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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA 
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE 
CURSO DE ENFERMAGEM 
 
 
 
 VITÓRIA CRUZ LANA 
 
 
 
 
HUMANIZAÇÃO DO PARTO INDÍGENA HOSPITALAR: sob a ótica de 
enfermeiros atuantes em maternidade de Roraima 
 
 
 
 
 
 
BOA VISTA, RR 
2016 
 
2 
 
VITÓRIA CRUZ LANA 
 
 
 
 
 
 
 
HUMANIZAÇÃO DO PARTO INDÍGENA HOSPITALAR: sob a ótica de 
enfermeiros atuantes em maternidade de Roraima 
 
 
Monografia apresentada como requisito para 
conclusão do Curso de Bacharelado em 
Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde 
da Universidade Federal de Roraima. 
Orientadora: Profª. Ma. Cíntia Freitas 
Casimiro. 
 
 
 
 
 
 
BOA VISTA, RR 
2016 
3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
 
 
5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
À minha mãe e meus avós: 
Adriana Maria Silva da Cruz 
Amadeus da Cruz (in memorian) 
Maria de Fátima Silva da Cruz 
 
6 
 
AGRADECIMENTOS 
A Deus e Nossa Senhora Consolata por colocarem em meu caminho pessoas 
magníficas, oportunidades maravilhosas, e me dar a coragem de seguir em busca 
dos meus sonhos. 
À minha avó Maria de Fátima Silva da Cruz que com sua fé me forneceu 
apoio e força em todos os momentos que precisei. 
À minha mãe Adriana Maria Silva da Cruz pelo apoio incondicional, por todo 
amor e por transformar meus sonhos em realidade. 
Ao meu pai Vilmar Lana pelo incentivo e por me fazer acreditar que fiz a 
escolha certa. 
A toda minha família, pelos ensinados e valores demonstrados durante minha 
vida, pela compreensão e apoio nos momentos difíceis. 
Ao meu noivo Lisandro Gabriel de Melo Cerveira pelo amor, e apoio nos 
tempos difíceis, por me acalmar nos momentos de angústias, e compreender minha 
ausência. 
À minha orientadora e amiga Profª. Msc. Cíntia Freitas Casimiro, pela 
paciência, confiança, e compreensão, pelos ensinamentos, sugestões e orientações, 
e, sobretudo a amizade. 
Aos Membros da Banca Prof.ª Ma. Raquel Voges Caldart, Prof.ª Ma. Tárcia 
Millene de Almeida Costa Barreto, Enfº. Rafhael Brito de Almeida Santos, pelo 
incentivo em realizar trabalhos sobre saúde indígena, e por toda dedicação, 
empenho e contribuição para o desenvolvimento desse trabalho. 
Aos professores da graduação pelos conhecimentos transmitidos, pela 
dedicação, pelos projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos, e, sobretudo pela 
contribuição no meu crescimento pessoal e profissional. 
Aos amigos que fiz durante esta jornada Lanna, Celiane, Nathália, Bárbara, 
Thais, Sarhieli, Janaína, e João pelo estímulo em tempos difíceis, pelos agradáveis 
momentos compartilhados nessa trajetória. 
Aos amigos Brunna Caroline, Pedro Eduardo e Nathália Faíza pelo apoio e 
disponibilidade em ajudar, pois foram fundamentais para a realização deste trabalho. 
Aos entrevistados da pesquisa, pela confiança, generosidade, e por 
acreditarem na melhoria da assistência aos povos indígenas aceitando participarem 
do estudo. 
À Universidade Federal de Roraima – UFRR por possibilitar a realização 
desta graduação, e por ser uma instituição que qualifica os profissionais para o 
futuro. 
E finalmente, a todas as pessoas que, de alguma forma contribuíram para a 
realização dos meus objetivos, acreditando e vencendo junto comigo. 
 
7 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Temos o direito de ser iguais quando 
a nossa diferença nos inferioriza; e 
temos o direito de ser diferentes 
quando a nossa igualdade nos 
descaracteriza. Daí a necessidade de 
uma igualdade que reconheça as 
diferenças e de uma diferença que 
não produza, alimente ou reproduza 
as desigualdades.” 
(Boaventura de Souza Santos) 
8 
 
RESUMO 
O Brasil apresenta uma expressiva população indígena, com maior concentração na 
região norte, e Roraima é o segundo estado da região com maior população 
indígena, com aproximadamente 11% da sua população autodeclarada indígena. Na 
perspectiva de atender esta população, criaram-se políticas públicas de atenção à 
saúde dos povos indígena como forma de reorganizar o Sistema Único de Saúde 
(SUS) a atender as especificidades dessa população. Assim, faz-se necessário 
conhecer as particularidades que permeiam a vida da mulher indígena, sendo esta 
marcada por ensinamentos, tradições e costumes culturais que influenciam no 
momento do parto. A pesquisa teve como objetivos analisar a atuação de 
enfermeiros na humanização do parto indígena hospitalar; conhecer a percepção de 
enfermeiros acerca da atenção à saúde da parturiente indígena no estado de 
Roraima; identificar as ações desenvolvidas pelo enfermeiro no parto indígena em 
um hospital do estado de Roraima. O percurso metodológico teve a abordagem 
qualitativa, com o emprego do estudo etnográfico, desenvolvido durante os meses 
de março a novembro de 2016. Os informantes da pesquisa foram onze enfermeiros 
especialistas em obstetrícia com no mínimo um ano de atuação nas salas de parto 
de uma maternidade de Roraima. Para a coleta de dados utilizou-se entrevista 
semiestruturada com questões norteadoras, também foi utilizado gravador e diário 
de campo. Os dados foram analisados mediante as técnicas de análise de conteúdo 
de Bardin, emergindo três categorias: peculiaridades da parturiente indígena, 
condutas do enfermeiro com a parturiente indígena e entraves na atuação do 
enfermeiro na assistência a indígena. Pôde-se evidenciar que a humanização do 
parto indígena hospitalar foi relacionada com o fato de deixar as indígenas 
conduzirem o próprio parto. Porém quando abordados os sentimentos das indígenas 
no período de internação, identificou-se que estas não se sentem confortáveis com o 
local e idioma desconhecido, além da falta de compreensão dos procedimentos e 
assistência prestada pelos enfermeiros à mulher indígena, na qual não se 
enquadrou aos princípios e diretrizes da Política Nacional de Humanização devido 
às dificuldades de comunicação, a falta de um ambiente físico adequado aos 
costumes culturais e a ausência de capacitação profissional. 
PALAVRAS-CHAVE: Medicina Tradicional. Parto Humanizado. Saúde Indígena. 
Enfermagem. 
9 
 
ABSTRACT 
Brazil has a significant indigenous population, with a higher concentration in the north 
part of the country, where is located the state of Roraima, the second state in the 
north of Brazil with the highest indigenous population. It is about 11% of the 
population declare themselves as an indigenous. To provide health service to those 
people, who lives in areas of difficult access, the government reorganized the public 
health system creating health policies for indigenous peoples whereas their 
specificities and the culture of this population. Thus, it is necessary to better 
understand the peculiarities regarding to the reproductive health of indigenous 
women and their traditions and cultural customs that can influence during the 
process of the childbirth.This study aims to analyze the performance of nurses in the 
hospital humanization of indigenous labor; to know the perception of nurses about 
health care for the indigenous woman in labor in the state of Roraima and to identify 
the actions developed by nurses during the indigenous birth process in a hospital in 
the state of Roraima. The methodological route adopted a qualitative approach, with 
the use of an ethnographic study, being conducted within the months of March to 
November, 2016. The informants of the survey were eleven midwife specialists with 
at least one year of work experience in the labor room of a maternity in Boa Vista, 
Roraima. For such, the instruments used for data collection were: semi-structured 
interviews with guiding questions, a recorder and a field diary. The data were 
analyzed by using the techniques of Bardin content analysis, emerging three 
categories: peculiarities of the Indigenous woman in labor, nursing conduct with the 
indigenous womanin labor and obstacles faced by the nurse's role while assisting 
the indigenous woman. It could be noted that the humanization of hospital indigenous 
labor was related to the fact of leaving the Indians lead the labor process by 
themselves. But when the feelings of the natives during hospitalization was 
approached, it could be identified that they do not feel comfortable with the place and 
unfamiliar language, the lack of understanding about the procedures, the assistance 
provided by nurses to indigenous women, once this did not fit the principles and 
guidelines of the National Humanization Policy due to communication difficulties, lack 
of physical environment adequate to the cultural customs, besides the lack of 
professional training. 
KEYWORDS: Traditional Medicine. Humanized birth. Indigenous Health. Nursing. 
10 
 
SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 11 
1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA .. 11 
1.2 OBJETIVOS ................................................................................................. 13 
1.2.1 Objetivo geral......................................................................................... 13 
1.2.2 Objetivos específicos ................................................................................. 13 
1.3 JUSTIFICATIVA ........................................................................................... 13 
2 REFERENCIAL TEMÁTICO ................................................................................... 14 
2.1 SAÚDE DA MULHER INDÍGENA .................................................................... 14 
2.2 HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO OBSTÉTRICA............................................... 17 
3 METODOLOGIA ..................................................................................................... 20 
3.1 TIPO DE ESTUDO ........................................................................................... 20 
3.2 LOCAL DO ESTUDO ....................................................................................... 20 
3.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA ............................................................................. 21 
3.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS ................................................ 21 
3.5 ANÁLISE DOS DADOS ................................................................................... 22 
3.6 ASPECTOS ÉTICOS E LEGAIS ...................................................................... 24 
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO .............................................................................. 26 
Peculiaridades da Parturiente Indígena ................................................................. 27 
Condutas do Enfermeiro com as Parturientes Indígenas ....................................... 34 
Entraves na Atuação do Enfermeiro na Assistência a Indígena ............................ 41 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 49 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 51 
APÊNDICE A ............................................................................................................. 58 
ANEXO A .................................................................................................................. 59 
ANEXO B .................................................................................................................. 60 
ANEXO C .................................................................................................................. 62 
 
 
11 
 
1 INTRODUÇÃO 
1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA 
O Brasil apresenta uma expressiva população indígena, estando presentes 
nas cinco regiões do país, sendo a região Norte a que concentra a maior quantidade 
de indivíduos desta raça e, entre os estados desta região, Roraima é o segundo com 
maior concentração, detendo o maior percentual populacional de indígenas, se 
comparado à população total do estado, uma vez que 49.637 pessoas se 
declararam indígenas em todo o território de Roraima, que tem como população total 
450.479 habitantes, representando desta forma mais de 11% da população (IBGE, 
2012). 
Na perspectiva de atender à saúde dos povos indígenas em suas 
especificidades étnicas e culturais, foi criada a Lei 9.836 de 1999, que regulamenta o 
Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS), complementando a Lei 
8.080 de 1990, que regulamenta o Sistema Único de Saúde (SUS), sendo 
considerado um marco histórico para a saúde indígena no Brasil, por promover um 
melhor direcionamento das ações de saúde destinadas a essa população, de forma 
a respeitar as diretrizes do SUS, diferenciando-se apenas nos aspectos culturais, 
sociais, históricos e epidemiológicos (BRASIL, 1999). 
 Desta forma, foi necessário à adoção de um modelo complementar e 
diferenciado de organização dos serviços de saúde, criando em 2002 a Politica 
Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), que proporcionou 
uma reordenação e adaptação da rede de serviços de atenção à saúde indígena, 
promovendo diversos avanços para a saúde dos povos indígenas. No qual a 
atenção básica a saúde atua por meio dos Distritos Sanitários Especiais Indígena 
(DSEI), e os atendimentos de média e alta complexidade funcionam a partir do 
sistema de referencia para a rede ambulatorial e/ou hospitalar, todos vinculados ao 
SUS. (BRASIL, 2000; CRUZ, 2003, LUNARDI, 2004; MARTINS, 2013). 
Neste contexto acerca da saúde indígena, vislumbra-se a saúde da mulher 
indígena, amparada pela Política Nacional de Atenção Integral a Saúde da Mulher 
(PNAISM), criada em 2004 pelo Ministério da Saúde, com diversos objetivos sobre a 
integralidade e a promoção da saúde da mulher em todo o ciclo de vida e faixas 
etárias, dos distintos grupos populacionais. No entanto, pesquisas cientficas e 
políticas públicas específicas sobre a saúde da mulher indígena ainda são 
12 
 
superficiais, principalmente sobre o processo de gestação e nascimento entre as 
mulheres indígena sendo necessária a articulação de novas ações de atenção a 
esta parcela da população (BRASIL, 2004; MARCOLINO, 2012; NETO e SILVA, 
2013). 
Desde a criação da PNAISM, a saúde da mulher vem ganhando destaque nas 
políticas públicas, como por exemplo, o Pacto Nacional pela Redução da 
Mortalidade Materna e Neonatal (2004), Política Nacional de Planejamento Familiar 
(2007), Política Nacional pelo Parto Natural e Contra as Cesáreas Desnecessárias 
(2008), e mais recentemente, em 2011, com a Rede Cegonha (RC) (BRASIL, 2009; 
BRASIL, 2011). 
A RC foi instituída pelo Ministério da Saúde (MS) no ano de 2011, sendo 
considerada como uma rede de cuidados integrais à mulher nos períodos da 
gravidez, parto, puerpério, além de atenção à saúde da criança. Está fundamentada 
em políticas públicas de saúde que contemplam a humanização, como por exemplo, 
a Política Nacional de Humanização (PNH), criada em 2003 com o objetivo de 
produzir mudanças no processo de cuidar, por meio da adequação dos serviços de 
saúde ao ambiente e as culturas de seus usuários (BRASIL, 2011; BRASIL, 2013). 
Como forma de atender as políticas de saúde, e considerando o respeito às 
questões culturais, previsto nestas, se faz necessário o conhecimento de costumes, 
crenças, tradições e valores culturais que permeiam as fases de vida da mulher 
indígena, uma vez que estes fatores influenciam diretamente na vida da indígena, 
como por exemplo, no momento do parto, no qual a indígena perpassa as dores do 
parto de forma silenciosa, devido o parto ser considerado como um evento intimista, 
de evolução rápida, que não necessita de recursos especializados (LAUDATO, 
1998; BELAÚNDE, 2005; GIL, 2007a; ROZIN et al., 2009). 
Mediante o exposto, na perspectiva depreservação, valorização da cultura, e 
da expressiva população indígena no estado de Roraima, faz-se necessário 
humanizar a assistência à saúde materno infantil indígena, que requer a construção 
de estratégias entre os usuários, profissionais da saúde e gestores em saúde. 
Portanto, esta pesquisa teve o intuito de responder a seguinte questão: Na 
perspectiva de humanização do parto indígena, qual a percepção de enfermeiros 
que prestam assistência a esta população em um hospital de referência materno 
infantil do estado de Roraima acerca do parto indígena hospitalar. 
13 
 
1.2 OBJETIVOS 
1.2.1 Objetivo geral 
 Analisar a atuação de enfermeiros obstetras atuantes em um hospital 
materno infantil do estado de Roraima sobre a humanização do parto 
indígena hospitalar. 
 1.2.2 Objetivos específicos 
 Conhecer a percepção de enfermeiros obstetras atuantes em hospital 
materno infantil acerca da atenção à saúde da parturiente indígena no estado 
de Roraima; 
 Identificar as ações desenvolvidas pelo enfermeiro obstetra no parto indígena 
em um hospital do estado de Roraima. 
 
1.3 JUSTIFICATIVA 
A motivação da autora para a realização desta pesquisa surgiu a partir da 
vivência enquanto acadêmica de enfermagem em ambiente hospitalar. Por meio 
desta vivencia foi possível constar a expressiva população indígena internada em 
hospitais do estado de Roraima, e identificar inúmeros problemas relacionados à 
comunicação e interação com esta população, devido a sua diversidade linguística, 
comportamental e diferenças culturais. Despertando a vontade de conhecer esta 
população e um interesse em contribuir com a humanização do atendimento, para 
colaborar com a melhoria da assistência à saúde dos povos indígenas, na 
perspectiva de respeito às concepções e valores culturais que permeiam a Política 
Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. 
Portanto, é relevante analisar a atuação de enfermeiros acerca da 
humanização do parto indígena hospitalar, pois por meio de pesquisas deste caráter 
que se criam relações que orientam de forma humanizada as políticas públicas de 
saúde, tendo como foco a humanização do atendimento à mulher indígena. 
Promovendo benefícios para os profissionais que atuam na assistência ao parto de 
mulheres indígenas, uma vez o que propicia o surgimento de outros valores, novas 
maneiras de pensar e agir, quebrando-se as barreiras culturais e promovendo uma 
assistência imparcial, de qualidade e mais humanizada, beneficiando desta forma as 
mulheres indígenas. 
14 
 
2 REFERENCIAL TEMÁTICO 
 Este referencial temático está estruturado em dois eixos, o primeiro aborda a 
mulher indígena e suas especificidades, o segundo compreende a humanização da 
atenção obstétrica no Brasil. 
2.1 SAÚDE DA MULHER INDÍGENA 
É necessário abordar as tradições culturais que acompanha a vida de uma 
mulher indígena, tendo em vista que esta passa por diversos ensinamentos, rituais, 
tradições e costumes desde sua infância, e principalmente no período da puberdade 
e iniciação na vida adulta, devido ser caracterizada como a fase reprodutiva. Tais 
ensinamentos servem de preparo para a vida da indígena. Vale ressaltar a variação 
que ocorre dependendo da etnia, podem apresentar características diferentes devido 
à diversidade cultural que existe entre as etnias (LAUDATO, 1998; GIL et al., 2007; 
ROZIN et al., 2009). 
São exemplos destes ensinamentos a construção gradual do corpo de uma 
mulher indígena, sendo esta uma modelagem do corpo que ocorre por meio de 
rituais de reclusão, dietas alimentares e banho de ervas. No primeiro a indígena fica 
excluída do convívio familiar e social durante o período da primeira menstruação, 
tendo contato apenas com uma pessoa, geralmente a mãe ou avó (LAUDATO, 
1998). Em relação às dietas alimentares, que variam de acordo como ciclo de vida 
da indígena, baseiam-se na restrição de determinados alimentos, que variam de 
acordo com a etnia, tais como água, goma de tapioca, banana, carnes entre outros. 
Já os banhos de ervas colhidas da floresta ocorrem geralmente no final da 
menstruação, onde as indígenas recebem estes banhos com água morna, que 
promovem a limpeza e fortificação do corpo e espírito (BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 
2007). 
Outro aspecto relacionado à modelagem do corpo é a execução de tarefas 
específicas, como por exemplo, carregar água, lenha e os produtos da roça, além de 
executar atividade na posição de cócoras. Estas tarefas devem ocorrer desde a 
infância continuando durante toda a gravidez, uma vez que fortalece o corpo 
feminino para as virtudes deste sexo, principalmente para o momento do parto 
(BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007; MOLITERNO et al., 2013). 
A ideia de concepção também é outra característica de extrema relevância, 
pois esta atrelada a relação de parentesco, que por sua vez está vinculada a relação 
15 
 
de substância, considerado que uma família compartilha a mesma substância 
corporal, por acreditar que a concepção advém de todos os fluidos que a indígena 
manteve contato, como por exemplo, sangue, sêmen dos pais, ou de outra pessoa 
em que manteve relação sexual, fluidos de alimentos ingeridos durante a gravidez, 
podendo ter o potencial de interferir nas condições de saúde da criança e da 
gestante (GIL et al., 2007). 
Em relação à alimentação da indígena durante a gestação, esta pode ter o 
consumo adequado de alguns alimentos em particular, ou o mais comum, sendo 
abster-se de vários alimentos que podem colocar em risco a saúde do recém-
nascido. Conforme as crenças indígenas, os alimentos que devem ser evitados 
podem ser divididos em dois conjuntos, segundo seus efeitos. Sendo alguns 
evitados por serem considerados portadores de espíritos, como por exemplo, a 
carne, estes podem no futuro, provocar doenças no recém-nascido, como diarreia, 
inchaço abdominal, constipação, ou até mesmo a morte. Outros são evitados por 
terem a capacidade de produzir efeitos indesejados no corpo da mãe, como inchaço, 
ganhos de peso excessivo, dependendo do caso. Essa tradição alimentar foi 
ensinada a mulher indígena ainda durante primeira menstruação (POLLOCK 1994; 
LAUDATO, 1998; GIL et al., 2007a; MOLITERNO et al., 2013). 
Percebe-se que são traços culturais de grande importância na vida da 
indígena, e estão ligados a purificação e instrução para introdução na vida adulta, 
sendo estes tratamentos e ensinamentos que irão dotar os corpos com 
determinadas características, como força e vitalidade, preparando-os em vários 
sentidos, no geral, em aspectos relacionados com vida reprodutiva, evitando dores 
nos períodos da menstruação, e no momento do parto (LAUDATO, 1998; 
BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007). 
Segundo Gil et al (2007) o momento do parto pode ser considerado em dois 
tipos de circunstâncias. A primeira, e mais comum, na qual o parto é percebido como 
uma prática “invisível”, momento em que a mulher indígena dá à luz sozinha, ou 
apenas com a ajuda de um familiar mais próximo quando o parto apresenta alguma 
dificuldade. Estes partos, em sua maioria, acontecem nas casas das parturientes ou 
na floresta, em alguma estrutura previamente preparada para esta finalidade. O 
nascimento não é notado pela comunidade, tomando conhecimento do evento após 
seu acontecimento, devido à parturiente manter-se isolada e sem demonstrativos de 
dor. Desta forma o parto é considerado um evento íntimo. 
16 
 
A segunda circunstância que se refere o parto indígena, é menos comum. 
Considerando o parto como um evento social, participando deste momento todas as 
mulheres da aldeia, acompanhando o processo, e cantando com o intuito de acalmar 
a parturiente e facilitar o nascimento da criança. Porém, mesmo nestes eventos, a 
indígena não manifesta sinais de dor (LAGROU, 1998; GIL et al., 2007). 
Identifica-se como característica marcante doparto indígena, o controle da 
parturiente em não manifestar sinais de dor, tais como gritos ou choros, sendo 
considerado como o parto sem dor. As indígenas mantêm a tranquilidade e 
focalizam na força para que ocorra a expulsão da criança. Para algumas mulheres 
indígenas, tal força esta contida nos ossos e em uma postura adequada, essa 
percepção também esta vinculada com os ensinamentos obtidos durante a menarca, 
e uso de ervas da floresta (BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007; MOLITERNO et al., 
2013; SILVA, 2013). 
Em sua maioria, o parto indígena é um acontecimento que não gera 
alterações na rotina, e não necessita de mobilização de recursos, sejam estes 
humanos, tecnológicos ou terapêuticos, exceto em situações que ao decorrer do 
parto ocorram complicações, demandando assistência especial. Desta forma, o 
processo de parto da mulher indígena, em sua maioria, evolui de tal modo que esta 
dá a luz sozinha, ou acompanhada de uma mulher experiente, porém seu papel é de 
caráter social, apenas para o ato de receber a criança, uma vez que este ação 
determina uma afinidade com a criança (GIL et al., 2007; MOLITERNO et al., 2013). 
Após a expulsão do feto, ocorre o período da dequitação, ou seja, a expulsão 
da placenta, considerada uma das características de extrema importância para as 
mulheres indígenas, na qual o destino mais comum da placenta é ser enterrada, 
dependendo da etnia pode ser enterrada atrás da casa ou em algum lugar da mata 
por meio de um ritual cultural. A não realização desta ação acarretaria danos à vida 
do recém-nascido, uma vez que a placenta é concebida como um segundo filho, 
sendo considerado como irmão do recém-nascido. Assim, o parto implica 
diretamente na morte da placenta, provocando esta rivalidade entre a placenta e a 
criança. Outra explicação para a ação seria para nenhum animal ingerí-la, uma vez 
que a placenta compartilha da mesma substância da criança, o que acarretaria em 
morte instantânea tanto da placenta como da criança (LAUDATO, 1998; BRASIL, 
2001; BELAÚNDE 2005; GIL et al., 2007; FERREIRA, 2013; MOLITERNO et al., 
2013). 
17 
 
Outro aspecto cultural indígena é o momento do banho, seja da indígena ou 
do recém-nascido, estes devem ocorrer apenas no dia seguinte do parto, com água 
morna para manter a temperatura, evitar o adoecimento e diminuição da produção 
de leite materno, devido à concepção que a água fria pode causas estes danos a 
saúde (GIL et al, 2007). 
Nota-se que as fases de vida da mulher indígena são marcadas por inúmeros 
costumes e crenças, que variam de acordo com a etnia. (GIL, 2007a; ROZIN et al., 
2009). 
 2.2 HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO OBSTÉTRICA 
Em relação ao amparo à saúde da mulher o MS lançou em 1984 o Programa 
de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), como a primeira preocupação 
com esta população (BRASIL, 2010). Este programa serviu de inspiração para a 
criação da PNAISM no ano de 2004, com o objetivo de promover a melhoria das 
condições de vida e saúde das mulheres brasileiras, por meio da garantia de direitos 
legalmente constituídos e ampliação do acesso à promoção, prevenção, assistência 
e recuperação da saúde em todo o país (BRASIL, 2004). 
Desta forma, contribuindo para a redução da morbimortalidade feminina no 
Brasil, de acordo com o quinto item dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, 
no qual consta a importância da concentração dos esforços para a redução das 
mortes maternas, e pleno direito ao acesso universal a saúde reprodutiva (ONU, 
2015). 
Assim, a PNAISM abrange todos os ciclos de vida e os diversos grupos 
populacionais, tais como mulheres negras, indígenas, residentes em áreas urbanas 
e rurais, residentes em locais de difícil acesso, em situação de risco, presidiárias, de 
orientação homossexual, com deficiência, dentre outras. Além de expandir, qualificar 
e humanizar a atenção integral à saúde da mulher no SUS, considerando os seus 
princípios, a qualidade e humanização (BRASIL, 2004). 
Por isso, faz-se necessário compreender a humanização enquanto uma 
política de saúde pública, sendo esta a PNH. Criada em 2003 com finalidade de 
produzir mudanças no processo de cuidar, por meio da efetivação dos princípios do 
SUS nas rotinas dos serviços de saúde, a partir de suas diretrizes, tais como 
acolhimento, gestão participativa e cogestão, ambiência, clínica ampliada e 
compartilhada, valorização do trabalhador, além da defesa dos direitos dos usuários 
18 
 
dos serviços de saúde (BRASIL, 2013). 
A PNH também é conhecida como rede HumanizaSUS, esta política aposta 
na fusão de comunicação e informação entre gestores e profissionais da saúde, 
pesquisadores, estudantes, profissionais das diferentes áreas e usuário na produção 
e gestão da assistência a saúde, e nos recursos para a sua produção, construindo 
mudanças coletivas de enfrentamento as atitudes e praticas desumanizadoras. 
Desta forma, humanizar seria a inclusão das diferenças fundamentada no respeito, e 
só por meio disso podem ocorrer mudanças, que surgem da coletividade com o 
intuito de estimular a produção de novos conceitos e modos de cuidar (BRASIL, 
2013). 
Outro conceito de humanização adotado pela PNH é abrangente, integrando 
várias dimensões, por subentender que na área da saúde, a humanização diz 
respeito a questões de cunho ético, estético e político. Na qual a ética implica em 
atitudes comprometidas e corresponsáveis dos usuários, gestores e trabalhadores 
de saúde. A estética é referente ao processo de produção de saúde e de 
subjetividades autônomas protagonistas. Já a política se refere à organização social 
das práticas de atenção e gestão na rede do SUS (BRASIL, 2011). 
Como forma de compor uma rede de atenção às mulheres e recém-nascidos, 
o MS criou em 2011 a RC, por meio da portaria de número 1.459, que consiste em 
uma rede de cuidados com o objetivo de assegurar à mulher o direito ao 
planejamento reprodutivo e à atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao 
puerpério, bem como à criança o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e 
ao desenvolvimento saudáveis, ou seja, esta rede é estruturada por meio de quatro 
componentes: pré-natal, parto e nascimento, puerpério e atenção integral à saúde 
da criança durante os primeiros dois anos de vida e sistema logístico que refere-se 
ao transporte sanitário e regulação. Entretanto, também possui com foco a redução 
da morbimortalidade materna e infantil, por meio da redução do alto índice de 
cesarianas (BRASIL, 2011; BRASIL, 2014). 
 A RC fundamenta-se nos direitos de cidadania, direitos humanos, o respeito à 
diversidade cultural, étnica, racial e de gênero, a busca de equidade no atendimento, 
considerando as diferenças regionais, e a garantia dos direitos sexuais e 
reprodutivos de mulheres e homens, além do incentivo à participação e mobilização 
social, previsto na Lei 8.080 do ano de 1990, na qual dispõe sobre o SUS. Desta 
forma, a RC propõe a implantação de um modelo de atenção ao parto e ao 
19 
 
nascimento, garantindo às mulheres e às crianças uma assistência de qualidade, 
prezando pela segurança, respeito e dignidade, proporcionando-lhes vivenciar a 
experiência da maternidade e nascimento, dando seguimento às ações da PNAISM 
e da PNH (BRASIL, 2011; BRASIL, 2014). 
Segundo Davis-Floyd (2009) o mesmo modelo de atenção à mulher 
fundamentado na RC foi identificado e intensificado em vários outros países, como o 
Japão, Holanda, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido e Canadá. 
 Percebe-se que a atenção obstétrica e neonatal é entendida como toda 
assistência integral prestada a mulher durante a gravidez, parto, e pós-parto, além 
do amparo a saúde do recém-nascido, considerando-os como sujeitos de direito, e 
não apenas como objetivo passivo de assistência, configurando-se como a base do 
processo de humanização e qualidade da assistência, como previsto pela portaria do 
MS de número 1.067 de 2005. (BRASIL,2005; BRASIL, 2006). 
Neste contexto Lansky et al (2014) relata que somente com a construção e 
consolidação de uma rede perinatal integrada, hierarquizada e regionalizada, além 
da qualificação da assistência, em especial ao parto e nascimento que pode-se 
conseguir avanço na redução da mortalidade neonatal e materna. 
 
20 
 
3 METODOLOGIA 
3.1 TIPO DE ESTUDO 
O percurso metodológico foi baseado no objeto de estudo, direcionando-se 
para uma pesquisa do tipo etnográfica com abordagem qualitativa, sendo utilizada 
em populações pequenas, a partir de dados subjetivos, aplicando o estudo das 
relações, representações, crenças, percepções e opiniões de processos sociais 
pouco conhecidos, por meio da compreensão das ações e relações humanas, 
mediante as rotinas, sentimentos, desejos e emoções, promovendo a criação de 
novos conceitos, categorias, abordagens, hipóteses e indicadores. Assim atua 
avaliando a compreensão dos fenômenos sociais e os significados da intenção que 
são dados pelos atores (LEOPARDI et al., 2001; BASTOS, 2007; FLICK, 2009; 
MINAYO, 2014). 
Em razão aos inúmeros tipos de abordagem qualitativa, nesta foi utilizado o 
método etnográfico, também conhecido como etnometodologia, ou ciência da 
descrição cultural, sendo destaque os aspectos culturais. Esta é analisada por meio 
de várias técnicas com intuito de observar diretamente os comportamentos, hábitos 
e crenças, mediante uma investigação detalhada do ocorrido, no local em que 
ocorreu; e registro contínuo com a finalidade de descrever minunciosamente as 
sociedades humanas, que requer generalização e comparação, podendo ser 
implícita ou explícita (ANDRÉ, 2001; LAKATOS e MARCONI, 2004; NEVES, 2006; 
MINAYO, 2014). 
3.2 LOCAL DO ESTUDO 
A pesquisa foi realizada em uma instituição hospitalar de grande porte do 
estado de Roraima, mediante autorização da instituição (ANEXO A). Este hospital 
possui administração estadual e atende exclusivamente pelo Sistema Único de 
Saúde - SUS, situado na capital Boa Vista. É referência para a população materno 
infantil da capital e para os munícipios do interior, além dos dois Distritos Sanitários 
Especiais Indígenas (DSEI Yanomami e DSEI Leste) e dois países fronteiriços 
(República Cooperativa da Guiana e República Bolivariana da Venezuela). 
Este hospital é organizado por especialidades ou características em comum 
das pacientes internadas, sendo dividido por bloco, mais conhecidos como alas, que 
recebem nome de flores. 
21 
 
Assim, essa pesquisa ocorreu em um bloco deste hospital destinado a 
receber parturientes em evolução de trabalho de parto normal. Este bloco é 
subdividido em áreas, sendo uma destinada as pacientes de alto risco para parto 
normal, com dois leitos devidamente equipados para monitoramento intensivo das 
pacientes; salas de pré-parto, composta por nove leitos; e nove salas de parto, com 
banheiro privativo, acesso ao jardim, além de berço aquecido, cama, e utensílios 
para atendimento no momento do parto. 
3.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA 
Os participantes do estudo foram enfermeiros que atuam no cenário descrito. 
Para a realização dessa pesquisa utilizou-se como critérios de inclusão: enfermeiro 
atuante no setor estabelecido; com especialização em enfermagem obstétrica; e 
experiência com atenção obstétrica ou saúde indígena no mínimo de um ano. Já os 
critérios de exclusão foram enfermeiros deste setor que estavam de férias, licença 
ou outro motivo que o afastasse do trabalho. 
Uma pesquisa provém de inúmeros questionamentos, e em detrimento 
destes, torna-se impossível estabelecer os dados que são indispensáveis, e quando 
este serão suficiente para responder tais questionamentos. Desta forma em 
pesquisas de caráter qualitativo a amostra não necessita ser de grande extensão, e 
sim quando ocorrer saturação dos dados (LEOPARDI, 2001; PIRES, 2008). 
3.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS 
Esta pesquisa foi realizada no período de março a novembro de 2016, e a 
coleta de dados foi realizada no mês de agosto do mesmo ano, iniciando com um 
levantamento dos participantes do estudo a partir da escala de serviço do setor no 
qual ocorreu a pesquisa, posteriormente foi traçado uma programação para 
realização desta pesquisa. A partir da disponibilidade dos profissionais, buscando 
não intervir na sua rotina de trabalho, foram convidados a participar do estudo, 
momento no qual se apresentou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 
(TCLE). 
Assim, o instrumento de coleta de dados foi uma entrevista semiestruturada 
composta por questões norteadoras a respeito do processo de parto hospitalar de 
indígenas e a assistência prestada a estas pacientes (APÊNDICE A). 
Como forma de validar este instrumento de coleta de dados, e a fim de avaliar 
a fidedignidade, aceitabilidade, pertinência, organização, clareza e entendimento das 
22 
 
questões, foi realizado um pré-teste, aplicado a uma pequena amostra de 
participantes que tinham características similares à amostra alvo, entretanto esses 
participantes não fizeram parte da amostra final. Proporcionando, desta forma, um 
feedback do instrumento, sendo útil na busca de corrigir e/ou melhorar eventuais 
problemas, oferecendo maior segurança e precisão para o desenvolvimento da 
pesquisa (GIL, 2002; LAKATOS e MARCONI, 2004; IRAOSSI, 2006). 
Para a realização desta pesquisa foi utilizado um gravador, sendo indicado na 
realização de entrevistas para expandir o poder de registro, e proporcionar maior 
fidedignidade dos dados, uma vez que preserva o conteúdo original, além de 
propiciar a identificação de elementos de comunicação, tais como pausas de 
reflexão, dúvidas, e entonação da voz (SCHRAIBER, 1995; ROJAS, 1999). 
Outro instrumento utilizado foi o diário de campo, que atua como um caderno 
de notas, sendo utilizado pelo pesquisador para registrar as vivências e experiências 
a respeito da interpretação no campo de pesquisa, sendo documentadas as 
conversas e observações do comportamento dos entrevistados quanto aos assuntos 
abordados, e às impressões pessoais no decorrer das falas (BASTOS, 2007; FLICK, 
2009; MINAYO, 2014). 
3.5 ANÁLISE DOS DADOS 
Para a realização da análise de dados foi utilizada a técnica de análise de 
conteúdo, amplamente utilizada em pesquisas de cunho qualitativo, que consiste em 
procedimentos que realizam a análise de comunicação através de diferentes fontes 
de conteúdo, sendo verbais ou não-verbais, ou seja, aplicado a discursos 
diversificados, que tornam mais válidos os dados levantados. Desta forma, a análise 
de conteúdo transita entre a objetividade e subjetividade, exigindo do pesquisador 
disciplina, dedicação, paciência, tempo, certo grau de intuição, imaginação e 
criatividade, sobretudo na definição das categorias de análise, além da ética 
profissional. Proporcionando, assim, uma descrição objetiva, sistemática e 
quantitativa dos conteúdos coletados (FREITAS, CUNHA, e MOSCAROLA, 1997; 
BARDIN, 2006; MINAYO, 2014). 
Este estudo adotou a sequência de passos preconizados por Bardin (2006), 
que divide a análise em três etapas, sendo (I) a pré-análise, (II) exploração do 
material, (III) tratamento dos resultados, inferência e interpretação. 
23 
 
A primeira etapa, designada pré-análise, é a fase desenvolvida para 
organização das ideias iniciais elencadas no referencial teórico, a fim de torná-las 
operacionais. Esta etapa se divide em quatro processos: (1) a leitura flutuante na 
qual o pesquisador estabelece os documentos de coleta de dados, começando a 
obter conhecimento dos textos e entrevistas, e as transcreve; (2) escolha dos 
documentos a serem analisados, ou seja, definição do corpus de análise, reunião de 
todo material para tratar as informações coletadas (gravações, observações, falas 
de informantes-chaves, relatórios, regimentos, normas e rotinas, registros, ofícios, 
todos observados criteriosamente pelo investigador) com vistas à preparaçãoformalizada dos textos. É importante ressaltar que todas as observações realizadas 
pelo pesquisador são enriquecedoras na análise dos textos, considerando que estas 
também expressam com fidedignidade outros cenários de comunicação; (3) o 
pesquisador formula hipóteses e objetivos por meio de afirmações provisórias e se 
propõe a verificá-las; (4) elaboração de indicadores por meio de recortes de textos 
nos documentos analisados, sendo os índices constituídos a partir dos temas que 
mais se repetem (BARDIN, 2006). 
A primeira etapa atende a alguns critérios, sendo: exaustividade, na qual o 
pesquisador atenta-se para esgotamento da comunicação, ou seja, não deixar de 
incluir na pesquisa qualquer elemento, seja qual for sua razão; outro critério é a 
representatividade na forma que os dados a serem analisados contenham 
informações que representem o universo a ser pesquisado; quanto à 
homogeneidade, os dados obtidos necessitam referir-se ao mesmo tema, 
obedecendo a critérios precisos de escolha; e por fim, devem obedecer ao critério de 
pertinência, onde os dados necessitam ser condizentes com os objetivos da 
pesquisa (BARDIN, 2006). 
Após a realização da primeira etapa, segue-se para a fase de exploração de 
material, etapa de suma importância devido aumentar as interpretações e inferência. 
São questões básicas desta fase a codificação, classificação e categorização. A 
codificação do material e a definição de categorias de análise podem ser rubricas ou 
classes que reúnem um grupo de elementos, sob um título genérico, aglomeração 
essa efetuada em detrimento de características em comuns destes elementos. Para 
a construção das categorias deve-se respeitar o critério de exclusividade, para que 
um mesmo elemento não seja classificado em mais de uma categoria. Além da 
identificação das unidades de registro, como por exemplo, conteúdo, temas, 
24 
 
palavras ou frases, e das unidades de contexto nos documentos, ou seja, unidade 
de compreensão para codificar a unidade de registro, correspondendo ao segmento 
da mensagem. Sendo assim, a codificação, a classificação e a categorização são 
básicas nesta fase (BARDIN, 2006). 
Na terceira e última fase ocorre à intuição, momento no qual acontece a 
condensação e o destaque das informações para posteriormente ocorrer a análise 
reflexiva e crítica, além das interpretações inferenciais. Em suma, aborda o 
tratamento dos resultados, inferência e interpretação, que consiste em captar os 
conteúdos encontrados no material coletado (SILVA, FOSSÁ, 2003; BARDIN, 2006). 
3.6 ASPECTOS ÉTICOS E LEGAIS 
Esta pesquisa atendeu à Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde 
que normatiza e regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos. Desta forma 
foram respeitados os princípios básicos da bioética, sendo a autonomia a 
capacidade de uma pessoa para decidir fazer ou buscar aquilo que ela julga ser o 
melhor para si mesma, ou seja, a liberdade de decisão, na qual o pesquisado, 
mediante a aceitação em participar livremente da pesquisa, assinou o TCLE 
(ANEXO B), momento em que foi esclarecida a natureza da pesquisa, seus 
objetivos, métodos, tais como o anonimato dos participantes. Para contemplar este 
item e como forma de identificar os participantes utilizou-se a letra E (inicial de 
enfermeiro) seguida por um número arábico, conforme a ordem de inserção dos 
profissionais no estudo, sendo: E1, E2,..., E11. Também foram expostos os 
benefícios previstos, como por exemplo, sensibilização de enfermeiros que 
trabalham na assistência ao parto indígena hospitalar, a partir de subsídios teóricos 
que foram adquiridos durante a pesquisa, com a finalidade de aprimorar a prática 
profissional no contexto da humanização do parto indígena hospitalar. 
Outro princípio diz respeito à beneficência na qual o pesquisador garantiu 
ponderações entre riscos e benefícios atuais e potenciais, individuais e coletivos, 
comprometendo-se com o máximo de benefícios e o mínimo de danos e riscos, uma 
vez que o bem estar dos participantes da pesquisa esteve acima dos interesses da 
ciência e da sociedade. 
 A não maleficência também foi assegurada pelo pesquisador, considerou que 
danos possíveis de prevenção fossem evitados; já a justiça e equidade 
25 
 
compreendem que o pesquisador deve fundamentar-se na relevância social da 
pesquisa. 
O projeto foi encaminhado para o Comitê de Ética em Pesquisa da 
Universidade Federal de Roraima (UFRR) para devida análise, no qual foi aprovado 
com o número do parecer: 1.661.289 (ANEXO C). 
 
26 
 
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 
A pesquisa foi realizada com 11 enfermeiros, com maior predominância de 
entrevistados do sexo masculino, entre a faixa etária de 33 a 52 anos. O tempo de 
formação e atuação profissional variaram de 3 a 31 anos, e 1 a 15 anos, 
respectivamente, conforme tabela abaixo. 
Tabela 1 - Dados pessoais e profissionais dos entrevistados de acordo com sexo, 
idade, tempo de formação, e tempo de atuação no setor, conforme 
sequencia de entrevistas realizadas em hospital materno infantil de Boa 
Vista/RR, 2016. 
ENTREVISTADOS SEXO IDADE TEMPO DE 
FORMAÇÃO 
ACADÊMICA 
TEMPO DE ATUAÇÃO 
NO SETOR 
E1 Feminino 44 
anos 
16 anos 14 anos 
E2 Feminino 43 
anos 
18 anos 14 anos 
E3 Masculino 52 
anos 
31 anos 12 anos 
E4 Feminino 47 
anos 
20 anos 01 ano 
E5 Masculino 52 
anos 
25 anos 15 anos 
E6 Feminino 33 
anos 
03 anos 03 anos 
E7 Masculino 52 
anos 
25 anos 10 anos 
E8 Masculino 41 
anos 
11 anos 11 anos 
E9 Masculino 50 
anos 
20 anos 12 anos 
E10 Feminino 36 
anos 
06 anos 01 ano 
E11 Masculino 42 
anos 
16 anos 09 anos 
 
 
 
A análise dos conteúdos das entrevistas permitiu identificar três categorias: 
peculiaridades da parturiente indígena, condutas do enfermeiro com a parturiente 
indígena e entraves na atuação do enfermeiro na assistência a indígena. Dentro 
delas se inserem eixos temáticos conforme será apresentado em cada categoria. 
27 
 
Peculiaridades da Parturiente Indígena 
Em relação às peculiaridades da parturiente indígena, os discursos 
evidenciaram as características da indígena frente ao processo de parto, as 
particularidades culturais, experiência e sentimento da mulher indígena. 
Para compreender as características do processo de parto indígena é preciso 
entender este parto como um conjunto de aspectos culturais, com envolvimento de 
especialistas indígenas (familiares, clãs, grupos sociais indígenas) que colaboram 
para a construção de um sistema amplo, ou seja, o sistema de parto, ou ainda um 
evento, que só é compreendido quando analisado em um contexto sociocultural 
(ÁVILA, 2009). 
Desta forma, o parto em comunidade indígena pode ser considerado como 
um evento de caráter público ou íntimo. O evento público esta relacionando a 
presença de várias indígenas em idade fértil, que participam do parto cantando, 
brincando, e rindo na intenção de acalmar a parturiente e promover o nascimento da 
criança. Este entendimento foi identificado nos estudos com os povos Pano de 
Erikson (1996), Lagrou (1998) com os índios Kaxinawa, e Ávila (2009) com os povos 
Timbira. 
O parto como evento íntimo é o mais comum, sendo considerado quando sua 
pratica é “invisível”, que acontece na casa da indígena ou na floresta, na qual a 
indígena dá à luz sozinha, ou apenas com a ajuda de uma mulher experiente da 
família e parentes da parturiente, que tem a função social de receber a criança e 
cortar o cordão, criando elo com o recém-nascido. O marido também deve está 
presente, principalmente para ajudar a segurar a indígena (GIL et al., 2007). 
Nota-se a existência de duas colocações para o parto indígena, entretanto Gil 
et al (2007) acredita que não devem ser analisados desta forma, uma vez que são 
dados gerais do parto entre os povos indígenas, inseridos em um contexto 
sociocultural (FERREIRA, 2010). Que apesar das diferenças culturais partilham 
determinados princípios.Os dados acima corroboram com trechos das entrevistas, 
conforme abaixo: 
 “[...] eu ainda acho que seja humanizado, assim, o parto delas é o 
mais normal possível, praticamente elas que fazem o parto delas, às 
vezes a gente não faz o parto delas, ou então elas chamam uma de 
nós mulheres pra ir lá com elas, a gente examina, e quando está na 
hora, ela mesma faz, nós só assistimos, colocamos alguma coisa pra 
elas parirem, ficamos esperando, só damos atenção depois que ela já 
pariu e tudo, a gente vai e pega o bebê, o restante ela faz.” (E2). 
28 
 
 
“[...] Às vezes elas mesmas parem praticamente sozinhas, porque elas 
não gostam de serem muito movimentadas. Então as deixamos o mais 
livre possível, lógico que a gente chega, orienta da forma que 
conseguimos.” (E4) 
 
“[...] então o que nós fazemos aqui, é facilitar como ela iria parir na área 
indígena, colocar o colchão no chão e deixa-a parir sozinha, só vai 
intervir quando o bebê nasceu, porque até pra fazer o toque elas não 
deixam, ela mesmos tira a placenta, ela faz o procedimento todinho 
dela e a gente fica só observando.” (E5) 
 
“[...] é deixar que a própria paciente faça a condução do parto sem que 
a gente faça intervenção desnecessária.” (E9) 
 
“[...] e a gente tenta intervir com ela minimamente possível, pra que ela 
tenha esse parto da forma mais natural, ou que seja, tentando manter a 
cultura dela, mas é complicado.” (E10) 
 
Foi possível perceber que alguns dos entrevistados relacionam a 
humanização do parto indígena hospitalar com o fato de deixarem as indígenas 
conduzirem o próprio parto. Alguns profissionais justificam esta ação acreditando 
estarem respeitando a cultura, costumes e vontade da indígena. Entretanto, um dos 
entrevistados questionou sobre a humanização e assistência prestada as indígenas: 
“[...] então a gente fala de humanização, mas a gente não vê as 
questões antropológicas envolvidas, por exemplo, a índia praticamente 
faz o parto dela sozinha, aqui ela vai esta sendo assistida por uma 
equipe multidisciplinar. Não existe um questionamento pra saber se 
isso é bom pra ela [a indígena]” (E11) 
Com este relato nota-se a divergência de pensamentos quando comparado 
aos demais entrevistados, quando questiona à assistência prestada por uma equipe 
multidisciplinar em âmbito hospitalar como condutas incomuns, fora dos costumes 
culturais que marcam o parto indígena, sendo mais comum, a realização do parto 
como evento íntimo. De acordo com o estudo de Coroaia (2013) com os povos 
Kaingang, no momento do parto os familiares se retiram, continuando no local 
apenas a parturiente com sua mãe e a sogra, que apresentam funções no decorrer 
do parto. 
Outro aspecto cultural que permeia o parto indígena é a posição de ganhar o 
bebê. Por meio de estudo de Rozin et al (2009) com os povos Guarani, e Moliterno 
et al (2013) com as índias Kaingang, descrevem que segundo as crenças culturais o 
parto indígena é realizado de cócoras, respeitando rituais específicos, a lógica e a 
29 
 
fisiologia. Paciornik (1997) complementa defendendo o parto de cócoras como o 
modo intuitivo de dar a luz. 
Para Ávila (2009) em estudo com as índias Timbira identificou-se que para 
este povo o nascer é um movimento de queda, para tanto a parturiente deve ficar de 
cócoras com o apoio preferencialmente por um homem, no caso o marido. 
Moliterno et al (2013) acredita que a posição de decúbito dorsal não condiz 
com suas concepções sobre o modo de parir das indígenas, contraria a fisiologia do 
parto, no qual se deve respeitar, sempre que possível, as diferentes perspectivas 
dotadas de valores culturais. 
A posição adotada pelas indígenas para o momento do parto foi relatada por 
alguns entrevistados: 
“[...] posição de parir, ela quer parir de cócoras? ela pode e deve parir 
de cócoras, não é a posição que ela se sentir mais a vontade?! Então 
deixa que ela vai parir de cócoras, então eu acho que tem que ser 
respeitada.” (E1) 
“[...] no parto humanizado elas escolhem o posição que querem ficar, 
mas a gente orienta pra ficar no leito, e elas não ficam, não querem 
ficar deitadas, não adianta, e quando ficam elas, ficam de cócoras. A 
posição de parir é diferente, então você tem que prestar mais atenção 
a elas, porque a qualquer momento elas podem parir, as vezes no vaso 
sanitário, no chão, o bebê cair, por também não deixar examinar como 
as outras, tendo que ficar mais alerta com relação a indígena.” (E4) 
“[...] é o que eu te falei, é facilitar pra ela, é perguntar como é que tu 
quer parir? no chão? Quer, eu coloco o colchão no chão e deixo ela ali 
no chão, ou você facilita na cama, deixa ela de cócoras.” (E5) 
“[...] você tem que respeitar a maneira como elas querem da à luz, 
então você vê que muitas vezes nossas parturientes vão pra cima da 
mesa de parto coisas que elas nem conhecem, então acabam parindo 
no chão, a gente tenta ajuda. E eu acredito que se ela tem essa 
escolha de onde dá a luz, mesmo que eu não consiga atingir o idioma 
dela, eu já estou humanizando, estou respeitando a vontade dela, e 
não a minha vontade impondo da maneira como ela deve parir, mas é 
ela que tá passando pra mim. Outra coisa é o parto de cócoras, é o 
melhor parto que a gente observa, não tem intercorrência, o neném 
nasce bem, além da dequitação da placenta, a gente observa que elas 
[as indígenas] que dequitam sozinhas.” (E7) 
“[...] a minha conduta frente a um parto indígena, eu respeito à vontade 
da paciente, eu fico do lado e dou assistência e espero a reação dela, 
se ela ficar de cócoras para parir eu coloco um campo, dou um apoio 
30 
 
pra ela, e faço o parto respeitando a vontade e escolha da posição.” 
(E11) 
Mediante os discursos dos entrevistados foi possível perceber uma maior 
citação de partos realizados na posição de cócoras, sendo essa a principal escolha 
das indígenas, demonstrando a valorização da decisão da indígena quanto à 
posição para dar a luz, respeitando sua vontade e aspectos culturais, ilustrando a 
tentativa dos enfermeiros em humanizar este momento. 
Entretanto, não são fatos comuns em ambiente hospitalar, conforme estudo 
de Gil et al (2007) e Moliterno et al (2013) nos quais as principais queixas do parto 
indígena hospitalar estão relacionadas com posição da mulher no momento do 
parto, sendo muitas vezes restrito à posição horizontal ou decúbito dorsal nas quais 
a parturiente fica deitada, causando um conflito entre as rotinas do hospital 
obstétrico e a cultura da indígena, na qual a escolha e opinião da indígena é 
irrelevante, sendo necessária a adaptação das indígenas às normas e rotinas 
hospitalares. 
Porém desde 1996 a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que 
a mulher tenha livre escolha quanto à posição no momento do parto, seja para o 
primeiro ou segundo período, e que evite longos períodos em decúbito dorsal (OMS, 
1996). 
Ainda foram identificados depoimentos que divergem dos demais. Sendo 
relatado o modo de parir das mulheres indígenas no qual utiliza da rede como 
recurso ou auxílio na posição de parir, uma vez que é acostumada com a rede, além 
de proporciona algo mais próximo de sua realidade. Conforme relato abaixo: 
“[...] conhecemos que o indígena eles vivem na comunidade em redes, 
eu tenho experiência de assistir parto de mulher não indígena em rede, 
porque eu trabalhei muito tempo no interior, onde eu via pessoas, 
mulheres gestantes, e eu atendia parto na rede, e eu acredito que é 
nesse processo.” (E3) 
“[...] a indígena gosta de trabalhar o parto na rede, mas nos não temos 
a rede, a estrutura da rede, onde ela se agarra na rede e fica de 
cócoras.” (E9) 
Os discursos estão de acordo com estudos feitos com os índios Munduruku, 
no qual identificou uma variedade de posições no momento do parto: com as mãos 
apoiadas na rede; de joelho; ou “sentada” em um banco pequeno com alguém 
apoiando pelas costas, que proporciona uma posição semelhante à de cócoras; 
31 
 
parcialmente deitada ousentada no chão, com alguém segurando pelas costas com 
os braços ao redor da parturiente (SCOPEL; DIAS-SCOPEL; WIIK, 2012). 
Outro depoimento que diverge está relacionado à intenção de algumas 
indígenas em realizar um procedimento cirúrgico, como forma de evitar o esforço 
físico e a dor. 
 “[...] tento ajudar da melhor forma possível, a mais natural pra ela, se 
eu precisar que ela sente ou fique de cócoras, mas têm umas que não 
são colaborativas para isso e pelo incrível que pareça tem umas da 
parte aculturada que já tem intenção de fazer uma cesárea, e não 
querendo fazer força ou sentir dor, a gente tem paciente indígena 
assim, que chega dessa maneira pra gente.” (E10) 
Em estudo de Moliterno et al (2013) identificou-se que o método de parto 
entre as indígenas tem sofrido alterações de uma geração a outra. Na qual uma 
reação negativa a cesárea, como a falta de autonomia e entendimento sobre o 
procedimento é verificada sob a ótica de indígenas mais velhas, enquanto as mais 
novas acreditam que se realizada devido a critérios clínicos e devidamente 
esclarecida, é considerada algo bom, apontando como ponto positivo o tempo 
decorrido entre o trabalho de parto e a cesárea, alegando ser mais rápido. 
Entre os aspectos culturais relacionados às parturientes indígenas está o 
controle da dor, considerado como característica marcante do parto indígena. Há 
controle na manifestação de sinais de dor, tais como gritos ou choros, devem manter 
a tranquilidade e focar na força para que ocorra a expulsão da criança (GIL et al., 
2007). Para Belaúnde (2005) os ensinamentos, ritos e costumes vivenciados pela 
indígena durante a primeira menarca irá refletir força contida nos ossos e na postura 
adequada, preferencialmente de cócoras, além da construção de um corpo 
fortalecido e preparado para gerar crianças. 
Percebe-se a presença da dor são traços culturais de grande importância na 
vida da indígena, que estão ligados à purificação e instrução para introdução na vida 
adulta. Estes possuem a capacidade de dotar os corpos com determinadas 
características, como força e vitalidade, preparando-os principalmente no sentido da 
vida reprodutiva, evitando dores nos períodos da menstruação, e no momento do 
parto (LAUDATO, 1998; BELAÚNDE, 2005; GIL et al., 2007). 
 Entretanto, para Medeiros e Grando (2016) em estudo com os povos Bororo a 
ausência de verbalizações, às expressões faciais e movimentos corporais no 
32 
 
momento da contração uterina provocam uma visão errônea do sentimento de dor 
das indígenas por parte dos profissionais de saúde que as prestam assistência. 
A forma discreta, e o controle da dor na qual ocorre o parto indígena também 
foram relatados pelos entrevistados. 
“[...] quando ela tá em trabalho de parto, ela pode até sentir dor, mas 
não demonstra como uma mulher não indígena, eu digo que elas 
conseguem até cantar durante a dor, então procuro vê-la na 
comunidade, na condição de indígena, eu vou observando aquele 
sentimento de dor, das contrações do parto.” (E3) 
 “[...] a atenção com a indígena é maior, porque ela pode parir a 
qualquer momento, porque ela não tem nem o costume de gritar. E 
como algumas vezes ela está na cama, as que têm mais costume com 
a civilização, elas mesmo parem ali, quando pensar que não já tá com 
o bebê por cima, de tão rápido que é. Às vezes o trabalho de parto é 
bem rapidinho, por isso preciso ficar mais atento com o indígena, ainda 
mais sendo Yanomami porque quando ela vai gritar é porque o negócio 
tá aperreado.” (E5) 
A partir dos discursos é possível perceber uma das principais características 
do trabalho de parto indígena, o controle na manifestação da dor, agravados pela 
recusa na realização de avaliações e exames de costume dos povos indígenas, o 
que influencia na assistência prestada pela equipe multidisciplinar em âmbito 
hospitalar, principalmente a equipe de enfermagem, por ser a categoria de 
profissionais que passam maior parte do tempo com a paciente, sendo capaz de 
identificar riscos e evitar complicações por meio de um olhar atento, cuidadoso, 
criterioso. 
Ainda em consideração aos aspectos culturais do parto indígena percebeu-se 
durante as falas dos entrevistados que as parturientes indígenas apresentaram uma 
experiência frente ao trabalho de parto. Podendo ser percebido conforme os 
depoimentos abaixo: 
“[...] A minha percepção eu não vejo muita diferença, apesar delas, 
delas, mesmo primíparas parece que elas têm uma experiência já vem 
de casa, já vem da cultura.” (E6) 
“[...] Na realidade o indígena que tem muito a ensinar pra gente, 
mesmo quando ele vem pra da à luz aqui na maternidade, muitas 
vezes ele já tem uma experiência, já tem dado a luz lá na aldeia. Então 
o parto indígena é mais um ensinamento da cultura deles pra nossa 
cultura, é tentar fazer o que eles fazem, eu aprendo com aquilo que eu 
vejo quando elas vêm parir.” (E7) 
33 
 
Segundo Laudato (1998) e Gil et al (2007) desde o início da infância até o 
período da puberdade e iniciação da vida adulta da mulher indígena ela passa por 
diversos ensinamentos, rituais, tradições e costumes. Todos com o intuito de 
prepara-las para a vida, e principalmente para o período reprodutivo. 
Para Moliterno et al (2013) as mulheres indígenas sabem o momento de parir 
e o que tem de ser feito. Esses fatos justificam o preparo da indígena no momento 
do parto. 
Outro relato dos enfermeiros diz respeito ao sentimento da indígena, no qual 
referem a presença do medo, falta de compreensão dos procedimentos, que podem 
ocasionar a recusa em determinadas condutas, e reação ao local desconhecido, 
conforme depoimentos abaixo: 
“[...] as indígenas vêm pra cá e ficam assustadas, sem saber muitas 
vezes o que nos vamos fazer com elas, tanto é que varias vezes já 
aconteceu, da gente querer examinar, fazer o toque vaginal e elas não 
permitem, porque estão assustadas, não sabe o que realmente vamos 
fazer então pra mim isso não é humanização.” (E1) 
 “[...] é um pouco mais difícil, elas não deixarem ser examinadas, 
diferente das não indígenas que querem é serem mais examinadas, 
não aceitam às vezes a nossa conduta, no pós-parto também não 
querem deixar a gente ver o sangramento para liberar, então sentimos 
certa resistência delas para com a gente, não a gente para com elas.” 
(E4) 
“[...] O parto indígena hospitalar, infelizmente ainda é manejado por 
terceiros, porque quando se trata de uma indígena ela já tem sua 
cultura, lá onde ela reside lá na aldeia, é ela que protagoniza o parto 
sozinho, então ela faz o toque vaginal pra saber se o bebê esta 
nascendo.” (E10) 
“[...] é respeitar, simplesmente respeito, porque muita das vezes ela faz 
tudo só, elas não querem nem que a gente toque nelas.” (E11) 
Segundo a OMS (1996), alguns procedimentos podem ser necessários na 
assistência a parturientes, como por exemplo, o toque vaginal, que deve ser 
realizado com cuidado e somente após a sua explicação. 
Os discursos dos enfermeiros sobre a reação das indígenas frente ao 
procedimento estão de acordo com um estudo realizado por Moliterno et al (2013), 
no qual expõe a percepção da indígena sobre a prática do toque vaginal, no qual é 
visto como desconfortável e constrangedor, além de ser uma prática não usual em 
34 
 
partos realizados na comunidade. Entretanto um dos relatos diverge do estudo, no 
qual o entrevistado afirma que a própria indígena realiza o toque vaginal. 
O desconforto, constrangimento e a realização de procedimentos incomuns 
gera uma percepção negativa sobre o parto hospitalar, como pode ser demonstrado 
nos depoimentos abaixo: 
“[...] elas vem assustadas, como eu vejo aí no corredor indinha 
perdidas, elas saem dos blocos que estão e não sabem voltar, elas 
ficam procurando.” (E1) 
“[...] já fiquei no puerpério também, delas chegarem a chorar no 
corredor porque querem ir embora e tem que permanecer e cumprir a 
rotina da maternidade.” (E4) 
ParaGil et al (2007), as experiências das gestantes indígenas que são 
referenciadas para um hospital ou maternidade não são agradáveis, há relatos de 
falta de cuidados específicos com as gestantes e sentimento de solidão. Também 
são relatados episódios de descuido, preconceitos e desenvolvimento de 
procedimentos considerados agressivos e distintos dos realizados na comunidade. 
Desta forma Bandeira (2002) e Oliveira (2014) acreditam que a realização de 
partos indígenas em âmbito hospitalar gera algumas dificuldades emocionais para 
as indígenas, como por exemplo, medo, insegurança e ansiedade ocasionando uma 
experiência traumática para as parturientes. 
 
Condutas do Enfermeiro com as Parturientes Indígenas 
Relacionado às condutas do enfermeiro com a parturiente indígena os 
discursos evidenciaram temas como o respeito à cultura da mulher indígena, o 
tratamento destinado as indígenas, a presença do acompanhante e apoio. 
Para melhor compreensão do respeito à cultura da mulher indígena é 
necessário rever o contexto histórico que permeia este assunto, podendo iniciar em 
1986, com a Primeira Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio, na qual 
passou a exigir do país seguridade a saúde do índio, na intenção de aprimorar e 
garantir acesso adequado aos serviços de saúde, além de estabelecer o respeito à 
especificidade cultural e o reconhecimento dos seus saberes (LANGDON, 1999). 
 Alguns anos depois, em 1997, a Organização das Nações Unidas para 
Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) sugeriu a adoção de medidas que 
assegurem a igualdade na dignidade e nos direitos individuais e coletivos, em 
35 
 
qualquer lugar que seja necessário. Desta forma os grupos populacionais 
desfavorecidos economicamente, e as populações em situação de vulnerabilidade 
social, necessitando de atenção especial, de modo a assegurar os itens previstos 
em leis, tais como emprego, saúde, e o respeito à autenticidade cultural (UNESCO, 
1997). 
Este respeito dos direitos e autenticidade da cultura indígena se desenvolveu 
em virtude de influencias dos países latino americanos, culminando em temas de 
diretrizes de organizações internacionais, como por exemplo, a Organização das 
Nações Unidas (ONU) e UNESCO, refletindo nas legislações de vários países, tendo 
como exemplo o Princípio sobre a Tolerância de 1995, no qual aborda o respeito, a 
aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas, além da necessidade 
do Estado em respeitar o caráter multicultural existente no mundo (UNESCO, 1997; 
LANGDON, 1999). 
Posteriormente, a PNASPI veio para estabelecer o reconhecimento da 
diversidade social e cultural dos povos indígenas, além de considerar e estimular os 
sistemas tradicionais de saúde, sendo considerado ato imprescindível ao profissional 
de saúde (BRASIL, 2002). 
Segundo Rozin et al (2009) a vida da mulher indígena é marcada inúmeras 
crenças e costumes culturais que precisam ser respeitadas e incentivadas pelo não 
indígena, de modo a contribuir com sua preservação. 
Desta forma, Ávila (2009) afirma que somente com um olhar holístico e 
humanizado que se pode prestar uma assistência diferenciada e de qualidade à 
mulher indígena. Espera-se do enfermeiro que atua com populações indígenas um 
trabalho pautado no respeito à singularidade, as crenças, valores e cultura do 
paciente. Nesta perspectiva alguns enfermeiros relataram sobre o respeito à vontade 
e cultura da indígena. 
“[...] respeitar a vontade da indígena, se eu estou passando a visita, e 
preciso examinar uma indígena, eu vou vê a vontade dela. Às vezes a 
gente vai fazer um toque e elas não deixam, e eu tenho que respeitar, 
é o direito dela não querer. Então tentamos outras coisas, auscultar um 
bcf... Muitas vezes não querem ser puncionadas. Temos que respeitar 
as tradições indígenas, eles tem aqueles curandeiros, tem que ser 
respeitada, eles acreditam na cura através do curandeiro, deixa que o 
curandeiro ajude, não vai deixar de usar o método do hospital, mas 
você vai conciliar, isso tem que ser respeitado, esses curandeiros, essa 
36 
 
tradição deles, essa cultura deles. E atuamos conforme a vontade 
dela, o que elas querem, do jeito que querem, e respeitando isso.” (E1) 
“[...] tentamos trazer para o nosso lado, o nosso meio não indígena, 
mas tem essas particularidades, temos que aceitar a vontade delas, 
também não pode impor uma coisa que não é comum pra elas” (E4) 
Levando em consideração os relatos acima nota-se que os enfermeiros 
buscam realizar suas ações respeitando a vontade e os aspectos culturais da 
parturiente indígena, respeitando suas especificidades culturais. De modo a não 
impor sua cultura sobre a da paciente, agindo dentro de um contexto transcultural. 
Outro ponto observado na fala de uma das entrevistadas diz respeito à 
importância da união dos métodos tradicionais indígenas e a medicina ocidental, e 
sua aplicação no atendimento as indígenas. Esse fato é abordado no estudo de 
Ávila (2009), no qual afirma que o bom profissional em assistência a pacientes 
indígenas, é aquele que concilia o tratamento científico a medicina tradicional 
indígena. 
 Sobre este assunto, Langdon (1999) afirma que não deve haver desrespeito 
ou conflito entre os sistemas médicos, dos índios e o dos profissionais de saúde. 
Porém, dois dos entrevistados relataram prestar assistência de forma que acabam 
por desrespeitar os valores culturais indígenas. 
“[...] quando uma paciente dessa chega a primeira coisa que a gente 
tenta fazer é que ela tome banho pra poder tirar um pouco da sujidade 
que ela chega da comunidade, então já estamos intervindo na questão 
cultural delas, mas é um processo que tentamos fazer da melhor forma 
possível, com menor interferência em relação a nossa conduta com a 
paciente.” (E10) 
“[...] então o profissional que assiste ao parto, ele acaba não 
respeitando a cultura indígena. E muita das vezes é traumática para as 
pacientes.” (E11) 
Observa-se que os entrevistados assumem determinadas condutas, como por 
exemplo, a tentativa de fazer o indígena tomar banho, ocasiona o desrespeito a 
cultura indígena, e demonstrando a sobreposição de saberes de uma cultura para 
outra. Langdon (1999) afirmar existir o predomínio da biomedicina sobre outros 
saber culturais, o que impede a plena realização do respeito aos indígenas. Sobre o 
desrespeito às tradições, costumes e valores culturais indígenas o mesmo estudo 
identificou que as intervenções em saúde são realizadas sem o conhecimento 
37 
 
adequado para o respeito à cultura das pessoas atendidas, ocasionando com que os 
profissionais desenvolvam suas práticas sem reconhecer a especificidade cultural. 
Ainda segundo Langdon (1999) existem diversos obstáculos para que seja 
real o respeito ao saber indígena. Sendo estes obstáculos: a pouca percepção sobre 
o respeito mútuo dos profissionais de saúde, relacionado à ignorância; manifestação 
de preconceito sobre os índios, rotulando-os como pacientes desobedientes, 
resistentes ao tratamento, incapazes de compreendê-los, além de sujos e 
ignorantes. 
Na nesta perspectiva é importante conhecer o tratamento destinado às 
mulheres indígenas. Este assunto é abordado no SASI-SUS, criado para 
complementar a lei 8.080 de 1990 trouxe um melhor direcionamento às ações de 
saúde destinadas a essa população e como tal deve seguir as mesmas diretrizes 
apresentadas pelo SUS, diferenciando-se apenas nos aspectos culturais, sociais, 
políticos, históricos e epidemiológicos desses povos a fim de promover uma atenção 
culturalmente adequada, diminuindo as desigualdades e iniquidades, promovendo, 
assim, uma atenção integral, universal e igualdade na assistência à saúde, como 
dispõe as diretrizes da lei 9.836 de 1999 que regulamenta o subsistema (BRASIL, 
1999; SÃO PAULO, 2008). 
Segundo o artigo 19-F do SASI-SUS “Dever-se-á obrigatoriamente levar em 
consideração a realidade local e as especificidades da culturados povos indígenas e 
o modelo a ser adotado para a atenção à saúde indígena, que se deve pautar por 
uma abordagem diferenciada e global”, no qual é necessário que adaptações sejam 
empregadas quanto à estrutura e organização do SUS nas regiões de densidade 
populacional indígena para garantir integração e atendimento adequado em todos os 
níveis de atenção à saúde (BRASIL, 1999). 
Entretanto, apesar das diretrizes supracitadas quanto ao tratamento que deve 
ser dispensado a esses povos, é notório que essa atenção culturalmente 
diferenciada não tem sido desenvolvida de forma integral no âmbito do SUS, 
culminando na qualidade não satisfatória da assistência (SANTOS et al., 2008). 
Essa situação é comprovada através de Ranzi, Ortiz e Santos (2011) que cita as 
rotinas alimentares que não são respeitadas, sendo, portanto, diferentes daqueles 
costumeiros dos indígenas, além da distância da família, de curandeiros e do seu 
ambiente habitual, o que acaba por comprometer o cuidado e as respostas 
terapêuticas desses povos. 
38 
 
Diante do exposto, as falas a seguir demonstram a ausência de um cuidado 
culturalmente adequado, onde deveria haver o tratamento igualitário, porém com 
respeito às peculiaridades de cada parturiente e sua etnia, o que caracteriza a 
equidade. 
“[...] A alimentação delas vem junto com as das outras pacientes, a 
mesma alimentação que as outras fazem, elas fazem. É uma porção de 
coisas que elas não têm tratamento diferenciado, de acordo com a 
cultura deles” (E1) 
 “[...] vou recebê-la, acolhe-la da mesma forma que a não indígena. 
praticamente é a mesma coisa, receber, acolher, colocar no leito, tentar 
examinar, ver o que esta acontecendo, quando a gente consegue. Não 
tem uma conduta diferenciada, porque fisicamente são iguais, não tem 
diferença. A gente trata como tratamos as pacientes da Venezuela, da 
Guiana e brasileiras, como uma parturiente normal.” (E4) 
“[...] a gente não tem uma assistência diferenciada específica pra 
indígena. No geral ocorre de forma humanizada, porque tentamos 
atender na igualdade, todo mundo merece ser tratado igual, se têm 
uma norma específica pra atender a indígena separada ou diferenciada 
das outras não existe, ou eu não tenho conhecimento. Mas as 
indígenas tem uma diferenciação, às vezes não consegue entender o 
que eles estão falando, ou querendo, mas na medida do possível você 
consegue atender de forma igualitária nas condições que temos.” (E6) 
“[...] O parto indígena aqui no hospital ele não difere de um parto da 
pessoa não indígena, são iguais, não leva as questões relacionadas à 
cultura, aqui não tem essa relevância de cultura, todas as pacientes 
são tratadas iguais, as indígenas são tratadas como uma paciente 
como outra qualquer, a avaliação, o trabalho de parto, as orientações, 
o tratamento, a conduta é tudo a mesma coisa, não adianta eu falar 
que vou pegar e tratar a paciente diferente, não tem diferença, não tem 
estrutura. Não estou sendo desumano, estou sendo técnico.” (E8) 
Ressaltou-se perante os depoimentos dos enfermeiros, o desrespeito quanto 
à origem das mulheres atendidas durante o processo de parto, bem como sua 
história, seus costumes e hábitos, uma vez que parturientes indígenas são tratadas 
e acolhidas da mesma forma que parturientes não indígenas. Este discurso esteve 
presente em todos os relatos dos entrevistados, demonstrando a deficiência no 
acolhimento e na humanização dessas mulheres, cuja singularidade deve ser 
considerada desde o início da assistência, de modo a contemplar a integralidade e 
singularidade. Sobre este assunto Brasil (2013) aborda a existência de lacunas no 
que se refere à qualidade da assistência prestada, principalmente na garantia da 
integralidade e singularização do cuidado conforme as necessidades da população. 
39 
 
Alguns discursos demonstram o desconhecimento de condutas específicas ou 
normas que regulamentem o cuidado diferenciado que deve ser destinada a essas 
mulheres, além da importância da valorização e respeito cultural que tem grande 
representatividade no conforto e bem-estar da parturiente. 
Os depoimentos evidenciam o emprego da palavra “igualdade” por todos os 
entrevistados, que a utiliza de forma a não contemplar a integralidade da assistência 
às indígenas, uma vez que possuem crenças, vivências e experiências diferentes. 
Portanto não devem ser tratadas como as demais, pois não são iguais em muitos 
aspectos, sendo relevante a valorização da cultura para se firmar a equidade na 
assistência à saúde das mulheres indígenas. 
Quando se aborda a assistência á saúde, principalmente em âmbito 
hospitalar, torna-se importante a compreensão do direito ao acompanhante, 
regulamento através da Lei 11.108 de 7 de abril de 2005, a garantia do direito ao 
acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, sendo este 
de escolha da parturiente, enquanto protagonista de todo processo (BRASIL, 2005). 
Esse direito veio para firmar a necessidade de suporte continuado que deve 
ser prestado à mulher nessa situação, de modo que ela não permaneça sem apoio, 
contemplando o conforto físico e apoio emocional, levando em consideração os 
desejos da mulher, que podem ser distintos entre parturientes de diferentes culturas, 
além de evitar a violência contra a mulher que possa acontecer no hospital 
(OLIVEIRA, 2014). 
O estímulo à participação do acompanhante ocorre com finalidade de refletir a 
humanização no parto e nascimento, pois mulheres que tiveram ao seu lado o 
acompanhante de sua escolha certamente enfrentaram de melhor forma, se 
comparadas àquelas que vivenciaram sozinhas todos os eventos relacionados ao 
parto mesmo sendo assistida por uma equipe que ofereça todo o conforto e cuidado 
(DODOU et al., 2014). Desta forma Enkin (2005) indica que os profissionais da 
saúde devem respeitar a escolha de suporte emocional e social da mulher durante o 
parto, e que, além disso, também deem apoio físico e emocional. 
A participação do acompanhante no processo de parto foi evidenciada a partir 
das seguintes falas: 
“[...] na maioria das vezes ele vem acompanhado de uma pessoa mais 
velha, uma sogra, ou mãe, e ele acaba ajudando.” (E7) 
40 
 
“[...] geralmente vem com acompanhante que colabora, e tenta passar 
pra gente o que ela tá sentindo o que está acontecendo. Quando tem 
um acompanhante ou um interprete, fica melhor, a pessoa tá dando 
aquela confiança, porque eles não tem confiança na gente.” (E6) 
“[...] então quando elas vêm com acompanhante que é de dentro da 
aldeia, um familiar ou tradutor que ele sabe falar o português e idioma 
dela, o dialeto, geralmente elas intervém dentro do processo, ajudando, 
colaborando para que esse parto aconteça.” (E10) 
Diante dos discursos pôde-se observar a valorização dos acompanhantes por 
parte dos enfermeiros, uma vez que a presença destes facilita o andamento do parto 
no que tange as condutas aplicadas, podendo também contribuir no processo de 
comunicação da equipe de saúde com a parturiente, estabelecendo uma relação de 
confiança, que ameniza possíveis sentimentos negativos da indígena. 
 Outro ponto observado foi o relato de um dos enfermeiros sobre a frequência 
de acompanhantes do sexo feminino com idades avançadas. Este fato pode ser 
correlacionado a possibilidade de transmissão de experiências referentes ao parto, 
podendo contribuir para a continuidade dos costumes tradicionais indígenas. 
 Entretanto, houve depoimentos contendo informações opostas que versam 
sobre a falta do acompanhante. Como pode ser observado a seguir: 
“[...] porque a maioria não entende [português]. têm um “bucado” que 
vem sem acompanhante. O que é pior, se torna mais obrigatório 
prestar mais atenção se elas estiverem sozinhas.” (E4) 
 A partir dessa fala foi possível identificar a alegação de enfermeiros quanto ao 
grande quantitativo de parturientes não contarem com acompanhantes no período 
da internação. Subentende-seque essa ausência pode promover um aumento na 
dificuldade de prestar uma assistência adequada, tendo em vista que compromete a 
comunicação, além de ocasionar maior vigilância a essas pacientes. 
Entretanto, o direito da indígena em contar com um acompanhante no 
processo de internação é regulamentado pelo ministério da saúde, por meio do selo 
de hospital amigo do índio, no qual assegura o direito ao acompanhante, 
informações ao paciente, dieta especial, medidas de valorização das práticas de 
saúde indígena, e ambiência dos hospitais (FUNASA, 2006). 
41 
 
Entraves na Atuação do Enfermeiro na Assistência a Indígena 
No que tange as barreiras e limitações que o enfermeiro vivencia na 
assistência a mulher indígena, encontra-se a comunicação, preparo da equipe, e a 
ambiência como as principais dificuldades enfrentadas. 
No que se refere à comunicação, é considerada o meio de estabelecimento 
das relações entre a enfermagem e o cliente, sendo essencial para a relação 
enfermeira-paciente (POTTER; PERRY, 2009). 
 A comunicação é extrema relevância para a assistência em saúde, por 
promover a criação confiança e segurança que deve ser transmitida à paciente, algo 
que somente se consegue com a comunicação efetiva, gerando uma boa relação 
terapêutica, na qual as informações transmitidas são adequadamente 
compreendidas, podendo diminuir ou controlar as dores (SILVA; ALBUQUERQUE, 
2006). 
Segundo Barra (2010) o diálogo é utilizado como um importante recurso no 
qual gera a melhoria na assistência de enfermagem, podendo promover a integração 
de cultura, troca de experiências e vivências. Neste sentido, uma relação pautada na 
comunicação eficiente contribui para uma melhor assistência ao paciente, isso 
determina se será um cuidado humanizado ou não. Entretanto, o processo de 
humanização só será efetivo a partir da criação de vínculos de comunicação 
(BACKES, 2006). 
Conforme Flores (2005), Bischoff et al (2010) e Ranzi, Ortiz e Santos (2011) 
os desafios de comunicação frente à diversidade linguística têm sido bastante 
pesquisado devido causarem barreiras linguísticas que comprometem a qualidade 
da assistência prestada aos pacientes. Nesta temática, os entrevistados relataram 
em seus discursos o processo de comunicação como as parturientes indígenas. 
“[...] elas vêm pra cá, elas não entendem o que a gente fala, nós não 
entendemos o que elas falam, e eu preciso me comunicar com a 
indígena. Quando elas chegam eu vou logo procurar alguém que saiba 
se comunicar, é preciso ter uma comunicação com a paciente, se eu 
não consigo ninguém eu tento me comunicar de alguma maneira, mas 
nem sempre tá ao nosso alcance. Quer dizer, elas estão em um lugar 
estranho, sem ninguém falando sua língua, sem ninguém entender o 
que elas falam, isso não é humanizado.” (E1) 
“[...] não conversam muito, até mesmo porque a gente não entende e 
não tem interprete, entende pelo que esta acontecendo, pelas 
condições físicas, vai pelo que esta acontecendo. Você não conseguir 
42 
 
falar a mesma língua... Você às vezes consegue gesticular, consegue 
entender, às vezes não consegue e dificulta.” (E6) 
“[...] em Roraima temos várias etnias, algumas são aculturadas, outras 
não. Daquelas que são aculturadas é muito mais tranquilo e você 
consegue dialogar, consegue manter um retorno daquilo que você quer 
passar para a parturiente indígena, então conseguimos chegar ao 
nosso objetivo, onde o parto se encaminha da forma mais natural 
possível. Agora quando é daquelas indígenas que vem de fora, que 
vem de outros países, que falam inglês é mais difícil.” (E7) 
“[...] a questão da comunicação com elas, são pacientes de várias 
etnias que não colaboram muito com a comunicação, causando essa 
dificuldade de dialogar, porque muitos profissionais aqui não trabalham 
só com indígenas.” (E10) 
“[...] a gente não sabe nem falar a linguagem delas, não entendemos o 
que elas falam, é mais através de gestos, quando se entende [os 
gestos], não tem um interprete na sala, o que deveria ter.” (E11) 
Nota-se que os entrevistados abordam a comunicação como um dos entraves 
no atendimento a indígenas, na qual a falta de compreensão de ambos os lados 
dificulta a prestação de uma assistência de qualidade e humanizada. Alguns relatam 
basear os cuidados de enfermagem as pacientes indígenas apenas utilizando gestos 
e sintomatologia, provocado uma experiência traumática para a parturiente. 
Segundo Silva (2013) a dificuldade de comunicação é considerando um fator 
relevante na saúde indígena. Estudos de Messias (2009) e Hillman (2010) identificou 
a dificuldade de comunicação dos profissionais de saúde com pacientes, e a 
necessidade destes prestarem uma assistência de alta qualidade conforme a 
equidade. 
Outro tema relatado é a falta da atuação de interpretes. Essa temática é 
abordada no estudo de Ranzi, Ortiz e Santos (2011) no qual identificou as 
dificuldades de comunicação entre os profissionais de saúde e os usuários 
indígenas, e como tentativa de diminuir ou sanar esta problemática, contratou-se um 
interprete para o hospital. 
Ainda no que se refere à comunicação com as pacientes indígenas, os 
entrevistados narraram a utilização de membros da equipe como facilitadores no 
processo de comunicação, conforme os relatos abaixo: 
“[...] tem muitas meninas que trabalham com a gente que elas 
entendem, não todas as línguas. Elas já trabalharam na casai, na sesai 
ou na área indígena, as vezes a gente corre pra elas.” (E2) 
43 
 
“[...] elas não entendem nossa língua, muito menos a gente a delas. 
Então com gestos, a gente indica, tenta ajudar da melhor forma 
possível. Às vezes a gente tem um técnico na equipe que consegue 
entende-las”. (E4) 
“[...] Ninguém sabe fala Yanomami aqui, que diz tem duas funcionárias 
que falam, quando elas estão de plantão facilita o serviço, mas quando 
não estão à gente não sabe o que eles estão falando, e interprete a 
gente não tem.” (E6) 
“[...] quando uma paciente não entende o que a gente fala temos que 
buscar uma pessoa que faça a tradução, muitas vezes são os próprios 
colegas que traduzem porque tem gente que já trabalhou em área, 
então eles conhecem, aí a gente pede ajuda.” (E8) 
“[...] tentamos encontrar alguém, tem vários técnicos que já 
trabalharam em área indígena e eles ajudam, já que não tenho essa 
habilidade eu peço auxílio de algum deles. Então a gente tenta dialogar 
pra poder que ela colabora e contribua com o parto. Mas a nossa maior 
dificuldade é a questão da comunicação, que quando tem técnico fica 
melhor, mas quando não tem fazemos gestos.” (E10) 
Os relatos demonstram à utilização de membros da equipe de enfermagem, 
principalmente os técnicos de enfermagem, para facilitar a comunicação com a 
paciente, e consequentemente promover um melhor atendimento. Estes funcionários 
são solicitados por possuírem algum conhecimento em língua indígena, devido às 
experiências em atendimento a essa população, seja em área indígena ou na Casa 
de Apoio a Saúde do Índio (CASAI). Porém, essa comunicação se restringe devido à 
diversidade étnica presente entre os povos indígenas que são atendidos no estado, 
que dificulta o conhecimento de todas as línguas e seus dialetos. 
Outro tema abordado pelos entrevistados é a falta de uma coordenação 
indígena atuante: 
“[...] A primeira coisa que eu faço, é chamar a coordenação indígena se 
não tem, eu procuro alguém que possa se comunicar com a indígena. 
A coordenação ajuda, mas só funciona durante a semana, mas a noite, 
finais de semana não funciona, ai fica difícil.” (E1) 
“[...] coordenação indígena não funcionada de noite, então a gente fica 
meio a mercê de como conduzir, em um beco sem saída .” (E5). 
 “[...] só existe uma pessoa que trabalha na coordenação indígena e é 
de uma etnia geralmente diferente das pacientes que mais vem, nem 
sempre ela vai saber dialogar com a ela [a paciente] e ainda tem um 
adendo da coordenação indígena, não funcionar durantea noite, finais 
de semana, ou no feriado, então fica só no critério da gente decidir ou 
resolver a situação dessa paciente aqui dentro.” (E10) 
44 
 
 Os discursos evidenciam a unanimidade em questionar o funcionamento da 
coordenação indígena, alegam não poderem contar com esse auxílio na 
comunicação com a paciente nos horários da noite, fins de semana e feriados. Além 
de relatarem que esta coordenação não é totalmente resolutiva nos entraves de 
comunicação, uma vez que não possui interpretes de diferentes etnias, acarretando 
em restrição de diálogo com as pacientes indígenas. 
A existência da coordenação indígena nos hospitais pode ser compreendida a 
partir da Portaria nº 1163 do ministério da saúde de 14 de setembro de 1999, que 
dispõe sobre as responsabilidades na prestação de assistência à saúde dos povos 
indígenas, constando em seu paragrafo único o Incentivo ao Atendimento 
Ambulatorial e Hospitalar à População Indígena (IAPI). Desta forma os hospitais 
públicos recebem verba federal mensalmente como forma de incentivo por 
considerarem as particularidades culturais na assistência à população indígena 
(BRASIL,1999; ROSA, 2013). 
Entretanto vale ressaltar que não foram encontradas literaturas especificas 
sobre a importância e/ou a regulação de uma coordenação indígena nos hospitais. 
 Na tentativa de solucionar os problemas de comunicação que o enfermeiro 
vivencia diariamente, dois dos entrevistados sugeriram ideias: 
“[...] as indígenas chegam aqui, só largam elas aqui, e muita não falam 
a nossa língua, ficamos sem saber o que fazer, porque eu trabalho a 
noite, não tem tradutor à noite, ficamos nessa coisa amarrada com 
elas. Acho que deveria ter uma pessoa experiente, tradutora pra vim 
com elas, e ficassem aqui até elas parirem, depois poderiam ir embora, 
mas eu não sei como poderia ficar.” (E2) 
“[...] outro obstáculo é a comunicação, e sem a comunicação é 
complicado da gente trabalhar com eles, e o interessantes tivéssemos 
algumas palavras chaves voltada ao parto, para nos trabalharmos com 
isso, porque são muitas etnias. De algumas etnias a gente aprende 
algumas palavras. Mas em compensação tem outras que a gente 
desconhece.” (E9) 
 Os discursos sugerem meios para facilitar e humanizar o processo de 
comunicação com a paciente, entre as sugestões estão à presença de um tradutor 
em todos os momentos, e a criação de um dicionário com palavras importantes para 
a assistência em saúde, pincipalmente no momento do parto, isso demonstra a 
tentativa de promover uma assistência diferenciada, além da valorização cultura. 
45 
 
Ao abordar o processo de comunicação e assistência à saúde no contexto 
etno-cultural depara-se com a necessidade de uma enfermagem transcultural, e 
enfermeiros com qualificação profissional, que conheçam o sistema de cultural 
indígena e o respeitem (TIMBY, 2007; ROZIN et al., 2009). 
Desta forma é necessária uma capacitação de recursos humanos para atuar 
na diversidade cultural. Esta qualificação profissional deve preparar e aperfeiçoar os 
profissionais da saúde que atuam diretamente com população indígena, assim como 
gestores em saúde (RANZI; ORTIZ e SANTOS, 2011). 
No que se refere especificamente ao enfermeiro Oliveira (2014) acredita que 
para ser um bom profissional precisa estar preparado a desenvolver assistência de 
forma a respeitar à singularidade, crenças, valores e costumes culturais do paciente. 
Neste contexto os entrevistados relataram: 
“[...] Estou aqui há 14 anos, eu nunca fui preparada pra isso, me lembro 
do primeiro parto indígena que fiz, fiz não, que eu vi, me desesperei, 
gritava parecia uma doida dentro da sala de parto, achando que o bebê 
iria cair no chão. Nós nunca recebemos treinamento, a gente chega e 
se depara com essas coisas, aí vamos aprendendo com o tempo 
vamos vendo e vamos nos acostumando, mas nunca ninguém me 
treinou para isso.” (E1) 
“[...] precisa de um melhor preparo da equipe na assistência a indígena 
quando ela vem ao serviço hospitalar.” (E3) 
“[..] o profissional desconhece as legislações que tem voltada para o 
indígena, e isso é um dos empecilhos que bate em qualquer 
profissional.” (E9) 
“[...] sinceramente eu acho que deveria ter um preparo melhor da 
equipe multidisciplinar pra esta atendendo essa demanda, que é 
grande.” (E11). 
Os discursos dos enfermeiros evidenciaram a falta de capacitação profissional 
para atender a população indígena, muitos relataram a necessidade de um 
treinamento da equipe multidisciplinar para melhorar o atendimento a essas 
pacientes. Com isso, percebe-se que os gestores em saúde não oferecem cursos, 
palestras, oficinas, seminários ou encontros que promovam a difusão de 
conhecimentos antropológicos e culturais para qualificar os profissionais que atuam 
com indígenas, contrapondo o disposto na 4ª Conferência Nacional de Saúde 
Indígena (FUNASA, 2007). 
46 
 
Ainda segundo a Funasa (2007), é necessária a inclusão da disciplina Saúde 
Indígena nos cursos de enfermagem, odontologia e medicina, além da criação de 
pós-graduação voltada à saúde indígena. Sendo estes fundamentados em aspectos 
pedagógicos, linguísticos e antropológicos e culturais em saúde. 
Nesta temática, Silva (2013) relata que o enfermeiro é o profissional que 
assistirá o indígena em diferentes situações, para isso é muito importante uma 
formação profissional que contemple uma carga horária voltada à antropologia em 
saúde indígena para uma melhor compreensão dos aspectos culturais, e a 
legislação que ampara a população indígena a fim de proporcionar uma assistência 
mais eficaz, entretanto, o desafio de capacitar os profissionais que já atuam com 
indígenas é maior. 
Outro aspecto abordado nesta categoria é a ambiência de hospitais para 
atendimento a saúde indígena, que esta prevista no artigo 196 da Lei nº 9.836 de 23 
de setembro de 1999, na qual afirma que o Sistema Único de Saúde (SUS) deverá 
promover adaptações na estrutura física e organizacional nas instituições de regiões 
com maior incidência populacional indígena (BRASIL, 1999). 
 Contemplando esta temática, os entrevistados relataram sobre a ambiência: 
“[...] elas não têm uma ala própria pra elas, que possam dormir na rede. 
Eu acho que se ela ficar em uma enfermaria só de indígena é muito 
melhor pra ela, e até para os outros pacientes. Elas têm a cultura dela, 
então eu acho que deveria ter essa diferenciação.” (E1) 
“[...] a maternidade não está adequada à realidade indígena, a 
estrutura física não dá suporte, então não vejo como um parto 
humanizado, por que humanização da assistência não é só eu tratar a 
paciente bem, tem que ter uma estrutura de adequação ao povo 
indígena” (E8) 
“[...] não estamos adequados para trabalhar com o povo indígena, para 
tratar da forma como deveríamos, já melhorou bastante, mas ainda 
precisa melhorar. Primeiramente a ambiência, o local, a indígena chega 
aqui e se sente fora do local dela, vê muita gente. Eu acho que precisa 
adequar a unidade para o parto indígena.” (E9) 
“[...] não temos um espaço adequado pra atender essa paciente, como 
por exemplo, ter uma ala específica só pra atenção à saúde indígena, 
só pacientes indígenas, aqui não tem ambiência, é o comum pra todas, 
então a gente acaba interferindo um pouco mais, querendo ou não 
seria necessário um formato de estrutura física pra adequar só pra 
elas, que a gente não tem.” (E10) 
47 
 
 Mediante os discursos nota-se a percepção do enfermeiro sobre o ambiente 
hospitalar para as indígenas, sendo considerado como inadequado, sem estrutura 
física que contemple os valores e costumes da cultura indígena, sendo considerado 
como uma assistência sem humanização, uma vez que humanizar vai além do 
tratamento a paciente. Outro ponto relatado foi à falta de um ambiente específico 
para atendimento apenas das parturientes indígenas, como por exemplo, um bloco 
destinado para estas pacientes, sendo justificado como uma medida benéfica paraas parturientes. 
A adequação da ambiência de hospitais que recebem pacientes indígenas foi 
aborda na 4ª Conferencial Nacional de Saúde Indígena, definida como um dos 
aspectos necessários para a garantia do selo Hospital amigo do Índio, de forma a 
garantir o acolhimento aos indígenas, respeitando suas especificidades culturais 
(FUNASA, 2006). 
 Em vista a problemática vivenciada por profissionais da saúde quanto à 
ambiência do hospital para a prestação de uma assistência de qualidade, alguns 
enfermeiros relataram tentativas de adequação do ambiente. 
“[...] eu acredito que o parto indígena hospitalar ainda não é 
humanizado, precisa melhorar, poderíamos ter uma estrutura diferente, 
mas a maternidade foi preparada para atender um público de mulheres 
não indígenas, então sempre que chega uma mulher indígena, eu não 
consigo vê um espaço preparado pra recebê-la, então temos que 
transformar pra trazer um pouco pra realidade dela [a indígena], estar 
diminuindo luz, a questão da cama, ela vive em redes ou em camas de 
lona baixa, então o hospital, não está preparado, não tem esse espaço, 
e deveria ter, já que a gente recebe essa demanda [de indígenas]. 
Temos que desmistificar a maternidade, pra atender a todo público, 
seja indígena ou não, de outras culturas, pra que a mulher fosse vista 
dentro dos seus princípios de cultura, mas ainda precisa de muita 
mudança, modificação.” (E3) 
“[...] a adaptação pra atender a indígena quem vai fazer somos nos que 
estamos no ambiente de trabalho. (E5) 
 A partir dos relatos foi possível perceber o interesse de profissionais em 
adaptar o ambiente para atender as parturientes indígenas, na busca de fornecer 
uma assistência que valorize os aspectos culturais. Como estratégias de adaptação 
os enfermeiros sugeriram a adequação da luminosidade, e a substituição de camas 
por redes. As práticas de adaptação do ambiente foram relatadas por Marinelli et al 
(2012) no qual constatou a utilização da criatividade por profissionais de 
48 
 
enfermagem que atuam em saúde indígena. Outro estudo de Ranzi, Ortiz e Santos 
(2011) utilizou de recursos visuais, como placa informativa confeccionada no idioma 
indígena, sendo considerado como práticas inovadoras, que atendem a equidade, 
valorizando um dos maiores bens da sociedade, a comunicação. 
 Assim como foram identificados discursos que buscam adaptar a estrutura 
física para atender as indígenas, houve aqueles que foram divergentes: 
 “[...] eu sempre achei que esse parto se fosse pra ser hospitalar, que 
fosse em ambiente próprio, como na casai, que lá tivesse um ambiente 
para acolhê-las, deveriam ter um ambiente próprio delas, em um local 
próprio pro parto, com profissionais e tudo, pra ter uma assistência 
diferenciada que não precisassem vim à maternidade, porque na 
maioria das vezes é cruel com elas.” (E4) 
“[...] ela se deparam com o ambiente que não é adequado pra cultura 
dela, não entendemos porque trazem essas pacientes pra cá, a 
paciente não se sentir bem aqui. Acho que a política de saúde indígena 
tinha que esta pensando em estratégias, ate mesmo uma maternidade 
voltada pra esse público, um centro de parto, ver estratégias para 
atender melhor, e como deveria ser, porque talvez essa estrutura não 
seja adequada pra elas.” (E11) 
Os discursos evidenciaram como melhor solução para resolver a ambiência 
do hospital, a criação de um local específico para atender as parturientes indígenas, 
sendo este fora da maternidade. Foi possível perceber um questionamento quanto à 
atuação da política de atenção a saúde dos povos indígenas em propor estratégias 
para um bom atendimento, podendo-se perceber o desconhecimento por parte dos 
profissionais sobre as políticas públicas que contemplam a saúde do índio. 
 
 
 
 
 
 
49 
 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 A partir dos depoimentos percebe-se que a visão do enfermeiro a respeito do 
parto indígena hospitalar esteve relacionada às particularidades culturais, 
experiência e sentimento da mulher indígena no momento do parto; o respeito à 
cultura, o tratamento destinada as indígenas e a presença do acompanhante e 
apoio, além das barreiras e limitações que o enfermeiro vivencia na assistência a 
puérpera indígena, como a comunicação, o preparo da equipe e a ambiência dos 
hospitais. 
A humanização do parto indígena hospitalar foi relacionada com o fato de 
deixar as indígenas conduzirem o próprio parto, sendo estes realizados na posição 
de cócoras, por ser a principal escolha das indígenas, demonstrando que estes 
profissionais valorizam a decisão da parturiente quanto à posição para dar à luz. 
Entretanto, quando abordado os sentimentos demonstrados pelas indígenas 
no período de internação, identifica-se que estas não se sentem confortáveis com a 
hospitalização e assistência prestada pelos profissionais devido à falta de 
compreensão dos procedimentos, ao local e idioma desconhecido. 
De acordo com os relatos a assistência prestada pelos enfermeiros à mulher 
indígena, não se enquadrou aos princípios e diretrizes da Política Nacional de 
Humanização devido às dificuldades de comunicação, a falta de um ambiente físico 
de acordo com os costumes culturais, além da ausência de capacitação para os 
profissionais, desencadeando um cuidado que não atende aos princípios da 
humanização. 
Os depoimentos evidenciaram uma grande demanda de mulheres indígenas 
que são referenciadas para o hospital em busca de receber assistência no parto. Em 
detrimento disso, vale questionar como está sendo desenvolvido o pré-natal em área 
indígena, e os motivos que ocasionam a referência das indígenas para os hospitais, 
necessitando de pesquisas científicas nesta temática. 
 Durante a pesquisa identificou-se a falta de estudos que evidenciassem a 
importância e/ou regulação da coordenação indígena nos hospitais, sendo 
necessário ampliar as discussões sobre este assunto, como forma de melhor 
compreendê-lo e contribuir para outros estudos. 
Desta forma foi possível perceber uma limitação desta pesquisa, tendo em 
vista ser baseado apenas em relatos de profissionais. A realização de um estudo 
observacional poderia contribuir, ampliando os resultados deste estudo. Dessa 
50 
 
maneira, julga-se necessário um trabalho mais integrador e articulado, para assim, 
expandir o conhecimento acerca da assistência prestada por profissionais de 
enfermagem às parturientes indígenas. 
Diante do exposto, esta pesquisa teve seus objetivos alcançados e poderá 
servir de base para outros estudos sobre a saúde da mulher indígena, a fim de 
contribuir com a qualidade da assistência prestada à estas parturientes, de modo a 
possibilitar uma reflexão acerca dos cuidados ofertados pelos enfermeiros da 
unidade pesquisada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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SÃO PAULO. Secretaria do Estado da Saúde. Dispõe sobre a adoção de 
procedimentos nos Hospitais de Referência ao Projeto de Resgate da Medicina 
Tradicional, quando da realização de partos na população indígena, e dá outras 
providências. Resolução SS 72 de 15 de 07 de 2008. Coordenadoria de 
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57 
 
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UNESCO. Princípios sobre a Tolerância. São Paulo, USP/FLLCH. 1997. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
58 
 
APÊNDICE A 
DADOS PESSOAIS E PROFISSIONAIS 
Nome: 
Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino 
Idade: 
Tempo de formação acadêmica: 
Tempo de atuação profissional: 
Possui experiência em atenção à saúde indígena? ( ) Não ( ) Sim. ( ) Área 
indígena ( ) CASAI 
Como e quando iniciou o trabalho neste setor? 
Por que foi lotado neste setor? ( ) afinidade ( ) experiência ( ) Outros 
 
Roteiro de Entrevista Semiestruturada: 
Questão 01: Como você vê o parto indígena hospitalar? 
Questão 02: Qual sua conduta frente a um parto indígena? 
59 
 
ANEXO A 
 
60 
 
ANEXO B 
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE: 
Convidamos os (as) Senhores (as) a participar, de forma totalmente voluntária 
da pesquisa “Humanização do parto indígena hospitalar: sob a ótica de enfermeiros 
atuantes em uma maternidade de Roraima”. Esta pesquisa tem como objetivo 
analisar a percepção de enfermeiros sobre a humanização do parto indígena 
hospitalar. A motivação que nos leva a estuda-la é a expressiva população indígena 
do estado de Roraima e as dificuldades de comunicação e interação com estes 
pacientes, despertando-nos o interesse em contribuir com a humanização do 
atendimento, para colaborar com a melhoria da assistência à saúde desta 
população. Nesta pesquisa o (a) senhor (a) é convidado (a) a responder as 
perguntas norteadoras da temática, por meio de entrevista semiestruturada com 
auxílio de gravador, que serão analisadas por meio da técnica de análise de 
conteúdo. 
Sua participação, neste estudo, é espontânea e não acarretará nenhum 
desconforto ou risco para sua vida, nem represália por parte da pesquisadora ou 
qualquer outro sujeito envolvido na pesquisa, de forma que o único risco seja a 
exposição negativa da percepção de enfermeiros acerca da humanização do parto 
indígena hospitalar. As informações fornecidas pelo (a) senhor (a) serão tratadas 
como confidenciais, de forma que o (a) senhor (a) não será identificado (a) em 
nenhum momento, havendo total sigilo e anonimato acerca de suas respostas às 
perguntas e ao diálogo ocorrido na entrevista. Em virtude disso, sua participação na 
pesquisa não implicar em custos, despesas, ourepresálias, não estão previstas 
formas de ressarcimento nem de indenização. 
É garantido ao (a) senhor (a) obter conhecimento e informações a qualquer 
tempo, dos procedimentos e métodos utilizados neste estudo, bem como dos 
resultados desta pesquisa, ficando a pesquisador disponível a ser contatada a 
qualquer momento. 
Este termo de consentimento encontra-se impresso em 2 (duas) vias 
originais, de igual teor e forma, sendo que uma será arquivada pelo pesquisador 
responsável, e a outra será fornecida ao participante. 
61 
 
Antes de concordar em participar desta pesquisa, é muito importante a 
compreenda as informações e instruções contidas neste documento. E, antes que o 
(a) senhor (a) decida participar, a pesquisadora deve esclarecer todas as suas 
dúvidas. Caso ainda ocorram dúvidas ou reclamações, pode-se contatar a 
pesquisadora Cintia Freitas Casimiro, por meio do número de telefone (95) 98112-
8868, ou por e-mail: cintiafc86@yahoo.com.br, ou ainda no endereço profissional: 
Av. Cap. Ene Garcez, nº 2413, Bairro Aeroporto (Campus do Paricarana), CEP: 
69.310-000 - Boa Vista – RR. Centro de Ciências da Saúde – CCS – Bloco de 
Enfermagem. Desta forma, o (a) senhor (a) tem o direito de desistir de participar 
desta pesquisa a qualquer momento, sem nenhum ônus. 
Eu,__________________________________________________________, declaro 
estar ciente do anteriormente exposto e concordo voluntariamente em participar 
desta pesquisa. Assinando este consentimento em duas vias, ficando com a posse 
de uma delas. 
 Autorizo gravar a entrevista Não autorizo gravar a entrevista 
 Boa Vista, _____ de ____________ de 2016. 
 ____________________________________ 
 Assinatura do Participante 
Eu, Cintia Freitas Casimiro, pesquisadora responsável pelo estudo, declaro que 
forneci todas as informações referentes à pesquisa ao participante, de forma 
apropriada, e voluntaria. 
 ___________________________________ 
 Assinatura do Pesquisador 
Contato do Colaborador da pesquisa: Vitória Cruz Lana, (95) 98118-6225, e-mail: 
vitoriacruzlana@gmail.com. 
Endereço do CEP/UFRR: Av. Cap. Ene Garcez, nº 2413, Bairro Aeroporto (Campus 
do Paricarana), CEP: 69.310-000 - Boa Vista– RR. Bloco da PRPPG-UFRR, 
E-mail: coep@ufrr.br / Telefone: (95) 3621-3112 Ramal 26. 
 
mailto:cintiafc86@yahoo.com.br
mailto:vitoriacruzlana@gmail.com
62 
 
ANEXO C 
 
63 
 
 
 
64

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