimas 83 E quanto ao regime de declarações da ata, não só adota a forma sintética, como exacerba profundamente esse regime, ao instituir a ata sumária. Assim, temos que a ata, por deliberação majoritária, poderá ser lavrada sem que dela conste o inteiro teor dos protestos e representações de acionistas. A iniqüidade desse sistema de ata sumária foi reiteradamente apontada, durante a tramitação do projeto e agora, após a promulgação da lei, por um dos grandes comercia- listas brasileiros. A lei vigente traz outra inovação. Quando a ata não for sumária - e s0- mente nesta hipótese - poderá a administração publicar apenas o seu extrato. Trata-se, igualmente, de preceito lesivo aos interesses dos acionistas mino- ritários. A lei mantém o regime de publicidade, porém com essas restrições que impedem que a ata reflita, ainda que sinteticamente, os trabalhos da assem- bléia. O princípio da informação toma-se relativo, já que se submetem os tra- balhos à censura prévia dos controladores. Estes, na prática, não admitem que os acionistas ausentes possam valer-se da publicação da ata para conhecimento e defesa de seus direitos frente aos administradores e aos próprios controladores. Mantém a lei o princípio do direito anterior de exigir que a ata, para ser legítima, leve a assinatura dos acionistas presentes, valendo, no caso de recusa de alguns, o autógrafo de quantos sócios bastem para formar a maioria deli- berativa. Nas companhias abertas, poderá a assembléia geral - e não o estatuto - autorizar a publicação de ata com omissão das assinaturas dos acionistas, que, no entanto, são imprescindíveis para a eficácia do documento original. Mantém-se, ademais, o princípio de que a redação da ata cabe à mesa e, especificamente, ao secretário. Daí permanecer o regime de documento privado, dispensada a intervenção de oficial público na produção da ata. 24.2 Noção da ata Tendo em vista o regime de ata sintética adotado por nossa lei vigente, como já o fazia a anterior, pode-se concebê-la como o resumo das formalidades e das deliberações que houve na assembléia geral, constituindo-se no documento com- probatório dos atos jurídicos levados a efeito durante os trabalhos. Num sentido mais amplo, a ata é o documento que concentra e perpetua os fatos ocorridos durante a assembléia. 24. 3 Requisitos da validade da ata Para a validade da ata, são necessários três requisitos: ser lavrada no livro próprio, ser assinada pelos membros da mesa, ser assinada pelo menos por tan- tos acionistas quantos constituírem, por seus votos, a maioria necessária para as deliberações da assembléia. Nas companhias abertas, quando a assembléia geral assim deliberar, será dispensada a publicidade do último requisito, bas- tando para esse único efeito a assinatura dos membros da mesa. Dispensa-se, conseqüentemente, a reprodução das assinaturas dos demais acionistas. O não preenchimento de um desses requisitos enumerados toma a ata nula. 84 R.C.P. 2/86 24. 4 Várias espécies de assembléias A lei vigente prevê várias espécies de assembléias. Assim, temos as assem- bléias gerais dos acionistas, para as quais são convocados todos os sócios. Além dessas, há a assembléia de constituição que é competente para verificar a regu- laridade dos atos constituídos da companhia e aprovar a sua formação. Esse conclave é formado de subscritores, pois não existem ainda acionistas. Não tem, portanto, a reunião qualquer relação com a companhia, já que esta ainda não existe, podendo ou não ser constituída em decorrência da deliberação ali tomada pelos presentes.Também há as assembléias especiais de acionistas, que deliberam sobre as- suntos que afetam direitos de determinadas classes ou espécies de ações. Final- mente, temos as assembléias de não-acionistas, formadas de pessoas com inte- resses patrimoniais na companhia, não representados por ações. Ainda que sejam acionistas, essas pessoas, quando se reúnem em tais assembléias, não se reves- tem da qualidade de sócios, mas sim de credores ou de titulares de outros direitos junto à sociedade. ~ o caso dos titulares de debêntures e de partes beneficiárias, aos quais a lei atribui poderes de decisão colegiada aponíveis à própria assembléia geral dos acionistas. 24. 5 Características e funções das assembléias A assembléia geral dos acionistas é órgão social necessário, de que depende o funcionamento da companhia já constituída, formado por todos os acionistas, que podem estar presentes e dela participar, mesmo sem direito a voto. A assembléia de subscritores é o procedimento necessário à constituição da própria companhia, formada por pessoas que ainda não são acionistas, tendo todas elas igual direito de voto. As assembléias especiais, restritas aos titulares de determinada espécie ou classe de ações, visa à proteção dos direitos inerentes a essas categorias, pre- vistos no estatuto, cuja reforma proposta em assembléia geral dos acionistas poderá afetá-los. E a assembléia de não-acionistas, formada por debenturistas e titulares de partes beneficiárias, tem o mesmo objetivo das assembléias especiais. 25. Assembléia geral ordinária 25 . 1 Fundamentos da assembléia geral ordinária A assembléia geral ordinária constitui um dos fundamentos clássicos da sociedade anônima, representado pelo governo e pela fiscalização da companhia por seus acionistas. Dessa forma, por mais que se pretenda suprimir os poderes das assembléias gerais, que é o caso da nossa lei vigente, as legislações continuam prevendo a realização periódica de reuniões de sócios para que estes deliberem a respeito de determinadas matérias. Preserva-se, assim, o direito inderrogável dos acio- nistas de se manüestarem sobre determinados assuntos, de serem informados Sociedades Anônimas 85 dos negoclOs da companhia e sobre eles opinarem; tendo em vista a fcirinação da vontade social, através do voto majoritário. ~ Mesmo os acionistas sem direito à voto participamdà fase de debate dessas deliberações colegiadas, tendo ~esso às deruOllsttaçôes financeiras e demais documentos e informações que a respeito solicitarem, podendo discutir, dessa forma, todos os assuntos ligados à administração da companhia. 25.2 Não se trata de dever do acionista Ainda que a realização da assembléia geral ordinária constitua uma obriga- ção legal, não havendo possibilidade de os sócios delegarem a outrem o poder de deliberação sobre os assuntos que lhe são próprios, não se pode dizer que tenham os acionistas o dever de fiscalizar e acompanhar os negócios da com- panhia, como entendem alguns autores. Ocorre, entretanto, que o não-exercício do direito de comparecer e votar nas assembléias gerais ordinárias pode acarretar a dissolução da companhia pela impossibilidade de se reuIiir. A ausência de todos os acionistas à assembléia geral ou o comparecimento de apenas um deles, durante dois exercícios subse- qüentes, demonstra que a companhia não pode preencher o seu fim, dissol- vendo-se de pleno direito, em virtude do pressuposto legal de que não existem mais sócios conhecidos ou suficientes para o seu prosseguimento. Não obstante, não tem o acionista dever de comparecimento, nem será ele responsável pelos efeitos dessa ausência, a não ser no caso de controlador, quando pelo seu absenteísmo provoca a dissolução de companhia próspera, em proveito próprio. 25.3 Natureza da assembléia geral ordinária A assembléia geral ordinária é a manifestação normal do poder deliberante na sociedade anônima. A lei exige a sua realização anual, mesmo que não haja administradores a serem eleitos ou lucros a serem distribuídos. Não há exceção ao princípio da obrigatoriedade dessa reunião anual. Não podem os acionistas renunciar ao direito de se manifestarem sobre as contas do exercício findo ou de elegerem os administradores. 25.4 Convocação Findo o exercício social, a lei dá o prazo maxuno de quatro meses para a realização da assembléia geral ordinária. Não obstante a lei determinar o prazo de realização anual da assembléia ordinária, poderá entre uma e outra reunião mediar um tempo superior ou inferior a um ano, conforme seja realizada no início ou no fim do quadrimestre legalmente previsto. A realização da assembléia geral ordinária constitui um dever legal, cuja violação, embora não imputável aos acionistas, importará necessariamente em responsabilidade dos administradores pelos prejuízos decorrentes. 86 R.C.P. 2/86 CoÍDO para 'a realização da 'àssenibléia geral é necessária prévia convocação, os administradores respondem peloS prejuízos decorrentes da não-convocação ou da convocação tardia. Ademais, se os administradores retardarem por mais de 60 dias ri respectivo . edital convocatório,' qualquer acionista poderá promover a medida. Conta-se essa prerrogativa do acionista a partir do término do qua- drimestre, 'quando o estatuto não especifica data ou época certa para o conclave. Por outro lado, mesmo que a data da assembléia geral ordinária esteja pre- vista tio estatuto, tal fato não exime os administradores da obrigação de con- vocá-la, ao contrário do que sucede no direito norte-americano, no qual não há necessidade de convocação para a annual meeting, na presunção de que todos os acionistas conheçam o estatuto, em que se fixam dia, hora e local da realização do conclave. 25 . 5 Responsabilidade dos controladores A questão de responsabilidade toma-se problemática na hipótese de falta de elaboração e apresentação dos documentos pelos administradores, quando são eles próprios os controladores ou estejam acobertados por estes. Neste caso, é provável que não seja sequer apresentada a moção de responsabilidade e de destituição ou, então, se apresentada, seja recusada pela maioria da assembléia formada pelos controladores. Se tal ocorrer, cabe a responsabilidade plena dos controladores na forma do art. 117, tanto por omissão de proposta no sentido de responsabilizar e destituir os administradores, como de sua desaprovação majoritária, quando for requerida por acionista minoritário. 25.6 Eleição dos administradores e do conselho fiscal A lei estabelece diversas regras com referência à eleição dos administradores e fiscais e respectivos sistemas de votação e de representação de minorias. A lei estabelece que compete à assembléia geral a eleição dos administradores. Porém, no caso de a companhia ter conselho de administração, os diretores serão eleitos por este órgão e não pela assembléia geral ordinária. Em qualquer caso, o prazo do mandato dos administradores deverá estar fi- xado no estatuto, sendo, no máximo de três anos, admitida a reeleição. J á os' membros do conselho fiscál serão eleitos anualmente, se o estatuto dispuser que seu funcionamento será permanente. O funcionamento permanente desse órgão é obrigatório nas' sociedades de economia mista. Nas demais comparihias, 'abeitàs ou fechadas, não sendo permanente o con- selho fiscal, haverá eleição apenas nos exercícios sociais em que for instalado, a pedido de acionistas na forma da lei. 26. Assembléia geral extraordinária 26. 1 Reforma do estatuto ,A Lein.o 6.404 eliminou o 'regime de terceira convocaçãó;determinarido que já em segunda instale-se a . assembléia geral extraordinária com qualquer Sõciédaáês 'Anônimas 81 número. Ademais, deslocou a matéria de eficácia contra terceiros para o lugar próprio. E, ao explicitar o regime de arquivamento no Registro do Comércio, unificou o princípio de que tais procedimentos sucessivos são, por um lado, obrigatórios e, por outro, que a sua não-observânciaé inoponível pela com- panhia ou por seus acionistas a terceiros de boa fé. Daí a remissão aos arts. 97 e 98 da lei, os quais disciplinam o arquivamento dos documentos referentes à constituição da companhia. A lei vigente, repetindo a sistemática do direito anterior, na seção referente à assembléia geral extraordinária apenas estabelece normas para o conc1ave que tiver por objeto a reforma do estatuto social. Tal orientação legislativa significa que as reuniões extraordinárias que não visarem à modificação estatutária se- guem as disposições gerais referentes às assembléias da companhia, sejam elas ordinárias ou extraordinárias, constantes dos arts. 121 a 131 da lei. Quanto ao objeto propriamente dito da assembléia geral extraordinária, a nova lei adotou o regime de competência ratione materiae, estabelecendo exaus- tivamente as matérias de competência da assembléia geral ordinária e atribuin- do residualmente ao conclave extraordinário todas as demais. Em conseqüência, os assuntos que não sejam de competência da reunião or- dinária devem ser deliberados na assembléia geral extraordinária. Além da reforma do estatuto, o conc1ave extraordinário deve decidir matérias outras, tais como emissão de valores mobiliários pela companhia (debêntures e partes beneficiárias) e modificações nos direitos a elas inerentes. Cabe, ainda, à assembléia geral extraordinária autorizar empréstimos, ou compra e venda e oneração de bens constantes do seu ativo, conforme dispuser o estatuto. Ainda são da sua competência os assuntos urgentes e imprevistos, como a autorização aos administradores para confessar falência e pedir concordata e a suspensão do exercício dos direitos do acionista. Cabe a ela também deliberar sobre liquidação da companhia. Ademais, é sua atribuição deliberar sobre a avaliação de bens com que o acionista concorrer para a formação do capital social. 26.2 Noção da reforma estatutária Como a alteração do estatuto é o principal objeto da assembléia geral ex- traordinária, deve-se configurar o seu âmbito. A interpretação aceita, entre nós, é de que toda alteração do estatuto que afete seu fundo ou apenas sua forma constitui alteração da lei interna da companhia, devendo tanto numa, como noutra hipótese, ser observados os requisitos que a lei impõe na espécie. 26. 3 Requisitos 26. 3 . 1 Indicação da matéria no edital de convocação A lei estabelece exigências especiais quando a assembléia geral extraordi- nária tem por objeto a alteração do estatuto social. 88 R.C.P. 2/86 Para sua realização, será necessário a indicação da matéria nos assuntos de convocação. Nesse edital, as reformas projetadas devem ser apontadas com precisão, ainda que sumariamente. Não basta, portanto, a mera referência ao artigo do estatuto que será alterado. Em face do regime de informações trazido pela lei, devem os administra- dores no edital de convocação fornecer aos acionistas o máximo de dados para que eles compareçam à assembléia geral preparados para discutir sobre a pro- posta de alteração estatutária. 26.3 . 2 Indicações específicas em aumento de capital Se a alteração estatutária objetivar o aumento do capital social, deve o edital conter a indicação, pelo menos, dos seguintes elementos extraídos da proposta da administração: montante atual do capital; valor da emissão e o correspon- donte valor nominal das ações, se houver; classe das ações que serão emitidas, sua forma e se terão ou não valor nominal; eventuais direitos especiais que serão atribuídos a determinadas ações e os correspondentes direitos que serão suprimidos comparativamente a outras espécies e classes de ações; parcelas, prazos e condições de integralização; procedimentos especiais de subscrição, como quando se tratar de menores etc. 26.4 Quorum especial de instalação Outro requisito prejudicial, no caso de reforma estatutária é o da verifica- ção de quorum especial de instalação. A lei é explícita ao determinar que, em primeira convocação, não prevalecerá o regime de presenças previsto no art. 125, mas é indispensável o comparecimento de acionistas representando, no mínimo, 2/3 do capital votante. Por outro lado, a lei dispensa a terceira convocação, admitindo desde logo que o conclave instale-se pela segunda vez com qualquer número. A razão dessa exigência de maior quorum de instalação está na relevância da matéria. Todavia, como a companhia não pode ser sacrificada com a desídia ou a negligência dos seus acionistas, a lei permite que, em segunda convoca- ção, a assembléia geral instale-se com qualquer número, desde que dois ou mais acionistas presentes tenham direito a voto. 26. 5 Quorum especial de deliberação Para algumas matérias, a lei ainda exige quorum especial para deliberação, ou seja, a aprovação de acionistas que representem metade, no mínimo, das ações com direito de voto para as matériasespecüicadas no art. 136. Ademais, poderá o estatuto de companhia fechada exigir ainda maior quorum para a deliberação dessas matérias. Sociedades Anbnimas 89 26 . 6 Razões da reforma estatutária Diversas razões, tanto de ordem institucional como contratual, podem levar à alteração do estatuto da sociedade. A reforma da lei interna pode assim aten- der à necessidade de adaptar a companhia a novas exigências econômicas e financeiras ou, então, a um melhor funcionamento dos seus órgãos. Pode, ainda, visar à adaptação da sociedade às novas estruturas legais que a levam a aten- der outros interesses além dos seus pr6prios, representados pela maximização do lucro, tais como os da coletividade em que a companhia atua, a dos empre- gados e a do próprio estado. 26.7 Obrigatoriedade da reforma A reforma estatutária regularmente deliberada vincula a sociedade, já que tal ato representa a própria vontade social. No que respeita aos acionistas, a alteração do estatuto obriga a todos, na medida em que não modifique as bases essenciais da companhia, declaradas na lei. Neste caso, a deliberação não obriga aos acionistas discordantes ou mesmo aqueles que sobre tais alterações simplesmente se omitiram ou nelas não intervieram. Para todos os acionistas que se encontram nessas situações, a lei estabeleceu o direito de retirada ratione materiae. Havendo modificações estatutárias consideradas fundamentais no que respeita à própria existência, estrutura ou organização da companhia, cabe o direito de retirada. São as hipóteses estabelecidas exaustivamente no art. 137 da mencionada lei. Fora desses casos, a reforma estatutária obriga a todos os acionistas, desde que obedecidos os limites apontados. 26 . 8 Competência da assembléia geral extraordinária A reforma estatutária é de competência exclusiva da assembléia geral extra- ordinária, não podendo o estatuto delegar essa atribuição à assembléia geral ordinária, nem a outro órgão da companhia. Trata-se do antigo princípio, ora reiterado pela Lei n.O 6.404, ou seja, de que o poder de modificar o estatuto faz parte dos direitos inalienáveis da assembléia geral extraordinária. 26 . 9 Eficácia das alterações Sob outro ângulo, temos que as alterações estatutárias produzem efeito a partir da deliberação tomada a respeito, já que os procedimentos de arquiva- mento e publicidade não têm efeito constitutivo, mas sim declaratório. Isto posto, internamente, ou seja, no âmbito da companhia, a reforma produz efeito desde o momento em que é tomada a decisão. Por exemplo, se a alteração aumentar o número de administraôores, pode-se procedér, em seguida, à elei- ção dos mesmos, na assembléia geral ordinária acumulada. E se aumentar o capital, as ações poderão ser emitidas desde lógo_ 90 R.C.P. 2/86 26.10 Quorum qualificado 26. 10.1 Lei vigente A Lei n.a 6.404 manteve o mesmo regime de quorum qualifícado para deli- beração sobre matérias que constituam bases essenciais da cómpanhia ou que alterem determinados direitos de acionistas preferenciais. Na enumeração das matérias respectivas, a lei vigente trouxealterações. As- sim, houve supressão de matérias que, na lei antmor, demandavam quorum qualificado, tais como a criação de debêntures e proposta de concordata. Tais assuntos, previstos no art. 122 da lei vigente, podem ser deliberados pela as- sembléia geral extraordinária, com o quorum eventual previsto no art. 129. Por outro lado, a Lei n.a 6.404 inclui três matérias novas que requerem quorum deliberativo qualificado. São elas a alteração do dividendo obrigatório, a cisão e a participação da companhia em grupo de sociedades. Ademais, a lei nova acrescentou mais uma hipótese no que se refere às ações preferenciais, qual seja, a de aumento desproporcional do número dessas ações. E, ao regular o regime de assembléia especial das preferenciais, fala em classes de ação interessadas e não mais em classes prejudicadas, que era o termo usado no art. 106 do antigo diploma. E ainda sobre a assembléia especial dos acionistas preferenciais, alterou o respectivo quorum deliberativo, que passou a mais da metade da classe de ações preferenciais interessadas. Na lei anterior, exigia-se metade pelo menos do capital constituído pelas classes prejudicadas. A diferença é fundamental, na medida em que evita o surgimento do empate na deliberação, o que poderia ocorrer no regime do Decreto-Iei n.a 2.627/40. Institui o direito novo, ademais, a competência da CVM para autorizar a redução do quorum qualificado das assembléias gerais extraordinárias, nas com- panhias abertas, visando, dessa forma, á impedir que o absenteísmo possa pre- judicar deliberações de fundamental importância. Por outro lado, poderá o estatuto de companhia fechada exigir maior quorum para a deliberação dessas .matérias. 26. 10.2 Fundamento A relevância dada pela lei a determinadas matérias, exigindo que para deli- beração eficaz sobre as mesmás deva haver concordância de metade, pelo me- nos das ações com direito a voto, fundamenta-se natooriadas bases essenciais da ccmnpanhla. . A teoria das bases essenciais, de origemcontratualista, explica que o acionis- ta, ao ingressar na sociedade está motivado pela eXistência de determinados fundamentos jurídicos, os quais constituem o pressuposto do seu consentimento para integrar a coletividade dos seus sócios. São, portanto, essas bases jurídicas direitos próprios do acionista, não podendo ser modificados sem o seu con- sentimento. . . - Há que se conciliar, pois, essa concepção nitidamente contratualista com os aspectos' institucionais·' da êompan'hia, representados, -na espécie, pelo regime de decisão majoritária; . Sociedaáes Anônimas !l1 26. 11 Quorum eventual e qualificado Há, portanto, uma diferença fundamental entre o quorum deliberativo esta- belecido no art. 129 e o quorum decisório qualificado. Na primeira hipótese, prevalece a maioria absoluta de votos. ~ o chamado quorum eventual. No caso de quorum qualificado, prevalece a maioria absoluta das ações com direito a voto. Temos, pois, que no quorum qualificado a maioria não é calculada sobre o número de votos, mas sobre o nÚMero de ações votantes. 26. 12 Número de votos e verificação do quorum Para o efeito de quorum qualificado, cada ação votante dá direito a um voto. Em conseqüência, a eventual limitação estatutária sobre o máximo de votos de cada acionista não prevalece para o efeito do cômputo do quorum mínimo de deliberação na presente hipótese. Portanto, cabe à mesa verificar quantas ações com direito a voto existem no momento da deliberação, para declarar, ou não, a existência de quorum qualificado. 26.13 Quorum mínimo ou fixo Para a eficácia da deliberação, será necessário que, ao ser ela tomada, me- tade de todas ações com direito de voto esteja legitimamente representada na assembléia geral. Trata-se de quorum mínimo para as companhias fechadas, na medida em que, pelo estatuto, poderá ser o mesmo aumentado. No tocante às companhias abertas, temos quorum fixo, podendo, no entanto, ser reduzido pela CVM. O estatuto da companhia aberta não poderá alterar o quorum qualificado, seja para aumentá-lo, seja para diminuí-lo. 26.13.1 Direito de retirada O recesso é a faculdade legal do acionista de retiraMe da companhia, me- diante a reposição do valor real e atual das ações respectivas. Trata-se de um negócio jurídico, em virtude do qual a companhia é obrigada a pagar aos acionistas dissidentes o valor de suas ações. Constitui uma resilição unilateral ou denúncia. ~, portanto, reminiscência da concepção contratualista da sociedade anÔnima, que ainda subsiste em diversas esferas da sua estrutura. 26. 13 .2 Fundamento Formaram-se duas teorias em tomo do direito de recesso. A teoria da lei, que entende basear-se tal prerrogativa na vontade do legislador, considera a 92 R.C.P. 2/86 matéria como de ordem pública e, por isso, irrenunciável por parte do acionis- ta e inderrogável pelo estatuto ou pela assembléia geral. J á para a teoria do contrato, o direito de recesso implica uma rescisão par- cial do contrato de sociedade, tendo como causa a não-permanência das cláu- sulas que motivaram o consentimento do acionista. Em conseqüência, a norma legal seria mera disposição de caráter subsidiário ou supletivo da vontade das partes. Admite, pois, essa teoria que o direito de recesso, por ser contratual, seria renunciável ou alterável, notadamente pela superveniência de circunstâncias e de fatos que modificariam as estipulações iniciais. Na realidade, o direito de recesso origina-se do reconhecimento legal dos fundamentos contratuais da companhia. Trata-se, portanto, de direito que visa a conciliar os interesses da companhia e dos acionistas. A lei, de um lado, dá poderes à maioria para modificar as bases essenciais do contrato social e, de outro, garante ao acionista discordante dessas modificações a possibilidade de denunciar parcialmnte o pacto social a que aderiu. Trata-se, com efeito, de cor- retivo do princípio majoritário, no sentido de que, diante de algumas modifica- ções mais importantes do estatuto social, a lei protege o acionista individual que se considere prejudicado por elas. Dá-se-lhe o direito de liquidar sua parte no capital social, sem necessidade de, para tanto, encontrar comprador para ceder as respectivas ações. O fundamento, portanto, do direito de recesso encontra-se na proteção aos interesses do s6cio individual que não quer ficar vinculado à companhia. Constitui instrumento legal de proteção aos não-controladores. Ademais, compõe o conflito de interesses representado, de um lado, pela per- manência da pessoa jurídica e a preservação do princípio majoritário e, do outro, pelo direito de ressarcimento aos acionistas inconformados com decisões contrárias aos seus interesses. Permite, dessa forma, a lei que o acionista, por sua vontade manifestada oportunamente, deixe de suportar determinados efeitos jurídicos decorrentes da decisão majoritária, sobre matérias específicas. O acionista, portanto, retira-se não da sociedade a cuja estrutura jurídica aderiu. Afasta-se, isto sim, por antecipação da companhia modificada. Trata-se de um contrapeso à regra geral da decisão majoritária, no tocante à modificação das bases essenciais da companhia. 26.13.3 Natureza do direito Constitui um direito de natureza patrimonial, na medida em que tutela o interesse do acionista, no que respeita à sua participação no capital da com- panhia. Tem, no entanto, a natureza de uma liquidação antecipada e parcial dos haveres do s6cio na sociedade. Configura, ainda, uma resilição ou denúncia unilateral. O poder de resilir é exercido mediante declaração de vontade da parte a quem o contrato não mais interessa. Mas, é resilição parcial porque não extingue o contrato, mas simplesmente a relação jurídica entre o acionista de- nunciante e os demais acionistas remanescentes. Daí a importância da teoria do contrato plurilateral, que permite a resilição parcial. Sociedades An6nimas 93 26. 14 Assembléia de retratação Levandoem conta que o recesso pode colocar em risco -a estabilidade finan- ceira da companhia, admitiu a lei que a mesma, diante do volume de pedidos de retirada, promova assembléia de retratação, tendo como ordem-do-dia rati- ficar a deliberação anteriormente tomada ou o seu cancelamento. Adota, portanto, a nossa lei a sistemática de que a deliberação que ensejou o recesso é plenamente eficaz e não condicional. Essa eficácia, porém, poderá desaparecer, se uma nova assembléia convocada, após decorridos os 30 dias ao término do prazo para o exercício do direito, decidir cancelar a deliberação a respeito, voltando o estatuto da companhia ao statu quo ante. Por sua vez. a eficácia dessa retratação é incontestável, cessando todos os efeitos do exercício do direito de recesso - que, em conseqüência, tornam-se inoponíveis à companhia. Não cabe qualquer reparação ou indenização aos acionistas pela decisão retificadora de sua assembléia geral, já que se trata de preceito de ordem pública que atende ao princípio da permanência do capital social. 26. 15 Hipóteses de recesso As causas que fundamentam o direito de recesso são amplas, no direito bra- sileiro. Além dos casos enumetados no artigo ora comentado, é prevista a retirada nas hipóteses consubstanciadas nos arts. 221, 236, 256 e 264. No caso de incorporação de controlada (art. 264), há normas especiais de reembolso. 26. 15 . 1 Prazo de exercício o prazo de exercício do direito de recesso conta-se a partir da data da publicação da ata da assembléia geral. O período de 30 dias deferido pela lei aproveita tanto ao acionista como à companhia. Isto porque a sociedade poderá entre o 31.0 e 40.0 dia após a publicação da ata do conclave convocar assembléia de retratação. Em conseqüência, o prazo não poderá ser antecipado a favor do acionista e nem a favor da companhia. Mesmo que o acionista exerça desde logo, na própria assembléia, o seu direito de retirada, esta somente se tornará eficaz perante a companhia pela publicação da respectiva ata em que deverá constar a declaração do dissidente. Da mesma forma, o-acionista que logo após a assembléia geral fizer a comUnicação de sua retirada à companhia deverá aguardar ° decurso dos 30 dias após a publicação para obter o reembolso de suas ações. Qualquer medida que o acionista tome anteriormente ao decurso desse prazo, para forçar o reembolso 50b o pretexto de que se antecipou à publicação-da ata, será inteiramente ineficaz. Assim, o fundamento dessá estrita .observância -do prazo de 30 dias contados da publicação da ata da assembléia -geral é o da· igualdad~ de direitos que têm, na hipótese, os áciooistase -a companhia. - - - 94 R.C.P. 2/86 Essa igualdade existe tanto entre os próprios acionistas retirantes que devem receber todos na mesma ocasião o reembolso e entre estes e a companhia que, como medida de defesa do seu patrimônio, tem o direito de levantar, terminados os 30 dias, sua posição diante dos pedidos de recesso, a fim de que sua admi- nistração delibere, em seguida, sobre a conveniência ou não de convocar a assembléia geral para decidir pela retratação ou pela ratificação da deliberação que ensejou os pedidos dos acionistas. 26. 15 .2 Prazo de decadência No Código Civil, não é expressa a distinção entre decadência e prescrlçao. Não obstante, a diferença entre uma e outra figura é largamente reconhecida pela doutrina e jurisprudência. A decadência seria a perda de um direito, ao passo que a prescrição seria a perda da ação que faria prevalecer esse mesmo direito. Tem, no entanto, uma e outra, a característica comum de perecibilidade do direito pela inércia do seu titular, que é o caso típico do não-exercício do di- reito de recesso, no prazo de 30 dias contados da publicação da ata da assem- bléia geral. Tanto a decadência como a prescrição são preceitos de ordem pública, erigi- dos em norma jurídica que visam a evitar a perpetuidade dos direitos, impri- mindo maior segurança às relações jurídicas no tempo. Ocorre, no entanto, que a decadência de que fala a lei extingue o direito e determina o desaparecimento conseqüente da ação que lhe corresponde, pois a esta faltará o pressuposto essencial do objeto. Assim, a prescrição atinge diretamente a ação e, por via oblíqua, faz desaparecer o direito por ela tute- lado; a decadência, inversamente, atinge diretamente o direito e, por via reflexa, extingue a ação. Na decadência, o direito é outorgado para ser exercido dentro de determi- nado prazo; se não o for, extinguir-se-á. Para a decadência, o prazo não se interrompe nem se suspende, correndo indefectível e fatalmente contra todos, terminando sempre no dia preestabele- cido, não podendo, ademais, ser objeto de renúncia. Na decadência, portanto, é o próprio direito que fenece. Em conseqüência, será inoperante qualquer medida proposta pelo acionista visando a produzir o efeito de interromper o prazo de 30 dias determinado pela lei para o exercício do direito de recesso. O prazo de 30 dias contados da publicação da ata da assembléia é fatal e ininterrupto, não podendo ser relevado para qualquer acionista; corre igual para todos. Assim, não poderá a companhia, por sua vez, transigir, efetuando reembol- sos a acionistas que não se pronunciaram dentro do prazo. Se o fizer, além de responder por eventual conluio com acionistas, os administradores necessa- riamente serão responsabilizados, pois tal infringência da lei importa a dimi- nuição injustificada do patrimônio social. Sociedades Anônimas 95 26. 15 . 3 Delegação e mandato Os poderes e atribuições dos diretores são indelegáveis, não podendo trans- feri-los a outro 6rgão. Tal mandamento não importa a proibição de a compa- nhia constituir mandatários para a prática de atos específicos de administração. Nessa hip6tese, não haverá delegação, pois é a pr6pria companhia que outorga o mandato e não os diretores. Ademais, são de naturezas diferentes o mandato e a representação orgânica, como já se viu. O mandatário da companhia não é um delegado do diretor, não podendo, outrossim, ser considerado diretor de fato. Os direitos e obrigações que decorrem do seu mandato são inteiramente diversos daqueles resultantes da representação orgânica. Conseqüentemente, suas responsabilidades também são diversas. 27. Conselho fiscal 27. 1 Características O conselho fiscal, não obstante haja divergência doutrinária, constitui 6rgão da companhia. Isto porque não atua em nome de terceiros, ou seja, nem da administração, nem dos acionistas, não estando submetido a nenhum dos de- mais 6rgãos sociais, nem sequer à assembléia geral. Ademais, não respondem os seus membros perante terceiros, fazendo-o ape- nas junto à própria companhia. Não são os seus membros mandatários da sociedade, pois não estão encarre- gados de praticar atos jurídicos nas operações de verificação e fiscalização. O conselho fiscal é um aparelho interno da companhia, previsto em lei, tendo como função exercer o controle e fiscalização das contas dos administradores e da contabilidade social. O fato de possuírem os seus membros poder individual de diligência não desnatura o caráter colegial do 6rgão, pois este manifesta sua vontade pelo re- gime de deliberação majoritária, decidindo eficazmente mediante reunião devi- damente convocada e desde que se verifiquem o quorum de instalação e o deliberativo. 27 . 2 Competência 27 . 2. 1 Lei vigente A lei vigente reforçou consideravelmente os poderes do 6rgão fiscalizador, estendendo as funções e, conseqüentemente, as responsabilidades dos seus membros. Explicitou, sobretudo, o caráter sui generis desse 6rgão colegiado, revestindo os seus membros de poder individual de diligência. Ademais, estabeleceu fluxo obrigat6rio de informações dos 6rgãos da administração e dos auditores inde- pendentes, permitindo que, a par do poder de diligência, tenha o conselho fiscal conhecimento efetivo dos neg6cios da administração. 96 R.C.P. 2/86 Torna, outrossim,o conselho órgão informativo dos minoritários, no que respeita aos documentos contábeis, complementando o regime de informação sobre matérias da maior importância, e tomando óbvio, conseqüentemente, o recurso judicial de exibição dos livros. Essa competência ativa e individual de diligência e a passiva de recebimento das informações da administração e da auditoria. além do dever de informar os acionistas, constituem alterações fundamentais e positivas no próprio perfil do conselho. 27 . 3 Deveres Têm os conselheiros fiscais os mesmos deveres dos administradores: dever de diligência, uso regular e não abusivo de suas atribuições, dever de lealdade e de abstenção de intervir em qualquer operação social em que tiver interesse conflitante com o da companhia. 28. Capital social o capital social constitui uma figura jurídica, como o é a propriedade. O capital social poderá ser elevado. sem que ocorra nenhuma mudança no patrimônio social. Essa constatação clássica é tanto mais verdadeira no regime jurídico brasileiro, já que este acolhe o sistema de indexação obrigatória e anual do valor do capital, que reflete tão-somente o ajustamento oficial da moeda e não o aumento do patrimônio social. A importância do capital e de suas variações, mesmo quando meramente nominais ou substanciais, decorre de ser ele a base da estrutura jurídica da companhia, fazendo seu aumento, portanto, supor uma mudança nessa estru- tura, sob o ponto de vista jurídico, ainda que não necessariamente econômico. 28. 1 Fundamento econômico O aumento do capital social por subscrição representa, em princípio, de- sembolso dos acionistas. Por isso que, como recorda Valverde, o Decreto n.O 434, de 1891, em seu art. 93, só admitia o aumento do capital social em certos casos, ou seja, com finalidades definidas, como insuficiência do capital exis- tente para a consecução do objeto da sociedade, acréscimo de obras e amplia- ção de serviços ou operações sociais. Foi, com efeito, a partir da I Guerra Mundial que surgiu a necessidade de aumentos sucessivos de capital, visando a atender, de um lado, a crescentes demandas da economia de escala e, de outro, o desprestígio universal da moeda, que passaram a exigir reajustes, às vezes, meramente nominais de seu valor, como é o caso da incorporação de reservas e, entre nós, a correção do ativo imobilizado, de largo uso há várias décadas. A necessidade de adequação mo- netária do capital chegou, no Brasil, a tal nível, que subverteu a regra adotada pelo Decreto-lei n.O 2.627 de 1940, que outorgava aos acionistas o arbítrio da conveniência do aumento. No caso de indexação do capital, o aumento passa Sociedc;des Anônimas 97 a ser obrigatório, restringindo-se a assembléia geral simplesmente a homologar o valor apurado pelos administradores. O fundamento econômico da elevação do capital social pode ter diversas origens: perda do valor aquisitivo da moeda; necessidade de novos capitais próprios de investimento ou de giro; conveniência da incorporação de reservas para equilibrar o patrimônio social; estabelecimento de joint ventures; conver- são de capitais de terceiros em capital próprio. 28 . 2 Realização do aumento O aumento de capital pode realizar-se por diversos procedimentos: pelo in- gresso efetivo de novos recursos em dinheiro, bens ou direitos; pela transfor- mação de capital de terceiros em capital próprio, mediante a capitalização de créditos individuais de acionistas ou terceiros ou conversão de valores mobi- liários emitidos pela companhia; pela transferência à conta de capital de contas de reservas; pela mera indexação do valor nominal do capital. No sistema brasileiro, a competência para o aumento será da assembléia geral ordinária, na hipótese de indexação do valor do capital social. Então, a assem- bléia geral meramente homologa a correção da expressão monetária do capital. A competência será da assembléia geral extraordinária, no caso de subscri- ção de ações de companhias com capital fixo ou por esgotamento do capital autorizado, no caso das companhias que adotam este regime. Finalmente, nenhum órgão social é competente para deliberar sobre a con- versão de valores mobiliários de emissão da companhia em ações de seu capital. Nesse caso, têm os titulares de tais valores legitimidade para obter a conver- são, no momento e nas condições fixadas no estatuto social. Para tanto, basta a simples exibição do documento representativo de tais valores mobiliários, que constitui título de legitimação. 28.3 Capital autorizado N a lei vigente não há mais necessidade de as ações revestirem a forma nominativa ou endossável, podendo ser emitidas também ao portador. Essa modificação é substancial, na medida em que as companhias que adotem o regime de capital autorizado podem emitir ações de qualquer forma - nomi- nativas, endossáveis, escriturais e ao portador. Ao derrogar essa restrição, dá às companhias que adotem o sistema, maior desenvoltura quanto à negociabili- dade de suas ações. Por outro lado, o regime de autorização de capital da Lei n.O 6.404 obriga a companhia a ter conselho de administração. Não mais se referindo a lei explicitamente à possibilidade de constituição da companhia com capital autorizado, como defluía do diploma de 1965, en- tendem alguns autores que, estando revogado o disposto no art. 45 da Lei n.O 4.728, as companhias de capital autorizado não mais seguem o modelo norte-americano, nesse particular, devendo obrigatoriamente se constituir com capital fixo. 98 R.C.P. 2/86 28 . 3 . 1 Fundamento o fundamento para adoção do regime de capital autorizado é o da agiliza- ção da companhia, mediante dispensa de formalidades que entravam o obten- ção mais rápida de novos capitais. Isto não é possível no regime de capital fixo, o qual demanda a deliberação para aprovação e homologação do aumen- to pela assembléia geral. Ademais, pela faculdade de derrogação estatutária do direito de preferência na subscrição do capital, possibilita-se a entrada de novos acionistas e a for- mação de joint ventures. Os acionistas devem procurar, então, adquirir suas ações no mercado, em igualdade de condições com terceiros, permitindo à com- panhia suprir de forma mais eficiente as necessidades de capital próprio. Constitui, conseqüentemente, o regime de capital autorizado mais um instru- mento de ampliação dos poderes da administração, que, nesse particular, tam- bém substituem a vontade da assembléia geral, decidindo sobre a oportunida- de e a quantidade de demanda de novos capitais. O regime de capital autorizado é a prova mais evidente da exacerbação dos poderes dos administradores, em detrimento das clássicas competências dos acionistas de decidirem sobre as matérias constituídas da companhia e sobre a política de expansão de seus negócios. 28.3.2 Conceito O regime de capital autorizado é o que permite a ocorrência de sucessivos aumentos de capital, independentemente de reforma do estatuto, observado o limite nele estabelecido. Esse sistema possibilita que a companhia seja consti- tuída com capital subscrito inferior ao montante de capital autorizado pelo estatuto social. 29. Exercício social 29. 1 Conceito O exercício social é a dimensão temporal reconhecida legalmente como fun- damental à aplicação das normas contábeis. Dentro dessa medida de tempo são demonstrados o patrimônio social e suas mutações, tendo como referências básicas o termo inicial e o termo final desse período de tempo. O estatuto fixará o término do exercício social em data livremente escolhi- da pelos acionistas; só não prevalecerá a liberdade de escolha nos casos de atividades que, por força de lei especial, obrigarem as respectivas sociedades a encerrar o exercício social em data determinada, tal como ocorre com as insti- tuições financeiras que encerram o exercício social no dia 31 de dezembro, obrigatoriamnte. A lei não proíbe que o término do exercício seja fixado em data móvel, tal como, por exemplo,o último dia do mês de fevereiro, ou o primeiro dia útil do ano; disposições estatutárias que o costume já consagrou. O Decreto-lei n.O 2.627 de 1940 não previa exercício social com duração su- perior ou inferior a 12 meses, o que não impediu que o costume consagrasse Sociedades Anônimas 99 essa exceção, amparado talvez pela legislação fiscal que já continha norma idêntica baixada para regular a cobrança do imposto sobre a renda nos casos de alteração do exercício social (art. 15 da Lei n.O 2.354 de 1954, consolidada pelo art. 127 do Regulamento baixado com o Decreto n.O 76.186 de 1975). 29. 2 Prestação de contas e distribuição de resultados o conceito de exercício social está intimamente ligado à idéia de prestação de contas e de distribuição de resultados. De fato, de uma forma simples po- deríamos dizer que é no término do exercício social que se reúnem os donos do capital empregado no negócio para saber quais os resultados das transações realizadas durante o período então findo, examinar a prestação de contas dos administradores e deliberar sobre a quantia que cada um pode retirar a título de lucro. É o art. 132 da lei que regula a matéria. Determina esse artigo que, nos quatro primeiros meses seguintes ao término do exercício social, haja uma as- sembléia geral para tomar as contas dos administradores, discutir e votar as de- monstrações financeiras e deliberar sobre a destinação do lucro líquido do exer- cício e a distribuição de dividendos. Os arts. 176 e segs. estabelecem as nor- mas sobre a elaboração e divulgação das demonstrações financeiras. 29 . 3 Demonstrações financeiras A prestação de contas da administração, demonstrando o resultado de sua gestão e a situação do patrimônio social, é ato da maior importância na vida da empresa. -Ressalte-se também a preocupação do legislador quanto ao efeito da infla- ção nos resultados, ao introduzir o conceito de lucro líquido deflacionado, categoria contábil de fundamental importância numa lei que procura dar ao acionista uma participação nos lucros da companhia por meio de normas que, sem adotar posições radicais, tratam da obrigatoriedade legal de um dividendo mínimo. São quatro as demonstrações financeiras que a lei manda elaborar e publi- car ao fim de cada exercício social a saber: 1. balanço patrimonial; 2. demonstração de lucros ou prejuízos acumulados; 3. demonstração do resultado do exercício; 4. demonstração das origens e aplicações de recursos. 29.4 Balanço patrimonial 29 . 4. 1 Grupo de contas Este artigo determina a estrutura formal do balanço que é a demonstração do patrimônio social numa determinada data, e consagra as seguintes normas: 100 R.C.P. 2/86 o balanço será uma síntese das contas mantidas na escrituração dos registros permanentes; não será, pois, uma simples transcrição das contas, mas o agrupa- mento dos saldos, segundo a natureza dos elementos do patrimônio que as contas registram, observada a identidade entre os saldos agrupados, a norma do § 2.° do art. 176, e o conceito de relevância. Há uma única regra expressa vedando a consolidação dos saldos; é a do § 3.° deste artigo, segundo a qual não serão compensados os saldos devedores e credores que a companhia não tiver o direito de compensar; uma vez obtidos os grupos de contas, os seus saldos serão denominados e clas- sificados de forma a classificar a natureza do elemento patrimonial, assim como sua influência no patrimônio social e sua importância na análise da situa- ção financeira da companhia; identificados e classificados os grupos de contas, o próximo passo será classi- ficá-los nos grupos de balanço que são: - No ativo (em ordem decrescente de grau de liquidez): a) ativo circulante; b) ativo realizável a longo prazo; c) ativo permanente, dividido em investimentos, ativo imobilizado e ativo diferido. - No passivo: a) passivo circulante; b) passivo exigível a longo prazo; c) resultados de exercícios futuros; d) patrimônio líquido, dividido em capital social, reservas de capital, reservas de avaliação, reservas de lucros e lucros ou prejuízos acu- mulados. 29. 5 O conceito contábil de patrimônio líquido No ativo temos, portanto, os direitos da companhia, os quais se acrescentam as disponibilidades e os gastos a amortizar. A lei usa o termo direitos em sen- tido amplo, para designar não s6 os direitos de crédito (duplicatas e outros tí- tulos a receber, contas diversas a receber etc.), como também os direitos de propriedade sobre: a) mercadorias ou produtos em estoque, adquiridos para revenda ou fabricados para venda; b) bens utilizados na exploração do obje- to social; c) direitos (marcas, patentes, know-how) utilizados na exploração do objeto social. No passo exigível, temos as obrigações. A diferença entre o ativo e o pas- sivo exigível corresponde ao patrimônio líquido, no qual se registram os recur- sos com que os sócios contribuíram para a formação do capital social, assim como os resultados gerados pela aplicação desse capital nas atividades que constituem o objeto social. O conceito de patrimônio corresponde, portanto, ao conjunto de bens, di- reitos e obrigações. O balanço demonstra o patrimônio da empresa em determinada data. 1!, pois, a representação da posição estática do patrimônio. As variações· no pa- Sociedades Anônimas 101 trimônio das empresas podem ser determinadas pela comparação das pOSlÇoeS estáticas do patrimônio em duas datas. Esta comparação pode indicar um acréscimo patrimonial no período compreendido entre duas datas comparadas, ou uma redução. O período compreendido entre as duas datas comparadas, em geral, corres- ponde ao exercício social. Os acréscimos patrimoniais têm origem em três fontes, a saber: - ingresso de recursos dos acionistas conferidos para integralizar aumento de capital; - ingresso de recursos de subscritores de valores mobiliários de emissão da companhia; - lucros do período, que são o resultado da aplicação do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, ou ainda de atos gratuitos (doação, subvenção, perdão da dívida etc.). Contabilmente, este acréscimo patrimonial é demonstra- do pela conta de lucros e perdas. Não consideramos a correção monetária do balanço como fonte de recursos que geram acréscimo patrimonial, porque a correção monetária representa me- ra atualização escrituraI cuja finalidade é traduzir a variação do poder aquisi- tivo da moeda. Da mesma forma que o acréscimo, a redução patrimonial será conseqüên- cia da devolução de capital da distribuição de lucros ou dividendos, ou ocorre- rá em virtude dos prejuízos demonstrados na conta de lucros e perdas. Como já vimos, os direitos são demonstrados segundo a sua natureza e se- gundo a sua destinação nos diversos agrupamentos de contas do ativo; as obri- gações, nos agrupamentos do passivo. As contas do ativo demonstram, portanto, como e onde estão aplicados os re- cursos próprios ou de terceiros. A origem dos recursos de terceiros é demons- trada no passivo exigível (são os saldos dos empréstimos pendentes de paga- mento, e de outras obrigações), enquanto a origem dos recursos próprios, de- monstra-se pelas contas do patrimônio líquido, a saber: - capital, representando os recursos conferidos à empresa por seus sócios ou acionistas; lucros e recursos de lucros, representando os recursos oriundos do resulta- do das operações sociais; - reservas de capital, representando recursos oriundos da subscrição de va- lores mobiliários de emissão da companhia, e de atos gratuitos. Sobre os grupos de balanço, cumpre assinalar a simplificação procedida pela lei ao reduzir a apenas três os grupos do ativo, a saber: circulante; reali- zável a longo prazo; permanente. O ativo permanente divide-se em investimentos; imobilizado; diferido. 102 R.C.P. 2/86 29.6 Ativo circulante No ativo circulante serão classificados: - as disponibilidades, isto é, o dinheiro em mãos ou depositado em bancos; - os direitos realizáveis nocurso do exercício social subseqüente; - as aplicações de recursos em despesas do exercício seguinte. Em síntese, podemos dizer que o ativo circulante compreende o dinheiro e os direitos que serão transformados em dinheiro durante o ciclo operacio- nal da empresa. Excluem-se dessa conceituação as aplicações de recursos em despesas do exercício seguinte, classificação que constitui uma novidade em nossas práti- cas contábeis. Os direitos classificados no ativo circulante incluem, pois, os direitos de cré- dito e os que tiverem por objeto mercadorias e produtos do comércio ou da indústria da companhia, que serão transformados em dinheiro no exercício social subseqüente, prevalecendo a classificação com base no ciclo operacio- nal da companhia quando este tiver duração maior que o exercício social. 29 . 7 Ativo realizável a longo prazo A classificação dos direitos no ativo realizável a longo prazo obedece a dois fatores: o fator tempo e a condição do devedor. Com relação ao fator tempo, classificam-se no realizável a longo prazo os direitos que só serão transformados em dinheiro após o término do exercício seguinte (período de 12 meses), ou após o ciclo operacional da companhia quando este ultrapassar 12 meses. Com referência à condição do devedor, classificam-se no realizável a longo prazo os créditos derivados de vendas, adiantamentos ou empréstimos que não constituírem negócios usuais na exploração do objeto da companhia, quando feitos a sociedades coligadas, sociedades controladas, diretores, acionistas ou participantes no lucro da companhia. 29.8 Ativo permanente 29 . 8 . 1 Investimentos Classificam-se como investimentos: - as participações permanentes em outras sociedades: - os direitos de qualquer natureza; não classificáveis no ativo circulante, e que não se destinem à manutenção da atividade da companhia ou da empresa. Sociedades Anônimas 103 29 . 8 . 2 Ativo imobilizado No ativo imobilizado serão classificados os direitos que tenham por obje- to bens destinados à manutenção das atividades da companhia e da empresa, ou exercidos com essa finalidade, inclusive os direitos de propriedade indus- trial ou comercial. Os direitos podem ter por objeto bens corpóreos, móveis ou imóveis, ou bens incorpóreos, tais como direito de exploração de processo de indústria ou marca de comércio, custo de exploração de fundo de comércio etc. 29.9 Passivo exigível As obrigações da companhia são demonstradas no passivo exigível que se subdivide em passivo circulante e exigível a longo prazo. A classificação das obrigações no passivo circulante ou no exigível a longo prazo obedecerá aos mesmos critérios de classificação do ativo relativo ao prazo de vencimento das obrigações, inclusive no que conceme ao ciclo operacional da companhia. A lei faz expressa referência a financiamentos para aquisição de direitos do ativo permanente. Essa referência, aparentemente ociosa, porque tais financia- mentos são obrigações, talvez se justifique como ênfase à sua classificação como corrente ou longo prazo, no passivo, ainda que os recursos desse finan- ciamento não representem um acréscimo do ativo circulante nem do realizá- vel a longo prazo, por se classificarem no ativo permanente. Equivale, portan- to, à afirmação de que a classificação em passivo corrente ou longo prazo in- depende da aplicação dos recursos representados pela obrigação corresponden- te. No passivo, registram-se as obrigações formalizadas ou não; as não formali- zadas geralmente são registradas por intermédio de provisões que, não raro, estimam o montante da obrigação que ainda não foi objeto de um documento (nota fiscal, fatura, duplicata etc.) que representa a dívida. Normalmente, as obrigações são contrapartidas não só de acréscimo do ativo como também de despesas e encargos. Por isso, o registro das obrigações está tão relacionado com o regime de competência, uma vez que o encargo deve ser registrado no exercício em que foi incorrido, mesmo quando ainda não pago. 29.10 Patrimônio líquido 29.10.1 Conta de capital A conta de capital é a expressão monetária da contribuição que os acionis- tas se obrigam a trazer para a formação do acervo necessário à realização do objeto social. Essa contribuição compreenderá dinheiro ou qualquer espécie de bens sus- cetíveis de avaliação em dinheiro; será representada por ações e corrigida mo- netariamente. . 104 R.C.P. 2/86 A contribuição trazida pelos acionistas poderá ser acrescida pela correção monetária do capital realizado, e pelo montante dos lucros ou reservas capita- lizados nos termos do art. 169. 29.10.2 Capital a realizar A lei esclarece que será demonstrada como dedução do capital subscrito a parcela ainda não realizada. Tal esclarecimento é feito com o objetivo de ex- plicitar que esse crédito da companhia contra os acionistas não constitui ati- vo corrente, nem realizável a longo prazo, mas sim o saldo da parcela do ca- pital que o acionista se obrigou a contribuir. O legislador deve ter sentido a necessidade de fazer tal advertência em virtude da tendência, não rara entre nós de se demonstrar esse crédito no ativo realizável, muito embora não paire dúvida que, do ponto de vista técnico, a forma agora adotada pela lei é a cor- reta. Assim, a conta de capital demonstrará: a) o montante do capital subscrito que expressa o limite da responsabilidade dos acionistas; b) a parcela ainda não realizada; c) o montante do capital efetivamente integralizado. 29.10.3 Reservas de capital A lei distingue claramente as reservas de capital das reservas de lucros, quer quanto à sua constituição, quer quanto ao destino que pode ser dado aos seus saldos. Nos termos da Lei n.O 6.404, além da correção monetária do ca- pital social, que apenas transita pela reserva de capital, esta reserva há de cor- responder sempre a ingresso efetivo de recursos na companhia, num dos se- guintes casos: a) pela contribuição dos subscritores de valores mobiliários da companhia, quando, ou enquanto, tais contribuições não forem destinadas a integrar o capital social; b) por doações ou subvenções para investimento. -.;: importante observar que os valores recebidos a esse título aumentarão o patrimônio social, mas não serão considerados como receita do exercício, nem demonstrados como lucros; irão diretamente para a conta de reserva de capital. A lei define quais as quantias que cOnstituirão as contas de reservas de capi- tal do mesmo modo que especifíca no art. 200 como essas reservas poderão ser utilizadas. Sociedades Anônimas 105 29 . 10.4 A importância da correção monetária no sistema legal Um dos principais objetivos da lei foi o fortalecimento do mercado de ca- pitais que só se obterá aumentando a confiança do investidor. A lei procurou criar um instrumental capaz de aumentar as garantias e as vantagens das minorias. Entre esses instrumentos destaca-se o instituto do divi- dendo mínimo obrigatório. Para tomar exeqüível um sistema que prevê o dividendo mínimo como uma obrigação certa, sem criar o risco de que o cálculo do dividendo em relação ao capital acabasse representando uma obrigação insuportável, em relação ao lu- cro do exercício, o legislador, entre as bases de cálculo possíveis, elegeu o lu- cro líquido como a base de cálculo que convém aos objetivos da lei. Esta opção porém deixou toda a viabilidade do sistema na dependência da adequada demonstração do lucro efetivamente disponível e deflacionado, de modo a pennitir a distribuição do dividendo mínimo obrigatório sem descapi- talizar a companhia, nem prejudicar a vida nonnal do empreendimento. f: fácil verificar o quanto é importante uma apuração apropriada do resul- tado atribuído à inflação, cujo reinvestimento será absolutamente necessário se a companhia quiser manter o mesmo poder que o capital aplicado no negó- cio tinha no início do periodo. Além do dividendo mínimo obrigatório, outras obrigações da companhia serão quantificadasem função do lucro; assim será com respeito à participa- ção atribuída a partes beneficiárias, debêntures, administradores e mesmo a empregados, quando o estatuto previr compromissos dessa espécie. 29. 10.5 O efeito da inflação nos resultados Dispõe a lei que a correção se fará com base nos índices de desvalorização da moeda nacional reconhecidos pelas autoridades federais. Como o objetivo do dispositivo é fazer com que se detennine os efeitos da inflação nos resul- tados do exercício, esse índice deve traduzir a modificação do poder de com- pra da moeda durante o período de tempo correspondente ao exercício social. O Decreto-Iei n.O 1.598 manda que a correção monetária seja procedida com base no aumento do valor nominal de uma Obrigação do Tesouro Nacional (OTN). Essa medida deverá ser adotada também para efeito da Lei n.O 6.404, mesmo porque a Lei n.O 6.423, de 1917, proíbe a utilização de índice não ba- seado na OTN para determinar a correção monetária legal ou contratual. Como a OTN foi criada no último trimestre de 1964, o Decreto-Iei n.O 1.598 previu que o Ministério da Fazenda publicaria o valor de uma OTN por re- ferência aos coeficientes fixados para serem aplicados às aquisições feitas de 1938 a 1964. Esses valores constaram da Portaria n.o 30, de 12 de janeiro de 1978. 30. Dividendos 30. 1 Fundamento do preceito A Lei n.O 6.404 de 1976 observa estritamente o princípio da integridade do capital social, visando aos interesses dos credores, dos acionistas e da própria companhia, no tocante ao regime de pagamento de dividendos. 106 R.C.P. 2/86 A norma veda, para tanto, a distribuição de dividendos fictícios, ou seja, que não resultam de lucros realmente conseguidos nas operações da empresa, ou, ainda, a distribuição como dividendos de simples esperanças de lucros futuros. Não se permite, portanto, que o capital seja desfalcado para a distribuição de benefícios aos acionistas. 30.2 Prejuízos em exercícios anteriores Estando já desfalcado o capital, em virtude de prejuízos e perdas em exercí- cios anteriores que consumiram parte do mesmo, prevalece igualmente o prin- cípio da integridade do capital, no sentido de que antes de sua integral recom- posição não pode ser distribuída aos acionistas qualquer parcela do lucro ve- rificado no exercício. A invariabilidade do capital impõe-se também nessa hi- pótese. Daí não se permitir a distribuição de benefícios enquanto o capital não esteja totalmente reconstituído e não tenham sido previamente separados fun- dos suficientes para satisfazer o passivo. Se isso fosse permitido, a intangibili- dade do capital estaria, com efeito, comprometida, aumentando as perdas acu- muladas anteriormente. Esse rigoroso princípio subsiste ainda que se trate de dividendos fixos ou cumulativos outorgados às ações preferenciais, que não poderão ser distribuí- dos em prejuízo do capital social (art. 17). 30.3 Relação de lucro, perda e capital o conceito de lucro assenta-se no de capital social, da mesma forma como o conceito de perda. Lucro é a parte do patrimônio líquido que supera o capital social; perda, ao contrário, é a parte do capital social que supera o patrimônio líquido. Em conseqüência, a situação de lucro, ou de perda da companhia, não se fraciona nem se isola de exercício para exercício. Apenas por questões práticas, existe uma verificação periódica dos lucros e das perdas. Porém esse princípio da anualidade da verificação dos resultados não pre- valece para a distribuição de dividendos. Estes somente podem ser distribuídos se a situação acumulada dos diversos exercícios anteriores da companhia apre- sentarem um resultado positivo em relação ao capital social. Se, ao contrário, as perdas acumuladas anteriormente superarem o patrimônio líquido da com- panhia, não pode haver distribuição de lucros. e inteiramente ilegal a decisão de se distribuir resultados positivamente apurados num exercício, se houve resultados negativos acumulados nos ante- riores, que se equivalham ou mesmo superem o lucro de exercício mais recente. 30. 4 Distribuição de dividendos em concordata preventiva Também não pode haver distribuição de dividendos quando a companhia está gozando dos benefícios de concordata preventiva. Sociedades Anônimas 107 Haveria, na hipótese, flagrante fraude aos credores quirografários, submeti- dos à moratória judicial de seus créditos. Ainda que pareça óbvio a inadmis- sibilidade dessa distribuição, é importante ressaltá-la, tendo em vista o regime de dividendo obrigatório. Fica, portanto, automaticamente suspenso o dividendo obrigatório, a partir do pedido de concordata preventiva até seu encerramento. Não terão os acionistas direito ao recebimento de qualquer dividendo, e não se pode presumir boa fé no caso de virem a embolsá-los. 30. 5 Dividendo obrigatório 30.5. 1 Lei atual A Lei n.O 6.404 de 1976 estabeleceu regime de distribuição de dividendos que altera em substância o sistema adotado pelo Decreto-lei n.o 2.627 de 1940. Em primeiro lugar, constrange a companhia a fixar em seus estatutos um divi- dendo mínimo, sob pena de, não o fazendo, prevalecer a regra legal de distri- buição obrigatória do equivalente à metade do lucro líquido. Retira, portanto, da assembléia geral competência para decidir sobre o quan- tum a ser distribuído aos acionistas, no caso de omissão estatutária. Por outro lado, transfere para os órgãos de administração - à semelhança do sistema norte-americano - a competência para decidir, em cada exercício, se esse dividendo obrigatório será ou não distribuído, em razão do estado das finanças da companhia. E nas companhias fechadas, pode, outrossim, a assem- bléia geral, por votação unânime e desde que não haja oposição de qualquer acionista presente sem direito a voto, decidir pela não-distribuição parcial ou total do dividendo mínimo. Com efeito, a lei estabeleceu dois regimes. No primeiro, aplicável tanto às companhias abertas como às fechadas, compete aos órgãos da administração decidir pela não-distribuição de dividendo, desde que julguem ser o mesmo incompatível com a situação financeira da companhia. Pelo segundo regime, aplicável apenas às companhias fechadas, compete à assembléia geral decidir pela não-distribuição parcial ou total do dividendo obrigatório, desde que o faça por unanimidade e sem oposição de acionista não-votante presente ao conclave. A competência da assembléia não é discricio- nária, vinculada que está também ao motivo substancial de verificação de es- tado financeiro desfavorável. 30. 6 Dividendo de ações preferenciais 30 . 6. 1 Fundamento o fundamento do art. 203 está na tutela dos direitos patrimoniais das ações preferenciais. Em conseqüência, as prerrogativas asseguradas às mesmas não po- derão ser afetadas com a criação de reservas estatutárias; reservas para contin· gências; reservas de lucros a realizar. Também não podem tais direitos ser 108 R.C.P. 2/86 prejudicados pela deliberação da assembléia geral de reter parcela do lucro líquido do exercício, objetivando suprir recursos orçamentários de investimento. E principalmente não podem ser lesados pela distribuição de dividendo obrigatório. 30. 7 Dividendos intermediários 30. 7 . 1 Legislação vigente A Lei n.O 6.404 reitera o principio de imprescindibilidade de balanço para a distribuição de dividendos durante o exercício. Ademais, explicita práticas já anteriormente adotadas de distribuição de dividendos em termos menores do que o semestral, e ainda a distribuição de resultados com base em lucros regu- larmente apurados em exercícios anteriores. Estabelece, portanto, a nova lei três hipóteses: 1.a a distribuição semestral de dividendos apurados nos respectivos balanços; 2.a distribuição mensal, bimensal, trimestral ou quadrimestral de dividendos com base nos balanços levantados nos respectivos períodos; 3.a distribuição de dividendos durante o exercício por conta de resultados constantes do balanço correspondenteao exercício anterior, na sua totalidade ou apenas cobrindo um semestre. 31. Dissolução, liquidação e extinção 31 . 1 Dissolução Ao contrário do que acontecia com a lei anterior, que se referia não à dis- solução das sociedades, mas à liquidação do patrimônio para a sua extinção, a lei atual preferiu a orientação tradicional, de considerar, em primeiro lugar, a dissolução das sociedades anônimas, seguindo-se, no elenco dos dispositivos le- gais, os referentes à liquidação nos quais estão incluídas normas sobre a parti- lha, e findando por se referir à extinção da companhia. A lei atual adotou a orientação de que haverá, como primeira fase, uma dissolução da sociedade, a essa dissolução seguindo-se a liquidação e a extinção da sociedade. A dissolução se dará, nos termos da nova lei, de três modalidades: de pleno direito, por decisão judicial ou por decisão de autoridade administrativa. A essas acrescentamos a dissolução consensual, que não se confunde com as de- mais modalidades. De acordo com o art. 206, a dissolução de pleno direito se dá: a) pelo término do prazo de duração; b) nos casos previstos no estatuto; Sociedades Anônimas 109 c) por deliberação da assembléia geral, na forma do art. 136, VII; d) pela existência de um único acionista, verificada em assembléia geral ordi- nária, se o mínimo de dois não for reconstituído até à do ano seguinte, ressal- vado o disposto no art. 251 (subsidiária integral); e) pela extinção, na forma da lei, da autorização para funcionar. Segundo o dispositivo, dissolve-se a sociedade de pleno direito: a) pelo término do prazo de duração. Ao ser constituída a companhia, é fi- xado um prazo para a vigência da mesma, podendo, contudo, essa ser por tempo indeterminado. Nesta hipótese, almeja-se uma vida longa para a sociedade, o que não signi- fica que não poderá ela se extinguir, visto que o prazo indeterminado não represente impossibilidade de extinção. O que ocorre é que, havendo um prazo indeterminado para a existência da sociedade, não fica essa a depender de um período certo para realizar o seu objetivo. Também o estatuto poderá prever casos em que a sociedade se dissolva, entrando em liquidação. A menção desses casos deve ser feita de modo a não serem feridas as normas da lei; a entrada da sociedade, ocorrendo tal fato, em dissolução, sem que os acionistas possam reclamar, dá-se em virtude de, ao subscrever ações ou adquiri-las posteriormente, o acionista tacitamente aceitar as disposições estatutárias, que em princípio deve conhecer. Declara a lei que também será considerada dissolvida, de pleno direito, a sociedade anônima, pela deliberação da assembléia geral, nos termos do art. 136, VII, isto é, quando a maioria, no mínimo, das ações com direito a voto deliberar a dissolução da companhia, se maior número não for exigido no estatuto. Não se trata, na realidade, de uma dissolução de pleno direito, já que, para que a sociedade entre em liquidação, há necessidade da manifestação da vontade dos acionistas; talvez mais certo seja considerar essa dissolução volun- tária ou consensual, pois os acionistas que não concordarem com a entrada da sociedade em dissolução poderão se retirar da mesma, reembolsados do valor de suas ações, segundo o disposto expressamente no art. 137. Também declara a lei que a sociedade se dissolve de pleno direito pela exis- tência de um único acionista, verificada em assembléia geral ordinária, se o mínimo de dois não for reconstituído até a assembléia geral ordinária seguinte, ressalvado o caso da subsidiária integral, de que trata o art. 251. Como se sabe, a lei atual diminui o número de pessoas capazes de criar uma sociedade anônima de sete para dois, admitindo mesmo a existência, como acontece com o direito americano, da "subsidiária integral", ou seja, uma sociedade em que todas as ações sejam de propriedade de uma sociedade brasileira, o que signi- fica uma sociedade com um só acionista. Finalmente, dá-se a dissolução de pleno direito, quando se extingue, na forma da lei, a autorização para a sociedade funcionar. Algumas sociedades, real- mente para funcionar no país, necessitam de autorização por parte do governo federal, ficando sujeitas a uma rigorosa fiscalização quanto à prática de vários dos seus atos; podem essas sociedades ser nacionais ou estrangeiras e a auto- rização para o seu funcionamento será por tempo determinado ou indeterminado. 110 R.C.P. 2/86 Ademais, a autorização, que é sempre do governo federal, pode ser cassada a qualquer tempo, desde que haja infração, por parte da companhia, de dispo- sição de ordem pública, ou quando a mesma praticar atos contrários ao fim declarado no estatuto ou nocivos à economia nacional. 31 .2 Liquidação 31 .2 . 1 Liquidação pelos órgãos da companhia Liquidação é o processo durante o qual o ativo da companhia é transformado em dinheiro para distribuição entre os sócios, depois de pagas todas as dívidas e encargos da sociedade. Constitui "um processo cujas características oferecem logicamente um significado inverso ao da fundação" da sociedade. Sobrevindo uma causa de dissolução, a sociedade cessa as suas atividades normais para proceder ao levantamento de sua verdadeira situação, através de um balanço, e reduzir o seu patrimônio a dinheiro, satisfazendo as obrigações assumidas e encargos por que responda. Feito isso, o remanescente será partilhado entre os sócios, a fim de que possa a sociedade se extinguir, depois de praticados cer- tos atos no Registro do Comércio. 31 .2 . 2 Liquidação judicial O art. 206, referindo-se às vanas modalidades de dissolução, declara que a sociedade será dissolvida judicialmente quando for anulada a sua constitui- ção, em ação proposta por qualquer acionista; quando for provado que não pode a mesma preencher o seu fim, em ação proposta por acionistas que repre- sentem 5% ou mais do capital social; e em caso de falência, na norma pre- vista na respectiva lei. Além desses casos, qualquer acionista poderá pedir a dissolução judicial da sociedade se os administradores, ou a maioria dos acio- nistas, deixarem de promover a liquidação, ou a ela se opuserem, quando ocorrer alguma das causas mencionadas no n.O I do art. 206, que são causas que provocam a dissolução de pleno direito. Na verdade, como já foi por mais de uma vez destacado, a dissolução, na lei brasileira não traz, de imediato, a extinção da pessoa jurídica, dando apenas lugar a que as atividades normais da sociedade sejam suspensas e se inicie o período de liquidação do patrimônio social, findo o qual a companhia será extinta, com as publicações e arquiva- mento de documentos, pelo liquidante no Registro do Comércio. Assim, mesmo se operando de pleno direito a dissolução da sociedade, deverá ser liquidado o seu patrimônio, com a nomeação de um liquidante nos termos do estatuído no art. 208. Podem, entretanto, os administradores, a quem compete adotar as primeiras providências para que o patrimônio social seja regularmente liquidado, deixar de promover a liquidação, ou mesmo a ela se opor. Também a maioria dos acionistas pode, na assembléia geral, opor-se à liquidação. Na ocasião, deverá, entre outras coisas, nomear o liquidante, se o estatuto silenciar a respeito ou se a sociedade tiver Conselho de Administração e este for mantido. Em qual- Sociedades Anônimas 111 quer uma dessas hipóteses, o acionista poderá pedir a liquidação judicial do patrimônio social, devendo, para tanto, ser observado o que a respeito dispuser a lei processual comum. Será também judicial a liquidação do patrimônio da sociedade se, extinta ou retirada, na forma da lei, sua autorização para funcionar (Decreto-Iei n.O 2.627, art. 73), a companhia, nos 30 dias subseqüentes, não iniciar a liquidação ou se, tendo iniciado, interrompê-Ia por mais de 15 dias. O requerimento para ser processada judicialmente a liquidação cabe ao Ministério Público, à vista da comunicação da autoridade competente, queé a que concedeu a autorização para funcionamento. Em tal hipótese, como sempre acontece nas liquidações judiciais, a nomea- ção do liquidante será feita pelo juiz e o processo a ser seguido na liquidação obedecerá ao rito estipulado pela lei processual comum. 31 .2 . 3 Denominação da companhia Segundo o art. 207, "a companhia dissolvida conserva a personalidade jurí- dica, até a extinção, com o fim de proceder à liquidação". Assim, mesmo encer- rando suas atividades normais, a sociedade continua a ter personalidade jurí- dica, para que se efetue a liquidação. Os atos que o liquidante praticar nesse período são, assim, de responsabilidade da sociedade, uma vez que ele passa a ser órgão da companhia, agindo por essa no exercício de direitos e no cum- primento de obrigações. Os credores permanecem como credores da companhia, e não credores particulares dos sócios, pois a dissolução não transforma a socie- dade em uma comunhão de interesses, já que a personalidade jurídica da mesma é mantida e o patrimônio da sociedade é diverso do patrimônio par- ticular dos sócios. A personalidade permanece até a extinção da companhia, o que, na realidade, se verifica quando são arquivados no Registro do Comércio os atos relativos à liquidação e partilha. Declarando a lei que a personalidade da sociedade é conservada "com o fim de proceder à liquidação", na realidade mostra que a sociedade continuará a existir apenas para que o patrimônio seja liquidado, não para a continuação das suas atividades normais, muito embora a assembléia geral, como foi visto, possa autorizar a continuação de atividades sociais em casos especiais, quando essas atividades se destinam a facilitar a liquidação. Ao manter, nesse período anômalo de sua vida, a personalidade que a ca- racteriza como um ente distinto dos sócios que a compõem, a sociedade con- tinuará, através do liquidante, a usar seu nome ou denominação nas operações que realizar, pois só assim lhe será possível responder pelo cumprimento das obrigações assumidas ou exercer os direitos que lhe competem. Esse nome, contudo, deverá ser sempre assinado pelo liquidante - e mais que isso, sem- pre que empregado, em qualquer caso, inclusive em publicações, acrescido das palavras "em liquidação". Essa providência adotada pela lei tem por finalidade alertar os terceiros, caso entrem em relações com a sociedade, que esta atra- vessa um período especial, com tendência à extinção, para o que previamente deve ser liquidado o seu patrimônio. Ao mesmo tempo, esses terceiros saberão que a pessoa jurídica da sociedade ainda continua, ou seja, o patrimônio da companhia ainda responde pelas obri- 112 R.C.P. 2/8ó gações por ela assumidas, isentando-se de responsabilidade o patrimônio par- ticular dos sócios. A utilização da denominação com o acréscimo da expressão "em liquidação" é imposta "para que o público, tratando com a sociedade, aja com a precaução necessária". Nestas condições, mandando a lei que, em todos os atos ou operações, o liquidante use, junto à denominação, a expressão "em liquidação", quer não apenas demonstrar que a sociedade permanece como pessoa jurídica - continuando os sócios com a limitação da responsabilidade, característica das sociedades anônimas - como também advertir a terceiros que participarem das operações da liquidação desse estado anômalo da companhia. Esta, em princípio, deve em tal período praticar atos ou operações tendentes apenas a liquidar o patrimônio social. 31 .2 .4 Responsabilidade na liquidação Cabendo ao liquidante representar a sociedade no período que vai até a extinção, suas responsabilidades serão idênticas às dos administradores em ge- ral. São elas enumeradas no art. 158 da lei, e podem-se resumir no princípio de que o administrador não é pessoalmente responsável pelas obrigações que contrair em nome da sociedade e em virtude de ato regular de gestão, mas responde civilmente pelos prejuízos que causar quando proceder, dentro de suas atribuições ou poderes, com culpa ou dolo, ou em qualquer caso, com violação da lei ou do estatuto. Essa regra geral, sujeita a algumas restrições enumeradas nos parágrafos do citado art. 158, traça normas para a apuração da responsa- bilidade dos administradores. Mas não dispensa a norma que decorre do não cumprimento dos deveres de diligência e de lealdade dos administradores para com a sociedade, aplicáveis também ao liquidante que, no desempenho de suas funções, deve agir com o cuidado e a diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração dos seus próprios negócios, servindo à companhia com lealdade. Possui o liquidante as mesmas responsabilidades que os administradores da sociedade, e contra ele pode ser proposta a ação de responsabilidade de que trata o art. 159. Ao conselho fiscal que funcionar durante o período da liquidação, se o seu funcionamento for permanente, cabe solicitar judicialmente o afastamento do liquidante para apuração de sua res- ponsabilidade e conseqüente reparação dos prejuízos causados ao patrimônio social, quando for o caso. Não estando o conselho em funcionamento, os acio- nistas que representarem pelo menos 5% do capital social poderão propor a ação, na forma do § 4.° do art. 159. Não exclui essa ação, entretanto, a que o acionista, individualmente, pode mover contra o liquidante, para reparação dos danos sofridos por ato do mesmo na liquidação, segundo os termos do § 7.° do art. 159 e do art. 218. Só assim poderão os acionistas ter a segurança de que, no processo de liquidação, o liquidante agirá sempre no interesse geral, procurando realizar suas funções de modo a que os direitos dos acionistas - em favor de quem é feita a liquidação - sejam sempre preservados. 31.2.5 Extinção Pago o passivo da sociedade, rateado entre os acionistas o remanescente do ativo, o liquidante convocará a assembléia geral para sua prestação de contas Sociedades Anônimas 113 final; isto feito e aprovadas as contas, se terá como encerrada a liquidação. Isso significa que o rateio do remanescente do ativo entre os acionistas faz parte da liquidação da sociedade, constituindo um dos deveres do liquidante, como, aliás, já constava do n.O IV do art. 210. Sendo, portanto, a distribuição do remanescente um ato que deve ser praticado pelo liquidante, a sociedade na realidade se extinguirá apenas quando o mesmo for praticado. A sociedade s6 será considerada extinta quando desaparecer a pessoa jurídica que, conforme regra especial no art. 207, permanece enquanto durar a liquida- ção. Mas essa pessoa jurídica, tendo sua existência iniciado quando foram ar- quivados no Registro do Comércio os atos relativos à constituição da sociedade, s6 desaparece, realmente, quando forem arquivados .também os documentos rela- tivos à liquidação dessa, com o que se dará baixa no Registro. Assim, de di- reito a sociedade não se extingue com o encerramento da liquidação, como dis- põem o § 1.0 do art. 216 e o n.O I do art. 219. Essa extinção se observará quando o Registro do Comércio, nos termos da lei, fizer o arquivamento dos documentos concernentes à liquidação, cancelando-se então o registro da pessoa jurídica. Conseqüência disso é que, enquanto não for feito esse cancelamento, a pes- soa jurídica, apesar de já haver a sociedade liquidado o seu patrimônio, pagan- do todas as dívidas sociais e, antecipando-se à extinção, rateado o remanescente entre os acionistas, ainda tem nome próprio, domicílio, nacionalidade, e em princípio continuam os seus administradores responsáveis subsidiariamente, in- clusive para com o fisco, pelos ônus que vierem a pesar sobre a sociedade que já não mais funciona. Existindo um Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas, em que a sociedade esteja inscrita, s6 será dada baixa da mesma depois de se verificar no Registro do Comércio o cancelamento do registro da companhia. Também se extingue a sociedade pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outrassociedades. Sobre essas modalidades especiais de extinção teremos oportunidade de nos referir quando forem estudados os arts. 223 a 234, que tratam da incorporação, da fusão e da cisão. 32. Transformação, incorporação, fusão e cisão 32 . 1 Transformação As alterações existentes nas regras a regular esses procedimentos que modi- ficam os vários tipos sociais dizem respeito à melhor estruturação nas várias fases por que passam as sociedades ao se transformar, incorporar ou fundir. Daí a introdução de um protocolo a ser firmado pelos 6rgãos da administração ou s6cios das sociedades interessadas na incorporação, fusão e cisão, do qual cons- tem os elementos esclarecedores a respeito da posição que ditas sociedades ou seus sócios assumirão com a realização do procedimento projetado. Como acontecia com a lei anterior, a atual dá uma definição da transforma- ção, considerando-a "a operação pela qual a sociedade passa, independente- mente de dissolução e liquidação, de um tipo para outro". Note-se, apenas, em relação ao disposto na lei anterior - de que a atual é quase uma repetição - neste dispositivo, que a nova lei declara se operar a transformação indepen- 114 R.C.P. 2/86 dentemente de dissolução e liquidação, enquanto que a revogada falava em dissolução ou liquidação. Essa alteração, como facilmente se deduz, provém do fato de a lei anterior não haver admitido, para as sociedades anônimas, o con- ceito de dissolução de que trata o Código Comercial em relação às sociedades contratuais. No regime do Decreto-Iei n.O 2.627, as sociedades anônimas primeiro entra- vam em liquidação, depois do que se extinguiam. A lei atual voltou ao regime do Código, considerando a sociedade dissolvida na ocorrência de determinados fatos ou circunstâncias, seguindo-se à dissolução a liquidação, nesta compreen- dida a partilha, para final extinção da sociedade, através do desaparecimento da pessoa jurídica. Mesmo com essa pequena diferença na formulação do artigo (uma outra existe, referindo-se a lei atual a tipo de sociedade, enquanto que a anterior falava em espécie), deve a transformação ser compreendida como a operação pela qual a sociedade, sem se dissolver ou liquidar o seu patrimônio, modifica o seu tipo social, de acordo com o cumprimento de determinadas regras. Ca- racteriza-se, assim, a transformação pelo fato de mudar a sociedade de tipo, sem que haja necessidade de ser dissolvida. Não se refere a lei apenas à trans- formação de uma sociedade qualquer em sociedade anônima ou de uma com- panhia em qualquer outro tipo social. 32 . 1 . 1 Deliberação Para que se possa verificar a transformação de uma sociedade em outro tipo social, necessário é que haja o consentimento unânime dos participantes dessa sociedade, seja ela uma sociedade de pessoas, seja uma sociedade anônima. Assim deve acontecer, pois, com a transformação: há substituição de um tipo social por outro. Na realidade, o sócio ou acionista passa a pertencer a uma sociedade com características diversas daquela de que fazia parte, daí decor- rendo as naturais conseqüências dessa mudança de tipo social. 32.2 Incorporação A lei, repetindo o que dispunha a lei anterior (Decreto-lei n.O 2.627, art. 152), conceitua a incorporação como a "operação pela qual uma ou mais so- ciedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações". Devem existir na incorporação, portanto, duas ou mais socieda- des, residindo a operação no fato de haver a absorção da ou das sociedades por uma outra, que permanecerá, enquanto a/ou as demais se extinguem. A incorporação, por tal razão, modemamente é considerada como uma das mo- dalidades da fusão (fusão por absorção). Em face disso, leis recentes sobre sociedades por ações não possuem mais regras específicas sobre a incorporação, englobando-a na fusão. Característica da incorporação é, assim, a extinção das sociedades incorpo- radoras sucessoras das mesmas em relação aos seus direitos e obrigações. Há, desse modo, a absorção do patrimônio da sociedade, com a extinção desta, pas- sando os s6cios da incorporada a ser sócios da incorporadora. Diverge, por Sociedades Anônimas 115 isso, a incorporação propriamente dita da chamada incorporação para conver- são da sociedade incorporada em subsidiária integral, de que trata o art. 252 da lei. Em relação à sociedade incorporadora, para que seja decidida a incorpora- ção de uma outra é necessário que haja uma manifestação da assembléia geral para aprovar a operação. A lei, de fato só exige especificamente a realização da assembléia quando a sociedade vai ser incorporada, referindo-se a essa exi- gência o n.O VIII, do art. 122, e o n.O VI, do art. 136, este determinado para a aprovação da decisão a respeito um quorum qualificado de, no mínimo, me- tade das ações com direito a voto, tendo os acionistas que dissentirem da deci- são o direito de retirar-se da sociedade, embolsados do valor patrimonial de suas ações segundo a regra do art. 45 -;- regra repetida no art. 230. En.tre- tanto, o § 1.° deste art. 227 refere-se a uma assembléia geral da companhia incorporadora para aprovação do protocolo da operação, devendo essa assem- bléia autorizar o aumento de capital a ser subscrito e realizado pela incorpo- rada. A assembléia, aprovado o protocolo da operação, também se destina a nomear os peritos que avaliarão o patrimônio líquido da sociedade a ser incor- porada, devendo a subscrição de ações ser feita tomando por base o valor encontrado para esse patrimônio líquido. 32.3 Fusão A lei atual seguiu a mesma orientação da anterior, ao considerar a fusão como "a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar uma nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações". Como já foi dito, em grande número de países a fusão compreende também a incorporação, considerada como "fusão por absorção". Inicia-se o processo de fusão com o preparo do protocolo, que conterá as conclusões a que chegaram os representantes de ambas as sociedades, ao ser estudada a operação. Esse protocolo deverá ser apresentado aos sócios de cada sociedade interes- sada na fusão; se essas sociedades forem anônimas, serão realizadas assembléias gerais de cada uma para que o protocolo, devidamente justificado, seja discuti- do e afinal votado. Havendo aprovação desse documento preliminar, a socie- dade deverá nomear os peritos que avaliarão o patrimônio ou patrimônios líquidos das demais sociedades que irão se amalgamar para dar nascimento a uma sociedade nova. Naturalmente, os peritos não farão a avaliação do patri- mônio da sociedade que representam; havendo interesse comum na criação de uma sociedade nova, cada sociedade indicará pessoas para a avaliação do patri- mônio da outra ou das outras sociedades, a fim de serem evitadas quaisquer tentativas de fraude na fusão. Aos peritos será aplicado o disposto no § 1.° do art. 8.°. Feitas as respectivas avaliações, os laudos dos peritos de cada socie- dade serão apresentados a ela, que os examinarão e aprovarão. A seguir, as sociedades interessadas convocarão os seus acionistas ou sócios para uma assembléia comum, na qual serão discutidos e aprovados os diversos laudos; nessa assembléia os sócios ou acionistas não poderão votar sobre o laudo de sua própria sociedade. Finalmente, se todos os laudos forem aprova- 116 R.C.P. 2/86 dos, será então deliberada a constituição da nova sociedade, com base no que foi estipulado no protocolo de fusão, previamente aprovado por cada sociedade. A constituição da nova sociedade faz-se obedecendo aos mesmos princípios que regulam a constituição do tipo societário escolhido para substituir as so- ciedades que se fundirem. Em se tratando de constituição de uma sociedade anônima pela fusão de duas ou mais sociedades, anônimas ou não, deverão ser observados os requisitos exigidos para' que a companhia se possa formar, com as naturais adaptações decorrentes dessa modalidade especial de constituição. O númeromínimo de sócios já não significa problema, pois a nova lei permite que a sociedade se constitua com apenas dois acionistas, em lugar de sete, como acontecia com a lei anterior. Ocorre, entretanto, que jamais haverá a fusão com a constituição de uma sociedade com apenas dois sócios ou acionistas, pelo fato de resultando a fusão da união de duas ou mais sociedades, ainda mesmo que se trate apenas de duas sociedades, essas deverão ser compostas de dois ou mais sócios cada. Em tais condições, a sociedade resultante da fusão deverá contar pelo menos com quatro sócios. Isso de acordo com a orientação da fusão adotada pela lei brasileira, que a separa da incorporação. Se, entretanto, hou- vesse a lei brasileira aceito a incorporação como uma modalidade de fusão (fusão por absorção) poderia a sociedade sobrevivente ter menos de quatro sócios, desde que possuísse todo o capital da sociedade incorporada. Na cons- tituição da nova sociedade é feita a escolha dos primeiros administradores, mediante a indicação dos sócios ou acionistas das sociedades que se fundirão, em processo a ser por eles regulado, acaso o protocolo de fusão tenha estabe- lecido norma a respeito. A esses primeiros administradores incumbirá promover o arquivamento e publicação dos atos de fusão, do mesmo modo que cabe aos primeiros administradores das sociedades anônimas que se constituem pela for- ma comum realizar esses atos, nos termos dos arts. 94 e segs. da lei. Aplicam-se à fusão as mesmas normas aplicáveis à incorporação, no que diz respeito às responsabilidades fiscais da sociedade, constituídas pelas obriga- ções tributárias das sociedades fundidas. 32.4 Cisão A nova lei, que se mostrou bastante conservadora ao contemplar, em regras especiais, como o fazia a lei anterior, a incorporação - nas modernas legis- lações incluída na fusão, constituindo a chamada fusão por absorção - dá um passo avantajado como bastante avançado dentre os que, no momento regulam as sociedades anônimas, ao dispor de modo especial sobre a cisão, cujo con- ceito é expresso no caput deste art. 229. De fato, em decorrência principalmente do crescimento desmesurado de cer- tas sociedades anônimas, que muitas vezes se constituem instituições tão gran- des que se toma difícil administrar, tem-se observado a necessidade de di- minuir o seu patrimônio. Para evitar uma redução no capital social, admite-se que o melhor caminho será a criação de sociedades novas com o patrimônio formado com parcela da outra sociedade, sendo sócios da sociedade criada as mesmas pessoas que participavam da cindida. A elas serão atribuídas ações da sociedade nova, em substituição às ações extintas na cindida e na proporção das possuídas por acionista. Poderá, igualmente, a cisão de uma sociedade ve- Sociedades Anônimas 117 rificar-se com versão de parte do seu patrimônio para sociedade já existente, quando a operação se processará obedecendo às disposições relativas à incor- poração. Por último, a cisão pode-se dar quando a sociedade cindida transfere todo o seu patrimônio para duas ou mais sociedades, novas ou já existentes, extinguindo-se, assim, a que se cinde. Essa operação realiza-se, em regra, quan- do na sociedade existem dois ou mais grupos que não se entendem, havendo, portanto, dificuldades na manutenção dessa sociedade. Opera-se, então, a cisão de acordo com o que convierem as partes em assembléia geral. Essa operação, quando não regulada em lei, requer uma série de atos não apenas demorados, mas difíceis de serem praticados coordenadamente, ficando, portanto, suas conseqüências sujeitas ao interesse momentâneo dos acionistas. A sociedade teria que ser dissolvida para, em seguida, os mesmos sócios constituírem sociedades novas, quando se tratar de cisão com extinção da so- ciedade cindida. No caso de cisão parcial, fazendo a sociedade o "destaque" de parte do seu patrimônio para que os sócios, que recebem as importâncias relativas às suas ações, constituam uma sociedade nova, nem assim se poderá assegurar que esse fato ocorrerá, pois, reecebendo tais importâncias, os sócios - proprietários das mesmas - darão a elas o destino que quiserem. Assim, quan- do não existe disposição legal relativa à cisão, essa operação faz-se com muitas dificuldades, sem a segurança, principalmente para os credores, que o proce- dimento legal procura dar. 33. Sociedades de economia mista Apesar da regra de que as companhias de economia mista são entidades que pertencem à administração indireta do Estado, é inegável que a lei as caracte- riza como sociedades de direito privado e assim devem ser entendidas. As nor- mas contidas não apenas neste art. 235 como em outros que se seguem, man- dando que tais sociedades obedeçam aos dispositivos comuns da lei, mostram que devem elas ser tratadas como sociedades de direito privado, apesar da in- decisão do legislador de tomar uma posição definitiva sobre o assunto. De fato, se as mesmas estão subordinadas aos princípios gerais da Lei das Sociedades Anônimas, ressalvadas apenas disposições especiais de lei federal; se ficam su- jeitas às normas emanadas da CVM, quando funcionam como sociedades aber- tas; se o Estado, que possui a maioria do capital votante, tem os deveres e res- ponsabilidades do acionista controlador, já que as ações de que dispõe lhe asseguram não apenas a eleição da maioria dos administradores como usa o Estado, de modo efetivo, o seu poder para dirigir as atividades sociais e orien- tar o funcionamento dos órgãos da companhia; se os seus administradores têm os mesmos deveres e responsabilidades dos administradores das sociedades aber- tas comuns, tudo isto nos leva a categorizar as sociedades de economia mista como sociedades privadas, apesar dos dispositivos da Lei da Reforma Adminis- trativa que procuram enquadrá-las entre as sociedades públicas. E assim tem sido realmente entendido por grande parte da doutrina, quer antes, quer depois de promulgada a Lei n.O 6.404, incluindo as sociedades de economia mista como uma das modalidades das sociedades anônimas. 118 R.C.P. 2/86 33.1 Objeto A lei que autoriza a constituição da sociedade de economia mista deverá expor, de modo detalhado, o objeto a que a mesma irá dedicar suas atividades, segundo a regra geral contida no § 2.° do art. 2.° desta lei. E, uma vez men- cionado esse objeto "de modo completo e preciso", as atividades da sociedade só poderão girar em tomo do mesmo, não podendo, portanto, a assembléia geral mudar dito objeto, na forma do n.O V do art. 136, visto como ele, na realidade, é traçado pela lei que autoriza a constituição da sociedade, trans- posto naturalmente, com os devidos detalhes, para o estatuto, por ser elemento essencial para este. Cabe, portanto, ao legislador escolher o objeto a ser explorado pela compa- nhia de economia mista, de modo a evitar que haja invasão mais direta nas atividades comuns dos comerciantes, quando a lei especial, que autorizar a constituição das sociedades, dispuser a respeito. ~ justamente na escolha do objeto social que se nota uma das maiores interferências do Poder Público nas atividades econômicas, distinguindo as sociedades de economia mista das so- ciedades puramente privadas. Através do controle que mantém sobre o capital social, sendo titular de uma maioria de ações votantes capaz de controlar a sociedade, o Estado faz com que sua vontade se manifeste através dos adminis- tradores por ele indicados ou eleitos para superintender ou gerir a companhia. Mas essa interferência é complementada pela ecolha do objeto social, feita atra- vés da lei que atualiza a constituição da sociedade de economia mista. Esse objeto limita as atividades da companhia, que devem girar em tomo do mes- mo. A lei fala em empreendimentos e atividades, mostrando que a companhia pode-se dedicar não apenas ao exercício comum do comércio, mas também à realização de certos atos que normalmente não se enquadram nas atividades dos comerciantes privados, em princípio aindapresos, em larga escala, ao con- ceito clássico de que o comerciante é um intermediário entre o produtor e o consumidor. 34. Sociedades coligadas, controladoras e controladas A nova lei brasileira, procurando regular a participação de uma sociedade em outra, classificou essa participação em coligação e controle, adotando ca- racterísticas próprias para cada uma dessas modalidades de participação. No fundo, o critério determinante da classificação é o do controle de uma socie- dade por outra; mas o montante da participação no capital também é levado em conta quando se trata de sociedades coligadas, em que um mínimo da par- ticipação no capital da outra sociedade é fixado. Segundo o disposto nos §§ 1.0 e 2.° do art. 243, as sociedades que parti- cipam de outras classificam-se em sociedades coligadas e controladas. Coligadas são as sociedades em que uma participa, com 10% ou mais, do capital de outra, sem, contudo, controlá-la. O elemento essencial da classificação é o con- trole de uma sociedade por outra; a percentagem mínima de 10% é fixada apenas como regra geral, para efeito de tomar obrigatória a menção da par- ticipação não apenas no relatório anual das companhias como nas demonstra- Sociedades Anônimas 119 ções financeiras, que devem obedecer a certos requisitos especiais, segundo o estabelecido nos arts. 247 e 248. Nessas condições, para que uma sociedade possa ser considerada como coli- gada de outra é necessário que tenha, na segunda, uma participação no capital superior a 10%, mas que não a controle. Isso significa que a participação no capital da coligada pode ser mesmo superior a 50%, limite usual para que uma sociedade obtenha o controle de outra. Acontece, entretanto, que o que dá o controle da sociedade são as condições votantes, que pela lei atual podem ser reduzidas a um número mínimo, fazendo com que a sociedade seja controlada por acionistas que participam com reduzidíssima importância do capital; basta que a sociedade possua ações preferenciais sem direito a voto no limite per- mitido pela lei (66% do capital social) e, além do mais, entre as ações ordi- nárias, ações sob a forma ao portador. Em virtude desses fatos, pode uma sociedade possuir mais de 50% do capital de outra sem, contudo, controlá-la, desde que sua participação seja em ações das quais foi retirado o direito de voto. Em tal hipótese, as sociedades são apenas coligadas. Por outro lado, o argumento serve para mostrar que uma sociedade pode ser controlada por outra mesmo participando com pequena parcela do capital desta, desde que essa par- cela se constitua de ações votantes. Controlada é a sociedade em que outra é titular dos direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores. A sociedade que possui tais direitos de sócio denomina-se controladora; a titularidade dos direitos pode ser da própria sociedade ou exercida através de outras sociedades controladas pela controladora. Assim, o controle pode ser direto ou indireto. Considera-se direto aquele em que a própria sociedade é detentora dos direitos de voto capazes de assegurar a preponderância nas deli- berações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores. Indireto é quando esses direitos pertencem à controladora através de outras controladas. Ao considerar como sociedade controladora aquela que dispõe, em caráter permanente, dos direitos de sócio capazes de dar preponderância nas delibera- ções sociais e com o poder de eleger a maioria dos administradores, a lei fugiu à classificação em função da maioria do capital, como já havia feito com as sociedades coligadas. A sociedade controladora equipara-se ao acionista con- trolador, cujo conceito é dado pelo art. 116; apenas não exige a lei, para que a sociedade seja considerada controladora, que use "efetivamente o seu poder para dirigir as atividades sociais e orientar o funcionamento dos órgãos da com- panhia", como determina na alínea b do art. 116. Mas é intuitivo que, contro- lando uma outra sociedade, a intenção da controladora é justamente dar uni- dade de orientação às empresas que obedecem ao mesmo comando. 34.1 Responsabilidade dos administradores e das sociedades controladoras Apesear de coligadas ou controladas por outras companhias, as sociedades anônimas que contam com a participação ou participam de outras sociedades mantêm suas individualidades, praticando as atividades sociais dentro das nor- mas comuns das companhias. O controle de uma sociedade por outra diz res- peito à orientação a ser dada à sociedade cotrolada pela controladora, no sen- 120 R.C.P. 2/86 tido da política empresarial a ser adotada pela controlada, em virtude de a controladora se caracterizar por ser titular de direitos de sócios que lhe per- mitem, em caráter permanente, eleger a maioria dos administradores. Nem por isso, entretanto, esses administradores podem deixar de cumprir os seus deveres em relação às sociedades de que são órgãos; daí a lei estipular, neste artigo, que "os administradores não podem, em prejuízo da companhia, favorecer so- ciedade coligada, controladora ou controlada, cumprindo-lhe zelar para que as operações entre as sociedades, se houver, observem condições estritamente comutativas, ou com pagamento compensatório adequado". Já o art. 155 da lei, que trata do dever de lealdade dos administradores das companhias em geral, estatuía que a estes era vedado "omitir-se no exercício ou proteção de direitos da companhia". Não pode, assim, licitamente causar prejuízo à mesma em benefício de outrem. Apesar da ligação entre as socie- dades coligadas ou entre as controladoras e controladas, os deveres dos admi- nistradores continuam a imperar, pois, na realidade, as sociedades, ainda que às vezes unidas pelos mesmos interesses gerais, são sociedades diversas. Assim, ao administrador cabe zelar pelos interesses da sociedade que administra, e não pode com prejuízo desta, praticar quaisquer atos que visem a beneficiar socie- dade coligada, controladora ou controlada. Se ele assim fizer, os acionisats mi- noritários serão prejudicados, visto como a sociedade de que fazem parte sofre prejuízos que, em última análise, redundam em prejuízos para eles, acionistas. A lei não veda as operações comerciais entre as sociedades coligadas, con- troladoras ou controladas, já que são pessoas jurídicas diversas, cada uma praticando suas atividades normais. O que deseja é que essas operações sejam realizadas em bases estritamente comutativas, ou com pagamento compensa- tório adequado. Fugindo a essas normas e havendo prejuízo para a sociedade, os administradores deixam de cumprir os deveres que a lei, em linhas gerais, lhes impõe. Sujeitam-se, desse modo, a responder pelos atos, conforme já havia declarado, para os administradores em geral, o n.O 11 do art. ·158, que trata da responsabilidade dos administradores. Declara a lei que os administradores que violarem o disposto neste art. 245 "respondem, perante a companhia, pelas perdas e danos resultantes dos atos praticados". Os atos dos administradores violadores da lei devem ser devida- mente comprovados e os danos apurados para que os gestores que os causaram possam ser compelidos a repará-los. Ao caso se aplicam as normas dos §§ 2.° e 4.° do art. 158, ficando os administradores solidariamente responsáveis pelos ~rejuízos causados em virtude do não cumprimento desse .dever imposto pela lei. A ação de responsabilidade pelos prejuízos causados à sociedade compete à companhia, mediante prévia deliberação da assembléia geral. Se, entretanto, a sociedade, apesar da deliberação da assembléia geral, não propuser a ação no prazo de três meses da deliberação assemblear, qualquer acionista poderá promovê-la, na forma do § 3.° do art. 159. Igualmente, se a assembléia geral resolver não propor a ação contra o administrador que, com violação do disposto neste art. 245, causou prejuízos à sociedademediante a prática de ato de favorecimento à sociedade coligada, controladora ou controlada, acio- nistas que representem 5% pelo menos do capital social poderão propor refe- rida ação. Nas companhias abertas, a CVM tem poderes para reduzir essa percentagem, nas condições do art. 291 da lei. Sociedades Anônimas 121 34.2 Sociedade controladora A lei equipara a sociedade controladora ao acionista controlador. Mas o § 2.° do art. 243, ao conceituar a sociedade controladora, considera como tal aquela que, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e poder de eleger a maioria dos administradores. Esse con- ceito equivale ao que, de acionista controlador, dá o art. 116: este é a pessoa, natural ou jurídica, ou grupo de pessoas vinculadas por acordo de voto ou sob controle comum (como acontece, quanto à sociedade controladora, quando o controle é feito através de outras sociedades controladas), que é titular dos direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, a maioria de votos nas deliberações das assembléias gerais e o poder de eleger a maioria dcs administradores da companhia. Para acentuar mais a semelhança entre a socie- dade controladora e o acionista controlador, a lei, no presente art. 246, de- clara que aquela será obrigada a reparar os danos que causar à companhia por atos praticados com infração do disposto nos arts. 116 e 117, que tratam dos deveres e responsabilidades do acionista controlador. Constituem, assim, deveres da sociedade controladora usar do poder de que dispõe para fazer com que a companhia realize seu objetivo e cumpra sua função social, sem prejuízos para os acionistas, empregados ou terceiros, cujos direitos e interesses a sociedade controladora deve lealmente respeitar e aten- der. Além do mais, como é natural, não pode a sociedade controladora con- correr para que haja favorecimento à sociedade controlada, pois as duas so- ciedades devem atuar com autonomia dentro dos seus respectivos campos de ação. O art. 245, que traça regra sobre a responsabilidade dos administra- dores por fatos semelhantes, aplica-se também à sociedade controladora, que tem o dever de lealdade para com os seus próprios acionistas. Assim, quando este art. 246 determina que a sociedade controladora deve reparar os danos causados à companhia por atos praticados com violação dos arts. 116 e 117, deve-se estender aos casos enumerados nesses artigos o que dispõe o art. 245, em relação à responsabilidade dos administradores, para a defesa dos acionistas minoritários da controladora, que poderiam ser prejudicados se desse modo não acontecesse. Fala o artigo na responsabilidade da sociedade controladora por at05 vio- ladores dos arts. 116 e 117, que regulam os deveres e responsabilidades do acionista controlador. Atos violadores do disposto do art. 116 são os prati- cados pela sociedade controladora em relação ao cumprimento do objeto da companhia, tendo em vista a função social desta; igualmente esses atos se refe- rem aos direitos dos demais acionistas, ou acionistas minoritários, aos empre- gados da empresa e à comunidade em que esta atua, que não podem ser prejudicados pela sociedade controladora. Esta deve reparar os danos por acaso advindos quando o disposto no art. 116 é violado. Note-se que, em tal cast' por se tratar de prejuízos causados aos próprios componentes da empresa, ou pessoas com ela relacionadas, os atos da sociedade controladora se confundem com os dos administradores, já que o acionista controlador age por inter- médio dos administradores, não podendo agir diretamente na sociedade. 122 R.C.P. 2/86 35. Grupo de sociedades o que caracteriza um grupo de sociedades é o fato de constituir ele um conjunto de sociedades "juridicamente independentes mas economicamente unidas". ~, portanto, um modo de concentração de empresas, diverso de outros utilizados no campo da economia e do direito, como, por exemplo, a fusão ou incorporação de sociedades, quando há alteração radical pelo menos em uma das pessoas jurídicas envolvidas na operação, com reflexo nos seus associados, acionistas ou não. Daí dizer um autor que "o grupo de socie- dades se distingue, de início, de outros procedimentos de concentração, pelo fato de levar à constituição de uma estrutura nova desprovida de toda perso- nalidade jurídica e fundada sobre uma relação financeira ou contratual entre entidades juridicamente independentes". A lei brasileira caracterizou, no art. 265, o grupo de sociedades como aquele constituído pela sociedade controladora e suas controladas, mediante convenção pela qual se obriguem a combinar recursos em esforços para a realização dos respectivos objetos, ou a participar de atividades ou empreendimentos comuns. Baseia, assim, a lei brasileira, a existência do grupo na subordinação de socie- dades participantes do mesmo a uma outra sociedade que, na qualidade de controladora, é titular, direta ou indiretamente dos direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores das controladas. Havendo, por- tanto, essa participação de uma sociedade em outra ou outras, segundo as regras do art. 243, podem as sociedades, sem que abdiquem de sua persona- lidade jurídica individual, celebrar uma convenção pela qual se obriguem a combinar recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos, ou a participar de atividades ou empreendimentos comuns. Essa convenção, desse modo, deverá ser aprovada pelas sociedades que vão compor o grupo, contendo a lei normas especiais sobre a mesma. A lei é clara ao dispor que, pela convenção, as sociedades integrantes do grupo se obrigam a "combinar recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos". Abre-se, desse modo, uma exceção ao princípio contido no art. 245, segundo o qual "os administradores (das sociedades controla- doras) não podem, em prejuízo da companhia, favorecer sociedade coligada, controladora ou controlada, cumprindo-Ihes zelar para que as operações entre as sociedades, se houver, observem condições estritamente comutativas". No caso do grupo de sociedades, a finalidade do mesmo é justamente fazer com que, dentro do interesse do grupo, seja permitido o favorecimento de uma sociedade a outra, podendo até a convenção estipular que as sociedades fiquem obrigadas a "participar de atividades ou empreendimentos comuns". Haverá assim, no grupo de sociedades, uma sociedade controladora, ou de comando do grupo, que é justamente a que vai ditar a orientação que o grupo deve tomar para cumprir as obrigações decorrentes da convenção. A lei de- clara, entretanto, que essa sociedade de comando deve ser brasileira, para que o grupo possa se constituir. Ao se referir aos requisitos que a convenção do grupo deve conter, exige a lei uma "declaração da nacionalidade do .:on- trole do grupo". Considera-se o grupo sob controle brasileiro se a sua socie- dade de comando está sob o controle de pessoas naturais residentes ou domi- ciliadas no Brasil, ou sob o controle de pessoas jurídicas de direito público Sociedades Anônimas 123 interno, ou, finalmente, se está sob o controle de sociedade ou sociedades bra- sileiras que, direta ou indiretamente, estejam sob o controle de pessoas natu- rais residentes ou domiciliadas no Brasil ou de pessoas jurídicas de direito interno brasileiro (art. 269, VII e parágrafo único a, b e c). A lei exige. desse modo, que a sociedade de comando seja brasileira, isto é, constituída segundo as regras da lei brasileira e com sede de sua administração no país (Decreto-lei n.O 2.627, de 1940, art. 60). No momento em que se faz conven- ção do grupo, determina ela que seja declarada a nacionalidade do controle do mesmo considerando o grupo sob controle brasileiro se a sua sociedade de co- mando (que deve ser brasileira, ou seja, constituídade acordo com a lei brasi- leira, tendo no país a sede de sua administração) está sob o controle de pessoas naturais residentes ou domiciliadas no Brasil, ou de pessoas jurídicas de direito público interno ou sob o controle de sociedade ou sociedades brasileiras que es- tejam sob o controle das pessoas naturais ou jurídicas enumeradas. Donde se concluir que, se tal não acontecer, haverá controle estrangeiro do grupo, pois, apesar de ser brasileira a sociedade de comando, isto é, constituída segundo as leis brasileiras e com sede de administração no país, o acionista contro- lador dessa sociedade é estrangeiro, tendo as características de controlador por preencher os requisitos contidos no art. 116 da lei. Em tais condições, apesar de exigir a lei que a sociedade de comando do grupo de sociedades seja brasileira, permite que essa sociedade tenha controle estrangeiro, o que faz com que o grupo, observando-se o n.O VII e o pará- grafo único do art. 269, seja considerado sob controle estrangeiro. 36. Consórcio o consórcio forma um grupo de coordenação, enquanto que, segundo a lei brasileira, os grupos de sociedades são grupos de subordinação. De fato, en- quanto para se constituir um "grupo de sociedades", na forma do estipulado nos arts. 265 e segs., há necessidade de uma sociedade controladora e de sociedades controladas, subordinando-se, assim, estas à vontade daquela, no consórcio tal não acontece, ficando as sociedades consorciadas no mesmo pé de igualdade. Daí declarar a lei que o consorClO pode ser constituído pelas companhias "e quaisquer outras sociedades, sob o mesmo controle ou não". Deverá, de tal modo, existir uma coordenação entre as sociedades para a realização de em- preendimentos, obrigando-se cada uma nos termos do contrato firmado entre todas, respondendo, porém, simplesmente pelas obrigações assumidas de for- ma individual. Regulando a lei os consórcios - bastante comuns nos mais variados em- preendimentos - o faz de maneira que alguns dos dispositivos merecem ser esclarecidos, dada a orientação tomada pelo legislador, às vezes discrepante da legislação existente e do desejável. O grande mérito da lei é mostrar que o consórcio não se confunde com o grupo de sociedades, por não haver, no primeiro, subordinação de uma consorciada a outra; também não se confun- de o consórcio, tal como regulado na lei brasileira, com certos agrupamentos de sociedades ou de empresas, existentes em outros direitos, como os "grupamen- tos de interesse econômico". 124 R.C.P. 2/86 De qualquer maneira, os consórcios representam, ao lado dos "grupos de sociedades", uma concentração de empresas para a realização de determinado objetivo, constituindo sua regulação uma destacada contribuição do legislador para melhor compreensão da constituição e funcionamento dos mesmos. Segundo se depreende do disposto no art. 278, o consórcio significa o agru- pamento de sociedades, feito através de um contrato, com a finalidade de executar determinado empreendimento, obrigando-se cada sociedade, em re- lação àquele com quem o consórcio vai contratar, de acordo com as condições previstas no contrato e respondendo apenas pelas obrigações por ela assumidas. A lei, limitando a constituição dos consórcios, declara que os mesmos serão constituídos por "companhias e quaisquer outras sociedades", donde, para a existência de um consórcio, é indispensável a participação de ao menos uma sociedade anônima. A verdade, entretanto, é que nenhum motivo existe para fazer com que os consórcios sejam formados apenas com a participação de uma sociedade anô- nima; sociedades não-anônimas, principalmente sociedades por quotas, têm plena capacidade para constituir consórcios, como até o presente vem aconte- cendo. Melhor seria que a lei tivesse tratado o consórcio como a união de sociedades de modo geral e não apenas a união de sociedades que contem com a participação obrigatória de uma sociedade anônima ou companhia. 37. Sociedades em comandita por ações A nova Lei das Sociedades Anônimas conservou os dispositivos relativos às sociedades em comandita por ações, reproduzindo quase textualmente, as mesmas normas contidas nos arts. 163 a 167 do Decreto-Iei n.O 2.627 de 1940. Em virtude de haver o legislador elaborado uma lei bastante atualizada sobre as sociedades anônimas, incluindo na mesma não apenas normas aceitas nas mais modernas legislações, como princípios inovadores, não constantes ainda de outras leis, ela representa, sem dúvida, uma contribuição apreciável do nosso direito para o direito societário em geral. Seria esse o momento propício para que abolíssemos, de vez, as sociedades em comandita por ações, visto não estarem elas, no Brasil, contribuindo de qualquer modo para o desen- volvimento das atividades comerciais. Elas foram criadas, no direito francês, pelo art. 38 do Código de Comércio, que dispunha que as sociedades em comandita poderiam dividir parte do seu capital em ações, consistindo a outra parte em contribuição semelhante às das sociedades em nome coletivo. Tais sociedades se destinavam a facilitar a exis- tência de sociedades com muitas das características das anônimas, mas sem as dificuldades de constituição destas, que requerem autorização governamen- tal enquanto que as sociedades em comandita por ações se constituíam livre- mente. Em virtude de terem o seu capital dividido parte em ações e parte em contribuições como as dos sócios comanditados na comandita simples, o Código tratava os sócios não-possuidores de ações como comerciantes, a exemplo do que acontecia com os comanditados e os sócios coletivos das sociedades em nome coletivo. O tratamento desses sócios como comerciantes fazia com que respondessem eles, subsidiária e ilimitadamente pelas obrigações sociais. Ainda Sociedades Anônimas 125 hoje, a Lei n.O 66.537, de 24 de julho de 1966 (Código de Sociedades), que substituiu revogando (art. 505) os arts. 18 a 46 do Código de Comércio Fran- cês, estatui (art. 251) que nas sociedades em comandita por ações, os sócios comandita dos "têm a qualidade de comerciantes e respondem ilimitada e soli- dariamente pelas dívidas sociais", enquanto que os sócios comanditários "têm a qualidade de acionistas e não respondem por perdas senão até o total de suas contribuições. Trata-se, assim, no direito francês, de uma sociedade hí- brida, por sinal bastante criticada pela doutrina, que não vê utilidade na sua existência, devendo por isso desaparecer. O Código Comercial Brasileiro não tratou das sociedades em comandita por ações, mas era comum, ou pelo menos utilizado, esse tipo de sociedades, tanto que o Decreto n.O 1.487, de 13 de dezembro de 1854, proibiu o seu uso, e as Seções Reunidas da Justiça, Império e Fazenda do Conselho de Estado, atendendo a uma consulta feita pelo Governo, haviam considerado irregular ou ilegal, "à vista da letra e do espírito do Código Comercial". Entretanto, em 1882 a Lei n.O 3.150, de 4 de novembro, que dispunha sobre as socie- dades anônimas em geral, permitiu no art. 35 que as sociedades em coman- dita, de que tratavam os arts. 311 a 314 do Código, dividissem em ações o capital com que entravam os sócios comanditários~ iI\troduzindo, dess.e< modo, entre nós as sociedades em comandita por ações segundo o modelo constante do art. 38 do Código de Comércio Francês. A diferença existente entre as sociedades em comandita por ações regula- das pelo Decreto n.O 434 e as do Decreto-lei n.O 2.627 de 1940 é que naquele decreto se originavam aquelas em comandita por ações de uma sociedade em comandita simples, ou seja, de uma sociedade de pessoas, em que sócios res- pondiam ilimitadamente pelas obrigações sociais, porque eram, na realidade, sócios comanditados, considerados comerciantes pelo direito francês, que bem caracterizou a qualidade desses sócios. Já a partir do Decreto-lei n.O 2.627 de 1940, as sociedades em comandita por ações deixaram de ter, na sua ori- gem, natureza contratual, pois nãohavia mais sócios comanditados e aClOnis- tas, mas, pura e simplesmente, acionistas, isto é, sócios que, em princípio, têm responsabilidade limitada - somente assumindo responsabilidade ilimi- tada se ocuparem funções de diretores ou gerentes. Tendo a lei atual adotado a mesma orientação da anterior, verifica-se que tanto hoje como na vigência do Decreto-lei n.O 2.627, as sociedades em comandita por ações diferem gran- demente das que tratava o Decreto n.O 434 de 1891, bem como das que exis- tem no direito francês. Tanto as brasileiras criadas até 1940, como as fran- cesas eram, no fundo, sociedades em comandita, em que os sócios comanditá- rios tinham sua parte no capital representada por ações, enquanto que nas sociedades reguladas pelo Decreto-Iei n.O 2.627, ou pela lei atual, todos os sócios são acionistas. Possuem, portanto, responsabilidade limitada, só sendo ilimitadamente responsáveis os que ocuparem os cargos de gerentes. Tanto isso é verdade que se um gerente deixar as funções que exerce na sociedade voltará a ter sua responsabilidade limitada. No regime da Lei n.O 434 de 1891, se um gerente deixasse a função teria que converter sua parte de capital em ações, pois do contrário continuaria sendo ilimitadamente responsável pelas obrigações sociais, como, aliás, ainda hoje acontece no sistema francês, mesmo depois da reforma de 1966. 126 R.C.P. 2/86 Daí acreditarem alguns tratadistas que, no momento atual, as sociedades em comandita por ações apresentam um surto de desenvolvimento, em face de se querer nas sociedades anônimas em geral dar maior responsabilidade aos administradores. Se bem que os fatos demonstrem o contrário, pois o número dessas sociedades vai se diminuindo sempre à proporção que os anos passam, teoricamente se poderia aproximar a responsabilidade dos gerentes das socie- dades em comandita por ações da ampliação da responsabilidade dos adminis- tradores das sociedades anônimas (no caso de os gerentes das sociedades em comandita por ações, como acontece no direito francês, serem, na realidade, sócios comanditários). Tal não ocorre, contudo, no direito brasileiro, quer no regime do Decreto-lei n.O 2.627, quer no sistema da lei atual. Em ambas as leis, a responsabilidade dos gerentes decorre não de sua qualidade de sócio (sócio comanditado), mas da função que exerce na sociedade. E por se tratar de responsabilidade de função pode ser afastada, a qualquer momento, bas- tando que o gerente ou administrador deixe o seu cargo. Caracteriza-se a sociedade em comandita por ações pelo fato de possuir o capital social dividido em ações, como acontece, aliás. com as sociedades anônimas, regendo-se pelas normas relativas a estas sociedades. Há, porém, responsabilidade ilimitada dos que ocupam as funções de gerentes ou admi- nistradores. Várias restrições são feitas, entretanto, na utilização dos princípios das sociedades anônimas como direito subsidiário das sociedades em comandita por ações. Assim, por exemplo, no tocante ao nome social, este poderá ser uma firma ou uma denominação, da firma só fazendo parte nomes dos sócios que sejam gerentes ou administradores, porque têm eles responsabilidade ilimi- tada. A firma social bem como a denominação trarão sempre, para identifi- cação da sociedade, a expressão "em comandita por ações" ou "sociedade em comandita por ações". Também caracteriza as sociedades em comandita por ações o fato de so- mente sócios, ou seja, acionistas, poderem ser administradores ou gerentes, pois não possuem elas conselho de administração. Pelo fato de serem gerentes ou diretores, os sócios que exercem tais funções passam a responder ilimitada- mente pelas obrigações sociais, apesar de, em princípio, serem acionistas como os demais. Em virtude da responsabilidade dos gerentes ou administradores, nenhuma modificação no estatuto social sobre pontos essenciais, como, por exemplo, mu- dança de objeto da sociedade, prorrogação do seu prazo de duração, aumento ou diminuição do capital social, criação de debêntures ou partes beneficiárias ou aprovação da participação da sociedade em grupos de sociedades, poderá ser feita sem que haja consentimento expresso dos gerentes. Esses, por sua vez, serão nomeados no estatuto sem limitação de tempo, e só poderão ser destituídos por deliberação de acionistas que representem, no mínimo, 2/3 do capital social. Afora essas características, as sociedades em comandita por ações são reguladas, no mais, pelas regras das sociedades anôni- mas em que diz o art. 280 que as normas relativas às companhias regem as sociedades em comandita por ações, sem prejuízo das modificações constantes neste capítulo XXIII da lei, que são justamente as modificações que acabamos de mencionar. Sociedades Anônimas 127 Bibliografia Comentários à Lei das Sociedades Anônimas. Wilson de Souza Campos Batalha, Forense, v. 1, 2 e 3. Comentários à Lei das Sociedades Anônimas. Fran Martins, Forense, v. 1, 2 e 3. Comentários à Lei das Sociedades Anônimas. Rubens Requião e Luiz Gastão Paes de Barros Leães, Saraiva, 1980. A Nova Lei das Sociedades Anônimas Interpretada. José Washington Coelho. São Paulo. Resenha Universitária, 1977. S/A. Sociedades por Ações. Luiz Melega, Ed. São Paulo. Sociedades por Ações. Paulo C. A. Lima. Ed. Trabalhistas. 128 DE OLHO NO AMANHÃ Nas livrarias da FGV: Estudos do Futuro: introdução à antecipação , tecnológica e social HENRIOUE RA,TNER Rio - Praia de Botafogo, 188 Av. Presidente Wilson, 228-A São Paulo - Av. Nove de Julho, 2029 Brasília - CLS 104, Bloco A, loja 37 Ç>u pelo Reembolso Postal A FGV/Editora - Divisão de Vendas Caixa Postal 9052 20.000 - Rio de Janeiro - RJ R.C.P. 2/86