Prévia do material em texto
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE CURSO DE ENFERMAGEM VITÓRIA CRUZ LANA HUMANIZAÇÃO DO PARTO INDÍGENA HOSPITALAR: sob a ótica de enfermeiros atuantes em maternidade de Roraima BOA VISTA, RR 2016 2 VITÓRIA CRUZ LANA HUMANIZAÇÃO DO PARTO INDÍGENA HOSPITALAR: sob a ótica de enfermeiros atuantes em maternidade de Roraima Monografia apresentada como requisito para conclusão do Curso de Bacharelado em Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Roraima. Orientadora: Profª. Ma. Cíntia Freitas Casimiro. BOA VISTA, RR 2016 3 4 5 À minha mãe e meus avós: Adriana Maria Silva da Cruz Amadeus da Cruz (in memorian) Maria de Fátima Silva da Cruz 6 AGRADECIMENTOS A Deus e Nossa Senhora Consolata por colocarem em meu caminho pessoas magníficas, oportunidades maravilhosas, e me dar a coragem de seguir em busca dos meus sonhos. À minha avó Maria de Fátima Silva da Cruz que com sua fé me forneceu apoio e força em todos os momentos que precisei. À minha mãe Adriana Maria Silva da Cruz pelo apoio incondicional, por todo amor e por transformar meus sonhos em realidade. Ao meu pai Vilmar Lana pelo incentivo e por me fazer acreditar que fiz a escolha certa. A toda minha família, pelos ensinados e valores demonstrados durante minha vida, pela compreensão e apoio nos momentos difíceis. Ao meu noivo Lisandro Gabriel de Melo Cerveira pelo amor, e apoio nos tempos difíceis, por me acalmar nos momentos de angústias, e compreender minha ausência. À minha orientadora e amiga Profª. Msc. Cíntia Freitas Casimiro, pela paciência, confiança, e compreensão, pelos ensinamentos, sugestões e orientações, e, sobretudo a amizade. Aos Membros da Banca Prof.ª Ma. Raquel Voges Caldart, Prof.ª Ma. Tárcia Millene de Almeida Costa Barreto, Enfº. Rafhael Brito de Almeida Santos, pelo incentivo em realizar trabalhos sobre saúde indígena, e por toda dedicação, empenho e contribuição para o desenvolvimento desse trabalho. Aos professores da graduação pelos conhecimentos transmitidos, pela dedicação, pelos projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos, e, sobretudo pela contribuição no meu crescimento pessoal e profissional. Aos amigos que fiz durante esta jornada Lanna, Celiane, Nathália, Bárbara, Thais, Sarhieli, Janaína, e João pelo estímulo em tempos difíceis, pelos agradáveis momentos compartilhados nessa trajetória. Aos amigos Brunna Caroline, Pedro Eduardo e Nathália Faíza pelo apoio e disponibilidade em ajudar, pois foram fundamentais para a realização deste trabalho. Aos entrevistados da pesquisa, pela confiança, generosidade, e por acreditarem na melhoria da assistência aos povos indígenas aceitando participarem do estudo. À Universidade Federal de Roraima – UFRR por possibilitar a realização desta graduação, e por ser uma instituição que qualifica os profissionais para o futuro. E finalmente, a todas as pessoas que, de alguma forma contribuíram para a realização dos meus objetivos, acreditando e vencendo junto comigo. 7 “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.” (Boaventura de Souza Santos) 8 RESUMO O Brasil apresenta uma expressiva população indígena, com maior concentração na região norte, e Roraima é o segundo estado da região com maior população indígena, com aproximadamente 11% da sua população autodeclarada indígena. Na perspectiva de atender esta população, criaram-se políticas públicas de atenção à saúde dos povos indígena como forma de reorganizar o Sistema Único de Saúde (SUS) a atender as especificidades dessa população. Assim, faz-se necessário conhecer as particularidades que permeiam a vida da mulher indígena, sendo esta marcada por ensinamentos, tradições e costumes culturais que influenciam no momento do parto. A pesquisa teve como objetivos analisar a atuação de enfermeiros na humanização do parto indígena hospitalar; conhecer a percepção de enfermeiros acerca da atenção à saúde da parturiente indígena no estado de Roraima; identificar as ações desenvolvidas pelo enfermeiro no parto indígena em um hospital do estado de Roraima. O percurso metodológico teve a abordagem qualitativa, com o emprego do estudo etnográfico, desenvolvido durante os meses de março a novembro de 2016. Os informantes da pesquisa foram onze enfermeiros especialistas em obstetrícia com no mínimo um ano de atuação nas salas de parto de uma maternidade de Roraima. Para a coleta de dados utilizou-se entrevista semiestruturada com questões norteadoras, também foi utilizado gravador e diário de campo. Os dados foram analisados mediante as técnicas de análise de conteúdo de Bardin, emergindo três categorias: peculiaridades da parturiente indígena, condutas do enfermeiro com a parturiente indígena e entraves na atuação do enfermeiro na assistência a indígena. Pôde-se evidenciar que a humanização do parto indígena hospitalar foi relacionada com o fato de deixar as indígenas conduzirem o próprio parto. Porém quando abordados os sentimentos das indígenas no período de internação, identificou-se que estas não se sentem confortáveis com o local e idioma desconhecido, além da falta de compreensão dos procedimentos e assistência prestada pelos enfermeiros à mulher indígena, na qual não se enquadrou aos princípios e diretrizes da Política Nacional de Humanização devido às dificuldades de comunicação, a falta de um ambiente físico adequado aos costumes culturais e a ausência de capacitação profissional. PALAVRAS-CHAVE: Medicina Tradicional. Parto Humanizado. Saúde Indígena. Enfermagem. 9 ABSTRACT Brazil has a significant indigenous population, with a higher concentration in the north part of the country, where is located the state of Roraima, the second state in the north of Brazil with the highest indigenous population. It is about 11% of the population declare themselves as an indigenous. To provide health service to those people, who lives in areas of difficult access, the government reorganized the public health system creating health policies for indigenous peoples whereas their specificities and the culture of this population. Thus, it is necessary to better understand the peculiarities regarding to the reproductive health of indigenous women and their traditions and cultural customs that can influence during the process of the childbirth.This study aims to analyze the performance of nurses in the hospital humanization of indigenous labor; to know the perception of nurses about health care for the indigenous woman in labor in the state of Roraima and to identify the actions developed by nurses during the indigenous birth process in a hospital in the state of Roraima. The methodological route adopted a qualitative approach, with the use of an ethnographic study, being conducted within the months of March to November, 2016. The informants of the survey were eleven midwife specialists with at least one year of work experience in the labor room of a maternity in Boa Vista, Roraima. For such, the instruments used for data collection were: semi-structured interviews with guiding questions, a recorder and a field diary. The data were analyzed by using the techniques of Bardin content analysis, emerging three categories: peculiarities of the Indigenous woman in labor, nursing conduct with the indigenous womanin labor and obstacles faced by the nurse's role while assisting the indigenous woman. It could be noted that the humanization of hospital indigenous labor was related to the fact of leaving the Indians lead the labor process by themselves. But when the feelings of the natives during hospitalization was approached, it could be identified that they do not feel comfortable with the place and unfamiliar language, the lack of understanding about the procedures, the assistance provided by nurses to indigenous women, once this did not fit the principles and guidelines of the National Humanization Policy due to communication difficulties, lack of physical environment adequate to the cultural customs, besides the lack of professional training. KEYWORDS: Traditional Medicine. Humanized birth. Indigenous Health. Nursing. 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 11 1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA .. 11 1.2 OBJETIVOS ................................................................................................. 13 1.2.1 Objetivo geral......................................................................................... 13 1.2.2 Objetivos específicos ................................................................................. 13 1.3 JUSTIFICATIVA ........................................................................................... 13 2 REFERENCIAL TEMÁTICO ................................................................................... 14 2.1 SAÚDE DA MULHER INDÍGENA .................................................................... 14 2.2 HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO OBSTÉTRICA............................................... 17 3 METODOLOGIA ..................................................................................................... 20 3.1 TIPO DE ESTUDO ........................................................................................... 20 3.2 LOCAL DO ESTUDO ....................................................................................... 20 3.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA ............................................................................. 21 3.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS ................................................ 21 3.5 ANÁLISE DOS DADOS ................................................................................... 22 3.6 ASPECTOS ÉTICOS E LEGAIS ...................................................................... 24 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO .............................................................................. 26 Peculiaridades da Parturiente Indígena ................................................................. 27 Condutas do Enfermeiro com as Parturientes Indígenas ....................................... 34 Entraves na Atuação do Enfermeiro na Assistência a Indígena ............................ 41 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 49 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 51 APÊNDICE A ............................................................................................................. 58 ANEXO A .................................................................................................................. 59 ANEXO B .................................................................................................................. 60 ANEXO C .................................................................................................................. 62 11 1 INTRODUÇÃO 1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA O Brasil apresenta uma expressiva população indígena, estando presentes nas cinco regiões do país, sendo a região Norte a que concentra a maior quantidade de indivíduos desta raça e, entre os estados desta região, Roraima é o segundo com maior concentração, detendo o maior percentual populacional de indígenas, se comparado à população total do estado, uma vez que 49.637 pessoas se declararam indígenas em todo o território de Roraima, que tem como população total 450.479 habitantes, representando desta forma mais de 11% da população (IBGE, 2012). Na perspectiva de atender à saúde dos povos indígenas em suas especificidades étnicas e culturais, foi criada a Lei 9.836 de 1999, que regulamenta o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS), complementando a Lei 8.080 de 1990, que regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS), sendo considerado um marco histórico para a saúde indígena no Brasil, por promover um melhor direcionamento das ações de saúde destinadas a essa população, de forma a respeitar as diretrizes do SUS, diferenciando-se apenas nos aspectos culturais, sociais, históricos e epidemiológicos (BRASIL, 1999). Desta forma, foi necessário à adoção de um modelo complementar e diferenciado de organização dos serviços de saúde, criando em 2002 a Politica Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), que proporcionou uma reordenação e adaptação da rede de serviços de atenção à saúde indígena, promovendo diversos avanços para a saúde dos povos indígenas. No qual a atenção básica a saúde atua por meio dos Distritos Sanitários Especiais Indígena (DSEI), e os atendimentos de média e alta complexidade funcionam a partir do sistema de referencia para a rede ambulatorial e/ou hospitalar, todos vinculados ao SUS. (BRASIL, 2000; CRUZ, 2003, LUNARDI, 2004; MARTINS, 2013). Neste contexto acerca da saúde indígena, vislumbra-se a saúde da mulher indígena, amparada pela Política Nacional de Atenção Integral a Saúde da Mulher (PNAISM), criada em 2004 pelo Ministério da Saúde, com diversos objetivos sobre a integralidade e a promoção da saúde da mulher em todo o ciclo de vida e faixas etárias, dos distintos grupos populacionais. No entanto, pesquisas cientficas e políticas públicas específicas sobre a saúde da mulher indígena ainda são 12 superficiais, principalmente sobre o processo de gestação e nascimento entre as mulheres indígena sendo necessária a articulação de novas ações de atenção a esta parcela da população (BRASIL, 2004; MARCOLINO, 2012; NETO e SILVA, 2013). Desde a criação da PNAISM, a saúde da mulher vem ganhando destaque nas políticas públicas, como por exemplo, o Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal (2004), Política Nacional de Planejamento Familiar (2007), Política Nacional pelo Parto Natural e Contra as Cesáreas Desnecessárias (2008), e mais recentemente, em 2011, com a Rede Cegonha (RC) (BRASIL, 2009; BRASIL, 2011). A RC foi instituída pelo Ministério da Saúde (MS) no ano de 2011, sendo considerada como uma rede de cuidados integrais à mulher nos períodos da gravidez, parto, puerpério, além de atenção à saúde da criança. Está fundamentada em políticas públicas de saúde que contemplam a humanização, como por exemplo, a Política Nacional de Humanização (PNH), criada em 2003 com o objetivo de produzir mudanças no processo de cuidar, por meio da adequação dos serviços de saúde ao ambiente e as culturas de seus usuários (BRASIL, 2011; BRASIL, 2013). Como forma de atender as políticas de saúde, e considerando o respeito às questões culturais, previsto nestas, se faz necessário o conhecimento de costumes, crenças, tradições e valores culturais que permeiam as fases de vida da mulher indígena, uma vez que estes fatores influenciam diretamente na vida da indígena, como por exemplo, no momento do parto, no qual a indígena perpassa as dores do parto de forma silenciosa, devido o parto ser considerado como um evento intimista, de evolução rápida, que não necessita de recursos especializados (LAUDATO, 1998; BELAÚNDE, 2005; GIL, 2007a; ROZIN et al., 2009). Mediante o exposto, na perspectiva depreservação, valorização da cultura, e da expressiva população indígena no estado de Roraima, faz-se necessário humanizar a assistência à saúde materno infantil indígena, que requer a construção de estratégias entre os usuários, profissionais da saúde e gestores em saúde. Portanto, esta pesquisa teve o intuito de responder a seguinte questão: Na perspectiva de humanização do parto indígena, qual a percepção de enfermeiros que prestam assistência a esta população em um hospital de referência materno infantil do estado de Roraima acerca do parto indígena hospitalar. 13 1.2 OBJETIVOS 1.2.1 Objetivo geral Analisar a atuação de enfermeiros obstetras atuantes em um hospital materno infantil do estado de Roraima sobre a humanização do parto indígena hospitalar. 1.2.2 Objetivos específicos Conhecer a percepção de enfermeiros obstetras atuantes em hospital materno infantil acerca da atenção à saúde da parturiente indígena no estado de Roraima; Identificar as ações desenvolvidas pelo enfermeiro obstetra no parto indígena em um hospital do estado de Roraima. 1.3 JUSTIFICATIVA A motivação da autora para a realização desta pesquisa surgiu a partir da vivência enquanto acadêmica de enfermagem em ambiente hospitalar. Por meio desta vivencia foi possível constar a expressiva população indígena internada em hospitais do estado de Roraima, e identificar inúmeros problemas relacionados à comunicação e interação com esta população, devido a sua diversidade linguística, comportamental e diferenças culturais. Despertando a vontade de conhecer esta população e um interesse em contribuir com a humanização do atendimento, para colaborar com a melhoria da assistência à saúde dos povos indígenas, na perspectiva de respeito às concepções e valores culturais que permeiam a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. Portanto, é relevante analisar a atuação de enfermeiros acerca da humanização do parto indígena hospitalar, pois por meio de pesquisas deste caráter que se criam relações que orientam de forma humanizada as políticas públicas de saúde, tendo como foco a humanização do atendimento à mulher indígena. Promovendo benefícios para os profissionais que atuam na assistência ao parto de mulheres indígenas, uma vez o que propicia o surgimento de outros valores, novas maneiras de pensar e agir, quebrando-se as barreiras culturais e promovendo uma assistência imparcial, de qualidade e mais humanizada, beneficiando desta forma as mulheres indígenas. 14 2 REFERENCIAL TEMÁTICO Este referencial temático está estruturado em dois eixos, o primeiro aborda a mulher indígena e suas especificidades, o segundo compreende a humanização da atenção obstétrica no Brasil. 2.1 SAÚDE DA MULHER INDÍGENA É necessário abordar as tradições culturais que acompanha a vida de uma mulher indígena, tendo em vista que esta passa por diversos ensinamentos, rituais, tradições e costumes desde sua infância, e principalmente no período da puberdade e iniciação na vida adulta, devido ser caracterizada como a fase reprodutiva. Tais ensinamentos servem de preparo para a vida da indígena. Vale ressaltar a variação que ocorre dependendo da etnia, podem apresentar características diferentes devido à diversidade cultural que existe entre as etnias (LAUDATO, 1998; GIL et al., 2007; ROZIN et al., 2009). São exemplos destes ensinamentos a construção gradual do corpo de uma mulher indígena, sendo esta uma modelagem do corpo que ocorre por meio de rituais de reclusão, dietas alimentares e banho de ervas. No primeiro a indígena fica excluída do convívio familiar e social durante o período da primeira menstruação, tendo contato apenas com uma pessoa, geralmente a mãe ou avó (LAUDATO, 1998). Em relação às dietas alimentares, que variam de acordo como ciclo de vida da indígena, baseiam-se na restrição de determinados alimentos, que variam de acordo com a etnia, tais como água, goma de tapioca, banana, carnes entre outros. Já os banhos de ervas colhidas da floresta ocorrem geralmente no final da menstruação, onde as indígenas recebem estes banhos com água morna, que promovem a limpeza e fortificação do corpo e espírito (BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007). Outro aspecto relacionado à modelagem do corpo é a execução de tarefas específicas, como por exemplo, carregar água, lenha e os produtos da roça, além de executar atividade na posição de cócoras. Estas tarefas devem ocorrer desde a infância continuando durante toda a gravidez, uma vez que fortalece o corpo feminino para as virtudes deste sexo, principalmente para o momento do parto (BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007; MOLITERNO et al., 2013). A ideia de concepção também é outra característica de extrema relevância, pois esta atrelada a relação de parentesco, que por sua vez está vinculada a relação 15 de substância, considerado que uma família compartilha a mesma substância corporal, por acreditar que a concepção advém de todos os fluidos que a indígena manteve contato, como por exemplo, sangue, sêmen dos pais, ou de outra pessoa em que manteve relação sexual, fluidos de alimentos ingeridos durante a gravidez, podendo ter o potencial de interferir nas condições de saúde da criança e da gestante (GIL et al., 2007). Em relação à alimentação da indígena durante a gestação, esta pode ter o consumo adequado de alguns alimentos em particular, ou o mais comum, sendo abster-se de vários alimentos que podem colocar em risco a saúde do recém- nascido. Conforme as crenças indígenas, os alimentos que devem ser evitados podem ser divididos em dois conjuntos, segundo seus efeitos. Sendo alguns evitados por serem considerados portadores de espíritos, como por exemplo, a carne, estes podem no futuro, provocar doenças no recém-nascido, como diarreia, inchaço abdominal, constipação, ou até mesmo a morte. Outros são evitados por terem a capacidade de produzir efeitos indesejados no corpo da mãe, como inchaço, ganhos de peso excessivo, dependendo do caso. Essa tradição alimentar foi ensinada a mulher indígena ainda durante primeira menstruação (POLLOCK 1994; LAUDATO, 1998; GIL et al., 2007a; MOLITERNO et al., 2013). Percebe-se que são traços culturais de grande importância na vida da indígena, e estão ligados a purificação e instrução para introdução na vida adulta, sendo estes tratamentos e ensinamentos que irão dotar os corpos com determinadas características, como força e vitalidade, preparando-os em vários sentidos, no geral, em aspectos relacionados com vida reprodutiva, evitando dores nos períodos da menstruação, e no momento do parto (LAUDATO, 1998; BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007). Segundo Gil et al (2007) o momento do parto pode ser considerado em dois tipos de circunstâncias. A primeira, e mais comum, na qual o parto é percebido como uma prática “invisível”, momento em que a mulher indígena dá à luz sozinha, ou apenas com a ajuda de um familiar mais próximo quando o parto apresenta alguma dificuldade. Estes partos, em sua maioria, acontecem nas casas das parturientes ou na floresta, em alguma estrutura previamente preparada para esta finalidade. O nascimento não é notado pela comunidade, tomando conhecimento do evento após seu acontecimento, devido à parturiente manter-se isolada e sem demonstrativos de dor. Desta forma o parto é considerado um evento íntimo. 16 A segunda circunstância que se refere o parto indígena, é menos comum. Considerando o parto como um evento social, participando deste momento todas as mulheres da aldeia, acompanhando o processo, e cantando com o intuito de acalmar a parturiente e facilitar o nascimento da criança. Porém, mesmo nestes eventos, a indígena não manifesta sinais de dor (LAGROU, 1998; GIL et al., 2007). Identifica-se como característica marcante doparto indígena, o controle da parturiente em não manifestar sinais de dor, tais como gritos ou choros, sendo considerado como o parto sem dor. As indígenas mantêm a tranquilidade e focalizam na força para que ocorra a expulsão da criança. Para algumas mulheres indígenas, tal força esta contida nos ossos e em uma postura adequada, essa percepção também esta vinculada com os ensinamentos obtidos durante a menarca, e uso de ervas da floresta (BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007; MOLITERNO et al., 2013; SILVA, 2013). Em sua maioria, o parto indígena é um acontecimento que não gera alterações na rotina, e não necessita de mobilização de recursos, sejam estes humanos, tecnológicos ou terapêuticos, exceto em situações que ao decorrer do parto ocorram complicações, demandando assistência especial. Desta forma, o processo de parto da mulher indígena, em sua maioria, evolui de tal modo que esta dá a luz sozinha, ou acompanhada de uma mulher experiente, porém seu papel é de caráter social, apenas para o ato de receber a criança, uma vez que este ação determina uma afinidade com a criança (GIL et al., 2007; MOLITERNO et al., 2013). Após a expulsão do feto, ocorre o período da dequitação, ou seja, a expulsão da placenta, considerada uma das características de extrema importância para as mulheres indígenas, na qual o destino mais comum da placenta é ser enterrada, dependendo da etnia pode ser enterrada atrás da casa ou em algum lugar da mata por meio de um ritual cultural. A não realização desta ação acarretaria danos à vida do recém-nascido, uma vez que a placenta é concebida como um segundo filho, sendo considerado como irmão do recém-nascido. Assim, o parto implica diretamente na morte da placenta, provocando esta rivalidade entre a placenta e a criança. Outra explicação para a ação seria para nenhum animal ingerí-la, uma vez que a placenta compartilha da mesma substância da criança, o que acarretaria em morte instantânea tanto da placenta como da criança (LAUDATO, 1998; BRASIL, 2001; BELAÚNDE 2005; GIL et al., 2007; FERREIRA, 2013; MOLITERNO et al., 2013). 17 Outro aspecto cultural indígena é o momento do banho, seja da indígena ou do recém-nascido, estes devem ocorrer apenas no dia seguinte do parto, com água morna para manter a temperatura, evitar o adoecimento e diminuição da produção de leite materno, devido à concepção que a água fria pode causas estes danos a saúde (GIL et al, 2007). Nota-se que as fases de vida da mulher indígena são marcadas por inúmeros costumes e crenças, que variam de acordo com a etnia. (GIL, 2007a; ROZIN et al., 2009). 2.2 HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO OBSTÉTRICA Em relação ao amparo à saúde da mulher o MS lançou em 1984 o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), como a primeira preocupação com esta população (BRASIL, 2010). Este programa serviu de inspiração para a criação da PNAISM no ano de 2004, com o objetivo de promover a melhoria das condições de vida e saúde das mulheres brasileiras, por meio da garantia de direitos legalmente constituídos e ampliação do acesso à promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde em todo o país (BRASIL, 2004). Desta forma, contribuindo para a redução da morbimortalidade feminina no Brasil, de acordo com o quinto item dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, no qual consta a importância da concentração dos esforços para a redução das mortes maternas, e pleno direito ao acesso universal a saúde reprodutiva (ONU, 2015). Assim, a PNAISM abrange todos os ciclos de vida e os diversos grupos populacionais, tais como mulheres negras, indígenas, residentes em áreas urbanas e rurais, residentes em locais de difícil acesso, em situação de risco, presidiárias, de orientação homossexual, com deficiência, dentre outras. Além de expandir, qualificar e humanizar a atenção integral à saúde da mulher no SUS, considerando os seus princípios, a qualidade e humanização (BRASIL, 2004). Por isso, faz-se necessário compreender a humanização enquanto uma política de saúde pública, sendo esta a PNH. Criada em 2003 com finalidade de produzir mudanças no processo de cuidar, por meio da efetivação dos princípios do SUS nas rotinas dos serviços de saúde, a partir de suas diretrizes, tais como acolhimento, gestão participativa e cogestão, ambiência, clínica ampliada e compartilhada, valorização do trabalhador, além da defesa dos direitos dos usuários 18 dos serviços de saúde (BRASIL, 2013). A PNH também é conhecida como rede HumanizaSUS, esta política aposta na fusão de comunicação e informação entre gestores e profissionais da saúde, pesquisadores, estudantes, profissionais das diferentes áreas e usuário na produção e gestão da assistência a saúde, e nos recursos para a sua produção, construindo mudanças coletivas de enfrentamento as atitudes e praticas desumanizadoras. Desta forma, humanizar seria a inclusão das diferenças fundamentada no respeito, e só por meio disso podem ocorrer mudanças, que surgem da coletividade com o intuito de estimular a produção de novos conceitos e modos de cuidar (BRASIL, 2013). Outro conceito de humanização adotado pela PNH é abrangente, integrando várias dimensões, por subentender que na área da saúde, a humanização diz respeito a questões de cunho ético, estético e político. Na qual a ética implica em atitudes comprometidas e corresponsáveis dos usuários, gestores e trabalhadores de saúde. A estética é referente ao processo de produção de saúde e de subjetividades autônomas protagonistas. Já a política se refere à organização social das práticas de atenção e gestão na rede do SUS (BRASIL, 2011). Como forma de compor uma rede de atenção às mulheres e recém-nascidos, o MS criou em 2011 a RC, por meio da portaria de número 1.459, que consiste em uma rede de cuidados com o objetivo de assegurar à mulher o direito ao planejamento reprodutivo e à atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério, bem como à criança o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e ao desenvolvimento saudáveis, ou seja, esta rede é estruturada por meio de quatro componentes: pré-natal, parto e nascimento, puerpério e atenção integral à saúde da criança durante os primeiros dois anos de vida e sistema logístico que refere-se ao transporte sanitário e regulação. Entretanto, também possui com foco a redução da morbimortalidade materna e infantil, por meio da redução do alto índice de cesarianas (BRASIL, 2011; BRASIL, 2014). A RC fundamenta-se nos direitos de cidadania, direitos humanos, o respeito à diversidade cultural, étnica, racial e de gênero, a busca de equidade no atendimento, considerando as diferenças regionais, e a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e homens, além do incentivo à participação e mobilização social, previsto na Lei 8.080 do ano de 1990, na qual dispõe sobre o SUS. Desta forma, a RC propõe a implantação de um modelo de atenção ao parto e ao 19 nascimento, garantindo às mulheres e às crianças uma assistência de qualidade, prezando pela segurança, respeito e dignidade, proporcionando-lhes vivenciar a experiência da maternidade e nascimento, dando seguimento às ações da PNAISM e da PNH (BRASIL, 2011; BRASIL, 2014). Segundo Davis-Floyd (2009) o mesmo modelo de atenção à mulher fundamentado na RC foi identificado e intensificado em vários outros países, como o Japão, Holanda, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido e Canadá. Percebe-se que a atenção obstétrica e neonatal é entendida como toda assistência integral prestada a mulher durante a gravidez, parto, e pós-parto, além do amparo a saúde do recém-nascido, considerando-os como sujeitos de direito, e não apenas como objetivo passivo de assistência, configurando-se como a base do processo de humanização e qualidade da assistência, como previsto pela portaria do MS de número 1.067 de 2005. (BRASIL,2005; BRASIL, 2006). Neste contexto Lansky et al (2014) relata que somente com a construção e consolidação de uma rede perinatal integrada, hierarquizada e regionalizada, além da qualificação da assistência, em especial ao parto e nascimento que pode-se conseguir avanço na redução da mortalidade neonatal e materna. 20 3 METODOLOGIA 3.1 TIPO DE ESTUDO O percurso metodológico foi baseado no objeto de estudo, direcionando-se para uma pesquisa do tipo etnográfica com abordagem qualitativa, sendo utilizada em populações pequenas, a partir de dados subjetivos, aplicando o estudo das relações, representações, crenças, percepções e opiniões de processos sociais pouco conhecidos, por meio da compreensão das ações e relações humanas, mediante as rotinas, sentimentos, desejos e emoções, promovendo a criação de novos conceitos, categorias, abordagens, hipóteses e indicadores. Assim atua avaliando a compreensão dos fenômenos sociais e os significados da intenção que são dados pelos atores (LEOPARDI et al., 2001; BASTOS, 2007; FLICK, 2009; MINAYO, 2014). Em razão aos inúmeros tipos de abordagem qualitativa, nesta foi utilizado o método etnográfico, também conhecido como etnometodologia, ou ciência da descrição cultural, sendo destaque os aspectos culturais. Esta é analisada por meio de várias técnicas com intuito de observar diretamente os comportamentos, hábitos e crenças, mediante uma investigação detalhada do ocorrido, no local em que ocorreu; e registro contínuo com a finalidade de descrever minunciosamente as sociedades humanas, que requer generalização e comparação, podendo ser implícita ou explícita (ANDRÉ, 2001; LAKATOS e MARCONI, 2004; NEVES, 2006; MINAYO, 2014). 3.2 LOCAL DO ESTUDO A pesquisa foi realizada em uma instituição hospitalar de grande porte do estado de Roraima, mediante autorização da instituição (ANEXO A). Este hospital possui administração estadual e atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde - SUS, situado na capital Boa Vista. É referência para a população materno infantil da capital e para os munícipios do interior, além dos dois Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI Yanomami e DSEI Leste) e dois países fronteiriços (República Cooperativa da Guiana e República Bolivariana da Venezuela). Este hospital é organizado por especialidades ou características em comum das pacientes internadas, sendo dividido por bloco, mais conhecidos como alas, que recebem nome de flores. 21 Assim, essa pesquisa ocorreu em um bloco deste hospital destinado a receber parturientes em evolução de trabalho de parto normal. Este bloco é subdividido em áreas, sendo uma destinada as pacientes de alto risco para parto normal, com dois leitos devidamente equipados para monitoramento intensivo das pacientes; salas de pré-parto, composta por nove leitos; e nove salas de parto, com banheiro privativo, acesso ao jardim, além de berço aquecido, cama, e utensílios para atendimento no momento do parto. 3.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA Os participantes do estudo foram enfermeiros que atuam no cenário descrito. Para a realização dessa pesquisa utilizou-se como critérios de inclusão: enfermeiro atuante no setor estabelecido; com especialização em enfermagem obstétrica; e experiência com atenção obstétrica ou saúde indígena no mínimo de um ano. Já os critérios de exclusão foram enfermeiros deste setor que estavam de férias, licença ou outro motivo que o afastasse do trabalho. Uma pesquisa provém de inúmeros questionamentos, e em detrimento destes, torna-se impossível estabelecer os dados que são indispensáveis, e quando este serão suficiente para responder tais questionamentos. Desta forma em pesquisas de caráter qualitativo a amostra não necessita ser de grande extensão, e sim quando ocorrer saturação dos dados (LEOPARDI, 2001; PIRES, 2008). 3.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS Esta pesquisa foi realizada no período de março a novembro de 2016, e a coleta de dados foi realizada no mês de agosto do mesmo ano, iniciando com um levantamento dos participantes do estudo a partir da escala de serviço do setor no qual ocorreu a pesquisa, posteriormente foi traçado uma programação para realização desta pesquisa. A partir da disponibilidade dos profissionais, buscando não intervir na sua rotina de trabalho, foram convidados a participar do estudo, momento no qual se apresentou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Assim, o instrumento de coleta de dados foi uma entrevista semiestruturada composta por questões norteadoras a respeito do processo de parto hospitalar de indígenas e a assistência prestada a estas pacientes (APÊNDICE A). Como forma de validar este instrumento de coleta de dados, e a fim de avaliar a fidedignidade, aceitabilidade, pertinência, organização, clareza e entendimento das 22 questões, foi realizado um pré-teste, aplicado a uma pequena amostra de participantes que tinham características similares à amostra alvo, entretanto esses participantes não fizeram parte da amostra final. Proporcionando, desta forma, um feedback do instrumento, sendo útil na busca de corrigir e/ou melhorar eventuais problemas, oferecendo maior segurança e precisão para o desenvolvimento da pesquisa (GIL, 2002; LAKATOS e MARCONI, 2004; IRAOSSI, 2006). Para a realização desta pesquisa foi utilizado um gravador, sendo indicado na realização de entrevistas para expandir o poder de registro, e proporcionar maior fidedignidade dos dados, uma vez que preserva o conteúdo original, além de propiciar a identificação de elementos de comunicação, tais como pausas de reflexão, dúvidas, e entonação da voz (SCHRAIBER, 1995; ROJAS, 1999). Outro instrumento utilizado foi o diário de campo, que atua como um caderno de notas, sendo utilizado pelo pesquisador para registrar as vivências e experiências a respeito da interpretação no campo de pesquisa, sendo documentadas as conversas e observações do comportamento dos entrevistados quanto aos assuntos abordados, e às impressões pessoais no decorrer das falas (BASTOS, 2007; FLICK, 2009; MINAYO, 2014). 3.5 ANÁLISE DOS DADOS Para a realização da análise de dados foi utilizada a técnica de análise de conteúdo, amplamente utilizada em pesquisas de cunho qualitativo, que consiste em procedimentos que realizam a análise de comunicação através de diferentes fontes de conteúdo, sendo verbais ou não-verbais, ou seja, aplicado a discursos diversificados, que tornam mais válidos os dados levantados. Desta forma, a análise de conteúdo transita entre a objetividade e subjetividade, exigindo do pesquisador disciplina, dedicação, paciência, tempo, certo grau de intuição, imaginação e criatividade, sobretudo na definição das categorias de análise, além da ética profissional. Proporcionando, assim, uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa dos conteúdos coletados (FREITAS, CUNHA, e MOSCAROLA, 1997; BARDIN, 2006; MINAYO, 2014). Este estudo adotou a sequência de passos preconizados por Bardin (2006), que divide a análise em três etapas, sendo (I) a pré-análise, (II) exploração do material, (III) tratamento dos resultados, inferência e interpretação. 23 A primeira etapa, designada pré-análise, é a fase desenvolvida para organização das ideias iniciais elencadas no referencial teórico, a fim de torná-las operacionais. Esta etapa se divide em quatro processos: (1) a leitura flutuante na qual o pesquisador estabelece os documentos de coleta de dados, começando a obter conhecimento dos textos e entrevistas, e as transcreve; (2) escolha dos documentos a serem analisados, ou seja, definição do corpus de análise, reunião de todo material para tratar as informações coletadas (gravações, observações, falas de informantes-chaves, relatórios, regimentos, normas e rotinas, registros, ofícios, todos observados criteriosamente pelo investigador) com vistas à preparaçãoformalizada dos textos. É importante ressaltar que todas as observações realizadas pelo pesquisador são enriquecedoras na análise dos textos, considerando que estas também expressam com fidedignidade outros cenários de comunicação; (3) o pesquisador formula hipóteses e objetivos por meio de afirmações provisórias e se propõe a verificá-las; (4) elaboração de indicadores por meio de recortes de textos nos documentos analisados, sendo os índices constituídos a partir dos temas que mais se repetem (BARDIN, 2006). A primeira etapa atende a alguns critérios, sendo: exaustividade, na qual o pesquisador atenta-se para esgotamento da comunicação, ou seja, não deixar de incluir na pesquisa qualquer elemento, seja qual for sua razão; outro critério é a representatividade na forma que os dados a serem analisados contenham informações que representem o universo a ser pesquisado; quanto à homogeneidade, os dados obtidos necessitam referir-se ao mesmo tema, obedecendo a critérios precisos de escolha; e por fim, devem obedecer ao critério de pertinência, onde os dados necessitam ser condizentes com os objetivos da pesquisa (BARDIN, 2006). Após a realização da primeira etapa, segue-se para a fase de exploração de material, etapa de suma importância devido aumentar as interpretações e inferência. São questões básicas desta fase a codificação, classificação e categorização. A codificação do material e a definição de categorias de análise podem ser rubricas ou classes que reúnem um grupo de elementos, sob um título genérico, aglomeração essa efetuada em detrimento de características em comuns destes elementos. Para a construção das categorias deve-se respeitar o critério de exclusividade, para que um mesmo elemento não seja classificado em mais de uma categoria. Além da identificação das unidades de registro, como por exemplo, conteúdo, temas, 24 palavras ou frases, e das unidades de contexto nos documentos, ou seja, unidade de compreensão para codificar a unidade de registro, correspondendo ao segmento da mensagem. Sendo assim, a codificação, a classificação e a categorização são básicas nesta fase (BARDIN, 2006). Na terceira e última fase ocorre à intuição, momento no qual acontece a condensação e o destaque das informações para posteriormente ocorrer a análise reflexiva e crítica, além das interpretações inferenciais. Em suma, aborda o tratamento dos resultados, inferência e interpretação, que consiste em captar os conteúdos encontrados no material coletado (SILVA, FOSSÁ, 2003; BARDIN, 2006). 3.6 ASPECTOS ÉTICOS E LEGAIS Esta pesquisa atendeu à Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde que normatiza e regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos. Desta forma foram respeitados os princípios básicos da bioética, sendo a autonomia a capacidade de uma pessoa para decidir fazer ou buscar aquilo que ela julga ser o melhor para si mesma, ou seja, a liberdade de decisão, na qual o pesquisado, mediante a aceitação em participar livremente da pesquisa, assinou o TCLE (ANEXO B), momento em que foi esclarecida a natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, tais como o anonimato dos participantes. Para contemplar este item e como forma de identificar os participantes utilizou-se a letra E (inicial de enfermeiro) seguida por um número arábico, conforme a ordem de inserção dos profissionais no estudo, sendo: E1, E2,..., E11. Também foram expostos os benefícios previstos, como por exemplo, sensibilização de enfermeiros que trabalham na assistência ao parto indígena hospitalar, a partir de subsídios teóricos que foram adquiridos durante a pesquisa, com a finalidade de aprimorar a prática profissional no contexto da humanização do parto indígena hospitalar. Outro princípio diz respeito à beneficência na qual o pesquisador garantiu ponderações entre riscos e benefícios atuais e potenciais, individuais e coletivos, comprometendo-se com o máximo de benefícios e o mínimo de danos e riscos, uma vez que o bem estar dos participantes da pesquisa esteve acima dos interesses da ciência e da sociedade. A não maleficência também foi assegurada pelo pesquisador, considerou que danos possíveis de prevenção fossem evitados; já a justiça e equidade 25 compreendem que o pesquisador deve fundamentar-se na relevância social da pesquisa. O projeto foi encaminhado para o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Roraima (UFRR) para devida análise, no qual foi aprovado com o número do parecer: 1.661.289 (ANEXO C). 26 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesquisa foi realizada com 11 enfermeiros, com maior predominância de entrevistados do sexo masculino, entre a faixa etária de 33 a 52 anos. O tempo de formação e atuação profissional variaram de 3 a 31 anos, e 1 a 15 anos, respectivamente, conforme tabela abaixo. Tabela 1 - Dados pessoais e profissionais dos entrevistados de acordo com sexo, idade, tempo de formação, e tempo de atuação no setor, conforme sequencia de entrevistas realizadas em hospital materno infantil de Boa Vista/RR, 2016. ENTREVISTADOS SEXO IDADE TEMPO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA TEMPO DE ATUAÇÃO NO SETOR E1 Feminino 44 anos 16 anos 14 anos E2 Feminino 43 anos 18 anos 14 anos E3 Masculino 52 anos 31 anos 12 anos E4 Feminino 47 anos 20 anos 01 ano E5 Masculino 52 anos 25 anos 15 anos E6 Feminino 33 anos 03 anos 03 anos E7 Masculino 52 anos 25 anos 10 anos E8 Masculino 41 anos 11 anos 11 anos E9 Masculino 50 anos 20 anos 12 anos E10 Feminino 36 anos 06 anos 01 ano E11 Masculino 42 anos 16 anos 09 anos A análise dos conteúdos das entrevistas permitiu identificar três categorias: peculiaridades da parturiente indígena, condutas do enfermeiro com a parturiente indígena e entraves na atuação do enfermeiro na assistência a indígena. Dentro delas se inserem eixos temáticos conforme será apresentado em cada categoria. 27 Peculiaridades da Parturiente Indígena Em relação às peculiaridades da parturiente indígena, os discursos evidenciaram as características da indígena frente ao processo de parto, as particularidades culturais, experiência e sentimento da mulher indígena. Para compreender as características do processo de parto indígena é preciso entender este parto como um conjunto de aspectos culturais, com envolvimento de especialistas indígenas (familiares, clãs, grupos sociais indígenas) que colaboram para a construção de um sistema amplo, ou seja, o sistema de parto, ou ainda um evento, que só é compreendido quando analisado em um contexto sociocultural (ÁVILA, 2009). Desta forma, o parto em comunidade indígena pode ser considerado como um evento de caráter público ou íntimo. O evento público esta relacionando a presença de várias indígenas em idade fértil, que participam do parto cantando, brincando, e rindo na intenção de acalmar a parturiente e promover o nascimento da criança. Este entendimento foi identificado nos estudos com os povos Pano de Erikson (1996), Lagrou (1998) com os índios Kaxinawa, e Ávila (2009) com os povos Timbira. O parto como evento íntimo é o mais comum, sendo considerado quando sua pratica é “invisível”, que acontece na casa da indígena ou na floresta, na qual a indígena dá à luz sozinha, ou apenas com a ajuda de uma mulher experiente da família e parentes da parturiente, que tem a função social de receber a criança e cortar o cordão, criando elo com o recém-nascido. O marido também deve está presente, principalmente para ajudar a segurar a indígena (GIL et al., 2007). Nota-se a existência de duas colocações para o parto indígena, entretanto Gil et al (2007) acredita que não devem ser analisados desta forma, uma vez que são dados gerais do parto entre os povos indígenas, inseridos em um contexto sociocultural (FERREIRA, 2010). Que apesar das diferenças culturais partilham determinados princípios.Os dados acima corroboram com trechos das entrevistas, conforme abaixo: “[...] eu ainda acho que seja humanizado, assim, o parto delas é o mais normal possível, praticamente elas que fazem o parto delas, às vezes a gente não faz o parto delas, ou então elas chamam uma de nós mulheres pra ir lá com elas, a gente examina, e quando está na hora, ela mesma faz, nós só assistimos, colocamos alguma coisa pra elas parirem, ficamos esperando, só damos atenção depois que ela já pariu e tudo, a gente vai e pega o bebê, o restante ela faz.” (E2). 28 “[...] Às vezes elas mesmas parem praticamente sozinhas, porque elas não gostam de serem muito movimentadas. Então as deixamos o mais livre possível, lógico que a gente chega, orienta da forma que conseguimos.” (E4) “[...] então o que nós fazemos aqui, é facilitar como ela iria parir na área indígena, colocar o colchão no chão e deixa-a parir sozinha, só vai intervir quando o bebê nasceu, porque até pra fazer o toque elas não deixam, ela mesmos tira a placenta, ela faz o procedimento todinho dela e a gente fica só observando.” (E5) “[...] é deixar que a própria paciente faça a condução do parto sem que a gente faça intervenção desnecessária.” (E9) “[...] e a gente tenta intervir com ela minimamente possível, pra que ela tenha esse parto da forma mais natural, ou que seja, tentando manter a cultura dela, mas é complicado.” (E10) Foi possível perceber que alguns dos entrevistados relacionam a humanização do parto indígena hospitalar com o fato de deixarem as indígenas conduzirem o próprio parto. Alguns profissionais justificam esta ação acreditando estarem respeitando a cultura, costumes e vontade da indígena. Entretanto, um dos entrevistados questionou sobre a humanização e assistência prestada as indígenas: “[...] então a gente fala de humanização, mas a gente não vê as questões antropológicas envolvidas, por exemplo, a índia praticamente faz o parto dela sozinha, aqui ela vai esta sendo assistida por uma equipe multidisciplinar. Não existe um questionamento pra saber se isso é bom pra ela [a indígena]” (E11) Com este relato nota-se a divergência de pensamentos quando comparado aos demais entrevistados, quando questiona à assistência prestada por uma equipe multidisciplinar em âmbito hospitalar como condutas incomuns, fora dos costumes culturais que marcam o parto indígena, sendo mais comum, a realização do parto como evento íntimo. De acordo com o estudo de Coroaia (2013) com os povos Kaingang, no momento do parto os familiares se retiram, continuando no local apenas a parturiente com sua mãe e a sogra, que apresentam funções no decorrer do parto. Outro aspecto cultural que permeia o parto indígena é a posição de ganhar o bebê. Por meio de estudo de Rozin et al (2009) com os povos Guarani, e Moliterno et al (2013) com as índias Kaingang, descrevem que segundo as crenças culturais o parto indígena é realizado de cócoras, respeitando rituais específicos, a lógica e a 29 fisiologia. Paciornik (1997) complementa defendendo o parto de cócoras como o modo intuitivo de dar a luz. Para Ávila (2009) em estudo com as índias Timbira identificou-se que para este povo o nascer é um movimento de queda, para tanto a parturiente deve ficar de cócoras com o apoio preferencialmente por um homem, no caso o marido. Moliterno et al (2013) acredita que a posição de decúbito dorsal não condiz com suas concepções sobre o modo de parir das indígenas, contraria a fisiologia do parto, no qual se deve respeitar, sempre que possível, as diferentes perspectivas dotadas de valores culturais. A posição adotada pelas indígenas para o momento do parto foi relatada por alguns entrevistados: “[...] posição de parir, ela quer parir de cócoras? ela pode e deve parir de cócoras, não é a posição que ela se sentir mais a vontade?! Então deixa que ela vai parir de cócoras, então eu acho que tem que ser respeitada.” (E1) “[...] no parto humanizado elas escolhem o posição que querem ficar, mas a gente orienta pra ficar no leito, e elas não ficam, não querem ficar deitadas, não adianta, e quando ficam elas, ficam de cócoras. A posição de parir é diferente, então você tem que prestar mais atenção a elas, porque a qualquer momento elas podem parir, as vezes no vaso sanitário, no chão, o bebê cair, por também não deixar examinar como as outras, tendo que ficar mais alerta com relação a indígena.” (E4) “[...] é o que eu te falei, é facilitar pra ela, é perguntar como é que tu quer parir? no chão? Quer, eu coloco o colchão no chão e deixo ela ali no chão, ou você facilita na cama, deixa ela de cócoras.” (E5) “[...] você tem que respeitar a maneira como elas querem da à luz, então você vê que muitas vezes nossas parturientes vão pra cima da mesa de parto coisas que elas nem conhecem, então acabam parindo no chão, a gente tenta ajuda. E eu acredito que se ela tem essa escolha de onde dá a luz, mesmo que eu não consiga atingir o idioma dela, eu já estou humanizando, estou respeitando a vontade dela, e não a minha vontade impondo da maneira como ela deve parir, mas é ela que tá passando pra mim. Outra coisa é o parto de cócoras, é o melhor parto que a gente observa, não tem intercorrência, o neném nasce bem, além da dequitação da placenta, a gente observa que elas [as indígenas] que dequitam sozinhas.” (E7) “[...] a minha conduta frente a um parto indígena, eu respeito à vontade da paciente, eu fico do lado e dou assistência e espero a reação dela, se ela ficar de cócoras para parir eu coloco um campo, dou um apoio 30 pra ela, e faço o parto respeitando a vontade e escolha da posição.” (E11) Mediante os discursos dos entrevistados foi possível perceber uma maior citação de partos realizados na posição de cócoras, sendo essa a principal escolha das indígenas, demonstrando a valorização da decisão da indígena quanto à posição para dar a luz, respeitando sua vontade e aspectos culturais, ilustrando a tentativa dos enfermeiros em humanizar este momento. Entretanto, não são fatos comuns em ambiente hospitalar, conforme estudo de Gil et al (2007) e Moliterno et al (2013) nos quais as principais queixas do parto indígena hospitalar estão relacionadas com posição da mulher no momento do parto, sendo muitas vezes restrito à posição horizontal ou decúbito dorsal nas quais a parturiente fica deitada, causando um conflito entre as rotinas do hospital obstétrico e a cultura da indígena, na qual a escolha e opinião da indígena é irrelevante, sendo necessária a adaptação das indígenas às normas e rotinas hospitalares. Porém desde 1996 a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a mulher tenha livre escolha quanto à posição no momento do parto, seja para o primeiro ou segundo período, e que evite longos períodos em decúbito dorsal (OMS, 1996). Ainda foram identificados depoimentos que divergem dos demais. Sendo relatado o modo de parir das mulheres indígenas no qual utiliza da rede como recurso ou auxílio na posição de parir, uma vez que é acostumada com a rede, além de proporciona algo mais próximo de sua realidade. Conforme relato abaixo: “[...] conhecemos que o indígena eles vivem na comunidade em redes, eu tenho experiência de assistir parto de mulher não indígena em rede, porque eu trabalhei muito tempo no interior, onde eu via pessoas, mulheres gestantes, e eu atendia parto na rede, e eu acredito que é nesse processo.” (E3) “[...] a indígena gosta de trabalhar o parto na rede, mas nos não temos a rede, a estrutura da rede, onde ela se agarra na rede e fica de cócoras.” (E9) Os discursos estão de acordo com estudos feitos com os índios Munduruku, no qual identificou uma variedade de posições no momento do parto: com as mãos apoiadas na rede; de joelho; ou “sentada” em um banco pequeno com alguém apoiando pelas costas, que proporciona uma posição semelhante à de cócoras; 31 parcialmente deitada ousentada no chão, com alguém segurando pelas costas com os braços ao redor da parturiente (SCOPEL; DIAS-SCOPEL; WIIK, 2012). Outro depoimento que diverge está relacionado à intenção de algumas indígenas em realizar um procedimento cirúrgico, como forma de evitar o esforço físico e a dor. “[...] tento ajudar da melhor forma possível, a mais natural pra ela, se eu precisar que ela sente ou fique de cócoras, mas têm umas que não são colaborativas para isso e pelo incrível que pareça tem umas da parte aculturada que já tem intenção de fazer uma cesárea, e não querendo fazer força ou sentir dor, a gente tem paciente indígena assim, que chega dessa maneira pra gente.” (E10) Em estudo de Moliterno et al (2013) identificou-se que o método de parto entre as indígenas tem sofrido alterações de uma geração a outra. Na qual uma reação negativa a cesárea, como a falta de autonomia e entendimento sobre o procedimento é verificada sob a ótica de indígenas mais velhas, enquanto as mais novas acreditam que se realizada devido a critérios clínicos e devidamente esclarecida, é considerada algo bom, apontando como ponto positivo o tempo decorrido entre o trabalho de parto e a cesárea, alegando ser mais rápido. Entre os aspectos culturais relacionados às parturientes indígenas está o controle da dor, considerado como característica marcante do parto indígena. Há controle na manifestação de sinais de dor, tais como gritos ou choros, devem manter a tranquilidade e focar na força para que ocorra a expulsão da criança (GIL et al., 2007). Para Belaúnde (2005) os ensinamentos, ritos e costumes vivenciados pela indígena durante a primeira menarca irá refletir força contida nos ossos e na postura adequada, preferencialmente de cócoras, além da construção de um corpo fortalecido e preparado para gerar crianças. Percebe-se a presença da dor são traços culturais de grande importância na vida da indígena, que estão ligados à purificação e instrução para introdução na vida adulta. Estes possuem a capacidade de dotar os corpos com determinadas características, como força e vitalidade, preparando-os principalmente no sentido da vida reprodutiva, evitando dores nos períodos da menstruação, e no momento do parto (LAUDATO, 1998; BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007). Entretanto, para Medeiros e Grando (2016) em estudo com os povos Bororo a ausência de verbalizações, às expressões faciais e movimentos corporais no 32 momento da contração uterina provocam uma visão errônea do sentimento de dor das indígenas por parte dos profissionais de saúde que as prestam assistência. A forma discreta, e o controle da dor na qual ocorre o parto indígena também foram relatados pelos entrevistados. “[...] quando ela tá em trabalho de parto, ela pode até sentir dor, mas não demonstra como uma mulher não indígena, eu digo que elas conseguem até cantar durante a dor, então procuro vê-la na comunidade, na condição de indígena, eu vou observando aquele sentimento de dor, das contrações do parto.” (E3) “[...] a atenção com a indígena é maior, porque ela pode parir a qualquer momento, porque ela não tem nem o costume de gritar. E como algumas vezes ela está na cama, as que têm mais costume com a civilização, elas mesmo parem ali, quando pensar que não já tá com o bebê por cima, de tão rápido que é. Às vezes o trabalho de parto é bem rapidinho, por isso preciso ficar mais atento com o indígena, ainda mais sendo Yanomami porque quando ela vai gritar é porque o negócio tá aperreado.” (E5) A partir dos discursos é possível perceber uma das principais características do trabalho de parto indígena, o controle na manifestação da dor, agravados pela recusa na realização de avaliações e exames de costume dos povos indígenas, o que influencia na assistência prestada pela equipe multidisciplinar em âmbito hospitalar, principalmente a equipe de enfermagem, por ser a categoria de profissionais que passam maior parte do tempo com a paciente, sendo capaz de identificar riscos e evitar complicações por meio de um olhar atento, cuidadoso, criterioso. Ainda em consideração aos aspectos culturais do parto indígena percebeu-se durante as falas dos entrevistados que as parturientes indígenas apresentaram uma experiência frente ao trabalho de parto. Podendo ser percebido conforme os depoimentos abaixo: “[...] A minha percepção eu não vejo muita diferença, apesar delas, delas, mesmo primíparas parece que elas têm uma experiência já vem de casa, já vem da cultura.” (E6) “[...] Na realidade o indígena que tem muito a ensinar pra gente, mesmo quando ele vem pra da à luz aqui na maternidade, muitas vezes ele já tem uma experiência, já tem dado a luz lá na aldeia. Então o parto indígena é mais um ensinamento da cultura deles pra nossa cultura, é tentar fazer o que eles fazem, eu aprendo com aquilo que eu vejo quando elas vêm parir.” (E7) 33 Segundo Laudato (1998) e Gil et al (2007) desde o início da infância até o período da puberdade e iniciação da vida adulta da mulher indígena ela passa por diversos ensinamentos, rituais, tradições e costumes. Todos com o intuito de prepara-las para a vida, e principalmente para o período reprodutivo. Para Moliterno et al (2013) as mulheres indígenas sabem o momento de parir e o que tem de ser feito. Esses fatos justificam o preparo da indígena no momento do parto. Outro relato dos enfermeiros diz respeito ao sentimento da indígena, no qual referem a presença do medo, falta de compreensão dos procedimentos, que podem ocasionar a recusa em determinadas condutas, e reação ao local desconhecido, conforme depoimentos abaixo: “[...] as indígenas vêm pra cá e ficam assustadas, sem saber muitas vezes o que nos vamos fazer com elas, tanto é que varias vezes já aconteceu, da gente querer examinar, fazer o toque vaginal e elas não permitem, porque estão assustadas, não sabe o que realmente vamos fazer então pra mim isso não é humanização.” (E1) “[...] é um pouco mais difícil, elas não deixarem ser examinadas, diferente das não indígenas que querem é serem mais examinadas, não aceitam às vezes a nossa conduta, no pós-parto também não querem deixar a gente ver o sangramento para liberar, então sentimos certa resistência delas para com a gente, não a gente para com elas.” (E4) “[...] O parto indígena hospitalar, infelizmente ainda é manejado por terceiros, porque quando se trata de uma indígena ela já tem sua cultura, lá onde ela reside lá na aldeia, é ela que protagoniza o parto sozinho, então ela faz o toque vaginal pra saber se o bebê esta nascendo.” (E10) “[...] é respeitar, simplesmente respeito, porque muita das vezes ela faz tudo só, elas não querem nem que a gente toque nelas.” (E11) Segundo a OMS (1996), alguns procedimentos podem ser necessários na assistência a parturientes, como por exemplo, o toque vaginal, que deve ser realizado com cuidado e somente após a sua explicação. Os discursos dos enfermeiros sobre a reação das indígenas frente ao procedimento estão de acordo com um estudo realizado por Moliterno et al (2013), no qual expõe a percepção da indígena sobre a prática do toque vaginal, no qual é visto como desconfortável e constrangedor, além de ser uma prática não usual em 34 partos realizados na comunidade. Entretanto um dos relatos diverge do estudo, no qual o entrevistado afirma que a própria indígena realiza o toque vaginal. O desconforto, constrangimento e a realização de procedimentos incomuns gera uma percepção negativa sobre o parto hospitalar, como pode ser demonstrado nos depoimentos abaixo: “[...] elas vem assustadas, como eu vejo aí no corredor indinha perdidas, elas saem dos blocos que estão e não sabem voltar, elas ficam procurando.” (E1) “[...] já fiquei no puerpério também, delas chegarem a chorar no corredor porque querem ir embora e tem que permanecer e cumprir a rotina da maternidade.” (E4) ParaGil et al (2007), as experiências das gestantes indígenas que são referenciadas para um hospital ou maternidade não são agradáveis, há relatos de falta de cuidados específicos com as gestantes e sentimento de solidão. Também são relatados episódios de descuido, preconceitos e desenvolvimento de procedimentos considerados agressivos e distintos dos realizados na comunidade. Desta forma Bandeira (2002) e Oliveira (2014) acreditam que a realização de partos indígenas em âmbito hospitalar gera algumas dificuldades emocionais para as indígenas, como por exemplo, medo, insegurança e ansiedade ocasionando uma experiência traumática para as parturientes. Condutas do Enfermeiro com as Parturientes Indígenas Relacionado às condutas do enfermeiro com a parturiente indígena os discursos evidenciaram temas como o respeito à cultura da mulher indígena, o tratamento destinado as indígenas, a presença do acompanhante e apoio. Para melhor compreensão do respeito à cultura da mulher indígena é necessário rever o contexto histórico que permeia este assunto, podendo iniciar em 1986, com a Primeira Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio, na qual passou a exigir do país seguridade a saúde do índio, na intenção de aprimorar e garantir acesso adequado aos serviços de saúde, além de estabelecer o respeito à especificidade cultural e o reconhecimento dos seus saberes (LANGDON, 1999). Alguns anos depois, em 1997, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) sugeriu a adoção de medidas que assegurem a igualdade na dignidade e nos direitos individuais e coletivos, em 35 qualquer lugar que seja necessário. Desta forma os grupos populacionais desfavorecidos economicamente, e as populações em situação de vulnerabilidade social, necessitando de atenção especial, de modo a assegurar os itens previstos em leis, tais como emprego, saúde, e o respeito à autenticidade cultural (UNESCO, 1997). Este respeito dos direitos e autenticidade da cultura indígena se desenvolveu em virtude de influencias dos países latino americanos, culminando em temas de diretrizes de organizações internacionais, como por exemplo, a Organização das Nações Unidas (ONU) e UNESCO, refletindo nas legislações de vários países, tendo como exemplo o Princípio sobre a Tolerância de 1995, no qual aborda o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas, além da necessidade do Estado em respeitar o caráter multicultural existente no mundo (UNESCO, 1997; LANGDON, 1999). Posteriormente, a PNASPI veio para estabelecer o reconhecimento da diversidade social e cultural dos povos indígenas, além de considerar e estimular os sistemas tradicionais de saúde, sendo considerado ato imprescindível ao profissional de saúde (BRASIL, 2002). Segundo Rozin et al (2009) a vida da mulher indígena é marcada inúmeras crenças e costumes culturais que precisam ser respeitadas e incentivadas pelo não indígena, de modo a contribuir com sua preservação. Desta forma, Ávila (2009) afirma que somente com um olhar holístico e humanizado que se pode prestar uma assistência diferenciada e de qualidade à mulher indígena. Espera-se do enfermeiro que atua com populações indígenas um trabalho pautado no respeito à singularidade, as crenças, valores e cultura do paciente. Nesta perspectiva alguns enfermeiros relataram sobre o respeito à vontade e cultura da indígena. “[...] respeitar a vontade da indígena, se eu estou passando a visita, e preciso examinar uma indígena, eu vou vê a vontade dela. Às vezes a gente vai fazer um toque e elas não deixam, e eu tenho que respeitar, é o direito dela não querer. Então tentamos outras coisas, auscultar um bcf... Muitas vezes não querem ser puncionadas. Temos que respeitar as tradições indígenas, eles tem aqueles curandeiros, tem que ser respeitada, eles acreditam na cura através do curandeiro, deixa que o curandeiro ajude, não vai deixar de usar o método do hospital, mas você vai conciliar, isso tem que ser respeitado, esses curandeiros, essa 36 tradição deles, essa cultura deles. E atuamos conforme a vontade dela, o que elas querem, do jeito que querem, e respeitando isso.” (E1) “[...] tentamos trazer para o nosso lado, o nosso meio não indígena, mas tem essas particularidades, temos que aceitar a vontade delas, também não pode impor uma coisa que não é comum pra elas” (E4) Levando em consideração os relatos acima nota-se que os enfermeiros buscam realizar suas ações respeitando a vontade e os aspectos culturais da parturiente indígena, respeitando suas especificidades culturais. De modo a não impor sua cultura sobre a da paciente, agindo dentro de um contexto transcultural. Outro ponto observado na fala de uma das entrevistadas diz respeito à importância da união dos métodos tradicionais indígenas e a medicina ocidental, e sua aplicação no atendimento as indígenas. Esse fato é abordado no estudo de Ávila (2009), no qual afirma que o bom profissional em assistência a pacientes indígenas, é aquele que concilia o tratamento científico a medicina tradicional indígena. Sobre este assunto, Langdon (1999) afirma que não deve haver desrespeito ou conflito entre os sistemas médicos, dos índios e o dos profissionais de saúde. Porém, dois dos entrevistados relataram prestar assistência de forma que acabam por desrespeitar os valores culturais indígenas. “[...] quando uma paciente dessa chega a primeira coisa que a gente tenta fazer é que ela tome banho pra poder tirar um pouco da sujidade que ela chega da comunidade, então já estamos intervindo na questão cultural delas, mas é um processo que tentamos fazer da melhor forma possível, com menor interferência em relação a nossa conduta com a paciente.” (E10) “[...] então o profissional que assiste ao parto, ele acaba não respeitando a cultura indígena. E muita das vezes é traumática para as pacientes.” (E11) Observa-se que os entrevistados assumem determinadas condutas, como por exemplo, a tentativa de fazer o indígena tomar banho, ocasiona o desrespeito a cultura indígena, e demonstrando a sobreposição de saberes de uma cultura para outra. Langdon (1999) afirmar existir o predomínio da biomedicina sobre outros saber culturais, o que impede a plena realização do respeito aos indígenas. Sobre o desrespeito às tradições, costumes e valores culturais indígenas o mesmo estudo identificou que as intervenções em saúde são realizadas sem o conhecimento 37 adequado para o respeito à cultura das pessoas atendidas, ocasionando com que os profissionais desenvolvam suas práticas sem reconhecer a especificidade cultural. Ainda segundo Langdon (1999) existem diversos obstáculos para que seja real o respeito ao saber indígena. Sendo estes obstáculos: a pouca percepção sobre o respeito mútuo dos profissionais de saúde, relacionado à ignorância; manifestação de preconceito sobre os índios, rotulando-os como pacientes desobedientes, resistentes ao tratamento, incapazes de compreendê-los, além de sujos e ignorantes. Na nesta perspectiva é importante conhecer o tratamento destinado às mulheres indígenas. Este assunto é abordado no SASI-SUS, criado para complementar a lei 8.080 de 1990 trouxe um melhor direcionamento às ações de saúde destinadas a essa população e como tal deve seguir as mesmas diretrizes apresentadas pelo SUS, diferenciando-se apenas nos aspectos culturais, sociais, políticos, históricos e epidemiológicos desses povos a fim de promover uma atenção culturalmente adequada, diminuindo as desigualdades e iniquidades, promovendo, assim, uma atenção integral, universal e igualdade na assistência à saúde, como dispõe as diretrizes da lei 9.836 de 1999 que regulamenta o subsistema (BRASIL, 1999; SÃO PAULO, 2008). Segundo o artigo 19-F do SASI-SUS “Dever-se-á obrigatoriamente levar em consideração a realidade local e as especificidades da culturados povos indígenas e o modelo a ser adotado para a atenção à saúde indígena, que se deve pautar por uma abordagem diferenciada e global”, no qual é necessário que adaptações sejam empregadas quanto à estrutura e organização do SUS nas regiões de densidade populacional indígena para garantir integração e atendimento adequado em todos os níveis de atenção à saúde (BRASIL, 1999). Entretanto, apesar das diretrizes supracitadas quanto ao tratamento que deve ser dispensado a esses povos, é notório que essa atenção culturalmente diferenciada não tem sido desenvolvida de forma integral no âmbito do SUS, culminando na qualidade não satisfatória da assistência (SANTOS et al., 2008). Essa situação é comprovada através de Ranzi, Ortiz e Santos (2011) que cita as rotinas alimentares que não são respeitadas, sendo, portanto, diferentes daqueles costumeiros dos indígenas, além da distância da família, de curandeiros e do seu ambiente habitual, o que acaba por comprometer o cuidado e as respostas terapêuticas desses povos. 38 Diante do exposto, as falas a seguir demonstram a ausência de um cuidado culturalmente adequado, onde deveria haver o tratamento igualitário, porém com respeito às peculiaridades de cada parturiente e sua etnia, o que caracteriza a equidade. “[...] A alimentação delas vem junto com as das outras pacientes, a mesma alimentação que as outras fazem, elas fazem. É uma porção de coisas que elas não têm tratamento diferenciado, de acordo com a cultura deles” (E1) “[...] vou recebê-la, acolhe-la da mesma forma que a não indígena. praticamente é a mesma coisa, receber, acolher, colocar no leito, tentar examinar, ver o que esta acontecendo, quando a gente consegue. Não tem uma conduta diferenciada, porque fisicamente são iguais, não tem diferença. A gente trata como tratamos as pacientes da Venezuela, da Guiana e brasileiras, como uma parturiente normal.” (E4) “[...] a gente não tem uma assistência diferenciada específica pra indígena. No geral ocorre de forma humanizada, porque tentamos atender na igualdade, todo mundo merece ser tratado igual, se têm uma norma específica pra atender a indígena separada ou diferenciada das outras não existe, ou eu não tenho conhecimento. Mas as indígenas tem uma diferenciação, às vezes não consegue entender o que eles estão falando, ou querendo, mas na medida do possível você consegue atender de forma igualitária nas condições que temos.” (E6) “[...] O parto indígena aqui no hospital ele não difere de um parto da pessoa não indígena, são iguais, não leva as questões relacionadas à cultura, aqui não tem essa relevância de cultura, todas as pacientes são tratadas iguais, as indígenas são tratadas como uma paciente como outra qualquer, a avaliação, o trabalho de parto, as orientações, o tratamento, a conduta é tudo a mesma coisa, não adianta eu falar que vou pegar e tratar a paciente diferente, não tem diferença, não tem estrutura. Não estou sendo desumano, estou sendo técnico.” (E8) Ressaltou-se perante os depoimentos dos enfermeiros, o desrespeito quanto à origem das mulheres atendidas durante o processo de parto, bem como sua história, seus costumes e hábitos, uma vez que parturientes indígenas são tratadas e acolhidas da mesma forma que parturientes não indígenas. Este discurso esteve presente em todos os relatos dos entrevistados, demonstrando a deficiência no acolhimento e na humanização dessas mulheres, cuja singularidade deve ser considerada desde o início da assistência, de modo a contemplar a integralidade e singularidade. Sobre este assunto Brasil (2013) aborda a existência de lacunas no que se refere à qualidade da assistência prestada, principalmente na garantia da integralidade e singularização do cuidado conforme as necessidades da população. 39 Alguns discursos demonstram o desconhecimento de condutas específicas ou normas que regulamentem o cuidado diferenciado que deve ser destinada a essas mulheres, além da importância da valorização e respeito cultural que tem grande representatividade no conforto e bem-estar da parturiente. Os depoimentos evidenciam o emprego da palavra “igualdade” por todos os entrevistados, que a utiliza de forma a não contemplar a integralidade da assistência às indígenas, uma vez que possuem crenças, vivências e experiências diferentes. Portanto não devem ser tratadas como as demais, pois não são iguais em muitos aspectos, sendo relevante a valorização da cultura para se firmar a equidade na assistência à saúde das mulheres indígenas. Quando se aborda a assistência á saúde, principalmente em âmbito hospitalar, torna-se importante a compreensão do direito ao acompanhante, regulamento através da Lei 11.108 de 7 de abril de 2005, a garantia do direito ao acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, sendo este de escolha da parturiente, enquanto protagonista de todo processo (BRASIL, 2005). Esse direito veio para firmar a necessidade de suporte continuado que deve ser prestado à mulher nessa situação, de modo que ela não permaneça sem apoio, contemplando o conforto físico e apoio emocional, levando em consideração os desejos da mulher, que podem ser distintos entre parturientes de diferentes culturas, além de evitar a violência contra a mulher que possa acontecer no hospital (OLIVEIRA, 2014). O estímulo à participação do acompanhante ocorre com finalidade de refletir a humanização no parto e nascimento, pois mulheres que tiveram ao seu lado o acompanhante de sua escolha certamente enfrentaram de melhor forma, se comparadas àquelas que vivenciaram sozinhas todos os eventos relacionados ao parto mesmo sendo assistida por uma equipe que ofereça todo o conforto e cuidado (DODOU et al., 2014). Desta forma Enkin (2005) indica que os profissionais da saúde devem respeitar a escolha de suporte emocional e social da mulher durante o parto, e que, além disso, também deem apoio físico e emocional. A participação do acompanhante no processo de parto foi evidenciada a partir das seguintes falas: “[...] na maioria das vezes ele vem acompanhado de uma pessoa mais velha, uma sogra, ou mãe, e ele acaba ajudando.” (E7) 40 “[...] geralmente vem com acompanhante que colabora, e tenta passar pra gente o que ela tá sentindo o que está acontecendo. Quando tem um acompanhante ou um interprete, fica melhor, a pessoa tá dando aquela confiança, porque eles não tem confiança na gente.” (E6) “[...] então quando elas vêm com acompanhante que é de dentro da aldeia, um familiar ou tradutor que ele sabe falar o português e idioma dela, o dialeto, geralmente elas intervém dentro do processo, ajudando, colaborando para que esse parto aconteça.” (E10) Diante dos discursos pôde-se observar a valorização dos acompanhantes por parte dos enfermeiros, uma vez que a presença destes facilita o andamento do parto no que tange as condutas aplicadas, podendo também contribuir no processo de comunicação da equipe de saúde com a parturiente, estabelecendo uma relação de confiança, que ameniza possíveis sentimentos negativos da indígena. Outro ponto observado foi o relato de um dos enfermeiros sobre a frequência de acompanhantes do sexo feminino com idades avançadas. Este fato pode ser correlacionado a possibilidade de transmissão de experiências referentes ao parto, podendo contribuir para a continuidade dos costumes tradicionais indígenas. Entretanto, houve depoimentos contendo informações opostas que versam sobre a falta do acompanhante. Como pode ser observado a seguir: “[...] porque a maioria não entende [português]. têm um “bucado” que vem sem acompanhante. O que é pior, se torna mais obrigatório prestar mais atenção se elas estiverem sozinhas.” (E4) A partir dessa fala foi possível identificar a alegação de enfermeiros quanto ao grande quantitativo de parturientes não contarem com acompanhantes no período da internação. Subentende-seque essa ausência pode promover um aumento na dificuldade de prestar uma assistência adequada, tendo em vista que compromete a comunicação, além de ocasionar maior vigilância a essas pacientes. Entretanto, o direito da indígena em contar com um acompanhante no processo de internação é regulamentado pelo ministério da saúde, por meio do selo de hospital amigo do índio, no qual assegura o direito ao acompanhante, informações ao paciente, dieta especial, medidas de valorização das práticas de saúde indígena, e ambiência dos hospitais (FUNASA, 2006). 41 Entraves na Atuação do Enfermeiro na Assistência a Indígena No que tange as barreiras e limitações que o enfermeiro vivencia na assistência a mulher indígena, encontra-se a comunicação, preparo da equipe, e a ambiência como as principais dificuldades enfrentadas. No que se refere à comunicação, é considerada o meio de estabelecimento das relações entre a enfermagem e o cliente, sendo essencial para a relação enfermeira-paciente (POTTER; PERRY, 2009). A comunicação é extrema relevância para a assistência em saúde, por promover a criação confiança e segurança que deve ser transmitida à paciente, algo que somente se consegue com a comunicação efetiva, gerando uma boa relação terapêutica, na qual as informações transmitidas são adequadamente compreendidas, podendo diminuir ou controlar as dores (SILVA; ALBUQUERQUE, 2006). Segundo Barra (2010) o diálogo é utilizado como um importante recurso no qual gera a melhoria na assistência de enfermagem, podendo promover a integração de cultura, troca de experiências e vivências. Neste sentido, uma relação pautada na comunicação eficiente contribui para uma melhor assistência ao paciente, isso determina se será um cuidado humanizado ou não. Entretanto, o processo de humanização só será efetivo a partir da criação de vínculos de comunicação (BACKES, 2006). Conforme Flores (2005), Bischoff et al (2010) e Ranzi, Ortiz e Santos (2011) os desafios de comunicação frente à diversidade linguística têm sido bastante pesquisado devido causarem barreiras linguísticas que comprometem a qualidade da assistência prestada aos pacientes. Nesta temática, os entrevistados relataram em seus discursos o processo de comunicação como as parturientes indígenas. “[...] elas vêm pra cá, elas não entendem o que a gente fala, nós não entendemos o que elas falam, e eu preciso me comunicar com a indígena. Quando elas chegam eu vou logo procurar alguém que saiba se comunicar, é preciso ter uma comunicação com a paciente, se eu não consigo ninguém eu tento me comunicar de alguma maneira, mas nem sempre tá ao nosso alcance. Quer dizer, elas estão em um lugar estranho, sem ninguém falando sua língua, sem ninguém entender o que elas falam, isso não é humanizado.” (E1) “[...] não conversam muito, até mesmo porque a gente não entende e não tem interprete, entende pelo que esta acontecendo, pelas condições físicas, vai pelo que esta acontecendo. Você não conseguir 42 falar a mesma língua... Você às vezes consegue gesticular, consegue entender, às vezes não consegue e dificulta.” (E6) “[...] em Roraima temos várias etnias, algumas são aculturadas, outras não. Daquelas que são aculturadas é muito mais tranquilo e você consegue dialogar, consegue manter um retorno daquilo que você quer passar para a parturiente indígena, então conseguimos chegar ao nosso objetivo, onde o parto se encaminha da forma mais natural possível. Agora quando é daquelas indígenas que vem de fora, que vem de outros países, que falam inglês é mais difícil.” (E7) “[...] a questão da comunicação com elas, são pacientes de várias etnias que não colaboram muito com a comunicação, causando essa dificuldade de dialogar, porque muitos profissionais aqui não trabalham só com indígenas.” (E10) “[...] a gente não sabe nem falar a linguagem delas, não entendemos o que elas falam, é mais através de gestos, quando se entende [os gestos], não tem um interprete na sala, o que deveria ter.” (E11) Nota-se que os entrevistados abordam a comunicação como um dos entraves no atendimento a indígenas, na qual a falta de compreensão de ambos os lados dificulta a prestação de uma assistência de qualidade e humanizada. Alguns relatam basear os cuidados de enfermagem as pacientes indígenas apenas utilizando gestos e sintomatologia, provocado uma experiência traumática para a parturiente. Segundo Silva (2013) a dificuldade de comunicação é considerando um fator relevante na saúde indígena. Estudos de Messias (2009) e Hillman (2010) identificou a dificuldade de comunicação dos profissionais de saúde com pacientes, e a necessidade destes prestarem uma assistência de alta qualidade conforme a equidade. Outro tema relatado é a falta da atuação de interpretes. Essa temática é abordada no estudo de Ranzi, Ortiz e Santos (2011) no qual identificou as dificuldades de comunicação entre os profissionais de saúde e os usuários indígenas, e como tentativa de diminuir ou sanar esta problemática, contratou-se um interprete para o hospital. Ainda no que se refere à comunicação com as pacientes indígenas, os entrevistados narraram a utilização de membros da equipe como facilitadores no processo de comunicação, conforme os relatos abaixo: “[...] tem muitas meninas que trabalham com a gente que elas entendem, não todas as línguas. Elas já trabalharam na casai, na sesai ou na área indígena, as vezes a gente corre pra elas.” (E2) 43 “[...] elas não entendem nossa língua, muito menos a gente a delas. Então com gestos, a gente indica, tenta ajudar da melhor forma possível. Às vezes a gente tem um técnico na equipe que consegue entende-las”. (E4) “[...] Ninguém sabe fala Yanomami aqui, que diz tem duas funcionárias que falam, quando elas estão de plantão facilita o serviço, mas quando não estão à gente não sabe o que eles estão falando, e interprete a gente não tem.” (E6) “[...] quando uma paciente não entende o que a gente fala temos que buscar uma pessoa que faça a tradução, muitas vezes são os próprios colegas que traduzem porque tem gente que já trabalhou em área, então eles conhecem, aí a gente pede ajuda.” (E8) “[...] tentamos encontrar alguém, tem vários técnicos que já trabalharam em área indígena e eles ajudam, já que não tenho essa habilidade eu peço auxílio de algum deles. Então a gente tenta dialogar pra poder que ela colabora e contribua com o parto. Mas a nossa maior dificuldade é a questão da comunicação, que quando tem técnico fica melhor, mas quando não tem fazemos gestos.” (E10) Os relatos demonstram à utilização de membros da equipe de enfermagem, principalmente os técnicos de enfermagem, para facilitar a comunicação com a paciente, e consequentemente promover um melhor atendimento. Estes funcionários são solicitados por possuírem algum conhecimento em língua indígena, devido às experiências em atendimento a essa população, seja em área indígena ou na Casa de Apoio a Saúde do Índio (CASAI). Porém, essa comunicação se restringe devido à diversidade étnica presente entre os povos indígenas que são atendidos no estado, que dificulta o conhecimento de todas as línguas e seus dialetos. Outro tema abordado pelos entrevistados é a falta de uma coordenação indígena atuante: “[...] A primeira coisa que eu faço, é chamar a coordenação indígena se não tem, eu procuro alguém que possa se comunicar com a indígena. A coordenação ajuda, mas só funciona durante a semana, mas a noite, finais de semana não funciona, ai fica difícil.” (E1) “[...] coordenação indígena não funcionada de noite, então a gente fica meio a mercê de como conduzir, em um beco sem saída .” (E5). “[...] só existe uma pessoa que trabalha na coordenação indígena e é de uma etnia geralmente diferente das pacientes que mais vem, nem sempre ela vai saber dialogar com a ela [a paciente] e ainda tem um adendo da coordenação indígena, não funcionar durantea noite, finais de semana, ou no feriado, então fica só no critério da gente decidir ou resolver a situação dessa paciente aqui dentro.” (E10) 44 Os discursos evidenciam a unanimidade em questionar o funcionamento da coordenação indígena, alegam não poderem contar com esse auxílio na comunicação com a paciente nos horários da noite, fins de semana e feriados. Além de relatarem que esta coordenação não é totalmente resolutiva nos entraves de comunicação, uma vez que não possui interpretes de diferentes etnias, acarretando em restrição de diálogo com as pacientes indígenas. A existência da coordenação indígena nos hospitais pode ser compreendida a partir da Portaria nº 1163 do ministério da saúde de 14 de setembro de 1999, que dispõe sobre as responsabilidades na prestação de assistência à saúde dos povos indígenas, constando em seu paragrafo único o Incentivo ao Atendimento Ambulatorial e Hospitalar à População Indígena (IAPI). Desta forma os hospitais públicos recebem verba federal mensalmente como forma de incentivo por considerarem as particularidades culturais na assistência à população indígena (BRASIL,1999; ROSA, 2013). Entretanto vale ressaltar que não foram encontradas literaturas especificas sobre a importância e/ou a regulação de uma coordenação indígena nos hospitais. Na tentativa de solucionar os problemas de comunicação que o enfermeiro vivencia diariamente, dois dos entrevistados sugeriram ideias: “[...] as indígenas chegam aqui, só largam elas aqui, e muita não falam a nossa língua, ficamos sem saber o que fazer, porque eu trabalho a noite, não tem tradutor à noite, ficamos nessa coisa amarrada com elas. Acho que deveria ter uma pessoa experiente, tradutora pra vim com elas, e ficassem aqui até elas parirem, depois poderiam ir embora, mas eu não sei como poderia ficar.” (E2) “[...] outro obstáculo é a comunicação, e sem a comunicação é complicado da gente trabalhar com eles, e o interessantes tivéssemos algumas palavras chaves voltada ao parto, para nos trabalharmos com isso, porque são muitas etnias. De algumas etnias a gente aprende algumas palavras. Mas em compensação tem outras que a gente desconhece.” (E9) Os discursos sugerem meios para facilitar e humanizar o processo de comunicação com a paciente, entre as sugestões estão à presença de um tradutor em todos os momentos, e a criação de um dicionário com palavras importantes para a assistência em saúde, pincipalmente no momento do parto, isso demonstra a tentativa de promover uma assistência diferenciada, além da valorização cultura. 45 Ao abordar o processo de comunicação e assistência à saúde no contexto etno-cultural depara-se com a necessidade de uma enfermagem transcultural, e enfermeiros com qualificação profissional, que conheçam o sistema de cultural indígena e o respeitem (TIMBY, 2007; ROZIN et al., 2009). Desta forma é necessária uma capacitação de recursos humanos para atuar na diversidade cultural. Esta qualificação profissional deve preparar e aperfeiçoar os profissionais da saúde que atuam diretamente com população indígena, assim como gestores em saúde (RANZI; ORTIZ e SANTOS, 2011). No que se refere especificamente ao enfermeiro Oliveira (2014) acredita que para ser um bom profissional precisa estar preparado a desenvolver assistência de forma a respeitar à singularidade, crenças, valores e costumes culturais do paciente. Neste contexto os entrevistados relataram: “[...] Estou aqui há 14 anos, eu nunca fui preparada pra isso, me lembro do primeiro parto indígena que fiz, fiz não, que eu vi, me desesperei, gritava parecia uma doida dentro da sala de parto, achando que o bebê iria cair no chão. Nós nunca recebemos treinamento, a gente chega e se depara com essas coisas, aí vamos aprendendo com o tempo vamos vendo e vamos nos acostumando, mas nunca ninguém me treinou para isso.” (E1) “[...] precisa de um melhor preparo da equipe na assistência a indígena quando ela vem ao serviço hospitalar.” (E3) “[..] o profissional desconhece as legislações que tem voltada para o indígena, e isso é um dos empecilhos que bate em qualquer profissional.” (E9) “[...] sinceramente eu acho que deveria ter um preparo melhor da equipe multidisciplinar pra esta atendendo essa demanda, que é grande.” (E11). Os discursos dos enfermeiros evidenciaram a falta de capacitação profissional para atender a população indígena, muitos relataram a necessidade de um treinamento da equipe multidisciplinar para melhorar o atendimento a essas pacientes. Com isso, percebe-se que os gestores em saúde não oferecem cursos, palestras, oficinas, seminários ou encontros que promovam a difusão de conhecimentos antropológicos e culturais para qualificar os profissionais que atuam com indígenas, contrapondo o disposto na 4ª Conferência Nacional de Saúde Indígena (FUNASA, 2007). 46 Ainda segundo a Funasa (2007), é necessária a inclusão da disciplina Saúde Indígena nos cursos de enfermagem, odontologia e medicina, além da criação de pós-graduação voltada à saúde indígena. Sendo estes fundamentados em aspectos pedagógicos, linguísticos e antropológicos e culturais em saúde. Nesta temática, Silva (2013) relata que o enfermeiro é o profissional que assistirá o indígena em diferentes situações, para isso é muito importante uma formação profissional que contemple uma carga horária voltada à antropologia em saúde indígena para uma melhor compreensão dos aspectos culturais, e a legislação que ampara a população indígena a fim de proporcionar uma assistência mais eficaz, entretanto, o desafio de capacitar os profissionais que já atuam com indígenas é maior. Outro aspecto abordado nesta categoria é a ambiência de hospitais para atendimento a saúde indígena, que esta prevista no artigo 196 da Lei nº 9.836 de 23 de setembro de 1999, na qual afirma que o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá promover adaptações na estrutura física e organizacional nas instituições de regiões com maior incidência populacional indígena (BRASIL, 1999). Contemplando esta temática, os entrevistados relataram sobre a ambiência: “[...] elas não têm uma ala própria pra elas, que possam dormir na rede. Eu acho que se ela ficar em uma enfermaria só de indígena é muito melhor pra ela, e até para os outros pacientes. Elas têm a cultura dela, então eu acho que deveria ter essa diferenciação.” (E1) “[...] a maternidade não está adequada à realidade indígena, a estrutura física não dá suporte, então não vejo como um parto humanizado, por que humanização da assistência não é só eu tratar a paciente bem, tem que ter uma estrutura de adequação ao povo indígena” (E8) “[...] não estamos adequados para trabalhar com o povo indígena, para tratar da forma como deveríamos, já melhorou bastante, mas ainda precisa melhorar. Primeiramente a ambiência, o local, a indígena chega aqui e se sente fora do local dela, vê muita gente. Eu acho que precisa adequar a unidade para o parto indígena.” (E9) “[...] não temos um espaço adequado pra atender essa paciente, como por exemplo, ter uma ala específica só pra atenção à saúde indígena, só pacientes indígenas, aqui não tem ambiência, é o comum pra todas, então a gente acaba interferindo um pouco mais, querendo ou não seria necessário um formato de estrutura física pra adequar só pra elas, que a gente não tem.” (E10) 47 Mediante os discursos nota-se a percepção do enfermeiro sobre o ambiente hospitalar para as indígenas, sendo considerado como inadequado, sem estrutura física que contemple os valores e costumes da cultura indígena, sendo considerado como uma assistência sem humanização, uma vez que humanizar vai além do tratamento a paciente. Outro ponto relatado foi à falta de um ambiente específico para atendimento apenas das parturientes indígenas, como por exemplo, um bloco destinado para estas pacientes, sendo justificado como uma medida benéfica paraas parturientes. A adequação da ambiência de hospitais que recebem pacientes indígenas foi aborda na 4ª Conferencial Nacional de Saúde Indígena, definida como um dos aspectos necessários para a garantia do selo Hospital amigo do Índio, de forma a garantir o acolhimento aos indígenas, respeitando suas especificidades culturais (FUNASA, 2006). Em vista a problemática vivenciada por profissionais da saúde quanto à ambiência do hospital para a prestação de uma assistência de qualidade, alguns enfermeiros relataram tentativas de adequação do ambiente. “[...] eu acredito que o parto indígena hospitalar ainda não é humanizado, precisa melhorar, poderíamos ter uma estrutura diferente, mas a maternidade foi preparada para atender um público de mulheres não indígenas, então sempre que chega uma mulher indígena, eu não consigo vê um espaço preparado pra recebê-la, então temos que transformar pra trazer um pouco pra realidade dela [a indígena], estar diminuindo luz, a questão da cama, ela vive em redes ou em camas de lona baixa, então o hospital, não está preparado, não tem esse espaço, e deveria ter, já que a gente recebe essa demanda [de indígenas]. Temos que desmistificar a maternidade, pra atender a todo público, seja indígena ou não, de outras culturas, pra que a mulher fosse vista dentro dos seus princípios de cultura, mas ainda precisa de muita mudança, modificação.” (E3) “[...] a adaptação pra atender a indígena quem vai fazer somos nos que estamos no ambiente de trabalho. (E5) A partir dos relatos foi possível perceber o interesse de profissionais em adaptar o ambiente para atender as parturientes indígenas, na busca de fornecer uma assistência que valorize os aspectos culturais. Como estratégias de adaptação os enfermeiros sugeriram a adequação da luminosidade, e a substituição de camas por redes. As práticas de adaptação do ambiente foram relatadas por Marinelli et al (2012) no qual constatou a utilização da criatividade por profissionais de 48 enfermagem que atuam em saúde indígena. Outro estudo de Ranzi, Ortiz e Santos (2011) utilizou de recursos visuais, como placa informativa confeccionada no idioma indígena, sendo considerado como práticas inovadoras, que atendem a equidade, valorizando um dos maiores bens da sociedade, a comunicação. Assim como foram identificados discursos que buscam adaptar a estrutura física para atender as indígenas, houve aqueles que foram divergentes: “[...] eu sempre achei que esse parto se fosse pra ser hospitalar, que fosse em ambiente próprio, como na casai, que lá tivesse um ambiente para acolhê-las, deveriam ter um ambiente próprio delas, em um local próprio pro parto, com profissionais e tudo, pra ter uma assistência diferenciada que não precisassem vim à maternidade, porque na maioria das vezes é cruel com elas.” (E4) “[...] ela se deparam com o ambiente que não é adequado pra cultura dela, não entendemos porque trazem essas pacientes pra cá, a paciente não se sentir bem aqui. Acho que a política de saúde indígena tinha que esta pensando em estratégias, ate mesmo uma maternidade voltada pra esse público, um centro de parto, ver estratégias para atender melhor, e como deveria ser, porque talvez essa estrutura não seja adequada pra elas.” (E11) Os discursos evidenciaram como melhor solução para resolver a ambiência do hospital, a criação de um local específico para atender as parturientes indígenas, sendo este fora da maternidade. Foi possível perceber um questionamento quanto à atuação da política de atenção a saúde dos povos indígenas em propor estratégias para um bom atendimento, podendo-se perceber o desconhecimento por parte dos profissionais sobre as políticas públicas que contemplam a saúde do índio. 49 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir dos depoimentos percebe-se que a visão do enfermeiro a respeito do parto indígena hospitalar esteve relacionada às particularidades culturais, experiência e sentimento da mulher indígena no momento do parto; o respeito à cultura, o tratamento destinada as indígenas e a presença do acompanhante e apoio, além das barreiras e limitações que o enfermeiro vivencia na assistência a puérpera indígena, como a comunicação, o preparo da equipe e a ambiência dos hospitais. A humanização do parto indígena hospitalar foi relacionada com o fato de deixar as indígenas conduzirem o próprio parto, sendo estes realizados na posição de cócoras, por ser a principal escolha das indígenas, demonstrando que estes profissionais valorizam a decisão da parturiente quanto à posição para dar à luz. Entretanto, quando abordado os sentimentos demonstrados pelas indígenas no período de internação, identifica-se que estas não se sentem confortáveis com a hospitalização e assistência prestada pelos profissionais devido à falta de compreensão dos procedimentos, ao local e idioma desconhecido. De acordo com os relatos a assistência prestada pelos enfermeiros à mulher indígena, não se enquadrou aos princípios e diretrizes da Política Nacional de Humanização devido às dificuldades de comunicação, a falta de um ambiente físico de acordo com os costumes culturais, além da ausência de capacitação para os profissionais, desencadeando um cuidado que não atende aos princípios da humanização. Os depoimentos evidenciaram uma grande demanda de mulheres indígenas que são referenciadas para o hospital em busca de receber assistência no parto. Em detrimento disso, vale questionar como está sendo desenvolvido o pré-natal em área indígena, e os motivos que ocasionam a referência das indígenas para os hospitais, necessitando de pesquisas científicas nesta temática. Durante a pesquisa identificou-se a falta de estudos que evidenciassem a importância e/ou regulação da coordenação indígena nos hospitais, sendo necessário ampliar as discussões sobre este assunto, como forma de melhor compreendê-lo e contribuir para outros estudos. Desta forma foi possível perceber uma limitação desta pesquisa, tendo em vista ser baseado apenas em relatos de profissionais. A realização de um estudo observacional poderia contribuir, ampliando os resultados deste estudo. Dessa 50 maneira, julga-se necessário um trabalho mais integrador e articulado, para assim, expandir o conhecimento acerca da assistência prestada por profissionais de enfermagem às parturientes indígenas. Diante do exposto, esta pesquisa teve seus objetivos alcançados e poderá servir de base para outros estudos sobre a saúde da mulher indígena, a fim de contribuir com a qualidade da assistência prestada à estas parturientes, de modo a possibilitar uma reflexão acerca dos cuidados ofertados pelos enfermeiros da unidade pesquisada. 51 REFERÊNCIAS ANDRÉ, M.E.D.A. Etnografia da prática escolar. 6ª ed. São Paulo: Papirus, 2001. ÁVILA, T. Sexualidade, Gênero e Sistema de Parto nos povos Timbira do Maranhão e Tocantins. REUNIÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 26, PORTO SEGURO. Anais. Porto Seguro: Associação Brasileira de Antropologia, 2009. BACKES, D. S., LUNARDI, V.L., LUNARDI F. W. D. A humanização hospitalar como expressão da ética. Rev Latinoam Enferm, v.14 n.1 p.132-135, 2006. BANDEIRA, L. Gravidez e Parto: desafios e conquistas- Brasília: Mundo Melhor. 2002 BARDIN, L. Análise de conteúdo (L. de A. Rego & A. Pinheiro, Trads.). Lisboa: Edições 70, 2006. BARRA, D. C. C, et al. Hospitalidade como expressão do cuidado em enfermagem. Rev Bras Enferm, v. 63, n.2, p.203-208, 2010. BASTOS, N.M.G. Introdução à metodologia do trabalho acadêmico. 4ª ed. Fortaleza: Copyright, 2007. BELAÚNDE, L. E. El recuerdo de Luna. Género, sangre y memoria entre los pueblos amazónicos. Lima: Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 2005. BISCHOFF, A; DENHAERYNCK, K. What do language barriers cost? An exploratory study among asylum seekers inSwitzerland. BMC Health Serv Res. 2010; 10:248. BRASIL. Especial: Saúde garante mais proteção às mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. _______. Lei n. 8080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 20 de setembro de 1990. _______. Lei n. 9836, de 23 de setembro de 1999. Acrescenta dispositivos à Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, que "dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências", instituindo o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 24 de setembro de 1999. _______. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria nº 1163, de 14 de setembro de 1999. Dispõe sobre as responsabilidades na prestação de assistência à saúde dos povos indígenas, no Ministério da Saúde e dá outras providências, Brasília, 1999. 52 _______. Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social - Saúde da mulher: um diálogo aberto e participativo. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. _______. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria nº 1067, de 4 de julho de 2005. Institui a política nacional de atenção obstétrica e neonatal. Brasília, 2005. _______. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, 2000. _______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Política nacional de atenção integral à saúde da mulher: princípios e diretrizes / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília: Ministério da Saúde, 2004. _______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de acolhimento e classificação de risco em obstetrícia / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília: Ministério da Saúde, 2014. _______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. HumanizaSUS : Política Nacional de Humanização - PNH/ Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. – 1. ed. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2013. _______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde.Ações que priorizam a saúde da mulher. 2006 _______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde: Manual Prático Para Implementação Da Rede Cegonha - Brasília: Ministério da Saúde, 2011. _______. Parto, aborto e puerpério – Assistência Humanizada à Mulher. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. _______. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005. Dispõe sobre a garantia às parturientes do direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS. COROAIA, M. E. N. Reflexões sobre as práticas Kaingang de cuidados com a gestação, parto e pós-parto e suas interfaces com o sistema oficial de saúde. 2013. 104 p. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável) - Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. 53 CRUZ, K. R. Povos Indígenas e Política de Saúde no Brasil: o Específico e o Diferenciado como Desafios. Dissertação (Mestrado em políticas Públicas) – Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2003. DAVIS-FLOYD, R .E.; BARCLAY, L; TRITTEN, J; DAVISS, B. Birth models that work. London: University of California Press; 2009. DODOU, H. D.; RODRIGUES, D. P.; GUERREIRO, E. M., GUEDES M. V. C.; LAGO, P. N.; MESQUITA, N. S. A contribuição do acompanhante para a humanização do parto e nascimento: percepções de puérperas. Esc. Anna Nery v. 18 n. 2. Rio de Janeiro, 2014. ENKIN, M. et al. Guia para a atenção efetiva na gravidez e no parto - terceira edição, editora GUANABARA KOOGAN, Rio de Janeiro, 2005. ERIKSON, P. La Griffe des Aïeux. Marquage du corps et démarquage ethnique chez les Matis d'Amazonie. Paris: Editions Peeters. 1996. FERREIRA, L. O. Saúde e relações de gênero: uma reflexão sobre os desafios para a implantação de políticas públicas de atenção à saúde da mulher indígena. Revista Ciência & Saúde Coletiva, 18(4):1151-1159, 2013. FERREIRA, L. O.; OSORIO, P. S. (Orgs.). Medicina tradicional indígena em contextos. Anais da I Reunião de Monitoramente. Ministério da Saúde. 2010. FLICK, U. Uma introdução à pesquisa qualitativa. São Paulo: Artmed, 2009. FLORES, G. The impact of medical interpreter services on the quality of health care: a systematic review. Med Care Res Rev. v.62. n.3. p.255–299. 2005. FOSSÁ, M. I. T. Proposição de um constructo para análise da cultura de devoção nas empresas familiares e visionárias. Tese (Doutorado em Administração) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003. FREITAS, H. M. R.; CUNHA, M. V. M., JR.; MOSCAROLA, J. Aplicação de sistemas de software para auxílio na análise de conteúdo. Revista de Administração da USP, 32(3), 97- 109, 1997. FUNASA. Fundação Nacional de Saúde. 4ª Conferência Nacional de Saúde Indígena e Mês de Vacinação dos Povos Indígenas decreta fim de “saúde de brancos” para índios. Saúde, a Revista da Funasa, ano II, n.5. Maio/junho, 2006. FUNASA. Fundação Nacional de Saúde. Relatório final da 4a Conferência Nacional de Saúde Indígena. Brasília: Fundação Nacional de Saúde 2007. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. GIL, L. P. Possibilidades de Articulação entre os Sistemas de Parto Tradicionais Indígenas e o Sistema Oficial de Saúde no Alto Juruá. In: Brasil (Ministério da Saúde). Medicina Tradicional Indígena em Contextos. Anais da I 54 Reunião de Monitoramento. Projeto Vigisus II. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, 2007a, p. 23-36. GIL, L. P; PATRÍCIO, M; BRANDÃO, E. C; YAWANAWA, L. L. Valorização e Adequação dos Sistemas de Parto Tradicionais das Etnias Indígenas do Acre e do Sul do Amazonas. Relatório De Etnográfico Final DO Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Etnográfico – Olhar Etnográfico. Florianópolis, 2007b. HILLMAN, K. Health services utilization disparities between English speaking and non-English speaking background Australian infants. BMC Public Health. 2010. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Os Indígenas no Censo Demográfico 2010, primeiras considerações com base nos quesitos cor ou raça. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2012. IRAOSSI, G. The Power of Survey Design: A User's Guide for Managing Surveys, Interpreting Results, and Influencing Respondents. Washington, D.C.: The World Bank, 2006. LAGROU, E. Caminhos, Duplos e Corpos: uma abordagem perspectivista da identidade e a alteridade entre os Kaxinawa. Tese (Doutorado em Antropologia). São Paulo - Universidade de São Paulo, 1998. LAGROU, E. L. S. A fluidez da forma: arte, alteridade e agência em uma sociedade amazônica (Kaxinawa, Acre), Rio de Janeiro, TopBooks, 2007. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. - Fundamentos de metodologia científica. 6.ed., São Paulo, Atlas, 2004. 288p. LANGDON, E. J. Diversidade cultural e os desafios da politica brasileira de saúde do índio. Saúde Soc. São Paulo, v.16, n.2, p.7-12, 2007. LANGDON, E. J. Saúde e Povos Indígenas: Os desafios na virada do século; Disponível em: < http://www.antropologia.com.br/tribo/nessi/textos/Margsav.htm>, Acesso: em 26 out 2016. LANSKY, S.; FRICHE, A. A. L.; SILVA, A. A. M.; CAMPOS,D.; BITTENCOUT, S. D. A.; FRIAS, P. G.; CAVALCANTE, R. S.; CUNHA, A. J. L. A. Pesquisa Nascer no Brasil: perfil da mortalidade neonatal e avaliação da assistência à gestante e ao recém-nascido. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30 Sup:S192-S207, 2014. LAUDATO, L. Yanomami Pey Këyo. Universidade Católica de Brasília. Editora Universa, 1998. LEOPARDI, M.T. (org.) et al. Metodologia da pesquisa na saúde. Santa Maria: Pallotti, 2001. LUNARDI, R. Morbidade Hospitalar de Indígenas Xavante no Distrito Sanitário Especial Indígena Xavante, Mato Grosso (1998 a 2002). 2004. 78p. Dissertação 55 (Mestrado em Saúde Pública) – Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2004. MARCOLINO, D. L. Saúde das mulheres indígenas no Brasil: uma revisão integrativa. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012. MARINELLI et al. Assistência À População Indígena: Dificuldades Encontradas Por Enfermeiros. Revista Univap, São José dos Campos-SP, v. 18, n. 32, dez.2012. MARTINS, A. L. Política de saúde indígena no Brasil: reflexões sobre o processo de implementação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena. Dissertação. 2013. MEDEIROS, R. M. K. GRANDO, B. S. Análise do nascimento Bororo: aspectos culturais da dor de parto. O Mundo da Saúde, São Paulo, v. 40. n.2. p.160-168, 2016. MESSIAS, D. K. H; MCDOWELL, L; ESTRADA, R. D. Language Interpreting as Social Justice Work: Perspectives of Formal and Informal Healthcare Interpreters. ANS Adv Nurs Sci. v. 32. N.2. p.128-143. 2009. MINAYO, M.C.S. Desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12ª ed. Rio de Janeiro: Hucitec, 2014. MOLITERNO, A.C.M.; BORGHI, A.C.; ORLANDI, L.H.S.F.; FAUSTINO, R.C.; SERAFIM, D.; CARREIRA, L. Processo de gestar e parir entre as mulheres Kaingáng. Texto contexto - enferm., Florianópolis, v. 22, n. 2, jun. 2013 . NETO, R.O.N; SILVA, G.M. Saúde e qualidade de vida da mulher indígena: descrição de trabalhos realizados entre 2009 e 2013. 2013. NEVES, V. F. A. Pesquisa, ação e etnografia: caminhos cruzados. 2006. OLIVEIRA, V. B. SABERES E PRÁTICAS DAS PARTEIRAS TUPINIKIM. Universidade de Brasília. Faculdade Ciências da Saúde, 2014. ONU. Organização das Nações Unidas. Relatório sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, 2015. ONU. Organização Mundial De Saúde. Maternidade segura: atenção ao nascimento normal: guia prático. Genebra: Organização Mundial da Saúde; 1996. PACIORNIK M. Aprenda a nascer e viver com os índios: parto de cócoras, desempenho sexual e ginástica indígena. Rio de Janeiro (RJ): Rosa dos tempos;1997. PIRES, A.P. Amostragem e pesquisa qualitativa: ensaio teórico e metodológico. In: Poupart J, Deslauriers JP, Groulx LH, Lapemère A, Mayer R, Pires AP, organizadores. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Editora Vozes; 2008. p. 154-211 56 POLLOCK, D. "Etnomedicina Kulina". In: Ricando V. Santos & Carlos E. A. Coimbra Jr.(eds.) Saúde & Povos Indígenas. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1994. POTTER, P.A; PERRY, A.G. Fundamentos de Enfermagem. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2009. RANZI, D. V. M; ORTIZ, S; SANTOS, C. M. F. SUPERAÇÃO, HUMANIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO LOCAL: Programa de Acolhimento no atendimento hospitalar aos Indígenas de Dourados-MS. 2011. ROJAS, J. E. A. O indivisível e o divisível na história oral. In: MARTINELLI, M. L. Pesquisa qualitativa: um instigante desafio. São Paulo: Veras, 1999. p. 87-94. ROSA, J. C. S. A gestão do subsistema de atenção à saúde indígena no distrito federal através dos itinerários terapêuticos dos povos indígenas. 2013. 75 f. Monografia (saúde coletiva) – Faculdade da Ceilândia, Departamento de Saúde Coletiva, Universidade de Brasília, Brasília, 2013. ROZIN, A. J; LAZZAROTTO, E. M; SOUZA, A. A. L; MEZA, S. K. L; BARATIERI T; VIDAL, K. T. G; CINTRA, H. D. E; DELL’ARINGA, F. K. Aspectos Culturais da mulher indígena Guarani. Paraná, 2009. SANTOS, R. V.; CARDOSO, A. M.; GARNELO, L.; COIMBRA, Jr. C. E. A.; CHAVES, M. B. G. Saúde dos Povos Indígenas e Políticas Públicas no Brasil. In: Giovanella, L.; Escorel, S.; Lobato L. V. T.; Noronha, J. C. Carvalho, A. I. Políticas e Sistema de Saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Cebes; 2008. SÃO PAULO. Secretaria do Estado da Saúde. Dispõe sobre a adoção de procedimentos nos Hospitais de Referência ao Projeto de Resgate da Medicina Tradicional, quando da realização de partos na população indígena, e dá outras providências. Resolução SS 72 de 15 de 07 de 2008. Coordenadoria de Planejamento em Saúde, São Paulo, p. 1-4, jun./jul. 3. trim. 2008. SCHRAIBER, L. B. Pesquisa qualitativa em saúde: reflexões metodológicas do relato oral e produção de narrativas em estudo sobre a profissão médica. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 63-74, 1995. SCOPEL, D.; DIAS-SCOPEL, R. P.; WIIK, F. B. Cosmologia e Intermedicalidade: o campo religioso e a autoatenção às enfermidades entre os Índios Munduruku do Amazonas, Brasil. Tempus Actas de Saúde Coletiva, v. 6, n. 1, 2012. SILVA, C. B. Profissionais de saúde em contexto indígena: Os desafios para uma atuação intercultural e dialógica. ANTROPOS Revista de Antropologia – Ano 5 – Volume 6. Dez. 2013. SILVA, G. T. R.; ALBUQUERQUE, R. S. Enfermagem Obstétrica: abordagem do cuidado à gestante, parturiente e puérpera: reflexões sobre relevantes temas. São Paulo: Martinari, 2006. 57 TIMBY, B. K. Conceitos e Habilidades fundamentais no atendimento de Enfermagem. 8ª edição, Porto alegre: Artmed, 2007. UNESCO. Princípios sobre a Tolerância. São Paulo, USP/FLLCH. 1997. 58 APÊNDICE A DADOS PESSOAIS E PROFISSIONAIS Nome: Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino Idade: Tempo de formação acadêmica: Tempo de atuação profissional: Possui experiência em atenção à saúde indígena? ( ) Não ( ) Sim. ( ) Área indígena ( ) CASAI Como e quando iniciou o trabalho neste setor? Por que foi lotado neste setor? ( ) afinidade ( ) experiência ( ) Outros Roteiro de Entrevista Semiestruturada: Questão 01: Como você vê o parto indígena hospitalar? Questão 02: Qual sua conduta frente a um parto indígena? 59 ANEXO A 60 ANEXO B Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE: Convidamos os (as) Senhores (as) a participar, de forma totalmente voluntária da pesquisa “Humanização do parto indígena hospitalar: sob a ótica de enfermeiros atuantes em uma maternidade de Roraima”. Esta pesquisa tem como objetivo analisar a percepção de enfermeiros sobre a humanização do parto indígena hospitalar. A motivação que nos leva a estuda-la é a expressiva população indígena do estado de Roraima e as dificuldades de comunicação e interação com estes pacientes, despertando-nos o interesse em contribuir com a humanização do atendimento, para colaborar com a melhoria da assistência à saúde desta população. Nesta pesquisa o (a) senhor (a) é convidado (a) a responder as perguntas norteadoras da temática, por meio de entrevista semiestruturada com auxílio de gravador, que serão analisadas por meio da técnica de análise de conteúdo. Sua participação, neste estudo, é espontânea e não acarretará nenhum desconforto ou risco para sua vida, nem represália por parte da pesquisadora ou qualquer outro sujeito envolvido na pesquisa, de forma que o único risco seja a exposição negativa da percepção de enfermeiros acerca da humanização do parto indígena hospitalar. As informações fornecidas pelo (a) senhor (a) serão tratadas como confidenciais, de forma que o (a) senhor (a) não será identificado (a) em nenhum momento, havendo total sigilo e anonimato acerca de suas respostas às perguntas e ao diálogo ocorrido na entrevista. Em virtude disso, sua participação na pesquisa não implicar em custos, despesas, ourepresálias, não estão previstas formas de ressarcimento nem de indenização. É garantido ao (a) senhor (a) obter conhecimento e informações a qualquer tempo, dos procedimentos e métodos utilizados neste estudo, bem como dos resultados desta pesquisa, ficando a pesquisador disponível a ser contatada a qualquer momento. Este termo de consentimento encontra-se impresso em 2 (duas) vias originais, de igual teor e forma, sendo que uma será arquivada pelo pesquisador responsável, e a outra será fornecida ao participante. 61 Antes de concordar em participar desta pesquisa, é muito importante a compreenda as informações e instruções contidas neste documento. E, antes que o (a) senhor (a) decida participar, a pesquisadora deve esclarecer todas as suas dúvidas. Caso ainda ocorram dúvidas ou reclamações, pode-se contatar a pesquisadora Cintia Freitas Casimiro, por meio do número de telefone (95) 98112- 8868, ou por e-mail: cintiafc86@yahoo.com.br, ou ainda no endereço profissional: Av. Cap. Ene Garcez, nº 2413, Bairro Aeroporto (Campus do Paricarana), CEP: 69.310-000 - Boa Vista – RR. Centro de Ciências da Saúde – CCS – Bloco de Enfermagem. Desta forma, o (a) senhor (a) tem o direito de desistir de participar desta pesquisa a qualquer momento, sem nenhum ônus. Eu,__________________________________________________________, declaro estar ciente do anteriormente exposto e concordo voluntariamente em participar desta pesquisa. Assinando este consentimento em duas vias, ficando com a posse de uma delas. Autorizo gravar a entrevista Não autorizo gravar a entrevista Boa Vista, _____ de ____________ de 2016. ____________________________________ Assinatura do Participante Eu, Cintia Freitas Casimiro, pesquisadora responsável pelo estudo, declaro que forneci todas as informações referentes à pesquisa ao participante, de forma apropriada, e voluntaria. ___________________________________ Assinatura do Pesquisador Contato do Colaborador da pesquisa: Vitória Cruz Lana, (95) 98118-6225, e-mail: vitoriacruzlana@gmail.com. Endereço do CEP/UFRR: Av. Cap. Ene Garcez, nº 2413, Bairro Aeroporto (Campus do Paricarana), CEP: 69.310-000 - Boa Vista– RR. Bloco da PRPPG-UFRR, E-mail: coep@ufrr.br / Telefone: (95) 3621-3112 Ramal 26. mailto:cintiafc86@yahoo.com.br mailto:vitoriacruzlana@gmail.com 62 ANEXO C 63 64